photographia

A maquinaria do pensamento só pode proceder à transformação do conhecimento, mas nunca origina-lo, a menos que seja alimentado por fatos da observação. Charles Sanders Peirce

No centro da cena um homem carrega um retângulo nas costas. Para os que vivem ou conhecem a cidade, torna-se fácil reconhecer que o lugar em questão é o centro de Belo Horizonte. Ao fundo, vê-se a fachada de um dos prédios identificadores do local, o cine Brasil na praça Sete, fundado em 1932. Quando da sua inauguração continha na fachada trabalhadas molduras com cartazes das grandes produções cinematográficas, em

contraste com as paredes pichadas que vemos no alto à esquerda da imagem. O retângulo que o homem carrega é um espelho, um buraco

inaugural de tantas imagens quantas forem os olhares dirigidos a ele, uma janela que enquadra os olhares dos que flertam com ela. De dentro desse sanduíche de espelhos, o homem que os carrega é o único que não pode se ver nem ver pelas janelas. Mas ele vê os que vêem. Ele vê o outro vendo. Ele vivencia o estranhamento do outro e, de maneira privilegiada, vivencia de dentro o fenômeno. Como tinta, como forma, seu corpo participa da imagem, reconfigura o ambiente. A localização do corpo reconfigura-se, inaugura, em contato com emoções, desejos, sonhos, afetos, uma espacialidade sentida pelos deslocamentos do corpo, portanto percebida.

”A dúvida estimula o espírito a desenvolver atividade que pode ser ligeira ou acentuada, calma ou turbulenta. Imagens atravessam rapidamente nossa consciência, uma se fundindo necessariamente com a outra, até que, por fim, terminado tudo – numa fração de segundo, numa hora ou após longos anos – decidimo-nos sobre como agir em circunstâncias como as que deram motivo à nossa hesitação.”

Freqüentemente as dúvidas brotam de alguma indecisão, embora passageira, quanto à forma de agir. Em trânsito, agitados e sem um modelo de comportamento para tal situação, as pessoas simplesmente são, diante desse desconhecido conhecido em suas partes. De onde vêm tais

personagens? Para onde eles caminham? Essas são perguntas que ficam sem resposta, pois a fotografia no recorte daquele instante, funciona como um território sitiado pelas bordas do papel e do tempo. Mas o que tal recorte deixa ver?

Desde fora da cena, fechando um olho, o fotógrafo enxerga e recorta o mundo como um pirata cego de um olho só. Com sua visão monocular, sitia tal acontecimento. Constrói uma configuração que dificilmente ocorrerá novamente ao acaso. Ele está ali, é testemunha única desde o lugar em que se encontra, e a imagem recolhida traz para o presente o acontecimento que já foi em algum momento. Aquele momento. A fotografia, como registro espaço-temporal, funciona como a inscrição de uma ausência. Porém, como aponta Leonor Arfuch (1996), todo gênero narrativo, por mais testemunhal que se pretenda, obedece a um trabalho de ficcionalização. O fotógrafo, assim como os personagens da cena, constrói uma interpretação possível ao acontecimento ali vivenciado. E o faz com seu sistema de valores.

Falar de fotografias já é começar a tratar de índices. O local e as pessoas, cujas imagens foram capturadas na foto, de fato, existem fora e independentemente da foto. É que a fotografia, antes de qualquer outra consideração representativa, antes mesmo de ser uma imagem que reproduz as aparências de um objeto, é essencialmente impressão, traço. Nesse sentido, pertence a uma categoria de signos chamados de índices signos que mantêm ou mantiveram em determinado momento do tempo uma relação de conexão real com seu referente. Assim, a imagem que está na foto tem o poder de indicar exatamente aquele lugar e aquelas pessoas singulares na sua existência. Para indicar um determinado sítio, a foto evidentemente também precisa ser um existente tanto quanto o sítio o é. Para que a imagem das pessoas nesse local determinado possa estar, de algum modo, na foto, houve uma conexão de fato entre as pessoas que passavam pelo local e a foto. Mas a foto não é o local nem é as pessoas, apenas as indica dentro de certos limites que são próprios da fotografia. Mas o que ela indica?

"o fenômeno a meu ver participa do 'maravilhoso' (...) A coisa mais transitória, uma sombra, (...) pode ser acorrentada pelo encanto de nossa 'magia natural' e ser fixada para sempre".

Talbot

Nessa fotografia, a luz vindo do fundo e à esquerda projeta todo o jogo de sombras para a direita, perspectivando o olhar do grupo à esquerda para o centro da cena. À direita, em contraponto, temos um grupo de quatro pessoas com o olhar voltado em sentido contrário, mas igualmente olhando para o centro. O ponto central no espelho, a fuga. A luz, semifrontal, deixa na penumbra as faces dos sujeitos da cena. Todos os sujeitos envolvidos no plano principal da cena (o grupo da esquerda e o grupo da direita) estão vindo em direção à testemunha. A exceção é o homem que carrega o espelho. Ele está de costas, seu rosto não está dado a ver. Espelho de não se ver, espelho de ver o outro, de não ver nada, de ver tudo... recortado. Vemos sua cabeça, seus ombros, sua perna, seus pés. O grupo da direta é composto por quatro pessoas. No centro um homem negro de boné, aparentando idade avançada. Ele carrega uma sacola de plástico azul na mão direita. Na esquerda porta um relógio cinza. Seu pé esquerdo está à frente. Ele olha em direção ao homem com o espelho. À direita uma senhora com vestido branco, lenço igualmente branco no pescoço, um pouco atrás do senhor. Com a mão direita ela segura uma sacola igualmente amarela igualmente de plástico. Seus pés estão alinhados, como que parados. Sua mão esquerda levemente para trás. Ela também olha para o homem com o homem que carrega o espelho. Seus trajes são de pessoas simples, de gente do povo. Quais terão sido as

falas, os olhares, os apontamentos, os rumos do pensamento desse casal? Encoberta pelo senhor de boné e sacola azul, uma mulher aparentemente jovem olha para baixo. Na extrema esquerda desse grupo está um sujeito de olhos baixos, desinteressado. Provavelmente caminha entre uma burocracia e outra. Ele não olha para o centro da cena. O grupo da esquerda é composto também por quatro pessoas. Nele nenhuma das figuras está avessa ao acontecimento do centro da cena. Todos os olhares se direcionam para o homem com espelhos. À esquerda um homem de camisa amarela e braço direito dobrado. Três quartos do seu rosto se enunciam. Sua fisionomia é de espanto. Logo à sua frente, ainda do lado esquerdo, um homem jovem de boné olha em direção ao centro da cena. Ele está de perfil, sua boca está aberta, seu braço direito está levantado. O que teria ele gritado para o homem que carrega o espelho? No lado direito um senhor de meia idade, poucos cabelos, camisa branca de mangas longas, olha para seu lado esquerdo. Seu olhar é de incompreensão. No centro desse grupo, três ou quatro passos adiante, um outro homem com sacola na mão caminha de frente, em direção à testemunha. Ele olha para trás, torcendo a cabeça para a direita, também em direção ao centro da cena. Seu rosto e suas costas são vistos refletidos no espelho – ele olha para trás! A imagem de seu corpo se prolonga nas pernas do homem que carrega o espelho, construindo um ser híbrido que, parado, olha para trás. À esquerda e ao mesmo tempo no centro, esse homem assume papel protagonista na imagem. O que ele vê? Ao olhar para o espelho ele não vê sua imagem refletida. Ele vê alguém que olha em sua direção. Ele testemunha o testemunho. Vê-se sendo visto através do espelho, através das lentes do fotógrafo.

Seus olhares, mediados, se cruzam. Ambos têm a consciência de terem sido descobertos. O fotógrafo apontou sua mira e disparou. Acertou o olho do homem que caminha em sua direção, o homem que, ao se aproximar e descobrir o jogo, põe fim às suas estratégias de invisibilidade. Agora são duas as testemunhas. Essa imagem é o testemunho do encontro de consciências. O ato de produzir uma imagem carregada de intenções e o ato de perceber-se, sem a mínima intenção de sê-lo, como imagem em construção. Menos que um fato, a fotografia é um ato. Um ato consciente da manipulação do testemunho. Sim, o fato registrado na fotografia ocorreu, mas ocorreu em imagens distintas para cada um dos atores da cena.

Fotografia: Denise Mansur 2004

BIBLIOGRAFIA

ARFUCH, Leonor. Album de família: In: Memória , Antologia e Punto de Vista. Buenos Aires: Punto de Vista/Libronauta, 2001. GONZALES FLORES, Laura. Fotografia e Pintura: dos medios diferentes? Barcelona: Gustavo Gili, 2005. Capítulo: La fotografia como memória. JEUDY, Henry-Pierre. O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. Capítulo 3: O corpo exibido. MELENDI, Maria Angélica. Bibliotheca ou das possíveis estratégias da memória. In: Rosângela Rennó. O arquivo Universal e outros arquivos. São Paulo: Cosac & Naify, 2003. PEIRCE, Charles Santiago Sanders. Semiótica e Filosofia. São Paulo: Cultrix, Editora da Universidade de São Paulo, 1975.

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