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Cris & Ted

Nos Anos da Faculdade

Até Amanhã

Robin Jones Gunn

Título original: Until Tomorrow
Tradução de Ana Carolina Vilela
Editora Betânia, 2004
Digitalizado por deisemat
Revisado por deisemat

Cris & Ted

Nos Anos da Faculdade

Até Amanhã

Robin Jones Gunn

Robin Jones Gunn adora contar histórias. A prova disso veio cedo, assim que

ela entrou para a escola. Na ocasião sua professora fez a seguinte observação em seu

boletim: “Embora Robin ainda não domine as habilidades matemáticas básicas, ela

prende a atenção de todos os coleguinhas com as divertidas histórias que conta na

hora em que a turma se reúne no tapete da sala”.

Quando sua primeira série de livros para crianças com idade entre um e três

anos foi lançada, em 1984, Robin não fazia a menor idéia de que passaria a escrever

romances. No entanto os projetos foram crescendo de tal forma que o presente

volume já é seu 49º livro publicado. Dentre suas muitas publicações, estão a Série

Cris e a Série Selena, que juntas já venderam mais de dois milhões de exemplares em

todo o mundo, tendo sido traduzidas em várias línguas.

Robin e o marido, Ross, trabalham com jovens, há mais de vinte e cinco anos. Já

moraram em muitos lugares, dentre eles a Califórnia e o Havaí. Atualmente vivem

no Oregon, nos Estados Unidos, com os filhos adolescentes e o cão Hula.

Você pode visitar o site da autora no seguinte endereço: www.RobinGunn.com

Para Luanne que, quando tínhamos vinte e um anos, virou-se para mim e

disse: “Que tal viajarmos para a Europa nas próximas férias?” E lá fomos

nós. (Até hoje guardo as flores que pegamos em Adelboden, Lulu.)

Para Laurie, que dividiu conosco sua loção refrescante e os poucos

chumaços de algodão que tinha, durante aquela noite quente e abafada no

albergue em Paris.

Para Carol, que nos fez rir sem parar no trajeto até a estátua da

Pequena Sereia em Copenhague.

Para Laraine, que nos fez procurar até achar o melhor sorvete de

Florença. (Você se lembra, Lola? Você disse que o sorvete Amaretto, da

sorveteria Vivolli era espetacular.)

E para Chuck, que me disse para fechar os olhos, ao entrarmos na Gruta

Azul. Obrigada pela pizza que comemos na estação de Roma naquela noite.

Acho que ainda lhe devo essa!

“Os velhos amigos estão sempre presentes, quando o coração se mantém

jovem.”

- Robin Jones Gunn

1
Era junho. A luz da aurora nem sequer havia pintado no céu, trazendo consigo a

promessa de um novo dia, e Cris Miller já se encontrava de pé, correndo apressadamente

pelas ruas de pedra da cidade de Basel, na Suíça. Dando passos largos, a jovem dobrou a

esquina em direção à estação de trem, notando que o ritmo de seu coração achava-se mais

acelerado que o de suas pernas.

Desta vez não vou chorar ao encontrar o Ted.

No último Natal, quando fora visitar a família na Califórnia, Cris desabara a chorar ao

ver o rapaz. Ele simplesmente ficara parado em sua frente, como se não soubesse direito o que

fazer com ela. O choro, que na hora parecia não acabar mais, fez com que Cris se sentisse

frágil e sem jeito diante dele.

Hoje sou uma pessoa bem mais forte do que era no Natal. Não vou chorar.

Já no final da rua, virou à esquerda. Mais seis quarteirões e estaria na estação.

E desta vez não vou deixar a Katie me convencer a fazer coisas que não quero. Se é

para eu, o Ted e ela nos darmos bem durante as próximas três semanas em que viajaremos

pela Europa, então, tudo terá de ser decidido em conjunto.

Cris apertou os longos cabelos castanhos com as mãos, para ver se ainda estavam muito

molhados. Havia tomado um rápido banho de manhã bem cedo. Foi então que se lembrou de

que dali a um mês comemoraria seu vigésimo aniversário. E, aos vinte anos, deveria enfrentar

a vida como uma mulher forte e independente, certo? Era o que pensava.

Está na hora de tomar uma posição quanta à minha vida. Não vou deixar que a Katie

fique sempre determinando o que devo e não devo fazer.

Tomar decisões nunca fora o ponto forte de Cris, e por isso mesmo ela estava disposta a

mudar. Começaria tudo de novo, da estaca zero, e mostraria aos amigos o quanto havia

mudado e amadurecido durante o ano que passara estudando na Suíça.

Pensava ainda no assunto quando sentiu no ar o delicioso aroma de pão fresquinho

vindo de sua confeitaria - ou Konditorei - predileta, que ficava no final da rua. Aquele era um

lugar especial, e caminhar até lá todos os sábados pela manhã tornara-se um hábito para Cris.

Era uma forma de se “recompensar” pelo empenho durante mais uma difícil semana de aulas

na universidade e de trabalho no orfanato, onde era voluntária.

Uma “recompensa” bem melhor chegará no trem das 6:15h, diretamente do aeroporto

de Zurique, pensava, sorrindo. E a primeira coisa que eu, o Ted e a Katie vamos fazer será vir

aqui a essa Konditorei. Vou oferecer-lhes algumas das deliciosas quitandas suíças.

Levantando o rosto, Cris inspirou o delicioso aroma mais uma vez. Parou por uns

instantes e fez rapidamente uma trança frouxa no cabelo, prendendo-a com um passador que

colocara no bolso da calça. Afinal o céu começara a clarear, exibindo uma tonalidade lilás -

acinzentada, e nas árvores os passarinhos cantavam alegremente.

Já no último trecho do trajeto, Cris caminhava apressadamente, com passos ligeiros. Ao

chegar, olhou para os dois enormes leões de pedra, que guardavam a entrada da Bahnhof de

Basel e, estampando um sorriso no rosto, entrou e foi conferir o quadro de horários. Ted e

Katie chegariam dentro de sete minutos, na plataforma quatro. Cris correu em direção ao

Olhou para um lado e para o outro. o olhar de Ted fixo no dela e seus lábios a poucos centímetros de distância. . Cris se virou então para ver se por acaso os amigos estavam na outra ponta do trem. foi como se tudo ao seu redor girasse em câmera lenta. Ao avistá-la. pois queria estar presente para receber seus melhores amigos assim que descessem do trem. que estivera alto quando caminhava para a estação. De repente. Mas de uma coisa estava certa: os penetrantes olhos azuis que a pouco avistara só poderiam ser de uma pessoa. correu em direção ao seu surfista louro predileto.local. Tudo isso mais a ternura do beijo dele. e pronto! Era demais para ela. Chegando ao local indicado.Kilikina! murmurou o rapaz. Abrindo caminho em meio à multidão. trazendo-a para bem perto de si. Em questão de segundos lá estava ela. Cris se derretia toda sempre que Ted a chamava pelo seu nome havaiano. Por um momento. Cris se pôs a esperar os amigos. . Para sua surpresa. pronunciando o nome que há cinco anos guardava no coração. . Não sabia se aquela tonteira fora provocada por uma redução súbita do nível de adrenalina. em comparação com as ruas por onde andara pouco antes. Cris teve a impressão de ter ouvido um gritinho familiar em meio ao ruído de passos apressados que se ouvia. esperando ver a qualquer momento um vulto do cabelo leve e acobreado de Katie em meio a toda aquela gente. beijando-a logo em seguida. ou se era a multidão apressada que a estava deixando assim. Poucos minutos depois. completamente. Derretia mesmo. homens e mulheres. Uma multidão de executivos. o trem apontou na estação. Ted tirou o mochilão das costas e puxou Cris pelo braço. tomando o cuidado de se posicionar mais ao centro. envolvida nos braços dele. desembarcou. a estação achava-se bastante movimentada e barulhenta.Ted! exclamou ela. Contudo não viu ninguém. para que pudesse avistá-los independentemente de que lado descessem.

Seu queixo. Era com se uma certa tranquilidade pairasse sobre eles.não conseguia resistir.E eu prometi pra mim que não iria beijá-la. as lágrimas começaram a descer-lhe pelo rosto. achava-se áspero em consequência da barba por fazer. como se tentasse descobrir os mistérios escondidos por trás daqueles olhos azul-esverdeados. . secando rapidamente a face molhada. disse Ted com um sorriso maroto. Cris acenou que sim e sorriu carinhosamente. disse ela. Seu hálito cheirava a chocolate. uma forte paz tomou conta do seu ser. disse. interrompeu-os. Ted.Oi. curtindo um ao outro.Prometi pra mim mesma que não iria chorar. até mesmo aqueles que guardava no mais profundo do coração.Tudo bem com você? perguntou ele. como um manto invisível. Ted se afastou com uma expressão um pouco hesitante. que mostrava suas covinhas. firme. respondeu Ted. erguendo as sobrancelhas.Oi. . passando os dedos pelo queixo do rapaz. dando um sorriso largo. E em meio a toda aquela barulheira. Por um momento Cris teve a sensação de que Ted pôde enxergar todos os seus sentimentos. com sotaque italiano. por sua vez. Ela. Seus olhares se achavam completamente envolvidos um no outro. de mãos dadas. Ficaram ali parados. Foi então que uma voz masculina. . Ted enxugou a última lágrima que restara no olho esquerdo de Cris. O olhar de Ted parecia tentar decifrar o que se passava no coração de Cris. perguntava-se se passaria o resto da vida fitando aqueles olhos azul-prateados. Usando o polegar.Desculpe atrapalhar vocês. . Parecia analisar a expressão do rosto dela. tão singulares e brilhantes. . Não demorou muito. -sem tempo pra fazer a barba? perguntou Cris em tom de brincadeira. Mas é que meu carro não pode ficar muito tempo estacionado. . .

? Mas antes mesmo que pudesse terminar sua pergunta.Você também! exclamou a outra. passando por Antônio e dando um abraço em Cris.Podemos conversar no caminho.Vocês sabiam que o Antônio iria aparecer por aqui? perguntou Cris. . Cris olhou para Ted.O Antônio conseguiu de irmos acampar com ele na Itália. Era Antônio. que deu um sorriso. .Cristiana. pondo a mão sobre os ombros dela e dando-lhe um beijo em cada face. . Cris se afastou de Ted. surpresa em ver o rapaz.Ai e oi! disse Cris.Ficamos sabendo dois dias antes de viajar. . um amigo italiano que estivera na Califórnia fazendo intercâmbio. como. pegou a bagagem de Katie e carregou-a para a jovem. Em seguida. a armação de sua mochila acertou em cheio a testa da amiga.. ... ouviu um gritinho que só poderia ser de sua melhor amiga. Seus olhos verdes pareciam brilhar.Acampar? perguntou Cris. disse Antônio. . .”Ai!”? Faz meses que não nos vemos e tudo que você tem a me dizer é “ai!”? . .O quê. Cris quase perdeu o equilíbrio. A sempre-exuberante Katie foi logo abrindo caminho. respondeu Katie. que bom ver você! Está surpresa em me ver aqui? perguntou ele..Sim. ao se movimentar. dando um abraço um pouco menos exagerado em Katie. . . . Você está tão bonita! . Entretanto.Ai! exclamou Cris.

que se achava no centro da van. apontando para a porta a que deveriam se dirigir.Achei que iríamos primeiro lá. Ted acomodou o mochilão nas costas e pegou a mão de Cris. . Isto aqui vai lá em cima. e Cris notou que o pára-choque dianteiro estava bem amassado.Você me disse isso? É que achei que não tínhamos nada programado ainda.Que é que tem a Escandinávia? perguntou Ted.Dêem uma mão aqui! disse o rapaz. Cris não conseguia raciocinar direito. Ted havia dito que começariam viajando pela Noruega. Não ali.E a Escandinávia? . . . Katie. que parecia que nunca mais iria soltá-lo.Não. Não faz mal. Já está tudo ajeitado. Foi por isso que combinei de acampar com o Antônio. O Antônio tem todo o equipamento necessário. principiou ele. puxando uma pesada bolsa de lona cinza. me desculpe. Ted parou. . parada do outro lado da rua num local proibido.Meu carro é aquele ali.Então quer dizer que vamos acampar? perguntou Cris. . Talvez a idéia tivesse sido de Katie. Abriu a porta lateral. uma pequena van branca. . Foram andando na frente. até chegarem à Itália. Se bem se lembrava. Cris não queria bancar a chata e começar a brigar com Ted. guiando o grupo até a saída. Contudo agora já não tinha certeza. Não naquela hora. se você me disse isso e eu não recebi seu e-mail a tempo. . em ritmo acelerado. você tem razão. e não de Ted. por sua vez. . visitando os países mais ao sul. . puxando-a consigo para fora da estação. agarrou-se ao braço de Antônio com tanta força.Sim. Antônio os levou até o carro. num espaço onde não havia bancos. Ainda não tínhamos nada programado. Mas.

. Esta aqui é a rodovia que pegamos pra ir pra Itália. . Em seguida prenderam a carga com cordas bem firmes. . dos lados. A universidade fica pra lá. . procurando mostrar-se tranquila. não havia nada. . No centro. num dos sacolejos do carro. Lá de trás. dando apenas uma olhadinha para trás.E aí? Vamos nos divertir a beça ou não vamos? disse Katie. somente as bagagens. dando um abraço animado em Cris e indo se assentar lá atrás ao lado de Ted. Sentou-se no banco da frente e apertou o cinto de segurança.Como foi que vocês dois planejaram tudo isso? perguntou Cris a Ted. respondeu Ted. . Antônio gritava em italiano com os outros motoristas e descia as ruas rápida e bruscamente.Antônio.Por e-mail. Os quatro tiraram todo o equipamento de camping de dentro do veículo e o puseram em cima da van. empurrando sua mala e a de Katie para dentro do veículo e entrando em seguida. cobrindo tudo com uma lona especial. . arrancou. Foi a conta! Instantes depois. Antônio meteu o pé no acelerador e. já estive em Basel antes. gritou ela. temos de ir na outra direção.Não é isso que estou dizendo! Não podemos ir pra Itália agora! exclamou Cris em . onde Cris morava. pequenos armários embutidos na lataria. Cris agarrou-se às extremidades do banco. Estavam indo na direção oposta ao campus universitário. Na parte traseira da van havia um banco e. Katie gargalhava histericamente porque.Antônio. cantando os pneus ao sair. ainda não estamos na Itália! Faça-nos o favor de nos manter vivos pelo menos para podermos chegar lá? Antônio olhou-a pelo retrovisor e deu um sorriso. Diminuiu a velocidade e pela primeira vez deu seta antes de convergir na principal avenida que saía da cidade.Não. Cris acenou sem muito entusiasmo. disse Cris. procurando manter o equilíbrio. acabou sendo arremessada contra Ted.

pânico. gente. Olhou para Cris e. com um olhar amigo. . seguindo Cris em direção ao prédio. quando estaremos na Rancho Corona. gritou Katie. estacionando novamente num local proibido. Vamos. Espere só até chegar setembro. Você vai ver! Os quartos de lá são duas vezes maiores do que este e são apenas para duas pessoas.O pessoal aqui é meio chato com relação ao estacionamento.E por quê? . entrou de repente numa rua à direita e parou. É bem melhor! .Então vamos esperar aqui. disse Katie ao sair da van. sugeriu Ted. mas vou precisar de um tempinho para terminar de juntar minhas coisas. .Pra que lado vamos? Com Antônio ao volante. e não três. caso seja preciso dar umas voltas no quarteirão enquanto esperamos. praticamente aos berros. perguntou simplesmente: .Vamos ficar esperando aqui. Durante o trajeto. não demoraram muito para chegar ao campus. como se buscasse o apoio deles. vamos todos conhecer o quarto dela. minha mala está quase pronta. olhando em redor.E nós vamos rapidinho. Não sabia que iríamos para a Itália. disse Cris a Antônio.Porque eu não trouxe nada! Minha bagagem não está aqui! Antônio disse algo em italiano. . olhando para Ted e Katie.Nossa! Seu quarto é bem menor do que imaginei! disse Katie. . disse Cris. .Na verdade não estou exatamente preparada para viajar. . disse Antônio. .Quero ver seu quarto. Cris se acalmou e procurou pensar racionalmente. . que parecia um pedido de desculpas. Cris correu até o quarto e abriu a porta. quero dizer.

. Em vez disso. . no seu quarto. que mais você precisa pegar? Posso lhe dar uma ajuda. Aproximou-se da amiga e deu-lhe um aperto carinhoso no braço. Não se zangue comigo.É.Tudo bem. Katie abraçou Cris fortemente. nós estamos na Suíça! . apontando para a bolsa de lona no canto do quarto. Cris pegou a frasqueira e começou a colocar nela alguns objetos que estavam sobre a mesa. Katie parecia admirada com a reação de Cris. .Claro. Mas ainda tenho de pôr algumas coisas na mochila. disse Cris na defensiva. conversando uma com a outra como se nos falássemos todos os dias?! Cris.Ah. você me contaria. estavam prestes a sair desvairadamente rumo à Itália. Nada estava saindo do jeito que imaginara. não é mesmo? . . quase impedindo a amiga de respirar. -se você estivesse chateada com alguma coisa. eu sei que é. né? Katie se afastou.Esta aqui já está pronta. . enquanto discutiam sobre o roteiro de viagem. mas aqui também é legal. O que deu em você? O que há de errado? . pondo as mãos na cintura. . Cris.É. O que estou dizendo é que vai ser bem melhor quando estivermos todos juntos na mesma universidade. . tomando café e comendo doces. Você não acha? Cris acenou vagarosamente. Estou apenas tentando pensar no que preciso pôr na mala.. Era para estarem assentados a mesa da confeitaria.Dá pra acreditar que estamos aqui.. acho que estamos.Então. semestre que vem. respondeu Cris. no foguete-móvel do Antônio. De repente. Cris. disse Katie batendo uma mão na outra.Nada.

pelo menos um. Ted havia passado para o banco da frente. Entrando no carro. Poderíamos aproveitar também para discutir melhor nosso roteiro. Estamos numa aventura! Pra que ficar andando com eles de um lado para o outro parecendo turistas? Ignorando o comentário da amiga. Não estou conseguindo pensar em mais nada que tenha de levar. Ted e Antônio estavam esperando na van. Além disso. Vocês estão. pé na rua! foi decidindo Antônio. cerrando firmemente os lábios e tentando pensar no que poderia estar esquecendo. . . . dando um tapinha .Neste caso. não precisamos de guias turísticos. Cris pegou o guia que estava no topo da pilha e enfiou-o na mochila. . .Eu não estou nem um pouco com fome. . quem sabe não damos uma parada ali na Konditorei antes de pegar a estrada? É a melhor confeitaria de Basel e não é muito longe daqui. o motor já ligado. meninos? Ted deu de ombros.Você quer dizer pé na estrada.Você não ‘tá pensando em levar isto. disse Katie ao entrar van.Mas eles são grandes demais. Vamos? Katie saiu carregando a bagagem de Cris e comentou que esta estava bem mais leve do que a dela.Estou pronta. disse Cris.. ‘tá? perguntou.Só espero que não esteja levando coisas “de menos”. Cris se assentou no banco de trás e disse: .Alguns. . Katie pegou um dos guias turísticos que estavam sobre a escrivaninha. Antônio? disse Katie aos risos.Estava pensando. né. sim.. . disse Katie.

Pé na estrada. E naquela conversa. que não sabia se podia fiar-se em seus sentimentos. Sentia-se preparada para avançar no relacionamento com Ted. os dois haviam caminhado de mãos dadas pelas ruas. Fazia semanas que estava sonhando em ir com Ted à Konditorei. Sentia-se tão fragilizada naquele momento. Ao passarem ligeiros pela confeitaria. quando estavam em Londres. enquanto Cris ajeitava o cinto de segurança. ___________________ * Quitanda tipicamente inglesa. Lá vamos nós! Com um solavanco. um misto de bolo.) E se o Ted não estiver pronto para dar esse passo? E se só eu estiver disposta a assumir um compromisso mais sério? Bem. na direção sul. Cris imaginava como seria a conversa que ela e Ted teriam ali. pelo menos eu acho que estou preparada. tomando chá e comendo scones*. Deu um suspiro profundo. Já havia se passado mais de um ano desde então. Agora só tinha certeza era de que seu cinto de segurança estava apertado ao máximo e de que eles estavam a caminho da Itália. Em seus sonhos e também nos momentos em que passava assentada sozinha à mesa da Konditorei. que os levaria para a Itália. em seus pensamentos. (N. deixando o ar sair vagarosamente dos pulmões.nos ombros do rapaz. e abriram o coração um para o outro. biscoito e pão de minuto. Sentaram-se num banco mais reservado. Um ano e meio atrás. Cris olhou pela janela. até chegarem à uma pequena confeitaria. Antônio se pôs a caminho. tornando-o mais sério do que nunca. concluíram que não estavam prontos para assumir um compromisso mais sério. apertando-o bem. rumo à rodovia A-2. da T.Isso mesmo. . . bem ao fundo.

Mi Italia. no entanto. É por isso que a gente tem de fechar bem as barracas. E se Ted estivesse em seu estado normal. Antônio. no local onde ela mais gostava de refletir sobre a vida.Ei. Ted era como um cão golden retriever -sempre fiel e disposto a conviver bem com todo mundo. de modo geral. daria atenção igual a todos. E Cris sabia que não valia a pena bancar a chata e ficar discutindo o tempo todo. à sua frente. apesar das circunstâncias. Seu olhar. Pra onde exatamente estamos indo? . Vou levá-los à minha área de camping predileta. mais importante ainda. respondeu o rapaz teatralmente.Acho que você deve estar se referindo aos guaxinins. À noite. Vocês vão adorar. Duvido que existam . Ficava só imaginando o que estaria se passando na cabeça dele ou. Cris sorria para a amiga.Italia. satisfeito com a vida. e. Cris se lembrou novamente de que não teria mais a oportunidade de se assentar juntinho com Ted para conversarem tranquilamente. falando do quanto era incrível estarem viajando juntos. Cris tinha certeza disso. exclamou Katie. em seu coração. Ted? Você me ama? De verdade? Com pesar. acenando com a cabeça de quando em quando. dirigia-se o tempo todo para Ted. . . Agora eram todos parte do grupo. Ou seja. da turma. 2 Katie se acomodara no ninho que fizera com as bolsas e malas no centro da van. iria manter o espírito de equipe durante toda a viagem. Tagarelava o tempo todo. disse Katie. centenas de “baxinins” saem das matas e comem tudo que encontram no acampamento. O que você realmente sente por mim.

Vamos. disse Antônio para todo mundo ouvir. Cris desejava que ela e Ted pudessem expressar seus sentimentos um pelo outro tão abertamente como eles.ou pelo menos era isso que Katie achava. . . aproximando-se de Cris.Ah! exclamou ela.É.Admito que estava com saudades de você. Se for.Parece um sonho. Na Califórnia. Tem razão. Cris não estaria fazendo uma brincadeira -seria para valer. disse Antônio. você aceitara ser minha madrinha.Mas é claro. não? . de certa forma. Se eu e o Antônio resolvermos nos casar está semana. casamento era coisa séria. No dia em que convidasse Katie para ser sua madrinha. olhando para Katie pelo retrovisor. Isso mesmo. houvera uma pitada de romance entre os dois . respondeu Cris baixinho. e não na brincadeira como Katie e Antônio faziam. não parece? disse Katie rindo. continuou Katie. Mas será que o sentimento de fato existira ou Antônio estava apenas agindo como um italiano romântico? Vendo os dois.“baxinins” na Itália! . costumavam provocar um ao outro dessa maneira o tempo todo. confesse que não consegue viver sem mim. . Você estava com saudades de mim. Que seria de mim se não tivesse você pra me ensinar a falar as palavras corretamente? . Katie. Antônio.Pode admitir. . não me acorde! Nunca estive tão feliz em toda a minha vida! Estou delirantemente alegre! . Essa era uma brincadeira típica entre Antônio e Katie. e não assunto para ficar fazendo piadinhas. sem muito entusiasmo. Só que de maneira sincera. por favor. virando-se para Cris e rindo até as orelhas. .Não consigo viver sem você. Será que algum dia o Ted me dirá que não consegue viver sem mim? . Mas não estou nem aí se for um sonho.Ele é louquinho por mim! exclamou Katie. Para ela. Guaxinins. E.

Muito bem. Afinal chegaram. que descarregavam a van e começavam a montar as barracas. rumo à Itália. e os meninos. durante as horas seguintes em que atravessaram a Suíça. Todos os acampantes esfomeados devem passar por aqui. nos mínimos detalhes. . Katie. pessoal. Em seguida foi até o caixote que Antônio trouxera e o abriu. como diria Antônio. Katie havia traçado uma linha na terra com o calcanhar. O ar fresco parecia encher de ânimo os quatro acampantes. Cris não conseguia ouvi-los. Antônio e Ted mantiveram um papo animado entre si. A “cozinha” ficou do lado dos rapazes. ou. Era estranho pensar que os Alpes passavam também pela Itália. pararam apenas uma vez para abastecer. . sob a sombra de altas árvores que circundavam o local. Cris foi aos poucos se acostumando com a idéia de estarem indo acampar. . Katie aproximou seu “ninho” da amiga e se pôs a contar-lhe todas as novidades dos amigos da Califórnia. determinou ela. Estou vendo aqui algumas xícaras. havia um grande espaço para armarem as barracas. Cris não tinha a mínima idéia de onde estavam. Antônio? .Só tem um probleminha. Ouvindo-a. Na área em que ficariam. Brincalhona como sempre. certo. uma cafeteira e uma frigideira. Contudo ficou surpresa ao ver que a terra era bastante semelhante à que estava acostumada a ver nas montanhas que rodeavam a universidade. mas agora eles já se achavam na estrada. disse Cris.As meninas ficam deste lado. ela estava disposta a agir com espírito de equipe.Certo. em vez de estar o tempo todo mal-humorada. Mas onde foi que você escondeu a comida. Katie deu a volta pela extremidade da linha que riscara no chão. uma vez que as janelas do veículo estavam abertas e havia muito barulho. bancando a coitadinha. Sendo assim. De fato a viagem não começara do jeito que ela gostaria. . Durante o trajeto. do outro. este é o caminho da cozinha. para colocar “petróleo” na van.

disse o rapaz colocando o braço sobre os ombros de Katie e levando-a consigo por uma estreita trilha. . disse ele a Cris. você é um amante da natureza! Poderia ser a pessoa mais entendida em redes do mundo! disse Cris. Ted colocara uma pulseira de chapinha de ouro em seu pulso. Só árvores. disse ela. Com os olhos ainda fechados. hein?! Muito bem! exclamou Cris. . ouvindo atentamente. um ano e meio atrás. com um sorriso singelo.Não. .Bem ali! respondeu Antônio acenando com a cabeça.A geladeira fica logo depois das árvores. .Bravo! respondeu o rapaz. Cris notou que Ted havia se deitado na rede. com voz fraca. puxando a rede para perto de si e soltando-a em seguida. A mais forte delas era de quando estavam numa estação de trem na Espanha e uma brisa semelhante balançou as folhas das palmeiras. .E você tinha dúvidas de que eu conseguiria? .Não estou vendo nada. fazendo ecoar um rangido à altura do nó que Ted fizera.Elas estão nos aplaudindo. Aquela brisa lhe trouxe várias recordações. em que estava gravada a expressão “Para Sempre”. Ted estava amarrando uma rede entre duas árvores quando parou e olhou para cima. . Cris correu os dedos pela chapinha de ouro. Ted. De .Ouça só isso. enquanto pregava no chão a última estaca da barraca. vou lhe mostrar. Estava balançando tranquilamente. . Cris sabia do que ele estava falando. Venha comigo. com as mãos entrelaçadas sob a cabeça. Naquele dia. aproximando-se dele.Pelo visto você conseguiu mesmo amarrar essa rede. A rede balançou bem alto. Ao abrir os olhos. Fechou os olhos então e se pôs a escutar o som do vento balançando as folhas na copa das árvores. o rosto voltado para o céu. .

Legal.E o que vamos comer enquanto isso? perguntou Katie. soltando uma risadinha.Não tem comida nenhuma no tal lugar.. anzóis.Não a chamei de nada. levantando-se e limpando a terra que ficara em suas costas. fazendo barulho. replicou a jovem ironicamente. Antônio vinha logo atrás. Ted vasculhava uma caixa plástica onde havia anzóis e iscas. Katie chegou.Carne seca! sugeriu Ted. uma das cordas se rompeu. Ele parecia assustado. correndo entre as árvores. disse Cris. vamos ter de “pescar” nosso jantar. . disse Ted. Temos tudo aqui: varas.Sim. . Você ‘tá legal? Mas antes mesmo que o rapaz pudesse responder. Está lá na van. dentro da minha mochila. A “geladeira” de que o Antônio falou é.repente. . respondeu o rapaz. concluiu que era melhor ficar calada. mas a julgar pela expressão de raiva no rosto de Katie. .Do que você me chamou? perguntou Katie. Cris teve vontade de rir novamente. disse Antônio a Katie. na verdade. Antônio? . Cris se segurou para não explodir de rir da cena e foi rapidamente ver se Ted estava bem. virando-se para Ted. Ted e Antônio se agacharam perto da caixa que continha os apetrechos para pesca. ao vê-la passar por eles como uma oncinha. . . Estava apenas dizendo que trouxe um pouco de carne seca.Sinto muitíssimo. . . .Acontece que não vi nenhuma lanchonete no caminho de volta da lagoa. e Ted caiu no chão. mas não se machucara. uma lagoa! Ou seja. . Trouxe as varas de pescar. junto com a rede..Você precisa e de um bom cappuccino. Sirva-se à vontade. Estavam preparando uma vara de pescar desmontável.

Eu empurrei o Ted um pouco mais forte do que devia e a corda se rompeu. . em tom de reclamação.Não. e Cris foi colocar alguns galhinhos na pilha de gravetos que juntara. Esta corda ‘tá precisando de um nó especial da Katie. Está perfeita. Katie? . O nó é que deve ter soltado. Quando os rapazes voltassem. . então.O que houve com a rede? perguntou Katie.Você se lembra de quando fui fazer um café da manhã para o Ted na praia e as gaivotas apareceram e comeram todo o bacon e os ovos que eu tinha preparado? . disse Katie. Cris. Depois. Você ‘tá? . duvido que o Ted entenda de nós tanto quanto eu. Cris cantarolava enquanto montava a “cozinha”. Havia se acomodado na rede de Ted. -será que tem alguma coisa pra comer também? perguntou Katie. Os rapazes saíram e Cris se pôs a juntar alguns gravetos. ela não se rompeu.Não. voltou para o mato em redor para catar mais. dando uma olhada na extremidade da corda. . Katie foi ajeitar a rede. o quê? disse a outra sem abrir os olhos. mas estou com fome.Sabe o que isto me lembra. .Não. vamos ter de atacar a carne seca do Ted. Também. Ei. . . que tal ajeitar uma fogueira? Eu e o Ted vamos ver se conseguimos pescar alguma coisa. só teriam de riscar um fósforo. Conseguiu puxar uma tora de bom tamanho para perto da fogueira e. erguendo uma pequena caixa que estava entre os outros equipamentos.Não.Não estou com vontade de tomar café. . Se eles não conseguirem pescar rápido. disse o rapaz. só café. . Estava tudo ali na caixa. foi procurar no caixote algo que pudesse servir de grelha.Tem um pouco de café aqui.

quando escutou a voz de Ted chamá-la a alguns metros de distância. Acorde! disse Cris. arrastando os pés. e Katie havia virado o rosto a fim de aproveitar todo o calor que irradiavam. Os raios dourados do sol da tarde penetravam por entre as folhas das árvores. .É bastante confortável aqui. que era grande o suficiente para comportar duas pessoas. empurrando as pernas de Katie levemente.Katie. pôs-se a aquecer as mãos perto das pequeninas chamas. respondeu a outra.Tem alguém com fome por aqui? Cris fez um esforço para abrir os olhos. Parecia que as cordas e os nós estavam bem amarrados. disse ela. . procurando evitar que ela balançasse muito. Cris subiu na rede. . . que estava parado. Cris então caminhou até a rede. eles já voltaram. pesados de sono. Cris saltou da rede com cuidado e caminhou até a fogueira. então. Foi o último comentário que Cris se lembrava de ter ouvido. Virou-se. Cris conseguiu enxergar a silhueta de Ted. Sentia o cheiro da fumaça que vinha da fogueira. com os olhos ainda fechados e as mãos cruzadas sobre a barriga. e começara a escurecer. deitando-se com a cabeça para o lado oposto à de Katie. segurando um peixe de aproximadamente trinta centímetros de comprimento. não conseguiria me mexer aqui dentro.Em algumas áreas de camping aqui na Europa é proibido fazer fogueiras. Foi então que percebeu o quanto seu corpo estava duro. Chegando lá. Estava tensa e com frio. Katie não fez nenhum comentário. A claridade da tarde já se havia ido. e viu que Antônio estava acendendo o fogo. . . dando um tapinha na perna da amiga. disse .Só você não me acertar o rosto com o pé. disse Katie com voz fraca.Arreda aí que estou entrando! disse Cris. está tudo bem.Mesmo que eu quisesse. .

. Enquanto juntavam os pratos. Era alguma coisa do tipo “Deus está nos céus.Venha cá. todos os verões.Pelo menos umas duas horas. disse Ted.Não há de quê. Ainda não haviam terminado de comer. chamando Cris para se assentar mais junto dele. Desde que completara quatorze anos. Katie e Antônio. Lembrou- se de uma frase que ouvira tempos atrás. Cris encostou a cabeça sobre os ombros de Ted e sentiu todo o corpo aquecer. respondeu Cris. como se os observassem lá de cima. A fogueira ficou do tamanho certo. Naquele momento. Com estes. eles cantavam louvores. Ainda bem que vocês conseguiram pegar alguma coisa. dar um passo rumo àquele céu estrelado e ser tragada pela eternidade. no sul da Califórnia. Cris.Antônio. trouxe-lhe uma sensação que há muito não experimentava. juntando-se aos outros.Não. Juntos. . sob as estrelas. acampando com seus melhores amigos. Na universidade. Agora sim aquilo estava com cara de férias de verão. Mas aqui é permitido. algo diferente de tudo o que experimentava com os outros amigos. e as estrelas já estavam todas no céu. Foi difícil? . Estar ali. bocejando também. . Antônio foi preparar café em sua chamuscada cafeteira de acampar. Cris compartilhava de algo muito mais profundo e gostoso. Cris havia se reunido com os amigos em torno de uma fogueira na praia. ela sentia que podia simplesmente fechar os olhos. . com os quais saia para conversar e tomar café nas noites de sábado. limpando o peixe com um canivete. só demorou um pouco. assavam marshmallows e falavam de suas dificuldades e alegrias uns com os outros. Cris sorriu. Cozinhar o peixe também foi um pouco demorado. Grazie. sob o céu limpo.Quanto tempo a gente dormiu? perguntou Katie com um bocejo. tinha vários amigos. respondeu Ted. e tudo . Contudo não era a mesma coisa que estar ali com Ted.

Cris. Estava tudo certo. e os quatro começaram a cantar.Vou buscar meu casaco. onde estavam assentados. eu tenho um suéter aqui. Entretanto. em tom de repreensão. .Você não trouxe casaco? Que tipo de acampante você é? disse Katie.vai bem no mundo”. de repente. O rapaz pegou uma blusa de lã. cantavam baixinho e cutucavam com varas longas as brasas que haviam restado na fogueira. Era isso que ela sentia. não parecia que Katie estava realmente pedindo desculpas. caminhando em direção à van. Juntos. trazendo-a para perto de si. A voz deles ecoava pela mata em redor. E ela podia sentir a presença de Deus bem de perto. não! exclamou. À medida que foi escurecendo. -se você bem se lembra. . Não tive todo esse tempo para pensar no que precisava trazer para acampar. Cris entendeu o comentário como uma crítica e. e jogou-a para Cris.Ei.Foi mal. . Por acaso alguém trouxe um casaco extra? . Aquele cujo sopro agitava as folhas na copa das árvores e cujos sussurros zuniam pela terra. tive de fazer minha mala na correria. para Cris. . tricotada à mão.Ah. Ted a envolveu com os braços. disse Antônio. afastando-se de Ted afinal. Pegando o tom. erguida em louvor. Tudo ia bem entre ela e Ted. Ted se pôs a acompanhá-la. Cris começou a tremer. Alguém quer que eu traga alguma coisa da van? Foi então que se lembrou de que seu casaco ficara pendurado atrás da porta de seu quarto. Cris começou a murmurar baixinho uma canção. que havia sido pisoteada no chão do veículo. disse Cris. disse Katie. todo aquele clima especial que se formara evaporou-se no ar. .

Você não vai precisar dela? perguntou a jovem. Katie. Cheirava como se houvesse sido usada como forro para gaiola. incapaz de se adaptar à maneira mais simples dos europeus de levar a vida. de repente.Vou pegar um desses cobertores. trapo para limpar a sola da bota de algum fazendeiro. jogando para ela mais uma peça de lã fedorenta. .Boa-noite. se você tiver mais um. Boa-noite. Depois. Entretanto logo se arrependeu de ter dito aquilo.Vocês estão falando sério? Isso é tudo que vamos ganhar? Vocês não trouxeram colchões infláveis? E travesseiros? . Abriu o suéter e usou-o para forrar o chão. Ted se levantou e. fazendo-os de travesseiro. Cris deu uma cheirada na blusa e se arrependeu de tê-la aceitado. responderam elas em coro. ajeitando-o em torno de si como se fosse um saco.Use um suéter. . Detestava quando parecia uma menina americana mimada. Pegou um short limpo e dobrou uma camiseta. Katie também demonstrou-se surpresa com a quantidade limitada de cobertores: apenas um por pessoa. por último. . sugeriu Ted. Cris. disse ele. . Contudo . indo para a barraca masculina. então. disse Antônio. . . Era óbvio que Cris não iria deitar o rosto naquela blusa fedorenta do Antônio. pano para enrolar peixe e. tudo o que havia restado da intimidade que desfrutaram juntos naquela noite desapareceu. Boa-noite. Antônio. Cris entrou na barraca e procurou aproveitar da melhor forma a blusa e o cobertor fedorentos que Antônio lhe emprestara.Tome aqui um cobertor. O rapaz espreguiçou-se e soltou um bocejo. deitando- se sobre ele. cobriu-se com o cobertor de lã.Vocês não trouxeram sacos de dormir? perguntou Cris.

‘tá bem? . . Da barraca masculina. . Katie abriu a barraca e colocou a cabeça para fora. logo “apagou”. ecoava o ronco continuo de Antônio. Escute só! Katie acendeu a lanterna e Cris imediatamente a tomou dela. iluminando a escuridão em redor.Não. até encontrar a lanterna nas mãos de Cris. Katie Você ouviu o barulho? . . teria de esperar até o dia seguinte. Será que são ladrões? Será que estão querendo roubar nosso equipamento? E se eles conseguirem ligar a van sem a chave e nos deixarem aqui? Será que devo gritar? Mais um galho se quebrou. Congelou de medo. Sentia tanto frio que não conseguia pegar no sono. De repente. estendendo as mãos na escuridão e tateando a barraca. do lado de fora da barraca. larga dessa bobeira! disse Katie. disse Cris.Ouça. A idéia é espantá-los com a luz.Ahn? . Cris pegou o braço de Katie e começou a chacoalhá-la.É só os meninos roncando. desligando-a.não deu certo. agora. . Vá dormir. no entanto. Cris. Pelo menos Cris achava que era Antônio quem estava roncando. Cris ficou irritada. Queria ter uma chance de perguntar à amiga como ela estava se sentindo em relação a Antônio e se havia algo mais entre eles. não é som de ronco.Ai. pôs a cabeça para dentro. sussurrando. Tem alguma coisa lá fora. Vendo-a dormir. Katie. E se for o Ted? Como seria se eu fosse casada com um cara que roncasse assim? Nunca conseguiria dormir! Foi então que Cris ouviu o som de um pequeno galho se quebrando. além das brincadeiras que faziam um com o outro. recobrando o fôlego. armada do outro lado da linha que Katie traçara. Katie! . Entretanto.Acorde.Não acenda a lanterna.

. você não vai acreditar no que vi..Cris.

iluminando em redor com o fraco feixe de luz. sentindo o coração disparar. .Mas que bando de guaxinins malvados! .São os “baxinins” do Antônio. chegando para o lado. Foi então que o feixe de luz da lanterna passou por algo próximo à fogueira.O que é? perguntou Cris. .Restos mortais de peixe. e nos ataquem. . Venha cá. Cerca de dez guaxinins franzinos estavam ali. arranhando a barraca até conseguirem entrar? . na escuridão. mas ficaria mais tranquila se eles fossem embora. sugeriu Cris. ele não estava brincando! Veja só quantos guaxinins! O que eles estão comendo? .Talvez fosse melhor não agitá-los com a luz. dando uma risada. disse Katie. quando terminarem com as tripas. devorando o pequeno banquete diante deles.Por quê? perguntou Katie.Nossa.Argh! -será que o Antônio deixou as sobras lá fora de propósito? perguntou Katie. . que fez a luz se refletir na direção delas como se fossem dezenas de pequeninos refletores redondos. Será que podemos fechar a . colocando a cabeça para fora.Você tem de ver isso. Cris juntou-se a ela. . 3 .Não. . disse Katie. Você ‘tá com medo de que eles venham atrás de nós. indiferentes à tentativa de Katie de espantá-los.

né? Só não tem a altura. entocando-se debaixo do cobertor. . Cris. e você sabe disso. esperando que Katie entrasse nos pormenores. .Quer dizer então que esse é seu mais novo padrão de beleza para o homem dos seus sonhos? Você sabe que o Antônio quase preenche os requisitos. na esperança de que assim se sentiria mais aquecida. .E como estão as coisas entre você e o Antônio? .Olha. Não tem nada a ver.E como você se sente em relação a isso? . Não represento nada demais pra ele. acrescentou. não é mesmo? comentou Cris.O que há entre a gente é só uma brincadeira.Bem. na minha opinião. acrescentou Katie.barraca de novo? ‘Tá fazendo um frio congelante! Katie botou a cabeça para dentro e fechou a barraca. Sou a colega de todo mundo. Katie nunca perdia o senso de humor. Cris não conseguiu ficar séria. . como no verão passado? .E o dinheiro. olhos castanhos e muita grana. Cris ficou em silêncio. . Cris. mas não sou o amorzinho de . só quem é muito pobre mesmo sai pra acampar sem levar sacos de dormir e comida.Bem. faça-me um favor e só me acorde de novo se for alguma coisa com mais de um metro e oitenta de altura. .Quê? Então você não acha que a família dele é rica? . . pode me chamar de louca.Acho então que somos bem miseráveis. disse Katie em voz baixa. Por mais contrariada que estivesse. Vendo que a amiga ficara calada.Você acha que pode rolar algum sentimento entre vocês dois. ‘tá bom? disse ela. mas. E de preferência com cabelo escuro.Esta é minha vida. encolhendo-se toda sobre a blusa de lã e enrolando-se no cobertor como se fosse um casulo. cutucou: .

Queria poder cair em sono profundo. . além disso. Cris queria sentir-se aquecida o suficiente para poder dormir. tentando convencê-la a se juntar a eles para tomar o café especial do Antônio. Ao contrário de Cris. disse ela.E aí.Claro. Pensava em qual seria a próxima etapa no relacionamento deles. tremendo de frio. poderia tê-lo “comido”. Cris ficou horas acordada. permitiu que eles passassem por sua mente. Estou muito cansada mesmo. havia passado para sua roupa. com o cobertor enrolado nos ombros. ela mal podia acreditar no quanto se sentia suja e malcheirosa. Pensava em Ted. Aboca estava com um gosto ruim. a fim de se aquecer. afinal. O cabelo se achava todo despenteado e embaraçado e. Ao amanhecer. Cris acabou indo na deles. Cris respondeu com um gemido e depois deu uma goladinha no café. mas. estendendo uma xícara de café para Cris. Se houvesse uma colher ali. madrugadores. Ted se abaixou e pegou a cafeteira sobre a grelha. Pelo ritmo constante da respiração de Katie. mesmo assim. Pelo menos o café poderia acordá-la. respondeu a outra. já estavam de pé. Ao sair da barraca. Cobriu a cabeça com o cobertor e pôs-se a esfregar uma perna na outra. via-se que ela havia pegado no sono. com que dormira a noite toda. acomodando-se melhor. Pensava em casamento e também nas palavras exatas que ela lhe diria quando finalmente tivessem uma chance de levar uma conversa séria e íntima. como você ‘tá? perguntou ele. como se fosse . Podemos dormir? . No entanto seus amigos. o rapaz estava com uma aparência limpa e cordial.ninguém. os olhos. Cris sabia que o mau cheiro da blusa de lã. procurando não fazer careta. pensava. remelentos. Cris estava se sentindo exausta. O café especial de Antônio devia ser o café mais forte e espesso que Cris já provara em toda a vida. Sabia que não deveria deixar os pensamentos correrem solto. Mas não quero falar sobre rapazes agora.

Se Ted estava acordado. De certo modo. É no mesmo lugar onde fica a comida.A gente não estava falando com eles.Escutei você e a Katie conversando com eles ontem na calada da noite. afirmou Katie. .Ei. Antônio colocara tanto açúcar. Ted e Antônio se entreolharam.um creme. Cris deu outra golada no café. . Os raios de sol pareciam se derramar por entre as folhas das árvores.Tem problema se eu usar esta vasilha para esquentar um pouco d’água? perguntou Cris. sorvendo seu café.Muito engraçadinho. .Está refrescante. só de saber aquilo já se sentia bastante aliviada. .Por ali. . Há uma enorme diferença entre uma coisa e outra. Onde ficam? Antônio deu um sorriso maroto. Ao fazê-lo. então era Antônio quem estava naquela roncação toda. .A água está muito fria? perguntou Cris. apontando para a trilha que passava pelas árvores. Vocês não me falaram que havia chuveiros aqui. notando que o cabelo de Ted estava molhado. . como se fosse mel. banhada por aquela luz matinal. disse Ted. que iluminou todo o seu rosto. escutando as duas conversarem sobre os animaizinhos intrusos. disse Ted. Katie estava assentada num toco. notou um pedaço de cabeça de peixe caído ali na terra. . disse ela. O de Antônio também estava. . vocês deixaram os restos de peixe aqui fora de propósito para os guaxinins ontem à noite? Esses animaizinhos parecem ser bem malvados por sinal. e sim sobre eles. Além disso. abaixando-se para pegar uma panela já bem velha. Cris sabia exatamente o que Ted queria dizer com “refrescante”. . que o café mais parecia uma sobremesa do que propriamente uma bebida. disse ele. deduziu.Acho que com isso eu acordo. disse Katie.

Bem. Eles vão pegar café lá na geladeira. Katie resolveu ir com os rapazes. Cris só foi acordar do pesado sono horas depois. embalando-se num profundo sono. Passei a noite congelando de frio! . Antônio começou a rir.Não mesmo. Poucos minutos depois lá estava ela. mesmo com todo o aroma de peixe frito exalando pelo ar. à beira da estrada. Com os olhos ainda embaçados de sono. No entanto se sentia tão sonolenta que nem sequer tinha forças para responder. comentou Antônio. viu um gato nojento rondando os . nesse caso. Tomar café numa lanchonete exótica. com o barulho de uma panela de metal caindo no chão. seria ótima idéia. Quando voltaram com o peixe. .Pelo visto você não dormiu bem. Cris escutou-os discutindo se deveriam ou não acordá-la. Na verdade o que ela gostaria de dizer era: “Quando é que vamos fazer as malas e dar o fora daqui?” . disse Ted. Seguiu em direção à rede. eu e o Antônio estávamos indo arrumar alguma coisa para o café. Querem vir conosco? . Então continuou cochilando. Só que ela estava muito suja para ir daquele jeito.Qual é a programação de hoje? perguntou.Bem. toda enrolada naquele áspero cobertor de lã. que se achava sob um enorme feixe de luz. Espero que não se importem de me esperar dar uma arrumadinha.Claro! Vocês vão de carro até a cidade? perguntou Cris. Você não acha que um peixinho fresco cairia bem agora de manhã? . disse Katie. pensava Cris. acho que vou ficar por aqui me aquecendo perto da fogueira. . Cris correu para a barraca e roubou o cobertor de Katie. Logo que se foram. então.

apesar de o sol já ter-se deslocado. Vocês saem e me deixam aqui. desenrolou-se dos cobertores e saltou da rede. para ver se o vento dava uma arejada nele. O tempo havia esquentado e. . . Cris notou que dois barcos navegavam sobre as águas cintilantes. que de lá das barracas nem dava para avistar a lagoa. Depois.Muito bem. . seus amigos haviam escrito um bilhete usando um raminho queimado. Em seguida. estavam pescando. Os troncos das árvores em redor eram tão espessos. deixando a rede na sombra.Katie? Ted? Antônio? chamou. Ao que parecia. feito de madeira. o lago ficava perto dali. Um deles era um velho barco a remo. Assim. pôs-se a caminhar rumo à “geladeira”. Cris suava dentro do apertado casulo em que se enfiara. deixando um rastro de espuma na água. com um bando de animais selvagens rondando a área atrás de restos de peixe. Notou então um pedaço de papelão apoiado em frente à barraca feminina. conduzido por dois garotos que.Saia já daqui! gritou ela. pessoal.utensílios de cozinha. à procura de algum resto. sozinha no meio deste deserto. em alumínio. voltou à barraca e vestiu o maiô. O outro era de pesca. À direita de Cris. Ao abrir a barraca. Para sua surpresa. murmurou Cris. aparentemente. . sentiu o intenso e terrível odor do suéter de lã agredir-lhe o rosto. havia uma pequena ponte. uma vez que Cris estava decidida a tomar um banho. Puxou-o então e pendurou-o sobre um galho de árvore baixo. Entretanto a sensação de “abandono” não durou muito. provido de um pequeno motor externo. Não obteve resposta. juntando todos os outros objetos de que precisaria para tomar um banho bem refrescante. Tudo que o aviso dizia era “Fomos escalar”. Fazia uma barulheira enorme ao deslizar pelo lago.

depois de se . Naturalmente Cris não avistou nenhum cupido voando por ali ao sair do riacho e secar- se. Então. Com movimentos suaves. Então. Ela acenou e sorriu. Os outros ainda não haviam retornado quando ela chegou à barraca. era-lhe bastante agradável. Perto dali. Sinto-me como se fosse um desses amantes da natureza! A sensação é exatamente como Ted a descreveu: refrescante. afundando-se em seguida. A sensação de frescor. Aquela em que os cupidos estão esvoaçando em redor da cachoeira e as mulheres se acham enroladas em trajes de tecido leve. -Ciao! exclamou uma delas para Cris. Cris desfez a longa trança e apanhou o sabonete e o xampu. Cris se inclinou para trás. Duas crianças boiavam sobre uma câmara-de-ar. cor de marfim. aquecida pelo sol. ao caminhar de volta ao camping. puxava fortemente suas madeixas. olhando para Cris como se tentasse entender o que ela estava fazendo. entrou na água. Cris chegou a um pequena baía de cascalho. pisando com cuidado e respirando fundo. Estava refeita. Cris se pôs a boiar com o rosto voltado para o sol. Entretanto. mergulhando os cabelos na água. enquanto se cobria de espuma. vinda do rio. A correnteza que passava ali. Cris correu até a ponte e notou que um estreito riacho corria sob ela. aliviada. não muito profunda. e notou que estava morna. ao mesmo tempo que lhe causava um choque. para enxaguá-los. um pequeno passarinho marrom pousou num galho baixo e ergueu a cabeça. Amarrando a toalha na cintura. desaguando no lago. sentia uma maravilhosa sensação pulsar dentro de si. Sinto-me como se estivesse numa velha pintura a óleo que há na biblioteca da universidade. Caminhando pela margem do riacho. Esbaldando-se nas águas rasas. pôs-se a cantarolar. banhando-se num lago. levadas pela correnteza numa vagarosa viagem rumo à lagoa. Tocou a água.

Daí ficou imaginando como seria dormir todas as noites .algo a que não se dera ao luxo de fazer durante todo o semestre letivo. Pensou em sua vida. Aquilo a fez se lembrar das criancinhas que moravam no orfanato de Basel. onde ela trabalhava. no futuro. deixando-o secar ao vento. achei que o trabalho no orfanato seria uma maneira de fazê-lo. tomar banho de rio foi o máximo que já experimentei em termos de “desconforto”. O Senhor não está mesmo planejando que eu viva assim para resto da vida. Cris aproveitou para dar uma boa penteada no cabelo. Na verdade. Fez uma avaliação da experiência que estava tendo na faculdade em Basel. Ficou balançando vagarosamente na rede por um bom tempo. de fato. O Senhor consegue me enxergar vivendo numa ilha tropical? Quero dizer. vindo de uma outra área de camping não longe dali. agora. Ouviu um som de crianças gargalhando. Senhor? Qual será o próximo passo pra nós dois? Será que ele ainda sonha em viver numa ilha deserta. nas esperanças e nos sonhos que tinha . E o Ted. era até um pouco exótico. naquele sol maravilhoso. Olhando para o céu azul-claro. riscado por leves e finas nuvens brancas. O que estou fazendo de errado. servindo ao Senhor como tradutor da Bíblia para tribos não- alcançadas? Será que só eu estou pensando em me casar algum dia? Cris sabia que o Senhor estava ouvindo as indagações de seu coração. falando sério. Deus? Meu desejo é servir ao Senhor e.trocar. via e conhecia todas as coisas. Nunca tivera dificuldade em crer que Deus escutava. Mas sinto-me tão desgastada! Será que servir ao Senhor é pra ser assim mesmo? Desgastante? A única resposta que ouvia às suas indagações era o barulho do vento passando pelos galhos das árvores. pensando também no quanto o trabalho no orfanato a desgastara emocionalmente. ‘tá? Cris tentou se convencer de que tomar banho de rio não é lá tão horrível assim. Cris murmurou: Mas.

lavou a frigideira. onde encheu uma grande vasilha de água. como estou agora. Cris foi atrás da carne seca que Ted havia trazido e comeu o restante. na esperança de que os amigos estivessem voltando da escalada. Fica tudo fedorento. dando uma boa arrumada no local. Cris já estava começando a ficar com raiva e também com medo. Peixe e manga. Várias vezes desejara poder passar uma tarde assim. pensando na vida e sonhando acordada. já não lhe parecia mais tão encantadora. por menor que fosse. Apenas para ter o que fazer. com os passarinhos curiosos e os guaxinins selvagens. livre para ficar sozinha. Aos poucos. Ted gosta de manga. A mata em redor. Mas tem algo que não aguento nesta vida: as coisas se sujam rápido demais. por exemplo. bastante apertados. Cris começou a juntar os vários galhos que estavam no chão. Quem sabe eu não consigo aprender a ser uma mulher mais “da selva”. E eu bem que gosto de ficar olhando as estrelas à noite. Era um lugar deserto. como aquela em que estava se balançando. Depois. Sua rotina era cheia e seus horários. nunca deixar alguém sozinho no . Ao cair da tarde. como. Aquele lugar estava ficando sossegado demais para ela. Entretanto agora queria que seus amigos voltassem. Por que eles resolveram me deixar sozinha este tempo todo? Acho que deveríamos estabelecer algumas regras aqui. foi começando a se sentir cada vez menos empolgada com a idéia de passar a tarde inteira sozinha. Pensou em como seria comer peixe todos os dias. Toda vez que ouvia algum ruído. Também não suporto ficar com fome. Depois. olhava em volta. tanto na escola quanto no orfanato.numa rede. acendeu a fogueira e desceu até ao riacho. Cozinhar ao ar livre é divertido. as quatro xícaras e os garfos. voltando para o acampamento em seguida. Depois de esquentar a água. sem nada para fazer. Durante meses Cris estivera cercada de pessoas. Mas nada de eles regressarem. que gosta dessas coisas naturais? Nem é tão ruim assim. afastado de tudo. correu os olhos pela área de camping.

disse ela rapidamente. No entanto o homem não desanimou e continuou falando.Ich verstehe nicht. Ao se aproximar. como se quisesse chamar a atenção de Cris para o agasalho.Não entendo o que você diz. Tirou dois peixes da fieira e puxou o suéter com as mãos. . Quem se aproximava era um homem de chapéu xadrez. Então. aflita da vida. respondeu ela sem muita expressão. Depois. . disse ela. O homem se aproximou da fogueira. cumprimentou Cris em italiano. replicou Cris. Depois. colocou os peixes na frigideira que Cris lavara. por terem deixado-a ali sozinha o dia todo. . e demonstrasse que tinha plena noção do que estava fazendo. trajando um pesado suéter de tricô. Cris pensou rápido. deu uns tapinha no peito e ficou olhando para Cris. Ela pensava que. de tamanho mediano. Pensando em se tratar de seus “amigos”. como se esperasse uma . O homem carregava consigo uma fieira de peixes. Cris foi logo se preparando para passar um belo de um sermão neles. dessa vez usando frases maiores e mais gestos. o que significava “Não entendo”. Entretanto ele parou e novamente se dirigiu a ela em italiano.acampamento o dia inteiro. perto de onde Cris estava assentada. nem de Antônio. Foi então que ouviu alguns passos vindos da mata. como alguém que estivesse sozinha ali por opção.Ich verstehe nicht. . Contudo os passos não eram de Ted. o homem tirou mais um peixe da fieira e o colocou na panela. fazendo mais alguns gestos. ele simplesmente passaria pelo acampamento. sem parar para mexer com ela. Durante o semestre letivo ela havia aprendido que em casos assim o melhor era responder em alemão. e repetiu o que havia dito.Ciao. como aquele que Cris pendurara no galho da árvore. nem de Katie. se agisse com naturalidade.

Depois o homem soltou mais algumas palavras. . misturado com cheiro de forro de gaiola e sola de bota de fazendeiro. . Talvez ele estivesse apenas sendo um homem generoso. Era um forte odor de pescado. acrescentou: . Apenas seus olhos se movia indo das costas do homem para o pescado na panela. Entretanto ele já não estava lá. uma vez que.Grazie.resposta dela. Ou pelo menos era isso o que Cris pensava. dividindo sua pesca do dia. Lembrando-se então de como dizer “obrigado” em italiano. próximo de onde começava a trilha. . Ah.Danke. Olhou em redor. ela na tinha nada para o jantar. Mas era mais do que cheiro de peixe. evidentemente. Cris se assentou. O cheiro característico de peixe pairava em torno dela. no local em que pendurara o fedorento suéter de Antônio. bateu novamente no suéter e se pôs a caminho. não! Cris deu um pulo e correu rapidamente para o lado de trás da barraca. petrificada.Prego. foi a única coisa que lhe veio à cabeça. acenando com a cabeça. respondeu ele.

vou lhe ajudar. Dando um empurrão em Ted. olhando para Ted sem acreditar no que estava ouvindo. . a fim de exigir que lhe devolvesse o catinguento agasalho de Antônio.Você está cheirosa. chamar-lhe. . .Onde vocês estavam? . respondeu ela. o cara foi embora e deixou três peixes. que vinha lá da mata. . achava-se bagunçado e rebelde.Acabamos perdendo o rumo durante a escalada.Onde é que vocês estavam? Me deixaram aqui sozinha! Veio um cara aqui e levou o suéter do Antônio em troca de alguns peixes. .Sim. que estava solto pela altura dos ombros e que. ela exclamou. por ela ter corrido de um lado para o outro. ela ouviu a voz de Ted.Você prestou atenção em alguma coisa que eu disse? . . comentou ele. respondeu Ted com um sorriso. atirando-se nos braços dele.Venha cá. Já começou a limpá-los? . 4 Antes mesmo que Cris pudesse sair correndo atrás do pescador. contrariada: . O Antônio e a Katie devem chegar dentro de alguns minutinhos.Não. Entretanto o abraço não durou nem dois segundos.Ei. sem que eu entendesse nada do que estava acontecendo! Ted parecia observar o cabelo dela. Cris! já acordou? Cris correu pela trilha e encontrou Ted no meio do caminho.

Mais ou menos. O rapaz começou a limpar os peixes e.Você é que fez certo de ficar aqui e dormir o dia inteiro. Cris percebeu o quanto era desagradável e inútil ser a única pessoa limpinha e cheirosa do grupo. Quero dizer. Da próxima vez. quase pronta. narrando toda entusiasmada as aventuras que haviam vivido durante a maravilhosa escalada. . isso foi uma “coisa de Deus”. Foi minha avó que fez aquela blusa. pedindo desculpas. envolvendo-a. Arranjada.Como assim. Pode crer.Na verdade. Já pensou o tempo que levaríamos até conseguir pescar algum peixe pra jantar? Isto aqui é perfeito. . Ela sempre faz um novo pra mim no Natal. . . Aquele suéter já era velho. Cris. Estava certa de que tinham andado no mínimo uns cinqüenta quilômetros e dizia que nunca mais toparia sair para andar com aqueles dois malucos.Ficaram perdidos? . . Esse negócio de viver dependendo da natureza é muito demorado.Não se sinta. . O rapaz caiu na gargalhada.Você deveria ter batido o pé e só aceitado se fossem cinco peixes no mínimo. Foi então que Cris começou a perceber o quanto estava cheirosa em comparação a Ted. contou a Antônio a história do suéter e dos peixes.Foi sua avó que fez o suéter? Ai. estou me sentindo péssima agora! . Cris! exclamou Katie. Ted? Como é que alguém pode ficar “mais ou menos” perdido? Ou você está perdido ou não! Ted colocou o braço sobre os ombros dela. Katie continuou falando. mostre seus dedos assim e diga “Cinque”. né? Sobrou alguma carne seca? . quando Katie e Antônio chegaram e se assentaram junto à fogueira. Voltamos da escalada e a comida ‘tá pronta. Antônio. Então. pelo menos. Parecia estar se divertindo com os comentários raivosos de Cris e agia como se nada de errado houvesse acontecido. Estou exausta e faminta.

Ficou calada durante toda a refeição. Pelo menos aquilo ajudava a manter o corpo aquecido.Não muito. mais por espanto do que por qualquer outro motivo. na estrada que iremos pegar para o local onde passaremos a noite. .Ué.Já que vocês estão famintos. ela disse: . tremendo de frio. que tinha um capuz. Ouvindo aquilo. sugeriu Cris. Os guaxinins ficarão felizes se deixarmos o peixe aqui pra eles.Ou vocês estão pensando em passar mais uma noite aqui? . Cris foi dormir trajando a blusa de Ted.Em que estrada? . sem o suéter fedorento para servir de . com o capuz na cabeça de forma a esconder o rosto do olhar do rapaz. Estudando a expressão do rosto deles. enquanto ela se virava de um lado para o outro no chão duro. com o capuz ainda na cabeça.E quanto tempo vai demorar para o peixe ficar pronto? . Podemos passar mais quatro noites aqui. Estou de folga do serviço até sábado. com aqueles bichinhos mascarados rondando à meia-noite à procura de restos de peixe.Mas é claro. respondeu Antônio. abanando o fogo e colocando na fogueira mais alguns gravetos que Cris juntara. eu comi tudo. Cris se aconchegou junto a Ted. mas sem muito entusiasmo. respondeu Antônio em tom decidido. . os três largaram o que estavam fazendo e olharam para Cris.Não. . Vendo que nem Katie nem Ted se mostravam contrários à possibilidade de passarem o resto da semana acampados. No entanto. a gente podia deixar isto aqui e ver se acha alguma coisa pra comer na estrada. Cantava juntamente com os outros. Cris resolveu ficar quieta. Mal conseguia imaginar o que seria passar mais cinco dias de suas três semanas de férias ali. Ted havia lhe emprestado sua blusa de moletom azul-marinho. .

verdadeiros “garis noturnos”. que disputava com uns guaxinins a sobra de peixe da noite. Puxou o áspero cobertor até o . passava muito mais frio do que na noite anterior. Sentia-se desconfortável. Cris sentia a aspereza do chão e. O vento começou a soprar mais forte. de repente. uma chuva fortíssima começou a cair. Era um bando de gatos. . Por que não pensei nisso ontem à noite? É bem mais quentinho aqui dentro. Cris chorava baixinho. deixando as minúsculas lágrimas escorrem pelo rosto. para se aquecer. não. Foi então que começou uma briga lá fora. próximo à cabeça de Cris.Katie. Poucos minutos depois. rolando sobre o chão da barraca. está caindo um pé-d’água! Estou ensopada! Eu é que não fico aqui! Vou dormir na van! Correndo sob o aguaceiro. que ecoava num ritmo constante. tamborilando fortemente sobre o teto do veículo. No fim das contas.Agora. Cris chegou à van. a água entrava na barraca por um pequeno rasgo que havia na lona. Mas agora Cris estava segura. fazendo a lona lateral da barraca se levantar e abaixar repetidamente. Aquelas não eram as férias que sonhara passar com os amigos. seu capuz estava completamente encharcado. aparentemente.O que foi? resmungou Katie. além disso. era a única que achava que continuar acampando não era lá uma idéia tão boa assim? Virou-se para o outro lado. A chuva continuava caindo. Depois instalou-se no banco de trás. acho que não faço muito o tipo “mulher da selva”. Deitada. ouvia a respiração de Katie. pôs-se a esfregar um pé no outro. sequinha e praticamente aquecida ali dentro. fechando-a em seguida. Com a ventania. Abriu a porta lateral com um empurrão e entrou.forro. Com ele vieram as nuvens e. levantando-se e abrindo a barraca energicamente. Mas. . como é que poderia dizer isso a eles quando. Será que você não consegue esquecer os guaxinins e dormir? . chega! gritou ela. Estava de meia e.

Arreda aí.Ai! gritou Cris. e todos fixaram a atenção sobre o dedo de Cris. gritou: . . debaixo daquele temporal.Machucou a mão? perguntou Ted. Embora ela sentisse o dedo latejar muito. Foi então que alguém abriu a porta. seus amigos a faziam se sentir como uma “mulher da selva” nota zero. Ted pegou a mão dela e a iluminou com a lanterna. antes mesmo que Cris pudesse responder. Não havia nenhum corte. acabou esmagando o dedo indicador de Cris contra a estrutura metálica inferior do banco. Não estava inchado nem roxo. erguendo o queixo. seu aspecto era normal. Olhando-a daquele jeito. Um . saltando para entrar no veículo. Cris apenas meneou a cabeça. a porta se abriu novamente e Ted entrou.O que foi? Contudo. . pensando que finalmente conseguiria dormir de verdade. . Na manobra. Antônio entrou na van. como o resto de seu corpo e de suas emoções. .Você ‘tá legal? perguntou ele. As lágrimas rolavam-lhe pelo rosto.Pelo visto. pessoal! Arredem aí pra eu entrar! . que eu to entrando! A água inundou nossa barraca! exclamou Katie. . que estava logo atrás. Ted virou a lanterna que trazia consigo na direção de Cris.queixo. enquanto ela apertava com força o dedo machucado. Não conseguia falar. . disse Katie. vocês tiveram a mesma idéia.Vocês dois estão ensopados. Estava apenas doendo muito. Antônio. Cris acenou que sim.Vamos. pressionando firmemente os lábios.

Ted se acomodou no chão. Não é incrível? Do que você se lembra ao ouvir este som? Vendo que Cris permanecera calada. respondeu Cris. Para ela.Não. . .Vai sarar.tem outra lanterna aqui. apoiando as costas nas pernas dela. disse ela baixinho. envolvendo os joelhos dela com o braço. Ted ficou surpreso. Cris recostou-se no banco traseiro. Cris sabia. sugeriu Katie. O que acha.verdadeiro fracasso.Então. . em algum lugar. qual é o problema? perguntou Ted. . . sob o feixe de luz. Ao ver a expressão do rosto de Cris. aquilo não era uma “festinha da camisola” improvisada. que. no entanto. Cris? Cris não estava a fim de jogar nada. tirando a mão do foco de luz. Ted virou-se para Cris e disse: . como os outros aparentemente pensavam ser. Vocês já jogaram xadrez em duplas? Podemos jogar homens contra mulheres. .Ouça o som da chuva. Ou então jogar xadrez. Entretanto Cris não queria que ninguém pegasse ou encostasse nela naquela hora. procurando mostrar-se menos séria. Não demorou muito o cheiro de meia molhada e bota mofada começou a se exalar por todo o pequeno e apertado recinto. . iluminando todo o interior da van.Nesse caso. Ted continuou: . o que vamos fazer? perguntou Antônio. o vento traria a chuva para dentro da van. fazendo o máximo para não começar a chorar de dor. Pense num jipe conversível e numa chuvarada repentina. disse Antônio tatEando desajeitadamente os armÁrios embutidos na lataria do veículo.Vou lhe dar uma dica. se abrisse uma das janelas. Nem mesmo Ted.O que foi? Disse alguma coisa que não deveria? .A gente podia contar histÓrias de suspense. Antônio acendeu uma lanterna maior. já que estamos todos reunidos.

.A gente só tem três semanas pra ver tudo aqui na Europa. ora. mas não era bem isto que tinha pensado em fazer. quando combinamos de viajar pela Europa. acampar e tudo o mais. . Cris hesitou.Não é nada. . Demonstrava estar sinceramente preocupado com ela. tudo bem. que ainda doía muito. .Disto! . É claro que tem alguma coisa incomodando-a. disse Katie. Ande. pelo que vejo! Todos os olhares estavam fixos em Cris.Sinto muito. . Detestava sentir-se daquele jeito. tentando fazer com que Cris continuasse..De acampar? Antônio arriscou um palpite. Apenas três semanas! Agora. . molhada e com fome.Ora. Não adianta tentar esconder. . comendo peixe. uma maravilha! Vocês estão animados a continuar aqui até o fim da semana ou até mesmo para o resto da vida. para ser sincera. E. acho que não dou conta de tudo isto. Cris olhou para Ted novamente e percebeu que era melhor aproveitar o embalo e continuar falando. mas é a primeira vez que acampo de barraca na minha vida! Detesto ser o bebezão do grupo. vocês adoram esta aventura toda de viver em contato com a natureza e tal.Disto o quê? perguntou Katie. soltou afinal: ..Na verdade eu não estou exatamente curtindo esta chuvarada toda da forma como vocês estão.É. Quero dizer. mas vou falar uma coisa: não tenho a facilidade que vocês têm. mas ‘tá sendo uma barra pesada pra mim! Estou aqui com frio. Cris. diga-nos o que é. Todo mundo aqui conhece você bem o suficiente. se vocês estão a fim de passar uma semana inteira aqui nesta chuva toda. Segurando o dedo. . Mas pra vocês ‘tá tudo muito bom.

Sim. levantando a mão e balançando a cabeça. disse Antônio. Fez força para não chorar. Cris tem razão. Não entendo por que não podemos montar um! . intensas. respondeu Cris.Mas é isso que vocês não estão entendendo. sim. disse Ted. aonde você ‘tá pensando em ir? perguntou Katie. Quero dizer.Três semanas não são esse tempo todo que vocês está imaginando.Sinto muito por estar agindo assim. falou Cris.É isso que você quer fazer? Ir pra Noruega? perguntou Katie. . Em alguns é preciso até reservar os lugares. Eram lágrimas quentes.Não. . falando que queria ver um fiorde e conhecer o país da sua bisavó? . Acampar aqui com o Antônio é uma oportunidade única! . levantando a voz. Vamos.Não pensei em nada ainda. Poderiam muito bem ter vindo acampar aqui na Itália sem mim também e deixado para se encontrarem comigo no caminho para a Noruega ou qualquer coisa parecida. A gente tem de descobrir o horário dos trens. mas não estou com pressa. sugira um roteiro pra nós.Mas quem disse que não podemos? Podemos montar um. Na .Tanto faz Noruega ou qualquer outro lugar. E se quisermos parar no caminho pra conhecer alguma outra cidade? Temos de ter um roteiro. Não foi você que mandou um e-mail. eu ainda quero ir lá uma hora dessas. . É por isso que estamos deixando as coisas acontecerem naturalmente. na defensiva. . . . disse Katie.Nem a gente. mas a sensação que tenho é de que vocês se divertiriam muito mais se eu não estivesse presente. Não dá pra gente decidir de uma hora pra outra ir pra Noruega num dia e chegar lá pela hora do almoço. Achei que você queria ir pra lá. disse Katie. . Cris sentiu os olhos se encherem de lágrimas.Então. vocês foram escalar sem mim. acalmando-se. .

eu não quis diz que temos de partir já. até a parte traseira do veículo. disse Katie. reinou o silêncio entre eles. Mi Itália! Vocês vão amar isto aqui. disse Antônio. Por um momento. . . Nenhum . Cinco dias é tempo demais num só lugar com tantos outros pontos turísticos pra se conhecer. Cris sentiu-se melhor ao ver que os outros pareciam concordar com Antônio. . a “oportunidade única” é muito mais do que simplesmente ficar aqui acampado. bem mais do que isto aqui. Assim que a chuva parar. ao tentar defender seu ponto de vista. disse Cris com certa prudência. batendo uma mão na outra. desmontaremos as barracas e vocês irão conhecer mais da Itália. debaixo da chuva. amarrando-a ao pára-choque em seguida.Então ‘tá. Só que a chuva não parou pela manhã. O som da chuva batendo no teto da van fez Cris perceber o quanto falara alto. Temos de trabalhar em equipe. depois de dar toda essa injeção de ânimo na gente. . Amarraram as barracas no teto da van e arrastaram a caixa de madeira. só isso. replicou Ted. Então os quatro acampantes se puseram a desmontar as barracas ensopadas. que continha os equipamentos de camping. Se tivesse de decidir por nós. diria que gostaria de conhecer outras partes da Itália. ‘tá bem? . . Há muito o que se ver aqui na Europa.verdade. interferiu Cris rapidamente. Vamos partir amanhã de manhã. Estavam cansados e com fome. ora. Não é possível que você não tenha nenhuma idéia em mente.Então estamos conversados. . curtindo as árvores e a lagoa.Eu também.Antônio.E pra onde você gostaria de ir depois que sairmos daqui perguntou Ted a Cris. Cris se sentia completamente ensopada. Cris. num verdadeiro trabalho de equipe.Ora. Só estava dizendo que a gente precisa de um roteiro.Não faço muita questão do lugar. Vocês têm de conhecer a Capela Sistina e a Torre Eiffel.

disse Katie. Sentia que sua emoções também haviam sido feridas.A gente come na minha casa. A luz dava as folhas um tom de verde forte. No entanto não era apenas seu dedo que doía. cobertos de girassóis. Antônio aumentou a velocidade.Com certeza. passaram por montanhas verdinhas. Ficou engraçado. ao som dos roncos do motor. Vocês vão gostar muito dela. . estirado no banco traseiro. ela ainda se sentia um pouco culpada por ter ficado tão irritada forçando todo mundo a fazer as malas e ir embora por sua causa. Depois que deixaram o sopé das montanhas. um bem estar interior. . Enquanto isso. a chuva deu uma trégua. Cris olhou para o dedo machucado e notou que estava roxo.Legal isso que você falou. e por campos enormes. Qualquer tipo de comida ‘tá bom. . . Por alguma razão a beleza daquela paisagem pastoril trazia-lhe um certo alívio. Pizzeria Mama Mia. Não tinham nem mesmo um saco plástico.Vamos ver se a gente para no primeiro lugar que tiver comida. ficando apenas um leve nevoeiro por onde a luz do sol vez por outra penetrava. Ted dormia. A gente chega lá daqui a uma hora. pediu Katie. bem brilhante. Ela olhava pela janela da van e via os raios de sol trespassarem as nuvens. Afinal de contas. um de cada vez. o tempo demorava a passar. Minha mama servirá um lanche pra nós com o maior prazer. Durante o percurso. atravessando a enlameada estrada de terra que levava até a rodovia. Katie havia se deitado no chão. Não é muito longe. Trocaram de roupa na van. Ao atingirem a rodovia. Mas quanto tempo vai demorar pra chegarmos à sua Pizzeria Mama Mia? . incidindo sobre as vinhas que margeavam a estrada. disse Antônio sorrindo. no entanto.deles havia trazido nada que fosse impermeável e pudesse servir de capa. Antônio. o que lhe foi muito bom. Para Cris. Katie. de formato arredondado. e lá se foram.

vocês. . disse: .Não. disse Antônio apontando para a torre. chamado Stradivari. .Minha família é parente da família Amati.Parece ser bem antigo. .Talvez você já tenha ouvido falar do discípulo de Amati. todo orgulhoso. em qualquer posição. e simplesmente pegar no sono. ela não conseguia dormir. E Cris não gostava nada de ver Ted e sua melhor amiga tão “juntinhos”. que era da minha família. como se aquilo fosse algo importante. Observando- os. não é mesmo? . A todo momento virava-se e ficava olhando para eles. Cris notou que o braço de Ted caíra para o lado e agora repousava sobre o ombro de Katie. mas o fato é que estavam se encostando um no outro. . Stradivari apenas aperfeiçoou o . disse Cris. observando atentamete uma enorme torre que se destacava acima dos telhados das casas. americanos! Garanto que não sabem quem foi Amati. Foi construída no século XIII. daqui de Cremona.Chamam-na de Torrazzo. .Ah. disse ela. afirmou Antônio. . Este aqui é o município de Cremona.Infelizmente não. . que significa “torre alta”. Por mais que tentasse. Ao ver que Cris não fizera nenhum comentário.Si! Então você já ouviu falar nele! Mas na verdade quem inventou o violino mesmo foi um tal de Andrea Amati. comentou Cris. .É muito bonita. Naturalmente Ted e Katie não tinham a intenção de se “tocarem” de forma tão “íntima”. .É aqui que você mora? perguntou Cris a Antônio ao saírem da rodovia principal e pegarem a estrada que levava à cidade. Minha mãe pôs meu nome de Antônio Stradivari em homenagem a ele. mas não fica muito longe daqui. uma vez que ela havia se deslocado para mais perto do banco.Cris invejava a facilidade dos dois de se deitar em qualquer lugar.Foi esse que inventou o violino? Os violinos estradivários? perguntou Cris.

Músicos do mundo inteiro vêm aqui pra comprar violinos. e de trocarem uma série de cumprimentos calorosos. Os dois moraram aqui em Cremona. Depois de passarem por um trecho de curvas. A . que acordou Katie e Ted.200 violinos artesanalmente e que minha mãe escolheu meu nome em homenagem a ele. atravessaram uma ponte larga. Ao se aproximarem. Da porta lateral da modesta casa. tudo muito simples. perto de uma catedral. Sempre falo para os turistas que Antônio Stradivari fez 1. .instrumento. Seguiram nela até chegarem a uma casa de fazenda. Eles acham que estou inventando moda. uma senhora acenava e mandava beijos para eles. Ninguém acredita. O lugar lembrava a Cris as fazendas do Wisconsin. Ao entrarem. Em seguida. eu acredito em você. os quatro foram levados até a pequena cozinha.Bom. Era a primeira vez que Cris se sentia empolgada por estar na Itália. disse ela. de dar água na boca. estirando-se para pegar uma última visão da catedral.‘Tá vendo aquela rua ali? continuou Antônio. Depois de serem apresentados à mãe de Antônio.As duas coisas. Trabalho num restaurante lá. Stradivari já fabricava violinos aqui mais de três séculos atrás e até hoje a produção continua. E acho tudo isso aqui muito impressionante. Estavam todos imundos e famintos. Antônio. sentiram no ar um delicioso aroma.200 violinos ou que sua mãe pôs seu nome em homenagem a ele? . onde havia sido criada. Era justamente essa instigante mistura de história e atualidade que ela desejava desvendar e desbravar durante a viagem. pegaram uma outra estrada muito mal conservada.Não acreditam que ele fez 1. . de paredes brancas e telhado vermelho. Antônio deu uma buzinada. . Cris sorriu para ela. na estreita estrada em que seguiam. que cruzava um rio bem extenso.

nas mesmas cores. Cris foi logo gostando da mãe de Antônio. em tons de branco. olhando para Ted e Katie. Talvez ela não estivesse gostando era daquele povo todo imundo em sua cozinha limpa e arrumadinha. O assento das cadeiras era feito de palha entrelaçada. olhando para Cris. Nela ficavam alguns pratos de cerâmica. Se sua figura estivesse um pouquinho parecida com a de seus amigos. e a madeira era pintada de azul-escuro. . Demorou um pouquinho até descobrir como ela funcionava. azul e amarelo vivos. A água quentinha escorrendo-lhe pela cabeça mais parecia um sonho. E gostou da cozinha também. mas conseguiu.Sim. enquanto ela juntava alguns ingredientes aqui e ali. Enquanto isso. por favor. pode ser? disse Cris. com certeza o banho lhe faria um bem tremendo. Quanta barulheira e agitação só por causa do filhinho querido e de seus três amigos. Antônio levou Cris até o banheiro. Antônio continuava conversando em italiano com a mãe. Gostaria muito de tomar um banho. pintada no mesmo tom das cadeiras.Minha mãe ‘tá dizendo que vocês podem ir tomar um banho. e havia uma espécie de cano ligado a ela. que Cris deduziu ser o chuveiro.Vou primeiro. enquanto ela prepara uma massa pra nós. . falando rapidamente. Cris ensaboou-se rapidamente e . havia uma prateleira de madeira toda adornada. Cris teve vontade de rir da cena.mãe de Antônio gesticulava sem parar. Na parede que ficava de frente para Cris. conversava em italiano com o filho. falando os dois ao mesmo tempo. indicando que era para Cris. se quiserem. O piso era de cerâmica e a banheira tinha um aspecto curioso. Quer que eu traga sua mala? perguntou Antônio. naturalmente exaustos! . Era pequena e funda. Ted e Katie se assentarem à mesa. Tem certeza de que sua mãe não se incomoda? Cris sabia que a mãe de Antônio não se importaria. e um jarro de servir água.

Ah. lavando as roupas no riacho. onde haviam acampado. ao lado de Antônio. e nós poderíamos estar lá.depois se trocou. Talvez o tempo lá no acampamento até já esteja aberto e agradável. Não é engraçado? Foi então que Cris notou que Katie estava toda molhada. Estou me sentindo a própria chata aqui. enquanto Katie servia o tempo todo um pouco mais de linguiça. numa tina enorme. que estava esperando à porta. Será que estraguei tudo? Cerca de uma hora e meia depois. Cris deixou a amiga entrar no banho e foi até o quintal para lavar as roupas. né? Mas quando eu chego. Mesmo assim. avistou Katie. todos já estavam de banho tomado e assentados à mesa da cozinha. Ela sorria e gesticulava. Quando a Katie ‘tá por perto ele brinca de guerrinha de água. vestindo uma das últimas peças limpas que lhe restavam. Pareciam dois velhos conversando.Eu e o Ted acabamos de lavar algumas roupas. eu e o Ted fizemos uma guerrinha de água. onde há uma daquelas tábuas antigas de esfregar roupa. Ted elogiava sem parar a massa. fazendo alguns comentários sobre o tempo também. Adivinhe onde eles lavam roupa?! Lá no quintal. Ao sair do banheiro. Antônio comentava sobre como o tempo estava agradável e limpo em comparação com a região das montanhas. É claro que eu ganhei. indicando que era para eles comerem mais e mais e mais! Cris já não aguentava dar mais nem uma garfada. Já Cris gostara mais do ravióli. . conversando sobre o tempo. Antônio traduzia os comentários e elogios dos amigos para a mãe. saboreando um verdadeiro banquete. disse Katie notando o olhar da amiga. Nem ‘tá precisando de banho mais. Foi por minha causa que viemos embora. . ele nem me vê e fica aí assentado. Você tem de ver como ele ficou. ainda havia bastante . Ted demonstrava estar completamente à vontade. Ted estava se secando ao sol. Katie parecia bem alegre. Depois a gente pendura tudo num varal amarrado entre duas árvores. Recostando-se em sua cadeira. assentado numa cadeira.

Era mais baixo do que Antônio. . A mãe de Antônio aceitou a ajuda e. Depois do almoço. Cris observou que Katie e Ted trabalharam juntos quase o tempo todo. mas esta foi logo dizendo. Ficaram a tarde toda lavando e esperando as peças se secarem ao vento.A gente pode pelo menos lavar a louça. por meio de gestos.comida na mesa. E lá ficaram. cansada de observar Ted e Katie jogando. então. que era para eles irem lá para fora e deixarem a cozinha por conta dela. O sol já estava quase se pondo quando o pai de Antônio chegou do campo. Cris teve a impressão de que ele era um homem severo. Cris teve a impressão de que a mãe de Antônio estava feliz ao ver que o bando deixaria sua pequena cozinha em paz. em concentração total. usando uma mangueira e uma escova de esfregar. os quatro foram descarregar e lavar todo o equipamento de camping.Antônio. sugeriu Katie. Quando terminaram. . deveria estar bastante cansado. Durante o processo. ele desafiou a amiga para um jogo de xadrez e os dois foram se assentar à sombra das árvores. própria para limpeza pesada. você poderia perguntar à sua mãe se nós podemos ajudá-la a arrumar a cozinha e guardar o que sobrou? Antônio traduziu a pergunta de Cris para a mãe. . porém mais musculoso.Acho melhor não. respondeu Antônio. olhando atentamente para o tabuleiro. para então guardarem tudo de volta nas caixas. lavando a louça às gargalhadas. -será que posso ajudar sua mãe a preparar o jantar? perguntou Cris afinal. Ou então. onde trabalhava arando a terra. Ela não fica muito à vontade quando tem alguém na cozinha. Com todo aquele bando na pia. os quatro se enfileiraram. a fim de lavar e secar os pratos de cerâmica azul e amarela e todas as outras vasilhas. não demorou muito para que tudo ficasse limpo. Ao terminarem. .

surpreso em ouvir um agradecimento tão educado em italiano. E ele tem razão.De quem você herdou olhos tão lindos? perguntou ele a Cris. . Diga a todos que você é louco por mim e que não consegue viver sem mim.Meu pai disse que são os olhos mais lindos que já viu. disse Antônio. Ted.Ele me perguntou por que eu ainda não pedi a Cris em casamento. procurando manter o olhar fixo no prato. Olhando para o prato. em seguida. Em seguida. Tinha a impressão de que todos a encaravam. .Não sei muito bem. Depois apontou para Cris e bateu novamente no braço do filho. signore. Soltou alguma coisa em italiano e.O que você disse a eles? Que foi que eu não “pesquei” aqui? perguntou o rapaz. . sentindo o rosto corar. ele convidou os amigos do filho a se juntarem a ele à mesa e se pôs a fazer-lhes perguntas. Antônio traduziu para os amigos o que o pai dissera.Que foi que ele disse? perguntou Cris com certa cautela.Animado. Falou mais algumas palavras rapidamente e deu um tapinha no braço de Antônio. . todo brincalhão. disse timidamente: . Cris olhou para Ted. Antônio parecia constrangido. Vamos. Cris abaixou a cabeça. virou o rosto e. . recorreu à gesticulação. Acho que é uma mistura dos dois. É agora.Molte grazie. sem entender. pedindo a Antônio que traduzisse.Ahh! exclamou o pai. Aí eu expliquei pra ele que ela é sua namorada. enquanto comiam. surpresos. seu pai e sua mãe olharam para Ted. . Do seu pai ou da sua mãe? . . respondeu ela. quero ouvir você dizer isso. Vamos lá. Além do inglês. Ted sorriu para Antônio. olhando rapidamente para o pai de Antônio.

Não se deixe afogar em depressão. Era uma sensação antiga. E como é que fica nosso relacionamento? Obviamente não numa posição tão boa quanto eu imaginava. Cris queria bem mais do que a simples amizade de Ted. Por enquanto você tem de se contentar com isso. Cris sentiu um aperto no coração. no entanto. Entretanto depois deu um largo sorriso e acenou com a cabeça. tudo que teria de fazer era afirmar que Cris era de fato sua namorada. uma amizade que é para sempre. Ted hesitou por alguns momentos. isso mesmo. ali na frente de todos. Lá no fundo. . esperando a resposta dele. Era por isso mesmo que lhe dissera várias vezes que ela poderia ficar à vontade para “dar um tempo” no relacionamento e voltar quando bem entendesse. Mas será que ele estava preparado para definir. O Ted não ‘tá rejeitando você. Já faz cinco anos que vocês desfrutam de uma amizade muito especial. . Só ‘tá agindo do jeito normal dele. sem assumir nenhum compromisso. Não faça isso.Meu pai disse que você aprendeu cedo o segredo de tudo. que ela conhecia bem. Cris não tinha certeza se queria ou não ouvir a tradução. E tanto ele quanto ela haviam feito isso. erguendo o queixo. O que ele quer dizer com isso? A princípio. pelo menos uma dessas áreas de sua vida? Se estivesse. Cris. Todos os olhares estavam em Ted. sacudiu o dedo olhando para Ted e soltou animadamente uma porção de palavras em italiano. . diga a seu pai que me sinto lisonjeado com a pergunta dele. como costumava fazer. Com uma boa gargalhada. que é deixar a mulher sempre na dúvida. Ah.Por favor. Cris sabia que ele ainda precisava definir muitas áreas de sua vida. Cris apertava fortemente os lábios. disse Ted afinal. o pai de Antônio pareceu surpreso com a vaga colocação de Ted. Deixar a mulher sempre na dúvida é a especialidade do Ted.

Rápido! Antes que ele . Trajava calça jeans escura. que se achava entreaberta. ao se virar. de corte reto. Acorde! . parecendo um pouco contrariada.Venha. Saltou até a cama de Katie e deu uma chacoalhada na amiga. Acenou com uma das mãos. 5 Na manhã seguinte. como sempre ficava de manhã cedo. aproximadamente da idade de Antônio. escondendo-se dele. . Cris acordou com um sonido de buzina. ergueu sua maleta com a outra e dirigiu-se em direção a ela.Ciao! gritou ele. Tinha cabelo escuro e era muito simpático. . você tem de vir aqui ver esse cara.Do que você ‘tá falando? . que dormia.Katie! sussurrou ela.Ahn? balbuciou a amiga. Cris por sua vez afastou-se rapidamente e fechou a cortina. pulou da cama e foi até a janela. que vinha lá do portão. Acho que sua encomenda de moreno alto e bonitão acabou de chegar! . Da janela. Curiosa para ver quem era. com as mangas dobradas.Katie. Um rapaz italiano alto e elegante. Abrindo a cortina branca de renda. . Katie continuava dormindo. e uma camisa social branca. levante-se! disse Cris. Possivelmente vira Cris na janela. puxando a amiga pelo braço. Cris observava atentamente o rapaz desconhecido. pagava ao motorista. pisando com cuidado sobre o tapete para não fazer barulho. viu que um táxi estava parado à porta da casa.

Constrangida. ele simplesmente terminara de levantar o restante do vidro e abrira a cortina com as mãos. mais ou menos. Ciao. mexendo bastante com as mãos. procurando esconder sua camisola. dando as costas para Katie. sou eu. Ouvi falar de vocês.E você deve ser a Katie. . O rapaz desconhecido estava bem ali. Katie. segurando o braço de Cris.Quem é este cara e afinal. . Cris envolveu-se com os braços. Katie soltou um grito. ao que o rapaz começou a rir e a falar com elas em italiano. Então o rapaz lhe respondeu alguma coisa em alemão. Foi então que alguém bateu à porta. Era Antônio. . puxando o lençol até o pescoço. . São as amigas americanas do Antônio. Rapidamente soltou sua frase de emergência: . que entrou no quarto e foi logo conversando em italiano com o rapaz desconhecido.É. na janela do quarto. interrompendo aquele desagradável momento. É você que é a Cristiana? Cris acenou com a cabeça. Como não havia tela de proteção. o que ele ‘tá dizendo? perguntou Katie. não é mesmo? disse ele em inglês. respondeu Katie. Foi então que ouviram uma voz. .Ich verstehe nicht. Assustada. soltando um suspiro profundo.Ciao! disse ele.Já conhecem meu primo Marcos? perguntou Antônio às duas.entre! . Cris deu um pulo. O rapaz soltou outra risada. .Por que será que você não consegue me deixar em paz quando estou dormindo? disse Katie.Sim.Agora já sei quem vocês são. Oi! disse ela. . .

. os três amigos de Antônio poderiam ir com ele.Grazie. Cris olhou de relance para Marcos e percebeu que ele olhava para ela. Vocês querem aproveitar e ir com ele? Dez minutos depois. depois do serviço. Já era a quarta vez que olhava na direção dele e. A garota já não se sentia constrangida com aquele gesto. assentada à mesa. sentindo o rosto corar de constrangimento. os planos para a próxima etapa da viagem iam surgindo.Você pode vir aqui um pouquinho? perguntou Katie. disse Cris a ela. Cris desviou rapidamente o olhar. . que por dentro eram macios e. Marcos havia chegado à cidade de trem. e Cris retribuiu amavelmente. Ao lado dela. levantando-se da mesa e puxando Cris pelo braço. por fora. resolvera fazer uma visitinha para os tios. pois durante sua estadia na Europa tinha se habituado àquele . embora a mãe de Antônio lhe dissesse que não precisava se incomodar. . dando-lhe também um beijinho e agradecendo novamente em italiano. em todas as vezes. disse Katie ao constatar que o trem partiria dentro de uma hora. Algumas de minhas roupas ainda estão no varal. onde faria uma entrega a um dos clientes de seu pai. crocantes. Marcos os levaria para conhecer alguns pontos turísticos da cidade. . A senhora deu-lhe então um beijo no rosto. parte em italiano e.Ele ‘tá indo pra Roma. naturalmente. Como estava indo para Roma. . tomando uma xícara de café forte e comendo uns pãezinhos redondos. Cris se levantou e pôs a xícara e o prato sujos na pia. parte em inglês. Ficou combinado então que. os outros conversavam animadamente. lá estava Cris na cozinha. Para aproveitar o tempo. o pegara olhando fixamente para ela. Era mesmo um rapaz simpático.Acho melhor fazermos as malas. bem cedinho.Claro.

está sim! Você ‘tá dando em cima do Marcos bem na frente do Ted! Onde é que você ‘tá com a cabeça? Nunca a vi fazendo isso. conversando. e você lá no seu canto. E depois dava um gole no café e fingia que não tinha reparado nos olhares dele.Eu não estava fazendo isso! .Do que você ‘tá falando? . passando-os rapidamente por Marcos. vendo toda aquela cena? . Ele não estava apenas olhando para Cris. pode acreditar! Era exatamente isso o que você estava fazendo. qual é a sua. Ele estava olhando para ela. . mas eu não estava fazendo nada disso! . As duas foram saindo da cozinha e Cris olhou rapidamente para Ted. disse em seguida.Do que eu estou falando? perguntou Katie levantando as mãos. Ela correu os olhos em redor.Katie. Parecia enfurecida! .Estava sim. eu não estava dando em cima de ninguém! disse Cris em voz baixa. .Afinal de contas. Assim que as duas saíram pela porta dos fundos e se distanciaram da janela da cozinha. que estava aberta. Não sei o que passou pela sua cabeça ou o que você ‘tá pensando agora. pondo pedacinhos de pão na boca e lançando altos olhares para o Marcos toda vez que dava uma mordidinha.Como assim? Não estou fazendo nada de mais. Cris? . olhando em redor para ver se por acaso havia alguém por perto. . Estava todo mundo assentado à mesa. como se não acreditasse no que ouvira. Será que você percebeu que o Ted estava bem ali. Cris! .Ah. Estava observando cada movimento que ela fazia. Katie hesitou um pouco e apenas acenou firmemente com a cabeça. Katie pegou Cris pelo cotovelo e a puxou até o varal.Obrigada pelo café.costume. Cris estava impressionada com a expressão no rosto de Katie.

Quero dizer. faça-me um favor. Não estava acreditando no que ouvira. Katie meneou a cabeça. boquiaberta. Você não é boba! Balançando o cabelo. disse Katie. passando pela porta da frente. Cris permaneceu parada. protestou Cris. não! . eu sou a primeira a reconhecer que o cara é extremamente gato. Katie virou-se e bateu em retirada. Por que ela falou tudo isso? Ela sabe que ter gostado do Rick foi um grande erro que cometi.Não invente mais um Rick Doyle na nossa vida. Não faça isso! . então esse deve ter sido o caso mais forte de azaração inconsciente que já vi em toda a minha vida. mas espera aí! Dava até pra sentir um certo calor entre vocês dois. enfiando as roupas na mochila. . Cris! . . . porque. Por que você ‘tá com raiva de mim? Sim. Não agora.Não faça isso o quê? Cris estava começando a ficar nervosa. discordando. -se você não estava fazendo nada. uns quatro? Além do mais. por que ela ‘tá dizendo isso se ela fez a mesma bobagem quando se apaixonou por ele? Puxando as roupas do varal com força. dirigindo-se para o varal e puxando suas roupas. Não queria trombar com ninguém na cozinha. já secas. não agiria assim.Não sou.Então.Eu não senti nenhum “calor”! . Cris caminhou de volta para casa. -seus comentários foram muito maldosos e injustos. carregando um monte de roupas nos braços. Foi direto para o quarto de hóspedes e fechou a porta firmemente ao entrar. se não estivesse. Mas já faz quantos anos. Katie estava a alguns poucos centímetros de distância. A afirmação de Katie deixou Cris desconcertada.Como você é ingênua.

. ainda guardando rapidamente os pertences. Não acredito nisso! Por que ela ‘tá agindo assim? Katie fechou o mochilão e o empurrou em direção à porta.Precisa de ajuda? . .Não. significava? O Ted nunca lança esses olhares pra mim. sem olhar para Cris. Marcos adentrou o quarto. Que tal se a gente deixasse isso pra lá? Daqui a pouco todo mundo estará pronto para partir e não quero que fiquem parados nos esperando. obrigada. alguém bateu à porta. Conhecia bem a amiga que tinha. quando ela não estava com vontade. . só porque estamos aqui discutindo. para a surpresa de Cris.Eu não estou com raiva de ninguém. e ela sabia disso. respondeu ela. disse. Cris estava com tanta raiva que mal podia raciocinar. Mas aquilo não significava que ela estava jogando charme para cima dele.Pode entrar! A porta se abriu e. procurando se acalmar. respondeu a outra. interrompendo os pensamentos dela. exibindo um sorriso.Vou esperar lá fora com o resto do pessoal. Será que estou me sentindo como a coitadinha da história só porque o Ted não tomou uma posição com respeito ao nosso relacionamento ontem à noite? Eu queria tanto que o Ted me olhasse assim. Forçar Katie a conversar. Cris se assentou na quina da cama e olhou fixamente para a calça jeans que estava sobre seu colo. sentindo o coração bater forte. seria um erro terrível. como o Marcos me olhou hoje de manhã! De repente. . Seus penetrantes olhos castanhos foram direto aos olhos de Cris. . Por que será que ela disse tudo isso? Será que eu estava dando em cima do Marcos inconscientemente? Será que ele estava mesmo olhando pra mim do jeito que a Katie falou? E será que Ted achou que eu estava dando em cima do Marcos? Naturalmente Cris percebera o olhar fixo de Marcos para ela durante o café da manhã. Eu dou conta de carregar.

Obrigada. eu espero e levo a bagagem pra você. Sentia-se constrangida e apreensiva com aquela situação. A culpa é toda minha. tentando puxar papo.Vou esperar lá fora com o resto do pessoal. Pelo menos o Antônio não fechou a cara pra mim.Não vai? . saindo do quarto e deixando o peso maior para Marcos carregar. respondeu.Só mais um minutinho e estarei pronta pra ir. com Antônio ao volante. Certamente não queria ficar lá atrás com Katie e Marcos. disse Marcos. Afinal. Cris se despediu da mãe dele. . Quando Cris chegou. Ted e Katie estavam colocando a bagagem na parte traseira da van de Antônio. mas não vou acompanhar vocês. gosto muito. Cris não deu uma olhada sequer para trás. . Tudo porque eu fui fazer aquela cena lá no acampamento. aproximando-se de Cris e estendendo a mão para pegar a bagagem. para ver se não estava esquecendo nada.Sim. .Você gosta de Roma? perguntou Cris a Antônio. Cris socou as roupas dentro da mochila e fechou-a. disse então. Durante todo o percurso. . sabendo que Ted estava na frente. dando-lhe mais um beijo no rosto. . Seguiram numa estrada acidentada. acompanhados de um cara que me deixa tão apreensiva. Marcos agia como se tivesse total liberdade para invadir a privacidade dela. A Katie não estaria chateada comigo e o Ted não estaria agindo como se eu não existisse. Cris se afastou. Em seguida pegou a bolsa e deu uma olhada na cômoda. e foi logo se apossando do banco da frente. Sentia-se um pouco apreensiva. que estava limpinha.Pode deixar que eu levo isso pra você. . com Antônio.Não faz mal. não estaríamos indo para Roma. . Se estivéssemos lá.

. voltando a atenção para a estrada. na esperança de que o rapaz fizesse o mesmo. quando voltei da Califórnia. que ela não ficava constrangida. disse ela. tentando ganhar um pouco mais de atenção? O que ‘tá acontecendo? Antônio estacionou a van num local proibido próximo à estação de trem e desceu para ajudar a descarregar a bagagem. Estou meio sem grana pra viajar.E se fizéssemos uma vaquinha e lhe déssemos parte do dinheiro? . né? Isso é muito legal de sua parte. como diz a Katie. Para . Foi então que Cris se deu conta de que o acampamento não havia custado nada para eles. Era engraçado. disse Antônio. Quando ele estivera na Califórnia. Acho que a ida de vocês a Roma é uma “coisa de Deus”. Enquanto você estava fazendo a mala. mas com Antônio Cris nunca ficava sem jeito. Por quê? Será que é porque o Marcos é extremamente simpático? É claro que ele sabe que é um rapaz bonito. respondeu Antônio. desviando a atenção da estrada e sorrindo para Cris. . Mas com Marcos era diferente. Cristiana.Pelo visto você ‘tá triste porque eu não vou com vocês. Foi por isso que viemos embora do acampamento. Mas ele me disse que não estava pronto para dar o mesmo passo. longe dos outros. deixando o motor ligado. Cris se sentia triste por eles não terem escolhido ficar para desbravar a cidade de Cremona. contei para o Ted e para a Katie que. que até o apelidaram de “italiano romântico”.É uma pena.Não. disse ele. tratara assim todas as garotas que conhecera. Ele podia ser supercarinhoso e até dar uma de conquistador para cima dela. de certo modo. Será que ele espera que todas as mulheres caiam de amores aos pés dele? Ou será que eu é que sou o problema? Será que não estou.Cristiana. E elas gostaram tanto. falei para o Marcos sobre a minha decisão de dedicar a vida a Cristo. Ela não entendia o porquê. . chamando Cris para o outro lado da van. Até mesmo as refeições tinham sido de graça. .

enquanto Marcos providenciava um modo de trocarem as passagens por bilhetes de primeira classe. Então. Para tanto.Muito obrigada. . como mostraram a mim. e eles resolveram vir embora. . mas Ted foi logo dizendo que era melhor que eles próprios pagassem. amigo! Ciao! . . disse ele dando-lhe um beijo em cada face. entregando-lhe a bagagem. quando Cris reclamou do lugar. diga-se de passagem. Uma viagem bastante barata. Ah. Cris sentiu um frio no estômago. as férias de Antônio terminaram. Assim. Cris entrou na conversa e fez questão de pagar sua parte. respondeu ele.Quem sabe você não passa aqui de novo antes de voltar para os Estados Unidos? Será sempre bem recebida. . Estarei orando por vocês. para que pudessem viajar todos juntos. O acampamento havia sido a viagem de férias dele.Grazie. Antônio. Estava na cara que a família de Antônio levava uma vida bastante simples. . Cris. . tenho certeza de que ele aceitará a Cristo em breve.Prego. disse ele. Ela sabia que Antônio havia estudado na Califórnia graças a um tio generoso que lhe custeara as despesas.que vocês tivessem a oportunidade de mostrar o amor de Deus para o Marcos.E eu estarei orando por você.Queria muito que você viesse conosco! . Em seguida correu para despedir-se dos outros. Cris sentiu os olhos se encherem de lágrimas. provavelmente o pai de Marcos. Foi aí que Cris se deu conta do quanto Antônio estava sendo desprendido.Arrivederci. apesar de ele não ter dito nada que passasse essa impressão. Marcos ofereceu-se para pagar a diferença. Katie e Ted teriam de inteirar o valor da passagem. se ela não tivesse aberto a boca! Cris se dirigiu juntamente com os outros para a estação e ficou observando.

mas privativa. . Meu compromisso com o cliente do meu pai é só amanhã de manhã. Não estou a fim de brigar com você. .É.Cerca de cinco horas. Katie? . ao caminharem apressadamente até a plataforma de embarque. disse Katie.. ele parou de insistir.Marcos afinal concordou e cada um deles pagou então pelo próprio passe.Esse negócio de ficar uma cutucando a outra. respondeu Marcos. de frente para Cris e Ted. Katie abaixou o rosto e Ted chamou as duas para o embarque. Quando você deixou claro como as coisas deveriam ser. se vocês quiserem. As poltronas eram acolchoadas e confortáveis. Cris foi logo dando um jeito de se assentar ao lado de Ted. . Acima das poltronas havia uma prateleira. procurando não explodir de novo com a amiga. Ao embarcarem. -será que poderíamos parar com isso..Isso o quê? . bem como das outras coisas que estavam lhe incomodando.Quanto tempo levará pra chegarmos a Roma? quis saber Katie. andando apressadamente em direção ao trem. disse Cris.Podemos fazer uma parada em Florença. comentou Katie baixinho com Cris. . . Só de embarcar já começava a se sentir empolgada. . apanhando a bolsa. Adorava viajar de trem pela Europa e há tempos estivera esperando ansiosa por essa parte da aventura.‘Tá bem. Os quatro viajavam numa cabine pequena. Katie e Marcos estavam assentados numa poltrona igual. . Cris apertou os lábios. Posso dar uma lida nas atrações de Florença e depois a gente decide se passa ou não por lá.Tudo isso? perguntou Katie. . Cris procurou se esquecer dos problemas entre ela e Katie.Eu trouxe um guia turístico. onde colocaram a bagagem.

Ted pegou o guia da mão de Cris e agradeceu-lhe em seguida. . Era um livro grosso. Cris entregou-lhe o guia torcendo para que ele entrasse no clima e ficasse ali bem juntinho dela. . disse Katie. . Acordem-me quando chegarmos lá. fechando os olhos. Aquilo seria a prova viva para os outros de que ela e Ted se achavam juntos e unidos. lendo sobre as atrações.Perfeito! murmurou ele.Posso dar uma olhada no guia? perguntou Ted. Pelo menos assim poderiam descobrir um pouquinho da história por trás de todos os pontos turísticos que visitariam. Cris se sentiu aliviada ao ver que Ted estava do lado dela.nem inconscientemente nem de qualquer outro jeito que imaginassem. . Poderiam ficar juntos ali lendo tudo sobre as fantásticas atrações que os esperavam nas maravilhosas cidades italianas. Depois colocou-o entre a cabeça e o vidro da janela. de capa flexível. e que ela não estava dando em cima de Marcos . Exibindo seu sorriso mais meigo.A gente não precisa de guias turísticos. O Marcos pode nos dar todas as dicas.

Vocês é que mandam. O que você acha Katie? perguntou Cris.Há muitas obras de arte que poderíamos ver em Florença. Você não entendeu o que eu quis dizer. pra mim tanto faz. Marcos acenou com a cabeça. Marcos riu. É lá que as pessoas andam de gôndola. A única cidade que faço questão de visitar é Veneza. querendo mesmo era que Marcos parasse de olhar para ela. talvez. Qualquer coisa serve. disse Marcos. Não faz muita diferença pra mim. como a estátua de Davi.Então você ‘tá querendo parar em Florença pra ver a estátua de um cara pelado? perguntou Katie.Não sei.Você mora lá? perguntou Katie. disse Marcos. . . surpresa.Isso mesmo. de Michelangelo.Claro que não. Eu moro lá. . .E o que exatamente você quis dizer? .Só estava dizendo que podemos nos arrepender depois de não ter parado em Florença enquanto era tempo.Tudo bem. Katie. em Venezia. . olhando fixamente para Cris. . .Ir direto para Roma. 6 . . exclamou Cris com impaciência. não é? . Querem parar em Firenze primeiro ou ir direto para Roma? .

E tem água na porta da sua casa? Você sai de casa naquela gôndolas? continuou ela. sugeriu Marcos. .Onde fica isso? . e eu encontro vocês à tarde. disse Cris. Depois de Roma e daquela outra cidade que vocês mencionaram. A gente tem de ir a Veneza! disse Katie. . .Parece uma boa idéia.Deve ser um lugar legal. Não se esqueçam: Carlo Savini. É só pegar o hidroplano em Sorrento ou Napoli. . . Qual é o nome? . Mas o melhor é ir pela manhã. empregando o nome traduzido da cidade. Chama-se Carlo Savini Joalheiros. Não sei onde fica. sugeriu Cris. -se for. . Fica a poucas horas de Roma. Veneza é formada de ilhas. disse Marcos. disse Marcos em seguida. . não deixem de dar uma passada lá.Isso. disse Cris. . corrigindo-a. mais de cem delas.Ao sul. porque à tarde fica muito cheio e não vale muito a pena. Meu pai é dono de uma joalheria que fica perto da Piazza San Marcos.Claro.A Gruta Azul. . mas não fica em Veneza.Tem um lugar que eu gostaria muito de visitar aqui na Itália. Os hotéis em Capri são dos mais caros em toda a Itália! Mas conheço um lugar onde vocês podem se hospedar.Claro que sim.Podemos ir depois de Roma. . É na ilha de Capri. Já ouviu falar? . Daí vocês pegam o primeiro barco turístico que estiver saindo para a Grotta Azzurra. disse Cris. saberei na hora. Valeu a dica.Bom saber.Florença. -se quiserem. podem ir hoje à noite mesmo.Firenze. . Tem água na porta da casa de quase todo mundo. . É na direção que estamos indo. Se vocês forem até Veneza. mas é possível que seja em Veneza. Depois vão pra Roma.

que olhou para ele.Ah. Você estava em Maui. Depois ele lhe telefonou e disse que a água era da cor dos seus olhos. . Não era um conhecido nosso que tinha ido lá e que depois ficou falando sem parar do lugar? . por alguma razão. dando à água um tom de azul bem diferente.O Rick Doyle. agora me lembro de já ter ouvido falar desse lugar. sentia que Katie a havia colocado numa situação . . Aliás. . Mas. foi por isso que ele a levou pra jantar num restaurante italiano no dia em que começaram a namorar. disse Katie. olhando para Cris com um brilho nos olhos.O Rick ligou pra você daqui da Itália. Agora Katie não vai poder achar que estou dando bola para o Marcos.Isso mesmo! exclamou Katie.É uma espécie de caverna. Alguém me falou dela certa vez. mas. Afinal de contas. Disseram que você entra nela numa espécie de barquinho e a luz do sol reflete lá dentro. estou é dando um jeito de fugir dele. no seu aniversário. Ela sabia que não tinha nada a esconder dele. E por que você quer tanto ir lá? . porque quando você completou dezesseis anos. explicou Cris. era como se algo a incitasse a narrar cada pormenor da história. disse Ted. . Ted abriu um olho e virou-se para Cris. Sim. mesmo assim. sem abrir os olhos nem fazer qualquer outro movimento que denunciasse que estava acordado. . a garota parecia se lembrar de todos os detalhes que Cris lhe contara tantos anos atrás. chegou mais perto da amiga e deu-lhe um tapinha na perna. continuou ela.Que Gruta Azul é essa? perguntou Katie. no dia do seu aniversário.E aí o Rick foi conhecer a Gruta Azul pela manhã. Cris desejava que Katie sofresse uma amnésia. de estava aqui na Itália. Depois. Foi daí que eu fiquei sabendo dessa tal Gruta Azul. justo na frente de Ted e Marcos. Em certas horas. Lembro de você me contar isso. E. infelizmente.

Vou ver se descubro onde é o vagão-restaurante e compro algo pra beber. Que negócio é esse que os homens italianos tem com os meus olhos? . então. disse Marcos. Será que você não percebe que eu quero ficar a sós com ele. Alguém mais quer beber alguma coisa? . Katie e Ted seguiam logo atrás. levantando-se. . Cris só se virou para vê-los quando chegaram ao vagão-restaurante do trem. ali havia mesas forradas com toalhas e até garçons uniformizados para acompanhar os passageiros até as mesas e servi-los. . disse Ted. Estava feliz de finalmente poder ficar um pouco a sós com Ted.constrangedora. Katie? Até agora não pudemos ter sequer um tempinho de privacidade nesta viagem! Cris ia na frente. Seus olhos são mesmo da cor da água da Gruta Azul. Cris não sabia se ele estava com raiva ou se estava apenas brincando com ela. percebeu que Marcos estava novamente olhando para ela. O restaurante era bem mais luxuoso do que a lanchonete do trem em que Katie e Cris haviam viajado na Inglaterra. Cris não gostou muito da intromissão da amiga. Acho que teremos de ir a essa tão falada Gruta Azul e comparar nós mesmos as cores. um ano atrás. Em seguida. disse Cris.Eu vou com você. mas ficou calada. onde se serviam os lanches. Cris havia estado .Muito bem. . Em vez de algumas poltronas e um simples barzinho. juntando-se a eles. andando pelo estreito corredor. .Acho que ele tem razão.Esperem aí! disse Katie. consertando a postura e em seguida devolvendo o guia turístico para Cris.Quer dizer que o Rick estava aqui na Itália quando ligou pra você? Cris acenou com a cabeça. disse Ted.

.Quer dizer então que você é a garota da Gruta Azul. Só ficava visível mesmo quando a luz batia no rosto dele. era como se o rosto dele estivesse levemente manchado ou não houvesse sido lavado pela manhã.Já tem um mês que não faço a barba! . concordou Cris. Cris foi a primeira a se assentar. para que Cris pudesse avaliar melhor. pergunte-me de novo.Acho que vai demorar um pouco pra aparecer. rindo com ele.num vagão-restaurante como esse nas férias passadas. .Com certeza. . inclinando- se para trás e virando-se de um lado para o outro. Ted inclinou-se sobre a mesa e disse: . Ted riu. O pêlo da barba de Ted era tão claro que mal dava para perceber a barbicha. onde uma pequena barbicha crescia. hein? Cris não sabia direito o que dizer. achei que seria legal deixar a barba crescer. . né? .Acha que ficaria bom? perguntou ele. . na maior parte do tempo. . É só você raspar tudo isto aqui e deixar esta parte . quando ela e sua amiga Selena viajaram para a Suíça a fim de conhecer a Universidade de Basel.Por que você não deixa um cavanhaque? sugeriu Katie. O que acha? perguntou ele. aproximando-se e passando a mão no queixo dele. disse ela com certa cautela. Cris observara que.Quando fizer uma semana.E você ‘tá querendo dar uma de homem das cavernas. . disse Ted. em vez de se assentar ao lado de Cris. Ted sentou-se de frente para ela e Katie se sentou ao lado dele. Aproximou-se de Ted então e passou os dedos no queixo dele.Ops! Foi mal! disse Cris.É.Acho que deixar a barba crescer não é muito a minha praia. . passando os dedos pelo queixo.

Então. . . fico apreensiva! . .Muito bem. Quer dizer então que montamos um roteiro? . comentou Cris em voz . . Ted fez o pedido pelo grupo: . e eu fico apreensiva é quando você consegue se comunicar.Eu quero. Continuou olhando e indagou: .É. Cris pediu água também. Ted. então. confuso. Depois pediu uma água mineral para o garçom que os estava atendendo. colocando a colher sobre a mesa.Acho que sim.intacta. respondeu Ted. então. Estou falando sério. Cris ficou admirada de ver Ted falando em italiano e olhou para ele. . Acabei aprendendo algumas frases de emergência quando viajei pra Espanha.Vocês duas estão querendo ir à ilha de Capri? . . concordou Katie. Cris aproximou-se de Ted e passou novamente a mão na suave penugem que crescia no queixo dele.Saindo por aquela porta. Quero saber corno se pergunta “Onde é o banheiro?”. Katie disse ao garçom: . Quero aprender todas as frases que você souber. Parecia não haver entendido o que ela dissera. tentando ver seu reflexo na colher. O garçom olhou para ela. toda orgulhosa. respondeu Cris.Claro. Passamos por ele quando estávamos vindo pra cá. no ano passado. respondeu Ted.Na verdade o italiano parece bastante com o espanhol.Pode ser o mesmo pra mim.Os pelinhos daqui são até um pouco mais escuros. Indiferente.Mas isso não resolve meu problema. disse.Mesmo? perguntou Ted. Quando não consigo me comunicar. à esquerda. disse Katie. disse Katie. .Tre aqua minerale.

. Mas acho que você deve estar percebendo. Alguns relacionamentos duram. . indo direto ao segundo assunto. E está sendo assim o tempo todo. E a propósito.Como disse? perguntou Katie. os braços apoiados sobre a toalha branca. pelo menos da minha parte. .Todo mundo passa por etapas diferentes na vida. Katie. não tem nada a ver. A vida é assim. que houvesse . Para Cris. .É que está sendo muito difícil pra mim não ficar com raiva de você. aproximando-se de Cris. . . Parecia que ele poderia estar se referindo a um outro relacionamento dela.Posso assegurar-lhe que. na verdade. como se estivesse ponderando o que Cris estava dizendo. Depois concluiu que. eu ainda vejo algo em potencial. mas acho que você tem razão.Primeiro você me pega lá no quintal da casa do Antônio depois do café.É. Realmente não parece ser aquilo que eu estava pensando. ficou Ted? Ted meneou a cabeça negativamente.Por quê? O que eu disse de mais? O Ted não ficou chateado.Não. .Era pra eu estar entendendo a conversa de vocês? perguntou ele. Cris hesitou por uns instantes. mesmo partindo do Ted. pelo modo como as coisas estão andando. . você passou dos limites com relação à história do Rick. outros.Por quê? Que foi que eu fiz? . lançando um olhar para Ted. não. Katie balançou a cabeça. e me vem com todas aquelas acusações. aquela avaliação era um pouco realista demais. Katie. respondeu Cris rapidamente.baixa. a melhor medida era a sinceridade. que suas “impressões”. não tinham fundamento. . em se tratando de amizades. disse Cris.

. sobre eu estar dando bola para o Marcos. assim. . nunca mais se encontraram. depois disso.Pare de apertar meu joelho. notou um sorriso maroto despontando no rosto de Ted. Vai ficar preso aqui.durado mais tempo do que as poucas saídas que ela dera com o Rick. continuou Cris. uma vez que ela e Katie tiveram de conversar em códigos na frente de Ted.Katie. batendo nele e soltando uma risadinha. Volto logo. Katie? pediu Ted. eu estou falando sério com relação aos comentários de hoje de manhã. Eles dividiam o mesmo apartamento com mais alguns rapazes enquanto estavam na faculdade e.Então.Não. -será que você poderia abrir caminho pra eu passar. respondeu a outra. em meio aos balanços do trem. Que mais você quer me dizer antes que o Ted volte? Porque se você não tiver mais nada pra jogar na minha cara. quando planejavam pegar uma garota e jogá-la no mar. . .Tudo bem. Só quando você me ensinar aquela frase em italiano. Era a mesma cara que ele e seu amigo Douglas faziam um para o outro. senhor.Katie. . disse ela. Ted esticou a mão por debaixo da mesa e Katie imediatamente cedeu. aos gritos. . . Cris. eu tenho algo que gostaria de falar pra você. azar o seu. ninguém ‘tá gritando aqui. que observava a cena. . Não sentia que tinha dito tudo o que queria. Como é que ele sabia que o joelho da Katie era tão sensível? Eu não sabia disso! Ted se retirou e foi andando.Fiquei muito chateada com o que você falou e não queria que continuássemos nesse clima durante a viagem.Mas eu não sei falar aquilo em italiano. . Talvez ele esteja se referindo à amizade dele com o Rick.

Primeiro. enquanto lavávamos as roupas. . Aí ele falou que talvez você ainda estivesse estressada por causa das aulas e do trabalho no orfanato.Da próxima vez eu pago.Pode deixar. continuou Katie.Sim. Eu e o Ted já conversamos sobre isso ontem. .Estava dizendo a ele que deveríamos ser mais compreensivos com você e procurar não fazer coisas que fossem exigir muito sacrifício de sua parte. como se quisesse espantar qualquer mal-entendido que a amiga pudesse estar formulando na cabeça. etc. Estávamos falando sobre o acampamento e comentamos que somos o tipo de pessoa que gosta de atividades ao ar livre. . inclinando-se para a frente.Tudo bem. Você estava no banho. . Cris estava falando sério. Sempre valorizava muito as opiniões de Katie.Acho que já provei o contrário. acho que tenho de te contar que eu e o Ted levamos uma longa conversa no avião. Aí eu disse que ele não precisava se preocupar. tem mais alguma coisa que você quer falar comigo. né? .Não esquente. sacudindo-o na frente de Cris. sem ser aos gritos? . porque você aguentaria qualquer coisa que viesse. tirando o dinheiro do bolso e colocando-o sobre a bandeja. A conta estava sobre a bandeja. E ele estava me dizendo que não tinha certeza se você iria topar ir para o mato.Não. . O garçom lhe deu o troco e ela agradeceu em italiano. Contudo nem sempre gostava delas de imediato.Vocês ficaram falando sobre mim de novo? Katie passou a mão pelo cabelo. disse Katie. . Você quer ouvir minha observação então? . . essas coisas. ficar em contato com a natureza. Nós dois sabemos o quanto esse semestre foi pesado pra você. . O garçom chegou com as garrafas de água mineral. disse Katie.Muito bem. disse Cris.

Deu mais alguns goles na água mineral e. . Você não deve deixar que seu subconsciente fique comparando as circunstâncias que ‘tá vivendo hoje com os .Bom. Na época ela estava namorando o Douglas. . falou Katie. Você devia era ficar feliz porque o Ted se sente à vontade pra conversar comigo sobre você. para um treinamento missionário. porque fazia tempos que o Ted havia sumido de sua vida. então diria que o problema é que você ‘tá vivendo demais no passado. Se não for isso. Cris sabia disso. Não tem nada a ver mesmo. As circunstâncias hoje são totalmente diferentes. Douglas e Trícia estavam casados. você tem muitas expectativas. sem muita vontade. de alguma forma. de mim e do Ted nesta viagem. Cris.Posso ser sincera? No fundo eu acho que você ‘tá esperando muito de si mesma. Não tem nada a ver uma coisa com a outra.Calma.Realmente não vejo nada em comum entre as duas viagens. Então terminaram o namoro na primeira semana da viagem. Depois Cris acabou percebendo que ela e o Douglas não eram ideais um para o outro e que Trícia era a mulher perfeita para ele. quer saber de uma coisa? Não sei se gosto da idéia de você e o Ted ficarem me analisando quando não estou por perto. . vivendo tudo de novo.Tem razão. o melhor amigo de Ted. . novas. disse Cris. Não foi nada demais. Cris. . Se pensar bem. Cris não estava muito certa se concordava com aquilo. Ou pelo menos era o que ela achava na ocasião. . Agora. Nem era possível comparar as duas viagens. continuou ouvindo a amiga. Haviam ido para a Inglaterra com um grupo de pessoas. Sei lá. Só que aquela viagem não tem nada a ver com esta! . um ano e meio depois. você verá.É exatamente isso que estou tentando lhe dizer.Acho que você está tendo umas lembranças meio malucas da nossa viagem pra Inglaterra e.E o que você quer dizer com isso? .

Não vai acontecer nada entre você e o Ted. nem nada parecido.Voltei lá pra buscar o guia turístico e o convenci a se juntar a nós pra montarmos um roteiro para os próximos dias. Só mesmo quando se assentaram juntos em volta da fogueira no acampamento. Quando tinham se encontrado na estação. Marcos sentou-se ao lado de Cris. Nem deve ficar achando que o que aconteceu lá irá se repetir agora. Aos poucos. depois disso. O coração de Cris palpitava com tanta força que ela podia até ouvir as batidas. vocês não vão terminar. Ted parecera contente ao vê-la e até lhe dera um beijo doce. Uma verdadeira alfinetada. . Era Ted. ele só terminaria comigo em definitivo se tivesse certeza de que Deus o estava mandando . ao lado de Katie. Só que. Foi então que alguém abriu a porta do restaurante. Será que Ted havia chegado à mesma conclusão a respeito dela? Será que ele ‘tá apenas esperando a hora certa pra me dizer isso? Se o conheço bem. não vai acontecer nada entre você e o Ted. As palavras de Katie ecoavam em sua mente.Quero dizer. ele adora essa coisa de curtir a natureza. e eu entro em pânico só de ver que ‘tá chovendo! Cris se lembrava da estadia na Inglaterra e de como percebera claramente que ela e o Douglas não formavam um casal perfeito. . as pequeninas pegas daquele quebra-cabeças começaram a se encaixar na mente de Cris. só porque você ‘tá de novo na Europa com seu amigos! Cris só foi entender o raciocínio de Katie quando a amiga soltou a última frase. Marcos vinha logo atrás.desafios que enfrentou naquela época. Além do mais o Ted não assumiu diante do pai do Antônio que eu era a namorada dele. Por quê? Será que ele descobriu que não temos nada a ver um com o outro? Afinal. e Ted. Vocês não vão terminar. nem nada parecido. seguindo o ritmo das batidas de seu coração. ele mal encostara nela.

Alguém como.. Já estaria mais do que na hora de pensar em casamento. Por que ele deixaria de se casar com uma moça que gosta de curtir a natureza. Foi então que Cris começou a prestar atenção a uma série de fatos... Ela e ele estavam até planejando estudar na Universidade Rancho Corona no semestre seguinte. Primeiro. assentada à sua frente. Seu olhar estava fixo em sua melhor amiga. Mas onde é que ‘tá escrito que ele tem de se casar comigo? Eu fui sua namorada da adolescência. mexendo com todos os seus sentidos.. sem dúvida nenhuma. Já tem até barbicha. Alguém como.fazer isso. como ele? Que é divertida. O Ted pode conseguir a mulher que quiser. ele estaria com vinte e quatro anos e já formado. Faltavam apenas algumas matérias. De repente o coração de Cris disparou. Katie. . companheira. Dentro de um ano. descontraída.. e que é assim.. Hoje ele é homem feito. Ted já estava quase terminando a faculdade...

Por que ele teria me beijado lá na estação de trem de Basel se. Foi isso que ele disse. parecia que todas as peças de sua vida haviam aterrissado no local errado. e ela não havia enxergado as “pistas”? . as cabeças apoiadas uma na outra. concordando com a sugestão. ela apenas acenou com a cabeça. Será mesmo que algum sentimento estava rolando entre os dois bem ali na sua frente. 7 Cris passou o resto da viagem para Roma sentindo-se totalmente desanimada. Talvez ele esteja só esperando o fim das férias pra terminar tudo comigo. e de como ele sabia direitinho onde pegar no joelho dela. Cris fazia um enorme esforço para recolher o que não fora estilhaçado. sentia-se profundamente abalada só de pensar que Katie poderia ser uma opção melhor para Ted. está pensando em terminar comigo? Cris se lembrou então do que Ted lhe dissera. mal opinava. logo que ela lhe falou que não queria ter chorado. Quando discutiram sobre a possibilidade de não passar por Florença e seguir direto para Nápoles. Na verdade. empenhando-se em encontrar um local seguro no coração. Sentindo-se ainda amuada. porém. Quando aquele abalo emocional cessou afinal. os amigos conversavam e faziam planos. Cris se lembrou da guerrinha de água de Katie e Ted. ele não queria me beijar. Ela. No fundo. assim como Trícia havia sido para Douglas. “E eu prometi pra mim que não iria beijá-la”. Naquele momento. no fundo. Lembrou-se de vê-los jogando xadrez. onde pudesse alojar seus sentimentos. Assentados à mesa.

Marcos e Ted almoçaram. E lá estavam eles. até que Marcos avistou dois assentos vazios numa outra cabina. Ninguém sugeriu que se abrisse a janela.Você tem de vir conosco. trabalhar em equipe. A viagem não vai ser a mesma sem você. segurando no colo uma grande cesta de palha. pego o trem e volto pra Roma. Entre estas estavam alguns dos museus e igrejas que Cris destacara no guia turístico. que era completamente diferente da primeira. balançando a cabeça e dando um sorriso. pelo braço. Katie e Cris se espremeram no pequeno espaço. Ao lado de Cris uma mulher dormia. Cris tapou o nariz com a mão e ficou respirando com dificuldade. Afinal. continuou ela. por que não? respondeu o rapaz. Marcos. Depois de Marcos muito insistir. só seu corpo se achava presente. . boa idéia. disse Katie. Mesmo assim.‘Tá aí. Ela não parava de observar Katie e Ted. para ver se dariam alguma outra pista de estarem interessados um no outro. Contudo o rapaz não desistiu. e lá se foram os quatro na segunda classe. Cris permaneceu quieta. que cheirava a alho. Vou com vocês até Nápoles e. quando vocês forem pra Capri. os “lugares” eram na verdade um espacinho de cerca de trinta centímetros. Marcos os conduziu até a plataforma onde pegariam o próximo trem. . Todos pareciam satisfeitos. a sacola tombou no colo de Cris. Ficaram em pé boa parte do trajeto. Cris achou que Marcos mudaria de idéia ao ver que a primeira classe do trem estava toda reservada. enquanto ele e Ted permaneceram em pé no corredor. enquanto os outros discutiam sobre as atrações turísticas que visitariam. mas Cris nem sequer tocou na comida. puxando o rapaz. Depois do almoço. voltaram para a cabina na primeira classe. Ao desembarcarem em Roma. Quando foram ver. Cris não aguentou mais. Era exatamente aquilo que ela havia desejado o tempo todo: montar um roteiro. Levantou-se e falou para Katie que precisava tomar um pouco de ar . Katie. Em dado momento. e o cheiro forte de alho misturado ao odor de transpiração foi ficando cada vez mais intenso.

Agora. O Ted não ficaria interessado . a viagem deve durar exatamente duas horas.É por essa razão que é melhor pagar um pouco mais para viajar na primeira classe. Cris ficou se lembrando de que Marcos praticamente ignorara Katie durante a manhã. Devemos chegar a Nápoles em menos de uma hora. Ted repetia as frases com ela.Vou com você. . Ele se afastou um pouco.Quantos quilômetros ainda faltam? perguntou Ted. A agradável brisa da tarde. até lhe ajudava a pensar melhor. Se quisesse. no entanto. poderia envolvê-la nos braços. não. Katie foi a primeira a soltar uma gargalhada. podemos ficar. importunava Marcos. ela contava com dois superadmiradores. disse Marcos. . dando uma de professor particular dos dois. isto é. Marcos? Queria nos fazer perder a vontade de viajar de trem de vez? . . disse Katie. e Cris se sentia deprimida. olhando as horas em seguida. Todo relacionamento tem de ser uma via de mão dupla. disse ele. Atento. O trem balançava sem parar. Sua atenção estava em Katie que. Os rapazes seguiram as duas até que acharam uma janela aberta no corredor. Ted estava bem ao lado dela. ou talvez chegar pertinho e sussurrar-lhe alguma palavra carinhosa ao ouvido. . que batia em seu rosto. Cris estava em pé perto de sua bagagem. Como este trem não faz escalas.fresco. o suficiente para que não encostasse nela. Marcos parecia estar se divertindo bastante. apoiados na parte superior da janela aberta. os braços cruzados. Não me importo de viajar em pé aqui.É possível que o cobrador nos peça pra sair. se vocês não se importarem também. Mas. claro. mas enquanto ele não aparecer. pedindo-lhe que a ensinasse frases em italiano que lhe pudessem ser úteis durante a viagem. naquele momento.Que que é isso?! O que você estava pensando. E parecia gostar muito da companhia de Katie também.

voltar para o quarto e dormir em cima dos livros. Mas a razão é que ela só escrevia quando se sentia bem. não? Deve ser por isso que ‘tá dando uma de bonitinha-engraçadinha pra cima do Marcos agora. Ted havia lhe dado a pulseira numa noite de ano-novo. sua rotina havia sido assistir às aulas. Na ocasião ele lhe dissera que. quase todas as anotações que fizera no diário demonstravam um certo otimismo. depois. Continuou observando a cena. E pelo que vejo. Será que essa história dele com a Katie vai ser parte do “independentemente do que acontecer”? Será que finalmente chegou a hora de dizermos um para o outro que somos “apenas amigos”? Será que daqui a um ano e meio o Ted e a Katie estarão casados como o Douglas e a Trícia? Cris nunca imaginara que algum dia fosse se sentir tão arrasada. De todas as coisas que Katie lhe dissera no restaurante. ela ‘tá bem interessada. Mas pelo menos você esperou até que terminássemos o namoro. depois de nós dois termos namorado. Cris demonstrava estar contente e animada. Deve estar querendo mostrar ao Ted o quanto ela é interessante. Katie. independentemente do que acontecesse a eles no futuro.em Katie a não ser que ela demonstrasse por ele. dar tudo de si no trabalho que realizava com crianças carentes do orfanato e. Uma coisa foi você sair com o Rick. todos os sábados pela manhã. numa ela tinha razão: aquele semestre fora bastante pesado. Além disso. Essa era uma das razões por que era tão importante para Cris caminhar até a Konditorei. Na maior parte desses dez meses na Suíça. Cris passou o dedo na sua pulseira de ouro. Estava tão confusa e machucada que naquela hora era fácil imaginar qualquer coisa. eles seriam amigos para sempre. Era sua maneira de se recompensar por ter aguentado firme . fazia quase cinco anos. em que se achava gravada a expressão “Para Sempre”. Em suas cartas aos pais.

Talvez toda aquela paz que sentira envolvendo-a na estação. Cris se perguntava se parte do que estava sentindo nos últimos dias era mesmo o efeito de tantos meses vivendo sob estresse. Talvez Katie tivesse razão ao dizer que suas expectativas em relação a si mesma e aos amigos fossem mesmo muito elevadas. sem entrar em pânico total. . Cris se sentia um pouco sem jeito. Fazia tempos que não separava um período para se divertir e descansar. disse ela. Não sabia mais se portar como namorada de ninguém. fosse apenas fruto de sua imaginação. ou por onde começar. de costas para Katie e Marcos.Marcos! Katie! Eu e a Cris vamos dar uma ida ali no outro vagão por uns minutos. e não no fim da viagem. Ele se virou e ela prosseguiu: . se fosse esse o caso.Claro.Na verdade estava querendo conversar com você num outro lugar.Ted. com uma agenda sempre cheia de compromissos e obrigações. E. quando Ted chegara. Se acontecer de o trem parar e ficarmos separados. e não de barco. . onde devemos nos encontrar? Marcos passou as coordenadas para Ted. pondo a mão levemente sobre os ombros do rapaz. respondeu ele. Nem sabia mais o que era isso. Cris achava que tinha de saber da verdade agora. . Será que podemos? . Talvez seu relacionamento com Ted não fosse mesmo para além da amizade. respondeu ele. deveriam comprar as passagens para Capri. explicando que ao desembarcarem deveriam ir direto para o ônibus que os levaria até o porto. encostando-se no peitoril da janela.Claro. Ted pegou a mochila e colocou-a nos ombros. Chegando lá. Não havia planejado direito o que dizer. Aconselhou-os ainda a viajarem de hidroplano.mais uma semana de trabalho.Podemos conversar um pouquinho? . uma vez que a .

preciso lhe perguntar uma coisa.Como você ‘tá? perguntou Ted.Quando chegarem a Capri. Marcos fez ainda mais uma recomendação: . carregando as enormes mochilas nas costas. Já estavam quase desistindo e resolvendo voltar quando avistaram.viagem de barco levaria o dobro do tempo. Cris virou-se para ele e disse: . Não se esqueçam de dizer que conhecem o filho de Carlo Savini. à medida que o trem convergia para a esquerda. Imaginava que de perto elas deveriam ser bem mais antigas e humildes do que pareciam. O trem passava agora por um campo de oliveiras já bem velhas. . . O dono de lá é amigo do meu pai. . Ted e Cris abriram caminho pelo corredor do trem. Quando descermos do trem.Valeu. Cris voltou o rosto para a janela. lembrou-os de que Nápoles poderia ser um lugar muito perigoso para turistas e que deveriam tomar bastante cuidado com a bagagem. no último vagão. disse Ted. . situada na encosta das montanhas. de uns noventa centímetros de diâmetro. deixando que a corrente de ar secasse o suor em seu rosto. bastante deformados e retorcidos.Entendido. disse Ted. procurem o hotel Villa Paradiso. não encontrariam nenhum cantinho desocupado para conversar. começava a pintar no cenário. Cris colocou o mochilão no chão e se pôs a forçar a janela até que ela abriu. então ficaremos esperando vocês. Pelo visto. deixando entrar uma corrente de ar. Certamente ele fará um preço legal pra vocês. Uma pequena vila. um espacinho no corredor. Por último. com seus telhados vermelhos. Algumas tinham troncos largos. Cris ficou observando as belas casas brancas ao longe. Ou pelo menos foi o que constatara na casa de Antônio.Ted.

o que ‘tá acontecendo? perguntou ele. Cris falou então a primeira coisa que lhe veio à mente.Talvez. levantando-lhe o cabelo curto e clareado pelo sol. . dando-lhe toda a atenção. Enquanto Cris precisava de um planejamento.A Katie me disse que minhas expectativas em relação a mim mesma e a vocês dois são muito altas. respondeu ele. Era ela quem sempre queria saber em que pé estava o relacionamento dos dois e o que Ted esperava dela. . não acha? . preciso saber quais são elas. Você acha? Ted fez uma pausa e acenou vagarosamente com a cabeça. Por um momento. será que mudamos muito? Mudamos demais. Não sabia direito o que dizer. olhando para o semblante calmo e seguro do rapaz. deixa pra lá.Eu sou sempre sincero com você. . tudo bem. disse ela.Quero dizer. Ao que se via. Durante anos tinha sido ela quem sempre perguntara se eles eram “mais do que amigos” um do outro. E quero muito poder ser sempre sincera com você também. O vento soprou na direção dele. Você também acha isso? . . O que eu realmente quero saber é se você acha que nós mudamos. Ted parecia satisfeito em levar a vida na base da aventura. . Cris desviou os olhos do olhar penetrante de Ted. Hesitou por alguns instantes antes de prosseguir.Acho que antes de dizer se suas expectativas são altas ou não.Então me diga. . Ou talvez não tenhamos .Eu sei que você vai me dar uma resposta sincera. .‘Tá.Eu sei disso.Sim? . disse ele. ele não sentia necessidade de saber de nada disso.Como assim? .

respondeu Ted. você quer terminar nosso namoro? perguntou ela em voz fraca.Tudo bem. Ted nada respondeu. Levantando o rosto vagarosamente. . sem olhar para ele.Talvez fosse melhor voltarmos para o vagão onde a Katie e o Marcos estão. Se não fosse o que ela estava pensando. Engoliu seco. . Assim que chegassem em Nápoles. Cris notou que ele engolia em seco várias vezes.Bem. Para Cris. Várias pessoas transitavam pelo corredor.mudado exatamente. pegando a mochila. Tudo o que se ouvia era o barulho do trem nos trilhos. Suas unhas estavam todas quebradas por causa do acampamento. ela olhou para Ted. forçando Cris e Ted a saírem dali. Ted permaneceu em silêncio. mas passado a agir um com o outro mais como realmente somos por dentro? E será que a pessoa que somos hoje é completamente diferente da que éramos cinco anos atrás? Ou até mesmo da que seremos daqui a cinco anos? Ted passou a mão pela barbicha que crescia em seu queixo. gostaria de conversar sobre isso depois.Ted. . se você não se importar. ela poderia pegar o trem da . .Poderia repetir o que acabou de dizer? Cris olhou para os dedos. Cris entendeu então que seu silêncio queria dizer apenas uma coisa. Olhou para o hematoma que se formara em seu dedo indicador. falou ele afinal. O rosto dele estava voltado para a janela. Por dentro. então ele teria respondido imediatamente que não queria terminar. Cris não conseguiu conter as lágrimas que brotaram em seus olhos. . foi o que conseguiu dizer.Tudo bem. Pensava nas opções que tinha diante de si. Cris se sentia tão machucada e ferida como suas mãos. Todas as suas esperanças se foram então. cada passo dado parecia mais difícil e pesado que o anterior. . sugeriu Cris.

Por dentro. Enquanto esperavam. se . Seu tom de voz baixo não revelava nenhuma emoção. né? Parece que ultimamente só tem sido assim. uma multidão de pessoas transitava por eles. de volta à sua rotina e tudo o mais que lhe era familiar. Ted estava bem ali. e cada vez mais passageiros se punham de pé nos estreitos corredores. mas não havia sinal dos amigos. Ficaram os dois olhando atentamente em redor. As criancinhas precisavam e gostavam dela. De que me serviram. Pouco tempo depois a passagem já se achava tão cheia. Ficou esperando os amigos. desconfortável. Presa. à procura de Marcos e Katie. . Poderia mergulhar de cabeça em seu trabalho no orfanato e.noite para Basel e estar de volta pela manhã. respondeu Ted. Não trocaram nem sequer uma única palavra. se esquecer dos problemas. Será que ele ‘tá sofrendo com está situação tanto quanto eu? A gente tem de conversar! Isto ‘tá doendo demais em mim! Ted descobriu um ônibus que ia para o porto e. dirigindo-se para a saída. Logo que o trem parou e as portas se abriram. em seu quarto. Deus? Será que todo esse tempo junto de Ted não passou de uma brincadeira? De um teste emocional? Pelo visto tomei bomba no teste. -será que eles desceram antes de nós e foram direto para o ônibus? perguntou Cris. assim. ao seu lado. enquanto esperavam a hora do embarque. segura. Cris foi empurrada para a plataforma de desembarque por toda aquela gente. ficaram procurando Katie em todas as partes. O trem começou a perder velocidade. desviando-se do fluxo de passageiros que desciam do trem ruidosamente. Cris se sentia da mesma forma. todos esses anos. impedida de prosseguir. Por que ela continuaria viajando com Ted e Katie quando nenhum dos dois precisava dela ou desejava sua companhia? Cris sentiu um frio no estômago. Por fim o motorista lhes disse que. com suas bagagens. à espera do inevitável.Podemos dar uma olhada. que era quase impossível se mexer.

quisessem ir naquele ônibus, teriam de embarcar naquele minuto, ou então, esperar o

próximo.

-será que a Katie pegou o ônibus anterior a este? O que vamos fazer agora? perguntou

Cris.

- Provavelmente ela achou que nos já tivéssemos ido para o porto, disse Ted. Vamos

neste ônibus mesmo.

Durante o trajeto, Cris e Ted não conversaram nem olharam um para o outro. O veículo

estava lotado e, portanto, tiveram de ir em pé. Cris olhava pela janela, na esperança de que

Katie aparecesse correndo atrás do ônibus, acenando e gritando para eles.

Ao chegarem ao porto, no entanto, não avistaram nem Katie nem Marcos.

-será que devemos voltar pra estação? perguntou Cris.

- Acho que não. Pode ser que, quando voltarmos, ela esteja vindo pra cá e aí é que

vamos nos desencontrar mesmo, respondeu Ted. Acho melhor ficarmos por aqui e esperar. Ela

‘tá com o Marcos. Não vai acontecer nada. É possível até que já tenham ido pra Capri e já

esteja a caminho do hotel agora. Vou ver se compro alguma coisa pra comer. ‘Tá com fome?

Cris não conseguia entender como Ted podia sentir fome em meio a uma situação tão

tensa. Ela sentia o estômago doer, mas não era de fome, e sim de nervosismo.

Foram até uma pizzaria e ficaram esperando na fila, cercados de uma barulheira

ensurdecedora. Nas ruas o som das buzinas propagava-se sem parar, aliado ao estridente

chiado dos freios dos ônibus e ao ruído provocado pela multidão de pessoas que circulava por

lá, muitas delas gesticulando bastante ao conversarem umas com as outras.

Cris continuava olhando em redor, na esperança de avistar a amiga. Quando chegou a

vez de pedirem sentiu o estômago revirar. Estava apreensiva demais para comer. Contudo,

estava aprendendo durante a viagem que o melhor era comer enquanto houvesse comida por

perto.

As fatias de pizza, abarrotadas de mussarela derretida, vieram enroladas em papel, o que

fez com que o queijo grudasse neste. Os dois caminharam até uma esquina e puseram as

mochilas no chão, usando-as como assento. Embora estivessem um pouco afastados do

principal fluxo de pedestres, de lá conseguiam avistar o ponto de ônibus. Ficaram comendo

calmamente e olhando com atenção em redor à procura de Katie.

- Você ouviu quando o Marcos comentou sobre este queijo no trem? perguntou Ted.

Cris balançou a cabeça. Não se lembrava de ter ouvido nada sobre queijos. Durante toda

a viagem só conseguira pensar nos próprios sentimentos. Estivera, e ainda estava,

completamente absorta em si mesma.

- Ele disse que a comida do sul da Itália é a melhor do país e que o queijo aqui é feito de

leite de búfala.

- Sério? perguntou Cris.

Agora é que tinha perdido a fome de vez. Ted acenou com a cabeça, dando uma enorme

mordida no segundo pedaço de pizza.

- É gostoso, não acha? disse ele sem muito entusiasmo.

Parecia que estava tentando puxar um papo diferente com Cris, a fim de adiar a

conversa que realmente precisavam ter.

- O que vamos fazer se não acharmos a Katie? perguntou Cris, dando sua contribuição

para mudar o assunto e evitando, assim, a tal conversa pendente.

- Vou dar uma olhada no guichê que vende as passagens de hidroplano. De repente o

atendente pode se lembrar de ter visto uma moça ruiva na fila, disse Ted, levantando-se. Você

se importa de ficar aqui?

- Não, de maneira nenhuma.

Mas Cris se importava sim. Não queria que Ted a deixasse, nem naquela hora, nem

nunca. Vendo-o se afastar, Cris sentiu um aperto no coração. Era como se ele estivesse indo

embora para sempre. Engraçado, porque, quando Douglas havia saído de sua vida, ao

terminarem o namoro na Inglaterra, Cris experimentara uma estranha sensação de alegria.

Tinha certeza que havia tomado a decisão certa. Com Ted, porém, era diferente.

Mas também eu e o Ted ainda não discutimos se vamos terminar ou não. O namoro

ainda não acabou oficialmente.

Cris continuava observando o fuzuê de pessoas que transitavam por ali, quando notou

um homem se aproximar, resmungando qualquer coisa em italiano. Trajava roupas bem velhas

e rasgadas. Cris se levantou, disposta a dar no pé, mesmo que para isso tivesse de carregar a

mochila de Ted também, que ficara com ela. Simplesmente não estava muito a fim de lidar

com pedintes.

- Ei, Cris! exclamou Ted, quando ela já ia colocando a mochila dele nas costas. Vamos

embora!

Ted correu até ela e pegou a mochila.

- O último hidroplano com destino a Capri já partiu e nós o perdemos. Mas tem um

barco saindo agora. Temos de correr para pegá-lo! Venha!

8

- Mas, e a Katie? gritou Cris, enquanto corriam desembestados em direção ao barco.

Ted corria na frente. Vendo que o grande barco estava prestes a partir, deu um assovio

estridente, para que não recolhessem a prancha de embarque. Acenou, balançando os dois

bilhetes no ar, e entrou correndo no barco, deixando um dos empregados do porto irritado.

Cris entrou logo atrás.

- Ufa! Esta foi por pouco! exclamou ele, dirigindo-se à ala dos passageiros.

Cris o seguia.

- Você acha que a Katie pode estar neste barco? Perguntou ela, recobrando o fôlego.

- É possível. Mas meu palpite é que nós não a vimos descer no meio da multidão.

Provavelmente ela pegou o hidroplano. Talvez o Marcos até tenha ido com ela para o hotel.

Cris se lembrou de como Katie, Ted e Antônio haviam ficado “mais ou menos” perdidos

durante a escalada, poucos dias antes. Sabendo disso, não tinha muitas esperanças de que

Katie já estaria no hotel, à espera deles.

- Vou dar um giro pelo convés pra ver se a encontro, disse ela.

- Ótimo. Vou ficar aqui, vigiando a bagagem. Parece que tem um lugar vago perto

daquela janela.

Cris não esperava que Ted se oferecesse para acompanhá-la, principalmente porque, se

ele fosse junto, teriam de carregar as malas. Mesmo sabendo disso, sentiu-se desolada ao vê-

lo se assentar na última fileira de bancos, colocando as mochilas no espacinho que sobrara ao

lado dele.

Cris sentiu o corpo doer ao sair pelo convés, à procura da amiga. Sabia que, quanto mais

ela e Ted adiassem a conversa sobre o término do namoro, mais ela sofreria.

Katie não estava em lugar nenhum.

Cris resolveu se assentar num banco ali fora, onde não estava ventando muito, em vez

de voltar e contar a Ted que Katie não se encontrava a bordo. Envolveu-se toda com os

próprios braços, procurando se aquecer e se consolar ao mesmo tempo. Dali, Cris avistava as

luzes de Nápoles, que começavam a se acender ao longo da baía de onde haviam partido. Bem

ao longe; uma cadeia de montanhas altas e íngremes, salpicada de casas de veraneio e antigos

monastérios, circundava a cidade. Ao Sul erguia-se o vulcão Vesúvio, com seu aspecto

impetuoso e imponente. Cris se lembrava de ter ouvido Marcos falar sobre ele, embora não

houvesse prestado muita atenção à conversa. Marcos sugerira inclusive que visitassem as

ruínas de Pompéia, antiga cidade do Império Romano que havia sido destruída pelas lavas do

vulcão, atualmente inativo.

Olhando a distância, o vulcão não lhe inspirava o menor perigo. E a baía de Nápoles,

com seu formato de meia-lua, parecia uma verdadeira terra encantada, repleta de luzes que

cintilavam naquele céu de primavera, que começava a escurecer. De onde Cris estava, não era

possível avistar o trânsito pesado, nem m mendigos bêbados, tampouco o corre-corre das ruas

da cidade.

Foi então que Cris se lembrou de quando completara dezesseis anos. A lembrança era

forte e parecia bastante viva em sua memória. Rick havia lhe telefonado de algum lugar ali na

Itália, quem sabe dali, de Nápoles, ou até mesmo de Capri. Cris havia ido a um luau com sua

família, no Havaí. Depois de abrir os presentes, ela e Ted se assentaram na sacada, ou lanai,

do apartamento do Tio Bob. Ficaram a sós por alguns momentos, observando a lua, que

brilhava no Oceano Pacífico. Cris se lembrava de que Ted havia se assentado junto dela e

segurado sua mão, correndo os dedos pela pulseira gravada “Para Sempre”. Na ocasião, ele

lhe chamara a atenção para a ilha de Molokai.

Diferentemente das inúmeras luzes que Cris observava em Nápoles naquele momento,

em Molokai apenas duas luzes piscavam juntas como se fossem estrelas, uma ao lado da

outra, na beira do mar. Naquela noite, Ted havia feito mais uma de suas famosas analogias.

Ele dissera que, olhando a distância, não dava para decidirmos com qual das duas luzes

gostaríamos de ficar. Era preciso que nos aproximássemos cada vez mais e mais, para então

conseguirmos enxergar melhor cada uma delas. Só então teríamos como decidir se o que

tínhamos diante de nós era o que realmente desejávamos.

De repente, uma profunda e forte sensação de culpa tomou conta de Cris. Durante esse

tempo todo, o Ted tem se aproximado cada vez mais de mim e, agora que consegue enxergar

quem eu realmente sou, descobriu que não sou o que ele quer.

Cris não aguentou ficar nem mais um minuto ali, olhando para as luzes de Nápoles que

cintilavam no céu, como se debochassem dela e dos sonhos que ela nutrira e nos quais

acreditara. Sonhos de que ela e Ted ficariam juntos para sempre. Levantou-se então e se pôs a

andar mais uma vez pelo convés, com passos largos e firmes, até que chegou a um lugar onde

não havia ninguém próximo ao parapeito.

Parou ali. Uma voz martelava em sua cabeça, como se a desafiasse, em tom de insulto, a

arrancar a pulseira do braço e jogá-la ao mar. Afinal, era melhor que ela própria se livrasse da

jóia antes, em vez de esperar que o próprio Ted a tirasse de seu pulso mais tarde. Abatida, Cris

abriu o fecho da pulseira e segurou-a em suas mãos, fitando as águas escuras do mar.

Ela sabia que a expressão “Para Sempre” gravada na chapinha representava muito mais

do que a simples amizade entre ela e Ted, que seria para sempre. Era também um símbolo do

compromisso que ela firmara com o Senhor. Quando Cris se convertera, cinco anos atrás,

prometera a Deus que aquele compromisso era para a vida toda, e não apenas para aquele

período de férias. Era uma promessa eterna, de que ela sempre colocaria sua confiança em

Seu rosto achava-se voltado para o céu e seus lábios moviam-se rapidamente. mas não viu ninguém. se a tua vontade for nos conduzir por rumos diferentes. Se o Senhor quiser que eu e o Ted fiquemos juntos. Mesmo assim. Senhor. Perdoa-me. minhas necessidades e meus desejos. Cris não se dera conta de que. quando avistou Ted. Pelo visto. acalmando suas emoções. perto de uma janela. em meus pensamentos. ao andar pelo convés. Já ia se virando novamente para o mar. eu te decepcionei. Cris sentiu as lágrimas descerem. Transforma meu coração. Ele estava assentado na ala dos passageiros. Ele também ‘tá orando. Senhor. Cris pôde perceber que ele estava de olhos bem fechados. De verdade. Confio no Senhor. Foi então que Cris sentiu uma agradável brisa passar por ela. Quero fazer a tua vontade. No entanto Ted não estava olhando para ela. A promessa que te fiz é pra sempre. continuava a sentir a agradável corrente de ar a lhe envolver. Era como se de repente o barco tivesse entrado num corredor de ar quente. Cris virou-se para olhar. Estou completamente absorta em mim mesma. Antes. meu Deus. Então abriu a mão e examinou a pulseira de ouro que segurava. ficarei feliz.Deus e o amaria mais do que a qualquer coisa ou pessoa. Tú és o meu primeiro amor e eu te amo mais do que a qualquer outra . ainda envolvida naquela suave corrente de ar quente. não é. Entrego tudo a ti. ainda assim serei grata a ti. Examinando-o mais atentamente. desmanchando-lhe a trança frouxa e fazendo-a tremer de frio. a fim de terminar sua oração. Estou falando sério. acabara ficando bem à vista dele. a sensação era de que ela vinha de trás. molhando-lhe as mãos fechadas. Cris ficou a observá-lo por mais alguns momentos. Mas. Senhor? Não estou confiando em ti de todo o meu coração e não estou te amando mais do que a qualquer coisa ou pessoa. Entretanto a brisa não parecia vir do Mediterrâneo. Não havia nenhum superaquecedor virado para ela. a poucos metros dali. O vento batia forte em seu cabelo.

um vento soprou. como se houvesse passado por uma lombada no meio do mar. Contudo já era tarde demais.Eu a perdi. então. imersas em nossos confusos e complicados sentimentos. . Aqui estamos. e a pulseirinha de ouro voou de suas mãos. . Posso sentir tua presença bem pertinho de mim agora. Cris se pôs a procurar a pulseira pelo chão. desesperadamente. .Não! exclamou Cris a plenos pulmões. o Senhor olha pra nós. esperando que ela dissesse alguma coisa. De repente. Somos apenas duas pessoas minúsculas neste mundo. carregando as bagagens. Meu futuro está em tuas mãos. Não conseguia chorar. o barco deu um sacolejo. impedindo-a de enxergar por alguns instantes. não nas minhas. conseguiu dizer afinal. Senhor. A pulseira não estava ali. . É quase como se eu pudesse sentir-lhe soprar tua brisa sobre mim. Com o movimento brusco.‘Tá tudo bem com você? Cris não conseguia falar nada. o rosto voltado para o chão. O rapaz. . balançando o cabelo de Cris fortemente e jogando-o em seus olhos. Não podia sequer pronunciar algum som. caindo de joelhos logo em seguida. Senhor. Cris percebeu que o mal-estar que sentira pouco antes começara a passar e que ela já podia respirar melhor. Eu sei que tú estás comigo. De repente. Continue soprando sobre mim. Notou ainda que seu queixo doía. Mesmo assim. Ela se virou e viu que Ted vinha em sua direção. Cris se desequilibrou. Ted ficou olhando para ela.Cris! chamou Ted.coisa. Justo na hora em que a pulseira já ia caindo. largou tudo no chão e ajoelhou-se ao lado dela. ainda com certa dificuldade. Tú te importas e estás conosco. de tanto bater os dentes de frio. Tirando o cabelo dos olhos.

Estavam vermelhos.Não? . Ted passou o braço pelos . eu deveria ter sido mais cuidadosa com a. . . Dou-lhe toda razão por querer terminar comigo. achei que você é que estivesse querendo terminar comigo. apesar disso. .Verdade que você não quer? . procurando respirar fundo.Ted. Ted também não parecia ligar muito para aquilo. principiou ela com voz trêmula.Não! Achei que. é claro que não! Quando conversamos no trem. Ted..Não. Cris se virou e fitou os olhos de Ted. .Perdeu o quê? Cris se levantou do chão. assentou-se ao lado de Cris e ficou esperando pacientemente que ela lhe desse alguma explicação.Não. Mas. antes mesmo que Cris pudesse concluir sua explicação. . Foi por isso que não pude lhe dar uma resposta naquela hora..Espere! exclamou ele. mas ela não se importava de ser observada. onde se ajoelhara. eu sei que deveria ter sido mais cuidadosa. e se dirigiu até um banco na parte traseira da ala dos passageiros. Que história é essa de que eu quero terminar com você? Eu não quero terminar nosso namoro. mas com certa dificuldade. mas... Toda aquela cena havia atraído muitos olhares. Você me pegou de surpresa. como se ele houvesse chorado também. principiou ela. . -sente muito por quê? Não estou entendendo. Ted! Não! Eu não quero que a gente termine.. segurando o cotovelo de Cris. Mas. Sinto muito. Nunca deveria tê-la tirado. Achei que. -sei que esta é uma maneira terrível de terminarmos. apesar de tudo.. Ele arrastou a bagagem para perto do banco.

você não ‘tá entendendo o que estou tentando dizer. Ted. Afinal afastou seu rosto dela. Ted não disse nada. .. parando no meio de suas costas. Sinto muitíssimo. tirou o braço de sobre os seus ombros e. dando-lhe um forte abraço. Eu perdi a nossa pulseira. num movimento suave. Ted deu uma leve sacudida nas pontas do emaranhado cabelo de Cris. . . Foi ridículo. no final. e então minhas emoções começaram a aflorar e aí eu tirei a pulseira do pulso.Ai! disse ela baixinho.Ted. mais do que qualquer outra coisa. . Depois concluiu seu discurso dizendo: . De verdade.Não.Não.ombros dela. com . correu as mãos pelo cabelo dela.Então por que está rindo? . Mas ela acabou escapulindo e escorregando pelo chão do convés. sim.. Mas então me lembrei de que a expressão “Para Sempre” representava meu relacionamento com o Senhor. Ted. . eu nem ia mais jogar a pulseira no mar. né? . disse ele simplesmente. .Dê-me sua mão aqui. Cris mal conseguia respirar. puxou-a para perto de si e silenciou-a com um beijo. Cris estendeu a mão direita.Perdi. Depois soltou uma gargalhada e envolveu-a nos braços. então.E. disposta a jogá-la no mar. Então comecei a orar e depois vi você orando. Ao soltá-la. Apenas sorriu para ela. aconteça o que acontecer. e então o barco deu aquele sacolejo e. Ted. Ted a olhou por uns instantes. e que meu relacionamento com ele nunca acabará. você não a perdeu. interrompendo a explicação.Que foi? Deve estar me achando doida. Eu estava aqui. pensando que você queria terminar comigo. a da nossa amizade.

apenas acenou com a cabeça. Como a Katie. . Ela se dá bem nessas coisas. Quero que nos aproximemos cada vez mais um do outro e. Ficava pensando no acampamento e em como eu sou diferente da Katie.um largo sorriso no rosto. disse: . Ted segurou as duas mãos de Cris e chegou o rosto bem pertinho do dela. exibindo a pulseira de ouro. e eu não. fiquei me perguntando o que levaria você a ficar preso a uma menina enjoada como eu. do Senhor. respondeu ela. . respondeu ele.Pode acreditar.Acredito sim. .‘Tá brincando! Impossível! . . respirando fundo e soltando as mãos dela.E pode acreditar também no que vou lhe dizer.Você acredita em mim? De verdade? perguntou Ted. Ted puxou Cris para perto de si e continuou: . Pela expressão em seu rosto. Em seguida. Minha cabeça foi literalmente assolada por dúvidas. respondeu ela. levantando as sobrancelhas.Presa no seu cabelo. Olhando-a nos olhos. Ted.A Katie? perguntou Ted surpreso. . também. Cris não disse nada. quando existem outras garotas muito mais interessantes por aí. por exemplo. Mas o dia inteiro foi assim.Eu sei.Agora eu acredito. Eu também estava enganada. .Mas não era isso que eu estava pensando algumas horas atrás. colocou-a de volta no pulso de Cris. Cris. abriu as mãos. disse ele. parecia que nunca havia m passado pela cabeça interessar- . Daí fiquei pensando que poderia ser como foi com o Douglas e a Trícia então. Apoiando o braço no encosto do banco. Eu realmente quero que nosso relacionamento siga em frente. E você acredita que eu também quero isso pra nós? .Onde ela estava? .

na estação em Basel. ouvindo-os dizer que o Antônio deveria pedir você em casamento. quer dizer.Deixa pra lá. que não tinha pensado em me beijar. Achei que você tivesse percebido que eu não era uma boa pra você. com toda a atenção que estavam lhe dando. . Por isso e também por você ter dito. achei que todo aquele papo pudesse estar deixando a Katie sem graça. Fiquei planejando isso um tempão! Achei que você tivesse percebido que eu estava sendo irônico. . prosseguiu Ted. à medida que se aproximava de mim e me conhecia melhor. Ted olhou para ela. . . .Pensa só.Molokai? . Cris. .A Katie? Por quê? perguntou Cris. Cris olhou para as mãos. Fiquei pensando nisso porque lá na casa do Antônio. . na frente dos pais dele. Cris. Então tentei mudar de assunto. Parecia ainda mais confuso depois daquele comentário. Igual às luzes de Molokai. E lá estávamos nós. Ted deu um sorriso.E quanto ao episódio na casa do Antônio.A Katie ou alguma outra menina. . Você sabe que ela teve uma queda pelo Antônio no ano passado. antes de decidirmos por uma das duas. é claro que eu tinha pensado em beijá-la. Sentia-se envergonhada pela forma como havia reagido a tudo aquilo.Ah. quando o pai dele lhe fez aquela pergunta no jantar.se por Katie. Achei que a Katie poderia ficar chateada. você não lhe deu uma resposta muito clara.E foi por isso que você ficou cheia de dúvidas? . porque aí seria possível enxergá-las como de fato são. Você disse uma vez que.É. era preciso esperar e nos aproximarmos o máximo delas. Então poderíamos decidir. voltando o olhar para Ted.

Os dois desceram pela prancha que ligava a embarcação ao cais. iluminou sua pulseira. Cris recostou-se no banco e meneou a cabeça. Então uma luz fraca. Durante o trajeto até a ilha. o Sol havia se posto e. o mundo adiante deles parecia uma terra encantada. Cris. Ted. . ao observá-la à distância.Também não é pra tanto.Tem toda razão. disse Cris. feliz.Pelo que vejo. . Cris sentia-se radiante.Então ‘tá tudo bem entre nós agora? perguntou Ted. Esta pulseirinha é incrível mesmo! Tem mais vidas que um gato! . É por isso que ele renova suas misericórdias sobre nós a cada manhã.Acho que era Villa qualquer coisa. . Deve haver algum posto de informação por aqui. Os dois se levantaram e puseram as mochilas nos ombros. Cris deu um sorriso. disse Ted. Era a mesma imagem que Cris tivera de Nápoles. O barco foi progressivamente perdendo velocidade ao chegarem ao porto de Anacapri. Cris deu uma piscadela para ela e sorriu. . Cris acenou com a cabeça e sorriu para ele ternamente. Eu nem tinha pensado nisso. quanta coisa eu deixo de perceber ao meu redor. passando suavemente a mão pelos cabelos dela. Só Deus é capaz de saber essas coisas.Você se lembra do nome do hotel que o Marcos sugeriu? perguntou Ted. vinda do porto. Ninguém tem a obrigação de adivinhar o que os outros estão pensando ou sentindo toda hora. juntamente com os . agora. repleta de luzes. Meu Deus. A gente pode perguntar lá dentro. quando fico prestando atenção apenas em mim mesma e nos meus sentimentos! . ao saírem juntos do barco. todos nós precisamos de uma porçãozinha de misericórdia a cada dia.

fechando fortemente os olhos.Ora. Quando o carro parou afinal. buzinavam para os passageiros que chegavam. O motorista arrancou o carro. sugeriu Ted. Villa Rialto ou Villa Paradiso? perguntou o motorista. Esticando o braço até o volante. Vários motoristas de táxi aguardavam em fila. Estou orando feito doida por nós dois. Estavam em frente . fazendo gestos ofensivos com a mão esquerda. Cris abriu os olhos. enquanto ligava o rádio com a outra mão. Cris pegou na mão de Ted e apertou-a. cochichou ela. Si. fazendo soar um estrondo. Cris. . gritava com os outros motoristas. respondeu Cris.Gostaríamos de ir para o Hotel Villa. Parecia virar o volante apenas com auxílio do joelho. para ir mais rápido.Bom. . Da janela. .Sim. disse Cris. . depois de andar tanto tempo com o Antônio? brincou ele. . então. e seguiu na rua estreita.Acho que é o Paradiso. levando seus passageiros. se você quer permanecer vivo. disse Ted. Vários outros motoristas saíam ao mesmo tempo. fora dos carros.A gente deveria pegar um táxi. Contudo depois perceberam que os veículos não estavam parados em ordem de saída. quando já estavam dentro do carro com a bagagem. Dirigiram-se. Ted aproximou-se dela e sussurrou-lhe ao ouvido: . ora. . ao primeiro táxi da fila.outros passageiros. não me interrompa.Villa Nova. . gritando-os em vários idiomas diferentes.Villa Paradiso? perguntou ele. Será que você ainda não se acostumou com isto. com um forte sotaque. cantando os pneus.

próprios para a noite. onde se lia Villa Paradiso. vestidos em trajes requintados.Grazie.Não.Está sim. de onde ecoava o som de violinos. passando por várias casas pequenas. pôs-se a falar com eles em italiano. . Este cheiro ‘tá uma delícia. .Tomara que ela esteja lá. Cadê o hotel? Ted pagou o motorista que. pronunciando rapidamente as palavras e fazendo vários gestos. Em seguida. colocadas no coreto branco. . havia uma enorme piscina. achavam-se assentados às pequenas mesas. que passava ao lado da pequena cafeteria. . por sua vez. Vários hóspedes. disse Cris ao passarem pelo corredor. Ted e Cris subiram o morro. Este é o único lugar em que a Katie poderá nos encontrar. disse Cris ao sair do carro. Será que devemos ir embora? . respondeu Ted. Vamos dar a volta e entrar pela portaria principal.Que tal voltarmos aqui pra comer alguma coisa depois de acharmos a Katie? . Ted e Cris entraram num largo corredor.Isto ‘tá com cara de restaurante. Parecia dizer que a entrada do hotel ficava do outro lado. É possível que a Katie já até esteja lá. emendadas umas nas . Depois podemos sair e procurar um lugar mais barato pra ficar.Legal! exclamou Ted ao chegarem ao final do corredor. não? . . Era bem iluminado e nele havia uma placa de cerâmica com uma seta. Ao centro. disse Cris. ao lado do café. disse Cris. Foi então que sentiu no ar um delicioso aroma vindo da cafeteria e percebeu o quanto estava com fome.Acho que esta é a entrada dos fundos. Estavam diante de um belo jardim.a um pequeno café. O motorista deve ter olhado pra nós e visto que não fazemos bem o tipo de clientela deste hotel. .Boa idéia.

. era como se uma convicção muito forte e clara começasse a se instalar. Foi então que Cris sentiu novamente aquela doce paz a lhe envolver. Era choro de criança. É perfeito. não vamos mais falar sobre aquele papo de terminar o namoro. mandando-os entrar. ‘tá bem? disse Ted. tudo isso misturado a um suave aroma de amêndoas doces.É como se fosse a coisa certa na hora certa. valesse a pena. emanava uma desvairada sinfonia de sons típicos da noite. . Ela se sentia pronta. também se fazia sentir: era cheiro de alho. Acho que meu coração não aguentaria. . televisão ligada e mães que gritavam por seus filhos. ao longo da estreita rua. que por tantos anos carregara. Uma mistura de cheiros. Bem lá no fundo do coração de Cris. né? disse ele. . cada momento. não muito agradável. dando um passo de cada vez. preparada.Eu também. para caminhar serenamente ao lado de Ted. bem acima de suas cabeças. andando de mãos dadas por estas ruas de pedra.outras. para deixar de lado as dúvidas. fosse ela qual fosse. de azeite no fogo e de vinho forte. disse Cris.Nem o meu. Nós dois.Por favor. Apenas desfrutando das misericórdia que o Senhor derrama sobre nós hoje. Cris queria ser uma boa companheira de viagem durante a jornada da vida. rumo à próxima etapa que viveriam neste relacionamento.Era exatamente assim que eu havia imaginado que nossa viagem seria. apertando a mão dele. Eu e você aqui. Das janelas. carregando nossas bagagens e curtindo a companhia um do outro. Tanto ela quanto Ted estavam sob aquele manto invisível. Queria fazer com que cada dia. mesmo que sua caminhada com Ted não durasse muito tempo. . Ted pegou sua mão e apertou-a. E ela sabia que fora ela quem saíra de debaixo daquela proteção. disse ele. . sem nos preocuparmos em adivinhar o que virá amanhã.

envolvendo-os num círculo de quietude e paz. olhando um para o outro atentamente. olhando fundo nos olhos a Cris. cheia de altos e baixos. ela sentiu que havia mudado. como tal. Então uma doce brisa soprou sobre eles.Prometo. De repente. Ted parou por um momento e. Não era mais uma adolescente. todas as dúvidas que Cris trazia no coração se dissiparam. cujos sentimentos pareciam estar constantemente numa montanha-russa.Promete. sabia que. amaria para sempre o homem que tinha diante de si naquele instante. . de mãos dadas. disse: . Naquele momento. sob o brilho dourado da noite. então? . como se procurassem gravar na memória os mínimos detalhes daquele momento. Era uma mulher. E. respondeu Cris com um sorriso. independentemente do que acontecesse no futuro. Ficaram parados na rua estreita e acidentada.

é? .Acho que estou começando a entender algumas coisas a meu respeito. Caminhavam ainda de mãos dadas pela ladeira quando Cris disse: .Não é só você. . . Ou talvez isso nunca acontecesse. . Todos nós precisamos. ou quanto ao namoro.Venha. Talvez um dia ele recebesse em seu coração a mesma revelação que Cris recebera. envolvidos por aquela cobertura invisível de paz. Vamos em frente. Tudo o que Cris sabia é que ela havia mudado.o que acabara criando uma barreira entre eles. Para ela. Dobraram a esquina e deram de cara com o hotel. exatamente como antes de Cris lhe perguntar se ele queria terminar tudo . passando apressadamente por eles. Tudo parecia estar do mesmo jeito para ele. 9 O momento particular de Cris e Ted não durou muito. pintado num . Talvez não. segurando com firmeza a mão de Cris. Ted não demonstrava ter mudado de opinião quanto a ela. Pouco depois. Talvez ele também a amasse. Era um prédio grande. Ela amava Ted. as palavras de Ted diziam respeito tanto ao relacionamento dos dois quanto ao momento que haviam acabado de desfrutar. disse Ted. E isso era ainda mais importante. Sentia-se pronta para seguir em frente. porém.Ah. Por alguma razão inexplicável. bastava saber que amava Ted e que confiava em Deus para o que desse e viesse no relacionamento dos dois.Acho que preciso confiar um pouco mais em Deus. nada daquilo incomodava Cris. Para Cris. Pelo que via. duas mulheres surgiram na esquina.

Cris entrou na conversa e tentou explicar a situação. Então entraram no lobby. dando seu melhor sorriso e procurando fazer com que o atendente reparasse em seus olhos. disse Ted baixinho. Nenhum sinal da amiga. Como é que ele sabe que falamos inglês? Será que ‘tá tão na cara que somos americanos? . No entanto. Cris correu os olhos pela entrada do hotel. A entrada não era lá tão ampla ou suntuosa. Afinal. devidamente uniformizado. disse ele em inglês. . O Marcos não nos avisou que se tratava de um hotel cinco estrelas.Ou quem sabe ela chegou aqui antes de nós e foi enxotada pelos funcionários.Vamos perguntar na recepção. . O recepcionista. -se vocês não estão hospedados aqui. à procura de Katie. Só queríamos saber se alguém deixou um recado pra nós. então não há razão para anotarmos recados para vocês.Não faz mal. Na verdade. sua expressão logo mudou. . O recepcionista olhou para eles com impaciência. cumprimentou Ted e Cris com um sorriso. infelizmente.Sinto muito.tom de rosa-salmão. sugeriu Cris. respondeu ele. Cris estava torcendo para que encontrassem Katie assentada em um dos robustos sofás ou poltronas estofados que havia ali. Quem sabe ela não deixou um recado pra nós? . ela não estava lá. não estamos planejando nos hospedar aqui. além de fazê-lo parecer antigo e bastante caro. ganhara a simpatia de outros homens italianos por meio deles e não faria mal nenhum tentar causar o mesmo efeito. ao reparar na bagagem e nos trajes informais dos dois. mas. . mas os complexos detalhes da fachada davam ao hotel um ar de grandiosidade.É que tínhamos marcado de encontrar uma amiga aqui. pisando suavemente no belíssimo carpete em tons de dourado e vinho escuro. respondeu Ted. não temos quartos. Ela se chama Katie Weldon.

saiu detrás do balcão e deu um beijo em cada face de Cris. Cris deu mais um sorriso. ao lado do atendente. no entanto. A julgar pela expressão no rosto dos dois homens. . a tática parecia não surtir nenhum efeito. respondeu ele. quando soltara algumas palavrinhas em italiano. Ouvindo a voz de Ted. Foi então que o senhor de terno exclamou: .Carlo? Vocês conhecem o Marcos e o Carlo Savini? Por que não falaram antes? Tendo dito aquilo. Entretanto. Agora. Aparentemente a cor dos olhos de Cris não chamara a atenção daquele italiano.Por acaso vocês conhecem um rapaz chamado Marcos? É que só estamos aqui porque ele nos recomendou este hotel. Depois. O pai dele se chama Carlo Savini. a impressão que tinha era de que ela e Ted estavam prestes a ser enxotados do hotel. puxou Ted e deu-lhe um beijo em cada face também. sem muito interesse. Cris estava com um pressentimento de que era melhor darem o fora dali o quanto antes. Ele nem sequer se deu ao trabalho de verificar se havia algum recado para ela.Não. replicou Cris. . Concluiu que ela e Ted podiam sair do hotel e decidir o que fazer em seguida. Cris se virou e notou que havia um outro senhor na recepção. Trajava um terno preto e tinha um ar imponente. recorrendo ao seu escasso vocabulário de italiano. daqueles de fazer os olhos brilharem.Só mais uma pergunta. Se Cris não estivesse tão impressionada com aquilo tudo.Grazie. Molte grazie. Cris havia causado uma boa impressão junto ao pai de Antônio. Cris tinha a sensação de que nada do que Ted falasse alteraria a situação. provavelmente teria disparado a rir da cara que Ted fez. Os dois senhores pareciam totalmente espantados com o que ele acabara de dizer. disse Ted ao recepcionista. e virou-se para sair. . disse Ted com firmeza. Disse que era pra falarmos que o conhecíamos. .Será que ela não deixou nenhum recado para Cris Miller? .

senhor.Ficaríamos muito honrados de nos hospedar aqui. Serão meus convidados de honra. em seguida. Pensamos que uma amiga nossa talvez estivesse nos esperando aqui. deu-lhe um tapinha no ombro. calorosamente. Ao ouvir aquilo. no mesmo tom profissional com . gerente do Villa Paradiso.São meus convidados. . Vocês e a amiga que vem encontrá-los aqui.Na verdade. disse o recepcionista. virando-se para o recepcionista. . Ted? Não temos dinheiro pra ficar aqui! .O Giovanni vai fazer o check in de vocês e providenciar alguém para subir com a bagagem.Sou Emílio Mondovo.É verdade.Vocês são muito bem-vindos aqui. . que saía do elevador. Como foi que conheceram o Marcos? Ted explicou que eram amigos de Antônio. Ao mesmo tempo. disse: . O Sr. é só falar comigo. E. disse ele. Era realmente um homem surpreendente. Cris lançou um olhar desesperado para Ted. concordou Ted. . São todos meus convidados de honra.Vamos hospedá-los na Suíte Galeria. São meus convidados especiais. Emílio. Cris teve a impressão de que o Sr. não estávamos planejando ficar aqui. disse Cris. ela sabia que uma noite naquele hotel custaria o equivalente à quantia que tinha reservado para passar três semanas dormindo em albergues. . . senhor. O que você ‘tá pensando.Aqui está sua chave. Emílio ficaria bastante chateado caso eles não ficassem. O gerente soltou mais algumas palavras em italiano para que o recepcionista e. Per favore. balançou o dedo na frente de Ted. fiquem. Qualquer problema. . na esperança de que ele soubesse o que responder. repetiu ele energicamente em inglês. Cris teve vontade de brigar com ele. O Sr. Por favor. como se o advertisse. Emílio afastou-se deles e foi cumprimentar um outro hóspede. então.

.Bem. . Ouvindo aquilo. E para Cris? O recepcionista deu então uma outra chave para Cris. O quarto é grátis. Cris e Ted se entreolharam. . Emílio. disse firme e pausadamente: . Parecia irritado com os dois. Cris estava tão impressionada com aquilo que ficou boquiaberta. mas a verdade é que meu orçamento ‘tá um pouco apertado.Achei que o Ted estivesse hospedado lá. .A Suíte Galeria é o melhor quarto do hotel. será que você poderia trocar meu quarto também? Meu orçamento também ‘tá apertado. friamente. Achei que você soubesse disso. .Bem.que se dirigira a eles minutos antes. . Depois. Vocês são convidados especiais do Sr. aproximando-se dele.Qual é o meu quarto? perguntou ela.Grátis. por gentileza. É de graça. disse Cris em voz baixa. senhorita. Têm direito a tudo o que quiserem aqui. . O recepcionista olhou-os e empurrou a chave de novo para eles. eu preciso de um quarto separado. repetiu ele.E está. neste caso. Ted imediatamente colocou a chave sobre o balcão. respondeu Ted.A Suíte Galeria. O recepcionista olhou-os então. Não vamos cobrar nada. disse Ted.Obrigado. . . .E.É verdade. você poderia me colocar num quarto mais barato? Não sei exatamente o preço da diária na Suíte Galeria. pegando a chave. Entretanto não havia nenhum número nela. . ainda sem entender o que ele queria dizer com aquilo. para dizer-lhes que não havia quartos vagos.Vocês são convidados de honra do Signore Emílio Mondovo. .

-Vamos dar uma olhada no quarto. Com certeza a Katie já terá chegado quando resolvermos esta questão. adornada com estruturas de ferro cuidadosamente trabalhadas em tom de rosa-salmão. que ficava no final de um corredor comprido e carpetado. Depois a gente acha o Sr. mas. este recusou. O recepcionista então se retirou do balcão.Legal. pegando as chaves. repetiu o recepcionista. ficasse à vista. toda trabalhada. Ted destrancou a porta e Cris entrou logo atrás dele. À direita havia diversos objetos para entretenimento dos hóspedes e uma mesa de jantar redonda. O funcionário. Logo à frente havia uma lareira adornada com uma bela cornija dourada. Ao entrarem. Emílio e explica a ele que precisamos de dois quartos. o funcionário os levou até o quarto. dirigiu-se a uma porta que ficava à extrema esquerda . Em seguida. . Pegou aa bagagem de Cris. fazendo com que a belíssima paisagem da cidade. Em seguida acionou duas vezes a campainha que ficava no balcão. então. sobre as quais desciam lindas cortinas em tecido brocado dourado. com suas maravilhosas luzes. apontando para elas. e imediatamente um rapaz apareceu na recepção para carregar as bagagens. que se dirigiu para o elevador.As suas chaves. ao oferecer-se para carregar a mochila de Ted. disse Ted a Cris. Era dourado e semelhante a um candelabro. Na porta estava escrito “Suíte Galeria”. O funcionário abriu as cortinas. foi tudo o que Ted disse. ele apertou um botão e lá se foram rumo ao último andar. No centro do teto havia um belíssimo lustre. Os dois seguiram o funcionário do hotel. Trajava um uniforme cor de vinho escuro. enfeitado com tiras douradas e trançadas nas mangas. Novamente ela ficou pasmada ao observar a enorme sala de estar do quarto. como se quisesse despachar Ted e Cris dali. dizendo que podia ele mesmo carregá-la. . Havia ainda uma sacada. À esquerda havia janelas enormes. Uma porta de vidro a separava do restante do quarto.

é? Vamos apostar quem chega primeiro lá? Sem responder.Ah. Ted e Cris permaneceram parados na suntuosa sala de estar. erguendo o queixo calmamente. Ted foi o primeiro a chegar na banheira. Ted saiu correndo pelo quarto. com uma banheira embutida.Tome aqui um trocado. porém. depois da adega. um sofá. isto aqui é inacreditável! Cris deu uma rodopiada pelo quarto alegremente. tirando uma gorjeta do bolso para dar ao rapaz. . Ted estava lá. disse ele. Cris nunca havia visto algo parecido em toda a sua vida! Ao voltar para a sala. uma televisão e um banheiro. retirando-se em seguida. olhando um para o outro. Era um quarto independente. correndo atrás dele. tão luxuoso quanto aquele em que estivera.E quem foi que disse que aquele quarto é seu? . no lado direito do quarto.Olha só pra esta suíte! Tem dois quartos separados e tudo o mais! A Katie vai ficar louca quando chegar aqui. Você viu a banheira do meu quarto? .do quarto e abriu-a. disse ele com um sorriso. Durante um minuto e meio. uma mesa. com duas camas grandes.Legal? É só isso que você sabe dizer? Legal? Ted. e continuou: . . disse Ted. como se dançasse uma dança cigana. . fazendo uma “vistoria”. . . Cris notou que o funcionário havia aberto outra porta.Divirtam-se. . Ele. Cris disparou a rir. Ted foi o primeiro a falar.Legal. sem nada dizer. Do outro lado da porta havia um amplo quarto. não aceitou.Isso não é justo! gritou Cris. fazendo um gesto para que Cris entrasse.

Da parede do boxe saíam oito duchas independentes.Veja só isto. . mas havia ainda mais uns dois barcos pra sair.O barco que nós pegamos de Nápoles pra cá era o último marcado pra esta noite? perguntou Cris. mais um. disse Ted. Por acaso você olhou como é a banheira do seu quarto? .Não.Só tem um chuveiro. Sherlock. Ou pelo menos. Agora explique-me como foi que nos perdemos dela. .O que vamos fazer se ela não aparecer? . sugeriu Ted. disse Cris. Será que ela não confundiu o nome do hotel e foi parar num daqueles outros hotéis Villa que o motorista do táxi mencionou? .Claro. disse ele. outras mais altas.Isso tá parecendo um mini lava-jato. . disse Ted. Quase chegaram juntos. girando a torneira.Pode esquecer dela. Só que dessa vez Cris estava preparada e logo saiu correndo atrás. . . Ted fechou a torneira e os dois voltaram para a sala. Os dois começaram a rir ao ver a água esguichar em todas as direções possíveis. Cris não estava muito segura daquelas informações. Mas o que faremos depois? . largando antes de Cris. Nós perdemos o último hidroplano.Que tal uma corridinha? disse ele com um sorriso. . .Acho melhor irmos atrás da Katie. disse Cris.É uma boa hipótese. umas mais baixas. . .Legal. Não sei como fui me esquecer de que a comida vem sempre primeiro. claro. disse Cris entre risos. . recobrando o fôlego. Este banheiro e este quarto são meus. abrindo as portas do boxe.Comer.

Me conhece melhor do . ‘tá comigo.Sabe de uma coisa? principiou Ted ao entrarem. Ted se dirigiu até a porta. . É isso mesmo que devemos fazer. disse Ted ao chamarem o elevador. Cris sabia que a atitude de Ted era sensata e que ele estava apenas usando de bom senso. acrescentou Cris. . Você me conhece. mesmo depois do tanto que comemos no acampamento. se ficassem sozinhos ali. disse Ted. Tomara que eles sirvam peixe lá naquela cafeteria. surpreso.Eu costumo prestar atenção.Pelo visto você não enjoou de peixe. Mesmo assim. -se a Katie não aparecer.Verdade. . Cris.Tem razão. . abrindo-a em seguida para Cris passar. por mais que não quisesse se sentir assim.Você pegou a chave? perguntou Cris. . então teremos de arrumar um outro esquema com relação aos quartos. ficar ali seria algo maravilhoso. batendo no bolso. Saíram do quarto e dirigiram-se ao elevador. disse ela. O elevador começou a descer. .É isso que me impressiona em você. poderiam acabar despertando certos desejos que deveriam permanecer adormecidos. . Entretanto ela sabia que. É que a suíte era simplesmente fantástica e. Você não acha que um peixinho cairia bem agora? . Eu nunca me enjôo de um peixinho pescado na hora. sentia uma pontinha de frustração. Não acho que seja adequado ficarmos sozinhos nesta suíte.Sim.Nem de manga.Como é que você sabe que eu gosto de manga? . Ted olhou para ela. Certamente não era hora de propiciar um meio para que estes despertassem. .

balançando a cabeça.Mas nós somos tão diferentes um do outro! . . . E aí fico pensando que você não vai querer ficar comigo mais.Isso também me impressiona em você. . não somos tão diferentes assim.Muito bem. Ted. e eles deram de cara com Katie. mais verá quem eu sou de verdade. levantando uma das mãos a fim de dar mais emoção ao que ia dizer. mais você me surpreende. Temos muito em comum. Você combina comigo. Toda vez eu fico achando que. E mesmo sabendo como sou. não.que qualquer outra pessoa. até mesmo do que meus próprios pais. Cris. Cris fez algo que há muito tinha vontade de fazer. quanto mais você se aproximar de mim e mais me conhecer. mas nunca se permitira. Era o que eu estava tentando dizer com aquele papo das luzes de Molokai. Não vou interromper vocês. muito bem! exclamou ela. como se para reforçar o que estava dizendo. Seu rosto estava bem vermelho e ela parecia esgotada. De jeito nenhum! Quanto mais a conheço. Quando o elevador chegou à recepção do hotel. . .Não! disse Ted. Vou ficar perdida por mais algumas horas. E acho que eu combino com você. Foi então que a porta do elevador se abriu. ainda quer ficar comigo. É isso que me impressiona.Você nunca ouviu dizer que os opostos se atraem? Além do mais. Aproximou-se de Ted e deu-lhe um beijo carinhoso no rosto.

Vocês não avisaram pra ele que eu ia chegar? . Cris conduziu Katie a um dos sofás do belíssimo lobby. ao saírem do elevador para abraçar a amiga. Katie falou baixinho: . Cris acenou com a cabeça. viu? Foi um custo conseguir fazer com ele me dissesse que vocês estavam hospedados aqui e. E não vamos pagar nada! . Graças ao Marcos e ao pai dele. Já comeram? Porque eu estou faminta! . mesmo assim.Nada?! exclamou Katie em voz alta. enquanto Ted pegava a mochila das costas dela.Vou subir com sua mala e depois podemos ir comer. ele não parecia muito empolgado com a idéia de que eu me hospedaria com vocês. respondeu Cris. ‘Tá tudo resolvido. Que bom que você apareceu! ‘Tá tudo bem? Katie acenou com a cabeça.A educação daquele recepcionista com os americanos não ‘tá merecendo nenhum premio.Nem é bom falar. nós vamos ficar aqui como convidados de honra do gerente do hotel. 10 .Avisamos sim. . Mas não se preocupe. Vocês não vão acreditar quando eu contar. .Fantástico! Coisa de Deus mesmo! Graças ao nosso amigo Marcos! . . disse ele. pedindo a Deus que Katie falasse mais baixo.Katie! O que houve com você? exclamou Cris.Na verdade estávamos indo agora mesmo a uma cafeteria que vimos ao chegar. Apontando para o recepcionista.

agora. esticando as pernas. Mas. Se não tivéssemos combinado de nos encontrar aqui. nem sei onde eu estaria agora.Na verdade nós tivemos duas ótimas conversas. Cris? O que foi desta vez? Fazia alguns anos que Cris contava quase tudo de sua vida para Katie. né. . Percebi que tinha de parar de tentar equacionar tudo na vida. o que estava acontecendo entre você e o Ted? . trocando beijinhos no elevador. disse Katie. devo dizer que esta viagem me fez mudar de idéia com relação a montar roteiros. sentindo-se um pouco constrangida de revelar os detalhes do que se passara entre eles. Que foi que eu perdi? Cris balançou a cabeça. Eu havia me enganado com relação a algumas coisas.Ah! Gostaria de pedir desculpas pelas coisas que disse hoje de manhã. principalmente porque parte dos equívocos que formulara diziam respeito a Ted estar interessado em Katie.Bem.Não foi nada muito sério. .Humm.Incrível mesmo. . sobre você ficar jogando charme para o Marcos.Bem. Em geral vocês não são assim. ela não estava muito a fim de abrir para a amiga todos os detalhes de sua última “crise emocional”. E a propósito. Cris. Graças ao Marcos. como se isso nunca tivesse acontecido antes.Como assim? .E o que foi que aconteceu. Queria que os sentimentos que revelara a Ted ficassem apenas entre eles. . Tenho de confiar mais em Deus e não ficar sempre preocupada em montar um roteiro para tudo. vamos dizer. . afinal? Como foi que você se perdeu de nós? Ted apareceu na recepção logo em seguida e Katie preferiu esperar que chegassem ao . na verdade. tão “pra frente” um com o outro. . eu vi vocês dois juntinhos. Hoje sou uma nova excursionista. . disse Cris. Os planos são nossos companheiros.

mas você tinha razão. Acontecera que. . coitado. deixando a mala do lado de fora. Mas aí aconteceu um acidente de carro terrível. .café. com a parada brusca do trem. Só que não estava sorrindo apenas porque Katie havia . Entrara na cabina.E o que você fez? perguntou ela. teve de entrar no banheiro feminino pra me tirar de lá. trancando Katie lá dentro. uma barulheira só! O Marcos foi até lá dar uma olhada. pouco antes de o trem parar em Nápoles. detesto reconhecer. Mas demorou um tempão pra liberarem a rua. pra que o ônibus pudesse passar. a cerca de um quarteirão do ponto. nem sei o que teria acontecido. Daí o Marcos me levou até o ponto e ficou lá esperando o ônibus comigo.Fiquei gritando e batendo na porta até que o Marcos. . ido direto para o ponto de ônibus e partido. . Cris teve de se controlar para não ter uma crise de riso. Quando voltou. ela havia resolvido ir ao banheiro.Nada disso! Demoramos tanto lá dentro que descemos um pouco antes de o trem sair da estação. disse que ninguém havia se ferido. ‘Tá tudo anotado aqui. Contudo. Aí o Marcos anotou num papel o nome do hotel e o telefone dele. sou uma nova excursionista. O Marcos ficou de se encontrar com a gente em Roma amanhã. ela se pôs a narrar nos mínimos detalhes a sua história. De agora em diante.É. Cris. Cuidou de mim direitinho. apenas apoiando a porta. A gente precisava mesmo de um roteiro. vamos ficar todos juntos e sempre combinar tudo com antecedência. . Acho que peguei o último barco de Nápoles pra cá. disse Cris. para então explicar o que acontecera. Foi horrível! A lataria do carro ficou toda amassada. Ainda bem que tínhamos combinado tudo. Ao ouvir aquilo. Cris sorriu para a amiga.Achamos que você tivesse descido do trem antes de nós. Como disse. a mala acabara batendo contra a porta. senão. disse Cris.Que bom que você chegou bem. Feitos os pedidos. .

Deliciou-se com um banho de banheira e foi direto para a cama. Senhor.reconhecido que ela tinha razão. Cris fechou os olhos e adormeceu na cadeira. Sopra sobre minha vida. Cris continuou com seus pensamentos. ainda fazendo comentários sobre cada detalhe do quarto. Parecia ter sido transportada para um local extremamente calmo e sossegado. Quero sempre te sentir junto a mim. E quero sempre confiar em ti plenamente. por sinal. sem ao menos concluir o que estava falando. como se ele soprasse sobre ela. que tú adornaste com inúmeros diamantes reluzentes. Caminhou até a cama e dormiu um sono profundo. O motivo era que Ted havia colocado o braço sobre a cadeira dela e estava acariciando a ponta de seu cabelo com os dedos. mesmo depois de Katie já ter “apagado” na cama do luxuoso quarto do hotel. Que noite maravilhosa. foi até a janela. Cris se lembrou então dos momentos que passara no barco e de como sentira a presença de Deus tão de perto. Cris pensava no quanto o relacionamento deles havia progredido em apenas um dia! Um dia bem cheio. Contudo logo acabou adormecendo. . Ao chegarem. Sorrindo. meu Pai! Quantas estrelas! A escuridão da noite parece um manto a varrer os céus. repleto de sonhos agradáveis. Que bom seria se tivesse um diário novo! Poderia registrar nele tudo o que estava sentindo - suas impressões sobre ser uma mulher e ter certeza de seu amor por Ted. Acordou um pouco depois. sentou-se sobre os pés descalços. Reclinando-se sobre o encosto. e deu uma última olhada no céu daquela noite encantada. estava saindo de graça para eles. além de luxuosíssimo. Cris ficou deitada na cama em silêncio. como te sinto agora. Cris olhou para o céu. com o pescoço duro e os pés frios. Encolhendo-se numa cadeira próxima à janela. Vem sobre mim. Katie ficara espantada com o aposento que. Depois. tomando cuidado para não fazer barulho. apenas sorrindo.

manejado pelo guia que os acompanhava. sentiu um arrepio passar-lhe pelo pescoço. Chegando lá.Sim. havia se tornado tão importante e significativo para ela.Peço o mesmo pra você? perguntou Katie. Cris tomou rapidamente o farto café da manhã e sentindo o estômago embrulhar ao chegarem ao porto de Marina Grande para pegar a lancha que os levaria até a entrada da Gruta Azul. trajando uma camisa listrada de azul e branco. Estava pronto para encarar o novo dia. O guia . Não sabia exatamente por que aquele cantinho do mundo. . era óbvio que aquilo não passava de um negócio turístico. Para Cris. distante e remoto. quando bateram trazendo o café. a Gruta Azul representava os confins da Terra para ela. Cris apoiou-se contra o peito de Ted e desviou a cabeça ao passarem pela pequena abertura na rocha. movidos pela propulsão do remo. sentia-se pronta para ver seus horizontes se expandirem. ao entrar no barquinho e se acomodar na frente de Ted. o que era completamente diferente da claridade que havia do lado de fora. seus olhos já haviam se acostumado à pouca luminosidade dentro da gruta. O guia usava ainda um chapéu de palha com fitas azuis caindo-lhe pelas costas. Pouco tempo depois. Peça três porções. uma experiência única. teve a sensação de que estava prestes a realizar um sonho. ainda deslumbradas com toda a beleza do quarto. Ted foi quem atendeu porta. Cris a ouvia ao telefone. . capaz de mudar sua maneira de enxergar a vida. Katie acordou cedo no dia seguinte. Por algum motivo. Entretanto. Já havia se vestido e arrumado a mala. de alguma forma. Entretanto. As duas se levantaram e trocaram de roupa. tentando pedir ovos e linguiça italiana para o café da manhã. Em todos os barcos ia um guia de acompanhante. ao ver que Cris havia acordado. receberam instruções de que apenas duas pessoas poderiam embarcar em cada um dos pequenos e estreitos barquinhos de remar que entrariam na gruta. Ao adentrarem a gruta. Era como se estar ali naquele lugar exótico e singular fosse o máximo. O Ted com certeza irá querer comer alguma coisa também.

Queria apenas olhar para a água azul-esverdeada. E aí parece que tudo ganha vida. . forte e agradável. (N. aquela água que se tornava tão reluzente em decorrência da refração dos raios solares no interior da caverna. O único dado que Cris guardou foi que a gruta tinha aproximadamente trinta metros de altura e quinze de largura. Vejo a luz do Senhor brilhando em você. que os levaria rapidamente a Nápoles. não fosse aquele brilho intenso. com os olhos parcialmente abertos. Depois disso não se preocupou em prestar atenção a nenhum outro detalhe. que se derramava no oceano. Quero dizer com a minha vida. Cris sentiu o coração dar um salto. Lá pegariam um trem para Roma. às duas da tarde. ecoava por toda a gruta. Cris admirava todo o espetáculo a sua volta.Não. seria completamente escura. . Sua voz. Deus faz brilhar a sua luz em cada cantinho escuro e secreto do meu ser.Esta gruta parece comigo. Da mesma forma que esta luz ilumina a caverna. ___________________ * Canção italiana de bastante sucesso. da própria água. Ted envolveu Cris nos braços e chegou os lábios bem pertinho da orelha dela. espargindo-se por toda a caverna que. . onde se encontrariam com Marcos. A luminosidade parecia mesmo vir do fundo da gruta. da T. . informando-os das dimensões da gruta em inglês. .remou até a área central. alemão e italiano. escorrendo sob as rochas suspensas.Com seus olhos? Bem que falaram mesmo. Foi então que o guia que os acompanhava virou o rosto em direção ao teto da gruta e se pôs a cantar O Solo Mio* . sussurrou ela para Ted. Em torno de 10:30h.E é isso que vejo em seus olhos.) O passeio pela Gruta Azul não durou nem cinco minutos. os três já se achavam a bordo de um moderno hidroplano.

E essa sensação tomava conta de todo o seu ser. . Cris desconfiou de que o hotel poderia ser cinco estrelas também. a bordo da primeira classe e. Ted e Katie pegaram um trem para Roma. Após desembarcarem. Ao chegarem. de chapéu de palha na cabeça.Será que sou só eu ou tem mais alguém aqui que ‘tá começando a achar que a família do Marcos tem mais grana que a do Antônio? perguntou Katie ao entrarem no lobby do hotel. toda feliz pelos momentos que passara na Gruta Azul. A estação de Roma era enorme e toda adornada. portanto. à procura de um táxi que os levasse ao hotel em que Marcos combinara de se encontrar com eles. A viagem de hidroplano até Nápoles durou quarenta e cinco minutos e correu tranquilamente. . seu futuro. Cris não fez nenhum comentário. apesar da fachada simples. E a etapa seguinte foi Roma. comentou Cris. uma mulher de verdade. novamente. Cris sabia que o “roteiro” de sua vida. sentia-se preparada e ansiosa para viver qual fosse a etapa seguinte. Continuava sorrindo por dentro.Não acredito que viemos até aqui só pra entrar apertado numa caverninha e ficar ouvindo um cara gordo. como o Villa Paradiso.Tomara que o Marcos e o pai dele sejam amigos do gerente deste aqui também. . Já era a segunda vez que fazia o mesmo comentário. estava nas mãos de Deus e. Cris. Nem mesmo os comentários maldosos de Katie poderiam acabar com sua alegria. . Cris sentia que havia se relacionado com Deus de uma forma bem mais profunda e íntima naquele dia. puseram-se a abrir caminho por entre a multidão. tudo correu bem. cantar pra nós. Parecia que ela finalmente deixara de ser uma adolescente e se tornara adulta. senão vamos gastar uma grana feia esta noite. Deveríamos ter ficado em Roma com o Marcos. Ao chegarem. Katie não vira a menor graça na Gruta Azul.

porém. Ficou apenas pensando em como seria bom se hospedar novamente num hotel de luxo. . . . Cris não disse nada. Que bom que vocês estão aqui! Chegaram bem na hora.Você ‘tá com vergonha de que os outros o vejam circulando conosco. que pudessem estudar as opções de hospedagem. acrescentou Katie. os cabelos penteados para trás. Marcos avistou-os e foi ao encontro deles. portanto. Dali em diante não haveria mais banho em banheira embutida. . Foi então que todas as esperanças de Cris se dissiparam. só posso passear com vocês por algumas horas. claro que não! O problema é que tenho de voltar hoje à noite para Veneza e. ficar num bom hotel não era todo dia.Não precisamos ficar aqui. . não. nem nada do gênero. disse Ted.Uau! Com tanta elegância.E. Os quatro pegaram um táxi e lá se foram pelas ruas de Roma. mas eles. Podemos achar um albergue e ficar por lá. . fazendo um sinal para o carregador de malas do hotel. Marcos dava as .Ciao! exclamou Marcos. este hotel aqui é um pouco caro pra nós. Marcos parecia surpreso com o comentário dela. beijando Cris e Katie no rostos e cumprimentando Ted com um aperto de mão. Antes. Tinham o resto da viagem para dormir em albergues. estou me sentindo um verdadeiro lixo! comentou Katie.Vocês não gostariam de deixar a bagagem no hotel primeiro? .Sem problema. . disse Ted. A gente faz o que der. Estava bastante elegante num terno escuro. baixinho. . Só tem um probleminha. disse Marcos. Pra onde vamos? . ainda não nos registramos em nenhum lugar. junto da minha.Neste caso vocês podem pelo menos deixar as malas aqui. Perfecto! A reunião que eu tinha na hora do almoço já acabou. mas.Não. A bagagem podia ficar de graça no hotel. brincou Katie. pelo visto.Na verdade.

Em seguida. falando rapidamente. de preferência. O barulho das ruas era ensurdecedor. como se fosse uma barata tonta. indo parar numa entrada lateral.Até parece que eu sei. Os dois se cumprimentaram e puseram-se a conversar em italiano. . Durante o percurso.Por aqui. Subiram várias escadas. Cris e Katie desceram do carro. respondeu Katie. Não queria ver as manobras que o motorista estava fazendo. disse Marcos. passando em frente a diversas lojas e lanchonetes.Venham comigo. Deram a volta pelo outro lado. respirando. avistaram uma enorme fila de pessoas em torno de um dos muitos edifícios de pedra acinzentada da região. . . Ted. fechava-os fortemente mais uma vez. Destrancou a porta lateral e cumprimentou cada um deles cordialmente. enquanto Marcos pagava o motorista. disse Marcos. . fazendo manobras perigosas e arriscadas. Um segurança.Onde você acha que estamos? perguntou Cris a Katie. conduzindo-os animadamente pelas ruas. freando bruscamente. Marcos mostrou algumas fontes e esculturas. Afinal o motorista parou o carro.coordenadas para o motorista. convidando os três a se aproximarem. ao passarem por ele e entrarem no antigo edifício. . mas Cris só abria os olhos um instantinho. que dirigia rapidamente. guardava a porta. passando com eles ao lado da fila de turistas. o suficiente para ver um vulto de cada uma delas. Tudo que queria era chegar ao local inteira e. Cris resolveu fechar os olhos. O trânsito estava pesadíssimo. Ao chegarem ao topo. vestindo um uniforme listrado de roxo e dourado que mais parecia uma fantasia de carnaval. Algo aqui lembra alguma foto do seu guia turístico? O segurança então fez um gesto com as mãos. O segurança reconheceu Marcos na hora. que se estendia a partir da entrada principal do prédio. Centenas de motoqueiros costuravam por entre os carros.

Esta aqui é a Capela Sistina? quis saber Katie. de sotaque britânico. Cris observou os maravilhosos tapetes que decoravam as paredes. Venham. Entretanto Cris não ficou tão impressionada ao olhar para o teto da Capela Sistina como achou que ficaria. em que Deus estende a mão e toca os dedos de Adão.Nem dá pra acreditar que conseguimos entrar aqui da forma como conseguimos. Legal. e vários outros turistas. Cappella Sistina. . fazendo um sinal para que Cris andasse rápido e se juntasse novamente ao grupo. o recinto se achava cheio.Sim. dando-lhe o fôlego de vida. que achou belíssima. cansados e suados. Olhavam as pinturas e as esculturas feitas nas paredes. Katie virou-se. já estava com o pescoço doendo de tanto olhar para cima.É. Passaram pelo corredor principal. Na verdade. entrelaçou os dedos nos dele. .Bem-vindos à Cappella Sistina. Além do mais. Cris correu em direção a eles e. acabavam trombando nela a todo momento. A maioria deles usava fones da ouvido e tinha nas mãos folhetos com informações sobre o local. . conversar com o parceiro de viagem. né? Marcos parou num determinado ambiente e apontou para cima. Bem no teto da capela estava a famosa pintura de Michelangelo. descendo do teto até o chão.Diz aqui que Michelangelo começou a fazer este teto em 1508 e demorou apenas quatro anos para pintar tudo isto! São mais de três mil metros quadrados! Quanto tempo você . onde uma numerosa fila de turistas se movia lentamente. Vou mostrar-lhes onde está a pintura mais famosa. Ao passar por ali. Acabou ficando para trás quando parou para admirar uma das peças. Estamos na Capela Sistina! . disse Marcos. que devia ser seu marido: . Foi então que Cris escutou uma turista. cochichou com ele. . ao se aproximar de Ted.

uma mulher de baixa estatura. Cris! disse Ted. A base da escultura era bem pesada e tinha cerca de um metro e meio de altura. disse Marcos. disse-lhe algo em francês. segurando nas mãos as chaves do reino. Aquela informação parecia ter chamado a atenção de Ted. depois da crucificação. A entrada principal era enorme e bastante robusta. não fica muito longe daqui.Veja isto. Cris já havia lido bastante a respeito da enorme catedral. Depois repetiu a frase em inglês. O apóstolo estava assentado. respondeu Katie. vou levá-los até a cúpula da Basilica di San Pietro. A primeira coisa que Marcos mostrou a eles foi uma famosa escultura de Michelangelo. quando um dos seguranças se aproximou e. apontando para uma outra parte do teto. a Pieta. . A Basílica de são Pedro era uma das maiores igrejas do mundo.Venham. e tinha o pé esquerdo um pouco mais estendido que o outro. com um lenço escuro preso na . Ao entrarem. Marcos passou com eles pelo belíssimo altar e depois por uma enorme escultura de Pedro. Michelangelo tinha apenas vinte e dois anos quando a esculpiu. Se vocês querem tirar fotos. Katie pegou a máquina fotográfica e já ia bater uma foto.É proibido tirar fotos com flash. Segundo Marcos. com lugar para mais de cem mil pessoas. todo adornado. . guardando a máquina na bolsa. construída no Vaticano. . em que Maria segura Cristo no colo. pondo a mão sobre o visor.Desculpe-me. Então Marcos lhes pediu que se afastassem um pouco e apenas observassem a escultura. Venham. Não demorou muito. Cris ficou impressionada com o tamanho da basílica e com seu interior. De lá dá pra ver as sete colinas sobre as quais Roma foi construída.acha que precisará para terminar de pintar nossa cozinha? . Esta pintura aqui conta toda a história da Bíblia.

Incrível. . Contudo. o sorveteiro usava uma espátula metálica. Vinha em copinhos e. surpresa. puseram-se a subir uma escada enorme. e Cris optou por morango e chocolate.cabeça. explicou Marcos. tinham de se manter mais juntos da parede. Depois de saírem do abafado elevador. Katie queria ficar mais tempo. Ficou na ponta dos pés e beijou o pé do apóstolo. parado do outro lado da rua. Olhou para Marcos. Depois de pegarem o metrô para o Coliseu. Metade do percurso podia ser feita de elevador. E quanto mais subiam. A escada parecia não ter fim. Marcos foi com eles até um carrinho de sorvetes Gelato.Há séculos as pessoas vêm beijar o pé dele. que os levaria ao topo da basílica.Ele tinha apenas vinte e dois anos. juntos. Não demorou muito para que seu desejo se realizasse. Já passaram tantos por aqui. na nossa idade? . comentou Ted mais uma vez. que. apesar de toda a beleza e de poderem tirar fotos à vontade. né? Foi tudo o que Cris respondeu. para ver se mais alguém viria beijar os pés da estátua. Podiam escolher dois sabores. então. aproximou-se da imagem. para não cair. que os dedos acabaram se gastando. É que tudo o que queria naquele momento era poder beber algo. faziam uma mistura muito boa. como se agora entendesse por que ele havia pedido que se afastassem e observassem apenas. Cris logo percebeu que aquele era o melhor sorvete que já havia experimentado. Foi então que Cris reparou que o pé esquerdo da estátua não tinha dedos. . Já imaginou ser capaz de canalizar todos os interesses e talentos em algo assim. mais quente ficava. Lá de cima. em vez de usar uma colher própria de servir sorvete. em forma de espiral. lá se foram eles. mas Marcos acabou convencendo-a a subir com eles até a cúpula da basílica. . Cris não estava aproveitando a oportunidade como deveria. a vista da cidade era realmente espetacular. Estava começando a se sentir um pouco tonta. Durante a subida.

. onde havia um pequeno vão. Cris guardava o coco numa caixa em sua casa. disse ele. respondeu Ted. sem muito interesse.Vamos dar uma volta rápida pelo Coliseu e logo depois eu terei de ir pra estação. Ted parecia analisar uma tabuleta. Ted escrevera Filipenses 1.7 num coco do Havaí e o enviara para Cris. Havia um versículo muito especial para Ted e Cris naquele livro. Cris sentiu os pelinhos do braço arrepiarem.Possivelmente. Chamava-se Prisão de Mamertina. Até hoje. . A prisão ficava praticamente no nível da calçada e parecia mais um labirinto de celas subterrâneas. Cris se posicionou ao lado de Ted e ficou olhando para a parede de pedra cinzenta. Ficou emocionada só de imaginar que . . pelo correio.Já imaginou. Alguns anos atrás. Cris notou um brilho nos olhos de Ted. Cris? Paulo poder ter escrito a carta aos Filipenses daqui mesmo.Vejam só! Isto aqui era uma prisão. O rapaz parecia admirado com aquela descoberta que. não era lá grandes coisas.Você acha que é provável que Paulo tenha escrito algumas de suas cartas daqui? Desta cela? perguntou Ted. olhando desta janela. Dizia simplesmente “Guardo-a no coração”. para ela. . próxima ao lugar onde estavam.Você acha que Paulo estava assentado bem aqui quando escreveu “Guardo-os no coração”? perguntou Cris. . .É possível. Diz a inscrição que Paulo ficou preso aqui. . respondeu Marcos. disse Marcos. Ted olhou para Cris.

É possível. enquanto escrevia suas cartas. fascinante. Cris não teve como evitar o sentimento que começou a tomar conta de seu coração. já tão velha e deteriorada. haviam sido perseguidos por causa da fé. Era muita informação para uma tarde só.Fico impressionada com isso. o que criava um forte contraste com a idéia de que muitos cristãos.É. tomando suco de abacaxi. né? Paulo certamente sabia o que era sofrer pela fé. Não que eu imaginasse que Paulo estivesse deitado numa rede.Eles não soltavam os leões em cima dos cristãos também? perguntou Ted.Paulo poderia ter escrito aquelas palavras tão bonitas estando preso num local tão sombrio. enquanto ouvia as explicações de Marcos. ao olhar com Ted para aquela janela. Olhou para as ruínas das celas subterrâneas do Coliseu e bateu algumas fotos. Estava tão impressionado quanto ela. . disse Marcos. Dizia ele que. Ouvi dizer que alguns cristãos eram lançados aos leões e que o Imperador Nero ficava assistindo. Ainda sentia na boca o gostinho doce do sorvete de morango e chocolate. Vários cristãos foram queimados vivos no tronco. para iluminarem as festinhas que Nero oferecia em seus jardins.‘Tá brincando! exclamou Katie. . Mesmo assim. aquelas celas serviam de jaulas para os leões. . disse ela a Ted. De onde estavam. Cris sentia que não conseguiria absorver mais nada. vendo- os serem devorados pelas feras. foram ver o Coliseu. arrebatador. que andaram por aquelas mesmas ruas séculos antes. Parece que as cartas de Paulo ganham um novo sentido. E vários até tinham morrido por causa dela. Que coisa horrível! Não dá nem pra acreditar que pessoas civilizadas foram capazes de torturar e matar outros seres humanos por causa da fé . . no século primeiro. Depois da prisão. Era um lugar impressionante. Isso acontecia aqui? . Cris conseguia avistar as rampas por onde os leões eram trazidos para enfrentar os gladiadores. Mas aqui neste lugar? Bem aqui? Ted fitou-a nos olhos.

Que coisa grotesca! . Ah. no entanto. não era uma corrida de vigas como aquela que Hollywood reproduzira com tanto glamour no filme Ben-Hur. famintos. seria devorada pelas feras.Onde? perguntou Katie. que tocara seu coração pela manhã. Tudo o que ela teria de fazer para se ver livre era negar a Cristo. Era tão forte quanto a luz da Gruta Azul. ser fiel a ti. Mas quase nunca ficamos sabendo.Por toda parte. quero que meu relacionamento com Cristo seja tão sólido que eu esteja disposto a morrer por ele. fosse fiel ao seu compromisso com o Senhor. Pode ser até que chegue um momento em que nós mesmos tenhamos de nos posicionar com relação ao que cremos. de todo o meu coração. Nunca havia pensado seriamente na possibilidade de um dia ter de fazer uma escolha desse tipo. Os leões. No entanto o que ela via. se for preciso. Correu os olhos rapidamente pelas imensas ruínas do Coliseu. disse Ted. . Há sempre alguém morrendo por causa da fé em Cristo. se um dia tiver de passar por isso! . se esse dia chegar. tomadas de uma multidão que gritava e bradava descontroladamente. apoiando-se em uma das colunas de pedra. Cris sentiu vontade de se assentar. Se. Cris via uma nova imagem se formar em sua mente. Sentada ali.Isso ainda acontece. E. Senhor. meu Deus! Espero. sob o sol escaldante da tarde. Via as inúmeras fileiras das arquibancadas do Coliseu circundarem-na naquele momento. . de se posicionar.que estes tinham em Deus. Aquilo tudo era demais para ela. disse Ted. com os olhos da mente. estavam prestes a ser soltos.

sua mente e seu coração se achavam profundamente comovidos. se confessarmos com a nossa boca que Jesus é o Senhor. . Cris apenas ouvia.9? Esse versículo diz que. Ted e Marcos falavam de suas convicções pessoais sobre o cristianismo.Mas isso não é suficiente. disse Katie a Marcos. Também achava ótimo não ter de participar da conversa de Marcos e Ted. . Cris sorriu. . justo ali. Depois de tudo que vira naquele dia. Romanos! Nossa. continuou Katie. . . 11 No táxi de volta para o hotel. Já ouviu falar de Romanos 10. e ela não estava com cabeça para discussões. e crermos no nosso coração que Deus o ressuscitou dos mortos. Só agora me dei conta de que Paulo escreveu a epistola de Romanos para as pessoas que moravam aqui em Roma! Que coisa incrível! . . Paulo escreveu um livro inteirinho especialmente para os italianos.Sim. entrando na conversa. pois assim evitava ver as barbeiragens do motorista.Sim. que por pouco não acabavam em acidente.Isso fica na Bíblia Sagrada? perguntou Marcos. A coincidência de Katie ter escolhido citar uma passagem do livro de Romanos. Cris continuava com olhos fechados.Você não pode ficar achando que Deus vai lhe deixar entrar no céu só porque procura levar uma vida correta e ser uma pessoa boa. em Roma. seremos salvos. que legal! disse Katie. era mesmo uma “coisa de Deus”.Romanos? perguntou Marcos.

Era uma ilustração perfeita. Mas. .Mas não é assim que a coisa funciona. na hora em que dissemos o seu nome e o de seu pai.23. eles nunca nos deixariam ficar lá.‘Tá vendo? Ninguém pode fazer nada pra merecer a vida eterna. .Mas Deus não ama todo mundo? perguntou Marcos. Mesmo nós sendo “pessoas de bem”. É claro que Deus irá deixá-lo entrar no céu. Era simplesmente impossível não se deixar entusiasmar com o evangelho depois de tudo o que haviam visto nas últimas horas. eles nos receberam de braços abertos. disse ele. abrindo um sorriso. mas o dom gratuito de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus. respondeu Ted. Com certeza faria sentido para Marcos. Romanos fala disso também. . Não há como “fazer por onde” recebê-la. Com a vida eterna também é assim..Sim. Deixe-me ver como posso lhe explicar. só precisamos aceitá-la.Isso mesmo. Marcos estava assentado no banco da frente e havia se virado para falar com Ted. Mas Cris entendia a empolgação da amiga. Ela é uma dádiva gratuita do Senhor.Ninguém pode ir para o céu pelos próprios esforços. “Porque o salário do pecado é a morte. . E assim. disse Ted. impressionada com a analogia que Ted havia feito.Então quem leva uma vida correta não tem com que se reocupar.” E qual que é aquele versículo. continuou Katie. nosso Senhor. O importante não é o ..De fato.” . Cris se perguntava se Marcos não estava achando Katie um pouco dura demais. Cris abriu os olhos. .Romanos 6. “Todos pecaram e carecem da glória de Deus. . continuou Marcos. que fala do dom gratuito de Deus? . conhecer as pessoas certas nos lugares certos ajuda bastante. sem ter de pagar nada por elas. É mais ou menos como aconteceu conosco lá no Villa Paradiso. Se fosse só por nossa causa. continuou Ted. pudemos desfrutar de todas as regalias do hotel. . disse Ted. também em Romanos.

Lembrou-se do que Katie havia dito ao tentar convencê-lo a seguir para Nápoles com eles. Ele disse que preciso ter um relacionamento com Cristo. preciso admitir que.O Antônio já tentou me convencer disso também. Aquela poderia ser a última vez que se viam. as portas do Villa Paradiso foram abertas para nós. Mas com o Marcos era diferente. disse Katie. . gostaria muito que você fosse para o céu com a gente. Não vai ser a mesma coisa sem você.Marcos. O táxi parou na porta do hotel e todos desceram. continuou Marcos. foram se despedindo de Marcos na calçada. disse: . Mesmo assim. Será que Marcos também percebera? Entraram no luxuoso hotel. . Ted fez questão de pagar o motorista. Não era o que estava .É um presente meu pra você. Você só precisa aceitá-lo. disse ele a Marcos. desde que o Antônio voltou da Califórnia. Cris logo percebeu que as palavras de Ted tinham duplo sentido. e sim quem nós conhecemos. entregue a vida a Cristo. Para ela. Como conhecíamos você. com um beijo no rosto. era bem mais fácil se despedir de Antônio. exibindo um sorriso tão encantador quanto o de Katie. erguendo o queixo. em seguida. Então. . pegaram as bagagens e. as portas do céu se abrem para aquele que conhece a Cristo. Da mesma forma. Cris olhou para ele.que fazemos. cara. num gesto cordial. Por favor. Cris se sentiu um pouco triste quando Marcos se despediu dela. Marcos pareceu surpreso com aquelas palavras de despedida. caso nunca mais o encontrasse aqui na Terra. É que ela sabia que um dia o veria novamente no céu.Esse “algo mais” é. tenho percebido um “algo mais” na vida dele. na verdade um “Alguém”. Mas tudo isso é muito diferente do que tenho escutado a vida toda. Dessa vez. Era mesmo um rapaz muito bonito.

Então.‘Tá bom. em todos os sentidos.Buona. Por um momento Cris pensou no tanto que era diferente beijar a face de Marcos. e a de Ted. No entanto a comparação parou logo por ali.Era isso mesmo.Posso fazer um breve comentário? Notei que você ficou mais beijoqueira desde que veio morar aqui na Europa. Talvez eu dê uma lida nessa parte escrita para os italianos. Cris? perguntou Ted. em meio a todo o pesado trânsito. Já estou entrando em depressão. toda lisinha e barbeada. Ted riu. disse Katie. Será que lá tem alguma lista de hotéis? Cris se pôs a procurar o guia dentro da bolsa. disse Ted. O Antônio já me deu uma Bíblia de presente. Para ela. respondeu ela. Katie apenas balançou a cabeça. ainda sorrindo. . .Cadê aquele seu guia turístico.Quando estiver em Roma. . Vamos achar um lugar pra deixar a bagagem. . senhorita “Cristiana”? brincou Katie. . . não resistiu e disse: . pondo-se a caminho da estação. faça como os romanos. Cris ficou na ponta dos pés e deu-lhe um beijinho no rosto. toda pinicante.Eu não reclamo. Tinha quase certeza de que aquilo significava “bom” em italiano.E agora você vai me dizer que aquilo foi um “beijo santo”. Marcos sorriu.Vocês conseguiram me fazer parar pra pensar.acostumado a ouvir. . o beijo que dera em Marcos era puro e santo. . Entrou no táxi e acenou para eles. só de ficar perto dos dois pombinhos. . disse ela. Vamos mudar de assunto.

disse ela. sob o calor da tarde. Minha cabeça já ‘tá cansada! Ted olhou a lista e sugeriu que fossem para uma pensione. O estabelecimento estava fechado. . Mesmo assim Ted não ficou desanimado e continuou a olhar o guia. pois estavam numa “aventura”. estando na porta de um hotel. Afinal.Tem um albergue aqui na lista. Depois de andarem seis quarteirões. e o preço era bastante acessível. fica do outro lado da cidade.Eu deveria ter trazido o guia menor. Podemos pegar um táxi. Você olha. dando o guia a Ted. sugeriu Katie. . Só que não havia nenhum quarto livre. se for o caso. se estou entendendo bem o mapa. trancadas com estacas. Era só sobre a Itália. .A gente pode pegar um trem e ir para aquela cidade de que o Marcos estava falando. . . com toda essa bagagem. encontraram o lugar. mas.Não seria melhor se fôssemos um pouco mais pra lá? Acho meio esquisito a gente ficar procurando um lugar mais barato pra ficar. Ted estendeu-lhe o livro e ela correu os olhos pela lista.Não tem nenhum outro lugar. não? perguntou. O melhor de tudo é que não ficava muito longe dali. Estavam ao lado de uma loja que vendia casacos de couro. É mais seguro ficarmos aqui do que no meio da rua. fora ela quem dissera que não precisavam de guias turísticos. e as janelas. . . só de pensar em ter de confiar a vida a mais um motorista italiano. semelhante a uma pousada americana.Tome. Listava dezenas de lugares para ficar em cada uma das grandes cidades. anunciando para o mundo inteiro que somos turistas. . disse Cris. Cris cerrou os dentes.Mas ninguém sabe que é isso que estamos fazendo. respondeu Katie. Disse que era uma espécie de casa que alugava quartos. Cris estava fazendo o maior esforço para não jogar a culpa em Katie.

com movimentos bruscos. . Acho que não estamos mais no Kansas. em torno dessas mesas compridas. . . disse Cris. que chegavam ao cotovelo de Cris.Vamos achar um lugar pra comer. Como é que poderiam chegar a alguma decisão naquele estado? . Cris não riu da brincadeira.Fontes. rindo de si própria ao colocar o mochilão no chão.Firenze? Florença? . tem mais alguma coisa pra gente ver por aqui? .Mas foi isso que o Marcos mostrou pra gente o dia todo. Felizmente havia uma pizzaria bem perto dali. sugeriu Ted. O único ponto negativo é que as mesas eram altas e redondas. não demorou a chegar. fontes. “Totó”! continuou ela.Sim. esculturas e igrejas. além de deliciosa.Por exemplo? Cris tirou a mochila das costas e botou-a no chão. imitando a “Dorothy”. Cris olhou para Katie. Estavam começando a perceber que o chique na Itália era comprar uma massa pronta ou uma fatia de pizza e comer em pé. . . Apesar da boa comida. O que tem de interessante em Florença? . de O Mágico de Oz. estavam cansados e com fome. essa cidade aí. Temos de nos assentar e ver quais são nossas opções. e não havia cadeiras. ficar em pé acabou não contribuindo muito para que pudessem discutir os planos com calma.Tem bastante coisa. Naturalmente. Quer dizer. igrejas e esculturas.Fontes. A pizza. como se estivesse aborrecida. esculturas e igrejas? exclamou Katie em tom de gracejo. Sua vontade era dizer-lhes novamente que essa era a razão por que precisavam de um roteiro.Muitas obras de arte. respondeu Ted. . Ela sabia que a conversa ia longe.

Sei que fica ao sul e que não é muito longe de . mas em sentido completamente oposto. soltou ela. E aquela cidade da torre inclinada? Qual o nome dela mesmo? .Não.Eu gostaria de ir a Pompéia. Como pude me esquecer? Onde fica essa cidade? .Ao norte. Ou quem sabe. Ao ouvir aquilo. A Torre de Pisa. disse Katie. Isso mesmo. ainda com o hálito impregnado do forte gosto do molho da pizza. É que.E que “coisa legal” você ‘tá querendo ver? perguntou Katie. .O Marcos me falou desse lugar. pode acabar deixando de ver alguma coisa muito legal que ficou no meio do caminho. se a gente resolve simplesmente pegar um trem pra Florença ou Veneza. . Ele disse também que o pó vulcânico chegou até a proteger alguns dos que estavam fugindo de lá.Eu também gostaria de ir lá. ao norte. disse Ted. . . Na verdade. . Veneza.Foi por isso que falei do roteiro. Cris não conseguiu se conter. disse Katie.Ah é. disse Katie. Aquilo que Ted e Katie achavam interessante parecia não exercer muito encanto sobre ela. fica perto de onde estávamos acampando. a coisa parecia ainda mais sem graça. . Estava me contando que a cidade foi toda desenterrada e dá até pra andar por lá e ver o que aconteceu depois que o vulcão entrou em erupção e destruiu tudo. não ficara muito interessada e. sem rodeios. Cris não conseguiu pensar em nenhum lugar específico. respondeu Cris. Então a gente deveria ter ido lá depois do acampamento. Na época. Queria ir para tudo quanto era canto.Acho que deveríamos ir pra Florença.Pisa. . agora. Cris havia lido sobre Pompéia no outro guia turístico sobre a Itália. .Ao norte perto de Veneza? .

. depois de tanta conversa. já que o trajeto para o norte seria bastante extenso. Iriam para Oslo. A decisão foi uma surpresa para Cris. E depois? Ficamos em Nápoles ou em Pompéia? . mas nenhuma informação sobre hotéis. as aulas de Cris recomeçariam.Nápoles porque. Ela detestava reconhecer.Então ficamos em Pompéia? perguntou Cris. discutindo todas as possibilidades. quando iam para a ilha de Capri. . na Noruega. Nesse dia. na Suíça. na opinião de Cris. chegaram a uma decisão. Vai levar umas duas horas pra chegar lá. do barco. A idéia. quando estávamos esperando o ônibus. ficara bastante . . Não é uma cidade muito segura pra turistas. disse Katie. às oito da manhã do dia vinte e sete de junho. .Mas onde? No albergue? Depois de ficarem em pé na pizzaria por quase uma hora. O melhor de tudo. Sua resistência não estava muito alta quando começaram a viagem e. Ela mal conseguia entender direito como é que haviam chegado a um acordo. Havia uma página cheia de informações interessantes sob a cidade e sobre como chegar lá. pegariam um trem noturno e iriam para o norte da Europa. a gente vai voltar para o mesmo lugar em que estávamos hoje de manhã.Poderíamos ficar por aqui mesmo e pegar um trem amanhã de manhã. Cris se lembrava de ter avistado o vulcão Vesúvio.Ou seja. Em vez de ficarem em Roma. e Katie e Ted tomariam o avião para a Califórnia. sugeriu Ted. era que teriam tempo suficiente para conversar e planejar os outros dezesseis dias de viagem. o Marcos me mostrou o Vesúvio. segunda-feira.Eu prefiro não ficar em Nápoles. partindo à tarde de Zurique. até chegarem em Basel. mas se sentia exausta. folheando o guia. O Marcos estava me contando uns casos de lá. era ir direto para a Noruega e fazer a rota para o sul nos dial restantes. com o ritmo acelerado em que estava vivendo.

Ele havia lhe dado várias moedas. Pela primeira vez. encontrou um diário com capa de couro. pois aí poderia “recarregar as baterias”. em praticamente cinco anos. enfiando-se na rede ou tomando um banho de rio. Para sua surpresa. Cris preencheu a última página do caderno. Cris pensava na viagem.o que de fato aconteceu. com as mochilas presas às costas. não teria um lugar especial para registrar os segredos de seu coração. Alguns anos atrás. Por um momento desejou que ainda estivessem acampando. o Tio Bob lhe dera um diário de presente. em compensação. Seria ótimo se o Antônio ou o Marcos estivessem com a gente uma hora dessas. nem do tanto de dinheiro que tenho . Se tivessem permanecido com Antônio. e Cris queria saber se havia um guia turístico em inglês à venda. dizendo-lhe que anotasse ali todos os seus pensamentos e sentimentos. Uma noite antes de viajar com Ted e Katie. Seu diário havia se tornado um grande amigo. Será que ele achou que eu percebi que ele havia me dado o troco errado? Que graça! Não faço a menor idéia do quanto paguei neste diário. resolveram parar numa lojinha que vendia quase que só revistas e cigarros. esta seria a última noite deles lá. no fim das contas. um sentimento de perda muito forte tomou conta dela. Enquanto andavam os dezesseis quarteirões até a estação. mas. Katie queria comprar umas barrinhas de chocolate.desgastada. Cris não fazia a menor idéia se tinha pago um preço justo pela mercadoria. Cris pagou o diário e ficou analisando o troco que recebera do vendedor. Cris não achou o que procurava. certo de que ele se tornaria um grande amigo para ela . Ao terminar a anotação. Estava feliz por terem deixado o acampamento. Perder a chance de conhecer Roma ou a ilha de Capri teria sido péssimo! Uma vez na estação de trem. o vendedor resmungou alguma coisa em italiano e deu-lhe mais três moedas.

Katie disse: . apenas para fazer graça com o vendedor. Cris resolveu dar no pé. olhou para ele como se quisesse dizer “Que vergonha tentar passar a perna em mim!” Mas dessa vez ele não resmungou nada. Quando Cris relatou o que lhe acontecera. Cris apenas o observava. observou Ted. e ainda meio pedaço de queijo. Ainda incerta do quanto havia sido lesada. O rapaz foi o primeiro a entrar na loja. apontando para uma outra lojinha dentro da estação de trem. Poderíamos comprar algo para levar na viagem. A vendedora parecia irritada com a demora da moça e soltou alguma coisa em italiano. fazendo força para não disparar a rir.Então vamos passar naquela loja ali. . Estava mais interessada em comprar algo para beber durante a viagem. ao receber o troco. você já saiu da loja. . Cris não se virou. Parece que eles vendem coisas de comer. examinando-o minuciosamente. Katie comprou mais duas barras de chocolate e. sugeriu Katie.Acho que nunca vou saber se ela passou ou não a perna em mim. alguns tomates pequenos e ovais. Simplesmente se inclinou e deu a ela mais três moedas e duas notas. Ted e Katie a aguardavam lá fora. de um litro cada. Viu umas garrafas de água à venda e pegou três para levar. disse Ted. disse ela ao entrarem . ficou parada no caixa. estender minha mão e olhar para ele com cara de brava.Não acredito que dê certo. Enfiou a quantia no bolso e saiu da lojinha.Tem meu apoio. Pegou vários pãezinhos redondos e duros. Afinal. Continuou segurando as moedas na mão e. fazendo um gesto para que Katie saísse e liberasse o caminho para outros clientes.agora. É possível que ele tenha me cobrado a mais pelas duas barrinhas de chocolate. .Acho que vou voltar lá. .

. agora vamos nos organizar. foi até possível trocar as passagens por bilhetes de primeira classe. examinando o guia turístico. disse Ted. Roma pra Veneza. Agora. conseguiram alcançar o trem a tempo. Cris dormiu um pouco. Ted olhou o relógio. dessa vez estavam montando um roteiro. a fim de ver se Katie estava com eles. .Este é o que a gente tem de pegar. Cris sentia a mochila bater fortemente em seus ombros. Enquanto corriam pela multidão. Encontraram dois lugares no final do corredor. O trem partiu. graças à mente rápida de Ted. circulou algumas vezes pelo vagão e foi com Katie até o banheiro. Cris. E a sensação que Cris tinha era de que a . Parecia que seus dois desejos se concretizavam..Muito bem. Parecia que todo mundo havia resolvido sair de Roma naquela noite de sexta-feira. da plataforma.no terminal principal. Sai às 20:35h. Ao ver aquilo. . Durante a viagem de cinco horas para Veneza. Cris fechou os olhos. A maior parte da tensão que existira entre as duas já havia passado. caminhando até o quadro de horários informatizado. para que a amiga pudesse lhe mostrar como foi que conseguira se trancar na cabina do banheiro em Nápoles. sim. Apesar de todo o incômodo. Cris se pôs a correr também. Mas ela estava feliz por estarem se dando tão bem agora. Tinha a sensação de que a pizza que comera pouco antes começava aparecer novamente em sua boca. e Cris e Katie se assentaram. Você é que sabe fazer o olhar. Cris teve de rir. olhando para trás. melhor ainda. fazendo ecoar um ruído prolongado. Katie era mesmo uma maluca. inteirando a diferença. A primeira classe estava lotada. Cris concluiu que a segunda classe estaria muito pior. atingindo-lhe os quadris seguidamente. E. Cris torcia para que aquilo fosse sinal de menos estresse nas duas semanas que estavam por vir. estavam numa aventura e. procurando uma posição confortável no banco.Venham! Vamos ter de correr pra pegar o trem! Ted saiu correndo a todo vapor.. Ted permaneceu de pé.

Cerca de uma hora antes de chegarem a Veneza. . Agora elas estavam voltando a ser as amigas chegadas que sempre haviam sido. Eu sei que você gosta de castelos. . estava começando a desaparecer. que parece bastante interessante também. na Dinamarca.Eu adoraria conhecer pelo menos um castelo durante a viagem. Os olhos dele brilharam só de falar das atrações que os aguardavam na Escandinávia. não.Puxa. Ted havia lido bastante e agora era um superfã do guia turístico de Cris. ele havia morado no Havaí. Kon-Tiki parecia ser algo relacionado com a Polinésia e. Ted e Cris deixaram Katie no outro vagão e foram até o restaurante do trem. Durante a viagem.distância que se criara entre as duas. Acho que nós dois estamos prestando atenção nas coisas de que o outro gosta já há muito tempo. Diz aqui que a Kon-Tiki original está lá. Achei que seria um lugar que você iria gostar de visitar. disse Ted. e este aqui fica a mais ou menos uma hora de Copenhague. . disse ela. mostrando um pequeno parágrafo no guia turístico. se fosse. . depois de ela ter ido estudar na Suíça.Tem um museu em Oslo. . Afinal. Ou talvez mais.É a jangada de Thor Heyerdahl. quando garotinho. Ele saiu do Peru rumo às ilhas da Polinésia Francesa. você se lembrou de que eu gosto de castelos. a fim de provar que os povos primitivos da América do Sul poderiam ter chegado à Polinésia . disse ele. sorrindo. A única coisa que Cris não estava entendendo era por que um museu na Noruega teria uma peça da Polinésia. se tivermos tempo.E tem ainda esse Castelo de Fredericksborg.E você se lembrou de que eu gostava de manga. E você? O que você quer ver? Acho que não vamos encontrar muitas mangas por aqui. . Cris esperou Ted explicar. faria sentido Ted estar interessado em passar por lá. a fim de se assentarem para tomar um cappuccino e discutir o roteiro. Só não tínhamos nos dado conta disso.

. Vai ser divertido.Já ‘tá sendo. disse.E só vai ficar melhor.É uma estátua da Pequena Sereia.Ah. disse: . deixando transparecer toda a deliciosa expectativa que trazia no coração.passando pelo Pacífico. Ted acenou que sim. disse Cris. com certeza teremos de passar por lá.É. .Acho que a Katie vai querer ver isto aqui.´ Depois. ainda sorrindo. suponho. . . disse Ted.O que é? .Mal posso esperar pelo dia de amanhã. disse Cris. aproximou-se de Cris e ficou brincando com uma mecha de cabelo que caía sobre os ombros dela. E esse tal de Thor era norueguês. Cris sorriu. apontando para as palavras Lille Havfrue. Aquela do conto de fada escrito por Hans Christian Andersen. . . concluindo. . disse ele. E. no guia.

Já estava até ensaiando um pedido de desculpas por terem deixado a amiga de lado e planejado pegar o trem para Salzburgo. . disse Cris. uma hora antes de chegarem a Veneza. Gostaria de ficar um dia ou dois aqui e então partir pra Noruega.Ficar aqui onde? perguntou Cris. Os três pegaram a bagagem e passaram pelo belo terminal de passageiros.’ . Cris tinha esperanças de que. na Áustria. à procura do trem que os levaria rumo norte. A única coisa que eu realmente queria ver era uma gôndola. .Pessoal. o Marcos mora aqui. até Salzburgo.Quero ficar aqui. Mas agora temos de correr pra fazer a conexão pra Salzburgo. disse Katie. Já estavam no meio da plataforma quando Katie parou e disse: . Preciso ser franca com vocês a respeito de uma coisa. 12 O trem chegou à estação de Veneza Às 2:00h da madrugada. quando ela e Ted saíram para tomar cappuccino no vagão-restaurante. .Não. precisamos conversar agora.Em Veneza. se estivessem entre os primeiros passageiros a embarcar. Cris achava que Katie iria dizer que havia se sentido excluída. conseguiriam assentos melhores do que os da viagem para Roma. . olhando em redor. que partiria dentro de quarenta minutos. Vocês se lembram? O pai dele tem uma joalheria. a gente precisa resolver um negócio. .Podemos conversar no trem. Além disso. Ele me falou muito desta cidade.

Além do mais. . Cris procurava analisar o que estava acontecendo. Como já é madrugada. sabem o que podemos fazer? disse Katie. Só quando descemos do trem me dei conta de que talvez eu nunca mais tenha a oportunidade de chegar tão perto de uma gôndola de verdade. disse Ted. disse Katie. Eu quero muito ver uma. . acho que podemos fazer isso. Será que a paixão de Katie era . . disse Katie.Ou então. não precisamos ligar pra ele. Isso é meio estranho pra mim.Será que não vai parecer que estamos forçando a barra? perguntou Cris. vamos ter de arrumar um lugar pra ficar. Cris hesitou um pouco antes de concordar com a idéia. só quero vê-la. virando-se para a saída da estação.Eu sei que deveria ter falado antes. . Não preciso nem passear nela. Vocês estão de acordo? É que um quarto a essas horas da noite pode sair bem caro.Tudo bem.Acho que vale a pena. disse Ted. Ele saiu de Roma no trem das seis e nós o seguimos. disse Cris. vamos ter de pegar o que der. então. Vamos perguntar no posto de informações.Eu não estou com essa grana toda não. . no trem das oito e meia. Mas fiquei pensando um tempão se isso seria agir como “membro da equipe” e acabei não dizendo nada. continuou Katie. Ela até que queria passear de gôndola também. Temos dinheiro pra “torrar”. . Ligar para o Marcos e ver se ele pode nos hospedar.Bom. que agora sua cabeça se achava cheia de visões de castelos e sereias.Tudo bem. Parece que estamos na cola dele. em vez de seguir para a plataforma de embarque. pelo menos por uma noite. . Eu gostaria muito de encontrá-lo novamente. ainda não gastamos nada com hotel. . mas Ted havia lhe falado tanto sobre a Escandinávia durante a última hora de viagem. Podemos arrumar um lugar pra passar a noite e dar um pulo na joalheria do pai dele amanhã.

Cris se perguntava se Katie havia sentido falta de um parceiro de viagem. Pensava que talvez se sentiria bem mais animada. Quanto vocês tem aí? Os três ajuntaram todo o dinheiro que tinham. como havia se interessado por Antônio no verão passado? Afinal de contas. . Era um hotel bastante caro.Achei um lugar em que podemos ficar. O efeito da cafeína do cappuccino parecia ter passado de repente. No entanto era cada vez mais difícil para Cris ordenar os pensamentos. de uma só vez. depois que eles se acomodassem num hotel. Só que eles só aceitam pagamento em dinheiro. Queria saber também se a amiga estava se sentindo deixada de lado por ela e Ted. quando ela e Ted se retiraram para o vagão-restaurante. O alto teto da estação fazia com que a barulheira em redor ecoasse.realmente pelas gôndolas? Ou será que ela estava ficando interessada em Marcos. Cris ficou feliz ao ver que Ted se aproximava. Talvez ela não estivesse gostando muito da idéia de ficar “sobrando”. do trajeto entre Capri e Roma. Ted não teve dificuldade em aceitar a mudança de planos. . e era como se todo aquele ruído ressoasse em sua cabeça. Cris procurava um jeito de perguntar a Katie sobre Marcos. E talvez por isso quisesse passear por Veneza com Marcos. a viagem até Veneza havia sido a primeira vez em que viajavam só os três. considerando o horário. já que Ted e Cris estavam juntos. com a súbita mudança de planos. E não foi nada fácil.Qual o motivo de eles não aceitarem traveler’s checks*? perguntou Cris. Enquanto esperavam. quanto mais conversar sobre os sentimentos de Katie. disse Ted. sugeriu que Katie e Cris se assentassem no comprido banco de madeira polida que ficava nomeio da estação e esperassem com a bagagem. é claro. e agora Cris mal conseguia manter os olhos abertos. mas não conseguiram chegar nem à metade da quantia necessária. . dormissem um pouco e tomassem um bom café da manhã. enquanto ele ia buscar algumas informações. Com seu jeito tranquilo de ser. a fim de adiar por mais alguns dias o papel de vela. com exceção.

Ou então pegar um trem pra Salzburgo. . pegar o táxi aquático para Veneza. .Eu não estou a fim de pagar tudo isso só pra ter onde dormir por cinco horas.Isso quer dizer que teremos de esperar até às seis da manhã. . ___________________ * Cheque de viagem que pode ser comprado nas casas de câmbio do país. fica parado lá .Não bagunçou. mediante apresentação de passaporte e passagem aérea. na hora do almoço. disse Katie. quando for umas sete horas. sugeriu Cris. Eu acabei bagunçando todo o nosso esquema.Exatamente. . disse Ted. Foram eles que atenderam o telefone. agora. . disse Ted. gente. ou qualquer coisa parecida. E a diária termina ao meio-dia. da T. trocar o dinheiro. O banco só abre às seis da manhã. não. ninguém aqui pensou nisso. . sim.Já olhei isso.Sei lá. E como não havíamos planejado nada com antecedência. É aceito na maioria das lojas. não há o que ser feito. Faz apenas uma escala em Vilach. hotéis e restaurantes do mundo.Será que não tem nenhum lugar aqui na estação onde a gente possa trocar o dinheiro? perguntou Katie. Mas. resumiu Cris.Eu aproveitei e dei uma olhada no horário dos trens. Se tivéssemos um cartão de crédito ou um cartão de banco. poderíamos usar o caixa automático. . Ficamos presos. (N. Eles é que ditam as regras. Desculpa. Tínhamos um roteiro e. disse Katie baixinho. pelo visto. o hotel é deles. perdemos o trem. fazer o check in no hotel. .) . e aí. .Baguncei. Tem um que sai às 8:02h para Salzburgo.Poderíamos dormir aqui nos bancos. .

.Que horas são? Cris precisava de um relógio novo. . .Sim. disse Katie.São 3:10h da madrugada.É que eu gostaria de dar uma parada em Salzburgo e passear um pouco por lá. . O que vocês querem fazer? .E a gôndola que você queria ver? perguntou Cris. .E pra onde vamos? Vamos sair perambulando pelas ruas de Veneza? perguntou Cris. disse Katie. mas ela ainda não havia comprado outro para subistituí-lo. Isso significa que chegaríamos em Salzburgo amanhã às sete da noite. não? Enquanto Ted consultava um pequeno panfleto com o horário dos trens. Só uma coisinha: será que não dá pra chegar à terra da Noviça Rebelde sem gastar o dia todo. não. Fiz mal em insistir que parássemos aqui e saíssemos fora do roteiro. O trem que íamos pegar não era direto? Sem escalas? Ted fez que sim com a cabeça. . . Vamos simplesmente pegar o próximo trem e ir pra onde ele nos levar.por três horas e depois segue viagem.Não há ruas aqui. só canais. Já estamos aqui.Mas aí vamos ficar o dia inteiro dentro do trem. depois de tudo combinado. disse Katie. . . é a única cidade da Áustria que conheço um pouco mais. mas agora não podemos olhar pra trás. Vamos ver se conseguimos voltar para o roteiro original o máximo que der. Vamos dar o fora daqui.Agora já não estou ligando mais. O dela havia se quebrado há meses. Katie continuava falando. Afinal.Não é a toa que estou com a impressão de que um caminhão passou por cima de mim. . já esqueceu? Mas.

Tem um trem saindo às 10:30h de Innsbruck. Ted. Ted olhou para os quatro bancos que havia ali. mais contrariada se sentia com Katie. Poderíamos arrumar um lugar pra ficar e sair pra conhecer a cidade à tarde. Ficou pensando na letra de uma das músicas do filme que dizia “Como resolver um problema como a Maria?” Já tinha a própria versão na ponta da língua: “Como resolver um problema como a Katie?” . Agora é a minha chance de descobrir. mesmo sabendo que as bagagens estavam todas amarradas aos bancos. Seus amigos haviam sido superlegais com ela. Cris queria ser compreensiva e perdoar a amiga.Eu sempre me perguntei como deve ser a vida de um “sem-teto”. Para Katie e Ted não foi nenhum problema tirar uma soneca naqueles bancos duros. Ao mesmo tempo. pela forma como ela havia bagunçado todo o roteiro de viagem. . . . Eram compridos e estavam um de costas para o outro. o número de pessoas circulando por lá era suficiente para deixá-la apreensiva. resolvendo mudar a programação a fim de agradá-la. Parece que ele chega a Salzburgo às 2:30h. Já Cris não conseguia pegar no sono. Quanto mais pensava naquela situação. Só você mesmo. quando havia desabafado tudo o que estava sentindo na van. . Portanto Cris sabia que não era justo negar a Katie o mesmo tipo de atenção que ela própria havia recebido dias atrás. Ficava apreensiva ao pensar nas pessoas passando por lá. vendo-os dormir. E tinha medo também de serem roubados.Isso porque você já viu A Noviça Rebelde umas cem vezes.Isso quer dizer que vamos dormir aqui na estação as próximas duas horas? perguntou Cris. disse Ted. acrescentou Cris. Cris nunca havia parado para pensar naquilo. Embora a estação não estivesse muito cheia. Procurava se lembrar do acampamento.

Nós três estamos nos dando superbem. e seu semblante aparentava cansaço. um dia antes de Ted e Katie chegarem. acordadíssima. que dormia todo encolhido no banco à sua frente. Na maior parte das vezes comemos porcaria e nem sempre conseguimos ficar os três juntos. resolveu voltar os pensamentos para o namorado. dormindo nos bancos da estação de trem. Mas não se preocupem. não conseguiu. Durante todos aqueles anos. Entretanto. Estou pronta pra dar o próximo passo. certo? Mas o que isso representa realmente? Vamos continuar sendo o que sempre fomos um para o outro? Amigos? Amigos chegados? Amigos “para sempre”por mais cinco anos. Ted conseguira se “desligar” emocionalmente. em qualquer lugar e sempre que sentia vontade. procurando a todo custo se desligar tanto física quanto emocionalmente e pegar no sono. até que você acorde pra mim? Eu estou aqui. Ted? O que foi que nós decidimos? Que não iríamos mais conversar sobre terminar o namoro. Como Cris não queria ficar ainda mais chateada com Katie. Ou pelo menos. E então. era assim que Cris enxergava a situação. E você? Cris fechou os olhos e virou-se para o outro lado. sua cabeça estava cansada demais para fazer as contas.” . apesar do empenho. Em vez disso. seus pensamentos se voltaram para sua família. A viagem ‘tá ótima. E mais uma vez sua mãe lhe dissera o quanto estava torcendo para que Cris se divertisse bastante na viagem. Aliás. Ted havia protegido a cabeça com o capuz da blusa de moletom azul-marinho. Estamos aqui em Veneza. Tenho certeza de que amo você e sempre amarei. em relação aos seus sentimentos por ele. Além do mais. gente. Que horas seriam na Califórnia? Ah. Normalmente ela ligava para os pais uma vez por mês e escrevia-lhes uma cartinha cada uma ou duas semanas. o que ela diria a eles? “Oi. Mas isso não deveria surpreendê-la. Talvez fosse bom telefonar para casa. por assim dizer. Cris ficava impressionada com a facilidade que ele tinha de simplesmente se deitar e “apagar”. em momentos em que ela se sentia “desperta” por completo. ela havia conversado com a mãe por cerca de vinte minutos.

Esse era o tipo de experiência que ela desejara apreciar juntamente com Ted durante a viagem. Ao chegarem a Salzburgo. Mas. perceberam que seus assentos. Cris comeu feliz o lanchinho e dividiu a água com Katie e Ted. Seria melhor telefonar-lhes depois. Katie estava nitidamente mais quieta que o normal. Enquanto olhavam pela janela. lhes favoreciam com uma belíssima vista. e Cris aproveitou para dar uma esticada e dormir profundamente durante as primeiras quatro horas de viagem. Quase não conseguiram chegar a tempo de pegar o trem para Salzburgo. Ted lhe disse que havia café da manhã para ela. A dona da pousada austríaca. e pediram dois quartos. Ted e Katie estavam com muita fome para esperar o horário do café. a perder de vista. recomendada no guia turístico. A viagem de trem de Innsbruck até Salzburgo foi bem agradável. As coisas irão melhorar quando chegarmos à Áustria. disse-lhes que o Jause seria servido entre às 16:00 e 17:00h e. Quando acordou. Cris sabia que não poderia ligar para os pais. Naquele momento. para que pudessem trocar comentários sobre as enormes cadeias de montanhas que se estendiam pelo caminho. Era um dos tomates ovais. Têm de melhorar. Cris chegou mais perto dele. havia camas retráteis chamadas couchettes. Não enquanto não tivesse um bom relatório para dar. Então mandarei um postal pra minha família. não adiantaria nada que eles soubessem dos detalhes da viagem. agora. aliás uma senhora bastante simpática. explicou que era costume austríaco tomar café naquele horário. Cris. Na cabina em que estavam. Não. No entanto. . Os três se dirigiram a uma Gasthof. um pouco de queijo e um pãozinho duro. concluiu. ao lado da janela. Era bem mais bonita que a vista da janela da van do Antônio. em seguida. assim que se acomodaram. que ele havia comprado antes da viagem. quando estivesse de volta ao seu quarto e à sua rotina. e nenhuma das informações que eu escrever será falsa ou “forçada”. Era uma das paisagens mais lindas que Cris já havia visto desde que chegara à Europa.

ao ar livre. Cris se arrependeu de não terem esperado um pouco mais e tomado um banho antes de saírem pelas ruas de Salzburgo. chegaram a um restaurante bem grande. ___________________ * Personagem do filme A Noviça Rebelde.) Ted consultava o guia turístico. mostrando-lhe muitos de seus encantos. Ela não tinha nenhuma pressa de sair correndo para conhecer a cidade. da T. procurou se convencer de que seria muito melhor tomar o banho à noite. Katie disse: ___________________ * Prato semelhante a um filé de vitela à milanesa. (N. Uma vez lá fora.Pediram licença educadamente e foram procurar um restaurante onde pudessem fazer uma refeição completa. fazer compras e coisas do tipo. Para não se sentir pesarosa. quando voltassem para a pousada. Depois de andarem dois quarteirões. Na área externa havia várias mesas protegidas por guarda-sóis. trocaram o dinheiro e foram visitar os pontos turísticos da cidade. da T. Depois de comerem um Schnitzel* e discutirem os planos para o dia. visitar lugares. Deixaram a pesada bagagem na pousada. Decidir onde iriam comer até que foi fácil. enquanto Cris saboreava um strudel* de cereja de sobremesa. o que lhes permitia avistar uma fortaleza simples no topo da colina e ver várias carruagens desfilarem pelas ruas de pedra.Precisamos achar aquela fonte onde os filhos do Capitão Von Trapp* dançaram e cantaram no filme. Acho que havia umas estátuas de cavalo em torno dela. ___________________ . puxadas por cavalos.) . (N. Salzburgo parecia desfilar por si só diante dela.

que ficava no . passeando com um cachorrinho todo peludo. Em dado momento. a língua que falavam lembrava um rio caudaloso. não importando. caso esteja fechado à noite. ao perceber que Ted também estava prestando atenção nas coisas de que ela gostava. O guia lhes chamou a atenção para a mesa de jantar. Cris passou a observar as duas mulheres que estavam assentadas na mesa ao lado deles. Enquanto elas conversavam. Depois. A gente deveria ir lá primeiro. Ele até havia se lembrado de que ela queria visitar o maior número de castelos que encontrassem. disse Ted. lendo algo no guia turístico. (N. Já na Itália. Ainda vai chegar o dia em que eu e você. um lugar já bastante apertado por sinal.) Naquele momento. Ted. sua impressão fora de que as pessoas queriam convencer umas às outras. Na Áustria. * Quitanda feita com frutas enroladas numa fina camada de massa que é posteriormente assada. fluindo calma e naturalmente. iremos andar lado a lado. O rapaz sussurrou alguma coisa ao ouvido da moça. à medida que caminhavam pelos cômodos do castelo. quando estavam na cúpula da Basílica de São Pedro. E um dia você ainda dará uma piscadela dessas pra mim. Cris tivera a mesma impressão de Marcos. ele piscou para ela. . da T. Cris deixou que ele mesmo descobrisse como chegar ao Schloss Hellbrunn. Cris observava os dois. para tanto. mais alto falava. Cris pensava no quanto os austríacos eram diferentes dos italianos. Quanto mais perto chegava dela.Acho que a Cris vai querer dar uma passada neste lugar aqui. É um castelo chamado Schloss Hellbrunn. que soltou uma risadinha alegre e delicada. Toda feliz. a quantidade de gestos e de exagero que teriam de empregar. Um sentimento muito gostoso tomou conta de Cris. um jovem casal passava pelo café. A beleza singular de Salzburgo continuava a encantar Cris.

lembrem-se de que tudo isto foi construído no início do século XVII. Katie exclamou. Gostava muito de surpreender os convidados com estes jatos. quando caras malucos como esse ofereciam jantares em seus castelos. mas. Parte do que escreveu foi: Nunca me esquecerei dos encantos desta cidade. Depois que as gargalhadas cessaram. para que vocês possam dar o devido valor a esta inovação. anotou seus pensamentos no diário. de uma forma majestosa. O guia os conduziu até a saída do jardim. De repente. tinha um grande senso de humor. eterna. Ao esguicharem. Segundo o meu guia turístico.jardim. Ensopada. De mãos dadas. no momento em que iniciou a travessia.Marcus Sitticus. Será que os convidados desse homem voltavam aqui depois dessas brincadeirinhas? De volta à Gasthof. de todos os lados. encolhida debaixo dos cobertores. Era para se protegerem. em meio às gargalhadas: . No dia seguinte.Agora entendo por que as mulheres daquela época usavam vestidos tão compridos. vários jatos verticais ergueram-se dos assentos e do meio da mesa. molhando todo o grupo de turistas com um leve spray. atingindo-a em cheio. Quando passamos pelo local onde Mozart nasceu. que viveu neste castelo. onde havia uma sucessão de jatos d’água. no quanto gostaria de visitar Salzburgo novamente. Ted e Cris passaram primeiro. eles formavam um arco para que os visitantes pudessem passar. já havia gente morando em Salzburgo cerca . durante os piqueniques que faziam no verão. Tanto ela quanto as cadeiras em volta pareciam ser feitas de cimento. caso tivesse outra oportunidade. o guia continuou: . Katie vinha logo atrás. caminhando rapidamente sob o refrescante spray d’água. E. os jatos mudaram de direção. de ambos os lados. fiquei pensando em como a música dele ainda ressoa por aqui. Cris pensava. durante a viagem de trem para a Alemanha.

atrás de Katie e Ted. Cris jogou o diário dentro da mochila e desceu do trem. com a ajuda da funcionária do guichê. na Alemanha. semelhantes aos assentos de primeira classe de um avião. mas acabamos deixando que ela fizesse um solo todas as vezes. Ficou tentando fazer com que eu e o Ted cantássemos com ela. . Quanto tempo demora a viagem? . hein? comentou Katie. Em cada uma delas havia um fone de ouvido e um dial. a uma velocidade de 260 quilômetros por hora. Tiveram de pagar uma quantia extra para poder viajar nesse trem. duas horas depois de deixar Salzburgo. que estava assentada de frente para Cris e Ted.Acho que a moça disse seis horas até Hamburgo. Coitadinha da Katie. Isso me deixa muito impressionada. ao lado de Katie. para que o passageiro pudesse escolher a música que mais lhe agradasse. . hein? .Que melhoria em relação aos trens da Itália. Já a única coisa que pareceu impressionar a Katie foi a quantidade de fontes que vimos. Em vez de cabinas. Nada mal isto aqui. respondeu Ted.Vocês acham que o hambúrguer foi inventado em Hamburgo? perguntou Cris. A funcionária lhes explicou que ele os transportaria para Hamburgo. por causa das salinas encontradas aqui. fizeram a reserva num dos mais novos trens sem escalas da Alemanha. disse Katie. ela nos fazia parar e cantar a música do Dó-Ré-Mi. no norte do país. O trem parou na estação de Munique. Mas depois.Temos de parar em Hamburgo pra comprar hambúrgueres. E em cada fonte onde havia a estátua de um cavalo. o trem tinha confortáveis poltronas.de quinhentos anos antes de Cristo nascer. à beira da fonte. assentando-se ao lado de Cris. mas até já haviam se acostumado com isso na Itália. quando saímos para passear ontem à noite. Demoraram um pouco até descobrir qual trem teriam de pegar em seguida. Haviam colocado as bagagens no banco vazio. .

‘tá pregando os olhos demais neste guia. Ted. Estou ficando bastante interessado nesse negócio de desvendar a história desses lugares.É um excelente guia. . Se você realmente quisesse. .Eu não lhe impedi de trazer seus guias turísticos. .Posso dizer uma coisa? principiou Katie. Ele tem sido bem prático nestas horas.Tinha sete. . disse Cris. O Conde de Sandwich. . . disse Ted.Você tinha outros guias turísticos? quis saber Ted. abrindo a mochila para pegar o livro. . . Só falei que eles ocupariam muito espaço. disse Ted. Cris não contava com aquela reação de Katie. . Mas não diz nada aqui sobre hambúrgueres em Hamburgo. e de fato ocupariam. jogando o corpo para a frente. disse ele. Que horror! . tirando os olhos do livro.Acho que você ‘tá falando do sanduíche. Estou começando a duvidar de que estamos mesmo numa aventura.Você deveria ter trazido todos. Já ouvi essa história também. poderia tê-los trazido.Talvez tivesse alguma informação sobre isso nos outros guias que eu deixei em Basel.Não tem uma história de um cozinheiro que inventou o hambúrguer para um conde sei lá das quantas? perguntou Cris. Não venha jogar a culpa em mim. Cris olhou para Katie como se dissesse “‘tá vendo? Eu bem que avisei”. Diz também que a cidade foi quase destruída na Segunda Grande Guerra. muito embora o guia afirme que Hamburgo foi fundada na Era Medieval. disse Ted. disse Katie com impaciência.É possível que seu guia turístico traga alguma informação sobre isso. Cris. Acho que você. . Não acredito que tenha existido nenhum Conde de Hamburgo. O cozinheiro dele inventou o sanduíche pra ele. Um deles era só sobre a Itália e um outro só sobre a Escandinávia.

como se pudesse de alguma forma imaginar o que Cris estava pensando. a jovem passou rapidamente por Ted e Cris e se pôs a andar pelo extenso corredor. .Seis horas é tempo demais.Não se preocupem. disse ela.Também não é assim. Cris teve vontade de dizer “Só tome cuidado pra não se trancar no banheiro desta vez”. aproximando-se dele a fim de se aquecer. Katie se levantou. Katie se virou. Então. ajustou os fones de ouvido e se encolheu na poltrona. A saída do ar-condicionado ficava bem em cima deles. Contudo. Cris entrelaçou o braço no de Ted. Com isso. . Volto antes de chegarmos a Hamburgo. Vou ver se dou uma volta e conheço algumas pessoas. . Katie! Acho que o guia que eu trouxe era o melhor de todos.Sobre o que você ‘tá lendo? Antes. tirando os fones de ouvido. que Ted pudesse lhe responder. embora a língua estivesse “coçando”. porém. cobrindo-se com a blusa de moletom. . E ele já deu uma boa ajuda pra gente. fez um esforço e ficou quieta. Katie disse: . Com frio.

Não.Você acha que a Katie ‘tá legal? perguntou Ted. . agarrada ao braço de Ted e simplesmente ignorar o mau humor de Katie. suspirando.Não sei. como se tudo estivesse normal.Acho que seria melhor se eu fosse. na direção que Katie havia ido.Vou até lá ver se ‘tá tudo bem. disse Ted. . Cris continuava relutante. conversando baixinho. O Ted devia estar aqui. Ted nem sequer olhou para Cris. que ele lhe devolveu. . Imediatamente. do meu lado. . Cris soltou o braço de Ted e pegou o guia turístico. só nós dois. 13 Tão logo Katie se afastou deles. pode deixar. Cris. Eu irei. . Contra a vontade. Talvez seja melhor eu ir até lá e descobrir o que houve. Ao sair. Acho que ela ‘tá chateada. Queria ficar ali. Talvez eu consiga descobrir. na defensiva. mesmo! Desde quando Ted virou o conselheiro da turma? Isso era o papel do Douglas. . um outro pensamento lhe passou pela cabeça. A Katie parecia muito contrariada. . E se ela estiver zangada com você? .Zangada comigo? E por que ela estaria? O que foi que eu fiz? perguntou Cris. Cris pensou: Ótimo! Agora eu e o Ted poderemos ficar juntinhos. .Não sei. disse Cris. Caminhou com passos largos pelo corredor. disse Ted.Essa é boa. porem.

Em vez de pegar o diário. Ademais. e não na Áustria. Uma floresta cercava o castelo. como se fosse um carpete verdinho. Ficava num lugar bem alto. Durante a viagem no trem italiano. alguns túneis e uma estação de trem aqui e ali. Cris pegou uma caneta e começou a marcar os lugares que gostaria de visitar. Já que não podia ter os braços dele a lhe envolver. Cris ficou observando Ted até ele passar pela porta de correr. Cris esperava atenta o retorno dos amigos. que pareciam furar os céus. Cris se pôs a folhear o guia turístico. Com o olhar fixo na porta. deixando que o som do violoncelo a consolasse e lhe fizesse companhia. O que chamou sua atenção com relação à Alemanha foi a foto de um castelo azul claro com várias torres pontiagudas. com vistas para uma lagoa azul. pelo menos podia ficar com as mangas da blusa dele. a fim de proteger os braços do ar- condicionado e de se sentir perto do namorado. A principal diferença era que a velocidade com que viajavam era tão alta. Sozinha ali. acabava sendo difícil para Cris assimilar a idéia de que agora estavam na Alemanha. Chegou a pensar em ir procurá-los. No entanto não sentia vontade de escrever. em que tivera de botar a cabeça para fora. A paisagem que avistava lembrava-lhe a Áustria. mas aí se lembrou de que teria de carregar todas as malas consigo. de águas cintilantes. ela se perguntava se deveria escrever sobre seus desapontamentos no diário. pequenos vilarejos. Cris puxou a blusa de moletom da mochila de Ted e cobriu-se com ela. os fones de ouvido lhe foram bastante úteis. como havia sentido no caminho de Salzburgo para Munique. Sob a foto. e vastas colinas verdes. Enquanto esperava. por causa do forte cheiro de alho. Havia . que dava apenas para ver um vulto da paisagem. tinha sido fácil perceber que estavam na Itália. Eram colinas verdes. procurava não dar muita importância para â saída abrupta de Katie nem para o fato de Ted ter ido atrás dela para conversar. entrando no outro compartimento. liam-se as palavras “Famoso Castelo Neuschwanstein”. A fim de se distrair. Cris escolheu uma estação de música clássica. Ao mesmo tempo.

O que ela queria era que Katie voltasse. O jeito que Ted falava. “tudo”? . . A Katie vem vindo aí. Cris voltou para o seu lugar. Afinal de contas. surpreso.Como assim. isso aí você vai ter de perguntar pra ela. principiou ela. . parecia que havia um problema enorme. . disse Ted. . .Bem.Vou lá falar com ela. seja lá o que for. .Será que eu devo ir falar com ela? Onde ela ‘tá? . da mesma forma que estava com a amiga. . .‘Tá no vagão seguinte. .Como ela ‘tá? perguntou Cris. Só estava precisando de um pouco de espaço. Logo depois que o Ted saiu. desviando o olhar. entre Cris e Katie. sozinha.acabado de circular um passeio pelo Rio Reno. só pra mim. um cara muito esquisito veio e se . . Mas você pode se assentar. e Katie se assentou bruscamente na poltrona de frente para Cris.Acho que seria bom se vocês duas esclarecessem tudo. pendente. estamos viajando em grupo.Ela ‘tá com raiva de mim? . O rosto dela estava bem vermelho.Tem certeza de que você não quer ir comigo? disse ela ao passar por Ted e colocar a blusa de moletom dele sobre a poltrona.Você quer que eu vá? respondeu ele. quando Ted voltou e se assentou ao lado dela. Só que Cris não estava com vontade de ir até lá. .Tem razão. Cris começou a ficar impaciente com ele.Ah.‘Tá bem.Sim. e os três conversassem abertamente sobre o problema. Acho que seria melhor se discutíssemos essa questão juntos. Resolvi que não quero mais ficar sozinha e ter o meu espaçozinho.

mergulhava de cabeça. Cris. Só que ele continuou lá. Camisa 14.Tem razão. Ele joga no time de beisebol da Universidade Rancho Corona e coincidentemente eu fui ao último jogo da temporada. . Então.Não. quando namorara o Michael.assentou do meu lado e me perguntou se eu aceitava uma cerveja. Quando Katie entrava num projeto novo - fosse ele qual fosse. Havia sido assim no terceiro ano no colégio. . . . mas pedi a ele que não lhe contasse nada.Tenho quase certeza de que ele voltará pra Rancho Corona quando as aulas recomeçarem. Preciso contar algo a você. A questão é que estou sofrendo uma crise de ciúmes violentíssima.Você o verá novamente? perguntou Cris. inclusive relacionamentos . É só isso que sei sobre ele. porque não havia muito o que dizer. porque eu é que queria contar. Katie começou: . conversamos um pouco e nos demos muito bem. Fico morrendo de inveja de ver você e o Ted juntos. Para Cris aquilo não era nenhuma novidade.Mandei ele ir para o espaço. Eu falei para o Ted. Que hora pra se conhecer alguém. Cris se preparou para o que ia ouvir. .Eu conheci um cara na última semana de aula. resolvi voltar pra cá. Então. Depois do jogo.Tudo bem. O problema é que não consegui parar de pensar nele um minuto sequer durante as duas últimas semanas. hein? Não lhe contei nada sobre ele. Me desculpem por ter saído daquele jeito. Já não estou aguentando mais. não ‘tá tudo bem. . depois de um longo silêncio. E o que eu posso fazer pra você se sentir melhor? . Cris. mas o Ted me disse que era melhor falar abertamente sobre a questão do que ficar guardando esses sentimentos. Mas não é isso que ‘tá me incomodando. Sei que é horrível ter de falar isso pra você. disse Cris.O que você fez? perguntou Cris. O nome dele é Mark. disse Cris. .

. De verdade mesmo. Pela expressão no rosto da amiga.Veja só quem ‘tá aqui! disse ele ao vê-la. ou pelo menos era o que Cris achava. disse. respondeu o outro. Cris olhou de relance para Ted. Aliás. pegou a mochila de Cris e a entregou a ela. Pela forma como Katie falava. Cris sentiu o coração disparar. Você não ‘tá fazendo nada pra me deixar assim. com a atenção fixa em Katie. acho que vocês estão até maneirando bastante e não estão ficando juntos o tanto que gostariam. Cris deduziu que ele era o cara que lhe oferecera a cerveja na outra cabina. . Será que ele iria se levantar e dar um soco no nariz daquele cara? . Katie parecia petrificada.Não estou vendo ninguém assentado aqui. . dava a impressão de estar drogado ou bêbado. fazendo um sinal com a cabeça para que se levantasse. disse Ted. Será que é errado desejar isso? Foi então que um rapaz mais velho. pelo modo como engolia as sílabas. que vinha andando pelo corredor. Então o rapaz pegou uma das mochilas e jogou-a no chão. parou e ficou olhando para Katie. .Nada. em seguida. Pelo jeito de falar. Depois. . . disse Ted calma e tranquilamente. parecia americano.Eu realmente queria ter alguém. aos pés de Ted.Este assento não ‘tá disponível.Já estávamos de saída. Queria ter esse tipo de relacionamento que vocês têm. Parecia que estava há um mês sem tomar banho. É justamente esse o problema. fazendo-lhe o mesmo sinal com a cabeça. sem retirar as malas da poltrona. Cris se levantou e. Ele parecia calmo e tranquilo. Ted entregou a Katie a bagagem dela. Nunca havia visto ninguém desafiar Ted daquela forma. . No entanto. Cris tinha certeza de que não estava sendo nada fácil para ela conversar sobre aquilo.Você só poderá se assentar aqui se provar que pagou pelo assento. pra que eu não me sinta excluída.

Muito bem. Em seguida. Ele está indo para o vagão atrás do nosso. Pode ficar com o assento todinho pra você.Por mim. encontraram uma enorme fila de espera para pegar uma mesa. a fim de ocupar menos espaço. se vocês não se importarem. à espera de uma mesa. . porém.Não.Pode ser que tenhamos de esperar um pouco. tudo bem.Não. em Basel. . Quando chegaram ao restaurante. . No orfanato onde trabalhava. Havia muito barulho em redor. . depois de andarem oito vagões. só pra andar os oito vagões e depois voltar pra cá. se não tivessem interrompido Katie no meio de sua confissão. Cris não teria tido o menor problema em ficar juntinho de Ted na fila. logo atrás. Não estou muito a fim de olhar pra trás pra descobrir. disse Katie. Os quatro que estavam na frente deles conversavam num dialeto . E já que estamos quase chegando ao restaurante.Será que ele ‘tá nos seguindo? perguntou Katie a Cris. Não ligo de esperar aqui. disse Ted ao rapaz. Enquanto esperavam. muita gente falando ao mesmo tempo. Cris sabia que na Europa era bastante comum almoçar ali pelas duas da tarde. também era assim. Dadas as circunstâncias. prevenindo os amigos. Aliás. era mais provável que as pessoas se demorassem um pouco mais para almoçar. ninguém falou nada. dirigiu-se ao vagão restaurante. não sou muito bom pra lidar com bêbados. disse Cris. sem dizer mais nada. Ted? perguntou Katie. isto é. Cris se virou e olhou discretamente. E como era domingo.Mas. a atmosfera estava bem romântica. é melhor aproveitarmos para comer algo. . ela sabia que aquela não era uma boa hora de ficar abraçadinha com ele. Cris e Katie o seguiam. Acho que ele entendeu sua indireta. . Na verdade. Você quer voltar para os nossos lugares. Na verdade. vamos gastar cerca de meia hora. .

sim. pode ser que mais tarde se sinta chateada de novo. A excelente refeição havia feito um bem tremendo a eles. Aí. se for possível. Pediram rosbife acompanhado de batatas. uma cremosa sopa de queijo com brócolis e pãezinhos. uma chaleira de cerâmica branca e uma xícara do mesmo material. . principiou Cris. Os três saboreavam a sobremesa sem pressa. . mas não é ruim. É só tirar os olhos do Senhor que perco a capacidade de avaliar os fatos com clareza. falando alto e rindo mais alto ainda. . Katie comentou que o café era bem escuro e forte e depois perguntou ao Ted o que ele estava achando do cappuccino.Katie. Sei que Deus diz que não devemos invejar o que é dos outros. antes mesmo de voltar pra casa. isso ‘tá incomodando você e. E o cozinheiro-chefe do restaurante do trem não os decepcionou. quando formos colegas de quarto na Rancho Corona. Às vezes eu faço uma tempestade num copo d’água por causa de uma bobagem. Afinal. eles . .É uma bobagem. quando tivermos de ficar acordadas à noite pra estudar. Podemos pôr o assunto de lado. Por mais que eu tente ignorá-los. nabo. Quer terminar aquela conversa? . Quando finalmente conseguiram uma mesa. Eu disse que estava com ciúmes de vocês e estou mesmo. os três estavam famintos e doidos para fazer uma refeição completa. Portanto gostaria de resolver o assunto agora mesmo. Mas sei que isso é errado.Katie. se ficar guardando pra si. Não tem importância. . a fim de se aquecer do frio do ar-condicionado. como os outros europeus que se achavam ali. Eu sei que é. podemos comprar duas chaleiras desta. cenouras. segurando a xícara de chá com as duas mãos.Não é tão bom quanto o da Itália. mas o caso é que não sei como lidar com meus sentimentos. podemos fazer uma “festinha do chá” pra nós duas.Não sei. Katie sorriu. O garçom lhe trouxe.alemão. então. Para a sobremesa. Cris pediu chá quente e torta de maçã.Mas eu acho que tem importância.

. replicou Katie.E ele sempre nos perdoa.Isso acontece com todo mundo. já pela metade. Diz assim: “Acaso. .Bem. o que exatamente a leva a ter ciúmes? Katie pensou por alguns minutos e depois respondeu: . Assim. Uma prática que ajuda muito é identificar o que faz essas fraquezas aflorarem e reconhecer “sinais de alerta” antes que você seja pega de surpresa.Ore. .Verdade.continuam me incomodando. disse Katie. .Mas nem por isso é certo. Decorei alguns versículos que têm a ver com isso.Então acho bom você me passar rapidinho esses versículos. concordou Cris.Um deles é até bem curto. repito esses versos. O lance da comparação. sempre que me abro com o Senhor. dirá o barro ao que . sugeriu Ted imediatamente. .Como assim? .Eu vejo um amigo com algo que eu gostaria de ter e. Então. me sinto bem melhor depois. disse Ted. fico com ciúmes. . . e meu coração volta para o caminho certo. é quase como se eu conseguisse parar o pecado no ar. independentemente do número de vezes que lhe pedimos perdão.Orar. começo a me comparar com ele. Não sei por que não faço isso. sempre que começo a me comparar a alguém.9. aí. Acho que fico cansada de confessar sempre a mesma coisa toda vez. Katie deu um suspiro e fitou a xícara de café. . por exemplo. Fica em Isaias 45.Uma coisa que me ajuda muito é reconhecer esses sentimentos logo no início. porque eu tenho uma dificuldade enorme nessa área. . Aí. disse Ted. Mas devo reconhecer que. É isso mesmo que devo fazer. . disse Cris. antes que ele me pegue.

Ted. e não eu. Ele é quem trabalha o barro e nos molda. e todos nós. O que eles dizem? . como trapo da imundícia. nos arrebatam. como um vento. .Deixe-me ver se peguei a mesma idéia que você. principiou Katie. entrando na conversa. O que ele planejou pra mim é diferente dos planos que traçou pra você. disse Cris.Acho bom você anotar esses versículos pra mim. obra das tuas mãos. Versos 6 e 8. Toda vez que penso ter resolvido o problema. concordando.Isso mesmo.Quando percebo que Deus é quem ‘tá no controle de tudo. o escultor. Cada pessoa é uma obra de arte única.E Deus é o artífice.lhe dá forma: Que fazes?” Os outros ficam no capítulo 64 de Isaías. Não devemos virar pra ele e dizer “Por que o Senhor me fez deste jeito?” ou “Por que o Senhor não me muda e me faz como a fulana?” Ted acenou.E essa estratégia funciona mesmo pra você? perguntou Katie. . .” . quando alguém passa por dificuldades. se é que você ‘tá me entendendo. Se o Senhor resolver abençoar o sicrano mais do que a mim. Ted acenou com a cabeça mais uma vez. e tú.“Mas todos nós somos como o imundo. Toda vez que você começa a se comparar a alguém. quando os li pela primeira vez. Mas agora. Esses aí “me puseram no lugar”. ó Senhor. . nós viramos pra Deus e dizemos que ele não ‘tá sendo justo conosco? que não ‘tá nos dando o mesmo tanto de lutas? . como o barro. . singular. e as nossas iniquidades. . porque tenho muita dificuldade nessa área. nós somos o barro. tú és nosso Pai. o nosso oleiro. você se lembra desses versos e de que todos nós somos iguais perante o Senhor. ele acaba voltando com mais força. é difícil sentir ciúmes dos outros. quem sou eu pra lhe dizer que ele ‘tá sendo injusto? Será que. e todas as nossas justiças. todos nós murchamos como a folha.Acho que sei do que você ‘tá falando.

Katie. Quero dizer. queria que me esclarecesse uma coisa.Soube que ela era o presente de Deus pra minha vida e que eu nunca pensaria em namorar outra garota. Tinha um monte de perguntas para lhe fazer. Cris aproveitou para se assentar ao lado da amiga. começou a duvidar de que ele . O único rapaz que me fez sentir assim antes foi o Michael. disse Cris. .Qual é a graça? perguntou Cris. sorvendo o último gole de café. como se tentasse segurar para não rir. Ted olhou para Katie. Ele nunca havia falado nada assim para ela. eu soube. . Por um momento. . . Não estou entendendo por que esse carinha lá da Rancho Corona fez você ficar com vontade de ter um namorado. pouco depois. por que ele? O Marcos e o Antônio não lhe fizeram se sentir assim também? . .Soube o quê? perguntou Katie. . virando-se para Ted. Ia dar um jeito e resolver a questão sozinha.Obrigada por ter sido tão sincera conosco. . quando vi a Cris. Entretanto. O “guardião” de Katie não estava lá quando voltaram. desviando o olhar para a namorada. Cris. em vez de ficar com Ted. começou Cris. Mas o Ted estava certo ao dizer que é melhor nos abrirmos. Fico feliz de você ter nos contado como estava se sentindo. em tom grave e emocionado. disse ele. Vocês já acabaram de comer? Poderíamos voltar para os nossos assentos e ver se meu guardião maltrapilho ainda ‘tá lá me esperando. disse Katie. Quando conheci o Mark.disse Katie.Já que é assim. a fim de incluí-lo na conversa. eu o achei um cara incrível. Cris se sentiu arrebatada pelas palavras românticas de Ted. Não dá pra explicar.Eu não ia falar nada.Tudo que posso afirmar é que. replicou ele. Vocês acham que amor à primeira vista é papo furado? Ted passou a mão no queixo.Não.

Minha “Pequena Sereia”. nesse caso. antes que Ted tivesse mais uma oportunidade de fazer gozação com a cara dela. . . . A primeira vez que você me viu eu tinha acabado de ser derrubada por uma onda gigantesca. indo parar na praia coberta de algas marinhas. O presente de Deus pra mim. disse Ted. Cris havia acabado de abrir na seção sobre a Dinamarca quando Katie chegou perto dela e lhe disse baixinho: .Por quê? . sorrindo para Cris. então. disse Katie.Tudo bem. . eu e o Ted descobrimos que em Copenhague há uma estátua da Pequena Sereia. batendo na perna dele.Obrigada.estivesse falando sério.Ah! Por falar nisso.Você ‘tá a fim. Ted abriu o tabuleiro de xadrez e organizou as peças. muito obrigada por dividir o seu comigo. olhando para Katie. . É que eu quero muito continuar lendo o guia turístico. Cris. Katie? perguntou Cris.Bem. Estava doida para mudar o assunto. eu é que não quero impedir você de ler seu livrinho querido. brincando. Poderia era estar fazendo uma tremenda brincadeira com a sua cara! .Bem. se ainda não ‘tá na hora de o Grande Artista lá de cima pintar um namorado pra mim. . . Temos de ir vê-la! disse Cris. . vindo diretamente do mar.Você não soube coisíssima nenhuma! exclamou ela. disse Katie.Alguém quer jogar xadrez? perguntou Ted.

pareciam ter se divertido a valer. 14 Eram 10:00h da manhã de segunda-feira quando o trem chegou à estação de Oslo. a idéia de “dividir” Ted com Katie já não soava mais como um acordo interessante. disse Ted.Vamos primeiro achar um lugar pra ficar e depois saímos pra desbravar a cidade. ao saírem da estação. conduzindo-as para a saída. aos risos. Eram mais ou menos 6:00h da manhã quando acordou. os três pegaram um trem noturno e viajaram a bordo de um vagão equipado com camas. Olhou em redor e viu que estava sozinha. Já era dia claro. . Os três estavam viajando havia mais de vinte e quatro horas e. O pior é que agora era Cris quem estava ficando com a cabeça cheia de idéias estranhas. enquanto Cris dormia.Por aqui. Durante a viagem. para Cris.O que disse? perguntou Katie. Ao chegarem em Hamburgo. . contando do quanto tinham se divertido. Katie não havia “dividido” Ted com Cris. O que acham? . Como é que saímos daqui? . Cerca de uma hora depois. Já podia sentir um forte sentimento de ciúme rondando seu coração. Ted e Katie chegaram. Na verdade. Ted havia ajudado Katie a decorar os versículos de Isaías. . Cris procurara dar uma esticada em um dos beliches e descansar um pouco.Saia já daqui! murmurou Cris para si mesma. e pelo que se via. feito entre amigas. tomando café e conversando a noite toda. Ela havia literalmente se apossado dele.

por mim tudo bem. Era um prédio quadrado. mas. . sim. Cris puxou Katie pelos pés. que levava até os quartos do terceiro andar. derramavam-se da jardineira sob a janela.Vocês podem ir e visitar todos os museus que quiserem. Cris estava surpresa com a calma que sentia. se quiserem ficar em outro lugar. disse Cris. Katie? Estamos em Oslo! Finalmente chegamos aqui! Os museus e os fiordes nos esperam! . renovando suas forças. a primeira coisa que fez foi levantar o pino central das janelas e abrir as venezianas. em tom de vermelho vivo. Vou ficar aqui. Ambas as partes da janela abriam para fora. Este aqui parece ser o melhor deles.Marquei alguns lugares. ou pensjonater. como aquela de Salzburgo. Cris gostou muito da escada em caracol. de três andares. . que embelezava a fachada do prédio.Você escolheu algum lugar. jogando- se sobre a cama macia. Várias flores. Ao chegar ao quarto. Cris respirou profundamente. . Cris conduziu o trio até o hotel. Pra que lado vamos? perguntou Katie. foi você que ficou analisando o guia turístico. desse certo mesmo. vocês me contam. havia um belíssimo vitral. Talvez a estratégia de Ted. como dizia o guia turístico. de “parar o pecado no ar”. Quando chegarem.É uma espécie de pousada. possibilitando que a luz do sol entrasse no aposento. Olhando no mapa.Nunca se deve subestimar o poder revigorante de um boa cama! disse Katie. . Sentia-se pronta para sair e ver as atrações turísticas da cidade. . deixando que o ar fresco enchesse seus pulmões. Afinal. Cris? perguntou Katie. então. Diz o guia que ela fica perto da estação. né. . . pegando o livro. Logo acima da entrada principal.Você não ‘tá pensando em dormir agora.Parece perfeito.

No canto havia uma mesinha branca. Afinal.Estava coçando demais. No caminho. Havia ainda um vaso de vidro azul com várias flores do campo. . Ted não atendeu. em tons de branco. pensava. com várias florzinhas azuis e vermelhas pintadas na beirada. Cris tirou as roupas sujas do mochilão e resolveu ir até o banheiro coletivo.Você fez a barba! comentou Cris.Troquei de lema. Sabia que em questão de minutos Katie mergulharia no mundo dos sonhos. Os móveis eram de madeira pintada. O quarto era maravilhoso.Espero que vocês não tenham ficado esperando muito tempo.Ficou muito bom. .Estamos na Noruega. a fim de lavá-las na pia. azul e amarelo. as roupas secariam rapidamente. Trajava uma camiseta e um short que. Com o sol e o vento batendo na janela. Poderiam deixar Katie dormindo na pousada e ir só os dois. com florzinhas azuis e vermelhas. A cadeira que fazia conjunto com ela tinha um encosto alto. . . no final do corredor. Resolveu desfazer as malas e ficar um pouco mais à vontade. Katie! Seus antepassados viveram aqui! Será que você não ‘tá nem um pouquinho animada a sair pra desbravar a cidade? Que foi que houve com seu lema de que estamos numa aventura? . embora amarrotados. Agora é “Dormir faz bem pra mim”. Havia acabado de tomar um banho e fazer a barba. resolveu bater na porta do quarto de Ted. estavam limpos. Os pés das camas também eram brancos. Cris desistiu de insistir com a amiga. estava toda disposta a sair por algumas horas e desbravar Oslo. e seu assento era de palha entrelaçada. . Foi então que a porta do banheiro se abriu e ele apareceu. Será que ele também havia pregado na cama como Katie e aderido ao novo lema dela? Cris torcia para que ele estivesse acordado. Mas é que o banho me .

quinze minutos? Vou ver se lavo também algumas roupas no banheiro do segundo andar. enquanto . Acho que ela vai dormir pelo menos umas duas horas. ao sol. Você ia lavar essas roupas? . Cris chegou bem perto dele. . olhando para a trouxinha que Cris carregava. Quer sair comigo pra dar uma passeada? Podemos voltar depois pra pegar a Katie. Exatamente doze minutos depois já havia tomado banho. o encanto do momento se dissiparia. sorrindo por ver que Katie dormia de sapatos. Passando o braço em torno da cintura de Ted. Estou deixando um bilhete. Ao saírem e fecharem a porta do quarto com cuidado. . se depilado. Ted colocou o braço em torno dos ombros de Cris. Contanto que um lanchinho esteja incluído nesse passeio.Boa idéia. que pegou metade no cabelo dela. Que tal sairmos daqui a uns dez. Cris resolveu aproveitar para tomar um banho e lavar o cabelo. se pedisse explicações. Ele estava feliz. Já estava terminando de escrever um bilhete para Katie. Feliz por estar com ela. lavado o cabelo. Deu-lhe um beijo carinhoso na testa. puxando-a para perto de si. feliz por estar vivo.pareceu tão irresistível que não consegui deixar pra depois.Pra Katie foi a cama que pareceu irresistível. Achei que secariam rapidamente.Acho que não. quando olhou para os olhos azuis dele. quando Ted apareceu na porta. Em vez de lavar apenas as roupas. . metade em sua pele.Será que não vai ter problema se a deixarmos aqui? sussurrou ele. disse Ted. . Cris ficou surpresa com o gesto de Ted e já ia lhe perguntar a razão daquilo. Foi aí que percebeu o motivo do beijo.Certamente. com a brisa que entra pela janela do quarto. feliz por estar na Noruega. trocado de roupa e lavado as roupas que separara.É. Cris concluiu que se tratava de um beijo de comemoração e que. pendurando-as num cabide dobradiço. .

que se sentia até um pouco desconfortável ao caminhar de mãos dadas com Ted até o ponto de ônibus. lado a lado. Era uma mulher bem alegre. em prisão . Lá embaixo. em que o cliente podia se servir quantas vezes quisesse. que Ted tanto queria visitar. Cris ficou muito contente ao ver que o restaurante oferecia mesas na área externa.Sabe de algum lugar bom pra gente comer? perguntou Ted a ela. Cris tirou o guia turístico da bolsa e notou o quanto a capa estava ficando gasta. a dona da pousada encontrou-se com eles e os cumprimentou. tudo o que queria era respirar o ar puro e aproveitar o sol daquele dia tão fresco e agradável. principiou Ted. ao que o mapa indicava. O koldtbord era na verdade um farto self-service. Afinal. mais tarde foi saber. sorrindo. segundo ela. o Museu Kon-Tiki fazia parte dele. e Cris soltou um risinho. servia o melhor koldtbord da região. Ted serviu-se duas vezes e comeu mais salmão do que Cris aguentaria comer em toda a vida! Ela. Segundo o garçom. preferiu experimentar o ensopado que. Em dado momento.desciam. No entanto depois acabou gostando da comida. mas ontem eu e a Katie procuramos um monte de coisas na Bíblia. Ela lhes ensinou como chegar a um restaurante ali perto. sendo que o primeiro da lista era o museu Norske Folke Museet. para Cris. valeu a pena. era à base de repolho e carne de cordeiro. a estreita escada em caracol.Esqueci de lhe contar. trombaram no corrimão por causa da curva. o ônibus que pegariam os levaria até o Museu Kon-Tiki. E descobri que Paulo não estava na prisão de Mamertina quando escreveu a carta aos Filipenses. enquanto estávamos conversando. . no entanto. Ted lhe mostrou dois lugares que lhe interessavam. Havia comido tanto. que. ela nunca teria experimentado o prato. . Sentaram de mãos dadas no coletivo e ficaram planejando aonde ir depois da visita ao museu. Ele estava em Roma. O almoço não saiu barato. porque. mas. Se o garçom tivesse dito antes.

li a segunda carta a Timóteo inteira e procurei imaginar Paulo dentro daquela cela escura e sombria. .É. . Em seguida ele narra que foi livrado da boca do leão. Quero dizer. preso. escrevendo palavras do tipo: “Porque Deus não nos tem dado espírito de covardia. Porque a verdade é que. . replicou Cris. no final do último capítulo. E lá estava ele.Então ele não escreveu nada enquanto esteve preso naquele calabouço? . Quero ser tão seguro e confiante como Paulo. .O Marcos não nos disse que esse tal Nero era o imperador que queimava vários cristãos vivos para iluminar as festinhas que ele oferecia em seus jardins? Ted acenou positivamente. Cris sentiu vontade de chorar. disse Ted. olhando profundamente nos olhos dela. Paulo chegou a afirmar: “Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de forças”.Eu tive a mesma sensação. Foi como se eu pudesse enxergar aquela arena cheia de gente em redor.Toda essa questão de ser perseguido por causa da fé me impactou muito quando estávamos no Coliseu. . Ontem à noite.Sabe qual é o meu desejo? principiou ele. mas de poder. . E quando estivermos na . todos morreremos. tão próximo do Coliseu. .E. disse Cris.Que coisa incrível. Nero era o imperador na época.domiciliar. onde vários cristãos haviam sido devorados por leões. . continuou Ted. Ao que tudo indica ele tinha permissão pra sair de casa e receber visitas. de amor e de moderação”. disse Cris. . Ted abriu um sorriso singelo. A segunda carta a Timóteo foi escrita lá. concordou Ted.E orei pedindo ao Senhor que eu ficasse firme em meu compromisso com ele. de forma que esteja disposto a morrer por Cristo. caso algum dia tivesse de passar por aquilo.Escreveu sim. suportar todas essas torturas e depois morrer por causa daquilo em que você acredita. assistindo aos leões atacarem os cristãos. um dia. independentemente das circunstâncias.

em seguida. Algumas delas tinham telhados cobertos de grama. O céu parecia estender-se sobre eles como uma cúpula fechada. num outro mundo. O ônibus parou no ponto em que tinham de descer. pisando em chão firme.Sabe de uma coisa. edificava . que haviam sido reconstruídos e. enquanto seguia Ted até a rua. ao longo dos tempos. Um fato que a intrigava era o modo como o homem. . formavam uma vila. com chifres bem pontiagudos. sussurrou Cris. deixando de fora todos os segredos daquela outra dimensão. O museu compreendia mais de uma centena de antigos prédios noruegueses. . juntos. a fim de parecerem um pouco mais agressivos. Não falaram muito. o que realmente importará é se permanecemos fieis ao Senhor durante o curto tempo que vivemos aqui na Terra. Tinha a sensação de que estivera conversando com Ted numa outra dimensão. No entanto lá estavam eles. onde eu levo você. piscando rapidamente para dissipar as lágrimas.Diferença mínima pra Basílica de São Pedro em Roma. construída havia quase oitocentos anos. sentindo uma lágrima escorrer-lhe pelo rosto. Uma delas era particularmente pequenina. que ficava bem além das estrelas. que tinham de usar capacetes enormes.eternidade. não acha? comentou ela com Ted. Era simples e fora restaurada. Ao vê-la. em meu coração.Tem razão. Bem aqui. sob um bosque de altas árvores. Cris se recompôs. e pinturas já desgastadas em torno da lareira e das portas. Uma trilha ligava as casas entre si. pressionou-o contra o peito. Cris gostou muito da igreja. Ted e Cris circularam pelo Museu Folclórico da Noruega. Ted enxugou a lágrima de Cris com o dedo e. De mãos dadas. Kilikina? É aqui que guardo todas as suas lágrimas. Ted brincou dizendo que os viquingues eram uma raça de estatura tão baixa. .

. durante cento e um dias. . a prancha alaranjada de Ted. imagina cento e um dias! Aliás. contudo. Contudo havia algo ainda mais impressionante para Cris: como uma construção tão frágil como aquela podia resistir por mais de oitocentos anos. Naranja. Por alguma razão. . disse ele. analisando a embarcação de todos os ângulos. No entanto ficou bastante empolgado quando chegaram ao Museu Kon-Tiki.Dá pra acreditar que seis homens viajaram juntos pelo Pacífico. Mal dá pra seis pessoas se assentarem aqui. . Foram ver também a Ra II. mas sabia que ficaria louca se tivesse de viajar com ele e Katie pelo mar.Devem ter enlouquecido uns aos outros.O que aconteceu com a Naranja? perguntou Cris. numa jangada como aquela. poder passar alguns instantes a sós com Ted estava sendo um verdadeiro refrigério para ela. que foi a segunda embarcação construída por Thor Heyerdahl.locais especiais para prestar culto ao Senhor e se relacionar com ele. Tratava-se de um desejo inato. ele e Cris observavam a pequenina jangada. Esta havia sido feita com pau de papiro no Egito com o objetivo de testar a hipótese de que aquele tipo de embarcação poderia ter chegado à América antes de Colombo. que era passado de geração a geração. você não acha? . Simplesmente não dava para imaginar que ele se desfaria dela.Estou pensando em comprar uma nova prancha de surfe. . concordou Cris. nesta jangada? disse Ted. já estava com ele havia bastante tempo. feita de toras de madeira firmemente amarradas com cordas. imagine dormir! E ainda mais com os mantimentos! Deve ter sido uma aventura e tanto! Cris não queria admitir para Ted. É incrível.É sim. Ted não pareceu muito comovido com a antiga igreja. Lado a lado. Se já estava sendo um desafio passar três semanas grudada nos dois. desde antes de ele conhecer Cris. a Ra II não impressionou Ted tanto quanto a Kon-Tiki.

a não ser que tivesse pelo menos um agasalho para levar consigo. É que os raios solares chegavam até eles de um ângulo que Cris nunca havia visto. . ao pegarem o ônibus de volta para a pousada. Foi isso que Cris procurou explicar a Ted. que um amigo meu lá de San Clemente fez. . . mais Ted balançava a cabeça. na terra do sol da meia-noite. Os dois caminharam de volta ao ponto de ônibus.Isso ‘tá parecendo com os confins da Terra. que Cris dava falta de seu casaco. . . .Poderíamos pegar um trem amanhã às 8:00h e cruzar a linha do Círculo Polar Ártico às 4:00h da tarde do mesmo dia. e maior se tornava o sorriso no rosto dele. a luz era diferente. . mesmo sendo duas horas da tarde.Ah. limpo e completamente diferente de qualquer outro local que já havia conhecido. E quanto mais tentava descrever suas impressões. disse Ted. Na verdade ele nada mais é do que uma linha imaginária que marca o fim do Oceano Atlântico e o início do Mar Glacial Ártico.Já parou pra pensar no quanto estamos perto do Círculo Polar Ártico? perguntou ele. concordando com ela.Mas será que não estará tudo congelado por lá? Era a primeira vez. para ela. sob o céu claro e sem nuvens.Vou continuar com ela. Várias cidades norueguesas se acham acima dessa linha. Entretanto. E visitar o Círculo Polar Ártico não seria nada interessante. desde o acampamento. é? A que distância estamos? . A impressão que tinha era de que a Noruega era um lugar fresco. A tarde parecia ficar cada vez mais encantadora. Se eu comprá-la.O Círculo Polar Ártico não é o Pólo Norte. Cris sabia que naquela época do ano. Mas estou estudando a possibilidade de comprar uma prancha muito boa. vou chamá-la de Kon-Tiki. era normal que a claridade durasse mais de dezoito horas. Cris sorriu.

.E então. Kilikina? Você gostaria de ir até os confins da Terra comigo? .É. De repente os olhos de Ted brilharam. .

Por que. Havia um problema: Katie. . mas pra mim não tem a menor graça ficar esse tempo todo dentro de um trem. Eram 8:00h da noite. 15 Por mais emocionante e tentador que o convite de Ted fosse para Cris. Katie não dava mostras de que iria ceder. . disse Katie. Cris sabia o que devia fazer. então.Tem certeza? perguntou. E se você resolver voltar de avião. Você deveria visitar o Círculo Polar Ártico então. então nós dois não poderemos ir. ao que se via. lembrando-se da ordem de seus pais de não viajar sozinha com Ted. como havíamos pensado antes. continuou ela. eles não poderiam ir até os confins da Terra. Eu e a Katie podemos pegar o trem e encontrá-lo lá. Havia mais de uma hora que estavam discutindo suas opções e. Ted examinou a expressão no rosto de Cris. Estavam jantando num restaurante no centro de Oslo. . você pode ir para Copenhague. só pra ver um marco no chão e um monte de renas. Ted? Você quis tanto ir a Pompéia e acabamos não indo lá. então. você não vai sozinho. mas detestava ter de dizer aquilo. disse Cris.Sinto muito. . mas ainda estava claro e quente. .Bem. se você não for. . . Eu e a Katie podemos fazer um passeio de barco pelos fiordes amanhã. em vez de voltar pra cá. de repente.Simplesmente não estou a fim de ir até os confins da terra com vocês. Katie olhou para Ted e depois para Cris. como se fossem três da tarde.Não sei explicar o porquê.

Segundo Katie. Cris e Katie foram levar Ted até a estação. . Cris até que gostava da idéia de viajar para os confins da Terra com Ted. . . disse Katie. ela preferia muito mais visitar Copenhague a ver uma plaquinha no chão e um bando de renas. Ted então a puxou para junto de si. Ted parecia estar bem mais animado com a viagem que faria sozinho. . Como o tempo era curto. . Divirta-se! . No entanto ainda estava chateada por não ter um casaco para levar. disse Cris. ou se ele estava apenas agindo de forma tranquila e despreocupada. Desde quando o Ted.Isso mesmo.E diga ao Papai Noel que nós mandamos um oi pra ele! disse Katie.Tenho certeza. Além disso. Pouco antes de entrar no trem. Você disse que havia lugares no vôo de Narvik para Copenhague. respondeu ela afinal. Dormimos aqui amanhã e.Ah. Na manhã seguinte. Acho que desse jeito vai dar tudo certo. como sempre fazia. saltou para dentro do trem e acenou para ela. agora sim estou me sentindo a própria chata. como se fosse um soldado indo para uma guerra. Cris não sabia se toda aquela calma era porque Ted estava chateado com o fato de ela não o acompanhar. no outro dia. ele estava indo para o Ártico “fazer amizade com os ursos polares”. onde nos encontraremos com o Ted. envolveu-a em seus braços e beijou-a firmemente. a viagem parecia um pouco sem graça mesmo.Não fique assim. O maquinista gritou qualquer coisa em norueguês. que Cris deduziu ser um chamado para que os passageiros embarcassem. que era todo certinho e comedido. Perfeito! disse Ted. não foi isso? . pegamos o trem pra Copenhague.Que bom que estou aqui pra fazer companhia a vocês! disse Katie. Em seguida. confirmou mais uma vez os detalhes de onde e quando se encontrariam em Copenhague. Na verdade. sim. começou a lhe dar beijos tão carregados de paixão? . disse Cris.Estaremos lá.

Foi sim. . ora. e Ted estava prestes a saltar de uma ponte altíssima. . Em todos estes anos que conheço vocês. . Ou você vai me dizer que ele sempre a beija assim e eu é que nunca vejo? . Se eu fosse você.Até que não. disse Katie.Você quer se assentar pra comer aqui ou prefere levar pra comer no caminho e ir de uma vez para o porto? Acho que o próximo barco turístico para os fiordes sai daqui a uma hora. Katie. Na verdade. de uma outra ocasião em que Ted lhe beijara assim. . . então. . Você deveria ter visto do ângulo que eu vi. Cris e Katie compraram várias delas e resolveram pegar um táxi até o porto. .Não. mudando de assunto. Mas Ted sobrevivera e. Cris! brincou Katie. agora. Cris tinha certeza de que ele voltaria daquele novo “salto” também. Não quero perder o barco. Nem foi um beijo tão ardente assim. Ainda sentia os lábios latejarem em consequência do beijo de Ted.Você vai encostar comida nos lábios? Eles ainda estão fumegando. Lembrou-se.Deve ser complicado.Que tal se encontrássemos uma pequena Konditorei e comêssemos algo? perguntou Cris. ele não me beija sempre assim. Estavam em Maui. acho que esta foi a mais intensa demonstração de paixão do Ted por você. Ela havia ficado apreensiva. Complicado seria se tivéssemos mais “liberdades” um com o outro.Vamos pedir pra embrulhar.Ora. As quitandas pareciam deliciosas. Cris sorriu. ele não me beija muito. Acho que o certo é isso mesmo. As duas entraram numa cafeteria e Cris foi logo tentando mudar de assunto. com medo de que ele não subisse à superfície. Katie achou engraçado que o táxi que pegaram fosse uma Mercedes. não os usaria por uma semana! . ao saírem da estação. .

E também o beijo que lhe dera no barco. então. . embora se lembrasse de que o beijo de Ted na estação de Basel praticamente a deixara sem ar. não havia sido leve. Katie voltou a falar sobre Ted. que o que presenciei na estação foi um “beijo leve”? Acho que de leve ele não tinha nada. você. . ou então. . quanto mais intimidade se tem.Diferença mínima entre os táxis daqui e os de Roma.E vai me dizer. Não foi nada fácil pra mim e o Michael. quando iam para Capri. Isso nunca foi um problema pra nós. . mas.Normalmente ele não me beija daquele jeito. qual é o limite de vocês? Até onde vocês se permitem ir? Cris pensou por alguns momentos e depois respondeu: .Então. Estavam no convés do barco. . Deve ser muito difícil.Vocês já conversaram sobre isso? perguntou Katie. a gente quer criar intimidade com a pessoa.Com certeza uma coisa que deve ter contribuído foi o fato de vocês terem ficado separados pelo menos metade do tempo do namoro de vocês. exatamente. . acho.Quando anoitecer. Em seguida fechou os olhos e se virou. querida! . Era sempre assim: ou o Ted estava viajando. mais se quer ter. vou estar cheia de sardas.O que quero saber é como foi que você e o Ted conseguiram se preservar assim tão puros e comportados durante todos esses anos.Não. disse Cris rapidamente. a fim de aproveitar ao máximo o calor do sol. . Quer dizer.Beijos leves. . entende? Cris acenou com a cabeça. Mas este sol não ‘tá bom demais? . hein? Depois de mais ou menos duas horas a bordo do barco.Ahn? . Katie recostou-se em seu assento.Como é que vocês conseguem manter os beijos no patamar do mínimo? . Sabia exatamente o que Katie estava dizendo.

sozinha com seus pensamentos. por cima de suas cabeças. o país que Katie tanto falara em visitar. no entanto. a jovem estava prestes a tirar um cochilo. Katie? Estamos entrando em mais um fiorde. a faziam se sentir reconfortada. que era o que ela mais queria ver e. Elas estavam finalmente na Noruega. não teve de pensar sobre o assunto. Para Cris. aqueles momentos de silêncio. . já que o rapaz havia feito um voto de que seu primeiro beijo seria no dia do casamento.Veja. Cris aproveitou o sossego e a calmaria para refletir sobre o que Katie lhe dissera pouco antes. numa excursão para conhecer os fiordes. E mesmo quando os expressava. aquilo tudo era muito engraçado. era sempre muito comedido. ao deslizar pela água cristalina. E ele havia conseguido. uma vez que terminaram o namoro antes mesmo que a questão física se tornasse um problema. No fundo. foram preciosíssimos. é tudo a mesma cor. Quando ela namorou Rick. no entanto. aquilo nunca fora uma dificuldade. Elevadas rochas pontiagudas emergiam da água. Katie abriu um olho apenas e deu uma olhada rápida. Não parecia tão impressionada com a magnífica vista. Cris olhou para a passagem por onde o barco estava prestes a entrar. Com Douglas. Cada beijo . por causa da forte pureza dos dois. um sentimento de comemoração todo especial encheu a igreja.‘Tá sim. Quando se casou com Trícia. Fico feliz que o Ted tenha me beijado algumas vezes ao longo desses anos. com o rosto cheio de calos. Os suaves movimentos que o barco fazia. como se fossem um enorme bicho- papão de pedra. Será que deveria estabelecer certos princípios e regras para si? Nunca tivera de pensar sobre aquilo. . Aquecendo-se sob o calor do sol. .É muito bonito. Para ela. já que ao longo dos anos Ted sempre fora um tanto devagar em expressar seus sentimentos por ela. Igualzinho aos últimos vinte e quatro fiordes em que entramos.

Acho que esse é um dos aspectos que faz do casamento uma união santa. Engraçado. todos os sentimentos que ela sonhava expressar algum dia a alguém se achavam envolvidos em inocência. Acho que Deus honra a nossa pureza de uma maneira especial. O dia . poderia ser difícil “segurar-se” depois. E estou guardando milhares de beijos meus. o fez por meio de uma mulher pura. mas. e era assim que ela desejava que permanecessem. E quero guardar tudo isso até o dia em que nos casarmos. a fim de me preservar pura para ele. passando em frente a várias lojas.teve um significado diferente. Já eram 9:30h da noite quando o último pensamento em relação à questão lhe ocorreu. até o dia do seu casamento. pela primeira vez na vida. Ela e Katie estavam andando pelas ruas de Oslo. tão logo lhe ocorriam. que estou carta de que vou precisar de uma vida inteira para expressar fisicamente todo o amor que tenho pelo meu marido. que darei a ele. Não sentia nenhum remorso pelos beijos que lhe dera. tampouco pelas lágrimas que derramara por causa dele. Assim como ele guarda as minhas lágrimas no coração. Afinal. Ademais. começo a perceber que talvez tenha de planejar as coisas. É como se eu tivesse de me resguardar dele. se nos casarmos. Parte do que escreveu foi: Tenho tantos sentimentos guardados em minha alma. Mas ainda não tenho certeza disso. Cris pensou por alguns instantes na possibilidade de não se casar com Ted. em vez de ficar achando que tudo vai sair automaticamente do jeito certo. Quando ele enviou seu Filho ao mundo. Cris puxou o diário da bolsa e colocou os pensamentos no papel. imagino que vou me casar com o Ted. Quero que meu casamento seja puro e santo diante do Senhor. eu guardo os beijos dele. Entretanto sabia que não devia lhe dar muito mais do que já estava dando. A essas alturas.

Aquilo fazia muito sentido.Não acredito que esperamos até agora pra comer. prefiro esperar um pouco mais e comer uma refeição de verdade.Quer parar ali e comer um pretzel* ou qualquer coisa que aquele cara estiver vendendo? perguntou Cris a Katie. Enquanto se serviam no self-service.Não. Era algo natural e maravilhoso. E só terei isso depois do casamento. Queria poder se lembrar delas depois. Engraçado é que não parece que ‘tá tarde. .) .ainda estava claro. plenamente. indicando que mal havia começado a anoitecer. para anotá-las no diário. uma dádiva de Deus. da T. disse Katie. respondeu Cris. de verdade? É exatamente isso que quero. Cris continuou formulando seu plano de pureza. Não estou a fim de gastar toda a minha fome num simples lanchinho. caminhando ou conversando. Cris sentia a cabeça rodar com as palavras de Katie. e o céu se achava apenas levemente manchado de alaranjado. Tanto ela quanto Ted desejavam expressar fisicamente o que sentiam um pelo o outro. . Não estou a fim de jogar fora o meu desejo por intimidade física em “lanches” que nunca irão me satisfazer por completo. Mesmo assim. ___________________ * Rosquinha salgada ou doce em forma de laço. querer expressar-se assim à pessoa amada. como se fosse pleno meio-dia. completa. ao ver um vendedor ambulante do outro lado da rua. Quero esperar até o dia em que poderei expressar-me de verdade. Falta muito pra chegarmos ao restaurante de que você e o Ted gostaram tanto? . Já que estou esperando há tanto tempo. (N.Só mais um quarteirão. estou faminta! . O que foi mesmo que a Katie acabou de dizer? Que ela não queria gastar a fome dela num lanchinho? Que queria esperar até poder comer uma refeição completa. Dezenas de pessoas estavam nas ruas. assentadas nas mesas externas das cafeterias.

conversando sobre Ted e se indagando se ele estaria se divertindo nos confins da Terra. como sua amiga Selena havia ganhado dos pais. Cris sorriu ao concluir o plano. disse Cris. (N. . O trem era moderno.Estou achando que você vai jogá-lo pela janela ou qualquer coisa parecida. vou entregar o meu cofrinho ao meu marido. Vai ser como ajuntar moedinhas num cofrinho. quando o fizer. Um dia. E tenho certeza de que. teria de fazê-lo por conta própria.Sei não. dentro do meu coração. pedindo- lhe o guia turístico emprestado. seja ele quem for. . nem lhe dado um anel de pureza. Se Cris quisesse fazer um plano. e chegaram ao destino às 5:30h da tarde. ___________________ * Folha grande que flutua sobre a água. de árvores bem verdes. Mas ela gostava de planejar. Saíram às 7:30h. O farto jantar e as poucas. no trem matinal. Katie..Seus pais nunca haviam conversado com ela sobre o assunto. Sempre se sentia mais segura quando tinha um plano traçado. mas bem dormidas. pareciam não ter fim.) Fazia umas quatro horas que estavam viajando quando Katie surpreendeu Cris. E nas lagoas flutuavam enormes nenúfares*. . E quando estivermos juntos e eu sentir vontade de beijá- lo. da T. A paisagem do lado de fora era belíssima e revigorante. As florestas. Vou guardar todos os meus beijos mais ardentes para o Ted e conservá-los num local bem seguro. o cofrinho estará bem cheio. e as duas viajaram confortavelmente.Como assim? . horas de sono daquela noite prepararam Cris e Katie para a viagem de dez horas e trinta minutos até Copenhague.. semelhante à vitória-régia. vou me lembrar de guardar mais aquele beijo.

- Não, Cris! Só quero dar uma olhada.

Durante as horas que se seguiram, Katie leu para Cris todas informações sobre a

Dinamarca, fazendo com que a amiga mesmo repetisse algumas frases em dinamarquês.

Estava ficando bem mais fanática pelo livro do que o próprio Ted.

- Muito bem, esta aqui é “Onde é o banheiro?”: “Hvor er toilettet?” Vamos lá, Cris,

tente repetir essa.

- Hvor er toilettet, repetiu Cris. Mas você sabe que a gente pode estar dizendo tudo

errado, né? continuou. Afinal de contas, não fazemos a menor idéia de como é a pronúncia

certa.

- Pelo menos a gente ‘tá fazendo um esforço. Agora diga “Tager de kredit- kort?”

- O que significa isso?

- Vocês aceitam cartão de crédito?

- Katie, nós nem temos cartão de crédito! disse Cris, soltando uma gargalhada.

- Tudo bem, tudo bem... Se você vai dar uma de exigente agora, então tente repetir esta

aqui: “Er der nogen her der taler engelsk?”

Ao ouvi-la; Cris teve quase certeza absoluta de que Katie havia acabado com a língua

dinamarquesa pronunciando a frase daquele jeito.

- E o que quer dizer isso?

- Significa: “Alguém aqui fala inglês?”

Cris disparou a rir.

- Que foi? Essa frase é muito útil!

- É, Katie, mas, se a pessoa fala inglês, então basta perguntar em inglês mesmo que ela

entenderá, né?

- É mesmo, disse Katie, tapando o rosto com o livro. Esqueça o que eu disse, replicou

ela baixinho.

- Vamos aproveitar e resolver o que faremos depois que deixarmos as malas no

albergue. Ainda bem que o Ted nos fez ligar antes pra fazer a reserva. É a primeira vez que

vamos chegar a uma cidade sabendo onde vamos dormir.

- Na minha opinião, a estátua da Pequena Sereia é parada obrigatória, disse Katie. E

esse parque “Jardins Tivoli” parece ser legal. Diz aqui que tem brinquedos, shows com

entrada franca, festival de fantoches, queima de fogos de artifício e até mesmo apresentações

de balé! Ah, e eu quero muito visitar o palácio, ou museu, seja lá o que for, que tem as jóias

da coroa dinamarquesa. Adoro esse tipo de coisa. Você se lembra de quando fomos ver as

jóias da coroa inglesa na Torre de Londres?

Cris se lembrava sim. Era uma torre velha e fria por dentro, e eles tiveram de subir

inúmeras escadas. Mas não tinha muita lembrança das jóias da coroa. Mesmo assim, disse:

- É. Seria legal ver as jóias da coroa. Aonde vamos primeiro?

- Ou a Pequena Sereia ou ao parque “Jardins Tivoli”.

- Vamos ver a estátua, então, sugeriu Cris. Acho que o Ted vai querer ir ao parque

quando chegar aqui e, além do mais, não acho que a sereia esteja entre as atrações que ele

mais quer ver.

Cris se sentia bastante segura de si, quando ela e Katie deixaram o albergue para ver a

estátua. Pouco antes, havia ficado um pouco preocupada, pensando que, por estarem sozinhas,

algum pedinte bêbado mexeria com elas na rua, como lhe acontecera em Nápoles, e com

Katie no trem, poucos dias antes.

No entanto estava sendo ótimo viajarem só as duas. Tudo corria às mil maravilhas.

Estavam se dando superbem e ninguém havia mexido com elas até o momento. Havia sido

fácil localizar o albergue, e ainda não tinham ficado perdidas pela cidade.

As ruas de Copenhague eram limpas e de um pavimento bem escuro. Katie ia à frente,

andando e lendo o guia turístico ao mesmo tempo.

- Diz aqui que a estátua da Pequena Sereia, ou Lille Havfrue, como eles a chamam, fica

no Porto de Langelinie.

- Katie, disse Cris, colocando o dedo indicador sobre os lábios. Você não precisa

anunciar para o mundo inteiro aonde é que estamos indo.

- Eles não estão nem aí pra gente, disse Katie, olhando em redor. ‘Tá na cara que somos

turistas. Olhe! Aquele é o ônibus que temos de pegar! Vamos!

As duas se puseram a correr, a fim de alcançar o coletivo. Ao entrarem, Katie perguntou

ao motorista:

- Este ônibus vai para o porto, não vai?

- Sim, porto.

- Ótimo.

Cris e Katie se assentaram mais na frente e desceram quando o motorista se virou e

disse-lhes, apontando para a enorme fábrica de cervejas Tuborg:

- Porto.

- Obrigada, disseram elas ao descerem em direção à água.

Era um porto imenso. Várias gaivotas faziam vôos rasantes, na tentativa de pegar algum

“lanchinho” nos barcos de pesca. Katie e Cris andaram por toda parte, à procura da estátua.

Mas não viram nada.

- Deveria ter alguma placa indicando o lugar, disse Katie. Isto aqui é ridículo!

Já iam voltando para onde haviam descido quando uma balsa enorme atracou ao porto.

Cris e Katie resolveram fazer uma parada para descansar e foi aí que notaram uma longa fila

de carros que saía do compartimento inferior da gigantesca embarcação. Centenas de pessoas

achavam-se no convés. Um grupo de crianças, vestidas com camisetas amarelas, se

enfileiraram ao longo do parapeito do convés e começaram a mexer com Cris e Katie.

- Dê um tchauzinho pra elas, disse Katie. Elas só estão sendo engraçadinhas e educadas.

Cris não estava com muita vontade de dar uma de engraçadinha e educada, mas acenou

assim mesmo. Vendo-as, as crianças ficaram ainda mais empolgadas e se puseram a gesticular

e gritar com mais entusiasmo ainda. Parecia que estavam fazendo uma brincadeira, tentando

chamar a atenção das pessoas; e Katie e Cris haviam sido as primeiras a entrar na dança.

Foi então que um conhecido sentimento de angústia cortou o coração de Cris. Era a

mesma dor que ela sentia toda vez que trabalhava com as crianças do orfanato. Há tantas

crianças neste mundo desesperadas por um pouquinho de amor e atenção! Cris se perguntava

como as criancinhas em Basel estariam passando.

- Vem vindo um ônibus ali, disse Katie. Vamos pegá-lo e voltar. Já perdi toda a vontade

de ver essa sereia desaparecida.

Para a surpresa das duas, o motorista era o mesmo que as havia deixado ali, uma hora

antes.

- Não conseguimos ver nenhuma sereia, disse Katie ao motorista, tomando o assento

imediatamente atrás dele. Imaginei que ela estivesse dando um mergulho quando chegamos e,

por isso, não a vimos.

O motorista girou o volante do ônibus e sorriu para Katie pelo retrovisor. Cris se

perguntava se o pobre coitado fazia alguma idéia do que Katie estava resmungando. Em

seguida, ele olhou para Cris, que se sentiu na obrigação de tentar “traduzir” o que Katie havia

falado.

- Estávamos procurando a estátua da Pequena Sereia, disse ela bem devagar.

Ao ver que ele nada respondera, Katie pegou o guia turístico e pôs-se a falar com ele,

usando um tom de voz que, para Cris, era para lá de alto.

- Lille Havfrue. Estamos procurando a Lille Havfrue.

Cris tinha certeza de que Katie não havia pronunciado corretamente as palavras. De

alguma forma, no entanto, o motorista ainda assim conseguiu entendê-la.

- Ah! Lille Havfrue, disse ele, soltando uma gargalhada alegre em seguida. A Lille

Havfrue não fica no porto.

- Foi o que percebemos, disse Katie. Onde fica, então?

- Vou levá-las até lá, disse ele, ainda rindo. Mas ela não é tão grande como a Estátua da

Liberdade, acrescentou ele, com um gostoso sotaque.

Cris olhou de relance para Katie.

- Como é que eu poderia saber? O guia diz que ela fica no porto.

O motorista parou na frente de um parque e abriu a porta do ônibus.

- É aqui que vocês irão encontrá-la.

- Obrigada, disse Cris, sorrindo para ele ao descerem.

Estava com a sensação de que, assim que descessem do ônibus, todos os outros

passageiros dinamarqueses disparariam a rir das duas americanas malucas.

- Bem, disse Katie, destemidamente. Acho que deixamos o dia desse motorista um

pouco mais divertido.

- É, ele me pareceu ter se divertido até, disse Cris. Este lugar aqui é completamente

diferente do porto onde estávamos.

- E veja! Tem uma placa indicando o caminho pra estátua logo ali!

As duas foram andando pelo caminho que atravessava o jardim.

- Vale a pena dar uma consultada no guia turístico e aprender o dialeto local, não é

mesmo? perguntou Katie.

Cris não poderia perder a chance de “cutucar” a amiga.

- Que história é essa de consultar o guia turístico que eu estou ouvindo? Será que isso

quer dizer que não estamos mais “numa aventura”?

- ‘Tá bom, ‘tá bom. Pode me gozar. Mas agora eu sou uma nova excursionista, lembra-

se? Não seja tão dura comigo. É que antes eu não entendia o poder da letra.

- Parece que você ‘tá falando da Bíblia agora.

- É, e por falar nisso, aqui vai uma boa analogia pra você, disse Katie. Vamos ter de

contar essa para o Ted! A Bíblia é como um guia turístico pra viagem da vida.

- E as aventuras? Onde é que elas entram nisso aí?

- Bem, se você ainda não percebeu, Cris, a tendência é que as aventuras nos

sobrevenham, sem que tenhamos de procurá-las, disse Katie.

Cris sorriu para a amiga.

- Nós duas sempre fomos uma dupla de tesouros peculiares, né mesmo?

Katie jogou a cabeça para trás e soltou aquela gargalhada.

- Faz tempos que não a ouço usar essa expressão! Tem razão, Cris! Somos uma dupla de

tesouros peculiares. E essa estátua da Pequena Sereia também é, se é que ela existe, né?

Foi uma boa caminhada até avistarem a água, que mais parecia um pequeno lago, de tão

raso. Foi então que, de repente, avistaram-na. Lá estava ela, a Pequena Sereia. Era de bronze,

com cerca de sessenta centímetros de altura. Estava com uma coloração esverdeada, em

consequência dos efeitos do tempo, e achava-se graciosamente assentada sobre uma pedra

avermelhada, com o olhar voltado para a água. Estava de costas para Katie e Cris.

- Veja só! Andamos tudo isso e ela nem é capaz de se virar pra nos ver! disse Katie.

- Ela é bem menor do que eu imaginava, comentou Cris.

- Agora estou entendendo por que o motorista do ônibus achou tanta graça da gente,

disse Katie. Dá pra imaginar uma estatuazinha dessas lá naquele porto? Os navios cargueiros

e as balsas acabariam passando por cima dela!

- Então esta é a famosa estátua da Pequena Sereia, disse Cris, taxativamente.

- A própria!

Ficaram as duas paradas ali, fitando a estátua por alguns momentos. Então, virando-se

uma para a outra, dispararam a rir. Era um riso solto, que só podia vir mesmo de dois tesouros

peculiares. em meio a uma incrível aventura. .

Colocou o seguinte título: “Em busca da Pequena Sereia”. escreveu: Espero que nunca mais me esqueça da lição que aprendi hoje. . . Se tudo corresse de acordo com o planejado. sempre que minhas expectativas se frustrarem. Cris fechou o diário.Você quer ir a um outro lugar? perguntou Cris. Na manhã seguinte. No último parágrafo. 16 À noite. Cris registrou sua aventura no diário. à medida que as pessoas chegavam ao balcão para fazer seus pedidos. Cris e Katie acharam uma padaria no fim da rua e foram tomar café. o que era considerado dormir “até mais tarde” entre os viajantes. segundo. apagou a lanterna que Katie lhe emprestara e foi dormir com um sorriso nos lábios. Era um tromba-tromba de malas terrível. uma amiga especial com quem possa rir a valer da minha decepção e. algumas das coisas que resolvo desbravar não são tão interessantes como eu achava que seriam. Tinham dormido até 7:30h. quando foram tomar banho. Na vida. dinheiro suficiente para pegar o ônibus que me levará à etapa seguinte da aventura. E tomara que eu sempre conte com duas coisas. O lugar estava cheio de viajantes estrangeiros que haviam se hospedado no albergue e já estavam de saída. Ted chegaria ao albergue às nove da manhã. Primeiro. descobriram que só havia água fria no chuveiro.

Tão logo eles se foram. Katie despontou de repente pela porta da padaria. . . mas Cris não conseguiu entendê-lo. E mesmo que conversasse em sua língua. pois Katie havia treinado várias frases com ela no trem. disse ele. Cris procurou não deixar muito na cara que estava observando as pessoas como se fosse um falcão. a fim de pegá-la assim que saíssem. Foi então que avistou dois rapazes se levantando. Cris correu para perto da mesa deles. olhou para o rapaz de óculos alaranjados e acrescentou. veja se há alguma mesa liberada lá fora. à espera de qualquer movimento que indicasse que alguém estava para liberar uma mesa.Cris! Venha cá pegar isto! Rápido! exclamou ela. a fim de ver em que ponto da fila Katie estava. O rapaz disse mais alguma coisa e Cris soltou sua frase de emergência.Não.Ich verstehe nicht. Em seguida. com as mãos cheias. Ela não queria conversar em inglês pois assim ele saberia que ela era americana. Infelizmente. o rapaz lhe respondeu em alemão. . Quase imediatamente depois. Diga-me o que você quer e eu fico na fila pra nós. cordialmente: . Cris sabia que ele estava dizendo “bom-dia” em dinamarquês. a fim de encobrir a verdadeira nacionalidade. ela não conseguiria simular um sotaque britânico.Godmorgen. Estava quase deixando cair uma das tortas que havia equilibrado sobre a xícara de chá quente da Cris. Era uma pena que a listinha do guia turístico não ensinasse a dizer “Suma daqui!” Cris apenas acenou com a cabeça e se virou. . Antes mesmo que Cris pudesse resolver o que fazer. Enquanto isso. a alguns metros da mesa. um rapaz alto e elegante se assentou na cadeira ao lado. Trajavam shorts e botas de escalar. ela puxou uma das três cadeiras que havia ali e se assentou. Estava usando um casaco de couro e óculos de sol alaranjados.

Cris estava impressionada. A propósito. Esta aqui é a Cris.Mesmo? Legal! Nós somos de Escondido.Seu alemão é muito bom. . em vez de ficar sempre se destacando como “a estrangeira”. respondeu Katie. Havia descoberto que era bem mais fácil levar uma vida normal . . . . partiu um pedaço da beirada de sua torta.Da Califórnia. Era bom saber que estava se “encaixando” na cultura européia. .Eu também.participando e escapulindo da rotina diária .Obrigada. disse ele a Cris. Cris havia decidido que não queria que todos soubessem que ela era americana. Nunca teria imaginado que você era americana.Há quanto tempo você ‘tá aqui? perguntou Katie ao rapaz. Em seguida. .Oi! Você se importa de nos assentarmos com você? ‘Tá bem cheio aqui. meu nome é Katie. mesmo ele sendo americano também. que estava coberta de açúcar.De onde vocês são? O inglês dele era perfeito. O rapaz havia conseguido convencê-la de que era um dinamarquês nato! Abaixando a fronte. disse Cris. continuou Katie. . Moro em Fresno. Katie! Eu estava justamente tentando fazê-lo dar o fora daqui! O moço puxou gentilmente uma cadeira para Katie e. não? A comida deve ser boa! Ótimo. .não sendo sempre conhecida como “a estrangeira”. Algumas semanas depois de começar a estudar em Basel. em seguida. perguntou: . levantando o olhar. Cris não se sentiu muito à vontade ao ver que agora aquele estranho sabia o seu nome. Ele parecia decepcionado com a resposta dela. Cris fechou os olhos e fez uma rápida oração.

. na verdade estou só passando o tempo aqui e ali. mas foi uma aventura! disse Katie. olhou para Cris.Visitou? perguntou Jack. Jack olhou para elas como se não acreditasse que as duas estavam perdendo tempo correndo atrás de pontos turísticos.Nosso também. . . então. disse Katie. Contou apenas uma coisa e outra a respeito da universidade e voltou toda a atenção para o café.Sou Jack. .Não.Você é de pouco papo. disse o rapaz. É o meu segundo dia aqui em Copenhague. A banda que tocou ontem à noite era muito boa. que ele tinha outros interesses ao visitar uma cidade.Que lugares aqui em Copenhague você já visitou? perguntou Katie. . A Cris já ‘tá morando aqui na Europa desde setembro do ano passado. . tem uma boate ótima em Nysted.Sabem.Mesmo? Onde exatamente? Cris não estava gostando nada de ver Katie abrindo todos os detalhes de sua vida para o Jack. obrigada.Ontem nós fomos ver a estátua da Pequena Sereia.Você iria se eu arrumasse alguém pra acompanhar sua amiga? Cris meneou a cabeça. . ‘Tá estudando na Suíça. respondeu ela.Você gostaria de ir comigo lá hoje à noite? . . Estou na Europa desde maio. Já esteve no parque “Jardins Tivoli”? . procurando não se mostrar muito assustada com o convite. Em seguida.Não. Foi uma aventura e tanto! Não exatamente o tipo que eu recomendaria a alguém. hein? .É. . . . Cris deduziu.

Vendo que Cris não olhara para ele nem lhe respondera, Jack prosseguiu:

- Muito bem, então. Se você mudar de idéia, nos vemos lá.

Levantou-se em seguida e bateu de leve no braço de Cris, como se quisesse arrancar

alguma reação dela.

- Relaxe! disse ele, saindo logo depois.

Cris e Katie ficaram observando o rapaz, que agora se aproximava de um grupo de

garotas, assentadas numa sombra, fumando. Quando Jack chegou, elas lhe ofereceram um

cigarro.

- Mais uma vez, principiou Katie, eu, sua amiga de todas as horas, fico aqui de lado,

vendo os rapazes babarem em você, como se eu misteriosamente me tornasse invisível.

- E até parece que você estava interessada nesse cara, né, Katie!

Cris tentou sorver um gole de seu chá, mas estava quente demais.

- Eu teria aceitado o convite dele, respondeu Katie.

- Ah, ‘tá bom! disse Cris.

- Eu acho que você chama a atenção desse tipo de cara porque, quando eles se

aproximam, você fica toda timidazinha. E eu sei que você não faz de propósito. Você

simplesmente fica toda vermelha, se retrai e desvia o olhar. Tudo muito naturalmente. Acho

que eles se sentem desafiados e aí ficam tentando conseguir uma brechinha com você. Eu já

sou o contrário. Minha vida é um livro aberto. Mas, pelo visto, não estou na lista dos mais

lidos.

- Katie, você é perfeita assim, do jeitinho que é. Um dia você conhecerá um rapaz que

ficará encantado com o simples fato de você ser quem é. E ele também ficará feliz de saber

que você não foi a boates com carinhas de casaco de couro e óculos laranja na cabeça.

Katie sorriu.

- Acho bom você me lembrar sempre disso então, porque quanto mais tenho de esperar

pelo meu príncipe encantado, mais atraentes essas jaquetas de couro se tornam pra mim.

Cris balançou a cabeça.

- Sabe, uma das coisas que sempre me incomodava lá em Basel era ver americanos

iguais a esse cara. Eles agem como se estivessem à procura de quem eles realmente são.

- E nós não fazemos o mesmo?

- Acho que sim, mas é diferente. Com eles é quase como se tivessem usando uma

fantasia, sabe? Jaqueta de couro, óculos laranjados. Daí eles viajam toda essa distância só pra

experimentarem a fantasia e ver se alguém acreditará que essa é a verdadeira identidade deles.

- Você ‘tá parecendo uma velha falando assim, Cris!

- Eu não!

- Eu até que gostei dos óculos dele. Quase pedi pra experimentar. Queria ver se eles

iriam destoar muito do meu cabelo.

Cris resolveu entrar na brincadeira; em vez de tentar levar um “papo sério” com a

amiga, tão cedo de manhã. Então, como quem não quer nada, deu uma olhada para trás.

- Você sabe que, se quiser, ainda pode pedir os óculos pra ele, né? Ele ainda ‘tá ali.

- Talvez se eu ficar olhando fixo nessa direção, ele acabe percebendo que quero que

volte pra cá, disse Katie.

- Por favor, não faça isso. Meu braço ainda ‘tá doendo daquele soco

- Você sente falta do Ted nessas horas? perguntou Katie.

- Sim. Mas estou muito feliz por nós duas termos passado estes dois dias juntas. Tem

sido bastante divertido.

- Tem razão. Às vezes eu gostaria que o Ted ficasse fora um pouco mais. Estes dias

foram ótimos. Como nos velhos tempos. Fazia um tempão que não agíamos assim uma com a

outra, né? Estava sentindo falta disso. Estar perto de você traz de volta minha verdadeira

personalidade.

- Você acha difícil agir assim quando o Ted ‘tá por perto?

-Não. Bem, na verdade, às vezes sim. Mas não é por nada que vocês tenham feito ou

deixado de fazer. Acho que, levando-se em conta a nossa idade, a realidade é essa mesmo.

Você e o Ted estão aprofundando cada vez mais o relacionamento, e isso significa que haverá

menos espaço pra mim em sua vida.

Cris já ia dizer alguma coisa, quando Katie a interrompeu.

- E isso não é ruim. É bom. Não é o que você sempre quis? Eu mesma fiz uma oração e

outra pra que o relacionamento de vocês chegasse a este ponto. E é bom ver que Deus

responde algumas de minhas orações, mesmo sendo elas em favor de meus amigos, e não de

mim.

- Tem razão. Eu nunca havia pensado sob essa perspectiva. Realmente o fato de eu e Ted

estarmos juntos até hoje e um verdadeiro milagre, né mesmo?

- Na minha opinião, os milagres estão apenas começando, disse Katie. E é bom ver

vocês dois juntos, aprofundando o relacionamento, tornando-o mais sério. Acho que vou ficar

mais empolgada do que você no dia em que ele finalmente pedir você em casamento.

Cris fitou os olhos verdes de Katie. Eram olhos travessos, brincalhões.

- Que foi?! exclamou Katie, aproximando-se e apertando a mão de Cris. Por que ‘tá me

olhando assim? Vai me dizer que ele já lhe pediu em casamento e você ‘tá guardando

segredo? Você não esconderia isso de mim, né, Cris?

- Não, é claro que não, Katie. Ele não me pediu em casamento. Nem nunca

conversamos sobre isso. Na verdade, fiz aquela cara porque soou estranho ouvir isso de você.

Quer dizer, às vezes penso que o Ted vai me pedir em noivado, mas isso fica só em meus

pensamentos.

- Bom, então eu falarei por você. O Ted irá lhe pedir em casamento, Cris. É só uma

questão de tempo.

Cris sentiu o coração bater com força.

- Você parece tão assustada! disse Katie, rindo. Por que isso a assustaria? Quer dizer, o

que deveria lhe deixar assim é ser convidada para ir a uma boate com um estranho. Por que ‘tá

tão espantada com o fato de o Ted lhe pedir em casamento?

- Não sei bem. Só sei que estou.

Katie olhou para trás de Cris e, com um sorriso largo nos lábios, disse, praticamente

sem mexer os dentes:

- Não olhe agora, mas ele voltou.

Cris não olhou para trás. Tinha achado que Jack estivesse feliz da vida, batendo papo

com as meninas que encontrara na outra mesa.

- Não dê papo pra ele, disse Cris em voz baixa, olhando nos olhos de Katie.

Naturalmente o sorriso estampado no rosto de Katie não era para Cris, e sim para o

rapaz que se achava atrás da amiga. Levantando o queixo, Katie disse ao rapaz:

- Vamos, beije-a! Ela ‘tá doidinha pra ganhar um beijo seu!

- Katie!

Mas, antes mesmo que pudesse continuar sua bronca na amiga, Cris sentiu o vulto de

alguém vir sobre ela. Sentiu a barba em seu rosto e um cheiro não muito agradável. De

repente, os lábios dele, secos e rachados, apertaram os dela.

Cris se afastou, pegou a xícara de chá e jogou o líquido fumegante bem na cara do sem-

vergonha.

Ted soltou um grito.

Saltando da cadeira, Cris olhou para Ted e depois para Katie.

- Por que você não me disse que era o Ted? gritou ela.

Estavam todos olhando para eles. Alguém ofereceu um guardanapo de papel para Ted se

limpar. O rapaz tampava o rosto com ambas as mãos.

- Ted, me desculpe, disse Cris, ofegante. Você ‘tá bem? Deixe-me dar uma olhada em

seu rosto.

Cris tocou carinhosamente o braço dele. Ted, então, tirou as mãos do rosto.

- ‘Tá tudo bem, disse ele vagarosamente.

Dava para ver algumas manchas grandes e vermelhas na testa dele. Com o guardanapo,

ele limpou os olhos e se assentou ao lado de Cris, ainda carregando a mochila nas costas.

- ‘Tá tudo bem, pessoal, disse Katie àqueles que os observavam. Ele ‘tá legal.

- Ainda ‘tá ardendo? perguntou Cris, assentando-se e procurando analisar o rosto de Ted

mais de perto. Será que devemos ir ao médico?

- Acho que um pouco de água gelada deve ajudar a melhorar, disse Ted.

- O albergue fica logo ali, dobrando a esquina, disse Cris, tentando ajudar.

Ted afastou o braço de perto dela, e Cris se lembrou de uma ocasião em que ele sofrera

uma grave queimadura, mais de um ano atrás. Se tentasse ajudá-lo a fazer qualquer coisa, ele

se irritaria com ela. Cris procurava se lembrar de que, em situações assim, o melhor a se fazer

era seguir as coordenadas dele, pegar o que ele pedisse e ficar na dela.

Durante a caminhada para o albergue, nenhum dos três falou nada. Ao chegarem, Ted

pediu um quarto e se dirigiu para a ala masculina do dormitório. Cris apenas gritou:

- Qualquer coisa, estamos no quarto!

Katie e Cris caminharam rapidamente na direção oposta, como se fossem duas crianças

malcriadas a quem os pais haviam colocado de castigo.

- A culpa foi minha, disse Katie com firmeza. Agora vejo claramente por que você

pensou que eu estava falando do Jack. Não tinha como você saber que era o Ted quem havia

chegado.

- Eu devia ter olhado antes de jogar o chá nele. Estou me sentindo péssima!

- Você estava apenas se defendendo. Não fique se culpando. Eu é que armei pra cima de

você. Sinto muitíssimo, Cris, disse Katie.

- Não faz mal. Eu sei que você estava apenas fazendo uma brincadeira. Foi um acidente.

Cris recostou-se na lateral de uma das camas de madeira.

- Estou me sentindo horrível.

Durante a hora seguinte, Katie e Cris ficaram lendo calmamente na cama, enquanto

outras moças entravam e saíam do quarto. Uma das que entrou mergulhou na cama de baixo e

caiu no sono. Parecia estar dormindo profundamente. Cris estava lendo algumas passagens em

Salmos, que era para onde ela corria sempre que precisava de algum consolo.

As palavras do Salmo 61, inspiradas por Deus, foram de grande ajuda naquele

momento.

“Ouve, ó Deus, a minha súplica; atende a minha oração. Desde os confins da terra

clamo por ti, no abatimento do meu coração. Leva-me para a rocha que é alta demais para

mim.”

Cris se lembrou dos enormes e pontiagudos rochedos que haviam visto alguns dias

antes, durante o passeio de barco pelos fiordes.

Senhor, tú és a minha rocha. Eu confio em ti. Posso até não ter ido com o Ted aos

confins da Terra, mas, em meu coração, sinto que estou lá agora, no fim do mundo.

A porta do dormitório se abriu e uma mulher, que trabalhava na recepção, disse:

- Tem alguma Cris aqui?

- Oi? gritou Cris de sua cama.

- Tem alguém querendo falar com você lá na recepção.

- Obrigada.

Cris desceu da cama e perguntou a Katie se ela gostaria de ir junto.

- Acho melhor eu ir. Quero explicar pra ele que a culpa foi minha, disse Katie, fechando

o guia turístico.

Você é uma pessoa de reações rápidas. abriu um largo sorriso. principiou Katie. Caminhando lado a lado. Surpreso Ted olhou para Cris. A culpa foi minha.Ela ‘tá lendo o guia. Ted achava-se assentado num comprido banco de madeira. Pode acreditar. Ted ergueu as sobrancelhas.Sinto muito. disse Cris a ele.Vai sarar. assim como uma lista enorme de outros pontos turísticos que deveriam visitar. Cris se assentou ao lado de Ted e olhou para ele com uma expressão amiga no rosto. enquanto Katie continuava soltando todo o seu conhecimento sobre os mais interessantes pontos turísticos. mas também não parecia tão ruim como antes. Cris. surpreso. Pelo visto. A aparência não era muito boa. Ted riu. sem olhar antes quem era.Acho que não preciso mais me preocupar se você irá ou não saber se defender. Não estava com raiva e seu rosto não ficara muito machucado. Ted tirou a mecha de cabelo que caía sobre a face de Cris.Só não é bom quando você acaba se machucando por causa disso. .Desculpe-me por ter reagido daquele jeito. Ao vê-las. além de recusar convites pra boates? Cris podia ver que Ted estava bem. Isso é bom. . o que mais vocês têm feito. Rapidamente Katie lhe explicou quem era Jack. . . . . hein? disse Ted. . Cris notou uma grande mancha em sua testa. porque foi logo se assentando do outro lado de Ted e apresentando um roteiro completo de atividades para o dia. A Cris pensou que era o Jack que tinha chegado e ela não queria que ele a beijasse. Então. as duas se dirigiram à recepção. que ficava à esquerda da entrada do albergue. Estava vermelha e inchada. Katie havia chegado à mesma conclusão. . Ted.Jack.

Cris sorriu para ele e disse: .Mas eu gostaria que você tivesse ido comigo.Mas antes de irmos a qualquer lugar. Sério mesmo. Ted recostou-se no banco.Tirei duas. Cris se sentiu bem ao ouvir a risada de Ted. . olhando nos olhos de Cris. quero que você me conte de sua aventura. . Vi várias renas e conheci um pessoal muito legal. E depois vamos lhe contar da nossa peripécia com a Lille Havfrue. . . . já que ele não tinha uma. não ‘tá? Ted acenou com a cabeça.E você tirou a foto perto da marquinha do Círculo Polar Ártico quando chegou lá. esticou as pernas e cruzou os braços sob o pescoço. disse Cris. .Eu vi um urso polar. disse então. . Cris havia insistido que ele levasse a máquina fotográfica dela. todo orgulhoso. somente para ela ouvir: . Então. Era bom estar perto dele e saber que tudo estava bem entre os três.Verdade. no caso de uma não ficar boa.Então você ‘tá feliz de ter ido. Não vi de perto. Foi ótimo.Isso. aproximou-se dela e sussurrou. . mas era um urso polar.Não! ‘tá brincando! exclamou Katie. disse ele. concordou Katie. não tirou? perguntou ela.

O tronco delas é quase preto e as folhas são verde-hortelã. Os três se assentaram para descansar em um dos muitos bancos que havia pelo jardim. . que era servido com um bocado de chantilly e geléia por cima. à noite. Nas palavras de Katie. respondeu Katie.Árvores dinamarquesas. disse Cris. Em seguida. disse Katie. Será que podemos ir visitar outro lugar? . Ted quebrou um pedaço da barrinha triangular de chocolate Toblerone que estava comendo e o ofereceu a Cris.É realmente um parque muito bonito. sob o agradável calor do sol. o ar era fresco e agradável.Acho que ficamos mal acostumados com todos os parques que há na Califórnia. Depois tomaram um sorvete de casquinha. . Que tipo de árvore vocês acham que são essas? . disse Cris. . que leu pra mim que este parque foi construído há mais de cento e cinquenta anos? . Já tinham andado em todos os brinquedos e reclamado que todos eram bobinhos demais. Depois de provarem o sorvete. Katie. concluíram que não havia nada de “americano” nele. o passeio na montanha-russa era “a mesma coisa que passar nos quebra-molas do Colégio Kelley”. Não foi você. resolveram parar para experimentar. Vejam estas árvores.Claro! O que mais você marcou aí no guia turístico? perguntou Ted. replicou a outra. mesmo estando ainda claro.É.Eu também quero um pedacinho. mas mesmo assim eu esperava mais. e um biscoitinho fininho enfiado de lado. 17 Os três viajantes passaram o dia se divertindo como crianças no parque “Jardins Tivoli”. . Quando viram que a placa dizia Casquinhas Americanas.

pra conhecerem a Marguerite e provarem as delícias que ela faz. ofereceu mais um pedaço de chocolate às duas. dando-lhe um pedaço também. disse Katie.Elas estavam uma delícia! Mal posso esperar pra levá-los à minha Konditorei predileta lá em Basel. esticando as pernas. Em seguida. . O que que aconteceu que a gente acabou não comprando nenhuma barrinha de chocolate por lá? . Uma sensação gostosa tomou conta de Cris. disse Ted. admitiu Katie. em vez de chocolate.Você se lembra que lhe contei que todos os sábados eu vou lá? É lá que consigo recobrar minha sanidade mental.A gente pode fazer isso. disse Cris. a que acabou de sair do forno. A Marguerite leva pra você a quitanda mais fresquinha. pra compensar. dando uma mordida no chocolate.Sabia que você iria querer! disse Ted. Não é isso? .Eu me lembro sim. .Aconteceu que eu levei você a todas as confeitarias e.Eu tinha planejado comer uma barrinha de chocolate em cada país que visitássemos.Exatamente. . . corrigindo-o. as tortas até que não estavam ruins. . disse Cris. . compramos tortinhas.. Em seguida. . Era bom saber o quanto Ted prestava atenção aos seus e-mails e as coisas que eram importantes para ela.É. ao fundo..Quero levar vocês lá.Marguerite. mas meu plano acabou indo por água abaixo na Noruega. Daí a Margie. disse Cris. ou alguém com nome parecido. . . disse Ted. . Você sempre pede um café com chantilly e se assenta numa mesa no canto. . virou-se para Ted.Isso. Agora vou ter de comer duas barras aqui.

disse Ted.Então. então não vamos ficar muito tempo em Paris. . Se sua impressão da Torre Eiffel for a mesma dos fiordes. Que estamos no meio da viagem. para que pudessem ir à confeitaria de Cris.Temos tempo de sobra. a pergunta é: Que lugares queremos visitar no caminho daqui pra Basel? Eu. Vamos dar uma passada em Paris. Demoraram um pouco até concluir que dia era e quanto tempo de viagem ainda restava.Sério? Só tem onze dias que estamos viajando? Parece que passou uma década! Digo. disse Cris. (N. Afinal concordaram que era quinta-feira e que tinham de estar em Basel na segunda-feira. Ou melhor. deveriam chegar no domingo. . um mês. a outra. por exemplo. disse Katie. .) .Sim.Sabem o que isso significa? perguntou Cris.Vamos montar nosso roteiro de forma que cheguemos a Basel no domingo. . . Katie parecia estarrecida com a informação. é parada obrigatória. e ainda temos mais dez.Ela está em Paris? perguntou Ted.É podemos ver a Mona Lisa também. acrescentou Cris. . pensou Cris .Quantos dias ainda temos? perguntou Ted. da T. ___________________ * Famoso museu de Paris que reúne obras de vários artistas renomados. . e aí iremos à sua confeitaria. A gente tem de ir ao Louvre*. Estamos viajando há onze dias.Certo. . Detesto quando começo a exagerar! . disse Ted. sem ser a próxima. um dia antes de começarem suas aulas. Até que não seria mal conhecer a Catedral de Notre Dame. tenho de conhecer a Torre Eiffel.

disse ela. que era a antiga residência do czar. ou alguma coisa assim. Levaria uns três dias de trem pra chegar lá. Viram? “Não deixe de visitar”. Mas São Petersburgo não fica muito longe de Helsinki. ó! falou ela. Diz o seguinte: “Não deixe de visitar os belíssimos salões do Palácio de Inverno. . . Acho que devemos ir a São Petersburgo. onde sempre o guardava agora. apontando as palavras no guia turístico. Chama-se Museu Heritage. e daqui a Helsinki é só um dia de viagem.Na Rússia? perguntou Cris. saindo daqui. E. . Achei! O Museu Hermitage possui dois milhões e oitocentos mil itens em exibição. balançando a cabeça.Minha sugestão é que a gente ache um trem noturno e vá pra Paris.É.O que você acha. . temos de montar um roteiro.Gente. . Poderíamos ver aquelas igrejas que têm a cúpula em formato de cebola. Pega leve comigo. Acho que Moscou fica muito longe pra nós. folheando algumas páginas.É exatamente isso que estou tentando mostrar pra vocês desde que começamos a viagem! Precisamos de um roteiro! . . Vinte e quatro horas. Queria ver se vocês não se animam a dar uma passada em São Petersburgo antes. Não! Esqueçam o que eu falei. . Ted e Cris se entreolharam e Cris disparou a rir. Foi construído no Palácio de Inverno.Acho que o nome é Hermitage. Katie puxou o guia turístico da bolsa.‘Tá. continuou: . já bem gastas. Os próximos dias vão passar assim. disse Ted. Ted? perguntou Cris. . estalando o dedo.Isso! replicou Katie. E tem também um museu em São Petersburgo que parece ser até melhor que o Louvre. com seus lustres em forma de candelabro e sua suntuosa decoração em mármore e ouro”. eu sou devagar pra entender as coisas. Eu andei lendo sobre a cidade. para reforçar o que estava dizendo. disse Katie.

O que vocês resolverem ‘tá bom pra mim. Cris se sentia toda feliz por ter sugerido que Ted fosse ao Ártico. Tão logo a garçonete se retirou. agora que estavam assentados à mesa. Cris. Agora. que aliás falava inglês muito bem. discutindo as opções que tinham. sob a fraca iluminação do sossegado restaurante. mas agora elas soavam alto e extravagantes demais para ela. Estou satisfeito. . Cris olhou para a amiga como se perguntasse qual era a graça. Cris pediu o prato especial da noite. que ficava próximo à principal avenida da cidade e havia sido recomendado por um notável senhor. É que do jeito que você pronunciou o nome do prato. Cris sabia que Katie ficava “escandalosa” quando estava cansada e vivendo à base de açúcar. A garçonete. como constava no cardápio. E até então só comera a casquinha “americana” e a barrinha do chocolate. Os três se dirigiram a um pequeno restaurante. acrescentando que não havia se alimentado bem durante a viagem aos “confins da Terra”. acompanhada de repolho roxo e batatas levemente douradas. Katie riu e disse: . E com um sorriso.Desculpe-me.Já fui a Narvik e voltei. Tinha sido divertido ouvir as gargalhadas de Katie durante o passeio no parque. Depois de passarem uma hora assentados no banco do parque. . Parecia que você estava dizendo: “Quero uma vodca”. disse Katie. “flaekesteg med rodka”. ainda rindo. Foi então que Cris se deu conta do quanto estava cansada e faminta. era esperar que as próximas decisões também fossem boas. Katie parecia estar se segurando para não disparar a rir. que Ted parara numa rua do centro de Copenhague. a última palavra soou como “vodca”. Aquela havia sido uma boa decisão. explicou-lhe que se tratava de carne de porco assada. Ted sugeriu que fossem procurar um lugar pra comer. acrescentou: .

consequentemente. Mas a verdade mesmo era que Cris queria ficar sozinha com Ted. dotando o céu de uma tonalidade laranja-rosada. Estava consultando um guia com os horários do eurorail. Queria olhar diretamente nos olhos dele e escutá-lo. Não há nenhum trem de Colônia para Amsterdã aqui na lista. O jantar estava delicioso.Não. Eu até conheço um pessoal que mora em Amsterdã. Ficou resolvido que iriam para Paris. mas antes passariam um dia em Amsterdã. . os três se sentiram bem melhor. só não ‘tá aqui na lista. Conheci-os quando estava na Espanha. . já que não iriam mais para Helsinki. disse Katie. para que pudessem conhecer um moinho de vento holandês. dá pra sairmos daqui amanhã às sete da manhã e chegar em Hamburgo mais ou menos ao meio-dia. Ted pediu um café e os três voltaram a discutir os planos para a etapa seguinte da viagem. é o máximo que poderemos ir. na Alemanha. Se não houver nenhum. Poderíamos ficar na casa deles. Queria ouvi-lo contar todos os detalhes de sua aventura em Narvik. Após a refeição. É claro que quero ir a Amsterdã. a garçonete serviu-lhes um prato com várias fatias de queijo. podemos passar a noite em Colônia e ir para Amsterdã pela manhã. a claridade lá fora já estava começando a diminuir. .Como assim? perguntou Katie. Quando finalmente conseguiram terminar o roteiro. sem ter de dar atenção a ele e à Katie ao mesmo tempo.Se estou entendendo bem. Era cortesia da casa. Deve haver um trem noturno. Vou continuar procurando.Pra mim ‘tá ótimo. À uma da tarde pegamos o trem que vai pra Colônia. Depois de comerem. São Petersburgo também. Você ‘tá querendo pular Amsterdã e ir direto pra Paris? . E pelos meus cálculos. A viagem de Copenhague para Amsterdã levaria mais de doze horas. . Ted tentava montar uma pequena agenda com o horário dos trens que teriam de pegar. Estocolmo e Helsinki estavam fora da lista e.

sempre que deixava os pensamentos correrem soltos. como as crianças de blusas amarelas haviam feito com ela e Katie. Aquele era um momento para sonhar. E. na tentativa de adivinhar como seria o futuro. quando foram procurar a Pequena Sereia. sorrindo para Cris.Parece que conseguimos montar um roteiro. ou sob o mar. Será que ele já começou a dar uma olhada na grade curricular da faculdade. ela inevitavelmente acabava se privando da alegria de viver o presente. Cris convenceu Ted a sair do trem com ela e descobrir o caminho até o convés da embarcação. Será que era tudo pra pagar a faculdade ou será que ‘tá economizando pra comprar uma aliança de noivado? Cris sabia que sua imaginação estava indo longe demais. já na metade do caminho para Hamburgo. É que ela dormira a maior parte da viagem e não notara se o trem estava sob as estrelas. semelhante à que Cris e Katie haviam avistado no porto. para ver quando irá se formar? Ele falou que estava tentando economizar dinheiro no ano passado. Os três caminharam de volta ao albergue e Cris. No dia seguinte. E era ali que Cris queria estar. e não para discutir. de mãos dadas com Ted. Ele era muito bom na hora de consultar o guia turístico e montar o horário dos trens. mas não naquela hora. Poderiam falar do futuro um outro dia. Bem ali. Cris não sabia se no caminho para Oslo tinham sido transportados de balsa também. o trem entrou numa enorme balsa. Ela queria acenar para os turistas que estivessem no porto. andando de dadas com o Ted pelas ruas de Copenhague. acrescentou: . E já havia aprendido com experiências passadas que. . se perguntava quanto tempo levaria para que ela e Ted começassem a planejar o futuro. sob aquele manchado de alaranjado-pêssego pelo sol da meia-noite.

Eu fico aqui com a bagagem. Vai sarar. Havia tanta gente por li.Então. No entanto ficou feliz de ter um lanchinho a mais para comer. Katie estava entusiasmadíssima com suas leituras.Quero dizer. disse Ted ao saírem. vou ficar bem. Durante esse tempo. Dava relatórios tão completos sobre cada uma das grandes cidades que lia. . Ted conduziu Cris pelas escadas. A viagem de Hamburgo para Colônia durou cinco horas. sua testa. Dava para ver que a queimadura provocada pelo chá quente em sua testa não havia melhorado muito. Tudo bem. A área atingida ainda estava vermelha e um pouco inchada. ao ver que não a chamara para ir junto. . . Não se preocupem comigo. Imediatamente ele avistou uma lanchonete e entrou na fila. A queimadura ainda ‘tá incomodando muito? .’Tá doendo? perguntou Cris.Já entendi a indireta. Vocês podem ir. No início Cris ficou um pouco chateada ao ver que seus poucos momentos a sós com Ted haviam sido gastos na fila. . apenas sorriu.Vamos procurar uma barra de chocolate pra você. como é ser o herói de alguém? brincou Cris. que demoraram quase que os cinquenta minutos do trajeto de balsa para conseguir fazer a compra. que Cris chegou a pensar que a amiga já tivesse visitado aqueles lugares anteriormente. os três jogaram xadrez e ficaram lendo o guia turístico uns para os outros. ao descerem atrasados em Hamburgo e terem de correr para pegar o trem para Colônia. Katie tinha um lema. Ted olhou para ela como uma expressão engraçada no rosto. Ted não respondeu nada. disse Katie à amiga. .Meu herói! gritou Katie.Não. Já que não podiam conhecer . para comprar um lanche e uma barrinha de chocolate pra Katie. Divirtam-se! . até que chegaram ao convés superior.

disse Ted. Ao ouvir as informações sobre a Holanda e a França. mas há muito o que se ver fora dos grandes centros também. Esse passeio não começa em Colônia? . Cris mal podia acreditar no quanto Katie se tornara inflexível. disse Ted. Cris ficou contente de terem incluído os dois países no roteiro. disse Ted. era melhor que soubessem o que estavam perdendo. . Você viu. depois de Paris. . .Nem me venha com essa. Moscou e Berlim. . . Nada de mudar os planos. . . depois de ouvir os detalhes sobre Luxemburgo e a Bélgica. . Nós vamos pra Amsterdã.Eu vi.À Alemanha. em busca de aventura? Katie deu um sorriso malicioso. respondeu Cris. tudo bem. né? . Cris também tinha ficado com vontade de passar por lá. É que só estamos passando pelas metrópoles. Vocês bem sabem que o saber é poder. O único problema é que. Não que isso seja ruim.O que aconteceu a Katie Weldon que começou a viagem dizendo-se uma mulher corajosa e determinada. disse Cris.O saber pode nos tornar pessoas arrogantes e legalistas. Acho que assim teríamos uma noção melhor de como são as pessoas nesses países. Vamos usar o conhecimento pra nos tornarmos melhores em estender graça aos outros. Eu cheguei a assinalar um passeio de barco pelo Rio Reno aí no guia.Ela se informou. mas estamos apenas passando de raspão.Acho que deveríamos ir pra uma cidade pequena.Mas nós estamos na Alemanha. Ou então um país menor.Por mim. Katie? Parece ser muito bonito. São Petersburgo. agora que estava de posse do guia turístico.Eu sei. Ted! disse Katie. disse Katie.Helsinki. Aonde você gostaria de ir? .

. os três deram uma volta em redor do Dom. . No entanto. Segundo as informações de Katie. que pareciam furar o céu da noite. Nessas alturas. antes de irem procurar um lugar para se hospedarem. ele estava se referindo à Bíblia e àqueles que adquirem tanto conhecimento e informação sobre Deus. estão nesta catedral. porque vamos precisar de pelo menos dois dias lá. mas a analogia parecia bem viva em sua mente. O Dom era uma catedral imensa que tinha duas torres idênticas e ficava perto da estação de trem. assim que chegaram a Colônia. e torcia para que o passeio de barco fosse mais um dos pontos altos da viagem. que se tornam inflexíveis e começam a criar um monte de regrinhas. né mesmo? Podemos passar a noite lá. que “dominava” a região.Que pena que não vai dar pra gente entrar! disse Katie. era uma das maiores construções góticas do mundo. Os três ficaram olhando para as enormes pontas das torres cinzas. ficamos um dia em Amsterdã e seguimos pra Paris. Na ocasião. O guia turístico não diz especificamente que relíquias são. e seus alicerces haviam sido construídos em 1248. não falei? Gostaria de ter dado uma olhada. Eles fecharam a igreja meia hora atrás. Cris se lembrava de ter ouvido Ted dizer aquelas mesmas palavras num estudo bíblico anos atrás. Vamos ter de parar em Colônia de qualquer jeito. ela estava muito contente de poder conhecer um pouco mais da Alemanha. Por insistência de Katie. Cris sabia que desta vez ele estava se referindo ao guia turístico. Não quero dar uma de chata.Tudo bem. então. quando foram visitar Jesus. Eu falei pra vocês que as relíquias deixadas pelos três reis magos. . só lhe restava torcer para que Katie lhe estendesse graça e concordasse com o passeio pelo Reno. Embora o roteiro de Katie parecesse simples e claro. a terra de seus ancestrais. disse Katie. fazer o passeio pela manhã e partir para Amsterdã antes do pôr-do-sol. Era tão grande. Cris tinha a impressão de que nem tudo correria tão calmamente assim. Daí. como fiz quando vocês quiseram ir ao Ártico.

vamos em frente. Quando avistaram o primeiro castelo. . ‘Tá certo que tudo isto aqui é muito bonito e romântico.Podemos voltar amanhã. E isso acabava por impedi-la de desfrutar plenamente aqueles momentos de tranquilidade. para me encolher toda como um gatinho e dormir. O passeio de barco foi tranquilo e relaxante. Teria se sentido bem melhor se Ted e Katie tivessem se mostrado tão interessados quanto ela naquele passeio. Primeiro o albergue. . Acho que já vi coisa demais hoje. nem mesmo Cris.Não. e ela tinha certeza de que eles não estavam curtindo o passeio como ela. escondido atrás de velhas árvores no alto de uma colina. Ela sabia que. . e. ninguém mais. mais do que Ted e Katie. vamos ver os castelos da Cris. Cris até conseguiu fazer com que os amigos olhassem para ele e soltassem um pouco a imaginação com ela. No dia seguinte. ainda não havia conseguido se refazer do cansaço que sentia em consequência do pesado semestre letivo. se mostrava interessado em ficar imaginando como teria sido a vida ali no passado. No entanto já fazia uma hora que se encontravam dentro do barco. Viajar era legal e . sugeriu Ted. depois a comida. Estou perdendo o pique. agindo como se o lento passeio pelo rio fosse divertido. estava doida para descansar um pouco. Cris não se agradou muito de saber que estavam planejando passar o dia navegando pelo Reno só porque ela queria ver mais castelos. Cris podia ver claramente que Ted e Katie estavam apenas sendo legais com ela.Quem vocês acham que morou nesse castelo? Um príncipe elegante. Contudo. pela manhã. e Cris. talvez? Será que ele precisou lutar alguma guerra a fim de proteger sua princesa e o castelo? No início Ted e Katie deram respostas bastante inteligentes às perguntas dela. ao passarem pelo terceiro castelo. mas o que eu mais queria agora era um lugarzinho ao sol. mesmo viajando.

o Museu de Gutenberg fica aqui em Mainz. Era pouco mais de uma hora da tarde quando chegaram a Mainz e. que estava de short. Iam ver a primeira Bíblia impressa e assistir a um breve documentário sobre a vida de Gutenberg. E agora o que mais desejava era que o corpo e a mente. a tivesse embalado até que ela ficasse com sono. compraram queijo e pão no mercado da esquina e foram comendo. Assim que as luzes da sala de vídeo se apagaram. . carregando os pesados mochilões.O que tem pra ver lá? perguntou Katie. o sol ficou se escondendo por entre as nuvens. rumo ao museu.gostoso. Era como se o Reno.A primeira Bíblia impressa.Pessoal. Mas os planos de Ted eram outros. Gostaria muito de vê-la. ela “apagou” junto. Cada vez que olhavam. claro. Em seguida. Ted estava bastante entusiasmado. como se tivessem sido um sonho. Naquele momento. mesmo não estando frio. saindo apenas ocasionalmente. o que ela mais queria era embarcar num trem moderno e dar um jeito de dormir o resto da tarde. embora o passeio tivesse sido bom. Vocês se importam de passarmos por lá antes de irmos pra estação? . Cris já estava querendo que ele acabasse. Já Cris não conseguiu conter o sono. exaustos. . E lá se foram eles. E o primeiro livro que ele publicou foi a Bíblia. com seus suaves movimentos e seus castelos encantados. Cris tinha a sensação de que anos mais tarde se lembraria daqueles momentos. podiam avistar um castelo no alto das colinas. mas não dava para descansar quase nada! Durante as horas seguintes. Já ouviram falar em quem foi Gutenberg. Cris. O trecho de Koblenz a Bingen foi espetacular. né? Ele foi o inventor da imprensa moderna. descansassem profundamente. resolveu pegar uma calça jeans na mala e ir ao banheiro se trocar. .

Queria poder ir pra Escondido por um dia e dormir na minha cama. agora. . Ah. Depois. e. ela abriu os olhos e olhou pela janela. ela mecanicamente pegou o passe de eurorail na bolsa e o apresentou. Estava tudo escuro. Então eu seria instantaneamente transportada pra cá. dormiria umas dez horas e acordaria refeita. aguardando que seus amigos lhe respondessem. ela pegou a bagagem e trocou de trem. sua garganta doía para engolir.enquanto caminhavam para a estação.Katie! Ted! Cadê vocês? Por acaso nós perdemos a parada em Amsterdã? Cris se virou. e só conseguia ver algumas imagens vagas e indistintas do lado de fora. mesmo depois de ter lanchado. Depois. Não estava nem aí para saber onde iriam parar. Quando Cris finalmente começou a se sentir mais desperta. Mas eles não estavam mais lá. Quando Ted a chamou. No restante do tempo. Minha mãe faria um chá com mel pra minha garganta e eu ficaria horas no banho. Sua dor de cabeça não havia passado. Cris quase não viu nada durante a viagem para Amsterdã. como já havia feito dezenas de vezes durante a viagem. limpa e com as baterias recarregadas. dormiu. quando o cobrador pediu que apresentassem o passaporte e o passe de embarque. Cris deixou que Ted e Katie discutissem sobre que trem pegar e a que horas. . O sol já havia se posto. se eu pudesse fazer isso! Teria muito mais condições pra aguentar a viagem até o fim e aproveitar melhor os lugares que estamos conhecendo.

percebeu que a bagagem de Katie e de Ted ainda estava lá. Cris se lembrava vagamente de ter sido acordada por Ted. ele telefonaria para os amigos e veria a possibilidade de se hospedarem com eles. Mas havia algo estranho no ar. onde é que eles estavam? E. Ele lhe havia dito que levariam três horas para chegar a Amsterdã e que estariam antes de escurecer. Não é nenhuma novidade. . em que estação estavam chegando agora? Quando o trem entrou na estação. Como foi que viemos parar na França? Foi então que Katie chegou toda saltitante. caso estivessem em Amsterdã. O pior que poderia ocorrer seria perder o ponto de descida. quando fizeram uma conexão em Colônia. E também não teriam descido sem ela. como quase acontecera com Katie em Nápoles. Eles devem ter ido comer alguma coisa e não quiseram me acordar. Cris tentou ler as placas. Mas. Eles não teriam descido sem as malas. na esperança de avistar Ted e Katie. Eram cerca de 5:00h da tarde. Cris olhou nas duas direções do corredor. Era para terem chegado a Amsterdã antes de anoitecer. Cris ficou atordoada. 18 Cris procurou não entrar em pânico. O trem já estava quase parando. Depois poderia encontraria uma forma de localizar os amigos. Quando Cris esticou o braço para pegar a mochila na prateleira superior. A única coisa que conseguia pensar em fazer era pegar a bagagem e ficar pronta para descer. mais do que isso. A gente já fez isso uns com os outros antes. Estava escrito Nancy. E quando chegassem.

Em seguida. disse Katie. . Até chegamos a falar com você.Sam Edwards. O desconhecido usava um boné de beisebol e carregava uma mochila nas costas. Esta aqui é a Cris. repetiu Ted. para surpresa dela. Parecia um pouco mais velho que Ted.Edwards.Não me lembro disso. . Resolveu acordar e encarar o mundo real? Para Cris. Ele nos deu várias dicas de lugares pra visitar em Paris.Cris.Olá. Sinal de que estava viajando há algum tempo.Katie. quando os três se assentaram. que o que decidíssemos estava bom. . durante a viagem de Mainz para Colônia. . disse Katie. . respondeu ele. o que estava vivenciando naquela hora não parecia nada real. Você falou que não fazia questão. Sam sorriu para ela.Mudamos os planos. Como é mesmo seu sobrenome? . .Cris Miller. mas suas roupas estavam tão surradas quanto as do outro. radiante. o que é que estamos fazendo na França? Ted vinha logo atrás de Katie. Um tom de azul escuro. . Ted nunca havia apresentado Cris a ninguém daquela maneira. provavelmente teria deixado as palavras de Ted penetrarem mais fundo em seu coração. que combinava com a camisa jeans que ele estava usando por cima da blusa branca manchada. acompanhado de um rapaz. . no entanto. Seus olhos eram muito bonitos. minha namorada. . este aqui é o Sam. Bela Adormecida. acrescentou com um sorriso: . Achei que estávamos a caminho de Amsterdã.Será que alguém poderia me explicar o que ‘tá acontecendo? perguntou Cris. e não na Holanda. disse Cris.Conhecemos o Sam no vagão-restaurante. Se ela não estivesse se sentindo tão confusa e assustada por estarem na França.

Depois. Não é esse o sobrenome do Marcos? Acho que anotei em algum lugar. né? perguntou ele. Aí tenho de me demorar um pouco mais num mesmo local. Mesmo assim. . tirou um caderninho cheio de cartões-postais e perguntou a Cris se poderia anotar o nome do casal no . Pelo que o Ted a Katie me falaram. . Não é possível viajar toda essa distância e não conhecer Veneza.. disse Sam.Vocês têm de voltar lá. comidas diferentes. Eu já vou bem mais devagar. pra então seguir em frente. abriu a mala. . Em seguida. Pelo menos por um dia. . ficamos apenas algumas horas lá? perguntou Cris a Sam. aquele luxo parecia algo muito bom para Cris.É Savini.Com o cansaço da viagem. disse Katie. Sam contou-lhes de uma família Suíça que havia conhecido no trem alguns meses atrás. disse Ted. .Afetada com o quê? .Por acaso você viu alguma joalheria chamada Santim lá? perguntou Katie. vocês estão pulando muito rápido de um lugar para outro. É claro que ficar quatorze dias é bem melhor.Ah! E se algum dia você quiser se hospedar num lugar legal em Capri. . quando dá umas duas semanas. . Já imaginou ficar duas semanas num só lugar? Naquele momento. o barulho nas ruas. ela continuou contando sobre o luxuoso hotel em que haviam se hospedado de graça em Capri. disse Katie a Sam. . procure o Villa Paradiso. sinto esse cansaço.Você fica afetada.O Ted e a Katie lhe contaram que nós só conhecemos a estação de Veneza? É que mesmo assim.O Sam já esteve em Paris e nos deu muito mais informações do que o guia turístico. E acabou de passar duas semanas em Veneza. Agora ele ‘tá voltando pra encontrar uns amigos. e que lhe convidara para passar alguns dias com eles.. Diga a eles que foi recomendação do Carlo Savini. Muitos lugares pra conhecer.

.Eu coloquei uma listinha daqueles restaurantes de Veneza dentro do guia de vocês. É só dizer que foi recomendação do Sam Edwards. Cris já estava se sentindo bem mais desperta e “acesa”. disse Katie. Ted sugeriu que comessem e fossem ver a Torre Eiffel .Vou anotar tudo aqui pra vocês. De Thun vocês vão pra Spiez e de lá pra Frutigen.Estou falando sério. Vocês iriam amar! Estou falando sério. às oito da manhã. Foi muito bom conhecê-los. Eles moram num chalé. Espero que o restante da viagem de vocês corra bem. Obrigada por todas as dicas. disse Katie. Foi superlegal. muito embora tivesse certeza de que passava de meia-noite. Sam conhecia um hotel bom e barato perto da estação. Durante as duas horas de viagem até Paris. e os quatro então caíram na cama. disse Sam. se encontraram na recepção depois de tomarem banho.guia turístico dela. . Primeiro vocês pegam o trem de Bern até Thun.Acho que uns cinco dias. No outro dia.Preciso ir andando. A paisagem é incrível. Sam folheou o caderninho e continuou: . .Iremos sim. Pra chegar a Adelboden vocês pegam um ônibus. com certeza voltaremos lá. disse Sam. Fica nos Alpes. . Felizmente. caso resolvam voltar lá. . Depois de se despedirem de Sam. numa pequena vila Suíça chamada Adelboden. ajudei na fazenda.A sua também. durante o dia.Quanto tempo você ficou lá? perguntou Katie. No que depender de mim. tirando a tampa da caneta com os dentes. . os três ficaram trocando histórias e experiências de viagem com Sam. Dormi no palheiro e. . Quando chegaram. Eles vão adorar receber vocês.

O terceiro trazia a foto de uma gôndola amarrada a um mastro listrado de vermelho e branco. No cais. Oregon. apoiado no mastro. A diferença era que. Nem mesmo o café forte e a torta que comera no desjejum a ajudaram. Cris pediu a Katie que lhe emprestasse o guia turístico. Vestido totalmente a caráter.Estes postais devem ser do Sam. tomaram o metrô . Quando Cris o abriu. Cris olhou o verso do postal da gôndola. Cris guardou-os novamente no guia turístico e resolveu fazer a gentileza de colocá-los no correio para Sam mais tarde. com uma fita azul caindo-lhe pelas costas. três postais caíram no chão. em vez das torres pontiagudas. do Rio Sena em Paris. Ela tirou algumas fotos da Torre Eiffel e. O primeiro era uma foto dos Alpes austríacos. Cris não havia conseguido dormir pesado o suficiente para que a sensação de tontura e cansaço passasse. Nenhum dos postais estava selado. poderiam deixar para visitá-lo durante a parte mais quente do dia. o gondoleiro. O destinatário era um tal de Franklin Madison. e o segundo. Levadas por Ted. Tinha ouvido alguém dizer no trem que uma onda de calor co- briria Paris por alguns dias. Katie entregou-lhe o guia. EUA. Provavelmente tinham ido parar ali quando Sam foi colocar a lista de restaurantes . vazadas.enquanto ainda estava fresco. usava um chapéu de palha de abas largas. Queria descobrir quantos anos a igreja tinha e o que havia de comum e de diferente entre ela e a catedral de Colônia. fazia sinal de que a gôndola estava disponível para passeio. fenômeno aliás não muito comum no início do verão. E. .um moderno sistema de trens subterrâneos - e os três desceram próximo à catedral de Notre Dame. como Katie. que pareciam torres de sino. Notre Dame tinha duas torres idênticas. Ao se aproximarem da imensa catedral cinza-claro. da cidade de Glenbrooke. Externamente eram razoavelmente parecidas. achou que a subida até o topo da torre era cara demais. como o Louvre tinha sistema de ar-condicionado.

mesmo tendo se passado setecentos anos. produzido na Era Medieval. O que o guia diz sobre ela mesmo? Cris se pôs a ler em voz alta. né? comentou ela enquanto olhavam para a catedral. . . Cris abriu na seção sobre Paris e correu os olhos pelas informações a respeito da catedral. construída oitocentos anos atrás. ao avistarem a simples e modesta igrejinha. Foi tão bem projetada que.dentro do guia. Na época em que foi feita.Vejam aquela janela! disse Katie.Vocês não têm a sensação de que estão dentro da concha de um caracol quando sobem este tipo de escada. A atmosfera lá dentro era sombria e imponente. Lá no fundo do coração do homem há um forte anseio pelo Senhor. não? perguntou Katie. disse Cris. . não apresenta nenhum sinal de deterioração. -Vocês acreditam que esta igreja foi construída quase cem anos antes da catedral de Colônia? O guia diz que as pessoas vêm prestar culto aqui há praticamente dois mil anos. Tenho percebido isso de uma forma muito clara durante estes dias.Isso é que eu chamo de saber projetar! exclamou Ted. . Vocês notaram como a arte era usada para mostrar ensinamentos bíblicos? Puxa! Como a arte moderna se distanciou desse propósito! Os três demoraram mais de duas horas para conhecer todo o interior da igreja. . e perceberem o enorme contraste entre ela e a Basílica de São Pedro em Roma.Parece que as pessoas desejam se encontrar com Deus. . Depois.O vidro da grande rosácea ainda é o original. os três subiram as escadas em espiral até a cúpula. . Cris ficou assombrada com a informação. nenhuma outra rosácea se comparava a ela em tamanho.Eu fico tonta. Era a mesma sensação que experimentara na Noruega.

a fim de chegar mais perto. O museu.Fico só imaginando o tamanho dos músculos das pernas dos monges que ficavam subindo e descendo estas escadas. Sua determinação em localizar a famosa tela era muito maior do que o interesse que demonstrara em descobrir o “paradeiro” da Pequena Sereia. A vista de Paris parecia embaçada pelas ondas de radiação do calor. Como não tinham ninguém. Quando afinal adentraram a sala onde o quadro se achava.O quadro é bem menor do que eu imaginava. Queria poder ter alguém como Marcos por perto. Cris bebeu o refrigerante quente e espumante e. fosse na pele ou descendo garganta abaixo. o Rio Sena parecia bastante tentador para Cris. por sua vez. passaram por uma pirâmide de vidro moderna e de design bastante complexo. Katie infiltrou-se pela multidão. pagaram os ingressos utilizando suas carteirinhas internacionais de estudante. que anteriormente havia sido um palácio. e Cris se sentiu bem à vontade lá dentro. . em vez de matar a sede. Pelo menos dentro do Louvre estava fresco. para terem desconto. Cris e Ted ficaram mais ao fundo. ficou ainda mais sedenta. Cris ficou completamente desorientada com tudo o que viu. resolveram parar num carrinho de cachorro-quente. perceberam o quanto havia esquentado. a fim de tocar os sinos. Visto dali. Quando chegaram à cúpula da igreja. Depois. Aliás. A coca-cola estava tão quente quanto o engradado de onde havia sido tirada. Cris sorriu e comentou: . seria refrescante naquelas alturas Não foi muito difícil para Ted convencer as duas a descer com ele e procurar algo para comerem. espiando por cima dos ombros dos outros turistas. antes de seguirem para o Louvre. Katie. estava empenhada em encontrar a Mona Lisa. qualquer gotinha d’água. era bastante espaçoso. comentou Ted. Cris achou a salsicha apimentada demais e comeu apenas metade do lanche. Dali em diante. disse Ted. duas vezes ao dia. . para deixá-los entrar pela porta dos fundos e levá-los diretamente às salas onde estavam as obras de maior interesse. Para economizar.

deixaram o Louvre. Estou querendo é voltar pra Escondido. Poderíamos pegar um ônibus e ir pra Versalhes.Pra onde vamos agora? perguntou Ted. Naquele momento. tinha um aspecto imponente. .Não. Cada janela. É demais para o meu cérebro! . Depois de perguntar a quatro pessoas.E por quê? O aviso diz que é proibido tirar fotos com flash da Mona Lisa.O segurança irá tomar essa máquina de você. advertiu Cris. . A fachada era perfeitamente harmoniosa. ficar assentada por meia hora era o que lhe parecia mais convidativo. Cris se pôs a observar o Palácio de Versalhes. A viagem durou uns quarenta minutos e. . bateu uma foto de Cris e Ted. tão logo chegaram. Não parecia real. cansada.Que tal se saíssemos daqui do centro? sugeriu Ted. Já passei dos meus limites. Acho que não aguento conhecer mais nenhuma “maravilha” deste mundo. Na verdade. a fim de pegar o ônibus para Versalhes.É engraçado como as coisas são. cada coluna. em seguida.Pra casa. ainda com seu jeito todo animado e divertido. . A construção. equipado com ar-condicionado. Não diz nada sobre tirar fotos das pessoas olhando pra ela. .Quer voltar para o hotel? indagou Ted. . né? Katie se pôs de frente para a multidão de turistas que apreciavam a tela e. Ted ia na frente. Esperaram uns vinte minutos sob o forte calor e entraram no coletivo. Afastando-se um pouco. Fica a mais ou menos meia hora daqui. respondeu Cris. Ted concluiu que sabia para onde deveriam se dirigir. pouca diferença fazia para Cris para onde iriam. grandioso. compraram garrafas de água de um vendedor ambulante. Do lado de fora do museu. e até mesmo o contorno do . Os três passaram rapidamente pela sala de arte egípcia e por mais algumas e. . quando a amiga caminhou para perto deles. em tons de amarelo bem claro. o ar estava quente e abafado.

. da T. comessem brioche! Aquela deve ter sido a primeira vez em toda a viagem que uma informação histórica não interessava a Cris. havia passado do limite que o corpo aguentava. A sensação que tinha era de que sua mente e seu corpo estavam começando a agir mecanicamente. Seus pés a levavam de cômodo em cômodo e seus olhos contemplavam todo aquele espetáculo. (N. que se alinhavam em direção ao centro. morrendo de fome.) Cris não sabia exatamente aonde a amiga queria chegar com aquele comentário. o que era muito estranho. como dissera a Ted pouco antes. Cris contemplou tudo aquilo. A água que Cris havia tomado também a ajudou a refrescar um pouco. em vez de ser apenas uma imensa construção plana e achatada. nesse caso. a fachada do palácio possuía entalhes semelhantes a degraus. E. Cada quarto que visitava parecia mais suntuoso que o anterior. mas. e Maria Antonieta* assentada aí dentro do palácio? ___________________ * Esposa de Luis XVI. disse: . se encaixava em perfeita harmonia com o restante do palácio.telhado. pareceu-lhe muito boa. Katie deve ter percebido a expressão confusa no rosto de Cris. que havia lido alguma coisa sobre aquele palácio do século XVII. ou quem sabe uma quitanda qualquer ou até mesmo um biscoitinho. Contudo a idéia de comer um brioche.Olhem só pra este lugar! Dá pra imaginar todos aqueles camponeses aqui fora. E então ela lhes disse que. É que o pedaço de cachorro- quente que tinha comido não havia cooperado muito com seu estômago.Você ‘tá bem? perguntou-lhe Ted no ônibus de volta para Paris. O salão de festas a fez pensar sobre algo que tinha visto num filme da Cinderela.Vocês não se lembram? Alguém disse a ela que os cidadãos franceses não tinham pão pra comer. rei da França. Felizmente. porque em seguida acrescentou: . . Katie. o ar estava mais fresco no interior do gigantesco palácio.

. acho que você acabou de descobrir a resposta que vem me atormentando todos esses meses. então. que meu dom não é trabalhar com crianças? Aquela idéia soava como um golpe para ela. É nisso que você deve empenhar sua vida. . Parecia estar pensando nas perguntas de Cris.. Ted virou o queixo e beijou-a carinhosamente na testa. Tudo começara quando Katie a convencera a .Ted.Sei lá. Então você chega a um ponto em que não consegue dar mais nada de si emocionalmente. e não esgotada. . Deus a dotou de uma forma singular. então você se sentirá motivada e impulsionada a seguir em frente. . Por vários anos ela havia pensado que aquele era o ministério que devia desempenhar. Quando afinal se pronunciou.Está me dizendo. Como é que você consegue absorver tudo o que vê? As coisas novas não despertam certos sentimentos em você. que é por isso que o trabalho no orfanato tem sido tão desgastante pra você? Será que você não ‘tá absorvendo demais tudo o que vê por lá? E consequentemente isso gera em você um sentimento muito profundo em relação às crianças diariamente? Fico me perguntando se não é isso que ‘tá acontecendo. a necessidade não faz o chamado. Cris levantou a cabeça e olhou para Ted.A necessidade é tão grande. não? Alguma vez você já chegou ao ponto em que parece não ter mais nenhuma energia dentro de si pra investir naquilo que ‘tá fazendo? Ted não disse nada. .Será.Eu sei que ‘tá sendo difícil pra você. O segredo é descobrir quais são esses dons singulares que Deus lhe deu.Mas. .. pelas coisas que você diz nos e-mails. porque já se deu demais. fez-lhe mais algumas perguntas. . única. Cris. disse ela. Cris encostou a cabeça nos ombros de Ted. Se você estiver trabalhando dentro da esfera de dons que ele lhe concedeu. então.

Ela olhou nos olhos de Ted.Tudo o que sei é que o futuro ‘tá escancarado pra você. singular. deixando que as lágrimas lhe caíssem diretamente no coração. . Liberdade para se tornar alguém que nunca antes pensara em ser. Ninguém nunca poderá tirar isso de você. Deus certamente lhe dirá. Pergunte a ele. E poderia continuar na profissão. agora então era como se seu circuito interno tivesse sido completamente desligado. mesmo que tivesse filhos . pensara que seu futuro achava-se bem traçado. que era um dom que ela pensava ter. . principiou Ted. Se Cris achava que seu corpo estava operando acima dos limites. Cristina Juliet Miller. todas as suas decisões com relação ao que fazer no futuro haviam girado em torno do trabalho com crianças. e Cris recostou-se no dele. poderia dar aulas no jardim-de- infância. sussurrou ela. Desde então. Iria se especializar em educação infantil e depois. E juntamente com essa verdade. Você é livre pra sonhar tão alto quanto ousar sonhar. Cris apoiou a cabeça no ombro de Ted novamente. apoiando o queixo sobre a cabeça dela. quem sabe. Até aquele momento. Há um versículo em Romanos que diz que os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis.ajudar na classe de maternal da igreja.Não sei dizer exatamente quais são os seus dons ou qual é o chamado de Deus pra sua vida. Deus lhe concedeu dons e chamou-a para servi-lo de uma forma única. Gostava daquela idéia porque era algo que poderia fazer em qualquer lugar que morasse. Cris sentiu uma liberdade vir sobre ela.Guarde essas lágrimas pra mim. Isso é algo entre você e o Senhor. quer fosse casada ou solteira. E Cris havia gostado de trabalhar ali. Sabia que ele lhe havia dito uma verdade importante. Ted envolveu-a com o braço. . Havia feito seus planos muitos anos atrás.

toda vez que estava junto das crianças. Ontem à noite mesmo quase não ventou. Jogou o lençol no chão e permaneceu deitada na cama do hotel parisiense. . Era realmente muito bom poder ouvi-lo. O Sam falou que ele era o melhor que tinha aqui perto do centro. Pouco tempo depois de Cris ter chegado a Basel e começado a trabalhar no orfanato. Cris se sentia esgotada. Bem lá no fundo. na verdade. Queria muito poder encontrar uma maneira de expressar a Ted o quanto ela valorizava as palavras dele. Este hotel aqui é barato. Tem certeza de que a janela ‘tá totalmente aberta? . O problema não é o calor que ‘tá demais. A gente bem que queria dormir até mais tarde hoje.Que horas são? resmungou Katie. chutando o lençol também. . disse Katie. tinha de lutar para que uma tristeza e um cansaço muito fortes não se apoderassem dela.Sete horas ainda. E. . todos os outros voluntários pareciam transbordar de ânimo e satisfação por causa do trabalho que realizavam ali. No início. mas não dá. Se tivesse um ventilador aqui o quarto ficaria bem mais agradável. só conseguira ficar ali todos aqueles meses porque sabia que as crianças precisavam dela. Cris acordou sentindo calor. achou que o problema fosse com ela. . É o ar que não ‘tá circulando. ela começou a perceber que. ‘Tá quente demais.Duvido que o hotel tenha ventiladores pra emprestar. Afinal de contas.Sim.Vamos acordar o Ted e dizer-lhe que estamos prontas pra tomar café. . 19 Na manhã seguinte.

levantando-se.E por falar em Sam.Pena que não comprei aquele suéter que vimos na vitrina daquela loja em Oslo. os cartões-postais dele acabaram ficando dentro do guia turístico.Se tivesse de escolher.Estou querendo algo com mais proteína. Não saímos pra fazer compras nem uma vez disse Cris. Não estou com vontade nem de comer tortinha hoje. . . Se o Ted quiser ficar . Em seguida. .A sensação que tenho é de que nos últimos dias só comemos pão e água.Ah. Você já enviou algum postal para seus pais? . Próprio pra esquiar. dá pra acreditar? . Como estão sem selos. Katie! Vamos trocar de roupa e sair pra comprar fritas. Que tal um pedaço de frango? Ou um bife? Não seria uma boa pedida? . não faça vontade em mim! Sabe há quanto tempo não como batatas fritas? disse Cris. . pensei em colocá-los no correio pra ele. não. Acho que ele custava cerca de oitenta e cinco dólares. disse Katie.‘Tá brincando? Quando é que tivemos tempo pra comprar postais? Ou mesmo lembrancinhas? A única coisa que compramos nesta viagem foi comida.Venha. Mas eu poderia ter feito a comprar e passado o resto da viagem a pão e água. pediria um Big Mac com fritas. .Você trouxe tudo isso pra gastar com presentinhos? Puxa! . disse Cris. Eu devia ter comprado um também. . Ia aproveitar mandar um cartão pra minha família também. esticou o braço e pegou a roupa que havia pendurado na cabeceira da cama.Na verdade. disse Cris. Lembra? Ele era azul e branco. tricotado à mão. Cris mal conseguia pensar em suéter naquele calorão todo.Você não vai querer tortinha? Conta outra! . .É mesmo. você notou? Pelo menos você foi esperta e comprou aquele diário na Itália.

Só um minutinho! gritou Cris.E a quantas horas isso fica daqui? perguntou Katie. Daqui a Barcelona seriam doze horas e. . respondeu Ted. Venha conosco. quem é desanimado não entra na equipe dos caça-batatas fritas! . não. disse Katie.Acho que vou aceitar o desafio.Não só estou vestida decentemente. Mas você não . que mais que tem pra vermos aqui? Ontem nós visitamos os principais pontos turísticos.Tinha me esquecido de que Paris ficava bem ao norte.Então.Vou junto! Tinham acabado de vestir os shorts. não estamos na metade do caminho? . quando alguém bateu à porta. Aliás. de Barcelona a Madri. né? .Que tal irmos pra Espanha? sugeriu Cris. aviso: pode não ser uma maratona tão simples! Portanto. como sempre. penteando rapidamente os cabelos.Pelo visto vocês também não conseguiram dormir. . Você ‘tá vestida decentemente? perguntou à Katie. Este calorão ‘tá demais! Além disso. . Cris olhou para ela. Já estou pronta pra dar o fora daqui. Já havia trocado de roupa e estava pronto para sair. embora nunca tenha ouvido falar que a França tenha tradição em batatas fritas. quando estive na Espanha.Umas três. Fica no caminho pra Amsterdã. . disse Cris. . como também estou linda! Aliás. Ao vê-la. imagino. Ted. sacudindo e vestindo a última camiseta limpa que lhe restara. . Era Ted. se tiver coragem! Mas. disse Ted.dormindo. ele que fique! Eu estou a fim de comer alguma coisa! . o rapaz abriu um sorriso. como quem está aflita. o pessoal comentava que as melhores fritas da Europa eram as de Bruxelas. . mais sete. vamos pra lá! disse Katie. e abriu a porta. .Resolvemos sair pra caçar comida na rua.Pra falar a verdade. Quer dizer.

. disse Ted. em Oslo. Pelo menos. .Então ‘tá resolvido! Vamos pra Bruxelas! anunciou Katie. .Por quê? perguntou Katie. A última vez que lavei roupa foi há uma semana. Era como se Deus a houvesse liberado do encargo de trabalhar no orfanato e da pressão que sentia para obter um diploma em educação infantil. . . certinho.E o que você vai fazer agora? . Daqui a uma semana.Isso quer dizer que nos resta menos de uma semana de viagem. muitos deles já não estão mais lá.Vou arrumar minhas coisas. jogando as roupas na mala. E agora nem sei mais se quero concluir esse curso. Ou assumiram cargos em outros países da Europa. Cris procurou lhe explicar como as palavras de Ted no ônibus a tinham feito sentir-se livre. A testa de Katie brilhava de suor. Já nem estava vermelha mais. minhas aulas recomeçam. dirigindo-se para o quarto. por causa do calor no quarto.Minha também. Cris olhou para o relógio redondo pendurado na parede. parecia que a pele estava sarando. .gostaria de rever seus amigos? Ted pensou por alguns instantes e depois deu de ombros. Katie parou por alguns instantes o que estava fazendo. dos meus amigos mais íntimos. . Não consigo me lembrar de ninguém. Esta é minha última muda de roupa limpa.Será que a gente consegue achar um lugar pra lavar roupas em Bruxelas? perguntou Katie. que ainda esteja lá. respondeu Cris com um sorriso. disse Cris.São 8:00h.Não tenho a menor idéia. .Na verdade. . Cris havia observado que a testa de Ted estava começando a descascar levemente no local da queimadura. . ou voltaram para os Estados Unidos. Katie olhou para Cris.

e aproveitasse os créditos que cursou aqui. com as mãos na cintura. a idéia era que você fosse estudar na Rancho Corona. . . pães e umas caixinhas de iogurte para a viagem. .Eu sei. Quero dizer. Estou com a sensação de que vou começar a derreter daqui a pouco. Cris. porém bem menos do que no abafado quarto. Entretanto Katie parecia estar esperando um momento em que estivesse a .Se você mudar de curso agora. Você ia se formar rapidinho. . em setembro. Cris? disse Katie. Cris deu de ombros. puderam sentir a brisa e respirar um pouco melhor. Cris sabia que a amiga queria conversar mais sobre a séria decisão que Cris teria de tomar. disse Katie.Acho que me assustava mais o fato de ter de me empenhar tanto pra conseguir um diploma que não me deixa nem um pouco empolgada com o futuro. . que ficava ali perto. Caminharam até a estação. .E isso não a assusta um pouquinho? .Você não percebe. sonhos maiores. Só que estava entusiasmada demais com a idéia de poder sonhar novos sonhos. Ela também já havia pensado naquilo. mais tempo levará pra você e o Ted poderem se casar! continuou ela. Certamente não iria deixar que aquele probleminha acabasse com sua alegria. e compraram queijo. Assim que saíram do velho hotel. O suor escorria-lhe pelo rosto. vai acabar perdendo esses créditos.Eu sei. sonhos livres. Este quarto ‘tá quente demais. . Lá fora estava quente. com relação à mudança de curso. .Vamos embora daqui. Isso não lhe mete medo? Pode ser que demore mais tempo pra você se formar.Quanto mais você demorar a se formar.Esta é uma decisão séria. Katie não falou muito durante as três horas de viagem para Bruxelas.

Ted resolveu andar um pouco. havia tempos que uma decisão não me parecia assim tão correta. Cris se lembrou da noite em que ela e Ted pararam na acidentada rua de pedra de Capri. Katie. Cris tentou descrever para Katie o que estava sentindo. E. Tinha se sentido diferente. . Todas as dúvidas se dissiparam de seu coração. mudada..Então. . sob o brilho dourado da luz do poste. você acha que é possível vocês se casarem antes de terminar a faculdade? . O máximo que posso fazer é dar um passo de cada vez. Não sei nem se vou continuar em Basel. . Por enquanto. Katie lhe disse que achava que entendia. Aliás. deixando de ser uma adolescente e tornando-se uma mulher de verdade. só sei que me sinto em paz pra mudar de curso. Ela se perguntava se aquele era o sentimento que se tinha quando se entregava cada área da vida ao Senhor..Não sei. esperando que ele direcionasse as circunstâncias.sós com Cris. à medida que Deus me mostra que passo devo dar. Katie soltou a pergunta: .Não. Não sei ainda pra qual.Eu sei que essa pergunta já lhe passou pela cabeça. A mesma sensação tomava conta de Cris agora. A oportunidade surgiu cerca de meia hora antes de chegarem a Bruxelas. Ted retornou e as duas pararam de falar sobre o futuro. também não sei o que vem pela frente em meu relacionamento com o Ted.Não estou acreditando que você ‘tá me perguntando isso. dizendo que era como se ela tivesse uma profunda certeza de que o Espírito Santo estava reconfortando seu coração. e tão logo ele se retirou. De alguma forma ela sabia que havia atravessado um túnel invisível. Katie! . . pra ser sincera. naquele dia. Parece a coisa certa na hora certa. para então continuar dando sua opinião.E isso não a assusta? Cris pensou por alguns instantes e depois balançou a cabeça. para esticar as pernas. Só estou tentando ajudá-la a responder sua própria indagação.

até ficarem crocantes. queria saber quais eram os planos de Ted para o futuro. havia um carrinho. talvez seja melhor nem saber do que é feito. e a primeira coisa que os três fizeram ao descer do trem foi sair à procura de um carrinho de batatas fritas. Mais do que isso. Acho que o gosto lembra camarão. Um deles era parecido com maionese. ela teria de tomar decisões bastante sérias nos próximos dias e queria ouvir a opinião dele. Na verdade. O vendedor lhes ofereceu vários molhos para mergulharem as fritas. próximo à estação. Ted experimentou um molho escuro. Nesse caso. Ali mesmo. Sentia-se livre. Eram semelhantes aos carrinhos de sorvete da Itália e aos de cachorro-quente de Nova Iorque. Cris não se importava de suspender o assunto por alguns momentos.‘Tá quente demais! disse ela ao dar a primeira mordida. observavam os enormes pedaços de batata . ao provar o molho que lembrava maionese. Era meio-dia em ponto quando o trem chegou a Bruxelas.Isso é muito esquisito! exclamou Katie. Ted e Katie até ficaram surpresos ao vê-la pedir outra . Não sei.Lá na Suíça as criancinhas do orfanato gostam de pôr açúcar na pipoca. Ted disse que seus amigos haviam voltado da Bélgica contando vários casos sobre esses carrinhos que vendiam fritas nas ruas. Até que é bom. Cris preferiu experimentar a batatinha ao natural. na Bélgica. . . Enquanto esperavam. . Contudo ela sabia que em breve precisaria levar um papo aberto com Ted. . disse Cris. Não tiveram de andar muito. Verdadeiramente livre.passar novamente pela gordura. Afinal.que já haviam sido fritos uma vez . em vez de sal e margarina.Não parece com molho barbecue nem com ketchup. Era a primeira vez que um comentário acerca do orfanato não lhe fazia sentir um aperto no estômago. Cris gostou demais das fritas.

Cris podia ver o quanto Ted estava alegre de poder rever os amigos.porção quando já estavam quase indo embora. com as bagagens. Poderíamos passar a tarde aqui e partir à noite.Eles estarão nos esperando às 6:30h. segundo a vendedora. Pouco tempo depois. Que papo é esse? O que é esse tal de Rochedo? De que louvor você ‘tá falando? Ted explicou que Rochedo era o nome do albergue que Mike e Meg. O calor não era tão intenso como em Paris. administravam em Amsterdã. preciso telefonar para os meus amigos e perguntar-lhes se podemos ficar com eles. Vou dar uma mão pra eles nos louvor. carregando os pesados mochilões. O Mike disse que pode nos buscar na estação e nos levar para o Rochedo. um casal com quem trabalhara na Espanha. O que vocês querem fazer? Ficar mais um pouco aqui ou pegar o trem pra Amsterdã? . Se decidirmos fazer isso. mas o sol da tarde até que estava bem forte.Muito bem. disse Cris. achar um telefone público.Eu dei uma olhada no horário dos trens. haviam sido feitos à mão. com um papel nas mãos. Cris e Katie entraram numa loja para comprar chocolate belga e alguns suvenires. Ted saiu da cabine telefônica.Mas nós acabamos de chegar. Cris comprou três guardanapos de renda que. conferir o horário dos trens e confirmar os planos para o dia. . A etapa seguinte seria voltar para a estação. Eles têm um culto às sete da noite. . Já comemos as batatinhas. Talvez estivesse ainda mais empolgado com a possibilidade de pôr as mãos num violão. A fim de passar o tempo. São mais ou menos umas três horas daqui a Amsterdã. . . Ted ficou lá fora.Espera aí! disse Katie. . Eram muito bonitos e delicados. os três ficaram perambulando pelas ruas de Bruxelas. principiou Ted. Há vários trens durante o dia. Todas as noites. havia um culto de louvor das sete às oito. disse Katie.

Bélgica! exclamou Katie. também de renda. . .Eu posso ficar aqui com a bagagem.É até ridículo pensar que os únicos suvenires que compramos durante toda a viagem foram de um país em que estivemos apenas pra provar suas famosas fritas! disse Cris. . A gente nem precisaria esperar o trem da tarde pra ir pra Amsterdã. amarrou o mochilão nas costas e soltou um suspiro. gente! disse Cris. por sua vez. Vamos! Os três fizeram uma parada no mesmo carrinho em que haviam comido antes e foram para a estação. disse Cris. disse que aquele não era bem o tipo de presente que compraria. comendo as fritas enquanto andavam.Ah! Eu estava querendo comprar uns postais e alguns selos. disse Katie. disse Ted. . .Estamos parecendo uns velhos! Dá pra acreditar que ficamos apenas duas horas num país? Gente. estou com vontade de comer mais batatinhas. .O que foi? perguntou Cris. nós estávamos na Bélgica! Adeus. O trem seguinte para Amsterdã estava prestes a partir.Achei que seriam bastante apropriados pra dar de presente quando eu voltar. . .Katie. disse Katie.Isso é loucura. Estamos todos cansados e sem o menor pique pra passear aqui. Em seguida.Estou de acordo. No entanto a vendedora acabou convencendo-a a comprar quatro marcadores de livro. Além do mais. acenando como se fosse uma miss. Principalmente porque não vão pesar nada na bagagem. Chegaram bem na hora. Katie começou a rir. Tão logo tomaram seus assentos. . Poderíamos partir agora mesmo e deixar pra comprar os postais e os selos por lá. se vocês duas quiserem voltar ao centro. Aproveitaram a sombra para descansar um pouco. . logo que o trem se pôs a caminho.É impressão minha ou a roupa suja pesa mais? Caminharam mais alguns quarteirões e chegaram a um parque.

Pronto. deixara o cabelo crescer. Cris partiu o cabelo em três mechas. Já ia prendê-lo novamente quando Ted a interrompeu. . em parte porque sabia que Ted gostava dele assim. Ted movimentou uma peça no tabuleiro de xadrez. . ele havia dito que gostava do cabelo dela comprido. obrigada. Cris deixou o cabelo solto e começou a desembaraçá-lo. com o queixo voltado para cima. O rapaz sorria para ela. Desde então. O trem saiu da estação e Ted desafiou Cris a uma partida de xadrez. começando o jogo. As pontas do cabelo quase lhe chegavam à cintura. logo após fazer sua jogada. Alguns anos atrás. Raramente Ted comentava sobre a aparência dela.Não! Faça uma trança. mas também porque curtia poder fazer penteados diferentes nele. dizendo que ia comprar algo para beber. Durante quase toda a viagem. . enquanto Ted arrumava o tabuleiro. por causa do calor da manhã. rindo. disse ela. Era o mesmo sorriso de felicidade que Cris havia visto em seu rosto quando ele a beijara na Noruega.Querem que eu traga alguma coisa pra vocês? . optara por fazer um coque. Na ocasião. Todos riram do comentário de Cris. Cris virou-se de costas para ele e. disse Ted. comprido. mas. ela havia acabado de fazer um corte bem curtinho.Não. Cris tirou uma escova da mochila e se pôs a pentear o cabelo. ela havia usado uma trança frouxa. Katie se levantou. ‘Tá comprido o suficiente? Em seguida virou-se para Ted. disse Ted. Quero ver como é o processo. Aquele era mais um de seus famosos comentários breves. Cris sentiu o rosto corar. . Cris mexeu uma peça e em seguida torceu o cabelo. . Só que nas últimas horas o penteado começara a despencar vagarosamente.Eu gosto do seu cabelo assim. inclinou a cabeça para trás. a caminho do Museu Kon-Tiki.

Faça outra pra eu ver. . enquanto Ted vagarosamente trançava seu cabelo. Eu diria que ‘tá melhor do que “nada mal”. . Só um pouquinho mais do que a primeira que você fez. disse ela. ao virar-se para ele. . . né? . sorrindo. saiu apertada demais e Cris soltou um gritinho. Na verdade. Que tal? Cris pegou a trança das mãos dele e correu os dedos por ela. . . Ted sorriu para ela.Pra quê? ‘Tá querendo aprender a fazer tranças ou algo parecido? .Muito espertinho! Você sabe que ‘tá na minha vez! exclamou Cris. De que lado começo? . . disse Cris.É assim.Nada mal! . sentindo cada parte.Qualquer um. então.Nada mal?! exclamou o rapaz. Não faz diferença.Pronto! anunciou Ted. A primeira trança ficou muito frouxa.Melhor agora? perguntou Ted ao refazer a trança. Foi muito rápido. . dessa vez segurando o cabelo de Cris com mais delicadeza. Ficou muito bom. Acho que ‘tá até muito bom! . Inclinou-se um pouco e pegou as mechas da mão de Cris. Na segunda tentativa. passando rapidamente uma mecha por cima da outra e fazendo a trança em poucos segundos. .Muito bem.É a minha vez agora. .‘Tá bom assim. não precisa ficar tão firme. pedindo-lhe instruções. Cris se manteve imóvel.Muito bem.Calma.E por que não? respondeu Ted. como se as palavras dela fossem o único convite de que precisava.

logo que seus lábios encostaram na face dela. Só que seus pensamentos não estavam no jogo. Então os lábios de Ted tocaram os dela. mas não conseguiu. Bastaria apenas se virar um pouquinho para sentir o que tanto queria: os lábios de Ted tocando a maçã de seu rosto.Você é linda. num beijo terno e carinhoso. não ama? Cris percebia que ele se aproximava dela. . Sentia a respiração quente de Ted em seu pescoço. Você me ama. Esta deve ter sido a mais romântica e terna demonstração de carinho que você já me deu. sussurrou ele. . Em seguida. Ela estava pensando na forma como Ted havia feito a trança nela e. no olhar que ele certamente estava lhe dirigindo naquele momento. É linda em todos os sentidos. ela olhou longamente para as peças do tabuleiro de xadrez. Ted Spencer. mais do que isso. Fingiu estar concentrada no jogo. Kilikina.

Cris se aproximou de Ted. e seu coração achava-se cheio do que dizer. ficando de frente para Cris.. segurando levemente apenas três de seus dedos. que há pouco estivera tão perto. sincero e apaixonado que Cris há havia visto.. . E concluí que gosto muito quando você me beija. meigo.Eu sei. tinha muito o que lhe falar. .Ted. . 20 Cris nunca havia se sentido tão “arrebatada” em toda a sua vida.. Inclinou o corpo para a frente e pegou a mão dela. principiou ela. seu espírito.Eu sei. o coração pulsando fortemente. Cris. que perpassava todas as dimensões do seu ser: seus sentidos. por sua vez. Ted. eu. fiquei pensando em algumas coisas. disse Ted. Parecia não saber direito o que dizer. suas emoções. Toda aquela intensidade a assustou. Eu. . Enquanto você estava no Ártico.. Não foi minha intenção. achava-se a uns trinta centímetros de distância dela. .Ted.Obrigada.. . passando a mão no pescoço. Ted se levantou e mudou de banco. Só que eu gosto um pouco demais. Cris sorriu. fazendo com que se afastasse de Ted.Mas o que eu disse foi sincero. disse Cris. falando suavemente.. Tudo estava claro para ela. Era um sentimento forte. . principiou Cris em voz fraca. Seu olhar era o mais doce. Cris olhou para ele.

Silenciou. Cris percebeu o olhar surpreso de Ted..Obrigado. falou: . por alguns minutos.O que estou querendo dizer é que nós nunca conversamos sobre isso. livremente.Bem.Então resolvi “guardá-lo”. Eu já havia pensado acerca disso também. minha vontade foi “gastar” um desses beijos especiais que estou guardando. . pra quando chegar a hora certa. afinal. Então. . Era como se as palavras dela o tivessem sensibilizado. o que vou lhe dizer pode até parecer um pouco utópico. . . Falou de seu “cofrinho imaginário” e de como pretendia enchê-lo de expressões de carinho e amor. Afinal concluiu dizendo: . então. Ted permaneceu em silêncio por um minuto e. quando você me beijou. Ted acenou afirmativamente. e acrescentou logo em seguida: . mas estive pensando bastante sobre isso e tive algumas idéias. Um dos meu princípios era não dar beijos muito demorados e sempre . sobre nossos limites. Cris procurou explicar-lhe da melhor maneira possível sua idéia de guardar seus beijos e “gastá-los” apenas ocasionalmente.‘Tá me agradecendo por quê? .Continue. Cris não queria dizer “quando nos casarmos”. sei lá. princípios. regras. pois assim poderia “guardá-lo” no meu cofrinho. o momento em que poderei “gastar” todos eles. sentindo o rosto corar.Então. Por ter parado pra refletir sobre esse aspecto do nosso namoro. relacionados a essa área.. Mas aí me afastei. O olhar de Ted para Cris parecia carregado de uma profunda admiração.Por você se importar. muito tempo atrás. E resolvi que só iria beijá-la em ocasiões especiais. quando.

Em seguida. . Katie chegou. Sua escolha. Cris nunca se dera conta de que Ted havia parado para pensar sobre aquele assunto. Ted. pôde perceber que todas as expressões de afeto dele haviam se enquadrado naqueles princípios.beijá-la em público. que sorriu para ela. . no entanto. Katie. . enquanto você não estava. . Se Ted entendera a “ligação” ou não. e fico grato por isso.Nossa! exclamou Katie.Mais tarde. Cris não sabia. Cris abriu um sorrisinho no rosto.As coisas estão mudando pra nós. Se você não me tivesse feito parar pra refletir sobre a questão dos “limites” nessa área. ao relembrar os anos que haviam passado juntos. Cris olhou para Ted.Podemos conversar mais sobre isso depois.A Cris estava me mostrando como sair na frente. disse ele. se aprofundando. e fico feliz por isso. Nosso relacionamento ‘tá amadurecendo. Vou passar a “guardar” os meus beijos num cofrinho também. responderam em coro.Nós dois. . ergueu o queixo . pois assim não teríamos nada a esconder de ninguém. mantendo os olhos fixos no . disse ele.puxou mão da dele e disse: .como Ted costumava fazer na adolescência . tanto individualmente quanto como casal. Cris olhou por cima da cabeça de Ted e viu que Katie se aproximava. Cris. Entretanto. Você tomou uma decisão muito sensata nessa área. apertando os dedos dela. antes de mim. acho que teria nos pegado no meio de um beijo. decodificando a expressão no rosto dela. me ajuda muito.Quem ‘tá ganhando? perguntou. Vocês ensaiaram isso enquanto eu não estava? O que nós quase “ensaiamos” aqui. foi nossa técnica de beijar. . atirou-se na poltrona ao lado de Cris e examinou o tabuleiro de xadrez. e isso quer dizer que teremos muito mais decisões pra tomar.

disse Katie. Cris pensava em seus compromissos e responsabilidades e em como levava quase todos eles a sério. Cris pegou a mochila e.Tenho de pôr estes cartões no correio antes que os perca por aí. lembra-se? . replicou o outro. apareceu para buscá-los. um ano atrás. . percebendo imediatamente o quanto aquilo era estranho. sem querer. parceiro! brincou Cris. . É a minha vez agora. rumo ao albergue que Mike e sua esposa administravam. Katie ajudava a ambos. Em alguns casos. o amigo de Ted. Inicialmente. atravessando a cidade a bordo do pequeno carro. Mike. Ao pensar sobre aquilo. né? . durante todo o trajeto para Amsterdã. Ao chegarem. No entanto.Sem essa.Essa eu vou ter de ver. existia alguém do outro lado do mundo. . Cris pensava que pudesse ter conhecido Mike e Meg durante a semana que passara na Espanha. essa característica era algo muito positivo.A Cris estava lhe ensinando isso? . cuidando do ministério no albergue Rochedo. numa cidade chamada Glenbrooke. Às 6:30h. disse ela. Os três ficaram jogando xadrez em “grupo”. Cris os apanhou e tentou limpá-los. E agora é minha vez.Sim.tabuleiro. e Katie acabou pisando num deles. E lá se foram eles. será que ela deveria levar tudo tão a sério assim? Até mesmo cartões-postais? O tempo que tiveram para desbravar Amsterdã acabou sendo mais curto do que haviam imaginado. deixou cair os postais de Sam no chão. Cris se perguntava se não estaria levando a sério demais sua “incumbência”. no estado de Oregon. que precisava receber aqueles postais de Sam. No entanto já havia praticamente dois anos que o casal estava em Amsterdã. dando-lhes dicas na hora de moverem as peças. como no relacionamento com Ted. Os postais nem eram dela. Mesmo assim. Enquanto os três caminhavam em fila pela multidão.

E creio também que o dom de Ted é levar as pessoas a adorar a Deus. cantou: “Cantai àquele que cavalga os antigos céus. E eu creio nisso. Cris. Katie e Ted ficaram conversando com um rapaz argentino. Ted passou a tocar uma canção que Douglas havia composto. Quando já eram quase onze horas. Às vezes apareciam uma meia dúzia de pessoas por lá. acomodadas num sofá bem velho. e algumas pessoas foram entrando na sala ao ouvirem a música. Cris contou umas quinze.” Este é o dom que Deus deu ao Ted. Mike entregou a Ted o violão. Era loura e magra. às vezes eram só ela e Mike. Cris reparou que Mike estava orando com dois dos rapazes com os quais estivera conversando. É como um pastor de ovelhas a conduzir o rebanho. pensou Cris. voltado para a frente da pequena sala de reunião. Cris lhe perguntou se poderia fazer algo para ajudar a ajeitar as coisas para o culto. Ele me disse aquele dia que Deus dotou cada um de nós de maneira singular. Todas as noites. Ted fechou os olhos e. Trovejando com sua voz poderosa. e Katie começou a cantar. Cris e Katie o ouviam. O que era para ser um culto de uma hora. bastante animada. eles faziam um culto de louvor e adoração bastante informal. Inicialmente apenas três jovens que estavam hospedados no albergue entraram na sala. intitulada O Pó dos seus Pés. Pois Deus é temível em seu santuário. Cris gostou de Meg imediatamente. Cerca de dez jovens ficaram por lá para conversar com Mike. e o rapaz se pôs a dedilhar algumas de suas canções prediletas. Depois. acabou durando duas. . mais alguns começaram a chegar. Meg disse a ela e à Katie que não se preocupassem e ficassem à vontade. Cris se pôs a acompanhá-la. com a face voltada para o alto. como uma que havia escrito. O período de louvor foi maravilhoso. vinte pessoas.

Na manhã seguinte. disse Ted. Mike estava perguntando a Ted justamente aquilo que há muito ela queria lhe perguntar. pra ajuntar algum dinheiro. . Talvez um pouco menos. Este é o sanduíche que mais me lembra de casa. Algo incrível. com um sorriso. Deus realmente usou você. Cris ouvia atentamente a conversa. Ambos disseram que queriam entregar a vida ao Senhor. disse Mike. . Katie continuava dormindo. Depois que todos se foram. porque você estava disponível e aberto para o que o Senhor o mandasse fazer. Foi o tempo de Deus.Bem. Ted? perguntou ele.Sem dúvida foi plano do Senhor que você estivesse aqui pra liderar o louvor. . Você me viram orando com aqueles rapazes? São escoceses. Ah. Mas eu também acho que Deus usou sua vida. e em setembro* minhas aulas começam na Rancho Corona. para expandir o seu reino.Eu não fiz nada. Ted e Cris ficaram conversando com Mike e Meg à mesa da cozinha. disponível e aberta para o Senhor. mas é o que há de mais semelhante por estas bandas. disse Meg. de maneira que ele pudesse usar os dons que havia lhe concedido.Estou até usando pão de forma. . .Deus realmente operou esta noite. vou trabalhar o restante das férias. Meg estava preparando sanduíches de queijo grelhados para os três. . justo na noite em que aqueles dois apareceram. Ted e Katie se reuniram na pequena cozinha com Mike e Meg. enquanto tomavam mingau de aveia. É claro que o pão não é tão bom como os que minha mãe usava nos Estados Unidos. Cris devorou dois sanduíches e ficou pensando no quanto gostaria que sua vida fosse assim. Ted. Falta um ano pra eu me formar. já que a última refeição deles tinha sido as fritas que comeram à tarde na Bélgica. se ao menos eu pudesse descobrir quais são esses dons. . Cris. Ted.O que você pretende fazer no futuro.

. Precisamos de alguém pra nos ajudar com o Rochedo e você se encaixa perfeitamente no perfil que estamos procurando. trabalhando conosco.Já pensei sim.Na verdade. visivelmente tentando desviar a atenção que estava sobre Ted. fale-nos mais sobre você. Ted acenou afirmativamente. respondeu. .Ainda não sei ao certo. Ted terminou seu mingau sem fazer comentários. Durante a viagem. não? disse Mike.Você já deve ter percebido onde é que quero chegar. disse Ted. Cris. ___________________ * Nos Estados Unidos. Você nos disse ontem à noite que ‘tá estudando em Basel.) .Pense nisso. principiou Meg. sobre o que gosto de fazer e. . O que pretende fazer depois? . da T. virou levemente o rosto e olhou meio que de lado para Cris. estive . . encerrando o assunto. . Eu e a Meg ficamos muito empolgados ontem à noite.Então.Que tal voltar pra Europa? .Já pensou em trabalhar com missões em tempo integral? Levantar sustento e assumir um compromisso de longo prazo? perguntou Mike.É uma possibilidade. tenho refletido bastante sobre os meus interesses. o ano letivo tem início em setembro. Ore. (N. .E o que vai fazer depois disso? perguntou Meg. há coisa de dois dias. disse Mike. . Gostaríamos muito de tê-lo aqui. ao falarmos sobre o que poderia acontecer se você resolvesse se juntar a nós. não tenho ainda muita certeza. Ted tirou os olhos do mingau.

A Cris tem muitos dons. ‘Tá sempre disposta a andar a segunda milha. Tenho certeza de que Deus irá usá-la poderosamente. . . não. . disse Ted. Você comentou ontem à noite que o trabalho com as crianças é bem desgastante e exige muito de você. . Cris balançou a cabeça. Estava começando a perceber que não seria tão simples detectar quais eram seus dons. Parecia interessado em saber. Procura sempre enxergar o melhor nos outros e em cada situação que enfrenta. Acho que preciso primeiramente descobrir quais são os meus dons e quais atividades eu deveria estar desempenhando em vez de estar trabalhando com crianças. Gosto de dar aula pra criancinhas. paciente e organizada. na verdade. É amável. Nada do que falavam parecia ser bem a sua especialidade. mesmo quando é inconveniente pra ela. . Depois ele olhou para ela com uma expressão franca e amorosa no rosto.Mais ou menos. . generosa e muito madura pra sua idade. Algo bastante raro.Tem voz boa pra cantar? .E aconselhamento? perguntou Meg.Você diz com relação ao trabalho no orfanato? perguntou Meg. Percebi que estou caminhando numa direção que não é bem pra onde quero ir. . Seria uma busca demorada.conversando com o Ted sobre isso.Ela se dá incondicionalmente e ‘tá sempre incentivando e apoiando as pessoas.Estou percebendo que não tenho os dons necessários pra assumir um compromisso de longo prazo nessa área. o que a deixava insegura.Gosta de lecionar? . muito puro. Cris acenou afirmativamente. . . disse Ted. .É mesmo? perguntou Mike.A Cris tem um coração de ouro. É flexível quando precisa mudar.Não.

. tratava todos muito bem. quando percebi que ele estava escapulindo de todas as nossas “dicas”. Percebendo a situação. Acho que agora já sabemos quem era essa pessoa. Cris estava impressionada com toda aquela chuva de elogios. Ela era da Pensilvânia. vocês. Era você.Nós achamos que os dois formariam um casal bonitinho. entrando imponentemente na cozinha. continuou: .. . dando toda sua atenção a Cris. virando-se para Cris. O que foi que eu perdi? Apenas uma das mais doces demonstrações de amizade eterna que o Ted já me deu. Katie! . Quando Ted parou de falar.Então ele. . Ele parecia estar tentando encontrar um jeito de falar para Meg que aquela conversa havia sido confidencial. . Ted? A Cris é aquela “pessoa” de quem você nos falou certa vez.Eu não estava interessado na Tina. sabe? Nós éramos o Mike e a Meg.Mas aí o Ted disse que gostava de uma outra pessoa e que estava esperando o tempo de Deus. Meg hesitou: .. reinou o silêncio. Ted? Cris olhou rapidamente para Ted. disse Ted. É isso que você ‘tá tentando dizer. Mas aí.Como não percebi isso antes? Logo que Ted chegou à Espanha.Era sim. Aliás. e eles seriam o Ted e a Tina. .. O Ted a tratava muito bem.Por que você não nos disse. . perguntei-lhe qual era o problema. Você se lembra disso. né? E. né? Meg sorriu um pouco sem graça para Cris. Eu sou a namorada dele. Afinal Meg quebrou o silêncio. quer dizer..Bom-dia a todos! disse Katie. desde o dia em que colocou esta pulseirinha no meu pulso. nós tentamos “ajuntá- lo” com uma missionária da equipe.

É pequena. .Eu gostaria muito de conhecer o Refúgio Secreto e pelo menos um museu. Obrigada! Mike fez várias sugestões de lugares para conhecer.De verdade! Ele me ama! Me ama já faz muito tempo! . mas vocês podem ficar à vontade para usá-la. disse Cris.Temos sim. Meg? . disse Katie. por que não me dão as roupas quando forem passear? Eu posso colocá-las na máquina pra vocês.Não perdeu nada.Não precisa. disse Cris. estou pensando em passar mais uma noite aqui. . Podemos usar os passes de trem.Seria ótimo. (N. ___________________ * Durante o Holocausto. da T. Acho que seria bom mais uma . se a Katie e a Cris concordarem. o Refúgio Secreto. Ou melhor. Ted? .Imagino que vocês estejam querendo dar uma volta por Amsterdã. Posso pedir um favorzinho? Por acaso vocês têm máquina de lavar roupa. o que ver. e o Museu de Anne Frank. onde Corrie Ten Boom* havia morado. E. pois as palavras não exerceriam o mesmo efeito que haviam tido sobre ela.) . Nossa passagem pelo Louvre acabou sendo rápida demais.Alguma preferência? perguntou Ted. Cris não queria que alguém simplesmente repetisse os detalhes para Katie. disse Mike. dentre eles alguns museus de arte. a holandesa Corrie Ten Boom ajudou a esconder vários judeus das perseguições de Hitler. mudando o assunto para Cris. respondeu Cris. Talvez você possa nos dar algumas dicas de onde ir. Quer o carro emprestado. . Mas é que aquela manifestação de carinho fora perfeita exatamente do jeitinho que havia acontecido. . Não que ela não quisesse que Katie participasse da conversa.Com certeza.

em vez de branco. Ao seguirem para o Refúgio Secreto. dizendo que o bolo de carne. o glacê era amarelo bem vivo. Toda aquela criativa expressão deixava Cris fascinada. Na opinião de Cris. Contudo. os três chegaram ao Rochedo.Ué. Cris permaneceu um bom tempo apreciando a famosa pintura dos girassóis. A diferença é que.É pra lá que vocês vão depois? perguntou Meg. Mas somos bastante flexíveis. . . que mais pareciam um glacê endurecido. mesmo sendo um lugar mais afastado da cidade. .A Cris queria passar aqui e achei que seria uma boa idéia. estava fechada quando eles chegaram. fazendo tudo o que Cris pedia. Katie ficou mais animada com a visita ao museu ao reconhecer alguns dos trabalhos de Vicent Van Gogh e deduzir que ele era o artista que vivia em tormento e que acabou cortando fora uma orelha. que formara espessas lascas. O resto do dia Ted mostrou-se “flexível”. a tinta havia atingido a tela de tal forma. mas Ted acabou resolvendo aderir à escolha de Cris. Katie percebeu a atitude do rapaz ao comprarem as entradas para o Museu de Van Gogh. a idéia era boa mesmo. É que ela queria visitar o Museu de Anne Frank. Às seis da tarde. Cris elogiou a comida. . bem na hora em que estava saindo o jantar que Meg havia prometido preparar para eles. era possível enxergar a própria tela do quadro. Ted. achei que você tivesse dito que também não queria mais saber de obras de arte.Por enquanto sim. . onde ficava o Refúgio Secreto. o purê de batatas e as vagens eram os melhores que já havia comido desde que viera para a Europa. Para piorar. Katie soltou mais uma reclamação.dose de cultura antes de partirmos para os Alpes suíços. Em alguns pontos da figura. de forma que não puderam entrar. a Relojoaria Ten Boom. disse Ted. nas áreas não atingidas pela tinta.

Bom.É lógico que não. Mas resolvi mudar o meu curso.Você ‘tá pensando em voltar com o Ted e a Katie. . disse Katie. Mesmo já sendo tarde da noite na Holanda. . Cris telefonou para os pais.Ah.Mas preciso decidir rápido.Sim. . mas uma coisa eu sei: não consigo trabalhar com criancinhas para o resto da vida. eles bateriam o telefone na minha cara! . Se eu ligasse da Holanda a cobrar para os meus pais. Uma conversa com eles me ajudaria bastante nessa decisão. . . A mãe de Cris atendeu o telefone e foi logo perguntando se estava tudo bem com ela. tenho sim. Katie! disse Cris.Você fica com saudades dos Estados Unidos quando come esse tipo de comida? perguntou Meg. mesmo estando decidida a mudar de curso? continuou ela. ainda estava de tarde na Califórnia. A viagem ‘tá sendo ótima. Mas a decisão é sua.Um pouco. Ted olhou-a surpreso. Você sabe que eu e seu pai a apoiaremos qualquer que seja a sua escolha. . O que você acha? A mãe de Cris ficou calada por uns instantes e afinal respondeu: . mãe. . Cris? perguntou a mãe. estamos todos bem. . ou vai ficar pra terminar os estudos em Basel. depois de mais um abençoado culto de louvor e adoração.Não resolvi ainda.Acho que quem tem de decidir é você. Quer saber? Será que eu poderia ligar para os meus pais? Ligo a cobrar. .Tem certeza.Sim. Ao ouvir aquilo. eles vão amar receber seu telefonema! disse Katie. Não sei ainda o que vou estudar. . O que ainda não sei é se devo continuar estudando aqui até o fim do próximo período ou voltar para os Estados Unidos. eu é que não vou arriscar. Cris. .

Acho que é por isso que eu queria tanto levá-lo à minha Konditorei em Basel.Às vezes. um ano e meio atrás. Eu me assentei à mesa dos fundos. . assentado de frente pra mim. ai.Você me disse que havia sido o passeio mais romântico que já tinham feito. Cris sorriu.Foi. . ai! Agora sim estou ficando assustada! disse Katie. Cris acenou afirmativamente.Ai.Há momentos em que ser adulta é muito ruim. inúmeras vezes este ano. dando um aperto no braço .E ele lhe respondia? . não ‘tá? disse Katie. tomando chá e comendo scones em Londres. . Não conseguia parar de pensar na decisão que eu e Ted tomamos naquele dia em Londres.Noite passada quase não dormi. . . E sempre ficava imaginando como seria se o Ted estivesse lá. Promete que não vai rir? Houve ocasiões em que até conversei com ele. disse Cris a Katie. 21 . Como se lembra? . . .Foi aquela conversa que vocês tiveram numa pequena confeitaria? perguntou Katie. Eu estava indo embora da Inglaterra e ele estava tentando decidir quanto tempo mais deveria continuar na Espanha.‘Tá sendo difícil tomar uma decisão com relação ao próximo período. sozinha. como se ele estivesse comigo. Era de manhã e as duas estavam tomando café na cozinha de Mike e Meg. Só vocês dois.

.E que mulher não quer? .E como é que fica o Ted nisso tudo? Vai deixá-lo esperando? . Cris acenou afirmativamente. . por mais penoso que seja? perguntou. eu me sentiria bem melhor com relação a tudo o que ‘tá acontecendo se definíssemos melhor o nosso relacionamento.É verdade.acho que sua decisão de honrar o compromisso é muito nobre e correta.da amiga. Só acho que. Cris soltou um suspiro. Você e o Ted precisam conversar sobre isso. . O Ted sempre tem um versículo pra cada situação. disse Katie. Ontem à noite não consegui parar de pensar na conversa que eu e o Ted tivemos naquele dia. entrando na cozinha logo que Katie soltou o comentário. É uma decisão bem séria. . .Eu voltarei em setembro. .Sim.É isso que você vai fazer? Cumprir seu compromisso com o orfanato. o relacionamento de vocês se aprofundou bastante.É o que você sempre quis. disse Katie.Eu sei que não é muito tempo daqui até lá. . . olhando para a amiga.Era isso que eu ia lhe dizer. Katie ajeitou os cabelos vermelhos atrás da orelha. não será nada fácil pra vocês se despedirem um do outro. . Afinal. Acho que é isso que devo fazer. .Você não faz idéia de como será difícil. O Ted citou uns versículos do Salmo 15. Mesmo assim. . . depois desta viagem.Nada mais típico.Era alguma coisa sobre cumprir as promessas. mesmo quando isso nos traz sofrimento. Mas eu e o Ted já tivemos de nos despedir várias vezes ao longo desses anos.Que mulher não quer o quê? perguntou Meg.

Eu sei que este lugar precisa de pessoas.Você preferiria trabalhar num lugar assim a trabalhar no orfanato? perguntou Ted. A necessidade não faz o chamado. Cris aproveitou para contar aquilo a Ted. mas estou com a impressão de que o Ted vai querer passar mais uma noite aqui. não sei ainda o que farei. E então? Quais são os planos pra hoje? Achei que iríamos pra Suíça. Cris não ligava de ficar. não por enquanto. Estava gostando muito dali. Depois disso. As tarefas domésticas tinham lhe dado um novo ânimo. O culto de ontem foi mesmo fantástico! E Katie tinha razão. Tinha vontade de agarrar o pescoço de Ted e dizer: “Nem pense em fazer isso! Nós vamos estudar na mesma faculdade no semestre que vem. É claro que não dá pra comparar todos aqueles meses no orfanato com apenas um dia trabalhando aqui.E o que você disse a eles? perguntou Katie. disse Katie. mas eu não sinto um chamado de Deus pra vir pra cá.O Ted lhe contou do nosso café da manhã? perguntou Mike. Apresentei-o aos meus parceiros de ministério e eles lhe perguntaram se ele gostaria de entrar para a equipe. minha prioridade é terminar a faculdade. Por ora. . . Mas agora sei o que você quis dizer com se sentir motivada. justo agora que eu estou quase voltando pra Califórnia! Você não pode fazer isso comigo!” . Ted perguntou a Cris e Katie se elas se importavam de ficar mais uma noite. Pelo menos. Nem me venha com essa idéia de voltar pra Europa. olhando para Ted e em seguida para Cris. . entrando na conversa particular de Ted e Cris. dando um sorriso para Cris.Com certeza. Assim que Ted e Mike voltaram do café que haviam ido tomar com um amigo de Mike. As duas haviam passado a manhã ajudando Meg a limpar os quartos e a fazer o almoço. .Estávamos apenas falando sobre rapazes. e não esgotada.A mesma coisa que falei pra Cris alguns dias atrás. Enquanto almoçavam o ensopado de legumes com pãezinhos. . . Cris não havia contado com a reação que teria ao ouvir aquilo.

Cris olhou para Ted. Será que ele iria sugerir que elas fossem para a Suíça sozinhas? Cris ficou pensando na possibilidade de passarem o resto da semana ali. mas ela tem esse princípio de honrar o compromisso. cerca de trinta pessoas apareceram para o culto de louvor e adoração. caso ela e Ted não tivessem logo uma oportunidade de conversar sobre o que estava acontecendo e o que fariam quanto ao futuro. só lhe fez ficar mais firme no propósito de conversar com Ted assim que pudesse. tinha a impressão de que sofreria um colapso. E se ela ficasse mais do que uma semana? E se ficasse em caráter definitivo? E se ela e Ted se casassem e voltassem para a Europa. Aquilo. Hoje de manhã a Cris resolveu que irá continuar no orfanato durante os próximos meses. porém. até o compromisso dela com eles acabar. Cris sentiu os batimentos cardíacos voltarem ao norma. que foi bem melhor do que os cultos anteriores. sem saber o que fazer depois da viagem. quebrando o silêncio. . Eu queria que ela voltasse conosco. Meg acabou convencendo Katie e Cris a irem fazer compras com ela. a fim de trabalhar ali ou num local parecido? As possibilidades do que ela e Ted . A única coisa boa da tarde foi que Cris e Katie puderam comprar algumas lembrancinhas e descobrir onde achar as coisas de que precisavam na mercearia do bairro. Era possível que ele quisesse ficar em Amsterdã. não puderam conversar. e Mike pediu a Ted que trocasse o encordoamento do violão para ele. À noite. Cris se perguntava como Ted conseguiria largar tudo aquilo e partir na manhã seguinte.Bem. À tarde. Pelo visto sou a única que não ‘tá confusa. Não sabia se a expressão no rosto dele era porque ele se lembrava de ter dito aquilo a ela ou se no fundo seu coração estava gritando: “Não. por mais penoso que ele seja. porém. Seus pensamentos levaram-na a formular várias perguntas na cabeça. disse Katie. No entanto. Cris! Não fique aqui! Volte conosco!” Cris ficou toda sem graça quando Katie anunciou em público a sua decisão.

Já tenho todas as habilidades necessárias pra trabalhar num lugar como este pelo resto da vida. mais questionava sua decisão de ficar em Basel. teve a sensação de que havia várias listinhas de afazeres invisíveis amarrando-a. antes mesmo de Katie acordar. ela era uma garota determinada e de expediente. Poderia muito bem viajar al- guns dias sozinha e dar um jeito de chegar ao aeroporto de Zurique. Saberia o que fazer. ficou toda emocionada. Chega de tanta espera e indecisão! Posso voltar pra Califórnia com ele na segunda- feira. poderia ir embora. Afinal. Tinha certeza de que Ted lhe diria que gostaria de ficar mais um dia.poderiam fazer. E gosto muito do ambiente aqui. Só de pensar na possibilidade de se casar mais cedo. E aí poderíamos voltar pra cá em setembro. em vez de ir estudar na Rancho Corona. ou pra sair pra comprar cenouras e depois picá-las pra fazer um ensopado.Bom. E já estava até planejando o que dizer quando ele anunciasse sua decisão. Cris se vestiu e foi para a cozinha. Iria ficar também. resolveu ir dormir. Ficou olhando para o teto. Tenho certeza de que dá para o casamento sair no final de agosto. Poderíamos começar a trabalhar aqui já. Poderíamos até nos casar por agora. . Cris estava torcendo para ter uma chance de conversar com Ted após o culto. casada com Ted. pra que terminar a faculdade? Não preciso ter diploma universitário pra varrer o chão de um albergue. Ted avistou Cris no corredor. Nem eu nem ele precisamos terminar a faculdade. Então. trabalhando juntos. como se fossem faixas de uma múmia. pareciam infinitas. Quanto mais pensava naquilo. Cris ficou cansada de tanto pensar no futuro. Além disso. imaginando como seria viver ali. e ela teria de entrar na fila. No entanto havia muita gente querendo falar com ele. Gosto de usar minhas mãos pra servir. Se Katie quisesse. mas você já ‘tá de pé! .dia! Achei que eu seria o primeiro a levantar. Quando acordou.

replicou Cris. Tem um trem às 7:2oh. . estava pensando que.Você ‘tá usando seus dons. Aliás. .Não por enquanto. De repente. Se quiser. foi como se o mundo de sonhos que Cris havia criado desabasse.Então você não quer ficar aqui? . Ted a interrompeu.. Cris acenou.E você também.Ah.Tá tão na cara assim? . concordando.Você gosta daqui. Que tal sairmos pra tomar café? Poderíamos achar uma dessas confeitarias como aquela de que você vive falando e aproveitar pra conversar sobre o que você ‘tá enfrentando. Ted passou o braço pelo pescoço de Cris e puxou-a para perto de si. Falei com o Mike que partiríamos hoje mesmo. Na verdade. não gosta? perguntou ele. foi uma “coisa de Deus” que você estivesse enfrentando toda essa luta com relação ao orfanato em Basel..A Katie ainda ‘tá dormindo. para poder . disse ele.Você não ‘tá parecendo muito animada. podemos sair num outro trem.Já fiz minha mala e estou pronto pra partir. mais tarde. . eu não me importo de ficar aqui mais um dia. acho que deveríamos passar o resto da semana aqui. Pra falar a verdade. . E por falar nisso. . num abraço gostoso. Percebi que só poderia lhe dizer que a necessidade não faz o chamado se colocasse esse princípio em prática em minha própria vida. Sei que você também ‘tá tendo de tomar decisões sérias e gostaria muito de ouvi-la. Estava prestes a passar o braço pela cintura dele. . Levantei pra ajudar a preparar o café. Não sinto nenhuma paz pra abandonar os planos que já fiz e os compromissos que assumi. se é isso que você veio me perguntar. chamando atenção para sua bagagem apoiada na parede. . atrás dele. .

Ted lhes disse mais uma vez que tudo era uma questão de chegar o tempo de Deus e que estava plenamente convicto daquilo. projetavam vastas sombras . Ela não tinha de ficar discutindo o que seria do futuro. considerando que ele e Cris estavam pensando em sair para tomar café.E aí. . Mike e Meg repetiam o tempo todo o quanto seriam bem-vindos. por sua vez.ficar mais juntinho de Ted. os três deixaram o Rochedo e foram com Mike e Meg para a estação de trem. como se fossem um bando de carneirinhos peludos a seguir o leal pastor do rebanho. O que ela precisava mesmo era das misericórdias que o Senhor renovava todos os dias sobre sua vida. caso quisessem voltar. As nuvens cor de creme acompanhavam o sol. o que. Ele nem sequer chegou a mencionar a possibilidade de partirem um pouco mais tarde. de forma calma e tranquila. assim que se acomodassem no trem. Quinze minutos depois. O sol já estava se pondo quando o trem chegou a Frutigen. O problema é que não conseguia “desligar” a mente para poder dormir. Cris tentava se convencer a todo momento de que eles eram apenas três amigos vivendo uma aventura. de certa forma. Todos então se despediram com abraços acalorados. seus pensamentos em relação a Ted haviam ido longe. não se sentia bem. Na noite anterior.. A decisão deixou Cris frustrada. Ela se imaginara casada em agosto e de volta a Amsterdã em setembro. Agora. quando Katie apontou no corredor. Cris sabia que deveria aproveitar para tirar uma soneca. ajudava Cris a “voltar” à realidade. Os picos alpinos. Foi um jogo demorado e bem disputado.. E a partida de xadrez contra Katie também ajudou bastante. quando não dormia o suficiente. Ted agia como sempre. gente? Bastou Ted mencionar o trem das 7:20h para Katie dizer que estava pronta para partir. tinha de fazer força para parar de pensar em tudo aquilo e voltar a mente para o lugar. doze horas depois. Já havia aprendido durante a viagem que.

Ela e Ted eram apenas isto: o Ted e a Cris.Mas é claro que sim! disse Katie. . Rudolf foi buscá-los no ponto de ônibus. Já a neve atuava como um refletor de luz. a fim de mostrar-lhe o astro reluzente. porque este lugar aqui não é nenhuma metrópole. O que lhe causava mais pesar. Quando a primeira estrela despontou no céu. Tinha uma enorme barba branca e usava um chapéu de feltro verde. com uma vistosa pena vermelha presa de lado.nas construções que cercavam a modesta estação de trem. secamente.Daqui em diante. O Sr. Os dois permaneceram juntinhos o resto da viagem. amigos para sempre um do outro. era que o céu escurecia cada vez mais. vamos de ônibus. Eles disseram que seria um prazer nos hospedar. O lugar era pacato e os dois poderiam terminar todas as conversas que haviam ficado pendentes nas últimas semanas. disse Katie. Cris teve vontade de cair na gargalhada ao ver a cara de Katie. . que ficavam escondidos na escuridão. No entanto. impedindo-a de avistar os montes alpinos. Liguei para o Sr. Com certeza teriam uma chance de conversar com calma pela manhã. no entanto. quando o avistaram. .Espero que vocês realmente estejam a fim de sair da rotina. e Cris notou que afinal estava conseguindo pôr os pensamentos em ordem. O Sam tinha razão. protagonista de um filme a que ela e Katie haviam assistido juntas diversas vezes. a paisagem dava de dez nas outras que vira durante a viagem. Vamos trabalhar na fazenda deles de graça! O trajeto de ônibus foi mais longo do que Cris imaginara. Rudolf Zimmerman ontem à noite e eles estão aguardando nossa chegada. Ele parecia o avô de Heidi*. Ted passou o braço em torno de Cris e puxou-a para junto de si. O dialeto alemão que ouvia as pessoas falarem era bastante semelhante ao alemão falado em Basel. Cris sentiu-se mais tranquila ao perceber que o ambiente lhe era familiar. Por enquanto era tudo que precisavam ser. .

Cris tinha certeza de que se tratava de uma antiguidade. Era uma senhora meio gorda e usava uma trança grossa. e a decoração bem bonita e alegre. onde dormiria sobre o palheiro. o Sr. enquanto seguia o “avô” pela rua de pedra. Rudolf bondosamente os convidou a se hospedarem em sua casa. No escuro Cris não podia ver direito como era o chalé. foi caminhando ao celeiro.Falando em inglês com certa dificuldade. . enrolada no alto da cabeça. Quando chegaram o local para onde o Sr. . pelo que conseguia ver sob a luz da lanterna. Heidi conta a história de uma menina órfã de oito anos que vive nos Alpes suíços com o avô. Eva Zimmerman os recebeu com muito carinho e insistiu em que tomassem a sopa que havia preparado. da T. Katie não conseguiu conter o espanto.) . rumo à casa da família Zimmerman. A casa era extremamente limpa. disse Katie. Nele havia duas camas pequenas. estavam diante de um mundo encantado. ___________________ * Adaptação de um clássico da literatura infantil universal.Por quê? . Depois de tomarem a deliciosa sopa. Ted.Se isto aqui não fosse tão legal. D. com vários cobertores de lã. Rudolf os levara. Ao chegarem. Cris e Katie foram levadas a um quartinho que ficava no andar de cima da casa. por sua vez. diria que era. os três subiram no “veículo” e lá se foram. (N.Não estou acreditando nisso! cochichou Katie. Assim que a porta se fechou. Cris e Katie seguraram uma no braço da outra e se puseram a rodopiar pelo quarto. no mínimo. O meio de transporte dele era uma charrete! Rindo à beça. assustador. próprias para crianças. Entretanto.

da T. Ted estava tentando tirar leite da vaca. em que as pessoas expõem para venda objetos pessoais que não lhes interessam mais. Esse “bazar” geralmente é montado no quintal ou na garagem da residência. dizendo que não conseguira dormir nada e que as costas doíam. aparecerá na janela e me chamará para ir com ele para as montanhas. Peter é o melhor amigo de Heidi. a preços bem baixos. . Acho que vamos ter de dormir totalmente encolhidas pra caber nelas! ___________________ * No original garage sale: trata-se de um comércio caseiro muito comum nos Estados Unidos. (N. Cris . Já Katie ficou reclamando no outro dia. que já havia trocado de roupa e estava pronta para ordenhar as vacas. móveis. livros. Rudolf no celeiro. Cris encontrou Ted e o Sr. Peter*. quando dois dos Sete Anões resolveram se mudar de lá. da T. o pastor das cabras.) .) Cris se encolheu toda debaixo do pesado edredom e dormiu tranquila e feliz a noite toda.) Cris soltou um risinho. ..Ora.E devem ter sido compradas no “bazar de garagem”* da Branca de Neve. . da T. (N.Porque é como se tivéssemos saído do mundo real e entrado no mundo da fantasia! Estou me sentindo a própria Heidi! E amanhã de manhã. como roupas. ora! Você ‘tá e inventando desculpa pra poder escapulir das tarefas na fazenda! disse Cris. ___________________ *Na história. (N. etc.Veja só estas camas! Acho que elas já foram de João e Maria!* ___________________ * Personagens da conhecida história infantil A Casinha de Chocolate.

Mas isso aí. por favor! disse Ted. obrigada! Eu até me arriscaria a saltar de bungee jump ou a comer lula crua. disse Ted . Quando tinha cinco anos. quando criança. se lançou a diversas novas “aventuras” ainda durante a manhã. Fazia anos. levantando-se do banquinho. Tudo era feito com maquinário próprio. . Kilikina. nem pensar! Katie. no entanto. Afinal parou. E saber tirar leite de vaca é uma habilidade extremamente útil às mocas que estão em idade de se casar. disse Katie. que Cris não ordenhava uma vaca. Ela cresceu na fazenda. Bateu . no entanto. . observando o namorado.Ora. todo orgulhoso. pela metade. disse ela calmamente. Contudo ela de fato sabia como ordenhá-las. seu pai lhe ensinara pacientemente aquilo que ele chamava de “a arte perdida”. Não muito segura de si. Continuou ordenhando a vaca.Não.Você ‘tá sempre me surpreendendo. mostrando uma habilidade incrível.A mim também. entrando no celeiro. O primeiro jato caiu diretamente no balde metálico. ‘Tá tudo bem. tentando abafar o riso. E mesmo durante o tempo que vivera na fazenda Wisconsin. Cris se afastou da vaca e perguntou se Katie não gostaria de tentar também. não queria ficar perto da zona de ataque de Ted. . Cris sorriu. vaquinha. Fique calminha.Vamos lá. quando as mãos já estavam doloridas. depois de observar Cris lá da porta. não era ela quem tirava o leite das vacas. fazendo um barulhinho gostoso e familiar. vamos. . Cris se assentou no banquinho e apoiou o ombro e a cabeça na vaca marrom. o Sr. Tinha jato de leite esguichando para tudo quanto era lado. uma década talvez. e o balde. Cris. Ao ouvi-la. Rudolf fez sinal para que se aproximasse. Cris! Dê uma mãozinha aqui. Veja só como a minha namorada é boa nisto! disse ele.ficou de longe.

Mas. A cada segundo que passa. Katie se assentara na frente de Ted. Cris acenou para Ted. Fico feliz que tenha realizado seu desejo.Quer ir com a gente até as montanhas? perguntou Cris. A D. . Katie. . A não ser que você esteja querendo passar um tempo a sós com o Ted. Eva preparou uma cesta de piquenique pra levarmos conosco às campinas superiores. Simpatizou com um dos cavalos que puxava o arado e. mas ela não queria que Katie soubesse a verdade.E quem vai? .Eu e o Ted. que comia direto na mão da garota. agora que meu coração finalmente se aquietou. Então era isto que você tinha em mente. mais tarde. por lá. será que vou conseguir o que tanto quero? Traçar um plano para o futuro? . Vamos de teleférico. Só temos mais um fim de semana e pronto! Você conseguiu a aventura que queria. Mas hoje já é sexta-feira.Que isso. Ótimo. ao dizer que queria entrar numa aventura. que estava no banco em frente ao dela. Cris ouviu Katie gritar lá da frente: .a manteiga e deu ração às galinhas. sobrevoando a vila de Adelboden. irei com vocês. Katie! Nós três vamos nos divertir à beça! Os três se assentaram nos bancos do teleférico e começaram a subir. Cris a encontrou dando uma porção de grãos de aveia para o cavalo.Finalmente estamos numa aventura! Cris sorriu. . . De fato essa era a intenção de Cris. minhas chances de conversar com Ted diminuem ainda mais. Katie. Ao atingirem uma altura considerável.Claro. Os assentos eram de madeira e não pareciam muito firmes. Quem sabe você até encontre o Peter. o pastor das cabras. dentre outras coisas.

Katie continuou cantando e esvoaçando pelos campos. gritou Ted. pareciam mastros a estender aquele céu de puríssimo azul sobre ela. 22 Quando chegaram. para Cris. Depois. ajudando- a a descer em seguida. o que. ou andar a cavalo nas praias da Espanha. ela agia como se aquela fosse a sua “aventura”. Isto aqui não tem nada de aventura! Estamos descansando! Aventura mesmo seria dançar na Praça San Marcos em Veneza. . sem dar confiança ao comentário de Ted. e não Katie. Ted pôs a cesta de piquenique em meio às flores e deitou-se perto dela. No chão a campina verde se espalhava como um tapete. Ainda dançando. Os dois tiveram de correr para acompanhar Katie. salpicada de flores silvestres. . Katie se pôs a cantar bem alto.Ela ‘tá achando que é a Heidi. imitando a Noviça Rebelde. Katie. sustentando-o nas alturas. quem havia pedido para passar alguns dias numa cidade interiorana. explicou Cris a Ted. afinal fora ela. Já cantamos isso lá na Áustria. Ted desceu do teleférico e pegou a cesta das mãos de Cris. Lembra-se das fontes e da abadia? Cris inspirou profundamente. cobertos de neve.Você ‘tá no país errado. . era bastante engraçado. Agora que estavam ali. que já estava rodopiando pelo campo. Os cumes das montanhas. Cris ficou pasmada com tanta beleza. em meio às flores silvestres. que mais pareciam confetes coloridos. apoiou- se sobre o cotovelo e abriu um sorriso de satisfação para Cris. enchendo os pulmões do ar fresco dos Alpes.

Já ouviram falar na lenda norueguesa das flores silvestres? . . aqui nos Alpes. Hoje seria uma acampante totalmente mudada. . Katie se abaixou e colheu uma flor. de certa forma ela se sentia culpada. Estavam indo para Salzburgo. Já dancei nos prados alpinos. né? replicou Cris. É uma velha tradição que minha avó me ensinou quando eu tinha uns oito. É como se estivéssemos a um nadinha do céu.‘Tá com fome? Parece que este pão aqui foi feito em casa! Katie chegou esvoaçando perto deles.Muito bem. Nem me lembro qual. Já sou uma mulher feliz.É. Engraçado. . embora houvessem tomado a decisão juntos. Só agora estou me sentindo preparada para as férias. . Nós deixamos a oportunidade passar.Não dá pra acreditar que chegamos a pisar na estação de Veneza e depois fomos embora. mas. abriu a cesta de piquenique.É incrível. concordou Ted.Não. Acho que meus amigos estão felizes de podermos passar estes últimos dias juntos. Agora só falta andar de gôndola pra eu me sentir plenamente realizada! .Este deve ser um dos cantos mais incríveis. pensando em tudo que aconteceu. Onde é que estávamos com a cabeça? A gente estava numa pressa doida pra chegar a algum lugar. sentando-se perto dele. E. Onde você ouviu isso? Em Oslo? perguntou Cris. . Em seguida. se eu fosse planejar a viagem hoje. faria tudo diferente. Sairia para pescar com o Ted e tomaria banho de rio todos os dias. Gostaria de acampar com o Antônio. . Cris se lembrava. espetaculares excepcionalmente maravilhosos do mundo! disse Ted. .Não. disse Katie. deitando-se e olhando para o alto. nove . uma vez que fora ela quem os pressionara no início da viagem a sair para conhecer as cidades e passear e tudo o mais.

O Sr.Katie. se você dormir com sete flores silvestres debaixo do travesseiro. com um sorriso gozador. você tem certeza de que isso não é algum truque de magia medieval? perguntou Cris.Sete flores iguais ou podem ser diferentes? Perguntou Cris. Reza a lenda que. nem jogar asinhas de morcego na “poção”. replicou Katie. Você tem de apanhar sete flores silvestres e dormir com elas debaixo do travesseiro. Não tem de usar palavras mágicas. Cris.Acho que não faz diferença. disse Ted. replicou Katie. né? .A noite do solstício é hoje. .Como é que você ‘tá se sentindo com relação àquele lance do ciúme? Katie parou por um instante e olhou para Cris. .Nem eu.Exato! exclamou Katie com as faces coradas de tanta empolgação. . para colher as flores. como se estivesse atormentada com a pergunta. É como fazer um pedido antes de soprar as velas do bolo. mas aí ele me disse que hoje era o dia em que a luz do sol duraria mais tempo.Quero experimentar também. na noite do solstício de verão você sonhará com a pessoa com quem se casará. Foi quando estava na casa dela. É só pra meninas! . Cris perguntou: . de modo que Ted já não podia ouvi-las.Você não pode entrar na brincadeira! disse Katie. É apenas uma simples tradição folclórica. Porque eu não acredito em nada dessas coisas. na noite do solstício de verão. disse Ted. . Só estou passando um pouquinho da cultura dos meus antepassados pra vocês. Rudolf estava me falando disso lá no celeiro.anos. Depois de caminharem uma boa distância. Isso é o solstício de verão. Cris e Katie saíram pelos campos. continuando rapidamente a explicar a tradição. Não estava entendendo nada. . Ocasião perfeita! Faça uma coisa aqui comigo. Quantas flores mesmo? Sete? . Sob os olhares de Ted. .

Cris não conseguiu segurar e abriu um sorriso. Afinal. E me olhará da mesma forma que o Ted olha pra você. simples. não é isso? Ele é um rapaz tímido? . me dá esperanças de que existe algum rapaz temente a Deus por aí.Por que pergunta? . Katie. Mas também.Há sim. sentindo o rosto corar. Talvez se o Marcos ou o Antônio tivessem demonstrado algum interesse em mim.Fico muito feliz por vocês. que um dia me dirá que eu sou o Sol. bem na minha frente. por menor que fosse. . Cris colheu uma pequenina flor branca.Só estou querendo saber. disse Cris. uma parte de mim se murcharia e morreria.Sei lá. E aquele jogador de beisebol da Rancho? Como é mesmo o nome dele? Camisa 14. não teria sido tão doloroso ver você e o Ted ficarem cada vez mais apaixonados. Cris. . acho tudo isso sensacional. Ele tinha cara de ser alguém muito franco e sincero.Já melhorei bastante em relação ao início da viagem. se algum dia vocês terminassem em definitivo. dizem que os opostos se atraem. . em algum lugar neste mundo.É. no fundo.Vocês dois são perfeitos um para o outro. e eu gosto muito disso. Senão. . Tenho certeza de que ele ‘tá por aí. Imagino que às vezes deve ser constrangedor pra você ficar perto de mim e do Ted. . Possivelmente ele vai vir é “de outro mundo”! disse Katie com uma gargalhada. não vai aguentar conviver comigo! . continuou ela. Fico imaginando que. disse Katie com um suspiro. E. Olhar pra você. Era amarela. . abaixou-se e apanhou a primeira flor. Quando conheci o Mark ele não estava nem um pouco “quieto” ou “inibido”.Provavelmente vai ser um rapaz tímido e mais reservado. Pareceu-me um rapaz descomplicado. . eles haviam acabado de vencer o último jogo da temporada. a Lua e as estrelas da vida dele. por mais que você não demonstre isso. Em seguida.

Acho que não faz muita diferença em que estágio da vida estamos. Cris. .Que engraçado! Eu tenho afirmado o mesmo pra mim durante esta viagem. As duas trocaram as flores e.Muito bem. Alguns instantes depois. . o que realmente quero é confiar mais em Deus com relação a essa área da minha vida. digo. segurando o pequeno buquê de florzinhas. Já haviam colhido três flores cada uma. E estou aprendendo isso um pouco melhor agora. Katie continuou. . Vocês são o meu círculo de sanidade mental. fico muito feliz por termos a amizade uma da outra durante esta viagem. repetiu Cris. Sabe. . Gostei disso. de tão altos que seriam! Cris soltou uma gargalhada e deu uma de suas florzinhas para Katie. .Sabe. como dizem por aí.Círculo de sanidade mental. acho bom pararmos com isto antes que eu dispare a chorar daqui a pouco. Mas isso ‘tá parecendo coisa do Ted.Não sei. Katie acenou. se não pudesse contar com você. Mas a verdade é que não sei de nada. Katie falou: . Talvez eu tenha falado algo assim.O que temos de fazer é “soltar as rédeas e deixar que Deus assuma o controle”. acrescentou Cris logo em seguida. Você fica com uma das minhas e eu fico com uma sua.Com um diploma universitário. Tenho a tendência de achar que sei o que é melhor pra minha vida. o Ted e todos os nossos amigos. em seguida. e não apenas este passeio aqui pela Europa. ou o que irá acontecer no futuro. Katie levantou o olhar e sorriu para Cris. A viagem da vida. . . ou não. né mesmo? Com um namorado ou sem ninguém.Toma. . Não foi você que me disse que Deus dá o melhor àqueles que deixam a escolha por conta dele? . Só Deus.Eu quero confiar mais em Deus. disse Katie corajosamente. concordando. mesmo. Vocês são o mesmo pra mim. . Minha choradeira e meus soluços poderiam provocar uma avalanche. Acho que estaria pirada hoje.

. As duas riram e voltaram de braços dados para onde Ted estava.Com certeza. Fechou os olhos e fez um pedido. O rapaz se achava deitado na toalha de piquenique. em Basel. Podemos pegar o ônibus que vai pra Frutigen e. Quando abriu os olhos. Vai me dizer que decorou o horário dos trens enquanto . . Depois.Até daria pra irmos mesmo. Acho que conseguimos deixar o canteiro do pátio sempre cheio de sementinhas. Cris estendeu a mão e apanhou um dente-de-leão perto dela. Ted apanhou um dente-de-leão todo branco e felpudo. sem que ninguém nos ajudasse. certo? .Você ‘tá me assustando. Fazemos uma conexão em Milão e chegamos a Veneza antes da meia-noite.Sim. pegar o trem que pára em Spiez. Ted. . olhando atentamente para ela.Gostaria de ainda poder visitar Veneza. . fazíamos um pedido e soprávamos a penugem.Este é o sinal de que seremos madrinha uma da outra quando nos casarmos. Ted olhou para Katie e depois para Cris. Cris e Katie enrolaram as flores num guardanapo de pano e o puseram dentro da cesta.Tem certeza? Pode ser que não cheguemos a tempo de provar as quitandas de sua confeitaria. eu e meus colegas arrancávamos essas florzinhas no pátio da escola. Katie soltou uma gargalhada e partiu um pedaço de pão. gostaria muito. . surpreso. Quero viver mais uma aventura antes de chegar segunda-feira. . Ted estava de pé. num local seguro.‘Tá falando sério? Gostaria de ir lá? .Não faz mal. . Quando éramos crianças.Já brincaram de fazer um pedido com esta flor? perguntou Ted. Estamos fazendo nossa própria versão da lenda norueguesa. .

a bordo do frágil teleférico. Cris nunca se sentira tão animada e empolgada. Desceu da charrete e correu em direção à casa. e fazerem as malas mais depressa ainda. De repente o semblante de Katie se iluminou. .Desejo que Katie mude de idéia! disse ele. E eu estou parecendo com você agora. principiou Katie. . Gritavam uns para os outros e apontavam para os detalhes da belíssima paisagem que os cercava. subindo na charrete do “vovô”.estava deitado no palheiro ontem à noite? . .Ah! E podemos nos encontrar com o Marcos! Estou dentro! A descida da montanha. . . soprando a penugem bem no rosto dela. Rudolf.‘Tá bom. ao descerem sobre o vilarejo de Adelboden. Quero mais uma dose de aventura. não. .Você ‘tá recusando uma aventura? perguntou Cris. pessoal.Na verdade.Espera aí. Foi então que se lembrou de algo. Depois apanhou mais um dente-de-leão. com a atenção voltada para o mundo lá embaixo. . tentando explicar à D. lá estavam eles na porta da casa. Qual o problema de passarmos mais uma noite aqui e irmos pra escola da Cris amanhã e nos divertirmos por lá no domingo? .Você vai gostar de Veneza também. disse Ted. Depois de explicarem rapidamente seus planos para a D. ‘tá bom! Se for pra ficar me torturando desse jeito. replicou Katie. Eva e o Sr.Eu gostei daqui. dentro da cesta de piquenique. Os três estavam elétricos. Hoje pela manhã olhei a distância daqui a Veneza porque tive a mesma sensação que a Cris ‘tá tendo.Esperem! Nossas flores! gritou ela. . Eva que havia esquecido as flores enroladas no guardanapo. ‘Tá igual a mim quando começamos a viagem. melhor irmos. foi bastante animada.

Havia acabado de consultar o horário dos trens e. . gritar e correr atrás do veículo também. porque imediatamente “decolaram”! Com o arranque. não? perguntou Katie ao Sr. típicas daquela região. ou talvez aquilo fosse francês. então. num vestido de corpete justo. Com o barulho. Depois. no final da avenida. Do alto da colina. os cavalos entenderam. não conseguiremos fazer a conexão em Spiez.guardanapo. Eva riu e entregou tudo a ela . Cris e Katie trombaram uma na outra e seguraram firme. pôs o dedão e o dedo indicador na boca e soltou um agudo assovio. Ted avistou a principal via da vila. dois senhores chegaram à porta das lojinhas que havia na avenida.Será que esta charretinha não consegue ir um pouco mais rápido. com dois garotinhos em calças de couro. Ao verem que o Sr. disse ele ao Sr. Ao ver que este já estava mancando. Um deles estava usando um grande avental branco de açougueiro. Continuou guiando firmemente os cavalos rumo ao veículo. O motorista do ônibus não o escutou. Rudolf tentava parar o ônibus. anunciou: . D. Rudolf.Se não pegarmos o ônibus. apressou a jovem até a porta. gargalhando até chegarem ao ponto.Esperem! gritou Ted. Uma fumaça preta saiu pelo escapamento do veículo e a porta se fechou em seguida. . porém os cavalos ouviram o ruído. . flores e tudo o mais.Aquele é o ônibus que temos de tomar. Uma mulher. . Confusos. . todos se puseram a acenar. saiu de outra loja. os animais empinaram as patas ao ar. Rudolf. E lá se foram de charrete pela estreita estrada que levava ao ponto de ônibus. o Sr. Seja lá o que tenha dito. Dos quatro. O coletivo já estava dobrando a esquina. Ele respondeu qualquer coisa em alemão. Rudolf parecia ser o que mais estava se divertindo com a caçada ao ônibus.Segurem o ônibus! exclamou Ted quando ainda estavam a alguns metros de distância.

os personagens de Busy Town (Cidade agitada) ilustram filmes. Rudolf ria e acenava enquanto Ted. disse Katie. (N. vivendo uma incrível trapalhada. etc. sem ter de aturar o olhar bravio do motorista pelo retrovisor. A alegre platéia vibrava com o feito. muito obrigada. O Sr. Só precisavam que o Sargento Murphy** chegasse com seu apito enferrujado. Tinha a sensação de ter sido transportada de um conto de fadas para o desenho animado Busy Town* e.) ** O Sargento Murphy é um dos personagens de Busy Town.) O motorista de uma Mercedes azul juntou-se a eles e saiu atrás do ônibus. como se fosse uma princesa desfilando num carro alegórico. era como se fossem os personagens da película. quando já estava saindo da cidade. fazendo um buzinaço até que o condutor do coletivo parou. . Cris e Katie corriam para entrar no ônibus. livros. A paisagem era deslumbrante. Percebendo isso.Obrigada! Não teríamos conseguido sem a ajuda de vocês. e a impressão que tinha era de que ainda estava nas montanhas. são produtos educativos destinados a crianças. agora. ___________________ * Criados por Richard Scarry. . (N. da T. Cris só conseguiu relaxar de verdade quando os três embarcaram no trem que os levaria a Milão. estendendo a mão e cumprimentando todos os que haviam ajudado.Obrigada. Cris não conseguia parar de rir. Em seguida. Não queria que aqueles dias na companhia de seus melhores amigos acabassem . desceu da charrete. Ted foi com Cris e Katie para o fundo do ônibus. desenhos animados. da T. pôs o mochilão nas costas e continuou cumprimentando as pessoas. Vocês foram incríveis! De verdade. pois assim poderiam rir à vontade e comentar sobre cada detalhe daquela aventura. O único que não estava achando graça das trapalhadas dos três era o condutor do coletivo.

mas. onde fariam as reservas e trocariam os bilhetes por passes de primeira classe. Saíram correndo pela estação. seria bom mesmo fazer um lanchinho.Será que vamos conseguir pegar o próximo trem? perguntou Cris. Cris nunca vira uma estação tão cheia e barulhenta. Ela sabia que tinham conseguido evitar muito daquele tumulto. Ted consultava o relógio a todo tempo. e tudo estava correndo tranquilamente até que chegaram a Milão.Por mim. orientando o caminho até o guichê. tudo bem. Parecia que todo mundo queria passar o fim de semana em Veneza. Enquanto caminhava. As mochilas trombavam a todo momento na multidão de turistas que circulava ali. .Temos cinco minutos. respondeu Katie. disse Ted. acho que não iremos conseguir. . senão ficamos perdidas! Cris procurou ficar junto de Katie. . Voltamos num minuto! Mas não saia daqui. Já fizemos isso antes. Ted ia na frente.Obrigado. partindo logo no início do mês. . Se o trem não atrasar um pouquinho. . .Que tal se eu e a Cris fôssemos comprar algum lanche enquanto você espera? Podemos trazer pra você. perguntava-se se aquilo não seria reflexo das férias escolares que haviam começado nos Estados Unidos e na Europa. Os três retornaram ao guichê e tiveram de enfrentar uma fila ainda maior. Era sexta à noite e a estação de trem estava lotada. . levando uma legião de estudantes a começar suas aventuras agora. sugeriu Cris.Não há de quê. o cobrador não os deixou embarcar. O trem estava lotado e só podia entrar quem tivesse feito a reserva.Não seria melhor corrermos pra lá? Podemos ir em pé na segunda classe mesmo. pagando a diferença. Tinham conseguido fazer todas as conexões.nunca. quando chegaram à plataforma. .

Ah. disse Cris. Ao que parecia eram os últimos assentos que haviam restado para aquele dia. caso fiquemos presos aqui a noite toda. Cris e Katie resolveram se assentar num banco e. Depois de esperar um bom tempo na fila. e o aconselhável é garantir o lugar bem cedo. Seja lá o que . E a pizza é por nossa conta.Será que devemos procurar um albergue.De onde surgiu tanta gente? perguntou Ted. . então? perguntou Cris. Seria um prazer poder pagá-los pra vocês. quinze minutos depois. .Deveríamos então achar um hotel. disse Cris. disse Katie. . .O único problema é que o trem só sai às 6:00h da manhã. Vamos aproveitar e comprar a mais.. disse Ted ao entregar-lhes os passes. . mas. Só que minha grana ‘tá curta. . Depois comeram a pizza que já havia esfriado.Tudo bem. . e tomaram o refrigerante que já estava quente. Caminharam até um canto mais tranquilo e acertaram as contas. preciso que vocês me dêem o dinheiro dos bilhetes de primeira classe. Li no guia turístico que os albergues das grandes cidades italianas costumam encher muito rápido. Ela não gostava nem um pouco de sentir o corpo todo suado e fedorento. com a notícia de que milagrosamente conseguira três assentos na primeira classe. Cris segurava a pizza com as duas mãos. Ted ainda estava na fila quando as duas retornaram ao guichê. nós íamos pagá-los de qualquer jeito.Tem uma pizzaria ali. Ted consultou o relógio. disse Katie. Cris e Katie pediram uma pizza inteira e três refrigerantes. . e por falar nisso. Ted foi ao encontro delas.Pelo visto a temporada de turismo começou oficialmente aqui na Europa.Acho que estarão todos lotados. O forte cheiro de alho e pimenta a torturava..

Será que vai dar certo? perguntou ela a Katie. Depois de vasculhar seus pertences. Cris fechou os olhos e apoiou a cabeça no mochilão.Katie! Onde é que você enfiou o guardanapo com as flores? . Será que vamos sonhar com nossos futuros maridos. mesmo elas estando dilaceradas? . Em . Algumas já estavam até sem o caule. Cris achou um pedaço de jornal e improvisou um envelope para colocar as flores. Foi então que se lembrou das flores silvestres. O cheiro de alho. enquanto os outros ficavam com a bagagem. incomodou Cris. Aquela aventura para Veneza. Ted se ofereceu para uma partida de xadrez. Vários estudantes americanos pararam para conversar com eles. idéias e nomes de lugares onde ficar.fossem fazer em Veneza no dia seguinte. . Além de amassadas. as flores se achavam enrugadas e murchas. Cris esperava que um banhozinho estivesse incluído no pacote. O que ela queria era encontrar um jeito de se apoiar confortavelmente na mochila e dormir. pegando suas sete flores com cuidado e enrolando-as numa bandana toda amassada. que impregnou o cantinho onde estavam.É mesmo! Já se foi quase metade da noite e nós não estamos dormindo com as florzinhas debaixo do travesseiro! Acho que você colocou o guardanapo na bolsa. Trocavam experiências. Katie aproveitou para comprar barrinhas de chocolate e um chaveiro de recordação. Quando eram umas duas da manhã. disse Katie. Cris encontrou o guardanapo e abriu-o cuidadosamente. que tinha começado de forma tão espontânea. mas Cris recusou. . estava perdendo a graça rapidamente. Cada hora um deles se levantava para dar uma volta. se conseguirmos pelo menos sonhar com alguma coisa boa. já estará até bom demais.Acho que. dormindo num lugar destes. Ted comeu a última fatia da pizza fria.

Estava cheirando a álcool. .Ah.Tudo bem. Cris viu um homem careca e parrudo. Mexeu-se um pouco até achar uma posição confortável e abriu os olhos. quando senti alguém mexendo no meu cabelo. sonhando com o meu príncipe misterioso. Ted acordou e disse: . nem com quem sonhara.Quero um relatório completo do sujeito que aparecer nos seus sonhos. Entretanto. Acordou de repente ao ouvir Katie gritar. Sempre sonho com você. disse ele. mas dei de cara com aquele sujeito! Cris não conseguiu segurar o riso. Ted a observava. Achei que ia me virar e ver o rosto do meu amado.Basta desse negócio de flor silvestre! exclamou ela. Cris não sabia quantas horas havia dormido. . Você sabe que vou sonhar com você. tudo que ela lhe disse foi: . . Ao vê-lo. sorrindo. seu maluco! Ainda com os olhos embaçados. cara! Imediatamente o homem se levantou e foi embora. Só você.Dê o fora daqui. amiga! Katie fez um beicinho. Cris abriu um sorriso. não sabia nem se tinha sonhado. . andando a passos lentos e falando sozinho.seguida enfiou-o no bolsinho da frente do mochilão e tentou se acomodar de forma que a cabeça se apoiasse sobre ele.Tire as mãos de mim. . Ted. levantando-se e ajeitando o moletom.‘Tá tudo bem com você? perguntou Cris. .Aquele cara foi o pesadelo em pessoal disse Katie. Na verdade. Eu estava bem aqui. . agachando-se perto de Katie. tentando conversar com ela.

Havia tomado uma boa decisão ao optar por continuar trabalhando no orfanato até seu compromisso com eles terminar.A moral dessa história das flores devia ser que “há certos mistérios que só Deus deve conhecer”. Cris? Com quem sonhou? Ou será que podemos adivinhar? Cris podia sentir Ted olhando para ela. . Cris teve tempo de sobra para pensar na vida durante o restante da incômoda noite no chão da estação de Milão e depois. Ted riu. Sentia paz em dar continuidade ao trabalho que havia começado.Há certos mistérios que só Deus deve conhecer. E aquilo a deixava um pouco incomodada. Será que não poderiam ser um pouco mais carinhosos um com o outro? Ou será que aquela era a maneira de Ted respeitar o pedido dela. E agora ela não sabia direito se gostava ou não daquilo. Agora ela sabia que loucura tinha sido pensar em se casar dali a dois meses e voltar com Ted para trabalhar no Rochedo. O forte sentimento de apreensão que sentira em Amsterdã já havia passado. A questão é: quando teremos essa chance? O tempo . . . Entretanto sentia-se acanhada demais para retribuir o olhar. E você. não haviam ficado tão “agarradinhos” como Cris gostaria. E não queria ter de dizer que nem sequer havia sonhado.Não brinca! Sério? disse Katie. de guardar os beijos? Cris tinha certeza de que tudo se resolveria assim que tivessem uma oportunidade de levar uma boa conversa em particular. replicou ela baixinho. porque a intenção não tinha sido fazer com que ele recuasse completamente. em que ela lhe dissera que estava “guardando” beijos para depois. Ele não a beijara nem uma vez desde a viagem para Amsterdã. O que ainda carecia de uma definição era seu relacionamento com Ted. Embora tivessem passado bastante tempo juntos nos últimos dias. durante a viagem de três horas até Veneza.

Hoje já é sábado! Eu até não ligo de ficar em Basel mais dois meses.que temos juntos ‘tá ficando cada vez menor. mas acho que não posso esperar tudo isso pra ter uma conversa franca e íntima com Ted. .

procurando gravar cada detalhe na memória. disse Ted. achava-se uma das muitas ilhas que constituíam a antiga cidade de Veneza. Um sorriso arrogante parecia enfeitar cada uma das fachadas dos prédios. Quero dizer. mas. outras pareciam segurar a bolsa no colo. Estou falando de uma certa “atmosfera” que envolve este lugar. Enquanto o barco acelerava pelas águas. O pináculo de uma torre estendia-se rumo ao céu. Cris achou que lembravam senhoras bem gordas. e vários prédios bem altos e antigos enfileiravam-se. Cris deu uma fungadinha. né? disse Ted. os três chegaram ao táxi aquático e embarcaram. Cris e Katie tiveram a impressão de estar pisando numa estação diferente daquela em que haviam estado duas semanas antes. guardassem no coração maliciosos segredos do passado. juntamente com dezenas de outros estudantes. 23 Quando o trem chegou a Veneza. Cris protegeu os olhos da luz do sol e se pôs a observar a paisagem. às nove da manhã. trajando seus melhores vestidos. confortavelmente assentadas lado a lado no banco da igreja. ao mesmo tempo. . Em vez de vazio e sossegado. Caminhando pela multidão. mas este lugar parece maior do que a própria vida! . Ted. já tinha visto Veneza em várias fotos e filmes. Do outro lado do canal. Algumas usavam chapéu. . bem próximos um do outro. Ao observá-los. como se aquelas senhoras estivessem ouvindo o sermão vindo dos céus. mas não sentiu nenhum odor de alho pairando por ali.Que lugar maravilhoso! exclamou Cris ao descerem do barco.Há algo no ar.Não. o local achava-se barulhento e cheio de turistas. Esta .

Katie tinha ainda setenta e cinco dólares. podemos passar pra vocês o endereço de um hotel que encontramos bem mais perto daqui.cidade já viu de tudo. não temos? perguntou Ted.Podemos fazer uma “vaquinha”. . A cidade ‘tá muito cheia. teremos o suficiente pra pagar o hotel e o restaurante. . Estou cansada de ficar carregando esta bagulhada pra todo lado.Nós temos o endereço da joalheria do pai dele. Já ela. Não podemos ir deduzindo que poderemos nos hospedar na casa dele. Que mais que a gente quer? É claro que. disse Cris. Estava pensando agora mesmo em como aqueles prédios lembram mulheres gordas e arrogantes.Sim. com exceção da diária que era mais cara que a do albergue. . concordou Cris. Podemos ir até lá e ver se ele ‘tá lá. No entanto foi Katie quem decidiu por eles.Será que poderíamos deixar a bagagem em algum lugar antes? perguntou Katie. assentadas uma ao lado da outra.O que vamos fazer primeiro? Comer ou achar um albergue? Cris tinha certeza de que Ted preferiria comer. e restava a Cris uma quantia um pouco maior. Ted sorriu para ela. . já que havia gastado bastante para pagar a passagem de avião de Narvik para Copenhague. nesse . queria tomar um banho. Pelas contas. Vocês querem? . . sugeriu Cris. Ted estava praticamente sem dinheiro. .Os albergues só irão abrir pra registros às 3:00h da tarde. se quiserem. O hotel foi uma boa opção. Uma garota que estava perto deles virou-se então e disse com sotaque britânico: .É. disse Ted. obrigado. É mais provável que ele esteja na joalheria do que em casa.Podemos achar um albergue. Se juntarmos o dinheiro.Vamos ligar para o Marcos! . Mas.

Ao entrar. lendo o jornal. abaixando-se para pegá-los.caso. . fez sinal com a outra mão para que ela lhe desse mais dinheiro. Quando deixaram o hotel. . enquanto Cris se aventurou pelo pequeno prédio. a ponto de caírem. e três cartões postais caíram no chão. Não faziam a menor idéia de onde estavam indo. disse Cris. . Chega dessas lanchonetes fajutas pra turistas! Depois podemos dar uma chegada na joalheria e conhecer o resto da Praça San Marcos. Os óculos de armação metálica estavam apoiados bem na extremidade de seu pontudo nariz. tentando falar vagarosamente em inglês. tem cara de ser. O otimismo de Cris e também a sugestão de que tomassem um banho antes de sair pela cidade ajudaram bastante. Cris . apontando para um edifício um pouco mais abaixo de onde estavam. os três atravessaram estreitas ruas e várias pontes extremamente rebuscadas. Pelo menos. Seguindo o próprio faro. . mas não compreendeu o que ele replicou.Vamos descobrir um restaurante diferente e original! disse Katie. teremos de voltar pra Basel na segunda classe. mas não tem problema.Não acredito que até hoje não pus estes postais no correio. Ela então lhe estendeu algumas moedas para pagar o selo. estavam famintos. Cris entregou-lhe os postais. Em seguida.Aquilo ali não ‘tá parecendo uma agência dos correios? perguntou Ted.Não vi um restaurante sequer por aqui! disse Cris. não é? Ted e Katie ficaram folheando o guia turístico à procura de um bom restaurante. Não seria melhor consultarmos o guia turístico? Katie tirou o livro da bolsa. Vai dar tudo certo. Aquilo ali na frente é uma caixa de correio. mas pelo menos tinham dado uma refrescada e não precisariam carregar a pesada bagagem. O senhor colou os selos para ela e olhou-a por sobre os óculos. notou um senhor assentado atrás do balcão.

soltando em seguida uma série de palavras em italiano. . Ted passou a mão pelo ombro de Cris e puxou-a para perto de si. Já nem estou ligando mais se for uma lanchonete fajuta pra turistas. principalmente quando ele estava de banho tomado e todo cheiroso. Mas o senhor que estava lá selou os postais e recebeu as moedas que lhe dei. saiu do prédio.Humm. Vamos dar um jeito de chegar à Praça San Marcos. senhores pombinhos.Não. Cris deduziu que ele estava lhe dizendo que a quantia estava bem próxima do valor correto e que ela podia ir embora. Dá pra acreditar? Lembra daquele rapaz que conhecemos no trem pra Paris? Ele deixou os cartões caírem dentro do guia. Parecia uma pizzaria. . .Então os postais não eram seus? perguntou Katie. e acenou com a mão.Minha Boa Samaritana! brincou. Os três foram parar num restaurante minúsculo. A porta estava aberta. quando Cris sentiu um cheiro de alho no ar.Era mesmo uma agência de correio? perguntou Katie. Que cara estranho! Se os postais de Sam chegarem a Oregon será um milagre! . Precisamos achar um lugar pra comer. Os três seguiram o mapa e atravessaram várias pontes. embora eu ache que ficou faltando dinheiro. Cris gostava de senti-lo perto dela. Já estavam quase chegando à praça. disse Katie.Não sei. .Muito bem. como se quisesse dizer que a quantia não era suficiente. . Então. Já faz uma semana que estou planejando colocá-los no correio pra ele. . O senhor abanou a cabeça. estão sentindo este cheiro? Katie se pôs a farejar e seguir o aroma.tirou mais duas moedas do bolso e deu a ele. que ficava numa estreita rua. sacudindo a cabeça. mas não havia . Passou o braço pela cintura de Ted e apoiou a cabeça no ombro dele.

O rapaz voltou em seguida.Sim. Em seguida apontou para o banquinho em que Cassandra havia apoiado a perna direita. Estas aqui são Katie e Cris. É que estamos de folga agora. E por falar nisso. . Somos da Califórnia.ninguém lá dentro. Bem à vontade. mas deve ajudar. . .Tome. Nesse caso.Basta nos dizer o que fazer. Ted passou por trás do balcão e lavou as mãos numa pia.Já colocou uma compressa de gelo nele? . trajando um avental branco por cima do vestido. Já moramos em Nova Iorque por uns tempos.Qualquer uma. . gostaríamos muito de montar nossa própria pizza.Americanos! exclamou ela. Que pizza vocês querem? . com um pedaço de mussarela fria enrolado numa toalha. não? . Entrem. hoje de manhã.Machucou o pé? perguntou. entrando destemidamente no restaurante.Meu nome é Cassandra. . Ciao! Tem alguma coisa de comer à venda aqui? Então uma mulher baixinha e gordinha veio recebê-los. . . Não ‘tá congelada.Não. . por favor! Devem estar com fome. respondeu Ted por eles. . continuou ele.Alô?! exclamou Katie. .É mesmo? disse Ted. Cris e Katie fizeram o mesmo. .Será que devemos entrar? perguntou Cris. Cris e Katie sorriram constrangidas para Cassandra. Ted abriu a pequena geladeira dos fundos. e nós faremos.Sim! responderam os três em coro. meu nome é Ted. .Gostariam de preparar a própria pizza? perguntou ela.

. Cris teve a impressão de que o gesto deixara Ted desconcertado. Depois de Cassandra muito insistir. como sempre acontecia nos desenhos animados. Cris tinha quase certeza de que a massa cairia na cabeça da amiga. Enquanto Cassandra descansava com o pé para cima. Todos deram uma salva de palmas para Cris. Tente de novo. explicou Cassandra. . Cassandra elogiou o rapaz e lhe ofereceu um emprego na . fazendo de conta que a massa era uma grande pulseira que estava prestes a arrebentar. seu punho acabou abrindo um buraco no meio da massa.Você a abriu demais e aí ela ficou muito fina.Mais uma pizza especial do Ted saindo daqui a pouquinho. Cris resolveu tentar também. Cris riu a valer. disse Cassandra. Ted já estava colocando a pizza no forno com o auxílio de uma enorme pá. Durante as duas horas que se seguiram. Ted se abaixou para colocar a mussarela sobre o tornozelo dela. . . Foi a vez de Katie tentar jogar a massa para cima. assentaram-se e ficaram observando Ted.Disse-lhes que você prepararia a pizza pra elas. deixe-me dar-lhe um beijo. justo na primeira tentativa. Contudo Katie surpreendeu e se saiu melhor do que Ted. quando duas jovens entraram na pizzaria. a massa rodopiou pelo ar. abrindo perfeitamente. Cassandra deu-lhe um beijo em cada face. que já estava com a testa toda brilhante de suor. Venha cá. os três aprenderam a arte de lançar a massa ao alto e depois espalhar o molho de tomate especial sobre ela. pegando um avental que vira no balcão.Você é um anjo.Onde fica a massa da pizza? perguntou o rapaz. . Cris brincou. mas. Depois. Ted botou uma toalha sobre o braço e serviu a primeira fatia da pizza para Cassandra. Na segunda tentativa. Cassandra lhes disse qualquer coisa em italiano e as duas deram uma risadinha. replicou Cassandra teatralmente. imitando um garçom profissional.

replicou Cris. Grazie. Ted riu do comentário de Cris e passou o braço pelo ombro dela. Molte grazie. .Molte grazie. entendem? Mas desejo- lhes toda a bondade de Deus. . em seguida. que permaneceu de pé. . praticamente sussurrando. Depois beijou-os e os pressionou contra a face de Ted e Cris. deixe-me ver. disse Cris. Cassandra bateu a mão no avental e uma névoa de farinha bem fina se levantou e os envolveu. . disse ele. toda empolgada. apertando o ombro de Cris e aproximando-a dele. Ela é sua namorada? Por que não me disse antes? Esperem! Não saiam daí! disse ela. disse da. passando a mão no queixo. Depois. Cassandra. enquanto tentava se levantar.Tenho de dar-lhes uma benção. . repetiu Ted. como se estivesse pensando seriamente na proposta dela.Ahh! exclamou Cassandra.Humm. Quando conseguiu ficar de pé.pizzaria. com o braço sobre os ombros dela. . O olhar de Cassandra era de quem fazia um pedido.Lembre-se de que a necessidade não faz o chamado.Sinto muito. .Será que você não tem uma benção aí pra nós que ainda estamos “disponíveis”? perguntou Katie. . Cassandra ergueu as mãos e tocou os lábios de Ted e Cris com os dedos. Não é a mesma coisa. Proferiu uma melódica série de palavras em italiano e. trazendo-os para os próprios lábios. . Cassandra olhou-a como se não houvesse compreendido a pergunta.Obrigada. virou-se para Cassandra. Cris passou o braço pela cintura de Ted. tirou os dedos dos lábios deles.Não sei como dizer na língua de vocês. mas minha namorada disse “Não”. .

Imediatamente um senhor alto. Os sofás. . explicou Ted. . . Em cada canto do recinto havia estátuas de mármore. Parecia o segurança da loja. nem ficou choramingando. havia um lustre dourado e reluzente. . Cassandra. Carlos Savini e o Sr. Pode esperar. A parada seguinte seria a joalheria da família de Marcos. no centro. para surpresa dela. veio recebê-los.Um dia eu voltarei. mas estamos falando do filho dele. respondeu ele. como vai? Gostaríamos de falar com Marcos Savini. a loja não aparentava ser grande coisa. . de forma que os clientes podiam se assentar confortavelmente enquanto olhavam as peças expostas nos armarinhos de vidro. replicou o segurança. Savini não se encontra. pegando o cartão. se ele estiver. . Cris nunca havia se sentido tão orgulhosa da amiga.Tudo bem. eram almofadados. No entanto bastou pisar lá dentro para os três perceberem que estavam numa joalheria bem cara e de clientela bastante selecionada. Cris achou que o comentário arrasaria o coração de Katie.Olá.Será que poderíamos deixar um recado pra ele? perguntou Katie.Volte aqui quando tiver um namorado e eu abençoarei vocês. O teto da loja. era todo adornado e. O Marcos está? .Ela quer receber uma benção também. Eu voltarei! E seja lá quem for o rapaz. Em vez disso. O segurança tirou um cartão do bolso e abriu a porta para que eles se retirassem. disse Ted. explicou Katie. Ted. vestindo um terno preto. disse corajosamente: .O Sr. Marcos Savini não estão. . Cris e Katie só conseguiram sair da pizzaria de Cassandra várias horas depois. respondeu Katie. . a amiga não fez nenhuma brincadeirinha. encapados com um tecido brocado dourado.O Sr. Entretanto. em forma de cúpula.Obrigada. Até que do lado de fora. ele valerá cada palavra que você disser.

ao perceber que dois pombos haviam pousado em sua cabeça.Não.Vamos desbravar. Cris pegou a máquina na bolsa e tirou algumas fotos da praça. . . de onde tirou fotos panorâmicas da praça. e outros quatro aterrissaram em seus braços. tinha batido apenas três rolos de filme. nem Cris tocou no assunto. Katie ‘tá . Um senhor lhe disse algo em alemão e afastou-se um pouco. e duvidava que teriam dinheiro para alugar uma gôndola. contudo. Na maioria dos lugares. O que mais impressionou Cris na praça foram os pombos. então! sugeriu Ted.Será que devemos telefonar e deixar um recado? perguntou Cris. havia ficado tão “encantada”. agora que chegamos aqui. Ele deve estar viajando. Fotografou a igreja que ficava ao fundo da praça e. que desciam e pousavam em suas mãos. . depois. para encontrá-la. eles não gostam nada desses universitários americanos pobretões. Será que essas gôndolas serão como a Lille Havfrue? A sereia ilusória que. Naquela tarde. subiu até a cúpula da basílica. para tirar uma foto do garoto.Puxa! Que tratamento. Acho que não somos bem- vindos aqui como fomos na casa do Antônio. observando e apreendendo os detalhes do que via. respondeu Katie. Cris se perguntava se Katie havia chegado à mesma conclusão. Um garotinho parecia petrificado de medo e encanto ao mesmo tempo. tivemos de atravessar o mundo? Será que. Havia lido no guia turístico que os passeios podiam sair muito caro. Tão logo saíram da loja. Muita gente comprava alpiste dos vendedores ambulantes e ficava alimentando os pássaros. Tirou também várias fotos das gôndolas que passavam sob a Ponte Rialto. ela comentou: . que praticamente se esquecera de fotografar. hein? O oposto da pizzaria da Cassandra! Pelo que estou vendo. Quero conhecer a Praça San Marcos. Estavam por toda parte. Katie não voltou a falar no passeio de gôndola. Durante a viagem. Cris compensou o atraso e bateu todo o filme que estava na máquina e mais um.

e logo depois Ted providenciou para que pegassem um barco e fossem até a Ilha de Murano ver os sopradores de vidro. Cris nem fome sentia. os três estavam exaustos. disse Cris suavemente. No dia seguinte. . Estava perto do parapeito. Espere até você prová-la! Acho que esta aqui ganha de todas as que já comemos nesta viagem! Katie estendeu-lhe a quitanda de massa folhada. Sentia- se completamente refeita após tantas horas de sono. .achando que o passeio é uma bobagem? Por que será que tantas coisas na vida acabam assim. aquela deliciosa quitanda era uma maneira perfeita de começar o dia. Obrigada por ter trazido pra mim. pondo as mãos sobre a grade.Eu não quero que você vá embora. . quando Ted se aproximou por trás dela e cercou-a. Katie foi a primeira a se levantar e acordou Cris.Que horas são? quis saber Cris. Cris gostava muito de passear de barco e sentir o vento em seus cabelos. Está batendo seu recorde. Fomos tomar café e trouxemos uma tortinha pra você. batendo fotos. como os castelos e os fiordes? Quando o sol se pôs.Quase nove. Tinha forma de cone e era recheada de chocolate. É o nosso último dia juntos e quero que seja perfeito! Para Cris. Sofriam os efeitos de ter passado a noite em claro na estação de Milão e andado a tarde inteira por Veneza. Determinei que hoje ninguém vai pedir desculpas por nada. . Raio de Sol! Levante-se! Veneza ‘tá a sua espera! brincou ela. ao colocar um pedação de torta na boca.Vamos. . E me desculpe por ter deixado vocês esperando.Não esquente.Já até vi por que você gostou desta aqui! disse Cris ainda deitada. Tudo que queria era dormir. Cris tomou um rápido banho. . . hein? Eu e o Ted já estamos de pé faz horas.

. observou Ted.Mas eu não estou indo a lugar nenhum. observando as ondinhas que o barco imprimia na água. Durante a volta. neste mesmo horário. a caminho da Califórnia. Cris permaneceu perto do parapeito.Precisamos tomar algumas decisões. Eu estarei na Konditorei e você estará no aeroporto. . Mas Ted não a beijou. Ted ficou conversando com um treinador de atletismo aposentado e sua esposa. Ted. Cris desejava que ele pelo menos a beijasse. Tinham acabado de descer do barco e agora estavam em pé numa sombra. Independentemente do trem que escolhermos. Conferi o horário dos trens e temos algumas opções de partida. serão dez horas . replicou ele. você estará no avião. . disse Ted. Estaremos longe um do outro de qualquer jeito. enlaçaria o Sol e o deteria com as próprias mãos. . . afogando as mágoas em alguma quitanda. que eram de Ohio.‘Tá sim. Não. Cris se virou e afundou o rosto no ombro do rapaz. a fim de que ele não concluísse sua “trajetória” e o dia nunca acabasse. Amanhã. que soprava o vidro através de um tubo comprido e oco. disse Katie. moldando rapidamente vasos belíssimos com o líquido fumegante que saía do outro lado do tubo. e eu estarei na aula. então. se Ted não fosse tentar aquilo. Queria que Ted lhe dissesse que voaria até o céu.Muito bem. A dor que Cris sentia só aumentou durante o passeio pela Ilha de Murano.Acho que deveríamos tentar ligar para o Marcos mais uma vez.Não sei se teremos tempo de encontrar com ele. Ou então. . Os três assistiram ao habilidoso artesão. encostando o rosto no cabelo dela. disse Ted. daqui a vinte minutos. Estados Unidos. sozinha. na verdade o primeiro horário já terá terminado e eu estarei na minha Konditorei. A diária do hotel termina à uma da tarde. ou seja.O avião só sai de Zurique à duas da tarde. . Não quero que o amanhã chegue.

Achei que estivéssemos mais perto. Cris se perguntava se os novos planos lhes permitiriam fazer uma rápida visita à sua Konditorei. Cris sabia que deveria se esforçar ao máximo para conseguir boas notas agora. nesse caso. para chegarmos a tempo ao hotel.noite. nem iria às aulas.Será que teria algum problema se passarmos a noite no dormitório da universidade? . Mais três trens partem depois desse.Tudo isso? disse Katie. quando embarcassem no avião. não sei se teremos dinheiro pra pagar. se ela perdesse uma aula que fosse. E como suas nota não haviam sido das melhores no período passado. Se eles resolverem nos cobrar mais uma diária. Se pudesse. O último sai às 20:30h e. instituição em que começaria a estudar em setembro.Acho que não. o que seria praticamente em cima do horário das aulas de Cris. Sentia que. sua nota poderia baixar quase que pela metade. .Não tem problema. .Isso. .Eu sei. . se conseguissem encaixar aquilo no roteiro. Senão. isso poderia afetar até mesmo a bolsa de estudos parcial que havia conseguido na Rancho Corona. Ted começou a caminhar e perguntou a Cris: .daqui a Basel. chegaríamos às 6:30h da manhã de segunda-feira. Acho também que devíamos ir andando enquanto conversamos. de alguma forma seria mais fácil se despedir dos amigos. Viajaria para Zurique com Ted e Katie e ficaria com eles até às duas da tarde. Cris queria ficar o máximo que pudesse ao lado de Ted e não se importava de descer do trem e ir direto para a universidade. Entretanto o período letivo* que estava se iniciando era bem curto e. Vocês estão pensando em pegar o trem pra Zurique amanhã de manhã? . Chegaríamos em Basel à meia. . É uma hora de viagem apenas.Poderíamos pegar o trem das 2:00h.

poderiam comer uma pizza com o dinheiro que sobrasse. Todos os assentos na primeira classe do trem das 20:30h estavam reservados. Em vez disso. compraram uma pizza na própria estação. O dinheiro de Cris já estava pelos centavos. achou a idéia excelente. Sugeriu que sentissem o gostinho de um sorvete Gelato pela última vez. Quanto você quer? . que acontece antes do mês de setembro. e eles teriam de viajar na segunda classe. quando tem início o ano letivo. summer term: Trata-se de um período de aulas mais curto. Cris sentia os pés e o coração cada vez mais pesados.Podemos pegar o último trem. Cris e Ted seguiram-na até o táxi aquático e desembarcaram na Praça San Marcos. Depois. Ted estava calado. da T. com seu espírito alegre e otimista. Era triste demais pensar que a viagem estava chegando ao fim. Nem sequer conseguiam planejar como passar as últimas horas que tinham juntos. Assim teríamos mais algumas horas aqui em Veneza. Foram duas horas de espera na fila da estação. mas Katie não disse nada. Foi Katie quem os “empurrou” o restante do dia. o que poderia significar dez horas em pé. (N. Katie. Cris achou que a amiga iria sugerir que ligassem para o Marcos. Katie os levou até uma gôndola. Tinham ainda três horas em Veneza.Meus amigos aqui precisam dar uma volta de gôndola. Depois. ___________________ * No original. para fazer as reservas. mas nenhum deles sabia o que fazer. que usava chapéu de palha: . Ou pelo menos as três primeiras horas até Milão.) . tirou do bolso o resto do dinheiro que tinha e dirigiu-se ao gondoleiro. que estava concordando com tudo naquele dia. e sabia exatamente onde deveriam ir. Ted sugeriu que pegassem a bagagem no hotel e se dirigissem para a estação.

oferecendo-se para pagar para eles? . disse a outra. . mas. . .Entre aí! disse Ted. enquanto Ted conduzia Cris para o interior da gôndola.Mas. Você também precisa passear de gôndola.Vocês se importam? perguntou Katie.Você vai pagar para os seus amigos? E este dinheiro é tudo que você tem? .Claro que não. Vamos! Não estraguem tudo! Tirem as mochilas e entrem logo nesse barco. Katie. Achei que seria uma pena eles viajarem até aqui e não darem um passeio de gôndola. explicou Katie. Vocês estão sem dinheiro e é um prazer poder pagar pra vocês. O gondoleiro recebeu o dinheiro de Katie. 24 . Venha! Você vai de graça. chegando pertinho de Ted. Colocou uma delas do seu lado e passou o braço em volta dela.Mas você também tem de ir! disse o gondoleiro. Toda contente. Teria sido maravilhosamente romântico poder passar a última hora da viagem a sós com Ted. como ela poderia dizer “não” a Katie. Será um prazer pra mim. Então o gondoleiro perguntou a Katie: . a fim de pegar as mochilas que o gondoleiro lhe passava. Vou ficar vigiando as coisas pra vocês. Não precisa pagar pra nós. Katie entrou na gôndola e estendeu o braço. .Preciso sim. depois de a amiga ter sido tão gentil. respondeu Cris.Estamos voltando para os Estados Unidos amanhã. assim você vai acabar com seu dinheiro protestou Cris. . Cris continuava fazendo objeções.

- Ah, Milton! Você é tão forte! Eu sempre gostei de homens assim, fortes e reservados

como você! brincou ela.

Cris sorriu para Ted. Ele pôs o braço em torno dos ombros dela e puxou-a para junto de

si.

- Existem vários palácios belíssimos aqui no Canalazzo, disse o gondoleiro ao

desatracar a gôndola do cais, direcionando para o canal principal. O canal tem pouco mais de

três quilômetros de extensão e apenas uns três metros de profundidade. Em alguns lugares, a

profundidade é um pouco menor. Não se deve nadar neles.

Cris logo percebeu o porque. Um cheiro horrível exalava das águas, onde muita sujeira

pairava. Em vez de olhar para baixo, Cris manteve a atenção fixa nas maravilhosas mansões

que ladeavam o canal, cada uma mais bonita que a outra. Katie batia um papo animado com o

gondoleiro, enquanto Ted e Cris permaneciam assentados lado a lado. Ted se mostrava tão

forte e calado quanto a mochila que Katie colocara ao seu lado. Cris se perguntava mais uma

vez quando é que se sentariam para levar uma conversa franca e íntima. Seria no trem? Muita

coisa havia se passado em seu coração durante aquelas semanas, e ela não sabia o quanto

ainda tinha para contar a Ted e o quanto ele já havia percebido por si só.

Não preciso que você me prometa deter o Sol com as mãos, Ted. Só preciso que me diga

que sempre me abraçará assim, tão de perto.

O passeio terminou próximo à estação, e os três desceram da gôndola, sorrindo e

acenando para o gondoleiro. Ted segurou a mão de Cris e lá se foram eles, caminhando

lentamente pela entrada da estação de trem, já tão conhecida deles. Ted sugeriu que se

dirigissem à plataforma com antecedência, para que pudessem conseguir assentos na segunda

classe. Ficou segurando a mão de Cris durante todo o tempo em que esperavam o trem chegar,

em meio à multidão. Cris se perguntava se ele também estava sentindo a mesma tristeza que

ela.

Quando o trem chegou, o cobrador pediu que cada passageiro apresentasse seu passe

antes de embarcar, diferentemente do procedimento em outros trens que haviam tomado

durante a viagem. Quando finalmente chegou a vez deles, Cris, Ted e Katie mostraram os

passes.

- Não! gritou o cobrador, devolvendo bruscamente o passe a Ted.

- Não! disse ele ao verificar o passe de Katie e devolvê-lo com rudeza.

- Sim! disse o homem a Cris, devolvendo-lhe o bilhete educadamente e empurrando-lhe

levemente as costas, a fim de apressá-la.

- Espere! gritou ela, afastando-se do aglomerado de pessoas. Qual o problema com os

passes deles?

Cris deu um jeito de sair do meio da multidão e foi para junto de Katie e Ted, que

conversavam com um outro cobrador, também uniformizado.

- Como assim “estão vencidos”? perguntou Katie.

- A data está impressa aqui, disse o cobrador. Diz: “Válido de 5 a 25 de junho”. Dia 25

foi ontem.

Cris verificou seu bilhete, que havia sido comprado separadamente. Valia de 6 a 26 de

junho.

- Os nossos foram expedidos um dia antes do ideal, disse Ted. Nós saímos de Los

Angeles no dia cinco, mas só chegamos aqui no dia seis.

Em seguida, virou-se para o condutor.

- Será que a validade deles poderia ser estendida por mais um dia? Nem chegamos a

usá-los nos primeiros dias aqui na Europa.

- Não. Você pode comprar um bilhete avulso, se quiser. Este passe está vencido.

- Não temos mais dinheiro, disse Katie em tom solene.

- Não posso fazer nada, disse o cobrador. Todos os dias escuto a mesma história. Da

próxima vez, planejem melhor a viagem.

Em seguida, virou-se para atender a um outro estudante furioso, que conversava em

francês. Todos os passageiros já estavam a bordo e o mal-humorado cobrador fazia a última

chamada.

- O que vamos fazer? perguntou Cris.

- Acho melhor você ir neste trem, disse Katie. Eu e o Ted vamos pensar numa solução.

Não se preocupe com o nosso problema. Vá! Você não pode perder a aula amanhã, Cris.

Cris se virou para Ted, deixando transparecer toda sua apreensão. Ele a observava

intensamente, como se buscasse guardar na memória cada detalhe estampado no rosto dela.

- Vá, Kilikina, vá! disse ele, com os olhos cheios de lágrimas.

O trem começou a se mover. Cris se virou e subiu o primeiro degrau. O cobrador, então,

segurou-a pelo braço.

- Bilhete, por favor! disse grosseiramente.

As mãos de Cris tremiam ao entregar-lhe o passe. O condutor, então, fez sinal para que

ela entrasse no compartimento destinado à segunda classe, que estava lotado. Ao caminhar

pelo corredor, Cris avistou Ted do lado de fora, andando rapidamente ao lado do trem,

observando atentamente os compartimentos à procura dela. Cris abriu caminho pela primeira

cabina e entrou na segunda. Avistou uma janela aberta no final do corredor e correu em

direção a ela, com a pesada mochila batendo nas poltronas enquanto corria. O trem já estava

ganhando velocidade, e lá fora, Ted corria pela plataforma, acenando para ela.

Cris chegou à janela, ofegante. Ted estava a pouco menos de seis metros de distância e

praticamente no final da plataforma. As lágrimas desciam pelo rosto de Cris. Ela então

imprimiu um de seus beijos especiais na palma da mão e lançou-o pela janela, em direção a

ele.

Estendendo a mão, Ted agarrou no ar o beijo invisível que Cris lhe mandara e, em

seguida, levou a mão ao peito, num movimento rápido e preciso. A mão lhe repousou sobre o

coração, e foi como se naquele momento ele guardasse ali o beijo de Cris, no lugar onde já

guardava suas lágrimas.

O trem entrou num túnel e, de repente, tudo se fez escuro.

Foram as dez horas mais demoradas da vida de Cris. Durante a primeira hora de

viagem, ela ficou em pé ao lado da janela aberta, por onde uma agradável brisa entrava,

secando-lhe as lágrimas. Vários pensamentos começaram a passar-lhe pela mente, como se

fossem uma chuva de confete. Cris se lembrou da agradável brisa que sentira, quando estava

no convés do barco a caminho de Capri. O Senhor estivera tão perto naquele dia, que foi

como se pudesse senti-lo soprar sobre ela. Agora, Cris podia sentir novamente a presença de

Deus ao seu lado.

Foi então que se lembrou do verso de 2 Timóteo que Ted mencionara. O apóstolo Paulo

estivera na prisão de Mamertina ao escrevê-lo. “Mas o Senhor me assistiu e me revestiu de

forças.” Aquela verdade fortaleceu o coração de Cris. Afinal, se era para passar dez horas

sozinha naquele trem, pelo menos ela sabia que o Senhor estaria ao seu lado.

Lembrou-se então dos prados alpinos e das flores silvestres que colhera, amassara, e

com as quais dormira. Estavam enroladas no envelope que ela improvisara com o jornal.

Aquelas flores guardavam consigo sonhos dos quais ela não conseguia se lembrar. Cris

resolveu colocá-las num quadro quando chegasse, para guardar de lembrança.

Fechou os olhos e lembrou-se da sensação refrescante que tivera ao se banhar nas águas

do riacho, próximo ao acampamento. A lembrança era tão viva, que ela quase podia sentir o

gosto do café forte de Antônio na boca e enxergar as leves cortinas de renda da casa dele

esvoaçando com a brisa, na manhã em que Marcos chegou de táxi. Lembrou-se dos raios

luminosos do sol da meia-noite que entravam pela janela de seu quarto em Oslo, e ainda de

como Ted ficara bonito e charmoso ao fazer a barba.

Cris tocou os lábios e lembrou-se de como eles haviam latejado depois que Ted a beijara

em Oslo, ao partir para os confins da Terra, sozinho. Sentiu uma profunda saudade de Ted

naquele momento. Era como se agora fosse ela quem estivesse partindo para os confins da

Terra, sem ele. A diferença era que, em vez de ficarem longe dois dias, seriam dois longos

meses separados.

Depois da escala em Milão, Cris conseguiu um lugar no trem e pôde dormir um pouco,

apoiando a cabeça na janela. Sentia falta da blusa de moletom do Ted, que tinha sido seu

melhor travesseiro. Sentia falta da gargalhada de Katie e do suave aroma de chocolate que a

acompanhara em todos os países.

Quando o trem finalmente parou na estação de Basel, Cris teve uma sensação estranha.

Aquela era a “sua” estação de trem; aquela com que estava mais familiarizada. No entanto

estar ali sozinha tornava o ambiente totalmente estranho e frio.

Cansada, Cris subiu a ladeira em direção ao dormitório universitário. A única coisa que

quase conseguiu lhe arrancar um sorriso dos lábios foi o maravilhoso aroma que sentiu no ar,

ao passar pela Konditorei. Marguerite estava colocando uma cesta de pães na vitrina. Ao vê-la

passar, acenou e fez sinal para que Cris entrasse.

- Volto depois, prometeu Cris. Até mais!

Até mais. Que coisa engraçada, né? Durante todos esses anos o Ted me disse “Até

mais” e, agora, cá estamos nós separados novamente. Será que vai ser sempre assim

conosco? “Até mais”?

Cris chegou à sala de aula com tempo de sobra, mesmo tendo passado antes pelo quarto

para tomar banho e se trocar. Os sete outros guias turísticos ainda se achavam sobre sua mesa

Estavam intatos. Cris riu ao se dar conta de que pagaria multa por todos eles, ao devolvê-los à

biblioteca.

Assim que as aulas acabaram, Cris se dirigiu à Konditorei. Havia pegado a bicicleta de

sua colega de quarto emprestada, para chegar mais rápido ao prédio de aulas. Agora, descia a

rua rapidamente, apertando os freios e sentindo a bicicleta solavancar ao passar nas pedras do

calçamento da rua. O pneu dianteiro começou a balançar na carcaça da velha geringonça, e

Cris soltou uma gargalhada ao ver que quase não conseguiu frear a bicicleta ao passar pela

confeitaria.

Cris parou a bicicleta lá fora e, com um sorriso ainda nos lábios, entrou na Konditorei.

Sentiu-se animada ao ouvir o som da campainha da porta e dirigiu-se à Marguerite, que sorria

para ela, lá do balcão.

- Bom-dia, Marguerite. Como vai? perguntou Cris em alemão.

- Bem, bem. Obrigada. Estou bem.

Cris achou Marguerite um pouco estranha naquela manhã.

Pediu sua tortinha e se dirigiu para a mesa costumeira, no fundo da confeitaria.

Entretanto havia alguém assentado lá, com o rosto coberto com um enorme buquê de cravos

brancos.

Cris perdeu o fôlego.

Ted tirou o buquê do rosto. Seu sorriso, tranquilo, parecia iluminar toda a confeitaria.

- Ei, como vai?

Cris correu até a mesa e o envolveu num abraço.

- O que você ‘tá fazendo aqui?

- Tomando café com você. Tome. Estas flores são pra você, disse ele, apontando para os

cravos sobre a mesa.

- Você perdeu o vôo?

Ted reclinou-se no banco e deu um gole no café, ignorando a pergunta de Cris.

- Você tem razão. As tortas da Marguerite são as melhores do mundo!

- Você perdeu o avião, não perdeu? O que vai fazer agora, Ted? E a Katie?

sorrindo para Marguerite. porque ele tinha acabado de chegar de Viena e estava indo para Zurique.O Marcos se converteu! .Estacionei na estação. Nós fomos para Zurique na Ferrari dele ontem à noite.Você veio no carro dele? Cris não se lembrava de ter visto nenhum carro de luxo parado na porta da confeitaria. . . . e ele me emprestou o carro para vir aqui tomar café com você. disse Ted. disse ele.Nosso vôo só sai às duas da tarde. . Foi uma “coisa de Deus”.O quê? .Conte-me tudo.Bem.O que aconteceu? Como foi que vocês conseguiram sair de Veneza? Ted passou o braço por trás do banco e ficou brincando com as pontas do cabelo de Cris.Não estou acreditando nisto! disse ela. . Vou tomar café com você. disse Cris. . . Só mesmo à sua frente. Ele e a Katie estão em Zurique agora.Pode acreditar. E ‘tá preparada pra acreditar em mais uma coisa? . depois volto pra Zurique e pego o avião.Não. . que acabava de trazer a xícara de café. havia chegado numa bicicletinha fajuta e não prestara muita atenção ao redor. . Achei que seria mais seguro do que acabar parando em algum estacionamento proibido por aqui. o creme chantilly e a torta que Cris havia pedido.Então vocês viajaram juntos e ele pagou a passagem de vocês? Ted abanou a cabeça. Mas também. sorrindo. como se ficar batendo papo ali na confeitaria fosse a coisa mais natural do mundo para eles. nós tentamos ligar para o Marcos e ele atendeu. . depois que você foi embora.

Firme-se nas misericórdias que Deus derrama a cada manhã. era exatamente isto que eu queria: assentar aqui e abrir meu coração pra você. . isso é fruto do cuidado de Deus. . Nada de medos.Eu sei. Sozinhos. porque havíamos dito que era um livro escrito especialmente para os italianos.Cerca de uma semana atrás.E é incrível poder estar aqui com você. Ted.Deus é mesmo incrível! . Ted hesitou por alguns instantes. É bem possível que ele lhe deixe aqui e vá servir ao Senhor numa ilha longínqua.Achei que teríamos mais oportunidades de conversar durante a viagem. A Palavra de Deus é poderosa mesmo! O Marcos leu a carta. pelo resto da vida. . sozinho. creu e se arrependeu! Você tinha de vê-lo! Está empolgadíssimo! Sai falando de seu relacionamento com Jesus pra todo mundo que encontra nessas viagens de negócio. Detesto ter de dizer isto. . Estou sentindo a mesma coisa. Seja lá o que acontecer. e o coração de Cris congelou. Ele é o Grande Arquiteto da nossa vida. Cris meneou a cabeça. Uma voz começou a atormentar-lhe os pensamentos com dúvidas. dizia a voz. E agora. mas só temos alguns momentos. É agora que ele termina com você pra sempre. Cris. sabe? . Nada de dúvidas. Quer dizer. mas não sei se dou conta de me despedir de novo de você.É sim. Ted olhou para as mãos e em seguida voltou os olhos para Cris. . Ele nos contou que começou a ler o livro de Romanos. Ele ‘tá no controle. Não afirmou Cris para si mesma.‘Tá brincando! Que maravilha! Quando foi isso? . E daí você terá de partir. Mas eu precisava vê-la mais uma vez.

acho que você já sabe sim. Não! Eu preciso lhe dizer isto. .Gostaria de lhe dizer algumas coisas. que eu te amo. creio que preciso dizer-lhe algo que nunca disse antes.Você precisa saber. . .. Cris acenou afirmativamente. Estava se preparando para o pior.. Você precisa saber que. na verdade.Não é que eu pense que você não saiba disto. As lágrimas rolavam pelo rosto de Cris. Também achei que teríamos. continuei sentindo você aqui dentro..Eu quero que. . com toda sinceridade.. .Eu a trago aqui.. como se estivesse criando coragem para concluir seu pensamento. . porque acho que você precisa ouvir da minha própria boca. . Kilikina. respirando profundamente. Não faça isso comigo.Mas. Kilikina. Você sempre esteve aqui e sempre estará. Não passo um dia sequer sem pensar em você e orar por sua vida.Você se tornou uma parte de mim.Mas. Mesmo quando estávamos em lados completamente opostos deste mundo.Sim. Ted! Não parta meu coração! Não aqui. Não! gritou Cris em seu coração. Bem no fundo do meu coração. . Ted bateu a mão no peito. intensamente. Não agora. Ted engoliu em seco e olhou para ela. E tenho certeza de que este é o momento oportuno para lhe revelar isto. . Cris sentiu as lágrimas invadir-lhe os olhos. Cris acenou novamente e esperou que ele continuasse.. A testa de Ted brilhava de suor.. Ted estendeu a mão e gentilmente secou as lágrimas do rosto dela. continuou ele. Não diga mais nada! ..

disse ele. onde o sol nunca se põe. Um sorriso tímido surgiu no rosto de Ted. Cris não conseguia respirar. Sessenta e sete dias. Temos ainda dois meses pela frente para orar com relação ao que nos aguarda no futuro.Isso.Na verdade. disse Ted. será um dia só. . .Que cara de surpresa é essa? perguntou Ted.Será como um enorme dia em Narvik. Ted se aproximou e acariciou o cabelo dela com as mãos.Você precisa que eu repita pra você acreditar? Ted aproximou-se dela e murmurou: . .Você contou? Ted fez que sim com a cabeça. Sentia o lábio inferior tremer. Então. Não conseguiu conter os risos. Kilikina? Vamos imaginar que estamos nos confins da Terra.Serão os dois meses mais longos da minha vida. .Eu te amo. pra ser mais exato. Cris deixou o ar dos pulmões sair repentinamente. Pense no que isso representa. Sentia-se aliviada. . Não por agora. . feliz. Nem sequer sentia o coração bater. não é tanto tempo assim. . . Não conseguia piscar. .Sabe o que repetirei sessenta e sete vezes durante esse dia? perguntou Cris. Cris acenou concordando e fez força para segurar o restante das lágrimas em seus olhos.E sabe o que faremos durante esse tempo. . E então estaremos juntos novamente. Ted! Não estava esperando que você dissesse isso! . em vez de serem sessenta e sete dias. .Ah.Você não precisa responder.

. Ted sorriu e puxou Cris para junto de si.Até amanhã.Repetirei sessenta e sete vezes “Não vejo a hora de chegar amanhã”. E.O quê? . Fim . pouco antes que seus lábios encontrassem a orelha dela. sussurrou: .

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