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Breve análise da passagem B136-B138, trecho do §17 da Crítica da Razão Pura

“O princípio supremo da possibilidade de toda a intuição, relativamente à sensibilidade, era, segundo a estética transcendental, o seguinte: que todo o diverso da intuição estivesse submetido às condições formais do espaço e do tempo. O princípio supremo desta mesma possibilidade em relação ao entendimento é que todo o diverso da intuição esteja submetido às condições da unidade sintética originária da apercepção*. Ao primeiro destes princípios estão submetidas todas as representações diversas da intuição, na medida em que nos são dadas; ao segundo, na medida em que têm de poder ser ligadas numa consciência; de outro modo, nada pode, com efeito, ser pensado ou conhecido, porque as representações dadas, não tendo em comum o ato de apercepção eu penso não estariam desse modo reunidas em uma autoconsciência.

O entendimento, falando em geral, é a faculdade dos conhecimentos. Estes

consistem na relação determinada de representações dadas a um objeto. O objeto, porém, é aquilo cujo conceito está reunido o diverso de uma intuição dada. Mas toda a reunião das representações exige a unidade da consciência na respectiva síntese. Por consequência, a unidade de consciência é o que por si só constitui a relação das representações a um objeto, a sua validade objetiva portanto, aquilo que as converte em

conhecimentos, e sobre ela assenta, consequentemente, a própria possibilidade de entendimento

* O espaço e o tempo e todas as suas partes são intuições; portanto

representações singulares, com o diverso que contêm em si (ver a Estética Transcendental); não são, por conseguinte, simples conceitos, mediante os quais a mesma consciência esteja como contida em muitas representações; são antes muitas representações contidas numa só, e na consciência que dela temos, portanto postas juntamente, pelo que a unidade da consciência se apresenta como sintética e todavia originária. Esta singularidade do espaço e do tempo é importante na sua aplicação (ver

§25)

Análise

Essa análise possui como objetivo fazer uma breve análise da relação da apercepção com a possibilidade de entendimento, a partir da passagem B136-B138, trecho do §17 da Crítica da Razão Pura. Nossa percepção dos objetos exteriores está condicionada, segundo Kant, aos nossos próprios modos de conhecer. Os objetos nos são dados e os apreendemos no espaço e no tempo; entretanto, espaço e tempo não são próprios das coisas-em-si, são antes modos de percepção. Chamados „intuições puras‟, o espaço e tempo coordenam nossa percepção como sentido externo e interno, respectivamente; nossa experiência só é possível por meio delas. De modo similar, Kant considera como condição de possibilidade de entendimento que todo o diverso da intuição esteja submetido à unidade sintética originária da apercepção, isto é, à unidade que recebe todas as impressões. Ambos os princípios são, portanto, complementares: as impressões apenas nos podem ser dadas no espaço e no tempo, e as mesmas impressões apenas podem ser pensadas, ligadas em uma consciência, desde que exista uma unidade de consciência capaz de ligá-las, e ao mesmo tempo uma unidade de consciência consciente de si. É importante notar que o espaço e o tempo, sendo intuições, são necessariamente singulares abarcam apenas as representações dadas. A experiência é, portanto, uma multiplicidade de representações singulares ligadas por uma única consciência, que analisa e sintetiza seu próprio conhecimento - o qual é capaz de criar conceitos gerais, como “cadeira”. Em outras palavras, enquanto a sensibilidade apenas apreende uma determinada cadeira em um tempo específico, o entendimento é capaz de elaborar uma ideia geral do que é uma cadeira e então classificar a experiência de acordo com seu conceito.

A faculdade dos conhecimentos, por sua vez, é chamada entendimento, e consiste precisamente nas relações estabelecidas entre as impressões pelo entendimento. O objeto percebido apenas o é percebido pela reunião do diverso de uma intuição: a consciência, sintetizando o diverso da intuição (as cores, o cheiro, o som) durante o tempo (sua permanência, sua mudança) designa e percebe o objeto. A unidade de consciência é, portanto, o que possibilita o entendimento. Ela, por si só, constitui a validade objetiva das representações em relação ao objeto, e as transforma em conhecimento.

Sem uma consciência consciente de si, um eu penso, as impressões seriam diversas e ininteligíveis; ainda que as coisas nos sejam dadas no espaço, tal intuição sensível não é ainda um conhecimento: ela nos dá apenas o diverso da intuição, isto é, apenas nos concede as impressões. Para conhecer qualquer coisa no espaço, é necessário sintetizar as diversas impressões e transformá-las em um conhecimento: isto é o objeto. Para que o objeto se torne um objeto para mim, é necessária a autoconsciência, a apercepção, que une as representações e sintetiza o conhecimento. Tendo eu representações, minhas representações, é necessária a síntese dessas representações, transformando-as em conhecimento; essa síntese é realizada pela minha consciência, que possui necessariamente uma unidade - sendo essa portanto a unidade sintética da apercepção.