Capítulo 3

A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO

A ExTENSãO DAS TERRITORIALIDADES CULTURAIS: O LOCAL E O GLObAL NA CONTEMPORANEIDADE
Conteúdo programático
O local e o global e as representações das identidades culturais

Objetivo
Compreender os deslocamentos e as afirmações territoriais na contemporaneidade a partir do encontro entre as territorialidades locais e as globais.

Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo me quer bem Eu sou de ninguém Eu sou de todo mundo E todo mundo é meu também
Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown, Marisa Monte

Agora, vamos tratar da relação entre as territorialidades locais e globais e suas implicações no universo da cultura. Anteriormente, apresentamos a base teórica da proposta pedagógica, ou seja, os conceitos fundamentais dos Estudos Culturais. Esse conjunto conceitual é aqui comparado a uma corrente. A imagem da corrente representa a intenção que tivemos ao trabalhar os conceitos desta disciplina. Os conceitos apresentados estão interligados, como os elos de uma corrente, compondo um todo lógico e interdependente; dissociado, o conceito não tem sentido. Também, a teoria, quando afastada da realidade, é estéril, não permite o entendimento das demandas sociais. Assim, a discussão conceitual aqui apresentada visa expor a corrente teórica dos estudos culturais para que os desdobramentos culturais modelados na contemporaneidade possam ser compreendidos.

Deslocamentos territoriais:
entre o global e o local
Estamos em um contexto histórico que marca o fechamento do século XX e o início de uma nova era. As ciências humanas estão diante do desafio de compreender essa realidade. A contemporaneidade inaugura um modelo de sociedade global. O conhecimento passa a exigir uma outra lógica de construção. Vejamos como Ianni (1994) descreve esse cenário:
As relações, os processos e as estruturas econômicas, políticas, demográficas, geográficas, históricas, culturais e sociais, que se desenvolvem em escala mundial, adquirem preeminência sobre as relações, os processos e as estruturas que se desenvolvem em escala nacional. O pensamento científico, em suas produções mais notáveis [...], não é suficiente para apreender a constituição e os movimentos da sociedade global.

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Estudos Culturais – Capítulo 3
As territorialidades locais e globais têm hoje uma movimentação histórica nunca vista. Em alguns contextos, o local caminha para o global; em outros, o local insiste em demarcar sua fronteira, reafirmando valores identitários ancestrais. Em outras conjunturas, o global absorve o local em um processo de assimilação cultural. A ciência deve transitar em todas essas direções para compreender as novas demandas que se apresentam. Exige-se um novo paradigma, como sugere Ianni: a globalização.

Global e local, local e global? Que desdobramentos tem essa relação para os estudos culturais? Antes de chegar à resposta, aceite nossa sugestão a seguir.

Pense sobre este fragmento de O mundo é um moinho, de Cartola:

Ainda é cedo, amor Mal começaste a conhecer a vida Já anuncias a hora de partida Sem saber mesmo o rumo que irás tomar [...]
Cartola

Trata-se de uma música de grande representatividade na MPB, e a grande maioria de nós, independentemente da idade, ao ouvi-la, pode facilmente reconhecer e acompanhar a letra.

Cartola foi um homem que se permitiu viver e morrer de amores. Os eus-poéticos que ele construía também assumiam essa representação. Seu repertório confirma sua devoção pelas pessoas.

A história mais conhecida é que Cartola compôs essa música para sua filha, que estava prestes a sair de casa. Porém, recentemente, Nilcemar Nogueira, neta do compositor, ao publicar uma biografia póstuma, revelou que, na verdade, a canção foi criada com base na história de um colega de trabalho de Cartola.
Eu-poético Aquele que fala no poema.

Shutterstock/Julia Lutgendorf

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essa interação pode ganhar aspectos de negociação. E você. se firmam pela definição das fronteiras territoriais. fortalecendo-se com a troca de experiências. podemos pensar em um não lugar. Hoje. Leitura complementar REDES INTERNACIONAIS DE ORGANIzAçõES: SOCIEDADE CIvIL GLObAL – ARTICULAçãO COM O LOCAL [. Se possível. o local perde a raiz. os processos econômicos e tecnológicos que geram a globalização rompem com qualquer estrutura rígida. incentivada pela globalização. informações e. ouça essa canção de Cartola procurando compreender a razão de tanta apreensão. o não lugar é a possibilidade de deslocamento entre o local e o global. já viveu algum deslocamento decisivo? Por que os deslocamentos colocam em suspensão nossas vidas? Por que nos marcam com vontade e dúvida. a Idade Moderna marca a transição do feudalismo para o mercantilismo. incorporando uma concepção virtual absolutamente flutuante. cooperação. Trata-se do deslocamento de uma territorialidade local para uma dimensão global. assim.De qualquer modo. meio ambiente. gênero. a letra aborda o lamento de alguém por causa da iminente partida de uma pessoa querida.. A nova ordem econômica impõe a formação das monarquias nacionais que. que se movimenta permanentemente. A noção de lugar não se refere mais ao espaço físico somente. entre outras coisas. em al- 72 . especialmente no que diz respeito ao capital. A dinâmica entre o local e o global ganha novos contornos.. conflito ou integração. Dependendo do contexto. segurança alimentar.] superando o localismo e o isolamento. medo e alegria? No Ocidente. Se avaliarmos essa conjuntura com a lógica tradicional. geridos por uma sociedade do conhecimento que tem na comunicação o elemento-chave. monitoramento do sistema financeiro. Na verdade. entre outros –. provavelmente se deslocando do seio familiar em busca de sua independência. nos últimos anos as organizações da sociedade civil passaram a formar redes em torno de temas comuns – questão urbana. cidadania. Trata-se de uma relação bastante complexa. a depender dos interesses econômicos. desenvolvimento local. os deslocamentos podem promover aproximações e distanciamentos: ao mesmo tempo que a globalização rompe fronteiras. A regra hegemônica constrói os paradigmas dominantes no globo.

. poupança comunitária. ações conjuntas. da dívida. uso de recursos públicos de baixo custo. Apesar da sua importância no fortalecimento das organizações e do próprio tecido social. enquanto boa parte tem como raio de ação os cinco continentes. Lobby Grupo de pessoas que têm como atividade buscar influenciar decisões.. sem sequer passar pelos controles formais dos diversos governos? Algumas experiências nesse rumo começam a ser tentadas. até porque atendem a um público que está fora dele. A luta contra a corrupção nas transações comerciais internacionais é alvo de uma rede específica. financiando habitação ou instrumentos de trabalhos.] para monitoração das atividades do sistema financeiro internacional. como a Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais [. percebe-se uma preocupação intensa com a questão da ética na política e com a participação dos cidadãos no processo. e a capacitação de entidades para ter acesso a fontes de financiamentos públicos com a promoção de outras redes e plataformas de ação conjunta. sinalizando o papel da sociedade civil de controle sobre o mercado. NGONET Non Governamental Organization Network (Rede de Organizações Não Governamentais). essas iniciativas de apoio financeiro são pulverizadas e marginais e não atingem o sistema financeiro. outras ampliam-se para grupos de cidadãos e organizações de base. Muitas das redes vão além da virtualidade e seus objetivos são amplos e ambiciosos. Para isso tem contribuído bastante a utilização das novas tecnologias de comunicação. simplicidade nas operações. nelas estão alternativas mais amplas de organização econômica na direção do empowerment da sociedade civil. umas restringem-se a um país ou região.Estudos Culturais – Capítulo 3 guns casos. hoje totalmente fora do alcance do Estado e da própria sociedade civil. No vasto leque de temas com que se ocupam. a International Transparency. o que dá lugar a perguntar-se: não caberia também à sociedade civil exercer uma pressão mais forte e coordenada sobre o sistema financeiro especulativo e artificial. atuam como pequenos empréstimos e a curto prazo. e que decide sobre as questões que envolvem as vidas de milhões de pessoas. São sistemas autossustentáveis. 73 . nos organismos financeiros (OMC e Banco Mundial). pequenos negócios orientados por princípios de responsabilidade solidária. com base em organizações especializadas como a NGONET e a Associação para o Progresso da Comunidade (APC). tanto no setor produtivo e de distribuição quanto no financeiro. mais de cem organizações. ética de confiança. Procura-se também articular os vários tipos de ação: o lobby. que se intensificaram a partir da ECO-92. Apesar do reduzido impacto sobre o sistema econômico. algumas redes desenvolvem atividades alternativas. Além de acompanhar os efeitos das políticas globais de ajuste estrutural. abrangendo. Algumas agregam apenas ONGs. do comércio internacional e agir como lobby. fornecendo créditos rotativos para essas atividades. em alguns casos.

Canadá e México. ainda. mediante controle dos atos. quando seis nações devastadas pela guerra decidiram unir suas matérias-primas industriais de carvão e de aço para evitar a guerra entre elas. em 1991. Alemanha. se concluída. Os países-membros da Alca terão. Mas tudo começou em 1951. entre si. abrangerá todos os países das Américas. Itália. já que cada vez mais os centros de decisão mais importantes se situam nas grandes corporações econômicas e em reduzido número de governos. desempenham importante papel político e confirmam o caráter institucional da sociedade civil global em construção. A união monetária foi aprovada pelo Tratado de Maastricht. 2001. Suécia e Finlândia. com exceção de Cuba. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. o intercâmbio comercial entre os países aumentou. Áustria. Irlanda. São Paulo: Cortez. o que significa o aumento do saldo de suas balanças comerciais. A constituição de base desta comunidade. com recursos de ONGs do Hemisfério Norte ou programas de Organizações Intergovernamentais. A problemática do poder local está presente na atuação dessas redes. seja como espaço para realização de projetos concretos de desenvolvimento urbano. Dinamarca. O objetivo é que as tarifas para o comércio intrabloco sejam reduzidas até que fiquem zeradas. A Alca (Área de Livre Comércio das Américas) é uma proposta dos EUA de integração comercial que. Elenaldo. É difícil. utilizados como espaço público de denúncia e condenação de atos de governos ou de políticas de instituições multilaterais (Tribunais Internacionais).Outros organismos de caráter internacional. cujos instrumentos criam possibilidades de fazer ouvir “outras vozes do planeta”. proposições de leis e políticas. avaliar sua eficácia. tanto que já participam das negociações. Portugal. A UE é formada por 15 países. 74 . preferências tarifárias. facilitando o fluxo de bens e serviços na região. os países do NAFTA também serão incluídos nela. Luxemburgo. intercâmbio de experiências. Decorridos pouco mais de cinco anos de sua implementação. criação de instâncias de interlocução ou. o Tratado de Roma. Reino Unido. Conheça alguns dos blocos econômicos da atualidade: O Nafta (North American Free Trade Area) é uma zona de livre comércio entre os países da América do Norte: Estados Unidos. entrou em vigor em 1958. Bélgica. A União Europeia é resultado de uma tentativa bem-sucedida da segunda metade do século XX. o euro: França. Recife: EQUIP. Grécia. 2. especialmente no caso do México. seja como lócus de redefinição das relações sociedade/estado. Salvador: UFBA. Espanha. Holanda. ed. TEIXEIRA. mas apenas 11 adotaram a moeda única. No caso de formação de uma união aduaneira hemisférica em 2005 (ALCA). contudo.

Estudos Culturais – Capítulo 3 A Comunidade Andina (CAN) é uma organização sub-regional com personalidade jurídica internacional composta por: Bolívia. negociações e integração. estabelece uma relação que envolve. Síntese Você estudou: A corrente teórica corresponde a uma rede de conceitos interligados e interdependentes que dão fundamento para a compreensão de uma realidade. Produza um breve texto discutindo o papel das organizações não governamentais na superação do isolamento e da discriminação de determinados grupos políticos. cujo objetivo é promover a expansão da integração regional e a constituição de um mercado comum.trf1. O Mercosul é o mais importante projeto de política externa do Brasil. assim. O conhecimento precisa atuar em um plano complexo para abranger as contradições entre o local e o global que estão sendo processadas na contemporaneidade. Equador.mt. que tem sabido aproveitar os ensinamentos e as oportunidades da globalização e tem. ALBUQUERQUE. atraído. Os cinco países tinham mais de 111 milhões de habitantes e PIB de US$ 270 bilhões em 1999. conflitos.br/judice/jud13/ entendendo. O principal objetivo da CAN é contribuir para o desenvolvimento da região mediante a integração econômica e social dos países-membros e a gradual formação de um mercado comum latino-americano.htm>. A interatividade entre as dimensões locais e globais é dialógica. Decorridos praticamente dez anos desde a assinatura do Tratado de Assunção. 2. ou seja. 2008. para o desenvolvimento econômico e social. cada vez mais. assim. o interesse de todo o mundo. Atividades 1.gov. Peru e Venezuela. contribuindo. A que segmento social ela está relacionada politicamente? Como é a sua atuação? 75 . Tércio Waldir de. Disponível em: <http://www. Pesquise e apresente a política de atuação de alguma ONG que exista em sua região. A Aladi (Associação Latino-Americana de Integração) é uma organização intergovernamental. A música de Cartola O mundo é um moinho foi utilizada como um exemplo dos deslocamentos territoriais que ocorrem em nossas vidas. ao mesmo tempo. Acesso em: 12 mar. A globalização impõe uma nova lógica de compreensão da realidade ao romper com as fronteiras erguidas na Idade Moderna. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. o Mercosul representa hoje um agrupamento regional economicamente pujante e politicamente estável. Colômbia.

br/anteriores/2007/outubro/10/bis. Acesso em: 18 dez. Salvador: UFBA. CARTOLA. um menino que perdeu a mãe atropelada e o qual nunca conheceu o pai. A personagem Dora. O filme. Disponível em: <http://www. Acesso em: 12 mar. concorreu também ao Oscar de melhor filme estrangeiro e de melhor atriz.br/judice/jud13/entendendo. Mundialização e cultura. Referências ALBUQUERQUE. n.gov. 2005.htm>. 1 CD: digital. Anotações 76 . Brasil/ França. Europa Filmes. Até as rosas já comentam. 1991. Rio de Janeiro: Record. Rio de Janeiro: EMI Music Brasil. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. VIEIRA.com. Renato. São Paulo: Brasiliense. Ela encontra Josué. 2001. Disponível em: <http://www. Elenaldo. Estudos avançados. Anthony. São Paulo: Cortez. 1994. Cidadania e globalização.trf1. Tércio Waldir de. tribunadaimprensa. 21. 8. As consequências da modernidade. 113 min. Liszt. ed. O mundo é um moinho. 1998. Dora acaba acolhendo o menino e o leva pelo interior do Nordeste. estéreo. IANNI. 2007. TEIXEIRA. é uma ex-professora que trabalha na Central do Brasil escrevendo cartas para pessoas analfabetas. 147-163. ed. ganhador do Urso de Ouro no Festival de Berlim de 1999. interpretada por Fernanda Montenegro. 2. 1998. para tentarem encontrar o pai dele. ORTIZ.Central do Brasil. p. v. São Paulo: Unesp. GIDDENS. 2008. 8.asp?bis=cultura01>. Recife: EQUIP. O local e o global: limites e desafios da participação cidadã. 1994. Octávio.mt. direção de Walter Salles. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. TRIBUNA DA IMPRENSA.

ECONôMICAS. .Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO GLObALIzAçãO: A REDEfINIçãO DAS DISTâNCIAS SOCIAIS. TERRITORIAIS Conteúdo programático O global e o local no âmbito do processo de globalização Objetivo Situar o processo de globalização a partir das tensões entre as territorialidades locais e globais para entender as novas formas de organização das identidades. CULTURAIS.

para efeito de estudo. o interno é externalizado. 78 . firma-se como disciplina acadêmica ao tomar os ambientes microssociais como fonte de estudo. você tem ouvido falar muito em “globalização”. assim nomeados porque enfocavam um grupo social bem marcado cultural e espacialmente. Em outra vertente.] Os antropólogos se acostumaram a ver o local e o global. A globalização quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. A esse respeito. no mesmo período. estabelecem uma fronteira entre as territorialidades locais e globais para a compreensão dos processos culturais. a nação. A junção dos termos “global” e “local” indica trocas territoriais que promovem. inclusive. conhecido e desconhecido. situar a pesquisa em uma determinada comunidade.. o particular e o universal como duas instâncias separadas. o foco era a localidade. mantendo determinadas relações entre si e guardando cada uma a sua autonomia. Nesse contexto. especialmente as do início do século XX. mas seria capaz de conceituá-la? Saberia dizer em que aspectos das nossas vidas a globalização está presente? Como ela se relaciona aos estudos culturais? encontros e Desencontros territoriais: o processo De globalização Tradicionalmente. quebra-se com a formação de uma cultura globalizada. A divisão entre interno e externo. padronização e divisão das identidades culturais. o particular e o universal. que se interpenetram.. ao mesmo tempo. tornando inseparáveis as instâncias local e global. um determinado recorte social. o continente. Mas esse modelo não consegue explicar o fenômeno da globalização contemporânea como um processo que engloba. os processos culturais se estendem por todo o mundo. o lá vem para cá e o desconhecido se revela. as pesquisas antropológicas. Ortiz emprega o termo “glocal” para caracterizar o processo de globalização cultural.Certamente. Ainda que esses trabalhos estabelecessem pontes interativas com o ambiente global. Ambientes microssociais Diz respeito a delimitar. a cidade. na sua dinâmica complexa e contraditória. a sociologia e a história empenhavam-se na compreensão das territorialidades macrossociais. Buscavam os elementos políticos e econômicos que constituíam as estruturas sociais: o estado. ganham visibilidade os estudos tribais. por exemplo. A antropologia. Nessa perspectiva. Vieira (2005) considera: [. A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. fenômeno que Ortiz (1994) denomina de “mundialização da cultura”. O território local desloca-se em comunicação global. lá e cá.

É inegável que os impulsos econômicos conferem uma dimensão significativa à globalização. A contribuição dessa conjuntura para o curso da globalização é alimentada pela sociedade do conhecimento. Alguns assinalam a integração eletrônica dos mercados financeiros globais e o enorme volume de fluxo de capital global. o fenômeno da globalização é visto essencialmente sob essa perspectiva. pela ciência. Oligopólio Conglomerado econômico formado por um número reduzido de empresas que conTeoria Rede de conceitos com uma amarração lógica. sociais. Não raro vemos nos jornais. Isso é fruto de uma tradição científica que compreende a realidade com foco na produção material. Cotidianamente. culturais. Outros se concentram na abrangência sem precedentes do comércio mundial.Estudos Culturais – Capítulo 3 O termo “glocal” sugere a presença do global no local e vice-versa. revistas e textos acadêmicos a expressão “globalização econômica”. opera como um movimento que paralelamente concentra e aproxima a riqueza mundial. Entretanto. O mercado se universaliza embasado na formação de grandes oligopólios que controlam a economia planetária. compreensão de questões problematizadas na sociedade. em qualquer área de conhecimento. A globalização é fruto da convergência de fatores políticos. no livro As consequências da modernidade. além dos econômicos. Como você percebe esse movimento cultural em sua territorialidade? Você pode identificar e descrever elementos da cultura global que estão presentes no local em que você vive? E elementos da sua cultura local que estão presentes no global? A dimensão política da globalização Os deslocamentos territoriais que promovem a fragmentação também contribuem para a concentração de capitais. Ele considera que a globalização provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio como expressão de poder em um determinado território. apresenta a teoria do desencaixe para explicar esse fenômeno. Giddens (2005) acrescenta: Muito disso se deve ao papel das corporações transnacionais (CTs). Nesse aspecto. envolvendo uma variedade de bens e serviços muito maior do que antes. com mais velocidade e alcance. Para ele. 79 . Com essa perspectiva. A teoria fornece base conceitual para a trolam o mercado. a compreensão que reduz a economia à modelagem desse fenômeno é limitada. a globalização. A circulação da produção incorpora uma lógica de mercado para atender aos interesses dos grupos financeiros privados em vez das necessidades do cidadão. Giddens (1991). assim. cujas operações massivas se expandem através de fronteiras nacionais. influenciando processos de produção global e a distribuição internacional do trabalho. que redimensiona a circulação da informação. a circularidade econômica se ajusta ao perfil cultural dos setores sociais de maior poder.

A conjunção desses elementos solidifica um mercado hegemônico que estabelece um padrão de negociação global. “shopping center global”. Embora enfatizando diferentes [perspectivas]. combinando as dimensões econômica e política. Tencionar Ter interesse ou intenção de. conflito e negociação entre diversos grupos. argumentando que: Surgem dessa perspectiva algumas expressões. A construção da amplitude territorial está mediada por relações de poder complexas que envolvem. de São Peters Vista da cidade fundo. etc. Na sequência. “disneylândia global”. O segundo. ky Sergey Zhaffs burgo. A realidade apresenta um cenário de diálogo entre as territorialidades globais e locais. o local e o global compõem o panorama político da contemporaneidade em uma relação de troca contínua e permanente. “fábrica global”. 80 . projetar. cDonald’s ao loja da rede M com uma Stephan Mosel Centro comercial em Piccadilly Circus. Rússia. “cidade global”. Ou seja. as negociações e as integrações que existem entre diferentes identidades emergentes. ou seja. o consumo. Londres. As territorialidades locais reagem marcando identidades afirmativas. O local. Raça. Discutiremos as tensões. no mundo global. Entretanto. ao mesmo tempo. de cunho político. etnia. “mcdonaldização do mundo”. O primeiro relaciona-se à funcionalidade da ordem econômica. gênero serão alguns dos temas que tentaremos compreender melhor. modela ideologicamente o consumidor com base nos valores do capital fornecedor. Vieira (2005) confirma a tendência de concentração mercadológica. muitas vezes.Nessa perspectiva. sexualidade. a globalização não é um movimento único. vamos tratar dos chamados “identitários contemporâneos” que fazem parte dessas relações. essas metáforas parecem sugerir a ideia de uma padronização do comportamento humano. a globalização atinge dois objetivos no mercado. como “aldeia global”. religião. Essas manifestações apresentam identidades diversas que se processam. tanto global quanto localmente. o direito de expressar suas singularidades e particularidades. manifesta-se tencionando.

do desgoverno. para outros. O primeiro. afiado para cortar o isolamento às vezes pretendido e 1 Do Conselho Editorial da Folha de S. 81 . Para um país como os Estados Unidos da América a situação global é excepcional.Estudos Culturais – Capítulo 3 Leitura complementar ENTENDENDO A GLObALIzAçãO E SUA INfLUêNCIA NOS bLOCOS ECONôMICOS [. em 1865. “internacionalização” são termos que podem ser considerados sinônimos do que o mundo vem experimentando. e hoje vemos. levou 13 dias para cruzar o Atlântico e chegar à Europa. Para países em situação de miserabilidade a globalização é aterradora. [. Há 6. um exemplo do que seja globalização é: A notícia do assassinato do presidente norte-americano Abraham Lincoln. Eis ao vivo e em cores. Nova York e Tel Aviv. a partir dos anos 1980. Para os países em desenvolvimento a mundialização é uma faca de dois gumes. a globalização.. Há 24 mil povos no mundo.809 línguas no mundo e evidentemente não são todos que podem gozar dos privilégios da globalização. o efeito globalizante pode ser visto sob aspectos negativos e positivos.] Para Clovis Rossi1. a depender da ótica com que é olhado... [.. interfere no cultivo das tradições. permite comparações que muitas vezes não são benéficas e acabam por atrapalhar planos e metas governamentais.. uma vez que as notícias transitam em tempo real e não mais como dantes. de má gestão da coisa pública.] “Globalização”. fluir e influir nos mais diversos pontos do universo em tempo real. 2 Professor de história e mestrando na UFRGS. a globalização se divide em três períodos distintos: 1450-1850 – Primeira fase – Expansionismo mercantilista 1850-1950 – Segunda fase – Industrial-imperialista-colonialista Pós-1989 – Globalização recente – Cibernética-tecnológica-associativa Na verdade. levou 13 segundos para cair como um raio sobre São Paulo e Tóquio. A queda da Bolsa de Valores de Hong Kong (outubro-novembro/97). há mais de cinco séculos. segundo alguns. O segundo gume. seus problemas de corrupção.. ouvimos e lemos inúmeras matérias que os conceituam das mais diversas maneiras e formas.Paulo. afiado para cortar as possibilidades de que sejam acobertadas suas misérias e mazelas. Buenos Aires e Frankfurt. representa ingerência externa.] Na visão de Voltaire Schilling2. “mundialização”. pois lhe dá condições de gerir e ingerir.

a produção e o consumo se aliam e todos os envolvidos acabam percebendo ser indispensável esse tipo de convivência para a sobrevivência de seus investimentos e equilíbrio de suas contas. se transformam em alavancas mundiais. inicialmente formadas entre países fronteiriços para depois transpor distâncias e criar um mercado efetivamente global. no qual os planos e metas são vistos e revistos a todo instante. e a partir dessas parcerias surgem os hoje conhecidos blocos econômicos. Nesse ensaio dos efeitos gerados pela globalização aparecem as relações comerciais. Cada país sai em busca do seu igual para poder criar parcerias promissoras. é importante que os governos envolvidos nesse processo procurem torná-los o mais transparentes possível. as mudanças de mentalidade e de comportamento. e o que significava uma pequena relação de interesses transforma-se em um gigantesco conglomerado de estados e empresas.] para a população em geral. [. mas. Tudo isso não era pensado e não era tido como imperioso. a União Europeia. Podemos trazer como exemplos mais conhecidos desta nova realidade o Nafta.] Nessa esteira de desenvolvimento globalizado e com a necessidade de que. impossível imaginar de modo diverso. vender e permutar seus produtos e serviços. Assim. a busca pelo desenvolvimento e troca de tecnologias se tornam necessários. sua tecnologia. a Alca. o que inicialmente representava um pequeno negócio internacional transforma-se em um verdadeiro bloco de integração econômica. em pouco tempo. 82 . propiciando a toda coletividade conhecer os detalhes dos compromissos que serão assumidos. a Comunidade Andina. mais e mais países busquem aproximação para poder comprar. do volume de negociações que os envolvem e. demonstrando com clareza as vantagens e desvantagens e o grau de interferência [.propiciar uma abertura para os demais países do mundo e assim gerar possibilidades reais de um entrelaçamento social. indispensável. e não 3 Coordenadora do Departamento de Desenvolvimento Gerencial do Ietec... globais.] Um dos efeitos considerados negativos da globalização para o Brasil está na questão ligada ao despreparo de grande parte de sua força de trabalho. em que é possível perceber claramente a necessidade de que todos procurem parceiros para seu desenvolvimento. hoje. Os profissionais não estão acompanhando o desenvolvimento tecnológico... político. em que alguns se destacam mais que outros em razão de número de países. as novas tecnologias e a formação profissional alijam uma série de pessoas. cultural e comercial. [. segundo avaliação feita por Maria das Graças Reggiani Almeida3: A globalização.. o comércio é o carro-chefe. No estabelecimento de políticas de aproximação. pois através dele passa a ser possível uma integração dos demais temas como pessoas. a cada dia.. a Aladi e o Mercosul. bens e serviços.

perdas de benefícios e outros. sem dúvida alguma.htm>. Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. Acesso em: 12 mar. com os Estados Unidos da América. no momento em que todos os aspectos forem bem conhecidos e discutidos.] ALBUQUERQUE. O surgimento de um bloco econômico nem sempre significa vantagens imediatas a seus componentes. quando o governo está comprometido com o desenvolvimento sustentável. e. com elevação do nível de desemprego. Este tipo de procedimento nesses processos pode facilitar muito o seu desenvolvimento e. mas na condição de vida de seu povo.br/ judice/jud13/entendendo. o presidente da Abracelpa. o país será. como já dissemos. além de criar uma situação social insustentável. por vezes. A divisão entre interno e externo. O fenômeno denominado “globalização” quebra as fronteiras construídas na e pela modernidade. Osmar Zogbi. Aí acaba com a indústria brasileira4”. De outro lado. é o mentor e maior interessado nesse processo. Associação Brasileira dos Produtores de Celulose e Papel. que.Estudos Culturais – Capítulo 3 somente dar a conhecer a grupos de interesses de uma forma fechada e às vezes isolada.. valendo inclusive o estudo de viabilidade de uma reserva de mercado por um período necessário para que as indústrias brasileiras possam se adequar e chegar a uma condição de igualdade de tecnologia e produção com os demais países. não só em sua balança comercial. De repente lá tem uma crise econômica e eles resolvem despejar o produto no Brasil. Tércio Waldir de. trouxe uma informação assustadora. em especial.. ao ser indagado sobre os benefícios ou prejuízos ao seu seguimento caso o Brasil participe efetivamente da Alca. redução salarial. precisam criar condições de competitividade com os demais e para que isso ocorra é necessário que o próprio governo adote medidas de incentivo ao desenvolvimento. sua vinculação a um bloco econômico vai significar uma ampliação. Nesse sentido o cuidado deve ser maior. que. cada uma isoladamente representa toda a produção brasileira de celulose e papel. quebra-se pela demanda de se formar uma cultura globalizada. evitando. Síntese Você estudou: A contemporaneidade rompe com a dicotomia entre o local e o global. 83 . conhecido e desconhecido. 4 Em entrevista ao Jornal da Globo de 30 de janeiro de 2003. Disponível em: <http://www. beneficiado.gov. Disse o entrevistado: “Tem oito ou dez empresas americanas. que no momento da abertura comercial as empresas locais não tenham condição de sobreviver à entrada das concorrentes. assim. 2008. [.mt. Em recente entrevista aos meios de comunicações.trf1. lá e cá.

IANNI. _____. Porto Alegre: Artmed. Acesso em: 12 mar. As consequências da modernidade.mt. Sociologia.gov. escreva um texto no qual você discute sobre resultados dessa configuração para a sociedade global. Disponível em: <http://www. Anthony. 2005. Em seguida. Identifique possíveis consequências culturais da formação de blocos econômicos para os países envolvidos. A globalização. Qual o sentido da desterritorialização para o avanço da globalização cultural? Como você percebe a desterritorialização em seu território? Há grupos que se opõem a esse movimento? Como eles agem? Referências ALBUQUERQUE. 2008.htm>. é um movimento que. Cidadania e globalização. paralelamente. n. Mundialização da cultura. Renato. Globalização: novo paradigma das ciências sociais. Octávio.br/judice/jud13/entendendo. ed. Rio de Janeiro: Record. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Abril.trf1. ed. VIEIRA. 2. ORTIZ. 2008. GIDDENS. p. 1994. assim. 1994. 8. 2005. A globalização atua no mercado em duas perspectivas: incentivo ao consumo em larga escala e ajuste ideológico do consumidor a partir dos valores e princípios do capital fornecedor.O processo globalizante provoca um desenraizamento dos grupos sociais de menor prestígio em um determinado território.1. ALMANAQUE ABRIL 2008. Tércio Waldir de. 147-163. 21. Atividades 1. Liszt. 1991. São Paulo: Unesp. ed. Estudos avançados. Anotações 84 . Entendendo a globalização e a sua influência nos blocos econômicos. 8. concentra e aproxima a riqueza mundial. v. 34.

Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO RAçA: UMA CATEGORIA POLÍTICA PARA A COMPREENSãO DA DIvERSIDADE hUMANA Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que se estabelecem na sociedade. na construção e discussão do conceito de “raça” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações raciais que se estabelecem na sociedade como construções resultantes da percepção das diferenças e das construções identitárias que elas originam. Apresentar a construção política do conceito de raça em oposição à concepção biológica que produz hierarquias entre os grupos humanos. .

orientação sexual. discutimos a dinâmica da relação entre o local e o global. Vamos assumir o compromisso com a inclusão dos grupos sociais historicamente marginalizados.. Kabengele Munanga Anteriormente. você diria que essas pessoas são de raças diferentes? Etnias diferentes? Como esses fatores estão relacionados às identidades culturais? 86 .Zumbi.] A felicidade do negro é uma felicidade guerreira. as relações de gênero. No entanto. Isso mesmo: conquistar poder e espaço. vamos refletir sobre as tensões étnico-raciais. Optamos por selecionar as questões que nos parecem mais recorrentes na nossa realidade. entre outros. Sabemos que esta disciplina não abrange todos os aspectos relacionados ao tema. no que se refere à raça e à etnia? Observando as imagens da página seguinte. Aprofunde as leituras propostas buscando outras que não estão aqui. “território”. enfrentando preconceitos e discriminações. Fundamentamos nossa apresentação sobre uma série de conceitos: “cultura”. Esses debates relacionam grupos identitários que se organizam para afirmar suas necessidades políticas. comandante guerreiro! Guerreiro-mor capitão da capitania de minha cabeça [. Chegamos à discussão sobre um ponto essencial na sociedade brasileira e também nas sociedades de quase todos os países que compõem este planeta. afirmar cultura e identidade são o caminho para romper com os mecanismos de exclusão gerados pela discriminação. atitudes essas provenientes dos sistemas culturais de todas as sociedades humanas. cremos que a educação é capaz de oferecer tanto aos jovens como aos adultos a possibilidade de questionar e desconstruir os mitos de superioridade e inferioridade entre grupos humanos que foram introjetados neles pela cultura racista na qual foram socializados. A partir daqui. “identidade”. Gilberto Gil Não existem leis no mundo que sejam capazes de erradicar as atitudes preconceituosas existentes nas cabeças das pessoas. Quem somos.. A diversidade de grupos contemplados pelos estudos culturais é muito ampla. por isso é tão importante que você continue pesquisando. a interação entre as religiosidades.

Shutterstock/Hasan Shaheed Uma das formas que a contemporaneidade estabeleceu para reconhecer as diferenças e minimizar os efeitos das desigualdades foi criar maneiras de compensar as perdas de quem foi submetido aos mecanismos de exclusão de certos povos e de diferenciação entre eles. você tivesse que responder qual é a sua raça. por exemplo. temos no Brasil. etc. como você responderia? Por quê? 87 . Daí. há a inferiorização de grupos que apresentam características somáticas e culturais diferentes das referentes aos povos da Europa Ocidental. você poderá desenvolver uma base mais sólida para argumentar sobre esses temas tão polêmicos. Na organização do mundo moderno. Vamos voltar. entre outras medidas. reservar espaços. cotas raciais. que antes eram ocupados exclusivamente por grupos privilegiados. em um formulário. à discussão do conceito de “raça”. Assim. para quem não obteve a oportunidade de sequer poder lutar para ocupá-los. apesar de não concretamente.Estudos Culturais – Capítulo 3 Fotos: Orangestock/Marco Andras. pois os mecanismos organizados garantiam o ingresso apenas daqueles que tinham determinado perfil. já consolidadas oficialmente. E ainda o debate sobre a oficialização de cotas para outros grupos em outros setores do país. Se. então. Vemos discussões acaloradas sobre ações afirmativas. Acreditamos que compreendendo essas questões. cotas para as mulheres na política.

Assim. um dos recursos mais explorados para criar e manter certas populações como subalternas foi justamente afirmar que pertenciam a uma determinada raça. dependendo da construção identitária desenvolvida pelas pessoas que estão interagindo. foram desqualificados e utilizados para representar negativamente as pessoas que faziam parte dos povos dominados. indicando. Fenotípicos Que têm a mesma aparência. por exemplo. classificaram a humanidade com base nessas características. Foi ainda observando os conceitos biológicos de raças puras que os grupos humanos também foram classificados a partir de critérios que buscam valorizar alguns em detrimento de outros. Quando dogmas de grupos políticos de maior prestígio social começaram a ser questionados. Refere-se a fenótipo. classificava as espécies animais (hoje essa conceituação está em desuso). pessoas com a mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. Passou a se referir a humanos a partir da Renascença. Os caracteres físicos que marcam a pertença a grupos não europeus. surgiram as desigualdades que inferiorizam até hoje quem não pertence aos grupos considerados superiores. Então. entre o final do século XIX e início do século XX. vemos pessoas “estranhando” seus semelhantes por não acreditar que sejam realmente semelhantes. E assim o mundo moderno se organizou. muitas vezes. Esquisito. pois as diferenças genéticas entre os grupos considerados como sendo de raças diferentes não justificariam a separação. que é a característica física de um indivíduo. considerando as relações entre colonizados e colonizadores. Explorando parcialmente conceitos científicos e utilizando-os para embasar suas teorias. 88 . E o que fazer? Riscar a palavra “raça” do dicionário? Com isso também seria possível riscar o termo que ela originou. o “racismo”? Vejamos como alguns teóricos que discutem as questões raciais tratam esse assunto. representantes de grupos hegemônicos. então. acrescidas de aspectos culturais.A palavra “raça” não foi criada para designar seres humanos. não? Mas na organização das sociedades. Essa percepção pode estabelecer uma relação tranquila ou tensa. designava categoria e espécie. o termo que durante tanto tempo foi utilizado para classificar pessoas e separá-las deixou de ser adequado para se referir a humanos. a cor da pele e a textura do cabelo? Os elementos fenotípicos normalmente se evidenciam em um primeiro contato. Quem não fizesse parte dos grupos de descendentes da parte ocidental da Europa era comumente classificado como inferior. Com o domínio político e econômico de um povo sobre o outro – sem se analisar como as relações de fato se estabeleceram –. Em suas primeiras acepções. determinada pela sua carga genética e pelas condições ambientais. Quando olha para alguém. na zoologia. deixou-se de considerar o termo “raça” como o ideal para classificar os seres humanos. o que você vê primeiro? Os traços do rosto.

não se justificaria seu uso nem politicamente por quem foi vítima das ações engendradas. O autor faz tais afirmações sempre reconhecendo a complexidade da discussão e os caminhos variados aos quais o tema pode levar. favorecendo. discorre sobre o conceito de “raça”. Mas é importante afirmar que reconhecer a não cientificidade do conceito de “raça” não eliminaria a eficácia do uso do termo para o debate das relações raciais em determinados campos. Isso porque. Tal supressão. como alguns debatedores do tema sugerem. tampouco por quem afirmava as diferenças. Defende a ideia da existência de “raças puras”.]. 2001). pois reforçaria os mecanismos racistas do “quero dizer”.] a uma eugenia lexical negativa que crê matar o racismo eliminando a palavra. Eugenia Teoria que acredita na possibilidade de melhoramento genético da espécie humana para produzir “seres aperfeiçoados”. ele deixa de ter utilidade. e. Assim. a uma origem comum. a ideia de raça é desprovida de conteúdo ou valor científico. 89 . teria consequências contrárias ao efeito imaginado.. superiores as que são fruto de miscigenação. acredita que a palavra “raça” deve ser completamente abolida de qualquer debate sobre seres humanos. ao discutir os conceitos de Pierre-André Taguieff. sem misturas. o parentesco pelo sangue. Ele afirma: Repito aqui a posição que tenho adotado: raça é não apenas uma categoria política necessária para organizar a resistência ao racismo no Brasil. simbolicamente. Lexical Relativo a vocabulário. por isso.. segundo Taguieff. Podemos perceber isso nas palavras do próprio D’Adesky ainda citando Taguieff: A eliminação no vocabulário da palavra “raça” como prescrição da ação antirracista remete [. do ponto de vista da genética. a utilização política do termo: Existe consenso na afirmativa de que raça remete. a normalização do racismo simbólico. reconhecendo sua complexidade e incluindo. Jacques D’Adesky (2001). a hereditariedade das características fisiológicas..Estudos Culturais – Capítulo 3 Paul Gilroy (Apud GUIMARÃES. com base em que categoria teórica isso será analisado? Outros autores também trazem questões próximas às de Guimarães. Guimarães (2001) reconhece a pertinência das ideias de Gilroy e concorda com muitas delas. Ele cita um exemplo no qual sugere que eliminar o termo dificultaria até mesmo perceber o preconceito. Mas. Quando alguém se queixa de ter sofrido discriminação por causa de sua cor. ela evidencia a continuidade das descendências. assim como muitos teóricos.. Seja qual for seu grau de indeterminação. mas argumenta em favor da manutenção do termo até o momento em que a sociedade como um todo consiga de fato desconstruir as elaborações sociais criadas a partir da crença na existência de raças e no racismo que resulta dela. se não somos diferentes biologicamente. assim. e esse termo foi cunhado com a intenção científica e política de desqualificar pessoas. e mesmo das psicológicas e sociais. mas é também categoria analítica indispensável: a única que revela que as discriminações e desigualdades que a noção brasileira de “cor” enseja são efetivamente raciais e não apenas de classe [.

soubemos que a Fundação Seade concluiu que brancos ocupam quatro vezes mais cargos executivos que negros. compreendendo como uma categoria que constrói um processo de identidade para a compreensão da diversidade. são associadas. Acervo Abdias Nascimento/IPEAFRO/Bia Parreiras Abdias Nascimento é professor e militante do Movimento Social Afro-brasileiro. diversos grupos que lutam contra o racismo acreditam que utilizar a palavra “raça” é uma atitude política. por exemplo. as exclusões que resultam da negação dos direitos desses grupos seriam classificadas como “etnicismo”? Como a população em geral se apropriaria desse vocábulo e entenderia o que ele designa? As questões sobre raça. referimo-nos a certos valores que são atribuídos a determinados grupos. Enquanto muito me alegram e me honram a outorga da Grã Cruz da Ordem do Mérito Cultural e a minha inclusão na mais alta classe da Ordem do Rio Branco. a elementos biológicos e somáticos. Só no dia de hoje. na pessoa de Vossa Excelência. pois entendo que os méritos a ele pertencem. como homicídios. nesse sentido. então. nosso querido Lula. Ao falar de “raça”. é uma felicidade guerreira. saudações quilombistas no Dia Nacional da Consciência Negra. mesmo equivocadamente. Somáticos Referentes ao corpo. Leitura complementar CARTA AO PRESIDENTE LULA Rio de Janeiro. Ainda hoje. a todo o povo brasileiro.Imbuídos do sentido criado por ideias desse tipo. Por isso não poderia deixar de me manifestar no dia de hoje ao povo negro. observo que as desigualdades raciais no Brasil continuam agudas e profundas. também. soubemos por pesquisadores da UFRJ que as principais causas de mortalidade de homens negros são violentas. Se passarmos a classificar todos os grupos diversos como “etnias”. como disse o poeta. A leitura política do conceito de “raça” opõe-se ao sentido biológico-genético. enquanto os brancos morrem mais por doenças. Tenho recebido das mãos de Vossa Excelência honrarias que muito me orgulham. 90 . pois a felicidade do negro. 20 de novembro de 2007. e a nossos governantes. Diariamente recebo notícias de pesquisas quantitativas que confirmam este fato. e que recebo em nome do povo afrodescendente deste país. Senhor Presidente da República.

cujas propostas abrem novas perspectivas para melhorar as relações sociorraciais e trazer um vento de esperança à população negra preterida. Novamente nos acusam de racismo. nossa querida Matilde Ribeiro.Estudos Culturais – Capítulo 3 Setores poderosos. Senhor Presidente. Há décadas os intelectuais negros afirmam que raça nada tem a ver com biologia ou genética. Como consequência. estão deflagrando uma campanha no sentido de desacreditar essas estatísticas e vilipendiar aqueles. como a promulgação da lei 10. lhe apresenta o Plano Nacional de Promoção da Igualdade Racial. causa divisões perigosas em nossa sociedade. e não a realidade social. detentores dos meios de comunicação de massa no país. como coisa sem valor. daqui a alguns meses. para absorver as legiões de jovens que. rejeitada. Ora. somadas a outras iniciativas. Vilipendiar Tratar com desprezo. sobre o Estatuto da Igualdade Racial. fruto de todo um processo de deliberações para a construção dessas políticas públicas. procuram ingressar no mercado de trabalho. Haja vista a violência em nossas cidades que alcança índices de genocídio entre a juventude negra e favelada. fomentam. pois nossa população aguarda políticas efetivas. após receber com grande repercussão os porta-vozes dessa campanha. Venho hoje lhe convocar a não esmorecer na sua decisão de implementá-las. a cada ano. que pensam na necessidade de políticas públicas de combate a essas desigualdades. na casa dos representantes do povo. se mandou “calar a boca” aos negros que usaram de seu legítimo direito democrático de apresentar as suas demandas. em que a desinformação deliberada rivaliza com a malevolência racista. Estamos acumulando décadas perdidas com a falta de desenvolvimento econômico intensivo em emprego. 91 . Preterida Desprezada. como categoria socialmente construída. mas que. para valer. é uma dura realidade discriminatória baseada em características de aparência. como Vossa Excelência. Assistimos como. Senhor Presidente. com a transversalidade de raça e gênero. diante de um momento tão encorajador. o que significa investimento de recursos humanos e orçamentários. usando o falso argumento de que o critério de classificação racial. refletir. hoje a Ministra da SEPPIR. com crescente agressividade. Assusta pensar que legisladores capazes de semelhante agressão se pronunciarão. Há muito tempo os economistas comprometidos com o povo brasileiro vêm falando que o nosso país precisa crescer. essa campanha desestabilizadora da sociedade. suas recentes visitas à África. têm propiciado um novo clima que permite debater questões sérias que vinham sendo ocultadas ou negadas pelas elites entrincheiradas no mundo acadêmico e no universo da mídia. e que objetiva intimidar todo um povo e enganar toda uma nação.639/03 e a implantação da política de cotas reparatórias nas universidades. os problemas sociais vêm atingindo patamares perigosos. associada à redução do papel do estado na área social.

Trata-se de um simbolismo fundamental. Acesso em: 22 nov. que visa fazer o resgate de nossa história e de nossa memória e torná-las patrimônio cultural de todo o povo brasileiro. Você conhece o cartunista Maurício Pestana? Além de cartunista. com coerência. De negros e de brancos que sonham o sonho bom da liberdade e da justiça. no ato cívico realizado ontem nas terras de Palmares. na qualidade de cofundador e ex-presidente do Memorial Zumbi. Deflagra-se.org. cada vez mais. movimento da sociedade civil que conduziu à criação da Fundação Cultural Palmares e à desapropriação das terras da Serra da Barriga. Esta data. pois o quilombismo é uma proposta para a nação. Axé! NASCIMENTO. Também nutro a convicção maior de que as energias que brotam do coração de Zumbi dos Palmares e de todos os nossos ancestrais ampliarão. apesar da campanha de mídia que caracteriza programas dessa natureza como criminosos e racistas. É preciso avançar nas titulações e fazer valer os direitos das comunidades quilombolas contra as ameaças constantes de despejo de seus territórios. ou tem a sua implementação dificultada. tendo trabalhos publicados no Brasil e exterior. Ele aborda em grande parte de seu 92 . Reconheço o avanço contido no Programa Brasil Quilombola. tendo sido hoje assassinado um quilombola no estado do Espírito Santo.br/onl/new. celebrar Zumbi do Quilombo dos Palmares. não só dos afrodescendentes! Finalmente.irohin. Não podemos. Senhor Presidente. 2007. Carta ao presidente Lula. quero dizer que tenho fé nas forças que querem transformar o meu país. por todos aqueles que não querem mudanças nas relações de dominação racial em nosso país. enquanto as populações dos quilombos do Brasil são agredidas e têm seus direitos desrespeitados! Aliás. Abdias.Reconheço o grande avanço que significa a lei 10. Disponível em: <http://www. Por isto. uma onda de violência. e do município de União dos Palmares. e convoco Vossa Excelência a continuar investindo cada vez mais neste setor. aceite nossas saudações quilombistas. ainda. mas tenho que elevar a minha voz para dizer que esta lei não está sendo cumprida. do estado de Alagoas.php?sec=news&id=2375>. Zumbi vive em nós. a consciência negra neste país. venho lhe indagar como. também no intuito de favorecer tais interesses. esta luta e as políticas públicas de igualdade racial são bandeiras do Brasil e de seus governos locais e estaduais. homens e mulheres da resistência antirracismo e da construção de um Brasil justo e democrático. herói nacional. faltaram as bandeiras do Brasil. no intuito de desmoralizá-los e favorecer os interesses fundiários estabelecidos.639/03. é escritor e roteirista.

Rediscutindo a mestiçagem no Brasil. A utilização para a classificação de humanos foi fortalecida na modernidade quando começou a designar um grupo de pessoas da mesma ascendência e de caracteres físicos parecidos. No início da carta ao Presidente da República. 2001. Pluralismo étnico e multiculturalismo: racismos e antirracismos no Brasil.mauriciopestana. As políticas afirmativas. a discriminação racial. A afirmação política do conceito de “raça” opõe-se à noção originária da biologia. 2001. Niterói: EdUFF. Síntese A discussão do conceito de “raça” parte das construções sociais que estabelecem hierarquias entre os grupos racialmente identificados.). uma dimensão de identidade. A argumentação da carta é construída para reivindicar do poder público central a continuidade e o avanço das políticas afirmativas relacionadas aos negros. Jacques. Atividades 1. São Paulo: Editora 34. o professor Abdias Nascimento utiliza as expressões “povo negro” e “felicidade do negro”. 1999. Ivanilde (Org. 2001. ou seja. Qual o seu posicionamento sobre essa questão? Referências D’ADESKY. Nessa dimensão. São destinadas aos grupos de menor expressão de poder. na biologia. raças e democracia. Antonio Sérgio Alfredo. violência e direitos humanos em África. “raça” é uma construção social que reflete um processo de reconhecimento e pertencimento. Rio de Janeiro: Vozes. In: OLIVEIRA. Etnicidade. A produção de saberes e práticas pedagógicas. 2.com. 93 . _____. principalmente. Essas categorias reforçam ou fragilizam o conceito de “raça” no sentido político? Justifique sua resposta. 31-44. a exemplo da reserva de cotas.Estudos Culturais – Capítulo 3 trabalho a questão das chamadas “minorias” brasileiras e. Classes. Kabengele. como é o caso dos negros no Brasil. Rio de Janeiro: Pallas. inicialmente classificou espécies de animais. MUNANGA. p. A origem do conceito de “raça”.br. Cadernos Penesb. GUIMARÃES. são apresentadas como uma alternativa para correção das desigualdades historicamente construídas em função das diferenças raciais. Você pode conhecer mais sobre o trabalho de Maurício Pestana em www.

Abdias. Acesso em: 22 nov.br/ onl/new.org. Anotações 94 . Superando o racismo na escola._____. 1999.irohin. MEC. Brasília. 2007. NASCIMENTO. Disponível em: <http://www. Carta ao presidente Lula.php?sec=news&id=2375>.

tendo como foco construir e problematizar o conceito de “etnia” Objetivos Compreender as subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações étnicas em sociedade como resultado da percepção das diferenças e das construções identitárias.Capítulo 3 A MARCA ORIGINAL DO SUJEITO POLÍTICO ETNIA: UMA AfIRMAçãO àS DIfERENçAS Conteúdo programático As subjetividades dos sujeitos contemporâneos e as relações que estabelecem na sociedade. . Reconhecer os aspectos que envolvem o conceito de “etnia” para a afirmação de um grupo identitário na contemporaneidade.

na discussão sobre etnicidade. baião. para deixar o diferente é preciso de algum modo conceber ou vivenciar um ponto em comum [. A melodia. muitas das quais estão ligadas à matriz negra. 96 .. Muitas vezes é atualizado e modificado a partir do contato com outros signos. blues.. no pó do motim Em cada intervalo da guerra sem fim Eu canto... A RUGEND S. Em cada estalo. exemplificando com alguns trechos de músicas brasileiras. Vamos começar a entender o conceito de “etnia”. reggae. Zumbi.. cantos de trabalho. rap. No caso específico deste tema. meu Brasil brasileiro Meu grande terreiro. eu canto assim: A felicidade do negro é uma felicidade guerreira! [.] Brasil. o ritmo. samba. Muniz Sodré RUGEND A S. forró.. Fam hann Mori ília de faze ndeiros. meu berço e nação Zumbi protetor.. o valor desses grupos. Procure também ouvir essas músicas. Gu errilhas. São representações musicais comuns a diversas vertentes culturais brasileiras. rock. guardião padroeiro Mandai a alforria pro meu coração Wally Salomão e Gilberto Gil. Jo tz.. A felicidade guerreira Matriz Elemento originário em uma determinada cultura que serve de referência em outra territorialidade cultural. Temos histórias em forma de spirituals. maxixe. o uso da música marca uma representação cultural das etnias diversas que compõem a nossa sociedade.. A inferiorização histórica de negros e indígenas no Brasil denota a importância de resgatar. axé. as sonoridades acrescentam outras informações ao texto e ajudam a compreendê-lo. jazz. choro. em todo estopim. Johann Moritz.] nas diferenças.

refere-se: às práticas e às visões de mundo de uma determinada comunidade de pessoas que as distinguem de outras. Giddens (2005) afirma que a etnicidade..] A minha também tá pouca Cota de índio Apesar da minha roupa Também sou índio Djavan. índios. tutsis. No confronto com a cultura dos grupos dominantes da sociedade. Com o desenvolver das sociedades. religião. são vistos dessa forma por esses outros grupos. se distinguiriam de seus antagonistas por questões étnicas e não raciais. Suas matrizes culturais estão presentes na cultura nacional em setores variados. Nesse sentido. A etnia estaria relacionada aos elementos culturais que compõem a identidade dos grupos. quando se discutem esses temas. as trocas que ocorreram geraram novos subsídios culturais. Elas revelam traços das características desses dois grupos e também que a matriz cultural indígena vem sendo cotidianamente desrespeitada. há uma representação de modos de vida relacionados às culturas negra e indígena. Assim. Diferentes características podem servir para distinguir um grupo étnico do outro. Hoje. Os membros dos grupos étnicos consideram-se culturalmente distintos de outros grupos na sociedade. e as produções mais representativas desses dois grupos foram classificadas como inferiores. é preciso fazê-lo de forma a resgatar o valor que eles possuem. sérvios. croatas. história ou linhagem (real ou imaginada). pois com o encontro entre os grupos humanos diversos no território brasileiro. etc. as questões políticas e econômicas também influenciam o desenvolvimento das elaborações étnicas. hutus. e em troca. e estilos de roupa ou adornos. a felicidade guerreira e Cara de índio. mas as mais comuns são língua. Cara de índio Você consegue perceber de que forma essas músicas tratam das diferenças? Nas letras de Zumbi. o que esses grupos produzem não é reconhecido como tendo o mesmo valor. e as letras sugerem a necessidade de reconhecer seus costumes..Estudos Culturais – Capítulo 3 Nessa terra tudo dá Não para o índio [. Existe uma identificação entre o indígena e o negro a partir das formas de exclusão com as quais lidam cotidianamente. O problema é que dentro da construção do Brasil estabeleceram-se relações hierárquicas. judeus. a construção das relações étnicas. 97 . O conceito de “etnia” já foi apresentado quando tratamos da etnicidade.

Sinais diacríticos Marcadores culturais construídos socialmente que identificam culturalmente determinados povos.. nesse caso. então. “moreno”. cultura. monumentos históricos e territórios”. como vimos. especialmente os de menor expressão de poder. pelo movimento negro ou pelos pesquisadores das relações raciais. não acreditam que os termos sejam sinônimos. “cabo verde”. “caboclo”. histórica e política. os somáticos identificam. o conceito de “raça” é ressignificado. do ponto de vista biológico. Reconhece-se que.A dimensão étnica. porém. O discurso que defende a padronização encontra oposição nas análises étnicas propostas pelos estudos culturais. somos todos iguais. da política e nas relações sociais. Assim. Devido ao alto grau de miscigenação ocorrida com o passar do tempo no Brasil. etc. Raça é. Os elementos que aproximam os membros de um grupo étnico não podem ser confundidos com as características somáticas dos indivíduos. tradições. Dentro de cada um deles existe uma série de outros que formam etnias diferenciadas. a princípio. o que alguns chamam de raça. de forma genérica. a definição de Bobbio (Apud GOMES. a etnia estabelece uma ponte entre o passado e o presente. como língua. com essa substituição. Enquanto os traços étnicos relacionam-se com construções de identidade com base em elementos. Outros. por exemplo.] um grupo social cuja identidade se define pela comunidade de língua. os diversos grupos étnicos que compõem estes três grandes conjuntos. tomando a identidade como meio de continuidade cultural dos grupos sociais. Contínuo de cor Expressão que denomina a grande variedade de matizes de pele resultante das várias formas de miscigenação ocorridas no Brasil. Essa corrente busca o reconhecimento dos grupos diversos e a visibilidade dos seus sinais diacríticos positivos para afirmação e sobrevivência da pluralidade. “brancos” designam. As características somáticas também podem ser vistas de forma diferenciada. no contexto da cultura. pois tem uma operacionalidade dentro da cultura. quando utilizado.. uma pessoa que é considerada branca em Salvador. em Porto Alegre pode ser considerada negra. São questões relacionadas ao que Guimarães chama de contínuo de cor. Alguns teóricos. a exemplo de Zarur (2007). Nessa acepção. os matizes de cores variaram muito e são explorados para designá-las diferentes termos como “mulato”. “negros”. a raça não pode ser desconsiderada. 1995) ilustra bem o que constitui um grupo étnico: “[. Por exemplo. costumes. “escurinho”. cultura.. 98 . ela construirá sua identidade da forma que desejar ou que for possível. não seria possível discutir questões como o racismo. Além disso. uma construção social. Neste aspecto. estabelecendo os marcadores culturais que tornam único um dado grupo étnico. determina o campo de afirmação das diferenças. Dependendo dos interesses que motivem suas ações. acham que o ideal seria substituir o termo “raça” por “etnia”. Os termos “índios”. por exemplo. Porém.

de um lado. pude sentir de perto aquele olhar frio e marcante de diversos setores da sociedade nacional e. foram listadas cerca de 136 palavras diferentes para se referir à cor da pele. Tinha que viajar com o presidente da entidade. É importante observar que os dois termos. agente tutor de povos soberanos e seu espírito colonizador e preconceituoso: “Posso ser o que você é. Lula. 99 . o PT.. Mas naquele tempo. como piloto comercial da Funai.. a Unind – União das Nações Indígenas – em 1977. no mês de maio. em 1981. e isso foi reacendido nas últimas semanas. e para o índio tribal de que havia “muita terra pra pouco índio”. Como fundador do primeiro movimento indígena no Brasil. do Estado brasileiro. Formas imperiosas do conceito racista de encurralar o primeiro brasileiro numa armadilha engenhosa que não deixava alternativa entre um mundo e outro. sem deixar de ser quem sou!” [. “raça” e “etnia”. podem ser utilizados para complementar um ao outro. mal-acostumados que eram e continuam sendo na condução das realidades indígenas vivas no nosso Brasil. representantes dos povos indígenas de toda a América Latina e do Caribe irão se reunir com outros segmentos da sociedade para compartilhar o tema da igualdade racial. No Censo de 1980. segundo Moura (1988).Estudos Culturais – Capítulo 3 etc. liderados por chefes como Mário Juruna e Celestino Xavante. principalmente. mas não para um substituir o outro.] Um dia. fui acionado pelo representante de um partido político em formação. como indígena do povo terena do pantanal sul-mato-grossense e. para respondê-las. como componente importante da sociedade nacional O Índio. estudante universitário. e parte do projeto em formação de um partido da sociedade e da inclusão dos discriminados. Desse modo. para o índio estudante o apelido de “índio aculturado”. ao mesmo tempo. Leitura complementar TUDO ESTá NA NATUREzA Se tudo der certo. quando fazia exames médicos no Hospital da Aeronáutica de São Paulo. proliferavam-se nos bastidores do governo federal. retornamos à questão proposta anteriormente: Falar em “etnicismo” poderia ajudar no combate ao racismo? Quais são os mecanismos necessários para desfazer os resultados desastrosos dessa forma de discriminação? Encerramos com essas questões e sugerimos que. jovens estudantes criaram a frase indefensável para o poder público. você reveja o conteúdo discutido até agora e estabeleça essa ponte com as questões propostas nas atividades. Naquele tempo. para uma reunião com Muhammar Al Kadafi na Líbia.

povos soberanos como os tupiniquins e os guaranis e caiuás. que estamos no caminho certo – pois os aliados sinalizam com suas contradições que nada mais têm a fazer a não ser entregar o poder indigenista ao seu verdadeiro dono: o indígena. o então ministro do interior. Melobô e Aritana. em que as 230 sociedades indígenas não sejam parte do passado ou de uma tutela viciada no indigenismo colonizador e escravista. como Marçal Guarani. o poder foi tomado pelo sindicalista Lula e pelo PT. foram mantidos no mesmo curral da ditadura militar. Mário Juruna.. mesmo não sendo da classe trabalhadora ou partidários. mas de alegria. abandonados por migalhas.Assim. mas da conscientização do sistema do Estado brasileiro. a não ser a arrogância e a necessidade de anular conquistas palmilhadas – inclusive com a morte de líderes. Em Madri. Esquecidos. pude viajar pela primeira e única vez na primeira classe. e mesmo na ditadura militar. pela primeira vez na história nomeou um indígena para a chefia de gabinete da Funai e outro como diretor-geral do Parque Indígena do Xingu. Hibes Wassú ou Ângelo Kretan – que exclui. sem direito a um plano de ação efetivo do ponto de vista político. Raoni. Como isso não depende apenas da vontade indígena. quebrando vícios e dando mostras de que tudo iria mudar. Os povos indígenas. num jumbo das Aerolíneas Argentinas. que com suas estratégias e seus comandos internos conduziram o Exército brasileiro para a conquista de territórios como o Pantanal. do governo neoliberal. quando representantes dos dois setores se digladiam em público por meio da imprensa. Politicamente. numa escala para a Líbia. Esse tempo chegou. certamente as eleições que se aproximam servirão como escadas para que todos no Brasil busquem um novo pacto social e político consigo mesmos. em nome dos bons costumes sociológicos. que eu não conhecia direito. alojado no Hilton Hotel enquanto tomava uísque. Após 20 anos de caminhada como uma persistente formiga. que jazem sem terras. Nada justifica essa cegueira do poder público. vimos quase com olhos marejados não de tristeza. como Megaron. Lula. pelo menos parece que chegou. graças à articulação de líderes indígenas. diante da Guerra do Paraguai. 100 . foram eles os primeiros a detonar essas conquistas. foi eleito por Brizola. inclusive quando indigenistas e antropólogos assumiram a presidência da Funai. Airton Soares. gerencial e financeiro. aliados de primeira hora. com lágrimas nos olhos afirmava que seu grande sonho era ter três minutos no horário nobre da TV Globo para poder dizer aos brasileiros que o tempo da liberdade e da inclusão social chegaria para todos. Tempos depois. o único representante político no Congresso Nacional como deputado federal. ou os terena.. Mário Andreazza. Por isso. Lá estavam também o peão Jair Meneghelli e um dos únicos deputados do PT.

afropress. nesses momentos fortifica-nos a lembrança guerreira da performance de Bibi Ferreira. os livros de história e geografia só deverão ter capítulos sobre o tema em 2010. uma vez que a lei sancionada não cria uma nova disciplina. A história e cultura da população indígena. geografia e literatura. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas Entrou em vigor. a partir desses dois grupos étnicos.. assim como da afro-brasileira. e 2011. o A Lei n. com a publicação no Diário Oficial. nesta terça-feira. Com a medida. ambos os temas passam a fazer parte da grade curricular de todas as escolas públicas e particulares. os alunos terão que esperar mais um pouco.465/08 altera um artigo da Lei de Diretrizes e o Bases (LDB) e substitui a Lei n..Estudos Culturais – Capítulo 3 Por isso... quero ver se eles resistem à surpresa. e quero saber como que eles reagem à ressaca. sem que haja a necessidade de mudança na grade curricular.. Sobre a inclusão do assunto no material escolar.. mas que os professores já podem abordá-lo em suas aulas.. TERENA.639/03. Como as mudanças nos livros didáticos são feitas de três em três anos. que já previa a obrigatoriedade do ensino sobre história e cultura afro-brasileira em todas as escolas brasileiras.. De acordo com o Ministério da Educação (MEC).. 101 .. Marcos.Tudo está na natureza encadeado em movimento. Até agora eles estavam comandando meu destino e eu fui. recolhendo fúrias. a lei que torna obrigatórias as aulas de história e cultura do povo indígena para alunos do Ensino Médio e Ensino Fundamental de escolas públicas e particulares do país. a medida será implementada de forma gradual nas escolas. 11.asp?id=89>. O objetivo da nova lei é valorizar os diversos aspectos da história e da cultura que caracterizam a formação da população brasileira. 10. mas nunca volta. fui recuando.. O MEC esclareceu que a lei não prevê uma data limite para a implementação do tema nas escolas.. Eles pensam que a maré vai. A lei que fora sancionada nesta segunda-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva começou a valer nesta terça.com/colunistasLer. 2008. na peça Gota d’água: . será um tema transversal aos já abordados em disciplinas como história. no caso do Ensino Médio. para o Ensino Fundamental.. Tudo está na natureza. Acesso em: 7 jan... Quando eles virem invertida a correnteza.. Hoje eu sou onda solta e tão forte quanto eles me imaginam fraco. Disponível em: <http://www.

a exemplo de judeus e palestinos. Brasil negro: a questão racial.asp>. compreendendo identidade e alteridade. Nova Era. Somos judeus ou palestinos? Novos Tempos. Em função da nossa história. em todo o mundo. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. econômica e política. subordinados e dominantes. a discussão da questão racial é especialmente voltada para a conjuntura que envolve negros e indígenas. pertinentes à história do Brasil. a luta dos negros e dos povos indígenas no Brasil. No mundo contemporâneo. dominação e alienação. Esse é o enigma com o qual se defrontam uns e outros.comciencia. a questão racial revela. Disponível em: <http://oglobo. 2008. modificada mas persistente. Mais do que tudo isso. nos outdoors. de forma particularmente evidente. mas tem sido permanente. cooperação e hierarquização. segregados e arrogantes. Também será valorizado o papel do negro e do índio na formação da sociedade nacional. Acesso em: 4 abr. intolerantes e tolerantes. como funciona a fábrica da sociedade. Octavio. 2008. das formas de sociabilidade e dos jogos das forças sociais.shtml>. no Brasil. Disponível em: <http://www. diferentes grupos étnicos se opõem. resgatando as suas contribuições nas áreas social.” IANNI. ainda apresentamos traços negativos que remontam séculos e séculos. Mas não somente essas populações foram – e continuam sendo – motivo de conflito. diversidade e desigualdade. Novo Milênio. Sobre isso.br/reportagens/negros/11. Acesso em: 8 abr. nuançada e estridente.com/educacao/ mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. leia o que diz o renomado cientista social Octavio Ianni: A questão racial parece um desafio do presente.tais como o estudo da história da África e dos africanos.globo. Modifica-se ao acaso das situações. mas reitera-se continuamente. No que tange ao comportamento humano. discriminados e preconceituosos. 102 . O GLOBO ONLINE. nos panfletos que anunciam artigos esotéricos. Onde? Só se for nos comerciais.

que sejam batalhas de transformação. Em uma caricatura. É preciso entender que solução definitiva não significa solução imediata. desenvolvemos tecnologias de comunicação incríveis num curtíssimo espaço de tempo. Prestemos atenção em como exercitamos essa opinião. A meta é a correção..Estudos Culturais – Capítulo 3 Desenvolvemos vacinas – as quais estão perdendo efeito diante de velhas – novas doenças. Pior.. mostra a completa impossibilidade de inteligência – porque a agressão é a manifestação suprema da ignorância.. [. a guerra e o terrorismo estão entre os piores. que seja contra a ignorância. me vem a nítida sensação de que um dia não irá bastar fazer a minha parte – terei que fazer uma parte maior. trocando bengaladas até a morte.] O ser humano evolui individualmente e não sozinho. Fazemos parte de um todo aqui mesmo. descobrimos a visão holística do mundo e do homem. existe uma explicação sobre por que as coisas não funcionam assim. contra a passividade. temos uma opinião. Ao lidarmos com a 103 . hoje mais econômicas do que militares ou monárquicas. ou mesmo negociando um cessar-fogo após o outro. Poderia haver quem dissesse: “Mas isso são eles! Eu não moro lá nem tenho parentes naquela região. manter diálogos francos consigo mesmo. Fomos à Lua. simplesmente porque não os colocamos em nossas manchetes. mulheres e crianças morrendo por caprichos de poucos que se dizem governantes. mas são espelhos dos nossos atos? Será que não devemos usar a sabedoria que está faltando a estes povos em nosso cotidiano? Os terrorismos e atentados corriqueiros que praticamos passam despercebidos aos olhos. Para nós. São exemplos que desmontam qualquer pretensão de orgulho. jamais de aniquilação. de comida e água mesmo. Isso deve ser assim. Das diversas formas de violência que mantemos entre nós. nações mais novas. Quando paro para pensar nessas coisas. social na acepção da palavra. fica o desespero de ver que o tempo não ensinou o suficiente para eles. estaríamos a ver dois senhores bem idosos. A filantropia pessoa a pessoa não vai resolver assuntos que precisam de um movimento coletivo. assistimos nações com milênios de existência usando a fé de seu povo para incitar o suicídio criminoso dos atentados. para tanto. Estaremos sendo meio palestinos ou judeus com nossos entes queridos ou com aqueles estranhos que nada nos dizem. estendemos a longevidade humana. contra o abuso. [. com grande sabedoria.. Eles que se explodam”. Vemos homens. não comentadas pelos órgãos competentes para não alarmar a população. E também estamos dando seguimento a diversas tiranias. mesmo sem ter descoberto o que fazer com isso. nossas convicções. Fizemos clones de seres vivos. Podemos atravessar a vida inteira repetindo ineficientes tréguas com nossos defeitos. além de justiça. vivendo num planeta com fome e sede. Na magnífica obra Por quem os sinos dobram. Existindo uma guerra. postergando uma solução definitiva. pois mostram o lado animal selvagem que temos.] Diante dos fatos de nossas vidas quase sempre tomamos uma posição. Fundamental.

Combinados. os dois termos correspondem aos elementos culturais que compõem a identidade de um grupo social. Seria possível ressignificar a expressão “programa de índio”? Como? c) Tomando como exemplo o seu ambiente de trabalho ou o local em que você estuda. econômicas e culturais que o texto apresenta. por exemplo. utilizando o conceito de “etnia” para afirmar positivamente as diferenças. Considerando o que vimos até agora nesta disciplina. Desejo que todos caminhem em busca de um Acordo de Paz definitivo. afirma-se como um mecanismo afirmativo de identidade. ou seja.htm>. no texto Somos judeus ou palestinos?. João Antonio. As relações étnicas que se estabelecem no Brasil – com a ignorância. iremos perceber que somos todos judeus e palestinos. qual o significado de expressões como “programa de índio”? b) Refletindo sobre as palavras de Marcos Terena. Pensando nisso.realidade. Síntese Você estudou: O conceito de “etnia” estabelece uma relação com o sentido de “etnicidade”. destaque algumas das questões sociais. […] WIEGERINCK. 2. discuta o posicionamento de João Antonio Wiegerinck. a respeito da coexistência étnica entre judeus e palestinos. descreva como essas questões podem ser abordadas e contribuir para a percepção das diferenças com base nos aspectos que estamos discutindo nesta disciplina. A simples substituição da palavra “raça” por “etnia” é insuficiente. pois os termos não são sinônimos. Atividades 1. você acha possível ser outra pessoa sem deixar de ser quem é? Como isso pode acontecer? 3. ao estabelecer os marcadores culturais de um grupo social. responda às questões: a) No que se refere à exclusão social. na leitura complementar.com. a intolerância às diferenças e a manutenção do poder de certos grupos prestigiados – cunharam expressões como “programa de índio”.br/colunas/wiegerinck/ coluna2001set14. o conceito de “etnia” é insuficiente para compreender as questões relativas ao racismo. Acesso em: 25 fev. 2008. A etnia. Além disso. Disponível em: <http://www. Somos judeus ou palestinos?.sampaonline. Por meio de um texto. 104 .

clacso.htm>. Marcos. Somos judeus ou palestinos? Disponível em: <http://www. Sociologia. George. O GLOBO ONLINE. pdf>. A utopia brasileira: etnia e construção da nação no pensamento social brasileiro. 2008. Disponível em: <http://oglobo. 2008.com.afropress.br/ reportagens/negros/11. ZARUR. 2005.shtml>.globo. Acesso em: 25 fev. Disponível em: <http://bibliotecavirtual.comciencia. Acesso em: 8 abr.Estudos Culturais – Capítulo 3 Referências GIDDENS. sampaonline. Anotações 105 . 2008. Tudo está na natureza. 2008.asp>.com/ colunistasLer. WIEGERINCK. Acesso em: 7 jan.br/colunas/wiegerinck/coluna2001set14. IANNI. Disponível em: <http://www. Porto Alegre: Artmed. Aulas sobre a história e cultura indígena passam a ser obrigatórias nas escolas. TERENA.org. ed. Anthony. João Antonio.com/educacao/mat/2008/03/11/aulas_sobre_historia_cultura_indigena_passam_ser_obrigatorias_nas_escolas-426180474. Acesso em: 7 jan. Octavio. 2008. 4.ar/ar/libros/brasil/flacso/zarur. Disponível em: <http://www. Acesso em: 4 abr.asp?id=89>. Brasil negro: a questão racial.

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