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Série Cris

Tempo de Amar

Título original: A Time to Cherish


Tradução de Elizabeth Gomes
Editora Betânia, 1998
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat
WWW .PORTALDETONANDO.COM.BR/FORUMNOVO/
TEMPO DE AMAR
10

ROBIN
JONES
GUNN

Para um casal de “tesouros peculiares” de Escondido, John e Debbie Ferguson,


que me deram minha primeira máquina de escrever e me mandaram escrever um
livro.

E à minha editora e verdadeira amiga, Beverly Rykerd, que abriu seu coração e
seu lar para mim e está sempre pronta a ouvir-me.
Sem Garantias
1

Cris Miller acordou de repente. Remexeu as pernas suadas para sair do saco de

dormir e comprimiu os olhos no escuro, tentando lembrar-se de onde estava. A cama

parecia balançar levemente de um lado para outro.

Lembrou-se então. Estava num barco. A idéia fora da tia Marta – fazer uma festa

no final de semana do Dia de Trabalho.*

________________

*Nos Estados Unidos, o Dia do Trabalho (labor Day) é observado na primeira segunda-feira de

Setembro, e o ano letivo começa na terça-feira após esse feriado. As férias de verão são de junho a agosto.

(N.da T.)

Dava para escutar Katie, sua melhor amiga, ressonando no outro lado da cabine.

Cris vestiu o moletom e colocou os pés descalços no chão frio. Caminhando até a proa

saiu e fechou a porta de vidro às suas costas. Respirou fundo o ar fresco da manhã.

O céu ainda não despertara de todo, mas parecia erguer-se lentamente, esfregando

os olhos para dissipar a fina camada de nuvens cor-de-rosa que lhe obscureciam a vista,

atento em seguida ao seu reflexo no espelho sereno da lagoa.

O dia prometia ser perfeito. Dava para sentir no cheiro da brisa suave que vinha

da lagoa. Naquele instante, algo caiu na água. Ela imaginou que fosse o Ted, ou o

Douglas. Os dois haviam dormido sob as estrelas, na cobertura do barco.

Daí a pouco a cabeça loira, quase branca do Ted surgia à tona. Ele não notou que
Cris o observava e continuou a nadar, dando fortes braçadas de peito. Virando para

flutuar de costas, falou em meio ao ar da madrugada:

- Ó Senhor, Senhor nosso! Quão admirável é o teu nome em toda a Terra! Pois

expuseste nos céus a tua majestade!

Cris não pôde deixar de sorrir. Ted era assim.

Aproximou-se da amurada, sem saber se interrompia ou não a conversa dele com

Deus. No último passo, seu pé enroscou-se no canto de uma cadeira de praia dobrada,

fazendo com que caísse e fizesse um barulho enorme. Ted girou na água e começou a

nadar de volta ao barco.

Cris alisou depressa o cabelo cor de noz-moscada e tentou melhorar a aparência da

sua trança. Provavelmente/ estou horrorosa! No mínimo, com a cara amassada.

Lembrou-se então que era esse mesmo o jeito do Ted, e que ele nunca fora do tipo

que julga as pessoas pelas aparências. Esperava que ele se lembrasse disso ao vê-la do

jeito que estava, isto é, acabando de sair do saco de dormir.

O rapaz agarrou uma das cordas penduradas na parte traseira da embarcação, e

subiu pela escada para o convés.

- Olá! disse Cris, timidamente. Como está a água?

Ted sorriu e pegou uma toalha de praia na sacada. Seus olhos azul-prateados

encontraram-se com os de Cris, e ele sussurrou:

-Quer ver por si mesma?

-De jeito nenhum!

-Nem um chuveirinho frio? perguntou, sacudindo o cabelo à frente dela, como faz

um cachorro quando está molhado.

-Está bem, exclamou com uma risada, erguendo as mãos para se proteger. Você

me convenceu; está fria mesmo!


-Refrescante, corrigiu Ted, enfiando na cabeça um suéter de malha com capuz

azul-marinho e metendo as mãos no bolso. Você é a única que se levantou?

-Acho que sim.

-A viagem ontem foi longa. É provável que todos durmam até mais tarde. Por que

se levantou tão cedo?

-Estava muito quente no saco de dormir. Deve ter sido feito para temperaturas

abaixo de zero.

-Sei um jeito ótimo de refrescá-la. Vamos dar um giro pela lagoa.

-Em quê? Se ligarmos o barco de esquiar, vamos acordar todo mundo.

-Então a gente leva o bote, disse Ted.

Puxando o monstro inflado amarelo do lado do barco, dei o cair na água:

- Primeiro as damas, falou ele.

Numa questão de segundos, passou pela cabeça de Cris toda a resistência que ela

poderia opor. Será que entrariam em alguma enrascada por saírem assim sem falar com

ninguém? Não. Bob e Marta confiavam no Ted. E se ela molhasse o moletom? E daí?

Poderia trocar por uma roupa seca quando voltassem. Não conseguindo pensar num bom

motivo para não ir, Cris desceu para o bote, que bordejava.

Ted agarrou dois remos, puxou o capuz de seu moletom, amarrou a toalha de

praia à cintura, sobre o calção molhado, e desceu para o bote. Remaram em silêncio,

distanciando-se da enseada, e indo em direção à parte mais aberta do lago.

Bastou uma olhada no rosto de Ted, e Cris compreendeu que ele considerava esse

passeio uma grande aventura. Ele vibrava com aventuras. A ambição de sua vida era

tornar-se missionário e viver no meio da selva.

C ris ta mb é m gostava de aventuras, pelo menos gostara das poucas que

experimentara em seus dezessete anos de vida. Mas não tinha certeza de que iria querer
passar o resto da vida no meio da selva. Talvez se ela conseguisse um modelador de

cabelo que funcionasse sem eletricidade.

- Não é lindo? perguntou ele, olhando para o céu, que despertava.

Apontou numa trilha de nuvens brancas como algodão desfilando pelo azul infinito.

- As nuvens são o pó dos pés de Deus! exclamou ele.

Cris sorriu, achando graça da veia poética do Ted. Ele parecia um monge com o

capuz sobre a cabeça.

- Não fui eu que inventei essa. Foi um profeta do Antigo Testamento. Naum, para ser

exato. Sempre penso nesse versículo quando vejo nuvens sugerindo que Deus saiu a

caminhar pela manhã, sobre a face da terra.

Cris já conhecia aquele olhar do Ted. Tinha-o visto muitas vezes durante os dois

anos em que se conheciam, dois anos mais cheios de altos e baixos do que um elevador.

Mas uma coisa nunca mudara: o amor do Ted por Deus. Várias vezes Cris desejou que Ted

tivesse por ela um décimo da dedicação que tinha por Deus.

Não é que ela não amasse a Deus. Amava. Havia consagrado o coração ao Senhor

havia mais de dois anos e desde então havia crescido muito espiritualmente. Mas a única

coisa que o Ted lhe prometera era que seriam amigos para sempre. O que isso significava?

Na semana seguinte ela iniciaria seu último ano do segundo grau, e o Ted estava no

segundo ano de faculdade. Que idade um rapaz precisava ter para manter com uma garota

um compromisso realmente firme, sério?

- Sabe o que isso me lembra? perguntou Ted. Àquela manhã na praia.

- Você está falando daquela manha de Natal dois anos atrás quando fizemos o café

da manhã e as gaivotas comeram tudo?

Ted sorriu.
- Já tinha quase me esquecido dessa. Não, estou falando daquela manhã no ano

passado. Você se lembra? Encontramo-nos por acaso na neblina, na praia.

Cris sentiu um aperto no estômago. Não gostava muito de se lembrar dessa outra

manhã.

- E aqui estamos, disse ela, tentando esquecer o aperto, saindo juntos de novo, de

madrugada. Só que desta vez você não me está dizendo que vai embora para o Havaí para

surfar, sem previsão de volta. Ou estaria?

- Não, disse Ted, abaixando o remo e deixando o barco vagar. Colocou as mãos atrás

da cabeça e recostou-se na lateral do bote.

- E você também não está tentando devolver-me sua pulseira de chapinha, concluiu.

Cris olhou a pulseira de ouro no braço direito. A expressão "Para Sempre" brilhava

ao sol que nascia.

- Eu queria que você tivesse liberdade de ir ao Havaí sem sentir obrigação pra

comigo.

- E eu queria que você tivesse liberdade de sair com o Rick sem sentir que eu a

impedia.

Cris suspirou.

- Agora eu queria que você tivesse impedido. Não tenho recordações muito

agradáveis do tempo que namorei o Rick.

- Mas tinha que tomar sua própria decisão, disse Ted. Eu nunca tomaria uma decisão

dessas por você. Na verdade, estaria roubando de você o que você é. Há grande valor em

tudo que nos acontece. Simplesmente temos de procurar descobrir o que é.

Cris recostou-se, sentindo no lado esquerdo do rosto o calor do sol. Pensou muito

sobre o Rick e seu jeito dominador, imaginando que valor poderia ter surgido daquele

relacionamento. No namoro com o Rick ela talvez tivesse aprendido a definir melhor o
tipo de rapaz com quem ela queria estar. E agora, mais que nunca, reconhecia que esse

rapaz era o Ted.

- O que você espera de mim, Cris? perguntou ele de repente, como se tivesse lido

seus pensamentos.

- Que você quer dizer com isso?

- Você quer um compromisso maior do que temos no momento, não é?

Cris sentiu o rosto enrubescer - não por causa do sol.

- Por que diz isso?

- Sua tia teve uma conversa comigo ontem, na vinda para cá. Você viajava na

caminhonete, em companhia da Katie e do Douglas. Ela me disse que se eu não marcasse

logo meu território, você acabaria se envolvendo com outro rapaz. Ela acha que já é

tempo de definirmos nosso relacionamento, de revelar a todos que estamos namorando

firme.

Cris estava realmente envergonhada. Tia Marta sempre dizia o que queria, mas o Ted

nunca parecia prestar muita atenção. Por que será que estava levantando esse assunto

agora?

- Ted, você conhece minha tia. Isso foi idéia dela, não minha.

-Foi o que ela me disse.

Cris abanou a cabeça.

-Peço desculpas por ela e...

-Não precisa. Eu teria deixado passar, mas o Douglas anda me perguntando sobre o

nosso relacionamento. Acho que você sabe que faz tempo que ele quer sair com

você.

-O Douglas?

Ted acenou que sim.


-Você não sabia?

-Não, eu estava com esperança de que ele e a Katie namorassem.

Ted deu de ombros. Por alguns minutos, houve silêncio.

- E então? indagou Ted, aproximando-se e olhando-a nos olhos. Sinto que temos

um problema a resolver. O que você realmente pensa, Kilikina? Você quer um

compromisso mais sério comigo?

Cris sempre se derretia quando o Ted a chamava por seu nome havaiano. Durante

dois anos ela desejara que ele lhe fizesse essa pergunta. Mas não estava esperando. Não

ali. Não nessa manhã. Se não fossem seus pés descalços, formigando por causa da

poça d'água no fundo do bote, ela teria pensado que ainda estava dormindo, e tendo

um sonho romântico.

-Não sei, disse ela, surpresa com sua resposta tão indecisa.

-Então me diga o que você pensa.

-De você?

-De mim, de nós. Preciso saber o que você pensa e sente.

-Bem, sinto-me ótima quando estou com você. Confortável. Sinto sua falta

quando você não está por perto. Penso em você o tempo todo e oro por você

todos os dias. Você faz com que eu me sinta mais próxima de Deus e, perto de

você, nunca

me vejo forçada a ser diferente do que sou. Gosto de você mais do que de qualquer

outro rapaz que conheço.

Lentamente, um sorriso foi tomando conta do rosto do Ted. Parecia que as palavras

de Cris o esquentavam de dentro para fora. Antes ela nunca conseguira dizer tão

claramente o que sentia a respeito dele. Era bom abrir o coração assim. Ela tentara fazer

a mesma coisa um ano atrás, no encontro da madrugada na praia, mas, obviamente,


não era o momento certo. Ted não lhe dera ouvidos. Nessa manhã, no entanto, ele

vibrava só de ouvi-la.

- Sinto o mesmo por você, disse ele. Tem sido importante para mim esse tempo

todo a gente levar a coisa devagar. Nunca desejei que nosso relacionamento

avançasse depressa demais.

- Dois anos não é depressa demais, retrucou Cris com um sorriso maroto.

-Mais ou menos o tempo certo, eu diria. É assim com Deus, sabe. Ele sempre nos

atende na hora certa, mas raramente antes da hora.

Cris mal podia acreditar no rumo bom que essa conversa estava tomando. Ela e

Ted não conversavam muito sobre seus sentimentos. Um pouco de empolgação,

misturado a certa apreensão começou a surgir.

Novamente tudo estava quieto, e as ondulações do lago sacudiam de leve o bote.

Ted quebrou o silêncio com uma risada nervosa.

- Não sei como dizer. Agora estamos namorando a sério mesmo ou o quê?

- Não sei. Estamos? perguntou Cris devolvendo a pergunta.

- É o que você quer, não é?

- Sim, quero dizer, se você quiser.

- É o que quero, disse Ted com firmeza. Quero ser seu namorado, ainda que

deteste usar esse termo. Você sabe que não gosto de rótulos. Acho que todos os atos e

atitudes de uma pessoa revelam o que está no coração dela. Uma coisa não vem de

dentro simplesmente porque a gente falou. Se algo realmente estiver em nosso coração,

irá manifestar-se naquilo que fazemos.

Cris concordou. Sabia exatamente o que o Ted queria dizer com isso. O

relacionamento dos dois sempre estivera acima de rótulos. Ted fora sempre sincero

quando se dizia seu amigo, não importava o que acontecesse.


- Então, agora estamos oficialmente namorando, disse Ted, endireitando os ombros

largos e dando um sorriso que mostrava a covinha na bochecha direita. Você se sente

diferente?

-Não; não exatamente.

-Nem eu. Talvez isso seja bom. Talvez tudo ainda esteja no mesmo nível conosco, só que

agora temos uma resposta a dar aos outros. Estamos namorando.

Cris ouviu com enorme felicidade a voz profunda do Ted quando disse: "Estamos

namorando." Adorava sentir-se mais segura em seu relacionamento.

-Estou feliz, disse baixinho.

-Eu também, disse Ted, e completou com carinho: Você é uma pessoa incrível, Kilikina.

Eu a tenho no meu coração. Você é a única garota que beijei. Não sou o mesmo desde

aquela noite logo depois que nos conhecemos, e eu a segui nas pedras quando você saiu da

festa do Sam.

-Eu me senti tão infantil naquela noite! Todo mundo estava bebendo e eu era muito

ingênua.

-Você era inocente, Cris. Você não faz idéia de como isso a tornava linda.

Cris sentiu vontade de chorar.

-Ted, eu... principiou ela, não sabendo expressar direito o que sentia. Estou realmente

contente, quero dizer, isso é tão...sei lá. É tão certo. Estou realmente contente por estarmos

levando nosso relacionamento pra frente.

-Eu sei. Eu também.

Naquele instante, o ronco do motor de uma lancha rompeu o momento mágico. Ted

fechou um pouco os olhos e pôs-se a acenar.

- É o Douglas e a Katie. Aposto que ele está pronto para esquiar pra valer!

Douglas desligou o motor e fez a lancha deslizar devagar em direção ao bote.


- Olá, marujos!

Ele trazia um lenço amarrado nos cabelos loiros e curtos, à maneira dos piratas. Havia

um triângulo verde de protetor solar sobre o nariz. O sorriso largo que se espalhara pelo seu

rosto mostrou que estava de bom humor, como sempre.

- Precisam de reboque até a caverna antes que naufraguem? indagou.

Ted virou-se para Cris, e disse:

- Isso não seria tão ruim, seria?

- O quê? Ser levados de reboque de volta à praia ou naufragar?

Ted não respondeu e por um instante os dois se entreolharam, os olhos revelando mil

segredos do coração.

- Acho que estamos interrompendo alguma coisa, disse Katie, agitando os cabelos

ruivos, os olhos fitos em Cris e no Ted, e olhando em seguida para o Douglas.

Levantou uma bandeira alaranjada, usada para indicar que o esquiador caiu na água.

Balançando a bandeira como se fosse varinha de condão, perguntou:

- Me digam, vocês dois: perdemos alguma coisa hoje de manhã? Vocês têm alguma

coisa a nos revelar?

Cris sentiu-se ruborizar e ficou se perguntando até quando ela teria esse tipo de reação.

-Andamos olhando a poeira dos pés de Deus, respondeu Ted. E fizemos algumas

promessas, acrescentou num sussurro que só Cris escutou.

-E então, que tal nós fazermos um pouco de poeira de ondas? perguntou Douglas. Pronto

para quebrar um pouco desse vidro?

-Esperem! Queremos que vocês nos reboquem primeiro! gritou Katie. Eu vou no bote

com a Cris e vocês nos rebocam até o barco.

- Desde que prometam ir devagar! acrescentou Cris.

Douglas jogou uma corda comprida para o Ted amarrar o bote atrás da lancha,
enquanto Katie se transferia para a embarcação menor. Ted subiu a escadinha perto do leme e

apertou o nó das cordas.

- Está certo, os sinais são os seguintes: polegar para cima, ir mais depressa. Um dedo

"cortando" o pescoço quer dizer pare, e o polegar para baixo quer dizer mais devagar.

Cris colocou o dedo para baixo, e disse:

-Estou falando sério, gente. Vão devagar!

-É melhor achar alguma coisa em que segurar, gritou Ted da lancha. Jogou dois coletes

salva-vidas alaranjados e instruiu as meninas sobre como vesti-los.

Cris colocou o colete por cima da malha e agarrou um cabo preto do lado do bote.

- De quem foi essa idéia? indagou.

- Minha, disse Katie destemida e, fitando os olhos azul-esverdeados da amiga,

perguntou: O que há?

- O que há o quê? perguntou Cris.

- O que há com vocês?

- Que é que você quer dizer?

Katie colocou a mão na cintura, virou a cabeça de lado e examinou a expressão do

rosto de sua melhor amiga.

- Eu acertei! Havia alguma coisa acontecendo entre vocês dois agora há pouco. Você

está escondendo alguma coisa, Cristina Juliete Miller. Não está?

Cris não respondeu com palavras, mas o sorriso que lhe escapava dos olhos revelava

tudo.

- Eu sabia! exclamou Katie, alto o bastante para acordar os peixes que ainda

estivessem dormindo. Não me diga - deixe-me adivinhar. Você e o Ted estão finalmente

namorando! É isso?
Cris olhou para a lancha, esperando ver o sorriso confiante do Ted. Em vez disso,

viu a expressão sorridente do Douglas transformar-se numa cara fechada.

Naquele instante, Douglas deu partida no motor com um ronco forte. A corda

estendeu-se e o bote deu uma arrancada na água. Cris gritou:

- Vai mais devagar!

Douglas acelerou, fazendo com que a lancha se deslocasse em alta velocidade. O

bote parecia voar sobre as ondas. As duas se agarraram nele, gritando e tentando fazer os

gestos de "devagar" e "pare". Douglas deu uma guinada à direita e o bote saltou sobre uma

onda. Antes que conseguissem equilibrar, outra onda, maior, pegou o bote por baixo,

jogando as garotas dentro da lagoa.

Os coletes salva-vidas as trouxeram logo à superfície, e Katie e Cris equilibraram-se

verticalmente, gritando ameaças aos dois.

- O Douglas fez isso de propósito! falou Katie, vendo-os virar a lancha para vir

pegá-las. E tenho umas idéias boas para nos vingarmos dele este final de semana.

Mesmo através da água cristalina do lago, Cris reconhecia o olhar de moleca da sua

amiga ruivinha.

- Deixo para vocês os jogos de vingança, disse Cris, sentindo o peso do moletom

encharcado. Não quero entrar em nenhuma brincadeira, a não ser que me garantam que

não sairei machucada.

Katie inclinou levemente a cabeça, e riu.

- É tarde demais!

Agora Cris estava ao lado de Katie na água. Os rapazes jogaram a corda.

- Só porque fomos derrubadas na lagoa uma vez pelo Douglas, não quer dizer que é

tarde demais, interveio Cris.

- Eu não estava me referindo ao Douglas. Estava falando do Ted. Alguma coisa


aconteceu entre vocês dois. Dá para notar. E seja lá o que for, acho que é tarde demais pra

garantir que você não vai se machucar no final.

Aproveite o Momento Presente


2

Quando os quatro chegaram ao barco, Bob gritou da janela da cozinha:

- Chegaram na hora das panquecas. Sentiram o cheiro delas lá da lagoa?

Os rapazes atracaram a lancha, e as garotas, encharcadas, torceram mais uma vez as

barras de suas malhas antes de pisar no convés.

- Os rapazes querem voltar a esquiar, enquanto o dia ainda está calmo, disse Katie ao

Bob.

- Sem problemas. O café será servido a manhã toda na minha cozinha.


Abriu a porta corrediça de tela e, olhando firme para Cris, perguntou:

- Você pretende entrar em alguma espécie de concurso de ratos afogados que eu

desconhecia?

- O único concurso de ratos afogados por aqui só vai envolver uns certos jovens

piratas - dois, para ser exata - informou Katie.

- Alguém que nós conhecemos? indagou Bob, os olhos alegres brilhando.

Para um homem na casa dos cinquenta anos, que nunca tivera filhos, ele parecia

gostar da presença de Cris e seus amigos. Seu jeito tranquilo e bonachão fazia dele uma

espécie de tio adotivo amado por todos. A única pessoa que discutia com Bob era tia

Marta, mas ela se desentendia com todo mundo, um dia ou outro.

- Vamos lá, Katie! gritou Douglas da lancha. Precisamos que você venha conosco

para segurar a bandeira.

- Meu público me chama, disse Katie, colocando as costas da mão na testa de modo

dramático. Ah! O preço da fama!...

Cris riu-se de sua amiga brincalhona.

- Vá! Atenda o chamado dele, Katie! Eu fico atrás e ponho roupas secas, e vou

encher a barriga de panquecas. Você quer uma camiseta seca?

- Não é má idéia. Jogue uma toalha também.

Logo que a lancha partiu, com Katie agitando vigorosamente a bandeira num adeus

brincalhão, Cris vestiu um maiô e uma camiseta enorme. Desfazendo a trança

emaranhada, foi para a cozinha onde estava Bob, e começou a escovar o cabelo molhado.

O excesso de água gotejava no chão, ao sacudir a cabeça, com os movimentos que fazia

com a escova.

- Lindo dia, comentou o tio, colocando mais uma panqueca com frutinhas sobre a

travessa já repleta. Não podíamos ter pedido um tempo melhor.


- Bom dia a todos! disse Marta, abrindo a porta do seu quarto nos fundos.

Naquele instante, Cris jogou o longo cabelo para trás. A água voou pela pequena

cozinha, como se estivesse mirando diretamente a tia Marta, dando-lhe um banho.

- Pare imediatamente com isso! gritou ela.

Cris virou-se e encontrou sua delicada tia vestindo um conjunto de marinheiro

borrifado de água. Até mesmo seu cabelo escuro, perfeitamente arrumado, estava coberto

de “orvalho”.

- Desculpe, tia Marta. Foi sem querer.

- Está tudo bem, disse Bob, entregando uma toalha felpuda para sua irritada mulher.

Um pequeno despertar matinal, só para você. Mais eficaz que uma xícara de café forte.

- Eu já estava acordada. Obrigada! Retrucou sem jeito, tomando a toalha das mãos

de Bob.

E correndo os olhos pela cozinha perguntou:

- Onde estão os rapazes?

- Saíram para esquiar com a Katie.

A expressão de Marta mudou. Assim que viu seu “auditório” reduzido ao Bob e à

Cris, pareceu menos aborrecida do que fizera supor. Com a toalha, deu mais uma acertada

em sua maquiagem perfeita, virou-se para a sobrinha e disse:

- Você poderia pensar em secar o cabelo no banheiro, no resto da viagem.

- Está certo. E me desculpe. Eu não vi você.

Bob entregou uma caneca à esposa, e disse:

- Baunilha com avelãs, o seu favorito. Está pronta para o café?

Marta aceitou a oferenda de paz e sentou-se à mesa; Cris sentou-se do outro lado e

se serviu de três panquecas fumegantes.

- Que cheiro delicioso!


Cris esperava que o azedume da tia acabasse logo, de preferência antes que seus

amigos voltassem. Conhecia de sobra o gênio delicado de Marta, seus altos e baixos, e

sabia que em boa parte seus modos eram espontâneos; seu jeito, natural. Ainda assim,

sentiu-se culpada, como se tivesse a obrigação de manter-lhe o bom humor.

- O nascer do sol foi maravilhoso hoje, disse, esperando despertar a conversa. Você

vai comer conosco, tio Bob?

Ele olhou as três panquecas na frigideira e desligou o fogo.

- Claro, temos bastante aqui para começar.

Colocou as panquecas quentes no prato e sentou-se à cabeceira da mesa.

- Vocês se importam se eu fizer uma oração? perguntou Cris.

Já tinha passado por essa situação muitas vezes, já que seus tios não eram do tipo

que oram antes das refeições. Cris resolveu que não deixaria de orar só porque eles não

faziam isso normalmente.

Bob e Marta se entreolharam e em seguida abaixaram a cabeça respeitosamente.

Cris orou em voz alta, agradecendo a Deus pela viagem com segurança, pelo dia

maravilhoso, pelo alimento, por Katie, os rapazes, Bob e Marta. Quando ergueu os olhos,

após o “amém”, viu Marta de cabeça erguida e olhar furioso.

- A comida pode esfriar enquanto você distribui bênçãos pelo mundo todo!

Era óbvio que ainda estava de mau humor. Cris achou melhor não dizer nada e

começou a cortar as panquecas.

- Não entendo como você consegue comer desse jeito e continuar esbelta, disse

Marta, enquanto tomava apenas o café. Espero que esteja malhando as coxas, como eu lhe

disse. Sempre foi um problema para as mulheres na nossa família. Dá para você ver que as

coxas da sua mãe sucumbiram à herança genética. Você não pode deixar que o mesmo

aconteça com você.


De propósito, Cris enfiou um pedação de panqueca na boca e o saboreou antes de

dizer:

- Na verdade, tia Marta, acho que minha mãe está muito bem do jeito que ela é, e

acho que estou bem do jeito que sou. Enquanto tivermos saúde, acho que não devemos

nos importar demais com as linhas do corpo.

- Talvez você não se importe, mas os homens certamente notam. Guarde isso na

cabeça, se você acha que vai atrair um jovem simplesmente porque “tem saúde”.

- Não preciso me preocupar com isso, murmurou baixinho.

Sabia que não devia jogar indiretas à tia, principalmente quando se tratava do Ted.

Sobretudo se queria manter segredo. Entretanto a notícia de que ela e Ted estavam

namorando provavelmente tiraria de Marta a disposição de criticar.

- O que você disse, Cristina? Não escutei.

Cris descansou o garfo e deu um longo suspiro.

- Acho que vocês dois gostariam de saber que eu e o Ted conversamos sobre o nosso

relacionamento hoje cedo e...

Marta apertou as mãos, interrompendo-a:

- Eu sabia! Sabia que ele seguiria meu...quer dizer, que o Ted tomaria a iniciativa de

oficializar o relacionamento de vocês. Que maravilha, Cris!

- Bem, na verdade nada mudou, só definimos as coisas.

- Então vocês estão comprometidos um com o outro. Isso é maravilhoso!

Marta mudou completamente; de ranzinza tornou-se alegre como um dia de sol.

- Não estamos “comprometidos”. Estamos namorando. É assim que o Ted colocou

as coisas.

- Isso é maravilhoso! Disse Marta, triunfantemente. Vocês estão firmes! É o primeiro

passo, e para vocês dois, definitivamente o próximo passo.


Empurrou a xícara de café para o lado e encostou-se na mesa para dar à sobrinha

alguns dos seus conselhos.

- Ter um namorado firme no seu último ano do colegial, continuou, torna as coisas

muito mais fáceis para você. Jogos de futebol, o banquete de Natal, o baile de formatura –

nunca terá de se preocupar em ter com quem ir. Quando você se formar, o Ted terá mais

dois anos de faculdade pela frente e aí vocês deverão freqüentar a mesma universidade.

Prefiro uma mais ou menos perto de casa. Talvez Irvine ou UCLA. Você pode se casar no

verão, após seu segundo ano, porque aí o Ted já estará formado. Então, enquanto você

termina a faculdade, o Ted completa o seu mestrado. É simplesmente perfeito!

Cris não pode deixar de rir-se.

- Você planejou tudo, não é mesmo? E se não for isso que Deus quer pra nós?

Marta pareceu surpresa.

- Por que não seria? Deus não quer o melhor para você? Acho que até Deus teria de

concordar que o Ted é o melhor para você.

Mais uma vez Cris riu-se da “teologia” de sua tia.

- Acho que Deus dá o melhor àqueles que deixam a decisão com ele.

Marta pensou no assunto por um instante, e estava prestes a contrapor-lhe um

comentário quando Bob interrompeu:

- Aproveite o momento presente, Cris. Ninguém sabe que futuro a espera. Viva o

momento e deixe que as coisas simplesmente aconteçam.

- Certamente não há nada de errado em planejar o futuro, disse Marta. Se a Cris não

pensar nisso agora, pode acabar cometendo um erro de que se arrependa pelo resto da

vida.

- Mas não precisa fazer todas essas decisões hoje, disse Bob baixinho.

Voltando-se para Cris, tomou-lhe a mão, apertou-a e continuou:


- Estamos realmente contentes por você, Olhos Brilhantes. O Ted é um rapaz de

sorte por ter uma jovem como você na vida dele. Vou fazê-lo ver a sorte que tem, pode ter

certeza.

- E você, prometa que será sempre digna dele, aconselhou Marta. Não existem

muitos como ele no mundo de hoje.

- Eu sei, disse Cris, o coração a bater forte só de pensar em Ted.

No fundo da mente, ainda lhe ressoavam as palavras de Katie, como uma pequena

nuvem de tempestade vinda em sua direção. Cris afastou a idéia. Afinal, que sabia a Katie

sobre relacionamentos? Nunca tivera um namorado. Talvez isso tudo mudasse durante o

final de semana, se o Douglas apenas notasse que tesouro ela era.

- Mais panquecas? ofereceu Bob.

- Pra mim não, disse Cris. Estavam deliciosas. Imagino que, quando os rapazes

chegarem, acabarão com o que sobrar.

A previsão de Cris estava certa. Ted e Douglas comeram tantas panquecas que ela

até perdeu a conta. E Katie acompanhou os rapazes, comendo várias.

- São as melhores panquecas que já provei, disse a jovem, limpando a boca. Devem

estar saturadas de açúcar, para eu gostar tanto assim. O açúcar é um dos meus quatro

alimentos básicos, sabiam?

- E vocês, meninas, estão a fm de curtir um pouco mais o mar? perguntou Bob.

Estou querendo dar mais uns giros de lancha. Vem alguém comigo?

Os quatro aceitaram o convite de Bob. Quando Cris subiu na lancha, sentou-se no

primeiro lugar que achou, por acaso ao lado do Douglas. No momento em que sentou, ele

se levantou e, sem olhar para ela, disse:

- Acho que você vai preferir sentar-se ao lado do Ted. Eu mudo de lugar.
0 que é que há de errado com ele? Nem olhou para mim no café da manhã. Um

rapaz de 22 anos... Quanta imaturidade. Só porque a Katie anunciou que Ted e eu

estamos namorando, não significa que ele não pode mais ser meu amigo.

Ted foi o último a subir na lancha, e sentou-se ao lado de Cris.

- Quer esquiar um pouco primeiro, Bob? indagou Ted. Eu ou o Douglas podemos

dirigir a lancha, se quiser.

- Vocês rapazes vão primeiro. Antes quero sentir a lagoa. Quem vai? Douglas?

- Claro, eu vou. Desta vez vou experimentar um esqui só.

Ele abotoou o colete salva-vidas, e quando Bob parou a lancha nas águas mais

fundas, mergulhou. Poucos minutos depois firmava os pés num único esqui e se colocava

em posição.

- Vamos lá! gritou. Em frente!

Bob arrancou com a lancha, sulcando as águas azuis. Douglas ficou de pé e

equilibrou-se no esqui como se já tivesse feito isso mais de cem vezes.

- Tem certeza que ele nunca andou num esqui só? Olhem para ele - parece um

profissional! exclamou Katie.

Douglas parecia cada vez mais ousado, ao deslizar de um lado para outro, saltitando

o rasto de pequenas ondas que a lancha ia largando atrás de si. Percebendo que ele se

equilibrava tão bem, Bob passou a acelerar em cada curva. Uma virada brusca à direita os

trouxe de encontro às ondas de um barco em alta velocidade que acabara de passar. O

impacto da água fez com que a lancha se erguesse e, ao descer, produzisse um baque

surdo, forte. Para o Douglas, as ondas causadas pelo barco foram desastrosas, e ele caiu

feio.

- Isso merecia ter sido filmado, exclamou Katie, erguendo alto a bandeira, enquanto

Bob desacelerava e voltava para pegar o rapaz. Ele não estava fantástico?
Então, mais alto para que Douglas pudesse ouvi-la da água, acrescentou:

- Você foi fabuloso, Douglas! Queria ter tirado uma foto. Douglas acenou para Katie,

e pareceu a Cris que sua alegre disposição estava de volta. Novamente a bordo, sua risada

convenceu-a de que o que fosse que o estivesse incomodando, ficara para trás, na largada.

Tremendo, sorrindo, e totalmente encharcado, Douglas deu a Katie um de seus famosos

abraços, e em seguida foi procurar uma toalha.

- Pronto. Agora você já pode se molhar toda e nos mostrar como é hábil no esqui,

disse Douglas.

- Sua lontra! exclamou Katie, sacudindo os braços para se livrar do molhado. Você

vai ver! Vou fazer sua exibição no esqui parecer um rascunho de desenho animado.

Afastem-se todos! Tenho uma missão a cumprir.

Katie entregou a bandeira a Cris, ajustou o colete salva-vidas e pulou na água.

- Jogue-me esse esqui, Sr. Importante! gritou para ele, Vou deixá-lo envergonhado.

Sem medo de enfrentar qualquer façanha que exigisse habilidade de atleta, Katie

tentou equilibrar-se três vezes. Todas as vezes caiu e aflorou na água sob a zombaria do

Douglas. Na quarta tentativa, conseguiu ficar de pé e firmar-se. Daí a instantes, segurando

o esqui com uma só mão, acenava para a tripulação do barco.

Ela vai se dar mal, comentou Douglas, os olhos grudados na figura exageradamente

confiante de Katie, que saltou sobre as águas e desceu equilibrando-se sobre um só esqui,

conseguindo manter o equilíbrio.

- É totalmente maluca! Não acredito!

Cris teve de admirar a amiga. Era realmente ótima. Tudo que ela tentava nos

esportes, conseguia. Para Cris as coisas eram diferentes. Pior era saber que também teria

de experimentar o esqui aquático. Ninguém ali aceitaria a desculpa que pensava dar:

"Não estou com vontade."


Katie se exibiu por mais uns dez minutos, e afinal tentou uma manobra ousada

demais e caiu na água. Cris achou que sua vez chegara muito depressa. As primeiras

palavras de Katie, ao voltar para a lancha, foram:

- Então Cris, agora é você! A água está morna, Verdade.

- Eu vou com ela, ofereceu-se Ted. Na primeira vez, é mais fácil saber a melhor

posição, quando alguém está com a gente na água.

Cris sabia que não conseguiria evitar o inevitável. Ainda mais agora, que o Ted se

mostrava disposto a fazer de tudo para ajudá-la. Colocou o colete salva-vidas e, segurando

a mão do Ted, pulou na água, ao seu lado.

- Brrr! gritou ao chegar à tona. O que você queria dizer quando disse que a água está

morna, Katie? Está gelada!

- 'Tá não, retrucou Katie. Você se acostuma. Acredite, na hora em que a adrenalina

circular em suas veias, não vai sentir mais nada!

- Aqui está, disse Ted, segurando os dois esquis no lugar. Ponha o braço no meu

ombro e comece com o pé direito.

Cris sentia-se meio desajeitada, tentando equilibrar-se enquanto boiava e colocava

os esquis nos pés. Com paciência, Ted ajudou-a a calçar os esquis e "sentar" na água com

a corda entre eles.

- Mantenha os esquis apontados para cima, disse ele. Tente ficar meio sentada na

parte traseira deles. Quando a lancha começar a puxar, incline-se para trás. Segure firme e

fique com a ponta dos pés bem na direção do barco, e continue inclinada para trás.

Cris tremeu de frio e suspirou.

- É muita coisa para lembrar.

- Você consegue. Relaxe. É divertido.

- É mesmo?
Ted deu uma risada e começou a nadar de volta para a lancha. Cris esperou na água,

sentindo-se desconfortável com o colete até as orelhas e os tornozelos entortados

formando um ângulo esquisito sobre os esquis. Ted entrou na lancha e acenou para ela.

- Está pronta?

- Acho que sim.

- Quando estiver, grite "vá", disse Katie,

Cris não se sentia muito pronta. Mas queria esquiar. Adoraria saltar sobre as ondas

do jeito que a Katie tinha feito. Lembrando rapidamente de tudo que tinha de fazer, gritou:

- Vá, mas devagarinho!

O "devagarinho" se perdeu no barulho do motor, e no momento em que a corda

esticada deu o arranco, Cris soltou-se, Bob virou a lancha para trás e Ted jogou a corda

para ela.

- Lembre-se: você tem de segurar a corda, firmar bem a ponta dos pés na direção do

barco e se inclinar para trás.

- Está bem. Desta vez eu acerto, disse Cris, prendendo a corda entre os esquis.

Antes mesmo que tivesse tempo de arrepender-se, gritou:

- Vá em frente!

Segurou então a corda com toda a força e manteve os esquis apontados de maneira

correta. Sem perceber o que fazia, já estava firme sobre ambos os esquis, que deslizavam

sobre a água. Só havia um problema: ainda se mantinha na posição sentada, inclinada para

a frente, os braços estendidos e o traseiro apontado para trás.

- Fique de pé! ouvia os amigos gritarem do barco. Incline-se para trás!

A corda puxava forte demais. Cris não conseguia ficar totalmente de pé, e menos

ainda inclinar-se para trás. Continuou seu giro pela lagoa, de joelhos dobrados, braços
estendidos e cabeça para baixo, com a sensação de que estava voando com as pernas

enfiadas em blocos de cimento.

A certa altura, inesperadamente, perdeu o equilíbrio e caiu de cara no H2O inóspito.

Os esquis voaram longe. Soltou a corda e, numa tentativa de gritar, engoliu tanta água,

que daria para encher um aquário doméstico. Pior de tudo, metade da água entrara pelo

nariz. Tinha a impressão de que durante o episódio seus cílios tinham sido arrancados.

Bob era o único que não ria quando o barco se aproximou dela.

- Quer tentar outra vez? perguntou ele com calma, como se ela não tivesse acabado

de dar o maior vexame.

- Acho que não.

Cris tossia, e muita água saía de sua boca. Estava fazendo força para não chorar.

- Agarre a corda, disse Ted. Suba na escada, mas tenha cuidado para que a corda não

fique presa.

Foi difícil entrar no barco, de tanto que seus braços tremiam. Os tornozelos ainda

pareciam enterrados em cimento. Ted entrara na água e ajustava calmamente os esquis,

preparando-se para sua vez, como se nada de estranho tivesse acontecido com Cris. Katie

deu-lhe a mão e ajudou-a a subir a bordo. Ainda ria, seus olhos verdes de gata estavam

cheios de lágrimas causadas pelo riso.

- Sempre notei que você era sem jeito para esportes, Cris, mas essa aí foi a coisa

mais engraçada que já vi!

Teve vontade de mandar a Katie calar a boca, mas engoliu a raiva e pegou uma

toalha para cobrir o rosto. Não bastava ter passado por uma experiência humilhante com

pessoas conhecidas olhando para ela, tinha ainda de aturar a gozação da amiga.
Ted fez sinal para que dessem partida, e Bob ligou a lancha. Com a maior facilidade,

ele se pôs de pé logo na primeira tentativa e fez o seu passeio pela lagoa. Coisa de criança.

Qualquer pessoa era capaz disso. Qualquer um, exceto Cris.

Katie tinha razão. Cris era sem jeito para esportes. A única atividade ligada ao

esporte em que ela conseguiu sair-se bem foi no teste para líder de torcida. Tinha se

esforçado durante semanas para acertar os passos. Quem sabe conseguiria esquiar

também, se ela se esforçasse e insistisse um pouco mais.

Enrolada na toalha, resolveu que aprender ou não a esquiar não tinha lá muita

importância. O que importava era que se esforçasse ao máximo, reconhecendo que aquilo

era mais difícil para ela do que para seus amigos.

Cris observava o Ted deslizando atrás do barco com a maior tranquilidade. Será que

para ela tudo seria mais difícil do que para seus amigos? Será que ela sempre teria

coragem de tentar ao menos uma vez?

Um sorriso se formou em seus lábios ao imaginar como devia ter estado engraçada,

inclinada para a frente, a deslizar no lago como um candidato em um concurso de

contorcionismo. Lembrou-se de quando ela e Katie tinham tentado aprender a esquiar na

neve e ela perdera o controle, trombando com o instrutor de esqui. As duas amigas haviam

rido do incidente o dia todo. Era melhor ela se animar. Rir-se de si mesma. Aceitar o

conselho do tio e simplesmente aproveitar o momento presente.

Passaram o resto da manhã na lagoa e quando chegaram ao barco, no início da tarde,

estavam famintos. Marta deu uma bronca neles por terem demorado tanto sem avisá-la.

Ted deu-lhe um abraço de lado, e disse:

- Você devia saber que estávamos bem. Só precisaria se preocupar se não

voltássemos nunca.

Marta sorriu com o jeito simpático do jovem.


- Que conselho mais sem sentido, Ted. Da próxima vez, vocês têm que me dar uma

referência melhor de tempo para eu não me preocupar.

Ted pegou uma batatinha frita no saquinho que Katie lhe estendia e, mastigando-a de

forma exagerada, disse:

- Está certo, Marta. Só para deixá-la feliz vamos marcar a hora. Ou melhor, por que

você não vem também?

Marta pensou um pouco mais sobre o assunto, enquanto Ted chegava-se para perto

da mesa e começava a fazer um sanduíche com as coisas que Bob preparara. Então disse:

- É, acho que devo sair pelo menos uma vez neste fim de semana.

- Que tal depois do almoço? sugeriu Ted. Talvez.

- Desde que seja com você e a Cris. Então, com o olhar orgulhoso, acrescentou: o

meu novo casalzinho preferido.

Douglas, sentado à mesa, passando maionese no pão, de repente se pôs-se de pé,

afastou a cadeira com o calcanhar e desapareceu pela porta. Parecia que ninguém, a não

ser Cris, notara. O resto da turma estava ocupado, fazendo os sanduíches, mas Cris sentiu

o coração bater mais forte.

Sentia-se responsável pelas reações do Douglas. O rapaz sempre fora como uma

espécie de irmão mais velho para ela. Cris não suportava vê-lo agir assim, e sabia que, se

não conversasse com ele, passaria um final de semana muito chato.

Criando coragem, afastou-se do grupo e foi para a varanda, à procura do Douglas.


À Deriva
3

Cris deu a volta pelo convés e aproximou-se de Douglas, que estava sentado à

frente, sacudindo uma toalha de praia.

- Olá! Você está bem? indagou.

Douglas virou-se para ela, e retrucou:

- Claro. Por que não haveria de estar?

Ele parecia zangado.

- Tem certeza?

Douglas deu um largo sorriso, contraindo os lábios de um canto ao outro.

- Toda certeza do mundo. Saí para procurar uma toalha para não molhar o assento

com o calção encharcado.

- Ah! Boa idéia.

Cris não sabia mais o que dizer. Pensou no passeio à lagoa na véspera, nas

brincadeiras do Douglas, em seus abraços. Hoje ele não se aproximara dela mais que uns

três metros. Não era sua imaginação. Havia alguma coisa o perturbando.

- Douglas, não estou acreditando em você. Pode ser sincero comigo?

Suspirando, ele cruzou os braços no peito largo e encostou-se na amurada.

- Está certo. Quer sinceridade? Você e o Ted namorando me perturbam.

- Como assim?
- Sei lá. Não me entenda mal. Estou contente com vocês dois. Só não quero que as

coisas mudem entre nós.

- Nada vai mudar.

- Talvez sim, talvez não. Tenho amigos que de repente se tornam invisíveis quando

começam a namorar uma menina. E tenho dificuldade em manter a amizade com uma

garota quando ela começa a namorar alguém.

- Não vai ser assim conosco, prometeu Cris. Eu e o Ted continuaremos sendo

sempre seus amigos íntimos.

- Jura?

- Claro.

- Confesso que duvido, mas por hora aceito o que você disse. Não vamos mais falar

sobre isso. Vamos ver que rumo as coisas vão levar. Estou morrendo de fome! E você?

- Como poderia estar, depois de todas aquelas panquecas?

Douglas foi à frente e abriu a porta de correr, fazendo sinal para Cris entrar primeiro.

Depois do almoço, Katie queria esquiar, e Cris queria deitar-se na proa do barco e

tomar sol. Douglas disse que topava navegar mais um pouco, e o Ted não tinha nada

planejado. Parecia a oportunidade perfeita para deixar Douglas e Katie saírem de barco

sozinhos. Então Marta interferiu:

- Mas o Ted e a Cris ainda não me levaram para passear de lancha. Acho que devo ir

enquanto o tempo está bom. Dizendo isso, pegou um chapéu de palha, de abas

gigantescas, e acrescentou:

- Só quero dar uma volta rápida pela lagoa.

- Então vamos, disse Ted, todo atencioso. Está disposta, Cris?


- Claro, respondeu ela, dando uma olhadela para Katie, como se procurasse

incentivá-la a empenhar-se um pouco mais na tentativa de aproximar-se de Douglas. Vou

pegar meus óculos

Ted ajudou Marta a subir a bordo. No momento que seus pés tocaram o convés, uma

nuvem escondeu o sol. Mas com a mesma rapidez com que surgiu, desapareceu, expondo

as costas de Cris à luz da tarde assim que ela saltou para o convés.

- Vou levar o barco naquela direção, disse Bob ao Ted, apontando à direita. Achei

que seria bom encontrarmos um novo ancoradouro para esta noite. Será fácil você nos

encontrar quando voltar.

Ted fez que sim, e deu um "até mais". Ligou a lancha e a conduziu para o lado

aberto da lagoa.

- Vocês, senhorinhas, se importam de colocar os coletes salva-vidas? São as regras

de navegação, não sabem?

- Não vamos precisar, disse Marta. Só vamos dar uma voltinha, e não pretendo me

molhar.

Cris seguiu o exemplo de Ted e vestiu o colete, deixando-o desabotoado. Se não

tivesse outra serventia, pelo menos o colete neutralizaria um pouco a força do vento,

assim que deixassem o abrigo da enseada.

Durante os primeiros quinze minutos que se seguiram, Marta, segurando o chapéu,

ditava ao Ted o rumo a tomar. Ele seguiu suas ordens e entrou numa área que parecia um

longo braço da lagoa Shasta, estreito demais para deixar passar um barco um pouco maior.

Outra nuvem cobriu o sol, e Cris estremeceu. Devia ter colocado alguma coisa por

cima do maiô molhado e da camiseta.

Ted conduziu a lancha pelo canal cada vez mais estreito, mostrando algumas

cavernas escondidas do lado esquerdo.


- Vamos até lá, sugeriu Marta. Pode ser um bom lugar para o piquenique do almoço

de amanhã.

Ted ancorou a lancha na primeira enseada que encontraram. Saltou para fora e, com

água pela cintura, amarrou a lancha. Em seguida chamou Marta e Cris para que o

acompanhassem na exploração.

- Como é que vou chegar até a praia sem me molhar? perguntou Marta, vendo a

sobrinha entrar na água e caminhar até a margem.

- Tem de se molhar, disse Ted. Não é tão fundo assim. Desce pela escada de cordas

do outro lado.

Cris ficou a observar a indecisão da tia, que afinal resolveu fazer o sacrifício de

juntar-se aos dois na praia.

- Ai! gritou ela. Está gelada!

- Está tudo bem, disse Ted, caminhando na direção de Marta e oferecendo-lhe a mão

para conduzi-la até a praia.

Uma enorme nuvem cobriu de novo o sol. Tudo ao redor parecia estranhamente

silencioso e imóvel.

- Parece que estamos a centenas de quilômetros de resto do mundo, disse Cris,

olhando em volta.

A pequena praia só se estendia por mais uns dez a doze passos além do ponto em

que se achavam. Logo adiante dobrava-se numa curva e ia dar bruscamente ao pé de uma

encosta. No começo dela a vegetação era escassa; mais alguns passos, porém, e se viam os

troncos de árvores altas e finas, apontando para o céu como soldados fardados de verde e

enfileirados.

- Como é lindo! disse Cris.

- Um pouco frio. O que aconteceu com o nosso sol? perguntou Marta.


- Vamos examinar o terreno, sugeriu Ted.

- É perigoso demais, disse Marta. Devemos voltar para a lancha antes que a chuva

caia. Ouvi dizer que o tempo é muito imprevisível na lagoa - pode mudar de repente.

Vamos embora.

- Shh! cochichou Ted. Viu aquilo?

- Ele estava de costas para Marta, observando a floresta atrás

- Daquele lado - um cervo! Está vendo? Lá do lado esquerdo, atrás daquelas duas

árvores.

Cris olhou na mesma direção e, lentamente, se aproximou de Ted.

- Está olhando para nós. Não é uma gracinha? Pena que a gente não tem mais maçãs

para dar a ele.

- Do que vocês estão falando? Não estou vendo nada.

Marta foi até onde estavam Cris e Ted, mas seus movimentos bruscos assustaram o

animal, que voltou para as sombras.

Foi embora, disse Ted. Se voltarmos amanhã para um piquenique, vamos trazer

algumas maças.

- Ótimo! disse Marta, num tom irritado. Amanhã vocês podem trazer maçãs para ele.

Mas agora vamos voltar para a lancha.

Cris percebeu como era desconfortável para sua tia afastar-se do seu ambiente

doméstico e como isso a deixava irritada. Na sua casa, em Newport Beach, Marta nunca

se mostrava autoritária, nem irritada, como vinha parecendo. Cris sabia que a idéia de

alugar o barco fora sugestão do Bob, e não dela, mas ele a convencera, mostrando-lhe o

folheto que dizia ter o barco todos os confortos de uma casa moderna. Aparentemente,

vindo até a praia, Marta já experimentara o suficiente da vida ao ar livre. Agora já estava

com vontade de voltar ao "lar", e gozar de todo o seu conforto.


Os três entraram na lancha e Cris teve de concordar que estavam mesmo um pouco

isolados na caverna silenciosa - um isolamento quase de dar medo, pois o sol se escondera

atrás das nuvens. Ted esperou que Cris e Marta se sentassem e ligou o motor. Nada

aconteceu. Tentou de novo: apenas um barulho lento, rascante se fez ouvir. Ted apertou

uns dois botões e tentou de novo a chave de ignição. Nada.

- O que está acontecendo? O que há de errado com a lancha? perguntou Marta,

nervosa.

Ted bateu de leve um dedo sobre um dos marcadores ovais e respondeu com calma:

- Parece que estamos sem gasolina.

- Sem gasolina?! Mas você não trouxe um galão extra?

- Não.

- Como foi que você deixou isso acontecer? Depois de tanto esquiar hoje cedo, não

pensou em verificar o combustível?

- Não, não verifiquei.

- Estamos perdidos! gemeu Marta.

Cris sentia-se um pouco preocupada, mas nada comparável com o estado emocional

da tia. Na verdade, Marta teria um excelente papel no velho filme de televisão, "Ilha de

Gilligan.

- O que é que você vai fazer? perguntou Marta. Aqui nunca vão nos encontrar!

- Vou orar. Querem me acompanhar? disse Ted, com a maior singeleza.

- Eu vou, ofereceu-se Cris, levantando do seu lugar e pondo-se ao lado de Ted, no

convés. Os dois oraram com fervor simples e sincero, para que Deus enviasse socorro.

Minutos depois, Cris estreitava o colete salva-vidas para se proteger do frio. A

temperatura começou a cair e ela desejou que tivesse trazido pelo menos uma toalha de

praia para cobrir as pernas. Só Ted e Cris conversavam. Marta se cobrira com um colete
salva-vidas e ficou encolhida num canto do assento de vinil, com cara de sofredora e sem

dizer palavra - o que a sobrinha achou ótimo. Ouvir o que Marta estaria pensando naquele

momento não contribuiria para a solução do problema.

Passaram-se mais uns vinte ou trinta minutos. O sol continuava brincando de

esconder com as nuvens, e agora ninguém mais falava nada. Cris se lembrou do que Ted

lhe sussurrara no ouvido pela manhã - naufragar a sós com ela até que não seria nada mal.

Só não imaginou que tia Marta estaria entre os "náufragos”. Que ironia!

Então, como se Marta não conseguisse mais conter as lavas do seu vulcão, abriu a

boca e vomitou acusações por todos os lados. Cris nunca vira a tia tão zangada assim.

- Agora chega! Você tem de procurar ajuda, Ted. Não interessa como. Suba esse

morro e vá até o outro lado ou nade até a Parte principal da lagoa. Já, já, vai escurecer, e

eu me recuso a ficar aqui parada, esperando ser comida por animais selvagens!

Cris sabia que tinham pelo menos mais umas três horas de sol, e o único animal que

viram fora o tímido cervo. Ainda assim. Era melhor não desafiar os temores da tia. Será

que deveria sentar-se com o Ted ou continuar ao lado de Marta? Sabia bem o que preferia.

- Vamos esperar aqui, disse Ted com serenidade e firmeza, como se já tivesse

pensado em todas as opções possíveis.

Marta estava furiosa. Não havia muita gente com coragem para se opor às suas

sugestões, mesmo nas melhores circunstâncias.

- Suponho que você esteja esperando que Deus mande um anjo para nos salvar.

- Um anjo, um ser humano, qualquer um serve.

- Agora você foi longe demais com esse negócio de fé, Ted. Isso é ótimo quando é

para ter discussões teológicas com o Bob, mas quando a vida da gente está em jogo...

Ted estendeu a mão pedindo silêncio. Parecia atento a alguma coisa. Cris virou a

cabeça e escutou também.


- Eu ainda não terminei! Você vai me escutar, Ted Spencer, ainda que seja a última

coisa que você faça em vida, antes de morrermos nesta lancha estúpida.

Ted pôs-se de pé, sem desviar a atenção de Marta, passou por ela e se encaminhou

na direção da popa.

- Podia ter ao menos a delicadeza de olhar para mim enquanto eu estiver falando

com você? Não pode ficar achando que Deus vai fazer por você o que você mesmo devia

estar fazendo! Ele tem coisas demais para resolver, como a paz mundial, por exemplo, e

tenho certeza de que Deus não tem tempo de responder às orações tolas de...

Ted colocou dois dedos na boca e, virando-se para o lado aberto da enseada, soltou

um assobio tão estridente, que Cris tapou os ouvidos.

- É um Wave Rider, anunciou. Cris, me ajude a sinalizar para ele.

Cris cambaleou até a popa, tirou o colete e preparou-se para agitá-lo.

- Não se pode ter certeza de que estão vindo em nossa direção, murmurou Marta,

permanecendo sentada, mas virando-se para olhar.

Agora todos ouviam o rugido estridente do jet ski, que realmente vinha na direção

deles. Cris reforçava o assovio de Ted gritando na mesma direção. No momento que o

Wave Rider surgiu, ela abanou o colete e Ted agitou os braços, mas ele passou pela

caverna e desapareceu.

- Eu não lhe disse? alfinetou Marta. Por que você nunca me escuta?

- Acho que está voltando, disse Cris, esforçando-se para ouvir qualquer mudança no

som do motor do jet ski.

- Você está certa, disse Ted. Fique atenta. Se for preciso, acene outra vez.

Antes que terminasse de falar, o Wave Rider apareceu de novo, tomando de repente a

direção da entrada que dava para a caverna secreta. Era uma garota de longos cabelos

escuros, colete rosa-shocking e maiô florido. Ela desligou o motor do jet ski e flutuou até
o barco. Estava bem queimada de sol, a pele tinha um tom de canela, e um sorriso claro,

em formato de lua crescente.

- Precisam de ajuda?

- Estamos sem combustível, respondeu Ted. Você pode me dar uma carona até a

marina?

- Claro. Suba aqui!

- Não deixe sua tia sair daqui, não, disse Ted a Cris. Volto já.

- Eu escutei, viu? falou Marta. Claro que vou ficar aqui. Aonde você acha que eu

iria? Só não vá pensando que essa mocinha é a resposta de sua oração.

- Você orou pedindo socorro a Deus? perguntou a moça.

- Sim, disse Ted, entrando na água e nadando até o Wave Rider.

- Por acaso você é crente?

- Somos - eu e Cris.

- Que legal! disse a garota, toda empolgada. Meu nome é Natalie. Também sou

crente. E você não vai acreditar, mas vim até este lado da lagoa porque senti algo me

impulsionando a vir pra cá. Entende o que quero dizer?

- Ora, isso é ridículo! explodiu Marta, sentando-se de novo.

Cris sentiu vontade de rir-se da recusa de sua tia em acreditar que Deus atende nossa

oração, apesar de acabar de ver isso de maneira tão clara. Sabia que não era engraçado,

mas por que a tia não queria enxergar que Deus atendera ao pedido de socorro?

Ted se posicionou na garupa do Wave Rider e ele e Natalie zarparam, deixando Cris

sozinha com Marta. Ela ficou alguns minutos em silêncio, depois indagou:

- Por que é tão difícil pra você acreditar em Deus, tia Marta?

- Eu acredito em Deus.

- Estou falando de entregar sua vida a Jesus e convidá-lo para ser seu Salvador.
- Eu me recuso a entrar numa discussão religiosa com você, Cristina. Você é nova

demais para entender essas coisas.

Cris se calou. Só podia pensar: Ainda bem que Jesus não me considerou nova

demais quando lhe entreguei meu coração.

Ted e Natalie voltaram em menos de uma hora. Assim que puseram o combustível

no tanque, o motor pegou.

- Muito obrigado! gritou Ted acenando para Natalie, quando a viu partir.

Em seguida, lentamente, ele conduziu a lancha para fora da estreita baía e, uma vez

alcançada a amplidão da lagoa aberta, fez-se ao largo a todo vapor.

- Devagar! ralhou Marta. Está muito frio! Se for depressa demais, vai acabar não

encontrando o barco.

Ted desacelerou e disse a Cris:

- Ajude a procurar o barco. Ele deve estar em algum ponto deste lado da praia.

Com o vento gelado que soprava na lagoa, e o sol do fim tarde já se pondo, a

temperatura caía vertiginosamente. Era um sol bem diferente do que Cris e Ted tinham

saudado ao alvorecer. A imensa esfera alaranjada que se punha parecia cansada, ansiosa

para repousar, assim como Cris.

Após várias entradas e saídas em diversas baías ao longo da costa, encontraram

finalmente o barco. Katie estava pescando sentada na proa. Bob e Douglas, sentados no

convés traseiro jogavam xadrez.

- Finalmente chegaram! gritou a moça. Onde vocês estavam?

Cris notou outro barco ancorado ao lado do deles. Katie gritara tão alto, que o

pessoal do outro barco a qualquer momento poria a cara para fora, intrigado com o que

estava acontecendo. Ted encostou a lancha, mas antes que ele ou Cris pudessem dar

alguma explicação, Marta se pôs a falar:


- Foi absolutamente terrível! disse em tom lamentoso a Bob, que lhe oferecia a mão

para descer da lancha. Ficamos perdidos durante várias horas. Estou congelada até os

ossos.

- Acabou a gasolina, explicou Ted, sob olhares curiosos. Oramos, e Deus nos

mandou um anjo num Wave Rider.

- Então entrem logo e vão tomar um banho quente de chuveiro, sugeriu Bob. Está

tudo pronto, menos a carne. Mas como o braseiro já está no ponto, é só colocá-la na

churrasqueira. Chegaram na hora certa, pessoal.

Cris aceitou contente a sugestão do tio, e foi tomar banho. Estava surpresa por ver

como era amplo o chuveiro do barco. Havia bastante água quente, e até uma tomada para

ligar o secador. Demorou-se secando e penteando o cabelo. Melhor fazer tudo ali mesmo

no banheiro, do que sair com o cabelo molhado e dar outro banho na tia.

Na verdade, Cris não precisava se preocupar. Marta não saiu do quarto o resto da

noite. Bob, marido amoroso e sempre paciente, preparou um prato para ela e o levou ao

quarto.

Depois do banho, Cris sentiu-se refrescada e a ansiedade provocada pela aventura da

tarde diminuíra. Vestiu um jeans, uma malha cor de creme e um velho tênis branco. Seu

cabelo estava macio, nem um pouco frisado, como ficava em Escondido, depois que o

lavava com a água de lá. Sentia no rosto o ardume do sol e via como isso dava às suas

bochechas um colorido rosado, mais vivo, mais alegre.

Colocando um pouco de rímel e passando uma segunda camada de brilho nos lábios,

Cris olhou-se de novo no espelho. Sentia-se bonita, de forma natural e saudável. Será que

o Ted notaria?

Naquele momento, Katie bateu à porta, e chamou:

- Vem logo, Cris! A carne está quase pronta.


Cris abriu a porta, e puxou a amiga para dentro.

- E aí? Como foi hoje à tarde com o Douglas?

- O que você quer dizer com esse "como foi?" Como era pra ser?

- Pensei que vocês dois iam começar a... sabe... ficar mais juntos se ficassem a sós.

Cris, que idéia é essa de achar que o Douglas está interessado em mim? indagou ela

num tom ligeiramente triste.

- Acho que vocês dois seriam perfeitos um para o outro. Ele é muito legal. Se você

lhe desse mais atenção já ajudaria um pouco. Demonstre que você gosta dele.

- E quem lhe disse que eu gosto dele?

- Por que não? Ele é alto, bonito, atleta, um crente superespiritual, e muito alegre.

Tenho certeza de que ele gosta muito de você.

- Então seria o primeiro, disse Katie, pouco empolgada.

- E que primeiro, hein! exclamou Cris, procurando animá-la. Vamos lá, Katie! Você

tem de se livrar emocionalmente daquelas recordações negativas do Rick e do... Como se

chamava mesmo aquele missionário do Equador? Glen? Está na hora de partir pra outra!

- Provavelmente você tem razão!

Katie deu uma olhada no espelho e notou que seu nariz sardento estava queimado de

sol.

- Ah não! Vou descascar! falou.

Cris também se pôs diante do espelho. O contraste entre a duas era evidente. A pele

clara de Katie, seus olhos verdes e cabelo cor-de-cobre faziam com que ela parecesse

jovem demais, quase uma criança. O bronzeado de Cris dava destaque a seus olhos azul-

esverdeados, e o cabelo limpo parecia seda em comparação com o cabelo despenteado de

sua amiga.
- Como vou competir com você? perguntou Katie, mostrando a imagem no espelho e

olhando para Cris.

- Não estamos competindo, Katie. Não se trata de esporte. Além do mais, se fosse,

você ganharia de dez a zero. Estamos falando de rapazes, e eu estou com o Ted. Por que

não vê se descola o Douglas pra você?

Cris surpreendia-se a si mesma falando desse jeito. Nunca antes tentara empurrar

Katie na direção de qualquer rapaz. Sabia que seu interesse em ver os dois juntos, era não

se sentir tão sem jeito perto do Douglas.

- Senhoritas, disse Bob junto à porta fechada do banheiro, o jantar está pronto, e

temos visita. Aguardamos vocês duas.

- Já vamos, respondeu Cris. Como posso reanimá-la? disse, voltando-se para Katie.

Acreditaria se eu dissesse que seu jeito é o de uma pessoa maravilhosa, estimada por

todos, uma garota legal mesmo, e que só um idiota não veria isso?

- Acha mesmo?

- Acho sim. E acho também que o Douglas a veria com outros olhos, se você

demonstrasse por ele o mesmo interesse.

- Tem certeza?

Cris acenou que sim.

- Vamos lá! Vejamos o que acontece.

- Tudo bem!

Katie deu um "toque aqui" na mão de Cris e ajeitou o cabelo antes de abrir a porta.

- Lá vamos nós! exclamou.

Caminharam lado a lado pelo corredor até a cozinha. O que viram fez com que se

detivessem de repente, e ficassem de olhos arregalados, surpresas.


Tente, Tente Outra Vez
4

Ted se encontrava perto da mesa, junto a uma linda jovem. Ela parecia não ter mais

que quatorze anos, mas pelo corpo dava a impressão de ter vinte. O cabelo escuro estava

para trás, e ela usava um arco florido. Tinha um lindo sorriso em formato de lua crescente

revelando dentes perfeitos, contrastando com a pele morena cor de canela.

- Cris, disse Ted, adivinhe de quem é o barco ancorado ao lado do nosso?

- Natalie! exclamou Cris, forçando um sorriso amigável. Que surpresa agradável!

Katie cutucou a Cris como que perguntando: “E quem é essa Natalie?”

- Katie, essa é a Natalie. Foi ela que nos socorreu hoje à tarde.

Ted, que pusera o braço no ombro de Natalie, estava prestes a dizer algo quando

Douglas apareceu vindo da lateral, com uma travessa de bifes grelhados. Aparentemente

ele não tinha visto a Natalie chegar.

- Olá, disse com um sorriso maroto, olhando pra o Ted, como quem pede explicação.

- Esta aqui é a Natalie, nosso anjo de Wave Rider.

Natalie riu. Era uma risada infantil, pura. Certa vez Ted dissera que as pessoas puras,

inocentes, eram irresistíveis.

- Quer jantar conosco? convidou Douglas.


- Já jantei, obrigada. Quando descobri que o barco ao lado do nosso era o de vocês,

resolvi fazer uma visitinha.

- Que legal! disse Douglas. Depois do jantar, vamos fazer uma fogueira na praia.

Quer vir conosco?

- Claro. Obrigada por me convidar.

Então, foi como se alguém tivesse dito à Katie “Comece o jogo!” Ela entrou na

conversa. Obviamente seu objetivo era conquistar a atenção do Douglas.

- Essa carne parece que está uma delícia, Douglas. Você é o churrasqueiro de hoje?

Aposto que vocês estão com fome. Eu estou. Não acham que devemos sentar para o

jantar?

Bob, que observava tudo da pia da cozinha, onde despejava ervilhas numa tigela de

servir, entrou na da Katie.

- Boa idéia, vamos sentar.

- Então eu já vou indo, disse Natalie, baixinho. A gente se vê mais tarde, na praia.

- Não vá embora, disse Douglas, oferecendo-lhe um lugar no banco de vinil, ao seu

lado. Tem bastante espaço, Natalie. Sente-se perto de mim.

Katie aceitou o desafio e correu para a mesa, onde se sentou junto ao Douglas, do

outro lado.

- Está com tanta fome quanto eu? perguntou, puxando o braço do rapaz.

Cris puxou uma cadeira para junto da mesa e sentou-se. Não estava muito certa do

que sentia com relação ao que estava acontecendo. De certo modo, sentia-se contente por

ver Katie flertando um pouco com o Douglas. Talvez ela precisasse de um incentivo,

como a presença de Natalie ali. Mesmo assim, Natalie devia ser alguns anos mais nova do

que ela e Katie. Se tivesse quatorze anos, por exemplo, seria oito anos mais nova do que o

Douglas. Ele certamente sabia disso. Portanto não estava flertando com ela de verdade,
estava?

Durante o jantar, Natalie riu-se de todos os comentários de Douglas, e Katie também

contou algumas de suas já conhecidas piadinhas. Cris se perguntava se o Ted estaria

percebendo o que se passava.

Será que em alguma ocasião os rapazes percebem? pensou.

Após o jantar, ela ajudou Bob a lavar e enxugar a louça. Ted e Douglas, seguidos de

Katie e Natalie, foram acender a fogueira.

- Eu trouxe uns marshmallows, falou Bob, entregando um saquinho a Cris depois

que a louça fora lavada. Tem uns cabides de arame no armário do corredor. Pode pegá-los

e levar lá para eles? Podem precisar para fazer os espetos.

Cris foi procurar os cabides e olhou a praia. O fogo já estava alto. Na escuridão,

dava para ver a forma do Douglas com as duas garotas, uma de cada lado, nas posições

exatas que elas tinham ocupado à mesa do jantar.

Natalie parecia uma boa garota, e tinha sido muito bom conhecer outra crente e

saber que haviam sido socorridos por ela. Cris esperava que, sendo Natalie tão nova e

vulnerável, não interpretasse mal a atenção do Douglas. Mais que isso, esperava que Katie

não saísse ferida, principalmente depois que ela a incentivara tanto.

Será que o que fiz foi certo, empurrando a Katie em direção ao Douglas?

Carregando os marshmallows e cinco cabides de arame, Cris agarrou uma toalha de

praia e foi em direção à fogueira. Estendeu a toalha sobre umas pedras lisas do Ted, e

perguntou:

- Marshmallows – quem quer?

Douglas não escutou. Ele e Katie estavam no meio de uma queda-de-braço, só que

com os polegares.

- Eu aceito, disse Natalie, saído de seu lugar ao lado de Douglas e se aproximando


de Cris, sem tirar os olhos do Ted. Quase não acredito que vocês são crentes! É maravilha,

massa!

Ted, Cris e Natalie conversavam, assando os marshmallows ao fogo, enquanto

Douglas e Katie continuavam sua disputa. Quando, por fim, já pareciam satisfeitos,

aproximaram-se dos outros três e começaram nova disputa. Desta vez era para saber quem

conseguia fazer o marshmallow ficar mais torrado sem queimar.

Depois de comer três, Cris sentiu-se enfastiada de doce. Encostou então o espeto-

cabide numa pedra ao lado da fogueira. Quando ela o soltou, Ted estendeu a mão.

Ela pensou que ele fosse pegar o espeto, mas ele pegou foi na mão dela,

envolvendo-a com seus dedos grossos e quentes. Ela virou-se para ele e sorriu. Ele

retribuiu-lhe o sorriso. Estavam juntos, sentados sob um céu pontilhado de estrelas, de

mãos dadas. Cris sempre sonhara com isso. Namoro para ela era assim. Aproximou-se

mais um pouco do Ted para que pudessem apoiar melhor as mãos no chão.

Foi quando notou Natalie olhando para eles. Ela se deu conta, então, que a garota

devia estar meio sem graça, vendo que os dois rapazes se desmanchavam em atenção para

com ela e Katie, ficando a pobre Natalie sozinha.

Lembrou-se de que ela também, lá pelo quatorze anos, tinha suas crises. Procurou

então atrair a garota para a roda, ciente de que o fato de estarem, ela e o Ted, de mãos

dadas, não justificava a exclusão de Natalie.

Douglas e Katie continuaram disputando marshmallows até esvaziar-se o saco.

Enquanto o disputavam, Cris e Natalie conversavam sobre sua escola, sua família e a

igreja. Quando surgiu o assunto de jet ski, Douglas sentou-se ao lado de Natalie e lhe fez

uma série de perguntas.

Foi a vez de Katie sentir-se deixada de fora. Quanto mais Douglas e Natalie

conversavam, mais Katie parecia se retrair. Afinal Natalie perguntou ao Douglas se ele
queria experimentar seu Wave Rider na manhã seguinte. O rapaz, todo contente, abraçou a

menina.

Cris ficou imaginando como a Natalie interpretaria aquela repentina demonstração

de afeto. Parecia animada à luz da fogueira enquanto faziam os planos para o dia seguinte.

E não foi difícil adivinhar como Katie interpretou o gesto de Douglas para com Natalie.

Ela levantou, pediu licença ao grupo e voltou para o barco.

Cris teve ímpetos de correr para o lado da amiga e consolá-la. Mas não queria sair

de perto do Ted, nem perder o calor da mão que segurava a sua. Mesmo sabendo que

provavelmente não era a melhor decisão, deixou Katie ir embora sozinha.

- Será que ela está chateada? perguntou Ted.

- Acho que não. Foi um dia muito cansativo para todos nós.

Afinal de contas, pensou Cris, a Katie tem idade para enfrentar essas decepções

sozinha, sem que eu precise reanimá-la toda vez. Um dia ela vai encontrar um cara legal

que vai dar valor a ela.

Cris tentou se convencer de que não tinha culpa de o Douglas não estar tão

interessado na Katie como ela desejava. Douglas e Katie já se conheciam havia muito

tempo, e se viam sempre em reuniões. Mas Cris imaginara que nesse passeio os dois se

“acertariam” do mesmo jeito que ela e Ted, finalmente, haviam se acertado.

Ah, deixa pra lá, pensou Cris, com um suspiro. Parece que não era pra acontecer

isso. Certamente dá pra Katie entender. Até amanhã cedo, ela se recupera.

A previsão de Cris estava errada. Katie não estava se recuperando. Assim que

acordou, ela permaneceu algum tempo na cama, esperando poder falar com a amiga

quando esta acordasse, mas Katie fingia dormir.

- Não sei o que fazer, confidenciou ao tio Bob à mesa do café, onde só estavam os

dois. Acho que a Katie não está sentia só porque o Douglas não lhe deu atenção ontem à
noite. Acho também que está com raiva de mim por eu ter sugerido que ela tentasse ficar

com ele.

Era fácil para Cris abrir o coração ao tio. Dessa vez ela o fazia na esperança de que a

confissão lhe tirasse da consciência o peso que sentia por haver insistido com Katie em

algo que a outra não sabia se queria ou não.

- Você não pode fazer mais nada, falou Bob. Tentou fazer uma coisa ontem, dando

um empurrãozinho nela na direção do Douglas, e não deu certo. Nessa altura dos

acontecimentos, não há nada que possa fazer ou dizer. Só esperar que ela se refaça da

decepção. No fim, vai dar tudo certo. Só que leva tempo. Enquanto isso, não faça mais

nada.

Entre um sorriso e um gole de café, Bob acrescentou:

- Confie em mim. Quando o assunto é o que fazer para que uma mulher zangada

fique bem com a gente de novo, falo com conhecimento de causa.

Ele indicou a porta do quarto, de onde chegava a voz de Marta, cantarolando,

enquanto se aprontava para enfrentar o dia. Bob aparentemente seguira o próprio

conselho, dando tempo à mulher para que, a sós, se recuperasse do trauma da véspera.

Marta surgiu animada e sorridente, pronta para um novo dia.

- Bom dia para vocês dois. Bela manhã, não é mesmo? Acho que hoje a gente podia

relaxar um pouco. Espairecer, tomar sol. O que acham? Todo mundo disposto a se

divertir?

Cris achou a tia animada demais, mas preferia vê-la animada a vê-la emburrada.

Além do mais, concordava com Marta que era preciso descansar, relaxar. Talvez fosse

essa a melhor coisa para a Katie e o Douglas também.

Durante duas horas, Cris ficou sentada ao sol, ao lado do Ted na proa do barco,

lendo enquanto ele pescava. Era maravilhoso estarem juntos sem prensar que tinham de
fazer ou dizer alguma coisa só para encher o tempo. Ted pegou duas trutas de bom

tamanho, que ele mesmo limpou enquanto Cris o observava.

Enquanto isso, Katie nadava sozinha; depois, deitou-se no convés. Bob e Douglas

mexiam com o leme. Bob achou que precisava dispensar alguma atenção ao barco.

Douglas desceu e enfiou-se na água, enquanto Bob lhe passava instruções de cima.

- Que tal fritar os peixes para o almoço? Sugeriu Marta, assim que Ted acabou de

limpá-los.

- Só dá um pedacinho para cada um.

- Não tem importância. Tudo faz parte da nossa experiência neste rio, não acham?

Na verdade, estavam numa grande lagoa, não num rio, mas ninguém corrigiu Marta.

Era agradável vê-la de bom humor.

Você consegue ser um doce quando quer, não é mesmo, tia Marta? Agora, se a

Katie se animasse um pouco, o Douglas veria como ela também é maravilhosa.

- Quem topa esquiar? Perguntou Bob, depois do almoço. O leme está como novo.

Katie, quer ir comigo?

Katie deu um grande sorriso, e disse:

- É melhor aceitar seu convite. Talvez você seja o único que me convide pra sair...

Bob deu-lhe um abraço rápido e amigável, e completou:

- Quero ver você andar num esqui só de novo. Você é excelente, sabe?

A garota deu de ombros. Cris interpretou o gesto como se a amiga estivesse

querendo dizer que abriria mão de sua perícia esportiva num segundo, se um rapaz se

interessasse por ela.

- Quer ir também, Cris? E vocês, rapazes? Ted, desta vez terei de encher o tanque.

- Boa medida. Claro, eu vou, disse Ted.

- E você, Douglas?
Bob parecia um treinador tentando fazer com que os bons jogadores optassem por

seu time.

- Na verdade, falei com Natalie que eu iria andar de Wave Rider com ela às duas

horas, replicou ele, parecendo um pouco sem graça. Vou ficar por aqui. Vão vocês e se

divirtam. Talvez eu os encontre por lá.

Quando Cris, Bob, Ted e Katie saíram à procura de um bom lugar para esquiar, Cris

voltou a experimentar o mal-estar que sentira com Douglas na véspera. Só que dessa vez

era com a Katie. A frieza de sua melhor amiga era como um vento gelado, soprando em

seu rosto.

Por que será que tudo começou a andar pra trás com meus amigos no momento em

que eu e o Ted começamos a namorar? Será que existe uma regra não escrita

determinando que, todos os outros têm de ficar contra a gente, quando namoramos

firme?

O que deixava Cris mais chateada era saber que tinha ficado tão ansiosa para falar

com Katie sobre o Ted, sobretudo depois que firmara o compromisso de levar o namoro a

sério, e agora, no entanto, Katie nem queria tocar no assunto.

- Vá! gritou Katie já dentro d’água, instantes depois.

Era a última corrida do dia, e Cris havia passado a tarde toda pensando, enquanto

segurava a bandeira de esqui sempre que Ted, Bob ou Katie iam para a água.

- Quer vir depois da Katie? perguntou-lhe Bob. Parece que vamos embora amanhã

cedinho. Então essa pode ser sua última chance.

Cris pensou na conversa que tivera consigo mesma depois da última tentativa de

esquiar, sobre não se deixar abater pelo desânimo, e resolveu que deveria tentar mais uma

vez.

Depois de um giro perfeito no esqui, Katie soltou a corda e deixou-a cair. Parecia
surpresa de ver Cris entrando na água.

- Você não vai tentar de novo, vai?

- Acho que devo tentar mais uma vez antes de desistir totalmente.

Sua intenção era ter um tom confiante. Katie deu de ombros, voltou à lancha e jogou

a corda para Cris.

- Não que esses esquis? perguntou, erguendo o par enquanto Cris lutava para colocar

os pés num único esqui.

- Não. Acho que vou experimentar este aqui.

- A maioria das pessoas aprende a esquiar em dois antes de tentar um só, argumentou

Katie.

- Bem, acho que não sou como a maioria das pessoas, respondeu Cris, sentindo-se

estúpida e corajosa ao mesmo tempo.

Posicionou o esqui na direção da lancha, segurou bem firme a corda e procurou

lembrar-se de tudo que Ted lhe havia dito. Afinal, gritou:

- Vá!

A corda roçou a crista da água e depois distendeu-se. No momento em que se sentia

puxada, Cris inclinou-se para trás, deixando a lancha levá-la. O esqui parecia saltitar e

virar-se para um lado e outro, tornando difícil o equilíbrio. Mas aí, aconteceu! Milagre dos

milagres, ela conseguiu ficar de pé! Estava esquiando. E num esqui só!

- Legal, Cris! elogiou Ted.

A lancha virou devagar à direita. Foi o suficiente para ela perder o equilíbrio. Cris

vacilou e caiu na água.

Sabia que ficara em pé no esqui apenas uns quarenta segundos, mas ao ouvir o Ted

contar o fato para o Douglas, de volta ao barco, foi como se Cris tivesse marcado um

recorde mundial. E talvez, para ela, o fosse. Talvez, como dizia a Katie, ela fosse “sem
jeito para esporte”, mas pelo menos tentara. E nessa tentativa, tinha experimentado

sucesso suficiente para se sentir como se houvesse ganhado uma medalha olímpica.

Cris foi a primeira a entrar no banho enquanto os rapazes amarravam a lancha. Bob

decidiu que eles deveriam ficar mais próximos da marina, para que pudessem iniciar bem

cedo, no dia seguinte, a longa viagem de volta.

- Ouvi dizer que hoje à tarde você se saiu muito bem, disse Marta a Cris, quando a

viu saindo do banheiro.

- Para mim foi superlegal, mas você precisava ver a Katie. Ela é incrível no esqui!

Cris sorriu para a amiga, que ajudava Marta a preparar o jantar. Esperava que isso

ajudasse a preencher algumas lacunas na linha de comunicação.

Katie aceitou o elogio e, olhando por cima do ombro, fitou a amiga. Era a primeira

vez que seus olhares se encontravam naquele dia.

- É. E você, Cris, me inspirou a continuar tentando as coisas que não são fáceis para

mim.

- Não consigo imaginar muita coisa que você não faça com facilidade, querida, disse

Marta.

- Para mim não é fácil relacionar com rapazes, explicou Katie. Principalmente, com

um rapaz como o Douglas.

- Ah, por que você não falou antes? Que tolice a minha, não ter notado! Bem, se

você está falando sério que quer seguir o exemplo da Cris e continuar tentando, então eu

tenho um plano.

Marta fez sinal para as duas se aproximarem mais e expôs sua déia. Cochichou,

apontou para fora, olhou o relógio e aconselhou Katie a tomar banho e não aparecer,

enquanto não estivesse se sentindo linda como uma foto de modelo profissional.

A analogia pareceu a Katie um tanto irônica. Ela trabalhava para um fotografo e


muitas vezes contava a Cris sobre os retoques secretos a que eram submetidas no estúdio

as melhores fotografias. Cris achou que talvez Marta fosse essa artista ideal dos retoques,

capaz de fazer com que alguma coisa acontecesse entre Katie e Douglas.

O melhor de tudo, talvez, fosse o fato de que Katie se mostrou disposta a

experimentar. Cris sentiu que a amizade estava voltando a ser o que era antes, enquanto

trabalhavam no projeto de Marta.

Cris notou que a água que Katie colocara no fogo estava fervendo, e então colocou o

arroz na panela, tampou e abaixou o fogo.

- O frango já está no forno. Parece que está na hora de prepararmos a salada. Vou

pedir ao Bob que monte a mesa de armar na varanda dos fundos.

Marta continuou preparando o jantar enquanto Cris fazia a salada, de olho em

Douglas e Ted, que ela avistava da janela. Os dois estavam bem bronzeados, apos um

verão inteiro surfando sem parar, e pareciam dois marinheiros de camiseta e calção,

ajudando o Bob a amarrar o barco. Marta foi até lá e disse-lhes a que hora seria servido o

jantar, e os instruiu sobre como deveriam se apresentar à mesa, citando inclusive que

usassem perfume.

Cris despejou na salada um pacote de pedacinhos de pão torrado e temperado e

sorriu a perceber a determinação da tia. Com a Marta voltando ao estilo “diretora de

cruzeiro”, não se podia saber como seria o jantar.


A Lua e o Nariz
5

Precisamos de mais uma cadeira, ordenou Marta.

Cris tirou de armário a última cadeira de dobrar e levou-a junto à mesa. Não era uma

mesa de armar qualquer: Marta a transformara num elegante ponto de encontro, onde Ted,

Cris, Douglas e Katie jantariam juntos com toalha posta, à luz de velas e o nome de cada

um no lugar designado, escrito em cartões confeccionados por Marta. Esse jantar

romântico e flutuante, ao pôr-do-sol, era parte do plano de Marta (que ela supunha
infalível) de unir Douglas e Katie.

- Pronto, disse ao colocar a última cadeira no lugar. Já, já, os rapazes estarão de

banho tomado. Onde está a Katie? Ó minhas lindas jovens, vocês devem ficar aqui perto

da varanda, aguardando tranqüilamente que eles cheguem. E lembrem-se disso: só sentem

quando puxarem a cadeira para vocês.

Cris fez que “sim” às instruções tipo “escola de elegância” da tia. Tinha de admitir

que estava se divertindo.

- Como estou? perguntou Katie, surgindo som uma camiseta branca, enorme, e short

jeans.

- Céus! exclamou Marta com expressão preocupada. É o melhor que você pode

fazer?

- Bem, o convite que recebi foi para acampar, e não para o baile de formatura, disse

e Katie com sarcasmo. Se tivessem me avisado eu teria trazido meu vestido preto de strass

com luvas combinando e estola de visom.

Cris reparou em seu próprio short jeans e a camiseta de brim de manga arregaçada e

bolso rasgado. Por que será que tia Marta não criticou minha roupa? Será que ela acha

que uma pessoa só tem que estar elegante quando quer “fisgar” um namorado?

- Vamos fazer o seguinte, disse Marta, ajeitando os cantos da camiseta e dando um

nó na barra, do lado direito. Muito mais bonito. Destaca sua barriga magra.

Katie deu risada, assustando Marta.

- Obrigada pela dica, mas não sou muito do tipo que dá nó na barra da camiseta.

Desfez o nó e deixou a camiseta, agora amarrotada, do jeito mais natural.

- Eu me maquiei. Alguém notou?

À luz tênue do entardecer, Cris não tinha percebido. Ela e Marta se aproximaram

para examinar a pintura. Era difícil notar, mas os olhos verdes de Katie pareciam
discretamente maiores e mais brilhantes.

- Ainda resta a sua personalidade, disse Marta, afastando-se e novamente dando uma

olhada em Katie dos pés à cabeça. Você tem uma personalidade maravilhosa. Tire proveito

disso, querida.

Então, pedindo licença, foi à procura dos rapazes, passando por Cris e Katie, rumo à

claridade intensa da cozinha.

- “Tire proveito de sua personalidade, querida”, disse Katie, imitando-lhe o jeito de

falar. Acho que acabei de ser diminuída à beça. Que é que você acha, Cris?

- Acho que eu e você precisamos relaxar e nos divertir, entrando no jogo da “noite

encantada” da titia. O que acha?

- Eu acho... principiou Katie e fez uma pausa. Não importa o que eu acho. Você tem

razão. Podemos nos divertir bastante com isso. Só os quatro. Nenhum “anjo” inesperado

aparecendo de repente, espero.

- Acho que não. O barco da Natalie partiu quando você estava no banho.

- Então, é só ficar aqui, descontraidamente, e esperar os rapazes aparecerem?

concluiu Katie.

Naquele instante o motor da sua própria embarcação roncou e Bob se pôs a

manobrá-la para fora da entrada, em direção à parte principal da lagoa.

- O que é que está acontecendo? perguntou Katie.

- Meu tio quer ficar mais perto da marina pra gente sair bem cedo. Tia Marta vai

servir o jantar e, enquanto isso, o Bob conduz nosso restaurante sob as estrelas. Divertido,

não acha?

Agora Katie parecia mais animada.

- É, vai ser divertido. Seria ainda mais divertido se eu não me sentisse tão

desarrumada, tão mal vestida...


- Você está ótima. Olhe só para mim: ganho o premio de relaxamento do ano!

brincou Cris.

- Nada disso. Você sempre está bonita. Até numa roupa velha e horrorosa você é

uma graça! Como consegue?

- Consegue o quê? Eu não faço nada.

- É o que eu estou dizendo. Você é uma dessas pessoas que fica linda de qualquer

jeito.

Antes que Cris pudesse retribuir o elogio de sua amiga insegura, os rapazes

entraram, enchendo a pequena cozinha com sua presença. Imediatamente, fizeram Marta

rir.

- O que há de tão engraçado aí? perguntou Katie, tentando olhar pela tela da porta.

Os rapazes viraram-se em sua direção e foram para o convés da popa.

Aparentemente, haviam repartido o cabelo no meio, deixando-o bem molhado e

emplastado. Estavam de camiseta e short, mas fizeram gravatas-borboleta de toalha de

papel e as prenderam à camiseta, na altura do pescoço.

- Venham conhecer as garotas com quem farão par, disse Marta ainda rindo. Por

aqui!

Marta os conduziu até onde Katie e Cris estavam. Os rapazes sorriram e Cris notou

algo escuro acima do lábio de Douglas.

Boa noite, gentis senhoritas. Quero agradecer a quem deixou o rímel na pia do

banheiro, disse Douglas, retorcendo um pouco a boca onde havia um bigode pintado. Foi

muito útil.

Todos riram. Ted puxou a cadeira e sentou-se. Douglas fez o mesmo. Sob o olhar

firme de Marta, Katie e Cris permaneceram de pé, esperando que eles puxassem a cadeira

para elas.
- Ah senhoritas, mil perdões! exclamou Douglas ao perceber a gafe, antes do Ted, e

puxando uma cadeira para Katie:

- Permita-me?

Katie sentou-se com elegância na cadeira de dobrar, continuando a brincadeira.

- Ah! Sou-lhe muito agradecida, bondoso cavalheiro. Nada como um homem de

bigode para dar um toque festivo a qualquer ocasião.

- Sou eu, disse Douglas, fazendo de conta que alisava as pontas do bigode. O

homem de toque festivo.

Ted puxou uma cadeira para Cris também, e Marta disse:

- Por favor, sintam-se à vontade. Eis aí a salada que preparamos para vocês. Dentro

de alguns momentos voltarei com um cesto de pão.

O barco deslizava devagar sobre a lagoa enquanto o sol se punha nas montanhas.

Uma brisa amena subia da água.

- Olhem para aquele lado! falou Ted apontando para as montanhas à esquerda.

Naquele instante, a lua cheia surgiu no horizonte, com sua imensa face, iluminando

a mesa como lanternas japonesas numa festa no jardim.

- Maravilha! disse Douglas.

- Não é linda? Que noite perfeita! Uma bella nocha, como dizem, comentou Katie.

Só falta uma macarronada à bolonhesa e uns dois garçons italianos cantando para nós.

- Por quê? perguntou Douglas.

- Porque parece a noite daquele filme em que o casal de cachorrinhos está comendo

uma macarronada e o macho empurra com o focinho a última almôndega para a

cachorrinha.

- Por que você não falou isso antes? disse Douglas.

Em seguida, com o nariz, empurrou um tomate-cereja do seu prato em direção a


Katie. O tomate chegou na metade do caminho, rolou pela mesa e espatifou-se no chão.

- Agora sabemos por que no filme era almôndega, concluiu ele.

Todos riram. Cris sentia-se feliz. Muito feliz. Será que Ted estava gostando tanto

desse jantar quanto ela? Ele estava engraçadíssimo com o cabelo repartido ao meio e

grudado na cabeça, de gravata-borboleta de papel. Esperaria esse tipo de brincadeira do

Douglas, mas não dele. Era uma agradável surpresa ver o Ted agindo assim, meio

bagunceiro.

Mais uma razão para eu gostar tanto dele, pensou Cris. Será que o Ted gosta tanto

da minha companhia quanto eu gosto da dele? Do jeito como o Douglas está mexendo

com a Katie, será que ele vai se interessar mais por ela?

Ted orou agradecendo a refeição, e começaram a comer e conversar sob o luar.

Marta apareceu na hora certa com pratos fumegantes de arroz, brócolis e frango assado

num molho de limão e manteiga, salpicado de amêndoas. Serviu primeiro às duas garotas,

voltando depois com os pratos dos rapazes.

- Está tudo a contento? perguntou Marta.

- Excelente, disse Ted.

Cris achou tudo ótimo, exceto as amêndoas. Não gostava de nenhum tipo de

castanha. Talvez ninguém notasse, se ela as raspasse discretamente, deixando-as no canto

do prato.

- Por acaso a senhora tem almôndegas? perguntou Douglas.

Cris notou que Marta estava um pouco irritada, por brincarem tanto e não agirem

com maturidade e romantismo, como ela havia planejado.

- Vou colocar música no alto-falante de fora, anunciou Marta. Música suave de

jantar para ajudar vocês a entrarem no espírito da coisa.

Instantes depois eram embalados pelas notas de um violino.


Katie caiu na risada.

- É a música italiana que encomendamos!

- Pois eu gosto, defendeu Cris.

- Está falando sério? Adoro música clássica. Você não gosta?

- Claro, num elevador ou consultório de dentista!

- Pois eu gosto, disse Ted, estendendo a mão para dar um aperto carinhoso no braço

de Cris. É uma música que toca o coração, concluiu e sorriu para Cris que lhe retribuiu o

sorriso.

- Já lhe ocorreu que esses dois talvez queiram ficar a sós? perguntou Katie ao

Douglas. Podíamos levar nosso prato lá pra cima. O que acha?

Parecia que agora, depois de haverem rido tanto, o Douglas queria ficar sério. Em

vez de responder a Katie, levou mais um pedaço de frango à boca, e disse:

- Excelente jantar.

- Eu fiz o arroz, disse Katie. Bem, na verdade, eu só pus a água pra ferver.

Ninguém parecia achar engraçado. Comeram em silencio, cônscios do constante

olhar vigilante de Marta, que parecia contente por ver que a musica os acalmara. Veio pé

ante pé servir a sobremesa.

Aquela serenidade certamente estava sendo demais para Katie, porque, quando foi

servido o brownie, com uma generosa camada de creme chantilly para o Douglas, Cris

notou um olhar de malandragem na amiga.

- Opa! exclamou Katie, olhando a sobremesa do Douglas e depois a dela. Você está

sentindo o cheiro?

- De quê? perguntou Douglas.

Katie deu uma cheirada de leve no chantilly do seu bolo.

- Acho que não devemos comer isso. Não está sentindo o cheiro?
- Cheiro de quê? perguntou Douglas, cheirando sua sobremesa. Não sinto cheiro de

nada.

- Então cheire o meu, disse Katie.

Ela ergueu o prato de sobremesa com uma das mãos por baixo e o colocou perto de

Douglas para que ele o cheirasse. Ele chegou mais perto. Então Katie vingou-se

“docemente”, empurrando a sobremesa na cara do rapaz, que de nada suspeitara.

- Te peguei! gritava Katie, satisfeita, enquanto Douglas limpava o rosto. Isso é por

você ter derrubado a mim e a Cris do bote no primeiro dia. Agora estamos quites!

Douglas lambeu o chantilly e tateou a mesa à procura de um guardanapo.

- Aqui, disse Ted, removendo sua gravata-borboleta e oferecendo-a ao Douglas.

Sabia que essas coisas ainda iam ter alguma utilidade.

Katie continuava rindo. Marta correu para ver o que acontecera.

- O que aconteceu? Como foi que isso aconteceu?

- Um pequeno acidente, disse Douglas, bem-humorado.

Metade do seu bigode pintado saiu quando o limpou com a “gravata” do Ted. Num

lado do rosto ainda se viam pedaços de chocolate e chantilly.

- Podíamos encomendar mais uma sobremesa e talvez algumas toalhas de papel?

indagou ele.

Durante o ataque a Douglas, Katie deixara cair o garfo. Quando se inclinou para

pegá-lo no chão, Douglas entregou seu prato vazio a Marta. Assim que Katie levantou de

novo a cabeça, o comprido braço de Douglas acertou-lhe o roto. A mão e o prato bateram

em cheio no nariz dela, caindo depois no chão. Katie deu um grito e levou a mão ao nariz.

Cris saltou do seu lugar.

Douglas, ainda sujo de sobremesa, levantou-se de um salto, desesperado:

- Foi sem querer, Katie. Eu não queria fazer isso, foi um acidente. Verdade. Você se
machucou? Gente, digam a ela que foi sem querer.

Katie parecia esforçar-se para não chorar, mas as lágrimas rolaram e seu nariz

começou a sangrar.

- Não ponha a cabeça para trás, disse Ted, saltando e pegando um canto da toalha de

mesa para colocar sobre o nariz de Katie. Aqui, pegue isso e pressione bem. Assim.

Cris afastou-se, deixando que Ted orientasse as providências. A vista de sangue na

camiseta branca de Katie fez com que Cris sentisse tonteira. Tudo acontecera tão

depressa! A musica clássica de fundo ainda tocava, num cruel contraste com a atividade

frenética em volta da mesa.

- Não prenda a respiração, disse Ted com voz calma e firme. Tente respirar

normalmente pela boca. Cris, quer pegar gelo e pôr num saquinho plástico?

- Claro.

Cris entrou em ação, passando pela tia, que estava parada no lugar ao lado da porta

de tela. Pegou um saco plástico e encheu de cubos de gelo. Ainda bm que Ted sabia o que

fazer. Provavelmente vira muito nariz sangrando na pratica do surfe.

- Todo mundo bem aí atrás? perguntou Bob, do seu posto de capitão à frente do

barco.

- Nada sério, gritou Cris do corredor. Katie está com o nariz sangrando, mas acho

que a situação está sob controle.

Foi ao convés entregar o gelo ao Ted.

- Mais alguma coisa que eu possa fazer? indagou.

- Não, obrigado. Isso deve resolver. Segure o gelo bem aqui, Katie. Muito bem.

Agora, me dê a outra mão.

Ted dirigiu o dedo de Katie até um ponto da gengiva abaixo do lábio superior.

Aperte aqui. Isso. Deve parar de sangrar logo, logo.


Ele acertou. Dentro de poucos minutos a crise passara. Douglas limpou a cara,

removendo o resto do brownie, e disse:

- Olha, foi tudo um acidente. Sem querer, juro. Não vi que você estava ali.

Com a voz abafada, Katie replicou:

- Provavelmente, foi porque você estava cheio de brownies nos olhos.

Todos riram, exceto Marta. Ela parecia totalmente descontrolada. Haviam estragado

seus planos de realizar uma noite perfeita.

- Quer um pouco da minha sobremesa? perguntou Cris, sem saber bem o que dizer.

- Não estou mais com fome, disse Katie, limpando a bochecha. Acho que vou me

trocar.

Embora ninguém lhes tivesse pedido que retirassem a mesa, os três começaram a

juntar a louça e a desfazer o jantar romântico para quatro. À luz do luar que se derramava

sobre eles, Cris apagou as velas e enrolou a toalha de mesa, suja.

A bella nocha não tinha sido exatamente como havia esperado.

Michael e Fred
6

- Não. O problema está em mim, sussurrou Katie para Cris no escuro. Sei que sou eu

o problema.

- Não é não, respondeu Cris imediatamente. São as circunstâncias, ou os rapazes,

mas na verdade, Katie, o problema não é você.

As duas trocaram de acomodações com os rapazes, e estavam passando a última

noite no barco nos sacos de dormir, em cima do teto. Nada havia acima delas, a não ser o

céu escuro, borrifado de milhares de diamantes. A lua sumira de vista, escondida atrás do

monte Shasta.

- Sei que você diz isso para ser boazinha comigo, Cris, mas não quero que em nossa

amizade mintamos uma para a outra, por tolerância ou cortesia.

- Não estou mentindo. Você não tem namorado, mas não é por algum defeito seu,

algo que você esteja fazendo ou deixando de fazer. Simplesmente o cara certo ainda não

apareceu.

- Tenho quase dezoito anos e nem um “cara certo” sequer apareceu, e você diz que

não é defeito meu? Pense bem.

O silêncio reinou alguns minutos, exceto pelo ruído da água batendo nas laterais do

barco e alguns grilos e sapos dizendo “boa noite” uns aos outros.

- Talvez devêssemos orar a respeito, sugeriu Cris, timidamente.

- Quer dizer, como você ora pelo seu futuro marido e tem uma caixa de sapato

debaixo da sua cama, cheia de cartas para ele? Acho que não, Cris. O que eu deveria
pedir? “Deus, dá-me um namorado – agora!”? Sempre pensei que os crentes de verdade

orassem pedindo paciência e coisas desse gênero, não namorados.

- Mas Katie, se Deus sabe tudo sobre a gente e se interessa por tudo que nos

acontece, é claro que não é errado pedir um namorado. Ela já sabe o que você quer antes

mesmo de pedir. Ele também sabe quem é melhor para você.

- É fácil pra você dizer isso, replicou Katie depressa. Tem um namorado

maravilhoso, o melhor do universo. É claro que acredita que Deus está lhe dando o

melhor. Mas, quando se é como eu, e não tem nenhuma resposta de oração sentada do

lado, segurando-lhe a mão, é mais difícil acreditar nessas coisas.

- De qualquer jeito, Deus se interessa, Katie.

- Como você sabe? Quero dizer, você nunca ficou se perguntando quanto daquilo

que cremos acerca de Deus é verdade, e quanto dessas coisas a gente diz que crê só

porque quer acreditar nelas?

Cris se apoiou nos cotovelos, e fitou a amiga.

- O que você está querendo dizer? Está parecendo que não confia em Deus.

- Claro que confio em Deus! Mas tenho a impressão de que quando o assunto é

namorado, ele se esquece de mim. Só isso. Não estou com raiva dele por isso, nem nada.

Afinal de contas, Deus deve estar bastante ocupado hoje em dia, com terremotos, pestes,

fome, guerras. Que importância tem eu pedir um namorado, quando ele tem tantas coisas

mais importantes pra fazer?

- Deus é suficientemente poderoso para resolver as grandes questões e também todos

os seus sentimentos. Por favor, não pense que ele se esqueceu de você.

- Se é o que você diz, disse Katie, com um suspiro.

Permaneceram em silêncio por alguns instantes; depois, Katie perguntou:

- E então, a que horas vamos embora amanhã de manhã?


- Não sei. Acho que bem cedo. Tenho certeza de que os outros nos acordarão quando

se levantarem.

- Então é melhor a gente dormir. Boa noite.

Katie rolou para o lado, dando as costas para Cris. Logo depois, o único som que se

ouvia era o da respiração profunda, rítmica, de uma jovem imersa no mundo dos sonhos.

Mas Cris não conseguia entrar no mundo dos sonhos. Ficou deitada, em silêncio,

procurando estrelas cadentes e pensando em Katie. Era inquietante o fato de que a amiga

tinha dúvidas quanto à fé em Deus. O que mais perturbava Cris era saber que não

dispunha de uma resposta adequada para dar a ela.

Não é que eu precise defendê-lo, Senhor. O Senhor é Deus e pode fazer o que quiser.

Mas às vezes eu queria que a gente pudesse entender melhor o Senhor e seus caminhos.

Às vezes só sei que o Senhor está aí, maia nada. Mas talvez eu só precise saber disso

mesmo.

Cris notou uma fileira de nuvens finas, iridescentes, caminhando devagarinho, pelo

noturno. O pó dos pés de Deus, pensou. O Senhor está aqui, e realmente se interessa, não

é mesmo, Deus? Por favor, ajude a Katie a enxergar isso e a entender o Senhor.

Em seguida, Cris fechou os olhos e caiu num sono profundo e doce.

Quando acordou, a primeira coisa que viu foi o rosto de Katie, e levou um tremendo

susto. Ela estava com olheiras bem escuras em volta dos lhos, resultado do nariz

machucado da noite anterior.

- Katie! falou de mansinho, cutucando-lhe o ombro. Acorde, Katie.

- O quê? Me dê mais um tempo, tá? Só mais cinco minutos.

- Está na hora de acordar, Katie. Estamos no barco. Temos de aprontar. E você tem

de se olhar no espelho.

Essa última frase, Cris disse-a bem baixinho, mordendo o lábio, temerosa da reação
que Katie teria ao olhar-se no espelho.

Cris sabia que, se isso tivesse acontecido com ela, ficaria arrasada e tentaria arranjar

um jeito de não ir à escola no dia seguinte. Como alguém poderia iniciar o último ano

colegial com os olhos assim tão roxos?

Surpreendentemente, o olhar de boxeador nocauteado só surpreendeu a Katie por

alguns segundos. Ela se olhou no espelho, soltou uma exclamação e depois caiu na

gargalhada, arrastando consigo os demais.

- Você vai ver, Douglas! Eu me vingo disso, ameaçou Katie.

E ela ainda respirava ameaças quando chegaram de volta em casa tarde da noite.

Enquanto Douglas tirava as coisas de Katie da caminhonete, ela dizia:

- Quando você menos esperar, eu vou me vingar, Douglas. Pode escrever!

Cris achava que até a manhã seguinte a atitude brincalhona dela já teria

desaparecido. Mas quando passou em sua casa para dar-lhe carona, a caminho da escola, a

primeira coisa que Katie disse, foi:

- O que você acha de laxantes?

Cris olhou-a sem entender. Katie nem tentara disfarçar o arroxeado dos olhos com

maquiagem. Estava horrorosa.

- O que você quer dizer com laxantes?

- Você sabe que o Douglas come de tudo, não é? Por que não lhe fazemos uns

biscoitos e enchemos a massa de laxante? Ele jamais saberá o que lhe fez mal!

- Nem acredito que você esteja sugerindo uma coisa dessas! Que maldade! Você não

teria coragem de fazer isso, teria? Sabe muito bem que ele lhe bateu no rosto por acidente.

Ele ficou muito chateado com isso. Na viagem de volta, acho que ele ficou pedindo

desculpas de cinco em cinco minutos.

- Muito bem. Acho que um pouco de sentimento de culpa não faz mal a ninguém.
Cris dirigiu-se para o pátio de estacionamento, nos fundos do colégio, e começou a

procurar uma vaga.

- Será que todo mundo resolveu chegar cedo hoje? Parece que tem muito mais carro

do que no ano passado.

- Sabe como é no primeiro dia. Todo mundo quer causar boa impressão. Além do

mais, tem muito mais terceiranista este ano do que tinha ano passado. Sabe o que eu acho?

Cris encontrou uma vaga num canto distante e estacionou com cuidado dentro das

estreitas linhas brancas.

- Eu acho, continuou Katie, que já que você faz parte da equipe do anuário, deveria

colocar uma foto do estacionamento no álbum. Ninguém nunca fez isso. Acho que o

estacionamento é tão importante quanto o armário dos alunos. Talvez mais.

Principalmente no último ano.

- Você tem razão. Boa idéia, Katie.

Cris trancou o carro e juntou seus objetos. Apesar de já estar estudando nesse

colégio havia três anos e de gostar muito da escola, Cris sentia um aperto no estômago.

Embora fosse seu último ano, ainda sentia o mesmo que sentira no primeiro dia de aula de

jardim de infância, lá no Wisconsin: muita tensão.

- Acho uma excelente idéia.

Katie continuava a tagarelar animada ao entrarem no prédio principal. Juntaram-se à

corrente de pessoas que iam e vinham, conversando, rindo e se esbarrando umas nas

outras, mochila nos ombros.

- Olá, Danny, como vão as coisas? falou Katie, cumprimentando um rapaz que

passou por elas.

Danny retribuiu-lhe o cumprimento. Vestia short e camiseta, e usava óculos de sol,

mesmo estando dentro do prédio.


- Você viu só com quem ele estava? perguntou Katie, puxando o braço de Cris.

As duas olharam para trás, reparando no Danny e na garota alta e magra que ele

abraçava.

- É a Lynn! Dá pra acreditar que estão juntos?! Na verdade, se me perguntarem, acho

que formam um casal legal. Conheço o Danny desde o segundo primário. Entrávamos em

cada enrascada quando estávamos no primeiro grau na Escola Myers! Não dá pra

acreditar! Até o Danny arranjou namorada!

Cris conhecia esses jovens só de vista. Sentia-se aliviada por ter a Katie do seu lado,

quebrando o gelo, disfarçando a timidez de Cris com sua personalidade amigável e

ousada. Aparentemente, o fato de esse ser o primeiro dia não deixava Katie perturbada –

nem mesmo estando de olho roxo!

Naquele momento, queria ter palavras para dizer a Katie o quanto sua amizade lhe

era valiosa. Como era bom ter ao seu lado alguém que lhe aliviava o aperto no estômago!

- É aqui que eu entro, disse Katie, parando em frente duma sala de aula, e dando um

sorriso confiante. A gente se vê no almoço, está bem? Mesmo lugar de antes.

- Tudo bem, replicou Cris, retribuindo o sorriso, como que tentando “absorver” um

pouco mais de autoconfiança da antiga, antes de descer o corredor para sua primeira aula.

- Vejo você mais tarde, concluiu.

Às 11:42 tocou o sinal para o almoço e Cris foi para o lugar combinado, embaixo de

uma árvore. No ano passado, elas haviam combinado não merendar nas mesas de

piquenique, nem sair de carro à procura de alguma lanchonete como muitos outros alunos

faziam. Em vez disso, Cris e Katie sentavam num canto mais remoto. Mas hoje a rotina

teria de ser modificada. Sentado embaixo de “sua” árvore, estava um rapaz que Cris não

conhecia. Usava sandálias e esticara as pernas à frente. Parecia bem à vontade, com jeito

de quem estava ali para ficar. Cris parou e ficou a observá-lo. O cara tirou uma maçã da
mochila de couro e começou a comer.

Como lhe diria que esse lugar era dela?

- Olá! disse Katie, pondo-se ao lado de Cris e encarando o intruso. Quem é esse aí?

perguntou a Cris, mas para o rapaz ouvir.

- Não sei, cochichou a amiga, franzindo o nariz para Katie. Vamos procurar outro

lugar?

- Pra quê? Podemos nos sentar aí. Tem espaço debaixo da árvore, não sabe? Além

disso, assim que ouvir nosso tipo de conversa, provavelmente ele vai sair depressinha.

Com seu jeito naturalmente ousado, Katie caminhou até a árvore, sob a vista do

rapaz e se “plantou” ali como uma bandeira de vitória. Cris seguiu seu exemplo, cônscia

de que o cara observava cada movimento das duas.

Como se nada tivesse acontecido, Katie abriu um saco de fritas.

- Então, como foram as aulas até agora?

Era mais difícil para Cris entrar direto na rotina do almoço e agir como se o estranho

não as tivesse observando.

Antes que ela respondesse, o rapaz perguntou:

- Já experimentou vitamina C?

Cris notou o sotaque. Parecia britânico.

- Como é? indagou Katie, virando-se para ele.

- Para os olhos, disse ele, apontando para os olhos roxos de Katie. Vitamina C com

bioflavonóides três vezes ao dia. Já experimentou?

Katie fitou-o um instante e depois olhou para Cris, e parecia prestes a romper numa

gargalhada.

- O repolho é uma boa fonte. A batata e o tomate também são. Ele dizia “batata” e

“tomate” de um modo engraçado. Katie riu-se do jeito dele.


- De onde você é?

- Belfast.

Katie olhou para Cris.

- Belfast. É na Irlanda, não é?

- Do Norte, emendou o rapaz com presteza. Irlanda do Norte. Existe uma grande

diferença, sabia?

Aparentemente, Cris e Katie não sabiam. Naquele momento, as duas se sentiram

atraídas por esse estranho de pele clara, cabelo escuro e olhos verdes.

- Meu nome é Michael, disse o rapaz, apresentando-se com um sorriso. E vocês,

quem são?

- Sou Cris.

- E eu sou Katie.

Assim que ela disse seu nome, o rapaz pôs-se a rir.

- O que foi? O que há de tão engraçado com meu nome?

- Ah, nada! Só que parece coisa de maluco eu ter saído de uma escola lotada de

“Katies” em Belfast e a primeira pessoa que fico conhecendo nesta aqui dos Estados

Unidos se chama Katie!

- Coisa de maluco? repetiu Katie.

No ano passado, ela pegara a mania de dizer “coisa de Deus” – era coisa de Deus

daqui, coisa de Deus dali. Aí via alguma coisa que levava o jeito do Ted e dizia. “isso ta

parecendo ‘coisa do Ted’”, e atrás de uma vinha outra. Mas “coisa de maluco” nunca

ouvira.

- Sim, "coisa de maluco". Não usam a expressão aqui?

Cris e Katie fizeram "não" com a cabeça.

É algo bobo e tolo.


Ah, disseram as garotas.

E então, Mike...

Michael, corrigiu ele. É Michael.

Então, Michael, continuou Katie, você dá receita de vitaminas a pessoas totalmente

desconhecidas e ainda nos acha malucas? Talvez eu devesse lhe dizer que você está

recomendando vitaminas à pessoa errada. Se a sua vitamina C com sei-lá-que-nóides não

vier de uma fonte natural de bolinhos açucarados, é pouco provável que ela caia na minha

corrente sanguínea.

Michael sorriu. Cris notou que todo o seu rosto pareceu iluminar-se de repente.

Afável, inofensivo. Gente nova no pedaço, desejosa de conhecer outras caras. Talvez fosse

do intercâmbio estudantil. Ainda assim, Cris não tinha facilidade para esse flerte amigável

como Katie tinha.

Pelo resto do período de almoço Cris ficou sentada, comendo seu sanduíche,

quietinha, ouvindo Michael e Katie falando em tom de gozação sobre os alimentos de

baixo ou nenhum valor nutritivo encontrado no mercado, por oposição aos alimentos

saudáveis. Parecia que Katie, pela primeira vez, ia perdendo uma discussão. Raramente

Cris via algum rapaz vencer um debate com sua amiga, qualquer que fosse o nível da

discussão.

- Salvo pelo gongo, disse Katie quando a campainha ecoou pelo imenso pátio da

escola. Mas eu não desisti. Ainda vou lhe provar que meu jeito de comer é tão bom quanto

o seu.

- Veremos, disse Michael, com uma expressão divertida. Tirando uma folha de papel

de dentro de sua mochila, ele perguntou:

- Por acaso você sabe onde é a sala 145?

Está brincando! disse Katie. É minha próxima aula. Organização Política com o
Prof. Jacob, certo?

Suponho que devo agradecer a minha "boa estrela". Precisarei de um pouco da sua

benevolente ajuda quando o assunto for Governo Americano.

Michael jogou a mochila no braço e ofereceu a mão a Katie para que ela se pusesse

de pé.

- Não seria o seu "talismã da sorte"? Sabe? Aquele cereal de leprechaun* com

marshmallows coloridos?

___________________

* Leprechaun: um duende lendário, da Irlanda, e existe um cereal matutino vendido nos Estados Unidos,

com bonecos de aparência e sotaque irlandês, que dizem "graças aos meus encantos da sorte". (N. da T.)

Michael parecia não entender.

- Deixa pra lá, continuou ela. Acho que não é só em Política Norte-Americana que

você precisará de ajuda. Espero que saiba que os cereais americanos usados no café da

manhã são um assunto muito importante.

- É mesmo?

- Vejo você mais tarde, Cris, gritou Katie sobre o ombro ao encaminhar-se, ao lado

de Michael, para a sala de aula, andando bem juntinho dele e conversando sem parar.

Cris ficou uns instantes olhando para eles e depois seguiu para a sala onde se reunia

a equipe do anuário.** Michael era mais ou menos da mesma altura que Katie e, visto de

trás, Cris notava que seu cabelo escuro tinha reflexos avermelhados ao sol. Sua camiseta

exibia a estampa de uma baleia com legenda apregoando a necessidade de salvá-la. Ele

parecia um cara legal, ainda que bastante diferente.

____________________

** Nos Estados Unidos, os poucos alunos selecionados para redigir e produzir o anuário do colégio têm

aulas especiais de redação, editoração, fotografia e layout (como matéria para crédito de currículo). (N. da T.)
O que será que estou pensando? Ele é uma pessoa totalmente estranha, que está

sendo cativada pela Katie. Tudo aconteceu depressa demais. Ela está ansiosa para

arranjar um namorado. Como é que vamos saber se esse rapaz é crente?

Entrou na sala do anuário e sentiu-se ainda mais inquieta. Agora não só por causa da

Katie, mas por causa desse grupo de alunos, onde não estava enturmada. Ela não havia

trabalhado tanto quanto eles no anuário no ano anterior. Sentou-se numa carteira, ao fundo

da sala, mas ninguém pareceu notar sua presença.

Por que fui escolher esta classe?

- Olá, Cris! disse um rapaz que entrava no instante em que tocava o sinal.

Era Fred, o fotógrafo da escola, que no ano passado fizera várias poses indiscretas

dela, e as colocara no anuário. Uma das razões por que se inscrevera nesse curso era o

desejo de evitar que outras fotos embaraçosas saíssem este ano, embora jamais houvesse

confessado isso.

Fred sentou-se na carteira ao lado da de Cris. Pegando a câmara fotográfica

pendurada no pescoço, apontou-a para ela, e disse:

- Dê um lindo sorriso para seu amigão Fred! Cris não sorriu, mas replicou

calmamente:

- Não quero que tire minha fotografia, Fred. Nem agora nem amanhã, nem nunca.

Está certo?

O flash brilhou direto no rosto de Cris.

- Acho que não me escutou, Fred. Eu disse, não quero fotos. O rapaz baixou a

máquina e fitou-a. Dois dos seus incisivos eram desalinhados, e sua pele não era das

melhores. O cabelo parecia grudado no alto da cabeça.

- Sonhei com você ontem à noite, Cris. Sonhei que você era uma modelo famosa
tirando fotografias numa ilha grega e eu era o fotógrafo. Você acredita que os sonhos se

realizam, não acredita?

Não é possível que isso esteja acontecendo! pensou Cris.

- Já pedi ao Prof. Wallace que este ano ele escolhesse você como minha assistente,

para que a gente possa passar bastante tempo juntos. Teremos um punhado de coisas pra

fotografar. Como os jogos de futebol nos finais de semana.

Fred sorriu, e ela notou um resíduo alaranjado entre os dentes dele.

- Fred, eu tenho namorado.

Cris jamais imaginara como se sentiria aliviada por dizer essas palavras em voz

audível.

- Espero que não seja o pegajoso do Rick Doyle!

- Não. O nome dele é Ted. Ted Spencer. Ele está na faculdade e tenho certeza de que

vou passar todos os finais de semana com ele. Portanto não poderei sair com você para

fazer fotos.

O entusiasmo de Fred não ficou muito abalado.

- Não tem problema. Eu estarei com você todos os dias da semana, e esse tal de Ted

só terá sua companhia nos finais de semana. Vamos ver o que acontece até o final do ano.

Como eu sempre digo, que vença o melhor!


Ela Trouxe Passas
7

- E isso não foi o pior! exclamou Cris, encostada no balcão da cozinha, aquela noite,

vendo sua mãe lavar um pé de alface. Ele tirou pelo menos umas cinco fotos minhas

enquanto eu estava lá sentada, escutando o professor. E como se não bastasse, o Prof.

Wallace disse que eu havia sido escolhida para fotografar com ele o jogo de futebol na

sexta-feira à noite.

- E então, o que você disse ao Fred? perguntou a mãe, o rosto redondo transmitindo

ternura e interesse.

- Disse que tinha namorado e que, se ele não largasse meu pé o Ted iria lhe dar uma

surra.

- Verdade?!

- Não, é claro que eu não diria isso, mas falei que tinha namorado e que trabalhava
às sextas à noite, e que o Ted e eu tínhamos planos de nos encontrar aos sábados.

- E têm mesmo?

- Bem, ainda não, mas tenho certeza que faremos alguma coisa. O Ted é um cara

espontâneo, que resolve tudo mais ou menos de última hora.

A mãe picou um pepino e acrescentou à salada numa grande tigela de madeira. Cris

pegou uma rodela de pepino e, apontando para um tomate, disse:

- Sabia que tomate tem muita vitamina C e alguma coisa terminada em "-nóides"?

- Foi isso que você aprendeu na aula de Ciências hoje?

- Não, aprendi com o Michael.

Cris contou à mãe sobre a conversa com Michael na hora do almoço.

- E depois da aula, continuou ela, esperei a Katie no carro no mínimo uns dez

minutos. Por fim, ela apareceu com o Michael num carrinho esporte caindo aos pedaços

que ele tem, e disse que ia levá-lo à sorveteria "31 Sabores", pra que ele conhecesse todas

as vitaminas do sorvete de amêndoas com calda de chocolate. Dá pra acreditar nisso?

A mãe riu-se e abanou a cabeça.

- Essa poderá vir a ser uma situação muito interessante para a Katie. Será que ela

está tão interessada nesse Michael quanto ele parece estar por ela?

- Acho que o resto do mundo deixa de existir quando ele está perto dela. Mas eu

estou um pouco temerosa, mãe. Ela não sabe nada sobre esse cara. Ele é diferente. Não no

mau sentido, mas meio incomum. E parece muito interessado nela - olho roxo e tudo o

mais. Sei lá, não me parece que está certo.

- Bem, agora não é hora de abandoná-la. Mantenha a amizade com ela apesar desse

novo relacionamento, e mostre-se “aberta” para ela.

- Está certo. Já vamos jantar? Cadê o pai e o David?

- Seu pai estava na garagem, e seu irmão deve estar andando de bicicleta na frente.
Vá chamá-los enquanto eu coloco o jantar na mesa.

Cris foi até a varanda da frente da pequena casa em que moravam e chamou David.

Um minuto depois, o ruivo de onze anos surgiu pedalando sua bicicleta pela rua ladeada

de árvores, e foi em direção à rampa de saltos que o pai fizera para ele. A roda dianteira

subiu nela. David soltou um grito enquanto girava no ar e em seguida pousava no

gramado.

- David, hora de jantar.

- Está bem, depois de mais um salto mortal, respondeu o garoto, ajustando os óculos.

- A mãe disse para vir já.

Está bem, está bem. Não precisa ser tão mandona.

- Não sou mandona. É que você nunca vem jantar na hora. E não se esqueça de lavar

as mãos e guardar a bicicleta.

Com voz esganiçada, David remedou:

- Lave as mãos! Guarde a bicicleta! Mandona! Mandona, mandona!

- David! falou a voz grave do pai. Era só o que o pai precisava dizer para endireitar

qualquer dos dois. Com sua voz firme, severa, e que mais parecia um grunhido, bastava

chamá-los pelo nome. E tanto Cris quanto David sabiam perfeitamente o que tinham de

fazer.

- Já estou indo, respondeu David, colocando sua bicicleta na garagem.

- Diga a sua mãe que vamos já, disse o pai a Cris.

Era um homem grande, que trabalhara a vida toda numa fazenda de gado leiteiro. A

transferência para o sul da Califórnia não tinha sido uma mudança simples, e Cris sabia

que ele levara algum tempo para se adaptar. Agora que já residiam em Escondido havia

alguns anos, e ele estava se dando bem na firma onde trabalhava - "Laticínios Hollandale"

- Cris tinha a impressão de que ele ficara mais acomodado. Ainda não tinham muito
dinheiro, e o pai ainda usava as roupas da roça, deixando-a meio constrangida. Mas Cris

sabia que era feliz por ter os pais que tinha.

Alguns desses pensamentos acompanharam Cris dias depois, na aula de Inglês.

Fariam uma redação descrevendo alguém que conhecessem bem, usando os cinco sentidos

na descrição. A primeira pessoa em que pensou foi seu pai. Cris anotou algumas palavras

de cunho descritivo, conforme o professor havia instruído. Escreveu que as mãos do pai

eram grossas e grandes, e que muitas vezes ele cheirava a curral. Mas aos domingos de

manhã, quando iam para a igreja, ele tinha cheiro de um bosque verde e cheio de musgo.

Às vezes, na segunda-feira de manhã, quando Cris se dirigia à escola, o carro ainda tinha

esse cheiro.

O pai mascava chiclete Dentyne, que ela colocou na lista de sabores, já que ao longo

dos anos sempre preferira o mesmo tipo de goma, e o forte sabor de canela sempre

lembrava seu pai. Suas sobrancelhas e seu cabelo castanho avermelhado davam-lhe o

aspecto de um gigante de conto de fadas.

No tocante ao sentido da audição, Cris descreveu a risada profunda do pai que

parecia sair do peito dele como que em “cascatas", e explicou que sua gargalhada fazia

com que a mãe risse também.

A linha final da redação dizia: "Mesmo parecendo um pouco rude, meu pai tem o

coração de um ursinho de pelúcia. Nunca duvidei do amor dele, embora creia que jamais

venha a entender perfeitamente o quanto ele me ama."

Contente com sua conclusão e aliviada por ter terminado antes do fim da aula, Cris

entregou a folha ao professor e usou o resto do tempo para fazer um pouco do dever de

Espanhol. Era sexta-feira, e ela queria levar o mínimo possível de tarefa para casa.

No momento que a aula terminasse ela teria de ir para o trabalho, na loja de animais.

Aos sábados trabalhava o dia inteiro e aos domingos ia à igreja. Não lhe sobrava muito
tempo para passar com o Ted, e menos ainda para fazer os trabalhos de casa.

Ao tocar o último sinal, Cris correu para seu armário e deu de cara com o Fred ali,

esperando-a.

- Olá, senhorita Cris! Que horas pego você para o jogo?

- Fred, eu já lhe disse que trabalho à noite, falou enquanto remexia a combinação do

cadeado de seu armário. Não posso ir ao jogo com você e não posso ajudá-lo a tirar fotos

para o anuário.

- Claro que pode, depois do jogo. Podemos nos encontrar nalguma pizzaria aonde

todos os jogadores vão e bater uns instantâneos deles de boca cheia.

- Acho que não, Fred.

- Vamos lá, Srta. Cris, estamos juntos nessa. Além do mais, a sua câmara é melhor

que a minha.

- Quer levar emprestada a minha máquina?

Cris tirou do fundo do armário e ofereceu-a ao Fred. Tinha sido presente de Natal do

seu tio Bob. Sabia que a marca tinha prestígio, mas só ficou sabendo que a câmara era boa

mesmo no dia em que a levou à aula de fotografia e o Fred ficou “babando".

- Tem certeza?

Cris hesitou. Talvez não fosse acertado deixar um presente tão caro nas mãos desse

rapaz. Mas assim era provável que ficasse livre dele por algum tempo.

- Sim, pode levá-la, mas com uma condição.

- Legal, obrigado. E qual é a condição?

- Que você prometa parar de me fotografar, e que não tire mais nenhuma foto minha

este resto de ano.

Fred fez uma careta.

- Não posso prometer isso!


Cris estendeu a mão para pegar a máquina de volta.

- Ou você promete isso, Fred, ou não empresto a máquina.

- Não posso prometer, disse Fred, devolvendo a máquina com a cara triste.

Parecia arrasado.

- Ah! está bem, falou Cris mudando de idéia. Você pode levá-la emprestada, e não

precisa fazer promessas. Só não a estrague, nem perca, está certo?

- Sem problema. Juro cuidar bem dela, Cris, disse ele dando um enorme sorriso.

Você é o máximo, sabe? Alguém já lhe disse isso?

- Por favor, cuide bem da minha máquina.

Ao dirigir-se para o trabalho, Cris ficou pensando se não iria se arrepender de ter

emprestado a câmara para o Fred. Resolveu perguntar ao Jon, seu patrão, o que ele

achava. Ele parecia saber julgar bem o caráter das pessoas.

Era estranho ir para o trabalho sem a Katie. No Natal passado, Katie arrumara

emprego no shopping, atuando como um dos anõezinhos do "Papai Noel". As duas se

revezavam dando carona para a outra na ida para o trabalho. Após o Natal, continuara a

trabalhar com o fotógrafo do shopping. Seu horário de trabalho coincidia mais ou menos

com o de Cris. Mas agora havia o Michael para levá-la a toda parte, e não parecia mais

precisar da carona de sua melhor amiga.

Cris se sentia muito chateada com isso, mais do que desejava admitir.

Principalmente porque a Katie estava mudando. Não de maneira drástica, é claro. Mas

Cris notara nela pequenas mudanças. Ela passara, por exemplo, a usar sandálias esquisitas,

como as do Michael. Agora, ao invés de tomar refrigerante no almoço, tomava água

mineral.

Jon estava no telefone quando Cris chegou, e então ela foi direto para o trabalho. Foi

dar uma olhada nos peixes do aquário grande, ao fundo da loja. O som calmante do
borbulhar dos tanques e o movimento lento dos peixes faziam desse cantinho o lugar

predileto de Cris quando ela chegava ao trabalho e fazia a transição entre escola e loja de

animais.

- Cris, a voz de Jon veio da frente. Você poderia vir até a caixa registradora, por

favor?

Cris colocou a tampa sobre o tanque de peixes onde estava colocando alimento e

correu para a frente. Tinha o pressentimento de que nessa noite o trabalho seria incessante.

O que não esperava era tornar-se freguesa. No final, ganhara um bicho de estimação

para levar para casa.

Tentou abrir a porta em silêncio, às 21:15, quando chegou em casa. A porta de tela

não cooperava, e rangeu alto anunciando sua chegada. Os olhos de seus pais caíram

imediatamente sobre ela, sobre a gaiola que ela carregava.

- Adivinhem o que aconteceu? Ganhei um prêmio. Do Jon. Ele achou que eu deveria

ter um bicho de estimação, já que trabalho numa loja de animais e não tinha nenhum. Ele

me deu tudo de graça. Até um saco grande de ração que está no carro.

- O que é? perguntou a mãe, levantando do sofá e aproximando-se para examinar o

animalzinho.

- Um coelho. Tive dificuldade de escolher. Chegou lá uma menina com a mãe e

disse que queria comprar o bichinho que eu tivesse. Como eu não tinha nenhum, Jon

mandou que eu escolhesse qualquer um, que ele me daria. Então, eu e a menina – o nome

dela é Abbey - escolhemos coelhos.

- E que nome vai dar para ele? perguntou a mãe, com voz calma.

- Chocolate", porque ele é escurinho que nem chocolate. Posso ficar com ele?

Os pais se entreolharam. Ao ver o leve aceno do pai, Cris percebeu que Chocolate

fora aceito.
- Mas não no seu quarto. Guarde-o na garagem até que a gente faça uma casinha no

quintal.

- Olá, Chocolate! disse a mãe, olhando dentro da gaiola. Que gracinha! Boa escolha,

Cris!

- Ainda bem que você concorda, disse Cris, deixando transparecer um sentimento de

alívio. Minha sensação era que tinha de escolher entre mil bichos. Foi difícil decidir.

Ainda bem que vocês gostaram do Chocolate.

- Seu irmão vai adorar, sabe?

- Eu sei. Espero poder convencê-lo a me ajudar a dar comida pra ele quando eu

estiver fora.

Cris notou a risada do pai ante a idéia pouco realista. Sabia que havia pouca chance,

mas sempre podia esperar.

- O Ted ligou. Amanhã ele vem passar o dia com você.

- Mas eu tenho de trabalhar, disse Cris, com um gemido de desânimo. A que horas

ele chega?

- Provavelmente antes do meio-dia. Você sai às seis como sempre?

- Sim. Gostaria de poder sair mais cedo. Diga a ele que vá se encontrar comigo no

trabalho.

- David convenceu-o a ir com ele a uma espécie de parque de esqueitismo. Talvez

eles passem no shopping depois.

- Nada como compartilhar o namorado com o irmãozinho da gente, murmurou Cris

saindo para levar o Chocolate para a garagem.

No fundo, sabia que não devia ter ciúme do David por ficar tantas horas com o Ted.

Parecia bom para ambos, porque o Ted era filho único e David o considerava como o

irmão mais velho que não tinha. Qualquer garota teria prazer de ter um namorado que se
desse tão bem com a família dela. E Cris estava contente. Só que queria poder passar mais

tempo com o Ted.

Ted e David só apareceram na loja de animais quando já passava das cinco. David

deu um sorriso largo quando contou sobre o parque de esqueitismo e como o Ted lhe havia

ensinado alguns novos truques superlegais.

- Ele tem um talento natural, disse Ted.

- Esperem um segundo, pediu Cris, deixando Ted e David na seção de ração para

cachorro, e pondo-se atrás do balcão para atender um freguês.

- Mais alguma coisa? perguntou à mulher que lhe entregou uma coleira de cachorro.

- Sim, a não ser que você não tenha a revista Cão de Caça.

- As revistas geralmente chegam na última semana do mês. Provavelmente, temos

exemplares de setembro, mas os de outubro só chegarão lá pelo meio da semana que vem.

- Então é só isso.

Cris pegou a correia para olhar o preço. Notou que a mulher prestava bastante

atenção em suas mãos.

- Que linda jóia, disse a mulher, olhando a pulseira de chapinha com a inscrição

"Para Sempre". Modelo diferente. Comprou aqui no shopping?

Cris estava prestes a dizer não, que o namorado lhe tinha dado. Mas lembrou que

sim, que tivera de comprá-la, numa das joalherias, para recuperá-la. Pois o Rick a roubara

dela, trocando-a por uma de prata com o seu nome gravado. Mas não era isso que a

senhora estava perguntando.

- Na verdade, disse ela, baixando a voz, foi um presente muito especial do meu

namorado.

Com os olhos mostrou o Ted, que estava longe demais para ouvir a conversa. A

mulher acompanhou o olhar de Cris e voltou-lhe o rosto com um gesto de aprovação.


- Você é uma jovem de muita sorte!

Cris sentiu o rosto avermelhar-se.

- Obrigada. Eu também acho.

Depois de colocar a coleira e a correia na sacola e entregá-las à mulher, Cris

lembrou-se de um detalhe sobre a pulseira de fazia muito não se lembrava. No ano

passado, quando fazia pagamentos semanais na joalheria para pegar a pulseira de volta, o

Ted ainda estava no Havaí. No entanto, alguém fora à loja e liquidara o débito para ela.

Ainda não sabia quem havia feito esse pagamento. Era um mistério.

Durante algum tempo, pensou que fosse seu patrão, Jon, mas ele o negara mais de

uma vez. Chegou a pensar também que fosse o Rick, porque teve a impressão de tê-lo

visto no shopping no dia em que pegou a pulseira. Podia ser, mas o Rick não se encaixava

na figura de um benfeitor que guardasse segredo, sobretudo quando estavam envolvidos

sua pulseira e seu ego.

Instantes depois, quando registrava outra venda, ocorreu-lhe que nunca contara nada

disso ao Ted. Será que ele sabia que a pulseira estivera fora do braço dela durante algumas

semanas, quando ele estava fora? Será que deveria contar?

Depois do jantar, quando ela e Ted foram ao cinema na velha kombi, a "Kombi

Nada", pensou de novo no mistério da pulseira. Não sabia o que dizer, como levantar o

assunto. Ted ainda falava sobre o passeio com o David naquela tarde. Uma conversa mais

séria sobre a pulseira de chapinha, símbolo do seu relacionamento, não parecia própria

para aquele momento.

Resolveu esperar até depois do filme. Quem sabe, se o filme fosse bem romântico,

colocaria o Ted numa disposição mais favorável ao assunto.

- Parece que teremos de fazer uma escolha, disse Ted, olhando os diversos cartazes

na entrada. É legal quando não são todos "proibidos". Você acha que esse pessoal lá de
Hollywood está começando a perceber que as pessoas querem algo mais, e não apenas

sangue e violência?

Entraram numa longa fila, mesmo sem ter decidido ainda a que filme assistir.

- Pode ser. Qual lhe parece melhor?

- Aquele segundo da lista começa dentro de cinco minutos. Não sei muito sobre o

filme, mas pelo menos é censura livre. O que você acha?

- Claro, parece legal. Eu também não sei nada a respeito dele.

- Cris! gritou alguém chamando do estacionamento.

Ted e Cris viraram para trás e viram Katie e Michael correndo na direção deles, de

mãos dadas.

Estão de mãos dadas! Por que estão de mãos dadas? Katie e Michael estão

namorando. Katie, será que você sabe o que está fazendo? Conheceu esse rapaz há cinco

dias e já sai com ele de mãos dadas!

- Dá pra acreditar? disse Katie sem fôlego.

Seu rosto estava vermelho, mas feliz. Ela trajava jeans e uma camiseta com a

inscrição "Salve as baleias." Cris notou que o arroxeado dos olhos de sua amiga tinha

melhorado bastante, e ela usava um colar de miçangas pequenas, coloridas.

- Ted, quero apresentar-lhe o Michael. Michael, este é Ted, o namorado da Cris.

Os dois rapazes se cumprimentaram e Ted perguntou:

- Então, como é que vocês dois se conheceram?

Cris notou que ele parecia um pouco surpreso.

- Na escola, disse Katie, olhando assustada para Cris. Ela não lhe falou? Foi um

encontro do destino.

Encontro do destino? Katie, uma semana atrás, você teria dito que era uma “coisa

de Deus". O que lhe aconteceu? O que significa esse negocio de “ encontro do destino"?
Ted, a essa altura, já havia alcançado o guichê, e Michael tirou depressa um dinheiro

do bolso, dizendo-lhe:

- Mais dois daquele que você estiver comprando.

Ted pagou os ingressos e os quatro entraram no cinema. Katie tagarelava enquanto

procuravam quatro lugares juntos, próximo à fileira da frente, exatamente na hora que

começavam os trailers.

- Na hora agá, cochichou ela no ouvido de Cris.

As duas sentaram-se juntas, entre os rapazes.

- Não é a coisa mais ousada, mais chocante? continuou Katie.

- Ousada e chocante?

- Ah! O Michael diz isso toda hora, explicou Katie rindo. Ele não é um cara

fabuloso? Você não adora isso? Percebeu que eu e você finalmente estamos fazendo o que

sempre quisemos? Por fim, estamos namorando em dupla!

Cris sorriu, desconfiada, no salão escuro.

- É, legal.

Michael colocou o braço nas costas de Katie e ela se aproximou mais dele quando o

filme começou. Cris colocou a mão direita no braço do Ted e ele segurou os seus dedos,

entrelaçando-os com os seus.

Apertou-lhe a mão como se dissesse: "Relaxe." Cris retribuiu-lhe o gesto e se

acomodou no lugar. Era o que ela sempre sonhara, ir ao cinema de mãos dadas com o Ted,

saindo em dupla com a Katie e... era ali que os sonhos não combinavam. Cris jamais

imaginara um rapaz como o Michael na vida de Katie.

Agora que ele se fazia presente, ela estava inquieta. Por que não podia ser o Douglas

ou aquele filho de missionários, o Glen? Ou qualquer outro cara normal da igreja? Por que

a Kaite tinha de se envolver logo com esse estranho que, provavelmente, nem crente era?
O que iria acontecer?

- Trouxemos nossa própria merenda, disse Katie, pegando a mochila de couro do

Michael. Quer um pouco?

Vamos lá, Cris, relaxe! "Curta" este momento com seus amigos. Acomode-se bem na

poltrona. Coma o chocolate e tente agir como se fosse tudo do jeito que deveria ser.

- Claro. O que foi que vocês trouxeram? Chocolate? Menta? Balas de jujuba?

Cris procurou pensar em mais algum lanche gostoso que a Katie pudesse ter trazido.

- Passas, disse Katie, oferecendo uma caixinha a Cris. Trouxemos passas e sementes

de girassol sem sal.

- Passas? Daquelas recobertas de chocolate?

- Não, simplesmente passas comuns, saudáveis. Michael disse que elas têm muito

ferro e sais minerais. São gostosas. Verdade! Coma!

Katie colocou a caixinha no colo de Cris e jogou um punhado na própria boca.

Ela trouxe passas! Katie está comendo passas "saudáveis". Ó Katie, está pior do

que eu pensava! Você está levando esse rapaz a sério mesmo?!

Ratinhos em Missão
8
- Tem água mineral? pediu Michael à garçonete no Restaurante e Confeitaria Marie

Callender, algumas horas mais tarde,quando os quatro saíram para lanchar após o cinema

- Tem. Quer mais alguma coisa?

- Não, obrigado, só água.

A garçonete virou-se para Cris.

- E você?

Cris ficou um pouco sem jeito de pedir torta depois que o Michael só pedira água.

- Uma fatia de torta de cereja, por favor.

- Quer que eu esquente ou sirva com sorvete ou chantilly?

A torta acompanhada de sorvete lhe parecia excelente, mas Cris resolveu recusar.

- Não, obrigada.

- Nem esquentada?

- Não, obrigada.

- Boa escolha, disse Michael, debruçando-se sobre a mesa e dando explicações. Só a

próxima geração enxergará as conseqüências do abuso de microondas em nossa comida.

Não deve ser bom para o ser humano, certamente. Melhor evitar sempre que possível.

- Tudo bem, disse Cris, com um sorriso que não convencia ninguém.

- Uma salada pequena, por favor, disse Katie. Sem molho.

Depois das passas no cinema, nada mais deveria surpreender Cris, mas Katie pedir

salada era chocante.

- Sem a alface repolhuda, disse Michael, completando o pedido de Katie. Ela retém

pesticidas mesmo depois de lavada.

- Serve espinafre? perguntou a garçonete, um pouco irritada com Michael, o

"naturalista".

- Claro, disse Katie. Virando-se para Cris, cochichou: Não faz mal experimentar
espinafre cru pela primeira vez na vida, não é mesmo? O que acha?

Cris sabia que não era hora nem local para dizer a que achava. Apenas deu um

sorriso e esperou ver o que recomendaria ao Ted.

- Torta de abóbora com chantilly e um copo de água, disse Ted.

- Água comum ou mineral também?

- Comum. Ainda não me matou.

A garçonete virou-se depressa, e Cris achou que ela se irritara com eles. Cris não

gostava de que se irritassem com ela. Gostava de saber que estava de bem com todo

mundo.

- Então, fale sobre Belfast, disse Ted.

Imediatamente Michael passou a descrever, com seu lindo sotaque, a inquietação

política de sua cidade amada. Contou que, quando menino, fora com a mãe a um armazém

e minutos depois que saíram uma bomba explodiu nele. A bomba arrasou a frente da loja,

mas Michael e sua mãe nada sofreram.

Cris estava gostando de ouvir o Michael falar tão apaixonadamente de sua terra

natal. Tinha de admitir que seu sotaque que era encantador e ele falava animado. Katie

parecia toda orgulhosa de estar com ele. Ele era atraente, mas de um encanto simples,

natural. Seu espesso cabelo escuro combinava bem com a pele clara e os olhos verdes.

Cris tinha de admiti que a personalidade e aparência dele eram realmente encantadoras. Se

ao menos dissesse que era cristão, tudo ficaria perfeito.

Quando a comida chegou, Ted perguntou:

- Vocês se importam se eu orar antes de comermos?

- Orar para agradecer um pedaço de torta? indagou Michael

- Gosto de agradecer a Deus sempre que ele me dá algo para comer.

Michael parecia estar se divertindo.


- Mas foi a garçonete que a trouxe. O confeiteiro a preparou. O dinheiro do seu

próprio bolso é que pagará por ela. O que Deus fez para lhe dar um pedaço de torta de

abóbora?

Agora foi a vez de o Ted rir-se.

- Deus fez a abóbora. Quero agradecer a ele.

Abaixando a cabeça, Ted disse com voz jovial:

- Obrigado Pai, por teres feito a abóbora. Obrigado também por teres criado o

Michael. O Senhor fez um bom serviço com ambos. Amém.

Michael riu-se de novo e, em voz alta:

- Acho que nunca ouvi uma oração dessas antes. Tem certeza de que Deus ouviu?

Ted fez que sim e sorriu confiante. Antes de levar aos lábios a primeira garfada de

torta, disse com absoluta segurança:

- Ah sim! Ele me ouviu. Deus sempre ouve. I

Michael tomou um gole de sua água, e disse:

- Seus amigos são um pouco malucos, Katie. Alguém já lhe disse isso?

- São os melhores amigos que a gente poderia desejar, Michael, falou Katie

remexendo o espinafre no prato, tentando criar coragem para comer. É impossível

encontrar amigos melhores que esses dois.

- Eu encontrei você, disse Michael, olhando profundamente nos olhos de Katie. É a

sorte dos irlandeses que carrego sempre comigo.

Katie enrubesceu, mas não desviou o olhar. Pelo contrário, seus olhos se

encontraram com os de Michael, e ela se aproximou do rapaz dando-lhe um abraço

silencioso.

Cris olhou sua torta. Era muito difícil agir com naturalidade ao ver Katie se

apaixonando bem diante dos seus olhos. Será que ela agira assim quando conhecera o
Ted? Parecia que fora há muito tempo. Estava tão acostumada com ele agora! Sentia-se

muito bem ao lado dele. Não podia se imaginar abraçada assim, com um jeito tão íntimo,

à vista de todos. Assim mesmo, era surpreendente ver Katie tão apaixonada!

- Amanhã, Cris resolveu, quando eu e Katie estivermos trabalhando no maternal,

vou falar francamente com ela. Se esse cara não for cristão - e ele não aparenta ser -

então ela precisa terminar com ele imediatamente, antes que se envolva demais.

Mas na manhã seguinte Katie não apareceu para cumprir o compromisso que

assumira de ajudar na classe. Cris se viu sozinha, para cuidar de quinze crianças de três

anos, cansada e famintas.

- Acabo de saber que a professora da classe de três anos foi para casa, passando mal,

disse a coordenadora do berçário da igreja. Só conto com você e a outra jovem. Vocês vão

precisar de mais ajuda?

- Sem dúvida alguma! disse Cris, tomando o caminhão de um menino que estava

prestes a jogá-lo sobre duas meninas que estavam quietinhas, deitadas no tapete, olhando

livros.

- É meu! gritou o garoto.

Ele rompeu em lágrimas e tentou arrancar o caminhão da mão de Cris.

- A outra moça é a minha amiga Katie. Ela não apareceu. Portanto eu preciso de

mais gente pra ajudar, sim.

- Vou mandar três garotas imediatamente. Aqui está a revista com a lição. Se não se

importa, poderia dar uma olhada? Parece que você vai ter de contar a história bíblica hoje.

A merenda será no horário normal e eu estou na sala ao lado, se você precisar de alguma

coisa.

Cris sentiu um misto de pânico e raiva. Era Katie que tinha jeito com as crianças.

Ela seria capaz de reter-lhes a atenção num piscar de olhos. Katie seria excelente para dar
a lição, mesmo à última hora. Provavelmente, havia saído com o Michael e nem se

preocupara em avisá-la que não vinha. Isso não estava certo.

Felizmente, as três garotas que tinham vindo ajudar se davam bem com crianças

dessa idade. Fizeram sentar a gurizada e distribuíram lápis de cor para todos, enquanto

Cris dava uma olhada na lição.

Parecia fácil. Era uma história sobre as estações do ano, mostrando como Deus

comanda todas as mudanças que ocorrem neste mundo. No final da lição, havia alguns

versículos de Eclesiastes, que diziam que há uma hora para tudo. Ela lembrou que já havia

escutado um corinho que dizia isso.

Estou tão zangada porque a Katie não veio! Ela provavelmente conhece o corinho.

Podia cantar pra criançada. Ela é que devia estar fazendo isso, não eu!

Cris olhou pela janela na direção do estacionamento da igreja enquanto pensava na

ausência da Katie. As folhas das árvores, que estavam mudando de cor, caíam levemente

das copas e pousavam sobre os carros como imensos confetes amarelos e alaranjados.

Aquele estacionamento estava cheio de recordações para ela. Fora ali que seu pai lhe

havia dado a primeira aula de motorista. Nas férias do ano passado, eles tinham lotado o

ônibus da igreja para ir ao acampamento saindo daquele estacionamento. A idéia do

passeio fora da Katie, mas na última hora ela desistiu, deixando Cris sozinha, para ser

monitora de um bando de meninas de 11 e 12 anos.

Em seguida, outra lembrança daquele estacionamento veio-lhe à mente. Dois anos

antes, ela dera um presente de Natal ao Rick Doyle junto ao carro dele, e ele lhe dera um

beijo inesperado. Pensando bem, fora Katie também quem sugerira o presente do Rick e

dera a idéia de que ela fosse com ele ao estacionamento.

Cris percebeu que tinha uma recordação para cada estação do ano, relacionada com

aquele estacionamento. Talvez pudesse "criar" recordações também para aqueles


coraçõezinhos lá no mesmo estacionamento. Podiam sair para dar uma caminhada nele e

cada um pegar uma folha de árvore. Depois entrariam para ela contar a história bíblica.

Cris colocaria as folhas todas no quadro e contaria que foi Deus quem fez a mudança das

estações. Parecia simples.

- Olha gente! Todo mundo de mãos dadas! Vamos sair e ficar bem quietinhos –

como se fossem pequenos camundongos.

Cris colocou o dedo nos lábios e fez um gesto para que as crianças viessem atrás

dela, pé ante pé, como se fossem pequenos camundongos.

A não ser por uns dois engraçadinhos que tentaram imitar um ratinho guinchando,

conseguiram chegar ao estacionamento sem nenhum incidente. Cris levou-os até a árvore

que havia ao lado do estacionamento, e disse:

- Agora, continuem segurando a mão do coleguinha e cada um pegue uma folha e

vamos levá-las para a sala de aula.

Dois meninos perto da cerca avistaram as folhas que queriam, uma distante da outra,

e tentaram pegá-las ainda de mãos dadas. Um puxava forte o braço do outro. Antes que

começassem uma briga maior, Cris interveio e levou Tyler para pegar a folha dele

enquanto uma das garotas ajudantes tomava a mão do Benjainim e o ajudava a pegar a

dele.

- Está bem, crianças! Todos de mãos dadas? Mostrem as folhas! Ah, mas são lindas!

Vocês fizeram muito bem. Agora, vamos ser ratinhos bem quietinhos de novo e voltar para

a sala.

Na volta, a fila parecia bem mais barulhenta do que na ida. Cris teve de fazê-los

parar à entrada e colocou o dedo nos lábios mais uma vez.

- Só quero ver ratinhos bem quietinhos, andando pé ante pé pelo corredor, sem um

barulhinho. Quem vai ser o meu ratinho mais quietinho?


- Eu! gritaram todos bem alto. Cris fez de novo sinal de silêncio.

- Sh! Não quero ouvir nenhum som. Um ratinho bem quietinho não faz barulho.

Com passos exageradamente leves. Cris segurou a mão do novo companheiro e

mostrou como ela queria que andassem sem fazer barulho. Estava dando certo. De mãos

dadas, e ao mesmo tempo segurando cada um a sua folha, entraram na sala pé ante pé.

A coordenadora do berçário estava à porta e pareceu ficar encantada com o que viu.

- Eu vim ver por que aqui ficou tão silencioso de repente. Parece que tiveram uma

aventura especial.

Cris concordou e conduziu a silenciosa fileira para dentro da sala. enquanto a

coordenadora observava, Cris disse:

- Agora todos os meus ratinhos precisam sentar no chão e colocar a folha no colo.

Elas são tesouros especiais. Foi Deus quem fez essas folhas.

As crianças se sentaram olhando para suas folhas com reverência, aguardando que

ela continuasse a falar.

- Nunca vi esta classe tão comportada antes, cochichou a coordenadora no ouvido de

Cris. Você está fazendo um milagre! Não sabia que tinha tanto talento para trabalhar com

crianças. Você devia se tornar uma de nossas professoras regulares. Converso com você

sobre isso depois.

Cris sentiu grande satisfação. Era gostoso fazer esse trabalho, desde que as crianças

cooperassem. Mas ficava meio desatinada quando brigavam ou gritavam.

- Está bem, meus ratinhos, vocês fizeram um excelente trabalho! Uma das tias vai

passar e pôr um pedaço de fita adesiva na sua folha com o seu nome para todo mundo

levar sua própria folha para casa. Vou colocar todas aqui no quadro e depois contar uma

história muito bonita.

Cris mal podia acreditar na expressão de doçura que via naqueles rostinhos. Fizeram
o que ela disse e em seguida se preparam para ouvir a história.

Depois de afixar as folhas no quadro à frente, Cris sentou-se na banco da professora

e ergueu a Bíblia para as crianças verem.

- Sabem o que é isso?

- A Bíblia! gritaram todos.

Seguiu-se uma série de comentários, empurrões e tagarelices.

Está certo. Não devo fazer perguntas, a não ser que eu queira uma revolução.

Isso mesmo, a Bíblia. Agora escutem todos. Os ratinhos vão ficar bem quietinhos

para ouvir a história.

Esperou um momento, enquanto as ajudantes acalmavam as crianças.

- A Bíblia fala de Deus. A Bíblia diz (abriu depressa em Eclesiastes 3.1 e começou a

ler): "Tudo tem seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu:

há tempo de nascer e tempo de morrer; tempo de plantar e tempo de arrancar o que se

plantou."

Cris notou que o versículo seguinte dizia '"tempo de matar e tempo de curar". Não

achou que uma turma de meninos de três anos fosse entender isso, então saltou alguns

versículos e leu "tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de saltar de

alegria". Pensando que perderia a atenção deles se fosse ler tudo, resumiu depressa:

- Existe tempo pra tudo.

Será que a pessoa que escreveu esta lição lembrou que a atenção de uma criança de

três anos é muito curta?

Falou mais um pouco para a turma - que agora já não estava mais tão quieta - que

Deus está no controle de tudo e que sabe quando é hora de as coisas mudarem.

- Agora, por exemplo, é o tempo das folhas mudarem de cor. Tudo acontece de

acordo com o plano de Deus.


Naquele momento, entrou uma ajudante com a bandeja de suco e biscoitos, e toda a

concentração se foi. Mas ainda assim, Cris sentiu-se bem, tendo dado sua primeira aula

para crianças do maternal. Juntamente com aquelas folhas coloridas, elas iriam levar

algumas lições eternas, lições sobre o plano de Deus e sobre o fato de que Ele tem uma

hora certa para tudo.

Mesmo que as crianças não tivessem aprendido muito, Cris entendeu que ela própria

tinha encontrado uma pepita de ouro da verdade de Deus para sua vida e a escondera no

coração. Hoje, por exemplo, fora a hora de ter uma experiência nova: dar aula para o

maternal. Para sua surpresa, ela gostou.

Enquanto as crianças se aglomeravam em volta das mesinhas, algumas pequenas

brigas romperam pela pressa de pegar o lanche. Essa era a parte de que Cris não gostava -

ter de acalmar os maluquinhos. Já tinha visto Katie fazer isso com enorme facilidade e

queria que ela estivesse ali.

Lembrando os versículos que diziam haver tempo para tudo, cerrou os dentes e

separou dois briguentos.

Talvez exista mesmo um "tempo de matar", e vai ser hoje à tarde, pegar a Katie por

ter me deixado sozinha!


Mais Difícil, Mas Melhor
9

- Bem, sabe dizer quando ela estará de volta? Perguntou Cris ao irmão de Katie pelo

telefone, domingo à noite.

A tarde inteira tentara falar com ela, mas ninguém atendera ao telefone.

- Não sei.

- Se ela chegar antes das dez, podia pedir para ela me ligar? Obrigada.

Cris estava prestes a ir para a cozinha procurar algo par comer, quando o telefone

tocou.

- Alô!

- Alô! Como vão as coisas?

- Ted, olá! Queria que você estivesse aqui.

- É mesmo? O que anda pintando por aí?

- Katie não apareceu na igreja hoje. Liguei pra ela a tarde toda, mas não está em

casa. Acabei de falar com o irmão dela, mas ele não sabe que horas ela volta. Saiu com o

Michael, tenho certeza. Não é boa coisa.

Cris escutou a risada do Ted no outro lado da linha.

- O que foi? Achou engraçado? O negócio com esse rapaz é sério. Não há nada
engraçado nisso.

- Não; você é que é engraçada. Parece mais uma mãe preocupada do que uma boa

amiga.

- Não acredito que você esteja debochando de mim, e encarando esse

relacionamento entre Michael e Katie como se não fosse nada! Ele não é crente e ela está

se apaixonando por ele. Está na cara. Ela ainda vai sofrer com isso, Ted. E me desculpe,

mas eu me importo muito com o que acontece com meus amigos.

- Então fique ao lado dela, respondeu Ted, calmamente.

- É meio difícil ficar ao lado dela quando ela está saindo com ele!

Houve apenas silêncio do outro lado da linha.

- O que devo fazer, Ted?

- Seja a melhor amiga dela.

- Eu sou a melhor amiga!

Cris só percebeu que estava falando alto quando sua mãe apareceu no corredor e a

encarou.

Mais silêncio na linha.

- Ted, você está interessado nesta conversa? Estou achando que estou falando

sozinha.

Embora tivesse abaixado a voz, Cris sabia que a intensidade de tom continuava

forte.

- Estou aqui, Cris.

- Bem, eu queria que você me dissesse o que devo fazer. Não é assunto para

provocar risada, nem para ser ignorado. Katie vai ter sérios problemas se não fizermos

alguma coisa. O q eu é que eu devo fazer?

- Ted esperou um pouco antes de responder.


- Não sei o que lhe dizer, a não ser que fique ao lado dela. Continue amando-a. Ore

por ela.

Agora Cris estava mesmo zangada. Ted orava sempre acerca de tudo, e Cris

procurava fazer o mesmo. Mas, no momento, sua melhor amiga estava prestes a fazer a

maior burrada de sua vida! A resposta do Ted era simples demais.

- Não é assim tão fácil.

- Claro que é. Você é que está vendo as coisas difíceis.

- Não estou! replicou ela, a voz tremendo de emoção. Como você pode ser tão

insensível, Ted Spencer?! Não quero mais conversa!

E sem parar para pensar no que estava fazendo, bateu o telefone, desligando.

O que foi que eu fiz? Nunca discuti antes com o Ted assim. Nunca desliguei na cara

dele. Ele deve estar pensando horrores de mim. Como é que fui fazer uma coisa dessas?

Imediatamente ela discou o número do Ted, mas caiu na secretária eletrônica, com a

voz do pai dele dizendo:

"Não podemos atender no momento, mas se quiser deixar uma mensagem, aguarde o

sinal!"

Cris esperou o sinal e disse:

- Eu, eu sinto muito, Ted. Se você estiver aí, por favor, ligue de novo. Quero

conversar mais com você sobre isso. Obrigada. Tchau.

Foi a mensagem mais boboca do mundo! E se o pai dele escutar? Será que o Ted

está lá e não quer atender, ou ele ligou de outro lugar?

Cris se lembrou de que, às vezes, Ted vinha até sua cidade para vê-la e só avisava

quando já estava perto. Ligava para saber se era uma boa hora de visitá-la. E se ele

estivesse na cidade? A viagem da casa dele à dela durava uma hora e meia. Portanto não

era coisa de pouca importância o Ted ir vê-la. Ela se sentia péssima.


Cris passou uma hora esperando o telefone tocar. Tentou assistir à televisão, tomou

sorvete, fez as unhas. Foi até a garagem e deu uma cenoura para o Chocolate. Acariciou

seu pêlo fofo e voltou para a sala. Sentia-se realmente péssima.

Às 21:15 o telefone tocou e Cris correu para o aparelho. Era engano e ainda por

cima a pessoa era estrangeira. Finalmente, às dez, Cris, sem muita vontade, foi deitar, mas

ficou acordada, em silêncio, culpando-se por ter desligado o telefone na cara do Ted, e

preocupada com a Katie. Foi uma noite horrível.

Tentou ligar novamente para o Ted às 7:45 da manhã seguinte, mas de novo caiu na

secretária eletrônica. Sabia que o pai dele saía cedo para o trabalho, e Ted tinha aula na

segunda de manhã, mas esperava alcançá-lo antes que ele saísse. A idéia de passar o dia na

escola sem ter-lhe pedido desculpas a deprimia. Quase diminuía sua preocupação com a

Katie. Isto é, até o momento em que a viu na hora do almoço.

Michael ainda não tinha chegado ao lugar em que almoçavam. Katie estava sentada

sozinha perto da árvore, e Cris correu para falar com ela antes que ele chegasse. Sem

fôlego, perguntou:

- Katie, por que você não foi à igreja ontem? Me deixou sozinha com uma turma de

ratinhos. Onde você estava?

- Eu e o Michael fomos à praia.

- O dia todo? Liguei para você a tarde toda e seu irmão não sabia onde você estava.

- Eu não tenho de prestar contas a ele. E o que é que há com você?

Cris resolveu ir direto ao assunto.

- Você tem que acabar esse negócio com o Michael. Ele nem é cristão, é?

Katie olhou espantada para Cris.

- Não sei. Na Irlanda do Norte, isso é diferente. Com a guerra entres católicos e

protestantes, a religião é mais uma questão política. Mas ele acredita em Deus.
- Maravilha, ele acredita em Deus! É maravilhoso! Você não percebe o que está

fazendo, Katie? Está botando a perder tudo que você já conquistou, moral e

espiritualmente. Não se lembra, na escola dominical, quando você foi a "Katie Cristã"

sentada na cadeira, e o "Pedro Incrédulo" a puxava para baixo? E o que está acontecendo

entre você e o Michael.

Katie caiu na gargalhada.

- Você me faz morrer de rir, Cris. Devia ver sua cara neste momento.

Katie imitou-a arregalando os olhos e sacudindo o dedo na cara dela. Riu de novo.

- Relaxe! continuou ela. Não estou fazendo nada de errado!

- Você está namorando um rapaz que não é crente. Acha que está certo?

Katie pensou um pouco e perguntou:

- Quando você foi à Disneylândia com o Ted, há dois anos, era crente na época?

- Bem, eu ainda não tinha me convertido, mas era diferente.

- Como era diferente? Se o Ted não tivesse lhe dado tanta atenção, você ainda acha

que teria se tornado crente? indagou Katie em tom de desafio.

- Bem, eu... não é a mesma coisa, Katie. Isso foi muito tempo. Eu e Ted não

estávamos namorando de verdade, e eu não estava me apaixonando por ele do jeito que

você está se apaixonando pelo Michael!

- Você está "maluca"! disse Katie empregando o termo que Michael usava. Você e o

Ted estavam saindo juntos e você estava apaixonada por ele. Só que ele era cristão, e você

não.

Naquele momento, Michael chegou. Cris virou-se de lado, recusando-se a olhá-lo de

frente.

- Depois eu falo com você, Katie.

- O que foi que deu nela?


Cris escutou o Michael perguntando a Katie. E ao afastar ouviu Katie responder:

- Deve ter brigado com o Ted.

Aí Cris ficou realmente furiosa. Já era ruim não ter um conseguido nada com a

Katie, mas a piadinha dela dizendo que ela brigara com o Ted fora pior ainda,

principalmente porque era verdade.

Achou uma mesa desocupada e tentou se convencer que tava com fome para fazer

seu lanche.

- Olá, Srt.ª Cris! Ouviu uma voz conhecida e irritante atrás dela.

Cris não estava disposta a conversar com o Fred.

- Consegui umas fotos fabulosas no jogo de sexta-feira. Você devia ter ido. Adoro

sua máquina. Vai precisar dela no resto da semana? Se você não se importa, quero

terminar este rolo de filme.

- Tudo bem, disse Cris sem erguer o rosto.

- Obrigadão! respondeu Fred.

Ele estava prestes a se afastar quando parou:

- Você está bem? indagou.

- Claro. Estou ótima.

- Então, por que está sentada aí sozinha?

- Preciso fazer um trabalho de escola, mentiu. Fred sentou-se ao seu lado.

- Cris, você está mentindo. Não está com nenhum livro. É uma péssima mentirosa. É

bom você saber disso. Problemas com o namorado?

Cris não lhe deu atenção.

- Problemas em casa?

Ela desembrulhou o sanduíche para começar a comer.

Fred não desistia. Aproximou-se mais e disse em voz baixa:


- Pode confiar em mim, Cris. Seu pai a está surrando?

A pergunta provocou-lhe um rápido e silencioso riso, porque a idéia do seu pai

dando-lhe uma surra era totalmente absurda.

- Não, Fred, o meu pai não bate em mim.

- Pois o meu bate.

Cris olhou para o Fred pela primeira vez. Ele falava sério,

- Seu pai realmente bate em você, Fred?

- Bem, batia, antes que minha mãe se divorciasse dele. Eu não o vejo desde que

tinha nove anos. Nem sei onde ele mora agora. A razão pela qual eu levantei a questão é

que eu costumava sentar-me sozinho no almoço todos os dias quando era menino,

principalmente depois que ele me batia. Eu não queria que perguntassem por que eu

estava com aquelas marcas roxas no corpo.

Fred levantou o braço direito de Cris e verificou-lhe os olhos. Não tem nenhum

vergão. Você deve estar dizendo a verdade.

Sorriu então como se fizesse pouco caso do assunto.

- Fred, sinto muito. Eu não tinha idéia...

- Claro. Isso não é algo que a gente sai contando aos quatro ventos, certo? Além do

mais, faz tempos que ele sumiu.

- Mas as lembranças demoram mais pra sumir, não é mesmo? perguntou Cris.

Parecia que os olhos de Fred iam ficando turvos.

- É. Bem, a vida continua. Nada é perfeito, sabe. Nem sei por que eu lhe disse isso.

Não comenta pra mais ninguém, não, ta bem? Eu ia ficar muito chateado.

Cris sorriu e concordou.

- Não se preocupe. Seu segredo está guardado comigo.

- Acho que eu sabia que ficaria. Então, você não me disse qual é o seu problema.
Com as revelações do Fred, Cris quase se esquecera dos seus problemas com Katie,

Michael e Ted.

- Ah, na verdade, não é nada demais. Mas estou contente por você ter aparecido. Eu

me sinto melhor. Obrigada.

- Aí o sorriso que eu esperava! disse Fred. E antes que Cris pudesse impedir, ele

levantou a câmara e apontou bem de perto para o rosto dela.

- Sorrisão, Srt.ª Cris!

- Fred, não me fotografe!

Ela colocou a mão em frente da lente, bloqueando o instantâneo no momento que a

máquina fez "clique".

- Ei! protestou o rapaz. Teria sido uma fotografia excelente. Por que fez isso?

- Porque eu já lhe disse que não quero ser fotografada.

- Mas é parte do nosso relacionamento. É minha maneira de documentar o ano que

passamos juntos.

- Fred, nós não temos um "relacionamento". Estar juntos para nós é só o fato de que

estamos na turma do Anuário. Só isso.

- Você vê as coisas do seu jeito; eu as vejo do meu.

- Fred... principiou Cris, mas não sabia mais o que dizer.

Sentia-se frustrada. Ele se abrira com ela, falando do pai, e ela comoveu-se por ele.

Mas o Fred parecia ver no seu gesto de comiseração um sinal de que o relacionamento

entre ele progredindo, aprofundando mais.

Resolveu tentar ignorá-lo. No primeiro grau, isso dava certo com os garotos iguais

ao Fred. Se ela se limitasse a comer seu sanduíche sem falar com ele, talvez ele ligasse o

"desconfiômetro".

Infelizmente, parecia que o Fred se contentava com o silêncio. Abriu o lanche dele
também e se pôs a comer. De vez em quando olhava para as pessoas que por acaso

passavam e dava um sorriso, como se os dois tivessem combinado lanchar juntos ali.

- Preciso ir até o meu armário, disse Cris de repente, enfiando de volta no saquinho o

resto do sanduíche e levantando-se.

- Vou com você.

- Não precisa. Vou dar uma parada no banheiro também. Você não pode me

acompanhar lá.

- Então eu a vejo na sala de aula daqui a pouco.

Quando Cris começou a se afastar, Fred disse baixinho:

- Obrigado por ter almoçado comigo. Nove anos é muito tempo para se almoçar

sozinho.

Cris continuou andando, mas começou a pensar na situação do Fred ao longo desses

anos. Teria realmente alguma coisa mudado na vida dele? Em parte, ela sentia pena dele e

queria forçar-se para ser mais amável com ele. Ele não era assim tão mau. Tinha uma boa

personalidade. Se ao menos não tivesse uma aparência tão rejeitável...

Quanto mais pensava no assunto, mais Cris percebia que o problema do Fred era a

aparência. Mas ela também já tinha problemas bastantes. Começou a planejar como ligaria

para o Ted no momento em que chegasse em casa. Jurou a si mesma que não dormiria

enquanto não acertasse tudo com ele.

Conseguiu finalmente falar com o Ted às 21:45. Ele parecia estar de ótimo humor,

nem um pouco abalado pela briga da noite anterior.

- Estou muito arrependida, Ted. Nem acredito que desliguei o telefone na sua cara.

- Você estava zangada.

- Mas não devia estar.

- Por que não?


- Porque eu não devia ter ficado tão irritada.

- Sabe o que CS. Lewis disse? perguntou Ted. Ele disse: A ira é o fluido que sai do

amor quando o cortamos."* Li isso um dia desses. Você gosta da Katie. O Michael está

"cortando" esse relacionamento, e está saindo ira de você. Isso é natural.

__________________

* Letters to Malcolm: Chiefly on Prayer (Cartas a Malcolm: principalmente sobre mação). Nova Iorque: Harcourt,

Brace and World, 1964, p. 97.

- Então acha que estou certa em sentir-me assim?

- Eu não disse que está certa, disse que é natural. O jeito certo quase nunca é o

natural. O jeito certo é o de Deus, que é sobrenatural.

- E como é que vou passar do natural para o sobrenatural? indagou Cris.

No momento em que perguntou isso, já sabia qual sem resposta.

- Ore, replicou.

- Foi exatamente o que eu pensei que você diria.

Ted deu uma risada.

- É difícil, não é mesmo?

- Sim. Eu achava que quanto mais eu crescesse na vida cristã, mais fácil seria.

Parece que só está ficando mais difícil.

- Mais difícil, mas melhor. Acho que não deveríamos querer que fosse de outro jeito.

Todo relacionamento envolvendo o amor verdadeiro parece tornar-se mais difícil, mas

melhor à medida que se aprofunda.

Cris se perguntou se ele estava se referindo ao relacionamento com Deus, com ela

ou com ambos. Tornar-se mais difícil e melhor certamente se aplicava a ambos os

relacionamentos de sua vida.

- Bem, mesmo assim quero pedir perdão pelo jeito como desliguei o telefone, Ted. E
continuo preocupada com a Katie. Vou procurar orar mais. De qualquer jeito, aprendi que

não quero mais esperar muito tempo para pedir desculpas a você. Foi horrível passar um

dia inteiro vivendo esse impasse entre nós.

- É, eu também não gosto de me sentir assim. Eu estava na casa do Douglas quando

liguei para você ontem à noite. Senti que não ficava bem tornar a ligar principalmente

com o Douglas ao lado. Ele me disse para deixar pra lá. Disse ainda que isso talvez fosse

bom para o nosso relacionamento. Por um momento quase pensei que ele estivesse

contente de vê-la zangada comigo. Por acaso, ele não ligou para você ontem, ligou?

- Não. Tentei ligar pra sua casa, mas só caía na secretara eletrônica.

- Quer vir para cá neste fim de semana? Você não poderia ficar na cada de Bob e

Marta e ir comigo à igreja no domingo?

- Tenho de trabalhar sexta-feira à noite e sábado o dia inteiro. E tenho compromisso

de mais um domingo na classe do maternal na igreja. Queria não ter tantos compromissos.

Realmente, queria poder passar mais tempo com você, e não apenas um cinema rápido no

sábado à noite.

- Eu sei bem o que você quer dizer. Que tal então no outro fim de semana, se você

não tiver mais compromisso com a classe? Será que o Jon deixa você sair mais cedo no

sábado?

- Vou ver o que consigo. Estou precisando passar mais tempo com você, Ted. Parece

que tem tanta coisa acontecendo e estamos tão longe um do outro.

- Então no outro fim de semana. Vamos passar juntos. Eu ligo para você neste fim de

semana, depois que você chegar do trabalho.

Cris nem tentou esconder sua frustração quando disse:

- Então, quer dizer que você não vem este fim de semana? Podíamos fazer alguma

coisa sábado à noite quando eu sair do serviço, ou talvez domingo à tarde.


- Tenho de ficar por aqui e estudar. Este semestre está superpuxado; já estou atrasado

com os trabalhos. Depois eu ligo para você e passaremos juntos o outro fim de semana.

Duas longas e horríveis semanas sozinha! pensou Cris. Já fora ruim passar vinte e

quatro horas sem acertar as coisas entre ela e Ted. Agora teria de esperar duas semanas

para vê-lo de novo! Seria uma eternidade.

Nos anos anteriores, quando eles ainda não estavam namorando, não fora muito

difícil estar longe dele. E toda vez que o via, era uma festa. Agora tinha a sensação de que

deveriam estar juntos sempre que possível.

Resolveu que sairia cedo do trabalho no outro sábado e terminaria logo o dever de

casa para passar o tempo todo junto dele. Tudo parecia ótimo até a noite seguinte, quando

Cris falou de seus planos com sua mãe.

- Mas é o aniversário de seu pai. Pensei em fazermos algo juntos, toda a família,

disse a mãe. Talvez a gente vá fazer um piquenique nas montanhas.

- O Ted poderia vir conosco, não poderia?

- Bem, não sei. É o aniversário do seu pai. E ele quem deve decidir.

Isso não preocupou Cris. Seu pai gostava do Ted. Embora o Ted já tivesse viajado

várias vezes com Bob e Marta, ainda não gozara muito da companhia dos pais de Cris.

Estava na hora de começar.

- Acho que vamos apenas comer um bolo aqui em casa mesmo, disse o pai dela mais

tarde aquela noite. Não sou muito de fazer turismo pelas montanhas.

- Posso convidar o Ted?

Pela cara do pai, Cris notou imediatamente que a idéia de incluir o Ted na

comemoração simples da família nunca passara por sua cabeça.

- Talvez não, disse a mãe, interpretando a expressão do marido. Vamos manter a

coisa só em família. O próximo fim de semana você passa junto com o Ted.
Três semanas! Para Cris parecia uma vida inteira. Como ela poderia calmamente

esperar três semanas para se encontrar com o namorado? Alguma coisa tinha de mudar.

A primeira em que pensou foi o emprego. Mudaria o horário para ficar com o sábado

livre. Talvez trabalhasse uma ou duas noites da semana além da sexta-feira. O Ted estava

estudando mesmo e não viria à noite durante a semana. Desse jeito eles teriam os sábados

livres para passar juntos.

Naquela sexta, quando chegou à loja, Cris se aproximou de Jon com o pedido. Ele

ficou pensando.

- Pode ser. Se eu arranjar alguém para cobrir o horário de sábado, talvez possa lhe

dar folga nesse dia. O problema é que não tenho vaga em outras noites da semana. Se

quiser abri mão dos sábados, provavelmente só terá as cinco horas de sexta-feira. Será que

vai ter dinheiro suficiente para a gasolina* do carro?

________________

*Nos Estados Unidos, os jovens tiram carteira aos dezesseis anos, mas nesse caso, muitos pais, como os

pais da Cris por exemplo, insistem com os filhos para que trabalhem e paguem o combustível e despesas

eventuais do próprio bolso. (N. da T.)

Jon tinha razão. Cinco horas não lhe dariam muito dinheiro para seus encargos

pessoais, principalmente tendo em vista as despesas extras de último ano no colegial.

- Não sei. Só sei que tenho coisas demais para fazer e terei de cortar algumas. Não

estou tendo tempo para sair com os amigos.

Jon produziu um ruído típico - "clique" - que fazia quando tratava das aves e dos

porquinhos-da-índia, principalmente quando ia alimentá-los. Agora parecia estar usando o

mesmo para confortá-la.

- O tempo é uma coisa esquisita, não é mesmo? Nunca parece ser suficiente quando

temos coisas a fazer. E quando não se tem o que fazer, parece que ele sobra.
- Tem razão, disse Cris, tão desanimada na aparência quanto no coração.

- Mas não se preocupe. Vamos encontrar uma saída. É bom você aproveitar bem o

tempo neste seu último ano de colégio, aconselhou ele dando uma piscada e um sorriso.

Esperamos que você só tenha um último ano de colegial!

Que foi que o Ted dissera? Mais difícil, mas melhor. Talvez ele estivesse certo

quanto ao "melhor", mas no momento ela só conhecia o lado "mais difícil".

Trinta por Cento de Desconto


10

Ao voltar para casa naquela sexta-feira, Cris pensou que precisava colocar algumas

coisas em ordem na sua vida. A primeira coisa era fazer as pazes com Katie.

Na manhã seguinte, ligou-lhe para perguntar se queria ir junto para o trabalho e se

poderia almoçar em companhia dela, como antes. Quando telefonou, obviamente Katie

ainda não rinha acordado.

- Que horas são?

- Oito e pouco. Acordei você?


- É, mas não faz mal. Cheguei em casa quase às duas da manhã, explicou Katie,

dando um enorme bocejo. Estou exausta, mas foi bom você me ligar. Estava pensando se

você ia me deixar de lado pra sempre.

- Só chegou em casa às duas? Aonde foi?

No momento em que Cris falou, percebeu que parecia uma velha apoquentando a

amiga, dificultando a "reconstrução" do relacionamento entre as duas, que já estava meio

abalado.

Katie fez uma pausa e, com a voz irritada, retrucou:

- Fomos a um concerto em San Diego.

- Desculpe; eu não queria dar uma de chata, disse Cris. Depois, se esforçando para

parecer o mais natural possível, perguntou: Vocês se divertiram?

- É claro que sim. Eu e Michael sempre nos divertimos.

Cris quis responder num tom otimista.

- Ótimo, Katie!

- Está dizendo isso com sinceridade?

Cris sabia que não conseguiria mentir. Como resolver isso? Parou, pois não tinha

uma resposta convincente.

- Não faz mal, continuou Katie. Não precisa responder. Sei o que você pensa do

Michael. Não precisa mentir pra mim. Jamais. Eu também não vou mentir pra você, e sabe

disso. Queria que você ficasse contente comigo. Nunca me senti tão feliz em toda a minha

vida, Cris. Sinto que posso ser eu mesma. O Michael gosta de mim. Dá pra acreditar?

- Claro que acredito. Tem mais é que gostar. Você é um tesouro, Katie.

- Entendeu o que eu disse? O Michael gosta de mim, Cris. É primeiro cara que

realmente se interessa por mim, e estou morrendo de tristeza por você não se alegrar

comigo.
- Eu só queria que ele fosse cristão, Katie.

- Por que isso é tão importante pra você? Não vou casar com ele! Estamos apenas

namorando. Só isso. Ele é muito aberto para Deus e para as coisas espirituais.

Cris parou, procurando escolher com cuidado as palavras.

- Mas, Katie, você e Michael estão ficando íntimos tão depressa, que me preocupo

com você. Ele não tem os mesmos padrões que você.

- Tem sim, respondeu Katie imediatamente, na defensiva. Você é que não o conhece,

Cris. Não sabe como ele é. Você é tão cheia de auto-justificação, que nem sequer procura

conhecê-lo, pois acha que ele não se enquadra no seu padrão de perfeição cristã. Deixe eu

lhe dizer uma coisa: o Michael é mais cavalheiro comigo do que o Rick Doyle foi, e o

Rick, ao que se sabe, é um grande cristão. O Rick me beijou sem ter amor por mim. Eu

era apenas mais uma conquista, um joguete. Quando o Michael me beija, sei que ele o faz

do fundo do coração. Ele leva nosso relacionamento muito a sério, como eu levo.

- Vocês já se beijaram?!

- Claro que sim! Você e o Ted não se beijam? Por que esse tom moralizante? Não fiz

nada que você não tenha feito. Não estou fazendo nada de errado!

Cris sabia que Katie estava totalmente acordada e na defensiva. Não seria muito

fácil reatar naquele momento a comunicação dos dois lados. Em vista disso resolveu

mudar de assunto.

- Podemos almoçar juntas hoje e nos encontrarmos na praça de alimentação à uma

hora, no shopping? Queria levar um papo com você e gostaria que fosse só entre nós duas.

- Hoje não posso. Tenho outra coisa pra fazer, disse Katie parecendo um pouco mais

calma.

- E depois do serviço? Podemos conversar então. Você ainda sai às seis?

- Na verdade, não trabalho mais no estúdio fotográfico.


- Verdade? Desde quando? O que aconteceu?

- Fui despedida.

- Katie, quando foi que isso aconteceu? Por que não me contou?

- Bem, este ano você não me pareceu muito disposta a jogar conversa fora.

- E o que aconteceu?

- Tirei muita folga, meu patrão não gostou, e por isso me "liberou". Foi melhor

assim. Com meu horário de trabalho arrochado como era, não me sobrava tempo para os

amigos.

Cris sabia exatamente o que Katie queria dizer; mesmo assim, era horrível saber que

fora despedida.

- Vai procurar outro emprego?

- Acho que não. Pelo menos por hora. Mas isso não tem tanta importância.

- Não tem tanta importância?! Cris tentava achar as palavras certas. Você está

mudando, Katie. O que está acontecendo com você?

- Estou me descobrindo, respondeu Katie confiantemente. E o bom de tudo isso é

que, graças ao Michael, estou gostando do que estou descobrindo.

Ficaram em silêncio por um momento. Aí Katie retomou conversa, falando baixo:

- Sabe, Cris, estou lembrando de todas as mudanças pelas quais você passou desde

que nos conhecemos, todos os rapazes, as situações difíceis. Durante esse tempo eu tentei

estar ali, dando-lhe uma força e tentei entender você. Seria muito bom se você pudesse me

dar um pouquinho de apoio agora. Se tentasse compreender e até mesmo ficar um pouco

feliz por mim; isso me seria muito valioso.

- Katie, quero mesmo lhe dar meu apoio. Tenho feito isso em muitas situações esses

anos todos. Talvez mais do que você possa imaginar. O problema é que, conforme venho

observando, você está se apaixonando por um rapaz que não é cristão, e eu não consigo
me sentir bem com isso.

Katie deu um suspiro.

- Então talvez eu tenha me enganado com relação a você e à nossa amizade. Pensei

que você se interessasse mais por mim do que por todas essas leis religiosas. É exatamente

como disse o Michael: a religião e a política têm a mesma base. É tudo uma questão de

partido, e tome bala quem não estiver do nosso lado.

- Katie, isso não é verdade...

- Acho que é. Preciso desligar, Cris. Tem uma chamada na outra linha. Pense no que

eu lhe disse e a gente conversa depois, quando você estiver disposta a abrir um pouco a

cabeça.

No trabalho foi difícil para Cris se concentrar e agir como se nada tivesse

acontecido. Tudo que ela pensava sobre a amizade, namoro e o cristianismo ficou abalado

naquela conversa de telefone. Como as coisas podiam ter mudado tanto e tão depressa?

Durante a semana seguinte, ela ficou atrás de Katie, tentando voltar à amizade de

antes. O Michael, por sua vez, interpretava a interferência dela como um meio de separá-

lo de Katie.

Após quatro dias de tensão na hora do almoço, debaixo daquela árvore, na sexta-

feira, Cris achou melhor deixar Katie e Michael sozinhos e continuar na segunda. Achou

que estava agindo certo, ficando ao lado de Katie. Fora o que Ted a aconselhara a fazer,

não sem antes avisá-la de que poderia vir a ficar magoada.

"Lembra-se do que acontece ao amor quando a gente o corta? O fluido que sai dele

por vezes é a ira."

E parecia que era exatamente isso - ira - que Katie dirigia a Cris, com seus

comentários cruéis e argumentos defensivos.

- Então, é só nas sextas e segundas, ou o quê?


Cris ouviu a voz do Fred atrás dela minutos depois, enquanto se dirigia a uma das

mesas do pátio.

- Virou ritual agora - começo de semana... fim de semana? continuou ele.

- O que foi que você disse?

- A última vez que você veio aqui era uma segunda-feira, lembra? Não desta semana,

da outra. Estou tentando descobrir o que está fazendo. Você só lancha sozinha nos dias em

que o cabelo está ruim ou o quê?

Fred sentou ao seu lado e abriu a lata de refrigerante.

- Não, só lancho sozinha quando não tem outra pessoa para almoçar comigo.

Ao ouvir suas próprias palavras, Cris percebeu como parecia amargurada. A triste

verdade era que passara tanto tempo com a Katie nos últimos anos, que não desenvolvera

amizade com outras pessoas na escola. Pelo menos ninguém que a convidasse para dar

uma chegada a uma lanchonete na hora do almoço.

- Não tem problema, falou ele. Acontece que hoje estou livre, e não me importo nem

um pouquinho de comer ao seu lado.

- Obrigada, Fred, respondeu com sarcasmo.

Cris esperava que ninguém a visse com ele. A constante atenção do rapaz a

perturbava. Ele parecia sempre estar ao seu lado, não apenas na aula de anuário mas

também na hora do almoço. Comeu seu sanduíche em silêncio, escutando o barulho

esquisito que Fred fazia ao tomar o refrigerante.

- Sabe, Fred, você seria muito mais... atraente se, bem, não fizesse tanto barulho

quando está comendo ou tomando alguma coisa.

- Bela observação, disse ele sem parecer ofendido. Não percebi que eu estava

fazendo barulho, mas você está certa, é num grosseiro.

Cris deu-lhe um pequeno sorriso, e continuou a comer.


- O que mais?

- Como assim?

O que mais me tornaria mais atraente? Quero dizer, não sou burro. Sei que não sou o

tipo de rapaz pelo qual uma garota como você se interessaria, por mais que eu sonhasse

namorá-la.

- Fred!

- Não se preocupe. Não estou tentando competir com o seu namorado, como lhe

disse no início das aulas. Ando pensando muito. Não sou o seu tipo, e sei disso. Mas o que

tenho pensado é: Como posso melhorar pra um dia vir a atrair uma garota como você?

Cris sentiu-se meio sem jeito.

- Sei não, Fred.

- Sabe sim. Você sabe o que as garotas gostam num rapaz. Faz de conta que você é

minha irmã. O que diria? Quer dizer, tem dó de mim, estou no último ano e nunca saí com

uma garota e toda as vezes que telefonei para uma ela desligou o telefone na minha cara.

Você não pode me dar um curso intensivo de "melhoria de personalidade"?

Cris não sabia o que responder. Ninguém jamais tinha lhe feito tal pedido. Mas o

Fred era sincero e tinha bastante potencial. Ela sabia que, por ter se afastado do pai desde

os nove anos de idade, certamente ele não dispunha de modelos positivos de

masculinidade.

- Bem, talvez pudesse tentar mudar o cabelo.

- Como? Cortar?

- Claro. Poderia ir a um desses salões onde eles sugerem o corte que melhor

combina com o tipo do seu rosto.

Fred pareceu animar-se com a sugestão.

- Excelente idéia. A minha mãe é quem corta meu cabelo desde que eu era menino.
Talvez seja hora de mudar.

- Claro, disse Cris com entusiasmo. Dê uma folga a sua mãe. Peça no salão que

mostrem como deve arrumar o cabelo. Sabe, não precisa muito fixador, nada disso.

- Eu uso o gel da minha mãe.

- Talvez você devesse comprar alguns produtos próprios para seu cabelo. Eles

devem ter uma linha masculina, que seria bom, já que você não precisa do mesmo tipo de

produto que uma pessoa que usa permanente. Isso é apenas um exemplo.

- Isso é ótimo, Cris! Você não sabe o quanto aprecio seu conselho. Quer ir comigo ao

salão? Podia ser hoje mesmo, logo depois da aula. Você diz ao cabeleireiro o que acha que

ficaria bem em mim.

- Eu trabalho depois da aula, Fred. Mas obrigada pelo convite.

- Na loja de animais do shopping, certo? Sem problema. Eu vou lá depois mostrar

pra você como fiquei.

- Você não tem um jogo de futebol pra fotografar?

- Não tem problema. Peço a outra pessoa da equipe ir esta semana. Certamente o

futuro de minha imagem é mais importante do que algumas fotos de futebol. Tenho me

privado demais. Chegou a hora de dar passos mais ousados!

Ela teve vontade de rir do Fred, tal era o ânimo demonstrado por ele. Mas, na

verdade, Cris apenas lhe sugerira um tratamento capilar sem grandes novidades, algo

absolutamente normal. No entanto, percebia-se que para ele isso era muito importante. E

ela ficou um pouco curiosa para ver o resultado.

Na verdade, Cris ficou contente quando Fred apareceu na loja, embora não tivesse

coragem de confessar isso nem ao Jon nem a qualquer pessoa no trabalho. Só que parecia

o mesmo. Nenhuma transformação ocorrera.

- Dê uma última olhada no velho Fred, disse ele, ao aproximar-se de Cris, junto à
caixa registradora. Volto dentro de uma hora e você não me reconhecerá.

- Divirta-se! disse Cris com entusiasmo, ao mesmo tempo que lhe acenava com a

mão, no momento que ele saía da loja.

Pouco mais de uma hora depois voltava o Fred, justo no momento em que ela tiraria

seu intervalo de café. Estava a fim de um iogurte geladinho, e o Jon lhe dissera que na

lanchonete da esquina tinham framboesa com chocolate da Bavária, o seu predileto. Mas

Fred veio atrapalhar seus planos.

- O que você acha? indagou ele.

Virou-se e mostrou o elegante corte de cabelo. Era a primeira vez que Cris o via sem

brilhantina na cabeça. A cor mudara. Em vez de margarina oleosa era loiro claro. Com o

novo corte, ele ficara até bonito.

- Está ótimo, Fred. Gostei. E você, gostou?

- Pareço outra pessoa. E tenho de agradecer a você pela sugestão. Agora, preciso de

seu conselho sobre uma camisa que estão guardando pra mim lá na loja. Quando é seu

horário de café? Eu queria muito saber sua opinião.

Cris hesitou, mas concordou.

- Tenho alguns minutos agora mesmo, se você promete que a gente não demora.

- Sem problema. A loja é aqui perto e a camisa já está reservada.

Fred saiu na frente e ficou esperando Cris. Jon e Cris se entreolharam. Ela começou

a dar explicações.

- Escutei tudo, disse ele, e falando baixo, acrescentou: Se estiver em oferta,

convença-o a comprar pelo menos duas. Parece que o guarda-roupa dele tá precisando ser

renovado.

Cris apressou-se a acompanhar Fred. Nos seus quinze minutos de café, eles andaram

por toda a seção de roupa jovem e ele foi lhe mostrando um monte de camisas, camisetas,
calças, e até meias, pedindo-lhe opinião sobre tudo.

- Está na hora de voltar pra o trabalho, disse Cris. Tenho certeza de que você

consegue escolher sozinho, Fred.

- Tudo bem. Acho que vou me lembrar do que você mais gostou. Você me ajudou

muito, Cris, mais do que pensa. Muito obrigado. Obrigado mesmo.

- Às ordens. Ah! se tiver alguma coisa em oferta, talvez você devesse comprar duas

peças. Conselho de um amigo meu.

- Bom conselho. Depois passo lá para lhe mostrar as que escolhi. Mais uma vez,

obrigado!

Cris até poderia ter previsto a reação brincalhona do Jon quando ela voltou.

- Quem sabe você acaba se tornando uma consultora de modas, disse ele, sem erguer

a cabeça, atento a uma soma na caixa registradora. Pode ser que assim ganhe mais do que

trabalhando numa loja de animais.

- Pode guardar suas piadinhas. Eu só estava querendo ajudar o rapaz. Ele me pediu

uma opinião.

- Pense nisso, Cris. Se você tiver talento natural para consultoria de moda, talvez

devêssemos abrir uma seção para donos de poodles. Nós lhe damos lãs coloridas, e você

aconselha a cor do suéter de cada cachorrinho.

Cris achou engraçado Jon dizer isso, porque, embora amasse toda espécie de animal,

não tinha a menor consideração por poodles. Jon os achava uma aberração da natureza,

indignos de ser chamados de cachorros, quanto mais membros de carteirinha do reino

animal.

- Sabe, pode ser que a promoção aumente os negócios, Jon! Seria muito agradável

ver longas filas de fregueses na loja, cada um com seu poodle na mão. Um monte de

poodles. Sim, é isso que essa loja precisa. Podemos colocar um cartaz na vitrine: "Poodles
têm preferência."

Jon deu um largo sorriso.

- Vou tirar uma folga de alguns minutos. Volto daqui a pouco.

Cris esperava que Fred aparecesse durante o tempo que Jon estivesse fora, mas ele

não apareceu. Jon ainda tinha aquele sorriso engraçado na cara quando voltou, as mãos

para trás. Ensaiando um arzinho de seriedade, ordenou:

- Agora quero que você leve isso para os fundos e comece a marcar os vidros de

ração de peixe. Não volte enquanto não terminar.

Deixando aparecer as mãos que estava escondendo, mostrou uma grande taça da

lanchonete, cheia do seu iogurte preferido: framboesa e chocolate da Bavária.

- Ah! já que você insiste, disse Cris com um suspiro, aceitando o presente. Você é

por demais severo comigo, sabe? Fica me tratando deste jeito - e Cris ergueu a taça para

dar com esse gesto mais firmeza às palavras - e vou acabar achando que você está com

medo de que eu largue o emprego um dia desses.

- É exatamente disso que tenho medo, disse Jon. E voltando ao tom brincalhão,

acrescentou:

- Agora, mãos ao trabalho!

Cris tinha acabado de provar a primeira colherada do iogurte, quando ouviu Jon

dizer:

- Claro, pode ir vê-la. Ela está nos fundos.

Um instante depois, Fred, o novo Fred da versão revista e atualizada, aparecia na

sala dos fundos. Cris engoliu depressa iogurte, quase engasgando, e exclamou:

- Fred! Você está um gato!

- Gostou? Esta é a camisa azul que você escolheu. Comprei outra verde também.

Ele realmente tinha passado por uma transformação. Estava bonito, na moda. Cris
sabia que isso era uma grande vitória para ele, e de certa forma ficou contente consigo

mesma por tê-lo ajudado na metamorfose.

- Devo tudo a você, Cris.

Naquele momento, Cris escutou Jon dizer:

- Pode ir lá na sala dos fundos. A Cris está recebendo suas visitas lá.

Antes que ela pudesse virar a cabeça, Fred, em sua exuberância, passou o braço em

torno dela, e exclamou:

- Você nunca entenderá o quanto significa pra mim, Cris!

Assustada com o abraço, Cris se afastou e virou-se. Era o Douglas que estava ali

bem ao lado de Jon.

- Olá! disse Cris cumprimentando Douglas, e sentindo o rosto queimando de

vergonha. O que está fazendo aqui?

- Oh não! disse Fred, dando um passo para trás. Esse muro de tijolos é o seu

namorado?

- Só nos meus sonhos, disse Douglas.

- Você também, disse Fred, relaxando e estendendo a mão para cumprimentá-lo. Eu

sou o Fred.

- Douglas. Devo mencionar, porém, com toda justiça, que o namorado de Cris é o

meu melhor amigo. Ele é o muro de tijolos com o qual você devia se preocupar.

Não dava para acreditar que tudo isso estivesse acontecendo. Será que o Douglas

achava que estava rolando alguma coisa entre ela e o Fred? Ele não diria nada ao Ted,

diria?

- O Fred faz parte da equipe do anuário da escola comigo, disse Cris, esperando que

Douglas se esquecesse de que vira o rapaz lhe dando um abraço. Ele fez umas compras e

passou por aqui pra me ver.


Fred sorriu, exibindo ao Douglas seus dentes desalinhados.

- Ela me transformou num novo homem!

Naquele momento, Cris diria que a transformação do Fred não era muito evidente.

Ele ainda tinha a mesma personalidade e o mesmo jeito de rir, aproximando-se da cara das

pessoas e provocando nelas o impulso de se afastar dele.

- Com um novo corte de cabelo e roupa nova, disse Fred, abrindo os braços para que

o vissem por inteiro.

Uma etiqueta com preço ainda estava pendurada do lado de dentro de sua manga

direita.

- Estou novinho em folha! exclamou.

- Parece que você ainda tem um desconto de trinta por cento, meu chapa, disse Jon.

Cris não tinha certeza se ele se referia à etiqueta de preço ou se isso era uma dica

sutil indicando que ainda faltava muito para ele se tornar uma nova pessoa.

Pegando uma faca de abrir caixas, Jon cortou o fio plástico da etiqueta de preço e

entregou-o ao Fred.

- Sabe, essa etiqueta me lembra alguma coisa. Você se lembra, Cris?

- É mesmo, a ração de peixes. Vou começar imediatamente, Jon.

Jon sorriu para os dois rapazes, e continuou:

- Etiquetar ração de peixes parece uma tarefa um tanto humilde para nossa

coordenadora de modas, tão popular. Ma a verdade é que eu lhe pago para fazer esse tipo

de trabalho,

O comentário foi feito num tom brando, o que deixou Cris aliviada. Mesmo assim,

ela sabia que, embora seu chefe fosse uma pessoa tranqüila, ele podia ficar nervoso se

tivesse muito trabalho ou pouca gente para cuidar do serviço. Sabia também que o fato de

ela ter pedido folga no sábado seguinte complicava ainda mais. Jon lhe dera a folga
mesmo sem ter arranjado alguém para ficar no seu lugar.

- Não tem problema, disse Fred. Tenho que ir andando. Vi um cartaz de liquidação

em uma sapataria. É melhor eu comprar um par agora, antes que veja quanto já gastei.

Pode ser que eu precise de um outro emprego e acabe colocando etiquetas em ração de

peixes também, pra sustentar minha nova imagem!

Cris e Jon se entreolharam. Passou então pela cabeça de Cris a idéia de que, se Jon

contratasse o Fred, ela poderia, sem problema algum, ficar livre de uma vez para sempre

do trabalho aos sábados. Mas o olhar do Jon dizia claramente: "Nem pense numa coisa

dessas!"

Pegando uma folha de etiquetas já marcadas, Cris começou a afixá-las nos vidros

redondos de ração para peixes. Jon voltou para a frente da loja. Fred saiu com seus

pacotes, e Douglas ficou.

- Quer ajuda?

- Claro, obrigada. Quer um pouco do meu iogurte gelado?

Sabia que era uma pergunta já respondida. Douglas adorava comer, de tudo, a toda

hora, em qualquer lugar, qualquer tipo de comida. Claro que ele aceitaria um pouco do seu

iogurte.

Ainda bem que tomei uma colherada antes que ele aparecesse!

Cris estava prestes a perguntar ao Douglas o que ele viera fazer ali quando da porta

veio uma voz com um sotaque que ela conhecia muito bem.

- Com licença, você é o Douglas?

Cris reconheceu Michael imediatamente. Ela sabia que ele e Douglas não se

conheciam. Então, por que ele estava à sua procura?

- Sim, eu sou o Douglas.

- E é verdade que você esteve num barco na lagoa Shasta, no final da semana do Dia
do Trabalho? indagou Michael em tom sério.

- Estive.

Douglas olhou para Cris como se lhe pedisse alguma explicação. Como esse

desconhecido sabia que eles tinham passado o final de semana num barco? Antes que Cris

pudesse fazer as apresentações, Michael continuou, falando agora mais alto:

- Foi você que andou de jet ski com minha irmã, Natalie?

- Foi, sim... andei de Wave Rider com Natalie, mas...

- Então prepare os punhos, homem. Vim defender a honra de minha irmã.

Michael fazia o papel de irlandês furioso de modo tão convincente, que por um

momento Cris esqueceu que isso tudo deveria ser uma piada. Então viu Katie escondida

atrás de uma gaiola, tampando a boca com a mão. Katie parecia estar gostando

imensamente da brincadeira. Cris sabia que esta era a doce vingança de Katie do soco na

cara.

Douglas levantara o punho cerrado para se defender do irlandês de cara vermelha.

- Sério, cara, eu não fiz nada. Eu e Natalie andamos de jet ski. Só isso! Estou

dizendo a verdade.

- Não foi o que ouvi da Natalie. Ela era uma garotinha doce e inocente até que

conheceu você! Gente como você precisa aprender uma lição, e sou eu quem lhe vai dar

essa lição.

Michael estava com os punhos em posição para uma luta de boxe. Com uma guinada

do braço direito cortando o ar entre os dois, Michael mostrou ao Douglas que falava sério.

Douglas estava atônito.

- Estou lhe dizendo, não aconteceu nada entre nós! repetiu ele, a testa já molhada de

suor.

Cris queria acabar com a cena toda antes que as coisas fossem longe demais. O que
ela tomava por piada era bem outra coisa para Katie.

- Esperem, disse Cris, dando um passo à frente, preparada para explicar tudo ao

Douglas.

Naquele instante, Michael deu outro golpe fingido em direção ao Douglas. Este,

numa reação involuntária ao soco que vinha de Michael, levantou o braço para se

proteger. Em vez disso, bateu no queixo de Cris, derrubando-a.


Uma Trégua
11

- Cris, você está bem? Douglas abaixou-se e tocou seu queixo de leve.

- Aaaai!

Era só o que ela conseguia dizer. Era mais um gemido que uma palavra, porque a

boca estava anestesiada demais para articular sons compreensíveis. As pálpebras pareciam

pesar cem quilos cada. Embora ouvisse tudo que se passava ao seu redor, por mais que

quisesse, não conseguia abrir os olhos.

- Ela está inconsciente! gritou Katie. Douglas, o que foi que você fez?

- Katie! gritou Douglas. De onde você veio?

- Ela está comigo, disse Michael. Vimos você entrando na loja de animais e

pensamos em lhe dar um susto. Não contávamos com isto. Você consegue ouvir minha

voz, Cris? Consegue abrir os olhos?

Ela ouvia claramente a voz de Michael, mas as pálpebras se recusavam a reagir. O

único som de sua boca era um gemido:

- Ôoooo.

- O que aconteceu?

Agora era a voz do Jon. Ela sabia que ele ficaria bravo com aquela brincadeira na

loja. Não poderia reclamar se ele fiasse chateado e resolvesse despedi-la. Tinha certeza de

que era tudo culpa sua. A idéia a fez chorar. Lágrimas rolaram de suas pálpebras fechadas,
e Cris não conseguia deter o pranto.

- Olha, ela está chorando! exclamou Katie parecendo apavorada. Gente, é melhor

chamar algum médico.

- Cris!

Douglas e Jon chamaram o nome dela ao mesmo tempo. Sentiu uma mão forte

levantando sua cabeça e outra pessoa limpando-lhe o rosto, enxugando suas lágrimas com

um lenço de papel. Então, sentindo livre as pálpebras abriu os olhos devagar.

Piscando algumas vezes e tentando firmar a voz, disse:

- Estou bem. É verdade, estou bem. A frase soou meio confusa por causa do queixo

latejando.

- Sinto muito, Cris, disse Douglas baixinho, o rosto quase pegado ao dela. Vou

ajudá-la a levantar-se.

Ele tomou um braço, e Jon segurou o outro. Cris ficou de pé, envergonhada por ser o

centro de toda essa atenção, exclamou:

- Gente, estou bem! Verdade. Estou ótima.

- Então por que está falando igual caminhoneiro? perguntou Katie.

Cris tentou sorrir.

- Ai.

- Sabe, Douglas, disse Katie, não é de surpreender que você não tenha uma

namorada, com esse seu jeito de conquistador, sempre deixando sua marca em qualquer

garota que se aproxime de você.

Michael e Katie riram-se.

- Eu sou o Michael, namorado da Katie. Suponho que devo agradecer-lhe por ter

causado o olho roxo nela. Foi a primeira coisa que notei. Se não fosse por aquilo, talvez

nem tivéssemos começado a conversar.


No momento, Douglas parecia mais interessado na Cris do que no namorado da

Katie ou na crítica que fez dele.

- É melhor você se sentar, Cris, falou ele segurando seu braço e conduzindo-a até à

mesa, providenciando uma cadeira para ela. É bom a gente arranjar um pouco de gelo para

pôr aqui. Tome, disse ele, entregando-lhe a taça de iogurte, agora derretido. Encoste isso

no rosto até eu arranjar um pouco de gelo.

- Já trouxe, disse Jon, voltando com um pacote de gelo. Ponha uma toalha de papel

no rosto e depois encoste o gelo nela para não queimar.

Com cuidado, Cris firmou o gelo contra o queixo ferido. Sabia que iria sentir dor

durante algum tempo.

- Podemos declarar uma trégua? perguntou Douglas a Katie quando viu Cris botando

gelo no queixo. Tenho de lhe dizer, o Michael foi bastante realista. Eu diria que você

ganhou, Katie. Acho que eu não conseguiria ganhar de você nessa, e nem gostaria de

tentar. Além do mais, não tem graça nenhuma quando alguém acaba se ferindo,

principalmente quando é uma espectadora inocente, e olhou com pena para Cris.

- Claro, vamos dar uma trégua.

Katie estendeu a mão ao Douglas. E com tom de alegria na voz, acrescentou:

- Mas você tem de admitir, foi uma boa! Michael, você merece um prêmio pelo seu

papel de irmão mais velho defendendo a honra da irmãzinha caçula!

Katie e Michael se cumprimentaram com um ruidoso e vibrante: "Toque aqui!"

- Deixamos você nervoso, não foi mesmo? disse Michael ao Douglas.

Douglas concordou e apenas esboçou um sorriso amarelo.

- O mais engraçado, disse Katie, foi acusar o Douglas de se envolver com aquela

menina quando a verdade é que ele nunca beijou uma garota.

Todos ficaram em silêncio, só quebrado pela risada de Katie. Cris sentiu todos os
olhos sobre Douglas. Sabia que ele devia estar morrendo de vergonha na frente de

Michael e Jon. Ele havia jurado que a primeira garota que beijaria seria sua esposa, no

altar, no dia do casamento. Cris via nisso um propósito nobre e honrado. Admirava-o por

manter esse padrão - um rapaz de vinte e dois anos que jamais beijara uma garota. O jeito

como a Katie falou fez com que ele parecesse um sujeito esquisito com algum problema

sério.

- Acho que devemos dar uma trégua geral, disse Cris, esforçando-se para pronunciar

as palavras com a boca latejando. Chega de gente machucada!

Katie ficou séria e todo mundo olhou para Cris.

- Na verdade, paramos aqui para ver se você queria sair conosco depois do trabalho.

Mas agora não me parece que você esteja muito disposta.

Cris abanou a cabeça.

- Mas obrigada por ter vindo me convidar. Parecia que a boca estava cheia de

bolinhas de gude.

- Você vai fazer alguma coisa, Douglas? Quer sair conosco? convidou Michael.

- Não vai dar. Tenho de ir. Pretendia dar uma parada ultra-rápida para cumprimentar

a Cris. Talvez outro dia.

- Então vamos indo, disse Katie, antes que causemos mais prejuízo. Tchau, pessoal.

A gente se vê depois, em condições menos excêntricas, espero.

Jon acompanhou Michael e Katie até a saída e disse a Cris:

- Vá devagar. Se quiser sair mais cedo, não há problema, Conto com você no

trabalho amanhã.

- Eu virei.

- Por que não vai para casa, Cris? sugeriu Douglas. Você precisa tomar aspirina e se

deitar. Seu queixo vai estar ainda mais dolorido amanhã de manhã.
- Eu vou depois de terminar de pôr preço na ração de peixes.

- Eu faço isso para você. Tenho certeza de que o Jon não vai achar ruim. Você

consegue dirigir até em casa? Eu poderia segui-la, se quiser.

- Não. Tenho certeza de que estou bem. Não é longe e estou muito bem. Verdade. Só

um pouco dolorida.

- Se você tem certeza de que está bem...

- Tenho sim. Obrigada, Douglas.

- Tá certo! Você quer dizer "Obrigada" por quase ter que brado o seu queixo...

Cris levantou-se e pôs a mão no braço do Douglas.

- Não foi culpa sua. Por favor, não fique se culpando, está bem?

Douglas estava cabisbaixo, fitando os pés; depois, com timidez, olhou-a direto nos

olhos.

- Estou muito chateado com isso.

- Não fique assim. Eu não o culpo nem um pouco. Não fique chateado.

O sorriso de Douglas voltou.

- Obrigado, Cris, você é um amor! disse ele e, carinhosamente, passou o braço sobre

os ombros dela e deu-lhe um abraço.

- O que é isso? Festival anual de abraços para Cris Miller e nos esquecemos de

colocar um cartaz na vitrine? Disse Jon, enfiando a cara na porta da sala dos fundos. Ei!

Chamei a Beverly e ela vai ficar no seu lugar pelo resto da noite. Pode ir para casa.

- Está certo. Obrigada, Jon, disse Cris, apanhando sua bolsa e encaminhando-se para

a porta. Vou procurar chegar um pouco mais cedo amanhã. .

- Você se importa se eu terminar de colocar esses rótulos aqui para a Cris? perguntou

Douglas.

- Se eu me importo? De jeito nenhum; pode colocar!


No momento que a porta se fechava atrás dela, Cris ouviu Jon perguntar ao Douglas:

- Por acaso você estaria procurando um emprego para trabalhar aos sábados?

Cris sabia que isso estava fora de cogitação, ainda mais que o Douglas nem morava

na área. Ele estava só de passagem, vindo da faculdade para sua cidade onde iria passar o

final de semana. Lembrou-se de que nem lhe havia perguntado por que passara por lá.

Talvez o Douglas conversasse com o Ted antes da Cri. Como será que ele

interpretaria o incidente para o Ted? No dia seguinte, ao telefone, Ted lhe dizia:

- O Douglas ainda está muito chateado. Ele acha que foi culpa dele.

- Eu lhe disse que não. Foi sem querer, disse Cris, apoiando os pés numa cadeira da

cozinha e encostando-se na parede.

- Vou falar com ele de novo amanhã, quando ele voltar da casa dele.

- Eu queria estar aí e ir com você à igreja amanhã.

- No próximo final de semana você virá.

- Sei, mas parece uma eternidade, replicou ela dando um suspiro.

- O aniversário do seu pai é amanhã, não é?

- Sim. Depois do culto vamos fazer um almoço especial para ele. Era pra o Bob e

Marta virem, mas eles têm um torneio de golfe em Palm Springs. Ele vai todo ano. Vai ser

só nossa família. Eu queria que você pudesse vir.

- O que você comprou para o seu pai?

- Uma lanterna de mão. Parece um presente meio bobo, mas é o que ele queria. E um

tipo especial com sinal de emergência e rádio embutido. Minha mãe acha que ele vai

gostar. Não parece um presente muito pessoal.

- Então por que você não faz um cartão bem pessoal? Você não disse que escreveu

uma redação para a aula de Inglês descrevendo seu pai? Ponha-a dentro do cartão. É bem

pessoal. Ele vai gostar e muito!


- Você acha?

- Claro. Os pais gostam de saber que estão acertando de vez i em quando.

Cris gostou da idéia do Ted e copiou a redação num papel de carta florido. E nela

acrescentou no final: "Pai, eu o amo embora não saiba expressar o quanto o amo."

Assinou: "Para sempre, sua filha, Cristina Juliet Miller."

Na tarde seguinte, quando o pai abriu os presentes, Cris começou a sentir um aperto

na boca do estômago. E se ele não gostar da carta? E se ele ficar ofendido com aquela

parte sobre "tem cheiro de curral". O final é meio meloso. O que será que ele vai dizer?

O pai abriu o cartão e leu a página em silêncio, enquanto ela mordia o lábio inferior

e tentava ignorar o olhar inquiridor de sua mãe. Para surpresa sua, ele não disse palavra

alguma. Dobrou o papel, colocou-o com cuidado de volta no cartão, e meteu o cartão no

envelope.

- O que é que dizia? quis saber David.

O pai não respondeu. Olhou para Cris, e ela viu duas lágrimas rolarem no seu rosto.

Até onde se lembrava, nunca vira o pai chorar antes.

- Você gostou, pai? indagou quase num sussurro, sentindo o queixo ainda dolorido.

- Cristina, disse ele, colocando as mãos grossas sob o queixo da filha e levantando

carinhosamente seu rosto. Você me deu o melhor prêmio que um homem poderia esperar

na vida. Estou muito feliz com você, minha filha.

Agora a Cris chorava e sua mãe também. David ficou olhando de uma para a outra,

perguntando:

- O que foi? O que é que está acontecendo? Por que todo mundo tá chorando?

Cris jamais esperava essa reação. Ted dissera que todos os pais gostam de saber que

estão acertando em alguma coisa, mais aquilo acabou sendo mais que um mero elogio ao

pai dela. De alguma maneira, ele estava enxergando suas simples palavras como um
tesouro maravilhoso. Foi uma experiência surpreendente e memorável, e Cris resolveu

que iria narrá-la no seu diário aquela noite. Descreveu a cena do almoço, e a reação de seu

pai. Depois, acrescentou:

"Isso me fez pensar no meu Pai celestial. Não costumo dizer muito a ele o quanto o

amo. Sei que ele me ama, embora eu nunca seja capaz de saber a extensão do amor dele.

Acho que nunca serei capaz de dizer plenamente a Deus o quanto o amo."

Cris teve então uma idéia. Se o coração de seu pai ficou tão locado pelo fato de ela

ter descrito seus sentimentos, quanto mais tocado não ficaria o coração do Pai celeste,

vendo-a expressar seu amor por ele numa folha de papel?

E durante uma hora, Cris se pôs a escrever e encheu duas folhas, procurando falar a

Deus do seu amor. Da mesma maneira que o almoço de aniversário de seu pai tinha se

tornado um momento de grande emoção para Cris e seu pai, essa hora em que derramou o

coração no papel perante Deus foi uma bênção para ela. Cris sentiu aí, mais que nunca, o

calor e a proteção de Deus. Teve a sensação de que ele estava bem ali, ao seu lado, o

coração dele escutando o dela, os olhos cheios de lágrimas, do mesmo jeito que o pai

ficara com lágrimas nos dele.

Mais tarde, no telefone, Cris tentou explicar ao Ted o que sentia. Ele ouviu com

atenção, e depois disse:

- Sabe, se a ira é o "sangue" que sai do amor quando o cortamos, deve haver algo

contrário, que venha do amor quando ele é nutrido. Deve ser uma espécie de doce

perfume ou coisa parecida.

- Ted, você já pensou como é poético o que acaba de me dizer?

- É, é mesmo. Isso a surpreende?

- O quê? Se estou surpresa de saber que você, no fundo, é romântico? Não, na

verdade, não. Sempre soube que é assim que você pensa e sente, apesar de não falar muito
sobre isso,

- É, de fato. Sou mesmo. Mas estou guardando.

Houve uma pausa e Cris ficou se perguntando o que ele queria dizer. Ele estaria

guardando suas expressões de romantismo para ela ou para o futuro, ou para... (não

gostava da idéia) outra pessoa?

- Há tempo para tudo, continuou Ted. Tempo para guardar os sentimentos mais

íntimos e tempo de expressá-los a outrem. Ainda não chegou a hora de eu falar dos meus

sentimentos mais profundos. Mas tenho certeza de que você sabe que eu os tenho.

- E quando será a hora certa?

- Não sei. Como é que as folhas sabem que chegou a hora de mudar de cor? É algo

sobrenatural, que elas fazem de modo natural, quando Deus coloca todos os elementos

certos no lugar. No momento, é hora de nós dois... ele parecia não encontrar a palavra

certa.

- Aproveitarmos o momento presente? sugeriu Cris, lembrando-se do conselho do tio

lá no barco.

- É, creio que sim. Mas mais que isso. Vou ter de pensar um pouco mais no assunto.

Cris também ficou pensando no assunto. E pensou principalmente quando ia para a

aula na sexta-feira. Algumas árvores já iam trajando sua veste outonal e dançavam à brisa

da manhã. Lembrou-se da pergunta do Ted: "Como é que as folhas sabem que chegou a

hora de mudar de cor?" e de que havia uma hora certa para tudo.

E a hora de ver o Ted finalmente vai ser hoje à noite! Não vejo a hora de sair do

trabalho e ir a Newport com ele. Vai ser bom Bob e Marta terem voltado do torneio de

golfe. Eles não se importam de eu passar o final de semana com eles.

O pensamento parece que tornou mais leves e alegres os seus passos. Cris enfrentou

as aulas da manhã resolvida a passar uma boa parte do horário do almoço com Michael e
Katie. Os últimos dias tinham sido bastante difíceis. Parecia que sempre que Katie dava

um passo para melhorar a amizade delas, Cris estava numa disposição crítica. Quando

Cris tentava ser paciente e compreensiva, Katie ou Michael dizia alguma coisa que a

deixava chateada e ela se afastava deles, com receio de dizer alguma coisa de que se

arrependesse. Hoje Cris queria paz.

- Adivinhe o que vamos fazer este final de semana? perguntou Katie no momento

que Cris se aproximou dela, debaixo da árvore.

Michael ainda não tinha chegado.

- Vamos a San Diego hoje à noite, e amanhã cedo vamos passear de barco para ver

as baleias! Não lhe parece o máximo?

- Onde é que você vai ficar?

- Lembra daquela garota, Stephanie, onde ficamos há uns meses, quando fomos ao

estudo bíblico dos “Amigos de Deus"? Peguei o número dela com o Douglas. Ela está no

mesmo apartamento, e nos convidou a ficar com ela. Não é legal?

- Você e o Michael vão ficar no apartamento dela?

- Vamos. Ela tem dois quartos, você sabe.

A alegria de Katie foi aos poucos sumindo de seu rosto.

- Pensei que você ficaria contente por mim, comentou. É pedir demais? Por que você

é tão severa comigo?

- Parece um pouco estranho, vocês dois passarem o final de semana no mesmo

apartamento. Não acha?

- Cris, eu não acredito! Por que você não aceita a minha palavra? O Michael é

supercavalheiro. Não estamos fazendo nada errado. A moral dele é tão forte como a

minha.

Dava para notar que Katie estava começando a ficar esquentada. Seu rosto sardento
indicava claramente, como um termômetro, o que acontecia por dentro, e no momento a

linha vermelha estava subindo à cabeça.

- Você está começando a me irritar, Cris! Eu dou um jeito de arranjar as coisas com

um monte de cristãos para o Michael poder estar perto deles e talvez até assistir à reunião

do grupo "Amigos de Deus" no domingo à noite, e você me faz sentir culpada, como se eu

estivesse fazendo alguma coisa errada!

- Me desculpe.

- Mas você não está arrependida! Você tem o seu padrão, que eu considero uma

farsa, já que você vai passar o final de semana com o Ted...

- Vou ficar na casa dos meus tios, e você sabe bem disso.

- E eu vou ficar na Stephanie. É a mesma coisa. Você e o Ted vão ficar juntos o final

de semana todo. Por que seria errado eu apresentar o Michael a alguns amigos cristãos?

Cristão, devo dizer, que não julgam tanto quanto você!

As palavras de Katie tocaram fundo no espírito de Cris, e ela sentiu as lágrimas

prestes a lhe subirem aos olhos. Logo estaria com os olhos rasos d'água.

- Preciso ir, disse ela, levantando-se e pedindo licença assim que viu o Michael se

aproximar. Realmente espero que vocês tenham um ótimo final de semana e que o

Michael se torne crente. Sinto muito por ser do jeito que sou, Katie. É que gosto demais

de você e não quero que se machuque.

Cris pegou seu lanche (que não comera) e estava prestes a ir embora quando Katie

disse:

- Eu sei disso. Não se lembra do que eu lhe disse quando estávamos no bote? Não

existem garantias. Eu sei disso. Sei que é tarde demais para ter garantias de que não vou

me machucar. O mesmo se aplica a você e ao Ted, Cris. Ou você não está disposta a

enxergar isso?
Cris não podia encarar Katie. Não conseguia conversar com ela quando as coisas

ficavam tensas desse jeito. Tentando conter as lágrimas, afastou-se um pouco e

cumprimentou o Michael dizendo "Olá, tudo bem?" com fingida camaradagem.

Continuou andando em direção àquele lugar solitário à mesa do pátio que tantas vezes nos

últimos tempos tinha se tornado o seu refúgio.

Só que naquele momento Fred havia tomado o seu lugar e com ele havia duas

garotas primeiranistas, uma de cada lado. Ele trajava uma de suas roupas novas e, ao se

aproximar, Cris ouviu uma das meninas perguntar como elas fariam para que suas fotos

saíssem no anuário.

- Eu diria que como primeiranista sua melhor chance seria fazer algo extraordinário

na aula de culinária. Se sabem quando vão fazer um bolo ou coisa parecida, vocês duas

poderiam acrescentar, digamos, anilina verde. É só me avisar com antecedência. Eu vou

até a sala e documento tudo em filme.

Ele dava um tom tão... oficial. Cris sentia-se confusa. Não queria se aproximar

deles, principalmente agora que o Fred tinha essa nova imagem e parecia estar atraindo as

garotas, ainda que do primeiro ano. Mas agora o lado triste era o fato de que ela não tinha

com quem lanchar.

Nesse momento, mais que nunca, percebeu como tinha feito poucas amizades na

escola. Teri tinha se formado ano passado. Britany e Jane, duas garotas com quem

costumava andar pó lá no primeiro ano, tinham se mudado. Katie era a única pessoa com

quem ela vinha almoçando nos últimos dois anos e meio. A não ser o Fred. E agora até

mesmo ele tinha outros amigos.

- Srt.ª Cris! gritou ele, ao vê-la, embora ela tentasse passar despercebida. Venha

aqui!

Cris suspirou, piscou os olhos para deter as lágrimas intrometidas, estampou um


sorriso no rosto e foi se juntar ao Fred e ao fã clube dele.

- Qual é o problema? ele perguntou imediatamente, assim que ela se aproximou.

Devo ser a pessoa que menos sabe fingir neste mundo. Não consigo esconder

minhas emoções nem do Fred.

- Meu queixo ainda está um pouco dolorido, respondeu.

Era verdade. Enquanto conversava com Katie, ela estivera cerrando os dentes sem

perceber e o queixo doía.

- É meio difícil comer, explicou.

- Por que não pega pudim ou gelatina numa das máquinas de venda?

Cris fez que sim indicando que gostava da sugestão e notou sua câmara na mesa.

Ocorreu-lhe que seria bom pegá-la de volta para usar no final de semana.

- Já acabou de usar minha máquina fotográfica?

- Tem mais umas quatro fotos no rolo.

- Se importa se eu a levar de volta? indagou Cris pegando a máquina e removendo a

tampa da objetiva para ver pela ocular. Você não bagunçou nada não?

- Claro que não!

Fred parecia ofendido com semelhante insinuação. Dava para vê-lo claramente pelo

visor e Cris teve a inspiração repentina de tirar foto dele para que ele visse como era ser

pego em flagrante.

- Meninas, vocês sabiam que o Fred passou por uma espécie de transformação no

final da semana passada?

Fred parecia contente que a Cris ainda estivesse notando e comentando sua melhora.

Ela o centralizou perfeitamente na objetiva. Agora tinha de aproximar um pouco mais as

duas meninas.

- É verdade! Ele cortou o cabelo e até furou a orelha!


As duas meninas corresponderam maravilhosamente. Imediatamente chegaram perto

para ver a orelha cada uma do seu lado. A expressão delas era de curiosidade e espanto.

Fred abriu a boca e esbugalhou os olhos. Nesse exato instante, Cris bateu a foto.

- Esta vai ser perfeita para o anuário!

As duas primeiranistas pareciam encantadas. Seu desejo iria ser satisfeito. Fred deu

um salto e tentou arrancar a máquina das mãos de Cris. Ela a ergueu acima da cabeça, fora

do alcance dele, e disse:

- Ora, Fred, é a única foto que tenho de você agora, e você tem pelo menos uma

dúzia de fotos minhas. Não acha justo que eu fique com esta?

Fred sentou-se de supetão no banco.

- Está certo, eu entendi, Cris. Ha-ha-ha! Uma piadinha ai. Vamos negociar. Você me

dá essa foto e eu lhe devolvo as que eu tirei de você.

- Acho que não, Fred. Acho que esta foto anula a do ano passado na pizzaria que o

Rick o convenceu a tirar. Isso quer dizer que tenho pelo menos mais uma dúzia para tirar

de você antes do final do ano.

- Aquilo foi idéia do Rick, não minha. Vamos lá, Cris, seja camarada!

Cris ia dar uma de durona para acertar as contas quando se lembrou de como as

coisas estavam caminhando entre Katie e Douglas quando os dois faziam o doce jogo da

vingança. Embora no início parecesse uma brincadeira sem maldade, com a continuação

dela as pessoas começavam a se ferir. Cris cedeu.

- Está certo, Fred. Vamos fazer uma trégua. Eu preciso de minha máquina de volta.

Quando eu revelar o filme, você resolve o que fazer com sua fotografia.

Fred sorriu mostrando os dentes.

- Obrigado, Srt.ª Cris. Você é o máximo.

Cris foi embora sem comer seu lanche, levando sua máquina fotográfica, resolvida a
tirar as últimas fotos do estacionamento como Katie havia sugerido no início das aulas.

Algo dentro de si dizia-lhe que ela acertara por não ter levado avante sua disputa com

Fred. Talvez fosse aquele perfume de que Ted falara, a fragrância que vem quando se

nutre o amor em vez de feri-lo.

Ótimo! pensou Cris ouvindo uma condenação na mente. Tenho um excelente

relacionamento que estou cultivando e logo com o Fred, ao passo que entre mim e minha

melhor amiga só surge raiva. Está na hora de uma trégua, Cris. Mas como é que vamos

arranjar isso?

Um Punhado de Pesares
12

- Jon, já estou de saída! disse Cris a seu chefe, um minuto depois das nove, na sexta-

feira à noite, assim que ele começou a trancar a loja.

- Um ótimo fim de semana para você! gritou ele. Diga ao Ted que mandei um

abraço.

- Está certo. Obrigada! E obrigada pela folga de amanhã.


Cris fechou a porta e correu para seu carro no estacionamento mal-iluminado.

O Ted deveria estar esperando-a em casa. Ela estava com a mala pronta para a

viagem à casa de Bob e Marta.

Estava tão agitada sobre o encontro com o Ted, que as chaves tremiam em sua mão.

Na primeira tentativa de enfiar a chave na fechadura, deixou cair o chaveiro e se abaixou

para pegá-lo. Ficando em pé, tentou novamente com mão trêmula.

- Precisa de ajuda? perguntou atrás dela uma voz grave Cris virou-se e quase soltou

um grito:

- Ted, eu não sabia que você estava aí!

Ele abriu os braços e os dois se abraçaram. Ela escutava aa batidas do coração dele.

Estava batendo tão forte quanto o dela, ou era imaginação sua?

Ted ficou a segurá-la por alguns minutos, apertando o rosto contra seu cabelo.

- É tão bom ver você, Kilikina, sussurrou.

Cris sentiu vontade de chorar, estava tão contente e tão animada por estar finalmente

junto dele e sentir seus braços fortes na sua cintura.

- Pensei que você estaria esperando lá em casa, disse ela quando ele a soltou e se pôs

a olhar o rosto dela a um braço de distância. Será que ele notaria a marca roxa do queixo,

uma recordação agora quase sumida de sua colisão com o braço do Douglas na semana

passada?

- Cheguei à cidade há poucos instantes. Sabia que você estava saindo do trabalho e

pensei em vir lhe fazer uma surpresa.

- E foi uma surpresa mesmo! Onde você estacionou a kombi?

- Ali, naquele lado, replicou ele indicando com o queixo por cima do ombro. Eu vou

seguindo seu carro, está bem?

- Está certo! concordou Cris rindo-se de sua mão trêmula ao tentar mais uma vez
enfiar a chave na fechadura. Se eu conseguir abrir essa porta!

- Deixe-me abrir, ofereceu-se Ted como se fosse um cavaleiro andante vestido de

armadura.

Colocou a mão em cima da dela. Era quente, forte e confiante. Juntos, abriram a

porta do carro de Cris.

- Obrigada, disse ela dando um sorriso iluminado. Eu o vejo em casa.

Cris queria que partissem para Newport imediatamente. Mas Ted não parecia muito

ansioso. Trouxera um presente para o pai de Cris, e ela teve de reconhecer que foi um

gesto muito simpático. O pai demorou-se para abri-lo, pois a mãe serviu pão de abóbora,

que acabara de fazer, ao Ted e ficou fazendo perguntas a ele sobre os estudos.

David, naturalmente, ficara acordado para ver Ted e tentava convencê-lo a levá-lo de

novo para andar de skate.

- Está certo, cara. Que tal no próximo final de semana, se eu vier no sábado? propôs

Ted.

- Legal! Você vai ver só quantos truques novos aprendi.

- Ah é? Já sabe defender-se de um soco?

De brincadeira, Ted aplicou um soco contra a orelha direita de David, começando aí

uma luta livre no chão da sala. A mãe tirou depressa a mesinha de centro e se pôs a

observar os dois lutando como se fossem irmãos.

Nada como compartilhar o namorado com a família inteira! pensava Cris.

Já passara das dez quando, finalmente, Ted colocou a bagagem de Cris em seu carro.

Os pais dela os acompanharam à porta e deram a costumeira lista de recomendações,

terminando com o pedido mais importante de sua mãe, isto é, que ela ligasse para eles

assim que chegasse à casa dos tios.

Cris sentou-se no banco rasgado da "Kombi Nada". Ted costumava colocar sobre ele
uma toalha de praia, para evitar que o estofado saísse para fora, mas hoje não havia

nenhuma. Cris teve de procurar a posição certa para que o vinil rasgado não a

incomodasse.

Mas daí a pouco já havia esquecido o desconforto da Kombi e conversava

animadamente.

- Acho que meu pai gostou bastante do livro que você deu. Foi tão legal da sua parte,

Ted, comentou ela elevando bem a voz por causa do barulho do veículo.

Durante a primeira hora de viagem, conversaram sem parar. Cris percebeu que sua

garganta doía de tanto falar. Então aquietou-se e deixou que Ted falasse mais. Era tão bom

estar na companhia dele, e passar com ele, finalmente, esse fim de semana.

Assim que chegaram à casa de Bob e Marta, Ted foi direto à geladeira servir-se de

um copo de suco de laranja.

- Quer um pouco, Cris?

Ele se sentia bem à vontade na casa deles, que freqüentava mesmo quando Cris não

estava por perto.

- É claro.

- Gelo?

- Sim, por favor. Vou telefonar para os meus pais.

Avisou-os de que chegara bem. Quando estava prestes a desligar, sua mãe disse:

- Divirta-se, filha. Para nós é um conforto saber que podemos permitir nossa filha de

dezessete anos passar o final de semana fora, sabendo que está tomando decisões

ajuizadas.

Quando desligou, Cris pensou em como seus pais estavam diferentes em relação a

alguns anos atrás. Era agradável saber que, apesar dos altos e baixos, ela conquistara a

confiança deles. Com essa confiança, as restrições eram menos e ela gozava de maior
liberdade.

- Então já vou indo, disse Ted, quando Cris desligou.

Colocou o copo vazio na pia, e perguntou:

- E amanhã, o que você quer fazer, Cris?

- Vamos sair para tomar café.

- Ótima idéia, interveio Marta. Sei de um lugar ótimo para nós quatro.

Cris queria dizer só ela e o Ted. Como poderia "livrar-se" da tia? Mas talvez isso não

tivesse importância. O importante é que estaria com o Ted.

- Por volta das oito? indagou Marta.

- Estarei aqui às oito, concordou Ted, acenando "boa noite" e saindo.

- Ele não lhe deu um beijo de despedida, disse Marta enquanto Cris terminava sua

laranjada. Por que ele não a beijou?

- Não sei.

- Vocês dois não se beijam?

- Sim, às vezes.

- E o que mais?

- Nada mais. Bem, ficamos de mãos dadas e nos abraçamos.

Marta olhou para Bob e depois para Cris.

- Isso não me parece muito natural, querida. A esta altura dos acontecimentos, eu

achava que vocês dois estavam bem mais adiantados no relacionamento físico. Pensei até

em ter uma conversa de mulher para mulher com você sobre o lado físico do namoro, mas

você não me parece muito interessada neste tipo de conversa.

- Eu acho que tudo está exatamente como deveria estar. Não tenho do que me

arrepender agora e não quero nunca ter do que me envergonhar.

- Muito nobre, disse Bob. Eu e sua tia respeitamos e apoiamos você pelos padrões
que adotou, não é mesmo, Marta?

Cris observou a tia mudar de expressão - deixou de ser crítica para ser compassiva.

Ela sinceramente desejava o que fosse melhor para a sobrinha. Cris sabia disso, embora

seus métodos pr vezes fossem um pouco fora de compasso.

- É, Cristina, tenho de concordar. Tem uma moral exemplar. A maioria dos jovens de

sua idade não age assim. Vocês dois são inteligentes. Acho que devíamos estar contentes

de saber que os programas de educação sexual de sua escola estão dando resultado.

Cris teve até vontade de rir. As discussões abertas na sua escola tinham lhe ensinado

as complicações e conseqüências de "ir longe demais", mas era seu relacionamento com o

Senhor que fazia com que ela decidisse agir de forma correta.

- Na verdade, o que faz a diferença para mim e o Ted é que somos cristãos e

queremos obedecer a Deus.

- Ah! concordou Marta.

- Sabe, disse Bob, mudando de assunto, acho que eu quero dormir até tarde amanhã.

Por que você e o Ted não saem sozinhos para o café da manhã e à noite jantamos juntos os

quatro?

- Para mim está ótimo, disse Cris. Tudo bem com você, tia Marta?

- É claro, querida. Certamente vocês dois vão se divertir mais passando o tempo a

sós. De qualquer maneira, conhecendo as preferências do Ted, é provável que seja um café

da manhã mais simples. Podemos planejar algo mais elegante para o jantar.

Na manhã seguinte, o Ted apareceu logo depois das oito. Marta estava certa: vestia

short, sandálias de couro e malha com o capuz de sempre - a informalidade em pessoa.

Cris levantara às seis para tomar banho, arrumar o cabelo e se vestir. Embora

estivesse de jeans cortados e camisão de chambray com camiseta branca por baixo, ela

levara muito tempo se produzindo; o mesmo que levaria se estivesse se aprontando para
um baile de formatura. A maquiagem era leve e perfeita, com rímel certinho nos olhos. O

cabelo, limpo e leve, estava solto, sem nenhuma das fivelas ou clipes que a tia Maria

queria que usasse. Cris estava bonita e bem-arrumada, pronta para o que desse e viesse.

- Vamos só você e eu, disse baixinho à porta. Eu explico no caminho.

Ted conduziu-a até à kombi e abriu a porta para ela. Cris notou que a toalha de praia

estava no lugar, cobrindo o assento. Sentiu certa satisfação interior ao perceber que Ted

havia notado seu desconforto na véspera, e providenciara para que ela tivesse mais

conforto. Sentou-se e Ted ligou o carro.

- Ah, Ted! Por acaso esta toalha está molhada?

- Puxa, desculpe! Fui surfar hoje cedo e deixei minha toalha aí para secar, e assim

dizendo, tirou-a da poltrona. Mas o banco ainda está molhado, não é?

- Não tem importância.

- Tem sim. Ei! já sei. Você dirige e eu sento aí.

- Sei não, Ted...

A única vez que Cris havia dirigido e Ted viajara como o passageiro foi em Maui,

quando ele foi picado por uma abelha e ela teve de dirigir na esburacada estrada de Hana.

- Claro que consegue! Em comparação com Hana, dirigir em Newport é fichinha.

Ted desceu, deu a volta correndo e, antes que ela desistisse, trocou de lugar com ela.

Cris apertou o cinto de segurança, ligou a kombi e desceu a rua.

- Não sei onde sua tia pretendia que a gente fosse tomar café, mas já que agora sou

eu que estou pagando, o Carl Jr. está bem?

- Claro. Me diga onde que eu viro.

- Entre à direita no nosso cruzamento.

Cris foi dirigindo devagar e olhou Ted pelo canto do olho. Ele havia dito "o nosso

cruzamento". Era onde ele lhe havia dado o primeiro beijo e onde lhe dera também a
pulseira de chapinha. Ela também já pensava naquele lugar como "nosso cruzamento",

mas nunca ouvira o Ted falar assim.

Um leve sorriso lhe aflorou aos lábios. É; agora ela e Ted estavam namorando de

verdade. Ele também já considerava sagradas as coisas que tinham acontecido entre eles.

Coisas como aquele cruzamento, que era importante para eles.

Virou à direita e a "Kombi Nada" deu um solavanco ao entrar no estacionamento do

restaurante. Estacionou, desligou o motor orgulhosa de ter chegado até ali sem problemas.

- Parece que a kombi está reconhecendo uma velha amiga, comentou Ted. Ela não

atende bem assim para qualquer um, espero que você saiba disso.

Ele chegou ao balcão e pediu café "Sol Nascente" para dois.

Pouco depois, a refeição era trazida à mesa e Ted estendeu a mão para segurar na de

Cris. Em seguida orou.

- E então, que negócio foi esse com seus tios?

Cris resumiu o que tinha acontecido na véspera, à noite, inclusive a pergunta da

Marta por que ele não lhe tinha dado um beijo de despedida. Ele ficou pensativo e então,

aproximando-se mais de Cris, explicou em voz baixa:

- Não é que eu não queira beijá-la mais. Você sabe disso, não sabe?

Cris sentiu o rosto avermelhar. Esperava que mais ninguém tivesse escutado.

- Há tempo para tudo, disse Ted, ainda com a voz baixa. Tenho um compromisso

com Deus de manter equilíbrio em tudo e fazer o que devo só quando ele disser que está

na hora. Não é fácil, não.

Cris tomava sua laranjada, o olhar fixo no do Ted, cujos olhos azul-prateados se

achavam perto dos seus.

- Tem algo que quero lhe falar, Cris. Espero que entenda o sentido certo do que vou

dizer. Uma coisa que realmente aprecio em você é que você não fica dando em cima, se
insinuando para mim. Sabe o que quero dizer?

- Não tenho certeza, respondeu Cris, mantendo os olhos fixos nos de Ted.

- Você deixa que eu tome a iniciativa e isso é muito bom.

Cris fez que sim com a cabeça, incerta sobre o que ele dizia, mas certa de que

realmente ela deixava com ele as iniciativas.

- As garotas não imaginam o que fazem com um cara quando "dão em cima". Não só

pelo toque, mas pelo modo de se vestir. Adoro o jeito como você se veste. Está sempre

bonita. Linda mesmo. Mas não procura se exibir, nem provocar a gente.

Cris sentiu que estava recebendo um curso sobre o que os rapazes pensam e, embora

já tivesse ouvido algumas dessas coisas antes, era bom ouvi-las do Ted. Assim essas

questões ficavam mais reais e pessoais. Ele continuou:

- Deixando que eu tome a iniciativa, você tem me ajudado a dar a direção certa ao

nosso relacionamento. Isso é porque você tem muita... dignidade é a única palavra que me

vem à mente. Você se vê como um dom, um tesouro. E a gente percebe isso e é o que a

torna absolutamente linda, Cris. Você não tem idéia do quanto é linda...

É verdade! Eu não tenho uma idéia precisa de tudo que você está dizendo. Só estou

sendo eu mesma. É maravilhoso estar aqui sentada, ouvindo você me dizer que sou linda!

É um sonho que se torna realidade.

Naquele instante, Cris sentia com Ted o mesmo que sentia ao telefonar para os pais

na noite anterior. Muitas vezes, antes, ela desejara correr à frente do Ted e apressar o

relacionamento. Agora estava contente por ter deixado que se desenvolvesse no ritmo

próprio e no tempo certo. Se ela não tivesse sido paciente, o Ted jamais estaria lhe

dizendo essas coisas.

Comeram em silêncio por alguns minutos numa atmosfera agradável. Para Cris, era

como se a brisa que soprava em torno dela de repente passasse a carregar todos os
perfumes possíveis. Sentia o coração cheio de contentamento, depois de ouvir as palavras

do Ted.

- Tem mais uma coisa que faz tempo que queria lhe perguntar, disse ele quando

voltaram para a kombi.

- Pode me perguntar o que quiser, disse ela tomando o banco de passageiro.

- Ainda está molhado?

Cris tocou o assento antes de sentar. O sol havia secado o banco enquanto comiam.

- Não, já secou. Está ótimo.

Ted ligou o motor e deixou o estacionamento.

- Pensei que podíamos ir à ilha Balboa. Você topa?

- Claro. O que você queria me perguntar?

- Acho que preciso criar coragem para perguntar.

- Pode perguntar.

- Cris, sei que talvez eu não devesse me preocupar com isso, mas queria lhe

perguntar sobre o Rick. Quando vocês estavam namorando, o que foi exatamente que

aconteceu entre vocês dois? Venho fazendo tudo para não me envolver com isso, mas o

Rick disse certas coisas de você, quando éramos colegas de apartamento ano passado, que

simplesmente não "batem" com a Cris que eu conheço. Quero ouvir de você. Se você não

se sentir bem de falar sobre isso, tudo bem, eu entendo. Vai ver que eu nem deveria estar

lhe perguntando.

- Claro que deve. Não há muito que dizer. Saímos algumas vezes. E depois eu

terminei com ele. Não foi um relacionamento muito bom. Depois que acabei com ele, até

me aproximei mais de Deus. Por quê? O que foi que Rick disse?

Ted hesitou e depois suspirou fundo.

- O Rick disse que você era fácil. Que fazia tudo que ele queria.
- É mentira! protestou Cris elevando a voz. Ele disse isso de mim? Ele é um

canalha! Como você podia acreditar nele? Ted, não acredito que você pensasse que...

- Eh! relaxe! Eu não disse que acreditei nele. Conheço você. Como estava lhe

dizendo, isso me incomodava e resolvi conversar com você sobre o assunto.

- Ted, disse ela, desta vez num tom mais sereno. O Rick é o tipo de cara que parece

conseguir tudo que quer. Por alguma razão, ele resolveu que me queria. Agora que sei que

tipo de rapaz ele é, fica tudo muito mais claro, mas tenho que admitir que na época me

senti um pouco confusa. Achava que ele realmente gostava de mim por eu ser eu mesma.

Ele tinha uma lábia! Agora sei que alguns caras conseguem manipular as garotas com o

que dizem. Na época eu não sabia. Acho que estava querendo mesmo um namorado.

Achava que precisava ter um namorado. Você estava de partida para o Havaí e o Rick era

muito atencioso comigo...

- Eh! não precisa pedir desculpas por nada, Cris. Não estou lhe pedindo um relatório

do seu relacionamento. Isso é entre Deus e você. Acho que eu apenas queria ouvir da sua

boca que ele não se aproveitou de você.

- Ele tentou mais de uma vez. Beijou-me algumas vezes, mas eu sempre me

afastava. Sei que ele ficava zangado por isso. Mas eu não achava certo ter intimidade.

- Então foi só isso? Uns beijos.

- E alguns abraços. Nada mais. É incrível que ele tenha dado a entender que

tivéssemos feito mais que isso!

- Tenho certeza de que com algumas garotas foi mais. Talvez ele tenha ficado com o

orgulho meio ferido por não ter sido assim com você.

Chegaram à rampa da balsa que fazia a travessia para a ilha Balboa. A kombi fez um

barulhão ao subir pelo piso de metal. Ted desligou o motor e sugeriu que saíssem do carro

durante a curta viagem do continente à ilha.


Cris ficou perto da amurada da balsa contemplando as águas azuis da baía. A brisa

da manhã estava fria e ela cruzou os braços para se aquecer. Ted veio por trás e abraçou-a,

enterrando o rosto em seu cabelo. De repente, ela se lembrou de uma vez em que o Rick

fizera a mesma coisa, sussurrando palavras doces no seu ouvido. Isso a deixou zangada.

Sentia raiva de si mesma por ter namorado o Rick. Se ao menos tivesse esperado, teria

compartilhado todos esses momentos e sentimentos comuns ao relacionamento de um

rapaz e uma moça apenas com o Ted.

- Eh! Por que você está tão tensa?

- Estou zangada. Estou com raiva de ter namorado o Rick. Com raiva de não ter

esperado você. E antes que você diga que essa ira é o sangue que sai do amor quando é

ferido, afirmo que não é! O amor não fazia parte do meu relacionamento com o Rick. Não

era um amor verdadeiro.

- Cris, não seja tão dura com você mesma! Lembre-se de quando você estava com

ele. Não houve alguns bons momentos? Algumas lembranças agradáveis?

Ted tinha razão. Tinha vivido alguns bons momentos com o Rick - gangorrando no

parque, empinando papagaio na praia, a primeira vez que foram a um restaurante chique,

o Villa Nova.

- Sim, houve alguns momentos bons. Não foi tudo ruim, e ele não fez nada para

estragar a minha vida para sempre.

- Olhe aqui, disse Ted, soltando-a e colocando-se diante dela para fitar-lhe o rosto.

Ele juntou as mãos formando uma taça.

- Ponha seus pesares e tristezas aqui dentro, disse.

- Como?

- Nas minhas mãos. Ponha todos esses pesares e sentimentos negativos aqui dentro.

"Pegue" o que foi bom e guarde no coração. O resto, ponha aqui.


Cris olhou-o meio desconfiada. Depois, entrando na brincadeira dele, estendeu a

mão sobre as dele, fazendo de conta que deixava cair nelas as coisas ruins.

- Pronto. Agora o que você vai fazer com meu monte de cinzas?

- O mesmo que Deus faz com os nossos pecados, disse ele, fingindo atirar o

punhado de pesares ao vento e no mar. Ele os afasta de nós assim como o Oriente está

afastado do Ocidente, e os joga no fundo do mar.

Fitando os olhos de Cris, Ted dirigiu o olhar ao coração dela dizendo:

- Deus não cobra isso de você. Portanto você também não deve cobrá-lo de si

mesma. Foi tudo embora, Cris. Agora procure lembrar-se apenas do que foi bom.

- Você está certo!

Cris respirou fundo o ar gelado da manhã. Ted sorriu, formando a covinha em sua

bochecha.

- Deus quer nos dar "uma coroa em vez de cinzas" se deixarmos.

A balsa entrou na baía e os dois carros que estavam atrás do deles ligaram os

motores.

- Vamos embora! disse Ted, abrindo a porta para Cris entrar.

Saíram da balsa e desceram a rua estreita. Na segunda esquina, numa das casas, à

esquerda, havia um "bazar de quintal".*

______________________

* "Bazar de quintal" (no original yard sale): um comércio caseiro muito comum nos Estados Unidos. As

pessoas expõem para venda os objetos pessoais que não lhes interessam mais, como roupas, móveis, livros,

brinquedos, etc, a preços bem baixos. Esse "bazar”geralmente é montado no quintal ou na garagem da

residência. (N. do E.)

- Vamos parar. Tem lugar para estacionar?

- Parece meio apertado. Faz o seguinte, você desce, e eu dou a volta no quarteirão.
Foi o que Cris fez e a primeira coisa que avistou foi uma velha estante. Na etiqueta

de preço estava marcando cinco dólares. Antes que pudesse mudar de idéia, enfiou a mão

na bolsa, tirou uma nota e pagou. Quando Ted virou a esquina, ela fez sinal para ele

indicando o objeto. Ele parou em fila dupla, abriu a porta e colocou a estante no veículo.

Eles entraram e foram embora.

- Não é uma graça? Eu precisava de algo assim no meu quarto para guardar minhas

bugigangas. Esta vai ser perfeita. Claro que precisa de uma pintura. Você me ajuda a

pintá-la?

Ted sorriu.

- Essa foi a compra mais veloz de que se tem notícia! comentou ele. Claro que

ajudo. Podemos passar na loja de tintas, pintar hoje mesmo, para que fique seca, e você

possa levar para casa amanhã.

- Perfeito! exclamou Cris. Não é uma gracinha? Você não achou uma graça?

O sorriso continuava no rosto de Ted.

- Se você diz...
Amar e Bem Querer
13

- Como está indo? perguntou Ted vindo até à frente da casa, onde Cris colocara sua

estante sobre uns jornais.

Tio Bob havia lixado o móvel com a lixadeira elétrica, e ele estava pronto para

receber a base. Cris estivera misturando a tinta enquanto Ted, na cozinha, preparava os

sanduíches. Entregou-lhe um prato de papel com um imenso sanduíche de peito de peru e

uma porção de chips de batata.

- Você deve estar pensando que vou ficar com um apetite de leão!

- O que pensei foi que eu acabo comendo o que você não quer comer, replicou o

rapaz, atacando seu sanduíche igualmente enorme. Marta disse que fez reserva para o

jantar. Vamos os quatro. Mas isso vai demorar algumas horas.

- Bem, estou pronta para começar a pintura. Se quiser um pedaço do meu sanduíche,

sirva-se. Mas deixe um bocado para mim.

- Tudo bem! disse Ted, sentando-se na escada e comendo. Você trabalha; eu

supervisiono.

Cris enfiou o pincel na tinta e começou a pintar o interior da estante.

- Boa idéia, começar por dentro. Não esqueça a parte de baixo das prateleiras.

- Ted, você acha que o branco é a melhor cor? Estou pensando se não deveria ter

comprado um amarelo-claro ou um rosa-pálido.

- Branco está bom.

- Não, sério, você não acha que devíamos ter escolhido uma cor mais interessante?

Quem sabe um azul-celeste?


- Branco está bom.

Cris virou-se para ele e sacudiu o pincel cheio de tinta.

- Para você realmente não faz diferença, não é mesmo?

- Eu acho que branco está bom, falou, e deu uma dentada no sanduíche. Combina

com tudo. E fácil de combinar com qualquer coisa. Branco está bom.

Cris deu uma risada e voltou ao trabalho.

- Eu gostei mesmo desta estante. Ela vai ser a "casa nova" de um monte de velhas

lembranças que tenho. A maioria de você.

- De mim? A única coisa que já lhe dei foi a pulseira. Ah! e o coco que mandei de

Oahu.

- Continue pensando. Lembra das flores que me deu?

- Aquelas branquinhas quando você ia voltar para o Wisconsin?

- Cravos, Ted. Eram cravos brancos. Eu os sequei e guardei numa lata decorada. Foi

o único lugar que encontrei para guardá-los, quando nos mudamos aqui para a Califórnia.

Ainda estão guardados.

- Incrível! Já faz quase três anos, disse Ted, dando a última mordida no seu

sanduíche.

- É. Naquelas férias em que fomos a Disneylândia e você comprou um ursinho Puf.

Lembra?

- Lembro, a Disneylândia. Eu me lembro, falou encostando-se na cadeira e cruzando

os braços sobre o peito. Eu queria causar uma boa impressão em você e deixei que você

pensasse que era eu quem estava pagando tudo. Depois, quando devolvi o que sobrou do

dinheiro da sua tia, no final da noite, achei que você fosse me matar! Você não jogou um

sapato em mim ou coisa parecida?

Ela riu-se.
- É! Não dá pra acreditar! Eu achando que você fosse me dar um beijo de despedida,

e você me entrega um maço de dinheiro dizendo que me levou lá porque minha tia o

convenceu eu a ir.

- Você achava que eu fosse beijá-la?

- Claro.

- De jeito nenhum! Eu era covarde! Nunca havia beijado uma garota. Tenho que

confessar que pensei nisso o dia todo, mas quando chegou a hora, não tive coragem.

- Você se lembra da primeira vez que me beijou?

- Claro, jamais me esquecerei. Foi dois dias mais tarde, mas aí tudo havia mudado. A

Trícia me contou que você tinha entregado o coração para Jesus e ia voltar para o

Wisconsin. Quando cheguei lá naquele nosso cruzamento, pensei: "Está certo, Ted, é

agora ou nunca!" E foi "agora". Jamais me esquecerei, explicou ele parecendo muito

contente de contar o fato.

- Nem eu, afirmou Cris.

Ela pintou mais um pouco em silêncio e depois perguntou

- Como é, você vai me ajudar nisso aqui, ou não?

- Claro, me dê um pincel. Quer que eu faça a frente ou os fundos?

- O que você quiser.

Ted se agachou ao lado de Cris e estendeu o braço.

- Que tal se a gente pintar juntos o mesmo lado? Eu vou corrigindo o que você fizer

de errado.

- Ah é? Estamos ficando exageradamente confiantes?! E quem lhe disse que eu vou

errar?

- Só estou sendo precavido.

Cris adorava sentir-se assim, próxima dele, com os ombros largos do Ted logo acima
dela. Ela se inclinou para trás e encostou-se de leve no seu peito.

- É isso que eu chamo de trabalho em equipe!

Naquele momento ouviu um barulho conhecido, porém não muito apreciado: o

clique de uma máquina fotográfica. Só que dessa vez era o Bob, e não o Fred, quem

segurava a câmera.

- Resolvi ver se sua máquina estava mesmo funcionando, disse Bob com um olhar

divertido. Mas, por favor, não quero atrapalhar vocês dois.

- Cris acabou de me perguntar o que eu achava dela com uma mancha de tinta no

nariz e eu estava prestes a lhe mostrar, disse Ted, levantando o pincel e preparando o

ataque.

- Ótimo, ótimo. Não vou atrapalhar! disse Bob posicionando a câmera bem perto

dela.

- Espere! gritou Cris ao ouvir de novo aquele clique. A tinta é para a estante, não pra

mim!

- Certo. Ahn... e o que é mesmo uma estante? Ah! já sei!

E assim dizendo, Ted passou um pouco de tinta na ponta do nariz de Cris.

- Isso aqui não é estante! Isto aqui que é! replicou ela, dando uma pincelada no rosto

do Ted. Ah, errei: aquilo não era estante, era uma covinha. Agora, onde é que está a

estante?

- Não tenho covinhas, disse Ted levando a mão ao rosto.

- Tem sim. Notei isso na primeira vez que fomos à ilha Balboa, quando andamos de

bicicleta dupla. Lembra? Compramos os esquimós Balboa.

- Isso mesmo, e você ficou com uma mancha de chocolate bem aí no rosto!

Ele enfatizou a recordação, fazendo um risco de pincel na face de Cris.

- E ficou de bigode o resto do dia! concluiu.


- Foi você que pediu, cara! disse Cris em tom de brincadeira. Esta pincelada é por

você nunca ter escrito uma carta para mim! falou e fez uma lista no braço dele.

Clique! a máquina de novo.

- Eh! Eu lhe mandei um coco!

- E esta aqui é pelas vezes que você me deu caldo no mar! disse ela correndo o

pincel no outro braço dele.

- Êpa! Acabou o filme, disse Bob. Acho que vocês têm de dar uma trégua.

Cris e Ted olharam um para o outro. Os dois empunhavam os pincéis, prontos para

atacar.

- Trégua? indagou Cris.

- Trégua, concordou Ted.

E como se estivessem se cumprimentando, bateram juntos os pincéis num "Toque

aqui!" sendo imediatamente salpicados por um chuvisco de pequenas bolinhas.

- Olhe só pra nós! disse Cris, rindo às gargalhadas, vendo Ted de tinta na cara, no

cabelo, em tudo. Será que estou tão engraçada quanto você?

- Não. Está mais.

Depois que pararam de rir e limparam a tinta dos cílios, voltaram ao trabalho. Uma

hora depois a estante havia se transformado num branco depósito de todas as lembranças

de Cris. Afastando-se para admirar o trabalho, ela disse:

- Sei lá. Um rosa-pérola ficaria bonito.

- O branco está bom, afirmou Ted. Depois de seco, você vai ver.

Ele foi para casa, que ficava a alguns quarteirões dali, tomar banho e se aprontar,

enquanto Cris subiu para o banheiro de hóspedes da suíte onde se acomodara. Pequenos

pingos de tinta estavam grudados em seus braços e no rosto. Voltar ao normal foi um

processo lento, e ela precisou de uma dose extra de loção depois que terminou. Vestiu um
jeans e uma camisa branca de cambraia, arregaçando um pouco as mangas compridas.

Ted já havia chegado e estava na sala embaixo, vendo televisão com o tio dela.

- Você já deu uma olhada? perguntou Cris.

- Dei uma olhada em quê?

- Na estante. Pra ver se secou.

- Ela só vai estar completamente seca amanhã, disse Bob. A Marta lhe disse que

vamos sair para jantar dentro de uma hora? Ela fez reserva num restaurante novo em

Huntington.

Ted levantou-se, e disse:

- Então temos tempo para uma caminhada na praia.

Cris sorriu para o belo jovem que se aproximava dela. Seu cabelo curto, cor de areia,

ainda estava molhado. Os olhos azuis iam ao encontro dos seus, e ele estendeu a mão,

convidando-a a caminhar. Ela pôs a mão na dele e saíram juntos pela porta corrediça.

Tiraram os sapatos e deixaram que os pés se afundassem na areia fresca.

- Parece que o pôr-do-sol vai ser magnífico hoje. Olhe só como o horizonte está

ficando carregado de nuvens. Quando o sol bater no mar, elas vão ficar rosadas e

alaranjadas.

- Elas são o pó dos pés de Deus, disse Cris.

- Ah, se lembrou, hem! falou Ted, apertando-lhe a mão. Sim, essas nuvens vão se

transformar em montes de pó hoje. Parece que Deus tem andado muito por estas bandas.

Caminharam em silêncio, de mãos dadas, até chegarem à beira d'água, onde a areia

era firme e molhada. Mecanicamente, Ted passou seu polegar sobre a corrente da pulseira

"Para Sempre". Cris se lembrou então de que nunca perguntara a ele se sabia quem pagara

para ela recuperar a pulseira.

- Ted, quero lhe perguntar uma coisa. Você havia reservado umas perguntas para
mim hoje cedo. Agora sou eu que faço perguntas. Primeiro, quero perguntar se você sabia

que o Rick roubou minha pulseira.

- O que você quer dizer?

Cris explicou que havia tirado a pulseira do braço e guardado na bolsa. Como

deixara a bolsa no carro do Rick, pensou que a tivesse perdido. Mais tarde soube que ele

havia trocado a pulseira por outra - uma de prata, maior, mais pesada com o nome dele,

"Rick", gravado. Cris calculou que ele a tivesse roubado. Então depois que desmanchou

com ele, foi comprá-la de volta no joalheiro onde ele a havia trocado pela de prata.

- Eu não sabia nada disso, disse Ted, parado no lugar, sentindo a maré subir e

banhar-lhes os pés.

- Queria saber também se foi você quem liquidou o débito para que eu a pegasse de

volta. O joalheiro só me disse que foi "um cara".

- Não fui eu, pois eu nem sabia. Será que não foi o Rick?

- Por algum tempo pensei que fosse, mas quanto mais penso no assunto, menos

acredito nisso.

- Quem sabe foi o seu pai? Ou seu tio Bob?

- Talvez. Mas acho que nenhum dos dois soube do que aconteceu. Acho que vai

continuar sendo um mistério, falou ela.

Ted remexeu os dedos dos pés para desenterrá-los da areia e, segurando com firmeza

a mão de Cris, saiu caminhando de novo.

- Não tem importância continuar sendo mistério. O que importa é que você está com

a pulseira.

- É, eu também "agüento" um pouco de mistério. Mas isso me deixa ainda com mais

raiva do Rick.

- Espere um pouco! Essa não foi uma das coisas que jogamos no mar hoje cedo?
indagou o rapaz, fazendo o gesto de jogar algo ao mar. Você quer sair por aí nadando,

tentando catar as cinzas de novo? Não vale a pena, Cris. Deixe para lá.

- Você tem razão, concordou.

Cris encostou a cabeça no ombro do Ted. Após uma breve pausa, acrescentou:

- Eu queria poder abrir mão desse problema com a Katie e o Michael também.

- Mas aí é diferente. Esse você não pode soltar, não. Nesse caso, você tem é que

segurar mais firme.

- Mas quando digo a ela que ele não é cristão e ela deveria terminar o

relacionamento, ela fica contra mim. Detesto causar toda essa confusão.

- Então, você vai mudar de opinião sobre namoro de crente com não-crente?

- Não. Tenho convicções firmes quanto a isso.

- E o que você pode mudar?

Cris pensou um pouco. Não tinha certeza. Quando o Ted dissera "mudar", ela se

lembrara de quando ele perguntara! "Como é que as folhas sabem que é hora de mudar?"

A resposta era que se tratava de algo sobrenatural que Deus faz acontecer de modo

natural.

- É, parece que não conseguirei mudar nada. Só Deus. Posso é pedir que ele faça

alguma coisa sobrenatural de modo natural.

Ted apertou de novo sua mão.

- E pode pedir, pedir, e continuar pedindo. Normalmente recebemos boas respostas

quando persistimos em oração.

- Mas enquanto isso, meu relacionamento com a Katie esta prejudicado.

- É, concordou Ted.

- Pra mim é impossível mudar a minha maneira de pensar sobre o namoro dela com

o Michael.
- Entendo.

- Queria que fosse mais fácil e que Deus não demorasse tanto para atender às

orações da gente.

- Concordo com você.

- Como você leva tudo isso "numa boa"?

- Não levo numa boa. Tenho orado pela Katie e o Michael desde aquela noite que

nos encontramos com eles no cinema. A única coisa que me dá esperança é que Deus disse

que há tempo para tudo. Katie está passando por um momento em que tem de tomar

algumas decisões importantes, e você precisa ficar do lado dela. Aí, dependendo das

decisões que ela tomar, chegará a hora de vocês duas chorarem juntas ou de dançarem.

Para mim, agora é tempo de orar.

- Vamos orar, então?

Ted a conduziu à parte mais seca da areia, um pouco adiante, e os dois ficaram

sentados juntinhos, de mãos dadas, orando por Katie e Michael. Quando ergueram o rosto,

o sol já mergulhava no mar. Como Ted havia previsto, as nuvens tipo "pó dos pés de

Deus" estavam iluminadas pelas cores do pôr-do-sol típico da Califórnia: âmbar,

tangerina, limão e rosa claro.

Embora não pudesse explicar, Cris sentiu que tudo iria acabar bem com a Katie.

Talvez porque ela, Cris, simplesmente entregara a situação nas mãos de Deus no momento

em que oraram. Talvez fosse esse maravilhoso pôr-do-sol. Tudo mais parecia pequeno

ante a grandeza magnífica que Deus exibia. Se Deus podia dizer ao sol a hora certa de se

pôr, certamente poderia dizer a Katie a hora de terminar com o Michael, com ou sem a

intervenção de Cris. Cris resolveu que iria orar pelos dois todos os dias, e queria continuar

vendo as coisas dentro dessa perspectiva - do ponto de vista de Deus.

Ted colocou seu braço nos ombros de Cris e puxou-a para mais perto dele.
- Sabe, Kilikina? Há muito tempo que eu estava orando para que nós dois

estivéssemos juntos assim.

Descansando a cabeça no seu ombro, Cris respondeu:

- Eu também tenho pedido isso a Deus, Ted. Lembra quando você, um dia desses,

disse que era tempo de nos alegrarmos?

- Lembro, replicou ele em voz baixa e doce.

- Acho que sei uma expressão melhor.

- É? Qual?

- Amar. Para nós, agora é tempo de amar.

Aconchegada a ele, Cris sentia vibrar dentro de si o eco harmonioso de suas

palavras.

- Gostei dessa. Tempo de amar.

Juntos contemplaram o pôr-do-sol, cada qual ouvindo a respiração firme do outro e

sentindo o calor um do outro.

- Olhe só a cor daquelas nuvens, sussurrou Cris ao ver diluir-se no céu as últimas

nuanças do rosa. Viu. É uma espécie de rosa-pérola, não é?

Ted entendeu a dica.

- Branco também é uma boa cor para uma nuvem, não acha?

- Mas você não acha que rosa-pérola é uma cor que combina com algo que se quer

guardar para sempre?

- Sabe de uma coisa? indagou Ted agarrando a mão de Cris e conduzindo-a de volta

para casa. Acho que temos tempo de ir até a loja de tintas antes do jantar e comprar uma

lata de tinta cor-de-rosa. Afinal de contas, que outra cor seria melhor para uma estante

“engraçadinha” de cinco dólares?

- Bem, o branco é muito bom! Disse Cris, entrando na brincadeira. Mas não para
aquela estante. Ela tem de ser rosa-pérola. A mesma cor do “pó dos pés de Deus”.

- Porque ela é para guardar para sempre.

- Certo, ela é pra guardar.

- Você também, Kilikina.

Ted se deteve por um instante e abraçou-a.

- Você é aquela que eu amo e a quem quero bem.