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ECOLOGIA Larvas de tricópteros constroem ‘casas’ e tecem redes para capturar alimentos

Insetos arquitetos
Figura 1. Tricópteros adultos dos gêneros Leptonema (A), Macronema (B), Nectopsyche (C) e Scrimidea (D) e da família Polycentropodidade (E) – todos podem ser encontrados no Brasil

Parentes menos famosos das borboletas, os tricópteros são pequenos insetos que passam grande parte de sua vida na água, ainda como larvas ou pupas. Sua presença nos ecossistemas de água doce e sua grande variedade os tornam bons indicadores de qualidade ambiental. Mas alguns desses insetos também atraem a atenção dos pesquisadores por sua habilidade para construir abrigos e tecer redes de captura de alimentos. Um estudo sobre tricópteros realizado em um rio da Venezuela levou inclusive à descoberta de uma nova espécie. Por Henrique Paprocki, do Departamento de Entomologia (doutorando da Capes), da Universidade de Minnesota (Estados Unidos).

ordem Trichoptera é, entre as que reúnem insetos aquáticos, uma das mais diversas e abundantes na maioria dos ecossistemas de água doce do mundo. A diversidade de tricópteros (figura 1) é maior em rios e riachos bem conservados, o que os torna bons indicadores de qualidade da água. Graças à grande riqueza de espécies, tais insetos ocupam diferentes nichos em seu hábitat e apresentam hábitos variados – há desde consumidores de algas, filtradores de matéria orgânica e raspadores de perifiton (algas e animais aderidos a pedras, plantas e objetos submersos) até predadores de outros ani-

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mais e mesmo necrófagos (que se alimentam de animais mortos). As larvas (figura 2) e as pupas desenvolvem-se na água, onde constroem ‘casas’ (abrigos) que atraem a atenção dos pesquisadores por sua incrível engenharia. Para isso, usam os mais diversos materiais, de areia e pedras a gravetos, partes de folhas e conchas de moluscos. Já os adultos, semelhantes a pequenas mariposas, vivem em ambientes terrestres por curto período, apenas para a cópula e a postura dos ovos. Em algumas famílias, as larvas usam uma seda produzida em glândulas salivares modificadas para te-

FOTOS DE HENRIQUE PAPROCKI

A Figura 2. Larvas de tricópteros dos gêneros Grumicha (A), Marilia (B) e Phylloicus (C)

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apesar de muitos apresentarem atividade diurna e padrões multicoloridos nas asas. O trabalho levou à identificação de uma nova espécie de tricóptero. formando estruturas conhecidas como ‘travertinos’ (figura 7). são os ‘parentes’ mais próximos das borboletas e mariposas (da ordem Lepidoptera). Entre eles estão os tricópteros do gênero Smicridea (família HydropsyA B Figura 4. folhas e até abrigos de Figura 3. Esse processo foi estudado pelo autor deste artigo no rio Cataratas del Charo (figura 6). Não é possível. Entrada de abrigo (A) e rede filtradora (B) construídas por larvas de tricóptero do gênero Scrimidea no rio Cataratas del Charo B janeiro/fevereiro de 2003 • CIÊNCIA HOJE • 65 . é totalmente tomada por abrigos dessa nova espécie do gênero Smicridea (figura 8). as margens do rio exibem mata ciliar em bom estado. esse precipitado cobre todas as superfícies disponíveis. Evolutivamente. Tal fenômeno. começam a perder o gás carbônico. incluindo gravetos.PRIMEIRA LINHA cer ‘redes’ filtradoras de água. derivados das palavras gregas lépis (escama) e trichós (pêlo). situado no noroeste da Venezuela. As nascentes são de águas subterrâneas. que influencia a paisagem e a arquitetura de um riacho. junto com plecópteros e efemerópteros (figura 4) – insetos também com larva aquática e adulto alado – o índice EPT (Ephemeroptera. é composta em sua maior parte por construtores de abrigos com redes filtradoras. devido ao pequeno tamanho. identificar as espécies e sua história natural é de grande valor em programas de avaliação de qualidade da água. Os tricópteros sequer têm um nome popular em português. Ca(HCO3)2. do sul do México ao Chile. no estado de Falcón. mas com freqüência é desejável reconhecer as espécies das formas imaturas. Em riachos. Plecoptera. mas as larvas da grande maioria das famílias dessas últimas são terrestres (as conhecidas lagartas). As redes são elaboradas de maneira que a corrente as atravesse. Os lepidópteros têm escamas nas asas. A formação e a erosão de travertinos com a rede filtradora podem ser muito influenciadas por que construiu para capturar alimento seres vivos. o que leva à precipitação do carbonato em forma de minerais como calcita ou aragonita. cuja descrição foi A Figura 5. A superfície superior dessas barragens. para que organismos ou partículas orgânicas presentes na água sejam retidos (figura 5). presentes em toda a região neotropical. já foi bem estudado. Larva do gênero tricópteros. Como as larvas dos tricópteros têm respostas muito diferenciadas à poluição e a outros distúrbios ambientais. Os tricópteros compõem. embora alguns insetos aquáticos exerçam um papel crucial. Estes em geral não são notados por leigos. amplamente usado. enquanto nos tricópteros elas são cobertas por pêlos – daí os nomes das duas ordens. Assim que tais águas entram em contato com a atmosfera. Insetos plecópteros (A) e efemerópteros (B). e logo em seu início o rio apresenta uma cachoeira de 70 m de altura. Águas subterrâneas que atravessam rochas calcárias são supersaturadas em carbonato de cálcio (CaCO3) e dióxido de carbono (CO2) – essas moléculas reagem com a água. também com larvas aquáticas. Scrimidea em seu abrigo. porém. Embora se localize em uma região totalmente devastada pelo fogo. os travertinos comumente formam uma sucessão de pequenas barragens que parecem piscinas naturais. que capturam alimentos (figura 3). mas poucos pesquisadores avaliaram a importância da macrobiota aquática nesses processos. no caso de bactérias e outros seres microscópicos. determinar a espécie de uma larva sem associações precisas com os adultos. Alguns desses índices exigem a identificação apenas das famílias das larvas. Todas as larvas de espécies conhecidas desse gênero escavam os travertinos para construir abrigos com redes de captura. são usados em índices de qualidade ambiental. mas são importantes ainda em outros índices de qualidade de água. No rio Cataratas del Charo. assim como os tricópteros Uma espécie capaz de modificar um rio A família de tricópteros Hydropsychidae. uma das mais diversas e abundantes. associadas à palavra ptera (asa). gerando a forma solúvel chidae). Análises de conteúdo estomacal revelam que elas ingerem grande quantidade de carbonato de cálcio e se alimentam de diatomáceas (algas unicelulares microscópicas) e partes de vegetais. Trichoptera). exposta à correnteza. A construção de abrigos e redes envolve grande quantidade de larvas em um trabalho conjunto.

quantificar e regular esses impactos. Barragens de travertinos. mas outros estudos sugerem que a riqueza de espécies é maior nos trópicos. Por conta desse processo. como desflorestamento das margens. Além de tricópteros. Holzenthal identificou 463 espécies. O resultado é muito superior ao obtido em qualquer área temperada similar (a Costa Rica é pouco maior que o estado do Espírito Santo). contaminação da água por pesticidas e herbicidas. a corrente é barrada e o fluxo de água dirige-se a outra parte do travertino. Com o ‘crescimento’ do travertino há maior deposição de cálcio. onde a correnteza é adequada às suas necessidades. Para que tais programas sejam adotados. A forma da abertura dos abrigos também evidencia que os insetos usam pedaços de travertinos de modo intencional. aumentando a altura das barragens e tornando os poços mais profundos. essa fauna deve ser mais bem estudada. Tricópteros brasileiros: ainda desconhecidos Os rios brasileiros têm sofrido os mais variados impactos e distúrbios.160 delas em regiões neotropicais. mas os das regiões tropicais são pobremente estudados. Os tricópteros de áreas de clima temperado (em especial da América do Norte e da Europa) são bem conhecidos. 3 2 • n º 1 90 . larvas de outros grupos de insetos aquáticos. o fluxo de água. A microtopografia da superfície dos travertinos é alterada quando suas bordas são densamente colonizadas pelas larvas. mas sua implantação no país esbarra no pequeno conhecimento sobre a classificação (taxonomia) desses insetos. o que reduz a profundidade e. Os cristais de carbonato de cálcio precipitam-se nas redes feitas pelas larvas da nova espécie. assoreamento. permitiram a descoberta de uma nova espécie do grupo Trichoptera Figura 7. foram encontradas também. e com isso as larvas colonizam novas áreas. De modo semelhante. A descrição da nova espécie e de sua biologia acrescenta à literatura mais um evento natural fascinante. Entre esses estudos está o realizado na Costa Rica por Ralph Holzenthal. Figura 6.600). 2. levando a maior precipitação de cristais. Baetidae (Ephemeroptera) e Elmidae (Coleoptera). a correnteza deve ser apropriada às necessidades dessas larvas. como ocorre nos recifes de coral oceânicos. em menores densidades. Nas bordas dos travertinos. no rio Cataratas del Charo submetida a publicação especializada. Adulto e detalhe da larva da nova espécie de tricóptero encontrada durante as pesquisas no rio Cataratas del Charo 66 • C I Ê N C I A H O J E • v o l . na Venezuela. principalmente porque a variação de hábitats é semelhante. das famílias Chironomidae (ordem Diptera). o que aumenta a turbulência (e em conseqüência a perda de CO2 para a atmosfera). obrigando-as a reconstruir e limpar essas redes constantemente.PRIMEIRA LINHA A sucessão de eventos é circular. Estudos no rio Cataratas del Charo. que alteram a paisagem e a arquitetura de rios como o Cataratas del Charo. a combinação da química especial da água e de características particulares da larva desse tricóptero forma estruturas magníficas. para mantê-las desobstruídas. Quando isso ocorre. o que equivale a quase um terço do total de espécies de toda a América do Norte (cerca de 1. Em todo Figura 8. A superfície mais rugosa também faz com que materiais transportados pela correnteza prendam-se e tornem-se por sua vez substrato para a deposição do carbonato de cálcio. A ordem Trichoptera tem hoje cerca de 10 mil espécies descritas no mundo. onde a soma das atividades de pequenos organismos forma estruturas de proporções inimagináveis. Parte dos pesquisadores da área acredita que a diversidade em rios tropicais não deve ser significativamente maior que a de zonas temperadas. em conseqüência. os travertinos crescem de modo uniforme em toda a sua extensão. formadas pela precipitação de carbonato de cálcio. Programas de biomonitoramento baseados na presença de insetos aquáticos podem identificar. enriquecimento orgânico por esgotos domésticos e potencialmente chuva ácida. da Universidade de Minnesota (Estados Unidos).

I Figura 10. foram identificadas cerca de 410 outras. um importante elemento ecológico e um legado de história natural sem paralelo. o autor deste artigo e Holzenthal vêm depositando material adicional na coleção do Museu da USP. são menos freqüentes em trabalhos de descrição e coleções. Boas coleções de tricópteros são raras. existe uma importante coleção no Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). enquanto na Costa Rica já são conhecidas 143. vem pesquisando desde 1999 a diversidade de Trichoptera na região. junto com Holzenthal e Roger Blahnik (também da Universidade de Minnesota). o que torna necessário gerar uma base de dados. entre 1930 e 1980. O autor deste artigo. Uma coleção menor. junto com os organismos que ali vivem. mas isso ocorre porque o desconhecimento desse grupo é ainda maior nas demais regiões (figura 10). Leptoceridae. Número de espécies de tricópteros registrados no Brasil (várias delas distribuem-se por mais de uma região) janeiro/fevereiro de 2003 • CIÊNCIA HOJE • 67 . A maior parte do material coletado por Müller encontra-se hoje no Smithsonian. também responsável pela coleta de milhares de tricópteros adultos na serra dos Órgãos. porque tais insetos são pequenos e frágeis. como os das famílias Glossosomatidae ou Hydroptilidae. incluindo a mata atlântica. tanto para monitorar futuros impactos quanto para planejar a restauração de ambientes degradados. em sua maior parte. Flint descreveu 45% da fauna de tricópteros co123 nhecida no Brasil. como Nordeste Nectopsyche (família Leptoceridae). Fritz Plaumann (19021994). Os resultados. Exceto pelo trabalho de Müller em Santa Catarina e Guahyba no Rio de Janeiro. Atualmente. A vasta rede de rios do Brasil forma. essa 27 fauna tem recebido uma atenção 336 muito limitada. A maior parte das suas descrições baseouse em formas larvais. Os tricópteros adultos dos gêneros Marilia (A) e Phylloicus (B) observados no rio Cataratas del Charo também ocorrem no Brasil minus (Hydroptilidae). exigem um modo específico de coleta e preservação e não têm uma morfologia peculiar como muitos outros insetos. nenhum pesquisador brasileiro dedicou-se. estão entre os mais ameaçados da América do Sul. e alguns dos Norte gêneros que descreveu. também fez coletas em Santa Catarina. A falta de pesquisadores em taxonomia 184 fica evidente quando se constata 9 que Oliver S. susceptibilidade às diferentes perturbações e outras – ainda não foram suficientemente investigadas. No Brasil. a fauna da região é muito pouco conhecida e só pequena parcela de sua biodiversidade foi descrita. e 250 delas são novas para a ciência. até recentemente. Em geral. cerca de 50% foram identificadas no Sudeste. estão registradas 40 espécies de microtricópteros. em 1977. Os ecossistemas do Sudeste brasileiro. mas suas coleções foram vendidas ao Museu de História Natural de Londres (Inglaterra) nos anos 30 e ao Instituto Smithsonian nos anos 60. onde vem sendo identificado com maior precisão pelo entomólogo Oliver S.PRIMEIRA LINHA o Brasil. são descritos primeiro os tricópteros de grande e médio porte. Eutonella (Ecnomidae ou Xiphocentronidae) e Peltopsyche (Hydroptilidae) e diversas espécies. Hoje. do trabalho de pesquisa do também entomólogo Claudio Froehlich. por exemplo. Existem no Brasil coleções importantes. Durante visita a São Paulo. no entanto. se comparada ao resto do país. como os das famílias Hydropsychidae. Questões básicas sobre a fauna aquática dessas áreas – diversidade. Outro imigrante alemão. a mais importante foi formada por Fritz Müller (1821-1897). que pertence ao Museu Nacional do Rio de Janeiro e inclui espécimes coletados por Müller. a fauna de Trichoptera do Sudeste parece rica. Historicamente. foi parcialmente identificada pela bióloga Rosálys Guahyba (1941-1996). Os pequenos. históricas ou recentes. como os gêneros Dicha- A B Figura 9. Portanto. Flint também identificou até o nível de gênero lotes desse material. após os primeiros dois anos de coletas. Calamoceratidae e Odontoceridae. Mas outras descrições de Total Müller. grau de endemismo. não são identificadas com clareza. são surpreendentes: além das 126 espécies registradas antes na região. são conhecidas hoje apenas 336 espécies. Marilia (Odontoceridae) e Sudeste Phylloicus (Calamoceratidae) esSul tão entre os mais bem conheciCentro-oeste dos da fauna neotropical (figura 9). Flint. o que sem dúvida confirma a grande lacuna no conhecimento da diversidade nacional de insetos aquáticos. Do total de espécies brasileiras de tricópteros. Apesar disso. naturalista alemão que viveu em Blumenau (SC) na segunda metade do século 19. Para todo o Brasil. con97 siderando o tamanho do país e a diversidade de ambientes. a estudos de descrição de tricópteros. que resulta.

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