Pensamento por imagem* (Marcelino Peixoto

)

Escuto

o

texto

“Pensamento

por

imagem,

pensamento

dialético,

pensamento alterante: a infância da arte segundo Georges Bataille”, de DidiHuberman (publicado originalmente em Les Cahiers du Musée National d’Art

Moderna no inverno de 1994) acerca dos escritos de Georges Bataille para a
edição de nº 2 da revista Documents, publicada em 1929. O texto de Didi-Huberman aponta para o debate de Georges Bataille com a dialética hegeliana. Nesse texto Bataille vai falar de uma dialética das imagens, ou melhor, uma dialética das formas em contraposição à dialética dos conceitos abstratos, como em Hegel. A dialética das “formas concretas” não poderia satisfazer às exigências promovidas por Hegel em vista de um “método absoluto do pensar, puro”. Bataille procurou o elemento dialético no que devia tornar possível o advento do nãosentido, ou dos “sintomas” do sentido. No frontispício do texto, Didi-Huberman cita trecho em que Bataille discorre sobre o desvio. Desvio como mal-estar gerado pelo contato primeiro com a inteireza do fenômeno estranho. É esse encontro, ou melhor, desencontro, que faz surgir, emergir, aflorar a imagem poética. Temos, então, imagem poética como crise. A imagem que nos coloca em crise. A aposta do “jogo” batailliano é que “somos obrigados a abrir as noções além delas mesmas”. Bataille refuta o sistema fechado de Hegel. Para ele, a dialética deve ser pensada de maneira “aberta”. Nessa dialética das formas, o conhecimento, ou a construção de sentido, ocorre pelas imagens do desvio (significantes) e não por conceitos abstratos (significados dados). Em tal pensamento é a imagem primeira, a percepção primeira acerca das coisas – aparição - que constrói a compreensão. A “dialética das formas”, segundo Bataille, descreverá um movimento descendente, capaz de

baixar o pensamento ao nível das coisas concretas, ao nível dos “documentos”. A memória nunca se limita a descrever e a interpretar o passado, mas o constitui no próprio gesto que inventa o futuro. A infância em Bataille deve ser re-convocada, a título de sintoma, no presente da escritura adulta. Em suma, a regressão refere-se menos a uma negação da linguagem (dos conceitos), mas a uma capacidade para os perturbá-la, como um sintoma, em sua capacidade para convocar imagens. Eis porque a “dialética das formas”. O conhecimento batailliano procurava o ponto de contato em que, “sem transposição” – sem metáfora –, a imagem em geral pudesse encontrar o nível das coisas, sua concretude, sua eficaz verdade. Em Bataille, portanto, há uma forma que se deforma. Desconstrução no discurso filosófico, mas também no discurso das artes. Bataille propõe uma nova epistemologia para a arte onde, afastando-se no mundo das idéias (pensamento platônico), busca-se a completude, o suplemento, a substituição de um sentido dado. Há, portanto, a busca de uma semiose infinita. Dessa forma, o poético age como um dínamo e não como um mecanismo. Então são duas as formas apontadas de construir o conhecimento:

Por conceitos, como no modelo acadêmico tradicional. Nesse modelo o
conceito tem a potência de dizer o indizível, criando outros conceitos. Mas pode o conceito gerar pensamentos livres?

Por imagens, como na dialética das formas proposta por Bataille. No
conhecimento por imagens, o pensamento se dá pelo significante e não pelo significado. É questão de forma ainda não transformada em símbolo. Mas qual seria a natureza dessa imagem primeira, a que gerou o advento do não-sentido – dessa que ainda não encontrou simbolização? Seria uma imagem

Pronta? Seria a primeira imagem possível? Seria Icônica? Simbólica (nomeada)? Seria uma imagem gerada pela Sensação (sensação como possibilidade de construção simbólica)? Se as imagens pensam - e elas pensam -, a grande potência do informe talvez seja botar o conceito para pensar. Pois a imagem, no resgate, fala por conceitos. Mas qual o conhecimento outro gerado pela dialética das imagens? Seria o mesmo possível aos conceitos? Ou só a imagem pode dizer o indizível? Ou nem a imagem? As imagens dizem o indizível sobre o humano, sobre o mundo ou sobre a cultura? Só é possível dizer o indizível sobre o humano. O resto (o mundo, a cultura, o fora) está definido. Porém esse indizível é temporário. Após deslizar, a tabela de significações se re-configura simbolicamente. Ou seja: para que haja o pensamento livre será sempre necessário atualizar a tabela simbólica. Tentar dizer o indizível através do conceito pode, à maneira de determinados textos críticos, gerar textos ininteligíveis. Ou deslizamentos, como nos bons textos - os que evocam o suplemento.

FABRIS, A; KERN, Maria Lúcia B. Imagem e Conhecimento. São Paulo: EDUSP, 2006.

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