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Literário, sem frescuras!
1664ISSN 1664-5243 1664ISSN 1664-5243

VARAL DO BRASIL: DOIS ANOS TRAZENDO PARA VOCÊ A LITERATURA NA SUA MELHOR FORMA: CHEIA DE EMOÇÕES E SEM FRESCURAS! FELIZ ANIVERSÃRIO LEITORES!

NovembroAno 2 - Novembro- 2011 - Edição no. 12

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1664ISSN 1664-5243

LITERÁRIO, SEM FRESCURAS
Genebra, outono de 2011 No. 12
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EXPEDIENTE
Revista Literária VARAL DO BRASIL®

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NO. 12- Genebra - CH Copyright Vários Autores O Varal do Brasil é promovido, organizado e divulgado pelos sites: www.coracional.com e www.livrariavaral.com Site do VARAL: www.varaldobrasil.com Textos: Vários Autores Coluna de Daniel Ciarlini—No Mundo da Ficção Cien fica Colaboração: Norália de Mello Castro Ilustrações: Vários Autores Revisão parcial de cada autor Revisão geral VARAL DO BRASIL Composição e diagramação: Jacqueline Aisenman Editora-Chefe: Jacqueline Aisenman A distribuição ecológica, por e-mail, é gratuita. Capa: © LianeM - Fotolia.com Se você deseja participar do VARAL DO BRASIL NO. 13, de janeiro, envie seus textos até 15 de novembro para: varaldobrasil@gmail.com (peça o formulário!) COMO PARTICIPAR DO VARAL
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A LIVRARIA VARAL DO BRASIL CONVIDA

Você está convidado para uma apresentação de livros em presença dos autores no dia primeiro de dezembro, quinta-feira. Os autores Mariana Brasil, Carlos Ventura, Marcelo Cândido Madeira e Jacqueline Aisenman estarão autografando seus livros. Será servido coquetel. Onde: Avenue du Mail, 2 - 7o. Andar Genebra (Entrada Livre)

Dúvidas? livrariavaral@gmail.com

Solicitar o formulário pelo nosso e-mail. Enviar seus textos, fotos e/ou desenhos acompanhados de uma foto e de uma minibiografia para o e-mail varaldobrasil@gmail.com Toda participação é gratuita
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Há dois anos iniciava-se em Genebra o projeto Varal do Brasil com a intenção, mesmo tímida , de integrar e divulgar a nossa língua Portuguesa, fazendo uma ponte entre o Brasil e a Suíça. Dois anos depois, mais de trezentos autores depois, o Varal estendido hoje não pensa que seu objetivo esteja cumprido. Pensa sim, que encontrou o caminho para cumpri-lo, indo além das fronteiras suíças e brasileiras e estendendo-se pelo mundo. Dezoito edições, um livro lançado, um segundo livro chegando para 2012. Muitos temas discutidos e mostrados. Uma livraria situada bem no coração da Europa nasceu para dar ainda mais força a todos que escrevem nesta belíssima língua Portuguesa. E agora o Varal também é selo editorial: numa parceria vitoriosa com a Design Editora de Santa Catarina, o Varal agora edita o seu livro com respeito e qualidade! O Varal do Brasil tem orgulho de ter tido em sua páginas estrelas cadentes como Renata Farias, autora que começou a ter coragem de mostrar seus escritos aqui no Varal, passou lindamente, deixou suas belas palavras e partiu desta vida sem a oportunidade de um adeus. Temos orgulho dos autores que já fizeram seus nomes e vêm conosco escrever, trazendo experiência e talento. Nosso orgulho são, ainda e sempre, os autores que chegam todos os dias, confiantes ou tímidos, alegres de compartilhar as páginas do nosso Varal! Somos uma família, por que não? Uma família literária, sem frescuras! Para este número o tema é inexistente: todos trouxeram de si, desabrocharam com suas inspirações e fizeram do Varal um jardim de
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ideias e versos. Também temos a honra de trazer em nossas páginas a poeta maior brasileira, Yeda Prates Bernis. Convidamos Yeda para vir para o Varal através da escritora Norália de Mello Castro. Um convite informal cheio de vontade de tê-la conosco. Yeda aceitou prontamente, mineiramente simples que é. Falar de nossa alegria? É pouco... Com a inestimável colaboração de Norália, compusemos as páginas dedicadas à Yeda. Você vai ver, dentro da espontaneidade de suas palavras escondem-se as emoções mais belas e profundas. Apaixonante. Inicia coluna nesta edição Daniel C. B. Ciarlini. Daniel nos traz o mundo da ficção científica em todas as suas dimensões. Fomos para a internet e encontramos para você várias receitas com abóbora, combinando com as cores do outono europeu. Se você está conhecendo o Varal hoje, bemvindo! Fique à vontade para nos conhecer melhor, escreva-nos, venha você também para o Varal! Se você já é nosso companheiro de jornada, bem-vindo! Esperamos que esteja sempre conosco e que o Varal possa ser sempre seu espaço! O Varal do Brasil comemora os seus dois anos da melhor maneira possível: cercado de escritores, poetas, leitores, amigos! Parabéns para você que está ao nosso lado neste momento! A Equipe do Varal

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Enviado por Norália de Mello Castro

Yeda Prates Bernis é mineira de Belo Horizonte, onde sempre residiu. Diplomada em Letras Neolatinas cursou também Canto e Piano no Conservatório Mineiro de Música. Tem poesias musicadas por Camargo Guarnieri, sob o título Tríptico de Yeda, além de poemas traduzidos para o italiano, inglês, espanhol, francês e húngaro. Bibliografia e prêmios: Enquanto é Noite - Imprensa Oficial – BH, 1974; Palavra Ferida - Editora Veja – BH, 1979; Pêndula - Editora Massao Ohno – SP, 1983 / Editora Itatiaia, 2ª edição, 1986; Grão de Arroz - Editora Itatiaia - Belo Horizonte, 1986; .Menção especial no Prêmio Jorge de Lima, 1995, da União Brasileira de Escritores, RJ; O Rosto do Silêncio - Editora Cuatiara - BH, 1992/Editora Cuatiara, 2ª edição; .Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras; Prêmio Alejandro José Cabassa - União Brasileira de Escritores do RJ;Personalidade Cultural, da UBE/R; À Beira do Outono -Editora Phrasis - BH, 1994; .Prêmio Hors-Concours Jorge de Lima – 1995, da UBE do Rio de Janeiro; Anotações sobre Zen e Hai Kai – Ensaio - Editora RHJ - BH, 1996 Entre o Rosa e o Azul - Editora O Cruzeiro, RJ – 1997; Prêmio Cidade de Belo Horizonte; Encostada na Paisagem -Editora Phrasis - BH, 1998; Prêmio Conjunto de obras da UBE do Rio de Janeiro, 1999; Medalha Auta de Souza da UBE do Rio de Janeiro, 2001; Cantata – Antologia Poética - Edição da Autora, 2004; Viandante - Edição da Autora, 2006. “Seu Grão de Arroz é das criações poéticas mais delicadas que já se fizeram entre nós. Nada lhe falta, em emoção contida e limpidez na forma. Cada uma das pequenas composições cintila como pedra preciosa e ressoa como inefável melodia”. Carlos Drummond de Andrade “Tenho lido e relido Grão de Arroz com o maior encantamento. É dos tais livros que deixamos à mão para poder abri-los quando vem o desejo de uma experiência poética que redima o correr do dia. Afino muito com sua poesia, cujo convívio é para mim cheio de graça. Este livro, me parece, alcançou o limite admirável onde a poesia diz o máximo, o maior dos máximos, com o menor e mais perfeito dos mínimos”. Antônio Cândido
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ADRIANA V. AGUIAR ALBERTO ARAÚJO ANDRÉ MARQUES ANDRÉ VICTTOR ANNA RIBEIRO ANTONIO VENDRAMINI NETO CARLOS ALBERTO BARRETO CARLOS ALBERTO OMENA CLAUDETE TEREZINHA DA MATA CRISTIANE STANCOVIK DANIEL C. B. CIARLINI DENIS LENZI DIAS CAMPOS EDILSON LEÃO EVELYN CIESZYNSKI GILBERTO NOGUEIRA DE OLIVEIRA GILDO OLIVEIRA GRECYANNE CARVALHO CORDEIRO HIDERALDO MONTENEGRO INA MELO INÊS CARMELITA LOHN INFETO IONE JAEGER IRONI LIRIO ISABEL C. S. VARGAS IVANE L. PEROTTI MAC KNIGHT
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J. C. HESSE JACQUELINE AISENMAN JANICE FRANÇA JOSÉ CAMBINDA DALA JOSÉ FRAJTAG JOSÉ WILTON DE M. PORTO JOSSELENE MARQUES JU PETEK LENIVAL NUNES DE ANDRADE LLONO LOURDES LIMEIRA LUIZ ALBERTO MACHADO LUIZ CARLOS AMORIM LUIZA FOZ M. C. JAHNKEE MADHU MARETIORE MALU F. QUEIROZ MARCELLO RIBEIRO MARCELO LINO MARCIA DAVID MARCIA PEDROSO MARIA LINDREN MARIA SOCORRO MARIA ZULEMA CEBRIÁN MARLUCE PORTUGAELS MAURÍCIO DOS SANTOS
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MERARI TAVARES MERLI DINIZ NEIDA ROCHA

NORÁLIA DE MELO CASTRO • • • • • OLIVEIRA CARUSO PÚBLIO JOSÉ RAIMUNDO ANTONIO REJANE MACHADO RITA AMORIM ANDRADE • • RO FURKIM

ROBERTO ARMORIZZI ROZELENE FUTADO DE LIMA • • SILVIO PARISE SONIA NOGUEIRA

VARENKA DE FÁTIMA ARAÚJO • VÓ FIA

WALNÉLIA CORRÊA PEDERNEIRAS • YARA DARIN

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O crime do teu corpo

Longe das calçadas sujas de um passado que não volta Jogue a pedra de seu coração

Por Adriana V. Aguiar
Esvazia-se das mentiras Não volte para a casa antes de me contar teus Você aí... Com um anjo chorando no peito... Posso ouvi-lo no frio de tua alma Não envelheça sem antes me sentir... Pálido... Sagaz... Pode me sentir? Pode saber sobre os ponteiros em minha garganta Se eu disse que o tempo está se apagando Com a aproximação de teus pés sangrando Na benção de teu sorriso? Sente-me? Tocaria meu corpo nu sob a luz de um abajur Nascendo em teus olhos? Saberia gritar se tua voz se calasse Se teus lábios pousassem agressivos Arranhando o céu de minha boca? Romperia o muro abstrato Arte do além Quase viscerantes ao escutar A Divina Comédia recitada no rouco lento de minha voz? Venha-te depressa... O tempo na ampulheta se derrete aos poucos Não há ninguém aqui, além de nós Toca-me...
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segredos Não se exima do mal Que quebra o teu telhado Sem antes apalpar os meus seios... Sem antes entregar-se inteiramente Longe o tanto que não o fará voltar Não o fará distante do que teus olhos me rasgam Cortam meus impulsos Envenena o meu vinho Bebendo-te à miúdo Lentamente será meu... Sem ninguém para lhe ajudar Sem quebrar as garrafas de teu falso pudor Não há garantias... Não juras, nem promessas em um colar de pérolas... Quando o sublime dos desejos Instauram-se no teu “eu”... Com o insaciável meu “eu”... A unidade do perpétuo Um crime mútuo Sem redenção...

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Identidade do sol
Por Alberto Araújo Um ente desponta, e aponta o que é ser belo, e da beleza nascem as palavras. Singrando pela a alma vão-se as palavras entintadas e solfejadas, as quais o tempo fez produzi-las. Certas, se fazem fato central de uma vida. Por esse motivo nunca as deixarão adormecidas no cais aneladas a tristezas e angústias. Tampouco dá guarida aos proveitos do que se fizeram. Apenas o querer que, as palavras ditas no papel sejam viajadas através do tempo, fazendo-se cantigas no coração de quem ama assim o tornando um ser meramente feliz.

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A surdez tumular
Por André Marques

Não tem sido repousante esta nuvem, Do caminho tem-se perdido alguns passos... A noite revela-se como albergue de meus pecados E me tem cegado da paz da sonhada quietude.

Se tudo é momento,... que seja breve, passageiro ! Que haja um atalho neste precipício ! Das quedas tantas, fui aprendiz ferido Que ao tentar voar, chocou-se ao vento !

Qual o valor dessa proeza insensata, Já que sobrevivo morrendo... À reconstruir minha estrutura quebrada ?

Não ! ! ! Sou eu, o responsável por este cúmulo ! Acendi a chama de meu inferno, Agora, respiro a surdez de meu túmulo !

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Isollyna, a Verdadeira Mulher Mula sem Cabeça...
Por André Victtor
Isollyna era uma senhora que aparentava ter aproximadamente setenta anos de idade naquela época. Em sua casa, ela criava sete gatos pretos. Não deixava de ser uma idosa estranha. Possuia um longo cabelo loiro, escondido sempre entre vários lenços coloridos. Em sua testa, ela trazia a marca de uma verruga enorme. No centro dessa verruga, havia ainda três pequenos fios de cabelos negros que eram notáveis. Isollyna fora casada no passado, porém não possuía filhos. Pelo que me contavam sobre ela, nunca mais eu esqueci e agora vocês também conhecerão a sua história... Isollyna era a sétima filha de um sétimo filho, sendo ainda fruto de um incesto, ou seja, ela na verdade era filha de dois irmãos que por obra do destino foram separados quando eram crianças, sendo entregues para dois donos de circos que passaram por minha cidade entre os anos de 1890 a 1891. Dizem que o casal de irmãos voltou a se conhecerem novamente quinze anos mais tarde, vivendo a partir dai uma vida conjugal. Quando Isollyna nasceu, seus braços tinham a curvatura contrária, sendo os cotovelos na frente, ou melhor, em cima dos antebraços. Um grosso casco existia na sola dos seus pés e nas palmas de suas mãos. E como não bastasse isso, uma pequena crina nascia na parte de cima de sua cabeça e seguia até o meio de suas costas. Não se sabia o porque daquilo. Seu parto foi feito na zona rural sob os cuidados de uma parteira naquela época. Contam ainda, que o seu pai, o senhor Jarbaz, era um homem muito esquisito, suspeito de roubar várias crias equinas daquela região, onde levava para
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sua casa dentro de um saco após esquartejá-las no meio do mato. Os fazendeiros e sitiantes achavam depois somente as cabeças e os pés daqueles cavalinhos e suas éguas parece que sentiam a morte deles, pois choravam por alguns dias... Talvez, o nascimento de Isollyna fora um castigo para Jarbaz, por assassinar vários filhotes de éguas que ainda nem eram desmamados. Isollyna cresceu e seus problemas foram minimizados por várias cirurgias custeadas pela comunidade rural onde morava. Ela foi levada para fazer correções ortopédicas em são Paulo durante muitos anos.

O tempo passou e seus pais morreram de uma doença desconhecida. Ela então já moça, resolveu se casar com um tal de Rovilson, após namorá-lo por poucos meses. Rovilson era um rapaz simples, trabalhador rural e meio beberrão (gostava de tomar umas e outras). Nos finais de semana, ele sempre chegava embriagado em sua casa e Isollyna lhe dava a maior bronca. Certo dia, numa Sexta-feira de Quaresma, Rovilson acorda assustado com vários barulhos de trotes em seu quintal. Parecia que um cavalo furioso rondava a sua casa e se debatia pelas paredes, tentando até mesmo entrar pela porta principal. Rovilson gritou várias vezes pela sua mulher Isollyna, porém, ela não estava dentro de casa. Havia sumido da cama durante aquela noite. E cada vez que Rovilson a chamava, lá fora aquele cavalo relinchava.

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 Rovilson então resolveu sondar por um pequeno buraco na sua janela. Após aquele animal rondar os fundos da casa e passar em frente da janela, Rovilson ficou apavorado. Era uma enorme égua branca, possuía uma crina loira com alguns lenços ainda amarrados. Mas um pavor tomou conta de sua mente quando ele não conseguiu visualizar uma coisa. A cabeça daquela égua simplesmente não existia. Rovilson havia se casado com uma mulher que virava a verdadeira Mula-sem-cabeça. Rezando todos os tipos de rezas, ele aguardou o dia clarear e desapareceu da vida de Isollyna para sempre. Depois disso, Isollyna nunca mais se casou e seus sete gatos pretos eram a sua única companhia. A transformação na Mula-sem-cabeça era o carma que Isollyna tinha que carregar para sempre, para assim pagar o pecado cometido pelo seu pai. Talvez isso fosse uma maldição lançada pelo pensamento coletivo de todas aquelas éguas, que tiveram suas crias assassinadas cruelmente no passado...

Sobre a Lenda da Mula sem Cabeça...
A mula sem cabeça é um personagem do folclore brasileiro. Na maioria dos contos, é uma forma de assombração de uma mulher que foi amaldiçoada por Deus por seus pecados, muitas vezes é dito ser uma concubina que fez sexo dentro de uma igreja com um padre católico e foi condenada a se transformar em uma criatura descrita como tendo a forma de um equino sem a cabeça que vomita fogo, galopando pelo campo do entardecer de quinta -feira ao amanhecer de sexta-feira. O mito tem várias variações sobre o pecado que amaldiçoou a mulher a se transformar no monstro: necrofagia, infanticídio, um sacrilégio contra a igreja, fornicação, incesto, etc.

SEJA GENTE, PROTEJA OS ANIMAIS!

Proteja os animais daqueles que não tem humanidade suficiente no coração para amar e cuidar dos
* História Verídica, porém com nomes fic cios

indefesos.

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Ensaio / A mulher que não Beijou
Por Anna Ribeiro

Em pensamentos íntimos, parecia que seu espirito estava de tocaia. Despida, vazia, tenta esconder o silencio dentro de si melhor seria nada dizer?!... Mas, porque veste este pranto, Nos varais do tempo, não ficou a alma despida? Ah, como nas janelas do trem vê correr as anuviadas paisagens Assim, revê a inocente ilusão... Acampamento cigano com seus coloridos panos em esvoaçantes magias. Na palma da mão o retrato do futuro dito decifrado. Desta distância... Por alinhavadas linhas vive o poema turvos ensaios no passeio da alma. ... Na boca do tempo, da mulher que não beijou o não sacramentado, Ficou espelhado no espanto de Lúcifer!

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Yeda Prates Bernis

HAICAIS

O coração da aranha se desfaz em geometria de seda e mandala

A jabuticabeira. Através de líquida cortina olhos negros espiam.

Imóvel, o barco. No entanto, viaja.

Enviado por Norália de Mello Castro

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Escorre pela folha a tarde imensa, pousada em gota d'água.

Noite no jasmineiro. Sobre o muro, estrelas perfumadas.

Grão de Arroz YEDA PRATES BERNIS

Um marcador japonês no livro de hai-kais – silencioso conluio. De Grão de Arroz, Editora Itatiaia Ltda. (BH, 1986).

Lavadeiras de beira-rio. nas águas, boiando, cores e cantos.

Cai da folha a gota d'água. Lá longe, o oceano aguarda.

Na poça d'água o gato lambe a gota de lua.

De púrpura, seu mergulho no aquário. No coração, o mais antigo azul.
Enviado por Norália de Mello Castro

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VENEZA E AS QUATRO ESTAÇÕES Por Antonio Vendramini Neto É uma cidade Italiana deslumbrante, situada na bela região do Vêneto, conhecida pela sua historia, onde os canais majestosos dão um toque de magia e encantamento. Possui também vários museus e monumentos. Seu nascimento surgiu de um arquipélago no noroeste do mar Adriático.

alto, estão postados quatro imensos cavalos de bronze, que dominam o panorama, parecendo ao longe, estarem sempre trotando, com as patas ao ar e envoltos por nuvens, dando a impressão que está presente, em todas as estações do ano. Foi classificada como Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO. Dos muitos monumentos e locais turísticos, a ponte de Rialto é uma atração imperdível, situada sobre o imenso canal, onde por suas águas percorrem todos os tipos de embarcações.

Reina absoluta como uma das mais importantes da Europa, com uma trajetória rica e um império na época, de influencia mundial, comandada pelos seus Doges, uma espécie de lideres, com poder absoluto, como o de mandar prender e matar as pessoas que atrapalhassem seus interesses, tranca fiando-os na famosa “Ponte dos Suspiros”, de onde eram levados ao calabouço, tendo suas cabeças decepadas pelo carrasco, dando ali, o “Ultimo Suspiro”, por isso, a ponte leva esse nome.

É muito conhecido nas artes, o Festival de cinema, a grande Bienal, a Regata Histórica e o Carnaval, com moradores e turistas, vestindo imponentes fantasias da época. À Noite impera os cassinos, onde os jogadores disputam fortunas, ao som de pequenas orquestras medievais, e ao lado de belas mulheres, alguns poucos que conseguem ganhar, deixam para a Prefeitura pesados impostos. Os passeios diurnos e noturnos sobre as gôndolas proporcionam aos casais, emoções e êxtase, que ao som de músicas tradicionais cantadas pelos gondoleiros, trocam beijos apaixonados. Ali nasceram vários Papas, Arquitetos, Pintores e também o Mestre Antonio Vivaldi, onde viveu por vários anos, compondo a imortal “Quatro Estações”.
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Da imensa praça, denominada de São Marco, vislumbra-se a imensa Basílica, que em seu
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INVERNO... Mãos trêmulas no gélido ar. VERÃO... Diviso ao longe sobre um vaporetto a bela Rialto Ponte de pedra em arco Caminhos de uma época Rumo à Basílica de São Marco Paisagem delirante e inebriante Inspiração de pintores e grandes amores Por suas águas passam gôndolas Transportando casais apaixonados Com suaves suspiros e som contagiante... Na sala atapetada, bate forte o coração Ouço o som suave e cadenciado de uma gravação... É Vivaldi com o tema Inverno das quatro estações Sopra forte e cortante o vento norte do leste europeu. Recôndito... Esfrego as mãos ao pé da lareira. Lá fora, cai uma neblina fina Parecendo uma garoa sobre o chão nevado... Olho essa paisagem sobre uma vidraça embranquecida

Procissão de gondoleiros Transportando personagens Mascaras e trajes do glorioso passado Ao carnaval e ao festival de cinema Histórias contadas da cidade dos Doges...

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A Rainha da Floresta

De Anna Leão A Rainha da Floresta é um gostoso convite para o mundo da magia. Nele o leitor encontra a história da princesa Anaís, que se descobre uma bruxa. Por conta disso, a jovem herdeira do Reino das Joias se vê obrigada a fugir do reino no dia de seu noivado, refugiando-se na Floresta das Sombras, vítima de uma maldição. A partir daí, a princesa parte para uma grande aventura onde vivencia seu processo de iniciação, autodescobrindo-se e conhecendo a magia e o seu passado ancestral. Recheada de personagens interessantes, a obra mostra a importância de sermos nós mesmos e encontrarmos nosso lugar no mundo. Venda no site da autora: http://www.annaleao.com.br/modules/mastop_publish/?tac=Livro#2

NA EUROPA: www.livrariavral.com

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A CASTRO ALVES
Por Carlos Alberto Barreto

Longe da turba, em caçada solitária Por, companhia, o fiel perdigueiro No ombro, a espingarda ordinária Aliada à tuberculose, mal do peito condoreiro. Soa o tiro, debanda os turdídeos no matagal Perdizes, tuins, revoada... Logo silêncio inclemente O calcanhar ferido, túmido, letal Suspira, arfante por tão estúpido acidente Dor atroz, latejante e frenética Não no pé, mas no coração, na alma Curta e culta juventude poética O Mal do Século mata, desalma. Sabe que dirá adeus Aos amores recônditos, plenos e suaves Quebrando a magia dos sonhos seus Dos discursos, à voz, às claves Magnetizando plateias, exultando multidões Dirá adeus à boemia, fina e indolente Aos amigos, aos declames, aos serões Ao Curralinho, à Natureza, à gente “Morrer... Quando este mundo é um paraíso e alma um cisne de douradas plumas!” verseja, rouquenho, ainda em juízo a febre, o delírio, o frio, as brumas. Hoje, imortal que ele o é Olha, radiante e altaneiro Mão estendida, mármore no pé Para o mar, eterno companheiro Que o seguiu, em poéticos devaneios Nas procelas, nas espumas flutuantes Nau negreira, o porão, os arreios A revolta, o açoite, cenas humilhantes Olha, sereno, para a Praça, para o Céu Ela que é do Povo, ele que é do Condor Profetizou, eloquente, o nosso Cecéu Poeta dos Escravos, dos Românticos, do Amor. (do livro Só... Reminiscências Poéticas, editora CEPA, 1998)

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DE YEDA PRATES BERNIS

Avaliação

Entre o eterno e o efêmero que distância transcendente? Entre a verdade e a palavra quanta sombra e claridade? Entre o sofrimento e a prece quanta fugaz esperança? Entre o amor e o desamor quantas chagas e soluços? Entre sonho e realidade quantos loucos e poetas? Entre a existência e a morte quantos inúteis respiros? Entre o passado e o presente quantas mil eternidades?

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NO PALCO DA VIDA

Por Carlos Alberto Omena

No palco da vida a minha historia atuei. Vivi muitos personagens, numa aventura que sequer imaginei. Entre cegos já tive um olho, sem com isso ter sido um rei. Já fui rico, fui pobre e andarilho, vivendo nessa terra sem lei. Já fui bobo da corte, fui sábio e poeta também. Numa corte sem corte, sem guardar mágoas de ninguém. No palco da vida, minha vida eu vivi. Foi no palco dessa vida, que minha historia escrevi.

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Sabes que teu equilíbrio nos desequilibra e nos reequilibra? Sabes o quanto és capaz de nos fazer inclinar, diante de teu andar? Andar firme, sincero é o teu jeito de estar. Por que tanta correria Boneca Menina? Quais são tuas quimeras que nos estimulam? Sabemos que as formas raras vindas de ti, brotam de Seres Fantásticos? “Seres” expressos no teu olhar, No teu jeito de sorrir E no teu caminhar! Que fazes agora Boneca Menina? Danças num piscar de olhos, para o mundo todo ver? Boneca dos sonhos de toda menina. Menina cobiçada pelos meninos. O que aconteceu contigo? Já sei, você cresceu e o tempo passou. Olha! O tempo nasce, cresce e passa. Mas saibas que ficarás para sempre Gravada em nossas mentes, Lá dentro do coração! Coração de boneca, Boneca Menina! Que rodopia, rodopia, rodopia... Boneca Menina, o tempo passou e você cresceu. Ontem eras princesinha, hoje és rainha. Mesmo que fiques bem velhinha, Jamais perderás a doçura que te cobre de candura. Assim serás para sempre, Minha Boneca Menina Que rodopia, rodopia, rodopia...

Por Claudete Terezinha da Mata Boneca Menina que carreguei no ventre. Que ao nascer, Amamentei com o leite que brotou do meu Ser. Boneca que eduquei Ensinando sempre os caminhos do bem E todos os outros caminhos também. Boneca que esperneava quando contrariada. Gritava alto para o mundo todo ouvir, Dizendo a todos que um dia essa criança forte e ao mesmo tempo tão frágil, Iria alçar voo... Voar na busca da liberdade. Que energia é esta, Boneca Menina? Que nos faz recordar a nossa infância? Que olhar esse que nos faz sonhar? Sabes que teu jeito de olhar e sorrir vem colorir o mais belo jardim? E que o brilho do teu olhar, revela a luz das estrelas tímidas no ar? Que revela a timidez da lua, iluminando o mar. Até o Sol te admira, bela Boneca Menina. Teu corpo delicado, Teu jeito raro de gesticular. Que olhar é esse que nos inebria? Qual sonho revela teu olhar? Que par de olhos estão a nos ver? Que energia é essa, Boneca Menina?
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A dor do orgulho
Por Cristiane Stancovik Hoje eu choro... Choro por não ter chorado Por não ter falado Por não ter pecado ... Que pecado não ter falado que teria te amado! Hoje eu grito Grito pelo mito Mito porque acredito que não acredito no que não foi dito Hoje eu vivo... Só pensando... Até quando seguirei pensando?! Então não penso... E suspenso fica o amor a quem não mais pertenço

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NO MUNDO DA FICÇÃO CIENTÍFICA
Por Daniel C. B. Ciarlini

Os dois universos da Ficção Científica

pre, polos opostos no fator que ora denomino P, ou seja, público e/ou produção. Numa sociedade desacostumada ao hábito da leitura e alienadamente televisiva como a brasileira, é quase irrevogável que um jovem de 15 anos ao assistir, digamos, a adaptação clássica Eu, Robô, de Asimov, queira ler a obra em si, mesmo sabendo, ou por informação de terceiros ou por sugestão de seus próprios produtores, que o filme não represente de forma fiel a narrativa do escritor. Diferente do público leitor de ficção científica, os entusiastas do cinema, em sua imensa maioria, são preguiçosos, pouco ou nada ligam para detalhes como roteiro, criação, direção, contexto histórico, social e político, bem como as ideologias dos autores, a crítica embutida, as intertextualidades implícitas e explícitas que as megaproduções cinematográficas, irreversivelmente, possam nos levar a refletir a partir das telas do cinema e da tevê. Daí a antecipação em se afirmar de que do gênero só conheçam a casca, porque contemplam mais o lúdico do que o conteúdo em si – e disso os cineastas, roteiristas e diretores estão fartos em saber: não faz tanto tempo assim que descobriram esta receita do pão e do circo. A F. C. das últimas décadas, a começar com o space opera americano Guerra nas Estrelas (1977, 1980, 1983, 1999, 2002 e 2005), de George Lucas, tem se restringido nada mais nada menos do que a extrapolação de cenas de destruição e guerras por toda a galáxia, com efeitos especiais desastrosos que beiram o absurdo.
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Parte I

Falar em ficção científica é voltar-se a modernidade, portanto a assuntos há muito em voga, bem como especular (ou extrapolar, como cita Allen e Asimov) a respeito dos progressos e das influências que alguma descoberta fez ou fará à sociedade. A propósito, por ser um tema contemporâneo e ao mesmo tempo muito antigo – porque a ciência não é estática, desde Copérnico –, sinto-me livre a tecer comentário de forma ampla e flexível, sem método ou regra, aliando às liberdades algumas questões de história e cinema, este último porque, hoje, o gênero é um entrelace midiático de efeitos especiais (a maioria empobrecedora de roteiros) com enredos jamais envelhecidos, dos tempos áureos de Julio Verne, H. G. Wells, Ray Bradbury, Robert A. Heinlein, Arthur C. Clarke, Isaac Asimov e toda a Geração de Ouro despertada por John W. Campbell, editor da revista mais popular de F. C. na primeira metade do século XX, a Astounding Science Fiction. Embora a ficção científica na literatura e no cinema tenha lá as suas conexões, é válido deixar claro que no campo da imaginação e da criação especulativa representam, quase semVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

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A essência da ficção científica não é isso, diga-se de passagem! Essa absurdidade, por parte de alguns que alcançam o estrelato hoje em dia, é que faz do gênero um palco mambembe e pernóstico. E isso ocorre devido à tendência natural do ser humano deste e do século passado, e não seriam diferentes os entusiastas de cinema, em se maravilhar com explosões, maremotos, furacões, enfim, destruições em massa. Nos últimos vinte ou trinta anos temos vivido uma onda apocalíptica no cinema: a destruição total ou parcial da Terra parece ser a grande atração, isso explica, por exemplo, o sucesso que alcançou produções da ordem de Impacto Profundo (1998), O Dia Depois de Amanhã (2004), 2012 (2009), Presságio (2009) e, mais recentemente, A Estrada (2010). Peço licença aos leitores para usar das palavras de Isaac Asimov (1920-1992) quando, em 1978, resenhou o episódio inicial do famoso programa norte-americano de ficção científica Battlestar Galactica (hoje adaptado para o cinema: 2010), antes mesmo de este vir a ser transmitido pela ABC: “Não estou bem certo se compreendo a psicologia das pessoas que produzem filmes e programas de TV. Sou um homem de livros”.

volta-se àquilo que tem dado audiência e estourado as bilheterias dos cinemas. Até parece mesmo que não há outro destino aos seres vivos senão a sua extinção ou sofrimento. Tais fatores só nos mostram como o mercado profissional de roteiristas está em baixa do basilar produto que lhes confere originalidade: a imaginação.

Como Hollywood tem mantido, há décadas, uma espécie de monopólio no cinema mundial, não estranho observar a sua parcela significativa de culpa em todo o processo. A fim de corroborar a este pensamento, e se não for maçante de minha parte, faço questão de reproduzir mais uma vez as palavras daquele crítico: “Hollywood é forçada a lidar com o grande público, e a maioria dos membros desse público é totalmente ignorante do que seja boa ficção científica. Hollywood é obrigada a curvar-se ao seu público, ir pelo menos em parte ao seu encontro”. Ao contrário da má ficção científica (ou seria ficção apelativa?), H. G. Wells (18661946) foi um dos escritores que bem trabalhou o tema das destruições de forma bastante lógica e bela em A Guerra dos Mundos (1898) e A Máquina do Tempo (1895), neste último, por exemplo, não pôs fim à humanidade senão aos costumes fúteis, e mostrou a subdivisão da espécie humana em duas, Morlocks e Elói, num ano bem a frente do normal, 8.002.701 d. C., inimaginável para os homens do presente que só investem no extermínio – a sua narrativa é tendenciosa e cumpre um objetivo: cri car
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A F. C. vive atualmente um momento de pessimismo que se arrasta desde o tempo das grandes guerras: não bastassem as especulações de catástrofes naturais, todo e qualquer avanço científico ou tecnológico está ligado ao confronto e à destruição gratuita, e o motivo da febre responde por uma só palavra: capital;
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o sistema capitalista e a exploração da mão-de -obra por parte da classe burguesa. O resultado foi uma estória que inverteu os papeis e demonstrou a fragilidade dos burgueses/Elói frente aos Morlocks/proletariados, assustando deveras a sociedade inglesa de seu tempo. O conhecimento científico e o avanço tecnológico em Wells não serviram para que os homens se destruíssem, na realidade as artificiais diferenças sociais foram o principal combustível da grande ruptura da raça. É estranho ver que o desenvolvimento do homem não tenha, hoje, a mesma significação que teve em um passado não tão longínquo, cuja tecnologia surgiu para aliviar-nos da fatiga mental e muscular. Contrariamente parecemos mais fatigados, o caos da globalização e a necessidade da competição têm nos apartado, odiado e desumanizado a cada dia. Triste ainda em ver que tal realidade é-nos ofertada duplamente, tanto pela vida quanto pela ficção, já que esta não nos permite mais fugir daquilo que nos volteia, obrigando -nos a deixar na gaveta os sonhos.

na construção da verossimilhança para convencimento do público, a citar a logicidade tecnológica e científica empregadas e as teorias tão bem construídas, entretanto, quando tudo caminhava para o encerramento com chave de ouro, fui surpreendido com o sensacionalismo de destruição na cena da hometree, a grande árvore, lar dos Na’Vi, povo nativo do planeta Pandora, então explorado pela raça humana – e mais uma vez a ambição mundana do homem foi demonstrada como tempero que obriga a ordem do capital permanecer acima de tudo. Por certo, eu estava me iludindo em esperar uma F. C. diferente em Avatar, visto que é do currículo de Cameron filmes ainda mais aniquiladores como, só para citar dois, O Exterminador do Futuro (1984) e Rambo (1985). O leitor pode neste momento ter o seguinte questionamento: Desde quando Rambo é ficção científica? Senão vejamos... Rambo, estrelado por Sylvester Stalone, marca um período bem peculiar no cinema norteamericano: o inconformismo das verdades históricas. Tendo sido massacrado pelos vietnamitas na Guerra do Vietnã (1959-1975), até o uso covarde da arma química Napalm, os Estados Unidos, através de seu Governo, patrocinando o canadense Cameron, deu um jeitinho de mostrar força contra aquele povo asiático, pelo menos no campo da ilusão, e eis que surge o guerreiro americano John Rambo, uma máquina de matar (sem sentimento), capaz de empunhar lançadores de mísseis, metralhadoras e acioná-las usando apenas os braços,

Recentemente, ao ler a sinopse do filme Avatar (2009), dirigido por James Cameron, antes mesmo de vir à tona nas telas de cinema, senti -me um tanto feliz quanto a possibilidade da nova geração assistir a uma reviravolta na ficção científica soft dos cinemas, afinal de contas, com uma originalidade de roteiro daquele estilo, idealizado pelo autor e diretor desde 1994, não haveria de se esperar o contrário. O filme, isso não há dúvidas, é esplêndido, tanto em nível de gráfico como de efeitos especiais e aspectos outros triviais de suma importância
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Com tanto sensacionalismo fico a imaginar a Guerra dos Cem Anos que seria se, por um acaso, mero acaso, Cameron pusesse Rambo para digladiar com o ciborgue interpretado por Arnold Schwarzenegger em O Exterminador do Futuro – seria o suprassumo da atual ficção e a destruição total da Terra. Justiça seja feita, embora Rambo tenha sido um sucesso no tempo, arrecadando mais de 150 milhões de dólares só em bilheteria, a crítica o condenou friamente, afinal de contas, com uma estória tão absurda, e com uma deturpação histórica de tal envergadura, o título de pior filme do ano pela Golden Raspberry Awards marca apenas o início de uma dessacralização do cinema estadunidense. Assim, percebemos que paira na sétima arte não um pessimismo de criação guiado pelo fator P, no caso público, mas também, em acréscimo, o patrocinador, que direciona, pela ordem do vil metal, investimentos em atrações deste nível, guiadas por discursos cheios de interesses políticos – ora, o que dizer de Capitão América, personagem de HQ criado justamente no período da Segunda Guerra Mundial, hoje na sua quarta adaptação para o cinema. Esta penetração política põe em crise no cinema o que as pulp magazines fizeram nas décadas de 30 e 40 ao gênero na literatura, onde quantidade e qualidade eram inversamente proporcionais.

A atual geração parece desacreditada de outras opções para a racionalização da vida senão através do interesse mesquinho ou do negativo. Os últimos escritores de F. C. com alma socialista morreram e com eles a originalidade, o questionamento, a reflexão filosófica, política e social, e se há uma coisa que nos pode confortar é saber que seus legados, sozinhos, são capazes de manter o gênero e influenciar novos roteiristas e escritores para o porvir, fazendo-me lembrar uma das sábias e assertivas frases de um poeta parnasiano brasileiro, Alberto de Oliveira: “formas literárias desconhecidas, desconhecidos gêneros e ainda os há muito esquecidos, acharão ambiente apropriado ao seu aparecimento ou ressurreição”. Não estou aqui tomando partido pela ordem socialista dos fatos, mas explicitando que o ambiente soft da ficção científica, hoje, está mais engolido pela hard do que nunca. O desfecho agregador de soft com hard, que torna o escritor ou o produtor um ficcionista científico completo – já que funde o lado social com o tecnológico –, está em extinção. No mais, quero acreditar que tudo não passe de uma fase se findando, Asimov que o diga!

(Leia a segunda parte na página 73)
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O CÃO SEM DONO
Por Denis Lenzi

Levantei-me e corri o quanto pude, indo em direção a ele que já estava no meio da rua, pegando a bola no asfalto. O carro se aproximava, e eu consegui chegar a tempo. Saltei, e empurrei o menino para longe, segundos antes, de o carro passar por cima de mim. Doeu muito, no entanto...!Salvei o menino da morte.

Putz! Como dói muito! Eu não imaginei que o impacto de um carro pudesse me causar tamanho estrago em meu corpo, e que iria doer tanto, mas doeu... Caramba! Como dói! Eu não posso me mover; nem posso me levantar e correr por ai; parece que o meu corpo grudou ao chão como chiclete esmagado sob a sola de um sapato. O asfalto queima como se estive me fritando. É verão agora. e o sol brilha com tamanha fúria. Odeio isso. Odeio calor. Mas pouco me importa agora...

Ah, vejo agora o céu. E que céu! Nunca tinha reparado o céu tão azul e vívido. Certamente, quando alguém está prestes a morrer, a sua visão se torna cada vez mais aguçada, deixando todas as coisas ao meu redor mais vivas e palpáveis. Estou vendo agora os rostos dos transeuntes. Olham-me com pesar. Nenhum deles ousou de se aproximar, e me ajudar. Por que será? Fui atropelado e ninguém quer me ajudar? Sinto o cheiro de sangue alastrando no chão do asfalto. Meu sangue. Quente. BorbuNão sei por que tinha que acontecer isso comi- lhado por causa do calor do sol. Que horror! go; precisei passar por este momento para po- Por quanto tempo vou ficar ali? der me salvar um menino ruivo. Pouco antes do Por entre os transeuntes, posso ver um jovem acontecido, lá estava ele dando uma comida careca com aquela coisa brilhante na orelha, para mim, pois se sentiu em pesar; sentado à sombra de uma árvore, faminto e cansado de- que somente as mulheres usam, veio até mim com uma grande pedra e o vi ergue-la; seus pois de percorrer um longo caminho. olhos fitaram os meus, e parecia querer dizer algo: Vou poupar a sua dor. Será uma morte Aquele menino, mesmo sendo tão pequeno, rápida e indolor. Mas o jovem não o fez, o metem grande coração. Eu e ele temos algo em comum: somos ruivos. Quando ele se afastou, nino impediu gritando - Não o mate! Não o mae foi correr em direção a outra criança que se- te! Ele me salvou! Por favor! Não o deixe morrer! – a voz do menino parecia um misto de dor gurava a bola, para brincar, senti-me feliz por ele, enquanto saboreava o pedaço de pão dor- e revolta. Sinto o cheiro de suas lágrimas. Pura. Limpa. Um odor agradável ao meu olfato. Lemmido com manteiga, enquanto sentia o vento soprar em meu rosto. Ah... Como é agradável o bra o cheiro das gotas de orvalho num raiar de primavera. Fresco. Ah, como é doce este cheiro cheiro da natureza... Fiquei ali por um tempo enquanto as pessoas passavam à minha frente, que impregnam o meu olfato. olhando-me com desprezo. Ah, estou me lixando para essas pessoas, elas não possuem o grande coração daquele menino. Estava prestes a cochilar, vi a outra criança lançar a bola de longe, e o menino ruivo correr atrás da bola, que pulava em direção à rua, fora então que senti o cheiro de perigo que rondava por ali. O carro vinha de longe, mas pude ouvir seu motor... Senti que a morte pairava por sobre aquele menino de grande coração. Estava prestes a acontecer uma coisa terrível; não poderia permitir... Não com o menino ruivo.

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Vejo o seu rosto com sardas; cabelos ruivos, e olhos azuis como o céu! Não; acho os olhos dele mais lindos do que o céu. Tão doce. Tão compadecido de mim. Gosto muito dele. Nenhuma outra criança tem coração igual como este. Valeu a pena salvá-lo. Sacrificar-me-ia várias vezes pelo o mesmo motivo. Pena que não tenho setes vidas, como o gato. Maldito gato sortudo! Quero levantar-me agora, poder acolher o meu amigo e dizer - está tudo bem, meu amigo. Estou bem e vou ficar sempre com você. Mas não posso. Estou imóvel. Mais pessoas começaram a me rodear. Veio a mãe do garoto, que o pegou e levando-o para longe de mim. Por que ela está fazendo isso? O menino esticou o braço, para poder me tocar, me cuidar, mas a mãe não permitiu. Ele sumiu de minha vista, mas sinto o seu cheiro de sua lágrima, que impregnou o ar. Olho para o céu... Tão imenso azul e profundo. Dá-me vontade de mergulha para sentir a sensação do frescor e da paz. Ai! A minha vida está indo embora pouco a pouco. Meus olhos começam a ficar pesados e isso me deixa assustado. Sinto o cheiro da morte. Está vindo... A lembrança do menino continua impregnada em minha mente. Errr... Acho que já está em minha hora. É melhor assim. Não dá para viver no mundo dos humanos. Bicho homem tão egoísta; materialistas! Machucam; ferem uns aos outros. Não entendo isso. Achei que seriam evoluídos como nós, meros cachorros mortais, enganei-me. Eles têm muitos a aprender. Ouço um deles falar sem menor cerimônia: - Graça a Deus! Um vira-lata a menos em nossa rua. Foi melhor assim. É; eu também acho. Foi melhor para mim, partir deste mundo mesquinho cheio de gente sem coração, exceto o menino ruivo. Sinto o vento me acolher. Como é agradável o vento, que aliviar o meu corpo, a minha dor está desaparecendo. Que bom! Foi melhor assim. Fecho os meus olhos, solto o meu último suspiro e sinto agora a sensação de paz me acolher. Agora... Sim...

...estou... Em... ...paz.

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NESTE ÁTIMO...
Por Dias Campos “Click”. - Tenho exatamente o tempo que medeia entre este estalido e a secção do pescoço de Hamida Djandoubi para dar o meu testemunho, para dizer a que vim. Sei que os milionésimos de segundo consumidos para que uma lâmina oblíqua de cerca de 40 kg percorra na vertical a distância de 2,3 metros e atinja esse pobre coitado não parecem ser bastantes a qualquer comunicação... No entanto, se me reservaram o âmbito deste conto é porque não titubearam quanto à sua suficiência. Além do mais, falo na velocidade do pensamento. - Sendo assim, permitam-me que me apresente: chamo-me Joseph-Ignace Guillotin; era francês e exerci a medicina no século XVIII. O patronímico? Apreenderam bem. Mas poucos sabem que foi graças à sátira que o jornal monarquista Actes des Apôtres fez ao projeto que apresentei à Assembleia Nacional, e que dispunha sobre a democratização da pena de morte, que entrei para a história... – “Esta máquina supliciadora deveria trazer a doce denominação de... guilhotina!” - Mutatis mutandis, eu e o meia armador Gérson cometemos o mesmo pecado: agimos de boa-fé num mundo em que a má-fé impera. Na realidade, o que me motivou foi a extrema compaixão aos condenados. Considerava que o enforcamento e a decapitação com o machado poderiam causar grandes e desnecessários sofrimentos. Esta, às vezes não cumprindo o seu papel ao primeiro golpe; aquele, por vezes acarretando uma agonia que se protraía por horrendos minutos. - Seja como for, o fato é que volto neste 10 de setembro de 1977, aqui em Marselha, para rejubilar-me com este átimo que se esvai. Mas, por favor, não mais deturpem o que acabo de dizer... Regozijo-me, sim, com esta data, não só porque poderei amparar essa alma decaída, mas, sobretudo, porque será a última vez que a pena de morte será aplicada na França! Sim, caros leitores, amantes da verdadeira liberdade, a macabra Prece Revolucionária nunca mais será recitada! – “Repleta teu cesto divino com cabeças de tiranos.../Santa Guilhotina, protetora dos patriotas,/Rogai por nós./Santa Guilhotina, calafrio dos aristocratas,/Protegei-nos!” - Vive la vie! Vive la France!
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DE YEDA PRATES BERNIS

Colheita

No tempo que não existe revolvi meu chão de ânsia com mãos de seda e inocência. Adubei com imprudência de fé, paixão e constância a terra desta certeza. Semeei minha verdade no futuro da alegria. Reguei com fresca poesia o que fruto me daria. No tempo que não existe - primavera em calendário espantalho solitário sem rumo, sem endereço, colho a safra da agonia, recolho a vida ao avesso.

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ABÓBORA GRATINADA
Do site: http://cybercook.terra.com.br

2 colher(es) (sopa) de manteiga 1 unidade(s) de cebola picada 1 dente(s) de alho amassado(s) 1 kg de abóbora japonesa em cubos médios 200 gr de champignon em conserva fatiado(s) quanto baste de sal quanto baste de pimenta-do-reino branca 1 lata(s) de creme de leite 1/2 xícara(s) (chá) de Ricota quanto baste de noz-moscada 1 colher(es) (sopa) de salsinha picada(s) 2 colher(es) (sopa) de Queijo Ralado

Em uma panela, derreta a manteiga e refogue a cebola e o alho. Junte a abóbora e deixe refogar até que fique cozida, porém, firme. Se necessário, pingue água durante o cozimento. Acrescente o champignon e cozinhe mais um pouco. Corrija o sal, mexa e reserve. Bata no liquidificador o creme de leite, a ricota e o sal. Tempere com a noz-moscada e a salsinha e reserve. Pegue um refratário e coloque camadas de abóbora refogada e do creme de ricota, terminando com o creme. Polvilhe o queijo ralado e leve ao forno até que esteja gratinado.

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ECLIPSE LUNAR

Por Edilson Leão

O dia da noite A noite do dia! Lua negra Negritude nas estrelas. O sol da meia-noite Da meia-lua! Que ilumina os paralelepípedos da rua. A folha de zinco é o espelho aliado Do aparelho de barbear. Será que vou me cortar? O dia já vem raiando! Transportando raios de sol Fagulhas e faíscas. A água está no fogo O café vou requentar. E na varanda aguardar A luminosidade retornar.

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A bailarina
Por Evelyn Cieszynski Uma caixinha de música mostra sua bailarina com sapatinhos de cetim.

Ela dança, dança, dança, e de seus pés saem música.

Não está presa por um ímã. Ela ganhou vida, e seus pezinhos delicados dançam.

Dançam sob a lua. Dançam levando a música aos céus. Dançam para as estrelas.

Seu vestidinho esvoaça contra o vento gélido. Ela não está com frio.

Sua própria música a aquece. E o calor se espalha pelo céu criando uma fina aurora boreal.

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OS ALIENADOS DO CELULAR Por Gilberto Nogueira de Oliveira Eu estava numa loja De minha cidade natal. Os transeuntes passavam apressados Com o celular no ouvido Parecendo extraterrestres, Sem falar com as pessoas, Achando que estava falando com o mundo. Parecem que já nasceram assim Com um celular pregado ao ouvido. Olhei para a rua E vi pessoas dentro dos carros Com celulares nos ouvidos Parecendo alienados. Aliás, eram alienados do sistema. Atropelou uma criança E seguiu em frente Como se nada tivesse acontecido. Um policial apitou E o fez parar: -Sabia que é proibido dirigir com o celular no ouvido? -Peraí. Tô fechando um negócio. -O senhor está preso. -Depois a gente conversa. -Desligue o carro. -Não posso. Tô fechando um grande negócio. -O senhor atropelou uma criança. -Não. A criança foi quem atropelou meu carro e meu grande negócio. Havia outro alienado Na porta da loja
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Falando em dois celulares. Fiquei a observar aquela maluquice. Um celular em um ouvido E outro celular no outro ouvido. Fiquei pasmo de surpresa Ao descobrir que a pessoa Do outro lado da linha Era ele mesmo. Acreditem, é verdade. Ele ligou para ele mesmo. Comecei a sorri e lhe perguntei: -Está falando com quem? E ele respondeu: -Hã? Ah sim. Comprei o celular agora e estou testando, falando comigo mesmo. É o hábito. Quando atravessei a rua, Outro maluco estava gritando com o aparelho E esmurrando um poste. Assim não dá!

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PONTO DE ULTRAPASSAGEM

Sensíveis, que podem ouvi-la na solene linguagem divina

Por Gildo Oliveira

Do criador perene. O Sol brilha não apenas no Céu, mas também na consciência

Em princípio, não esperes... Procures auxiliar, sempre, À medida que socorres os carentes Algo adverso se reconcilia contigo mesmo. Avança sempre em socorro do irmão que sofre, Não esperes alguém sinalizar que um infortunado Aguarda auxílio ao longo do teu caminho, Estejas sempre de prontidão para tu mesmo identificar O desolado, o faminto, o oprimido em qualquer situação. Clareia os pensamentos, abençoando os que sofrem, Os que o Destino depositou em teu caminho, Mesmo que suas chagas te custem um desdobramento De atenção ilimitada e um desgaste imensurável. A paz e a bem-aventurança são patrimônios do coração Na razão única e altruísta de serem conquistas No campo social através da doação e do reto servir. Olha a Natureza se regozijando com a evolução humana, E mesmo sem o dom, da ‘ fala’, ela se expressa às almas

Clara, que leva os pensamentos luminosos ao coração; Neste o Cristo recebe a luz de Micael; e juntos, a luminosidade Da sabedoria celestial de Micael e a calorosidade do amor puro do Cristo Abraçam o peregrino e lhe desejam um bom dia; Bom –dia! Tudo é aproveitável, tem sentido; cada segundo nos permite Aprender mais; cada silêncio franqueia ao homem a ocasião Para preencher-se a si mesmo com uma nova sabedoria de vida; Cada novo ato verdadeiro alcança a aquiescência do Cristo E se torna o farol-guia para nossas novas ações. Sorria sempre, pois o sorriso é o grande instrumental, e o ponto de ultrapassagem de cada limitação para uma nova concepção de vida, de consciência e de ser, compreensão esta centrada doravante no Cristo Jesus.

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EQUILÍBRIO
Por Grecianny Carvalho Cordeiro

Manter o equilíbrio é a meta. Distante meta. Distante equilíbrio. Equilíbrio para viver melhor, em harmonia com o mundo, com as pessoas que nos cercam. O caminho parece estreito e sinuoso e realmente é, como tudo aquilo que desafia a natureza humana. Equilíbrio entre a razão e a emoção, entre o pensar e o sentir, entre aquilo que aparentamos e aquilo que deixamos guardado nas entrelinhas da alma, nos recantos mais secretos. Equilíbrio no amor, no carinho, na amizade, no gostar e até mesmo no odiar. Equilíbrio entre o ser e o ter. Equilíbrio na aparência para quem sabe um dia poder alcançar a essência. Distante equilíbrio. Equilíbrio distante. Livros de filosofia e religião. Conversas e reflexões. Autoanálise. Autoajuda. Psicanálise. Psicologia. Buda. Krishna. Cristo. Longa busca. Procurar por fora aquilo que sabemos encontrar somente em nosso mais profundo íntimo. Mas onde encontrar coragem para tanto? Como vencer os próprios medos? As intempéries que atormentam a nossa alma? Como enfrentar os fracassos, os dissabores, os conflitos interiores? Os traumas da infância, as impetuosidades da adolescência, os receios que acompanham o avançar dos anos, o medo da morte? Como conviver com todos ou alguns dos sete pecados capitais? Para renegá-los ou domálos. Para controlá-los ou liquidá-los. Pelos menos alguns deles. Como enaltecer as virtudes e torná-las as grandes cúmplices na jornada da vida, de modo a tornar todos os defeitos existentes pequeninos diante de si? Equilíbrio distante. Distante caminho. Distante equilíbrio. Grande desafio. Grande busca. Se impossível alcançá-lo em sua plenitude, pelo menos que aprendamos a saboreá-lo nas poucas ocasiões em que consigamos algum êxito nesse difícil desiderato. Pelo menos assim fica um pouco mais fácil.

Imagem by DrAkMa

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CRUZEIRO

Por Hideraldo Montenegro O que está além deste mar? Outro mar? Minha mente? A verdade? As minhas imagens? O que está além de mim mesmo? Deus? A morte? A vida? O que está além do meu corpo? Um morto? Um porto? O que está além deste oceano? Um outro homem, numa praia, fazendo as mesmas perguntas?

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me por inteiro e, mais uma vez deixei-me possuir pelo espírito encantado dos deuses. Quem seria ele? Foram tantos os amores passados na minha vida. Sempre me dei bem Por Ina Melo com os homens, amava e me deixava amar sem nada pedir, nunca precisei usar a moeda Quando o avião desceu, nuvens pesa- da troca, nem me fiz necessária a nenhum das cobriam o céu e um temporal se aproxi- deles. Isto representava para mim a liberdamava. No táxi, conversando com Paulo falei de. do meu encantamento pela cidade de SalvaDesperta, abri meu arquivo emocional e dor, mística e encantada. Avisei: Tenha cuifui procurar num passado distante, uma paidado. Você pode ser enfeitiçado. Aqui mulhexão eletrizante que vivi nesta cidade. O inres e deuses estão sempre misturados. consciente me trouxe depois de tantos anos Escolhi de propósito o Hotel Méridien, para este mesmo apartamento onde, com alonde há quase duas décadas me hospedei. guém especial, passei uma noite de paixão e Ao perguntar qual seria o meu apartamento, loucuras. Hoje, ele está perdido num passado uma morena faceira de trancinhas disse: 707. distante, não sei se vivo ou morto. Fiquei séria e ela perguntou: É supersticiosa? Senti fome e telefonei pedindo um filé Quer trocar por outro número? Respondi: Não, obrigada. Abrindo a porta senti uma lu- “au poivre”, acompanhado de vinho fada de ar com cheiro de alfazema. Respirei “bordeaux” tinto. Ao som de Ravel e com a fundo e entrei. Tudo igual ao passado, ambi- brisa suave cheirando a mar, jantei acompaente acolhedor, tons suaves no carpete, nas nhada dos Orixás que habitam esta mágica e cortinas e no meio uma cama larga forrada bela cidade do Senhor do Bonfim. de cetim.

FEITIÇO DOS ORIXÁS

Afastei as cortinas. Um céu cor de chumbo abraçava o mar. Trovões ribombavam e raios luminosos atravessavam o oceano. A chuva caía grossa e impiedosa. Sentada na cama, assistia a revolta da natureza. Seria um ato de boas-vindas ou um protesto? Só eles, os Orixás poderiam responder. Levantei vesti a camisola e fui para a varanda. Naquele momento lágrimas de saudades misturaram-se com a chuva descendo pelo meu corpo. Loucura ou não, senti uma presença mágica a me abraçar e uma boca quente e gostosa procurando os meus lábios, esmagando-os. Foram momentos de intenso prazer e gozos sob o forte barulho dos trovões. O espetáculo só a natureza presenciava. Assustei-me quando um raio caiu numa das árvores do jardim. Voltei, fechei a porta envidraçada, despi a roupa molhada e jogueime na cama. Não sei quantas horas dormi. A meianoite acordei com os raios da lua acariciando o meu corpo nu. A magia do prazer tomava–
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Imagem enviada por Ina Melo

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FLOR AMARELA
Por Inês Carmelita Lohn

Todas as flores são belas Desde as nobres as singelas Mas entre todas tem uma Que tem uma beleza sem fim Que a flor amarela Que nasce silenciosa Fora de um jardim Ela é a pura beleza Dentro do capinzal Enfeita os barrancos E o aterro do manguezal O mato quase sufoca Mas a flor amarela É forte e evolvente Sobressai entre verde Com sua cor atraente Parece ser tão sensível Aos nossos olhos grosseiros Mas ela sobrevive Ventos e temporais Fora de um canteiro O mato quase sufoca E o capim as espreme Mas a flor amarela É forte humilde e singela Sobrevive e não geme.

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O CLUBE DO NOVO AUTOR
h p://drisph.blogspot.com/

sequência do que conseguiremos fazer em conjunto, sim, juntos! Não cobramos nada para que um autor se associe a nós, porém, será necessário que ele seja convidado, e com uma pré-análise de

Como todos sabem, este blog, apoia, incentiva, promove, divulga e apresenta aos leitores, mercado e eventos literários nacionais, os trabalhos dos novos autores. Todo mês realizamos sorteios para difundir que não somos pequenos autores, e sim, estamos apenas no anonimato, e juntos podemos chegar a algum lugar. Precisamos nos unir para sermos lidos. Nenhum escritor ficou famoso e reconhecido da noite para o dia; com o crescente aumento de livros “sem qualidade literária”, e o número ínfimo de leitores existentes perto da demanda que lhes é oferecida, fica difícil ficarmos com nossos livros parados, esperando por sermos lidos, no meio de tanta obra publicada sem o condão de nos destacar, ou dizermos – “Ei, eu tenho talento!” É uma iniciativa privada este nosso trabalho, juntamente com o apoio das editoras parceiras; e juntos, fazendo gratuitamente, o trabalho que as editoras fariam para divulgar os nossos livros, portanto, estas promoções somente podem ser dirigidas a quem já tem seu livro publicado, de forma independente, ou não! Não fazemos diferenciação de novos escritores. Não aceitamos obras com conteúdo religioso, nem com incentivo à violência, do mesmo modo, não aceitamos obras com conteúdo pornográfico. Não somos agentes literários! Somos seis escritores que se uniram e formaram o clube e atendemos hoje em média de quarenta novos escritores; portanto, este blog não venderá a sua obra, apenas apresentará o seu trabalho, a venda é a conVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

sua obra. Pedimos que siga o blog; forneça todas as fontes necessárias para a divulgação, e lembre-se, seu livro estará sendo visado, não somente pelos leitores que aqui você formará, como também, pelas editoras comerciais (tradicionais), que já nos visitam, e com a grande alegria, já temos vários associados autores que foram convidados para apresentar os seus originais. Portanto! Mãos a obra; lembrando que o autor não participativo, a qualquer momento poderá ser retirado da promoção para dar o lugar a outros que estão chegando e necessitam estar na mídia; isso significa seguir o blog literalmente; comentar, divulgar também o seu trabalho aos seguidores, visitálos, responder aos emails, bem como respeitar os prazos das promoções as quais você esteja participando.

Sejam todos bem vindos; leitores, seguidores, editoras, revistas e principalmente, você, novo autor; estávamos esperando por você!

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A Noite Sem Fim
Por Infeto Ontem Satanás esteve aqui. Assustei-me pelo fato de não me assustar! Ele chegou devagar para eu me acordar e poder se comunicar. Por algum tempo desacreditei em tudo que viera a crer. Em minha mente veio um turbilhão de deveres e laços cósmicos. Por toda a noite trocamos ofensas e experiências. Preocupei-me com todos que tinha que me preocupar. Através da forma que se mostrou, decidi no que devia confiar, temer ou respeitar. Deus me proteja de mim mesmo... Eu não estava incluso em nenhuma delas. Continuei a me preocupar. Mas quem vai se preocupar comigo, até meu compromisso acabar? Meus amigos são fiéis, mas sofrem de miopia espiritual e energética. São os melhores idiotas que conheço! Olhei o quarto de meus pais e de minha irmã, liguei para quem me importava e quando o primeiro raio de sol invadiu meu quarto, não conseguiu me alcançar. Minha alma estava... eu estava muito longe, num lugar onde ele não podia penetrar! Ontem Satanás esteve aqui.

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ÁTILA, UM SER MUITO SER

Por Ione Jaeger

O cidadão abaixo (cara de folgado), confortavelmente sentado no sofá, é o Átila, fox paulistinha. Um dia, no verão de 2003/2004, apareceu no sítio, cansado, faminto, decidido - ali ficaria. Veio de mala e cuia, ou seja: simpatia, vontade, doação e carisma. Este moço, já adulto, trouxe de bagagem: coleira no pescoço, nas patas muito bicho de pé. Nunca se soube nem de onde veio, nem quem é. Passava, com certeza, pela estrada e, sem pedir licença, entrou pela porteira, na casa se alojou. Não pode ser visto como um sem terra - é educado, dócil, prestativo, trabalhador (ajuda o caseiro no ofício de vigia e guardador de ovelhas). Era, apenas, alguém à procura de um teto, nunca um invasor. Se meteu, sem demonstrar medo, há poucos meses, em contenda com outro da vizinhança (dizem disputa de parceira), se deu mal, o desafeto era maior, bem maior. Saiu com uma pequena lesão corporal - luxação no quadril esquerdo. Passou dois meses na cidade fazendo tratamento (fisioterapia) e, também, medicação controlada para curar um problema digestivo. Curou, ficou bom. mas o que ele mais gostou mesmo aqui na cidade foi passear nas ruas, nas praças - movimento. Fez muitas amizades. Átila, no sítio, tem uma vida saudável: come bem, dorme bem, brinca com os companheiros - 5 cadelas enormes e um gato - nada no riacho, persegue lagartos, visita o mundo canino feminino da vizinhança... Átila adotou um lar!

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DOCE DE ABÓBORA COM COCO

1 kg de abóbora moranga 750 gr de açúcar 1 unidade(s) de coco ralado(s) quanto baste de cravo-da-índia quanto baste de canela em pau

Descasque a abóbora e rale na parte grossa. Junte o açúcar, o cravo, a canela e coloque para cozinhar em fogo bem baixo. A seguir, misture o coco e deixe cozinhar por, pelo menos, mais 5 minutos. Acrescente o cravo-da-índia e a canela em pau. Deixe esfriar e sirva. Do site: http://cybercook.terra.com.br

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O GRITO

Por Ironi Lírio

Que os sonhos venham e se tornem reais. Mesmo que sejam durante o devaneio do sono. Não me ensine a viver. Sou aluno rebelde. Deixe-me voar por cima das montanhas. E, se eu cair, que seja despedaçada a minha alma sofrida. Não me ampare. Tenho asas e posso usá-las. Deixe-me subir ao céu e alcançar a grandeza do firmamento. Que os ventos venham e a tempestade. Procurarei abrigo nas rochas que encontrar. Deixe-me beber a água da vida e comer o pão da esperança. E depois, venha a calmaria que anseio em meu peito. Ouça-me. Deixe-me gritar o meu canto triste. Não me cale. Quero ser livre. Sou pássaro na gaiola.

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NINHOS
Por Isabel C. S. Vargas Aposentos especiais, tecidos por seres amorosos para abrigar preciosidades. Pessoas, sonhos, conquistas, lembranças. Local onde amadurecem esperanças desenvolvemse aprendizados que possibilitam cada habitante, um dia empreender sua jornada pessoal e outro ninho formar em um ciclo interminável. A princípio é tudo muito ralo. Sem consistência material. O que existe em abundância não se quantifica por peso nem por valor monetário. O patrimônio é imaterial: o desejo de construção conjunta. Dois seres frágeis começam a tecer o casulo que abrigará os rebentos que se transformarão em coloridas borboletas, capaz de alegrar por sua simples existência, extasiar pela fragilidade ou pelo encantamento do bater de suas asas. Tudo é novo e significativo. O ninho se forma com uma infinidade de pequeninas coisas amalgamadas na vivência que se constituirá em um repositório de ensinamentos capaz de fortalecer cada um dos seres nos momentos de tempestade. Já vi ninhos de uma fragilidade exterior espantosa, porém aconchegante como útero materno. Entretanto observei outros que a suntuosidade os tornou intocáveis e gélidos. Outros cujas frestas criadas pelas rachaduras da intolerância, do desamor e da violência possibilitaram a fuga daqueles que se sentiram sufocados onde deveriam se sentir acolhidos. Ninhos verdadeiros são lugares de alegria, sorriso fácil, leveza, de ajuntamento espontâneo. Lugar de parada e de permanência. Porto seguro nas intempéries emocionais ou físicas. Eles têm sentido pelo que transmitem sem palavras – ou com elas também- mas muito pelas sensações como toque suave de mão, o prazer de um leito macio, o cheiro de fruta madura, o alimento preparado com doçura. Traduzem-se no descanso de um banho quente, em uma música relaxante, no relato dos momentos vividos. Para mães, o ninho se completa no barulho da chave na fechadura e no mais sonoro e maravilhoso som que se pode ouvir. “Mãe cheguei”. Quando estes componentes obrigatórios desaparecem os ninhos deixam de existir e em vez de serem âncoras que seguram nos vendavais passam a ser lugares onde os que ficaram viram fantasmas de si mesmo indecisos entre abrir a porta e fugir ou trancar-se, numa vã tentativa de não ver o tempo passar.

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 A MORTE PESA Por Ivane Laurete Perotti Mac Knight

sem diante dele, sem que qualquer palavra de mando ou pedido fosse proferido. Dedos hábeis e olhos que diziam eram o suficiente para manifestar a arte de fazer os bichos “brilharem”.

Cavalos pareciam mais cavalos tanto pelo brilho do pelo escovado quanto pela certeza de Brenúlio era um homem de gestos largos. Dei- que haviam sido tratados pelas mãos de Brenúxava espaço para aqueles que se alimentavam lio. do espaço dos outros. Dizia-se bom de conver- Que não se imaginasse esse “embonecador” de sa, apesar de manter todas as palavras tranca- garanhões com pouca altura e peso. Era um fiadas para além do muito abaixo de sua garbruto homem de mais de 1 metro e 90 centímeganta. tros de mistura de ossos, carne e gordura. BarNascera menino franzino e tomara corpo pelas riga de rei, como gostavam de dizer os outros rezas e mistura das tias envolvidas em xaropa- colocando palavras na boca que não se abria. das e consertos dos filhos alheios. Parecera minguado durante alguns anos. Só parecera, pois seu ânimo fora temperado pelo silêncio dos que tudo veem e calam enquanto interessa. Brenúlio não negava convite para comer ou beber. Gostava de estar entre os que conhecia e entre aqueles a quem o apresentavam. Fazia amizade fácil e um dos primeiros a ser convidaVivia de fazer um pouco de qualquer coisa que do para os rodeios da região, regados a muita carne assada e bebida gelada. Para os rodeios, aparecesse diante dos que não gostavam de as festas de casamento, de batizado, velórios e fazer coisa qualquer: limpar, cortar, consertar, carregar, e dar trato em animais de grande por- até para aquelas festas sem qualquer razão. te. Era sua especialidade sem ter sido alçado à Chegava na hora e não excedia o tempo de ficar. categoria de vaqueiro. Brenúlio não pegava touros pelas guampas, mas lustrava as guampas de todos os touros que pisavam as arenas dos grandes rodeios. E era bom no embelezar cavalos de raça, o que lhe valia alguns apelidos jocosos. Brenúlio morava na casa herdada da mãe, viúva de um militar reformado. Pequena e bem conservada, era o lugar certo para quem precisasse de um favor. Retirada da cidade que pouco crescia, tinha uma horta de dar inveja às mulheres quituteiras. Brenúlio plantava com gosto e esperava orgulhoso pelo resultado sempre acima da média. Uma companheira? Ora, verdade que não faltavam às interessadas os movimentos de conquista, de agrado e “aparecência” mas Brenúlio parecia não ter espaço para ampliar seus interesses nessa direção. Por um bom tempo, tal comportamento causara estranheza entre os que não entendiam sua solteirice, mas como todas as coisas se adaptam e todos os acontecimentos com o tempo caem no esquecimento, Brenúlio não carecia preocupar-se com tal detalhe. O que não invalidava as investidas das moças sem muito tempo pela frente e imbuídas de muita, muita vontade. Brenúlio era um bom partido, tanto quanto era bom vizinho, bom parceiro, bom trabalhador na voz dos que elogiavam a prontidão do rapaz.

Lavava, penteava, escovava, trançava rabos e crinas como se tivesse nascido com um dom especial. Mas especial mesmo era a sua capacidade de fazer com que os bichos amansasVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

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tudo um pouco e um pouco de tudo, sua principal função era colocar-se à frente das alças dos caixões funerários. Brenúlio conhecia o voluntário ofício. As urnas de madeira, molhadas pelas lágrimas dos que ficavam, seguiam o trajeto natural da vida e do vilarejo. Passado o tempo daqueles que se despediam, era costume tombado pelas crenças antigas e pela repetição começada em algum momento que o morto deveria percorrer pela última vez os lugares que em vida mostrara preferência. Bares, casas de amigos, praças, ruas de conversas soltas, casas de... (bem, essa parte era por demais controversa, mas só dependia dos amigos deixar o corpo defuntado aproximar-se um tiquinho que fosse das “casas das moças”, de modo a não ofender a viúva pranteadora), até chegar ao pequeno cemitério encravado no alto da serra da igrejinha de São Jorge.

continuavam no caminho. Pedras, sempre pedras a figurarem no horizonte da vida humana. Parecia ser por aí que Brenúlio encaminhava seus pensamentos. Parecia, pois que nenhum deles saltava para fora da boca fechada. Se alguém visse o suor escorrendo por suas costas nem se dava ao trabalho de comentar. Brenúlio suava em cascatas silenciosas, daquelas que deixam a água seguir seu curso a revelia de qualquer impedimento que possa aparecer. Águas que descem da testa de um homem carregam a bênção do extravasamento natural. Grande e alto, o “embonecador de garanhões” não se mostrava desconfortável. Era assim. Brenúlio não reclamava e parecia ter gosto em acompanhar os amigos à última morada. Mais até dos que os parentes e afilhados, permanecia longo tempo sentado ao pé do túmulo do recém-enterrado. Alguns comentavam de sua misericórdia pela alma do defunto, outros que Brenúlio gostava de chorar sua perda enquanto sozinho, sem público para ver. Outros ainda imaginavam intermináveis conversas entre o que ficara e o que partira. Dessa última conjectura muito causo se contou, porque em causos que se contam e aumentam sempre tem alguém para dizer que testemunhou o dito e o visto.

Mas pelo dito ou não dito, Brenúlio era deixado em paz no ritual de permanecer longo tempo sentado ao pé dos túmulos que ajudara a preencher. Se voltava para casa ou para o bar mais próximo, também não se sabia quando, pois esse tempo se tornara sagrado e ninguém ousava perguntar ao bom homem o que fazia Lá sim o descanso era devido. Mas para que assim se desse, chamava-se imediatamente os no alto da serra no espaço do pequeno cemitério. Nem mesmo o Padre interrompia esse molongos braços de Brenúlio, amigo de todos os que partiam. Era de lei a presença do grande e mento ou se interessava em bisbilhotar. O silêncio de Brenúlio merecia respeito. E respeito silencioso vizinho que não aguardava ordem não ocupava espaço. Ou melhor, alastrava um para iniciar o cortejo, liderando as visitas e as pouco mais a fama de “bom partido” entre as paradas para outras despedidas. mães já sem esperança de casar as filhas paradas dentro de casa. Bem, paradas, paradas Brenúlio caminhava na cadência de quem vai elas não estavam, mas a ideia de que assim permaneceriam enchia de angústia o peito vivimedindo, contando, avaliando cada pedra do do das matronas responsáveis. E as falas dericaminho. E metáforas aproximadas pelo conjunto das horas, dos motivos e das dores, o ca- vadas diante da atitude de Brenúlio colocava certa lenha nas fogueiras com cinzas quase minho por si só já trazia tantas pedras, mas apagadas. tantas pedras, que findava a estrada e elas
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_ Ele é um homem piedoso! Não entendo porque você não consegue se mostrar para ele, Alma. _ Eu me mostro, mamãe! Ele não me vê!

_ Eu acho isso um pouquinho feio! _ Feio? Feio é uma moça de sua idade estar ainda dentro de casa empenando as tetas!

_ Mamãe!? _ Se você não fizer alguma coisa, a filha da do- _ E não tenho razão? Encurte a alça de sua na Otília vai passar na sua frente. combinação que logo, logo não vai dar para esconder a idade dos seus... _ Ora... _ Mamãe! _ Vai sim que eu sei das coisas! Pensa que não reparei em como ela deixou cair a coroa lá _ Ora! Vai falar das costas de um homem bom no cemitério? como aquele? Esqueceu que ele levou quase sozinho o caixão de seu pai, aquele vigarista? _ E foi? Devia para cada um uma vela e cadê os ami_ Foi! Deixou cair e ainda juntou do chão com gos de farra nessa hora? Cadê? muito custo e demora! __... _ Safadinha!... _ Pois sobrou para os braços do Brenúlio carre_ Esperta, minha filha. Esperta! gar o caixão daquele desalmado. _ Mas eu não carreguei nenhuma coroa, ma__... mãe! _ É... Brenúlio tem compaixão! Brenúlio não dera mostras de ver a coroa de lírios ir ao chão, nem os movimentos gordos de _ Então, trate de mostrar para ele que você existe! Não vai querer que sua velha mãe lhe intenções da moça a sua frente. Concentrado em suar e carregar a alça do caixão tinha olhos ensine como fazer, vai? baixos. Brenúlio foi convocado para tratar, ou melhor, Lembrava-se da mamãezinha que carregara sozinho, ou do enterro do seu Joaquim da padaria, grande, pesado e cheio de lugares para revisitar, ninguém sabia. Do conhecimento de todos era que nem o Brenúlio nem o padre poderiam faltar em ocasião tão derradeira. “embonecar” os garanhões que se apresentariam em um grande e famoso rodeio. Pelos, patas, chifres, crinas, rabos e orelhas exigiram dele o melhor que sabia fazer.

Longo o rodeio, deixou Brenúlio mais de uma semana sobrecarregado de afazeres de seu gosto. Mas contrariando as outras ocasiões em Eles não faltavam. E havia quem lembrasse com clareza da doença que abatera o padre no que tal se assemelhava, estranhavam os conhecidos um quê de silêncio maior, bem maior, penúltimo funeral e o obrigara a abençoar o morto sem seguir o cortejo. Mas Brenúlio esta- sombrio no quase vaqueiro maquiador. va lá e diziam alguns que estivera adoentado Era tão dedicado o homem que se negava a também, alguma coisa que fizera as suas cos- dormir longe dos animais que cuidava. Parecia tas vergarem-se levemente, muito levemente. um exagero, mas se era, havia aqueles que Coisa pouca deveria ser. Pois os longos braços louvavam a atitude de Brenúlio: dedicação total alçavam o pesado caixão como de costume, completava a fama de homem de confiança paem linha rente ao corpo, firme e seguro. ra todos os serviços. Era um homem dedicado. Verdade seja dita, as costas de Brenúlio apresentavam uma leve curvatura. Na volta para o vilarejo onde morava, estranhou-se uma vez mais certo sumiço de Brenúlio. Cogitavam até a presença de uma mulher _ Prova ainda maior de sua honradez! na casa do rapaz a tirá-lo de circulação por tan_ Como assim, mamãe? tos dias. Se assim fosse, ele bem merecia viver _ Homem que tem as costas empenadas carre- um pouco do que é bom na vida! ga muita responsabilidade, muito juízo.
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_ Mas é claro que não! Com tanta moça passando da hora aqui na vila ele iria se entregar logo a uma desconhecida? _ Ele é homem... _ É homem, mas tem as suas obrigações! As conversas e hipóteses inflamaram a tal ponto as mães das moças que passavam da hora que se chegou a “ver” a tal que conseguira o coração e o resto de Brenúlio. _ É ruiva e muito, muito cheia nas ancas. _ Deve ser boa parideira... _ E ele vai casar? _ Brenúlio vai casar? E nem nos participa? _ A dita deve ter ciúme das moças direitas e está a garantir-se dentro de casa. Lá pelo quinto dia do sumiço de Brenúlio, uma comissão de senhoras devotas ao bom comportamento enveredou em direção à casa do moço. Pelo caminho traçaram todo o tipo de comentários que fariam ao bater à porta e serem atendidas pela ruiva assanhada. _ Deve ser moça da cidade! _ Deve ser moça da vida! _ Coitado do Brenúlio... com tantas moças direitas aqui esperando por ele... Bateram. Bateram outra vez. Bateram muitas outras vezes até a preocupação destituída de egoísmo fazê-las dar a volta na casa e procurar a porta dos fundos. O quadro que seguiu tal iniciativa deixou a todas sem palavras. No centro da horta com gordos e polpudos tomates, acelgas, repolhos e outras hortaliças bem cultivadas, abria-se uma cova profunda e bem feita. Ao lado da cova, uma pá cuidadosamente colocada em pé amparava um cartaz escrito à mão: PEÇO AOS AMIGOS E INIMIGOS SE HOUVER QUE ME CUBRAM COM A TERRA SEPARADA E A PÁ BEM ALINHADA. DEIXO UM BILHETE ENTRE MINHAS MÃOS QUE EU MESMO CRUZEI. Alguém precisou descer sobre o caixão de madeira colocado singularmente na terra aberta, cuja tampa estava fora de lugar e resgatar o bilhete das mãos do defunto Brenúlio. Quase entrecruzadas, quase prontas para dizer adeus, as mãos envoltas no terço que fora da mãe enrolava um pequeno bilhete. Um pedaço de papel foi retirado do caixão sem flores. E para o vilarejo em peso, presente e emudecido o padre leu a frase final: A MORTE PESA!

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Doméstica lê para a patroa que já não consegue enxergar

Reprodução do artigo de Carlos Herculano Lopes - Estado de Minas enviado por Norália de Mello Castro Publicação: 18/07/2011 Assim como ocorreu com o escritor argentino Jorge Luís Borges, também a poeta mineira Yêda Prates Bernis, com o passar dos anos, para sua tristeza, começou a ter a visão comprometida, no seu caso em decorrência de uma degeneração macular. A doença a impedia de continuar fazendo uma das coisas mais adoradas por ela, que era ler os seus livros, centenas deles, dos mais diversos autores e gêneros literários. Mineira de Belo Horizonte, imortal da Academia Mineira de Letras, Yêda, desde a adolescência, teve um contato íntimo com a poesia, que fez dela uma das autoras mais celebradas da sua geração. Como se deu com Borges, que teve na pessoa da sua poderosa secretária, a também argentina Maria Kodama, uma fiel leitora – além de companheira nos últimos anos da vida –, Yêda Prates Bernis, algum tempo depois do início do problema, que causa a perda da visão central, foi apresentada ao jovem Paulo Furtado. Mas o rapaz, que por três anos foi seu leitor, acabou passando em um concurso, e se foi, deixando a poeta privada de um dos seus maiores prazeres, que era ouvir histórias. Já que não podia mais lê-las. Alguns dias depois, num desses raros momentos que têm o poder de mudar para sempre o caminho de uma pessoa, a empregada da casa, Maria do Carmo Ferreira Leite, se aproximou timidamente da patroa, criou coragem e disse resoluta, pois estava acompanhando de
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perto toda aquela situação: “Dona Yêda, se a senhora quiser, eu posso ser a sua leitora”. Começava ali uma parceria que, na maior harmonia, já dura três anos, com a vantagem de, a cada dia, solidificar ainda mais a amizade entre aquelas duas mulheres. Como ela não era Maria Kodama, nem tinha nascido em berço de ouro, mas numa casa humilde na zona rural de Nacip Raydan, no Vale do Rio Doce, a 361 quilômetros de Belo Horizonte, na qual dividia dois cômodos com nove irmãos, a princípio Maria do Carmo, que nunca tinha lido um livro, pois aos 7 anos já trabalhava na roça e andava a pé mais de uma hora para chegar à escola – às vezes mais interessada na merenda do que em aprender a ler ou escrever –, confessa que teve dificuldades naquela nova tarefa. Tudo diferente para ela. Mas hoje, tira o ofício de letra. A ponto de falar com a maior intimidade – como se os conhecesse de verdade – de autores como Carlos Drummond de Andrade, André Gide, Manoel de Barros, Aníbal Machado, cujo romance, João ternura, é um dos seus preferidos. “Emocionada mesmo, a ponto de chorar, fiquei quando li para dona Yêda as cartas trocadas entre Mário de Andrade e Henriqueta Lisboa. O amor entre os dois era muito puro, bonito”, diz Maria do Carmo. Outro momento que a levou às lágrimas ocorreu dia desses, quando leu, muitas vezes, uma crônica publicada por Frei Betto no Estado de Minas e na qual ele falava da sua mãe, dona Stella Libânio, falecida recentemente. “Também o livro Desatinos da rapaziada, de Humberto Werneck, é bom demais. Diverti-me muito com as trapalhadas feitas por Carlos Drummond e seus amigos”, diz.
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A rotina de Maria do Carmo, que chegou a Belo Horizonte aos 18 anos, para trabalhar como escrava de uma família no Bairro Cachoeirinha, de onde acabou fugindo por não suportar os maus-tratos, começa cedo na casa de dona Yêda – um confortável apartamento no Bairro Funcionários . Às 6h, faça sol ou chuva, está de pé. Coa um café caprichado para a patroa, joga água nas plantas, tira a poeira dos móveis, arranja uma e outra coisa e, às 9h em ponto começa a sessão de leitura, que vai até as 11h, quando começa a fazer o almoço, cujo cardápio foi pensado na noite anterior. À tarde, das 16h às 18h, mais livros.

convivência com o próximo. “Os livros me levam a outros mundos, me transformam em uma nova pessoa, que é diferente e mais feliz do que aquela outra, antes de ter tomado conhecimento com eles “, afirma. A vida imita a arte Uma leitora bem particular

(La Lectrice), filme francês de 1988, é uma comédia criativa que narra as aventuras de Constance, interpretada pela atriz Miou-Miou. A personagem decide ganhar a vida como leitora a domicílio. Indo de casa em casa, Constance “Normalmente, ela lê para mim uma média de mistura realidade e ficção e se envolve em situquatro horas por dia. Durante esse tempo, co- ações complicadas e divertidas, pois as pessomo uma só pessoa, nós duas nos emocionaas que contratam seus serviços como leitora mos, às vezes choramos, e também damos bo- também são bastante pitorescas. A direção é as gargalhadas quando a história é divertida. de Michel Deville e, além de Miou-Miou, o elenMaria do Carmo, muito mais do que minha lei- co conta com Patrick Chesnais e Maria Casatora, é uma amiga que tenho, uma pessoa com res. a qual posso contar”, diz Yêda, enquanto mostra os livros escolhidos para as próximas leituras. Entre eles, numa edição antiga, Sinfonia pastoral, de André Gide, As cabeças trocadas, de Thomas Mann, O livro de San Michele, de Axel Munthe, e um outro de contos, da mineira Maria Lúcia Simões. Outra pessoa Tropeços mesmo, pois também seria exigir muito, só ocorrem de vez em quando, quando a Maria, que não é Kodama, sem esperar, às vezes esbarra em algum nome estrangeiro, difícil de pronunciar. Mas nada demais. “O que mudou na minha vida, depois que passei a ser a leitora de dona Yêda?” Aí então, essa mulher de 47 anos, casada e mãe de quatro filhos, se ajeita na cadeira, apruma o corpo e diz orgulhosa que, sem querer se gabar, se tornou uma pessoa mais culta. Mais esclarecida, de melhor
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HAICAIS DE YEDA PRATES BERNIS
Cai da folha A gota d'água. Lá longe, O oceano aguarda. *** No porta retrato um tempo respira, morto. *** O grito do grilo serra ao meio a manhã. *** Na poça d'água o gato lambe a gota de lua. *** O estrume do boi a seiva do lírio: alquimia. *** O coração da aranha se desfaz em geometria de seda e mandala.

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Do barro ao e-book
Por J.C.Hesse

Para chegar até nós, a "condição de transmitir e conservar noções abstratas ou valores concretos" percorreu um longo caminho de aperfeiçoamento. Não entendeu muito bem? Foi proposital, na verdade estou falando do "livro", isso mesmo, esse amigo que acompanha a história e os sentimentos, registrando e emocionando. Foi obrigado a se esconder na antiguidade, por questões políticas e religiosas, mas mesmo assim, sua única amarra é à vontade de seu dono, o escritor e autor, a "quem" obedece cegamente. Sua personalidade, seu perfil e seu gênero são determinados por seu progenitor, quem lhe dá caráter de "obra". Mas como todo filho, é o mundo que vai imortalizar sua existência. Todo livro nasce para ser esquartejado e dissecado, quanto maior o sucesso, mais será dissecado. Mas ao contrário do que se possa imaginar, isso será uma prova do seu sucesso. Primeiro eram as placas de argila ou de pedra. Posteriormente o papiro, normalmente acondicionado em pequenos rolos. Nestes rolos o "texto" estava gravado em forma de colunas, algo como imaginar várias páginas de um livro atual, lado a lado. Chegavam a ter por volta de sete metros de comprimento. A origem do papiro é vegetal, não muito diferente dos atuais livros. Feito a partir de plantas, que era uma parte da planta, esta parte era tratada como "liberada" ou livrada, que no latim era libera ou livre. Os papiros encontrados até o momento, apresentam como datas de escritos datados do século II a.C.. O pergaminho surge como alternativa ao papiro, feito do couro de animais e apresentando maior durabilidade ao longo do tempo. Sua origem mais provável é Pérgamo, de onde nome pergaminho pode ter surgido, uma cidade da Ásia menor.
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Os Gregos possuíam um grande conjunto de Leis e acessar esse conteúdo era extremamente trabalhoso, sempre tinham que manipular vários rolos de papiro Além de ser “complicadamente” frágil a manipulação dos referidos rolos. Essa necessidade de manter as Leis escritas em um formato mais fácil de acessar, leva-os a criar o "códex", assim, o papiro perde terreno. O códex é uma compilação de páginas, deixando a tradicional forma de rolo, de lado. Usar o formato códex (ou códice) associado ao material pergaminho, que se tornou uma forma auxiliar e muito prático, pois era só costurar códices de pergaminho, formando conjuntos organizados, logo o formato códice é o elo de ligação que leva os antigos a pensar, rusticamente, na forma característica de um livro. O “encadernamento” foi um salto natural, parecia o limiar da evolução, mas assim como a humanidade, o livro começou a evoluir para um outro nível, o eletrônico, são os e-books. Sai de cena o papel e entra o meio eletrônico, é claro que é uma evolução natural, diante de toda a tecnologia que o mundo apresenta. Torçamos então para continuarem a existir os livros escritos, pois uma "inquisição literária" hoje, poderia vir a ser muito mais catastrófica do que já foi no passado. Vivas os apaixonantes livros escritos, mas replantem as árvores necessárias a eles.

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CONTOS DO ONTEM
Por Jacqueline Aisenman

Por hora não penso em coisas que não me tragam boas lembranças. Evito pensar coisas que me façam entristecer. Penso na infância, longe já de mim e mais próxima que está das rememorações quando o momento é de contar fatos que parecem ter acabado de acontecer. Também a juventude vem com a força dos seus anos e paira plena de vida sobre as coisas que penso contar. E é engraçado como se esquece com uma facilidade assim meio afetuosa onde se colocou o livro ontem ou aquilo que deveria ser feito no dia seguinte. Pessoas também, como coisas, desfilam e se perdem, se encontram, conversam e se despedem. As lá de longe dos anos estão logo aqui, imediatas, urgentes, querendo ser lembradas. E as de agora, as que estão pelos lados, ficam algumas vezes relegadas ao sentimento de um presente que se esvai. Boas lembranças são assim feitas de ontens e hojes e hojes que se tornam ontens e são linhas não paralelas... apenas se cruzam. E eu tento passear pelas linhas colhendo nelas apenas o que me faça bem. Porque o mal não desejo e nem quero. Nem espero. Me envolvo nos contos do ontem e sorrio: eu só quero o que me faça feliz!

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Abóbora Gratinada

Para mais receitas gostosas visite: http://www.blogdonamelia.com

Ingredientes · 2 abóboras verdes médias · 150 g de queijo mussarela ou prato fatiado · 50 g de queijo ralado

Molho branco · 800 ml de leite · 2 colheres (sopa) de maisena · 50 g de queijo ralado · 2 cubos de caldo de legumes

Modo de fazer 1. Molho branco Em uma panela misture o leite e a maisena. Acrescente o queijo e os cubos de caldo de legumes esfarelados. Depois, leve ao fogo brando, mexendo sempre até engrossar. Reserve. 2. Lave bem as abóboras, sem descascar. Corte-as em rodelas ou fatias bem finas. Em um refratário grande levemente untado com margarina, intercale camadas de abóbora e molho branco. 3. Distribua a mussarela por cima do molho e polvilhe o queijo ralado. Asse no forno preaquecido a 20ºC durante 30 minutos ou até a abóbora ficar macia.

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Conflito
Por Janice França

É incrível a complexidade Que há entre o chegar, o ficar e o partir. Aparentemente são diferentes, Mas podem alternar os sentidos, é a verdade. Chegar pode ser um partir, Ou partir pode ser um chegar, Ou chegar pode ser um partir para ficar. Pode-se partir para chegar e ficar E chegar, ficar e partir, Ou ficar, sem chegar nem partir. Há um emaranhado de emoções: Há quem chegue quando se deve partir; Há quem parta quando se deve ficar; Querer ficar quando se deve partir para chegar... Ficar, quando se chega à conclusão Que se quer partir... Saber chegar e partir para ficar! Se chego, posso ficar e partir. Se fico, posso não partir e não chegar. Mas, se parto posso chegar e ficar...

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O Homem e a terra
Por José Cambinda Dala

A Deus pertence os céus e a Terra Certamente são uma grande e poderosa criação Bendito os seres que neles habitam Apesar de o Homem estar a se comportar mal A ponto de destruir aos poucos a própria terra Mas é essa terra que vai lhe absorver Uma vez que todos os dias de vida dele Dificilmente, agora, passa dos Cem anos Então a terra é que ganha As águas sempre minguam sobre a face da terra!

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A TURMA
Por José Frajtag

- Mas como é possível? Nenhum deles nunca me disse nada a respeito. Já nos conhecemos há... quinze anos não é? - Eles se preocupam, pois sabem que a tua saúde é frágil e você poderia não suportar. Como sabem que sou médico, teu orientador e psicanalista julgam-me a pessoa mais capacitada para te apoiar neste momento. - O que está acontecendo? Eles, quem? - Estou falando dos teus amigos. Eles me pediram para falar com você! Cada um tem seus motivos e assim é a vida! Outras turmas virão e talvez sejam melhores para você, quero dizer para nós, pois eu não vou te abandonar. - Bom ao menos isso, meu bom Dr. Phillip. Mas quando isso vai ser?

CAPITULO I - E bebamos a isto! Derek batia o seu caneco de encontro ao do Dr. Phillip. Todas as sextas, o arquiteto não faltava ao encontro da turma. E este era especial, pois era a última sexta-feira do ano de 2051. - A mais um ano de sucesso! Dizia Helen, uma das únicas mulheres a frequentar o Delano's, simpático bar de Boston. - Sucesso é um pouco de otimismo de sua parte, mas obrigado Helen. Retrucava Derek, batendo seu caneco no dela também, pensando se foi realmente bom esse ano 2051 que terminava. Na realidade teve bem menos projetos executados que no ano anterior, mas era 2052 que prometia cumprir os vaticínios de Helen. - Derek, precisamos conversar. Desta vez era o Dr. Phillip, seu analista, que chamava Derek para uma conversa em particular. - Dr. Phillip, veja bem este não é um bom momento! Estamos celebrando um novo ano! Venha ao meu escritório na próxima terça-feira. Será o primeiro dia de trabalho do ano e aí conversaremos sobre tudo! O Dr. Phillip chegou bem cedo naquela terça, dia 2 de janeiro ao escritório de Derek e não perdeu tempo indo direto ao assunto. - Escute-me Derek! A turma vai se desfazer! Fui encarregado para te dar esta notícia. Cada um vai tomar o seu caminho.
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- Não sei ao certo! Pode ser mesmo amanhã ou pouco mais tarde; nem todos irão ao mesmo tempo. Esteja preparado! - Está bem, Doutor. Serei forte! Na 6ª feira seguinte estava tudo aparentemente normal. Todos estavam lá sem exceção e então Derek foi se dirigindo a um de cada vez para saber o que estava ocorrendo: - Helen minha querida, o Dr. Phillip me disse coisas que me deixaram muito deprimido. Que história é essa? Vocês vão embora? - O que você está dizendo meu bem? Não estou sabendo de nada! Dr. Phillip deve ter entendido mal, mas pelo menos de mim é que não ouviu essa. Pergunte ao Antoine, pois ele é o mais cheio de novidades daqui. - Então Antoine? Foi você o autor dessa noticia? - Você deve estar brincando Derek! De onde saiu esse papo doido? Não tenho planos para me mudar. Boston para mim é a cidade ideal, onde tenho um bom emprego, boa casa e onde criei meus dois filhos. - Explique-me isto Dr. Phillip! Repita de novo para mim o que você me disse no escritório! - Tenha calma Derek, pois o pessoal está querendo te poupar, fazendo com que tudo vá bem devagar. Todos temem por tua saúde. Ao se virar Derek percebeu que Helen tinha saído. - Você viu para onde ela foi Dr. Phillip?

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 - Que bom que você perguntou primeiro para mim. Sou eu o único que pode explicar! Helen não existe, nem nunca existiu. Ela era apenas fruto de sua imaginação. Eu estou te tratando com um medicamento experimental e você vai ficar ótimo. - Você está mentindo Dr. Phillip, não sei por que e isto é um absurdo. Já a conheço há quinze anos, também como a todos os outros. - Pergunte a... como é mesmo? Antoine não é? Sempre esqueço nomes. - Antoine, você ouviu esse louco dizer essa merda? Conte a verdade! Para onde foi a Helen? - Quem? Helen? De quem você está falando? Desculpe-me, mas não conheço nenhuma Helen! Ao menos da turma. - Isto é um complô! Deve ser uma brincadeira e posso garantir que é de muito mau gosto. - Infelizmente não. Porque não perguntas ao Michael? Ele vai dizer com quem está a razão. Derek se dirigiu ao balcão onde Michael preparava seus famosos drinques. - Michael, por favor, pelo amor que tens a teus filhos, diga-me a verdade. Você sabe quem é a Helen, não sabe? - Claro Derek!- No que Derek deu um suspiro de alívio. Michael iria acabar com a brincadeira. - Ela está ali, como sempre bebericando o seu Gim -tônica, mas nunca soube que você a conhecia. Quando Derek dirige seu olhar para a direção apontada por Michael, vê uma total desconhecida, apenas vagamente familiar. - Mas, não é esta a “nossa” Helen. - Desculpe-me Derek, mas esta é a única que conheço. Nunca vi nenhuma mulher com vocês. Derek quase cai ao chão no que é amparado por Phillip. - O que está acontecendo comigo Dr. Phillip? Estou enlouquecendo? - Tenha calma Derek. Isto vai ser um longo processo e só ao seu final poderei lhe contar tudo. CAPITULO II - Phillip, nunca pensei que você pudesse trair a minha confiança. Era o Professor Frank Silvester da Biogenesis. Como você pôde se apossar de um medicamento ainda em processo de avaliaVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

ção? O “Schiz” ainda não foi aprovado pelo FDA. Podemos ser processados! - Foi em desespero, Frank! O que você faria o mesmo se o seu melhor amigo estivesse se destruindo em meio a uma terrível esquizofrenia. Ele é um caso raríssimo que é capaz de construir várias vidas completas. - Quem é esse seu “paciente”? - Derek Williams, que na realidade se chama Thomas Foster, vê várias pessoas que nunca existiram e até criou uma profissão que nunca teve. Na sua fértil imaginação ele que é um simples arquiteto Junior, se julga dono da empresa em que trabalha. Como ele conseguiu esconder o problema de seus superiores é algo que não sei como explicar. Não quero interferir, pois ele é capaz de fazer o seu trabalho com incrível competência para pessoas no seu estado. Talvez por isso seus patrões o mantenham em plena atividade, mesmo achando que ele seja um tanto excêntrico. - Explique-me como tem conseguido tratá-lo? - É simples. Toda 6ª feira nos encontramos no Delano's. Você conhece! É aquele bar perto do Quincy's Market. Lá eu ponho algumas gotas do “Schiz” em sua bebida com ajuda de Michael, o barman. Comecei há um mês e basta uma vez por semana. Os efeitos já estão se manifestando. Antes eu o fiz assinar um documento concordando com tudo. - Está bem, Phillip OK! Terás o meu apoio, mas mantenha sigilo sobre isso. Eu vou enviar um funcionário altamente capacitado da Biogenesis, ou um terceirizado competente, para secretamente te apoiar, pois você o está fazendo de cobaia e as sequelas ainda não estão bem determinadas. Aliás, você também deve assinar um documento concordando com a supervisão, pois a Biogenesis não pode correr riscos. - Concordo e assino embaixo. Fique totalmente tranquilo Frank. Ninguém saberá de nada, nunca! De volta ao Delano's no dia 12, Phillip encontra Derek na sua mesa e num estado lamentável. Bêbado a ponto de quase não reconhecer o bom doutor. - Derek, sou eu, o Dr. Phillip! Você está sozinho? Você não deveria beber tanto, pois a medicação pode ser prejudicada. - O Antoine foi ao banheiro e volta já. O Mark esteve aqui rapidamente, mas já foi embora. Disse que tem um encontro com uma nova namorada; vai ficar um tempo sem vir, por causa disso. Assim, só nós dois da turma estamos aqui hoje. Melhor que
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Varal do Brasil - Novembro de 2011 nado o processo, você vai ter outro rumo em sua vida. - OK! Dr. Phillip! Se eu não confiar no senhor, em quem mais? - Preste atenção! Você deve ter notado que Antoine está demorando no banheiro, não é? Pois acho que ele não volta mais. - O que é isso Doutor! Leve-me para casa, pois acho que vou desmaiar. - OK! Derek! Está bem! Deixe-me ao menos terminar o uísque. Pegue suas coisas. Não esqueça o notepad. nada. Sinto falta da Helen e sentirei a do Mark também. - Derek, fico muito sentido por esse momento triste, mas você vai superá-lo. Tenha certeza disto. Agora muita atenção. Nunca mais toque no nome de Mark para o Antoine, você promete? - Por que mais essa? Você vai quere me dizer o quê? O Mark existe porra! Ele até me disse que é médico como você e que trabalha na sua empresa! - Não quero que você fique emocionado a toa. Ponha uma pedra sobre o assunto e pronto! Não é difícil, não é mesmo? - Tá bom! Tá Bom! Vou agir como se ele nunca tivesse existido! É isso que você quer? Mas eu sempre me lembrarei dele! - Não, Não! Você tem de esquecer o Mark e também da Helen, pois seria péssimo para a continuidade do teu tratamento. - Dr. Phillip! Pelo amor de Deus, quem mais vai desaparecer? - Infelizmente não posso adiantar nada para você, pois também seria prejudicial. - Michael, por favor, mais um uísque, pediu o doutor - Desta vez traga duplo, pois a noite vai ser longa. - Michael, peça um duplo para mim também, disse Derek. - Não, Michael!Traga apenas um suco de laranja para o Derek, avisa o Dr. Phillip. - Ele não deve beber mais hoje. Derek concorda a contragosto. O uísque e o suco, rapidamente como sempre foram colocados na mesa. - Derek, meu bom amigo! As coisas daqui para frente devem se acelerar e você têm de estar preparado. Mas fique bem tranquilo; depois de termiVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

- Está doido! Nunca o esqueceria. Nele está meu último projeto. Se o perco, acaba meu emprego. - Mostre-me! Nunca vi nenhum trabalho seu! Derek dá alguns clicks e pressiona a sua digital no notepad. O Aparelho o reconhece e fala: - Seja bem vindo senhor Foster! Em que posso lhe ser útil? - Senhor Foster??? Que merda é essa! Berrou Derek. Trocaram meu notepad? - Essa é a pior parte, meu caro Derek! Seu nome não é este e sim Thomas Foster. Sim você é arquiteto! É uma das únicas verdades de sua vida. Derek, digo Foster, estava branco como papel e tombado em uma cadeira. Sua boca abria-se de um modo que seria cômico se não fosse sério! O Dr. Phillip pediu ao barman uma toalha gelada e uma bebida para Foster. Era impressionante que ele sempre abria o seu notepad, ouvia o seu verdadeiro nome, mas “ouvia” na sua mente conturbada o nome Derek, que só existia em sua imaginação. Michael, sempre solícito, providencia a toalha gelada. Foster foi pouco a pouco acordando daquele torpor e incrivelmente aceitando a situação, mas pede licença e vai ao banheiro, pois sente que vai vomitar e Michael corre para ajudá-lo. O mais incrível é que mesmo totalmente esquizofrênico como era, Foster era realmente um arquiteto competente. O Dr. Phillip mesmo não sendo da profissão, ia abrindo página por página e admirava-se com a sucessão de plantas perfeitas, fotos de seus projetos construídos, ou maravilhosas perspectivas dos que ainda não haviam sido executados. O “Schiz”, parecia mesmo funcionar e o Dr. Phillip já se sentia feliz em saber que poderia esfregar a vitória no nariz de Silvester, seu sócio.
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Varal do Brasil - Novembro de 2011 Ficariam ricos com a venda do produto. Nesse momento, chega o Dr. Frank Silvester, de surpresa no Delano’s. - Frank, meu amigo! Não morres tão cedo, diz Phillip ao vê-lo entrando. Estava pensando em você ao examinar os projetos que Foster fez. Inclusive um para a Biogenesis. - Estranho! Não me recordo desse projeto, e certamente deveria! Quero que você me mostre depois. Primeiro quero ver finalmente o resultado de tudo. Meu funcionário secreto me informou de tudo. E aí como vai o teu paciente? Podes me apresentar? - Infelizmente, não!Ele está no banheiro, mas mesmo quando voltar evite falar com ele, pois Foster ainda está muito frágil e seria arriscado pô-lo em contato com mais pessoas, principalmente você que está totalmente envolvido. Como eu previa, o “Schiz” foi um sucesso e finalmente Foster está finalmente a caminho da normalidade. Todos os personagens de sua incrível imaginação se foram. Foi impressionante! Aliás, você nunca conheceu o Foster, não é mesmo? - Phillip, é claro que não o conhecia! Só ouvia falar dele por você, mas não se preocupe, pois já sei tudo o que precisava sobre esse Foster e o resto da turma. E parabéns, pois é a primeira vez que o “Schiz” realmente funciona. Phillip o olha estranhamente e diz: - Como assim? Foster, turma? Como é que é? O que é Schiz? De quem você está falando? - É absolutamente fantástico! Cheguei mesmo no momento exato! Eu contratei o Michael, que fez um excelente serviço. Daqui para frente, por favor, senhor Phillip, não me chame mais de Frank ou de você e sim de Professor Silvester, pois o senhor está curado!

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MOÇOILA Por José Wilton Porto Para sua esposa Eliana Porto Num balde carcomido pelo tempo, Encostado da casa, num canto, Joguei os sacrifícios, o pranto, E o que havia da vida em contratempo. Enterrado está casório primeiro. Cupido rodeia, me olha, namora. A vida que é vida me enlaça agora. Pressinto a flecha na mão do arqueiro. Moçoila que olha embebida em desejo, Arranca-me suspiros de noite e de dia. Breve – eu sei – o abraço, o beijo, A voz soando-me tal qual melodia. Meu coração saltitando, o cônscio ensejo: De ser o seu fulcro, o seu Sol, sua poesia.

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Corações partidos

Por Josselene Marques

Dois seres e um futuro incerto a seguir Choram seus corações sofridos... Planos desfeitos, sonhos perdidos Para eles, é inevitável e urgente o partir.

Viverão separados, cheios de saudade, Guardando doces e belas lembranças E de reunir renovando as esperanças De seus corações partidos cada metade.

Imagem enviada por Josselene Marques

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Instante
Por Ju Petek No instante que te vi brilhei como uma estrela dancei no teu olhar me encontrei e meu mundo inundei. No teu abraço me encantei de tonta emoção chorei e todos males espantei no teu corpo me esparramei e por todo chão espalhei todo esse amor que guardei. Em todos caminhos que andei foi por você que procurei todos brilhos de estrelas agarrei e a pensar no impossível cheguei eras um sonho .... sonhei e todo esse sentimento cantei criei asas e voei e a ti me entreguei a todo esse sonho acariciei perdidamente me apaixonei e à linha do céu azul me elevei. No instante que te vi te amei ...

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A REVOLTA DA NATUREZA Por Lenival de Andrade
(extraído do livro NORDESTINAMENTE BRASILEIRO)

É triste e até preocupante A situação do mundo atualmente E mesmo que a mãe natureza lamente A devastação das florestas e matas Isso não se vê nas atas Enchentes, tempestades, calamidades Logo verão em qualquer das suas idades A ira das potestades Vemos também tufões, ciclones e furacões E as erupções dos vulcões Entro e digo com firmeza Miséria, fome e pobreza Tudo isso é com certeza A revolta da natureza

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Imagem Reuters

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Margarida
Por Llono Eu tive um sonho Com Margarida A mais querida Lá do meu sertão. A Margarida Moça mais linda Sempre sorrindo Prende os corações. Sua pele é chama Sua alma é pura Sua voz melódica Me faz sonhar.

De manhazinha Ao vê-la passar Peço pra ser minha Outro também quer. E a Margarida Sempre manhosa Faz charme e prosa Mas não quer... Ninguém.

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A revista VARAL DO BRASIL E A LIVRARIA VARAL DO BRASIL SARL lançam para 2012:

VARAL ANTOLÓGICO VOL II EM COMEMORAÇÃO AOS DOIS ANOS DA REVISTA VARAL DO BRASIL

Por que nossa coletânea é diferente e especial? Porque são apenas quarenta autores selecionados! ... Porque seus textos serão lidos por profissionais que poderão dar, se necessário, dicas para um melhor aproveitamento dos mesmos! Porque seus textos serão revisados por profissionais mais de uma vez antes da impressão do livro! Porque o livro será diagramado por profissionais altamente qualificados! Porque serão apresentadas três opções de capa (selecionadas por profissionais da área gráfica) e que serão apresentadas aos autores para escolha. Será escolhida a mais votada. Porque o livro terá o selo de qualidade editorial Varal do Brasil e todo profissionalismo da Editora Design. Mas mais importante de tudo: porque você estará nele! Peça o regulamento pelo e-mail: varaldobrasil@gmail.com

Este é o Varal Antológico I com capa de Maria de Fátima Barreto Michels. Teve poema de abertura do grande poeta Alcides Buss e prefácio da Professora e Escritora Regina Carvalho. Foram trinta e oito autores! Em Florianópolis, no lançamento, vinte e dois dos autores estavam presentes para receber os inúmeros convidados da noite na Livraria Catarinense! Seja um dos autores do volume II!

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(con nuação da página 31) Parte II

A ficção científica no Brasil nunca teve o sucesso e o público que possuem as grandes potências mundiais, e isso se deve, naturalmente, ao atraso da modernidade brasileira, como apontou em 2005 a maior estudiosa da manifestação brasileira do gênero, M. Elizabeth Ginway. O País, embora tenha mudado seu perfil econômico nos últimos anos, ainda está com a sua indústria cinematográfica em expansão: somente no final deste ano é que assistiremos ao resultado de um longametragem nacional de F. C. de grande produção, Era: The Legend of Gilgamesh, da ordem orçamentária de 10 milhões de reais, apoiada por marcas de renome internacional como a produtora japonesa de jogos Nintendo. O enredo do filme, dirigido por Marcelo Sussumo (diretor estreante, ainda que veterano no cinema), segundo divulgado trabalhará uma perspectiva histórica e futurista, deslocando o público de 4.000 a.C. ao ano de 2029 d.C. Para a surpresa dos paulistas, Valinhos é um dos lugares escolhidos pela produção para gravação de algumas de suas cenas. Mas isso é apenas o início para que o gênero no Brasil, em seu aspecto cinematográfico, mereça o respeito devido. Até lá, uma grande revolução no campo da cultura brasileira e da concepção tradicionalista terá de acontecer: os dinossauros do pretérito deverão dar vez aos visionários do porvir – o processo é lento, mas inevitável.

Nos Estados Unidos, país que assistiu ao boom do gênero, a ficção científica, há décadas, atua como objeto de apreciação por parte de intelectuais e dos mais disciplinados especialistas, afinal de contas é, talvez, o único suporte literário que consagra a ciência e a sociedade em seus mais complexos impasses de tempo e modo. O fecundo escritor, portanto, não só entende a alma, a essência do ser (como dizem os românticos), mas é um pesquisador nato, um estudioso contínuo dos progressos da ciência e enxerga com entusiasmo e curiosidade a evolução tecnológica. Infelizmente os brasileiros estão acostumados a pensar que o gênero só trata de futurismo, guerras galácticas, cientistas loucos ou invenções esquisitas, e nem mesmo conhecem os grandes clássicos da lavra de Verne e Wells – isso vale, inclusive, para os mais gabaritados, ainda presos ao quê erudito, relutantes ao novo, ao moderno. Aliás, permitam-me a ironia, para os brasileiros o pai da ficção científica mundial nunca deixou de atender pelo nome de Steven Spielberg, que se afamou com filmes da ordem de O Parque dos Dinossauros (1993), De volta para o futuro (1985), Indiana Jones (1984), AI Inteligência Artificial (2001), dentre outros tantos que imortalizaram nomes, roteiros e fizeram escola.
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Não estou aqui querendo questionar o grande cineasta, mesmo sabendo que a genialidade de Spielberg reside não na ideia em si, que é o foco principal da ficção científica – já que os clássicos ecoam em seus filmes, principalmente especulações de figuras como Wells, Heinlein e Asimov –, mas pela forma como dirigiu e incorporou ao cinema os efeitos especiais mais caros da história.

mo muitos pensam, iniciação filosófica, na realidade o que os diretores Wachowski buscaram atendia pelo nome de A Máquina de Duelar (1969), de Ben Bova, em que personagens são ligados a um aparelho capaz de construir um ambiente mental igual para todos, de onde se travam os mais brutais duelos em níveis de imaginação. Se houve alguém que realmente se inspirou em Platão esse alguém foi Bova, e não os Wachowski. O Homem de Ferro (2008) é cópia da cópia, segundo diz a lenda foi criado em 1963 por Stan Lee, da Marvel Comics, uma revista em quadrinhos que conquistou boa parte dos países da América, todavia, visto de forma bem superficial tudo não passa de uma releitura ampliada do conto O Homem de Metal, de Jack Williamson (1908-2006), publicado em dezembro de 1928 na Amazing Stories, a primeira revista especializada de ficção científica do mundo, cujo editor era o lendário Hugo Gernsback, hoje nome do maior prêmio do gênero. Como se pode ver, a ficção científica moderna não nasceu no cinema, como muitos pensam, mas na literatura, e com ela mantém, até hoje, intercâmbio, embora nem sempre afetivo em sua originalidade ou, ao menos, em sentido. O cinema, sim, incorporou efeitos que tornaram o lúdico mais apreciável, todavia começou a decrescer a partir do momento em que deixou tais ferramentas cinematográficas acima de quaisquer enredos. Se os efeitos especiais em um primeiro momento foram criados para auxiliar no encanto do cinema, a citar o clássico francês Viagem à Lua (1902), primeiro filme de F. C. e pioneiro nos efeitos especiais, hoje, o enredo não cumpre papel nuclear, é, antes, um auxílio, e nada mais.

Um dos exemplos mais óbvios e explícitos de influência dos clássicos da ficção científica nos filmes de Spielberg está no filme De volta para o futuro que, em quesito de máquina (as promessas da mecânica no desenvolvimento da humanidade), é cópia aperfeiçoada da obra A Máquina do Tempo (1895), do britânico H. G. Wells, a primeira narrativa de antecipação do futuro através da tecnologia.

Em geral, os filmes de ficção científica de hoje pouco ou nada têm de original, necessitam beber na fonte. Matrix (1999), por exemplo, recorde de público em todo mundo, responsável por abrir discussões de ordem filosófica a partir dos mundos paralelos de Platão, não teve, coVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

Daniel C. B. Ciarlini

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Dia dos Namorados
Por Lourdes Limeira Não engulo esse modismo Pra mim, o dia de namorar é todo dia Por que não se cria o dia do babaca? Babaca?...Tolo?...Idiota? Dar no mesmo! Tá de bom tamanho Por que dia de namorado?! Me poupe! Zélezinho é então contemplado Seu prêmio deveria ser um saco de pipoca De lambuja, e o cetro do boboca! Quem já viu dia de namorar, homem? Creio que isso é coisa de ignóbil Que, com certeza, não sai da toca. Como dois e dois são quatro Dia dos Namorados é dia do capitalista Enriquecer, literalmente, os seus cofres.

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YEDA PRATES BERNIS: PLENITUDE POÉTICA. D. Yeda na Academia Mineira de Letras Valdivino Pereira Ferreira Godinho
A recente eleição para a Academia Mineira de Letras, com a significativa votação de 29 sufrágios, coroa a labuta poética da maior poeta brasileira hoje viva: Yeda Prates Bernis. Tecendo palavras e ninando a vida, a autora passou grande parte da sua biografia construindo uma obra bibliográfica rica de poética e intensa de conteúdo, esforçandose para compor um painel sentimental de palavras celebradoras da paz e do amor fraterno. Sua poesia trazia na estréia, em 1967, com o livro “Entre o rosa e o azul”, uma promessa. Sucesso de critica e reconhecido no meio, o livro prenunciava produtiva artesã da palavra que nascia para a poética montanhesa, como o iluminado Guimarães Rosa em outro campo da palavra escrita, compôs magnificamente o cenário mineiro na arte do romance. Seus exercícios futuros no campo da poética transcendental confirmaram o vaticínio de celebrados intelectuais, tais como: a grandiosa Henriqueta Lisboa, o virtuoso Augusto de Lima Jr., Moacyr Andrade, o jornalista Dídimo Paiva, Martins de Oliveira, o celebrado critico literário Antônio Cândido, José Afrânio Moreira Duarte, João Luiz Lafetá, Ivan Lins, Francisco Carvalho, Caio Porfírio Carneiro, Cyro dos Anjos, Fernando Sabino, Carlos Drumond de Andrade, Abgar Renault, Affonso Romano Sant’Anna, Alphonsus de Guimarães Filho. A poesia bernisiana foi feita para a eternidade. Diz tudo em poucas porque fala pelo coração. Aliás, Henriqueta Lisboa, sua mestra na mocidade e amiga vida afora, de quem seguiu as pisadas, disse “que a poesia de Yeda foi feita para habitar corações”. E o que permanece nos corações está fadado a ser eterno. A bibliografia bernisiana é concisa mas nem por isso menos profunda. Composta em 11 livros e três antologias, o leitor que resolver conhecer a sua obra navegará pelo céu, passeará por florestas de estrelas e tomará banhos de luar sem sair
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da terra. É poesia que alimenta a alma e transborda de emoção. Urge que o Governo do Estado promova a sua obra nas escolas de primeiro e segundo grau. Não podemos privar nossa juventude da graça de conhecer a sua obra e de entrar em estado de graça. A Academia Mineira acolherá em seu seio uma legitima representante da poética mineira moderna, imortalizando-a na perenização do espírito da nação montesina e mediterrânea que tanto preza o belo e o eterno. Biografia: VALDIVINO PEREIRA FERREIRA nasceu em 15 de setembro de 1973, na comunidade rural de Bocaina, à margem do rio Jequitinhonha, no município de Turmalina–MG, filho do casal Geraldo Gomes Ferreira [*27.07.1932 – †22.10.1982], poeta popular, repentista, violeiro, cantador de modas de viola e de modinhas seresteiras, além de compositor de música sertaneja; e D. Maria Das Dores Pereira Godinho [*08.12.1941, Turmalina-MG – †22.03.2005, Porto Ferreira-SP], do lar e antigamente fazendeira e criadora de gado e cavalos, sendo ambos já falecidos. É autor de diversos livros e opúsculos sobre história, genealogia, biografia, poesia, folclore e religião. Tem artigos publicados nos jornais “O Estado de Minas” (Belo Horizonte), “Tribuna Regional” (Itamarandiba), “Estrela Polar” (Diamantina) e na Revista da Academia Mineira de Letras. Tem artigos publicados nos sites noticiosos seguintes: 1 www.ternuma.com.br 2 www.diegocasagrande.com.br 3 www.unainet.com.br

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CRENÇA
Por Luiz Alberto Machado * É preciso respeitar melhor a vida no amor que traz a paz que é tão bem vida. Amar para se ter além do passional e o coração valer o ser humano universal. É preciso respeitar as diferenças e não se equiparar ao que é hostil nas desavenças. Lutar contra a mantença desigual que forja o algoz na força do poder irracional. Se entregar agora, todo dia e a noite inteira, testemunhar assim as coisas verdadeiras. Colher a lágrima do olhar mais desolado para irrigar a sede do carinho devastado. É preciso ter no olhar a flor da vida, trazer a luz do sol nas mãos amanhecidas. E perceber o amor no menor gesto natural para valer o sonho mais presente mais real. Se entregar agora, todo dia e a noite inteira, testemunhar assim as coisas verdadeiras. Colher a lágrima do olhar mais desolado para irrigar a sede do carinho devastado. E afinal poder sorrir como quem vai feliz viver, a manter a crença e o seu proceder na paz. Semear a vida no ideal de colher o que virá depois pra ser alegria imensa para um, mais dois, mais! Viver a vida pelo que foi e será, é e será! *Letra e música

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VOCÊ
Por Luiz Carlos Amorim Você, ah, você, que invade meu coração, infiltra-se no meu sangue e aguça os meus sentidos... Vem, me afaga, me afoga, nessa fuga desenfreada do mundo fora de nós. Vem e pisemos juntos este caminho só nosso para o país do amor.

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Nove anos
Por Luíza Foz

Outra vez completei nove anos, parabéns. Um pequeno incidente e eis que emerge o monstro da minha infância. A mesa bem posta de salgados, doces, bolo, a vela enfeitada, o vestido novo. A expectativa da campainha, o barulho da chuva. A vontade da mãe, morta seis meses antes. A luta pelo amor da madrasta, chegada dois meses antes. O acostumar-se à casa nova: mais presunção, menos aconchego. A campainha poderia ter tocado uma ou duas vezes, mas não tocou nem uma. A razão contou lá suas histórias: feriadão, muita gente viajando, chuva e frio tipicamente paulistanos, colégio com muitos judeus, não propensos a misturas. A emoção, essa só teve uma voz: você é diferente, esquisita, não pertence ao grupo. Doces e salgados tiveram o mesmo gosto: lágrimas. Depois, a fuga envergonhada para o escuro do quarto, fuga que sempre permeou minhas tentativas futuras de relacionamentos individuais e coletivos. O remendo foi apenas suficiente para tocar a vida com alguma alegria em meio aos que romperam a cerca-viva ao meu redor, mas ainda hoje ouvi a voz, já cansada: você é diferente, esquisita, não pertence ao grupo.

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Instantes!
Por M.C.Jachnkee

Os instantes da vida.... Os instantes da vida eram fascinantes. Aqueles pequenos momentos em que se parava e observava. Via. Ouvia. Sentia. A milésima fração de segundos que fazia as pessoas sentirem aquela imensa certeza de que existia uma Força olhando por todos. Nada era por acaso. As gotas de chuva não caíam por acaso. As plantas não brotavam por acaso, as pessoas não pensavam por acaso. Tudo fazia parte de um milagre. O milagre da existência, que acompanhava todos desde o primeiro instante. Como era importante e bom parar um pouco a louca e agitada vida e observar o movimento das coisas do mundo. Tudo mudava. Não apenas a maneira de olhar os fatos que ocorriam ao redor, mas também, (e principalmente também!), a forma de senti-los. De deixá-los penetrar no âmago. De fazer parte. Se deixar levar pela valsa da vida, por entre as estrelas e cometas. Sentir-se diante das cataratas, a vida jorrando por todos os lados. Experimentar a sabedoria dos mares, a paz dos campos verdejantes, a simplicidade das montanhas geladas, a beleza da aurora, a leveza das nuvens; como rosas vermelhas a tocar a maciez da pele. A vida exigia tanto! Casa para limpar, contas a pagar, deveres a fazer. Pais, filhos e os parceiros da vida, sempre querendo a atenção que lhes era devida. Havia muito a fazer e pouco tempo para parar e observar. Simplesmente parar e observar. Ver, ouvir, sentir. Olhar para o céu e entoar o cântico dos sábios. Permitir que a alma fosse banhada pelas gotas de bênçãos dos pequenos instantes da vida.

Woman Seated. Pintura de Pablo Picasso

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Poema e arte de Madhu Maretiore

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Os meus sentimentos, hoje

Por Marilu F Queiroz

Pensamentos... espontânea e singela linguagem. Flutuam, mergulham, encontram, desencontram, significantes significados... Pensamentos... desencadeiam sentimentos. Segredos, chamegos, mostram demonstram... Poemas metrificados. Pensamentos... palavras que saem de dentro. Reflexos mentais, sentimentais, aliterações, assonâncias... Trocadilho poético. Pensamento é ritmo... onomatopeia dos sentidos... Poema, por si só!

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Wrap carne seca com purê de abóbora

Ingredientes . 1 colher (sopa) de cebola picada . 1 colher (chá) de azeite de oliva . 4 colher (sopa) de carne-seca refogada . 2 colher (sopa) de purê de abóbora . 6 folhas de rúcula . 1 tortilha vermelha (ou pão sírio fininho)

Purê de abóbora: . 1/2 abóbora do tipo japonês em cubos e sem a casca . 2 colher (sopa) de margarina light . 1 xícara (chá) de leite desnatado . Sal e noz-moscada ralada a gosto

Modo de preparo Purê: Cozinhe a abóbora na água até amolecer. Escorra e passe num espremedor. Volte para o fogo e misture a margarina e o leite. Tempere com o sal e a noz-moscada e reserve. Refogue a cebola no azeite preaquecido e depois refogue a carne.

Monte o wrap: Coloque o purê, a carne e a rúcula sobre a tortilha. Enrole, corte ao meio e sirva. Experimente as receitas saborosas do site: http://www.blogdonamelia.com/

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Uma história de um tal Sr. Brasil
Por Marcello Ribeiro

Meio do nada, 4:56 da manhã, num casebrinho onde rola um forró, um rala-cocha, um nheconheco, um pega pra capar, um esf... enfim. Numa canto que também serve de encontro pros matuto que depois da labuta querem toma umas birita, uns mé, umas cachaça, umas branquinha, umas marvada, umas dan.. enfim pro matuto bebe e se diverti, tava ali um sujeito besta... do tipo mulambento, encostado no canto, barbudo e birrento, que só fazia olha e resmunga... e o dono do estabelecimento me contou da historia dele quando perguntei:

conhecia, como poderia ser tão repartido e tendencioso? O Sr. Brasil para o Sr. Brasil, era um Sr. Brasil único... um Sr. Brasil justo. Tanto conflito exauriu as forças do confuso e jovem Sr. Brasil. E de tão cansado cochilou... um breve cochilo de meio milênio. E como não podia deixar de ser, acordou. O Sr. Brasil acordou!!! Acordou e já bem mais descansado, espreguiçou e olhou para si. Como havia feito antes, mas agora já não eram mais os três grupos distintos, algo havia mudado! Durante seu cochilo talvez? Pode ser. Mas isso não importava. Uma alegria enorme tomou conta do Sr. Brasil quando depois de acordar e já um tanto mais maduro!! Agora sim!! Agora todos eram um grupo só! Euroafricameríndios ou Africameríndioseuropeus ou Ameríndioeuroafricanos, ou... !! E a emoção de se perceber encontrado e realmente um ser único foi tão grande que ele gritou!! Mas não gritou as margens de rio nenhum (como alguns poderiam esperar), também não disse frase alguma, apenas gritou, um grito longo e muito alto, feito um animal. E depois desse grito que saia de tão fundo de sua alma parece que como um estalo, um lampejo de clarividência lhe fez refletir e se perceber novamente... Não eram um grupo só, eram milhões de pequenos grupos, talvez indivíduos, cada único ser separado do outro. Contam que nessa, quase que o Sr. Brasil teve um ataque do coração! Quero dizer seu moço que quase ele bate as botas!!! Entendeu? Passou pro outro andar... ou por outro lado... se finou.... enfim! Hoje ta ai... tomando cerveja com pinga e conhaque, e a gente ainda fica escutando essas porcariada toda que velhote costuma falar ai... de tal de cultura sei lá o que.... blá blá blá.... rhow rhow rhow.... sxhw sxhw sxhw.... sabe seu moço, a gente nem da mais ouvido. Enfim... é a vida né seu moço... óia... toma essa aqui ó... é especiar!!! Direto do meu alambique.

E esse ai... quem é? O Sr. Brasil? Num sei... é esse o nome dele? Sim. Sr. Brasil... pois bem, quem diria que o grande Sr. Brasil estaria ali agora, desse jeito caído... sem força... parecendo velho, enferrujado... É daqueles perdido na vida... que nunca teve nada? Miserável? Num é bem desse jeito ai que o moço ta dizeno, vamo dize que metade metade. Escuita só o que o povo proseia por ai... à boca pequena: Dizem as boca... que o Sr. Brasil, desde menino gostava de conhecer as coisas, as planta, os bicho os inseto, as pessoa... nessa época era como se diz, sua infância, ou como datam os contemporâneos, uns mil e quinhentos anos depois do nascimento de um Nazareno, um tal ai... chamado Jesus. E dizem foi como num lampejo de clarividência que ele se percebeu! Feito um susto!! Percebeu que naquela época ele, o Sr. Brasil, não era um único e sim três grupos distintos, ainda fechados e separados por seus costumes e a fazeres: europeus, africanos e ameríndios. Percebeu que estavam ali, juntos, porém ainda como água, óleo e margem, separados. Uns sobrepujando outros, extraindo o que não lhes pertencia e criando leis para nomeá-los privados; outros sobrepujados por uns, que eram os mesmos que tudo extraiam. E nesse susto de se perceber, o Sr. Brasil acordou!!! Acordou do transe auto hipnótico. Atordoado e confuso, pois não era assim que o Sr. Brasil se
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UPP – Um Presente Para... Grego?

UPP, quem ficou responsável pelos sinais e pela grana? - Seu Carlos, entendo que este não seja um problema seu. Sugiro que faça sua parte e continue aproveitando da melhor maneira às suas regalias. Ele não tinha a menor preocupação em ser agradável. E como bobo não sou, resolvi seguir seus conselhos. Não por muito tempo... A curiosidade falou mais alto e resolvi segui-lo de longe. Tinha que saber onde àquilo iria dar. Após mais de três horas de andanças pelas vielas da comunidade, batendo de porta em porta, para o recolhimento das “mensalidades”, o homem retornou, enfim, ao seu Quartel General. Como houvera desconfiado, ele entrou tranquilamente, nas dependências da UPP. Pela primeira vez, pude notar um esboço de sorriso em seu rosto. Quando estava me preparando para retornar a minha casa e seguir a vida como se nada tivesse acontecido, afinal, estas foram às orientações iniciais passadas, notei a aproximação de um carro preto, com os vidros, totalmente, escuros e fechados. De seu interior, saiu um sujeito bastante conhecido da área. Era o Miltão, chefe do tráfico na região. Sem se importar em ser visto, ele subiu os poucos degraus da UPP e sumiu em seu interior. Ainda pude ouvir algumas gargalhadas. A partir daquele momento, virei minhas costas e parti. O meu já estava garantido, e parecia que o de todo mundo, também. Vida que segue...

Por Marcelo Lino Ainda era de manhã, quando escutei alguém chamando pelo meu nome. - Seu Carlos! Estranhei. Só tenho 29 anos de idade. Sou tão novo para ser chamado de “Seu”. Tudo bem, resolvi atender. Deveria ser uma pessoa conhecida. Apesar de não ter reconhecido a voz. Quando cheguei ao portão, não identifiquei o sujeito. Meio desconfiado, perguntei: - Pois não. Posso ajudar?! - O Senhor é o Seu Carlos? - Depende. – Respondi. – se for uma notícia boa, sou eu mesmo! – Tentei ser amigável. - Aqui está o valor para o pagamento do Catnet e da Intercat. Volto mais tarde para pegar o dinheiro! O rapaz, que parecia ser, mais ou menos, da minha idade, não deu um só sorriso. Direto, ele virou às costas e se foi. Surpreso, corri para dentro de casa e passei a novidade, não tão nova assim, para minha esposa: - Renata, venha ver isto. As cobranças dos “servicinhos” continuam, mesmo com a instalação da UPP aqui na nossa comunidade! - Carlinhos, meu amor, o que você esperava?! Mesmo com a chegada da polícia, nós continuamos a usar, normalmente, a TV a cabo e a internet. É natural que a cobrança, também, continue. - Pera lá, mulher. Quem está por trás disso tudo? - Bem, amor, espere o rapaz voltar para recolher o valor e pergunte a ele. E foi, exatamente, o que fiz... Assim que o cidadão chegou, fui logo o indagando, com a cara e a coragem: - Amigo, desculpe! Mas com a instalação da
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DE MUDANÇA
Por Márcia Costa

Você foi deixando-me ficar, Fui trazendo minhas coisas devagar, Colocando meus retratos na estante, Pendurando meus quadros na parede. Deixei o abajur no quarto, Gosto de ler ter sonhos dourados. As poucas roupas não deram no armário, Vendi peças do meu vestuário. Você foi me deixando ficar... Não tenho mais p' ra onde voltar. Vou ficando em qualquer lugar, Na sala, na cozinha... Sei lá... Só quero ficar ao teu lado.

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Sempre Há Tempo Para Sonhar!
Por Márcia Pedroso

Faça algo, enquanto há tempo! Você pode acordar sem chance de ter mais tempo! A ventania poderá lhe varrer para muito longe da vida terrena; Então não terá tempo para respirar o verdadeiro sentido da vida que é sonhar! Salve o tempo que é um aliado, para realizar a utopia da mente que é chamada de sonho! Quero-te tempo para brincar, e dançar nas tranças da vida! “ADEUS”; Lá vou eu vislumbrar o horizonte nas asas do tempo! Chegou a minha hora de num outro plano existencial correr atrás do tempo; pois meus sonhos nunca irão morrer! F-U-I... Mas não perco a chance de bem alto gritar que o tempo não pode parar! Então aproveite para nele navegar! Vá voar no seu amigo tempo; O globo terrestre contornar, e jamais pare de sonhar!

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YEDA PRATES BERNIS Imprescindível
Busco a palavra imprescindível, inimitável, mágica, serena. Que ela venha na magia de um sorriso ou no brilho de uma lágrima, vestindo sonhos ou desnudando verdades - que ela venha! – Busco a palavra que não chega nunca, vinda de algum perdido tempo, e apascentará a alma e adormecerá cansados corações, e será inimitável, mágica e serena. Busco a palavra misteriosa profunda imprescindível - como a dor - como a vida - como a morte.

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Um medo de fato

vistosa e poucos homens me olhavam. Se passavam por mim distraídos, como é comum em cidade grande, além do mais cheia de ga-

Por Maria Lindren

rotas púberes com jeito de mulher feita, se não me diziam sequer um gracejo, por fora de mo-

No dia em que o amigo, em seu costumeiro tom de gozação, falou a frase definitiva “o primeiro pentelho branco ninguém esquece , corri para o banheiro, constatei a verdade: os cinquenta anos haviam chegado sorrateira-

da, o estômago encolhia de imediato: o medo se instalava. A ponto de rezar para que, ao menos em meio à papelada de processos do trabalho, alguém se lembrasse de me dirigir um galanteio. De mulher, não valia. Somos bastante pródigas em elogios ao físico bem conservado das outras, ainda que nos roa a inveja.

mente, felinos de passinho pluma e presença inegável. Desse dia em diante, o espelho me mostrava um fio branco escondido entre os cachos do cabelo, uma ruga mais cavada entre os sobrolhos, um quase-esgar mal percebido na boca, um início do chamado “código de

barras” riscados em cima dos lábios, uma coleção maior de celulites nas coxas e no traseiro. Fala-se muito no medo da morte no ser humano, claro. O medo da velhice, porém, tem seu lugar de honra entre as angústias femininas. Não conheço quem escape. Intelectual ou não, a mulher teme a decadência física talvez mais que o homem. Ainda que a alma não mude tanto assim. Nunca se ouviu um representante do sexo masculino confessar preocupação com sinais corporais de idade avançada, a não ser com o que mais lhe importa na vida: o arrefecer sexual – um fantasma de aparição prorrogada por medicamentos modernos. Aos cinquenta, meu medo se alastrava a cada vez que saía à rua crente que estava
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A indústria cosmética e a medicina estética não cessam de trabalhar para minimizar o nosso horror. Oferecem-se a preço de banana, principalmente na internet, mil tratamentos indolores ou nem tanto, que nos garantirão a eternidade da aparência fresca. É claro que nem tudo dá certo, mas o fato é que , às custas do medo, conseguimos hoje deixar de lado a cadeira de balanço dos setenta anos de nossas avós, as pregas das barrigas proeminentes, a queda gradativa dos seios, as rugas mais assustadoras... Pelo menos, até os oitenta e tantos.
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Mas, no minuto em que lançam a moda verão, a sensação desagradável volta na toda: braços, pernas e colos expostos, saias ajustadas e tão curtas que obrigam as moças a tentar puxálas para baixo a cada passo, cabelos enormes e reluzentes... É passar numa vitrine do Rio de Janeiro e se apavorar de medo de seu próprio reflexo, na constatação da verdade: não somos mais jovenzinhas. Por isso, resolvi de vez: não saio de casa sem óculos bem escuros, de dia, outros meio escuros à noite. E decididamente, não me olho em espelho em dia de sol ou sob luz elétrica possante: só `a meia-luz. Adeus, medo! Sigo feliz.

Foto de Alan-Nicod

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Plúmbeo

Por Maria Socorro

Surpreende, enfeitiça tênue coração Aconchega ao lado do peito, ó emoção Embriaga o aroma em nítida beleza Beijo-te! Plúmbeo sem igual sutileza… Desfrutar a grandeza exuberante Riso é a arma contagiante, marcante Ficar sem a macieza, fidelidade Paralisa a guardiã da saudade Superação dos desafios da paixão Gentil plúmbeo sacode coração em pânico Paixão resiste ao tempo e desconexão Amo-te, ó plúmbeo! Sem risco atômico Intacto treme em louca paixão Extermínio sem visto. Lamenta em cântico.

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De São Luis a Paris
Por Maria Zulema Cebrian
São Luís tornara-se o cenário ideal para o estímulo da produção algodoeira em função do aumento da demanda internacional por algodão para as industrias têxteis inglesas. Os Estados Unidos haviam reduzido a produção do algodão em razão da Guerra de Independência no país o que favoreceu o Maranhão. As companhias Southampton & Maranham Company e Maranham Shipping Company, de transporte marítimo a vapor passaram a operar no eixo São Luís-Londres. .A economia maranhense internacionalizava-se.

A cultura passa a ter uma enorme significância, nesse período São Luís torna-se conhecida por “Atenas Brasileira” em virtude da grandiosidade cultural que reinava e a grande concentração de escritores locais que, mais tarde teriam relevante papel na literatura. A arquitetura, também acompanhou estes progressos. Mas é, aproximadamente, em 1830 que aparece a mais interessante inovação para tornar-se uma marca registrada da cidade: as fachadas das casas são revestidas com azulejos. Em poucos anos, um manto de reflexos coloridos, cobriu a cidade, e até hoje encanta os visitantes. São Luís em 1847 tornou-se"la petite ville aux palais de porcelaine", como a chamara um viajante francês. Diante desse bulício cultural e financeiro nosso trabalho, também, alterava-se se convertendo em um negócio ainda mais lucrativo. Os novos clientes surgiam dispostos a pagar, qualquer preço para saciarem o instinto físico, o desejo pelo prazer sexual e sua lubricidade os impulsionava a frequentar aquela casa. Mulheres de vida fácil, assim eram chamadas. Poderia a próspera sociedade de São Luís imaginar o quanto era difícil viver daquela forma e quais seriam os motivos que as teriam levado a isso?

O clima em São Luís é sempre quente e úmido, um calor desagradável e desprazeroso. A longa espera cansava-me e ainda que soubesse que escolhera aquele destino, entretanto uma pergunta martelava-me o pensamento: Que futuro teria afinal se embarcasse naquele navio? A despeito de todas as dúvidas, em meu coração residia a esperança. Acreditava que deixaria para traz as adversidades e o acaso infeliz que minha vida fora. Em Paris receberia o quinhão da vida. Vivíamos a fase de ouro da economia maranhense, São Luís desfrutava de uma efervescência cultural e financeira, além do grande crescimento de uma população estrangeira. A cidade se relacionava mais com as capitais europeias que com brasileiras e foi a primeira cidade a receber uma companhia italiana de ópera. Possuía calçamento e iluminação como poucas do país. E semanalmente recebia as últimas novidades da literatura francesa. As grandes fortunas algodoeiros locais emergiam e, convencidos pela prosperidade e cultura dos estrangeiros que ali aportavam deram início a uma educação, mais aprimorada e enviando seus filhos para estudar em outras capitais brasileiras e Europa.
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Proibidas de sair à luz do dia, podendo fazêlo, apenas, na calada da noite. Conveniente para a sociedade, pois era quando tinham início as noites de luxuria. Eram proibidas de sair à luz do dia, podendo fazê-lo, apenas, na calada da noite. Fato conveniente para a sociedade, pois era quando tinham início as noites de luxúria. Quem ousasse sair e fosse apanhada, acabava presa na Delegacia do Primeiro Distrito. Acontecera comigo algumas vezes, por infringir as regras. Pedia a Nossa Senhora da Vitória o que me protegesse. Rebelava-me diante do modo desapiedado com éramos tratadas. A juventude trás consigo a crença e uma vontade imensurável de viver. Deus! Eu era tão jovem e alegre como podiam exigir que vivesse no retraimento, assombrada pelo medo? Senhores da sociedade maranhense e estrangeiros, homens bem casados, políticos de direita e de esquerda e, qualquer um que tivesse dinheiro, para pagar, frequentava a casa da Rua da Palma. Homens de conduta, aparentemente, incontestável perdiam-se em seus devaneios lascivos e tomavam porres homéricos. Cometiam-se crimes.

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 Sofríamos ao ser escolhidas por um deles e nos tornarmos amantes desiludidas de um Don Juan qualquer, quase sempre, bem casado, com mulher e filhos e da sociedade emergente. Havia mulheres que eram trazidas de outros estados, tinham a pele clara e cheiravam a alfazema, essas recebiam da “madame” tratamento especial: vesti-as com lingeries francesas de cores vibrantes e muitos laçarotes. Transformavam-se nas mais requisitadas e isso lhes deixava a ilusão da superioridade ante as demais gerando inveja e discórdia entre as outras. Seus quartos eram decorados e especiais, tinham lençóis de cetim, quarto de banho com sais, tudo para receber aos poderosos senhores frequentadores da La Maison ivre de joie. Senhores habitués e estrangeiros compareciam para desfrutar do requinte de seus salões, muito semelhantes, segundo ouvira, aos de Paris. Ao conhecer Antoine Bertrand, não poderia imaginar que seria uma proposta de vida nova; eu, uma mulher da Rua da Palma? Esse fora o motivo que me trouxera, até no cais e poderia significar o grande passo, transformar-me em uma das mulheres chegadas de outra terra. Pele morena, cravo e canela, lembrando o calor tropical e o sabor do pecado. Meu destino parecia ter mudado depois que Antoine chegou... Era uma tarde quente úmida, como são todas as tardes aqui em São Luís. Conversávamos animadamente, contando umas às outras sobre a devassidão vivida na noite anterior. Obviamente, falávamos sobre frequentadores ocasionais. Jamais mencionávamos os que considerávamos nossos homens. Nossos homens! Quanta tolice! A sala, de repente foi solapada pelo silêncio. O ar se rarefez, os suspiros unissonantes libertaram-se. Confesso, faltou-me fôlego diante da imagem daquele homem. Ao relembrar, aquele momento, ainda estremeço, um calor me invade o corpo e chego a sentir o hálito de sua boca perto da minha. Suscitava uma miragem provocada pelo calor excessivo do dia, um efeito óptico como o que se produz às pessoas quando perdidas no deserto. Um deus num terno de linho branco contrastando com o bronzeado de sua pele. Uma imagem apolínea, o porte imponente e faceiro contrastava com a ginga brejeira. Encantei-me com ele e esse foi o meu pecado. Envolvi-me loucamente com sua beleza e a voz macia e quente. Seu fascínio, no entanto, estaVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

va no jogo da sedução que eu conheceria e, que ele exercia com mestria. Um doutor. Deixei-me seduzir. Depois que ele chegou a La Maison ivre de joie, as noites de lascívia passaram a ter um brilho de romantismo. Dia a dia conquistava confiança e simpatia das meninas da casa.

Quase sempre, cabia à madame escolher para os cavalheiros a menina que julgava oportuna.. Antoine, no entanto, quis fazer sua própria escolha. Escolheu-me! Não cabia discutir. Estávamos ali para dar-lhes a felicidade que procuravam e que parecia inexistir em suas casas. Sempre que aparecia um cliente novo era tomada por uma ansiedade que descompassava meu coração fazendo minhas mãos transpirarem. Desta vez foi diferente, o coração, quase, parou incendiado pela sensualidade que emanava daquele homem e pelos pensamentos que me invadiram pelos prazeres que imaginei sentiria. Se deitou em minha cama, me chamava de querida. Misto de aventura, precedida de abordagens sedutoras (era quando ele se tornava irresistível). Mágico, deixei-me levar. Antoine era um sedutor, me abraçava e olhava de maneira insondável, intensa. Suas mãos percorriam caminhos que levam à sensação agradável que liga a sa sfação ao prazer da exploração detalhada do corpo antes da entrega. Mãos que andaram entre a distância do afago, e o exercício harmonioso do prazer, transformando aquele instante em uma necessidade vital.. A entrega do bilhete para a viagem por meio da liber nagem. O intumescimento de meus mamilos revelado fez com que jogássemos ao chão nossas roupas. O desejo desloca a grande velocidade os sen dos, mas não apressou os carinhos, ao contrário, carícias prolongadas, suaves, atrevidas, dando-me o desfrute prolongado que antecede ao prazer. Ele Apolo, eu Afrodite.

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 Uma dança de corpos suados, molhados ardentes. Sua boca beijou meu corpo e suas mãos despertaram lembranças há muito adormecidas. Gritavam as emoções no físico estimulando as sensações da alma. Não havia vencedor nem vencido, apenas prazer, diante daquele homem que dava sem pedir e, não pedindo, teve tudo. Durante minha vida de meretriz, esta foi a primeira vez em que houve uma inversão da situação. Seu prazer estava em dar, não em cobrar pelo que pagava. Um tempo sem tempo, norteado pelos pontos de carícia e emoção. O amor explodiu silencioso... uma habilidade que alcança os pensamentos, idéias e sentimentos mais relevantes, uma onda inundando a alma e o corpo. Tornamo-nos um pair de deux na perfeita sincronia da dança dos amantes. Uma combustão infinita um fluido imaterial permeando o espaço e que se supunha necessário para essa identificação, tão intensa e tão forte. Almas que viajaram através da volatilidade dos corpos. Antoine se deixou ficar. Contrariamente ao que todos faziam, não se levantou simplesmente, pagou e saiu. Ficou, para fazermos amor, durante toda a noite, com a mesma intensidade. A partir dessa noite, em minha vida, tudo mudaria definitivamente. A cada dia uma nova esperança se transformava em algo novo que valia a pena ser vivido. Nada mais era como antes, uma incógnita — saber com quem nos deitaríamos à noite. Aprendi muito com Antoine. Tive a compreensão de que fazer sexo com muitos homens fora uma atividade sagrada na pré-história. Uma maneira de manter unida a comunidade que valorizava a figura da mulher. Uma tarefa considerada sagrada. Mantinham sexo com vários parceiros ao som de música e em meio a conversas sobre arte. Entretanto, com o passar do tempo, contava-me, os homens começaram a fazer discriminação entre as esposas e as prostitutas. Depois vieram as leis que proibiam o casamento com mulheres que se relacionassem com vários homens. Nascera o tabu. Criaram-se bordéis e algumas mulheres passaram a receber um salário para fazer sexo. Calígula criou um imposto sobre esta atividade, obrigando-as a obter licença para tanto. Tinham carteirinha de prostituta com nome, endereço e o preço pelos serviços prestados. Vênus fora a deusa protetora dessas mulheres. A religião transformou tudo em pecado. Através das religiões e em nome delas, muitos absurdos foram praticados, pediu-se a pena de morte para o adultério e os bordéis em muitos países foram fechados. Como resultado dessa revolução surgimos nós: as prostitutas de elite. Mas nem tudo era desgraça, dizia Antoine. Em Paris, por exemplo, a prostituição ganhou grande impulso a partir do final do século XVIII. O bordel mais luxuoso era sem dúvida o Avignon Club, à beira do Sena, uma mansão que ocupava um quarteirão inteiro, com mais de vinte aposentos, uma biblioteca, uma bela galeria de arte. Os quartos eram ricamente decorados com tapetes persas, quadros de pintores famosos e suas camas cobertas por lençóis de cetim. Imaginei-me vivendo naquelas condições, mais que isso — fui me enchendo de coragem para dar o grande passo —, aceitar a proposta e morar em Paris. Não foi uma decisão repentina, mas baseada no amor e na confiança que depositei incondicionalmente nele. Antoine oferecera-me o céu e, eu estava disposta a consegui-lo. Não pude conter minha ansiedade, estava tão perto de realizar meu sonho, não podia recuar... Decidi ir embora com Antoine. O navio apitou. Era hora de partir. Chegara a hora de embarcar. Despedi-me das meninas que tinham vindo até o cais. Minha aflição era imensurável, Antoine, ainda, não chegara. O que teria acontecido? Nesse instante alguém se aproximou. Um senhor de idade, que se destacava pela elegância, discrição e distinção. Amável, aproximou-se e se apresentou: — Meu nome é Pablo e trago um bilhete de Antoine. “Não se aflija, nem tema por nada, pedi a meu amigo, que a acompanhara e lhe faça companhia até seu destino: uma bela mansão, com jardim biblioteca e galeria de arte. Lá você será uma das Les Demoiselles D. Avignon”. Beijos, Antoine
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Eu vou cantar o meu rio
Por Marluce Portugaels

Eu vou cantar o meu rio meu rio de muitas voltas mil meandros tem o meu rio O meu rio Juruá Eu vou cantar o meu rio meu rio de margens largas como é bonito o meu rio O meu rio Juruá Eu vou cantar o meu rio meu rio de terras caídas barrancos toldam o meu rio O meu rio Juruá Eu vou cantar o meu rio meu rio de aves ligeiras garças voam sobre o meu rio O meu rio Juruá Eu vou cantar o meu rio meu rio cheio de estórias lendas, causos contam o meu rio O meu rio Juruá Eu vou cantar o meu rio meu rio de tantas lembranças como é bom lembrar o meu rio O meu rio Juruá

Imagem: h p://www.mochileiro.tur.br/

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PÉTALAS PRIMAVERIS Por Maurício dos Santos

Cai a tarde Em leve sopro Como a brisa soprando calma Lentamente invadindo a minha alma Logo após acariciar meu rosto. No horizonte Já os tons abóbora-avermelhado Parecendo dizer que hoje é ontem Que tenho um dia a menos de vida Já faço parte do passado! Da minha varanda contemplo o céu As nuvens também estão indo embora No íntimo minha alma chora Por alguém que não virá. O vento veio dizer Que está mudando a estação Que logo será verão Que a rosa Que um dia foi a razão da festa Hoje está guardada Em pétalas Num cantinho especial No fundo do meu coração.

* Publicado no livro PÉTALAS PRIMAVERIS em Maio/2010

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Magia
Por Merli Diniz

Brilham suas mãos nas minhas pela magia do toque na pele fina a luz lilás desenha veios de paixão.

Lilases meus seios nas suas mãos cintilam.

A luz na pele fina revela transparências de neon.

Minhas nas suas nossas mãos.

Na sutileza do toque no confuso desejo dos corpos desvenda intensas paixões a luz.

Lilás.

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MARIA DÁ PENA!!!
Neida Rocha
Maria é o arquétipo da mulher. Maria da Penha é o símbolo da justiça humana para agressões sofridas por quem diz AMAR A MULHER. A exemplo de Maria da Penha Maia, que após sofrer violência doméstica e familiar, renasceu das cinzas para se transformar e outras mulheres seguiram o mesmo caminho. A mulher, ao conhecer o príncipe encantado, dedica-se de corpo e alma ao amado e à casa, cumprindo os papéis de amante, mãe, cúmplice e às vezes até sócia. A mulher não julga as atitudes do companheiro, pois confia em sua integridade e o apoia, às vezes, incondicionalmente e muitas vezes enterrando seus próprios sonhos para seguir os sonhos de seu herói. A mulher faz o que seu coração manda e o que, dentro de suas limitações, pensa ser o certo. A mulher simplesmente AMA e não questiona seu coração. Algumas mulheres, após dedicarem anos de vida a um relacionamento que não são flores o tempo todo, percebem que foram traídas. Traídas não somente sexualmente, mas traídas em sua essência de vida.

rar, a mulher segue levando a vida. Muitas abandonam sonhos e se frustram. Outras tendo a necessidade de se impor, brigam, tornando a vida do casal um inferno e com isso, criando mágoas, rancores e ressentimentos, até mesmo sintomatizando doenças.

Outras mais arrojadas buscam o autoconhecimento através da busca espiritual ou até mesmo intelectual. Após anos de angústia e sofrimento, vítimas do sofrimento causado por humilhações, menosprezo, agressividade física e emocional, surgem as consequência: mágoa, tristeza, angústia, sobrepeso e fatalmente a DEPRESSÃO. As horas felizes ficam esquecidas no arquivo morto do cérebro e há muita dificuldade em localizá-las. Algumas poucas mulheres sobreviventes dessa situação resolvem virar a mesa. Então começa outro tipo de sofrimento: briga por seus direitos. Vivo essa situação, pois abandonei o casamento de mais de trinta anos, deixando para trás uma história de vida familiar, social e cultural, trocando de cidade e até mesmo de estado, retornando as minhas raízes. Em fevereiro 2011, após três anos e meio de separação, ainda busco na justiça parte da compensação de anos de companheirismo, dedicação e cumplicidade. Busco meus direitos e só encontro por parte do desconhecido com quem construí minha vida, mentiras, enganações e arranjos para provar que não temos nada do que foi construído em anos. Mesmo existindo a Lei Maria da Penha, a justiça dos homens é falha e o papel aceita tudo. E a Lei Divina não sou eu que faço. Portanto, Maria da Penha, ainda DÁ PENA DAS MULHERES
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A infidelidade muitas vezes é perdoada, pois de acordo com a educação machista, o homem é fraco e é normal que ele traia. A traição de vida é a mais sofrida e deixa mais cicatrizes do que o fato de seu companheiro deitar-se na cama de outra mulher. Na esperança de que as coisas vão melhoVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

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Desiguais

Por Norália de Mello Castro

Incrível luta: a borboleta pousada no teto, parada. A lagartixa espreitando, se armava. A borboleta via, sentia e pressentia. A lagartixa espreitando, Preparava. A borboleta podia voar, Esperava. A lagartixa atacou, A borboleta reagiu, voou, voltou, tornou a voar e a voltar. Parou em frente. A lagartixa estreitava, se armava. A borboleta via, sentia, pressentia e não fugia, igual à mulher apaixonada.

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Entre as folhas da mangueira
Por Oliveira Caruso

Entre as folhas da mangueira eu via o sol se achegar. Parecia ele dar um sopro nas folhas verdejantes, p’ra poder nos espiar sentados no banco da praça admirados a namorar.

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VOCÊ OLHA POR DENTRO OU POR FORA?
Por Públio José
É bastante natural no ser humano olhar tudo por fora. Daí a celebração às beldades da moda, do teatro, da tv, do cinema, às paisagens esfuziantes dos pontos turísticos mundo afora, às imagens globalizadas. Essa postura chega a ponto de se eleger um político porque é bonito, ou até se aceitar um determinado projeto de proporção nacional porque a embalagem é agradável aos olhos. Personalidades são aceitas e reverenciadas como verdadeiros fenômenos simplesmente pela cor dos olhos, pela tintura do cabelo, pela roupa que as encobrem e pelo dinheiro que ostentam – este, por sinal, um atributo com peso bastante considerável, não é verdade? Dificilmente o homem se preocupa com o que está no interior da pessoa ou da imagem que tem diante de si. O homem, naturalmente, vai na onda do que vê. E o que ele vê toma conta de seus sentidos, fazendo-o perder o senso crítico na maioria das vezes. Em face do que vê, o homem faz uma análise superficial dos fatos, gerando com isso atitudes imaturas, recheadas de pura impulsividade. Em razão de ações tomadas simplesmente ao sabor do que vê, o homem gera ao seu redor situações de alto grau de constrangimento e desconforto, levando muitas pessoas a se confrontar com remorsos e prejuízos terríveis. Esse costume irrefletido gera uma das piores chagas que acompanha a humanidade desde que o homem existe sobre a face da terra: o preconceito. O preconceito, por sua vez, nada mais é do que um conceito, uma imagem, um juízo que você emite antes de conhecer a essência daquilo que tem diante de si. São muitas as histórias, até pitorescas, de pessoas confundidas por outras ou não levadas a sério como deveriam, simplesmente pela impressão exterior que refletiam. Como um senhor muito rico que chegou numa loja de carros importados e ninguém lhe deu atenção – em razão da roupa que vestia. Sentindo-se rejeitado, visto com preconceito, chamou energicamente um dos vendedores e perguntou pelo preço de um carro. O preconceituoso vendedor respondeu que “nem em sonho eu dou o
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preço deste veículo ao senhor, pois eu sei que o senhor não tem a mínima chance de comprá-lo”. Aí, bastante incomodado, o potencial consumidor insistiu mais uma vez pelo preço do carro, pois pensava seriamente em levá-lo. O vendedor, olhando para ele como se olha para uma barata, disse o valor e deu-lhe as costas. Com muita surpresa ele ouviu aquele homem dizer bem alto: “eu levo o carro à vista”. A razão de existir do preconceito se fundamente na visão do que o homem tem diante de si. E cultivar o preconceito esteriliza uma das mais belas funções que o ser humano foi dotado a exercitar: a capacidade de se interiorizar, de procurar com afinco, interiormente, uma explicação para o que está diante dele – e que ele, racionalmente, não está sabendo decifrar. O homem não gosta de se esforçar na exploração daquilo que está lhe trazendo dúvida, receio, anseios e indagações. Antes de buscar no seu cérebro, nesse incrível arquivo do qual foi dotado, uma resposta para o que não entende, o homem decreta. Toma atitudes baseado no que a sua visão transmitiu para a sua mente, sem requerer, sem exigir dela uma solução mais aprofundada. De onde vem essa indolência cerebral? Esse desejo de simplificar a tomada de decisões, mesmo sabendo que tem à sua disposição, para lhe fornecer uma gama maior de alternativas, uma arma poderosíssima – o seu cérebro? A predominância no decidir em razão do que vê, ao invés de buscar consolidar atitudes, racionalmente, pelo que não consegue enxergar, tem destruído relacionamentos, projetos, sonhos e ambições. O preconceito tem levado de roldão para o ralo muitas iniciativas que, frutificando, teriam se tornado obras interessantes. Está na hora de você exercitar sua mente para vencer esses desafios. Quando uma situação ou alguém lhe desagradar em função do que você está vendo, dê uma parada. Pesquise, observe, analise – e puxe do seu interior uma resposta mais substancial. Vença o preconceito pela utilização do desejo de ultrapassar esse desafio. Sua estrutura interior tem soluções que você nem sonha e que se manifestarão através de sentimentos, até então, totalmente desconhecidos para você. E aí, vamos nos interiorizar?

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UM SONHO TRANSFORMADO EM HORROR
Por Raimundo Antonio

Quando Romeu conheceu Julieta pensou ter encontrado a sua alma gêmea. Amou-a, apesar de todas as limitações e proibições. Viveu, ao seu lado, uma história de amor e, embora soubesse de todos os riscos que esta relação envolvia, seguiu em frente. Ela era uma linda, sedutora e inteligente mulher. Ele estava encantado. Entretanto, com o passar dos tempos, a relação foi se desgastando. Julieta mostrou-se uma mulher ciumenta e, aos poucos, começou a nutrir sonhos que Romeu não podia viver. Ele queria uma história real. Ela teimava em sonhar e alimentar ilusões. As cobranças foram aumentando. Ele, Romeu, várias vezes, tentou afastar-se, mas ela, Julieta, prometia-lhe mudar e não fazer cobranças. Então, ele cedia. Mas o encanto se fora. Ele ficou cada vez mais distante e ela cobrava cada vez mais. O fim foi inevitável. Vieram, em seguida, as ofensas. Julieta – a sua doce e amada Julieta - fazia ameaças, destratava-o e depois pedia perdão. Romeu, por outro lado, tentava não magoála, e continuava, de forma indireta, participando de sua vida, lendo suas produções literárias, comentando, elogiando-a; afinal, sempre vira nela uma mulher perspicaz e instruída. Julieta, no entanto, entendia tudo errado: se ele era gentil, ela achava que ele estava acenando com uma possibilidade de retorno; se ele se afastava, ela enviava cartas cobrando a sua presença. O clima entre eles – como não podia deixar de ser – ficou insuportável. Ele passou, então, a evitá-la. Ela, em contrapartida, começou a ligar para o seu castelo e, quando ele atendia, ameaçava contar tudo para a sua consorte. Sem saber o que fazer para não magoá-la ainda mais – e também não magoar sua raiz – ele passou, decididamente, a ignorá-la. Diante dessa rejeição, Julieta reagiu de uma forma que Romeu nunca a imaginou capaz: ela pegou o seu cavalo branco e foi até o castelo de Romeu. Lá, ela se fez anunciar e, ao ser recebida pela consorte do seu amante, contou-lhe todos os detalhes de sua relação. Foi a gota d’água: a consorte, em estado de choque, não quis conversar. Romeu ferido, magoado e arrependido fechou-se em seu casulo e sofre, até hoje, por ter acreditado numa relação que acabou por destruir a sua paz. Hoje ele sabe que está pagando, alto, o preço de seu erro. Porém, o seu maior erro foi amar e
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acreditar numa pessoa que se mostrou mesquinha e que, não sabendo perder, passou a envolver outras pessoas numa história que era só deles e que nunca deveria ter saído do anonimato. Julieta, por outro lado, sabia, desde o início, que aquela era uma relação fora dos padrões aceitos socialmente. Ambos sabiam dos riscos que corriam. Ele era comprometido; ela, por outro lado, devia satisfações ao seu universo social que, por sinal, era totalmente diferente da classe social em que ele costumava frequentar. Portanto, o universo criado, pelos dois, não permitiria – para os que os olhassem com olhos de julgamento – juízo de valores favoráveis que os abonasse de seus pecados sentimentais para com a sociedade e o Deus que comungavam. Romeu vaga, presentemente, por entre pensamentos e reflexões, e repete, para si mesmo, como mágoa, é que ele fez de tudo para evitar o sofrimento – tanto de Julieta quanto de sua carametade e, agora, ambas estão sofrendo e ele não pode fazer nada por nenhuma delas. Errou e está pagando duramente por seu erro. Julieta, por outro lado, não soube aceitar que amores adormecem e relações terminam. Não consegue entender, por exemplo, que ele, apesar de tê-la adorado um dia, decidiu-se por sua ascendência, escolheu ficar com a sua genealogia. Infelizmente, ela estragou tudo, inclusive, o respeito que ele sentia por ela. Romeu acreditou no amor e foi traído da forma mais vil: foi acusado de coisas terríveis, ofendido em sua dignidade, exposto publicamente. Julieta mostrou-se uma mulher cauila, egocêntrica, insegura e capaz de tudo para atingir seu alvo. Não pensou em nada além de seus desejos: é como uma menina mimada que não consegue perder seu brinquedo. Ferida e magoada achou-se no direito de magoar pessoas que Romeu, a todo custo, tentou preservar. É o fim de uma história que poderia ter sido de amor. Ficou a mágoa e o rancor. Apenas.
Imagem enviada por Raimundo Antonio 102

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O Cabeça D`Água

las de espermacete. Se o professor não acreditava, se ficava rindo disso, paciência! Depois não viesse se queixar...

Por Rejane Machado - É, Professor, não duvide dessas coisas. Os antigos já sabiam disto... Riu-se discretamente. O chofer tinha imaginação. Como é que pode, em pleno século XXI ter gente que acredita piamente nessas crendices? O povo simples confunde tudo. Uma série de coincidências, um galho de árvore que balança, um pássaro noturno que voa, um ruído qualquer de que não se sabe a procedência, um animal que se esconde à aproximação de alguém, e o mito está formado... Se ele pensava assim, que é que podiam fazer? Gente da cidade não compreende as coisas. A aula terminara bem mais tarde, hoje. E quando há pouco o informaram do desarranjo no motor da velha Fiat, só nesse momento é que começou a se preocupar com a possibilidade nunca imaginada de ter que enfrentar a realidade. Pela primeira vez teria que caminhar sozinho pela mata à noitinha. Quase recusara o café com bolinhos de que tanto gostava, porque um sudoeste soprava já há algum tempo, ouvira as trovoadas longínquas, e a caminhada de quase uma hora até à pensão poderia se complicar, caso a chuva descesse forte como prometiam os prognósticos da meteorologia. Começou a apertar o passo. Teria que atravessar uma capoeira fechada até alcançar a ponte sobre o rio Formoso, uma caminhada de quilômetro e meio, ainda, mais ou menos. Procurava não pensar nas histórias que ouvira; preferia muito mais estar em casa, em segurança. Juventino dizia que aquelas matas não eram seguras, porque “ uma onça domina um território de cerca de cinco quilômetros,” e ele mesmo já encontrara vestígios. Mas segundo o caboclo, pior do que a onça era o “ cabeça d`água”. Este sim, quando se preparava uma tempestade, gostava de aparecer. Em pequeno já o vira uma vez. E tivera que cumprir uma série de exorcismos para não sofrer as penalidades que acontecem com os que têm a desgraça de atravessar o rio, quando o Caboclo sai à caça dos incautos. E enquanto relatava, ainda ficava arrepiado, só de se lembrar. O senhor se ri? Não acredita? Então nem experimente esse encontro. Para desfazer o malefício era necessário colocar na margem do rio uma cabaça com arroz cru, um lenço vermelho e duas veVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

Zombara, na ocasião, mas agora aprendia que nunca deveria adotar aquela postura de indiferença. Não custava nada respeitar as crenças alheias. E depois, existem mais coisas entre o céu e a terra... Mas reagia: em sã consciência, não se deve dar confiança a crendices ignorantes. Tinha muito mais instrução do que qualquer uma daquelas pessoas da vila perdida nos confins de um mundo ainda rural; que diriam os conterrâneos, ao voltar, e relatar aquelas tolices que ouvia? O certo é que se atrasara. O café estava muito bom, o ambiente aconchegante, o sorriso de Anabela prometendo maiores alegrias, nem percebera que as horas foram escoando. A chuva da tarde retardara, e com isto o calor opressivo aliviara ; a atmosfera, antes pesada, trazia-lhe agora uma sensação boa- uma frescura inacreditável. Não se pode descrever a cor das matas e do céu ao anoitecer, uma doçura no ar, calma e placidez na natureza agressiva, mas quem a nomearia selvagem, diante deste crepúsculo rosado? Perfeição absoluta, nota dez, se não fora tão rápido. E o vento parecia levar a tempestade para outra direçãomenos mal. Ia pensando, poder-se-ia até escrever um livro sobre as superstições da gente do interior. Diante de um temporal eles cobriam os espelhos, havia exorcismos para raios, para ventos, para escuridão. Em noite de sexta-feira, então, o perigo era maior, diziam. E se entornavam sal, se uma estrela corresse, se um certo pássaro aparecesse ao entardecer, se uma criança pequena pronunciasse sua primeira palavra às seis horas da tarde, se um morcego voasse ao meio-dia! Era azar, na certa. Necessário tomar providências urgentes para cortar o mal que chegaria com certeza!

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Varal do Brasil - Novembro de 2011 Pensar nessas coisas agora era desconfortável. Atravessava a pequena mata fechada que ia dar no rio, em meio ao ruído impreciso de muitos animais noturnos; escurecia rapidamente, e as sombras semelhavam duendes dançantes; um princípio de umidade o fazia estremecer. Começou a andar mais depressa, tanto quanto a escuridão que se adensava o permitia, não queria esbarrar em troncos caídos ou galhos que o seguravam, causando uma impressão penosa, como se o puxassem, não permitindo a caminhada. Nas pausas entre as folhagens aparecia uma lua mirrada em meio a nuvens pressagas. Agora prestava atenção aos ruídos desconhecidos da noite, a alguns não podia definir. E já ouvia o despejar da cachoeira próxima. Como evitála?- o caminho passava ao lado dela, nenhuma outra possibilidade de trajeto. Era ir em frente. Um raio iluminou grande parte do rio, em meio à escuridão que se fazia rapidamente densa. Pareceu-lhe ver, no meio do rio, uma silhueta humana- alguém que se banhava?- notou o porte atlético, - as pessoas falavam num homem de três metros de altura- e percebeu o nado turbulento. Um sentimento jamais experimentado antes, - de pavor- tomou conta dele. Ficou petrificado, os pelos eriçados, queria correr, gritar por ajuda, mas estava impossibilitado de qualquer reação. Como lidar com a aparição? As histórias ouvidas vinham em tropel à memória. Quase todos os habitantes da serra tinham uma experiência, ele não possuía nenhuma; nenhum conhecimento para exorcizar o Cabeça-d`água, pois era ele, estava certo de que era ele: nunca mais debocharia de coisas que não compreendesse. O tempo parou, a mata silenciosa, o mistério pairando, enquanto ele ouvia os passos pesados em sua direção. Foi quando ouviu a voz grossa do capataz: - Espere, professor, vamos juntos! O senhor andou depressa, hem?- o Juventino se aproximava, trazendo-lhe, sem saber- jamais saberia!um alívio intenso. Uma companhia humana, por mais limitada que fosse era muito bem vinda naquele momento. Recompôs-se, readquiriu sua calma habitual. Olhou discretamente para o rio, iluminado por mais um relâmpago. Uma placidez exuberante. Só se enxergava,- de ordinário tranquilas, as águas, no momento, agitadas pelo vento.

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O MENINO E A CHUVA
Por Rita de Cássia Amorim Andrade

solitário, intumescendo as mil línguas? Olhos assustados como tição de um fogo

Na calçada, o corpinho nu se contrai ante a torrente que do céu desaba. A água escorre fria pelo corpo do menino. Olhos assustados, como duas pérolas negras ao abrir da concha, perdidos, à procura de um refúgio. A câmera do tempo registra a sua nudez. O que virá de um homem se estampa agora. É como se o expor-se garanta o latejar de alhures. O que mudou? em que espaço/tempo o menino se refugiou para surgir o homem tentador, debaixo de um aguaceiro pela rua,

aceso à procura de uma ninfa que registre a sua nudez. O homem já se estampa… O latejar pulsa no corpo magro e teso. Um jato de quentura como se surgido de uma fornalha queima nesse instante, delirante!

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COTIDIANO
Por Ro Forkim Um ameaço de torcicolo o acorda. Veste-se enquanto ela prepara o café-da-manhã, e comem sem a presença de Christian, que sempre estica o sono até as nove horas por ficar com os livros até depois da meia-noite. Arrasta Tânia consigo até o portão. Ela não o vem acompanhando de manhã nem recebendo ao anoitecer desde o princípio desse estremecimento da relação. Agarra-a para o beijo de despedida e o alerta: _ Vai se comportar direito, não vai? _ Ih! Tá com a pulga atrás da orelha, né?... _ as unhas roçam as orelhas dele; ela agarra puxando sua cabeça, dando-lhe um beijo com mordida, zombeteira _ Vá na paz, velhinho...! Ele entra no carro arrepiado de contrariedade, pressagiando: “Essa aí vai ser o meu fim”. Imagina-a indo ao seu sepultamento num dos vestidinhos viscosos, a meio das coxas, colado nos ilíacos, e sobre a sepultura dançando com outro macho, a cantarolar “No nollo eta per amar te”. Pensa em Christian, tão especial, pensante, promissor, à mercê dela; dirige rogando: “Oh, pai, proteja o meu filho! Proteja minha mente!” Todo dia considera a ideia de convidar o filho a acompanhá-lo ao trabalho. Abriria uma exceção, em duas décadas de chefia nesse órgão público, levaria um estagiário para passar o dia na caixona verde dividida em cubículos verdes. Cadeiras verdes. Quem escolheu a obsessiva cor? Ah, sim!, Dona Elizabete, que a propósito tem cabelos de um tom puxado para o verde, estranhamente, e vestuário cáqui! Além da pele esverdeada como a dos outros atendentes, nessa vida de cubículo, luz fria, telefone. Por que não trocou ainda a costela de adão plantada no vaso de cerâmica à esquerda da única janela da saleta por uma arácea vermelha, comestível, de escandaloso pistilo agudo? Ou será antera? Ou será clitóVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

ris?... Precisam é de um artista plástico bem hormonal para salvar as paredes nuas, criar uma decoração transgressoramente colorida. Na própria Natureza o verde labuta na produção colorífica, combinando o vermelho e o amarelo e o azul. Ali a cor possível é a chegada da rua, na pele de sol e na roupa imponderada de certos consumidores. O trânsito de pessoas é intenso, o atendimento melhor que o da Saúde Pública _ senão, a quem reclamar do órgão de reclamação? Nesse dia a visitação é de baixa densidade. Um dia monocromático. Enquanto lá, em casa... Não convinha desalojar o seu rapaz na manhã de estudo. Privá-lo da biblioteca que nunca teve e tanto o fascina; entre os romances, os tratados, as enciclopédias, a hemeroteca, a Internet, torna a ser menino, numa fábrica de doces. Às vezes telefona só para dizer isso. Deu-lhe vales-refeições, para que só dependa de Tânia para o jantar, quando então estarão a três. Já escuro é que retorna das aulas da tarde. Manhã de três horas, portanto. Já o telefone está incansável, como sempre, sem trégua, chamada de reclamante e advogado de reclamado. Às três horas da tarde ele põe termo ao sobressaltado dia. Nada se lucra com tal tortura.

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ETERNIDADE Por Roberto Armorizzi ... germinar, renascer ! Bom dia ! Logo ao despertar, o amor inicia ! Boa tarde ! O sol, ao esquentar, brilha ao tempo que arde ! Boa noite ! Vem, o amor, terminar, dor maior que’um açoite ! Madrugada ! É o descanso da alma, já vai amanhecer, germinar, renascer ! Bom dia ! ...
Nota do autor. "Perceba na estrutura formal destes versos, a eternidade do amor."
Imagem by MsCrys 107

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Blue Lovers Marc Chagall, 1914

Cântico 421
Por Rozelene Furtado de Lima Toma-me em teus braços Desfaça meus laços Como se eu fosse desconhecida Desvenda minhas subidas e descidas Desliza como água na minha veludez Traze a inocência da minha primeira vez Não me chames de amor nem de querida Sussurra palavras soltas às escondidas Como sol e lua a eclipsar No infinito azulado faze a nuvem orvalhar Ignora o quanto que partilhamos do caminho Por instantes, apaga tantos anos no mesmo ninho. As marcas amareladas no calendário Dívidas, dúvidas e brigas do diário. Fujamos do tempo como novos amantes Sem ser casal nem par como antes Passado apagado presente levitando Quero uivo de lobos ecoando Ao som de harpas e tambor No preâmbulo da dança do amor Lentamente embriaga-me de tanto querer Só então, como poesia, toma posse do meu ser!

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Primavera/Verão: Estação do Amor
Por Silvio Parise Costumo caminhar por longas horas para sentir de perto a natureza pois, sou apaixonado por sua beleza beldade essa que reflete toda glória. É uma atração que vem desde criança quando costumava em minha casa plantar para depois diariamente observar as mudanças, pouco-a-pouco, no solo fecundo fincar. Por isso, pacientemente fico à espera da primavera chegar porque, ela nos mostra com estética o esplendor dessa criação que gera flores e cores que desabrocham com ternura para suavemente nos perfumar. Abrindo-nos a porta em seguida pro verão, como sempre, chegar para assim, com os seus raios quentes e coloridos nos mostrar o sol atrevido que, frequentemente, gosta de se mostrar. Clareando de dia todo lugar fornecendo as substâncias que precisamos para, nessa perfeição sem enganos a criação poder se deleitar. Daí, ser um verdadeiro apaixonado dessas duas fantásticas estações que nos ajudam a amar, plantar, crescer e viver nesse laço de eternas procriações.

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A Infelicidade
Por Sonia Nogueira Qual a percentagem de pessoas felizes ou infelizes neste planeta terra? Impossível, visto que não há felicidade total, ou infelicidade constante. Entre uma e outra encontramos momentos, ás vezes maior ou menor, de pessoas que carregam estes dois sentimentos. Diz a sabedoria popular, que não existe felicidade total, e sim, apenas momentos felizes e que a infelicidade abrange a maior escala na estatística social e familiar. Quem quer ser feliz? Ora! Ora! Todos, sem exceção. Mas, mesmo sem conhecer a intimidade de todos os lares, conclui que a infelicidade é surpreendentemente grande. Com as pessoas, as quais eu tenho contato direto, ou pessoas mais distante, no trabalho, nos grupos que frequento, nos noticiários, no divã dos analistas, este abstrato ronda diariamente, sem pedir licença, se aloja, enraíza e dá um trabalho extraordinário para sair da cabeça. Sim é a cabeça o alojador de todas as emoções, mesmo que o sistema nervoso seja o condutor desta façanha. A cabeça é a chefe, a administradora, o comandante. Às suas ordens, todas as ações se desencadeiam e todo o resto, corpo, saúde, desespero, angústia se instalam tornando as pessoas infelizes. Os motivos? Há centenas: desemprego e falta de moradia, alimentação deficiente, casamentos fracassados, escolhas erradas, desvio de conduta, filhos problemáticos, doenças... Chiii... Parei. Parece que as pessoas foram feitas para brigar: Briga pai, mãe, filho, amigos, vizinhos, grupos sociais, no clube, futebol, igreja, lazer, crianças, patrão, trabalhador, políticos uai se esmurram, bala daqui dacolá, policiais se matam... Santo Deus! O que falta? Educação familiar, políticas educacionais com profissionais qualificados para ensinar educação, ética, respeito, obediência, disciplina, valores e caráter, dignidade humana e amor. Há, cheguei à cura certa. Falta amor na humanidade. Falta Deus no coração. Compromisso e respeito a si e aos outros, igualdade de direitos e deveres em todas as classes soVaral do Brasil no. 12 — www.varaldobrasil.com

ciais. Sim, temos diferenças: profissões diferentes modos de vida diferente, educação diferente. Cada grupo com um espaço diferente, mas sabemos que ninguém vive sem o outro. O rico não sobreviveria, nem faria fortuna sem a mão do trabalhador e este sem o salário para seu sustento. Nem o corpo sem a cabeça, isto é, a mente, ou alma, raciocínio, intelecto... E as guerras? Que coisa mais milenar, ridícula, medíocre, do que gastar fortunas com homens para mandar matar o irmão, que nem conhece, por terras, petróleo, religião, poder. Gastassem fortunas com educação, moradia alimento, saúde, mente sadia, aí o mundo seria o paraíso prometido a Adão e Eva. Adão é a linhagem de todos os homens rudes e Eva todas as mulheres “fúteis”. Aliás, a humanidade toda se perde mais em futilidades que em benefícios para si próprio. O ódio e a vingança superam o amor e o perdão. A inveja? Quem puxa o tapete do outro certamente cairá junto, ou noutro momento... Quem dá a mão sobe em igualdade, junto ao outro, com certeza. Louvo aos que lutam pela paz mundial e familiar e valores fraternos entre os homens de boa vontade. Amém.

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Porque te amo
Por Varenka de Fátima Araújo

Pulsa meu coração forte sem preconceito Quando de longe sinto o perfume excitante E meus olhos ávidos, vislumbram teu peito Se me amas não censure, favor não me afaste Como poderei viver tão triste sem teu querer E a minha alma sucumbirá sem teus afagos Sei do teu amor, vem com todo frescor e poder Tempo favorece, partilhamos nossos desejos Abraçarei teu corpo na nudez sem culpa Com todo ardor, meu corpo desnudo em gozos Porque na entrega não existe dor desculpa Apenas o sentir dos corpos belos unidos Porque te amo, apenas tu sabes do nosso amor Nada importa, se não existe o nosso amor.

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ZÉ COTÓ
Por Vó Fia A Vila de São João era pequena e parada no tempo; luz não havia, o que resume o desconforto e o pouco lazer porque tudo de bom veio com a eletricidade; daí as pessoas se divertiam umas com as outras, com suas manias, suas pirraças e também com sua espertezas e ocasionais maldades e esperto como o cidadão que vou apresentar agora, só ele mesmo. José do Patrocínio Silva era muito conhecido, mas não por esse sonoro nome de batismo e sim pela alcunha de Zé Cotó, pois o cidadão era isento de um dos braços, mas em troca Deus lhe dera uma enorme alegria de viver e o que mais gostava era contar suas próprias proezas, uma delas ficou famosa e eu conto aqui e agora: ele adorava pescar e certo dia se dirigiu ao Açude Velho para se divertir. Como o sol estava muito quente resolveu se acomodar entre os galhos de uma arvore, bem na beira do açude; subiu aos trancos e barrancos até alcançar um galho que se estendia sobre a água, formando um confortável assento bem protegido pelas ramas, e lá ficou Zé Cotó empoleirado pescando e sonhando; de repente ele se sentiu observado pela traseira, e quando se virou deu de cara com uma cobra. Ela era enorme e verde, a bicha se enrolara pelo rabo no galho, e estava com a boca na altura da cabeça do Zé que pensou em um segundo: eu pulo, mas o açude era sujo, perigoso e a altura era grande, ai ele mudou rapidamente de ideia, deixou cair a vara de pescar e com sua única mão deu um tapa na cobra que perdeu o equilíbrio e caiu na água, enquanto o Cotó lutava para se equilibrar. Seguro pelas pernas e gritando por quanto Santo havia ele deu sorte, pois dois lavradores estavam passando por perto, e se apressaram em socorrer o desastrado pescador; quando se viu em terra firme, contou a seus salvadores o ocorrido, primeiro eles duvidaram e depois aceitaram a potoca do Zé, mas recordaram ao mesmo que aquela cobra verde era
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uma inofensiva cobra d'água , mas ele retrucou: se ocê visse uma baita cobra rente no seu cangote, ia querer saber se era mansa, ou tacava a mão e ia saber depois? E assim encerrou o assunto e também sua carreira de pescador.

Sentindo Leveza - A Pureza nos Poemas Livro de Vanyr Carla

Sentindo Leveza, a pureza nos poemas é um livro composto por poesias desenvolvidas a partir de um grau muito profundo dos meus sentimentos. Eu quero deixar nas próximas folhas, alegrias e virtudes da alma, palavras que eleve o ser e engrandece os nobres sentimentos, entoando total sutileza e claridade nos poemas. Alguns podem ser nostálgicos, mas não buscam a tristeza, porque as melhores lembranças acontecem o tempo todo. É pra sentir leveza no Ser por completo, na Alma e no Corpo! Elevar os pensamentos pra vertentes maiores no Universo... (...) A autora.

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...voa, borboleta!

Por Walnélia Corrêa Pederneiras

última etapa de lagarta... existe uma liberdade intuída, algo mais profundo, quase uma sensação de paz universal pela constatação do Ser impessoal que vivenciou intensamente o pessoal, emocional que questionou, viveu, sofreu, sorriu e que se descobre agora fluido no Real, presente que se descortina a cada instante nuances de leveza, desprendimento ou algo intuído sem expressões verbais... Liberdade um pouco diferente da descrita em dicionário ou modo de vida... sim, é indefinível, indecifrável mas é indelével... sem planos que confundem a interpretação de sonhos, de pensamentos fluidos, preciosos... Ânimo de alma Plenitude! mesmo sem dar um passo.

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Tenho medo, não! Não escondo os atritos tantos aflitos , meus conflitos. não esqueço, meu magnetismo.. Tenho a linha de Oxum, Yorubá! por onde passo,

Iemanjá
by sun

trago beleza e a riqueza prosperidade , bondade . levo Obaluaiê , meu guardião caçador , lutador ..calor

Salve, Iemanjá. Odô iá ! rainha das águas do mar , sereia da magia... oh! glória trouxe velas, flores e presentes, rosas brancas e vermelhas, sidras ,perfumes e pentes prá enfeitar o teu altar... peço a tua proteção, me abraça com devoção, me consola, me conforta... meu inquieto coração... Sou filha de Nanã poderosa .. corajosa, mulher de Oxalá , ao lado de Iemanjá!

no coração levo, o amor! Sou terra, sou água ,me vês? sou filha dos Orixás. se quiseres agradar, Iemanjá, Oxalá! traga um pouco da alegria e do cantar, que está dentro de você!

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Até quinze de novembro receberemos textos para a edição de janeiro, tema livre; Até dez de novembro receberemos textos para a seleção para o livro VARAL ANTOLÓGICO II; Até trinta e um de dezembro receberemos livros em consignação nas condições especiais para a Livraria Varal do Brasil; Até vinte de janeiro receberemos textos para a edição de março, com o tema FAÇA AMOR, NÃO FAÇA A GUERRA! Um passeio atual sobre o lema maior dos anos de PAZ E AMOR!

VENHA VOCÊ TAMBÉM PARA O VARAL! www.varaldobrasil.com www.livrariavaral.com

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