Como interpretar as elevações de creatinoquinase (CK) associadas à prática de exercício físico Publicado em: 18/01/2010 Autor: Nairo M.

Sumita*

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A creatinoquinase (CK) é uma enzima que desempenha importante papel na geração de energia para o metabolismo muscular. Está presente, predominantemente no tecido muscular, mas é também encontrada no tecido cerebral (1,2,3). A CK apresenta-se como um dímero composto por qualquer combinação entre dois monômeros M ou B. As combinações resultam nas isoenzimas BB, MB e MM. A CK dos músculos esqueléticos é quase exclusivamente da fração MM (97-99%), sendo o restante composto pela fração MB. A CK presente no miocárdio é basicamente formada pela fração MM (75-80%), porém com maiores quantidades da fração MB (15-20%). A CK cerebral é composta exclusivamente pela fração BB. No soro normal, a CK total é representada principalmente pela fração MM (1,2,3) . A concentração sérica da CK é dependente da idade, sexo, raça, massa muscular e atividade física. Em geral, os homens têm níveis mais elevados que as mulheres e, negros têm níveis maiores que os brancos. Os níveis em outros grupos raciais não diferem da população branca. A massa muscular constitui outro fator independente que influencia os níveis de CK. Durante a vida adulta, os níveis de CK aumentam discretamente com a idade para declinar na velhice. Elevações transitórias da CK são observadas após trauma muscular, injeções intramusculares, procedimentos cirúrgicos, e exercício físico. A atividade da CK pode estar elevada no hipotiroidismo. A CK sérica eleva-se também na polimiosite, na dermatomiosite, no traumatismo muscular, na miocardite, intoxicação por cocaína, na distrofia muscular e no infarto agudo do miocárdio. Valores muito elevados podem ser encontrados após crises convulsivas. Valores diminuídos da CK são encontrados nos estágios precoces da gestação, em pessoas com vida sedentária, durante períodos prolongados de repouso no leito e quando há perda importante da massa muscular(1,2,3). A elevação do CK no exercício físico Os níveis séricos de CK num indivíduo normal tem origem, principalmente, do tecido muscular esquelético, sendo constituído na sua grande totalidade pela fração MM (1,2,3). O exercício físico prolongado eleva os níveis de CK. Essa elevação é variável entre os indivíduos e depende do sexo, da raça e do tipo de treinamento físico. O nível de elevação também depende da duração e da intensidade do exercício, além do condicionamento físico, sendo que a duração da atividade física é um importante fator a ser considerado(4,5,6,7,8). Quando a intensidade da atividade física está dentro da capacidade metabólica do tecido muscular, existe pequena alteração na permeabilidade da membrana celular. No entanto, quando esta intensidade excede a capacidade metabólica, ocorre alteração significativa na permeabilidade da membrana celular e a enzima CK é liberada do meio intracelular para a circulação com consequente elevação no sangue(4,5,6,7,8). Diversos fatores são determinantes na elevação do nível da enzima CK durante e após exercício físico. Os maiores níveis de CK pós-exercício são vistos nos exercícios físicos prolongados tais como em maratonistas e em atletas que competem provas de “triathlon”, podendo atingir níveis tão altos quanto 50 vezes os valores referenciais. O treinamento diário pode resultar numa elevação persistente do CK, sendo que elevações mais significativas são observadas em indivíduos que não estão condicionados fisicamente, em relação àqueles que praticam exercícios regularmente. De

A rabdomiólise severa e grave. A maior parte da CK liberada após exercício físico pertence à fração MM.000 U/L e 51 apresentaram valor acima de 10. com elevação acentuada entre o 2º. depleção de glicogênio muscular. atingindo um pico entre 1 a 4 dias e começam a diminuir entre 3 a 8 dias(4. Níveis de CK e função renal Exercícios intensos podem induzir lesão grave da musculatura esquelética caracterizando um quadro de rabdomiólise. se atletas e indivíduos sedentários realizam o mesmo exercício físico. sequer houve alterações substanciais na creatinina sérica(7). denominadas de macro CK tipos 1 e 2. desidrogenase láctica (DHL) e da mioglobina. retornando ao valor basal no 16º dia. o qual evoluiu com nível elevado de CK. aproximadamente 4% para a CK-MB. sem nenhuma evidência de isquemia cardíaca.7). em razão da precipitação da mioglobina a nível de túbulos renais(8). relataram um caso de rabdomiólise desencadeada por esforço físico (musculação) intenso. peroxidação lipídica e acúmulo de radicais livres(4).6. habitualmente. O dano pode resultar na elevação da CK. não são encontradas no sangue. No momento da internação o nível de CK era de 55. intensidade e duração do exercício. extenuante e prolongado em condições ambientais desfavoráveis.780 U/L no terceiro dia de internação. Um estudo do Departamento de Ciência do Exercício da Universidade de Massachusetts. os níveis de CK nos atletas é menor do que em indivíduos sedentários(4. alguns estudos não observaram sinais de comprometimento renal em pacientes submetidos a exercícios físicos intensos. Entretanto. tipo. demonstrou ausência de comprometimento renal ao medir a atividade da CK total e a concentração de mioglobina em 203 voluntários submetidos a esforços musculares intensos.fato. Níveis duas vezes acima do nível basal podem ser observados 8 horas após a prática de um exercício vigoroso. A liberação do CK e a sua remoção do plasma dependem do nível de treinamento. A fonte de CK-MB parece ser as fibras musculares em regeneração. No entanto. Além das três isoenzimas típicas da CK. A macro CK do tipo 1 é um complexo formado pela CK-BB ou CK-MM que se liga a uma . Observou-se elevação acentuada após quatro dias depois da atividade física em todos os voluntários. Em geral.000 U/L (8). sendo que 111 apresentaram atividade da CK total acima de 2.7). como na maratona. Os valores de CK geralmente iniciam a aumentar em poucas horas após o exercício.960 U/L (valor de referência 26-190 U/L). atingindo nível de 70. As hipóteses incluem hipóxia tecidual. expressam maior quantidade de CK-MB do que as células musculares maduras(4. chegando a 8 a 18% da concentração total.6. elevações maiores são detectadas mais precocemente e por mais tempo. A causa exata do aumento da CK após o exercício é desconhecida. dia após o exercício. e 7º. porém não cursou com sinais de insuficiência renal aguda.2). O paciente não evoluiu para insuficiência renal aguda e. são descritas duas outras isoenzimas macromoleculares que.6.7). pode induzir uma lesão renal. Elevação de CK após exercício excêntrico está associada a lesão muscular. restando uma pequena fração. Elevação da CK induzida pela macro CK A atividade da CK detectada no soro é devida na grande totalidade a CK-MM. que semelhante aos mioblastos fetais. A fração CK-BB é encontrada no cérebro e está praticamente ausente no sangue de indivíduos normais(1. a CK-MB pode estar elevada após exercício prolongado e extenuante. Rossi et al. nos Estados Unidos.

. Araújo. Os indivíduos portadores dessas isoenzimas macromoleculares na circulação. Arq Bras Cardiol 1996. não estão relacionadas a uma patologia específica. Cotrim.Sanchez. L.Rossi. 2ed. Enzymes. P. In: Burtis. R. E.R. Bruns. São Paulo. Rubin. St. A.L. 7.. 66(3): 143-7. P. D. Am J Emerg Med 2006.. Bais.. * Assessor Médico em Bioquímica Clínica – Fleury Medicina e Saúde.B.. W. Henriques.. .A.M.D. Serum creatine kinase levels and renal function measures in exertional mucle damage. 2: 158-163.Brancaccio. Creatine Kinase Revisited. 6.Katirji.. Revista da AMRIGS 2009. Clin Biochem 1983.Munjal D.597-643.M. L. 57-60. Thompson.. Referências: 1. tais como aldolase. R. Já a macro CK do tipo 2 é um complexo oligomérico de origem mitocondrial com algum grau de associação com neoplasias(3. F. total creatine kinase.. et al. 24:608-15. A. 53(3):269-72. A. Serum enzyme monitoring in sports medicine.A. Trata-se de uma variação da normalidade. 38(4):623-7. Rabdomiólise induzida por esforço físico intenso com altos níveis de creatinoquinase. Ashwood. Al-Jaberi. J Clin Neuromuscul Dis 2001. D. L.Andriolo. Changes in serum myoglobin.D. Nessa situação.. 8. A. os outros parâmetros laboratoriais correlacionados. 9. Corwell. Professor Assistente Doutor da Disciplina de Patologia Clínica da Faculdade de Medicina da USP. Medical problems of marathon runners.S. M.9). desidrogenase láctica e mioglobina encontram-se dentro do intervalo de referência.Panteghini. Berkoff.G. Rouzier.. McFadden. 3.M.D. Ramos.M. 2006.. P. R. Infarto agudo do miocáradio.. P. 5. 27:1-18 4. Clin Sports Med 2008.. p.C.R. Ramos. Matix.A.Clarkson. N. Diretor do Serviço de Bioquímica Clínica da Divisão de Laboratório Central – HC FMUSP (LIM-03). Tietz textbook of clinical chemistry and molecular diagnostics. Kearns.imunoglobulina G ou A e.K.C. Louis.R. 2.A. Elsevier Saunders. Manole. A. In: Andriolo. Buonauro. Maffulli. Medicina Laboratorial. Med Sci Sports Exercise 2006.. Uma macromolécula capaz de alterar o resultado da CKMB e induzir ao erro no diagnóstico de infarto agudo do miocárdio.P. Guias de medicina ambulatorial e hospitalar UNIFESP/ Escola Paulista de Medicina. apresentam níveis cronicamente elevados de CK.. 2008. Métodos laboratoriais para pesquisa de macro CK são disponíveis e devem ser solicitados quando houver suspeita da presença dessas macromoléculas. B.A. lactate dehydrogenase and creatine kinase MB levels in runners... L. J.W. C. sem uma causa que a justifique. 16(3):195-9. Van Solinge..E.F.Camarozano. R. M. p.

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