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alix andrÉ

a mulher de duas caras


obras da mesma autora:

a inimiga

o homem que adorava as solidÕes

por ordem do prÍncipe

a intrusa

um casamento sem importÂncia

sua alteza meu marido

um drama na vida de um mÉdico

ele gostava de outra

o segredo da floresta

o escudeiro da rainha
alix andrÉ
laureada da academia francesa

a mulher
de

duas caras
romance

romano torres
título do original francês:

celle qu’on l’atend pÁs


traduÇÃo de

leyguarda ferreira

os direitos de tradução em língua portuguesa (portugal e brasil) pertencem a joÃo romano


torres & c.”
ediÇÃo da livraria romano torres joÃo romano torres & c. - casa fundada em 1885 rua alexandre herculano,
7o a 76 - lisboa - 1962

comp. e imp. na tip. h. torres de s. bento, 279-1.”- lisboa


digitalização e arranjo:

fátima chaves

esta obra destina-se ao uso exclusivo


de portadores de deficiência visual
ulltimas páginas do jornal de brígida de monclar

serei eu uma vil criatura? não, não sou. perante deus que me vê e conhece os meus mais
íntimos pensamentos, não creio dever considerar a minha resolução como um facto
lamentável, mas como uma vitória. aconteça o que acontecer - e não me parece que na
minha vida possa surgir coisa pior do que essa própria vida
- aconteça o que acontecer, repito, não o lamentarei.

quando a tábua de salvação passa ao alcance do náufrago prestes a afogar-se, ele poderia
ser considerado como louco se não a agarrasse com ânsia, com a pertinaz obstinação, com o
ardor de quem quer viver!

a corrente arrasta-me. a minha coragem esgotou-se. o destino colocou-me ao alcance da


mão o ”inesperado” e a minha ânsia de viver despertou, agarrei-me a ele com todas as
minhas forças. meu deus, se procedi mal, castiga-me!

brígida de monclar morreu. sorrio ao escrever


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estas palavras, porque não sou supersticiosa. esta tarde, debrucei-me sem temor
sobre a minha campa, onde também ficaram enterradas tantas horas tristes, de
angústia e desespero.

basta-me percorrer este caderno para encontrar de novo essas horas sombrias. são
como borboletas negras, dissecadas, apertadas entre duas páginas de um livro, nas
quais se procuram em vão sinais de vida, a sombra de um reflexo ou a mais leve
beleza. estão todas aqui!

a morte inesperada de meu pai, que, aos dez anos, me atirou para a vida sem
dinheiro e quase sem apoio, é a primeira dessas borboletas sinistras. quando a minha
mão trémula a colocou entre estas páginas brancas, mal supunha eu que, com ela,
começava a história da minha vida. pobre criança que não encontrara outro
confidente para a sua solidão!

volto as páginas. como são numerosas as borboletas que depois vieram! todos os
dias, quase todas as horas foram passadas junto da velha parenta que me acolheu.
deus sabe porquê, mas, em todo o caso, não por bondade, com certeza. nesta
colecção abundante e triste, não sei, na verdade, qual das borboletas é mais feia,
mais repulsiva!

os serões passados em frente do fogão mal aceso, no obsidiante silêncio, apenas


quebrado pelo tiquetaque do relógio, coberto com uma redoma; os domingos,
exasperadamente compridos, entre minha tia e as velhotas que iam visitá-la, com um
saco de missanga apertado nas mãos, os passeios em dias certos, horas certas e
itinerário certo, sempre pelas mesmas ruas da pequena cidade provinciana, sombria
e sem
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graça, borboletas negras tudo isso, borboletas disformes, de asas pendidas.

como não morri, sufocada por esse enxame? quando penso nisso, fico admirada.
existia em mim, com certeza, extraordinário vigor moral e físico, porque nem sequer
desesperei.

a morte de minha tia, neste diário da minha vida, não pode ser considerada como
borboleta mais feia do que as outras. não me envergonho de escrever ”pelo
contrário”. além disso, na altura da sua morte, eu pensava em sair de casa para
ganhar a minha vida!

nada me deixou. a casa e o pouco que possuía ficou para a criada. com a sua descida
ao túmulo, cerraram-se para mim as portas das casas das velhotas que a visitavam.
”a filha do desgraçado monclar não era-segundo a opinião da minha falecida parenta
- tão pouco ajuizada como o pai, que passou a vida a pintar quadros que não se
vendiam?...” mas essa indiferença não me afligiu.

graças a deus, a pequena cidade onde tinha vivido oito anos oferecia alguns
recursos, no campo instrutivo. alcançara os meus diplomas e tinha começado a
estudar para me formar em inglês quando, de repente, me encontrei entregue aos
meus próprios recursos e obrigada a ganhar a vida.

linda borboleta azul da liberdade, onde estás tu escondida? procuro-a... ei-la.


infelizmente, escureceu tanto com a vizinhança das suas negras irmãs que mal
reconheço as asas de safira, salpicadas de oiro.

mais borboletas. são escuras como cada uma das experiências que tentei, como as
casas onde entrei, cheia de boa vontade, de esperança e de

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confiança. porque consideram um crime, que nos fazem pagar caro, o facto de sermos
bonitas e termos vinte anos?

recordo toda a tristeza da minha vida de preceptora de raparigas ricas e nunca a


recomeçarei. que recordações! quantas borboletas horríveis e repugnantes!

as minhas alunas, todas mais novas do que eu ou da minha idade, mostraram-se afectuosas
comigo e bem educadas. mas a família... para que existia ela?

aquele pai cujo olhar me causava terrível mal-estar... aquele irmão que, no dia em que me
levou ao campo para ir ter com a minha aluna, simulou uma avaria no carro no ponto mais
deserto do caminho e se portou por tal forma que fui obrigada a refugiar-me numa
herdade?... e o outro, mais novito, cuja mãe me acusou de lhe perturbar o espírito, por ter
encontrado no seu dicionário de grego algumas poesias que me dedicou e nunca chegou a
mandar-me? e aquele noivo que, mesmo na presença da minha aluna, sua noiva, que muito
gostava dele, tinha a audácia de esconder debaixo do meu guardanapo bilhetinhos amorosos
que a custo eu conseguia ocultar.

um dia, infelizmente, deixei cair um desses bilhetes e a criada de quarto apanhou-o e levou-
o à patroa.

despediram-me sem me darem o atestado que, das outras vezes, conseguira obter. depois de
uma discussão tempestuosa com os pais da minha aluna, vi-me constrangida, por certas
palavras ofensivas que pronunciaram, a recusá-lo.

encontrava-me em lille. resolvi ir para

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paris. a minha primeira professora de inglês, uma senhora de idade, muitíssimo mais
simpática do que as velhotas que visitavam minha tia, fora viver para a capital. dera-
me a morada e contava que me auxiliasse a arranjar emprego. era, naquela altura, o
único apoio - bem fraco, por sinal - com que podia contar.

meti tudo quanto possuía: roupa, livros e algumas recordações, na mala que deixei
entregue à minha hospedeira, trabalho que paguei adiantado. sabia lá quando poderia
voltar!... e parti, levando comigo pequena maleta que encerrava o indispensável.

animava-me grande esperança e entusiasmo. tinha a impressão de que ia começar a


minha vida.

com efeito, ia começá-la, mas estava bem longe de supor de que estranha maneira.

cheguei a paris às seis da tarde e, pouco depois, encontrava-me à porta da minha


antiga professora. bati para a porteira. apareceu-me uma mulher de certa idade e,
quando mencionei o nome da pessoa a quem ia procurar, olhou-me com curiosidade.

- pois não sabe? - inquiriu, decorridos instantes.

abanei a cabeça num gesto negativo. então, sem rodeios, anunciou:

- madame marchand já não mora aqui. morreu há quinze dias.

a custo murmurei um simples ”obrigada”, mas só depois dela ter fechado a porta
medi a realidade da minha situação. desvanecida a minha última esperança,
encontrava-me em paris sem abrigo, sem conhecimentos, sem trabalho, sem
esperança e quase sem dinheiro.

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poderei viver cem anos e nunca esquecerei a terrível angústia que nesse instante me
esmagou.

não sei como consegui voltar à estação. numa espécie de inconsciência, encontrei-
me lá, perguntei a hora do próximo comboio para lille e como este, por feliz acaso,
fosse imediato, dirigi-me para o cais. na minha desorientação e abandono, um
pensamento guiou os meus passos, o pensamento de que ainda tinha um tecto onde
pudesse abrigar-me, pois o modesto quarto, no ainda mais modesto hotel de lille,
estava pago por uma semana.

anoitecera por completo, uma noite de primavera, ainda fria, mas clara. quando
cheguei à placa que me haviam indicado, o rápido já tinha começado a andar. corri e,
com o auxílio de um empregado, abri uma das portas e, cinco ou seis segundos
depois, encontrava-me no corredor de uma carruagem de primeira classe em que, na
precipitação, entrara.

e então começou a minha aventura.

não tive coragem para emendar o erro. sentia-me esmagada pela fadiga. dei alguns
passos e entrei num dos compartimentos, onde me instalei sem reparar em quem o
ocupava.

como podemos negar a força poderosa e absoluta do destino? se tivesse chegado à


estação uns minutos antes, se me tivesse instalado na carruagem de terceira classe à
qual o meu bilhete dava direito e se, por fim, as forças não me tivessem faltado, após
o terrível choque, erigida de monclar não teria morrido e graça frabége não
adormeceria esta noite nesta pousada perdida na alta escócia, última paragem antes
de atingir o castelo solitário que, de futuro, será a sua morada!
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o comboio, de minuto a minuto, ia aumentando de velocidade, corria na noite
escura. recostara-me no banco e tinha a estranha impressão de que descia, devagar,
para um abismo, no qual, com o cérebro vazio e o corpo insensível, rolava... rolava...

a viajante, que ocupava a outra extremidade do compartimento e que eu ainda não


notara,, por certo reparou em mim e viu o breve desfalecimento, porque perguntou,
cuidadosa:

- sente-se mal?

esse interesse reanimou-me mais depressa que um cordial. aprumei-me.

- obrigada - agradeci, tentando sorrir cheguei atrasada e tive de correr. isto já passa.

apesar desta afirmação, a viajante tirou da mala pequeno frasco com uma bebida
alcoólica e ofereceu-mo. ingeri um gole e restituí-lho só então olhei para ela.

era nova, muito elegante e de uma beleza estranha. o semblante revestia-se de uma
espécie de rudeza. as feições, profundamente acentuadas, tinham um cunho resoluto,
quase atormentado, que surpreendia. a boca de um desenho correcto, os olhos
grandes e negros e os cabelos bastos e escuros davam-lhe um encanto singular e
aspecto imperioso. como se inclinasse um pouco para pegar no frasco, notei, na face,
perto da orelha, uma cicatriz que os cabelos encobriam em parte. a fraca claridade da
lâmpada encravada no tecto foi suficiente para ver as belas mãos rolharem o frasco
de cristal facetado e colocarem-no no banco, a seu lado.

- se quiser beber outra vez... - murmurou.

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falava com ligeiro sotaque, como uma estrangeira que dominasse a fundo o nosso idioma
ou como uma francesa que tivesse estado muitos anos ausente da sua pátria.

abanei a cabeça.

- espero que não seja preciso.

para ocultar a minha atrapalhação perante o olhar que me examinava, declarei:

- vou tentar dormir... a que horas chegaremos a lille?

- a lille? sorriu e afirmou:

- este comboio não vai para lille. aterrada, pus-me de pé.

- valha-me deus! que linha é esta?

- paris-calais, mademoiselle.

e, respondendo ao meu olhar incrédulo, acrescentou:

- tenho a certeza, porque reservei o lugar há oito dias.

deixei-me cair no banco e de novo recostei a cabeça nas costas revestidas com uma
cobertura de croché. pela segunda vez, sentia-me arrastada para um abismo e lutava com
todas as forças para não cair nele. com a precipitação, tinha-me enganado no comboio.
longe de correr para o refúgio momentâneo com que contava, - corria para o desconhecido.

a minha aflição tornava-se tão evidente que a desconhecida perguntou:

- estão à sua espera? vão ficar aflitos quando não a virem?... deve descer na próxima
paragem e telefonar à sua família.

em voz surda, respondi:

- ninguém me espera e ninguém se preocupará comigo. estou só no mundo.


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fugitiva expressão de simpatia iluminou a fisionomia severa.

- eu também estou só no mundo. levantei a cabeça. custava-me a admitir um infortúnio


semelhante ao meu.

- completamente?

- completamente só.

após breve pausa, continuou:

- não tenho, numa terra próxima ou longínqua, parentes ou amigos!

observei-a com interesse. o seu caso, sem dúvida, era muito diferente do meu. o trajo,,
embora simples, era elegante e indicava riqueza, e eu não possuía na carteira, que trazia na
algibeira do casaco, mais de setecentos francos. mas,, enfim, a nossa triste situação
aproximava-nos.

talvez a minha companheira pensasse da mesma forma, pois demonstrou interessar-se por
mim.

- não serei indiscreta se lhe perguntar qual o fim da sua viagem? - inquiriu.

- por forma alguma, madame.

em poucas palavras, contei-lhe a minha viagem a paris, o seu insucesso, a minha decepção.

- como lamento não poder ser-lhe útil. não conheço ninguém em frança, donde saí há muito
tempo.

calou-se, permaneceu algum tempo de olhos baixos e depois prosseguiu:

- venho de longe. demorei-me uma semana em paris para tratar de certos assuntos. depois
de amanhã embarco para a escócia... vou ser preceptora de um rapazito enfezado e
provavelmente desagradável, num velho castelo isolado numa região selvagem.

calou-se e eu soltei um suspiro.

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como o rapazito, ainda que fosse o mais enfezado e desagradável do mundo, me teria parecido encantador, se estivesse no lugar da minha companheira.

e a realidade da minha situação desesperada surgiu com tanta nitidez que tive de cerrar os dentes para não gemer. para me atordoar com as minhas próprias palavras e as da minha companheira, para não pensar, comentei:

- contanto que não sofra uma decepção como eu que os senhores do castelo a aceitem e possa ficar ali!

leve sorriso lhe entreabriu os lábios, sorriso que não amenizou a dureza da expressão.

- não tenho medo. embora não conheça as pessoas nem o castelo, tenho a certeza de que junto delas a minha vida estará assegurada e decorrerá com tranquilidade.

calou-se, voltou-se para a janela e, encostando-se a face à mão, cerrou as pálpebras. tornava-se evidente que desejava dormir. não tentei reatar a conversa, que ela parecia não desejar e, aguardando a próxima paragem, aninhei-me no meu canto, esforçando-me por adormecer também.

não o consegui. talvez deva a vida a estar acordada, porque, quando se deu o terrível choque, lutei, inconscientemente, para conservar o equilíbrio, enquanto o corpo da minha companheira, principalmente a cabeça inerte, batiam contra a porta.

os minutos que se seguiram à catástrofe foram indescritíveis, de enlouquecer. soube mais tarde que numerosas carruagens haviam descarrilado, ficando caídas, de lado, na linha. as que seguiam mais perto da máquina, que,

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correndo a toda a velocidade, foram embater com a cauda de outro comboio, tinham ficado reduzidas a destroços. por todos os lados, à minha volta, só se ouviam gritos, pedindo socorro, lamentos, brados, clamores...

a lâmpada que iluminava o nosso compartimento apagara-se, mas a nossa carruagem nada sofreu porque, decorridos instantes, quando os olhos se habituaram à escuridão, vi as maletas caídas da rede, mas intactas.

no corredor, os outros passageiros, quase todos sãos e salvos, corriam de um lado para o outro. mas nós estávamos bloqueadas por uma porta do compartimento vizinho que, arrancada dos gonzos, caíra tão desastrosamente que ninguém poderia chegar até nós. o meu primeiro cuidado, enquanto não chegavam socorros, foi tratar da desconhecida, que, caída no banco,
não se mexia.

em breve surgiram luzes. homens com lanternas nas mãos aproximavam-se, corriam, chamavam. após cinco minutos de esforços, dois deles conseguiram remover o obstáculo que nos isolava e entraram no nosso compartimento.

quando me viram de pé, tranquilizaram-se.

- está ferida? - perguntou um deles. abanei a cabeça.

- eu não. mas a minha companheira deve estar...

o homem, um empregado dos caminhos de ferro, curvou-se para a desconhecida. o outro aproximou a lanterna e à sua fraca claridade eu vi-lhe o rosto exangue, os olhos fechados, lábios lívidos e, correndo de uma das fontes, um fio de sangue.

o homem examinou o rosto petrificado e

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depois encostou o ouvido ao peito da viajante. delicadamente, ergueu-a pelos ombros, mas
logo abandonou o busto rígido.

- esta mulher está morta - declarou. como eu soltasse uma exclamação abafada,

voltou-se para mim:

- conhece-a?

fiz um sinal negativo com a cabeça. não conseguia falar. o espanto e o horror paralisavam-
me. alguns minutos tinham bastado para fazer daquela linda mulher, animada pela
esperança, caminhando para um ”futuro tranquilo”, um corpo rígido, para sempre imóvel!

aos vinte anos já tinha visto, infelizmente muitas vezes, a vida apagar-se. mas nunca por
forma tão brutal como naquela noite.

um dos homens saiu para ir chamar os maqueiros. o outro, para identificar a morta,
apoderou-se da mala de mão que estava a seu lado.

essa mala era a minha. quando, para a socorrer, me aproximara, larguei-a em cima do
banco, ao acaso. a dela, pelo contrário, projectada com o choque, fora cair do outro lado do
compartimento. o empregado examinou à luz, um após outro, todos os objectos contidos na
minha mala. não encontrou qualquer coisa que pudesse elucidá-lo, nem um cartão de visita
ou carta com o meu nome. não tinha cartões de visita e ninguém se interessava por mim
para me escrever. o bilhete do comboio não se encontrava também na mala. trazia-o
comigo.

o homem renunciou às pesquisas e voltou-se para mim.

- disse-me que não conhecia esta senhora? não pode, portanto, dar-nos qualquer
esclarecimento?
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olhei-o sem responder. estava apatetada. o meu interlocutor percebeu-o e não insistiu.

- vai descer aqui. como não sofreu coisa alguma, irá na carruagem que segue para a estação
próxima. para onde vai?

como continuasse calada, apanhou a mala de mão da minha companheira, caída no chão e
entreaberta, e, depois de ligeira hesitação, analisou o conteúdo. começava a considerar-me
como uma sinistrada.

e, de facto, tinha razão. embora fisicamente indemne, o estado de depressão moral em que
me encontrava, agravara as consequências do choque, mergulhando-me numa espécie de
inconsciência.

o homem desdobrou alguns documentos, que leu rapidamente. elucidado, fechou a mala.
depois, dirigiu-se para as maletas caídas no chão, examinou-as e leu na da morta o nome
que o exame à mala de mão acabava de lhe revelar. a minha não tinha qualquer indicação.
voltou a interrogar-me.

- mademoiselle graça fabrège, não é assim? quis responder, mas não consegui falar.

- não... eu...

calculou que eu tivesse sido mais atingida do que supunha. olhou-me durante algum tempo
e depois, paciente, interrogou:

- não é mademoiselle graça fabrège, que se dirige a calais para embarcar para a escócia?

estremeci.

- venha. vou levá-la a uma ambulância, que a conduzirá à vila para ser examinada pelo
médico.

estava convencido de que eu sofrera com o desastre.

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e, como eu não fizesse um movimento para andar, meteu-me no braço a correia da malinha
de mão e acrescentou:

- aqui tem a sua mala. julgo que contém tudo quanto lá estava antes do acidente: a carteira,
o passaporte, o bilhete para a escócia.

só nesse momento, nesse instante preciso, juro-o, a disparatada ideia me ocorreu. o homem
empurrou-me docemente para o corredor. não resisti. sem relancear um olhar em redor, sem
me voltar pela última vez para aquela cujo fardo eu acabava de tomar sobre os ombros, saí.

aí está como erigida de mondar morreu.

os acontecimentos e os dias seguintes encadearam-se com espantosa simplicidade. ao meu


projecto não surgiram obstáculos ou impossibilidade que eu não tivesse previsto. a
continuação da trágica viagem até calais, a minha demora na cidade, o embarque e a
chegada, por fim, à terra estrangeira, realizaram-se com uma facilidade que afugentou todos
os meus receios. nem tão-pouco a minha consciência me censurou.

nessa noite, a última antes do começo da minha nova vida, pensei muito. mas não encontrei
em mim remorsos ou apreensões.

que me pode suceder? tomei o lugar, a vida, as esperanças e a identidade de graça. mas com
esse gesto não prejudiquei ninguém e aqueles para casa de quem vou não terão, juro-o a
mim mesma, razão para se queixarem da substituição.

contavam com uma desconhecida e é uma desconhecida que vai aparecer-lhes. a minha
aparência física, verifiquei-o, não oferece diferença essencial da de graça. as minhas
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habilitações para educar uma criança são bastantes. e a desaparecida não podia ter maior
desejo, boa vontade e resolução de se dedicar de corpo e alma à tarefa.

calma, examinei os documentos contidos na mala de mão de graça fabrège. não me


revelaram coisa alguma da sua vida. a única carta que encontrei referia-se ao acordo feito
com um tal lorde harlington, senhor de dark-castle. por ela conheci o local onde era
esperada.

da própria graça nada sabia, senão que vinha de longe e estava só no mundo e esses dois
factos tiravam-me o receio de encontros aborrecidos. podia apoderar-me da sua identidade e
funções sem temer um desmentido.

e brígida? para erigida de monclar tinha sido fácil morrer. ninguém se preocupava com ela,
ninguém a esperava ou desejava saber qual o seu destino. será, ou antes, foi - porque a
catástrofe deu-se há mais de uma semana - mencionada na lista das vítimas como anónima.
e na terra estranha, talvez mais clemente com os infelizes, vai poder recomeçar a sua vida.

como estou calma! atravessei parte da escócia para atingir o highland agreste, mas de
incomparável beleza, e eis-me perto do fim da viagem. nesta rústica pousada, enterrada no
fundo do vale, onde passo a minha última noite de liberdade, disseram-me que dark-castle
se encontra apenas a sete quilómetros. o dono da pousada acompanhar-me-á amanhã, numa
dessas singulares carriolas, puxadas por um cavalo, com um assento móvel suspenso em
correias, próprias desta região.

não tenho medo nem remorsos, não olho para trás... e sorrio, porque, bem longe destes

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sentimentos complicados, tenho, simplesmente, sono. a viagem foi fatigante, as
hospedarias onde parei pouco confortáveis e... estou a escrever há muito tempo. É
tarde.

adeus, erigida. não tenho uma flor para colocar aqui, entre as duas últimas páginas
deste jornal onde repousa a tua alma. mas a janela está aberta e por ela entram todos
os perfumes primaveris do highland. ofereço-tos!

adeus... no fundo do vale, talvez afloradas pelos leves pèzinhos das fadas, as giestas
ondulam suavemente. os ribeiros cantam o seu amor pelo lago e correm para ele. na
floresta próxima, banhados pelo luar, adivinho os saltos dos gamos e dos cabritos
monteses, palpitantes de uma vida ardente.

para mim, este país tem a cor do futuro!

amanhã! ao adormecer, repetirei esta palavra e algumas outras que representam o


alfabeto do meu destino. que vou construir com ele? desastre ou felicidade? calma
ou tempestade? Êxito ou insucesso? não sei. mas, por entre as brumas do sono, essas
palavras soam no meu coração como badaladas de sino, amortecidas pela distância.
repito-as antes de adormecer, muitas vezes: dark-castle... lorde harlington...
amanhã... amanhã... lorde harlington... dark-castle... dark-castle... amanhã...
amanhã...

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ii
na estrada que, em suave declive, subia para dark-castle, o carro que conduzia graça rolava
alegremente. o cavalo, um pónei, dessa raça de pequena estatura, mas vigorosa, criada na
escócia, seguia num trote sempre igual. com a cabeça erguida, crina ao vento, o animal
parecia aspirar, deliciado, os perfumes matinais. na terra endurecida, as ferraduras batiam
numa cadência animada, acompanhada pelo chocalhar dos guizos.

graça começava a sentir os benefícios do passeio. apesar da calma e segurança que na


véspera havia alardeado, não conseguira dormir. porém, a doçura luminosa e fresca da
manhã expulsava do seu espírito as sombras da noite. além disso, conquanto o não notasse,
quando a cada volta das rodas se aproximava do termo da viagem, a iminência do primeiro
contacto com os habitantes de dark-castle insuflava-lhe, não um acréscimo de medo, mas,
pelo contrário, uma sensação de calma.

quis abandonar a pousada muito cedo, embora

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não contasse ser recebida antes da tarde por lorde harlington, que, segundo afirmava
o hospedeiro, raramente se encontrava em casa.

era mais certo, afirmava o bem informado homem, encontrá-lo em qualquer ponto
do domínio, caçando, do que em dark-castle.

”verdade seja que a casa não é muito divertida!” - acrescentara o escocês.

estas palavras, proferidas num tom misto de compaixão e de censura, foram as


únicas informações conseguidas por graça; e, com receio de que a considerassem
indiscreta, não fez perguntas.

sentada ao lado do homemzinho, com a cabeça descoberta, agasalhada com o casaco


de viagem, abandonava-se ao prazer da hora presente. e quando um pensamento
importuno a assaltava, expulsava-o com tenaz energia, certa de que esses últimos
instantes de calma, antes de se lançar na aventura, se tornavam indispensáveis ao seu
equilíbrio e, como consequência, ao bom resultado dessa aventura.

o carrito continuava a rolar. atravessou um vale coberto de urzes e depois começou a


subir uma encosta íngreme. o pónei passou a trotar mais devagar.

À direita e à esquerda da estrada estendia-se a floresta. não era escura e sombria


como graça receara, mas alegre, apesar das árvores de considerável altura e da
folhagem tão espessa que dava a impressão de que os raios do sol não conseguiriam
atravessá-la. numerosos regatos deviam correr debaixo do arvoredo. por vezes,
saíam da sombra e deslizavam pelos prados que circundavam a floresta. mas, em
breve, depois de terem descrito algumas curvas, voltavam a
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sumir-se na sombra, como se a terra exposta ao sol os assustasse.

por todos os lados se ouvia correr água, num murmúrio leve, algumas vezes cortado pelo
tumulto trovejante de uma cascata.

- existem muitos lagos por aqui? - perguntou graça, surpreendida com o aspecto da
paisagem, que imaginara muito mais árida e agreste.

o seu silencioso companheiro tirou dos lábios o velho cachimbo e respondeu:

- o mais belo dos lagos desta região encontra-se em dark-castle.

graça alegrou-se com a declaração. aquela terra admirável possuía mais do que uma beleza
selvática. estranha e intensa poesia emanava dela e falava à alma, mesmo antes de prender
o olhar.

- o lago pertence a lorde harlington? inquiriu.

o dono da poisada mostrou-se admirado.

- tudo isto pertence a lorde harlington. o vale, a floresta, a estrada. entrámos nas suas
propriedades desde que nos pusemos a caminho.

depois de breve pausa, prosseguiu:

- encontramo-nos na parte não explorada do domínio. lorde harlington nunca consentiu que
se derrubasse uma só das árvores da floresta. adora-a porque, quase todo o ano, vem para
aqui caçar cabritos monteses.

de todo o seu coração, graça concedeu total aprovação ao proprietário, que soubera
conservar o cunho admirável da região. mas não teve tempo para analisar as suas
impressões, porque o companheiro, resmungando entre dentes, prosseguiu:

- por vontade do velho lorde, estas árvores


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já estavam todas transformadas em pranchas e vendidas. se lorde gerardo lhe deixasse fazer
o que queria, já não existia aqui um só abeto ou sicômoro.

depois desta reflexão, feita mais para si do que para graça, voltou a colocar o cachimbo
entre os dentes, tocou com o chicote o pónei, que abrandara o passo, e não tornou a falar. e
graça não se atreveu a perguntar quem era o velho lorde e quais as razões que poderiam
levá-lo a cometer semelhante barbaridade.

de resto, estavam quase no termo da viagem. em breve o carrito desembocou numa espécie
de planalto e graça avistou, ainda distantes, algumas torres, redondas, maciças e ameadas.

o pónei recomeçou a trotar e, decorridos alguns minutos, o solar de dark-castle desenhou-se


com maior nitidez. na primeira impressão, graça pensou que o nome de dark-castle (castelo
escuro) era imerecido. o tempo por certo havia enegrecido as paredes, mas estas ocultavam-
se sob um manto de hera.

o edifício era enorme, atarracado, mas a sua solidez não prejudicava a elegância das linhas
e o seu aspecto harmonizava com a paisagem, bastante agreste naquele ponto alto. quatro
torres redondas flanqueavam o corpo principal. terminavam numa galeria ameada que
corria ao longo do castelo, espécie de friso aéreo e arrendado, que aligeirava um tanto o
conjunto. na fachada rasgavam-se largas janelas, cortadas por colunatas. nas torres também
se viam algumas, abertas sem simetria, seguindo o capricho das escadas de caracol ou das
salas de tectos mais ou menos altos. de si para si, graça concordou que não podia ser doutra
forma a moradia
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de um desses bravos highlanders, descendentes dos celtas que, tendo conseguido resistir aos
ataques dos romanos, dos saxões e dos dinamarqueses, conservaram em respeito durante
séculos os soberanos da escócia e da inglaterra.

dark-castle não tinha jardins nem parque. estava situado a meio do planalto, para lá do qual
se estendia a floresta. unicamente, à medida que se aproximavam, a estrada transformava-se
numa bela alameda ensaibrada e os campos que a separavam do arvoredo eram mais
planos, mais iguais e bem tratados.

o pátio de honra do castelo, compreendido entre as duas torres redondas da fachada, um


pouco avançadas, e no qual graça e o seu condutor penetraram, não estava ermo. parado
diante da porta do castelo, um automóvel de categoria, pronto a partir, aguardava alguém. o
motor roncava baixinho e o motorista estava no seu lugar. de princípio, graça não viu
ninguém sentado no interior do carro. mas quando o pónei, fazendo tilintar os guizos,
passou junto do luxuoso veículo, um rosto surgiu, encostado ao vidro da porta fechada.

de relance, graça entreviu uma testa alta, farta cabeleira ruiva e dois olhos claros que a
fitaram com aterrado espanto. depois, a ocupante do carro - pois era uma mulher - recostou-
se e, imóvel na sombra, não voltou a dar sinais de vida.

a singularidade do incidente perturbou-a. entretanto, o carrito parou e o condutor saltou


para o chão e foi ajudá-la a descer. naquele instante, em que pela primeira vez pisava o solo
de dark-castle, não pensou noutra coisa senão nas dificuldades do papel que ia assumir.
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apareceu um criado. com espanto, examinou o carrito e os recém-chegados. depois
aproximou-se. graça declinou o nome e assegurou que era esperada. então o criado tomou
conta da maleta - porque as bagagens mais pesadas só no dia seguinte chegariam - e pediu a
graça para o seguir.

a nova preceptora despediu-se do companheiro e obedeceu. quando ia a atingir a magnífica


porta de entrada, sobrepujada por um escudo com as armas dos senhores do castelo,
rodeado por motivos cinegéticos, cabeças de raposa e de veado esculpidas na pedra, um
homem apareceu no limiar.

era de estatura média e magro, facto que não lhe prejudicava a elegância. a abundante
cabeleira branca provava ter ele chegado, havia muitos anos, à maturidade da vida. mas o
bigode, que usava cortado em escova, por estranho capricho da natureza conservava-se
escuro; o rosto, de feições finas, apresentava algumas rugas e os olhos acinzentados, de
olhar penetrante, brilhavam com vivo fulgor. trajava um fato de tweed claro e segurava nas
mãos enluvadas uma pasta de cabedal e o chapéu.

quando avistou graça, parou. e a mesma expressão de profunda surpresa que descobrira no
rosto, fugitivamente surgido por detrás do vidro do carro, se revelou no semblante do velho.
apenas essa surpresa revelava também leve contentamento.

durante breves segundos, graça sentiu-se inquieta. qual a razão desse espanto, que espécie
de presságio poderia tirar dele? no terreno que pisava, qualquer hesitação poderia perdê-la,
qualquer passo em falso poderia denunciá-la.
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essa hesitação, porém, foi breve e quando o velho chegou junto dela já havia recuperado a
calma.

- mademoiselle fabrège, não é assim? desculpe o meu espanto, mas só contávamos consigo
na próxima semana.

falava em francês com certa dificuldade, procurando as palavras. graça respondeu-lhe em


inglês:

- sou eu quem deve apresentar desculpas, milorde. tinha o dever de o prevenir da minha
chegada.

falava ao acaso, com receio de se aventurar demasiado. o desconhecido sorriu.

- fala admiravelmente a nossa língua! -

notou.

e, em voz mais baixa, acrescentou:

- a sua permanência na américa foi-lhe muito mais proveitosa do que eu esperava.

ao fazer este comentário, envolvia graça num olhar demorado, cuja persistência e ardente
atenção ela não soube a que atribuir, mas que sustentou sem pestanejar.

- a minha indelicadeza é imperdoável! exclamou o desconhecido, caindo em si, de repente-


prendo-a aqui, de pé, depois de tão fatigante viagem! como vê, dispunha-me a abandonar
dark-castle e, infelizmente, não posso renunciar à viagem. no entanto, vou demorar um
pouco a minha partida para a acompanhar. entre, por favor.

sem aguardar resposta, voltou-se para o criado e, designando-lhe o automóvel com a mão,
ordenou:

- vá avisar lady ethel e diga-lhe que espere um instante por mim. depois leve a bagagem
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de mademoiselle fabrège para o quarto que a cecília lhe indicar.

falava numa voz breve, cuja aspereza, quase dureza, formava perfeito contraste com
a afabilidade manifestada a graça, e a preceptora, sem o manifestar, ficou admirada
com a deferência com que lorde harlington a tratava, apesar da posição subalterna
que ia ocupar no castelo.

mas seria, de facto, lorde harlington? tudo o indicava. conquanto ele não se tivesse
apresentado, a forma como falava e as ordens que dava designavam-no como o
senhor do castelo. no entanto, de si para si, graça continuava a classificá-lo com o
nome de ”desconhecido”.

caminhando ao lado um do outro, atravessaram o imenso vestíbulo com o tecto em


abóbada, sustentado por pilares. numa das extremidades via-se uma escadaria larga.
as paredes estavam desguarnecidas. de longe em longe, porém, candelabros de
bronze, figurando um braço cuja mão segurava uma luz, deviam, quando estivessem
acesos, derramar brilhante claridade. ao longo do hall alinhavam-se cadeirões
esculpidos, que não envergonhariam a mais rica catedral. e, por fim, erguidas em
sócios, alternando com os pilares, armaduras, sem dúvida muito antigas, brilhavam
na penumbra misteriosa que os vitrais das janelas, rasgadas muito alto, tingiam de
púrpura e oiro

o companheiro de graça ajudou-a a tirar o casaco e entregou-o ao criado de quarto


com o próprio sobretudo. em seguida, abriu uma porta, afastando-se para o lado para
ela entrar numa sala enorme, cujas paredes estavam inteiramente cobertas com
livros, admiráveis encadernações, o que devia representar uma riqueza
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considerável. entre os últimos e o tecto corria uma espécie de galeria ou tribuna que tinha
acesso por uma escada de madeira com o corrimão esculpido e da qual se podiam atingir os
volumes mais ricos.

o mobiliário da sala era luxuoso e severo: cadeiras de alto espaldar, mesas de madeira
escura, enorme secretária, lindamente esculpida, em cima da qual se via uma esfera
geográfica. poltronas estofadas de veludo, com os pés figurando garras de águia, ofereciam
o conforto dos seus braços. um sofá no mesmo estilo estava colocado diante do fogão, em
cuja pedra graça notou um brasão de armas igual ao do portão da entrada.

a luz e o ar entravam por duas portas envidraçadas, que davam para o terraço, altas e
guarnecidas com reposteiros de damasco cor de violeta. mas o que logo de princípio lhe
chamou a atenção foi um retrato de homem, em tamanho natural, pendurado por cima do
fogão.

usava o trajo nacional escocês e devia ser um chieftain. não podia saber-se se o retrato era
moderno ou antigo, visto esse trajo, um dos mais belos da europa, não ter sofrido qualquer
alteração há muitos séculos. durante algum tempo, graça examinou com interesse o
haighlander com o kilt, casaco aberto, e o plaid preso no ombro esquerdo. o punhal preso à
cinta e o gorro com pluma, inclinado sobre a orelha, completavam o trajo. e todos estes
pormenores, aos quais o artista soubera dar relevo, cor e intensidade, e o doirado da
moldura, dir-se-iam irradiar uma luz que iluminava todo o aposento.

quanto ao rosto do retrato, era o de um belo


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adolescente loiro, com feições delicadas de expressão altiva, olhos azuis, profundos, que reflectiam
uma vida intensa e ardente.

como se desejasse respeitar a contemplação, o companheiro de graça conservava-se atrás dela,


calado e imóvel. e quando esta, manifestando certa surpresa, se voltou para ele, murmurou:

- vai encontrá-lo muito mudado. recorda-se dele tal como o representa este retrato, não é

assim?

graça curvou a cabeça. dominava-a profunda inquietação e tinha a certeza de que a desconhecida do
rápido a havia enganado. não seria tão desconhecida de todos os habitantes de dark-castle como
tinha afirmado?

o escocês notou a perturbação, que, por certo, atribuiu a causas muito diferentes, porque se
censurou:

-fui muito desastrado. devia ter calculado


a emoção que este retrato lhe causaria e não a trazer para esta sala. quer passar aos meus aposentos
particulares?

-obrigada, milorde. estamos bem aqui.

o desconhecido sorriu satisfeito, como se as palavras e a resolução de graça provassem uma


coragem que lhe agradava.

sentou-se, numa posição despreocupada, no ângulo da secretária, depois de ter designado a graça
uma das poltronas de veludo de pés esculpidos, colocada em plena luz. após alguns instantes de
silêncio, comentou:

- as suas cartas não exageraram. É muito bonita.

ardente rubor cobriu as faces de graça.

seria obrigada a manter-se na defensiva logo


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desde o primeiro dia? encontraria ali as mesmas dificuldades e inquietações, às quais, ao
abandonar a frança, julgara fugir?

esta apreensão não durou muito. coisa alguma, na atitude do escocês, revelava um
sentimento de admiração pessoal. seria mais fácil pensar que se mostrava satisfeito com a
beleza de graça como ficaria, conforme as circunstâncias, contente com um fato bem feito,
uma refeição bem servida ou com um bom e rápido automóvel, sem que uma emoção mais
íntima influísse na satisfação experimentada.

e, no entanto, se alguém nascera para provocar emoções e perturbar, era erigida de mondar.

alta, delgada, admiravelmente proporcionada, pernas nervosas e bem modeladas, pés e


mãos pequenos, possuía muito mais do que essa fugitiva beleza que a mocidade empresta
mesmo às mulheres mais feias.

o rosto, de um oval perfeito, revestia-se de um cunho, misto de ingenuidade e de precoce


gravidade. normalmente, tinha uma expressão suave e calma. mas a mais leve impressão
perturbava essa bela calma, revestia-o com patético ardor, embora a divina centelha da
inteligência nunca deixasse de o animar.

cútis doirada, olhos escuros, sombreados por compridas pestanas e os cabelos bastos, de um
negro azulado, torcidos numa rede caída sobre a nuca, davam a brígida, ou antes a graça, o
carácter de uma filha de espanha, uma dessas cigarreiras, misto de madona e de cigana. o
andar era elegante, todos os gestos harmoniosos e leves. dir-se-ia que nas veias lhe
circulava uma corrente de vida ardente, origem de saúde física e também moral.

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como não tivesse respondido ao elogio do companheiro, este inclinou-se ligeiramente para
a frente e, continuando a observar com curiosidade o lindo rosto, comentou, como se
falasse consigo:

- É extraordinário... inacreditável! depois, sorrindo, acrescentou:

- desculpe-me. estou a ser grosseiro, mas... não vejo a mais pequena cicatriz. nunca supus
que, mesmo na américa, pudessem realizar semelhante milagre.

graça não respondeu. recordava o estranho e belo rosto da sua companheira de viagem de
uma noite e as duas linhas brancas, quase imperceptíveis que havia notado.

vagarosamente, passou os dedos pela cútis lisa, no ponto onde vira as cicatrizes da outra.

- com efeito, a américa possui os melhores cirurgiões do mundo - afirmou à toa.

o escocês parecia satisfeito. fixou-a durante algum tempo e prosseguiu:

- devo confessar-lhe que, antes de a ver, a nossa... tentativa se me afigurava muito temerária
e me sentia receoso pelo seu bom resultado?

- apreensões muito naturais.

- mas agora, que a vi, vejo-me obrigado a dizer-lhe que encaro esse resultado com
confiança,

- obrigada - murmurou graça. seguiu-se profundo silêncio, durante o qual graça sentiu uma
espécie de vertigem. decerto contara ser obrigada a desempenhar, no castelo perdido nos
highlands, um papel difícil e delicado, mesmo perigoso. mas não podia calcular que
atribuíssem tão grande importância à sua

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chegada nem que entre a futura preceptora e um dos proprietários do castelo
existisse misterioso entendimento.

o desconhecido consultou o relógio de pulso. talvez que as horas o obrigassem a


despedir-se, e, ao admiti-lo, graça sentiu imenso alívio. desde o início da conversa
que tinha a impressão de pisar um terreno movediço, prestes a afundar-se-lhe
debaixo dos pés, mas pelo qual, apesar de receosa, era obrigada a caminhar.

desde as primeiras frases trocadas, o desconhecido notara a perfeição do seu inglês.


no entanto, graça teria desejado não saber esse idioma tanto a fundo para poder,
como fazia o seu interlocutor com o francês, falar devagar, com hesitação,
procurando as palavras.

- sinto-me desolado por ter de a deixar hoje mesmo - afirmou ele - felizmente, a
minha ausência será breve. regressarei a dark-castle amanhã. gostaria de lhe fazer as
honras do castelo. além disso, temos de conversar sobre certos assuntos...
importantes.

as últimas palavras decerto eram o prelúdio de outras mais claras, porque o


companheiro de graça, após breve pausa, prosseguiu:

- correu tudo bem durante a sua permanência em paris?

- muito bem. abreviei-a alguns dias e por isso cheguei a dark-castle antes da data
prevista.

o escocês inclinou-se.

- estou encantado.

e logo, dominado pela ideia fixa:

- então o notário simplificou as coisas? recorde-se. nós receávamos tanto que


surgissem
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dificuldades para o estabelecimento desses... documentos.

- não houve nenhuma, milorde.

o desconhecido pôs-se de pé e aproximou-se de graça.

- traz esses documentos consigo? - perguntou.

baixara a voz como se tivesse receio de ser ouvido.

graça esforçou-se por tomar um ar indiferente. cada vez se sentia mais desorientada.
quando respondeu, os lábios tremiam-lhe ligeiramente.

- não trago um único, milorde.

o escocês deu um passo atrás. mordeu o lábio inferior, enquanto os olhos se fixavam em
graça com expressão dura.

- quer dizer que os deixou no cartório de rivière?

como ela inclinasse a cabeça num gesto de assentimento, protestou:

- não foi essa a combinação, madame. não duvido - prosseguiu, tentando ocultar o seu
desapontamento ou procurando dissimulá-lo com a ironia - da sua palavra. mas há-de
concordar que num assunto desta natureza cada um de nós tem de ter as suas garantias. e
parece-me, digamos... infantil da minha parte dar-lhas todas sem receber nenhuma.

graça encolheu os ombros com indiferença.

- como queira, milorde. posso ir-me embora.

tinha chegado ao extremo limite de tensão nervosa e no seu espírito entorpecido não existia
mais do que o desejo de ver terminada aquela estranha aventura, embora fosse
desmascarada.
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num último esforço, talvez dominada por estranha inspiração, acrescentou:

- considero que os documentos estão mais seguros no cartório de rivière, e paris, em


avião, não está tão longe de edimburgo que não possa ir verificar a sua redacção.
afigura-se que seria inútil andar de lá para cá com documentos que podem perder-se,
ser roubados, sei lá o quê, documentos que poderiam atraiçoar quem os assinou,
quem beneficia deles e quem os possui.

falava à toa, como último recurso e receando que as palavras não se adaptassem à
situação. pelo contrário, teve a alegria de verificar que a expressão do escocês se
desanuviava.

- por s. jorge! - exclamou - presto homenagem à sua prudência. pensando bem,


considero o seu procedimento indispensável. além disso, os nossos interesses estão
tão ligados que nem por momentos me passa pela cabeça a ideia de uma
modificação, pelo seu lado, de compromissos livremente tomados.

- a sua confiança honra-me - volveu graça com ironia.

leve rubor tingiu as faces do desconhecido. talvez só naquele instante tivesse


consciência do carácter da nova preceptora. pegara distraidamente num corta-papéis,
espécie de punhal de prata, que estava em cima da secretária e voltava-o entre os
dedos, talvez para não ser obrigado a olhar para graça.

- dizíamos então-continuou, como se prosseguisse a mais banal das conversas - que,


no caso de triunfarmos, eu receberia, livres de todos os encargos, em primeiro lugar,
o seu rancho no nevada...

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- exactamente.

- o valor da sua casa de santa mónica e metade do valor das minas de prata que
possui no utah e no colorado...

- isso mesmo.

o desconhecido calou-se e graça, divertida com a enumeração das riquezas de que


acabava de dispor, ela, cuja pobreza era total, mais uma vez mediu a gravidade da
situação em que se encontrava.

o seu interlocutor parecia satisfeito. largou o corta-papéis e deu alguns passos pelo
aposento. pela segunda vez, consultou o relógio.

- não calcula como me aborrece ser obrigado a deixá-la! - afirmou de novo com
evidente sinceridade.

calou-se como se hesitasse entre duas resoluções, mas, por fim, decidiu-se:

- mas tenho de ir. chamam-me a edimburgo assuntos urgentes. como lhe disse,
regresso amanhã. até lá, estará sozinha no castelo prosseguiu, acentuando cada uma
das suas palavras, como se tivessem sentido especial - julgo que o facto não lhe
desagrada. disporá assim de algumas horas para se instalar e para se preparar para o
encontro, ardentemente desejado, eu sei, mas que, por certo, lhe causará grande
emoção. agora vou deixá-la.

estendeu-lhe a mão e dirigiu-se à campainha para chamar o criado.

- É verdade, esqueci-me de lhe perguntar se receia comover-se com a presença do


pequeno?

graça hesitou na resposta a dar a uma pergunta que se lhe afigurava das mais
singulares.
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- não creio - afirmou por fim - não vejo razão para me comover.

o desconhecido começou a rir, mas esse riso, em vez de lhe suavizar a expressão,
mais dura a tornou, pelo ricto quase cruel que lhe contraiu os lábios.

- ainda bem. gosto da sua franqueza e da ausência total de... sensibilidade que parece
caracterizá-la. além disso, william está doente e suponho que não deve poder sair do
quarto por estes dias.

calou-se, porque um criado acabava de entrar na biblioteca. o desconhecido acolheu-


o com irritação.

- chamei-o, por acaso, jack? - interrogou com aspereza - toquei duas vezes e creio
que dois toques são sempre usados para chamar cecília.

- vossa honra desculpe, mas a cecília está ocupada e como passei por aqui...

o escocês encolheu os ombros e voltou-lhe as costas. de resto, quase logo uma


mulher de idade, com um vestido de seda preta, magrita, mas ligeira como um
ratinho, entrou na sala. aproximou-se do desconhecido com passo rápido, agitando e
fazendo tilintar o molho de chaves que trazia preso ao cinto por uma corrente de
prata.

o escocês apresentou-a a graça.

- a cecília é quem tudo dirige em dark-castle. encarregar-se-á de si.

depois voltou-se para a governanta:

- cecília, é mademoiselle fabrège, a preceptora de lorde william. conduza-a ao quarto


que mandámos preparar para ela e vele para que não lhe falte coisa alguma.
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- vossa honra pode ficar descansado.

- até amanhã, mademoiselle. faço votos para que dark-castle lhe agrade. está isolado, mas
não lhe faltam atractivos, verá.

graça teve a impressão de que o escocês acentuava propositadamente estas palavras.!


quando ele saiu, graça voltou-se para a governanta e acompanhou-a.

decorridos alguns minutos, depois de subir uma escadaria de pedra, de ter percorrido
corredores abobadados, compridos e silenciosos, encontrou-se sozinha num quarto grande e
severo, que seria o seu enquanto vivesse no castelo.
38
iii
quando no dia seguinte despertou, num aposento quase desconhecido, graça teve a
impressão de que o sonho se prolongava

dormira o bastante para que, no seu espírito inconsciente, a realidade dos


acontecimentos se confundisse com a fantasia. e assim, nos primeiros momentos não
conseguiu diferençar as recordações verdadeiras das falsas.

no entanto, a lucidez voltou quase logo. olhou em volta de si. apesar de ter as
paredes pintadas de cinzento claro, com filetes doirados e tapetes semeados de
ramos e de rosas, o quarto continuava a apresentar o seu aspecto severo. os móveis -
cómodas com múltiplas gavetas, cadeiras de linhas rígidas, mesa simples com os pés
torneados e, principalmente, a cama com dossel na qual estava deitada -
apresentavam uma sobriedade de pormenores e de tons que transmitiam ao aposento,
apesar de todo o seu luxo, uma espécie de triste solenidade. as janelas, com vãos tão
fundos que neles existia um banco de pedra, tinham um aspecto severo com a coluna
de pedra que as cortava
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ao meio e que, batida pelo sol, desenhava uma cruz no chão, aos pés da cama.

À direita e à esquerda do fogão de mármore encontravam-se duas portas. uma dava


acesso à sala de banho e a outra a pequena sala, muito semelhante, pelo mobiliário,
ao quarto de dormir.

na véspera, graça não dera grande importância à sua instalação. estava muito
preocupada para se interessar por esse pormenor.

no entanto, tinha tido tempo para examinar tudo à vontade, porque, desde que
entrara no quarto, ninguém mais se preocupara com ela. Às oito horas um criado
aparecera com a mesa rolante onde vinha servido o jantar.

e, enquanto o rapaz, solene como se estivesse servindo um jantar de cerimónia,


acendia as seis velas dos dois candelabros dispostos sobre a pedra do fogão,
perguntou:

- lorde harlington?

- sua excelência ausentou-se do castelo, assim como lorde ruthery e lady ethel.

graça não tentou fazer-lhe novas perguntas.

de resto, que lhe importavam dark-castle e os seus habitantes! depois da conversa


com o desconhecido tinha a certeza de que a sua permanência ali seria breve. de
facto, que outra coisa podia fazer?... não era uma simples preceptora que desejavam,
mas uma pessoa com um papel obscuro a desempenhar, tarefas misteriosas a
cumprir, unida por um pacto secreto a um dos senhores do castelo e talvez inimiga
dos outros.

no entanto, naquela manhã, embora não desistisse da ideia de partir, achou ridículo o
seu procedimento da véspera e, ao mesmo tempo
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que saltava da cama e se vestia, decidiu que naquele dia não ficaria fechada no
quarto.

contra a sua espectativa, a maid que lhe levou o pequeno almoço era acompanhada
por cecília. quando a rapariga saiu, a governanta perguntou-lhe como tinha passado
a noite.

- bem, obrigada - agradeceu graça. e logo a seguir inquiriu:

- lorde harlington regressará hoje ao castelo? poderei falar-lhe?

a governanta encolheu os ombros.

- lorde harlington nunca nos diz quando regressa a dark-castle. não posso informá-la
a esse respeito.

falava num tom indiferente, com as mãos cruzadas sobre o avental de seda. mas, a
despeito da aparente deferência que testemunhava a graça, esta teve a impressão de
que a sua atitude revelava certa reserva e até hostil frieza.

- gostaria, pelo menos, de conhecer o pequeno lorde, meu aluno. quer ter a bondade
de me acompanhar até aos seus aposentos?

o desejo de conhecer o aluno dominara-a de repente. conquanto estivesse decidida a


abandonar dark-castle o mais depressa possível, afigurava-se-lhe prudente proceder
por forma contrária a este projecto. talvez se lhe tornasse mais fácil encontrar
pretexto para a partida, que ninguém imaginaria premeditada.

ao escutar o pedido de graça, o semblante calmo e afável de cecília, emoldurado nos


cabelos brancos, bem penteados, contraiu-se.

- lorde william está doente, mademoiselle.

- doença de gravidade?

- não, simplesmente cansado. mas está

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sujeito a frequentes crises nervosas e qualquer emoção pode prejudicá-lo.

graça sorriu.

- não me parece que o facto de conhecer a nova preceptora possa emocioná-lo e... não pôde
concluir a frase. a porta do quarto abriu-se de par em par e um rapazito apareceu no limiar.
devia ter oito anos, pouco mais ou menos. era pálido, com aspecto doentio, olhar vivo e
inteligente. os cabelos loiros, anelados, caíam-lhe pelos ombros e, como se quisesse evitar
que o incomodassem, prendia-os com as duas mãos.

era alto para a idade e o corpito magro dançava dentro do pijama de seda. pisava o
pavimento de mosaico do corredor com os pés descalços.

- lorde william! - protestou cecília - o que faz aqui?

correu para o garoto a fim de o tomar nos braços. o pequeno afastou-a.

- já sabia que mademoiselle fabrège tinha chegado ontem - declarou numa vozita cristalina-
e pensei que, mesmo doente, me cumpria vir cumprimentá-la.

graça sorriu, comovida. aquela criança, encantadora até na sua desobediência, soubera
encontrar, desde o primeiro instante, o caminho do seu coração.

cecília, porém, não tinha as mesmas razões para desculpar a diabrura de william e mais
uma vez tentou levá-lo consigo. o pequeno resistiu.

- valha-me deus! -lamentou - o que faz a nurse?... vai adoecer, assim descalço no mosaico.
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sem dizer palavra, graça aproximou-se do grupo. num gesto autoritário, curvou-se
para o garoto e levou-o nos braços para a sua própria cama.

- pronto - disse, envolvendo-o na colcha. assim já pode regressar ao seu quarto sem
receio de apanhar frio.

estendeu a mão ao rapazito e continuou:

- gostei imenso de o conhecer, william, mas não devia ter fugido do quarto.

o olhar límpido, impregnado da frescura infantil própria das crianças, ergueu-se para
graça.

- tem razão - concordou - mas estava tão aborrecido e impaciente por conhecê-la...

calou-se como se reflectisse e, depois, voltando-se para a governanta, comentou com


ar de censura:

- estava mal informada, cecília. porque razão disse ao tommy que não esperava nada
de bom da nova ”recruta”, arranjada pelo tio eduardo e com certeza boa para
aumentar a colecção dos ”indesejáveis” de dark-castle?

tornava-se evidente que o pequeno repetia palavras cujo sentido não compreendera,
mas que pressentia serem hostis para graça.

- por mim - continuou-parece-me que mademoiselle fabrège é muito boa e que nos
entenderemos bem.

as faces da governanta cobriram-se de rubor, tão grande foi a sua confusão.


balbuciou algumas palavras severas dirigidas ao pequeno lorde e aproximou-se da
cama para o levar. o pequeno preparava-se para de novo resistir, mas graça interveio:

- deixe que a cecília o leve para o quarto,


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william. ela vela pela sua saúde. não deve desgostá-la.

a governanta voltou a corar. relanceou a graça um olhar penetrante e, erguendo a


criança nos braços, preparou-se para sair.

- vem ver-me? - perguntou william.

- com certeza. mais tarde.

ele sorriu-lhe com confiança e abandonou-se nos braços de cecília, que atravessou o
quarto muito depressa, abriu a porta e voltou a fechá-la, precipitadamente, atrás de
si.

ficando sozinha, graça permaneceu imóvel, com os olhos baixos, absorvida em


profundas reflexões. por fim, leve sorriso lhe entreabriu os lábios. decididamente, a
sua chegada a dark-castle era fértil em surpresas. de um momento para o outro sabia
ser protegida pelo ”tio eduardo”...

”tudo isto seria divertido se não fosse assustador!” - pensou.

esta certeza dominou-a e tudo quanto podia existir de engraçado naquela aventura
desapareceu para dar lugar aos receios que a assaltavam pelo que lhe aconteceria, no
caso muito provável de ser descoberta a fraude.

aproximou-se de uma das janelas, sentou-se no banco que ocupava um vão, afastou
a cortina e olhou para fora.

o lago calmo, de um azul profundo, banhava as paredes do castelo. devia ser largo,
pois mal se apercebia, ao longe, a margem oposta a dark-castle. essa margem estava
coberta de espessas florestas que se entreabriam para ocidente, para deixar entrever
os moors - charnecas rosadas pelas urzes e, mais longe, as montanhas azuladas ou
escuras, cujos cimos acidentados
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se recortavam num céu de um tom esbatido.

com tristeza, graça deixou cair a ponta da cortina e murmurou:

”como eu gostaria de poder ficar aqui, meu deus!”

com ansiedade, pensou o que seria a sua vida, naquele país desconhecido, quando
tivesse de abandonar o castelo. a sua angústia foi tão grande que tentou reagir e não
pensar mais nas tristes perspectivas do futuro. visto não poder antes de falar com
lorde harlington, tomar uma decisão ou fazer projectos para que pensar na luta que
em breve teria de travar?

de repente, decidiu dar um passeio. a reclusão em que se confinara desde a véspera


arrasava-lhe os nervos.

impunha-se acalmá-los porque, não o ignorava, numa hora muito próxima precisava
de toda a sua lucidez.

estava certa de que, apesar de tanta coisa estranha que lhe sucedera desde a sua
chegada a dark-castle, não estava prisioneira. no entanto, tão grande era o seu
nervosismo que só ficou convencida disso quando abriu a porta do quarto sem
dificuldade.

pouco depois, afastava-se do castelo em passo rápido. tomou por um caminho que
seguia ao longo da margem do lago, de cabeça erguida, aspirando com delícia os
aromas dos highlands. pouco a pouco, foi acalmando.

percorridas algumas centenas de metros, o caminho começou a subir, dominando a


superfície azulada. graça encontrava-se na orla de uma floresta e, dando alguns
passos sob o arvoredo, teve o inesperado e raro prazer de ver
45
fugir alguns cabritos monteses. depois encontrou-se no moor, rosado, ondulando ao
sopro de ligeira aragem, cujo silêncio era interrompido de vez em quando pelo grito
gutural dos grous.

de súbito, outro ruído chamou a atenção de graça. alguém falava perto do ponto
onde se encontrava. deu alguns passos e descobriu uma espécie de enseada onde se
encontravam dois garotos a pescar.

quando lhe ouviram os passos, os pequenos ergueram a cabeça, mas não se


assustaram. como parasse junto deles e lhes perguntasse se a pesca tinha sido boa,
pergunta desnecessária para quem olhassse para o velho boné poisado no chão, já
cheio de peixe, um dos garotos levantou a cabeça e escutou com atenção. o
companheiro imitou-o e a própria graça, apurando o ouvido, acabou por se aperceber
de um galope que se aproximava, cada vez mais rápido.

sem uma palavra, os pequenos reuniram à pressa os apetrechos de pesca. mas, por
muito ligeiros que fossem, ainda não haviam terminado quando o cavaleiro
apareceu, cortando-lhes a retirada.

- lorde harlington! - exclamaram assustados.

quiseram fugir. um deles, porém, o que estava mais perto da margem, escorregou.
tentou agarrar-se, mas em vão. com os braços estendidos, caiu à agua, soltando um
grito.

o companheiro já ia longe! graça era excelente nadadora. preparava-se para


mergulhar quando notou que o lago, naquele ponto, era pouco profundo e que o
garoto não tinha perdido
46
o pé. deitou-se no chão e estendeu-lhe a mão para o auxiliar a subir.

quando, após demorados esforços, o conseguiu, pôs-se de pé. um tanto molhada


também, olhava para o rapazito, que tiritava com a roupa colada ao corpo, os
cabelos escorrendo água, nos quais estavam presas algumas algas, quando uma voz a
fez sobressaltar.

- será preciso que os meus guardas vigiem os pequenos patifes desta espécie e com a
prisão ponham fim a estes delitos demasiado frequentes?

a inflexão era irritada e violenta. um chicote fustigava o ar. graça voltou-se e soltou
um grito. a poucos passos, montado num cavalo nervoso, mas dócil, estava o rapaz
do retrato: lorde harlington!

era ele, com certeza. mas entre o retrato e o modelo existiam grandes diferenças, que
graça descobriu ao primeiro olhar e explicavam as palavras do desconhecido: ”vai
achá-lo muito mudado!

como ele não lhe prestasse atenção, pôde examiná-lo à vontade. as feições não
apresentavam a beleza calma que vira na pintura. eram sombrias, duras, e naquela
altura exprimiam violenta contrariedade. a testa alta e os cabelos loiros eram os
mesmos do retrato. mas o desenho da boca, guarnecida com pequeno bigode, era
triste, vincado por um ricto amargo e desdenhoso.

o olhar luminoso do quadro apagara-se. o azul das pupilas de lorde harlington era
glacial, muito diferente do tom azul suave dos lagos da escócia, aos quais o
comparara ao ver o quadro.
47
o corpo, a despeito da diferença de trajo, continuava a ser o de um rapaz robusto
que, no decorrer dos anos, com a prática de exercícios violentos, adquirira mais
força, perfeição e vigor.

lorde harlington, sempre a cavalo, a poucos passos de graça e do pequeno pescador,


batia nervosamente com a ponta do chicote nas botas de cabedal fulvo.

- vem cá! vou mostrar-te como deve ser castigado um ladrão.

sem hesitar, graça colocou-se na frente do culpado.

- trata-se de uma criança, milorde - murmurou - o susto deve bastar como lição.

o olhar cintilante voltou-se para ela, reflectindo sombria cólera e, ao mesmo tempo,
desdenhoso espanto pela intervenção.

no entanto, graça suportou-o sem baixar o seu. lorde harlington, porém, logo se
desinteressou e tentou descobrir o culpado, que se ocultava.

como se a intervenção de graça apenas tivesse tido como resultado aumentar-lhe a


cólera, repetiu em tom ainda mais imperioso:

- aproxima-te!

a preceptora compreendeu que o garoto nada ganhava em se ocultar. brandamente,


empurrou-o para lorde harlington. este fixou-o durante algum tempo sem proferir
palavra. por fim, perguntou em tom ameaçador:

- não sabes que é proibido pescar no lago? o pequeno curvou a cabeça, mas não lhe
respondeu.

- e que os guardas têm ordem para conduzir a dark-castle todos os que forem
apanhados a pescar?
48
sempre o mesmo silêncio. o culpado tremia, mas não se atrevia a responder.

- o caso é simples, visto ser eu próprio quem te surpreendeu. não preciso de testemunhas
para te prender.

era demasiado. a criança, aterrada, começou a soluçar.

o chicote agitava-se num ritmo cada vez mais acelerado. era evidente que o cavaleiro ardia
no desejo de o aplicar no culpado. mas não o fez.

- por esta vez, escapas! - gritou, decorridos alguns instantes, enervado tanto com as
lágrimas como com o mutismo do pequeno desaparece! mas não recomeces, porque nem
sempre serei indulgente e posso mandar-te fazer companhia ao tomás, que tanta habilidade
tinha para pôr armadilhas e pensava demasiado nos meus cabritos monteses...

o garoto já não ouviu o final da frase. a ordem para desaparecer não teve de ser repetida.
partiu a correr e com tal rapidez que em breve atravessou a charneca e desapareceu aos
olhos dos dois.

graça sorriu divertida. depois voltou-se.

quando ia a afastar-se, viu, poisado na relva, o boné cheio de peixes, indevidamente


pescados. hesitou um instante e, por fim, apanhou-o.

- faça o favor de atirar esses peixes para a água! - ordenou uma voz imperiosa.

não obedeceu e ergueu o olhar calmo para lorde harlington.

- de nada serviria, milorde. foram pescados há muito tempo.

impassível, reuniu as bordas do boné, disposta a levá-lo para dark-castle.


49
perante esta tranquila atitude de desobediência, o escocês franziu a testa.

- um instante!... - exclamou quando graça recomeçou a andar.

- deve calcular - continuou logo - que ao repreender o maldito garoto, usava dos
meus direitos... tenho também o direito de me certificar de que não vai entregar-lhe
o produto do roubo.

pela segunda vez, graça sorriu, divertida. por certo se esqueceu a quem falava,
porque declarou:

- contava levar isto ao pequeno lorde. uma expressão de espanto, quase de assombro,
revestiu o semblante do cavaleiro.

- ao meu filho! - exclamou. demasiado tarde, graça deu pela tolice cometida. agora
tinha de apresentar-se. pelas palavras do desconhecido da véspera, pelas suas
misteriosas alusões, desconfiava de que o original do retrato e graça fabrège se
conheciam.

por instantes, o medo dominou-a. chegara o momento de ser descoberta a fraude. ia


ser expulsa como uma aventureira e já não poderia abandonar dark-castle sem
escândalo.

o cavaleiro devia ter tomado este silêncio como muda censura à sua falta de cortesia,
visto não ter dito quem era. curvou-se um pouco sobre o pescoço do cavalo e
apresentou-se:

- lorde gerardo harlington.

com desesperada coragem, graça ergueu a cabeça:

- graça fabrège.

o semblante do cavaleiro apenas traduziu surpresa e ligeiro aborrecimento. por


momentos, poder-se-ia supor que ia saltar do cavalo para
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cumprimentar, correctamente, a professora do filho. não o fez e limitou-se a dizer:

- perdoe-me por não estar presente para lhe dar as boas-vindas a dark-castle,
mademoiselle. a razão é simples. encontro-me ausente do castelo há muitos dias.

e foi tudo. a estas desculpas sumárias, lorde harlington não acrescentou uma palavra
amável e muito surpreendido ficaria se lhe dissessem que as aguardavam. inclinou-
se mais uma vez num cumprimento e, passando diante de graça, meteu o cavalo a
galope e desapareceu na direcção do castelo.

por sua vez, a preceptora retrocedeu pelo atalho já percorrido uma hora antes.
absorvida pelos seus pensamentos, não deu pelo caminho andado e ficou
surpreendida quando se encontrou diante de dark-castle.

quando atravessava o vestíbulo, aproximou-se um criado para lhe comunicar que


lorde ruthery já regressara e a esperava na biblioteca.

graça não conseguiu reprimir um gesto de contrariedade. gostaria que passasse mais
algum tempo antes de se encontrar com o desconhecido da véspera - que se chamava
lorde ruthery, sabia-o agora - que atitude tomar? como responder aquele que, na
comédia misteriosa, cujo título e até o seu próprio papel ignorava, contracenava com
ela?

todas as coisas estranhas que, desde a véspera, lhe aconteciam, deixavam-na


hesitante e roubavam-lhe, parecia-lhe, a energia que, a despeito da sua pouca idade,
sempre demonstrara.

todavia, como não podia eximir-se ao convite, seguiu o criado até à biblioteca, cuja
porta se abriu para ela entrar.

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o vasto aposento afigurou-se-lhe mais alegre do que na véspera. os cortinados de
damasco cor de violeta estavam afastados e o sol entrava a jorros pelas grandes
portas envidraçadas. numa ordem perfeita, as belas encadernações, com os doirados
brilhantes ou já um pouco apagados pelo tempo, modernas ou antigas, preciosas ou
apenas belas, revestiam as paredes com a diversidade do seu colorido.

involuntariamente, o primeiro olhar de graça foi para o retrato. em plena luz, parecia
ter nova vida e graça, com maior certeza ainda, reconheceu naquele adolescente o
cavaleiro encontrado junto do lago.

o olhar não escapou a lorde ruthery. de pé, junto da secretária, folheava uma revista
e parecia esperar. ao vê-la, deu alguns passos para ela e cumprimentou-a. depois,
imediatamente, como se quisesse evitar qualquer troca de palavras, voltou-se para
uma das janelas e chamou:

- ethel!

a rapariga, que estava encostada à balaustrada do terraço, entrou na sala e graça


reconheceu a abundante cabeleira ruiva e os olhos claros entrevistos na véspera, na
sombra do carro.

- lady ethel, por certo, ficará contente por ver uma pessoa da sua idade instalada em
dark-castle - murmurou lorde ruthery - esta casa nada tem de alegre e a companhia
de homens pouco faladores e tristonhos como eu e meu sobrinho não basta para uma
rapariga de vinte anos.

de si para si, graça perguntou qual o laço que unia aqueles dois entes, supondo que
existisse
52
algum. a resposta de lady ethel elucidou-a.

- sabe muito bem, meu pai-afirmou em voz seca - que a solidão de dark-castle não
me aborrece. nunca me mostrei enfadada, nem manifestei o desejo de companhia
diferente daquela a que estou habituada.

a declaração foi bem clara. mesmo uma pessoa menos inteligente do que graça teria
adivinhado, por ela, a animosidade evidente de lady ethel pela nova preceptora.

além disso, a sua atitude era mais eloquente do que as palavras. limitara-se a dar
dois ou três passos, não se afastando da porta envidraçada, no evidente desejo de não
se aproximar de graça nem de lhe apertar a mão.

o olhar de lorde ruthery reflectiu profunda irritação. mas, talvez devido à presença
da preceptora, conseguiu dominar-se.

graça não deu por coisa alguma, ocupada em examinar lady ethel.

envergava um trajo de viagem de cor escura, que punha em relevo a magnificência


dos cabelos ruivos, e tudo nela era de uma elegância perfeita. de estatura média,
admiravelmente proporcionada, o corpo era harmonioso e belo. mas o rosto, esse,
não tinha o mais pequeno encanto, excepto a opulenta cabeleira que o emoldurava.
demasiado comprido, com as feições mal definidas, cútis semeada de sardas; e os
olhos muito claros não amenizavam tudo quanto o conjunto tinha de ingrato.

graça em vão tentava encontrar qualquer semelhança entre a desengraçada rapariga


de vinte anos e a delicada beleza do velho que era seu pai. talvez, de longe em longe,
a expressão

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do olhar, a rapidez com que ocultava essa expressão com rápido pestanejar, fossem
semelhantes.

lorde ruthery fingiu não notar a atitude da filha e redobrou de amabilidade para com
graça. perguntou-lhe como tinha passado a primeira noite em dark-castle, conversou
com a preceptora, enquanto lady ethel, encostada à janela numa atitude indiferente,
desmentida pelos olhares furtivos que relanceava a graça, fazia cintilar ao sol a
esplêndida safira que trazia no anular direito.

- esta tarde apresentá-la-ei ao seu aluno declarou lorde ruthery - espero que já esteja
bom e possa descer à sala.

graça não esteve disposta a contar-lhe o incidente ocorrido de manhã. limitou-se a


observar:

- supunha que esse encargo competia a lorde harlington.

por certo, o escocês atribuiu à frase um sentido oculto, porque dirigiu a graça um
olhar significativo e um sorriso desolado.

- meu sobrinho está ausente de dark-castle, mademoiselle. foi à caça dos grous e,
embora esteja perto, ninguém sabe quando regressará.

- lorde harlington já regressou ao castelo - afirmou graça-encontrei-o esta manhã,


perto do lago.

interessada, lady ethel ergueu a cabeça e pelos olhos de lorde ruthery perpassou
breve lampejo.

- encontrou-o?

- encontrei-o e apresentei-me.

- muito bem.

dispunha-se a dizer mais alguma coisa, mas


54
relanceou rápida olhadela a lady ethel e calou-se. entre eles caiu breve silêncio que lorde
ruthery interrompeu.

- não quero demorá-la por mais tempo, mademoiselle. com certeza ainda não acabou de se
instalar. encontrar-nos-emos daqui a pouco, ao almoço.

lady ethel só esperava por estas palavras que lhe restituíam a liberdade. pegou na mala de
mão que se encontrava poisada em cima de um móvel e, abrindo uma porta que
comunicava com o aposento contíguo, desapareceu.

graça, por sua vez, dirigiu-se para a porta. quando ia a atingi-la, lorde ruthery alcançou-a.

- e então?

- então? o meu passeio desta manhã foi muito agradável e cheio de imprevisto.

o escocês não deu pelo sentido vago destas palavras e insistiu:

- ele reconheceu-a? graça sorriu.

- não, milorde. como poderia ter-me reconhecido?

- tem razão. como poderia reconhecê-la? pareceu ficar mais tranquilo com esta certeza e,
após ligeira hesitação, inquiriu:

- e por seu lado?

- eu - respondeu graça, divertida, a despeito da sua vontade, com a singularidade da sua


situação - eu reconheci logo o rapaz do retrato!

55
iv

o comprido terraço que, nas traseiras do castelo, ligava as duas torres, era muito
apreciado por william. quando, depois de qualquer doença - e tinha tido todas as
enfermidades próprias das crianças - entrava em convalescença, o pequeno lorde
passava ali quase dias inteiros.

estendido numa cadeira de repouso, à sombra de enorme sicômoro, cujos ramos se


estendiam até sobrepujarem o lago, o pequeno lia ou brincava sossegado,
interessando-se por todos os aspectos da natureza. e o ar puro e fresco, impregnado
dos perfumes da floresta, fortificava-lhe os pulmões e rosava-lhe as faces pálidas e
magras.

logo no dia seguinte à chegada de graça, william tivera licença para sair do quarto e,
desde então, o pequeno e a preceptora não abandonavam o terraço à beira do lago.

estavam sempre sozinhos. a nurse, uma inglesa apagada e feia, só se preocupava


com os cuidados materiais a ter com william. aparecia, matematicamente, à hora das
refeições ou com

56
o lanche, mas sumia-se logo que considerava a sua tarefa terminada. tornava-se
evidente que entre ela e o pequeno lorde não existia intimidade.

- a suzana é a minha nona nurse - elucidara william quando graça manifestou o seu
espanto - e não deve estar aqui mais tempo do que as outras, que se aborreciam
mortalmente em dark-castle.

e acrescentava com simplicidade:

- como se vai embora, não vale a pena gostar dela.

logo a seguir, ergueu os olhos claros-o seu maior encanto - para a preceptora e
inquiriu, ligeiramente inquieto:

- também pensa em ir-se embora?

para ocultar o seu embaraço e talvez também a comoção, graça curvou-se para o
garoto e beijou-o:

- por agora, não, william... mas talvez também não mereça a pena gostares de mim.

quanto a ela, de dia para dia se afeiçoava mais à criança meiga e esperta, de uma
inteligência precoce, mais digna de interesse pelo visível abandono em que a
deixavam. e sentia uma espécie de remorso quando pensava que a sua presença lhe
serviria de conforto por pouco tempo.

mais do que nunca, estava decidida a ir-se embora. não tinha querido - e já estava
arrependida - que a sua partida fosse imediata, não sabendo que pretexto dar aos
habitantes de dark-castle, principalmente a lorde ruthery.

a espécie de pacto que o velho lorde assim lhe chamara o dono da pousada -
concluíra com graça fabrège não podia ser quebrado
57
por erigida sem saber bem do que se tratava. impunha-se, portanto, quer o desejasse
ou não, que o contacto cotidiano com ele lhe proporcionasse revelações, das quais se
serviria para reconquistar a liberdade.

depois da conversa travada na presença de lady ethel nunca mais tinham falado um
com o outro em particular e coisa alguma na atitude de lorde ruthery deixava
adivinhar que entre ele e graça se tivessem trocado mais do que frases banais. graça
encontrava lady ethel e o pai à hora das refeições, servidas na enorme sala de jantar
abobadada, com grande fogão e as paredes cobertas de esplêndidas tapeçarias da
escola flamenga.

apesar deste luxo, dos sumptuosos tapetes que cobriam o pavimento e dos ricos
móveis
- contadores, aparadores, arcas esculpidas - a impressão sentida ao entrar na sala
imensa, onde caberiam à vontade duzentos convivas, era glacial.

o rosto e a atitude do dono da casa não contribuíam para amenizar essa impressão e
para tornar mais agradáveis as horas em que a família se encontrava reunida.

com aspecto sombrio, os lábios contraídos num trejeito desdenhoso, lorde gerardo
mais acentuava o constrangimento de todos, e o seu mau génio, oculto com afectada
indiferença, era, para graça, o mais difícil de suportar.

lady ethel e lorde ruthery, talvez habituados aos seus silêncios, bruscamente
interrompidos por uma observação sarcástica ou de cruel ironia, já não se
importavam com eles. quanto à preceptora, conquanto a maior parte das vezes
ignorasse o alvo do desprezo, da cólera ou
58
das zombarias de lorde harlington, ficava sempre magoada.

felizmente, lorde gerardo nem sempre aparecia. tal como o dono da pousada havia
afirmado, o senhor de dark-castle gostava muito mais de estar fora de casa do que à
sombra daquelas velhas paredes. rara era a manhã em que graça não ouvia passar a
matilha dos galgos de pelagem fulva e áspera, com os quais lorde harlington caçava
os cabritos monteses.

passava os dias a correr a floresta. não levava espingarda, bastando-lhe o prazer da


perseguição, e o seu ardor era tão grande que, por vezes, anoitecia sem que ele
pensasse em comer ou beber, mas apenas em trocar o cavalo por outro mais folgado.
um ou mais guardas acompanhavam-no, revezando-se quando a corrida era mais
difícil ou quando um veado arrastava para a montanha caçadores e a matilha.

uma tarde, quando regressava extenuado, pálido de cansaço, graça e cecília, que
saíam do quarto de william, tiveram de se encostar à parede para o deixar passar. era
tarde e a comprida galeria estava mergulhada em trevas. mas graça ficou aterrada
com a alteração do rosto que, por segundos, entrevira.

- santo deus! - murmurou, involuntariamente - ele foi sempre assim?

- não - respondeu a governanta em voz baixa - nem sempre... só depois da partida de


lady helena.

- lady helena?... a mãe de william? então não morreu?

- morreu, sim, mademoiselle. foi enterrada no cemitério da aldeia, um ano depois de


ter abandonado dark-castle, visto não ter família
59
e lorde gerardo não consentir que a depositassem no mausoléu dos harlington.
ninguém deitou luto por ela.

estas palavras eram as primeiras um pouco menos banais que a governanta dirigia a
graça. no dia seguinte, no entanto, como se lamentasse ter falado, mostrou-se mais
retraída e mais silenciosa do que nunca.

sem exagerar o seu papel nem sair das suas atribuições e, acima de tudo, mantendo-
se numa atitude de perfeita correcção, a atenciosa e simpática mulher demonstrava
extrema desconfiança à recém-chegada.

servira três gerações de harlington, estimando-os e querendo-lhes mais do que à


própria família. e essa afeição, supunha graça, afastava-a das pessoas desconhecidas
que podiam ameaçar, se não a tranquilidade, pelo menos, os hábitos do castelo.

para william, cecília demonstrava incansável dedicação e a criança a ela devia os


incessantes cuidados que o rodeavam.

lorde harlington gostava do filho, com certeza, pelo menos, conforme supunha
graça, via nele o herdeiro do seu nome, o último descendente da sua raça. mas o seu
carácter era tão sombrio e as ausências tão frequentes que william, sem a humilde e
vigilante ternura da ama, viveria muito abandonado.

desde que a preceptora e o pequeno se instalavam quase todos os dias no terraço,


cecília arranjava pretexto para o atravessar muitas vezes. passava, em passo ligeiro,
com as chaves tilintando na cintura e, por vezes, nem sequer olhava para o grupo.
graça, porém, sabia, sem sombra de dúvida, que ela a vigiava. o facto
60
causava-lhe espanto e perguntava de si para si como seria possível não tratar com
bondade e meiguice o pequeno william, dócil, confiante e sensível.

no entanto, decorrido algum tempo, a governanta começou a aparecer menos vezes,


afrouxando assim a vigilância.

naquela tarde, limitara-se a passar duas ou três vezes e sempre que o fazia dirigia a
graça, breve sorriso. naqueles últimos dias, mostrara melhor disposição à preceptora,
chegando até a. conversar com ela com certa familiaridade sobre vários incidentes
da vida cotidiana de dark-castle.

sentada junto da mesa abrigada com o chapéu de sol colorido, graça ensinava
william a modelar animais num bloco de barro.

a criança estava radiante. aqueles seres que as suas mãos criavam, com os seus
corpos, patas e chifres, pareciam-lhe os mais belos domundo. com os lindos caracóis
loiros atirados para trás, as faces rosadas, a boquita contraída numa expressão
concentrada, modelava uma bolita de barro com ardente interesse.

a temperatura no terraço era agradável e tépida. o céu apresentava a luminosidade


própria da primavera, na escócia, e o lago, acariciado pelo sol, cintilava como
esplêndida safira na moldura verde da floresta.

profunda calma reinava na natureza. o ambiente era tão alegre e sereno que a
fachada de dark-castle, com as suas ameias, colunatas e torres, parecia transformada.

muitos dos aposentos do rés-do-chão do castelo abriam para o terraço. na


extremidade deste ficava a biblioteca, à qual se seguiam os
61
aposentos particulares de lorde harlington. o seu gabinete de trabalho ficava na torre,
mas raramente lá se encontrava. em tempos, por cima desse gabinete e também na
torre, estava instalado o seu quarto de dormir. mais tarde, lorde geraldo abandonara-
o para se alojar na outra ala do castelo. assim, esse quarto, de forma circular, e de
cujas janelas se podia contemplar o lago, a floresta e os moors, não era habitado.

junto da torre, no primeiro andar da fachada, seguia-se o quarto de graça e na outra


extremidade, na torre oposta, ficavam os aposentos de lorde ruthery. entre os dois
existia uma sequência de aposentos desabitados, aposentos de que todo o castelão
escocês ou inglês deve dispor e que o costume exige sejam destinados para uso
exclusivo do soberano quando este deseje visitar um dos seus vassalos.

lorde harlington tinha dispensado os seus próprios aposentos à sua juvenil esposa,
por serem os mais belos do castelo. depois, certa tarde, após a fuga de lady helena,
por sua mão cerrara janelas e fechara as portas. e, havia mais de seis anos, nunca
voltara a abri-las.

graça pensava em todos os tesoiros ali encerrados, que cecília lhe mencionara na
véspera, lamentando amargamente que a ninguém fosse consentido tocar-lhes.

- calcule, mademoiselle-lamentava a governanta - em que estado devem encontrar-se


os revestimentos das paredes, de damasco lavrado, os couros pirogravados, os
cortinados das alcovas, as tapeçarias, os veludos! há seis anos que não são arejados
nem sacudidos do pó! o toucador está coberto com um pano de renda mais
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fino do que o véu de que se servem todas as harlington no dia de casamento. os
tapetes são de esmirna... e já não falo nos móveis, da cama com os pilares
incrustrados de marfim e cortinados feitos em especial para os harlington,
reproduzindo o seu brasão bordado a oiro... e os espelhos, mármores, porcelanas,
cada um dos quais pode considerar-se uma peça de museu!

”com a poeira, humidade e talvez os ratos, que podiam ter feito cair e quebrar alguns
dos objectos e roído os outros, quanta perda a lamentar quando se decidirem a abrir
aquelas portas há tanto tempo aferrolhadas!,.. não será tão cedo, creio eu! por mim,
deus me livre de falar nisso a lorde gerardo! tive medo e receei que me estrangulasse
por suas mãos no dia em que me atrevi a fazê-lo! no entanto concluiu com ar
pesaroso - aquelas riquezas pertencem ao pequeno lorde. só por essa razão, ao
menos, o pai devia defendê-las dos estragos.

a preceptora deu-lhe razão. recordou que os referidos aposentos eram contíguos ao


seu quarto e que, certa noite, tinha ouvido leves ruídos que podiam muito bem ser
produzidos pelos ratos. não falou no assunto para não afligir mais a governanta.

na balaustrada de mármore, aquecida pelo sol, apareceu uma lagartixa que se


imobilizou, entorpecida pelo calor.

- repara, william, tens ali um modelo.

o pequeno relanceou ao bicho um olhar indiferente e voltou a modelar o barro que


tinha entre mãos.

- É muito pequenina, mademoiselle - replicou.


63
- queres fazer um animal maior? qual é?

- quero fazer muitos cães... até ter uma matilha.

- gostas da caça, will?

- devo gostar, creio eu. até hoje, tenho sido muito doente para me darem uma espingarda.

graça acariciou a cabecita que se erguia para ela.

- virás a ser um rapaz forte e perfeito, will. e então já poderás ir caçar os cabritos
monteses... e depois, que mais farás?

- caçarei, mademoiselle.

- já sei, e depois?

- depois... depois... continuarei a caçar, não só cabritos monteses, mas grous, lebres e
raposas.

graça sorriu.

- a caça não pode preencher a vida, meu filho. se não te interessares por outra coisa, serás
um inútil.

a criança fixou-a com olhar espantado. tornava-se evidente que para ela a vida não passava
de uma série de galopadas em perseguição da caça, grossa ou miúda. interrogou:

- que é ser um inútil?

- um inútil é a pessoa que emprega o seu tempo em divertimentos, que não trabalha, nem se
esforça por auxiliar os outros, aproveitando-se, injustamente, do esforço e trabalho alheio.
um inútil representa um encargo para a sociedade e não tem o direito de viver,
compreendeste, william?

a criança não lhe respondeu. tentava perceber e franzia a testa, reflectindo no que acabava
de ouvir.
64
- não quero ser um inútil, mademoiselle declarou por fim - que devo fazer?

- É muito fácil, will. basta seguires o exemplo que te deixaram os teus antepassados. todos
eles foram bravos highlanders, chefes de clãs, dedicados aos que deles dependiam,
defendendo os seus direitos à custa da própria vida. eram audaciosos, perseverantes, tinham
a intrepidez bastante para resistir aos ataques e para atacar todos quantos quisessem oprimi-
los. governavam, faziam justiça e defendiam... aí tens o que é ser útil.

calou-se. a criança escutara-a com apaixonada atenção. a parte belicosa da resposta foi a
que mais a impressionou.

- e se não me atacarem, mademoiselle? graça soltou uma gargalhada e foi como uma
explosão de alegria que correu, saltou e vibrou de um extremo ao outro do terraço.

- ninguém pensará em atacar-te, meu filho


- afirmou, muito divertida - pelo menos, assim o espero.

depois, recuperando a seriedade, continuou:

- mas muita gente dependerá de ti: os rendeiros e todos os camponeses que vivem no
domínio de dark-castle. serás bom para eles e auxiliá-los-ás com os teus conselhos. farás
tudo quanto estiver ao teu alcance para lhes facilitar a tarefa, para beneficiar as terras e as
colheitas, para lhes suavizar a vida, intervirás nas suas questões, tomarás parte nos seus
desgostos. serás juiz, conselheiro, ao mesmo tempo que patrão e seu apoio.

as pupilas claras, profundamente inteligentes do pequeno lorde não se desviavam dos lábios
de graça. e a preceptora sentiu-se intimamente
65
satisfeita ao pensar que a sua breve passagem pelo castelo exerceria no espírito da criança
uma influência salutar.

william compreendeu muito bem. mas perguntou ainda:

- se não fizer tudo isso serei um inútil, não é verdade?

- com certeza e não serias digno dos teus antepassados, não merecerias o título de lorde
harlington. mas creio...

calou-se bruscamente. uma das portas envidraçadas do gabinete de lorde gerardo, até ali
semicerrada, foi empurrada com violência e no limiar apareceu lorde harlington.

graça ficou atrapalhada. o pai de william tinha um aspecto mais sombrio e desagradável do
que nunca. nas pupilas cintilava-lhe uma chama ardente.

- desculpe a interrupção... inoportuna, mademoiselle - pediu com voz glacial, com a qual,
graça não o ignorava, costumava dissimular as emoções - vou roubá-la, por instantes, a meu
filho. quer ter a bondade de entrar um momento no meu gabinete de trabalho?

tão requintada cortesia ocultava uma ordem. graça levantou-se. não podia escusar-se.

- continua, william - aconselhou, dando um bocado de barro ao pequeno lorde - vê se


consegues fazer um cavalo.

depois foi ter com o escocês e a seu convite entrou no aposento, que, com os cortinados da
única janela corridos, estava mergulhado em semiobscuridade. ao centro, graça viu enorme
mesa de trabalho em estilo veneziano. cadeiras com os pés esculpidos e doirados, da mesma
proveniência, estavam encostadas às

66
paredes revestidas com madeira de tom claro. em volta, junto do tecto, corria uma cornija
representando folhas de acanto, por trás da qual se ocultava uma fileira de lâmpadas
eléctricas. uma alcatifa cobria completamente o chão. as paredes estavam desguarnecidas.

harlington designou-lhe uma poltrona.

- sente-se, por favor, mademoiselle.

quanto a ele, ficou de pé, encostado à secretária. graça teve a impressão de que era muito
mais alto do que supusera.

com certeza tencionava sair, porque envergava o trajo de montar e botas altas. aquele fato,
de tom escuro e corte impecável, mais do que qualquer outro, fazia sobressair o tom
doirado da cútis, de homem habituado a correr os campos. mas nenhum outro também
poderia dar-lhe ar mais severo. cruzou os braços e fixou graça com olhar glacial.

- ainda não lhe agradeci, mademoiselle, os cuidados que dá a meu filho e a forma como se
encarregou da sua educação. acredite, no entanto, que reconheço o valor da sua tarefa e o
sacrifício que fez ao enterrar-se em dark-castle.

leve expressão de espanto se desenhou no semblante de graça. sentia que lorde gerardo não
a chamara só para lhe agradecer.

- não faço sacrifício em viver neste país, milorde - respondeu com calma - É belo, de uma
beleza agreste que nos subjuga. desde o primeiro dia foi como se o ”reconhecesse, por tal
forma o seu aspecto me encantou. no entanto, e ao mesmo tempo, encontrei nele todo o
atractivo, as seduções do imprevisto. quanto a dark-castle, só uma pessoa insensível ficaria
67
indiferente à poesia emanada destas velhas paredes.

harlington estremeceu, o olhar pensativo deixou de fixar graça para poisar na


alcatifa.

- outrora escutei idênticas palavras proferidas por uns lábios de mulher- murmurou
em voz surda - e não foi preciso mais do que um inverno para transformar esse
entusiasmo na mais intensa aversão a esta casa e à minha pátria.

lorde gerardo falara mais como se o fizesse consigo próprio do que para graça. no
entanto, esta sorriu:

- não temo o inverno, milorde. william prometeu-me contar lindas histórias de fadas
e lendas, nos serões passados junto do fogão.

naquele instante, esqueceu que a sua permanência em dark-castle deveria ser muito
breve.

o escocês teve um trejeito de duvidosa ironia.

- e essa perspectiva agrada-lhe?... acha-a alegre?

- alegre, não... agradável e tranquila, sim.

a fisionomia de lorde gerardo tomou uma expressão de leve espanto e tornou-se


menos severa.

- não conhece muito a vida, com certeza, para acolher com satisfação a perspectiva
de prolongada reclusão junto de uma criança doente. quando tiver ocasião de
experimentar esse divertimento ou mesmo de o encarar a sério, um só dia que seja,
verá como dark-castle se revestirá de um cunho menos poético.
68
ao proferir estas palavras retomara o tom de amarga ironia.

- não me parece, milorde.

pareceu não ouvir e como para expulsar pensamentos importunos, passou a mão pela testa.

- como dizíamos nós? - murmurou após breve silêncio, no evidente desejo de reconduzir a
conversa ao assunto que o interessava-agradecia-lhe os cuidados que dá a william. no
entanto...

- no entanto?... - repetiu graça, com calma.

pressentia que entre ela e lorde gerardo o ponto mais importante da conversa ainda não
tinha sido abordado.

apesar da interrogação directa, gerardo não lhe respondeu. de repente, mudou de assunto e
declarou:

- desejo fazer-lhe uma confissão, mademoiselle. quando pensámos que a companhia da


nurse já não bastava a william, nunca encarei a hipótese de trazer uma mulher para dark-
castle. lorde ruthery, pelo contrário, protestava contra a ideia de um preceptor, devido à
pouca idade do pequeno. tenho absoluta confiança em meu tio, conheço a sua competência,
sensatez e dedicação; além disso, como não gosto de discussões de ordem material nem de
obrigações de qualquer espécie, abandono-lhe a direcção da casa. para mais, lorde ruthery
já a conhecia de nome e estava ao facto das suas aptidões. se não me engano, acompanhou
um dos seus amigos à américa como secretária?

involuntariamente, graça desviou a vista.

- exactamente, milorde.

- muito bem. em resumo, insistiu tanto e


69
apresentou-me tão boas razões que cedi. e reconheço - continuou, inclinando-se
ligeiramente, mas sem se despojar do seu ar altivo - que só tenho razões para me felicitar...

- no entanto...

lorde gerardo fixou-a com ligeira surpresa. a repetição da palavra, que pouco antes ele
próprio empregara, provava-lhe que graça continuava a aguardar o mais importante da
conversa. e tão rápida compreensão, que fazia honra à sua inteligência e demonstrava o
desejo de ir direita ao fim, causava-lhe certo espanto.

- no entanto... sim, no entanto, gostaria de conversar consigo sobre certos pormenores da


educação de william.

- por exemplo?

pela segunda vez, a despeito do domínio próprio que sempre conservava, lorde harlington
ficou um tanto atrapalhado.

- por exemplo... seria bom não voltar a insistir, desde já, nos deveres que mais tarde devem
competir-lhe.

- para não ser um inútil?

amargo sorriso contraiu os lábios do escocês.

- isso mesmo, mademoiselle.

desde o instante em que lorde harlington aparecera no terraço, graça sabia que todas as
palavras da sua conversa com william tinham sido escutadas pelo pai. e avaliava tudo
quanto o orgulho de um homem como ele devia ter sofrido.

todavia, não se arrependia do que tinha dito. se lorde gerardo tinha reconhecido, no retrato
traçado a seu filho como modelo, todas
70
as qualidades que lhe faltavam, tanto pior. graça falara conforme lho ordenava a
consciência e, de si para si, jurava nunca dizer o contrário.

visto encontrar-se em dark-castle devido a uma fraude, pelo menos que a sua influência na
alma de william e também o seu procedimento de harmonia com a verdade e a justiça
resgatassem a inicial impostura da sua intrusão.

ergueu a cabeça e com tranquila segurança afrontou o olhar de lorde harlington.

- isso quer dizer, milorde, que, em sua opinião, dei falsas ideias a william?

gerardo pareceu ficar satisfeito com a aparente docilidade de graça e a forma como
reconhecia o erro.

- algumas, com efeito.

graça ficou calada, aguardando que ele se explicasse, o que não tardou.

- as suas teorias e a linha de conduta que indicou a meu filho para o seu futuro
procedimento com os seus semelhantes resumem-se, conforme depreendi, em duas
palavras: confiança e bondade. ora, justamente, os nossos sentimentos e conceitos são
opostos. não quero que meu filho seja confiante e oponho-me, categoricamente, a que seja
bom.

graça observou-o, esboçando ligeiro sorriso. mas bastou-lhe olhar para o rosto sombrio de
lorde harlington para se desvanecer a ideia de que gracejava.

com voz dura e irónica, ele continuou:

- confiança! a confiança é a maior das loucuras, mademoiselle. aquele que a tem nunca é
retribuído e transforma-se numa espécie de fantoche crédulo, à mercê de tudo e de todos.
aniquila
71
a vontade e embrutece a inteligência. implica, principalmente, um desejo de aprovação e de
apoio que representa fraqueza. meu filho deve saber que estamos sozinhos em face da vida.
e quero defendê-lo da loucura de procurar em alguém, seja quem for, indulgência e
compreensão e de lhe conceder fé e credulidade.

com espanto, quase com terror, graça escutava as estranhas palavras, proferidas pelos lábios
contraídos num vinco de amargura. o espanto em breve se transformou em indignação e por
fim em compaixão. como devia ser profundo, talvez incurável, o golpe sofrido por aquele
coração, para lhe ter roubado assim todo o sentido da vida!

- quanto à bondade, eis, em resumo, o que penso dela - prosseguiu lorde harlington
considero-a como prova evidente de fraqueza. entrega-nos de pés e mãos atados àqueles a
quem a demonstrámos. dá-lhes todos os direitos sobre nós, principalmente o de nos
ridicularizar com a ingratidão e a perfídia. o homem bom assemelha-se àquele que, tendo
de atravessar uma floresta escura, se despoja de todas as armas a favor dos salteadores que
pretendem atacá-lo. e considero-o tão louco quanto os outros são maus!

enquanto falava, afastou-se da secretária e deu alguns passos pela sala.

- deve ensinar a meu filho - continuou, mudando de tom, empregando súbita autoridade
- a desconfiança e a malevolência. ensinar-lhe-á o egoísmo, isto é, a livre expansão da sua
personalidade, insensibilidade e indiferença...

parou de novo junto da secretária, à qual se


72
encostou, curvando-se ligeiramente para graça. talvez ainda não tivesse dito tudo, mas esta
levantou-se e pediu, friamente:

- nesse caso, milorde, peço-lhe para me restituir a liberdade.

e como ele a fixasse sem compreender, concluiu:

- recuso-me a destruir a alma de william. harlington aprumou-se num gesto brusco.

- destruir! - repetiu com a testa franzida. pelo contrário, é para evitar que seja destruída,
devastada, que eu pretendo defendê-la.

- está no seu direito de ter opiniões, milorde, conquanto sejam contrárias ao bom senso e à
verdade. mas eu também tenho o direito de recusar uma tarefa nefasta e contra a qual todos
os meus sentimentos se revoltam.

corajosa, não baixava a vista perante o olhar cintilante que a fixava e cujas pupilas, de
momento a momento, pareciam escurecer. de repente, com espanto, a expressão do escocês
modificou-se e reflectiu profunda ironia.

-lamento, mademoiselle, mas o nosso acordo, livremente aceite, obriga-a a ficar, durante
algum tempo ainda, prisioneira de dark-castle.

e como ela não respondesse, aterrada com a perspectiva dessa dependência, prosseguiu,
sempre irónico:

- quando aceitou desempenhar o cargo de preceptora do william, meu tio, a quem deixei a
responsabilidade de conduzir as... negociações, deu-me a sua resposta favorável. mas, como
conheço bem as pessoas e vejo-as com a necessária desconfiança - embora afirme o
contrário, a desconfiança é útil-não dispenso certas precauções. temi que se aborrecesse em
73
breve de dark-castle, conquanto afirme ser poético e encantador. não quis que meu filho
ficasse tão depressa privado dos seus cuidados e exigi que se comprometesse a passar, pelo
menos, oito meses no castelo. tenho o confirmação deste acordo. espero que não a renegue.
calou-se como se reflectisse e concluiu:

- se não me engano, chegou aqui no dia 12 de maio. no dia 12 de janeiro, se mantiver a sua
resolução, restituir-lhe-ei a liberdade.

graça, na primeira impressão, ficou aniquilada. por todos os modos, estava atada de pés e
mãos.

- ninguém me revelou a natureza da tarefa que me esperava, milorde.

como sempre que se referia ao velho lorde, falava ao acaso. ainda desta vez acertou, porque
harlington encolheu os ombros e declarou:

- nunca pensei que estas... divergências em matéria de educação assumissem para si tão
grande importância!

- como pode verificar, enganou-se, milorde. volto a afirmar-lhe a minha incapacidade para
dar a william a educação que deseja.

pela segunda vez, gerardo fez um gesto de irritação.

- recusa?

- recuso-me a incutir ideias falsas no coração e na inteligência de uma criança.

durante alguns instantes, ele examinou-a sem lhe responder, talvez admirado com a sua
coragem ou procurando descobrir o móbil oculto que a impelia.

por fim, dominando a cólera num esforço violento que lhe fez entumecer as veias das
fontes, comentou:
74
- conta que a sua teimosia me leve a restituir-lhe a liberdade? desengane-se, mademoiselle.
seja qual for a sua opinião sobre a minha pessoa e os meus sentimentos, fique sabendo que
aprecio o perigo... e as experiências. agora pode ir ter com o meu filho.

graça inclinou-se para leve cumprimento. entre ela e lorde harlington nada mais restava
para dizer, com efeito. mas nessa luta imprevista saía vitoriosa, visto ter salvaguardado a
sua liberdade no que dizia respeito à educação de william.

graça saiu. lorde harlington não a acompanhou, nem deu um passo para lhe abrir a porta
para o terraço. continuou encostado à secretária, com aspecto sombrio e, durante algum
tempo, não modificou a sua atitude. por fim, uma frase pronunciada pouco antes e que a
preceptora não compreendeu, acudiu-lhe de novo aos lábios:

”sim - murmurou com voz alterada - gosto de experiências... mesmo quando sou eu a
cobaia.”

pouco depois, harlington montava a cavalo e saía do castelo à rédea solta. voltou noite
fechada, dirigiu-se imediatamente para os seus aposentos e mandou dizer a lorde ruthery
que não assistia ao jantar.

75
graça começou a educação de william. dava-lhe lições numa sala vizinha ao quarto
de dormir, que servia ao mesmo tempo de sala de estudo e para brincar quando
estava mau tempo.

passavam ali parte do dia, nem sempre a trabalhar, mas em palestras alegres e
interessantes, que instruíam o pequeno. e essas palestras prosseguiam durante os
passeios cotidianos, dados, quer a pé, quer no carrito puxado por um pónei,
conduzido por william.

o pequeno estava muito atrasado. a sua débil saúde não o deixara consagrar muito
tempo ao estudo. mas era dotado de tão viva inteligência e também tão ávido de
saber, que graça conseguiu progressos espantosos. alegrava-se, sentindo-se feliz por
ver desabrochar aquele espírito delicado, um coração sensível, cuja eclosão podia
provocar e vigiar.

essa tarefa preenchia-lhe a vida. dedicava-se-lhe sem reserva, prendendo-se a


william, que representava para ela a salvação e o esquecimento.
76
encontrava-se pouco com os outros habitantes do castelo. depois da conversa sobre william,
lorde gerardo não voltara a dirigir-lhe a palavra. cumprimentava-a com modos distraídos,
sem olhar para ela, quando se encontravam nos corredores de dark-castle ou às refeições.
graça tinha a impressão de que a seus olhos valia tanto como os móveis e outros objectos
que o rodeavam, pois não lhe prestava mais atenção do que a eles ou demonstrava a seu
respeito um vislumbre de curiosidade.

além disso, continuava a viver fora de casa. passava os dias a correr a floresta e os moors e,
muitas vezes, nem regressava ao castelo, dormindo em casa de um dos guardas.

certa vez, esteve quatro dias ausente e quando regressou, se o aspecto melhorara e vinha
mais corado, a disposição era a mesma.

À prima ethel, que, apesar disso, se interessava sempre pelo que mais podia agradar-lhe e,
com uma paciência incansável, às horas das refeições, tentava entabolar conversa, teve a
condescendência de contar como passara os quatro dias: dedicara-os à caça dos grous e,
sozinho, numas trinta batidas, caçara mil duzentas e sessenta e três aves.

não se mostrava orgulhoso com o resultado nem com a resistência física que ele
demonstrava. e, muitas vezes, graça perguntava a si mesma o que na vida poderia despertar
o interesse de lorde harlington e ter alguma importância para ele. os trabalhos de william e
os seus primeiros passos nos estudos tinham-no deixado indiferente. lorde ruthery, tio-avô
do pequeno, que tudo dirigia em dark-castle, era o único a interessar-se pelos seus
progressos e
77
aplicação. desta forma, era com ele que graça mantinha maior contacto.

em face do acolhimento recebido no primeiro dia, a preceptora temia-se dessas


relações. mas, desde então, a atitude e palavras de lorde ruthery eram naturais, sem
que pudesse descobrir nelas a mais pequena alusão ou sentido oculto, e graça, de
princípio retraída, começou a recear menos a sua presença.

continuava a testemunhar-lhe uma simpatia encoberta e deferente em comparação


com os modos altivos e o seu despotismo para com o restante pessoal. cecília era a
única a escapar às suas exigências, implacáveis reprimendas e ordens bruscas. a
governanta devia encontrar-se havia muitos anos em dark-castle para que ele se
atrevesse a tratá-la mal. além disso, as funções que exercia, apesar de subalternas,
faziam dela uma pessoa com quem se impunha contar.

cecília não tinha a mais pequena simpatia pelo velho lorde e tornava-se evidente que
só com grande esforço de vontade acatava com respeito as suas ordens, as transmitia
e velava para que fossem cumpridas.

esta aversão, tão mal dissimulada que graça a notou desde os primeiros dias, bastava
para explicar a frase que william repetira. para cecília, o ”grupo dos indesejáveis”,
em dark-castle, era representado por lorde ruthery e pela filha. e, nos primeiros
tempos, demonstrara tanta frieza à preceptora só por saber que tinha sido indicada
por ele.

algumas semanas, porém, haviam bastado para mudar essa disposições em solicitude
e na mais viva simpatia. a sedução pessoal de graça
78
alguma coisa tinha contribuído para isso, mas, acima de tudo, a dedicação que demonstrava
ter por william e os cuidados de que o rodeava conquistaram cecília. e não havia carinhos e
atenções que não dispensasse a graça, para lhe testemunhar a sua fidelidade.

naquela tarde, a governanta entrou com ar sombrio, na sala de estudos de william.

o pequeno acabava de fazer a cópia. estava sentado diante da pequena secretária, em frente
da janela e tão entregue ao trabalho que não ouviu a porta abrir-se. para não o distrair,
graça, que se encontrava a seu lado, levantou-se e foi ter com a governanta.

- que tem, cecília?

- lorde ruthery, antes de partir para edimburgo, deseja falar-lhe, mademoiselle. está à sua
espera na biblioteca.

com prazer, cecília notou que a fisionomia de graça exprimia espanto e aborrecimento.

- agora, já? - perguntou.

- daqui a um quarto de hora. sua honra está a preparar-se para partir. a maleta já foi levada
para o carro.

graça deu alguns passos para a janela e levantou a cortina. com efeito, no pátio de honra,
exactamente como na manhã da sua chegada, o mesmo carro aguardava.

- não sabia que lorde ruthery se ausentava


- comentou, relanceando uma olhadela para o seu trajo.

- acontece-lhe isso muitas vezes - comentou a governanta com irónico sorriso - os nossos
campos verdejantes distraem-no menos do que os tapetes verdes das salas de jogo de
edimburgo.

79
graça fixou-a com espanto.

- supunha que os negócios...

- são bonitos os tais ”negócios”.

- então é jogador?

- e joga forte... nos clubes e até nas casas de batota mais ordinárias.

- mas porquê? não é bastante rico para não precisar de ganhar dinheiro dessa forma?

- ganhar ou perder! - respondeu cecília, encolhendo os ombros - não, lorde ruthery não tem
fortuna. vivia, anos atrás, em pequeno domínio no loweland. pode calcular com que prazer
trocou essa mediocridade pela vida luxuosa de dark-castle. no dia em que veio instalar-se
junto de lorde gerardo, que, com a fuga de lady helena, ficara sozinho, desamparado e
louco de cólera, soube bem o que fazia.

calou-se. as respostas haviam sido dadas rapidamente, em voz baixa, de forma que william,
todo entregue ao trabalho, nem sequer ergueu a cabeça.

- lady ethel vai com o pai? - perguntou graça.

- lady ethel nunca sai de dark-castle.

- mas no dia da minha chegada...

- nesse dia, deve lembrar-se de que lorde gerardo não se encontrava no castelo.

o olhar de graça exprimiu espanto.

- não compreendo.

- mais tarde compreenderá - replicou a governanta com um sorriso trocista que não visava a
preceptora - por que razão lady ethel só abandona o castelo quando o primo está ausente.
agora será melhor ir. sua honra já deve estar na biblioteca.

graça agradeceu-lhe e saiu do quarto. pouco


80
depois entrava no vasto aposento onde era aguardada por lorde ruthery.

este recebeu-a de pé e foi logo direito ao assunto:

- mademoiselle, sou obrigado a ausentar-me por alguns dias e gostaria de tomar algumas
disposições concernentes a william.

falava em voz alta e graça, olhando para o terraço, avistou um criado que arrumava os
móveis do jardim.

- meu sobrinho deve trabalhar só de manhã. creio que deve chegar, à tarde destino-lhe outra
tarefa.

- estou à sua disposição, milorde.

o velho lorde corou um pouco e estendeu a mão como a protestar contra a docilidade de
graça. mas, antes de falar, olhou para o terraço.

- feche as portas, jack - ordenou - não compreendo como, com este sol, teimam em abrir as
janelas.

se fosse mais ousado, jack teria respondido ter sido sua honra quem ordenara que
deixassem entrar o ar naqueles aposentos, a qualquer hora que fosse. mas sabia muito bem
como saía caro contrariar lorde ruthery e contentou-se em obedecer sem protestar.

- até que enfim! - murmurou o velho quando deixou de ouvir os passos do criado agora
podemos conversar à vontade. tenho dificuldade em encontrá-la sozinha sem levantar
reparos. william está quase sempre entre nós. vejo-me obrigado a arranjar pretextos... e
afigurou-se-me que a minha ausência durante alguns dias serviria muito bem.

graça não lhe respondeu e o seu interlocutor


81
tomando este silêncio por aprovação, continuou:

- perdoe-me, mas devo chamar-lhe a atenção para um erro que está cometendo,
mademoiselle.

- um erro?

- exactamente. foge muito da família de dark-castle. deve conviver mais connosco.

- sou professora de william, milorde. o meu tempo pertence-lhe.

- com efeito, aparentemente, assim é. mas, aqui entre nós, bem sabe como o pai se preocupa
pouco com isso.

- É, justamente, por essa razão que o meu dever...

a fisionomia de lorde ruthery exprimiu leve impaciência. mas foi breve. como se súbita
ideia lhe ocorresse, começou a rir.

- compreendo! conta ganhar a partida com esse meio. e porque não? mas duvido -
prosseguiu após breves minutos de reflexão - gerardo admite tão pouco o dever e o
sacrifício que não pode apreciar essas virtudes. não foi por certo com elas que lady helena o
conquistou. não me quer mal, por falar assim da sua irmã?

o olhar de graça exprimiu espanto e susto. iludindo-se com o motivo que os provocara,
lorde ruthery acrescentou logo:

- estamos sós, mademoiselle, e eu falei tão baixo que nem mesmo um curioso poderia
ouvir-me. além disso, pode estar sossegada. estas paredes são muito grossas...

- não tão grossas como supõe, milorde murmurou graça com voz trémula - acontece, por
vezes, no meu próprio quarto ouvir o barulho
82
feito pelos ratos no aposento vizinho, na ”sala da rainha” como lhe chamam.

graça estava muito ocupada com as suas impressões para notar as reacções de lorde ruthery.
caso contrário, teria ficado espantada. estremeceu violentamente e relanceou-lhe um olhar
receoso. só decorridos instantes conseguiu murmurar em voz surda:

- tem a certeza de que, se estiverem à escuta...

- receio que assim seja, milorde.

- talvez tenha razão. nunca supus... calou-se um instante como se reflectisse e

interrogou:

- então o seu sono é muitas vezes perturbado pelas galopadas dos ratos?

o pensamento de graça andava muito longe dos aposentos reais e dos seus indesejáveis
hóspedes. no entanto, respondeu:

-não são bem galopadas, milorde, mas um ranger surdo... suponho que o ruído feito pelos
ratos quando estão a roer.

- isso acontece todas as noites?

- não. só fui acordada duas vezes - em geral, durmo muito bem - uns dias depois da minha
chegada e esta noite.

- esta noite também? - murmurou lorde ruthery.

graça confirmou com a cabeça, admirada por ele dar tanta importância a tão pequeno
acontecimento.

- não é medrosa, pois não? - inquiriu lorde ruthery com um sorriso forçado.

- absolutamente nada, milorde.

- está convencida de que esses ruídos são produzidos pelos ratos e não pelo fantasma que
83
todo o castelo da escócia se orgulha de possuir?

a preceptora começou a rir.

- não sou dotada de tanta fantasia. lorde ruthery pareceu ficar mais descansado.

- se lhe faço esta pergunta - prosseguiu é porque os criados, sempre dispostos a dar ao mais
simples incidente um carácter misterioso, convenceram-se de que esses ruídos tinham outra
origem. lady helena habitou esses aposentos e morreu. não é preciso mais para que os
espíritos desvairem. muitas dessas tolices chegaram aos ouvidos de lorde gerardo e
irritaram-no. por isso a previno, para que não se renove a contrariedade provocada por esses
boatos.

graça escutou-o com espanto crescente. as primeiras frases trocadas deram-lhe margem a
esperar conversa mais interessante, mais grave. a maneira como respondeu devia revelar o
que sentia.

- tranquilize-se, milorde-assegurou- não serei eu quem falará a lorde harlington no fantasma


de dark-castle e lhe darei ocasião para se irritar contra a imaginação, credulidade e
disparatados terrores dos criados.

lorde ruthery mostrou-se satisfeito com a promessa.

- deixemos isso - decidiu em tom jovial estamos muito longe do que lhe queria dizer.

e continuou, sem, no entanto, conseguir retomar o modo despreocupado aparentado no


princípio da conversa:

- queria pedir-lhe um favor, mademoiselle, o de me ajudar a pôr em ordem a biblioteca.


84
os seus conhecimentos são extensos e a educação de william deixar-lhe-á o tempo
suficiente para poder auxiliar-me por forma eficaz. quer começar enquanto eu estiver
ausente? os volumes devem ser alinhados por autores e pela ordem alfabética. para os mais
preciosos, que se encontram em volta da galeria, aqui está a chave. como poderá verificar, o
rebordo que corre ao longo das prateleiras volta-se para baixo com facilidade, o que
permite o fácil manejo dos volumes.

sem uma palavra, graça recebeu das mãos de lorde ruthery pequena argola com uma chave.

- algumas vezes será perturbada no seu trabalho - acrescentou o velho lorde - lorde gerardo
instala-se amiúde nesta sala que comunica com os seus aposentos e, quando se encontra em
dark-castle, tomamos o chá aqui. julgo que esse pormenor não lhe desagrada.

sempre a mesma inflexão que dava às palavras um sentido oculto e provocava em graça
uma sensação de mal-estar!

com ligeira inclinação de cabeça, respondeu:

- procederei de forma que a minha presença não incomode ninguém.

lorde ruthery olhou-a com admiração.

- É espantosa! nem um segundo esquece o seu papel!

- nem por um segundo, com efeito - replicou graça, com ironia.

- outra coisa ainda. mas confesso-lhe que hesito e não sei se devo atrever-me...

graça sorriu. a estranha situação em que se encontrava tinha o seu lado cómico.

- atreva-se, milorde...

85
- lá vai. lorde gerardo detesta as mulheres cuja principal e única preocupação é a
toilette; creio que a recordação de lady helena não é estranha a esse sentimento. no
entanto, aprecia a elegância. posso, sem desejar ofendê-la, sugerir-lhe a ideia de
mudar de vestido, trocando por outro mais claro, esse que usa desde o primeiro dia?

leve rubor tingiu as faces de graça. aquele era o único vestido que possuía. os outros
encontravam-se na mala atribuída à morta. e, embora fosse da mesma estatura da
autêntica graça fabrège, tinha verdadeira repugnância em utilizar os vestidos
encontrados na mala da desaparecida.

- peço-lhe desculpa-insistiu lorde ruthery, a quem a perturbação da preceptora não


passara despercebida - acredite que só o muito interesse. ..

- tenho a certeza disso - atalhou graça em voz fria.

receando ter ultrapassado os limites permitidos, quis remediar o mal, mas lorde
ruthery mostrou-se mais surpreendido e aflito com a rudeza da resposta do que
ofendido.

- e agora - murmurou, não encontrando, por certo, pretexto para prolongar a


conversa
- até breve. deixo-a.

com um gesto circular que abrangia toda a sala, acrescentou:

- lembre-se de que está aqui como em sua casa.

estendeu-lhe a mão e depois, em passo rápido, dirigiu-se para a porta que


comunicava com os outros aposentos do rés-do-chão e desapareceu.
86
quando se viu só, graça demorou-se algum tempo com os olhos fixos no tapete.
estava ainda espantada com as palavras do velho lorde a respeito de lady helena. e
se, diante dele, tinha conseguido dominar-se, agora a emoção tirava a desforra e
avassalava-a.

quem era ela, no fim de contas? qual o rosto que aos olhos de lorde ruthery evocava
o seu próprio rosto? que força, benévola ou maligna, representava? que drama,
segredo ou esperança sse relacionavam com a sua presença? para que fim caminhava
por atalhos ignorados?

no seu desânimo, revoltada e impotente, cerrou os punhos, sem mesmo dar por isso.
pela dor que sentiu na mão direita, recordou a chave confiada aos seus cuidados.
abriu os dedos e observou-a com ar pensativo. por momentos desviado das suas
preocupações, o pensamento voltou a fixar-se na tarefa determinada por lorde
ruthery. gostava muito de livros e tinha tão grande admiração pelas preciosidades
entrevistas durante as breves passagens pela biblioteca, que a perspectiva do
trabalho indicado não lhe desagradava.

teria ocasião de folhear os livros raros e preciosos que estavam separados dos outros.

quando lhe acudiu este pensamento, graça não resistiu à tentação de ir admirá-los
mais de perto.

subiu a pequena escada, cujo corrimão de madeira esculpida se prolongava pela


balaustrada da galeria. na altura em que a atingiu, a porta por onde lorde ruthery
tinha saído voltou a abrir-se e o velho lorde apareceu, seguido por lady ethel.

dirigiam-se para o hall e atravessavam a


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biblioteca. o primeiro dispunha-se a alcançar o carro e a filha acompanhava-o.
quando chegou junto da secretária, o escocÊs agarrou nas luvas que ali deixara e
voltou-se para ethel.

- não esqueceste nada, ethel? não desejas encarregar-me doutras encomendas?

o tom era de ironia. a lista da rapariga por certo já não era pequena.

- não, não esqueci, esteja descansado. quando volta?

- daqui a quatro ou cinco dias. para o fim da semana, talvez.

graça já tinha notado que entre lorde ruthery e a filha não existia sombra de ternura
nem mesmo de intimidade. o tom indiferente e frio e, por vezes até, impaciente, que
empregavam quando falavam um com o outro, não deixava dúvidas sobre a natureza
dos recíprocos sentimentos. e naquela altura teve a mesma impressão de hostilidade.

lorde ruthery continuou a andar para a porta.

- a propósito - disse, parando - esquecia-me de te avisar. vais encontrar muitas vezes


mademoiselle fabrège na biblioteca. pedi-lhe para me auxiliar a classificar os livros.

lady ethel parou, bruscamente.

- mademoiselle fabrège! - repetiu num tom que levou graça, encoberta com o pilar
que ligava a galeria ao tecto, a encostar-se mais às prateleiras cobertas de livros com
receio de ser vista.

numa voz que tremia de cólera, ethel insistiu:

- essa preceptora vai imiscuir-se na nossa vida?


88
o velho lorde encolheu os ombros e franziu a testa. no entanto, respondeu com
simulada despreocupação:

- não sejas tão rigorista, filha. já passou o tempo em que a velha nobreza da escócia
se mostrava mais orgulhosa e altiva do que a de qualquer outro país. tens afirmado
que não queres morrer de aborrecimento neste maldito dark-castle... creio eu.
verifico, porém, que o teu espírito não abandona as ideias retrógradas.

- não se trata disso! - protestou lady ethel.

no ponto onde se encontrava, graça via, entre dois pilares da balaustrada, o rosto da
rapariga. e ficou estupefacta com a profunda cólera que o alterava.

- além disso, tem outra casa a propor-me melhor do que dark-castle? -prosseguiu
lady ethel com voz sibilante - impacienta-se e aspira a uma mudança de vida que
os... seus passeios repetidos não conseguem proporcionar-lhe; mas, para onde
iríamos viver se saíssemos daqui? em edimburgo? com que recursos? por certo não
esqueceu que há muitos anos deve os ordenados ao seu criado de quarto. quanto à
nossa vida naquele ninho de ratos em loweland, cedo-lha... e afirmo-lhe que não
estou disposta a voltar a errar como uma alma penada entre aquelas paredes
arruinadas, nas salas com os tectos a cair, nas escadas que cedem debaixo dos pés,
nos corredores onde o vento e os mochos entram à vontade!

proferia o longo discurso com veemência, como se lançasse à cara do pai um


ressentimento por muito tempo oculto. lorde ruthery não se mostrou impressionado.
89
- pois, então, deixa-te ficar neste paraíso de dark-castle. mas consente que eu o
abandone de vez em quando, porque não tenho as mesmas razões do que tu para me
considerar aqui feliz e satisfeito.

dispunha-se a sair, mas não contou com a obstinação da filha. as últimas palavras do
pai impressionam fortemente lady ethel, que empalideceu e exclamou:

- louco! louco! pois não compreende que está a trabalhar para que nos seja roubado
o abrigo desta casa?

- não compreendo como... - protestou o velho, parando.

- como! - repetiu ethel, fixando-o com olhar cintilante - pergunta como! supõe que
outra lady harlington consentiria, indefinidamente, no castelo, a presença dos
parentes do marido?

- outra lady harlington?

o espanto manifestado por lorde ruthery foi tão natural que graça não duvidou da sua
sinceridade. quanto a lady ethel, talvez por estar mais habituada às inflexões do pai,
não fez caso da interrogação e prosseguiu com impaciência:

- percebe muito bem que me refiro a essa rapariga. sim - continuou, sem dar tempo
para que o pai falasse-é sempre perigosa a presença de uma mulher em casa de um
homem infeliz ou que se considera como tal. e, neste caso, mais perigosa porque
essa mulher é bela.

a voz enfraquecera nas últimas palavras. proferiu-as com uma espécie de desespero
e depois prosseguiu:

- provocou a vinda de mademoiselle fabrège para o castelo, insistindo com gerardo


para tomar
90
uma preceptora para o filho. empregou todos os seus esforços para destruir a sua
resistência, para vencer a sua visível repugnância. ganhou a batalha. essa rapariga está aqui,
mas o facto pouco modificou a nossa vida. agora, porém, tenta estabelecer entre ela e os
habitantes de dark-castle maior intimidade. qual é o seu intuito, santo deus! É tão insensato
que não avalia os possíveis resultados da sua inconsequência?

enquanto a filha falava, o semblante do velho lorde ensombrou-se pouco a pouco. já não
conseguia dominar a cólera e, quando ela se calou, respondeu-lhe com um riso irónico:

- o que nunca podia calcular era o teu desespero ao veres outra mulher instalada no castelo.

como se o pai a tivesse esbofeteado, lady ethel recuou alguns passos.

- que importam os meus sentimentos! protestou em voz sufocada, fixando o pai com olhar
odiento - trata-se do seu interesse...

- sou eu o único juiz dos meus interesses! vamos, ethel - prosseguiu com mais brandura
- deixa-te de criancices. perdeste o domínio dos nervos. confia em mim, como sempre.
deixa-me. ..

- atirar com essa preceptora para os braços de lorde gerardo... não, mil vezes não! o ponho-
me a isso e farei tudo para contrariar os seus projectos...

não pôde concluir. num gesto rápido, lorde ruthery pegou-lhe no braço e a pressão foi tão
rude que ela soltou um gemido.

- basta! - gritou numa voz dura, furiosa, com o rosto muito perto do de ethel - não
91
suportarei os teus caprichos nem a tua revolta, ouve bem. pouco me importa que
sejas louca a ponto de esperar alcançar o amor de gerardo. mas não consentirei, seja
em que ponto for, que a tua vontade se oponha à minha. se isso acontecer, o teu
primo saberá que lady helena, ao fugir do castelo, foi refugiar-se no ”velho ninho de
ratos” de que há pouco falaste com tanto desprezo. saberá também que, na minha
ausência, empregaste toda a tua habilidade para a desviar da ideia do regresso e
soubeste transformar uma fuga sem importância num abandono definitivo. está dito,
de uma vez para sempre! e agora lamento ser obrigado a deixar-te.

ao proferir as últimas palavras, retomara, com extraordinária prontidão, a máscara de


ironia. graça notou o quando ele se voltou para sair. aterrada, cerrou os dentes,
retendo a respiração, com receio de se denunciar. lorde ruthery, porém, mal podia
adivinhar a sua presença na galeria e saiu da sala sem relancear um olhar em volta
de si.

lady ethel não se mexera. somente, quando a porta bateu, apertou a cabeça nas mãos,
num gesto de desespero. graça ouviu um soluço prolongado e convulsivo. ethel,
depois, deixou cair os braços e ficou imóvel, no mesmo sítio, como que aniquilada.
por fim, em passo rápido, como se estivesse com pressa de ir desabafar o seu
desespero, saiu da sala por sua vez.

só decorrido algum tempo graça se atreveu a descer do seu esconderijo. a vergonha


sentida por ter assistido à conversa sobrepujava o receio de ser surpreendida.
felizmente, nem no vestíbulo rutilante de tons de púrpura e oiro, projectados pelos
vitrais, nem na escada encontrou
92
alguém. a sala de estudos também estava erma. cansado de esperar, william fora ter com a
nurse.

e graça, que se sentia sem forças para aparecer ao pequeno na atitude calma e sorridente de
sempre, recolheu ao quarto sem o chamar.

93
vi

os belos dias de verão envolviam o castelo solitário numa onda de perfumes. as manhãs
espalhavam a sua claridade radiosa pelos moors e florestas. ao meio-dia, o lago, batido pelo
sol, assemelhava-se, na sua brilhante imobilidade, a um espelho de prata. os crepúsculos
eram feitos de oiro e chamas e as noites de calma doçura.

graça assistia, encantada, à metamorfose da natureza e, apesar do calor, nunca deixava de


sair.

sentada ao lado de william, no carro de duas rodas puxado pelo pónei fogoso, de comprida
crina, que o rapazito guiava, orgulhoso, gozava os momentos mais agradáveis do dia. e,
nesse instante, mas só nesse, pensava que a aventura em que se lançara, apesar de tudo, lhe
proporcionava horas deliciosas.

os passeios eram dados à tarde. de manhã, william estudava e depois do almoço graça
dirigia-se para a biblioteca, onde iniciara os trabalhos de classificação.

94
lorde ruthery, como sempre, não se tinha enganado ao pensar que esse trabalho forçaria
graça a maior intimidade com os senhores do castelo. ele próprio se instalava muitas vezes
na biblioteca, onde lady ethel ia e vinha, saía e entrava sem que a ouvissem aproximar-se,
presente quando a supunham ausente, silenciosa, atenta e discreta. e graça sentia que a
rapariga a perseguia com o seu ódio violento e vigilante.

lorde gerardo também aparecera duas ou três vezes. seguido pelos dois galgos de pelagem
fulva, ”eli” e ”brownie”, os melhores da matilha e os seus preferidos, empurrava a porta de
comunicação com os seus aposentos e entrava sempre com o mesmo aspecto sombrio,
agitando o chicote.

não conseguia ocultar o seu desagrado quando encontrava ali reunidos o tio, a prima e
graça. apesar do pressuroso acolhimento de ethel, da cordialidade de lorde ruthery, não
trocava com eles mais do que breves palavras. no entanto, graça notou que, enquanto
respondia distraidamente aos seus parentes, o olhar sombrio de lorde harlington nem por
um instante deixava de a fixar.

no princípio do mês de agosto o calor tornou-se tão intenso que os passeios do pequeno
lorde e da preceptora tiveram de ser interrompidos. mas, decorridos alguns dias, william
revoltou-se contra a forçada reclusão.

- repare - disse a graça nessa voz persuasiva,


fada.
(2) - espírito que as lendas da escócia mencionam muitas vezes.

95
que tão bem sabia empregar quando desejava alguma coisa - não há sol.

- bem vejo, meu filho. não há sol, porque se prepara uma trovoada. nem por isso deixa de
estar calor. creio que, ainda antes de podermos sair, choverá.

- então vamos já, mademoiselle. acabavam de almoçar e graça, antes de se dirigir à


biblioteca, entrara um instante no quarto do pequeno.

- hoje não pense no tio eduardo - insistiu o garoto-vamos passear antes das cinco horas.

o olhar brilhante exprimia intensa súplica e graça não soube resistir-lhe.

- vamos então depressa.

pouco depois, graça e o pequeno lorde, radiante de alegria, saíam de dark-castle e dirigiam-
se para o lago.

- onde me levas, will? - perguntou graça quando o pequeno meteu o carro por um caminho
que desconhecia.

o pequeno lorde sorriu.

- quero fazer-lhe uma surpresa. vou conduzi-la à torre das fadas!

o carro acompanhava a margem do lago por um atalho apertado entre este e a floresta, que
graça nunca havia percorrido, e era o mais pitoresco que a preceptora até então vira.

a certa altura, encontraram-se numa clareira tapetada de relva macia como a de um parque.
william elucidou:

- É aqui que as fadas costumam vir dançar nas noites de luar. de manhã encontra-se a terra
pisada em volta de grandes espaços de verdura, espécie de círculos formados pelas suas
rondas.
96
william ainda acreditava nas histórias, lendas e narrativas com que lhe tinham embalado a
infância. era uma espécie de poesia, suave e colorida, transmitida por cecília, que a criança
revelava a cada passo. graça pensava muitas vezes que, talvez sem o saber, a governanta
conseguira o milagre de transformar uma criança abandonada numa criança rica de fantasia,
vivendo num mundo maravilhoso.

- repare, mademoiselle. ali está a torre das fadas.

em vez de seguir a direcção indicada pelo discípulo, os olhos de graça ergueram-se, com
inquietação, para o firmamento, onde as nuvens cada vez mais pesadas e sombrias se
amontoavam. depois de terem saído de dark-castle, a ameaça da trovoada precisara-se.
soprava um vento quente, que fazia curvar as árvores e levantava nuvens de pó. e, quando
acalmava, toda a natureza recaía numa espécie de torpor.

entregue ao prazer do passeio, o pequeno lorde não dava por coisa alguma. com insistência,
repetia:

- veja, mademoiselle, veja.

com a ponta do chicote designava-lhe pitoresca torre arruinada que se erguia a dois
quilómetros de distância. junto dela, o lago apertava, formando uma espécie de lagoa que se
prolongava pela floresta dentro e na qual, segundo afirmava william, os veados e os
cabritos monteses iam beber.

- na floresta também vivem muitas raposas e gatos selvagens - prosseguiu o garoto, cheio
de importância - mas o bob não os caça, porque, se o fizesse, os tiros assustariam os
cabritos.
97
- quem é bob? - inquiriu graça. o pequeno fixou-a com espanto.

- É o chefe dos guardas de dark-castle, irmão da cecília e meu amigo. toca pibrock
como ninguém.

- um homem com tantas qualidades não pode deixar de nos acolher bem em sua
casa. temos a trovoada em cima de nós.

com efeito, pesadas gotas de água começaram a cair sobre o pónei e sobre o carro e,
em menos de um minuto, a chuva crepitou em cima dos passeantes.

- vamos para casa do bob! - gritou o pequeno, com entusiasmo.

estimulado por leves chicotadas, o pónei meteu a galope e em breve alcançaram a


torre.

graça tinha tirado o impermeável para abrigar o pequeno e, dessa forma, quando
saltaram do carro e correram para o pórtico da torre, estava encharcada pela chuva.

william empurrou a pesada porta de carvalho escuro, guarnecida com pregos.


subiram pequena escada de caracol, abriram segunda porta e encontraram-se por fim
numa sala vasta, de forma rectangular.

graça olhou em volta de si, muito admirada. a torre, resto de antigo castelo, que de
longe se poderia tomar por uma ruína, por dentro estava muito bem arranjada e
confortável. o mobiliário era simples e cómodo: cadeiras de palha, aparadores arcas
e até algumas poltronas. pendurados nas paredes, espingardas de todos os modelos e
ancinhos. num dos cantos via-se
pibrock - espécie de gaita de foles.

98
monumental fogão, enegrecido pelo fumo. ao lado, pequena escada que terminava num
patamar para onde abriam duas portas, uma delas entreaberta, sem dúvida a do quarto do
guarda. quando graça e o pequeno entraram na sala, o guarda, de pé junto da mesa,
preparava-se para limpar uma espingarda. ergueu a cabeça, e o rosto bronzeado, onde
brilhavam uns olhos claros e meigos muito semelhantes aos de cecília, iluminou-se.

- bom dia, bob! - saudou o pequeno lorde

- vimos pedir-te hospitalidade.

animado, saltitava pelo aposento, enquanto bob, encantado com a visita, respondia:

- fico sempre muito feliz quando o vejo aqui, milorde. vossa graça é que se esquece muitas
vezes do velho bob. há muito tempo que não aparecia na torre.

o pequeno parou de saltar, atirou os cabelos para trás e respondeu com ar digno:

- não tenho tempo, bob! agora trabalho. mademoiselle tomou conta de mim.

- já conheço mademoiselle pelas informações da cecília-afirmou o guarda, dirigindo a graça


amável sorriso - e sei como ela e vossa graça se entendem bem.

- muito bem, bob! - confirmou william, envolvendo a preceptora num olhar de ternura

- sou muito feliz desde que ela chegou. nunca me deixa sozinho. além disso,
compreendemo-nos, porque é nova.

para ocultar a comoção, graça começou a rir.

- de facto - afirmou, voltando-se para o guarda-creio ser isso o que faltava a william. uma
pessoa nova junto dele.

99
bob olhou para william e abanou a cabeça.

- dá-lhe mais do que a sua mocidade, eu sei - murmurou.

e sem deixar de examinar o pequeno lorde, acrescentou:

- a cecília contou-me como sua graça melhorava por forma espantosa.

graça sorriu. era verdade. william estava menos magro e o rosto pálido recuperara as belas
cores, os olhos brilhavam com o fulgor da saúde e nova vida parecia animá-lo.

- agora já me sinto forte - afirmou william - e breve poderei acompanhar-te, bob, quando
fores caçar grous. já posso andar bem.

de repente, calou-se e ergueu a cabeça. graça fez o mesmo. no andar superior, num dos
quartos, ouviam-se passos. no entanto, o guarda vivia sozinho, era solteiro.

- sou um velho tonto! - exclamou este deixo-os para aí de pé, encharcados, em vez de ir
acender uma bela fogueira para os aquecer...

ao mesmo tempo, aproximava-se do fogão, no qual dispôs enormes troncos, alguma lenha
miúda. em breve as labaredas subiram, crepitaram, enlaçaram-se, e alegraram a casa com o
seu bailado rutilante. graça sentou o garoto no colo, descalçou-o para lhe aquecer os
pezitos,. enquanto ele protestava:

- não quero, não estou molhado. a mademoiselle, sim, deve estar, porque me cobriu com o
seu impermeável.

com efeito, graça, mais do que o pequeno lorde, tinha sofrido os efeitos da chuva. estava
encharcada. pouco depois, porém, o tecido leve do vestido estava seco. soltou os cabelos
ensopados, que se desenrolaram, pelas costas, numa

100
massa pesada e deixou-se ficar, com william sentado nos joelhos, saboreando o calor do
lume. bob saiu para ir abrigar o pónei e limpá-lo com feno.

- o bob é muito simpático, não acha?-inquiriu o pequeno.

- muito - concordou graça - agradou-me imenso.

- É um excelente guarda - continuou william, radiante com a apreciação - não há outro em


todo o highland para surpreender os caçadores furtivos que armam ratoeiras e chamam os
grous com o cachimbo e para caçar... gostaria que o ouvisse quando desatrela os cães e os
anima com a sua voz forte:

”- a eles!... elf... brownie!”

mal proferiu estas palavras, ouviu-se grande reboliço na escada. a porta entreaberta foi
violentamente empurrada e, ladrando, atropelando-se, os dois galgos de lorde harlington
entraram na sala. e no limiar dessa porta, que ficara escancarada, o próprio gerardo
apareceu.

- os meus cães acudiram ao chamado declarou com o seu ar grave - felicito-te, william.
serás um belo caçador.

e, pela primeira vez, graça viu as feições austeras suavizarem-se um pouco numa expressão
divertida.

o pequeno lorde corou de prazer. foi ter com o pai, que o levantou nos braços e o examinou
demoradamente, antes de voltar a pô-lo no chão.
- espécie de cachimbo de barro em que os caçadores furtivos sopram, imitando o apelo dos grous, para os
atrair.

101
- o bob tem razão, mademoiselle - disse, voltando-se para graça - este pequeno está
outro e é a si que o deve.

um tanto confusa, a preceptora enrolava os cabelos. a imprevista aparição de lorde


gerardo atrapalhou-a e, com grande aborrecimento, notou que as mãos lhe tremiam.

no entanto, não ignorava que lorde harlington costumava dormir em casa dos seus
guardas e, naquela ocasião, era muito natural que tivesse ido ali abrigar-se da chuva.
o equilíbrio nervoso de graça havia sido perturbado pela trovoada, com certeza, para
assim tremer e se impressionar com a sua presença.

gerardo aproximou-se do fogão. envergava o habitual trajo de montar, calçava botas


altas e, de pé, estendia as mãos, uma após outra para o lume.

- porque não acaba de secar o vestido? inquiriu com modos bruscos, voltando-se
para graça - se não me engano, antes de eu entrar estava aqui com william.

- obrigado, milorde. já está seco. posso... ele interrompeu-a com um gesto de cólera.

- regressar a dark-castle quando a trovoada ainda não passou? sei que é muito
competente para o fazer.

sem lhe responder, graça aproximou-se do fogão e sentou-se num dos bancos de
pedra que se prolongavam à direita e à esquerda.

na outra extremidade do aposento, william brincava com os galgos, que,


habitualmente ariscos, demonstravam grande docilidade e meiguice ao pequeno.

lá fora, a chuva continuava a cair. fustigava com violência as paredes da torre,


inundava as
102
ruínas e descia em cascatas pelas escadas meio derruídas.

- É muito teimosa - continuou lorde gerardo-e bastante orgulhosa para se sentir


magoada por não termos, em muitos pontos, a mesma opinião.

enquanto falava não desviava a vista das chamas que se enroscavam umas nas
outras.

- como pode conhecer-me? - replicou graça, sorrindo.

harlington ergueu os olhos e, por momentos, fixou-a.

- isso implica uma censura, com certeza murmurou - com efeito, conheço-a pouco,
mas tenho-a observado bastante.

a despeito da sua vontade, graça corou. desde a sua chegada a dark-castle,


exceptuando os breves minutos passados no gabinete de lorde harlington, poucas
palavras haviam trocado. em compensação, os encontros à hora das refeições e em
muitas outras ocasiões da vida em comum, eram frequentes. por certo, lorde
harlington os aproveitava para a estudar, facto de que já suspeitara pela forma como
a olhava.

dominou-a uma espécie de irritação, mas não teve tempo para a manifestar, porque
ele prosseguiu:

- sei, por exemplo, pela forma como proferiu essas palavras: ”como pode conhecer-
me?” que me censura por não dar maior atenção ao meu filho... e à minha casa.

a preceptora não protestou e lorde gerardo, tomando esse silêncio por total
aquiescência, sorriu com amargura.

- responder-lhe-ei que meu filho não precisa de mim, pois está entregue a si; que para
103
a administração de dark-castle tenho meu tio, pessoa da mais absoluta confiança, e
que, além disso, depois de a ter adorado, um homem pode muito bem passar a
detestar a sua casa.

as últimas palavras foram pronunciadas com violência, talvez para pôr um remate à
conversa. não contou, porém, com a obstinação de graça, essa obstinação que ele
próprio reconhecera pouco antes. contente por se lhe ter oferecido inesperado ensejo
para falar, murmurou:

- talvez embirre com o castelo por ter feito dele um túmulo?

harlington voltou para ela o rosto pálido e um olhar incompreensivo, mas não lhe
respondeu. graça continuou:

- dark-castle é uma moradia imponente, milorde, mas muito triste. todos andam em
passo furtivo, fala-se baixo, não se ouve um canto, nem um hóspede, por vezes, se
detém à sua porta. nunca uma festa o anima e, no entanto, por causa de william...

não pôde continuar. surda gargalhada ecoou na sala e depois a voz alterada de lorde
gerardo, repetiu:

- festas!... também queria festas!

num movimento brusco, afastou-se da chaminé e aproximou-se de graça. no mesmo


instante, porém, estacou e assim ficou com os olhos fixos no chão.

- como as pessoas são iguais apesar dos rostos serem diferentes! - murmurou - que
loucura tentar encontrar nelas o impossível e querer ultrapassar os limites das almas!

e depois, mais alto, continuou:

- com que então, mademoiselle, gostaria de ver dark-castle vibrante de música, de


canções,
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cintilante de luzes, dark-castle cheio de convidados, animados, trepidantes... dark-castle...

graça levantou-se e atalhou com frieza:

- está equivocado, milorde. as festas a que me refiro são aquelas que as tradições impõem
em todos os velhos castelos da escócia. as que reúnem em volta do chefe da família, essa
família e todos os servidores. a de todos os santos, onde todos se sentam diante do fogão
para contar, cada um por sua vez, a sua lenda. o natal com a sua alegria e a troca de
presentes. as festas da época da caça, os banquetes aos quais assistem senhores e rendeiros,
onde apresentam a cabeça do primeiro veado caçado, tendo entre os dentes uma taça de
prata. o dono da casa tem por obrigação esvaziá-la de um só trago para brindar por todos.
são estas, milorde, as festas a que me refiro. não as desejo por mim, mas por william,
porque fazem parte da sua herança tanto como dark-castle, herança de que não deve privá-
lo.

enquanto a preceptora falava, o semblante de lorde harlington ia serenando. quando se


calou, não lhe respondeu logo e, num gesto maquinal, passou a mão pela testa.

quando deixou cair os braços, a fisionomia retomara a sua expressão calma e até se
revestira de certa suavidade. com a vista procurou graça, mas ela já se afastara. tinha ido
para junto de william, que se encontrava no outro extremo da sala.

quando se dispunha a ir ter com eles, bob voltou. era tão alto que para entrar foi obrigado a
curvar-se. graça não pôde deixar de sorrir ao comparar, em pensamento, o colosso com a
franzina cecília.,

105
- o cavalo de vossa graça já está seco e descansado - comunicou bob para o pequeno
lorde, a quem tratava como se fosse importante personagem - quando quiser, pode
regressar a dark-castle.

- a chuva cessou - declarou lorde harlington, que parara diante da janela - podemos
partir.

com efeito, o céu estava limpo e as nuvens, impelidas por uma aragem ligeira,
haviam dispersado. a atmosfera, como sempre acontece depois das trovoadas, estava
mais leve e luminosa. no relvado, que se estendia diante da torre, as ervas cintilavam
como se cada uma delas sustentasse uma pedra preciosa. das árvores próximas, as
gotas da chuva tombavam silenciosas.

o guarda dirigiu-se ao aparador e tirou uma garrafa e alguns copos.

- vossa honra permite-me que ofereça a lorde william uma gota de vinho para acabar
de se aquecer?

lorde gerardo também bebeu e depois, um pouco afastado, com olhar distante, dir-
se-ia alheio à reunião.

pelo contrário, william, excitado pelo vinho generoso, falava muito.

o velho bob respondia-lhe, narrando-lhe pela vigésima vez uma dessas lendas que
encantavam o pequeno lorde. o riso argentino de graça, por vezes, acompanhava as
vozes tão diferentes da criança e do guarda.

- as fadas continuam a morar na torre, bob? -perguntou william.

- continuam, milorde. onde estariam melhor de que entre estas velhas paredes
cobertas
106
de hera, onde tão bem podem esconder-se, a dois passos da floresta?

- podes vê-las?

- algumas vezes. mas tenho a certeza de que estão aqui porque o caniço oco que
todas as noites encho de água e deixo diante da porta, para elas poderem tomar
banho, de manhã está quase despejado.

- como eu gostaria de assistir ao banho nem que fosse de longe! - murmurou


william.

- não sei se ganharia alguma coisa com isso, milorde. as fadas não gostam de que as
surpreendam - respondeu bob, passando a mão pela face enrugada - o’neil, o
pequeno pastor que há dias veio até aqui, escondeu-se nas ruínas, ao crepúsculo,
para as espreitar. pois as fadas ficaram tão irritadas que, no mesmo instante, todo o
rebanho foi atacado por cãibras. teve de passar a noite a esfregar os animais com o
barrete de lã.

- e o brownie, bob?

- não é mau, contanto que não o contrariem. .. mas não é muito paciente. este
inverno, certa noite em que prolonguei demasiado o serão, entretido a ler, gritou-me
com voz grossa: ”vai-te deitar, meu amigo e deixa-me a brasa da meia-noite!”
william escutava-o de olhos muito abertos,, numa expressão concentrada.

- como estava ele vestido, bob?

- como estava vestido... - repetiu o guarda como se tentasse recordar-se - espere...


vinha coberto de líquenes e de musgo e mostrava-se

- lenda escocesa.

107
muito zangado, porque atirou para o lume uma ”flecha de fada”. (”)

- e tu que fizeste, bob?

- subi logo para o meu quarto a fim de lhe deixar o campo livre. mas não devia ter ficado
aqui muito tempo. de manhã encontrei na cavalariça o meu cavalo coberto de suor e com a
cabeça pendida, prova de que o brownie o trouxera aqui depois de ter galopado toda a noite.

- bob, vai atrelar o carro, temos de partir! a ordem foi dada por lorde gerardo. william,
desolado, quis protestar contra a interrupção. mas não o fez, porque graça lhe apertou
brandamente a mão. no entanto, para não deixar logo o guarda, acompanhou-o à cavalariça.

- tem sobre esta criança uma influência extraordinária - murmurou lorde gerardo, a quem
não havia passado despercebida a cena muda.

graça, que fora buscar o casaco, as luvas e o lenço da cabeça, pendurados nas costas de uma
cadeira, perto do fogão, para secar, respondeu:

- não o ignoro, milorde, e por isso recusei prestar o meu auxílio para o género de educação
que pretendia dar-lhe.

fez a declaração com voz firme, contente por poder fazer saber a lorde harlington que não
tinha capitulado. contava com uma resposta violenta, mas o pai de william limitou-se a
encolher os ombros.
- pedras triangulares que se encontram com frequência nas margens dos lagos da escócia.

108
- assume pesada responsabilidade - comentou - quando a vida o ferir, william
lamentará não estar bem armado.

chamou os cães, afagou-os e continuou:

- uma coisa lamento também. a credulidade que alimentam no espírito de meu filho
com estes contos bons para bebés. gostaria que na sua idade já não acreditasse na
existência, das fadas nem de brownie.

- santo deus! quer roubar à criança o seu reino encantado?

estava apavorada. harlington iria secar a fonte onde a imaginação, o coração e a


sensibilidade de william se dessedentavam com delícia?

com pálido sorriso, ele sossegou-a:

- tranquilize-se. nada farei para destruir a credulidade de meu filho.

e, com voz alterada, prosseguiu:

- acreditar!... crer numa ideia ou em alguém! crer! sonho insensato, alvo impossível
de atingir quando já se conheceram as maiores decepções!

ficou por momentos imóvel, com os olhos baixos. depois, como a porta se abrisse,
avançou ao encontro de bob e do filho.

- o pónei está atrelado, milorde. o cavalo de vossa honra também já se encontra


diante da porta.

- muito bem. não tens mais notícias a dar-me, bob? quanto aos cortes das árvores
que te anunciei, hei-de reflectir. lorde ruthery afirma que são necessários para
desbastar este lado norte da floresta. tu não tens a mesma opinião por causa da caça.

- não, milorde - respondeu o guarda com a.

109
maior firmeza - cortar as árvores equivale a perder outros tantos cabritos monteses e
veados.

- contudo, lorde ruthery insiste. e eu estou quase decidido, tanto mais que não tenho
preocupações de espécie alguma. ele próprio se encarrega de tratar com o
comprador...

bob não insistiu. mas a expressão que tomou indicava bem quanto as ideias de lorde
ruthery lhe desagradavam. como harlington se encaminhasse para a porta,
acrescentou:

- peço desculpa de lembrar a vossa honra que o velho o’neil gostaria de lhe falar a
respeito das reparações a fazer na herdade. pode ir a dark-castle?

- com certeza. lorde ruthery recebê-lo-á.

- o’neil preferia falar com vossa honra elucidou bob, um pouco atrapalhado - a sua
família vive nas terras de dark-castle há mais de trezentos anos e ele supõe que isso
lhe dá direito a...

lorde harlington corou e, de soslaio, relanceou uma olhadela para graça. recordou,
talvez, os conselhos dados pela preceptora ao filho, sobre as suas futuras relações
com os seus vassalos.

- está bem - concordou com modos bruscos


- o’neil que pergunte por mim. ou antes, eu próprio irei um dia até à herdade para me
inteirar da natureza dos trabalhos.

saiu e, decorridos instantes, estava a cavalo diante da porta. graça e william subiram
para o carrito e o pónei meteu a trote. mas o pequeno não tinha pressa de chegar ao
castelo. meteu o cavalo a passo. com grande surpresa de graça, harlington regulava o
andamento do
110
seu cavalo pelo do pónei, seguia ao lado do carro e, quando o caminho estreitava, ficava
para trás, a despeito da impaciência manifestada pela sua montada.

não falava, mas o semblante perdera a habitual expressão de dureza e o olhar era menos
sombrio.

quando o carrito, sempre escoltado por lorde harlington, entrou no pátio de dark-castle, por
acaso, graça levantou a cabeça e notou que a”cortina de uma das janelas do primeiro andar
se agitava. logo a seguir, um rosto apareceu e desapareceu. mas a preceptora, tal como no
dia da sua chegada, ainda teve tempo para ver uma rutilante cabeleira ruiva e duas pupilas
claras, cuja expressão era ainda mais apavorada e odienta do que nesse dia.

111
vii

cuidadosa, cecília arrumava no grande armário do quarto de graça os vestidos da


preceptora.

ela própria vigiara quando os engomavam e agora certificava-se da perfeita


aparência das guarnições, do cair das pregas das saias.

a preceptora decidira-se, por fim, a tirar das malas os vestidos de graça fabrège e
tudo quanto pertencera à desaparecida.

no entanto, a repugnância em utilizá-los não se desvanecera e só a necessidade, visto


não ter outros vestidos, a obrigara a servir-se daquela reserva.

com grande espanto, encontrara vestidos de extrema elegância, mas tão simples que
uma leiga em matéria de modas não daria pelo seu valor.

não era esse o caso de cecília. para mais, as etiquetas de um grande costureiro
parisiense bastariam para elucidá-la.

antes de pendurar o último vestido - uma espécie de túnica de seda branca, com gola
subida e grande sobriedade de linhas - a governanta
112
voltou-se para graça, pareceu hesitar e, por fim, decidiu-se:

- se quer um conselho, mademoiselle, nunca vista este vestido. lorde gerardo tem
horror ao branco e eu sei que não gostaria de a ver com ele.

graça sorriu e objectou:

- acredita que lorde harlington repare nos vestidos que uso?

cecília relanceou-lhe rápida olhadela. enquanto pendurava o vestido guardou


silêncio e só decorridos alguns instantes, sem responder directamente à pergunta,
elucidou:

- lady helena trajava sempre de branco.

graça, que se encontrava ao lado da governanta, estremeceu. mas, no mesmo


instante, dominou-se. por que motivo se perturbava assim quando ouvia o nome da
mãe de william? talvez por causa do mistério que rodeava a desaparecida, pela
forma como, em dark-castle, todos evitavam pronunciar-lhe o nome e falar a seu
respeito ou só o faziam em voz baixa; por tudo quanto de opressivo a sua recordação
deixara naquela casa.

pensou, de repente, que a melhor maneira de não se impressionar com o fantasma de


lady helena era conhecer-lhe a história.

como se prosseguisse uma conversa já encetada, inquiriu:

- lorde harlington ainda guarda tanto rancor contra uma pessoa morta?

- será melhor dizer ódio, mademoiselle. nunca pôde perdoar-lhe.

- as suas culpas deviam ter sido muito grandes, então.

cecília encolheu os ombros.

113
- a sua maior culpa foi a de não ser o que lorde gerardo supunha.

como se a observação a atingisse, graça empalideceu. a governanta não deu por isso
e continuou:

- lady helena era francesa, órfã e pobre quando lorde harlington a conheceu durante
uma das viagens que fez ao continente. crédulo, bondoso e entusiasta, apaixonou-se
pela rapariga bela e digna de compaixão pela sua pobreza. trouxe-a para a escócia e
casou com ela. o que foi quase logo a sua vida, talvez só eu o possa dizer, eu que
assisti dia a dia às desilusões de lorde gerardo, à luta que travava consigo mesmo. e,
por fim, pouco a pouco, à morte de tudo quanto de bom e generoso havia na sua
alma, da confiança que depositava na vida. para um homem como ele, a decepção
foi tremenda. que dizer então quando rematou com o abandono!

a voz alterada de cecília sumiu-se nas últimas palavras. fiel e dedicada, recordava
essas horas dolorosas e ainda sofria por causa delas.

- lady helena abandonou o filho? - inquiriu graça numa expressão incrédula.

- abandonou. o nascimento do pequeno lorde não trouxe a paz a dark-castle. lady


helena, cuja simplicidade não passava de dissimulação ou necessidade, a meiguice e
o amor ao lar, manifestados durante o noivado, não eram mais do que uma máscara e
odiosa mentira, só pensava em festas e divertimentos. o filho, considerado como
obstáculo, não foi bem acolhido. em vez de a prender mais ao marido e ao castelo,
considerou a maternidade como a mais injusta das desgraças e passou a odiar
114
esta terra a despeito de todos os esforços feitos por lorde gerardo, que dava festas, reuniões,
caçadas e convidava amigos para dark-castle. por fim, um dia, a criança estava de cama e
lorde gerardo recusou-se a ir fazer uma viagem. então ela foi sozinha e nunca mais a vimos.
durante um ano, viveu em edimburgo. depois adoeceu com uma pneumonia. soubemos que
a doença se agravara... e que morrera. nem nos últimos momentos chamou para junto de si
o marido ou o filho!

cecília calou-se, dessa vez definitivamente. mas pelas feições transtornadas tornava-se fácil
adivinhar como a recordação desses tristes acontecimentos se conservava bem viva e
quanto sofria ao evocá-los.

seguiu-se prolongado silêncio. por fim, a despeito da sua vontade, graça perguntou:

- lady helena não gostava do marido?

- não. não gostava nem nunca gostou e ele soube-o. foi essa certeza que lhe destruiu a
confiança na vida e fez dele o homem sombrio, irónico e céptico que hoje é. dark-castle
conheceu dias muito tristes, mademoiselle. ao mesmo tempo, fechou o armário e deu a
volta à chave. não podia estar parada e, ao contrário do que acontece com muitas mulheres,
era a inactividade que a fatigava.

- eis onde nos levou o seu vestido branco!


- concluiu com um sorriso - não precisa de vesti-lo. tem outros muito bonitos e que lhe
ficam muito bem.

dizia a verdade. tudo quanto pertencia a graça fabrège servia na perfeição a erigida de
monclar, que não tivera necessidade de mudar sequer um botão.
115
com benevolente sorriso, cecília admirava a preceptora. graça envergava uma saia simples,
de fazenda castanha, um bolero do mesmo tecido e uma blusa cor de coral. este conjunto
muito sóbrio adaptava-se muito bem ao seu corpo esbelto e bem feito e as cores vivas
harmonizavam com a cútis doirada e com os cabelos escuros, encerrados numa rede e
caídos sobre a nuca.

- tem razão - concordou graça com leve ironia, respondendo à última frase da governanta-
não preciso desse vestido. descanse que não o vestirei.

consultou o relógio de pulso e acrescentou:

- a esta hora já devia estar na biblioteca. até logo, cecília.

desceu a escadaria e atravessou o hall. o sol, coado pelos vitrais, reflectia-se nas armaduras,
que pareciam salpicadas de oiro. grandes faixas cor de ametista ou de rubi alastravam pelo
mármore do chão ou pelos tapetes que, aqui e ali, o cobriam.

quando empurrou a porta da biblioteca, graça hesitou, porque a sala, com as janelas
semicerradas, estava escura. deu alguns passos e quase soltou um grito quando uma voz
bem conhecida observou:

- vem atrasada, mademoiselle.

mal refeita do susto, voltou a cabeça. instalado numa das poltronas de pés doirados, com
um cigarro entre os dedos, lorde harlington observava-a.

- assustei-a? - perguntou num tom mais brando.

graça parou. não deu importância à pergunta, que revelava certo interesse, e limitou-se

116
a responder à primeira observação de lorde gerardo:

- de facto, chego um pouco atrasada e peço-lhe me desculpe. se não se importa, virei


para aqui trabalhar depois do lanche. dessa forma, o meu trabalho não sofrerá com o
atraso.

- não se trata disso - protestou gerardo com leve embaraço - estava à sua espera e
impacientei-me porque se demorava.

levantou-se para a cumprimentar. graça dirigiu-se para as portas envidraçadas, que


abriu. o sol alastrou pela sala. com uma das mãos apoiada na esfera geográfica da
secretária, lorde gerardo seguia-a com a vista. a expressão já não se revestia da
dureza que nos primeiros dias tanto impressionara a preceptora, embora o ricto
amargo dos lábios, sob o delgado bigode, e a profunda ruga que lhe vincava a testa,
muito próximo dos cabelos loiros, persistissem ainda.

graça voltou-se para ele.

- desejava dar-me alguma ordem, milorde? - inquiriu.

- não! - replicou harlington com modos bruscos.

e como a preceptora se conservasse imóvel, aguardando a comunicação que, por


certo, não deixaria de lhe fazer, prosseguiu:

- queria despedir-me de si. vou a edimburgo.

sem uma palavra, ela curvou a cabeça num agradecimento mudo. o seu espanto
aumentava, mas não queria demonstrá-lo.

- pode abandonar dark-castle tranquilo, milorde. eu velarei por william.

harlington fixou-a durante algum tempo


117
sem lhe responder. talvez não fosse no filho que pensasse quando esperava graça na
biblioteca.

- agradeço-lhe.

encostou-se ao fogão e continuou a fumar. parada a poucos passos, graça aguardava.

- edimburgo é uma cidade estranha - prosseguiu ele - interessante, sem dúvida, mas
cujo aspecto tem qualquer coisa que me enregela. são tantas as tristes recordações a
ela ligadas que está povoada de fantasmas: jacques knox, o fanático que destruiu o
catolicismo na escócia; maria stuart e a lúgubre abadia de holyrood; rizzio e a
sinistra fortaleza, cujos pavimentos ainda estão tintos de sangue... por mim, não
consigo viver muito tempo naquele ambiente sem me sentir deprimido.

calou-se, sacudiu ligeiramente o cigarro para o cinzeiro e, em voz mais baixa,


concluiu:

- há muitos anos que não vou a edimburgo. como se calasse, graça aproximou-se da
secretária, abriu uma das gavetas e tirou o registo com capa de cabedal onde
estavam inscritas todas as obras. depois dirigiu-se para as prateleiras e começou a
trabalhar.

o olhar de harlington acompanhava-lhe todos os gestos. voltara a sentar-se na


poltrona e não parecia disposto a retirar-se.

- não acha esse trabalho muito aborrecido?


- perguntou pouco depois com leve impaciência.

- sinceramente, não. sempre gostei muito de ver e manusear bons e belos livros.

e de novo se absorveu no trabalho. a fisionomia de lorde gerardo exprimia surda


irritação. de súbito, levantou-se, foi ter
118
com graça e, antes que a preceptora pudesse prever o gesto, tirou-lhe o livro das mãos e
arremessou-o para cima da secretária.

- deixe isso - ordenou com voz autoritária. graça ficou a olhar para ele, aguardando a
explicação que, por certo, se seguiria. mas, nesse instante, a porta abriu-se e no limiar
apareceu lady ethel.

- gerardo! - murmurou com surpresa. em seguida, percorreu a sala com o olhar e,

vendo graça, o semblante transtornou-se-lhe. pouco depois, porém, dominou-se e avançou


para harlington, sorrindo.

gerardo acolheu a prima com aspecto sombrio. parecia prestes a proferir palavras
desagradáveis, mas não chegou a fazê-lo. com passo indolente, afastou-se de graça e foi
sentar-se na poltrona. lady ethel aproximou-se, pediu-lhe um cigarro e foi sentar-se no
braço da outra poltrona.

envergava um vestido azul que a moldava em pregas harmoniosas e fazia sobressair a


perfeição das suas formas. as mangas compridas, o corpo pregueado e de gola subida,
ocultavam-lhe os braços e o colo, manchados de sardas; a cor do tecido condizia,
admiravelmente, com o tom dos cabelos ruivos. À força de cuidados e habilidade, lady
ethel conseguira dar um cunho pessoal e original à sua fealdade, cunho que, à primeira
impressão, quase a fazia esquecer.

- a propósito, mademoiselle fabrège - pediu de repente - podia mostrar-me esse livro de


teologia ou de moral, não sei bem, escrito por david douglas? É uma edição antiga, com as
páginas iluminadas.

para satisfazer o pedido, graça levantou-se

119
e subiu a galeria. tirou da algibeira a chave que proporcionava o acesso às prateleiras
e começou a procurar.

em baixo, na biblioteca, lady ethel continuava a conversar com o primo e, decorridos


momentos, graça ouviu, confundindo-se com as outras duas, a voz de lorde ruthery.

depois de ter procurado, inutilmente, nas prateleiras onde devia encontrar-se o


volume pedido, graça debruçou-se na balaustrada.

- não encontro o que deseja, lady ethel. talvez...

- não tem importância - atalhou a filha de lorde ruthery com amável sorriso - dê-me
então o forbes, com capa de pergaminho ou o exemplar único de macknight,
assinado pelo autor.

graça voltou a procurar. pouco depois, a sua voz chegou aos ouvidos dos ocupantes
da biblioteca.

- nem o forbes nem o macnight se encontram no seu lugar, milorde.

na sua desorientação, dirigia-se a lorde ruthery.

este mostrava-se muito contrariado e a irritação fizera-o corar. não respondeu e foi
lorde gerardo quem, indo ter com a preceptora, pôde verificar o desaparecimento dos
livros.

- talvez estejam mal arrumados - murmurou.

graça desenganou-o.

- não, milorde. sou eu quem arruma os livros e faço-o com o máximo cuidado. os
três volumes não podiam ter sido arrumados noutra prateleira por engano.

gerardo desceu, seguido por graça. quando


120
atingiam o último degrau, a voz de lady ethel soou num tom muito diferente da
suavidade usual.

- quando pedi esses livros, já tinha dado pelo seu desaparecimento. não suponho que
alguém se distraia a ler forbes, david douglas ou macknight!... mas esses três
exemplares são raros e têm grande valor monetário.

dirigia-se a harlington e na sua vibrava uma nota de triunfo.

graça voltou-se para ela. não se tornava necessária demorada reflexão para
compreender que lady ethel a acusava. dispunha-se a falar quando lorde ruthery
protestou:

- estás doida, ethel - exclamou em voz trémula de cólera - doida varrida! se o teu
espírito ocioso precisa de dramas para se entreter, vai procurá-los onde quiseres, mas
deixa-nos em paz.

estas palavras foram acompanhadas por um olhar tão carregado de ódio que a
preceptora ficou aterrada.

harlington começou a passear de um lado para o outro no aposento. não dizia nada e
conservava os olhos baixos como se tivesse medo que revelassem os seus
sentimentos. mas as feições contraídas denunciavam o constrangimento empregado
para dominar a violenta irritação que, no entanto, se manifestaria ao mais pequeno
choque. graça observava-o, profundamente magoada. que pensaria lorde gerardo?
quem acusaria? quais seriam os pensamentos, dúvidas, suspeitas que ocultava com a
máscara impenetrável? no passado, graça tinha tido horas muito cruéis, mas
nenhuma fora tão humilhante, tão dolorosa como aquela.

121
- deve concordar, meu pai-prosseguiu lady ethel, que fazia um esforço para se dirigir
a lorde ruthery - deve concordar que a falta destes volumes é inquietante. estavam
colocados entre os exemplares de valor e ninguém poderia tocar-lhe se não tendo a
chave que possui mademoiselle fabrège ou a sua. se o pai os tivesse tirado do seu
lugar, calculo que, por certo, se lembraria. portanto...

- portanto, só nos resta um caminho atalhou, brutalmente, lorde ruthery - a


insensatez do teu espírito e o teu mórbido desejo de estabelecer a confusão, a
desarmonia e perturbação. esses livros devem estar aqui, visto que, como dizes,
ninguém podia levá-los. seja como for, o único responsável sou eu e não consentirei
que se atinja com a mais pequena suspeita uma pessoa cuja nobreza, lealdade e altas
qualidades de inteligência e de coração tanto aprecio!

via-se que a custo conservava o domínio próprio e as feições finas contraíam-se-lhe


numa expressão dura e cruel, que não condizia com os sentimentos expressos nas
palavras.

a cólera que animava o semblante de lady ethel transformou-se, pouco a pouco, em


irónica zombaria. fixou o pai, semicerrando os olhos, exagerando a insistência dos
míopes.

- peço-lhe desculpa - murmurou-não pensava ser-lhe tão particularmente


desagradável ao assinalar esta ocorrência. quanto a mademoiselle fabrège, não pode
ficar magoada com as minhas palavras, que lhe proporcionaram a descoberta de tal
defensor.

desde que lorde harlington e graça tinham descido da galeria, as réplicas haviam
sido trocadas
122
com tanta rapidez que a preceptora não conseguira falar. com as mãos apoiadas no espaldar
de uma poltrona, estremecendo a cada palavra que precisava a humilhante acusação,
conservava-se calada, de cabeça erguida, sustentando altiva o olhar de lady ethel. quando
esta proferiu a última frase, lorde gerardo levantou a cabeça e, como se tivesse feito
surpreendente descoberta, examinou demoradamente o rosto do tio, que se fizera muito
pálido. graça abandonou o seu lugar e avançou para lorde harlington.

- milorde - disse com voz firme - tem todo o direito de me pedir contas pelos livros que
lorde ruthery me confiou e cuja desaparição é inexplicável. podia afirmar que antes da
minha chegada ao castelo já não se encontravam no seu lugar, mas não o faço porque seria
faltar à verdade. esses volumes ainda há pouco tempo se encontravam na prateleira. vi-os e
mexi-lhes. peço-lhe, portanto, que, antes de abandonar dark-castle, consinta que empregue
todos os meus esforços para os encontrar.

calou-se. gerardo deixara-a falar sem a interromper, mas, quando acabou, fez um gesto de
protesto:

- por favor, mademoiselle,., - murmurou com voz trémula.

e, com mais força, concluiu:

- há casos em que uma justificação representaria uma humilhação.

ao escutar estas palavras, o semblante de lorde ruthery serenou. o incidente, talvez pela
responsabilidade que lhe cabia, transtornara-o e dos quatro actores desta cena era ele,
talvez, o que se mostrava mais perturbado.

123
para indicar que considerava o incidente encerrado, lorde gerardo voltou-se para a
prima.

- fazes o favor de mandar servir o chá, ethel?

sem uma palavra, lady ethel obedeceu. com a mão trémula premiu o botão da
campainha e quando o criado apareceu deu-lhe as suas ordens.

decorridos momentos, a mesa rolante, carregada de loiça fina, cristais e pratas,


atravessava a sala, empurrada pelo criado de quarto de lorde harlington.

gerardo olhou com surpresa o velho criado, que parou diante dele, e perguntou:

- onde está o mordomo, tommy?

- pedi-lhe para vir em seu lugar, pois precisava de falar a vossa honra.

lorde ruthery soltou uma gargalhadinha seca.

- vês tu, gerardo - observou com ironia este homem, porque já serviu o teu pai e o
teu avô, permite-se transtornar a harmonia do serviço e tomar iniciativas...

harlington relanceou-lhe um olhar de censura.

- com efeito, tommy pode tomar algumas liberdades, em dark-castle-respondeu sem


amenidade - ele e a cecília são os mais antigos e dedicados criados desta casa.

depois voltou-se para tommy e inquiriu:

- que queres de mim, tommy?

- gostaria de saber se vossa honra parte hoje para edimburgo, a fim de ir eu próprio
arrumar as bagagens no carro.

lorde gerardo abanou a cabeça.

- não vou hoje, não desças a maleta, mas


124
não a desfaças. diz ao motorista que vou amanhã.

- está bem, milorde.

depois do criado sair, profundo silêncio reinou na sala. ethel, de pé, junto da mesa de chá,
parecia petrificada pelo espanto, enquanto o pai, com as mãos apoiadas nos braços da
poltrona, se soerguera e olhava para o sobrinho com os olhos muito abertos.

- tu vais a... edimburgo? -perguntou por fim, como se receasse não ter ouvido bem.

- vou, tenho muitas coisas a tratar na cidade - afirmou lorde harlington - quero passar pelo
notário para verificar algumas escrituras de arrendamento e consultar o meu arquitecto
sobre as reparações a fazer nas herdades.

o velho lorde deixou-se cair na poltrona, cruzando e descruzando os dedos, num gesto
maquinal. havia muito tempo que o sobrinho não se preocupava com assuntos daquela
ordem, deixando-os ao seu arbítrio.

- se a viagem te massa - disse por fim posso ir em teu lugar.

- obrigado, prefiro ir eu.

ruthery sentia-se cada vez mais admirado.

- não vais a edimburgo há tanto tempo...

- desde que fui lá buscar o corpo de lady helena - replicou harlington em voz um pouco
mais baixa, mas firme - tem razão. pelas minhas contas, foi há cinco anos e três meses.

lady ethel poisou bruscamente a leiteira que tinha na mão. voltou a pegar-lhe antes que ela
tombasse, desculpando-se pela falta de jeito. depois, sem fazer mais comentários, encheu a
chávena, que entregou a gerardo.
125
era a primeira vez, desde que sua mulher o tinha abandonado, que lorde harlington lhe
pronunciava o nome. e fê-lo com aparente tranquilidade.

durante esta troca de palavras, graça arrumou alguns livros que estavam espalhados, fechou
o registo, que, como de costume, foi guardar numa das gavetas da secretária e dirigiu-se
para a porta.

lorde gerardo, que, enquanto respondia a lorde ruthery, não a perdera um instante de vista,
quando ela ia a atingi-la, voltou-se para a prima. lady ethel, muito entretida a dosear o chá e
o leite na própria chávena, não deu pela muda interrogação.

então, com modos bruscos, lorde gerardo observou:

- lady ethel, parece-me que se esqueceu de servir mademoiselle fabrège.

as pupilas claras da filha de lorde ruthery abandonaram a mesa para se fixarem em graça
com a habitual hostilidade. mas já esta recusava:

- agradeço-lhe, milorde, mas tenho de ir ter com o william.

- o william terá de esperar - replicou gerardo, fazendo visível esforço para se dominar.

e, como a preceptora hesitasse, acrescentou:

- tome isto como uma ordem, mademoiselle, antes de sair da biblioteca preciso de falar-lhe.

graça aproximou-se da mesa em passo vagaroso. com efeito, lorde harlington dava-lhe uma
ordem, uma ordem à qual não podia eximir-se.

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recebeu a chávena das mãos de lady ethel, recusou as torradas que ela lhe ofereceu
e, quando acabou de beber o chá, depô-la em cima da mesa, aguardando as decisões
de lorde harlington.

este levantou-se quase logo. bebera o chá sem proferir palavra, afastara o bule
quando lady ethel pretendera encher-lhe segunda vez a chávena e, distraído,
despediu-se dos seus parentes. depois pediu a graça que o acompanhasse e entrou
nos seus aposentos.

a seu lado, graça atravessou a saleta contígua à biblioteca e encontrou-se no gabinete


de trabalho de lorde harlington.

já o conhecia por ali ter entrado, algum tempo atrás, a fim de receber as singulares
instruções sobre a educação de william. e quando recordava esses minutos, não
podia deixar de experimentar retrospectivo terror ao pensar na violência temível a
que tivera a coragem de se opor. contando com outro ataque, entrou no aposento à
frente de gerardo, que se afastara para o lado a fim de a deixar passar. ”elf” e
”brownie”, que dormiam, estendidos no tapete, levantaram-se e correram para o
dono. gerardo fez-lhes festas e ordenou-lhes para se deitarem de novo. foi fechar a
porta e quando se voltou para graça a expressão do seu rosto não era a que ela
receara.

- antes de mais nada, desejo apresentar-lhe as minhas desculpas, mademoiselle -


murmurou em voz baixa, estrangulada pela comoção nunca esquecerei a ofensa que
lhe foi infligida debaixo dos meus tectos.

ao mesmo tempo, designava-lhe uma poltrona. com um gesto, graça recusou-a.


127
- obrigada, milorde, posso escutar de pé o que deseja dizer-me.

gerardo olhou-a demoradamente e as pupilas exprimiram ligeira tristeza.

- censurei-a uma vez por ser orgulhosa murmurou em voz surda - mas supunha que
fosse justa e sensata. não será um erro culpar-me por uma ofensa feita pelos outros?

graça adivinhou que harlington se referia à acusação formulada por ethel e abanou a
cabeça.

- volto a repetir-lhe, milorde, o que lhe disse uma vez. não me conhece. nem a minha
dedicação pelo william nem as funções que desempenho junto dele bastam para me
inocentar quando me acusam de ter roubado, nem são garantia suficiente da minha
honestidade.

gerardo corou e ergueu a mão, como para deter as palavras nos lábios da preceptora.

- com efeito, desconheço-a por completo murmurou - É cruel.

aproximou-se da janela e, erguendo a cortina, ficou durante alguns momentos com


os olhos perdidos no espaço, como absorvido em dolorosos pensamentos.

enquanto aguardava que gerardo voltasse a falar, graça examinava-o, comovida.


estava um pouco atrás dele e via-lhe o perfil atormentado recortar-se com nitidez no
fundo da vidraça. e teve a impressão de que, apesar da expressão dolorosa, lorde
gerardo se assemelhava mais ao rapazito do retrato.

lutou energicamente contra a inexplicável perturbação causada pela inesperada


revelação e, esforçando-se por aparentar maior indiferença quanto mais comovida se
sentia, prosseguiu:
128
- creio, milorde que, depois deste... incidente, não levantará dificuldades em me
restituir a liberdade que há pouco tempo me recusou. posso abandonar dark-castle, não é
assim?

num impulso arrebatado, gerardo voltou-se. os olhos azuis, cor dos lagos da escócia,
estavam quase negros.

- não! - respondeu com rudeza - já lhe disse o que entendia. não voltemos a insistir no
assunto.

- o que esta tarde aconteceu, milorde, modifica tudo.

- não para mim.

- não posso continuar nesta casa depois de semelhante acusação...

calou-se, assustada. num gesto brusco, gerardo apertava a cabeça nas mãos.

- meu deus! - murmurou numa expressão misto de desespero e de cólera - procurar a cura,
persegui-la, supor tê-la conseguido e ser sempre repelido da vida, de toda a esperança, ser
constantemente abandonado como um destroço!

deixou cair os braços e, perante a expressão transtornada de graça, recuperou,


instantaneamente, a calma. pálido sorriso lhe aflorou os lábios.

- perdoe-me! - pediu.

deu alguns passos para a secretária e, mexendo distraidamente nos objectos que ali se
encontravam, prosseguiu:

- sabe, com certeza, mademoiselle, que certos doentes de gravidade, muitas vezes só podem
ser salvos com uma operação. mas essa operação, muito complicada e demorada, necessita,

129
não uma, mas muitas intervenções. primeiro, fazem a extracção de um órgão atingido ou
tratam outro. passam ao terceiro e só quando as incisões estão completamente cicatrizadas,
pensam na operação principal. eu já passei por todas essas fases, sofri as operações
preliminares e manifesto o meu nervosismo porque vou submeter em breve a solidez das
cicatrizes à última prova, da qual depende a minha vida.

calou-se. enquanto ele falava, numa voz surda e fremente, graça não deixou de o fixar. e, à
medida que as palavras eram proferidas com nitidez, apesar do timbre surdo, o semblante
da preceptora revelava uma espécie de assombro.

compreendeu logo que a operação citada por lorde harlington, uma operação de vida ou de
morte, não seria realizada no seu corpo, mas sim no espírito palpitante, na alma vibrante, no
coração renascido. e não pôde deixar de supor que a viagem a edimburgo, que tanto tinha
surpreendido lorde ruthery e a filha, representava a prova decisiva tentada por gerardo.

- partirei amanhã - declarou harlington como se respondesse com uma afirmação aos
ocultos pensamentos de graça.

e, voltando ao assunto abordado de início, quando haviam entrado no gabinete de trabalho,


disse ainda:

- entrego-lhe o william e também o ”elf” e ”brownie”.

e afagou a cabeça dos dois galgos, que se haviam levantado ao ouvir o dono pronunciar o
seu nome.

lorde harlington calou-se alguns instantes e depois prosseguiu:


130
- conhece os antigos costumes escoceses, mademoiselle?

surpreendida com a pergunta, graça abanou a cabeça.

- nem todos, milorde.

- existe um - continuou gerardo - cujo pitoresco e beleza não tem igual em qualquer outro
país, creio eu. É a dança dos claymores noutros tempos, nunca deixava de se realizar em
todos os castelos da escócia, na altura das mais importantes festas da família: nascimentos,
noivados ou casamentos. mas se essa tradição caiu no esquecimento, não considero
impossível ressuscitá-la em dark-castle. qual é a sua opinião?

e, enquanto aguardava a resposta, o seu olhar não deixou de observar graça.

- É um excelente projecto, milorde. esperou ainda alguns instantes, mas, como a preceptora
se calasse, continuou:

- censurou-me há dias por não dar distracções ao william. concordei e por isso decidi
realizar a dança dos claymores na altura das festas do fim do ano. tenho a certeza de que o
espectáculo a encantará e lhe agradará.

era o mesmo do que responder por uma recusa mais categórica do que nunca ao desejo
manifestado por graça de abandonar o castelo. ela compreendeu-o, mas não teve forças para
se irritar.

sentia-se moralmente, cansada, e o seu único desejo, naquela altura, era o de solidão
imediata, para encontrar um pouco de calma para tantos
- dança das espadas.

131
sentimentos contraditórios que a agitavam, amarguras recalcadas, impulsos
desconhecidos. muito pálida, voltou-se para harlington e perguntou:

- posso retirar-me, milorde?

ele fixou-a demoradamente, sem lhe responnder, como se não tivesse ouvido o
pedido. depois entreabriu os lábios como se desejasse acrescentar algumas palavras
ao que já tinha dito, mas arrependeu-se e limitou-se a dizer, inclinando-se numa
saudação:

- sim, pode ir ter com o meu filho. acompanhou graça até à porta, que abriu

para ela passar, e murmurou:

- deus a guarde, mademoiselle! até breve.


132
vii

naquele ano, em dark-castle, o outono foi muito suave e prolongou-se mais do que o
habitual.

a hera que cobria as paredes do castelo e lhe proporcionava durante todo o ano um
revestimento sumptuoso e perene, parecia mais verde do que nunca. confundia-se
com a videira brava, cujas folhas, como estrelas vermelhas ou violáceas, brilhavam
como chamas no fundo verde escuro.

os ramos flexíveis que, depois de terem assaltado as torres, se desprendiam por


vezes, agitados pelo vento, envolviam o castelo numa ondulação vermelha e doirada.

em volta de dark-castle era como uma simfonia ardente de tons acobreados,


ambarinos, vermelhos e fulvos. os moors, doirados pelo sol ainda quente, tornavam-
se cor de ferrugem. e por cima da massa verdejante das florestas erguiam-se, de vez
em quando, o fuso amarelado de um choupo ou a copa avermelhada de uma
cerejeira brava.

era a estação preferida por william. a sua suavidade encantava-o e proporcionava-lhe


alimento para a fantasia infantil.

os compridos ramos da videira brava, que


133
baloiçavam diante das janelas, considerava-os como baloiços das fadas; elas
tingiam-nos de púrpura para os distinguir ao primeiro olhar, no meio da verdura que
os rodeava, e assim atingi-los de um salto.

passava muito tempo junto de graça, no terraço, com a cabecita erguida para as
ameias, o olhar atento, na esperança de descobrir um desses seres fantásticos nas
suas brincadeiras. e tão absoluta era a sua confiança sempre desiludida, que nunca se
transformava em decepção.

o terraço, noutros tempos deserto e silencioso, passara a ter certa animação. por
vezes, era atravessado por um visitante que entrava no gabinete de trabalho de lorde
gerardo, cuja porta se conservava aberta.

esses visitantes eram quase sempre camponeses, rendeiros que o footman destinado
a esse serviço tinha ordem para acompanhar directamente aos aposentos de
harlington. desta forma, durante a maior parte do dia, o castelão escutava com
interesse o relatório sobre a drenagem de um pântano, os melhoramentos feitos num
campo ou a comparação feita sobre a pastagem mais própria para os carneiros com
outra mais propícia à criação de wesi-highlands de pêlo áspero.

muitas vezes, no intervalo destas audiências, gerardo abandonava o gabinete de


trabalho e aparecia no terraço. estava certo de aí encontrar william e graça e sentava-
se junto deles. com ar grave, interrogava o filho, cujo semblante exprimia
espectativa e emoção.
footman - criado

wesi-highlands - afamada raça de bois.

134
- então, will, viste?

- creio que sim. há pouco, aquele ramo baloiçou com muita força.

- foi, com certeza, uma fada. deve ter-se escondido entre a folhagem.

talvez já não lamentasse que o filho acreditasse em fadas, pois muitas vezes conversava
com ele a esse respeito. um dia, quando o pequeno desejava saber se todos os castelos da
escócia, como afirmava cecília, tinham a sua fada protectora que velava pela família,
gerardo curvou-se para o pequeno lorde e afirmou com estranha emoção:

- não duvides, william. dark-castle também tem a sua fada, uma fada meiga, benévola e
poderosa.

- mais poderosa do que o espírito das águas?

- mais poderosa do que todos os espíritos reunidos, do que todos os génios, do que todas as
forças maléficas.

tranquila, a criança sorriu, certa de que, de futuro, nunca mais teria a recear as influências
perturbadoras do génio do lago, que a lenda apresentava couraçado de escamas, como os
cavaleiros normandos das tapeçarias de bayeux.

outras vezes, graça e o pequeno lorde iam passear para o campo. tal como william afirmara,
a nurse, aborrecida com o isolamento de dark-castle, fora-se embora e, a pedido de graça,
gerardo não contratou outra. dessa forma, a preceptora e o seu pupilo viviam na mais
absoluta intimidade.

os moors e a floresta ofereciam-lhes espectáculos imprevistos e variados recursos...


algumas vezes, william queria acompanhar bob e a sua alegria não tinha limites quando,
oculto
135
pelo guarda num esconderijo preparado para a caça aos grous, podia ver uma lebre
azul que, sem desconfiança, parava e, sentada nas patas traseiras, parecia tocar
tambor.

durante muitos dias, bob, auxiliado por dois guardas, queimou as urzes, como fazia
todos os outonos, a fim de assegurar a alimentação dos grous. o pequeno lorde e
graça acompanhavam-no um pouco tristes ao ver o fogo devorar as lindas flores
rosadas.

a seguir, bob pediu uma licença. todos os anos abandonava a torre durante duas
semanas, que ia passar a edimburgo, em casa de um primo. em geral, escolhia o mês
de dezembro, mas depois de demorados conciliábulos com cecília, naquele ano
antecipou a data.

a governanta testemunhava a graça profunda e calorosa simpatia e a sua confiança


na preceptora dir-se-ia aumentar todos os dias. com profundo espanto, tivera
conhecimento do incidente ocorrido na biblioteca e a sua habitual reserva dera lugar
a prolixa irritação. lady ethel ficaria muito espantada se pudesse ouvir os termos
vigorosos que cecília empregou quando se lhe referiu!

naquela tarde, quando graça e william se preparavam para sair, a governanta entrou
na sala de estudos, trazendo quente abafo para william. naqueles últimos dias, o frio
aumentara e, nessa manhã, os habitantes de dark-castle, quando chegaram às janelas,
puderam ver uma poeira branca espalhada em volta do castelo. eram as primeiras
neves.
- lebres próprias da escócia, cuja pelagem é cinzenta azulada.

136
graça também vestiu pesado casaco, calçou as luvas e depois voltou-se para a governanta,
que preparava o pequeno.

ao mesmo tempo que lhe enrolava ao pescoço uma manta de lã, comentava:

- o nosso pequeno lorde agora tem melhor parecer do que mademoiselle. queira deus que o
passeio faça bem a ambos - concluiu com afectuoso interesse.

graça sorriu, olhando, involuntariamente, para o espelho. cecília tinha razão. estava pálida
e, havia alguns dias, sem motivo, sentia-se cansada.

- não dormi bem a noite passada-explicou.

- estava doente?

- não. mas, seriam duas horas, acordei por causa dos ratos e não consegui adormecer.

- na verdade? - murmurou cecília com indiferença.

curvada para william, abotoava-lhe a gola do sobretudo.

- os tais ratos são muito massadores - comentou decorrido um instante.

teimando na ideia que não a abandonava, concluiu:

- se lorde gerardo consentisse que, pelo menos uma vez, eu lá entrasse para lhe deitar
veneno! felizmente, nem todas as noites fazem barulho.

- não. há mais de um mês que não os ouvia.

- um mês! tanto tempo?

- não sei porquê, mas recordo-me de que me acordaram na véspera da viagem que lorde
ruthery fez a edimburgo.

cecília agora calçava as luvas a william.


137
estava tão atenta à tarefa que não levantou a cabeça. mas não deixou de elucidar:

- nesse caso, pode tomar o mesmo ponto de referência. lorde ruthery vai amanhã a
edimburgo.

- amanhã? que engraçada coincidência!

- muito engraçada, na verdade. soube-o por acaso, porque bob voltou hoje de edimburgo e
foi encarregado de trazer uma peça para o carro. sua honra aguardava-o com impaciência
porque, sem ela, não podia partir.

acabara de preparar william. este fugiu-lhe das mãos.

- se o bob já voltou - comentou com alegria - vamos à torre. não se importa, mademoiselle?

- não me importo, com certeza. vamos.

o pequeno pegou na mão de graça e arrastou-a. cecília pareceu hesitar, mas, por fim,
inquiriu com ar indiferente:

- nunca falou a lorde harlington nos... desagradáveis ruídos que lhe perturbam o sono?...
talvez ele se decidisse a consentir que abríssemos aqueles aposentos.

graça, que se encontrava já perto da porta, parou e abanou a cabeça.

- não, nunca lhe falei nisso.

calou-se um instante, aproximou-se de cecília e, em voz mais baixa para que william não
pudesse ouvir, acrescentou:

- e vou dizer-lhe porquê. lorde ruthery recomendou-me para não o fazer por causa da
fantasia dos criados, que pretendem atribuir ao fantasma de lady helena o que nós sabemos
serem manifestações muito naturais. afirma, e eu tenho a certeza de que tem razão, que
lorde

138
gerardo ficaria aborrecido com a mais pequena alusão a esses ruídos nocturnos. pediu-me
que nunca abordasse o assunto na sua presença.

breve lampejo perpassou pelas pupilas de cecília. mas não precisou de responder, porque
william pegara na mão de graça e, imperioso, arrastava-a para a porta:

- vamos, mademoiselle, vamos!

contentou-se em fazer um gesto de despedida aos dois passeantes, que em breve sairam de
dark-castle e tomaram o caminho do lago.

desde o princípio do outono, graça, sempre cuidadosa com a saúde de william e com receio
que apanhasse frio, exigiu que os passeios fossem a pé e não de carro. o pequeno lorde já
podia andar sem se cansar, porque já estava mais forte, e aceitara com entusiasmo a ideia
que lhe permitia percorrer a floresta.

- a torre das fadas não será muito longe para irmos a pé? - perguntou graça, vendo william
tomar, sem hesitar, o caminho que se dirigia para a torre.

- não é. além disso, gostava tanto de ver o bob!

graça sorriu e cedeu. não o lamentou, porque o caminho que seguia ao longo da margem do
lago era tão pitoresco que nunca se cansava de o percorrer.

quando se aproximavam da torre, uma grande ave ergueu voo muito perto deles.
abandonara o ramo da árvore onde estava empoleirada e partiu, batendo as asas com grande
ruído. não foi muito longe. soou um tiro e o grou, fulminado, fechou as asas e caiu
pesadamente, como uma pedra, a poucos passos dos passeantes.

139
william soltou uma exclamação e corria para a ave abatida quando lorde gerardo saiu do
bosque. parou estupefacto e fez-se muito pálido. em seguida, aproximou-se de graça, ainda
com a espingarda na mão.

- ninguém está ferido? - perguntou com voz alterada.

a preceptora abanou a cabeça. se falasse, tinha a certeza de que a voz revelaria a sua
emoção. harlington, por certo, adivinhou o que sentia. curvou-se para ela e com olhar
ansioso examinou-lhe o semblante alterado.

- em todo o caso, assustou-se. estou desolado e...

- não, milorde, não me assustei. não havia perigo.

- peço-lhe perdão - repetiu com voz pouco firme - muitos caçadores têm sido atirados ao
chão e ficado feridos por um grou que lhes cai em cima com a velocidade de oitenta ou cem
quilómetros à hora e com todo o seu peso. poderia ter-se dado. graças a deus, tal não
aconteceu.

soltou um suspiro de alívio e pegou no grou que o pequeno lorde lhe trazia com ar
triunfante.

- vão à torre das fadas? - inquiriu.

- vamos, sim, milorde. william sabe que o bob voltou e está ansioso por vê-lo.

harlington pôs o grou ao ombro e começou a andar ao lado de graça. não trazia os galgos
consigo. envergava um trajo de caça cor de folha morta, com chapéu de grandes abas no
mesmo tom. calçava botas altas de cabedal castanho. andara todo o dia pela floresta, mas
não se mostrava fatigado.
140
não trocavam palavra. william, acicatado pelo desejo de chegar à torre, corria à
frente. harlington, pensativo, caminhava com o olhar perdido no espaço e graça,
opressa não poderia dizer porquê, sentia-se ansiosa por chegar ao seu destino.

depois do seu regresso de edimburgo, graça notava grande mudança em gerardo.


continuava a ser o homem impulsivo, por vezes irónico e desagradável, que
conhecera de princípio e tinha ainda os seus momentos de mau humor. mas a
expressão não era a mesma. despojara-se da gélida altivez e o olhar não exprimia o
glacial desdém, esse olhar quase desprezador que a preceptora nunca encontrava
sem sentir íntimo mal-estar. já não abandonava tantas vezes dark-castle nem fugia
dos seus ocupantes. pelo contrário, compartilhava a sua vida. por fim, como se
tomasse consciência dos seus deveres, interessava-se por william e por todos que, no
domínio, dependiam dele.

não era só a preceptora quem se apercebia desta modificação. mais de uma vez,
graça surpreendera as pupilas claras de lady ethel ardentemente fixas em gerardo,
exprimindo um espanto quase doloroso. e não conseguia compreender por que
motivo os indícios da cura moral do primo causavam tanta consternação a ethel.

a porta da torre abriu-se quando lorde harlington a empurrou, mas a sala onde
entraram estava erma. harlington abandonou o grou, uma linda ave de penas
doiradas e, depois de ter chamado muitas vezes bob em voz alta, voltou-se para
graça.
- não está.
141
- mas... a porta estava aberta.

- o guarda que substitui bob durante a licença instala-se aqui. deve ter ido dar uma volta.
quanto ao bob, deve chegar em breve. esperemos por ele aqui.

a perspectiva de se demorar ali muito tempo sozinha com gerardo assustou graça, sem que
ela pudesse explicar porquê.

- será melhor eu e o william voltarmos para casa - murmurou.

súbita irritação ensombrou o olhar de gerardo.

- se eu o permitir - retorquiu com modos bruscos.

graça olhou para ele com tal expressão de assombro que harlington corou.

- queria conversar consigo, mademoiselle prosseguiu em tom mais brando - por isso,
agradeço ao acaso que me proporcionou este encontro.

graça não podia esquivar-se.

- já subiu alguma vez à torre? -perguntou ele.

- não, milorde.

- então venha. subo à frente para lhe mostrar o caminho.

sem uma palavra, graça seguiu-o. harlington subiu a escada, empurrou uma das portas do
pequeno patamar, atravessou um quarto simplesmente mobilado, que devia ser o seu
quando não ia dormir ao castelo, o mesmo donde, certa tarde, ”elf” e ”brownie” tinham
saído. na extremidade desse quarto, outra porta abria para o parapeito da torre. graça, atrás
de gerardo, saiu para uma espécie de varanda que dominava o lago e a floresta.

142
pegado à parede via-se um banco de pedra. gerardo convidou-a a sentar-se.

- se não se mexer-murmurou - e se o vento for propício, poderemos ter a sorte de ver, daqui
a pouco, os cabritos monteses que vêm beber.

e com um gesto designava o prolongamento do lago, que, como uma adaga, penetrava na
floresta.

- É daqui que o bob vigia as matilhas e as classifica.

encantado com a perspectiva de ver os cabritos, william, que os acompanhava, manteve-se


na mais absoluta imobilidade. pouco depois, porém, cansado com a contemplação da
floresta e da toalha de água, desceu para a sala, onde existia tanta coisa que o interessava,
principalmente as espingardas com os seus polvorinhos.

harlington deixou-se ficar de pé, encostado à parede, com os braços cruzados. colocara em
cima do banco, ao lado da preceptora, o chapéu adornado com uma pena de grou, e o olhar
errava pela floresta.

- continua a gostar desta terra, mademoiselle? - perguntou, como se a pergunta fosse


sequência natural da contemplação.

- muito! - afirmou graça com entusiasmo


- e mais ainda nestes dias de outono do que nos esplendores do verão ou nas promessas da
primavera.

- então, já não pensa em sair daqui, não é verdade?

graça ergueu a cabeça e respondeu sem a mais pequena hesitação:

- partirei no dia 12 de janeiro, como combinámos, milorde.

143
o semblante de gerardo contraiu-se. a espontaneidade quase brutal da resposta
desorientava-o.

- eis o que se chama falar com franqueza


- respondeu com pálido sorriso.

curvou a cabeça e depois voltou a erguê-la e olhou para graça.

- e william? - perguntou.

coube então a vez à preceptora de empalidecer. o nome do pequeno e a censura que


implicava, atingiram-na dolorosamente.

- william agora tem saúde e está forte. o desgosto causado pela minha partida será
breve. depressa me esquecerá.

- talvez se engane - replicou gerardo as crianças, por vezes, têm sentimentos de


adultos, com toda a sua violência e profundidade. se william sofresse deveras com a
sua partida? se a sua alegria e juventude voltassem a ser sufocadas pelo ambiente de
dark-castle? se as crises se repetissem e se, ao contrário do que afirma, não a
esquecesse?

enquanto harlington falava, graça, num gesto involuntário de angústia, apertava as


mãos uma contra a outra. todas aquelas observações que gerardo, com inconsciente
crueldade, proferia com o intuito de a atingir, quantas vezes já ela as tinha feito de si
para si?

talvez cause espanto que a preceptora ainda alimentasse o imperioso desejo de partir.
as divergências de opinião entre ela e lorde gerardo, sobre a educação de william,
haviam desaparecido e o pai deixava-lhe inteira liberdade sobre o assunto. a sua vida
material estava assegurada com maior conforto do que nunca. era amada por alguém
e essa afeição
144
sincera e confiante da criança aquecia-lhe a alma. por muito para trás que olhasse, nunca, depois da
morte do pai, se recordava de ter na sua existência de abandonada um período de tanta paz e doçura.
no entanto, queria abandonar tudo!

porquê? havia o ódio de lady ethel, esse ódio persistente, que esperava pacientemente a sua hora e
se exteriorizara com as suspeitas lançadas sobre graça. mas quem era lady ethel em dark-castle?
uma sombra, uma força maléfica sem poder para se manifestar. o próprio pai zombava da sua
loucura!

contudo, era a esse ódio que a preceptora se agarrava para explicar a si mesma e para fortalecer o
seu desejo de fugir. e a sinceridade da sua alma era tão grande que a verdadeira, a profunda, a
dolorosa razão que inspirava esse desejo, nunca ela a havia suspeitado.

talvez harlington lhe profundasse melhor o coração do que ela própria o fazia, porque não se
mostrou irritado com o seu obstinado silêncio.

graça não respondera à última interrogação e, voltada para a floresta e para o lago, dava a impressão
de querer partir naquele instante.

de pé, parado a poucos passos, gerardo não desfitava o semblante pálido e, durante dois ou três
segundos, profunda emoção lhe alterou as feições. por fim, como se não tivesse coragem para
insistir num assunto que, em toda a evidência, tanto magoava a companheira, murmurou:

- mais tarde voltaremos a falar sobre a sua partida, mademoiselle. no dia 20 de dezembro

145
realizar-se-á em dark-castle a dança das espadas, se me permitir, nesse dia recordar-lhe-ei
que não me conformo com as razões com que pretende justificá-la.

graça ergueu para ele um olhar interrogativo. perguntava a si mesma como poderia gerardo
esperar que mudasse de opinião e, acima de tudo, para que marcava a data de 20 de
dezembro para a última tentativa para a prender. mas, de súbito, sentiu-se moralmente tão
fatigada, esmagada por tão intensa angústia, indefinida e sem causa, que não teve forças
para protestar.

- como quiser, milorde-respondeu em voz baixa.

harlington não ficou de todo satisfeito com a resposta. relanceou-lhe rápida olhadela,
entreabriu os lábios como se fosse proferir mais algumas palavras, mas, após breves
instantes de hesitação, ficou calado. aproximou-se de graça e encostou-se à balaustrada, a
seu lado.

a tarde refrescara. o sol declinava com rapidez e quando o disco rubro atingiu o cimo das
árvores, foi como se toda a floresta ficasse em chamas. espectáculo feérico, mas rápido, um
incêndio que salpicou de oiro as águas do lago. quase imediatamente, o sol despediu os
seus últimos raios, desapareceu e suave doçura envolveu toda a natureza.

nesse instante, geràrdo tocou o cotovelo de graça.

- olhe.

graça olhou na direcção indicada.

sem hesitação, dois cabritos monteses saíam do bosque em passo firme. os dois graciosos
animais avançaram para o lago, pararam um

146
instante, olhando em volta de si e começaram a beber. outro veio ter com eles, meteu-se à
água, onde mergulhou as patas finas. depois veio outro, mais outro e em breve graça pôde
contar sete cabritos monteses bebendo.

quis chamar william, mas harlington deu-lhe a entender que ao mais leve ruído os animais,
embora estivessem longe, fugiriam. de resto, a cena durou apenas alguns minutos e em
breve tudo voltou ao silêncio e à imobilidade.

- era um espectáculo raro! -murmurou graça, erguendo os olhos para gerardo.

- sim-concordou - só no nosso país se pode presenciar ainda.

não se mostrava disposto a abandonar o terraço, mas graça levantou-se.

- agora posso retirar-me, milorde? aquela docilidade às suas ordens irritou

lorde gerardo. as suas pupilas escureceram.

- com certeza. nunca tencionei contrariá-la


- replicou em voz breve.

sem lhe responder, graça passou-lhe pela frente, atravessou o quarto, desceu a escada e
chamou william. este, que corria por todos os lados, teria gostado de ficar mais algum
tempo e prolongar a visita, tanto mais que bob ainda não havia aparecido. mas, perante a
firmeza de graça e o rosto severo do pai, não opôs resistência e, pegando na mão da
preceptora, abandonou a torre sem protestar.

dessa vez, lorde gerardo não acompanhou os dois passeantes.

147
ix

quando graça e o pequeno lorde chegaram a dark-castle, a noite caíra já e as janelas do


castelo estavam todas iluminadas.

a preceptora entregou o pequeno a cecília e subiu directamente para o seu quarto. a estranha
fadiga que durante toda a tarde a esmagara, acentuava-se e, com ela, nascia o intenso desejo
de se encontrar sozinha.

despiu o casaco, tirou as luvas e depois abriu a porta da saleta contígua ao quarto. mas
parou estupefacta.

de pé, encostado ao fogão, com uma das mãos apoiada ao mármore e a outra apertando um
cigarro ainda não aceso, viu lorde ruthery.

a segunda porta da saleta abria para a galeria, que servia todos os aposentos do primeiro
andar, e tinha sido esse, provavelmente, o caminho tomado por lorde ruthery para entrar. no
entanto, esta intrusão contrariou-a imenso.

com a testa franzida, deu alguns passos para o visitante; este, porém, não lhe deu tempo
para manifestar o seu descontentamento e desculpou-se logo:

148
- graves razões me constrangeram a penetrar nos seus aposentos, acredite, mademoiselle.
mesmo assim, lamento-o e apresento-lhe as minhas desculpas.

falava nesse tom misto de autoridade e deferência que tanto desagradava a graça. mais do
que nunca, ela teve a impressão, dupla, estranha e indefinida, de dependência para com esse
homem e, ao mesmo tempo, de um poder ignorado sobre ele.

- poderíamos conversar na biblioteca murmurou.

lorde ruthery abanou a cabeça numa negativa enérgica.

-lady ethel não nos teria deixado sozinhos por muito tempo. bem sabe como ela a odeia.

- sei, mas nada fiz para despertar esse ódio.

ruthery olhou-a com espanto e depois soltou uma gargalhada.

- bem sabe como aquela pobre louca ama o gerardo!

um calafrio correu pela espinha de graça. a forma cruel como o pai se referia à filha
horrorizava-a.

- a nossa conversa começou bem - prosseguiu lorde ruthery - pois, justamente, desejo falar-
lhe de ethel. a aversão que lhe tem torna-se tão perigosa que seria melhor afastá-la.

enquanto falava, com gestos calmos, acendia o cigarro. voltou a guardar o acendedor na
algibeira do casaco e, atirando para o ar a primeira baforada de fumo, olhou para graça.

esta, por seu lado, também não deixara de o fitar. mais do que nunca descobria na
fisionomia do velho lorde uma expressão manhosa e

149
cruel, revelada pelos lábios muito delgados e pela forma de olhar. a abundante cabeleira
branca que pouco tempo antes lhe iluminava as feições e lhe dava uma aparência de
mocidade, já não conseguia agora atenuar-lhe a dureza.

respondeu com outra pergunta às últimas palavras do seu interlocutor:

- afastar lady ethel como e porquê?

- porquê? - e na voz confundia-se o espanto e a aversão - já lho disse. porque procura todas
as ocasiões para a prejudicar. já deu por falta de mais livros na biblioteca e, para o
conseguir, com certeza percorreu as prateleiras uma a uma, durante a noite!... quanto ao
meio a empregar para a obrigar a abandonar dark-castle, hei-de encontrá-lo, pode ter a
certeza.

graça conservou-se uns momentos calada, de olhos baixos. recordava a cena a que,
involuntariamente, assistira oculta na galeria, e as ameaças feitas por lorde ruthery.

- faça como entender, milorde-acabou por murmurar.

ele pareceu ficar satisfeito com a confiança revelada nestas palavras e não se apercebeu
serem elas ditadas apenas pela indiferença e pelo tédio. a expressão preocupada do
semblante desvaneceu-se e, satisfeito, esfregou uma na outra as mãos finas.

graça não o convidara a sentar-se. o velho continuava de pé, encostado ao fogão e não
mostrava ter dado pela frieza manifestada pela preceptora a seu respeito.

- e agora - continuou ele, depois de ter tirado algumas fumaças do cigarro - visto se
150
proporcionar ocasião e pela primeira vez estarmos verdadeiramente sozinhos, deixe-me
felicitá-la.

- agradeço-lhe, milorde.

graça falava numa voz sem inflexões. não exprimia nem gratidão nem contentamento.
ruthery com certeza não o notou e prosseguiu:

- os resultados obtidos em tão poucos meses são, na verdade, extraordinários. já contava


com a sua influência sobre o gerardo, mas nunca com uma transformação tão completa.

a preceptora olhou-o com espanto. até ali conservara-se indiferente e fria, mas o nome de
gerardo fê-la estremecer.

- que um homem tão despreendido de tudo como o meu sobrinho passasse a interessar-se de
novo pelas pessoas e pelas coisas - prosseguiu ruthery - olhe pelo domínio com o qual não
se importava há mais de seis anos, pelos seus interesses e pelo filho; esqueça o passado e
retome a sua vida normal ao ponto de pensar em dar de novo festas em dark-castle; por fim,
que mesmo o aspecto físico se tenha modificado, isso faz honra à sua habilidade,
mademoiselle, e indica estar definitivamente instalada no castelo.

enquanto ruthery falava, graça sentiu uma espécie de vertigem. nem uma só das palavras
por ele proferidas tinha sentido para ela. no entanto, adivinhava com desespero que cada
uma delas representava um laço, uma forte cadeia à qual, pelo simples facto de ter tomado
o nome de graça fabrège, se amarrara por suas mãos.

outra, mais esperta e velhaca, teria obrigado o velho lorde a desmascarar-se. e isso seria

151
tanto mais fácil quanto era certo não suspeitar ruthery nem por um momento da ignorância
de graça. mas o abatimento que a esmagava era muito pesado para a deixar conservar a
lucidez precisa para lutar. em voz baixa, mas firme, murmurou:

- toda a vida em dark-castle! não me parece, milorde. conto abandonar o castelo no


próximo mês.

- abandonar o castelo! como? vai viajar?

- não, milorde. deixo definitivamente o castelo e as minhas funções.

se um raio tivesse caído aos pés de lorde ruthery, este não ficaria mais abalado do que com
esta simples frase. foi como se o tivessem esbofeteado. recuou.

- está doida! - exclamou em voz surda. com ligeira ironia, recordando-se dele ter dado
idêntico epíteto à filha, graça murmurou, involuntariamente:

- doida! como lady ethel.

- endoideceu-as o amor pelo mesmo homem


- afirmou lorde ruthery com violência.

graça ergueu a cabeça num gesto de altivez. Àquele inexplicável acesso de furor só podia
responder com a calma e domínio próprio.

num gesto brutal, ruthery atirou com o cigarro para a placa de mármore que cobria o
soalho, diante do fogão, e esmagou-o com o pé. aquela exteriorização de cólera aliviou-o.
voltou-se para graça e num tom mais brando, observou:

- deixar o castelo, mademoiselle? poderia fazê-lo se tivesse esse direito!

e como ela continuasse calada, prosseguiu:

- não me refiro ao seu direito em face da


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lei, mas do direito a que renunciou ao assinar contratos, quando empenhou a sua
palavra.

percorria o aposento em passos largos, pisando a alcatifa com uma espécie de raiva.
dos lábios delgados, contraídos num ricto cruel, as palavras saíam como pedras
arremessadas contra graça, que, de pé, encostada ao fogão, o escutava horrorizada.

- ir-se embora! - repetia o velho lorde parece-lhe fácil, talvez. a sua fantasia de
milionária aborreceu-se e arrasta-a para outro lado. esqueceu-se das obrigações
contraídas? o alvo de todos os nossos esforços? esqueceu não poder dispor de si
antes de se fazer amar por lorde gerardo?

calou-se e parou diante de graça. esta olhava-o numa expressão de terror.

- entre nós ficou tudo assente, lembre-se bem. as suas cartas-que guardei - dão-me
todas as garantias. que se passa? não se percorrem quilómetros, ninguém se mete
numa aventura destas para abandonar tudo quando a vitória está certa.

como se repentina ideia lhe ocorresse, calou-se. depois, observando a preceptora por
entre as pálpebras semicerradas, a fim de não perder a menor das suas reacções,
inquiriu:

- o seu amor por gerardo morreu? fazia a pergunta num tom de ironia, como se
estivesse certo da resposta.

- É isso - afirmou graça numa voz sem timbre - já não o amo.

a expressão de espanto do velho lorde acentuou-se. o abalo foi tão grande que lhe
roubou o uso da fala. por fim, soltou uma gargalhada.

- será possível! tão grande entusiasmo,


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uma compaixão ardente e constante, pois durou mais de dez anos, extinguiu-se em poucas
semanas? mas não se trata disso. está disposta a casar com meu sobrinho e a cumprir as
suas promessas?

- nunca casarei com lorde harlington, milorde! -afirmou graça com leve sorriso.

- muito bem! - retorquiu lorde ruthery com súbita calma - não posso obrigá-la a proceder
contra as suas resoluções, mas, por outro lado, não vai renegar os compromissos tomados
por escrito. penso que, apaixonada ou não, não lhe agradará muito se eu revelar certas
coisas a gerardo, apresentando-lhe provas irrefutáveis. refiro-me, simplesmente, a certa
mudança de identidade pela qual iria direitinha para um lugar menos confortável do que
dark-castle. pretende ir-se embora daqui a um mês, afirmou. desejo que as reflexões feitas
durante os trinta dias que lhe restam para passar debaixo destes tectos lhe sejam
proveitosas. decorrido esse tempo, participar-me-á a sua decisão.

falava em tom de gracejo, com despreocupação. dirigiu-se para a porta, mas já com a mão
no puxador, voltou-se.
- -não espere que o receio de me comprometer me impeça de realizar as minhas intenções.
lorde harlington não há-de querer suscitar o escândalo em volta do nome de ruthery, o da
mãe, e fará tudo para o evitar. evidentemente, a minha posição no castelo ficará muito
comprometida, mas não me importo. morro de aborrecimento em dark-castle e de bom
grado trocarei o castelo por uma instalação em ponto mais movimentado. as dádivas
principescas oferecidas em troca dos meus serviços e pelo
154
amor de harlington, isto é, o seu rancho no nevada, as acções das minas de utah e a sua casa em
santa mónica, far-me-ão muita falta e abrirão respeitável défice no meu orçamento. mas, na
prevenção de um desaire - é bom prever tudo - eu soube arranjar alguns recursos e, graças a eles,
poderei viver em edimburgo e sustentar ali a minha posição.
calou-se, pôs-se à escuta para se certificar de que o corredor estava deserto e despediu-se:

- até à vista... graça fabrège!

em seguida, num gesto rápido, abriu a porta e desapareceu, fechando-a atrás de si.

durante algum tempo ainda, graça, imóvel, como petrificada pelo horror, se conservou encostada ao
fogão. depois deixou-se cair de joelhos, cruzou os braços no assento da poltrona e ocultou neles o
rosto.

sabia agora qual o seu papel em dark-castle e toda a extensão da sua indignidade. graça fabrège não
fora mais do que uma aventureira, comprada por aquele homem para cometer o mais odioso dos
roubos... apoderar-se do coração de gerardo!

naquela noite, muito tarde, cecília foi bater à porta dos aposentos de lorde gerardo. sabia, por
tommy, não estar ele ainda deitado. além disso, o seu título de governanta e a afectuosa simpatia
sempre demonstrada por gerardo permitiam-lhe o livre acesso junto dele a qualquer hora.

em consequência, lorde gerardo não ficou admirado quando viu aparecer a velha criada de cabelos
brancos com passo quase tão vivo como anos atrás, e sorriu-lhe.

155
estava enterrado em confortável poltrona, junto do fogão, onde ardia alegre lume, o
primeiro aceso naquele ano. pensativo, contemplava o bailado das chamas. o quarto, com a
cama de dossel, os móveis severos e tapeçarias de aspecto fantástico, reproduzindo várias
lendas da escócia, estava escuro. um candelabro antigo, adaptado à electricidade, estava
poisado em cima da mesa redonda, junto de harlington e criava em volta dele um círculo de
luz.

quando viu entrar a governanta, gerardo poisou nos joelhos o livro que tinha nas mãos, mas
não lia, e, olhando-a com afectuosa admiração, observou:

- cecília, estás cada vez mais nova! como a confirmar esta afirmação, ela soltou uma risada
fresca e, de facto, juvenil.

- vossa honra zomba de mim. vão completar-se cinquenta e dois anos que eu entrei para o
serviço de dark-castle. era então uma rapariguita de catorze anos.

como se a recordação dos anos decorridos ensombrasse gerardo, a expressão anuviou-se-


lhe. apertou a cabeça nas mãos e murmurou:

- meu deus! tantos anos... tantos anos de vida completamente perdidos!

calou-se e permaneceu de olhos baixos.

cecília respeitou este silêncio. por certo, não era a ela nem à sua vida de trabalho e
dedicação que lorde harlington se referia.

de súbito, gerardo ergueu a cabeça.

- e eu, cecília, envelheci muito? -perguntou.

de novo soou o riso argentino como o som de um guiso de prata.

- vossa honra nunca me pareceu tão novo.

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gerardo olhou-a com expressão incrédula e, voltando-se, pegou no candelabro e levantou-o
até à altura do rosto.

- talvez não vejas bem, cecília. aproxima-te e examina com atenção.

a governanta obedeceu. pouco depois, afirmou com voz calma:

- sei que vossa honra tem trinta e dois anos, pois fui eu quem guiou os seus primeiros
passos. mas, se não soubesse, nunca o adivinharia, posso jurá-lo. vossa honra pode vestir o
kilt} o plaid e o traws tal como no retrato da biblioteca e, se o pintasse agora, o pintor não
teria de acrescentar uma sombra, um cabelo branco ou uma ruga.

gerardo poisou o candeeiro em cima da mesa e soltou um suspiro.

- se fosse verdade! - murmurou. conservou-se alguns momentos calado,

absorto nas suas reflexões. por fim, ergueu a cabeça e inquiriu:

- queres dizer-me alguma coisa, cecília? talvez a respeito do william? senta-te.

com um gesto amável indicou à governanta uma cadeira, junto do fogão. esta recusou.

- obrigada, milorde.

deu alguns passos para se aproximar do patrão e poisou em cima da mesa o embrulho que
trazia na mão. ao mesmo tempo, o semblante reflectia certa emoção. no entanto, em voz
firme, declarou:

- peço a vossa honra para ver isto. bob encontrou-os num alfarrabista de edimburgo.

- trajo escocês.

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harlington abriu o embrulho. encerrava três volumes. com espanto, leu o nome dos autores:
forbes, david douglas e macknight.

fixou a governanta com olhar espantado:

- bob encontrou-os em edimburgo! como? calou-se de repente. a ideia do roubo ocorreu-lhe


pela primeira vez.

- por acaso, meu irmão viu estes três volumes na montra. sabendo, por eu lhe ter falado no
caso, que pertenciam à biblioteca de vossa honra, entrou no estabelecimento e, como a
dedicatória de um deles varresse qualquer dúvida, comprou-os e veio entregar-mos há
pouco.

as palavras ”por acaso” não deviam ter sido empregadas e bob, que rebuscara todos os
alfarrabistas e antiquários da cidade, teria sorrido se as ouvisse. mas não se encontrava ali e
lorde gerardo não pensou nesse pormenor. com olhar carregado, examinava os livros e a sua
expressão passou sucessivamente da perplexidade à contrariedade e ao espanto.

- pelo menos, isto prova a inocência de mademoiselle fabrège - murmurou a governanta


com ar indiferente - não teria possibilidades de mandar os livros para edimburgo.

lorde gerardo ergueu a cabeça com brusco movimento. tinha a testa enrugada e o olhar
cintilante.

- mademoiselle fabrège está fora do assunto


- replicou com firmeza - espero que ninguém a ofendesse com uma suspeita.

- ninguém, com certeza - respondeu com firmeza a governanta- basta conhecê-la ou só vê-
la, para adivinhar a nobreza do seu carácter.

a expressão severa de lorde gerardo suavizou-se.

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- dizes bem - murmurou.

e como para explicar a passageira comoção, explicou:

- devo-lhe tanto pela forma como trata o william!

- vossa honra tem razão - aprovou cecília


- devemos-lhe a saúde do pequeno lorde.

harlington concordou com um movimento de cabeça e de novo a sua atenção se voltou para os
livros.

- tudo isto é muito estranho, cecília. estes volumes foram encontrados num alfarrabista de
edimburgo, dizes tu?

- assim foi. vossa honra não pode calcular as extraordinárias descobertas que podemos fazer nesses
estabelecimentos.

calou-se e hesitou. meteu a mão na algibeira do avental como para se certificar da presença de
qualquer objecto. mas harlington voltou a interrogá-la:

- desconfias de alguém, cecília?

- valha-me deus! dark-castle é muito grande. não posso vigiar tudo.

- tens razão! o bob tentou saber como tinham ido lá parar estes volumes?

- com certeza, milorde. o... dono da loja disse-lhe que os havia comprado há perto de um mês a um
homem de idade, de estatura média. estas indicações são muito vagas, como vossa honra pode
verificar.

lorde gerardo reflectia. cecília, porém, não teve o prazer de ouvir as palavras ambicionadas. a
confiança de gerardo era cega e absoluta e não o deixava adivinhar a verdade.

por fim, voltou-se para a governanta e recomendou:

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- isto deve ficar entre nós três, tu, o bob e eu.

- pode ficar descansado, milorde.

- diz ao bob que lhe agradeço e o indemnizarei do preço destes livros.

- repetir-lhe-ei as suas palavras, milorde. mas isso não tem importância.

supondo que a governanta não desejava fazer-lhe qualquer outra comunicação, lorde
gerardo preparava-se para terminar a conversa com mais algumas palavras banais. cecília,
porém, aproximou-se mais.

- vossa honra consente que lhe faça um pedido?

- todos os que desejares, cecília - respondeu gerardo, sorrindo.

assim encorajada, a governanta continuou:

- o caso é este. em tempos fiz ver a vossa honra a necessidade de arejar os ”aposentos da
rainha”. ..

gerardo interrompeu-a com um gesto brusco.

- acho completamente inútil fazê-lo.

- É mais do que útil - protestou cecília é necessário, volto a afirmá-lo. há muitos anos que
esses aposentos estão fechados. os ratos andam por lá à vontade e, por vezes, perturbam o
sono de mademoiselle fabrège.

- ela queixou-se? - inquiriu gerardo.

- mademoiselle fabrège nunca se queixa replicou cecília - mas temos falado muitas vezes
sobre o assunto e ela admira-se como vossa honra deixa destruir tantas preciosidades.

harlington recostou a cabeça no espaldar da poltrona, cerrou os olhos e murmurou em voz


surda:
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- basta o pensamento de abrir aquelas portas há tanto tempo fechadas para me transtornar,
não o ignoras, cecília.

- noutro tempo, admitia esse estado de espírito - replicou a governanta, com brandura
- mas agora...

lorde gerardo abriu os olhos e observou-a, talvez surpreendido com o subentendido da


frase. no semblante calmo de cecília, porém, não viu reflectido mais do que o desejo de pôr
em ordem aquele lado do castelo.

- com efeito. .. agora...

- lembrei-me de que - insistiu a governanta - na altura das festas do fim do ano de que vossa
honra me falou, será necessário preparar dark-castle de alto a baixo e então...

- seria a melhor ocasião para realizares o projecto que se te meteu em cabeça - atalhou
gerardo com breve sorriso - seja! - continuou, em resposta ao gesto de confirmação feito
por cecília - faze como quiseres. mas aguarda a altura da festa para eu me ir habituando à
ideia. talvez nesse período agitado, e pelo que de precioso alcançarei durante essas festas,
segundo espero, eu não dê por isso.

tudo isto foi dito numa voz surda, vibrante de emoção que também se lhe reflectia no
semblante.

- obrigado, obrigado por tudo, cecília. a tua afectuosa dedicação e fidelidade foram os
únicos sentimentos que me ampararam nestes últimos anos. não o esquecerei.

estendeu-lhe a mão. cecília apertou e, com precipitação, talvez para ocultar os sentimentos
que a dominavam, dirigiu-se para a porta.

e a sua comoção era tão grande que, caso

161
sem precedentes, ela sempre atenta às mais pequenas coisas, não reparou estar o lume a
extinguir-se e precisar de mais lenha e esqueceu-se de correr os cortinados das janelas. deu
as boas-noites a gerardo e saiu.

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no começo da semana caíra neve, em flocos leves que esvoaçavam pelo ar, como se
escolhessem o ponto onde queriam cair. o frio tornara-se mais intenso, o ar mais cortante, o
céu, depois do nevão, mais puro e límpido.

em volta de dark-castle, os moors estendiam-se silenciosos e a floresta, na sua imobilidade,


erguia para o céu os troncos e ramos adornados com cintilantes estalagmites. o lago,
completamente gelado, assemelhava-se a uma placa de cristal.

william, naquela manhã, levantou-se cedo. aproximou-se da janela e com a mão limpou os
vidros embaciados. como todas as crianças, o pequeno lorde gostava da neve. no entanto,
teria preferido que não tivesse caído de noite. dessa forma, como poderiam vir das herdades
distantes os convidados para assistirem à dança das espadas?

cecília teve grande dificuldade em o vestir, pois a perspectiva da festa tão próxima o
excitava. de resto, a governanta estava quase tão nervosa como ele, mas por motivo
diferente.

163
não conseguia estar quieta e, com o seu passo miúdo e rápido, aproximava-se constantemente da
janela. erguia a cortina com um gesto brusco e depois, desanimada, deixava-a recair.

graça foi buscar o pequeno lorde para dar um passeio matinal, visto a tarde se anunciar de trabalho,
pois cecília não tinha quem ajudasse. saíram e cecília ficou sozinha.

era quase meio-dia quando, aproximando-se mais uma vez da janela, soltou uma exclamação de
júbilo:

- finalmente!

correu para a porta da sala de estudo de william e, com a mão no puxador, aguardou com crescente
impaciência.

decorridos alguns minutos, bob apareceu. a irmã ralhou-lhe pela demora e ele, atrapalhado, curvava
a cabeça, defendia-se mal e, para explicar o atraso, alegava muitos afazeres.

- chego a ter a impressão de que não medes a importância...

- enganas-te. meço-a muito bem...

calou-se, julgando melhor não insistir. afastou-se para o lado, descobrindo a presença de tommy, o
criado de quarto de harlington, que também entrou na saleta.

- podias muito bem fazer ”isso” sem a minha presença - arriscou bob.

- com efeito, por agora, ela não é de grande utilidade. mas deves estar aqui, se lorde harlington
pretender interrogar-te. como eu ficaria contente - prosseguiu-se ainda esta tarde eles fossem
obrigados a partir! a festa teria para mim outro encanto! dirigindo-se ao irmão, recomendou: -
espera aqui por nós.
164
e, acompanhada por tommy, desceu aos aposentos de gerardo.

reinava desusada animação em todo o castelo. as compridas galerias, os corredores e as


escadas regurgitavam de criados que iam e vinham em todos os sentidos, ultimando os
preparativos para a festa.

o hall, onde devia realizar-se a dança das espadas, ainda não estava pronto. as alcatifas
foram levantadas e as armaduras arrumadas contra a parede, para dar mais espaço. com
efeito, à medida que o trabalho se realizava, o vestíbulo tomava proporções de igreja.

magníficas tapeçarias, guardadas desde o casamento de lorde gerardo, cobriam as paredes.


enormes taças de prata, jarrões admiráveis e outros objectos preciosos, que não serviam
senão nas grandes ocasiões, eram cuidadosamente transportados pelos criados e tomavam o
seu lugar.

quase todas as portas que davam para o hall estavam abertas e por elas se avistava o
enfiamento de salas, luxuosamente mobiladas, nas quais nunca se entrava. por cima dessas
portas e ao longo da escadaria, dispostos nos jarrões viam-se festões e ramos de azevinho e
agãrico. em todas as casas da escócia, esta decoração anuncia um momento feliz. nem a
mais humilde passaria sem ela na altura do natal, mas ali, no castelo, assumia tanta
importância que o velho tommy abanou a cabeça.

- será esta a melhor ocasião para pôr em prática a sua resolução, cecília?

- tenho o certeza disso. de resto, não temos a faculdade da escolha. lorde gerardo, hoje,
165
consente, mas amanhã talvez se arrependesse e não nos desse autorização para o fazermos.

momentos depois, tendo pedido ao criado de quarto para esperar ali por ela, foi bater à
porta dos aposentos de lorde harlington.

quando entrou na sala, ficou desagradàvelmente surpreendida. gerardo não estava sozinho.
a seu lado viu lady ethel.

sem dúvida, discutiam a festa, que não proporcionava a ambos idêntico prazer, pois
enquanto ethel franzia a testa, gerardo mostrava-se quase feliz. no entanto estava pálido e
no rosto havia vestígios da insónia que o atormentara toda a noite. em compensação,
parecia transfigurado por íntima emoção e os olhos azuis fulgiam como os lagos escoceses.

- vem cá, cecília - chamou com ar prazenteiro- a tua opinião ser-nos-á preciosa. lady ethel
afirma que os festões de azevinho são de mau gosto.

- e não retiro o que disse. a decoração é muito ”escola de aldeia” e não fica bem em dark-
castle.

falava sem olhar para cecília, no entanto a governanta respondeu-lhe na sua voz mais
agradável:

- não concordo com a opinião de vossa graça.

depois voltou-se para lorde gerardo.

- no dia em que a mãe de vossa honra ficou noiva de lorde harlington, o castelo foi
ornamentado assim. recordo-me bem, pois fui eu quem, sob a direcção de um decorador de
edimburgo, colocou os festões. toda a nobreza da escócia assistiu à festa e ainda estou a
ouvir os murmúrios lisonjeiros e as exclamações de

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surpresa, prova do nosso êxito. e gabo-me de possuir memória suficiente para, decorridos
trinta e cinco anos, ter conseguido uma decoração quase igual.

À medida que a governanta falava, gerardo tomava uma expressão alegre. pelo contrário, as
feições de lady ethel transtornavam-se cada vez mais. de costas voltadas para gerardo, a
filha de lorde ruthery fixava a governanta com um olhar cintilante de ódio.

harlington talvez tivesse adivinhado, em parte, a contrariedade da prima... dando o


incidente como terminado, mudou de assunto.

- pretendias falar-me, cecília? - perguntou.

- efectivamente - respondeu ela.

depois calou-se, demonstrando com o seu silêncio quanto a presença de lady ethel era
importuna.

esta, porém, não se mostrava disposta a sair.

gerardo aguardou durante alguns momentos, mostrando-se surpreendido. de súbito, o olhar


iluminou-se-lhe. sorriu.

- queres cumprimentos? tens boa memória e uma tenacidade a toda a prova.

gracejava. cecília adivinhou ter gerardo conseguido vencer a sua relutância em fazer o que
lhe pedira e de todo o coração deu graças a deus.

- eu também tenho boa memória - concluiu ele - aqui tens.

abriu uma gaveta, tirou um molho de chaves e entregou-o a cecília.

- vossa honra não vem? - perguntou a governanta.


167
- respirar o ar... irrespirável daqueles aposentos, impregnar-me do cheiro de bafio, de bolor?
não, obrigado - respondeu gerardo.

- muito bem, milorde. o tommy acompanha-me. ajudar-me-á a abrir as portas. as


fechaduras, depois de tanto tempo, devem estar enferrujadas.

dispunha-se a sair, quando ethel, que escutara a conversa com muita atenção, tentando
apreender-lhe o sentido, se voltou para o primo:

- posso acompanhar a cecília, gerardo?

- se isso te diverte...

a governanta já ia perto da porta. parou e voltou-se.

- não me parece grande divertimento para vossa graça respirar aquele ar carregado de
humidade e de poeira, como dizia sua honra.

falava-lhe com frieza, mas o olhar, ao fixar a prima de gerardo, reflectiu, por instantes, um
vislumbre de compaixão.

lady ethel foi ter com ela.

- não temo a poeira - declarou - os meus brônquios e os meus pulmões são sólidos.

cecília fez um gesto fatalista.

- como vossa graça entenda.

pouco depois, as duas mulheres, seguidas por tommy, atravessavam o hall, onde ainda
reinava a azáfama dos últimos preparativos e subiram ao primeiro andar.

cecília parou diante dos aposentos fechados havia tantos anos. meteu a chave na fechadura,
deu a volta e o batente abriu-se.

com passo firme, dirigiu-se para as janelas, pelas quais filtrava escassa luz e, depois de
alguns esforços, abriu portas e vidraças. a claridade do dia inundou a sala.
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- fecha a porta! - ordenou.

tommy obedeceu no instante em que um criado, ao passar no corredor, se preparava para


relancear um olhar curioso pela abertura. depois, todos três, imóveis, olharam em volta.

o aposento, uma sala decorada de verde claro, não era vasto. os móveis, primorosamente
esculpidos, as cadeiras cobertas de brocado, tudo desaparecia debaixo de uma camada de
poeira. mas isso não causava surpresa. o que parecia estranho e provocou o espanto dos
visitantes foi a nudez das paredes, onde se viam ainda os pregos que haviam sustentado
quadros, esmaltes preciosos, gravuras antigas, tapeçarias ...

da mesma forma, em cima dos móveis: mesas, cómodas e toucador, não se via o mais
pequeno objecto. só a pedra do fogão ostentava um busto de bronze muito pesado.

lady helena, para encontrar derivativo para o aborrecimento, rodeava-se de objectos de


preço e deixara os seus aposentos guarnecidos com porcelanas finas, vasos de prata
doirada, tabaqueiras de oiro, caixas de marfim, de ágata ou de prata com pedrarias, mas, se
ressuscitasse, ficaria muda de espanto perante aquele espectáculo desolador.

- nunca supus que chegasse a este ponto!


- murmurou cecília, volvendo a tommy um olhar aterrado.

o velho criado não lhe respondeu. limitou-se a designar com o dedo a alcatifa coberta de pó,
onde se inscreviam, nitidamente, algumas pegadas. essas pegadas dirigiam-se para a porta
de comunicação entre os dois aposentos, aberta de par em par. a governanta atravessou
- 169 -
o quarto, tão desguarnecido como a saleta e carregou num ponto do lambril. o painel girou,
pondo a descoberto uma abertura.

sem proferir uma palavra, lady ethel seguiu os dois criados. quando essa abertura foi
suficiente para dar passagem a uma pessoa, entrou no aposento seguinte, cujos móveis
reconheceu com espanto. encontrava-se no quarto de lorde ruthery.

recuou. sempre calada, cecília foi fechar a passagem secreta. pela segunda vez se ouviu um
ruído estranho.

- os ratos - comentou para tommy com um sorriso irónico - este mecanismo é um tanto
barulhento e com certeza não havia possibilidades de o tornar silencioso, pois foi ensebado
muitas vezes.

falava, evitando olhar para ethel, que, trémula, lívida, procurava apoio numa espécie de
pequena secretária, colocada entre a passagem secreta e a janela. maquinalmente, sem saber
o que fazia, abria e fechava as gavetas. de súbito, tornou-se atenta. numa dessas gavetas viu
maços de cartas, muito bem atados. era a correspondência de lorde ruthery. certo de que
ninguém poderia descobri-la ali, nem se dera ao trabalho de fechar a secretária à chave.

enquanto cecília e tommy, sem se preocuparem com ela, visitavam os outros três aposentos,
de menor importância, que compunham o aposento, ethel começou a revistar o móvel.

cecília voltou para o quarto e aproximou-se da mesa. tirou um embrulho de papel de seda e
abriu-o. continha um véu cuja finura um dia gabara a graça e fora encontrado em
edimburgo por bob.
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- esta descoberta deu-me a certeza de que a nossa casa estava sendo saqueada. mas
prosseguiu, volvendo em redor um olhar consternado - nunca poderia imaginar que o fosse
a tal ponto. não lamento ter faltado à promessa de não revelar a ninguém o incidente dos
livros encontrados em edimburgo. além disso, as tuas suspeitas também haviam despertado,
não é verdade, tommy, e muitas vezes lamentávamos juntos a demasiada confiança de lorde
gerardo. para mais, não podia tomar a responsabilidade de entrar aqui sozinha.

tommy seguia todos os passos de cecília. não dizia uma palavra, mas os braços descaídos
ao longo do corpo esboçavam, por vezes, um gesto desolado. Às últimas palavras,
respondeu em voz baixa:

- não teria sido melhor sozinha, cecília?

e com o gesto designava o quarto vizinho, onde lady ethel ficara.

a governanta encolheu os ombros.

- deus não ignora que, de todo o coração, desejava poupar-lhe esta vergonha. ela ignorava
tudo.

- pareceu-lhe?

- tenho a certeza. lorde ruthery quase sempre ia a edimburgo sozinho. nunca guardava os
objectos roubados nos seus aposentos. vinha buscá-los na véspera da viagem. a
coincidência dessas viagens com os ruídos que mademoiselle fabrège supunha serem
provocados pelos ratos, despertou-me as desconfianças.

- como descobriu ele a passagem secreta?

- por acaso, com certeza, e então a tentação foi grande. lorde ruthery nunca poderia
imaginar que estes aposentos voltassem a ser
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abertos. estava ao facto da repulsa de lorde gerardo por tudo quanto se relacionasse com
lady helena e estava certo da impunidade, pelo menos até à maioridade de lorde william. e
daqui até lá...

enquanto falavam, os dois criados tinham atravessado a sala, parando diante de um armário
envidraçado onde haviam estado guardadas as tabaqueiras de oiro, das quais nem uma só
existia ali. de súbito, o badalar de uma sineta ecoou por todo o castelo.

- o almoço, já! - murmurou cecília. e com o olhar procurou lady ethel.

- se vossa graça me dá licença, vou fechar estes aposentos até ao momento em que lorde
gerardo venha verificar os roubos cometidos.

lady ethel afastara-se da secretária. continuava lívida, mas um clarão triunfante iluminava-
lhe o olhar. como se o ar que enchia aqueles aposentos se tornasse de súbito irrespirável,
apertava o peito com as mãos. ninguém poderia suspeitar que o fazia para segurar um maço
de cartas. rígida, passou pela frente de cecília e de tommy.

- digam a lorde harlington que não assisto ao almoço - murmurou.

saiu, atravessou a galeria e subiu a escada, dirigindo-se aos seus aposentos.

tommy seguiu-a com olhar compadecido. a governanta notou-o e observou:

- não tenhas pena, tommy. ”ela” seria capaz de fazer pior. agora vou fechar as portas e tratar
do almoço do bob, visto ele ter de ficar no castelo até ser chamado para dizer o que
encontrou em edimburgo. depois do almoço falarei com lorde gerardo.
172
xi

o almoço estava a terminar. lorde gerardo, lorde ruthery e graça passaram à sala
onde seria servido o café. a ausência de lady ethel, embora ela tivesse avisado, era
estranha. mas todos os habitantes de dark-castle conheciam o estranho carácter da
rapariga e não perdiam tempo a tentar descobrir os motivos das suas extravagâncias.

no entanto, apenas tinham entrado na sala, a maid de ethel apareceu e comunicou a


lorde ruthery que a patroa lhe pedia para ir ter com ela aos seus aposentos. o espanto
de graça e de gerardo acentuou-se. ruthery também se mostrou aborrecido e
manifestou com rudeza o seu descontentamento, criticando os caprichos das
mulheres. bebeu o café e saiu, resmungando.

harlington e graça ficaram sozinhos e esta sentiu-se perturbada. a presença de


ruthery, cujo olhar penetrante nunca deixava de os observar, tanto a ela como a
gerardo, paralisava-a. mas, desde que descobrira o ignóbil contrato, graça temia
ainda mais a presença de gerardo,
173
e fugia, sentindo-se morrer de vergonha quando estava junto dele.

preparou a chávena de café e foi levar-lha. gerardo aceitou-a e, ao mesmo tempo, agarrou-
lhe a mão.

- sabe que dia é hoje, graça?

- estamos a 20 de dezembro, milorde.

- recorda-se de termos adiado para esta data a solução de um assunto que nos separava?

- muito bem - replicou graça, com firmeza


- no dia 20 de dezembro ser-me-ia restituída a liberdade.

- não foi bem assim - contrariou gerardo, sorrindo - eu não prometi coisa alguma. não tem
boa memória, verifico.

não lhe respondeu. sentia-se sem forças para travar a luta que previa.

gerardo bebeu o café, colocou a chávena em cima da mesa e levantou-se.

- não podemos discutir o assunto aqui, levianamente, porque é muito grave. por outro lado,
a dança das espadas realiza-se esta tarde e eu desejo, é indispensável, conhecer a sua
resposta antes da festa.

a voz desfaleceu-lhe nas últimas palavras. logo se dominou e prosseguiu com calma.

- não seria melhor passarmos ao meu gabinete de trabalho?

inconscientemente, talvez para demorar a hora decisiva, graça objectou:

- ainda não me vesti, milorde.

- tem tempo - afirmou.

calou-se, envolveu-a num olhar luminoso e ardente e, como se falasse a despeito da sua
vontade, murmurou:

174
- vista-se de branco, graça! gostaria imenso de a ver com um vestido dessa cor. num dia
como o de hoje impõe-se.

surpreendida e emocionada, ela não conseguiu responder-lhe. curvou a cabeça e


acompanhou-o.

quando atingiram a porta do gabinete de trabalho viram cecília parada no corredor. ao ouvir
os passos dos dois voltou-se e pediu a gerardo uns momentos de atenção.

lorde harlington fez passar graça adiante de si e declarou à governanta:

- atender-te-ei mais tarde, cecília.

com a autoridade conferida pelos seus longos anos de serviço em dark-castle pelo seu
cargo, esta protestou:

- vossa honra deve ouvir-me. o que desejo dizer-lhe não pode ser adiado.

perante tanta insistência, gerardo franziu a testa.

- atendo-te daqui a uma hora, antes não


- repetiu num tom que não admitia réplica.

cecília fixava-o com espanto. por seu lado, gerardo notou desusada agitação naquela mulher
de ordinário tão calma. em voz mais branda, acrescentou:

- peço-te, cecília.

a governanta dirigiu-lhe um olhar suplicante, hesitou dois ou três segundos por causa da
presença de graça e, tão perturbada que não conseguiu calar por mais tempo a
comunicação, murmurou:

- vossa honra tem de saber. os aposentos lá de cima...

- continua.

- foram completamente saqueados. todas


175
as preciosidades que encerravam tomaram, com certeza, o mesmo caminho dos volumes da
biblioteca, encontrados em edimburgo.

falava em voz baixa e trémula. mas, com grande espanto, verificou não manifestar gerardo
a surpresa com que contava. aproximou-se dela e, num gesto afectuoso, poisou-lhe as mãos
nos ombros.

- escuta-me, cecília. se neste momento viesses dizer-me que o castelo fora pilhado de alto a
baixo, que todas as tapeçarias, colecções e quadros tinham sido roubados, descolados os
preciosos vitrais, arrancados os mármores, desaparecido todas as pratas, eu diria da mesma
forma: falaremos nesse assunto mais tarde. neste momento, desejo conservar e até
conquistar um tesoiro muito mais importante do que todas as minhas riquezas.

calou-se. falara com voz vibrante de emoção, mas firme. e cecília, que o observava
aterrada, supondo-o louco, recuperou a calma. como para concentrar-se, conservou-se de
olhos baixos durante alguns momentos. quando os ergueu, o olhar foi poisar em graça. por
fim, dirigindo-se a gerardo, murmurou:

- compreendo. seja como vossa honra deseja.

afastou-se. graça e gerardo ficaram sozinhos. o silêncio prolongou-se ainda durante alguns
momentos. gerardo não convidou a preceptora a sentar-se. ele mesmo se conservou de pé,
encostado à secretária, com a cabeça baixa como se concentrasse o pensamento e talvez
também a força e a coragem. graça via-lhe o vulto aprumado e, de perfil, o rosto que súbita
emoção contraía.

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- graça-começou sem fazer um gesto, sem olhar para ela - antes de encetar o assunto
principal da nossa conversa, desejo fazer-lhe uma pergunta: que pensa de um homem a
quem sua mulher atraiçoou e abandonou?

graça olhou-o com espanto. mas em vão tentou encontrar-lhe o olhar. gerardo continuava
com a cabeça pendida. dominou-a intensa compaixão. era a primeira vez que o rapaz
patenteava a ferida incurável que lhe rasgara o coração. a sua emoção, a angústia tão
grande e tão perto do sofrimento esmagavam-no a tal ponto, que graça, numa espécie de
repercussão, experimentou idênticos sentimentos e com igual intensidade. e a resposta foi
espontânea:

- o coração e o procedimento de uma pessoa não podem servir de base para formarmos
opinião sobre outra. e esse procedimento cobarde e vil pode influenciar-nos, sim, mas no
sentido de compaixão e de estima pela vítima e, por vezes, conforme a coragem com que
suportou a provação, também de admiração. existem criaturas nefastas, cuja missão neste
mundo é a de envenenarem as mais belas almas, brincarem com valores excepcionais,
extinguirem as chamas mais altas, desdenharem dos caracteres mais nobres e mais dignos.
o orgulho de um homem e a sua confiança na vida devem saber resistir ao abandono.

calou-se. as palavras haviam sido proferidas com apaixonado entusiasmo. o silêncio que
tombou sobre a última frase teve qualquer coisa de estranho e opressivo.

gerardo aprumou-se.

- tome cautela - observou numa voz sem


177
timbre - tenha cuidado não vá eu exigir-lhe a prova da sua sinceridade. quando se emite
uma opinião com tanto ardor, impõe-se aceitar a responsabilidade, mantê-la pelo exemplo,
se preciso for.

calou-se um instante, hesitou e, por fim, murmurou baixinho:

- eu fui abandonado, graça. não se importaria de casar comigo?

ela fez involuntário movimento de recuo. encostada à parede, em frente da secretária,


fixava gerardo com olhar aterrado.

- não se trata de mim - protestou.

- pelo contrário, trata-se de si - afirmou lorde harlington - e também dessa liberdade que
deseja reconquistar. recusei-lha, mas hoje concedo-lha. concedo-lha com a louca esperança
de a ver renunciar a ela e colocá-la nas minhas mãos.

a comoção tornou quase ininteligíveis as últimas palavras e, com efeito, graça deu a
impressão de não as ter ouvido. continuava encostada à parede e deixava ver o rosto lívido,
petrificado como se fosse de mármore e um olhar vago, cuja fixidez aterrava.

- graça- murmurou gerardo - graça, amo-a. quer ficar para sempre em dark-castle? aceita
ser a mãe de william?

o nome da criança arrancou-a daquela espécie de abstracção. estremeceu.

- não me conhece bem, milorde-protestou em voz surda.

leve sorriso iluminou o semblante de gerardo.

- aprenderei a conhecê-la, minha adorada. contar-me-á toda a sua vida, antes do dia
abençoado

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em que entrou em dark-castle pela primeira vez. o resto não importa! conheço o seu
carácter nobre, puro, generoso, inesgotável de bondade; o seu carácter incapaz de um
pensamento desleal, da mais pequena dissimulação, da mais leve mentira, o seu carácter
recto e luminoso, e isso me basta!

ao escutar esta declaração, graça sentia-se morrer. atingira o último limite da energia, mas a
sua força de vontade era tão grande, tão forte o domínio do espírito sobre o corpo, que
harlington não deu pelo breve desfalecimento.

- demorei a minha confissão com receio de que se lembrasse ainda do homem implacável,
sombrio e desiludido que fui. mas, tive a impressão de que dia após dia a sua confiança era
maior, e em mim maior a certeza de estar curado e do meu direito de refazer a vida. hoje
resolvi falar.

deixou de fixar graça, baixou os olhos para a secretária e continuou:

- descrevi-lhe alguns dos costumes escoceses e, em especial, a dança dos claymores que em
breve verá. não lhe revelei, porém, o sentido oculto dessa cerimónia. vou dizer-lho agora.
no nosso velho highland esse espectáculo nunca é dado por simples divertimento, sem
motivo. na última fase da dança, as espadas erguem-se e cruzam-se. e por baixo dessa
espécie de abóbada passam, de mãos dadas, os recém-casados ou os noivos. É esta a
consagração dos laços que, segundo a crença da nossa terra, só depois desta cerimónia
assumem a sua força e verdadeiro significado.

calou-se. o olhar luminoso envolveu graça

179
e a sua voz de profundas inflexões vibrou com orgulho quando afirmou:

- daqui a pouco, graça, neste velho dark-castle cheio de convidados, na presença de todos
aqueles a quem me ensinou a estimar, dos meus vassalos e rendeiros, dar-lhe-ei a mão e
passará comigo sob a abóbada de espadas.

estava tudo dito, tudo quanto, naqueles últimos tempos, enchera o coração de gerardo de
ternura e amor.

deu a volta à secretária e aproximou-se de graça

- aceita, minha muito querida? -murmurou.

e o semblante másculo, coroado pelos cabelos loiros, inclinou-se para graça. e esta nunca
pôde saber como tinha tido forças para o repelir com a mão.

- só hoje me diz essas coisas, porquê? pretende enfraquecer a minha resistência com a
iminência da festa?

num esforço sobre-humano conseguiu recuperar o domínio próprio. mas foi obrigada a
desviar a cabeça para não ver o olhar de gerardo, impregnado de dolorosa surpresa.

-pergunta-me porque só hoje falei-murmurou, recuando alguns passos - já lhe respondi,


graça. para lhe dar tempo a esquecer o passado. além disso, sei que não considera isto uma
violência, visto gostar de mim.

por sua vez, graça afastou-se da parede. chamando a si toda a sua coragem, deu alguns
passos para se afastar de gerardo e pôr entre ambos a secretária.

- não podia ter-me enganado tão estupidamente-prosseguiu harlington, aproximando-se

180
da secretária, à qual se apoiou, curvando-se para ela - não se concede a alguém tantos dons,
não se consegue uma ressurreição total, não se realiza tão grande milagre sem o poderoso
auxílio do amor. se não gostasse de mim, graça, não teria tido força para tanto!

pálido sorriso entreabriu os lábios de graça. ao mesmo tempo, enterrava as unhas nas
palmas das mãos para não gritar de dor.

gerardo notou o sorriso. endireitou-se e o semblante másculo exprimiu mortal angústia.

- graça, fale - pediu em voz sufocada enganei-me? não gosta de mim?

era de mais. a prova estava acima das forças de graça. não conseguiu formular a negativa.
mas quando fixava harlington com desespero, uma voz soou na extremidade do aposento.
ambos voltaram a cabeça e, um com espanto, outra com terror, viram lady ethel no limiar
da porta aberta.

- não tenhas medo, gerardo - prosseguiu a recém-chegada com amargura e feroz ironia
mademoiselle fabrège ama-te com um ardor e constância de que nem sequer podes
suspeitar!

fechou a porta atrás de si, mas antes de ter tempo de dar um passo, gerardo alcançou-a e
agarrou-a pelo braço.

- ethel! - exclamou com voz ameaçadora, sufocada pela cólera - sai daqui! tenho suportado
com paciência todas as tuas excentricidades, mas não suporto a tua aversão por graça, a tua
interferência malévola nos meus mais queridos projectos.

ethel libertou os braços, mas não deu um passo para se retirar. da frase colérica do primo,
apenas uma palavra a impressionou.

181
- graça! - repetiu, soltando uma gargalhada.

e deu um passo para a preceptora, repetindo com ironia:

- com que então... graça!

estava muito próximo dela e olhava-a com estranha fixidez.

- será possível que tivesse sido feia, feia a ponto de não se atrever a aparecer diante de
certas pessoas? mas que desforra, não é assim? como deve ser inebriante a sensação de
mudar de rosto, de personalidade... de nome.., de alma!

imóvel, muda, graça escutava as palavras venenosas sem que um só músculo do seu rosto
estremecesse. adivinhara, ao ver entrar ethel, que esta ”sabia”. e, tendo a convicção de que
coisa alguma a deteria na sua tarefa nefasta, aguardava, em aparência insensível, o instante
cruel da revelação, que, se pudesse, afastaria, mesmo à custa da própria vida.

gerardo mais uma vez se aproximou da prima.

- de novo te peço para saíres! - intimou em voz dura - ordeno-to, se for preciso. e fica
sabendo que, desde este instante, a tua presença em dark-castle se torna indesejável.

lady ethel, já muito pálida, tornou-se lívida. mas a alegria triunfante que a dominava era
muito grande para se sentir abatida com as palavras do primo.

- expulsas-me, gerardo? não era preciso, pois eu não ficaria nem mais um dia debaixo dos
mesmos tectos que abrigam esta aventureira. quanto a lorde ruthery, quero comunicar-te a
sua partida definitiva. depois de ter

182
atendido os meus... conselhos, abandonou dark-castle.

harlington não lhe respondeu. não encontrava sentido nas enigmáticas palavras de lady
ethel. no entanto, a palavra aventureira fê-lo estremecer.

- graça - murmurou - peço-lhe perdão.

esta brandura e toda a ternura manifestada na frase, transtornaram a prima. voltou-se


bruscamente e afrontou gerardo.

- ela não se chama graça-protestou, triunfante - nem tão pouco fabrège, mas irene vernay.
talvez não recordes este nome?

como se estas palavras tivessem maléfico poder, ao escutá-las, harlington cambaleou. o seu
olhar, dilatado pelo espanto, procurou graça, mas, perante a imobilidade desta, de novo se
voltou para ethel numa ansiosa espectativa.

aproveitando a perturbação de gerardo, ethel aproximou-se do primo.

- lady helena tinha uma irmã, não é verdade?

- tinha, sim-confirmou gerardo numa voz surda, muito semelhante à dos pesadelos.

- que foi feito dela?

- não sei, nem a própria lady helena o sabia. cortaram relações desde o nosso casamento.
além disso, tudo quanto se refere a lady helena se me tornou indiferente.

calou-se um instante e depois acrescentou mais baixo:

- pouco me importa que essa mulher esteja viva ou tenha morrido.

com feroz alegria, ethel adivinhava pela expressão de harlington, pela sua palidez, o

183
esforço dispendido para proferir estas palavras. quando o rapaz se calou, sorriu com ironia:

- essa mulher não morreu e está na tua presença.

a frase, concretização de todas as suas acusações, repercutiu-se pelo aposento como um


trovão. depois fez-se um silêncio, pesado, trágico e esmagador.

gerardo não fez um gesto. imóvel, diante da prima, aguardava. ethel, decidida às últimas
revelações, prosseguiu:

- lady helena tinha uma irmã, tão feia quanto ela era bela. só a viste uma vez, gerardo.
depois desse primeiro encontro, ela fugia-te, tarefa fácil para uma órfã que não tinha contas
a dar a ninguém e só obedecia à sua fantasia. helena veio contigo para a escócia e irene
ficou sozinha... com a sua paixão, o amor que te dedicou desde o primeiro instante. tu
próprio te ocupaste em separar os interesses das duas irmãs. entre elas nada existia de
comum, depois do teu casamento. irene abandonou a frança, na qualidade de secretária de
uma missão de estudos médicos, enviada à américa. um dos mais célebres cirurgiões do
novo mundo, especialista em cirurgia estética, a seu pedido, operou-a. o êxito foi enorme e
tão completo que esse homem eminente se apaixonou pela operada e casou com ela.

ethel suspendeu as revelações por instantes, aguardando as perguntas que a súbita


contracção do rosto de gerardo deixava prever. mas, como este não as fizesse, prosseguiu:

- poucos anos depois de casado, o médico morreu, legando toda a sua fortuna a irene. livre,
rica... e bela, irene pensou logo em se

184
aproximar de ti, gerardo, a quem não deixara de amar. como conseguiu realizar o seu
desejo, estas cartas to darão a saber.

ao mesmo tempo atirou para cima da secretária com o maço de cartas, tirado da secretária
de lorde ruthery.

- sabia que estavas viúvo e, a pretexto de súbito interesse pelo sobrinho, escreveu a meu
pai. estas cartas, que, dirigidas para aqui, teriam por certo despertado a tua curiosidade,
eram enviadas para edimburgo. em breve o interesse por william foi posto de parte.
adivinhando em meu pai um aliado fácil de comprar, irene vernay incitou-o a encontrar
meio de a introduzir em dark-castle. era fácil. william precisava de uma preceptora e com
dólares não se torna difícil arranjar uma falsa identidade. o resto já sabes, gerardo. no
entanto, talvez gostes de conhecer o preço em que foste avaliado. no dia do seu casamento
com graça fabrège - pois ela contava poder ocultar-te a sua verdadeira personalidade até ao
último instante - meu pai receberia, pois os documentos já estavam devidamente
preparados, um rancho, uma propriedade e certas acções cujo valor sabia a alguns milhões
de dólares.

calou-se, desta vez definitivamente. ou para ajuizar melhor os efeitos da sua obra nefasta,
ou por prudência, que lhe aconselhava a não permanecer mais tempo junto de harlington,
lady ethel deu alguns passos para a porta. e o seu olhar, iluminado por sombrios lampejos,
ia de gerardo a graça.

graça foi a primeira daquelas três pessoas rígidas, petrificadas, debatendo-se nos seus
sentimentos de amor ou ódio, a recuperar um pouco

185
de sangue-frio. acabava de ter a revelação completa do papel assumido ao entrar em dark-
castle. e essa certeza, se por um lado a submergia numa onda de amargura e vergonha, por
outro dava-lhe uma sensação de firmeza, nunca experimentada desde a sua instalação no
castelo.

deu alguns passos para gerardo. não tentou defender-se. negar as revelações de lady ethel...
revelar a ausência de qualquer laço entre ela e irene vernay? para quê? embora gerardo lhe
desse crédito - o que seria duvidoso - nem por isso a sua culpa seria menor, a sua
responsabilidade menos pesada, o seu procedimento menos desprezível, pois nem sequer
tinha o amor como desculpa.

quando se dispunha a falar, gerardo antecedeu-a. envolveu-a num olhar pungente e,


concretizando em palavras o pensamento que mais o ferira, murmurou com voz
estrangulada pela emoção:

- já pertenceu a outro, graça a preceptora quis protestar, mas harlington prosseguiu logo:

- já foi casada! não é a rapariguinha inocente que eu supunha!

e como se as palavras tornassem mais profundo o seu sofrimento, soltou um gemido.

- santo deus! - exclamou - será possível que o quinhão de certas pessoas seja o de suportar
provações imerecidas?

este lamento de dor e de protesto contra o destino comoveu graça mais do que algumas
palavras de cólera.

- milorde... milorde - balbuciou. gerardo fixou-a. a expressão desolada, a


186
atitude acabrunhada de graça revelavam, sem dúvida possível, a sinceridade da imensa
angústia que a esmagava; encolheu os ombros e murmurou:

- esquecia-me de que me ama! soltou irónica risada e continuou:

- como posso eu ficar insensível a tão grande constância, ao amor que avaliou tão caro a
conquista do meu coração!

as pupilas claras cintilavam de cólera. e como graça, trémula, não conseguisse proferir uma
palavra, intimou, exasperado:

- vamos, defenda-se, diga alguma coisa!... a irmã de helena! - continuou, depois de ter
aguardado, em vão, a defesa exigida - a irmã de helena, a mulher fingida, egoísta, traidora!
embora me oferecesse o mundo apertado nessas mãos pesadas de mentiras e eu gostasse de
si como um louco, como um desgraçado, nunca casaria consigo, pois pertence a uma raça
detestada!

afastando-se das duas, deu alguns passos para a janela. as sombras de uma tarde invernosa
infiltravam-se no aposento. esbatiam-se os contornos das pessoas e das coisas e tudo se
tornava vago e impreciso.

em qualquer ponto do castelo, um relógio bateu quatro badaladas. gerardo estremeceu.

do hall subia surdo rumor e em volta de dark-castle já reinava certa agitação. gerardo
ergueu uma ponta do cortinado e amargo sorriso lhe descerrou os lábios. vindos das
herdades distantes, a cavalo ou a pé, chegavam os convidados para assistir à dança das
espadas.

harlington largou a cortina e voltou-se.

- podes retirar-te - ordenou a lady ethel -


187
vai ter com teu pai. disseste-me que tinha abandonado dark-castle e eu alegro-me com a
notícia, pois me evita o trabalho de o expulsar daqui!

a voz recuperara toda a sua firmeza e soava com glacial nitidez. ethel estremeceu.

- expulsas-me também?-murmurou numa voz sem timbre.

a perspectiva aterrava-a e esquecia ter afirmado não consentir em ficar nem mais uma hora
debaixo dos mesmos tectos que abrigassem graça.

com desdém, gerardo retorquiu:

- alguma vez teve dúvidas a esse respeito, lady ethel?

e como ela continuasse imóvel, não podendo decidir-se a obedecer-lhe, acrescentou,


implacável:

- nada mais temos a dizer um ao outro. adeus.

enquanto a escocesa se dirigia para a porta em passo incerto, graça voltou-se para gerardo.

- posso recolher ao meu quarto, milorde? harlington fixou-a com olhar colérico. as pupilas
azuis estavam mais escuras do que o firmamento em dia de tempestade.

- ainda não - respondeu, brutalmente não queria viver neste velho castelo da escócia,
conhecer os nossos costumes? não pensou até em comprá-lo... assim como ao seu dono?
seria muito indelicado se inutilizasse todos os seus projectos. vai começar a festa... festa
ridícula, pois já não tem sentido. mas isso não importa. antes de sair desta casa, quero que
assista ao espectáculo. quero, acima de tudo -
188
continuou, implacável - que sofra nesta hora, por mim escolhida para consagrar o meu amor. que
sofra, tenha remorsos e lamente a sua culpa, que sofra muito, visto gostar de mim!

ao mesmo tempo, dirigiu-se para a porta de acesso à biblioteca, abriu-a e aguardou que ela se
decidisse a sair.

graça atravessou a sala. ao passar junto de harlington, alimentando ainda a esperança, no meio da
sua angústia, de escutar uma palavra mais doce que suavizasse a crueldade pungente da despedida,
gerardo recomendou numa voz fria:

- avie-se, madame. tem pouco tempo para se preparar.

189
xii

quando graça desceu a escadaria, com o pequeno lorde, já no hall se viam numerosos
convidados. aquela multidão provocou-lhe uma sensação de terror, pareceu-lhe uma maré
que subia e ia submergi-la. sentia-se abatida, fraca e não sabia como poderia aguentar-se até
ao fim da festa.

cecília apareceu e dissipou-lhe, em parte, esta inquietação.

- lorde harlington pede-lhe para não descer até ao hall. ficará com william no patamar.
assim, pode ver melhor e não será empurrada.

a imensa escadaria, dividida em duas partes distintas, formava, no primeiro lance de alguns
degraus, uma espécie de patamar, donde partiam, em sentidos opostos, outros dois. para
gozar o espectáculo da dança das espadas, sem dúvida, era aquele o melhor lugar.

antes de se afastar, cecília observou a preceptora com inquietação. já pouco antes, ao entrar
no quarto onde graça acabava de se preparar, quase saltou um grito de espanto.

ao ver graça e harlington entrarem no

190
gabinete de trabalho sozinhos, o coração palpitou-lhe de alegria com o feliz
acontecimento pressentido e sem dúvida próximo. sendo assim, ao ver as feições
alteradas de graça ficou assustada, pois não era essa a expressão que esperava
encontrar.

- está doente, mademoiselle? - inquiriu seria melhor não assistir à festa. direi a lorde
gerardo...

graça atalhou, pressurosa.

- não diga nada, peço-lhe. não tenho nada. simples indisposição. passa já. daqui a
pouco estou bem.

e, para tranquilizar cecília, esforçou-se por sorrir.

mais tarde desceu a escada. encostada à balaustrada de mármore que servia de


corrimão, deixou errar o olhar triste, ao acaso.

sustentados pelos braços de bronze, os candelabros eléctricos inundavam de luz o


hall, a. escadaria e até as salas mais afastadas, cujas portas se conservavam abertas.

ao longo das paredes, numa espécie de rebordo formado pelo revestimento de


mármore, cintilavam as ânforas de prata, de formas harmoniosas, bojudas, de colo
esguio. por toda a parte se viam, encobrindo os pilares, tapeçarias raras. por cima
das portas, aos pés das armaduras, ao longo da escada, a decoração de azevinho com
as suas bagas vermelhas e do agárico, mais claro, tão criticada por lady ethel,
alegrava com a sua nota rústica e aligeirava o excessivo e talvez esmagador luxo do
vestíbulo.

- como tudo isto é bonito! não acha? murmurou william com ar maravilhado.
191
o pequeno lorde nunca tinha visto a sua casa tão animada e tremia de alegria.

com o trajo de veludo preto, que fazia sobressair o loiro dos cabelos, as faces rosadas e os
olhos brilhantes, assemelhava-se a um principezinho dos contos de fadas. e graça,
dominada pela sedução da criança, pela exuberância de vida, um pouco obra sua, pensava,
com infinita tristeza, ser essa a última vez que estava junto da criança.

num reflexo convulsivo, apertou a mão de william, impregnando-se da sua tepidez suave,
assim como o seu coração se impregnara da ternura do pequeno lorde.

gerardo, implacável gerardo, como estavas vingado! junto de ti e da criança, graça deixaria
o seu coração palpitante de amor, a própria essência da vida.

pela forma como a claridade das lâmpadas lhe vacilava diante dos olhos, graça percebeu
que estava a chorar. fez um esforço para reprimir as lágrimas. aquele desfalecimento era
indigno dela e do seu amor. pobre amor tão belo e despedaçado, pobre amor de antemão
condenado! o amor não de uma aventureira, não de graça fabrège, mas de erigida de
monclar.

”será possível que - pensou com desespero


- ao usurpar o nome daquela mulher, também me apoderasse do seu coração! desde o
primeiro instante em que os meus olhos encontraram os seus, amei-o loucamente!”

para não sucumbir ao peso da dor, curvou-se para o pequeno lorde e falou-lhe.

-estás bem, meu filho? estás contente?

william deixou ver o rosto radiante e afirmou:


192 -
- muito, mademoiselle.

admirou demoradamente a preceptora e concluiu com ternura:

- como está bonita!

graça afagou-lhe os cabelos e sorriu para a criança, que continuava a fixá-la.

escolhera, ao acaso, um vestido de seda cinzenta, muito claro. a cútis, de um moreno


doirado, valorizava-se com o tom do vestido. os cabelos negros estavam, como
sempre, enrolados na nuca e os olhos escuros brilhavam febris. o sofrimento e a
tristeza espiritualizavam-lhe as feições. a sua beleza assumia um cunho mais do que
humano, impressionante.

william, debruçado para o hall, interessava-se pelo espectáculo e, no meio dos


convidados, procurava distinguir os rendeiros mais conhecidos e os filhos.

- ali está o jorge, o rapazito que estava a pescar no lago. o papá perdoou-lhe. não vê
o o’neil, que, como o bob nos contou, tentou surpreender as fadas? não vejo o bob...

- não veio, meu filho. a cecília disse-me que esteve aqui de manhã e à tarde
regressou à torre.

a criança não se mostrou admirada.

- o bob gosta mais da companhia das fadas. virá mais tarde.

- quando a festa acabar?

- não - afirmou a criança com ar importante - a festa deve durar toda a noite. não foi
à cozinha?-inquiriu com espanto-É pena. teria visto os preparativos. É um
verdadeiro banquete. numa das alas do castelo puseram grandes mesas e ouvi a
cecília dizer para o tommy, numa voz... alegre, que há mais de
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quarenta anos não se dava uma festa como esta, no castelo.

depois de ter enunciado este período de tempo que, por certo, se lhe afigurava
imenso, william voltou-se de novo para o hall. quase logo, exclamou:

- aí vem o papá.

com efeito, gerardo surgiu no limiar da porta da biblioteca.

trajava de escuro e o semblante, mais sombrio do que nunca, retomara a expressão


glacial que, havia alguns meses, abandonara.

mal entrou no hall, ergueu os olhos para a escadaria, como a assegurar-se de que o
filho e graça se encontravam ali. os seus olhos cruzaram com o olhar da preceptora e
empalideceu. depois voltou a cabeça e avançou para os convidados.

a grande porta de entrada, ostentando por cima o brasão dos harlington, estava
fechada. por certo, já se encontravam ali todos aqueles que, pela sua fidelidade, anos
de serviço nas terras de dark-castle e dedicação, tinham direito a assistir à festa.
comovida, graça via aquela reunião de homens vigorosos, de fisionomias rudes,
muitos dos quais ainda usavam gorro e o plaid lançado sobre o ombro; viu mulheres
cujo trajo, se não era já o de jenny na dama branca, ainda se compunha de graciosa
saia curta e pequeno avental.

algumas das camponesas, no entanto, usavam o trajo habitual. eram poucas. quatro
ou cinco, uma das quais, isolada dos grupos, se encostara a um dos pilares.

graça não conseguiu ver-lhe o rosto, pois a camponesa estava voltada para o lado
oposto

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do hall, mas apenas o vulto esbelto e os cabelos negros. e, sem saber bem porquê, o
penteado e talvez a elegância do porte, despertaram-lhe vaga recordação.

fechou os olhos. uma onda de sofrimento dominou-a a tal ponto que teve receio de
desfalecer.

william soltou uma exclamação. graça abriu os olhos e viu sete homens no meio do hall.
usavam todos o mesmo trajo, mas cada um de sua cor, conforme o clã a que pertenciam. as
meias subiam até à barriga da perna, deixando os joelhos a descoberto. sobre o kilt
pregueado, de grandes quadrados de cores vivas, cingiam uma espécie de bolero de veludo,
bordado a prata ou oiro. o plaid caia-lhes do ombro em fartas pregas e o gorro, adornado
com uma ou mais penas de águia, inclinava-se sobre a orelha. do pescoço pendia-lhes um
punhal, com punho de prata, cravejado de topázios, arma que os ricos montanheses nunca
deixam de usar.

em volta dos sete homens fez-se uma espécie de clareira. estes desembainharam os
claymores e um deles começou a executar com a espada, apoiada no ombro direito, uma
dança, sozinho, cantando uma balada para ritmar os movimentos. os companheiros,
imóveis, aguardavam.

decorridos alguns instantes, o escocês bateu com a espada na do vizinho mais próximo e
este, saindo do grupo, começou, por sua vez, a dançar, cantando também. depois bateu na
espada de outro e assim sucessivamente. À medida que entravam na dança, iam cantando e
cada um deles executava uma figura com graciosa agilidade e extrema beleza.

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william ria de contentamento. o brilho dos bordados a oiro, a cintilação dos punhais,
os lampejos despedidos pelos claymores, tudo aquilo tomava aspecto fantástico.
abria muito os olhos, com receio de perder a mais pequena particularidade do
maravilhoso espectáculo.

os bailarinos formaram uma roda. cada um deles erguia a espada na mão direita e, na
mão esquerda, a ponta de uma outra espada, formando um círculo de esplêndido
efeito. depois começaram a rodar como peões, recuavam, agrupavam-se, formando
como que os anéis de uma serpente. ao mesmo tempo, cantavam, ora num ritmo
lento ora rápido, mas sempre adaptado às suas evoluções.

graça ergueu a cabeça. tomava-a como que uma espécie de vertigem. a luz
entontecia-a e tanta agitação e alegria transformavam o seu sofrimento na mais
dolorosa das provações. e, num requinte de crueldade, gerardo exigira a sua
presença na festa!

as pupilas ardentes desviaram-se dos bailarinos, poisaram ao acaso na multidão,


quando um olhar as atraiu. rápidos como um relâmpago, esses dois olhos negros,
rancorosos e sombrios, confundiram-se com os seus e desse choque ressaltou uma
centelha tão viva que a trespassou.

para não gritar, tapou a boca com a mão. o excesso de sofrimento ter-lhe-ia
transtornado o cérebro para supor assim ter na sua frente uma morta havia tantos
meses?

os escoceses dançavam agora costas com costas, com as espadas cruzadas ritmando
os passos com o canto. depois voltaram-se e de novo ficaram frente a frente. os seus
gestos
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tornaram-se mais rápidos, as fisionomias animaram-se e o canto tornou-se mais vivo
e fogoso.

o olhar angustiado de graça continuava a procurar no hall a figura entrevista. e, de


súbito, estremeceu. agora já não podia duvidar. não longe da escadaria, nas últimas
filas dos espectadores, avistou a camponesa. por certo já não procurava ocultar-se.
graça via-lhe perfeitamente o rosto. com efeito, era o da sua companheira de viagem,
a desconhecida de uma beleza estranha e quase trágica, da mulher que na tarde da
catástrofe supusera morta.

passou a mão trémula pela testa. em toda a evidência, a desconhecida procurava


aproximar-se de lorde harlington, que, encostado a um pilar, a poucos metros da
escadaria onde estavam o filho e a sua preceptora, parecia prestar a maior atenção à
dança das espadas.

nem uma só vez, desde o princípio da festa, voltara a cabeça para graça.
demonstrava absoluto desinteresse pelo filho e pela alegria.

a sua atenção à dança devia ser aparente, pois em breve deu pela desconhecida.
quando todos os presentes, suspensos do espectáculo, não faziam um movimento,
aquela mulher aproximava-se, pouco a pouco.

separava-os ainda um grupo. contornou-o e parou diante de gerardo. e graça, embora


ela tivesse falado em voz baixa, ouviu, ou antes, adivinhou o que dizia:

- milorde, sou uma estranha para si, mas solicito-lhe o favor de me atender por
momentos.

os bailarinos cruzaram as espadas, formando uma espécie de barreira que cintilava,


batida pelas luzes. os cantos afrouxaram, as vozes
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tornaram-se mais suaves. seguiu-se breve silêncio. depois, num grito vitorioso, os
escoceses ergueram as espadas e, cruzando-as, formaram uma espécie de abóbada...

graça, num derradeiro impulso de ternura, agarrou a mão de william e apertou-a.


depois, curvou-se e murmurou baixinho:

- fica aqui um instante. eu volto já. depois afastou-se, subiu rapidamente a escadaria
e correu para o quarto.

um pouco mais tarde, apenas o tempo preciso para vestir o casaco e meter no saco
de cabedal alguns objectos indispensáveis, saiu para o corredor e, por uma escada
particular, dirigiu-se à porta de serviço.

ia atingi-la, tendo já atravessado o pequeno vestíbulo que a precedia, quando, de pé,


junto dessa porta, viu cecília, que parecia esperá-la. parou e soltou um grito,
apoiando-se contra a parede.

- cecília, vou partir - murmurou - abandono dark-castle de noite, como fazem os


ladrões. pode dizer-lho.

e soltou uma risada de louca. cecília aproximou-se e pegou-lhe nas mãos, num gesto
de ternura e compaixão.

- não pode ir assim afrontar a noite e o frio- censurou - para onde vai, santo deus! o
que dirá lorde harlington?

graça soltou nova gargalhada, que terminou num soluço, e tentou afastar-se da
governanta.

- lorde harlington não ficará surpreendido


- respondeu - ficaria surpreendido, sim, se eu não me fosse embora e, uma vez pelo
menos, procedesse com correcção. mas não posso-concluiu numa explosão de
desespero - não posso!
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chegou junto da porta e abriu-a. cecília, aterrada, seguia-lhe todos os movimentos e,
mais uma vez, tentou convencê-la.

- não se vá embora - pediu em voz baixa


- que será dele se o abandona?

graça parou. a sua expressão era dilacerante.

- sofrerá menos do que eu sofro, afirmo-lhe. antes de desaparecer na escuridão,


voltou-se para a governanta e murmurou:

- não fujo como uma aventureira, cecília. vou dizer-lhe para onde vou. vou para a
torre das fadas, pedir hospitalidade ao bob.

a noite de dezembro estava fria e clara. no céu de um azul profundo cintilavam


miríades de estrelas, e os atalhos, cobertos de neve, irradiavam luminosa claridade.

graça caminhava em passo rápido. contornou o lago, atravessou os moor cobertos de


urzes, crestadas pelo frio, meteu pelos atalhos da floresta. de noite e com o seu
manto hibernal, tudo aquilo assumia um aspecto tão diferente das lindas paisagens
percorridas com william e ao lado de gerardo! sentia-se enregelada mais do que
comovida.

”o meu coração, tão alegre nessa altura, tornou-se mais gelado ainda, mais desolado
e diferente do que estes campos. aqui, a vida renascerá em breve e eu nunca mais
conhecerei a paz!”

com dolorosa precisão, evocava um aposento do castelo, a sala aconchegada e


aquecida na qual gerardo introduzira a desconhecida. nesse momento talvez ele já
conhecesse a verdade e soubesse que graça, sem ter como desculpa o amor, ou
qualquer outro motivo aceitável, se

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apropriara de um nome, de um lar, de objectos que não lhe pertenciam... que tinha roubado!

com a intensidade do sofrimento, teve medo de desmaiar. durante alguns momentos,


encostou-se a uma árvore, rodeou-lhe o tronco com os braços e apoiou neles a fronte
ardente. depois recomeçou a andar e em breve o vulto imponente e aprumado da torre se
perfilou sobre o fundo luminoso do céu.

bateu à porta e bob apareceu logo. a sua primeira impressão foi de espanto. mas como
raramente manifestava as suas impressões, pois a solidão ensinara-lhe o preço do silêncio,
fechou logo a porta, pegou na ligeira bagagem de graça e conduziu-a para junto do fogão.

o cão, um coley da escócia, único companheiro dos seus serões solitários, levantou-se para
acolher a recém-chegada. bob mandou-o deitar, ajudou a preceptora a despir o casaco e
aproximou do lume a sua mais cómoda poltrona.

- não se importa de me dar hospitalidade por esta noite, bob? - pediu graça com débil
sorriso.

- com prazer, mademoiselle.

íntima comoção impediu-o de continuar. voltou-se para o cão e repreendeu-o sem motivo.

- eu também não gosto de festas - continuou, tendo conseguido dominar-se e indicando com
o queixo a direcção de dark-castle.

ao mesmo tempo, amontoou as brasas quase extintas e deitou mais alguma lenha no fogão
para avivar o lume.

- agora está melhor - declarou quando as chamas subiram - vou ao palheiro buscar mais
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lenha e depois preparo o seu quarto. não tenha medo. as fadas velarão por si.

sentia-se triste com o desgosto mudo de graça e daria não sabia bem o quê para a ver sorrir.

mas, ao ouvir falar em fadas, que lhe recordavam william, as feições da preceptora
tomaram tão dolorosa expressão que bob ficou aterrado. ficou calado, procurando no seu
espírito transtornado, na sua ignorância, palavras que pudessem acalmar o desgosto de
graça. não as encontrando, ficou desolado e dirigiu-se para a porta, resmungando contra si
mesmo.

a lenha não devia ter custado muito a encontrar. ainda não tinham passado três minutos
quando a porta voltou a abrir-se. imóvel, enterrada na poltrona, com as mãos cruzadas no
regaço, graça, no último limite das forças e coragem, deixava as lágrimas correr.

alguém se aproximou em passo rápido.

- graça, meu amor, volto a encontrar-te! ela pôs-se de pé num salto, fugiu-lhe um grito dos
lábios e depois ficou trémula, lívida, imóvel, fixando gerardo com olhar aterrado.

- fugiste - continuou este com profunda emoção - fugiste para a noite escura, para o frio...

como se a voz lhe faltasse, calou-se um momento. tentou aproximar-se de graça, mas esta
repeliu-o com os braços estendidos.

- não... não! não sabe ainda...

e fixava-o com tão dilacerante expressão que ele parou a poucos passos, não querendo
perturbá-la com uma palavra ou com um gesto.

para não perder tempo, limitara-se a vestir um sobretudo, mas estava de cabeça descoberta.
- 201 -
os cabelos, desgrenhados pela brisa nocturna, caíam-lhe para a testa. com a mão,
afastou-os e graça pôde então ver a expressão ansiosa do semblante másculo, os
lábios trémulos de emoção, os olhos nos quais, a despeito da ansiedade, brilhava
radiosa claridade.

- não sabe, com certeza. aquela mulher não lhe disse o que fiz?

harlington abanou a cabeça.

- sei tudo, graça. irene vernay disse-me a verdade. não viria de tão longe para me
mentir e enganar.

calou-se um instante e prosseguiu:

- depois de muitos meses de inconsciência e sofrimento, curada do grave ferimento


na cabeça, recomeçou a pensar e adivinhou tudo. cheia de remorso, decidiu
procurar-me para me avisar, para me acautelar. sabendo perfeitamente que eu nunca
acederia a recebê-la, aguardou a melhor ocasião para entrar em dark-castle... e, deus
seja louvado, salvou-me! sei tudo, graça. sei, principalmente, que nunca foste
casada, que não és a mulher cuja presença me recordaria um passado detestado! era
a única coisa que não podia perdoar-te.

com infinita ternura, contemplava-a e a ardente súplica expressa nesse olhar


comoveu graça. em voz baixa, murmurou:

- não é possível, gerardo. não sou digna... interrompeu-se para murmurar de seguida,

num tom desalentado:

- como pode amar-me se nem sequer sabe quem sou!

gerardo aproximou-se. curvou-se para ela e o sorriso meigo entreabriu os lábios


adornados com o bigode loiro.
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- não és irene vernay e isso me basta... também não és graça fabrège... mais tarde me
contararás tudo.

bob, com os braços carregados de lenha abriu a porta e ao ver gerardo quase deixou
cair o seu fardo no chão; depois, devagarinho, voltou a fechá-la.

graça pôs-se de pé.

- quem sou? - murmurou com desespero


- quem sou? pode sabê-lo já, gerardo. sou uma pobre rapariga, desconhecida,
anónima... uma rapariga sem família, sem meios, que se refugiou em dark-castle,
mercê de uma fraude, para não ter frio e fome. não sou ninguém, estou sozinha no
mundo. chamo-me erigida de monclar!

harlington não esperou as últimas palavras para a apertar nos braços e cingi-la ao
peito com violento ardor.

- quem és? sou eu quem vai dizer-to. És minha prisioneira, minha mulher. És aquela
a quem eu esperava. És a ressurreição, a esperança, a felicidade, um milagre da vida.
És tudo isto e, de futuro, seja qual for o teu nome, serás sempre, para mim, o meu
amor, o meu tesoiro!

fim