Da geração na encruzilhada

Lia há dias as queixas de uma jovem em relação à falta de oportunidades para quem tem um curso superior. É um argumento perfeitamente compreensível, e é triste que tal aconteça. Tem a ver com o que foi indirectamente prometido à minha geração, e veiculado na ideia da licenciatura. Uma promessa que veio de quem acreditava piamente nisso simplesmente porque era o paradigma dominante. Claro que havia uma nuance que faz toda a diferença: eram poucos os que acediam à educação superior. Felizmente assistiu-se à sua democratização, e isso tem como consequência que um curso superior é cada vez menos um patamar e mais uma ferramenta. Para tornar as coisas mais difíceis, é uma ferramenta que pode ou não ser útil dependendo da conjuntura, do estado da ciência e tecnologia, e até da flutuação dos interesses dos seus possuidores. Não devemos todavia confundir os “licenciados à rasca”, detentores de licenciaturas, pós-graduações ou mestrados, com o resto da “juventude silenciosa”, que tem poucas qualificações, ainda menos perspectivas e sem grandes hipóteses de aceder a um bom salário. Ou às vezes a qualquer salário. A curto prazo, para os licenciados à rasca, a resolução passa por alargar as hipóteses de procura. Toda a integração europeia que aconteceu, desde o Erasmus à harmonização de Bolonha às companhias aéreas low cost, não foram meras curiosidades que “eles” fizeram na Europa. O alargamento das hipóteses de procura decorre destas oportunidades. E de certa maneira é bom, porque um curso superior que não tenha hipóteses em Portugal pode tê-las no estrangeiro. O problema da tal juventude silenciosa é mais profundo, e a sua resolução é mais complexa. Emigração? Sim, mas esses não o fazem pela porta grande. Em Portugal o mercado de trabalho é pouco ágil, os salários baixos... Parece-me ser um dos grandes problemas do país, gerador de um círculo vicioso de mediocridade, tanto na vida dos envolvidos, como nas respostas dadas ao seu problema. Do ponto de vista teórico, parece-me do mais saudável que há, em democracia, que quem seja privilegiado deixe de querer perpetuar o seu estatuto de forma artificial, e pelo menos aceite lutar por ele de forma justa, em oposição a remover-se confortavelmente da realidade social e viver apenas do que foi adquirido. Isto pode aplicar-se às empresas e às pessoas. No caso dos bem conhecidos monopólios empresariais, a falta de concorrência inquina a procura pela eficácia no negócio, o que em última análise se reflecte na população. Em austeridade é ainda mais gritante que o Estado na prática subvencione accionistas de empresas, por meio de negócios ruinosos e parcerias nebulosas. Haveria também vantagens numa maior proximidade entre as empresas e a sociedade, na medida do seu sucesso e grandeza. O exemplo de uma grande empresa de distribuição “querer talhantes e não os ter porque o Estado não os forma” é crasso. Como é que uma empresa que deveria ser um exemplo de empreendedorismo em toda a linha não abre ou patrocina essas escolas de formação? Porque não criam fundos de apoio ao ensino? Porque não fazem mais pelas artes? E as pessoas? Como é que o enunciado anteriormente, sobre a perpetuação artificial de estatutos, se aplica às pessoas? Um exemplo sensível: a renovação do mercado de trabalho. A sua flexibilização é algo que deve acontecer, porque a solução para a precariedade não é simplesmente converter os recibos verdes em contratos a tempo indeterminado; por muito que custe, a solução para esta desigualdade é que alguma precariedade se incorpore nos contratos normais de trabalho. É polémico, sim, mas às vezes é preciso romper com o passado.

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