Capítulo 3

A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO

A ExTENSãO DAS TERRITORIALIDADES CULTURAIS: O LOCAL E O GLObAL NA CONTEMPORANEIDADE
Conteúdo programático
O local e o global e as representações das identidades culturais

Objetivo
Compreender os deslocamentos e as afirmações territoriais na contemporaneidade a partir do encontro entre as territorialidades locais e as globais.

Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo me quer bem Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo é meu também
Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte

Agora, vamos tratar da relação entre as territorialidades locais e globais e suas implicações no universo da cultura. Anteriormente, apresentamos a base teórica da proposta pedagógica, ou seja, os conceitos fundamentais dos Estudos Culturais. Esse conjunto conceitual é aqui comparado a uma corrente. A imagem da corrente representa a intenção que tivemos ao trabalhar os conceitos desta disciplina. Os conceitos apresentados estão interligados, como os elos de uma corrente, compondo um todo lógico e interdependente; dissociado, o conceito não tem sentido. Também, a teoria, quando afastada da realidade, é estéril, não permite o entendimento das demandas sociais. Assim, a discussão conceitual aqui apresentada visa expor a corrente teórica dos estudos culturais para que os desdobramentos culturais modelados na contemporaneidade possam ser compreendidos.

Deslocamentos territoriais:
entre o global e o local
Estamos em um contexto histórico que marca o fechamento do século XX e o início de uma nova era. As ciências humanas estão diante do desafio de compreender essa realidade. A contemporaneidade inaugura um modelo de sociedade global. O conhecimento passa a exigir uma outra lógica de construção. Vejamos como Ianni (1994) descreve esse cenário:
As relações, os processos e as estruturas econômicas, políticas, demográficas, geográficas, históricas, culturais e sociais, que se desenvolvem em escala mundial, adquirem preeminência sobre as relações, os processos e as estruturas que se desenvolvem em escala nacional. O pensamento científico, em suas produções mais notáveis [...], não é suficiente para apreender a constituição e os movimentos da sociedade global.

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Estudos Culturais – Capítulo 3
As territorialidades locais e globais têm hoje uma movimentação histórica nunca vista. Em alguns contextos, o local caminha para o global; em outros, o local insiste em demarcar sua fronteira, reafirmando valores identitários ancestrais. Em outras conjunturas, o global absorve o local em um processo de assimilação cultural. A ciência deve transitar em todas essas direções para compreender as novas demandas que se apresentam. Exige-se um novo paradigma, como sugere Ianni: a globalização.

Global e local, local e global? Que desdobramentos tem essa relação para os estudos culturais? Antes de chegar à resposta, aceite nossa sugestão a seguir.

Pense sobre este fragmento de O mundo é um moinho, de Cartola:

Ainda é cedo, amor Mal começaste a conhecer a vida Já anuncias a hora de partida Sem saber mesmo o rumo que irás tomar [...]
Cartola

Trata-se de uma música de grande representatividade na MPB, e a grande maioria de nós, independentemente da idade, ao ouvi-la, pode facilmente reconhecer e acompanhar a letra.

Cartola foi um homem que se permitiu viver e morrer de amores. Os eus-poéticos que ele construía também assumiam essa representação. Seu repertório confirma sua devoção pelas pessoas.

A história mais conhecida é que Cartola compôs essa música para sua filha, que estava prestes a sair de casa. Porém, recentemente, Nilcemar Nogueira, neta do compositor, ao publicar uma biografia póstuma, revelou que, na verdade, a canção foi criada com base na história de um colega de trabalho de Cartola.
Eu-poético Aquele que fala no poema.

Shutterstock/Julia Lutgendorf

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a letra aborda o lamento de alguém por causa da iminente partida de uma pessoa querida. Hoje. a Idade Moderna marca a transição do feudalismo para o mercantilismo. A noção de lugar não se refere mais ao espaço físico somente. medo e alegria? No Ocidente. ouça essa canção de Cartola procurando compreender a razão de tanta apreensão.De qualquer modo. a depender dos interesses econômicos. Na verdade. especialmente no que diz respeito ao capital. Dependendo do contexto. meio ambiente. incorporando uma concepção virtual absolutamente flutuante. nos últimos anos as organizações da sociedade civil passaram a formar redes em torno de temas comuns – questão urbana. gênero. A regra hegemônica constrói os paradigmas dominantes no globo. Trata-se do deslocamento de uma territorialidade local para uma dimensão global.] superando o localismo e o isolamento. já viveu algum deslocamento decisivo? Por que os deslocamentos colocam em suspensão nossas vidas? Por que nos marcam com vontade e dúvida. A dinâmica entre o local e o global ganha novos contornos. assim. fortalecendo-se com a troca de experiências. geridos por uma sociedade do conhecimento que tem na comunicação o elemento-chave. em al- 72 . Se avaliarmos essa conjuntura com a lógica tradicional. essa interação pode ganhar aspectos de negociação. monitoramento do sistema financeiro. E você. podemos pensar em um não lugar. Leitura complementar REDES INTERNACIONAIS DE ORGANIzAçõES: SOCIEDADE CIvIL GLObAL – ARTICULAçãO COM O LOCAL [. conflito ou integração. os processos econômicos e tecnológicos que geram a globalização rompem com qualquer estrutura rígida. entre outros –. informações e. incentivada pela globalização. A nova ordem econômica impõe a formação das monarquias nacionais que. desenvolvimento local. cidadania. cooperação. o não lugar é a possibilidade de deslocamento entre o local e o global. Se possível. provavelmente se deslocando do seio familiar em busca de sua independência.. Trata-se de uma relação bastante complexa. que se movimenta permanentemente. segurança alimentar.. se firmam pela definição das fronteiras territoriais. os deslocamentos podem promover aproximações e distanciamentos: ao mesmo tempo que a globalização rompe fronteiras. o local perde a raiz. entre outras coisas.

essas iniciativas de apoio financeiro são pulverizadas e marginais e não atingem o sistema financeiro..] para monitoração das atividades do sistema financeiro internacional. até porque atendem a um público que está fora dele. Apesar da sua importância no fortalecimento das organizações e do próprio tecido social. Além de acompanhar os efeitos das políticas globais de ajuste estrutural. a International Transparency. com base em organizações especializadas como a NGONET e a Associação para o Progresso da Comunidade (APC). hoje totalmente fora do alcance do Estado e da própria sociedade civil. como a Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais [. Lobby Grupo de pessoas que têm como atividade buscar influenciar decisões. nelas estão alternativas mais amplas de organização econômica na direção do empowerment da sociedade civil. sem sequer passar pelos controles formais dos diversos governos? Algumas experiências nesse rumo começam a ser tentadas. ações conjuntas. atuam como pequenos empréstimos e a curto prazo. São sistemas autossustentáveis. da dívida. e a capacitação de entidades para ter acesso a fontes de financiamentos públicos com a promoção de outras redes e plataformas de ação conjunta. Para isso tem contribuído bastante a utilização das novas tecnologias de comunicação. outras ampliam-se para grupos de cidadãos e organizações de base. abrangendo. tanto no setor produtivo e de distribuição quanto no financeiro. NGONET Non Governamental Organization Network (Rede de Organizações Não Governamentais). em alguns casos. que se intensificaram a partir da ECO-92.Estudos Culturais – Capítulo 3 guns casos. mais de cem organizações. financiando habitação ou instrumentos de trabalhos. nos organismos financeiros (OMC e Banco Mundial). sinalizando o papel da sociedade civil de controle sobre o mercado. algumas redes desenvolvem atividades alternativas. No vasto leque de temas com que se ocupam. Muitas das redes vão além da virtualidade e seus objetivos são amplos e ambiciosos. Apesar do reduzido impacto sobre o sistema econômico. e que decide sobre as questões que envolvem as vidas de milhões de pessoas. 73 . poupança comunitária. enquanto boa parte tem como raio de ação os cinco continentes. Procura-se também articular os vários tipos de ação: o lobby. simplicidade nas operações. Algumas agregam apenas ONGs. A luta contra a corrupção nas transações comerciais internacionais é alvo de uma rede específica. uso de recursos públicos de baixo custo. fornecendo créditos rotativos para essas atividades. o que dá lugar a perguntar-se: não caberia também à sociedade civil exercer uma pressão mais forte e coordenada sobre o sistema financeiro especulativo e artificial. ética de confiança. percebe-se uma preocupação intensa com a questão da ética na política e com a participação dos cidadãos no processo. pequenos negócios orientados por princípios de responsabilidade solidária. umas restringem-se a um país ou região. do comércio internacional e agir como lobby..

Mas tudo começou em 1951. com recursos de ONGs do Hemisfério Norte ou programas de Organizações Intergovernamentais. Recife: EQUIP. em 1991. Irlanda. desempenham importante papel político e confirmam o caráter institucional da sociedade civil global em construção. mas apenas 11 adotaram a moeda única. entre si. já que cada vez mais os centros de decisão mais importantes se situam nas grandes corporações econômicas e em reduzido número de governos. ainda. ed. avaliar sua eficácia. Conheça alguns dos blocos econômicos da atualidade: O Nafta (North American Free Trade Area) é uma zona de livre comércio entre os países da América do Norte: Estados Unidos. se concluída. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. Portugal. Alemanha. Elenaldo. Dinamarca. Holanda. A constituição de base desta comunidade. utilizados como espaço público de denúncia e condenação de atos de governos ou de políticas de instituições multilaterais (Tribunais Internacionais). A união monetária foi aprovada pelo Tratado de Maastricht. Áustria. o euro: França. facilitando o fluxo de bens e serviços na região. seja como lócus de redefinição das relações sociedade/estado. 2. A Alca (Área de Livre Comércio das Américas) é uma proposta dos EUA de integração comercial que. Os países-membros da Alca terão. São Paulo: Cortez. 2001. especialmente no caso do México. cujos instrumentos criam possibilidades de fazer ouvir “outras vozes do planeta”. abrangerá todos os países das Américas. seja como espaço para realização de projetos concretos de desenvolvimento urbano. o intercâmbio comercial entre os países aumentou. No caso de formação de uma união aduaneira hemisférica em 2005 (ALCA). com exceção de Cuba. TEIXEIRA. A problemática do poder local está presente na atuação dessas redes. intercâmbio de experiências. Grécia. criação de instâncias de interlocução ou. A UE é formada por 15 países. preferências tarifárias. Espanha. o que significa o aumento do saldo de suas balanças comerciais. Suécia e Finlândia. quando seis nações devastadas pela guerra decidiram unir suas matérias-primas industriais de carvão e de aço para evitar a guerra entre elas. proposições de leis e políticas. A União Europeia é resultado de uma tentativa bem-sucedida da segunda metade do século XX. Luxemburgo. mediante controle dos atos. os países do NAFTA também serão incluídos nela. O objetivo é que as tarifas para o comércio intrabloco sejam reduzidas até que fiquem zeradas. Reino Unido. Bélgica. entrou em vigor em 1958. Decorridos pouco mais de cinco anos de sua implementação. contudo. 74 . Itália.Outros organismos de caráter internacional. Canadá e México. É difícil. Salvador: UFBA. tanto que já participam das negociações. o Tratado de Roma.

Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos.trf1. o interesse de todo o mundo. assim. Tércio Waldir de. 2008. 2. o Mercosul representa hoje um agrupamento regional economicamente pujante e politicamente estável. assim. Pesquise e apresente a política de atuação de alguma ONG que exista em sua região. Produza um breve texto discutindo o papel das organizações não governamentais na superação do isolamento e da discriminação de determinados grupos políticos. estabelece uma relação que envolve. Acesso em: 12 mar.gov.br/judice/jud13/ entendendo. ou seja. Síntese Você estudou: A corrente teórica corresponde a uma rede de conceitos interligados e interdependentes que dão fundamento para a compreensão de uma realidade. atraído. Os cinco países tinham mais de 111 milhões de habitantes e PIB de US$ 270 bilhões em 1999. negociações e integração. Peru e Venezuela. Decorridos praticamente dez anos desde a assinatura do Tratado de Assunção. A interatividade entre as dimensões locais e globais é dialógica. Disponível em: <http://www. O Mercosul é o mais importante projeto de política externa do Brasil. A Aladi (Associação Latino-Americana de Integração) é uma organização intergovernamental. Equador. cada vez mais. para o desenvolvimento econômico e social. conflitos.htm>. O conhecimento precisa atuar em um plano complexo para abranger as contradições entre o local e o global que estão sendo processadas na contemporaneidade. Atividades 1.mt. A que segmento social ela está relacionada politicamente? Como é a sua atuação? 75 . O principal objetivo da CAN é contribuir para o desenvolvimento da região mediante a integração econômica e social dos países-membros e a gradual formação de um mercado comum latino-americano. A globalização impõe uma nova lógica de compreensão da realidade ao romper com as fronteiras erguidas na Idade Moderna. contribuindo.Estudos Culturais – Capítulo 3 A Comunidade Andina (CAN) é uma organização sub-regional com personalidade jurídica internacional composta por: Bolívia. que tem sabido aproveitar os ensinamentos e as oportunidades da globalização e tem. Colômbia. ao mesmo tempo. A música de Cartola O mundo é um moinho foi utilizada como um exemplo dos deslocamentos territoriais que ocorrem em nossas vidas. ALBUQUERQUE. cujo objetivo é promover a expansão da integração regional e a constituição de um mercado comum.

Mundialização e cultura. 2001. estéreo. O mundo é um moinho. 2. Acesso em: 18 dez. 1998. Até as rosas já comentam.com.htm>. Acesso em: 12 mar. ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1999. IANNI. 1998. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã.asp?bis=cultura01>. ed. TEIXEIRA. São Paulo: Unesp. VIEIRA. Rio de Janeiro: EMI Music Brasil. concorreu também ao Oscar de melhor filme estrangeiro e de melhor atriz. Tércio Waldir de. 1 CD: digital. Estudos avançados. n. um menino que perdeu a mãe atropelada e o qual nunca conheceu o pai. Ela encontra Josué. Anotações 76 . Referências ALBUQUERQUE. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. 1994. 113 min. 1994. 2007. Brasil/ França.trf1. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos.Central do Brasil. TRIBUNA DA IMPRENSA. GIDDENS. direção de Walter Salles. Renato. 8. interpretada por Fernanda Montenegro. Dora acaba acolhendo o menino e o leva pelo interior do Nordeste. 2005. Octávio. Elenaldo. para tentarem encontrar o pai dele. 1991. ORTIZ. 147-163. v.br/anteriores/2007/outubro/10/bis. Cidadania e globalização. Europa Filmes. 21. p. é uma ex-professora que trabalha na Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. A personagem Dora. As consequências da modernidade. Rio de Janeiro: Record.gov.br/judice/jud13/entendendo. Anthony. Salvador: UFBA. 2008. ed. CARTOLA. Liszt. tribunadaimprensa. São Paulo: Cortez. São Paulo: Brasiliense. 8. Disponível em: <http://www.mt. Disponível em: <http://www. O filme. Recife: EQUIP.

TERRITORIAIS Conteúdo programático O global e o local no âmbito do processo de globalização Objetivo Situar o processo de globalização a partir das tensões entre as territorialidades locais e globais para entender as novas formas de organização das identidades. . ECONôMICAS. CULTURAIS.Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO GLObALIzAçãO: A REDEfINIçãO DAS DISTâNCIAS SOCIAIS.

a sociologia e a história empenhavam-se na compreensão das territorialidades macrossociais. mas seria capaz de conceituá-la? Saberia dizer em que aspectos das nossas vidas a globalização está presente? Como ela se relaciona aos estudos culturais? encontros e Desencontros territoriais: o processo De globalização Tradicionalmente. ao mesmo tempo.. o interno é externalizado. A esse respeito. Buscavam os elementos políticos e econômicos que constituíam as estruturas sociais: o estado. padronização e divisão das identidades culturais. o particular e o universal como duas instâncias separadas.. a nação. Em outra vertente. quebra-se com a formação de uma cultura globalizada. o lá vem para cá e o desconhecido se revela. firma-se como disciplina acadêmica ao tomar os ambientes microssociais como fonte de estudo. um determinado recorte social.Certamente. O território local desloca-se em comunicação global. mantendo determinadas relações entre si e guardando cada uma a sua autonomia. você tem ouvido falar muito em “globalização”. para efeito de estudo. o particular e o universal. na sua dinâmica complexa e contraditória. lá e cá. que se interpenetram. por exemplo. Vieira (2005) considera: [. A junção dos termos “global” e “local” indica trocas territoriais que promovem. situar a pesquisa em uma determinada comunidade. conhecido e desconhecido. especialmente as do início do século XX. fenômeno que Ortiz (1994) denomina de “mundialização da cultura”. A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. tornando inseparáveis as instâncias local e global. inclusive. Nesse contexto. A globalização quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. A divisão entre interno e externo. estabelecem uma fronteira entre as territorialidades locais e globais para a compreensão dos processos culturais. Ortiz emprega o termo “glocal” para caracterizar o processo de globalização cultural. A antropologia. Ambientes microssociais Diz respeito a delimitar. Mas esse modelo não consegue explicar o fenômeno da globalização contemporânea como um processo que engloba. o continente. 78 . no mesmo período. a cidade. os processos culturais se estendem por todo o mundo. Ainda que esses trabalhos estabelecessem pontes interativas com o ambiente global. o foco era a localidade. Nessa perspectiva. as pesquisas antropológicas. ganham visibilidade os estudos tribais. assim nomeados porque enfocavam um grupo social bem marcado cultural e espacialmente.] Os antropólogos se acostumaram a ver o local e o global.

opera como um movimento que paralelamente concentra e aproxima a riqueza mundial. com mais velocidade e alcance. a compreensão que reduz a economia à modelagem desse fenômeno é limitada. Giddens (1991). influenciando processos de produção global e a distribuição internacional do trabalho. Isso é fruto de uma tradição científica que compreende a realidade com foco na produção material. A circulação da produção incorpora uma lógica de mercado para atender aos interesses dos grupos financeiros privados em vez das necessidades do cidadão. Com essa perspectiva. a circularidade econômica se ajusta ao perfil cultural dos setores sociais de maior poder. A globalização é fruto da convergência de fatores políticos. apresenta a teoria do desencaixe para explicar esse fenômeno. culturais.Estudos Culturais – Capítulo 3 O termo “glocal” sugere a presença do global no local e vice-versa. o fenômeno da globalização é visto essencialmente sob essa perspectiva. Ele considera que a globalização provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio como expressão de poder em um determinado território. pela ciência. Outros se concentram na abrangência sem precedentes do comércio mundial. A teoria fornece base conceitual para a trolam o mercado. É inegável que os impulsos econômicos conferem uma dimensão significativa à globalização. O mercado se universaliza embasado na formação de grandes oligopólios que controlam a economia planetária. em qualquer área de conhecimento. que redimensiona a circulação da informação. Nesse aspecto. 79 . a globalização. Oligopólio Conglomerado econômico formado por um número reduzido de empresas que conTeoria Rede de conceitos com uma amarração lógica. Entretanto. cujas operações massivas se expandem através de fronteiras nacionais. A contribuição dessa conjuntura para o curso da globalização é alimentada pela sociedade do conhecimento. assim. no livro As consequências da modernidade. envolvendo uma variedade de bens e serviços muito maior do que antes. além dos econômicos. Alguns assinalam a integração eletrônica dos mercados financeiros globais e o enorme volume de fluxo de capital global. compreensão de questões problematizadas na sociedade. Para ele. Não raro vemos nos jornais. revistas e textos acadêmicos a expressão “globalização econômica”. Cotidianamente. Como você percebe esse movimento cultural em sua territorialidade? Você pode identificar e descrever elementos da cultura global que estão presentes no local em que você vive? E elementos da sua cultura local que estão presentes no global? A dimensão política da globalização Os deslocamentos territoriais que promovem a fragmentação também contribuem para a concentração de capitais. sociais. Giddens (2005) acrescenta: Muito disso se deve ao papel das corporações transnacionais (CTs).

ky Sergey Zhaffs burgo. Ou seja. A realidade apresenta um cenário de diálogo entre as territorialidades globais e locais. de São Peters Vista da cidade fundo. o direito de expressar suas singularidades e particularidades. etnia. A conjunção desses elementos solidifica um mercado hegemônico que estabelece um padrão de negociação global. O primeiro relaciona-se à funcionalidade da ordem econômica. o local e o global compõem o panorama político da contemporaneidade em uma relação de troca contínua e permanente. Raça. Discutiremos as tensões. “mcdonaldização do mundo”. as negociações e as integrações que existem entre diferentes identidades emergentes. no mundo global. de cunho político. Essas manifestações apresentam identidades diversas que se processam. Tencionar Ter interesse ou intenção de. combinando as dimensões econômica e política. muitas vezes. ou seja. o consumo. Vieira (2005) confirma a tendência de concentração mercadológica. conflito e negociação entre diversos grupos. religião. projetar. essas metáforas parecem sugerir a ideia de uma padronização do comportamento humano. A construção da amplitude territorial está mediada por relações de poder complexas que envolvem. a globalização não é um movimento único. As territorialidades locais reagem marcando identidades afirmativas. cDonald’s ao loja da rede M com uma Stephan Mosel Centro comercial em Piccadilly Circus. tanto global quanto localmente. O local. O segundo. Embora enfatizando diferentes [perspectivas]. gênero serão alguns dos temas que tentaremos compreender melhor. “fábrica global”. a globalização atinge dois objetivos no mercado. “disneylândia global”. como “aldeia global”. etc. Rússia. sexualidade. “shopping center global”. Entretanto. Londres. manifesta-se tencionando. ao mesmo tempo.Nessa perspectiva. modela ideologicamente o consumidor com base nos valores do capital fornecedor. 80 . “cidade global”. vamos tratar dos chamados “identitários contemporâneos” que fazem parte dessas relações. Na sequência. argumentando que: Surgem dessa perspectiva algumas expressões.

afiado para cortar o isolamento às vezes pretendido e 1 Do Conselho Editorial da Folha de S. para outros. o efeito globalizante pode ser visto sob aspectos negativos e positivos. de má gestão da coisa pública. seus problemas de corrupção. [. pois lhe dá condições de gerir e ingerir. afiado para cortar as possibilidades de que sejam acobertadas suas misérias e mazelas. levou 13 segundos para cair como um raio sobre São Paulo e Tóquio. 81 . 2 Professor de história e mestrando na UFRGS. Há 24 mil povos no mundo. A queda da Bolsa de Valores de Hong Kong (outubro-novembro/97). Para países em situação de miserabilidade a globalização é aterradora.Paulo.. O primeiro. [. O segundo gume. segundo alguns. Para os países em desenvolvimento a mundialização é uma faca de dois gumes. Buenos Aires e Frankfurt..] Na visão de Voltaire Schilling2.. uma vez que as notícias transitam em tempo real e não mais como dantes. a globalização se divide em três períodos distintos: 1450-1850 – Primeira fase – Expansionismo mercantilista 1850-1950 – Segunda fase – Industrial-imperialista-colonialista Pós-1989 – Globalização recente – Cibernética-tecnológica-associativa Na verdade. interfere no cultivo das tradições.809 línguas no mundo e evidentemente não são todos que podem gozar dos privilégios da globalização..Estudos Culturais – Capítulo 3 Leitura complementar ENTENDENDO A GLObALIzAçãO E SUA INfLUêNCIA NOS bLOCOS ECONôMICOS [.. um exemplo do que seja globalização é: A notícia do assassinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln. a depender da ótica com que é olhado. levou 13 dias para cruzar o Atlântico e chegar à Europa. “mundialização”. fluir e influir nos mais diversos pontos do universo em tempo real. representa ingerência externa. Há 6. ouvimos e lemos inúmeras matérias que os conceituam das mais diversas maneiras e formas. Nova York e Tel Aviv. em 1865.. há mais de cinco séculos.] Para Clovis Rossi1. “internacionalização” são termos que podem ser considerados sinônimos do que o mundo vem experimentando. Eis ao vivo e em cores.] “Globalização”. a globalização. e hoje vemos. do desgoverno. a partir dos anos 1980. Para um país como os Estados Unidos da América a situação global é excepcional. permite comparações que muitas vezes não são benéficas e acabam por atrapalhar planos e metas governamentais.

[. Assim. a busca pelo desenvolvimento e troca de tecnologias se tornam necessários. cultural e comercial. Tudo isso não era pensado e não era tido como imperioso.. é importante que os governos envolvidos nesse processo procurem torná-los o mais transparentes possível. bens e serviços. Os profissionais não estão acompanhando o desenvolvimento tecnológico. e a partir dessas parcerias surgem os hoje conhecidos blocos econômicos. a Aladi e o Mercosul.. hoje. se transformam em alavancas mundiais. impossível imaginar de modo diverso. propiciando a toda coletividade conhecer os detalhes dos compromissos que serão assumidos. no qual os planos e metas são vistos e revistos a todo instante.] Nessa esteira de desenvolvimento globalizado e com a necessidade de que. Nesse ensaio dos efeitos gerados pela globalização aparecem as relações comerciais. segundo avaliação feita por Maria das Graças Reggiani Almeida3: A globalização. as novas tecnologias e a formação profissional alijam uma série de pessoas. globais. sua tecnologia. 82 .. as mudanças de mentalidade e de comportamento. a União Europeia. mais e mais países busquem aproximação para poder comprar. a Alca.. mas. a cada dia. No estabelecimento de políticas de aproximação.. inicialmente formadas entre países fronteiriços para depois transpor distâncias e criar um mercado efetivamente global. indispensável. a produção e o consumo se aliam e todos os envolvidos acabam percebendo ser indispensável esse tipo de convivência para a sobrevivência de seus investimentos e equilíbrio de suas contas. em pouco tempo. a Comunidade Andina. o que inicialmente representava um pequeno negócio internacional transforma-se em um verdadeiro bloco de integração econômica.propiciar uma abertura para os demais países do mundo e assim gerar possibilidades reais de um entrelaçamento social. pois através dele passa a ser possível uma integração dos demais temas como pessoas. em que é possível perceber claramente a necessidade de que todos procurem parceiros para seu desenvolvimento.] para a população em geral. em que alguns se destacam mais que outros em razão de número de países. o comércio é o carro-chefe. Cada país sai em busca do seu igual para poder criar parcerias promissoras. e não 3 Coordenadora do Departamento de Desenvolvimento Gerencial do Ietec. Podemos trazer como exemplos mais conhecidos desta nova realidade o Nafta. vender e permutar seus produtos e serviços. político. e o que significava uma pequena relação de interesses transforma-se em um gigantesco conglomerado de estados e empresas.] Um dos efeitos considerados negativos da globalização para o Brasil está na questão ligada ao despreparo de grande parte de sua força de trabalho. do volume de negociações que os envolvem e. [. demonstrando com clareza as vantagens e desvantagens e o grau de interferência [..

valendo inclusive o estudo de viabilidade de uma reserva de mercado por um período necessário para que as indústrias brasileiras possam se adequar e chegar a uma condição de igualdade de tecnologia e produção com os demais países. De outro lado. A divisão entre interno e externo. não só em sua balança comercial. quebra-se pela demanda de se formar uma cultura globalizada. Disse o entrevistado: “Tem oito ou dez empresas americanas. sua vinculação a um bloco econômico vai significar uma ampliação. Nesse sentido o cuidado deve ser maior.. cada uma isoladamente representa toda a produção brasileira de celulose e papel. por vezes. Este tipo de procedimento nesses processos pode facilitar muito o seu desenvolvimento e. o país será. que. Associação Brasileira dos Produtores de Celulose e Papel. trouxe uma informação assustadora. Em recente entrevista aos meios de comunicações.br/ judice/jud13/entendendo. redução salarial. evitando. perdas de benefícios e outros. O fenômeno denominado “globalização” quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. com os Estados Unidos da América.] ALBUQUERQUE. é o mentor e maior interessado nesse processo. no momento em que todos os aspectos forem bem conhecidos e discutidos.trf1. Disponível em: <http://www.gov. o presidente da Abracelpa. que no momento da abertura comercial as empresas locais não tenham condição de sobreviver à entrada das concorrentes. com elevação do nível de desemprego. Acesso em: 12 mar. Síntese Você estudou: A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. como já dissemos.mt. além de criar uma situação social insustentável. quando o governo está comprometido com o desenvolvimento sustentável. Tércio Waldir de. 4 Em entrevista ao Jornal da Globo de 30 de janeiro de 2003.. 83 . que. Aí acaba com a indústria brasileira4”.Estudos Culturais – Capítulo 3 somente dar a conhecer a grupos de interesses de uma forma fechada e às vezes isolada. O surgimento de um bloco econômico nem sempre significa vantagens imediatas a seus componentes. assim. em especial. e. sem dúvida alguma.htm>. ao ser indagado sobre os benefícios ou prejuízos ao seu seguimento caso o Brasil participe efetivamente da Alca. De repente lá tem uma crise econômica e eles resolvem despejar o produto no Brasil. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. beneficiado. conhecido e desconhecido. 2008. precisam criar condições de competitividade com os demais e para que isso ocorra é necessário que o próprio governo adote medidas de incentivo ao desenvolvimento. [. lá e cá. Osmar Zogbi. mas na condição de vida de seu povo.

Renato. Anotações 84 . ed. ALMANAQUE ABRIL 2008. Sociologia. Em seguida. assim. n. 1991. Rio de Janeiro: Record. 1994. 8. São Paulo: Abril. paralelamente. Cidadania e globalização. escreva um texto no qual você discute sobre resultados dessa configuração para a sociedade global. Qual o sentido da desterritorialização para o avanço da globalização cultural? Como você percebe a desterritorialização em seu território? Há grupos que se opõem a esse movimento? Como eles agem? Referências ALBUQUERQUE. 8. Estudos avançados. ORTIZ. Anthony.mt. 1994. 2008. 2005. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. 147-163. A globalização atua no mercado em duas perspectivas: incentivo ao consumo em larga escala e ajuste ideológico do consumidor a partir dos valores e princípios do capital fornecedor. é um movimento que. Liszt. 2005. Identifique possíveis consequências culturais da formação de blocos econômicos para os países envolvidos. concentra e aproxima a riqueza mundial.trf1. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. VIEIRA. Disponível em: <http://www.br/judice/jud13/entendendo. São Paulo: Brasiliense. GIDDENS.htm>.1. 21. ed. 34. IANNI. São Paulo: Unesp. Tércio Waldir de. 2. p.gov. Porto Alegre: Artmed. Mundialização da cultura. _____. Atividades 1. A globalização. v. As consequências da modernidade. 2008. Acesso em: 12 mar. ed. Octávio.O processo globalizante provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio em um determinado território.

.Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO RAçA: UMA CATEGORIA POLÍTICA PARA A COMPREENSãO DA DIvERSIDADE hUMANA Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que se estabelecem na sociedade. na construção e discussão do conceito de “raça” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações raciais que se estabelecem na sociedade como construções resultantes da percepção das diferenças e das construções identitárias que elas originam. Apresentar a construção política do conceito de raça em oposição à concepção biológica que produz hierarquias entre os grupos humanos.

Gilberto Gil Não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas. discutimos a dinâmica da relação entre o local e o global. a interação entre as religiosidades. atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. vamos refletir sobre as tensões étnico-raciais. no que se refere à raça e à etnia? Observando as imagens da página seguinte. Fundamentamos nossa apresentação sobre uma série de conceitos: “cultura”. A diversidade de grupos contemplados pelos estudos culturais é muito ampla. você diria que essas pessoas são de raças diferentes? Etnias diferentes? Como esses fatores estão relacionados às identidades culturais? 86 . Isso mesmo: conquistar poder e espaço. “identidade”.. No entanto. comandante guerreiro! Guerreiro-mor capitão da capitania de minha cabeça [. entre outros. Optamos por selecionar as questões que nos parecem mais recorrentes na nossa realidade. Vamos assumir o compromisso com a inclusão dos grupos sociais historicamente marginalizados. Aprofunde as leituras propostas buscando outras que não estão aqui. A partir daqui.] A felicidade do negro é uma felicidade guerreira. enfrentando preconceitos e discriminações. orientação sexual.Zumbi. Sabemos que esta disciplina não abrange todos os aspectos relacionados ao tema. Chegamos à discussão sobre um ponto essencial na sociedade brasileira e também nas sociedades de quase todos os países que compõem este planeta. cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados. Quem somos. Esses debates relacionam grupos identitários que se organizam para afirmar suas necessidades políticas. por isso é tão importante que você continue pesquisando. Kabengele Munanga Anteriormente.. “território”. as relações de gênero. afirmar cultura e identidade são o caminho para romper com os mecanismos de exclusão gerados pela discriminação.

você poderá desenvolver uma base mais sólida para argumentar sobre esses temas tão polêmicos. já consolidadas oficialmente. há a inferiorização de grupos que apresentam características somáticas e culturais diferentes das referentes aos povos da Europa Ocidental. etc. então. que antes eram ocupados exclusivamente por grupos privilegiados. entre outras medidas. Daí. em um formulário. Assim. Na organização do mundo moderno. Se. cotas raciais. por exemplo. cotas para as mulheres na política. reservar espaços. você tivesse que responder qual é a sua raça. apesar de não concretamente. Vemos discussões acaloradas sobre ações afirmativas. como você responderia? Por quê? 87 . à discussão do conceito de “raça”.Estudos Culturais – Capítulo 3 Fotos: Orangestock/Marco Andras. Vamos voltar. Acreditamos que compreendendo essas questões. Shutterstock/Hasan Shaheed Uma das formas que a contemporaneidade estabeleceu para reconhecer as diferenças e minimizar os efeitos das desigualdades foi criar maneiras de compensar as perdas de quem foi submetido aos mecanismos de exclusão de certos povos e de diferenciação entre eles. para quem não obteve a oportunidade de sequer poder lutar para ocupá-los. temos no Brasil. pois os mecanismos organizados garantiam o ingresso apenas daqueles que tinham determinado perfil. E ainda o debate sobre a oficialização de cotas para outros grupos em outros setores do país.

Passou a se referir a humanos a partir da Renascença. o “racismo”? Vejamos como alguns teóricos que discutem as questões raciais tratam esse assunto. Refere-se a fenótipo. acrescidas de aspectos culturais. que é a característica física de um indivíduo. não? Mas na organização das sociedades. indicando. designava categoria e espécie. pois as diferenças genéticas entre os grupos considerados como sendo de raças diferentes não justificariam a separação. determinada pela sua carga genética e pelas condições ambientais. surgiram as desigualdades que inferiorizam até hoje quem não pertence aos grupos considerados superiores. Quando dogmas de grupos políticos de maior prestígio social começaram a ser questionados. Fenotípicos Que têm a mesma aparência. E o que fazer? Riscar a palavra “raça” do dicionário? Com isso também seria possível riscar o termo que ela originou. Quem não fizesse parte dos grupos de descendentes da parte ocidental da Europa era comumente classificado como inferior. entre o final do século XIX e início do século XX. vemos pessoas “estranhando” seus semelhantes por não acreditar que sejam realmente semelhantes. na zoologia. o termo que durante tanto tempo foi utilizado para classificar pessoas e separá-las deixou de ser adequado para se referir a humanos. Então. um dos recursos mais explorados para criar e manter certas populações como subalternas foi justamente afirmar que pertenciam a uma determinada raça. Explorando parcialmente conceitos científicos e utilizando-os para embasar suas teorias. muitas vezes. Quando olha para alguém.A palavra “raça” não foi criada para designar seres humanos. a cor da pele e a textura do cabelo? Os elementos fenotípicos normalmente se evidenciam em um primeiro contato. classificaram a humanidade com base nessas características. o que você vê primeiro? Os traços do rosto. Essa percepção pode estabelecer uma relação tranquila ou tensa. Assim. Os caracteres físicos que marcam a pertença a grupos não europeus. Esquisito. foram desqualificados e utilizados para representar negativamente as pessoas que faziam parte dos povos dominados. deixou-se de considerar o termo “raça” como o ideal para classificar os seres humanos. por exemplo. Com o domínio político e econômico de um povo sobre o outro – sem se analisar como as relações de fato se estabeleceram –. representantes de grupos hegemônicos. 88 . Foi ainda observando os conceitos biológicos de raças puras que os grupos humanos também foram classificados a partir de critérios que buscam valorizar alguns em detrimento de outros. então. Em suas primeiras acepções. dependendo da construção identitária desenvolvida pelas pessoas que estão interagindo. classificava as espécies animais (hoje essa conceituação está em desuso). pessoas com a mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. considerando as relações entre colonizados e colonizadores. E assim o mundo moderno se organizou.

como alguns debatedores do tema sugerem. a hereditariedade das características fisiológicas.. Seja qual for seu grau de indeterminação. Assim. Ele afirma: Repito aqui a posição que tenho adotado: raça é não apenas uma categoria política necessária para organizar a resistência ao racismo no Brasil. 2001). ao discutir os conceitos de Pierre-André Taguieff. a uma origem comum. Mas é importante afirmar que reconhecer a não cientificidade do conceito de “raça” não eliminaria a eficácia do uso do termo para o debate das relações raciais em determinados campos. Isso porque. Quando alguém se queixa de ter sofrido discriminação por causa de sua cor. Jacques D’Adesky (2001). o parentesco pelo sangue.]. Eugenia Teoria que acredita na possibilidade de melhoramento genético da espécie humana para produzir “seres aperfeiçoados”.. Podemos perceber isso nas palavras do próprio D’Adesky ainda citando Taguieff: A eliminação no vocabulário da palavra “raça” como prescrição da ação antirracista remete [. 89 .. O autor faz tais afirmações sempre reconhecendo a complexidade da discussão e os caminhos variados aos quais o tema pode levar. acredita que a palavra “raça” deve ser completamente abolida de qualquer debate sobre seres humanos. ele deixa de ter utilidade. Guimarães (2001) reconhece a pertinência das ideias de Gilroy e concorda com muitas delas. segundo Taguieff. simbolicamente.. a utilização política do termo: Existe consenso na afirmativa de que raça remete. e mesmo das psicológicas e sociais. mas é também categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de “cor” enseja são efetivamente raciais e não apenas de classe [. assim. Lexical Relativo a vocabulário. assim como muitos teóricos. Tal supressão. tampouco por quem afirmava as diferenças. favorecendo.] a uma eugenia lexical negativa que crê matar o racismo eliminando a palavra. a normalização do racismo simbólico. se não somos diferentes biologicamente. com base em que categoria teórica isso será analisado? Outros autores também trazem questões próximas às de Guimarães. do ponto de vista da genética. Defende a ideia da existência de “raças puras”. discorre sobre o conceito de “raça”. pois reforçaria os mecanismos racistas do “quero dizer”. e.Estudos Culturais – Capítulo 3 Paul Gilroy (Apud GUIMARÃES. sem misturas. superiores as que são fruto de miscigenação. não se justificaria seu uso nem politicamente por quem foi vítima das ações engendradas. mas argumenta em favor da manutenção do termo até o momento em que a sociedade como um todo consiga de fato desconstruir as elaborações sociais criadas a partir da crença na existência de raças e no racismo que resulta dela. Mas. Ele cita um exemplo no qual sugere que eliminar o termo dificultaria até mesmo perceber o preconceito. teria consequências contrárias ao efeito imaginado. por isso. ela evidencia a continuidade das descendências. e esse termo foi cunhado com a intenção científica e política de desqualificar pessoas. a ideia de raça é desprovida de conteúdo ou valor científico. reconhecendo sua complexidade e incluindo.

as exclusões que resultam da negação dos direitos desses grupos seriam classificadas como “etnicismo”? Como a população em geral se apropriaria desse vocábulo e entenderia o que ele designa? As questões sobre raça. Acervo Abdias Nascimento/IPEAFRO/Bia Parreiras Abdias Nascimento é professor e militante do Movimento Social Afro-brasileiro. e que recebo em nome do povo afrodescendente deste país. observo que as desigualdades raciais no Brasil continuam agudas e profundas. Senhor Presidente da República. também. então. A leitura política do conceito de “raça” opõe-se ao sentido biológico-genético. mesmo equivocadamente. como disse o poeta. saudações quilombistas no Dia Nacional da Consciência Negra. Diariamente recebo notícias de pesquisas quantitativas que confirmam este fato. Enquanto muito me alegram e me honram a outorga da Grã Cruz da Ordem do Mérito Cultural e a minha inclusão na mais alta classe da Ordem do Rio Branco. referimo-nos a certos valores que são atribuídos a determinados grupos. nosso querido Lula. como homicídios. a todo o povo brasileiro. diversos grupos que lutam contra o racismo acreditam que utilizar a palavra “raça” é uma atitude política. enquanto os brancos morrem mais por doenças. Por isso não poderia deixar de me manifestar no dia de hoje ao povo negro. soubemos por pesquisadores da UFRJ que as principais causas de mortalidade de homens negros são violentas. na pessoa de Vossa Excelência. compreendendo como uma categoria que constrói um processo de identidade para a compreensão da diversidade. 20 de novembro de 2007. Somáticos Referentes ao corpo. é uma felicidade guerreira. soubemos que a Fundação Seade concluiu que brancos ocupam quatro vezes mais cargos executivos que negros.Imbuídos do sentido criado por ideias desse tipo. Se passarmos a classificar todos os grupos diversos como “etnias”. e a nossos governantes. Ainda hoje. pois a felicidade do negro. pois entendo que os méritos a ele pertencem. por exemplo. Leitura complementar CARTA AO PRESIDENTE LULA Rio de Janeiro. a elementos biológicos e somáticos. Ao falar de “raça”. Tenho recebido das mãos de Vossa Excelência honrarias que muito me orgulham. são associadas. nesse sentido. 90 . Só no dia de hoje.

fruto de todo um processo de deliberações para a construção dessas políticas públicas. daqui a alguns meses. Senhor Presidente. pois nossa população aguarda políticas efetivas. rejeitada. com a transversalidade de raça e gênero. diante de um momento tão encorajador. estão deflagrando uma campanha no sentido de desacreditar essas estatísticas e vilipendiar aqueles. Venho hoje lhe convocar a não esmorecer na sua decisão de implementá-las. os problemas sociais vêm atingindo patamares perigosos. Preterida Desprezada. a cada ano. se mandou “calar a boca” aos negros que usaram de seu legítimo direito democrático de apresentar as suas demandas. Novamente nos acusam de racismo. refletir. detentores dos meios de comunicação de massa no país. mas que. usando o falso argumento de que o critério de classificação racial. para absorver as legiões de jovens que. como Vossa Excelência.Estudos Culturais – Capítulo 3 Setores poderosos. suas recentes visitas à África. é uma dura realidade discriminatória baseada em características de aparência. Há muito tempo os economistas comprometidos com o povo brasileiro vêm falando que o nosso país precisa crescer. que pensam na necessidade de políticas públicas de combate a essas desigualdades. em que a desinformação deliberada rivaliza com a malevolência racista. Estamos acumulando décadas perdidas com a falta de desenvolvimento econômico intensivo em emprego. procuram ingressar no mercado de trabalho. hoje a Ministra da SEPPIR. Há décadas os intelectuais negros afirmam que raça nada tem a ver com biologia ou genética. têm propiciado um novo clima que permite debater questões sérias que vinham sendo ocultadas ou negadas pelas elites entrincheiradas no mundo acadêmico e no universo da mídia. na casa dos representantes do povo. após receber com grande repercussão os porta-vozes dessa campanha. como a promulgação da lei 10. somadas a outras iniciativas. como coisa sem valor. Assistimos como. e não a realidade social. o que significa investimento de recursos humanos e orçamentários. como categoria socialmente construída. nossa querida Matilde Ribeiro. Como consequência. cujas propostas abrem novas perspectivas para melhorar as relações sociorraciais e trazer um vento de esperança à população negra preterida. essa campanha desestabilizadora da sociedade. para valer. lhe apresenta o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial. fomentam. causa divisões perigosas em nossa sociedade. Vilipendiar Tratar com desprezo. Ora. 91 . com crescente agressividade. sobre o Estatuto da Igualdade Racial. associada à redução do papel do estado na área social. Senhor Presidente. Haja vista a violência em nossas cidades que alcança índices de genocídio entre a juventude negra e favelada. e que objetiva intimidar todo um povo e enganar toda uma nação.639/03 e a implantação da política de cotas reparatórias nas universidades. Assusta pensar que legisladores capazes de semelhante agressão se pronunciarão.

e do município de União dos Palmares. com coerência. De negros e de brancos que sonham o sonho bom da liberdade e da justiça. venho lhe indagar como. homens e mulheres da resistência antirracismo e da construção de um Brasil justo e democrático. apesar da campanha de mídia que caracteriza programas dessa natureza como criminosos e racistas. tendo trabalhos publicados no Brasil e exterior. Abdias. herói nacional. Também nutro a convicção maior de que as energias que brotam do coração de Zumbi dos Palmares e de todos os nossos ancestrais ampliarão. Senhor Presidente. no intuito de desmoralizá-los e favorecer os interesses fundiários estabelecidos. também no intuito de favorecer tais interesses. celebrar Zumbi do Quilombo dos Palmares. a consciência negra neste país. é escritor e roteirista. Axé! NASCIMENTO. do estado de Alagoas. no ato cívico realizado ontem nas terras de Palmares. quero dizer que tenho fé nas forças que querem transformar o meu país.php?sec=news&id=2375>. Ele aborda em grande parte de seu 92 . uma onda de violência. Trata-se de um simbolismo fundamental. na qualidade de cofundador e ex-presidente do Memorial Zumbi. Zumbi vive em nós.Reconheço o grande avanço que significa a lei 10. esta luta e as políticas públicas de igualdade racial são bandeiras do Brasil e de seus governos locais e estaduais. faltaram as bandeiras do Brasil.org. aceite nossas saudações quilombistas. Reconheço o avanço contido no Programa Brasil Quilombola. ou tem a sua implementação dificultada. que visa fazer o resgate de nossa história e de nossa memória e torná-las patrimônio cultural de todo o povo brasileiro. Deflagra-se. Você conhece o cartunista Maurício Pestana? Além de cartunista. pois o quilombismo é uma proposta para a nação. É preciso avançar nas titulações e fazer valer os direitos das comunidades quilombolas contra as ameaças constantes de despejo de seus territórios.br/onl/new. por todos aqueles que não querem mudanças nas relações de dominação racial em nosso país. 2007. não só dos afrodescendentes! Finalmente. mas tenho que elevar a minha voz para dizer que esta lei não está sendo cumprida.639/03. e convoco Vossa Excelência a continuar investindo cada vez mais neste setor. Acesso em: 22 nov. movimento da sociedade civil que conduziu à criação da Fundação Cultural Palmares e à desapropriação das terras da Serra da Barriga. cada vez mais. Não podemos. tendo sido hoje assassinado um quilombola no estado do Espírito Santo. Disponível em: <http://www. enquanto as populações dos quilombos do Brasil são agredidas e têm seus direitos desrespeitados! Aliás. ainda. Por isto. Carta ao presidente Lula. Esta data.irohin.

São Paulo: Editora 34. 1999. Síntese A discussão do conceito de “raça” parte das construções sociais que estabelecem hierarquias entre os grupos racialmente identificados.Estudos Culturais – Capítulo 3 trabalho a questão das chamadas “minorias” brasileiras e. Cadernos Penesb. Classes. a discriminação racial. a exemplo da reserva de cotas. A afirmação política do conceito de “raça” opõe-se à noção originária da biologia. 93 . na biologia. A argumentação da carta é construída para reivindicar do poder público central a continuidade e o avanço das políticas afirmativas relacionadas aos negros. As políticas afirmativas. “raça” é uma construção social que reflete um processo de reconhecimento e pertencimento. Rio de Janeiro: Pallas.com. Pluralismo étnico e multiculturalismo: racismos e antirracismos no Brasil. Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. 2001. Kabengele. São destinadas aos grupos de menor expressão de poder. Essas categorias reforçam ou fragilizam o conceito de “raça” no sentido político? Justifique sua resposta. 2001.br. Jacques. Rio de Janeiro: Vozes.). p. Nessa dimensão. 2001. Você pode conhecer mais sobre o trabalho de Maurício Pestana em www. violência e direitos humanos em África. A produção de saberes e práticas pedagógicas. Ivanilde (Org. como é o caso dos negros no Brasil. principalmente. 2. Niterói: EdUFF.mauriciopestana. uma dimensão de identidade. A utilização para a classificação de humanos foi fortalecida na modernidade quando começou a designar um grupo de pessoas da mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. 31-44. inicialmente classificou espécies de animais. ou seja. GUIMARÃES. A origem do conceito de “raça”. No início da carta ao Presidente da República. Atividades 1. raças e democracia. Etnicidade. In: OLIVEIRA. MUNANGA. são apresentadas como uma alternativa para correção das desigualdades historicamente construídas em função das diferenças raciais. Qual o seu posicionamento sobre essa questão? Referências D’ADESKY. Antonio Sérgio Alfredo. o professor Abdias Nascimento utiliza as expressões “povo negro” e “felicidade do negro”. _____.

MEC. NASCIMENTO.org. Abdias. Disponível em: <http://www. Brasília. Acesso em: 22 nov.php?sec=news&id=2375>. 1999. Carta ao presidente Lula.br/ onl/new. 2007. Anotações 94 .irohin. Superando o racismo na escola._____.

Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO ETNIA: UMA AfIRMAçãO àS DIfERENçAS Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que estabelecem na sociedade. Reconhecer os aspectos que envolvem o conceito de “etnia” para a afirmação de um grupo identitário na contemporaneidade. . tendo como foco construir e problematizar o conceito de “etnia” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações étnicas em sociedade como resultado da percepção das diferenças e das construções identitárias.

baião.. guardião padroeiro Mandai a alforria pro meu coração Wally Salomão e Gilberto Gil. Zumbi. muitas das quais estão ligadas à matriz negra. Muniz Sodré RUGEND A S. forró. A inferiorização histórica de negros e indígenas no Brasil denota a importância de resgatar. São representações musicais comuns a diversas vertentes culturais brasileiras. Temos histórias em forma de spirituals. Fam hann Mori ília de faze ndeiros. 96 . Vamos começar a entender o conceito de “etnia”. eu canto assim: A felicidade do negro é uma felicidade guerreira! [. rock.. Gu errilhas. axé. A RUGEND S. o uso da música marca uma representação cultural das etnias diversas que compõem a nossa sociedade. meu Brasil brasileiro Meu grande terreiro.] nas diferenças. Muitas vezes é atualizado e modificado a partir do contato com outros signos. blues.. meu berço e nação Zumbi protetor.... na discussão sobre etnicidade.. cantos de trabalho.. Johann Moritz. o valor desses grupos. jazz. no pó do motim Em cada intervalo da guerra sem fim Eu canto. reggae. para deixar o diferente é preciso de algum modo conceber ou vivenciar um ponto em comum [. No caso específico deste tema. Jo tz.. A felicidade guerreira Matriz Elemento originário em uma determinada cultura que serve de referência em outra territorialidade cultural. Procure também ouvir essas músicas. maxixe. as sonoridades acrescentam outras informações ao texto e ajudam a compreendê-lo. A melodia. samba. em todo estopim. Em cada estalo. exemplificando com alguns trechos de músicas brasileiras. choro. o ritmo.] Brasil. rap.

e em troca. é preciso fazê-lo de forma a resgatar o valor que eles possuem. religião. e estilos de roupa ou adornos. Assim. Diferentes características podem servir para distinguir um grupo étnico do outro. e as letras sugerem a necessidade de reconhecer seus costumes.Estudos Culturais – Capítulo 3 Nessa terra tudo dá Não para o índio [. croatas. Giddens (2005) afirma que a etnicidade. No confronto com a cultura dos grupos dominantes da sociedade. o que esses grupos produzem não é reconhecido como tendo o mesmo valor. a felicidade guerreira e Cara de índio. Os membros dos grupos étnicos consideram-se culturalmente distintos de outros grupos na sociedade. tutsis. Cara de índio Você consegue perceber de que forma essas músicas tratam das diferenças? Nas letras de Zumbi. Suas matrizes culturais estão presentes na cultura nacional em setores variados. Hoje. as questões políticas e econômicas também influenciam o desenvolvimento das elaborações étnicas. refere-se: às práticas e às visões de mundo de uma determinada comunidade de pessoas que as distinguem de outras. pois com o encontro entre os grupos humanos diversos no território brasileiro. Nesse sentido. Elas revelam traços das características desses dois grupos e também que a matriz cultural indígena vem sendo cotidianamente desrespeitada. judeus. são vistos dessa forma por esses outros grupos. índios. O conceito de “etnia” já foi apresentado quando tratamos da etnicidade.] A minha também tá pouca Cota de índio Apesar da minha roupa Também sou índio Djavan. Com o desenvolver das sociedades. as trocas que ocorreram geraram novos subsídios culturais. se distinguiriam de seus antagonistas por questões étnicas e não raciais. e as produções mais representativas desses dois grupos foram classificadas como inferiores. história ou linhagem (real ou imaginada). Existe uma identificação entre o indígena e o negro a partir das formas de exclusão com as quais lidam cotidianamente. A etnia estaria relacionada aos elementos culturais que compõem a identidade dos grupos. hutus. mas as mais comuns são língua.. sérvios. O problema é que dentro da construção do Brasil estabeleceram-se relações hierárquicas. há uma representação de modos de vida relacionados às culturas negra e indígena.. 97 . quando se discutem esses temas. a construção das relações étnicas. etc.

os matizes de cores variaram muito e são explorados para designá-las diferentes termos como “mulato”. não acreditam que os termos sejam sinônimos. pelo movimento negro ou pelos pesquisadores das relações raciais. a raça não pode ser desconsiderada. nesse caso. Outros. Sinais diacríticos Marcadores culturais construídos socialmente que identificam culturalmente determinados povos. como língua. “brancos” designam. monumentos históricos e territórios”. a exemplo de Zarur (2007). no contexto da cultura. etc. Porém. Contínuo de cor Expressão que denomina a grande variedade de matizes de pele resultante das várias formas de miscigenação ocorridas no Brasil. Nessa acepção. uma pessoa que é considerada branca em Salvador. Devido ao alto grau de miscigenação ocorrida com o passar do tempo no Brasil. determina o campo de afirmação das diferenças. os somáticos identificam.] um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua. porém. histórica e política. da política e nas relações sociais. por exemplo. O discurso que defende a padronização encontra oposição nas análises étnicas propostas pelos estudos culturais. Por exemplo. “caboclo”. 1995) ilustra bem o que constitui um grupo étnico: “[. Os termos “índios”.. cultura.. acham que o ideal seria substituir o termo “raça” por “etnia”. 98 . tomando a identidade como meio de continuidade cultural dos grupos sociais. pois tem uma operacionalidade dentro da cultura. estabelecendo os marcadores culturais que tornam único um dado grupo étnico. somos todos iguais. São questões relacionadas ao que Guimarães chama de contínuo de cor.A dimensão étnica. especialmente os de menor expressão de poder. “escurinho”. Neste aspecto. como vimos. tradições.. Raça é. Enquanto os traços étnicos relacionam-se com construções de identidade com base em elementos. Dependendo dos interesses que motivem suas ações. com essa substituição. Assim. Reconhece-se que. por exemplo. os diversos grupos étnicos que compõem estes três grandes conjuntos. cultura. quando utilizado. do ponto de vista biológico. “negros”. não seria possível discutir questões como o racismo. As características somáticas também podem ser vistas de forma diferenciada. Alguns teóricos. “cabo verde”. “moreno”. costumes. o que alguns chamam de raça. a princípio. em Porto Alegre pode ser considerada negra. a definição de Bobbio (Apud GOMES. Os elementos que aproximam os membros de um grupo étnico não podem ser confundidos com as características somáticas dos indivíduos. de forma genérica. então. Além disso. Dentro de cada um deles existe uma série de outros que formam etnias diferenciadas. a etnia estabelece uma ponte entre o passado e o presente. Essa corrente busca o reconhecimento dos grupos diversos e a visibilidade dos seus sinais diacríticos positivos para afirmação e sobrevivência da pluralidade. uma construção social. ela construirá sua identidade da forma que desejar ou que for possível. o conceito de “raça” é ressignificado.

proliferavam-se nos bastidores do governo federal. 99 . jovens estudantes criaram a frase indefensável para o poder público. foram listadas cerca de 136 palavras diferentes para se referir à cor da pele. sem deixar de ser quem sou!” [. Naquele tempo. mas não para um substituir o outro. como componente importante da sociedade nacional O Índio. como indígena do povo terena do pantanal sul-mato-grossense e. para o índio estudante o apelido de “índio aculturado”. do Estado brasileiro. você reveja o conteúdo discutido até agora e estabeleça essa ponte com as questões propostas nas atividades.Estudos Culturais – Capítulo 3 etc. para respondê-las. o PT. e parte do projeto em formação de um partido da sociedade e da inclusão dos discriminados. quando fazia exames médicos no Hospital da Aeronáutica de São Paulo. Desse modo.] Um dia. Mas naquele tempo. estudante universitário. No Censo de 1980. como piloto comercial da Funai. Lula. representantes dos povos indígenas de toda a América Latina e do Caribe irão se reunir com outros segmentos da sociedade para compartilhar o tema da igualdade racial. segundo Moura (1988). “raça” e “etnia”. em 1981. principalmente. de um lado. e isso foi reacendido nas últimas semanas. É importante observar que os dois termos. e para o índio tribal de que havia “muita terra pra pouco índio”. retornamos à questão proposta anteriormente: Falar em “etnicismo” poderia ajudar no combate ao racismo? Quais são os mecanismos necessários para desfazer os resultados desastrosos dessa forma de discriminação? Encerramos com essas questões e sugerimos que. ao mesmo tempo.. Como fundador do primeiro movimento indígena no Brasil. mal-acostumados que eram e continuam sendo na condução das realidades indígenas vivas no nosso Brasil. agente tutor de povos soberanos e seu espírito colonizador e preconceituoso: “Posso ser o que você é. no mês de maio. liderados por chefes como Mário Juruna e Celestino Xavante. para uma reunião com Muhammar Al Kadafi na Líbia. fui acionado pelo representante de um partido político em formação. pude sentir de perto aquele olhar frio e marcante de diversos setores da sociedade nacional e. podem ser utilizados para complementar um ao outro. Formas imperiosas do conceito racista de encurralar o primeiro brasileiro numa armadilha engenhosa que não deixava alternativa entre um mundo e outro. a Unind – União das Nações Indígenas – em 1977. Leitura complementar TUDO ESTá NA NATUREzA Se tudo der certo.. Tinha que viajar com o presidente da entidade.

o único representante político no Congresso Nacional como deputado federal. foi eleito por Brizola. Após 20 anos de caminhada como uma persistente formiga. diante da Guerra do Paraguai. Mário Andreazza. Politicamente. e mesmo na ditadura militar. gerencial e financeiro. Lula. alojado no Hilton Hotel enquanto tomava uísque. Esse tempo chegou. Melobô e Aritana. Tempos depois. Airton Soares. o poder foi tomado pelo sindicalista Lula e pelo PT. 100 . Hibes Wassú ou Ângelo Kretan – que exclui. em que as 230 sociedades indígenas não sejam parte do passado ou de uma tutela viciada no indigenismo colonizador e escravista. vimos quase com olhos marejados não de tristeza. graças à articulação de líderes indígenas. Em Madri. foram eles os primeiros a detonar essas conquistas. do governo neoliberal. em nome dos bons costumes sociológicos. pude viajar pela primeira e única vez na primeira classe. com lágrimas nos olhos afirmava que seu grande sonho era ter três minutos no horário nobre da TV Globo para poder dizer aos brasileiros que o tempo da liberdade e da inclusão social chegaria para todos. a não ser a arrogância e a necessidade de anular conquistas palmilhadas – inclusive com a morte de líderes. como Marçal Guarani.Assim. inclusive quando indigenistas e antropólogos assumiram a presidência da Funai. pelo menos parece que chegou. Nada justifica essa cegueira do poder público. Raoni. num jumbo das Aerolíneas Argentinas. como Megaron. mas da conscientização do sistema do Estado brasileiro. o então ministro do interior. que eu não conhecia direito. Como isso não depende apenas da vontade indígena. aliados de primeira hora. quando representantes dos dois setores se digladiam em público por meio da imprensa.. pela primeira vez na história nomeou um indígena para a chefia de gabinete da Funai e outro como diretor-geral do Parque Indígena do Xingu. sem direito a um plano de ação efetivo do ponto de vista político. Mário Juruna. quebrando vícios e dando mostras de que tudo iria mudar. abandonados por migalhas. mas de alegria. Esquecidos. Por isso. ou os terena. mesmo não sendo da classe trabalhadora ou partidários. povos soberanos como os tupiniquins e os guaranis e caiuás. numa escala para a Líbia. Os povos indígenas. que estamos no caminho certo – pois os aliados sinalizam com suas contradições que nada mais têm a fazer a não ser entregar o poder indigenista ao seu verdadeiro dono: o indígena. certamente as eleições que se aproximam servirão como escadas para que todos no Brasil busquem um novo pacto social e político consigo mesmos. foram mantidos no mesmo curral da ditadura militar.. que jazem sem terras. que com suas estratégias e seus comandos internos conduziram o Exército brasileiro para a conquista de territórios como o Pantanal. Lá estavam também o peão Jair Meneghelli e um dos únicos deputados do PT.

. mas que os professores já podem abordá-lo em suas aulas. O objetivo da nova lei é valorizar os diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira. 2008. os livros de história e geografia só deverão ter capítulos sobre o tema em 2010.. com a publicação no Diário Oficial. O MEC esclareceu que a lei não prevê uma data limite para a implementação do tema nas escolas.afropress. sem que haja a necessidade de mudança na grade curricular. fui recuando.465/08 altera um artigo da Lei de Diretrizes e o Bases (LDB) e substitui a Lei n. ambos os temas passam a fazer parte da grade curricular de todas as escolas públicas e particulares. será um tema transversal aos já abordados em disciplinas como história. 10.639/03. no caso do Ensino Médio.. na peça Gota d’água: . nesses momentos fortifica-nos a lembrança guerreira da performance de Bibi Ferreira. recolhendo fúrias. e 2011. o A Lei n. A história e cultura da população indígena. Acesso em: 7 jan.. Eles pensam que a maré vai. Quando eles virem invertida a correnteza. geografia e literatura. Como as mudanças nos livros didáticos são feitas de três em três anos.. assim como da afro-brasileira. a partir desses dois grupos étnicos... e quero saber como que eles reagem à ressaca. Até agora eles estavam comandando meu destino e eu fui. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas Entrou em vigor.. 101 . A lei que fora sancionada nesta segunda-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a valer nesta terça.Estudos Culturais – Capítulo 3 Por isso.asp?id=89>. nesta terça-feira... os alunos terão que esperar mais um pouco. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraco. a lei que torna obrigatórias as aulas de história e cultura do povo indígena para alunos do Ensino Médio e Ensino Fundamental de escolas públicas e particulares do país.. quero ver se eles resistem à surpresa. a medida será implementada de forma gradual nas escolas. Marcos.. para o Ensino Fundamental.. Sobre a inclusão do assunto no material escolar.com/colunistasLer. Com a medida.. 11. Disponível em: <http://www.. que já previa a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira em todas as escolas brasileiras. uma vez que a lei sancionada não cria uma nova disciplina.Tudo está na natureza encadeado em movimento.. TERENA. De acordo com o Ministério da Educação (MEC). mas nunca volta. Tudo está na natureza.

Disponível em: <http://www. pertinentes à história do Brasil. mas tem sido permanente. Também será valorizado o papel do negro e do índio na formação da sociedade nacional. No que tange ao comportamento humano. diferentes grupos étnicos se opõem. dominação e alienação. resgatando as suas contribuições nas áreas social. cooperação e hierarquização.comciencia. compreendendo identidade e alteridade. Onde? Só se for nos comerciais. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. leia o que diz o renomado cientista social Octavio Ianni: A questão racial parece um desafio do presente. segregados e arrogantes. Em função da nossa história. intolerantes e tolerantes. nuançada e estridente. No mundo contemporâneo. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e outros. Sobre isso. nos outdoors. a discussão da questão racial é especialmente voltada para a conjuntura que envolve negros e indígenas. Acesso em: 4 abr. 2008.shtml>. O GLOBO ONLINE. nos panfletos que anunciam artigos esotéricos.” IANNI. Somos judeus ou palestinos? Novos Tempos. Novo Milênio. diversidade e desigualdade. Brasil negro: a questão racial. 2008. a exemplo de judeus e palestinos. Mais do que tudo isso. econômica e política.br/reportagens/negros/11. Mas não somente essas populações foram – e continuam sendo – motivo de conflito. a questão racial revela. como funciona a fábrica da sociedade. em todo o mundo. discriminados e preconceituosos. subordinados e dominantes. de forma particularmente evidente.tais como o estudo da história da África e dos africanos.asp>. das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais. 102 . no Brasil. modificada mas persistente. Modifica-se ao acaso das situações. a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil. Disponível em: <http://oglobo. Octavio. Acesso em: 8 abr.com/educacao/ mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. Nova Era.globo. ainda apresentamos traços negativos que remontam séculos e séculos. mas reitera-se continuamente.

Isso deve ser assim. existe uma explicação sobre por que as coisas não funcionam assim. nossas convicções. fica o desespero de ver que o tempo não ensinou o suficiente para eles. Fazemos parte de um todo aqui mesmo. Quando paro para pensar nessas coisas. ou mesmo negociando um cessar-fogo após o outro. Na magnífica obra Por quem os sinos dobram. hoje mais econômicas do que militares ou monárquicas. Fomos à Lua. estaríamos a ver dois senhores bem idosos. que sejam batalhas de transformação. que seja contra a ignorância. Das diversas formas de violência que mantemos entre nós. desenvolvemos tecnologias de comunicação incríveis num curtíssimo espaço de tempo. descobrimos a visão holística do mundo e do homem. [. Poderia haver quem dissesse: “Mas isso são eles! Eu não moro lá nem tenho parentes naquela região. [. E também estamos dando seguimento a diversas tiranias. nações mais novas. para tanto. estendemos a longevidade humana. a guerra e o terrorismo estão entre os piores. Pior.. social na acepção da palavra. Eles que se explodam”. mesmo sem ter descoberto o que fazer com isso. Podemos atravessar a vida inteira repetindo ineficientes tréguas com nossos defeitos. vivendo num planeta com fome e sede. mulheres e crianças morrendo por caprichos de poucos que se dizem governantes. Fundamental. assistimos nações com milênios de existência usando a fé de seu povo para incitar o suicídio criminoso dos atentados. Para nós. me vem a nítida sensação de que um dia não irá bastar fazer a minha parte – terei que fazer uma parte maior. temos uma opinião. de comida e água mesmo. jamais de aniquilação. Prestemos atenção em como exercitamos essa opinião. Em uma caricatura. trocando bengaladas até a morte. além de justiça. simplesmente porque não os colocamos em nossas manchetes. A filantropia pessoa a pessoa não vai resolver assuntos que precisam de um movimento coletivo..Estudos Culturais – Capítulo 3 Desenvolvemos vacinas – as quais estão perdendo efeito diante de velhas – novas doenças. não comentadas pelos órgãos competentes para não alarmar a população.] Diante dos fatos de nossas vidas quase sempre tomamos uma posição. A meta é a correção. postergando uma solução definitiva. mostra a completa impossibilidade de inteligência – porque a agressão é a manifestação suprema da ignorância. É preciso entender que solução definitiva não significa solução imediata. Fizemos clones de seres vivos. manter diálogos francos consigo mesmo.] O ser humano evolui individualmente e não sozinho. contra o abuso. mas são espelhos dos nossos atos? Será que não devemos usar a sabedoria que está faltando a estes povos em nosso cotidiano? Os terrorismos e atentados corriqueiros que praticamos passam despercebidos aos olhos. Estaremos sendo meio palestinos ou judeus com nossos entes queridos ou com aqueles estranhos que nada nos dizem.. Existindo uma guerra.. contra a passividade. São exemplos que desmontam qualquer pretensão de orgulho. Vemos homens. pois mostram o lado animal selvagem que temos. Ao lidarmos com a 103 . com grande sabedoria.

sampaonline. Por meio de um texto. o conceito de “etnia” é insuficiente para compreender as questões relativas ao racismo. qual o significado de expressões como “programa de índio”? b) Refletindo sobre as palavras de Marcos Terena. você acha possível ser outra pessoa sem deixar de ser quem é? Como isso pode acontecer? 3.br/colunas/wiegerinck/ coluna2001set14. por exemplo. Além disso. descreva como essas questões podem ser abordadas e contribuir para a percepção das diferenças com base nos aspectos que estamos discutindo nesta disciplina. econômicas e culturais que o texto apresenta. As relações étnicas que se estabelecem no Brasil – com a ignorância. pois os termos não são sinônimos. Síntese Você estudou: O conceito de “etnia” estabelece uma relação com o sentido de “etnicidade”. os dois termos correspondem aos elementos culturais que compõem a identidade de um grupo social. A simples substituição da palavra “raça” por “etnia” é insuficiente. afirma-se como um mecanismo afirmativo de identidade. 2008. a intolerância às diferenças e a manutenção do poder de certos grupos prestigiados – cunharam expressões como “programa de índio”. Seria possível ressignificar a expressão “programa de índio”? Como? c) Tomando como exemplo o seu ambiente de trabalho ou o local em que você estuda. A etnia. no texto Somos judeus ou palestinos?. a respeito da coexistência étnica entre judeus e palestinos. […] WIEGERINCK.realidade. Acesso em: 25 fev. 104 . discuta o posicionamento de João Antonio Wiegerinck. utilizando o conceito de “etnia” para afirmar positivamente as diferenças. ao estabelecer os marcadores culturais de um grupo social. Atividades 1. João Antonio. Considerando o que vimos até agora nesta disciplina.com. iremos perceber que somos todos judeus e palestinos. Pensando nisso. destaque algumas das questões sociais. Desejo que todos caminhem em busca de um Acordo de Paz definitivo. Disponível em: <http://www. 2. Somos judeus ou palestinos?.htm>. responda às questões: a) No que se refere à exclusão social. Combinados. na leitura complementar. ou seja.

ar/ar/libros/brasil/flacso/zarur. Acesso em: 4 abr. Disponível em: <http://www.br/colunas/wiegerinck/coluna2001set14.Estudos Culturais – Capítulo 3 Referências GIDDENS. 4. O GLOBO ONLINE.asp>. 2008. 2008. Acesso em: 8 abr. Anthony. Porto Alegre: Artmed. ed. Sociologia. Octavio.com/ colunistasLer.afropress. IANNI. pdf>.htm>. Disponível em: <http://oglobo. WIEGERINCK.clacso. Tudo está na natureza.br/ reportagens/negros/11.com.globo.asp?id=89>. A utopia brasileira: etnia e construção da nação no pensamento social brasileiro. TERENA. George. Disponível em: <http://bibliotecavirtual.shtml>. Acesso em: 7 jan. Disponível em: <http://www. Marcos. Anotações 105 . 2008. ZARUR.comciencia. 2008. Acesso em: 25 fev. Acesso em: 7 jan.org. Somos judeus ou palestinos? Disponível em: <http://www. Brasil negro: a questão racial.com/educacao/mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. 2005. sampaonline. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. 2008. João Antonio.

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