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Krishnamurti.

Brockwood Park
3ª Conversa Pública 2 de setembro de 1978

Conversando sobre a Liberdade

1. Nós temos falado sobre várias coisas que dizem respeito às nossas vidas
diárias. Nós não estamos aqui nos viciando em qualquer forma de teorias,
convicções, ou entretenimento ideológico, especulativo. Nós estamos
profundamente interessados -eu espero- em nossa vida diária e em descobrir
se é de todo possível provocar uma mudança radical nos nossos modos de
viver. Porque nossa vida não é o que deveria ser. Nós estamos confusos,
miseráveis, presos ao sofrimento, lutando, lutando dia após dia até nossa
morte. E isso parece ser nosso destino. Este conflito infinito, não só em nossas
relações pessoais mas também com o mundo que está deteriorando a cada
dia, que fica mais perigoso, mais imprevisível, incerto, onde os políticos e as
nações estão buscando poder.

2.
Eu acho que nós deveríamos conversar juntos esta manhã sobre liberdade:
seja da mulher ou do homem, quando eu usar a palavra 'homem' eu incluo a
mulher, eu espero que vocês do "Women's Lib" não se importem (risos) - pois
parece que, se alguém observa no mundo, e na sua vida diária, que a liberdade
é cada vez menor. Quanto mais restritivos nós vamos ficando, mais limitadas
as nossas ações, mais estreitas nossas perspectivas, ou amargas, cínicas, ou
mesmo, muito esperançosas, e nós nunca parecemos livres de nosso próprio
conflito e miséria diária, completamente livres de todo este fardo da vida.
E eu penso que nós deveríamos discutir juntos esta questão da liberdade.
Claro que nos estados totalitários não há nenhuma liberdade. Aqui no mundo
ocidental e parcialmente no mundo oriental, há um pouco mais de liberdade —
liberdade para mudar de trabalho, liberdade para viajar, dizer o que você gosta,
pensar o que você gosta, expressar o que você gosta, escrever o que você
gosta. Mas até mesmo esta liberdade que alguém tem está ficando mais e mais
mecânica, ela não é mais liberdade.

Assim eu penso que nós devemos, se formos suficientemente sérios, entrar


profundamente nesta questão. Quer dizer, se você estiver disposto.
As Igrejas, as religiões tentaram dominar nosso pensamento: a igreja católica
no passado torturou as pessoas por suas crenças, queimando-as na fogueira,
excomungando-as, e mesmo hoje a excomunhão é uma ameaça a todos
aqueles que são católicos. O que é exatamente a mesma coisa que hoje
acontece nos Estados Totalitários - o controle da sua mente, de seus
pensamentos, de seu comportamento, das suas ações. Eles estão muito
interessados no controle da mente, controle do pensamento, e qualquer um
que saia fora do padrão, discorda disto, é banido, ou torturado, ou enviado para
sanatórios e assim por diante. O que o mundo católico fez no passado, agora
estão fazendo nos assim chamados Estados político-econômicos. Assim a
liberdade é algo que nós temos que descobrir , quer dizer, se é possível
sermos livres, não só superficialmente, mas profundamente, psicologicamente,
dentro da pele, e também se expressar correta, verdadeiramente, com
precisão. Então talvez nós possamos compreender o que a liberdade é .

3.

É a liberdade o oposto de escravidão? Liberdade é o oposto de prisão, de


escravidão, de repressão? É liberdade fazer tudo o que você gosta?
Por favor, como nós dissemos outro dia, nós temos conversado sobre isso
juntos, eu espero que o orador só esteja expressando verbalmente o que todos
nós estamos a questionar, então você não está escutando o orador mas está
escutando as suas próprias questões, então o orador não está aqui.
Liberdade é o oposto de "não-liberdade? E assim há algum oposto?
Você compreende? Quer dizer, se nós fugimos do mal em direção do bem e
pensamos que isso é liberdade, o bem sendo a liberdade — se nós aceitamos
o bem, o qual vamos abordar agora , o que é o bem?, e o mal? — é o bem (a
bondade) o oposto daquilo que não é bom, do que é mau, do que é ruim? Se
há opostos então há um conflito. Se eu não sou bom, eu tentarei ser bom. Eu
farei todo esforço para ser bom, se eu estiver um pouco consciente, um pouco
são, não muito neurótico. Assim nós estamos perguntando: é a liberdade o
oposto de alguma coisa? Ou, se a liberdade tem um oposto, então isto é
liberdade? Por favor investiguemos juntos este assunto. Quer dizer, qualquer
oposto, o bem e o mal, o extremo oposto do mal tem em si o seu oposto que é
o bem, o bem tem em si as raízes do mal. Compreenda isto por favor.
Consideremos juntos.

4
Porque enquanto nós vivermos em opostos, ciúme e não-ciúme, o bem e o
mal, o ignorante e o iluminado, haverá este conflito constante da dualidade.
Claro que há dualidade, homem, mulher, luz e sombra, luz e escuridão, dia e
noite e assim por diante, mas psicologicamente, interiormente, nós estamos
perguntando se há qualquer oposto? É a bondade o resultado do que é ruim?
Se for o resultado do que é ruim, mal "evil" — Eu não gosto de usar a palavra
'evil' porque infelizmente ela é deturpada, assim como qualquer palavra na
língua Inglesa - se a bondade é o oposto do mau então aquela mesma
bondade é o resultado do mau, então não é bondade nenhuma. Certo?
Nós podemos ver isto por nós mesmos? Não como uma idéia, como uma
conclusão, como algo que alguém sugeriu a você, mas de fato nós podemos
ver que qualquer coisa nascida de seu oposto tem que contê-lo em si mesma?
Então, se isso é assim, só há “o que é”, o que não tem oposto. Certo?
Alguém está me acompanhando? Nós estamos juntos?

Assim, enquanto nós temos um oposto, não pode haver liberdade.


Bondade não tem nenhuma relação com o que é mau, com o que é ruim.
Enquanto somos violentos, procurar o oposto que é a "não-violência" ,cria um
conflito, e a “não-violência” só existe na ausência de violência. O ideal de
não-violência é o resultado de ser agressivo, bélico, raivoso e assim por diante.
Assim só há violência, não o seu oposto, então nós só podemos lidar com a
violência. Enquanto nós temos um oposto, então nós estamos tentando
alcançar o oposto. Eu desejo saber se você pode ver isto.
Assim é a liberdade o oposto da “não-liberdade”?
Ou liberdade não tem nada a ver com seus opostos?
Por favor nós temos que entender isto muito cuidadosamente porque nós agora
vamos em direção do amor: é o amor o oposto do ódio? O oposto do ciúme?
O oposto do prazer? Pois enquanto nós vivermos neste hábito de oposições,
Só há o conflito, ou seja - Eu devo, eu não devo, Eu sou, eu deveria ser, eu fui
e no futuro não serei — tudo isto é a atividade, o movimento dos opostos.
Podemos continuar ?

5.

Assim nós estamos nos perguntando: liberdade é totalmente independente do


que nós chamamos não-liberdade? Se for assim então como esta liberdade
pode ser vivida, compreendida e exercida, de que ações ela provém? Nós
sempre atuamos a partir dos opostos, certo? - eu estou na prisão e preciso
estar livre disso. Preciso sair. Eu sou escravo de um hábito, tanto psicológica
como fisicamente, e eu quero estar livre disto para me tornar qualquer outra
coisa. Certo? Assim nós ficamos aprisionados no hábito desta corrente infinita
de opostos e nunca há um fim do conflito, da luta, de ser isto e não isso.
Eu penso que está bastante claro. Nós podemos ir adiante?
Você não está me escutando, você está descobrindo isto para você mesmo.
Se assim for, tem significação, significado e pode ser vivido no dia-a-dia, mas
se você está só aceitando uma idéia de outro, do orador, então você está
somente vivendo no mundo das idéias, então os opostos permanecem.
A palavra 'idéia' — a raiz etimológica dela, do Grego e assim por diante, é
observar. Veja o que nós fizemos com esta palavra! Só observar, e não
concluir, ou fazer uma abstração do que você observou através de uma idéia.
Assim nós estamos aprisionados em idéias e nunca observamos.
Se nós observamos algo nós logo fazemos uma abstração disto em uma idéia.

Assim nós estamos dizendo: liberdade não está relacionada com escravidão,
seja à escravidão do hábito, físico ou psicológico, à escravidão do apego e
assim por diante. Assim há só liberdade, não seu oposto. Se nós entendemos a
verdade disto então nós só lidaremos com o 'que é', e não com 'o que deve ser'
que é seu oposto. Eu estou nisto. Nós estamos juntos? Certo? Nós podemos ir
adiante?

Assim, é muito claro que só há o fato, o 'que é' e não há nenhum oposto para
'o que é'. Se você compreende isto fundamentalmente, a verdade disso, você
está lidando com fatos, não emocionalmente, não sentimentalmente, então
você pode fazer algo a respeito. O próprio fato pode fazer algo. Mas enquanto
nós ficamos longe do fato, o fato e o seu oposto continuarão. Assim nós
estamos perguntando agora se isso está claro, não porque alguém disse
assim, mas porque você fundamentalmente descobriu isto por você, é seu,
não meu, então nós podemos prosseguir e investigar a totalidade desta
questão muito complexa que é o amor?

6.
Se nós somos sentimentais, românticos e imaginativos ou "Rafaélicos" ou
"Vitorianos", então nós nem mesmo colocaremos tal questão. Mas se nós
apartássemos todo o sentimento, toda a resposta emocional para com esta
palavra (*o amor), não trazendo nenhuma conclusão a seu respeito, então nós
podemos prosseguir sãos, sadiamente, racionalmente, abordando esta questão
do que é o amor. Você compreende? Então, em primeiro lugar, nós estamos
chegando a esta questão sem motivo, sem sentimentalismo, sem preconceito?
Porque a abordagem é muito importante, mais do que o seu objeto — certo?
Nós estamos juntos? Eu estou fazendo-os dormir?

Assim nós sabemos como abordar esta questão? Nós estamos atentos à nossa
abordagem à ela? Nós dizemos, "Sim, eu sei o que é o amor" e então você
deixou de investigar. Assim, como dizíamos, a abordagem do problema é mais
importante que o próprio problema. Não faça disso um slogan! Ou um clichê,
porque então você perdeu isto. Assim nós temos clareza de como abordar esta
questão? Se a aproximação for correta, precisa, no sentido de não existir
nenhuma conclusão pessoal, ou opinião, ou experiência passada, então você
está chegando a isto pela primeira vez, então você está chegando nisto com
um questionamento profundo.

Assim nós estamos dizendo: o que é o amor? Teólogos escreveram livros


sobre isto. Sacerdotes ao redor do mundo deram uma interpretação a isto.
Todo homem e mulher ao redor do mundo dão um significado diferente a isto.
Se eles forem sensuais, eles darão aquele significado, e assim por diante. Se
estamos atentos a como nós nos aproximamos da pergunta, abertamente,
livremente, sem qualquer motivo, abre-se então o portal da percepção do que
"isso é" — certo? Nós fechamos a porta da percepção se viermos até isto com
uma opinião, com uma conclusão, com nossas próprias insignificantes
experiências pessoais. Nós fechamos a porta e não há nada que você possa
fazer, você não pode mais investigar, mas se chega abertamente, livremente,
movido por descobrir, então a porta se abre e você pode olhar diretamente —
certo? Por favor, nós estamos fazendo isto juntos? Porque eu penso que isto
pode resolver todos os problemas humanos. O da aproximação e do que é o
amor. No mundo mecanicista isto não existe. Para as pessoas totalitárias, tal
palavra é provavelmente uma abominação — eles conhecem somente "o amor"
ao país, o amor ao Estado. Ou se você é um Cristão você tem o amor de deus
ou o amor de Jesus, ou o amor de alguém. Na Índia é o amor do seu guru
particular, da deidade particular, e assim por diante. Assim nós estamos
perguntando, deixando tudo aquilo de lado, não ignorando, mas vendo o que
tudo isto tem criado, o que as religiões fizeram com aquela palavra e talvez
com o sentimento atrás daquela palavra, estando atentos nós podemos entrar
nisto — certo?

O que não significa que nós só temos de olhar ao que os outros fizeram à essa
palavra, como eles impuseram certas conclusões em nossas mentes ao longo
dos tempos, mas também quais são nossas próprias inclinações, estando
conscientes de tudo isso, tentemos abordá-lo.
O que é o amor? É prazer? Vamos senhores, investiguem, cavem em vocês
mesmos e descubram. É prazer? Para a maioria de nós é prazer sexual, que é
chamado amor, prazer sensorial. E parece que isto domina o mundo. Domina o
mundo porque provavelmente em nossas próprias vidas nos domina. Assim
nós temos identificado o amor com aquela coisa chamada prazer, mas é o
amor prazer? O que não quer dizer que o amor não é nenhum prazer.
Investiguemos isto, pode ser algo completamente diferente. Primeiro nós temos
que investigar isto, certo? É o amor desejo? É o amor memória? Por favor.
É o amor a experiência lembrada com prazer, a demanda do pensamento
lembrada com desejo, com sua imagem e a perseguição desta?. Isto é o amor?
Tudo bem senhores?

7.

E estar preso a uma pessoa, ou a um país, a uma ideologia, é isto amor?


Apego, dependência? Por favor olhe em você mesmo, não me escute,
não importa que me escute. O que é significante, o que vale a pena é que você
se escute quando estas perguntas estão sendo feitas, você tem que responder
a isto por você mesmo porque é a sua vida diária. E se o apego é amor, o que
isto implica? Você entende minha pergunta? Se nós dizemos que amor é
prazer, nós temos que ver todas as conseqüências e as implicações desta
afirmação. Então nós dependemos completamente da excitação sensorial,
sexual, que é chamada de amor. E junto com isto vem todo o sofrimento, a
ansiedade, o desejo de possuir, e aquele desejo possessivo, o apego.
E aonde você está apegado, há medo, medo de perda.
E disso surge ciúme, ansiedade, raiva, ódio progressivo ...
— concorda?

E também temos que ver quais as conseqüências se o amor não for nenhum
prazer. Então aquilo que é o amor não é ciúme, nem apego, nem memórias,
perseguição de prazer por imaginação e desejo e assim por diante?
É o amor o oposto de tudo isso então? Você está acompanhando?
Eu estou perdido?

Nós perguntamos se o amor é o oposto de prazer, de apego, do ciúme.


Se o amor é o oposto, então esse amor contém ciúme, apego e todo o resto
disto. Portanto o amor, enquanto percebendo todas as implicações do apego,
da perseguição do desejo, do girar contínuo de recordações, de que eu amei,
de que eu não sou amado, de que me lembro daquele particular prazer sexual
ou daquele incidente que proporcionou especial deite—assim a perseguição
disso é o oposto do que é chamado amor, é então o amor o oposto do ódio?
Você compreende? Ou o amor não tem nenhum oposto?
Você está acompanhando isso?

Assim nós estamos descobrindo juntos — por favor venham e vocês verão
algo extraordinário emergir disto. Eu não sei o que está saindo disto, mas eu
posso sentir algo extraordinário emergindo disto. Se vocês escutam de fato.
E as religiões criaram o amor de deus, amor de Jesus, amor de Krishna, amor
de Buddha — você segue? Totalmente sem conexão com a vida diária.
E nós nos ocupamos com a compreensão e em achar a verdade em nossa vida
diária, à totalidade disto, não só sexo, poder ou posição, ou ciúme, ou algum
complexo idiota que temos, mas a estrutura total da natureza desta vida
extraordinária que nós vivemos.

Assim, como nós dissemos, o oposto não é amor. Se nós entendemos isto,
pela negação do que não é, que não significa negar no sentido de repelir isto,
de resistir a isto, controlar isto, mas entender toda a natureza e a estrutura e as
implicações do desejo, do prazer, das memórias, fora disto surge o senso de
inteligência que é a mesma essência do amor — certo? Nós estamos juntos
senhores?

Ele disse que é impossível. “Eu sou jovem e cheio de vida e estou repleto de
sexo, e eu quero me entregar a isso. Você pode chamar isto do que quiser,
mas é isto que eu quero”. Até que eu pegue alguma doença ou meu homem ou
a minha mulher fujam com outro, então recomeçando todo o círculo
— ciúmes, ansiedade, medo, ódio e assim por diante.
Assim o que a pessoa pode fazer quando é jovem, cheia de vida, com todas as
glândulas muito ativas, o que a pessoa pode fazer? Não olhem para mim!
(Risada) Olhem para vocês. Quer dizer, por favor ouçam a si mesmos
—vocês não podem depender de outro para descobrir a resposta.
Vocês tem que ser uma luz para si mesmos. Vocês tem que ser uma luz para
vocês entendendo o desejo, a memória do prazer, todo o apego a isso -
compreender isto, viver isto, descobrir isto. Descubra como o pensamento
procura eternamente por prazer. Se você entende isso com profundidade,
totalidade e clareza, então você não estará preso a um estado de perpétuo
controle, culpa e arrependimento—vocês seguem? Tudo aquilo pelo que a
pessoa passa quando é jovem, se é sensível. Se você simplesmente é
insensível ao prazer, bem, então isso é uma outra questão...

8.

Assim amor não é o oposto do ódio, do desejo, do prazer. Assim amor é algo
completamente diferente de tudo aquilo, porque o amor não tem nenhum
oposto. Se você realmente entende isto, mergulha nisto, não captura meu
entusiasmo, minha vitalidade, meu interesse, minha intensidade, então você
descobre o que é muito mais inclusivo, que é a compaixão. A palavra é paixão
pelo todo — pela rocha, pelos animais errantes, pelos pássaros, pelas árvores,
pela natureza, pelos seres humanos. Como aquela compaixão se manifesta?
— quando existe tal compaixão de fato, não teoricamente, cessa tudo aquilo
sem sentido — quando há aquele estado de compaixão de fato, toda a ação é
fruto da inteligência. Porque você não pode ter amor se você não entendeu o
movimento inteiro do pensamento. A pessoa não pode captar a beleza
completa, a significação e a profundidade daquela palavra sem entender
completamente a questão do apego, não intelectualmente, mas de fato, se
você é livre do apego — seja do homem, da mulher, da casa, do tapete
especial ou de algo particular que possui—certo?

Assim, acima da investigação e consciência e de toda a significação disso, está


a inteligência, não nascida de livros ou de pensamentos astutos ou de
discussões e expressões espertas e tudo mais disso; mas da compreensão do
que o amor não é, e do abandono de tudo isto. Não diga, "Bem eu descobrirei
isto gradualmente quando estiver morto e enterrado, ou um pouco antes"—
mas AGORA, HOJE, descobrir aqui, enquanto você está sentado, escutando,
estar completamente livre de todo o apego — de sua esposa, de seu marido,
de sua namorada— apego—você entende? Você pode? Não resista a isso, não
jogue isso fora, não diga vou lutar por isto, vou fazer meu testamento para
encontrar isto e assim por diante. O testamento faz parte do desejo.

Então você pode deixar de lado o apego, a dependência, e assim mesmo não
se tornar irônico, amargo, isolado e teimoso?
Porque você entendeu isto, o que o anexo significa e nesta compreensão total
isto cai fora, fica de fora porque você é inteligente, há inteligência. Esta
nteligência que não é sua ou minha, é inteligência.

Assim então a ação da compaixão só pode vir por meio da inteligência.


Se não, é
Como certas pessoas que amam os animais, protegem os animais, mas
vestem a sua pele - certo? Você viu tudo isso, não viu?

9.
Se nós entendemos isto em toda profundidade, então nós podemos prosseguir
investigando este problema do medo da morte —certo? Você quer entrar nisto?
Por favor, não diga casualmente, "Sim, façamos por diversão". Porque a
maioria de nós jovens ou velhos, doentes, ou mancos, ou cegos ou surdos ou
ignorantes, pobres, nós tememos a morte. Faz parte de nossa tradição, faz
parte de nossa cultura, parte de nossa vida diária evitar esta coisa chamada
morte. Nós lemos em toda parte isto. Nós vimos as pessoas morrerem, você
derramou lágrimas sobre elas e sentiu este imenso sentimento de isolamento,
solidão, e o medo de tudo aquilo. E disso fica uma grande tristeza, aflição, não
só a tristeza humana de dois seres,mas também há esta grande tristeza, a
tristeza global, a tristeza do mundo. Eu não sei se você está atento a isso.
Nós tivemos recentemente duas guerras mundiais— isso criou imensa tristeza
para a espécie humana,não? Pense quantas mulheres, crianças, pessoas,
choraram e derramaram lágrimas — não suas lágrimas ou minhas, mas
lágrimas da humanidade. Assim há uma tristeza global, a tristeza do mundo e
um ser humano particular com a sua tristeza.

Vocês estão sendo hipnotizados por mim? Eu pergunto isto todo o tempo
porque vocês estão muito calados eeu espero que este silêncio indique
quietude do físico e quietude do pensamento, indique que vocês realmente
estão interessados profundamente, enquanto investigando profundamente,
colocando todo seu coração e sua mente e tudo que vocês têm nesta
compreensão "do que é".

Assim antes de nós entrarmos na questão da morte, nós precisamos entender


a natureza da dor: por que nós derramamos lágrimas, por que nós
racionalizamos a tristeza, por que nós nos agarramos a isto. No mundo cristão
a tristeza é posta na cruz, termina com isto. Você idealizou isto ou depositou
seu sofrimento sobre uma pessoa e aquela pessoa vai o resgatá-lo da tristeza.
Você conhece tudo isso, não conhece? Assim alguém nunca entra na
totalidade desta questão da tristeza. No mundo Asiático a tristeza é explicada
por diversas teorias, muito inteligentes, muito astutas - há grandes
possibilidades nas suas teorias, mas ainda na Ásia, incluindo a India, há tanto
sofrimento. Assim nós estamos perguntando se o homem já pode ser livre
disto? Porque nós estamos perguntando esta questão para descobrir seu lugar
certo—o lugar certo do sexo, do dinheiro, da segurança física, do
conhecimento tecnológico e assim por diante. Tudo isto têm o seu lugar. Uma
vez você colocando-os em seu devido lugar, a liberdade surge.

10.
Assim a tristeza: a palavra tristeza, nela a paixão está envolvida. Paixão, não
luxúria, mas aquela qualidade da mente quando a tristeza é totalmente
entendida ,enquanto vê a significação inteira disto, então fora disso vem a
paixão. Não crie imagens — Não me refiro aquele tipo de paixão romântica —
mas àquela qualidade de energia que não depende de qualquer coisa.
Ambiente,comida e assim por diante, é aquela qualidade de energia que pode
ser chamada paixão. Ela surge da compreensão deste fardo que o homem
carrega por milênios. Por que nós sofremos, psicologicamente? Você pode ter
dor física, dano, doença, paralisia e é possível —por favor ouçam—é possível
colocar a dor física em seu devido lugar, não permitindo que interfira com o
estado psicológico da mente?—você entende o que eu estou dizendo?

A pessoa tem freqüentemente dor física em diferentes formas. E alguém pode


ter uma doença grave, ou paralisia, ou outromal e assim por diante, mas não
permitir que tudo aquilo venha interferir com a liberdade, com o frescor da
mente?. Isso requer grande consciência, atenção para ver que a dor física não
é para ser psicologicamente registrada - compreende? Nós estamos juntos?
Você foi a um dentista, não foi?,eu fui, todos nós fomos, e há uma dor
considerável que chega já antes da hora, e não precisa ser registrada. Mas se
você registrar isto, então você tem medo de ir lá novamente. Considerando que
se você não registra a dor, - você segue? uma qualidade diferente da mente
entra em ação. Nós já vimos muito clara e cuidadosamente esta questão de
registrar na memória, então não abordaremos isto agora.

Assim nós vivemos em tristeza e talvez isso esteja se ampliando. Pelo divórcio,
as pessoas divorciam-se e seus filhos passam por um tempo terrível, as
crianças sofrem, tornam-se neuróticas. Tudo aquilo entra nas crianças;
Uns almoçam com sua esposa atual e por razões sexuais e outras várias,eles
perseguem outra mulher, ou homem — vocês acompanham isso, isto está
acontecendo. E há tremendo sofrimento no mundo, as pessoas que estão na
prisão, na pobreza que existe na Índia e na Ásia, pobreza incrível. E a tristeza
no mundo daqueles que vivem em Estados Totalitários. Eu estava falando outro
dia com uma pessoa, nós nos encontramos na Suiça e eu lhe fiz uma pergunta,
como você tolera tudo isso? Ele disse, " Nós nos acostumamos com isto ".
Você vê quais são as implicações? Nós nos acostumamos à opressão,
repressão, medo, sempre espionando o que nós estamos dizendo, que nós nos
acostumamos a isto. Como nos acostumamos a nosso particular e pequeno
meio -entendem o que estou dizendo?

Assim é possível ser totalmente livre da tristeza? Se a mente, se o cérebro é


capaz de não se viciar em sua própria miséria, em sua própria solidão, em suas
ansiedades, cargas, lutas e medo e tudo aquilo, então não há nenhum centro
do qual você atua. O centro que é o 'eu' com todas as coisas que são incluídas
nisso, contanto que isso exista deve haver tristeza. Assim o fim de tristeza é o
fim de 'eu', do ego. O que não significa insensibilidade ou indiferença, pelo
contrário.

11.

Assim nós sabemos o que a tristeza é e nunca fugimos disto, simplesmente


viva com isto, capture isto, entenda, vá até isto no momento, não alguns dias
depois que você passou por todos os tipos de luta, simplesmente não se afaste
do fato. Então não há nenhum conflito sobre isto. E fora disso surge um tipo
totalmente diferente de energia que é a paixão.

Então agora nós podemos entrar na pergunta do que é morte.


Tudo isso é necessário para descobrir o que é meditação, você entende?
Estar livre de lesões, feridas psicológicas, estar livre do medo, entender o
movimento inteiro do prazer, a natureza e a estrutura do pensamento, e o
pensamento criou a divisão, o 'eu' e as coisas que ele observa que são
denominadas"não-eu" — todas as divisões. Então ao entender tudo isso e pôr
abaixo sua fundação, a pessoa pode meditar realmente, caso contrário você
vive em ilusões, alguma espécie de fantástico sonho diurno. Ou você vai para o
Japão, ou Birmânia, eu não sei se você pode ir hoje em dia para a Birmânia, ao
Japão e aprende meditação Zen. É toda a tal tolice. Porque a menos que você
coloque sua casa em ordem, a casa que está queimando, que é isso que está
sendo destruído, a menos que você coloque sua casa em ordem, sentar
debaixo de uma árvore em uma posição de Lótus de pernas cruzadas, ou
qualquer posição que você faça, é totalmente sem sentido. Você pode se iludir,
você pode ter ilusões em abundância. De forma que é importante entender e
estar livre da ansiedade, medo, apego, e se for possível, achar o fim da
tristeza.

Então nós já podemos entrar na questão da morte. Eu desejo saber por que
todos nós temos tanto medo disto. Você já se perguntou: o que significa o fim
de qualquer coisa? O que significa o fim do apego? Terminar isto. Diga neste
momento, enquanto sentado aí, enquanto se observando muito
cuidadosamente percebendo que você é preso a uma pessoa, a algo ou a
outro, a idéias, a sua experiência e assim por diante. Terminar este apego
agora sem argumento, sem etc. etc. Só terminar com isto. Então o que
acontece? Você entende minha pergunta? Eu estou preso a esta casa, atrás de
mim — (Espero que não) E percebendo que eu sou apegado, não teoricamente
ou em abstração, mas de fato, o sentimento, possuindo aquilo, sendo algo lá
naquilo, toda aquela tolice. Observar, estar atento deste apego e terminar isto
instantaneamente. O fim é tremendamente importante. O fim de um hábito,
fumar ou qualquer outro hábito que alguém tem, terminar isto. Assim a pessoa
tem que perceber o que significa terminar algo sem esforço, sem vontade, sem
perguntar, "Se eu termino isto o que ganho em troca "? — então que você está
no mercado. Na feira você diz: "eu lhe darei isto, me dê aquilo" o que muitos
de nós fazemos consciente ou inconscientemente. Isso não é terminar.
Terminar e descobrir o que acontece.

Assim, do mesma maneira, é a morte. Por favor fique com isto por um minuto,
não diga, "Há vida após a morte? Você acredita em reencarnação"? — como
eu disse, eu não acredito em nada. Ponto final. Incluindo reencarnação. Mas eu
quero descobrir, a pessoa precisa descobrir o que significa morrer. Deve ser
um estado extraordinário. Que é livre do conhecido — entende? Eu conheço a
minha vida, a sua vida. Você sabe da sua vida, se você foi nisto, observou isto,
cuidadosamente ,observou todas as reações e seu comportamento, sua falta
de sensibilidade, ou sendo sensível, sua fuga para a insensibilidade e assim
por diante. Você sabe muito bem da sua vida, se você observou isto. E tudo
aquilo vai terminar — certo? Seu apego vai terminar quando você morre. Você
não pode levar isto com você, mas você gosta de manter isto até o último
momento. Certo? Assim você pode terminar com seu hábito, sem discutir,
racionalizar, lutar com isto, você sabe, acabar, terminar? Então o que
acontece? Você só descobrirá se você não exercitar a vontade — certo? "eu
me renderei"— qualquer que seja seu hábito particular. Então você está
lutando com isto, você está lutando contra isto, você está fugindo disto,
suprimindo isto e todo o resto, e isto continua. Mas se você diz, " Sim, eu
terminei isto, não importa, eu terminei isto" — veja o que acontece.

Da mesma maneira a morte insinua o fim. O fim de tudo que alguém


"colecionou" durante esta vida, a mobília, o nome, a aparência, as suas
experiências, suas opiniões, seus julgamentos, seus ciúmes, seus deuses, sua
adoração, suas orações, seus rituais, tudo se acaba,,. O cérebro que tem
carregado recordações milenares, tradições e pensamentos, sem oxigênio
abandona-os. Isso é o 'eu' que colecionou tanto, o 'eu' é a coleção de tudo isto
— certo? Isso é claro. O 'eu' é o meu medo, o 'eu' é meu apego, minha raiva,
meu ciúme, meus medos, prazer, meu apego, minha amargura, minha
agressividade — isto é o "eu". E o 'eu' vai se acabar. O 'eu' é projetado pelo
pensamento, que é o resultado do conhecimento, o conhecimento de meus
cinqüenta, sessenta, ou trinta ou vinte ou oitenta ou cem anos, é o fator, o
conhecimento, o conhecido. O fim do conhecido, que é a liberdade do
conhecido, é a morte , não é?

E assim a pessoa tem que descobrir se a mente pode estar livre do conhecido.
Não daqui trinta anos, mas agora. O fim do conhecido que é o 'eu', o mundo
em que vivo, tudo aquilo. O 'eu' é recordação,por favor escute isso, o 'eu' é
memória, experiência, o conhecimento que acumulei por quarenta, sessenta,
trinta, vinte, ou cem anos, o 'eu' que lutou, o 'eu' que está preso a esta casa, a
esta mulher, a esta terra, a esta criança, a esta mobília, a este tapete, o 'eu'
que é a experiência que juntei por vários anos, o conhecimento, a dor, as
ansiedades, os medos, os ciúmes, as feridas, as convicções como cristão, tudo
aquilo é o 'eu'. E o 'eu' é só um monte de palavras — não é?
muitas recordações.

Assim eu posso estar livre do passado, terminar o conhecido agora, não


quando morte vem e diz, "Caia fora menino velho, chegou a sua hora". Mas
agora. Entretanto nós nos agarramos ao passado (conhecido) porque nós não
conhecemos qualquer outra coisa. Nós nos agarramos desesperadamente às
nossas tristezas, nós nos agarramos a esta nossa vida, vida que é dor,
ansiedade — vocês sabem tudo isto, esse é nosso diário miserável. E se a
mente não se agarra mais a isto então aí está o fim de tudo aquilo. Mas
infelizmente nós nunca terminamos. Nós sempre dizemos, "Sim, correto, eu
terminarei isto, mas o que vai acontecer”Assim nós queremos conforto no final
— compreendem senhores? Assim vem alguém e diz, "Velho menino, creia
nisto, isto lhe dará muito conforto". Todos os sacerdotes ao longo do mundo
vêm e batem levemente no seu ombro e seguram a sua mão quando você
estiver chorando, eles lhe dão conforto, o amor de Jesus, ele o salvará, fará
isto e fará aquilo. Você entende? Nós estamos falando de um fim no qual não
há nenhum tempo, no fim do tempo que é morte— você entende?

Assim o que acontece quando há o fim do'eu', do conhecido, e quando há


liberdade do passado? Isso já é possível? Só é possível quando a mente
entendeu e pôs tudo em seu lugar certo, não há nenhum conflito. Quando há
liberdade do conhecido, o que está lá? Você entende minha pergunta? Você
faz aquela pergunta? Eu terminarei meu apego por esta casa, por aquela
mulher, ou por aquele menino ou àquela menina, eu terminarei isto, então o
que resta? Você não pergunta isso? Se você pergunta isto, 'ENTÃO O QUE?',
então você abordou a questão inadequadamente. Você nunca fará aquela
pergunta, 'então o que'. A própria pergunta, “então o que” insinua que você
realmente não acabou, terminou algo de fato. É a mente preguiçosa que diz,
'então o que?'. Escale a montanha e você descobrirá o que está do outro lado.
Mas a maioria de nós senta em suas cadeiras confortáveis, e escuta a
descrição e está satisfeito com a descrição. FIM!. Certo?.

Jiddu Krishnamurti - Brockwood Park 3ª Conversa Pública


2 de setembro de 1978
Tradução gmd (giba)

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