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Série Cris

O Amor Pode Esperar

Título original: Seventeen Wishes


Tradução de Elizabeth Gomes
Editora Betânia, 1998
Digitalizado por hezinhah
Revisado por deisemat
WWW .PORTALDETONANDO.COM.BR/FORUMNOVO/
O AMOR PODE ESPERAR
9

ROBIN
JONES
GUNN

Para Ethel Herr, que com sua vida me ensinou que, por mais que
amemos, nunca estaremos amando demais.
E para o grupo The Parts of Speech Critique, com recordações
maravilhosas dos anos em que nos sentamos à mesa de Ethel.
Eu pensava que estivéssemos aprendendo a escrever. Agora sei que
aprendíamos como o amor é quando se reveste de graça.
Agir com Naturalidade

- Tem certeza de que falou para os meninos que vínhamos hoje à tarde? perguntou a

ruiva Katie Weldon à sua melhor amiga, Cris Miller, enquanto subiam as escadas do

prédio de apartamentos.

- Claro! Eu disse ontem ao Ted que sairíamos logo após o culto. Ele falou que

levaríamos cerca de uma hora para chegar aqui, respondeu Cris, que com suas pernas

compridas subia dois degraus de cada vez. Ele deu instruções bastante claras. Tenho

certeza de que é aqui.

- Número 12 é lá no final, apontou Katie.

A garota assumiu sua costumeira postura de atleta, e bateu à porta. Ninguém

atendeu. Ela fitou os olhos azul-esverdeados de Cris como quem pergunta: “E agora? O

que é que vamos fazer?”

Cris mordeu o lábio inferior, olhando para o pedaço de papel em sua mão.

- Sei que o endereço está certo. Bata de novo, mais alto.

Katie bateu mais forte e chamou:

- Ei, Rick! Douglas! Ted! Chegamos!

Nenhuma resposta.

Cris afastou da testa o cabelo cor-de-noz-moscada e olhou, desconfiada, pela janela.

Pelo que podia ver, não havia ninguém.


- E agora, o que é que a gente faz, Katie?

- Vai ver que eles estão tentando passar um trote na gente. Eles sabem o quanto foi

difícil você convencer seus pais a permiti-la vir a San Diego. Provavelmente estão

querendo nos assustar. Sabe como é, né? os caras da universidade, tudo bicho granclinho,

dando um susto nas meninas do colegial. Brincadeira velha.

Ela parecia tão confiante em sua resposta, que Cris quase acreditou. Mas Katie

parecer confiante era coisa normal.

- Será que devíamos procurar um telefone e ligar para eles? sugeriu Cris.

- Abaixe a voz! Se estiverem aí dentro, podem ouvir o que estamos dizendo,

comentou Katie.

- Pois acho que não estão aqui. Talvez tenham dado um pulo ao supermercado, ou

algo parecido.

Lá embaixo, Cris notou uma quadra de cimento com uma piscina, e algumas

espriguiçadeiras em volta.

- Vamos até a piscina esperá-los?

Katie examinou a situação, os vivos olhos verdes buscando achar algum sinal de

vida no condomínio.

- Não lhe parece estranho, sussurrou, não ter ninguém aqui, num lugar que devia

estar abarrotado de universitários?

Cris começava a ter arrepios.

- Vamos lá para perto da piscina. Pelo menos não vamos ficar com jeito de gente

perdida, de malas à porta deles.

- Ah é! Vamos dar um jeito de parecer bem naturais ao lado da piscina, de jeans e

segurando as malas. Se alguém de outro apartamento nos vir, vai pensar que somos

meninas de rua e aí chama a polícia, esbravejou Katie, seguindo Cris escada abaixo até a
piscina.

- Então vamos colocar as malas de volta no carro.

- Boa idéia. Estou me sentindo uma órfã. Por que nos deixariam assim, sem avisar?

Eu achava que pelo menos um deles deveria ter lembrado de deixar um bilhete ou coisa

parecida.

As duas garotas pararam junto ao porta-malas do carro de Katie, enquanto ela

procurava a chave.

- Eu lhe entreguei a chave?

- Engraçadinha! Claro que não. Pare de ficar mexendo aí, e abra o porta-malas.

- Não estou achando a chave.

Cris suspirou.

- Será que deixou no carro?

As duas olharam pela janela da frente e viram a chave na ignição. Claro que tinham

trancado todas as portas.

- Ótimo, Katie! Genial! Agora, que é que vamos fazer?

- Calma, relaxe. Isso já me aconteceu antes. Só preciso de um cabide de arame.

- E onde é que vamos arranjar o tal cabide?

- Vamos tentar aquela caçamba de lixo lá em frente.

Abriu o portão que dava acesso à área do lixo e começou a remexer.

Cris ficou parada perto do carro, vigiando as malas, sentindo-se nervosa. Agora, com a

Katie remexendo o lixo, realmente pareciam duas maltrapilhas.

A gente esperava curtir um fim de semana legal em San Diego, aproveitar o feriado

para assistir ao estudo bíblico dos “Amigos de Deus” e conhecer o zoológico daqui;

depois dar um giro pela cidade, relaxar um pouco, mas já começou tudo errado. Tá

ficando uma droga!


- Achei! gritou Katie, erguendo um cabide.

Uma casca de banana podre estava grudada no seu braço.

- Ótimo! Agora, é bom deixar o resto do lixo na caçamba.

Katie sorriu vitoriosa, sacudiu fora a casca e endireitou o cabide. Animadamente,

contou para Cris a história da última vez em que trancara a chave dentro do carro.

- Eu estava no trabalho e tive de ir aoshopping, entrar numa loja de roupas e pedir

que me dessem um cabide. Daquela vez calculei como faria a dobra na ponta, da maneira

certa para alcançar a trava aí. Ainda bem que meu carro é velho. O seu não tem essas

travas antigas. A gente ficaria sem saída, se fosse no seu.

Cris desviara a vista para o lado, ciente de que agora pareciam mesmo essas meninas

de rua que remexem lixo e roubam carros.

- Dá pra andar mais depressa, Katie?

- Estou quase conseguindo, disse, remexendo o arame com cuidado e manobrando a

ponta dobrada sobre o botão de travar o carro. Tinha a língua um pouco para fora, e

apertava os olhos.

Cris teve a sensação de que Katie se divertia com um daqueles jogos em que a gente

tem de manobrar uma manivela de metal, dentro de uma gaiola de vidro, para pegar um

bicho de pelúcia. Cris nunca se dera bem nesse jogo. Já fazia tempo que desistira de tentar

- poupava seu dinheiro.

Katie, não. Sempre enfrentava os desafios. A qualquer hora, em qualquer lugar.

- Está quase, suspirou ela, por entre os dentes cerrados, apertando o rosto contra o

vidro do carro, implorando que a ponta agarrasse no botão preto.

- Ei! gritou uma sonora voz atrás delas.

Elas se viraram, surpresas. E mais surpresas ficaram ao ver que a voz era de uma

moça miúda, de origem oriental.


- Vocês são amigas do Ted? perguntou.

Estava com uma sacola de compras no braço e, aparentemente, viera a pé, o que

explicava por que as meninas não lhe ouviram os passos, ao chegar. Seus cabelos negros,

compridos e sedosos, cobriam os ombros, e ela tinha um sorriso delicado.

- Sim! respondeu Cris, afoita.

E sentindo-se na obrigação de explicar o que estavam fazendo, acrescentou:

- Trancamos a chave dentro do carro e estamos tentando abrir.

Katie continuou relatando a aventura.

- Fomos até o apartamento dos meninos, mas não tinha ninguém. Pensamos que

talvez estivessem nos pregando uma peça; coisa deles. Como não saíram para nos

assustar, resolvemos guardar as malas no carro.

A moça ouvia-lhes atenta a explicação que, nervosas, iam dando.

- Foi aí que descobrimos que havíamos trancado o carro com a chave dentro, disse

Cris.

Súbito, pareceu-lhe que estivessem agindo como duas colegiais inexperientes,

matraqueando na frente de uma jovem universitária independente. Cris baixou o tom de

voz e tentou parecer mais calma.

- E então, você sabe onde eles estão?

- No hospital.

Cris sentiu como se alguém lhe tivesse dado um soco na barriga, expulsando todo o

ar do pulmão. Conseguiu fôlego apenas para perguntar:

- Foi o Ted? Ele está bem?

- Foi o Rick, respondeu a garota.

O aperto no pulmão aliviou um pouco, e Cris suspirou.

- Rick?! perguntou Katie, parecendo que uma mão invisível tinha acabado de
agarrar-lhe o coração. Ele está bem? O que aconteceu?

- Tenho certeza de que vai ficar bem. Machucou o braço quando os rapazes se

exercitavam na piscina hoje à tarde, Estavam dando saltos do trampolim, e o Rick dirigia

uma espécie de competição. Ele torceu o braço.

- Típico do Rick, disse Cris baixinho.

- E melhor irmos para o hospital, disse Katie, voltando com urgência à tarefa de

retirar a chave. Sabe onde é?

- Acho que não vai adiantar muito vocês irem. O Ted e o Douglas o levaram há mais

de uma hora. É provável que eles voltem antes de vocês conseguirem chegar lá.

- Consegui! exclamou Katie, abrindo a porta e retirando a chave. Tem certeza que

não devemos ir pra lá?

- Podem ir, se quiserem. Mas acho que eles estarão de volta a qualquer momento. Ou

vocês podem ficar aqui comigo e me ajudar a fazer o jantar. Eu disse a eles que faria uma

tremenda macarronada para recebê-los quando chegassem.

Cris virou-se para Katie, que ainda parecia preocupada, e disse:

- Do jeito que as coisas andaram esta tarde, acho que não devíamos sair dirigindo

por aí, tentando encontrar o hospital. Acho melhor a gente ficar por aqui e dar uma mão

à... parou, percebendo que não sabia o nome da moça.

- Meu nome é Stephanie, completou a outra. E você deve ser Cris. Ouvi muito a seu

respeito.

Cris sentiu um calor no rosto.

- E esta é a Katie, disse.

- Por acaso você ouviu falar alguma coisa a meu respeito, digamos, talvez da parte

do Rick? perguntou Katie.

Stephanie deu um sorriso delicado e misterioso. Seu rosto lembrava a Cris uma
pequena e rosada flor de macieira.

- O Rick sempre tem muito a dizer sobre tanta coisa! Talvez ele tenha mencionado

você.

Cris olhou para Katie preocupada, imaginando como sua amiga receberia uma

resposta assim. Um certo relacionamento surgira entre Rick e Katie no Desfile das Rosas,

no Ano Novo, mas isso fora há cinco meses. De lá para cá, Katie desejava aprofundar

aquela amizade, mas não estava conseguindo fazer com que Rick se tornasse mais íntimo

dela. Este final de semana seria o teste. Cris notou que Katie ficara chateada ao saber que

Rick não a havia mencionado da forma como o Ted falava de Cris. Mas Ted e Cris, é bem

verdade, tinham quase dois anos de convivência.

- Então a gente fica, decidiu Katie, trancando a porta novamente, dessa vez com a

chave na mão.

- Tragam as malas, disse Stephanie. Vocês duas vão dormir comigo hoje. Meu

apartamento é o dez. Duas portas antes do manicômio.

- Obrigada por nos deixar dormir no seu apartamento, disse Cris. O Ted disse que

nos arranjaria lugar com uma das meninas do condomínio. Estou contente por ter sido

você quem veio ao nosso encontro.

- Está bastante calmo por aqui, explicou Stephanie na volta ao seu apartamento. As

aulas acabaram há mais de uma semana, e quase todo mundo já foi para casa, de férias. Eu

trabalho no mesmo restaurante que os meninos, o “Blue Parachute”. Já contaram pra

vocês?

Cris acenou que sim. Katie se sentiu um pouco por fora. Ouvira falar do “Blue

Parachute”, mas foi a Cris que lhe falou a respeito.

Stephanie abriu a porta do apartamento.

- Quando pegamos o emprego no restaurante, todos concordamos em ficar até junho,


quando o pessoal que trabalha no verão vier nos substituir. Aqui estamos, anunciou,

abrindo a porta e revelando um apartamento agradável e decorado com gosto. Bem-vindas

ao meu humilde lar. Fiquem à vontade. Minha colega de apartamento foi embora ontem.

O quarto vazio é todo de vocês.

Cris e Katie levaram suas malas ao quarto à direita. A única coisa que havia ali era

um abajur no canto.

- O Ted não nos disse que devíamos trazer sacos de dormir, cochichou Cris.

- Vou perguntar ao Rick se ele nos empresta o dele. Talvez a Stephanie também

tenha um.

Uma música clássica, de tom suave, flutuava pelo ar e, seguindo o som, as meninas

chegaram à sala de estar, onde Stephanie ligara o estéreo.

- Seu apartamento é bem legal, disse Cris, olhando o sofá de listas azuis e brancas,

os lustres cobertos com tecido florido azul e cor-de-pêssego, e uma variedade de quadros

bem interessantes.

Um dos quadros maiores chamou a atenção de Cris. Era uma jovem de longo vestido

cor-de-rosa, rendado, o cabelo preso no alto, semelhando uma nuvem. A julgar pelo

jardim, parecia verão, e a moça estava sentada num banco, olhando, sonhadora, para o

mar.

- Amei esse quadro! exclamou.

A cena despertou algo dentro dela. Era a lembrança de outro tempo, outro lugar.

Recordava um tempo em que as mulheres eram louvadas por serem femininas e

sonhadoras, e um lugar em que se tomava chá e usava guarda-sóis e longas luvas de renda,

que elas calçavam quando caminhavam pelo jardim.

Acho que nasci com um atraso de cem anos.

- Obrigada, disse Stephanie, da cozinha, onde guardava as compras. Vocês querem


tomar alguma coisa? Conhecem chá gelado de ginseng?

As meninas fizeram uma careta e foram com cautela até a cozinha.

- O que você tiver está ótimo, disse Cris polidamente.

- Por acaso você tem Coca ou Pepsi? arriscou Katie.

- Não, mas tenho certeza de que os meninos devem ter. Estou com a chave deles.

Querem ir até lá pegar um refrigerante?

- Tem certeza que a gente pode? perguntou Katie.

- Eles nem ligam. Me deram a chave porque ficam se trancando do lado de fora. As

vezes aqueles caras parecem Peter Pan e os meninos perdidos, e acham que eu sou sua

Wendy.

Cris gostava da Stephanie. Parecia muito delicada. Havia nela um ar cosmopolita

que a deixava curiosa.

- Vamos lá! Vamos invadir a geladeira deles. Vai ser divertido! exclamou Katie.

Stephanie entregou-lhes a chave. Quando Cris a introduziu na porta, olhou por cima

do ombro para certificar-se de que ainda não tinham voltado.

- Você não tem a sensação de que está invadindo a casa dos outros? perguntou à

Katie.

- Claro, e estou me divertindo! Vamos colocar as cuecas deles no freezer, ou coisa

parecida!

- Katie!

- O quê? Foi só uma sugestão.

- De onde você tirou essa idéia? indagou Crís, enquanto empurrava a porta e as duas

corriam o olho pelo aposento.

- Olha só que bagunça! exclamou Cris.

As duas espiãs entraram devagar e observaram o quadro todo.À direita, na área da


cozinha, havia cadeiras de armar junto a uma mesa pequena com uma caixa de flocos de

milho pelo meio. Sobre a mesa, havia também três tigelas com restos de leite azedo. Uma

Pepsi litro pela metade estava ao lado da caixa.

- Eu me sinto como a “Cachinhos Dourados”, sussurrou Cris.

- Eu também, concordou Katie, rindo-se. Vamos ver onde dormem os três ursos.

- Katie!

- Não vou mexer nas roupas deles, juro. Estava só brincando. Estou curiosa.

Passaram pela sala, que tinha um longo sofá marrom, uma poltrona grande de tecido

xadrez, um pequeno televisor equilibrado precariamente sobre uma estante feita de tijolos

de cimento e tábuas, e um velho baú coberto de revistas de surfe, que servia como

mesinha de centro.

- Muito elegante, brincou Katie. Decoração sempre popular, “relaxado, estilo

antigo”.

Cris notou a prancha de surfe do Ted no canto da sala, servindo agora para pendurar

os casacos.

- Este aqui deve ser o quarto do Rick e do Douglas, disse Katie, olhando a porta

entreaberta à direita.

Havia duas camas desarrumadas, junto às paredes. O chão estava coberto de roupas,

livros, embalagens vazias de batatas fritas e um Frisbee* amarelo-néon. Havia também

uma bicicleta, atrás da porta, e um violão no canto, com o boné do time de beisebol

Padres equilibrado na ponta.

____________________

* Frisbee: um brinquedo que consiste de um disco de plástico que geralmente se

joga na praia. (N. E.)


- Como você sabe?

- Fácil! O violão é do Douglas, e a bicicleta do Rick.

- O Ted também toca violão.

- É, mas isso aqui não está parecendo quarto do Ted. Vamos lá. Vamos ver como é o

quarto de um rato de surfe!

Cris ficou indecisa, sem saber se acompanharia Katie ou não. Douglas e Rick

estavam entre os rapazes que mais elegantemente se vestiam, que ela conhecia. Se viviam

num lugar tão bagunçado e se apresentavam tão bem arrumados em público, como seria o

quarto do “Sr. Tranqüilão”?

- Cris! Venha ver!

Cris olhou para dentro do quarto do Ted, mas não acreditou no que via. O quarto

estava limpíssimo.

- Você realmente acha que este é o quarto do Ted?

- O que é isso? perguntou Katie, apontando para uma caixa esquisita no meio do

quarto.

A poucos centímetros do chão, a grande caixa de madeira tinha uma superfície

ondulada e estava coberta com um lençol. Na ponta havia um cobertor dobrado

cuidadosamente.

- É muito pequeno para ser colchão de água.

Katie remexeu a substância embaixo do lençol.

- Parece... puxou uma ponta do lençol e anunciou: e é. É areia mesmo. Não acredito!

Cris participou do exame e apalpou o colchão todo especial de Ted, que era mesmo

uma grande caixa de areia. Katie começou a rir.

- Só o Ted para dormir numa caixa de areia, gatinho gigante!

- Aposto que é bastante confortável, defendeu Cris de imediato. Depois de dormir na


praia no Havaí durante a competição de surfe, provavelmente ele se sente melhor sobre a

areia do que num colchão comum.

Katie virou-se para a amiga e sorriu, os grandes olhos verdes dançando de alegria:

- Como eu lhe disse, só mesmo o Ted!

Cris notou uma série de retratos e pôsteres na parede, atrás da cama. No centro havia

o pôster duma queda d’água de Maui onde Ted, Cris, sua amiga Paula e seu irmão David

tinham passado um dia no último verão. Os outros três eram fotos de surfe. Meia dúzia de

fotografias cercavam os pôsteres, todas tacheadas na parede.

- São todas de você! Olhe aí, Cris, todas são fotos suas!

Cris ficou surpresa. Em todos esses anos ela só mandara algumas fotos para o Ted,

mas nunca imaginara que ele as guardasse ou as pusesse em lugar de tanto destaque.

- Essa não é sua foto da oitava série? perguntou Katie, apontando para um retrato de

tamanho oficial em cima das outras.

- Ah não, olhe só! E ainda do tempo do primeiro colegial! Eu não estava com cara de

boboca? Devo ter mandado essa logo depois que nos conhecemos, quando fui para o

Wisconsin. Ele foi embora de Newport na mesma época, morar com a mãe dele na

Flórida.

Katie olhou de perto a pequena foto, e disse:

- Só posso dizer que você melhorou com o passar dos anos.

Cris riu-se da sua expressão infantil na foto. Na época, tinha cabelo comprido, quase

até a cintura, que caía liso, natural.

- Esta aqui deve ter sido na época em que você se mudou para Escondido, quando eu

a conheci. Olhe só como era diferente, com cabelo curto e franjas! Estava curto demais, na

minha opinião. Gosto do seu cabelo do jeito que está agora.

Cris vinha deixando o cabelo crescer desde aquela época, quando a tia a convenceu
de cortá-lo bem curto, antes do seu segundo ano do segundo grau. Agora, quase

terminando o terceiro ano, estava passando dos ombros, e as franjas cobriam as orelhas.

- Não acredito que o Ted tenha todas essas fotos. Nem me lembrava de ter tirado

algumas. Mas desta eu me lembro, falou Cris, apontando para um instantâneo dos dois na

cachoeira havaiana do pôster.

- Escute. Será que eles estão chegando?

Cris ouviu passos pesados no corredor, fora do apartamento. As duas se puseram a

escutar as vozes masculinas que se aproximavam.

- Você acha que eles vão primeiro para o apartamento da Stephanie?

- Por quê? Não sabem que chegamos. Parece que estão entrando. Rápido, esconda!

Katie correu para o armário do Ted. No momento em que o abriu, um monte de

roupas e bugigangas caiu, cobrindo-a com calções molhados e uma chuva de areia.

- Ai!

- Shh! Estão entrando! falou Cris.

Rapidamente Katie enfiou as roupas de volta no móvel e indagou:

- Que vamos fazer?

- Aja com naturalidade, disse Cris, totalmente parada no meio do quarto do Ted, as

mãos às costas e um sorriso nervoso estampado no rosto.

Ouviram abrir a porta da frente do apartamento. Um dos caras exclamou:

- Ei! Estava destrancada! Tem alguém aí?

- O que é que devemos dizer? perguntou Katie, baixinho.

Ficou ao lado de Cris, como se fosse seu reflexo no espelho, as mãos às costas, cara

de boba.

Cris notou pelos passos que os três ursos estavam prestes a descobri-las. Não havia

como ter outra cara a não ser de boba.


- Pense em alguma coisa, Katie, rápido!

O Boneco

Ao perceber que eles vinham pelo corredor em direção ao quarto do Ted, Katie,

espirituosa como era, gritou:

- Surpresa!

- Surpresa! gritou Cris também.

Viu Ted esbugalhar os olhos azul-prateados. Ele começou a rir-se e, com dois passos

de gigante, abraçava-se a Cris, que lhe retribuiu o carinhoso gesto, a orelha colada ao seu
peito, ouvindo-lhe de dentro o ressoar da risada. Ela ficou a imaginar se ele podia sentir-

lhe o coração, batendo a ponto de quase saltar do peito.

- Mas que surpresa, gente! disse Ted, dando um abraço rápido em Katie.

Passou os dedos por seus cabelos loiros, queimados do sol. Eram curtos na frente e

mais compridos atrás, com pequenas ondas que lhe tocavam a nuca queimada de sol.

Em seguida, Douglas e Rick também abraçaram as meninas. Havia muitas

explicações e risos de simpatia, sobretudo por parte de Katie, quando viram o punho

enfaixado e o braço de Rick na tipóia.

- Então, a Stephanie já sabe que vocês chegaram? perguntou Douglas. Ele era um

pouco mais alto que Ted, mas não tanto que alcançasse os dois metros do Rick.

Vendo os rapazes juntos, Cris percebeu que Rick era o mais bonito dos três. Seu

cabelo escuro, ondulado, os olhos castanhos profundos e seu corpo de atleta tinham sido a

obsessão de muitas garotas na escola, inclusive dela. Não era de admirar que Katie não

conseguisse tirá-lo do pensamento. Em qualquer lugar, em qualquer situação, sua

aparência atraía todas as atenções.

Se Cris não o tivesse namorado por algum tempo e conhecido alguns aspectos

menos agradáveis de sua personalidade, talvez tivesse o mesmo olhar de admiração por

ele com que Katie o fitava. Mas Cris escolheria o Ted ou o Douglas a qualquer hora, em

lugar do Rick. Sabia que Katie teria de tirar suas próprias conclusões sobre o assunto,

como ela tinha tirado.

- Viemos arrombar sua geladeira à procura de um refrigerante, explicou Katie, os

cabelos cor-de-cobre saltando com ela. Só que resolvemos fazer uma inspeção nos quartos

primeiro. Ficamos contentes em ver sua caixa de areia de gatão tão limpa e em ordem. Só

uma pergunta: cadê o gato?

Douglas começou a rir-se de Katie, que apontava para a cama do Ted como se fosse
um modelo para show de prêmios.

O rapaz tinha uma aparência asseada, com cabelos loiros cor-de-areia que pareciam

sempre ter sido cortados naquele instante. Era atraente com sua cara de garotão, e

aparentava menos que seus vinte anos. Era o mais afável dos três e conhecido pelos

abraços, que distribuía com generosidade.

- Pode experimentar, disse Ted a Katie. Deite-se nela e veja se não é confortável.

Katie, uma personalidade “topa-tudo”, deitou-se na cama de areia à frente de todos.

Mexeu com as costas até obter o apoio perfeito. Cruzando os braços sobre o estômago,

disse:

- Está certo, você me convenceu. É a cama perfeita. Foi você que inventou isso,

Ted?

- Não é tão difícil assim, respondeu. Umas tábuas, uns sacos de areia e um cobertor.

Acho que o Registro de Patentes não reconheceria nela um invento verdadeiro.

- Vocês não entraram no nosso quarto, entraram? perguntou Douglas.

As duas se entreolharam, e Cris disse:

- Prometemos nunca contar para os outros!

- Não falei que deveríamos ter arrumado lá primeiro? disse Douglas para o Rick,

com o canto da boca. O Ted é que foi inteligente.

- O que você quer dizer? disse Rick. Ele simplesmente enfiou tudo no armário.

- Podíamos ter feito o mesmo, disse Douglas. E assim causaríamos uma boa

impressão nas damas.

- Se eu quiser impressionar alguém, disse Rick, todo orgulhoso, terá de ser com

meus outros atributos, não minhas habilidades como “dono de casa”.

- Tá na cara, murmurou Katie, baixinho.


- Olha que eu ouvi! disse o rapaz.

Cris olhou atenta para ver se havia alguma coisa entre eles.

- E com qual de seus grandes atributos você vai começar? perguntou Katie,

levantando-se da cama de areia. Talvez sua maravilhosa coordenação no trampolim?

- Não. Minha habilidade de desequilibrar as garotas, replicou.

Enquanto falava, Rick deu um empurrãozinho em Katie, com a mão que não estava

machucada, e ela caiu de volta na cama; isto é, caixa de areia. A moça deu uma olhada

feia para ele, mas Cris notou que na verdade ela se sentia honrada de ter sido alvo de uma

brincadeira dele.

- Ted, perguntou Katie, sentada na areia, posso mostrar ao seu colega de apartamento

um punhado da sua cama? Bem na cara?

- Você é quem decide. Eu vou ver se a Stephanie precisa de ajuda para fazer a

macarronada.

- E eu vou junto, acrescentou Cris.

- Estou com vocês, disse Douglas. O que vocês queriam? Refrigerantes e o que

mais?

Cris e Ted seguiram Douglas até a cozinha, deixando Katie e Rick a sós. Podiam

ouvir a voz abafada de Katie mexendo com o rapaz e as risadas que se seguiam. Até aqui,

tudo bem.

Douglas abriu a velha geladeira amarela, tirou uma garrafa de 7-Up e outra de Pepsi.

Tudo mais que se encontrava na geladeira parecia encaixar-se bem na família dos fungos

da penicilina.

- Vocês não limpam esse troço, não? indagou Cris.

- O Ted limpou, não foi mesmo? Umas duas semanas atrás, acho. É que todos vamos

nos mudar daqui semana que vem. Aí a gente joga tudo fora.
Ted se achava de pé ao lado da mesa, sacudindo a caixa de flocos de milho e

olhando dentro.

- Vocês já encontraram o brinquedo?

- Acho que não, disse Douglas. E o que é dessa vez?

- E uma figura de plástico que se fixa na vidraça da janela e vai descendo, andando

nela, respondeu Ted, enfiando a mão na caixa e sorrindo.

Dava para notar, pelo jeito como a covinha dele aparecia na bochecha, que ele

encontrara o “tesouro” e estava muito contente.

- Olhe só, disse Ted, rasgando com os dentes o envólucro de plástico transparente e

atirando a figura contra a janela. É um bonequinho.

E realmente o bonequinho andou! Uma fileira de minúsculas ventosas grudou na

janela lisa e lá ficou por um momento. Mas logo depois se soltou, e a fileira seguinte se

prendeu nela. Dava a impressão de “caminhar” no vidro, descendo.

- Legal, disse Ted, enfiando o tesouro no bolso do short. Vocês estão prontos?

- Estamos, respondeu Rick, aparecendo na sala com Katie, prendendo-a por baixo do

seu braço bom. Com a mão enfaixada, beliscou a bochecha da garota.

Cris teria ficado furiosa se o Rick a tivesse tratado desse jeito. Mas Katie dava sinais

de que chegara ao céu. Quem sabe eles se darão bem, pensou ela.

O grupo saiu pela porta e Cris notou numa prateleira um vidro grande de maionese,

cheio de moedas até a metade. Douglas lhe falara sobre o vidro. Eles juntavam dinheiro

para um menino de dez anos, chamado Joabe, do Quênia, que eles apadrinhavam. Cris

tinha visto uma carta que o garoto escrevera aos rapazes, aos cuidados do Douglas. Sabia

também que o Douglas andava com uma foto do Joabe na carteira e mostrava para os

outros como se fosse um orgulhoso irmão mais velho.

- Douglas, adivinhe uma coisa! disse Cris quando Ted trancou a porta e os dois
seguiam, pelo corredor, atrás de Rick e Katie que lhe oferecia o ombro como suporte.

Escrevi para aquela organização através da qual você se tornou padrinho do Joabe. Eu e

minha família estamos apadrinhando uma menina de quatro anos do Brasil. O nome dela é

Ana Maria. Nunca lhe agradeci as informações que você me deu. Então, obrigada!

- Maravilha! exclamou Douglas, dando um rápido abraço em Cris. Não é

surpreendente como a gente pode ajudar essas crianças dando tão pouco?

- Stephanie! gritou Rick à porta do apartamento dez. Abra aí! É o Rick Maravilha.

Vim receber sua atenção.

- É, certo, disse Stephanie, abrindo a porta e fingindo-se indignada. Como se eu lhe

desse alguma coisa, quanto mais atenção!

Rick soltou Katie e entrou no apartamento, continuando a brincar com a Stephanie,

como se Katie não existisse.

- Não vai dar um beijinho para sarar? perguntou, estendendo o braço enfaixado para

ela com uma expressão de cachorrinho ferido no rosto bonito.

- No dia em que os bois voarem! retrucou Stephanie.

Então Rick passou o braço sobre o ombro de Stephanie e entrou na sala, ainda

implorando sua compaixão.

Ah não, cuidado, Katie! Quando você coloca o coraçao na beira do muro, nao

demora muito para que ele tombe e espatife que nem ovo.

Katie não parecia incomodar-se. Foi até a cozinha e remexeu a panela de molho de

macarronada, como se lhe tivessem pedido para cuidar dela. Cris admirou ainda mais a

sua capacidade de recuperação.

- Trouxemos refrigerantes, disse Douglas, mostrando as duas garrafas a Stephanie

antes de colocá-las na mesa.

- Quer que eu acabe de preparar o pão de alho? Perguntou Ted, pegando a faca e
fatiando a baguete a partir do ponto em que Stephanie havia parado.

- Claro, replicou a moça dando as costas para o Rick, com ar de desprezo, e foi para

a cozinha,

- Cris, você me ajuda a terminar a salada? pediu.

Ted, Stephanie, Cris e Katie trabalhavam juntos na pequena cozinha enquanto

Douglas e Rick, sentados no sofá, assistiam à televisão.

- É a segunda casa deles: minha tv, disse Stephanie para Cris, apontando os dois

rapazes. Se vocë quiser atenção dos rapazes do seu prédio, basta ser a única que tem o

canal esportivo da TV por assinatura.

- Vou me lembrar dessa, disse Katie, ajudando o Ted a embrulhar o cheiroso pão no

papel alumínio.

Abanou a mão como que para afastar o cheiro forte do tempero, e em seguida

indagou em tom sarcástico:

- Tem certeza que pôs alho o suficiente, Ted?

- É gostoso assim. Você vai ver. Minha receita secreta. Manteiga, maionese e muito

alho.

- E só três mil calorias por fatia, acrescentou Stephanie com uma piscadela, ao ligar

o forno e entregar uma assadeira a Katie para ela colocar o pão. É bom mesmo. Acredite.

O Ted já fez antes. É por isso que o papel de parede da cozinha começou a descascar.

Embora soubesse que Stephanie estava só brincando, Cris olhou para o papel de

parede. Não havia nada de errado. Todos os “coraçõezinhos” estavam muito bem

colocados.

Cris gostava do jeito como Stephanie usava figuras de coração para decorar a

cozinha. Adorou principalmente a cesta em formato de coração, pendurada acima da pia.

Fitas cor-de-pssego e azuis passavam pelos lados com um monte de flores de seda
embaixo. Apreciava coisas floridas assim, e imaginou como seria divertido se um dia

pudesse ter seu próprio apartamento e vir a decorá-lo.

Um pouco mais tarde, quando sentaram para comer, resolveu que ela teria cadeiras

de madeira de encosto reto, com almofadas de estampa florida à mesa da cozinha, do jeito

da Stephanie. E serviria as visitas em pratos azuis e brancos, iguais aos da jovem.

Realmente o pão estava delicioso, assim como a macarronada e tudo o mais. A

conversa continuava animada. Tudo nesse encontro fazia Cris sentir-se adulta e aceita no

círculo de amigos universitários. Era totalmente diferente de ter dezesseis anos e morar

em casa com seus pais e o irmão de onze anos.

Ah não! lembrou-se de repente. Prometi telefonar para eles logo que chegássemos.

- Posso dar um telefonema?

- Claro, tem um telefone no quarto.

Cris entrou no quarto de Stephanie e fechou a porta. Sentiu- se mal por ter

esquecido.

Quem atendeu foi sua mãe. Cris então explicou rapidamente sobre o fato de os

rapazes não estarem lá, a chave trancada no carro, Stephanie e o pulso destroncado do

Rick. Quando terminou, sentiu uma pausa desconfortável no outro lado da linha.

- Sério, mãe, foi o que aconteceu e por isso não me lembrei de ligar antes.

- Ah, sim! Acredito em você, filha. É que com tudo que anda acontecendo nas

últimas horas, não sei se estou preparada para todas as aventuras que você certamente

enfrentará até a hora de voltar para casa, amanhã à noite.

- Mãe, respondeu Cris, esforçando-se para passar à mãe a impressão de uma menina

madura e responsável, não precisa se preocupar com nada. Me desculpe por não ter ligado

antes. Está tudo bem e tenho certeza de que o resto da viagem vai ser sem atropelos.

Amanhã eu ligo antes de sairmos de volta para casa. Sou muito grata por você e o pai
terem deixado que eu viajasse para visitar meus amigos.

- Bem, divirta-se, e procure se lembrar de tudo que falamos.

- Vou me lembrar, mãe. Não se preocupe. Tudo vai dar certo.

Após desligar o telefone, Cris permaneceu sentada na beira da cama de Stephanie

por um momento. Sentia-se um pouco como o bebê do grupo, onde todos já tinham seu

próprio apartamento, menos ela e Katie. E os pais de Katie não só a tinham deixado fazer

o passeio como até emprestaram o carro com o tanque cheio e disseram para ela se

divertir. Katie não precisava ligar para avisar nada a eles.

Cris estava perfeitamente ciente do cordão invisível, porém sempre presente, que a

ligava aos pais. Quanto mais velha ficava, mais corda lhe davam, encorajando-lhe aos

poucos a independência, como nessa viagem a San Diego. Mas a corda invisível ainda a

mantinha atada a eles. Em situações como esta ela tinha de te1efonar, avisar, e a corda lhe

parecia muito apertada, amarrada em sua cintura.

De repente ela teve um pensamento ainda mais assustador. Logo, logo, vou fazer

dezoito anos. Estarei na faculdade e serei independente como a Stephanie. Como será que

me sentirei quando a corda for cortada?

Resolveu ser grata por esse laço enquanto o tinha. Sentia-se segura, sabendo que a

corda invisível que a atava aos pais estava intacta e firme. Em breve estaria totalmente

frouxa, perderia o nó.

Parece que Katie não tem nenhuma corda a prendê-la. Deve dar medo. É como se

não tivesse certeza de que alguém poderá puxá-la para perto, se ela for longe demais.

Juntando-se aos outros, Cris ajudou a tirar a mesa e a enxugar a louça. Douglas

lavava e Ted guardava.

- Veja como estão minhas mãos depois que usei este novo detergente para louça!

disse Douglas, numa voz fina, erguendo as mãos cobertas de sabão, imitando a
propaganda de televisão: Que tal a limpeza?

Passou um dedo na parte externa de um dos pratos, continuando o seu “comercial”.

- Espere. Tenho uma idéia! disse Ted, pegando o prato que Cris estava enxugando.

Tirou o boneco do bolso e o jogou no prato. Ele começou a descer pelo prato.

Douglas assoviou, aprovando.

- Excelente! Muito bom! Agora, experimente na geladeira.

Ted experimentou e o boneco andou de novo.

Mais assovios e vivas de Douglas. Cris entrou na brincadeira, aplaudindo também.

- A porta do forno, sugeriu Douglas desafiando-o.

Ele aceitou o desafio.

- Agora o verdadeiro teste: ele consegue andar no teto?

Ted jogou o boneco no teto. Grudou perfeitamente, mas não andou. Nem se mexeu.

Douglas se pôs a vaiar.

- O que vocês estão fazendo aí? gritou Stephanie da sala.

- São as olimpíadas do boneco, disse Douglas. E nosso melhor atleta agora está

parado.

- Eu desço ele, ofereceu-se Ted, puxando uma das cadeiras de almofadas floridas

- Não pise nisso! ralhou Cris. É chique demais para pisar.

- E o que você sugere? interveio Douglas. Esperar que a lei da gravidade resolva o

problema?

Cris teve uma idéia. Girou o pano de prato na mão e o jogou em direção ao teto, por

pouco não alcançando o brinquedo. Mas o pano produziu um som alto, de chicote.

- Boa idéia, disse Douglas, pegando outro pano na maçaneta da geladeira e

“chicoteando-o” no ar. Toma aí, seu boneco!

- Errou, disse Ted, pegando outro pano e fazendo mais uma tentativa.
Antes que Cris percebesse o que se passava, viu-se no meio de uma batalha de panos

de prato entre Ted e Douglas.

- Epa! Espere aí! Como é que fui parar no meio de vocês? gritou, tentando romper o

cerco.

Não conseguiu. Eles a haviam cercado mesmo.

Começou a devolver-lhes as “panadas”, mas eles tinham mais experiência no

assunto. De repente, ela enfiou as mãos na espuma de sabão da pia. Com um monte de

espuma branca na mão, olhou para Douglas e Ted, e desafiou:

- E agora, quem vai ser o primeiro?

Antes que Cris pudesse resolver a quem ensaboar, Douglas enfiou a mão debaixo da

sua e empurrou o monte de espuma na garota. Um pouco dela ficou em seu nariz.

Cris gritou e limpou a espuma dos olhos ainda a tempo de ver Douglas e Ted se

congratulando, batendo as palmas das mãos no alto. No momento que eles as baixaram, o

boneco também desceu em cima da cabeça dela.

- Tudo bem! disse Ted, tirando o brinquedo do seu cabelo. Boa tacada, Cris.

Naquele instante alguém bateu à porta. Rapidamente Cris removeu o sabão do nariz,

e nesse momento sete estudantes entraram no apartamento e cumprimentaram a todos.

Cris tomou o pano de prato da mão de Douglas e terminou a limpeza, envergonhada por

parecer tão infantil na frente dessas pessoas.

- Está tudo bem? perguntou Douglas, puxando-a para um canto da sala.

- Acho que sim. Consegui limpar tudo?

- Quase.

Douglas pegou o pano e limpou com cuidado debaixo do canto do seu olho direito.

Em seguida alisou em cima da sua cabeça onde o boneco aterrissara.

- Novinha em folha, anunciou, e tomando-a pela mão, continuou: Não fique


acanhada. Venha conhecer o nosso grupo “Amigos de Deus”.

Cris sorriu e cumprimentou as três garotas e os quatro rapazes que tinham acabado

de chegar. Tentou imaginar um jeito de gravar o nome de cada um.

Outra batida na porta, e mais duas garotas vieram juntar-se a eles. Uma era muito

bonita. Tinha o cabelo loiro em permanente, e usava um batom bem vermelho. Foi direto

ao Rick e logo compensou a falta de atenção do resto do pessoal para com ele.

Todos procuraram sentar-se, ou no chão ou numa das cadeiras da cozinha. Ninguém

disse que era hora de começar. Cada um se acomodou no seu lugar como se já estivesse

acostumado. Cris notou que Ted havia desaparecido, e ela não sabia onde sentar-se. Katie

estava do lado de Rick, no sofá, com a loira do outro lado e as amigas perto dela. Douglas

parecia estar no comando. Stephanie, sentada no chão, conversava com um dos rapazes.

Cris encontrou um lugar vazio junto à parede ao lado da porta da frente. Sobreveio-lhe de

repente a sensação de “estar sobrando”, algo que sempre lhe acontecia. Enquanto se

sentisse tomada desse sentimento, não conseguiria falar com ninguém. Mas estava numa

reunião de estudo bíblico. Deviam conversar com ela. Todavia ninguém a cumprimentou.

Ted voltou, trazendo seu violão e o de Douglas. Cada um puxou uma cadeira na

frente da televisão, levando alguns minutos para afinar os instrumentos.

Mais três garotas chegaram, e uma delas, usando camiseta da Universidade de San

Diego, se acomodou ao lado da Cris.

- Olá! Meu nome é Beth, disse a jovem.

- Cris, respondeu ela.

- Prazer em conhecê-la. Está nos visitando?

- Sim.

E foi só o que Cris conseguiu explicar, pois Douglas começava a reunião.

- Estou contente em ver todos aqui esta noite. Como sabem, a maioria dos “Amigos
de Deus” já foi embora de férias. Esta é nossa última reunião deste semestre. Acho que

seria bom a gente passar algum tempo agradecendo a Deus pelas coisas maravilhosas que

ele fez em nossa vida no ano que passou.

Ted começou a dedilhar o violão, e Douglas se pôs a tocar o corinho “Deus é

maravilhoso”. De alguma forma, Cris compreendeu que aquele era o corinho predileto do

Douglas, pois ele dizia sempre “maravilha” para tudo.

Ela cantou com a turma toda, surpresa de ver tantos universitários sentados ali,

cantando de coração aberto para o Senhor. Um cara na sua frente mantinha os olhos

fechados e os braços levemente erguidos, num gesto de louvor.

Não dava para Cris explicar, mas, ao ouvir aquele primeiro corinho, com o Ted

começando a orar em seguida, todas as suas defesas caíram por terra. As pessoas que se

achavam na sala eram cristãs como ela. Todas pareciam estar ali para adorar a Deus. Esses

universitários eram irmãos em Cristo. Mesmo que ela nunca mais os visse, iria passar a

eternidade junto deles no céu. Sentiu-se incluída na famiia de Deus.

Douglas passou a dedilhar outro cântico, que Cris não conhecia. Mas agora, em vez

de sentir-se por fora, fechou os olhos e inclinou a cabeça e se pôs a escutar os outros

cantarem:

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram,

nem jamais penetrou o coração humano

o que Deus tem preparado

para aqueles que o amam.

Durante duas horas, eles cantaram, oraram e conversaram sobre o que estava

acontecendo na vida de cada um. Então Douglas leu alguns versículos e falou sobre
esperar em Deus e confiar nele com relação ao futuro. Todos se mostravam atentos ao que

ele falava, sobretudo porque, a partir da semana seguinte, a maioria tomaria rumos

diferentes, de regresso a casa. Poucos sabiam que futuro os aguardava.

Por fim, Ted encerrou com uma oração, e todos se puseram a conversar. Cris,

aquecida pelo doce espírito do grupo, circulou pela sala e ficou conhecendo os que ainda

não lhe haviam sido apresentados. Ela nunca se sentira tão solta, tão à vontade para tomar

a iniciativa de conversar com os outros. Ficou surpresa de ver que não era assim tão

difícil.

- Quer vir tomar um café conosco? perguntou Beth. Vamos sair para lanchar. Sua

amiga Katie disse que vai conosco, e tenho certeza que a Stephanie também.

A animação que Cris sentira até ali esvaiu-se. Uma das coisas que prometera aos

pais, no tocante a essa viagem, fora não sair depois que escurecesse. Agora parecia uma

regra tão tola! Se eles estivessem presentes, certamente veriam que esses jovens eram

pessoas responsáveis. Assim mesmo, se ela saísse sem lhes pedir, estaria quebrando sua

palavra.

Talvez pudesse ligar, explicar a situação, e eles entenderiam e lhe dariam permissão

para sair.

Cris olhou o relógio na parede da cozinha. 9:45. Sabia que seus pais provavelmente

já estariam dormindo. Seu pai trabalhava num laticínio e tinha de sair de madrugada.

Habitualmente ia dormir antes mesmo que ela. Não seria bom ligar e acordá-lo para pedir

um favor como este. Mas, se não perguntasse...

- Nós vamos ao “Blue Parachute”, disse Katie, entusiasmada. Pegue sua bolsa e

vamos embora!

Ted estava conversando com algumas pessoas na cozinha. Se ela soubesse se ele iria

ou não, seria mais fácil decidir.


- Pronta? perguntou Douglas, aproximando-se. Todos nós vamos. Você quer ir no

carro do Ted ou comigo?

- Eu, eu não tenho certeza.

Cris detestava ter de tomar decisões como essa. Principalmente sabendo que,

qualquer que fosse a decisão, ela acabaria perdendo. Qual era pior: perder a consideração

dos novos amigos ou a confiança dos pais?


Elefantes, Macacos e Cobras

- Está certo. Eu vou, disse Cris, arrependendo-se da decisão impulsiva na mesma

hora.

Meus pais nunca vão saber, argumentou consigo mesma. Eu não vou contar. Só

vamos a um restaurante. O que poderia acontecer? Eles deixariam se conhecessem esse

pessoal.

- Tenho lugar, disse Ted para Douglas e Cris, se quiserem vir comigo na “kombi

nada”.

Cris seguiu, calada, o resto do grupo até o estacionamento e ficou a olhar para Katie,

que se ria e fazia piadas com Rick enquanto se dirigiam para o Mustang vermelho do

rapaz. Ela era uma das que iam no carro dele.

Ted abriu a porta lateral da velha kombi. Olhando para Cris, perguntou:

- Está tudo bem?

- Claro, respondeu ela rapidamente, entendendo que seu sentimento de culpa estava

estampado no rosto.

Nunca soubera enganar. E era pior ainda quanto tinha de mentir.

Douglas mudou de posição e olhou-a bem nos olhos.

- Não, você não está bem. O que é que há, Cris?

- É que combinei com meus pais que não sairia depois que escurecesse. Sei que, se
estivessem aqui, seria diferente. Eles me deixariam ir.

- Mas não estão, disse Ted, fechando a porta do carro.

- Então vamos ficar em casa também, falou Douglas, solidarizando-se com ela.

- Podemos fazer banana split, ofereceu Stephanie. Tenho tudo que precisa. Não

daria para o grupo todo, mas dá para nós quatro.

- Vocês não precisam ficar só por minha causa. Eu fico sozinha e vocês vão.

- E por que iríamos? perguntou Ted.

- Não precisa se preocupar Cris, disse Stephanie. Esses caras não se importam aonde

vão, desde que tenha comida. Vamos ter mais oportunidade de conversar, e isso vai ser

bom.

Ted fez sinal para Rick, que estava prestes a sair do estacionamento. Correu até sua

janela e, baixando-a, explicou-lhe a situação. Cris percebeu o rosto de Rick virando-se na

direção dela. Compreendeu que ele estava se lembrando das regras que seus pais haviam

estipulado quando estavam namorando.

Isso mesmo, todo mundo olha para mim, pensou ela. Aqui estou eu, Cris Miller, o

maior bebê do mundo!

Uma risada leve de Katie encheu o ar. Ted deu três batidas no lado do carro, do jeito

que um caubói bate no cavalo para iniciar a cavalgada. Com um chiar dos pneus, Rick

arrancou, ansioso para chegar próximo dos outros carros que já tinham partido.

Qundo os quatro voltavam para o apartamento de Stephanie, Cris sentiu uma

vontade enorme de pedir desculpas.

- Desculpa, gente. Obrigada por estarem fazendo isso por mim.

Douglas colocou um braço em seu ombro e replicou:

- Que espécie de “Amigos de Deus” estaríamos sendo se não a apoiássemos quando

você fala em obedecer aos seus pais?


- Ainda me sinto mal por empatar vocês. É verdade. Se vocês quiserem ir, eu fico

bem aqui.

- Cris, larga disso, falou Ted, interrompendo-a e abanando as mãos, enfaticamente.

Você é a única que está achando que isso é demais.

Talvez ela se sentisse censurada ou com vergonha se outra pessoa falasse assim com

ela, mas não o Ted. Ele podia falar assim porque, quando o fazia, algo lá dentro dela se

aquietava.

Acompanhando Stephanie, foram para a cozinha onde se puseram a criar verdadeiras

obras-primas de banana split, e terminaram jogando chantílly uns nos outros.

Stephanie contou que na semana seguinte voltaria para San Francisco, e passaria as

férias trabalhando na loja de computadores de seu pai.

- Os pais dela vieram da China, explicou Douglas. É uma história maravilhosa. O

pai dela recebeu uma Bíblia em chinês de um cara que contrabandeava bíblias para o país.

Era a primeira vez na vida que ele ouvia falar em Bíblia. Ele a leu e entregou o coração a

Jesus. Mais tarde conheceu outros cristãos que se reuniam numa igreja clandestina. Foi

onde conheceu a mãe de Stephanie.

Stephanie continuou:

- Na verdade, eles se conheceram na universidade, mas nenhum sabia que o outro

era cristão.

- Incrível, disse Cris, lambendo o chocolate da sua colher. Como foi que acabaram

vindo parar em San Francisco?

Stephanie contou sobre as dificuldades que eles tinham enfrentado tentando sair do

país.

- Ficaram com mais pressa de sair quando minha mãe ficou grávida de mim. Tinham

de deixar a China antes que a gravidez começasse a aparecer.


Ted virou-se para Cris, e explicou:

- Aborto obrigatório. É ojeito chinês de controle populacional. Eles já tinham um

filho, e cada família só pode ter um.

Cris arregalou os olhos de espanto.

- Quer dizer que você teria sido abortada se seus pais não saíssem da China?

Stephanie acenou que sim.

Cris já ouvira, vagamente, acerca da dificuldade de vida em alguns países, mas não

conhecia ninguém que houvesse fugido para os Estados Unidos.

- Está na cara que seus pais conseguiram sair do país.

- Eles vieram para San Francisco. Nasci quatro meses depois que aqui chegaram.

Por isso sei de tudo, todo o drama que viveram. Agora, a parte difícil da história é que

vivemos num país onde temos liberdade de adorar a Deus e um de meus irmãos mais

novos não quer nada com o cristianismo. Acho que isso tem sido mais difícil para meus

pais do que tudo por que passaram antes.

Mais tarde, deitada no chão, no saco de dormir, Cris ficou pensando nessas palavras.

Katie e os outros ainda não tinham voltado, e Cris não conseguia dormir. Sentiu que havia

crescido mais numa noite do que no seu último ano de colégio. A conversa com Stephanie

fê-la refletir em silêncio, lembrando de como era fácil para ela ser crente. Nunca fora

desafiada a fazer algo perigoso por sua fé.

Outra parte da sensação de maturidade vinha do fato de estar por sua conta e entre

universitários. Sentia-se independente, ainda que não tivesse liberdade de sair com o resto

da turma. Estava fora de casa, fazendo novas amizades, tomando suas próprias decisões.

Nessa noite aprendia que amadurecer era uma experiência maravilhosa.

Naquele momento a porta do apartamento se abriu. Através da porta do quarto

entreaberta, Cris viu a silhueta de Katie parada ali, cochichando alguma coisa com o Rick.
Cris continuou olhando e viu que ele firmava o braço contra o batente da porta e abaixava

a cabeça até o nível dos olhos de Katie. Cris conhecia bem o gesto. Ele assumira a mesma

posição várias vezes com ela, no instante em que ia beijá-la. Essa atitude fazia a garota

sentir-se protegida e ao mesmo tempo valorizada. Cris hesitou em permanecer observando

o que aconteceria a seguir.

Mas olhou.

Rick beijou Katie. Em vez de limitar-se a receber o beijo, ela passou os braços em

volta do pescoço de Rick e beijou-o também. Em seguida, ele se afastou levemente e ela

tirou os braços. Cris ouvia seus sussurros abafados e viu depois Rick se afastar e dizer

adeus.

- Eu o vejo amanhã, disse Katie em voz suave.

A moça fechou a porta, e Cris podia ouvi-la cantarolando.

Ah Katie! Não quero que Rick parta seu coração!

Quando a colega entrou no quarto, Cris fingiu que dormia.

Tinha certeza de que já passava bem da meia-noite, e não seria uma boa hora para

ter uma conversa franca com sua melhor amiga.

Vou esperar para ver como as coisas andarão amanhã no zoológico. Ainda não lhe

disse uma palavra negativa sobre ele. Mas se ele a tratar mal amanhã, não vou suportar.

Farei tudo para que terminem!

No dia seguinte, Cris levou mais de uma hora caminhando pelo zoológico antes de

começar a relaxar e parar de bancar a super-espiã. Estava tensa por diversas razões. Rick

parecia ignorar Katie completamente, ou, no mínimo, tratava-a como se fosse uma criança

chata. E ela nem parecia notar. Estava anormalmente barulhenta, flertando

descaradamente. Duas vezes Cris notou que ela colocara o braço no de Rick, mas ele não

deixava por muito tempo.


Além do mais, Cris sentia-se tensa porque eram um grupo de cinco. Stephanie tivera

de ir trabalhar. Só Cris, Katie, Rick, Douglas e Ted embarcaram na aventura do zoológico.

Um grupo de cinco era mais difícil que de quatro ou até mesmo de seis.

Perto da lagoa dos flamingos, na entrada principal, o grupo resolveu dar um giro no

trenzinho. Katie sentou-se perto de Rick, Cris ficou na frente deles, e Douglas ao lado

dela. Sem espaço para o Ted, ele teve de sentar-se noutro banco, perto de uns turistas que

só falavam japonês.

Desembarcaram e foram até o espaço das girafas, os cinco misturados com os outros

turistas. Nem parecia que formavam um grupo à parte.

Katie, a primeira a chegar, exclamou:

- Olhe só o filhote de girafa! Que gracinha!

Douglas se aproximou de Cris, passou o braço pelo ombro dela e apontou a fileira de

altos eucaliptos.

- Olha só a girafa torcendo o pescoço em volta da árvore. Não parece que está

tentando brincar de esconder? Mas a árvore é muito fina...

Cris e Douglas riram-se, mas ao mesmo tempo ela percebeu que Ted se desviara

para o lado, sozinho. Katie tinha agarrado de novo o braço do Rick e estava esticando o

pescoço, tentando diverti-lo imitando uma girafa.

Rick não parecia achar engraçado.

Cris sentiu-se inquieta, como se dependesse dela fazer todo mundo se dar bem e

divertir-se.

Pare com isso, finalmente repreendeu-se a si mesma, quando se encontravam em

frente da exibição de coalas, olhando para um filhote agarrado à mãe. Você não é mãe de

ninguém, Cris. Retaxe e “curta” o passeio.

- Eu queria ver os elefantes, disse Ted. Alguém tem idéia de onde eles estão?
Douglas puxou do bolso traseiro um mapa do zoológico e começou a dar instruções.

Rick se afastou de Katie e se aproximou do amigo, curvando-se sobre o mapa.

- Aqui ainda tem o show dos leões marinhos? perguntou Rick. Era o de que eu mais

gostava quando era menino.

Os três rapazes ficaram examinando o mapa, e Cris se aproximou de Katie.

- Não tive chance de lhe perguntar como foram as coisas ontem à noite. Você e Rick

se divertiram?

Katie parecia chateada, mas respondeu com calma:

- Sim, foi ótimo. Todos nós nos divertimos.

Cris resolveu fazer um comentário mais direto.

- Parece que você e o Rick estão se dando bem.

Katie agarrou o braço de Cris e afastou-a dos rapazes. Estava com lágrimas nos

olhos.

- Ele não gosta de mim, não é mesmo? Ontem à noite pensei que alguma coisa

estivesse pintando entre nós, mas hoje ele está se afastando de mim e me olha como se eu

fosse uma idiota.

- Você não é idiota, Katie.

- Mas me sinto assim. Por que eu fui me envolver com ele? Nunca gostei dele. Por

que é tão importante que ele goste de mim? concluiu ela, chorando.

Cris ficou bem perto da amiga, para que os rapazes não a vissem chorar.

- Calma, Katie. Você não precisa da aprovação do Rick. Verdade! Não precisa se

esforçar para que ele goste de você. Você é maravilhosa do jeito que é. Se Rick reconhecer

isso, ótimo. Se não, quem sai perdendo é ele.

Katie fungou e limpou o rosto com as costas da mão. Os olhos verdes pareciam duas

esmeraldas no fundo de uma piscina profunda.


- Você me promete uma coisa? indagou Cris.

Katie concordou.

- Promete que não vai deixar o Rick usar você? Ele faz isso com as meninas, sabe?

Talvez nem seja de propósito. Ele não consegue abrir mão de um desafio e, às vezes,

passado o desafio, passa também o interesse. Entende o que quero dizer?

- Eu sei, eu sei. E você tem todo direito de me dizer essas coisas, Cris. São as

mesmas que eu disse para você no ano passado, quando você o namorava.

- E, e eu não lhe dei atenção na época. E se você não me ouvir agora, não posso nem

achar ruim. Mas quero que me prometa que não vai deixar que ele a use. Você não merece

ser maltratada por ninguém.

Katie enxugou a última lágrima e ergueu os olhos, fitando os rapazes. O sorriso

voltou-lhe ao rosto.

- Olhe só aqueles três! Parece que nós somos a atração do zoológico, do jeito que

estão parados aí olhando para nós. Se ficarmos aqui mais um pouco, talvez eles nos

joguem uns amendoins!

Cris olhou para eles, e as duas começaram a rir, achando gozada a situação.

- Vamos lá! Vamos tentar começar essa aventura toda de novo, está bem?

- Você já notou quanta coisa vem em grupo de três? perguntou Katie, ainda olhando

para os rapazes, que pareciam não saber aproximar-se dessa rara espécie feminina.

- Os três ursos, por exemplo?

- Os três mosqueteiros, os três ratos cegos e... os três patetas! conclui Katie dando

uma risada.

Cris acenou concordando, e começaram a voltar para onde eles estavam.

- Qual deles você quer: Larry, Moe ou Curly? indagou em tom de brincadeira.

- Vocês estão bem, garotas? perguntou Douglas, deixando o grupo e se aproximando


delas.

- Claro. Estávamos apenas conversando sobre astros do cinema.

Cris tentou abafar uma risada e sorriu para o Ted, que lhe devolveu um de seus

sorrisos calorosos e compreensivos.

- Que tal visitar um astro famoso? perguntou Douglas. Dizem que tem um elefante

dançarino aqui. Vamos ver?

- Boa idéia, disse Katie, ignorando o Rick e dando um sorriso largo para o Douglas.

Sigamos até a selva, ó grande mestre, desbravador de trilhas!

Douglas e Katie iam na frente e Cris seguia entre Rick e Ted. A desajeitada dinâmica

de um grupo de cinco voltou.

- Por que ele faz isso? perguntou Katie alguns minutos mais tarde, quando

observavam o elefante dançarino balançar para frente e para trás com o pé atado numa

corrente. Será que aquele negócio não machuca?

- Parece que não, disse Ted. Acho que ele escuta sua própria música e segue o

compasso dela. Legal, hein?

Cris sabia que, se o assunto era alguém ouvir sua própria música e “dançar de

acordo com ela”, Ted era mestre. Ele e o elefante dançarino pareciam ter algo em comum.

- Que tal vermos alguns animais de verdade? perguntou Rick. Onde estão os leões e

os tigres? Não tem cobras por aqui?

- Já vimos o leão, esqueceu? Estava dormindo. Os macacos estão por aqui. Vamos

dar uma olhada neles primeiro, replicou Douglas.

Katie cochichou para Cris:

- Notou como cada cara quer ver o animal com o qual se identifica?

Cris concordou com um sorriso.

- E você viu como o Rick se identifica com as cobras?


- Eu vi! Você lembra como o Jon, meu patrão, comparava o Rick com uma cobra?

- Bom, ainda bem que recuperei o bom senso antes que ele se enroscasse em mim!

disse Katie um pouco mais alto.

- Shh! fez Cris, levando os dedos aos lábios, fazendo sinal para que ela se calasse.

- Sssss combina mais com ele, cochichou Katie.

- Que segredos são esses entre vocês duas? perguntou Douglas.

Ted respondeu antes que Cris ou Katie tivesse a oportunidade de abrir a boca.

- É coisa de garotas. Dá a elas a sensação de que estão no controle, quando têm

segredos. Mas a gente sabe que estão cochichando sobre nós.

- Você não sabe se é isso, não! respondeu Katie, desafiando a filosofia dele.

Podíamos estar falando sobre outra coisa.

- Como o quê, por exemplo?

- Como... bem... qualquer coisa, respondeu Katie com as mãos na cintura. Além do

mais, você não saberia porque; como você mesmo disse, é coisa de garotas.

Cris estava contente por terem parado na frente do gorila. Era o pretexto de que

precisava para mudar de assunto. Um enorme gorila entre preto e cinzento estava sentado

de cócoras sobre uma rocha à sua frente. Tinha as mãos dobradas debaixo do queixo e

parecia fitar todos os visitantes do zoológico.

- Olhe só aquele cara! exclamou Douglas. Parece que hoje se levantou com a

intenção de ficar ali reparando nos turistas que passassem.

- Nem se mexe! disse Ted.

- Eu vou fazê-lo se mexer, disse Rick, pegando um amendoim do chão e jogando

para ele.

- Não jogue nada pra ele, não, cara. Não leu a placa? interveio Cris.

- Olhe só. Ele nem se mexeu. Esse cara é uma rocha, comentou Douglas.
- Esse “cara” é fedorento, disse Katie, apertando o nariz com os dedos. Você não

sente o cheiro?

- Pensei que fosse o Douglas, brincou Rick.

- Aaaah! Muito engraçado. Quem é que guarda as meias de ginástica debaixo da

cama?

Rick anuiu com uma risada.

- Estava mesmo querendo saber o que aconteceu com as minhas meias.

- Olhe aí, gente, disse Ted, lendo a placa de informação na frente do gorila. Diz aqui

que eles têm um “odor corporal distinto, inconfundível e muito desagradável aos seres

humanos”.

- E o nome do Douglas embaixo, não é? perguntou Rick.

Douglas deu um murro de brincadeira no braço do colega.

- Na verdade, diz: “O odor não é falta de limpeza. Na selva, o odor ajuda os gorilas a

se localizarem.”

Os rapazes começaram a rir-se, como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.

- Deve ser uma dessas coisas de rapazes, cochichou Katie para Cris.

- Eles são mesmos esquisitos. Riem-se de qualquer coisa! respondeu esta também

cochichando.

- Vamos lá. Quero ver as cobras, falou Rick.

Foi a vez de Cris e Katie caírem na gargalhada.

- Nunca dá para entendê-las, comentou Ted, saindo à frente deles para a jaula

seguinte. É coisa de garotas. Totalmente!


Como Katie se Diverte

Duas semanas mais tarde, quando Cris e Katie voltavam para casa após a festa de

lançamento do anuário do colégio Katie perguntou:

- E então, que foi que Fred, o fotógrafo, escreveu no seu?

- Ah! disse Cris, tirando a mão direita do volante e apontando para o seu álbum no

banco traseiro, algo bobo tipo “continue sorrindo e eu a vejo ano que vem na equipe do

anuário”.

- E você pretende trabalhar na equipe ano que vem?

- Ainda não sei. É provável. Tenho a máquina fotográfica legal que meu tio me deu

no Natal passado, e ainda mais, tenho certeza que consigo tirar fotos melhores do que as
que o Fred bateu este ano.

- Não sei... falou Katie abrindo seu álbum na seção sobre férias de inverno e

levantando-o para Cris ver a foto central. Acho que o Fred se saiu bem com esses

instantâneos.

- Tire esse retrato da minha frente, disse Cris, recusando-se a olhar.

Fred tirara uma foto numa pizzaria, ampliando-a depois para que Cris ocupasse, com

destaque, o centro da página. Cris aparecia sentada a uma mesa, e Rick quase no seu colo,

com o braço em volta dela. Ele parecia um modelo fotográfico, naturalmente, e Cris tinha

a cara assustada, como se lhe houvessem metido gelo nas costas. Ao lado dessa fotografia,

havia uma pequena de Katie fazendo palhaçadas na mesma pizzaria. Estava com orelhas

de copos de isopor e fingia ser um anãozinho. Era muito mais engraçada do que a foto de

Rick e Cris, e ela desejou que tivessem ampliado essa, e não aquela.

- Talvez eu deva participar da equipe de novo no ano que vem, para proteger a

minha reputação.

- Talvez não seja má idéia depois dessa foto aqui, comentou Katie.

Abriu na página sobre o clube de esqui e apontou para a foto da Cris, trombando

com o instrutor de esqui. Os esquis dela estavam entre os pés dele, e o rosto no peito do

rapaz.

- Por que eles puseram o meu nome? indagou Cris em tom lamentoso. Ninguém

saberia quem foi, se não tivessem escrito.

- Não reclame. Você teve mais fotos do que eu.

- E isso lá é bom?

- Claro que é. Você está se tornando bastante popular. Acho que essa onda começou

quando você recusou a posição de líder de torcida no ano passado e a escola inteira soube

que fez isso para que a Teri Moreno ficasse no lugar. E você vai tentar de novo este ano?
- De jeito nenhum! Não é engraçado? Ano passado, eu só conseguia pensar em ser

líder da torcida e agora não tenho o mínimo interesse.

Cris tomou a entrada de sua casa.

- Não quer chegar um pouco?

- Claro. E aí, o que você quer fazer?

- O quê? perguntou Cris ao subirem até a varanda.

O jasmim na treliça estava em flor e sua doce fragrância enchia o ar de lembranças.

Recordava-se de haver sentado embaixo dela no ano passado com o Ted, aspirando o

cheiro forte das flores enquanto ele lhe dizia que iria levar outra garota à festa de

formatura.

- O que você quer fazer? Você não quer se candidatar a líder de torcida e talvez

participe da equipe do álbum do ano. Mas o que você pretende fazer nestas férias de

verão?

- Provavelmente trabalhar. E ir à praia, gozar da companhia de vocês, do Ted, todo

mundo.

Cris abriu a porta da frente e cumprimentou a mãe, que estava sentada no sofá,

assistindo à televisão, remendando roupas.

- Vamos para o meu quarto, convidou.

- Olá, Katie! disse a mãe de Cris num suave sussurro.

A luz do abajur batia no seu cabelo escuro e ondulado, de maneira a fazer brilhar os

fios brancos como se fossem prata polida no meio de um boné de lã escuro.

- Seu pai já dormiu e Davi deve estar dormindo também, informou a mãe.

- Não vamos fazer barulho, prometeu Cris.

Era difícil, porque a casa era muito pequena e os três quartos ligados ao mesmo

corredor. Assim que entraram e fecharam a porta, Katie perguntou novamente o que ela
pretendia fazer naquelas férias. Cris examinou o rosto da amiga antes de responder. Afinal

disse:

- Eu estaria correta se dissesse que você já sabe o que pretende fazer durante as

férias?

- Como é que adivinhou?

- Leio seus pensamentos como se fossem um livro, Katie Weldon. Se não estiver

enganada, você está pensando em alguma coisa ousada, aventureira, meio maluca,

adrenalina pura, não?

- Quem, eu?

Cris ajeitou o travesseiro contra a cabeceira da cama e encostou-se nele.

- A última vez que apareceu com essa cara, você me convenceu a entrar para o clube

de esqui e ir à lagoa Tahoe.

- Desta vez não estou falando em esquiar. Estou falando sobre um acampamento de

férias.

Cris não participava de acampamento desde os tempos do primeiro grau. Gostou da

idéia no instante em que sua amiga a expôs.

- Onde? Quando? Com o grupo de mocidade da igreja?

- Sim. Dei meu nome domingo passado, depois que você já tinha saído. Não sabia ao

certo se você gostaria da idéia, porque achei que talvez você estivesse planejando passar

todo o tempo possível com o Ted.

Cris deu um longo suspiro.

- Sabe, Katie, as coisas com ele não mudam. Acho que nosso relacionamento não

avançou nem um passo desde que ele voltou do Havaí. Isso já faz mais de cinco meses. As

coisas parecem estar do mesmo jeito que no ano passado.

- Pelo menos ele é coerente.


- Coerente? Entediante é a palavra mais certa.

- Eu não reclamaria, se fosse você. O Ted sempre está aí para você. Quer comparar

com o que houve comigo no ano passado?

Katie deitou-se de costas no chão, contando nos dedos.

- Vamos ver.., teve o Glen, o filho de missionários do Equador que gostava de

conversar no telefone, me abraçou duas vezes e, quando foi para Quito, há dois meses,

prometeu me escrever. Claro que não recebi uma única linha e ele deve achar que estou

desesperada, porque lhe escrevi quatro vezes.

- Tudo bem. Tenho certeza de que ele ainda vai lhe escrever. Provavelmente as cartas

da América do Sul demoram muito para chegar aqui.

- E depois tem aquela experiência do Rick. Se eu começar a gostar dele de novo

pode me dar uns bons tapas! Além de um beijo na passagem de ano e mais um e meio no

apartamento da Stephanie em San Diego, só ganhei do Rick uma tremenda bofetada na

minha auto-estima. Tenho certeza de que ele achou melhor na minha do que na dele. E aí

está. Minha trepidante vida amorosa! Pelo menos você tem o Ted. Bom, coerente, não

funde sua cuca, cuida do seu coração.

- Tem razão, concordou Cris, mas com certa hesitação.

Katie sentou-se e deu um puxão na colcha da Cris.

- Menina, pare de reclamar! Vamos encarar os fatos? Você está com tudo e não sabe!

Cris não procurou explicar seus sentimentos para Katie. Eram só seus. Sentimento

de querer romantismo. Quando namorara o Rick, ele lhe comprava rosas e dizia coisas

incríveis e carinhosas. Ted não tinha nada de meloso, não tocava seu cabelo nem ficava

fitando os olhos dela ao jeito do Rick. Mas para o Rick isso parecia um jogo em que o

troféu era ela.

Se ao menos o Ted pusesse uma pitada de romantismo na amizade pura e sincera


deles, seria perfeito! Mas, em vez disso, ficava era de pé atrás, na dele; é verdade que ela

também não se soltava.

- Alô! Tem alguém em casa? falou Katie, abanando a mão no ar para chamar a

atenção da amiga.

- Desculpe. O que você estava dizendo?

- O acampamento de verão. Acho que devíamos ir a um acampamento.

Uma sensação agradável inundou Cris, com as recordações do acampamento: sentar

junto à fogueira à noite, colher flores silvestres e nadar num lago aquecido pelo sol, a

misteriosa sensação de conhecer alguém na floresta. Um rapaz diferente, bonito e terno

que escrevesse cartas longas e românticas e segurasse sua mão ao luar.

- Ei! disse Katie. Estou falando sozinha aqui?

- Não, estou escutando. O acampamento de verão. Vamos ao acampamento nestas

férias. E vamos nos divertir muito lá. Estou pronta. Vamos sim!

A boca de Katie abriu-se num largo sorriso.

- Não entendo você, Cris. Acho que está dormindo de olhos abertos. Talvez seja

melhor eu deixá-la sozinha para terminar o sonho sem interrupções.

Katie pôs-se de pé e continuou:

- Cinco a onze de julho. Ligue para o Lucas esta semana na igreja e diga-lhe que

você concordou em ir. Ele vai ficar contente. A gente se vê. Bons sonhos!

Katie saiu, deixando Cris com um turbilhão de pensamentos empolgantes sobre o

acampamento. Teria de pedir permissão aos pais, solicitar uma dispensa do trabalho,

verificar se tinha roupa para a semana toda. Talvez essas férias fossem bem interessantes...

No domingo seguinte, Cris conversou com Lucas, o pastor da mocidade, e fez

algumas perguntas sobre o acampamento.

- O nome é “Acampamento Wildwood” e fica a umas duas horas daqui. Você terá
onze garotas em seu alojamento. Nós pagamos a estada, mas você terá de despender vinte

dólares com transporte. Isso fica por sua conta.

- Não há problema, e já consegui folga do trabalho. Como vê, estou pronta.

Lucas sorriu, com expressão satisfeita, e disse:

- Sabe, Cris, estou contente por vê-la disposta a fazer isso.

- Disposta? Está brincando? Mal posso esperar. Adoro acampamentos!

- Ainda bem. Creio que vai ser uma ótima semana. Quero que saiba o quanto aprecio

ver você e Katie se oferecendo para isso. Não são muitos os estudantes dispostos a doar

uma semana de verão assim.

- Então eles não sabem o que estão perdendo.

Cris achou ótimo a igreja patrocinar os jovens que queriam ir, pagando sua estada.

Naquela tarde Ted apareceu, e foram à praia. Mesmo com a chegada oficial do

verão, ainda estava um pouco frio, e uma neblina, vinda do oceano, pairava sobre a areia.

- Carlsbad é tão diferente de Newport, comentou Ted, enquanto se sentavam num

cobertor e olhavam as ondas. E difícil acreditar que fica só a sessenta milhas de distância

de Newport, na mesma costa do Pacífico. Parece que estou no Atlântico.

- Por quê? indagou Cris fechando o zíper do blusão e enrolando a ponta do cobertor

nos pés. E porque está fazendo frio?

- Não, é o jeito das ondas quebrarem. Parecem vir de outro ângulo aqui. Sei lá, pode

ser o tempo também, embora não seja raro esse tipo de temperatura nesta época.

Na casa de Cris, em Escondido, cerca de meia hora de carro de Carlsbad, estava

quente e ensolarado quando saíram. Ela vestia short e camiseta sobre o maiô. Sua sábia

mãe lhe atirara um casaco na saída para a rua.

O vento fustigava a manga da camiseta do Ted. Ele parecia confortável. Cris nunca

notara antes, mas os cabelos das pernas do Ted eram quase brancos de tão loiros, e
superenrolados. Ele não parecia sentir frio.

- Estou com frio, comentou Cris.

Ted afastou a vista do mar e olhou surpreso para ela.

- Está mesmo?

Cris riu-se da expressão de espanto do rapaz e passou a mão na pele arrepiada.

- Sim, estou. Não tenho um casaco de pele embutido como você, falou brincando, e

puxou um dos pêlos na perna dele.

- Ai! gritou ele e, notando suas pernas lisas, indagou: Por que as garotas fazem isso

-raspam as pernas?

- Para parecerem bonitas, lisas e femininas.

- Mas aí vocês sentem frio.

- Deixe pra lá. Na verdade, fazemos isso para que os rapazes sintam pena de nós

quando dizemos estar com frio. Aí eles colocam o braço em volta de nosso ombro e nos

aquecem.

- Tenho uma idéia melhor, disse Ted, pondo-se de pé e oferecendo-lhe a mão para

levantar-se. Vamos andar.

Sentia a mão de Ted forte e firme enquanto caminhavam pela praia. Ainda estava

com frio nas pernas, mas interiormente estava aquecida e contente. Era assim que as

coisas iam entre ela e Ted nos últimos meses. Mais que irmãos, eram quase namorados.

Percebeu que ele correu o dedo pela corrente da pulseira de chapinha que ele lhe

dera um ano e meio atrás. Gravara nela as palavras “Para Sempre”. Era a promessa de que

seriam amigos para sempre. O relacionamento deles havia passado por altos e baixos

desde que haviam se conhecido dois anos antes. Mas a promessa permanecia. Ele sempre

a tratava como uma amiga querida. Só que, de vez em quando, como agora, Cris queria

mais.
- No que você está pensando?

- Papua, Nova Guiné. Estava imaginando qual o ângulo das ondas lá.

O que se pode esperar? Desde que conheço o Ted, sei que ele sonha em ser

missionário numa ilha remota, cheia de nativos que ainda não ouviram o evangelho. E

tão surfista que, se o cortar, ele sangra água salgada. Pode ter certeza! Por que eu iria

achar que ele estava pensando em mim?

- E você, no que estava pensando?

A pergunta surpreendeu-a. Embora muitas vezes ela indagasse ao rapaz sobre seus

pensamentos, ele raramente perguntava sobre os dela. Talvez o Ted estivesse ficando mais

parecido com Cris, à medida que passavam mais tempo juntos. Ela, por seu lado, estava se

tornando mais parecida com ele.

- Estava pensando em nós e imaginando como será o futuro.

Uma coisa que ela aprendera era ser sincera com o Ted.

Houve uma pausa; ele apertou-lhe a mão, e disse:

- Eu também.

Cris sentiu o coração bater um pouco mais forte. Ele interrompeu o passo e, virando-

se para ela, olhou-a de frente. A luz do sol brilhava no seu rosto, iluminando-lhe os olhos

azul-prateados e destacando o queixo quadrado. Sua expressão continuava séria, e não

havia covinha na bochecha direita.

- Mas sabe de uma coisa, Kilikina?

Cris sempre se derretia quando ele a chamava pelo nome havaiano.

- Se passarmos o dia todo pensando no amanhã, ele vai embora e a gente não

aproveita nada.

Cris reconheceu que ele tinha razão. Por mais que desejasse que ele a abraçasse, que

lhe beijasse o cabelo e contasse todos os seus planos para o futuro, sabia que ele não o
faria. Ted era reservado no tocante a expressões físicas. Isso era parte de seu caráter

honrado. Certa vez ele lhe disse que jamais a “defraudaria” de propósito.

Quando ela perguntou o que ele queria dizer, Ted disse:

- Não quero despertar em você um desejo que eu não possa satisfazer com dignidade

diante de Deus.

Ela sabia que, se o relacionamento deles fosse cheio de abraços, beijos e sussurros, o

desejo nele despertado acabaria chegando a um ponto que não teria mais retorno.

No pé em que estavam as coisas, podiam suspender temporariamente suas relações.

Exceto pela falta de sua profunda amizade, que certamente haveriam de sentir, não teriam

que se arrepender de promessas não cumpridas, nem das dolorosas lembranças de uma

intimidade exagerada.

- Então vamos aproveitar o dia exclamou Cris, sorrindo-lhe com os olhos. Estou

contente por estar com você. Mas é melhor continuarmos andando. Comecei a ficar com

frio de novo.

Ted apertou-lhe de novo a mão e desceram pela praia. Passaram as duas horas

seguintes juntando conchas, escavando a areia à procura de caranguejos e brincando de

pegador com as ondas. Foi realmente uma tarde maravilhosa.

Quando chegaram a casa, sua mãe tinha preparado “tacos”, e havia um recado

dizendo que Katie telefonara.

Cris só ligou para Katie na manhã seguinte. A conversa foi curta e a notícia mandou

Cris de volta para a cama no seu primeiro dia de férias de verão.

Sua mãe bateu na porta, perguntando:

- Cris, você está bem?

- Entra, mãe. Estou chateada. Katie não vai poder ir ao acampamento. Os pais dela

não deixaram, por ser uma atividade de igreja. Não é uma loucura? Eles deixam ela sair
sozinha e fazer uma porção de coisas que vocês jamais aprovariam, mas não querem que

ela se envolva demais com a igreja. É duro ser a única crente da família.

- E você ainda quer ir?

- Mais ou menos. Perdeu um pouco a graça.

- Talvez a gente possa ligar para o Lucas e ver se outras garotas que você conhece

estarão indo...

- Está bem. Mas não vai ser tão divertido quanto seria se a Katie também fosse.

Cris acabou não telefonando para Lucas. Quando o viu domingo na igreja,

perguntou quem mais iria ao acampamento.

- Você e Katie eram as únicas de nossa mocidade.

Não dava para acreditar. O grupo de jovens da igreja tinha 250 pessoas!

- Que pena que Katie não vai. Nós realmente estamos precisando de conselheiras. É

por isso que apreciei tanto vocês se oferecerem.

- Conselheiras?! Katie nos apresentou para irmos como conselheiras?

- Para o acampamento de crianças, explicou Lucas. Precisávamos de gente para se

encarregar das meninas de 11 e 12 anos. Você pensou que ela tinha dado o nome de vocês

para o acampamento de jovens? Ele vai ser só na última semana de agosto. Quer dizer que

você também vai desistir?

Alguma coisa no modo como Lucas disse isso fê-la sentir que seria o fracasso do

ano, se ela desistisse faltando apenas uma semana para começar o acampamento.

Principalmente porque Katie já não iria ajudar.

- Não, eu vou, replicou Cris, procurando parecer tranqüila. Já consegui a folga do

trabalho. Vocês precisam de conselheiras: eu vou.

Um enorme sorriso surgiu no rosto de Lucas.

- É isso aí, moça! Sabia que podia contar com você. Vai ser uma experiência e tanto
de crescimento, você vai ver.

- É disso que tenho medo, resmungou Cris.

No domingo seguinte, quando ela chegou ao estacionamento da igreja com a mala e

o saco de dormir, sabia que não estava muito disposta para essa experiência de

“crescimento”. Um bando de crianças de 10, 11 e 12 anos corria entre montes de malas,

gritando, batendo, matraqueando - claro vislumbre do que seria a semana.

Foi preciso mais de uma hora para organizar a “tropa”, colocar a bagagem no lugar e

instalar a criançada no ônibus. Cris sentou-se logo atrás do motorista, esperando não ligar

muito para a algazarra e o barulhento ritual da gurizada - cuspição, estalos de goma de

mascar, essas coisas. Sabia que nesse fim de semana seu cuidado principal seria com o

cabelo - evitar que um safadinho grudasse nele uma bola de chiclete.

Katie, você me paga por isso.

O pior de tudo é que Katie gostava desse tipo de coisa. Adorava se sentir como o

centro das atenções no meio dos baixinhos, e tinha um jeito todo especial de controlá-los

com facilidade. Coisa dela, Katie, dom muito seu, não de Cris.

Uma menina veio correndo, aos gritos, do fundo do ônibus e mergulhou no assento

vazio ao lado de Cris, como se sua vida dependesse de proteção contra o que quer que a

estivesse perseguindo. Cris ajeitou as pernas para acomodar o “furacãozinho” voante e

perguntou no seu tom de voz mais severo:

- O que está acontecendo aqui?

- Eeeeiaii! gritou a menina, abaixando-se e cobrindo a cabeça com os braços.

Um menino engraçadinho de olhos vivos e cabelo loiro escuro veio correndo pelo

corredor do ônibus e bateu nas costas da garota.

- Parem com isso imediatamente!

- Ela roubou o meu chocolate.


- É verdade? perguntou Cris à menina, ainda enrolada na poltrona, o cabelo

desgrenhado cobrindo o rosto.

A menina ria-se o tempo todo. Cris perguntou de novo:

- Você pegou o chocolate dele?

A menina continuou rindo. Cris segurou-a pelos ombros e levantou-a, descobrindo o

tesouro roubado no seu colo.

- Devolve! gritou o menino.

Em seguida puxou a caixa de chocolates e voltou ao seu lugar no fundo do ônibus.

Cris estava prestes a ralhar com a garota por tê-lo irritado daquele jeito quando, num

ímpeto de alegria, a menina confidenciou-lhe:

- Acho que arranjei um namorado para a semana!

Do mesmo modo instantâneo que o assento do lado tinha sido ocupado, esvaziou-se.

Cris sentiu-se aliviada quando viu dois rapazes com ar de universitários entrarem no

ônibus. Com vozes fortes eles chamaram a atenção das crianças e ordenaram que se

aquietassem. Para surpresa de Cris, elas atenderam.

Um dos rapazes anunciou o regulamento da viagem de ônibus até o acampamento. O

outro pediu que abaixassem a cabeça e fechassem os olhos, porque ele iria orar pela

viagem.

Ao final, Cris acrescentou sua própria petição: Senhor, podia designar uns dois

anjos da guarda extras para esta semana? Acho que vou precisar.
O acampamento Wildwood

Duas horas mais tarde, quando pararam debaixo da placa de madeira que dizia

“Acampamento Wildwood”, Cris ficou com vontade de fugir do ônibus e correr para casa.

A palavra “rústico” seria civilizada demais para descrever o acampamento. O alojamento

de Cris era no fim de uma trilha morro acima - ponto de difícil acesso para quem estivesse

carregando bagagem. Suas “filhotas” seguiram-na pela trilha estreita e empoeirada,

gritando, chorando, fazendo um escarcéu medonho, capaz de assustar qualquer animal

selvagem a quilômetros de distância.

De alguma forma, Cris sabia que a única vida selvagem que ela experimentaria

nessa semana seria em forma de guerra de travesseiros, sapos no saco de dormir e

invasões dos meninos, cujo alojamento ficava da outra margem do córrego.

- Está bem, meninas! gritou, quando as viu chegando ao “lar doce lar”. Vou ficar

com o beliche embaixo, aqui perto da porta. Cada uma escolhe sua cama. Se brigarem por

causa da cama de cima, a gente troca no meio da semana.

As meninas começaram a arrumar seus “ninhos” - faziam-nos com modos de

garimpeiro em plena corrida do ouro. Cris achou que ficava melhor resolverem elas

mesmas os seus problemas, e foi estender o saco de dormir sobre a cama. Encontrou lá um

bilhete da mãe:

Tenha lindos sonhos todas as noites. Com amor, sua mãe.

Cris sorriu e guardou o bilhete na mochila. Retirou seu caderno no momento em que
duas meninas estavam prestes a sair.

- Esperem aí! Onde vocês vão? perguntou ela, atravessando a perna na porta.

De repente entendeu por que, na reunião dos conselheiros, na noite passada, tinham

feito tanta questão de que os conselheiros dormissem no beliche de baixo, próximo à

entrada. Era o melhor lugar para vigiar a porta.

- Sair respondeu a loirinha.

- Ainda não. Primeiro temos de fazer uma reunião em nosso alojamento.

As meninas agiram como se ela acabasse de ordenar que comessem brócolis cru, e

marcharam para seu beliche fazendo beicinho.

- Venham todas sentar-se aqui no chão. Vamos fazer uma reunião rápida; depois

vocês estarão livres até o jantar.

- Não podemos sentar na cama? perguntou uma menina com pele cor-de-ébano e

enormes olhos negros.

- Está bem. Desde que eu possa ver vocês todas! Esperem! Tenho uma idéia.

Sentem-se todas no beliche de cima. Desse jeito a gente vê todo mundo.

- Acabei de arrumar minha cama, reclamou a menina do outro lado de Cris.

- Eu prefiro sentar no chão, disse uma outra.

- Podemos comer no alojamento?

A pergunta veio de uma loirinha gorducha que, pela mancha de chocolate no rosto,

parecia que estivera comendo desde a hora que saíram da igreja.

- Não, esse é um dos regulamentos. A comida atrai formigas e bichinhos que não

queremos dentro de nosso quarto. Vamos começar, falou.

Cris se ergueu e se sentou no beliche vazio, acima do seu. Nesse momento pensou

que, se um dos beliches estava vazio, então uma menina não chegara ao alojamento. Em

vez de sair para procurar a “ovelha perdida”, achou melhor fazer a reunião conforme
planejara. Pela lista de participantes, descobriria quem estava faltando, e poderia depois

sair em busca da garota extraviada.

- Vamos acalmar, meninas. Vocês duas aí atrás, no beliche de baixo, querem ficar

aqui, por favor?

Era a loirinha e a sua amiga, que tinham tentado escapar minutos antes.

Cris olhou a lista, e disse:

- A reunião vai ser rápida. Preciso saber quem é quem. Vou fazer a chamada.

Levante a mão, quando eu disser o nome.

- Isso aqui não é escola, disse a gorducha.

- Como é o seu nome? indagou a menina que estava no beliche à frente de Cris.

- Aah, sim. Meu nome é Cris. Cris Miller.

- Você tem namorado? quis saber a loirinha dos fundos.

- Bem, na verdade.., hesitou Cris, falaremos sobre essas coisas depois. Primeiro eu

preciso saber os seus nomes. Começou a ler a lista. Amy?

- Presente, “professora”, replicou uma menina do outro lado do quarto, debochando.

Ela tinha uns brincos pingentes de melancias vermelhas... Seu cabelo cor-de-café era

puxado para cima da cabeça num rabo-de-cavalo que lembrava uma fonte de água. A cada

movimento que fazia, o cabelo e os brincos balançavam, lembrando uma ave tropical. Até

mesmo o jeito como ela disse “presente, professora” lembrava uma gralha.

- Jocelyn?

A moreninha levantou a mão.

- Sou eu.

Parecia que ela seria lindíssima quando crescesse mais e seus traços exóticos se

ajustassem aos olhos.

Nenhuma menina de onze anos devia ter cílios assim tao compridos e cheios. Ela
nunca vai gastar um centavo com rímel em toda a vida.

- Sara?

- O quê? respondeu a loirinha.

Parecia uma boneca de cabelos ondulados, correndo livres pela cabeça toda, e olhos

de gengibre, bebendo tudo de relance. A camiseta de Sara tinha uma expressão escrita: “E

daí?”

- Ruth?

- Prefiro que me chame de Ruthie, falou uma garotinha que estava sentada na cama

em frente à de Cris. Detesto meu nome. Parece tão sem graça.

- Pois eu gosto, replicou Cris. É o nome da minha avó.

Algumas das meninas começaram a dar risadinhas, mas os olhos de Ruthie se

encheram de lágrimas.

- Tá vendo o que eu disse? Sua avó! Ninguém da minha idade se chama Ruth.

Ela tinha o rosto feio, nariz comprido e achatado, e usava aparelho ortodôntico. Sua

pele era perfeita, lisa e sem uma sarda. O cabelo castanho-claro descia liso até os ombros

e era preso atrás da orelha esquerda.

- Bem, eu gosto do seu nome, reafirmou Cris, esperando consertar qualquer estrago

que tivesse feito nesses primeiros minutos.

Chamou os outros nomes da lista. A única que não respondeu foi Jeanine Brown.

Cris anunciou os regulamentos do acampamento: não ir ao alojamento dos garotos, não

sair do acampamento, etc. Não tinha certeza de que elas iriam cumpri-los.

- Tem alguma pergunta?

- Sim, disse Sara. Você tem namorado?

- Mais ou menos. E essa vai ser a melhor resposta que vou dar. Agora, vão e

divirtam-se. Na hora das refeições, vou me encontrar com todas vocês no refeitório.
- Refeitório? disse Jocelyn, dando risada. Aqui é o cocho do rango.

- Está bem, noo. Quando der o sinal, vocês vão até o cocho. E lavem as mãos antes

de entrar, está bem?

As meninas já estavam se acotovelando para sair. Amy, a ave, gritou por cima do

ombro.

- Sim, “professora”.

Cris desceu do beliche e guardou o caderno. Enfiou a mochila debaixo da cama e

saiu para procurar a desaparecida Jeanine Brown. Na metade do caminho, ouviu os

gritinhos da pequena ladra que tinha colidido com ela no ônibus no caminho para o

acampamento. Cris desviou-se da trilha principal e logo encontrou a garota, que deixara

seu esconderijo, atrás de uma árvore, e corria em sua direção.

- Me esconde! gritou ela, agarrando Cris pela cintura e usando-a como escudo.

- Devolve pra mim! gritou o menino que ela apoquentara no ônibus, correndo atrás

dela.

- Jamais! gritou a menina, rindo-se e apertando a cintura de Cris ao abaixar-se atrás

dela.

- Ela roubou meu canivete! exclamou, exasperado, o menino. Cris se desvencilhou

da garota, virou-se e, com firmeza, ordenou:

- Entregue o canivete! Vamos!

A menina ficou séria, arrancou do bolso do jeans um canivete suíço de luxo, e o

entregou a Cris com uma expressão de arrependimento.

- Como é seu nome e quem é o seu conselheiro? indagou Cris ao garoto.

- Nicolas. Meu conselheiro é o Jason.

- Ótimo. Hoje, na reunião dos conselheiros, entregarei o canivete a ele e ele o

devolverá para você, se achar que você precisa dele esta semana... E você, quem é sua
conselheira?

- Não sei.

- Qual o seu alojamento?

- Não sei.

- Onde você colocou o saco de dormir e sua mala?

- Lá perto do ônibus. Não sabia aonde ir.

- Como é o seu nome? indagou Cris e fechou os olhos aguardando a resposta.

Já sabia qual seria.

- Jeanine Brown.

Nicolas foi correndo para o mato, e Cris suspirou.

- Venha comigo, Jeanine Brown. Eu sou Cris Milier, sua conselheira. Nosso

alojamento fica no alto daquele morro. Vamos pegar as suas coisas.

- Que bom! exclamou a garota toda alegre. Eu estava com esperança de que você

seria minha conselheira.

Cris sentia que não poderia retribuir o elogio a quem estava prestes a tornar-se sua

colega de beliche. Só conseguiu murmurar:

- Bom. Então vamos. Está quase na hora do jantar.

Felizmente todas as suas meninas apareceram para jantar. Amy queria sentar-se ao

lado de Cris, à grande mesa redonda, e Sara brigou com Jocelyn para sentar do outro lado.

De certa forma, era bom ter alguém brigando por causa dela. Crís se lembrou de que esta

era a primeira noite e a primeira refeição de muitas que compartilhariam. Esperava que

nem todas fossem cercadas de tanta confusão.

A comida era melhor do que ela esperava. Alguém pediu que lhe passassem o purê

de maçã, e Amy deixou um de seus brincos de melancia cair dentro da vasilha. Cris teve

de “pescar” o brinco com a colher. Antes que pudesse impedi-la, Amy já tinha lambido o
brinco e o colocara de volta na orelha.

- Temos hora livre depois da janta? perguntou Jocelyn. Ano passado tivemos.

- Sim, mas lembrem-se de que vocês têm de ficar nos limites do acampamento. Eu

vou à reunião dos conselheiros, e se vocês tiverem algum problema, me esperem à porta

do salão. Deve terminar em menos de uma hora.

- ‘Tá certo, professora”, papagueou Amy, o cabelo caindo no rosto e tocando na

ponta dos cílios.

A primeira pergunta do diretor de acampamento, Bob Ferrill, foi se os garotos

sabiam o nome dos conselheiros.

- Sim, disse Cris, olhando para os outros cinco colegas. Mas uma delas fica me

chamando de “professora”.

- Não se preocupe. Já ouvimos nomes piores. Agora quero que cada um conheça o

outro. Prefiro que me chamem de Deão Ferrill em vez de Bob ou Sr. Ferrill. Vamos

começar com Cris.

A garota que estava ao lado de Cris chamava-se Jessica, e a outra conselheira era

Diane. Os rapazes eram Mike, Bob e Jason. Cada um disse um pouco sobre si e onde

morava. Mike e Bob eram universitários da igreja de Cris. Jason vinha da mesma igreja

que Jessica e Díane.

O Deão Ferrili falou sobre o horário da noite, chamou novamente atenção para o

regulamento do acampamento e em seguida orou. Cris achou tocante sua oração,

principalmente porque ele orou por cada um dos conselheiros e acampados, como se a

salvação de cada criança fosse a coisa mais importante da vida. Nesse momento, Cris

compreendeu que conseguiria sobreviver à semana com ele do seu lado.

Encerrada a reunião, Cris se aproximou de Jason.

- Olá! Tenho uma coisa a lhe entregar. Esqueci lá no meu alojamento. É um canivete
bastante sofisticado. Confisquei de um dos seus meninos. O nome dele é Nicolas.

- Ótimo. O Nick me disse que uma de suas meninas não larga do pé dele.

Jason parecia nascido para ser conselheiro de acampamento. Tinha corpo de atleta e

cabelo negro, curto, e um rosto que parecia esculpido em pedra. Os óculos de sol estavam

pendurados no pescoço, numa tira verde-néon, e no pulso havia meia dúzia de “pulseiras

de amizade” que os acampados aprenderam a trançar nas aulas de artesanato.

- Pode me trazer na reunião à noite? Eu guardo para ele.

- Obrigada.

Ela foi ao alojamento para pegar o casaco e o canivete antes de começar o culto.

Quando abriu a porta, três garotas saíram correndo como se fossem ratinhos fugidios.

- O que é que vocês estavam fazendo? indagou.

Correu os olhos pelo quarto e viu seu estojo de maquiagem aberto em cima da cama

de Amy.

- Ei! O que é que estão fazendo com minhas coisas?

Olhou para seu beliche e viu a mochila aberta, com algumas de suas roupas puxadas

para fora.

As três culpadas, Sara, Amy e Jocelyn, estavam geladas em seus lugares. Sara falou:

- Você disse que ficaria uma hora na reunião. Não demorou tanto assim.

- Espere um pouco! disse Cris em tom firme, sentindo-se meio irritada. A reunião

não tem nada a ver com isso aqui. Vocês mexeram nas minhas coisas sem a minha

permissão.

Cris notou que Amy estava com as faces exageradamente rosadas e tinha manchas

em volta dos olhos.

- Andou mexendo no meu estojo de maquiagem, Amy? insistiu Cris.

- Sim, “professora”, mas eu ia devolver.


- Não importa. Não mexa nas coisas dos outros, está certo? Entenderam?

As três, assustadas, fizeram que sim com a cabeça.

- Amy, vá lavar o rosto. Sara e Jocelyn, guardem minhas coisas do jeito que vocês as

encontraram. Imediatamente!

As meninas saíram de fininho. Sara ajoelhou-se para recolocar em ordem a mala de

Cris. Começou a fungar, resmungando baixinho:

- Você é chata. Queria que não fosse nossa conselheira!

Cris estava prestes a dizer que era mútuo o sentimento, quando notou o que Sara

estava vestindo.

- Por acaso esse casaco de jeans que você está usando é o meu?

Sara arrancou o casaco do corpo e o jogou no chão.

- Só estava experimentando. Eu não ia usar de verdade!

Cris pegou o casaco, deu nele uma sacudida e o vestiu, examinando em seguida a

mochila, à procura do canivete. Encontrou-o no mesmo lugar. As meninas fecharam a

mala de roupa, agora toda amassada, e se levantaram. Sara ainda chorava, e o beiço de

Jocelyn dava pena.

- Desculpe. Não vamos mais fazer isso, disse Jocelyn.

Algo dentro de Cris pedia que ela lhes desse um abraço. Mas estava com raiva

dessas pestinhas. Em vez disso, deu dois passos para trás e ordenou que pegassem seus

casacos e saíssem com ela para ir ao culto da noite. Talvez a mensagem as endireitasse.

As meninas obedeceram, ainda fungando. Amy encontrou- as à porta, a cara lavada e

nos olhos uma expressão de susto.

- Pegue seu casaco e venha conosco, disse Cris com firmeza.

Caminharam morro abaixo até o salão de cultos, onde ela as forçou a ficarem junto

dela em vez de sentar-se ao lado das amigas. Os cânticos eram animados, mas as três
prisioneiras de Cris não cantaram. Ficaram de boca fechada durante toda a reunião.

Cris começou a arrepender-se de ter sido tão dura com elas.

Sabia que ainda estavam pensando no que acontecera no alojamento e não

prestavam atenção à mensagem. Assim que a reunião terminou, ela ordenou que fossem

para o refeitório, onde seria servido o lanche da noite.

Pouco antes de deixar o prédio, Jason se aproximou de Cris e perguntou sobre o

canivete. Ela desceu a mochila do ombro, para apanhá-lo e, sem querer, balançando-a

depressa demais, bateu com a mochila no peito do rapaz.

- Desculpe! Não percebi o quanto estava pesada!

Jason não pareceu incomodar-se. Estendeu a mão e deu um aperto amigável no

ombro de Cris.

- Se ficar carregando isso por aí, você vai acabar com espasmo muscular antes de

encerrar o acampamento.

- Vou aliviar a carga hoje, prometeu ela.

Notou que as três meninas se reaproximavam dela, aparentemente curiosas por saber

o que se passava entre sua conselheira e esse cara grandão que a tocava em público.

Cris entregou o canivete ao Jason, dizendo:

- Eu disse ao Nick que você lhe devolveria no final do acampamento.

- Sem problema. Obrigado por ter pegado para mim.

- Posso experimentar seus óculos de sol? perguntou Sara, olhando para Jason, os

olhos cor-de-gengibre, reluzentes de admiração.

- Quem sabe amanhã, disse ele. Émelhor você ir até o refeitório pegar uns biscoitos

antes que os meninos comam tudo.

- Você vem? perguntou Sara.

- Claro que vamos com você, respondeu Jason. Vamos, Cris! Eles sempre têm
bolachas de creme de amendoim na segunda- feira. São uma delícia.

- Percebo que você trabalhou como conselheiro antes, comentou Cris, enquanto

atravessavam o acampamento sob a escolta de três pares de ouvidos super aguçados.

- É o terceiro que eu venho. Comecei semana passada, e vou ficar até o final de

julho. E você?

- É a primeira vez que sou conselheira. Não sei se vou me sair muito bem,

confessou, ainda se sentindo mal pelo jeito como tratara as meninas.

- Ah! Você é a melhor conselheira que já tivemos, não é mesmo? perguntou Sara às

outras duas. E é bonita também, não acha, Jason?

Cris sentia o rosto corar. Como essas meninas mudavam tão depressa a opinião que

tinham dela? Antes que Jason conseguisse responder, Amy interferiu:

- E se tiver qualquer coisa que ela necessite aprender sobre o acampamento, você

pode ensinar. Ela é a nossa professora, e você pode ensiná-la. Sacou?

A essa altura, tinham chegado ao refeitório, e Jason, educadamente, completou:

- Se tiver qualquer coisa em que eu possa ajudar, fale comigo. Tenho certeza de que

terá uma excelente semana.

- Ela vai sim, não é, “professora”? respondeu Amy com entusiasmo, e saiu correndo

com as outras meninas, dando risadinhas.

Naquela noite foram necessárias duas horas para as meninas se acalmarem. Mesmo

depois disso, Cris ainda temia que uma delas fingisse estar dormindo e saísse de fininho

logo que ela pegasse no sono. Permaneceu meio sonolenta, meio acordada, procurando

ouvir algum ruído no meio do silêncio.

Depois de algum tempo, verificou o despertador com sua lanterna: 1:25.

Nunca vou conseguir acordar às seis! E ainda é a primeira noite!

A segunda não foi muito melhor. O dia previa muitas atividades para os acampados.
Cris tinha certeza de que, com a natação, hipismo, arco e flecha e as horas de vigília até

tarde da noite, as meninas iriam para a cama sem hesitar.

Mas não. Elas queriam conversar. Sobre meninos.

- Não vamos precipitar as coisas, tá bem? Vocês ainda são novas demais pra pensar

em meninos, disse Cris, depois de conseguir que todas pulassem na cama e apagassem a

luz.

- A gente já vai fazer 13 anos, observou Sara. Não somos tão novinhas assim.

Quando você começou a namorar?

Cris teve de pensar. Lembrou-se de que fora a um acampamento de verão com sua

amiga Paula, já com doze anos. Lembrou-se também de que ela e Paula haviam passado a

maior parte daquela semana tentando atrair a atenção dos meninos.

- Não tem importância. Existe muito mais para se fazer no acampamento do que

ficar preocupada com os meninos. Além do mais, parece que nenhum deles se interessa

por vocês. Sabe como é, né? Meninas amadurecem mais depressa do que meninos.

- Sabemos isso, “professora”, disse Amy em seu beliche, no outro lado do quarto às

escuras. Conta pra gente coisas que a gente não sabe.

- Coisas que vocês não sabem?

- É. Por exemplo, como é ser beijada pelo namorado, disse Sara.

- Ela não deixou bem claro que tinha namorado, interrompeu Amy. Acho que o

Jason quer ser seu namorado.

Todas as meninas aprovaram o comentário, ruidosamente e em uníssino.

- Fiquem em silêncio senão o Deão Ferrill vai vir como ontem à noite, e mandar a

gente calar. Não quero me dar mal de novo.

- Você não acha ele bonitão? indagou Jocelyn cochichando.

- Quem? perguntou Cris, fingindo-se de desentendida. O Deão Ferrill? Claro,


suponho que seja, para um homem da idade do meu pai.

- Não, ele não, Jason.

- Sabe de uma coisa, meninas? falou Cris em tom sério. Está tarde demais para a

gente ficar conversando assim. Todas vocês se aquietem e vão dormir.

Seguiu-se uma rodada de reclamações.

- Estou falando sério! insistiu ela meio zangada. Todo mundo se acomode agora

mesmo!

Naquele instante houve uma batida forte na porta. A voz do Deão Ferrill ressoou;

- Está tudo bem aí, Cris?

- Sim. As meninas já vão dormir agora, não é, meninas?

Alguém fingiu roncar alto e outra menina disse:

- Ei Pare de bater em nossa porta! Estamos tentando dormir aqui!

- Boa noite, senhoritas, disse o Deão Ferrill com firmeza. Não quero ter de voltar

aqui para verificar de novo se estão dormindo.

- Não será preciso, prometeu Cris. Vamos dormir agora. As meninas ficaram quietas

ao ouvir o Deão Ferrill se afastar de sua porta. De repente, no meio do silêncio, Sara

gritou:

- Ei, Deão Ferrili! A Cris acha que, pra sua idade, você até que é um velho bonito!

O travesseiro de Cris atravessou a escuridão do quarto e acertou em cheio a boca da

menina.
Amar nunca é Demais

- Como estão as coisas, Cris? perguntou o Deão Ferrill no dia seguinte, na reunião

dos conselheiros.

- Razoáveis. Peço desculpas pelo comentário de Sara ontem à noite.

- Não se preocupe. Como as meninas parecem estar respondendo espiritualmente?

- Não muito bem, eu diria. Eu precisava de umas dicas sobre o que devo fazer.

- Como estão seus planos para os devocionais no alojamento? perguntou Jessica.

Ela parecia um modelo, postura reta e movimentos delicados. Tinha ganho a

competição de natação do dia anterior. Seu cabelo cor-de-caramelo estava preso num

rabo-de-cavalo, e a julgar por seu rosto delicado, ela devia estar seguindo um programa

rígido de tratamento de pele. Sem um pingo de maquiagem, estava lindíssima.

- Os devocionais no alojamento?

- Os cultinhos do quarto. O que você está fazendo com as meninas à noite antes de
dormir?

- Ralhando com elas, respondeu, meio na brincadeira, meio séria.

- Os devocionais ajudam as garotas a se acalmarem. Neles a gente consegue que elas

se abram mais. Vamos conversar na hora livre, hoje à tarde, e posso lhe dar algumas

idéias.

- Ótimo. Obrigada!

Cris teve a impressão de ver o Jason sorrindo para ela. Será que era porque ela era

inexperiente ou porque ele estava querendo ser agradável? A reunião terminou com um

maravilhoso período de oração em favor dos acampados. Pelo jeito como todos oravam,

Cris estava certa de que algo de valor eterno teria de acontecer logo com “suas” meninas.

Naquela manhã, no recreio, as meninas de Cris disputaram com os meninos do Jason

no treino de arco e flecha. Ela não atirava flecha desde que tinha 13 anos. Felizmente,

“suas meninas” achavam que ela era a “entendida” em tudo e no momento ela apreciaria

todo voto de confiança que elas lhe dessem.

As garotas fizeram fila, encarando o alvo afixado ao monte de feno. Cris pegou um

arco e mostrou como se segurava e mirava o alvo. A flecha voou uns três metros e parou

perigosamente perto do pé de Jason. Os acampados caíram na gargalhada enquanto Cris,

de rosto vermelho, foi até o lado dos meninos pegar a flecha extraviada.

- Desculpe, murmurou para Jason. Não sei o que deu errado.

- O seu cotovelo estava baixo. Ergue mais, assim, demonstrou Jason com o arco na

mão.

Cris tentou imitar sua postura e posição do cotovelo. Parecia que não estava certo.

- Assim? Ou mais alto?

- Deixa eu lhe mostrar pediu Jason, largando seu arco e aproximando-se dela.

Colocou o braço musculoso em volta de seu ombro e a mão sobre a dela.


- Puxe para trás, assim. Mantenha o cotovelo alto. Está sentindo?

Cris começava a sentir alguma coisa, sim; os olhos de onze meninas pré-

adolescentes vidrados nos dois. Sabia que jamais conseguiria convencê-las de que ele

estava apenas tentando ajudá-la.

- Agora experimente! falou Jason dando um passo para trás. Cris soltou a corda

retesada e a flecha sibilou no ar, atingindo a parte branca do círculo.

- Muito bem! exclamou o rapaz. Viram isso aí, meninos?

Dois dos garotos maiores disseram:

- Claro que vimos, Jason. Tem certeza de que não quer que a gente vá embora para

vocês dois ficarem a sós?

Jason fingiu não ouvir a pergunta. Colocou os braços no ombro do primeiro garoto

da fila e mostrou a posição correta do mesmo jeito que tinha mostrado a Cris. Ela

aproximou-se da sua turminha, que mais parecia um bando de matracas, com uma

expressão séria no olhar.

- Quem vai ser a primeira?

Olhar meio perdido, meio tonto, as meninas cochichavam entre si.

- Sara! Venha você primeiro.

Cris colocou o braço em volta de Sara, imitando a posição correta do arqueiro,

ensinada pelo Jason. Esperava que as meninas pensassem que era assim que todo mundo

aprendia a atirar a flecha, com o braço no ombro. Pacientemente, pôs a mostrar como se

atira. Elas pareciam querer agradar e Cris começou a encará-las por outra perspectiva.

Não as via mais como pestinhas, mas como bebês longe de casa que precisavam de um

grande abraço.

Quando já se aproximava o final do exercício, Cris olhou para o lado dos meninos e

viu que Jason a observava. Ele sorriu e fez-lhe um sinal positivo.


Ela sentiu que nos últimos dias crescia sua admiração por Jason. Será que ele

gostava dela? Será que ficava olhando para ela no refeitório? Será que ele estaria na

piscina no horário livre?

Com o “positivo” do Jason, essa admiração transbordou, enchendo seus

pensamentos. Jason, Jason. Nenhum outro rapaz, no mundo inteiro, existia naquele

momento. Só ele.

No almoço ela procurou ver onde ele estava sentado antes de escolher sua mesa. A

regra era um conselheiro em cada mesa. Ela pensou que, se conseguisse vê-lo de imediato,

poderia sentar-se à mesa próxima da sua, de maneira a ficarem de costas um para o outro.

O plano deu certo. Havia uma mesa vazia ao lado da mesa dele, e uma cadeira vazia atrás

da sua. Ela sentou- se em silêncio, fingindo não perceber que ele estava lá.

- Ei, Cris! Você viu o resultado final da competição de arco e flecha?

- Olá, Jason! saudou, sentindo-se como uma de suas meninas cheias de manha. Não,

não vi. Como foi?

- Suas meninas ganharam dos meus garotos com uma diferença de dez pontos.

- Verdade? Nunca imaginei que isso pudesse acontecer! exclamou Cris sorrindo.

Obrigada por toda a sua ajuda.

- De nada. Disponha.

Naquele momento as portas do refeitório se abriram e os acampados entraram.

Corriam como porquinhos-da-índia em fuga, sem saber para onde iam, mas alucinados

para chegarem na frente. As meninas da Cris se acomodaram à mesa em tempo recorde e

ficaram se acotovelando.

Jessica veio até a mesa de Cris, acompanhada de duas admiradoras, agarradas uma

em cada braço.

- Onde vamos conversar depois do almoço? indagou ela em meio ao barulho.


Cris não sabia, e olhou para Jessica pedindo sugestão.

- Que tal o salão de cultos?

Cris concordou e Jessica cedeu à persuasão de seu pequeno fã-clube.

Quando elas se encontraram, conforme planejado, Cris ficou olhando por cima do

ombro para ver se Jason a estava seguindo. Ele parecia ir ao galpão de exposição de

artesanato. Talvez ela devesse ir para lá depois que conversasse com Jessica - verificar se

alguma de suas meninas estaria ali, naturalmente.

- Primeiro, disse Jessica, quando se sentavam no velho sofá, não estou tentando lhe

dizer como deve agir com as suas meninas. Você está fazendo um excelente trabalho. Não

quero interferir nem lhe ensinar o que fazer.

- Não pensei isso de jeito nenhum! Preciso que me ajude mesmo!

Durante meia hora Jessica deu-lhe algumas sugestões práticas sobre como preparar

um bom devocional e falou do que fizera no ano passado quando ficara com as meninas

de 12 anos, e que tinha dado resultados.

- Este ano, na verdade, está mais fácil por causa do grupo que tenho. Elas são as

mais novas, as que estão com 9 para 10 anos. Algumas estão tendo dificuldades por estar

com saudades dos pais. Mas não são muito boas nos cuidados higiênicos, a não ser que a

gente lembre a elas o que fazer. Assim mesmo, no todo, prefiro as mais novinhas.

- Elas parecem gostar demais de você.

- Bem, acho que aprendi muito com algumas falhas que cometi no ano passado. Só

percebi o que estava fazendo errado quando o acampamento se encerrou, e este ano estou

tentando agir de maneira diferente.

- Posso perguntar em que você errou no ano passado? indagou Cris, em tom

cauteloso.

Jessica parecia tão acessível, que ela sentiu que não haveria problema em fazer uma
pergunta pessoal.

- Cris, eu lhe digo que há uma coisa que você nunca pode fazer.

Naquele instante, a perseguidora de meninos, Jeanine, rompeu porta adentro,

empunhando um boné de beisebol. Com gritos estridentes correu para trás do sofá e

implorou:

- Não deixe ele me pegar!

Fora da porta, Nick obedecia ao cartaz que dizia “proibido aos acampados” e ficou

do lado de fora, olhando para dentro, a ver se achava Jeanine.

- Chega! gritou Cris, saltando e exigindo que Jeanine devolvesse o boné. Já foi longe

demais. Me dê o boné. Agora largue o pobre do menino e não pegue mais nada do que é

dele. Entendeu?

Jeanine entregou-lhe o boné, mas parecia um cachorrinho espancado. Com sua voz

miudinha, murmurou:

- Desculpe!

Cris saiu pela porta e entregou o boné ao Nick, que parecia um pouco irritado. Dois

dos seus amigos colocaram-se do seu lado para dar-lhe apoio moral.

- Quer mandar ela parar? pediu o garoto.

- Sabe de uma coisa, Nicolas? Só é brincadeira se os dois brincarem. Se você parar

de correr atrás, ela não vai se divertir mais, e garanto que ela pára.

Um dos guarda-costas do Nick murmurou:

- Duvi-dê-ô-dó.

Nick colocou o boné na cabeça e os três foram para a quadra de beisebol. Cris

assistiu a tudo e quase soltou uma gargalhada. Eram versões em miniatura de Rick,

Douglas e Ted.

Elefantes, macacos e cobras. Nossa!


Quando Cris voltou, viu que Jessica estava sentada ao lado de Jeanine no sofá.

Jessica, conselheira experiente, afastava o cabelo do rosto da menina e conversava

baixinho com ela. Jeanine bebia cada palavra em silêncio. Depois anuiu:

- Está certo, vou tentar.

Jeanine deu um salto e olhou para Jessica de uma maneira que jamais teria olhado

para Cris. Verdadeira admiração. Depois saiu correndo.

- O que você disse a ela? indagou Cris sentando-se no sofá.

- Eu lhe falei que, em vez de tirar as coisas do Nick, talvez ela devesse experimentar

dar-lhe alguma coisa para atrair a atenção dele. Ela foi para o centro de artesanato fazer

uma pulseira da amizade.

- Brilhante. Como você pensou nisso?

- Era o que eu ia dizer-lhe quando ela entrou correndo. Uma coisa que temos de

fazer é amar muito. Por mais que as amemos, nunca estaremos amando demais.

- Amar nunca é demais, repetiu Cris.

- É. Quando acabou o acampamento no ano passado, percebi que eu tinha feito

muitas coisas “certas” como conselheira, mas não havia amado as meninas tanto quanto

poderia. Sabe o que quero dizer?

Cris lembrou-se de quando pegara as meninas mexendo em sua roupa. Sim, sabia

bem o que Jessica queria dizer.

- Sabe, a gente não pode discutir com o amor. Quando o acampamento acabar, do

que é que as meninas se lembrarão? das briguinhas? da corrida das equipes no último dia?

do que disse o pregador?

- Tenho certeza de que se lembrarão um pouco disso, disse Cris. Eu me lembro um

pouco dos meus tempos de acampamento.

- Mas de que é que você mais se recorda, além do acampamento? Quero dizer, em
toda a sua vida? Acho que todos nós nos lembramos das pessoas que nos amaram.

Cris acatou bem o conselho de Jessica. Sabia que sua nova amiga estava certa. Após

a conversa, andando animadamente até o centro artesanal, Cris ficou a imaginar como

aplicaria esse conselho ao Jason. O que ele lembraria a respeito dela, após o

acampamento?

Outros pensamentos colidiam em sua cabeça, como se todas as emoções se tivessem

juntado e estivessem sendo submetidas ao tribunal de sua consciência. Ela é que estava

sendo julgada. A voz do promotor dizia que ela era tola e imatura por estar correndo atrás

de um cara no acampamento quando tinha o Ted esperando-a em casa. Outra emoção

entrou como testemunha de defesa e disse que ela tinha o direito de cultivar

relacionamentos com qualquer rapaz que quisesse, e isso tudo fazia parte do

acampamento.

No momento em que ia entrar no centro artesanal, Cris imaginou as meninas de sua

cabana como juradas. Suas frágeis vozes se ergueram em uníssono dizendo “Inocente”

bem alto em sua mente. Agora, sentia-se livre para entrar no centro e ver o que aconteceria

a seguir. Foi logo avistando o Jason. Ele ergueu os olhos e a viu no mesmo instante.

- Cris! saudou-a. Exatamente a pessoa que eu queria ver! Você pode ajudar essas

meninas a fazer essas pulseiras? Eu preciso ir ver os meus garotos na piscina dentro de

cinco minutos.

Sara, Amy e Jocelyn sorriram generosamente, em sinal de aprovação, e começaram

todas a falar ao mesmo tempo. Cris aproximou-se da mesa onde as três estavam quase

terminando de trançar as pulseiras da amizade.

- Pode amarrar a minha? perguntou Sara. Eu terminei. Gostou? Está bonita?

- Está linda, disse Cris, amarrando as duas tiras de couro no fino pulso de Sara. Você

fez um excelente trabalho.


Jason deu um aperto no ombro de Cris, e disse:

- Muito obrigado pela ajuda aqui. Eu a vejo mais tarde. Talvez na piscina?

- Claro, a gente vai à piscina depois, respondeu Amy pela Cris. Não vamos,

“professora”? Já acabamos, não é mesmo, gente?

- Então vejo você depois, disse Jason olhando por sobre o ombro ao tomar a direção

da piscina.

- Acabei, anunciou Sara.

Vendo que o rapaz já se distanciara e não a ouviria, a garota sorriu para Cris, e falou:

- Jason perguntou se você tem namorado e nós dissemos que não, porque você nunca

disse se tem namorado ou não. A gente disse para ele que você gosta dele e ele disse que

gosta de você.

As três meninas cercaram Cris. Seus olhos reluziam.

- E então, você gosta dele? perguntou Amy. Vai beijar ele?

Cris mal podia acreditar no que ouvia. Resolveu que uma resposta forte e direta seria

melhor.

- Acho o Jason um cara muito legal. É um crente firme e isso é uma qualidade muito

importante para se procurar num rapaz.

- Nós sabíamos! gritou Sara. Sabíamos que você gostava dele! Vamos agora para a

piscina?

Jocelyn e Amy estenderam os braços para Cris amarrar as suas pulseiras e depois

subiram o morro correndo atrás de Sara para irem vestir o maiô.

Cris percebeu que Jeanine devia ter se distraído, porque não estava fazendo sua

pulseira para dar ao Nicolas. Ou, então, ficara tão entusiasmada, que já tinha terminado e

correra para apresentá-la ao “namoradinho”.

Cris levou alguns minutos fechando o centro artesanal e depois seguiu morro acima.
Encontrou-se com as meninas no meio do caminho, já vestidas de traje de banho e com

toalhas na mão.

- A gente se vê lá! gritaram elas, e desceram numa desabalada correria na direção da

piscina.

Quando Cris chegou à piscina pouco depois, elas estavam fazendo guerrinha de água

com Jason e os “seus meninos”. Não estava com muita vontade de “entrar nessa batalha”.

Felizmente, o salva-vidas apitou e mandou que parassem a bagunça e saíssem da piscina.

Ela estendeu a toalha sobre o cimento quente.

Seus três ratinhos afogados foram os primeiros a sair, reclamando e argumentando

que os meninos não estavam sendo justos. Elas se enrolaram em suas toalhas e sentaram-

se ao lado de Cris, lançando comentários ferinos aos meninos.

Jason se postou entre os seus meninos tentando aquietá-los. Olhou para Cris, sorriu e

deu de ombros, como quem diz: “O que se pode fazer com esses palhaços?” Cris

retribuiu-lhe o sorriso.

- Ele gosta de você, comentou Sara, erguendo a mão esquerda de Cris e

pressionando suas unhas. São de verdade? Quer dizer, são suas?

- Sim, são minhas, e são de verdade.

- Tão compridas exclamou Sara, enquanto Amy e Jocelyn se aproximavam mais para

apalpar as unhas também.

- Mais ou menos, replicou Cris.

- São mais compridas que as minhas, disse Amy. Como a gente faz pra elas

crescerem assim?

- Primeiro, tem de parar de roer, respondeu Cris.

- Eu tô sempre roendo as minhas, confessou Jocelyn.

As meninas continuaram comparando suas unhas com as de Cris, e entre si mesmas.


Cris ergueu a vista por cima e notou que Jason conversava com o salva-vidas. Este apitou,

dando sinal para que todos na piscina parassem onde estavam.

- Vamos colocar a rede de vôlei no lado raso, anunciou o salva-vidas. Todo mundo

que quiser jogar vôlei aquático passe para o lado de lá. O resto fica no fundo.

Aparentemente, fora idéia do Jason, porque ele já tinha tirado a rede do armário e os

meninos dele estavam ajudando a armar o “campo”.

- Eu não quero jogar com eles, disse Amy. Eles sempre roubam. Nós vamos ficar

aqui com você.

O fã-clube de Cris colocou as toalhas perto da dela, respingando água nela.

- Quer jogar? perguntou Jason assim que a rede foi instalada.

- Não! respondeu Sara, agarrando o braço de Cris.

As outras garotas repetiram-lhe o gesto.

- Ela vai ficar aqui conosco, concluiu.

Cris teve uma enorme vontade de se livrar desses carrapatos encharcados que a

cercavam, mas, lembrando-se do conselho de Jessica, resolveu ficar. Era a oportunidade

de demonstrar que as amava. Além do mais, não era lá essas coisas em vôlei de terra,

como iria se sair no aquático? Sabia que na água seria bem pior.

Agora era a vez de Cris sorrir e dar de ombros para o Jason, que lhe fez sinal de

“tudo bem” e jogou a bola na água. O resto da tarde, ela ficou perto da piscina, olhando o

Jason, conversando com suas meninas e esperando que ele fosse conversar com ela. Ele

não foi, mas olhava muito para seu lado.

No jantar, Cris chegou no refeitório antes do rapaz e sentou- se numa mesa vazia e

ficou de olho na porta. Assim que ele chegou, foi logo para perto dela.

- Aí está você, disse ele, sentando-se a uma mesa próxima. Suas meninas me

disseram que vocë ainda não tem uma pulseira dessas.


Ele desamarrou com os dentes uma das pulseiras de couro do seu pulso e ofereceu-a

a Cris.

- Enquanto a gente não ganhar uma dessas não pode se considerar conselheiro

oficial do Acampamento Wildwood.

- Obrigada! falou Cris, estendendo a mão esquerda para o Jason amarrar a pulseira.

A sua de ouro, “Para Sempre”, estava no pulso direito, e ela achava que as duas

pulseiras não combinavam. Enquanto Jason amarrava as tirinhas, a porta do refeitório se

abriu e a manada de acampados estourou. As meninas de Cris correram para a mesa ainda

a tempo de ver o rapaz amarrando a pulseira e dando um grande sorriso, que ela retribuiu.

Foi quanto bastou para que começassem a cochichar: “Agora os dois estão namorando.”

As pequenas “casamenteiras” fizeram tudo que podiam para que Cris e Jason se

sentassem juntos durante o culto e caminhassem lado a lado para o refeitório à noite, na

hora do lanche. Cris tinha de admitir que era divertido fazer o papel de heroína. Seis de

suas garotas agora ficavam grudadas nela e a conduziam pelo braço para onde queriam,

dizendo-lhe que ela estava muito bonita e que o Jason gostava dela.

Ele também parecia estar gostando do papel de herói. Dava para notar que já tinha

passado por essa espécie de tratamento muitas vezes antes, em virtude dos anos de

experiência como conselheiro. Cris sabia que devia ser assim a cada acampamento.

Também concluiu que era apenas uma numa longa fila de conselheiras destinadas a

“namorar” o Jason durante uma semana.

Não tinha importância. Estava se divertindo demais para pensar no final desse jogo.

Na manhã seguinte encontrou dificuldade em acordar. Era quarta-feira, meio da

semana. Foram avisados na reunião de conselheiros que era aí que começariam a sentir o

peso da semana. Mas as meninas pareciam não ter problemas para acordar. Cris cobriu a

cabeça, tentando mais alguns minutos de sono.


- Você não vai tomar banho? perguntou Sara, batendo no ombro de Cris. Você,

quando acorda, vai sempre para o chuveiro.

- Me dá mais cinco minutos. Só cinco.

- Mas já são quase 6:30, disse uma das garotas. Você tem de chegar ao refeitório

antes das sete, para pegar uma mesa perto da do Jason.

- Ah! Tenho, hein? perguntou, afastando o saco de dormir do rosto e olhando para os

sete pares de olhos que a fitavam.

- Sim, ele gosta mesmo de você e vai ficar zangado se você não chegar na hora.

- Ah,é?

Cris retirou as pernas do seu casulo quentinho, sentindo nelas o ar frio da manhã, e

em seguida pisou o chão de madeira.

- Escutem, meninas, esse quarto está uma bagunça total. Ontem recebemos só cinco

pontos pela limpeza. Hoje quero que a gente ganhe os dez pontos. Quer dizer que cada

uma tem de guardar suas coisas e cooperar na limpeza.

- Aqui! Veste isso, disse Amy, puxando uma camiseta corde-rosa da mala de Cris e,

colocanào-a sobre seu saco de dormir, tentou alisá-la com a mão.

- E o short jeans, aconselhou Jocelyn.

- Está bem, está bem! Aprontem-se, meninas. E não se esqueçam de arrumar o

quarto.

Cris estava começando a tomar ojeriza a essa parte do dia, quando não podia ir ao

banheiro ou lavar o rosto sem enfrentar o frio da manhã ou a caminhada até os sanitários.

Vestiu-se depressa, pegou sua nécessaire e a toalha e dirigiu-se à porta.

- Nós vamos com você, gritaram quatro meninas. Espera aí!

Ficou em pé do lado de fora do alojamento, tremendo e esperando sua turma entrar


nos eixos. Sete meninas a acompanharam, disputando-lhe um braço, enquanto batiam a

trilha de terra.

Chegando ao banheiro, lá encontrou Jessica com o seu fã-clube. Tinha uma

aparência reanimada e bonita, pronta para enfrentar o dia.

- Como é que você consegue isso? perguntou Cris.

- O quê?

- Como consegue ficar tão desperta? Eu estou exausta.

- Finalmente, ontem consegui que todas dormissem na hora. Fiz o devocional mais

curto. E o seu, ontem, como foi?

Cris molhou rápido o rosto, para não sentir muito o impacto da água gelada.

- Brr! exclamou ela, apertando contra o rosto a toalha que cheirava a mofo. Bem,

acho que foi jóia.

As acampadas estavam correndo pelo banheiro, Algumas se achavam perto da pia de

Jessica e Cris, imitando-as ao jogar no rosto a água gelada e exclamando: “Brr!”

- Foi ótimo! falou Jocelyn respondendo por Cris. Conversamos a noite toda.

- Coloquei em prática a sugestão que você me deu de procurar conhecê-las melhor,

pedindo que cada uma me falasse sobre sua família. Foi longo demais, mas elas todas

falaram bastante. Acho que as conheço muito melhor agora.

- E ela gosta mais da gente, também, acrescentou Amy. Não é mesmo, “professora”?

Jessica e Cris sorriram e se entreolharam.

- Por mais que amemos, nunca será demais, cochichou Jessica no ouvido de Cris.

E juntando suas coisas, concluiu:

- Você está fazendo um excelente trabalho, Cris. A gente se vê no café da manhã.

Cris sentiu-se reanimada, encorajada. Talvez fosse sobreviver a semana, afinal.


A canoa Virou

A quarta-feira passou depressa com a rotina normal das reuniões de conselheiros,

estudo bíblico pela manhã, recreação e a tarde livre. Cris tencionava passar a tarde à beira

da piscina, com suas meninas, já que Jason dissera que ia para lá. Mas quando entrou na

cabana para pegar o maiô, encontrou Ruthie chorando.


Cris sentou-se ao lado dela, abaixando a cabeça para enfiá-la no vão das duas camas.

Colocou a mão nas costas da menina e massageou-a devagar.

- O que foi, meu bem?

O choro de Ruthie se transformava em pequenas fungadas.

- Ninguém aqui gosta de mim.

- Gosta sim. Todo mundo gosta de você. Eu, por exemplo, gosto muito de você.

- Mas todas têm amigas aqui. Sentam-se juntas e fazem as coisas juntas no horário

livre. Eu não tenho ninguém. Ninguém me chamou. Elas todas vão pra lá sem me

convidar.

Cris continuou massageando. E passava também a mão no seu cabelo castanho-

claro. Disse apenas:

- Sinto muito!

Pensou nos muitos conselhos que poderia dar a Ruthie, mostrando-lhe que a melhor

atitude seria ser mais amigável, e que não adiantava ficar deitada com pena de si mesma

quando havia tanta coisa a fazer lá fora. Mas lembrou-se das vezes em que se sentira só,

em que fora deixada de lado e ficara triste. O melhor mesmo a fazer era estirar-se na cama

e derramar umas boas lágrimas.

Não gostava quando sua mãe vinha dizer-lhe como deveria se comportar ou como

deveria sentir-se. Cris sempre desejou que sua mãe a deixasse chorar e ficasse triste com

ela por alguns minutos.

Ficou quieta, massageando as costas de Ruthie e esperando que ela parasse de

chorar. Finalmente, a garota deu mais algumas fungadas no travesseiro e parou.

- Toma aqui! falou Cris oferecendo-lhe sua caixa de lenços de papel. Use um desses

e não o seu travesseiro. Você vai ter de dormir nele à noite, lembra?

Ruthie pegou o lenço e assoou o nariz.


- Você acha que eu sou um bebê, não é?

- De jeito nenhum, replicou Cris, dando-lhe outro lenço. Acho que você é uma linda

jovenzinha que está se tornando uma bela mulher.

A menina assoou forte e, rindo-se, pediu desculpas pelo barulho.

- Tudo bem. Está melhor agora?

Ruthie fez que sim e sorriu.

- Muito bem. E agora, o que você tem vontade de fazer? Vamos fazer juntas.

- Eu queria andar de canoa, mas ninguém mais queria.

- Eu vou com você.

- Tem certeza? Você não prefere ficar com o Jason?

- Não. Prefiro ficar com você.

Ruthie pulou da cama, com ânimo renovado, e foi à porta. Cris seguiu atrás,

sentindo-se contente de ver a menina reanimada. Na caminhada até a lagoa, Ruthie

apertou-lhe a mão. Cris retribuiu-lhe o gesto.

- Como é que você sabe direitinho o que tem de fazer quando uma menina está

chorando?

- Acontece que sou especialista nesses probleminhas. Quando eu tinha a sua idade

chorava toda hora.

- E não chora mais?

- Claro que ainda choro, mas não tanto. Ainda tenho alguns desses problemas que

me levavam a chorar no travesseiro quando era pequena, mas não choro mais tanto quanto

antes.

Ruthie soltou a mão de Cris e correu até a orla da mata, onde pegou uma pequena

flor amarela e entregou à jovem.

- Obrigada, Ruthie, falou Cris, colocando a flor na beira da sua tiara, logo acima da
orelha. E você deve gostar muito do seu nome. Tem uma Rute na Bíblia, sabia? Tem um

livro inteiro sobre ela, porque ela foi uma amiga muito leal de outra pessoa. E é assim que

vou me lembrar de você, Ruthie, minha amiga leal.

A garotinha deu um sorriso largo, o que raramente fazia, pondo à mostra o aparelho

dos dentes. Nada tinha da menina de cara amarrada que dissera detestar seu nome. Parecia

outra.

Caminharam pela clareira até a praia de cascalhos, ao lado da lagoa. Ruthie logo

notou que duas das meninas do alojamento delas, Sara e Jeanine, estavam lá. Cris pensou

que, se Jeanine estava ali, Nick provavelmente estaria por perto. Daí a pouco viu o garoto

com seus dois amigos no lugar onde guardavam os barcos, e parecia que retiravam uma

canoa.

- Vai perguntar às duas se elas querem dar um passeio de canoa conosco? Tenho a

impressão de que pelo menos uma delas iria querer.

Ruthie correu para convidar Jeanine e Sara enquanto Cris foi pegar uma canoa. Só

quando chegou na barraca de guardar os barcos é que notou que Jason estava atrás da

janela, distribuindo coletes salva-vidas.

- Cris, você é exatamente a pessoa que eu queria ver! Que tal levar essa turma para

andar de canoa? Eu disse ao Mike que o substituiria aqui até as quatro.

- Ela vai nos levar para passear de canoa, respondeu Jeanine, encostando-se na

janela com Ruthie e Sara.

- Podemos levar um dos meninos, acrescentou Jeanine, dando um sorriso para o

Nick.

- Não, disse Jason. Só quatro pessoas por canoa.

Jason olhou para o relógio e em seguida para o Nick e seus amigos, e disse:

- Eu não devia fazer isso, mas como vocês já remaram antes e sabem bem essas
coisas, vou deixar que remem sozinhos numa canoa. Cris, fique de olho nos três, e procure

ficar perto deles na lagoa, em caso de acidente.

- Claro, está ótimo.

- E eu vou ficar aqui, olhando vocês, disse Jason, passando-lhes os coletes.

Pegou no braço de Cris quando ela estendeu a mão para pegar seu colete e deu um

apertão.

- Muito obrigado. Você é um doce, falou.

As meninas ouviram o comentário e se acotovelaram a ela quando se encaminhavam

até a canoa.

- Ele gosta de você comentou Jeanine em alto e bom som.

- Shhhh! fez Cris e, chegando bem perto de Jeanine, perguntou: E aí, como vão as

coisas entre você e Nick?

- Acho que vão bem. Hoje ele não bateu em mim nenhuma vez.

- E você não tirou nada dele?

- Não. Eu dei pra ele uma pulseira, que nem a Jessica disse, mas ele não está usando

ela.

- Tudo bem, exclamou Cris, dando-lhe um aperto em volta do gordo colete

alaranjado. Estou muito satisfeita com você. Está indo muito bem.

O sorriso de Jeanine brilhou.

A turma de Cris demorou mais do que os meninos para zarpar com a canoa. De

repente, havia ali quatro capitães e nenhum marinheiro. Jason foi ajudar, dando-lhes um

bom empurrão. Cris sentou-se na frente, remo na mão, e Ruthie no meio. Jeanine e Sara

insistiram em partilhar o banco de trás com um remo na água.

- Verifiquem se estão remando na mesma direção! recomendou Jason quando

começavam a balançar sobre a calma lagoa.


- Tchau! gritou Sara, dramaticamente, pondo-se de pé para acenar para o Jason.

- Sente-se! gritaram todos ao mesmo tempo, pois a canoa começara a virar.

- Escutem aqui, disse Cris por cima do ombro. Vocês todas me sigam. Se meu remo

estiver na água deste lado, coloquem os seus do mesmo lado. E façam o mesmo se eu

trocar de lado.

Cris mostrou-lhes como deviam coordenar os remos, esperando que ninguém

suspeitasse que ela já não remava desde a idade delas. E isso foi em Minnesota, com tio

Tom ao remo.

A “tripulação” obedeceu às ordens, e tudo parecia tranqüilo, sem problemas.

- Vamos alcançar os meninos, disse Jeanine, remando animada do seu lado.

A canoa deu uma rápida guinada à esquerda, em direção à praia.

- Temos de remar juntas, disse Cris. Lembram-se do que eu falei? Sigam-me.

Pegou o remo e o meteu pelo lado esquerdo, puxando a água três vezes para corrigir-

lhe o curso, tomando a direção dos meninos. Aí mudou o remo para o lado direito, mas as

meninas não estavam prestando atenção. Sara e Ruthie continuaram remando no lado

esquerdo. Parecia que nem saíam do lugar.

Cris deu mais instruções. A canoa vagou devagarinho para o centro da lagoa, meio

sem rumo.

- Olha os patos! exclamou Sara. Estão chegando pertinho da canoa. Vamos parar

aqui pra olhá-los.

- Não, não pode. Temos de nos aproximar dos meninos, objetou Jeanine. Lembre-se

do que o Jason disse. Temos de ficar perto deles, e eles estão indo para o outro lado da

lagoa.

- O que é que tem daquele lado? perguntou Cris.

- É onde tem a “caçada” dos conselheiros no último dia, explicou Sara. Todos os
conselheiros vão para lá de canoa e se escondem, e nós corremos para procurá-los. Quem

achar seu conselheiro primeiro tem que pegar a fita dele e correr de volta para a barraca

dos barcos.

- Mas os conselheiros tentam ganhar da meninada, acrescentou Jeanine. Voltam às

canoas e têm de fincar as bandeiras na casa dos barcos.

- Parece muito divertido.

- Quem perde tem que servir o jantar no banquete da última noite. Temos os capitães

das equipes, e se os acampados perderem, servem os conselheiros, sentando-se todos

juntos em torno de uma mesma mesa.

- E se os conselheiros perderem? perguntou Cris.

- Aí eles tem que servir todas as mesas.

- Bem, espero que ganhemos. Gostaria muito que alguém me servisse o jantar.

Remem à direita, meninas! Estamos indo longe demais.

Elas atravessaram o lago, melhorando a remadura, até quase se alinharem com os

meninos. Cris sentia um aperto nos músculos do braço. Nunca imaginara que remar

doesse tanto, nem que esse pequeno lago fosse tão difícil de atravessar.

- Como estão indo aí? gritou Cris para os meninos, quando estavam perto deles.

- Estamos pescando, disse Nick.

Ele puxou para fora d’água um pedaço de pau com uma corda marrom atada a uma

das extremidades. Havia uma minhoca na ponta da corda. Cris achou a vara de pescar a lá

“Tom Sawyer” bem boiada.

- Aaaai! exclamou Sara. É uma minhoca!

- Adivinhona! disse um dos meninos.

- Detesto minhocas, observou Sara.

Nick apontou a vara de pescar na direção da canoa das meninas, para que Sara
avistasse a minhoca mais de perto. Passou-a rente ao rosto da garota, e ela gritou,

assustada.

- Ei! exclamou Jeanine ao ver a minhoca de perto. É a pulseira da amizade que eu

lhe dei!

- Valeu para alguma coisa, não é mesmo? comentou Nick, dando risada.

- Quero de volta! Dei duro para fazer. Não é para ser linha de pescar!

Jeanine ficou de pé e tentou pegar a linha, que Nick logo puxou. Antes que Cris

pudesse prever o que estava acontecendo, Jeanine caiu na lagoa.

- Jeanine! gritou Cris, virando-se e tentando firmar a canoa.

Sara ficou de pé também, procurando estender a mão para Jeanine.

Ruthie inclinou-se para trás, buscando compensar o peso de Sara, que se jogara para

um lado, mas compensou demais. A canoa balançou para a esquerda e Ruthie caiu na

água. Em seguida, ela virou para a direita e lá se foi Sara também.

- Meninas! gritou Cris inutilmente.

A canoa balançava para um lado e para outro. Cris tentava firmá-la, enquanto as três

ratinhas molhadas, sustentadas na superfície por seus coletes, procuravam entrar no barco

por lados opostos. As meninas riam-se e não pareciam achar ruim o banho inesperado.

- Esperem! Parem! Não está dando certo. Já que estamos tão perto da margem, por

que não nadam até a praia? Eu pego vocês lá.

Rindo-se ainda, as meninas nadaram como cachorrinhos a curta distância uma da

outra até a praia, e ficaram esperando Cris, ensopadas e tremendo.

Os meninos riam tanto, que não ouviram Cris pedir que ficassem parados, enquanto

ela ia atrás das meninas. Devem ter resolvido que a melhor coisa a fazer seria se afastarem

ao máximo das meninas, pois sabiam que elas iriam tentar se vingar. Então eles se

afastaram, remando a toda de volta à casa dos barcos, deixando com Cris a tarefa de
resolver sozinha como seria o resgate das meninas.

Estas ajudaram a puxar a canoa até a praia e tentaram entrar. Foi aí que as risadas

pararam e o queixume começou.

- Eles nos fizeram cair na água, dizia Jeanine em prantos. Eu me vingo!

- Estou com frio. Você não trouxe toalha? perguntou Sara.

- Está lá do outro lado. Quando chegarmos lá, você poderá se enxugar, explicou

Cris.

- Mas tá tão longe! Vamos morrer congeladas, fez Ruthie reclamando.

- Não está tão frio. Tente sentar-se no fundo da canoa, para não pegar vento, falou

Cris.

- Mas tem água no fundo, protestou Sara.

- Não tem importância. Vocês já estão molhadas mesmo. Não vai fazer mal.

As meninas se ajeitaram na popa e cruzaram os braços em volta dos coletes inflados,

procurando manter-se aquecidas. Cris estava na proa, tentando manejar a canoa sozinha

pela lagoa. Sem ninguém no remo de trás, parecia impossível mover a canoa na direção

certa. A embarcação girava pela água, movida mais pelo vento e pelas ondas do que pelos

golpes de remo. A coisa estava realmente ficando difícil.

Sua tripulação reclamava e dava palpites sobre o lado em que ela deveria estar

remando, e dizendo que estava fazendo tudo errado. Cris agüentou os comentários por dez

minutos; aí estourou:

- Uma de vocês quer tentar fazer isso no meu lugar? Não é nada fácil!

- Eu ajudo, ofereceu-se Ruthie.

Levantou-se para sentar-se no meio e colocou um remo na água do mesmo lado que

o de Cris. Juntas, conseguiram afastar-se um pouco do lugar. Dez minutos mais tarde

chegaram à praia. As meninas estavam quase secas. Os meninos haviam chegado fazia já
uns bons quinze minutos. Não havia mais nem sinal deles.

Jason veio ao encontro delas. Entrou na lagoa, ficando com água até a cintura e

ajudou-as a puxar a canoa para fora. Tirou cada uma das meninas da sua prisão flutuante e

ofereceu a mão a Cris para que ela pudesse pisar o cascalho. Ela se sentia uma conselheira

incompetente, pois derrubara suas meninas na lagoa e perdera o contato com os meninos.

Se ela mesma tivesse caído, talvez se sentisse um pouco melhor no momento. Pelo menos

teria sido outra vítima, e não a pessoa responsável pelo problema.

Jason segurou sua mão e puxou-a para perto de si. Com voz baixa, disse:

- Estaria interessada numa aula grátis de canoagem?

O sorriso voltou ao rosto de Cris.

- Por quê? Acha que estou precisando?

- Depende de você. Pensei que quisesse ter alguma vantagem sobre os acampados

para a caçada aos conselheiros de sexta-feira.

- Você me convenceu. Diga a hora e estarei lá.

- Hoje no jantar eu lhe falo, concluiu ele dando-lhe um leve aperto na mão antes de

soltá-la.

No jantar, Jason e Cris sentaram-se de costas um para o outro, cada um no lugar que

se tinha tornado costumeiro. Durante a refeição, Jason inclinava-se para trás, no intuito de

fazer comentários, a boca próxima ao ouvido de Cris. Era difícil ouvir com a barulheira

dos acampados, mas, na verdade, não tinha importância. Bastava a atenção que ele lhe

dava.

Até o final do jantar ele nada dissera sobre a aula prometida. Talvez tivesse

esquecido. Cris evitou cair no desânimo. Afinal de contas, ainda era quarta-feira. Tinham

todo o dia seguinte para praticar, já que a corrida seria na sexta.

- Venha jogar bola conosco, insistiram as meninas, puxando-a pelo braço. Temos de
andar depressa! Só temos mais meia hora antes do culto da noite.

Cris deixou que as meninas a conduzissem ao campo de beisebol, onde alguns

acampados já estavam jogando. Quando a viram chegar, insistiram para que ela atuasse

como arremessadora. Ela batia bem na bola, mas não tinha muita confiança no seu

arremesso. Tomou seu lugar no campo, preparou-se e em seguida mandou a bola em

direção à base central. Uma das meninas do alojamento de Jessica bateu na bola e ela foi

parar no centro do campo. As colegas de equipe deram vivas e a menina se curvou num

gesto brincalhão de agradecimento, quando chegou correndo à primeira base.

Outra girada, e a menina seguinte rebateu logo a primeira bola arremessada por Cris. O

mesmo aconteceu com a seguinte. Uma menina de uns 11 anos, tímida e magricela,

aproximou-se da base e Cris jogou três bolas com muita calma e lentidão. A menina errou

as três.

- Mais uma arremessada, soou uma voz grave do lado do campo.

Era Jason. Ele ficou atrás da pequena rebatedora que estava desanimada, colocou os

braços em torno dela e mostrou-lhe como deveria segurar o bastão do jeito certo.

- 0K., Cris, faça seu melhor arremesso! pediu Jason, ainda com as mãos sobre os

braços da menina com o bastão.

Cris fingiu cuspir nas mãos e mandava sinais para o pegador.

- Vamos lá, arremessadora! Vá com tudo!

Com um gesto dramático, Cris fez o lançamento. Foi uma jogada ridícula, com a

bola caindo a um metro e meio do marcador do lado esquerdo. Todo mundo riu, inclusive

ela.

- Se essa foi a sua melhor, como será a pior então, hein? indagou Jason.

- Estava só testando você. Queria ver se conseguia rebater qualquer coisa. Aqui vai

uma boa.
Ela arremessou uma bola devagar, bem dada que, com a ajuda de Jason, a menina

conseguiu rebater para longe, quase caindo no mato. Todos deram vivas e ela percorreu as

bases com Jason do lado. As outras corredoras conseguiram chegar com vivas e urras.

Um campista jogou a bola até a segunda base no momento em que Jason e a menina

tocavam a terceira. Agora a luta seria ver se conseguiria ganhar. Jason pegou a menina no

colo, carregando-a como se fosse uma bola, e correu até a base central. Conseguiram

chegar alguns segundos antes da bola, e Jason colocou a menina firmemente sobre a base,

como um explorador que planta uma bandeira e toma posse da terra para seu país.

Uma pequena multidão de acampados tinha se juntado, e todos deram vivas quando

a menina seguinte chegou à base central.

- Também quero que o Jason me ajude, disse ela.

- Não, você consegue sozinha. Vamos lá! Experimente! dizia o rapaz do seu lado,

animando-a.

Com a primeira tacada, a menina pareceu errar de propósito. Talvez esperasse que

sua falta de coordenação trouxesse Jason para junto dela.

- Que é isso? gritou ele. Você sabe rebater melhor!

Ela posicionou o taco no ombro e virou-se para Cris com uma expressão quase de

raiva. Cris teve vontade de rir. A menina levava o jogo mais a sério do que devia. Cris

mandou uma bola fácil, baixa, e a menina bateu nela de modo a tocar o chão e voltar

direto para Cris. Olhando-a pelo canto do olho, a correr para a primeira base, Cris esperou

que ela estivesse perto dela para pegar a bola e atirá-la à primeira base. A menina chegou

primeiro. Pelo jeito dela, parecia bem satisfeita consigo mesma.

À distância, o sino do acampamento tocou: hora do culto vespertino. Todos

reclamaram. As meninas de Cris se queixaram de que não tinham tido tempo de rebater a

bola.
- Podemos terminar o jogo amanhã?

- Claro. Que tal logo depois do almoço? falou Cris.

- Você foi boa demais para elas, disse Sara, Parecia que estava tentando ajudá-las a

ganhar.

- Ela atiraria a bola do mesmo jeito para você, se você a fosse rebater, disse Jason

em defesa de Cris, acompanhando-as atr ao salão principal. É isso que os conselheiros

devem fazer: ser justos com todos.

A menina que Jason ajudara a correr as bases agora segurava no braço dele,

parecendo permanentemente ligada ao rapaz. Sara agarrou o outro braço de Jason.

Olhando para ele com seus olhos cor-de-gengibre, implorou:

- Amanhã você joga com a gente? Pooooor favoooor!

- Claro, replicou ele.

Jason conseguiu atrair a atenção de Cris e deu-lhe um imenso sorriso.

- Eu e Cris formamos uma dupla excelente, não acha? indagou.

O comentário provocou uma rodada de “sim” e murmúrios de aprovação das

meninas.

- Por que vocês dois não se casam? perguntou Jocelyn. Aí poderiam fazer isso todo

dia, pelo resto da vida.

- Isso mesmo! concordou Jeanine. Vocês podiam morar num alojamento na floresta e

nós todas viríamos visitar vocês. Vocês nos levariam a passear de canoa e jogar beisebol

todos os dias.

Cris estava envergonhada demais para encarar o Jason, mas sentia em seu olhar uma

expressão zombeteira. Felizmente, chegaram ao acampamento e entraram no salão de

culto com o resto dos acampados. O louvor começou e as meninas de Cris, cheias de

energia, cantavam alto, cutucando umas às outras e inventando outros gestos aos que já
conheciam. Jason atravessou o salão com seus meninos. Ele virou-se e olhou para Cris,

fazendo-lhe sinal de “tudo bem?”. Ela retribuiu-lhe o sorriso, esperando que suas meninas

não tivessem notado.

Então Cris notou o projetor de filmes no fundo. Lembrou-se de que o Deão Ferrill

havia dito, na reunião de conselheiros, que exibiriam um filme que obrigaria as crianças a

pensarem um pouco. No devocional da noite, os conselheiros deveriam aproveitar a

mensagem do filme para ver se algum dos acampados não tinha certeza da salvação ou

queria assumir um compromisso com Cristo.

Apagaram-se as luzes, e o filme começou. Cris sentiu uma mão firme no seu ombro.

Era Jason, que cochichou:

- Venha comigo.

Ela saiu sem que “suas meninas” notassem, e o seguiu. No momento que fecharam a

porta do salão, ele tomou a mão de Cris, e disse:

- Hora da aula de canoagem.

- Agora?!

Ainda segurando sua mão, Jason puxou-a após si e correu com ela em direção ao

lago.

- Agora é a melhor hora, acabando o pôr-do-sol. A água está serena e tudo parece

quieto.

- Mas você tem certeza de que podemos? insistiu Cris.

Ela sentia que estavam saindo meio às escondidas, deixando as crianças sem

supervisão. Achava que entrariam numa fria por abandonarem seus acampados e saírem

juntos sozinhos.

- Estaremos de volta antes que o filme acabe. Não vai ter problema. Confie em mim.

Ele continuou segurando firme a mão dela enquanto caminhavam pela mata.
Chegaram à casa de barcos quase sem fôlego. Quando entregou o colete salva-vidas e o

remo a Cris ele tinha no olhar uma expressão de aventureiro. Ela ainda sentia que estavam

fazendo algo proibido, e que seriam pegos.

- Tem certeza de que está tudo bem, Jason?

- Você quer aprender a remar bem, não quer? Agora é sua oportunidade de ouro.

Olhe só para o lago. Não é lindo?

Teve de admitir que Jason tinha razão. A lagoa parecia o assoalho de um estúdio de

balé - liso e perfeito - com as luzes douradas do poente dançando sobre ela.

- Entre, ordenou Jason, com a canoa posicionada para entrar na água.

Cris equilibrou-se com cuidado, indo para o banco da frente, segurando-se aí para

manter a canoa em equilibrio. Jason colocou todo o seu peso no banco traseiro e usou o

remo para dar o impulso inicial à embarcação.

De repente, tudo era silêncio. Os únicos sons eram o da calma água batendo nos

lados da canoa e o coral noturno de sapos e grilos nas imediações da praia.

- Jason, você tem certeza de que podíamos estar aqui?

- Calma, garota. Já fiz isso muitas vezes, disse ele.

E a voz de Jason ficou mais suave quando ele acrescentou:

- Não é lindo aqui? Adoro esse cenário. Relaxe, Cris. Garanto que este será o ponto

alto de sua permanência aqui no acampamento.

Cris apertava o remo no colo. Seus olhos vasculhavam a água que escurecia à

medida que remavam para o centro da lagoa.

Relaxar, é?
Piquenique ao Luar

Chegando ao meio da lagoa, Jason disse:

- Agora, a primeira coisa que precisa aprender é segurar o remo. Notei hoje que você

estava segurando assim.

Na tênue luz do pôr-do-sol, ele mostrou como as duas mãos deveriam se prender na

haste do remo.

- Tem de colocar uma mão em cima, assim, e a outra mais ou menos aqui.

Cris segurou o remo seguindo suas instruções.

- Muito bem. Sabia que você aprende depressa. Quando estiver numa canoa sozinha,

tem de remar no banco de trás para controlar o rumo. Hoje você estava tentando dirigir no

da frente. Veja só.

Instalado na popa, Jason mergulhou o remo na água, do lado direito, impelindo a

canoa para frente. Outro golpe de remo, do lado esquerdo, e a embarcação tomou novo

impulso, avançando agora em linha reta.

- Agora tente. Vire-se para mim, e seu lado será a parte traseira da canoa.

Cris levantou uma perna e tentou colocá-la do outro lado sem virar a canoa. Sentia-

se terrivelmente desajeitada. Conseguiu colocar ambas as pernas na posição desejada e


sentou de frente para o Jason. Estava escuro demais para ver o rosto dele, mas teve a

impressão de que ele estava sorrindo.

Será que ele acha que sou um trambolho, uma desajeitada, ou o quê? Não sei se ele

está apenas sorrindo para mim ou rindo de mim.

- Você usa a mão direita?

- Sim, por quê?

- Tenho uma teoria de que a gente tem mais força remando no lado esquerdo, porque

assim a mão direita está em cima, no remo, e é a mais forte. Então, comece do lado

esquerdo. Lembre-se de colocar a mão direita em cima.

Cris seguiu suas instruções.

- Muito bem. Sempre comece com um movimento forte para o outro lado e dê outra

remada forte.

Cris fez exatamente isso e Jason a elogiou.

- Veja como é diferente quando a gente rema a partir da popa. Você tem muito mais

controle, explicou ele.

- Está certo. Obrigada pela lição.

Jason começou a olhar para a copa das árvores, no outro lado do lago.

- Ainda vai demorar uns dez minutos. Ainda bem que trouxe provisões para nós.

- O que é que vai demorar uns dez minutos?

- Você verá. Está com sede?

Jason pegou um pacote no centro da canoa, que Cris notara quando entrou, mas

pensava ser apenas um cobertor. Desatou o pacote e expôs uma variedade de “provisões”.

- O que é isso?

- Nosso piquenique ao luar, disse ele, colocando um vidro vermelho no banco

central e acendendo a vela que se achava em seu interior.


Cris ficou um pouco surpresa, mas daí a pouco reconheceu a vela do “luau”

havaiano, como as que seus tios usavam na varanda da casa de praia. A vela brilhava

através do vidro, mas estava protegida contra o vento. Então Jason retirou outro vidro e

encheu-o de água da lagoa, colocando-o ao lado da vela. Tirou do pacote uma dúzia de

flores do campo, meio amassadas, e as colocou no vaso. Cris sorria, vendo-lhe a

criatividade.

- Mas que charme, Jason!

- Charme? Já deram muitos nomes para isso, mas acho que “charme” é o melhor

deles.

Cris entendeu que, sempre que atuava como conselheiro do acampamento, Jason

levava garotas para fazerem um piquenique ao luar. Será que essa noite era diferente para

ele? Ela era uma garota especial? Ou simplesmente mais uma conselheira com quem ele

poderia flertar durante a semana? Ela queria ser a predileta, a única com quem ele tivesse

feito isso. Queria que fosse tudo romântico, tudo lindo para ele como estava sendo para

ela.

Jason entregou-lhe uma garrafa aberta de água mineral e um guardanapo.

- Obrigada, meu senhor, disse ela, em tom de brincadeira.

- E agora, a melhor parte: biscoitos de creme de amendoim, guardados de segunda à

noite.

Entregou a Cris um biscoito que ainda estava 70% inteiro.

- Este é o maior. Eles ficam esmigalhando depois do segundo dia.

Cris ria-se.

- Isso é divertido! Obrigada por ter me trazido aqui, Jason, disse ela.

Mordeu o biscoito e escutou o som das águas, que batiam levemente no lado da

canoa.
- Ah! Quase ia me esquecendo!

Jason remexeu as coisas e tirou um walkman. Colocou uma fita, aumentou o volume

ao máximo e equilibrou-o no meio com os fones de ouvido apontados para Cris. Depois

baixou de novo o volume para que fosse apenas suave e audível.

- Um pouco de música romântica, acrescentou ele.

Cris sentiu vontade de rir. Era tudo muito divertido. Uma brisa soprou, trazendo o

cheiro fresco e forte da relva com uma vaga lembrança de óleo de bronzear, decoco.

- Então, principiou Jason recostando-se e pondo-se a comer um biscoito, conte-me

seus sonhos.

- O que?

- O que você deseja? Quais os seus sonhos para o futuro?

Cris foi apanhada de surpresa. Sempre que sonhava com o futuro, os sonhos

incluíam o Ted. Não podia dizer isso ao Jason. Não ali com a música, à luz de vela e tudo

o mais.

- Não sei se realmente tenho sonhos ou desejos para o futuro.

- Claro que tem! Tem de ter. Todo mundo tem de sonhar. Quer saber dos meus?

- Claro.

- Quero ser piloto. Quero ter um avião. Não esses grandes aviões comerciais, nem

jatos militares, mas um aviãozinho. Ficaria contente até mesmo com um pulverizador de

agricultura. É o meu desejo.

- E você já aprendeu a voar?

- Não, mas obtive informações a respeito. Estou guardando dinheiro, porque não é

barato. Talvez até setembro ou outubro eu possa começar as aulas.

- É um sonho bom, disse Cris, tomando água. Garanto que você será um excelente

piloto.
- Agora é sua vez. Qual é o seu sonho?

- Bem, eu só pensei numa coisa. Acho que nunca contei isso para ninguém.

- Pode me contar. Os segredos partilhados comigo em piqueniques ao luar estão

seguros.

Jason pegou outro biscoito e esperou a resposta.

- Eu gostaria de ir à Inglaterra, disse Cris. Na verdade, à Europa. Sempre quis visitar

um castelo de verdade e andar numa gôndola em Veneza. É o meu sonho, completou ela,

sentindo coragem.

- É um sonho muito bom, disse ele, imitando o sotaque britânico. Você tem um jeito

de Mary Poppins. Tenho certeza de que seu sonho se realizará.

Naquele instante, ele viu algo acima da cabeça de Cris. Agora era mais fácil ver sua

expressão, e Cris notou seu rosto iluminado de prazer.

- Olhe aí. Lá está ela!

Cris virou-se e viu o que animara tanto o Jason. A lua, parecendo uma bola de

manteiga, grande e gorda, aparecera justo nesse momento por cima das árvores, refletindo

sua luz dourada sobre a lagoa.

- Bem na hora! disse Jason, virando devagar a canoa para que Cris não precisasse

olhar para trás.

- Como é linda! sussurrou Cris, olhando a lua que se erguia sobre a lagoa e brilhava

sobre eles como uma lanterna.

Tudo ao redor deles tomou a cor de âmbar e parecia mais caloroso. Ficaram em

silêncio, apreciando o espetáculo da noite e ouvindo a música abafada do walkman. Cris

viu que Jason estava certo ao dizer que esse seria o ponto alto de sua semana. Assim

mesmo, por mais romântico, maravilhoso e cheio de paz que tudo estivesse, a lembrança

de Ted encheu a noite de suspiros e fantasia.


Não há nada de mal em estar aqui com Jason, deliciando-me com este momento

romântico. Não muda nada entre mim e Ted.

Naquele instante Jason se inclinou para Cris, a mão estendida para o seu rosto.

Ele vai me beijar? O que devo fazer?

A mão de Jason limpou sua face.

- Olhe aí. Você estava com umas migalhas no rosto.

- Ah, sim!

Cris levou a mão ao rosto e afastou o resto das migalhas que Jason não alcançara.

Sua pele parecia quente e ela esperava que ele não lhe percebesse o rubor à luz da lua.

- Quando deveremos voltar para que não percebam nossa ausência? perguntou,

tentando parecer mais calma do que estava.

- Já, já Tem certeza de que quer voltar? Este é o único momento de paz e silêncio

que você terá gozado durante toda a semana.

Cris tinha vontade de ficar. Queria flutuar sobre a lagoa silente durante horas, olhar a

lua, e compartilhar seus sonhos secretos com Jason. Queria que a fantasia continuasse.

Mas por dentro a luta crescia. Ela deveria estar ali, sozinha, com Jason? Entrariam numa

enrascada por terem se ausentado da reunião? E se falasse alguma coisa ao Jason de que

mais tarde pudesse arrepender-se?

- Acho que devemos voltar, falou Cris dando um suspiro. Isso aqui foi maravilhoso,

Jason. A música, as flores, o luar. Adorei. Adorei estar aqui com você.

- Obrigado. Fico contente por você ter gostado, disse ele apagando a vela. Eu a levo

de volta. Mas lembre-se de que a escolha foi sua, não minha.

Ele tirou o buquê de flores do vaso e entregou-o a Cris.

- Para se lembrar de mim.

Ela colocou as flores no bolso do seu casaco, e disse:


- Vou guardá-las, Jason, e sei que não vou me esquecer de você, nem desta noite.

Dava para ver seu sorriso ao luar e ela sentiu-se feliz e um pouco aliviada, porque as

coisas só chegaram até a esse ponto, e não mais longe.

Enfiando o remo na água, ela perguntou:

- Quer que eu reme até a praia?

- Boa idéia. Lembre-se de começar pelo lado esquerdo.

Cris tentou lembrar-se de todas as dicas que Jason lhe dera e enfiou fundo o remo.

Estava muito mais fácil do que a experiência da tarde. Daí a pouco a proa da canoa

raspava o cascalho.

- Excelente, disse Jason, saltando da canoa e puxando-a para a praia. Eu guardo o

equipamento, se você quiser voltar para o salão de cultos. Ou pode me esperar, se quiser.

A idéia de andar sozinha pelo mato escuro não a atraía. Então resolveu ajudar Jason a

guardar o equipamento. Ele colocou o pacote do “piquenique” num canto da casa dos

barcos. Cris logo pensou se a sacola ficaria lá até a semana seguinte, quando ele levaria

outra conselheira para passear na lagoa. Novamente, ele tomou a mão dela e eles se

apressaram rumo ao salão. Os acampados começavam a sair, correndo na direção do

refeitório para o lanche da noite.

- Está vendo? falou Jason soltando a mão dela e juntando-se ao grupo que se dirigia

ao refeitório. Sem problemas.

Cris quase chegou a pensar que estivesse tudo bem, até a hora do devocional,

quando ela deveria conversar sobre o filme com as meninas. Quando começaram a

matraquear, Cris não tinha idéia do que falavam. Tomando rapidamente outra direção,

pediu que elas ficassem quietas e escutassem, que ela lhes contaria seu testemunho.

- Por que chamam de testemunho, “professora”? perguntou Amy.

- Bem, porque a gente está contando alguma coisa que aconteceu com a gente e
falando que o que está dizendo é verdade, explicou Cris.

Ela contou às meninas que tinha sido criada num lar cristão.

- Como que uma casa pode ser cristã? perguntou Sara.

As outras riram, e Cris acalmou-as, dizendo:

- Claro que a casa não pode ser cristã. Quero dizer que meu pai e minha mãe são

cristãos, e eu cresci freqüentando a igreja.

- Eu também, disse Ruthie, seguida de várias das outras meninas.

- Mas depois entendi que não bastava eu saber sobre Deur. Tinha de convidá-lo para

entrar em minha vida. Fiz isso quando tinha quinze anos. Orei pedindo a Deus que

perdoasse meus pecados e entrasse em minha vida. Ele entrou, e desde então estou

mudando aos poucos e tornando-me mais como Deus quer que eu seja.

- Como pode existir uma escola cristã? perguntou Sara. As pessoas que freqüentam a

escola podem ser cristãs, mas a escola não.

As demais meninas contribuíram com opiniões sobre a diferença entre uma escola

de cristãos e uma escola cristã. Cris compreendeu que nenhuma delas tinha ouvido seu

testemunho e, mesmo que tivessem escutado, parecia que ele não tivera muita importância

para elas.

- Está bem, meninas. Chega. Vou apagar as luzes e todo mundo se enfia já em seu

saco de dormir.

Ela apagou a luz e meteu-se na cama.

Agora vou orar. Se alguma de vocês quiser orar, poderá fazê-lo. Vamos ficar em

silêncio por algum tempo, dando oportunidade a quem quiser orar. Depois eu termino, está

certo? Vamos orar!

Houve uns dois segundos de silêncio e uma das meninas deu uma fungada bem alta,

que resultou numa série de risos abafados. Então alguém se esforçou para produzir um
arroto. Jocelyn cochichou:

- Pare de chutar a minha cama, Sara!

- Meninas, disse com firmeza. Estamos orando.

Silêncio. Silêncio absoluto. Nenhuma das meninas orou, e após dois minutos de

silêncio, Cris orou em favor de cada uma delas, do jeito que faziam nas reuniões dos

conselheiros. Depois orou pelos outros acampados, pelos conselheiros, pela equipe do

acampamento e pelo grupo que viria na semana seguinte. Sua oração durou uns cinco

minutos, e quando terminou, nenhuma das meninas estava acordada.

Bem, pensou, esse é um bom jeito de conseguir que elas caiam no sono!

Cris também dormiu imediatamente e teve sonhos maravilhosos. Sonhou, por

exemplo, que estava num barco a remo, singrando uma lagoa plácida, com cisnes nadando

em derredor. Atrás dela havia um imenso castelo, como de livro de histórias. Ela segurava

um guarda-sol rendado, que girava entre os dedos tão calçados de luvas brancas. Perto

dela, no barco, estava um homem de smoking, que servia chá numa xícara de porcelana.

Em dado momento, ele perguntou se ela queria um ou dois torrões de açúcar. Ela olhou

para ele e viu que era o Ted.

Ao acordar com o alarme, às seis da manhã, sentiu-se repousada. Saltando da cama,

correu ao banheiro para uma rápida chuveirada. Jessica já estava lá e Cris contou-lhe

sobre a nova tática do culto devocional e de orar até que as meninas dormissem.

- O único ponto negativo foi que elas não prestaram atenção no meu testemunho e

nenhuma delas quis orar. Acho que nenhuma das minhas meninas está interessada nas

coisas espirituais.

Jessica enrolou uma toalha no cabelo molhado e despejou adstringente num

chumaço de algodão, passando a fazer sua rotineira limpeza de pele.

- Acho que o próximo passo é você passar algum tempo a sós com cada uma, para
descobrir em que pé estão.

- Mas como vou conseguir? Já é quinta-feira. Não tenho muito tempo. Além do

mais, o que é que digo? Algo assim: “Vamos passar alguns minutos conversando sério.

Então, diga-me se você é ou não é salva e se quer ou não quer se converter”?

Jessica começou a rir.

- Assim não, Cris! Simplesmente sente-se com cada uma, diga-lhe que você se

interessa por ela e pergunte se ela tem alguma coisa sobre a qual gostaria de conversar.

Não sabemos quem está pronta para entregar o coração ao Senhor e quem não está. Deus

sabe. Só precisamos dar-lhes a oportunidade de conversar e responder a alguma pergunta

que quiserem fazer.

Cris penteava os cabelos molhados.

- Você está certa. Vou dar um jeito de conversar com cada uma. Gostaria que você

soubesse que se não estivesse me dando todos esses conselhos, eu estaria completamente

perdida!

- Tenho certeza de que você se sairia muito bem, disse Jessica. Mas estou contente

por estar ajudando-a nesta semana. Gostaria que me desse seu endereço para a gente

manter contato depois do acampamento.

- Eu também. A minha amiga Katie não vai acreditar que eu disse isso, mas estou

contente por ter vindo. Está sendo uma ótima semana.

- Ainda não acabou! Ainda temos de sobreviver à caçada aos conselheiros amanhã.

A tal da caçada foi a primeira coisa que discutiram na reunião da manhã.

- Sugiro, disse o Deão Ferrill, que cada um de vocês dê uma caminhada até o outro

lado da lagoa hoje e arranje um lugar para se esconder. Isso ajudará a economizar muito

tempo amanhã, quando chegarem lá.

Como Cris tinha prometido às garotas que jogaria beisebol com elas após o almoço,
não tinha certeza se teria tempo para procurar um esconderijo. Felizmente fazia muito

calor naquela tarde, e após três tempos os dois times já queriam parar e procurar um

esporte mais refrescante. No momento que uma sugeriu vôlei de piscina, todas

desapareceram, deixando Jason e Cris sozinhos para guardar o equipamento.

- Você vem para a piscina? perguntou Jason.

- Na verdade, acho que seria melhor eu procurar um esconderijo do outro lado da

lagoa.

- Boa idéia. Vou com você. Posso lhe mostrar alguns lugares que já utilizei.

Deram a volta em torno da lagoa, em vez de a atravessarem de canoa. Onde a trilha

ficava mais estreita, Jason ofereceu a mão a Cris. Ela sentia-se bem segurando a mão dele.

- Aqui tem um lugar que eu utilizei dois anos atrás, disse Jason, parando e apontando

para cima.

- Onde?

Lá em cima. É fácil de subir nesta árvore. Foi divertido, porque a meninada nem

pensou em olhar para cima, mesmo quando eu lhes dei um banho de agulhas de pinheiro.

- Não sou muito de subir em árvore. Tem alguma outra sugestão?

- Claro. Siga-me.

Ele a conduziu pela mata, apontando cinco esconderijos possíveis. Ela achou o

último melhor e resolveu que seria o seu. Era o tronco oco de uma árvore atrás de outra

bastante alta, perto da trilha. Os acampados teriam de deixar a trilha e dar a volta na

árvore para encontrá-la. Achou que seria bom trazer uma toalha para não ter de sentar-se

na madeira mofada no interior da árvore.

Jason tomou novamente sua mão e começou a conduzi-la de volta. Parou diante de

uma árvore boa de subir, e disse:

- Acho que vou subir de novo este ano. Deu certo ano passado.
Então passou a sugerir estratégias com a canoa. Cris estava gostando da sensação

que experimentava naquele momento. Os pássaros cantavam no alto. O lago brilhava por

entre as árvores, e ela estava numa caminhada de mãos dadas com o conselheiro mais

bonitão do acampamento. Era como Cris imaginava que um acampamento seria. Nesse

instante nada de sua vida anterior importava. Tinha mais dois dias no Acampamento

Wildwood, e tencionava aproveitar bem cada minuto.

O que se Vê no Oco duma Árvore

Naquela noite, ao jantar, Jocelyn não estava comendo. Cris perguntou se estava se

sentindo bem.

- Tô com dor de barriga, reclamou ela.

Cris apalpou-lhe a testa.

- Você parece febril. Vamos à enfermaria.

E virando-se para Jason, pediu:


- Pode ficar de olho nas minhas meninas? Esta aqui precisa ver a enfermeira.

Com o braço em volta de Jocelyn, Cris saiu com ela do refeitório barulhento, e

atravessou o pátio em direção ao pequeno prédio branco da enfermaria. Quando estavam a

poucos metros de lá, Jocelyn disse:

- Acho que vou vomitar...

- Consegue chegar até aqueles arbustos? indagou Cris, puxando-a para que andasse

mais depressa.

Conseguiram chegar lá a tempo de Jocelyn vomitar no mato. Cris virou o rosto e

segurou o fôlego. Esta era uma parte das tarefas de conselheira que não planejara.

Remexendo no bolso, pegou um lenço de papel. Ainda prendendo a respiração, Cris

estendeu-o à menina. Jocelyn gemeu e começou a chorar enquanto limpava a boca,

dizendo:

- Estou me sentindo muito mal!

- Já estamos chegando, disse Cris, colocando o braço em sua volta, para ampará-la

melhor, confortando a menina que, a essas alturas, estava em prantos.

Felizmente a enfermeira deve tê-las ouvido ao chegarem, porque já foi abrindo a

porta e ajudando Jocelyn a deitar-se em uma maca.

- Ela está com dor de estômago. Vomitou lá entre os arbustos.

- Coitadinha! disse a enfermeira, colocando a mão sobre a testa da menina, O que

você comeu hoje?

- Ela nem tocou no jantar, disse Cris.

- E no horário livre, comeu algum lanche?

Jocelyn fez que sim com a cabeça e murmurou algo sobre chocolates, cheetos e

batatas fritas.

A enfermeira colocou uma toalhinha úmida na testa da menina, e disse baixinho para
Cris:

- Está me parecendo um caso típico de excesso de lanche. Vou dar alguma coisa para

acalmar o estômago e daqui a pouco ela estará bem.

Cris tocou o braço de Jocelyn com carinho, e disse:

- Faça o que a enfermeira lhe disser que logo estará novinha em folha. Eu venho ver

você mais tarde, está bem?

Estava prestes a sair quando a enfermeira lhe disse:

- Me faça um favor. Encha de água o balde que está ao lado da enfermaria e jogue

onde ela vomitou.

Cris deu uma tremida de nojo ao jogar água no lugar. Definitivamente, podia

dispensar este aspecto da tarefa de conselheira. Para que ficasse bem limpo, encheu outro

balde de água, derramando-o sobre o mato, para que não restasse nenhum sinal do

incidente.

Ainda bem que consegui tirá-la do refeitório antes de acontecer isso!

As portas do refeitório se abriram e os selvagens do Acampamento Wildwood se

espalharam pelo lugar como ratos de laboratório, soltos de repente.

Ótimo, o jantar acabou e eu não comi. Na verdade, não estou mais com fome.

Nesse dia Cris tencionara passar algum tempo, individualmente, com suas meninas,

mas com o jogo de beisebol e a caminhada com Jason, a tarde voara. Jeanine foi a

primeira das suas garotas que ela viu saindo do refeitório. Aproximou-se dela, e

perguntou:

- Quer fazer alguma coisa?

A garota fitou-a com expressão intrigada.

- O que, por exemplo?

- Sei lá. Caminhar, sentar na beira da lagoa e conversar...


- Por quê?

- Bem, só para passarmos alguns minutos juntas.

Cris quebrava a cabeça para imaginar uma abordagem melhor.

- Estamos juntas a semana toda, Até dormimos no mesmo beliche.

- Eu sei, só que pensei, bem... Ah, deixe pra lá.

- Não, replicou a menina agarrando o braço de Cris como que sentindo que havia

algo errado. Podemos fazer alguma coisa juntas, se você quiser.

Agora Cris não sabia quem era a líder e quem a liderada.

- Por que não vamos procurar algum lugar para conversarmos simplesmente? Sei

onde tem um banco perto daqui.

- Legal, disse Jeanine, animada. Se isso fizer com que você se sinta melhor.

Cris conduziu Jeanine ao banco. Tencionava tomar a iniciativa da conversa e,

enquanto caminhavam, disse:

- Quero que saiba que você é maravilhosa. Eu a quero bem e gostaria de saber se

tem alguma pergunta sobre Deus.

Jeanine fitou-a, e disse:

- Não, nenhuma pergunta.

- Tudo bem.

Por um instante, Cris ficou indecisa, sem saber o que dizer. Assim mesmo,

prosseguiu:

- Mas então, acha que entre você e Deus vai tudo bem?

- Sim, minha mãe e meu pai oraram comigo quando eu era pequena. Jesus mora no

meu coração e sei que vou para o céu. Você poderia fazer uma trança no meu cabelo, que

nem aquela outra conselheira, a Jessica, faz no cabelo das meninas do quarto dela?

- Posso tentar.
Por que nenhuma dessas meninas quer falar sobre coisas espirituais?

- Legal. Tenho uma gominha aqui.

Tirou pelo menos meia dúzia de gominhas do bolso.

- Pra que tudo isso? perguntou Cris, tentando alisar o cabelo embaraçado de Jeanine

com os dedos antes de puxar as partes para fazer uma trança de raiz.

- A Jessica disse que eu devia dar alguma coisa ao Nick em vez de tirar as coisas

dele, sabe? Tentei dar a pulseira de couro, mas você sabe o que aconteceu. Agora tô lhe

dando outra coisa: um tiro de gominha bem no meio da nuca, quando não está olhando.

Ele ainda não sabe que sou eu.

Cris achou bom que Jeanine não pudesse ver-lhe o rosto. Não dava para reprimir o

riso.

- Por que os meninos não começam a gostar das meninas na mesma época em que as

meninas começam a gostar deles? indagou Jeanine e ficou bem quieta, esperando a

resposta.

- Nao sei. Talvez Deus esteja dando às garotas um ano ou dois a mais para elas

melhorarem os modos. Assim, quando os meninos tiverem idade para se interessar por

elas, serão meninas por quem valha a pena se interessar.

- Nunca pensei desse jeito, disse Jeanine, realmente convencida. Você me ensina a

melhorar meus modos?

- Claro, se você quiser. Me dê uma gominha.

Cris prendeu a ponta da trança. Então, Jeanine virou-se para Cris. Com o cabelo fora

do rosto, era uma menina bonita.

- Primeiro, pare com os tiros de gominha. Acho que isso não ajuda nada, para

conquistar o Nick. Segundo, procure comer de boca fechada e não conversar quando

estiver de boca cheia.


- E o que mais?

- Bem, sentar direito sempre ajuda.

Imediatamente Jeanine endireitou o corpo e ergueu a cabeça.

- Assim?

- Isso! Está muito bem. Outra coisa: os gritos. Existe lugar para se gritar, como na

piscina ou na montanha-russa. Mas em geral uma jovem não precisa gritar muito apenas

por gritar.

Jeanine acenou que sim, e perguntou:

- E o que mais?

- Isso aí já é um bom começo. Sempre procure dizer coisas boas sobre as pessoas e

tratar todo mundo com consideração.

Jeanine deu um largo sorriso, ansiosa para ir e experimentar algumas de suas novas

técnicas com o Nick. Quando ela estava prestes a levantar-se, Cris tocou seu braço, e

perguntou:

- Posso abençoar você, Jeanine?

- Abençoar? Pra quê?

Meses antes, numa manhã gelada na praia, Ted havia colocado a mão na testa de

Cris, dando-lhe uma bênção. Na época ela não a queria e não a recebeu bem. Mas seu ato

tinha permanecido em sua lembrança todo esse tempo. Por alguma razão, Cris teve o

impulso de abençoar essa menininha em que despontava uma jovem.

- Simplesmente feche os olhos, disse.

Em seguida, colocou a mão na testa de Jeanine e continuou:

- O Senhor lhe abençôe e lhe guarde. O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre

você e lhe dê a paz. E que você sempre ame a Jesus em primeiro lugar, acima de tudo o

mais.
Jeanine abriu os olhos brilhantes, e sorriu.

- Legal! E o que quer dizer “amar a Jesus acima de tudo o mais”?

- Quer dizer que em toda situação que você enfrentar ao crescer, que você ame muito

a Jesus e ame a ele mais do que a qualquer outra coisa.

- Obrigada, Cris, replicou Jeanine dando um salto e impulsivamente beijando o rosto

da conselheira. Você é a melhor conselheira do mundo! concluiu e saiu correndo.

Cris deteve-se por um instante, pensando no conselho que acabara de dar. Queria

poder dizer à garota que tinha um amor assim por Jesus. Ela o amava, mas queria amá-lo

mais.

Certa vez Ted lhe dissera que isso era bom porque significava que ela tinha “fome e

sede de justiça”.

Embora a conversa com Jeanine não tivesse tomado o curso que ela previra, estava

contente. Tinha dado a Jeanine o que ela precisava, e talvez a bênção ajudasse a menina a

sentir-se amada.

Sentou-se com Amy, Sara e Ruthie no culto da noite. Sentia-se satisfeita porque

Amy e Sara tinham incluído Ruthie no seu grupinho, e elogiou-as no quarto aquela noite,

enquanto se aprontavam para dormir. As duas meninas pareciam contentes.

Para o culto devocional, Cris leu seu salmo predileto, o 139. Em seguida conversou

alguns minutos sobre como Deus amava a cada uma e queria que cada uma entregasse seu

coração a ele. Sentiu que a “mensagem” fora boa, e esperou que houvesse muitos

comentários depois - quem sabe uma ou duas conversões. Falou a frase final e esperou a

reação das meninas.

Todas, a não ser Sara, tinham caído no sono.

Cris tentou esconder sua decepção ao perguntar a Sara:

- Você tem alguma pergunta?


- Sim. O Jason já beijou você?

- Não. Claro que não! replicou Cris, zangada.

- Por que não? Você gosta dele e ele gosta de você.

- Sara, isso não é razão suficiente para se beijar um rapaz. Quando a gente fica

distribuindo beijos, a gente está entregando à outra pessoa um pedacinho do coração que

não pode nunca mais pegar de volta. Temos de tomar cuidado para não distribuir demais,

ou cedo demais, ou para a pessoa a quem não devemos beijar.

- Mas você já foi beijada, não foi? Como foi? Você fechou os olhos?

- Sara, a gente conversa sobre isso outra hora. Acho que nós duas precisamos dormir

está bem?

Cris cobriu a cabeça com o saco de dormir e ouviu uma resposta abafada de Sara,

em que dizia que ninguém queria conversar com elas sobre isso. E prometendo a si mesma

que no dia seguinte conversaria com Sara a respeito de beijos, dormiu.

Ficou a ter um sonho repetido, confuso, em que o Jason tentava beijá-la e ela não

sabia o que fazer.

Sexta-feira amanheceu nublado e frio. Foi o primeiro dia em que Cris vestiu jeans,

ao invés de short. Abriu mão do banho de chuveiro frio e puxou o cabelo para trás num

rabo-de-cavalo, ao invés de lavá-lo. Tomara um jeito no pescoço. Tinha a impressão de

que passara seis meses no acampamento e não seis dias.

De manhã, no café, todos pareciam irritados também, talvez porque fosse o último

dia inteiro de acampamento, ou porque estivesse fazendo frio e chovendo. Fosse o que

fosse, o ambiente ficou sombrio no acampamento a manhã inteira. No almoço, duas de

suas meninas brigaram para comer a última metade de sanduíche de queijo quente, até que

uma caiu para trás na cadeira. Se Cris não tivesse corrido para acudi-las, a briga teria sido

pior.
- Aqui, disse Jessica, oferecendo para Cris um prato de sanduíches. As minhas

meninas não estão com fome.

Jocelyn agarrou o primeiro sanduíche. Desde que se recuperara, cedo de manhã,

vinha comendo tudo que pintava.

E em meio ao alarido da criançada Jessica confidenciou a Cris:

- Não gosto quando eles ficam assim logo antes da caçada aos conselheiros. Parece

que querem ver sangue!

- Nosso sangue, suponho.

Jessica concordou e voltou para sua mesa, onde as garotas choramingavam,

perguntando quando poderiam sair para ir à lanchonete comprar chocolates.

No instante em que deixaram o refeitório, o sol saiu por entre as nuvens, parecendo

que resolvera passar a tarde com elas. Daí a instantes, Cris sentia calor dentro de seu jeans

e sua malha, e resolveu trocar de roupa, vestindo short antes da caçada aos conselheiros.

Queria pegar também uma toalha para sentar-se dentro de sua árvore.

A cabana estava uma bagunça geral. As meninas não tinham feito nada no horário de

limpeza e, como Cris estivera na reunião dos conselheiros àquela hora, faltou lá a

presença dela para motivá-las. Elas perderam pontos, mas não pareciam se importar.

Correu até a lagoa. Seis canoas estavam enfileiradas na praia com uma bandeira

colorida em cada uma. Cris foi designada para a canoa de bandeira alaranjada e amarrou

uma faixa de tecido da mesma cor à sua cintura. Teria de entregá-la ao primeiro acampado

que a encontrasse.

O Deão Ferrill passou o resto das instruções, e Cris montou seu “cavalo”, sentindo-

se bastante empolgada. Remo na mão, esperou o sinal. Os rapazes empurrariam a canoa

das moças para a água, e depois as deles mesmos.

- Atenção! Concentração! Preparar... O apito do deão soou e Cris sentiu Jason


empurrar sua canoa na lagoa com a força de um caminhão.

- Vá em frente! gritou ele.

Cris mergulhou o remo na água, do lado esquerdo, do jeito que Jason ensinara. Teve

um bom começo, devido ao empurrão dado por ele. Em pouco tempo estava vários metros

à frente das outras moças. A cada remada, ia sentindo alongarem-se seus bíceps. Estava

dando tudo que podia.

Contente por ter vestido um jeans cortado e a camiseta do Acampamento Wildwood,

sentia o sol queimar-lhe as pernas. O reflexo da água aumentava ainda mais a intensidade

do sol.

Cris ouvia os gritos da meninada lá atrás, na praia. Eles tinham de esperar até que a

primeira canoa atingisse a praia do outro lado. Aí podiam correr em volta do lago e sair à

procura dos conselheiros.

Jessica tinha razão. Pelos gritos que soltavam, eles pareciam mesmo à procura de

sangue. Cris chegara ao meio da lagoa, e logo os três rapazes a ultrapassaram, remando

lado a lado. Então Jessica a ultrapassou e gritou:

- Continue firme, Cris! Estamos quase chegando.

Cris remava mais forte, mantendo a canoa em linha reta e visando a um lugar aberto

e espaçoso na praia. Jason chegou primeiro, depois Mike, Jessica e Bob. Chegando logo

atrás deles, Cris ouviu o agradável ruído da embarcação tocando o leito de cascalho.

Saltou da canoa, puxou-a até a praia e correu com o tênis encharcado até seu esconderijo

no oco da árvore. Encontrou-a sem problema, mas percebeu que tinha esquecido a toalha

dentro da canoa. Pelo ruído da meninada, correndo endoidecida em volta da lagoa, sabia

que não havia tempo para voltar e buscá-la.

Com o tênis enlameado, tentou raspar um pouco da sujeira do fundo de seu

esconderijo. Parecia levar mais barro para dentro do que tirar madeira mofada. A
barulhada dos baixinhos ia crescendo, à medida que se aproximavam.

Desistiu da limpeza e se enfiou no esconderijo que era de formato triangular.

Juntando as pernas compridas perto do peito, enrolou os braços em volta delas e tentou

encolher-se o máximo que pôde. Então procurou controlar o fôlego e respirar mais

devagar.

Na verdade o oco da árvore era interessante. A poucos centímetros de seu rosto, a

madeira parecia enrugada em várias camadas em volta da abertura. O cheiro lembrava um

pouco a mofo, mas parecia mais de terra úmida, e não era de todo desagradável.

Quando criança, Cris sempre gostava de histórias de criaturas da floresta que viviam

nas árvores. Imaginou um dos anõezinhos das histórias todo satisfeito por morar ali no seu

esconderijo.

Logo ouviu os passos de um acampado que passava no trilho logo atrás da árvore

onde Cris estava. Ela prendeu o fôlego, mas temia que seu coração, que batia loucamente,

revelasse que ela se achava ali, Vários outros meninos passaram por ela correndo e

gritando, e, na verdade, Cris ficou assustada. Não porque a pudessem encontrar - isso

fazia parte do jogo. Mas o que aconteceria se estivessem tão alucinados, que lhes

ocorresse a idéia de amarrá-la e deixá-la por lá?

Mexeu-se um pouco, tentando acomodar-se melhor. Embaixo, havia uma ponta meio

incômoda e ela sentia algo subindo e descendo as pernas, um formigamento

provavelmente por ter ficado na mesma posição muito tempo. Ajustando os olhos à

escuridão de sua caverna, Cris percebeu que a casca de árvore à frente do seu rosto

parecia se mexer. Olhou mais de perto e viu uma fileira de formigas vermelhas marchando

pela entrada, a poucos centímetros de seu rosto.

Com grande autocontrole, evitou gritar, e não se mexeu. Outro bando de acampados

passou trovejando pela trilha. Ela ficou quieta. Então, sentiu aquele formigamento das
pernas subir os braços e as mãos. Naquele instante, percebeu que estava coberta de

formigas.

- Aaaaiaiai! gritou, saindo de dentro do toco e pulando pelo mato, batendo os braços

e pernas num esforço inútil de livrar-se das formigas.

Duas meninas do quarto de Jessica encontram-na no meio da dança furiosa e se

aproximaram.

- Se você estiver bem, pode nos dar a faixa alaranjada?

- Venham pegar, disse, ainda tremendo e sacudindo os pés.

Sacudiu dezenas de formigas vermelhas e pisou nelas. Mas ainda havia mais.

Uma das meninas se aproximou timidamente e puxou a ponta do pano alaranjado. Ao

puxá-lo da cintura de Cris, mais uma dúzia de formigas saíram e desceram pelo pano,

passando para a mão da menina.

Agora ela também gritava e se agitava toda na mesma “dança das formigas” de Cris.

- O que vocês duas estão fazendo? perguntou a outra menina. Vou levar isso para o

outro lado!

Ela puxou o pano, sacudiu-o e saiu correndo.

- Você tem de entrar na sua canoa e chegar antes de nós ao outro lado, disse a

menina para Cris.

- Não posso. Ainda estou cheia de formigas!

- Talvez se você correr até a canoa elas caem, e, se ainda estiver sobrando formigas,

você senta em cima, amassa e mata todas.

Cris estava quase em prantos.

- Ardem! Minhas pernas parecem estar pegando fogo!

- Então pule na água, sugeriu a menina. Olha, elas me morderam também.

Ela estendeu a mão, mostrando uma dúzia de manchas vermelhas.


- Que horror! gritou Cris.

Por falta de solução melhor, ela fez o que a menina sugerira, e saiu correndo em

direção à canoa, batendo nas pernas. Então, como a água fresca da lagoa parecia a única

coisa para parar o ardume, pulou nela e saiu encharcada.

- Cris! gritou Jason empurrando sua canoa para junto da de Cris. O que você está

fazendo? Entre na canoa! Vamos! Eu dou um empurrão. Podemos remar juntos.

Apesar do sofrimento, Cris entrou na canoa e deixou que Jason a empurrasse,

sabendo que não tinha tempo de explicar. Com braços trêmulos, seguiu as instruções que

ele passava aos gritos:

- Reme à esquerda. Reme à direita. Mais depressa!

- Não consigo acompanhar você! Vá sozinho, Jason.

Ele foi à sua frente, dando sinal de que estava tudo bem, e zarpou como uma flecha

certeira. Chegou à praia e plantou sua bandeira antes do corredor chegar. Como ele era o

primeiro conselheiro a voltar e a maioria dos acampados ainda estava do outro lado,

parecia uma vitória vazia, com tão pouca gente a dar-lhe vivas.

Cris remava devagar, mas firme, tentando com todas as forças ignorar o ardume

crescente em suas pernas e braços. Ainda estava longe da praia quando os braços

desistiram.

- Venha, Cris! Você consegue, gritou Jason. Esquerda... direita.

Ela tentou, mas não adiantou. O peito arfava e a cabeça latejava. A corrente levou-a

alguns metros para mais perto da praia, enquanto tentava recuperar o fôlego.

- Vamos lá, Cris! gritou Jason de novo. Sua corredora está quase chegando! Só mais

umas remadas!

Cris deu mais três remadas de cada lado da canoa e parecia recuar ao invés de

avançar. Olhou para a praia, onde Jason gesticulava, dando-lhe instruções para que se
empenhasse com todas as suas forças.

Naquele instante a menina com a faixa alaranjada de Cris apontou na saída do mato

e chegou ao cascalho, onde colocou a faixa no lugar em que Cris deveria fincar a

bandeira. Agora a contagem era: conselheiros, um; acampados, um. Abaixando a cabeça,

Cris percebeu que estava passando mal. Viu que Jason nadava até sua canoa. Ele agarrou a

corda e puxou-a pelo espaço de mais ou menos sete metros que ainda faltavam para ela

chegar à praia.

- Desculpe, disse ela.

- Cris, que foi que aconteceu? Você está cheia de manchas vermelhas!

- Formigas, suspirou ela sentindo-se exausta.

Nesse momento, seu tênis molhado deslizou no cascalho. Jason amparou-a a tempo

de impedir que ela batesse com o rosto no chão.

- Vou levá-la à enfermaria. Ponha o braço no meu ombro. Eu a ajudo a caminhar até

lá.

- Você machucou? perguntou o Deão Ferrill ao ver a pele de Cris cheia de pequenas

manchas.

- Vou levá-la à enfermeira, disse Jason. Torça pelos outros conselheiros por mim,

está bem?

Mancando e amparando-se em Jason, Cris sentia-se ridícula por ter sido derrotada

por umas idiotas dumas formigas. Nada disse até chegar ao acampamento. Jason falou o

tempo todo sobre outros acidentes que vira no acampamento ao longo dos anos, tudo

desde clavículas quebradas até lábios cortados. Nada disso fazia com que ela se sentisse

melhor.

- Formigas de fogo, disse Jason à enfermeira, quando ela abriu a porta.

A enfermeira deu uma olhada no braço de Cris, e exclamou:


- Minha nossa, isso não está nada bom!

- Espere então até ver isso aqui, disse Cris, expondo a parte de trás das pernas.

- Que horror! O que foi que você fez? Sentou-se no centro de convenções das

formigas?

- Acho que sim.

Cris esforçou-se para sorrir, mas não estava conseguindo.

- Volto para vê-la depois, disse Jason, deixando Cris nas mãos da enfermeira.

- Vamos entrar nessa minha banheira aqui e providenciar para que todas essas

criaturinhas saiam de você. Espero que você não tenha nenhum plano especial para hoje,

porque acho que vai ficar de molho por algum tempo.

Cris entrou na banheira com água morna, esperando ter uma sensação de alívio. Mas

em vez disso, a água deu a impressão de que mil agulhas tinham penetrado sua pele. Ela

pôs-se a se coçar como louca.

- Não coce! De jeito nenhum! gritou a enfermeira pela porta fechada. Coloquei um

remédio na água para eliminar o veneno. Se você coçar, vai piorar.

- Espero que saiba que esta é a pior tortura que uma pessoa poderia sofrer!

respondeu Cris.

- Eu sei. Sinto muito. Mas vai melhorar. Confie em mim.

Naquele momento de desconforto, Cris sabia que não havia alternativa.


A Promessa de Sara

10

Cris ficou deitada de bruços na enfermaria enquanto a enfermeira passava uma loção

fria e gosmenta em suas pernas. Sua vontade era chorar. Esta certamente era uma das

piores experiências de sua vida.

Cobrindo-a com um lençol, a enfermeira instruiu:

- Não se mexa. Fique deitada assim e tente descansar.

Gozado. Nunca tive tanta vontade de deitar de lado ou de costas, até agora, quando

ela disse que eu só posso ficar de bruços.

Cris se mexeu e cerrou os dentes. Como descansar? A loção ardia quase tanto quanto

as picadas de formiga.

- E como vai a nossa paciente? indagou a voz do Deão Ferrill da porta da frente.

- Tentando descansar. Ela foi atacada gravemente, disse a enfermeira. O senhor pode

entrar e vê-Ia se quiser.

O deão teve de dar a volta pela frente da maca de Cris e se apoiar sobre um joelho

para olhá-la de frente.

- Você está bem agora?

Seu tom de voz era tão terno, que Cris não conseguiu segurar as lágrimas.

- Estou ótima, disse, mas as lágrimas falavam outra coisa.

Piscou, tentando parar de chorar. Então se deu conta de que não podia usar as mãos
para limpar as lágrimas, porque a loção entraria nos olhos.

- Aqui, disse o deão, percebendo o dilema e pegando um lenço de papel e limpando-

lhe as lágrimas. Mais um ou dois dias e você estará boa.

- Quem ganhou?

- Este ano foram os acampados. Eles estão bastante animados com isso.

- Foi por minha causa, não foi?

- Não, não pense assim. Você se saiu muito bem. Deu tudo de si. Estou satisfeito

com você.

Cris colocou as mãos, bem manchadas de cor-de-rosa, sob o queixo no travesseiro.

- Pelo menos hoje não preciso servir as mesas.

O deão sorriu com sua piada, e retrucou:

- Então foi por esse motivo que você se sentou no maior formigueiro do mundo

- Deve haver métodos mais simples, disse Cris, sentindo-se um pouco melhor.

- Na verdade você tem se esforçado muito, servindo as suas acampadas a semana

inteira, e acho que tem feito um trabalho excelente. Gostaria de tê-la como conselheira em

outras oportunidades.

- Sinto que, em se tratando da área espiritual, não consegui nada com as meninas.

Tentei falar com elas sobre o relacionamento com Deus, e até me sentei com algumas para

falar sobre isso. Mas elas ou diziam que já eram crentes, ou não queriam entregar o

coração ao Senhor, ou simplesmente não entendiam.

O rosto do deão assumiu uma expressão de compreensão.

- Cris, você fez a sua parte. Você lhes ensinou como podem receber a vida eterna. A

maneira como vão entender isso é responsabilidade de Deus. E como vão aceitar é

responsabilidade delas, não sua.

- Mas nenhuma teve uma reação positiva. Nem um pouquinho.


- Você não sabe o que acontece no coração delas. Plantamos muitas sementes nessas

crianças durante a semana. Algumas talvez brotem daqui a uma semana, algumas daqui a

dez anos. Isso é responsabilidade de Deus.

- Eu queria fazer mais alguma coisa, falou Cris, dando um suspiro.

- Você pode. Pode orar. Sempre pode orar. Na verdade, parece-me que você se

encontra numa posição muito propícia para orar por nós durante o resto da noite.

Cris queria enxergar seu problema pelo prisma espiritual como fazia o Deão Ferrill.

Depois que ele foi embora ela pensou que ele talvez tivesse razão. Não tinha mais nada

que ela pudesse fazer aquela noite. Não podia servir as mesas, nem ensaiar com os outros

conselheiros para a peça que apresentariam na noite do teatro. Não podia nem ter o último

culto devocional com as “suas” meninas. A secretária do acampamento ia ficar no

alojamento da Cris aquela noite, para que ela continuasse na enfermaria. A única coisa

que ela podia fazer era orar.

Mexendo suas pernas que ainda ardiam, Cris tentava encontrar uma posição

confortável para a cabeça. Começou orando pelo Jason e os outros conselheiros. Orou

pelas meninas, todas as outras acampadas, e depois os meninos, todos. Orou pela equipe

da cozinha, do escritório, líderes e motoristas dos ônibus. Não deixou ninguém de fora,

exceto, talvez, a si mesma.

Não tinha certeza sobre o que iria pedir para si mesma. Para sarar logo? Para passar

o ardume? O extermínio de todas as formigas vermelhas sobre o planeta Terra? Ouviu

uma voz falando com a enfermeira:

- Ela pode receber visita?

Era o Jason.

- Claro, pode entrar. Ela não pode se mexer. Leve este banquinho e fique sentado

perto da cabeceira da maca.


Cris tentou virar o pescoço sem mexer o resto do corpo. Viu a Jessica segurando um

copo de plástico com flores silvestres e Jason seguindo-a com o banquinho da enfermeira

na mão.

- Olá! saudou-os.

Tentou parecer animada, mas estava plenamente cônscia de como devia parecer

ridícula, toda pintada de vermelho e rosa.

- Coitada de você! disse Jessica, sentando-se de pernas cruzadas no chão e

levantando o copo de flores. Onde será que eu coloco estas flores para você poder vê-las?

- Aí mesmo no chão está ótimo. São lindas.

Naquele instante, um coral de vozes de meninos veio de baixo da janela entreaberta:

- Marchando vão as formigas, olé! Olá! Cobrindo a padaria da Cris, olé! Olá!

- Ei! gritou Jason, escancarando ajanela. Vocês vão ver só! Vão se ver comigo. Vou

anotar o nome de todos!

Os meninos imediatamente se dispersaram. Jessica apertou os lábios para não cair na

risada. Cris quebrou o silêncio com um riso incontrolado.

- Até que foi bastante criativo da parte deles! falou.

Jason e Jessica riram-se com ela.

- Está se sentindo um pouco melhor? indagou Jessica.

- Um pouquinho. Sinto muito não poder ajudar a servir as mesas. E sinto mais ainda

por ter feito a gente perder a corrida.

- Nem pense nisso, disse Jason. Sinto muito por ter indicado aquele esconderijo.

Juro que não havia formigas dois anos atrás, quando me escondi ali.

- Não é sua culpa, Jason. Eu devia ter olhado antes de entrar lá, e devia pelo menos

ter ido de jeans. Ia levar uma toalha, mas deixei na canoa. Sinto mal por ter decepcionado

vocês com o jantar, a peça dos conselheiros, e tudo o mais.


- Deu para refazermos a peça. Vai ficar ótima. O mais importante agora é que você

fique boa, Cris.

- Vou tentar.

- Nós temos de nos aprontar para o jantar, disse Jessica. Mais tarde a gente aparece

de novo, está bem?

- Ah! Jessica, se você tiver tempo, poderia fazer uma trança no cabelo da Jeanine?

Eu prometi fazer para o banquete de hoje.

- Claro. Mais alguma coisa que você quer que eu veja? Acho que a secretária do

acampamento já está no seu alojamento.

- Não. Só diga a todas que mandei lembranças e as verei amanhã cedo.

Jessica arrumou o copo de flores no chão para que Cris pudesse vê-las melhor.

- Acho as roxas as mais bonitas, comentou a moça.

Em seguida, beijando a ponta do dedo, colocou o “beijo” na ponta,do nariz de Cris,

que sorriu e disse:

- E praticamente o único lugar que não foi picado!

Jessica e Jason saíram. Cris sentiu-se terrivelmente só.

- Vou jantar, disse a enfermeira uns quinze minutos depois. Eu lhe trago alguma

coisa. Está com frio demais? Calor demais?

- Estou bem. Um pouco dura. Não posso virar nem de lado?

- Seria melhor se você pudesse esperar. A maioria das picadas é na parte de trás das

pernas, e elas precisam ficar expostas ao ar.

- Está certo, suspirou Cris. Tem certeza de que você não achou esse tratamento num

livro medieval de torturas, sob o título Como Enlouquecer Uma Pessoa?

- Ainda bem que não perdeu o senso de humor, comentou a outra ao sair.

É, eu e meu senso de humor vamos nos divertir bastante esta noite.


Cris tentou orar novamente, passando pela mesma seqüência da última vez. Perto do

final, lá pelo motorista do ônibus, ela cochilou e só acordou quando ouviu a porta se abrir.

Deve ser a enfermeira com o jantar. Fome não é bem o que sinto. Mas podia beber

alguma coisa.

Ouviu uma música suave vindo de trás; aí virou a cabeça e viu Jason, trajando uma

camisa branca, engomada, e gravata borboleta preta. O rapaz aproximou-se. Tinha um

pano branco no braço, e nas duas mãos equilibrava uma bandeja decorada com sua vela de

luau, o walkman, uma lata de 7-Up com um canudinho, e um prato de frango, purê de

batata e vagem.

- O jantar está servido, disse no seu melhor sotaque de mordomo inglês.

Cris deveria estar encantada e sentir-se honrada com a atenção do rapaz. Em vez

disso, sentia-se totalmente incapaz, deitada com o rosto pintado de palhaço, virado para

baixo, e sem jeito de cortar a carne do próprio prato.

- Não precisava fazer isso.

- Claro que precisava. Sabe as regras do acampamento. Se um conselheiro faz com

que uma conselheira acabe na enfermaria, ele tem que servir o jantar para a inválida.

- Não sou exatamente uma inválida.

- Ora, vamos! É só brincadeira.

Jason sentou-se à beira da banqueta, equilibrando a bandeja no colo e cortando o

frango em pedacinhos. Parecia contente em continuar, da sua parte, a brincadeira.

Foi quando Cris percebeu que tudo com Jason naquela semana tinha sido mesmo

apenas um faz-de-conta. O piquenique ao luar, a conversa sobre os sonhos, todos os

sorrisos no campo de arco e flecha ou à beira da piscina. Estavam fazendo de conta que

eram namorados durante o acampamento. Depois ela iria embora e Jason começaria a

brincadeira com outra garota, na semana seguinte.


- É isso que a vida é para você? perguntou Cris. Uma grande brincadeira de faz-de-

conta?

- O que você quer dizer?

Jason se aproximou mais da maca, utilizando os joelhos como mesa, para que ela

pudesse comer. Entregou-lhe o garfo e sorriu.

- Quer dizer que não sei nada a seu respeito e no entanto a semana inteira você me

tratou como se eu fosse sua namorada.

Jason pareceu surpreso.

- Por quê? Por ter lhe ensinado a atirar flechas e mostrado a lua da canoa?

- Não o estou acusando de nada errado, disse Cris, percebendo que podia estar sendo

injusta com um rapaz tão gentil a ponto de servir-lhe o jantar. Eu também tenho brincado.

Gostei do relacionamento com você, de lhe dar as mãos, do piquenique ao luar, tudo o

mais. Só que amanhã tudo vai acabar e parecerá que foi apenas um sonho.

- É assim mesmo, concordou Jason. Melhor comer o purê, que está esfriando.

Cris comeu uma garfada de batata e arrependeu-se de ter dito as coisas daquele jeito.

- Sonhar não é errado, é? disse ele em tom cauteloso. Se os dois sabem que estão

jogando o mesmo jogo, não há nada demais e ninguém se machuca, certo?

Cris achou que de alguma forma não parecia certo. Não sabia como poderia dizê-lo

de modo que Jason entendesse. Deu uma mordida no frango, e disse:

- Está uma delícia. Obrigada por ter trazido para mim. Acho que estou com mais

fome do que pensava.

- Às ordens. E se você estiver chateada com alguma coísa que eu disse ou fiz esta

semana, me desculpe. Eu não queria magoá-la. Só queria aproveitar estes dias com você.

Depois que Jason foi embora, Cris permaneceu deitada sozinha no quarto, pensando

no que ele dissera. Por que aquilo deveria perturbá-la? Ela tinha levado a sério o romance
de acampamento. Foi ela quem o quis. Por que o coração doía agora?

Deve ser porque vou embora amanhã. E todo esse sonho vai acabar. O que vai

sobrar do relacionamento com Jason? Ele não disse que queria me ver de novo, nem que

escreveria ou telefonaria. Me tira da cabeça dele e coloca outra garota, e aposto que vai

fazer tudo igual com ela, logo na semana que vem. Com certeza.

Cris concluiu que o que houvera entre ela e Jason fora apenas um sonho. Começou

na sua cabeça e ela convencera o coração de que era de verdade. No dia seguinte sumiria,

evaporando-se como a neblina da manhã. E já sabia que não seria sua cabeça que se

entristeceria, mas seu coração. Esse relacionamento de sonho a deixaria querendo mais.

Havia bastante tempo para refletir sobre tudo isso deitada ali, sobre o estômago

cheio, ouvindo os sons da reunião da noite entrando janela adentro. Pelas risadas dos

acampados, a peça dos conselheiros devia estar engraçadíssima. Os cânticos pareciam

animados. Muito melhor do que quando ela estava no meio das “suas” meninas e ouvia as

vozes delas, cantando o mais alto possível. De onde estava agora, a música distante

parecia doce. Cantarolou junto os corinhos que conseguia reconhecer e percebeu de

repente que cada coro que tinham aprendido nessa semana era um versículo bíblico

musicado.

Que ótima idéia! Sem saber, a meninada havia decorado uma dúzia de versiculos

bíblicos durante a semana.

O último cântico era o de que Cris mais gostava. Ela o aprendera fazia mais de um

mês, no estudo bíblico dos “Amigos de Deus”. Cantou junto, baixinho.

Nem olhos viram, nem ouvidos ouviram,

nem jamais penetrou o coração humano

o que Deus tem preparado


para aqueles que o amam.

Cris pensou nos seus sonhos, em suas fantasias e desejos. Se as palavras do cântico

eram verdade - e eram, já que foram tiradas da Bíblia - seus sonhos não eram nada em

comparação com os que Deus tinha para ela. Sua parte era amar a Deus. E isso era um

verdadeiro relacionamento de sonho que começava no coração e ia para a cabeça.

Cris cochilou alguns instantes, mas acordou de repente ao perceber que havia

alguém ali olhando para ela.

- Quem está aí? indagou.

- Sou eu, Sara, falou a garota em voz baixa.

- O que foi, Sara? Você está bem? perguntou Cris procurando espantar o sono,

lembrar-se de onde estava e quem era Sara.

De repente a luz acendeu, Sara se aproximou do banquinho e sentou-se, parecendo

desejosa de conversar.

- Ainda bem que você está acordada. Todo mundo foi sentar-se em volta da fogueira,

mas eu queria conversar com você.

Cris abriu os olhos lentamente, esperando que se ajustassem à claridade.

- Alguém sabe que você veio aqui?

- Pedi para a Jessica e ela disse que podia. Ela arrumou o meu cabelo hoje para o

banquete. Gostou?

Cris olhou para a menina, que parecia uma boneca sapeca. Havia duas tranças finas

em sua cabeça, uma de cada lado, amarradas com uma fita cor-de-rosa. Parecia um halo

caído, e o resto do cabelo loiro indomável de Sara despencava em cascatas.

- Está lindo! Sobre o que você queria conversar?

- Bem, você sabe... disse ela timidamente.


Cris lembrou-se de que na noite anterior prometera conversar com Sara sobre beijar

rapazes. Deu um grande suspiro. Sentiu impaciência ao pensar que esse “anjinho” a tinha

acordado para perguntar sobre beijos.

- Sara, acho que não é uma boa hora.

Sara baixou os olhos. Parecia decepcionada.

- Quer dizer, não tem outra pessoa que possa conversar com você? Quem sabe a

Jessica?

- Talvez, respondeu Sara falando devagar.

A menina levantou-se e foi caminhando lentamente. A porta, parou.

- Mas você disse, insistiu ela, que se a gente quisesse entregar o coração a Jesus

você ficaria muito contente de conversar conosco.

- Sara! Espere aí! Volte e sente-se aqui.

A garota voltou e sentou-se, com um olhar de espanto.

- Me desculpe. Claro que quero conversar com você sobre Jesus. É que pensei que

você queria perguntar sobre beijos.

- Ah não! disse Sara, o brilho voltando aos olhos. Já perguntei a Jeanine. Ela beijou

o Nick hoje no mato durante a caçada aos conselheiros e disse que foi uma chatice. Só deu

um beijo no rosto quando ele não estava olhando, mas disse que os lábios ficaram com

gosto de lama salgada, explicou ela, dando uma tremida de frio. Acho que ainda vai

demorar muito pra eu querer beijar um menino.

- Muito bem, disse Cris, rindo-se. É melhor esperar até que o menino esteja na idade

de perceber como é bom tomar banho mais de uma vez por mês. Também é bem melhor

quando a idéia parte do menino, e não só de você. Mas isso só será daqui a alguns anos.

Tenha paciência.

- Não se preocupe. Eu vou esperar com paciência.


- Você queria saber o que é que a gente faz para se tornar cristã?

- Sim.

- Bem, e o que você queria saber?

- Como a gente aceita?

Cris estava prestes a dar uma longa explicação dizendo que nossos pecados nos

separam de Deus, que Cristo fez o sacrifício que pagou a nossa dívida com Deus, que

temos a salvação quando nos arrependemos de nossos pecados, e confiamos nossa vida a

Cristo. Mas uma vozinha, que lhe vinha da própria cabeça, lembrou-a de que os

acampados ouviram isso a semana inteira nas pregações. Sara não estava perguntando por

que precisava entregar seu coração a Jesus; perguntava como é que se fazia isso.

- Deus já sabe o que você está pensando, Sara. Você quer pedir a Jesus que perdoe os

seus pecados e entre em seu coração?

- Sim.

- Então diga isso a ele.

- Não tem uma oração especial ou alguma coisa que tenho de fazer? perguntou a

garota.

- Não, isso é entre você e Deus. Seja sincera com ele e diga que está arrependida das

coisas erradas que o entristecem. Diga- lhe que você quer que ele reine em sua vida.

- Só isso?

- Sim, porque o que interessa mesmo não são as suas palavras, porque Deus vê o que

está no seu coração.

A menina começou a chorar.

- É o que quero. Quero que Deus entre no meu coração.

- Então vamos orar e diga isso a ele.

Cris estendeu-lhe o braço, que estava meio entorpecido, dando-lhe a mão.


Em seguida, então, Sara orou dizendo a Deus que estava arrependida. Pediu que ele

perdoasse seus pecados e entrasse em sua vida, e terminou com um “amém” apressado.

Fitando Cris com os olhos reluzentes de lágrimas, confessou:

- Não sinto nada.

- Eu também não senti, quando entreguei o coração a Jesus. Mas isso não tem muito

a ver com sentimento não. É uma promessa. Deus cumpre a parte dele da promessa e lhe

perdoa. Agora você tem muitos anos pela frente para cumprir sua parte da promessa e

aprender a amá-lo cada vez mais.

- Acho que me sinto diferente agora. Estou aliviada, porque, finalmente, aceitei. Eu

queria aceitar desde aquela noite, quando você falou sobre isso.

Cris olhou para o rostinho inocente de Sara. Sentiu um nó na garganta de pura

alegria, e disse:

- Sabe de uma coisa, Sara? A Bíblia diz que os anjos no céu estão se alegrando neste

momento, porque você acaba de entrar Jara a família de Deus.

- Verdade?

- Verdade!

- Eu não sabia que eu era tão importante assim para Deus.

- Ah, Sara! exclamou Cris, sentindo uma lágrima de satisfação escapar-lhe dos olhos

e rolar em seu rosto. Se você soubesse! Se ao menos você soubesse!...


Dezessete Anos

11

- Então, de quem é a carta de hoje? perguntou Katie à Cris, quando as duas

passeavam no carro de Katie, duas semanas mais tarde.

- Da Sara. Achei um cartão com o significado do nome dela e mandei-lhe alguns

dias depois do acampamento. Sara quer dizer “princesa”. Ela diz na carta que pendurou o

cartão na parede, perto da sua cama.

Cris olhou para a amiga e percebeu que ela estava cerrando os dentes. Sempre que

Katie tinha alguma coisa por dentro, a bochecha apertava em pequenos espasmos.
- Ainda acha chato eu ter ido ao acampamento e você não? perguntou com cautela.

Na última vez que falaram disso, Katie tinha chorado.

- Estou melhorando. Ainda bem que suas acampadas estão lhe escrevendo. Parece

que elas gostam muito de você. Espero que um dia chegue a minha vez de ser conselheira.

Sei que parece loucura, mas é uma meta importante que tenho.

- Loucura, não, Katie. Talvez o ano que vem. Tenho certeza de que Deus vai honrar

o desejo do seu coração. Principalmente porque você o honrou, obedecendo ao desejo de

seus pais este ano.

Katie abanou a cabeça e mudou de pista, aproximando-se da praia de Newport.

- Cris, você sabe que Deus não age de modo previsível assim. Mas não parece

estranho o jeito que meus pais vêem as coisas? Quer dizer, aqui estamos nós, sozinhas no

meu carro, fazendo uma viagem de uma hora e meia até Newport para passar o final de

semana, e eles nem perguntaram onde eu ia ficar, não pediram número de telefone, nada.

Mas quando eu queria ir ao acampamento, eles disseram “não” simplesmente porque tinha

a ver com a igreja. Disseram que não queriam que eu me envolvesse demais com gente

religiosa. Por que têm de ser assim?

- Talvez eles tenham visto muita coisa esquisita rotulada de igreja, apesar de que o

cristianismo não tenha nada a ver com elas. Pense nas coisas horríveis que aparecem nos

noticários; aqueles assassinos, por exemplo, que dizem que foi Deus quem os mandou

matar. Acho que muita gente tem idéia errada do que seja um cristão de verdade.

- É, você tem razão. Agora entendo por que o Douglas disse que deram o nome de

“Amigos de Deus” ao grupo dele.

- Certo. Ouvi o Douglas dizer certa vez que seu principal objetivo na vida é amar a

Deus. Deve ser por isso que inventaram esse nome. A propósito, vamos ligar para ele

assim que chegarmos à casa dos meus tios, para dizer que passaremos lá no final de
semana. Eu disse ao Ted, mas não sei se ele disse ao Douglas.

- Eu falei para o Douglas.

- Falou? Quando?

- Ah, semana passada. Eu estava conversando com ele. Que horas são?

- Você não me contou. Você ligou para ele ou ele ligou para você?

- Tem importância?

- Talvez.

- Tá bem, eu liguei. Mas e daí? Tem alguma lei contra uma garota telefonar para um

rapaz? Sabe que horas são?

Cris olhou de novo o relógio e sorriu para a amiga, que estava sempre na defensiva.

- São 1:15, e não há nada demais em ligar para ele. Eu até gostaria de ver vocês

juntos.

- Verdade?

- Claro. Ele é muito legal e acho que vocês dois formariam um par legal.

- Ainda bem que me recuperei do Rick, acrescentou Katie. O que, por sinal, não

levou muito tempo.

Um sorriso iluminou o rosto de Cris. Ela guardou seus pensamentos para si, mas

logo percebeu que sua amiga conseguia ler o que ela pensava.

- Eu sei o que você está pensando. E está certa. O Rick foi uma dessas fases por que

todas temos de passar. Agora que me livrei dele, estou preparada para ter um

relacionamento verdadeiro.

- Talvez com um rapaz chamado Douglas?...

- Talvez...

- Pois tem a minha bênção nessa. E então, a gente chega lá, liga para o Douglas e o

Ted, e planeja fazer alguma coisa hoje à noite.


Agora foi a vez de Katie sorrir e guardar seus pensamentos para si. Só que dessa vez

Cris não conseguia ler o que se passava na cabeça da amiga. Katie conservou no rosto um

ar de riso até chegarem à casa de Bob e Marta. Mas começou a ficar nervosa quando

chegaram.

- A gente tira as coisas do porta-malas mais tarde, disse Katie, olhando rua abaixo,

ao fechar as portas do carro e subir a calçada da luxuosa casa de praia de Bob e Marta.

- O que você está procurando?

- Quem, eu? Nada.

Katie deu uma risada nervosa que fez Cris pensar que talvez já estivesse esperando

ver a camioneta do Douglas ali.

- Vou tocar a campainha, disse Katie, saltando alguns passos à frente de Cris e

tocando a campainha três vezes. Olhou novamente por cima do ombro, e sorriu. Ninguém

veio à porta.

- Podemos simplesmente entrar, sugeriu Cris. Afinal, é a casa dos meus tios. Vamos

lá.

- Não, espere um pouco, falou Katie segurando-lhe o braço. Eu me sentiria melhor

se a gente esperasse que atendessem à porta.

Novamente Katie apertou a campainha. Tocou, tocou. Era como se estivesse

sinalizando, enviando uma mensagem em algum código secreto. Cris ouviu os passos de

alguém correndo às suas costas. Antes que se virasse, a pessoa chegou e cobriu sua cabeça

com uma fronha azul-marinho e puxou suas mãos para trás.

Cris gritou e esperneou na escuridão.

- O que está acontecendo, Katie?

- Você vem conosco, disse uma voz grossa atrás dela.

Pelo pulso dava para saber que era um homem que estava segurando suas mãos. Seu
coração disparara, mas ela não estava com medo. Esse seqüestro tinha todos os indícios de

que fora planejado por Katie.

O cara conduziu-a ao longo da escada da frente, para dentro. Parecia que entravam

na garagem do tio Bob. Ouviu a porta se abrir e o motor de um caminhão dar partida.

Katie cochichava algo parecido com “atrás”. No instante seguinte, Cris foi erguida e

colocada na traseira do veículo que imaginou ser a camioneta do Douglas. O homem

misterioso ao seu lado segurava suas mãos, para evitar que ela tirasse a fronha. A

camioneta deu ré com um solavanco e desceu a rua numa velocidade assustadora.

- Aonde vamos?

- Daqui a pouco você saberá, respondeu a voz grossa.

A camioneta virou tão depressa a esquina, que Cris pensou que fosse cair. Veio uma

guinada rápida, e mais outra. Não tinha idéia de onde estavam indo. Antes que

conseguisse equilibrar-se numa posição mais cômoda, passaram por cima de outra

lombada. De repente, pararam. A voz ordenou:

- Sai daí!

Pela primeira vez, estava assustada. Tinha tanta certeza de que o seqüestro era

alguma coisa que Katie planejara para seu aniversário, que seria daí a dois dias... mas eles

a tinham virado para um lado e para outro, e ela não tinha mais idéia de onde estava.

Ficou apavorada.

O cara praticamente carregou-a para fora do carro. Cris sentiu outra mão em seu

braço, ajudando-a a descer.

- Está bem, gente! Isso tudo é muito engraçado, disse ela, rindo nervosamente.

Parecendo estar caminhando num piso de asfalto, a pessoa que a conduzia fez com

que ela andasse em círculos. Depois mandou-a erguer o pé, dar um passo para cima, outro

para baixo e a seguir, alguns passos à direita. Dava para ouvir o mar, portanto, Cris
sabia que não podia estar longe da casa de seus tios. Mas onde?

Quem é que estava segurando sua mão e mandando-a andar para a frente com passos

de criança? Não parecia o Ted. Quem sabe o Douglas? Mas então, quem estava dirigindo a

camioneta?

Mais alguns passos e Cris pensou sentir o cheiro da loção pós-barba de seu tio.

- Tio Bob, estou sentindo o seu perfume!

Cris ouviu os risos abafados de Katie, mas ninguém mais fez o menor ruído.

Primeiro, pensou que só estavam ali esse guia misterioso e Katie, mas agora percebia que

havia mais gente, olhando-a, tentando abafar o som dos passos. Quantos mais? E onde

estava ela?

- Por aqui, comandou a voz rouca, à direita. Dois degraus para cima.

Agora reconhecia que pisava sobre cimento. Uma forte brisa do mar tocava seu rosto

e ela ouvia o rugir das ondas. Tinha certeza de que havia mais gente, pelos sussurros e

passos. Parecia sentir cheiro de fósforo também.

Mais um passo, e algo leve e esvoaçante passou por sua cabeça. Sensação estranha.

Teve vontade de bater nele, mas as mãos estavam presas. Conseguiu ter um vislumbre de

cimento cinza sob os pés quando olhou para baixo, pela abertura da fronha.

Onde estou?

Com um puxão inesperado, a fronha foi arrancada de sua cabeça, soltaram suas

mãos e um barulhão de gente gritou “Surpresa!” Quase caiu.

Todos os seus amigos da praia estavam à sua frente, no pátio da casa de tio Bob e tia

Marta, cantando “Parabéns pra você”, todos sorridentes pela surpresa que conseguiram

fazer.

Ted segurava um imenso bolo de aniversário, coberto de rosas de glacê cor-de-rosa e

dezessete velas acesas. Seus olhos azul-prateados encontraram os de Cris quando a canção
acabou. Com um sorriso, ele disse:

- Vamos lá, Kilikina. Faça um pedido!

Respirando fundo, Cris olhou para o bolo. Em pensamento, correu ao arquivo de

“desejos” que havia em sua mente e puxou a primeira ficha dele. Em seguida apresentou

seu pedido.

Eu queria poder ir à Europa, pensou, e soprou as velas de uma só vez.

Todos bateram palmas. Ted colocou o bolo na mesa. Tia Marta começou a fatiá-lo e

convidou a todos para que se servissem de sorvete, a gosto de cada um.

Cris ria-se em companhia dos amigos, ouvindo-lhes o comentário sobre como ela

parecia apavorada quando lhe arrancaram a fronha do rosto.

- Quero saber quem colocou aquela coisa na minha cabeça.

- Fui eu, confessou Douglas. Vocês chegaram cedo demais e sua tia nos disse para

inventar um jeito de atrasá-la.

- Tivemos de levá-la para dar uma volta no quarteirão, comentou tio Bob. Espero

que não tenha se assustado demais com a experiência.

- Calculei que fossem vocês, é claro. Mas não conseguia imaginar o que estava

acontecendo, nem onde estávamos.

- Seu tio dirigiu meu carro. Não posso dizer que é o mais tranqüilo dos motoristas

quando se trata de mudança de câmbio.

Katie entregou à Cris um pedaço de bolo com sorvete de chocolate e uma rosa cor-

de-rosa em cima.

- Foi surpresa para você?

- Só um pouco! Quando foi que planejaram tudo isso?

- Sua tia me telefonou semana passada e combinamos tudo. Foi por isso que fingi

estar meio desinteressada quando você me convidou para passar o final de semana aqui.
Consegui guardar segredo, não foi?

- Que massa! Nem desconfiei. Obrigada, Katie. Foi uma surpresa e tanto.

- Aquilo ali é para depois, disse Katie, apontando para cima. Cris viu uma píñata*

cor-de-rosa em forma de porco, presa à cobertura de madeira da varanda. Notou que tudo

estava coberto de faixas de papel crepom e dúzias de balões coloridos. Os enfeites eram

de festa de criança de cinco anos, mas ela gostou. Sabia que sua tia se lançara de corpo e

alma nessa produção.

_____________

* Piñata: um saco de papel, geralmente cheio de balas e doces, que se pendura no

teto para ser rasgado a pauladas, em festas infantis (N. E.)

Todos os amigos da praia estavam presentes. Helen, Trícia, Brian, Lillian, Douglas,

Ted e outros mais. Cris olhou à sua volta e notou a falta do Rick.

- Ei, pessoal! gritou Marta, gesticulando, para atrair a atenção de todos.

O fato de ela ser frágil e miúda não era vantagem neste momento. Ela usava short

rosa-shocking e uma camiseta. Qualquer outra pessoa da sua idade pareceria rídicula

nessa roupa, mas Marta conseguia ficar elegante. Conseguia manter um ar de juventude

em sua pessoa.

- Logo que vocês tiverem terminado com o bolo e o sorvete, tem uma lata de lixo no

canto. As geladeiras nos dois cantos estão repletas de refrigerantes. Qualquer hora que

tiverem sede esta tarde... Bob e Ted vão armar a rede de vôlei, não vão, rapazes?

Bob bateu continência para Marta.

- Sai uma rede de vôlei!

- Abriremos os presentes hoje à noite, depois do churrasco. Esta porta corrediça

estará aberta a tarde toda, para a eventualidade de que queiram se trocar ou coisa parecida.
Agora, divirtam-se todos na praia e lembrem-se de passar protetor solar.

- Vou tirar nossas coisas do carro, disse Katie a Cris. Ainda está surpresa?

- Acho que vou continuar em estado de choque o dia todo!

- Ótimo.

Quando Katie se virou para buscar as coisas, seu cabelo cor-de-cobre agitou-se

como um leque oriental que se abre.

Cris não conseguia terminar seu enorme pedaço de bolo, e o ofereceu ao Ted. Ele fez

sinal de que não cabia.

- Vê com o Douglas. Ele é mais tolerante com rosas de açúcar cor-de-rosa do que eu.

- Ted! Você vem me ajudar aqui?

A voz de Bob vinha da areia, distante alguns passos dali.

- Claro! falou e, dando um aperto no cotovelo de Cris, disse-lhe: A gente se vê na

praia.

Levou apenas dez minutos para Cris e Katie vestirem seus trajes de banho e

descerem até a praia, onde se juntaram ao grupo. Ao pisar na areia, Cris comentou:

- Notei que o Rick não veio.

- Tem algum problema? indagou a outra.

- Não sei. Tem?

Katie parou, enterrando os pés na areia.

- O que você quer dizer?

- Você não convidou o Rick devido ao jeito como as coisas estavam indo entre

vocês? Quer dizer, ele é bastante amigo do Douglas e do Ted. Eles vão lhe falar da festa.

- Pedi ao Douglas que ligasse pra ele. Não quis falar com ele. Ele disse ao Douglas

que talvez aparecesse no final do dia. Planejamos esta festa para o dia inteiro, caso não

tenha percebido. Sua tia é o máximo em planejar festas. Comprou carne para fazer
churrasco e ingredientes para smore* à beira da fogueira. Alugou um punhado de fitas de

vídeo para o caso de alguém querer ficar para uma maratona de filmes à noite. É capaz

que o Rick apareça mais tarde, mas não tenho muita certeza. Se ele vier, prometo ser

educada com ele.

____________

* S ‘mores: um doce feito de marshmallow torrado e derretido no espeto, colocado

entre bolachas e tabletes de chocolates. (N. da T.)

- Então, está bem. Desde que ele tenha sido convidado, é o que importa. O que ele

vier a fazer do convite, é problema dele. Não quero que ele se sinta excluído.

- Não se preocupe. Pode ser que eu não ache nada maravilhoso ter me interessado

por ele tempos atrás...

Cris interrompeu-a, virando os olhos ao comentário de Katie.

- Mas tive uma ótima professora para me mostrar como se pode ser amiga de um

cara depois que a paixonite apagou.

- Quem, eu?

- Não, a “Pequena Sereia”. Claro que é você!

Cris lembrou-se de Jessica - excelente instrutora sua no acampamento - e disse:

- Sabe, acho que assim que a gente entende o que é o amor de verdade, compreende

que por mais que amemos uma pessoa nunca estaremos amando demais.

Katie ficou pensativa. Virou então a cabeça para o lado, e perguntou:

- É isso que acontece quando se faz dezessete anos? A mente fica cheia de

ponderações profundas e de repente você consegue explicar o sentido da vida para o resto

do mundo?

Antes que Cris pudesse responder, uma bola de vôlei cruzou o ar e acertou a cabeça
de Katie.

- Ei! gritou ela virando-se para ver quem tinha jogado a bola.

- Aqui! gritou Ted. Você está no nosso time, Katie. quer jogar, Cris?

Cris nunca fora boa em esportes como Katie. Mas era a festa do seu aniversário.

Imaginava que uma pessoa deveria superar seu acanhamento, pelo menos em parte, antes

de completar dezessete anos.

- Claro! respondeu. Em que time estou?

- Preciso de você aqui, disse o tio Bob.

Durante a hora seguinte, um intenso jogo de vôlei se travou. Cris divertiu-se, mesmo

não tendo conseguido jogar a bola para o outro lado da rede muitas vezes. Douglas, Bob e

mais duas garotas do seu time compensavam o seu fraco desempenho. No final, o time de

Ted e Katie ganhou.

Ted cismou que o time vencedor teria de jogar os adversários no mar. E antes que

Cris percebesse o que se passava, ele a levou até a beira da água com a alegria de um

menino maroto.

Cris gritou e esperneou, mas Ted segurava firme. No momento em que seus pés

tocaram a espuma fria da onda, ela achou que teria chance de escapulir. Foi quando

Douglas entrou na brincadeira, vindo de trás.

- Viva! gritou Douglas, agarrando Ted e Cris com seus braços de gorila e levando-os

num mergulho camicase.

Os três amigos subiram à tona para respirar, rindo muito e jogando água uns nos

outros. Douglas mergulhou e agarrou o cotovelo de Cris. Ela se afastou e o surpreendeu

jogando-lhe água no rosto, quando reapareceu na superfície. Outra onda quebrou sobre

eles, fazendo-os todos dar cambalhotas até a praia.

Parada na areia, a rir-se deles, Cris torcia no corpo a camiseta enorme, colada na
pele.

- Pronta para mais um mergulho? perguntou Douglas.

- Talvez depois, se eu conseguir tirar essa areia toda dos ouvidos. Mas notei que

Katie está muito à vontade lá na frente.

Apontou para a amiga, deitada de bruços sobre a toalha de praia.

- Não diga mais nada, falou Douglas.

Douglas e Ted correram pela areia, tirando o sossego de Katie. Daí a pouco, com sua

manobra de três pontos, atiraram-na no mar. Cris deitou na toalha da Katie, agora vazia,

ao lado de Trícia e Helen, e procurou se enxugar.

Parece que certas coisas nunca mudam, pensou, lembrando verões passados nessa

mesma praia, quando ela e essas meninas observavam Ted e Douglas aperfeiçoarem a

brincadeira de jogar as meninas no mar.

Cris esticou as pernas compridas sobre a toalha e deixou que o sol quente de julho

secasse a água do mar. De mãos para trás, espalmadas na areia, olhava para o mar azul,

que reluzia ao sol. A cabeça ruiva de Katie apareceu sobre uma onda. Em seguida veio

Douglas, com sua risada contagiante, andando na direção dela, em meio à brisa marinha.

Ted, como um golfinho brincalhão, deslizou até a praia na onda seguinte. Saindo da água,

virou a cabeça para trás e sacudiu o cabelo clareado pelo sol, fazendo todas as gotículas

descerem por suas costas. Cris assistira àquela cena muitas vezes, mas esta foi a primeira

em que notou o quanto isso era característico do Ted.

Ainda bem que algumas coisas não mudam. Eu queria continuar a ter esta idade, e

poder estar na praia, com estes amigos, nos próximos cinqüenta anos. Não quero que as

coisas mudem nunca.

Cris percebeu que estava desejando quase o contrário de tudo que desejara antes.

Durante muito tempo quisera que tudo fosse diferente, principalmente que seu
relacionamento com o Ted mudasse e progredisse. Agora desejava que tudo parasse e

ficasse imóvel para que ela pudesse observar e sentir prazer em cada pedacinho de sua

vida.

Conhecia o sentimento de vazio que fica no coração quando se acaba um romance

de acampamento. Conhecia o prazer estonteante de namorar um cara como o Rick. E

conhecia o tesouro maravilhoso que era ter a amizade “para sempre” do Ted.

Cris inclinou a cabeça para trás e sentiu o beijo do sol no rosto e no pescoço.

Lembrou a bênção que recebera do Ted, e que ela passara adiante para a Jeanine: “Que o

Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre você e lhe dê a paz.”

Nesse momento, Cris experimentava a paz de Deus. Sentia o rosto do Senhor

reluzindo sobre ela. Com os olhos fechados e um sorriso abrindo-lhe nos lábios, ela

formulou dezessete silencioso pedidos. Todos relacionados com o Ted.

Fim

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