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JOSÉ MARQUES DE MELO

Professor Emérito da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo

JORNALISMO BRASILEIRO

&
Editora Sulina
© José Marques de Melo, 2003.

Capa: Fósforo Gráfico/ Vitor Hugo Turuga Projeto gráfico e editoração: Vânia Mõller

Editor: Luis Gomes

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Bibliotecária Responsável: Ginamara Lima J. Pinto CRB 10/2104

M528 Melo, José Marques de

Jornalismo Brasileiro / José Marques de Melo. - Porto Alegre : Sulina, 2003.


239 p.

ISBN: 85-205-0341-1

1. Jornalismo. 2. História do Jornalismo. 3. Jornalismo de Opinião. I. Título

CDD: 070.9

&

Editora Sulina

Todos os direitos desta edição reservados à Editora Meridional Ltda.

Av. Osvaldo Aranha, 440 cj. 101 Bom-Fim

Cep: 90035-190 PortoAlegre-RS

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Dedicatória

Ao neto Arthur,

herdeiro da altivez,

arauto da ousadia,

artífice da perseverança.

Agosto/2003 Impresso no Brasil/Printed in Brazil


Sumário

Apresentação / 9

Jornalismo Brasileiro /13

Itinerários

Conhecimento jornalístico / 21 Hipólito da Costa, precursor / 29 Rui Barbosa, polemista / 56


Werneck Sodré, historiador / 83 Freitas Nobre, jurisconsulto / 88 Walter Sampaio, inovador / 93
Octavio Frias, empreendedor / 97 Caminhos cruzados /102

Evidências

Jornalismo esportivo /111 Radiojornalismo /117 Telejornalismo/120 Mulher jornalista/122 Artigo


científico /125 Entrevista jornalística/129

Polêmicas

Exclusão midiática/137 Cultura do silêncio /144 Brecha digital/152 Gueto acadêmico /162
Descompasso histórico /172 Crise de Identidade /180

Jornalismo de Referência /193

Perfil Intelectual do Autor / 223

Notas / 225
Apresentação

Produto da confluência de padrões importados (principalmente franceses e norte-americanos),


durante o século XIX, o Jornalismo Brasileiro adquiriu identidade própria no bojo do processo de
modernização da imprensa, que se transforma, no transcurso do século XX, para enfrentar a
competição com o rádio e a TV.

Esse fenômeno tem como pano de fundo a experiência democrática que o país vivenciou no período
imediato à Segunda Guerra Mundial, bem como as inovações tecnológicas da conjuntura
desenvolvimentista, aceleradas com a abertura das nossas fronteiras à cultura transnacional, no
alvorecer do século XXI.

Não obstante a sintonia que estabelece com as tendências internacionais da produção noticiosa, o
Jornalismo Brasileiro vem construindo uma fisionomia singular. Ela se manifesta nos gêneros
cultivados pelos seus produtores, mas transparece também na forma de organização do trabalho dos
jornalistas dentro das empresas.

Para caracterizar a identidade assumida pela informação de atualidades no Brasil, esboçamos, em


1992, um ambicioso projeto de pesquisa1. Sua meta principal constitui a análise comparativa dos
processos jornalísticos, no tempo e no espaço.

Desejamos verificar como os modos de produção da notícia e dos seus comentários fluem dos
centros metropolitanos internacionais para o Brasil e como internamente os padrões difundidos são
assimilados, adaptados e reproduzidos.

Para tanto, vislumbramos metodologicamente o confronto dos modelos jornalísticos exercitados nas
duas metrópoles nacionais (São Paulo e Rio de Janeiro) com a influência provocada sobre aquelas
práticas vigentes nas diversas regiões brasileiras (ou as resistências esboçadas). Procuramos
entender igualmente as diferenças do Jornalismo peculiar a determinadas conjunturas brasileiras em
relação às estruturas
predominantes em países latino-americanos ou naquelas sociedades de expressão cultural
portuguesa, cotejando-as com os parâmetros hegemônicos no mercado internacional.

Trata-se de inventariar, através de monografias, o comportamento das instituições jornalísticas


brasileiras (empresas, veículos, centros de pesquisa e corporações profissionais), bem como dos
seus atores privilegiados (jornalistas, empresários, educadores e pesquisadores). Como pano de
fundo, julgamos indispensável delinear as concepções jornalísticas presentes nas histórias de vida
dessas personalidades/ organizações, observando detidamente suas contribuições para tecer os
processos informativos dominantes em cada época.

Cogitamos realizar simultaneamente a descrição/interpretação dos cenários que marcam o


desenvolvimento do Jornalismo Brasileiro e o regaste/ exegese das biografias dos seus personagens
principais. Desta maneira, acreditamos estar fazendo a reconstituição da memória do Jornalismo, no
momento em que a indústria cultural emerge no país e quando a informação de atualidades adquire
fisionomia própria, refletindo a identidade nacional.

É um trabalho naturalmente complexo, que pressupõe muitos anos de coleta de dados, correlação de
resultados, análise de tendências. Enquanto persistimos nesse fascinante itinerário, a demandar
estudos próprios ou de jovens pesquisadores sob anossa orientação, julgamos conveniente socializar
os primeiros resultados2 com as gerações que se iniciam na atividade jornalística.

Este livro reúne um conjunto de trabalhos circunstanciais: ensaios, artigos, palestras, comentários
ou resenhas escritos nos últimos dez anos. Temos consciência de estar apresentando esboços que
ainda carecem de nitidez exegética. Preferimos, contudo, antecipar hipóteses, roteiros ou
panoramas, a correr o risco de nutrir obra tardia, por excesso de zelo intelectual.

Afinal de contas, a essência do jornalismo continua a ser a atualidade. Pautando-nos por este
requisito fortalecemos a identidade do campo, apesar da provisoriedade inerente a aspectos aqui
tratados. Nesse sentido, trata-se de uma obra aberta, que incita naturalmente os leitores críticos a
contribuir para seu desenvolvimento ou melhoria.

Preservamos a estrutura original de cada trabalho, somente realizando pequenos ajustes contextuais,
com a finalidade de propiciar aos leitores uma imersão no espírito do tempo em que as idéias e seus
comentários foram construídos. Em face disso, mantivemos dados que podem parecer repetitivos,
mas cuja exclusão, em alguns capítulos, para beneficiar a fluência do texto, poderia acarretar lapsos
imediatos de sentido ou abrangência.

Como sua publicação original (através de fragmentos disseminados em periódicos ou antologias)


ficou restrita ao gueto universitário, esta divulgação ampliada representa uma estratégia para
motivar os jovens artífices da comunicação de atualidades. Geralmente excluídos do mundo
acadêmico, eles estão convidados a debater amplamente os
estudos aqui reunidos. Ficaremos gratificados se houver continuidade no trabalho empírico,
inovando os quadros interpretativos ou enveredando por

territórios ainda inexplorados.

São Paulo, 21 de janeiro de 2003

11
Jornalismo Brasileiro

A bibliografia brasileira do Jornalismo tem se caracterizado por três vertentes: a história factual dos
sistemas informativos, o memorialismo dos seus protagonistas e a recuperação profissional/didática
das experiências peculiares a processos específicos. Há uma nova corrente de estudos acadêmicos
que privilegia a análise do discurso jornalístico ou esboça o perfil sócio-político de determinadas
conjunturas, caracterizando-se no entanto pela fragmentação e pela descontinuidade.

Diante desse quadro, impõe-se uma ação investigativa articulada, de modo a registrar
sistematicamente a história imediata do Jornalismo praticado no Brasil. Trata-se de ensejar a sua
comparação com outros períodos históricos e possibilitar a compreensão plausível da sua
originalidade cultural, ao assimilar criativamente os padrões modernos, importados dos centros
hegemônicos. O que não significa abandonar as tradições remanescentes daquelas práticas fincadas
num modo essencialmente brasileiro de produzir e difundir notícias.

Em seu diagnóstico sobre o processo de modernização experimentado pelo Jornalismo Brasileiro,


no início do século XX, Barbosa Lima Sobrinho3 registra a preocupação nacionalista que se
apodera dos nossos legisladores. Ele vislumbra a superação das estruturas arcaicas subordinadas
exclusivamente aos interesses políticos (partidários ou governamentais) e percebe criticamente a
adoção de padrões sintonizados com a economia de mercado (compatibilizando as expectativas dos
leitores, dos anunciantes e dos mandatários do poder). Esse viés patriótico acaba por se converter
em tradição dominante, impedindo até mesmo a participação de estrangeiros na propriedade de
empresas jornalísticas.

Trata-se de tendência que assumiria vulto significativo na conjuntura desenvolvimentista do pós-


guerra, quando se criam facilidades para a entrada de capitais estrangeiros na economia nacional,
preservada no entanto a reserva de mercado para os empresários brasileiros no âmbito da imprensa
e da radiodifusão. Genival Rabelo4 documenta

13
exaustivamente a polêmica criada em torno dessa participação forânea em atividades noticiosas,
publicitárias e artísticas. Na verdade, a proibição legal não foi suficiente para impedir a importação
de tecnologias, procedimentos gerenciais e métodos de produção noticiosa. Isto se deduz, por
exemplo, do relato que Cláudio Mello e Souza5 faz sobre os 15 anos de história do ”Jornal
Nacional” da TV Globo.

A compreensão de que o Jornalismo tem um caráter transfronteiras, quando assume feição


empresarial, está explícita no diagnóstico já mencionado de Barbosa Lima Sobrinho (1923).
Todavia, coube a Danton Jobim6 problematizar a fisionomia do Jornalismo Brasileiro, buscando
elementos para explicar a singularidade de um processo universal, matizado porém pelas condições
em que a sua produção concreta se verifica em nossa sociedade. Seguramente estão contidas
naquelas reflexões, a experiência do profissional responsável pela assimilação do modelo norte-
americano no Diário Carioca. Elas expressam, ao mesmo tempo, a argúcia do professor
universitário que confrontou as práticas do jornalismo nacional com as tendências vigorantes nos
centros metropolitanos, em suas andanças pelas universidades dos Estados Unidos e da Europa.

A questão voltaria a ser discutida em profundidade por Alberto Dines7, quando o nosso jornalismo
impresso se defrontou com a crise de escassez do papel, momento que coincidia com o esgotamento
do ciclo militar no Brasil. Da análise feita pelo ex-editor do Jornal do Brasil se deduzia a
necessidade imperiosa de o Jornalismo Brasileiro passar por uma renovação radical. Isso implicava
a sintonização com as perspectivas em curso nos países mais desenvolvidos e naturalmente a
superação das limitações decorrentes do isolamento a que o país foi submetido pelo regime
autoritário.

A tradição democrática dos anos 80 constitui o cenário da retomada modernizadora da indústria


jornalística brasileira, que amplia suas conexões internacionais, sobretudo em função dos desafios
tecnológicos decorrentes do processo de informatização generalizada.

Tal dimensão da história recente da nossa imprensa encontra-se descrita por Ruth Vianna8.
Diagnóstico correlato já havia sido feito por

14

Lins da Silva9, que documentou ”os bastidores da revolução em um grande jornal”, analisando as
mudanças estruturais ocorridas na Folha de S.Paulo, não apenas como decorrência da
informatização, mas principalmente como fruto da estratégia de racionalização do processo
produtivo no âmbito da redação.

Essa saga renovadora não corresponde, porém, ao espírito dominante na corporação profissional,
que ainda se debate com os estigmas da repressão sofrida durante o regime autoritário.

Flagrantes da crise profunda vivida pelos jornalistas brasileiros e das suas incertezas em relação ao
futuro foram retratados nas coletâneas organizadas por Moacir Pereira10 (1981), Marques de Melo
e Waldimas Galvão” (1984), GiselaOitriwano12(1987),CremildaMedina13
(1987), Rito, Araújo e Almeida14 (1989), Marques de Melo e Lins da Silva15 (1991), Geraldinho
Vieira16 (1991), Marques de Melo17 (1992), Marques de Melo18 (1994), Alzira Abreu19 (1996),
Sebastião Squirra20 (1997), Audálio Dantas21 (1998), Moreira & Del Bianco22 (2001) e Marialva
Barbosa23 (2001).

Ela também foi resgatada com clareza e perspicácia nos livros escritos por Sérgio Caparelli24
(1980), CremildaMedina25 (1982), GaugêncioTorquato26 (1984), Seguin Des Hons27 (1985),
Maria Helena Capelatto28 (1986), Dulcília Buitoni29 (1986), Edgar Leuenroth30 (1987), Fernando
Jorge31 (1990), Bernardo Kucinski32 (1991), Silvia Araújo & Alcina Cardoso33 (1992), Manuel
Carlos Chaparro34 (1993), Isabel Travancas (1993)35, Ciro Marcondes Filho36 (1993), Francisco
Rudiger37 (1993), Sebastião Squirra38 (1993), Jorge Cláudio Ribeiro39 (1994), Dênis de Moraes40
(1994), José Hamilton Ribeiro41 (1998), Nilson Lage42 (1998), Vera França43 (1998), Adisia Sá44
(1999), Marialva Barbosa45 (2000), Guilherme Rezende46 (2000) e Juremir Machado da Silva47
(2000).

Apesar das desilusões existentes, verifica-se que o Jornalismo Brasileiro manteve, nas últimas
décadas do século XX, uma personalidade própria, ampliando suas relações com outras sociedades
e culturas, mas preservando modos singulares de expressão informativa e de organização do
trabalho jornalístico48.

Tanto assim que Lins da Silva49 (1990) caracteriza a influência americana sobre o jornalismo
brasileiro como um processo extremamente filtrado. Segue muitos dos seus exemplos, às vezes tenta
copiá-los

15
acriticamente,quase sempre os adapta às suas características e conveniências, mas em qualquer
circunstância, resulta num produto diferente do modelo (p.147).

Numa outra perspectiva, Manuel Chaparro50 encetou a comparação das formas contemporâneas de
expressão peculiares ao Jornalismo Brasileiro e ao Jornalismo Português, concluindo pela existência
de um abismo discursivo que separa os dois países. Apesar de usar a mesma língua portuguesa,
predominam ”sotaques d’aquém e d’além mar” na imprensa que circula no Brasil ou em Portugal.

A identidade do Jornalismo Brasileiro constitui, portanto, o cerne das investigações a que nos temos
dedicado, nesta fase de maturidade acadêmica51, tomando como referência os pressupostos
enunciados na tese de livre-docência defendida, em 1983, na Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo52.

O jornalismo é um fenômeno universal, mas suas raízes são européias. Entender as manifestações
que floresceram nos territórios onde essa inovação cultural se deu pela ação dos colonizadores
implica em resgatar os traços originais que permaneceram e vislumbraram as transformações
determinadas por contingências históricas. Por isso, no caso brasileiro, não é suficiente fazer
remissões àqueles modelos que nos trouxeram os colonizadores lusitanos, mas torna-se
imprescindível perceber as determinações que configuraram o padrão transplantado e descobrir os
atravessamentos gerados pelas influências conjunturais, inevitáveis na trajetória dos povos e das
culturas que giram em torno dos pólos hegemônicos do poder internacional.

Nesse sentido é que o jornalismo brasileiro tem uma fisionomia entrecortada por múltiplas
diretrizes, algumas convivendo contraditoriamente no estilo que nos trouxeram os portugueses,
outras que nos chegaram através dos processos de comunicação intercultural implícitos nos
movimentos migratórios, e também aqueles que emergiram das situações de dependência
tecnológica e econômica que incluem no seu bojo alterações simbólicas fundamentais. (...)

Nosso jornalismo é contemporaneamente o resultado desse

16

conjunto de motivações forâneas, sem que isso queira significar a existência de uma fisionomia
amorfa, produzida pelo entrecruzamento dos padrões estrangeiros. Na verdade o jornalismo
brasileiro estruturou-se criativamente,observando com seleüvidade os modelos que se nos
insinuaram ou impuseram, adquirindo feição diferenciada. Quando, por exemplo,observamos o
jornalismo praticado nos vizinhos países hispano-americanos reconhecemos a persistência dos
traços espanhóis, naturalmente modificados pelo influxo das técnicas norte-americanas que
penetram avassaladoramente. No nosso caso, não. Temos um jornalismo morfologicamente
distante dos padrões portugueses,mas que também não constitui uma cópia dos modelos franceses
e norte-americanos (sem dúvida nossas maiores fontes de inspiração.

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Itinerários
Conhecimento Jornalístico53

A pesquisa sobre os fenômenos jornalísticos no Brasil remonta à segunda metade do século XIX. A
preocupação inicial não está centrada nos processos noticiosos, porém nos seus meios de difusão,
mais precisamente na tecnologia de impressão de livros, jornais e revistas.

Embora estabelecida tardiamente em território brasileiro (mais de três séculos nos separam da
inovação gutembergiana), a imprensa aqui se desenvolve a partir da chegada da Corte de D. João
VI, em 1808. Na verdade, os seus primeiros momentos são tímidos, porque controlados pela
censura real, destinando-se a reproduzir informações e documentos de governo.

As publicações que experimentam o sabor da liberdade surgem justamente no vazio jurídico


instaurado em Portugal, quando as tropas napoleônicas são expulsas e os revolucionários do Porto
derrubam a censura prévia. Os precursores da nossa Independência não hesitam em aplicar aquilo
que contemporaneamente chamaríamos a ”estratégia das brechas”, ou seja, editam jornais sem pedir
licença às autoridades.54

Precursores

Mas é sem dúvida durante o Segundo Reinado que a imprensa vive seu melhor período de
liberdade, garantido pela sabedoria de Pedro II. Em meio a esse ambiente de conciliação das elites
nacionais, os Institutos Históricos começam a resgatar precocemente a trajetória do nosso
jornalismo. E despertam polêmicas que conquistariam os corações e mentes dos nossos intelectuais,
ao enaltecer o-”pioneirismo” dos holandeses na introdução da imprensa em terras brasileiras,
contrastando com o ”atraso” dos portugueses, que a proíbem e reprimem.

Persistia a tese de que a primeira impressora a operar no Brasil fora trazida por Nassau, da qual
dava testemunho o follieto Brasilche Gelt-Sack, datado de 1645 e publicado no Recife. Os
historiadores

21
pernambucanos deixaram de lado as especulações e foram buscar evidencias empíricas.

As pesquisas se concentraram em arquivos brasileiros e holandeses, produzindo resultados que


negariam a hipótese dominante. A iniciativa de Nassau não fora consumada, por razões fortuitas, e
os impressos supostamente recifenses haviam sido reproduzidos em gráficas européias. Dão conta
desses fatos, ensaios escritos pelos historiadores José Higino Duarte (1883) e Alfredo de Carvalho
(1899).

Depois desses estudos pioneiros sobre a implantação da tipografia, os historiadores tomam gosto e
ajudam a reconstituir uma história da nossa imprensa. São motivados, a seguir, por efemérides
nacionais, começando pelo duplo centenário: a criação da Imprensa Regia e o lançamento do nosso
primeiro jornal independente, o Correio Braziliense de Hipólito José da Costa.

Em 1908, Alfredo de Carvalho publica a monografia ”Gênese e Progressos da Imprensa Periódica


no Brasil”, suplementada por um alentado catálogo dos jornais e revistas que circularam nos
últimos cem anos. Trata-se de uma fonte de referência fundamental, que orientaria os passos de
outros historiadores. Dentre eles Max Fleiuss, autor de um dos primeiros state ofart da pesquisa
histórica sobre jornalismo, cujo texto aparece em 1922, durante as comemorações do centenário da
Independência.55

Rigorosamente, tais estudos ainda não enfocam o jornalismo como objeto definido. Eles tratam da
imprensa e dos seus produtos, mencionando marginalmente os processos sócio-políticos que dão
fisionomia peculiar à comunicação de atualidades.

Pioneiros

Quem estabelece essa fronteira é o jovem Barbosa Lima Sobrinho, quando, em 1923, publica um
livro que nasce clássico - O problema da imprensa 56.

Valendo-se da experiência profissional como jornalista e da metodologia de análise aprendida no


âmbito da ciência jurídica, sem deixar de recorrer também à ciência histórica, ele desenha um perfil
do desenvolvimento do jornalismo na sociedade industrial e dos impasses enfrentados no Brasil.

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Seu ”gancho” é o projeto de lei de imprensa do senador paulista Adolfo Gordo, tramitando no
Congresso Nacional. Em torno desse ”problema”, ele constrói uma análise multidisciplinar do
fenômeno jornalístico na sociedade brasileira. Oferece parâmetros que se revelariam consistentes e
lançaria as bases de uma nova disciplina acadêmica. O jornalismo deixava de ser simples ”ofício”,
reproduzindo-se pela legado transmitido no ”batente” de geração a geração. Converte-se em
”práxis”, ou melhor, em conhecimento socialmente utilitário, produto da observação sistemática e
da reflexão crítica de produtores qualificados.

No entanto, a imprensa e o jornalismo continuariam a despertar o interesse dos pesquisadores das


humanidades (história e direito), assim como daqueles pioneiros das ciências sociais no Brasil.
Gilberto Freyre, por exemplo, recorre à imprensa para elaborar um retrato da sociedade patriarcal
brasileira,
buscando nos anúncios de jornais elementos suscetíveis de interpretação sociológica e
antropológica. Seu livro de estréia Casa Grande & Senzala (1933)- representa uma inovação
metodológica, ao pesquisar em fontes heterodoxas. Ao mesmo tempo, abre picadas para os
estudiosos do jornalismo, descortinando as metodologias comparativas57.

Todas essas contribuições pioneiras encontrariam ambiente fértil nas nascentes escolas de
jornalismo, incorporadas à universidade brasileira no final dos anos 40. Tanto em São Paulo (Cásper
Libero) quanto no Rio de Janeiro (UFRJ) se formariam grupos de estudiosos responsáveis pelas
primeiras obras que analisam sistematicamente fenômenos do jornalismo contemporâneo.
Pertencem a essa geração Carlos Rizzini, Danton Jobim, Pompeu de Souza, Celso Kelly, Marcelo
de Ipanema, Freitas Nobre etc.

Inovadores

Fora do eixo Rio-São Paulo apareceria, uma década depois, corrente inovadora, cuja influência se
ampliaria para todo o país. Trata-se da equipe aglutinada em torno de Luiz Beltrão, fundador do
Instituto de Ciências da Informação da Universidade Católica de Pernambuco e da revista
Comunicações & Problemas, primeiro periódico acadêmico nacional dedicado às ciências da
comunicação.

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Do Recife, Beltrão transfere-se para a Universidade de Brasília, onde dirige a Faculdade de
Comunicação idealizada por Pompeu de Souza, criando o primeiro núcleo regular de pesquisa em
comunicação. As teses de doutorado e mestrado ali defendidas precocemente no final dos anos 60
constituem os primeiros produtos de uma pesquisa do jornalismo em processo de legitimação
acadêmica58.

Quase ao mesmo tempo, dois outros movimentos fortalecem a pesquisa do jornalismo, quer nas
empresas, quer nas universidades.

De um lado, o Jornal do Brasil cria uma publicação especializada - Cadernos de Jornalismo -


dirigida por Alberto Dines, cuja importância reside na divulgação de pesquisas jornalísticas feitas
nos Estados Unidos e na Europa, além <ie estimular a reflexão crítica dos jornalistas da própria
empresa, que sistematizam suas experiências e as submetem ao crivo da comunidade profissional. O
modelo JB de jornalismo se reproduz em todo o país, disseminado pela referida revista, lida e
discutida nas redações dos jornais regionais e também pelos jovens que estudam jornalismo na
universidade.

De outro lado, a Universidade de São Paulo cria na sua Escola de Comunicações e Artes o prirneiro
Departamento de Jornalismo a ter uma equipe de docentes contratados em tempo integral. Desta
maneira, podem se dedicar regularmente aos estudos bibliográficos, à pesquisa empírica e à
experimentação em laboratórios.

Emerge então o prineiro grupo de doutores em Jornalismo do país, formando equipes de pesquisa e
pós-graduação que formariam a primeira geração de professores titulados na própria disciplina.
Hoje eles se espalham por quase todas as universidades brasileiras e dão continuidade a estudos
cujos paradigmas se originaram na USP. Durante os anos 70 e 80, os principais cursos de jornalismo
do Brasil tomariam o padrão USP cí>rn© fonte de referência pedagógica e científica59.

Renovadores

Só nos anos 90 surgem espaços alternativos que disputam a hegemonia uspiana60.

24

Destacam-se a PUC-FAMECOS - Faculdade de Comunicação Social da Pontifícia Universidade


Católica do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, e a UFSC - Universidade Federal de Santa
Catarina, em Florianópolis. A primeira caracteriza-se pela sintonia com as demandas do mercado de
trabalho, mantendo permanente diálogo com as empresas midiáticas regionais. A segunda pretende
ser um núcleo de vanguarda, mais afinado com as teses do sindicalismo jornalístico. Nos dois casos,
tem havido empenho na formação e reciclagem do coipo docente, cujas conseqüências repercutirão
em projetos de pesquisas que esses jovens doutores começam a desenvolver e a publicar.

Na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, ressurge com força a escola que nasceu, em
Belo Horizonte, nos anos 70, com um perfil inovador. Liderada por Lelio Fabiano dos Santos ela
enfatizou inicialmente o jornalismo comunitário. Hoje, aproxima-se criticamente
do jornalismo industrial, experimentando formas de expressão que valorizam os atores da sociedade
civil, mas dialogam com as lideranças do empresariado e do governo. Sua mais ousada iniciativa
tem sido a edição de páginas semanais produzidas em laboratórios didáticos para serem encartadas
nos jornais diários da capital mineira.

Perfil semelhante pode ser atribuído à Faculdade de Comunicação Social da Universidade Católica
de Santos, São Paulo, que combina os procedimentos hegemônicos no mercado com as
metodologias peculiares aos movimentos sociais protagonizados nas periferias urbanas. Sua
experiência de jornais-murais criados pelos estudantes e veiculados semanalmente nos morros da
cidade rompeu o isolamento da universidade em relação à comunidade, motivando as novas
gerações de jornalistas a produzir informações não burocráticas, referenciadas pela cidadania em
movimento.

Trajetória singular perfilou a Universidade de Brasília. Seu curso de jornalismo fora esboçado por
Pompeu de Souza e estruturado por Luiz Beltrão, nos idos de 60, mas definhara nas décadas
seguintes, refletindo a crise institucional que se abatera sobre a universidade, durante o regime
militar. A ênfase recente no jornalismo político, ancorada na colaboração de jornalistas competentes
como Carlos Chagas, permitiu-lhe recuperar o tempo perdido. Da mesma forma, a atuação de
jovens doutores

25
como Murilo César Ramos e Luiz Martins, dinamizou a pesquisa dos fenômenos jornalísticos na
pós-graduação, gerando estudos significativos.

Igual ressurgimento operou-se na paulistana Faculdade Cásper Libero. Vivendo das glórias do seu
pioneirismo, essa escola trilhou o caminho da decadência, nas décadas de 70 e 80, produto das
turbulências políticas e das dificuldades econômicas enfrentadas pela Fundação a que está
vinculada, mas também do envelhecimento e mediocrização do seu corpo docente. Contudo, no
último qüinqüênio, o corpo docente do curso de jornalismo se rejuvenesceu, incorporando
profissionais do mercado, atuantes e entusiasmados, que agilizaram e reformularam os veículos
laboratoriais. Além disso, os projetos experimentais dos alunos concluintes passaram a privilegiar
objetos concretos, convertendo-se em exercícios ousados e inovadores de novos formatos
jornalísticos. Desta forma, a Cásper Libero reconquistou prestígio local e liderança nacional.

O caso da Universidade Estadual de Campinas é paradigmático. Cria-se ali um Laboratório de


Estudos Avançados em Jornalismo, cuja meta é diagnosticar os fenômenos informativos, formando
jornalistas pósgraduados61. Para tanto, criou um curso de especialização em Jornalismo Científico,
subsidiado com recursos do PRONEX-CNPq, ensejando também pesquisas sobre a difusão
científica na mídia brasileira. Contudo, seu projeto mais arrojado tem sido o Observatório da
Imprensa, um laboratório de crítica midiática, dirigido por Alberto Dines e veiculado pela internet,
através do Universo On Line (UOL), com a finalidade de avaliar as tendências do nosso jornalismo.
Ademais de exercitar criativamente o jornalismo investigativo, inovou no campo do jornalismo
digital, mobilizando várias universidades para desenvolver projetos semelhantes.

Por sua vez, a Universidade Metodista de São Paulo, em São Bernardo do Campo, ocupa um lugar
de destaque nesse panorama. Sua marca distintiva tem sido a veiculação de um jornal editado
semanalmente pelos estudantes e professores do curso de jornalismo para servir à comunidade local.
Trata-se de um espaço de pesquisa e aprendizagem de linguagens, estratégias e formatos
jornalísticos, preservados ininterruptamente ao longo de duas décadas. Paralelamente, mantém
desde 1978, um programa de estudos de pós-graduação, inicialmente orientado para estudar os
fenômenos do jornalismo não-hegemônico e

da mídia alternativa. Conhecido nacionalmente como Grupo Comunicacional de São Bernardo62,


essa equipe instituiu, a partir de 1994, uma linha de pesquisa sobre a estrutura da indústria da
comunicação, privilegiando as empresas informativas, os jornalistas e os pesquisadores do
jornalismo. Sua ênfase está no resgate da memória institucional e nas histórias de vida dos seus
protagonistas63.

Mas não se pode deixar de considerar as transformações experimentadas pela própria Universidade
de São Paulo, cujo Departamento de Jornalismo continua a ser o principal foco dos estudos e
reflexões brasileiras
sobre a comunicação de atualidades, sobretudo a partir dos seus programas de mestrado e
doutorado. Eles são responsáveis pela formação de um contingente significativo dos professores dos
cursos de jornalismo que atuam nas universidades de todo o país64. Professoresjornalistas,
reconhecidos pela profissão e legitimados pela academia, como Cremilda Medina, Bernardo
Kucinski, Laurindo Leal Filho, Manuel Carlos Chaparro, entre outros, dão continuidade ao trabalho
iniciado pelos fundadores Flávio Galvão, Freitas Nobre, Juarez Bahia, Thomas Farkas, Gaudêncio
Torquato, etc.

Tendências emergentes

Outros núcleos, em outras regiões brasileiras, despontam como produtores potenciais de novo
conhecimento jornalístico ou como formadores de novas equipes profissionais, academicamente
embasadas. O novo século se inicia contabilizando 128 cursos de jornalismo em todo o território
nacional. Trata-se de uma expansão vertiginosa, se considerarmos que na década de 50 do século
XX havia apenas oito instituições brasileiras dedicadas ao ensino e à pesquisa jornalística.

Essa pluralidade de linhas de pesquisa e de opções didático-pedagógicas converte a pesquisa


brasileira sobre Jornalismo em atividade promissora, completando a sua legitimação acadêmica e o
seu reconhecimento pelas corporações empresarial e sindical. O lugar onde vem se dando essa
convergência é a reunião anual da INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdiscíplinares
da Comunicação65 - cujo Núcleo de Pesquisa em Jornalismo acolhe os mais importantes estudos e
pesquisas em desenvolvimento nas universidades66.

26

27
Ao completar 20 anos de existência, a INTERCOM pretendeu inventariar a produção científica em
cada uma das disciplinas que integram o seu universo acadêmico. O debate que se deu em Santos,
em
1997, representou a oportunidade para avaliar o grau de maturidade conquistado pela pesquisa dos
fenômenos jornalísticos, seja em plano nacional, seja nos entornos europeu e americano. Os
resultados desse diagnóstico, incorporados ao livro ”20 anos de Ciências da Comunicação no
Brasil: o papel da INTERCOM’’, organizado por Maria Immacolata Lopes, constituem um convite
à reflexão sobre os avanços logrados pelos investigadores brasileiros do Jornalismo e suas pautas de
trabalho para o corrente decênio.

Referências bibliográficas

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28

Hipólito da Costa, precursor 67

Hipólito José da Costa Pereira é considerado o fundador do Jornalismo Brasileiro por sua atuação
como editor do mensário Correio Braziliense (1808-1822). Trata-se de publicação essencialmente
política, que abriu espaço para a informação de natureza científica, quase sempre divulgando fatos e
idéias gerados na Europa e considerados relevantes pelo jornalista para aplicação no Brasil.

No entanto, antes disso, Hipólito da Costa realizou uma missão diplomática a serviço da Coroa
Portuguesa, com a finalidade de observar a economia agrícola norte-americana, discernindo quais
inventos científicos e inovações tecnológicas eram factíveis de transplantação para o Brasil, então
Colônia de Portugal na América. A memória dessa missão foi preservada sob a forma de Diário de
Viagem, prenunciando
a vocação do repórter que o autor desenvolveria dez anos depois em seu periódico.

Ele faz um registro arguto do alvorecer da Ciência & Tecnologia na jovem nação norte-americana.
Demonstra capacidade de percepção das invenções científicas e dos processos de difusão coletiva
vigentes naquela sociedade, ao mesmo tempo em que faz referências ao contexto colonial europeu.

Este trabalho pretende analisar as estratégicas jornalísticas empregadas por Hipólito da Costa para
desvendar o panorama científico dos Estados Unidos da América no final do século XVIII,
justificando sua condição de precursor do Jornalismo Científico no Brasil.

Contrastes e controvérsias

Em contraste eom a América Hispânica, cujo Jornalismo floresceu durante o período colonial,
iniciando-se em 1722 com a circulação da Gaceta de México y Noticias de Nueva Espana6*, o
Brasil só presenciaria a imprensa periódica e conseqüentemente a circulação de notícias tipográficas
no início do século XIX, quando a Corte Lusitana se trans-

29
fere para o Rio de Janeiro, convertendo sua antiga colônia americana em Reino Unido a Portugal.
(Marques de Melo, 1973, 65-83).

Os governantes portugueses, acantonados no Brasil durante o período de ocupação da Península


Ibérica pelas tropas de Napoleão Bonaparte, providenciaram a instalação de prelos e tipografias,
ensejando a circulação do primeiro jornal em língua portuguesa na América - a Gazeta do Rio de
Janeiro, editada pelo Frei Tibúrcio José da Rocha. (Bahia, 1990, 9-22). Precedendo esse jornal
oficialista, que sofre as penas da censura estatal, Hipólito José da Costa lançara em Londres e
enviara clandestinamente ao Brasil o jornal Correio Braziliense, considerado o mais antigo
periódico brasileiro, pela sua natureza independente e pelo seu caráter noticioso. (Rizzini, 1946,
341).

A controvérsia sobre o fundador do Jornalismo Brasileiro constitui um capítulo inconcluso da


História nacional69. Durante mais de meio século, prevaleceu a versão de que essa honra cabia ao
Frei Tibúrcio José da Rocha, uma vez que o Presidente Getúlio Vargas oficializara a comemoração
do Dia da Imprensa na data de lançamento da primeira edição da Gazeta (10 de setembro de 1808).
Agora no limiar do novo século, o Congresso Nacional aprovou projeto de lei, sancionado pelo
Presidente Fernando Henrique Cardoso, atribuindo essa primazia a Hipólito José da Costa, cujo
Correio teve o seu primeiro número datado de 1 de junho de 1808. A partir do ano 2000, a
celebração do Dia da Imprensa passou a coincidir com aquela data. (Marques de Melo, 2000,
78/79).

Há, contudo, analistas que rejeitam as duas hipóteses anteriores. É o caso de Costa Rego, o primeiro
professor de Jornalismo do Brasil70, que advoga a tese de que nosso primeiro jornalista não foi nem
Frei Tibúrcio, nem Hipólito da Costa, pois suas atividades não configuram o exercício autônomo do
registro dos acontecimentos e sua interpretação não partidária. O primeiro por ser um duplo
funcionário: do Estado português e da Igreja Católica; o segundo por ser um político organicamente
vinculado ao capitalismo britânico, também comprometido com os interesses daMaçonaria. Na
opinião do referido estudioso, o primeiro jornalista brasileiro foi o publicista Tavares Bastos.
(Marques de Melo, 200b)

30

Seu argumento é o de que ele militou na imprensa do Segundo Reinado, rompendo as amarras
partidárias ou governamentais que desfiguravam os escritos dos homens públicos até então
responsáveis pelo registro dos fatos e seus comentários nas páginas dos jornais e revistas
brasileiros. (Costa Rego, 1952,22-28).

Deixando de lado essa controvérsia sobre o patrono do Jornalismo Brasileiro, a merecer estudos
mais rigorosos e sistemáticos por parte dos historiadores da mídia nacional, não existe dúvida sobre
a natureza informativa do trabalho realizado por Hipólito José da Costa desde os seus tempos de
juventude. Tanto assim que o seu biógrafo e exegeta
Barbosa Lima Sobrinho não hesita em apontá-lo como ”o mais brasileiro dos nossos jornalistas”.
Sua justificativa, fundamentada na coerência e lucidez do jornalista, é plausível, convincente e
difícil de ser refutada.

”E não se pode negar que, do primeiro ao último número do Correio Braziliense, há uma admirável
linha de coerência, imutável e lúcida. Como se houvesse, de um lado, o campo das idéias efêmeras
e provisórias ou das impressões não elaboradas e, do outro, o domínio das convicções intocáveis, o
que havia de decidido e permanente nas suas decisões e nos ideais. Em relação a essas convicções,
não transige, não cede, não recua. A começar pelas idéias liberais, em cuja defesa ocupa sempre a
linha de vanguarda. (...) A defesa da liberdade de imprensa é uma de suas religiões. (...) Não há, nos
14 anos de sua campanha, mudança de posição ou alteração de atitude. Quanto muito, uma ou outra
vez, pode não concordar de todo com o julgamento de algumas personalidades. Mas Hipólito da
Costa tinha por sistema não se deixar arrastar pelos aspectos de natureza pessoal. Interessava-se
pela idéias, pelas atitudes, pelas posições tomadas, não pelas pessoas que no momento as
esposassem. (...) chamar o seu periódico de Braziliense, em pleno regime colonial e numa cidade
estrangeira, já significava um programa e um compromisso...” (Barbosa Lima Sobrinho, 1996,119-
120).

Trajetória intelectual

Na inscrição necrológica aposta à sua lápide tumular em Berkshire, seu amigo, o Duque de Sussex,
irmão do Rei da Inglaterra, destaca a propensão científica de Hipólito da Costa, tanto por formação
acadêmica quanto pela vocação difusionista.

31
”... um homem que se distinguiu não menos pelo vigor de sua inteligência e de sua proficiência na ciência e
na literatura do que pela integridade de costumes e de caráter. Descendente de uma nobre família do Brasil,
residiu neste país os seus derradeiros 18 anos de vida e daqui, pelos seus numerosos e importantes escritos,
difundiu entre os habitantes daquele imenso império o gosto pelos conhecimentos úteis, a inclinação pelas
artes que embelezam a vida e o amor pela liberdade constitucional, fundada na obediência às leis e aos
princípios de mútua benevolência e boa vontade.” (Barbosa Lima Sobrinho, 1996,121).

Esse traço da personalidade jornalística de Hipólito da Costa tem sido minimizado pelos
historiadores do Jornalismo Científico no Brasil. É o que assegura explicitamente Gastão Thomaz
de Almeida, caracterizando como residual e periférico seu interesse pela divulgação científica.

”Se em seu Correio Braziliense, Hipólito da Costa tratava primordialmente de aspectos políticos e sociais e a
Economia e a Ciência surgiam como conseqüência desses problemas, outros jornais surgidos nos primórdios
de nossa imprensa, no seu estilo e de acordo com sua época, não deixavam de dar notícias de diferentes
setores, entre os de caráter científico.” (Almeida, 1984,143).

O viés político do jornalismo praticado por Hipólito da Costa emerge com clareza na análise de
discurso realizada por Bethania Mariani. Ela examinou os textos publicados no primeiro ano de
funcionamento do seu Correio Braziliense.

”O dizer de Hipólito retoma sentidos que já há alguns séculos vêm sendo constituídos no imaginário europeu,
como, ao mesmo tempo, já está re-inaugurando esses mesmos sentidos para o lugar a ser ocupado pelo Novo
Império. (...) Podemos perceber, lendo as páginas do jornal, que está sendo construída uma versão da
história.” (Mariani, 1993,38).

Que versão da história ele privilegia em seus escritos? Percorrendo detidamente a linha de
pensamento desenvolvida nas páginas do jornal, o historiador português João Pedro Rosa Ferreira
conclui que ela está impregnada da ideologia burguesa.71

32

”Este grupo vinha ascendendo progressivamente à voz política, era já um elemento determinante em
mecanismos micro da circulação do poder e aspirava com urgência à partilha da área de decisões estratégicas,
do vértice do sistema de poder na sociedade.” (Ferreira, 1992, 30).

É justamente esse projeto político que conduz Hipólito da Costa a se engajar numa campanha por
alguns considerada ”tecnocrática”, pois ele procura difundir inovações agrícolas ou comerciais
suscetíveis de aplicação imediata.

”Sucedem-se os artigos revelando uma profunda preocupação com o pensar do econômico, desenvolvendo
não só o aspecto teórico, mas também o técnico das questões abordadas, constituindo um corpo de saber
aplicado. Aí se divulgaram invenções e tecnologias, foram diagnosticadas situações e fatores de retardamento,
e avançadas propostas concretas de reformas setoriais para a
agricultura, a indústria, o comércio e as finanças de Portugal e do Brasil.” (Ferreira, 1992,133).

Sua presumível inclinação tecnocrática não passa de um equívoco analítico. Ele tem um projeto
claramente modernizante, refletindo a ampla formação científica recebida na Universidade de
Coimbra. Em função disso, foi-lhe possível desenvolver um tipo de jornalismo enciclopédico e
pragmático, com pretensões de natureza civilizatória.

”O que mais nos surpreende no Correio Braziliense é a extrema variedade de temas que o compõem e a
extensão de cultura que nele revela Hipólito da Costa. Conhece e discute tudo, desde a questão do tráfico e da
escravidão até o problema da mudança da capital do Brasil. Mesmo em paralelo com os periódicos que
surgem no Brasil, é o melhor informado de todos eles, o que melhor conhece e discute os problemas
brasileiros.” (Barbosa Lima Sobrinho, 1977).

De Coimbra a Filadélfia

Nascido na Colônia do Sacramento, então território luso-brasileiro, mas criado em terras gaúchas,
onde sua família se estabeleceu após o Tratado de Santo Udefonso72, Hipólito da Costa fez os
estudos básicos em Porto Alegre. Aos 19 anos já estava matriculado na Universidade de Coimbra,
estudando Leis e Filosofia. (Castro, 1985,11-12).

33
Ao se matricular em Coimbra, em 1792, Hipólito seria beneficiário da reforma curricular feita pela
Universidade na sua Faculdade de Filosofia, neutralizando o viés jurídico-filosófico que a dominava
até então, para dar-lhe uma orientação moderna, de natureza científico-naturalista. Tanto assim que
ele estudaria as novas disciplinas introduzidas: Agricultura, Zoologia, Mineralogia, Física, Química
e Metalurgia. Além da tradicional formação clássico-humanística, ele enveredaria por novas
dimensões do saber, adquirindo um embasamento técnico-científico. Só depois ele se dedicaria ao
estudo do Direito, diplomando-se em 1798. (Dourado,
1957,45).

Seus biógrafos são unânimes em afirmar que essa busca de uma fundamentação científico-
tecnológica fora motivada pelo desejo de, regressando ao Brasil, dedicar-se à agricultura,
otimizando a propriedade rural que a família possuía no hoje município gaúcho de Pelotas73.

Seus planos de retorno à terra de origem foram sendo postergados e afinal nunca se realizaram. Mas
a formação acadêmica adquirida conferiu-lhe competência para a primeira atividade profissional
que iria realizar, credenciando-o depois ao engajamento como funcionário do governo português.

Foi no desempenho da missão diplomática nos Estados Unidos da América, a ele atribuída pelo
Conde de Linhares, que Hipólito da Costa realizou sua precoce incursão como repórter, tornando-se
o primeiro divulgador científico brasileiro. Essa faceta merece registro preciso e sumário do seu
principal biógrafo.

”Mal saído dos cueiros universitários, em 1798, aos 24 anos, recebeu de D. Rodrigo, então ministro
da Marinha e do Ultramar, o encargo de estudar na República Norte-Americana, para aplicação no
Brasil, a cultura de árvores nativas, do cânhamo, tabaco, algodão, cana, índigo, arroz e,
principalmente, a da cochinilha; a formação de pastagens; a construção de pontes, moinhos e
engenhos d’água; a mineração; a pesca da baleia e o preparo do peixe salgado. Do encargo,
desempenhou-se acima do esperável de bacharel novato, conforme atestam os documentos que a
respeito redigiu. Simultaneamente, o Ministro o teria incumbido de outros estudos...” (Rizzini,
1957,4).

34

A viagem foi iniciada no dia 11 de outubro de 1798 e concluída no final de 1800.O jovem brasileiro
recebeu nomeação do governo lusitano para atuar como encarregado de negócios nos Estados
Unidos. Sua missão era observar as inovações agrícolas e industriais ali desenvolvidas, verificando
que aplicabilidade poderiam ter na colônia portuguesa situada ao sul das Américas.

A conjuntura histórica refletia as tensões políticas entre a França e a Inglaterra. Ela nutriu os ventos
que iriam empurrar a Corte Portuguesa para o Brasil-Colônia, em retirada estratégica, acossada
pelas tropas napoleônicas.

Hipólito da Costa anotou diligentemente suas impressões de viagem. Elas permaneceram inéditas
até a metade do século XX, quando foram divulgadas quase simultaneamente no Brasil e nos
Estados Unidos. O escritor brasileiro Alceu Amoroso Lima as descobriu
em Évora, mandou copiar e publicar no Brasil, em 1955, sob o patrocínio da ABL Academia
Brasileira de Letras. Por sua vez, a Universidade da Pensilvânia selecionou trechos do Diário e
providenciou a tradução para a língua inglesa, reproduzindo-os, com prefácio do professor Robert
C. Smith, na revista The Pennsylvania Magazine of History and Biography, em janeiro de 1954.
(Rizzini, 1957, 4).

O livro Diário de Minha Viagem a Filadélfia (1798-1799) contém não apenas as anotações feitas
durante a permanência nos Estados Unidos, mas também a correspondência dirigida às autoridades
portuguesas. Sua última carta foi escrita em 30 de agosto de 1800. De volta a Portugal ele preparou
um relatório conciso, datado de 24 de janeiro de
1801, encaminhando-o ao Ministro da Fazenda de Portugal74. A íntegra de tal documento foi aqui
publicada em 1858 pela Revista do Instituto Histórico Brasileiro.

Seu Diário de Viagem parece mais uma reportagem investigativa do que um relato diplomático.
Suas Cartas de Oficio se assemelham a narrativas de bastidores, permitindo ao leitor compreender o
ambiente retratado. Sua Memória, apesar do caráter de relatório reservado, dirigido a D. Rodrigo de
Sousa Coutinho, assume a feição de uma reportagem científica, narrando objetivamente os fatos
observados. Ele também os con-

35
fronta com os conhecimentos estocados em sua bagagem cultural e faz ilações pontuais, visando
orientar as políticas de desenvolvimento agrícola ou industrial cogitadas pelo governo português
para o Brasil.

Tanto nesse relatório quanto no diário de viagem e assim também nas cartas percebe-se claramente
a sensibilidade noticiosa de Hipólito da Costa. Seu faro de repórter está permanentemente aguçado.

Ele visita o Presidente dos Estados Unidos, John Adams, anotando com perspicácia seu
comportamento público. Percorre laboratórios de pesquisa e campos de cultivo experimental,
conversando detalhadamente com os cientistas e suas equipes. Acompanha o panorama político e o
movimento intelectual, lendo jornais e revistas que registram os fatos e comentam os
acontecimentos. Anda pelas ruas, viaja em barcos e carruagens, dialoga com pessoas comuns,
diplomatas e autoridades locais, captando imagens, sensações, idéias.

Exercício jornalístico

Nessa incursão jornalística têmpora, Hipólito da Costa não se limita ao terreno noticioso, relatando
o que observou e documentou, enveredando pela trilha da interpretação. Ele procura desvendar e
compreender a conjuntura que se esboçava, e, sempre que indispensável, tece juízos de valor, ou
seja, opina judiciosamente.

Em que medida tal exercício informativo pode ser enquadrado no universo do Jornalismo
Científico?

Hipólito da Costa produziu três distintos relatos jornalísticos durante o desempenho de sua missão
nos Estados Unidos:

a) As Cartas de Oficio - contendo notícias breves, tanto sobre os fatos observados quanto a respeito
das dificuldades que ele vai enfrentando durante a viagem.

b) A Memória da Viagem - que configura uma autêntica reportagem, enunciando as descobertas


feitas e sugerindo aplicações possíveis.

c) O Diário de Viagem - cuja feição assemelha-se contemporaneamente a um livro-


reportagem, onde o repórter faz

36

anotações sobre cenários e personagens, aduzindo impressões contextuais.

Os dois primeiros assumem explicitamente a natureza de informações técnico-científicas, enquanto


o terceiro tem caráter mais abrangente, onde os tópicos sobre ciência e tecnologia fazem parte de
um mosaico que retrata o perfil da sociedade norte-americana na fase de construção da sua
identidade nacional.

Para melhor compreender o Jornalismo Científico praticado por Hipólito da Costa é indispensável
situá-lo no contexto em que se desenvolveu. Seus relatos jornalísticos estão moldados de acordo
com a pauta esboçada por seu editor, o Conde de Linhares, a quem ele dirige tais peças
informativas.

Essa pauta foi estabelecida de acordo com os interesses do governo português que pretendia
beneficiar-se dos avanços científicos e tecnológicos vigentes nos Estados Unidos, utilizando-os
inclusive para alavancar a reativação das atividades agrícolas da sua colônia americana75.

Antes de viajar, Hipólito recebeu Instruções precisas do Palácio de Queluz sobre como deveria
proceder na América do Norte.

”Essa
comissão era para os Estados Unidos e para o México. No México, mais difícil, porque tinha que
disfarçar (...) o grande objeto que levava e para o qual deveria agir com grande moderação e
cautela. Tratava-se de conseguir o inseto e planta de cochinilha e conhecer o modo do seu
tratamento e preparo (...) nos Estados Unidos, ele deveria estudar a cultura e a preparação do tabaco
da Virgínia e Maryland, verificando se é o mesmo que se cultiva no Brasil; enviar todas as notícias
teóricas e práticas sobre esta planta (...). O mesmo deveria fazer com o linho cânhamo. Tudo que se
relacionasse com a aclimatação desta planta, notícias teóricas e práticas sobre a agricultura nos
Estados Unidos deveriam remeter logo para Lisboa, não esquecendo de relatar o que observasse
sobre a cultura das batatas e das diversas plantas destinadas a prados artificiais, bem como sobre os
estrumes de que mais usavam. Da mesma maneira, procederia com acer saccharinus, emitindo seu
parecer sobre o açúcar que dá. Enfim, as observações de Hipólito deveriam estender-se a todas as
árvores e arbustos de que pudesse obter sementes, com a des-

37
crição de sua cultura (...) Ainda no México, além da cochinilha, deveria examinar o estado das culturas;
observar as minas de ouro e prata, os métodos de sua exploração e os princípios da economia tanto pública
como particular pelos quais são regidos. Ao lado da Botânica e da Mineralogia, incumbia também ao
comissário o estudo das obras hidráulicas seja na navegação dos rios, seja na dos canais, e das máquinas
respectivas. De tudo isso, procuraria dar a melhor conta que pudesse.” (Dourado, 1957,47-48).

Ele cumpre fielmente a, pauta que lhe foi dada, sintetizando os resultados de suas observações de
campo na reportagem-memória entregue ao Ministro Sousa Coutinho no dia 24 de janeiro de 1801.
Seu relato é precedido de um roteiro de viagem, prosseguindo com a descrição da sua metodologia
de trabalho, para, finalmente, dar resposta aos quesitos propostos pelas autoridades lusitanas. (Costa
Pereira, 1858, 317)

Agenda noticiosa

O que, o repórter observou? Como e onde?

”Três pontos atraíram principalmente a minha atenção nestas viagens, como os principais objetos da minha
missão: Io., a cultura do tabaco; 2°., a cultura do linho cânhamo; 3o. as árvores cultivadas pelos Americanos.
Porém em cada um dos estados me apliquei a observar mais particularmente o gênero de cultura e os artigos
principais que formam a base do produto do país. Assim em Massachussets e resto da Nova Inglaterra, os
prados, as crias de gado e as pescarias; em Connecticut e outros estados ao longo do mar até Chesapeack, o
trigo, milho e outros cereais; em Mariland, e Virgínia tabaco; na Carolina do Norte as fábricas de breu e pez,
as madeiras, etc; na Carolina do Sul e Geórgia., o arroz e algodão; e finalmente nas terras adjacentes ao
Mississipi e seus ramos o cânhamo e minerais. E entrei ao mesmo tempo tudo quanto pude nos princípios de
economia tanto pública como particular de cada um destes ramos; procurando saber os motivos e fins do
Governo em todas as operações mercantis, no que achei bastante que aprender principalmente na
administração das Alfândegas, direitos de importação e tonelada, e outros regulamentos da marinha mercantil,
e rendas públicas; compilando para isto todos os documentos autênticos que é possível obter. Por

38

quanto ainda em alguns destes pontos parecessem estranhos à minha comissão, contudo julguei próprio
preparar-me para responder a quaisquer questões que sobre ela V. Exa. houvesse por bem fazer-me.” (Costa
Pereira, 1858,317).

Na seqüência, ele resume com clareza, precisão e amplitude os dados colhidos sobre cada elemento,
agregando, sempre que necessário, observações a respeito da utilidade de tais conhecimentos ou da sua
aplicabilidade. Vejamos, por exemplo, o relato sobre a cultura do algodão:

”Na viagem pelos Estados Meridionais foram o algodão e o índigo que me ocuparam principalmente. A
cultura do algodão que data de uma época muito
recente nos Estados Unidos, cresce todos os dias a passos agigantados, e promete ao agricultor uma riqueza
quase incrível. O coronel Wade Hamptomn, na Carolina do Sul, fez o ano passado 18.000 libras esterlinas de
lucros no algodão de suas plantações. Quatro espécies são as que se cultivam na Geórgia e Carolina -
Gossipum herbaceum hirsutum - barbadense - arboreum - e os Americanos apresentam diferentes espécies no
mesmo terreno até acertar com a que se dá melhor. Esta planta é alternada e algumas vezes plantada
justamente com o milho; e o algodão produzido na beira do mar e ilhas adjacentes às costas da Geórgia é o
que tem maior valor no comércio. Indaguei a respeito desta cultura tudo quanto me foi possível, não só sobre
o modo de preparar e adubar as terras, escolher as sementes, tratar as plantas e moléstias a que são sujeitas,
com os curativos que se lhe tem descoberto; mas também procurei obter todas as noções que podem conduzir
ao cálculo provável do rendimento e despesas, máquinas para descaroçar, etc, etc; e não duvido que a
exposição destes fatos seja agradável e interessante aos nossos agricultores no Brasil.” (Costa Pereira,
1858,321).
Na verdade esse documento compila e ordena os relatos encaminhados previamente ao Ministro,
durante a estância do repórter nos Estados Unidos e que estão contidas nas cartas noticiosas
reproduzidas em apêndice ao Diário da viagem a Filadélfia. Nelas, Hipólito designa seus
informantes, geralmente pessoas dignas de credibilidade científica, cuja confiança ele conquistou
facilmente. É o caso das sementes de árvores:

39
”Tenho a honra de remeter (...) uma caixa de sementes com mais de
200 espécies, que formam uma bela coleção das plantas notáveis desta país...(••) Estas sementes me foram
principalmente procuradas por Mr. W. Hamilton, um curioso de botânica em Filadélfia, que tem muitas e
diferentes plantas na sua estuda e jardim. (...) Fui, também, informado, que na Jamaica há a árvore do pão,
trazida para aí pelos ingleses de Otahito; não pude saber se é o Zamia caffra, que Tumberg achou na cariaria, e
a que chamam Bread-tree, ou a Radamachia a que os ingleses na índia chamam de Bread-fruit, ou, finalmente,
se é o Arto carpus de Linneu; mas tenho bastantes razões para supor que é este último, segundo as
informações que me deram, o qual é sumamente próprio para o clima do Brasil.” (Costa Pereira, 1955,239).

Sua observação científica não se limita aos itens prescritos nas instruções que lhe foram entregues
antes da viagem. Ele demonstra liberdade de iniciativa e curiosidade aguçada. Sempre que algum
elemento lhe parece inovador e de interesse público, ele trata de compreender e relatar. Nesse
sentido, é interessante a notícia que escrever sobre saúde pública.

”Remeto mais a V. Exa. uma coleção de panfletos que contêm alguns papéis publicados aqui sobre as coisas
das moléstias epidêmicas e seus preservativos. O primeiro folheto é uma indução de fatos deduzida da história
das febres amarelas, que tanto vezam este país, para provar que o setpon e suas combinações com diversas
substâncias constituem a matéria da peste. O segundo, se dirige ao mesmo fim, e deduz as provas da história
de outras moléstias. O terceiro é a compilação das leis de New York que proibiam as manufaturas de sabão e
velas de sebo na cidade como nocivas à saúde dos habitantes.” (Costa Pereira, 1955,250).

Fontes de informação

Para levar a cabo seu trabalho de repórter Hipólito da Costa recorreu a diversas fontes de
informação, valendo-se especialmente de cientistas, com as quais estabeleceu relações de amizade e
de respeito intelectual.

”Nesta missão Hipólito teve oportunidade de travar conhecimento com vários cientistas e eminentes
personalidades americanas e estrangeiras. Algumas destas relações tiveram certa freqüência não só pessoal,

I
de repetidas visitas, como de correspondência, pelo apreço científico que ele despertou. Tais foram as que
manteve com o naturalista William Hamilton, com John Bartram, com Humprey Marshall, com Caries Wilson
Peale, com o Dr. Mitchell, etc.” (Dourado, 1957,59).

No Diário de Viagem ele revela como cultivou adequadamente suas fontes de informação.

As principais podem ser caracterizadas como cientistas amadores, ou seja, pessoas ávidas de
conhecimento que fazem experimentos em laboratórios domésticos. Alguns deles são agricultores
que denotam perspicácia investigativa, retirando da experiência acumulada lições práticas para seus
cultivos.

” 1799, janeiro,
2 - Hoje, fui fazer uma visita ao grande botânico que aqui há, John Bartram (...) que mora na sua pequena
herdade, 5 milhas distante Filadélfia, em Kingssessing, além do rio Schuylkill; achei em casa só sua filha que
terá 15 anos, e que me recebeu ao pé do seu fogão, onde ela estava cosendo, e eu lhe disse que procurava seu
pai. Respondeu-me, com toda a afabilidade que esperasse por ele pois não tardaria, e com efeito veio daí a
meia-hora; nesse espaço, conversou comigo em coisas de geografia, a que deu motivo um livro desta ciência,
que vi sobre o fogão; passamos, depois, a falar sobe botânica, no que ela não era hóspeda, pois eu sabia os
nomes de muitas plantas e lhe aplicava o nome sistemático do Lineu, sobre cujo sistema também falou, com
exatos, ainda que limitados, conhecimentos. Depois veio seu pai que tinha estado trabalhando e, quando eu
esperava um cavalheiro, achei um pobre campônio muito mal vestido com um grande casacão, mas muito
remendado, umas botas velhas do campo; com maneiras assaz grosseiras, inda que sumamente afáveis; e
vinham com ele seus dois filhos, um de 12, e outro de 20 anos, que traziam às costas, cada um deles, a sua
enxada, pois vinham do trabalho. Sentamo-nos todos ao redor do fogo, e como vi juntos quatro botânicos,
com os rudes costumes do campo, mas com instrução suficiente, me demorei até à meia noite, passando com
esta pequena família a melhor tarde que tenho passado na América. Mostrou Bartram os desenhos de plantas
feitos pelo seu filho mais novo e por sua filha, que não só estavam muito bons mas que eram de admirar em
dois meninos que jamais saíram fora de sua cabana; mostroume o catálogo das plantas americanas que ele
queria imprimir, etc, etc.” (Costa Pereira, 1955,69-70).

40

41
” 1799, janeiro, 11 - Hoje, tornei a casa de Mr. Bartram que, fazendo-me um seco acolhimento ajustou comigo
uma caixa de sementes por

2 Vi guinéus, e ficou de mandar.” (Costa Pereira, 1955,73).

” 1799, fevereiro, 24 - Hoje fui jantar na casa de Mr. Hamilton, que mora da outra parte do Schuylkyll, e que
é um sábio muito apaixonado de botânica; tinha na suas muitas plantas da China e Brasil; tinha 13 espécies de
sensitiva; tinha muitas de babosa; tinha uma espécie de cana de açúcar, que lhe veio de uma ilha do mar do
Pacífico, e que já está cultivada nas ilhas do México: dá o duplo de açúcar e exige o mesmo trabalho que a
ordinária; prometeu-me sementes, etc, etc. Farei um catálogo de todas as plantas que ele tem; tem também a
árvore do chá, jambos, goiabas, etc, etc.” (Costa Pereira, 1955,86).

” 1799, fevereiro, 25 - Hoje, estive em casa de Mr. Budinot, e, falando de agricultura, me disse que o Acer
saccarinum, quando é mais velho, é mais abundante em suco, se na na idade tenra o tem tratado com o
cuidado de não o esgotar demasiadamente; a razão porque quando é mais velho dá mais suco é porque então
tem mais ramos e folhas e por isso absorve mais da atmosfera.” (Costa Pereira, 1955,86).

” 1799, março, 6 - Fui à estufa de Mr. Hamilton que tinha um catálogo de perguntas para me fazer, e que
escrevia as respostas que eu lhe dava.” (Costa Pereira, 1955,90).

” 1799, março, 24 - Jantei em casa de Mr. Hamilton; disse-me que o chamado chá da Geórgia e Carolina não
era senão uma espécie de Sida, inda não descrita, e a que Mr. Bartram chamou Sides Teavides por se
assemelhar na folha e ter uso do Tea ou chá. (...) Fez-me sentir que tabaco da Virgínia inda não está descrito...
(...) Quanto às questões das baleias, disse-me que alguns navios foram daqui pescá-las nas costas do Brasil,
mas ao presente não vão; mostrou-me uma nova espécie de panos trifolium.” (Costa Pereira, 1955,99).

”1799, agosto, 1 - Acho em Bartram um nome Tillandsi ulnea adscites, que ele aplica a uma planta, que lhe
serviu de cama uma vez pela sua macieza; e eu suponho ser a mesma a que o Padre Veloso me apontou;
procura-se com o nome de Tillandea usnea cujo nome aqui ninguém conhece; esta é uma planta parasítica.”
(Costa Pereira, 1955,163).

Outras fontes são personalidades publicamente reconhecidas, vinculadas do mundo acadêmico ou


legitimados pela autoria de publicações significativas.

”1799, maio, 1 - Hoje fui apresentado ao Dr. Mitchell, o professor de química nesta Universidade, ou colégio
Columbiano, que me recebeu muito bem eme deu um panfleto ...”(Costa Pereira, 1955, 129).

” 1799, novembro, 26 - Mr. Roxburt - suponho que nome será Roxburgh - está para publicar em Inglaterra as
suas observações nas índias Orientais, onde compreende a descrição e cultura do bicho da seda, superior
a tudo quanto se tem descoberto nesta matéria; esta obra se titulará Flora Coromandeliana, e me dizem que
custará não menos de
90 guinéus.” (Costa Pereira, 1955,216).

”1799, setembro, 10 - Hoje, fiz uma visita ao Dr. Dexter que me satisfez muito mal todas as questões que lhe
fiz; deu-me dois folhetos que contêm as publicações da Sociedade de Agricultura, etc, de Massachussets; e
segurou-me, o mesmo, que o Dr. Mitchell me disse de não haverem minas nos Estados Unidos e nenhumas,
absolutamente, em Hampshire, como diz Morse na sua geografia, etc. etc Disse-me que a casca mais usada
nos curtumes era uma espécie de Hemlock (Pin Abies Americana), que tinha um gosto amargo, adstringente.”
(Costa Pereira,
1955, 188).

”1799, novembro, 10 - De manhã viajamos....milhas e milhas e encontramos uma ridiculíssima aldeia. Aqui
mora Mr. Junphreis Marshall, o autor do Catálogo etc, (...) Marshall levou-nos para sua casa e começou a
mostrar-nos o seu jardim, que sendo extenso, está muito mal tratado, cheio de erva, depois que ele está cego;
(...) Entre outras, uma árvore açucareira que ele plantou há 22 anos, e que estava frondosa, dando uma boa
sombra, e com bela vista, tinha pé e meio de diâmetro. (...) Mostroume um arbusto (sideretes) a que chamou,
se bem o entendi, Clown-wormwet, que disse era um grande remédio para os peitos da mulheres, quando o
leite se infartava.” (Costa Pereira, 1955,206).

Mas ele se vale também das relações diplomáticas e, através delas, ou de mediações dos próprios
cientistas, conversava com viajantes que passavam pela Filadélfia, para colher dados e aferir
tendências.

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”1799, fevereiro, 6 - Hoje, estive em casa do Ministro de Espanha, que me disse algumas coisas sobre
ciências naturais; segredou-me que a agricultura nos Estados do Norte, e no Canadá, estava em muito melhor
pé que nos Estados do Sul; mostrou-me uma espécie de charrua inventada por Mr. Jefferson; e mostrou-me
em um armário 193 espécies de madeiras das Filipinas; disse-me que Mr. Jefferson tinha trazido para a
Virgínia perto de 20 variedades de arroz, etc, etc.” (Costa Pereira, 1955,82-3).

”1799, maio, 19 - Fui ao Dr. Mitchell onde me encontrei com o

Dr. , um médico inglês que esteve no Rio de Janeiro, e me disse que o

cactus que aí observou é o opuntia coxinniliger, que há três ou quatro espécies diferentes, que foi trazida para
uma das ilhas do México a planta, mas que o inseto se não dava bem nela, que ele conduzira o inseto com a
planta, mas que morreu com o frio. Este médico, suponho que andou em alguma frota inglesa, e parte amanhã
para Inglaterra; falou-me também, da nova cana de Otahito, e com grande vantagem, e disse-me que ela era
universalmente cultivada agora, mas que ele supunha não ter sido importada de Otahito mas sim das
Maurícias.” (Costa Pereira, 1955,139).

”1799, novembro, 25 -Encontrei, à noite, com um almirante espanhol, em casa de Mr. Liston, chamado Mr.
Donald; disse-me que havia no México um botânico chamado Jesse, ou Iensen, que estava para publicar
algumas obras. Disse-me que a cochonilha se produzia na província de Guaxaba, no México...” (Costa
Pereira, 1955,215-216).

A imprensa diária também lhe serviu como fonte de informação fidedigna. Ele assinou o jornal Aurora, do
qual retirava informações úteis.

” 1799, janeiro, 17,18 - Na gazeta de hoje apareceu um plano para se conduzir água para a cidade do
Schuylkill e o engenheiro confessava que a natureza da terra era de filtrar, e que assim se conhecia porque a
água dos poços tinha um gosto acre, que lhe provinha das comunas...” (CostaPereira, 1955, 78).

” 1799, janeiro, 24 - Hoje, subscrevi a Aurora, principiando de 11 deste mês até 11 de junho, e dei 4 dólares; é
uma gazeta diária que era de Benjamin Franklin Bache, um sobrinho do grande Franklin, e que mora nas
mesmas casas, tendo a mesma imprensa; mas, como este é morto, a mulher continua tendo um redator
irlandês.” (Costa Pereira, 1955,80).

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”1799, fevereiro, 4 - Na Aurora de hoje vem um artigo sobre a viúva do General Wooster, que serve para
caracterizar os americanos.” (CostaPereiral955,82).

”1799, novembro, 6 - Subscrevi na Aurora e paguei três meses.” (Costa Pereira, 1955,211).

Hipólito também busca informar-se na imprensa especializada, ou melhor, em fontes legitimadas pela
emergente comunidade científica norte-americana:

”1799, maio, 30 - Sobre agricultura há um excelente artigo no Medicai Repository.


Vol. 2°., n. 3, p. 342.” (Costa Pereira, 1955,145).

”1799, julho, 4 - No Medicai Repository de New York, vol. 2, p.


342, se assevera que a cultura da branca (parsnip) é muito usada em Gnersney e Jersey, para mantimento dos
animais, e é sumamente nutriente pela grande porção de substância sacarina que contém...” (Costa Pereira,
1955,150).

Ele recorreu ainda a instituições culturais: museus, bibliotecas, universidades e hospitais.

” 1798, dezembro, 28 -Hoje vi a biblioteca pública instituída à custa de subscrições particulares, e que teve
por motor Benjamin Franklin... (...) Vi também o Museu Peale, que é público a toda pessoa que pagar 200 rs.;
consta de três pequenas salas... (...) As 3 salas são muito pequenas, os produtos estão arranjados sem ordem
sistemática, nenhuma absolutamente, mas segundo a melhor simetria ou acomodação das grandezas. Os
quadrúpedes são em geral muito mal empalhados... (...) A coleção de minerais é assaz diminuta...” (Costa
Pereira, 1955,67).

” 1799, fevereiro, 20 - Hoje, estive na aula de Medicina, e comecei a ouvir as lições públicas do Dr. Rush, de
medicina prática; a aula tinha 40 palmos de comprido, 4 ordens de arquibancos, numa ridícula mesa, enfim,
parecia uma cozinha; havia 125 estudantes e a lição constou sobre as febres amarelas. Fui, depois, à aula de
anatomia; e se fez a demonstração do olho muito bem feita.” (Costa Pereira, 1955, 85).

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”1799, julho, 6 Os conhecimentos e instituições médicas desta cidade não estão muito avançados, e se pode
ver uma exata conta da Faculdade de Medicina na Universidade no pamphlet que tenho, intitulado:
Thepresentstaíe of medicai learning in the city ofNew York,
1797, onde se verá as relações entre a Faculdade de Medicina e o hospital da cidade.” (Costa Pereira,
1955,153).

Ora procurava municiar-se de dados úteis a seu trabalho, de acordo com a pauta pré-estabelecida.

”1799, fevereiro, 13 - No Museu de Peale há um búfalo empalhado, e muitas pessoas me dizem que são mais
fortes, e marcham melhor que os bois; é constante que os camponeses os têm domesticado; (...) Julgo,
portanto, que poderiam ser transportados para Portugal, inda que eu nunca os vi em Filadélfia.” (Costa
Pereira, 1955,84).

”1799, abril, 17 - Observei no Museu do Peale a ponte de madeira de um só arco, e lhe comprei o folheto que
ele publica com a sua descrição. Observei mais duas máquinas, uma que é uma sorte de macaco para levantar
pesos, e outra uma qualidade de carrinho para tirar o estéreo dos currais elevá-lo para os campos...” (Costa
Pereira, 1955,112).

Ora tratava simplesmente de ilustrar-se, ampliando seu universo cognitivo.

”1799, agosto, 7 - Hoje, foi o commencement do Colégio Columbiano ou princípio dos estudos. No pátio do
colégio se formou uma procissão com os professores, estudantes, pessoas que acompanhavam, e um bando de
música...(...) subiu um estudante ao anfiteatro (...) e recitou uma linda oração em latim sobre a utilidade da
literatura..^...) O último orador falou sobre o patriotismo...(...) no fim, todos os oradores receberam o grau de
bacharel.” (Costa Pereira, 1955,170-172).

”1799, dezembro, 27 - Fui ver à sala da Sociedade Filosófica os ossos do animal desconhecido a que chamam
Mammunth...(...) Um americano, Mr. Turner, o autor de uma memória sobre a marmota, me disse que
esperava o verão que vem ajuntar um esqueleto inteiro deste animal...” (Costa Pereira, 1955,220).

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Repórter em ação

Seu instinto de repórter transparece todo o tempo, através das anotações de fatos observados nas ruas, praças,
estradas. Estivesse ele fazendo parte de um corpo editorial, em jornal e revista, e certamente os teria
convertido em notícias ou reportagens.

Alguns dados ele recolhe por interesse político ou pelo impacto social que despertavam.

”1799, janeiro, 3-4-5 -Hoje, apareceu na rua, defronte de minha casa, uma criança recém-nascida, e morta na
neve. Por ocasião disso se me contou que o crime do infanticídio foi aqui muito comum há alguns anos; a
razão é porque não há roda de enjeitados, e a casa de criar meninos não recebe as crianças sem que alguma
pessoa abonada se obrigue a pagar-lhe a educação, ou que a mãe ou pai, se declare, e como isto punha a mãe
nas circunstâncias, ou de expor o seu crédito, ou expor
a vida de seu filho, este último partido era sempre tomado; agora, os infanticídios têm diminuído, depois da
instituição do colégio de Wilmington, que é para educação de senhoras. Uma mulher recolhida, que se acha
prenhe, se ausenta para o campo, para ocultar o seu estado, e a sua família publica que se acha em Washington
etc.” (Costa Pereira, 1955,70).

” 1799, agosto, 22 - A febre tem-se mostrado horrorosa nestes dois dias, e o povo começa a desamparar a
cidade...” (Costa Pereira, 1955,175).

”1799, outubro, 27 - Ontem, houve um grande fogo à meianoite, e, entre muitas casas, que arderam, foi uma
estrebaria onde se queimaram 17 cavalos e muitas carruagens.” (CostaPereira, 1955,210).

” 1799, dezembro, 26 - Hoje se fizeram as honras funerais ao general Washington a que não assisti por não ter
luto nem dinheiro para o comprar, porém tenho a descrição que foi publicada na gazeta.” (Costa Pereira,
1955,219).

Outros fatos prendem sua atenção pelo inusitado.

”1799, janeiro, 7 -(...) porque em Filadélfia, e em geral no E.U., é costume, quando alguém quer despicar-se
de outrem, manda por-lhe numa gazeta os fatos mais vergonhosos, que lhe sabe da vida; o outro

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responde do mesmo modo, e tem sucedido, algumas vezes, durar essa disputa nas gazetas um mês e mais,
descobrindo uns aos outros gerações de feitos pessoais, faltas de mulheres e filhas, etc.” (Costa Pereira,

1955,72).

”1799, janeiro, 9 - Vi um francês, de St. Mamim, que sendo um homem de boa educação na França, aprendeu
na sua mocidade a tirar retratos, e disso se vale agora para se sustentar e à sua família; tira o perfil na parede
pela sombra sobre um cartão vermelho, e depois enche as feições com lápis, fazendo este retrato de lápis em
grande; redu-lo, depois, a pequeno, e grava em chapa...” (Costa Pereira, 1955,73).

”1799, janeiro, 25 - Hoje, veio notícia de que os negros de S. Domingos deram a morte a todos os brancos
existentes na Ilha; apesar disso os franceses que aqui há e que lá mil parentes e relações deram um grande
baile público.” (Costa Pereira, 1955,81).

Mas ainda há situações pitorescas ou singulares que mereceram registro e comentários.

”1799, fevereiro, 25 - (...) Mr Budinot... disse-me que...os índios, que vieram fazer um tratado com o
Presidente (Washington), em lugar de escrever o que ouviam o marcavam com umas contas, e depois de o ter
referido ao seu chefe vinham com as mesma contas ou rosários responder a cada um dos artigos, recitando
com exatidão tudo quanto tinham ouvido; entre outras coisas, que disseram, sendo perguntados porque razão
chamavam suas àquelas terras que eles habitavam, mas que habitavam também os brancos, responderam que
ele, ou seus antepassados, as tinham recebido do autor da natureza, quando formou o Mundo, e que lhe
tocaram em repartição, mas que os brancos os expulsavam delas, obrando contra a vontade do autor da
natureza.” (Costa Pereira, 1955, 86-87).

” 1799, abril, 13 - Os quakers têm o seu meeting annual, 2a. feira, 15 de abril em Pine Street onde ajuntam
anciãos de todos os meeting particulares para dar contas das transações que têm feito ajuntar o dinheiro para
as despesas da sociedade...” (Costa Pereira, 1955,112).

Seu faro esteve bem aguçado para captar e compreender as inovações científicas e tecnológicas vigentes na
sociedade norte-americana.

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” 1799. janeiro, 6-0 termômetro de Reaumur chegou hoje 8 graus abaixo de zero. A razão porque por que os
bois são tão gordos é porque no tempo do inverno são sustentados com farelos.” (Costa Pereira,
1955, 71).

”1799, janeiro, 7-As pontes são quase todos de madeiras... (...) Estas pontes de madeira são verdadeiramente
barcos flutuantes atadas umas às outras por correntes de ferro...” (Costa Pereira, 1955, 71).

”1799, abril, 12 - (...) Sobre os pinhos deste país soube que o brown pin (P. Palustris) ’muito usado na
Carolina para a terebentina, breu, para as tábuas, e cascos de barril. (...) Quanto aos carvalhos o Q. Alba (qhite
oak) é o que se supõem melhor em Pensilvânia e Carolina; e o Line oak é o mais empregado em arquitetura
naval..(...) Observei no Museu de Peale a ponte de madeira de um só arco, e lhe comprei o folheto que ele
publicou com a sua descrição. Observei mais duas máquinas, uma que é uma sorte de macaco para levantar
pessoas, e outra uma qualidade de carrinho para tirar o estéreo dos currais e levá-lo para os campos.” (Costa
Pereira, 1955,111-112).

”1799, maio, 15 - New York (...) em um dos papéis de novidades desta cidade, achei que Mr. H. G. tinha
escrito uma carta à Sociedade Filosófica da América, em Filadélfia, datada de 22 de junho de 1795, em que
ele dava parte do método de conservar as árvores frutíferas doentes...” (Costa Pereira, 1955,136).

”1799, julho, 23 - Flórida, Geórgia. O terreno é particularmente favorável para a cultura do índigo e algodão;
e nas ilhas da costa da Geórgia há grandes plantações para a cultura e manufatura destes preciosos artigos. O
algodão é plantado somente pela mais pobre classe do povo quanto basta para o consumo da família; plantam
duas espécies: annual e o West Indian.” (Costa Pereira, 1955,156-157).

”1799, setembro, 17-(...) Falei hoje comum lavrador de Georgetown em S. Carolina que me disse, que a
plantação de tabaco, já era diferente da que usam aqui, porque no sul não se lhe cortam os topes, mas muitas
folhas, de modo que as outras ficam grossas e densas, talvez por esta razão; disse-me o mesmo, a respeito do
arroz, que o costumavam aguar com diques, que fazem nos rios onde a maré opera, mas que provam a água
para saber se tem sal, porq\ae a menor quantidade de água salgada mataria o arroz; disse-me, havia diversas
qualidades de engenhos para o descas-
cracatúa
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car, que todas foram inventadas 20 anos a esta parte, pois antes os não havia, e que cada vez se melhoram
mais e aperfeiçoam. O algodão é uma muito proveitosa cultura porque um rapaz é tão serviçal como um
homem, o que não acontece no tráfico do arroz, anil, etc. O coronel Wade Hamton espera fazer este ano
18.000 th. Esterlinas em algodão das suas plantações. Tem-se feito muitas experiências a respeito do cânhamo
que dão todas as esperanças, e naquele mesmo lugar há um Mr. Dupris (se bem me lembro), que está ocupado
em publicar tudo quanto é preciso (...) para o melhoramento da agricultura do país.” (Costa Pereira,
1955,196).

”1799, outubro, 28/29/30 - Hoje fui examinar os aquedutos e os dois reservatórios que são muito abaixo de
merecerem atenção.” (Costa Pereira, 1955,210).

”1799, dezembro, 8 - Tem-se feito experiências sobre o modo de plantar batatas, e uma plantada inteira sem
se cortar, e outra no mesmo terreno cortada em pedaços, como é a prática geral; o produto foi: da batata
inteira, 217, um quarto delas muito grandes e o resto da grandeza ordinária; e a batata partida produziu 120.”
(Costa Pereira, 1955,218).

Sua preocupação constante era identificar o que seria passível de transferência e de aplicação, quer no Brasil,
quer em Portugal.

”1799, março, 11 - Um habitante de S. Domingos (Mr. Duelos, que foi oficial do Regimento Cape-Français)
me informou que não havendo naquela ilha madeira suficiente, queimam nos engenhos de açúcar o bagaço da
cana, e que este é muito suficiente para todos as operações que exigem o fogo; que se servem de potassa sobre
as formas para tornar o açúcar branco, mas que usam também do barro, como no Brasil, e me não soube dizer
a diferença do uso ou do efeito; talvez lhe deitar a potassa depois de o ter clarificado com o sangue de boi, e
muitas vezes de cal, a qual dizem ser boa no açúcar, em razão do alcali que se desenvolve depois no
estômago. Este mesmo sujeito me asseverou que em S. Domingos se cultiva a verdadeira cochinilha, e que
introduzida depois de Mr. Fionvilhe por um segundo que a trouxe do México; disse-me que eram uns
pequenos animais vermelhos como cabeças de alfinetes, no que me parece se engana pois que deviam parecer
brancos sendo sempre coberto com uma espécie de cotão branco.” (Costa Pereira, 1955,93).

” 1799, março, 1 - Vi, hoje, a fêmea de búfalo, que não tinha cornos, e o estúpido proprietário não me soube
dizer se aquilo era comum em

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todos os fêmeas-búfalos. (...) Tem as espaldas muito altas; a figura é de um boi e uma grande distância dos
pleares às espaldas; a carne é igualmente boa que a do boi; a pele faz bom coiro e o cabelo se manufatura e
faz um tolerável bom pano. Caleshes chama-lhe american bison.” (Costa Pereira, 1955,87-88).

”1799, outubro, 1 - (...) Passei a noite em casa de um Dr. Boticário (...) A planta
de que tenho a casca é provável que seja a que na Jamaica chamam de Cabbage Tress, segundo as
informações que deram é uma grande árvore que cresce nos montes daquela ilha.” (Costa Pereira,
1955, 201).

”1799, novembro, 3 - Henry Laurens obteve da Jamaica canada e meia (3/2 pintas) de semente de Guinea
Grass, que na primavera de 17.. plantou em Va de acre de terreno, em terra bem medíocre; a semente brotou, e
em breve cobriu toda a terra com uma bela relva de 4 e Vi pés de alto. Desejoso de aproveitar a semente, não
segou mais que um quarto, que deu aos cavalos, que o devoram com avidez. Em agosto, dividiu a raiz de um
pé em 28 partes, que plantou; cada parte arraigou e produziu depois boa semente. É de opinião este sujeito
que o Guinea Grass é perene, e que dava em todas as terras baixas; requer muito pouco cuidado, pois uma só
grade passada por cima é bastante, depois ela toma cuidado de si mesma. Um sujeito em Jamaica faz todos os
anos 1000 th esterlinas com um prado que tem do Guinea-Grass.” (Costa Pereira,
1955, 202).

”1799, novembro, 21 - Segundo as experiências de um americano, Mr. Bartram, os bichos de seda nativos da
América, ou selvagens, como lhe chamam, têm qualidades superiores aos....europeus, porque: 1°., chocam os
ovos mais cedo; 2o., não sofrem tão violentas moléstias como são as periódicas, que os outros sofrem por três
vezes, e em que morre uma grande quantidade deles; 3°., não são afetados pelos trovões, raios e tempestades;
os mansos padecem infinito com os fenômenos elétricos que acontecem na atmosfera; 4°., os casulos pesam 4
vezes mais que os casulos dos bichos mansos, o que dá a entender que produzirão maior quantidade de seda.
De tudo isto resulta que se deve animar a cultura dos bichos de seda no Brasil.” (Costa Pereira, 1955,214-
215).

”1799, novembro, 27 - As seguintes plantas merecem ser introduzidas no Brasil: Crotôn sebiferum - é muito
vulgar na China, e de

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uma incalculável utilidade pelo sebo que produz; Rheum palmatium, que se supõem ser o verdadeiro
Rhuibarbaro; há muito na América, cresce em chão rico, areento e barrento, não em situações úmidas; Morus
papirifera, suponho ser desta árvore (é o Confervala rivulans, de que há grande abundância no Estado de New
York) que os Mr. Libingston se descobriu a fazer papel.” (Costa Pereira, 1955,217).

Não escaparam também a Hipólito observações sobre a questão ecológica. Ele detecta fatos relacionados com
a devastação da natureza, causando incalculáveis prejuízos ambientais. Ou identifica culturas apropriadas para
disseminação em climas determinados.

”1799, maio, 9 -New York (...) Uma observação me foi feita sobre o método de limpar as terras das matas;
eles aqui no interior da campanha, destroem as árvores sem exceção de qualidade de madeira, deixam os
troncos apodrecer e não arrancam as raízes enquanto verdes, porque, dizem eles, estragariam as terras, e
depois de 6 ou 8 anos, quando estes troncos estão podres ou secos, se podem arrancar sem se estragar a terra,
e se queimam etc, porém, a vasta quantidade de inatos que têm queimado para fazer potassa e perlassa é tal,
que primeiramente tem diminuído considerável quantidade de úteis madeiras, e depois tem feito secar rios;
porque, como muitos rios são supridos com água nos pântanos, e pequenas fontes que há pelos matos estes
matos destruídos dão lugar a que o calor do sol seque a superfície da terra e diminua e as origens dos rios.
Asseguram-me que muitos rios do interior da campanha, que vão desaguar ao lago Ontário e aos rios Hudson
e Susquehanna, que eram capazes de admitir navegação de barcos de 100 toneis, não em hoje mais que 2 ou 3
pés d’água.” (Costa Pereira, 1955,134).

”1799, dezembro, 18-0 Guinea gras é excelente nos climas quentes porque resiste aos calores e ao tempo seco
quando todos os outros prados ardem e se queimam.” (Costa Pereira, 1955,219).

Conclusão

Diante das evidências aqui expostas e comentadas, dissipam-se as dúvidas sobre o protagonismo de Hipólito
da Costa como o precursor do Jornalismo Científico no Brasil.

Pode-se contra-argumentar que os escritos produzidos durante e

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depois da viagem a Filadélfia não configuram peças autenticamente jornalísticas, pela ausência de difusão
coletiva. (Marques de Melo, 1972, p. 1-13) Ou seja, pela restrita circulação76 ou pelo caráter de documentos
diplomáticos, reservados exclusivamente para a leitura das autoridades portuguesas.

No entanto, eles estão repletos de marcas do relato jornalístico típico, propriedades que Hipólito
desenvolveria anos depois, ao publicar em Londres o seu Correio Braziliense (1808-1822). Ali torna-se
plausível o exercício do jornalismo científico, ainda que alguns analistas o rotulem (preconceituosamente)
como jornalismo ”tecnocrático”.

Na verdade ele pratica no Correio uma modalidade


jornalística que o vincula à ideologia do pragmatismo, procurando difundir informações utilitárias, capazes de
motivar o seu emprego pelos produtores agrícolas ou industriais. Trata-se de efetivo jornalismo científico,
mais orientado para a ciência aplicada, ainda que demonstre preocupação em divulgar conhecimentos básicos,
sobretudo aqueles subordinados às disciplinas econômicas ou jurídicas.

As notícias e reportagens sobre o que viu e testemunhou nos Estados Unidos fazem parte de um acervo
intelectual que se completaria com os trabalhos editoriais realizados no âmbito da Impressão Regia de Lisboa,
onde ele assume, no dia 31 de janeiro de 1802, o cargo de diretor literário. (Castro, 1985,17).

Esse intenso mas produtivo período da ação difiisionista de Hipólito da Costa está bem descrito por um dos
seus biógrafos:

”Emjaneiro de 1801, já se achava em Lisboa de regresso da América do Norte. (...) Até julho de 1802
trabalhou ativamente, colaborando na execução do programa cultural do governo do príncipe regente, d. João.
Em 1800 publicou a Descrição da árvore açucareira, com um apêndice sobre o ginsão da América, escrito
ainda em Filadélfia em agosto de
1799; Descrição de uma máquina para tocar bomba a bordo dos navios, também redigida naquela cidade.
Traduziu do inglês e publicou, em
1801 - Memória sobre a croncocele ou papo, de Benjamin Barton (professor de medicina da Universidade de
Pennsilvania). (...)Ainda em 1801, traduziu e publicou História do Banco da Inglaterra, de E. Fortune. E,
finalmente, os Ensaios políticos, econômicos e filosóficos de Benjamin

53
Rumford, em 2 volumes, o primeiro publicado em 1801 e o segundo em
1802. Todas estas obras saíram da Imprensa Regia, Tipografia Calcolítica do Arco do Cego, de que ele foi, em
curto período, um dos diretores.” (Dourado, 1957, 79-81).

Reavaliando os produtos jornalísticos embutidos nos relatos que Hipólito elaborou na viagem aos
Estados Unidos ou logo depois dela, concluiremos que ali está o embrião daquele jornalismo
científico de ”utilidade imediata” a que se refere Calvo Hernando. Carecem de difusão pública,
embora estejam sintonizados com o espírito da época. Tal qual Fontenelle (século XVII), que na
França difundiu ciência, dirigindo-se ”primordialmente à aristocracia, aos burgueses endinheirados
e às damas da Corte” (Calvo Hernando, 1992,24-25), Hipólito da Costa (fim do século XVIII, início
do século XIX) realizou competente trabalho de divulgação científica em Portugal, ampliando o
repertório de conhecimentos da sua elite dirigente.

Referências bibliográficas

ALMEIDA, Gastão Tbmaz de. O campo de atuação do Jornalismo Científico, In: Anais do 4”. Congresso Ibero-
Americano de Jornalismo Científico. São Paulo: Associação Brasileira de Jornalismo Científico, p. 143-158, 1984.

BAHIA, Juarez. Jornal, História e Técnica - 1. História da Imprensa Brasileira. São Paulo: Atica.

BARBOSA LIMA SOBRINHO, Alexandre José. Antologia do Correio Braziliense. Rio de Janeiro: Editora Cátedra, 1977.

Hipólito da Costa, pioneiro da independência do Brasil. Brasília: Fundação Assis Chateaubriand, 1996.

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55
Caminhos cruzados
110

Minha passagem pelo Jornal do Commércio do Recife foi meteórica. Mas ela teve significação
especial na trajetória que venho percorrendo no campo jornalístico. Por isso, vale a pena recordar.

Trata-se de fato que precede historicamente o episódio descrito neste livro organizado por Carlos
Cavalcante. A greve de 1990 significa um divisor de águas no perfil contemporâneo da dinâmica
empresa midiática hoje comandada por Paes Mendonça. Ela encerra o capítulo da administração
Pessoa de Queiroz, durante a qual os jornais e as emissoras de rádio-televisâo desfrutaram de
grande prestígio na sociedade regional. Seu ocaso foi marcado por conflitos, mediados por
lideranças sindicais que defenderam os interesses da corporação a que pertenciam. Preservando
também o patrimônio organizacional eles ganhariam, a um só tempo, duas batalhas. Garantiriam,
nos anos seguintes, postos de trabalho para as novas gerações de produtores intelectuais, além de
franquear tribunas para a defesa daquele ”estatuto de pernambucanidade”, emblema que Marcos
Vinícios Vilaça identifica de forma indelével na política editorial dessa empresa nordestina.

O Jornal do Commércio me deu chance de reconhecimento público como jornalista. Reportagem ali
publicada em 30 de setembro de
1964, sob o título ”Revolução Cassa no São Francisco Marinha Fumaça”, inscreveu meu nome na
galeria dos contemplados com o Prêmio Esso de Jornalismo.

Ousadia jornalística

Minha aventura jornalística começara um pouco antes, exatamente em 1959. O cenário foi Maceió,
a capital do Estado de Alagoas, terra natal de que tenho muito orgulho pela altaneria das suas
tradições e pela altivez das suas vanguardas. Ali ganhou intensidade, avolumando-se, minha paixão
juvenil pela imprensa.

102
Sempre fui ávido leitor dos jornais diários que chegavam à biblioteca pública da cidade onde
desfrutei minha mocidade (Santana do Ipanema). E também dos livros estocados em suas
prateleiras. Esgotada a coleção infanto-juvenil, passei à estante reservada aos adultos. Contei
naturalmente com a cumplicidade da bibliotecária (minha prima Nilza). Ela transgredia as regras
institucionais para incentivar a leitura junto aos adolescentes da comunidade.

Um dia encontrei a famosa conferência de Rui Barbosa - A imprensa e o dever da verdade


(Salvador, 1920). As idéias contidas nesse texto me causaram grande impacto. Dele ganhei um
exemplar, ofertado generosamente pelo cidadão Fernando Nepomuceno. Descortinava-se evidente
minha vocação para o jornalismo. Mas logo quis passar da reflexão à ação.

Vivendo em Maceió, dei os primeiros passos noticiosos, reíundando o jornal do colégio onde fazia o
curso científico (Colégio Batista Alagoano). Na província, os pequenos fatos podem ganhar
imediata repercussão. E o jornalzinho do colégio (O CBA) mereceu destacado comentário de J.
Silveira Camerino, um dos meus professores, no suplemento dominical do Jornal de Alagoas.
Ganhei notoriedade, reconhecido como o autor da ressurreição de uma folha que parecia morta.

Imediatamente fui persuadido para ser redator-chefe da Tribuna do Secundarista, jornal editado pela
União dos Estudantes Secundários de Alagoas (UESA). Não me demorei muito nessa função.
Agoniado com as fagulhas ideológicas com que as facções partidárias incendiavam o movimento
estudantil, preferi distanciar-me do campo de batalha. Digladiando-se pela sua primazia política, as
vanguardas estudantis terminavam perdendo de perspectiva as autênticos interesses juvenis.

Afoito e ambicioso, eu queria dar um passo adiante. Procurei o secretário de redação da Gazeta de
Alagoas, jornal que se modernizava sob a inspiração de Arnon de Mello, disputando a liderança
estadual. Propus trabalhar como ”correspondente do interior”, ou seja, escrever matérias sobre a
minha cidade. Eu costumava passar ali todos os fins de semana e poderia atuar como repórter.
Oferta aceita, fiz minha estréia no jornalismo de grande circulação estadual, no dia 15 de março de
1959.

103
Minha primeira matéria evocava justamente a biblioteca pública de Santana do Ipanema. Nessa
instituição municipal cultivei a precoce vocação jornalística. Quis expressar um gesto público de
gratidão. Este tem sido um sentimento que me acompanha até hoje.

Meus artigos e reportagens não passaram despercebidos. Eram um misto de jornalismo-denúncia e


ufanismo-municipal. Alguns deles criaram polêmicas comunitárias. Eu procurava seguir à risca os
conselhos de Rui Barbosa. Cedo aprendi que a verdade incomoda muita gente.

Pouco depois fui convidado a colaborar na Página dos Municípios, editada semanalmente pelo
Jornal de Alagoas. Era uma espécie de promoção, pois chegava ao jornal hegemônico no Estado,
então pertencente à cadeia midiática nacionalmente comandada por Assis Chateaubriand.

Ali atuei durante dois anos, recebendo lições sábias e utilitárias do meu editor, o jornalista Carvalho
Veras. Assumi com entusiasmo a mística da campanha municipalista patrocinada pelo j ornai.
Mereci também o primeiro troféu jornalístico. Minha série de reportagens sobre bandas de música
do interior foi contemplado com o Prêmio V Semana Nacional do Livro (1960), patrocinado pela
Prefeitura Municipal de Santana do Ipanema.

Prova de fogo

Mas eu me considerava jornalista pela metade. Conhecia a prática, faltando-me contudo


embasamento teórico. Mudei-me imediatamente para o Recife, a metrópole nordestina. E fiz
vestibular para a primeira turma do Curso de Jornalismo (1961) da Universidade Católica de
Pernambuco. Ali completei a formação profissional, guiado por jornalistas competentes como Luiz
Beltrão, Costa Porto, Sanelva de Vasconcelos. Aprofundei bastante meu acervo humanístico,
orientado por mestres eruditos: entre eles, Amaro Quintas, Manuel Correia de Andrade, João
Alexandre Barbosa, Padre Aloísio Mosca de Carvalho.

Enquanto prosseguia a jornada acadêmica, tratei de avançar no terreno ocupacional. E me engajei


no projeto de implantação do jornal Última Hora - Nordeste, sob o comando de dois jornalistas
excepcionais: Múcio Borges e Milton Coelho da Graça. Foi a minha prova de

104

fogo na profissão. UH-N trouxe para a região o paradigma do jornalismo moderno: ágil, vibrante,
combativo. Mas a experiência durou pouco. O golpe militar de 1964 desmantelou o jornal, levando
ao colapso a cadeia nacional de Samuel Wainer.

Fiquei temporariamente desvinculado da atividade profissional, aproveitando a ressaca política para


conquistar o diploma de jornalista na universidade. Enquanto isso, me safava do constrangimento
dos IPMs — Inquéritos Policiais Militares — instaurados pela ditadura. Eu havia integrado o
segundo escalão do primeiro governo de Miguel Arraes, ocupando a chefia de Gabinete do
Secretário de Educação Germano Coelho e depois participando da equipe dirigente do Movimento
de Cultura Popular.

Paguei caro pela ousadia política juvenil. Mas nunca me arrependi. O episódio me serviu para
reconhecer que o exercício do jornalismo independente e o engajamento político são inconciliáveis.
Daí em diante, optei conscientemente pelo primeiro.

Primeiros frutos
Foi nessa conjuntura que os meus caminhos se cruzaram com os do Jornal do Commércio.
Recomendado por Luiz Beltrão ao secretário do jornal, Esmaragdo Marroquim, mas tendo o
respaldo, dentro da redação, de dois colegas especiais - Vladimir Calheiros e Fernando Menezes
- comecei a atuar como repórter free lancer. Uma das minhas reportagens assinadas foi incluída na
lista dos contemplados com o Prêmio Esso de Jornalismo de 1965. O foco da matéria era o
desmonte das ferrovias deficitárias, ensejado pelo neoliberalismo precoce do Governo Castelo
Branco.

A premiação deixou-me espantado e envaidecido. Eu não sabia que estava concorrendo ao prêmio.
A reportagem fora inscrita no concurso, sem meu prévio conhecimento. A iniciativa fora tomada
pelo Prof. Luiz Beltrão, que teimava em incentivar profissionalmente seus ex-alunos e desta
maneira promover o curso que coordenava. Foi ele quem deu a notícia do resultado, insuflando meu
envaidecimento ao anunciar uma homenagem-surpresa no saguão da Universidade Católica.

Sua intenção era demonstrar publicamente que a universidade

105
poderia forrn^ bons jornalistas. E me apontava como exemplo. Seu argumento era o ^e que mmha
reportagem fora selecionada por um júri nacional cons^’^ pOr jornalistas consagrados: Arnaldo
Niskier, Alberto Dmes, ^uen]tyenmra^ Washington Novaes e Wilson Gomes. Mais ainda: ele
punnagnfase na circunstância de que eu era o único neófíto entre os premiados Todos os outros já
possuíam reputação profissional: José Itamar de rrej(aSj Luiz Orlando Carneiro, Carlos Lemos,
Juarez Bahia, Glauco Carnejr0) ROgacjano Leite etc.

Contuc^ a maior alegria que senti por haver escrito aquela reportagem veio-Hç aiguns anos depois.
Eu já residia em São Paulo, onde me refugiara politjcamente, vivenciando ainda o exílio econômico
a que foram condenados tantos migrantes nordestinos. A ditadura estava nos seus estertorçj ^ anistia
política havia sido concedida aos cassados, exilados e pe^egUi(j0S pelos governos militares.

Um diaj^i ao Aeroporto de Congonhas, acompanhado por familiares e amigos, para recepcionar um


militante político pernambucano, Gregono Bez^^ qUe voltava do exílio. Eu queria expressar o
respeito e a admiração o^e eje sempre merecera pela bondade pessoal e pela integridade de cat^er
a0 me reconhecer carinhosamente, depois de tantos anos, o velho lutador reconstituiu muitos fatos
do passado. Mas o que me deixou estarr^j^Q foj a sua iembrança da reportagem que eu publicara no
Jornal do Commércio nos idos de 1964. Gregório disse que a comentara com seus companheiros de
prisão, percebendo minha sutil ironia em relaçã0 aos governantes de turno. Isso dava alento aos que
sofriam as pers(>gUjçges ^0 novo regime. Eles se apegavam a essas pequenas coisas para resistir
com dignidade.

Minha feportagem, como certamente outras matérias publicadas na imprensa ^ época, atingia o
limite da denúncia possível. Aquela revelação de GrÇgOrio BezeiTa foi o maior prêmio recebido.

Os serviç0S qUe prestei à empresa então pertencente à Família Pessoa de Qu^roz ng0 se ]imitaram
ao jornal matutino. Eles incluíram o Diário da Noite^ oncje publiquei várias reportagens assinadas,
e o próprio Departamerit0 Comercial.

106

Mudança de rumo

Àquela altura, minha carreira jornalística se bifurcava. Apesar do bom desempenho como repórter,
eu havia sido mordido pela mosca azul da pesquisa. Como bolsista da UNESCO - Organização das
Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura fizera o curso de pós-graduação em Ciências da
Informação Coletiva mantido no Equador pelo Centro Internacional de Estudos Superiores de
Jornalismo para a América Latina. Retornando ao país, fora contratado como professor do Curso de
Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco.

Imediatamente criei um departamento de pesquisa no Instituto de Ciências da Informação -


ICINFORM - convencido de que o bom jornalismo deve alicerçar-se na criatividade editorial e na
intuição profissional. Mas suas decisões estratégicas precisam estar alavancadas em sondagens
periódicas junto aos consumidores (leitores, telespectadores etc). Um dos primeiros clientes que
persuadi a comprar os nossos serviços foi o Jornal do Commércio.

A direção do jornal ensaiava um projeto de reestruturação, episódio que culminou com a ascensão
de Vladimir Calheiros à editoria geral. Conversando com Fernando Menezes, propus que a empresa
contratasse uma pesquisa sobre os hábitos de leitura do jornal e sua imagem na comunidade. Em se
tratando de pesquisa-piloto, feita com a colaboração dos estudantes de jornalismo, seu custo seria
bem menor do que se a empresa contratasse uma agência de pesquisa de mercado.
Apresentei o orçamento e o Departamento Comercial deu o sinal verde. A sondagem foi feita em
julho de 1966. Talvez tenha sido a primeira pesquisa científica que o jornal financiou com a
intenção de conhecer as demandas do seu público leitor. Os resultados da sondagem foram
publicados posteriormente, na revista ”Comunicações & Problemas” (ano III, n. 7), com anuência
da direção da empresa. Essa iniciativa destinou-se a melhorar a imagem do Jornal do Commércio
na comunidade universitária, um dos segmentos do seu público-alvo.

Tal pesquisa teve importância duplamente simbólica. Para a empresa representou o fim da era em
que as mudanças editoriais se faziam apenas em função da inventividade dos seus jornalistas. Para a
universidade simbo-

107
lizou o início de uma parceria com o mercado, meta que ainda desafia os cursos de comunicação em
todo o país neste limiar do século XXI.

A experiência que partilhei com o Jornal do Commércio foi decisiva para aminha carreira
profissional. Eu sentia que tinha uma vocação jornalística mais direcionada para a pesquisa
científica do que para a reportagem.

Opção acadêmica

Tanto assim que ao emigrar para São Paulo tive duas oportunidades de emprego. Trabalhar como
jornalista nas revistas da Editora Abril ou atuar como pesquisador do INESE - Instituto de Estudos
Sociais e Econômicos. Não vacilei em optar pela segunda oferta. Além do melhor salário, eu
poderia conciliar a minha paixão juvenil pela prática jornalística com o meu entusiasmo da
maturidade pelo estudo sistemático dos fenômenos comunicacionais.

E não me decepcionei. Alguns dos primeiros projetos que dirigi como pesquisador profissional
foram justamente orientados para respaldar decisões editoriais da revista Realidade, do jornal Folha
de S. Paulo ou de outras empresas midiáticas.

Depois disso, resolvi me dedicar exclusivamente à vida acadêmica. Ou seja, estudar e pesquisar os
processos jornalísticos sem a pressão das demandas empresariais ou profissionais. Mas também sem
a pretensão de ignorá-los ou recusá-los. Por isso mesmo, continuei vinculado à prática profissional,
escrevendo periodicamente artigos ou colunas para jornais e revistas.

Aquele era o momento em que se criava a Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São
Paulo, de cuja fundação participei, ajudando a construí-la e a sedimentá-la durante um quarto de
século.

Meus caminhos se cruzavam com os de outras empresas e instituições. Mas esta já é uma outra
história...

Ela está reconstituída por Maria Cristina Gobbi, no livro ”Grandes Nomes da Comunicação: José
Marques de Melo” (Recife, UNICAP,
2001), integrando a coleção que Carlos Cavalcante entusiasticamente dirige no Centro de Estudos
da Imprensa e da Cidadania.

Evidências
108
Jornalismo esportivo1 ’l
O QUE É MÍDIA?

Rabaça, Carlos Alves & Barbosa, Gustavo - Dicionário de Comunicação, São Paulo, Ática, 1987, 401.

”Mídia - grafia aportuguesada da palavra media, conforme é pronunciada em inglês. Alguns dicionários
preferem a forma média. Media é plural de médium (palavra latina que significa ”meio”). Designa os meios
(ou o conjunto dos meios) de comunicação: jornais, revistas, tv, rádio, cinema etc.).”

O QUE É ESPORTE?

Buarque de Holanda, Aurélio - Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Rio de Janeiro, 1975, 574.

”Esporte (Do inglês sport). S.m. 1. O conjunto dos exercícios físicos praticados com método, individualmente
ou em equipes; desporte, desporto. Tem a paixão do esporte. 2. Quais desses exercícios; desporte, desporto. O
seu único esporte é o remo. Não cultiva nenhum esporte. 3. Entretenimento; entretimento; prazer: Riquíssimo,
trabalha apenas como esporte. # Adj. 4. Diz-se de roupa ou artigo de vestuário simples e confortável, não
convencional ou formal: ”O mais gordo deve ter uns trinta anos, é gordo, cabelo cortado baixo, camisa
esporte”. (Luis Vilela, Tremor de Terra, p. 71).

5. P. ext, Diz-se de reuniões sociais em que se usa essa roupa - V. camisa


- e carro. Por esporte. De maneira amadorística.”

Lazer: o terreno comum da mídia e do esporte

Trata-se de dois processos sociais, autônomos, cada um deles cumprindo funções peculiares no bojo
da sociedade. Historicamente eles percorreram caminhos próprios, que foram se cruzando na
medida em que o tempo livre passou a ocupar papel predominante na vida cotidiana.

111
A redução da jornada de trabalho alargou o período de ócio nas sociedades industriais, engendrando
o que o sociólogo francês Joffre Dumazedier denomina ”civilização do lazer”. A ocupação do
tempo livre dos cidadãos, no século XX, fez-se de modo diferenciado nas sociedades nacionais.
Entretanto, a mídia e o esporte passaram a preencher fatias consideráveis nos momentos de ócio dos
indivíduos e das comunidades.

Quando mídia e esporte se entrecruzam? Essa convergência ocorre no momento em que o segundo
se converte em conteúdo da primeira. Ou melhor, quando o esporte supera o âmbito do lazer
individual ou grupai e se torna uma atividade coletiva, perfilando o universo do lazer de massas.

A esse fenômeno híbrido poderíamos denominar esporte midiático, embora ele seja mais conhecido
pelo rótulo de comunicação esportiva.’

Esporte mjdiático

Como se configura o esporte midiático?

Para melhor compreendê-lo, torna-se indispensável situar as duas dimensões da ”cultura esportiva”.
Segundo Dumazedier, elas nem sempre coexistem de modo harmônico. Por um lado, teríamos a
”cultura dos praticantes”, caracterizada pelo desenvolvimento de atividades esportivas enquanto
exercícios físicos. Por outro lado, teríamos a ”cultura dos espectadores”, determinada pela
participação viçaria nas atividades esportivas como admiradores, como afíccionados.

O esporte midiático assimila e reproduz essas duas dimensões da cultura esportiva, não obstante o
esporte-espetáculo seja hegemônico.

Se revisarmos as 4 categorias funcionais da comunicação de massa (Lasswell/Wright) - Informação,


Persuasão, Instrução e Diversão - veremos que o esporte figura como conteúdo de cada uma delas.
Vamos explicitar melhor.

Informação - trata-se do esporte como notícia, ou seja, do Jornalismo Esportivo. Além de ocupar
espaço privilegiado nos veículos de informação geral Gomai, revista, rádio ou televisão), constitui
um dos ramos importantes da segmentação da indústria jornalística, ensejando

publicações especializadas no campo da mídia impressa ou programas específicos no interior da


mídia audiovisual.

Persuasão - aqui o esporte se faz propaganda, gerando mensagens publicitárias dos espetáculos ou
dos produtos associados às práticas esportivas. Nesse sentido, a Publicidade Esportiva assume um
papel fundamental na engrenagem do esporte midiático, financiando seus agentes e gerando divisas
que dão sustentação econômica às instituições esportivas.

Instrução - opera-se nessa categoria a preparação dos praticantes potenciais, especialmente aquelas
modalidades esportivas mais vinculadas à educação física. Ela possibilita a disseminação da
ginástica e dos exercícios corporais para pessoas que não podem freqüentar academias ou integrar-
se em clubes. Mas também permite a difusão da cultura esportiva para as faixas populacionais que
não praticam esportes, nem são aficcionadas dos espetáculos desportivos.

Diversão - este é o conteúdo hegemônico, agrupando a transmissão de jogos, campeonatos e


certames desportivos. Sem sair de casa, os aficcionados podem acompanhar todos os lances de uma
partida de futebol, contemplar o desempenho dos seus ídolos preferidos numa corrida de carros ou
numa luta de box, bem como desfrutar o prazer estético, contemplando os movimentos de
patinadores, nadadores ou cavalgadores. Tais espetáculos geram também fontes de divisas para as
instituições esportivas, que cobram direitos de transmissão às redes televisivas ou aos seus
patrocinadores.

Jornalismo Esportivo

Qual a incidência que assume o esporte midiático no espaço dedicado a cada uma dessas categorias
pelos meios de comunicação de massa? Infelizmente as pesquisas disponíveis não têm explorado
suficientemente essa questão. Õs estudos sobre a mídia esportiva ainda não contemplam quadros
gerais ou conjunturais, limitando-se a analisar casos singulares ou paradigmáticos.

Os dados existentes revelam com maior nitidez a progressão do Jornalismo Esportivo. Vários
estudos sobre o conteúdo dos jornais diári-

112

113
%

os demonstraram que vem crescendo o noticiário sobre as atividades dos clubes, dos ídolos e das
instituições corporativas que se dedicam a promover atividades esportivas.

Vamos resgatar algumas das evidências que venho estocando nos meus estudos de Jornalismo
Comparado.

1) O primeiro estudo dessa natureza foi realizado em 1966. Ele está contido no capítulo ”Estudo
Comparativo de Três Jornais Brasileiros” do meu livro Comunicação Social: Teoria e Pesquisa
(Petrópolis, Vozes, 1970). Procurei comparar três jornais situados em diferentes pólos de
desenvolvimento - um jornal metropolitano, de prestígio nacional, um jornal meso-regional e um
jornal local. Verifiquei que, nessa conjuntura, o ”esporte” figurava em terceiro lugar na agenda
noticiosa dessas publicações, precedido por temas vinculados à ”cultura” e à ”administração
pública”. Enquanto, ocupava 14 % do espaço informativo do Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) e 13
% do Correio da Paraíba (João Pessoa), o esporte figurava no Jornal do Commércio (Recife) com
metade daquela cifra, ou seja, 7 %.

2) A segunda pesquisa efetuou-se no ano seguinte, 1967, na imprensa diária de São Paulo. Ela está
reproduzida no capítulo ”Estudo Comparativo dos Jornais Diários de São Paulo” do meu livro
Estudos de Jornalismo Comparado (São Paulo, Pioneira, 1972). Constatou-se aí que as notícias
esportivas ocupavam o primeiro lugar na agenda temática dos jornais paulistanos, perfazendo uma
média de 12 % da superfície jornalística, no dia pesquisado, sendo que a presença nos vespertinos
(15%) era maior que nos matutinos (11 %). Como a pesquisa foi feita nas edições de um dia atípico,
sexta-feira, é possível justificar essa primazia do esporte sobre os demais temas. Tratava de edições
naturalmente preocupadas com a preparação do fim de semana dos seus leitores, inclusive a
assistência aos espetáculos esportivos.

3) A terceira pesquisa ocorreu 30 anos depois, ou seja, na semana de 21 a 27 de maio de 1996.


Foram analisados os principais jornais microregionais, editados no interior do Estado de São Paulo,
bem como os 5 prestige papers publicados nas duas metrópoles nacionais - Rio de Janeiro e São
Paulo. Os resultados revelaram um quadro contrastante.

Enquanto os jornais regionais paulistas elegem o ”esporte” como temática principal, a ela
dedicando, em média, 14% do espaço jornalístico, os jornais de prestígio nacional colocam o
”esporte” (7%) em quarto lugar na sua lista de prioridades, dando mais atenção aos temas
”economia” (14,5%), ”cultura” (14%) e ”informática” (10%). Mas nem todos os jornais
metropolitanos dão o mesmo tratamento ao ”esporte”. Dos cinco, o único que ignora solenemente as
atividades esportivas é a Gazeta Mercantil, não lhe dedicando nenhum centímetro-coluna. Os dois
jornais cariocas são mais receptivos ao ”esporte” que os jornais paulistas. O espaço que lhe dedica o
Jornal do Brasil (10%) e O Globo (9,5%) situa-se no mesmo patamar. Fenômeno semelhante ocorre
também quando se compara O Estado de S. Paulo (8%) e a Folha de S. Paulo (7%).

Correlacionando os dados das três pesquisas, observa-se que o esporte constitui temática relevante
na superfície impressa dos jornais diários brasileiros, suscitando maior interesse nos jornais micro-
regionais ou locais que nos jornais metropolitanos ou de prestígio nacional/regional.

Esporte espetáculo

Esse destaque reflete a importância que o esporte midiático vem alcançando no Brasil. Isso talvez
seja uma projeção do espaço ocupado pelo esporte-espetáculo na mídia eletrônica (rádio e
televisão).

Contudo, os poucos estudos sobre a matéria ainda são insuficientes para fazer generalizações.
Dentre eles, estão algumas pesquisas feitas pelo Grupo Comunicacional de São Bernardo.

Guilherme Rezende estudou a morfologia e o conteúdo do telejornalismo brasileiro, identificando o


tratamento dado à agenda temática.

Vera Regina Toledo Camargo fez o inventário crítico dos espetáculos esportivos televisivos que
ganharam hegemonia no Brasil. Edileuza Soares elaborou um perfil histórico do rádio esportivo em
São Paulo.

Espera-se que, no futuro, tanto os pesquisadores do Grupo de Comunicação, Movimento e Mídia na


Educação Física (UFSM) quanto aqueles integrantes do GT de Mídia e Esportes da INTERCOM,
ambos liderados pelo Prof. Dr. Sérgio Carvalho, além, naturalmente, de outras

114

115
instituições situadas nesse território-fronteira, sejam capazes de desvendar mais amplamente tal
universo.

Cabe-lhes explorar periodicamente a incidência dos temas esportivos em todos as categorias da


mídia nacional, com a intenção de estocar dados e interpretá-los, permitindo generalizações
confiáveis.

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116

Radiojorn alismo n 2

O pioneirismo do Rádio Brasileiro tem sido disputado historicamente por pernambucanos e


cariocas. Os primeiros defendem que a nossa trajetória radiofônica teve início em 1919, com o
funcionamento da Rádio Clube de Pernambuco. Os outros argumentam: o mérito cabe à Rádio
Sociedade do Rio de Janeiro, que entrou no ar em 1923. Entre os dois eventos houve a transmissão
experimental feita no dia 7 de setembro de 1922, no Rio de Janeiro. O acontecimento foi
patrocinado pela Westinghouse Company International, na inauguração da Exposição Mundial
comemorativa do primeiro centenário da independência do Brasil.
”Não obstante o Rádio Brasileiro tenha dado passos iniciais nas primeiras décadas do século XX, na verdade o seu
desenvolvimento como meio de comunicação de massa só se daria nos anos 40, quando o nosso país faz efetivamente sua
alavancagem industrial”3.”

É nessa conjuntura que o rádio se converte em veículo propriamente jornalístico, difundindo


notícias de modo instantâneo. Até então, predominava em nossas emissoras o ”jornal falado”. Esse
formato reproduzia literalmente as informações publicadas pela imprensa diária. Durante duas
décadas o rádio brasileiro permaneceu a reboque do jornal, cujas manchetes matutinas e vespertinas
eram vociferadas seletivamente pelos locutores de plantão.

Qual a causa desse desenvolvimento tardio do rádio-jornalismo? A explicação fundamental reside


na estrutura precária das nossas pioneiras emissoras radiofônicas. Seus proprietários não fizeram
investimentos em tecnologia e recursos humanos e por conseqüência os anunciantes deixavam de
canalizar suas verbas para o veículo emergente. O desenvolvimento da indústria nacional de bens de
consumo, na esteira da II Guerra Mundial, pressupõe a conquista dos mercados urbanos em
expansão. E justifica a difusão publicitária através das ondas eletromagnéticas. O rádio

117
assume, pouco a pouco, o perfil de mídia massiva, em contraste com o porte elitista da imprensa
diária.

Por sua vez, a adesão brasileira ao consórcio internacional que se opõe ao nazi-fascismo representa
a ruptura do ambiente repressivo instaurado pelo regime liderado por Getúlio Vargas. A censura aos
meios de comunicação vai sendo paulatinamente erodida como concessão da ditadura aos novos
aliados políticos. A população se beneficia dessas frestas que se abrem no meio da escuridão estado-
novista.

O Repórter Esso desempenha, em tal processo, o papel de informador coletivo - dinâmico, rápido,
contínuo, eficiente. Ele permite a sintonia das populações de todos os quadrantes do arquipélago
brasileiro com os acontecimentos bélicos que mudaram radicalmente a geopolítica mundial.

Radiofonizado, pela primeira vez, em 28 de agosto de 1941, o programa permaneceu no ar até 31 de


dezembro de 1968. Ocupa espaço importante em distintas quadraturas da História recente do Brasil.
Sua influência política é notória. Contudo, sua dimensão expressiva, a meu ver, tem caráter
jornalístico. Trata-se de um divisor de águas no processo informativo, prestando serviços a toda a
população, inclusive aos analfabetos. Transmitindo notícias, em edições regulares e emissões
extraordinárias, O Repórter Esso converteu-se em fonte privilegiada da atualidade nacional e
internacional. Mas também atuou como agente modelador da opinião pública, sintonizado com os
interesses do anunciante estrangeiro.

Tudo isso mereceu amplo e acurado estudo do Professor Luciano Klockner, docente da Pontifícia
Universidade Católica do Rio Grande do Sul, além de radialista consagrado na mídia gaúcha. Sua
perspectiva é o do papel ocupado pelo Repórter Esso na História brasileira. Ele circunscreve sua
análise a duas conjunturas: a dos estertores da ditadura varguista (1941-1945) e a do regresso
populista de Vargas à cena política brasileira (1950-1954). Originalmente produzido como trabalho
de mestrado na área de Ciências da Comunicação, o texto foi revisto e atualizado para difusão
através do livro.

Trata-se de obra que vai suscitar o interesse dos profissionais, pesquisadores e estudantes de
Comunicação Social, bem como daqueles

118

que atuam pedagogicamente no campo da História. Na realidade o tema escolhido, o recorte


histórico e o tratamento analítico constituem ingredientes que despertam o apetite intelectual de
camada mais ampla da sociedade civil, não circunscrita ao mundo acadêmico.

O texto conciso e o estilo palpitante sem dúvida vão reforçar o convite à leitura. Vale a pena
desfrutar o conhecimento sistematizado pelo autor e participar das polêmicas que ele engendra a
propósito do papel político do rádio na construção da democracia brasileira.

119
Telejornalismo
114

O crescimento acelerado da rede brasileira de ensino superior, no último decênio do século XX,
dificultou a acumulação de conhecimentos empíricos, outrora executada pelos profissionais que se
dispunham a atuar também como docentes. Estes mostravam disposição para transmitir às novas
gerações suas experiências pessoais ou corporativas, disseminando-as não apenas em sala de aula,
mas registrando-as também em manuais didáticos.

Tal fenômeno se explica, em grande parte, pelo desconforto didático daqueles profissionais
gabaritados que só sabem ensinar-fazendo (geralmente em oficinas ou laboratórios). Eles raramente
dominam a retórica pedagógica indispensável para sistematizar os processos do ensinar-a-aprender
(típicos das aulas teóricas ou dos seminários analíticos).

No campo das ciências da comunicação, começamos a vislumbrar a ultrapassagem dessa situação-


limite. Jovens profissionais, legitimados pelo mercado, buscam, cada vez mais, reciclagem
acadêmica em programas de pós-graduação. Munidos de arsenal metodológico enveredaram pela
pesquisa de campo ou pela produção de materiais didáticos nos segmentos pelos quais nutrem
paixão ocupacional.

Este é o caso de Nivaldo Marangoni, jornalista televisivo que conquistou reconhecimento


profissional na Rede Globo, optando pelo trabalho docente em universidades paulistas. Depois de
alguns anos de atuação concomitante no mercado e na academia, decidiu fincar raízes nesta última.
Para lograr desempenho satisfatório como professor não hesitaria em matricular-se num programa
de mestrado. Otimizou, desta maneira, sua bagagem cognitiva, alargando o referencial prático
assimilado na empresa com as lições teóricas auridas em classe e afinando-o com as noções
extraídas da bibliografia.

O resultado imediato desse fluxo interativo entre profissão e academia apresenta-se no livro
Televisão: fácil de ver, difícil de fazer,

120
(São José dos Campos, Editora Papercrom, 2002, 123 p.), com o qual pretende ensinar os futuros
jornalistas a ”aparecer bem na telinha”. Trata-se de um conjunto de ”dicas” capazes de encurtar a
distância entre o ”ver” e o ”fazer” televisivo.

Cada capítulo contém ensinamentos úteis para os jovens ingressantes no telejornalismo. São
anotações feitas pelo autor para aulas previamente ministradas em Taubaté, Mogi das Cruzes e
Campo Limpo Paulista, que ele socializa com a intenção de facilitar o aprendizado daqueles que
sonham com um lugar ao sol na indústria midiática.

Fugindo ao padrão típico dos manuais didáticos, Marangoni envereda pela trilha do bom humor,
usando expressões coloquiais e recorrendo a exemplos aparentemente hilários. Cria, portanto, um
clima de descontração, informalismo e simplicidade, em perfeita sintonia com o ambiente de
trabalho nas emissoras audiovisuais. Foge deliberadamente daquela tensão que caracteriza as aulas
de telejornalismo, regidas pelo limite implacável do deadline.

Se em seu livro anterior - Minha vida de jornalista - Nivaldo Marangoni conta as peripécias
vivenciadas como jornalista profissional, nesta obra ele dá a receita da sua ascensão como repórter.
Desvenda a rotina de um telejornal, antecipando as dificuldades ao lidar com o pessoal de apoio
técnico, as chefias, as fontes, os patrocinadores, a audiência.

Sua narrativa combina ética e técnica. Emula os jovens estudantes a agir como profissionais
competentes, ousados, criativos. Mas não esquece de concitá-los a proceder como cidadãos
responsáveis e tolerantes, comprometidos com a verdade dos fatos, a diversidade dos cenários e o
pluralismo das idéias.

121
Mulher jornalista115

O jornalismo se converte numa profissão majoritariamente feminina. Trata-se de um fenômeno


mundial, marcado não apenas pela conquista de postos de trabalho nas redações de jornais, revistas
e outras mídias pelas mulheres. Mas se releva também pela capacidade e competência das mulheres
que ocupam cargos de chefia e funções de liderança nas empresas midiáticas.

A porta de entrada da mulher no mercado de trabalho jornalístico foi a universidade. Mais


especificamente: a escola de jornalismo. Ao conferir diplomas profissionais às jovens que
estudaram os fenômenos noticiosos, as universidades as habilitaram para disputar espaços na
sociedade da informação.

No caso brasileiro, as evidências são claras. Mais da metade das vagas dos cursos de jornalismo são
ocupadas por mulheres. A tendência começa a se manifestar na primeira escola de jornalismo do
país, a Cásper Libero. Ali, cinqüenta anos atrás, a primeira turma de diplomados tinha apenas duas
mulheres. Esse número foi crescendo em ritmo geométrico: três anos depois elas já eram um terço e
em menos de dez anos já haviam ultrapassado a metade da turma. ”Fazendo um retrospecto dessas
primeiras mulheres-jornalistas-com-diploma, verifica-se que a maioria delas conquistou seu próprio
espaço, ganhando ascensão profissionalsocial no âmbito da imprensa” (MARQUES DE MELO,
José - Valquírias
- mulheres/jornalistas, Comunicação & Sociedade, 26, São Bernardo do Campo, UMESP, 1996, p.
159).

Quando iniciei o meu curso de jornalismo em Pernambuco, nos idos de 1961, havia nessa primeira
turma várias mulheres. Sua proporção não correspondia à média de mulheres/jornalistas nas
empresas recifenses. Vivíamos uma conjuntura em que o trabalho jornalístico era privilégio do sexo
masculino. As poucas mulheres que disputavam espa-

122

ço nas redações possuíam uma atitude destemida. Eram desbravadoras que haviam aberto o
caminho para as que entrariam na profissão com o diploma na mão. Nesse sentido, a reserva do
mercado de trabalho jornalístico para os diplomados da área beneficiou enormemente a ascensão
social da mulher.

As jovens diplomadas pelos cursos de jornalismo foram ocupando postos que muitos homens
jornalistas abandonavam para mudar de profissão, conquistando espaços no mundo empresarial ou
no universo da política.

Fazendo um retrospecto da minha geração de estudantes de Jornalismo na Universidade Católica de


Pernambuco, recordo que o contingente feminino foi aumentando pouco a pouco. Mas nem todas
passaram a disputar espaços no mercado de trabalho. Algumas eram senhoras ilustradas que
queriam preencher o tempo livre, liberadas das tarefas domésticas (geralmente confiadas às fiéis
empregadas) porque os filhos atingiam a idade adulta.

Como o jornalismo então se confundia muito com a literatura, percebia a frustração de algumas das
minhas colegas, pouco seduzidas pela reportagem e mais encantadas com os gêneros leves, como a
crônica e a resenha. Contudo, a maioria sequer tentou o estágio, preferindo melhorar os dotes
poéticos ou novelescos. Uma parcela expressiva das mulheres que se profissionalizaram fazia opção
pelas atividades de relações públicas, refugiando-se no terreno mais seguro das repartições
governamentais.
Das minhas contemporâneas de período estudantil na escola de jornalismo do Recife, três galgaram
patamares elevados na profissão.

Zita de Andrade Lima trilhou caminhos exitosos no jornalismo governamental e na universidade;


mudando-se para a capital federal, ensinou radiojornalismo, durante anos, no Centro Universitário
de Brasília, e trabalhou como assessora de imprensa do governo federal, agregada, pouco antes da
sua aposentaria, ao Palácio do Planalto.

Eride d’Albuquerque Silveira foi fazer doutorado em Jornalismo na Bélgica; retornando ao país,
mudou-se para São Paulo, onde optou

123
inicialmente pela carreira docente na USP, decidindo afinal enfrentar o batente nas redações de
jornais e revistas. Hoje é editora de uma revista especializada em arquitetura, destacando-se pelas
coberturas internacionais que realiza periodicamente.

Teresa Lúcia Halliday conquistou espaços profissionais, ainda jovem, no decano da imprensa
brasileira Diário de Pernambuco, alternando com funções de assessoria de imprensa nos consulados
francês e norte-americano do Recife. Também foi mordida pela mosca azul da academia, iniciando-
se como docente do curso onde se diplomou. A paixão pela pesquisa midiática a conduziu ao
mestrado e depois ao doutorado em comunicação de massa em universidades dos Estados Unidos. A
dedicação ao estudo avançado trouxe-lhe a recompensa da ascensão acadêmica, assumindo cargos
de professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade
Federal de Pernambuco. Aposentada das funções docentes, mas ativa como pesquisadora
universitária, retornou ultimamente às páginas dos jornais recifenses como articulista, cronista e
comentarista. Seus textos, escritos com elegância, sensibilidade e inteligência, são um incentivo às
jovens mulheres que pretendem ingressar no mundo fascinante do jornalismo profissional.

124

Artigo científico
116

TARGINO, Maria das Graças - Comunicação científica: o artigo de periódico nas atividades de
ensino e pesquisa do docente universitário brasileiro na pós-graduação (Tese de doutorado),
Brasília, UnB, Departamento de Ciência da Informação e Documentação, 1998,387 p.

Dentre os gêneros comunicacionais através dos quais os cientistas difundem o conhecimento novo
ou discutem as tendências de cada disciplina, o artigo ocupa lugar hegemônico. Trata-se de uma
forma de expressão legitimada pela comunidade acadêmica mundial, constituindo unidade de
referência para aferir a produtividade individual e o reconhecimento coletivo dos produtores de
C&T.

A literatura brasileira sobre esse objeto continua muito escassa. A maioria dos manuais de
metodologia do trabalho científico privilegia os gêneros da comunicação primária, ou seja, aquela
destinada aos próprios pares. Martins & Celani”7 se restringem à tese; Inácio Filho118 focaliza
exclusivamente a monografia; Moura Castro”9, por sua vez, demonstra preferência pela
comunicação científica, mais conhecida entre nós pelo anglicismo ”paper”. Um dos poucos autores
que se preocupa com a comunicação secundária, ou melhor, com os processos de difusão do saber
para contingentes mais amplos, com finalidades didáticas ou informativas é Novah Moraes120. Ele
sugere algumas formas de divulgação, potencializando a circulação do conhecimento científico fora
do ”gueto” acadêmico, inclusive o artigo.

Vale a pena esclarecer preliminarmente que o artigo científico não se confunde com o artigo
jornalístico. São dois formatos distintos. O primeiro tem estrutura rígida, correspondendo às etapas
da pesquisa científica e buscando convencer o leitor pelas evidências observadas a partir de
hipóteses previamente definidas. Enquanto isso, o segundo se caracteriza pelo estilo argumentativo,
geralmente escrito com a intenção de persuadir o interlocutor no terreno ideológico.

125
Na verdade, os cientistas recorrem aos dois formatos para se comunicar. Usam o artigo científico
para disseminar informações codificadas profissionalmente, publicando-as em revistas
especializadas. E valem-se do artigo jornalístico para emitir opiniões enquanto cidadãos, veiculadas
em jornais ou revistas de informação geral. No entanto, os cientistas pertencentes ao segmento das
Humanidades são hábeis no manejo utilitário dos dois formatos, preferindo dirigir-se à elite
intelectual através do ”tipo” de artigo denominado ensaio121.

Faltam, todavia, estudos empíricos que capazes de discernir o uso desse formato comunicacional
por parte da comunidade acadêmica brasileira. A propósito do artigo jornalístico, Gomes122 já
havia coletado inferências sobre a participação dos cientistas brasileiros, no conjunto da nossa
sociedade civil, ao analisar sua incidência no jornal Folha de S. Paulo.

A tese de doutorado de Targino amplia esse panorama, focalizando exclusivamente o artigo


científico. Ela constrói um quadro conceituai destinado a situar esse formato no bojo da literatura
científica, preocupandose detidamente com o seu uso por parte dos cientistas nacionais que atuam
nas universidades.

Para tanto, realizou um inquérito junto a uma amostra da comunidade acadêmica brasileira,
procurando compreender as duas faces da mesma moeda. Fez um diagnóstico sobre a freqüência de
uso do artigo científico como fonte de informação universitária. Ao mesmo tempo, procurou saber
qual a intensidade com que os cientistas recorrem ao artigo como instrumento de comunicação
pública. Em outras palavras, ela pesquisou o comportamento dos cientistas brasileiros como
escritores e leitores de artigos científicos.

Seu trabalho parte do pressuposto de que a mensuração da produtividade dos acadêmicos


brasileiros, tal como realizada periodicamente pela CAPES, ancora-se fortemente na publicação de
artigos científicos pelos pesquisadores vinculados aos cursos de pós-graduação. Quanto maior o
volume de artigos publicados em revistas especializadas tanto mais significativo será o montante
dos recursos recebidos pelos grupos de pesquisas para desenvolver novos projetos.

126

Chamam atenção algumas tendências observadas pela pesquisadora:

1) O artigo científico constitui um formato cuja autoria é majoritariamente coletiva. Cerca de 67 %


dos cientistas entrevistados escrevem artigos em regime de co-autoria, enquanto 33 % deles
preferem atuar individualmente.

2) Predomina entre os cientistas brasileiros o uso da língua portuguesa (54 %) como código de
registro intelectual nos artigos científicos. Mas uma parcela crescente (46 %) já se vale da língua
inglesa para comunicar os resultados das suas pesquisas.

3) A escolha dos periódicos em que publicam seus artigos é muito mais determinada pela afinidade
temática (75 %) e pelo prestígio do veículo (45%) do que pela natureza do público leitor (34%).

4) É muito expressivo o contingente dos cientistas que assina regularmente periódicos científicos
(71%) para ler artigos sobre as disciplinas ou temáticas com que lidam cotidianamente nas
universidades.

5) O uso regular de artigos científicos pelos pesquisadores brasileiros justifica-se pela necessidade
de atualização profissional (67%), não obstante eles reconheçam que a velocidade com que os
artigos são publicados nos periódicos científicos prejudique a preservação da sua atualidade. Isso
significa dizer que os cientistas têm consciência da acentuada desatualização dos resultados das
pesquisas divulgadas pelos artigos como decorrência do complexo processo de avaliação do
respectivo conteúdo pelo referes, o que retarda sua publicação.

Ao final da tese a autora faz uma série de recomendações à comunidade acadêmica, algumas
dirigidas especialmente às agências de fomento científico, outras endereçadas às lideranças
universitárias. Sua preocupação principal é a otimização dos periódicos científicos enquanto
veículos de difusão do conhecimento novo produzido pelas instituições de ensino superior.

127
A tese de Maria das Graças Targino preenche uma lacuna importante da bibliografia
comunicacional brasileira. Grande parte do trabalho é dedicada à apresentação e interpretação dos
dados colhidos na pesquisa de campo sobre o uso do artigo científico como canal de expressão
acadêmica pelos docentes vinculados aos cursos de pós-graduação. Tratase de um sofisticado
diagnóstico sobre o comportamento comunicacional dos pesquisadores brasileiros, tanto como
produtores quanto como usuários de artigos publicados em revistas científicas. A autora procura
evidências para comprovar se efetivamente esse gênero da comunicação científica constitui o
melhor indicador para mensurar a produtividade dos pesquisadores acadêmicos. Em função disso,
compara os diferentes segmentos da nossa comunidade universitária, tanto por regiões geográficas
quanto por áreas de conhecimento.

No entanto, essa discussão empírica é precedida de dois capítulos teóricos que assumem dimensão
autônoma no corpo da tese. Um deles faz uma acurada revisão de literatura sobre o conceito de
comunicação científica, promovendo o diálogo entre os teóricos da midiologia (disciplina ancorada
nas ciências da comunicação) e os exegetas da documentação (disciplina situada no âmbito das
ciências da informação). O outro constrói um referencial analítico sobre o periódico científico,
centralizando sua ótica de observação no artigo enquanto gênero de expressão privilegiado
historicamente pelos cientistas.

É desejável que a tese de Targino seja publicada imediatamente, pois servirá como fonte
indispensável para jornalistas e bibliotecários, para editores e documentalistas. Seu interesse
transcende as fronteiras entre comunicação e informação, situando-se como obra muito útil para os
estrategistas e planificadores governamentais. Os postulados ali contidos e as evidências coligidas
apontam questões fundamentais para a revisão das políticas públicas sobre fomento e produtividade
em C&T.

128

Entrevista jornalística123

Dentre os formatos jornalísticos que integram o gênero informativo, no âmbito da mídia impressa, a
entrevista é o único que reúne a um só tempo intenção dialógica e função mediadora.

Em tese de livre-docência defendida na USP, refletindo de certo modo a fisionomia peculiar ao


jornalismo brasileiro dos anos 80, pesquisamos tais formatos na literatura referente à imprensa
periódica, identificando a nota, a notícia e a reportagem, além da entrevista. Enquanto os três
últimos se caracterizam pela natureza mediadora, consistindo em relatos construídos a partir da
observação dos acontecimentos pelo repórter (ainda que usando entrevistas como recurso para
coleta de dados), a entrevista somente adquireformato autônomo quando se converte em ”relato que
privilegia um ou mais protagonistas do acontecer, possibilitando-lhes um contacto direto com a
coletividade124”. Está justamente no diálogo com os protagonistas dos fatos (e não apenas com as
fontes) a singularidade da entrevista jornalística.

Na verdade, o estudo referido serviu como ponto de partida para a realização de uma pesquisa
empírica, desenvolvida em 1985, com a participação dos alunos inscritos no curso de pós-graduação
sobre ”Gêneros Jornalísticos”, que ministrei na Escola de Comunicações e Artes da USP. Nessa
ocasião, minha aluna de doutorado, a já experiente jornalista Cremilda Medina, teceu argumentos
preliminares contra a inclusão do formato entrevista no gênero informativo. Ela atribuía
”artificialidade” ao meu exercício classificatório, considerando a entrevista como mera ferramenta
de trabalho” do repórter. Mas Cremilda rendeu-se às evidencias encontradas no ”estudo de caso” da
Folha de S. Paulo, verificando que, apesar de ”marginal” (no sentido quantitativo), a entrevista
Possuía vigência informativa. Tanto assim que ela encontrou dois tipos de entrevistas naquele jornal
diário, classificando-as como diálogo (grandes entrevistas) eplurálogo (enquetes, debates)125.
Como fruto dessas refie-

129
xões/observações empíricas iniciadas em minha sala de aula, a própria Cremilda escreveu depois
um manual muito útil aos jovens que se iniciam na profissão, privilegiando justamente a dimensão
da entrevista como forma de diálogo social, onde se mesclam funções mediadoras e interativas126.

Na rotina profissional, todos os outros formatos induzem a percepções verticais nos jornalistas,
reforçando a observação dos fatos de cima para baixo. Desta maneira, resta aos leitores, quando
muito, identificar-se com as perspectivas de mundo cultivadas pelos produtores informativos. O eu
predomina inteiramente. Praticamente não existe lugar para o nós.

As pessoas que diariamente lêem jornal quase nunca buscam aproximação com os autores dos
conteúdos que fundamentam seus padrões de comportamento. Querem avaliar, à distância, um filme
ou uma peça de teatro, quando lêem resenhas (ou críticas) feitas por especialistas na matéria.
Desejam saber que partido tomar na arena política, quando acompanham as polêmicas inerentes aos
artigos e comentários, assinados por figuras públicas ou sugeridas pelos editoriais
escritos/inspirados pelos dirigentes das empresas jornalísticas. Nada mais que isso. Comparam sua
visão particular dos fatos aos pontos de vista disseminados por agentes intelectuais mais bem
informados. Ou os tomam em consideração para construir seus próprios parâmetros a respeito da
vida cotidiana.

Na entrevista impera uma dinâmica bem distinta. O jornalista necessita da cooperação de outra
pessoa para produzir sua matéria. Mais do que isso: requer uma certa cumplicidade do interlocutor
para produzir sentidos. O outro assume papel decisivo. É como se ele ocupasse o lugar dos leitores
no discurso jornalístico. O entrevistador formula questões e significados que se opõem ou
confirmam as premissas do entrevistado. Assim sendo, os cidadãos que lêem jornais possuem
alternativas de avaliação: tanto pode assumir os valores do entrevistado quanto assimilar as
interpretações sugeridas pelo jornalista.

Depois de revisar um sem número de entrevistas produzidas no Brasil e no mundo, Fábio Altman
chegou à conclusão de que ”não há boa entrevista sem um bom entrevistador”, uma vez que
”perguntas frouxas e equivocadas pressupõem respostas idem. A inteligência das questões

e a descoberta do mote correto pode transformar conversas aparentemente inócuas em grandes


depoimentos”127.

A entrevista restaura, pois, o diálogo no universo monológico dos meios massivos. Acolhe múltiplas
vozes, orquestrando a diversidade simbólica. Introduz discrepâncias analíticas, fermentando o sadio
pluralismo ideológico. Reúne protagonistas antagônicos, explorando a riqueza do confronto
dialético.

Nesse sentido é que Jorge Halperin caracteriza a entrevista como uma ”conversa absurda em que
uma pessoa (pública ou não) é interrogada por um desconhecido que lhe faz muitas vezes perguntas
íntimas ou comprometidas, esperando que ele responda com revelações que normalmente nega,
inclusive muitos dos seus conhecidos”128.

No entanto, a maior virtude da entrevista como formato jornalístico do gênero informativo é sua
capacidade de resgate da voz das ruas. Os jornais e as revistas têm o defeito de atuar
monocordicamente, reproduzindo quase de forma exclusiva o discurso do poder. A tradição elitista
da nossa imprensa privilegia historicamente as fontes ligadas ao meio político, econômico ou
cultural, transformando-as em interlocutores freqüentes dos repórteres que cultivam a entrevista
como formato jornalístico.
Essa tendência fica evidente quando se examina a bibliografia nacional referente a esse segmento
do jornalismo. Ao reunir em livro as entrevistas publicadas originalmente na mídia impressa, vários
jornalistas como Rónai, Sá Cavalcante ou Xavier selecionaram exclusivamente as personalidades
âojet set intelectual: artistas e escritores129 ou privilegiaram o cenário político, casos de Moraes,
Góes, Leitão e outros130. A exceção nesse panorama é o livro de Corrêa da Costa131, que, não
obstante priorize os escritores, pintores ou músicos, inclui algumas entrevistas de tipos
representativos das classes subalternas - cabeleireiro, lavadeira, jornalista ou migrante nordestino. A
esse segmento somam-se as coletâneas editadas pelas publicações alternativas, cujo tom
humorístico não poderia omitir entrevistas de personagens considerados bregas, habitantes do sub-
mundo legitimado pela mídia132.

Tal distorção aparece atenuada no rádio e na televisão, porque seus microfones captam mais
facilmente, até mesmo por razões de so-

130

131
brevivência, a palavra de pessoas comuns133. Não obstante os entrevistadores televi suais
escolheremm seus entrevistados pela relevância informativa (mesclando elite e povo), quando
tratam de selecionar entrevistas para reunir em livro impõe-se, em alguns casos, a preferência pelos
bem situados na cena midiática, como é o caso dos políticos. A essa tentação não escapou Marília
Gabriela’34.

Se, por um lado, a entrevista é suporte de trabalho para os repórteres atuantes nos bastidores da
notícia, que a usam como estratégia de acercamento aos protagonistas, na tentativa de conhecer suas
versões sobre os acontecimentos, por outro lado, esse relato jornalístico somente converte-se em
gênero/formato com identidade própria, quando viabiliza a conversação entre jornalistas e fontes.

O entrevistador representa o consumidor midiático em sua ânsia de fazer perguntas às pessoas que
transitam nos cenários noticiosos. E seu êxito, nessa tarefa complexa, depende basicamente da
capacidade empática, ou seja, fazer as perguntas que os cidadãos tinham o desejo de esboçar135.

O entrevistador, mais do que testemunha das novidades, é um mediador social. É alguém


permanentemente sintonizado com as demandas coletivas, buscando descobrir personagens, não
necessariamente pertencentes ao olimpo moderno136, com as quais as pessoas comuns gostariam
de dialogar. Ele representa o leitor/radiouvinte/telespectador nesse ato tão simples. Fazendo as
perguntas certas no momento adequado. Calando quando necessário, para potencializar a voz do
protagonista escolhido. Discordando eventualmente para instaurar um clima de controvérsia que
induz à reflexão crítica.

Essa situação de confronto com o entrevistado tem sido a marca registrada de Oriana Falacci, sem
dúvida a maior entrevistadora do jornalismo contemporâneo. Apesar disso, ela ganhou credibilidade
junto aos seus interlocutores pelo respeito absoluto ao que foi dito. ”Sempre achei que deixar as
pessoas falar e reproduzir com fidelidade o que dizem contribui extraordinariamente para fazer-lhes
o retrato”137.

Todas essas qualidades profissionais podem ser identificadas nas entrevistas que a jornalista
boliviana Fátima Molina reúne no livro 100 personajes ai desnudo, La Paz, EDOBOL, 1997.

132

Seus principais interlocutores são os intelectuais ou os políticos, correspondendo certamente às


expectativas dos seus leitores típicos, ou seja, as elites que compõem o segmento privilegiado
capazes de comprar e de ler jornais diariamente na Bolívia.

Entretanto, sua paixão está orientada para o diálogo com personagens de outros setores da vida
cotidiana, estruturando um mosaico mais colorido e fascinante do entorno social boliviano.

Talvez seja uma tática, em certo sentido educativa, preenchendo lacunas que escapam à percepção
dos estamentos privilegiados daquela sociedade. Ela identifica personagens normalmente ignorados
ou refugados pelas elites, cumprindo um papel de legitimação cultural ou abrindo brechas para o
seu reconhecimento institucional ou até mesmo para a sua ascensão social.

São agentes de carne e osso, que compartilham, no sistema produtivo, os mesmos espaços
freqüentados pelo beautiful people, apesar de sofrerem na pele as incompreensões ou indiferenças
resultantes do preconceito ou da discriminação. Transformadas em interlocutoras midiáticas, tais
pessoas saem do isolamento e podem fazer-se ouvir pelos seus concidadãos, conquistando, na
condição de personagens jornalísticos, o direito à diferença ou à inovação.
As entrevistas de Fátima Molina não podem ser avaliadas integralmente se a pessoa não teve
oportunidade de converter-se em seu interlocutor direto. Eu tive esse privilégio. E quero torná-lo
transparente. Fui entrevistado por Fátima Molina em 1996, quando estive em La Paz, atuando como
professor-visitante da Universidade Andina. Ela me fez duas entrevistas: uma pessoal, no estilo
história de vida; outra profissional, discutindo teses comunicológicas que constituíam o cerne das
minhas aulas de pós-graduação naquela cidade. O meu perfil como cidadão e intelectual foi
incorporado ao livro objeto deste comentário138.

Ela utiliza uma técnica de aproximação aos seus entrevistados, situando-se como discípula de
Oriana Falacci. A sagacidade no diálogo revela uma apreciável disciplina profissional. Estrutura
habilmente as perguntas que quer fazer, sem deixar-se conduzir pelo interlocutor, retomando
invariavelmente o fio da meada sempre que ocorrem desvios ou evasivas.

133
Mas, diferentemente da jornalista italiana, a entrevistadora boliviana tem uma grande virtude. A
suavidade com que se impõe ao entrevistado. Não obstante permaneça firme em seus propósitos,
revela maleabilidade para aceitar questões que não havia pautado. Não necessita valer-se da
agressividade ”fallaciana” para restaurar a diretividade imprescindível ao bom entrevistador. Sua
maneira doce e ao mesmo tempo firme desarma completamente o entrevistado. Ela alcança os
resultados pretendidos, sem necessidade de conflitos no relacionamento humano.

Outra qualidade que tem Fátima Molina - e isso destaca-se por ser uma característica atípica dos
jornalistas mais jovens - é o respeito ético ao entrevistado. Ouve com atenção, anota com precisão e
traduz exatamente o pensamento do outro. Não lhe põe na boca nada do que não foi dito. Esta foi
minha experiência pessoal. Conversamos longamente e sua síntese foi correta.

Agora que suas entrevistas, tão apreciadas pelos leitores do jornal Ultima Hora da Bolívia, são
reproduzidas sob a forma de livro, as novas gerações de jornalistas que freqüentam as universidades
hispano-americanas têm a chance de espelhar-se na trajetória percorrida por Fátima Molina.
Competência técnica e retidão ética nela confluem como matizes que podem e devem ser
valorizados e imitados.

Se mais repórteres trafegassem por essa rota, seria possível recuperar a credibilidade pouco a pouco
perdida pelo jornalismo numa fase de incerteza pós-moderna, como a que estamos vivendo. Nossa
esperança nutre-se justamente na determinação de uns poucos, que resistem ao militantismo
salvacionista ou ao cinismo corruptor. Resgatar a essência humanista do verdadeiro jornalismo
(imune ao ideologismo, ao comercialismo, ao sensacionalismo) é a missão de quantos acreditam,
como Fátima Molina, no paradigma da mediação social que dá sentido à profissão j ornalí stica.

Polêmicas
134
Exclusão midiática139

O conceito de comunicação de massa140, fenômeno popularmente abrasileirado pelo termo mídia,


foi estabelecido pela sociologia norteamericana para caracterizar o sistema de difusão cultural
gerido pelas modernas empresas que comercializam informação e entretenimento.

Trata-se de processo historicamente configurado pela emergência da imprensa gutembergiana,


quando o livro se converte em bem de consumo portátil141. No entanto, a sua dimensão massiva só
se afirmaria em meados do século passado, quando o jornal deixava de ser um produto circunscrito
às minorias de assinantes e conquistava as multidões de leitores que circulavam pelas ruas das
grandes cidades142.

Dois fatores são decisivos para essa mudança: a ampliação das oportunidades educacionais,
multiplicando o contingente de leitores; e a elevação da capacidade aquisitiva, permitindo aos
trabalhadores da indústria o consumo de bens simbólicos. O pano de fundo dessa revolução cultural
é a pujança da democracia representativa, que se estriba no desejo de participação política dos
cidadãos143.

Se o jornal e a revista democratizam a informação, possibilitando o acompanhamento do


desempenho dos governantes e potencializando oportunidades econômicas, o cinema cria condições
para suavizar a rotina da produção em série, descerrando as portas da fantasia e da diversão para o
cidadão comum. Esse benefício já vinha sendo usufruído, através da literatura e da música, pelos
reduzidos segmentos possuidores de renda suficiente para adquirir livros e discos (setores
industriais que não haviam ingressado ainda na fase da economia de escala).

O rádio e posteriormente a televisão otimizariam as duas dimensões culturais da vida cotidiana - o


real e o imaginário -, integrando-os em produtos sincréticos144. Ao mesmo tempo, tornando-os
acessíveis àqueles bolsões populacionais desprovidos de escolaridade básica ou estacionários no
patamar da alfabetização funcional. A expansão de tais

137
^

veículos alcança índices surpreendentes, sobretudo pelas vantagens econômicas proporcionadas aos
seus usuários. O subsídio que as empresas de comunicação recebem dos anunciantes publicitários
reduz o dispêndio dos rádio-ouvintes e dos telespectadores. Estes necessitam tão somente fazer um
investimento inicial com a aquisição dos aparelhos receptores, podendo sintonizar mensagens
culturais gratuitas (evidentemente recheadas de anúncios).

Mas o impacto dos veículos sonoros e audiovisuais iria adquirir enormes proporções nas sociedades
periféricas - os outrora chamados países do terceiro mundo, hoje rotulados como sociedades
emergentes, melhor denominados nações/regiões em desenvolvimento -, onde os elevados índices
de analfabetismo e de escolarização incompleta funcionam como aceleradores de distância entre as
massas urbanas e o conhecimento sistematizado.

Pessoas que haviam permanecido à margem da contemporaneidade adquirem a chance de saber o


que se passa ao seu redor, através da mídia eletrônica. A radiodifusão abre-lhes uma janela para o
mundo. Muito mais que isso: oferece um lenitivo para as agruras do diaa-dia, superando o
isolamento em que viviam no passado, além de proporcionar alternativas de lazer a baixo custo145.

Nas comunidades em que esse desenvolvimento da mídia ocorre paralelamente à socialização das
oportunidades educacionais e culturais
- escolas, bibliotecas, museus, centros desportivos etc - verifica-se uma gradativa influência do
comportamento coletivo sobre a qualidade dos bens disseminados pela indústria da informação e da
diversão. Cidadãos instruídos, que cultivam padrões de sociabilidade mais elevados, tendem
naturalmente a reivindicar melhores e renovados produtos da mídia. A própria indústria midiática,
estruturada segundo as regras da economia de mercado, procura captar os anseios dos
consumidores, atuando em consonância com as suas expectativas. E quanto maior for a competição
entre as produtores mais benefícios terão os consumidores, pela variedade de opções existente.

Tal dinâmica mercadológica suscita um efeito cascata na relação oferta-demanda, que se traduz pela
”lei-de-todos-ou-nenhum”. Trata-se de uma tendência observada mundialmente. Os consumidores
da mídia

geralmente não se restringem a um único veículo ou produto. Manifestam o desejo de se abastecer


de conhecimento e lazer em múltiplos canais. Ora para aprofundar ou completar a bagagem
informacional. Ora para prolongar ou refinar o prazer estético.

Assim sendo, uma notícia de jornal conduz a um filme, um seriado na televisão estimula a leitura de
um livro, um programa de rádio incita à audição de um disco, um filme motiva à compra de um
fascículo ou uma revista146.

Em termos quantitativos, há um veículo que monopoliza hoje as atenções dos consumidores: a


televisão. Sua vantagem reside no apelo multisensorial (combinando visão e audição, mas também
despertando o tato e o olfato pelos efeitos da imagem em movimento). Além disso, cativa os
contingentes nâo-letrados (das crianças em idade pré-escolar aos jovens e adultos que freqüentaram
escassamente ou foram excluídos da escola). Estes podem dispensar o domínio do código alfabético
para ter acesso às mensagens ali disseminadas.

No caso brasileiro, as crianças consomem 4,12 horas diárias de televisão, os jovens 3,01 horas e os
adultos 3,27 horas. O hábito de ver televisão está diretamente associado ao tempo em que as
pessoas permanecem em casa. Da mesma forma que as crianças, as mulheres (3,54 horas) assistem
mais televisão, se comparadas aos homens (3,10 horas). Sua função diversional é preponderante em
relação aos efeitos informativos e educativos. Aqueles contingentes que dispõem das facilidades do
lazer fora de casa geralmente dedicam menos tempo à audiência da TV: as classes A/B ficam 3,02
horas diárias diante do televisor, enquanto as classes D/E permanecem 3,44 horas147.

Sob a liderança da TV, os meios de comunicação de massa desempenham um papel decisivo na


formação da população brasileira. Eles atuam verdadeiramente como educadores coletivos. Esse
papel ampliouse no último qüinqüênio, como decorrência da melhoria das condições de vida que o
Plano Real acarretou a bolsões da sociedade antes circunscritos ao território da pobreza. Eliminado
o ”imposto inflacionário”, uma parcela da sociedade conquistou o direito à poupança. Satisfeitas as
necessidades básicas de subsistência (principalmente os insumos alimentí-

138

139
cios), os neo-consumidores priorizam o universo do lazer massivo, acarretando o incremento da
venda de televisores. Esse fator influiu decisivamente no nivelamento por baixo dos padrões da
televisão aberta, considerando que a parcela privilegiada da audiência refugiou-se na televisão
fechada (canais por assinatura).

Supondo que o tempo dedicado ao consumo da mídia é superior àquele preenchido pela escola, no
conjunto da população em idade escolar, vale a pena refletir sobre a natureza da educação coletiva
implícita nesse espaço que McLuhan chamou apropriadamente de ”aula sem paredes”148. Tornando
mais complexa a equação, é necessário admitir que se a qualidade do ensino formal proporcionado
às novas gerações for deficiente, inegavelmente a cultura de massa tem mais chances de exercer
atração e influência sobre as crianças e os adolescentes.

Nesse contexto, convém introduzir a questão da leitura. Seu conceito hoje não se restringe à
decodifícação da mensagem alfabética, geralmente associado ao livro. Possui uma conotação mais
abrangente, pressupondo a compreensão do mundo149. E, por conseqüência, inclui todos os
suportes da difusão cultural. Da imprensa à radiodifusão e aos modernos equipamentos multimídia
ensejados pela telemática.

Evidentemente a leitura dos signos disseminados pela tecnologia da reprodução cultural se alicerça
na leitura do mundo proporcionada pela educação150. Tanto maior o domínio dos códigos quanto
mais oportunidades têm o cidadão para entender o mundo em que vive. Naturalmente a própria vida
enseja mecanismos de apreensão do significado da cultura que nos rodeia. Mas é inegável que a
sistematização do conhecimento proporcionado pela escola amplia as chances de participação na
sociedade e do usufruto dos benefícios disponíveis. Quanto mais escolarização mais opções de
intervenção no cotidiano. E melhores expectativas de bem estar.

O alicerce para essa leitura contextual está na leitura da palavra. O domínio do código alfabético
amplia as fronteiras da abstração. E municia o indivíduo para comportar-se empaticamente,
tonando-o capaz de enfrentar situações distintas daquelas peculiares à aprendizagem informal do
seu meio ambiente. Não basta a prontidão para decifrar o que

está escrito. É indispensável o exercício permanente dessa habilidade lingüística. Até mesmo porque
ela inspira muitas das operações comunicacionais que se estruturam de acordo com o código sonoro
ou o código icônico151.

Nas sociedades que presenciaram a socialização da leitura da imprensa (livro, jornal, revista) antes
do aparecimento dos meios audiovisuais (cinema, rádio, televisão), verificou-se uma forte
dependência qualitativa desses novos veículos em relação aos precedentes. E sua leitura foi
determinada pelos mecanismos intelectuais forjados pela cultura alfabética. Populações letradas
possuíam exigências culturais que conformavam os produtos audiovisuais a padrões estéticos ou
conteudísticos bem mais elaborados. Da mesma forma, a disponibilidade de um acervo cultural
erudito (literatura, teatro, música, dança, pintura, fotografia etc) permitiu que essas obras fossem
vulgarizadas para fruição pelas massas que não dominavam os códigos peculiares à elite. Tal
fenômeno foi reconhecido como a segunda revolução industrial, porque transformou bens culturais,
antes privilégio das minorias, em produtos acessíveis a toda a sociedade.

A economia de escala barateou o preço unitário das mercadorias culturais, democratizando o seu
consumo. Livros, fascículos, revistas especializadas, discos, fitas, disquetes, CDRoms e outros
suportes inovadores permitiram retirar das prateleiras das bibliotecas (e dos centros de
documentação artística ou científica) todo o legado cultural estocado pela civilização. Esse mercado
de bens portáteis desenvolveu-se na esteira da indústria cultural iniciada pela imprensa e fortalecida
pela mídia eletrônica.

Sem dúvida o livro foi o maior beneficiário dessa operação em cadeia. Considerando que as massas
detentoras de um nível mediano de escolarização não adquiriram hábitos permanentes de leitura,
elas se sentem motivadas a recuperar essa habilidade cada vez que o cinema e a televisão
reconstituem obras literárias ou científicas.

As evidências disponíveis demonstram, por exemplo, o estímulo positivo que as telenovelas e os


seriados exercem sobre o consumo de livros literários que serviram de fonte para os roteiros das
suas estórias.

140

141
Da mesma maneira, os filmes e os quadrinhos de ficção científica influem na busca de livros
acadêmicos que inspiraram as leis ou teorias ali descritas de forma simplificada.

Nesse sentido é possível afirmar que a leitura da palavra impressa se beneficia enormemente do
prévio contato que os consumidores culturais tiveram com as suas versões audiovisuais.
Principalmente nas sociedades em que a maioria dos cidadãos não foi cativada para o prazer
estético da leitura literária ou o desafio reflexivo da leitura científica.

Retornamos aqui à relação entre a base educacional e os hábitos de leitura. Como outras formas de
comportamento cultural, a leitura depende fundamentalmente da assimilação de padrões
socialmente legitimados. A escola desempenha função crucial no desenvolvimento dos hábitos de
leitura. A expansão das oportunidades escolares básicas tem ampliado o contingente de cidadãos
aptos à leitura, em nosso país.

Tal reflexo pode ser percebido claramente no incremento da leitura de jornais entre os jovens de 15
a 24 anos. Esse contingente decresceu nos anos 70 e 80, influindo nas baixas tiragens dos jornais
diários editados nas metrópoles nacionais. Os investimentos públicos feitos na educação de
primeiro e segundo graus, nesta década, fizeram crescer o hábito de leitura de jornais entre os
adolescentes brasileiros. Hoje configura-se um quadro otimista, em que 55 % dos jovens exercitam
a leitura diária dos jornais impressos. Trata-se de um panorama alentador, embora ainda distante
daqueles países que investem pesadamente em educação básica. E o caso, por exemplo, das nações
historicamente engajadas na inversão educacional, como a Áustria, onde 74% dos jovens entre
15 e 24 anos lêem jornal todos os dias. Situação impressionante é a de Portugal, hoje beneficiado
pela integração à Comunidade Européia, onde existe uma correlação positiva entre o recente
investimento educativo e incremento da leitura de jornal. Atualmente, 79% dos jovens entre 15 e 17
anos e 83% dos situados na faixa etária entre 18 e 24 anos lêem jornal diariamente152.

No entanto, apesar das mudanças constatadas no cenário brasileiro, a manutenção da habilidade de


leitura nas novas gerações encontra obstáculos significativos: a ausência de uma cultura letrada nas
famílias

142

a que pertencem os jovens leitores; a reduzida capacidade aquisitiva das classes trabalhadoras, o
que mantém o livro, o jornal e a revista na categoria dos produtos de consumo da elite; a
insuficiência e a fragilidade das agências disseminadoras da cultura impressa, como é o caso das
bibliotecas e dos centros de documentação.

Tais fatores exercem um papel inibidor na disseminação da leitura da palavra impressa, bem mais
influente do que aquele atribuído à mídia eletrônica, principalmente a televisão. Ampliar a leitura
das obras singulares da cultura alfabética é muito mais um desafio político-econômico e sócio-
psicológico do que comunicacional.

Isso não significa desconhecer ou minimizar a forte atração que as obras audiovisuais, difundidas
pela mídia eletrônica, exercem sobre a sociedade como um todob3. Trata-se, antes de tudo, de
reconhecer a inegável contingência do avanço tecnológico, com o qual é preciso conviver de forma
inexorável, e que, por outro lado, tem sido responsável pelo incremento da leitura online^54, ou
seja, a leitura exercitada nas telas dos computadores pelas minorias que tiveram o privilégio da boa
educação e da concentração de renda. O mais é saudosismo. Ou elitismo?

143
1
155

Cultura do silêncio

A Imprensa figura na História da Humanidade como a inovação que alterou profundamente a


marcha civilizatória. Ela instaurou a cidadania, criando as condições indispensáveis para a
emergência das sociedades democráticas. Mas estas somente logram aperfeiçoamento e
consolidação na medida em que são capazes de garantir o regime da liberdade de imprensa.

Nesse sentido é que o direito de informar e de receber informação constitui o fermento da


cidadania, o oxigênio que nutre a vida democrática.

Revolução Gutembergiana

Quem melhor sintetizou o impacto histórico da imprensa foi o comunicólogo canadense Marshall
McLuhan em seu livro A Galáxia de Guíenberg (Toronto, 1962).

Ele aponta três efeitos produzidos pela cultura tipográfica:

- Individualismo - libertando os componentes da tribo e convertendoos em cidadãos capazes de


constituir comunidades autônomas.

- Nacionalismo - sedimentando as línguas escritas, através da literatura, e fomentando o sentimento


nacional capaz de gerar Estados independentes

- Espírito de crítica - estimulando a reflexão privada, através da leitura silenciosa, capaz de produzir
sentidos estereotipados que convergem para a formação da opinião pública.

Em sua apresentação da edição brasileira do livro clássico de McLuhan, o educador Anísio Teixeira
resume com perspicácia a Revolução Gutembergiana:

”é a invenção da tipografia que marca a grande transformação. A tecnologia da imprensa dá ao


homem, com o livro, (...) a posse do saber,

144

e armando-o com uma perspectiva visual e um ponto de vista uniforme e preciso, o liberta da tribo,
a qual explode, vindo, nos dias de hoje, a transformar-se nas grandes multidões solitárias dos
imensos conglomerados individuais.

Inicia-se a fase da Galáxia de Gutenberg com a descoberta da tipografia, desdobrando-se a cultura


heleno-latina nas variedades de culturas vernáculas e nacionais, fundindo-se os grupos feudais nas
nações modernas, com o aparecimento do Público, do Estado, do Indivíduo e das civilizações
nacionais. O novo meio de comunicação que é a palavra impressa faz-se o grande instrumento da
civilização.”

Por isso mesmo, a imprensa atemorizou os ”donos do poder”, tanto civil quanto eclesiástico,
advindo o regime da censura prévia que durou quase 3 séculos. Inicia-se com o ato do Papa
Alexandre VI, proibindo a criação de tipografias e a edição de livros sem licença especial dos
bispos, e atinge o seu apogeu com a vigência do Index Librorum Prohibitorum, aprovado pelo
Congresso dos Cardeais em 1588.

A BATALHA CONTRA A CENSURA

Contudo, a batalha pela liberdade de imprensa só alcançaria repercussão em meados do século


XVII, quando Milton lança sua Aeropagítica. Esse movimento contestatório encontraria eco no
Parlamento britânico, que fez a abolição àoLicensingAct, ou seja, eliminou a censura prévia,
instituindo em contrapartida a vigilância judiciária para punir os abusos cometidos.

É no bojo das democracias construídas pela Revolução NorteAmericana (1776) e pela Revolução
Francesa (1789) que a liberdade de imprensa ganha legitimidade política, ensejando modelos que se
reproduziriam em várias partes do mundo.

A doutrina da liberdade de imprensa rege-se pelo princípio democrático de que aos cidadãos é
assegurado o direito de se expressar livremente. Não obstante, predomina o consenso de que a
liberdade individual é regulada pelo interesse coletivo. Retira-se do Estado o privilégio de fazer
censura apriori dos impressos, mas cabe-lhe o dever de coibir a posteriori os abusos cometidos por
cidadãos que se desviam das normas coletivamente instituídas.

145
Em termos constitucionais, pode-se dizer que o poder executivo perde a capacidade discricionária
de censurar impressos. A liberdade de expressão conquistada pelos cidadãos não é contudo
ilimitada; suas fronteiras passam a ser reguladas pelo interesse público. Este adquire transparência
através da legislação de imprensa, instituída pelo poder legislativo. Mas sua aplicação constitui
prerrogativa do poder judiciário. Ele pode ser acionado por qualquer indivíduo ou organização,
inclusive o governo, demandando punição por excessos individuais cometidos.

Panorama brasileiro

O Brasil permaneceu no regime da censura prévia até 1820, quando a Revolução do Porto
estabelece na metrópole lusitana a liberdade de impressão. Os patriotas nacionais dela se valeram
para publicar jornais nas nossas cidades mais importantes, criando ambiente favorável à
independência brasileira, decretada em 1822.

O modelo de liberdade de imprensa aqui adotado teve, durante os séculos XIX e XX, forte
influência francesa, traduzindo-se pela existência de legislação ordinária destinada a punir a
posteriori os excessos cometidos pelos transgressores eventuais.

Somente a Constituição de 1988 adotaria o modelo norte-americano. Cláusula inspirada na Primeira


Emenda (Art. 220, parágrafo Io.) proíbe a aprovação de leis ordinárias destinadas a estabelecer
censura prévia por parte do Estado.

Todavia, essa salvaguarda constitucional não inibe a vigência da Lei de Imprensa, que disciplina os
crimes de informação e opinião. Ou seja, os abusos cometidos pelos jornalistas, empresários da
notícia ou pelos cidadãos que cometem abusos midiáticos. A tipificação de tais crimes e sua punição
constitui prerrogativa que cabe exclusivamente ao poder judiciário.

Fazendo um balanço da liberdade de imprensa no Brasil independente, do período Monárquico ao


Republicano, temos necessariamente de reconhecer que a sua vigência constituiu capítulo singular
da luta da cidadania para a consolidação do regime democrático em território nacional. Poderíamos
afirmar, sem sombra de dúvida, que tivemos uma convi-

146

vencia atribulada com a liberdade de imprensa, alternando momentos caracterizados pelo seu pleno
exercício com interregnos em que a censura do governo impôs-se à sociedade.

Presenciamos, durante o século XX, instantes traumáticos, principalmente aqueles que marcaram o
regime do Estado Novo, na segunda metade dos anos 30 e princípio dos anos 40; e o ciclo militar
pós-64, que perdurou até a Constituinte de 1988.

Privados do direito de se expressar livremente, os cidadãos reagem historicamente aos ciclos


autoritários, reinventando a democracia e restabelecendo a liberdade de imprensa.

Mas é inegável o reconhecimento de que o período posterior à Constituição de 1988 afigura-se


como aquele em que desfrutamos de plena liberdade de expressão e de comunicação pública no
Brasil. Nunca a imprensa valeu-se dessa competência de informar livremente a sociedade como na
última década.

Contudo, permanece latente um dilema político: a liberdade de informação garantida pelo Estado às
empresas jornalísticas constitui evidência da plena liberdade de imprensa no país?
O DIREITO À INFORMAÇÃO

Se podemos afirmar que o Brasil inicia o novo século vivendo um dos mais vigorosos estágios da
liberdade de imprensa, infelizmente devemos reconhecer que ela constitui um privilégio das elites
nacionais. Os grandes contingentes da nossa população permanecem à margem dessa liberdade
constitucional. Deixam de usufruir tanto da prerrogativa da livre expressão quanto do direito de ter
acesso à informação que os habilita à plena cidadania e conseqüentemente à participação integral na
vida democrática.

Testemunhamos uma situação caracterizada pela exclusão comunicacional. Não se trata de


fenômeno peculiar ao Brasil, sendo perceptível também num grande número de países. Justamente
aqueles que ainda não lograram construir democracias estáveis. Onde todos os cidadãos usufruam
os benefícios da modernidade.

Trata-se da persistência daquela cultura do silêncio a que se refe-

147
f
riu Paulo Freire quando diagnosticava o mutismo da população brasileira durante o período
colonial. Situação que se projetaria sobre o Brasil independente, prolongando-se até meados do
século passado, agravandose pela chaga do analfabetismo.

Sem dominar o código alfabético, sem saber ler, contar e escrever, a maioria da nossa população
permaneceu quase muda, pela carência educacional e pela inibição cultural a que foi condenada por
nossas elites dirigentes.

Ao ingressar no século XXI, o Brasil sofre de mal endêmico. Sua imprensa permanece restrita a
uma fatia minoritária da sociedade. É reduzido o número de brasileiros que são leitores regulares de
livros, revistas ou jornais, quando comparados aos estadunidenses, canadenses, ingleses, franceses,
argentinos ou chilenos.

Assume característica singular a crise nacional da leitura de jornais. A expansão das tiragens diárias
mostra-se absolutamente descompassada com o ritmo do incremento demográfico.

Na década de 50 tínhamos um volume diário de 5,7 milhões de exemplares de jornais para uma
população de 52 milhões de habitantes. Chegamos ao ano 2000 com uma tiragem diária de 7,8
milhões de jornais para uma população estimada em mais de 170 milhões de pessoas.

A população brasileira cresceu mais de 200 %, enquanto a tiragem diária de jornais ampliou-se
apenas 40 %, na última metade do século XX.

O mais grave em tal confronto estatístico está no fato de que, no mesmo período, ampliou-se a
escolarização em todo o país, reduzindo-se a taxa de analfabetismo. Concomitantemente, ocorreu
elevação da renda nacional, elevando-se a capacidade aquisitiva das camadas médias da nossa
população.

Esta é a outra face da liberdade de imprensa no Brasil. Ela constitui um privilégio das elites que
podem se expressar livremente através de modernos suportes midiáticos. Representa também um
privilégio das classes médias que foram educadas para ler, adquirindo capacidade de abstração para
participar do banquete intelectual da humanidade.

Ainda que tenham acesso a informações rápidas, condensadas e simplificadas que fluem através da
mídia eletrônica, os contingentes

majoritários da nossa sociedade não assimilaram os conteúdos culturais que lhes permitissem
apreender integralmente os sentidos disseminados pelos produtos da indústria cultural.

Encontram-se privados da liberdade de imprensa na medida em que não tem competência cognitiva.
Marginalizados da cultura letrada, não participam integralmente das oportunidades de ascensão
social que a sociedade democrática lhes oferece. Excluídos da educação avançada, ficam
inferiorizados no acesso aos postos de trabalhos qualificados que emergem no bojo da economia de
mercado.

Todo o esforço que vem fazendo o governo brasileiro para ampliar as fronteiras da sociedade da
informação em território nacional esbarra justamente no fenômeno da exclusão comunicacional.
Recente pesquisa do IBOPE estima que o universo da internet no Brasil não ultrapassa o patamar
dos 10 milhões de usuários. Esta cifra é ligeiramente menor que a dos leitores de jornais diários.
Trata-se de contingentes superpostos. Os internautas correspondem aproximadamente aos cidadãos
que tem o hábito de informar-se através da imprensa

E possível que a população usuária da web venha a duplicar ou triplicar no correr desta primeira
década do século XXI. Mas é provável também que esse crescimento não esteja relacionado com o
mundo da informação, fortalecendo a cidadania. A deduzir pelos hábitos preferenciais dos
internautas desse primeiro ciclo histórico da web, que se guiam pelo imediatismo utilitarista,
trabalharemos com a hipótese de que a liberdade de imprensa não tende a alargar-se no país.
Justamente pela incapacidade ou inapetência dos novos cidadãos em relação à informação cotidiana
ou contextual.

Desta maneira, a nossa democracia deixará de ser fortalecida pela fragilidade da sociedade civil,
pelo raquitismo da cidadania.

Democracia e governabilidade

A vida democrática ancora-se na liberdade de imprensa, entendida como a expressão plural das
correntes de pensamento que atuam na sociedade. Mas ela só se robustece quando o conjunto da
sociedade usufrui os benefícios da informação pública.

148

149
A exclusão comunicacional constitui sério risco para a estabilidade democrática e naturalmente para a
governabilidade.

Este é o dilema principal com que nos defrontamos no limiar do novo século. Vale a pena refletir sobre ele
para não repetirmos os erros históricos que puseram a liberdade de imprensa numa gangorra política,
alternando momentos de vigência plena nos ciclos democráticos com instantes dramáticos marcados pela
restauração da censura nos ciclos autoritários.

Quando uma sociedade preserva o direito de expressão das suas elites, mas garante, ao mesmo tempo, o
direito de informação ao conjunto dos seus cidadãos, ela está fortalecendo sua experiência democrática e
prevenindo-se contra os retrocessos constitucionais. Só um povo bem informado é capaz de escolher
governantes capazes de converter a liberdade de imprensa em peça-chave do constante aperfeiçoamento
democrático.

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XIFRA-HERAS, Jorge. A Informação -Análise de uma Liberdade Frustrada. Rio

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151
Brecha digital156

Desde que o governo federal convocou a comunidade acadêmica a participar do processo decisório
sobre o modelo de sociedade da informação a ser implantado no Brasil tenho sido convidado para
debater esse tópico em universidades de várias regiões brasileiras.

Nesses colóquios regionais tive a chance de expor e submeter ao debate as idéias principais que
defendi perante os meus colegas que integraram o ”GT de Conteúdos e Indústrias Culturais”
constituído pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT) na etapa de redação do Livro Verde da
nossa desejável Sociedade da Informação (Takahashi, 2000).

Retomo, neste artigo, a questão priorizada no debate pela comunidade internacional das ciências da
comunicação: a exclusão digital. Mantenho, aqui, o estilo coloquial daquelas intervenções públicas,
valendome das anotações feitas para seminários realizados em Salvador, Recife e Manaus (2000),
Vitória, Campo Grande, Curitiba (2001).

Exclusão digital

Parto do pressuposto de que a exclusão digital é uma mera projeção da exclusão cultural e tem seu
fundamento na exclusão sócio-econômica.

Quero reafirmar a essência da exclusão, numa perspectiva histórica. Ela se impõe desde o
aparecimento da imprensa, projeta-se com o rádio, continua com a televisão e persiste com a
cibermídia. Qualquer sociedade que possui excluídos do bem-estar social, evidentemente conta um
grande número de excluídos midiáticos.

A exclusão não é, portanto, um problema comunicacional. É um problema de natureza sócio-


econômica, um problema político.

Embora considere fundamental, do ponto de vista ético, reduzir/ eliminar a exclusão social, creio
que a nossa tarefa, enquanto estudiosos e profissionais da comunicação, é produzir conteúdos. Se
não formos capazes de produzir conteúdos de boa qualidade, conteúdos sintonizados

152
com as demandas dos excluídos, não apenas conteúdos para as elites, estaremos retrocedendo
historicamente.

A tese básica que proponho é a seguinte: para passarmos da sociedade da informação à sociedade do
conhecimento, temos um grande desafio que é criar competência cognitiva. Mas para criar
competência cognitiva em todos os cidadãos, nós precisamos produzir conteúdos de boa qualidade.
Esse é a principal responsabilidade daqueles que atuam nas indústrias de comunicação, que eu
prefiro chamar de midiastas.

E nós não sabemos produzir conteúdos, ou produzimos conteúdos imitando o padrão que já está aí,
que é culturalmente excludente.

Sociedade da informação

O que é sociedade da informação? Vou trabalhar com aquele conceito sugerido pelos professores
norte-americanos Straubahaar and Rose (1995).

Eles dizem que a sociedade da informação é aquela sociedade cuja principal atividade econômica é
a informação. Trata-se do setorchave que governa a economia. A informação é considerada o pilar
da nova economia, sendo a mais importante fonte de empregos. Mas é também o componente
hegemônico da produtividade em outros setores da sociedade, como a agricultura e a indústria.

Portanto, a sociedade da informação está estribada no setor terciário da economia.

Mas no setor primário devemos entender a informação como mercadoria, ou seja, o ingrediente que
cimenta o fluxo de produção e venda. Isso inclui desde os meios de comunicação de massa, as
agências de publicidade, as empresas de comunicação mercadológica, as instituições educativas,
bancos de dados, livrarias, lojas de informática, teatro, cinema, etc...

Enquanto isso, no setor secundário, temos aqueles serviços destinados a incrementar a


produtividade nas empresas, que prefiro chamar insumos informacionais. Isso inclui desde a
pesquisa, gerência e marketing, até a contabilidade, auditoria, apoio burocrático, suporte
documental, comunicação organizacional.

153
Há, portanto, o nível micro, uma profusão de informações que circulam, fluxos múltiplos,
convergentes ou muitas vezes conflituosos.

Tudo isso só funciona porque existe uma infra-estrutura informacional que é composta de suportes
tecnológicos, que são basicamente as redes de computadores e as telecomunicações. Essa
infraestrutura representa a ponta do iceberg, o elemento visível da chamada sociedade da
informação. A gente vê mais facilmente a parafernália tecnológica e nem sempre identifica os
conteúdos processados.

Só um exemplo estatístico: no caso dos Estados Unidos, na década de 70, a participação da indústria
da informação no produto nacional bruto era de 54 por cento, e, na década de 80, já perfazia 75 por
cento. Provavelmente isso deve ter avançado: 3/5 da sociedade está envolvida na produção da
informação, tanto no âmbito ocupacional quanto no da produtividade.
O FENÔMENO DAS CONVERGÊNCIAS

Outro aspecto fundamental da sociedade da informação é o das convergências fenomenológicas.

A principal delas é de natureza tecnológica. Trata-se de uma tríplice convergência entre mídia,
telecomunicações e informática. Os professores canadenses Breton e Proulix (1989) a ela se referem
como o ”triângulo da comunicação”. Nós temos necessidade de entender a mídia imprensa, rádio,
televisão e cinema- a partir dos fluxos de comunicação a distância, mas também da micro-estrutura
informática que possibilita a acumulação de dados e a produção de conteúdos.

A outra convergência, muito importante na sociedade brasileira, é a convergência profissional.


Estamos num cenário em que a questão das profissões está sendo revista e ajustada. Há uma
convergência evidente entre quatro grupos profissionais.

O grupo hegemônico é o dos midiastas. Trata-se de um conjunto marcado por múltiplas profissões.
Incluem-se aí os jornalistas, os radialistas, os teledifusores, publicitários, videoastas, escritores,
agentes culturais, e toda essa gama dos que fazem educação a distância, dos teleeducadores aos tele-
evangelistas.

154

Outro grupo profissional que se cruza com o dos midiastas, é o dos informatas: bibliotecários,
documentalistas, analistas de informação, gerentes de sistemas informacionais.

Quero polemizar, dizendo que o grupo dos informatas vem ultimamente, no caso da mídia digital,
assumindo grande parte do espaço que devia ser dos midiastas, exatamente pela inapetência destes
para produzir novos conteúdos.

Muitos dos conteúdos que vêm sendo gerados nas redes estão sendo produzidos pelos informatas, e
não pelos midiastas. Os midiastas estão ainda muito presos, digamos, às mídias tradicionais, sem
capacidade para compreender as inovações tecnológicas.

Mas nenhum dos dois pode funcionar sem a participação dos telecomunicadores, que são os
engenheiros de telecomunicações, os ciberengenheiros, os designers eletrônicos, os processadores
de informação e uma série de novas profissões que asseguram o fluxo comunicacional através dos
computadores.
O quarto grupo, para o qual, na academia, nós, em geral, torcemos o nariz, é o dos mercadólogos,
aqueles que pagam a conta. Nada disso pode funcionar sem ter recursos. São os estrategistas de
marketing, os pesquisadores de mercado, promotores de venda, toda a gente que aciona a circulação
dos produtos, gerando dividendos.

Os quatro conjuntos se relacionam de maneira orgânica, e é importante acelerar sua interação. Sem
a conexão desses quatro grandes grupos profissionais, é impossível um deles funcionar. A ação
isolada leva indiscutivelmente a uma desarticulação holística e, conseqüentemente, à ineficácia
profissional.

Prós e contras

Vamos fazer, agora, um balanço crítico daquilo que convencionamos chamar de sociedade da
informação. Trata-se de uma sociedade que tem aspectos muito positivos mas também aspectos
negativos. É importante colocá-los na balança. A tendência é vermos um lado ou outro. Vamos
tentar equilibrar.

Aspectos positivos. A sociedade da informação tem gerado mui-

155
. tos empregos, como vimos no caso dos Estados Unidos, onde até 75 por cento dos postos de
trabalho já estão nesse setor. Tem produzido a socialização do conhecimento, porque muitos
daqueles conteúdos que antes eram restritos às elites hoje estão sendo ampliados, pelo menos para
as classes médias. E vem proporcionando também a democratização cultural, na medida em que boa
parte do acervo intelectual da humanidade já está disponível para acesso público.

Além disso, destaca-se a otimização do tempo livre. Desde que os trabalhadores conquistaram
menor jornada de trabalho, eles têm mais tempo para o divertimento. Vivemos, segundo o sociólogo
francês Dumazedier (1964), sob a égide da cultura do ócio.

A sociedade da informação tem atuado ainda na esfera política, fortalecendo a cidadania. É através
de informações circulando na web que os zapatistas do México e o MST - Movimento dos Sem
Terra - do Brasil se organizam, dando projeção mundial à sua luta.

Vivenciamos o fortalecimento daquilo que o sociólogo alemão Dahrendorf (1997) chama de


sociedade civil internacional.

Aspectos negativos. Primeiro, a monopolização econômica. Trata-se de um tipo de sociedade em


que os grandes grupos econômicos, algumas vezes o próprio Estado, monopolizam setores
produtivos.

Conexo a isso, existe o grande perigo da privatização do conhecimento. Boa parte da universidade
insere-se no âmbito do conhecimento privatizado. Essa tendência amplia-se também para outros
segmentos da nova economia.

Numa outra perspectiva, vislumbramos o recrudescimento das oligarquias políticas. Aqueles que
acompanham o noticiário dos jornais, nos últimos meses, últimas semanas, lembram como essas
oligarquias aguçam seus tentáculos para dominar a mídia. A própria mídia só fala nisso, reiterando e
legitimando tal processo. Boa parte das indústrias, das micro às macro-empresas que atuam no
campo midiático, são monopolizadas por setores que anseiam o controle da estrutura política.

Brecha digital

A sociedade da informação tem atuado como instrumento que amplia o distanciamento de classes e
povos. Estamos falando da mura-

156

lha digital entre o norte e o sul, entre pobres e ricos, e por outro lado também entre povos
superinformados e subinformados.

Recordemos o caso da Lusofonia. Brasil e Portugal são sociedades que dominam a língua
portuguesa, concentrando proporcionalmente os maiores contingentes de luso-falantes que têm
acesso aos bens da sociedade digital. Enquanto isso, os outros cinco países que falam língua
portuguesa, situados na África, são absolutamente carentes de acesso a tais informações.

Outro grande perigo é simbolizado pela redução do espaço público. Na medida em que o Estado
deixa de funcionar como árbitro, como agente regulador, o espaço privado se agiganta, em
detrimento dos interesses coletivos. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. É preciso avançar na
construção de uma sociedade informacionalmente eqüitativa.
No Brasil, a muralha digital pode ser exemplificada através da expansão da internet. Segundo
pesquisa feita, no ano passado, pelo Ibope
- Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, nós temos 9,8 milhões de usuários da internet.
Aqui está o mapa da exclusão. É um contingente que corresponde a menos de 7 por cento dos
brasileiros. Portanto, 93 por cento dos brasileiros não chegaram à idade da internet. Desses usuários,
apenas 30 por cento estão situados nas classes C e D.

A internet brasileira é um canal de comunicação das elites, das classes A e B. Em outras palavras,
das classes mais favorecidas e de segmentos específicos das classes médias.

Do ponto de vista geográfico, verifica-se que 94 por cento do Brasil está distanciado da internet.
Prestando atenção aos dados do Ibope, apenas 6 por cento dos municípios brasileiros têm provedor
de acesso. Assim sendo, do ponto de vista geográfico, a minoria da população é beneficiária da
internet.

Estas são as questões que eu gostaria de propor para o nosso debate. Retorno à tese inicial de que a
sociedade da informação deve ser entendida como um estágio para atingirmos a sociedade do
conhecimento. Não adianta ficarmos na disponibilização de dados, equipamentos, tecnologias. Urge
incrementar os processos cognitivos em toda a população, para que todo cidadão possa usar os
conteúdos e portanto atuar na construção de uma nova sociedade.

157
Superando impasses

Quais são as estratégias políticas que julgo indispensáveis para construir a sociedade do
conhecimento no Brasil?

Em primeiro lugar, é preciso saldar a dívida social. Só com distribuição de renda nós vamos
construir essa sociedade do conhecimento. Só com emprego, emprego permanente, garante-se uma
melhor distribuição do produto social. Para tanto, torna-se inadiável estimular o desenvolvimento
econômico, fomentar as exportações, atrair capitais, robustecendo o setor produtivo.

Enquanto nós não tivermos isso, vamos prosseguir contemplando a exclusão - exclusão da internet,
exclusão da televisão por cabo, exclusão do livro, exclusão da comida, exclusão da moradia.

Vinculada à dívida social está a dívida educacional. Trata-se da escolarização básica de boa
qualidade para todas as crianças e adolescentes.

Em relação a esse aspecto, o Brasil fez um avanço descomunal no século XX. Temos que
reconhecer isso. Até a primeira metade do século passado, nós tínhamos uma rede educacional que
excluía a maioria da população infantil. Essa rede foi ampliada. Poder-se-ia até dizer que, do ponto
de vista físico, não falta vaga na escola para os brasileiros. O problema é a distribuição desigual;
nós temos lugares em que há prédios ociosos, enquanto existem locais carentes de edificações
escolares. Mas devemos reconhecer: tem havido, por parte do Estado brasileiro, seja do atual Estado
democrático, mas também do Estado antidemocrático (refiro-me ao período militar 1964-1985),
preocupação sistêmica no sentido de incrementar a oferta das oportunidades educacionais.

Há, sem dúvida nenhuma, esforço nacional para ampliar a escolarização. Contudo, é um processo
que não pode ser muito apressado. Não basta construir prédios e equipá-los. É fundamental treinar e
capacitar o corpo docente. Em partes do território brasileiro, nós temos improvisado professores
para o ensino fundamental e médio. Trata-se, agora, de consolidar e melhorar as iniciativas em
desenvolvimento.

Em terceiro lugar, está a redução do déficit das telecomunicações, ou seja, do acesso barato e eficaz
às tecnologias e serviços. A privatização

158

das empresas de telecomunicações foi um grande avanço para reduzirmos esse déficit. O Estado não
tinha capacidade de investimento. Com a privatização, temos não só maior acesso dos cidadãos às
linhas telefônicas, mas também linhas baratas, telecomunicações de melhor qualidade

Nessa linha de argumentação, é urgente reduzir o déficit cultural. Não adianta saldar a dívida social,
zerar a dívida educacional, ou seja, dar diploma para essa gente toda, e ao mesmo tempo baratear as
telecomunicações, se permanecer imutável o déficit cultural.

Trata-se de incentivar a produção bibliográfica e afins, barateando os produtos da indústria cultural.


Baratear o livro, o jornal a revista Tudo aquilo que se refere à cultura tem que ser barateado. Para
ter um consumo ampliado é preciso reduzir o custo unitário. O Estado tem que intervir fortemente,
não produzindo, e sim mediando, criando mecanismos de incentivo à produção de boa qualidade.

Enquanto não tivermos acesso universal aos bens culturais, não vamos resolver o problema da
exclusão digital. Quem não tem acesso ao livro, ao jornal, à revista, ao cinema, à ficção de boa
qualidade, não vai ter interesse de usar a internet para o deleite cultural, o crescimento intelectual.

Missão da universidade

Mas há também questões que são da nossa própria alçada, desafios a serem enfrentados pela
universidade.

Temos que reciclar e renovar o estoque de recursos humanos do setor informacional, capacitar
profissionais, tanto de nível superior quanto de nível médio, em sintonia com as demandas do
mercado de trabalho. Este é o calcanhar de Aquiles das escolas de comunicação. Elas continuam, no
Brasil e na América Latina, formando candidatos potenciais ao desemprego, jovens incompetentes,
do ponto de vista profissional, para produzir conteúdos.

Estamos diplomando profissionais críticos, às vezes críticos radies, e é bom que o sejam, mas se
eles não tiverem capacidade de produÇao de conteúdos, vão continuar distanciados do mercado.

Finalmente, devemos produzir conhecimento socialmente relevante

159
Esta é uma questão mais ligada à pesquisa. Eu entendo que a pesquisa em comunicação melhorou
quantitativamente nos últimos anos, no Brasil, mas ela é uma pesquisa que não tem contribuído para
avançarmos em quase nada. O mercado não nos reconhece, e na própria academia não existe
consenso. É fundamental que façamos opção pela pesquisa aplicada.

Comunicação, como engenharia, medicina, é um setor do conhecimento aplicado. Ou tem utilidade,


ou não serve para nada. Quer dizer, nós devemos trabalhar com o conhecimento básico produzido
pelas disciplinas conexas como a história, a sociologia, a economia. Mas o nosso campo, das
ciências da comunicação, é de conhecimento aplicado. Ou a gente tem capacidade de gerar novos
produtos, novos formatos, ou vai continuar imutável ou até mesmo regredindo.

Tudo isso deve ser pensado não apenas em termos nacionais, mas regionais. O Brasil é um país
marcado pelo seu caráter de arquipélago cultural. O Brasil não é uma coisa só, são vários Brasis.
Torna-se indispensável produzir para o Brasil maior, aquele que já está interconectado. Mas também
para os Brasis menores, aqueles incrustados nas realidades regionais e locais, que pemianecem à
margem, na periferia rural ou nos aglomerados suburbanos.

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161
Gueto acadêmico
157

Os programas universitários de formação de comunicadores sociais desenvolveram-se na América


Latina paralelamente ao processo de industrialização158. As transformações começaram a ocorrer
no período entre guerras, quando a escassez de produtos importados obriga os Estados nacionais a
fomentar a produção de bens para o mercado interno, criando fábricas e gerando novos empregos.

O incremento do consumo pressupõe o abastecimento de informações pelas empresas geradoras de


produtos jornalísticos, diversionais ou persuasivos. Não havia estoque suficiente de recursos
humanos capazes de processar esse tipo de bem simbólico. Para atender à nova demanda de
profissionais de comunicação surgem as escolas respectivas dentro das universidades latino-
americanas.

Panorama latino-americano

As primeiras experiências educacionais despontam na Argentina e no Brasil. Já na década de 30


criam-se ali programas de capacitação de jornalistas. A Argentina inspira-se no modelo
profissionalizante norte-americano. O Brasil recorre ao padrão academieizante europeu. Mas tanto
no Brasil quanto na Argentina ocorrem processos de nacionalização das pioneiras escolas de
jornalismo. Elas vão sendo sufocadas, pouco a pouco, pelas engrenagens burocráticos das
respectivas universidades.

Seus egressos encontram dificuldades para obter empregos. Os empresários do ramo os


consideravam incapazes de realizar as tarefas básicas da profissão. Eles recebiam treinamento
frágil, pela ausência de laboratórios nas universidades. Mas em compensação estocavam
conhecimentos humanísticos que os habilitavam a desempenhar a contento as rotinas informativas,
depois de reciclados nas empresas.

Tais experiências são reproduzidas em Cuba, México, Equador, Venezuela e Colômbia, na década
seguinte. São cursos projetados coro

162

vocação profissionalizante, mas que se afastam desses objetivos, contaminados pelo ambiente
livresco e discursivo das nossas universidades. Raramente desenvolvem atividades experimentais,
convertendo-se em núcleos de formação de comunicadores distanciados da realidade.

As únicas exceções nesse panorama ocorrem no Brasil e na Venezuela, nos anos 50. Em São Paulo,
a Escola de Jornalismo Cásper Libero foi criada por iniciativa de uma poderosa empresa
jornalística, que facultava o acesso dos primeiros estudantes à sua infra-estrutura produtiva159. Em
Caracas, o funcionamento da Escola de Jornalismo da Universidade Central foi respaldada pela
organização sindical dos jornalistas - antiga AVP, hoje Colégio de Periodistas - e por isso sua
estrutura inicial demonstra vitalidade profissionalizante e perspicácia investigativa160. As duas
experiências foram atrofiadas, no correr do tempo, assumindo fisionomia reducionista, estritamente
acadêmica.

Quando, no final da década de 50, a UNESCO161 promove um diagnóstico sobre o estado da


comunicação no continente, os resultados atestavam o fracasso das nossas universidades, indicando
o seu descompasso em relação às estratégias desenvolvimentistas, que requeriam veículos e
profissionais capacitados para promover progresso e bemestar social. Por isso, criou-se o CIESPAL
- Centro Internacional de Estudos Superiores de Periodismo para América Latina -, com a função de
reciclar os professores das escolas de jornalismo e treinar novos docentes l62.

E sem dúvida o CIESPAL cumpriu um papel modernizador e multiplicador, disseminando novos


conceitos e instrumentos de ação. Dentre eles, destaca-se a pesquisa científica como instrumento
indispensável ao planejamento de novas estratégias comunicacionais163.

Este é o momento caracterizado pela difusão das teses desenvolvimentistas, disseminadas pela
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina - órgão da ONU que estimula a
industrialização autárquica como via para a substituição de importações. Todavia, correntes de
pensamento contrárias a essa tendência encontravam eco nos Países latino-americanos164. A vitória
da Revolução Cubana fortalece a ese de que o desenvolvimento pode ser alcançado pela estatização
dos meios de produção165.

163
Tais idéias provocam conflitos, acarretando ações de natureza preventiva, que conduziram à
intervenção dos militares nas estruturas nacionais de poder. Os golpes de Estado sucedem-se nos
Andes, América Central e Cone Sul, interrompendo as nossas frágeis experiências democráti” cas.
Como conseqüência, vão se fortalecendo os movimentos de resistência ao autoritarismo, que
encontram eco profundo nas universidades166.

Nessa conjuntura, o CIESPAL comete o equívoco de transformar as pioneiras escolas de jornalismo


em faculdades de ciências da informação, sem avaliar a conjuntura internacional e sem observar a
natureza dos modelos vigentes nas sociedades capitalistas avançadas. Propõe um modelo curricular
polivalente167 que conflitava com as tendências industriais de especialização profissional. Essa
proposta pedagógica pretendia ainda unificar as experiências pedagógicas, praticamente eliminando
as diferenças culturais ou econômicas entre os países da região.

O resultado foi danoso, criando guetos ”comunicológicos”168 dentro das universidades que,
permeáveis aos sentimentos anti-autoritários, se converteram em espaços de cultivo do
alternativismo169. Em contrapartida, refugaram quaisquer opções modernizantes170, de natureza
industrial. Essa tendência persistiu até o final dos anos 80, transformando as escolas de
comunicação em fábricas de desempregados171.

Se não foi uniforme em todo o continente, tal onda incrustou-se de forma profunda em muitas
universidades172, distanciando as escolas de comunicação do mercado de trabalho e das demandas
da sociedade. Naturalmente, existiram exceções, mesmo assim estigmatizadas pelas lideranças
acadêmicas da área, inibindo-as no seu desenvolvimento.

Quando a América Latina coloca um ponto final nos regimes autoritários e se reconverte à
democracia, esperava-se uma contribuição decisiva das universidades, especialmente das escolas de
comunicação para sedimentar políticas democráticas de comunicação. Era a oportunidade para que
os modelos ”alternativos” fossem colocados em prática, tendo em vista a conjuntura internacional
favorável173.

No entanto, verificou-se um fracasso da comunidade acadêmica da área. Ela havia apostado nas
soluções estatizantes (refugadas pela opinião pública) ou tinha criado micro-modelos de
comunicação

164

participativa que não se coadunavam com as exigências modernas de sistemas informativos


industriais e altamente informatizados174.

É compreensível que muitos desses comunicólogos se tenham convertido em profetas do caos e


estejam refugiados hoje nos cursos de pós-graduação, buscando influenciar (sem muito êxito) as
novas gerações, querendo conquistar adesão para teses ultrapassadas175. É por isso também que as
tentativas de criação de mestrados profissionalizantes encontram resistência nas universidades de
vários países. As lideranças que se frustraram historicamente tentam usar o poder acadêmico que
possuem para impedir mudanças, especialmente aquelas que representam formas de interação com
o mercado e as profissões176.

Singularidades brasileiras

No Brasil, o ensino e a pesquisa em comunicação possuem muitas identidades com o panorama


latino-americano. No entanto, ocorreram também divergências que tornaram singulares as nossas
experiências.

A raiz da questão está no refluxo brasileiro à onda homogeneizadora encetada pelo CIESPAL nos
anos 70177. O governo militar aderiu inicialmente ao currículo destinado a preparar comunicadores
polivalentes, mas não resistiu à pressão vinda das corporações profissionais. Prontamente
restabeleceu o sistema de formação de comunicadores especializados: jornalistas, publicitários,
relações públicas, radialistas, videoastas, cineastas e editores (publishers).

Não obstante mantenha um ”tronco comum” (formação humanística ou fenomenológica), o


currículo estabelecido em 1984178 reconhece a autonomia das profissões, exigindo estudos
específicos, ao longo da carreira, para o seu aprendizado179.

No entanto, o aspecto diferenciador da educação brasileira de comunicadores sociais está no


requisito de laboratórios e equipamentos técnicos para o treinamento dos futuros profissionais180.
Um curso de jornalismo, por exemplo, deve contar com infra-estrutura didática que mclui:
hemeroteca, estúdios de fotografia, diagramação, radiodifusão, televisão, telemática, etc.

Além disso, as universidades que mantém tais cursos são obriga-

165
das a editar jornais e outras publicações experimentais181, destinadas à simulação de situações
compatíveis com as características do mercado de trabalho.

Finalmente, exige-se de cada estudante, no último semestre do curso, a elaboração de um projeto


experimental182, que representa um passaporte para o seu ingresso na profissão.

Essa exigência procura compensar uma excrescência da legislação brasileira, que é a proibição de
estágio nas empresas jornalísticas. Trata-se contudo de uma prescrição legal que permanece ”letra
morta’, pois geralmente os estudantes burlam a vigilância dos sindicatos ou do governo e ingressam
precocemente nas empresas de menor porte.

Aliás, a interação com o mercado de trabalho constitui o calcanhar de Aquiles das escolas de
comunicação no Brasil. Não obstante considerada desejável e inadiável, a aproximação vem
caminhando lentamente. Nas cidades menores ela é mais fácil e rápida. Mas nos grandes centros
metropolitanos, as dificuldades persistem. Apesar disso, já começam o ocorrer parcerias
satisfatórias, principalmente no caso daquelas escolas que assumem nitidamente um perfil
profissionalizante. As empresas facilitam o acesso de alunos e professores às inovações que
introduzem em suas rotinas de trabalho e ao mesmo tempo valem-se da competência dos
pesquisadores universitários para avaliar criticamente os produtos lançados no mercado.

O fator considerado decisivo para o incremento dessas relações está no ”desarme ideológico”. A
partir da sua experiência concomitante como docente da principal escola de comunicação do país e
editor do principal jornal diário brasileiro, Carlos Eduardo Lins da Silva traça um quadro realista da
questão.

”É preciso (...) lançar pontes para que haja um melhor contato entre empresas e escolas. Para que
isso ocorra, é preciso fazer algumas coisas. Primeiro, o desarme ideológico é fundamental.
Enquanto a universidade estiver armada ideologicamente contra as empresas, isso não vai acontecer.
(...) A segunda pré-condição essencial é uma atitude mais moderna dos empresários em relação ao
assunto, porque a maioria absoluta dos empresários acha que gastar qualquer dinheiro com o ensino
e

166

jogar dinheiro fora. Ou seja, o capitalismo que se pratica ainda na maior parte das empresas de
comunicação no país é absolutamente selvagem
- o lucro pelo lucro...”183

Hoje, existem no país mais de duas centenas de programas universitários no campo da


comunicação. São institutos, faculdades, escolas e departamentos que priorizam a formação de
comunicadores ao nível de graduação. A demanda estudantil para esses cursos é a maior em todo o
sistema universitário brasileiro. Na Universidade de São Paulo, por exemplo, cada vaga para o
curso de Publicidade é disputado por, pelo menos, 70 candidatos. No caso de Jornalismo, a relação
é de 50 candidatos-vaga.

O aluno ingressa no curso de comunicação social, mas geralmente faz a escolha da habilitação
profissional, logo no vestibular. São poucas as instituições que adiam essa escolha para o segundo
ou terceiro anos. Isso indica a importância do estímulo à profissionalização, no ensino de
graduação, ainda que muitos formandos não estejam plenamente habilitados ao exercício das
atividades ocupacionais para as quais estudaram. Na tentativa de criar um filtro de qualidade, o
Ministério da Educação acaba de criar um exame de final de curso, com a intenção de avaliar se a
aprendizagem foi satisfatória. Ainda que o resultado desse exame não impeça legalmente os
formandos do ingresso ao mercado de trabalho, sem dúvida o desempenho negativo dos
pretendentes a empregos será fator decisivo para a decisão de uma empresa, na hora da contratação.

A inovação introduzida pelo governo brasileiro, seguindo aliás experiências vigentes em outros
países, indica a saturação do mercado de trabalho nacionaL em relação ao número de diplomados
pelas universidades. No caso de Jornalismo, a situação é preocupante, estimando os sindicatos da
categoria que as novas gerações de formandos na verdade estinam-se a engrossar as legiões de
desempregados.
ERFIL DOS NOVOS JORNALISTAS

Desde o final dos anos 60, a profissão de Jornalista tornou-se vativa dos portadores de diploma de
nível universitário, obtido em cur-

167
sos específicos, credenciados e reconhecidos pelo governo federal. Os jornalistas que já estavam no
exercício da profissão, há mais de cinco anos, tiveram os seus direitos garantidos. Até o final da
década de 70, ocorreram contratações excepcionais de jornalistas sem formação universitária ou
advindos de outras áreas do conhecimento, justamente naquelas regiões onde não havia cursos de
jornalismo.

A reserva de mercado constituiu fator de crescimento da rede universitária. Nas regiões onde
inexistiam cursos de jornalismo, eles foram sendo criados paulatinamente, por pressões de natureza
corporativa. Hoje, com raras exceções de territórios localizados na Amazônia, todas as unidades da
federação possuem cursos de jornalismo. A maior concentração está no sul e sudeste, onde também
existe maior incremento demográfico, ademais da presença de empresas jornalísticas de grande
porte.

Todavia, a qualidade dos jornalistas diplomados é desejável. Há instituições que primam pela
excelência do ensino, formando profissionais capacitados para ingressar imediatamente no mercado
de trabalho. No entanto, a maioria lança à sociedade recursos humanos absolutamente
despreparados para o exercício profissional.

Considerando, a média dos profissionais jovens, podemos traçar o seguinte perfil ocupacional: eles
possuem conhecimentos básicos da atividade jornalística, mas não desenvolveram habilidades para
manejar as novas tecnologias e tampouco armazenaram conhecimentos humanísticos que os
capacitem a compreender de forma integral os fatos que geram notícias. Contam com potencial para
ingressar no mercado de trabalho, faltando-lhes porém competência profissional. Em face disso, as
principais empresas jornalísticas montaram programas de reciclagem, destinados a superar as
deficiências dos candidatos a repórter ou redatores. São atividades de curta duração, consistindo
basicamente na absorção dos princípios que embasam as rotinas produtivas da empresa.184

Mas nem todos os formandos conseguem um lugar ao sol nesses programas de reciclagem
empresarial. As chances ficam reduzidas aos mais competitivos, capazes de demonstrar talento.
Além disso, tais cursinlios não logram sanar as deficiências básicas da formação dos novos
jornalistas. Eles funcionam como mecanismos de atualização profissio-

168

nal, permitindo que os ingressantes à profissão reduzam a defasagem entre o ritmo pouco veloz da
universidade e a rapidez peculiar aos processos de produção em escala industrial. Permanece
insolúvel a deficiência fundamental da nova geração de jornalistas brasileiros: o embasamento
humanístico e científico que habilita o profissional a entender a sociedade e a registrar na mídia os
seus movimentos quotidianos. Enfim, o lastro cognitivo que sustenta o desempenho analítico e
crítico do redator, repórter ou editor.

Projetos inovadores

Algumas universidades buscam superar tal impasse, fugindo à camisa de força comunicológica que
se tornou hegemônica em todo o país. Ela decorre da matriz que alimenta a formação dos novos
docentes - a pós-graduação acadêmica. Trata-se de programas geralmente dirigidos e controlados
por doutores procedentes de outras áreas do conhecimento (principalmente sociologia e beletrísmo),
que tomam a comunicação como ”pretexto” para as suas pesquisas universitárias, desconhecendo o
”contexto” em que as mídias atuam e influenciam a sociedade.

Logo, a geração emergente de professores de comunicação, portadores de títulos de Mestre e


Doutor, possui, com raras exceções, um viés comunicológico que atrofia a compreensão dos
fenômenos de natureza profissional. Alguns demonstram capacidade para superar esse desvio de
formação, mas a maioria fica prisioneira dos esquemas mentais herdados dos seus mestres.

São poucas as universidades que tentaram concretamente furar o bloqueio. Apesar das críticas
constantes que sofrem das empresas, as universidades se escudam equivocadamente no estatuto da
”autonomia”, deixando de reconhecer a defasagem entre ensino/pesquisa e demandas da sociedade.
O pano de fundo da questão está na crise conjuntural da universidade brasileira, refém do
corporativismo interno e surda aos anseios comunitários.

Mas há experiências que contabilizam resultados positivos e que podem funcionar, a médio prazo,
como modelos capazes de ser reproduzidos em outras instituições.

169
Perspectivas

Há muitos anos, a América Latina vem desenvolvendo esforços para capacitar jornalistas na
universidade. A melhoria dos produtos informativos em circulação na região sem dúvida foi
respaldada por tais esforços das instituições acadêmicas. Entretanto, as universidades não tem sido
ágeis para acertar o passo com a sociedade. A velocidade das engrenagens midiáticas contrasta com
a lentidão da vida acadêmica, produzindo tensões e conflitos.

Além disso, a criação de escolas e faculdades de comunicação, a partir dos anos 60, ampliou o
universo temático, correspondendo a outras atividades culturais emergentes nos setores da
persuasão, lazer e educação à distância. Mas a tentativa de converter a Comunicação Social em
campo homogêneo, através de currículos unificados, acabou por distanciar-se das tendências
vigentes no mercado, que trilhava pelo caminho da especialização profissional.

O Jornalismo sofreu o impacto desse processo reducionista, de certo modo atrofiando-se, deixando
de corresponder às demandas sociais e de acertar o passo com a modernidade. Em muitas
universidades latino-americanas, desapareceu a preocupação com a formação profissional,
privilegiado que foi o universo puramente investigativo, em muitos casos recusando o empirismo.

De certo modo o Brasil procurou refluir à tendência predominante na maioria dos países hispano-
americanos. Continuou a priorizar a formação profissional dos comunicadores, em nível de
graduação, reservando o espaço da pós-graduação para atividades comunicacionais mais
abrangentes.

Entretanto, a eliminação dos programas de formação específica entre eles o de Jornalismo -,


reduzidos a meras habilitações do curso de comunicação social, acabou por comprometer a
identidade dos campos profissionais. Nas duas últimas décadas, temos desenvolvido atividades
universitárias de bom nível, convivendo, porém, com críticas constantes que procedem tanto das
empresas, quanto das corporações profissionais.

Algumas universidades ousaram furar esse bloqueio, experimentando soluções alternativas. Elas
estão sendo orientadas por duas diretrizes:

170

a) re-demarcar o espaço e a identidade do Jornalismo, dentro do universo comunicacional, como


atividade de ensino ao nível de graduação;

b) construir uma nova identidade universitária para o Jornalismo, enquanto ação pós-graduada,
partindo do pressuposto de que o exercício profissional contemporâneo exige uma base cultural
sólida em áreas específicas do conhecimento.

São experiências em processo, suscitando o interesse de toda a comunidade acadêmica e das


corporações profissionais, que podem servir como ponto de referência para inovações a serem
testadas em outros países.

171
Descompasso histórico185

A Universidade e o Jornalismo iniciaram uma convivência nem sempre harmoniosa desde quando
Tobias Peucer (Leipzig, Alemanha,
1690) defendeu sua tese de doutorado sobre o jornal diário. As tensões naturais decorreram do
descompasso entre a lentidão da vida universitária (cujo rigor cognitivo pressupõe maturidade
analítica) e o ritmo veloz da atividade noticiosa (cujo desafio permanente é o de converter-se em
espelho da vida cotidiana).

Tanto assim que as primeiras incursões acadêmicas no âmbito do Jornalismo limitaram-se a projetos
de pesquisa e a programas de educação avançada de cidadãos motivados para interagir criticamente
com a impressa de massas.

Mas a notícia deixa de ser, em meados do século XIX, um artefato exclusivo para a tomada de
decisões das elites. Convertendo-se em mercadoria, passa a ser consumida avidamente pelas classes
trabalhadoras, ora com propósitos meramente escapistas, ora com intenções politicamente
construtivas. As emergentes fábricas de notícias demandavam recursos humanos capacitados para
registrar os fatos, transformando-os em produtos de difusão coletiva.

Por isso mesmo, ao criar, em 1908, na Universidade de Missouri (Estados Unidos), a primeira
escola destinada à formação de jornalistas profissionais, a preocupação basilar de seu fundador,
Walter Williams, foi a de estabelecer mecanismos capazes de neutralizar a defasagem entre a vida
universitária e o mundo jornalístico. Nesse sentido, ele implanta um jornal laboratório - The Daily
Missourian -, com estrutura similar à de uma empresa. Ela pretendeu a um só tempo abastecer a
comunidade local de notícias e buscar auto-sustentação financeira através da venda de publicidade.
O modelo de formação de jornalistas, ai testado e validado, em nível de graduação, ancorou-se na
linha do pragmatismo pedagógico (aprender fazendo). Mas foi evidentemente

172
complementado pela transmissão de conteúdos culturais, que os alunos assimilavam optativamente,
em aulas ministradas nos departamentos de filosofia, ciências e artes existentes no campus
universitário.

Paralelamente a essa experiência de treinamento de repórteres/ redatores de informação geral,


implantou-se na Universidade de Columbia (New York) um outro modelo, patrocinado pelo
empresário Joseph Pulitzer. Com a intenção de formar jornalistas especializados, a escola capacita
pessoas já graduadas em outros campos do conhecimento, conferindo-lhes o título de Mestre em
Jornalismo.

Durante todo o século XX, as universidades norte-americanas aperfeiçoaram esse duplo modelo de
formação de jornalistas. O passaporte para a profissão pode ser o diploma de Bacharel em
Jornalismo (geralmente cobiçado pelos jovens repórteres) e o grau de Mestre em Jornalismo
(demandado pelos candidatos a postos de redatores nas editorias especializadas). Além disso, foram
estimulados programas permanentes de pesquisa sobre os fenômenos jornalísticos, tanto financiados
pelas empresas (desejosas de equacionar problemas editoriais ou mercadológicos) quanto
subsidiados pelas fundações culturais (geralmente preocupadas com as distorções da mídia e seus
impactos negativos sobre a sociedade).

A integração da universidade com as empresas jornalísticas, tanto nos Estados Unidos quanto em
países industrializados como Austrália, Canadá, Japão, Inglaterra, tem se mantido de forma
dinâmica, através de programas de estágios de estudantes e reciclagem de professores na indústria
midiática. Por sua vez, as universidades abrem suas portas para receber profissionais e empresários,
em busca de atualização de conhecimentos.

Mas essas relações nem sempre são harmômicas. As universidades tem buscado preservar sua
autonomia, funcionando também como vigilantes da indústria cultural (media watching),
observando criticamente seu comportamento sócio-político e municiando as lideranças da cidadania
para coibir os eventuais abusos. Da mesma forma, as empresas e as associações profissionais atuam
como fiadoras da boa qualidae do ensino e da pesquisa jornalística, participando dos conselhos de

173
credenciamento e avaliação dos cursos, oferecendo subídios para os rankings de qualidade
acadêmica. Mas não se esquivam de criticar publicamente as universidades que incorrem em
desvios ou preservam estruturas anacrônicas. Muitas vezes elas exercem seu poder de pressão,
cortando subsídios ou reduzindo os incentivos.

Trata-se de uma permanente tensão dialética, que tem sido útil para neutralizar o gap entre as
demandas do sistema produtivo e as prioridades universitárias, sem esquecer os interesses da
cidadania.

Impasses brasileiros

A tradição brasileira de formação de jornalistas começa agora a conquistar solidez. Desde o século
passado conhecemos iniciativas destinadas a capacitar jovens bacharéis para o exercício de
atividades noticiosas. As primeiras incursões foram feitas pelas faculdades de direito, no Rio de
Janeiro, criando disciplinas curriculares voltadas para o conhecimento da retórica verbal e da
argumentação jornalística. Depois, as instituições católicas, preocupadas com os desvios éticos
cometidos pelos jornais, organizaram cursos intensivos ou colóquios filosóficos. Sua finalidade era
disseminar a mística da ”boa imprensa”, comprometendo os jornalistas com a difusão da ”verdade”.

Mas a verdadeira formação dos jovens jornalistas brasileiros davase no interior das redações,
através da ”pedagogia do batente”. Profissionais gabaritados instruíam os ”focas” a realizar as
tarefas rotineiras de captação de notícias, redação de textos, diagramação de jornais etc. A
experiência, contudo, mostrava-se insatisfatória. Tanto assim que uma das metas perseguidas pelos
profissionais e empresários reunidos no I Congresso Brasileiro de Jornalismo (Rio de Janeiro, 1918)
foi a criação de uma escola de jornalismo, à semelhança do que existia na Europa e na América do
Norte.

A essa causa dedicou-se incessantemente a ABI - Associação Brasileira de Imprensa. Sua estratégia
foi a de acionar o aparato burocrático do Estado, dele esperando a solução. Como a máquina estatal
é lenta, foram necessárias três décadas para que a medida fosse transformada em lei. Em 1939, o
ditador Vargas baixou decreto instituindo o

ensino de jornalismo no quadro da nossa educação superior.

Mas só em 1947, por iniciativa de uma empresa privada de São Paulo - o grupo jornalístico Cásper
Libero - a idéia seria materializada, em convênio com a Pontifícia Universidade Católica. No ano
seguinte, a universidade pública, ou seja, a Universidade do Brasil, hoje UFRJ, acertaria o passo
com a história, legitimando o campo midiático.

A assimilação do Jornalismo pela universidade brasileira seria, contudo, problemática. Primeiro,


porque os cursos ficaram subordinados aos institutos destinados à formação de professores de
língua e literatura. Notabilizando-se pela ênfase humanística, eram carentes de atividades
profissionais, na teoria e na prática. Segundo, porque a profissão reagiu negativamente, em certo
sentido refugando os jornalistas diplomados. Estes buscaram opções de trabalho no serviço público,
nutrindo a cultura das assessorias de imprensa, posteriormente também absorvida pelas empresas
privadas e ONGs.

Somente nos anos 60 reduziu-se o gap universidade-empresa, justamente quando a nossa indústria
jornalística dinamiza-se e modernizase. Impactada pelo expansionismo da mídia eletrônica, ela
recruta estagiários provenientes das universidades. Este é um período em que a profissão de
jornalista adquire um novo perfil. Deixa de ser ”bico”, convertendo-se em emprego de tempo
integral, sobretudo nas empresas do eixo Rio-São Paulo.

Mas é também o momento em que a liberdade de imprensa enfrenta obstáculos poderosos. O regime
político pós-1964 constrange as universidades, transformando-as em bastiões de resistência. Os
cursos de jornalismo tornam-se focos de contestação, disseminando informações/opiniões contrárias
ao governo. Por isso, os donos do poder não hesitam em cortar o mal pela raiz, tentando até mesmo
a extinção de tais cursos. O palco dessa batalha foi o antigo CFE - Conselho Federal de Educação.

Se não logram êxito imediato, os adversários dos jornalistas formados pelas universidades
conseguem resultados indiretos. Minaram na base a auto-estima corporativa dos jovens estudantes,
através de uma manobra pouco sutil. Suprimiram a autonomia dos cursos de jornalismo,
transformando-os em apêndices do megacurso de Comunicação Social.

174

175
Como habilitação profissional de uma carreira desenhada academicamente, o Jornalismo perdeu
sua identidade. Confundiu-se e entrou em conflito com as fronteiriças profissões midiáticas. Não
demorou muito a reação das empresas, desqualificando e/ou recusando os jornalistas egressos das
universidades. Estas evitam o caminho do diálogo, adotando a ”estratégia do avestruz” ao
converter-se em guetos.

Na raiz da questão está a ”lei do diploma”, que, desde 1969, tem mantido a reserva do mercado de
trabalho jornalístico para os egressos das universidades. Embora propiciem razoável base cultural e
em alguns casos estimulem a prática jornalística nos laboratórios didáticos, falta aos cursos de
comunicação vontade política para negociar programas de cooperação com as empresas. A
proibição do estágio tem sido fator de estímulo à formação de jornalistas despreparados para
enfrentar o primeiro emprego. A situação agrava-se com a velocidade com que as novas tecnologias
de comunicação são absorvidas pelo mercado. Impotente, isolada e pauperizada, a universidade não
tem tido condições para acompanhar as inovações vigentes no mundo do trabalho. Há evidentes
exceções à regra, mas o panorama nacional é desalentador.

Enquanto aguardava as ”reformas” do Estado, inclusive a flexibilização da ”reserva de mercado”


(combatida pelos sindicatos), as empresas buscaram soluções paliativas. Criaram cursos de
reciclagem para os recém-formados na tentativa de superar as deficiências oriundas dos bancos
universitários. Mas os resultados mostram-se insatisfatórios. Enquanto isso, o jornalismo brasileiro
padece de uma crônica endemia. Profissionais mal treinados produzem informações deficientes,
frustando as expectativas dos consumidores midiáticos. Quem sofre as conseqüências é a
população, ávida de conhecimento, mas insatisfeita frente às opções informativas disponíveis no
mercado.

Saídas possíveis

A ultrapassem da crise depende fundamentalmente da capacidade das lideranças acadêmicas,


empresariais e sindicais para negociar soluções de interesse público. Trata-se de romper o
imobilismo que nos enfraquece, priorizando os sonhos do contingente de pelo menos 10.000 jovens
que, anualmente, disputam vagas nos vestibulares de mais de uma

176

centena de cursos de jornalismo existentes nas universidades brasileiras. No terreno universitário, as


perspectivas são favoráveis. A vigência da nova LDB - Lei de Diretrizes e Bases - enseja reformas
pedagógicas que apontam na direção da autonomia universitária e da liberdade curricular. E hora de
reconquistarmos a identidade dos cursos de jornalismo, superando a condição subalterna de
”habilitação” profissional no âmbito comunicológico.

Trata-se de reforçar o perfil profissionalizante do currículo da graduação, mantendo a convivência


com as outras profissões midiáticas, mas reconhecendo com nitidez as fronteiras que nos
aproximam, mas muitas vezes nos separam. A meta deve ser o resgate da interdisciplinaridade com
as outras áreas do saber (filosofia, artes, ciências), superando a dependência cognitiva que hoje nos
atrela ao pensamento comunicacional não-empírico.

Isso significa interagir dinamicamente com a pós-graduação, abrindo espaços para o


desenvolvimento de programas no âmbito do jornalismo especializado. De um lado, é necessário
atender às demandas dos profissionais de outras áreas, dotados de vocação jornalística, que
pretendem aprender a produzir notícias ou comentá-las adequadamente. De outro lado, é
imprescindível corresponder aos anseios dos jornalistas diplomados que anseiam aprofundar-se
numa área de conhecimento específico para melhor atuar em determinada editoria.

Ao mesmo tempo é urgente restaurar o estágio nas empresas. Sem testar os conhecimentos
adquiridos na universidade nenhum profissional se habilita ao ingresso no mercado de trabalho. Na
prática, a proibição do estágio para estudantes de jornalismo tornou-se ”lei para inglês ver”. Os
mais bem relacionados valem-se do ”jeitinho brasileiro”. Mas há parcelas de jovens que não tem
acesso às empresas, diplomando-se sem experiência e em função disso são recusados no primeiro
emprego. Trata-se de um círculo vicioso. Ao invés de continuar adotando a tática de ”empurrar com
a barriga”, cabe aos sindicatos estaduais e à federação nacional dos jornalistas encontrar uma saída
para o impasse, negociando-a com as organizações patronais e a universidade.

O mercado de trabalho para os jornalistas adquire cada dia maior

177
complexidade. A globalização exige novas habilidades - profissionais, culturais, tecnológicas - que
as atuais gerações não possuem. A virtualização ensejada pela telemática configura novos
segmentos ocupacionais que não estão sendo preenchidos pelos jornalistas em exercício porque
falta-lhes competência tecnológica.

As universidades não estão preparadas para enfrentar o problema isoladamente. Faltam-lhes


recursos financeiros e humanos capazes de encontrar soluções imediatas. A parceria com as
empresas midiáticas é a única saída para superar o impasse. Elas possuem competência gerencial e
tecnológica, que pode ser transferida às universidades, aí potencializando-se para gerar produtos de
vanguarda. No entanto, a mútua desconfiança que historicamente vem separando os dois segmentos
sociais permanece como obstáculo intransponível. A mediação dos sindicatos profissionais pode ser
uma alternativa razoável.

Contudo, o maior desafio é a preparação dos jovens jornalistas para compreender o jornalismo
como um negócio (sem perder o caráter de serviço público), idéia nem sempre aceita pacificamente.
Nesse sentido, não basta ter informações gerenciais sobre o campo, sendo indispensável formação
científica especializada, acumulando evidências sobre o conhecimento midiático disponível nas
universidades e no sistema produtivo. São temáticas que suscitam ações ao nível da pesquisa e da
pós-graduação stricto sensu, resgatando a tradição da zeitungwisenchafí, ideal perseguido por tantos
estudiosos do jornalismo como disciplina científica, desde Peucer e Fischer (século XVII) a
D’Esther, Groth, Kayser, Clausse, De Gregório, Nixon, Suarée, Jobim ou Beltrão (século XX).

Para tanto é imprescindível recorrer à cooperação internacional, superando o isolacionismo em que


as universidades brasileiras tem se mantido no âmbito midiológico. Apesar dos esforços realizados
por indivíduos ou por instituições, trata-se de uma postura coletiva a ser adotada pela comunidade
acadêmica do Jornalismo. Tudo se torna mais fácil com o uso da internet e outros canais de
comunicação à distância.

A internacionalização da vida acadêmica constituiu um desafio enfrentado historicamente pelas


nações que lograram acelerar seus pro-

178

cessos de desenvolvimento econômico, sem renunciar às respectivas identidades culturais. Em


outros campos do conhecimento o Brasil tem dado passos significativos. Trata-se, agora, de criar
essa consciência entre os docentes e pesquisadores do Jornalismo e da Comunicação de Massa... E
de transmiti-la como legado às novas gerações, inspirandolhes atitudes de auto-estima no tocante às
contribuições brasileiras para o campo da midiologia, tão significativas quanto aquelas produzidas
em países que se modernizaram precocemente.

179
Crise de identidade186

Há 311 anos, exatamente em 8 de março de 1690, na Universidade de Leipzig, Alemanha, era


defendida a primeira tese doutorai sobre Jornalismo. Seus protagonistas foram o estudante Tobias
Peucer e o Prof. Dr. L. Adam Rechenberg187.

O trabalho, publicado pela tipografia de Wittigau, foi escrito em latim (exigência generalizada nas
universidades européias da época), tendo como título ”De relationibus Novellis”. O tradutor
brasileiro Paulo da Rocha Dias, com base no texto latino original, bem como nas versões prévias
para o alemão e catalão, adaptou esse título para ”os relatos jornalísticos”, na nova versão em língua
portuguesa188.

Se ainda não constitui uma disciplina acadêmica plenamente legitimada, o Jornalismo encontra-se
em fase de consolidação, de fortalecimento em todo o mundo. A pesquisa dos fenômenos
jornalísticos adquire intensidade nesta conjuntura de transição milenar.

Evidência disso é o aparecimento de novos livros189 e revistas acadêmicas190 especificamente


dedicadas ao estudo de Jornalismo, em língua inglesa, no ano passado. Eles traduzem o interesse
conquistado pela pesquisa científica do Jornalismo, especialmente naquelas sociedades onde a
democracia se robustece, tanto no campo político (declínio dos regimes autoritários, no ocidente e
no oriente) quanto no setor econômico (privatização das empresas midiáticas).

A criação do Curso de Pós-Graduação em Jornalismo na Universidade Federal de Santa Catarina


constitui um sinal iluminador da revitalização dessa disciplina na universidade brasileira. Por isso
mesmo, quero fazer justiça ao Grupo de Florianópolis. Trata-se de uma equipe que vem lutando
para salvaguardar a especificidade do Jornalismo no âmbito dos estudos comunicacionais em nosso
país.

Essa ofensiva se impôs numa conjuntura em que o legado dos estudos jornalísticos parecia fadada
ao desaparecimento191. Ela representa um marco histórico na trajetória do Jornalismo dentro da
Universi-

180
dade brasileira. Depois de meio século de existência nos muros acadêmicos, o Jornalismo ressurge
com intensidade192.

Cenários

Ingressamos neste novo milênio sob o signo da perplexidade, do desencanto e do pessimismo.


Alguns proclamam genericamente o ”fim da História” (Fukuyama193), outros o ”choque das
civilizações” (Huntington194). Há também aqueles que, por tabela, vislumbram o fim do
Jornalismo ou a sua desagregação acelerada.

Trata-se de um tipo de atitude recorrente nas encruzilhadas históricas. Ela inevitavelmente se


instalou no âmago desta conjuntura que Hobsbawm195 prefere chamar a ”era dos extremos”.

No que tange, de modo específico, ao nosso campo de interesse, ou seja, ao Jornalismo, escolhi três
obras paradigmáticas para ilustrar seu perfil em diferentes geografias.
A mais contundente é a coletânea do jornalista espanhol Martinez Albertos - El Ocaso Del
Periodismo 196.

Na mesma linha de inventário crítico situa-se o livro do jornalista norte americano William A
Hachten - The Troubles of Journalism191, que em português coloquial poderíamos traduzir por As
encrencas do jornalismo.

Percorre trilha semelhante o jovem jornalista brasileiro Juremir Machado da Silva, autor do ensaio
denominado A miséria do Jornalismo Brasileiro - as incertezas da mídiam.

O terreno comum aos três autores corresponde ao pântano em que está imerso o jornalismo
contemporâneo. Transitando de um modelo erigido no século XIX, que se esgotou em meados do
século XX, ele protagoniza um novo padrão, ainda furtivo, neste liminar do século XXI.

Vamos examinar as teses e os vaticínios desses exegetas midiáticos.

a) Ocaso do Jornalismo

Martinez Albertos, catedrático insigne da Universidade Complutense de Madrid (Espanha), constrói


argumentação no determinismo tecnológico que avassala a produção jornalística contemporânea.

181
Sua tese principal é a seguinte:

”A galáxia Marconi está derrotando em todas as frentes a galáxia Gutemberg. E nesse enfrentamento com
derrota anunciada, os jornais impressos não constituem uma exceção.” (p-23).

Os corolários da equação construída pelo autor convergem para a dupla necrose da atividade jornalística.

Ele preconiza a morte do meio, ou seja, da imprensa:

”Não é necessário ser profeta para aventurar que a morte dos jornais impressos em papel não resistirá além do
ano 2020”. (p. 24). ”Estamos provavelmente na iminência de um sublime paradoxo na História do Jornalismo:
os jornais convergem progressivamente para se tornar guias especializados em navegar nas autopistas da
informação, de tal modo que não serão mais utilizados como suportes noticiosos, mas como instrumentos de
ajuste para saber movimentar-se no ciberespaço e nele localizar (...) os conteúdos informativos, de opinião ou
de diversão demandados pelo usuário.” (p. 30).

Mas também vaticina a morte da mensagem, ou seja, do jornalismo:

”Não apenas desaparecerão os diários, os jornais convencionais que conhecemos e amamos. Provavelmente
também desaparecerá com eles o jornalismo. E com o jornalismo pode desaparecer também a concepção
vigente sobre a liberdade de imprensa e o respeito sagrado pelo direito dos cidadãos a uma informação
tecnicamente correta...” (p. 31) ”Não há informação tecnicamente correta se os jornalistas e os meios
devotados à informação de atualidade não respeitam a norma básica que estabelece uma radical diferença
entre os gêneros jornalísticos, com a finalidade de garantir aos leitores que os fatos sejam apresentados como
dados indiscutíveis do mesmo modo que os comentários sejam formulações pessoais absolutamente livres.”
(p. 41).

Na esteira de tão mórbido panorama, ele antevê a morte do jornalista, ou seja, dos produtores de notícias:

”O jornalismo é uma técnica social em perigo de extinção (...). A tecnologia eletrônica põe em perigo a
sobrevivência do diário impresso e

182

conseqüentemente do próprio jornal. A mentalidade pós-moderna está solapando seriamente os fundamentos


ideológicos que fizeram possível tanto o nascimento como o desenvolvimento e avanço posterior dessa
modalidade de trabalho social que denominamos jornalismo. (...) o jornalismo configurou-se até mesmo como
uma verdadeira profissão nas sociedades modernas.” (p. 42). ”O jornalista vem atuando como um profissional
legitimado por uma espécie de delegação da sociedade para consecução de um direito coletivo da comunidade
política: o direito a receber uma informação tecnicamente correta.” (p. 45). ”Ironicamente poderíamos dizer
que o jornalista é um ser para a notícia” (p. 46). ”A comunicação jornalística é (...) uma das modalidades
relevantes da comunicação de massas: o jornalismo é, fundamentalmente, comunicação para públicos
massivos...” (p. 52). ”Os cibernautas, os provedores de informação não são jornalistas: trabalham com
mentalidade radicalmente distinta. E seus paradigmas para a coleta e a seleção dos dados não obedecem à lei
do interesse geral do público massivo. Seus instrumentos de trabalho são a especialização temática dos
serviços e a acumulação praticamente indiscriminada de todos os dados disponíveis.” (p. 54/55).

Ao concluir a previsão o mestre espanhol explica que seu aparente pessimismo, da mesma forma
que o catastrofismo, correspondem a uma estratégia de natureza pedagógica.

”Pretendi fundamentalmente chamar a atenção à encruzilhada com que nos deparamos. O que nos espera, ao
dobrar a esquina da História, não deve ser necessariamente caótico ou penoso para os indivíduos. Creio na
capacidade inata do ser humano para enfrentar as inclemências históricas de cada conjuntura e para prosseguir
na caminhada em direção a melhoria coletiva dos povos. É provável que desapareça, como eu vejo, o modelo
de jornalismo que nós temos vivido, submergidos como estamos no ocaso da modernidade. Mas surgirão
outras instituições, outras técnicas, outros métodos destinados a substituir vantajosamente os valores
descritos.” (p. 57).

b) Encrencas do Jornalismo

O diagnóstico do mestre William Hachten tem as marcas explícitas do pragmatismo norte-


americano. O que significa dizer: aguça a consciência crítica da realidade, sem perder de
perspectiva os caminhos para superar problemas, crises, cataclismas. Isso fica evidente no título do

183
capítulo final do seu recente livro: Jornalismo em tempo de mudança.

Sua preocupação principal ancora-se nos desvios mercadológicos do jornalismo contemporâneo,


sobretudo a tendência de guiar-se predominantemente pelos impulsos do mercado consumidor.

Ao traçar um perfil do jornalismo norte-americano no final do século XX, Hachten utiliza a


metáfora da moeda com duas caras.

Cara edificante - ”O mesmo tempo de crises ou em momentos convencionais, a mídia jornalística


tem cumprido papel prodigioso ao relatar os fatos corretamente, com a rapidez necessária,
acrescentando sua necessária interpretação e explanação no sentido de informar e tranqüilizar o
público.” (p. 174).

Cara desalentadora - ”Lamentavelmente a mídia de qualidade desafina ao pautar e destacar fatos


triviais que alternam ou combinam variáveis como celebridade, sexo, crime ou escândalo para
competir com tablóides sensacionalistas.” (p. 174).

Desta maneira, ele separa o ”joio do trigo” no campo da produção jornalística dos EUA,
proclamando aos quatro ventos:

”Este livro preocupa-se fundamentalmente com a falência da mídia confiável e da informação


pública, numa conjuntura em que a engrenagem da cultura popularesca vem tragando o jornalismo
de qualidade, ao fabricar uma mescla de entretenimento, endeusamento, sensacionalismo, auto-
ajuda e promoção de vendas - misturando coisas que estão situadas em espaços devotados à
publicidade, promoção, relações públicas, marketing, orientadas sobretudo pelo mau-gosto.”
(p.175).

O cerne da questão está na evidência de que as novas gerações da sociedade norte-americana


começam a desvalorizar o ”jornalismo de qualidade”, enfraquecendo-o como instância do
”conhecimento público”. Em conseqüência dessa crise de ”identidade do jornalismo”, cria-se uma
”animosidade” crescente e uma ”irritação” constante da população em relação aos jornalistas.

Em poucas palavras: o jornalismo perde credibilidade, prestígio, reconhecimento público.

184

”O jornalismo de interesse público - o ingrediente vital da democracia - tem sido particularmente


trivializado e corrompido. Fabricantes de opiniões e previsões, acantonados nos ”talk-sbows”
televisivos ou nas colunas assinadas dos jornais e revistas, tem invadido o espaço da reportagem
cuidadosamente e da interpretação cautelosa, especialmente durante as campanhas políticas. O
jornalismo da fama tem sido julgado pelo público como cínico, arrogante e distanciado dos desejos
e aspirações do cidadão comum.” (p. 176).

O xis da questão, segundo a análise do professor Hachten, está na administração do conflito entre os
dois principais agentes do jornalismo. De um lado, o mega-corporativismo das empresas
jornalísticas (hoje controladas por grandes corporações capitalistas, excessivamente preocupados
com lucro fácil, imediato e abundante). De outro, o microcorporativismo dos jornalistas
profissionais, outrora baluartes da ”liberdade de imprensa” e do ”jornalismo como serviço público”.

c) Miséria do Jornalismo
As perplexidades do professor brasileiro Juremir Machado da Silva englobam as variantes
privilegiadas pelos exegetas do jornalismo no chamado primeiro mundo (Comunidade Européia e
América do Norte). A diferença é que ele as expõe num estilo ”aberto à vertigem panfletária”,
denotando a um só tempo ironia e mordacidade.

Na sua ótica, o conflito entre empresários e jornalistas é insolúvel no Brasil, por culpa dos próprios
jornalistas, que padecem de dupla idiotice: ideológica e tecnológica. Por isso mesmo, os jornalistas
fazem o jogo dos patrões imaginando atuar em oposição a eles.

”A premissa básica deste ensaio é banal: a mídia funciona como uma rede. (...) Antes de tudo, como
uma rede de favores trocados, rede de conivência. Não se trata tampouco de salientar novamente,
em exclusividade, o tráfico de influência entre empresários e poder - real, violento e imoral -, mas
de assinalar o lugar consentido, ou inconsciente, de muitos jornalistas (a maioria?) nesse sistema
que, convertido em engrenagem, constitui uma máquina capaz de girar quase por conta própria. (...)
Patrões e jornalistas rezam, enfim, pela mesma cartilha técnica, mesmo quando professam
ideologias opostas.” (p. 13).

185
Como explicar a idiotice ideológica?

”Houve um tempo, real ou mítico, em que o jornalista de esquerda (...) saía à rua, com uma pauta, consciente
da tensão entre mercado e ”regras do bom jornalismo”. Trata-se, para ele, de ampliar a cada dia a margem de
manobra contra os imperativos ideológicos e comércios do padrão. O jornalista de esquerda e o profissional
independente acreditavam (ou queriam acreditar) na objetividade, na imparcialidade e no compromisso com a
verdade (mitologias do jornalismo). Aos poucos a esquerda denunciou o caráter ideológico dessa mitologia.
Mas nada colocou de consistente no lugar dela, a não ser uma vaga, dissimulada ou mesmo agressiva crença
na sua própria verdade.” (p. 9).

E a idiotice tecnológica?

”O idiota tecnológico, recém-chegado na paisagem midiática brasileira, acredita que a democracia virtual já
começou e que o mundo inteiro está ligado na Internet. A progressão é tão grande que em poucos anos
nenhuma pessoa viverá sem um computador. (...) Tudo caminha para o bem no melhor dos mundos. Questão
de anos, de meses, de dias, de horas...” (p. 11).

Embora deixe de propor soluções para equacionar a ”miséria do jornalismo brasileiro”, Machado
isenta o ”mercado” de responsabilidade na sua emergência.

”Na atualidade, com o triunfo (...) do neoliberalismo ou simplesmente com a crise (...) da utopia marxista, o
mercado comanda, o manual de redação adapta-se a ele e o jornalista, mesmo convencido de seguir
rigorosamente a norma, limita-se a fazer a vontade do consumidor. O mercado, porém, não é necessariamente
um monstro. Contraditório, ainda mais em tempo de explosão das novas tecnologias da comunicação, serve a
todos.” (p. 10).

Na sua opinião, o ”mercado” atende às expectativas dos próprios jornalistas independentemente das
posições que venham a ocupar na constelação midiática.

”A questão é saber o que traz mais prejuízos: o mercado ou a ausência dele? O democrata razoável,
interessado em melhorar o mundo, não hesitará: melhor conviver com Faustão, ao lado da Folha de S.Paulo,
do que ter exclusividade sete horas de discurso de Fidel Castro. O problema do esquerdista esclarecido é que
o mercado atende também ao gosto dos seus adversários. Ponto para o mercado. O drama do idiota
tecnológico é tornar visível o que faz; (...) o do esquerdista esclarecido, tornar invisível o seu oponente.” (p.
12).

Perspectivas

Os cenários descritos pelos três analistas refletem naturalmente diferenças de observação,


motivadas pelos ambientes em que estão imersos seus autores. Como disse o filósofo espanhol
Ortega y Gasset o ser humano é produto da sua circunstância. Ou seja, do espaço em que vive e da
sua história de vida.

Há, contudo, traços comuns que as identificam, refletindo aquele ”espírito do tempo” vislumbrado
pelo sociólogo francês Edgar Morin como marca registrada da cultura de massa. Perpassam pelos
seus diagnósticos três elementos inconfundíveis: saudosismo, ceticismo, elitismo.

Evidentemente eles se manifestam com intensidade variável em cada um dos textos, mas estão
presentes, todo o tempo, na linha de argumentação dos escritores.

O saudosismo fica bem visível na reflexão de Martinez Albertos, cuja concepção de jornalismo está
alicerçada na experiência histórica da mídia impressa, assimilada inicialmente pela mídia
audiovisual, mas da qual se distancia a embrionária mídia digitalizada.
”O jornalismo é indubitavelmente uma das instituições básicas do mundo moderno, surgido daquela
mentalidade hierárquica seqüencial, e cronológica típica da etapa alfabética e livresca, fase importante e
chave da evolução histórica da Humanidade. O discurso jornalístico é uma modalidade do discurso moderno.
A pergunta que temos reiterado é a seguinte: uma vez substituída a tecnologia do alfabeto pela tecnologia
eletrônica, poderia substituir essa instituição chamada jornalismo ou terá que submeter-se a uma revisão
radical de sua essência?” (p. 37).

A resposta esboçada não deixa margem a dúvidas:

186

187
”O jornalismo não é compatível com a mentalidade pós-moderna.” (...) ”a etapa eletrônica significa o
predomínio completo e excludente de uma sensibilidade determinada em que não haverá lugar para os
vestígios arqueológicos da etapa alfabética. O menos pessimista dos palpites é o de que os vestígios literários
e livrescos poderão sobreviver durante algum tempo com um certo valor testemunhai.” (p. 37).

O ceticismo mais aguçado transparece na postura de Juremir Machado da Silva, tanto assim que ele
se viu na contingência de atravessar a fronteira do jornalismo, buscando refúgio nos umbrais da
academia.

”Aprendi a conviver com as regras do jornalismo, transgredindoas aqui e ali, sem, no entanto assimilar-lhe a
mitologia. (...) Expelido do jornalismo (...), amadureci como sociólogo da comunicação a reflexão deste
ensaio. Sem nenhuma dúvida trata-se de produto do ressentimento. Frase bombástica? Confissão
desesperada? Apenas uma maneira peculiar de encarar a palavra ’ressentimento’. Os jornalistas utilizam-na
como escudo contra qualquer crítica aos seus sacrossantos bastiões. Cada vez que alguém saca ao seu repúdio
à mídia poderosa e autocentrada, os profissionais defendem-se rotulando, suprema ofensa, o acusador de
ressentimento. Tradução: todos sonham em brilhar em mídia. Os fracassados atacam-na.” (p. 17).

O autor brasileiro pretende ser absolvido do pecado do elitismo, ao denunciar essa atitude como
característica das lideranças jornalísticas brasileiras.

”Cada vez mais, a grande imprensa desliza do shopping de elite para o mercado público, o que escandaliza o
elitismo esquerdista e confirma o populismo mercadológico.”

Numa postura bem típica do jornalismo norte-americano, William Hachten arregaça as mangas, sai
das conjecturas e pergunta ”o que precisa ser feito” para superar os impasses do jornalismo
contemporâneo? Sua fórmula contém 5 ingredientes, mesclando ética e técnica:

a) Restaurar a linha divisória entre notícias e entretenimento, praticando um jornalismo mais


responsável.

b) Resgatar a imagem pública dos profissionais do jornalismo. Para

tanto, os jornalistas que fazem cobertura política precisam despolitizar-se deixando de lado as
paixões e as idiossincrasias, para voltar a ser legítimos formadores da opinião pública.

c) Ampliar a audiência jornalística, recorrendo a estratégias capa-

zes de motivar os jovens e os adolescentes para o cultivo cotidiano das notícias.

d) Redefinir os formatos jornalísticos para adequá-los à natureza peculiar da internet sem abdicar de
valores essenciais como veracidade, precisão, equidade e contextualização.

e) Restabelecer e expandir a importância da cobertura internacio-

nal, prestando mais atenção ao que acontece além das fronteiras nacionais.

Contudo, para lograr essa mudança sistêmica torna-se indispensável que os jornalistas resgatem a
auto-estima profissional, nutrindo-se no entusiasmo e na esperança que foi a marca registrada da
categoria em seus tempos áureos.

Desafios
Restabelecer nos jornalistas o imaginário que os situa como agentes do interesse público,
mediadores sociais ou educadores coletivos corresponde a uma missão irrenunciável da
universidade.

Há mais de meio século, quando ocupou a primeira cátedra de Jornalismo do Brasil, Costa Rego, o
jornalista paradigmático da sua geração199, tinha plena consciência dessa tarefa. Ela também foi
perseguida por Vitorino Prata Castelo Branco, quando escreveu o nosso primeiro manual de
jornalismo200. E foi sistematizado pelo legendário Luiz Beltrão201, o renovador do ensino de
jornalismo no país.

Infelizmente o legado desses mestres pioneiros vem correndo o perigo de incorporar-se às brumas
da História. Se a profissão de jornalista ganhou reconhecimento e legitimidade, no fim dos anos 60,
com a lei de regulamentação profissional, lamentavelmente o mesmo destino não coube ao ensino
de jornalismo.

189
As mudanças legais ocorridas na esfera do Ministério da Educação, protagonizadas pelas correntes
autoritárias que pretenderam quebrar a espinha dorsal dos jornalistas durante o regime militar pós-
64, acabaram por reduzir a autonomia acadêmica do Jornalismo na academia. O reducionismo
imposto ao curso de jornalismo, rebaixado a mera habilitação do mega-curso de Comunicação
Social, acarretou seu atrelamento ao universo comunicológico, condenando-o à perda da identidade
profissional e à descaracterização como campo do conhecimento.

Evidentemente o Jornalismo constitui um segmento básico da atividade comunicacional na


sociedade contemporânea, mas seu espaço geográfico é o da mídia. Desenraizado desse continente,
o ensino de Jornalismo corre o perigo de perder a sua essência. Ele esteve ameaçado pela corrente
do Pensamento Único (urna espécie de coquetel culturalista-cibernáutico-frankfurtiano) que
pretendia transformar o campo acadêmico da comunicação num imenso latifúndio intelectual.

Não fosse a resistência corajosa do Grupo de Florianópolis, reivindicando, pluralismo, diversidade,


autonomia, e aquela tendência hoje seria hegemônica em todo o país. Felizmente ela começa a
encolher, aprendendo (às vezes de maneira dolorosa) a conviver com a diversidade e a praticar o
debate civilizado.

Os cursos de gradação em Jornalismo começam a se fortalecer em todo o país, organízando-se


segundo parâmetros que os identificam como atividade midiáticas, profissionais, ancoradas na
economia de mercado, mas comprometidas com o interesse público.

A iniciativa da Universidade Federal de Santa Catarina ao criar um Curso de Pós-Graduação em


Jornalismo, vocacionado para se converter em Mestrado Profissional e em Doutorado Acadêmico
representa um passo decisivo na formação de professores e pesquisadores para atender às demandas
da graduação e também do mercado de trabalho.

O momento é propício, considerando que o Jornalismo tende a se revitalizar na emergente


Sociedade do Conhecimento202, que se erige nas autopistas informatizadas da Sociedade da
Informação203. Tratase, agora, de dar sentido àquela idéia seminal de Robert Park204, um

dos primeiros cientistas sociais a reconhecer o jornalismo enquanto forma de conhecimento.

”Como forma de conhecimento a notícia não cuida essencialmente nem do passado nem do futuro,
senão do presente - e por isso foi descrita pelos psicólogos como o presente especioso. Pode-se
dizer que a notícia só existe nesse presente. (...) A notícia só é notícia quando chega às pessoas...
(...) Publicada e reconhecida a sua significação, o que era notícia se transforma em História. Essa
qualidade transitória e efêmera é da própria essência da notícia...” (p. 175).

O jornalismo é portanto a principal forma de conhecimento que permite aos cidadãos de qualquer
sociedade acompanhar, participar e influir na História do seu tempo.

”No mundo moderno, o papel da notícia assumiu uma importância antes acrescida que diminuída em
confronto com outras formas de conhecimento, como a História, por exemplo. Tão rápidas e drásticas foram
as mudanças nos últimos anos que o mundo moderno parece ter perdido a perspectiva histórica... (...) Em tais
circunstâncias dir-se-á que a História é lida ou escrita sobretudo para permitir-nos, pelo cotejo entre o
presente e o passado, compreender o que está acontecendo à nossa volta, mais do que saber, como nos
disseram os historiadores, o que realmente aconteceu.” (p. 184).

A missão precípua deste Curso de Pós-Graduação é a de produzir conhecimento jornalístico capaz


de compreender os noticiosos que permeiam os liames da sociedade brasileira, fazendo avançar a
fronteira do jornalismo como forma de conhecimento.
Referências bibliográficas

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(tradução brasileira: EDUSP).

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informação. Lisboa: Bizâncio, 1998.

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WAVER, David, org. The Global Journalist. Creskill, New Jersey: Hamptom

Press, 1998.

192

Jornalismo de Referência205
Arcabouço conceitual

Devemos ao cientista francês Jacques Kayser a organização de um arcabouço conceituai capaz de


definir e compreender o jornalismo de referência. Em seu estudo pioneiro Une semaine dans le
monde (Paris, Unesco, 1953), ele esboça um panorama comparativo do jornalismo diário ao redor
do globo, agrupando-o segundo dois critérios de classificação:

a) Territorialidade:

1) Jornais dotados de legitimidade internacional - cuja circulação transcende às fronteiras nacionais


e cujas matérias são freqüentemente reproduzidas na imprensa estrangeira. Quatro jornais
preenchiam tais requisitos, naquela conjuntura de guerra fria206: Times (Londres), Izvestia
(Moscou), New York Times (Nova York) e Le Monde (Paris).

2) Jornais possuidores de credibilidade nacional - cuja qualidade das informações difundidas


garante a manutenção de um grande público leitor, liderando a tiragem dentro do país ou figurando
no mesmo patamar dos de maior circulação. Foram selecionados jornais representativos de 17
países, em razão de sua importância nos negócios mundiais: 2 africanos, 3 asiáticos, 6 europeus, 1
australiano, 1 soviético, 2 norte-americanos e 2 sul-americanos.
b) Política editorial:

1) Jornais oficiais - mantidos pelos governos ou pelos partidos detentores do poder político nos
países comunistas ou nas democracias populares.

193
2) Jornais comerciais — publicados por empresas jornalísticas competitivas que adotam políticas
editoriais do tipo espetacular, ostensivamente sintonizadas com os apetites do público leitor.

3) Jornais autônomos - editados por empresas jornalísticas que procuram preservar sua
independência informativa, equilibrando as demandas dos anunciantes e dos leitores.

Dando continuidade à metodologia do jornalismo comparado (e em certo sentido aperfeiçoando-a),


o pesquisador norte-americano John C. Merill sistematiza as idéias vigentes sobre o jornalismo de
referência. Ele faz um percurso significativo entre a primeira incursão contida no manual didático A
Handbook of the Foreign Press (Baton Rouge, Louisiana State University Press, 1959) e o tratado
acadêmico The Elite Press: Great Newspapers of the World (New York, Pittman, 1968).

Designando esse fenômeno como jornalismo de elite, ele assim o conceitua:

”Jornalismo de elite é o jornalismo que produz impacto junto aos intelectuais e aos líderes de
opinião. E o jornalismo que os diplomatas, educadores, escritores, teólogos, economistas e
cientistas tomam a sério. É também a espécie de jornalismo que bibliotecas e universidades em
todos os países decidem colocar à disposição dos seus. estudantes.” {The Foreign Press, Baton
Rouge, Louisiana State University Press, 1970, P-15).

Trata-se, na sua perspectiva, de um sistema binário, composto por dois tipos:

a) Jornalismo de prestígio - vigente nos países autoritários, onde a imprensa é controlada pela
máquina estatal.

b) Jornalismo de qualidade - peculiar aos países liberais, onde predomina o regime de mercado e a
imprensa funciona sem restrições governamentais.

194

Independentemente das convergências classificatórias e dissonâncias terminológicas, avulta como


característica inerente ao fenômeno a sua referencialidade sócio-ocupacional.

O jornalismo de referência tem validade pública não apenas pelo reconhecimento que lhe tributam
as elites dirigentes (governamentais ou empresariais) ou as lideranças da sociedade civil, mas
sobretudo pela função de agendamento informativo que exerce no interior do sistema midiático.
Nesse sentido, restringe-se ao segmento dos jornais diários, que atuam como fontes de alimentação
contínua da pauta dos telejornais, radiojornais, webjornais, bem como das revistas semanais e outras
publicações periódicas.

A referência jornalística dá-se não apenas pela primazia que a imprensa cotidiana devota a uns fatos
em detrimento de outros, no bojo do noticiário, mas também pela valoração dos acontecimentos,
tarefa a que se dedicam com paixão e entusiasmo os produtores de gêneros opinativos
(opinionmakers): articulistas, comentaristas, cronistas, caricaturistas ou resenhistas.

Indicadores exógenos

Os indicadores concernentes ao jornalismo de referência no Brasil encontram-se registrados, na


bibliografia internacional, naquelas duas fontes anteriormente citadas.

Em seu ”estudo comparado de 17 grandes diários durante 7 dias”, Jacques Kayser inclui uma
publicação brasileira. Trata-se do jornal O Estado de S. Paulo, editado desde 1875 na capital
paulista, sob a tutela da família Mesquita.

Incluído naquele segmento de jornais autônomos, esse cotidiano destacou-se, no conjunto da


amostra (início dos anos 50), pela ”importância da superfície impressa”, apresentando uma média
diária de 75.000 cro2, sendo 68% ocupada pela publicidade e 32% pelo conteúdo jornalístico
(texto, títulos e ilustrações).

O jornal brasileiro figurou em primeiro lugar no quesito da ”superfície impressa”, acompanhado por
dois outros jornais norte-american°s: o estadunidense Daily News (2o. lugar) e o mexicano La
Prensa (3o. lugar). (Kayser, 1953, 63).

195
A sobrevivência econômica fundamentada na captação de ”anúncios classificados” constitui
certamente a fonte da sua autonomia jornalística. Isso explica também a circunstância de ser,
naquela conjuntura, o único jornal a reservar sua primeira página exclusivamente às notícias
internacionais. Mais do que isso: suas informações internacionais denotavam multiplicidade de
fontes, equilibrando comparativamente despachos procedentes de agências européias e norte-
americanas. (Kayser, 1953, 119).

Esse mesmo jornal é mencionado como o principal diário brasileiro de referência nacional no
inventário de John Merrill e seus colaboradores sobre a imprensa estrangeira. Trata-se de um estudo
datado do fim dos anos 60. Eles afirmam textualmente:

”O jornal diário geralmente considerado o líder em prestígio e consistência informativa é O Estado


de S. Paulo. Com uma espécie de aura semelhante àquela desfrutada pelo New York Times ou pelo
Times de Londres, O Estado tem se mantido politicamente independente. Ele expressa o ponto de
vista do segmento industrial a respeito dos inúmeros assuntos domésticos, tendo inclusive apoiado o
golpe militar de 1964 contra Goulart. Mas, desde 15 de dezembro de 1968, ele tem sido submetido a
censura prévia, não podendo criticar o governo militar, como o fazia até pouco depois de 1967.”
(Merrill e outros, 1970,204).

Contudo, os pesquisadores norte-americanos reconhecem a existência de outros jornais de


referência nacional no território brasileiro. Eles destacam 4 jornais cariocas: Jornal do Brasil, O
Jornal, Correio da Manhã, caracterizados como baluartes da resistência ao autoritarismo do
governo militar, além de O Globo, que despontava como líder de circulação, ultrapassando a cifra
de 300 mil exemplares diários, quando os seus concorrentes vanguardistas sequer chegavam ao
patamar das
200 mil cópias. (Merrill e outros, 1970,205).

De qualquer maneira, tais evidências não são suficientes para dissuadir a equipe de analistas norte-
americana a respeito do lugar proeminente ocupado por O Estado de S. Paulo em relação aos seus
congêneres referenciais. Eles destacam quatro elementos diferenciadores: a filosofia modernizante
da empresa, o elevado padrão educacional dos seus

196

jornalistas, a densidade do seu conteúdo editorial e o comportamento altruísta dos proprietários.

”O Estado demonstra a mesma atitude do Christian Science Monitor ou do New York Times,
reinvestindo no próprio jornal parcela expressiva dos lucros e dando prioridade para assalariar os
melhores repórteres e editores do Brasil. Todos os repórteres do Estado possuem diploma
universitário e seis redatores têm pós-graduação. Uma edição diária do Estado ocupa 48 páginas e
uma edição dominical preenche 150 páginas. Até sua morte em 1927, Júlio Mesquita, pai, atuou em
O Estado como um editor altruísta, usando o superávit orçamentário para melhorar seu jornal diário.
Seu sucessor Júlio Mesquita Filho manteve a mesma diretriz até sua morte em julho de 1969, além
de ter servido como Presidente da Associação Interamericana de Imprensa em 1966.” (Merrill e
outros, 1970,205).

A liderança de O Estado de S. Paulo foi aliás confirmada por Jorge Fernández e seus colaboradores
do Centro Internacional de Estúdios Superiores de Periodismo para América Latina no estudo Dos
Semanas en Ia Prensa de América Latina (Quito, CIESPAL, 1967).

Incluído na categoria dos ”diários de maior magnitude” continental, esse jornal brasileiro foi
equiparado a três outros jornais americanos: Excelsior (México), El Mercúrio (Chile) e The New
York Times (Estados Unidos da América).

Mas existe o reconhecimento de outro diário brasileiro de referência, na amostra pesquisada pela
equipe do Centro de estudos jornalísticos sediado em Quito, Equador. Trata-se do jornal carioca
Correio da Manhã, que naquela altura (1962) ainda não perfilava o papel de ícone da resistência ao
autoritarismo peculiar ao regime pós-64. Como tal, figuraria na lista construída por Merrill e seus
colegas, como vimos anteriormente.

Eles foram escolhidos pela amplitude da ”circulação”, não dimensionada em sentido rigorosamente
quantitativo, mas numa acepção qualitativa, nominada como ”fator sociológico”. O critério para
identificar a ”maior circulação” corresponde ao seguinte: ”um maior contingente de leitores nutre-se
de seus comentários, respaldando o conhecimento originado em suas informações”.

197
Quando comparados aos demais jornais latino-americanos, tanto O Estado de S. Paulo quanto o
Correio da Manhã exibiam uma fisionomia típica e uniforme, reservando suas primeiras páginas
para difundir principalmente as informações internacionais. (Fernández, 1967,
166).

Indicadores endógenos

A literatura referente ao jornalismo brasileiro contém pistas capazes de reconstituir a trajetória dos
jornais de referência nacional.

Vamos esboçar a seguinte periodização, tomando como fonte historiográfica consensual o panorama
delineado por Juarez Bahia em sua História da Imprensa Brasileira (São Paulo: Ática, 4a. ed.,
1990) e por Nelson Werneck Sodré em seu livro clássico A História da Imprensa no Brasil (Rio de
Janeiro: Mauad, 4a. ed., 1999). Trata-se de obras que têm servido de apoio acadêmico à formação
básica das novas gerações dos estudantes de jornalismo, adotadas nas universidades de todo o país,
justificando reedições mesmo após o falecimento dos ilustres autores.

Século XIX

Dois jornais se projetam como referência nacional: o Diário de Pernambuco e o Jornal do


Commércio.

”No Brasil a grande imprensa lança raízes no Império e se afirma na Primeira República. É uma
trajetória que se interrompe e recomeça até que se estabeleça definitivamente. (...) Antes que se
apague a chama industrial, uma empresa sólida já se concretiza no Diário de Pernambuco

e no. Jornal do Commércio. São esses dois jornais que estimulam, com seu êxito editorial,
investimentos privados, urbanos e rurais, que navegam nos ventos da política em direção à
imprensa.” (Bahia, 1990,239).

Enquanto o primeiro, editado na cidade do Recife, converteu-se em jornal de referência regional,


sendo atualmente o mais antigo diário em circulação na América Latina207, o segundo, editado na
cidade do Rio de Janeiro, embora tenha perdido o ímpeto modernizador dos velhos tempos,
permanece até hoje em atividade como influente jornal do mundo dos negócios208.

198

No final do século, outros veículos impressos despontaram no panorama, assumindo posição de


liderança profissional, tanto na capital política quanto na emergente capital financeira. Cinco diários
passaram a disputar o espaço do jornalismo de referência nacional:

Rio de Janeiro - O País , Gazeta de Notícias e Jornal do Brasil.

São Paulo - Correio Paulistano e A Província de S. Paulo (logo assumindo nova denominação: O
Estado de S. Paulo).

”Abrigam em seus títulos capitais privados de origem liberal, conservadora, citadina, agrícola,
representativos das correntes situacionistas e oposicionistas que disputam o controle do poder.”
(Bahia, 1990,239).

Século XX
Mas nem todos eles conseguiram adaptar-se às novas circunstâncias determinadas pela mudança das
relações de produção, quando a imprensa começou a perder a sua motivação essencialmente
política, convertendo-se em negócio, de acordo com o figurino capitalista.

”A passagem do século (...) assinala, no Brasil, a transição da pequena à grande imprensa. Os


pequenos jornais, de estrutura simples, as folhas tipográficas, cedem lugar às empresas jornalísticas,
com estrutura específica, dotadas de equipamento gráfico necessário ao exercício da sua função. Se
é assim afetado o plano da produção, o da circulação também o é, alterando-se as relações do jornal
com o anunciante, com a política, com os leitores. (...) Está naturalmente ligada às transformações
do país, em seu conjunto, e, nele, à ascensão burguesa, ao avanço das relações capitalistas: a
transformação na imprensa é um dos aspectos desse avanço; o jornal será, daí por diante, empresa
capitalista de maior ou menor porte.” (Sodré, 1999,275).

”A energia que sustenta o grande jornal independente não procede de anúncios oficiais, de contratos
de publicidade com os maiores comerciantes varejistas, ou de ações de qualquer espécie. Ela vem
de uma única e poderosa fonte: o pequeno anunciante, aquele que geralmente redige a mensagem,
pagando à vista no balcão.” (Bahia, 1990,240).

199
Apenas dois jornais que atravessaram a fronteira do novo século conseguem impor-se como títulos
de referência nacional: o Jornal do Brasil (no Rio de Janeiro) e O Estado de S. Paulo (São Paulo).

”A luta pelo monopólio dos classificados no Rio é ganha pelo Jornal do Brasil e, em São Paulo,
pelo O Estado (...) Essa liderança comercial dos pequenos anúncios é a base de uma forte
penetração que nos anos do desenvolvimento brasileiro vai se projetar na qualidade edito-rial.”
(Bahia, 1990,240).

Não é apenas a pujança econômica que alavanca um jornal para se converter em referência
nacional. Nessa contabilidade difusa tem peso significativo a credibilidade editorial que o veículo
adquire na sociedade, passando a constituir-se um formador de opinião pública.

”O que faz um grande jornal é não só o que exprime de tiragem e receita publicitária, mas
principalmente a sua opinião. É na linha editorial que repousam os sinais de credibilidade,
confiança, identidade, firmeza, coerência, etc.” (Bahia, 1990,241-142).

Não era fácil combinar saúde financeira e ousadia editorial, naquela fase de transformação do
capitalismo brasileiro.

”No que diz respeito à imprensa, esse contraste entre o jornal como empresa capitalista, que já é, e
sua posição como servidor de um poder que corresponde a relações predominantemente pré-
capitalistas, parece contraditório. Mas há frestas por onde se pode perceber a realidade do quadro
com clareza: o aparecimento de jornais de virulenta oposição, confrontando aqueles jornais que se
subordinam ao poder...” (Sodré,
1999,276).

Diante de tal complexidade, são muitos os jornais que aparecem nos dois centros nevrálgicos da
sociedade brasileira, mas poucos os que se capacitam para ter um perfil de referência nacional,
competindo com as duas publicações alçadas a essa condição, desde o século anterior: o Jornal do
Brasil e o Estado de S. Paulo. O primeiro gravitava em

200

torno do aparelho de Estado, dominante na paisagem da capital federal: Rio de Janeiro. E o segundo
era porta-voz daquelas demandas da emergente burguesia nacional, ancorada tanto na tradição do
segmento agrário exportador quanto no progressista setor industrial209.

Além desses, somente 3 jornais seriam alçados ao patamar do jornalismo de prestígio nacional,
todos sediados na antiga capital republicana: Correio da Manhã, Diário Carioca e Última Hora.

Eles se credenciam para essa posição não apenas pela solidez econômica e combatividade política,
mas sobretudo pela modernidade técnico-editorial, assimilando as inovações profissionais vigentes
nos centros jornalísticos hegemônicos. Por isso, funcionam como modelos que se irradiam pelo
restante da imprensa brasileira.

A força do Correio da Manhã torna-se evidente, desde o seu aparecimento, no início do século210,
quando assume uma fisionomia ostensivamente oposicionista, tornando-se arauto das bandeiras
sustentadas pela classe média.

”O Correio da Manhã vinha romper, efetivamente, o cantochão de louvores ao governo... (...) Daí por diante,
e em toda velha República, que ajudou a derrocar, o jornal de Edmundo Bittencourt foi, realmente, veículo
dos sentimentos e motivos da pequena burguesia urbana, em papel dos mais relevantes. Quebrou a monótona
uniformidade política das combinações de cúpula, dos conchaves de gabinete; levantou sempre o protesto das
camadas populares, na fase histórica em que a participação da classe trabalhadora era mínima. Através desse
caminho, vindo de baixo, portanto, é que se transformou, e depressa, em empresa jornalística.” (Sodré,
1999,287).

Se comparado aos tradicionais diários de referência nacional {Jornal do Brasil e O Estado de S.


Paulo), esse jornal assume um perfil vanguardista, durante toda a primeira metade do século, graças
à dedicação de editores paradigmáticos como Costa Rego, Antônio Callado e Osvaldo Peralva. Ele
começa a fenecer quando seus concorrentes experimentam processos de renovação empresarial e
profissional. Mas retorna à ofensiva logo após o golpe militar de 1964, constituindo-se como o
principal opositor do novo regime, que o sufoca violentamente, tanto

201
através de ações políticas (censura e repressão) quanto de expedientes econômicos (boicote publicitário)211.

O protagonismo do Diário Carioca é bem mais modesto, embora tenha perfilado um movimento singular no
seu canto de cisne.

Fundado em 1928 por José Eduardo Macedo Soares, ganhou notoriedade como porta-voz da Aliança Liberal,
movimento anti-oligárquico que guindou Getúlio Vargas ao poder nos anos 30. Sua referencialidade
profissional só se projetaria, contudo, na década de 50, quando se converte num laboratório de inovações
jornalísticas, atuando como carrochefe da assimilação do modelo norte-americano de produção noticiosa.

”O desenvolvimento da imprensa no Brasil foi condicionado, como não podia deixar de ser, ao
desenvolvimento do país. Há, entretanto, algo universal que pode aparecer mesmo em áreas diferentes
daquelas em que surge por força de condições originais: técnicas de imprensa, por exemplo, no que diz
respeito à forma de divulgar, ligadas à apresentação da notícia. Nesse sentido, o jornal avançou muito, entre
nós, particularmente desde o início do século XX. O jornalismo norte-americano criou, por exemplo, o lead.
(...) Essa técnica jornalística está, hoje, plenamente incorporada à imprensa brasileira. É possível apontar
como esforço pioneiro de reforma na técnica de apresentação de notícias, entre nós, o que foi realizado no
Diário Carioca, em 1951,(...) quando o jornal tinha Danton Jobim na direção e Pompeu de Souza na chefia de
redação; a reforma foi devida a Luis Paulistano, chefe da reportagem (...). Ao lead norte-americano Luis
Paulistano acrescentou o brasileiríssimo sub-lead.” (Sodré,
1999,394-395).

Além do lead, o Diário Carioca adota, pela primeira vez no Brasil, o manual de redação. Toda essa revolução
jornalística foi, contudo, abortada, em face das dificuldades financeiras com que se defrontava a empresa. O
epílogo dessa experiência foi assim descrito no estudo de Carlos Eduardo Lins da Silva sobre a influência do
jornalismo norteamericano no Brasil:

”É na década de 40 que dois dos mais importantes jornalistas brasileiros vão aos EUA e voltam de lá
dispostos a mudar alguns dos padrões da imprensa no Brasil na direção da americana. Um deles e

202
Pompeu de Souza, que (...) ao lado de Danton Jobim (...) realiza uma das mais importantes transformações do
jornalismo contemporâneo no Brasil. É no Diário Carioca que o lide vai afinal ser adotado como norma e que
um manual de redação vai afinal ser levado a sério apesar das dificuldades (...) Jobim (...) perdeu com
Pompeu de Souza a batalha do Diário Carioca (apesar de ter sido um sucesso de vendas teve de sair do
mercado devido a problemas administrativos.” (Lins da Silva, 1990,77-78).

Mas os esforços renovadores do Diário Carioca não foram em vão. Seus estrategistas, Danton
Jobim e Pompeu de Souza, que ali haviam criado uma ”escola de jornalismo”, são convidados a
assumir funções docentes no recém criado curso de jornalismo da Universidade do Brasil, no Rio de
Janeiro, transferindo para a academia o acervo de experiências acumulado na profissão. Por outro
lado, vários dos profissionais forjados no empirismo experimentalista daquele jornal carioca são
assimilados pela redação do Jornal do Brasil, cotidiano de referência que estava então em processo
de reforma editorial, sob a liderança de Jânio de Freitas. Ali encontram oportunidades para dar
prosseguimento aos intentos mudancistas.

”Em 1956, o Jornal do Brasil iniciou reforma também ampla, ajudada pela sólida estrutura empresarial desse
diário, condição de que o Diário Carioca não dispunha. Com um grupo de excelentes profissionais, entre os
quais se destacavam Reinaldo Jardim e Ferreira Gullar, Jânio de Freitas revolucionou o jornal, dando
apresentação inteiramente nova à matéria, em tarefa que só se completou em 1959.” (Sodré, 1999,395).

Nessa mesma conjuntura, desponta outro jornal de referência nacional: o vespertino Última Hora,
fundado por Samuel Wainer com respaldo financeiro estatal, para dar apoio ao governo encabeçado
por Getúlio Vargas, ditador populista que regressara ao poder pela via eleitoral.

”Não é possível esquecer, também, as inovações introduzidas por Samuel Wainer, cuja aprendizagem, em
Diretrizes, durante a ditadura, permitiram-lhe, ao fundar o vespertino Última Hora, em 1951, apresentar

203
uma folha vibrante, graficamente modelar, revolucionária em seus métodos de informar e até de opinar.”
(Sodré, 1999,395).

As inovações protagonizadas pelo novo jornal foram assim resumidas por Thedoro de Barros, testemunha
ocular de sua história e posteriormente artífice do seu resgate:

”Jornal político em suas origens, Ultima Hora marcaria o surgimento de uma imprensa popular de grande
circulação. Este tipo de imprensa era, até então, inexistente no País, mais pela tradição dos grandes jornais,
cada um voltado para camadas específicas das classes sociais cujos interesses representavam, do que por
causa dos métodos antiquados de produção e das deficiências das comunicações. (...) Para superar a barreira
da tradição, que não possuía, Ultima Hora teve de inovar no seu aspecto gráfico, no conteúdo redacional e até
mesmo nas estratégias empresariais, descobrindo soluções originais ou indo buscar no passado fórmulas que
já haviam assegurado o êxito de outras publicações. (...) Paralelamente (...) promoveu a valorização dos
profissionais, através do folhetim, do colunismo e da reportagem.” (Barros,
1993,16).

Mas a sobrevivência desse projeto arrojado foi interrompida com o golpe militar de 1964, que
desmantelou a empresa comandada por Samuel Wainer, pelo seu engajamento político com o
governo deposto de João Goulart. Da mesma forma, o faria depois com o Correio da Manhã, que,
embora tendo apoiado o golpe militar, logo se posicionou contra os excessos cometidos pelos novos
governantes. Os dois veículos continuaram a circular durante pouco tempo, não conseguindo resistir
ao cerco que lhes foi imposto pelo regime autoritário.

Como possuíam autonomia financeira, os dois outros jornais de referência - Jornal do Brasil e O
Estado de São Paulo — conseguiram subsistir, mesmo enfrentando a censura que os governantes de
turno impuseram a toda a imprensa brasileira.

O espaço referencial passou então a ser compartilhado entre eles e dois outros jornais que foram
galgando legitimidade no vácuo deixado pelo desaparecimento ou enfraquecimento dos
concorrentes: O Globo e Folha de S. Paulo.

r
O primeiro, fundado em 1925, foi emergindo durante o regime autoritário, beneficiado pela
vinculação ao maior grupo midiático brasileiro. A empresa pertencente à família Marinho manteve
uma relação ambígua com o poder, valendo-se das suas benesses, mas também enfrentando
represálias ocasionais. O jornal assumiu a liderança da tiragem dos diários nacionais, no final dos
anos 60, permanecendo no primeiro grupo da nossa grande imprensa, através de táticas informativas
dirigidas ao grande público. Também recorreu ao artifício da segmentação editorial, lançando
suplementos que davam conta das demandas comunitárias na região do Grande Rio. Além de
capitalizar os investimentos feitos em equipamentos e recursos humanos, seu prestígio está em
grande parte atrelado à inserção nas Organizações Globo, usufruindo dividendos que decorrem da
orquestração monitorada pela maior rede de televisão nacional.
O segundo, fundado em 1921, foi se projetando nos estertores do regime militar pós-64. Controlado
acionariamente pela família Frias, o jornal concebeu um estratégico projeto editorial que o
converteria em catalisador dos anseios e expectativas da sociedade civil brasileira. Valendo-se das
modernas técnicas de marketing e aplicando um bem engendrado plano de racionalização industrial,
o jornal cresceu significativamente em tiragem (ultrapassando, em alguns momentos, a cifra de um
milhão de exemplares). Sua preocupação basilar tem sido a sintonização com as novas correntes de
leitores, tanto em conteúdo quanto em linguagem, garantindo um público capaz de manter a
fidelidade ao produto, no tempo e no espaço. Sua filosofia de jornalismo plural, independente e
apartidário tem rendido os frutos esperados. Ela vem sendo reproduzida pelas publicações
congêneres, em todo o território nacional, a partir das diretrizes contidas no seu ”manual de
redação”, um invejável bestseller, atualizado periodicamente212.
=212

Século XXI

Ao transitar para o século XXI, o jornalismo de referência no Brasil preserva o panorama estrutural delineado
por Juarez Bahia:

”A imprensa brasileira ocupa lugar relevante no moderno jornalismo mundial. Nas últimas décadas do século
XX, ela reflete a própria

204

205
situação do país como oitava potência industrial do Ocidente. E é tão bem aparelhada quanto a imprensa dos
Estados Unidos, da Europa ou do >J Japão. Seus padrões de conteúdo costumam ser comparados aos dos
melhores jornais e revistas de prestígio internacional. Quatro dos dez principais jornais da América Latina
circulam em São Paulo e no Rio de Janeiro - O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil, O Globo e Folha de
São Paulo. A revista Veja é a de melhor qualidade no continente e se equipara a Time, Newsweek, L ’Express,
Der Spiegel ou Le Point. A produção de livros e outros impressos corresponde a uma avançada indústria
gráfica.” (Bahia, 1990,369).

Analisando, porém, o complexo industrial em que os jornais de referência estão inseridos, Nelson
Werneck Sodré esposava uma visão mais crítica e em certo sentido pessimista:

”Gerou-se, aqui, portanto, o conglomerado empresarial agrupando jornal - revista, em alguns caso - e
emissora de rádio e de televisão. (...) Há muitos anos não acontece, entre nós, o aparecimento de um grande
jornal. Muito ao contrário, o número de jornais, no Brasil, reduziu-se acentuadamente. Hoje são poucos os
grandes jornais, no Brasil, como se sabe. E há, até, nesse processo de concentração, inequívoco teor
destrutivo, como nos casos de grandes jornais que atingiram o centenário antes de desaparecerem. Outros,
também centenários, continuam a circular, mas não são mais do que sombras do que foram. Esse quadro
novo, sob muitos aspectos desolador, decorreu, sem dúvida, do fato de que um grande jornal, hoje, é uma
empresa capitalista de grandes proporções. (...) Não está mais ao alcance de qualquer detentor de capital,
exige capital de vulto. Para isso concorre, naturalmente, o avanço da tecnologia. (...) Esse avanço tecnológico
obrigou, por outro lado, que as empresas jornalísticas se empenhassem em investimentos acima de suas
possibilidades normais. A situação financeira delas, por isso mesmo, é periclitante, em casos conhecidos. Se
fossem empresas de outra área, estariam liquidadas pelas razões de mercado.” (Sodré, 1999, XI).

Evidências empíricas

O perfil editorial dos 4 jornais de referência do Brasil, nesta conjuntura de transição milenar, foi
objeto de estudos comparativos efetuados pela Cátedra Unesco de Comunicação da Universidade
Metodista de São Paulo.

206

A primeira radiografia foi realizada na semana de 21 a 27 de maio de 1996, coletando evidências


empíricas que estão contidas no livro coordenado por José Marques de Melo e Adolpho Queiroz -
Identidade da imprensa brasileira no final do século, São Bernardo do Campo, Editora UMESP,
1998.

O segundo diagnóstico - Identidade da imprensa brasileira no limiar do novo século - feito sob a
coordenação de José Marques de Melo e Maria Cristina Gobbi na semana de 13 a 19 de agosto do
ano
2001, ainda está em processo de análise, sendo prevista a sua publicação no Anuário
Unesco/Umesp de Comunicação Regional.

Vamos resgatar, ainda que sinteticamente, o perfil comparativo dessa imprensa diária de referência
nacional, a partir dos registros feitos nas duas pesquisas anteriormente citadas.

Trajetória histórica

Estado de S. Paulo

O mais antigo é o jornal O Estado de S. Paulo, que começou a circular na capital paulistana sob o
título de^ Província de São Paulo, no dia 4 de janeiro de 1875. A denominação foi alterada em
1889, depois da Proclamação da República, causa defendida pelo jornal em suas páginas.
Constituído incialmente como associação comanditária, o veículo tornou-se propriedade da família
Mesquita em 1902, quando Júlio Mesquita assume seu comando, passando-o às gerações
sucessivas. Seu atual diretor é Ruy Mesquita, pertencente à terceira geração, embora os comandos
redacionais já estejam em mãos de membros dos bisnetos do fundador.

Trata-se da principal unidade de um conglomerado midiático, do qual fazem parte o vespertino


Jornal da Tarde, a empresa noticiosa Agência Estado, a Rádio Eldorado, um parque gráfico e a
editora Listas Telefônicas.

Jornal do Brasil

No mesmo século surgiu o Jornal do Brasil, fundado em 1891 Por ilustres varões do Império, entre
eles Joaquim Nabuco. Com o ad-

207
vento da República, converteu-se em sociedade anônima, tendo no comando da sua redação figuras
emblemáticas como Rui Barbosa.

A partir de 1919 passou ao controle da famíla Pereira Carneiro, que fez um saneamento financeiro,
buscando sustentação nos anúncios classificados. Manteve sempre uma equipe de colaboradores de
alto nível, exemplificada pela figura impoluta de Barbosa Lima Sobrinho. Em
1950, a segunda geração assume as rédeas da empresa, consolidando as mudanças efetuadas.

Prepara também o terreno para a grande reforma dos anos 60, que o converte no mais arrojado
diário em circulação no país, sob a liderança de Jânio de Freitas e de Alberto Dines. Torna-se um
núcleo ativo de formação profissional e de experimentação de processos jornalísticos, que são
reproduzidos entusiasticamente pela imprensa de todas as regiões brasileiras.

A crise financeira com que vinha se debatendo, desde as perseguições sofridas durante o regime
militar, obriga a terceira geração de seus proprietários a negociar o controle acionário da empresa
com outros parceiros. Unidades subsidiárias como a Rádio Jornal do Brasil foram vendidas a outras
empresas do ramo.

Essa situação a enfraqueceu consideravelmente, acarretando constante rotação do seu comando,


tanto administrativa quanto editorial. Apesar disso, foi o primeiro jornal brasileiro a ingressar
decisivamente no ramo da mídia digital, publicando diariamente uma edição on Une, estruturada
por Rosenthal Calmon Alves, que emularia as empresas congêneres a promover iniciativas
semelhantes.

Sem ter debelado a crise financeira, o jornal sobrevive heroicamente, graças ao entusiasmo de uma
aguerrida equipe de repórteres, redatores, editores e colunistas.

Folha de S. Paulo

Em 1921, nasce a empresa que hoje edita o jornal Folha de S. Paulo. Lançado inicialmente como
Folha da Noite, acresce novas edições, uma delas rotulada em 1925 como Folha da Manhã, e a
outra denominada Folha da Tarde, em 1949. A fusão dos três títulos geraria, em 1960, a

208

Ü
Folha de S. Paulo, que adota o lema ”um jornal a serviço do Brasil”.

Sua consolidação jornalística se dá como conseqüência do trabalho competente de profissionais


como José Reis e José Nabantino Ramos. Seu legado é transferido ao consórcio Frias-Caldeira, que
assume o comando da empresa em 1962, valendo-se da colaboração de editores arrojados como
Cláudio Abramo, Boris Casoy, Carlos Eduardo Lins da Silva, Caio Túlio Costa. Desde 1992, a
propriedade está em mãos exclusivas da família Frias de Oliveira.

Sob o comando da segunda geração, o jornal protagonizou intensa revolução tecnológica, gerencial
e editorial, passando a liderar um moderno complexo midiático. Dele fazem parte a Agência Folha,
editora Publifolha, a gráfica Ipiranga, além de iniciativas em consórcio com empresas congêneres
como UOL - Universo On Line e o jornal Valor Econômico.
O Globo

Fundado, em 1925, por Irineu Marinho o vespertino O Globo apresentava uma plataforma ousada:
inovar os padrões da imprensa carioca, atuando com independência em relação ao governo e ao
mercado.

A morte prematura do fundador guindaria ao seu comando o jovem herdeiro Roberto Marinho. Para
dar sustentação ao projeto paterno, ele contou com a colaboração de experientes profissionais, entre
eles os co-fundadores da empresa, Euclides Mattos e Herbert Moses.

Somente na década de 60, o jornal se converteria em diário matutino, ganhando credibilidade


através do seu quadro de eminentes repórteres e redatores, como Otto Lara Resende, Nelson
Rodrigues, Edmar Morei, David Nasser, Franklin de Oliveira, Ibrahim Sued, Luis Alberto Bahia,
Evandro Carlos de Andrade.

Seu prestígio nacional foi crescendo no vácuo da deterioração dos padrões dos concorrentes locais e
no bojo do fortalecimento das Organizações Roberto Marinho. Já atuando nos segmentos da
imprensa e da radiodifusão, a empresa investe fortemente no setor televisivo. Assumindo a
hegemonia desse negócio midiático no Brasil, é favorecida pelo acordo de cooperação técnico-
financeira com a multinacional Time-Life

209
e pelas boas relações mantidas com os golpistas de 1964.

Além de assumir a liderança na tiragem nacional da imprensa diária, o jornal distingue-se pelas
inovações gráficas e fotográficas, bem como pela adoção, nos estertores do regime militar, de um
padrão informativo de qualidade, buscando resgatar a meta original de um jornalismo independente.

O Globo faz parte de um conglomerado, hoje comandado pela terceira geração da Família Marinho.
Sua unidade líder é a Rede Globo de Televisão, acolitada por: Rede Globo de Rádio, jornal popular
Extra, a produtora de revistas e fascículos Rio-Gráfica, bem como pela Editora Globo, que atua no
segmento livreiro, empresa fonográfíca Som Livre, além da Fundação Roberto Marinho, ponta-de-
lança no campo da comunicação educativo-cultural.

Adotando ofensiva em direção ao mercado paulista, incorporou recentemente o centenário Diário


Popular, que passou a adotar novo título: Diário de São Paulo, de alguma maneira reproduzindo o
formato testado na edição carioca de O Globo. Também estabeleceu parceria com a empresa
midiática de propriedade da família Frias de Oliveira, para lançar o diário Valor Econômico, que
aspira à liderança nacional do jornalismo especializado em economia e negócios.

Perfil editorial

Impressos em formato standard1^, pelo sistema off-set, os 4 jornais circulam diariamente (7 dias
por semana).

Suas edições são constituídas por três unidades: cadernos {permanentes, abrigando as principais
editorias, ou eventuais, acolhendo temáticas de repercussão ocasional), suplementos214 {semanais,
atendendo a segmentos estratégicos do público leitor, e esporádicos, quase sempre atendendo a
demandas conjunturais) e encartes {locais ou externos, quase sempre financiados por anunciantes
de grande porte).

São distribuídos através de assinaturas ou da venda avulsa pelas redes de revendedores de produtos
impressos. Seus exemplares estão expostos em todas os pontos de venda das regiões metropolitanas
onde

1
são editados, além de bancas estratégicas, localizadas nas capitais dos Estados e nas principais
cidades brasileiras.

A tiragem reunida dos 4 jornais perfaz a média diária de 1,1 milhão de exemplares, o que
corresponde a pouco mais de um quarto do volume de exemplares publicados pela imprensa diária
de todo o país auditada pelo IVC (Instituto Verificador de Circulação)215.

A liderança é ocupada pela Folha de S. Paulo (399 mil), vindo em seguida O Estado de S. Paulo
(341 mil) e O Globo (297 mil). Em posição distanciada dos demais encontra-se o Jornal do Brasil
(87 mil)216.
Todos possuem edições online, para acesso dos respectivos assinantes, estando também
disponibilizadas nos portais mantidos pelos principais provedores de produtos digitais.

Morfologia

Os jornais de referência no Brasil demonstram, nesta conjuntura de transição histórica, uma nítida
mutação morfológica. Sua razão está certamente ancorada na concorrência que enfrentam daqueles
portais que veiculam jornalismo digital de boa qualidade. Eles privilegiam as informações em
tempo real, difundindo mensagens visualmente atrativas, coloridas e ilustradas.

As mudanças notadas situam-se não apenas na valorização da policromia, mas sobretudo na


captação de imagens capazes de suscitar o interesse dos leitores potenciais, muitos deles integrantes
do universo dos afíccionados da mídia digital.

Assim sendo, todos os jornais são policromáticos, predominando a tendência de ampliar as manchas
coloridas na superfície impressa. Enquanto as ilustrações (fotos, desenhos e gráficos) vão se
tornando mais cativantes, pelo uso intensivo das cores, o preto-e-branco passa a ser reservado
exclusivamente para a edição dos textos.

Tomando como referencial a primeira página, verifica-se que,

num período de 5 anos, a policromia expandiu-se nos jornais brasileiros,

embora não sendo ainda uma tendência hegemônica. Se em 1996, a

superfície policrômica variava entre 1/5 e 1/10 da superfície impressa

as primeiras páginas, em 2001 ela havia duplicado na imprensa paulista

210

211
ou triplicado na imprensa carioca, variando respectivamente para dominar 1/3 a 1/2 da superfície
impressa,

Da mesma forma, mostra-se crescente, em todos eles, a sistemática de privilegiar o código icônico
em relação ao código lingüístico.

Essa mutação está visível na, primeira página de todos os jornais pesquisados. Trata-se de uma
tendência que, no final do século passado, era mais cultivada pelos jornais paulistas do que pelos
cariocas. Neste início do novo século, verifica-se uma reação dos jornais cariocas, que duplicam,
em média, seus espaços icônicos.

Dos três recursos ilustrativos, a fotografia ganhou intensidade, sobrepondo-se tanto em relação ao
uso dos desenhos quanto ao dos gráficos. O maior crescimento da fotografia se deu em O Estado de
S. Paulo (que saltou de 22% para 51%), enquanto nos outros 3 jornais o seu espaço aparece
ligeiramente duplicado.

Qual é a natureza das imagens captadas pelas fotografias estampadas nas primeiras páginas desses
jornais? Elas enfocam majoritariamente a gente que produz notícia, ou seja, pessoas flagradas no
momento em que protagonizam acontecimentos relevantes. Se compararmos o instantâneo referente
ao ano 2001, veremos que essa modalidade de registro visual ocupa 2/3 da superfície fotográfica
pesquisada. O jornal que demonstra maior sensibilidade ambiental, captando flagrantes de outros
agentes noticiosos, além dos seres humanos, é O Estado de S. Paulo. Embora conceda primazia
informativa às pessoas, esse jornal focaliza também as paisagens (28%), na amostra de 1996, e os
animais (30%), na amostra de 2001.

Geografia

Admitindo que a primeira página é a vitrine destinada a espelhar o conjunto do jornal, fizemos uma
aproximação à geografia noticiosa da imprensa de referência no Brasil. Buscamos compreender o
panorama através de dois ângulos: a agenda e os agentes. Em ambos os casos, procuramos verificar
quais as incidências globais, nacionais e regionais.

No que se refere à agenda noticiosa, constata-se um viés preponderantemente nacionalista, que se


traduz por uma maior abrangência

212

dos acontecimentos sucedidos em território nacional. Os fatos que possuem dimensão globalizante
figuram em espaço reduzido. Ligeiras discrepâncias são notadas no conjunto, quando se percebe
que em 1996 o Jornal do Brasil publicava mais que o dobro de notícias referentes ao planeta
aparecidas nos 3 outros periódicos; a mesma tendência registrase em 2001 em O Estado de S.
Paulo, onde o global merece maior transcendência que aquela refletida nos outros jornais, no
mesmo período.

Quando se fecha o raio de observação para apreender o sentido geopolítico da agenda doméstica,
verificamos que os acontecimentos nacionais se sobrepõem àqueles de caráter regional,
confirmando a vocação de referência nacional que estes jornais assumem publicamente. Se no final
do século passado o enfoque regional era mais ou menos equilibrado no conjunto dos jornais, neste
início de novo século ele se mostra declinante nos dois jornais paulistas, enquanto os dois jornais
cariocas preservam seu registro, com maior incidência em O Globo.
Contudo, ao se considerar a questão pelo ângulo dos agentes noticiosos, ou seja, os protagonistas
dos acontecimentos, verifica-se que o panorama embutido na primeira página mostra-se mais
equilibrado, embora exista uma prevalência dos agentes nacionais em relação aos globais e daqueles
em relação aos figurantes regionais. O Estado de S. Paulo é coerente, nesse aspecto, com a maior
valorização do global diante do nacional, dedicando aos agentes mundiais, em 2001, o dobro do
espaço concedido aos nacionais. Por sua vez, O Globo exibe um comportamento mais equilibrado,
com ligeira preferência pelos agentes regionais.

As tendências identificadas na primeira página se confirmam inteiramente quando se faz a análise


da geografia noticiosa no bojo da superfície impressa de cada jornal. A análise do conteúdo
jornalístico, no conjunto das edições, demonstra que o noticiário referente a fatos protagonizados
em território nacional ocupa, em média, 8 de cada 10 centímetros-coluna do conteúdo jornalístico.

Nota-se, contudo, uma maior valorização do noticiário global na transição secular. Cresceu, em
todos os jornais, o volume da informação mundial, quando se comparam as amostras de 1996 e
2001, refletindo indiscutivelmente a maior inserção brasileira no cenário internacional,

213
uma das bandeiras fincadas pelo nosso governo na década de 90 do século XX. Sua maior
incidência está em O Estado de S. Paulo, onde houve pouco mais que a duplicação do espaço
(passou de 18% para
41%). A menor incidência ocorreu em O Globo, onde o crescimento foi de apenas 1%. Os
progressos feitos, nessa direção, pelos outros dois jornais são mais ou menos equivalentes: a Folha
de S. Paulo pulou de
15% para 24% e o Jornal do Brasil transitou de 24% para 38%.

O mapa do mundo delineado pela geografia noticiosa brasileira é, contudo, enviesado. Ele reflete
inevitavelmente o tabuleiro disposto na arena internacional, com a prevalência dos centros
hegemônicos da geopolítica. Ou seja, a Comunidade Norte-Americana (tendo os Estados Unidos
muito à frente) concentra a atenção principal dos repórteres e editores, figurando em posição
secundária a Comunidade Européia. Notase, contudo, um maior interesse dos jornais editados em
São Paulo pelas notícias européias do que o revelado pelos jornais cariocas. As outras regiões do
planeta ocupam espaço residual, para não dizer insignificante, nas páginas dos nossos jornais de
referência. Em 2001, o interesse pelos fatos ocorridos nessa periferia noticiosa quintuplicou em O
Globo e O Estado de S. Paulo.

Essa mesma ótica informativa se reproduz no panorama nacional. A atenção hegemônica do


noticiário está orientada para os acontecimentos ocorridos no triângulo Brasília-Rio-São Paulo, que
corresponde ao centro nevrálgico do nosso poder político-cultural-econômico. Comparando a
amostra do fim do século XX com a do início do século XXI, constata-se que três dos jornais
reduziram o espectro regional, com exceção de O Globo, onde ele aparece ligeiramente ampliado. O
que ocorre na periferia brasileira raramente catalisa a atenção da vanguarda da nossa imprensa.
Somente 2 de cada 10 centímetros-coluna em O Estado de S. Paulo e no Jornal do Brasil e 1 de
cada 10 centímetros-coluna na Folha de S. Paulo e em O Globo são dedicados a notícias regionais.

Fontes e focos noticiosos

Onde estão concentradas as baterias dos artilheiros das notícias? Procuramos responder esta questão
usando dupla estratégia. Pri-

meiro, identificando onde os pauteiros garimpam as informações que vão gerar notícias e
reportagens. Ou seja, quais são suas fontes explícitas, no processo de filtragem entre os fatos e as
respectivas versões? Segundo, aferindo as âncoras noticiosas. Ou melhor, aqueles focos para onde
se dirigem os refletores informativos arbitrados pelos redatores e editores, no momento em que
estão construindo o conteúdo jornalístico. A intenção é a de compreender como se maneja o poder
no interior das redações. Trata-se de um espaço muito disputado pelos assessores de imprensa, que
nutrem apetite voraz para garantir aos seus clientes lugares cativos no cenário midiático.

Os dados disponíveis permitem observar uma tendência muito clara: quem menos influi no
conteúdo jornalístico são os cidadãos comuns. Sua participação decresceu relativamente na virada
do século. O caso extremo é o de O Estado de S. Paulo, onde eles haviam respaldado 43% das
unidades noticiosas em 1996, decaindo para 1% em 2001. Em compensação, seu protagonismo
quase triplicou na Folha de S. Paulo. Na imprensa carioca, ele se manteve praticamente inalterável
em O Globo, ocupando 1/4 do universo; no caso do Jornal do Brasil nota-se fluxo decrescente da
sua influência.

A primazia noticiosa pertence à categoria dos olimpianos, categoria constituída pelas personalidades
que conquistaram fama em suas atividades ocupacionais, estando facilmente disponíveis para dar
entrevistas ou aparecer como ”testemunhas oculares” das notícias. Elas começam a perder espaço,
na atual conjuntura, com exceção de O Estado de S. Paulo, onde duplicaram seu espaço. Nos outros
jornais sua influência mostra-se declinante. Neles ganha intensidade a participação das autoridades.
Comparando as pesquisas de 1996 e 2001, percebe-se que elas duplicam a presença no noticiário da
Folha de S. Paulo, quintuplicando-o em O Globo.

Essa tendência pode traduzir uma preocupação dos pauteiros em apurar os fatos nas suas principais
fontes geradoras. Pode ser também o prenuncio de um novo ciclo do jornalismo ”chapa-branca”,
fenômeno geralmente nutrido pelas crises políticas.217

Numa outra perspectiva, buscamos identificar para onde estão

214

215
dirigidos os refletores manejados pelos artítices das notícias. Quem eles mais focalizam? As
instituições ou as personalidades?

Mostra-se consolidada a prioridade que os jornais de referência atribuem ao aparato institucional.


Essa tendência era mais robusta no século passado do que neste começo de nova era. Com exceção
da Folha de S. Paulo, que ampliou a sua cobertura institucional, os três outros jornais esboçam um
movimento tendente a personalizar o noticiário. Ele é mais intenso no Rio de Janeiro, onde os dois
jornais de referência nacional mais do que triplicaram a focalização das personalidades,
especialmente aquelas situadas em cenários não governamentais. Quem parece beneficiar-se melhor
dessas oportunidades são os dignatários do poder executivo. A presença de autoridades legislativas
ou de membros do judiciário mostra-se tímida.

No âmbito do noticiário institucionalizado, a fatia mais expressiva é ocupada pelos órgãos


governamentais. Contudo, mostra-se crescente, na passagem do século, a ofensiva das empresas,
particularmente refletida nas páginas da Folha de S. Paulo e de O Globo. Enquanto a focalização
das instituições vinculadas à sociedade civil (igrejas, sindicatos, escolas) tem sido preservada pela
Folha de S. Paulo, a postura da imprensa carioca mostra-se refratária a tais entidades, onde seu
espaço foi praticamente residual em 2001. Também é diminuta a presença das ONGs no noticiário
dos jornais, com exceção de O Estado de S. Paulo, onde elas encontram boa guarida, apesar de
decrescente no período.

Conteúdo midiático

O conteúdo midiático dos jornais de referência nacional exibe, na conjuntura da transição milenar,
um quadro em mutação. Ele se traduz pela ampliação da situação ocupada pela propaganda, no
conjunto da superfície impressa, acarretando um sensível declínio do espaço dedicado ao
jornalismo. Também as outras categorias comunicacionais sofrem redução no período: lazer e
instrução figuram em posição residual.

Essa tendência é mais forte na imprensa paulista do que na carioca. Enquanto os jornais de São
Paulo dobraram a mancha publicitária, os jornais do Rio de Janeiro esboçaram reações discrepantes
(no Jornal

216

do Brasil os anúncios cresceram 5% e em O Globo decresceram !%) Por sua vez, o espaço de
instrução em O Globo declinou de 5% para
1%. O Jornal do Brasil ampliou o espaço das duas categorias: lazer pulou de 1% para 6% e
instrução avançou de 0 para 4%.

A tendência do crescimento publicitário na imprensa paulista já se mostrava significativa em 1996,


notando-se mais nos jornais do interior do que nos da capital. Trata-se de um reflexo da
dinamização da economia regional, no bojo das transformações comerciais ensejadas pela f3ra
FHC. Ela se projeta de modo impressionante nos dois jornais paulistas de expressão regional no
início do século XXI, afetando a magnitude da cobertura informativa. Na Folha o índice redutor do
jornalismo aproxima-se de 2, enquanto no Estado ele eqüivale a 5.

Em sendo um fenômeno conjuntural, afetado ao mesmo tempo pelas oscilações da economia


nacional e pela crise financeira das nossas maiores empresas jornalísticas, torna-se temerário fazer
qualquer generalização sobre o conjunto dos jornais de referência.
Paradoxal é o fato de esse aumento de espaço dos anúncios, na superfície impressa dosjornalões
paulistas, verifícar-se numa quadratura em que o investimento publicitário no segmento dos jornais
diárias vem decrescendo desde 1996. Comparando o volume de verbas carreadas para os veículos
concorrentes (TV, rádio, revista, etc), no qüinqüênio
1996-2001, a participação dos jornais diários no bolo publicitário nacional variou de 25,2% para
21,3%. (Mídia Dados, 2002, 49).

Gêneros jornalísticos

No que se refere aos gêneros jornalísticos, as pesquisas do final do século XX e começo do século
XXI confirmam a tese contida em nossa tese de livre docência (1983) de que a imprensa diária
brasileira comporta exclusivamente dois gêneros jornalísticos: informativo e opinativo. Comprovou-
se empiricamente que os gêneros interpretativo e diversional permanecem ausentes dos nossos
jornais de referência nacional, circunstância que provavelmente se reflete no conjunto da imprensa
cotidiana, em todo o país. (Marques de Melo, 2003).

217
Mantém-se na imprensa de referência a hegemonia do jornalismo informativo em relação ao
jornalismo opinativo. Em média, a informação ocupa 8 de cada 10 centímetros-coluna na mancha
redacional desses veículos. Dos quatro jornais, apenas a Folha de S. Paulo mantinha, em 1996, um
relativo equilíbrio entre os gêneros informativo e opinativo, evidentemente com a prevalência do
primeiro em relação ao segundo. Na amostra pesquisada em 2002, essa equivalência desaparece,
impondo-se a mesma tendência dos jornais congêneres, onde o gênero informativo figura como
dominante na superfície jornalística.

Temáticas informativas

O conteúdo jornalístico da imprensa diária de referência nacional espelha em boa medida a própria
estrutura da engrenagem redacional. Ou seja, as editorias que compõem a malha operativa das
redações determinam a segmentação da agenda informativa.

As rubricas economia, política, esportes, cultura e cidade, pela ordem, ocupam as maiores fatias do
espaço jornalístico. Se essa tendência permanece válida, no qüinqüênio analisado, em todos os
jornais, ela contudo não se mostra uniforme na comparação temporal da fisionomia editorial de
cada um deles.

Economia, por exemplo, quase duplica no interior da Folha de S. Paulo (pulando de 12% para
20%), decrescendo ligeiramente no Jornal do Brasil (onde passa de 18% para 15%).

Política avulta em quase todos os jornais, sendo mais expressiva sua variação no Jornal do Brasil
(de 10% para 17%) do que na Folha de S. Paulo (de 9% para 13%).

Esportes também cresce no conjunto dos jornais, ampliando-se mais no Jornal do Brasil (passa de
10% para 17%) do que na Folha de S. Paulo (pula de 7% para 13%) e em O Estado de S. Paulo
(onde varia de 8% para 13%).

Cultura revela-se, de igual modo, um item em expansão. O crescimento é mais intenso no Rio de
Janeiro (em O Globo o incremento é de
6% para 16% e no Jornal do Brasil de 13% para 20%) do que em São Paulo (onde somente O
Estado de S. Paulo experimenta ampliação de

218

10% para 15%). A Folha de S. Paulo é o único jornal onde essa rubrica apresenta-se reduzida, no
período: decresce de 16% para 10%.

Finalmente, a temática Cidade mostra-se diferenciada em cada um dos jornais. Ela permaneceu
inalterada em O Estado de S. Paulo, que lhe dedica um caderno diário ”Cidades”, não raramente
compactado junto com o de ”Esportes”. Registre-se que o âmbito dessa editoria é abrangente,
compreendendo tanto a capital de São Paulo quanto outras cidades do interior, inclusive as que
estão situadas na região metropolitana. Seu crescimento foi exponencial na Folha de S. Paulo, onde
saltou de 1% para 10%, estando circunscrita ao caderno ”Cotidiano”, onde os acontecimentos
tipicamente urbanos da capital estadual disputam espaço com matérias referentes ao comportamento
humano, não necessariamente ocorridos no território da cidade em que o jornal se edita. Em O
Globo a variação é diminuta: oscila de 5% para 7%. Por sua vez, no Jornal do Brasil ela se mostra
decrescente, tendo caído de 5% para 2%.

Advertência final
O quadro aqui esboçado deve ser visto como ponto de partida para a compreensão da imprensa
brasileira de referência nacional. A ausência de estudos regulares e periódicos sobre o fenômeno
constitui obstáculo para generalizar as tendências observadas, no tempo e no espaço.

Sua intenção é justamente, a partir da literatura internacional, coligir dados e evidências


vocacionados para motivar outros pesquisadores a fazer avançar este esforço comparativo. Sua meta
é estocar reflexões que possam servir como alavanca para ampliar o confronto do perfil brasileiro
com aquele que é típico dos outros países lusófonos.

Na medida em que se fortalece uma comunidade lusófona das ciências da comunicação (Marques
de Melo, 2003b), exercícios analíticos desta natureza podem ser replicados em outros países. E,
desta maneira, ensejar observações capazes de apreender as convergências e dissonâncias dos
nossos sistemas midiáticos, em cujo vértice localiza-se naturalmente o jornalismo de referência
nacional.

Não obstante o jornalismo ainda permaneça, nesta etapa de emer-

219
gência de uma sociedade global, como fenômeno culturalmente atrelado às sociedades nacionais
(legatárias do patrimônio político do século XIX, consolidado durante o século XX), é prudente não
desconsiderarmos a evidência da sua dependência tecnológica em relação a um sistema midiático
intensamente planetarizado. Isso acarreta aos países integrantes da comunidade lusófona certas
aderências culturais aos blocos geoeconômicos em que estão inseridos, na América, África, Europa
ou Oceania. Elas suscitam reflexos imediatos nos padrões jornalísticos que tais países adotam
contemporaneamente.

Nesse sentido é que o estudo do jornalismo de referência nacional em países como o Brasil pode
servir como alavanca para incursões em territórios mais amplos e complexos.

Gerar indicadores para configurar uma midiologia lusófona, a um só tempo diacrônica e sincrônica,
foi a nossa meta nesta comunicação, na expectativa de que as críticas a ela endereçadas possam
trazer desdobramentos frutíferos.

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1999.

221
Perfil Intelectual do Autor
José Marques de Melo é jornalista, escritor, professor universitário, pesquisador científico e
consultor acadêmico.

Nascido em Palmeira dos índios (Estado de Alagoas), obtendo os títulos de Bacharel em Jornalismo,
Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais, Pós-Graduado em Ciências da Informação Coletiva,
Doutor em Ciências da Comunicação e Livre-Docente em Jornalismo.

Docente-fundador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP),


ali desenvolveu sua carreira acadêmica. Foi agraciado com bolsas de fundações nacionais ou
estrangeiras para realizar estudos avançados em universidades espanholas (Complutense, de Madrid
e Autônoma, de Barcelona) e norte-americanas (Wisconsin e Texas).

Começou a trabalhar como jornalista, em 1959, atuando em empresas jornalísticas das cidades de
Maceió, Recife e São Paulo, além de haver colaborado com jornais e revistas de várias cidades
brasileiras. Mantém coluna especializada, difundida simultaneamente pelas revistas Imprensa
(Brasil) e Etcétera (México).

Destacou-se como gestor universitário, tendo dirigido faculdades, cursos ou laboratórios na USP,
UNICAMP, UMESP e prestado consultoria a diversas instituições brasileiras. Exerceu cargos
públicos ou presidiu comissões vinculadas aos Ministérios da Educação e Cultura e da Ciência e
Tecnologia.

Proferiu palestras, conferências ou ministrou aulas magnas em universidades e centros de estudos


da Argentina, Austrália, Bolívia, Chile, Canadá, Estados Unidos, Escócia, Espanha, França,
Hungria, Irlanda, México, Panamá, Peru, Portugal, Venezuela, Uruguai. Realizou atividades
semelhantes em quase todos os Estados do Brasil.

Publicou centenas de artigos em revistas acadêmicas do Brasil e do exterior, bem como dezenas de
livros, dos quais os mais recentes são:

223
Teoria da Comunicação: Paradigmas Latino-Americanos (Vozes), História do Pensamento
Comunicacional (Paulus), História Social da Imprensa (EDIPUCRS).

Formou várias gerações de jornalistas e de pesquisadores acadêmicos, tendo orientado mais de uma
centena de mestres ou doutores no âmbito das Ciências da Comunicação.

Atualmente é docente do Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade


Metodista de São Paulo, sendo titular da Cátedra UNESCO de Comunicação para o
Desenvolvimento Regional. Exerce também o cargo de Diretor da Faculdade de Comunicação
Social do UniFIAM - Centro Universitário Alcântara Machado (São Paulo).

Idealizador da Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória e a Construção da História da


Imprensa no Brasil, lidera um consórcio de instituições que desenvolvem estudos e pesquisas
destinados a subsidiar o programa comemorativo dos 200 anos de implantação da imprensa em
território brasileiro (2008). Atua ainda como inspirador intelectual de três Redes Internacionais -
CELACOM, LUSOCOM e MERCOMSUL - e de três Redes Nacionais - REGIOCOM,
FOLKCOM e COMSAÚDE.

Foi agraciado com as seguintes distinções honoríficas: Prêmio Wayne Danielson de Ciências da
Comunicação - University of Texas (Austin, USA), Medalha Rui Barbosa do Ministério da Cultura
(Rio de Janeiro), Professor Honoris Causa da Universidade Católica de Santos (São Paulo), Doutor
Honoris Causa da Universidade Federal de Alagoas (Maceió), Professor Emérito da Escola de
Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, Membro Efetivo do Instituto Histórico de São
Paulo, Presidente de Honra da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação.

224

Notas
’MARQUES DE MELO, José. Identidade do Jornalismo Brasileiro: cenários epersonagens, Armário Brasileiro da
Pesquisa em Jornalismo, n. 1, São Paulo, ECA-USP, 1992, p. 23-38.
2 As evidências iniciais deste trabalho coletivo estão contidas em dois volumes publicados pela Cátedra UNESCO da
Universidade Metodista de São Paulo - Marques de Melo, José& Queiroz, Adolpho - Identidade da imprensa brasileira
no final do século, São Bernardo do Campo, UNESCO / UMESP, 1998 - Marques de Melo, José & Kunsch, Waldemar -
De Belém a Bagé: imagens mídiáticas do Natal Brasileiro, São Bernardo do Campo, UNESCO / UMESP, 1998. Uma
tentativa de confronto epsódico entre o jornalismo brasileiro e os jornalismos vigentes nos países do nosso entorno geo-
cultural está documentada na coletânea ”O Mercosul na imprensa do Mercosul”, Anuárío UnescoUmesp de Comunicação
Regional, n. 4, São Bernardo do Campo, Editora UMESP, 2001, p. 15-112. Encontram-se no prelo duas outras incursões
investigativas, realizadas sob nossa inspiração e estimulo, no limiar do novo século: um estudo sobre a natureza do
jornalismo científico brasileiro será publicado em coletânea do Laboratório de Estudos de Jornalismo da UNICAMP e
uma pesquisa comparativa sobre a nossa imprensa diária de prestígio nacional e regional está em fase de publicação no
Anuário Unesco / Umesp de Comunicação Regional, n. 6, a ser lançado durante o ano de 2003.

3 BARBOSA LIMA SOBRINHO, A. J. O problema da imprensa. Rio de Janeiro: Álvaro Pinto Editor, 1923 (Nova edição
desta obra foi publicada pela EDUSP - Editora da Universidade de São Paulo, 1988 - Coleção Clássicos do Jornalismo
Brasileiro, vol. 1).

4 RABELO, Genival. O capital estrangeiro na imprensa brasileira. Rio de Janeiro: Ciivilização Brasileira, 1966.

5 SOUZA, Cláudio Mello e. 15 Anos de História. Rio de Janeiro: TV Globo, 1984.

6 JOBIM, Danton. Espírito do Jornalismo. Rio de Janeiro: São José, 1960 (Nova edição desta obra está disponível na
Coleção Clássicos do Jornalismo Brasileiro, São Paulo, EDUSP, 1992).

7 DINES, Alberto. O papel do jornal. Rio de Janeiro: Artenova, 1974. (Essa obra foi revista e atualizada pelo autor,
estando disponível na coleção Novas Buscas em Comunicação. São Paulo: Summus. 6a. ed., 1996).

8 VIANNA, Ruth Penha Alves. Informatização da Imprensa Brasileira. São Paulo: Loyola, 1992.

9 LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. Mil dias: os bastidores da revolução em um grande jornal. São Paulo: Trajetória
Editorial, 1988.

10 PEREIRA, Moacir. A imprensa em Debate. Florianópolis: Lunardelli, 1981.

” MARQUES DE MELO, José & GALVÃO, Waldimas, orgs. Jornalismo no Brasil Contemporâneo. São Paulo: ECA-
USP, 1984.

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12 ORTRIWANO, Gisela, org. Radiojornalismo no Brasil - dez estudos regionais. São Paulo: ECA-USP, 1987.

13 MEDINA, Cremilda, org. O Jornalismo na Nova República. São Paulo: Summus, 1987.

14 RITO, ARAÚJO, ALMEIDA e outros. Imprensa ao vivo. Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

15 MARQUES DE MELO, José & LINS DA SILVA, Carlos Eduardo, orgs. Perfis de Jornalistas. São Paulo: FTD, 1991.

16 VIEIRA, Geraldinho. Complexo de Clark Kent - são super-homens ou jornalistas? São Paulo: Summus, 1991.

17 MARQUES DE MELO, José, org. Gêneros Jornalísticos na Folha de S. Paulo. São Paulo: FTD, 1992.

18 MARQUES DE MELO, José, org. Transformações do Jornalismo Brasileiro: ética e técnica. São Paulo: INTERCOM,
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19 ABREU, Alzira Alves de. A imprensa em transição. Rio de Janeiro: FGV, 1996.

20 SQUIRRA, Sebastião, org. Telejomalismo: memórias 1. São Paulo: ECA-USP, 1997.

21 DANTAS, Audálio. Repórteres. São Paulo: Editora SENAC, 1998.

22 MOREIRA, Sônia & DEL BIANCO, Nélia R. Desafios do Rádio no Século XXI. São Paulo: INTERCOM, 2001.

23 BARBOSA, Marialva, org. Estudos de Jornalismo I. Campo Grande: INTERCOM, 2001.

24 CAPARELLI, Sérgio. Comunicação de Massa sem Massa. São Paulo: Cortez Editora,
1980. (Obra reeditada pela Summus Editorial, São Paulo, 3a. ed., 1986).

25 MEDINA, Cremilda. Profissão Jornalista: Responsabilidade Social. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.

26 TORQUATO, Gaudêncio. Jornalismo Empresarial. São Paulo: Summus, 1984.

27 SEGUIN DES HORNS, André de. Lê Brésil: Presse et Histoire, 1930-1985. Paris: UHarmattan, 1985.

28 CAPELATTO, Maria Helena. Os arautos do liberalismo. São Paulo: Brasiliense, 1986.

29 BUITONI, Dulcilia. Imprensa feminina. São Paulo: Ática, 1986.

30 LEUENROTH, Edgar. A Organização dos Jornalistas Brasileiros, 1908-1951. São Paulo: Com-Arte, 1987.

3’ JORGE, Fernando. Cale a Boca, Jornalista! (O ódio e a fúria dos mandões contra a imprensa brasileira). Petrópolis:
Vozes, 1990.

32 KUCINSKI, Bernardo. Jornalistas e Revolucionários nos Tempos da Imprensa Alternativa. São Paulo: Critta, 1991.

33 ARAÚJO, Silvia & CARDOSO, Alcina. Jornalismo & Militância Operária. Curitiba: Editora UFPR, 1992.

34 CHAPARRO, Manuci Carlos. Pragmática do Jornalismo. São Paulo: Summus, 1994. ”TRAVANCAS, Isabel. O
mundo dos jornalistas. São Paulo: Summus, 1993.

36 MARCONDES FILHO, Ciro. Jornalismo Fin-de-Siècle. São Paulo: Scritta, 1993.

226
37 RUDIGER, Francisco. Tendências do Jornalismo. Porto Alegre: Editora da Universidade, 1993.

18 SQUIRRA, Sebastião. O âncora do telefornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1993.

39 RIBEIRO, Jorge Cláudio. Sempre Alerta - Condições e Contradições do trabalho jornalístico. São Paulo: Olho d’água,
1994.

40 MORAIS, Dênis de. O imaginário vigiado - A imprensa comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-1953). Rio
de Janeiro: José Oiympio, 1994.

41 RIBEIRO, José Hamilton. Jornalistas, 1937 a 1997. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 1998.

42 LAGE, Nilson. Controle da Opinião Pública. Petrópolis: Vozes, 1998.

43 FRANÇA, Vera Veiga. Jornalismo e Vida Social. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998.

44 SÁ, Adisia. O Jornalista Brasileiro. Fortaleza: Fundação Demócrito Rocha, 1999.

45 BARBOSA, Maialva. Os donos do Rio: imprensa, poder epúblico. Rio de Janeiro: Vicio de Leitura, 2000.

46 REZENDE, Guilherme. Telejomalismo no Brasil. São Paulo: Summus, 2000.

47 MACHADO DA SILVA, Juremir. A miséria do jornalismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 2000.

48 O inventário desse processo histórico constitui a plataforma do movimento iniciado no ano 2000, através da Rede
Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil. Vide: TAVARES, Luiz
Guilherme Pontes, org. Rumo ao Bicentenário da Imprensa Brasileira. Salvador: HEHIB, 2002.

49 LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. O adiantado da hora: a influência americana sobre o jornalismo brasileiro. São
Paulo: Summus, 1991.

50 CHAPARRO, Manuel Carlos. Sotaques d’aquém e d’ além mar -percursos egêneros do jornalismo português e
brasileiro. Santarém: Jortejo, 1998.

51 Trata-se, em verdade, de itinerário intelectual cujas raízes podem ser encontradas em dois livros prévios: MARQUES
DE MELO, José. Estudos de Jornalismo Comparado São Paulo: Pioneira, 1972 e MARQUES DE MELO, José.
Sociologia da Imprensa Brasileira. Petrópolis: Vozes, 1973.

52 MARQUES DE MELO, José. Gêneros Opinativos no Jornalismo Brasileiro. Tese de Livre-Docência, São Paulo,
ECA-USP, 1983 (Vide a mais recente edição dessa obra Jornalismo Opinatívo. Campos do Jordão: Editora Mantiqueira,
2003).

53 Texto revisto da comunicação apresentada ao XX Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, promovido pela
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - INTERCOM no campus da Universidade Católica
de Santos UNISANTOS, Santos, 1997.

54 MARQUES DE MELO, José. História Social da Imprensa. Porto Alegre: EdiPUCRS,2003.

5 MARQUES DE MELO, José, org. Inventário da Pesquisa em Comunicação no Brasil: 1883-1983. São Paulo:
Intercom, 1984.

227
”BARBOSA LIMA SOBRINHO. O Problema da Imprensa. São Paulo: EDUSP, 1988.

57 MARQUES DE MELO, José. Estudos de Jornalismo Comparado. São Paulo: Pioneira,


1972.

58 MARQUES DE MELO, José. Contribuições para uma pedagogia da comunicação. São Paulo: Paulinas, 1974.

59 MARQUES DE MELO, José. Comunicação e Modernidade - o ensino e a pesquisa nas escolas de comunicação. São
Paulo: Loyola, 1991.

60 MARQUES DE MELO, José. Fontes para o estudo da comunicação. São Paulo: INTERCOM, 1995.

61 MARQUES DE MELO, José. Estudos Avançados em Jornalismo. Estratégias da UNICAMP, Rua - Revista do
NUDECRI. Campinas: UNICAMP. Núcleo de Desenvolvimento da Criatividade, 1997, N. 3,155-166.

62 MARQUES DE MELO, José. O Grupo Comunicacional de São Bernardo: idéias hegemônicas e perfil sócio-gráfico,
Revista Brasileira de Ciências da Comunicação, vol. XXII, n. 1. São Paulo: INTERCOM, 1999, p. 57-68.

63 MARQUES DE MELO, José. Ensino de Jornalismo na América Latina: singularidades do modelo brasileiro. Papel
apresentado ao I Congresso Latinoamericano de Periodismo. Panamá: CELAP, 1997.

64 MARQUES DE MELO, José. Estudos de Mídia no Brasil: identidades e fronteiras, Comunicação & Sociedade, n. 30.
São Bernardo do Campo: UMESP, 1998, p. 9.50.

65 MARQUES DE MELO, José. Transformações do Jornalismo Brasileiro: Ética e Técnica. São Paulo: INTERCOM,
1994.

66 BOTÃO, Paulo Roberto. A pesquisa em jornalismo no Brasil: a contribuição da Intercom, In: LOPES, Maria
Immacotata V. - Vinte anos de Ciências da Comunicação no Brasil. São Paulo: INTERCOM / UNISANTA, 1999, p. 125-
136.

67 Comunicação apresentada ao VII Congresso Ibero-Americano de Jornalismo Científico. Buenos Aires: 16-18 de
novembro de 2000.

68 Segundo Clemente Ci morra - Historia dei Periodismo, Buenos Aires, Editorial Atlântida,
1946, p. 109-111 - existem evidências de atividades informativas na Colônia Espanhola desde o fim do século XVI.
Contudo, tais iniciativas não configuram o exercício regular do Jornalismo, o que viria a existir somente no século XVII.
Ele registra o aparecimento de uma folha de notícias impressas em Lima, já no ano de 1594. Mas o primeiro jornal data de
1722, editado na cidade do México pelo sacerdote Juan Ignacio Castorena Arzúa y Goyenneche, posteriormente alçado à
condição de Bispo de Yucatan.

69 Hipólito da Costa chegou a figurar como personagem maldita do Jornalismo Brasileiro, de acordo com resolução do
VII Congresso Nacional de Jornalistas, realizado no Rio de Janeiro, em 1957. Os participantes daquele encontro
aprovaram com louvor a tese de Fernando Segismundo (atual presidente da ABI - Associação Brasileira de Imprensa)
denominada ”Hipólito da Costa, jornalista vetai”, cujo enunciado era o seguinte: ”Hipólito da Costa é falso ídolo, e deve
tombar do alto pedestal a que o elevou a admiração fácil de seus ingênuos concidadãos”. (Segismundo, 1962, p. 167-190).

228
711 Competente secretário de redação do diário Correio da Manhã, Costa Rego foi convocado pelo secretário de
educação do Rio de Janeiro para implantar a primeira cátedra de Jornalismo do país, criada na Universidade do Distrito
Federal, em 1935. Em suas aulas ele dissemina teses inovadoras sobre o Jornalismo Brasileiro, algumas das quais estão
contidas nos livros publicados ou nos artigos escritos para o referido jornal da antiga capital federal. (Marques de Melo,
200a).

71 O historiador brasileiro Nlson Werneck Sodré não titubeia em considerar o jornal de Hipólito da Costa como uma
espécie de correia de transmissão do ideário da burguesia inglesa. ”Refletia nos seus comentários a posição da burguesia
inglesa que, no processo de autonomia da área americana de ocupação ibérica, era uma em relação à Espanha e outra em
relação à Portugal, de cuja subordinação se esperava sempre soluções dos problemas de interesse britânico sem quebra da
aliança”. (Sodré, 1977, p. 28).

72 Fundada pelos portugueses em 1680, a Colônia do Sacramento, situada em frente a Buenos Aires em território hoje
pertecente ao Uruguai, fez parte do Brasil até 1777. Nessa ocasião foi assinado o Tratado de Santo Ildefonso, pelo qual o
governo português comprometeu-se a entregar a referida Colônia aos espanhóis. Nela havia nascido, três anos antes,
Hipólito José da Costa Pereira Mendonça Furtado, filho de Félix da Costa Mendonça Furtado, brasileiro de Saquarema
(RJ), que se mudou imediatamente com a família para terras gaúchas.

73 Ilação dessa natureza é sugerida claramente por Mecenas Dourado (p. 46). ”Começando os estudos na Universidade de
Coimbra pela Faculdade de Filosofia, é provável que Hipólito tivesse em vista a futura atividade agrícola a que se iria
dedicar, voltando ao Brasil e associando-se ao pai e ao tio na exploração das terras que possuíam no Rio Grande. E é de
ver como alguns anos mais tarde, depois de uma agitada vida urbana de jornalista, na maior metrópole do mundo, ele nos
edifíca, ao escrever ao irmão, dizendo que este bem sabia a maior inclinação que ele sempre teve pela cultura das terras”.

74 Além das Cartas, do Diário e da Memória, Hipólito produziu seis Cadernos, contendo ”informações de caráter técnico
acompanhadas de desenhos de plantas e aparelhos”. (Dourado, 1957, p. 49). Tais documentos permanecem desconhecidos
até agora. Sua existência é atestada tão somente pelas referências do próprio Hipólito do seu Diário de Viagem.

75 Essa conjuntura histórica foi marcada pelas tentativas da Coroa Portuguesa no sentido de adaptar-se aos novos tempos,
salvando o seu colonialismo mercantil. Para tanto, era indispensável assimilar os avanços tecnológicos engendrados tanto
na Inglaterra quanto nos Estados Unidos. ”O reinado de Dona Maria I e do príncipe Regente Dom João, ao contrário do
anterior, beneficiou-se de uma conjuntura favorável à reativação das atividades agrícolas da Colônia: a produção de açúcar
(...) valorizou-se e se expandiu, favorecida pela insurreição dos escravos em São Domingos.” (Fausto, 1995, p. 112-113).

Pelo fato de não terem sido impressos na época em que foram produzidas, essas primeiras peças informativas escritas por
Hipólito da Costa não podem ser consideradas rigorosamente como jornalísticas. Elas assumiram o formato de
manuscritos, ”formas embrionárias de jornais”, que possuíam ”atualidade”, mas não tinham periodicidade estabelecida,
nem tampouco recepção coletiva. ”Jornalismo (como forma de comunica-

229
ção coletiva)” pressupõe a ”possibilidade de circulação livre”, ou seja, ”o acesso a quaisquer pessoas que estivessem em
condições de o fazer”. (Marques de Melo, 1972, p. 12-
13). Elas só viriam a preencher esse requisito tempos depois; a Memória da Viagem em
1858 e o Diário de Viagem e as Cartas de Oficio em 1955. Preferimos classificá-las, portanto, como peças de divulgação
científica, antecipando-se ao jornalismo científico que ele viria a praticar no período 1808-1822 nas páginas do Correio
Braziliense, onde existe a convergência dos três elementos essenciais ao Jornalismo: atualidade, periodicidade e difusão
coletiva.

77 Artigo publicado no Armário Brasileiro da Pesquisa em Jornalismo, n. 2. São Paulo: Departamento de Jornalismo e
Editoração, Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, 1993, p. 43-60.

78 NERY, Fernando. Rui Barbosa. Ensaio biográfico. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1955, p. 11, 15,28-29,41,79,
119.

79 LIMA, Hermes. Prefácio. In: Rui Barbosa - A Queda do Império, tomo I. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1949,
p. XX.

80 SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: 1977, p. 287.

81 LIMA SOBRINHO, Barbosa. Rui Barbosa e a Liberdade de Imprensa. Salvador: Casa de Rui Barbosa, 1980, p. 8.

82 FREITAS NOBRE, José de. Um livro com dois objetivos. In: Rui Barbosa, A imprensa e o dever da verdade. São
Paulo: EDUSP/COM-ARTE, 1990, p. 18.

81 MAGALHÃES JÚNIOR, R. Rui, o homem e o mito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 117-118.

84 CARDIM, Elmano. Rui Barbosa - o jornalista da República. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1939 (conferência).

85 MAGALHÃES JÚNIOR, R. Rui, o homem e o mito. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 121.

86 LIMA, Hermes. O jornalista Rui Barbosa. A Tribuna, Santos, 5.11.1949.

87 LIMA SOBRINHO, Barbosa. Rui Barbosa e a Liberdade de Imprensa. Salvador: Casa de Rui Barbosa, 1980, p. 9.

88 Trecho do discurso de posse no Instituto dos Advogados, transcrito por VIANA FILHO - A Vida de Rui Barbosa. São
Paulo: Martins Fontes, 1965, p.238.

89 Trecho da introdução que Rui Barbosa escreveu em 1921 ao tomo I do livro Queda do Império, transcrito por NERY,
Fernando - Rui Barbosa, ensaio biográfico. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1955, p. 15.

90 Trecho do artigo, datado de 7 de março de 1901, transcrito por MAGALHÃES JÚNIOR, R. Rui, o homem e o mito.
Rio de Janeiro: 1965, p. 134-5.

91 CARDIM, Elmano. Rui Barbosa - o Jornalista da República. Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa, 1959 (conferência).

230
92 Trecho do discurso pronunciado por Rui Barbosa, em 30 de novembro de 1895, transcrito por LACOMBRE, Américo-
Lacobina - História de um jornal: A Imprensa, In: À Sombra de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, FCRB, 1984, p.69-70.

93 BARBOSA, Rui. A Imprensa e o Dever da Verdade. São Paulo: Edusp/Com-Arte,


1990, p.37-38.

94 MOSES, Herbert. Rui sempre exerceu o jornalismo, A tarde, Salvador, 1949.

95 A 3a edição, atualizada e revista da conferência de Rui Barbosa sobre a imprensa foi produzida em laboratório, pelos
alunos do Curso de editoração da ECA-USP, orientados por uma equipe de professores que oferece supervisão pedagógica
ao Projeto Experimental ”Editora Comunicações e Artes”. A coleção ”Clássicos do Jornalismo Brasileiro” é integrada por
textos de Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Lacerda, Alceu de Amoroso Lima, Danton Jobim e Luiz Beltrão, além do de Rui
Barbosa.

96 No plano original das Obras Completas de Rui Barbosa, os textos da sua última campanha jornalística estão incluídos
no Vol. XXXVIII, tomo III (1911) e Vol. XXXIIX, tomo IV, ambos sob o título Jornalismo. Vide: LACOMBRE, Américo
J. - Roteiro das Obras Completas de Rui Barbosa, vol. II, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa,
1974, p. 167-173 e 181-186.

97 LIMA SOBRINHO, Barbosa. Rui Barbosa e a Liberdade de imprensa. Salvador: Casa de Rui Barbosa, 1980, p.7.

98 Coincidem nessa interpretação as biografias escritas por Fernando Nery, Luiz Viana Filho e R. Magalhães Júnior.

99 Fernando Nery registra a cronologia desse manifesto. ”Em abril escreve Rui um manifesto à Nação, que, em outubro
desse ano, depois de publicado na imprensa, aparece em volume sob o título: O Art. 6o da Constituição e a intervenção de
1920 na Bahia. Nesse manifesto contradiz, ponto por ponto, as razões em que se estribara o presidente para decretar a
intervenção”. NERY, Fernando - ob. cit, p. 149. Freitas Nobre, citando Luiz Viana Filho como fonte, diz que ”Rui Barbosa
pagou a vultosa quantia de 3.2005000 (três contos e duzentos) pelas publicações no Jornal do Commércio. FREITAS
NOBRE, ob. cit. pi8.

LACOMBRE, A. J. Prefácio, In: BARBOSA, Rui - Campanhas Jornalísticas (Império). Rio de Janeiro: Casa de Rui
Barbosa, 1956, p. 1.

101 VIANA FILHO, Luiz. A vida de Rui Barbosa. São Paulo: Martins Fontes, 1965, p.231.

102 O episódio da matança de prisioneiros no navio Satélite constitui o desdobramento da revolta dos marinheiros,
liderados por João Cândido, no ano anterior. Rui Barbosa defendera no Senado a abolição da chibata. Mas os militares, a
pretexto de sufocar uma rebelião de marujos presos na Ilha das Cobras, mata quase 100 prisioneiros. Rui Barbosa protesta
com veemência no Parlamento. Mas no ano seguinte, o Governo resolve fazer um saneamento no Rio de Janeiro,
deportando 105 ex-marinheiros, 44 prostitutas, 298 marginais e 50 praças do Exército para realizar trabalhos forçados no
Amazonas, sob as ordens do Marechal Rondon. No Recife, 9 desempregados são submetidos a fuzilamento, o que provoca
o protesto de Rui Barbosa no Diário de Notícias. C ARONE, Edgar - A República Velha (evoluçãopolítica). São Paulo:
Difel, 1974, p.263.

231
103 Mário Erbolato define nariz de cera como ”forma antiga e romanceada de se redigir o início das notícias, para que
elementos essenciais do fato somente fossem apresentados linhas depois’’. ERBOLATO, Mario. Dicionário de
Propaganda e Jornalismo. Campinas: Papirus, 1985, p.219.

104 LACOMBRE, Américo J. Roteiro das Obras Completas de Rui Barbosa, v. II, Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui
Barbosa, 1974, p. 168.

105 CARRONE, Edgar. A República Velha (evoluçãopolítica). São Paulo: DIFEL, 1974, p.268-273.

106 Artigo publicado na revista Comunicação & Sociedade, n. 31. São Bernardo do Campo: UMESP, 1999, p. 251-254.

107 Artigo publicado no Jornal da USP, Ano XV, n. 579. São Paulo: Universidade de São Paulo, Coordenadoria de
Comunicação Social, dezembro de 2001, p. 2.

108 Artigo publicado no Jornal da USP. São Paulo: Universidade de São Paulo, Maio de 2002.

109 Alocução proferida na solenidade de instalação da Cátedra de Jornalismo Octávio Frias de Oliveira. Centro
Universitário Alcântara Machado. São Paulo, 25 de fevereiro de 2002.

110 Depoimento escrito, a pedido do jornalista Carlos Cavalcante, par a coletânea destinada a resgatar episódios históricos
do diário pernambucano Jornal do Commércio. São Paulo, 26 de julho de 2002.

111 Roteiro da palestra feita no I SEMINÁRIO DE COMUNICAÇÃO E ESPORTE, promovido em Santa Maria/RS, 14-
18 de agosto de 2000, no campus da Universidade Federal de Santa Maria.

112 Comentário à dissertação de mestrado de Luciano Klockner - O Repóter Esso na História Brasileira (Pontifícia
Unviversidade Católica do Rio Grande do Sul), 23 de outubro de 2001.

113 O cenário dessa transformação está bem descrito e documentado por João Baptista Borges Pereira no capítulo ”O
rádio na sociedade e na cultura brasileira” do seu clássico livro de Antropologia da Comunicação - Cor, Profissão e
Mobilidade. São Paulo: Pioneira, 1967, p. 39-46.

114 Resenha publicada na revista Comunicação & Sociedade, n. 38. São Bernardo do Campo: UMESP, 2002, p. 211-212.

115 Relato escrito, a pedido da Profa. Maria Luiz Nobre (Universidade Federal de Pernambuco), para coletânea sobre a
presença feminina no jornalismo. São Paulo, 6 de outubro de 1999.

116 Resenha da tese de doutorado de TARGINO, Maria das Graças - Comunicação Científica: o artigo de periódico nas
atividades de ensino e pesquisa do docente universitário brasileiro na pós-graduação, Brasília, UnB, Departamento de
Ciência da Informação e Documentação, 1998, 387 p. - São Paulo, 11 de fevereiro de 1999.

117 MARTINS, Joel & CELANI, Maria Antonieta Alba - Subsídio para redação da tese de mestrado e de doutorado. São
Paulo: Cortez & Moraes, 1979.

118 INÁCIO FILHO, Geraldo. A monografia na universidade. Campinas: Papirus, 1995.

232
119 MOURA CASTRO, Cláudio de. Estrutura e Apresentação de Publicações Científicas. São Paulo: McGraw-Hill do
Brasil, 1978.

120 NOVAH MORAES, Irany. Elaboração da pesquisa científíca.São Paulo: Editora Alamo,
1985.

121 Em meu livro sobre os gêneros opinativos destaco a tese defendida por Afrânio Coutinho que prefere distinguir o
”ensaio” do ”estudo”, ancorando-se no suporte midiático de que se vale o cientista. Enquanto o artigo é veiculado pelos
jornais e revistas informativos, o estudo ficaria restrito aos periódicos acadêmicos. Vide: MARQUES DE MELO, José. A
Opinião no Jornalismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 124.

122 GOMES, Pedro Gilberto. Artigo, In: MARQUES DE MELO, José. Gêneros Jornalísticos na Folha de S. Paulo. São
Paulo: FTD, 1992, p. 15-46.
123 Palestra proferida no Ciclo de Estudos ”Jornalismo e Literatura”, promovido conjuntamente pelo Instituto de Estudos
da Linguagem e Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Universidade Estadual de Campinas. Campinas, SP,
2000.

124 MARQUES DE MELO, José. A OPinião no Jornalismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1994, p. 65.

125 MEDINA, Cremilda. Entrevista, In: MARQUES DE MELO, José, org. Gêneros Jornalísticos na Folha de S. Paulo.
São Paulo: FTD, 1987, p. 101-110.

126 MEDINA, Cremilda. A entrevista - o diálogo possível. São Paulo: Ática, 1986, 96p.

127 ALTAM, Fábio, org. A arte da entrevista - uma antologia de 1823 aos nossos dias. São Paulo: Scritta, 1995, 585 p.

128 HALPERIN, Jorge. La entrevistaperiodistica - intimidades de Ia conversaciónpública. Buenos Aires: Paidós, 1995,
296 p.

’-’ RÓNAI, Cora. Idéias: um livro de entrevistas. Brasília: Editora da UNB, 1981.

SÁ CAVALCANTE, Hermenegildo de. A glória de cada um. Rio de Janeiro: Record, s/d.

SAVIER, Leonor. Falar de viver: entrevistas. São Paulo: Difel, 1986.

130 MORAES, Fernando de. Primeira página: as melhores entrevistas por... São Paulo: Alfa-Omega, 1982.

GOIS, Alcelmo e outros. Antônio Carlos Magalhães: política épaixão. Rio de Janeiro:

Revan, 1995.

LEITÃO, Miriam e outros. Ciro Gomes no país dos conflitos. Rio de Janeiro: Revan, 1994.

131 CORRÊA DA COSTA, Maria Ignez. Gentíssima. Rio de Janeiro, Record, 1968.

132 JAGUAR, ed. As grandes entrevistas do Pasquim. Rio de Janeiro: Codecri, 1975. BUSSUNDA e outros. Casseta &
Planeta entrevistas. Rio de Janeiro: Record, 1995.

133 As estratégias usadas pelos ”maiores entrevistadores da televisão brasileira” podem ser reconhecidas no livro de
TRAMONTINA, Carlos. Entrevista. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1996. Não obstante os tele-entrevistadores escolham
seus interlocutores no vídeo pela relevância informativa (mesclando elite e povo), quando tratam de selecionar entrevistas
para reunir em livro impõe-se, em alguns casos, a preferência pelos bem situados na cena midiática, como é o caso dos
políticos. A essa tentação não escapou Marília Gabriela ao publicar o livro Cara a Cara. São Paulo: Siciliano, 1994.

233
’”GABRIELA, Marília. Cara a cara. São Paulo: Siciliano, 1994.

135 Essa capacidade empática mostra-se evidente na série de entrevistas realizadas por Geraldino Vieira com jornalistas
que povoam o imaginário de tantos jovens aspirantes ao estrelato midiático. (VIEIRA, Geraldinho. Complexo de Clark
Kent. São superhomens ou jornalistas? São Paulo: Summus, 1991).

136 A expressão é aqui empregada naquela acepção proposta por Edgar Morin, em sua sociologia do presente, quando fez
uma comparação entre os deuses mitológicos do olimpo grego e aqueles mitos modernos, fabricados pela máquina voraz
das indústrias da informação e do entretenimento, potencializados geralmente pelas entrevistas planetárias (MORIN,
Edgar. Sociologia. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d.

137 FALACCI, Oriana. Os antipáticos. Riode Janeiro: Editora Sucessos Internacionais, s/d.
118 MOLINA, Silvia. 100personajes ai desnudo. La Paz: EDOBOL, 1997, 338 p.

139 Palestra de abertura do III Encontro sobre Mídia, Educação e Leitura, evento integrante da programação do 12°
COLE - Congresso de Leitura do Brasil - Campinas - SP, 20 de julho de 1999.

140 WRIGHT, Charles. Comunicação de Massa. Rio de Janeiro: Bloch Editores, 1968.

141 McLUHAN, Marshall. A Galáxia de Gutenberg. São Paulo: Nacional, 1972.

142 JACOBS, Horman, ed. Culturefor the millions? Boston: Beacon, 1961.

143 LERNER, Daniel. The Passing ofTraditionalSociety. New York: The Free Press, 1964.

144 MORIN, Edgar. Cultura de Massas no séculoXX: o espirito do tempo. Rio de Janeiro: Forense, 1967.

145 LERNER, Daniel e SCHRAMM, Wilbur, eds. Comunicação e Mudança nos Países em Desenvolvimento. São Paulo:
Melhoramentos, 1973.

146 MARQUES DE MELO, José. Teoria da Comunicação: paradigmas latino-americanos. Petrópolis: Vozes, 1998.

147 GRUPO DE MÍDIA. Mídia Dados, 1990. São Paulo: 1991.

148 McLUHAN, Marshall. Aula sem paredes, In: CARPENTER e McLUHAN. Revolução na Comunicação. Rio de
Janeiro: Zahar, 1968, p. 17-20.

149 MARQUES DE MELO, José. Para uma leitura crítica da comunicação. São Paulo: Paulinas, 1985.

150 ZILBERMAN, Regina e SILVA, Ezequiel Theodoro, orgs. Leitura: perspectivas interdisciplinares. São Paulo: Ática,
1999.

151 ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados. São Paulo: Perspectiva, 1976.

152 THUSWOHL, Maurício. Em todo o mundo, jovens lêem cada vez mais, Jornal da ANJ, 138. Brasília: Junho de 1999,
p. 9.

153 LILE, Jack and McLEOD, Douglas. Communication, Media and Change. Mountain View, Califórnia: Mayfield,
1993.

154 BALLE, Francis. Médias et Societés - de Gutenberg à Internet. Paris: Montchrestien,


1997.

234
155 Conferência proferida no PARLATINO - Parlamento Lationamericano, no dia 24 de maio de 2001, durante a Jornada
sobre Libertad de Prensa y Democracia em América Latina, Marco Político yJurídico-Institucional, São Paulo, Brasil.

156 Conferência proferida em universidades e instituições culturais brasileiras - Salvador, Recife e Manaus (2000),
Vitória, Campo Grande, Curitiba (2001) - durante o debate público promovido pelo Ministério da Ciência e Tecnologia
para subsidiar o programa nacional sobre a Sociedade da Informação desejável para o Brasil, no início do novo milênio.
157 Conferência proferida no Departamento de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Humanas -
Universidade Nacional de Rio Cuarto - Argentina, em 21/4/1998.

158 MARQUES DE MELO, José. O divórcio entre a universidade e a indústria da comunicação na América LAtina, In:
LUNA CORTÊS, Carlos. Generación de conocimientos y formación de comunicadores. México: Opción/Felafacs, 1992,
p. 91-112.

159 MARQUES DE MELO, José. Cásper Libero, pioneiro do ensino de jornalismo no Brasil, In: Transformações do
jornalismo brasileiro: ética e técnica. São Paulo:
1NTERCOM, 1994, p. 13-26.

160 AGUIRRE, Jesus Maria. De Ia Práctica Periodística a Ia Investigación Comunicacional - Hitos dei Pensamiento
Venezolano sobre Comunicación Social. Caracas: Unviesidad Católica AndresBello, 1996.

161 UNESCO. Los médios de comunicación en América Latina. Paris: 1961.

162 CIESPAL. Las Escuelas de Periodismo en América Latina. Quito: 1963.

163 MARQUES DE MELO, José. La escuela latinoamericana de ciências de Ia comunicación. México: Universidad
Iberoamericana, 1997.

164 MATTELART, Armand. La comunicación masiva en elproceso de liberación. Buenos Aires: Siglo XXI, 1973.

165 SILVA, Ludoviso. Laplusvalia ideológica. Caracas: UCV, 1970.

166PRIETO, Daniel. Discurso Autoritárioy Comunicación alternativa. Puebla/Mexico:


1984.

167 KELLY, Celso. As novas formas do jornalismo, Rio de Janeiro: Agir, 1966.

168 CORRAL, Manuel. La ciência de Ia comunicación en México: origen, desarrollo y situación actual. México: UAM,
1982 e SOLIS, Beatriz. Modelo para armar: una experiência mexicana, Dia-Logos de Ia Comunicación, 19 (1988): 14-23.
Lima: FELAFACS.

169 FUENTES NAVARRO, Raul. El diseno curricular en Ia formación universitária de comunicadores sociales -
realidades, tendências, alternativas, Dia-Logos de Ia Comunicación, 17 (1987): 77-87.

170 FUENTES NAVARRO, Raul. Escuelas de comunicación y brechas tecnológicas en México, Dia-Logos de Ia
Comunicación, 19 (1988): 36-45. Lima: FELAFACS.

235
171 LINS DA SILVA, Carlos Eduardo. O ensino da comunicação e as demandas do mercado de trabalho, Simpósios em
Comunicações e Artes, 8 (1991): 29-44. São Paulo: ECAUSP.

172 SANCHEZ, Joaquin. FELAFACS y Ia Ensenanza de Ia comunicación, Dia-Logos de Ia Comunicación, 17 (1987):


7077.

173 FADUL, Anamaria. O ensino de comunicação e a nova conjuntura internacional, Simpósios em Comunicações e
Artes, 8 (1991): 45-57, São Paulo, ECA-USP.

174 MARQUES DE MELO, José. Comunicação e Modernidade. São Paulo: Loyola, 1991.

175 FADUL, Anamaria. Las ciências sociales y Ia comunicación, Dia-Logos de Ia Comunicación, 32 (1992): 4-7. Lima:
FELAFACS.

176 MARQUES DE MELO, José. América Latina cresce mas não aparece - Há muitas escolas de comunicação mas pouca
qualidade, Imprensa, 112 (1997): 76.77. São Paulo: Editora Feeling.

177 MEDITSCH, Eduardo. Adeus, CIESPAL: ruptura brasileira no ensino de jornalismo, In: KUNSCH. O ensino de
comunicação. São Paulo: ABECOM, 1992, p. 198-206.

17S KUNSCH, Margarida, org. O ensino de comunicação - análises, tendências eperspectivas. São Paulo: ABECOM,
1992.

179 MEDITSCH, Eduardo e BRAGANÇA, Aníbal. A questão curricular: do impasse à reinvenção, In: MARQUES DE
MELO. Ensino de Comunicação no Brasil: impasses e desafios. São Paulo: ECA-USP, 1987, p. 17-37.

180 SILVA, Luiz Custódio. Órgãos laboratoriais de resistência aos novos caminhos, In: MARQUES DE MELO. Ensino
de comunicação no Brasil: impasses e desafios. São Paulo: ECA-USO, 1987, p. 51-76.

181 LOPES, Dirceu Fernandes. Jornal-Laboratório: do exercício escolar ao compromisso com o público leitor. São
Paulo: Summus, 1989.

182 TARGINO, Maria das Graças e MAGALHÃES, Laerte. Projetos Experimentais no Ensino de Comunicação.
Teresina: Edição dos Autores, 1994.

183 LINS DA SILVA, Carlos Eduardo, ob. cit., p. 34.

184 FERNANDES, Ailton. Focalizando talentos, Young 1-5 (1997): 58-63. São Paulo: Editora Gemini.

185 Conferência proferida na Escola Superior de Comunicação Social, Lisboa, Portugal, no dia 26 de outubro de 1999.

186 Aula inaugural do Curso de Pós-graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina, proferida em
Florianópolis no dia 8 de de março de 2001.

187 CASASÚS, Josep Maria. La primera tesis doctoral sobre periodismo (Leipzig,
1690),Periodistico, 3, Barcelona Societat Catalana de Comunicación, 1990, p. 9-28.

188 PEUCER, Tobias. Os relatos jornalísticos, Comunicação & Sociedade, 33. São Bernardo do Campo: UMESP, 2000,
p. 199-124.

189 Vale a pena transcrever a nota que, a esse respeito escrevi para o JBCC - Jornal

236
Brasileiro de Ciências da Comunicação, n. 89 (10/6/2000) Jornalismo como disciplina científica: ”A última edição da
revista australiana JIC - ”The Journal of International Communication”, editada por Naraen Chítty (macquarie University,
Sydney), dedica sua seção de ensaios bibliográficos ao tema ”Helping establish Jornalism as a Discipline”. Ela contém um
inventário crítico, escrito por Kenneth Starck (University of Iowa, USA), de quatro recentes livros da bibliografia
anglófíla de ciências da comunicação sobre os avanços conquistados pelos pesquisadores acadêmicos do Jornalismo.

Ele resenha dois livros lançados em 1998 - Journalism: Theory andPractice (Paddington, Austrália) de Myles Breen e
The American Newspaper Colummnist (Praeger, Wesport, USA) de Sam G. Ríley; e dois outros publicados no ano
passado: Discovering Journalism (Greenwwod Press, London) de Warren G. Bovee e The Popular Press (Grenwood
Press, London) de William E. Huntzicker.

Trata-se de fontes indispensáveis para os docentes de Teoria do Jornalismo, especialmente para brasileiros e latino-
americanos que estão empenhados em construir teorias jornalísticas consentâneas com as nossas singularidades culturais.
Os interessados na assinatura da revista JIC podem dirigir-se a: nchityy@scmp.engl.mq.edu.au. Ela também pode ser
acessada na web: www.mcs.edu.aii/courses/icp/html/index.htm.

1W Em outra nota, intitulada Jornalismo: teoria, prática e crítica, também publicada no Jornal Brasileiro de Ciências da
Comunicação (n.70,28/1/2000), enfatizei o surgimento dos novos periódicos científicos. ”O campo acadêmico do
Jornalismo vem se revitalizando nessa passagem de século como decorrência das mutações substantivas que acontecem
nas práticas profissionais. Os pesquisadores universitários estão sendo desafiados a sistematizar o conhecimento de várias
revistas científicas qu se desgarram da área genérica de Comunicação, tornando mais específicos os estudos do
Jornalismo. A mais nova publicação do gênero está sendo anunciada para o ano de 2000 pela prestigiada editora Sage.
Trata-se de Jornalism: Theory, Practice and Criticism, cuja primeira edição vai circular em abril. Dirigida por uma equipe
mista de pesquisadores ingleses e norteamericanos, a publicação conta com um quadro de referência de porte
internacional, reunindo as diversas correntes do pensamento jornalístico contemporâneo. O conteúdo do primeiro número
será dedicado a uma critica da literatura mundial sobre o Jornalismo enquanto disciplina acadêmica, contando com a
participação de James Carey, Michael Schudson, Theodore Glasser, Ellen Wartela etc. Incluirá também um estudo de
Bruce Williamson e Michael Carpini sobre a cobertura jornalística do escândalo ClintonLewinski. Assinaturas da revista
podem ser feitas através do e-mail: market@sagepub.co.uk.

191 O diagnóstico de tal fenômeno está explicado no Prefácio que escrevi para a coletânea comemorativa dos 50 anos de
implantação do ensino de jornalismo no Brasil. ”A crise da universidade, reflexo da crise institucional que vive o Brasil
nesta conjuntura de transição democrática, vem produzindo um efeito perverso nos cursos de jornalismo. Aniquila-se a
motivação dos professores do ramo, que migram para as empresas jornalísticas ou para as consultorias especializadas,
relegando os estudantes a um tipo de formação que reduz as suas potencialidades ocupacionais, freqüentemente
conflitando com as demandas explícitas do mercado de trabalho. (...) Por sua vez, o jornalismo enquanto profissão
encontra-se em processo de mutação radical - ética, técnica e filosófica - fenômeno nem sempre percebido pelas escolas,
que ignoram ou minimizam as transformações que se

237
operam em nível nacional e internacional, deixando de atuar como instâncias de vanguarda. MARQUES DE MELO, José.
Transformações do Jornalismo Brasileiro: ética e técnica. São Paulo: INTERCOM, 1994, p. 10.

192 MARQUES DE MELO, José. Jornalismo no Brasil: olhar e ação da academia, Impulso, n. 27. Piracicaba:
Universidade Metodista de Piracicaba, p. 285-291.

193 FUKUYAMA, Francis. The End of History, The National Interest, 16 (1989): 4-18.

194 HUNTINGTON, Samuel. O Choque as Civilizações e a reconstrução da ordem mundial. São Paulo: Objetiva, 1997.

195 HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos - o breve século XX, 1914-1991, São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

196 MARTINEZ ALBERTOS, José Luis. Elocaso dei Periodismo. Barcelona: CIMS, 1997.

197 HACHTEN, William. The troubles of Journalism. New Jersy: Lawrence Associate Publishers, 1998.

198 MACHADO DA SILVA, Juremir. A miséria do Jornalismo Brasileiro. Petrópolis: Vozes, 2000.

199 MARQUES DE MELO, José. Costa Rego, o primeiro catedrático de jornalismo no Brasil, Revista Brasileira de
Ciências da Comunicação 23-1 (2000): 79-117. São Paulo: INTERCOM.

200 CASTELO BRANCO, Vitorino Prata. Primeiro curso de Jornalismo em São Paulo, Cadernos de Jornalismo e
Editoração 18 (1987): 23-26. São Paulo: ECA-USP.

201 BENJAMIN, Roberto, org. Itinerário de Luiz Beltrão. Recife: AIP/UNICAP, 1998.

202 MANSEL, Robin e WEHN, Uta, orgs. Knowledge Society - Information Technology for Sustainable Development.
New York: Oxford University Press, 1998.

203 STRAUBHAAR, Joseph e LA ROSE, Robert. Communication media in the Information Society. Belmont:
Wadsworth Publishing Company, 1995.

204 PARK, Robert. A notícia como forma de conhecimento, In: STEINBERG, Charles, org. Meios de Comunicação de
Massa. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 163-167.

205 Comunicação apresentada ao I Congresso Luso-Brasileiro de Estudos Jornalísticos, promovido pelo Centro de
Estudos da Comunicação da Universidade Fernando Pessoa. Porto, Portugal: 10-11 de abril de 2003.

206 A pesquisa foi efetuada em 1951, figurando como corpus as edições que circularam na ”semana típica” de 4 a 10 de
março do mesmo ano.

207 JAMBO, Amoldo. Diário de Pernambuco: História e Jornal de Quinze Décadas. Recife: Diário de Pernambuco S.A,
1975.

208 DIMAS FILHO, Nelson. Jornal do Commercio, a notícia dia a dia: 1827-1987. Rio de Janeiro: Fundação Assis
Chateaubriand, 1987.

209 O comportamento editorial desse diário paulista na conjuntura marcada pela Revolução de 1930 está documentado no
livro de Maria Helena CAPELATO e Maria Lígia PRADO. O Bravo Matutino Imprensa e ideologia.O Estado de S.
Paulo. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1980.

238
210 Uma visão de corpo inteiro do jornal, sua trajetória, suas figuras exponenciais encontra-se documentada na memória
escrita por Regina Stela Braga e equipe. Correio da Manhã: compromisso com a verdade. Rio de Janeiro: Prefeitura da
Cidade do Rio, 2001 (Cadernos de Comunicação, série Memória, n. 1).

21’ A fase terminal desse periódico foi revista emocionantemente no livro de Jéferson de ANDRADE. Um jornal
assassinado: a última batalha do Correio da Manhã. Rio de Janeiro: José Olympio, 1991.

212 Descrição instigante da fase de implantação do Projeto Folha foi feita por Carlos Eduardo Lins da Silva na tese de
livre-docência aprovada pela Universidade de São Paulo e contida no livro Mil dias - os bastidores da revolução em um
grande jornal, São Paulo, Trajetória Editorial, 1988.

213 Os jornais diários brasileiros pactaram com as agências de publicidade a padronização dos seus formatos, no sentido
de facilitar a produção dos anúncios a serem veiculados nacionalmente.

214 A tendência observada em todos jornais de referência é a de que os suplementos possuem formato tablóide,
distinguindo-se assim, graficamente, dos cadernos, que adotam o formato standard. (Fonte: MARQUES DE MELO &
QUEIROZ, 1998: 174).

215 Dos 508 jornais diários editados em território nacional, apenas 74 (ou seja, 15%) submetem-se à auditoria do IVC -
Instituto Verificador de Circulação. A tiragem auditada em 2001 perfaz 4.048.000 exemplares diários, sendo de 28%
(Fonte: Mídia Dados 2002, São Paulo, Grupo de Mídia de São Paulo, 2002, p. 298-300). No entanto, estimativas feitas
pelas entidades corporativas da mídia brasileira sugerem que o volume da tiragem dos jornais diários atinge o dobro
daquela auditada pelo IVC, situando-se, portanto, no patamar de 8.096.000 exemplares. Tomando essa cifra estimada, a
participação dos 4 jornais de referência nacional é da ordem de 14%.

216 O Jornal do Brasil ocupa o 14°. lugar na lista das maiores tiragens brasileiras, tendo sido ultrapassado até mesmo por
jornais de referência regional como Zero Hora (Porto Alegre), Diário de S. Paulo (São Paulo) e Estado de Minas (Belo
Horizonte). Fonte: Mídia Dados 2002, São Paulo, Grupo de Mídia de São Paulo, 2002, p. 298.

217 É sintomático que isso aconteça numa conjuntura marcada pela tentativa de limitar a atuação das fontes oficiais. Seu
instrumento pode vir a ser a ”lei da mordaça”, em tramitação no congresso nacional.

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