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o sangue da deusa iii

kara dalkey
prÓlogo

o quê, viajante, quereis ouvir, ainda, mais uma história? na verdade, ganesha
bafejou-vos com uma ávida curiosidade. esta vai ser, porém, a última, não quero
ficar com a garganta seca de tanto falar.

mas que história vos hei-de contar? ah, já sei.

esta história passou-se há muito tempo e muito longe daqui, numa aldeia junto ao
mar. nessa aldeia, viviam três irmãs. a mais velha era muito estudiosa e prestava
serviço no templo da aldeia. deram-lhe o nome da deusa que ali adoravam, por isso
vamos chamar a esta irmã lakshmi, ou mahadevi, pois a deusa era muito parecida
com estas. a irmã do meio era decidida e corajosa e tomava conta do rebanho de
cabras da família, vamos, por isso, chamar-lhe força. a irmã mais nova era paciente
e de natureza doce e ajudava a mãe no governo da casa, vamos chamar-lhe
sonhadora.

as três irmãs viviam em boa harmonia, como quaisquer irmãs de temperamentos


diferentes e eram muito amigas de três primas, também com diferentes
temperamentos.

até que, um dia, apareceu na aldeia uma grande horda de estrangeiros, vinda do
norte. estes estrangeiros diziam-se refugiados, escorraçados da sua terra natal, e
em busca de um local seguro para se estabelecerem. pois bem, a aldeia vivia em
paz há muitos, muitos anos e, por isso, receberam os estrangeiros com toda a
hospitalidade e tentaram viver com eles em harmonia.

os recém-chegados, porém, traziam com eles costumes estranhos e deuses


estranhos. e insistiram em instalar a imagem do seu deus no templo em que a irmã
mahadevi servia e, depois de lhes terem consentido isso, exigiram que a imagem da
deusa da aldeia fosse retirada, ali permanecendo apenas a do deus estrangeiro.

isto, é evidente, a mahadevi não pôde consentir, incitando os sacerdotes e as


sacerdotisas do templo a recusarem. as irmãs secundaram-na nesta ação, a força
ameaçando derrubar o templo com as cabras e a sonhadora declarando que
ninguém da aldeia levaria oferendas ao deus estrangeiro.

e assim rebentou a contenda. os sacerdotes dos recém-chegados puseram-se a


difamar a mahadevi, declarando que ela conspurcava o templo, ali fornicando com
pescadores, e que, além disso, se gabava de ser mais bonita do que a sua deusa.
estas atoardas, porém, de nada serviram, pois ninguém acreditava nelas.

os recém-chegados, então, puseram em campo os seus mais poderosos feiticeiros,


os quais trabalharam noite e dia para produzirem a sua maior maldição. e um dia,
quando a mahadevi estava reunida no templo com as irmãs e as primas, em puja, os
feiticeiros surgiram por detrás do ídolo da mahadevi e atiraram-lhes a maldição,
exclamando: ”já que vós e as vossas irmãs sois tão devotadas a este ídolo, ficareis
as três, para sempre, semelhantes a ele!”
agora, imaginai, a imagem da deusa era como as imagens das nossas deusas, aqui
no sind, corpos e cabeças de animais, e assim por diante. imaginai como em carne,
em vez de pedra, seriam odiosas. e foi essa a forma que as irmãs tomaram. e os
feiticeiros acrescentaram: ”e agora que tendes forma divina, nenhum mortal vos
poderá olhar sem perecer!” e, a partir daí, quem enfrentava o olhar das irmãs morria.

quanto às primas, os feiticeiros declararam: ”já que vos considerastes doutas


apoiando as vossas amigas no erro, ficareis, para sempre, velhas e enrugadas,
como sábias anciãs!”

e as primas, moças jovens, ficaram transformadas em secas e mirradas anciãs.

as irmãs, agora um perigo para a família e para a aldeia, tiveram de fugir e foram
esconder-se em cavernas nas montanhas.

nos primeiros tempos, os aldeãos levavam-lhes comida e roupa, mas, após umas
décadas, as irmãs deixaram de ser olhadas como amigas dignas de dó, para
passarem a ser olhadas como monstros terríveis.

e, assim, foram as irmãs vivendo ano de solidão após ano de solidão, sem outra
companhia que não elas próprias. entretanto, no mundo exterior a sua lenda
espalhava-se, sempre aumentada em pormenores, até que, um dia, de um reino
distante, apareceu um aventureiro arrogante, preparado para matar os monstros
lendários e roubar o tesouro que elas, supostamente, teriam reunido. o aventureiro
apenas encontrou a mahadevi as duas outras irmãs andavam por fora em busca de
comida e, utilizando, matreiramente, um espelho, para evitar o olhar mortal, cortou-
lhe a cabeça, regressando a casa com ela, tal fantasmagórico troféu.

o quê? dizeis que esta história vos parece familiar? que já a teríeis ouvido antes?
desculpai-me, então, não vos maçarei mais. contudo, se já a tínheis ouvido, nunca
vos perguntastes o que terá acontecido às duas outras irmãs, à sonhadora e à
pastora chamada força? elas eram imortais como a irmã, talvez, até, mais do que
ela. e o que se terá passado com as primas que foram transformadas em anciãs?
quem sabe se ainda serão vivas e mais sábias ainda, com a experiência de uma
vida de séculos?

eu, porém, não vou reter-vos mais. prossegui o vosso caminho, viajante, e não vos
deixeis deter por trivialidades destas. lendas tão vetustas nada têm a ver,
certamente, com o mundo de hoje, não achais?

gandharva

músico da corte de ibrahim ’adilshah ii de bijapur

capítulo i

murta: esta árvore é de folha persistente, dá umas flores de um branco pálido e


produz umas bagas de um azul retinto. dizem que a murta foi a única árvore que o
homem foi autorizado a levar do jardim do Éden. a murta é o símbolo da vista e
significa a redenção dos pensamentos pecaminosos provocados pela visão do que
desejamos. É uma árvore da imortalidade e da ressurreição, mas é, também, uma
árvore-da-morte, designadamente da morte de reis. para os antigos gregos, a murta
era um símbolo de autoridade. para os romanos, porém, era símbolo de amores
proibidos e, por isso, evitavam-na. em inglaterra, é uma árvore que dá sorte, mas só
se plantada por uma mulher...

as rodas das carroças soavam como contínuos trovões, à medida que o exército
mongol progredia. thomas chinnery voltou-se na sela e olhou para trás, através da
poeirada levantada pelos cavalos, pelos elefantes e pelos soldados mongóis que o
rodeavam, relanceando pela última vez as cúpulas e os minaretes brilhantes de
bijapur.

- ah, - exclamou, cavalgando ao lado dele, o avantajado escocês andrew lockheart -,


observa bem a cidade radiosa enquanto podes. quem sabe quando poderás ver
outra igual!

- em boa verdade - disse thomas, com um suspiro -, não me importo de nunca mais
ver outra igual.

- se eu fosse a ti, tom - disse lockheart mansamente -, tinha mais cuidado ao


exprimir os meus desejos, pois eles podem vir a ser satisfeitos.

- o que é que pode ser pior do que esta viagem que eu nunca desejei? - disse
thomas.

- isso depende da maneira como são satisfeitos os teus desejos, rapaz, pois os
fados são caprichosos e as coisas nunca correm como um homem pretende.

- tenho vindo a aperceber-me disso.

thomas encontrava-se muito longe do local onde, apenas há meses, imaginara estar.
estava, então, a bordo do the bear’s whelp, rumo ao catai, na expectativa de se
estabelecer como feitor de ervas e especiarias, por conta do seu patrão, geoffrey
coulter, boticário em londres. por desfortuna, o comandante do barco era dado a
piratarias e uma contenda com dois barcos portugueses, no mar arábico, levara-os a
encalhar nas costas da índia. o único espólio que conseguiram na contenda foram
dois cativos e um estranho pó preto. um dos cativos era um alquimista português,
com fama de feiticeiro, e o outro era uma mulher hindu, a qual parecia ser uma
mescla de sacerdotisa, de cortesã e de espia. o pó revelou-se um veneno para os
vivos, mas com a virtude de devolver a vida aos mortos.

desde a descoberta do pó, thomas vira-se envolvido numa estranha e compulsória


viagem em busca da sua fonte, uma busca que já o levara a passar pela tortura nas
masmorras da inquisição, em goa, e pelos esplendores do palácio do sultão ibrahim
’adilshah, de bijapur. e, agora, procurava o local mais estranho de todos, uma cidade
mítica, escondida nas entranhas de uma montanha, onde, diziam, morava uma
rainha imortal, talvez uma deusa. no decurso das últimas semanas, thomas vinha a
sentir-se muito mais velho do que os seus vinte anos.
o rasa mahadevi, ou ”sangue da deusa”, como chamavam ao pó, revelara-se muito
mais uma maldição do que uma bênção. o feiticeiro português jazia morto na
morgue da inquisição, em goa, e, quanto à mulher hindu, aditi...

thomas voltou-se outra vez para trás, olhando para a retaguarda da coluna. aí,
seguia uma carroça de bailarinas, garridamente pintada e dourada, em cujo interior,
segredo apenas de alguns conhecido, jazia o corpo de aditi, a qual se tornara sua
amante e por ele intercedera junto do sultão de bijapur. o corpo tinha sido
preservado e aguardava a ressurreição, logo que encontrassem a fonte do pó.

- devias sentar-te de costas na sela - sugeriu lockheart pois evitarias as dores no


pescoço.

- desculpai-me - disse thomas, voltando-se de novo para a frente. - o pensamento


escapa-se-me para longe.

- devias pensar no que está à nossa frente - disse lockheart, indicando com a
cabeça os homens que seguiam a escassos metros à frente deles. um deles era o
padre antónio gonsção, de lisboa, enviado à inquisição de goa e chefe do
contingente europeu na expedição. os outros eram três soldados goeses, de elmo e
couraça.

- acho que o padre tem mais em que pensar do que para que lado eu volto a minha
cabeça.

- achas que sim, quando ele depende de ti quanto à direção em que devemos
seguir?

thomas permaneceu calado. na verdade, fora com mentiras e artimanhas que ele
convencera a inquisição a integrá-lo na expedição, na esperança de, durante a
viagem, encontrar uma oportunidade de escapar. contudo, nenhuma oportunidade
se aventara e, agora, o dever para com o patrão e para com uma mulher morta
empurravam-no para um destino que desconhecia completamente. circunstância
ignorada por todos, exceto por lockheart, o seu único guia era um músico hindu
cego, amigo da falecida aditi, o qual seguia com o corpo dela na carroça das
bailarinas. e, assim, o cego guia o ignorante. belo par de jarras!

uma rajada de vento pesado de poeira soprou pela cara de thomas, obscurecendo-
lhe a vista e forçando-o a tossir.

- o irmão timóteo foi bem esperto - disse thomas, quando, por fim, conseguiu respirar
ar puro - ao insistir em montar o elefante do mirzá, pois, assim, escapa a esta
poeira.

- É um rapaz esperto, sem dúvida - disse lockheart -, embora pudesse ter escolhido
melhores patrões.

- nascido em goa e muito crente, é natural que tenha ido parar a aprendiz na
inquisição - disse thomas. - não o culpo por isso.
- És mais tolerante do que eu.

- mas vós próprio, andrew, em tempos achastes por bem usar um hábito de monge.

- sim, mas tratava-se de um disfarce. e, como sabes, há muito que o larguei.

na verdade, lockheart envergava um comprido casaco jama de seda dourada,


cinturado com uma larga faixa escarlate, e amplas calças shalwar. thomas, cuja
roupa inglesa lhe havia sido apreendida no santo ofício de goa, envergava, também,
uma calças shalwar e uma simples camisa bege. a roupa tinha sido oferta de
despedida do sultão ibrahim de bijapur, como os belos cavalos que montavam. o
sultão não ficara lá muito contente com o comportamento dos goeses e ansiara pela
partida dos visitantes estrangeiros.

o padre gonsção, porém, declinara a oferta de roupa, preferindo conservar o hábito


branco de lã dos dominicanos, agora negro do pó da estrada, e a capa preta.

- mas não afirmastes uma vez, andrew, que o disfarce de monge vos ficava melhor
do que qualquer outro? e, pelo que me dissestes ontem à noite, tendes tanto direito
a envergar um hábito como o padre, embora devêsseis antes usar uma toga...

- não fales da minha fé, nem troces dela - disse lockheart em voz baixa, mas firme. -
se o padre matou a tua amada por causa da crença dela, pensas que me pouparia a
mim?

thomas soltou um suspiro.

- eu não sei o que pensar. tempos houve, quando iniciei esta viagem, em que eu
pensava que homens sãos de espírito eram incapazes de tal ato. porém, depois da
minha passagem pela inquisição, apercebi-me de que a maldade surge muitas
vezes mascarada de razão.

thomas abanou os ombros, ainda doridos do suplício da estrapada que tivera de


suportar nas masmorras do santo ofício, em goa.

- há quem diga que esta nossa expedição não passa disso mesmo: maldade
disfarçada de razão.

- a minha esperança é que não se trate disso. se encontrarmos a fonte do sangue


que restitui a vida, aditi viverá de novo. tanto me faz que essa fonte seja um animal,
um mineral, um monstro ou uma rainha imortal. um brâmane com quem falei disse-
me que o pó é o sangue de uma deusa, mas estes hindus têm idéias estranhas
acerca do divino. e aditi disse-me que era filha adotiva da deusa.

lockheart riu-se sombriamente.

- então, ai do assassino, quando a mãe souber.

- sim, sem dúvida.


o cenário, porém, não se afigurava nada agradável a thomas.

será porque, tendo feito o padre voltar à vida, quando a febre o venceu, não gosto
de ver o meu trabalho desfeito? ou terei eu medo de descobrir algum fundo de
verdade nas crenças pagãs, eu que fui educado como protestante, tendo, em
criança, sem o saber, sido votado a diana, um culto a que o meu pai e andrew se
consagram? eu que fui obrigado a assinar uma confissão no santo ofício,
entregando assim a minha alma ao deus papista? ai da minha alma, já tão
desnorteada, se tiver, uma vez mais, de me entregar a nova crença!

o irmão timóteo sorria deliciado no howdah, observando o que o rodeava,


balançando ao ritmo das passadas do elefante. olhava espantado para o rio de
gente que seguia atrás dele. nos seus treze anos de vida, nunca vira semelhante
maravilha: inúmeras centenas de homens, montados em cavalos esbeltos, com
selas e arneses dourados, as caudas ornadas de borlas escarlates. os homens
tinham elmos de picos, com plumas ou galhardetes, e cotas de malha, almofadadas
e bordadas. cada um com a sua lança de bambu bem afiado, o seu arco e carcás de
flechas, pendentes nas costas, e o seu escudo de pele curtida de animais, suspenso
da sela. e o padre diz que isto é um pequeno exército, comparado com os de
portugal ou de espanha. timóteo suspirou de admiração e ficou a pensar se essa
admiração seria um pecado.

pôs-se a espreitar através da poeira, sabendo que algures, no meio daquela mole de
gente, se encontrava o padre e tomás e os outros. não sabia se o conseguiam ver,
mas pôs-se a acenar-lhes. para sua agradável surpresa, alguns dos cavaleiros
mongóis olharam para ele a sorrir e retribuíram o aceno. certamente, pensou
timóteo, a diferença da fé muçulmana está apenas no erro. eles não são os
monstros que o padre acha que são.

timóteo voltou-se para a frente e pôs-se a olhar, por cima dos ombros do cornaca e
da enorme cabeça do elefante, a paisagem à frente dele. os férteis campos e
bosques que rodeavam bijapur começavam a ceder o lugar a um estéril e fantástico
deserto de poeira vermelha e dourada, salpicado por raras moitas de árvores
retorcidas e palmeiras que ocultavam misteriosas aldeias. saliências de enormes
rochedos esquálidos surgiam no topo das colinas, parecendo arruinados e
abandonados castelos de gigantes ou os ossos da terra.

timóteo não compreendia porque é que o príncipe-general mongol de turbante, o


mirzá ali akbarshah, sentado ao seu lado, parecia tão pouco interessado na
paisagem. bem, ele é muito mais velho e terá já visto, decerto, sítios muito mais
maravilhosos do que eu.

o mirzá falava razoavelmente o urdo, uma língua aparentada ao persa, língua que
timóteo arranhava e, por isso, conseguiam fazer-se entender. o mirzá mostrara-se
um hospedeiro gentil, permitindo que timóteo montasse o elefante - mais um sinal de
que os muçulmanos não eram a encarnação do demônio.

o mirzá estendeu a timóteo um prato de porcelana com tâmaras e nozes. timóteo


agradeceu, baixando a cabeça, e serviu-se de algumas com agrado.
- segundo parece - disse o mirzá -, apreciais a viagem? timóteo aquiesceu, pegando
noutra tâmara.

- ainda bem que alguém a aprecia.

- e vós, alteza, não estais a gostar? o mirzá suspirou.

- eu já fiz uma longa jornada e confesso que não sinto grande entusiasmo em
prossegui-la.

timóteo olhou para o rosto preocupado e curtido do mirzá, sentindo-se confundido.

- não sentis entusiasmo? mas nós vamos ver coisas maravilhosas!

o mirzá riu-se, sombrio.

- se tiverdes razão, fico contente. eu, porém, tenho de satisfazer o meu imperador e,
ao mesmo tempo, os meus homens, e isso afigura-se-me muito difícil.

- se, de fato, encontrarmos... a rainha imortal da vida e da morte, eles não ficam
satisfeitos?

o mirzá lançou a timóteo um longo e perscrutador olhar e, por um momento, timóteo


ficou sem saber se teria ultrapassado os limites da cortesia para com o seu
hospedeiro.

- as minhas desculpas, alteza - acrescentou prestamente -, se vos ofendi.

- não, não, de modo nenhum - disse o mirzá. - simplesmente, é uma questão que
não podeis compreender, dada a vossa idade. os desejos dos homens seguem
diferentes direções: uns anseiam por riqueza, outros, por poder, outros, por saber. o
meu imperador akbar é um destes últimos, tem grande curiosidade acerca de outras
crenças, acreditando que todas têm alguma coisa válida. dá ouvidos a todos os
mitos, a todas as histórias, por mais estranhas que sejam. quando ouviu falar desta
rainha imortal, com poderes de vida e de morte, logo quis saber mais acerca dela.
por isso aqui estou eu, enviado a essa poderosa begum shah. Às vezes penso que o
shahinshah se considera um salomão, em busca da sua rainha de sabá.

timóteo quase ia deixando cair as tâmaras.

- mas, alteza... lestes a bíblia? o mirzá pestanejou.

- não, não li, mas as nossas crenças têm muitas histórias idênticas, embora não
sejam exatamente iguais.

- então... então sabeis da existência de nosso senhor jesus cristo.

- claro. nós consideramo-lo um profeta sábio e presciente.

- então, porque é que negais que ele é o salvador e o filho de deus?


o mirzá olhou para timóteo com ar carrancudo, mantendo-se calado. timóteo engoliu
em seco, certo de que, desta vez, ultrapassara a cortesia.

- as minhas desculpas, alteza.

no rosto do mirzá surgiu um sorriso contrafeito.

- vamos combinar uma coisa - disse ele. - eu não vou tentar conquistar a vossa alma
para alá e vós não tentareis conquistar a minha para o vosso cristo. estais de
acordo?

timóteo sentiu-se dividido. no santo ofício, as suas funções eram as de um


advogado, encarregado de recuperar as almas perdidas e de conduzi-las à luz, mas,
por outro lado, sabia que nada devia fazer que pudesse prejudicar a frágil aliança
que lhes permitia, a ele e ao padre, serem escoltados pelo exército do mirzá.

- eu... digamos que, enquanto estivermos montados no elefante, não falaremos


disso.

o sorriso do mirzá tornou-se mais aberto.

- sois um rapaz ousado e esperto. pois bem, estamos de acordo. enquanto


estivermos montados no elefante.

timóteo aquiesceu, frustrado, mas consciente de que tinha de cumprir com a sua
palavra.

- além disso, para discutir filosofia, é melhor que o façais com o meu conselheiro
sufi, masum - acrescentou o mirzá. ele é muito mais letrado em assuntos de fé do
que eu. entretanto, já que vos falei do meu imperador, quereis dar-me a honra de me
dizer que rei vos mandou para esta viagem e o que é que ele procura?

timóteo olhou para longe, ao reconhecer como era perigosa a pergunta. tinha de ter
cuidado na resposta. o padre não queria que os mongóis soubessem quais as
intenções dos portugueses, pois podiam considerar que não havia razões para os
manter vivos.

- foram os domines do santo ofício, de goa, que nos enviaram. também, em busca
de conhecimento.

- ah, sim? mas, pelo que tenho ouvido dizer acerca de goa, os vossos domines não
costumam dar ouvidos a este gênero de histórias.

a conversa orientava-se para assuntos cujo segredo timóteo jurara manter, segundo
a regra do silêncio do santo ofício.

- eu... eu não posso falar dessas coisas, alteza. os domines souberam disso
através... de homens importantes.
o irmão timóteo tinha encontrado e lido, a mando do padre gonsção, os registros que
continham as confissões do antigo governador coutinho e do vice-rei albuquerque.
timóteo sabia que não devia revelar que poderosos ministros do governo de goa
haviam sido atraídos por um culto pagão, onde haviam comprovado que uma certa
crença pagã era verdadeira.

- ah! e algum desses homens importantes se encontra no vosso grupo?

- não, nenhum.

- seria bem útil, como compreendereis, se soubéssemos qual de entre vós conhece
o local onde podemos encontrar essa rainha, pois poderíamos assegurar-lhe uma
proteção especial, de forma a não perdermos esse conhecimento.

pergunta perigosa, a que timóteo não podia responder com a verdade. o inglês
tomás era seu amigo e boa pessoa, e culto, até conhecia a nomeada do avô de
timóteo, o grande naturalista garcia de orta. embora tomás irritasse às vezes
timóteo, não podia traí-lo, dizendo que era ele quem conhecia o caminho. santa
maria, perdoai-me, mas tenho de mentir!

- eu isso não sei, alteza. o mirzá soltou um suspiro.

- fica-vos bem serdes cauteloso, mas as coisas não são assim tão simples como
parecem. para sermos bem-sucedidos nesta viagem, temos de confiar uns nos
outros. até para sobrevivermos. pensai nisso, por favor. e se considerardes que há
alguma coisa que eu deva saber, terei muito prazer em ouvir-vos.

timóteo fez que sim com a cabeça, embora soubesse que, sem o consentimento do
padre, jamais revelaria ao mirzá fosse o que fosse.

- muito bem - disse o mirzá. - eu sempre considerei que é uma pena que não haja
mais paz entre os nossos povos. os nossos textos sagrados são semelhantes. e,
agora, até as histórias desta fabulosa rainha são semelhantes e, contudo,
guardamos segredos uns aos outros, na esperança de ganharmos vantagem. pois
bem, isto pode parecer-vos uma simples aventura, a vós que sois um rapaz, mas
compreendei que as minhas responsabilidades, quanto à vida dos meus homens e
quanto à vontade do meu imperador, são enormes. o sultão ibrahim fez juntar as
nossas duas expedições, para que o meu exército vos desse proteção e para que
vós nos indicásseis o caminho. porém, eu não vos posso proteger se não souber
que perigos nos espreitam, nem como havemos de contactar essa begum shah,
quando a encontrarmos. vós devíeis partilhar conosco o que sabeis, para que
possamos sobreviver todos a esta viagem e retirar dela o que pretendemos.

esta era a questão mais perigosa de todas, pois timóteo sabia muita coisa. timóteo
lera os registros do santo ofício e ouvira contar as histórias dos mitos antigos ao colo
do avô. timóteo sabia o quê, ou quem, provavelmente iriam encontrar. tentara contar
ao padre, que não quisera compreender. não ousara contar a mais ninguém.

- eu não sei bem, alteza, mas acho... acho que vai ser a coisa mais espantosa que
jamais vistes.
timóteo fixou a atenção na paisagem que tinha à sua frente, na esperança de
desencorajar o mirzá a colocar mais questões. algures, além, havia uma cidade
escondida numa montanha, na qual vivia uma criatura que podia ser o maior desafio
à sua fé, mas que podia, também, ser a confirmação dos seus mais ansiados
sonhos de criança.

prabaratma balançava para a frente e para trás, cantando baixinho, à medida que as
contas de safira do rosário, uma a uma, caíam das suas mãos em concha. cantava o
hino da alvorada, abençoando a mahadevi pela vida e pela luz. cantava o hino da
deusa terra e cantava em louvor da generosidade, a que acrescentava um verso da
sua lavra, agradecendo à mahadevi a sua cegueira.

prabaratma nascera no seio da mais conceituada família brâmane da cidade santa


de bhagavati. o seu clã servira os inúmeros nomes da mahadevi desde que o seu
avatar, stheno, reunira os eleitos na sua cidade, no alvor do tempo.

fora um bom estudante, aprendendo no templo com o pai e os tios, e recitava os


vedas de cor. em jovem, servira no templo dos iniciados, junto à porta de parvati,
ensinando e cumprindo a sua missão de marido e de pai. na maturidade, preparara-
se para a vida de monge eremita, devotada à oração. e, aos sessenta anos, uma
membrana leitosa cobrira-lhe os olhos e fora convocado para o palácio da mahadevi,
para servir junto da própria deusa.

olhar para a mahadevi implicava a morte, por isso, em bhagavati a cegueira era
considerada um sinal de graça divina. só os privados de visão podiam servir a
mahadevi, daí que alguns brâmanes mais ambiciosos arrancassem os olhos, na
esperança de serem escolhidos, mas não era essa uma via segura para entrar ao
serviço da deusa. na maior parte dos casos, esses brâmanes eram rejeitados e
humilhantemente afastados do palácio. era muito melhor ser bafejado pela cegueira
naturalmente.

a coisa mais espantosa acerca da sua cegueira, descobrira prabaratma, era que, à
medida que a sua visão do mundo exterior se tornara baça e distorcida, a sua visão
interior se tornara vívida e profética. começara a apreender que o mundo terreno era
maya, ilusão, e que o importante era o mundo do espírito.

havia dois dias que prabaratma jejuava e, agora, sentia o corpo leve como o ar. as
chamas na pequena braseira diante dele eram vagas e dançantes luzes de açafrão,
formas voláteis e mutáveis, à semelhança das mudanças de aspecto e de
disposição da mahadevi.

prabaratma ergueu a cabeça, ao notar uma mudança no ar que o rodeava, uma


impressão idêntica à da tempestade que se aproxima, prometendo chuva e
trovoada. sentiu aromas de sândalo, de canela e de flores de jamboeiro. ouviu o
chocalhar de uma cortina de contas e o tinir de guizos de cobre. a mahadevi estava
ali.

prabaratma sorriu.
- bem-vinda, vós que sois o maior bem. que orações desejais que vos cante hoje?

a mahadevi riu, a voz baixa e rouca.

- tenho estado a ouvir as tuas devoções, pra, e acho que já tenho a minha conta de
orações por hoje.

falava com firmeza, contudo prabaratma discernia nela, por vezes, uma certa timidez
de criança. isso, porém, não o perturbava, antes o maravilhava, pois o fascínio da
mahadevi residia na sua variação. ela passou por ele, rodeada pelo cheiro a flores, a
cinza, a pele de cobra. prabaratma sentiu as pontas dos dedos frios dela a roçarem-
lhe a testa e estremeceu de alegria.

- porque é que estás sempre a sorrir, pra?

- porque a vossa presença me cumula de felicidade. pôs-se a andar à volta dele, tal
gato espreitando um ninho de pássaros. prabaratma distinguia vagamente as
sombras da indumentária dela, luz de vela refletindo-se-lhe na pele. na sua visão
confusa, a forma dela mudava como as chamas na lareira. a cabeça parecia envolta
num nimbo de luz e sombra, com rápidos lampejos de reflexos brilhantes.
prabaratma sentia o olhar dela pousado nele e regozijava-se por não o poder ver.

- por vezes, pra, gostava que não fosses cego.

- a minha vida é vossa, sublime. libertai a minha alma, se é esse o vosso desejo.

a mahadevi riu de novo.

- não era isso o que eu queria dizer. É bom os amigos olharem uns para os outros,
um prazer que o destino me negou. eu hoje não estou nada bem, pra, e vim ouvir as
tuas visões. quem sou eu, qual é o meu aspecto neste momento, pra? o que é que a
tua visão interior te mostra?

era um jogo dela. prabaratma ouvira esta pergunta dirigida a outros monges. de
cada vez, eles nomeavam uma deusa, ou lakshmi, a generosa, ou saravasti, a sábia,
adiantando uma explicação lisonjeira. e ela argumentava sempre com eles pela
escolha, até os reduzir ao silêncio.

- vós sois todas as coisas, abençoada. vós sois quem escolheis ser, a todo o
momento. vós sois como uma gema talhada, com muitas faces, mas uma única.

- uma resposta prudente, pra.

- mas verdadeira.

a mahadevi parou, batendo com um pé no chão, tal vaca impaciente. queria mais
qualquer coisa, embora ele não discernisse o quê. quedou-se, pois, calado,
pacientemente.

- tenho tido sonhos - disse ela por fim.


- ah!

gostava de saber o que sonham os deuses? não é o mundo o sonho deles?

- sonhei que era mortal, pra. estava numa encosta banhada pelo sol, a guardar um
rebanho de cabras. soprava um vento frio vindo do mar e o meu comprido cabelo
esvoaçava em volta da minha cara...

a voz feneceu-lhe num murmúrio.

- tendes sido muita coisa, mahadevi. talvez, em tempos, tenhais sido essa mulher,
nesse sítio.

- acho que sim, há muito, muito tempo. mas o sonho pôs-me triste, embora não
saiba porquê.

- o sonho terreno é cheio de mágoas, a verdadeira alegria está no ser.

a mahadevi ironizou:

- Às vezes pareces-me louco, pra.

o êxtase ansiado pelos brâmanes era, por vezes, tomado como loucura pelos
ignorantes. estaria a mahadevi a pensar que ele estava apenas a imitar a visão
interior? acaso pensava que ele tinha muito que aprender.

- eu aguardo que me ilumineis, abençoada.

- não, pra, hoje sou eu que venho em busca da tua sabedoria. olha para a tua
braseira e para o teu coração e diz-me o que a tua visão interior enxerga.

ah, quer pôr-me à prova!

prabaratma ficou, por momentos, ansioso, pois as suas visões não surgiam a
pedido, mas tão-só quando queriam. contudo, debruçou-se sobre a ardente braseira
de cobre e aspirou o fumo da madeira de sândalo. pegou de novo nas contas e
começou a cantar. cantara apenas dez palavras da criação do sacrifício e logo as
visões lhe sorriram. tão rápidas, tão rápidas que lhe era difícil distinguir-lhes a forma
à medida que brilhavam, mas ele tentou agarrá-las o tempo suficiente para
descrever o que via...

- ...uma pomba branca a voar... trata-se de uma mensagem... nuvens negras


empurradas por ventos de tempestade... trazem zanga e mágoa... um carvão
ardente que se transforma num olho brilhante, uma língua de fogo que se transforma
num bico adunco... garuda, a águia, aproxima-se, as garras estendidas...

- garuda, a inimiga das serpentes, pra?

o monge porém, não podia responder, estava todo entregue às visões. as chamas
tremeluziam e bailavam, amarelo e azul, ao ritmo do seu coração.

- vejo uma bailarina, talvez krishna, com a sua flauta e a sua coroa.

- krishna na sua figura de amante?

- dançando em cima da serpente kaliya até dela jorrar sangue.

- isso não é bom augúrio - disse a mahadevi. - e que mais?... outra vez as nuvens
negras, cuspindo relâmpagos...

- ... indra com os seus trovões.

- o que cuspiu a serpente do mundo para criar a terra?

- sim, esse. e xiva a dançar.

- a exterminadora?

- e portadora de dádivas.

- estou a ver. se vou receber tantos deuses, tenho muito que preparar para as
festividades. não me saberás dizer porque vou ser bafejada com tamanha honra,
pois não?

as visões desapareceram e prabaratma sucumbiu, o queixo de barba grisalha


descaído para o peito.

- não, abençoada - disse ele num suspiro.

- coitado de ti, pra! abusei da tua idade. esqueço-me muitas vezes como sois fracos,
vós mortais, como é curta a vossa vida. Às vezes, parece-me que governo uma
colônia de formigas.

prabaratma aquiesceu.

- o pequeno é reflexo do grande - murmurou ele.

- não sabes o que dizes. uma montanha de formigas pode ser destruída. assim! -
disse mahadevi, dando um pontapé na braseira, a forma difusa do pé fazendo
espalhar as brasas ardentes. - aí tens. o que é que vês, agora, pra?

prabaratma ouviu os passos leves a afastarem-se, a cortina de contas


matraqueando como ossos, e sentiu uma vertigem, como se o universo rodopiasse
em redor dele. e sorriu.

o ciclo roda. por isso é que ela queria que eu visse em quem se ia tornar. já não é a
generosa lakshmi, nem a paciente saravasti. tornou-se a mãe da criação e da
destruição. bem-vinda, cáli. os deuses vêm observar o teu renascimento. aguardo,
ansioso, as maravilhas que tu trazes. na verdade, pensou, com um suspiro de
êxtase, o mundo foi criado com júbilo.

capítulo ii

aÇafrÃo: esta especiaria provém da parte interna da flor do croco. É de um amarelo-


brilhante, muito agradável à vista, tem um cheiro intenso e oferece-se para afastar a
melancolia. os gregos usavam-no para perfumar o banho, mas muitos
desaprovavam o seu uso, pois diziam que levavam as mulheres a um
comportamento indecoroso. os irlandeses acreditam que a roupa de cama lavada
em água de croco fortalece as pernas de quem nela dorme. os franceses utilizam o
açafrão para a gota e para o reumatismo. no oriente, atribuem poderes mágicos ao
açafrão e os hindus escrevem os seus textos sagrados com ele. gerard escreve que
o açafrão aguça os sentidos, mas, em demasia, pode levar à loucura...

o padre antónio gonsção abrigava-se à sombra de um mirrado tamarindo,


protegendo os ouvidos da lamúria das orações muçulmanas. a terra empoeirada em
redor dele estava coberta de mongóis ajoelhados, voltados para o sol poente. tenho
de suportar isto cinco vezes ao dia. que sacrifício me aplicaste, meu deus!

o sol brilhava num vermelho-carregado, o seu fenecer não reduzindo o calor.


gonsção puxava pelo hábito dominicano, outrora branco, nos sítios em que o calor
lho colava à pele. sentia-se enfadado e abatido, destroçado pelo cansaço provocado
pelo calor. tinha de fazer um grande esforço para não cair num dos maiores
pecados, o desespero.

eu não devia estar aqui, uma parte dele repetia, numa litania interior que não se
calava. eu devia estar num barco, de regresso a lisboa, a pensar como dizer ao
cardeal albrecht que uma cabala de feiticeiros hindus haviam arrastado um
governador de goa e um vice-rei para o paganismo. e como haviam, até, subvertido
a fé do inquisidor-mor sadrinho, despertando-lhe a ganância por um pó que, dizem,
devolve a vida aos mortos.

gonsção sentia um frio terrível, apesar do calor. era a outra parte do pensamento
que preferia evitar. eu não devia estar aqui, eu devia estar morto. parecia uma subtil
ironia de deus, o fato de o jovem inglês thomas chinnery ter devolvido a vida a
gonsção, justamente com o mesmo pó que gonsção jurara destruir.

- parecem gatas com o cio, não é, padre?

gonsção sobressaltou-se, pois não reparara que o soldado joaquim alvalanca o


seguira.

joaquim era um tagarela e tinha um cru e irritante sentido de humor, mas era um dos
únicos três soldados goeses que permaneciam na expedição, tendo os restantes
dez da escolta fugido em bijapur.

- eles são os nossos hospedeiros, joaquim. não devemos ofendê-los, por mais
ofensivos que nos pareçam.

- ah, estais a ser diplomático, padre - disse o pequeno e entroncado soldado. - mas
ainda bem, acho eu, já que queremos preservar a vida. - retirou o elmo da cabeça e
limpou a testa com a manga da camisa. - ai, santa maria, que calor, perdoai-me a
blasfêmia, padre. tomai, bebei uma golada de vinho. não estamos na missa, mas
pode ser um refrigério.

joaquim estendeu-lhe a botija de pele.

- não, obrigado... - gonsção apercebeu-se de como estava ressequido e


reconsiderou. - afinal, aceito. - espremeu um longo jato para a boca, achando o
gosto estranho, como um exótico vinho branco, mas agradável. - o que é isto?

- É arrak, padre, destilado da palmeira. não é como o nosso vinho, mas é agradável,
não é?

- sim, não é mau. - gonsção devolveu a botija a joaquim. por acaso, não vistes o
irmão timóteo?

- a última vez que o vi, estava ele em grande discussão com os muçulmanos. acho
que vai convertê-los a todos, antes de terminarmos a viagem.

- bom, ainda bem que eles o aturam. e o senhor chinnery, como é que ele está?

- parece estar bem e continua a tagarelar com o irmão andrew, o seu estranho
companheiro.

- sim, esse irmão andrew, o monge que não é monge. continuo sem perceber qual é
o interesse dele nisto tudo.

o escocês, andrew lockheart, entrara no santo ofício disfarçado de jesuíta, na


companhia de um conhecido e respeitado monge, o padre estêvão. fora o ”irmão”
andrew que despertara a atenção de gonsção para o pulvis mirificus, numa
presumivelmente louca tentativa de libertar o senhor chinnery das masmorras do
santo ofício.

isso não devia ter acontecido, mas o inquisidor-mor sadrinho estava tão ansioso de
obter informações acerca do pó...

não, pensou gonsção, a culpa foi minha. se eu não tivesse desafiado o irmão
andrew a ressuscitar o feiticeiro de cartago, se não tivesse sido tão arrogante na
convicção de que ele iria falhar... talvez, apesar de tudo, seja justo eu estar metido
nesta viagem.

- e tomás continua a olhar para trás, para a carroça das bailarinas - prosseguiu o
tagarela joaquim. - se quereis saber, padre, acho que ele tem saudades da sua
bailarina.

- isso vai passar-lhe, joaquim, tenho a certeza. gonsção perscrutou o rosto do


soldado, mas não enxergou nele suspeição.

portanto, carlos não lhe falou na morte de aditi, como ela se atirou contra uma
espada no palácio do sultão de bijapur, para não responder ao meu interrogatório
quanto ao seu envolvimento na cabala de goa. foi uma pena, um desperdício de
vida. e, agora, a sua alma arde, seguramente, nos domínios de satã...

e contudo... e contudo... havia aqueles laivos de memória, aqueles sonhos de


quando o próprio gonsção atravessara para o além. sonhos muito diferentes do que
lhe haviam ensinado a esperar. o que sadrinho chamava a arquitetura do além,
como se a morte fosse um mundo novo, tal o mundo além-atlântico, à espera que os
exploradores lhe desenhassem o mapa. cartógrafos imaginativos como os da nova
espanha, enchendo de monstros essas regiões desconhecidas. na terra da morte
pude ver, pensou gonsção, como eram corretos esses relatos. talvez essas visões
fossem um aviso dos céus de que eu estava a entrar onde não devia.

- padre?

- ha? desculpai-me, joaquim. o meu pensamento vagueava por... muito longe.

- eu nunca pensei vir a ter saudades de goa, mas, se quereis saber... uma noite
junto ao rio mandovi, partilhando um bolo de bétele com uma mestiça de olhos
negros, ah, que delícia!

- compreendo, joaquim.

- e de que tendes vós saudade, padre? gonsção fechou os olhos.

- de ouvir os sinos tocar às trindades, nas igrejas de lisboa, de cheirar a brisa fresca
do mar. - riu-se: - É estranho. depois da minha viagem para goa, nunca pensei vir a
ter saudades do mar.

- lisboa - disse joaquim, reverentemente. - É como um sonho distante. quem sabe se


a tornarei a ver.

- o mesmo digo eu - corroborou gonsção, mansamente.

- padre... - joaquim olhou para as mãos e fez uma pausa, antes de continuar: -
achais que vamos sobreviver a esta viagem? os muçulmanos são tantos e nós tão
poucos! e nem sabemos o que vamos encontrar! quando me treinei para soldado,
em goa, pensava que não tinha medo de morrer. quando fui preso no aljouvar,
imaginava todo o gênero de mortes, pela espada, por doença, por enforcamento,
mas também não tinha medo. se calhar, estava a ficar louco. mas agora, padre,
acho que tenho medo.

- É muito natural, meu filho, dadas as circunstâncias em que nos encontramos. e


não é nenhum pecado. mas não desespereis, nem duvideis que deus está conosco.
lembrai-vos do que nos traz aqui. imaginai estes - gonsção fez um gesto indicando
os estrangeiros que os rodeavam - assolando o mundo com exércitos de mortos
ressuscitados. esta busca não é para nossa glória, mas para salvar toda a
cristandade. deus incumbiu-nos de uma missão muito importante, joaquim. para
salvação do futuro do mundo, temos de provar que estamos à altura dela.
joaquim sorriu, pesaroso, aquiescendo.

- as vossas palavras consolam-me, padre. obrigado. vós não tendes medo, mas isso
deve ser porque estivestes... porque vistes...

- porque estive morto, é o que quereis dizer.

- thomas disse que estáveis a dormir, mas carlos verificara que não tínheis pulso e
que não respiráveis.

gonsção pousou uma mão no ombro do soldado.

- não vos vou dizer o que vi, pois não é coisa para um ser vivente saber. porém,
quanto ao que vos preocupa, posso afirmar-vos, meu filho, que não tendes que
recear a morte.

joaquim ficou de olhos abertos e suspirou.

- obrigado, padre, obrigado. isso tira-me um grande peso de cima de mim.

ouviram, então, um alarido em redor deles: era o final das orações dos mongóis. o
mundo parecia voltar à vida, com os berros dos animais e a palração dos homens.

- preza-me muito, meu filho. ficai à vontade para falar comigo, sempre que
estiverdes preocupado. mas, agora, começo a sentir no ar um cheiro a jantar.

- sim, o cheiro das especiarias deles é divinal, não é, padre?

- não é bem o que eu lhes chamaria, mas faz crescer a água na boca. vamos,
devemos honrar a hospitalidade do mirzá.

enyo caminhava lentamente no jardim, um pote de água nas mãos, os pés de veias
salientes e enrugados pisando a terra fria. o sari amarelo roçagava-lhe nas pernas,
conforme ia de árvore em árvore, da faia ao carvalho, da murta ao abeto,
despejando-lhes água aos pés. era a estação seca no decão e as árvores vindas de
longe necessitavam de cuidados especiais para crescerem.

de todos os deveres que enyo tinha em bhagavati, ao serviço da despoina, este era
o seu favorito. no jardim, os seus velhos ossos doíam-lhe menos e o ar era doce,
cheio de aromas que lhe recordavam a terra natal. no meio do jardim havia um
tanque, construído à semelhança de um certo lago sagrado de montanha. quem não
olhasse muito para além dos ramos das árvores e não se afastasse muito do tanque,
podia esquecer-se de que o jardim se encontrava no meio de um enorme palácio de
pedra que já era muito antigo quando enyo, a sua irmã porphredo e a despoina ali
haviam chegado. e podia imaginar que a senhora das feras ainda ali vinha caçar,
nas noites em que a lua era apenas um sorriso no escuro horizonte.

enyo ouviu um rumorejar de folhas e olhou para cima. a irmã porphredo acercava-se
por entre as árvores, vestida com um sari esmeralda-escuro, o rosto marcado pelo
tempo e enrugado como cortiça, como se ela própria fosse uma árvore. trazia na
mão longas tiras de folha de palma, do tipo em que se escrevem mensagens. os
olhos pareciam mais escuros do que o habitual e a expressão do rosto era
carregada.

- havia notícias na torre dos pombos? - perguntou enyo.

- o próprio guarda veio trazer-nos estas - respondeu porphredo.

- gandharva enviou más notícias? porphredo aquiesceu solenemente com a cabeça.

- embora com alguma esperança, se formos expeditas. onde é que ela está?

- no santuário. não é altura de a perturbarmos.

- não pode deixar de ser. se quisermos salvar aditi, stheno tem de tomar
conhecimento disto já.

- aditi? o que é que aconteceu à nossa pequena aditi? porphredo pousou uma mão
de longos dedos no ombro de enyo.

- a nossa aditi está morta, irmã. foi assassinada.

- ai! - exclamou enyo sentindo um arrepio de frio na pele e no estômago. - quem é


que praticou esse ato horroroso?

- gandharva não o diz.

- e ele não lhe deu o rasa mahadevi para a recuperar?

- aparentemente não. mas ela não está longe e nós podemos fazer-lhe chegar
algum, se stheno autorizar.

- tem de autorizar. contudo, a despoina está num dos seus... acessos. ouvi dizer que
fez uma grande balbúrdia na cela de prabaratma, esta manhã. não sei como é que
ela irá reagir a isso.

- imagina a reação dela se esperássemos e perdêssemos aditi para sempre. vamos.

enyo pousou o pote de água com as mãos a tremer e seguiu a irmã para a arcada
de pedra que conduzia à parte mais antiga do palácio. aí, estátuas de divindades,
demasiado corroídas por séculos de chuva e de vento para serem reconhecíveis,
estavam de guarda a uma passagem escura, talhada, séculos atrás, no basalto
negro da montanha.

o ar seco no corredor era frio e cheirava a terra, a canela e a madeira de sândalo.


círios de junco acesos, colocados na parede a intervalos regulares, mantinham a
escura passagem iluminada. sob os círios havia pequenos nichos, cada um
contendo a imagem de pedra de um deus hindu: lakshmi, parvati, durga, sita, ratri.
aqui e além, havia nichos com incongruentes centauros ou harpias.
as duas velhas encaminharam-se silenciosamente para a antecâmara dos
aposentos privados da despoina. À entrada havia uma cortina de contas de cobre e
de calcedônia. a um dos lados da porta do quarto, um tigre de pedra, paralisado num
meio-arreganho, no outro lado, num pedestal de mármore, via-se um sereno touro
de bronze, sentado, com um disco solar entre os cornos. na parede atrás do touro
havia um fresco inacabado, apenas completamente pintada parte da cara de uma
figura a dançar.

- isto é novo - disse porphredo.

- sim - suspirou enyo. - prabaratma disse-me que se trata de uma representação de


cáli, a deusa da vida, da morte e da destruição. gostava de saber porque é que ela
escolheu esta, e porquê agora.

- podes perguntar-lhe.

- para a ouvir insultar-me? não, muito obrigado. ouviam-se vozes dentro do quarto,
um homem e uma mulher, a falarem na bela língua kannadan.

- ela está acompanhada, mas temos de a interromper. porphredo postou-se em


frente da cortina de contas e bateu palmas duas vezes.

- o que é que se passa - rouquejou a voz da mulher lá dentro, em grego.

- notícias confidenciais, despoina.

- vem mais tarde.

- isto não pode esperar.

houve um momento de silêncio e, depois, a mulher murmurou uma gentil despedida.


o homem respondeu com palavras de profunda adoração que mais pareciam
orações vedas. passado pouco, um jovem nu surgiu através da cortina de contas, a
cara iluminada por um sorriso extasiado, o qual se lhe refletiria nos olhos, assim ele
ainda os tivesse. porém, onde haviam estado os olhos viam-se apenas buracos
vazios e tecidos cicatrizados.

enyo inspirou fundo e recuou, para deixar passar o jovem. uma vez mais, pensou ela
com desgosto, uma vez mais a despoina permitiu isto. porque é que ela não deixa
os monges conservarem os olhos, mantendo-os distantes.

porphredo afastou a cortina e avançou para dentro do quarto. enyo seguiu-a, os


punhos fechados agarrados à saia.

no meio do quarto erguia-se um biombo de painéis de marfim. por detrás do biombo,


em voz baixa e melodiosa, a despoina disse:

- espero que essas notícias valham a pena.

- perdoa-nos por disturbar-te, despoina - disse enyo.


- noto um tom de desaprovação na tua voz, ratazana. já não posso gozar os poucos
prazeres que me restam? a do elmo pontiagudo pode ter-te secado as entranhas,
mas as minhas continuam saudáveis, mais ou menos.

- não como os olhos daquele jovem.

- a opção foi dele. É bem melhor do que morrer por devoção. espero que não
tenham vindo para me fazer sermões.

- não iríamos gastar a tua respiração com isso - disse porphredo. - trazemos-te
notícias de gandharva. aditi morreu.

ouviu-se o som do vento antes da tempestade. e o irado murmúrio:

- quem fez isso?

- não sabemos, mas podes sabê-lo pela tua filha, pois o seu corpo foi preservado e
gandharva trá-lo para aqui. escondeu-o no meio de um exército de mongóis e dentro
de três dias estará a meio caminho, desde bijapur. se enviarmos rapidamente um
mensageiro com a tua dádiva, ela pode voltar à vida sem grande dano.

- um exército mongol, dizes tu? acaso gandharva menciona uma águia, ou um


flautista?

enyo olhou alarmada para porphredo. a velha alta abanou a cabeça e disse:

- não, despoina. porque perguntas?

- apenas por umas coisas que prabaratma referiu. parece que as suas profecias têm
algum fundo de verdade.

- devíamos enviar o mensageiro o mais depressa possível - disse enyo. - não nos
convém nada que esse exército se aproxime.

- pára de guinchar, ratazana. eu não vou enviar nenhum mensageiro.

- mas, despoina...

- vou eu própria.

- despoina - disse porphredo, o sobrolho franzido -, será sensato?

- estamos a falar da minha filha. a minha dádiva tem de ser fresca, para melhor a
reanimar. e há anos que não saio desta montanha, e quero ver esse exército.

- despoina... - começou enyo.

- cala-te, ratazana! já que não tens espinha para te endireitares, ficas aqui a tomar
conta, na minha ausência. tu, porphredo, vais comigo. quer dizer, se os teus velhos
ossos aguentam uma cavalgada.

- os meus ossos não são mais velhos do que os teus - contrapôs porphredo -,
apesar das aparências. irei contigo.

- muito bem. partiremos esta noite.

enyo gostaria de atravessar o biombo e de meter algum senso na cabeça daquela


mulher.

- vamos levar horas, despoina, a reunir uma escolta adequada...

- não precisamos de escolta. as duas sozinhas andaremos muito mais depressa e


seremos menos visíveis. e eu sei defender-me, como sabes.

- sim, eu sei, e é isso que eu temo.

- caluda, porphredo! encontramo-nos à entrada do túnel norte, quando for noite


fechada. quanto a ti, enyo, toma boa conta da casa, não quero bhagavati mal
cuidada enquanto estiver por fora. ide-vos!

relutantemente, enyo deixou-se arrastar por porphredo através da cortina de contas


e da antecâmara. quando já estavam um pouco afastadas da antecâmara, explodiu
num murmúrio:

- isto é uma loucura! não a deixes ir, porphredo. não a deixes ir assim, naquela
disposição.

porphredo colocou ambas as mãos nos ombros de enyo.

- sossega, irmã. eu vou estar ao lado dela e não a vou deixar cometer loucuras. e
ela tem razão, se queres saber. aditi tem mais possibilidade de ficar inteira se o rasa
mahadevi for fresco. sossega, nós estaremos de volta dentro de sete dias. que dano
pode a despoina causar em tão pouco tempo?

enyo olhou para trás, para o fresco de cáli.

- É isso o que eu temo, o que iremos descobrir a esse respeito.

capítulo iii

verbena: chamam, também, a esta planta a planta do encantador e lágrimas de juno,


bem como erva da cruz, pois diz-se que cresceu no calvário, enquanto cristo ali
esteve crucificado. as suas folhas assemelham-se às do carvalho e são tão
veneradas como essas. a planta tem um caule comprido, donde brotam flores de um
rosa-pálido, nos finais do verão. o chá de verbena cura as feridas e alivia as dores
do estômago e a má disposição. misturado com trigo ou raiz de peônia evita os
desmaios. a verbena é muito utilizada para aspergir água benta e é um talismã
contra os encantamentos. as bruxas, porém, também conhecem os seus poderes e
utilizam-na para prever o futuro...
thomas sentou-se na cama de campanha, pela terceira vez acordado pelo rufar de
tambores e pelo grito de ”khabardar!”, seguido por outros de ”ya!” ”ya!”, que os
soldados mongóis soltavam na periferia do acampamento. esfregou os olhos e
disse:

- para que fazem eles isto de quarto em quarto de hora? entre a vigia e as orações,
quando é que esta gente descansa?

- talvez eles achem que isto é embalador - disse lockheart, sentado à luz de uma
pequena lamparina, claramente nem sequer tentando dormir.

- embaladora, esta barulheira?

- É tudo uma questão de hábito. o sino das horas também te perturbava, a bordo do
yjhelpt

- ao princípio, sim. mas, depois, o trabalho no mar fatigava-me tanto que, se o


próprio netuno se erguesse das ondas, eu não acordava. mas isto!

- o grito significa ”alerta” e garante-nos que pelo menos alguns da nossa expedição
estão alerta e vigilantes aos ladrões. um dos mongóis disse-me que ouvira dizer que
esta região, próxima de bijapur, estava infestada de bandidos. embora um bando
tivesse que estar muito desesperado para se atrever a atacar um exército imperial,
por pequeno que seja. portanto, como vês, o barulho quer dizer que estamos
protegidos e, por isso, pode ser embalador.

thomas soltou um suspiro.

- ao menos, tem a vantagem de afastar os meus pesadelos, pois não consigo dormir
o tempo suficiente para eles aparecerem. o que é que estais a observar? -
perguntou, indicando o pedaço de osso chamuscado e achatado que lockheart tinha
na mão.

- estou a tentar adivinhar o nosso futuro, meu rapaz, através da arte da


escapulomancia ou espatulomancia, como lhe chamam na minha terra. isto é a
omoplata de um carneiro. quando notei que íamos ter carneiro para o jantar, pedi ao
cozinheiro do acampamento para ma guardar.

- esse augúrio faz parte do vosso culto pagão, andrew, ou é um mero passatempo?

lockheart ergueu um sobrolho e disse:

- os mortais têm tentado adivinhar o futuro desde o início dos tempos, meu rapaz,
seja qual for a sua origem ou fé. a bela diana inspirou oráculos muito mais doutos do
que eu.

thomas notou que a sua pergunta não tinha, propriamente, sido respondida.

- portanto, agora, sois um augure, além de mercador, soldado, monge e padre. na


verdade, os vossos talentos não têm limite. o que é que esse osso vos diz quanto ao
nosso destino?

lockheart olhou para thomas com ar pesaroso.

- eu não disponho da perícia dos antigos e tu não podes compreender os meus


métodos, contudo... - incidiu o olhar no osso e o rosto barbudo empalideceu. -
cruzes, duas vezes cruzes - murmurou ele.

após um momento de espera, thomas perguntou:

- o que é que isso quer dizer? lockheart pestanejou e abanou-se.

- ha? a nossa via, segundo parece, não é direta, tom. espera-nos o inesperado. as
coisas não se vão passar como nós gostaríamos. vai ser mais o serpentear de uma
serpente do que o vôo direto de uma flecha. thomas riu-se.

- isso não é muito diferente do que podemos ouvir a um cartomante da catedral de


são paulo. não há dúvida de que a arte do oráculo decaiu muito desde os tempos de
apolo.

irritado, lockheart disse:

- reconheço que não detenho a perícia délfica em poesia e em enigmas, mas tu


perguntaste-me o que eu via e eu disse-te o que via. dá-te por satisfeito.

- as minhas desculpas. pareceis perturbado, andrew. um sorriso sarcástico


espalhou-se pela cara larga de lockheart.

- pois, e não há razão para isso, achas tu. nós estamos tão seguros como jonas na
barriga da baleia, não é?

thomas suspirou e estendeu-se na cama, puxando o cobertor e tapando-se bem.

- estou demasiado fatigado para vos enfrentar.

- e eu não gosto de lutar com um homem desarmado. descansa, tom, que os


próximos dias vão pôr à prova o nosso vigor.

- sem dúvida... - murmurou thomas, fechando os olhos. ... e viu-se no fundo de um


poço, rodeado pelo fogo. ouviu o estrondo do bater de asas enormes que se
aproximavam. não devia ter falado nos meus pesadelos, pois parece que os
invoquei. a harpia pousou num nicho de rocha à beira do poço, debruçada para ele,
tal falcão para um rato.

- agora agarrámos-te, assassino - berrou a harpia. - não podes escapar!

- porque me atormentas? - perguntou thomas sonhador.

- É o destino! É o destino que mereces, assassino!


- eu não matei ninguém!

- mentiroso! mataste e vais tornar a matar.

- não! só que a minha mãe morreu ao dar-me à luz...

a harpia sublinhou as palavras dele com uma grasnada horrível. o estrondo das asas
soou de novo e a harpia sorriu, com tétrico êxtase.

- ela vem aí. ela vai agarrar-te. ela para quem a beleza e a morte são uma e a
mesma coisa. ela vem aí! prepara-te para a sua chegada!

o chão por debaixo dele tremeu e thomas tremeu com ele, imaginando que o fundo
do poço se ia abrir e engoli-lo. uma voz, muito diferente, gritou:

- tomás!

thomas abriu os olhos e viu-se de novo na tenda, o rosto preocupado do irmão


timóteo debruçado para ele.

- tomás, salvastine? - disse o rapaz em latim, a única língua que partilhavam.

- acordado estou bem, mas, a dormir, não - respondeu thomas, na mesma língua.
sentou-se na cama e esfregou os olhos. - foram os meus pesadelos que voltaram.

- estáveis a gritar - disse timóteo -, embora eu não percebesse o que dizíeis. parecia
estardes submetido a grande dor.

- não, timóteo. o meu tormento noturno é mais espiritual do que físico. sonho com
harpias que me chamam assassino e me ameaçam de morte. tenho estes pesadelos
desde criança.

- harpias! - exclamou timóteo, o olhar aberto de espanto. thomas sorriu.

- o padre é capaz de ter razão ao desaconselhar-vos a dardes ouvidos às lendas


clássicas. podeis acabar por ter pesadelos como os meus.

- não, esses sonhos são importantes! têm de ser. timóteo deu a impressão de que ia
dizer mais qualquer coisa, mas calou-se.

- eles assedíam-me com tanta frequência que não posso deixar de pensar que
devem ter alguma importância. não me sabereis dizer que gênero de alegoria cristã
eles representam?

timóteo olhou para o lado.


- eu... eu não sei se esses sonhos serão cristãos.

estará ele a duvidar da sua crença? ele que parecia tão inabalável na sua fé, no
santo ofício? ou achará que eu me afastei da minha?
thomas considerou que era melhor mudar de assunto, antes que timóteo se pusesse
a prestar-lhe um sermão.

- gostastes de montar no elefante, timóteo?

- oh, gostei muito, tomás! obrigado por terdes convencido o padre a deixar-me
montá-lo.

- não há que agradecer. e o mirzá tratou-vos bem?

- tratou, sim, tratou-me muito bem. acho que os muçulmanos não são tão maus
como o padre diz.

- acho que o padre se refere à crença deles, não a eles próprios. o mirzá discutiu a
sua crença convosco?

- não. concordamos em que, enquanto estivéssemos montados no elefante, não o


faríamos. eu estava a tentar falar ao mirzá na glória de nosso senhor, mas acho que
isso o irritou. acho que ainda não estou preparado para ser um missionário. ou
talvez ele não esteja ainda preparado para receber a palavra de deus.

thomas reprimiu uma gargalhada.

- ainda bem que sois ambos pacientes.

thomas ouviu o padre gonsção perguntar, da parte de fora da tenda:

- estás aí, timóteo?

- estou, sim, padre. - o rapaz levantou-se e dirigiu-se para a cortina da tenda, mas
depois voltou-se e disse: - da próxima vez que sonhardes, devíeis... devíeis talvez
perguntar às harpias... pelas serpentes.

- serpentes? porquê?

timóteo abria a boca para responder, mas o padre tornou a chamar:

- timóteo?

- vou já, padre! depois conto-vos, tomás. boa-noite.

- boa-noite.

quando o rapaz partiu, thomas estendeu-se de novo na cama, pensando na idéia de


colocar uma questão aos seus sonhos a respeito de serpentes.

- khabardar!

- ya!
isto é uma loucura, pensou thomas, irritado, afastando o cobertor e levantando-se.
não vou conseguir dormir mais esta noite, com estes sentinelas a afugentarem-me o
sono.

afastou a cortina da tenda e um vento gelado, cheio de poeira, atingiu-o na cara.


agora, sem os gritos das sentinelas, thomas ouvia o vento a assobiar nas espias das
tendas e nas fendas das rochas. não admira que estes pagãos acreditem em
espíritos irrequietos que assombram os descampados, pois o próprio ar deste decão
está em constante movimento.

a impressão de terror que o pesadelo lhe provocara ainda não o largara e thomas
sentia uma necessidade de fazer algo de útil. À luz dos archotes do acampamento e
da lua em quarto crescente, encaminhou-se para a carroça das bailarinas. não devia
fazer isto, pois pode alguém ver-me, mas, se tiver um pouco de sorte, os que deviam
estar a vigiar estarão a dormir.

a carroça das bailarinas era uma carroça de bois, toda colorida e dourada, fornecida
pelo sultão de bijapur. nela seguiam músicos e bailarinas, as quais entretinham a
tropa de diversas formas. e, embora a carroça permanecesse no final da coluna do
exército mongol, para não ferir as susceptibilidades muçulmanas, à noite recebia
muitos visitantes. thomas congratulou-se por não parecer estranho que ele ali se
dirigisse àquela hora.

na verdade, enquanto para lá se dirigia, thomas começou a ouvir gargalhadas e


gritos de alegria. afortunados, pois conseguem retirar satisfação de prazeres
simples. depois, lembrou-se que aditi jazia ali no seu caixão e pensou se ela se
sentiria ofendida. acho que não, ela fez o mesmo comigo. provavelmente, acharia
graça, se soubesse.

thomas não queria perturbar ninguém nos seus arroubos e a sorte de novo o
favoreceu. o homem que procurava estava sentado cá fora, junto de uma fogueira,
cujas chamas o vento fustigava, num frenesi de demônios a dançar no meio dos
ramos em brasa. o homem tocava mansamente num instrumento comprido,
composto por um braço com cordas e com uma cabaça a cada ponta.

- gandharva?

o músico cego voltou a cabeça na direção de thomas.

- quem é?

- sou eu, a quem vós chamais tamaschinri - respondeu thomas em grego.


- ah, o jovem amante desolado voltou. a vossa senhora continua a ser-vos fiel e, no
estado em que se encontra, nem outra opção tem.

thomas não sabia bem o que pensar da ironia de gandharva, mas decidiu não lhe
levar a mal e sentou-se na poeira, ao lado do músico.

- eu estava inquieto e não conseguia dormir. os meus sonhos estavam cheios de


augúrios, mencionando a chegada iminente de qualquer coisa misteriosa e terrível.

- ah sim? isso é interessante. e tendes esses sonhos proféticos com frequência?

-- eu não sei se os meus pesadelos falam de coisas que estão para acontecer. se
assim for, o destino horrível que anunciam está ainda para vir. gostava de saber se
tendes notícias a respeito do rasa mahadevi.

- oh, não sejais impaciente. há apenas dois dias que iniciamos a viagem. tudo
depende da rapidez com que a mahadevi despachar a sua dádiva, mas é possível
que nos chegue dentro de dois, três dias.

- ah! e achais que aditi vai sobreviver após... um sono tão prolongado?

- ela foi bem preservada, meu amigo. foi toda coberta de mel e envolvida em faixas
embebidas em mirra. e jaz numa caixa que não deixa entrar o ar corruptor. o seu
regresso à vida pode levar algum tempo, mas ficará inteira, tranquilizai-vos.

- mel e mirra - disse thomas. - foi uma preservação muito cara.

- foi, sim. gastei tudo o que o sultão me concedera, mas não me importo. ela foi
sempre minha amiga, numa vida em que tenho muitos conhecidos, mas poucos
amigos. e espero que a mahadevi me recompense, de uma maneira ou de outra.

- eu também estou em dívida para convosco, embora nada tenha com que vos
pagar.

- não, não, tamas, não me deveis nada. vós arranjastes maneira de esta carroça
aqui estar, não é verdade? estais a tentar salvar a vida a aditi, que mais vos posso
pedir?

a porta da traseira da carroça abriu-se e três mulheres saltaram da entrada


iluminada, rindo alegremente. com os véus a flutuar atrás delas, tal asas diáfanas,
thomas sentiu um choque, como se estivesse a ver as três perseguidoras dos seus
pesadelos a tornarem-se reais. mas elas correram para gandharva, pegaram-no
pelos braços e puseram-se a incitá-lo, na sua língua cantante e musical.

- tereis de me desculpar, caro senhor - disse gandharva com um sorriso


embaraçado, mas agradado -, parece que os meus préstimos são exigidos noutro
sítio.

- seria incapaz de vos reter - disse thomas, ficando a ver gandharva a ser conduzido,
empurrado e puxado, para dentro da carroça, justamente quando joaquim saía.
- ai, santa maria, escolhi uma boa altura para sair... disse o soldado, parando de
repente, comicamente de boca aberta, ao ver thomas.

- tomás! afinal, vós, o milagreiro, também aqui vindes! os anjos abandonaram o


vosso travesseiro e vistes-vos na necessidade de procurar prazeres mais terrenos?

thomas pôs-se a imaginar o que o padre diria perante semelhante blasfêmia.

- estais bêbado, joaquim.

- claro que estou! estar bêbado é o estado mais abençoado de um homem. entrai,
entrai à vontade. eu despedi-me agora mesmo da gentil aziza, mas estou certo de
que ela não desdenhará uma nova companhia.

deitar-me com uma rameira ao lado do corpo de aditi, nem pensar!

- não, hoje não, joaquim.

- ah, ainda pensais na bailarina de bijapur que ninguém sabe onde está. ela já deve
ter encontrado outro e vós só a esquecereis se fizerdes o mesmo. qualquer uma das
belezas ali dentro vos pode explicar isso.

- a mim, não.

sem embargo, aditi fizera-o esquecer-se da sua anterior namorada de londres, a


filha do seu patrão. thomas já mal se recordava da figura de ana coulter. deus me
livre de me prender com outra enquanto tenho esperança de aditi reviver. thomas
não queria ser tentado a esquecê-la, não queria sequer pensar que fosse capaz
disso.

- quereis, realmente, ser um santo e imitar os homens que, tendo perdido um amor,
renunciam ao mundo e aos seus prazeres? esses votos, porém, são muitas vezes
quebrados e o pecado entra-lhes de novo pela porta dentro. eu, por mim, espero ser
um grande pecador. esta noite, por exemplo, bebi muito, fumei ópio e aspirei o doce
perfume de mulheres. sabeis dizer-me quantos pecados foram?

- eu não sou dado às matemáticas, nem às teologias, joaquim.

- bem, eu acho que foram muitos, embora não me bastem. se vou ser precipitado no
inferno, quero entrar no portão ardente com alarido de fanfarra.

o magro e entroncado soldado mantinha-se em pé junto da fogueira do


acampamento, as chamas imprimindo-lhe uma diabólica cor vermelha à cara. de
repente, lançou os braços para a frente e exclamou:

- deixai passar joaquim alvalanca! pecador dos pecadores, cuja decadência na vida
não conheceu limites! abri caminho e envergonhai-vos das vossas reles tentativas
de pecar!
thomas não sabia se o goês estava só a representar, mas o discurso era
perturbante.

- tendes um longo caminho a percorrer, joaquim, antes de atingirdes tal notoriedade.


afinal, sois um mero ladrão!

joaquim deixou cair os braços com um profundo suspiro.

- ai, até no pecado me falta grandeza! - o soldado afastou-se da fogueira. - não


passo de um cão fraldisqueiro de satã, à espera dos pedaços de brasa que lhe
caiam da mesa sulfurosa. achais que eu almejo acima das minhas possibilidades?

- eu acho que almejais no sentido errado, mas é, certamente, o arrak a falar por vós.

- falais como o padre. não estou para ouvir sermões, tomás, nem sequer de um
aprendiz de santo.

- as minhas desculpas. quem sou eu para vos fazer sermões!

- bem deveis pedir desculpa. a minha atual situação é culpa vossa. foi esta louca
expedição que me arrancou da segurança do aljouvar e me pôs a trabalhar para o
santo ofício. e foi por causa do milagre que praticastes com o padre que eu não
pude regressar a goa. thomas ficou irritado.

- para a segurança de serdes enforcado, quereis vós dizer. não era isso o que
aconteceria, se houvésseis regressado a goa?

- quem sabe, tomás, quem sabe? talvez acontecesse outro milagre e o governador
me poupasse. quem sabe se não estaria agora de regresso a lisboa, onde iria ficar a
saber que um tio rico, que eu nunca conhecera, tinha morrido, o que me ia permitir
voltar à universidade e prosseguir nos meus estudos.

- quem sabe se as vacas não vão subir às torres das catedrais para tocar os sinos.

- ai, estais a ser cínico, o que não é maneira de proceder para um aprendiz de santo.

thomas estava cada vez mais irritado com a conversa do soldado.

- eu não sou nenhum santo, nem nunca o serei. o fato de o padre ter recuperado a
saúde não foi nenhum milagre...

- agora estais a mentir, o que é muito pior, tomás. contudo, não posso culpar-vos. os
santos são levados para o reino dos céus muito cedo, pelo que tenho observado,
enquanto os demônios, ao menos, concedem aos seus seguidores algum tempo
para se divertirem.

- não quero ouvir-vos mais - disse thomas, erguendo-se.


- a filosofia mórbida dos bêbados não é agradável aos ouvidos dos sãos.

- por isso devíeis, também, embebedar-vos, tomás, já a minha conversa vos soaria
melhor.

- fica para outra vez, joaquim. boa-noite.

thomas apertou os braços em redor do peito e regressou à tenda. o vento estava


mais frio e sentiu o temporal a aproximar-se, embora não houvesse nuvens no céu,
onde as estrelas ardiam com um brilho terrível.

o mirzá ali akbarshah, omrah de dez mil homens e general de confiança do paxá
imperador akbar não conseguira dormir e, por isso, passeava entre os seus homens,
tentando avaliar-lhes a disposição. embora os seus cavaleiros ainda despertos o
saudassem com respeito e o abençoassem, muitos dos soldados infantes apenas
lhe concediam um mero inclinar de cabeça.

chegou à tenda do seu ajudante, jaimal, e, com surpresa, viu luz a brilhar lá dentro.

- jaimal, posso entrar?

- meu senhor! - foi a resposta de espanto. - certamente. o mirzá afastou a cortina da


tenda e entrou. jaimal e um outro homem, que o mirzá reconheceu como um dos
oficiais, mas cujo nome não recordou, ergueram-se e fizeram uma vênia.

- obrigado pelo serviço - disse jaimal para o outro homem - e não vos esqueçais das
minhas instruções. agora, deixai-nos.

- meus senhores - disse o oficial, saindo rapidamente, não sem lançar um olhar
nervoso para o mirzá.

- há muita gente acordada esta noite - disse o mirzá.

- É verdade, meu senhor. a nossa expedição tomou uma nova direção, tal uma
corrente caudalosa. com os obstáculos que enfrentamos, não admira que as águas
estejam agitadas.

- sim, era de prever - disse o mirzá, sentando-se de pernas cruzadas no chão


atapetado da tenda.

- desejais um refresco, meu senhor? tenho água e chá aromatizado.

- obrigado, mas não.

o mirzá notou que, como sempre, a jama e o turbante do ajudante eram impecáveis
e que tinha a barba bem aparada. jaimal estava ao seu serviço havia já cinco anos,
mas o ajudante era xiita e o mirzá era sunita, diferença de seitas que, embora
sempre oculta e não referida, constituía uma barreira entre eles. a confiança do
mirzá era sempre controlada pelo tato.

- aquele oficial que aqui estava é um exemplo dessas águas agitadas?

- de fato é, meu senhor - disse jaimal, sentando-se. os seus homens estão


acampados perto dos estrangeiros e ele veio aconselhar-se de como tratar com
eles.

- e que conselho lhe deste?

- apenas que ele e os seus homens deviam manter uma respeitosa distância em
relação a eles e observá-los cautelosamente. por ora.

o mirzá coçou a barba.

- isso é um conselho prudente, embora eu não deixe de pensar que talvez fosse útil
estabelecermos melhores relações com estes estrangeiros. sob a capa da amizade,
talvez eles se dispusessem a prestar-nos informações.

- assumindo - contrapôs jaimal - que eles disponham de alguma informação que nos
interesse.

- achais que não?

- se me permitis falar abertamente, meu senhor, não vos parece claro que o sultão
ibrahim nos impôs estes heréticos para nos distraírem a atenção e nos
desnortearem? se os relatos que ouvimos forem verdadeiros, o sultão não tem
nenhum interesse que o nosso império estabeleça uma aliança com essa poderosa
rainha da vida e da morte. estes ocidentais ou estão iludidos ou são malvados. se
desejais saber o que eles sabem, então, quando estivermos bastante longe de
bijapur, vamos torturá-los e, depois, matá-los.

o mirzá fez uma pausa. sabia que é mortal para um comandante parecer fraco,
negligente ou indeciso.

- o que pensas tem um fundo de verdade, jaimal, mas, lembra-te que os estrangeiros
ficaram tão surpreendidos e tão desagradados como nós, quando nos encontramos
na corte de ibrahim. eles não queriam viajar conosco. o padre cristão que os dirige
parecia muito seguro de si e das suas informações e eles não tiveram nenhuma
hesitação quanto à direção a seguirmos. eu acho que eles sabem muita coisa e, se
os tratarmos mal, isso vai induzi-los a mentir-nos. se formos hospitaleiros e cordiais,
como nos ensinam a ser com os estrangeiros, pode ser que nos venham a ser úteis.

- não há dúvida que o todo-poderoso vos abençoou com sabedoria e com


pensamentos de paz, meu senhor - disse jaimal. - considerai, porém, isto: se formos
bem-sucedidos e encontrarmos essa begum shah, não irá o padre cristão, de
imediato, tentar convertê-la à sua heresia e conquistar os seus favores, com toda a
casta de melífluas mentiras? já assististes, vós próprio, a isso mesmo, quando
apareceram cristãos na corte de akbar. o mirzá riu-se.

- sim, mas talvez não saibas o que aconteceu. os jesuítas de goa discutiram tanto
entre si, na própria presença do imperador, que ele perdeu todo o respeito pela fé
deles. parece que é um condão dos ocidentais, chamarem tolos uns aos outros. não,
não tenho nenhum receio de que eles impressionem a imortal begum shah.
- então considerai - persistiu jaimal, em tom manso, mas mais insistente - que o
estranho pó que o vosso sufi masum recebeu do ocidental de cabelo amarelo,
aquele que vos pediu para o rapaz montar no elefante, considerai que esse pó é um
veneno.

- isso não me surpreende. o de cabelo amarelo, que se chama tamas, acho eu, é
ervanário, como masum, e os ervanários conhecem muitos venenos, bem como
ervas curativas. eu não dou grande crédito à sua arte, mas tão-pouco acredito que
pretendam causar dano.

- meu senhor - disse jaimal, inclinando-se para o mirzá -, um dos meus homens
disse-me que uma das rameiras da carroça das bailarinas lhe contara uma coisa
terrível. contou-lhe que na carroça viaja o cadáver de uma mulher jovem e que foi o
de cabelo amarelo quem pediu para trazerem o corpo, para procederem a um
qualquer ritual infernal de feitiçaria, quando encontrarmos a begum shah.

o mirzá não conteve uma gargalhada.

- jaimal, jaimal! tu és um soldado há quase tanto tempo como eu. sabes bem das
tagarelices e do ror de histórias que se espalham entre homens que nada mais têm
que fazer senão marchar e comer todo o santo dia? o fato de essa história provir de
uma rameira prova bem que não lhe podemos dar crédito.

o mirzá ergueu-se, receando ouvir mais tagarelices da boca de jaimal.

jaimal também se levantou, o sobrolho carregado.

- senhor, deveis tomar em consideração o que eu disse. muitos dos nossos homens
não vão suportar por muito mais tempo esses heréticos entre nós.

- tolerarão isso enquanto forem essas as minhas ordens


- replicou o mirzá em tom firme. - e tu far-lhes-ás compreender que, por ora, teremos
muito mais a ganhar com cooperação do que com violência. se os estrangeiros se
mostrarem perigosos ou nos causarem dano, então reconsideraremos a atitude a
tomar para com eles.

- dir-lhes-ei o que desejais - disse jaimal, fazendo uma vênia.

- muito bem. agora, vai descansar. daqui para a frente, vou precisar mais do que
nunca da tua vigilância.

- assim farei, meu senhor. que o sono vos bafeje, também.

o mirzá akbarshah saiu da tenda de jaimal mais perturbado do que entrara. andou
um pouco e viu o seu conselheiro sufi, masum al-wadud, sentado, sozinho, junto de
uma pequena fogueira, a esculpir com uma faca o que, parecia, viria a ser uma
flauta. o cabelo do sufi aparecia espetado por fora do turbante e a barba estava mal
aparada, mas o mirzá já verificara que masum não era nenhum tonto, simplesmente,
o seu pensamento estava voltado para outras coisas que não para ele próprio.
o mirzá era um homem de fé, seguidor da lei e guardião dos cinco pilares, mas não
tinha nada de filósofo. contudo, desde que saíra de lahore, em busca de uma lenda,
já vira, num santuário, uma mão humana feita de pedra, tão real que só podia ser
produto de um milagre ou de grande feitiçaria. qualquer das possibilidades o
enchiam de terror, por isso é que mantinha masum junto de si, malgrado as suas
histórias intermináveis e os seus estranhos pontos de vista que, por vezes, roçavam
a loucura. se as histórias se patenteassem verdadeiras, o mirzá sabia que ia
precisar de alguém que conseguisse ver o que ele não via.

- portanto, também vós não conseguis dormir, masum. o sufi olhou para cima com
um sorriso nos lábios.

- desde que me tornei um murid, meu senhor, pouco necessito de dormir. mas que
vos traz a vaguear por aqui?

o mirzá sentou-se numa rocha junto dele.

- não sei bem. É uma certa inquietação. um comandante pressente sempre quando
as coisas não estão bem com o seu exército. sinto isso desde que saímos de
ahmadnagar. e agora é mais forte, esse pressentimento.

masum aquiesceu com a cabeça.

- sentem-se longe de casa e em terras estranhas.

- e sem um objetivo claro - acrescentou o mirzá - e com estranhos no meio deles.


não vos incomoda, masum, ter estes heréticos a viajar conosco?

- a presença de uma gema rachada torna a maravilha das gemas perfeitas mais
aparente.

- sim, claro, mas muitos destes homens não são lá muito crentes.

masum aquiesceu de novo.

- não distinguem a luz no meio da escuridão. o mirzá remexeu-se


desconfortavelmente.

- sim, é isso. já espalham rumores de que os estrangeiros são feiticeiros que nos
arrastam para o abismo. aquele jovem de cabelo amarelo com quem falastes, achais
que é um feiticeiro?

masum inspirou fundo e fechou os olhos.

- ele procura o conhecimento, já viu sofrimento e já sofreu ele próprio. já deteve


poder, contudo, acho que não é daqueles que se agarra ao poder como único fim.

- porém, se ele anda em busca de conhecimento, não ambicionará deter o poder da


feitiçaria? estando nós à procura da rainha da vida e da morte, não poderá ele
utilizar ritos necromânticos para a encontrar?
masum riu-se.

- meu senhor, tendes dado ouvidos a histórias provindas da ignorância e do medo.


não é desse modo que se alcança a grande sofia. além disso, acho que o jovem
ocidental não sabe bem o que procura.

o mirzá olhou para cima, para a abóbada celeste, onde, apesar do fumo e das
chamas da fogueira, eram visíveis as estrelas a brilhar.

- se ao menos eu tivesse qualquer coisa tangível para motivar os homens e distraí-


los dos seus receios, um sinal qualquer.

- que tal a mão do túmulo do shahid sem nome?

- lembrai-vos que jaimal achou que era uma falsidade, obra de um malvado sem fé.
não, preciso de alguma coisa em que ele acredite. se ele acreditar, os homens vão
também acreditar.

- a era dos milagres já passou, meu senhor. embora nós venhamos a ver
maravilhas, estou certo disso. não lhes sentis o cheiro no vento, meu senhor? o
nosso destino está perto.

o mirzá aspirou fundo, mas cheirou-lhe apenas a fumo, a poeira e ao fedor dos
excrementos dos animais.

- tenho de acreditar que os vossos sentidos são mais aguçados do que os meus,
masum.

porphredo esperava na semiobscuridade do túnel, o cavalo remexendo-se inquieto


sob ela. a sela era bem almofadada para lhe poupar os velhos ossos, mas, mesmo
assim, tinha de reconhecer que há muito tempo que não montava. não queria
recordar há quantos anos precisamente, pois a resposta a este tipo de busca na
memória era, demasiado frequentemente, em termos de décadas ou ainda pior.

por fim, surgiu uma maior escuridão no meio das sombras, juntamente com um odor
a sândalo e a água de rosas.

- porque é que tive de esperar tanto tempo?

- houve que deslocar as pessoas do túnel, para tua salvaguarda, despoina.

- havia pessoas no túnel? porquê?

porphredo esperou até que a despoina chegasse ao lado dela, toda coberta de
negro da cabeça aos pés e montada num cavalo cinzento-claro.

- porque vivem aqui, despoina.

- vivem aqui? estes túneis são para defesa de bhagavati, quem é que permitiu tal
coisa?

enquanto prosseguiam pelo túnel, os cascos dos cavalos soando mansamente na


poeira, porphredo notou, à luz obscura do archote de junco, uma boneca
abandonada junto à parede rochosa, além um bracelete de cobre e outros objetos
que ilustravam a partida em pânico dos inquilinos.

- acho que ninguém permitiu, mas talvez o novo e jovem alcaide tivesse outra
opinião.

- então não vai ser alcaide por muito tempo. que loucura! de qualquer modo, quem é
que vivia aqui, nesta escuridão?

- peço-te que não julgues o alcaide apressadamente, despoina. essa gente veio
morar para aqui por necessidade, não por vontade. a nossa cidade é próspera e o
teu povo aumentou muito, mesmo demasiado.

- o que é que queres dizer com isso? essa gente veio morar para os túneis coagida
pelas famílias?

- não, foram coagidas pelo número. vieram para aqui porque não havia espaço
noutro lugar.

- não podiam construir mais um andar nas casas existentes?

- era o que faziam, mas, depois, isso ameaçava a segurança das casas e não
puderam escavar mais na pouca terra de cultura da concavidade da montanha.

- porque é que não me informaste disso, porphredo?

- talvez te recordes que o fiz, despoina, aqui há... dois anos, acho eu. dedicavas-te,
então, ao estudo da filosofia tantra e não querias que te disturbassem.

- não empregues esse tom de reprovação comigo, porphredo. a minha irmã


comprovou que, se um mortal olhar para ela, ou para mim, com puro amor e sem
receio, não morre. a busca de semelhante amor não merece séculos de estudo?

- e merece, também, a vida de tantos professores?

- eles não estão mortos.

- É como se estivessem, a decorar, como estão, as tuas caves. sabes bem que
nunca os farás reviver.

- numa vida imortal, quem sabe o que eu poderei fazer?

- sim, quem saberá? depois de todos estes anos, ainda odeias euryale, por ela ter
descoberto o que tu não conseguistes descobrir?

- que absurdo! como é que eu posso odiá-la, se foi ela e o seu amante que me
deram alguma esperança? - stheno deu um estalido com a língua. - como cheira mal
aqui! e repara como escavaram estas paredes! um exército inimigo entrava por aqui
facilmente! não podemos permitir isto. essa gente tem de ir para a cidade.

- não pode ser, despoina. não há espaço para os alojar.

- o quê?

- eu já tentei sugerir-te que autorizasses algumas famílias a instalarem-se na aldeia


junto ao rio, no sopé da montanha.

- não posso autorizar isso, porphredo. o crescimento da aldeia seria notado,


induzindo outros a bisbilhotarem a região.

- bem me parece que esta viagem que empreendemos é por causa de alguns que
nos vêm bisbilhotar. nunca conseguimos ocultar-nos muito bem. justamente porque
tu insistes em imiscuir-te nos assuntos externos.

- porque é que eu fui escolher uma velha relha resmungona para companheira de
viagem?

- porque andamos juntas desde crianças.

- uma maldição dos deuses pior do que a de atena.

- esqueces-te de que eu também fui amaldiçoada, despoina.

- ao menos, os mortais podem olhar para ti, embora não lhes deva apetecer muito
olhar para a tua cara de couro que mais parece a de um lagarto.

- não és nada meiga, como sempre - disse porphredo, secamente.

- já que tanto te ufanas da tua sensatez, aponta-me uma solução para instalar essa
gente.

- eu tenho uma solução muito simples...

- e qual é ela?

- mas não vais gostar.

- eu gosto muito pouco do que tu me dizes, portanto, que diferença faz?

- pois bem, o teu palácio ocupa um quarto da concavidade da montanha...

- o nosso palácio! ias instalar essa gente porca e enfezada na minha casa?
- uma das alas do palácio bastava para albergar comodamente vinte famílias,
despoina.

- sim, mas durante quanto tempo iam lá ficar? não iam ter filhos e mais filhos, não
iam levar para lá os animais e os parentes, até eu me ver reduzida a um espaço
exíguo, sem me poder mexer?

porphredo suspirou.

- não terias de perder tanta liberdade...

- ponto final na questão. eu sabia que não devia ter-te perguntado nada. Às vezes
penso que só vives para me arreliares.

houve um ribombar à frente delas, quando o portão exterior se abriu, revelando um


céu coberto de estrelas e fazendo sentir uma brisa com cheiro a deserto.

acho que vivo, pensou porphredo, para te proteger de ti própria.

capítulo iv

salva: esta planta tem umas folhas verdes, enrugadas, e dá umas flores violetas no
final do verão. É considerada uma grande protetora da saúde e, por isso, diz-se que
quem tem salva no jardim está protegido de todas as doenças. a salva contribui,
também, para prolongar a vida. o chá de salva fortalece o fígado e cura a dor de
cabeça. misturado com uma tintura de vinagre evita a peste. como acontece com o
rosmaninho, diz-se que a salva só cresce numa casa governada por uma mulher
virtuosa. outros dizem que a salva reflete a sorte de um homem, florescendo com os
seus êxitos e murchando com os seus insucessos...

ao dirigir-se aos aposentos da despoina, enyo apertou o xale em redor dos ombros
anciãos, protegendo-se do frio da madrugada. o palácio parecia silencioso e vazio.

há apenas três dias que porphredo e a despoina saíram para fora e já isto parece
um mausoléu. porphredo disse-me que ia sugerir à despoina que autorizasse
algumas famílias a instalarem-se aqui. espero que a despoina concorde, para que
estes corredores se encham de risos e de conversas agradáveis, em vez deste
silêncio de morte. até o balir de animais, como as cabras que ela detesta, seria um
alívio.

enyo atravessou rapidamente o quarto de stheno, evitando olhar para a roupa


espalhada, e moedas, e bugigangas. ela é como os pássaros que carregam para os
ninhos quinquilharias brilhantes, sem terem a noção, nem qual o interesse do que
carregam.

enyo parou um momento ao fundo do quarto, com a impressão de que ouvira um


ruído no meio dos objetos espalhados, mas, à luz difusa do archote de junco, nada
viu. algum dos seus animais de estimação, pensou. esteve tentada a afugentá-lo,
pois nenhum dos favoritos de stheno, fosse ele animal ou humano, vivia muito
tempo.
enyo retirou o archote da parede e afastou um biombo encastoado. atrás do biombo
havia uma simples porta de madeira, raramente utilizada. enyo rodou o fecho,
abrindo a porta. na pequena sala escura, sem janelas, onde entrou, havia apenas
uma estátua de gesso de durga, a deusa guerreira hindu, escarranchada num tigre,
cada um dos seus numerosos braços empunhando uma arma manchada de sangue.
a estátua era antiga e o gesso estava estalado, a tinta desbotada e lascada. e, como
era oca, enyo deslocou-a facilmente.

por detrás da estátua, uma escada de pedra poeirenta descia para a escuridão.
segurando o archote com uma das mãos e a saia do sari com a outra, enyo pôs-se a
descer. era ali o antigo coração do palácio, o centro do templo original que já era
muito antigo quando stheno, enyo e porphredo ali haviam chegado, havia já um ror
de séculos. enyo não se lembrava a que divindade o templo fora dedicado. os
sacerdotes locais não se haviam importado quando stheno chegara e tomara posse
do templo, aceitando que o transformasse no seu palácio. para eles, o lugar era
sagrado em si próprio, não importando qual dos avatares da grande deusa ali
habitasse.

enyo, contudo, sentira-se sempre perturbada com o sacrilégio, pois recordava-se


bem do que os invasores haviam feito ao templo da sua aldeia natal e dos desgostos
que isso causara.

a escada de pedra curvava ligeiramente, acompanhando a parede arredondada do


profundo subterrâneo. no final da escada, havia uma sala circular, o chão cheio de
poeira, naturalmente fria e mais silenciosa do que o palácio sobranceiro. ao fundo da
sala havia outra estátua, esta, porém, de pedra, muito mais velha que enyo e que a
própria despoina. pertencera ao templo da aldeia, nos tempos em que enyo,
porphredo e stheno eram simples mortais, vivendo uma vida simples. quando
haviam sido amaldiçoadas e depois fugido, fora a única coisa que haviam trazido,
como recordação do passado.

não era uma imagem elegante. a figura feminina que representava era atarracada,
de ancas largas e seios enormes. a túnica era curta e lisa. a cada um dos lados
tinha um leopardo toscamente esculpido. a cara bochechuda estava aberta num
arreganho, a língua saliente no meio dos lábios grossos. o cinto eram duas
serpentes entrelaçadas e os cabelos eram serpentes. enyo baixou-se e colocou o
archote num buraco de um pilar. depois deixou-se cair de joelhos, erguendo as
mãos, de palmas para cima, em frente da estátua.

- Ó medusa, senhora das feras, que deste o nome à irmã da minha despoina e por
quem ela morreu, tu, por quem eu e as minhas irmãs perdemos a juventude, ouve-
me. poupa a minha despoina à loucura que de novo a ameaça. insufla-lhe sabedoria
para que não destrua, como fez no passado. guia...

- ah, o coração da terra - murmurou uma voz, em sânscrito, ecoando na sala de tal
forma que enyo chegou a pensar que provinha da própria estátua. porém, voltando-
se, viu prabaratma junto à escada, uma mão apoiada à parede.

- assustaste-me, santo homem! - disse enyo. - como é que chegaste até aqui?
- vi a tua luz - disse o velho monge - e segui o som dos teus passos, mas, aqui,
senti-me perdido.

o olhar dele estava fixado na parede de pedra, como se pudesse ver através dela.

- acho que stheno não gostaria de saber-te aqui. isto é um lugar muito privado.

ao ouvir isto, o brâmane voltou a cabeça para enyo.

- ah, os mortais não podem vir aqui?

- não é bem isso, mas stheno tem segredos que não deseja dar a conhecer a toda a
gente.

para que é que eu estou a protegê-la? ele é cego e não pode ver a estátua e a
própria stheno não vem aqui há séculos. o monge voltou de novo a cabeça.

- há aqui outra presença.

enyo pôs-se de pé, olhando em volta, admirada.

- não, estamos sós, santo homem.

- está ali alguém - disse o cego, apontando a estátua.

- oh, é apenas uma imagem. À luz do archote levou-vos a pensar que era um ser
vivo.

- mas fala - disse o monge. rolando os olhos para o céu, começou a cantar
mansamente: - ela, a terra, cujos seios são a floresta e o prado das criaturas vivas,
ela que dá o fogo e acasala com o touro...

- o que é que estás a dizer, santo homem? - exclamou enyo, as mãos a tremer.

- É um veda muito antigo que eu aprendi quando jovem. achais que não é
apropriado?

- não, santo homem, é muito apropriado. a imagem é a da senhora das feras,


adorada pelo meu povo, há muito, muito tempo.

- ah. nunca ouvi falar deste avatar. devo prestar-lhe homenagem?

- não, quer dizer... tenho de perguntar a stheno, quando ela voltar.

- essa imagem parece-se com aquela a quem servimos, não é?

como é que ele sabe, se não vê?

- hum, sim, nalguns aspectos.


o monge, porém, fechara de novo os olhos e murmurava para ele próprio,
balançando. o eco da voz dele circulava de volta para eles, em acordes e harmonias
de acaso, compondo um som que fazia o cabelo de enyo arrepiar-se.

- por favor, calai-vos, santo homem! prabaratma soltou um suspiro.

- ela ouviu-te e vai proceder à renovação que tu desejas. a seu tempo, a seu tempo.

enyo ouvira muitas vezes a despoina pensar em voz alta se prabaratma não seria
louco. será que ele consegue ouvir a voz dos deuses? enyo achou este pensamento
aterrador.

- vamos subir, santo homem!

- em pensamento ou em espírito? mostra-me o caminho, tu, imortal, e eu sigo-te.

- vamos subir de corpo e alma, santo homem.

enyo retirou o archote do pilar e, gentilmente, agarrou no braço de prabaratma,


conduzindo-o para a escada. o monge deixou-se conduzir humildemente, mas a sua
mente parecia, de novo, longe dali.

- tal grácil gamo, ela convida o tigre a aproximar-se.

- quem? - perguntou enyo.

- aquela a quem servimos.

enquanto o conduzia escada acima, enyo murmurou:

- os tigres comem os gamos.

- sim, e, com esse sacrifício, o gamo acrescenta beleza ao tigre. e a nossa senhora
patenteia a sua beleza nessa coragem.

enyo fechou a porta de madeira ao cimo da escada.

- stheno não procura a morte, busca o amor. gastou os últimos séculos nessa busca.

- em cáli, a morte e o amor são faces do mesmo todo.

- não pronuncies esse nome! stheno não é semelhante monstro!

- agora não, mas já o foi. e vai tornar a sê-lo. o ciclo está de volta.

- não estará de volta, se eu puder impedi-lo. perturbada, enyo largou o velho monge
e afastou-se a correr.

o padre antónio gonsção entrou na tenda do mirzá akbarshah, seguido pelos três
soldados goeses, pelo irmão timóteo, pelo irmão andrew e por tomás chinnery.
tinham sido convidados a partilhar a refeição do meio-dia com o mongol, mas,
embora ao padre lhe agradasse estar protegido do sol, o encontro não lhe
proporcionava grande satisfação.

havia quatro dias que tinham partido de bijapur, quatro dias de poeira e de
enfadonho descampado, no meio de pagãos estrangeiros. gonsção começava a
compreender melhor certas histórias bíblicas e perguntava-se se conseguiria
suportar aquele ordálio, não estivera ele imbuído de um profundo sentido de missão.
e, embora o mirzá parecesse um homem justo e razoável, pertencia a um povo cujos
usos e costumes gonsção não compreendia e a uma fé da qual, desde a infância, o
haviam ensinado a desconfiar.

o mirzá estava sentado no obscuro recesso da tenda, acompanhado pelo seu


ajudante e, para desagrado do padre, pelo desleixado místico sufi. havia mais
soldados mongóis ao fundo da tenda, mas o padre não pôde determinar quantos
eram.

- al saiam alekum - disse o mirzá, inclinando a cabeça.

- walekum ai saiam - retorquiu o irmão andrew.

- que significa essa saudação? - perguntou gonsção em voz baixa ao monge


escocês.

- ele desejou-nos paz e eu desejei-lhe o mesmo.

- ah, mas notei que não se levantou para nos receber.

- talvez os seus homens levassem a mal se ele tivesse essa cortesia para com
heréticos. aconselho-vos a conter-vos, padre.

- assim farei. estou demasiado maçado pelo calor para entrar em discussões.

o mirzá fez um sinal com a mão, indicando os almofadões colocados ao lado de uma
mesa baixa em frente dele. gonsção compreendeu o gesto e, inclinando um pouco a
cabeça, como o mirzá fizera, dirigiu-se para um dos almofadões e, lenta e
desajeitadamente, sentou-se de pernas cruzadas. o que eu não daria para me
sentar numa simples e boa cadeira.

os soldados goeses, joaquim, carlos e estêvão, sentaram-se todos à direita de


gonsção, atirando-se para cima dos almofadões com pesado à-vontade. andrew,
timóteo e tomás sentaram-se à esquerda, com mais cuidado e elegância. gonsção
notou o olhar de simpatia trocado entre o mirzá e tomás, acentuando as suas
suspeitas. dá a impressão de se terem encontrado algures, para além da audiência
com o sultão. mas quando é que terão tido essa oportunidade? terá sido enquanto
eu interrogava a bailarina? e que razão teriam eles para falar?

tenho de perguntar a tomás... mas valerá a pena? não irá mentir-me, como sempre
tem feito?
o mirzá bateu as palmas das mãos duas vezes e entraram umas mulheres com
tabuleiros com refrescos. as mulheres estavam decorosamente cobertas por véus da
cabeça aos pés, mas a roupa era de tecido tão fino, tão transparente que era como
que inexistente. carlos e joaquim chamaram as raparigas pelos nomes, com
comentários brejeiros. gonsção deu-se por feliz pelo fato de os hospedeiros não
compreenderem português.

o mirzá e os seus conselheiros não deram mostras de terem notado. que esperança
de cristandade pode haver para esta terra, quando os homens dão tão tristes
exemplos? gonsção sentiu um toque no joelho.

- padre - disse-lhe o irmão andrew em voz baixa -, por favor cobri os vossos pés nus.
a vista deles pode ser ofensiva para os nossos hospedeiros.

- o que é que eles querem, se nos obrigam a descalçar-nos antes de entrarmos?

gonsção, porém, observou que os mongóis não tinham os pés à vista, tendo,
habilmente, composto a roupa ou sentando-se por forma a ocultá-los. e quão difícil é
ser um bom exemplo, quando os costumes locais são tão incompreensíveis!

as mulheres colocaram em frente dos goeses jarros de água, aromatizada com


limão e cravinho, e travessas com frutos secos e pão ázimo, amassado com cebola
e alho. depois, agarraram em enormes leques de folhas de palmeira e colocaram-se
aos cantos da tenda, a agitar o ar. gonsção não sabia bem se a brisa quente e
artificial, impregnada dos odores dos perfumes das mulheres, tornava aquele
ambiente fechado mais fresco ou ainda mais quente.

- padre, o mirzá pergunta se a viagem tem sido cômoda.

- hum? dizei-lhe, por favor, que as tendas, as camas e os cavalos fornecidos pelo
sultão ibrahim são muito satisfatórios. e que a comida fornecida pelos cozinheiros do
mirzá também é satisfatória e saudável, embora deva dizer que a acho um pouco
condimentada de mais para o meu gosto.

o irmão andrew sorriu e traduziu para o mirzá. os mongóis riram delicadamente e o


sufi falou por momentos.

- o nosso amigo masum diz que as especiarias tornam a comida mais saudável, pois
estimulam o sangue e equilibram o corpo com as influências da terra, do ar, do fogo
e da água.

timóteo endireitou-se e exclamou:

- já o meu avô dizia o mesmo! ele dizia que o alho é muito bom para a saúde e a
pimenta também.

- sim, mas o meu patrão prevenia - interveio tomás - que o abuso de especiarias faz
mal ao estômago e esquenta demasiado o sangue, por isso há que ter cuidado com
as quantidades que se utilizam e em que combinações.
enquanto o irmão andrew traduzia isto para os mongóis, o espírito de gonsção pôs-
se a vaguear, como era sua tendência desde que o haviam feito reviver. era como se
o espírito estivesse mal colado ao corpo e tivesse dificuldade em concentrar-se no
de somenos importância. por isso, não tinha a noção de quanto tempo passara
quando o irmão andrew lhe falou, de novo, ao ouvido.

- padre, estais a ouvir-me? o mirzá colocou uma questão importante.

- o quê? desculpai-me, estava a pensar noutra coisa. repeti-me o que ele disse, por
favor.

o irmão andrew suspirou, cheio de paciência.

- ele observou que estamos na estrada há três dias e que está pronto para enviar os
batedores à nossa frente, mas precisa de saber que referências há que procurar e
em que direção. e espera que tenhamos alguma informação a esse respeito.

- oh! - gonsção fez o possível para não olhar na direção de tomás. pousou
lentamente a chávena de porcelana que tinha na mão, pensando que não podia
divulgar o quanto, ou o quão pouco, realmente sabiam. - a nossa fonte revelou-vos
algumas referências que possamos passar aos nossos hospedeiros?

- a nossa fonte - disse o irmão andrew, olhando em frente - não tem sido mais aberta
comigo do que convosco.

- então, acho que temos de dizer ao mirzá que, por enquanto, nada temos para lhe
oferecer.

- padre - disse o irmão andrew, em voz baixa, mas firme -, por favor, não lhe
podemos dizer isso! vamos mentir-lhe, se necessário, mas não podemos fugir dessa
forma à solicitação do mirzá. isso só iria acrescentar suspeição.

gonsção notou que um sorriso começava a desenhar-se na cara elegante do mirzá,


a condizer com o sorriso já bem aberto na cara do ajudante.

- sim, tendes razão. eu sei como o silêncio ou a esquiva causam desconfiança. pois
bem, deixai-me pensar.

gonsção fechou os olhos e tentou visualizar o mapa que o feiticeiro de cartago


desenhara, lamentando não ter perdido mais tempo a estudá-lo, enquanto o tivera
na sua posse. mas como é que eu ia pensar que o inglês mo iria roubar no meu leito
de morte?

o mapa era muito simples, consistindo apenas em três pontos, umas linhas sinuosas
e uns símbolos aos cantos. colocado de certa forma, via-se claramente que uma das
linhas era a costa da índia e que um dos pontos representava goa. o inglês
acrescentara a informação de que o ponto do meio era bijapur. com essa orientação,
o terceiro ponto ficava para sul e para oeste, noutra linha sinuosa. outra costa?
gonsção não sabia e não queria parecer um tonto ou um mentiroso aos olhos do
mongol. e não podia consultar tomás, pois iria denunciar o membro importante e
indispensável da expedição.

enquanto sentia a impaciência crescer à sua volta, gonsção recordou os símbolos


inscritos no mapa. o símbolo do canto inferior esquerdo era uma coroa, donde
irradiavam quatro linhas azuis. o irmão timóteo dissera que o símbolo fazia lembrar
uma certa divindade hindu...

- timóteo, recordas-te do símbolo que te mostrei no mapa de de cartago, aquele que


era uma coroa com quatro linhas azuis? o que é que te fazia lembrar?

- lembro-me, sim, padre. era o símbolo de krishna, o deus do amor. foi a minha mãe
quem me ensinou isso, embora fosse uma boa cristã.

- krishna! - exclamou o sufi, falando depois excitadamente para o mirzá.

- bem - disse o irmão andrew -, devo felicitar-vos, padre. segundo parece, existe um
rio com esse nome que corre ao sul daqui, de oeste para leste.

pelo canto dos olhos, gonsção notou o olhar espantado do inglês tomás para
timóteo. que quer isto dizer? estaremos enganados ou estaremos corretos?

- o mirzá pergunta o que devemos fazer em relação a esse rio.

- dizei-lhe que devemos continuar para sul e para leste até o encontrarmos.

- e depois?

- depois diremos o resto, quando lá chegarmos.

- padre...

gonsção soltou um suspiro.

- dai-lhe a entender que o nosso grupo... se encontra dividido quanto ao que lhe
devemos revelar e quando. dizei-lhe que eu preciso de tempo para vos consultar e
para vos convencer que o melhor é cooperarmos.

- boa táctica, padre. quereis que eu discuta convosco para ser mais plausível?

- acho que já discutimos bastante. dizei-lhe.

o escocês inclinou a cabeça e pôs-se a traduzir, hesitando aqui e ali, com olhares
carregados para gonsção. o mirzá fez uma pausa, cofiando a barba, pensativo,
antes de responder em tom firme e grave.

- o mirzá diz que compreende, mas recorda que o sultão ibrahim recomendou
transparência nas nossas relações, para mútua sobrevivência. com tantos homens a
seu cargo, a paciência do mirzá tem limites e não gostará de ser enganado ou
desviado. não apreciariam nada verem-se perdidos num descampado, depois de tão
longa viagem.
gonsção fez uma vênia.

- dizei a sua alteza que também nós não desejamos ter viajado tantas milhas para
nada. a nossa busca é séria e eu prestarei todas as informações quando me for
possível.

- o mirzá sugere, então, que comecemos a deliberar de imediato, para que ele possa
dispor das informações o mais depressa possível. diz que devemos resolver os
nossos diferendos até esta noite, depois das últimas orações do dia.

- uma palavra, padre, por favor - segredou-lhe o inglês tomás.

o escocês admoestou tomás, no que gonsção presumiu ser inglês.

gonsção agarrou no braço do irmão andrew.

- não, deixai-o falar.

- padre - o jovem fechava e abria os punhos, ansioso -, insisti para que


respondamos amanhã.

- porquê?

- porque... porque o sinal por que esperamos só deve aparecer amanhã. confiai em
mim.

gonsção ficou de sobrolho carregado. o que é que ele terá planeado para amanhã?

- digo isso ao mirzá, padre? - perguntou o irmão andrew.

- sim, vejamos se ele concorda com isso.

antes do irmão andrew ter terminado de falar, ergueu-se um alarido entre os


mongóis, que o mirzá cortou cerce com um brado. quando tornou a falar, as feições
do mirzá estavam carregadas como uma trovoada.

- o mirzá diz que essa dilação é inaceitável. os seus homens já andam impacientes e
ele não os quer impacientar mais. dispomos do dia todo, até depois das orações do
pôr do sol. se, então, não tivermos nada para lhes oferecer, ele terá de reconsiderar
que utilidade temos nós para eles.

- portanto, foi bem claro. - gonsção olhou para o jovem inglês, o qual parecia cada
vez mais pálido. - temos de ir embora e de começar a deliberar de imediato.

- o mirzá dispensa-nos.

gonsção levantou-se e fez a vênia, grato por poder estar de pé. os soldados goeses,
mãos nas espadas, ergueram-se e rodearam-no. o irmão andrew fez um discurso de
agradecimento ou de simpatia. gonsção notou que tomás saía da tenda à pressa e
apressou-se a segui-lo.

- como vedes, tomás, guardar segredos causa-nos dificuldades.

o jovem voltou-se e encarou gonsção.

- aprendestes isso no santo ofício, com a vossa regra do silêncio?

gonsção sentiu a ira a tomá-lo.

- vamos deixar esse ofício da santa madre igreja fora disto. não tereis grande
consideração por mim nem por aqueles a quem sirvo, mas pensai em timóteo e nos
outros goeses que se viram metidos nestes sarilhos que vós desencadeastes. as
nossas vidas dependem da confiança que nos solicitastes. acaso, a vossa também.
dizei-me, pois, que sinal é esse que tanto esperais?

o jovem passou as mãos pelo cabelo cor de palha.

- eu dir-vos-ia se o soubesse, padre, mas eu não sei o que será, nem que forma
assumirá.

- então, como é que reconhecereis o sinal quando ele aparecer?

- eu reconhecê-lo-ei, padre, estou certo disso - disse thomas, metendo-se pelo


acampamento fora.

gonsção voltou-se para o soldado joaquim.

- segui-o e vigiai-o. verificai se ele presta informações ou as obtém de outra fonte. se


nada soubermos até ao fim do dia, teremos de inventar uma mentira plausível.

- sim, padre - disse o entroncado soldado. - mas, se quereis saber, eu tenho-o visto
junto da carroça das bailarinas, embora nunca se dirija a nenhuma das mulheres.
conversa, apenas, com o músico cego, a quem pede para lhe tocar aquelas músicas
horríveis.

- isso é interessante - disse o padre. - tomai, então, atenção a essas visitas e a esse
músico cego.

thomas encaminhou-se rapidamente para a sua tenda, evitando olhar para a carroça
de gandharva. seguia com os braços apertados ao peito como se estivesse frio,
embora o sol lhe escaldasse a cabeça e os ombros. que grande confusão eu armei,
mais inútil do que a teia de uma aranha bêbeda. e se o mensageiro que gandharva
espera não chegar esta noite? que trama posso eu tecer para afastar as lâminas dos
mongóis das nossas gargantas? eu não cheguei a ler o mapa de de cartago e não
conheço as pistas que ele lá inscreveu. em boa verdade, o padre sabe mais do que
eu. eu rezaria a pedir uma orientação, mas não sei a quem.

ouviu passos pesados atrás dele e lockheart a perguntar:


- aonde é que vais, tom?

- para onde não haja sarilhos, se é que existe tal lugar.

- que eu saiba, não - rosnou lockheart. - thomas. - o escocês colocou uma mão em
cada um dos ombros do jovem e, mansamente, fê-lo voltar-se. - tom, eu terei muito
prazer em ajudar-te.

a minha língua tem muita experiência de tramas, como já verificaste. simplesmente,


preciso de um naco de verdade, para com ele lhes amassar um belo bolo. sem
nada, porém, não consigo.

thomas soltou um suspiro.

- infelizmente, andrew, eu não tenho nada para vos contar. estamos à espera de um
mensageiro para salvar aditi, mas não sei quem será, nem quando chegará, nem por
que meios nos enviarão o rasa mahadevi.

- e o músico cego não saberá? talvez fosse melhor eu forçá-lo a cantar-nos uma
canção...

- não! não podemos dar indicações de que ele é a nossa esperança, se não o padre
e os mongóis atiram-se a ele como cães a um osso. não, se o mensageiro não
chegar a horas, então temos de inventar uma história nós próprios, com o pouco que
sabemos.

- pois bem - disse lockheart, soltando os ombros de thomas -, vou preparar-me para
essa difícil tarefa. e peço-te que penses nisso também. temos de ter as nossas
línguas e as nossas mentes afiadas como espadas, para evitarmos as lâminas dos
maometanos.

thomas anuiu.

- sim, eu vou pensar maduramente nisso.

- É o que deves fazer- disse lockheart, afastando-se com uma expressão de aviso
maligno no olhar.

thomas meteu-se na sua tenda, para meditar e esperar as longas e arreliantes


horas.

porphredo escolhia o caminho pela garganta coberta de rochas que levava ao


acampamento do mirzá akbarshah. deixara o cavalo com stheno, pois uma anciã
montada num cavalo podia confundir os mongóis quanto à sua condição e estrato
social. em boa verdade, era para ela um alívio andar a pé, embora em chão
pedregoso. os ossos doíam-lhe em sítios desusados e as costas estavam exaustas.
infelizmente, ter vida imortal não significa ter força eterna. stheno insistira em
galoparem tão rápido quanto a força dos cavalos o permitiam. com as minhas forças,
porém, não se preocupou ela.
o sentinela de turbante na periferia do acampamento mongol parou de repente, ao
ver porphredo aproximar-se:

- quem sois vós? - interpelou.

ficara, obviamente, admirado, ao ver uma alta e elegante velha, envergando um


brilhante sari de seda lápis-lazúli e um xale de prata cravejado de safiras, com uma
pesada bolsa pendente à anca. porphredo inclinou a cabeça e dirigiu-se ao guarda
em persa cortesão.

- perdoai esta humilde mulher que vos perturba a vigia, Ó vós que tendes olhos de
falcão.

o sentinela olhou em volta, tentando ver donde ela vinha e se não haveria mais
gente com ela.

- que desejais, honrada avozinha?

- eu venho redimir uma vergonha, vigia. a minha sobrinha-neta fugiu para se meter
numa carroça de bailarinas que acompanha este exército, com um conhecido
tratante, um músico de vina chamado gandharva. como vedes, venho sozinha, a pé,
em penitência, pedindo a alá, o misericordioso, perdão pela vergonha que ela fez
recair sobre a nossa família. agradecia que me dissésseis onde se encontra essa
carroça, para que eu possa castigar, como merecem, a minha sobrinha e o malvado
músico que a trouxe para aqui.

o sentinela pôs-se a rir.

- ele, o que vigia, é realmente misericordioso, pois, apesar de assim vestida,


conseguistes escapar aos tugues. mas eu conheço o malvado a que vos referis,
honrada avozinha, e sei onde se encontra a carroça onde ele está. não é longe, eu
vou levar-vos lá.

porphredo fez nova vênia.

- isso é muito gentil da vossa parte, meu senhor. agradeço-vos.

era evidente que ao sentinela lhe agradava aquela distração no tédio da vigia e,
enquanto a conduzia à carroça, foi-lhe contando histórias que ouvira acerca do
malvado pagão gandharva.

porphredo notou que gandharva conseguira colocar a carroça na extremidade sul do


acampamento, junto a uma moita de tamarindos. Ótimo, stheno pode esconder-se
ali.

- cá estamos, honrada avozinha. dizei-me o nome da vossa desencaminhada


sobrinha e eu vou buscá-la.

porphredo compôs uma expressão muito séria na cara.


- não vou dizer-vos o nome dela, pois isso acarretaria maior vergonha para a nossa
família. trazei-me o músico, por favor, e eu tratarei com ele.

- como quiserdes, avozinha - disse o sentinela, rindo-se. abriu as portas da garrida


carroça e, num repente, arrastou para fora gandharva.

- eh, escumalha, está aqui uma anciã a quem desonraste! É melhor que te expliques
bem - disse ele atirando o pobre e espantado músico para o chão, aos pés de
porphredo. - aqui está ele, avozinha.

- agradeço-vos e agora ide, por favor. o que lhe vou dizer nenhuma mulher deve ser
ouvida a pronunciar.

com grande risada, o sentinela fez uma vênia e voltou ao seu posto.

- a quem tenho eu a honra de me dirigir? - perguntou gandharva.

- o próprio malvado que eu procurava - exclamou porphredo em persa. - depois, em


grego, acrescentou: - sou eu, porphredo. vejo que a tua reputação se mantém,
desde a última vez que honraste o nosso palácio com a tua presença.

gandharva ergueu-se e fez uma vênia, sorrindo.

- ah, despoina porphredo. É uma grande honra que a mahadevi vos tenha enviado a
vós, a sua primeira aia, para nos trazer o rasa mahadevi.

- mais do que isso, gandharva. stheno vem ela própria administrar a sua dádiva.

gandharva ficou de boca aberta, rodando a cabeça a um lado e a outro.

- a mahadevi? ela está aqui?

- não, por ora está escondida, tem calma. ela quer assegurar a aditi a mais completa
recuperação e quis, também, observar que tipo de exército se dirige a bhagavati. e
eu acho que ela andava ansiosa por vir cá fora.

- ela não pretende travar o exército do mirzá com os seus poderes, pois não?

- espero que isso não se torne necessário. nós temos um plano para os confundir e
desorientar, para que se percam.

o músico suspirou, aliviado.

- isso é muito sensato. ah... há uma pessoa com quem deveis falar. É alguém que
me auxiliou a trazer aditi nesta expedição. É um estrangeiro que anda em busca da
mahadevi e acho que foi amante de aditi. É credor da nossa gratidão.

- está bem, se for só uma pessoa.

- sim, é só ele. conhece o poder do rasa mahadevi, embora ignore a fonte. ele até o
utilizou.

porphredo franziu o sobrolho.

- foste tu que o ensinaste?

- não. parece que aprendeu com um goês chamado de cartago. vós chegais mesmo
a tempo, porphredo. esse estrangeiro precisa de um sinal. os mongóis, acreditando
que os goeses sabem mais do que realmente sabem, exigem que eles lhes digam
onde fica o reino da rainha da vida e da morte. eles precisam de saber alguma coisa
até ao pôr do sol.

- compreendo. chegamos mesmo a tempo. isso oferece-me a oportunidade de falar


com o mirzá e de o afastar do caminho.

- boa idéia! vós ireis ter com esse estrangeiro e ele vai conduzir-vos ao mirzá.

thomas acordou de um sono pesado com a voz de uma rapariga a tagarelar fora da
tenda. parecia tentar falar em grego.

- déspotas! - dizia ela, para depois palavrear sem sentido. aparentemente, o irmão
timóteo andava por ali, pois a voz dele juntou-se à dela.

- tomás, chegou o vosso mensageiro, segundo ela diz. thomas saiu da cama num
salto, abriu a cortina da tenda e viu diante de si uma das jovens da carroça das
bailarinas, ao lado de uma impressionante anciã, vestida com uma vistosa
indumentária azul e prata. a anciã era mais alta do que thomas, era magra, mas com
um porte quase real. thomas pensou que os olhos escuros da sua cara curtida, de
rugas profundas, deviam ter assistido à passagem de séculos.

thomas fez uma vênia à maneira hindu e disse em grego:

- eu vos saúdo, despoina. sois vós o... mensageiro da rainha da vida e da morte?

a anciã inclinou a cabeça e disse:

- eu sou porphredo, aia daquela a quem chamam mahadevi. o doce grego que ela
falava era idêntico ao de um nativo,

embora com um acento estranho.

- chegais mesmo a tempo. sois, acaso, uma parente de aditi? um sorriso irônico
assomou aos lábios finos da mulher.

- não, não sou, embora a tenha ajudado a criar.

- ah! - thomas sentiu-se momentaneamente sem palavras, tão impressionante era a


contenção dela.

porphredo observou thomas de alto a baixo, como se o medisse.


- vós sois do norte, não é?

- sim, despoina. de uma cidade que os romanos chamavam londinium.

porphredo ergueu o sobrolho.

- estais muito longe de casa!

- na verdade, despoina, muito longe.

- dizem-me que vos devemos agradecer por terdes salvo aditi.

- eu fiz o que pude para que ela possa reviver. a anciã aquiesceu com a cabeça.

- sereis recompensado por isso.

joaquim surgiu, olhando espantado para a visitante.

- quem é esta velha bruxa? - perguntou ele no seu latim acadêmico. - parece um
lagarto com forma humana.

os olhos negros de porphredo brilhavam, quando respondeu em latim romano:

- tendes, em parte, razão, centurião, pois eu fui, de fato, transformada.

- ai!... - exclamou joaquim, recuando, espantado.

- esta senhora é o mensageiro que eu esperava, joaquim


- disse thomas - e deveis tratá-la com respeito, pois vai ajudar-nos a encontrar a
rainha da vida e da morte.

joaquim retirou o elmo e fez uma vênia à exagerada maneira goesa.

- perdoai-me, domina. a minha boca, por vezes, é mais rápida do que o meu
pensamento.

- ficai tranquilo, centurião, já me têm chamado coisas piores.

- se quereis ter a bondade - disse thomas, voltando a falar em grego -, vou dizer-vos
o que peço como recompensa. o mirzá que comanda este exército exige que o
nosso grupo o informe da localização da vossa cidade escondida. não me interessa
que lhe digais a verdade ou não, mas ele tem de ouvir alguma coisa que seja
convincente, caso contrário receio pelas nossas vidas. se vos dispusésseis a fazer
isso, ficar-vos-ia muito grato.

a anciã aquiesceu com a cabeça.

- eu estou informada da vossa situação e terei muito prazer em falar com o


comandante mongol.
thomas suspirou, abençoando interiormente gandharva e todas as fadas. finalmente,
o mirzá vai obter informações e nós deixaremos de estar em perigo. uma vez mais,
tenho mais sorte do que mereço, mas, ao menos, ninguém morrerá por minha
causa.

thomas voltou-se e viu timóteo ao lado dele, a boca aberta de espanto.

- sede bem-educado - disse-lhe thomas - e cumprimentai domina porphredo que nos


vai salvar a vida.

timóteo apontou para porphredo e exclamou:

- vós sois a do dente!

a anciã ficou rígida por momentos, depois disse, com um sorriso severo:

- então tem cuidado, não te morda eu, meu atrevido. thomas agarrou calmamente no
braço de timóteo.

- deixai-vos de criancices. se quereis ser útil, ide procurar o padre e o irmão andrew
e dizei-lhes para se dirigirem à tenda do mirzá.

- mas, tomás!

- ide, por favor.

lançando um último olhar aterrado à anciã, timóteo escapou como um coelho.

thomas abanou a cabeça e voltou-se de novo para a visitante.

- a tenda do mirzá é para ali, domina porphredo. vinde, por favor.

porphredo inclinou a cabeça e acompanhou thomas, dizendo, em voz baixa:

- vamos fazer reviver aditi esta noite. gandharva disse-me que sois boticário e que já
utilizastes o rasa mahadevi. podeis, pois, ajudar-nos?

- terei muito gosto em fazer o que puder para ajudar disse thomas. - permiti que
apresente as minhas desculpas pelo comportamento do rapaz, mas não sei o que
ele queria dizer.

- não sabeis? - exclamou a mulher, de novo observando-o atentamente.

- não, não sei. ele é um rapaz muito imaginativo, neto de um grande boticário. É
inteligente e muito prestável, mas eu não compartilho muitas das coisas em que ele
acredita.

porphredo inclinou a cabeça, dizendo:


- É uma atitude prudente, não acreditar em tudo o que se ouve.

capítulo v

feto: esta planta tem uma fronde verde, muito comprida, com sementes douradas
por baixo. cresce melhor em lugares úmidos e sombrios. chamam-lhe, também,
corno de veado e erva de são cristóvão. dizem que, na véspera de são joão, o feto
dá uma flor dourada que nos pode conduzir a um tesouro. o chá da raiz de feto alivia
as dores de cabeça e do peito. uma cataplasma de folhas de feto cura as
queimaduras e as feridas. as bruxas não entram num quarto com raiz de feto
escondida, embora a gente do norte acredite que o feto dentro de casa dá azar. os
galeses acreditam que usar folhas de feto faz uma pessoa perder-se e ser
perseguida por serpentes...

o mirzá ali akbarshah regressava rapidamente à sua tenda.


- É como vos digo, meu senhor - dizia-lhe jaimal, caminhando ao lado dele -, estes
infiéis têm tanta coragem como os cachorros. basta ladrar-lhes bem alto e logo se
calam.

- ou isso ou o meu ultimato induziu-os a resolver os diferendos entre eles - disse o


mirzá. - eles tinham-nos apanhado desprevenidos. e eu esperava que eles
aguardassem até ao fim do prazo, para depois das orações do pôr do sol.

- meu senhor, agora estamos preparados para qualquer tipo de artimanhas. eu tomei
a liberdade de esconder algumas espadas na vossa tenda, para o caso de
precisarmos delas.

o mirzá estacou e ia admoestar o ajudante, mas, depois, reconsiderou.

- fizeste bem, jaimal, embora ache que os goeses não se atreveriam a tanto.

- quem sabe o que homens desesperados são capazes de fazer, meu senhor?

- tens razão - disse o mirzá, mirando jaimal um momento, antes de recomeçar a


andar.

baixou a cabeça aos guardas que lhe abriram a cortina da tenda e entrou. o grupo
completo dos goeses aguardava-o lá dentro, em pé, rodeando alguém vestido de
azul.

masum também já lá estava, erguendo-se ao ver o mirzá entrar.

- meu senhor - disse ele, os olhos a brilharem -, chegou um mensageiro


surpreendente.

- um mensageiro? que tem ele a ver com a cooperação dos ocidentais?

- muito, meu senhor. ides ver.

o mirzá sentou-se no seu coxim, no centro da tenda, e encarou os goeses, a mulher


no meio deles quase lhe retirando a respiração. não pela sua beleza, pois a cara
comprida, profundamente marcada, mais parecia a de um camelo. não pela
indumentária, embora o sari fosse da cor azul dos lagos de montanha de caxemira e
o xale fosse de prata brilhante, incrustado com pedras preciosas. os olhos, porém, e
o seu porte patenteavam sageza e autoconfiança. o mirzá apercebeu-se de que se
encontrava na presença de alguém fora do comum.

com suave gracilidade, surpreendente numa pessoa tão idosa como ela, a mulher
ajoelhou e fez uma vênia tão pronunciada que a testa quase tocou o tapete
estendido no chão.

- ao grande xá do norte, que serve o califa imperador akbar, sobre quem recaiam as
bênçãos de alá, o bem-amado, a minha soberana, a imortal rainha stheno,
conhecida como a mahadevi, guardiã dos segredos da vida e da morte, envia
saudações.

- ela fala como uma begum - segredou jaimal.

- sim - admitiu o mirzá.

a voz da mulher tinha o som cavo da idade, mas não o tremor. falava no singular
persa cortesão do tempo do seu avô e o mirzá, por momentos, imaginou que fosse
alguma princesa perdida do palácio de babur, louca e vagueando no descampado.

- sois bem-vinda, senhora, à minha humilde morada do deserto. se a vossa rainha é


quem vós dizeis, então, a vossa presença aqui é um milagre, pois o meu imperador
enviou-me, justamente, em busca de uma begum com essa descrição. dizei-nos, por
favor, o vosso nome e de onde vindes.

a mulher sentou-se sobre os calcanhares dos pés com sandálias e olhou para ele
com os olhos calmos, negros.

- o meu nome é porphredo, grande mirzá al-ghazi, e venho de bhagavati, o reino


oculto na montanha. É lá que a minha monarca, rainha da destruição e da
ressurreição, tem a sua corte. ela observa a vossa vinda desde há muito e, tal tímida
virgem perseguida por ardente apaixonado, o seu coração lateja com os muitos
obstáculos que tivestes de vencer por sua causa. por isso, tal virgem conquistada,
deseja receber-vos na sua companhia e conceder-vos um relance de olhos ao que
tão bravamente ganhastes.

o mirzá retorquiu:

- a sua mensageira fala mui agradavelmente. estamos lisonjeados e honrados com


as saudações da vossa rainha.

- grande mirzá - segredou-lhe masum, à sua esquerda -, lembrai-vos da história que


o guardião do túmulo do shahid sem nome nos contou? como o seu antepassado
recebera a visita de uma mulher como esta, que lhe trouxe a relíquia do santo?

- não quereis sugerir que se trata da mesma, pois não? perguntou o mirzá.
- não sei, mas ela fez-me recordar a história.

- meu senhor - segredava-lhe agora jaimal à sua direita.


- reparai como o de cabelo amarelo está radiante com ela, como se a tivesse
conjurado. e o rap
az olha espantado para ela como se ela fosse um gênio. o padre e o chamado lakart
olham para ela suspeitosamente. eles não estão de acordo a respeito desta mulher.
podem, muito bem, tê-la ido buscar à carroça das bailarinas, disfarçando-a, para nos
iludir.

- eu estou atento a essa possibilidade, jaimal. depois, em voz alta, disse para a
mulher:

- eu não desejo ser descortês, sábia anciã, mas o meu ajudante chama-me a
atenção para o fato de que vindes sozinha, sem comitiva real e na companhia de
homens que têm boas razões para nos enganar. temos por vezes deparado, nas
nossas andanças, com gente ardilosa que tenta impingir-nos histórias falaciosas.
desculpai, por isso, a minha natureza desconfiada, mas seria interessante que nos
apresentásseis alguma prova de que sois quem pretendeis ser.

a mulher baixou a cabeça, concordando.

- não há desonra no vosso pedido, poderoso príncipe. a minha própria rainha tem
espalhado mentiras, para manter secreta a localização do seu reino. mas não me
enviaria aqui sem nenhuma prova dos seus poderes.

a anciã ergueu-se e retirou o saco de seda pura que trazia à anca, colocou-o à sua
frente e abriu-o, revelando um mangusto no seu interior. o bicho tinha os olhos
fechados, as garras encolhidas junto ao peito. parecia estar morto.

a mulher tornou a sentar-se e disse:

- este pobre animal morreu há umas horas da mordedura de uma serpente, mas,
pelos poderes da minha rainha, vai voltar à vida. se desejais, examinai-o mais de
perto, para confirmardes que está realmente morto.

dizendo isto, pegou suavemente na carcaça revestida de pelagem acinzentada e


estendeu-a a jaimal. este franziu o sobrolho e tocou ligeiramente no mangusto com
um dedo. depois, agarrou no punhal que tinha à cintura. o rapaz goês, timóteo,
inclinou-se para a frente, a boca aberta numa muda expressão de protesto.

- cuidado - preveniu a mulher -, o animal recuperará melhor quanto menos o ferirdes.

jaimal espetou ligeiramente a ponta do punhal na coxa do mangusto. o animal não


sangrou, nem se mexeu.

- sim - disse jaimal -, acho que está morto.

o mirzá declinou, quando a mulher lhe estendeu o mangusto para ele o examinar.
- basta-me o parecer do meu ajudante.

masum, porém, estendeu as mãos para receber o pequeno cadáver. colocou o


ouvido na barriga do animal e escutou durante algum tempo. depois,
cuidadosamente, ergueu-lhe uma das pálpebras e, em seguida, a outra. com um
suspiro, devolveu o mangusto à anciã, uma expressão triste na cara.

- sim, está morto.

a mulher tornou a colocar o mangusto na bolsa de seda, retirando depois, da faixa


que trazia à cintura, um frasquinho rolhado.

o rapaz goês inclinou-se para o de cabelo amarelo e segredou-lhe qualquer coisa


que incluía as palavras rasa mahadevi. masum olhou para eles intensamente, com
ar pensativo.

porphredo abriu cuidadosamente os maxilares do mangusto e desrolhou o


frasquinho, deitando dele um líquido escuro para a boca do animal. depois, fechou-
lhe de novo os maxilares, guardou o frasquinho na faixa, sentou-se outra vez nos
calcanhares e aguardou.

por longos e silenciosos momentos, nada aconteceu. depois, o corpo do mangusto


estremeceu. os pequenos maxilares começaram a abrir-se e a fechar-se, a linguinha
rosada a sair e a entrar na boca. o animal arqueava as pálpebras e torcia o nariz,
como se tivesse comido qualquer coisa desagradável. lentamente, rolou para se
apoiar nas quatro patas e agitou a cabeça, uma e outra vez. abriu os olhos e
pestanejou. pasmado, olhou para as pessoas ao seu redor. sentou-se nas patas
traseiras e farejou o ar. subitamente, o mangusto deu um salto e, a cauda no ar,
escapuliu-se pela porta da tenda.

a tenda encheu-se de suspiros, de gargalhadas e de bater de palmas. jaimal tinha o


olhar preso na mulher, de boca aberta, espantado. masum balançava o corpo,
sorrindo. o mirzá soltou a respiração, inconscientemente suspensa.

- coisa assaz surpreendente, senhora.

um arreganho de sorriso atravessou a cara de porphredo.

- foi apenas um pequeno exemplo dos poderes da minha rainha. desejais colocar-
me mais alguma questão?

jaimal cofiou a barba e perguntou:

- essas safiras do vosso xale são verdadeiras, senhora?

- ah, sim, são verdadeiras. estas pedras são muito comuns na montanha onde
habito. gostais deste xale? É apenas seda de prata, algumas velhas moedas e
bugigangas, um mero adorno de mulher velha. tomai - disse ela, retirando o xale da
cabeça e dos ombros e estendeu-o a jaimal.
jaimal ficou de olhos abertos.

- oh, não, senhora! eu não posso aceitar um presente tão valioso.

- já vos disse que, para mim, é uma bagatela. lamento não ter trazido mais
presentes, pois tenho em casa muito mais coisas e muito melhores. se achais que a
vossa mulher ou a vossa amada apreciaria este velho xale, por favor aceitai-o e
levai-o com as minhas bênçãos.

segundo o mirzá, jaimal, por cortesia, devia ter recusado, pelo menos, duas vezes.
os olhos do ajudante, porém, brilhavam de ganância ao aceitar, gratamente, o
pesado tecido nos braços, acariciando-o.

masum inclinou-se em frente do mirzá, para examinar uma das moedas incrustadas
na orla do xale, sob o olhar atento de jaimal.

- iskandr! - disse o sufi.

- sim - disse a anciã, com um tom saudoso na voz. as moedas são muito antigas e,
agora, inúteis. desejais saber mais alguma coisa?

- sim, eu tenho uma pergunta, sábia senhora da sábia rainha - disse masum. - quais
são os três dos quais todas as coisas advêm e são os processos por que todos têm
de passar.

o mirzá franziu o sobrolho ao místico sufi. está a colocar-lhe um enigma sufi? o que
é que o levará a pensar que ela pertence à sua seita?

porphredo inclinou a cabeça, o cenho vincado. depois fechou os olhos, ficando


calada um momento. quando reabriu os olhos, sorriu, divertida, e disse:

- pois bem, meu letrado faylasiif, são o uno, o intelecto e a alma do mundo.

masum recostou-se com um suspiro de admiração.

- sois realmente letrada na antiga sabedoria, senhora. porphredo aquiesceu.

- a minha rainha tem orgulho dos seus conhecimentos e dispõe de uma biblioteca
com toda a espécie de pergaminhos e de livros, de todas as partes do mundo.

- ela tem uma biblioteca! - exclamou masum com admiração de idólatra.

o mirzá olhava para a mulher com prudente respeito. ela fascinou habilidosamente
os dois com o que eles mais desejavam. vejamos se consegue responder à minha
pergunta tão habilidosamente.

- eu tenho, também, uma pergunta, generosa senhora. em boa verdade, nós viemos
à procura da vossa rainha na esperança de estabelecermos relações entre o vosso
reino e o do meu imperador akbar. infelizmente, porém, até chegarmos a bijapur
fomos guiados apenas por histórias que íamos ouvindo. o bom sultão ibrahim juntou
a nossa expedição com a dos ocidentais que estão convosco, na convicção de que
eles nos orientariam melhor, e eles conduziram-nos até aqui, a sul e a leste de
bijapur. querereis indicar-nos como chegar à vossa cidade oculta? estamos no bom
caminho?

porphredo fez uma vênia e respondeu:

- eu vim ter convosco, nobre mirzá, porque vós já não estais no bom caminho.
bhagavati fica a sul de bijapur, isso é verdade, mas a sul e a oeste. muitos dias para
sul, onde os gates derivam para leste e se erguem para o céu. É aí que se
encontram as altas montanhas. É para aí que deveis dirigir-vos. aconselho-vos a
não prosseguirdes na presente direção, pois mais adiante encontra-se um grande
descampado, a planície das pedras, cujos bicos afiados podem rasgar as patas dos
elefantes e os cascos dos cavalos.

- os infiéis mentiram-nos - soprou jaimal.

- tem calma, jaimal.

o mirzá notou que lakart traduzia as palavras da mulher para os goeses. o de cabelo
amarelo parecia embaraçado e o padre cristão fitava-o carrancudo. a anciã parecia
um pouco perturbada com a reação deles.

- eles parecem tão surpreendidos como nós.

- devem estar a fingir, meu senhor.

- talvez não. vamos esperar e ver o que eles fazem.

o de nome lakart falava vivamente com o padre e com o de cabelo amarelo. por fim,
voltou-se para o mirzá e disse:

- grande senhor, por favor não penseis que vos traímos ou que vos desviamos do
caminho. se o que a senhora porphredo diz é verdade, há uma explicação muito
simples para o nosso erro. É que este e oeste têm um som semelhante em inglês,
tal como em português. deve ter sido isso que nos iludiu. a nossa outra fonte de
informação era um mapa de um feiticeiro, o qual pode ter sido desenhado
justamente para confundir quem o encontrasse.

- um momento - interveio masum. - e o rio krishna que vós dizeis que estava
indicado nesse mapa? esse rio existe de fato, a sul e a oeste de nós. senhora
mensageira, o que é que nos dizeis acerca disto?

a anciã suspirou, encolhendo os ombros.

- se o feiticeiro queria confundir, fê-lo muito bem. o rio krishna corre da extremidade
oeste do decão para o golfo de bengala. quem pretenda chegar às suas margens
perderá longos e infrutíferos meses, através de uma região inóspita e perigosa. É
possível, já que falais de uma descrição do mapa, que se trate do rio shimsha, o
qual corre a sul e leste da cidade oculta.

o padre cristão olhava agora para a mulher com óbvia suspeição. os soldados
goeses discutiam entre eles. a cara do de cabelo amarelo estava cor de cinza.

jaimal e masum dirigiram-se ao mirzá ao mesmo tempo:

- meu senhor...

- silêncio! - o mirzá ergueu as mãos e olhou severamente para todos. - não há razão
para esta confusão. honrada senhora, presumo que, dado que conheceis o caminho
que devemos tomar e nos trazeis as boas-vindas da vossa rainha, vos disporeis a
guiar-nos?

- sem dúvida. guiar-vos-ei na maior parte do caminho e dar-vos-ei todas as


indicações necessárias para encontrardes a cidade. a minha rainha, porém,
incumbiu-me de várias tarefas. esta é apenas uma delas.

- ah, sim? - o mirzá cofiou a barba e observou-a por momentos, para ver se
descortinava algum traço de incerteza no seu olhar austero. - jaimal - disse ele em
voz baixa -, quero que escolhas quatro cavaleiros e os mandes imediatamente para
sul e para leste. quero saber, amanhã de manhã, se essa planície das pedras existe.

- meu senhor, não será indelicado estar a duvidar da senhora?

queres acreditar nela porque só pensas nas riquezas a que ela se referiu, não é?

- É uma medida meramente prática. se for sensata, a senhora compreenderá.

- mas é evidente que os ocidentais nos mentiram! devemos, de qualquer modo,


mostrar-lhes o nosso desagrado.

- não, jaimal, não o faremos sem provas. por ora, tira-lhes os cavalos. se tentarem
fugir a pé, qualquer dos nossos cavaleiros os agarra.

jaimal baixou a cabeça, assentindo, embora não inteiramente satisfeito.

- como desejardes, meu senhor.

- espero - disse a anciã - que as minhas palavras não vos levem a causar dano a
estes homens que pensais terem-vos desviado do vosso objetivo. verifico que são
de diversas nações e a minha rainha gostaria de saber coisas de terras tão distantes
e tão diferentes. recebê-los-ia de bom grado na sua corte e ficaria desgostosa se
lhes adviesse algum mal em razão da confusão que ela própria provocou.

- mas, minha senhora - disse jaimal -, estes homens são de uma falsa fé e
pretenderam prejudicar-nos.

- pelo que eles me dizem, valoroso senhor - disse porphredo -, acho que não tiveram
essa intenção.
- basta - disse o mirzá, sentindo que era altura de acabar com discussões e de
refletir tranquilamente. - está a chegar a hora das nossas orações e precisamos de
tempo para as preparar. tu, jaimal, farás o que te ordenei. e vós, masum, tratareis de
mandar preparar um alojamento cômodo para a nossa guia. tornaremos a falar esta
noite, se necessário. ou amanhã. agora, ide-vos e deixai-me só.

ai, que fiz eu?, pensava porphredo enquanto se erguia, as costas a doerem-lhe.
devia ter pensado que o plano de stheno podia prejudicar o salvador de aditi. tenho
de arranjar forma de que ele, ao menos, seja poupado, mesmo que não possa salvar
os outros. com que problemas a minha despoina me enfrentar a minha há muito
desaparecida irmã deino não teria dúvidas em sacrificar os europeus. enyo
sacrificava-se primeiro a ela própria, coitada. mas eu, como é que vou desatar este
nó górdio?

o padre goês olhava carrancudo para ela, agarrando pelo colarinho o rapazinho
goês, boquiaberto.

- deus tenha piedade de ti! - dizia ele em latim, num tom que soava mais a uma
maldição do que a uma bênção.

o padre saiu, arrastando o rapazinho, que protestava. tamaschinri aproximou-se dela


com uma expressão triste na cara.

- agradeço-vos, despoina, terdes tentado defender-nos, mas receio que as vossas


palavras façam recair mais suspeitas sobre nós.

- as minhas desculpas - disse porphredo -, mas eu fiz o que devia. e vou fazer tudo o
que puder para que não sejais prejudicado. contai a gandharva o que aconteceu e
não faleis mais comigo, para não levantar mais suspeitas.

- sim, despoina.

o jovem fez-lhe uma vênia e saiu da tenda.

o corpulento ocidental de cabelo preto aproximou-se dela e fitou-a, em silêncio. que


mistura de emoções nesses olhos, pensou porphredo. raiva e ódio. talvez fale latim,
como o padre.

- inimica tua non sum - disse-lhe ela.

- videbimus - respondeu ele.

o sufi foi ter com ela, na cara uma expressão maravilhada e de regozijo. inclinou-se
perante ela e disse-lhe, num persa de poeta sufi:

- Ó sábia e generosa senhora, vou ter a honra de vos conduzir a um lugar cômodo e
de vos oferecer a humilde hospitalidade de que dispomos. tudo o que precisardes ou
que vos seja agradável basta pedirdes e eu tudo farei para vos satisfazer.
porphredo não pôde evitar um sorriso.

- sois muito gentil, bom faylasuf, para quem não passa de uma modesta mensageira.

- nós, os crentes - disse o sufi com um piscar de olhos de conivência -, temos em


grande consideração os mensageiros. agora, se quereis fazer o favor de me
acompanhar, senhora...

- mas, padre, eu sei quem ela é. ela é uma das anciãs!

- caluda, timóteo! - exclamou o padre, mais rudemente do que pretendia. estavam a


pouca distância da tenda do mirzá e gonsção olhou em redor, para se certificar de
que ninguém os ouvia. - sim, eu sei que a bruxa vem do sítio que nós procuramos,
mas isso não quer dizer que acreditemos nela, ou demos ouvidos às suas mentiras.

- o senhor de cartago também era um mentiroso!

- mas tinha muito menos que proteger, meu filho. não, esta criatura veio aqui porque
nós estamos muito perto da cidade sagrada da sua rainha e quer afastar-nos de lá. o
que eu gostava de saber é onde é que tomás a foi descobrir e por que é que ele
acha que ela nos pode salvar.

os três soldados goeses aproximaram-se e rodearam nervosamente gonsção e


timóteo.

- padre - perguntou carlos -, o que é que vamos fazer?

- eles levaram-nos os cavalos, padre - disse estêvão. nada pude fazer. a minha
esperança era escaparmos de volta a bijapur, mas, agora, nada feito.

- nós somos os vossos homens, padre - disse joaquim -, mas somos apenas três e,
sinceramente, mesmo lutando pelas nossas vidas, não duraremos muito.

- calma, calma, tranquilizai-vos - disse gonsção. - apesar da sua falsa fé, o príncipe-
general é claramente um homem de paz e não é parvo. eu não acredito que ele
tenha engolido a história da velha bruxa, pois se assim fosse já nos teria
massacrado. esperemos que ele possa provar que ela mente, antes que os seus
homens decidam que não precisam de nós.

- ela tentou ajudar-nos - disse timóteo, irritado.

- o que só prova que não é parva, pois assim evita que a matemos. de fato, timóteo,
tens muito que aprender acerca do mundo. joaquim, tendes vigiado tomás? acaso
sabeis onde é que ele foi desencantar aquela criatura? joaquim encolheu os ombros.

- ele nunca saiu do acampamento, padre. o único sítio aonde ele vai é à carroça das
bailarinas, e não é por causa das mulheres, como já vos disse. vai lá falar com o
cego tocador de cabaça e ouvir aqueles sons horríveis, e mais nada.

- hum! em lisboa, há pedintes que fazem grande alarde da sua cegueira, do seu
coxear e de outras deficiências, quando, de fato, são tão saudáveis como nós. esse
músico pode não ser o que parece. da próxima vez que tomás se dirigir para a
carroça, segui-o apertadamente, joaquim, e prestai atenção a tudo o que ele faz e
com quem fala. a resposta deve estar aí.

caía a noite, enquanto os maometanos se inclinavam para o sol a pôr-se e o padre e


timóteo rezavam as vésperas na sua tenda. thomas passeava ansiosamente na
pequena área onde se erguiam as tendas dos goeses, aguardando que ficasse
escuro.

por fim, no crepúsculo em que as sombras se dissolviam nas formas que as


produziam, thomas encaminhou-se para a carroça das bailarinas. mal saíra do
círculo das tendas dos goeses, já joaquim estava ao lado dele.

- aonde ides, tomás? thomas soltou um suspiro.

- ah, joaquim, o meu fiel cão de guarda! vou lá abaixo à carroça das bailarinas.
decidi seguir o vosso conselho e vou estar com uma mulher.

- excelente idéia! ainda bem, tomás, pois já estávamos a ficar preocupados


convosco, sempre na companhia de timóteo e mais nada. a que simpática ides
oferecer a vossa companhia?

- ainda não sei bem.

- ah! então é melhor vermos primeiro quem é que está disponível, para não
desapontarmos ninguém. eu vou convosco, tomás, para ter a certeza que vos toca
uma rapariga jeitosa.

- oh, e eu a pensar que vínheis comigo por desconfiardes de mim.

- eu confio em vós, tomás, o padre é que não.

- e, assim, podereis dizer-lhe que eu estive com uma jeitosa?

- ficai tranquilo, tomás, eu não lhe direi nada da vossa aventura. o padre não gosta
de ouvir falar dessas coisas. e não vê com bons olhos as minhas frequentes visitas à
carroça, embora o meu interesse seja apenas confraternizar.

raios o partam, como é que me vou livrar desta peste? ele pode estragar tudo... ou
não? seria ele capaz de se opor à ressurreição de aditi? de qualquer modo, mesmo
que se pusesse a fazer alarido, seria demasiado tarde e tudo estaria resolvido. e
acho que não seria capaz de a matar novamente.

- e se a senhora que eu vou ver for tímida? eu não quero que a afugenteis.

o soldado agitou um braço, como se estivesse a sacudir moscas.

- não vos preocupeis, amigo, todas elas me conhecem e eu posso, até, recomendar-
vos.
- sois muito gentil, joaquim.

- ora essa, então não fomos companheiros no aljouvar? nada é de mais para vós,
apesar de nos terdes guiado mal.

thomas voltou-se para o encarar de frente.

- eu não... oh, não vale a pena. acreditai na velha se quiserdes - disse thomas,
continuando a andar.

para sua decepção, joaquim continuou a segui-lo.

- mas não tem importância, tomás. eu desculpo-vos. aliás, eu sempre tive a noção
de que esta expedição seria um fracasso. não é o que acontece sempre neste
gênero de histórias?

thomas tornou a suspirar.

- porque é que não ficastes em bijapur, joaquim? poderíeis ingressar nas forças do
sultão e, dado que andastes na universidade, alguma coisa teríeis para oferecer na
corte do sultão.

- há uma coisa que se chama cumprir o dever, tomás. mesmo que isso nos conduza
ao inferno. que dever cumpris vós agora, tomás?

- por ora, sigo apenas o instinto e cumpro o dever que me impõe a minha
consciência. bem, cá estamos, mas isto parece deserto.

via-se um único archote, colocado numa estaca na pequena clareira entre a carroça
das bailarinas e uma espessa moita de tamarindos e de palmeiras. o archote
iluminava os elefantes e os pavões bailarinos no tapume lateral da carroça, mas não
se ouviam os risos nem os cantares das bailarinas lá dentro.

- eh, gandharva! - chamou thomas.

o músico cego surgiu por debaixo dos tamarindos, parando junto da estaca do
archote.

- tamaschinri, sois vós?

- boa noite, gandharva - disse thomas em grego. - ouvi dizer que está na altura de
soprar uma brisa fresca neste verão.

- Ó, déspotas tamas, concederam-nos uma grande honra, uma grande honra!

- ele treme como uma noiva virgem - disse joaquim, em latim. - o que é que ele está
a dizer?

- quem mais está aí? - perguntou gandharva, virando a cabeça.


- É o idiota do soldado joaquim - disse thomas em grego. - teimou em vir comigo e
eu não consegui sacudi-lo. acho, porém, que não vai interferir nos nossos planos. eu
disse-lhe que me vinha encontrar com uma mulher e ele insiste em vê-la.

- ah! - exclamou. - então, acho que temos de satisfazê-lo. mas vinde, tamas, vinde
para junto da luz para que eu possa apresentar-vos.

thomas, admirado, avançou para o pequeno círculo de luz em redor do archote.

- apresentar-me a quem? não vejo ninguém.

- ei-lo, despoina, aquele que salvou a vossa filha.

- ai... - ouviu-se um suspiro no meio das árvores e um sussurro como folhas


sopradas pelo vento, embora o ar estivesse absolutamente quedo. - kallikouros. ele
é uma beleza! não admira que aditi o tenha amado.

a voz era doce, melodiosa, e thomas começou a sentir o cabelo a arrepiar-se,


embora não soubesse dizer porquê.

- É essa a senhora com quem vindes encontrar-vos, tomás? ela tem uma voz capaz
de erguer um homem ao céu - disse joaquim.

thomas ignorou-o.

- É a... mãe de aditi?

- sim - disse gandharva. - É a própria mahadevi.

thomas espreitou para as árvores, mas não conseguiu enxergar ninguém. não queria
acreditar que estivesse, de fato, na presença de uma deusa hindu, mas apercebia-
se de que se tratava de alguém notável.

- eu vos saúdo, grande despoina - disse thomas, a voz a tremer-lhe mais do que ele
desejaria. - e congratulo-me por ter podido salvar a vossa filha e trazer-vo-la.

e ficou a pensar se devia fazer uma vênia e de que maneira.

- o cabelo dele brilha como o sol, gandharva - continuou a voz sedutora. - deve ser o
que pra previu. meu savitr. meu krishna.

gandharva inspirou fundo.

- despoina, temos de despachar-nos.

- ah, sim. um momento.

joaquim quase que dançava, balançando de pé para pé.


- eh, tomás, parece que o vosso amigo músico vos arranjou uma beldade. mas não
é nenhuma das raparigas da carroça. e eu não me esqueci da nossa combinação:
eu tenho que vê-la, primeiro.

- por favor, joaquim, já percebestes que não vos menti. agora, sede cavalheiro e...

- bom centurião - disse a voz doce, falando agora no latim antigo que aditi falava -,
de boa mente vos concederia o que pedis, mas é da minha natureza estar velada,
pois nem todos os homens para mim podem olhar. mas, para que fiqueis contente,
vinde e, aqui no escuro, concedo-vos um beijo. ficais satisfeito?

a cara de joaquim abriu-se toda num sorriso.

- vou aceitar essa compensação de muito bom grado, domina.

- muito bem. primeiro, porém, tenho de entregar um presente de amor a tamas.


depois, tereis o vosso beijo.

- ide por entre as árvores - disse gandharva, puxando thomas pelo braço -, ide
buscar o rasa mahadevi.

- sim, vou já.

thomas aproximou-se das árvores mais próximas, vendo apenas a luz do archote a
chamejar nas folhas e sombras no meio de sombras.

- fechai os olhos, meu belo jovem. - a voz soava tão perto que thomas deu um salto.
- e estendei as mãos.

thomas assim fez, mas não antes de ver um braço de mulher, tal serpente, surgir
das sombras. sentiu algo macio e quente deslizar-lhe para as palmas das mãos em
concha.

- posso saber o vosso nome, despoina?

- o meu nome é força. agora, ide acordar a pobre aditi, enquanto eu distraio o vosso
inquisitivo amigo.

- sim, despoina.

thomas afastou-se das árvores tão depressa quanto pôde.

strenth (força). sim, ”stheno” foi a palavra que ela usou. portanto, de cartago não
estava a rezar. estava a dizer o nome dela. a menos que esteja a iludir-me.

- a senhora diz que podeis ir - disse thomas para joaquim.

- e eu vou com todo o gosto. o que é que tendes aí, tomás? thomas olhou para as
mãos e viu um frasco tubular, do mesmo vidro iridescente do frasco de de cartago,
da primeira vez que vira o pó da ressurreição.
- isto... é perfume, julgo eu.

- vinde, meu gentil centurião. espero ansiosa os vossos lábios.

- eu vou, eu vou - disse joaquim, encaminhando-se para as árvores -, mas devo


avisar-vos que sou um mestre a beijar. podeis esquecer o meu amigo, depois de me
experimentardes.

- depressa - segredou gandharva para thomas -, temos de nos despachar antes de


as raparigas voltarem.

- onde é que elas foram? - perguntou thomas, correndo para a traseira da carroça,
gandharva agarrado ao braço dele.

- estão na outra extremidade do acampamento, dançando no aniversário de um dos


oficiais hindus. É uma surpresa para ele, pois só faz anos daqui a uns meses, mas
não conheço nenhum senhor hindu capaz de recusar uma festa.

ao chegar à porta da carroça, pareceu a thomas ter ouvido um lamento vindo das
árvores, mas, parando, de ouvido atento, não distinguiu mais do que o sussurro que
antes escutara. talvez ela ofereça ao afortunado joaquim mais distração do que um
beijo.

- porque esperais? entrai, depressa! - exclamou gandharva. thomas subiu para a


carroça, puxando o músico atrás de si, e depois fechou a porta traseira.

o interior da carroça era uma balbúrdia de peças de vestuário de todas as cores,


embora o rosa e o escarlate fossem as mais comuns. viam-se travesseiros,
almofadões e pequenos tapetes felpudos empilhados aos cantos. cheirava a
patchouli e a sândalo, odores cobertos pelo cheiro pesado e doce a mel. espalhadas
sobre todas as superfícies planas, pequenas lamparinas a óleo. a miríade de
pequenas chamas imprimia à carroça o aspecto de uma capela, embora thomas se
interrogasse quanto ao perigo de incêndio.

ao fundo, encontrava-se uma caixa comprida, sem tampa. thomas dirigiu-se para lá
e espreitou para dentro da caixa. ah, aditi, como estás mudada. a morte não te
quadra. todo o corpo estava envolvido em faixas de linho, exceto a cara, onde
gandharva havia cortado o tecido. o belo rosto brilhava com a espessa camada de
mel.

- depressa - insistiu gandharva. - o rasa mahadevi age melhor enquanto fresco.

- bom gandharva, por favor, ajudai-me, abrindo-lhe a boca, para que eu não erre o
alvo.

- se eu puder.

o músico cego colocou-se ao lado de thomas e estendeu as mãos para dentro da


caixa. cuidadosamente, percorreu com as mãos o rosto de aditi e, quando as mãos
encontraram a posição correta, pressionou os ângulos dos maxilares até que a boca
se abriu ligeiramente.

thomas desrolhou o frasco iridescente e inclinou-o sobre os lábios separados,


esperando ver cair um pó acastanhado. em vez disso, escoaram para os dentes e
para a língua de aditi umas gotas de um líquido de um vermelho-carregado. as mãos
de thomas tremeram e algumas gotas caíram para o queixo.
- isto é sangue fresco!

- sim, o que é que estáveis à espera? - segredou gandharva. - tende cuidado, não o
derrameis!

thomas controlou a mão para a manter firme, enquanto despejou as últimas gotas e,
depois, rolhou rapidamente o frasco, sentando-se nos calcanhares.

- portanto... a mãe de aditi... uma mulher... é a fonte desta miraculosa substância -


disse thomas, ofegando.

- não é uma mera mulher - disse gandharva. - porque é que lhe chamarão sangue
da deusa?

- não me leveis a mal, gandharva, mas, como cristão, é-me difícil acreditar em
divindades pagãs.

o cego riu-se.

- não importa o que acreditais. os meus próprios pensamentos acerca do mundo


mudam todos os dias.

- porque é que ela não acorda? com o padre demorou apenas uns segundos.

- quanto tempo esteve o padre morto?

- não sei. uns minutos, acho eu.

- e a nossa aditi há dias que se foi, tamas. o sangue tem muito trabalho a fazer.

portanto, é como o caso de de cartago, no santo ofício.

thomas fez mentalmente um cálculo rápido e concluiu que aditi estivera morta mais
dois dias do que o infeliz feiticeiro goês, mas estava, nitidamente, muito menos
corrompida do que ele.

o corpo, de repente, estremeceu violentamente.

- ah, ela regressa - disse gandharva.

as sobrancelhas de aditi juntaram-se num franzido e os lábios mexeram-se, num


esforço para falar.

thomas, notando-lhe as pestanas coladas, abriu-lhe suavemente as pálpebras. os


olhos azul-acinzentados fitaram-no, mas não pareceram entender o que viam.

- bem-vinda, meu amor - disse thomas. - estás de volta ao mundo dos vivos.

- ba... ma... ha... hala... hasa... - balbuciou aditi.


- o que é que ela está a dizer? - perguntou thomas a gandharva.
- coisas sem sentido, acho eu. vai levar algum tempo, até recuperar o senso. agora,
deveis erguê-la da caixa, para a mandarmos para casa.

- já? não era melhor esperarmos até ela ganhar forças?

- para corrermos o risco de os outros a encontrarem enquanto está fraca? e se o


padre goês, que julgamos ser o seu assassino, a visse assim?

- tendes razão. não sei o que faria o padre.

- vamos. temos de levá-la à mãe.

thomas debruçou-se para dentro da caixa e colocou os braços por debaixo dos
sovacos de aditi. os ombros ainda lhe doíam, mas tinha recuperado bastante na
última semana e foi capaz, com alguma dor, de a levantar. levando o corpo
enfaixado sobre o ombro direito, caminhou desequilibradamente para a porta da
carroça.

- ba... maha... rãs... rãs... - balbuciava aditi.

- chiu - disse thomas. - calma, meu amor, que vais para casa.

abriu a porta da carroça e espreitou para fora. a clareira continuava deserta e não
havia sinais de joaquim. saltou da carroça e, ajeitando melhor aditi em cima do
ombro, correu através da clareira para as sombras dos tamarindos.

- despoina stheno, tenho-a aqui.

- ah, a minha pobre aditi. trazei-la para aqui, minha beleza.

- onde é que está o soldado que vos pedi para distrairdes?

- foi-se embora.

uma mão agarrou na manga de thomas e arrastou-o para o outro lado da moita. ali,
à luz da lua em quarto crescente, estavam três cavalos, selados e prontos a galopar.

gandharva atravessou também a moita, atrás dele.

- apressai-vos, eu ouvi alguém junto da carroça.

- vós, minha beleza, ides montar atrás dela, segurando-a, para que não caia.

- eu, despoina?

- ela não pode montar sozinha, pois não? além disso, nós prometemos
recompensar-vos e eu sei que correis perigo junto dos mongóis. sereis um dos
poucos estranhos a quem tem sido concedida a honra de entrar em bhagavati.

thomas olhou para trás, para o acampamento, embora não o pudesse ver através
das árvores. o que ela diz é verdade e eu seria um grande parvo se não
aproveitasse esta oportunidade para escapar. não é esse o meu objetivo, escapar
desta expedição? só que, agora, sei que não era uma loucura, pois existe, de fato,
uma fonte do pó maravilhoso e está diante de mim. contudo, afigura-se-me uma
grande cobardia abandoná-los... andrew e joaquim e timóteo. mas o que é que eu
posso fazer por eles, eu que não sou um soldado, nem um diplomata? e o padre
jurou destruir a fonte... esta mulher, e eu não posso revelar-lhes a presença dela.
adeus a todos vós, meus companheiros no caminho do inferno, como joaquim uma
vez disse. adeus, irmãozinho timóteo, que os mongóis vos poupem, dada a vossa
idade. gostaria que vós, ao menos, viésseis comigo. que deus vos conceda melhor
tarefa do que a do santo ofício. que possais ser um grande ervanário como o vosso
avô. mais que de todos, vou ter saudades de vós.

- vem aí alguém - disse gandharva. estremecendo com as dores nos ombros,


thomas ergueu aditi para a deitar de través na sela do cavalo mais próximo. ouviu-se
um estalar de folhas no meio das árvores.

- tomás! aonde ides?

- meu deus! timóteo, que vindes aqui fazer?

não há dúvida que há que ter cuidado ao formular desejos!

- eu segui-vos. ides deixar-nos? ides abandonar-nos?

- quem é esta criança? - perguntou a despoina stheno. thomas distinguia-a agora


bem, uma forma humana revestida de negro, uma sombra escura no meio da noite.

- ele pertence à orlem gor, de goa - disse gandharva. timóteo, de repente, viu stheno
e gritou:

- cuidado, tomás! ela é...

thomas largou aditi na sela do cavalo e estampou uma mão na boca de timóteo.

- sois louco? quereis que sejamos mortos? - segredou ele, asperamente, ao ouvido
do rapaz.

- o que é que lhe vamos fazer? - perguntou gandharva com voz triste.

- ele não pode voltar para junto dos outros - disse stheno. o sangue de thomas ficou
gelado, perante a ameaça velada

na voz dela.

- então, terá de ir conosco - disse thomas desesperadamente. - É apenas um rapaz,


não podeis magoá-lo.

- hum. - depois irrompeu numa gargalhada abafada que arrepiou a pele de thomas. -
talvez eu não só tenha recuperado uma filha, mas ganho, também, um filho. pois
bem, já que a minha beleza o pede, o rapaz vai conosco. vai no cavalo de
porphredo.

- e porphredo? - perguntou gandharva.

- porphredo sabe desenvencilhar-se. não tenho dúvida de que é capaz de roubar um


cavalo e de voltar para casa.

- e vós não vindes, gandharva - perguntou thomas, agora aliviado por ver timóteo a
salvo.

- eu, um cego? só vos iria atrasar. agora fazei-vos ao caminho, antes que apareça
mais gente.

- vamos - disse thomas, tirando a mão da boca de timóteo e puxando-o por um


braço.

- não deveis olhar para ela - segredou-lhe timóteo.

- nem posso. está escuro e ela tem a cara coberta - retorquiu thomas.

- ainda bem.

thomas conduziu timóteo ao cavalo remanescente e ajudou-o a montar. o rapaz


tinha uma bolsa volumosa suspensa do ombro.

- o que é que trazeis aí?

- trago o vosso livro com anotações de ervanária e mais umas coisas. eu, quando
vos vi caminhar para a carroça, logo pensei que nos íeis deixar.

soubestes antes de mim.

thomas ficou um pouco irritado, embora contente por o rapaz não ter de enfrentar a
vingança dos mongóis.

- eu tinha a obrigação de proteger-vos. o que é que o padre vai pensar de mim?

- mas vós estais a proteger-me. e eu irei proteger-vos, também. o que é isso? -


perguntou timóteo, apontando para aditi.

- isto é aditi, a bailarina, que eu tinha perdido em bijapur. estava morta, mas eu fi-la
reviver.

- ela estava morta, tomás?

- quando ela recuperar forças, vai dizer-nos quem a matou.

uma revelação que vai, sem dúvida, partir-vos o coração.


thomas montou com todo o cuidado e ergueu aditi, sentando-a à amazona em frente
dele. aditi arrimou-se-lhe aos braços, tal boneca de pano de tamanho natural.

- estais prontos? - perguntou stheno na escuridão à frente deles.

- estamos prontos - respondeu thomas.

capítulo vi

salsa: esta planta tem umas folhas verdes fendidas e dá umas flores brancas no
verão. o pó obtido da raiz, misturado com vinho, reforça a memória e cura o cérebro.
embora uma humilde erva dos jardins, tem muito mais importância do que parece,
pois já os antigos a consideravam sagrada para os mortos. os gregos e os romanos
ornavam os túmulos com salsa. diz-se que quem assista à caçada da morte não
sofrerá dano se pedir salsa às sombras esparsas. cortar salsa induz desgostos de
amor, e não se deve mudar salsa de um jardim para outro, pois isso pode provocar
uma morte na família...

porphredo levantou-se muito cedo e vestiu-se enquanto os mongóis recitavam as


orações da alvorada. não dormira bem, pois há muito que não se deitava numa
cama estranha, em território estrangeiro. estou habituada à paz e à comodidade.
quando passamos muito tempo no mesmo sítio, estranhamos tudo o resto. não
tinha, contudo, saudades dos tempos em que, ela e as irmãs e as despoinas stheno
e euryale, haviam sido escorraçadas como monstros de todo o lado e forçadas a
viver como ladrões.

enquanto enrolava a última volta do sari em redor do corpo magro e cobria a cabeça
com o resto do tecido, espreitou a alvorada pela cortina da tenda. espero que aditi
tenha voltado à vida e possa apreciar este nascer do sol. espero que tudo tenha
corrido bem. eu bem quisera fazer algo mais do que enviar uma mensagem a
gandharva por uma das suas raparigas, informando-o do perigo que correm os
ocidentais, mas não posso chamar a atenção dos mongóis para ele, pois é muito
mais vulnerável do que eu.

começou a ouvir movimento e vozes em volta da tenda, indicando que as orações


haviam terminado e os soldados mongóis se dedicavam às suas tarefas de rotina.

porphredo sentou-se num dos inúmeros e amplos coxins espalhados na tenda,


ansiando por que lhe servissem uma refeição, quando ouviu passos junto da entrada
da tenda.

- que os encantos desta bela manhã vos cumulem, ó pomba mensageira da grande
begum!

era o sufi masum. porphredo sorriu.

- agradeço-vos e desejo-vos o mesmo, ó mestre entre os poetas. mas que vos traz à
minha porta neste descampado?

- venho trazer-vos um refrigério, da parte do mirzá ali akbarshah, a fim de que


quebreis o vosso jejum e partilheis da sua hospitalidade. posso entrar?

- sim, por favor. eu aguardava, justamente, essa hospitalidade.

- aquele que tudo providencia satisfaz todos os desejos - disse o sufi, entrando,
seguido por dois jovens de turbante.

- isso é bem verdade, bom faylasuf, mas a satisfação pode ser bem maior do que se
espera.

um dos jovens colocou uma terrina fumegante junto de porphredo.

- isso contém toalhas aquecidas em água de rosas - disse masum - para limpardes
as mãos e os pés.

o outro jovem pousou um tabuleiro de cobre com incisões geométricas e uma frase
do corão. sobre o tabuleiro viam-se um gomil de prata e pratos de porcelana com
fatias de banana, de melão, manga seca e salgada e lascas de cana-de-açúcar
mergulhada em gengibre.

masum pegou no gomil e encheu um copo de barro vidrado com um sumo leitoso.

- permiti que vos sirva esta bebida, senhora. É sumo de coco e de manga,
aromatizado com canela e cravinho. até os mais ímpios dos hindus lhe chamam
soma, a bebida dos deuses.

porphredo aceitou de bom grado o copo das mãos de masum, notando como as
tinha quentes. bebeu um gole do sumo refrescante e disse:

- donde eu venho, chamariam a isto um néctar. masum fez um sinal aos dois jovens,
os quais saíram, fazendo a vênia.

- deveis desculpar a modéstia do repasto, senhora, mas estamos num


acampamento de exército e não no palácio do mirzá. e, mesmo isto, há que
agradecer ao sultão ibrahim, que no-lo forneceu. o próprio mirzá confessa que tem
pouca imaginação para estas coisas.

- o vosso mirzá parece ser um homem muito sensato e muito prudente.

- de fato é, senhora, e eu tenho muita honra em servi-lo. contudo, ele é como aquele
que escala uma montanha, preocupado com os rochedos que tem pela frente, mas
sem fazer uma pausa para admirar a beleza da montanha que está a escalar.

- É para isso que estais na sua comitiva? para lhe mostrardes a beleza da
montanha?

masum sorriu, através da barba desgrenhada.

- a minha esperança é levá-lo a dar-lhe um relance. mas não foi ele que me chamou
para o seu serviço. se quereis saber, mas não, desculpai-me. eu não quero ser
maçador, às vezes faço as pessoas perderem a paciência com as minhas histórias.

- eu nunca acho os poetas sufis maçadores, bom faylasuf. sentai-vos aqui ao meu
lado e contai-me a vossa história.

estarei armada em namoradeira? na minha idade? É uma vergonha, porphredo!

masum escolheu um coxim não muito longe dela, embora não demasiado perto, e
sentou-se.

- então é assim. durante sete anos, estudei com um pir chisti, na colina shahpur,
junto a bijapur. aqui há alguns anos, comecei a sonhar, sempre o mesmo sonho
todas as noites, que devia procurar um grande príncipe do norte que me iria levar à
grande sofia. o meu pir ficou tão perturbado com o meu sonho, dia após dia, que,
por fim, disse-me: ”vai! isso é, claramente, um sinal do despertador de que deves
empreender uma viagem. vai à procura desse príncipe para que cessem esses
sonhos perturbadores.” e foi assim que, comendo e dormindo muito pouco, vagueei
para o norte de bijapur e, atentai, um pouco a sul de ahmadnagar fui encontrar o
mirzá akbarshah. sem dúvida que o meu senhor mirzá pensa que eu sou um gato
vindo não se sabe donde e que, por um capricho, decidiu segui-lo.
porphredo, pensativamente, chupou uma fatia de melão.

- os gatos são úteis, pois caçam e matam bichos nocivos.

- em tempos fui soldado - disse masum - e era minha intenção seguir essa carreira,
mas desde que me tornei murid, aprendi muita coisa. posso dizer que me fiz a esta
viagem por amor.

- por amor! - disse porphredo, erguendo um sobrolho. por amor da guerra, ou por
amor de mulheres? não me parece muito adequado num sufi.

masum abanou a cabeça.

- a acepção sufi do amor é muitas vezes mal interpretada. não se trata de um desejo
relacionado com nenhuma coisa terrena, mas sim o iluminado conhecimento do
divino, que se alberga no coração e não na mente. para os sufis, amor é a própria
natureza do poder divino.

- isso é curioso, bom faylasuf, pois também a minha rainha, há muitos anos a esta
parte, se tem dedicado ao estudo do amor. embora de cariz mais terreno.

masum recostou-se e bateu palmas, os olhos a brilhar.

- então, estou na boa via. espero que a vossa rainha, que equilibra nas suas mãos a
vida e a morte, se digne ensinar-me a reconhecer esse amor.

porphredo soltou um suspiro.

- eu não sei se ela vos ensinaria, pois ela é... muito seletiva em relação aos seus
alunos. Ó pobre faylasuf, tens sorte em não te encontrares com a minha despoina,
pois ela ia, decerto, desapontar-te.

- desculpai-me - disse masum, inclinando a cabeça -, estou a ser presunçoso, mas


permiti que eu sonhe sentar-me um dia a seus pés e aprender com a sua grande
sabedoria.

- eu acho, masum, que ela é que poderia aprender convosco.

o sufi corou e riu-se.

- oh, não, de modo nenhum. lisonjeais-me, nobre senhora. É uma pena. de todos os
membros da expedição, este é o único

que apreciaria o conhecimento acumulado em bhagavati. stheno muito teria a


aprender com a sua humildade e gentileza. bom, mas isso não é possível.

- não, bom faylasuf, eu nunca lisonjeio. isso rebaixa o lisonjeado e o lisonjeador.

- apenas quando não corresponde à verdade - disse o sufi, depois acrescentando,


com um suspiro: - mas eu tagarelo por de mais, um defeito que o mirzá
generosamente me suporta, mas não vou pedir-vos tanto. dentro em pouco ele vai
querer falar de novo convosco. gostaríeis de outra forma de entretenimento? não
gostais de música?

- a música é um dos poucos prazeres que, na minha idade, ainda posso gozar -
disse porphredo.

- temos, entre nós, um músico de vina muito talentoso, mas eu também tenho um
modesto talento para a música e acabei, há pouco, de fazer uma flauta que ainda
não experimentei. querereis ter a bondade de permitir que eu a toque para vós.

porphredo reclinou-se nos almofadões, congratulando-se com o raro prazer da


companhia de um homem gentil e interessante.

- de muito bom grado, bom faylasuf.

o padre antónio gonsção acordou tarde, os olhos a piscarem com a luminosidade


que entrava pela cortina da tenda. tinha o hábito de lã colado à pele e a testa
banhada em suor. porque é que timóteo não me acordou?

- timóteo?

não ouviu mais nada senão os berros dos animais e a tagarelice e os gritos dos
homens, uma constante no exército mongol. gonsção levantou-se com um gemido e
viu que a cama de timóteo não estava desfeita. ou o rapaz já se tinha levantado,
enquanto ele dormia, ou não tinha regressado à tenda na noite anterior.

gonsção enxaguou a cara e as mãos numa bacia com água morna. decidiu
dispensar a pesada capa preta e saiu da tenda no seu hábito em tempos branco,
agora quase vermelho-carregado, obra da poeira do decão.

dois soldados, carlos e estêvão, dormiam ainda, junto à tenda. gonsção tocou num
deles com o pé.

- estêvão!

- hum? oh, padre, mãe de deus, que horas são isto?

- uma hora muito tardia para homens que deviam estar de vigia estarem a dormir.

- nós estivemos acordados até muito tarde, padre, preocupados com os


muçulmanos, e não há nenhum homem que se aguente sem dormir.

- está bem, estêvão. de qualquer modo, ainda estamos vivos. não vistes o irmão
timóteo?

- não vi, não, padre. eh, carlos, acorda - exclamou estêvão, dando uma palmada no
ombro do outro soldado.

- ha? o que é que tu queres, grande corno? ai! - com a segunda palmada de
estêvão, carlos sentou-se. - jesus, maria, o que é que foi?

- nós dormimos de mais. e o padre quer saber se vimos o irmãozinho.

- oh, perdão, padre. - carlos saiu da cama de campanha completamente vestido, de


espada à cinta e tudo. - não, eu não o vi.

- estais desculpados. mas onde é que está o vosso companheiro joaquim?

estêvão coçou a cabeça.

- ele seguiu o inglês, como mandastes, padre. eu vi-os dirigirem-se para a carroça
das bailarinas, ontem à noite.

- e não os vistes regressar de lá?

- não, padre. se calhar, ainda lá estão, a dormir, por causa da bebida e da folia.

- e o irmãozinho gosta de se grudar ao inglês - disse carlos -, calhando também lá


está.

gonsção lançou um olhar carrancudo na direção da carroça das bailarinas. se tomás


arrastou timóteo para o deboche... mas algo espreitava na sua mente. gonsção
voltou-se e olhou para o interior da tenda. a bolsa de serapilheira, que continha os
poucos pertences que o rapaz trouxera, bem como as ervas que colhera durante a
viagem, desaparecera. terá ido colher ervas? sem me avisar? a ansiedade
começava a apossar-se dele, como uma sarna. fechou a cortina da tenda com um
gesto brusco e disse para os soldados:

- venham comigo.

notou que vários dos mongóis os observavam, enquanto se dirigiam rapidamente


para a carroça das bailarinas. eles que olhem. se houver traição ou comportamento
suspeito, que vejam que nem todos estamos de acordo.

quando chegaram à carroça garridamente pintada, gonsção bateu no tapume lateral.

- cá para fora! - gritou ele em latim. - timóteo! tomás! joaquim!

houve uma certa balbúrdia lá dentro, a porta traseira abriu-se e apareceram


raparigas escassamente vestidas, a esfregarem os olhos.

- kitne hai? kitne hai? - murmuravam elas.

- onde estão o inglês tomás e o rapaz timóteo? - perguntou gonsção.

embora sabendo que elas não compreendiam o que ele dizia, podia ser que
reconhecessem os nomes.

as raparigas abanaram a cabeça negativamente e puseram-se a falar para ele como


um bando de pássaros desafinados. gonsção tentou espreitar para dentro da
carroça, mas as raparigas tapavam-lhe a vista.

- tomás! timóteo! joaquim! - chamou ele de novo.

- o que é que se passa - soou uma voz de homem, a cabeça do músico cego
surgindo no meio de duas das raparigas.

- vós! - disse gonsção.

surpreendendo-se a ele próprio, agarrou no colarinho da jama do homem e puxou-o


para fora da carroça. encostando o pequeno músico à face lateral da carroça,
gonsção rosnou, em latim:

- eu sei que falas uma língua ocidental. e sei que tomás chinnery esteve aqui. diz-me
o que sabes. onde é que eles estão.

- por favor, sacerdote, não me magoeis! eles estiveram, de fato, aqui os três ontem à
noite, mas, pouco depois, foram-se embora. e eu não sei onde estão!

lentamente, gonsção soltou o homem, admirado com a sua própria raiva. julgava-me
um homem cordato. ter-me-á esta terra de loucura infectado tanto que perca as
estribeiras? terei assim tanto medo da reação dos mongóis? porque hei-de ter medo,
eu cuja alma já atravessou as portadas da morte? ou terei receio de não cumprir a
tarefa que vim de tão longe para levar a cabo?

- ai, padre! - gritou carlos da moita de tamarindos. gonsção deixou-se de meditações


e correu para ele, indo encontrar carlos encostado a uma árvore, com uma cara
horrorizada. o soldado apontava um dedo a tremer para o corpo estendido a seus
pés.

- eu encontrei o joaquim, padre - disse ele num murmúrio.

gonsção baixou-se para examinar o corpo. não fora a couraça e a camisa de


confecção goesa, não seria possível reconhecer joaquim. a cara e o pescoço
estavam cobertos por dezenas de pequenas picadas roxas. a pele era violeta e
branca junto dos orifícios e cinzenta e escamada no nariz e nos lábios, os olhos
leitosos e descoloridos.

- É como se tivesse caído num ninho de víboras - murmurou gonsção.

- serpentes é o que não falta nesta terra, segundo dizem


- disse carlos.

gonsção olhou prestamente para o chão em redor dele, mas não viu nenhuma
serpente, nem ouviu nenhum restolhar entre as ervas.

- possivelmente. terá sido morto pelos mongóis? estarão a querer reduzir o nosso
número? ou será obra da velha bruxa que se diz enviada da rainha imortal? não
acho tomás capaz disto, mas já me enganei a respeito dele mais do que uma vez.
gonsção ergueu-se.

- ide buscar o irmão andrew, se conseguirdes encontrá-lo. e dizei a estêvão para


continuar a procurar tomás e timóteo. acho que, esta manhã, em vez de dizer a
missa, tenho de encomendar uma alma.
o mirzá ergueu os olhos do que estava a escrever, quando masum entrou na tenda.

- espero que a nossa visitante da cidade oculta esteja bem-disposta.

- está, sim, alteza - disse masum com um sorriso largo.

- noto que passastes grande parte da manhã com ela. está com uma expressão
radiante como a de um noivo. espero que uma matrona tão velha como ela não
tenha ousado... o mirzá ouvira falar de sufis tantras que alcançavam o êxtase
religioso por meios mais terrenos do que andar simplesmente em círculos.

- posso perguntar-vos, masum, como haveis passado o tempo com ela?

- de bom grado vos responderei, mui nobre senhor. a senhora porphredo e eu


tivemos uma conversa muito íntima.

- ah, sim. e do que é que falaram?

- falamos de amor, meu senhor.

- de amor? - o mirzá interrogava-se se o que imaginara corresponderia à verdade. -


que gênero de amor?

- de todos os gêneros, meu senhor. ela é muito letrada nisso.

- estou a ver. e achaste-la... agradável.

- muito agradável, meu senhor. tive muito prazer em estar com ela. - masum sentou-
se perto do mirzá e disse-lhe em voz baixa. - ela até apreciou a minha flauta.

- a vossa flauta?

- ela gabou-ma muito e disse que estava admirada por eu conseguir fazer brotar
tanta emoção de um instrumento tão pequeno.

- ah!

a confusão do mirzá foi quebrada por um dos guardas à entrada da tenda.

- meu general, os batedores já regressaram.

- Ótimo. eles que entrem.

entraram sete jovens, parecendo cansados, mas em boa forma, que lhe fizeram a
vênia.

- sentem-se todos e descansem - disse o mirzá. - qual de vós é que vai falar?
- falo eu, senhor mírzá - disse um que estava no meio. o meu nome é sabur.

- estou ansioso por saber, sabur, o que encontraram.

- meu senhor, procuramos por todo o lado e em todas as direções e não


encontramos nenhuma planície de pedras, tal como o senhor jaimal no-la descreveu.
para leste, há uma planície deserta e um rio chamado bhima. para norte e oeste é a
mesma coisa, com uma alta montanha sobranceira ao deserto. para sul, há um rio
chamado krishna. há por ali umas velhas estradas que nos disseram dirigirem-se à
cidade em ruínas de vijayanagar, mas estão todas em muito mau estado.

um dos batedores parecia pouco à vontade e olhava insistentemente para a entrada


da tenda, como se esperasse alguém.

- o que é que se passa com o teu companheiro? - perguntou o mirzá.

sabur olhou para o batedor ansioso e respondeu:

- meu senhor, aquele é rafi. o irmão, mumit, ainda não voltou e está preocupado com
ele.

- para que direção se dirigiu mumit?

- para sul e leste, meu senhor.

- estou a ver. - o mirzá sentia uma crescente preocupação. - bem, mumit ter-se-á
atrasado e deve estar a aparecer.

- por vezes, o silêncio ouve-se melhor do que um grito disse masum, baixinho.

o mirzá fez uma pausa e, depois, disse:

- se não têm mais nada para me relatar, estão dispensados para ir em busca de
mumit. estou muito interessado em ouvir o que ele viu.

sabur inclinou a cabeça e ergueu-se.

- trá-lo-emos aqui logo que o encontremos, senhor mirzá. quando eles saíram, o
mirzá dirigiu-se a masum.

- será possível que a nossa honrada visitante seja menos honrada do que
julgávamos?

a expressão normalmente alegre de masum denotava alguma perturbação.

- meu senhor, eu não tenho dúvida de que a senhora porphredo é quem diz que é.
- lá isso, pode ser, mas semelhante emissário pode ter tantas razões para nos
afastar da sua cidade escondida, como para nos guiar até lá.

masum baixou os olhos.

- isso é possível, meu senhor.

- por favor, fazei saber à senhora porphredo que quero falar com ela outra vez, logo
a seguir às orações do meio-dia.

- assim farei, meu senhor.

enyo carregava um balde de água por entre os carvalhos e os ciprestes, grata por a
sombra deles a resguardarem do áspero sol do meio-dia. sentia-se muito só no
palácio, com porphredo e a despoina ausentes, mas ali, no meio das árvores, enyo
nunca se sentia completamente só. a terra fresca sob os pés descalços aliviava-a e
a água que lhe salpicava os dedos dos pés ao regar as árvores era agradável. e, de
repente, notou que estava a regar os pés de outrem...

- prabaratma! que fazeis aqui? andais a seguir-me?

o velho sacerdote brâmane, sentado a desfiar o seu rosário de contas de safira,


sorriu.

- eu não vos sigo a vós, mas sim aquela a quem vós seguis.

enyo soltou um suspiro. não sei para quê a despoina o mantém aqui? diz com cada
tolice! a deusa da minha terra natal não falaria, certamente, com este hindu que
adora criaturas tão horrendas com caras de animais, ou um monstro como cáli.

- que estais para aí a dizer?

- foi ela que me conduziu aqui. ela disse que era aqui que ia acontecer. aqui, no
bosque da lua.

- que ia acontecer o quê? prabaratma suspirou extasiadamente.

- o redespertar.

o único despertar que enyo ansiava era que o sacerdote recuperasse o senso, se
alguma vez o tivera.

- e quem é que vai despertar.

- ela. o mundo. muitas estradas convergem para o conhecimento de durga e as vias


de muitas almas convergem para este lugar.

- parece que tenho de me preparar para receber visitas?

- sim, sim.
enyo bateu com o pé no chão, arreliada.

- porquê aqui? isto é o nosso jardim privado.

- aqui é onde repousa devidurga. isto é um lugar à parte, uma terra de algures. esta
terra, estas plantas são estrangeiras, não são? que estranhamente belo odor elas
libertam... um pedaço do paraíso de indra desceu à terra.

- regozijo-me por gostardes deste lugar, mas garanto-vos que é apenas um jardim,
com um pequeno lago e algumas árvores bonitas.

- estais a pôr-me à prova, como faz a mahadevi - disse prabaratma, com um ligeiro
sorriso.

- eu nunca seria tão cruel! - protestou enyo.

- ou tão generosa? ela concedeu a esta pobre alma mui belas visões - disse
prabaratma, batendo com a mão na testa.

coisa insólita na boca de um cego, pensou enyo.

- ah, ela está satisfeita - disse prabaratma, apontando para o céu.

mesmo sem querer, enyo olhou para onde ele apontava. por entre as copas de dois
ciprestes, uma pálida lua prateada flutuava no céu azul, curvada num sorriso. enyo
agarrou no balde de água e despejou-o no peito, afastando-se a pensar se não
devia preparar alguns quartos de hóspedes, por precaução.

capítulo vii

hera: esta planta de folha persistente há muito que está imbuída de lenda. para os
gregos era sagrada e representava o deus do deboche. dá sorte à casa onde
cresce, mas ai da casa quando seca e morre. oferecida, quebra as amizades. a hera
não cresce na sepultura de um espírito perturbado. as folhas são boas para cobrir as
feridas, arranhões e queimaduras e o chá feito das folhas é um bom antídoto contra
o veneno das serpentes...

o horizonte ondulava como ar líquido. À medida que o sol ia subindo no céu da


manhã, o calor diluía a pouca força que restava nas pernas de thomas, o qual se
esforçava por não deixar cair a cabeça no ombro de mel de aditi, adormecendo na
sela.

haviam cavalgado quase continuamente desde que haviam partido do acampamento


mongol, apenas com algumas paragens para descansar os cavalos. thomas ficara
surpreendido por nenhuma sentinela ter interferido com eles à saída do
acampamento. por sorte, a misteriosa despoina que os guiava parecia encontrar
facilmente o caminho no escuro. aditi tivera uns espasmos violentos nas primeiras
horas da cavalgada, quase deitando ambos ao chão. contudo, à medida que o
tempo passava parecia ir recuperando o domínio do corpo e, agora, já se segurava
sozinha, o que os braços doridos de thomas agradeciam. ainda não falava, a não ser
esporádicas sílabas sem sentido, mas parecia haver mais vivacidade nos seus
olhos.

ao lado deles seguia timóteo, parecendo ainda mais pequeno montado no enorme
cavalo. também ele deixava pender a cabeça, com súbitos estremeções para vencer
o sono.
os cavalos seguiam a passo vivo através de uma imensa planície, despida de
árvores, que parecia estender-se por muitas milhas em redor. para onde nos levará
a nossa guia no meio deste deserto? thomas observava a mulher que seguia à
frente deles, montada no seu cavalo cinzento-claro, a brisa ligeira e quente a
enfunar-lhe o xale e o sari pretos. só lhe falta a foice, pensou thomas, sonolento.
abanou a cabeça para evitar o rumo que os seus pensamentos tomavam.

- despoina - gritou ele -, falta ainda muito?

a mulher voltou-se um pouco na sela. a brisa fez adejar o véu que lhe cobria a
cabeça e thomas viu de relance o perfil de uma mulher de extraordinária beleza.

- muito para aonde, minha beleza dourada? para a minha cidade oculta?

- para onde possamos descansar e quebrar o jejum, despoina. como podeis ver, o
rapaz está prestes a cair da sua montada e todos nós precisamos de comer e de
uma sombra.

- há uma aldeia aqui à frente onde vamos mudar de cavalos. podeis descansar aí,
mas por pouco tempo.

thomas espiou o horizonte, tentando distinguir a aldeia. pareceu-lhe ver uma


mancha verde-acinzentada à distância, mas era difícil discernir o que era no meio do
ar ondulante.

- achais que devemos apressar-nos, despoina?

- sem dúvida. a minha aia disse-me que o mirzá akbarshah não é nenhum tolo e vai,
decerto, mandar homens em nossa perseguição.

thomas voltou-se para olhar para trás, mas nada viu na extensa porção de planície
que já haviam percorrido.

- não vejo ninguém a perseguir-nos.

- nem tendes que ver. dizei-me, minha beleza, porque é que viestes à minha
procura?

thomas pôs-se a pensar o que lhe deveria contar e se a verdade não o iria tornar
suspeito aos olhos dela. o que é que aditi lhe irá dizer quando tiver recuperado e
puder falar. nem sei se aditi já está suficientemente consciente para se aperceber, se
me ponho a mentir.

- de um alquimista goês, chamado de cartago, eu obtive um frasco de... rasa


mahadevi, como lhe chamam em goa. ele tinha também um mapa que indicava onde
ficava a vossa cidade oculta.

- ber... nar... do - disse aditi num suspiro, tão baixinho que thomas duvidou que
stheno tivesse ouvido.
thomas apertou aditi contra si, para a tranquilizar.

- e quisestes encontrar a fonte donde brotava essa substância, não foi isso? - disse
stheno, uma expressão de mau humor na voz.

- a decisão não foi minha, despoina. eu não teria vindo por meu alvedrio, mas fui
forçado a isso. o santo ofício de goa, a que aditi chama a orlem gor, capturou-nos, a
mim e a de cartago. torturaram-nos e só me libertaram quando lhes prometi que os
guiaria até à fonte.

thomas congratulava-se por estar a falar em grego, pois receava que timóteo o
contradissesse.

- estou a perceber - disse stheno. - eu tenho ouvido falar dessa orlem gor e eles têm
muitas contas a prestar. portanto, há sacerdotes deles a viajar com o exército
mongol?

- apenas um, despoina.

- só um? e foi ele que matou a minha filha?

como é perspicaz nas suas conjecturas! de que poderes disporá esta criatura?

- eu, na verdade, não sei, embora seja possível. tereis de perguntar a aditi, quando
ela puder responder.

- gostaria de ter sabido isso mais cedo. este rapaz que vem conosco servia esse
sacerdote da orlem gor?

thomas sentiu como que uma pedra de gelo a cair-lhe no estômago.

- ele é apenas um rapazinho, despoina. a gargalhada dela foi arrepiante.

- achais que eu iria vingar-me numa criança? nem penseis nisso, minha beleza. ao
arrancá-lo ao sacerdote, estou a salvá-lo de um mau destino, não é assim?

- talvez - disse thomas.

carlos e estêvão transportaram o corpo amortalhado de joaquim para a tenda do


padre gonsção.

temos de enterrá-lo rapidamente, pensou gonsção. É uma pena que não possa
repousar em chão sagrado. apesar dos seus pecados veniais e dos seus modos
irritantes, merecia melhor sorte.

justamente quando ele próprio ia a entrar na tenda, ouviu passos pesados e


apressados atrás dele.

- padre, o que foi? quem é que está ferido? - perguntou o irmão andrew.
dominando a raiva, gonsção voltou-se lentamente para o encarar. o ”irmão” já de
modo nenhum se assemelhava ao frade jesuíta com quem gonsção se encontrara
pela primeira vez, na praça da catedral, em goa. o irmão andrew lockheart
envergava, agora, apenas vestuário nativo no seu corpo enorme e o cabelo e a
barba haviam crescido abundantemente. até usava turbante.

- se gostásseis mais da nossa companhia, irmão - disse-lhe gonsção -, teríeis sabido


quando eu.

lockheart franziu o sobrolho.

- ao suportar a companhia dos nossos hospedeiros, padre, estou talvez a prolongar


as nossas vidas. acabo de saber coisas que nos podem ser muito úteis. mas quem é
que transportaram para a vossa tenda?

- era joaquim alvalanca, que deus tenha a sua alma em descanso.

- joaquim morreu? - lockheart entrou de rompante na tenda e postou-se perante o


corpo. - mas o que é que aconteceu?

gonsção seguira-o e postara-se ao lado dele.

- terá sido picado por serpentes.

- muitas serpentes - disse carlos.

- serpentes? - lockheart agachou-se junto do corpo. caiu num ninho de víboras?

- e de cabeça para baixo - disse estêvão. - as picadas são na cara.

lockheart destapou a cara de joaquim e respirou fundo.

- nunca vi nada assim. devíeis chamar thomas, ele sabe umas coisas a respeito de
veneno de cobras.

- ia precisamente perguntar-vos se vistes o inglês, ou o irmão timóteo, ou se sabeis


onde estão.

- não os vi e não sei onde estão. porquê?

- porque eles não aparecem, irmão. ninguém os viu desde ontem à noite. e os
pertences de timóteo também desapareceram.

- porque é que não me dissestes isso logo?

- porque temos estado ocupados com o pobre joaquim e não conseguimos


encontrar-vos - disse gonsção. - e se quereis saber, para quem prometeu ao pai de
tomás tomar conta dele, bem me parece que haveis descurado a vossa promessa.

a expressão e lockheart endureceu.


- não mais do que vós, a tomar conta de timóteo - replicou, tornando depois a olhar
para o corpo de joaquim. É uma pena que já não tenhamos pulvis mirificus -
murmurou ele. - talvez joaquim soubesse onde eles estão... - lockheart, de repente,
pestanejou e olhou para a entrada da tenda. a velha! ela aplicou o pó no mangusto!
deve ter ainda algum. talvez ela no-lo ceda.

- não! - exclamou gonsção. - proíbo-vos.

o escocês ergueu-se, lentamente, e encarou-o.

- vós... proibis-me... que hipocrisia é essa?

- se fôsseis um verdadeiro crente, compreenderíeis. É exatamente por causa da


minha própria experiência que o proíbo. joaquim alcançou a recompensa que
merecia e eu não vou interferir na vontade de deus.

- mesmo se pudermos saber o destino de thomas e do rapaz?

- isso não é razão para tirar uma alma do reino dos céus, irmão. a nós cabe
encontrarmos as ovelhas tresmalhadas.

- por favor, padre - disse carlos -, acedei ao que diz o irmão andrew. se joaquim tem
a possibilidade de voltar à vida, a mesma que vós tivestes...

- não! vede bem a terrível tentação que esse pó representa - disse gonsção. - não
quero ouvir falar mais nisso, embora tencione falar com a velha, para ver o que ela
sabe a este respeito.

- devemos informar o mirzá - disse lockheart friamente. talvez ele mande uns
homens em busca de thomas e de timóteo.

gonsção aquiesceu. embora começasse a recear que tivesse acontecido o pior, não
ousava pensar que os mongóis tivessem matado tomás e timóteo. o inglês deve ter
fugido, com medo da reação do mirzá às suas mentiras. mas porquê, porquê, meu
deus, levar timóteo com ele?

um grito lamentoso ecoou no ar. não o gorjear jubiloso do almuadem, a concitar os


muçulmanos à oração, mas o berro de um coração partido de dor. sem uma palavra,
os quatro homens trocaram um olhar de pavor. gonsção afastou a cortina da tenda e
saiu a correr, seguido pelos outros.

o mirzá akbarshah também ouviu o grito pavoroso e saiu da tenda para o sol
abrasador. passavam por ele homens a correr, as espadas nas mãos.

- o que foi? - perguntava o mirzá.

- ainda não sabemos - disse um dos soldados - mas vamos saber.

o mirzá caminhou rapidamente na direção para onde os soldados corriam. um


homem, um dos batedores que ele enviara, dirigia-se para ele. o homem correu até
junto do mirzá, a face coberta de lágrimas.

- meu senhor... - gaguejou.

- que se passa, sabur?

- meu senhor, é mumit. nós encontrámo-lo. ele está... é melhor que vades ver.

- pois bem, leva-me lá. ele está morto?

- ah, alá tenha piedade de nós, é preciso ver.

- vamos.

o mirzá seguiu sabur, um pouco para além da extremidade do campo, para sul e
para leste, tendo de trepar a uns rochedos que delimitavam um barranco, no fundo
do qual corria um fio de água. do outro lado do barranco, via-se um grupo de
homens junto de uma abertura nas rochas.

o mirzá e sabur saltaram para dentro do barranco.

- deixem passar sua alteza - dizia sabur, afastando os homens silenciosos.

que terá acontecido?, pensava o mirzá. terá o batedor caído e encontrado a morte
no barranco? era uma grande infelicidade, mas não motivo para tanto alarido...

e, então, o mirzá viu. o batedor rafi estava ajoelhado na abertura, a chorar.

- mumit, meu irmão, meu querido irmão.

diante de rafi estava... uma estátua. a figura em pedra cinzenta de um homem


encostado à parede rochosa, os braços alçados para a frente, em gesto de defesa. a
expressão na cara era de terror, como se acabasse de ver uma grande
monstruosidade.

cuidadosamente, o mirzá abriu caminho para junto do lamentoso rafi. baixou-se e


deu um abraço de simpatia ao batedor. depois ergueu-se e aproximou-se da estátua.
É tal e qual a mão de pedra do túmulo do shahid sem nome. tal como na relíquia do
túmulo, a roupa que estava afastada do corpo era tecido, mas a que estava junto ao
corpo tornava-se imperceptivelmente em pedra, os poros da cara, os cabelos, mais
finamente cinzelados do que obra de escultor. os olhos estavam brancos cor de
pérola. o guardião do túmulo dizia que o shahid fora transformado por alá, para o
proteger da tentação da beleza da rainha imortal, mas, pela expressão que tem na
cara, não me parece que mumit tenha visto grande beleza.

por curiosidade, o mirzá olhou na direção para onde olhava o transformado mumit.
um pouco adiante havia um buraco. foi até lá e examinou o chão e as rochas. havia
cinzas e estrias de fuligem na parede de rocha. alguém acampou aqui. alguém a
quem não lhe agradou ser descoberto.
o mirzá ouvia murmúrios de pavor atrás dele, conversas de maldições e de
feitiçarias. tenho de evitar o pânico. ergueu-se e chamou:

- sabur, esteve aqui alguém. leva dois homens e procura nesta área marcas de
passos ou de cascos.

- sim, meu senhor.


depois, o mirzá dirigiu-se ao batedor lacrimoso.

- rafi, vem daí, temos de tratar do funeral do teu irmão. rafi fechou os olhos num
espasmo de pesar e ergueu-se de um pulo. gritando ”mumit, mumit!”, abraçou a
estátua em que o irmão se tornara.

para horror do mirzá, a estátua desfez-se no abraço do irmão, os braços partidos


pelos cotovelos, as pernas cerradas pelos joelhos. o homem de pedra caiu aos pés
do mirzá, desfeito em bocados.

soluçando, rafi ajoelhou junto do monte de pedras, tocando-as meigamente.

- que fiz eu? que fiz eu?

se algumas dúvidas o mirzá tivesse de que a estátua fora anteriormente um homem


vivo, agora essas dúvidas desfaziam-se, pois, embora certas partes do homem de
pedra se tivessem desfeito em pó, outras partes conservavam a sua forma bem
distinta. aqui via-se uma pedra avermelhada com a forma de um fígado, acolá uma
com a forma de um coração humano. pedaços brancos de mármore conservavam a
forma de ossos. o mirzá já vira muitos homens feridos e mortos em combate,
homens desfeitos em pedaços, alguns por ele próprio, contudo, a visão do demolido
mumit causou-lhe um sentimento de horror como nunca antes havia sentido.

porphredo ficou queda, com o pano úmido junto à cara, quando ouviu o terrível grito.
o que é que terá acontecido? stheno e aditi já devem estar longe a esta hora. espero
que não seja nada conosco.

logo, porém, ouviu passos a correr em direção da tenda e percebeu que as suas
esperanças eram vãs.

- begum porphredo! - chamou masum fora da tenda.

- sim, bom faylasuf, estou aqui. o que é que aconteceu?

- senhora, por favor, acompanhai-me. o mirzá pede-vos para ir ver uma coisa.

porphredo colocou a comprida extremidade do seu sari azul decorosamente sobre a


cabeça e saiu para fora da tenda.

- eu ouvi há pouco um grito. está relacionado com isso? o místico balançava de pé


para pé, as mãos agitadas em arremedos de gestos, as sobrancelhas a erguerem-se
e a baixarem-se, tais lagartas arqueadas.

- É uma coisa espantosa, senhora. um milagre! ou uma terrível bruxaria! eu não sei
como explicar-vos. vinde, o mirzá espera que nos possais esclarecer.

receando saber o que ia ver, porphredo disse:

- pois bem, bom faylasuf, vamos lá ver essa coisa espantosa.


mais certa ficou do que receava, ao ver que o sufi a conduzia para a extremidade
sudeste do acampamento mongol e, depois, para o barranco onde stheno se
escondera a aguardar o cair da noite. junto da abertura do lado de lá do barranco,
estava ajoelhado um homem de turbante, lamentando-se ao pé de um monte de
pedras partidas. entre as pedras, porphredo distinguiu um braço, meio rosto, um pé.
ai, despoina, o que tu fizeste? os anos não te ensinaram a ter mais cuidado?

- ah, sri porphredo - disse o mirzá, aproximando-se dela. - será isto mais um
exemplo dos poderes mágicos da vossa rainha imortal?

porphredo assumiu a sua mais imponente postura.

- eu nada vos posso dizer, alteza, pois não sei o que aconteceu aqui. estou a ver um
homem a chorar junto de uma estátua partida. era alguma preciosidade que
transportáveis? eu julgava que as imagens eram proibidas pela lei islâmica.

o mirzá levou algum tempo a responder, mirando-a com um olhar atento,


perscrutador.

- o meu cavaleiro rafi acha que a estátua era, anteriormente, o seu irmão. embora eu
seja normalmente céptico em relação a milagres e a coisas mágicas, tendo
examinado a pedra, mesmo depois de ter caído e de se ter desfeito, sou levado a
concordar com ele. e pensei que talvez vós, que já nos mostrastes a vossa poderosa
magia, nos pudésseis explicar o que ocorreu aqui.

pensará ele que fui eu que fiz isto?

- a magia da minha rainha é a magia da vida e da sabedoria. o decão, porém, é um


vasto descampado, alteza, e diz-se que muitos demônios e feiticeiros aqui têm a sua
morada.

criaturas que não gostam de ver os seus territórios violados. daí, mais uma razão
para que abandoneis estes sítios, e o mais depressa possível.

de novo, o mirzá tomou o seu tempo antes de responder, pondo-se a cofiar a barba
e a olhar para ela. a incomodidade do longo silêncio foi quebrada quando quatro dos
ocidentais, dois soldados goeses, o sacerdote cristão e o chamado lakart
apareceram, correndo para eles. todos olhando para porphredo com um olhar
suspeitoso.

- meu senhor - disse o que servira de intérprete aos goeses na véspera -, nós
ouvimos alguém a gritar e viemos saber o que aconteceu.

- não é assunto que vos diga respeito - disse o mirzá friamente.

- ah, mas talvez seja, alteza, pois nós viemos, também, para vos dar parte das
nossas aflições. um dos nossos apareceu morto e outros dois desapareceram.

porphredo sentiu o nó que tinha no estômago apertar-se. não, mais não!


o mirzá ergueu o sobrolho e a sua mão largou a barba.

- isso é verdade? como é que o vosso homem morreu e quem era ele?

- era um dos nossos soldados, meu senhor. a morte parece ter sido causada por
inúmeras picadas de serpentes na cara. nós encontrámo-lo junto da carroça das
bailarinas.

porphredo não conseguia esconder como estava chocada. ai, despoina, era
necessário semelhante horror?

- coisa terrível! exprimo-vos o meu pesar.

- isso é muito estranho - disse o mirzá. - na cara, dizeis?

- exatamente. - uma expressão astuta surgiu no olhar do chamado lakart, o qual


olhou para o sacerdote goês antes de perguntar: - senhora porphredo, a magia da
vossa rainha fez reviver o mangusto e já a vi fazer reviver um homem. se dispondes
ainda desse pó espantoso, far-nos-íeis uma grande mercê recuperando o nosso
soldado.

era evidente que o sacerdote goês não sabia persa, pois perguntou ao intérprete em
latim:

- o que é que lhe dissestes? perguntai-lhe por timóteo e tomás!

o intérprete intimou-o a calar-se e insistiu com porphredo:

- que dizeis?

quem são timóteo e thomas! vejamos, havia sete na tenda do mirzá, ontem. quem é
que falta? ah, falta o de cabelo amarelo que salvou aditi. acho que stheno o terá
levado com ela, mas quem é o outro. o rapazinho monge? para que o quererá a
despoina? o soldado goês deve ter tentado impedi-los de partir, fazê-lo reviver está
fora de questão.

- caro senhor, embora a minha rainha tivesse poderes para fazer reviver o vosso
camarada, eu já não disponho da substância para esse efeito. É uma substância
preciosa, como compreendereis, e só me foi concedida uma pequena quantidade.

- ah, que pena... - disse o intérprete.

- sábia begum - interveio masum, o qual se mantivera silencioso todo este tempo -,
dado que a vossa rainha detém o poder da vida e da morte, não será possível fazer
alguma coisa por aquele cujos restos partidos jazem aqui?

porphredo olhou para os restos da estátua. quanto a isso podia responder


sinceramente.

- se, como dizeis, a estátua era anteriormente um homem, seria possível fazê-lo
reviver se estivesse inteiro. porém, como se encontra, já grande parte se perdeu.

- mesmo se nós... - masum procurou as palavras - compuséssemos tudo de novo.


porphredo abanou a cabeça.

- era muito duvidoso. teríeis de encontrar tudo, até à mais ínfima parte, pois se
faltasse um pouco do coração ou do cérebro... ele não sobreviveria muito tempo.

- para uma rainha com grandes poderes de vida e de morte - disse o encorpado
intérprete sardonicamente - a vossa rainha parece topar com sérias limitações à sua
capacidade. porphredo foi impedida de dar uma réplica severa por aparecer um
cavaleiro que se dirigiu a eles.

- senhor mirzá, descobrimos marcas de cascos, dirigindo-se daqui para a carroça


das bailarinas. três cavalos, julgamos.

três?, pensou porphredo. portanto, levou também o meu. sirvo-a há séculos e, no


entanto, não pensa na minha segurança. não passo de uma escrava que se pode
deitar fora.

- sabes dizer-me há quanto tempo esses cavalos partiram? - perguntou o mirzá.

- vimos bosta de cavalo com algumas horas, meu senhor. os cavalos devem ter
partido durante a noite.

- portanto - disse o mirzá, dirigindo-se ao intérprete apresento-vos as minhas


desculpas. segundo parece, os nossos dramas estão ligados. será o de cabelo
amarelo um feiticeiro? será ele o responsável por isto - o mirzá apontou para os
cacos de pedra humana espalhados no chão - e pela morte do vosso soldado?

- thomas é um simples ervanário, meu senhor, incapaz de magoar fosse quem fosse.

- não obstante, desapareceu e dois homens foram mortos de maneira muito


estranha. diz-me - interpelou o mirzá o homem a cavalo -, vocês viram marcas de
cascos a partir da área da carroça das bailarinas? e sabes dizer-me em que
direção?

- foi difícil, meu senhor, mas pareceu-nos ver marcas de cascos dirigindo-se para
sudeste.

porphredo teve de dominar, de novo, a sua contenção.

- senhor - disse o chamado lakart -, peço-vos que me deixeis seguir essas marcas.
enviai, se quiserdes, alguns dos vossos homens comigo, mas cedei-me um cavalo e
permiti que eu vá em busca do meu conterrâneo.

o mirzá olhou para ele e, depois, aquiesceu.

- melhor do que isso, eu próprio irei convosco. porphredo interveio.


- alteza, isso é muito perigoso. peço-vos que reconsidereis.

- ela tem razão - disse o intérprete -, não há necessidade de abandonardes os


vossos homens...

- eu decidi, está decidido!

voltando-se para o homem a cavalo, o mirzá disse-lhe:

- arranja-me dois cavalos velozes e mais dois homens para virem conosco.

a súbita cacofonia de vozes gritadas em redor dela fez com que porphredo se
sentisse só, no meio de um remoinho humano:

o mirzá a afastar-se, dando ordens, o intérprete e o sacerdote goês discutindo um


com o outro, os mongóis tentando dissuadir o seu general ou oferecendo-se para o
acompanhar.

então, soou a voz mansa de masum junto dela.

- begum porphredo, tenho ordens para vos acompanhar de regresso à vossa tenda.

onde vou, sem dúvida, ficar prisioneira. devo estar demasiado velha, para falhar
tanto neste jogo. vou precisar de toda a esperteza que me resta para arranjar
maneira de escapar daqui.

- compreendo, bom faylasuf, e obedeço.

o mirzá akbarshah encaminhou-se para a sua tenda, não dando ouvidos aos que se
lhe dirigiam. recordava-se bem do conselho que o pai lhe dava, nas longas jornadas
de caça nas florestas de caxemira. boa planificação e previsão são essenciais num
chefe, mas o mais importante é o instinto do coração. a reflexão colocar-te-á na
posição adequada, mas o sentido do momento da ação e a decisão de agarrá-lo
levar-te-á à vitória na batalha, ou na caça.

o coração do mirzá dizia-lhe que o de cabelo amarelo, tamas, era o que sabia o
caminho para a montanha escondida e, como a velha havia mentido para o iludir,
tamas havia fugido para encontrar a cidade escondida sozinho. tivesse o jovem
alguma coisa a ver, ou não, com a morte dos dois homens, era evidente que se
dirigia para junto da rainha imortal, ou lá o que fosse. e o mirzá sabia, agora, que
tinha de segui-lo de perto, para poder falar em nome do imperador akbar. ou para
evitar que os ocidentais descobrissem os poderes dela, se não fosse já demasiado
tarde.

- meu senhor! - gritava o seu ajudante, jaimal, correndo para ele. - meu senhor, é
verdade o que ouvi dizer? que nos abandonais?

o mirzá voltou-se e pousou uma mão no ombro de jaimal.

- dois ocidentais fugiram, jaimal, e um deles matou um dos nossos homens. por uma
questão de justiça, tenho de os agarrar.

- mas não tendes de ser vós próprio a...

- tenho de ser eu próprio, porque senão sou um fraco comandante. mas eu espero
voltar em breve e tu ficas a comandar as minhas forças enquanto estiver ausente.
sei que anseias por demonstrar as tuas qualidades de chefia e alá, o previdente,
concede-te agora essa oportunidade.

jaimal ficou de boca aberta, os olhos cheios de espanto, como se tivesse assistido a
um milagre. pôs um joelho em terra e agarrou na mão do mirzá.

- meu senhor, concedeis-me uma grande honra com a confiança que depositais em
mim. juro pelo que há de mais sagrado que me mostrarei digno desta missão.

- eu sei que as tuas verdadeiras qualidades irão brilhar, jaimal. dirige bem os
homens e, se eu não regressar dentro de cinco dias, manda mais homens em minha
busca, pois posso vir a enfrentar traições.

o mirzá entrou na tenda para colocar o seu longo sabre à cintura. quando tornou a
sair, encontrou rafi em frente da tenda, montado numa égua fulva.

- meu senhor, soube que ides em perseguição do feiticeiro que matou o meu irmão.
imploro-vos que permitais que vos acompanhe, para que possa estar presente ao
ser feita justiça.

- embora não tenhamos a certeza de encontrar quem matou mumit - disse o mirzá -,
não posso recusar-te esse pedido. vinde comigo, iremos juntos desvendar este
mistério.

- agradeço-vos, sábio senhor.

montado num pequeno cavalo preto, o ocidental lakart assistia à conversa com
expressão preocupada.

portanto, é melhor que o teu amigo tamas seja inocente e não o malvado que eu
julgo que ele é.

sabur apareceu montado num cavalo baio, trazendo pelas rédeas um belo e vivo
cavalo cinza, com um odre de água e sacos com provisões pendurados da sela.

- grande mirzá, o cavaleiro shahbad oferece-vos o seu garanhão e espera que ele
seja a vosso contento.

- parece-me um belo animal - disse o mirzá, aceitando as rédeas. - que nome lhe dá
o cavaleiro shahbad?

- chama-se albaki, meu senhor.

- o incansável nome auspicioso.


o mirzá montou no cavalo rapidamente e sentiu o grande prazer de estar de novo
montado numa sela, em vez de sentado em cima de um elefante sacolejante.

entretanto, a história de mumit e dos ocidentais fugitivos havia-se espalhado pelo


acampamento e juntara-se uma multidão de soldados e de cavaleiros. muitos se
ofereceram para seguir com ele, mas o mirzá escolheu apenas mais dois homens.
depois, ergueu o braço e gritou-lhes:

- ouçam-me, vocês todos. eu vou partir para fazer justiça e punir uma ignomínia.
saibam todos que coloquei o meu oficial de confiança, jaimal, no comando, enquanto
estiver ausente. cumpram as suas ordens como se fossem minhas. espero voltar
dentro de dias. entretanto, fiquem vigilantes e que alá, o misericordioso, fique
convosco.

o mirzá fez o cavalo avançar e a multidão de homens abriu-lhe passagem. os


cavaleiros que o iam acompanhar seguiram-no de perto e lakart aproximou-se dele.

- senhor mirzá - disse o ocidental -, não estais a correr um grande risco deixando
aqui as vossas tropas? tenho ouvido uns rumores acerca de jaimal...

o mirzá fez um gesto impondo silêncio.

- seja o que alá quiser.

capítulo viii

aÇafrÃo-da-Índia: esta especiaria é extraída da raiz de uma planta que cresce no


oriente e que dá flores amarelas. em latim chamam-lhe terra merita, ou seja, ”terra
meritória”. a tisana de açafrão alivia as cólicas. uma tintura de açafrão, açafrão-da-
índia e cerveja cura a icterícia dos cavalos. há quem diga que o açafrão-da-Índia só
floresce onde houver sangue derramado. os hindus acreditam que dá sorte e é um
presente adequado para demonstrar respeito pelos idosos. os espíritos indesejáveis
são banidos pelo cheiro do açafrão-da-índia queimado e, por isso, há quem o utilize
para ficar a saber se determinada pessoa é um mortal ou um demônio...

thomas abriu os olhos e olhou por cima da cabeça entrapada de aditi. tinha o queixo
peganhento, por o ter encostado às ligaduras embebidas em mel. À frente deles via-
se um rio largo e cinzento. do lado de lá do rio havia uma aldeia, à sombra de
árvores. quanto tempo terei eu dormitado? É uma sorte não ter caído da sela.

virou a cabeça e viu timóteo atrás dele, a piscar os olhos sob o sol da tarde.

- como vai isso, irmãozinho?

- eu vou bem - respondeu o rapaz -, mas estou cheio de sono e esfomeado.

- também eu. despoina, vamos descansar na aldeia?

- sim, sim, vamos descansar, mas, já sabem, vai ser por pouco tempo.
ela parecia procurar qualquer coisa ao longo da margem do rio, andando de um lado
para o outro com o cavalo, até que deu com uma rocha com uma corda nela atada.

- ah, aqui está. vamos.

stheno incitou o cavalo e meteu-se no rio, a água não parecendo nada profunda.

thomas seguiu-a e verificou que se encontravam sobre uma estrutura de madeira


que ficava logo por baixo da superfície da água. uma ponte submersa? será o rio
normalmente mais baixo ou será isto deliberado?

logo que atravessaram, os cavalos aceleraram o passo, claramente também eles


ansiosos pela sombra e pelo descanso que a aldeia prometia. thomas sentia o
cheiro a excrementos de gado que caracterizava todas as aldeias hindus por onde
passara.

três homens, vestindo apenas as ceroulas a que ele ouvia chamar dhoti, apareceram
a correr, vindos da aldeia para os saudar. eram mais pequenos e mais escuros do
que as pessoas que thomas vira em bijapur. os aldeãos pararam a umas jardas do
cavalo de stheno, atirando-se ao chão em extrema prostração.

enquanto stheno falava com eles, thomas voltou-se para timóteo.

- compreendeis o que ela está a dizer?

o rapaz escutou uns momentos e depois abanou a cabeça.

- o meu pai dizia que há mais línguas na índia dos que as que deus consegue
entender e, por isso, é que os hindus têm tantos deuses.

- uma filosofia interessante.

- devidur... ga - silabou aditi.

- grande deusa, diz ela - disse timóteo.

- coitada. temos de levá-la para a sombra.

dois dos aldeãos passaram a correr por eles e dirigiram-se para o sítio onde tinham
atravessado o rio. puxando a corda atada numa rocha do lado de cá, desataram-na
e deixaram-na deslizar para dentro de água.

eis a resposta à minha dúvida, pensou thomas. pelo que vejo, a ponte não vai poder
ser utilizada por alguém que nos persiga.

o terceiro homem correu de volta às rasteiras cabanas com teto de colmo, gritando
qualquer coisa. fosse lá o que fosse o que ele gritava, teve efeito imediato, pois
houve uma repentina azáfama, com os nativos a correrem de um lado para o outro,
reunindo gado e criançada e conduzindo-os para dentro das cabanas. de tal modo
que, quando o cavalo de stheno entrou na sombra das primeiras árvores, a aldeia
parecia deserta.

havia um espaço amplo sob as árvores, junto da cabana mais próxima e foi aí que
stheno parou o cavalo, fazendo um gesto para thomas e timóteo fazerem o mesmo.

- É aqui que vão descansar.

ao deslizar, com muito agrado, da sela, thomas perguntou:

- posso banhar aditi no rio? as faixas estão a incomodá-la e o mel está a atrair as
moscas.

- acho que não é prudente. ela já tem forças? thomas ergueu os braços e ajudou
aditi a desmontar. ela conseguiu agarrar-se a ele e encostar-se-lhe ao peito, mas,
mal pôs os pés no chão, escorregou para baixo, as pernas não lhe suportando o
peso do corpo.

- infelizmente, ainda não tem muita força, despoina.

- então, podia ser arrastada pela corrente. temos de esperar até chegarmos a
bhagavati.

stheno estava mesmo ao lado dele e thomas sentia-lhe o cheiro a suor e a perfume.
por um momento, thomas olhou-lhe para a cara velada, admirado por ela ser da sua
estatura. através da seda preta, pensou ter tido um relance de um forte queixo
saliente e de uns lábios cheios e sensuais. quase que lhe via os olhos...

stheno virou a cabeça rapidamente.

- vão trazer-vos comida e bebida. descansem bem. eu volto quando for altura de
partirmos.

stheno afastou-se, num elegante andar ondulante que tornou difícil a thomas
despregar os olhos da figura dela.

- mas, despoina, não comeis conosco? - gritou thomas para ela, mas ela não se
dignou responder.

thomas sentiu uma palmada nas costas.

- já vos avisei - disse timóteo -, para não olhardes para ela! thomas teve um suspiro
exasperado, o calor e o cansaço a diluírem-lhe a paciência.

- pareceis o padre, com as suas sentenças!

surgiu um velho, vindo da aldeia, que lhes fez uma vênia e que, agarrando nas
rédeas dos cavalos, os levou pela única rua da aldeia abaixo, a mesma por onde
stheno seguira.
- timóteo, ajudai-me aqui com aditi - disse thomas -, os meus braços doem-me tanto
que mal posso com ela.

timóteo agarrou nos pés enfaixados de aditi e, ambos, levaram-na para um sítio
onde se via um grande amontoado de folhas no chão. aditi suspirou quando eles a
depositaram, com todo o cuidado, no fofo colchão de folhas. um ligeiro sorriso
surgiu-lhe nos lábios ao roçar na cara de thomas com os dedos, murmurando
qualquer coisa que ele não entendeu.

- o que é que ela disse, timóteo?

- acho que ela vos chamou o seu camelo. thomas riu desajeitadamente.

- ah, sim? talvez por eu a ter embalado tanto tempo através do descampado.

aditi fechou os olhos e thomas, por momentos, receou que o processo tivesse
falhado, mas o pulso dela batia com força e a respiração mantinha-se regular. ela
dormia, simplesmente.

timóteo ajoelhou-se junto dela e começou a rezar.

- ela não é cristã, timóteo!

o rapaz olhou para cima, surpreso.

- o que é que isso importa? dado que voltou do reino dos mortos, viu, certamente, a
verdade.

- ela pode não... oh, não interessa.

thomas recordava-se de que o aprendiz de carpinteiro que fizera reviver a bordo do


whelp descrevera sonhos muito diferentes do paraíso ou do inferno de que thomas
ouvira falar. e o padre recusara-se a descrever a sua experiência. como saber o que
aditi teria visto?

duas raparigas nativas surgiram correndo para a clareira, cada uma transportando
uma caixa de madeira. largaram as caixas no chão aí a uma jarda de thomas e
correram de volta à cabana mais próxima.

- dão-nos comida e bebida, mas não se atrevem a ficar para no-las servir. esta gente
tem muito medo dos estranhos.

thomas retirou de uma das caixas uma grossa cabaça com um furo na extremidade
mais estreita e despejou um pouco de líquido para a mão, provando-o. o líquido era
água, aromatizada com sumo de um fruto desconhecido.

- eles têm medo é da senhora - disse timóteo.

- o quê, de aditi?
- não, da outra.

- como é que pode ser isso? stheno conhece obviamente esta aldeia e já cá tem
estado antes.

timóteo olhou para a porta mais próxima. algumas crianças espreitavam por detrás
da cortina da porta. timóteo alçou os braços e pôs-se a fazer-lhe caretas. as caras
das crianças desapareceram, com guinchos de medo.

- parai com isso, timóteo - disse-lhe thomas -, estais a amedrontá-las.

- eles têm medo que a senhora os transforme em pedra. thomas, por momentos,
receou que o calor tivesse aturdido gravemente timóteo. tinha visto casos de gente
atingida por essa febre de verão na loja de mestre coulter, o qual lhe contara que
havia agricultores que trabalhavam tanto ao sol que ficavam delirantes e que, se não
lhes dessem água depressa, podiam morrer. havia, porém, uma seriedade calma no
rapaz que levou thomas a duvidar.

- timóteo, estais bem?

o rapaz não respondeu à pergunta. em vez disso, agarrou na sacola de serapilheira


que trouxera de goa e, olhando em redor, como se tivesse receio de ser observado,
aproximou-se de thomas.

- tenho de vos dar uma coisa, tomás.

- isso pode esperar. agora, temos de comer e de beber qualquer coisa.

- não! tem de ser agora. posso não ter outra oportunidade. aqui está.

timóteo tirou da sacola um pequeno espelho prateado, com uma moldura de cobre
onde se viam gravadas cruzes, rosas e flores-de-lis, entregando-o a thomas.

thomas olhou para o espelho e ficou surpreendido como o seu cabelo se tornara da
cor de palha descorada e como tinha a cara chupada e queimada pelo sol.

- É um espelho muito bonito, timóteo, mas não compreendo porque é que mo dais?
- É para vos proteger - disse timóteo num murmúrio audível. - não deveis olhar para
a senhora, senão pelo espelho.

thomas, confuso, olhou para a cara franca e morena do rapaz.

- se isto é uma gracinha, timóteo, não a estou a perceber.

- não é graça nenhuma. eu li isso nos processos do santo ofício.

- o que é que lestes mais?

- não posso dizer-vos.

- ah, pois, a regra do silêncio.

- sim.

- mas já não estamos no santo ofício nem temos aqui o padre.

- isso não interessa. eu jurei perante deus.

- oh! dizeis-me que eu devo usar o espelho para olhar para stheno, contudo, eu
tenho olhado para ela nesta viagem e não me aconteceu mal nenhum.

- quando ela não estiver velada, deveis usar o espelho, como perseu.

- como perseu? - thomas lera suficientemente os clássicos para reconhecer o nome


do antigo herói grego. - timóteo, não quereis dizer... que stheno é... - a voz deslizou-
lhe para um murmúrio - uma medusa, uma górgone?

timóteo, porém, olhava para dentro da sua caixa de comida, remexendo na fruta, e
nada respondeu.

porphredo estava sentada na tenda, os ossos a absorverem o calor abafado,


tentando imaginar uma maneira de fugir dali. e, no caso de isso não ser possível,
como iria suportar as dores e os danos que eles lhe poderiam infligir. e que tipo de
sofrimento a despoina stheno merecia que ela suportasse.

os poucos homens que iam em perseguição de stheno não a preocupavam.

se a alcançarem, ela facilmente lhes trata da saúde. será uma pena em relação ao
mirzá, pois parece um homem sensato e capaz, qualidades que, justamente, o
podem levar à morte.

a voz de masum soou do lado de fora da tenda.

- begum porphredo, está aqui alguém que deseja falar convosco.

- quem é?
- É o sacerdote goês, mas não percebo o que ele quer, pois não sei a sua língua.

devia mandá-lo embora, para não levantar mais suspeitas.

- ele que entre, bom faylasuf. tenho sempre muito prazer em falar com quem quer
falar comigo.

masum entrou primeiro. talvez para me proteger? ao menos, não perdi a sua
confiança. o pensamento agradou-lhe mais do que porphredo esperaria.

o sacerdote entrou a seguir, no seu hábito sujo de pó, em tempos impecavelmente


branco. naquela pequena tenda, os rumores de que os ocidentais não se lavavam
com frequência pareciam corresponder claramente à verdade.

o sacerdote goês fez uma ligeira vênia, os olhos pretos fitando-a com uma mescla
de aversão e desejo de lhe descobrir os segredos.

ouvi dizer que os sacerdotes da orlem gor são impiedosos para com os que
perseguem, mas o que é que ele espera fazer de mim aqui?

sentando-se, o sacerdote disse, no seu latim de estranha entoação:

- bom dia para vós, domina porphredo. lamento que nos encontremos em tão
infelizes circunstâncias.

porphredo inclinou a cabeça e disse:

- partilho o vosso pesar pela vossa perda e espero que os vossos desaparecidos
sejam encontrados sãos e salvos.

- e não tenham caído nas garras de demônios ou de feiticeiras.

olha para mim como se eu fosse uma.

- espero que não, sacerdote.

depois de uma pausa, o sacerdote disse:

- o vosso latim é muito estranho.

- também o vosso me parece estranho a mim. mas eu aprendi latim há muito, muito
tempo.

- podeis chamar-me pater gonsção.

porphredo espetou a cabeça.

- pater? mas não sois meu pai, nem o poderíeis ser, dada a minha provecta idade.

o sacerdote fechou os olhos.


- É que... não importa. eu gostava de vos mostrar uma coisa.

tirou de uma bolsa presa à cintura um conjunto de contas de madeira, atadas em


círculo, com uma cruzinha de prata no meio delas, e estendeu-as a porphredo.

relutantemente, porphredo pegou nas contas, perguntando em voz baixa a masum,


em persa:

- o que é que ele quer que eu faça com isto? será um presente?

- eu não sei, senhora - disse masum. - eu não percebo nada dos costumes dos
cristãos, mas eu já vi contas dessas... os hindus usam-nas para contar os vedas que
vão cantando. É capaz de ser algo semelhante.

- ah!

porphredo examinou de perto a cruzinha de prata. como receava, viu nela um


homem em ordálio, pregado à barra da cruz.

- isso é o símbolo sagrado deles - disse masum.

- eu percebo - disse porphredo, desgostada, devolvendo-a ao sacerdote. - eu


pensava que o vosso símbolo fosse um peixe.

- isso foi já há muito tempo, domina - disse gonsção, observando-a com ar


pensativo. - a cruz significa sacrifício e o amor de deus pela humanidade.

- o que é que ele diz? - perguntou masum.

- ele diz que é um símbolo de sacrifício e de amor.

- ah, pois claro. É o sacrifício da parte material para a união com deus.

- não sei se é isso o que ele quer dizer. - e, para o sacerdote, porphredo disse: -
acho uma maneira muito estranha de demonstrar amor, sacerdote.

o sacerdote suspirou.

- É uma filosofia muito difícil de explicar aos ignorantes. friamente, porphredo


retorquiu:

- entre nós, fazem-se sacrifícios aos deuses para lhes mostrar devoção e para lhes
impetrar amor e piedade pelos mortais. presumo que o vosso símbolo não significa a
mesma coisa.

- tendes razão, não é a mesma coisa - disse gonsção. mas, se puder contar com a
vossa paciência por mais um pouco, gostava de vos ler uma coisa.

colocou o atado das contas na bolsa e retirou dela um pequeno volume,


encadernado em couro.

- o que é que ele disse? - perguntou masum.

- agora, quer ler-me uma coisa. achais que me está a pôr à prova.

- É possível, senhora, embora não o possa afiançar. gonsção abriu o volume e


porphredo deu uma olhadela às páginas.

- que escrita tão regular! - exclamou ela. - deve ter sido copiado por um escriba
refinado.

o sacerdote olhou para ela, os olhos cheios de espanto.

- isto não é obra de um escriba, domina. este livro foi impresso numa prensa.

- masum - perguntou porphredo ao sufi, numa voz que parecia um sopro -, ouvistes
alguma vez falar de um utensílio para imprimir livros?

- já, sim, senhora. já ouvi falar dessa máquina. podem imprimir-se muitas cópias de
um texto com ela, todas iguais. o meu pir acha que esses utensílios são uma tolice e
que só servem para provocar confusão nos iletrados.

- mas é uma coisa maravilhosa - disse porphredo. - pode-se disseminar muita


informação e sem erros. - depois, voltando-se para o sacerdote, disse, em latim: - a
minha rainha vai ficar muito interessada nesse livro e em saber mais coisas a
respeito dessa prensa maravilhosa.

em boa verdade, a ela não lhe interessará muito, mas sim a mim e à minha irmã,
para lhe metermos à força na cabeça egocêntrica a utilidade disto.

- portanto, detemos um conhecimento que a vossa rainha não detém. regozijo-me


por dispor de alguma coisa com valor para vos oferecer, mas eu estou mais
interessado em saber o que pensais do conteúdo do livro do que dos meios de o
fazer.

o sacerdote limpou a garganta e leu um pequeno poema em latim. parecia uma


oração, mas era a respeito de um prestimoso e generoso pastor real. quando
terminou a leitura, o sacerdote pôs-se a olhar para ela.

ele quer uma reação minha. inclinando delicadamente a cabeça, porphredo disse:

- É um poema muito bonito. acho que a minha rainha também o apreciaria, pois ela
em tempos também apascentou gado. embora, no caso dela, fossem cabras.

o sacerdote fechou os olhos, ao fechar o livro.

- agradeço-vos por me terdes patenteado a minha tolice. a porphredo pareceu-lhe


discernir ironia no tom dele. mas o que é que eu provei? que não sou um demônio,
já que não fui banida pelos seus símbolos sagrados?

antes que pudesse continuar a imaginar o que ele queria dizer, ouviram-se vozes
junto da tenda.

- abri caminho, vem aí o comandante!

sem mais preâmbulos, entraram dois soldados mongóis, seguidos pelo chamado
jaimal, a quem porphredo oferecera o xale de prata.

ah, o ajudante do mirzá! o que é que este fará agora comigo, na ausência do chefe?

porphredo levantou-se e fez-lhe uma vênia.

- ilustre comandante, desejo saudar-vos neste transe difícil e dizer-vos que espero
ser-vos tão útil como para o vosso mirzá. instalai-vos comodamente, pois tudo o que
aqui está se deve à vossa gentil generosidade.

- muito prazenteira, como sempre, honrada anciã - retorquiu jaimal. - eu vim,


justamente, para verificar se o vosso alojamento é confortável e para descobrirmos a
melhor forma de sermos úteis um ao outro.

notando-lhe a correção e limpeza da indumentária, a linha fina da boca, a


intensidade dos olhos pretos, porphredo pensou: este é preciso nas suas exigências
e desejos. tenho de ter cuidado, se precisar de usá-lo.

o comandante olhou para o sacerdote goês.

- espero que não vos estivessem a maçar.


- de modo nenhum - disse porphredo. - nós estávamos a ter uma conversa muito
interessante acerca de livros.
- ah! - jaimal sentou-se perto de porphredo, colocando-se deliberadamente entre ela
e gonsção. o sacerdote goês, contudo, não deu mostras de querer partir. - e este -
disse jaimal, apontando para masum - esteve, com certeza, a encher-vos os ouvidos
com as suas histórias sufis.

- na verdade, ele tem-me sido muito útil, senhor comandante, e espero poder
continuar a contar com ele como meu conselheiro e hospedeiro, enquanto
permanecer entre vós.

- hum, como desejardes - disse jaimal. - mas eu vim pedir-vos paciência, senhora.
eu estou muito preocupado com o meu general e espero que nada de mal lhe
aconteça na planície das pedras, de cujos perigos vós o avisastes.

não sabendo bem onde ele queria chegar, porphredo disse:

- espero que o vosso mirzá encontre rapidamente os dois fugitivos, antes que algo
de mal lhes aconteça. poderemos, então, pormo-nos a caminho da montanha
escondida.
- sim - disse jaimal, olhando para ela de lado -, mas, até ele voltar, encontramo-nos
numa situação difícil. mesmo com um exército pequeno como o nosso, depressa
vamos consumir os recursos disponíveis nesta região e, se tivermos de esperar aqui
vários dias, os nossos suprimentos vão ficar muito reduzidos. ora, os comerciantes
locais e as caravanas que por aqui passam não nutrem grande estima pelo império
de akbar e recusam-se a comerciar conosco, sem notório benefício.

ah, este também me está a pôr à prova? mas o que é que ele quer? ah, pois claro,
como sou estúpida!

- perdoai-me, senhor comandante - disse porphredo, fazendo uma vênia tão


acentuada que a testa quase lhe bateu no chão da tenda -, por ser tão irrefletida.
aceitai todas as desculpas do mundo por eu ter provocado o apuro em que vos
encontrais.

porphredo procurou debaixo dos coxins e agarrou a ampla bolsa de seda azul que
trazia à cintura, quando entrara no acampamento mongol. colocou-a em frente de
jaimal e abriu-a: lá dentro estavam sete barras de prata, cada uma com cerca de três
dedos de comprimento e um dedo de altura.

- eu sei que é apenas uma pequena dádiva, senhor comandante, e sinto-me


embaraçada por vos oferecer semelhante ninharia para compensar os vossos
dissabores, mas espero que, de algum modo, possa contribuir para proporcionar
comida às vossas tropas.

- na verdade... sim - disse o comandante, os olhos abertos de espanto -, isto é...


uma boa ajuda.

- eu bem queria ter mais para vos oferecer - disse porphredo -, mas isso era apenas
uma pequena quantia para despesas de viagem. prometo-vos que, quando
chegarmos a bhagavati, sereis devidamente recompensado.

- o mesmo que foi entregue a ali ahbad, quando lhe levaram a mão de pedra do
shahid - disse masum num suspiro, olhando agora para porphredo com olhos
maravilhados.

porphredo olhou para o sufi com um olhar penetrante. como é que ele sabe disto?

o comandante jaimal agarrou nas sete barras de prata reverentemente.

- a vossa humilde oferta, senhora, é muito apreciável. aliás, eu nunca duvidei da


vossa boa vontade. o meu mirzá, contudo, persiste em dar algum crédito à
insistência dos goeses - jaimal lançou um rápido olhar ao sacerdote - de que a vossa
montanha escondida fica para sul e para leste. o fato de os nossos batedores não
terem encontrado a vossa planície das pedras mais lhe acrescentou incerteza. e eis-
vos aqui, uma solitária anciã que chega ao nosso acampamento para nos dizer que
estamos mal orientados. nitidamente, vós dispondes de grande conhecimento e... de
grande riqueza, mas não sei como convencer o meu mirzá de que falais verdade.

ou de convencer-vos a vós próprio?


- ele não ficou convencido com a demonstração da magia da minha rainha?

- ah, o mangusto. bem, como sabeis, nesta terra os animais são treinados para
fazerem muitas coisas maravilhosas.

os elefantes são exibidos a desempenharem tarefas que parecem impossíveis. as


cobras são ensinadas a sair de cestas a dançarem. os pássaros são ensinados a
falar. quem sabe do que é capaz um mangusto?

ele quer acreditar, percebo bem isso, mas precisa de outro sinal. mas o quê? outro
suborno? eu não tenho mais nada para lhe dar. ai, há mais uma coisa que eu posso
fazer, mas que muito me vai debilitar e que me coloca em grande perigo, se o não
conseguir convencer.

num tom frio, austero, porphredo disse:

- duvidais da magia da minha rainha?

- não sou eu que duvido - disse jaimal, erguendo as mãos. - eu, por mim, seguiria a
vossa orientação sem hesitações, mas tenho de explicar ao mirzá e aos meus
homens por que o faço.

há aqui qualquer coisa. não acho que ele esteja a pensar no mirzá. talvez queira
levar o exército para outro lado, por sua conta. isso convinha-me. mas, se não lhe
apresento outra prova já, as dúvidas dele vão aumentar.

porphredo fixou o olhar no punho cinzelado de uma adaga saliente do cinto de


jaimal.

- compreendo. quereis emprestar-me a vossa bela adaga, comandante?

os dois soldados mongóis avançaram, alarmados. masum ergueu-se, de olhos


abertos. jaimal pousou a mão no punho da adaga, com uma expressão desconfiada.

- nada receeis, eu não pretendo matar, nem magoar nenhum de vós. pretendeis
mais uma demonstração da magia que me protege, pois bem, vou satisfazer o vosso
desejo.

após uma pausa, jaimal fez um sinal aos dois guardas e estes recuaram. retirou da
bainha a lâmina curva da adaga e estendeu-a a porphredo, o punho de marfim para
a frente.

porphredo aceitou-a com as duas mãos. a arma era um khanjarli, de curva


perigosamente dupla e, afortunadamente, estreito na ponta. porphredo agarrou na
adaga com a ponta para o lado, de forma a não levantar suspeitas antes de estar
preparada. forçou a atenção a concentrar-se em cada momento que passava, como
prabaratma lhe ensinara e outros místicos brâmanes antes dele. relaxou-se numa
calma, embora firme, postura. procurou, mentalmente, um certo sítio no interior do
seu corpo, um sítio entre o coração e o pulmão. dores recordadas encontraram-no.
num gesto rápido, segurou a adaga com a mão direita, afastou a parte de cima do
sari e, com uma rápida exalação da respiração, espetou a adaga no peito mirrado.

frialdade. depois dor. mal ouviu as expressões chocadas dos homens atônitos em
volta dela. porphredo aguardou um agonizante bater do coração. dois. três. diante
dos olhos surgiram-lhe pontos negros. o chão da tenda diluiu-se. agora. enquanto
ainda sentia o braço, porphredo retirou o khanjarli do peito, sentindo o quente fluxo
do sangue na blusa interior.

- honrada senhora, estais bem? - perguntou masum, os braços estendidos para ela.

os pulmões doíam-lhe, contudo porphredo susteve a respiração mais um momento.


sentia já a intensa comichão que queria dizer que a ferida cicatrizava. o fluxo de
sangue diminuiu. por fim, inspirou fundo.

- estou bem, sim, bom faylasuf - disse ela mansamente. apercebeu-se, com alívio,
de que não molestara o coração

nem os pulmões. se os houvesse molestado ficaria inútil um dia ou dois.

limpando a lâmina do khanjarli à blusa interior, porphredo devolveu-o a jaimal.

- como vedes, comandante, a magia da minha rainha protege-me.

jaimal olhava atônito da faca para o peito dela e de novo para a faca. o sacerdote
goês parecia espantado, tocando-se na cabeça e nos ombros, num gesto ritual.
masum baixara os braços, nos lábios um sorriso triste de simpatia.

- na verdade, grande senhora - disse jaimal ao receber a adaga -, não restam


dúvidas.

- obrigada. - porphredo conseguiu até sorrir. - espero que a nossa aliança se


mantenha agora numa base de confiança.

- sem dúvida nenhuma - disse jaimal num suspiro.

- senhora porphredo, precisais de alguma coisa? - perguntou masum. - de alguma...


medicina?

- não, bom faylasuf. - porphredo abriu o rasgão na blusa interior: a ferida era agora
uma cicatriz esbranquiçada. - como vedes, não preciso de nenhuma medicina.

jaimal passava a adaga de uma mão para a outra, sem saber o que fazer com ela.
por fim, estendeu-a a um dos guardas mongóis e disse-lhe:

- vai limpar isto!

o guarda agarrou na adaga como se ela estivesse embebida em veneno e correu


para fora da tenda.
jaimal ergueu-se e fez uma vênia a porphredo, desta vez mais pronunciada.

- agradeço-vos e peço-vos desculpa por vos ter vindo maçar. haveis-me mostrado
tudo o que eu precisava de ver. agora tenho de ir preparar as coisas para seguir a
vossa orientação e o vosso conselho o mais depressa possível.

partiu empurrando à frente dele o guarda mongol que restava. masum viu-o partir
com uma expressão preocupada. o sacerdote goês, então, levantou-se e disse:

- eu não sei, domina, se o que vi aqui foi feitiçaria ou milagre, mas não posso deixar
de admirar a vossa coragem. receio, porém, o que podereis fazer cair sobre nós.

- pater gonsção, como disse aos vossos companheiros de viagem, não desejo
causar dano a nenhum dos grupos e tudo farei para evitar que algum infortúnio vos
atinja.

- como o que atingiu joaquim? apesar do vosso impressionante espetáculo, domina,


eu penso que há coisas que estão fora do vosso domínio, sejam as vossas
intenções boas ou más.

dito isto, inclinou a cabeça e partiu.

- senhora - disse masum -, fostes, verdadeiramente, tocada pela mão do poder


divino.

- ou amaldiçoada por ele - disse porphredo, deixando-se cair, finalmente, nos


almofadões.

- isso não pode ser - disse masum. - a experiência do divino é o verdadeiro objetivo
da via. É o que nos ensinam a procurar com todo o nosso coração.

- há quem diga, bom faylasuf, que há que ter cuidado com os desejos que
exprimimos, pois os deuses podem conceder-no-los. e agora, por favor, queria
descansar um pouco.

- perdoai-me - disse masum -, não vos maçarei mais. descansai bem, honrada
senhora, os meus anjos enviam-vos sonhos do paraíso.

havia pesar e ansiedade no olhar dele. porphredo, porém, sentia que fosse o que
fosse que ele ansiava, era alguma coisa que ela não compreendia.

quando a cortina da tenda se fechou atrás dele, porphredo aconchegou-se nos


almofadões, permitindo-se um lamento abafado pela vibração dolorosa que sentia
no peito.

por muitos anos que viva, juro pela deusa da floresta e da lua que nunca, nunca
mais faço este truque outra vez.

ofegante, os ossos das pernas a doerem-lhe, enyo conseguiu, por fim, chegar ao
cimo das escadas de pedra que rodeavam em espiral a torre dos pombos. embora
sentisse uma brisa fresca na cara, o sol parecia cair-lhe em cima cada vez mais
quente.

porque é que eu me esqueço da idade que tenho? mas estava tão ansiosa por
notícias que tive de vir buscá-las eu própria. estou tão pouco habituada a ter
porphredo ausente que as preocupações me assolam como moscas.

em frente dela estava uma cúpula de basalto esculpido, cujas paredes eram um
intrincado rendilhado de pedra. no topo da cúpula espreitavam pombas de pedra, as
caudas enfunadas. de dentro da cúpula vinha o arrulhar dos pássaros vivos que
serviam de mensageiros para os espias ou aliados da despoina.

de pé, à sombra da cúpula, estava um velho, vestindo apenas um dhoti.

- por favor - interpelou-o enyo -, não vistes acaso vayu, o guarda do pombal?

o velho sorriu.

- estou aqui, sri enyo, tenho muito gosto em ver-vos. colocando as palmas das mãos
juntas, à frente dele, fez uma profunda vênia.

- mas não pode ser, vayu era... era...

- era muito mais novo quando o vistes a última vez, sri enyo. É a vossa irmã quem
costuma cá vir. acho que o tempo não passa do mesmo modo para vós e para nós,
simples mortais.

enyo baixou os olhos, embaraçada. lembrava-se perfeitamente da última vez que


subira à torre dos pombos. fora para receber a notícia de que vijayanagar tinha
caído. na altura, vayu era um homem vigoroso e bem-parecido. enyo lamentava não
ter visto o tempo a passar lentamente na cara dele, não tendo de observar aquele
enorme pulo da idade.

- perdoai-me, vayu. eu tinha-me esquecido.

- os deuses não têm de ser perdoados, sri enyo. sattva trouxe uma mensagem. -
apontou para uma pomba pousada na parede rendilhada. - É da devidurga. - vayu
sorriu. de ambas as devidurgas - acrescentou ele, estendendo a enyo uma folha de
tanchagem.

- então, devem estar a chegar - disse enyo com um sorriso de alívio.

desdobrou a folha de tanchagem e leu o que lá estava inscrito:

enyo,

estou a chegar. levo dois hóspedes. prepara os quartos. eu.

- É tudo? - perguntou enyo, a testa franzida.


- foi a única mensagem que chegou nestes dias, sri enyo. nem uma palavra a
respeito de porphredo. será aditi um dos

hóspedes? terá voltado à vida? que gênero de hóspedes são estes? são raros os
estranhos autorizados a entrar em bhagavati! provavelmente são homens, os raros
estranhos que a despoina aqui faz entrar são, geralmente, homens. bom, quem é
que pode prever os caprichos dela?

enyo devolveu a folha de tanchagem a vayu.

- obrigado. fazei com isso o que costumais fazer.

o guarda do pombal agarrou a folha de tanchagem, fazendo nova vênia.

- É sempre uma honra servir-vos e aos da vossa casa. talvez eu tenha a alegria de
tornar a ver-vos na minha vida, sri enyo.

enyo voltou-se, para esconder a expressão de culpa.

- espero que sim.

não sabendo o que mais dizer, apertou o sari à sua volta e correu para a escada,
preparando-se para a longa descida. que tristeza! bem, vai ser bom ter cá porphredo
de novo.

capítulo ix

esmeralda: esta pedra preciosa é muito bela e tem muita virtude. bebida, desfeita
em pó. numa tintura, ou espalhada sobre uma ferida, cura a peste, o
envenenamento, as mordeduras de serpentes e o corrimento. evita os desmaios e
alivia a lepra. os hindus acreditam que a oferta de uma esmeralda aos deuses
outorga conhecimento à alma e vida eterna. usada num anel, dizem que a
esmeralda avisa da existência de veneno e destrói a visão das serpentes. É, muitas
vezes, colocada nos braços dos cadáveres como sinal de vida eterna. diz-se que a
esmeralda ajuda uma pessoa a recuperar o que perdeu e que dá sorte aos
viajantes...

as sombras alongadas e a luz dourada, espalhada pelo sol poente, faziam os


rochedos por entre os quais thomas seguia parecerem fantásticos mastodontes
transformados em pedra.

raios partam o rapaz que me despertou os fantasmas. tudo o que vejo parece-me
ser obra de górgones.

thomas observava stheno à frente dele, o cavalo dela escolhendo o caminho com
segurança, no meio daquela profusão de rochas e de arbustos retorcidos. thomas
não conseguia tirar os olhos dela, apesar dos avisos de timóteo, ou talvez, de fato,
por causa deles. observava a parte de trás da cabeça de stheno, procurando sinais
de cabelos a saírem-lhe do xale, mas nada via.
andrew disse-me que os maometanos não permitem que os estranhos vejam o
cabelo das suas mulheres, pois acham que isso é vaidade. stheno, porém, não é
maometana.

os pensamentos dele rodavam, rodavam.

ainda não lhe vi os olhos, mas isso pode ser, também, uma questão de tradição
entre a sua gente.

não conseguia imaginar uma maneira delicada de lhe pedir para os ver, sem insinuar
que lhe conhecia a natureza de górgone.

e se ela não é nenhum monstro, seria uma grande ofensa e eu não quero perder a
sua simpatia. e se o for, o que é que ela não faria, ao aperceber-se de que eu
conhecia o seu segredo? ela dispõe do sangue que fez aditi e outros reviverem, não
é isso prova bastante?

thomas tentou recordar-se do que aprendera acerca dos mitos antigos, mas não
conseguiu lembrar-se de nenhum que se referisse ao sangue das górgones.

para além dos seus pensamentos rodopiarem como demônios na poeira do deserto,
a cavalgada era agradável. o descanso e o repasto haviam revigorado o espírito de
thomas. a muda dos cavalos proporcionara-lhes animais mais enérgicos. agora, nas
montanhas para lá da aldeia e com o sol mais baixo, o ar era muito mais fresco. aditi
já recuperara forças suficientes para se sentar na sela atrás dele, os braços
envolvendo-lhe a cintura. e, para ele, o sentir o corpo dela encostado ao seu seria
ainda mais agradável, não fora as faixas embebidas em mel a colarem-se-lhe à
camisa.

timóteo, felizmente, seguia calado, fechando a fila, os olhos insistentemente fixos no


pescoço do cavalo.

ao passarem por uma racha num enorme rochedo, thomas pensou: ainda bem que
tenho esta guia, se eu viesse sozinho em busca da cidade nunca lá chegaria. de
longe, esta racha parecia demasiado estreita para dar passagem. e as referências
que a orientam são invisíveis para mim.

quando saíram da passagem na rocha, no outro lado do enorme rochedo havia uma
clareira. ao fundo havia um penhasco, onde o vento e a areia haviam escavado um
buraco fundo, quase uma gruta. stheno parou o cavalo e desmontou.

- É aqui que vamos passar a noite.

thomas deslizou da sela, grato pela paragem, embora frustrado com a rudeza do
bivaque. ajudou aditi a desmontar e perguntou a stheno:

- despoina, quereis que eu e timóteo juntemos lenha para uma fogueira.

- não, nada de fogueiras, podem ver o fumo.


- ah!

então, vai ser uma noite fria.

- e o que é que fazemos quanto a comida, despoina?

- nas bolsas das vossas selas encontrareis pães de arroz, oferta dos aldeões.
desculpai-me, minha beleza, por tão parco manjar, mas garanto-vos um banquete
quando chegarmos a bhagavati. o chão da nossa gruta está coberto por uma areia
misturada com um mineral que afugenta os insetos, por isso, podeis dormir sobre
ela, ou enfiados nela, confortavelmente.

- que mineral é esse? - perguntou thomas. - seria muito útil para livrar as casas de
insetos nocivos.

- pensais como um lojista, ervanário. os segredos que eu vos vou revelar, quando
chegarmos a casa, vão muito para além dos mais ansiados desejos de alquimistas e
filósofos.

thomas sentiu um toque no braço. aditi estendia-lhe um embrulho quadrado,


enrolado numa espécie de folha que lhe parecia familiar.

- folhas de videira, na índia?

- eu cultivo-as no meu jardim - disse stheno -, mas este clima não é bom para as
uvas e o vinho que dão é horrível. a experiência, contudo, tem sido interessante.
agora, vão-me desculpar, mas tenho de ir apagar os nossos traços e esconder a
passagem.

- eu posso ajudar, despoina - disse thomas, mas stheno já tinha desaparecido por
entre os arbustos, sem dar resposta.
- ela não parece uma rainha, faz o trabalho todo!

aditi sorriu e abanou a cabeça.

- ela vai... à caça de moscas. para as suas criancinhas.

- criancinhas?

thomas pensou que aditi não estava a recuperar o senso tão depressa como as
forças. pegou-lhe no braço e levou-a para a gruta de areia, onde timóteo já se
encontrava, sentado. thomas ajoelhou-se junto do rapaz e ajudou aditi a sentar-se.

- andais muito calado, timóteo.

o rapaz encolheu os ombros e deu uma dentada no seu pão de arroz.

- isso é bom? - insistiu thomas, nada intimidado com o silêncio dele.


desembrulhou a folha de videira e encontrou um amassado de arroz com cebola,
alho e lentilhas. deu-lhe uma dentada. era condimentado com cardamomo, gengibre
e canela. tragou rapidamente o resto, achando que era a melhor refeição que comia
desde há algum tempo.

pôs-se, então, a observar aditi, a ver se ela comia alguma coisa. aditi debicava
delicadamente no pão de arroz, mas não parecia comer grande coisa.

- aditi, alguma vez... viste a tua madrasta?

aditi olhou para ele, confusa, o espírito a regressar de longe.

- olhar para a mahadevi é mortal.

- sim, já me tinhas dito, mas que gênero de morte? aditi piscou os olhos cinzento-
azulados, a cara muito séria.

- morte - foi tudo o que respondeu.

o olhar dela voltou-se para os arbustos retorcidos, ou, talvez, para um rochedo
distante. de qualquer modo, thomas suspeitava que o espírito dela não se
concentrava nas proximidades, mas em algo mais longínquo.

qualquer dia tenho de lhe perguntar onde é que esteve, naqueles dias em que o seu
corpo jazia na carroça. um hindu é, certamente, mais livre de falar do paraíso de
indra do que um cristão do reino dos céus.

convicto, porém, de que não obteria, por ora, nenhuma resposta satisfatória da parte
de aditi, thomas concentrou a sua atenção no jantar.

o padre antónio gonsção ergueu-se da posição de joelhos, as pernas a doerem-lhe.


olhou em redor e notou que estêvão e carlos já não estavam a rezar atrás dele. por
momentos, ficou em pânico, até verificar que os soldados estavam sentados a
beber, do lado de fora da tenda.

muito tempo deve ter passado enquanto eu permaneci em oração.

o sol tinha-se posto e os muçulmanos já não estavam agachados nos tapetes de


oração. na verdade, os soldados mongóis desenvolviam grande atividade em redor,
partindo estacas, enrolando as tendas, arreando os animais.

santa maria! eles estão a preparar-se para partir! e tomás e timóteo que ainda não
apareceram!

gonsção dirigiu-se a carlos e a estêvão.

- como é que podeis estar aí sentados com esta atividade toda à vossa volta? -
gritou para eles. - ide depressa saber porque é que vamos partir e se o mirzá já
voltou.
- mas, padre - disse carlos -, se não sabemos falar a língua dos mongóis, como é
que vamos perguntar?

- É verdade, padre - disse estêvão -, quem falava por nós era o irmão andrew ou o
irmãozinho, mas nenhum deles cá está.

gonsção fechou os punhos com força e dominou-se.

calma, calma, tem de haver uma solução. com quem mais é que eu consigo
comunicar? aquele vagabundo, o músico cego, fala um pouco de latim, mas eu não
ia acreditar em nada do que me dissesse. e, de repente, o coração bateu-lhe no
peito como uma pedra, ao lembrar-se de que havia mais alguém... a bruxa
porphredo. se tenho de tratar com aliados dos poderes diabólicos, para levar a cabo
a tarefa para a qual me foi permitido regressar a este mundo, que assim seja.

- não saiam daqui - disse ele para os soldados, dirigindo-se para a tenda da bruxa.

À entrada da tenda estavam postados dois robustos mongóis que miraram


desconfiadamente gonsção ao vê-lo aproximar-se. quando gonsção chegou junto
deles barraram-lhe o caminho com as espadas desembainhadas e erguidas,
interpelando-o no seu linguajar.

incapaz de os entender, gonsção pôs-se a gritar, em latim:

- domina porphredo, estais aí? se estais, por favor vinde cá fora falar comigo. eu
preciso da vossa ajuda, urgentemente.

- na verdade, sacerdote, estou aqui - soou uma voz dentro da tenda. a cortina da
tenda foi afastada e surgiu a alta e austera anciã. os guardas mongóis entreolharam-
se, indecisos, mas não baixaram as espadas. - o que é que desejais de mim?

não julgues que me intimidas, bruxa.

- sinto-me perdido, domina. vejo que os mongóis se preparam para partir, contudo
nada sei dos meus dois companheiros desaparecidos e tão-pouco sei se o mirzá já
voltou. e não tenciono sair daqui enquanto o rapaz e o inglês não aparecerem, mas
nem eu nem os meus soldados sabemos falar a língua dos mongóis e...

- queríeis que eu vos traduzisse - completou a anciã.

- queria, sim - admitiu gonsção, perguntando-se se havia realmente um laivo de


sorriso irônico nos lábios dela, ou se era apenas imaginação sua.

- eu teria muito prazer em ajudar-vos, sacerdote, mas o senhor jaimal explicou-me


que, de harmonia com os costumes da sua gente, é impróprio uma mulher
respeitável vaguear no meio do acampamento.

como são irritantes estes costumes estrangeiros! mas talvez ela possa perguntar
aos guardas o que se passa.
antes de gonsção formular o seu pedido, o místico herético masum assomou a
cabeça pela cortina da tenda e pôs-se a falar com porphredo.

e fala ela em coisas impróprias, com um homem dentro da tenda. que hipocrisia!

depois de murmurar com o místico algum tempo, a anciã voltou-se para gonsção e
disse-lhe:

- masum far-vos-á o favor de procurar o comandante jaimal, para saber o que se


passa.

- fico-lhe muito grato e vou aguardar aqui pelas suas notícias - disse gonsção, nada
contente por a sua fonte de informação ser o estranho sufi mal-amanhado.

o místico lançou-lhe um sorriso amistoso e passou por baixo das espadas dos
guardas. gonsção recuou, quando masum partiu a correr.

santa maria, pensou gonsção, sentindo-se inquieto, não querendo encontrar o olhar
da mulher mais do que o necessário. - que estranha via me obrigais a seguir!

porphredo manteve o olhar nas costas de masum a afastar-se, consciente da


incomodidade do sacerdote junto dela.

eu estou, sacerdote, tão curiosa como vós acerca do que se passa. e desconfio que
sei o que aconteceu aos dois que desapareceram, mas essa informação não vos
agradaria. poderíeis ter perguntado a gandharva, já se deixa ver, mas ainda bem
que isso não vos ocorreu.

longos minutos se passaram, antes de masum voltar, seguido de perto pelo


comandante jaimal, marchando orgulhosamente, seguido de perto por diversos
homens armados e vigilantes.

não deve ser com medo de mim que ele se faz acompanhar por uma escolta. não,
eles olham para o acampamento em redor deles. ele suspeita de outros soldados
mongóis. cheira-me a traição.

- senhora porphredo - disse masum, o primeiro a chegar junto dela -, eu trago


comigo o comandante, o qual se dispôs, com todo o gosto, segundo disse, a
responder a todas as vossas questões.

- superastes as minhas expectativas, bom faylasuf. muito obrigada.

jaimal e a sua escolta aproximaram-se, não disfarçando a antipatia e a desconfiança


em relação ao sacerdote goês. este parecia aperceber-se disso, mas manteve-se
impassível. o comandante mongol sorriu e fez uma vênia exageradamente
acentuada perante porphredo.

- grande e sábia begum, mensageira da rainha imortal da vida e da morte, dizem-me


que estais em cuidados. dizei-me, por favor, o que vos preocupa e eu tudo farei, com
muito gosto, para afastar as vossas preocupações.
ah, sim? pelos vistos, o meu pequeno truque com a adaga impressionou-o. ou ele
quer que eu pense isso. será bom ou mau sinal?

- grande comandante, não sou eu que preciso de ser tranquilizada, mas sim o pobre
sacerdote que perdeu dois dos seus estimados companheiros.

jaimal olhou irritado para gonsção.

- o que é que ele quer?

- ele está preocupado com a azáfama que vê em seu redor, a qual parece indicar
que vamos partir. ora, ele não tem notícias dos seus companheiros, nem viu
regressar o mirzá, que ele gostaria de ter aqui para o aconselhar.

- dizei ao sacerdote herético que os seus cordeiros tresmalhados não nos dizem
respeito. este exército foi encarregado de uma missão pelo shahinshah imperador
akbar e não nos vamos afastar dela. vós convencestes-me, sábia senhora, do
caminho que devemos seguir. deixemos o mirzá entregue à caça às bruxas no
descampado. há-de reunir-se-nos quando se cansar da sua caçada inútil. nós não
vamos esperar mais, com os nossos homens quase a morrer de fome neste deserto.
vamos partir esta noite, na direção que vós nos aconselhais.

oh, oh, consegui tudo o que queria! a minha vantagem é que a vossa vanglória e a
vossa ganância vos vão levar a cometer erros crassos, comandante. a desvantagem
é que eu vou estar por perto quando os cometerdes.

porphredo soltou um suspiro e voltou-se para o sacerdote goês.

- o nobre comandante lamenta o desaparecimento dos vossos companheiros de


viagem e recorda que o próprio mirzá foi em busca deles e ele, comandante, faz
votos para que os encontrem sãos e salvos. contudo, o mirzá ordenou-lhe que
deslocasse a expedição para local mais seguro, dado que este é perigoso e
amaldiçoado, como se prova com a perda do vosso homem, mordido pelas
serpentes, e do dele, por obra de feitiçaria. o mirzá facilmente se reunirá a nós, uma
vez encontrados os vossos companheiros.

o sacerdote, visivelmente inquieto, balançava de pé para pé, uma expressão de


incerteza na cara.

- compreendo que o mirzá se tenha preocupado com a segurança dos seus homens.
não vamos, portanto, para muito longe? o que me preocupa mais é o rapaz. ele deve
ter-se perdido quando andava à procura de ervas medicinais. se algum mal lhe
acontecer, os responsáveis terão de responder perante deus - concluiu o sacerdote,
olhando significativamente para o comandante.

porphredo compôs um sorriso de simpatia para o sacerdote e voltou-se para jaimal.

- o sacerdote herético apresenta sinceros agradecimentos e pede desculpa por não


ter, em devido tempo, agradecido ao vosso mirzá a sua magnanimidade, ao dispor-
se ele próprio a ir procurar os dois ocidentais perdidos. o sacerdote aceita de boa
vontade os vossos desejos, na esperança de tornar a ver em breve os seus
companheiros. e invoca as bênçãos do seu deus sobre vós.

jaimal ergueu o sobrolho e, mansamente, pousou a mão no punho da espada que


trazia à cintura.

- ainda bem. dizei-lhe que é melhor que ele e os seus soldados de chapéus com
picos se portem como gente civilizada e não nos arranjem sarilhos. se nos causarem
perturbações, serão severamente punidos.

- vou dizer-lhe - disse porphredo. - pater gonsção, o comandante agradece-vos e


jura, pela sua espada, que vós e os vossos homens podeis ficar descansados que
nenhum mal vos acontecerá. e espera que o rapaz e o outro homem regressem
sãos e salvos. entretanto, sereis tratado com todo o respeito e cortesia e, se tiverdes
algum desejo ou preocupação, não tendes mais do que dar-lhe conhecimento. o que
ele deseja é harmonia entre o pessoal dele e o vosso.

o sacerdote suspirou de alívio, a cara relaxada num sorriso desajeitado.

- torna-se evidente como as nossas culturas são diferentes. eu ia quase jurar que as
suas palavras eram mais inamistosas, pelo tom da voz. regozijo-me por me ter
enganado e por verificar que o comandante é um homem honrado, como o seu
general. agradecei-lhe por mim e dizei-lhe que seguiremos para o novo
acampamento, para aguardar o regresso dos nossos amigos, que deus os preserve
e os proteja.

o sacerdote fez uma vênia e voltou para junto dos dois goeses remanescentes.

porphredo traduziu-lhe o discurso quase à letra.

- portanto - disse jaimal -, estes heréticos são capazes de ser sensatos. embora eu
desconfie, senhora, que haveis adoçado um pouco as minhas palavras.

porphredo sorriu, matreira.

- É a minha natureza feminina, comandante.

- pois claro - disse jaimal. - masum diz-me que vos incomoda estardes confinada à
vossa tenda. se desejardes, terei muita honra em que me acompanheis no meu
elefante, quando partirmos.

com que então, agora é o’vosso elefante?

- a honra será minha, comandante, em acompanhar-vos e em partilhar convosco as


histórias das coisas maravilhosas que em breve vamos ver.

- Ótimo! mandarei buscar-vos, quando estivermos prontos. até lá, sois livre de
andardes por onde quiserdes.
- É grande a vossa gentileza para com uma mera mensageira, comandante - disse
porphredo com uma vênia. - que a vossa fama se torne ainda maior.

jaimal endireitou-se um pouco mais.

- assim será, senhora porphredo, e em breve. enquanto ele e os seus homens se


afastavam, porphredo notou que masum a olhava com ar pensativo.

portanto, percebestes as mentiras que eu disse, não foi, bom faylasuf? serás capaz
de perdoar-me a doce discórdia que eu semeio para proteger a minha despoina e a
sua gente?

apesar da liberdade de movimentos que lhe fora concedida, porphredo recolheu-se


na escuridão da tenda.

o mirzá examinava, à luz difusa do crepúsculo, o chão gretado que os cascos do


cavalo pisavam.

- meu senhor! - gritou sabur, que seguia à frente dele. temos de parar, antes que
fique muito escuro. já não consigo distinguir os traços dos cavalos e o meu já ia
caindo numa vala.

- não - disse o mirzá. - eles levam muitas horas de avanço, mas, se pararem de
noite, temos a possibilidade de os agarrar.

- mas nós não conseguimos ver nada! a lua não está suficientemente brilhante esta
noite.

o mirzá desmontou.

- nesse caso, vamos apanhar gravetos e fazer archotes.

prendeu o cavalo a uma rocha e pôs-se a arrancar os ramos secos dos raros
arbustos definhados que havia em redor dele. os seus homens e o ocidental lakart
fizeram o mesmo, escolhendo os ramos mais grossos para servirem de cabos e os
mais pequenos para lhes lançarem fogo. quando juntaram uma boa pilha de ramos,
lakart mostrou-se um perito em fazer lume, primeiro lançando uma faísca da sua
pederneira para os gravetos, depois soprando com todo o cuidado para atear o fogo.

- não é a primeira vez que fazeis isso - observou o mirzá.

- eu tenho corrido muito mundo, alteza, e passei muitas noites em que os espíritos
do fogo foram a minha única companhia. e salvaram-me a vida uma ou duas vezes.
É como com os vossos belos cavalos, se os tratarmos bem eles prestam-nos bons
serviços. tratai-os mal e tornam-se perigosos.

o mirzá ficou um pouco perturbado com aquela personificação de um simples,


embora útil, elemento.

o fogo é uma dádiva de deus, mas não é divino em si próprio. talvez este homem
seja um parse, pois dizem que eles adoram o fogo. que mistério que ele é?

- porque tendes vós corrido o mundo, lakart?

o ocidental ergueu-se e mergulhou o seu ramo nas chamas dos gravetos.

- a mando de uma patroa exigente, meu senhor.

- uma rainha? uma paixão?

- uma grande senhora, alteza, mas, embora ela domine o meu coração e a minha
vida lhe pertença, o meu afeto é casto e distante.

ergueu o archote e olhou para o céu. o mirzá seguiu-lhe o olhar e viu apenas um fino
crescente de lua.

- a lua faz-vos recordá-la?

- em boa verdade, faz, meu senhor. - lakart foi em busca do cavalo. - vamos montar,
meu senhor?

- não, vamos seguir a pé, para vermos melhor as marcas à luz dos archotes. É uma
sorte que o trilho siga tão nitidamente para sudeste. quem quer que seja o guia
desses cavalos sabe, com toda a clareza, para onde vai.

- assim parece, alteza.

- acreditais que é o vosso amigo de cabelo amarelo que perseguimos, aquele a cujo
pai prometestes proteger?

lakart fez uma pausa, antes de responder.

- isso é a minha esperança e o meu receio, alteza.

- acreditais que ele sabia realmente o caminho para a montanha escondida e que
este trilho nos pode levar lá?

em voz mais baixa, lakart disse:

- isso é, também, a minha esperança e o meu receio.

- porque é que haveis de recear? talvez esta rainha seja como aquela a quem servis
e vos pareça familiar.

- isso, meu senhor, é a minha maior esperança e o meu maior receio.

o mirzá suspirou. insiste em falar por enigmas.

- senhor mirzá - disse sabur -, temos de apressar-nos.


o mirzá parou, perguntando-se se devia regressar ao acampamento e convencer
jaimal e o resto dos seus homens a seguirem aquele caminho, apesar do que a
misteriosa anciã dizia. mas pode vir o vento e apagar o trilho. e a rainha que se
oculta receberá mais facilmente poucos homens do que um exército.

- pois bem, sabur, vamos prosseguir.

capítulo x

cipreste: esta árvore venerável de folhas persistentes, em agulha, é oriunda da Ásia


menor e da terra santa. É uma planta refrescante, sob a ação de saturno, e, por isso.
é boa para baixar a febre e para sarar feridas. o fruto alivia as dores dos intestinos e
mastigar as sementes dá saúde e vigor. para os antigos, o cipreste era sagrado, pois
diz-se que a coroa de nosso senhor era feita de ramos de cipreste. os antigos
acreditavam, também, que as colunas do templo de salomão eram de madeira de
cipreste, bem como o arco e as flechas de eros. e a árvore dos fados e das fúrias,
bem como dos senhores do inferno. os esquifes dos heróis eram feitos de madeira
de cipreste, pois era considerado o símbolo da alma imortal e da mágoa...

porphredo acordou antes do nascer do sol, as costas e as pernas doridas, por ter
dormido num irregular chão de rocha. com as orações matinais dos muçulmanos a
encherem-lhe os ouvidos, procurou por entre os almofadões e conseguiu encontrar
uma pequena lamparina de azeite. da sacola dos seus pertences retirou uma
pederneira e acendeu o pavio da lâmpada, equilibrando-a precariamente numa
saliência da rocha. À débil luz da lâmpada verificou que a espia central da tenda
pendia num ângulo perigoso e que as laterais estavam esticadas em direções
díspares. o chão da tenda eram tapetes e almofadões lançados sobre o solo
rochoso. as sombras adejantes produzidas pela chama tremula faziam a tenda
parecer à beira de contínuo colapso. jaimal fizera o exército marchar durante grande
parte da noite, por uma das estradas abandonadas que, para sudoeste, levavam à
destruída vijayanagar. a visão de centenas de archotes, a partir do howdad de
jaimal, era magnífica, mas porphredo não se sentira à vontade com a expansiva e
ansiosa avidez do comandante.

foi uma sorte eu ser tão velha. fora eu mais nova e, certamente, teria tido de
suportar a sua mão no meu joelho, se não coisa pior.

o exército acampara finalmente, já muito entrada a noite, sem nenhuma


consideração pela comodidade do local. as tendas haviam sido montadas numa
grande confusão, num córrego cheio de pedregulhos, seco agora, mas que, sem
margem para dúvidas, uns meses antes, as monções haviam enchido de torrentes
caudalosas a caminho do rio krishna.

- senhora mensageira?

a voz murmurada junto da cortina da tenda sobressaltou porphredo.

- sim? quem É?

sem esperar por autorização, masum entrou. hesitou já dentro da tenda, a


expressão ansiosa e triste.

- bom faylasuf, não estais a orar com os outros?

- alá, o misericordioso, perdoa-nos, quando temos razões para isso.

as mãos tremiam-lhe e não conseguia ficar quieto.

- há razões para me visitardes antes do nascer do sol? por momentos, porphredo


pensou se ele teria vindo exercer violência sobre ela, embora não o achasse capaz
disso.

e, decerto, o meu truque da faca-no-peito convenceu-o da inutilidade de tais atos.

- em boa verdade - começou ele, esfregando os olhos e passando, depois, os dedos


pela barba bravia -, eu vim ter convosco porque não vejo mais ninguém em quem
confiar.

- fico muito honrada por confiardes em mim, masum. masum encarou-a.

- eu acredito que o que fazeis só pode ser por boas razões. o meu coração diz-me
que, de qualquer modo, vós não sois má. se cometeis pecados, é em busca da paz.

porphredo sentiu uma dor interior que há muito não experimentava.

- regozijo-me por assim pensardes, pois, na verdade, tenho razões para fazer o que
faço. mas, segundo parece, bom faylasuf, o que o vosso coração vos diz causa-vos
mágoa.

masum abanou a cabeça e sentou-se no chão de pedras, como se, de repente, lhe
tivessem tirado a cadeira onde estivera sentado.

- são outras coisas que não vos dizem propriamente respeito. ontem à noite, antes
de partirmos, eu fiquei no acampamento a reunir as últimas coisas. jaimal dá-me
pouca importância e, por isso, encarrega-me das mais baixas tarefas. enquanto lá
estava, oculto por uns arbustos, surgiu jaimal, com quatro arqueiros, e eu ouvi-o dar-
lhes ordem de se esconderem no meio das rochas, ao lado da estrada, e esperarem
pelo mirzá.

- para o emboscarem e matarem - concluiu porphredo.

- exatamente - murmurou masum, olhando para as mãos. porphredo suspirou.

porque é que eu sinto esta dor na alma? não era esta dissenção o que a despoina
desejava? vai dar cabo da expedição por completo. o mirzá, porém, é um homem
honrado e inteligente. e não me agrada nada contribuir para a vitória dos da laia de
jaimal. quanto a masum, que só busca paz, e alegria, e conhecimento...

- bom faylasuf, dirigistes-vos a mim à procura de auxílio? o sufi olhou para cima,
lágrimas nos olhos.
- É pedir-vos muito, eu sei, mas, querida senhora, se há alguma magia da vossa
rainha que possa salvar o mirzá, peço-vos que a useis em benefício dele. eu, por
mim, sou um incapaz em subterfúgios, caso contrário iria em busca dos homens
leais ao mirzá e provocaria uma revolta contra jaimal. porém, nem sequer sei quais
são os leais e quais os desleais. jaimal prometeu grandes riquezas para todos,
quando encontrarmos a vossa cidade oculta. os mais dedicados ao mirzá podem ter
sido corrompidos pela promessa de ouro. eu nunca fui um bom soldado e, talvez por
isso, é que fui chamado à via. escondi-me e orei tanta vez por proteção, no campo
de batalha, que orar se tornou a minha natural vocação.

porphredo pousou a mão no braço de masum.

- eu não sei que espécie de magia poderá salvar o vosso mirzá, mas, talvez, entre
nós os dois encontremos uma maneira.

masum ficou de olhos muito abertos.

- ajudar-me-eis?

- a missão de que a minha rainha me encarregara está cumprida, já entreguei a


minha mensagem. agora, posso fazer o que quiser. compreendereis, porém, que,
para ajudar-vos, vou ter de revelar-vos segredos que mais ninguém pode vir a saber.

- querida senhora, juro-vos, pela sorte da minha alma, que só eu e deus ouviremos
as vossas palavras.

- muito bem. eu acho que podemos ajudar o vosso mirzá porque sei onde vai dar o
trilho que ele persegue e onde, por necessidade, vai parar. se tiver tido azar, o nosso
esforço vai ser em vão. porém, se ainda estiver vivo, eu sei onde encontrá-lo, para o
avisarmos.

- mas, grande senhora, para fazermos isso precisávamos de ter asas como os anjos.
ele seguiu no sentido oposto ao nosso e, se não estiver a regressar, deve estar a
muitas milhas de nós. e não podemos roubar cavalos, pois eles estão a guardá-los
mais ciosamente do que os homens guardam as mulheres.

- nós não precisamos de cavalos, bom faylasuf. mas, agora, tenho de revelar-vos
que há, entre nós, um outro servidor da rainha como eu. É o músico cego,
gandharva, que já deveis ter visto entre as bailarinas da carroça dos divertimentos.

- sim, eu conheço-o, falei com ele várias vezes, no palácio de ibrahim e durante a
viagem. ele parece ser inteligente.

- garanto-vos que é. e vamos precisar da ajuda dele. vós tendes de ser o elo de
ligação entre mim e ele, pois não quero que recaiam suspeitas sobre ele. tendes de
ir perguntar-lhe se ainda tem pombos-correios com ele. se tiver, temos o problema
resolvido. se não tiver, a nossa tarefa torna-se mais complicada e mais perigosa.

- dizei-me tudo, senhora porphredo, que eu estou tão atento às vossas palavras
como o jumento ao mercador de pão doce.

- se gandharva não tiver pombos-correios, então teremos de ser nós próprios a levar
a mensagem. para isso, temos de contar com a ajuda do deus hindu do amor e de
pensar em vinho.

a frialdade da sepultura infiltrava-se nos ossos de thomas. estava apertado na terra


que o rodeava, ouvindo gritos de mulheres por cima dele, condoendo-se. terão as
harpias, por fim, alcançado os seus intentos? mas eu estou vivo, ou, pelo menos,
penso como se estivesse vivo. com grande esforço, conseguiu erguer um pouco o
braço direito. começou a escavar a terra em redor dele, cada vez mais depressa, na
esperança de escapar dali antes de sufocar...

e acordou, vendo-se estendido por terra, sob o rochedo, no caminho para a cidade
oculta de stheno.

- tomás, estais bem? - perguntou um rastejante timóteo, todo sujo de terra,


sentando-se ao lado dele, tal outro corpo emergindo da sepultura.

thomas suspirou.

- acho que sim.

- tivestes outro pesadelo?

- sim, sonhei que estava morto.

timóteo sacudiu a terra do cabelo cortado à tigela.

- isso é mau sinal, tomás. isso é um aviso para terdes cuidado.

- talvez.

ouviu um roçagar à sua esquerda. voltou-se e viu dois pombos empoleirados num
arbusto, mesmo à entrada da gruta. arrolhavam, por momentos parecendo duas
mulheres a chorar. depois, perturbados por qualquer coisa, voaram para longe.

thomas ouvia, agora, um queixume e um gemido atrás dele: aditi estava sentada de
costas contra a parede da gruta, puxando aflitivamente pelas faixas que a
envolviam.

aqui está uma que, de fato, volta de novo à vida.

thomas aproximou-se dela e pousou-lhe meigamente as mãos nos ombros. ela já


não estava peganhenta, por causa da fina camada de poeira que a cobria.

- aditi, o que é?

- isto... fora - disse ela.


- não, aditi, não. a tua mãe disse que só tiras isso em casa, quando tomares banho.

aditi olhou para ele com os olhos azuis de aço muito abertos.

- a mãe?

- sim, aditi, ela está aqui e vai levar-nos para a tua cidade escondida.

- isso... não pode ser.

- É verdade, sim. foi o sangue dela que te fez reviver.

- portanto - disse stheno, aparecendo à entrada da gruta -, as almas já voltaram


todas das margens do letes.

falou em voz baixa, numa voz musical, levemente jocosa. estava, como sempre,
envolvida em seda preta, parecendo um fantasma sombrio ou a sua sombra.

porque estarão os meus pensamentos virados para a morte, quando deveria


regozijar-me pela minha liberdade?

- mahadevi! - gritou aditi, prostrando-se no chão e rastejando até aos pés de stheno.
- perdoai-me!

- o que é isso agora, querida aditi? - disse stheno, inclinando-se um pouco para ela,
mas não lhe tocando. - não te enerves!

- mas... eu falhei.

- discutimos isso mais tarde, quando estiveres melhor. diz-me só uma coisa, quem é
que te feriu?

- eu... pescoço... lâmina da espada.

- sim, nós vimos o golpe, mas quem é que o desferiu? aditi abanou a cabeça.

- o padre...

- o padre da orlem gor?

- ele... tentou... ameaçou-me...

- basta, já percebi tudo.

- ele... ia ferir tamas!

thomas sentiu um baque no coração. ela deu a vida para salvar a minha. como é
que vou compensar semelhante sacrifício? terei feito o bastante para ela recuperar a
vida que perdera?
- calma, minha filha, agora calma. falaremos disso mais tarde.

ainda bem que timóteo não sabe grego, pois se soubesse já estava a bradar
desmentidos aos céus. pode ser que o santo ofício não mate, como sempre
proclamaram, mas o padre gonsção está longe do santo ofício e pode já não se
sentir obrigado a essas restrições.

stheno voltou a cabeça para ele.

- pareceis-me pálido, meu dourado. dormistes bem?

- sonhei que dormia bem de mais, despoina.

- falais por enigmas, meu esfinge. vinde. tendes de comer e, depois, temos de nos
pôr a caminho.

o condimentado pão de arroz estava seco e não tão apetitoso como na véspera à
noite. stheno, como sempre, não comeu com eles, fazendo surgir interrogações no
espírito de thomas. será que os imortais não necessitam de sustento terrestre? ou
será ela como o hindu que joaquim uma vez imaginou torturar... uma daquelas
pessoas que acha que comer é uma coisa detestável que só se deve fazer em
privado? ou será o que ela come tão diabólico que tem de o esconder de nós? com
receio de a irritar, thomas eximiu-se de lhe perguntar.

stheno trouxe para a clareira três cavalos, cavalos frescos, não os que haviam
montado na véspera, vindos da aldeia. gostava de saber donde vêm estes. thomas,
porém, ajudou aditi a subir para a sela e montou atrás dela.

quando stheno agarrou nas rédeas do seu cavalo, o animal recusou-se e recuou. a
mulher vestida de negro invectivou-o numa língua desconhecida para thomas. o
animal sobressaltou-se, as orelhas espetadas, os olhos muito abertos e thomas
receou que se pusesse aos coices e a atingisse. uma lufada de vento percorreu a
clareira, agitando o véu que cobria a cabeça de stheno. horrorizado, thomas viu que
timóteo desmontara e estava agora ao lado do cavalo dela, agarrado ao pescoço do
animal e falando-lhe mansamente. meu deus, vai ser derrubado! mas o animal
serenou e, por fim, com um relincho incerto, ficou quieto.

- afinal - disse stheno em latim -, sempre tens alguma utilidade, rapaz da orlem gor.
agradeço-te e não me esquecerei disto.

timóteo, olhando fixamente para o cavalo, murmurou qualquer coisa que thomas não
entendeu. segurou-lhe o freio enquanto stheno montava, falando-lhe e afagando-lhe
o focinho. o rapaz, depois, afastou-se e tornou a montar o cavalo que lhe estava
destinado.

quando passou por ele, thomas disse-lhe:

- continuais a contar com a intercessão dos anjos, não é? lembrai-vos do que o


padre vos avisou a esse respeito.
timóteo encolheu os ombros.

- eu trabalhei nos estábulos do santo ofício, quando lá ingressei, e aprendi muito a


respeito de cavalos. eles são como os pecadores que nos procuram. têm medo, mas
basta um pouco de simpatia e dar-lhes a conhecer o amor de deus e logo se
descontraem.

- ah!

passa-se qualquer coisa de estranho com este rapaz, pois parece não precisar de
espelho para se proteger. talvez os anjos intercedam, de fato, por ele, mesmo
quando encara um rosto que, segundo a lenda, é mortal.

conduzindo-os por uma passagem entre as rochas que, thomas era capaz de jurar,
na véspera não existia, stheno guiou-os através de um labirinto de arbustos
espinhosos e de pedras. se havia sinais a referenciar o caminho, thomas não os
distinguia. gostava de saber se de cartago conhecia este caminho e se o terá
desenhado no mapa. se assim for, o padre sabe mais do que eu, que nunca
examinei o mapa. a passagem subia gradual e acentuadamente e o trilho era
habilmente oculto, de tal forma que thomas apenas via um penhasco atrás dele e
outro à sua frente, sem saber se, para além, havia mais montanhas.

pois claro! uma alta montanha sobranceira ao deserto facilmente se enxergaria e


seria um verdadeiro farol para quem procurasse a fabulosa cidade. deste modo,
ninguém percebe se existe uma montanha ou não.

horas depois de tediosa andadura, chegaram em frente de um elevado penhasco,


com enormes rochedos na base. thomas olhou para um lado e para o outro, mas
não conseguiu distinguir nenhum trilho que permitisse prosseguir a partir dali. stheno
desmontou do cavalo e caminhou até junto do penhasco, examinando os rochedos
que se erguiam em frente dela.

estará à procura de algum sinal que indique o caminho a partir daqui?

stheno agarrou numa pedra e aproximou-se de um dos rochedos. enquanto thomas


se perguntava que raio estaria ela a fazer, stheno batia no rochedo com a pedra. o
som produzido não foi o de bater de rochas, mas um som cavo, como o de bater a
uma porta.

ouviu-se um ribombo vindo do interior do penhasco e thomas olhou para cima


sobressaltado, à espera de ver cair uma avalancha de rochedos, mas o único que se
moveu foi aquele em que stheno tinha batido, rolando para o lado de modo
aparentemente impossível.

- tomás, olhai! - gritou timóteo. - É como a laje que os anjos fizeram rolar no túmulo
de nosso senhor!

embora maravilhado, thomas acreditava que havia ali mais artifício do que milagre.
um enorme portão chapeado a ferro surgiu por detrás do rochedo, o qual se abriu
lentamente para dentro.
- vamos - ordenou stheno, montando rapidamente. depressa!

thomas espevitou o cavalo com os calcanhares e seguiu-a. o animal avançou


serenamente para a entrada obscura como se conhecesse o caminho. quando
chegaram à porta, thomas olhou para trás e viu que o rochedo que se abrira, era, na
realidade, um bloco de madeira pintada, montado numa moldura. pareceu-lhe, até,
ter distinguido um homenzinho de turbante e dhoti escondido dentro dele.

- estais a ver, timóteo, não é nenhum mistério. esta gente é muito hábil, capaz de
encher de inveja qualquer carpinteiro-chefe de teatro.

- eu nunca fui a um teatro - disse timóteo.

- então, tendes sido poupado a muitos pecados - disse thomas, rindo.

o portão dava para um túnel, fracamente iluminado com tochas. depois de o cavalo
de timóteo ter entrado, o portão fechou-se atrás deles com outro ribombo, isolando-
os por completo do mundo.

o ar era muito espesso e cheirava a terra úmida, mas sentiam-se, também, os


cheiros familiares das aldeias hindus. quando se mantinham em silêncio, thomas
distinguia vagamente o som de pessoas em volta, o roçagar de tecidos, o tilintar de
jóias, os murmúrios para conter crianças assustadas.

será possível que viva gente aqui, nesta obscuridade? se isto é a cidade oculta, é
mais o hades do que o olimpo.

- É aqui que fica a tua casa, aditi? - perguntou ele docemente ao ouvido entrapado.

- casa - disse ela num tom tão hesitante que thomas não conseguiu discernir se era
uma afirmação ou uma pergunta.

um pouco mais adiante, stheno lançou um brado, a voz soando como o estalar de
um chicote. ouviram-se passos à frente deles, correndo. um homem pôs-se a bradar
as mesmas palavras, insistentemente.

- percebeis o que ele diz, timóteo?

- não, tomás. mas acho que ele está a anunciar a chegada da rainha.

- estais aí, meu dourado.

- sim, despoina. É isto a vossa cidade oculta? a gargalhada dela ecoou nas paredes
de rocha.

- não, o que é que pensais de mim? isto é apenas a entrada. temos ainda muito que
andar, vinde daí.

thomas espevitou o cavalo, distinguindo agora uma ou outra forma humana,


espreitando em túneis laterais, entroncando aqui e além. os cascos dos cavalos
soavam suavemente no chão de terra. timóteo murmurava uma contínua litania de
orações atrás dele. enquanto avançavam, o túnel ia subindo. thomas perdeu a
noção do tempo que passava. o mundo estava reduzido àquele túnel de ecos
murmurados e de débeis ilhas de luz no meio da escuridão.

por fim, depois de transcorridas o que pareciam ter sido algumas horas, ouviu-se
outro ribombo à frente deles. thomas colocou o braço em frente dos olhos, quando a
luz do sol inundou o túnel de um branco brilhante.

- bem-vindo à minha cidade, meu dourado - disse stheno. bem-vindo a bhagavati.

o mirzá conduziu o cavalo, pela vigésima vez, ao longo da margem do rio. olhava
por cima do curso de água castanha, correndo caudalosa, para a aldeia do outro
lado, frustrantemente próxima.

- tem de haver uma maneira.

- meu senhor - disse sabur, todo molhado da cintura para baixo -, nós procuramos
toda a manhã e não há dúvida, posso afiançar-vos, as marcas terminam na água e
não seguem nem para a direita, nem para a esquerda.

- então, devem ter atravessado neste ponto.

- eu entrei na água, meu senhor. a um comprimento de cavalo a partir destes juncos,


a margem cai abrupta e o leito torna-se muito fundo. e a forte corrente arrastaria os
cavalos rio abaixo.

- e eu tenho gritado para a aldeia - disse lakart -, mas eles, os aldeãos, ou me


ignoram ou desaparecem.

- aqueles que perseguimos - disse o mirzá - não se meteram, decerto, à água para
se afogarem.

o mirzá pôs-se a observar a linha de rochosas montanhas castanhas que se erguiam


para além da aldeia, cada cimo erguendo-se ligeiramente mais alto do que o
anterior. em semelhantes cimos de montanha em todo o decão, o mirzá vira ruínas
de antigas fortalezas de reinos conquistados. naquelas montanhas, porém, não
havia fortalezas.

será sinal de que ali se situa uma grande cidade ou, pelo contrário, de que nunca ali
existiu nenhuma?

- meu senhor - insistiu lakart -, se nos reunirmos à força principal e a trouxermos


aqui, teremos cordas e homens suficientes para armar uma ponte. bastariam três ou
quatro dias, no máximo, e o tempo vai decerto manter-se calmo.

- não! - exclamou rafi. - não presteis ouvidos ao descrente, meu senhor. se


abandonarmos a perseguição agora, o assassino de mumit vai escapar-se-nos.
o mirzá soltou um suspiro.

- ambos tendes razão.

voltou-se na sela e pôs-se a olhar para trás, para donde tinham vindo. eram muitas
horas a cavalo até ao acampamento e ele não queria voltar de mãos vazias. jaimal
estaria, sem sombra de dúvida, contra a continuação da perseguição. mas o que é
que ele podia fazer mais, ali na margem daquele rio?

- alteza - disse lakart -, sabeis nadar, ou saberá algum dos vossos homens?

relutantemente, o mirzá abanou a cabeça.

- eu não sei.

sabur, rafi e os outros, todos disseram que não.

- eu cresci nas frias e rochosas costas da escócia - disse lakart - e sei umas coisas a
respeito de nadar contra a corrente da água. posso atravessar o rio e ver se os
aldeãos me indicam onde é que há um vau.

- meu senhor - disse rafi -, este descrente pode deixar ficar-nos aqui e seguir
sozinho em busca da cidade das feiticeiras.

o mirzá ergueu o sobrolho e interpelou o escocês.

- podemos confiar em vós?

lakart compôs um sorriso impetrante.

- juro por tudo o que é sagrado que estarei de regresso ao pôr do sol.

- mas vós e eu não consideramos sagradas as mesmas coisas - disse o mirzá. - sois
capaz de jurar pela lua?

o sorriso de lakart desapareceu.

- como quiserdes, alteza. juro pela lua. o mirzá aquiesceu com a cabeça.

- então, ide. e que sejais bem-sucedido. esperaremos por vós à hora das orações do
sol-posto.

lakart espicaçou o cavalo e seguiu pela margem do rio acima.

- ele não vai voltar - murmurou sabur. - que raio de juramento é esse, à lua? que raio
de idólatra é ele?

- eu acho que ele é um homem que faz os seus juramentos com muito cuidado. e
anda aqui conosco por causa de um juramento imprudente, ou contra a sua vontade,
feito há muitos anos. ele vai voltar.
se bijapur era uma cidade saída de um conto de fadas, bhagavati era, certamente,
uma aparição saída de uma lenda. quando os olhos se lhe habituaram de novo à luz
brilhante do sol, thomas não pôde deixar de pestanejar, de tão espantado e
maravilhado.

bijapur era ornamentada com elegantes caligrafias e delicados rendilhados, as


austeras mesquitas embelezadas com desenhos de flores de lótus e outras
representações botânicas, nas colunas e paredes, desafiando o olhar a discernir
cada pormenor. bhagavati, porém, enchia-lhe os olhos com esculturas por todo o
lado. cada pilar, cada poste, cada lintel, cada parede, estavam cobertos por
esculturas em pedra. cavalos, camelos, elefantes, tigres, touros com pesados
colares, desde os pequeninos aos de tamanho natural, e ainda maiores, emproados,
deitados, empinados nas patas traseiras e em relevo, ou representados em pé
parecendo nascer da pedra.

também havia figuras humanas esculpidas. bailarinas nuas, caçadores disparando


flechas a veados fugitivos, sacerdotes cumprindo devoções, guerreiros envolvidos
em ferozes refregas, músicos com flautas e tambores, nobres em procissão.

mais perturbadoras, ainda, eram as figuras do que thomas presumia serem


divindades hindus, meio-humanas, meio-animais. gordas com cabeça de elefante,
mulheres com muitos braços, grandes olhos salientes e línguas vociferantes e,
também, as graciosas criaturas que eram serpentes da cintura para baixo, algumas
com serpentes também na cabeça.

dificilmente se conseguia determinar a forma das casas, ou distinguir as casas de


habitação dos templos, tal a profusão de criaturas que lhes adornavam as paredes.
desde a entrada ao topo dos telhados piramidais, tudo estava coberto de incríveis
estátuas. a cidade parecia em constante, convulsivo movimento, uma dança sem
fim, fixada em pedra. era deslumbrante e causava vertigens à vista.

thomas observou que tão-pouco timóteo conseguia fixar o olhar no quer que fosse,
constantemente voltando a cabeça para um lado e para o outro, a boca e os olhos
abertos de espanto.

em estranho contraste com a vivacidade da arquitetura, thomas notou que as ruas


estavam silenciosas, salvo pelo distante, profundo e claro badalar de sinos. tal como
na aldeia junto ao rio e nos túneis donde acabavam de emergir havia sinais de
habitantes, mas nenhum à vista. thomas sentia que havia gente em redor deles,
escondendo-se dentro dos edifícios, mas não viu ninguém. era como se a cidade
tivesse ficado instantaneamente deserta no momento em que ele entrara nela.

- aditi, onde estão as pessoas?

- estão... escondidas. por respeito pela devidurga.

- por respeito ou por medo?

- não... não é a mesma coisa?


- no meu país, quando a rainha passa, as pessoas afastam-se para lhe dar
passagem, mas amontoam-se às janelas, às portas, até nos telhados, na esperança
de a verem, mesmo de relance.

- aqui... isso é proibido.

por respeito por ela ou porque ela representa um perigo para eles?, ponderou
thomas. embora com muitos monarcas isso seja a mesma coisa. o medo deles,
porém, não prova, por si só, que ela seja imortal.

o percurso seguia em espiral, levando-os a aproximarem-se de um monte no centro


da cidade. outras construções ocultavam o que se encontrava no monte, até que os
cavaleiros chegaram a uma praça. no centro da praça estava um elefante, uma pata
e a tromba erguidas, numa atitude de medo e de desafio. ao passarem por ele,
thomas ficou em dúvida se o elefante estava vivo ou não. ao fundo da praça, uma
série de amplos degraus conduzia a uma muralha de pedra preta, na qual se viam
dois enormes portões de bronze.

por detrás da muralha, erguia-se o monte central, coberto por monumentais pórticos,
pilares, cúpulas, torres octogonais e edifícios de colunas que, aos olhos de thomas,
eram parecidos com gravuras de templos gregos que já tivera oportunidade de ver. o
monte era uma monstruosidade arquitetural, nada se adequando a um desenho
unificado, nenhuma parte se harmonizando com outra: partes e porções de
diferentes épocas e civilizações todas juntas. ”um palácio de fantoches”, murmurou
thomas.

as portas de bronze abriram-se e surgiu uma fila de homens, vestidos com


compridas togas cor de açafrão, os quais se dispuseram ao longo dos degraus. a um
sinal invisível, começaram a cantar num tom cavo que se espalhou e ecoou pela
praça, arrepiando a pele de thomas.

- eles cantam... as boas-vindas - disse aditi.

- compreendes o que eles dizem?

- É... um veda, é tudo o que sei.

- porque é que estes homens são bafejados com o privilégio de estarem na


presença da sua rainha?

- eles são... sacerdotes, portanto são todos cegos.

- ah!

desgostado, thomas examinou-lhes os rostos, confirmando ser verdade o que aditi


dissera.

no meio da abertura entre os dois portões, apareceu uma pequena anciã,


envergando uma simples camisa de noite bege, apertada na cintura e de alças nos
ombros. esta não era cega, pois os olhos intactos brilhavam-lhe de esperança ao
descer os degraus a correr, dirigindo-se para o cavalo de stheno.

- bem-vinda de regresso, despoina! - disse ela em grego.


- aditi... ah! - correu para o cavalo de thomas e estendeu os braços para aditi. - o
que é que eles te fizeram? pareces a múmia de uma rainha do egito!

thomas ajudou aditi a escorregar para os braços da mulher.

- isto... é obra de gandharva. para me preservar. este aditi apontou para thomas -
salvou-me.

a velha olhou para thomas.

- que estranho! há muitos anos que não via um homem com o cabelo desta cor. ele
entende-me? - perante o gesto de aquiescência de aditi, prosseguiu: - agradeço-vos,
brilhante senhor, por nos terdes trazido aditi de volta.

- foi uma honra e um prazer para mim, boa senhora.

- ah, ah! ele fala a nossa língua - exclamou a velha. quer dizer que, apesar de tudo,
ainda não se extinguiu no mundo.

- É uma das línguas dos estudiosos e, por isso, mantém-se preservada.

- agrada-me ouvir isso. mas... onde é que está porphredo? não veio convosco.

thomas ficou, momentaneamente, surpreendido por ela mencionar a anciã que


aparecera no acampamento mongol.

mas é evidente, como servas da mahadevi têm de se conhecer uma à outra.

- se já acabaste de tagarelar, enyo - disse stheno -, vai dar banho a aditi e acomodá-
la. encarrega-te, também, de mandar instalar os nossos hóspedes e de lhes fazer
servir uma refeição.

a velhinha, porém, era determinada. aproximou-se da velada stheno e interpelou-a:

- deixaste-a para trás? sozinha? como pudeste fazer isso? stheno suspirou.

- a tua irmã é perfeitamente capaz de dominar os acontecimentos, não é como tu, e


eu não tenho dúvida nenhuma de que ela regressará quando bem lhe aprouver.
além disso, tem lá gandharva para a coadjuvar. agora, por favor, encarrega-te da
minha filha e dos nossos hóspedes ou terei de te mandar para a cripta fazer o
inventário do que lá se encontra.

a velha suspirou e, notando, então, a presença de timóteo, o qual a observava


atentamente, perguntou:

- quem é este rapaz?


- um atrelado - disse stheno -, mas um personagem importante. trata-o como um
hóspede de honra.

- tomás, eu sei quem ela é! - exclamou timóteo em latim.


- ela é outra das anciãs. talvez seja a do olho!

a velha ficou de olhos muito abertos e levou uma mão à garganta.

- despoina...

- não prestes atenção ao rapaz, enyo. vai e leva aditi contigo.

a velha enlaçou aditi pela cintura e, relanceando receosa para timóteo, conduziu-a
pelas escadas.

- parece que tenho de ser eu a tratar de vos alojar - disse stheno. - deixem os
cavalos onde estão e segui-me.

thomas desmontou, sentindo-se embaraçado.

- não devíeis ter sido tão rude com a mulher, timóteo disse thomas para o rapaz.

- mas é verdade, não vedes?

- bem, discutimos isso mais tarde.

se esta rainha stheno é apenas uma monarca com hábitos estranhos, isto não a
ofenderá. mas se ela é o que timóteo receia, os conhecimentos dele podem ser
perigosos para nós e, nesse caso, não estamos mais salvaguardados do que
estávamos no meio dos mongóis. talvez ainda menos.

thomas seguiu a rainha stheno, uma móvel chispa de noite, escadas acima e através
dos portões de bronze, tudo fazendo para não prestar ouvidos ao canto lúgubre dos
sacerdotes cegos.

capítulo xi

aquilÉgia: a esta planta chamam, também, columbina, porque as pétalas das suas
flores azuis ou brancas têm a forma de cinco pombos e colutnbus é pombo, em
latim. chamam-lhe, também, a erva do leão, pois dizem que esfregando a suas
folhas na pele se ganha coragem. a decocção da raiz cura as dores de barriga e
uma pomada feita com a mesma raiz cura o reumatismo. chá de columbina alivia
todas as dores na boca e na garganta. embora seja uma erva de vênus, é um
símbolo do amor frustrado e há quem acredite que é a erva da loucura...

gandharva tocava pacientemente na sua vina, passeando no teto da carroça das


bailarinas. a corda que dedilhava era velha e ele sabia que em breve se iria quebrar.
de repente, ouviu soar os guizos da gaiola dos pombos.
- gandharva! - bradou pramlocha -, acaba de entrar um pombo na gaiola! eu não
acreditei quando dissestes que o que enviaras seria substituído.

- pois bem, agora já sabes que vale a pena ter fé, minha doçura. de que cor é o
pombo?

- É branco.

- então, vem de devidurga.

- os deuses enviam-vos pombos? gandharva sorriu.

- podes dizê-lo. por favor, observa-o bem e vê se tem alguma coisa enrolada na
pata.

- tem, sim.

- então, faz-me o favor de a retirar com cuidado e dá-ma.

- o pombo é muito manso, gandharva. É um animal de estimação?

- não. simplesmente, conhece a sua tarefa e desempenha-a bem. já tens o papel?

- É uma folha de frangipana, mas está toda riscada.

- não a risques mais, rapariga, dá-ma cá.

- aí a tendes.

gandharva estendeu o braço e sentiu a rapariga colocar-lhe a folha na palma da


mão. afastou a vina para o lado do ombro e concentrou a atenção na folha que tinha
nas mãos. os riscos eram, claro, letras incisas na folha, para que ele as pudesse ler
pelo tato. a escrita era em grego, portanto a mensagem provinha de stheno.

foi o sacerdote que a matou. trá-lo. vivo.

- porque é que acaricias tanto a folha, gandharva?

- ela fala comigo, minha querida.

- não ouvi nada. os deuses mandam-te uma mensagem de boa sorte?

- falam de fazer justiça.

- ah! os deuses, às vezes, são muito mesquinhos com as suas dádivas. são muito
cruéis.

- são, sim, minha querida. são, na verdade, muito cruéis.

o padre antónio gonsção continuava agitado quando o exército mongol parou para
acampar. os sobrolhos doíam-lhe, do constante franzir por causa da poeira e do
calor.

eles mentem. a bruxa, ou o comandante, ou ambos. eles não se preocupam em


procurar timóteo e tomás. até deixaram o general ficar para trás, permitindo que a
velha feiticeira os arraste por este descampado, com promessas de grandes
tesouros.

gonsção desmontou do cavalo esquelético que os mongóis lhe haviam atribuído, o


mesmo fazendo carlos e estêvão, ao lado dele. um mongol calado veio buscar os
cavalos e levou-os.
- padre, acho que já não somos nada desejados aqui disse carlos.

- receio - disse estêvão - que amanhã nem cavalos nos dêem e que tenhamos de
caminhar a pé, atrás dos elefantes.

- o irmão andrew - replicou gonsção -, antes de partir, afiançou-me que os


muçulmanos fazem gala da sua hospitalidade e gentileza. sendo assim, este
comandante jaimal está em grande dívida para conosco.

carlos abanou a cabeça.

- talvez assim fosse com o mirzá, padre, mas com este tipo não. este jaimal nunca
nos tratou com cortesia, olhou sempre para nós como se fôssemos ladrões.

- eu manter-me-ia longe dele, padre.

- tranquilizai-vos, eu não vou pôr as nossas vidas em risco. vamos procurar a bruxa
para nos servir de intérprete.

os goeses, porém, vaguearam por entre os homens que montavam as tendas e


tratavam dos camelos e dos cavalos sem que obtivessem uma resposta à pergunta:
”begum porphredo?”

por fim, gonsção exclamou:

- isto é uma loucura! estes mongóis, possivelmente, não querem que falemos com
ela. ah, mas temos a carroça das bailarinas! talvez aquele medroso pagão, tocador
de alaúde, se disponha a dizer-nos alguma coisa.

enquanto os mongóis estendiam os tapetes para as orações, gonsção dirigiu-se com


os soldados para a garrida carroça. o músico cego hindu estava sentado junto dela,
atentamente afinando uma corda.

- eh, músico! gandharva, não é? - interpelou-o gonsção, em latim.

gandharva inclinou a cabeça de lado.

- ah, o sacerdote da orlem gor. gonzao, não é? gonsção conteve a sua irritação.

- sim. nós andamos à procura da mulher porphredo. sabeis onde ela está?

- sei, sim. ela esteve aqui ainda há pouco e vai voltar em breve. podeis sentar-vos e
esperar por ela. eu vou entreter-vos, para ajudar a passar o tempo.

- isso não é necessário - disse gonsção, por gestos indicando a carlos e estêvão que
procurassem nas proximidades.

- ah, o bom sacerdote não me entendeu. eu tenho muitas histórias para contar.
segredos e conselhos para revelar. posso ser muito útil aos ocidentais, se eles
quiserem.
- segredos? - escarneceu gonsção. - que segredos vossos me poderão interessar?

ao começarem a soar em redor as orações cantadas dos muçulmanos, gandharva


adiantou:

- vós sabeis que o caminho que agora seguimos é falso, não sabeis?

gonsção pestanejou, surpreendido.

- e vós sabeis que a velha anda a mentir, não sabeis?

- claro que mente - disse gandharva. - está a proteger a cidade oculta da sua
mahadevi. para que havia ela de querer um exército às portas da cidade?

gonsção cruzou os braços no peito.

- quereis dizer que vós, sozinho, conseguis chegar à cidade oculta?

- o sacerdote da orlem gor é muito perspicaz.

- o sacerdote da orlem gor não é nenhum tonto. quanto é que pensais que nós
pagaríamos para nos guiardes até lá?

- nada.

- ah, leváveis-nos por caminhos ínvios para que outros nos roubassem.

gandharva abanou a cabeça.

- não dá bom karma viver desconfiando de toda a gente.

- eu descobri que me dá sorte ser cauteloso ao tratar com os outros.

- o sacerdote da orlem gor não está a perceber. gonsção ouviu um brado de um dos
soldados, algures atrás dele. não respondeu ao músico, antes se voltando e
gritando:

- carlos? onde estais?

- aqui em baixo!
- em baixo?

gonsção atravessou rapidamente uma moita de arbustos e viu-se no cimo de uma


funda e rochosa ribanceira que descia para um caudaloso rio acastanhado. carlos e
estêvão estavam à beira do rio, examinando um pedaço de tecido azul. estêvão fez
um gesto a gonsção para que se aproximasse.

- vinde ver isto, padre.


gonsção escorregou desajeitadamente para a margem do rio.

- o que é isso?

- não é um pedaço do vestido da velha?

gonsção examinou o pedaço rasgado de seda azul, entretecida a fio de prata.

- sim, parece muito semelhante.

- e olhai aqui, padre. isto parece sangue, ainda úmido. gonsção observou o rio.

terá alguém descoberto que ela mentia e exercido violência sobre ela, aqui?

- há mais algum sinal dela?

- há pegadas, padre. e, mais além, parece terem derramado vinho na areia. mas
mais nada.

- se a afogaram - disse gonsção -, o corpo foi arrastado pela corrente e não o


podemos enxergar.

- mas eu julgava que a velha era invulnerável, padre, e que estava protegida pela
magia da sua rainha. não nos contastes que a vistes espetar uma faca nela própria e
não morrer?

- talvez - disse gonsção - a magia da sua rainha só a protegesse dos perigos


previsíveis. talvez, afinal, ela não fosse imortal.

- o comandante vai ficar muito zangado - disse estêvão.


- ele estava a contar com ela para nos guiar.

- sim - disse gonsção. - temos de lhe dar parte disto. talvez assim lhe ganhemos as
boas graças e o convençamos a voltar ao local onde perdemos timóteo e tomás.
vamos.

treparam a ribanceira e gonsção olhou em volta à procura do músico cego, mas este
já não se encontrava junto da carroça.

- o que é que vamos fazer sem ele para nos traduzir? perguntou carlos.

- havemos de nos fazer entender pelo comandante jaimal. há outros meios.

gonsção olhou por cima das costas dos muçulmanos ajoelhados e viu a grande
tenda às riscas do comandante.

os sentinelas hindus à entrada da tenda de jaimal baixaram e cruzaram as lanças ao


aproximarem-se os goeses. gonsção mostrou-lhes o pedaço de tecido azul e disse
apenas:
- begum porphredo.

os sentinelas trocaram um olhar perplexo e um deles entrou na tenda. seguiu-se


uma viva argumentação, de que gonsção nada entendeu. quando o soldado hindu
tornou a sair, fez, irritado, um sinal com a lança para os goeses entrarem.

- acho que o comandante se zangou com ele por lhe interromper a oração - disse
carlos ao entrarem na tenda.

na verdade, jaimal estava de pé, o cenho franzido, ao lado do tapete de oração.


gonsção inclinou-se para ele, à maneira européia, e apresentou-lhe o pedaço
ensanguentado de seda azul. jaimal arrancou-lho da mão e pôs-se a examiná-lo.

- nós encontramos isso - disse gonsção em latim, falando, lenta, cautelosamente,


um pouco alto - junto ao rio. compreendeis? rio? - gonsção ondulava as mãos,
mimando o movimento da água. - receamos que a tenham atacado.

jaimal bradou uma ordem e os dois sentinelas entraram, agarrando gonsção pelos
braços.

- que fazeis? - gritou gonsção. - certamente não acreditais que vos traríamos esta
prova se tivéssemos sido nós a atacá-la!

carlos e estêvão haviam recuado e desembainhado as espadas.

- guardem as armas! isto não passa de um mal-entendido, não vamos arriscar a vida
por tão pouco.

com grande relutância, os soldados obedeceram.

dirigindo-se a jaimal, gonsção disse-lhe:


- mandai vir gandharva, o músico cego. ele pode servir de intérprete. mandai-o vir.

jaimal falou de novo às sentinelas e estes levaram gonsção, os dois soldados atrás.

os deuses parecem ter uma particular afeição pela imperfeição, pensava porphredo
ao subir para o atado de botijas de vinho insufladas de ar, pois nada acontece como
eu desejaria.

pensara escapar logo que ficasse escuro, mas jaimal mandara-lhe dizer que a
esperava para as orações da noite. ela e masum mal tinham tido tempo para
correrem à carroça das bailarinas, a agarrar as bóias que gandharva preparara com
as botijas de pele, e para chegarem à orla do rio antes dos sentinelas se postarem
em redor do acampamento. com a pressa, arranhara-se num arbusto e rasgara um
pedaço do sari.

para quê preocupar-me? ninguém o vai encontrar, a menos que andasse à procura
dele.

e tinha mais com que se preocupar. a corrente do rio krishna era ali muito forte e
havia rochas a evitar ou a ultrapassar com cuidado. para sua surpresa, masum
manobrava a sua bóia habilmente, deslizando nos rápidos com facilidade. quando o
rio se espraiou e a água ficou calma, já claramente afastados do acampamento
mongol, porphredo gritou-lhe:

- bom faylasuf, não sabia que sabíeis nadar!

- nem eu! - respondeu ele com um sorriso.

- então, dai-vos muito bem na água.

- a água é necessária à vida, portanto não posso deixar de me sentir bem dentro
dela.

porphredo, sentindo-se fria e úmida, agarrou-se melhor à bóia, apertando as botijas


de pele contra si.

- acho que não posso dizer o mesmo, masum.

com toda esta umidade, sempre quero ver se ainda vou ficar com mais rugas.

o sufi, de algum modo, conseguiu aproximar-se dela e estendeu-lhe um braço.

- agarrai a minha mão.

porphredo assim fez, embora incerta da vantagem.

- atentai no ritmo da água e deixai-o serenar o vosso espírito. observai o jogo da luz
na superfície da água e deixai-vos encantar por ele. deixai que a doçura da água
afaste os vossos receios. inspirai fundo e deixai que a água vos conduza, pois que é
certamente na água que reside a alma do divino.

fosse pelo toque da mão ou pelo som da voz dele, o que é certo é que porphredo
começou a sentir-se mais calma e deixou-se levar pela corrente do rio. pôs-se a
pensar que, fora ela ainda uma rapariga jovem, tudo aquilo lhe pareceria uma
grande aventura. olhou de lado para a cara feliz e de barba molhada de masum e
desejou francamente ser mais jovem.

o mirzá franziu a cara ao olhar para o sol poente. a luz, refletida na ondulação do rio
krishna, apunhalava-lhe os olhos como ínfimas adagas em brasa. notando a hora
tardia, abandonou a sua vigia, observando a aldeia hindu do outro lado do rio.

- ele não vai voltar - disse rafi, sentando-se ao lado do mirzá, sob um tamarindo
raquítico. - já devíamos ter ido reunirmo-nos ao grosso do exército há muito tempo.

- vamos esperar um pouco mais.

mal tinha ele pronunciado estas palavras, quando se ouviu um alarido do outro lado
do rio. uma figura surgiu entre duas cabanas da aldeia, correndo para a margem do
rio, perseguida pelos aldeãos, os quais lhe atiravam pedras e paus. o mirzá ergueu-
se.

- É lakart. parece que, afinal, vai voltar, embora, talvez, a isso obrigado.

quando os perseguidores se aproximavam dele, o avantajado ocidental lançou-se ao


rio e pôs-se a nadar em direção ao mirzá. a corrente do rio, porém, era muito forte e
lakart foi arrastado rio abaixo.

- vamos ver aonde o leva o rio - disse o mirzá, montando o cavalo. - ele pode
precisar de auxílio.

não esperando para ver que homens o seguiam, o mirzá cavalgou ao longo da
margem do rio até que encontrou lakart agarrado a um ramo pendente para a água.
o mirzá desmontou e estendeu-lhe um ramo, puxando o encharcado e resfolegante
escocês para a margem.

- folgo muito em verificar - disse o mirzá - que sois um homem de palavra.

- desculpai-me o atraso, senhor mirzá - soprou lakart mas, como vistes, não pude
contar com muita colaboração da parte dos nativos.
- aceitarei as vossas desculpas, mas só se me contardes tudo o que vistes.

lakart sentou-se pesadamente na margem e fez uma pausa, a recuperar o fôlego.

- não consegui descobrir nenhuma língua em que me fizesse entender por aqueles
pretos. nem os meus gestos quiseram compreender. devo ter cabriolado como um
louco para ver se me entendiam. ou me ignoravam, ou iam-se embora, muito
simplesmente. contudo, achei interessante o fato de aquela gente primitiva parecer
bem alimentada e saudável, apesar de viverem numa tão isolada aldeia de
choupanas. procurei marcas de cascos, mas, se as houve, estavam desfeitas pela
passagem dos pés dos aldeãos. sentei-me numa clareira, debaixo de uma árvore,
sem saber o que fazer. passado um bocado, porém, no silêncio que se estabelecera
ouvi o resfolegar de cavalos e, seguindo o som, fui descobrir uma choupana onde
estavam presos três cavalos, ainda suados, nitidamente em consequência de uma
prolongada andadura.

o mirzá lançou um olhar à aldeia.

- portanto, os vossos amigos podem ainda estar escondidos algures por ali.

- não creio. acho que partiram em cavalos frescos, pois a choupana tinha todo o ar
de servir de estábulo. mas há mais. enquanto examinava os cavalos, ouvi o arrulhar
de pombos.

o escocês fez uma pausa como se se tratasse de uma informação significativa e ao


mirzá pareceu-lhe, por momentos, que lakart encarava a descoberta como uma
dádiva dos céus.

- pombos? e então?

- tornei a seguir o som e descobri vários pombos, metidos em gaiolas.

o mirzá começava a compreender.

- o gênero de pombos utilizados para enviar mensagens?

- exatamente - disse lakart, inclinando a cabeça com ar de conhecedor. - soltei um


dos pombos e vi-o voar diretamente para sudoeste, para as montanhas. os aldeãos,
então, descobriram-me e perseguiram-me.

- acaso pensaram que tentáveis roubar os pombos.

- ou acharam que eu já sabia de mais.

- hum!

apareceu, então, rafi, com um ar nada agradado por o ocidental ter aparecido.

- meu senhor, vamos voltar ao acampamento?


o mirzá lançou um olhar ao descampado inóspito que tinham percorrido. trazer o
exército para ali significava reunir melhores meios para atravessar o rio e, talvez,
obter respostas dos aldeãos, ou da begum porphredo. porém, significava, também,
vários dias de atraso, em que os traços dos fugitivos iam desaparecer, cobertos pela
poeirada. jaimal não ia ficar nada satisfeito por aceitarem a palavra dos ocidentais e
havia que convencê-lo a trazer o exército para ali. o que é que o sufi dissera acerca
do seu sonho, há tempos? o mirzá não conseguia lembrar-se. uma taça que
continha água, ou poeira, ou ouro, ou sangue. essa taça, parecia recordar-se, tinha
um buraco no fundo e o conteúdo derramava-se antes que ele conseguisse
determinar se era pó ou ouro.

- meu senhor? - insistiu rafi.

- vamos ver se conseguimos arranjar maneira de atravessar o rio - disse o mirzá. -


se nada conseguirmos até ao nascer do sol, então regressamos.

thomas não sabia bem o que é que esperava encontrar no palácio de stheno. o
gagan mahal, o palácio do sultão ibrahim, em bijapur, estava cheio de tesouros e
fora desenhado de tal forma que, para onde quer que se olhasse, os olhos ficavam
deliciados, ou maravilhados, com a decoração arquitetônica, ou os graciosos jardins.
mestre coulter estivera uma vez em whitehall, o palácio de inverno da rainha isabel,
e dissera que estava cheio de gente, constantemente a entrar e a sair, para tratar
dos seus assuntos.

o palácio de stheno não era nada assim. os corredores que haviam percorrido eram
escuros e nus e, embora recentemente varridos, cheiravam a pó, a mofo, a antigo.
de vez em quando, um raio de luz numa parede revelara um fresco há muito
esbatido. se havia ali tesouros reais, deviam estar guardados noutra parte qualquer
do palácio. quanto a pessoas, thomas apenas vira raros sacerdotes cegos. os
corredores eram silenciosos, salvo pelo lamentoso pio de algum pavão num jardim
distante.

isto parece mais um túmulo do que um palácio, pensava thomas. um palácio de


mortos, ou que devia sê-lo.

por fim, stheno parou junto de uma porta de madeira.

- vós ficais instalado aqui, meu dourado. e ali - stheno apontou para outra porta,
mais pequena, à esquerda - fica o rapaz.

- os nossos agradecimentos, despoina - disse thomas -, mas, se me permitis


perguntar...

stheno tinha as mãos na cabeça, como se lhe doesse.

- desculpai-me - interrompeu-o ela - agora tenho de deixar-vos. vou mandar-vos


enyo para ver o que necessitais. não vagueeis pelo palácio sem ser com ela, pois
que certas partes são... estranhas e perigosas. ver-nos-emos esta noite.

voltou-se e seguiu rapidamente por um corredor lateral.


- despoina, estais bem? - gritou thomas para ela, mas ela não respondeu e logo
desapareceu no meio das sombras do escuro corredor.

- quem sabe se as serpentes a morderam? - disse timóteo.

- caluda, não faleis assim. ela, ou os servos, podem ouvir-vos.

- acho que ela não se preocupa por eu saber, tomás. thomas considerou que isso
mais o assustava do que tranquilizava.

- vamo-nos deixar de insultos, evitando falar disso abertamente, pois não sabemos
que novos perigos nos espreitam aqui. vinde, vamos ver as instalações que nos
destinaram.

thomas abriu a porta de madeira, verificando, com alguma preocupação, que podia
ser trancada do lado de fora, e entrou.

ali estava a suntuosa opulência que, afinal, estava à espera de encontrar. a armação
da cama era ouro polido, com cobras estilizadas nos pilares. a colcha era de linho,
com fios de ouro entrançados. nas paredes, viam-se espadas cruzadas, com punhos
de ouro. uma mesa e uma cadeira eram de madeira de ébano, com embutidos. o
tapete felpudo era idêntico aos do palácio de ibrahim. suspensas do teto, enormes
lâmpadas de cobre, cada uma presa por três correntes. as lâmpadas eram bem
necessárias, pois, como thomas notou, o quarto não tinha janelas.

- tomás! acho que as espadas são romanas! - disse timóteo. - o rapaz correu para as
examinar, mas estavam demasiado alto, fora de alcance. - o meu avô falava-me dos
gladiadores e dos centuriões.

- ah, sim.

sentou-se na cama e notou que a colcha estava esfiapada nas pontas e ligeiramente
manchada. e era nitidamente muito velha. também notou que havia pó e teias de
aranha junto às paredes.

- dá a impressão de que a domina stheno não recebe hóspedes com frequência.

- nós temos muita sorte, tomás.

- eu acho que a sorte não tem nada a ver com isto - disse thomas, recordando a
série de decisões e de acontecimentos que o haviam conduzido ali.

- tendes razão, tomás. não é sorte, é a vontade de deus.

- ou de qualquer outrem - aventou thomas que, não sabendo que divindade era,
agora, a guardiã da sua alma, se o deus protestante, se o católico, ou a deusa pagã
que o seu pai adorava, se sentia impedido de dirigir a sua fé a qualquer delas.

thomas ouviu movimento e ruído de louça junto da porta e ficou à espera de ver
entrar um criado. quando, passado um bocado, se apercebeu de que ninguém
entrava, levantou-se e foi abrir a porta.

um monge de ar esgazeado, vestindo apenas um dhoti, deu um salto para trás,


espantado e a tremer. caiu de joelhos e pôs-se a fazer vênias. havia uma série de
tigelas de barro no chão, junto da porta.

- eh, desculpai-me. timóteo, por favor, vinde falar com este personagem.

timóteo aproximou-se.

- ele está a fazer puja.

- o que é isso? algum cerimonial? um ritual de boas-vindas, talvez?

timóteo encolheu os ombros.

- eu não sei bem. É uma forma hindu de adoração e eu sei pouco a respeito disso.

- de adoração?

- eu vi, em goa, as pessoas fazerem o mesmo nos degraus dos templos, perante os
ídolos.

- É como se fôssemos... deuses?

- não sei, tomás.

a pequena anciã de olhos brilhantes surgiu de um corredor próximo e soltou um


profundo suspiro quando viu o monge. pôs-se a gritar-lhe, agitando as mãos para
ele, enxotando-o como se fosse um cão perdido a urinar-lhes à porta. com muito
apalavrar e muita inclinação de cabeça, o monge aquiesceu e afastou-se corredor
adentro.

- deveis desculpá-lo - disse a anciã em grego, juntando as tigelas e colocando-as de


lado. - era prabaratma, um dos preferidos da despoina. ele é inofensivo, embora eu
às vezes pense que ele é louco.

- não há razão para pedir desculpas. eu fiquei apenas admirado. o que é que ele
estava a fazer?

- quem sabe? não lhe presteis atenção, ele é louco. endireitou-se, com um suspiro. -
achais os vossos alojamentos confortáveis.

- sim, são muito... adequados. como está aditi? um largo sorriso encheu a cara da
anciã.

- está bem e vai recuperar completamente. agradeço-vos, déspotas, por a terdes


salvo.
- tive muito prazer em fazê-lo, mas fui ajudado por um tal gandharva.

- ah, gandharva! temos muitas saudades dele. É uma alegria quando ele cá está. ele
regressará em breve?

- isso não sei, minha senhora. a anciã chegou-se a ele.

- por favor, sabeis dizer-me se porphredo se encontra bem?

- a despoina porphredo é... vossa irmã? a anciã aquiesceu.

- eu sou enyo. e não deveis tratar-nos por despoinas, pois nós temos sido servas
toda a nossa vida. mas, por favor, ela está bem?

- a última vez que a vi, estava bem e preparava-se para desviar um exército de
mongóis para muito longe daqui.

- ah! - o traço de preocupação permaneceu no sobrolho de enyo. - portanto não


deve voltar tão depressa?

- quanto a isso, nada sei.

- pois claro. obrigada. o que é que eu posso fazer por vós?

- quanto a timóteo, não sei, mas eu gostava de tomar um banho, se for possível.

timóteo apareceu por detrás de thomas e enyo recuou, nitidamente receosa dele.

- o que é que ela tem estado a dizer, tomás?

- esteve a perguntar se estamos bem instalados e quis saber notícias da irmã, que é
a grande feiticeira que fez reviver o mangusto. - e, para enyo, thomas acrescentou,
em grego: o rapaz não faz mal a ninguém, é simplesmente curioso.

com a mão na garganta, enyo fez que sim com a cabeça, insegura.

- ainda bem que mo dizeis, despos. se o jovem quiser, eu posso falar em latim.

- então, é melhor - disse thomas e, voltando-se para timóteo, perguntou: - precisais


de alguma coisa? eu pedi para tomar um banho.

- um banho! - repetiu timóteo, o inocente desejo a brilhar-lhe nos olhos.

- bem - disse enyo, falando agora no seu latim de acento estranho -, se a minha irmã
cá estivesse, nós trazíamos para aqui uma celha e água quente. mas, como não
está, tenho de vos levar ao tanque da fonte de água quente, se estiverdes de
acordo.

- claro que estamos de acordo - disse thomas. - posso perguntar-vos porque é que
há tão poucos criados aqui? isto parece um grande palácio, que deve dar muito
trabalho.

- a domina stheno é... muito seletiva em relação às pessoas que mantém próximo de
si. está em causa a sua segurança e a própria segurança das pessoas. prefere viver
com uma certa simplicidade e ter poucos criados.

- mas deve ter uma cozinha com cozinheiros, não é verdade?

- o povo de bhagavati fornece-nos a alimentação. e os monges têm o seu próprio


cozinheiro, e comem muito pouco.

- e os jardineiros?

- sou eu e a minha irmã que tratamos dos jardins.

- ah!

- os monges varrem os corredores e limpam... as latrinas, como parte da sua


devoção. mas não vejo porque vos hão-de interessar os nossos hábitos quotidianos.
permiti que vos conduza à fonte de água quente. mas deveis seguir-me sem vos
afastar de mim.

- sim, a domina stheno já nos avisou. certas partes do palácio são estranhas e
perigosas.

- precisamente. por aqui, por favor.

passaram pela porta que stheno indicara ser a do quarto destinado a timóteo e
thomas abriu-a rapidamente e olhou lá para dentro. o quarto era pequeno, equipado
com o que pareciam fofos coxins e uma mesa baixa, redonda. era, porém, aberto de
um dos lados, uma elegante arcada ligando-o a um varandim sobranceiro a um
jardim.

- hum - disse thomas -, o vosso quarto é, em certos aspectos, mais agradável do


que o meu, timóteo.

- ah, é? podemos trocar, se quiserdes, tomás.

- não! - disse enyo. - não deveis fazer isso. a domina stheno foi muito precisa a esse
respeito. vós, domine tamas, deveis ficar no quarto maior, pois ela ficaria muito
irritada se assim não fosse.

- bem, acho que não devemos irritar a domina stheno.

- sim, isso seria imprudente - disse enyo.

thomas e timóteo olharam um para o outro e continuaram a seguir a anciã, a qual os


conduziu num percurso que parecia circular, mas thomas apercebeu-se de que
estavam, de novo, a andar em espiral e a encaminharem-se para o centro do
palácio. timóteo corria de um lado ao outro, espreitando os corredores laterais,
comportando-se muito mais infantilmente do que na presença de stheno. era
evidente que a curiosidade dele perturbava enyo, mas ela não o admoestou até que
ele se pôs a espreitar a uma pequena abertura na parede, na junção de dois
corredores.

- tomás, vinde ver! nunca vi árvores como estas! thomas aproximou-se e espreitou,
também, pela abertura.

- são ciprestes, timóteo. há muitos, na europa. e carvalhos, também! nunca pensei


ver árvores destas nesta região. É o bastante para me dar saudades de casa. que
belas árvores!

- e olhai - acrescentou timóteo -, há também um tanque, ou um lago, no meio delas.

- por favor, meus senhores! - exclamou enyo atrás deles.

- não deveis olhar para aí.

timóteo largou a abertura e correu para enyo.

- por favor, indicai-nos o caminho para o jardim. eu gostava de ver melhor aquelas
árvores.

- não! - disse enyo firmemente.

- mas eu sou um ervanário! e tomás também! nós estudamos as plantas para curar
as pessoas.

- tenho muita pena, jovem senhor - disse enyo, a voz tensa -, mas aquilo é um lugar
santo. É um jardim sagrado. não podeis lá entrar.

- a domina stheno - disse thomas, aproximando-se deles

- ficaria, decerto, muito irritada, se lá entrássemos, mesmo acidentalmente.

- sim - disse enyo -, ficaria muito irritada.

algo havia no comportamento da anciã que levou thomas a pensar que mais
objetava enyo do que stheno.

duvido que nos deixasse lá entrar mesmo sem a domina saber.

- por favor, não será possível, ao menos, espreitarmos mais de perto? - insistiu
timóteo.

- não atenazeis mais a nossa guia, timóteo - disse thomas ao rapaz. - devemos
respeitar os nossos hospedeiros e as suas restrições, designadamente os lugares
que consideram sagrados.

vós não permitiríeis visitantes a vaguear na sacristia do santo ofício, mesmo que
pedissem e implorassem, pois não? timóteo anuiu, relutante.

- tendes razão. as minhas desculpas.

os ombros da anciã descaíram e ela suspirou.

- tudo bem. aliás não admira, vós sois novos aqui e não conheceis os nossos
costumes. agora, por favor, segui-me, já estamos perto do tanque de água quente.

voltou-se e entrou numa escada que conduzia a uma gruta, iluminada por umas
aberturas feitas no teto de rocha. thomas achou-a semelhante ao aljouvar de goa, a
gruta-prisão onde os prisioneiros aguardavam o julgamento do governador. porém,
em vez de estar cheia de homens desesperados, esta continha um grande tanque
donde saía o vapor da água quente. esse vapor tinha um leve cheiro mineral, muito
mais agradável do que o fedor do aljouvar. contudo, o tanque não tinha nada a ver
com os arejados e belos tanques do gagan mahal. este era muito mais antigo, era
escondido, secreto, primitivo. embora as paredes laterais fossem nitidamente
talhadas à mão, era mais um produto da natureza do que obra humana.

- entrai nele e banhai-vos - disse enyo. - eu vou buscarmos toalhas e roupa lavada.
devo insistir para que não saiais daqui até eu voltar, para vos guiar. prometido?

- sim, claro - disse thomas, imaginando que perigos espreitariam os incautos


naquele palácio deserto.

enyo deixou-os e timóteo despiu o hábito e meteu-se dentro de água. thomas fez o
mesmo e sentiu de imediato a água mineral a amaciar-lhe a pele.

- somos como cupido e psique - disse timóteo, soprando e chapinhando em redor do


tanque.

- como quem?

- É uma das velhas histórias que o meu avô me contava. uma bela jovem, chamada
psique, é isolada num grande e misterioso palácio, onde é obrigada a viver numa
parte, sem ver o resto. e cupido, o deus do amor, como sabeis, vem visitá-la à noite
e... beijá-la, imagino eu. mas ela não pode olhar para ele e não sabe quem ele é. por
fim, uma noite ela acende uma vela e vê-o e... acontece qualquer coisa de que não
me lembro.

thomas recordou os galanteios com que stheno o mimoseara e estremeceu.

- a vossa história não é nada tranquilizadora, timóteo, mas todos os palácios têm
lugares proibidos. além disso, as nossas hospedeiras pertencem a outra história. É
melhor não nos pormos a misturar mitos, não vos parece?

timóteo não respondeu, antes mergulhando a cabeça dentro de água e, com os


cabelos cortados à tigela, emergindo tal um cão.

além disso, pensou thomas, o meu papel nesta história deve estar a chegar ao fim.
eu trouxe aditi a casa e descobri a fonte do rasa mahadevi. posso, ainda, vir a obter
conhecimentos que vou levar para inglaterra. conhecimentos que me vão permitir
regressar como um grande sábio viajante e não como um aprendiz falhado. espero
que seja essa a minha história e não uma triste e esquecida lenda.

capítulo xii

erva-de-sÃo-joÃo: esta pequena erva tem umas folhas estreitas e compridas e


cheira a terebintina. dá umas flores amarelas no verão. pensa-se que é
particularmente eficaz no dia de são joão e daí o seu nome. há quem coloque a erva
nas crianças, como amuleto, para as proteger das doenças. o óleo da erva-de-são-
joão serve para limpar e curar as feridas profundas e um emplastro das folhas chupa
o veneno das mordeduras de serpentes. os cruzados que trouxeram a erva do
oriente chamavam-lhe a semente-do-diabo e diz-se que protege uma casa dos
demônios e das doenças. há quem diga que as folhas ficam com manchas
vermelhas no dia do ano em que salomé pediu a cabeça de são joão. se um homem
pisa erva-de-são-joão, dizem que se vê montado num belo cavalo que o leva com
ele...

aditi vestia-se lentamente, mirando a lua que, embora ainda em meia-lua, iluminava
bem a varanda do quarto. os braços e mãos de aditi eram ainda lentos a obedecer-
lhe à vontade. os pensamentos também eram lentos, como se o mel em que fora
envolvida se lhe tivesse introduzido no espírito. havia, porém, um pensamento que
constantemente lhe vinha à mente, desde que recuperara a consciência na carroça
de gandharva: concederam-me uma segunda oportunidade.

a porta do quarto abriu-se e enyo entrou. aditi sorriu para a anciã, a qual nada
mudara desde que aditi era criança. ao ver enyo, o regozijo de aditi aumentou.
finalmente, estou em casa.

- como te sentes? - perguntou enyo.

- muito... melhor - conseguiu aditi dizer. - mas é tudo... muito lento.

- não faz mal. tens todo o tempo de que precisares, embora a despoina te queira
falar quando te sentires capaz disso.

a recordação da sua mãe adotiva, stheno, fez as mãos de aditi tremerem, a dúvida
surgindo, tal uma lufada de vento frio, a perturbar-lhe a serenidade.

- eu sinto-me capaz... quase. - abotoando a jaqueta peshwaz, perguntou


mansamente: - ela... perdoa-me?

- perdoa-te o quê, minha querida? na verdade, a despoina tagarela e implica tanto,


ultimamente, que é difícil sabermos o que é que a irrita, ou o que é que lhe agrada.
eu cá não sei. nunca soube e ela não pára de mo dizer. a aversão que sente por
mim é a única emoção dela que é garantida.

- oh, enyo - suspirou aditi, com um sorriso. as queixas da aia eram antigas e eram-
lhe familiares como um travesseiro da infância. - sabeis bem que a despoina aprecia
a vossa boa disposição e a vossa natureza gentil.

- queres dizer que abusa dela. ai, quem me dera ver porphredo de volta. tem a pele
muito mais dura do que a minha. consegue dar a volta à despoina, como uma cota
de malha afasta as espadas.

aditi respondeu apenas com novo sorriso.

- oh, minha querida, esquecestes-te de um botão. enyo foi junto dela, ajeitou-lhe a
roupa e escovou-lhe e penteou-lhe o cabelo. aditi tudo suportou, com a deliciosa
impressão de ser de novo uma criança. como se eu tivesse, de fato, tornado a
nascer.

finalmente, enyo recuou, observando-a.

- aí está. agora estás apresentável e ela não vai implicar comigo. estás preparada
para ir?

aditi anuiu e tomou o braço de enyo, pois o seu andar ainda era inseguro. estivera
muitos dias sem andar e, pelo que parecia, as pernas tinham de reaprender a
mexer-se.

seguiram lentamente por um dos muitos corredores do palácio. aditi regozijava-se


por terem de caminhar lentamente, pois os seus olhos queriam encher-se da visão
familiar da passagem mal iluminada e recordar os anos da infância, quando o
palácio era um pátio de recreio e cada recanto, cada volta, continha um mistério,
uma fábula antiga nos frescos diluídos, nas estranhas inscrições, nas estátuas
partidas e nos jardins silvestres, mal conservados.

era uma coisa estranha, dava-se agora conta, que nunca tivesse sentido a falta da
companhia de outras crianças. como amigos e companheiros de folguedos tivera os
monges e as aias, enyo e porphredo. e, com um palácio inteiro, cheio de maravilhas,
para percorrer, raramente se sentira aborrecida. agora teria tamas com quem
partilhar tudo isso. gostava de saber o que pensava ele do palácio.

enyo levou-a através de um jardim numa plataforma elevada, o jardim da monção,


como lhe chamavam, recordava-se aditi, porque estava voltado para a direção
donde surgiam as tempestades, suportando, geralmente, o ímpeto das primeiras
chuvas. podiam, agora, utilizá-lo, porque era a estação seca.

na plataforma erguiam-se várias colunas que nada suportavam, tais ruínas de um


templo. aditi parou, pois o luar incidindo nas colunas fazia-lhe lembrar imagens de
visões que não conseguia recordar, visões que tivera quando morta. entre as
colunas viam-se biombos de tecido preto. algures nas sombras que produziam
estava sentada a mahadevi, a devidurga, a despoina stheno.

- estamos aqui, despoina - bradou enyo.

- muito bem. vai-te embora, ratazana. quero falar sozinha com a minha filha.
a pele de aditi arrepiou-se, ao ouvir de novo aquela voz, tão cheia de sabedoria e de
poder.

enyo fez uma vênia e partiu. aditi fixou o olhar na escuridão do centro do jardim, mas
não conseguiu falar.

- bem-vinda, aditi.

aditi abriu a boca, mas os lábios tremiam-lhe e não saiu nenhuma palavra. e, de
repente, sentiu-se cair nas lajes do chão, toda estendida, os braços atirados para a
frente.

- por favor... grande mãe - conseguiu por fim balbuciar -, perdoai-me.

- perdoar-te? - seguiu-se’ uma grande pausa. - por que transgressão pedes tu


perdão?

- por goa - disse aditi. - por tantos dos nossos... perdidos na orlem gor.

e aditi, que tão raramente chorara na sua vida, sentiu lágrimas a correrem-lhe pelas
faces.

- ah! os sacerdotes da orlem gor são monstros. os nossos serão vingados, aditi,
garanto-te. É uma pena que tenhas sucumbido às suas mãos, mas não passas de
uma mortal, embora com capacidades e conhecimentos que poucos mortais
possuem. É verdade que não foste tão bem-sucedida como eu esperava,
precisamente depois de teres começado tão bem, com o governador e com o vice-
rei. foi uma pena.

- perdoai-me - insistiu aditi.

- aditi, não te levei eu o meu sangue, entrando no âmago do exército mongol, para te
trazer de regresso à vida? não significa isso perdão? não te trouxe eu própria, a ti e
ao teu salvador, para aqui, para a minha cidade sagrada de bhagavati? isso não
quer dizer perdão?

aditi não sabia bem o que responder.

- sim - disse ela, por fim.

- se eu estivesse zangada contigo, minha filha, tinha-te deixado morta. mas se me


queres fazer uma oferta, um gesto, como penitência, então, oferece-me tamas.

aditi ergueu-se lentamente, ficando sentada nos calcanhares, perguntando-se se


tinha compreendido bem.

- grande mãe?

- decerto já recuperaste bastante os teus sentidos. eu disse, oferece-me tamas. eu


gosto do aspecto dele. aquele cabelo dourado! há muitos anos que não tenho
nenhum homem que me dê prazer, a não ser esses desastrados monges cegos. tu
não podes imaginar, não, claro que não podes. ele está apaixonado por ti,
nitidamente, mas podemos alterar isso. os homens são muito volúveis, basta
encontrarmos o fulcro do equilíbrio das suas almas. dá-me tamas e fica tudo
perdoado.

aditi pestanejou, os seus lentos pensamentos ponderando se tamas lhe pertencia de


tal forma que o pudesse dar e se... coisa estranha de pensar, se era correto fazê-lo.
ela era uma deusa. a mahadevi podia ter qualquer homem mortal que desejasse,
não podia? porque é que quer aquele que eu amo? - pensava aditi. não foi a
prabaratma que ouvi dizer que os deuses gostam muito que lhes sacrifiquemos as
coisas que nos são queridas? que justiça cruel!

uma pequena parte do seu coração, o qual, desde que chegara a adulta, não
respeitara nenhum sultão, ou governador, ou outra autoridade que não a da
mahadevi, de repente começava a encarar a rebelião.

- porque é que não falas? - perguntou a mahadevi.

- eu... os meus pensamentos... são lentos - disse aditi. eu... por favor, deixai-me falar
com ele... para lhe dizer.

- sim, claro. ele aceitará melhor a tua rejeição se fores tu a comunicar-lhe. fala-lhe
bem de mim. quero-o ansioso. a sedução é uma maçada, quando os homens estão
incertos. faz isso depressa. fá-lo esta noite.

- se... é esse o vosso desejo, grande mãe, assim farei.

- É, sim, minha filha. agora, vai descansar. quando estiveres completamente


restabelecida, falaremos das tarefas de que te vais encarregar.

- sim, grande mãe.

com alguma dificuldade, aditi levantou-se e, com passo incerto, afastou-se da


plataforma.

ela mudou muito, ou eu, nestes anos em que estive longe de casa. como pode uma
deusa ser tão mesquinha como uma mulher mortal? e terá o meu orgulho
aumentado tanto a ponto de eu conceber a idéia de a desafiar, mesmo depois de ela
me ter feito voltar à vida? nas histórias antigas, por vezes os mortais desafiam os
deuses. quando são argutos, às vezes ganham, embora a alto preço. gandharva diz
que eu sou arguta, mas, por ora, os meus pensamentos flutuam como nuvens num
céu sem vento. que posso eu fazer?

o pé tropeçou-lhe numa laje saliente do pavimento, mas aditi conseguiu evitar cair.
cuidado. tenho de andar mais devagar e com cuidado. atenta aonde punha os pés,
aditi foi tateando o caminho para a luz difusa do corredor.

o mirzá akbarshah ergueu o olhar da fogueira para a lua. não gostava daquela lua,
pois parecia olhar para ele com um olho meio fechado, com um ar de desaprovação.
terei cometido um erro tremendo?, interrogava-se ele. deveria eu ter regressado há
muito ao grosso do exército, em vez de continuar esta corrida de loucos? a ânsia de
vingança de rafi já se esbateu e eu começo a duvidar do meu bom senso. talvez
lakart seja aliado da feiticeira que transformou mumit em pedra, ou conspire com a
mulher porphredo para destroçar a minha expedição. talvez já tenham, até,
alcançado os seus intentos e eu já não tenha exército para onde regressar.

o mirzá desviou o olhar da lua para a forma adormecida de lakart. o homem estava
exausto dos esforços do dia e ressonava com grunhidos de javali.

que sonharás vós, vós que manteis os vossos pensamentos fechados como as
portas de um baluarte? que luz procura o vosso espírito dentro de vós? alá tenha
piedade de mim que começo a pensar como masum!

os outros homens também dormiam, mas mais intranquilos. pareciam perturbados


pelos sonhos. que injustiça eu cometi com estes homens, ao trazê-los para este
descampado. o mirzá sentiu-se muito isolado, sob a vigia da lua e das estrelas.

pelo canto do olho notou uma mudança na tonalidade da luz no rio krishna, uma
sombra a flutuar, junto à margem. alertado, o mirzá ergueu-se e lançou a mão à
adaga.

- alá é grande! - bradou uma voz do rio. - estou a ver o grande mirzá ali akbarshah?

o mirzá dirigiu-se para a borda de água, mas parou a uma certa distância. os
arbustos da margem formavam escuras sombras, tornando impossível discernir
quem, ou o quê, falava. por momentos, o mirzá imaginou que algum gênio do rio o
chamava para sua perdição. talvez fosse a feiticeira que havia transformado mumit,
ou um filho de satã tentando apoderar-se da sua alma.

- eu sou o mirzá akbarshah, emissário do poderoso imperador akbar! - gritou ele,


para afastar os pensamentos temerosos do espírito. - quem me chama?

- alá seja louvado! - respondeu a voz, muito próximo da margem. - sou eu, masum
al-wadud, e trago a begum porphredo comigo. viemos à vossa procura.

duas figuras, escorrendo água, saíram da água e caminharam para a areia.

- masum! - exclamou o mirzá, atônito.

- o que é que foi? que aconteceu? - bradou rafi do acampamento.

- traz um ramo da fogueira, aqui - ordenou o mirzá. depressa!

em instantes, todos os seus quatro homens acorreram, archotes e adagas nas


mãos. À luz das tochas, o mirzá pôde confirmar que era, de fato, o sufi masum que
se encontrava junto da margem do rio, mais sujo do que nunca, a mulher porphredo
a ele pesadamente apoiada.
o mirzá aproximou-se dela e pegou-lhe num braço.

- como é possível? que milagre - foi a palavra que lhe ocorreu - vos fez surgir do rio
neste sítio?

- trazemo-vos uma informação de suma importância começou porphredo, logo


sucumbindo a um acesso de tosse.

o mirzá agarrou-a, achando-a surpreendentemente leve para uma mulher tão alta, e
levou-a para junto da fogueira.

- meu senhor - disse masum, seguindo atrás deles, a roupa molhada a dar estalos -,
nós viemos para vos avisar.

- avisar-me? - o mirzá, com todo o cuidado, deitou a anciã no chão fofo de pó, ao
lado da fogueira. entretanto, lakart sentara-se, a pestanejar e de cenho franzido. -
avisar-me de quê?

- não deveis voltar para o vosso exército - disse masum, sem fôlego. - o comandante
jaimal rebelou-se contra vós e pretende chefiar a expedição. e colocou arqueiros de
emboscada ao longo do vosso percurso de regresso.

o mirzá e os seus homens olharam para o sufi em silêncio atônito.

- meu senhor - disse sabur, por fim -, como vamos saber se este homem não foi
enviado por jaimal, ou se não é movido por interesse próprio, para nos manter
separados do exército e sermos mortos aqui?

- juro pela minha alma! - disse masum. - juro por tudo o que é sagrado, que alá
julgue as minhas palavras, que tudo o que digo é a pura verdade.

o mirzá examinou a cara séria do sufi.

- eu acredito nele. eu sabia que jaimal podia intentar isso. vejo, agora, que não lhe
devia ter passado o comando.

- perdoai-me, senhor mirzá - disse rafi. - foi para se fazer justiça ao meu pobre irmão
que nós viemos parar aqui. a culpa é minha.

- ou minha - disse lakart, levantando-se. - nós viemos em perseguição do meu


companheiro de viagem, que pode estar a dirigir-se, ou não, para a cidade oculta.

o mirzá ergueu uma mão.

- basta. digamos que temos todos alguma culpa e deixemos que seja alá o juiz,
quando tudo isto tiver terminado. agora temos de pensar no que havemos de fazer.

- podemos voltar por outro caminho - disse sabur - e emboscar os que procuram
emboscar-nos.
o mirzá cofiou a barba e aquiesceu com a cabeça.

- É uma possibilidade.

- eu recordaria, meu senhor - disse lakart -, que somos apenas seis homens, a não
ser que o bom do sufi se disponha a abandonar os seus votos, caso em que
seríamos sete. muito poucos para contrapor a uma insurreição de quinhentos
homens.

- certamente que há homens que se mantêm fiéis ao mirzá - disse rafí. - se


voltarmos, vão erguer-se contra os traidores.

- mas quem sabe que mentiras jaimal lhes terá avançado? - disse o mirzá. - se lhes
prometeu tesouros... sabemos que, muitas vezes, o ouro compra a honra de um
homem.

- tais homens merecem morrer - disse rafi.

- se me permitis, meu senhor - disse porphredo, no chão -, tenho uma sugestão a


fazer-vos.

- qual seja? - perguntou o mirzá.

- percorrestes todo este caminho em busca da rainha da vida e da morte. digo-vos


que estais no caminho correto, pois a cidade oculta fica situada para além das
montanhas para lá do rio. eu própria vos levarei lá.

a sugestão dela foi recebida em silêncio geral.

- quereis vós dizer - disse por fim o mirzá - que, anteriormente, nos mentistes, mas
que, agora, nos dizeis a verdade e nos ajudareis a encontrar o que procuramos?

a anciã sentou-se, a intensidade do olhar de novo nos olhos.

- eu não queria ver chegar um exército às muralhas da cidade oculta. É meu dever
proteger a minha rainha e o seu povo. agora, porém, vós sois poucos e eu acho que
a grande rani deve receber o emissário do poderoso imperador akbar, quer queira,
quer não.

o mirzá ergueu o sobrolho.

- e vós, uma serva, desobedeceríeis à vossa rainha por nossa causa?

masum interveio pressuroso:

- recordais, meu senhor, a história que ouvimos no túmulo do shahid sem nome? a
respeito da anciã que trouxera a relíquia da cidade escondida porque tinha vergonha
do comportamento da rainha?

o mirzá não respondeu, mas olhou pensativamente para porphredo. será possível
que...

- sim - disse porphredo secamente -, sou muito parecida com essa. como boa serva,
tenho, muitas vezes, de proteger a minha rainha dela própria. acho que tem estado
há demasiado tempo isolada do mundo e isso não é saudável para ela. acho que é
tempo de se aperceber, de novo, de que há gente digna de nota no mundo que a
rodeia e de que há outras maneiras de governar, de viver, do que o gênero de
existência que adotou.

- tudo isso é muito bonito - disse lakart, mansamente -, mas como é que poderemos
chegar a uma cidade para além do rio, se nem sequer o conseguimos atravessar?

- uma questão da maior importância - disse o mirzá. como é que podemos acreditar
em vós, mulher?

- seria uma prova suficiente - disse porphredo - se eu vos proporcionasse a travessia


do rio?

- pois bem - disse o mirzá -, mostrai-nos maneira de atravessar e decidiremos.

a anciã estendeu o braço para masum que a ajudou a levantar-se. o mirzá ficou, de
novo, a pensar. que haverá entre eles? que elo os ligará? terá ela arrastado o sufi à
traição?

porphredo pegou numa acha acesa da fogueira e, apoiada em masum, caminhou ao


longo da margem do rio, até ficarem diretamente em frente da aldeia na outra
margem. a anciã pôs-se a agitar o archote e a bradar palavras que o mirzá não
percebeu.

passado pouco tempo, apareceu uma figura escura na margem oposta, agitando,
também, um archote e gritando. a conversa entre eles prolongou-se por algum
tempo e, depois, o aldeão voltou para trás e desapareceu entre as choupanas. a
anciã caiu para trás, contra masum, que a agarrou e endireitou, ajudando-a a voltar
para junto do mirzá.

- em breve - disse ela numa voz rouca - tereis a vossa prova e a vossa. travessia.

o mirzá e os homens esperaram. podia dizer-se que havia alguma atividade na


aldeia, mas o luar não revelava o que se passava. passado um pouco, o mirzá ouviu
um ligeiro estrondo e sentiu, sob os pés, uma subtil vibração no chão. tremor de
terra?, pensou ele.

- olhai - disse porphredo, apontando para o rio.

o luar tremia na água, a corrente remexida por qualquer movimento sob a superfície.
uma larga faixa preta apareceu, estendida de uma à outra margem.

o mirzá tirou um archote das mãos de rafi e chegou-se à beira da água. uma plana
ponte de pranchas de madeira erguia-se sobre o rio.
- que feitiçaria é esta? - perguntou sabur.

- a única feitiçaria de confiança - disse porphredo. - trata-se de engenharia.

quando a ponte subiu até duas mãos acima da superfície da água, parou de subir e
a vibração do chão e o ribombo terminaram.

- e agora, senhor mirzá - prosseguiu porphredo -, aceitais a minha prova? vamos


atravessar? eu irei à frente, ou atrás, ou como desejardes.

- meu senhor - avisou sabur -, pode ser uma armadilha. ela pode fazer cair a ponte
conosco lá em cima, mesmo que ela própria perca a vida.

- ela não fará nada disso! - disse masum. - juro também pela minha alma.

o mirzá soltou um suspiro.

- a vossa alma está a ficar muito carregada, masum. mas, sabes, sabur, há alturas
de suspeitar e alturas de confiar. tu e os outros reúnam os cavalos e recolham o
acampamento. vamos atravessar. - o mirzá notou que o ocidental lakart olhava com
ar especulativo para a ponte. - estais a tentar imaginar como é que ela é feita? talvez
a begum porphredo se disponha a revelar-nos esse segredo também.

- na realidade, alteza, eu considerava acepções mais filosóficas da ponte e do rio.

- pois claro - disse masum. - a corrente do rio proporciona subsistência e morte, o


que é muito adequado, considerando o que procuramos. e, mais afortunadamente,
ainda,, o rio chama-se krishna, como o deus hindu do amor, pois não é pelo amor
divino que empreendemos esta viagem?

- eh, talvez - disse lakart -, mas os meus pensamentos centravam-se mais em


fronteiras e limites. para além dele estão territórios estrangeiros, tanto em terras
como em espírito. o rio é um sinal tangível de uma decisão, um passo dado, talvez
sem retorno possível.

- oh, estou a perceber - disse masum. - atravessar o rio significa uma mudança no
estado de espírito, um passo em frente na via sagrada.

o mirzá suspirou.

- talvez seja do meu cansaço, mas eu vejo apenas mais um obstáculo transposto,
seguramente com muitos mais a transpor, entre este e o nosso objetivo.

- sim - disse masum -, há muita sensatez no que dizeis. sabur regressou junto deles.

- estamos prontos, meu senhor.

- muito bem - disse o mirzá -, vamos atravessar.

thomas estava sentado com timóteo no quarto deste, olhando, pela varanda, para o
jardim meio selvagem lá em baixo. o quarto era muito mais agradável, com a fresca
brisa da noite, do que o seu pomposo quarto fechado.

- tanto desleixo - murmurou thomas - no meio de tanta riqueza. não saberá a


despoina o que tem, ou não se importará?

timóteo encolheu os ombros, mas nada disse. depois do banho, não ficara nada
disposto a conversas.

- o que é que se passa? ah, foi uma longa jornada e vós estais, decerto, fatigado das
nossas viagens.

timóteo suspirou.

- tenho estado a pensar no padre. gostaria de saber se ele se encontra bem.

thomas quase que sentiu um baque de culpa. quase, até se lembrar de que o padre
deixara matar aditi.

- o padre gonsção é mais forte e... tem mais recursos do que pensais, timóteo. tenho
a certeza de que vai arranjar maneira de se safar.

- mas, agora, eu vou ter de contar a história de deus à rainha stheno sozinho e sem
ajuda dele. É... é uma tarefa pesada, o que tenho de fazer.

- tencionais converter a despoina stheno? mesmo sendo ela... mesmo se ela é o que
vós pensais?

- especialmente se ela é uma górgone, pois ficará a conhecer a glória de nosso


senhor, poderá rezar pela salvação da sua alma e ele tirar-lhe-á as serpentes da
cabeça.

thomas abanou a cabeça, espantado com a fé de timóteo, mas, também, com a sua
imaginação.

- então, é capaz de ser melhor o padre não estar cá. sabeis, não é verdade, que a
intenção dele era destruir a fonte do pulvis mirificus? isso quer dizer que ele
pretendia matar a despoina stheno.

timóteo fitou-o de olhos muito abertos.

- ele nunca faria uma coisa dessas. o santo ofício não mata.

apesar de toda essa fé, pensou thomas, há aqui alguém, recentemente de regresso
à vida, que pensa o contrário.

- nós já não estamos no santo ofício, timóteo. e quem sabe o que um homem é
capaz de fazer, quando zangado e bastante assustado?

- o padre é um homem corajoso e sensato.


- sim, mas, de qualquer modo, é um homem. uma batida na porta fez ambos
sobressaltarem-se.

- quem é? - perguntou thomas em grego.

- sou eu - disse aditi, abrindo a porta. thomas levantou-se de um salto e correu para
ela.

- aditi! como estás linda! estás muito melhor. como te sentes?

- eu... recupero, lentamente.

- que milagre! - ia tomá-la nos braços, mas lembrou-se da presença do rapaz. -


timóteo, importais-vos de ir para o meu quarto?

- porquê, tomás? quereis que vá lá buscar alguma coisa?

- não, mas queria falar com a senhora aditi sozinho, se me permitísseis.

- oh!

timóteo saiu, inclinando-se perante aditi, uma expressão de desconfiança na cara.


thomas pegou na mão de aditi e fê-la entrar, fechando a porta.

- o vosso companheiro... desaprova? - perguntou aditi.

- ele é ainda um inocente acerca de muitas coisas. acho que anda confuso e não
sabe bem o que desaprova.

aditi riu-se e thomas achou que era o som mais maravilhoso que ouvia desde há
muito. de repente, sentindo a necessidade de a sentir, puxou-a para si e beijou-a,
não a largando até ela suavemente se afastar.

- ah, aditi - murmurou ele -, os teus lábios continuam tão doces como o mel em que
estiveste envolvida.

- fico contente... pelo beijo vos agradar - disse ela, afastando-se mais -, pois pode
ser o último.

- o quê? - thomas sentiu-se atordoado.

aditi afastou-se e encostou-se a uma parede, como se as pernas ainda tivessem


dificuldade em suportar-lhe o peso.

- a mahadevi... pediu-me que renunciasse a ti... como penitência dos meus erros em
goa. já não vais ser meu... mas dela. thomas ficou a pestanejar.

- o quê? - disse ele outra vez. sentia uma estranha mistura de desalento e de
repulsa, não obstante, matizada com lisonja. - a despoina stheno pensa que eu sou
algum... algum... carneiro premiado, sujeito a barganha?

aditi encolheu os ombros, desalentada.

- ela é a mahadevi, pode pedir o que quiser.

- tu acreditas, realmente, que ela é uma deusa?

- eu já não sei... em que acredito. falei a este respeito com enyo. enyo diz que a
mahadevi está mudada. está há muito tempo sozinha e está a ficar louca. É um novo
ciclo, diz enyo. É como as estações, só que dura séculos. enyo diz que há uma
deusa maior que a mahadevi devia honrar, mas que não o faz. enyo diz que, talvez
por isso, é que está a ser castigada com a loucura.

”quem os deuses destruírem...”, isto é um escrito antigo. se a minha hospedeira tem


a mente perturbada, vou, na verdade, precisar do auxílio divino.

- uma deusa maior, dizes tu? se o meu pai e o escocês que viajou comigo falam
verdade, eu fui, em criança, votado a uma deusa, a quem pertenço de corpo e alma,
por mais que outros credos ou deuses me reclamem.

- fostes? - disse aditi, maravilhada. - e que deusa é essa? thomas pegou na mão de
aditi e levou-a à varanda, apontando para a lua.

- aquela. Ártemis. diana. a divina caçadora. a senhora das feras.

aditi olhou fixamente para ele.

- eu tenho ouvido enyo referir-se à deusa maior por esse nome, a senhora das feras.

apesar das suas dúvidas acerca das questões pagãs, thomas sentiu um pequeno
tremor interior.

- tens a certeza?

- sim, sim - disse aditi. - quer dizer que, se foste votado à grande deusa, a
mahadeví, afinal, não te pode ter. - um ligeiro sorriso surgiu-lhe nos lábios. -
portanto, não preciso de te oferecer como sacrifício a ela.

a palavra sacrifício despertou medos e recordações no espírito de thomas.

- aditi, enquanto tu... quer dizer, depois de teres... morrido, eu tive um sonho. sonhei
contigo. tu levaste-me para uma caverna, onde te sentaste tal sibila e proferiste uma
profecia.

aditi pestanejou.

- fiz uma profecia? eu... não me recordo de nada do que vi quando morta.
desvaneceu-se tudo, como os sonhos. o que é que eu te disse... na caverna?
- que eu devia aproveitar a vida e preparar-me para a morte.

- ah, mas isso é aplicável a todos os mortais, não é assim?

- eu tive a impressão de que tu me dizias que a minha morte estava mais iminente
do que o natural decurso dos anos de vida.

- ah! - aditi baixou os olhos para o chão. - desculpa-me, tamas, mas eu não me
lembro disso.

thomas segurou-a pelos ombros.

- não interessa. tanto faz. mas sabes dizer-me se corremos o risco de a mahadevi
nos fazer mal, a mim e a timóteo?

aditi tornou a olhar para ele, com um olhar firme e muito sério.

- a mahadevi é muito vingativa, quando contrariada. eu ouvi muitas histórias... ela


matou alguns por pequenas coisas. tens de ter cuidado, tamas. não lhe dês motivos
para se zangar.

- mas, negar-me a ela, ia, certamente, provocar-lhe a raiva. e a tua aia sugere que a
mahadevi está a ficar louca. pergunto-me se haverá maneira de evitar enraivecê-la.
era Ótimo se me dissesses que gênero de perigo eu corro? talvez eu pudesse
vislumbrar uma defesa.

- se tu soubesses, tamas! - disse aditi em voz baixa, meigamente. - mas eu posso


mostrar-te. vem comigo.

aditi abriu a porta e saiu para o corredor, agarrando um archote de uma argola na
parede.

thomas seguiu-a, interrogando-se se devia avisar timóteo. não, deixemos o rapaz


descansar. não vou metê-lo em sarilhos. caminharam pelos corredores mal
iluminados, onde apenas se ouvia o deslizar dos seus passos e o distante cricri de
grilos. thomas começou a pensar que o palácio havia sido concebido
deliberadamente como um labirinto. como é fácil uma pessoa perder-se aqui. tenho
de ter cuidado e fixar tudo muito bem, se quiser explorar isto. tentou fixar as voltas à
esquerda e à direita e as poucas referências que ia notando... um esvanecido fresco
de mulheres de seios nus, com flores de lótus nas mãos, um friso de burros aos
coices numa arcada, uma ânfora partida a um canto. os corredores tornaram-se
mais estreitos e as paredes ficaram despidas de ornatos, vendo-se apenas a pedra
nua. devemos estar a entrar na parte mais antiga do palácio, aquela em que enyo
disse que eu não devia entrar. aditi parou diante de uma porta de madeira inserida
na parede, com um nicho ao lado, onde se via uma pequena estátua de bronze,
sentada, com uma candeia acesa em frente dela. um dos braços da figura saía para
a frente, como a saudar, o outro erguia-se alto, uma taça na mão. a cada um dos
lados da figura estava um cão de bronze malhado, com quatro olhos. thomas ficou
de olhar fixo na estátua, recordando-se do medalhão que lockheart usava, com uma
figura de mulher flanqueada por dois galgos.
- É esta a deusa que é maior que stheno? aditi riu-se.

- não, esse é yama. foi um dos primeiros mortais, o primeiro homem a morrer. agora
é o guardião dos mortos e dá as boas-vindas às almas que entram no seu reino de
trevas.

aditi pôs a mão na porta, mas hesitou. ouvia-se um leve rumor de vozes, ao fundo
do corredor, à direita.

- vais entrar sozinho - disse aditi, entregando o archote a thomas. - eu vou distrair
quem aí vem, para que não te vejam aqui.

thomas agarrou no archote.

- mas...

- vai, depressa. eu, depois, fico aqui à tua espera - disse aditi, afastando-se corredor
fora.

thomas suspirou e abriu a porta. esta abriu-se com um ligeiro estalido e ele deslizou
através da abertura, tentando não roçar na madeira com o archote. fechou a porta
atrás dele e, voltando-se, deu de caras com outro nicho, com outro ídolo.

este era um homem vestido da cintura para baixo, uma volumosa coroa na cabeça.
tinha os braços cruzados no peito, numa das mãos um cajado de pastor e, na outra,
um mangual.

sois também um deus da morte? também me dais as boas-vindas ao vosso reino?

ergueu bem alto o archote e viu, à esquerda, umas escadas que desciam. thomas
desceu dois lanços curvos de degraus, vendo um nicho com um ídolo no final de
cada curva. thomas não se pôs a examiná-los, não querendo mais lembretes de que
estava a entrar numa cripta. as paredes das escadas cheiravam a umidade e a
mofo, embora, em tempos, tivessem sido caiadas.

chegou à última curva das escadas e deu um salto de espanto, quase largando o
archote, ao evitar embater em dois homens à frente dele.

- perdão, peço... - começou a dizer, mas, depois, parou. os dois homens à frente
dele não se mexeram. ergueu o archote mais alto. estavam de pé, a cada um dos
lados de uma arcada, dois homens vestidos à maneira árabe, de turbante. tinham
ambos as mãos em frente da cara, como que a proteger os olhos da luz. as bocas
estavam abertas em gritos silenciosos, as faces hirtas numa expressão de horror.
ambos brilhavam, pois eram feitos de pedra.

- meu deus! - murmurou thomas. - será verdade?

estendeu um braço, mas não chegou a tocar numa das estátuas, com receio de a
danificar. a roupa parecia feita de ônix translúcido, muito claro, os rostos e as mãos
feitos de mármore de um tom mais escuro. cada traço era perfeito, os pormenores
tal qual em vida, salvo os olhos, órbitas leitosas e lisas.

isto é a mais fina modelação que eu jamais vi. que escultor detém esta perícia a
modelar as pregas da roupa e os poros da pele?

thomas encarara os avisos de timóteo como curiosa possibilidade, dignos de


escárnio filosófico. a sua enormidade não o havia impressionado até então. agora,
porém, o estômago andava-lhe às voltas e o archote tremia-lhe na mão.

na arcada, alguém havia escrito letras gregas a carvão. thomas leu


automaticamente.

- panta proeteon... elipda... oh! abandonai toda a esperança, vós que aqui entrais.

que cruel motejador terá escrito tão fria sentença?

com fascinação horrorizada, thomas passou pela arcada. e desejou não o ter feito,
pois que, em vez de túmulos, mais estátuas enchiam a cripta, tal concorrido
mercado fixado em pedra. umas de pé, outras encostadas às paredes, outras
deitadas de lado no chão, outras no chão... em pedaços. havia homens e mulheres,
vestidos de todas as maneiras e feitios, à hindu, à persa, à árabe e outros gêneros
de roupas que thomas não sabia identificar. e outros, ainda, sem roupa nenhuma.
havia crianças, adultos e velhos de longa barba. todos apresentavam uma
expressão de horror, exceto um. um velho vestido com uma toga até aos pés,
franzida, de longa barba encaracolada, cortada a direito na ponta, tinha, no rosto,
esculpido um profundo pesar.

não tem poupado ninguém, nem sequer as crianças, nem os velhos. quantos terá a
despoina stheno morto assim?

algumas das estátuas, incluindo a do velho triste de barba comprida, tinham


candeias votivas em frente delas, cuja luz débil quase lhes imprimia uma parecença
de vida aos rostos.

gostava de saber quem terá dedicado estes votos aos mortos? serão os monges ou
será enyo quem pranteia estas mortes? estarão as almas desta gente presas nos
seus corpos de pedra, aguardando uma magia que as liberte? tenho de perguntar a
aditi,

thomas vagueou um pouco por ali, observando os rostos brilhantes, de olhos vazios,
que pareciam recuar perante ele, as bocas abertas em expressões de horror, ou
gritando reprovações ou advertências silenciosas. o cabelo começou a eriçar-se-lhe
nas pontas e a pele a arrepiar-se-lhe como se quisesse deslizar-lhe do corpo e
serpentear. chegou ao fundo da câmara, onde as figuras haviam permanecido tanto
tempo que estuque e minerais se haviam destacado das paredes e do teto,
cobrindo-as com uma cascata de destroços. nalguns sítios, só se viam braços
estendidos e rostos gritantes, como se tentassem escapar de uma parede que os
devorava.
algo rangeu sob o pé de thomas que o fez olhar para o chão. tinha pisado o que fora
uma mão, agora apenas os ossos em pedra de um punho, agarrados a cacos de
dedos. com o coração na garganta, thomas perdeu toda a coragem para continuar a
exploração. recuou, embatendo noutra estátua que começou a balançar. thomas
largou o archote e correu para as escadas, enquanto o desgraçado caía no chão e
se desfazia.

thomas galgou as escadas, correu para a porta de madeira e encostou-lhe o ouvido,


ouvindo apenas o galope do coração. abriu a porta, grato por sair para o corredor
seco e vazio. só que aditi não estava lá. não voltara para esperar por ele.

thomas respirava fundo, enquanto considerava se devia esperar. mas todo ele
ansiava por se afastar da horrível cripta.

ela disse que ninguém me devia ver aqui. tenho de ir.

felizmente, conseguira memorizar as referências e, sempre a correr, alcançou o seu


quarto.

capítulo xiii

mandrÁgora: esta planta tem flores púrpuras, em forma de sino, e dá umas bagas
moles no verão. a raiz cresce em forma de boneco. o suco da raiz é conhecido
desde os tempos antigos por ter a virtude de aliviar a dor, mas há que ter cuidado ao
utilizá-lo, pois é, também, um veneno muito perigoso. uma tintura feita da raiz alivia
as enfermidades dos pulmões e da garganta e a própria raiz é uma excelente purga.
há quem atribua à mandrágora o poder de estimular a luxúria, enquanto outros a
usam como talismã para proporcionar riqueza e boa sorte. diz-se que as bruxas a
usam nos seus mais potentes feitiços e é, também, conhecida por planta de circe,
pois, segundo a lenda, é com mandrágora que as feiticeiras encantam e
transformam as suas vítimas...

na hora da fria quietude que precede a aurora, prabaratma tateava o caminho, ao


descer as escadas. a pedra sob os seus pés parecia-lhe curiosamente suave e viva
e a parede onde apoiava a mão receptiva, como a pele de uma amante. a terra
aceita-me. o demônio enyo fizera bem em escorraçá-lo da porta do dourado. não era
esse o local apropriado para puja, nem o momento certo. aquele sim, era melhor.

prabaratma acabara de colocar novos votos na cripta, como fazia todas as manhãs,
com rogos à mahadevi para que tivesse piedade e restituísse a vida aos
entumulados em pedra. um dos petrificados, porém, caíra - o mensageiro de
madrasta que dera pelo nome de chambuta - e, agora, já não podia voltar à vida.
prabaratma não sabia a que mãos chambuta morrera a morte definitiva, mas aquilo
era, sem sombra de dúvida, um sinal, parte das mudanças que ocorriam com a
chegada do dourado.

prabaratma parou ao fundo das escadas, a sua débil e parcial visão de nada lhe
servindo na escuridão da câmara subterrânea.

por isso, olhou para a frente em espírito, procurando a presença, a ”parecença”,


como lhe chamava o demônio enyo. passado pouco, soube para onde caminhar e
avançou até tocar a imagem de pedra da deusa. prabaratma ajoelhou perante ela,
abrindo uma sacola que trazia à banda.

inclinando a cabeça, prabaratma pegou no cordão cor de açafrão que trazia


pendurado no ombro direito e passou-o para o ombro esquerdo. tirou da sacola uma
pequena tigela tapada que continha arroz branco integral e colocou-a em frente da
presença. tornou a mexer na sacola e retirou dela uma flor de hibisco e uma placa
de incenso de sândalo e colocou-as, também, aos pés da presença.

finalmente, retirou da sacola um pequeno frasco rolhado, contendo rajas, o leitoso e


sagrado líquido que escorre entre as coxas das bailarinas do templo. deitou um
pouco do líquido na mão esquerda, aspirou-lhe o aroma e espalhou-o na língua
saliente da parecença. pousando o frasco cuidadosamente no chão, prabaratma
abraçou a imagem de pedra, apoiando a cabeça no ombro da imagem.

as visões invadiram-no. não as vibrantes imagens tremidas que ele via nas chamas,
mas figuras distintas e pálidas emergindo da escuridão, como peixes surgindo na
superfície de uma lagoa sombria. viu a durga demoníaca, de inúmeros braços,
montada num tigre, que o saudou com as inúmeras espadas, esvanecendo-se de
novo na escuridão. viu a anciã uma aproximar-se dele e acenar-lhe com a cabeça,
estendendo uma mão para lhe tocar na testa, antes de desaparecer. apareceis, mas
não falais comigo, supremas mães, pensou prabaratma. não tendes nada para me
dizer.

por fim, emergiu uma jovem com muitos seios balançantes, nas mãos ramos de
palmeira e de tamarindo. ”sabeis quem eu sou?”, cantou a voz indescritível na mente
dele.

- sei, sim! - suspirou prabaratma, o coração a bater de regozijo. - sois sita, mãe da
terra e de todas as criaturas do mundo. a que dá vida.

- vês claramente. vai haver um renovo, em breve.

- eu sei.

- a engrenagem já está em marcha. quero ver-te, também, a rodar, pois fazes parte
da sutra cujas palavras fazem rodar outras. presta atenção que eu dir-te-ei como
deves proceder.

- eu presto atenção, mãe ilusão - disse prabaratma.

o padre antónio gonsção suspirava e tentava não ansiar por mais ar nos pulmões.
conseguia aperceber-se do lento arrastar do sol na cúpula celeste. em cada hora em
que o sol incidia nele, as peles de burro, em que ele e os soldados haviam sido
metidos, encolhiam e apertavam, até espremerem o próprio ar dos seus corpos. se
as peles encolhessem mais, pensava gonsção, podiam até partir-lhe os ossos. não
sabia se iria sucumbir ao calor, a hemorragias internas ou à sufocação. era uma
vantagem infeliz da sua profissão conhecer os sofrimentos que se podiam infligir a
um homem sem o matar.
o padre murmurou uma oração, interrogando-se se teria podido proceder de outro
modo na noite anterior para evitar aquela situação. aparentemente, haviam feito uma
busca no acampamento e, ao verificarem que a bruxa porphredo desaparecera
deixando ficar roupa e outros pertences, o comandante jaimal concluíra que o padre
e os seus soldados a tinham matado.

terá ele pensado que eu me vangloriava do sucedido, pensava gonsção, quando eu


lhe apresentei a roupa manchada de sangue? que triste ironia não haver nenhum
intérprete de confiança presente. ou, acaso, estes infiéis são tão pouco de fiar como
é sua reputação e o comandante aguardava apenas um pretexto para nos
massacrar.

fossem quais fossem as razões, o fato é que tinham matado três burros, esfolando-
os, e tinham enfiado o padre e os soldados nas peles dos animais, amarrando-os e
levando-os para o cimo de uma colina, para aí morrerem. durante a noite, desperto e
rezando, com o corpo empacotado e o queixo encostado a pedras frias e aguçadas,
a sua única consolação era, ao menos, sentir-se quente.

gonsção inspirou, tentando satisfazer-se com a pequena quantidade de ar que


obteve. ouviu o ranger da pele que envolvia carlos, ao lado dele, e teve um
estremecimento de culpa.

tende piedade, senhor, não por mim, pois eu vi o mundo para além da morte e não
tenho medo dela, mas por eles. fui eu que os trouxe para este descampado, onde
estão a sofrer por minha causa. e, embora a minha missão seja sublime, eles não
tiveram opção. salvai-os. e protegei timóteo, esteja ele onde estiver, pois não
conheço ninguém mais devotado a vós do que ele. e permiti que eu passe em paz
para a margem distante de novo, se for essa a vossa vontade.

carlos ofegou ao lado dele:

- falai-me, padre, falai-me da viagem para além da morte. tenho... tanto medo,
padre!

- nada tendes que recear - murmurou gonsção, poupando o ar. - no mundo do além,
deus vai mostrar-te muitas maravilhas.

não lhe ia dizer que as maravilhas que vira o haviam confundido e perturbado, pois
os torturados soldados não precisavam de saber que o que havia para além da
morte talvez não fosse o que esperavam.

do outro lado, estêvão resmungou:

- porque é que eles, padre, muito simplesmente, não nos matam com serpentes,
como fizeram com joaquim? ao menos era mais rápido. porquê isto?

- nós não sabemos quem matou joaquim, meu filho - disse gonsção, embora
suspeitasse do inglês tomás. - nem porque foi? não percais estas poucas horas
preciosas com especulações. orai e arrependei-vos, para terdes a certeza de serdes
recebidos no reino dos céus.

- não temos esperança nenhuma, pois não, padre?

- há sempre esperança para a alma eterna, meu filho.

- eu... eu referia-me às nossas vidas.

- quanto a isso, lamento dizê-lo, não consigo enxergar nenhuma esperança.

salvo por um enigma que não cessava de importunar o espírito de gonsção.

para que voltei eu a este mundo, se era só para morrer desta maneira? eu pensava
que tinha uma missão a desempenhar, um dever a cumprir, uma tarefa que me
parecia merecer o favor dos céus. não foi para isso que voltei? louvado senhor,
ajudai-me a compreender a vossa vontade!

apercebeu-se de que estêvão chorava silenciosamente.

- não, meu filho, não desperdiceis assim o vosso fôlego e as vossas lágrimas. pensai
na glória que vos espera e que ides livrar-vos das penas deste mundo.

- padre - disse carlos -, ouço cavalos a aproximarem-se.

por momentos, gonsção pensou que carlos tentava apenas incutir esperança a
estêvão, mas, depois, também ouviu cavalos a subirem a colina.

- tendes razão, carlos. sempre quero saber o que isso significa.

momentos depois apareceu um mongol a cavalo, trazendo outro pela rédea, onde
gandharva, o músico cego, vinha montado.

gonsção ter-se-ia rido, tivera ele fôlego, pois imaginou que o cruel jaimal inventara
mais um tormento: fazer os goeses ouvirem, à hora da morte, o sonido horrível da
estranha música do cego. ou teria o músico sido punido, também? gandharva,
porém, tinha as mãos e os braços livres.

o mongol parou os cavalos em frente dos homens embalados e desmontou,


desembainhando a espada curva e comprida.

gandharva, então, falou, em latim.

- o comandante jaimal, e eu, desejamo-vos um bom-dia. gonsção olhou para a


espada do mongol e pensou que o comandante se apiedara deles e decidira
conceder-lhes uma morte rápida, decapitando-os.

- se puder chegar aos céu rapidamente, é, de fato, um bom-dia.

- talvez não chegueis lá tão rapidamente como pensais disse gandharva, sorrindo.
o mongol foi por detrás dele e puxou gonsção para a posição de joelhos. gonsção
fechou os olhos, aguardando o golpe no pescoço, uma oração nos lábios.

em vez disso, sentiu a espada introduzír-se por baixo das correias de couro que o
apertavam e cortá-las. num ápice, a pele de burro soltou-se e gonsção sentiu o peito
como que a expandir-se até ao horizonte. sempre em silêncio, o mongol largou-o e
fez o mesmo a carlos e a estêvão.

gonsção ficou estendido no chão, grato por poder encher o peito de ar.

- deus seja louvado! e graças para o comandante, pela sua misericórdia.

estêvão e carlos caíram também para o chão, inspirando fundo, as lágrimas de


desespero de estêvão agora transformadas em lágrimas de alegria.

o mongol atirou-lhes uma pele de água e estêvão agarrou-a sofregamente, levando-


a à boca, mas, depois, olhou com uma expressão de culpa para gonsção e
estendeu-lhe.

- desculpai-me a falta de respeito, padre.

- não, não, bebei à vontade, meu filho. precisais de recuperar forças, tanto ou mais
do que eu.

estêvão teve um sorriso agradecido.

- obrigado, padre.

espremeu um esguicho de água para a boca e depois estendeu a bolsa a carlos que
fez o mesmo.

- eu consegui - disse gandharva - convencer o comandante a receber-me,


infelizmente demasiado tarde para vos poupar o vosso tormento. mas afiancei-lhe
que vos tinha mantido sob vigilância todo o dia de ontem e garanti-lhe que vós não
havíeis sequer visto porphredo. acontece que o sufi que era conselheiro do mirzá
também desapareceu, de forma que foi fácil assacar as culpas ao sufi, de quem
jaimal sempre desconfiou.

- prestastes, então, um falso testemunho? - disse gonsção, preocupado com a


continuada lista de pecados, cometidos por sua causa.

- digamos que me limitei a não contrariar uma impressão já de há muito arraigada. o


comandante é um homem ambicioso, mas é, também, um homem temente a deus,
por isso prefere arriscar-se a um falso juízo em relação a um herético do que a um
cristão.

- estou a perceber. portanto, é a vós que devemos a nossa libertação.

- o que é que ele está a dizer, padre - quis carlos saber, tentando pôr-se em pé. -
estamos livres? fomos perdoados?
- quer-me parecer que fomos perdoados, meu filho, mas não sei em que medida
estamos livres. - depois, a gandharva, gonsção perguntou: - o que é que vão fazer
conosco?

o mongol papagueou umas palavras para o músico, o qual lhe retorquiu, também em
termos breves. depois da resposta do mongol, gandharva deslizou da sua sela e
deixou o mongol levar os dois cavalos colina abaixo. o cego, então, aproximou-se de
gonsção, em passo tateante.

- quanto à vossa pergunta, mestre, não sei o que o comandante terá em mente. só
sei que ele, por ora, tem mais em que pensar. mas eu tenho uma proposta que acho
que gostareis de ouvir.

gonsção sentou-se, encostando-se a uma pequena árvore raquítica, esfregando os


braços e os ombros, todos doridos das horas de aperto.

- uma proposta? vossa?

um sorriso matreiro surgiu no rosto do músico.

- eu tenho uma aparência humilde, mas não há simples passarinhos que soltam um
canto maravilhoso, ou livros de modesta encadernação que contêm grandes
ensinamentos?

- também há malvados - disse gonsção - que se disfarçam com vestes humildes. se


não me engano, o vosso latim tornou-se, de repente, muito melhor, embora continue
a ter um acento estranho.

gandharva fez uma vênia.

- É correto o que dizeis, mestre, mas, agora, a comunicação é mais importante do


que as aparências. presumo que ainda desejais encontrar a fonte do rasa mahadevi
e conhecer o destino do vosso discípulo, o pequeno monge?

gonsção perguntou em tom firme:

- sabeis onde está timóteo?

o músico cego fez que sim com a cabeça.

- eu sei para onde provavelmente foi levado, na companhia do de cabelo dourado.

- dizei-me, já! - explodiu gonsção.

- serenai. ele está a salvo, por enquanto. foi para onde desejais ir, para a cidade
oculta da rainha imortal.

- portanto - murmurou gonsção -, tomás traiu-nos.


- digamos que foi compelido a partir. -

- foi ele que matou o nosso outro companheiro, o soldado chamado joaquim?

gandharva baixou a cabeça com uma expressão de espanto.

- não, de modo nenhum. posso garantir-vos que o de cabelo dourado não matou
ninguém. foram as serpentes que mataram o vosso companheiro. são muito comuns
nesta região, como sabeis.

- por favor, padre, o que é que ele está a dizer? - insistiu estêvão.

- diz que sabe para onde foram timóteo e tomás e que joaquim foi morto por
serpentes.

dirigindo-se, de novo, a gandharva, gonsção perguntou-lhe:

- e qual é a vossa proposta?

- satisfazer o vosso desejo, levando-vos à cidade oculta. já informei a minha rainha


do vosso desejo e ela quer que eu vos leve lá.

- foi para lá que o sufi e porphredo também foram?

- sois perspicaz, mestre. sim, foi para lá que eles foram. a minha rainha não deseja
ver chegar um exército às portas da cidade, mas recebe cordialmente os visitantes
de outras terras. por uma questão de... justiça, pediu-me que vos guiasse, também,
até lá.

- o que é que ele diz, padre?

- oferece-se para nos guiar até à cidade oculta, carlos.

- para nos guiar? mas ele é cego, padre.

- gandharva, como é que nos podeis guiar, se não vedes? ou essa vossa cegueira é
mais um embuste?

- infelizmente, não é nenhum embuste, mas eu nem sempre fui cego. eu nasci na
cidade escondida de bhagavati e conheço bem a região que a cerca. posso, por
isso, apontar-vos, à medida que avançarmos, as referências a encontrar.

- essa proposta é idêntica à que tomás nos fez. porque é que, muito simplesmente,
não nos indicais o caminho que devemos seguir, ajudando-nos a traçar um mapa?

- primeiro, porque um mapa pode ser roubado e lido por outros. segundo, porque um
de vós pode ser apanhado e torturado por outros e revelar o que sabeis. e, terceiro,
porque eu quero largar estes mongóis e regressar a casa e, para isso, preciso do
vosso auxílio.
- e os mongóis vão deixar-nos partir?

- parece-me insensato partir com o conhecimento deles, particularmente se eles


suspeitarem para onde pretendemos dirigir-nos. não, temos de ser prudentes e partir
em segredo. posso assumir, portanto, que aceitais a minha proposta?

eis, pois, porque continuo vivo, pensou gonsção. antes da minha morte, nunca
acreditei no destino, pois, de contrário, para que haveria deus de conceder o livre-
arbítrio ao homem? posso, porém, hesitar, quando a mão de deus me aponta tão
claramente o caminho?

- estêvão, carlos, acho que tenho de acreditar neste homem, pois não vejo outra
forma de encontrar timóteo e de levar a cabo a minha missão. vós, porém, não
precisais de me seguir nesta perigosa aventura. podeis, talvez, pedir aos mongóis
que vos deixem regressar a bijapur.

- isso nunca, padre - disse carlos. - em goa espera-nos a morte e uma cidade
mongol não é lugar para nós. não vamos abandonar-vos.

estêvão inclinava a cabeça, concordando.

- muito bem. estou-vos grato pela vossa lealdade e coragem - disse gonsção. e,
dirigindo-se a gandharva, disse-lhe:
- vamos, então, reunir os nossos esforços e planear o que fazer.

enyo seguia pelo corredor, tão depressa quanto podia, com o pesado tabuleiro nas
mãos. tinha-se queixado, de novo, à despoina, nessa manhã, de que era preciso
arranjar mais criados para o palácio, designadamente se a despoina insistia em
receber mais hóspedes. enyo, porém, desconfiava que, como sempre, as suas
palavras caíam em orelhas moucas. ter ali aditi significava alguma ajuda, mas não a
bastante para preencher a desoladora ausência de porphredo e, por outro lado,

enyo não queria sobrecarregar as fracas forças de aditi, há tão pouco tempo de volta
à vida.

aquela manhã comportara um outro incidente preocupante. vayu descera da torre


dos pombos e comunicara que, durante a noite, haviam chegado todos os pombos
da aldeia de devidurga, sem mensagens. podia não ser nada, talvez as crianças da
aldeia tivessem, inadvertidamente, soltado e espantado os pombos, mas enyo não
conseguia evitar que uma crescente ansiedade lhe começasse a invadir o espírito.

colocou o tabuleiro ao lado da porta e bateu, antes de entrar.

- déspotas chinnery?

ouviu um inarticulado lamento e decidiu abrir a porta.

- déspotas, não vos sentis bem?

o jovem estava sentado à beira da cama, só de calças, as mãos na cabeça.


estremunhado, olhou para ela.

- que se passa? - perguntou ele.

- trago-vos o desjejum, déspotas. posso servi-vo-lo? perante o resmungo de


assentimento, enyo avançou e colocou o tabuleiro em cima da mesa de ébano. o
jovem não se mexeu.

ai, ele está com mau aspecto, estará doente?

- déspotas, não vos sentis bem? - perguntou ela de novo.


- precisais de alguma medicina, ou de um doutor?

- não, não... - disse ele levantando-se e esfregando os olhos. - eu, simplesmente...


não dormi lá muito bem.

- não gostastes da cama, déspotas? eu posso mandar substituir o colchão, ou a


coberta, ou dar-vos outra cama.

- não, não foi nada disso - disse o jovem, suspirando. o meu sonho foi perturbado
por sonhos, por pesadelos. sofro de pesadelos desde criança.

- oh, tenho muita pena de vós!

enyo ajeitou as tigelas, uma de iogurte com pepino, outra de arroz e uma terceira
com dhal, bem como o prato com fatias de pão frito. desconhecendo os costumes do
jovem, ficou sem saber se seria delicado perguntar-lhe a natureza dos sonhos, ou
oferecer-se para lhe mandar um monge para os interpretar.

o jovem pôs-se a andar de um lado para o outro no quarto.

- não tem importância, eu já estou habituado. em todos os pesadelos me aparecem


as mesmas três mulheres, fúrias, acho que é como lhes chamais, a atormentar-me.
foi o que fizeram esta noite. sonhei que estava atado de pés e mãos à cama, todo
nu. debruçavam-se sobre mim, exultantes, colocando serpentes sobre o meu corpo
e... prefiro não vos contar o que mais fizeram.

- tenho muita pena, déspotas, que vos tenham perturbado o sono - disse enyo,
servindo-lhe o chá.

- e depois, esta manhã - continuou ele, a ansiedade a patentear-se-lhe na voz -


acordei e acendi a luz. e vi marcas de pés de mulher na poeira do chão e gotas de
cera. se quereis ver... ainda ali estão.

enyo olhou para o chão, uma triste suspeita a vir-lhe ao espírito.

- as minhas desculpas, déspotas. o vosso quarto devia estar mais limpo. vou já tratar
disso.

- e ontem não estavam lá - acrescentou o jovem, apertando os punhos.


enyo perguntava-se o que poderia ter acontecido para pôr o jovem naquele estado,
tão próximo da histeria.

- o que é que eu posso fazer, déspotas, que vos sirva de consolo?

o jovem olhou para ela, um pedido de ajuda nos olhos.

- pareceis-me boa mulher, enyo, por favor, dizei-me... por certo não receberíeis
cordialmente um hóspede na casa onde servis, sabendo que ele poderia encontrar
aí a sua desgraça, pois não?

- que quereis dizer, déspotas? - disse enyo, receando saber perfeitamente o que ele
queria dizer. - vós sois benquisto à despoina. a muito poucos é concedido o
privilégio de serem recebidos no palácio. tendes sorte em terdes sido escolhido. sois
para ela um hóspede, não um inimigo.

- e se, um dia, eu perder o seu favor?

enyo abriu a boca, mas não encontrou nada para lhe responder.

- considerais, enyo, que eu e timóteo estamos seguros, aqui?

- que pergunta, déspotas! como eu sou parva! ele, de qualquer forma, apercebeu-se
da natureza da despoina e eu, tonta, continuo a protegê-la, para receber a paga que
recebo.

- o que eu quero dizer, enyo, é... se soubésseis de alguma ameaça que recaísse
sobre um hóspede desta casa, não faríeis o possível por avisar e até, talvez, ajudar
esse hóspede?

o que é que ela me iria fazer, pensou enyo, se eu salvasse alguém que ela tivesse
decidido transformar em pedra? ela não me pode matar, sou tão imortal como ela.
exilar-me? invocar a ira da senhora das feras contra mim? stheno, por mais que se
julgue tal, não é uma deusa, portanto, eu desobedecer-lhe não é heresia. ela é que
tem pisado o risco e quebrado a ordem da natureza. É ela, mais do que ninguém,
que merece a némesis.

enyo suspirou e declarou:

- embora eu sirva a minha despoina em tudo, juro que nunca porei os caprichos dela
acima das vossas vidas. pela senhora das feras e pela sua sacerdotisa que, em
tempos, servi, isso vos juro.

porphredo acordou na escuridão da choupana e recordou-se que se encontrava


agora na aldeia de devidurga. pelo calor e pela luz que penetrava pelas frinchas da
porta, sabia que era já manhã avançada. a cara do sufi masum surgiu-lhe no campo
de visão.

- begum porphredo, acordastes? estais bem?


- masum, para que me deixastes dormir até tão tarde? porphredo sentou-se, as
costas e os músculos doridos.

- as minhas desculpas, mas eu não sabia quantas horas de descanso necessitáveis.


estáveis tão cansada, ontem à noite! eu disse ao mirzá que vós devíeis estar forte e
descansada, já que ides guiar-nos.

porphredo levantou-se da padiola de juncos e ajeitou o sari, com o qual dormira.


devo estar com um ar desmazelado. os homens do mirzá haviam insistido em ver o
mecanismo subterrâneo que permitia aos aldeãos, acionando uma roda enorme,
erguer a ponte sobre o rio krishna. quando a visita terminou, porphredo sentia-se
exausta. embora grata pelo descanso, previra uma partida mais matinal. a ordem
que dera de não avisar a despoina stheno da sua chegada era tão contrária às
instruções e prática dos aldeãos, havia gerações, que porphredo tinha poucas
esperanças de ter sido obedecida.

saiu para fora da choupana e pestanejou perante a luz brilhante do sol.


aproximaram-se aldeãos, humildemente fazendo vênias, com tigelas de arroz nas
mãos. porphredo saudava-os, sem conseguir reconhecê-los. vinha tão raramente a
devidurga que, provavelmente, a última vez que os vira eram eles crianças. os
homens e as mulheres tocavam-lhe os braços, gentilmente perguntando-lhe pela
saúde. mas os olhos exprimiam medo. receiam que a despoina esteja zangada com
eles. o que é que lhes posso, honestamente, dizer?

- está tudo bem, está tudo bem! - dizia-lhes porphredo, mandando-os embora.

declinou-lhes a oferta da comida, pois não tinha fome. caminhou pela passagem
central da aldeia, estirando os músculos e deixando o calor do sol penetrar-lhe nos
ossos.

talvez eu seja como os lagartos, pensou ela, como a despoina não se cansa de me
dizer.

continuou a caminhar até ao rio, esperando encontrar o mirzá, mas, em vez dele,
encontrou lakart, em pé junto à margem, a olhar para o lado donde ele e o mirzá
tinham vindo.

porphredo olhou nessa mesma direção, perguntando-se se ele estaria a ver algo
preocupante. nada viu, porém, a não ser a luz a brilhar no horizonte vermelho-
acastanhado.

- que observais? - perguntou-lhe ela, por fim. - não distingo nenhum exército a
aproximar-se.

lakart teve um ligeiro sobressalto e voltou-se para ela, uma expressão triste na cara.

- ah, begum porphredo. não, não é um exército que eu vejo carregar sobre mim, mas
o meu futuro.
- se pretendeis acompanhar-me à cidade oculta - disse porphredo -, o vosso futuro
está situado no sentido oposto.

- talvez - murmurou lakart -, como há quem diga, o destino de um homem seja tecido
no tear divino, os seus atos passando pela lançadeira até que, um dia, o fio da vida
é cortado.

- sim, há quem diga isso - replicou porphredo.

- e se um homem declarar que não gosta do padrão do tecido que lhe tecem? se um
homem, num ato deliberado de escolha, fizer cair a lançadeira, emaranhando os fios
e soltando-se do tear do destino?

porphredo franziu a testa, tentando perceber o que o estranho homem queria dizer
com aquilo.

- eu não conheço bem a vossa fé, mas, entre nós, isso seria impossível, pois a alma
e o fio são o mesmo. como é que podeis saber se, ao pôr em questão o padrão da
vossa vida, não estais, de fato, a seguir o padrão desenhado para vós?

- oh, o padrão da minha vida foi inscrito em pedra e está envolto em votos que
cantam no meu próprio sangue. eu conheço bem o caminho que me foi prescrito. É
impossível mudar, não é? mas como é tentadora a ilusão da escolha! bastava tornar
a atravessar este rio, ou deixar que a sua corrente me levasse para onde quisesse,
para longe daqueles a quem fui amarrado, e, então, o padrão da minha vida seria
alterado e despedaçado. olhai, como seria simples...

lakart, dramaticamente, estendeu os braços para o rio e deu um passo para dentro
da água lamacenta. e, depois, deu outro passo. e um terceiro.

quererá afogar-se? como é que o vou impedir?

porphredo ouviu uns estalidos ao longo da margem, à sua direita, e, depois, os


berros de uma criança a gritar. uma mancha preta surgiu por detrás da choupana
mais próxima, arrastando uma corda atrás de si. uma rapariguinha perseguia a
mancha com um pau na mão, gritando no seu dialeto telugu:

- pára! pára, estúpido animal!

o animal, porém, carregou diretamente para o rio, marrando em lakart e derrubando-


o de costas na margem. quando o animal parou, porphredo viu que era um pequeno
bode preto. o bode olhou um momento para lakart, molhado e estendido no chão,
apoiado nas costas e nos cotovelos. depois, com um desgostado blééé, afastou-se,
a rapariguinha a gritar atrás dele.

porphredo riu-se e disse:

- quer dizer, meu caro filósofo, que, segundo parece, a natureza se encontra
apostada em fazer prevalecer a sua ordem e em manter, afinal, a vossa lançadeira
no seu lugar.
- sim - disse lakart, muito sério, olhando para o bode, a face muito pálida. - levei uma
grande reprimenda.

- ah, aqui está ela! - exclamou o mirzá atrás de porphredo, que se voltou para o
encarar.

o mirzá olhava espantado para lakart.

- aqui estou, alteza. estais pronto a partir?

- eu e os meus homens estamos prontos desde a aurora. só que masum nos disse
que vós precisáveis de descansar. e, pelo que parece, sri lakart precisava de um
banho.

o ocidental abanou a cabeça e ergueu-se desajeitadamente, a água a escorrer-lhe


dos braços e da túnica.

- mais precisado, na verdade, de um castigo - disse ele que acabo de receber.

o mirzá ergueu o sobrolho para porphredo, que decidiu deixar permanecer o


mistério, para não embaraçar desnecessariamente o ocidental. e endireitou-se, para
parecer mais enérgica do que na realidade se sentia.

- e eu já descansei o que precisava. se reunirdes os vossos homens, alteza,


podemos pôr-nos a caminho.

capítulo xiv

arruda: esta planta de folha persistente tem umas folhas que produzem um óleo
essencial e flores que florescem no fim do verão. desde há muito que é um símbolo
de pena e de arrependimento e, por isso. também lhe chamam a erva-da-graça. um
unguento do óleo alivia a gota e o reumatismo, enquanto uma infusão das folhas
expulsa os vermes e cura os males do estômago. a arruda, contudo, é amarga e é
um veneno, causando doenças e visões medonhas quando mal utilizada. os antigos
escreveram que as doninhas comiam arruda para se prevenirem das mordeduras
das serpentes e que os artesãos a usavam para lhes aguçar a vista. ramos de
arruda têm sido usados para expulsar os demônios e espalha-se arruda nas salas
dos tribunais para afastar os insetos. comer arruda ajuda à castidade, pois saboreá-
la, quando sujeito a tentação, esvanece o desejo...

aditi, ao entrar no santuário da mahadevi, agarrava firmemente o jarro de barro, com


tampa, que fora buscar ao tratador das moscas. o leve zunzum e a leve vibração no
interior do jarro fazia-o parecer quase vivo. a recordação de desempenhar aquela
tarefa de levar moscas à mahadevi, quando jovem, era consoladora, mas, agora,
tinha, também, um laivo de inquietação. aditi nunca soubera, exatamente, o que a
mahadevi fazia com as moscas. quando jovem, imaginava que a mahadevi as
soltava numa enorme nuvem negra, a zunir. agora, aditi desconfiava que as moscas,
na presença da mahadevi, não permaneciam vivas.
aditi parou diante da primeira porta de acesso aos aposentos da mahadevi, a
observar a parede ao lado da porta, onde se via um dos frescos de cáli que enyo lhe
dissera aparecerem, agora, espalhados por todo o palácio... aquele quase completo,
exceto quanto ao rosto. apoiando o jarro no côncavo do braço direito, aditi afagou o
tigre de pedra entre as orelhas, como costumava fazer quando jovem, e, depois,
abriu a porta.

aditi entrou no quarto e parou. ouvia vozes por detrás da cortina de contas em frente
dela: a voz da mahadevi e de mais alguém. lenta e silenciosamente, aditi pousou o
jarro no chão de pedra, quedando-se a escutar. ah, era prabaratma que estava com
ela.

- tudo está a acontecer como deve ser - dizia o brâmane cego. - krishna vem no
dorso de ganesha. o amor vem montado na sabedoria. cáli e xiva vão, em breve,
tornar-se uno.

- sim - disse a mahadevi, num suspiro. - ele é extraordinário, pra. eu há muito tempo
que não via um homem com um cabelo tão bonito, com umas feições tão bonitas,
com um lingam tão deliciosamente grande. fui vê-lo enquanto dormia e deliciei-me a
observá-lo, a tocar-lhe. nos seus sonhos, tenho a certeza de que ele apreciou os
meus afagos.

aditi compreendeu que estavam a falar de tamas e ficou gélida, ajoelhando-se no


chão. não queria ouvir o que stheno e prabaratma diziam, contudo, não conseguia
impedir-se de ouvir.

- garuda descreve círculos - continuou prabaratma -, as asas alçadas pelo senhor


das tempestades. a conjunção de poderes vai ser espantosa de observar.

de que estariam a falar, gostava aditi de saber. lembrava-se de que, quando


prabaratma viera para o palácio, ele era um grande professor. agora, segundo
parecia, enlouquecera. isso, porém, como aditi já tivera oportunidade de verificar, era
o que a mahadevi fazia frequentemente aos homens, enlouquecia-os. iria acontecer
o mesmo com tamas, interrogava-se aditi, iria vê-lo sem brilho nos olhos azuis e a
cantar loucas loas à mahadevi? o pensamento, só por si, enojava-a.

- havias de ver como ele me correspondia, pra - dizia a mahadevi, a’voz num
sussurro, ofegante. - mesmo enquanto dormia. ele vai amar-me e, quando me
amar... ah!

- a espada do rei penetrará no poder divino - cantava prabaratma - e o caudal que


produzir vai renovar e acelerar o mundo.

- sim! - exclamou a mahadevi e, subitamente, aditi apercebeu-se do que ela estava a


fazer, com prabaratma, ou sozinha.

aditi sabia que devia fugir, mas as pernas não lhe obedeciam.

ouvia, agora, gemidos suaves e estremecidos por detrás da cortina e, depois, ouviu
um longo lamento. aditi continuava paralisada e não conseguia compreender porque
é que aquela amostra dos desejos carnais da mahadevi tanto a perturbavam. não
ouvira já falar da paixão dos deuses por mortais fora do comum? eu própria não sou
nenhuma inocente...

ouviu um roçagar e um tilintar e, sem pensar, olhou para a cortina. uma mulher nua
aproximava-se da cortina, alta e esguia, com um nimbo de formas retorcidas na
cabeça. as mãos da mulher abriam a cortina e... aditi voltou-se rapidamente de
costas, para desviar o olhar. não antes, porém, de ter visto...

- aditi!

- desculpai-me, mãe suprema, mas eu não queria... perturbar-vos.

- não me perturbaste, mas que fazes tu aqui?

- trago-vos moscas, do tratador.

- e enyo, onde está ela? porque não foi ela a trazer-mas?

- enyo está a tratar de... dos vossos hóspedes, mãe suprema. como dissestes que
eu devia renunciar ao de cabelo dourado, pensamos que seria este o procedimento
adequado.

- ah, sim, está bem. É um prazer ter-te aqui de novo, aditi. vejo que te eduquei bem.

- se quisésseis ter a bondade de considerar o recrutamento de mais criados para o


palácio, mãe suprema, reduzia-se a possibilidade de isto acontecer e seria uma
grande ajuda para enyo e para mim.

- oh, não, aquela ratazana cheia de rugas já te está a encher os ouvidos, a ti


também, com as suas lamúrias? pois bem, vou pensar nisso. agora, é melhor saíres.
não quero ter de te fazer voltar à vida outra vez. e, como sabes, fazer reviver os que
olharam para mim é... mais difícil e incerto.

- sim, mãe suprema.

- sabes dizer-me onde está tamas? desejo falar com ele, para lhe perguntar se teve
sonhos agradáveis.

estará, deliberadamente, a escarnecer de mim? ou estará a pôr-me à prova?

mantendo, cuidadosamente, um tom neutro, aditi respondeu:

- como posso saber onde ele está, mãe suprema, quando me pedistes para não ter
mais contatos com ele? tereis de perguntar a enyo.

- ah, pois claro, é o que farei.

aditi levantou-se, não olhando, prudentemente, para trás, mas, antes de poder correr
para a saída, a mahadevi perguntou:
- aditi, achas que tamas prefere ver-me com um sari vermelho ou com um azul?
tenho de vestir-me, mas não consigo decidir-me entre os dois.

está a ser cruel.

- tamas nunca me exprimiu a sua preferência em matéria de cores. receio não poder
aconselhar-vos.

- hum. então, talvez o vermelho. É uma cor que excita os sentidos, segundo dizem.
É um pouco mais transparente e mais ousado, mas talvez ele não se importe, não
é?

- poucos mortais se importam com vestidos desses, mãe suprema.

- andar no mundo ensinou-te muita coisa, aditi. agora, vai, vai! para quê ficares a
atormentares-te? vai. falaremos mais tarde.

- obrigada, mãe suprema.

finalmente, acalorada pela raiva fervente, aditi apressou-se a sair dos aposentos da
mahadevi.

pobres moscas, não vos resta nenhuma esperança. pobre tamas. que o que viste na
cripta te impeça de amares semelhante criatura!

thomas seguia enyo por corredores mais poeirentos e mais antigos, aliviado por lhe
parecer que não se aproximavam nada da horrível cripta das estátuas. timóteo
caminhava cabisbaixo e calado ao lado dele, ainda irritado com o desaparecimento
de thomas, na véspera, e com o fato de ele não lhe querer dizer onde fora, nem o
que havia visto.

para que lhe serviria sabê-lo?, pensara thomas. com a sua extrema curiosidade,
podia pôr-se à procura da cripta, correndo grande risco. ou podia deixar escapar
com quem eu lá fora, sabe-se lá com que consequências. É melhor que me
despreze por uns tempos, se isso contribuir para a nossa segurança.

como diversão do dia, enyo propusera-lhes mostrar-lhes a biblioteca do palácio.


timóteo concordara tão prontamente que thomas pensou que era melhor lá irem de
imediato, na esperança de distrair o rapaz do desânimo e de, ele próprio, arranjar
maneira de se esquecer dos pesadelos.

enyo levou-os até junto de uma porta ao fundo de uma passagem poeirenta que
parecia ainda mais esquecida e negligenciada do que as outras. num nicho por cima
da porta via-se uma mulher sentada numa flor de lótus aberta. numa das mãos tinha
um livro e, na outra, um instrumento de cordas que thomas já vira.

- gandharva apreciaria esta deusa - disse thomas. enyo voltou-se para ele com um
inesperado sorriso na cara.
- sim, ele gosta dela. É saravasti, a deusa da sabedoria e das artes. achamos que
era a guardiã adequada para a biblioteca. se eu fosse hindu, ela era uma das
deusas que consideraria digna de adoração.

enyo forcejou na fechadura durante algum tempo, antes de, finalmente, conseguir
forçar a porta a abrir-se.

a primeira sala onde entraram era pequena, cada parede, do chão ao teto, coberta
de prateleiras fundas, cheias de apertados pergaminhos encadernados.

- aqui, é onde os monges guardam os vedas - disse enyo -, por isso, tenho de pedir-
vos que não toqueis nestas obras, pois os monges consideram-nas sagradas. de
resto, a menos que soubésseis sânscrito, nada vos diriam.

thomas olhou para timóteo, o qual observava os volumes abstratamente, a testa


franzida.

- respeitamo-los, enyo, embora não pertençam à nossa crença.

timóteo lançou a thomas um olhar de culpa, como se ele lhe tivesse lido o
pensamento.

- muito bem - disse enyo. - se quereis fazer o favor, vamos prosseguir.

enyo abriu uma cortina de um vermelho desbotado, do tecido saindo uma nuvem de
pó.

tossindo, thomas seguiu-a, entrando noutra sala. esta era muito maior, iluminada por
umas frestas no alto das paredes. mas, também ali, as mesas e os bancos que
enchiam a sala estavam cobertos de pó e de teias de aranha. as prateleiras estavam
desordenadamente atulhadas de livros, de manuscritos, de códices, de fólios, de
folhas soltas de velino, de pergaminho, de papel, de linho, de papiro. ao fundo da
sala, havia outra arcada, com uma cortina azul, nitidamente a soltar-se dos ganchos.

- desculpem esta desordem - disse enyo, visivelmente embaraçada. - há muito


tempo que ninguém aqui vem tratar disto. a minha irmã e eu temos tanto que fazer e
os monges... bem, a maioria deles são cegos, se quereis saber.

thomas olhou em redor, com crescente admiração e pesar. ao acaso, pegou num
cilindro dourado, retirando-o de uma prateleira junto dele. cuidadosamente, tirou
uma das tampas e fez deslizar o papiro enrolado que o cilindro continha. ficou de
respiração suspensa, ao verificar que as palavras nele inscritas eram em grego, as
linhas parecendo as de um poema ou de uma peça de teatro. as extremidades do
papiro começaram a desfazer-se-lhe nas mãos trementes e thomas apressou-se a
meter de novo o papiro no cilindro, fechando-o.

- sabeis as maravilhas que tendes aqui?

- seguramente muitas maravilhas, déspotas, pois muitos estudiosos do mundo


inteiro nos têm trazido coisas. e algumas destas coisas foi a despoina que as trouxe
das suas viagens, antes de vir para aqui. a despoina vangloria-se de... ter trazido
alguns volumes da grande biblioteca de alexandria, antes do incêndio que a
devastou.

- e, contudo, isto não está ordenado, pois não? não há forma de descobrirmos, por
exemplo, obras sobre ervanária, ou sobre medicinas?

enyo suspirou, com tristeza.

- nenhuma forma, tenho muita pena, déspotas. tereis vós próprio de as procurar.

- o que é isto? - exclamou timóteo, segurando um pedaço de papiro com os rebordos


pintados a azul e a ouro e com pictogramas inscritos a preto.

- isso deve ser egípcio - disse enyo -, mas tende cuidado, pois sei que é muito
antigo.

timóteo tornou a colocar o papiro rapidamente na caixa com embutidos donde o


retirara, como se o papiro lhe arranhasse a pele.

- e isto o que é? - perguntou ele, na mão uma fina placa de madeira, onde se viam
pintadas a preto linhas verticais de caracteres que thomas não conseguiu identificar.

- isso é de um sítio chamado chang’an, que fica muito longe, para este.

- catai - murmurou thomas. - china.

sentiu um aperto estranho, pois era esse o destino da malfadada expedição em que
partira de inglaterra.

timóteo devolveu a placa à prateleira e continuou a vaguear, completamente


absorvido no que via.

- terão de me desculpar, por favor - disse enyo -, mas eu tenho muitas outras tarefas
a cumprir. podeis ficar aqui enquanto a luz o permitir. há ainda outra sala, além ao
fundo, com obras idênticas, mas tão-pouco aí se encontram ordenadas. apraz-me
ver esta biblioteca de novo visitada por quem sabe apreciar o que nela se conserva.
até logo, déspotas, até logo, pequeno mestre.

fez uma vênia e saiu pela cortina vermelha desbotada.

- isto é uma maravilha, tomás! - disse timóteo, aparentemente esquecido da sua


zanga. - quem me dera poder ler isto tudo. que belas histórias deve haver aqui!

- sim, quantas histórias! - acentuou thomas, vagueando ao longo das prateleiras,


não sabendo o que ousar tocar.

descortinou um tubo de madeira, onde viu inscrito, em grego, as Árvores de fáeton.


retirou com cuidado o manuscrito que o tubo continha, na esperança de encontrar
uma obra sobre ervanária, porém, após rápido exame, verificou que se tratava de
uma peça dramática a respeito de três mulheres que se lamentavam da perda dos
maridos. respeitosamente, tornou a colocar o manuscrito no estojo e continuou a
vasculhar nas prateleiras.

o olhar recaiu-lhe num tomo encadernado a couro que lhe pareceu menos antigo e
agarrou nele. o interior eram páginas de pergaminho com uma escrita apertada, em
latim, rodeando iluminuras de plantas e de animais fantásticos.

- isto parece ser obra de um viajante, apontando o que descobria - murmurou


thomas para si próprio. sentou-se no banco mais próximo e pôs-se a ler a escrita,
tentando entendê-la.
- timóteo, vinde cá, pode ser que isto vos interesse. há aqui uma descrição de
plantas, embora eu não perceba bem se são míticas ou verdadeiras. timóteo?

thomas olhou para cima e viu o rapaz em pé em frente dele, hirto, olhando para
qualquer coisa atrás do ombro direito de thomas.

thomas voltou-se. era stheno, coberta de diáfana seda vermelha da cabeça aos pés.
coberta, em termos relativos, pois, embora a cabeça estivesse espessamente
envolvida e o rosto tapado, do pescoço para baixo a sua bem enformada figura
revelava-se por completo, cada curva do peito, dos seios, da cintura, das ancas,
bem visível.

- bom-dia, tamas - disse ela, numa voz melodiosa, embora com um cunho de oculto
poder.

thomas engoliu em seco, tentando dominar o violento tremor das mãos.

- bom-dia... despoina.

- pequeno monge, bom-dia para vós, também - disse ela para timóteo, em latim.

timóteo gaguejou, depois persignou-se num gesto rápido e saiu da sala a correr,
pela cortina azul puída. thomas invejou-o, desejando poder fugir também.

stheno riu-se, a gargalhada soando como placas de pedra a baterem uma contra a
outra.

- tenho pena que o vosso jovem amigo se intimide tanto comigo. ainda bem que não
sois tão tímido como ele. gostais da minha biblioteca? tenho de mandar enyo e
porphredo limparem isto qualquer dia, pois não se encontra em estado de receber a
visita de hóspedes.

- esta biblioteca está, realmente, cheia de maravilhas. sabeis apontar-me onde se


encontram os volumes que tratam de medicinas?

- não sei, não. na verdade, já não sei bem o que aqui se encontra. há muito tempo
que perdi interesse por isto. cheguei à conclusão de que muito daquilo a que o
homem dedica esforço e estilo é pura tolice.
stheno estendeu displicentemente a mão para uma das prateleiras e retirou um
grande objeto quadrado, envolto em seda púrpura. soprou o pó que cobria o tecido e
desembrulhou o objeto, aparecendo duas placas de madeira, presas por uma corda
com nós, entre as quais havia umas folhas de papel grosso. stheno leu o que estava
escrito na placa de cima.

- o veda dos sete iluminados. puf. uma história fantástica hindu. para quê conservar
estas tolices? - disse ela, tornando a colocar o livro na prateleira. - bom, espero que
tenhais dormido bem, tamas?

meu deus, o que é que lhe vou responder? se estiver louca, pode levar a mal a
verdade e eu acabo por ir juntar-me às almas tristes da cripta. se minto, vai pensar
que eu quero encorajá-la a espiar o meu sono mais vezes.

- eu... dormi, despoina, embora os meus sonhos... não tenham sido como eu
desejaria.

- não como desejaríeis - ecoou stheno, caminhando de um lado para o outro, atrás
dele. - isso é uma descrição muito prudente - acrescentou, passando as pontas dos
dedos pelos ombros de thomas.

thomas teve de fazer um grande esforço para não se pôr a tremer sob a carícia. o
sari dela cheirava intensamente a patchouli, a canela e a água de rosas. thomas
começava a sentir-se enjoado, contudo, a voz grave e melodiosa produzia-lhe uma
sensação de calor entre as pernas.

que feitiço é este? porque é que parte do meu corpo responde ao encanto dela,
enquanto a minha vontade a repele?

- nunca vos aconteceu, despoina? nunca sonhastes com uma coisa ou com uma
pessoa, embora desejando sonhar com outra?

- eu raramente sonho - respondeu ela. - mas o que é que vistes no vosso sonho que
não desejáveis ver?

felizmente, a isto podia thomas responder sem mentir.

- vi fúrias de asas negras e vozes bradando por vingança. aparecem-me


frequentemente em sonhos.

- ah! e quem é que desejáveis ver?

- isso... seria dizer-vos muito... despoina...

thomas esperava que ela se iludisse e lhe discernisse na ansiedade do tom de voz
desejo e não medo, mas, depois, compreendeu que sentia ambas as coisas e logo
desejou que ela não se apercebesse disso.

- ... aliás, os sentimentos que os meus sonhos desta noite me induziram foram
daqueles que, entre a minha gente, são mais propriamente ligados ao casamento.
stheno riu-se de novo, torcendo uma madeixa do cabelo dele entre os dedos.
thomas contraiu-se, para não se esquivar.

- sois muito delicado e contido. isso agrada-me muito, pois não gosto nada de
homens frívolos e vulgares. o povo de bhagavati, os hindus, também têm em grande
conta os laços de casamento. ah, vejo que encontrastes a crônica de françois
aphasius, um grande estudioso. ele esteve aqui muito tempo, apenas há um par de
séculos. achava-me fascinante, mas, infelizmente, por razões erradas.

stheno inclinou-se sobre ele, os seios roçando os ombros de thomas.

- gostaríeis de vos encontrar com ele? ele poderia traduzir-vos o livro.

deus me ajude, ela é doida.

- como é que isso seria possível, se ele viveu há duzentos anos?


- eu tenho muitos poderes, tamas - disse ela, afastando-se dele. - posso fazer todo o
gênero de milagres. por isso é que o meu povo me chama a mahadevi. eu posso
restituir a vida à minha vontade, ou suspendê-la... ou terminar com ela.

estará a ameaçar-me?

- eu... eu espero nunca dar motivo para a despoina desejar pôr fim à minha vida.

- porque haveríeis vÓs de me dar motivos para isso, vós que salvastes a minha
filha? e eu desejo honrar-vos e recompensar-vos por isso. pedi tudo o que quiserdes
e os vossos desejos serão satisfeitos.

É quase tão obstinada como uma rameira. mas não é esse o modo de atuar dos
deuses e dos demônios das lendas antigas? como é que eu vou evitar que ela se
lance sobre mim?

- e se, despoina, as coisas que eu desejo forem coisas que eu não ouso pedir, por
serem... coisas perigosas?

- ah, já ouvistes dizer, decerto, que olhar para a minha cara significa morrer.
acontece, porém, que a minha irmã euryale descobriu, há muito tempo, que quem
nos olhar sem medo, mas com amor, não morre.

mas o enigma subsiste, como pode alguém olhar-vos sem medo?

- de verdade? - foi a resposta de thomas.

- duvidais de mim? eu podia apresentar-vos aquele com quem isso aconteceu. só


que era já tão velho quando, finalmente... não interessa. a verdade é que, por muito
que amasse a minha irmã, nunca quis nada comigo. mas nada receeis, meu
dourado tamas, os vossos desejos podem não estar tão fora do vosso alcance como
pensais. sede paciente. não dizem que os deuses recompensam aqueles que se
mostram pacientes?

- isso... traz-me outra coisa à mente, despoina. uma coisa que me disseram e de
que eu desejo informar-vos. quando era criança, fui votado, de corpo e alma, a uma
deusa, a uma deusa que vós, possivelmente, conheceis sob o nome de senhora das
feras.

stheno ficou queda e calada por momentos. depois, riu-se novamente, mas a
gargalhada, desta vez, foi mais fria e mais agreste.

- alguém vos deu maus conselhos. enyo? ou terá sido aditi? bem, admirava-me era
se ela não tentasse. mas, compreendei, tamas, que não me interessa a que ídolo,
ou nome, fostes votado, se é que falais verdade. a senhora das feras é uma bruxa
impotente - a voz de stheno ficou carregada de acrimônia. - ela não me protegeu a
mim, nem às minhas irmãs, da maldição de atena e não vos vai proteger a vós por
causa de aditi. a menos que a lua a cuspisse e ela aparecesse a reclamar-vos, eu
não vou acreditar nela, nem respeitar a vossa consagração a ela!
o envoltório da cabeça de stheno começou a estremecer e thomas desviou o olhar,
interrogando-se se não se teria já condenado.

stheno, porém, serenou, a voz voltando-lhe ao tom sedutor, embora um pouco mais
triste.

- desculpai-me, tamas, mas haveis tocado numa velha ferida que, receio, nunca
mais vai cicatrizar.

- por favor, despoina, sou eu que devo pedir perdão, mas não era minha intenção
apoquentar-vos.

- eu sei, estais perdoado. É uma insensatez eu perder a calma. vou deixar-vos com
os vossos estudos, mas lembrai-vos, os vossos desejos não são impossíveis. sede
paciente e corajoso. grandes coisas vos esperam, tamas, já os meus sacerdotes me
predisseram. tudo o que um mortal pode desejar será vosso.

thomas ouviu os passos dela a afastarem-se. olhou com todo o cuidado por cima do
ombro, para ter a certeza de que ela se fora embora e, só então, expirou um grande
e sonoro suspiro.

gandharva estava sentado ao sol, dedilhando na vina, preguiçosamente, um


complexo modelo de raga, tentando resolver uma charada perturbadora que lhe
atazanava o espírito. o sacerdote goês da orlem gor estava a causar-lhe enguihos. o
homem não queria ouvir falar de falsidades, nem de disfarces, e parecia pouco
inclinado à astúcia.

agora que aditi está a salvo, a mahadevi achou por bem encarregar-me das tarefas
difíceis.

gandharva ouviu passos leves e a ligeira brisa quente trouxe-lhe o cheiro doce e
delicado a água de rosas.

- ah, pramlocha, vieste trazer-me um pouco de alegria a esta minha tarde tristonha?

a rapariga riu-se e perguntou:

- como é que conseguis isso, dizer o nosso nome mesmo antes de falarmos?

- o teu delicioso aroma anuncia-te de longe.

- mas nós vivemos amontoadas naquela carroça, ao fim deste tempo todo
cheiramos, com certeza, todas ao mesmo.

gandharva sorriu e abanou a cabeça.

- do mesmo modo que cada flor de lótus tem um perfume distinto, embora flutue
num tanque com muitas outras, assim acontece contigo. além disso, eu tinha
esperança de que fosses tu.
- que fosse eu?

a rapariga sentou-se ao lado dele e encostou-se-lhe, enfiando o braço no braço dele.


gandharva gostou e roçou-lhe a cara pelo cabelo.

- esperáveis que fosse eu - continuou pramlocha -, porque gostais de mim, ou


porque esperáveis que eu vos trouxesse notícias?

- se queres saber, por ambas as coisas. eu gosto muito dos meus pombos, mas
duplamente porque me trazem mensagens.

- pois bem, tenho algumas notícias para vos dar. pramlocha agarrou na manga da
camisa de gandharva e

pôs-se a torcer os dedos no tecido. quando a pausa dela se tornou longa, gandharva
disse:

- as notícias, minha amiga, não se dão da maneira lenta como as bailarinas retiram
os véus. pelo contrário, devem dar-se com a urgência do amor jovem na primavera,
ou como se serve uma refeição a um homem em jejum. proceder de outro modo é
crueldade.

- perdoai-me. eu... tenho muita coisa para vos dizer. o senhor jaimal anda perturbado
e uns dizem que ele está preocupado porque o mirzá ainda não regressou. outros,
porém, andam a espalhar o rumor de que o mirzá nos abandonou, para ficar com o
tesouro da rainha imortal todo para ele. e outros, ainda, dizem que jaimal mandou
matar o mirzá e anda só a fingir que está preocupado. e, com o desaparecimento da
anciã, ninguém sabe bem para que lado havemos de ir.

- ah!

gandharva continuava sem saber se porphredo e o sufi teriam conseguido encontrar


o mirzá e avisá-lo.

pelo que parece, porphredo foi bem-sucedida na sua intenção de semear a discórdia
e a confusão no seio do exército mongol, embora fosse melhor se estivéssemos
mais longe de devidurga. contudo, isso tornaria mais difícil a minha tarefa quanto ao
sacerdote goês. É estranho como os prós e os contras se contrariam uns aos outros.

- isso é tudo o que me dizeis? - lamuriou pramlocha. ah? e é tudo? nós andamos
todas muito preocupadas, sem sabermos o que nos vai acontecer se os homens se
puserem à bulha uns com os outros. e eu já tenho ouvido falar do que acontece
quando os homens decidem libertar-se dos entraves das leis.

ah, ela não se sentou encostada a mim por afeição, mas porque tem medo.

gandharva largou a vina e afagou-lhe a mão.

- minha querida, minha querida - disse ele num tom que esperava soasse a meigo.
- eu tenho-vos visto a conversar com os goeses, gandharva. espero que não me
tenhais trazido para este descampado para depois me abandonardes. fui eu que vos
falei na bailarina morta, aquela cujo corpo preservamos para poder voltar à vida. a
que é filha de uma deusa, segundo dizeis. mereço melhor sorte do que ser
abandonada, não achais?

- sim, sim, claro que mereces - respondeu gandharva prontamente. - eu vou


interceder por ti junto da mahadevi, pois tens muita razão, mereces ser
recompensada por teres salvo aditi.

pramlocha posou a cabeça no ombro dele e gandharva sentiu as lágrimas dela na


sua pele.
- por favor, gandharva, não me deixeis.

gandharva bateu-lhe gentilmente na face com a ponta dos dedos e suspirou, a


charada de novo a importunar-lhe o espírito, a retorcer-se tal serpente rodeada de
uma miríade de serpentezinhas.

depois de algum tempo de silêncio na biblioteca e depois de ter rezado tanto e tão
prementemente a ponto do inchaço no baixo-ventre lhe desaparecer, timóteo tornou
a entrar pela cortina azul. tomás continuava sentado à mesa, as mãos na cara.

- tomás?

o inglês deu um salto e, depois, fixou o olhar em timóteo.

- oh, assustastes-me. está tudo bem, timóteo, ela foi-se embora.

timóteo aproximou-se da mesa, a cabeça baixa.

- desculpai-me, tomás, eu fui um cobarde. eu não devia ter fugido.

tomás sorriu tristemente.

- há ocasiões, irmãozinho, em que fugir é a coisa mais sensata a fazer. eu devo


confessar que o que me apetecia era fazer o mesmo.

- mas eu... eu não queria insultar a domina.

- eu acho que ela ficou mais divertida do que insultada. timóteo sentou-se
pesadamente no banco mais próximo e

pôs-se a desenhar círculos no pó da mesa.

- ela... ela fez-me pensar em coisas em que não devo pensar.

- ela parece divertir-se com isso - disse tomás.

- mas vós podíeis estar a correr perigo. como é que eu vou fazer aquilo para que fui
enviado aqui, se sou um cobarde? eu não devia ter fugido. eu não fugi do tigre,
porque é que fugi dela?

- os tigres não transformam as pessoas em estátuas de pedra.

timóteo ergueu a cabeça.

- agora já acreditais em mim?

tomás aquiesceu com a cabeça, solenemente.

- acredito, pois.
- o que é que ela vos disse, tomás? de que é que falaram? ela falou-vos do monte
olimpo?

- não, não me falou em nada disso. ela gosta é de falar dela própria. receio que ela...
tenha certas intenções a meu respeito. disse-me que, se alguém olhar para ela
com... amor, e sem medo, esse alguém a pode olhar sem morrer.

de repente, timóteo sentiu-se de novo cheio de esperança.

- mas isso, então, é uma maravilha, tomás! isso quer dizer que... quer dizer que, se
eu olhar para ela através do amor a deus, e, por isso, sem medo dela, então, posso
encará-la e mostrar-lhe a verdade de nosso senhor e salvar-lhe a alma.

- acho que não é a esse gênero de amor a que ela se refere.

- mas tem de ser, pois é o maior amor que existe!

- por favor, timóteo - disse tomás, firmemente, estendendo a mão por cima da mesa
para lhe agarrar o braço -, tendes de ter cuidado. a vossa fé é muito forte, mas
deveis ter em conta que pode haver coisas mais fortes do que a vossa fé.

timóteo foi invadido por uma onda de irritação e arrancou o braço da mão de tomás.
por momentos, pensou que tomás estava de novo a tratá-lo como se fosse uma
criança. depois, notou como tomás estava sério e pálido e ficou envergonhado.

- tendes razão, tomás. foi o pecado do orgulho, contra o qual o padre tanto me tem
avisado. não vou esquecer-me do vosso conselho. e vós deveis ter cuidado também.
ainda tendes o espelho que vos dei?

- espelho? ah, sim. está entre as minhas coisas. sim, ainda o devo ter.

- muito bem. portanto, devemos utilizá-lo sempre que sentirmos que a nossa fé não
é suficientemente forte, está bem? para nos protegermos.

- sim, acho que sim. - o inglês parecia preocupado. timóteo, vou pedir-vos uma
coisa... posso passar, a partir de agora, a dormir no vosso quarto?

- quereis trocar de quartos, tomás?

- não! eu acho... - thomas olhou para a cortina vermelha, como que a certificar-se de
que não se encontrava ninguém atrás dela e, inclinando-se mais para timóteo,
continuou: acho que o meu quarto é demasiado fechado. acho que encerra vapores
estranhos que... que me provocam pesadelos e que são maus para a nossa saúde.

- o meu quarto é muito pequeno, tomás.

- eu posso dormir na varanda. estamos na estação seca e as noites são bastante


quentes. fico perfeitamente bem.

- e a domina não se irá zangar?


- quero lá saber que ela se zangue.

- oh! mas seja como quiserdes, tomás.

um anjinho dentro dele avisou timóteo de que havia qualquer coisa importante que
tomás não lhe dizia, contudo, timóteo pressentia, também, que, fosse o que fosse,
não lhe interessava saber.

capítulo xv

Áster: esta pequena flor é muito parecida com a margarida, embora tenha cores
mais variadas, pois pode ser branca, rosa ou azul. a sua forma em estrela ligou-a,
desde sempre, às estrelas do céu e os astrólogos consideram-na uma planta de
vénus. no oriente, dizem que o vinho fermentado a partir do caule e das folhas
prolonga a vida e afasta a má fortuna. a flor serve muitas vezes para determinar
quem é o amor de uma pessoa e a constância de um apaixonado. os antigos
adornavam os altares pagãos com coroas de áster e diz-se que os gregos
queimavam a flor porque o fumo repelia as serpentes...

- podemos acender uma fogueira, begum porphredo? - perguntou o mirzá ali


akbarshah, pois a brisa fresca que, de início, parecera tão agradável, começara a
gelar-lhe a pele.

- não, nada de fogueiras - disse a anciã, espreitando em redor da clareira onde


haviam parado para passar a noite. não sabemos se não estará alguém a espiar-nos
e que possa ver a luz do fogo ou o fumo.

- eles estiveram aqui - disse lakart, debaixo de um talude rochoso. - o irmãozinho de


goa deixou aqui um sinal.

o mirzá aproximou-se e espreitou por cima do ombro do escocês. mesmo à luz


difusa do crepúsculo, distinguiu uma cruz, letras romanas e uns números inscritos no
pó do chão.

- o que é que isso diz?

- É apenas o nome dele e a data, mas, pelo menos, agora sabemos que não
estamos enganados.

- ou que fomos enganados do mesmo modo que eles foram.

- tendes razão, alteza. mas eu ando em busca do meu pupilo, thomas chinnery, e
este sinal mostra que eu, pelo menos, estou no caminho certo.

- ah!

o mirzá voltou-se, pois apercebeu-se que rafi, sabur e masum voltavam.

- senhor, já prendemos os cavalos, mas há pouca forragem para eles, para além dos
arbustos secos - disse sabur, olhando para porphredo, como se a anciã tivesse
deliberadamente planeado aquilo.

- devemos entrar em bhagavati amanhã - disse porphredo mansamente - e, aí, tereis


bastante comida para os vossos cavalos.

rafi olhava constantemente, por cima do ombro, em redor dos rochedos que
circundavam a clareira. o mirzá compreendeu que ele receava uma emboscada, pois
o sítio era perfeito para isso. além disso, todo o caminho que haviam percorrido
durante o dia era limitado por mato e por rochas, de tal modo que o campo de visão
não ultrapassava mais do que alguns pés, por todos os lados para onde olhassem.
os próprios cumes das montanhas permaneciam ocultos, não permitindo ao mirzá
avaliar o que progrediam e, não fora pelo sol, não faria idéia nenhuma em que
direção o grupo avançava. era um verdadeiro labirinto. aparentemente, porphredo
detinha referências que lhe permitiam distinguir o caminho correto, mas o mirzá não
conseguira aperceber-se do que a guiava.

o mirzá sentou-se debaixo de uma saliência da rocha, as costas encostadas à


parede rochosa. a posição proporcionava uma possível proteção a um ataque e
abrigava-o um pouco da brisa fria.

chamar-me-ão um cobarde, interrogou-se a si próprio, por ter tão prontamente


abandonado o meu exército para seguir esta mulher, na esperança de que ela me
leve à rainha da vida e da morte? como jaimal constantemente me repetia, um bom
comandante tem sempre em mente o bem-estar dos seus homens. e, no entanto, eu
abandonei-os aos erros que jaimal vai, muito possivelmente, cometer. sem embargo,
as ordens que recebi do shahinshah eram claras: eu tinha de encontrar essa rainha
e assegurar a sua amizade e cooperação. essas ordens sobrepõem-se a tudo o
resto. que alá, que a todos julga, decida se a minha conduta é desonrosa.

os outros juntaram-se-lhe, sob a saliência da rocha, estendendo os cobertores e


desembrulhando o arroz e a fruta que lhes haviam dado em devidurga. o mirzá
notou como rafi e sabur estavam ansiosos e carrancudos. o ocidental lakart estava
apenas curioso de tudo o que o rodeava, mas o sufi masum estava, mais do que
nunca, cheio de regozijo. o mirzá invejava-lhe a loucura, se era disso que se tratava.

como deve pesar pouco o mundo nos ombros de masum.

o mirzá voltou-se para porphredo, a qual se sentara a uma certa distância, fora do
círculo dos homens.

será o sentimento da posição adequada de uma mulher, será o receio, ou será


qualquer outro sentimento o que afaz afastar-se de nós?

o mirzá fez-lhe sinal para se juntar a eles e, quando ela o fez, o mongol ficou, mais
uma vez, maravilhado com a grácil nobreza com que ela se movimentava, apesar da
idade e do natural cansaço da viagem.

- senhora porphredo, já que tivestes a bondade de considerar que merecemos


encontrar-nos com a vossa rainha, teríamos interesse em conhecer melhor a sua
natureza e em saber como devemos contactar com ela.

- É difícil saber por onde começar, senhor mirzá. antes de tudo, um aviso. não
deveis ver-lhe a cara destapada, nem olhar-lhe os olhos, pois a lenda é verdadeira,
isso implica a morte.

- foi ela que matou mumit? - perguntou rafi.

- receio bem que sim - disse porphredo. - embora ache que a morte dele não foi
intencional. possivelmente, ele surpreendeu-a no local onde ela se escondia.

- isso não faz diferença nenhuma - rosnou rafi.

- se ela é uma rainha da vida, como da morte - perguntou o mirzá -, não podia ter
devolvido a vida a mumit?

- se ele se tivesse mantido inteiro, isso teria sido possível, embora fosse difícil e eu
duvide que ela se dispusesse a fazê-lo. porém, uma vez partido, é impossível.

- e se nós conseguíssemos juntá-lo? - insistiu rafi. - nós temos os pedaços todos.

- tendes a certeza? - perguntou porphredo. - como é que podeis saber se alguma


artéria ou outro órgão vital não se desfez em pó irrecuperável? regressado à vida
sem esse órgão vital, sofreria, decerto, uma rápida agonia fatal. não, tendes de
resignar-vos à idéia de que a morte do vosso irmão é definitiva.

- então, ela tem de pagar por isso!

- rafi - preveniu o mirzá -, vamos tentar garantir-vos alguma justiça, mas não
podemos opor-nos a esta rainha. o imperador akbar está extremamente interessado
em estabelecer boas relações com ela e seria muito perigoso para a tua família se
constituísses um obstáculo a esse objetivo.

rafi anuiu, mas o mirzá sabia que não o convencera por completo. e, numa súbita
percepção, o mirzá perguntou a porphredo:

- se a morte de mumit foi obra da vossa rainha, isso quer dizer que ela própria,
naquela noite, esteve no nosso acampamento?

- sim, nós chegamos juntas - disse porphredo. - eu, para desviar o vosso exército,
ela, para salvar a filha.

- a filha! quem era essa filha e como é que estava entre nós?

- não conheço bem os pormenores - disse porphredo -, mas ela estava escondida na
carroça das bailarinas.

- e fostes vós - disse o mirzá, voltando-se para lakart que requisitastes a carroça.
nitidamente, vós e o vosso amigo de cabelo amarelo sabiam mais do que
suspeitávamos.
- calma, alteza, eu sei menos do que pensais. o meu pupilo, thomas, disse-me para
eu pedir a carroça porque o sacerdote goês havia matado a sua amada aditi e ele
tinha esperanças de encontrar a fonte do rasa mahadevi e de fazê-la voltar à vida.
eu não podia prever que a própria fonte do sangue da vida viesse ter conosco. nem
que, para além da filha, levasse também thomas e timóteo com ela.

o mirzá pôs-se a cofiar a barba.

- contudo, fostes incapaz de me informar de que era essa a finalidade da carroça.


essa falta de confiança incomoda-me.

- por favor, alteza, desculpai-me, mas, pouco familiarizados com a vossa fé, não
sabíamos como iríeis encarar o transporte de um cadáver no meio do vosso
exército. e, acima de tudo, havia que ter a certeza de que o sacerdote goês
gonsção, que nós julgamos ser o assassino, não o viria a saber.

- o que estou a perceber é que não tomaram em consideração o perigo que o


cadáver dessa mulher podia constituir para os meus homens.

- nós não prevíamos nenhum perigo, alteza. se alguma culpa temos é a de falta de
imaginação, mas nunca pretendemos causar qualquer dano, a vós ou aos vossos
homens.

- ah! - o mirzá suspirou e encostou a cabeça à rocha fria.

- porque é que, begum porphredo, a vossa rainha não se deu a conhecer a nós, já
que estava tão perto? para quê o subterfúgio?

- não vos apercebeis, pela morte de mumit, do perigo de semelhante visita? -


replicou porphredo. - ao longo dos séculos, a minha rainha tem aprendido a
precaver-se. devo, porém, avisar-vos de que ela está muito pouco interessada em
estabelecer relações formais com o vosso imperador. eu nutro a esperança de que a
consigais convencer, pois ela está há tanto tempo encerrada no seu palácio que já
se esqueceu de que existe um mundo cá fora. diverte-se com as intrigas nas cortes
estrangeiras, mas pouco se apercebe das suas consequências. eu e a minha irmã
receamos que ela ande... desequilibrada. espero que a vossa presença contribua
para lhe restituir o senso.

- podeis estar a esperar de mim mais do que eu sou capaz

- disse o mirzá -, mas, em honra do meu imperador, farei tudo o que puder. o que é
que sugeris que lhe ofereça, dado que não lhe vou levar presentes?

- influência. celebridade. conhecimento. ela dá valor a tudo isso. apelai à sua


vaidade e à sua curiosidade e sereis bem-sucedido.

- não considerais, então - disse lakart -, a vossa rainha uma deusa?

porphredo olhou para o ocidental, um ar divertido na face profundamente vincada.


- não. ela é uma mulher amaldiçoada, como eu. nós já nos adaptamos às nossas
aflições, mas elas não deixam, por isso, de ser um ordálio.

- ela não pode ser o divino - acentuou masum -, ela é apenas a imagem do divino,
vinda a este mundo para fazer brotar o amor pela eterna bilquis, a sábia sofia.

- amor? - resmungou sabur. - como é que se pode amar uma mulher cuja cara
desfere um golpe fatal?

- olhar a face do divino é tamanha glória que nenhum simples mortal a suporta -
replicou masum. - a imagem do divino, porém, tal espelho, apenas reflete essa
glória. por isso, a alma mortal, se revestida do amor do divino, pode olhar para esse
reflexo sem receio e sem perigo.

- a imagem da deusa... - murmurou lakart.

o mirzá olhou para ele atentamente, mas o ocidental parecia profundamente


entregue aos seus pensamentos.

- bomfaylasuf- disse porphredo -, as vossas palavras estão mais perto da verdade


do que, possivelmente, pensais. a minha rainha não se tem cansado de estudar o
amor há centenas de anos, pois acredita que, se conseguir encontrar um homem
que olhe para ela sem medo e com amor, esse homem não morrerá. porém, o
gênero de amor que ela tem em mente não é o mesmo que o vosso, por isso,
aconselho-vos a que tenhais cuidado.

- eu não tenciono ter cuidados, mas sim oferecê-los graciosamente - disse masum.

o mirzá começou a sentir-se pouco à vontade, uma vez mais apercebendo-se de


que havia assuntos de cariz espiritual que o seu sentido prático não lhe permitia
entender, como se fosse daqueles que não conseguem distinguir as cores, ou dos
que não sabem ler.

- segundo parece, vamos ter muito que fazer amanhã. vamos, pois, tratar de dormir,
para estarmos amanhã aptos e refeitos. e queira o misericordioso que eu não tenha
sonhos, pois receio bem não ter a sabedoria suficiente para os compreender.

thomas estava deitado na varanda, mirando a lua. já não estava tão cheia como
estivera, pelo que parecia.

- se sois a minha protetora, pensava ele, velai, então, por mim esta noite e salvai-me
daquela que pretende disputar a vossa soberania sobre a minha alma.

sentia-se um pouco tolo, tal uma criança exprimindo desejos a uma estrela, contudo,
estava disposto a não menosprezar nenhuma precaução. tinha, até, colocado o
espelho que timóteo lhe dera num dos pilares esculpidos da balaustrada da varanda,
perto da cabeça e apontado para a porta. duvidava que stheno ousasse procurá-lo
sob o brilhante luar, com timóteo por perto, mas a presença do espelho deixava-o
mais descansado.

ouviu o leve ressonar de timóteo atrás de si e invejou o rapaz.

será a sua fé ou a sua juventude que lhe permite um sono tão descansado? dormia
eu assim quando tinha a sua idade?

thomas tentou recordar-se, mas não o conseguiu. a vida em inglaterra parecia-lhe já


muito longínqua.

voltou-se de barriga para baixo e suspirou, esperando, ao menos, não ter pesadelos.
tentou fixar o espírito em questões práticas.

com todos os conhecimentos que se encontram acumulados na biblioteca de stheno,


muita coisa eu podia levar para inglaterra, pudera eu manter-me por aqui uns
tempos. se eu conseguisse travar os seus ardores, mantendo-a gentilmente
afastada, com palavras simpáticas e fingida modéstia, podia, um dia, escapar daqui
com a sabedoria de séculos debaixo do braço. não vale isso algum desconforto,
alguma dissimulação e lisonja, mesmo sendo ela um monstro! talvez eu possa vir a
conhecer o segredo do sangue que restitui a vida e tornar-me o mais célebre físico
da cristandade. não será esse o desígnio da minha viagem, pretendido pelo poder
divino que me orienta, seja ele qual for? coragem, tom, pois tudo advém a quem
sabe esperar.

por fim, o sono apossou-se dele, um sono leve e sereno. thomas não sabia que
horas eram, quando despertou ao som do fecho da porta. não se mexeu, mas abriu
um olho. a lua tinha desaparecido, deixando apenas a luz difusa das estrelas a
iluminar a varanda.

oh, lua inconstante, já me abandonastes? mas isto deve ser timóteo que regressa do
lavabo.

thomas olhou para o espelho e percebeu que estava enganado.

primeiro viu a vela, iluminada por uma pequena e vacilante chama. depois, dois
seios, grandes e redondos, acima de uma cintura fina. e, acima desses, uma cara de
estonteante beleza, com uns lábios cheios, um nariz aristocrático e grandes olhos
negros. e, rodeando essa cara... as serpentes. numerosas, retorcendo-se
languidamente, a pele a brilhar, os pequenos olhos lançando chispas com laivos
encarniçados.

thomas fechou os olhos com toda a força e lutou contra a convulsão no estômago.
meu deus, meu deus, é verdade. embora as estátuas da cripta lhe tivessem
convencido o intelecto, agora nenhuma parte dele podia negar a espécie de criatura
que stheno era. não ousou mexer-se, confiando em que a sua imobilidade
convencesse a górgone de que dormia.

sentiu ela a tirar-lhe a coberta de algodão e lastimou-se por ter apenas vestido uma
camisa persa. sentiu a mão dela a acariciar-lhe a barriga da perna, a coxa, a
nádega, os silvos das serpentes a ecoarem os suspiros de admiração dela.
depois sentiu os lábios dela nas pernas, cada doce beijo rodeado pelo deslizar
suave de escamas de serpente na pele, as pequenas e tenteantes línguas a
fazerem-lhe cócegas.

thomas, lentamente, fechou os punhos e cerrou os dentes, concentrando a vontade


para não gritar de horror.

não posso, não posso. se acordo timóteo, posso condená-lo, como a mim próprio.

- despoina... - surgiu da porta uma voz áspera.

- chiu! - guinchou stheno, os silvos das serpentes parecendo um vento de


tempestade a passar por folhas secas.

- despoina...

- o que é, enyo?

- tens de vir, depressa!

- que os deuses te levem - rosnou stheno, mas thomas ouviu-a levantar-se e afastar-
se dele, só tornando a respirar quando ouviu a porta a fechar-se.

- que deus te abençoe, enyo - suspirou ele em grande alívio.


enyo ficou no corredor, à espera das primeiras explosões do temperamento
tempestuoso da despoina. não teve de esperar muito tempo.

- como te atreves tu a perturbar-me quando estou com um hóspede! - silvou stheno


no escuro, logo que a porta ficou fechada. - tens a noção do mal que podias ter
causado?

o teu rosto destapado é culpa minha, então?

- eu ouso, despoina, quando há assuntos urgentes a que deves prestar atenção.

- o que é que se passa de tão urgente?

- há uma rebelião às portas do palácio, despoina.

- uma rebelião? isso é impossível, o meu povo não se rebela.

- por isso é que deves ir ver tu própria. resmungando irada, stheno disparou à frente
de enyo,

a qual teve de correr para a acompanhar.

- tens sorte em eu saber que és parva, ratazana, senão ia pensar que estavas a
interferir deliberadamente com os meus amores.

ainda bem que achas que eu sou parva, pensou enyo, pois, de fato, eu e aditi
quisemos interferir. aditi reuniu o povo da cidade, garantindo-lhes que tu lhes darias
ouvidos. e eu esperei até te ver entrar no quarto em que tamas dormia. entre nós as
duas, talvez formemos uma mente suficientemente inteligente para te desviar para
melhor conduta.

À luz das poucas tochas e da miríade de estrelas, enyo conseguiu ver onde punha
os pés ao subir as escadas que conduziam ao topo da muralha do palácio. tal como
grande parte da estrutura, a muralha, há muito sem ser reparada, estava rebentada
em muitos sítios, obrigando enyo a ter a máxima atenção aonde punha os pés.
chegou à torre que encimava o portão do palácio muito depois de stheno.

impaciente, stheno ordenou:

- dá-me cá o teu xale.

enyo tirou o xale dos ombros e entregou-o a stheno que, num gesto rápido, envolveu
as serpentes com ele, puxando uma ponta para lhe cobrir a cara. depois, espreitou
para baixo da torre.

- É a isto que tu chamas uma rebelião, ratazana?

nas escadas do palácio viam-se homens e mulheres de todas as castas, uns em pé,
de braços erguidos, outros ajoelhados, outros prostrados. alguns gritavam, a pedir
que a mahadevi os ouvisse, outros cantavam vedas, outros batiam com os punhos
no portão do palácio, impetrando à deusa que acedesse aos seus rogos. estavam
rodeados de tigelas com candeias flutuantes, de candeias a óleo, de archotes de
junco. muitos tinham nas mãos flores, ou tigelas de oferendas. os degraus da
escada pareciam os de um templo durante o festival de diwali.

- eles chegaram zangados, a correr, despoina, sabia-se lá do que seriam capazes?


por isso achei que devia avisar-te de imediato. ouves como te chamam?

- o que é que eles querem?

- querem que os ouças. uma família diz que o túnel onde vivem quase lhes caiu em
cima. outra diz que a casa ruiu por causa do andar que lhe acrescentaram para
albergar toda a família.

- o que é que eu tenho a ver com a sua fraca perícia em matéria de construção?

- eles precisam de espaço, despoina, de mais terra. e nós ocupamos só uma


pequena parte do palácio...

- És tal e qual a tua irmã! vocês querem que eu ceda o meu belo palácio como uma
toca para estes coelhos humanos procriarem até correrem comigo, não é? porque é
que eles não se controlam?

- os filhos são considerados uma dádiva de lakshmi, despoina. aliviam o trabalho da


família e acrescentam prosperidade.

- portanto, eu tenho sido demasiado generosa e eles prosperam demasiado. porque


é que agora se queixam?

enyo replicou no seu tom de voz mais firme.

- tu és a deusa deles! tu és a mahadevi, a mãe sublime, que lhes outorgas todas as


coisas. eles dependem do teu poder e da tua sabedoria para se protegerem.
provaste-lhes a tua grandeza e a tua magnanimidade pela própria prosperidade que,
agora, menosprezas. em quem podem eles depositar a sua confiança?

quem melhor do que tu lhes pode acudir aos gritos de socorro?

stheno ficou uns momentos silenciosa, observando a multidão ululante lá em baixo.

- muito bem - disse, por fim. - diz-lhes que eu, a sua deusa, os ouvi e que terão uma
resposta. e convoca o alcaide e os brâmanes da cidade para uma audiência comigo,
amanhã ao meio-dia. e manda-me aditi, para prepararmos a audiência.

- sim, despoina - disse enyo com uma vênia, suspirando de alívio.

- e não tornes a incomodar-me esta noite. tenho muito em que pensar e que planear.

stheno partiu, o porte um pouco mais real do que antes. enyo encostou-se à parede
fria da torre de vigia.
como tudo isto seria mais fácil se porphredo aqui estivesse! que lhe terá acontecido?
porque não teremos notícias dela? volta para casa depressa, querida irmã, antes
que a despoina se torne impossível de controlar e tudo desfaça.

o padre antónio gonsção ia sentado no teto da carroça das bailarinas, balançando e


suportando os solavancos e os rangidos. o comandante jaimal recusara aos goeses
cavalos, ou mesmo mulas, forçando gonsção e os soldados a seguirem na carroça,
com os músicos, as bailarinas e as rameiras. o corpo principal do exército seguia à
frente deles, cada homem levando um archote, naquela insólita marcha noturna.

gostava de saber se é assim o inferno, pensava gonsção, com as almas a


caminharem para o abismo no meio de fumo e de fogo. gostava de saber se vou
falhar na tarefa que me espera.

gonsção estava incomodado por ter de depender tanto de outros, cujos poderes e
capacidades lhe eram estranhos. tentara, sem êxito, explicar ao músico cego,
gandharva, porque é que era impensável que ele, gonsção, por exemplo, vestisse
roupas de mulher, como disfarce para escapar. o tocador de alaúde parecia não ter
nenhuma noção do pecado. mesmo naquela altura, sentado no teto da carroça em
frente dele, gandharva tinha uma das jovens rameiras reclinada no braço e nada
fazia para a afastar, nem lhe dizendo para se sentar longe deles, justamente quando
ele e gonsção deviam discutir seriamente os planos de fuga.

não obstante, a minha vida e as de carlos e de estêvão dependem, agora, deste


homem. isto é, claramente, uma prova do ditado que diz que deus age de maneira
misteriosa.

- noto, gandharva, que o exército inverteu de novo o sentido da marcha e que


estamos, agora, a seguir, uma vez mais, para sudoeste.

- tendes razão - disse o músico cego. - aqui a minha espia - prosseguiu ele,
afagando a mão da rapariga sentada ao lado dele - diz-me que jaimal suspeita da
longa ausência do mirzá e acha que o mirzá descobriu o caminho para a cidade
lendária e pretende apossar-se do tesouro só para ele. por isso, segue o mesmo
caminho que o mirzá seguiu.

- o nosso comandante não aceita a possibilidade de o mirzá ter sofrido algum


acidente ou infortúnio?

- não, nenhum que jaimal não tenha montado. gonsção ergueu o sobrolho.

- estou a perceber. e temos alguma vantagem nessa traição e nesta mudança de


direção?

- há boa fortuna e má fortuna em todos os incidentes, mestre. seguindo nesta


direção, o rio alarga-se, mas vamos ficar mais próximos do nosso destino, embora
corramos o risco de guiar jaimal até à cidade oculta.

por momentos, as costas e os membros a doerem-lhe por ter passado a noite na


pele de burro, gonsção considerou que seria mais expedito indicar, muito
simplesmente, ao comandante mongol o caminho para a cidade oculta e dirigirem-se
para lá escoltados pelo exército. logo, porém, se admoestou a si próprio.

que é o meu desconforto comparado com os horrores que se produziriam se os


muçulmanos viessem a dominar a fonte do rasa mahadevi? eu devo dispor-me a
sofrer muito mais, até a morrer, para o evitar.
capítulo xvi

lÍrio: este arbusto dá uma plumagem branca ou umas flores de um púrpura-claro.


diz-se que o primeiro lírio brotou de umas sementes que um falcão deixou cair no
jardim de uma anciã. um príncipe que passava no jardim deixou uma pluma do seu
chapéu sobre a planta, da qual brotaram flores semelhantes. há quem diga que
lavarmo-nos com o orvalho do lírio, no dia primeiro de maio, proporciona beleza para
o resto do ano. não se devem levar lírios para dentro de casa, pois isso implica a
morte de alguém nessa casa. tão-pouco se devem usar lírios sem ser no primeiro de
maio, pois isso implica que a pessoa nunca se casará. oferecer lírios a alguém com
quem se está comprometido significa romper o noivado...

thomas, através da balaustrada da varanda, observava o jardim lá em baixo. o sol da


manhã revelava que andava tão negligenciado como o resto do palácio. contudo, as
árvores não podadas e os arbustos não aparados ostentavam flores vermelhas e cor
de laranja e estavam cheios dos chilreies dos pássaros que o haviam acordado tão
cedo. de quando em vez, parecia-lhe ouvir o clamor de uma multidão de gente, mas
não tinha bem a certeza.

pode, muito bem, ser o berro de algum pássaro exótico que eu não conheço.

empurrou o tabuleiro de prata que ele e timóteo haviam encontrado junto da porta,
dentro do quarto. alguém solícito havia-lhes deixado um desjejum de fatias de pão
com ovo e alho e mangas. thomas tentou não especular acerca de quem teria sido.
se tivesse sido aditi, sentir-se-ia culpado por não estar acordado para a saudar. se
tivesse sido enyo, gostaria de lhe ter agradecido a intervenção que tivera durante a
noite. se tivesse sido stheno, nem queria saber.

timóteo estava mais sossegado que de costume, pondo-se a rezar logo que se
levantara, mas, para além disso, mantendo-se calado. thomas gostaria de saber se
o rapaz estava, simplesmente, mergulhado nos seus pensamentos, ou se teria
testemunhado o que se passara durante a noite e não queria falar disso. receoso
que fosse este último o caso, thomas não o pressionou, nem perguntou ao rapaz a
razão do seu silêncio.

alguém bateu à porta e thomas sobressaltou-se. quem me dera que seja enyo.

- quem é? - perguntou, por fim.

ouviu-se o palavrear de uma voz masculina do outro lado da porta.

- É um dos brâmanes - disse timóteo, levantando-se de um salto.

o rapaz abriu a porta e palavreou com alguém por momentos e, depois, voltou-se
para thomas.

- estamos com sorte, ele fala kannadan. está a dizer que temos de ir com ele
imediatamente. a mahadevi convida-nos para a audiência com o alcaide de
bhagavati e diz que é importante que estejamos presentes.
bom, acho que ela não me vai causar embaraços em público. thomas levantou-se e
espreguiçou-se.

- se a rainha ordena, há que obedecer.

o brâmane era um homem com cerca de quarenta anos, vestido com um comprido
casaco creme e calças pandas. era cego, como pareciam ser todos os sacerdotes
do palácio e thomas compreendia, agora, a necessidade dessa condição.

ao menos, não é o velho louco que se pôs a fazer sacrifícios à minha porta, quando
chegamos.

o sacerdote guiou-os tateando as paredes com as pontas dos dedos. seguia tão
seguro do caminho que a vista nem parecia fazer-lhe falta.

thomas fixava cuidadosamente o percurso que seguiam e as voltas que davam,


notando que não se aproximavam da parte antiga do palácio, nem do jardim
sagrado, nem da biblioteca.

- este palácio é enorme - murmurou ele para timóteo. acho que, mesmo que aqui
passasse toda a minha vida, não conseguia conhecê-lo todo.

- eu conseguia - disse timóteo.

thomas ficou sem saber se o rapaz queria dizer que tinha esperteza para tanto, ou
se era capaz de passar ali o resto da vida.

o sacerdote conduziu-os até uma porta de dois batentes, feita de uma madeira
escura e polida e chapeada a ferro. o brâmane puxou uma das argolas de ferro e,
lentamente, abriu um pouco uma das portas. contudo, antes de thomas e timóteo
terem podido entrar, enyo saiu.

- ah, eis-vos aí, déspotas, monachulum - disse a anciã, fazendo uma vênia a ambos.
- a despoina estava preocupada que não viésseis ou que vos atrasásseis.

- dado que nos convocou - disse thomas - não tinha razão para se preocupar.

a anciã pestanejou.

- Às vezes, déspotas, mesmo ela prefere os súbditos voluntariosos. por favor, sigam-
me, que eu vou ser a vossa tradutora.

enquanto entravam, thomas começou a traduzir para timóteo o que enyo dissera,
mas, de repente, calou-se, ao olhar para o salão que tinha à frente dele. o chão era
uma enorme extensão de mármore negro. altos pilares, pintados da cor do sangue,
flanqueavam as paredes. não havia janelas, sendo a sala iluminada pelas chamas
de grandes braseiros de bronze, colocados a cada canto do salão, dois outros
colocados a cada um dos lados de um trono em bancada que, à esquerda,
dominava o salão. no cimo da bancada, via-se uma alta cortina de seda creme,
esticada de um lado ao outro.
isto parece mais um templo pagão, pensou thomas, do que a corte de uma rainha.
contudo, adequa-se perfeitamente a uma rainha que se diz deusa.

enyo conduziu-os para o fundo do salão, para uma plataforma onde se encontravam
três cadeirões ornamentados e indicou-lhes que thomas devia sentar-se no cadeirão
do meio, com timóteo à sua esquerda, sentando-se ela à direita. logo que se
sentaram, enyo bradou, em grego:

- já cá estamos!

thomas ouviu o tinir de braceletes e viu aditi surgir por detrás da cortina e descer até
ao degrau do meio do trono. envergava um sari escarlate, recamado a ouro, e trazia
uma tiara de ouro no cabelo preto e entrançado.

- aditi! - exclamou thomas para ela, mas enyo agarrou-lhe o braço.

- não deveis falar com ela, déspotas. tenho muita pena, mas são ordens da
despoina,

aditi relanceou o olhar para ele, logo o afastando. thomas recostou-se no cadeirão
com um suspiro de frustração.

É estranho como as coisas que mais desejamos são as que nos são negadas.

tentou encontrar outra coisa qualquer em que fixar a atenção. À sua esquerda, na
parede oposta à do grande trono, havia um par de portas de bronze ainda maiores
do que aquelas por onde tinham entrado. as portas estavam divididas em painéis,
nos quais animais e figuras humanas meio-despidas se abraçavam, lutavam ou
dançavam.

certamente, cada um conta uma história, como acontece com as catedrais, em que
as estátuas contam histórias de santos.

pareceu-lhe ouvir rumor de vozes abafadas, por detrás das portas.

- enyo, foi muita gente convocada para aqui?

- sim. o povo de bhagavati pediu à despoina para resolver o problema da falta de


alojamentos e ela prometeu dar-lhes uma resposta nesta audiência. e eu espero que
ela tenha uma decisão sensata.

- se eles não gostarem da resposta, vão revoltar-se contra ela?

- oh, não, de modo nenhum. e, se o tentassem, ela de imediato os travaria com a


sua... magia. - enyo olhou para as portas, a testa franzida. - espero que não
cheguemos a tanto acrescentou mansamente.

- também eu, boa enyo, também eu.


- o que é que ela está a dizer, tomás? - perguntou timóteo.

- as minhas desculpas, jovem - disse enyo, mudando para latim. - É esta a língua
que devo utilizar para que me entendais, não é assim? eu estava a dizer ao vosso
jovem mestre que a rainha stheno nos reuniu aqui para nos anunciar como é que vai
conceder mais espaço ao povo de bhagavati, para que possam construir casas para
as suas famílias. e eu, pessoalmente, espero que ela lhes ceda parte do palácio,
pois dispõe de muito espaço de que não necessita.

timóteo inclinou a cabeça em sinal de compreensão e, depois, perguntou:

- mas isso não será perigoso?

antes de enyo poder responder, aditi falou em voz clara e firme e as portas de
bronze começaram a abrir-se.

aditi, hoje, parece muito mais uma rainha do que stheno, pensou thomas.

entre vinte a trinta homens, vestindo casacos compridos e calças idênticas às que
vestia o brâmane, entraram pela porta, ajoelhando-se em filas perante o imenso
trono.

- eles distribuem-se conforme as castas - disse enyo. na primeira fila está o


gamabhojaka, o alcaide, e os seus dois irmãos. atrás deles estão os representantes
dos clãs brâmanes. depois, ficam as castas de guerreiros e, por trás deles, os
mercadores. por fim, ficam os restantes, músicos, artesãos e por aí adiante.

portanto, a ordem da natureza até aqui se reflete, nesta estranha região, motejou
thomas para si próprio, com os homens distribuídos de cima para baixo, cada um no
seu lugar. a similitude poderia parecer reconfortante para thomas, mas, na verdade,
achava-a opressiva. nenhum destes homens terá desejado ter nascido com outro
estatuto? o filho do rei desejando ser um mercador e o camponês desejando ser rei?
não haverá lugar na terra onde um homem nasça sem herdar a opressão no próprio
berço? eu dava muito para não ser o filho do meu pai. mas, segundo dizem, as
diferenças de sangue desaparecerão e a senhora natureza imporá a sua ordem
quando tudo terminar.

quando o último homem se ajoelhou, sacerdotes do palácio fecharam as portas. um


som profundo, um estampido cavo, tal trompa de deus, reverberou pelo salão. e
depois um outro, os tons alternadamente harmonizados e colidindo. e, depois,
juntou-se um terceiro, até que o som, a que não se podia chamar música, penetrou
nos próprios ossos de thomas. apertou as mãos contra as orelhas e olhou ansioso
em redor, em busca da fonte. por fim, à luz difusa, distinguiu uma galeria ao alto, na
parede em frente deles, por detrás dos pilares. monges, em pé na galeria, sopravam
em trompas de cobre impossivelmente compridas que deviam estar suspensas do
teto.

as trompas continuavam a soar, o som que produziam parecendo circular à volta do


salão como um falcão prestes a atacar. era um som espantosamente complexo, com
uma textura que lhe fazia arrepiar a pele e a mente imaginar, nos limites, que ouvia
aleluias de anjos e guinchos de demônios. o silêncio que se seguiu tiniu como um
sino de puro cristal.

- trompas tibetanas - disse enyo, coloquialmente. - das montanhas distantes do


norte. são impressionantes, não são?

- sim, são impressionantes - disse thomas, inspirando fundo -, e bem me


impressionaram.

timóteo baixou as mãos que tinha nos ouvidos e benzeu-se.

- santa maria. eu pensei que era o arcanjo são gabriel e que era o dia do juízo.

- É sem dúvida assim que vai soar a trompa final nesse dia - concordou thomas. - e,
se for pior, espero que o meu espírito já não tenha ouvidos que a possam ouvir.

aditi bateu as palmas e pôs-se a falar para a assembléia de homens numa


linguagem amável e fluida.

- ela está a dar-lhes as boas-vindas em nome da mahadevi - traduziu enyo. - e está


a dizer-lhes que, na pessoa da mahadevi, a luz celeste do divino desce à terra para
a informar e a transformar, como acontece ao marido e à mulher na noite do
casamento, um no outro.

thomas olhou para enyo, o sobrolho franzido.

- isso é coisa de que se fale, perante uma augusta assembléia?

- sim, isso significa muito para esta gente - disse enyo. a junção dos opostos tem
grande importância nas suas crenças.

aditi parou de falar e pareceu ficar à espera de qualquer coisa. depois, continuou a
falar, fazendo gestos gráceis, como se a parte superior do corpo dançasse.

enyo deu um estalido com a língua e abanou a cabeça.

- ai, stheno deve estar atrasada. este é o discurso que fazemos, cheio de loas à
mahadevi, antes de ela aparecer. mas ela respeita tão pouco as pessoas. Às vezes
isto dura horas. espero que não seja cruel ao ponto de nos fazer vir aqui para nada.

- já valeu a pena vir aqui - murmurou thomas, observando aditi a falar.

thomas ouviu um roçagar e um tinir por detrás da cortina, aditi pareceu concluir o
seu discurso e surgiu uma luz repentina atrás da cortina: nitidamente, haviam ateado
ali dois novos braseiros. uma sombra apareceu recortada na cortina, formando uma
figura com muitos braços ondulantes, várias pernas e serpentes ondeando
languidamente na cabeça.

timóteo agarrou no braço de thomas.


- estais a ver, estais a ver?

quando recuperou a voz, thomas disse:

- sim, irmãozinho, eu sei, eu não duvido de vós, embora não perceba para que fez
brotar os membros suplementares.

stheno parecia querer mostrar, habilmente, na sombra, diferentes partes do seu


corpo: agora, um pesado colar de jóias, adornando um torso fino de seios redondos;
depois, diversos pares de braços gesticulantes; em seguida, um acentuado perfil
emoldurado de serpentes.

fora eu um hindu, pensou thomas, e acreditaria que era um ídolo pagão vivo.

stheno, depois, falou e a sua voz continha alguma da tonalidade das trompas
tibetanas. thomas perguntava-se que estranho mecanismo utilizaria ela para obter
aquele efeito.

- ela dá as boas-vindas aos cidadãos de bhagavati - traduziu enyo prontamente - e


diz que, tendo ouvido os seus gritos de socorro, vem, com a sua generosidade, em
seu auxílio. porém, como têm estupidamente malbaratado a prosperidade e o
desenvolvimento que ela lhes tem proporcionado,

esse auxílio vai ter um elevado preço. ai, não estou a gostar nada disto!

o homem que enyo apontara como sendo o alcaide falou, então, e enyo traduziu:

- ele diz que o reconhecido povo de bhagavati pagará, seja qual for o preço que a
mahadevi pedir, pois é ela quem os tem sustentado e protegido, geração após
geração.

- demasiadas gerações, responde stheno. e, agora, diz-lhes que a têm aconselhado


que a grande parte do palácio que ela não utiliza podia servir para alojar parte do
seu povo. ah, muito bem, despoina, estás a ser sábia! agora, diz-lhes que, como ela
própria, recentemente, teve de sacrificar a sua filha para receber uma dádiva maior,
também o povo de bhagavati terá de fazer um sacrifício semelhante. ai, não, não
posso crer!

enyo calou-se e ficou a morder o punho, enquanto stheno continuou a falar. a certa
altura, os homens de bhagavati levantaram-se, atônitos, e começaram a protestar,
mas a criatura por detrás da cortina bradou-lhes que se calassem.

por fim, thomas teve de abanar gentilmente o ombro de enyo.

- enyo, o que é que se passa? o que é que ela está a dizer?

- É melhor e pior do que eu receava - murmurou a anciã.


- está a dizer-lhes que eles têm de lhe entregar as filhas solteiras, todas as raparigas
virgens com dezoito anos ou mais. têm de levá-las ao palácio, onde as raparigas
irão servir toda a vida, sem se casarem e sem terem filhos. ai, espero que não
tencione cegá-las! diz que as raparigas têm de estar no palácio até amanhã ao pôr
do sol. e diz que, dentro de três dias, vai haver um grande casamento... as raparigas
vão casar com... ela, no seu avatar de deusa xiva, para que não possam ter outros
maridos.

thomas olhou horrorizado para a cortina.

- ela vai casar com as raparigas? isso é... isso é abominável!

- mas plenamente de acordo com as crenças desta gente, infelizmente. eles são
muito rigorosos em relação à sua vida familiar, mas não estranham os caprichos das
suas divindades.

vários dos homens de bhagavati voltaram-se e puseram-se a olhar para thomas.

- o que é que se passa agora? - perguntou thomas. enyo baixou os olhos,


apologeticamente.

- jovem mestre, ela diz que, sob o avatar de cáli, vai, também, tomar um marido. e
esse marido sois vós.

thomas sentiu o maxilar a abrir-se-lhe e começou a gaguejar.

- eu... eu não casarei... - murmurou ele, começando a erguer-se do cadeirão.

- cuidado, mestre! - exclamou enyo. - não embaraceis, nem irriteis a despoina diante
do seu povo, pois a sua ira pode causar grandes danos a gente inocente. serenai,
por favor. teremos tempo, mais tarde, para lhe pedir que reconsidere.

thomas tornou a sentar-se, muito agitado. encontrou o olhar de aditi e viu-lhe nos
olhos uma simpatia triste.

- stheno nem sequer me perguntou se eu queria casar com ela!

- a mahadevi nunca pede autorização a ninguém - suspirou enyo. - ai, que grande
confusão tudo isto vai provocar. como eu desejava que porphredo aqui estivesse!

porphredo desmontou, grata por sair do dorso ossudo do cavalo, e encaminhou-se


para o penhasco, notando que os mongóis, atrás dela, se punham a observar
atentamente as cercanias, pois deviam achar a clareira outro bom local para uma
emboscada.

tenho de os meter dentro da montanha rapidamente, pensou ela, antes que fujam
tomados de pânico.

afastando os falsos ramos de hera, porphredo encontrou o fecho do falso rochedo e,


mesmo com as fracas forças de anciã, facilmente o afastou para o lado, ouvindo,
atrás de si, o mongol chamado rafi soltar exclamações de surpresa e apelidá-la de
bruxa.
- É, muito simplesmente, uma falsa frontaria - disse porphredo. - apenas um truque.

- de que outros truques não será ela capaz, meu senhor? - perguntou rafi, em tom
defensivo, ao mirzá.

- será instrutivo descobrirmos isso - retorquiu o mirzá com um sorriso.

porphredo voltou-se para a grande porta redonda e puxou por um determinado ramo
de hera. depois, ficou à espera.

e esperou, esperou.

a porta não se abria. porphredo encostou-se à porta e pôs-se a bradar no dialeto


local telagu.

- sou eu, sri porphredo! e trago hóspedes comigo! abram o túnel imediatamente, se
não querem sofrer o castigo da rainha stheno!

tornou a ficar à espera, mas a porta não se movia e não se ouvia nenhum som de
voz, nem de passos por detrás dela.

- segundo parece - disse lakart friamente -, um dos seus truques não funciona.

- infelizmente para nós - disse o mirzá - parece ser um dos mais importantes.

- alguma coisa aconteceu - disse porphredo, a voz não lhe escondendo a


preocupação. - este túnel tinha gente a viver nele, ainda não há uma semana.

- talvez - disse sabur - afinal nos tenham visto e tenham proibido a nossa entrada.

- talvez - concordou porphredo -, mas pressinto que isto tem outra causa qualquer.
receio ter de recorrer à vossa força. vamos ver se conseguimos empurrar a porta
para dentro. se não estiver trancada por dentro, talvez a consigamos abrir.

- eu vou tentar - disse lakart, desmontando e caminhando para a porta.

enquanto empurrava, juntaram-se-lhe o mirzá e o sufi masum, mas os três homens


não conseguiram mover a porta.

- quereis que ajudemos, também? - perguntou rafi, segurando os cavalos deles


pelas rédeas.

- não - disse porphredo -, acho que não vale a pena.

- então, sábia begum - perguntou lakart, esfregando as mãos -, que faremos agora?

- há outra entrada - disse porphredo, abençoada stheno, com o seu feitio ínvio -,
mas fica longe e, quando lá chegarmos, temos de largar os cavalos.

- largar os cavalos! - protestou rafi. - nunca!


- estarão eles tão bem treinados - perguntou porphredo
- que consigam descer uma escada vertical, numa gruta da largura de um homem?

- meu senhor - disse rafi -, não devemos seguir por esse caminho.

o mirzá levantou um braço.

- já que chegamos tão longe, rafi, temos de fazê-lo. e fica alguém a guardar os
cavalos.

- os cavalos podem voltar para devidurga, onde tratarão deles - disse porphredo.

- então, alguém terá de voltar à aldeia com eles - disse o mirzá.

- vou eu, meu senhor - disse sabur. o mirzá aquiesceu.

- muito bem. voltas à aldeia e ficas a guardar os cavalos. se jaimal, acaso, aparecer,
mentes-lhe acerca do nosso destino, pois já não podemos confiar nas suas
intenções. begum porphredo, não há maneira de enviar uma mensagem à cidade
oculta, no caso de o exército se encaminhar para estes lados?

- haveria - retorquiu porphredo friamente -, se não tivessem soltado os pombos. se


eles voltarem à aldeia, podem utilizar um deles. de contrário, temos de confiar na
sorte. sri sabur, se seguirdes as marcas dos cascos dos cavalos, chegareis à aldeia
em segurança.

enquanto os homens desmontavam e retiravam dos cavalos os pertences


indispensáveis, porphredo recolocou o falso rochedo a cobrir a porta do túnel e
trancou-o.

o que é que terá acontecido? receio que seja algo terrível! eu não devia tê-la
deixado regressar sem mim. se ficou louca, a pobre enyo não tem mão nela. terá
dado ordens para não me deixarem regressar a bhagavati? se for esse o caso, vai
arrepender-se!
prabaratma estava sentado à beira do tanque dos lótus, balançando para a frente e
para trás, especulando, cheio de regozijo. que grandes maravilhas iam acontecer! a
mahadevi convocara o poder generativo de bhagavati para o seu palácio, todas as
raparigas solteiras. que grande shatkil e iam casar-se com o poder divino, a terra
casada com o céu! em breve, muito em breve, as forças da energia masculina iriam
entrar em bhagavati e penetrar pelas muralhas do palácio... ah! que divina explosão,
tal a germinação de uma semente. a destruição que antecede a criação.

ainda há pouco, prabaratma transmitira uma mensagem, em segredo, ao dourado, a


dádiva divina. a filha-do-céu, aditi, queria encontrar-se com o estrangeiro, nessa
noite, no jardim sagrado, ao nascer da lua. prabaratma não conseguia distinguir o
significado desse evento, mas parecia-lhe muito justo. repetidamente, agradecia aos
poderes divinos permitirem-lhe, a ele, prabaratma, estar presente naquele momento,
naquele lugar. conseguia sentir o movimento de grandes forças em volta dele,
embora não conseguisse distinguir-lhes a fonte, exatamente como a ondulação do
tanque dos lótus sugeria o movimento do peixe que nadava, oculto, por baixo deles.

capítulo xvii

diamante: esta pedra preciosa é clara e brilhante, contudo, a sua natureza é uma
mescla do bem e do mal. no oriente, a decocção desta pedra é utilizada para dar
virilidade e longa vida. diz-se que, usando esta pedra, ela nos livra das pragas e da
peste, conferindo-nos força e coragem. não obstante, também leva uma pessoa a
passear à noite, sem sono, e uma pedra de fraca qualidade pode comportar, para
quem a usa, pesar, deficiência, doença e má fortuna. há quem diga que o diamante
é uma fonte de pecado e que brilha conforme a virtude do seu detentor...

- que quererá ele agora? - perguntava o padre antónio gonsção a gandharva, ao


aproximarem-se da tenda do comandante jaimal, toda dourada pela luz evanescente
do pôr do sol.

gonsção, estêvão e carlos caminhavam exaustos, pois o exército tinha marchado


noite e dia nas últimas vinte e quatro horas, parando apenas para as orações e
refeições. tinham, apesar de tudo, conseguido dormir um pouco na balouçante e
sacolejante carroça das bailarinas. e, agora, segundo parecia, o comandante
dispunha-se, finalmente, a permitir que o exército acampasse e descansasse.

- o convite era bastante conciliatório - disse gandharva -, mas isso nada nos diz a
respeito das suas intenções.

gandharva seguia guiado pela rapariga silenciosa, a qual parecia, agora, nunca o
abandonar.

os guardas postados à entrada da tenda indicaram que a rapariga não podia entrar
com eles. ela começou a protestar, mas gandharva afagou-lhe a mão e falou-lhe
mansamente. ela, então, puxou o xale para a cabeça, tapando a cara. e sentou-se,
obstinada, no chão, aos pés dos guardas. os guardas pareceram encarar o gesto
com ar divertido e deixaram-na ficar.

ao entrar na tenda, ao lado de gandharva, gonsção perguntou-lhe:


- sem ofensa, porque é que, ultimamente, tendes sempre aquela pobre criatura ao
vosso lado?

- digamos que tomei consciência de que lhe devo muito


- disse gandharva - e, por isso, tomei-a sob a minha proteção. em compensação,
funciona como os meus olhos e serve-me de companhia.

como pretexto de lhe pagar a dívida, abusa da rapariga e a licenciosa moça


consente-lho. que estranho sentido da propriedade o desta gente! não admira que a
igreja tenha tanta dificuldade em implantar-se nesta região.

a tenda do comandante não era tão grande nem tão bem equipada como era a do
mirzá, embora a gonsção lhe parecesse reconhecer alguma da mobília do mirzá.

o comandante estava de pé, no meio da tenda, e fez-lhes uma vênia de boas-vindas.


vestia um simples casaco de pano, calças e turbante. parecia, contudo, mais magro,
desde a última vez que gonsção o vira, e a sua expressão era menos arrogante e
mais insegura. fez um gesto para dois criados, os quais trouxeram toalhas quentes,
umedecidas com água de rosas, para gonsção e seus acompanhantes lavarem a
cara e as mãos.

quando eles terminaram e os criados levaram as toalhas, o comandante convidou-os


com um gesto a sentarem-se nos fofos almofadões, junto dele. os criados voltaram
com travessas cobertas, das quais se soltava um aroma de galinha cozinhada com
especiarias. serviram chá de cravinho a gonsção. o estômago pedia-lhe comida,
dado que, tanto a ele como aos outros goeses, escassa alimentação lhes haviam
fornecido nos últimos dias. gonsção estendeu a mão para uma das travessas, mas
antes de comer, perguntou a gandharva:

- achais que ele possa querer envenenar-nos?

- seria um insulto, sequer sugerir semelhante coisa - respondeu o músico cego. -


além disso, considerando que ele quase vos ia matando e, depois, se arrependeu,
acho isso muito pouco provável.

o comandante pareceu aperceber-se da razão da hesitação de gonsção, pois fez um


gesto para um dos criados, o qual lhe serviu uma porção de arroz de cada uma das
travessas, que jaimal se pôs a provar. depois, fez um gesto para eles e falou de
novo.

- ele pede - traduziu gandharva - que aceiteis de boa mente a sua hospitalidade e
pede desculpa por a sua incompreensão vos ter incutido justificada desconfiança.

- agradecei-lhe, então, em nosso nome, a sua generosidade - disse gonsção,


indicando a carlos e estêvão que podiam comer à vontade.

e foi o que eles fizeram com todo o gosto, gonsção compreendendo o apetite que
demonstraram.
quando a refeição terminou e de novo lavaram as mãos com toalhas quentes, jaimal
começou a falar.

- ele diz - traduziu gandharva - que, dado que ambos seguis o livro e aceitais os
mesmos profetas, lamenta ter permitido que o inimigo se tenha intrometido entre os
dois. diz que a perda do mirzá e, depois, a mulher nativa, porphredo, o perturbaram
e lhe induziram momentânea loucura. o rastro do mirzá conduzira-os ainda mais
para o interior do descampado, sem o vermos voltar, e o comandante, agora, não
sabe o que pensar. sabe-se lá se o sufi, por misteriosas razões, ou comandado
pelas suas visões, não terá morto o mirzá e a anciã. ou se a begum porphredo, os
céus não o permitam, não nos terá enganado a todos e matado o mirzá, para
destruir a expedição.

- dizei-lhe - disse gonsção - que eu, desde o início, desconfiei da velha feiticeira e
que acredito que ela seja dúplice.

gandharva franziu-lhe o sobrolho e, depois, falou demoradamente para jaimal.


gonsção suspirou, compreendendo que não tinha forma de saber como é que o
músico traduzia o que dissera.

jaimal também suspirou e gandharva traduziu a sua resposta:

- talvez, embora considere isso uma ignomínia, se for verdade. mas também é
possível que o mirzá e os que o acompanhavam tenham sido vítimas dos tigres ou
de bandidos, ou de qualquer outra calamidade que não tenha nada a ver com a
nossa expedição. ele confessa que se sente perdido, sem outro guia que não seja
alá. e diz que, se tendes algum conselho a dar-lhe, prontamente se dispõe a
esquecer os seus preconceitos e a ouvir-vos.

gonsção fez uma pausa, quase rendido ao comportamento humilde do mongol.

gandharva, porém, diz que a sua rainha da vida e da morte não tem interesse
nenhum em ver um exército à sua porta, nem eu, tão-pouco, me interessa que os
muçulmanos descubram a fonte do pulvis mirificus. porque será que o destino me
impõe que minta ou disfarce por uma grande causa?

- dir-lhe-eis, por favor, gandharva, que, uma vez mais, temos mais em comum do
que pensávamos. o meu grupo também perdeu o membro que sabia para onde nos
dirigíamos. sem o inglês de cabelo claro, estamos tão perdidos como o comandante.
eu próprio perdi alguém a que me ligam laços estreitos, o pequeno monge que eu
considero quase como um filho. ambos temos razões para nos lamentarmos e para
nos sentirmos perdidos, tendo como único guia o céu.

enquanto gandharva traduzia, o comandante mongol olhava atentamente para


gonsção, mordendo a ponta de uma unha. depois, replicou:

- somos, portanto, parecidos e eu peço perdão por não me ter apercebido das
nossas semelhanças. por favor, permiti que me penitencie, aceitando a oferta que
agora vos faço: como é injusto forçar-vos a suportar a nossa má sorte, vou propor
doar-vos cavalos e provisões, por forma a que possais voltar a bijapur e contar a
nossa triste história ao sultão. estou certo de que ele providenciará no sentido de
que chegueis a goa em segurança.

estêvão, ao ouvir isto da boca de gandharva, inclinou-se para gonsção e disse-lhe:

- padre, talvez fosse melhor reconsiderarmos e aceitar esta generosa oferta. quem
sabe se eu e o carlos não conseguiremos colocar-nos ao serviço do sultão? e quem
sabe se os mongóis não vão mudar outra vez de idéia a nosso respeito?

bijapur é bem melhor do que morrermos numa pele de burro, não achais?

gonsção ergueu uma mão.

- desculpo-vos a falta de ânimo, estêvão, mas eu não saio daqui enquanto não
souber o que aconteceu a timóteo. nunca me perdoaria, se o abandonasse.

- É uma atitude nobre da vossa parte, diz o comandante


- traduziu de novo gandharva -, mas há que considerar a possibilidade de o rapaz já
não estar vivo. poderíeis esperar o resto da vossa vida por ele, sem que ele vos
aparecesse.

- a minha fé - disse gonsção - reforça a minha esperança. por isso, embora possais
ter razão, enquanto não se me patentearem provas de que a minha esperança não
tem razão de ser, vou continuar a acreditar que timóteo está vivo.

- claro, claro, compreendo-vos - disse jaimal, erguendo as mãos. - quem me dera


poder apresentar-vos provas, num sentido ou no outro. com alá como meu juiz,
espero que tenhais razão e possais encontrar o rapaz.

gonsção tornou a fazer uma pausa, imbuído em novo pensamento.

- comandante, se estais disposto, como parece, a permitir que abandonemos o


vosso exército e a dar-nos cavalos e provisões, consideraríeis uma ingratidão da
nossa parte se os utilizássemos para, por nossa conta, irmos em busca de timóteo?
um punhado de homens a cavalo podem percorrer muito mais terreno, em muito
menos tempo, do que quinhentos homens a pé. essa oferta eu aceitaria.

a expressão de jaimal aliviou-se visivelmente.

- isso é uma bela idéia. eu próprio devia ter pensado nisso. claro que vós podeis
procurar... vou mesmo pôr à vossa disposição três dos meus melhores homens,
como escolta, para vos prestar assistência. É dito e feito. estará tudo pronto amanhã
de manhã.

depois dos devidos agradecimentos e dos votos de boa-noite, gonsção deixou a


tenda consideravelmente mais bem-disposto. saídos da tenda, a rapariga levantou-
se e retomou o braço de gandharva.

tal craca ao costado de um navio, assim ela se agarra a ele, l pensou gonsção. bem,
gandharva vai ter de lhe dizer adeus, pois ela não vai, certamente, acompanhar-nos.
tinham-se eles afastado um pouco da tenda, a caminho da carroça das bailarinas,
perguntou gandharva a gonsção:

- porque é que aceitastes a oferta do comandante?

- não é melhor para nós dispormos de cavalos e de provisões? não vai isso permitir
que escapemos?

- os cavalos, sim. e os três homens de jaimal que nos vão vigiar? não estais a ver o
que ele pretende? ele suspeita que conheceis a localização da cidade oculta e
concede-vos a liberdade na expectativa de que, estupidamente, o conduzais lá. o
que, pelo que parece, é exatamente o que pretendeis fazer.

- isso é uma tolice - disse gonsção. - nós podemos, perfeitamente, enganar ou


dominar os três homens.

- eles vão estar armados e nós não. eles estão bem treinados, enquanto, perdoai-
me, os vossos homens estão mal alimentados e fracos. eu sou cego e pramlocha,
coitada, é incapaz de lutar.

- ela? não estais a pensar levá-la conosco, pois não?

- eu tenho uma dívida para com ela - disse gandharva firmemente. - tal como vós
estais ligado ao vosso pequeno monge, eu estou ligado a ela. e não a posso
abandonar.

gonsção não podia acusar o músico de falta de sentido de justiça, como tão-pouco
podia deixar de recordar que as cracas nos costados dos navios lhes atrasam o
andamento.

no nosso caso, atrasarmo-nos na fuga pode significar a morte.

thomas estava à espera junto da portada do jardim sagrado, oculto na escuridão.


uma vez mais, tivera de deixar timóteo sozinho, com instruções quanto às mentiras
para enyo ou para a rainha stheno, no caso de o procurarem. o rapaz ficara muito
desagradado e thomas não lhe podia levar a mal por isso.

quando o monge louco lhe entregara a mensagem escrita de aditi, thomas


perguntara-se se não seria uma armadilha. o monge louco, porém, insistira que fora
a própria aditi quem lha entregara, recomendando-lhe que stheno não viesse a
saber daquilo, e thomas acreditara nele.

pode ser que a minha ânsia de falar com aditi me tenha levado a acreditar nele.
pode tratar-se de uma astúcia da monstruosa rainha, para avaliar a minha
disposição para o casamento. não interessa. mais cedo ou mais tarde ela teria de
saber.

thomas ouviu movimento no jardim e viu, à luz pálida da lua, uma figura feminina a
aproximar-se. não trazia véu, portanto não era, certamente, stheno. não era
pequenina e cambaleante, portanto não era enyo. era, de fato, aditi e, quando ela se
aproximou mais e abriu o portão de ferro, thomas quase saltou sobre os varões em
bico para a abraçar.

- obrigado! - exclamou ele para a macieza do cabelo dela. - obrigado por teres vindo
ter comigo!

- chiu! - disse aditi, afastando-o, um dedo nos lábios. - não fales tão alto. não
sabemos se alguém nos ouve. falas português?

- não. não aprendi mais do que uma palavra ou outra, enquanto estive em goa.

- pois bem, temos de arriscar o grego e esperar que ninguém nos ouça. anda, vem
comigo.

pegou-lhe na mão e levou-o para o interior do jardim.

- porque é que escolheste este sítio? enyo vai ficar zangada, se vier a saber que eu
transgredi, entrando aqui.

- escolhi este sítio porque a mahadevi nunca aqui vem. enyo acha que é um jardim
sem pecado e que a mahadevi nunca reconhecerá que possa haver uma deusa
maior do que ela. e tu não estás a transgredir, tamas, por isso que, se fostes, na
verdade, votado à senhora das feras, tens direito a estar aqui.

- estas árvores - disse thomas, ao ver os ciprestes e os carvalhos - são sagradas na


europa, mas não são comuns nesta região.

- enyo diz que estas plantas foram trazidas de muito, muito longe, e que este jardim
tem a forma de um santuário muito distante e muito antigo. o tanque representa um
lago e aquelas pequenas colunas um templo. aqueles montículos, além, por detrás
das árvores, são colinas e montanhas. o verdadeiro santuário deve ser uma beleza.

- ou era. sabe-se lá há quanto tempo stheno o viu.

- sim, isso é verdade - disse aditi, puxando-o para a sombra escura de um grosso
carvalho. - agora, vamos falar de ti.

- de mim? pouco há a dizer de mim, a menos que me digas como evitar o falso
casamento com a tua mahadevi.

- o que é que receias?

- não é óbvio, o que eu receio? ela disse-me que acredita que quem a amar
verdadeiramente lhe poderá ver a cara sem morrer. ora, eu não posso amar
semelhante criatura e, por isso, no dia em que ela me pedir para olhar para ela para
lhe provar o meu amor... nesse dia morro e vou juntar-me às estátuas da cripta.

aditi aquiesceu com a cabeça.


- mas o que tu não sabes é que eles não estão verdadeiramente mortos. É por isso
que prabaratma toma conta das estátuas. se uma dessas estátuas for barrada com o
sangue da mahadevi, ou nele banhada, volta à vida.

- oh, que crime ainda mais monstruoso! - exclamou thomas. - ela dispõe do poder de
as fazer reviver e nada faz?

- já o tem feito. mas, se um homem regressa à vida quando toda a sua família e
conhecidos já morreram, fica um estranho no mundo a que regressa. esse homem
não vai sentir-se bem na nova vida.

- eu vi algumas estátuas partidas. essas...

- para esses não há nada a fazer - disse aditi sem rodeios.


- uma vez partidos, não podem reviver.

- então, eu cometi um assassínio, aditi. quando lá estive, derrubei uma estátua,


inadvertidamente.

- não te culpes por isso, tamas. muitas caem, devido a tremores de terra e por outras
razões.

- porque é que não as protegem, ou têm mais cuidado com elas?

- a mahadevi não dá grande importância aos mortais. comparados com ela, somos
apenas formigas.

- mais uma razão para eu não casar com ela!

- chiu!

aditi ficou uns momentos calada.

- o que foi?

- pareceu-me ouvir alguém no meio dos arbustos. não, não há ninguém.

- podes ajudar-me a fugir, aditi? podíamos regressar os dois a bijapur.

aditi riu-se.

- tamas, esqueces-te de que há um exército mongol no meio do caminho.

- poderíamos evitá-lo. há-de haver maneira, aditi.

- e o pequeno monge?

- ia conosco, claro.

aditi olhou para o lado e, ao luar, thomas viu-lhe hesitação e relutância na cara.
- isto é a minha casa, tamas. eu não quero sair daqui. lá fora, fui sempre uma
estranha. o meu lugar é aqui, eu pertenço aqui.

- como criada de uma criatura como stheno?

- e querida filha de enyo e de porphredo, e princesa do bom povo de bhagavati. e tu


acabarias por deixar-me e tornar-me tua criada.

thomas abriu a boca, mas fechou-a de novo, não sabendo o que responder.

- donde tu vens - continuou aditi -, aceitam bem os estrangeiros, os que são


parecidos comigo?

thomas teve de admitir que ela era sensata. os imigrantes do continente, em


inglaterra, eram frequentemente olhados com suspeição, a menos que fossem
nobres. e os estrangeiros da África ou da Ásia eram, na melhor das hipóteses,
olhados como curiosidades.

se eu levasse aditi para londres, mestre coulder ficaria apopléctico e negaria


conhecer-me. e o meu pai... bem, quem sabe o que esse homem fantasmagórico
faria?

- não - disse ele, por fim.

- eu já sabia. além disso, eu sou alguns anos mais velha do que tu. agora, pode não
ter importância, mas mais tarde teria. acho que tens de pôr de lado a idéia de
substituir o casamento com a mahadevi por um casamento comigo.

thomas afastou o olhar dela, sentindo que lhe era doloroso ver aquele belo rosto
iluminado pela lua.

tudo o que ela diz é sensato e são coisas que eu próprio já tenho ponderado. porque
é, então, esta sensatez tão dolorosa?

- e acho, também, que não deves ter tanta pressa de fugir de bhagavati - prosseguiu
aditi. - prabaratma insiste em que tens um papel importante a desempenhar nos
acontecimentos que se avizinham.

- prabaratma? enyo diz que esse velho monge é louco.

- talvez seja, mas eu conheço-o há muitos anos e já verifiquei que, muitas vezes, as
suas visões correspondem à realidade. e acredito que há uma razão para te
encontrares aqui - acrescentou aditi, aproximando-se dele, com uma expressão de
meiguice.
- queres saber uma coisa? eu estive quase a matar-te, durante a nossa longa
viagem. na verdade, por várias vezes. passei momentos terríveis, sem saber se
devia apunhalar-te ou envenenar-te.

thomas olhou para ela fixamente. porque estará agora, cruelmente, a enterrar-me
um punhal no coração.

- não me digas. contudo, estou vivo. e tu és, decerto, um assassino mais hábil do
que isso, minha cara.

- sempre que pensava nisso, ou o tentava, algo travava a minha mão. por vezes,
apenas as circunstâncias, outras vezes uma profunda emoção. e muito pensei eu
nisso, pois era meu dever, como filha da mahadevi, evitar que viesses a conhecer os
seus segredos. não obstante, aqui estás tu. apesar dos esforços da orlem gor, dos
mongóis e dos meus próprios para te travar, aqui estás tu.

- o meu companheiro, lockheart, disse-me o mesmo, uma vez. disse-me que o


destino parecia ter-me agarrado como uma mãe que agarra a sua cria e a leva para
onde quer.

- estás a ver?

- aditi... renega-me, se tem de ser, mas compreende que eu nunca me disporei a


casar...

- chiu! ouve. faltam três dias para o casamento. muita coisa pode acontecer
entretanto. grandes mudanças, pressinto eu. se for necessário, eu arranjo-te um
esconderijo no palácio, no dia do casamento. eu conheço bem as passagens
secretas, desde criança. tem calma e fica atento. os deuses têm-nos nas mãos, tais
ossos de augúrio. temos de esperar para ver para que lado somos lançados. -
voltou-se ao ouvir de novo um ruído no meio dos arbustos. - tenho de ir - disse,
partindo, sem mais nada acrescentar.

com um profundo suspiro, thomas correu para o portão de ferro, mas logo reduziu o
passo ao passar por ele.

quero lá saber se me vêem? se o meu destino está nas mãos dos deuses, o que
acontecer é por vontade deles. para quê preocupar-me? para quê lutar contra os
poderes divinos que me dirigem?

encaminhou-se para o quarto e abriu a porta, decidido a não sair de lá, a menos que
a isso fosse forçado.

- já cá estou, timóteo. timóteo?

o rapaz não estava lá.

timóteo corria pelo comprido e antigo corredor, à luz das tochas, o muito manuseado
livrinho de orações nas mãos.

tem de ser agora. meu deus, ajudai-me a fazer o que devo, antes que a górgone
arraste tomás com ela para a perdição. ajudai-me a salvá-la para vós, enquanto
posso! dai-me coragem agora e que eu não a tema!

era boa altura, já que tomás o deixara sozinho de novo e, se ali estivesse, decerto
tentaria impedir timóteo.

depois da audiência da rainha, timóteo tinha dormitado, no calor do dia, e tivera


sonhos perturbantes. sonhara que o palácio estava cheio de belas raparigas, em
todo o lado para onde olhava, tal ilha dos amores de os lusíadas. sonhou que
flutuava por cima delas, elas de caras voltadas para ele, tais flores voltadas para o
sol. À medida que passava de uma para a outra, levando-lhes a palavra de deus,
elas cediam, erguendo os braços para ele e o seu ser enchia-se de regozijo.

acordara num lençol úmido e manchado, com um profundo sentimento de vergonha.

foi um sonho inculcado pelo demônio, para me tentar e me afastar do meu desígnio.
ou um aviso dos anjos. o que a senhora stheno pretende não pode acontecer!

embora um pouco perdido, timóteo dirigiu-se na direção que enyo lhe interditara de
seguir. fez por não olhar para os ídolos que encimavam as portas, pois, com os seus
sorrisos beatíficos, pareciam escarnecer e rir-se dele. sempre que topava com um
dos monges cegos a varrer o corredor, timóteo perguntava-lhe em kannadan:

- onde é que está a rani stheno? onde está a mahadevi? leve-me até lá, por favor!

os monges, porém, ou não o compreendiam, ou afastavam-se com palavras de


receio. por fim, timóteo encontrou um que conhecia, embora não se fiasse muito
nele. num pequeno pátio com um jardim, sob uma asoka, viu o monge louco,
prabaratma, absorto, a cantarolar vedas para ele próprio.

ao menos, este percebe o kannadan. e eu, percebê-lo-ei?

- por favor, santo homem - disse timóteo, embora o embaraçasse chamar santo
àquele pagão louco -, eu preciso de falar com a mahadevi, sabeis dizer-me onde a
posso encontrar?

prabaratma sorriu e fez uma vênia, balbuciando umas palavras que soavam como
água a correr por uma rua abaixo. timóteo só conseguiu compreender algumas
dessas palavras, aqui e além. ”a mahadevi... sim... no coração... no espírito... fala
pelos vedas... enche o mundo, o céu.”

timóteo conseguiu encher-se de paciência, embora lhe apetecesse sacudir o


homem.

- quereis levar-me a ela? preciso de a ver.

o velho monge calou-se, tratando de recuperar o fôlego. depois ergueu as grandes


mãos escuras e, mansamente, tateou o rosto e o pescoço de timóteo, pondo-se, de
novo, a murmurar, na voz um tom de maravilhado.

- por favor, levai-me até junto dela!

prabaratma levantou-se e fez uma profunda vênia. colocou, então, uma mão na
cabeça de timóteo e murmurou o que poderia ser uma bênção hindu. depois,
agarrou no pulso de timóteo e pôs-se a caminho, puxando por ele.

timóteo seguiu-o de boa vontade, deixando-se conduzir por muitos corredores, até
que chegaram a uma antecâmara. numa parede estava pintada uma deusa hindu,
toda nua, não fora uma tanga, a língua espetada para fora e com muitos braços
empunhando espadas. timóteo desviou o olhar da imagem obscena, perguntando-se
porque não lhe teriam pintado os olhos. depois, o olhar fixou-se-lhe num tigre
deitado, a rugir, ao lado de uma porta com uma cortina de contas. já terás sido de
carne e osso, poderoso animal? tolamente, ficou a perguntar-se se não seria o
mesmo tigre que havia afugentado com as pedras na estrada de bijapur. o lombo do
tigre, porém, estava coberto de pó e a estátua, nitidamente, estava ali há muito
tempo. no outro lado da porta estava um touro de bronze, com um crescente de lua
entre os cornos. este, claramente, nunca fora vivo, mas dizia muito acerca dos
antigos mitos e civilizações. timóteo desejou ter podido ver a terra e os tempos em
que ele fora feito.

o velho monge atravessou a cortina de contas e falou para alguém lá dentro. timóteo
sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo, ao ouvir a voz de stheno a responder.

prabaratma reapareceu à porta e fez um sinal a timóteo para entrar. timóteo respirou
fundo e entrou, o coração a saltar-lhe no peito. era difícil avaliar o tamanho da sala,
pois estava pejada de tapeçarias de seda e de biombos, uns de madeira com
embutidos, outros finos de jade translúcido, colocados em singular disposição. o ar
era pesado, com o cheiro a hibisco e o fumo das lâmpadas a óleo dependuradas das
paredes. não havia janelas à vista. viu sombras a ondularem no biombo à sua
esquerda e ouviu um som de vento a silvar em folhas secas.

- dizem-me, pequeno monge da orlem gor - disse stheno no seu estranho latim -,
que viestes para... me ver.

a voz profunda e melíflua lançou tremores mais do que de medo pela espinha de
timóteo abaixo e fê-lo recordar-se, desconfortavelmente, do sonho da tarde.

- sim... foi para isso que vim - disse ele, apertando com toda a força contra si o livro
de orações. meu deus, socorrei-me, dai-me coragem! - preciso de falar convosco.

- precisais? bem, deve ser coisa urgente, para me procurardes a hora tão tardia.

as sombras sinuosas no biombo de jade moveram-se e timóteo ouviu-a levantar-se e


aproximar-se dele. ficou de olhos esgazeados, fascinado de espanto.

- pois bem - continuou ela -, aqui estou eu. sois o companheiro do meu futuro marido
e não vos negarei a minha paciência. que me quereis pedir?

- hum... - timóteo ficou, de repente, sem saber como começar.

- É alguma coisa que diga respeito a tamas?

- não. sim. bem, a ele e a vós. e ao vosso povo. mas eu vim aqui, antes de tudo,
para vos salvar.
- para me salvar? que idéia deliciosamente cândida! e de quê, meu filho, me
salvaríeis?

- de vós própria. da vossa falta de conhecimento. estais a condenar-vos a vós


própria, domina. e ides condenar a alma de tamas, também. não deveis casar com...
as raparigas.

- o que é que se passa nessa cabecinha? isso seria... oh, que mongezinho perverso
me saístes. vai ser um casamento divino, nada mais. as raparigas vão tornar-se
sacerdotisas. eu não vou tocar-lhes, não sou nenhuma safo. já experimentei
mulheres e, embora as ache agradáveis, posso afiançar-vos que prefiro os homens.

as implicações do que ela acabara de dizer puseram os pensamentos de timóteo a


rodopiar e ele fixou firmemente o olhar numa lâmpada em frente dele.

- isso... não é o mais importante. - timóteo inspirou fundo. - eu vim trazer-vos a


palavra de cristo, o único filho de deus reconhecido, pelo qual todas as almas
mortais encontram a salvação.

stheno riu-se e timóteo começou a sentir a resolução a vacilar-lhe.

- isso é uma informação inútil para mim, dado que não sou uma alma imortal.

timóteo tentou de novo.

- embora tenhais nascido demônio...

- eu nasci criancinha, mortal, como vós. mudei, contudo, um pouco, desde então.

- portanto, ainda há esperança, domina! aceitai o salvador e a sua santa igreja no


vosso coração e ele tirará as serpentes da vossa cabeça e erradicará o mal da
vossa alma! e deixareis de ser uma górgone.

- aí está uma palavra que eu não ouvia há muito tempo. górgone. conheceis, então,
a minha natureza. como é que um rapazinho, bom cristão, como vós, tem
conhecimento dos mitos antigos?

- o meu... o meu avô sabia muitas histórias antigas e contou-mas.

- como é gratificante que certas mentiras durem tanto tempo. há quanto tempo
sabeis o que eu sou?

- em goa já o sabia. soube-o... no santo ofício.

meu deus, que ela não me leve a infringir a regra do silêncio!

- ah, pois, o santo ofício, a orlem gor. a minha filha passou muito tempo em goa e
contou-me muita coisa acerca do vosso templo sedento de sangue.
- não é nada disso!

- que serviços prestáveis vós lá, mongezinho?

- eu... eu era um dos advogados. aconselhava os hóspedes do santo ofício a


confessarem voluntariamente os seus pecados, para serem perdoados e poderem,
de novo, receber a graça de deus.

- sim, sim, hóspedes. alguns dos amigos da minha filha foram hóspedes do santo
ofício. hakim zalambur. e a domina serafina. e o mestre bernardo de cartago.
assististes algum deles?

a voz dela era metálica, tal lâmina de faca, e timóteo perguntou-se se seria melhor
ou pior ficar calado.

- eu falei com... a domina. e com o mestre de cartago.

- e, contudo, eles morreram. a vossa assistência parece ter tido um efeito pernicioso.

- não! a domina serafina confessou e está viva. timóteo, subitamente, tapou a boca
com a mão, para evitar dizer mais.

que deus me perdoe, quebrei a regra!

- e tamas, também esteve ao vosso cuidado, não esteve?

- sim, e aceitou deus voluntariamente na sua confissão.

- uma confissão obtida pela tortura, pendurado pelos braços até os ombros se
deslocarem, segundo me contou aditi. qualquer um, em semelhantes circunstâncias
de dor, admite as coisas mais estapafúrdias. deveis ser um rapazinho muito ingênuo
para não vos terdes apercebido de que o vosso chamado santo ofício existe,
apenas, para aterrorizar a população e extorquir dinheiro.

- isso são mentiras! não deveis pensar isso do santo ofício. isso são tudo histórias
inventadas por gente má. o santo ofício é um lugar de compaixão, onde aqueles que
andam cegos pelo pecado se apercebem das suas faltas e se entregam ao amor de
deus.

- compaixão? amor? tendes uma estranha noção desses sentimentos, pelo que vejo.
sereis daqueles que sentem prazer em exercer crueldades sobre os outros?

timóteo reviu o inquisidor-mor sadrinho debruçado sobre a domina serafina, deitada


e amarrada com arame a uma prancha de madeira. reviu a ânsia nos olhos do
inquisidor-mor, enquanto ele, timóteo, lhe afagava um braço e lhe acariciava o
cabelo, mansamente lhe arrancando a confissão...

- não! eu apenas lhes pedia para confessarem, de forma a não terem de sofrer mais!
vós não sabeis o que é o santo ofício. todos os que ali servem são homens cujos
corações sofrem pelos pecadores que são nossos hóspedes. e adoramos um deus
que nos ama.

- um deus que vos ama? pelo que tenho ouvido acerca do vosso cristo, ele não tem
nada a ver com krishna ou eros. achais que o vosso deus me poderia amar?

a esperança ressurgiu no coração de timóteo.

- sim, e é por isso que aqui estou. ele ouvir-vos-á e perdoar-vos-á, para tanto
bastando que o procureis.

- eu tenho implorado a muitos deuses e deusas no decurso de séculos, mas nenhum


respondeu às minhas preces retirando-me esta maldição de cima de mim.

- isso é porque são falsos deuses, domina. existe apenas um único verdadeiro deus
que vos perdoará e vos abençoará.

- seria, na verdade, um deus indulgente, esse deus. sois-lhe muito dedicado, apesar
de tão jovem. o vosso santo ofício deve ter apreciado os vossos serviços. mas,
agora, estamos na minha santa casa e, aqui, as coisas fazem-se à minha maneira.
dizeis que o vosso deus é uma divindade do amor. muito bem, vamos pô-lo à prova.
como eu disse a tamas, quem me olhar sem medo e com amor no coração não
ficará transformado em pedra. vou, pois, fazer-vos um desafio. vou dar-vos a
oportunidade de me ver, como desejais. podeis pedir ajuda ao vosso deus. se me
olhardes nos olhos sem nenhum dano, eu vou aceitar o vosso deus e a vossa fé e o
vosso templo sanguinário. concordais?

timóteo sentiu a boca seca. era a oportunidade por que tanto ansiara, não obstante
hesitava.

não é pecar por orgulho, esperar que deus nos proteja? o padre disse-me que eu
não devia invocar constantemente a intercessão dos anjos. mas, se eu agora recuo,
a górgone vai rir-se de mim e a sua alma fica perdida para sempre.

tornou a inspirar fundo e disse:

- sim, domina, aceito.

- sois um bravo, mongezinho. vou dar-vos tempo para vos preparardes.

timóteo ajoelhou-se e rezou desesperadamente.

meu deus, escutai-me. ajudai-me. eu não faço isto por orgulho, mas pela alma dela
e por vós. permiti que eu salve esta mulher para vós. concedei-me a força
necessária para aguentar o seu olhar. retirai-lhe a maldição e fazei com que o seu
coração se volte para o vosso amor. Ámen.

benzeu-se e levantou-se.

- estou pronto.
- já? muito bem.

timóteo ouviu um dos biombos a ser afastado e o leve roçagar de seda. fechou os
olhos um momento e expirou o ar, tentando esvaziar do coração todo o medo.
embora tentasse pensar na sua fé e na sua missão, não deixava de pensar que
estava prestes a olhar para uma lenda muito antiga, uma maravilha do olimpo.
tornou a abrir os olhos e viu a figura dela modelada pelo sari emergir por detrás do
biombo mais próximo. ela voltou-se e ali ficou diante dele, a cabeça descoberta.

era linda, como timóteo sempre imaginara as criaturas das histórias do avô. e as
serpentes que lhe ondulavam na cabeça pareciam... estar ali naturalmente, como se
não houvesse moldura mais apropriada para aquela cara, nada que pudesse conter
aquela beleza não terrena. ser-lhe-ia fácil adorá-la.

meu deus, que penso eu?

as sobrancelhas dela ergueram-se e um sorriso brincou-lhe nos lábios cheios.

- confesso que estou impressionada. nunca pensei vir a ter um amante tão jovem,
mas, de qualquer modo, vai durar mais tempo.

levou a mão ao ombro e, com um leve toque, soltou a parte superior do sari. a seda
deslizou-lhe dos amplos seios tal serpente de um montículo de formigas e o olhar de
timóteo ficou subitamente pregado neles.

- não, domina, não compreendestes. não sou eu... não sou eu quem...

o coração acelerou-lhe e, mais uma vez, sentiu um inchaço no baixo-ventre. o


sangue subiu-lhe à cara, as mãos e os pés ficaram frios e começou a sentir um
assustador medo de tipo inesperado. meu deus, por favor, não me deixeis pensar
nestas coisas! a respiração tornou-se-lhe ofegante e voltou a olhar para a cara de
stheno, sabendo que o medo começava a aparecer-lhe nos olhos.

o olhar dela patenteava agora uma ânsia ferina e o sorriso era o de um tigre
espiando a presa. as serpentes na cabeça dela chicoteavam em volta para olharem
para a frente, as línguas fustigando o ar. as íris dos olhos de stheno brilhavam de
vermelho e timóteo sentia os pés cada vez mais frios. o estômago começou-lhe às
voltas e doíam-lhe os ossos todos.

- não! - choramingou ele. - meu deus, perdoai-me, que não consigo!

timóteo tapou a cara com o braço e voltou-se para fugir. algo, porém, o travou e
sentiu-se cair para o chão, uma dor agonizante a subir-lhe pelas pernas.

capítulo xviii

figueira-de-bengala: esta figueira cresce na índia, tem umas folhas largas e dá um


fruto vermelho com a forma das cerejas. diz-se que, se as suas sementes caem em
cima de outra árvore, a figueira-de-bengala estrangula-a ao crescer. a decocção do
fruto liberta fluidos que curam as inflamações do peito e da garganta. um unguento
feito da sua seiva remove as verrugas. a pasta feita da casca cozida do fruto reduz
os furúnculos. os hindus consideram a figueira-de-bengala a árvore da vingança,
bem como um símbolo do conhecimento. acreditam que é uma árvore votada ao
deus pagão vivo e que aquele que corta uma figueira-de-bengala fica amaldiçoado
para sempre, com a destruição da sua família...

ao fim da manhã, stheno não conseguiu esperar mais e dirigiu-se para o pátio do
palácio, em frente do portão de entrada, onde estavam a reunir as raparigas. vestira-
se como uma velha, com um simples sari castanho e um xale, a cara coberta.
esperava vaguear no meio delas, sem ser notada, e ouvir a sua profunda gratidão
por constituírem a geração selecionada para serem as noivas do divino, ouvindo,
ainda, os idolatrados votos à deusa que iam servir.

porém, ao chegar à arcada do pátio e ao olhar para lá dos tanques de lótus, reduziu
o passo.

como podem ser tão poucas? estará enyo a reunir mais noutro lado, sem me dizer
nada? É certo que o meu povo ainda dispõe de algumas horas para trazer as filhas,
mas estão aqui cerca de cem raparigas, quando há, seguramente, pelo menos
quinhentas virgens solteiras em bhagavati!

como planeara, continuou a vaguear no meio das raparigas, sem ser notada. para
sua crescente desilusão, a maior parte das raparigas que via eram coxas, ou
desfiguradas, ou doentes.

algumas murmuravam para si próprias, decerto atingidas por males da mente ou do


espírito.

pretenderá o meu povo que eu trate destas criaturas? ou terão tão pouco respeito
por mim que me enviam como oferenda o que têm de pior e não o melhor?

stheno ia parando junto dos grupos de raparigas que tagarelavam e ia-as ouvindo
segredar como a irmã, ou a prima, escapara à mobilização, tendo casado em
segredo, durante a noite, com um homem ou com um simples rapaz. alguns
homens, diziam elas, haviam casado com várias raparigas, livrando-as, assim, da
prisão infecunda da deusa. apenas as que não haviam conseguido casar-se
rapidamente iam ser enviadas para o palácio, como noivas da mahadevi.

stheno encostou-se pesadamente a uma parede, apertando convulsivamente o


tecido do sari contra si.

o meu povo engana-me! negam-me as melhores filhas, para que tenham filhos e
fiquemos ainda mais sobrepovoados! e ousam lamentar-se, pedindo-me que lhes
resolva os problemas? loucos! que loucos traiçoeiros!

stheno encaminhou-se para um dos cantos do pátio, onde uma bela e alta rapariga
de casta elevada, provavelmente uma brâmane, a julgar pela roupa fina e pelos
inúmeros colares, dava uma espécie de audiência.

mandam-me, ao menos, uma bela noiva. tenho de saber a que família pertence e
vou recompensá-la.

- o meu pai disse-me que no palácio só há velhas e monges cegos a servir a


mahadevi. e, agora que a princesa aditi voltou, são necessários mais criados e é por
isso que nós vamos para lá. mas eu não quero ser criada de ninguém e vou travar
amizade com a princesa aditi e ela vai ficar tão minha amiga que vamos governar
bhagavati juntas.

oh! portanto, vão enviar-te porque és muito ambiciosa e estás desejosa de ser uma
verdadeira esposa hindu. pois bem, com o necessário encorajamento vou usar a tua
vontade em proveito próprio.

- e a mahadevi? - disse outra rapariga de casta nitidamente mais baixa. - a minha


família disse-me que nós vamos ser as noivas divinas da deusa e é a ela que
devemos servir.

uma expressão conspirativa surgiu no olhar da rapariga brâmane, a qual se inclinou


para falar baixinho às outras. stheno teve de se aproximar para ouvir o que ela dizia.

- tu já viste a mahadevi?

- claro que não! toda a gente sabe que olhar para ela significa morrer.

- bem imaginado, não achas? - disse a rapariga brâmane. - somos governados por
alguém que nunca vimos. pelo que sabemos, pode ser qualquer uma das velhas
quem nos dá ordens.

- isso não é verdade! o meu pai tem estado no palácio quando ela dá audiências e
diz que ela é tal e qual os ídolos.

- a sua sombra, queres tu dizer - disse a rapariga brâmane. - ouçam isto. a minha
mãe falou com uma prima minha que era bailarina, antes de cegar. esta rapariga, diz
a minha mãe, agora dança atrás da mahadevi, servindo de braços à deusa. a
imagem que os vossos pais têm visto por trás do biombo é falsa! a mahadevi é
apenas uma história para nos fazer obedecer...

- caluda! aquela velha está a ouvir-nos!

stheno olhava para elas através do véu, sentindo os olhos a arder.

quer dizer que o meu povo já não acredita em mim terei eu estado escondida deles
há tanto tempo que já se esqueceram de mim

- e isso que importa? - disse a rapariga brâmane. - É apenas uma criada de baixa
extração. tu aí! - bradou ela para stheno. - porque é que nos estás a espiar?

stheno avançou e disse no seu melhor tom de voz de velha:

- tem cuidado, minha filha, não blasfemes contra a mahadevi, que ela tem olhos e
ouvidos por todo o lado e ouve tudo o que dizes.
uma certa incerteza perpassou nas feições da rapariga brâmane, mas logo deu lugar
a um olhar altivo.

- podes crer no que quiseres, minha velha, mas os meus parentes são monges que
dedicam a vida ao estudo dos vedas e sabem bem o que é a verdadeira fé.

consegue mentir tão descaradamente?, pensou stheno meio-admirada, meio-


horrorizada. ou ignorará ela, e outros como ela, quanto sabem os monges que me
servem?

- a mahadevi quer lá saber se nasceste numa casta elevada, minha filha. a verdade
divina não está nas palavras antigas gaguejadas por homens autoproclamados
sábios. os deuses não estão apenas nas suas orações.

a rapariga brâmane ergueu o nariz numa rápida inalação de insulto e de fúria. as


outras raparigas fungaram e colocaram a mão na boca.

- agora és tu que blasfemas, velha. como te atreves a dizer tais coisas acerca dos
melhores do que tu! se o meu pai te ouvisse, mandava-te chicotear ou banir. não, os
deuses não vivem nas palavras antigas, vivem, sim, nos céus e não na terra.

endireitando-se, stheno falou num tom próximo da sua voz, num tom bramânico.

- chicotar-me-ia, criança insolente? como te atreves a ameaçar alguém de quem


nada sabes?

a rapariga brâmane vacilou, mas a presença das outras raparigas impediu-a de


recuar.

- estás a imitar a minha maneira de falar, velha? desconheces o castigo para quem
finge pertencer a uma casta mais elevada do que a sua? agora vai buscar-nos água
e comida para nós ou eu tiro-te o véu e a roupa, para que todos vejam as tuas rugas
horríveis.

algumas das raparigas riram nervosamente.

sim, pensou stheno, uma ansiedade, quase fúria, a subir por ela acima, faz isso. tira-
me o véu da cara e recebe a surpresa que mereces. pena que o teu terror e o teu
remorso fossem tão breves. stheno sentia os olhos a arderem-lhe cada vez mais e
as suas criancinhas a remexerem-se sem descanso, sob o véu e o turbante. mas
não, não vamos fazer isso agora. algumas das raparigas inocentes iam sofrer e a
cidade entrava em pânico e não me mandavam mais filhas. não vou permitir que
uma envaidecida cabeça de burro me estrague o casamento.

- eu vou-me embora - disse stheno sombriamente -, mas, de futuro, tem cuidado


com a língua, pois podes não saber com quem falas.

enquanto se afastava, stheno ouviu risos nervosos atrás dela e sentiu nas costas
ramos e pequenas pedras. mal dominando a raiva, entrou na frialdade dos sombrios
corredores e apressou-se a regressar ao seu santuário interior.

quantos mais serão como elas?, pensava stheno friamente, afastando a cortina de
contas. terei de ser perseguida na minha casa, receosa de mostrar a cara a
estúpidas, ignorantes e teimosas raparigas, as poucas que o meu querido povo se
dignar mandar-me, só para que enyo fique toda contente por eu ceder espaço ao
meu povo? o meu povo que já não acredita em mim?

entrou no quarto e um monge apareceu por detrás de um biombo.

- grande mãe, tenho de falar convosco!

stheno recuou, surpreendida. e depois pôs-se a gritar para o monge, um grunhido de


tigre enraivecido. lamentou que ele fosse cego, pois a sua raiva apenas o fez
encolher-se no chão, as mãos nos ouvidos.

- grande mãe, perdoai-me! É que... é que...

não era nenhum dos seus habituais amantes e não conseguia recordar-lhe o nome.
era um dos fanáticos que arrancara os olhos para poder servir no palácio.

- como te atreves a vir espiar-me no meu quarto? eu devia mandar arrancar-te a


língua, os ouvidos, os testículos, como arrancastes os olhos!

o monge prostrou-se no chão.

- perdoai-me!

- explica-me por que é que o bom povo de bhagavati só me quer mandar as filhas
feias, coxas, doentes e teimosas.

- grande mãe!

- porquê?

o monge sentou-se, a tremer.

- por favor... grande mãe... compreendei. e perdoai-lhes. eles não são imortais, como
vós. para eles... a família é tudo. É a sua imortalidade. aqueles que só têm filhas...
se vós lhas tomais... é pior do que condená-los à morte, pois condenais a família ao
esquecimento. ficam sem filhos, sem netos. as filhas não conhecerão o amor meigo
e a orientação de um marido. não está certo que vos desobedeçam, grande mãe,
mas o sacrifício que lhes pedis... é demasiado.

- e o meu sacrifício, cedendo-lhes espaço para que não vivam apertados? ingratos!

o monge baixou a cabeça.

- perdoai-nos, grande mãe!


- e tu, porque é que saltaste detrás de um biombo, de tal forma me assustando que
quase me matavas?

- eu tentei transmitir a mensagem ao vosso demônio, enyo, mas ela não me quis
ouvir. porém, dadas as vossas instruções, achei que era importante que soubésseis.

- estás a gaguejar. o que é que eu devo saber?

- ontem à noite, contra as vossas ordens, a vossa filha aditi encontrou-se com o
estrangeiro tamaschinri no jardim sagrado. eu não consegui perceber o que diziam,
mas falavam como dois amantes.

stheno sentiu o calor da sua raiva transformar-se num nó frio no estômago.

- agora até a minha filha me desafia. ela de quem eu me encarreguei quando era
uma criança vagabunda e a quem ensinei mais do que sabem as filhas dos sultões
ou dos reis.

e tamas... bem ouvira as suas objeções quando anunciara o casamento, na


audiência com os anciãos. teria tamas mentido quando insinuou que os laços do
casamento eram necessários para ele a amar verdadeiramente?

- está na altura - disse ela calmamente ao monge - de recordar ao meu povo quem
eu sou.

- grande mãe!

stheno soltou o sari e deixou-o deslizar para o chão. despiu o corpinho e a camisa
interior, ficando apenas com a tanga que lhe envolvia as ancas. tirou o véu e,
mansamente, desfez o turbante. uma a uma, as suas queridas, a miríade de
serpentes castanhas, espetavam a cabeça e estendiam as línguas, ondulando
livremente em redor da cabeça dela. stheno apercebia-se do alívio e do agrado
delas por se sentirem libertas.

stheno dirigiu-se a uma caixa de madeira de cedro, colocada numa mesa próxima, e
retirou dela um colar de crânios de gato que colocou ao pescoço, deixando os ossos
a oscilar-lhe sobre os seios nus. de outra caixa tirou um punhal ritual de cabo de
marfim e suspendeu-o, com uma tira de couro, na coxa esquerda.

- grande mãe, porque estais tão silenciosa?

- está na hora de deixar falar a minha presença, mais do que as minhas palavras. o
meu povo já não acredita em mim, está na hora de a deusa ir outra vez para o meio
deles.

a cara do monge ficou branca de horror.

- grande mãe... não! por favor...

- vai avisá-los, se quiseres, mas eu, hoje, vou passear e vou recordar-lhes quem eu
sou.

o monge cego pôs-se em pé e cambaleou para fora do quarto, tateando o caminho.


stheno seguiu-o, parando à saída do quarto a olhar para o fresco de cáli, como se
olhasse para um espelho. baixou-se e retirou a tampa do pote de tinta que o artista
ali deixara. mergulhando dois dedos na tinta, pressionou-os, depois, nos olhos
inacabados de cáli, imprimindo-lhes pupilas e uma aparência de vida.

- através dos olhos, vê-se a alma - murmurou ela. stheno espalhou o resto da tinta
preta que tinha nos dedos

em riscas nas ancas e continuou a andar.

no pátio, foi recompensada com os gritos e gemidos das raparigas a fugirem diante
dela, como galinhas confrontadas com um tigre. stheno ergueu bem a cabeça, não
olhando para ninguém em especial. se o seu rosto produzia efeitos perniciosos, não
deu por isso. começou a ouvir o som dos sinos, primeiro dentro do palácio, depois
por toda a cidade, acompanhados pelos brados de ”a deusa passeia-se! a deusa
passeia-se!”.

stheno sorria, gozando o calor do sol na pele nua, nas suas queridas, ao passar
pelos grandes portões de bronze do palácio, ao descer os degraus de basalto que
conduziam à cidade de bhagavati. caminhando de pés nus nas ruas de pedras
sulcadas, distinguiu, por entre os gritos de terror, por entre o som dos passos de
corrida, os brados de ”recolhei-vos! recolhei-vos!”. na sua visão periférica viu
homens e mulheres lançarem-se para o chão, cobrindo a cabeça com os braços,
tentando a todo o custo evitar-lhe o olhar terrível. alguns escondiam-se nas portas
com cortinas de pano, fechando as portadas de madeira das janelas.

como isto é glorioso! passear de novo pela minha cidade, livremente e sem véu, por
entre o meu povo. tenho de fazer isto mais vezes.

stheno meteu por uma rua à sua direita, uma rua de débeis casas de madeira de
castas de baixo nível. qualquer coisa pequena e escura bloqueou-lhe o passo,
levando-a a olhar para baixo.

era uma criança. um rechonchudo rapazinho nu, de não mais que dois anos, estava
ali de pé a olhar para ela, um dedo na boca, os olhos cheios de curiosidade. as
serpentes de stheno viraram as cabeças para a frente, para verem aquela estranha
criatura que ousava olhar para elas. talvez o movimento das serpentes, ou algo na
expressão de stheno causou uma súbita aflição na criança. a testa franzida numa
expressão de medo, a boca aberta, os lábios a tremer, fungou numa inspiração
funda, prestes a berrar.

todas as serpentes na cabeça de stheno se esticaram para a frente, sibilando. os


olhos de stheno ficaram quentes, mas, em vez de desviar o olhar, deixou a sensação
há muito submetida apossar-se dela, devorando a visão da criança apavorada. a
sensação de calor passou-lhe da cara para o peito e, daí, para o baixo-ventre, até
estremecer com a erupção de poder e de calor. um ronco de triunfo escapou-lhe da
garganta.
a pele castanha do rapaz tornou-se cor de cinza, subindo-lhe rapidamente dos pés
para a cabeça. o iminente berro dele tornou-se um silvo de ar através de uma flauta
de pedra. os olhos ficaram vítreos, cor de leite, cegos.

passado um momento, stheno tornou a estremecer e suspirou. as suas queridas


descaíram-lhe para as faces e para os ombros, relaxadas.

um lamento de dor surgiu à direita de stheno, uma mulher saindo a correr de uma
das choupanas. tapando a cara com uma aba do sari, a mulher lançou-se aos pés
de stheno.

- poderosa cáli! grande mãe durga! porque nos amaldiçoais? por favor, imploro-vos,
recuperai-o! restituí-me o meu filho!

- ele ousou olhar para a mahadevi. e era apenas uma criança - disse stheno. - não
tens mais filhos? ainda és nova e podes ter outros. segundo parece, não consigo
evitar que procrieis.

- eu não tenho mais filhos, grande mãe. e vós levastes-me as minhas filhas. por
favor, fazei-lo voltar à vida.

- há muitas crianças em bhagavatí. os anciãos queixam-se de que não têm espaço.


porque hei-de eu restaurá-lo?

- todas as crianças do mundo são vossas, por isso ele vos parece um entre muitos.
mas ele é o meu único filho. sem ele, quem é que vai aprender o ofício da família?
quem é que vai tomar conta de mim quando for velha? quem é que vai ser o orgulho
do pai e quem é que nos vai dar netos? a perda de um é coisa nenhuma para vós,
mas é tudo para mim. por favor, restituí-me o meu filho! oferecer-vos-ei qualquer
sacrifício que desejardes.

stheno vacilou.

- a tua fé e a tua coragem impressionam-me, mulher. por isso, vou dar-te a


possibilidade de recuperares o teu filho. apercebi-me recentemente de que o meu
povo se esqueceu de mim. falam de mim agora como uma história para meter medo
às crianças, já não acreditando na minha existência. foi por isso que me pus a
passear hoje e foi por isso que transformei o teu filho em pedra. ele pagou pelo
esquecimento de bhagavatí. eis, pois, como podes redimi-lo. vais colocar o teu filho
no meio da praça principal, onde todos o possam ver e lembrar-se do meu poder.
todos os dias, vais pores-te ao lado dele e contar o que aconteceu aqui, para que
todos te ouçam. passados sete anos, vem ter comigo e, se tiveres cumprido o que te
digo, restituir-te-ei o teu filho.

- sete anos - choramingou a mulher. - mas, grande mãe, tanta coisa pode acontecer
em sete anos. eu própria posso morrer antes disso.

irritada, stheno atirou-lhe:


- nesse caso, terás de arranjar alguém da tua família para falar em teu lugar. trata de
o fazer, ou o rapaz está condenado. agora desaparece, se não queres que eu te
transforme também em pedra.

a mulher recuou rastejando e stheno continuou a descer a rua, deliberadamente


devagar. percorrer qualquer das ruas de bhagavati até ao fim conduzia
necessariamente à parede rochosa da montanha e às entradas dos túneis que
davam acesso ao vale do rio krishna. os túneis tinham entradas para passagens
secretas que passavam sob a cidade e através do palácio. dessa forma, stheno
podia ir onde quisesse sem ser vista e surpreender os incautos.

o meu povo vai saber outra vez o que é viver com uma deusa no meio deles, pensou
stheno, sorrindo.

thomas vagueava nos corredores desertos do palácio, ouvindo vagamente um


alarido distante. timóteo não regressara ao quarto durante a noite. thomas não
descortinara nenhum sinal dele, nem conseguira fazer-se entender dos poucos
monges que encontrara. enyo andava frenética, tratando de alojar as raparigas que
chegavam para o abominável casamento, e não vira timóteo. thomas tinha a
desesperada esperança de que o rapaz se tivesse simplesmente escondido em
qualquer lado, para observar as raparigas que entravam.

ao fundo, ouviu um bater ritmado, mais forte do que um tambor, como que os passos
titânicos de um gigante.

meu deus, que não seja mais um monstro!

contra o seu bom senso, receando que timóteo andasse por ali, thomas
encaminhou-se para donde vinha o som.

ao dobrar um corredor, viu o estuque de uma parede a rebentar, empurrado pelas


batidas do outro lado. houve um último e poderoso embate e uma porção da parede
caiu. thomas encolheu-se contra a parede oposta, pronto a escapar se visse surgir
nova criatura de lenda.

o que viu aparecer, porém, foram os braços de um homem a arrancar o estuque da


abertura e um homem a surgir do buraco, todo coberto de pó e de caliça, tal gnomo
surgindo da terra. o homem pôs-se a sacudir a sujidade, olhando em redor, a
pestanejar, e thomas reconheceu-o.

- andrew! pela minha alma! - thomas correu para ele e quase abraçou o escocês.

- thomas? tom! És tu? então, quer dizer que chegamos ao sítio certo. como estás tu?

- bastante bem, embora desejasse estar melhor. e vós, como é que chegastes aqui?

do buraco saiu a anciã porphredo, com o pó um pouco mais grisalha do que lhe
parecera quando thomas a vira no acampamento mongol. instintivamente, thomas
recuou, pois sabia agora que também ela era uma criatura de lenda. porphredo
olhou para ele um momento e depois, inclinando a cabeça, disse-lhe:
- saudações para vós, irlandês. desculpai a nossa insólita aparição, mas o portão
por onde entrastes estava trancado.

ouviam-se gritos e murmúrios do outro lado do buraco. porphredo voltou-se e falou


em persa. então, para grande choque de thomas, surgiu o mongol mirzá akbarshah,
espada desembainhada, seguido por dois soldados e pelo sufi masum. o mirzá viu
thomas e ergueu o sobrolho, murmurando qualquer coisa.

thomas recuou ainda mais.

- andrew, trouxestes o exército mongol convosco?

- não, meu rapaz, apenas estes quatro, que vêm em busca de justiça e de
esclarecimento. e de refúgio, perante homens traiçoeiros, se é que podemos
acreditar na palavra da nossa guia - concluiu ele, olhando de lado para porphredo.

a anciã começou a falar e depois calou-se, franzindo a testa. depois o franzir da


testa transformou-se numa expressão de alarme.

- os sinos de alarme... a mahadevi... - olhou, então, para thomas. - déspotas, o que é


que está a acontecer aqui? onde está enyo?

- eu não sei o que significam os sinos, senhora, mas a vossa rainha está a reunir as
raparigas virgens da cidade, para uma estranha forma de casamento, que eu sou,
também, obrigado a integrar. a vossa... irmã, não é, enyo, a última vez que a vi
andava atarefada com as raparigas no pátio.
- ai, a loucura apossou-se dela! eu não a devia ter deixado regressar sozinha! vocês,
todos, tendes de barricar-vos de imediato numa sala! para vossa segurança! - disse
ela, repetindo a mensagem em persa, para os mongóis.

os mongóis puseram-se a argumentar com ela, mas porphredo correu para uma
porta próxima e abriu-a.

- para aqui! depressa! correis todos grande perigo!

- o que é que os sinos significam? - perguntou thomas, coisa que os mongóis, sem
dúvida, também perguntavam.

- significa que a deusa se passeia na cidade de cabeça descoberta, se isso vos diz
alguma coisa - respondeu porphredo, sombriamente.

thomas sentiu o sangue fugir-lhe da cara.

- diz-me muito, senhora - disse ele num ápice, entrando porta dentro, arrastando
lockheart com ele.

o mirzá observou-os e seguiu-os, ordenando aos seus homens que entrassem


também.

a sala era pequena, iluminada apenas por uma estreita janela, no alto da parede.
parecia servir de despensa, embora o que continha estivesse coberto por um
espesso lençol de pó e de sujidade. morcegos adejavam no meio das traves do teto.

a porta fechou-se atrás deles.

- É conveniente trancarem a porta - bradou porphredo em duas línguas, do outro


lado da porta. - eu ou a minha irmã já cá viremos.

- que raio de balbúrdia é esta, tom? - perguntou lockheart.

- se o que ela diz é verdade - disse thomas -, quer dizer que corremos um grande
risco. a rainha é uma górgone, andrew, armada em deusa. a sua cara transforma em
pedra quem a vê. É verdade, sim! eu vi aqueles que suportaram o seu olhar. se
houver oportunidade, mostro-vos a cripta onde estão as vítimas enfeitiçadas.

- se não fosse pelo terror que vejo na tua cara, meu rapaz, diria que ouvistes
demasiadas fantasias de timóteo. a propósito, ele também está cá?

- até ontem à noite, o rapaz tem estado comigo e estava bem. mas eu não sei dele
desde então e começo a recear o pior.

o mirzá aproximou-se deles e falou.

- ele pergunta se isto não será um truque, ou uma ratoeira, e que perigo é esse que
tu e porphredo receiam. devo dizer-lhe o que acabas de me contar.
- acho que sim. não há motivo para lhe mentirmos acerca do monstro. É melhor que
ele e os seus homens saibam, para que possam proteger-se.

- tens a certeza de que isso nos convém? thomas sentiu um frio no estômago.

- a mim não me interessa que o padre e o santo ofício receiem os conhecimentos


que os maometanos possam obter aqui. como vos tenho dito, eu nunca desejei a
morte de nenhum homem, muito menos em razão da sua fé. dizei-lhes.

lockheart encolheu quase imperceptivelmente os ombros e pôs-se a falar para o


mirzá. thomas ouviu uma palavra parecida com ”górgone” e sentiu-se aliviado, pois
ao menos alguma parte da verdade estava a ser traduzida.

porphredo correu pelos corredores fora, com cada osso e cada músculo das pernas
e das costas a protestar. não bastara já ter-se arrastado penosamente com os
mongóis, durante horas, por um estreito, escuro e poeirento túnel, sem saber se se
encontrava bloqueado à frente, ou se iria cair em cima deles, havia, ainda, de chegar
por fim a casa para vir a saber que stheno tinha, uma vez mais, perdido o senso e se
preparava para causar sabia-se lá que tipo de destruição e morte.

uma maldição nunca vem só, os fados vão enviar-me uma após outra.

chegou a um espaço aberto, coberto de cascalho, a norte do pátio principal do


palácio. o espaço, onde habitualmente se treinavam os cavalos, estava repleto de
raparigas amedrontadas, em grande balbúrdia, que se afastavam de porphredo
cheias de medo. porphredo quase ia chocando com uma mulher que surgiu por
detrás de uma coluna e a quem se agarrou para não cair e para a avisar, notando-
lhe, então, os olhos azuis.

- aditi!

- porphredo!

- És tu, minha pequena aditi? embora já não sejas assim tão pequena, não é? -
porphredo olhou orgulhosa para a elegante mulher em que a sua pupila se havia
tornado. - estás bem? recuperaste completamente da tua...

- da minha morte? sim, querida porphredo, estou bem. mas nem tudo está bem por
aqui, como vedes. já falastes com enyo? já sabeis de tudo?

- eu ouvi os sinos e eles dizem-me bastante. estas são as raparigas que a despoina
quer que sejam suas noivas?

- são, sim, coitadas!

- onde é que stheno foi buscar uma idéia tão horrenda?

- ela diz que a idéia foi vossa?

- minha? eu nunca sugeri semelhante coisa.


- ela diz que vós queríeis que ela cedesse parte do palácio para o povo da cidade se
alojar. e, para reduzir o crescimento da população, stheno ordenou que todas as
raparigas solteiras fossem enviadas para o palácio, para ali passarem o resto da
vida.

- ela não pretende cegá-las todas, pois não?

- ela não me falou nisso, mas quem é que sabe o que stheno pretende?

- e, agora, ficou completamente louca e passeia-se de cabeça descoberta. sabes


onde é que ela está?

- algures na cidade. enyo foi ver se a travava e eu reuni aqui as raparigas, na


esperança de que a mahadevi não se lembre de vir cá.

porphredo pensou em ir ajudar enyo, mas as pernas contrariaram-lhe a decisão.

- não quero crer que houvesse alguma razão para que a mahadevi se pusesse a
punir a sua gente, pois não?

- eu não falo com a mahadevi desde ontem de manhã, mas há essa possibilidade. o
povo da cidade desobedeceu-lhe, pois está a mandar-lhe só as filhas mais
deficientes, tendo casado as outras à pressa. uma das raparigas disse-me que a
filha do alcaide blasfemou contra a mahadevi, perante uma velha de cabeça velada,
a qual podia muito bem ser a própria mahadevi disfarçada.

- sim, qualquer desses fatos é o bastante para lhe ferir o orgulho. a única coisa que
podemos fazer é esperar que enyo a agarre antes que ela faça mal a muita gente.

porphredo encostou-se à coluna e, lentamente, sentou-se no chão, com um lamento.

- aia porphredo, estais bem? estais tão pálida e cheirais a túmulo!

- fostes sempre tão simpática, minha filha! eu estou cansada e toda suja. não
quererás ter a bondade de arranjar a uma velha umas toalhas úmidas, água e
alguma coisa que se coma? eu fico a tomar conta das tuas pupilas. elas parecem ter
bastante medo de mim para me obedecerem.

- sim, aia. descansai, que eu volto já.

aditi partiu a correr e porphredo lembrou-se, então, que tinha de lhe falar do mirzá e
dos outros, fechados na despensa. e como iria stheno, na sua loucura, reagir
quando soubesse que lhe trouxera novos hóspedes, inesperados? porphredo olhou
para as raparigas assustadas e suspirou. bem desejaria ter palavras de consolo para
lhes dirigir, mas não encontrou nenhuma.

capítulo xix

choupo: esta árvore tem duas formas, o choupo-branco e o choupo-preto. têm


ambos folhas em forma de coração e compridos e estreitos amentilhos. a casca
enruga à medida que a árvore envelhece. o chá feito dos botões de inverno alivia as
tosses e o banho nesse chá cura as feridas e as queimaduras. uma infusão das
raízes cura os males de estômago. os antigos escreveram que hércules percorreu o
reino de plutão com uma coroa de choupo e que, nesse lugar infernal, as folhas
ficaram chamuscadas por cima e prateadas por baixo, com o suor dele. assim
surgiram as folhas do choupo-branco e assim se tornou a árvore um símbolo da
continuação da vida para além da morte. o choupo-preto foi, em tempos, consagrado
à deusa pagã da terra e, quando usado na predição da sina, significava que o
consulente não tinha esperança...

omirzá ali akbarshah perscrutava o rosto do ocidental de cabelo amarelo, à procura


de sinais de traição.

se o medo que aparenta é falso, trata-se de um fino farsante. mas toda esta história
de que a rainha que procuramos não passa de um monstro dos tempos de iskandr!
não posso ter feito esta longa viagem para ir dizer ao meu imperador semelhante
coisa!

o mirzá notou que masum estava junto dele, mas o sufi mantinha-se em silêncio, a
cabeça espetada tal cão curioso.

coitado do homem! se o que o ocidental diz corresponde à verdade, masum não vai
encontrar aqui a grande sofia nem a bela bilquis.

rafi e awwal espreitavam as coisas armazenadas na sala, levantando os lençóis e


soltando nuvens de pó.

- senhor - disse awwal -, vejo cintilar ouro dentro destas arcas. talvez o comandante
jaimal tivesse razão e haja aqui grandes tesouros.

e que maior soma de ódio isso não acarretará, venha ele a saber disso?, pensou o
mirzá, tristemente.

uma voz de mulher ressoou na sala.

- há, de fato, tesouros aqui, dependendo do que procuram.

- há alguém nas paredes! - disse lakart.

o mirzá e os seus homens, instantaneamente, sacaram das espadas, todos exceto


masum, mas, como não sabia de que direção vinha a voz, o mirzá pôs-se, atento, a
rodar em círculos.

- estou a ver que tenho hóspedes inesperados - continuou a voz. - gostava de saber
como é que conseguiram chegar cá.

o tom de voz da mulher era baixo e insinuante, como o de uma boa cortesã de
lahore, mas com uma expressão de poder e de ameaça. falava um persa antigo e
elegante. o mirzá sentiu uma mescla de desejo e de receio pela dona daquela voz.
talvez seja verdade o que o guardião do santuário sem nome disse, que ela é a nora
de satã, tendo levado o de cabelo amarelo a pensar que se trata de um demônio.

o mirzá olhou para masum, mas o sufi tinha simplesmente o olhar fixo nas paredes,
admirado. por fim, o mirzá recuperou o domínio suficiente para responder.

- eu sou o mirzá ali akbarshah, enviado pelo shahinshah imperador akbar em busca
de uma rainha com poderes de vida e de morte. se sois vós essa rainha, saúdo-vos
em nome dele. a vossa criada, porphredo, foi quem nos guiou até cá.

- ah, porphredo! deveis ter tido uma razão premente para a convencerdes a trazer-
vos à minha cidade oculta.

- eu venho para conhecer o vosso reino e oferecer-vos aliança com o grande império
de akbar. um dos meus homens vem em busca de justiça, pela morte do irmão, a
qual terá ocorrido por via da vossa feitiçaria. um outro vem em busca de respostas
para mistérios filosóficos. como devemos chamar-vos e por que razão não vos
mostrais?

- como devem chamar-me? - meditou ela. - eu sou a mahadevi. eu sou cáli, a


generosa e destruidora. eu sou a construtora de cidades e a exterminadora dos
exércitos. eu sou feita à imagem da deusa das feras e olhar para mim implica a
morte.

o mirzá notou que lakart estava de boca e olhos abertos, pálido, mudo, olhando
fixamente para a parede.

terá ele mais medo dela do que eu? julgava-o mais corajoso.

- podeis considerar-vos uma deusa - disse o mirzá -, mas o único deus que eu
reconheço é alá. compreendei bem o que vos digo e dai-me outro nome para eu me
dirigir a vós.

- onde é que eu já ouvi isto? - murmurou a voz da parede.


- não interessa, tenho ouvido tanta tolice ao longo dos séculos! sois bem-vindo à
minha cidade de bhagavati, mirzá akbarshah. podeis tratar-me por majestade, ou por
rainha stheno, se isso se adequa melhor à vossa sensibilidade. chegais a tempo de
assistir ao meu casamento. o meu noivo encontra-se entre vós.

o mirzá e os seus homens voltaram-se para olhar para tamas. depois da rápida
tradução de lakart, o jovem de cabelo amarelo empalideceu, abanando a cabeça.

- ah, ele é muito modesto - disse a rainha stheno -, mas, chegada a altura, vai
cumprir o seu dever. agora, tenho de ir ver como vai a preparação do casamento. e
vou dizer a porphredo para vos arranjar alojamentos mais apropriados. vamos tornar
a falar em breve.

o mirzá pensou ouvir movimento por trás da parede.


- majestade?

rafi não conseguiu dominar-se mais.

- e mumit, senhor? tem de haver justiça para mumit! o mirzá aproximou-se dele e
pôs-lhe uma mão no ombro.

- ela foi-se embora, rafi. quando tornarmos a falar com ela, o caso do teu irmão será
o primeiro assunto a tratarmos disse-lhe o mirzá, embora temendo o próximo
encontro com a dona daquela voz.

masum caiu de joelhos e começou a rezar. o mirzá dominou o impulso de se juntar a


ele.

thomas sentia-se extremamente embaraçado perante os olhares dos homens em


redor dele. mas o pior era lockheart, o qual o olhava fixamente, como alguém a
quem acabavam de dizer que tinha de tomar um medicamento que, muito
provavelmente, o mataria.

- noivo da imagem da senhora das feras - disse lockheart mansamente. - embora eu


tenha vindo de rastos, trouxeste-me ao meu destino, mais seguramente do que as
estrelas acompanham a lua na sua viagem noturna.

- andrew, certamente não estais a pensar que esta criatura é a deusa que servis? já
vos disse que se trata de uma górgone, de um demônio. embora seja imortal e
possua poderes de vida e de morte, é verdade o que vos digo.

- os demônios não são mais do que anjos caídos, meu rapaz. destituídos de
santidade por crenças que só têm lugar para um deus - disse lockheart, olhando de
lado para os mongóis.

- seja como for, eu não me vou vergar nem adorar stheno. apesar do que ela disse,
tendes de compreender que ela é louca. até as criadas dela o dizem. não há ponta
de senso no que diz. não lhe deveis dar ouvidos.

- tenho de lhe dar ouvidos, meu rapaz, pois tu e ela trouxeram-me aqui para isso. e
tenho de beber o cálice até ao fim, pois deste porto não há saída, a garrafa terminou
e toda a esperança se afunda.

thomas ficou sem saber se lockheart também teria perdido a razão.

embora não a tenha perdido toda, pois continua a jogar com as palavras.

- andrew, seja o que for que penseis dela, temos de fugir daqui. eu não vou aqui
ficar.

- oh, sem dúvida, a fuga virá. rápida e certa, quando chegar a altura.

- andrew, essa vossa disposição aflige-me. e estou preocupado com timóteo, se


acaso ele esteve com ela. raios, eu devia ter perguntado por ele enquanto ela aqui
esteve. desculpai-me, andrew, mas tenho de continuar a minha busca.

- certamente. eu vou contigo.

- não! stheno não me fará nenhum mal, dado que vou ser o seu noivo, mas pode
olhar menos simpaticamente para estrangeiros intrometidos. ficai aqui com eles, em
segurança, que já vos mando alguém.

com uma vênia para o mirzá, thomas destrancou a porta e correu para fora, feliz por
colocar a energia dos pés num propósito definido.

o padre antónio gonsção dormitava ao calor do sol do meio-dia, sentado no banco


no teto da carroça das bailarinas, encostado ao balaústre rendilhado. o músico cego
advertira-o de que permanecer muito tempo de cabeça descoberta ao sol podia
causar loucura ou a morte, mas gonsção preferia seguir um pouco acima da maior
parte da poeira levantada pelos homens e pelos cavalos, cujo cheiro preferia aos
mais terrenos e sensuais da companhia próxima das mulheres dentro da carroça,
onde carlos e estêvão seguiam.

e não estou destinado a morrer por enquanto, pois se o estivesse a minha


ressurreição nunca teria sido permitida.

ouviu um brado repetido da frente para trás nas desorganizadas filas de elefantes,
de cavaleiros e de infantes. a coluna do exército parou lentamente.

claro, pensou gonsção, é a altura das orações do meio-dia. a fé leva-os a escolher


um sítio agreste para parar.

estavam numa planície rasa e seca, sem árvores, que mostrava sinais de
inundações periódicas. À medida que viajavam para sudeste, tinham-se aproximado
da fita escura de um rio. agora, o rio estava apenas a algumas jardas para sul,
embora, no reverberante ar quente, parecesse ainda, por vezes, uma miragem. ao
longe, do outro lado do rio, distinguiam-se umas formas escuras que podiam ser
árvores, indicando uma aldeia. mais longe ainda, para lá do rio, viam-se montanhas,
com os cimos dentados sucedendo-se uns atrás dos outros.

a carroça balançou e gonsção voltou-se. ficou desapontado ao ver subir a escada a


rapariga hindu que se agarrava ao braço de gandharva, a qual correu a sentar-se
junto dele. gonsção encolheu-se e pensou em afastar-se, mas estava num canto e
sentiu-se apanhado. a rapariga compôs um largo, mas falso sorriso e disse em latim,
numa cadência de alguém a quem tinham ensinado palavras sem lhe conhecer o
significado:

- tempus est. n une imus.

gonsção tinha perguntas a fazer, mas sabia que era inútil fazê-las à rapariga, com
quem não compartilhava nenhuma língua. inclinou a cabeça cortesmente e seguiu-a
para a escada de corda que desceram.

a porta de trás da carroça abriu-se e apareceu gandharva.


- temos de nos apressar, enquanto eles estão nas orações. gonsção espreitou para
detrás do músico cego e viu carlos

e estêvão vestidos com as flutuantes e garridas vestes das rameiras.

- que tolice vergonhosa é essa?

- É um disfarce, padre - disse carlos. - vinde e vesti isto: basta passá-lo pela cabeça
e atá-lo à volta do corpo - acrescentou, mostrando-lhe uma comprida e larga peça
de seda, recamada a ouro.

gonsção começou a objetar, mas gandharva disse-lhe:

- não temos tempo para argumentações teológicas. esta é a única forma de nos
afastarmos sem sermos notados. engoli o vosso orgulho e pedireis perdão ao vosso
deus mais tarde.

relutantemente, gonsção subiu para a carroça e aceitou o vestido garrido. a rapariga


hindu tocava e tocava com mãos experientes na seda para o vestido cair bem. na
semiobscuridade da carroça gonsção viu, com desagrado, que duas das rameiras
hindus envergavam agora as fardas e os elmos dos soldados, tendo pintado os
queixos de preto, a simular barba. a mais gorda das mulheres tinha vestido um
comprido vestido branco de lã, idêntico ao de gonsção.

- elas não vão conseguir enganar os mongóis - resmungou gonsção.

- elas não vão precisar de os enganar por muito tempo disse gandharva.

quando a chamada para a oração soou através do exército, gandharva saltou da


carroça, a vina atravessada nas costas e agarrou no braço da rapariga hindu, a qual
levava um grande cesto coberto no outro braço.

- agora - disse ele baixinho - segui-me. vós sois simplesmente raparigas a distender
as pernas e que vão urinar junto do rio. podeis rir como mulheres, se souberdes,
mas não muito alto.

enquanto se afastavam da carroça, carlos e estêvão soltaram, de fato, umas risadas


convincentes que chocaram gonsção.

- muito bem - disse gandharva, acrescentando mais qualquer coisa em voz alta
numa língua diferente, sublinhada com um grande sorriso, e deixou-se levar pela
rapariga em direção ao rio.

gonsção pavoneava-se ao lado do músico, não sabendo como caminhar como uma
mulher, nem o desejando fazer. deus me perdoe o que tenho de fazer para cumprir a
sua vontade.

- o que é que pensais fazer quando chegarmos ao rio?


- conseguis ver dois rochedos que parecem elefantes a banhar-se?

- sim, há dois grandes rochedos no rio, junto à margem.

- É para aí que vamos. não olheis para trás, nem faleis mais comigo até lá
chegarmos.

gonsção ficou calado, mas sentiu as costas terrivelmente expostas, como se


centenas de pares de olhos o observassem.

quando se encontravam a meio caminho dos rochedos, a rapariga hindu disse


qualquer coisa ao ouvido de gandharva e este parou, retirando a vina das costas e
pondo-a no chão.

- abandonais o vosso instrumento? - perguntou gonsção em voz baixa. - nunca vos


vi sem ele!

agarrando de novo no braço da rapariga hindu, gandharva explicou:

- eu tenho fingido que a vina é a minha vida justamente para, um dia, a poder largar.
se os homens de jaimal a virem, vão pensar que eu não fui longe - e continuou a
andar para o rio.

a rapariga levou-os à volta e para trás de uma moita de altos e retorcidos arbustos.
estavam, agora, fora da vista do exército mongol. a rapariga tirou do cesto mais
compridas vestes de seda e lançou-as para cima dos arbustos.

- se tivermos sorte - disse gandharva -, os homens de jaimal vão pensar que


estamos a tomar banho. deve haver uns juncos altos à nossa frente, entre os
elefantes de rocha.
- há, sim - disse gonsção.

- vós e os vossos homens deveis procurar no meio deles. se a minha mensagem


chegou a decidurga, deve haver pequenas jangadas escondidas no meio deles.

gonsção meteu-se na água, com carlos e estêvão atrás, e puseram-se os três a


vasculhar por entre os juncos e as ervas. gonsção receava que ali houvesse
serpentes. as moscas e os mosquitos esvoaçavam-lhe em redor da cara.

- aqui, estão aqui! - gritou estêvão.

- chiu! - fez gandharva. - depressa, subi para elas. são pequenas, mas, se
envolverdes os braços nelas, vão levar-vos para o lado de lá. pramlocha!

a rapariga pegou-lhe no braço e levou-o para junto da água. estêvão lançou-lhes a


jangada maior, que gandharva e a rapariga agarraram.

- a rapariga não vem, certamente, conosco, pois não? disse gonsção.

- não vos disse que tenho uma dívida para com ela? resmungou gandharva. - e
preciso dela para me guiar. agora, atirai-vos à água, depressa.

ao fazê-lo, gonsção perguntou:

- não era melhor fazermos isto à noite? eles assim podem ver-nos, quando
estivermos no meio do rio.

- À noite é quando eles esperam a nossa fuga e estaríamos mais apertadamente


vigiados.

- sois muito perceptivo, para um cego.

- muito obrigado, mas vós também. agora, calai-vos e nadai! ignorando o insulto
implícito de gandharva, gonsção pôs-se a bater com as pernas, levando a jangada
para dentro de água, o bastante para ser apanhada pela corrente do rio. não era tão
forte como ele receava, mas exigiu-lhe muito esforço, com os pés e um dos braços,
para se conseguir afastar da margem. a água ondulada era mais fria do que
esperava e rapidamente lhe encharcou o hábito de lã. carlos estava a ter
dificuldades para orientar a jangada e debatia-se, rodopiando para cima de gonsção
que, agarrando o sari do soldado o segurou até carlos se equilibrar melhor nas
pranchas de madeira.

estavam quase a chegar às rochas da outra margem do rio, quando soaram gritos
atrás deles.

- os mongóis já nos viram, padre!

- nadem com toda a força que tiverem e não olhem para trás! - disse gandharva.

por sorte, um remoinho da corrente apanhou as jangadas e atirou-as para o meio


dos juncos e das rochas. gonsção largou a sua jangada e deixou-a seguir rio abaixo.
ao ajudar carlos a sair da sua, lançou um olhar para a outra margem.

cavaleiros mongóis, junto da margem, tiravam os arcos das costas e atiravam-lhes


setas. gonsção ouviu um chiar junto da orelha e uma seta foi embater numa rocha
ao lado dele, mesmo por cima da cabeça.

com renovada energia nas pernas, gonsção arrastou-se pela margem acima e
escondeu-se atrás de uma rocha. carlos e estêvão rapidamente se lhe juntaram.

- que deus nos ajude, se eles conseguirem atravessar o rio! - exclamou gonsção.

- onde é que está o cego? - perguntou carlos. gonsção dominou o medo e foi
espreitar do outro lado da rocha. gandharva e a rapariga acabavam de chegar à
margem e ela esforçava-se por ajudá-lo a subir. veio outra chuva de setas e a
rapariga arqueou as costas, dor e choque nos olhos.

- pramlocha? - disse gandharva.

- santa maria! - exclamou gonsção, saindo da proteção da rocha, agarrando-os e


arrastando-os para o abrigo.

estendeu a rapariga no chão e viu que a seta lhe havia atravessado o peito. a
rapariga arfava horrivelmente e saía-lhe sangue pela boca.

- que aconteceu? - perguntou gandharva. - ela está bem?

- foi atingida por uma seta. possivelmente não vai resistir. lamento muito.

o sobrolho de gandharva ficou franzido -de pesar, um momento, depois relaxou.


mansamente, disse:

- então, temos de deixá-la aqui.

gonsção estava a pensar sugerir isso mesmo, mas a surpresa de ouvir o músico
pagão dizê-lo chocou-o, contraditoriamente.

- sois capaz de abandoná-la como fizestes com a vossa vína?

- se está a sangrar, vai deixar um rasto que pode ser seguido.

- os mongóis podem atravessar o rio?

- os cavalos não podem, o rio é muito fundo e muito rápido para eles. mas os
elefantes talvez. vai levar algum tempo até perceberem isso, mas, depois vão
seguir-nos, por isso não nos podemos demorar aqui.

- o que é que ele está a dizer, padre? - perguntou carlos.


- não vamos deixá-la aqui, pois não?
gonsção disse ao músico:

- a vossa rainha pode fazê-la reviver, se ela morrer, não pode?

nova chuva de setas pingou sobre as rochas atrás deles.

- sim, sim - disse gandharva -, se conseguirmos levá-la até bhagavati.

- então, vamos levá-la. trouxeste-la até aqui porque tínheis uma dívida para com ela.
ainda não lhe pagastes a dívida, por isso vamos levá-la. carlos, conseguis levá-la?

- acho que sim, padre.

- estêvão, agarrai no braço de gandharva, para o guiardes. gandharva, qual é o


caminho que devemos seguir?

- procurai o sinal de uma serpente gravado numa das rochas, mais acima, junto à
montanha.

gonsção traduziu isto para os soldados e estêvão exclamou:

- eu vejo uma, padre, além.

- então, vamos para lá.

enquanto estêvão agarrava no braço de gandharva e carlos se baixava e colocava a


rapariga ferida ao ombro, gandharva disse:

- julguei-vos mal, monge da orlem gor. que a vossa generosidade não nos cause a
morte!

thomas abrandou o passo, o calor da tarde a reduzir-lhe a força, embora o ar nos


corredores de pedra do palácio de stheno fosse mais fresco do que lá fora, ou na
despensa.

os corredores estavam mais desertos do que nunca, nem os ubíquos monges com
as suas vassouras se viam. e não havia sinais de enyo ou de aditi, de ninguém que
lhe pudesse dizer onde estaria timóteo.

dobrou um corredor e parou. encostado à parede, junto de uma porta de madeira,


estava o monge cego que deixara oferendas para thomas no dia da sua chegada.

como é que ele se chama? praba-qualquer-coisa. mas não me disse enyo que ele é
louco?

pensou se iria passar pelo monge em bicos de pés, ou se iria tomar outro caminho. o
monge, porém, endireitou-se de súbito e voltou a cara sem visão para thomas.

- ah, tamas, tamas! - exclamou o monge, sorrindo e inclinando-se para ele.


terá mais visão do que eu pensava? até parece que estava à minha espera. bem,
talvez timóteo lhe tenha deixado uma mensagem para mim, embora eu não consiga
pensar em mensageiro mais inútil do que ele.

com um suspiro, thomas aproximou-se do velho.

- eu ando à procura de timóteo - disse ele em inglês, devagar e cuidadosamente,


acrescentando, depois: - exquiro timóteo, um, flamine de orlem gor?

thomas, interiormente, arrepiou-se com a mescla de línguas, mas não sabia bem
como fazer-se entender.

o velho continuava a sorrir e a inclinar a cabeça, apontando para a porta de madeira


ao lado dele.

- tamas, tamas! - exclamou de novo, abrindo a porta, a cabeça inclinada.

- timóteo está aí?

sempre a sorrir e a balançar a cabeça, o homem entrou pela porta. thomas começou
a segui-lo, mas depois parou. para além da porta, mal iluminada pelas tochas de
junco penduradas na parede, via-se uma escada de pedra que descia. as
recordações das masmorras do santo ofício e do aljouvar vieram-lhe à mente e o
coração saltou-lhe no peito.

que raio de destino o meu, passo a vida a ser arrastado para lugares escuros e
infernais!

sentiu o cheiro a terra úmida e a pedra, mas não a sangue, nem ouviu queixumes,
nem lamentos de angústia, nem qualquer outro sinal de aflição humana.

o velho monge pôs-se a descer as escadas, entoando uma estranha e sepulcral


toada.

bem, desta vez, ao menos, não vou forçado e, se o velho se tornar perigoso, posso,
com certeza, dominá-lo. e tenho de saber se timóteo está aqui.

thomas seguiu o monge, deixando prudentemente a porta aberta.

as escadas desembocavam numa única sala, de chão coberto de sujidade, sem


mobília, onde se via, apenas, uma estátua de pedra, de cócoras, encostada à
parede. não havia sinal de timóteo.

praba-qualquer-coisa estava ao lado da estátua e, segundo parecia, falava com ela.

eu já devia saber, pensou thomas, ele envolveu-me numa das suas loucuras.

voltou-se para subir as escadas, mas uma mão agarrou-lhe o braço. o velho,
surpreendentemente, patenteou muita força ao puxar thomas para junto da estátua.
- que quereis? - exclamou thomas, exasperado.

não queria magoar o velho, mas não tinha paciência para o aturar. quando
chegaram junto da estátua, contudo, thomas parou. a figura de pedra, ao contrário
das da cripta, nitidamente nunca fora viva. esta representava uma criatura
rechonchuda, com asas, o olhar de esguelha, a língua de fora. e com serpentes na
cabeça.

ah, é parecida com stheno, embora nada favorecida. não admira que ela a esconda
numa cave. ou talvez seja outra górgone. talvez a célebre medusa.

o velho monge começou a murmurar qualquer coisa que soava a cântico religioso.
colocou a mão direita de thomas na cabeça do ídolo e afagou-o com ela. depois
baixou-se e retirou de trás da estátua um cesto coberto com um tecido vermelho. do
cesto, retirou uma coroa de grandes flores escarlates que enfiou na cabeça de
thomas. as únicas palavras que thomas conseguiu apanhar no murmurar do velho
monge foram: ”arayani, arayani, arayani...”

uma vez mais, tenho de me submeter a um ritual pagão. fará isto parte do
abominável casamento de stheno?

o monge ergueu um pequeno jarro de barro sobre a cabeça de thomas e despejou-


lhe nos cabelos um líquido frio que cheirava a manteiga.

- sraddha, sraddha - murmurou o monge.

- prabaratma! - alguém gritou das escadas.

thomas voltou-se e viu que era enyo, de olhos abertos a fitar o monge. desceu as
escadas e correu para prabaratma, ralhando com ele, presumivelmente no seu
idioma hindu. prabaratma fez uma profunda vênia, mas não pareceu nada
humilhado, nem envergonhado.

- perdoai-o, déspotas - disse ela em grego, dirigindo-se a thomas. - como vos avisei,
este... não anda bom da cabeça. o que, ultimamente, parece ser uma doença...
muito comum.

- não tem importância. ele não me fez mal nenhum disse thomas.

- ainda bem que assim foi - murmurou enyo, enigmaticamente.

enyo retirou a coroa do pescoço de thomas e atirou-a para os pés da estátua.


depois, a frágil mulher agarrou prabaratma por um ombro e empurrou-o para as
escadas, que o monge se pôs a subir mansamente.

enyo voltou para junto de thomas e admoestou:

- ele não vos devia ter trazido aqui. nenhum dos dois devia ter vindo aqui.

- as minhas desculpas, minha senhora, mas eu não sei porque é que o velho me
trouxe aqui. eu tinha a esperança de que ele me levasse junto de timóteo, que eu
não vejo desde ontem.

enyo olhou para ele com ar aflito e depois correu para as escadas, gritando qualquer
coisa para prabaratma, o qual lhe respondeu em tom cantado e enyo voltou.

- prabaratma diz que timóteo está com os monges, ao cuidado deles. o que é que
ele quer dizer com isso, só a cabeça louca dele sabe.

thomas suspirou de alívio.

- ah, então, está, certamente, a tentar convertê-los. devia andar aborrecido com a
minha companhia e decidiu ocupar-se com a sua santa missão. isso alivia-lhe muito
o espírito. a propósito, se ainda não sabeis, a vossa... irmã, não é? porphredo
voltou.

enyo olhou para ele toda feliz e agradecida.

- ah, sim? e está bem?

- sim, segundo parecia.

- onde é que ela está?

- não sei. ela deixou-nos na despensa quando ouviu soar os sinos de alarme.

- deixou-nos?

- sim, ela trouxe alguns mongóis com ela.

- ai! que ocasião terrível para trazer mais estrangeiros! que terá porphredo pensado?
e se a despoina os descobre?

- ela já os descobriu. a rainha stheno está no palácio e, pelos vistos, consegue ver
através das paredes.

- sim, sim, o palácio está cheio de passagens secretas. ela pode ir onde quiser. sois
uma fonte de informações, déspotas. espero que a despoina não tenha ficado ainda
mais furiosa.

- não, acho que não. ela falou sempre em persa, em intenção do mirzá e eu só
compreendi o que me traduziram. de qualquer modo, tornou-se claro que está
determinada a prosseguir com o casamento. - uma inspiração surgiu na mente de
thomas, que perguntou a enyo: - dizeis-me que há passagens secretas, enyo, e eu
não quero casar com uma mulher louca: não quereis ajudar-me a fugir?

- não! - enyo agarrou-lhe na manga. - não podeis fugir agora, déspotas. esse
casamento é a única coisa que pode evitar que ela transforme a cidade toda em
pedra. ela está zangada por o povo lhe ter desobedecido, se vós lhe estragais o
casamento, quem sabe do que seria ela capaz? se o casamento, por mais horrível
que vos pareça, a acalmar e lhe devolver o senso humano, quantas vidas não
salvareis? quando tudo isto tiver passado, talvez a sua atenção se volte para outras
coisas. ela é como uma criança, a atenção é-lhe facilmente desviada. podereis,
então, escapar e esquecer tudo o que aqui se passou.

por favor, déspotas, peco-vos, pela vida de centenas de pessoas, ficai!

thomas franziu a testa, apertou os punhos e, depois, distendeu-os.

- muito bem, senhora, falais muito eloquentemente em favor do vosso povo. eu não
conseguia partir a bem com a minha consciência, se o meu ato egoísta levasse à
morte de alguém, ou à quase-morte. - suavemente, ouviu-se dizer: eu fico. por
agora.

- obrigado! obrigado, déspotas. talvez não seja tudo tão mau como pensais. podeis
aprender muita coisa enquanto aqui estiverdes. agora, tenho de encontrar a minha
irmã. tenho muita coisa para lhe contar.

- por favor, senhora, antes de irdes, dizei-me qual o significado desta sala e desta
imagem?

- não - disse enyo. - desculpai-me, déspotas, mas este lugar é sagrado para...
alguns de nós. prabaratma não devia ter-vos trazido aqui.

- compreendo. desculpai-me, então, por ter aqui entrado, senhora. mas, já agora,
podeis, ao menos, dizer-me o que me fazia prabaratma?

- não sei qual seria a intenção dele - disse enyo -, mas aquela coroa costuma o povo
de ghagavati colocar nos animais que especialmente homenageiam. ou que vão ser
sacrificados.

- ah! muito obrigado.

com o estômago às voltas, thomas seguiu-a escadas acima e para fora da sala
tumular.

enyo encontrou porphredo no pátio de treino dos cavalos, sentada contra um pilar, a
comer de uma tigela de arroz.

- ah! o jovem déspotas não me enganou. estás de volta! correu para a irmã e
abraçou-a apertadamente, quase fazendo cair a tigela de arroz do colo de
porphredo.

- cuidado, minha irmã! esta comida é, neste momento, por de mais preciosa para
mim, não a posso desperdiçar.

- oh, estou tão contente por te ver! não fazes idéia do caos que tem havido aqui!

- já comecei a compreender, podes acreditar.


- eu tenho andado tão preocupada!

- enyo, sabes bem que stheno não me pode fazer mal nenhum. a nossa maldição
garante-nos, ao menos, isso. nós somos como os peixinhos que vivem seguros no
meio das anêmonas.

- e se os mongóis te tivessem feito em pedaços com os seus elefantes? És tão


imortal que pudesses sobreviver a isso?

- nesse caso, minha querida irmã, os pedaços arrastar-se-iam até junto de ti, para
que me pudesses refazer.

- que coisa horrível! - enyo suspirou e sentou-se, encostada ao pilar, ao lado de


porphredo. - ai, que vamos nós fazer, irmã, que vamos nós fazer?

- o que sempre temos feito em semelhantes circunstâncias. esperar. e tentar que


pouca gente seja maltratada. quantos é que stheno...

- oh, muitos! bom, não sei bem. sei de dois casos. e uma criança. uma criança! nem
dois anos tinha!

- sabes bem que a despoina não olha a idades.

- ela nunca os restaurará!

- talvez sim, talvez não.

- foi por isso que a despoina euryale nos deixou, lembras-te? sentia tanta pena pelos
crimes da despoina stheno que dava o seu próprio sangue para salvar tantos
quantos podia.

- e sensível como era, calculando que deino não ia suportar isso por muito tempo,
foi-se embora com ela.

- ah, deino! Às vezes esqueço-me que temos outra irmã. sinto saudades dela!

- saudades? passávamos a vida a discutir! ela é quase tão má e caprichosa como


stheno.

- sim, mas sempre com boas razões. gostava de saber por onde andará.

- na sua última carta dizia que ela e euryale se dirigiam para uma terra chamada o
novo mundo... - porphredo franziu a testa e ficou com um ar perturbado. - foi há
tanto tempo já!

- gostava de saber se terão lá chegado. nunca pensaste em fugir, porphredo?


abandonar a despoina stheno e viver a nossa vida... lá fora?

- claro que sim. mas eu acredito que fomos amaldiçoadas a ser companheiras da
górgone por alguma razão. sem nós, que monstruosidades não cometeria stheno?
nós estamos aqui para a manter humana.

- É estranho, ainda há pouco eu dizia ao déspotas de cabelo dourado que ele deve
fazer o mesmo, que deve ficar para o casamento, para ela se acalmar e recuperar o
senso.

- muita coisa se exige às pessoas por causa de stheno.

- houve uma altura em que o nosso companheirismo fazia sentido. euryale é de


natureza tão meiga que precisava de uma víbora como deino para ser má por ela. e
stheno é tão... insensata que precisa da tua sabedoria.

- e medusa era tão séria e tão pia que precisava de ti como a sua alegre e meiga
amiga.

- acho que sim. eu já dificilmente me lembro dela, mas lembro-me que nos dávamos
muito bem. e ela ouvia-me sempre. todos estes séculos, porém, tenho desperdiçado
a minha natureza bondosa na companhia da despoina stheno.

- eu não a diria desperdiçada. tu és muito mais do que eu a sua consciência. ela


ralha contigo porque tu lhe consegues tocar na parte dela que ainda sente alguma
coisa.

- mas porque é que não concederam a stheno a dádiva da morte?

- qual das irmãs achas tu mais merecedora de escapar à maldição deles?

- euryale.

- estás, então, a esqueceres-te de medusa. talvez, afinal, seja melhor as coisas


terem acontecido como aconteceram. uma stheno é mais do que suficiente para
duas companheiras tomarem conta.

- e como vamos nós tomar conta dela?

- por ora, esperando. vamos evitar que faça o pior. e esperar que a possamos mudar
para melhor.

capítulo xx

abeto: há muitas árvores de folha persistente com este nome, todas com as suas
agulhas e pinhas eretas nos ramos. o destilado das folhas alivia as dores do peito,
bem como as do escorbuto. uma cataplasma feita com o miolo interior da casca
reduz as erupções da pele. há quem diga que uma pessoa cura a gota se recitar um
poema a um abeto, ao pôr do sol. ou atando uma corda num ramo de abeto. É uma
árvore de júpiter e significava muito para os antigos. era, também, consagrada a
artemis, deusa da caça. alguns pagãos adoravam a própria árvore e ofereciam-lhe
sacrifícios. certos cristãos empregavam os galhos de abeto como azorragues, nas
penitências. para os irlandeses, é a árvore do nascimento e do começo e detém um
espírito feminino, se atingido por um raio, porém, o abeto é um arauto da morte...
- É como o lendário labirinto do minotauro - disse thomas a lockheart, ao pararem
num cruzamento de corredores.

tendo caído a noite, brisas frescas sopravam através dos corredores do palácio,
trazendo o aroma das flores de lótus e convidando a um passeio agradável.

enyo tinha, finalmente, instalado o mirzá e os seus homens em melhores


alojamentos e thomas oferecera o seu quarto vago a lockheart, enquanto timóteo
permanecesse com os monges hindus. depois de ter repousado toda a tarde, a
estranha disposição do escocês desaparecera e thomas estava contente por poder
gozar, de novo, da companhia do quase conterrâneo. thomas tinha o cuidado de não
se aproximar das alas em cujos pátios enyo lhe havia dito estarem a ser alojadas as
raparigas de bhagavati. não é que receasse que stheno pudesse aparecer com
propósitos fatais... pelo menos enquanto persistisse no seu precioso casamento.

- sim, mas, segundo dizes, é uma lenda muito diferente a que reside aqui. quero
dizer-te, meu rapaz, que estou cheio de curiosidade de saber que provas tens de
que esta rainha stheno é prima da célebre medusa.

- irmã, segundo ela diz. mas eu vi-a, andrew.

- o quê? e não sofreste nenhum malefício? como é que isso foi possível?

- foi como o herói perseu. com um espelho que timóteo me dera. uma noite, quando
ela veio... visitar-me, eu tinha colocado o espelho de forma a poder ver a sua figura
e a sua cabeleira de serpentes, ao luar.

a expressão de lockheart, de admiração, transformou-se em escandalizado


divertimento.

- ela visita-te de noite, é? thomas sentiu a cara a arder.

- não exatamente como a vossa imaginação vos pode levar a pensar. ela põe-se à
vontade diante de mim... ela... enquanto eu durmo... digamos que nunca fui um
amante ativo, nem sequer acordado.

- isso ainda lhe desperta mais o interesse. não admira que ela queira casar contigo.

- achais que eu posso amar semelhante criatura? não, andrew. e não quero falar
mais neste assunto. - thomas caminhou as próximas jardas mergulhado num silêncio
embaraçado e, depois, acrescentou: - se quereis saber a verdade, eu sinto afeição é
pela filha dela.

- por quem? ah, a tua bailarina aditi. ela recuperou, então?

- sim, recuperou, embora tenha levado algum tempo. talvez a possais ver, enquanto
aqui estiverdes. eu, por ora, estou proibido de falar com ela.

- presumo que não tenha sido uma visão tão pavorosa como quando de cartago
ressuscitou.

- não, foi como se despertasse de um sono prolongado.

- É, na realidade, um pó poderoso. gostava de ter visto isso.

- eu não apliquei o pó, mas o próprio sangue fresco de stheno.

lockheart parou, de olhos abertos para thomas.

- como?

- É a pura verdade. e tínheis razão, o rasa mahadevi é, na realidade, sangue,


embora de um demônio que se arma em deusa. a fonte do pó miraculoso é a própria
stheno.

- maravilha após maravilha - murmurou o escocês. portanto, foi a própria rainha


stheno que, naquela noite, foi salvar a filha.

- sim, a própria em pessoa.

lockheart coçou a barba.

- isso explica o que aconteceu a mumit. e ao pobre joaquim.

- joaquim? que lhe aconteceu?

- não sabes? joaquim morreu, meu rapaz. nessa mesma noite, mordido na cara por
víboras venenosas. ficámos todos sem perceber como é que ele teria sido mordido.

thomas fechou os olhos e apertou os punhos.

- ela incitou-o a meter-se na sombra das árvores para lhe dar um beijo.

pobre joaquim. merecia melhor sorte.

thomas bateu com um punho na palma da outra mão.

- que monstro! oh, ela vai ter de responder por muita coisa, andrew! há aqui uma
cripta onde eu estive e onde ela conserva as vítimas que transformou em pedra.
aguardam ali o regresso à vida, o qual nunca acontecerá, pois ela tem poderes para
isso, mas não os aplica.

- acredito no que dizes, meu rapaz, inteiramente, pois eu próprio já vi provas disso,
embora não soubesse entendê-las.

- mas há mais. há aqui uma cave, escavada na terra, onde ela guarda uma estátua
medonha, representando alguém semelhante a ela. um dos seus monges levou-me
lá e começou a executar um ritual de sacrifício comigo.
os olhos de lockheart ainda mais se abriram.

- isso não está certo. ainda não chegou a tua altura.

- estais a brincar, andrew? eu não sabia o que estava a acontecer, até que enyo
apareceu e pôs termo àquilo. oh, fora eu um guerreiro com a coragem de perseu e
de boa mente deceparia a cabeça de stheno num instante!

- espera, tem calma, meu rapaz. sê de metal mais maleável, pois o ouro vale mais
do que o aço. pensa nas maravilhas que podemos obter aqui.

- oh, não há aqui nenhumas maravilhas. há uma biblioteca com obras do mundo
inteiro e de civilizações com milhares de anos, até abraão, mas está tudo num caos!
um sábio levaria uma vida inteira a estudar uma única prateleira. stheno, porém, não
sabe o que ali tem, nem se importa com isso. na sua dourada majestade, deixa o
entulho de milênios acumular-se nas suas salas.

- então não a condenes tão depressa, meu rapaz, pois, ao menos, teve o senso de o
reunir. se eu vivesse mil anos, sei lá que conhecimentos não iria esquecer e o que é
que consideraria importante? e, depois, há a grande maravilha da própria stheno,
com o sangue que dá vida a correr-lhe nas veias. tu próprio dizes que devotaste a
vida a aliviar o sofrimento e as dores dos outros tão afincadamente como um físico.
não vês as possibilidades que aqui se encontram?

- que sugeris, andrew? que a capture e lhe extraia a seiva como se fosse um ácer?
pondo em risco a minha vida e de outros? ou talvez oferecê-la à rainha elizabeth
como curiosidade para a sua corte? os escultores reais poderiam, então, ser
dispensados: não se veriam bustos mais parecidos dos que os de stheno.

- tom, tom, estás a torcer-te em nós mais estranhos do que os de um lençol de uma
mulher desleixada. acalma-te e anima-te.

- isso é fácil de dizer, para quem não está destinado a ser o noivo dela amanhã. ah,
aqui... aqui está mais uma das suas estranhas fantasias.

estavam junto de um dos portões de ferro do jardim sagrado onde thomas se havia
encontrado com aditi, na noite anterior.

- a acreditar em enyo, este jardim é uma cópia de um jardim sagrado da europa. a


rainha stheno considera-o sagrado, mas nunca o visita. - thomas empurrou o portão
e viu que estava aberto. - vinde, andrew, vinde dar-lhe uma vista de olhos.
lockheart seguiu-o, perguntando:

- não estamos a transgredir, dado que é terreno sagrado? thomas quase correu pelo
bem tratado carreiro entre os carvalhos e os ciprestes.

- não me interessa e acho que a stheno tão-pouco. vinde, andrew, vede. aquele
tanque representa um lago, aqueles montículos representam montanhas e aquelas
colunas além um templo.

thomas ouviu um gemido atrás dele e voltou-se. lockheart estava caído de joelhos,
os olhos esgazeados, a cara pálida como se tivesse sofrido um ataque mortal.
murmurava qualquer coisa em grego, tão baixinho que thomas não conseguiu
entender.

- andrew, que aconteceu?

- portanto - suspirava o escocês, passando os dedos pela gravilha do carreiro, como


que a acariciá-la -, tem de ser aqui!

- o que é? o que é que isto significa para vós?

- eu conheço este sítio, tom. É um santuário em itália.

- dedicado à vossa... à nossa deusa?

- a essa mesma. oh, logo havia de estar aqui a imagem, dominada pela imagem de
artemis, uma rainha da vida e da morte. e do renascimento.

thomas sentiu que o regresso de lockheart ao seu estranho comportamento lhe


acalmava a tempestade interior de medo e de ira.

- estáveis à espera de encontrar... isto?

- não, isto não. simplesmente um sinal. mas não pode haver maior sinal do que este.
- lockheart ergueu-se, limpando as mãos aos fundilhos das calças. - agradeço-te e,
contudo, não te agradeço por me teres mostrado isto.

- andrew, o que é que vos aflige?

- o meu tolo apego e os caprichos do destino, é isso que me aflige. nunca enchas o
coração de desejos, se queres viver contente. contar-te-ei tudo oportunamente. mas,
agora, vamos, um noivo deve repousar na véspera das núpcias. voltemos aos
nossos quartos. não vou olhar para este verde e agradável lugar mais do que devo.

- como quiserdes.

quando thomas passava por ele, lockheart agarrou-o pelo ombro. havia medo e uma
esperança terrível nos seus olhos.

- eu, uma vez, censurei-te por teres ressuscitado o padre. peço-te, sinceramente,
desculpa por isso.

- não, andrew, vós nunca me censurastes.

- ah, não? então, pensei em fazê-lo. tu dizias que nunca desejaste a morte de
ninguém, não era?

- sim, e continuo a dizê-lo.

- salvo a da górgone.

- ela não é humana.

- pois. eu, em tempos, considerava essa tua filosofia uma tolice, mas, agora, já não.
peço-te que te lembres disto e, contudo...

lockheart franziu o sobrolho e apertou o ombro de thomas, como se quisesse


espremer-lhe algum humor da carne. thomas estremeceu.

- oh, andrew, não vos esqueçais que ainda estou a recuperar.

lockheart largou-o.

- peço perdão. vamos.

porphredo esperava no escuro. devia estar a dormir, mas o sono tinha de esperar.
com enyo e aditi, tinham conseguido meter na cama as raparigas de bhagavati.
duzentas raparigas que, embora amedrontadas e submissas, tinham sido uma tarefa
árdua para as três mulheres, coadjuvadas por alguns monges cegos. especialmente
quando as questões de família e de casta determinavam quem não podia dormir
junto de quem.

ah, as tarefas que nos impões, despoina.

porphredo ouviu um som, um raspar de madeira na pedra e um ligeiro sussurro,


como o perpassar de vento por galhos nus. sorriu.

distinguiu o brilho de uma vela de junco, decerto acesa num dos braseiros de
incenso, num dos translúcidos biombos em frente dela. o brilho tornou-se mais vivo,
ao ser acesa uma lâmpada de óleo. quando ouviu a vela ser soprada, porphredo
afastou o biombo.

- boa-noite, despoina.

num sobressalto, stheno recuou, os seios a balançar, as serpentes freneticamente a


chicotearem-lhe na cabeça, incapazes de encontrarem um alvo para atacar. os olhos
de stheno brilharam vermelhos um instante, o tom vermelho logo desaparecendo.

- porphredo!
- ah, ainda te lembras de mim. estava a pensar que já te tinhas esquecido. sei bem
como a idade afeta a memória.

- o que é que tu queres?

- o quê? nem um ”bem-vinda, porphredo”? nem ”como é que isso correu com os
mongóis”? nem ”prazer em ver-te de regresso, porphredo”? como a afeição se dilui
em poucos dias!

stheno afastou dos olhos umas quantas serpentes, com um gesto idêntico ao de
uma mulher afastando impertinentes madeixas de cabelo.

- porque havia uma rainha de dizer coisas desse gênero a uma criada? eu
encarreguei-te de uma missão e confiei que a desempenharias. e, agora, voltaste.
se esperavas mais, tens de engolir o teu orgulho e lembrares-te do teu lugar.

- ah, pois, eu esperava encontrar uma rainha, ao regressar. em vez disso, verifico
que bhagavati está a ser ameaçada por um monstro. se me disseres onde está a
rainha desaparecida, eu terei todo o prazer em lhe fazer o relato do que aconteceu
com os mongóis.

emoções se degladiaram na expressão de stheno, mas porphredo não conseguiu


perceber quem vencia, se a raiva, se o pesar.

- tu és considerada sensata, porphredo, devias saber fazer melhor do que


escarnecer, quando não compreendes a situação.

- pois bem, isso é parte do que me traz aqui. eu formei uma impressão interessante,
de tudo o que vi e ouvi. tu interpretaste mal a minha sugestão e decidiste alojar no
palácio apenas raparigas solteiras. interpretaste mal o teu povo, levando a mal que
eles tentassem preservar as suas famílias. interpretaste mal porque é que eles se
dispuseram a infringir a tua proclamação. e, sem sombra de dúvida, não entendeste
que a tua chamada de atenção para o teu poder de deusa foi um grande erro.

stheno endireitou-se mais, recuperando a compostura.

- eu acho que não sou eu quem interpretou mal. a tua missão era fazer com que os
mongóis não nos descobrissem. em vez disso, trazes alguns contigo para bhagavati.
o que é que eu devo pensar da tua deliberada traição?
- ah, já viste as prendas que te trouxe, despoina. eu trouxe o mirzá porque sei como
te delicias com as intrigas estrangeiras. ele trouxe com ele uns homens com uma
pequena questão de justiça que te pode interessar. e eu trouxe um homem de uma
nação do norte de que nunca ouvimos falar. e, também, um sufi, pois sei como te
divertes com os sufis.

- divertiam-me, em tempos, mas já estou farta deles. o que é que pretendes que eu
faça com esse mirzá? se o mantenho aqui ou se o mato, vão perguntar por ele e o
seu imperador pode mandar mais gente à procura dele. como é que te atreves a pôr
em perigo desta forma todo o esquema que montamos?
- eu esperava - disse porphredo mansamente - que encontrasses solução mais
criativa do que a morte ou a prisão. esperava que aproveitasses gratamente a
oportunidade de fazer parte de um mundo maior, mais como uma governante do que
como uma aranha queda no centro da teia, à espera do que venha ter com ela.
pensa nisso, despoina. será melhor ser uma deusa temida e adorada por poucos, ou
uma rainha admirada por milhares, conhecida de reis e de imperadores de todo o
mundo civilizado? preferes continuar a pertencer à família dos monstros lendários,
ou preferes ser celebrizada na história pelas tuas elevadas capacidades? preferes...

- muito bem, já expuseste as tuas razões. - stheno cruzou os braços e pôs-se a


caminhar de um lado para o outro no pequeno quarto. - mas digo-te, embora não
consigas compreender as razões, que o meu passeio foi necessário e que o meu
casamento é necessário. - nos olhos de stheno surgiu um brilho brusco que
porphredo reconheceu como de dúvida. - tu falas de história e de lendas, mas isso
são coisas frias, porphredo. atena terá desgastado a tua carne e os teus ossos, mas
o meu coração e a minha carne estão bem preservados. não podes perceber o que
eu desejo.

- ah, pois - disse porphredo friamente. - amor. eros.

- tu julgas que se trata apenas da junção da carne, mas o que eu procuro é a junção
do espírito.

- posso, humildemente, avançar, despoina, que procuras essa junção de uma forma
muito insólita?

- e o que é que sugeres, velha fúria?

- como os poetas antigos diziam, o amor escapa tal gamo perseguido. espera
pacientemente e ele vem ter contigo, embora, muitas vezes, de fonte inesperada e
imprevisível.

- eu esperei muitos séculos, porphredo. e não vou esperar mais. - o tom de voz dela
era suave e dramático, porphredo, contudo, apercebeu nele um laivo de dor. stheno,
porém, depois de olhar demoradamente para a chama da lâmpada, voltou-se
bruscamente e disse:

- não tens mais nada de importante a dizer-me sem ser implicar comigo?

- não, despoina, e essa é a minha missão.

porphredo, contudo, sabia que stheno estava sem paciência para a ouvir mais e
voltou-se para sair. porém, parou junto à cortina de contas e disse ainda:

- de qualquer modo, despoina, tenta não seres uma deusa, mas uma rainha. tens
capacidade para ser grande. sê uma rainha.

o padre antónio gonsção encostou-se ao pesado batente de madeira e, lentamente,


conseguiu abri-lo. todos os músculos do corpo lhe doíam, devido à fuga do
acampamento mongol. toda a tarde e noite dentro, ele, os soldados e gandharva
tinham-se arrastado por passagens pedregosas, por entre rochedos e gargantas
rochosas. tinham descansado apenas alguns minutos de quando em quando,
movidos pelo medo da perseguição e empecilhados pelo cego e pela rapariga, agora
morta. a última parte da louca fuga fora por um túnel, escavado no interior da
montanha rochosa. grande parte dele eram escadas ou rampas inclinadas, por onde
tinham tido de adivinhar o caminho no meio de completa escuridão. aí, a cegueira de
gandharva não constituíra nenhum estorvo.

gonsção nunca se imaginaria capaz de semelhante esforço físico, à partida de goa.

não há dúvida de que deus concede milagres aos que precisam deles.

por fim, conseguiu empurrar o batente o suficiente para passarem.

- o que é que vedes? - perguntou gandharva atrás dele.

- há muitas velas - disse gonsção, piscando os olhos perante a luminosidade. - É


uma sala grande... ah, vejo um enorme ídolo encostado à parede, à esquerda. está
rodeado de velas e de tigelas votivas.

- oh, então foi por aí que entramos? - disse gandharva.


- isso é o templo principal dedicado à mahadevi e está perto do centro da cidade.
não estamos longe do palácio. vê-se alguém?

- não - disse gonsção. - não vejo aqui ninguém. tentou evitar olhar para o horrível e
obsceno ídolo pagão que enchia a parede, com os seus inúmeros braços e os seus
assombrosamente enormes seios. como pode alguém pensar em questões divinas
ao olhar para semelhante... coisa.

gandharva passou por ele para dentro da sala e bradou qualquer coisa em voz alta.

- chiu! para que estais a anunciar a nossa presença? segredou gonsção.

- não tendes que ter receio, monge da orlem gor. eu sou conhecido da maior parte
dos brâmanes de bhagavati, pois já toquei em muitos dos seus templos. eles
prontamente nos ajudarão, se eu lhes pedir.

mas o interior do templo continuava silencioso.

- É estranho - continuou gandharva. - É muito estranho, há sempre aqui alguém,


nem que seja um ou outro acólito.

- padre! - chamou estêvão, dentro do túnel. - podemos sair daqui?

perante a aquiescência de gandharva, gonsção respondeu:

- sim, podem entrar. parece que estamos em segurança. carlos e estêvão


irromperam, transportando a falecida

pramlocha, que colocaram suavemente no chão de pedra.


- dizei-me - disse gandharva para gonsção -, qual é o aspecto da deusa? É terrível
ou benigno?

- como?

- a estátua - insistiu gandharva - está a sorrir ou com ar carrancudo?

gonsção olhou para o ídolo e disse:

- está com o ar carrancudo da mais terrível fera que eu jamais vi.

- hum! isso é mau sinal. dissestes que havia oferendas em frente dela. que tipo de
oferendas?

- para que quereis saber isso? não é melhor sairmos daqui? com extrema paciência,
gandharva replicou:

- quero saber porque podemos saber muita coisa consoante o que ali estiver. por
favor!

gonsção deu uns passos, aproximando-se do ídolo.

- eu não reconheço estas coisas. há... grandes flores vermelhas. e um líquido


dourado que parece óleo. e arroz.

- e dizeis que em grande quantidade, não é?

- sim, as tigelas enchem todo este lado da sala.

- essas coisas são, geralmente, oferecidas por ocasião dos casamentos. deve haver
um grande casamento na cidade. talvez o da filha do alcaide. continuo, porém, muito
admirado que não haja aqui ninguém a orar pelo casal.

- É capaz de já ser muito tarde - disse gonsção. - eu perdi por completo a noção do
tempo.

- isso não quer dizer nada - disse gandharva.

- achais que devemos descansar aqui, ou vamos seguir?


- perguntou gonsção.

- não, não, vamos sair daqui. mas temos de fazer ainda uma coisa. como estais
mais perto dela, vou pedir-vos mais um favor. entre as pernas da mahadevi
encontra-se um frasco de rasa mahadevi. por favor, ide buscá-lo, para tratarmos de’
pramlocha, e depois seguimos.

gonsção endireitou-se e voltou-se para encarar gandharva.

- não!
- o quê? por favor, não é altura para susceptibilidades. se a queremos salvar,
precisamos do rasa mahadevi.

apesar do cansaço, gonsção sentiu como que um prego a pregar-lhe a alma.

- não, eu não toco nessa substância. gandharva suspirou profundamente.

- para que quisestes trazê-la, então? sois louco? queríeis que os mongóis nos
agarrassem?

- eu quis trazê-la para que pudesse ser sepultada com dignidade, de harmonia com
os costumes da sua gente.

- a gente dela está em bijapur! - exclamou gandharva.

- estou a entender o que ele diz, padre - perguntou estêvão -, que o pó miraculoso
está aqui e que nós podemos fazer reviver a rapariga?

- sim, mas eu não vou pôr a minha alma em perigo para o ir buscar.

- então, dizei-me onde ele está e eu vou lá buscá-lo.

- achais que eu tenho menos consideração pela vossa alma do que pela minha?
não, meu filho. ela deixou este mundo para seguir o destino que a sua vida pagã lhe
inculcou. deixai-a descansar em paz.

- mas, padre, se ela voltar à vida, podeis convencê-la a abandonar a sua fé pagã e
salvar-lhe a alma.

gonsção soltou um suspiro.

- É assim que se escorrega pela vertente da virtude abaixo, usando as armas do


demônio em nome de deus!

- o pó trouxe-vos de volta - disse carlos. gonsção fechou os olhos e levou as mãos à


cabeça.

- isso passou-se sem o meu conhecimento e sem o meu consentimento. se tivessem


podido perguntar-me, eu teria recusado.

- então, deixai-me ser eu a ir buscá-lo - disse carlos. eu matei um homem em goa e


já estou condenado. a minha camisa está manchada do sangue dela e eu ouvi os
seus últimos suspiros, quando ela morreu às minhas costas. deixai-me ajudá-la.

- há ainda muita coisa que podeis fazer para serdes perdoado - disse gonsção. - e
fazê-la voltar à vida por meios malignos não lava da vossa alma a mancha do vosso
crime.

carlos, porém, ignorou-o e voltou-se para gandharva.


- onde é que está o pó? ubi... est...msa mahadevi?

- no meio das pernas do ídolo, ao cimo - disse o músico cego. - a nossa mahadevi
tem um certo sentido de humor.

demasiado cansado de corpo e de espírito para o deter, gonsção observou


tristemente o soldado a saltar por cima das tigelas votivas para chegar junto da
estátua. carlos tateou na área que gandharva indicara e, por fim, retirou uma
pequena lata, em forma de falo.

- tem sentido de humor, na verdade - disse carlos. É uma pena que joaquim não
esteja aqui conosco, este é o gênero de humor que ele apreciava.

gonsção desviou os olhos, enojado.

santa maria, como é facilmente corrompível o coração do homem! concedei-me o


poder de destruir a fonte deste pó, o qual comporta tentação idêntica à do ouro ou
da carne.

em latim, lentamente, atabalhoadamente, carlos perguntou a gandharva:

- damos... a ela... isto... agora.

- não, não! vamos esperar para quando estivermos no palácio, para a fazermos
voltar à vida mais comodamente. ela pode esperar mais uns minutos, acho eu.
vamos.

carlos e estêvão pegaram no corpo da rapariga, gandharva indicou o caminho para


onde devia ser a saída do templo e gonsção, cambaleando de cansaço, seguiu-os.

depois de uma série de portadas com cortinas, emergiram na noite, no cimo da


escadaria do templo. gonsção viu diante de si e em baixo uma grande praça
iluminada pelo luar. a três lados da praça quadrada, havia edifícios semipiramidais
que pareciam vivos e rastejantes, com embutidos de animais e de figuras humanas
em movimento paralisado. no centro da praça, a estátua de um elefante, sentado
numa plataforma.

ao fundo da praça via-se uma multidão de gente em pé ou de joelhos, nos amplos


degraus de uma escadaria que conduzia a um par de portões brilhantes, numa alta
muralha de pedra. atrás da muralha havia uma montanha, ou uma amorfa
construção erguida sobre uma montanha, gonsção não conseguia perceber bem. as
pessoas na escadaria tinham velas ou lâmpadas nas mãos, chorando e soltando
lamentos. era uma cena de pesadelo. para gonsção, era como se um dos círculos
do inferno tivesse sido transportado para a terra.

gandharva deu um estalo com a língua.

- não gosto nada do que estou a ouvir. vamos ver o que é que aconteceu.
gonsção não estava nada interessado em descer para aquele lugar que lhe era tão
estranho. até bijapur, por comparação, lhe parecia agora familiar, à escala e
desenho humanos. aquela cidade escondida só podia servir para demônios. não
obstante, gonsção, entorpecido, seguiu os seus homens e gandharva, descendo as
escadas do templo.

junto do elefante de pedra, toparam com uma mulher, em pé ao lado de uma estátua
de criança, chorando. gandharva pediu a gonsção para o levar junto dela e falou
com ela um bocado. a voz da mulher era estridente e rouca, como se estivesse
doente ou tivesse estado a gritar durante horas. por fim, gonsção perdeu a paciência
e interrompeu a conversa.

- oh, homem, o que é que ela está a dizer? gandharva abanou a cabeça.

- chegamos em má altura, monge da orlem gor. a mahadevi não está em si própria,


ou, melhor dizendo, está sob uma face diferente de si própria. eu já ouvi falar de
fases em que ela esteve assim e essas fases eram más. de qualquer modo, eu
tenho de cumprir a minha missão e levar-vos junto dela, como ela ordenou. tenho
pena dos vossos soldados, pois parecem boas pessoas. espero que ela tenha
piedade deles.

- mas não tendes pena de mim? - perguntou gonsção.

- quanto a vós, pouco há a dizer - respondeu gandharva.

- vamos, vamos terminar a nossa viagem para podermos, então, descansar. levai-
me para a escadaria do palácio.

- os degraus estão cheios de gente.

- eu tratarei disso.

gonsção agarrou no cotovelo do músico e conduziu-o para junto da massa dos


impetrantes.

gandharva gritou qualquer coisa numa língua estranha. as pessoas calaram-se e


voltaram-se para ele. gandharva levantou os braços e tornou a falar. as pessoas
pegaram nas suas velas e nas suas lâmpadas e, silenciosamente, afastaram-se,
abrindo uma passagem na escadaria, para eles subirem até às portas de bronze.

gonsção lembrou-se da bíblica separação das águas, mas a comparação não o


tranquilizou.

- podemos passar? - perguntou gandharva.

- sim, eles abriram uma passagem.

- vamos, então, subir.

enquanto subia, com a mão do cego no ombro, gonsção viu as portas ao cimo da
escadaria abrirem-se lentamente. ao aproximar-se do escuro portal, invadiu-o um
pavor frio, não obstante, continuou a mover as pernas, um passo após outro.

capítulo xxi

lÓtus: este lírio aquático é a flor mais sagrada de todo o oriente. tem umas folhas
redondas e largas que flutuam na água e dá umas flores com muitas pétalas
brancas ou de um matiz rosa. as sementes guarda-as numa grande vagem redonda.
todas as partes da planta se podem comer, designadamente a raiz. mastigar a folha
de lótus reduz o torpor provocado pelo calor, bem como os achaques das mulheres.
a tisana das sementes moídas é um excelente tônico. a flor é um símbolo de beleza
e a matriz da criação, da fertilidade, da procriação e preservação da vida, da
ressurreição e da imortalidade. usa-se como adorno para dar sorte e cura os
desgostos de amor. consideram, também, as flores como receptáculos da alma e
usam-se as pétalas para embrulhar as oferendas de comida aos mortos...

thomas estava sentado numa plataforma dourada, com dossel, sobranceira a um


pátio central do palácio de stheno. diante dele, de costas, estavam ajoelhadas, a
cabeça inclinada, centenas de raparigas em saris vermelhos, magentas e dourados.
uma brisa fresca e mansa ondeava-lhes as vestes, dando a ilusão de vagas num
oceano.

um mar de sangue, pensou thomas amargamente.

o pátio ficava situado na parte mais antiga do palácio. aquela, dissera-lhe enyo, que
em tempos fora um templo, na época em que stheno chegara a bhagavati. na
verdade, as paredes haviam sido talhadas no próprio basalto da montanha e as
bailadoras figuras humanas que as adornavam do chão ao topo estavam
desgastadas, e quase indistintas, pela ação de séculos de chuva e de vento. thomas
lembrou-se das almas empedradas da cripta e teve de dominar um estremecimento.

incomodo na túnica e turbante tecidos a ouro, thomas olhou para além da parede
mais afastada do pátio, onde a pálida lua se punha num amontoado de nuvens
distantes.

foras tu, realmente, a minha protetora e terias evitado isto, ou desfarias este meu
travesti.

thomas teve de considerar, contudo, que, se o seu pai, lockheart e outros do mesmo
culto estivessem errados, o evento que se desenrolava diante dele podia, muito
bem, ser obra de um irado deus cristão.

estava sentado com enyo à sua direita e prabaratma à sua esquerda. supunha que
eles estavam ali a fazer de pai e de mãe, embora não pudesse imaginar
progenitores mais estranhos do que aquele louco monge hindu e aquela lendária
anciã.

tudo isto é uma completa loucura. para salvar, talvez, a vida de muita gente, vou ter
de suportar este rito. porém, de todo o modo, garanto que, para stheno, não vai
haver êxtase na noite de núpcias.
prabaratma pôs-se a balbuciar todo contente ao lado dele, apontando para o pátio. o
monge vestia apenas um dhoti, ao pescoço um colar de safiras que lhe roçava na
comprida barba, o cabelo cinza e preto caído nas costas numa espessa trança.
thomas ouvia-o repetir sem cessar a palavra shakti. inclinou-se para enyo e
perguntou-lhe:

- o que é que ele está a dizer? o que é shakti? enyo franziu a testa.

- É difícil de traduzir. É o poder feminino da criação. pelos vistos, ele está outra vez
com visões.

- quereis referir-vos à capacidade de conceber? mas isto era para ser um casamento
infecundo? eu pensava que a idéia de trazer as raparigas para aqui era essa, era
evitar que elas se casassem com homens e tivessem filhos? quanto a mim, digo-vos
que não tenciono fazer filhos a stheno.

- segundo parece, prabaratma encara isto como sinal de um grande nascimento.


uma nova deusa. um mundo novo. embora eu não seja muito versada na religião
hindu, sei que estes ciclos de renascimento são coisa comum no pensamento deles.

- ah!

thomas decidiu que era melhor não fazer mais comentários acerca da loucura de
prabaratma, para evitar qualquer ofensa. começava a perceber que o paganismo era
algo mais complexo do que o simples inclinar de cabeça perante os ídolos ou o
bailar à noite, ao luar, coberto com um lençol.

a parede do lado norte do pátio quadrangular tinha um andar em galeria, cheia de


monges de pele escura, envergando casacos magenta e com coroas de flores na
cabeça. alguns pareciam rezar. a thomas pareceu-lhe, de vez em quando, distinguir
entre eles timóteo, sentado, pálido e quedo.

na galeria da parede do lado sul, oposta à dos monges, estavam o mirzá e os outros
mongóis, lockheart e os músicos, entre os quais um que thomas reconheceu.

- gandharva? será possível que...

- gandharva! - exclamou enyo. - ele está cá?

- não é ele que está ali, com os outros músicos?

- ah, sim, é ele! oh, estou tão contente que ele tenha regressado a tempo de assistir
a isto! ficaria muito desapontado se perdesse isto.

- aquele homem está em todo o lado! mas, como é que ele pode estar aqui? a última
vez que o vi foi no acampamento mongol. talvez tenha vindo com os homens do
mirzá, mas não estava com eles quando surgiram da parede.

enyo sorriu-se.
- o nosso amigo gandharva tem inúmeros talentos. pode ter regressado sozinho.

- É um homem talentoso, na verdade. mas que instrumentos são aqueles dos


músicos em redor dele?

- bem, são na maior parte tambores e flautistas da casta madiga, que costumam
tocar nos casamentos. está lá também um percussionista de pegu, o qual toca
campainhas e repica sinos. e liras e pandeiros da nossa terra. ainda bem que a
despoina não se esqueceu deles.

thomas pensou que distinguia um laivo de profunda saudade nos olhos de enyo e,
por isso, não disse mais nada.

por baixo deles, viu a alta e imponente porphredo a movimentar-se por entre as
raparigas, de quando em vez inclinando-se a falar com uma ou outra. no lado oposto
do pátio, linda e elegante num sari verde cor de esmeralda, aditi fazia o mesmo.
thomas suspirou ao vê-la, desejando que fosse ela a juntar-se a ele naquela
cerimônia.

as razões dela para se afastar de mim são justas, mas o meu coração continua um
louco que não dá ouvidos a palavras sensatas.

o trinar das flautas e o estrondo dos tambores começaram de repente,


sobressaltando thomas. sem nenhum sinal que ele tivesse enxergado, os músicos
começaram a tocar uma viva, embora pouco compreensível, toada. monges que se
tinham mantido na entrada norte do pátio começaram a caminhar em procissão na
periferia, cantando em voz alta, muitas vezes em desacordo com a música. thomas
perguntava-se se seriam as apressadas preparações de stheno que provocavam
aqueles contrastes de som, ou se aquilo faria parte dos usuais ritos hindus.

quando os brâmanes terminaram o passeio, voltando ao local de partida,


começaram a soar as grandes trompas que thomas já havia ouvido na sala do trono
de stheno. de novo, uma em cima da outra, as trompas acrescentavam camadas de
som até thomas pensar que as próprias pedras iam tombar das paredes do pátio.

provavelmente, foi com trompas deste gênero que josué fez ruir as muralhas de
jericó.

um novo grupo de monges, vestidos de branco, entrou do lado este. transportavam


um palanquim, no qual se via um ídolo de madeira com quatro braços, sentado
sobre uma pele de tigre. a cara do ídolo tinha um olho a mais, na testa, e, por cima
desse olho, um crescente de lua. o peito era cinzento, com cinza espalhada e tinha
peles de serpente atadas à volta do pescoço, este pintado de azul. o ídolo
envergava apenas uma coroa de flores escarlates, um enorme falo preto a sair-lhe
do escroto.
- aqueles são monges da casta jangam - explicou enyo e carregam uma imagem de
xiva, que é o aspecto que a despoina toma nesta cerimônia.

- e que espécie de deus é este xiva?


- É o deus da sorte, da prosperidade e da abundância. ensina-nos as artes e a cura
das doenças. É, também, o deus do sacrifício, da destruição e da ressurreição. tudo
muito apropriado para a nossa despoina, receio bem.

- compreendo.

thomas ter-se-ia rido, não estivera ele tão pessoalmente envolvido no processo. os
monges saíram com o ídolo pela ampla arcada da parede ocidental e
desapareceram. thomas olhou para o céu e notou que as nuvens estavam
nitidamente mais altas do que antes. observou-as por momentos e verificou que se
aproximavam a grande velocidade e se tornavam cada vez mais escuras e mais
volumosas. uma rajada de vento soprou-lhe no turbante e sentiu no ar o cheiro a
chuva.

- esta parte é o lagnam - disse enyo, quando thomas tornou a olhar para o pátio.

os monges jangam tinham voltado, sem o ídolo, e movimentavam-se, agora, entre


as raparigas ajoelhadas, colocando um fio de contas pretas ao pescoço de cada
uma e um anel de ouro no segundo dedo do pé direito das mesmas.

- há várias formas de casamento para os hindus - continuou enyo. - por exemplo, o


brama, que é o casamento entre os da mesma casta. ou o daiva, em que uma filha é
dada a um monge, em paga de serviços prestados. há, também, o prajapatya, em
que uma rapariga casa, apesar de não ter dote...

- e o que chamaríeis a este tipo de casamento?

- não sei bem - disse enyo, confundida -, embora se pareça mais com o rakshasa,
casamento por captura.

enquanto os monges jangam continuavam com a sua entediante tarefa, os monges


brâmanes voltaram, trazendo pequenos braseiros de bronze, os quais colocaram
numa fila, em frente da plataforma onde thomas se encontrava sentado. os monges
aspergiram qualquer coisa sobre as brasas dos braseiros e thomas aspirou um
aroma penetrante no fumo que se soltava.

cânhamo, talvez. ou haxixe. bem, isto quebra um pouco o tédio.

a luz do dia escurecia nitidamente e o vento soprava mais forte e mais frio.

- parece que vai rebentar uma tempestade - disse thomas.

- oh, não! uma monção de inverno neste dia, não! coisa rara para acontecer agora.
contudo...
- contudo?

- xiva é, também, o deus das tempestades.

- então, é apropriado - disse thomas com crescente e vingativo prazer. - a nossa


despoina nem pode sentir-se desapontada.

thomas ouviu um ribombar que se prolongou demasiado para simples trovoada. algo
emergia da arcada oeste, algo em grande: surgiu uma enorme carroça, com uma
imagem de xiva igual à outra, só que muito maior do que a que os monges haviam
carregado, umas quatro vezes o tamanho de um homem.

- espantoso! - disse thomas. - É como se o primeiro ídolo tivesse crescido.

- esperai! - disse enyo.

a música parou e a grande figura juntou as muitas mãos e fez uma lenta vênia. um
sussurro de admiração e de respeito perpassou pelas raparigas. thomas ficou de
boca aberta.

- É um boneco - segredou-lhe enyo, no tom de uma criança que conhece um


segredo mágico. - É a própria despoina que o comanda, por meio de cordas. ela
está escondida numa cavidade na parte de trás. ela já o utilizou diversas vezes
anteriormente, mas há tantos anos que nenhuma destas crianças ainda o vira.

- ela não receia que a vejam?

- hum? oh, não, ela está bem escondida. e, neste gênero de rituais, os crentes vêem
apenas a imagem divina e não o manipulador.

prabaratma ergueu-se e fez um pronunciamento em voz alta. as flautas trinaram e


os tambores ribombaram um momento. depois, apareceu um homem ao lado da
plataforma deles e pôs-se a declamar.

- este é o gamabhojaka, o alcaide de bhagavati - explicou enyo. - representa,


digamos, os pais de todas as raparigas aqui presentes. e oferece-as a xiva.

uma voz grave, bem audível, soou em resposta, por baixo do enorme ídolo, de novo
para grande espanto de thomas.

- tubos falantes - disse enyo. - os antigos monges usavam-nos e ensinaram a


despoina a funcionar com eles.

- deveras impressionante! - murmurou thomas.

um ribombo que não era de tambores nem de carroças troou à distância e thomas
julgou ver um relâmpago nas nuvens cada vez mais próximas.

- e, segundo parece, o deus xiva também está impressionado.


o boneco-xiva sentou-se e abriu os braços como se se dirigisse a todos os que se
encontravam no pátio. de novo, a sinistra voz de deus soou debaixo da carroça.

- ela está... a fazer as promessas de casamento. diz que as raparigas serão


adequadamente instruídas na sua fé, que conhecerão riqueza e conforto, que não
ficarão desiludidas, que conhecerão... amor casto e imortal.

o vento começou a soprar forte e constante. thomas teve de agarrar o turbante. o


dossel púrpura por cima deles batia e esvoaçava perigosamente. as pessoas no
pátio começaram a olhar para cima com ar preocupado e com comentários para os
vizinhos.

com uma voz estranhamente nervosa, xiva tornou a falar.

- ela... ele diz que a ele, deus xiva, lhe apraz a chuva benfazeja e que a oferece
como presente de casamento à cidade de bhagavati.

os trovões ribombaram de novo, mais próximos.

uma mulher de meia-idade, segurando o sari com uma das mãos, surgiu do lado
direito da plataforma, tentando colocar uma taça de arroz amarelo no braseiro
diretamente em frente de thomas, mas o vento derrubou a taça, espalhando o arroz.
com uma expressão de consternação, a mulher, não obstante, voltou-se e dirigiu-se
ao ídolo.

- ela representa as mães das raparigas, dado que é a mulher do alcaide - disse
enyo. - está a invocar a bênção de que a união seja... bem, o termo usual é fértil. ah,
mas ela diz... bem-sucedida.

o xiva de madeira começou a falar outra vez e, então, estalou a tempestade.

grandes bátegas de chuva, misturada com lama, embateram na cara de thomas,


espalhando-se em redor. o dossel rasgou-se e desapareceu na chuva tempestuosa.
thomas mal conseguia ver à volta dele. ouvia os gritos das raparigas e prabaratma a
rir e a bradar ”xiva! xiva!” sentiu enyo agarrar-lhe o braço e, protetoramente, ajudou-
a a descer da plataforma.

quando se encontravam atrás do palanquim, um intenso raio de luz cegou-o


momentaneamente e troou um grande estrépito de trovões, como se o céu estalasse
e se precipitasse para a terra.

- despoina! porphredo! - gritava enyo, tentando soltar-se e voltar para o pátio.

thomas, porém, segurou-a pelos ombros e arrastou-a para a arcada mais próxima,
sendo, depois, empurrados para o labirinto dos corredores por uma avalancha de
raparigas aos ais e de monges aos gritos. o vento guinchava e enfunava-lhes a
roupa, mas havia uma relativa calma nos corredores do palácio e a trovoada era
mais abafada. enyo soltou-se dos braços de thomas e correu para um grupo de
raparigas para as sossegar.
- sempre mãe-galinha! - murmurou thomas.

com um suspiro de alívio, thomas encaminhou-se para o lado contrário. apetecia-lhe


rir, dançar pelos corredores fora, louvar a xiva e a todos os deuses de tempestades
de que ouvira falar.

- não houve casamento nenhum, não vai haver casamento nenhum! - dizia para si
próprio, sorrindo. - os próprios deuses opuseram-se à mahadevi, porque são mais
poderosos do que ela!

dobrou para outro corredor e viu um movimento que lhe era familiar, uma batina a
entrar numa porta. a porta estava aberta, uma luz a sair dela. curioso, thomas
aproximou-se e espreitou pela porta.

- salve, mestre chinnery - disse-lhe o padre gonsção, pálido, lívido como um


fantasma maligno.

- padre! - exclamou o espantado jovem inglês, entrando na sala. - estais cá


também?

o casaco de casamento vermelho e dourado de thomas estava encharcado e todo


salpicado de lama, o cabelo louro colado à cara e aos olhos: a gonsção parecia-lhe
mais um cachorro encharcado do que outra coisa.

- felicitas - disse gonsção com uma ligeira e fingida vênia. - eu teria assistido ao
vosso casamento, mas... não fui convidado.

- tenho a certeza... quer dizer, se eu tivesse... - o jovem pôs a mão na boca e não
completou a frase. em vez disso, perguntou: - como... quando é que chegou?

- esta madrugada. quem me trouxe foi o vosso amigo, o músico cego.

- gandharva? sim, eu vi-o, mas... para que trouxe ele...

- a mim? porque precisava de ajuda. - gonsção apontou para uma padiola no chão,
onde se encontrava uma rapariga que thomas julgou reconhecer. - o nome dela é
pramlocha. lembrai-vos dela? era uma das pobres jovens que seguiam na carroça
das bailarinas que vós visitáveis com frequência.

- sim, lembro-me dela.

- está a recuperar de uma ferida fatal. eu tentei dissuadir carlos de lhe dar o rasa
mahadevi, mas ele não se demoveu. agora, nada mais posso fazer do que rezar por
ele.

- quer dizer que carlos também cá está?

- e estêvão.

o jovem soltou uma gargalhada, não querendo acreditar.


- e trouxeram convosco o exército mongol?

- eles perseguiram-nos de muito perto, mas nós conseguimos escapar-lhes. com um


pouco de sorte, esta chuva fará desaparecer quaisquer rastos que, porventura,
tenhamos deixado.

- a tempestade é, portanto, uma dupla bênção - suspirou thomas.

houve uma pausa incomoda e, por fim, gonsção perguntou:

- espero que timóteo esteja convosco? o inglês fez que sim com a cabeça.

- sim, pelo que sei. eu acho que o vi no casamento e disseram-me que ele tem
estado com os monges, sem dúvida a convertê-los.

gonsção escondeu o seu alívio, não sabendo bem se devia acreditar nele.

- bem, estou ansioso por vê-lo e por saber dos seus progressos.

- também eu.

nova pausa incomoda se estabeleceu.

- verifico que vos tendes saído bem - disse, por fim, gonsção, incisivo. -
conseguistes casar com a lendária rainha da vida e da morte.

- não houve casamento nenhum - rosnou o jovem. - nem haverá, se eu o puder


evitar.

- oh, as coisas não correram bem?

- chegastes em má altura, padre.

- sim, já mo disseram. mas eu não pude escolher a altura e, agora, cá estou.

o inglês inclinou outra vez a cabeça.

- entretanto - continuou gonsção, num deliberado tom casual -, conseguistes, acaso,


encontrar a fonte do nosso pulvis mirificus?

- consegui, sim.

- quereis dizer-me qual é, ou terei de descobrir por mim próprio?

depois de uma pausa momentânea, durante a qual tomás observou o padre, o jovem
disse:

- vamos trocar verdade por verdade, padre. eu revelo-vos a fonte, se me


responderdes a uma pergunta.
- está bem. verdade por verdade. qual é a vossa pergunta?

- matastes aditi?

- oh, não! - respondeu gonsção, aliviado por, a esse respeito, poder falar verdade. -
não matei nada. se quereis saber, ela matou-se a si própria. há, aí, um mal-
entendido. eu queria falar com ela e o meu pecado resume-se a tê-la assustado. ela
atirou-se contra a espada de carlos antes... antes que eu a pudesse deter.

um frio e dubitativo sorriso surgiu nos lábios do jovem.

- isso é verdade?
- eu posso jurar pelas santas escrituras. agora, a vossa verdade.

- muito bem. a fonte é, na verdade, sangue em pó. É o sangue da rainha que aqui
reina, sangue da própria rainha stheno.

- o sangue de uma mulher?

- não se trata de uma mulher comum, padre. ela é imortal.

- com semelhante sangue, acredito que o seja. mas, nesse caso, não é humana,
pois não?

o inglês sorriu outra vez.

- quanto a isso, tereis de descobrir vós próprio. aviso-vos, porém, que podeis ficar
chocado com o que descobrirdes.

- depois de anos no santo ofício, mestre, compreendereis que não me choco


facilmente.

- mesmo assim - disse o jovem inglês. - mesmo assim. gonsção suspirou.

- muito bem, espero ver alargados os meus horizontes. far-me-eis o favor de me


apresentar à vossa rainha?

- eu não estou nada interessado em falar com ela, mas fá-la-ei saber que vós
chegastes.

- falais como se não amásseis essa rainha stheno, senhora da vida e da morte.

- digamos, padre, que os nossos objetivos já não são tão dissemelhantes como já
foram. e, agora, desculpai-me, mas eu preciso de despir esta roupa conspurcada.
acaso teremos ocasião de tornar a conversar.

com uma vênia estudada, tomás partiu.

- que estranho! - murmurou gonsção para si próprio. apercebeu-se, então, de que


não perguntara a tomás como encontrar timóteo. ouvindo som de passos junto à
porta, gonsção aventurou-se no corredor para ver se ainda avistava o jovem inglês,
quase sendo derrubado por um grupo de raparigas de saris encharcados, correndo,
conduzidas pela alta e velha bruxa que gonsção conhecera no acampamento
mongol.

- domina porphredo, também vós escapastes para aqui? a anciã olhou para ele e
conduziu as raparigas para uma sala em frente da dele. fechou a porta depois de as
raparigas terem todas entrado e, então, voltou-se para gonsção.

- gandharva disse-me que vos tinha trazido. deveis meter-vos no vosso quarto. É
perigoso andar a vaguear no palácio.
- perigoso? por causa da tempestade?

- por causa da rainha stheno. chegastes em má altura.

- sim, já me disseram.

- ela anda instável. pode pôr-se a andar sem véu e olhar para ela é a morte.
ninguém sabe que danos irá provocar, agora que o seu precioso casamento ficou
desfeito. eu bem desejaria que vós e os da vossa expedição me tivessem dado
ouvidos e não se tivessem aproximado daqui.

- dado ouvidos às vossas mentiras? domina, devo dizer-vos que o vosso


desaparecimento do acampamento mongol quase nos ia custando a vida, a mim e
aos meus homens. o comandante mongol pensou que nós vos havíamos matado e
condenou-nos à morte.

a anciã ficou de olhos abertos.

- eu estou... eu lamento muito, flamine. na minha vida, tem sempre sido difícil prever
as consequências dos meus atos. apraz-me, porém, verificar que escapastes à
sentença do comandante.

- gandharva conseguiu, não sei como, mudar a opinião do comandante. devo avisar-
vos de que o vosso estratagema falhou por completo. o exército mongol trouxe-nos
até ao rio krishna, não muito longe daqui. foi aí que nós escapamos, mas eles viram-
nos. e não sei se o exército terá seguido ou não o nosso rasto.

porphredo inclinou a cabeça.

- compreendo. quando puder, informarei a rainha - disse ela, voltando-se para entrar
na sala para onde conduzira as raparigas.

- esperai! por favor, não me podeis dizer onde posso encontrar o irmão timóteo?
ainda não o vi desde que cheguei e estou ansioso por saber como ele está.
disseram-me que ele está com os monges.

- o mosteiro fica no canto sudeste do palácio. se seguirdes este corredor até ao fim -
porphredo apontou para a frente deles - é fácil encontrá-lo. aviso-vos, porém, mais
uma vez, para terdes cuidado.

- eu tenho a fé e orações que me protegem.

- isso pode não ser... .

- aia porphredo!

de um corredor lateral, por trás de porphredo, surgiu uma jovem, num sari
esmeralda. gonsção sentiu o sangue fugir-lhe da cara, como se estivesse a ver um
fantasma.
- vós!

aditi olhou para ele um momento e, depois, disse num latim com acento.

- bem-vindo a bhagavati, monge da orlem gor. gonsção sentiu que perdia o equilíbrio
e encostou-se à parede.

- pois claro. obra do rasa mahadevi. voltastes à vida. e, decerto, o senhor chinnery já
ouviu a vossa versão e sabe que o que lhe contei era só meia-verdade.

aditi inclinou a cabeça e trocou umas palavras com porphredo, numa língua
desconhecida de gonsção.

- congratulo-vos - disse gonsção, tentando recuperar a compostura. - vós e os


vossos companheiros foram mais espertos do que eu julgava. dizei-me, por favor,
em nome de quem viestes procurar o pó maravilhoso?

aditi inclinou a cabeça de lado, a testa franzida. depois, deu dois passos para
gonsção.

- eu não vim procurar coisa nenhuma, monge da orlem gor. eu vim para casa. eu
vivo aqui.

- isto... isto é a vossa casa? então, conheceis bem a rainha imortal?

um sorriso frio espalhou-se no rosto de aditi.

- ela é a minha mãe.

- ah!

gonsção sentiu o estômago às voltas.

- e está ansiosa por falar convosco, segundo sei.

aditi voltou para junto de porphredo e entraram ambas na sala, fechando a porta
atrás delas.

gonsção cambaleou contra a parede por um momento. depois ergueu-se e


endireitou a batina.

portanto, não posso esperar nenhuma boa vontade da parte desta rainha, pelo que
aditi diz. contudo, ainda não fui preso nem atirado para as suas masmorras. talvez
se disponha a ouvir a minha versão da história. talvez eu viva o tempo suficiente
para cumprir a minha missão.

gonsção pôs-se a caminhar pelo corredor fora, para o mosteiro. o corredor estava,
agora, deserto, apenas se ouvindo o distante ribombar dos trovões e a lamúria do
vento através das passagens.
posso pedir a espada ao carlos... não. tão visivelmente armado ia causar alarme.
talvez um punhal. para lhe esvair o sangue, para que ninguém o possa usar. mas,
seco e em pó, continua a ser eficaz... não. tenho de o destruir. fogo. sim, o fogo é a
solução. há muitas chamas e braseiros espalhados pelo palácio. É de pedra,
portanto o edifício não vai arder. tenho de esperar por uma oportunidade, com a
rainha rodeada de tochas. mas como é que vou garantir que ela não escapa? talvez
morrendo com ela.

cenas de grande dramatismo, com gonsção arrastando nobremente uma imaginária


rainha do mal para as chamas, sucumbindo só depois de ela ter soltado o último
berro, o espírito dele desfeito em fumo.

não obstante, uma parte dele opunha-se a tais pensamentos assassinos. a sua
missão no santo ofício prepara-o para, quando muito, machucar a carne de homens
para lhes modificar o espírito. nunca se dispusera deliberadamente a tirar a vida
fosse a quem fosse.

serei perdoado deste horrendo pecado, em razão do grande bem que envolve? ou
ficará a minha alma amaldiçoada para todo o sempre, tendo como único consolo o
fato de ter salvo as almas de muitos outros?

porphredo falara verdade, os alojamentos dos monges hindus não eram difíceis de
encontrar. uma vez próximo deles, bastou a gonsção seguir o som dos cânticos e o
cheiro do incenso de sândalo. não foi estorvado, ao vaguear pelas amplas e
contíguas salas, mas, como os monges eram cegos, possivelmente não davam pela
presença dele. cada sala continha catres no chão, com sandálias e tigelas de
comida ordenadamente colocadas ao lado de cada um. as paredes estavam
cobertas com coloridas tapeçarias, decoradas com uma escrita ilegível.

quando ia a sair da quinta sala por onde passava, ouviu uma exclamação:

- padre!

- timóteo?

gonsção descobriu o rapaz no canto mais afastado da sala, deitado numa


plataforma, tapado com um cobertor, e correu para ele.

- padre, sois realmente vós?

timóteo estava pálido, o cabelo desgrenhado e tinha uns círculos negros em redor
dos olhos.

- sou eu, sim - disse gonsção, caindo de joelhos ao lado da plataforma e pegando na
mão de timóteo. a mão do rapaz estava gelada.

- tens estado doente, meu filho? tens febre?

- não, padre, mas... mas tendes de me perdoar, padre. tendes de me ouvir em


confissão.
- porquê? que fizeste?

- eu pequei... o pecado da vaidade, padre. vós avisastes-me. dissestes-me para não


ousar pedir a intercessão dos anjos.

- a vaidade é uma falta comum dos homens. serás facilmente perdoado. mas como
é que o pecado do orgulho vos pôs doente?

- eu... eu falei com a rainha. tentei incutir-lhe a palavra de deus.

gonsção sentiu de novo um revolver das entranhas.

- timóteo, todos me dizem que a rainha é muito perigosa. dizem-me que olhar para
ela comporta a morte.

- isso é verdade, padre. mas ela diz que quem olhar para ela com amor continua a
viver. e eu pensei que, se enchesse o meu coração com o amor de deus, me
salvaria. e consegui... e quase consegui! eu vi-a! ela é linda. de certa forma. mas
não foi o bastante. comecei a ter medo. tentei fugir, mas caí.

timóteo baixou os olhos e calou-se. gonsção acariciou-lhe a mão.

- mas a vossa fé não vos abandonou, timóteo. estás vivo. estás apenas doente e
vais recuperar.

- eu... eu não sei, padre. podem ter-me dado o pó. eu caí nos aposentos da rainha e
acordei aqui.

uma raiva fria invadiu gonsção, ao pensar que timóteo podia ter sido sujeito ao
malefício do rasa mahadevi.
uma alma tão pura assim maculada...

- sonhaste alguma coisa, meu filho?

- sonhar? não, padre, não me lembro de nenhum sonho.

- há quanto tempo estás aqui com os monges?

- há vários dias, padre. perdi-lhes o conto.

- então, não me parece que tenham utilizado o pó. eu sei como ele funciona, tanto
interior como externamente. já devias ter recuperado há muito tempo, se o tivessem
utilizado. portanto, regozija-te com a tua doença. significa que ainda estás inocente
dos malefícios deles. vamos, este cheiro que aqui está não te pode fazer bem. vais
ficar comigo e podemos rezar juntos e conversar.

gonsção pegou numa ponta do cobertor e, lentamente, destapou o rapaz.

- não - protestou debilmente timóteo, tentando cobrir-se de novo.


- tens frio, timóteo? no meu quarto está mais quente. e podemos levar o cobertor, se
quiseres. - gonsção ergueu o cobertor, para o colocar no braço, e, então, viu as
pernas de timóteo, as quais terminavam em dois tocos ensanguentados e
entrapados, nos tornozelos. - meu deus! - murmurou gonsção. - o que é que te
aconteceu? onde estão os teus pés?

timóteo estava quase a chorar.

- de... debaixo do catre, padre.

gonsção baixou-se lentamente e olhou para debaixo do catre. ali, arrumados como
as sandálias dos monges, estavam dois pés de pedra. gonsção retirou-os de lá e
passou as mãos pela pedra lisa, com uma forma mais perfeita e real do que a obra
do mais hábil escultor.

- que feitiçaria é esta?

- eu já vos tinha dito, padre. a rainha... é uma górgone. É verdade. eu vi as


serpentes que ela tem na cabeça. o olhar dela transforma as pessoas em pedra.
mas, comigo, foi só uma parte.

- foi a rainha que fez isto?

- a culpa foi minha. eu fui tonto!

- não, timóteo. a culpa não foi tua. mas garanto-te, ela vai pagar por isto. nós vamos
tratar disso. tu e eu.

capítulo xxii

pÉrola: esta bela pedra de um brilho pálido encontra-se no mar, embora no oriente
se diga que cresce no interior dos elefantes, ou que é o cuspo dos dragões. há,
também, quem diga que as pérolas nascem das lágrimas e, por isso, provocam
lágrimas em quem as usa. ”sal de pérola”, ou pérola dissolvida em sumo de limão é
um potente remédio que cura todo o gênero de tosses, sendo um antídoto para o
veneno das cobras e outros mais. usam frequentemente o pó de pérola nos feitiços
de amor. há quem diga que os portões do paraíso são feitos de pérolas e, para os
maometanos, o terceiro paraíso é todo feito de pérolas...

o mirzá ali akbarshah passou pela porta de madeira polida e entrou numa sala
cavernosa. masum seguiu-o. tinham conseguido evitar a debandada das mulheres e
das crianças, metendo-se por corredores laterais e afastando-se do som das vozes.
tinham, porém, ficado separados de rafi e de awwal e haviam-se perdido no labirinto
das passagens do palácio.

o mirzá pôs-se a observar o enorme palanquim com degraus situado à sua


esquerda, os inúmeros pilares pintados de escarlate, da altura de, pelo menos, três
homens, o polido chão de mármore preto, os enormes braseiros de bronze.
- pelo que parece - disse ele para masum -, viemos parar ao durbar da rainha. ou
talvez seja um santuário harbis. aquele biombo deve servir para ocultar um ídolo, ou
um trono.

masum olhava em volta, de olhos abertos.

- parece-me demasiado austero para um santuário hindu. talvez seja de outra fé.

- talvez a nossa misteriosa rainha tenha inventado uma fé própria, como o


shahinshah akbar. - o mirzá começou a atravessar o salão, depois suspirou e
sentou-se no segundo degrau do palanquim, ajustando o turbante e cofiando a
barba.
- acho, masum, que preciso do vosso conselho.

- estou aqui para servir vossa alteza em tudo o que desejar - disse masum,
continuando a olhar de um lado para o outro, observando inquisitivamente o salão.

- então, ajudai-me a compreender o que acabamos de ver aqui. o que é esta rainha
stheno. tenho de tomar decisões e estou com dificuldade em fazê-lo.

- como posso eu guiar os pensamentos de vossa alteza? o mirzá tornou a suspirar e


olhou para cima, para a escuridão que obscurecia o teto do salão.

- este sítio... tudo isto não é nada como eu imaginava. em vez de me apresentar de
forma adequada e oferecer votos de paz e de aliança com o meu imperador,
introduzimo-nos como ladrões e fazemos pedidos, não ofertas. não admira que a
rainha não nos tenha recebido formalmente.

- talvez, meu senhor, ela esteja meramente ocupada com os seus assuntos e nos
venha a receber oportunamente.

- sim, o seu ”casamento”. que pensais disso, masum? eu tenho ouvido falar dos
estranhos rituais hindus, mas nada como isto.

- nem eu tão-pouco, grande mirzá. mas era... tinha... masum fez um gesto com as
mãos como que a escavar areia e, depois, parou, com um sorriso embaraçado. -
desculpai-me, alteza, mas não é coisa que eu consiga pôr em palavras.

se não as consegues pronunciar, pensou o mirzá, como é que as vou entender?

- considerando a tempestade que desabou sobre nós disse ele -, dir-se-ia que o
próprio alá não o aprova.

- talvez - disse masum brandamente, franzindo o sobrolho.

- terei visto mal, ou aquele horrível ídolo de madeira foi atingido por um raio?

- os meus olhos estavam assombrados, meu senhor, não vos posso dizer nada.

- bom, isso não interessa. mas eu sou um general e um diplomata, masum, não um
filósofo. dizei-me como é que eu vou descrever esta... rainha ao meu imperador.
deve ele tratá-la como trata outros rajás e ranis harbis? deve forçá-la a pagar um
tributo para manter a sua fé pagã, permitindo-lhe que governe, sob a condição de
lhe prestar homenagem e de respeitar as leis dele? ao menos, não terá de encarar o
reino dela como uma ameaça militar. notastes que não vimos um único homem
armado no palácio? nem, tão-pouco, vi um único na própria cidade. ou esta rainha
tem a certeza de que a sua cidade oculta é impossível de encontrar, ou...

- ou não precisa de um exército - terminou masum por ele.

- sim. e isso implica uma rainha extraordinariamente pacífica

- ou detentora de um poder extraordinário.

- ah! - exclamou o mirzá. - agora tocamos noutro aspecto. e se esta rainha for mais
do que uma mulher humana? se for uma feiticeira? se for um demônio? se for
verdade o que diz o inglês e ela for uma criatura de antiga lenda? eu não tenho
experiência nenhuma dessas coisas. na verdade, diria que não acredito nelas.
contudo, eu vi a mão de pedra. e vi mumit.

- de fato, meu senhor, tivemos o privilégio de ver maravilhas.

- mas que maravilhas terríveis elas são, masum! devo dar conhecimento da
existência desta criatura ao meu imperador? isso podia levá-lo a seguir a crença
pagã de iskandr. já ouvistes dizer, certamente, como é atraente. eu seria
considerado um traidor por todos os xeques de lahore, por o ter desviado da
verdadeira fé.

- eu acho que - disse masum -, se regressardes para contar a história, deveis confiar
no coração do imperador. ele é considerado um sábio em todo o sind e é um
perseguidor da verdade. não será, certamente, um pecado revelar-lhe a maravilhosa
variedade das criações de alá.

- e se for verdade que o sangue dela tem a virtude de devolver a vida aos mortos -
considerou o mirzá - uma aliança com ela assume vital importância. temos de
descobrir quem mais dispõe do segredo e como controlá-lo. o próprio imperador
desejará dispor de algum para seu próprio uso. e surge aqui outra coisa... não será
espiritualmente errado ele fazê-lo? se alá, o misericordioso, tiver decidido que é
chegada a altura de o convocar ao paraíso, não será incorreto o imperador
conservar a vida por esses meios?

- isso - disse masum - é assunto para os xeques e os pirs discutirem afincadamente.


eu não sou suficientemente instruído para emitir uma opinião. eles podem muito bem
decidir que semelhante dádiva é contrária à vontade de deus e que se opõe a ele.
ou podem decidir que essa dádiva, como tantos outros recursos que a divina
providência nos concede, se destina a ser utilizada sabiamente pela humanidade. eu
não sei dizer.

e essa decisão seria tomada por razões espirituais ou políticas?, pensou o mirzá,
cinicamente. de que me servis vós, masum, se não me apontas nenhuma
orientação?

- e vós, masum, encontrastes o que esperáveis? encontrastes aqui a grande sofia, a


vossa fonte de sabedoria? dissestes-me uma vez que andáveis em viagem a
testemunhar. que esperais ver aqui?

- eu já vi - respondeu masum, olhando com ar estranho para o biombo no cimo do


palanquim. - mas equivoquei-me quanto aos meus propósitos. estou aqui, talvez,
para dar, não para receber.

- para dar o quê? tencionais oferecer-vos como conselheiro a esta rainha?

- em certa medida, talvez.

- lembrai-vos do que aconteceu ao shahid sem nome, se o guardião do túmulo falou


verdade. lembrai-vos de mumit.

- vós pensais em coisas grandes, meu senhor - disse masum -, enquanto eu penso
em coisas pequenas. vós maravilhai-vos por esta mulher ser uma criatura com
poderes maravilhosos, enquanto eu me maravilho por, com tão maravilhoso poder,
ela ser, ainda, uma mulher.

- confundis-me, masum. não há razão para nos maravilharmos com uma mulher que
se limita a governar a sua casa e a ter filhos.
- aí está. ter filhos.

- o que é que isso tem a ver com esta rainha? ou conosco?

- nós assistimos à concepção - disse masum baixinho, quase segredando. -


assistimos à junção dos princípios masculino e feminino. agora, falta o nascimento.
e, justamente, o que vai nascer pode ser determinado pelo que fazemos aqui.

o mirzá sentiu como se tivesse de abanar a cabeça para afastar a névoa filosófica.
levou as mãos às têmporas.

- talvez me falte um sentido, como aqueles homens que não conseguem distinguir o
vermelho do verde, mas ouço-vos falar e não consigo discernir o significado das
palavras.

- não vos preocupeis, grande mirzá. se calhar, isto é apenas tolice minha e as
minhas palavras nada significam. será tudo segundo a vontade de deus.

- sim, isso sem dúvida nenhuma. estou farto deste sítio. vamos ver se conseguimos
encontrar rafi e awwal.

- se não vos importais, alteza - disse masum -, eu gostaria de ficar aqui a contemplar
este salão mais um bocado.

o mirzá levantou-se, soltando, mais uma vez, um suspiro. talvez eu consiga pensar
mais claramente longe dele.

- muito bem. virei buscar-vos, logo que encontre os outros.

- obrigado, grande mirzá.

mal o mirzá desapareceu pela porta, masum pôs-se a subir os degraus do


palanquim, parando no segundo degrau a contar de cima.

- espero que vossa majestade se encontre bem e que tudo corra a seu contento?

houve um brusco estalido atrás do biombo.

- como é que soubestes que eu estava aqui?

a voz da rainha stheno estava menos descontraída, mais alarmada.

- como eu disse ao mirzá, eu noto as pequenas coisas. os pensamentos dele


estavam voltados para dentro, para a sua confusão, os meus estavam voltados para
fora, para a beleza deste lugar.

- agradeço-vos. mas o que dissestes ao mirzá era dirigido a mim, dado que sabíeis
que eu estava a ouvir?
- perguntais-me se eu alterei o que diria, em razão da assistência? não, eu teria dito
exatamente o mesmo.

- hum! bem, em resposta à vossa primeira pergunta, eu não me sinto bem, pois
fiquei um pouco chamuscada peio raio. e tão-pouco estou contente.

- o vosso... casamento foi muito... espetacular, majestade.

- não houve casamento nenhum - resmungou ela. - os deuses acharam por bem
amaldiçoar-me e estragar-me a vida outra vez. porphredo vai, certamente, dizer-me
que némesis me castigou porque eu me atrevi a arrogar-me em deusa.

- todas as almas são à imagem de deus, pois o divino enforma toda a criação. não
podeis ser amaldiçoada pelo céu, majestade. É a alma humana que se amaldiçoa a
si própria, ao negar o amor e a compaixão que chove do céu. É por isso que os
deuses dos pagãos são incompletos. falta-lhes o caráter do amor divino.

- amor? hah! que sabeis vós acerca disso. eu passei séculos... não interessa. faz
parte da minha maldição, sem sombra de dúvida, que ele me esteja vedado para
todo o sempre.

- pode acontecer, majestade, que vo-lo negueis a vós própria. se mo permitisses,


gostaria de vos contar uma história.

- uma história sufi?

- não é propriamente uma história sufi. É um conto popular que eu ouvi há muito
tempo, mas que ides apreciar.

- duvido, mas talvez me distraia. contai-me lá esse conto.

- chama-se ”a princesa da torre” e é assim. há muito, muito tempo, num reino muito,
muito distante, vivia uma princesa. era uma de muitas, pois a sua família havia sido
bafejada com muitos filhos. embora esta jovem fosse bonita à sua maneira, por
razões que nunca se tornaram muito claras, a família considerou-a a feia do rancho
e fugiam dela ou escarneciam dela. como não conhecia mais ninguém, começou a
acreditar que era feia e cobria a cara cheia de vergonha. ao princípio, mantinham-na
separada dos aposentos das outras mulheres do palácio, mas, como o mito da sua
fealdade se foi desenvolvendo no seio da família, o pai, por fim, mandou-a encerrar
numa torre sem janelas e onde não havia, nem sequer, espelhos, de tal forma que
ninguém a podia ver. e a princesa de boa vontade se deixou ali encerrar, pois, por
essa altura, nem ela própria conseguia suportar ver-se. com o tempo, a família
esqueceu-se dela, recordando-a, apenas, como uma história que se contava para
assustar as crianças. a princesa fenecia na escuridão da torre, bebendo apenas a
umidade que, de manhã, escorria pelas paredes e alimentada apenas pelo mel que
lhe levavam as abelhas, ou pelas bagas que os pássaros deixavam cair dos ninhos
do teto. um dia, um tremor de terra abalou a torre e um pedaço do teto ruiu. o sol
penetrou pelo buraco do teto, enchendo a escura torre de luz radiante. ”oh, senhor
dos céus!”, exclamou a princesa, ”não brilheis sobre mim, pois eu sou feia e não
mereço a vossa glória.” e uma voz, lá do alto, gritou-lhe: ”infeliz criança, eu
provoquei este tremor de terra para fazer cair as paredes e poder ver-te.” a criança
respondeu: ”mas eu não mereço!” ”não sejas tonta”, disse-lhe a voz do céu. ”o meu
calor pertence a todos e nenhum aspecto da criação é feio ou indigno à minha vista.
avança para a luz e deixa-me aquecer-te.” a princesa obedeceu e viu um grande
rosto dourado a brilhar para ela no buraco do teto. lançou os bracinhos para ele e
deixou que a luz quente a envolvesse. sorriu e pôs-se a dançar, revolteando
lentamente no mesmo sítio. tão ligeira e débil se tornara com o jejum que se
dissolveu em pintinhas douradas de poeira brilhante. tanta alegria sentiu com a luz
dos céus que nela flutuou, subindo e saindo da torre nos raios de luz, por fim liberta
da crueldade do mundo.

”portanto, sempre que vejais uma réstia de luz a introduzir-se num sítio escuro, olhai
bem e vereis a poeira dourada que é a princesa a dançar.”

masum aguardou, num silêncio prolongado.

por fim, a rainha stheno exclamou:

- mas... isso é uma tolice! própria para adormecer criancinhas. quem é que pode
viver com umidade e bagas? e ninguém se dissolve na luz do sol. - mais
brandamente, acrescentou. - nenhuma mão do céu fez ruir a torre escura da minha
existência.

- talvez o tenha feito - disse masum - e vós lhe tivésseis voltado as costas.

- oh, estou a perceber. tentais proselitizar-me, como tantos outros loucos que aqui
têm aparecido.

masum ergueu as mãos, embora ela não pudesse ver o gesto.

- não vou dizer-vos em que verdade deveis acreditar. eu próprio também procuro,
embora acredite que vós procurais a luz divina, como eu. apenas vos quis sugerir
que a vossa torre não precisa de ser tão alta, nem tão escura como vós julgais. nem
que precisais de vos encerrar nela.

- haah!

- permiti que vo-lo prove, majestade. deixai-me ver-vos.

- sois vós, mortais, todos loucos? desejais todos morrer? ou é o vosso orgulho que
vos incita a desafiar o olhar da górgone? o rapazinho tonto da orlem gor fê-lo e bem
sofreu com isso.

masum fez uma pausa.

- ele... o rapaz... não morreu, pois não?

- não, não morreu. mas já não está como estava. não incorrais no mesmo erro!

- eu não acho que seja um erro, majestade - disse masum, começando a rodear o
biombo. - na verdade, é algo que me chama, é o meu propósito de estar aqui.

na extremidade do biombo, voltou-se e encarou a rainha.

ela estava recostada no seu trono, o rosto encantador envolto numa expressão de
pesar. as serpentes escuras que lhe envolviam a cara permaneceram quedas e
dóceis.

- oh, que maravilha que sois! - suspirou masum. - o ocidental lakart chama-vos a
imagem do divino e o que ele diz corresponde, decerto, à verdade.

lentamente, stheno ergueu os olhos e os olhares de ambos encontraram-se.

masum sorriu, sentindo um quente ardor no coração.

a rainha stheno olhava para ele, o desalento espalhado na cara.

- não há dúvida, os deuses escarnecem de mim. como pode um indigno torrão de


lama, como vós, ser o que me olha de frente?

masum caiu de joelhos diante dela.

- na verdade, eu sou indigno e nem sei porque sou poupado. mas, apesar de
indigno, aceitai a minha humilde oferenda de amor casto e de amizade espiritual.

masum estendeu uma mão para uma das serpentes e passou-lhe os dedos por
baixo da boca. o animal roçou-se-lhe pela mão, lambendo-lhe mansamente a pele
com a língua.

- não!

stheno ergueu-se bruscamente e cambaleou, derrubando o trono e fazendo o


biombo estatelar-se, com grande fragor, pelos degraus abaixo. cerrou os dentes
numa carantonha de desgosto, as serpentes remexendo-se na cabeça em confusão.

- não! ainda mais esta humilhação?

- a humilhação não existe - disse masum -, quando uma alma se submete


deliberadamente aos desígnios do onisciente.

- loucos - rosnou stheno. - só os loucos e os místicos com o espírito noutro lado me


olham com o que chamam amor. fui enganada! fui iludida pelos deuses para manter
a esperança. mas acabou-se.

virou-se e desceu a correr os degraus do palanquim.

admirado e pesaroso, masum viu-a partir. não se sentia inclinado a sair dali, agora
que cumprira o seu propósito. não sabia se tinha sido bem-sucedido, pois o
significado da luz divina escapava-lhe, como as estrelas brilhantes estavam, para
sempre, fora de alcance. contudo, julgava ter visto uma lágrima na cara da rainha
stheno. e os olhos, muitas vezes, choram, quando sentem, pela primeira vez, o
fulgor da luz.

não sabia há quanto tempo se mantinha em meditação, quando ouviu vozes atrás
dele. segredavam alto, em persa.

- ali está ele!

- não, esse é o sufi que o desviou.

- vamos lá falar com ele, de qualquer modo.

masum ouviu passos a subirem para o palanquim e voltou-se. eram dois cavaleiros
da escolta de jaimal. masum já os vira antes, mas não se lembrava dos nomes
deles. os homens tinham as espadas talwar desembainhadas e aproximaram-se
com uma expressão de medo e de zanga nas caras.

- tu aí, onde está o mirzá?

- não sei - disse masum, suavemente. - quer dizer que o exército já cá está?

- não, ainda não. nós viemos à frente. mas o exército está a chegar.

- parvo! para que lhe estás a dizer isso? ele vai contar ao mirzá.

o soldado à direita de masum avançou mais um passo e colocou-lhe a ponta da


espada debaixo do queixo.

- diz-nos tudo já, ou morres. onde está o tesouro?

- tudo isto é um tesouro - disse masum. - mas se vos referis a ouro e a prata, não
vos sei dizer, pois, como não dou valor a essas coisas, não dou por elas.

- grande estúpido! onde está a rainha da vida e da morte?

- ela está aqui - disse masum, pondo a mão no peito. mas não sei para onde foi. e
tomai cuidado quando a virdes, pois ireis descobrir mais e menos do que desejais.

- deixa-te de cuspir esse lixo místico, sufi herético. onde está o mirzá?

- digo-vos, sinceramente, que não sei. só sei que está algures aqui no palácio.

- deixa-o - disse o outro cavaleiro.

- não, ele vai dizer ao mirzá que estamos cá. temos de o matar.

- mas ele é um homem santo!

- ele desviou o mirzá, tem de responder por isso perante deus.


- mas nós teremos de responder pela sua morte.

- irmãos na fé - disse masum -, acredito que já fiz aquilo para que fui enviado nesta
viagem. a minha via chegou ao fim. que a minha vida chegue também ao fim. se
achais que é essa a vontade de alá, fazei-lo. e que o onisciente vos abençoe.

isto pareceu apanhar os cavaleiros desprevenidos, os quais hesitaram.

- claro, é o que temos que fazer.

masum voltou-se para a direção por onde stheno tinha partido, inclinando a cabeça.
- que assim seja.

- que a tua alma encontre o paraíso.

a espada saiu do pescoço de masum e os homens atrás dele recuaram um passo.


masum ouviu o vibrar da espada no ar e, depois, sentiu uma picada no pescoço.
depois, não soube mais nada.

capítulo xxiii

zimbro esta árvore tem umas folhas pequenas e delgadas como as do pinheiro. dá
umas flores pequenas e amarelas no final do verão e tem uma casca da cor do ruão.
as suas bagas verdes amadurecem durante dois anos, tornando-se pretas. comer as
bagas facilita a digestão e alivia o reumatismo e a gota. o óleo das bagas alivia as
dores das articulações, bem como dos dentes e das gengivas. há, porém, que ter
cuidado, pois pode, também, inflamar a pele. respirar o vapor das bagas fervidas em
água cura as infecções dos pulmões. uma cataplasma de folhas fervidas cura as
mordeduras de serpentes. diz-se que o zimbro e a sorveira não crescem ao lado
uma da outra, pois, se plantadas num jardim, uma delas morre. e, se se levam
ramos de uma e da outra para dentro de casa. a casa será destruída pelo fogo. não
obstante, os ramos de zimbro protegem os estábulos dos raios e dos espíritos
malignos. os galeses dizem que quem deita um zimbro abaixo bem depressa cairá...

- tens estado muito sossegado, timóteo - disse o padre gonsção, estendendo ao


rapaz uma tigela de cobre cheia de água. - tens dores? sentes-te doente? timóteo
pegou na tigela e bebeu por ela.

- doem-me os tornozelos, padre. e é muito estranho, mas tenho comichão nos pés.
embora saiba que não estão lá e que não os posso sentir.

- isso quer dizer que ainda não te habituaste a que não estejam lá, meu filho - disse
gonsção.

foi buscar uma cadeira de madeira ao fundo do quarto e trouxe-a para junto do
ornado e antigo cochim onde timóteo estava deitado. sentou-se na cadeira e
perguntou:

- o que é que fizeste enquanto estiveste com os monges hindus, enquanto


recuperavas? eles tentaram converter-te?

- não, padre. eles pouco falavam comigo. embora eu pense que eles rezavam por
mim, à sua maneira. isso não faz mal, pois não?

- estou certo que não faz mal nenhum, embora ache também que não serve de
nada.

- oh. de qualquer modo, tive muito tempo para pensar.

- e em que é que pensaste?


timóteo olhou para a tigela muito tempo, antes de responder.

- padre, e se estivermos enganados? gonsção sentiu um aperto no peito.

- enganados a respeito do quê, meu filho?

- a respeito... a respeito de tudo. - timóteo ergueu os olhos para gonsção, uns olhos
cheios de preocupação e de algum medo. - e se o mundo... não fosse como... nos
dizem na bíblia? não há górgones na bíblia, só há nas histórias antigas dos gregos e
dos romanos. a bíblia fala de anjos, mas eu nunca vi nenhum. mas vi-a a ela. a
górgone. ela é real.

pronto, pensou gonsção, o que eu receava que acontecesse aconteceu finalmente.

gonsção lembrou-se de quando tinha a idade de timóteo, das dúvidas, das


perguntas. gonsção ousara mencioná-las ao pai e recordou a fúria aterradora com
que o pai arengara com ele. gonsção nunca mais falara disso e, com o tempo, as
suas dúvidas foram desaparecendo ou foram sendo explicadas.

timóteo merece melhor. não vou ralhar com ele como se ele tivesse roubado o
dinheiro do vizinho.

- e, se estivermos enganados - continuou timóteo, as mãos ansiosamente a


torcerem-se-lhe no colo -, então, toda a gente do santo ofício... todos aqueles cujas
almas tanto nos esforçamos por salvar... então... então, foram torturados e
sofreram...

gonsção debruçou-se rapidamente sobre ele e agarrou-lhe um braço.

- calma, meu filho, calma. É natural, timóteo, que te surjam perguntas no espírito,
considerando tudo aquilo por que passaste. mas estou muito contente por te teres
decidido a falar-me disso, pois, muitas vezes, só a maturidade dos anos torna claros
certos mistérios. e, sinceramente, não consigo conceber um mundo diferente
daquele que a nossa fé nos ensina.

- nem eu, padre, mas...

- caluda, deixa-me continuar. antes de entrar para o santo ofício, eu era uma espécie
de estudante. o meu pai mandou-me instruir, para que fosse mais qualquer coisa do
que um simples artesão de flautas, como ele era. aprendi alguma coisa das
tradições dos antigos pagãos. era um mundo frio e infeliz, o que eles imaginavam.
um mundo comandado pelos caprichos de divindades infantis, as quais se
entretinham a brincar com as vidas dos mortais. não havia redenção da
humanidade... tão-só e apenas um descuidado destino que acorrentava o homem à
sua perdição. não, timóteo, se a justeza de um pensamento se pode avaliar pela sua
beleza, então, os mitos dos pagãos têm de ser falsos. um mundo tão maravilhoso
como o nosso não pode, de maneira nenhuma, ser obra de deuses tão zaragateiros
como os deles. não posso aceitar que semelhante coisa seja verdade.

- mas então, padre, como explicais a existência da górgone?


- oh, é muito possível que os antigos tenham encontrado criaturas semelhantes. e,
depois, inventaram histórias, mitos, para as explicar. eu ouvi histórias de povos
distantes que tinham os olhos e a boca no peito, ou que só tinham uma perna e um
pé. talvez as górgones sejam apenas uma raça de gente, hoje muito menos
numerosa do que já foi.

timóteo olhou para ele uns momentos e, depois, disse:

- uma raça que transforma as pessoas em pedra e cujo sangue traz os mortos de
volta à vida.

- bem, na verdade, isso são características insólitas. talvez essa gente seja
portadora de alguma... doença que petrifica a carne ao tocar nela. ah, agora pareço
o senhor chinnery. mas escuta, meu filho, a existência de uma górgone não prova
que os antigos tinham razão, prova apenas que eles as explicavam por meio das
suas histórias.

- percebo o que dizeis, mas ela não me tocou, padre. limitou-se a olhar para mim. e
a deixar que eu... a visse. e, depois, os olhos dela chamejaram e as serpentes
silvaram para mim e eu enchi-me de medo. foi quando me amedrontei que comecei
a mudar.

- então, talvez haja uma explicação mais terrível, meu filho. a bíblia refere-nos a
existência de feiticeiros e de demônios. temos de considerar a possibilidade de que
ela seja um desses.

- para que quereria um demônio um reino na terra?

- porque não pode governar no céu, nem no inferno. talvez se disfarce, justamente,
com o propósito de pôr à prova a nossa fé. temos, também, de tomar isso em
consideração.

- e o que direis vós ao domine sadrinho a respeito dela?

- ainda não pensei nisso.

- ainda estais disposto a... a... matá-la? gonsção fez uma pausa.

- sim, se o puder fazer.

- mas o santo ofício não mata, padre.

- a bíblia diz-nos que não devemos permitir a existência de bruxas. por vezes, há
que cometer um mal, para assegurar o bem.

timóteo baixou os olhos, fixando-os nas mãos.

- e se, no santo ofício, estivéssemos a cometer um grande mal, padre? mesmo que
a nossa intenção seja boa, não seria um grande pecado?
gonsção franziu o sobrolho, sem saber o que responder.

- deus conhece, certamente, as razões dos nossos atos e julgar-nos-á por elas.
certamente, não encontrará motivos para te culpar. agora dorme, meu filho. não
deixes a tua mente inflamar-se com essas questões. descansa, reconfortado com a
certeza de que o mundo continua a ser como tu acreditas que seja e que não se
voltou ao contrário.

timóteo fez que sim com a cabeça e recostou-se no coxim. a sua expressão
continuava, porém, a denotar preocupação, mesmo quando fechou os olhos para
dormir.

gonsção afagou o ombro do rapaz e pôs-se de pé. havia um pequeno arco a ligar o
quarto com um amplo e abrigado varandim que corria ao longo do edifício. gonsção
saiu para o varandim, embora a tempestade dessa manhã se mantivesse, agora
transformada em chuvada grossa e constante. não havia, pois, grande coisa para
ver, mas a gonsção pouco importava, já vira quanto lhe bastava de bhagavatí e do
horrível palácio da rainha.

encostou-se à parede, deixando as poucas gotas de chuva que escapavam da


cobertura do varandim atingi-lo. o silvar da chuva e o afago das gotas de água era
aprazível e imprimia ao ar um cheiro agradável. gonsção inspirou fundo e suspirou,
apercebendo-se, então, como estava precisando de um bálsamo para as suas
preocupações.

terei argumentado tanto com timóteo porque eu próprio precisava de me convencer?


terei começado a duvidar daquilo que aprendi? acaso é esse o grande perigo desta
rainha maligna, levar os homens a duvidarem deles próprios e do mundo que
conhecem. santa maria, tende piedade de mim! dai-me força para agarrar a verdade!

passado pouco, gonsção apercebeu-se de outro som no meio da chuva, o de uma


mulher a chorar. ao princípio, o som era tão leve que pensou estar a imaginá-lo.
logo, porém, se tornou bastante alto para ser nitidamente real e muito próximo.

gonsção voltou a cabeça e viu surgir no varandim uma mulher saindo de outro
quarto. estava completamente vestida de preto da cabeça aos pés, com a cara
velada.

uma muçulmana. portanto, também aqui há muçulmanos. que saberão eles a


respeito do pulvis mirabile?

gonsção hesitava em aproximar-se dela, sabendo bem como os muçulmanos se


opunham a que as suas mulheres falassem com homens que não fossem seus
parentes.

tenho, porém, de descobrir tudo quanto possa.

gonsção aproximou-se dela, lembrando-se, então, de que poderia não ter nenhuma
língua comum com ela. não obstante, disse-lhe em latim:
- boa mulher, porque chorais? posso ajudar-vos?

a mulher parou bruscamente, só então dando por ele, segundo parecia. a mulher
endireitou-se, verificando então gonsção que ela era mais alta do que ele. a sua
atitude modificou-se também, deixando de estar dobrada sob o peso do pesar e
ficando cheia de uma raiva radiante.

- vós sois o monge da orlem gor, não sois? foi gandharva quem vos trouxe.

- sou, sim - disse gonsção, recuando um passo e notando que a mulher falava um
latim com uma pronúncia antiga, clássica. notou, também, um movimento subtil no
véu que lhe cobria a cabeça, como se houvesse qualquer coisa viva debaixo dele. -
meu deus! - murmurou ele.

- sois aquele que matou a minha filha.

- e vós... vós sois... a rainha que governa aqui. a vossa filha está viva e a minha mão
nunca a feriu. se ela vos disse o contrário, informou-vos mal.

a figura velada, negra, aproximou-se dele.

- a minha filha está viva porque o meu sangue a restaurou, mas eu vi o corpo dela
sem vida. eu vi a ferida horrível que tinha no pescoço. ela disse-me que vós fostes a
causa disso.

o padre gonsção recuou um passo e depois outro e mais outro, dominando uma
desesperada vontade de fugir. sabia agora, de certeza certa, que ela era um
demônio e sentiu vergonha pela sua súbita falta de coragem. tentou murmurar uma
oração, mas a língua não lhe obedeceu. recordou a si próprio que a sua missão era
destruir aquela criatura, porém, a sua única arma era um punhal e havia sido
apanhado completamente desprevenido.

- eu... não lhe infligi essa ferida, senhora.

- ah, não? isso não interessa. eu sei que os monges da orlem gor são peritos em
mortes não intencionais.

gonsção continuou a recuar, a chuva a cair-lhe na cabeça e nas costas, até que foi
bruscamente travado pela pedra da balaustrada do varandim. olhou lá para baixo.
era uma queda de dois andares até ao empedrado do chão, o suficiente para partir
as pernas ou o pescoço, numa queda feliz.

eu tenho de a dominar e atirá-la daqui abaixo, pois sou, de certeza, mais forte do
que ela. mesmo que eu também caia, tenho de a destruir e cumprir a minha missão.
isso, porém, vai deixar timóteo indefeso. espero que o senhor chinnery tenha ainda a
caridade suficiente para cuidar do rapaz.

a rainha velada parou a uns passos dele. o vento enfunava-lhe a seda preta, de tal
modo que a forma dela era indefinida, como se mudasse constantemente de forma
diante dele.

- pretendeis fazer-me mal, majestade? - disse por fim gonsção. - isso é injusto. eu
vim aqui convidado, de boa-fé. não me concedeis um julgamento?

- não. os rituais humanos cansam-me. tudo o que é humano me cansa. tenho sido
uma estúpida, à espera de alguma coisa que valha, vinda dos mortais. eu sou
imortal e tomarei as liberdades que os deuses podem tomar.

- então, iludis-vos a vós própria, majestade, ou mentis, pois só existe um único deus.

gonsção retirou o punhal da bainha suspensa na anca e ergueu-o na vertical, de


modo que a lâmina e a guarda formavam uma cruz.

a criatura riu-se num tom que tinha uns laivos de loucura.

- o que é que pretendeis fazer com esse pauzinho? não me ouvistes dizer que sou
imortal? podeis fazer-me sangrar, mas não vou morrer. eu não posso morrer.

- uma do vosso gênero morreu.

- ah, o vosso rapazinho monge falou-vos da minha natureza. sim, à minha irmã
medusa foi-lhe concedida essa grande dádiva, pela sua piedade e bondade.
acontece, porém, que eu não tenho essas qualidades.

a mão dela subiu para o véu que lhe cobria a cara. porque hesito? porque hei-de
acreditar nela?

- eu não tenho medo da morte, senhora. eu já entrei nessa região negra e regressei.
estou vivo porque me administraram o pó do vosso sangue seco, sem o meu
conhecimento nem o meu consentimento.

a mão dela parou.

- patenteais uma espantosa falta de gratidão para com aquela que salvou a vossa
vida sem valor.

- eu não pedi para voltar à vida, senhora. e não me importo de largar esta casca
mortal e de retomar aquela viagem.

- ah, se quereis saber, isso é muito interessante. os meus monges e filósofos,


porém, dizem-me que, quando eu transformo alguém em pedra, a alma fica
encarcerada e não consegue sair. e acredito que eles têm razão, porque, das raras
vezes em que me decidi a fazê-los voltar à vida, os petrificados voltaram à vida
muito rapidamente. segundo parece, o que eu faço é o que, proverbialmente,
chamam um destino pior do que a morte.

medo e raiva aliaram-se no âmago dele.

- e teríeis sido capaz de fazer uma coisa tão horrível a... alguém que não passava de
um rapazinho?

- referis-vos ao vosso mongezinho? eu recusei-o, ao princípio, mas ele pediu-me e


implorou-me tão inocentemente que tive de dar-lhe uma oportunidade. e ele quase
conseguiu, se quereis saber. acho que, se ele fosse um pouco mais terreno, tinha
havido uma esperança, para ele. eu pude ver a adoração dele por mim. e daria um
belo amante, dentro de um ano ou dois.

o nojo apossou-se de gonsção que avançou para ela, punhal em riste, mas ela,
agilmente, deu um passo para o lado e agarrou-lhe o pulso.

- ciumento, monge? aditi disse-me que acha que vós não gostais de mulheres. É por
isso que conservais o rapaz junto de vós? É ele o vosso querido?

- vil demônio, ide-vos! - gritou gonsção, arrancando o pulso da mão dela e


espetando-lhe o punhal no corpo. ela ofegou e ficou rígida. gonsção agarrou-a pelos
braços e empurrou-a para a balaustrada.

- louco... sois louco...

com uma das mãos agarrou-se ao ombro dele, levando a outra ao véu. porém, antes
de conseguir destapar a cara, gonsção alçou-a por cima da balaustrada e atirou-se
com ela para o outro lado.

a queda foi mais prolongada do que ele esperava. tentou manter a cabeça de ambos
para baixo, mas a rainha torceu-se e lutou com ele no ar. gonsção embateu no
empedrado de costas, com ela por cima dele. ouviu o embater dos ossos das costas
no chão e, depois, o da cabeça e dos cotovelos. por momentos, tudo se tornou
negro e, depois, para seu horror, recuperou a consciência. com ela sobreveio-lhe
uma dor paralisante e não conseguiu mexer-se. um peso no peito desapareceu e viu
a rainha velada debruçada sobre ele, a cara dela muito próxima da sua.

queda demasiado pequena. nenhum de nós morreu. falhei por completo. perdoai-
me, senhor!

ela, por fim, retirou o véu da cara, revelando as feições contorcidas pela raiva. gritou
para ele, as serpentes na cabeça, algumas esmagadas contra a cara dela, torcendo-
se e silvando, os olhinhos vermelhos chamejando.

apenas capaz de olhar para a horrenda cara dela, gonsção sentiu um grande calor
no peito, seguido de um frio intenso que se espalhou das costelas para as pernas.
não conseguia respirar. o coração parou-lhe. a garganta ficou rígida e sufocou. a
língua e a cara ficaram dormentes. um branco leitoso obscureceu-lhe a vista. e,
depois, mais nada.

porphredo caminhava corredor fora, com uma ânfora vazia nas mãos. a tépida água
mineral das fontes subterrâneas de água quente iam fazer bem aos ferimentos da
despoina e porphredo apressava-se, ansiosa por serenar stheno. a luz do fim de
tarde que conseguia penetrar no palácio era débil, em razão das nuvens do final da
tempestade. porphredo dobrava a correr um canto do corredor quando sentiu um
encontrão que lhe arrancou a ânfora dos braços e quase a derrubou. a bilha caiu no
chão e desfez-se em cacos e porphredo cambaleou para trás, mas foi agarrada pela
pequena figura em frente dela.

- oh, oh, porphredo! as minhas desculpas!

- enyo? minha querida irmã, que se passa?

os olhos muito abertos da pequena anciã exprimiam horror e a cara dela estava
muito pálida.

- terrível, coisas terríveis! onde é que está a despoina?

- ela está nos seus aposentos, a descansar. está ferida.

- oh, não! também ela?

- tem calma, enyo. não é nada de grave. ela deu uma grande queda, partiu um
braço, tem uma ferida de lado e umas nódoas negras. e sabes como ela se cura
depressa. mas o que queres dizer com esse ”também”?

enyo engoliu em seco e agarrou-lhe um braço.

- anda ver.

porphredo deixou-se conduzir a um corredor lateral onde viu um homem


esparralhado no chão numa poça de sangue, junto à parede. nesta, com o mesmo
sangue, estavam desenhadas duas palavras em árabe: ”allah akbar”.

- por hécate - exclamou porphredo -, quem fez isto? É um dos homens do mirzá.
awwal, acho que era o nome dele. terá o outro enlouquecido?

- mas há mais - disse enyo, o pânico na voz. - mais adiante está uma das raparigas,
no mesmo estado que este. e na sala do trono... oh, porphredo.

- que se passa lá?

- eu sei que o apreciavas muito. É... o sufi. morto, também.

- masum? - murmurou porphredo. - quem... como? se foi stheno quem...

- não! ele foi... decapitado. e ela não usa espada. porphredo fez uma pausa, para
dominar o lamento de pesar prestes a escapar-lhe.

- temos de descobrir quem fez isto.

- teria o mirzá matado um dos seus homens? e a rapariga?

- não acredito!
um medo doentio começava a invadir porphredo.

- enyo, leva as raparigas para um lugar seguro. lembras-te da sala que a despoina
mandou abrir na rocha, por baixo do jardim do galo? não há passagens secretas
para essa sala. leva-as para lá.

- está bem. e tu, que vais fazer? -perguntou enyo.

- não podemos perder tempo a conversar. vai-te embora.


enquanto a irmã se apressava a partir, porphredo correu

para a muralha norte do palácio, para a torre de menagem que ficava no seu ângulo
oeste. era o único sítio do recinto do palácio donde se podia observar o vale do rio
krishna. ofegando com a corrida e com a escalada pelas pedras ruídas, porphredo
chegou ao cimo da torre. em tempos, havia ali sentinelas, mas, após séculos de
tranquilidade, stheno deixara de se preocupar com isso.

o vento soprava forte ali no topo, embora a tempestade, felizmente, tivesse já


passado. porphredo sentiu o cheiro a terra úmida e a mais qualquer coisa: madeira
úmida a arder. olhou para o norte e viu colunas de fumo erguendo-se no vale. a
aldeia de devidurga estava a arder.

havia movimento nas encostas da montanha, como formigas rastejando num monte
de formigas: para poder distinguir àquela distância significava que o que via era
grande ou numeroso.

elefantes! apesar dos meus esforços, o exército de jaimal descobriu-nos!

porphredo observou em espantada imobilidade as colunas que se aproximavam.


depois, dominou-se e desceu à pressa as escadas da torre.

agarrou o primeiro monge meio-cego que encontrou e que varria o pátio junto à
torre.

- faz soar as trompas de alarme! vai! depressa!

o monge, obedientemente, abanou a cabeça.

- porquê? a deusa passeia-se outra vez?

- não, mas vamos ser atacados! e a deusa tem de sair, para nos salvar, é a nossa
única salvação. vai, depressa!

porphredo empurrou-o na direção correta e o monge partiu, cambaleante.

muito lento, muito lento. os elefantes vão chegar aos portões do palácio antes de o
povo de bhagavati estar avisado.

porphredo pôs-se de novo a correr, apesar das dores no peito e nos músculos
provocadas pelo esforço desusado. mas o esforço distraía-a da culpa que sentia por
ter falhado e ter atraído aquele perigo para a cidade.

entrou nos corredores sombrios, dirigindo-se para os aposentos de stheno, mas


parou de repente. mais adiante ouvia-se o ecoar de espadas e de vozes de homens
gritando em persa.

- traidor! onde está o tesouro?

- não sou eu o traidor aqui! baixai as espadas e escutai-me! o mirzá!

porphredo aproximou-se do som e espreitou para um corredor lateral. o mirzá estava


encostado à parede, sabre na mão, enfrentando quatro homens armados. um
homem, talvez rafi, estava estendido, morto, a seus pés. pôde observar que os
atacantes se preparavam para carregar sobre o mirzá.

ele não consegue aguentá-los!

porphredo entrou no corredor e gritou:

- alteza! que quer isto dizer? precisais de ajuda? olharam todos para ela.

- fugi, begum porphredo! - gritou o mirzá.

- silêncio, traidor! - disse um dos homens, com uma espadeirada arrancando o sabre
da mão do mirzá e agarrando-o pelo colarinho da jama.

- É a bruxa que nos enganou! - disse outro. porphredo reconhecia-os, vagamente.


porém, em vez de seguir o conselho do mirzá, avançou lentamente, endireitando-se
dolorosamente, recuperando a sua estatura e o seu porte realengo.

- que significa isto? para que trazeis esta violência para a nossa pacífica cidade?

- diz-nos onde se encontra o tesouro e leva-nos à presença da tua rainha, se não


morres e o mirzá também.

dois dos homens aproximaram-se dela, espadas em riste. porphredo estendeu as


mãos.

- calma, meus senhores. claro que podeis ver a rainha, dado que passastes na
prova.

- na prova? qual prova?

- está outra vez a mentir.

- nem toda a gente consegue chegar a bhagavati - continuou porphredo. - apenas os


mais inteligentes e mais corajosos. vós já provastes que o sois. vinde, a minha
rainha sentir-se-á honrada em receber-vos.

- nada de truques!
- juro, pelo que há de mais sagrado, que a vereis - disse porphredo. - segui-me, por
favor.

voltou-se e, com uma serenidade que não sentia, encaminhou-se para os aposentos
de stheno. ouvia os homens a caminhar atrás dela, empurrando o agora cativo
mirzá.

grande mãe, orientai-me! o mirzá é meu convidado, fui eu que o trouxe aqui. que eu
não o tenha trazido ao encontro da morte!

porphredo ignorou as constantes ameaças e perguntas dos homens, até que


chegaram junto da cortina de contas.

- se quereis fazer o favor, esperai aqui...

- não! não acreditamos em ti, vamos entrar contigo.

- como preferirdes.

stheno bradou do quarto de dentro, em grego:

- porphredo, trazes a água mineral? quem está aí contigo? porphredo respondeu em


persa, para que os mongóis entendessem.

- Ó poderosa rainha, nós fomos bafejadas com a visita de mui nobres senhores de
terras distantes que vos pedem audiência. peço-vos que lhes presteis atenção.

sempre em grego, stheno disse:

- se é um dos teus sarcasmos, porphredo, é inoportuno e indesejado.

- trata-se de um assunto muito sério - disse porphredo, ainda em persa. - peço-vos


que respeiteis estes senhores e que lhes concedais audiência.

um dos mongóis berrou:

- escutai, ó rainha traidora. nós temos as nossas espadas apontadas à garganta do


traidor ali akbarshah e os nossos exércitos cercam a vossa cidade. o que tendes a
fazer é entregar-nos os vossos tesouros e as vossas terras, ou arrasaremos a vossa
cidade e o vosso palácio.

- estes homens falam verdade. peço-vos, majestade - disse porphredo -, que os


vejais.

houve uma pausa e, depois, stheno respondeu, em persa:

- ah, pois claro. eles que entrem.

porphredo inclinou-se perante os mongóis e fez um gesto indicando a cortina.


- podeis entrar.

- primeiro tu.

- como desejardes.

porphredo passou pela cortina e depois entrou no quarto de stheno. entre a porta e a
cama onde stheno se encontrava estendida havia um translúcido biombo de
calcedônia. a luz das lâmpadas a óleo não projetavam a sombra de stheno no
biombo. porphredo colocou-se de lado para permitir que os homens entrassem.

- deveis desculpar a nossa begum, mas ela feriu-se recentemente e não está
convenientemente vestida para vos receber
- disse porphredo, lançando um olhar significativo para o mirzá, o qual baixou
imperceptivelmente a cabeça.

- nós não estamos aqui como cortesãos admiradores, mas como soldados - disse o
chefe dos mongóis, avançando e, com uma espadeirada, derrubando o biombo.

stheno pareceu, por um momento, pálida e espantada. depois, ergueu-se da cama,


o olhar fixo no mongol. as suas queridas olharam para a frente, primeiro com
curiosidade, depois silvando cheias de ódio.

o mongol conseguiu recuar dois passos, murmurando ”alá tenha piedade...”, antes
de o olhar de stheno o travar e lhe transformar o corpo em pedra. os outros mal
tiveram tempo de respirar, antes de as gargantas lhes ficarem paralisadas. durou
tudo uns momentos. apenas o mirzá, o qual fechara com força os olhos e desviara a
cabeça, continuava vivo.

- estúpido! - rosnou stheno, empurrando o primeiro mongol com o braço são. o


mongol caiu no chão, desfazendo-se em pedaços. - estúpido! estúpido! - continuou
ela, empurrando os restantes homens petrificados.

a espada que estivera apontada à garganta do mirzá caiu para o chão com o homem
que a empunhava. o mirzá ficou sozinho no meio de um monte de pedras com forma
de ossos e de carne.

- e agora, porphredo, que vamos nós fazer deste? - disse stheno, colocando a mão
por baixo do queixo barbudo do mirzá, como se lhe fosse voltar a cara para ela.

- tem piedade, stheno - disse porphredo. - ele veio de boa-fé, como embaixador, a
convite meu. ele não nos quer mal.

- poderosa begum - disse o mirzá, um ligeiro tremor na voz -, permiti que vos ajude.
há muitos homens no campo de jaimal que ainda me devem ser leais e que
obedecerão às minhas ordens. dai-me um cavalo e permiti que eu vá ao encontro
deles. tudo farei para evitar que eles ataquem a cidade.

- como vou saber se, muito simplesmente, não aproveitareis para fugir?
- eu preferia morrer a portar-me como um cobarde, grande begum. se tal coisa
fizesse, teria, para sempre, vergonha de me apresentar perante o meu imperador, ou
perante a minha família.

- ah! contudo, não tendes a coragem suficiente para olhar para mim?

- despoina! - exclamou porphredo -, não há tempo para os vossos jogos! temos de


defender a cidade. o mirzá é um homem de honra. confia nele e vamos tratar do que
temos de fazer.

- um destes dias, porphredo, ainda te arranco a cabeça pela tua insolência. pois
bem, deixa-me e arranja-lhe um cavalo.

- se posso sugerir... - começou porphredo, mas stheno levantou uma mão.

- não. a culpa disto tudo é tua. não te quero ouvir mais e vou tratar disto à minha
maneira. presumo que, desta vez, tu e a tua lamurienta irmã não irão objetar à
minha passeata.

lançou um xale sobre os ombros e desapareceu por uma porta lateral que dava para
as passagens secretas.

capítulo xxiv

tojo: este arbusto espinhoso é muito comum na escócia e tem folha persistente.
porque dá umas flores amarelas, o seu nome significa ”fogo”, pois as colinas
parecem em fogo, quando floresce. porque dá flor em todas as estações, verificam-
se prodígios de mau augúrio quando o tojo não floresce. mastigar as raízes do tojo
cura os males dos órgãos internos e reduz a obstrução dos intestinos. queima-se
tojo na véspera de são joão, como ato encantatório para proteger as colheitas e o
gado. usado na roupa, ajuda a encontrar o que se perdeu e evita os tropeços.
contudo, levar tojo para casa é o mesmo que convidar a morte a entrar...

thomas estava de pé no silêncio frio da sala subterrânea, a olhar para o feio ídolo de
pedra.

- não é tão elegante como o original, mas, como vedes, há uma semelhança.

- ah, meu rapaz! - exclamou lockheart, passando as mãos sapudas pela pedra
áspera com surpreendente doçura. - embora esta tenha por companheiros dois
leões, em vez de galgos, na forma é muito semelhante.

pegou no medalhão que trazia ao pescoço num cordão e pôs-se a olhar para ele e
para a estátua.

- eu referia-me à nossa rainha stheno, mas não interessa. thomas trocara a sua
indumentária de casamento pela camisa e pelos calções que sempre vestira desde
que saíra do santo ofício, em goa. sentia-se, assim, muito mais à vontade.
- É muita bondade a tua em trazeres-me aqui, sabendo que a rainha pode zangar-
se.

- já não me interessa se isso lhe agrada ou não. até espero que não lhe agrade. ela
até pode odiar-me, tanto me faz.

- hum! compreendo que a não queiras como amante, mas, se fosse a ti, não a
desejaria ter como inimiga. este é o próprio ídolo, dizes tu, perante o qual o monge
hindu tentou proceder a um rito contigo?

- sim, ele tratou-me como se eu fosse um cordeiro de sacrifício. mas não há que lhe
ligar. toda a gente diz que ele é louco.

- a loucura dos místicos muitas vezes revela-se ser uma espantosa verdade. de
qualquer modo, esse brâmane sabia da tua importância.

- bem, certamente foi o que lhe disse a rainha stheno. já acabastes, andrew. quero-
me ir embora. - thomas olhou em volta, amargo. - quero largar isto tudo.

- queres? - perguntou lockheart. - não há aqui mais nada de interesse para ti?

- mais nada. eu trouxe aditi para casa e ela recebeu a bênção do sangue da mãe e
uma nova vida. era esse o meu propósito, ao obedecer às ordens da rainha stheno.

- achas que sim?

- bem, eu queria, também, satisfazer a minha curiosidade. agora, acho que aprendi
mais do que desejava.

- preferias ter permanecido um tonto ignorante?

- preferia, sim. que necessidade tinha eu de conhecer a loucura que se pode


apossar dos homens? ou das mulheres ou... de outras criaturas?

- eu, cá por mim, amo a verdade, por mais maligna que seja a sua forma - disse
lockheart, acariciando a cabeça do ídolo.

- devíeis, talvez, olhar para a górgone, andrew. ela diz que quem a amar não será
transformado pelo seu olhar.

- e que acontecerá, se ela não me amar? não, meu rapaz, não vou correr esse risco.
basta-me adorá-la de longe. porém, se, como dizes, mais nada te interessa neste
palácio, talvez seja altura de falarmos em escapar.

- escapar?

thomas sentiu o coração pular-lhe no peito ao simples pensamento e olhou em


redor, a certificar-se de que não estava ali ninguém que os pudesse ouvir.

- não fui bem explícito? deixar este lugar para sempre, meu rapaz.
- desculpai-me, mas é uma palavra tão agradável que me ficou colada à língua.
tendes algum plano?

- tenho, sim. o que é que dizes a encontrarmo-nos no jardim sagrado, amanhã à


aurora?

- bem, é uma boa idéia. ninguém nos verá.

- É um sítio muito adequado. está, então, combinado? disse lockheart, estendendo a


mão direita.

thomas fez uma pequena pausa.

- podemos... dar a conhecer os nossos intentos a mais alguém? por exemplo a


timóteo?

- não, de modo nenhum! ele tem o padre para tomar conta dele. este plano é só para
mim e para ti. não contes a ninguém, se não nada feito. não te despeças de
ninguém, nem o dês a entender, de nenhuma forma, a ninguém.

thomas suspirou e, relutantemente, aquiesceu.

- muito bem - disse ele, agarrando a mão de lockheart e apertando-a. - isto é um


pato solene. amanhã, pela aurora, no jardim dos carvalhos.

a cara de lockheart era um intrincado misto de expressões e thomas perguntava-se


como era possível um homem parecer agradado, desagradado, apavorado e
exaltado, tudo ao mesmo tempo.

- muito bem, meu rapaz. aí e então nos encontraremos. tem de ser um plano muito
ousado, para incendiar tais fogos dentro dele.

- aí e então. talvez eu faça outra visita à biblioteca. há lá umas duas obras a que a
dona não liga muito e às quais podiam prestar mais atenção noutro sítio.

- o quê, agora queres tornar-te ladrão, meu rapaz? o teu mestre não te ensinou
melhor do que isso? não, não te arrisques, não leves nada cuja falta possa ser
notada. não faças perigar o nosso plano.

thomas soltou um suspiro.

- está bem. vós sabeis melhor do que eu o que convém. mas, agora, quero ir-me
embora daqui. há qualquer coisa nesta sala que me faz lembrar os meus pesadelos.

- então, vai. eu fico ainda aqui um bocado, a meditar.

lockheart voltou-se para a estátua e pousou-lhe as mãos na cabeça, fechando os


olhos.
sentindo-se a mais, thomas subiu as escadas em direção à porta. olhou uma vez
para trás, para ver lockheart, de pé em frente do ídolo, em profunda oração.

que homem estranho ele é! compreenderei eu alguma vez as marés que se erguem
e fluem na sua mente, ou devo ficar grato por não as compreender?

thomas saiu pela porta e fechou-a, para logo ver enyo, pálida, a correr pelo corredor
em direção a ele.

raio, fui apanhado. ela agora vai ralhar comigo outra vez por cometer um sacrilégio.
o que é que lhe vou dizer?

- déspotas chinnery! - ofegando, a pequena anciã correu para ele e agarrou-o pelas
mangas da camisa. - vinde comigo. precisamos de vós e deveis resguardar-vos!

thomas notou, então, abafado à distância, o som das trompas tibetanas.

- o que é que se passa, enyo? a vossa despoina passeia-se outra vez sem véu?

a anciã fez que sim com a cabeça e fez uma pausa, para recuperar o fôlego.

- estamos a ser atacados. os mongóis. já cá chegaram. pelas passagens ocultas. já


estão no palácio!

thomas recuou e olhou em redor, quase esperando ver os cavaleiros do mirzá a


irromperem das paredes.

- onde? quantos?

- não sabemos. por favor, vinde comigo! algumas das raparigas estão feridas e há
que tratá-las.

- pois bem, vamos lá, senhora.

thomas seguiu enyo, os pensamentos em turbilhão. esta nova calamidade impedirá


a minha fuga ou facilitá-la-á? porém, se precisam da minha ajuda, como posso eu
fugir?

quando ouviu os passos de thomas a subir as escadas, lockheart inspirou fundo e


tentou serenar o espírito perturbado.

meigamente, passou as mãos pela antiga imagem de pedra.

bela diana, embora não tão bela neste vosso disfarce, perdoai-me, senhora, por
quase me ter desviado da minha missão. apontastes-me sinais suficientes para eu
saber que é este o lugar. agora, dai-me força para o que tenho de fazer amanhã de
manhã.

manteve-se de pé em silenciosa meditação por momentos e, então, sentiu o ídolo


tremer sob as mãos e começar a mexer-se. com um sobressalto, lockheart recuou. À
luz débil, viu a estátua deslizar lentamente para trás, revelando por baixo um poço
quadrado, talhado na pedra. a base era um buraco. um vento frio soprava do poço,
implicando uma passagem subterrânea. surgiu uma luz tremeluzindo no buraco e
algo começou a emergir. lockheart distinguiu as cabeças de várias pequenas cobras
acastanhadas erguendo-se pela abertura. apontavam as línguas para ele e lockheart
fechou firmemente os olhos, sabendo bem o que se seguiria.

ouviu brandos e femininos resmungos de esforço, ou de dor, ou de ambos e


apercebeu-se de alguém a respirar em frente dele.

- tis ekei? - perguntou a rainha stheno em grego. - quem sois vós? sois mongol?

lockheart concitou coragem e respondeu:

- não, despoina. eu vim com o mirzá, mas sou de outra terra. eu sou o companheiro
de viagem do vosso noivo, thomas chinnery, e vim aqui para vos prestar
homenagem.

- oh! É, então, por isso que estais no nosso santuário mais sagrado?

- sim, despoina. mas acreditai, eu não pretendi cometer nenhum sacrilégio, pois eu
também idolatro a senhora das feras. eis a prova.

sempre de olhos fechados, lockheart estendeu-lhe o medalhão de prata, sentindo o


esticar do cordão, quando ela lhe pegou.

- bela medalha! portanto, quer dizer que ela ainda encontra seguidores nos dias de
hoje. espero que ela seja mais bondosa convosco do que tem sido comigo. porém,
certamente não percorrestes toda esta distância, correndo tantos perigos, apenas
para virdes ajoelhar-vos perante uma estátua feia.

lockheart fez uma pausa, perguntando-se quanto lhe poderia revelar, mesmo a ela.

- eu vim para cumprir um dever sagrado, despoina. eu não sabia se o ia encontrar


aqui, mas os sinais são claros. o vosso jardim é uma cópia do bosque sagrado de
diana, em nemeia, e vós aqui estais, a própria imagem da deusa.

- eu pareço atrair os místicos como a carne podre atrai as moscas. É uma coisa que
me confunde, as histórias que se têm espalhado, desde que eu e as minhas irmãs
fomos amaldiçoadas para sermos o que somos. presumo que quereis olhar para a
górgone, para pôr à prova a vossa fé?

lockheart sorriu.

- não, despoina. eu não sou merecedor e não tenho coragem para aguentar o vosso
olhar. já me basta ter estado convosco e ter ouvido a vossa voz.

- hum, sois o mais sábio dos meus visitantes místicos. por isso, vou conceder-vos a
minha bênção.
lockheart sentiu as mãos dela a meterem-lhe o medalhão na camisa. os dedos dela
demoraram-se, deslizando-lhe no peito. aproximou-se dele e ele sentiu a respiração
dela na cara. as mãos dela subiram, até lhe tocarem nos malares. de súbito, ele
sentiu uns lábios quentes nos dele e quentes e sinuosos corpos a roçarem-se-lhe na
testa e na cabeça. passado um pouco, ela afastou-se e lockheart soltou a respiração
num profundo suspiro.

- obrigado, despoina. quando morrer, será como um homem feliz.

- ainda bem, pois eu tenho de dizer-vos que correis grande perigo. o exército mongol
ultrapassou as nossas defesas e já entrou no palácio. deveis ter muito cuidado.

terei chegado tão perto do meu objetivo para o ver impedido por uma guerra?

- uma vez mais vos agradeço, despoina. terei o máximo cuidado que puder. eu já
enfrentei o perigo inúmeras vezes e conheço-lhe bem a cara.

- muito bem. então, tenho que vos pedir um favor. encontrai o rapaz monge, timóteo,
e levai-o para a sala inferior da ala do galo. o rapaz encontra-se indefeso e o padre
já não... está em condições de tomar conta dele.

- compreendo. mas posso perguntar porque estais tão preocupada com a sorte do
pequeno monge?

- porque ele, uma vez, olhou para mim. e achou que eu era bela. agora ide, não vos
demoreis na minha presença, pois eu estou sem véu e pretendo utilizar o meu olhar
mortal em todo o mongol que encontrar.

- entendido, despoina. apenas... apenas mais uma coisa, por favor.

- sim, o que é? depressa.

- se a batalha correr bem, peço-vos para irdes ao vosso jardim sagrado, amanhã de
manhã, uma hora depois da aurora. eu estarei lá, num ritual, com thomas. se
pensais bem de mim... compreendereis o que pretendo de vós.

- vós, místicos, muito apreciais os mistérios! pois bem, nada vos posso prometer,
mas lá estarei, se puder.

- honrais-me muito, despoina - disse lockheart, com uma profunda vênia.

voltou-se, mas não abriu os olhos antes de ter a certeza que estava longe dela,
correndo pelas escadas, o espírito invadido pela esperança e pelo pavor.

enyo bateu com os punhos na madeira grossa da porta.

- abram! tenho comigo o déspotas chinnery. thomas ouviu uma tranca a deslizar e a
porta abriu-se.

aditi espreitou. thomas ficou espantado como ela estava linda e, ao mesmo tempo,
desfigurada pela preocupação.

- entrem, depressa!

thomas quase empurrou enyo pela porta e logo a fecharam, recolocando a tranca.

a cena que se desenrolava na sala partiu-lhe o coração. raparigas cobriam o chão


sujo, umas chorando, outras queixando-se, outras balançando silenciosamente
pelos cantos. o cheiro a sangue e a medo enchia o ar fechado e thomas não pôde
deixar de pensar no aljouvar, a gruta-prisão de goa. aditi tocou-lhe no ombro.

- ainda bem que vieste. muitas delas foram espezinhadas, quando as apressamos
em busca de refúgio. algumas têm golpes de adaga dos mongóis. outras foram...
violadas. eu tenho de ir procurar o resto delas.

- espera, aditi, não deves. os mongóis...

- que o diabo os leve! - disse aditi, a testa franzida, retirando a tranca e saindo porta
fora.

enyo fechou a porta e tornou a trancá-la.

- foi sempre uma criança corajosa.

thomas soltou um suspiro, por um momento considerando se devia segui-la ou não.


depois, tornou a olhar para o chão da sala e lembrou-se de que tinha coisas mais
importantes a fazer.

foi de rapariga em rapariga, falando-lhes em tom gentil, confiando a enyo a tradução.


tentou perceber os queixumes de cada uma, ligando as que podia. sandálias e
chinelas serviam de talas, saris de ligaduras e de torniquetes. a anterior experiência
de cirurgião a bordo do whelp incutiu-lhe coragem para fazer o que podia, embora
pouco houvesse a fazer por aquelas raparigas que fugiam ao seu contato, fechando
as pernas firmemente, apesar de sangrarem das coxas.

thomas recordou-se do tumulto dos aprendizes, na véspera da candelária, no


primeiro ano em que trabalhara para mestre coulter. era coisa comum, nos feriados,
os aprendizes mais velhos correrem as ruas de londres, desvairados, atacando as
prostitutas nas casas de passe, bem como toda a mulher indefesa que tinha a
infelicidade de os encontrar na rua. mestre coulter havia recolhido todas as vítimas
que vira através da montra da loja e a senhora coulter e a filha ana haviam-nas
acarinhado e tratado delas. thomas recordava-se que uma delas havia falecido na
loja e duas outras bem preferiam ter morrido, pois estavam tão desfiguradas pelas
violências que haviam sofrido que sentiam que a vida que lhes restava ia ser um
martírio.

- deus ou deusa, seja qual for o que governa este mundo, por que tendes tão pouca
piedade pelo sexo feminino? não são as suas vidas já suficientemente
sobrecarregadas pela sua própria natureza?
thomas deixava ao cuidado de enyo as que não aceitavam ser tratadas por ele e
continuava.

de súbito, ouviram-se pancadas na porta e enyo bradou:

- quem é?

- trago mais alguém para o santuário! - bradou lockheart do outro lado da porta.

thomas fez um sinal a enyo e esta fez deslizar a tranca da porta. lockheart entrou,
com timóteo nos braços. thomas ergueu-se e foi junto deles, observando o ferido.

- ele está bem, andrew? o que é que eles lhe fizeram?

- não foram eles, foi ela. o nosso corajoso mongezinho olhou para a górgone, mas
não escapou incólume. o seu querido padre teve pior sorte e, agora, ornamenta um
dos pátios do palácio.

ah, pensou thomas com alguma tristeza, a forma do padre harmonizou-se com o seu
coração. apesar de tudo, lastimo a morte do homem que ele era.

- vais-me desculpar - continuou lockheart -, mas eu vou procurar armamento para


dar cabo de alguns maometanos.

- mas, andrew - thomas baixou o tom de voz, mirando em redor -, e a respeito dos
nossos planos para amanhã de manhã? mantêm-se?

- sim, mantém-se tudo. eventualmente, esta batalha vai favorecer-nos.

- e se, entretanto, vos matarem?

o rosto de lockheart abriu-se num amplo sorriso.

- nada me vai acontecer, meu rapaz. eu recebi a bênção da deusa. tu é que deves
ter cuidado até amanhã de manhã.

o escocês deu uma palmada no ombro de thomas e desapareceu pela porta.

thomas voltou-se para timóteo.

- então, irmãozinho - perguntou-lhe em latim -, como estais?

- eu já não tenho pés, tomás, ficaram transformados em pedra. foi por isso que não
pude ir ter convosco. eu olhei para ela, tomás. eu falei-lhe no amor de deus. mas o
medo invadiu-me.

thomas apertou o braço de timóteo.

- sois um rapaz muito corajoso, mas também muito tonto. ainda bem que estais vivo.
mas ela... ela transformou o padre?
timóteo baixou os olhos.

- eu não vi, mas ouvi-os. eles discutiam no varandim. depois caíram. eu acho... eu
acho que o padre tentou... tentou matá-la. como ele disse que faria. o irmão andrew
disse-me que vira o padre transformado em pedra. depois de ter caído.

thomas disse:

- o padre jurara que havia de destruir a fonte do rasa mahadevi. e eu lamento que
ele não o tenha conseguido fazer.

- porquê?

thomas pestanejou, admirado.

- mas, não compreendeis, timóteo? não há lugar no mundo para um poder como o
dela.

timóteo fixou-o intensamente.

- começais a falar como o padre.

- sim, sim, acho que sim. mas...

- mas porque é que não há-de haver lugar no mundo para ela. não está deus a criar
mistérios constantemente? porque havemos de destruir o que é estranho, e belo, e
poderoso?

thomas fez uma pausa.

- eu não sei dizer-vos, timóteo. talvez porque semelhante criatura nos faz parecer, a
nós mortais, pequeninos e fracos, em comparação. agora tendes de me desculpar.
eu tenho de ir tratar destas infelizes.

timóteo retirou uma bolsa do cinto de corda e estendeu-a a thomas.

- vede, tomás! eu tenho ainda algumas ervas que apanhei na viagem. há aí folhas
de bétele. e flores de champada, embora já estejam secas. e...

- obrigado, timóteo. vós dareis um bom boticário. o vosso avô, garcia de orta, teria
orgulho em vós.

timóteo ficou radiante.

- sugiro-vos o bétele. faz uma boa cataplasma, basta reduzi-lo a pó.

soou outra batida na porta e porphredo bradou do lado dela:

- abre, enyo! eu encontrei mais ovelhas tresmalhadas. enyo soltou um suspiro e


abriu de novo a porta. três raparigas entraram de afogadilho, caladas, o medo nos
olhos.

- encontrei-as escondidas na biblioteca. não estão feridas. ah, apotekos, ainda bem.
trouxe-vos umas coisas. - porphredo estendeu a thomas um rolo de tecido de
algodão e um frasco que cheirava intensamente a plantas secas. - isto é um
unguento que os monges usam muito - acrescentou.

timóteo apontou para o frasco e disse:

- reconheço esse cheiro. os monges aplicaram-me isso nos tornozelos.

- como eles parecem ter-vos salvo a vida - disse thomas -, vou dar grande valor a
este remédio. obrigado, porphredo. vistes alguns indícios de batalha lá fora?

- eu fiz o que pude para a evitar, déspotas. mas fornecemos um cavalo ao mirzá e
ele dirige-se para onde está o grosso do exército. ele acha que é capaz de os
convencer a não atacarem a cidade. quanto ao palácio... digo-vos apenas que há
mais estátuas nos corredores do que havia esta manhã.

- que diz ela, tomás?

- diz que a rainha tem estado ocupada a transformar os nossos inimigos.

- estais a ver? ela não é má, está a ajudar-nos. e ela pode restituir a vida às estátuas
quando quiser. ela disse-me isso. talvez ela nos restitua o padre.

porphredo lançou um olhar impenetrável ao rapaz e, depois, dirigiu-se a enyo.


thomas viu-a passar-lhe um frasquinho, dizendo:

- para o caso de alguma morrer.

enyo fez que sim com a cabeça e enfiou o frasquinho no cinto.

- ah, claro, o rasa mahadevi - murmurou thomas. - sendo elas as noivas da deusa,
bem merecem essa dádiva. as que estão muito feridas talvez fosse melhor matá-las,
administrando-lhes, depois, o pó, para se curarem mais depressa... - thomas tomou
consciência do que estava a dizer e calou-se, abanando a cabeça. - não vedes,
timóteo, os pensamentos horríveis que esta tentação nos induz?

o rapaz ficou calado. thomas sentou-se ao lado dele e pôs-se a rasgar em tiras o
tecido de algodão.

o mirzá ali akbarshah, inclinado sobre o pescoço do cavalo desconhecido, esperava


no escuro que lhe abrissem o portão em frente dele. o fedor do túnel era sufocante.

que gênero de rainha é esta que obriga o seu povo a viver como coelhos? estarão a
ser punidos por algum crime ou será pela sua casta? e vão ter de defender as suas
casas, se eu falhar e os túneis forem invadidos.
com um estrondo, a geringonça que fechava a entrada do túnel rolou para o lado e o
mirzá apressou-se a sair, mal tendo espaço para ele e o animal passarem.
pestanejou na súbita luminosidade do sol que se punha.

o cavalo tomou por uma estreita plataforma na encosta de uma montanha, chegando
a um cimo sobranceiro a um fundo barranco. lá estava jaimal, em baixo, sentado no
dorso do elefante do mirzá, dirigindo um grupo de homens que forçavam uma porta
de madeira chapeada a ferro, incrustada na encosta da montanha. as videiras que,
em tempos, ocultavam a porta haviam sido arrancadas.

o mirzá levantou a mão e, tão alto quanto pôde, gritou:

- alá é grande!

a tarefa foi interrompida e todos os homens se voltaram para ele.

- a paz esteja convosco, meus senhores - continuou o mirzá. - peço-vos que cesseis
o ataque. baixai as vossas armas, pois a rainha que aqui governa é uma rainha
pacífica e deseja ter boas relações com o nosso imperador. e está disposta a
partilhar conosco toda a sua sabedoria. não há razão para lutar.

os homens olhavam uns para os outros, murmurando espantados. jaimal ficara


pálido e nada dizia.

- e o tesouro? - alguém gritou no meio dos homens.

- o tesouro da sua sabedoria será distribuído por todos

- respondeu o mirzá. - o shahinshah imperador ficará muito satisfeito com o que


descobrirmos aqui e vai recompensar, sem dúvida nenhuma, os que empreenderam
esta árdua jornada para estabelecerem uma aliança de paz.

- estão a ver? - disse por fim jaimal. - o traidor continua a mentir, declarando que não
há nenhum tesouro, para se apossar dele sozinho.

- não! - bradou o mirzá. - o meu objetivo nunca foi a riqueza. não sou movido pela
ganância. e foi para aumentar a riqueza do espírito que o imperador akbar nos
enviou aqui e, se estabelecermos um tratado de paz com a rainha de bhagavati, ele
será bem servido.

- lembrai-vos - contrapôs jaimal - que essa dita rainha de paz nos enviou uma
feiticeira que nos mentiu e transformou mumit em pedra. e, agora, ali akbarshah
tornou-se seu fiel servidor e quer que, pacificamente, caminhemos ao encontro da
morte.

por mais vontade que tivesse de assacar acusações ao seu traiçoeiro ajudante, o
mirzá não sabia com quantos homens contava jaimal e, por isso, conteve as
palavras.

- como vedes, eu vim aqui sozinho e desarmado. os vossos receios são


compreensíveis, mas estais equivocados. o shahinshah imperador é célebre pelas
suas conquistas e esta rainha receava que nós fizéssemos exatamente o que vos
preparais para fazer. ela tinha medo de nós e, por isso, fez o que podia para
proteger o seu povo, desorientando-nos. a morte de mumit foi um acidente.

- vejam como a bruxa da rainha o seduziu! - disse jaimal.

- nós fomos avisados pelo sábio guardião do zigurate que a rainha que
procurávamos era uma nora de satã, uma encantadora de homens e uma
escarnecedora da fé. vejam o que ela fez ao nosso, em tempos, nobre mirzá. não
merece semelhante criatura ser conquistada?

os homens calavam-se e o mirzá sentiu que eles o avaliavam.

que posso eu dizer-lhes para que se inclinem para o meu lado?

- a grácil rainha stheno não é nenhuma parente de satã e terá muito gosto em
receber-vos respeitosamente na sua cidade como hóspedes. mas ficai avisados.
elas dispõem de poderes muito para além da nossa compreensão. eu disse-lhe que
vós sois homens de honra, não bárbaros ladrões e bandidos e ela deu-me esta
oportunidade de lhe provar isso mesmo. porém, se não me ouvirdes e entrardes na
cidade como os patifes entram na casa de um homem rico, então ela não terá outra
alternativa senão defender o seu povo e a sua cidade. considerai que podeis todos
ter o mesmo destino que mumit.

estas palavras produziram claramente efeito, pois os homens tornaram a calar-se e


afastaram-se da porta na encosta rochosa. jaimal inclinou-se para trás e falou para
alguém atrás dele no howdah. um arco com uma seta enganchada surgiu por
debaixo do dossel do howdah, apontada ao mirzá.

- sê prudente, jaimal! - gritou o mirzá. - não...

o mirzá, porém, não pôde completar a frase, pois uma seta atravessou-lhe o peito.
tentou erguer a mão, tentou tomar ar, mas não conseguiu. outra seta o atingiu e um
enorme pesar o invadiu ao cair da sela. chegou apenas ao quarto nome de alá antes
de expirar.

capítulo xxv

visco: esta planta parasita cresce sobre outras árvores, em particular sobre o
carvalho, dizendo-se que é transportada pelos relâmpagos, tornando-se, assim, um
símbolo da vida resgatada à morte. dá umas bagas pálidas, cor de cal, e tem folha
persistente. também lhe chamam madeira da santa cruz, pois cresce com essa
forma. o visco é considerada uma planta cura-tudo, pois cura quase todas as
indisposições conhecidas. contudo, há que ter cuidado ao usá-lo, pois o suco das
bagas é, em grande medida, venenoso. uma tisana do pó das bagas secas alivia
toda a espécie de entorpecimentos e de espasmos, se a planta se encontrar junto ao
visco de engodo, uma cataplasma das duas misturadas cura as chagas. os antigos
pensavam que o visco os protegia nas viagens ao mundo subterrâneo,
considerando-o um talismã para afastar o mal e evitar a entrada das bruxas. os
povos pagãos atribuíam-lhe grandes poderes mágicos e juntavam-no antes dos mais
potentes sacrifícios...

do herbário particular de mary coulter londres, 1603

thomas acordou com o ruído da porta da sala a fechar-se. porphredo e aditi haviam
entrado, aditi envergando, agora, uma couraça de couro reforçado. tinha o cabelo
apanhado atrás numa comprida trança e uma espada curta suspensa à cintura.
enquanto lentamente despertava, thomas notou que a maioria das infelizes noivas
de xiva dormiam, tal como timóteo, uma calma pesada suspensa no ar. o irmãozinho
tinha trabalhado arduamente durante a noite, ajudando como podia. dorme bem,
timóteo, pois muito bem te portaste esta noite. que deus leve em conta essa tua
dedicação aos outros, ao pesar os teus atos no santo ofício. descansa bem.

thomas levantou-se e dirigiu-se a aditi.

- que horas são? já nasceu o sol?

- ainda não, mas está por pouco - respondeu aditi num suspiro, passando as mãos
pelos olhos, com um ar cansado.

thomas apercebeu-se que desejaria que a aurora já tivesse passado e, com ela, a
sua obrigação de se encontrar com lockheart, como combinado. agora, a decisão
dependia dele e partia-lhe o coração ter de abandonar quem precisava do seu
auxílio.

- como é que corre a batalha? não me digas que essa tua indumentária significa que
vais combater?

- não, se o puder evitar - respondeu ela, com um ligeiro sorriso triste -, mas não sou
tonta. É melhor ter alguma proteção contra as setas desgarradas, mesmo quando
temos de fugir. receio, porém, pelo nosso povo... eles precisam de um chefe que os
oriente. um chefe que possa estar junto deles sem que corram perigo.

aditi fixou, por momentos, o olhar em thomas, pensativa.

- eu não sou guerreiro - disse thomas. - ficariam mais bem servidos com o mirzá, ou
mesmo com andrew lockheart. a propósito do qual, tenho de me ir encontrar com ele
no jardim sagrado... para um assunto importante. sabes dizer-me se é seguro para
lá chegar?

aditi franziu o sobrolho e não respondeu, mas porphredo disse:

- o palácio parece estar livre da infestação, mas há que ter cuidado com os calhaus
espalhados por toda a parte. a batalha prossegue agora na cidade e receio que os
talentos da nossa rainha causem tanto mal como bem aos cidadãos de bhagavati.

- porque é que tens de ir ao jardim sagrado, precisamente agora? - perguntou aditi.

- vais desculpar-nos, aditi, nós não pretendemos menosprezá-lo, mas parece ser um
bom local para um encontro, é só por isso.

thomas caminhou para a porta e retirou a tranca, antes que a sua língua traiçoeira
algo mais revelasse.

aditi, porém, seguiu-o e, junto dele, perguntou-lhe docemente:

- vais deixar-nos, não vais?

- hum... porque pensas semelhante coisa? - disse thomas, sentindo-se corar, as


mãos a tremerem-lhe.

- os teus olhos traem-te. bom, tu não pertences aqui e esta batalha não é tua. não
vou insistir para que fiques. vai e que a senhora das feras, ou outra qualquer, te
proteja.

- adeus, aditi.

thomas olhou para ela um momento e, depois, beijou-a docemente na face.


rapidamente, abriu a porta, saiu e tornou a fechá-la, antes que uma indesejada
lágrima lhe corresse pela cara. pôde ouvir a tranca a ser recolocada em posição.

thomas correu pelos corredores, iluminados à luz cinzenta da pré-aurora. a sua


consciência havia sido espicaçada pelas palavras de aditi e, quanto mais corria,
mais se interrogava se não fugia de si próprio e da sua verdadeira missão. o cheiro a
fumo pairava no ar e ele evitava, conforme podia, os cacos anatômicos no chão,
tentando não identificar um pedaço de mão, de nariz, de osso, de órgão, ou fosse do
que fosse.

raios, quem me dera escapar deste local de horrores. mas não serei eu a causa de
tudo isto que está a acontecer? não tivesse eu seguido aditi em goa, não tivesse eu
confessado à inquisição e não me tivesse eu oferecido para os conduzir à fonte do
rasa mahadevi, não tivesse eu concordado em viajar com o exército do mirzá, para
salvaguarda de aditi, não tivera eu feito tudo isso e bhagavati teria permanecido
oculta e em segurança, com o seu povo a viver feliz e em paz, sem que a sua rainha
se excitasse, tal abelha irritada. mais valia que tivesse morrido no aljouvar, ou de
escorbuto no whelp. melhor fora que tivesse morrido no ventre da minha mãe, em
vez de ela morrer ao parir-me. não, tenho de dizer a andrew para seguir sem mim,
eu tenho de consertar o que estraguei.

tomara por corredores errados um após outro, contudo, pelo tom rosado da luz,
conseguiu chegar ao portão de ferro do jardim sagrado, justamente quando o sol
começava a nascer. o portão estava encostado e thomas abriu-o e meteu-se na
vereda principal. diante dele, no chão, estava um comprido montante. era
nitidamente muito antigo, mas bem conservado, sem uma única mancha de
ferrugem.

- É uma beleza, não é, tom? - disse lockheart, algures no meio dos carvalhos e dos
amieiros. - acho que é de origem normanda. esta rainha coleciona uma infinidade de
coisas.
- sim, embora desconfie que os meus ombros me permitam utilizá-lo. não podíeis ter
trazido uma lâmina mais pequena? este peso dificulta a fuga.

- não, esse montante vai servir os nossos propósitos. feliz natal. agarra-o.

thomas baixou-se e, a mãos ambas, agarrou no punho do montante e ergueu-o. não


era tão pesado como imaginava e os ombros só protestaram um pouco.

- É bem equilibrado.

- folgo muito em ouvir isso - disse lockheart, ainda fora de vista. - experimenta-o. por
exemplo, corta esse ramo de visco agarrado ao carvalho, à tua direita.

algo nas palavras de lockheart fez soar um alarme nas reminiscências de thomas,
mas estava demasiado fatigado para compreender porquê.

- porque é que vos escondeis de mim?

- tudo se tornará claro, meu rapaz. vamos, o visco.

thomas aproximou-se do carvalho e golpeou com o montante a pequena planta em


frente dele. a lâmina silvou no ar e deitou por terra o visco, com o ramo do carvalho
e tudo.

- É uma arma bem afiada - exclamou thomas. - embora eu receie poder causar mais
danos do que pretenda. ainda bem que os combates no palácio já acabaram.

- ainda não, meu rapaz, ainda falta um combate. thomas voltou-se, ao ouvir passos
a aproximarem-se na vereda. ali estava lockheart, apenas com uma tanga de folhas
e o medalhão ao pescoço. o resto do corpo estava coberto de lama e, na cabeça,
tinha uma coroa que mais parecia a armação de um veado. lockheart empunhava
também um montante, erguido à altura da cintura de thomas.

- ah, andrew! que significa esta tontice? estais louco?

- os ritos praticados em nome dos deuses parecem, muitas vezes, uma forma de
loucura, tom. a deusa que servimos exige agora de nós um rito muito sério. foi para
isso que eu te segui desde inglaterra. foi para isso que o teu pai te educou como o
fez. nós servimos a caçadora da floresta de nemeia. e, agora, como sempre o fez
desde a antiguidade, pede-nos um sacrifício.

thomas recuou.

- vós... não pode ser... nós somos homens civilizados, andrew, não somos bárbaros
adoradores de deuses!

a expressão serena de lockheart não se alterou.

- os homens chamam bárbara à antiga sabedoria, negando-a. não encontramos


nesta cidade escondida a prova dela? embora tenhas preferido não os ver, os sinais
estão aí, para quem os observe atentamente. do lado da tua mãe, tu és descendente
da nobreza romana, na realidade, de um pontífice, embora isso possa parecer
divertido. o teu antepassado é um precursor do papa. o teu nascimento provocou a
morte da tua mãe, tal como aconteceu comigo, meu rapaz. as fúrias que povoavam
os teus sonhos estão aqui com um propósito. e nós estamos aqui na imagem da
floresta de nemeia, onde mora a imagem de artemis. - lockheart saudou-o com a
espada. bem-vindo, orestes.

thomas sentiu um frio percorrer-lhe os ossos. nos mitos que havia estudado, orestes
era condenado a morrer na floresta de nemeia, como expiação pela morte da mãe.

- o meu pai encarregou-vos disto?

- não, não lhe assaques culpas. isto é o meu dever sagrado. eu nasci para isto,
como tu.

- mas... este local é apenas uma imagem, como dissestes. não é o lugar adequado.
trata-se de um combate fictício?

- não há nada de fictício neste combate. um de nós não sairá daqui vivo.

meu deus! ele tenciona matar-me, como um sacrifício a diana. por isso prestou tanta
atenção à tentativa de prabaratma de fazer o mesmo. que raio de homem é este que
se faz passar por meu amigo, durante tanto tempo, apenas para me abater como se
eu fosse um carneiro?

thomas engoliu em seco e agarrou o montante mais firmemente.

- a fuga a que vos referíeis, quando me incitastes a vir aqui, era à derradeira fuga?

- exatamente como dizes, meu rapaz.

- recuperai o senso, andrew.

- nunca me senti tão sensível. o ar desta manhã é o mais doce de toda a minha vida.

- então, deixai-me apreciar essa doçura um pouco mais. desafiemos os deuses!


como poderemos adorar uma divindade tão cruel que exige o sangue de homens
cheios de saúde.

lockheart continuou a caminhar para ele, sem responder.

- e se eu... se eu largar a espada e me recusar a combater? sereis tão vil a ponto de


matar um homem desarmado?

lockheart parou.

- peço-te, tom, por favor não me obrigues a matar-te como a um cão. isto tem de ser
um combate honroso.
- e eu que vos julgava meu amigo - murmurou thomas, olhando em redor, a ver se
podia escapar-se. - que mal vos fiz eu, para que tenhais de cumprir o vosso dever
tão friamente?

- não me fizeste mal nenhum, meu rapaz. eu sempre gostei de ti. por duas vezes, na
nossa viagem, eu quase me esqueci da minha missão, deixando-te seguir outro
destino.

- então, em nome dessa amizade, esquecei-vos outra vez! lockheart abanou a


cabeça e, erguendo rapidamente o montante, brandiu-o, a ponta quase atingindo o
pescoço de thomas.

- oh, defende-te, meu rapaz! não faças disto um combate mesquinho.

brandiu de novo o montante e thomas recuou, aparando o golpe com o seu


montante. o embater das lâminas fez-lhe vibrar os ombros, renovando as dores.

- eu dormi muito pouco, andrew. isto não é um combate justo.

- eu não dormi absolutamente nada, meu rapaz. mantive-me em vigília, como os


antigos cavaleiros faziam. estamos mais do que equilibrados.

o montante de lockheart tornou a embater no de thomas, quase lho arrancando das


mãos.

- oh, tenta bater-te como um homem!

- já que o pedis...

espicaçado pelo medo e pela ira, thomas brandiu o montante e desferiu um golpe
que lockheart facilmente parou.

- estás a ficar melhor. mas precisas de prática. não aprendeste nada com as
incursões do capitão wood?

- eu tinha uma espada mais leve, e pistolas.

thomas ergueu o montante, mas lockheart desferiu um golpe rápido, arrebatando-lho


das mãos e fazendo surgir uma fina linha vermelha no peito de thomas.

thomas cambaleou, encostando-se a uma árvore, chiando com a picada. uma parte
da sua mente começou a enumerar as cataplasmas que teria de aplicar na ferida.

- já me feristes. vamos considerar este combate terminado ao primeiro sangue e eu,


de boa mente, vos concedo a vitória.

lockheart abanou a cabeça.

- o único final é a morte. morte que vai trazer nova vida.


o escocês brandiu de novo o montante e thomas esquivou-se. um grande pedaço da
casca e do tronco da árvore soltou-se do sítio onde tinha estado a cabeça de
thomas.

santo deus! ele está mesmo louco e determinado a acabar comigo.

com firme determinação, thomas apanhou o seu montante e pôs-se a agitar o ar


diante dele. de um lado para o outro, tal foice, thomas agitou a lâmina, até que
zunia. para sua satisfação, conseguiu fazer recuar lockheart, o escocês mal lhe
aparando as estocadas.

- oh, oh! bom esforço, meu rapaz! continua! mais! estás a tomar-lhe o gosto.

irritado com o espírito escarnecedor de lockheart, thomas ignorou as dores nos


ombros e a ferida no peito e balanceou a lâmina cada vez mais rapidamente. a
vereda dava uma volta um pouco à frente e thomas esperava que lockheart
perdesse o balanço.

se eu conseguisse feri-lo por forma que não possa combater, talvez a loucura lhe
passe.

chegaram à curva e lockheart, de fato, tropeçou nas raízes de uma árvore. porém,
quando thomas apontou para onde devia estar o braço de lockheart, o escocês
largou o montante e avançou, de braços abertos, diretamente contra a lâmina de
thomas.

o montante de thomas produziu um golpe profundo no corpo de lockheart e o


escocês caiu para o chão, com um queixume. a coroa tombou-lhe da cabeça.
perdendo o balanço, thomas cambaleou para a frente, tropeçando nas pernas de
lockheart. isto teve como efeito enterrar ainda mais o montante, fazendo lockheart
berrar.

thomas largou o punho do montante e rolou na vereda. o montante caiu para o chão,
pelo próprio peso, saindo da ferida de lockheart. um rio escarlate, do sangue de
lockheart, começou a correr ao lado dele. ofegando, thomas murmurou:

- perdoai-me, andrew. acho que vos matei.

- É o que devia ser - disse lockheart. - era eu que devia morrer, meu rapaz. tu és o
novo sacerdote da floresta de nemeia. eras tu quem devia matar-me.

- mas... então...

- se eu te tivesse pedido, tom, meu querido, ter-me-ias matado? eras capaz de o


fazer?

- não!

- pois não. tu estavas a recuperar, eu tinha de te enganar. com os dedos sujos de


sangue, lockheart tirou o cordão

do pescoço e estendeu o medalhão a thomas.

- isto, agora, é teu. regressa a inglaterra. o teu pai vai receber-te com todas as
honras e vai ensinar-te tudo o que precisas de saber. grava este dia na memória,
pois, um dia, terás de fazer o que eu fiz.

thomas estendeu a mão para o pendente de prata, mas, depois, retirou a mão.

- não, não o farei, nunca.

- ai, fá-lo-ás, sim, quando chegar a altura. a tua morte pertence-lhe, como a tua vida.
ai, que dores! tens de acabar comigo, thomas.

- eu... não consigo.

- É uma crueldade deixares-me sofrer.

- eu não tenho a perícia de um cirurgião. posso falhar e fazer-vos sofrer mais.

- É coisa fácil, meu rapaz. a espada é pesada. basta deixá-la cair no meu pescoço. -
teve um espasmo e tossiu sangue. - depressa, por favor!

thomas pôs-se em pé e agarrou no montante, agora pegajoso com o sangue de


lockheart, arrastando-o até onde ele estava estendido. com uma careta, o escocês
inclinou a cabeça, para oferecer um melhor alvo.

thomas queria fechar os olhos, mas não queria falhar. como tantas vezes acontecera
na loja de mestre coulter, calou os sentidos ao que cheirava e ao que via, fixando a
atenção apenas no que havia a fazer.

- adeus, andrew! - exclamou ele, erguendo o montante e deixando a lâmina cair no


pescoço do escocês. a lâmina enterrou-se profundamente e um afluente correu para
o mar de sangue na vereda. num instante, os olhos de lockheart ficaram sem vida.

thomas ficou ali pregado, incapaz de se mexer. um choque no estômago avisou-o de


que, em breve, estaria a reagir violentamente ao que via. ouviu, então, passos atrás
dele.

- tamas, o que é isto? que fizeste?

thomas ficou ainda mais paralisado e não se atreveu a voltar-se.

- rainha stheno! majestade, eu... foi ele que me atacou. isto não vos diz respeito.

- esse homem pediu-me para vir aqui assistir a um ritual.

- o ritual já terminou. deixai-nos.


- compreendo. bem, quem sou eu para julgar...

- não tendes que defender a vossa cidade?

- já o fiz, tamas. poucos invasores restam em bhagavati. infelizmente, a cidade está


em chamas e morreu muita gente. mas o pior já passou. há muita coisa a
reconstruir. vou precisar de alguém ao meu lado, para me ajudar. as... noivas de xiva
vão ter de voltar para suas casas, são lá necessárias agora. mas nós podemos ter
outro casamento, tamas. tu não és nenhum místico louco. tu és o meu dourado. o
meu adónis. continuo a querer-te.

thomas cerrou os dentes.

- mas eu não vos quero.

- não te preocupes, tamas. até o teu mongezinho conseguiu olhar para mim, durante
algum tempo. certamente, o meu amor por ti...

- não! eu vi a vossa cripta. eu vi o que fizestes a timóteo. não posso amar um


monstro. uma assassina.

- segundo parece, temos esse pecado em comum.

- eu não o queria fazer. foi ele... foi ele que me pediu.

- É sempre isso que parece, não é? eles vêm ter conosco a pedir que os matemos.
não compreendes, não estás a ver? que outro amante me poderia compreender?
anda, vamos reconstruir bhagavati e ser, juntos, grandes e terríveis monarcas.

- não!

sem pensar, ergueu o montante e virou-se. manteve os olhos abertos o tempo


suficiente para visar a junção da cabeça de stheno aos ombros, logo os fechando,
enquanto a lâmina atingia a carne dela. vira, contudo, o bastante para lhe notar a
espantada surpresa estampada na cara.

quando o arco ficou completo, thomas largou o montante das mãos. ouviu um
prolongado silvar à sua direita. sentiu um jato quente na cara e no peito. tinha a boca
aberta e, por isso, soube-lhe a sangue. o sangue dela! À medida que a horrível
queimadura se lhe espalhava pela garganta abaixo, lembrou-se: uma mordedura de
serpente para aquele que respira... para os vivos, o sangue dela era veneno.
delirante, como se assistisse a um acontecimento maravilhoso, caiu de joelhos.
diana apossa-se da minha morte mais cedo do que julgava... o meu reinado como
sacerdote de nemeia foi bastante curto. flutuavam-lhe manchas diante dos olhos. os
músculos deram de si e caiu na lama quente, espessa. pareceu-lhe ouvir o bater de
asas de couro e gritos de ”assassino! assassino!”. foram os últimos sons que ouviu.

prabaratma estava na muralha do palácio. em baixo, o fogo lavrava num tremeluzir


escarlate e de ouro, brilhando nas negras colunas de fumo. lágrimas encheram-lhe
os olhos e, por instantes, a vista enevoada pareceu-lhe ficar clara. ergueu o olhar
para o céu e viu, sobre bhagavati, a titânica forma carmesim de cáli: os inúmeros
braços ondeando, os crânios envolvendo-lhe a cintura, os olhos incandescentes. a
língua saindo, faminta, dos lábios manchados de sangue. os pés dançavam sobre as
casas a arder, derrubando-as. as inúmeras mãos agarravam as almas esvoaçantes
e lançava-as a terra ou para o céu. a sua dança era destruição e a deusa ria.

- bem-vinda, cáli durga! - gritou prabaratma. - bem-vinda sejais, vós que destruís o
mundo e o renovais!

pareceu-lhe ouvir o rufar de tambores e o ribombar dos bombos a subir da cidade.

- ouvis a música, cáli durga? É a vossa canção sagrada. prabaratma balançava ao


ritmo da música, escutando a lamúria dos espíritos libertos da servidão terrena,
cantando em redor dele num coro dissonante.

a figura de cáli aproximou-se dele, os olhos nele fixos. dois dos seus braços
estenderam-se para ele, os dedos curvados, incitando-o.

- junta-te a mim - ouviu-a ele murmurar -, vem dançar comigo.

prabaratma foi invadido pela maior alegria que jamais havia sentido.

- para isto foi a minha vida criada. eu vou, cáli durga. deu um passo em frente e
sentiu-se de repente leve.

um brilho como o do sol envolveu-o, o bafo quente do sol aquecendo-o. virou-se, os


braços a rodarem, a rodarem.

- estais a ver-me, cáli! eu danço para vós. vede como eu danço! vede como eu
danço! vede como...

a primeira coisa de que thomas teve consciência foi um gosto a sangue na boca.
remexeu a língua e os lábios.

- ele está a acordar - disse uma mulher por cima dele, em grego.

o corpo de thomas estremeceu violentamente. depois, abriu os olhos. estava


estendido no chão, mas já não estava no jardim. parecia haver uma montanha ao
lado dele e via, ali perto, paredes calcinadas de casas. havia muita gente em redor
dele. olhou para cima e viu a figura couraçada de aditi, debruçada para ele.

- quer dizer, então, que... não estou no paraíso? - disse ele com voz espessa.

o olhar dela era frio e pouco cordial.

- quanto menos falares, melhor. eu não quero saber quem matou quem, nem por
que ordem, nem quem o merecia mais. nem quem empurrou prabaratma da
muralha. trouxemos-te de volta porque podíamos e houve quem intercedesse a teu
favor. bhagavati perdeu a sua rainha e, por isso, eu tenho de ocupar o seu trono e
de cumprir a sua missão. tu tens de partir. regressa à tua distante inglaterra e nunca
contes a ninguém o que aqui viste.

thomas sentou-se.

- como desejares - conseguiu ele proferir.

- muito bem. gandharva e estes dois vão guiar-te através do sind, até onde lhes for
possível. vais levar timóteo contigo.

- mas...

dois hindus agarraram thomas pelos braços, com certo cuidado, e ergueram-no.
levaram-no para junto de uma mula, já carregada com uma trouxa de cama e bolsas
de pele com água. ao lado da mula estava um burro com timóteo em cima dele.

- bem-vindo de volta, tomás - disse o rapaz, os olhos atentos. - reparai, eles deram-
me uma sela especial, onde me posso sentar. como vos sentis?

- ainda não sei bem - respondeu thomas, enquanto os hindus o ajudavam a montar a
mula.

conseguiu sentar-se na sela sem cair.

- tendes de lhe dar tempo, mongezinho - disse gandharva que, sem a sua
inseparável vina, estava montado num pônei ao lado do rapaz. - leva o seu tempo a
ficarmos, de novo, completamente vivos. eu sei-o bem.

hesitante, thomas começou a perguntar:

- quanto tempo fiquei eu...

- sete horas, foi o que ouvi dizer. tende calma, boa aditi. o pobre tamaschinri acaba
de sair do seu profundo sono.

- eu quero-o daqui para fora - disse aditi.

não admira, pensou thomas. eu matei-lhe a mãe. alguma vez ela me perdoará?
desconfio que não.

sentia-se estranho, como se não devesse estar ali. contudo, se tinha estado noutro
lado qualquer para além do estige, não conseguia lembrar-se. porém, sentia-se,
também, em paz consigo mesmo, como se lhe tivessem tirado um grande peso de
cima dos ombros.

sentiu um toque no joelho direito. thomas olhou e viu porphredo ao lado da mula,
estendendo-lhe uma bolsa de couro.

- são uns livros da nossa biblioteca. são tratados de ervas, mas são muito antigos,
não posso garantir que sejam corretos.
- obrigado, porphredo - disse thomas num suspiro, segurando a bolsa nas mãos com
todo o cuidado.

- É um presente de partida - disse ela, encolhendo os ombros. - sofrestes muito para


nos encontrar, não podíeis ir de mãos vazias.

- que ireis fazer agora, vós e enyo? não será melhor eu pedir auxílio em bijapur, para
vós e para a vossa cidade?

- não, embora vos agradeça. tivestes ocasião de ver o gênero de auxílio que os
reinos estrangeiros nos enviam. enyo e eu vamos aguentar. É o que passamos a
vida a fazer.

com uma ligeira vênia, a anciã foi-se embora, o sari cinzento a flutuar ao vento.

aditi estava montada num grande e nervoso cavalo preto, um saco de juta nas mãos.
o saco continha uma coisa esférica e com protuberâncias, uma nódoa vermelha a
manchar o fundo do saco. thomas percebeu de imediato o que o saco continha e o
que aditi pretendia fazer com aquilo.

perseu utilizou uma arma semelhante depois de matar medusa. que coragem e que
vontade de ferro tem esta aditi. que deus ajude os mongóis que ainda restam em
bhagavati.

quando ela partiu, metendo-se na cidade amortalhada em fumo, thomas disse para
gandharva:

- se quereis saber, acho que aditi vai dar uma bela rainha.

epÍlogo

maio, 1602 londres, inglaterra

thomas chinnery estava sentado à secretária, a contar e a registrar a receita do dia.


verificou que o suprimento de papoulas da turquia estava a esgotar-se, tal como a
folha de bétele e a raiz do lírio florentino. estava na altura de escrever cartas aos
mercadores com quem se encontrara ao regressar da índia, para tratar de refazer os
suprimentos.

com um suspiro de satisfação, recostou-se na cadeira.

ainda bem que a loja continua a prosperar.

com o recente falecimento de mestre coulter, thomas receara que a clientela da


botica se afastasse. verificava, porém, que ”coulter & filho” continuava a funcionar
bem.

- thomas?

a mulher, ana chinnery, entrou, a saia preta enfunada à frente dela, tal vela de
galeão impulsionada pelo vento.

e que a sua carga faça uma boa viagem, pensou ele. graças a deus, mestre coulter
viveu o suficiente para me ver voltar, para dar o seu consentimento ao nosso
casamento e para saber que haverá um neto.

thomas sorriu para ela e beijou-lhe a mão.

- que posso fazer por ti, minha anafada beleza?

- não é propriamente o que podes fazer, mas o que te trago.

- ainda melhor - disse ele, galhofeiro, tentando puxá-la para o colo.

ela riu-se e livrou-se das mãos dele com gestos meigos.

- basta, tom. chegou um mensageiro com outra missiva do teu pai.

o sorriso de thomas desapareceu-lhe abruptamente da cara.

- queima-a, como eu fiz às outras.

ana suspirou e bateu com um pé no chão.

- mas, thomas, não chega já desta zanga? ao menos, lê a...

- não. já discutimos isso, ana. eu não quero mais nada com ele. cumpri o meu dever
para com ele na índia e ponto final.

- mas que mal há em leres a carta? olha, vou abri-la e leio-a para ti.

thomas agarrou-lhe na mão com mais força do que pensava e ela assustou-se.

- perdão, ana - disse ele atenciosamente -, mas já te disse que tenho as minhas
razões.

- sim, mas não me dizes quais são. ainda não falaste com o teu pai desde que
voltaste. não consentiste que ele viesse ao nosso casamento e nem sequer o queres
informar de que vai ter um neto. eu gostava de saber que grave ocorrência cavou
tamanho abismo entre um pai e um filho!

enchendo-se de paciência, thomas replicou:

- suficientemente grave para que mais nenhuns ouvidos a ouçam. que ele nada
saiba de mim é coisa que não me interessa.

- mas interessa-me a mim! não nos ensinaram na igreja a honrar pai e mãe? e a
virtude do perdão?

- o meu pai não se interessa pela nossa igreja e certas coisas estão para além do
perdão.

- bom, se isso não te convence, o que dizes da sua fortuna? um dia poderia haver
uma herança que a tua obstinação nos nega. pensa no nosso filho, thomas!

cerrando os dentes, thomas respondeu:

- eu estou, justamente, a pensar no nosso filho. se formos abençoados com um


rapaz, o meu pai não lhe pode pôr a vista em cima - disse ele, pegando nas mãos da
mulher. - ana, a igreja também ensina que as mulheres devem honrar os maridos.
honra-me, a respeito disto. não me faças mais perguntas acerca do conflito entre
mim e o meu pai. não quero que os teus queridos ouvidos ouçam os horrores que eu
teria de contar.

- oh, os teus horrores e mistérios! tratas-me como se eu fosse uma criança!

ana atirou-lhe o pergaminho dobrado e selado para cima da secretária e, no seu


passo pesado, desapareceu pelo cortinado, regressando à loja.

thomas soltou um suspiro.

será a inocência prerrogativa apenas das crianças?

agarrou na carta. o selo vermelho tinha nele gravada uma figura feminina, com um
arco, ladeada por dois cães.

a viúva coulter surgiu da cozinha, atrás dele, as saias agitadas, o cabelo grisalho a
escapar-lhe do capuz.

- que discussão era essa, thomas?

- ana trouxe-me outra missiva do meu pai - respondeu thomas, erguendo a carta.

- ah! - exclamou a viúva coulter, arrancando-lha da mão.

- vai já para o lume.

- obrigado!

thomas seguiu-a até à cozinha, perguntando-se porque é que ela era tão
compreensiva e a filha não. porém, como fora ela que o encorajara a seguir para a
índia e não para itália, como o pai dele desejava, thomas desconfiava que ela sabia
mais a respeito da família dele do que jamais revelara.

timóteo estava sentado à mesa de cavalete que quase enchia a pequena cozinha,
inclinado para um livro. espalhadas sobre a mesa, diante dele, viam-se folhas e
ramos, raízes e flores.

- como estão a correr esses trabalhos, tim?


- hum, bem... correm... bem, tomás - disse timóteo, num inglês ainda incerto. - a
domina coulter, o livro dela é bom, acho eu, mas muita palavra eu não, eh...

- compreendo?

- sim, é isso.

thomas sorriu-lhe. embora tivesse tido certas dúvidas, ao princípio, quando haviam
saído de bhagavati, agora regozijava-se por timóteo ter vindo com ele para
inglaterra. timóteo ajudava a senhora coulter a redigir e a compor o seu herbário,
uma tarefa que evitava que se entregasse ao pesar pela morte de mestre coulter. a
vida, em londres, contudo, não era nada fácil para um rapaz de pele escura e
aleijado, ainda por cima católico e preparado para seguir uma carreira eclesiástica.
por isso, thomas mantinha-o o mais possível dentro de casa, onde timóteo prestava
uma preciosa ajuda na loja.

- thomas - chamou ana da porta.

thomas preparou-se para nova fase de discussão.

- sim, ana? - disse ele voltando-se e vendo-a de olhos abertos e muito pálida. correu
para ela. - que se passa? sentes-te mal?

ana abanou a cabeça.

- duas senhoras estrangeiras estão ali na loja. trazem com elas uma... criança
disforme. perguntam por ti, mas têm qualquer coisa que me mete medo.

thomas afagou-lhe a cara.

- calma, rapariga. sabes bem que o teu estado te torna propensa a esses medos.

- caluda! - exclamou a senhora coulter. - isso só lhe faz mal, com a criancinha que
traz na barriga. vai lá falar com as clientes, thomas.

- sim, mãe.

com um sorriso triste, thomas passou pelo cortinado e entrou na sombria e


aromática loja.

no meio da loja atravancada, por baixo do crocodilo embalsamado, estavam duas


mulheres, uma alta, outra baixinha, de vestidos e véus negros. entre as duas estava
uma outra, do tamanho de uma criança, mas com uma cabeça muito grande,
agarrada às mãos das mulheres. pareciam três sombras pretas, entradas na vida
animada.

thomas ouvira falar de crianças cujas cabeças inchavam devido a doença, ou em


consequência de quedas. geralmente, morriam pouco depois. se aquelas mulheres
procuravam ajuda para a pupila, thomas receava que pouco pudesse fazer.
- boa-tarde, minhas senhoras. em que vos posso servir?

- não é tão fino? - disse a mais pequena, em grego.

- sim - disse a mais alta. - a prosperidade e o casamento fizeram-lhe bem.

thomas sentiu-se tonto e agarrou-se a uma prateleira, fazendo tremer os frascos e


as tigelas.

- enyo? - murmurou ele. - porphredo? - o coração a saltar-lhe do peito com as


recordações que o invadiam.

porphredo retirou o véu, sorrindo-lhe, aprofundando as rugas da sua comprida cara


de couro.

- saudações e os melhores votos para vós, déspotas.

- aceitai, igualmente, as minhas saudações e o meu regozijo por vos ver feliz - disse
enyo, tirando, também, o véu.

a terceira pessoa, no meio delas, não tirou o véu. thomas olhou para ela.

- quem é...

- eu também te saúdo, belo tamas - disse a criatura, com voz de criança, porém,
com entoação adulta.

- stheno! - murmurou thomas. - não... não pode ser...

- eu não te disse que era imortal? não te disse que os deuses não me deixam
morrer. apesar do teu hábil esforço. essa bênção só foi concedida à minha irmã
medusa. era a tua nova mulher, a que nós vimos? É bastante bonita. e vai ter um
filho. tens-te portado bem!

thomas recuou lentamente para o cortinado.

meu deus, ela veio vingar-se! que posso eu fazer contra um adversário que não
pode morrer? tenho de os avisar para fugirem de casa, mas timóteo não...

- nada receies, tamas. julgas que eu vim para te punir, mas eu vim para te perdoar.
eu não te farei mal nenhum, nem à tua família. eu queria que soubesses que,
possivelmente, me fizestes um grande favor. tu deste-me a oportunidade para,
digamos, recomeçar de novo.
- oh! - foi tudo o que thomas conseguiu dizer.

- nós temos andado a viajar - disse enyo - e temos visto quanto o mundo tem
mudado. andamos à procura da nossa irmã deino e da irmã da despoina, euryale.
quando estávamos em paris, mencionamos o vosso nome a um doutor francês e ele
disse-nos que estáveis próspero. por isso, decidimos vir aqui felicitar-vos.

- estou... estou a compreender. como está aditi?

- estava muito bem, a última vez que a vimos - disse porphredo. - ela governa o que
resta de bhagavati e temos esperança de que venha a ser, de novo, uma cidade
próspera. ela tem aproveitado bem as relações de amizade com o sultão ibrahim.

- ela deitou abaixo o meu palácio - rosnou stheno. - filha ingrata!

- só parte dele - retificou porphredo. - ela prefere não governar como uma deusa.

- hum!

a disforme stheno largou a mão de porphredo e remexeu por debaixo do véu.

- eu trouxe-te um presente, tamas. bom, é um pouco tarde para ser um presente de


casamento, portanto considera-o antes um presente de nascimento.

uma mãozinha rechonchuda emergiu do véu e estendeu qualquer coisa a thomas.

cautelosamente, thomas aproximou-se e viu que ela segurava uma caixinha


quadrada de madeira. thomas conseguiu pegar nela sem lhe tocar na mão.

- os meus agradecimentos.

- É com todo o prazer, tamas. usai-o com prudência.

- temos de ir - disse porphredo. - a nossa viagem tem de prosseguir e ainda vamos


longe.

- que as minhas bênçãos recaiam sobre a vossa mulher e sobre o vosso rebento -
disse enyo, recolocando o véu sobre os alegres olhos pretos.

- que vivais muitos anos e bons - disse porphredo, cobrindo de novo as feições com
o véu.

- sê próspero e prolífero - suspirou stheno. - e não te esqueças de mim.

as três mulheres voltaram-se e saíram da loja. a sineta dependurada por cima da


porta tiniu à sua partida. thomas ficou imóvel, onde estava.

- esquecer-te? fica descansada, não te esquecerei, por mais que o queira.

baixou o olhar para a caixa, na mão a tremer. na tampa estava gravado um caduceu.
thomas abriu a caixa. pousado numa almofada de seda creme, estava um frasco
opalescente. não precisava de abrir o frasco, para saber o que continha. fechou
rapidamente a tampa da caixa.

o rasa mahadevi. não consigo escapar à sua tentação, para longe que fuja. e se
eu... se eu o usasse cá? podia fazer o que nenhum outro boticário consegue fazer.
se o utilizasse com cuidado e em grande segredo, podia proporcionar-me muita
prosperidade. ana preocupa-se muito com a possibilidade de um dia ficarmos
pobres. esta substância pode ser uma garantia de riqueza. utilizada judiciosamente,
nada iria faltar a ana e ao nosso filho.

os dedos dele apertaram com força a caixa.

depois, lembrou-se das visitas que recebera, ao chegar a inglaterra. perguntas da


parte da firma de mestre bromefield, acerca do desfecho da expedição. perguntas do
próprio tribunal real. dissera-lhes que os navios haviam sido destruídos nas costas
da índia, o que era verdade e era confirmado por marinheiros portugueses. dissera-
lhes que os piratas o tinham levado para goa, onde tinha ficado preso uns tempos na
prisão do governador, o que também era verdade. não lhes dissera, porém, nada a
respeito da sua viagem ao interior do continente. pressentia que as autoridades
desconfiavam da sua história, por ser o único sobrevivente, mas não lhe podiam
assacar culpas e deixaram-no tratar das suas coisas sem o molestarem. mas não
sem o vigiarem.

um aumento repentino da sua fortuna seria logo notado. os interrogatórios podiam


recomeçar. um deslize da língua ou de comportamento e... bem, a acusação de
feitiçaria era coisa comum naqueles dias. imaginou-se na sala de um tribunal,
enfrentando juizes rabugentos e clérigos. imaginou uma forca. imaginou ana, viúva e
sem dinheiro, apavorada e incapaz de mostrar a cara na rua, mesmo para mendigar,
pela vergonha que ele acarretara sobre ela. não, não pode ser!

- thomas? - chamou ana da cozinha. - está tudo bem? inspirando fundo, thomas
caminhou calmamente de volta à cozinha. dirigiu-se diretamente para a lareira e,
baixando-se ao lado do caldeiro, atirou a pequena caixa para o lume, ao lado das
cinzas da carta do pai.

- não te preocupes, ana, está tudo bem.

- quem eram aquelas mulheres? donde são elas? o que é que elas queriam? o que é
que atiraste para o lume.

thomas ergueu-se, limpando as mãos aos calções.

- eram ervanárias. da grécia, acho eu. queriam vender-me uma substância de


eficácia duvidosa e deixaram-me uma amostra. mas a substância é muito cara e não
me interessa.

- e a criança disforme que vinha com elas?

- não há nada que eu pudesse fazer por ela, mas vai recuperar, com o tempo. -
thomas esfregou as mãos. - estou cheio de fome! o que é a ceia?

fim.

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