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Março 2007

Nosso Paradigma Cultural - A identidade coletiva
Prof. Basilio Pawlowicz

Verdades claras e perfeitas, nenhum homem as vê ou as conhece. Tudo é questão de opinião.
Xenófanes (560-478 a.C.)

Ao longo da história cada cultura desenvolveu seus próprios paradigmas, isto é, seus próprios
modos de pensar, de sentir e de entender a realidade constituindo, com essas singularidades,
identidades específicas. De modo semelhante, nossa cultura usa como referência para suas
leituras da realidade, os valores denominados “ocidentais e cristãos”, circunscrevendo com
esta denominação o conjunto de premissas com os quais pensamos, sentimos e interpretamos
o mundo.

O paradigma ocidental e cristão foi se constituindo através de duas vertentes fundamentais. A
primeira delas teve suas origens na Grécia do século VI a.C., sendo chamada de ocidental por
ter tido como comparação as culturas orientais para firmar sua própria identidade. Cabe
salientar que o termo “ocidente” é muito mais que uma designação geográfica relativa
qualquer. Ele caracteriza uma cosmovisão, isto é, um singular estado de espírito incorporado
por uma comunidade.

Mais tarde, uma segunda vertente agregou as nuances contidas nas tradições judaico-cristãs,
incorporando os valores desenvolvidos pela fé. Assim, o conjunto de valores herdados da
razão de Atenas e da fé de Jerusalém conformou o que chamamos de Espírito de Ocidente,
origem dos valores que alicerçam e fundamentam nossa identidade cultural.

O Espírito de Ocidente é um modo de pensar que se apóia simultaneamente nos valores da fé
e da racionalidade mas, na prática, o uso combinado dessas extraordinárias qualidades é
incomum. A prevalência de um aspecto sobre o outro determina comportamentos ambíguos e
práticas contraditórias.

No decorrer da história, tanto a razão quanto a fé exigiram obediência absoluta para suas
respectivas leituras da realidade1, produzindo enfrentamentos e batalhas seculares.

1
E continuam a fazê-lo.

respectivamente. em detrimento da interioridade e da espiritualidade. dando vazão à preocupação e cuidado com os aspectos exteriores das crenças religiosas. . O racionalismo exprime a tendência de inferir que os discursos da razão são as únicas explicações possíveis e aceitáveis.Os “abusos” dessas duas posturas se manifestam até os dias de hoje – no campo da razão como uma falsa idéia de progresso. Os excessos tendenciosos são chamados de “racionalismos” e de “clericalismo2”. 2 Ou “sacerdotalismo”. Por sua vez. e no âmbito da fé como um conjunto de crenças mal assimiladas. o clericalismo se constitui quando os valores da fé são substituídos por crenças históricas.

No século XVI. No século XVIII. que impõe sua ditadura. E quanto ao universo não tenho certeza. tanto quanto a desordem que o dilui”. No século XVII. 19 milhões. dois milhões. sete milhões. afirmando que deveríamos multiplicar os esforços para “salvar a honra da razão”.Veríssimo -Família Brasil – 28/10/02 Em relação ao progresso. Jacques Derrida4. “. Sem dúvida foi preciso muita ciência para matar tantos homens. No século XIX. dissipar tantos bens. 111 milhões (até agosto de 2000). (1871-1945) 4 Filósofo desconstrutivista. PaulValéry3 considerava que “são dois os perigos que ameaçam o mundo: a ordem do racionalismo. Fonte: Washington Post O Estado de São Paulo .. No século XX. manifestou preocupação pelo mau uso da inteligência.. no sentido de impedir sua manipulação para justificar o injustificável. seis milhões. (1930-2004) . 3 Notável pensador e poeta francês. tentando chamar a atenção sobre o mesmo assunto. Einstein Um exemplo ilustrativo sobre o contínuo “progresso” da humanidade pode ser avaliado pelas estatísticas sobre o número de pessoas mortas em conflitos bélicos: Do século I ao século XV foram mortas quatro milhões de pessoas. aniquilar tantas cidades em tão pouco tempo” – confessando sua desilusão com os resultados obtidos no uso da razão instrumentalizada. Sobre a falsa idéia de progresso Há duas coisas infinitas: o universo e a estupidez humana.

Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro. de terror e coerção. são os mecanismos pelos quais a violência e a injustiça se perpetuam. suas asas abertas. Mas uma tempestade sopra no paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. observando a utilização da razão como algo totalmente desligado de qualquer instância superior a ela mesma. delegamos nossa responsabilidade individual para um coletivo impreciso e medíocre. “a batalha final”.Hannah Arendt5. Walter Benjamin 5 Filósofa contemporânea. Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Existe um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. a razão age como uma sombra tenebrosa que obscurece a inteligência. Por participarmos duma sociedade de massas. que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés. enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. (1906-1975) . O anjo da história deve ter esse aspecto. Onde nós vemos uma cadeia de acontecimentos. Mal utilizada. sua boca dilatada. as violências perpetuadas em nome da paz. afirmou que vivemos tempos em que “os maus perderam seus temores e os bons. ele vê uma catástrofe única. se transformam em regressos ao longo do tempo. razão e progresso não são necessariamente sinônimos. O imagético da guerra justa. Todos os avanços tecnológicos que não estejam acompanhados por avanços semelhantes no campo da ética. entre muitos outros semelhantes. Consequentemente. ao qual ele vira suas costas. suas esperanças”. provocando fontes da violência. os estados de exceção. Essa tempestade é o que chamamos progresso. Seus olhos estão escancarados. Seu rosto está voltado para o passado.

na maioria dos casos. isto é. . Carl Jung As conseqüências da má assimilação dos valores da fé estão representadas pelas tendências fideístas6 da modernidade.). O termo “religião” é comumente utilizado para circunscrever práticas ritualísticas que obedeceriam ao sentido expresso pela palavra latina religare. etc. No entanto.. o finito com o infinito. Por outro lado. fé. precisam da obscuridade para brilhar. Deus e os homens. o tempo com a eternidade. Schopenhauer Nunca encontrei um único caso – em pessoas com mais de trinta anos – em que o problema não tivesse suas raízes numa questão religiosa mal resolvida. o contingente com o necessário. a fé presente nas religiões foi transformada em crenças que ofendem seus mestres fundadores e. pela manutenção da identidade religiosa como produto de uma herança histórica que é utilizada comumente como um adorno exterior ou como uma crença de conveniência. desde um ponto de vista imanentista que considera a divindade como realidade presente em todas as coisas. conseqüentemente. não haveria nenhuma necessidade de unir o que nunca esteve separado. que considera o mundo divino como a extrema realidade e o mundo natural como uma mera ilusão destinada ao nada. o espírito e a matéria. 6 Do latim fide. Dize-se das pessoas que antepõem a fé à razão. seria uma tarefa inútil. (“re-ligar”. todas elas “celebram” morbidamente a ausência de Deus. etc. Com plena consciência dos perigos que escondem os juízos reducionistas. beiraria o mais completo dos absurdos. por exemplo: o Céu e a Terra. do ponto de vista transcendentalista. Sobre as crenças mal assimiladas As religiões são como os pirilampos. qualquer pretensão de unir o Ser com o Não-ser. o aparente com o absoluto. “voltar a unir” o que estaria desligado ou separado.

. Cícero7 afirmou que a palavra religião teria sua origem no termo religiare. Todas elas são exemplos de fragmentações e dissidências intermináveis8. 7 Marco Túlio Cícero. e utilizando o bom e conhecido conselho de “julgar as árvores pelos frutos que produzem”. separando-os em cemitérios distintos. como antônimo de negligenciare (negligenciar).C. Seja qual for a etimologia correta da palavra. todos os registros históricos testemunham o fracasso sistemático das religiões em unir ou religar o que quer que seja. 106-46 a. filósofo romano. a origem da palavra religião delimitaria o conjunto de obrigações que ninguém em nenhuma circunstancia deveria negligenciar. há mais de 2000 denominações de igrejas cristãs. Assim. 8 Na atualidade.Dissentindo dessa interpretação dada ao termo. Quiçá o maior insucesso que se lhes pode atribuir é o fato de não permitir sequer que os homens estejam juntos na hora da morte.

nos dias de hoje. de intranqüilidade. visto que por natureza os homens em geral são capazes de imaginar em todo momento circunstâncias melhores às que lhes toca viver. acompanha a maioria de nossos juízos sobre a sociedade e o mundo. as crises se instalam em nossas vidas como indesejáveis acompanhantes. dada a enorme distância que existe entre o que somos capazes de idealizar e os fatos concretos. de Agostinho até Maquiavel. de Vico até Nietzsche e desde este último filósofo até nossos dias. a sensação de dolo. mas às nossas instituições. as crises seriam conseqüências da grandeza do espírito humano. Esta particularidade gera uma constante necessidade de mudanças corretivas nos . de viver tempos difíceis. foi pronunciada repetidamente. dada a enorme inadequação entre o que somos capazes de teorizar e do que somos capazes de realizar efetivamente. e sim. O termo “crise” continua sendo usado para manifestar o desconforto existencial provocado pelas situações que vivemos se comparadas às expectativas do que nos foi prometido ou do que desejamos. Nesse sentido. decadência. Dito com outras palavras. os homens em particular. Entretanto é importante sinalizar que esta não é uma palavra nova. conflito. perda de energia. não seria a sociedade ou o mundo que estariam em crise. desgaste. imaginando alternativas superiores em seu lugar. de dilaceramento. Desde Heráclito até Cícero. As Crises Se a miséria da nossa pobreza for devida não às razões da natureza. de tormento coletivo. Mas. Do mesmo modo. especialmente por não aceitarem passivamente as contingências do destino. Charles Darwin No sentido mais comum a palavra crise significa declínio. por outro ângulo. grande é nosso pecado.

A agio- tagem explora o juro.. é uma expiação. Os serviços públicos abandonados a uma rotina dormente. A classe média abate-se progressivamente na imbecilidade e na inércia. dadas as experiências históricas. Por último.. Diz-se por toda a parte: O país está perdido!” . cresce. o Estado também estará bem. espaços para o desenvolvimento das estruturas internas. e ainda. Já não se crê na honestidade dos ho- mens públicos. as dores da alma provocadas pelas crises existenciais. O des- prezo pelas idéias aumenta a cada dia. o “Conhece-te a ti mesmo” socrático é de extrema necessidade para poder dizer quem é que está em crise e posteriormente analisar as causas do desconforto existencial. Noutras palavras. assim como a dor de um dente é um aviso que pode nos levar a tomar providências e salvar o dente. ao mesmo tempo. análises e reflexões na procura de novas alternativas. Nesse entorno. se o Estado está mal. dos que vivem. então os homens encontrarão a felicidade e o progresso”. também carrega consigo uma parte dos outros. na “vida” de uma cultura. a sociedade toda encontrará dor e inquietação. Nesse sentido. Um testemunho da “crise” em 1871. se o indivíduo estiver bem. é conveniente ponderar que não existe um método único. quando atendidas convenientemente. podem salvar a alma por nos desafiar em todo momento a revisar as premissas com as quais navegamos pela vida. A ruína econômica cresce. idêntico e válido para todas as pessoas.rumos individuais e coletivos. de um modo misterioso. e a título de exemplo. Em segundo lugar. produzindo considerações. Não há princípio que não seja des- mentido nem instituição que não seja escarnecida. que de nada valem as mudanças externas sem criar. “obrigando” a pensar e repensar os objetivos almejados. podendo beirar o limite da utopia. estará mal o Estado. se as famílias estão mal. O povo está na miséria. poderia ser assinalado. cresce. cada indivíduo não é apenas ele mesmo. Há 2500 anos Confúcio ensinava que: “Se o indivíduo está mal. estará mal sua família. assim estarão as províncias. A intriga política alastra-se por sobre a sonolência enfastiada do país. dos que já viveram. vista por Eça de Queiroz: “O país perdeu a inteligência e a consciência moral. é imprescindível tomar consciência de que viver é estar no humano. Não é uma existência. Estando bem as províncias. Mas como fazer para que os indivíduos estejam bem? Em primeiro lugar. O número das es- colas é dramático. Estando bem as famílias. as famílias também estarão bem. Mas. dos que virão. estarão mal as províncias. realizando sua própria singularidade. A ignorância pesa sobre o povo como um nevoeiro. Quando as províncias andam mal. Cada indivíduo deve aprender a encontrar seu próprio caminho.

entre ricos e pobres. Finalmente. . é a Terra deixando de ser mãe generosa para ser a propriedade privada de Estados nacionais e de companhias multinacionais. Um novo messianismo ressurge travestido nas promessas da globalização financeira. o fracasso do “céu que seria construído na terra”. deixando em todo lugar o rasto inigualável da morte e da destruição reinando absolutamente. Um testemunho para 2007 visto por Roberto Damatta O enfraquecido otimismo do “progresso contínuo” prometido para o século XX. isto é. o que já se entrevê. O planeta inteiro devastado pela nova religião do consumismo está dividido entre dois blocos representativos do bem e do mal. entre “nosso” Deus e o “deles”. todas as mazelas serão derrotadas pelo neoliberalismo capitalista. volta a ser vigoroso no alvorecer do século XXI. entre liberdade e submissão. No entanto.

tanto quanto os da fé de Jerusalém. a debilidade de nossa orgulhosa civilização global. Platão não podia apreciar a tragédia. para os platônicos. Além de livrá-los daquele paralisante co- nhecimento. os homens ficavam inativos em suas cavernas porque conheciam a hora de sua morte. se um Estado não é governado por esses princípios. Na versão de Eurípides. Civilização ou barbárie? Se um Estado é governado pelos princípios da razão. No entanto. não teria Édipo vivido melhor sem conhecer seu terrível passado? O mito de Pro- meteu fala que ele trouxe o fogo ao homem. porém. Confúcio O que costumeiramente chamamos de civilização está construído com fatos que negam os valores da razão de Atenas. permitindo que . a riqueza e as honras é que são motivos de vergonha. pois a sabedoria dessa arte consistia em deixar certas coisas na penumbra. . Nietzsche fala do homem como um animal em contínuo acabamento. Prometeu resgatou-lhes o esquecimento. no transporte e na comunicação. Diante do re- lâmpago.que costumamos atribuir ao progresso . Para onde nos leva o progresso? O Estado de São Paulo. a pobreza e a miséria são motivos de vergonha. paradoxalmente. Quiçá já seja tempo de renunciar à clássica definição que agrupa os seres humanos como sendo de “natureza racional” como queria Aristóteles. Na Antiguidade grega a filosofia competia com a arte da tragédia. possibilitando sua escalada cultural. através da produção de cultura. Deveríamos reconhecer que esporadicamente os homens fazem uso da racionalidade. A técnica in- ventou maravilhas na eletrônica. Mas também nos tornou dependentes de próteses sem as quais não sabemos mais viver. Afinal.ignorassem quando. 8 de Janeiro de 2005 Excesso de conhecimento e técnica .ainda que sou- bessem que iriam morrer . em alguns milênios ele foi capaz de passar da oração ao pára-raios.pode significar. só se chega à tragédia por insuficiência de conhecimento e lógica. mas não o fazem sempre e continuamente. deu-lhes o fogo para ajudar a florescer seu espírito de trabalho.

O mesmo para os efeitos a médio prazo dos alimentos transgênicos e dos raios X. gerando a sensação de angústia de um potencial catastrófico de dimensões globais. O cenário global de ameaças: o aquecimento global. uns dizem que telefone celular pode causar câncer e problemas de DNA. permitiu transformar nosso potencial agressivo numa força destruidora do equilíbrio econômico e ambiental do planeta. Hoje. por exemplo. O superego freudiano parece insignificante em comparação com esse outro imenso superego que nos responsabiliza diretamente pelo futuro do planeta. não podemos negar os benefícios da difusão contemporânea das ciências e da medicina no prolongamento da vida humana. Antes. filósofos contemporâneos como Rüdiger Safranski e Roger Shattuck se perguntam até que ponto o homem pode afastar-se de sua primeira natureza por ação da cultura. denuncia as manipulações da indústria farmacêutica para induzirem a população a consumir remédios desnecessários e que . hotéis. O local também se pasteuriza globalmente. as coordenadas individuais de espaço e tempo se perturbam. outros garantem que não. a propagação da AIDS. de um lado. parece que ficamos no mesmo lugar. sobram- nos o esoterismo vazio e os contraditórios especialistas globais. tudo é instantâneo Mas como bem lembra Safranski. a camada de ozônio ou o equilíbrio dos fundos de pensão – tudo invade nosso mundo imediato. a manipulação genética. A mobilidade global uniformiza aeroportos. que tem como agente o próprio homem. sem entrar em oposição auto-destrutiva com a primeira. “quem se dirige depressa demais a qualquer lugar não está em nenhum lugar”. As notícias da queda da Bastilha e do trágico terremoto de Lisboa foram sabidas meses após em outros países. Enquanto isso. Uns provam que o homem é responsável pelo aquecimento global. Próximo e distante se mesclam. Hoje. A tecnologia. crescendo dramaticamente a distância entre nossa intimidade com o global e nossas possibilidades de atuação. outros juram que é bobagem. Em outros tempos. os primitivos da Austrália sentavam-se por algumas horas para dar tempo à alma de chegar. Antigamente. o excesso de tecnologia abala o delicado sistema de proteção que envolve a psique humana. Quando terminavam longas marchas a pé. Se. redes de lanchonetes e outdoors. o ocorrido em lugar distante tinha tempo de revestir-se com interpretações e elaborações. sacerdotes e ideologias nos ajudavam a suportar essa situação. sua segunda natureza. viajar era uma experiência da qual se retornava transformado. John Abramson. conceituado médico americano professor de Harvard. Hoje.Na verdade.

com um pedaço de céu aberto. para sobreviver e não se tomar totalmente dependente o homem precisa manter-se crítico e lúcido. O indivíduo não sabe mais viver sem telefone celular e Internet. (Paz e Terra). Gilberto de Mello Kujawsky. por custarem muito caro. em algum momento você se livrará dela. mas nunca transformar-se em escravo deles. São Paulo. presidente do Instituto de Estudos Econômicos e Internacionais e autor. Letraviva. Temos saídas? Usando as antigas metáforas das florestas. Ao mesmo tempo em que abre constantemente clareiras para poder respirar. Bibliografia O Ocidente e sua sombra. Em suma. Agora nossa vida depende totalmente das próteses tecnológicas. puderam começar a se integrar na cultura. por mais longa que seja a direção. Os gigantes de Giambattista Vico moravam em bosques cerrados até que terríveis relâmpagos abriram a clareira. capacidade para desconectar e para não estar sempre de prontidão. Um médico não mais diag- nostica sem sofisticados equipamentos que. de Tensões Contemporâneas entre Público e Privado. inviabilizam os planos de saúde da maioria. Só poderemos aproveitar das tecnologias com sabedoria se soubermos viver sem elas e se . Gilberto Dupas é coordenador geral do Grupo de Conjuntura Internacional da USP. Descartes oferece um sábio conselho ao viajante que se perdeu na floresta: caminhe sempre em linha reta. mais espaço para o capricho. São Paulo. Companhia das Letras. cercados pelo bosque do progresso. há que criar clareiras na mata.podem fazer mal. B. entre outros livros. Hoje a segunda natureza do homem é que se transformou numa densa floresta e o processo se inverte.P . sentido do local. deve manter um senso de direção que lhe permite achar uma saída.na contramão do globalismo – soubermos cultivar menos rapidez. 1996 Ilustrações: Ex libris Estadão e Quino. temos de manter um olhar na clareira do céu. vários autores. O segredo está em utilizar os aparatos tecnológicos com inteligência. Em O Discurso do Método. 2002 A Crise da Razão.

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