A OBRIGAÇÃO COMO PROCESSO Clovis Veríssimo do Couto e Silva, 1976 – páginas 115 a 171 A) DEVERES DE INDICAÇÃO E ESCLARECIMENTO O dever

de esclarecimento, como seu próprio nome indica, dirige-se ao outro participante da relação jurídica, para tornar clara certa circunstância de que o “alter” tem conhecimento imperfeito, ou errôneo, ou ainda ignora totalmente. Não se trata dever para condigo mesmo, mas em favor de outro. “A” deve a indicação em favor de “B”. É certo que dessa indicação pode resultar uma situação mais favorável inclusive para o que indica. Esses deveres de esclarecimento têm como objeto uma declaração de conhecimento. Constituem-se em resultado do pensamento cognitivo e não volitivo e, por esse motivo, possuem somente caráter declaratório. A declaração de vontade tem , ao contrário, caráter constitutivo. O princípio para emissão de uma declaração de comunicação é o de que ninguém pode estar obrigado a esclarecer aquilo que não tenha conhecimento. O caráter declaratório, a circunstância de não modificar o mundo dos fatos, já permite sugerir a conclusão de que a capacidade é desnecessária no sentido de que alguém dela carente possa eficazmente fazer a indicação. Não, porém, no sentido de que o incapaz, nesse particular, equipara-se a de que desconhece a situação a ser indicada. Mas, se ainda assim indicar essa declaração de esclarecimento terá o mesmo valor de toda e qualquer declaração. Entretanto, em determinados contratos de seguro, dever-se-á exigir a capacidade. Essa declaração de ciência está ligada com a da vontade, que forma o núcleo do ato jurídico. O mesmo acontece com certas circunstâncias que ocorreram no desenvolvimento do vínculo obrigacional, por exemplo, o contratante de um seguro de construção não informa na apólice que deseja usar explosivo na sua obra, se não o declara e ocorre um acidente em razão do uso de explosivo, esse evento não estará coberto pela apólice. Assim, como o dever do locatário de indicar aparece frequentemente nas relações provenientes do contrato de locação, quando ocorre alguma situação susceptível de afetar o imóvel locado. Essa declaração é meramente de ciência, mero resultado do pensamento cognitivo. Desse modo, é preciso salientar que, de modo geral, o adimplemento de todo e qualquer dever se constitui em ato-fato. B) DEVERES DE COOPERAÇÃO E AUXÍLIO Denominam-se deveres de auxílio certo tipo particular que nada tem que ver propriamente com as prestações principais, objeto do escambo. Como por exemplo, quando no comércio internacional “A” contrata com “B” a entrega de determinada mercadoria sujeita a licença de exportação, “A” deverá providenciar, com todo o zelo, para obtê-la. Neste caso, o correto adimplemento dessa hipótese não há que constituir em apenas enviar mercadoria (obrigação principal), mas impõe se o dever de auxílio, tal como obter a licença do órgão competente. C) DEVERES INDEPENDENTES E DEPENDENTES A diferenciação tem seu fundamento na verificação que alguns deles são susceptíveis de ultrapassar o término da obrigação principal, de terem assim vida própria. Em razão dessa particularidade, podem ser acionados independentes da prestação principal. Em virtude de poderem ser acionados sem com isso acarretar o desfazimento da obrigação principal, é que são considerados deveres independentes. Dependem, contudo, da obrigação principal para o seu nascimento. As obrigações dependentes são consideradas pertenças das obrigações principais. O seu descumprimento acarretará também o do dever principal. Por esse motivo, não tem acionabilidade própria. Exemplos, de deveres que

nem “A” nem “B” nem “C”. absoluta e inicial. Na opinião de Pontes de Miranda sustenta. por esse fato é impossibilidade perante a todos. 2 DESTRUIÇÃO CULPOSA DO BEM . Ambas podem ser absolutas ou relativas. Praticamente impossível de modo absoluto é a prestação que não desapareceu no sentido de exemplo anterior. constituir direito formativo. e a outra. Essa impossibilidade recai sobre o próprio o objeto. Distingue-se também impossibilidade no sentido das Ciências Naturais e no sentido jurídico. comporta duas divisões: uma é a impossibilidade antes e no momento da feitura do negócio jurídico (inicial). quando falta ao devedor meios para prestar. 1. isto é. a ele posterior. pois. entretanto. O negócio jurídico. Dir-se-ia que a sua pretensão precluiu. das prestações. não poderá exigir a pretensão para haver a obrigação principal. a venda de algo que já é de propriedade do credor. ainda que não possua o bem no momento da conclusa o do negócio. o empregado em revelar segredo de fabricação e o dever dos médicos e advogados de guardarem sigilo perdura depois de cumprida a obrigação principal. Diz-se que a impossibilidade é relativa. porque dever é sempre dever para com alguém. exatamente.permanecem. A impossibilidade ocorre sem culpa ou com culpa do devedor ou do credor. os códigos nada dizem a respeito da impossibilidade relativa inicial e ninguém poderá pretender que a mera insolvência anterior ao contrato seja suficiente para anular o convencionado. A impossibilidade absoluta o é para todos. cuja prestação é impossível de modo absoluto. ou em razão de caso fortuito ou de força maior. absoluta. impossível só é a prestação de coisa que não mais existe. aplicandolhe a este último. uma vez que a impossibilidade não o é para todos. pode. Juridicamente impossível é uma sobre-hipoteca para recair em bem que já não a comporte. Esses ônus. ou melhor. Por esse motivo. é preciso verificar se não o possui por circunstância a ele imputável (culpa). denominada de superveniente. é nulo. poderá prestar. tem aí o significado de insolvência – o bem não está no patrimônio. o dever do sócio que se retira de uma sociedade deve evitar prejudicar com as suas atividade o funcionamento da empresa. D) DEVERES DO CREDOR O princípio da boa-fé é a de uma ordem de cooperação entre devedor e credor. Somente pode ser considerado como ônus. deveres como os de indicação e de impedir que a sua conduta venha dificultar a prestação do devedor. a circunstância de que a impossibilidade só o é verdadeira a absoluta. também. nem qualquer outra pessoa pode prestar. por não se constituírem em deveres no sentido jurídico. ao que parece. pela primeira vez no Direito brasileiro. Se não tiver o objeto para prestar. mas não é mais encontrável (coisa roubada ou perdida) ou que não pode mais reaver (como a aliança que caiu no mar). Naquela acepção. A impossibilidade relativa inicial não anula o negócio jurídico. Se houver descumprido um desses deveres. IMPOSSIBILIDADE ABSOLUTA E RELATIVA A impossibilidade das obrigações. algo que não pertence ao mundo jurídico. E) ÔNUS E DEVERES PARA CONSIGO MESMO Os deveres para consigo mesmo não constituem deveres na sua verdadeira acepção. mas ao mundo dos fatos. impossibilidade essa inicial. mesmo depois de extinção da relação principal.

porém. com direito a reclamar. Nos contratos – na época que não prevalecia interpretação da vontade abstrata – o fenômeno era o mesmo. portanto. 3 IMPOSSIBILIDADE ECONÔMICA Doutrina adotada. Diante das várias interpretações jurídicas surgiu o conceito de “limite de sacrifício”. em um ou outro caso. as desproporções determinadas pela desvalorização da moeda. . não poderá este subrogar-se no cômodo substitutivo: se a coisa doada estiver segurada. Mas se uma das partes tiver feito gastos e confiado. aventadas pela jurisprudência. não podem ficar condicionadas a uma hipotética vontade do legislador e são adaptadas às situações de cada época. portanto. se. o credor não poderá pretender o valor do seguro. ou aceitar a coisa no estado em que se achar. corrigir-se. com culpa do devedor. nos contratos de prestação duradoura. o número de adesões. em ato unilateral. à conduta imputável ao devedor. o credor terá direito ao equivalente mais perdas e danos. logo acudiram soluções doutrinárias e jurisprudenciais. Com a aplicação do princípio da boa-fé.Em se tratando de perecimento culposo. em que se não manifesta culpa de quem tem que adimplir. como também os bilaterais. As leis. por culpa do credor. que fazia equiparar com a impossibilidade. pode-se dizer cíclicas por que passou sua economia. decorrente da desvalorização da moeda que torna o contrato impróprio ao fim a que se destina. em épocas de grande depressão econômica. Em razão de impossibilidade inicial. Se não houver culpa. “Pacta sunt servanda” era principio que não comportava exceção. nos contratos bilaterais. nada haverá que prestar. Trata-se de adaptar o contrato às condições econômicas vigentes. no caso de contrato bilateral. No direito germânico. tendo em vista a sua extraordinária dificuldade. cuja fundamentação foi o conceito material de relação jurídica. indenização das perdas e danos. A) SENTIDO DE ADAPTAÇÃO É conquista relativamente recente na dogmática jurídica o princípio de que a vontade do legislador não prevalece na interpretação da lei. o princípio é de que este responderá pelo equivalente mais perdas e danos. Esse princípio abrange não só os contratos unilaterais. o princípio é de que poderá o credor exigir o equivalente. mas o credor deve satisfazer a sua. insolvência essa. por sua vez. Na impossibilidade posterior. foi a de considera aplicáveis à impossibilidade econômica os princípios que norteavam a impossibilidade natural e jurídica. absoluta. Apesar de que. na sua efetivação. do credor e devedor. equiparação essa não decorrente da lei. onde mais presente se fez a elaboração doutrinária. motivada pelas crises. por desconhecimento. o devedor libera-se da prestação. devido. ao refletir o estágio da ciência jurídica à época. em nome da justiça imanente nos contratos. sem eficácia sobre a relação material. como já afirmamos. é a cláusula “rebus sic stantibus”. foi recusada pelo Código Civil Germânico. é preciso examinar qual o fato preponderante: quem descumpriu o princípio da boa-fé. de condição não totalmente desenvolvida. deve o outro indenizar os “danos da confiança” cujo montante se resume no efetivo gasto para realização do negócio jurídico (“culpa in contrahendo”). o contrato é nulo. Impossibilidade essa considerada insolvência superveniente. mas de uma norma não escrita. tendo destino duradouro. como algo dimanante da justiça comutativa. inicialmente. em se tratando de culpa mútua. dia a dia. vê-se que ela tem crescido. segundo a qual seria admissível. no sinalagma. opera-se a liberação. mas nem por isso. porque essa precisa adapta-se se às condições sociais. Sendo a primeira das soluções. a esse respeito. Desde que Windscheid lhe deu vigoroso impulso e nova formulação através da teoria da pressuposição. Cogitandose de deterioração. em se tratando de ato unilateral. se amenizaram em muitos casos soluções que externamente eram ou seriam consideradas injustas.

4. quando a relação de equipoderância entre prestação e contraprestação se deteriora em tão grande medida. conclui-se que ele tem pretensão acionável.Do conceito de impossibilidade econômica. que de modo compreensível não se pode falar de “contraprestação” (teoria da equivalência). em se tratando de obrigação de dar. transferiu a jurisprudência a sede de problema para o dos atos de abuso de direito. desaparece a base do negocio jurídico. é preciso distinguir os contratos unilaterais dos bilaterais (próximo assunto em anexo) e. 868. portanto. A teoria da base do negócio jurídico. Se houver recusa. pelos quais poderá exigir o aumento no preço. coisas) e a que dela não necessita. 90 do Cód. em virtude do art. o principio da equivalência. C) O ART. No sentido de base objetiva do negócio. como transferência de direitos não relacionados diretamente com a propriedade ou posse. . notadamente do referido § 242. isto é. no direito. ou daqueles em que o risco é imanente à empresa. A) RISCOS NOS CONTRATOS BILATERAIS O risco corre por conta do devedor da prestação. melhoramento ou acréscimo. o exercício do credor. poderá o devedor resolver a obrigação. Se houver. aquela suscetível de ser transferida através (bens. segundo o conceito imanente da justiça comutativa. é preciso que não se trate de contrato aleatório. confere-se ao devedor da prestação a pretensão inassinável de poder exigir aumento de preço. Se o credor não anuir. É preciso verificar qual o efeito do desaparecimento do bem sobre a relação obrigacional qual a repercussão no direito material. Em relação ao credor da coisa. pretensão e ação. compatível da contraprestação. vige e é utilizável em nosso direito. arguir em “exceptio” a sua pretensão de direito material. No que toca. inegavelmente encontram obstáculo no art. TEORIA DOS RISCOS ] Para verificar quem suporta os riscos. de especulação. obstaculizando. dimanante de contrato bilateral. Mas. escreve Siebert.Nesse sentido. B) DIREITO BRASILEIRO No direito das obrigações tem-se manifestado a tendência de abranger no conceito de prejuízos em razão da mora a desvalorização da moeda. porém. Sob o aspecto subjetivo. supõe a coexistência de uma serie de circunstâncias econômicas. do exercício inadmissível de pretensão com a incidência não mais dos princípios que comandam a impossibilidade ou insolvência. abrange dois aspectos: o subjetivo e o objetivo. em se tratando de perda da base objetiva do negocio. Civil. assim. de expectativa ou previsão comum de ambas as partes. com a transferência de propriedade de coisas móveis o risco só se transfere do vendedor ao adquirente com a tradição. sem as quais eles se descaracterizaria. de modo expresso. mas dos que norteiam a boa-fé. do Código Civil Alemão. tal como está formulado. 868 DO CÓDIGO CIVIL E O PRINCÍPIO DA EQUIVALÊNCIA Até à tradição. de que o negocio jurídico. sem duvida alguma. com os seus melhoramentos e acrescidos. pelo aumento do preço correspondente ao melhoramento ou acréscimo. Eis aí. Para que de possa argüir o principio de equivalência.Em razão da falta de equivalência pode a parte lesada exigir aumento. para exigir a entrega do bem. pertence ao devedor a coisa. poderá resolver o contrato ou denunciar a prestação duradoura já iniciada. poderá o devedor da coisa.

as quais.OBRIGAÇÃO DE DAR E RESTITUIR O desenvolvimento da obrigação de dar apresenta semelhança com a de restituir. A OBRIGAÇÃO DE DAR COMO PROCESSO . se este último ato anteceder. Via de regra. 1. § 1º . os riscos das coisas correm por conta do vendedor. No que se refere aos imóveis. na maioria dos casos. porque o devedor não perde nenhuma pretensão contra o credor. No direito brasileiro.No que se refere à compra e venda. § 2º Correrão também e por conta do comprador os riscos das referidas coisas. sempre se renovam. Embora o devedor fique sem a propriedade do bem é o adquirente/credor. em que se determina que o perigo se transfira com a transcrição. porque este é o meio mais comum da aquisição da propriedade mobiliária. o art. na de restituir devolve-se a posse da coisa. via de regra. menciona as seguintes regras: “Até o momento da tradição. No direito brasileiro. pois então se transfere o “periculum rei” ao “alter”. Em se tratando de impossibilidade ou de insolvência posterior. Também ainda um tipo particular de obrigação. ou a denúncia e a consequente resilição as extiguem. prestando perdas e danos tanto nas hipóteses de atos unilaterais como bilaterais. ou concentração nas alternativas. pode-se desde já esclarecer que sofre o credor. Apenas. Civil. correrão por conta deste. nos contratos. o risco transferir-se-à através da tradição. Se se tratasse de insolvência inicial. já que não a possui. B) RISCOS NAS OBRIGAÇÕES UNILATERAIS O princípio nas obrigações unilaterais é de que risco corre para o credor. que já tiverem sido postas à disposição do comprador. para ser de novo satisfeitas. Entretanto. que comumente se recebem. em se tratando de imóveis. marcar ou assinalar coisas. não sofre o risco aquele que adimpliu. § 1º Todavia. enquanto que na obrigação de dar não se manifesta esse aspecto. Capítulo III DESENVOLVIMENTO DO VÍNCULO OBRIGACIONAL Algumas vezes o objeto da prestação pode não existir como na “emptio rei speratae”. nosso Código não tem principio expresso similar ao § 466. ou ainda facultar-se-á substituir o objeto da prestação. ou da transcrição. e dos do preços por conta do comprador. o desenvolvimento do vinculo far-se-á imediatamente. ocorrentes no ato de contar. A importância dos principios inerentes aos ricos nos contratos bilaterais esta intimamente ligado com o adimplemento. medindo-se ou assinalando. quando postas à sua disposição no tempo. sem culpa do devedor. até que o vencimento do prazo. ou dependerá de concretização. 1127 do Cód. Mas é preciso ver se o devedor adimpliu toda sua obrigação. retornando à impossibilidade supervenientes nos atos unilaterais. 2ª alínea do BGB. O Código Civil em inumeráveis artigos menciona sempre o principio da tradição. lugar e pelo modo ajustado. o devedor assumiria o risco de efetivar a prestação. como quem prometeu doar coisa que ainda não lhe pertence ou quem vendeu coisa de que não é proprietário. de que o risco se transfere com a tradição e transcrição. apesar de adimplidas. quem perde a pretensão em decorrência do desaparecimento do bem. contando. se tiver em mora de recebê-las. Mas. se esta houver ocorrido primeiro. os casos fortuitos. pensando. na hipótese de coisa genérica. as duradouras. vige o principio.

mas ela ainda guarda sua identidade. mais perdas e danos. Soriano Neto. o negocio jurídico ficou sem objeto. indenização por perdas e danos. 866. com o qual procuramos comparar as soluções que derivam de nosso Código Civil. Na hipótese de culpa do devedor. É que com a impossibilidade. constitui adimplemento do contrato de locação. As ações de direito das obrigações nunca poderá ser ação emergente de ato que se situa no plano de direitos reais. Não se cuida de ação de direito real como a reivindicação que se dirige contra quem quer que o possua injustamente. o negocio jurídico não perdeu o objeto. resolvido estará o negocio jurídico. em razão da mútua semelhança estrutural. Já na hipótese do art. 2. cuida-se da impossibilidade (total ou relativa) superveniente. as garantias processuais que com ela se relacionam. pré-requisito ao da pretensão de reaver. em que prevê a possibilidade da vigência da locação em face do adquirente da coisa locada. desde que ele se encontre no patrimônio do vendedor. somente ao equivalente. cabendo-lhe a prova. em sua parte final. o qual. do Código Civil (C/C). mas ao seu adimplemento. A) EXECUÇÃO DA OBRIGAÇÃO DE DAR A obrigação de dar pode ser diretamente executada. B) IMPOSSIBILIDADE SUPERVENIENTE O art. Se houver culpa. a solução é a mesma. manifestamente. A transferência da posse. com o qual se transfere a posse e. consequentemente. A doutrina admite-se que os direitos do locatário nascem antes ainda da entrega da “res debita”. efeito comum e necessário do adimplemento do contrato. principalmente quando consistir na transferência de propriedade. em um ou outro caso. Mas a proteção possessória somente será facultada ao locatário depois de haver tomado posse. Daí também não se deduza que a compra e venda é negócio obrigacional e real. pois isso veria ferir ao principio da separação. A ação é ordinária de adimplemento com a execução. pois se faz necessário o exercício de direito formativo. OBRIGAÇÃO DE RESTITUIR . com direito a reclamar. A proteção possessória. que sustentavam a natureza real dos contratos de arrendamento e locação de imóveis. não diz respeito ao seu desenvolvimento da relação obrigacional. desde que registrada. concluiu que não poderia negar ao locatário a natureza jurídica real de seu direito. exige que o cumprimento se prolongue no tempo. O que o credor possui é a pretensão de reaver o que entregou ao devedor. independentemente do registro. surgiu muita dúvida a respeito. ao examinar o alcance e a natureza do art. 1197 do nosso Código Civil. talvez por descumprimento de algum dever anexo. o problema surge naquelas hipóteses em que uma das fases consiste em transferir a posse ou em que se admita o registro no abo imobiliário. determina o artigo supra que o credor poderá exigir o equivalente ou aceitar a coisa no estado em que se achar. Sendo a obrigação um processo que se dirige ao adimplemento. por ser duradouro. No Direito germânico. sem dificuldade o problema. No direito germânico. resolve-se. A coisa certa se deteriorou. de modo que. Se a impossibilidade ou insolvência ocorrer em virtude de fato não imputável ao devedor.Nas obrigações de dar propriamente ditas. mas da incidência da própria lei. 865. a resolução não ocorre “ex-vi legis”. em verdade. Essa pretensão na hipótese deste artigo não nasce do exercício do direito formativo. far-se-á penhora do bem.

aplicar-se-á o disposto no art. no período entre o nascimento da obrigação e o seu adimplemento. As distinções impõe-se. porém. poderá o arrendatário exigir o abatimento do aluguel. Na hipótese da declaração de vontade. haja melhoramento no bem a ser prestado. supondo-se que se trate de contrato a termo. a ele a seus direitos até o dia da perda”. seja por qualquer outro fato com nas hipóteses de acessão. Em alguns casos referentes a bens fungíveis e consumíveis. Assim. 869 do C/C formula a regra de que se “esta . o pré-contrato. 867. 871 à regra de que o credor “a receberá tal qual se ache sem direito a indenização”. por vezes. porque o tratamento das obrigações de restituir está sob o comando de regras diversas em certos aspectos. sem culpa do devedor. é certo que. trata-se de restituir a posse e não a propriedade. se perder antes da tradição. quando alguém aluga ou arrenda determinado bem e este vem a destruir-se por ato inimputável ao devedor. deve-se admitir que possa o devedor exigir redução proporcional da locação. Na hipóteses de impossibilidade parcial (deterioração). b) se o melhoramento empregou do devedor trabalho ou dispêndio. quando o adimplemento não se constituir imediatamente a uma atribuição patrimonial. se tratar das duas primeiras benfeitorias. ou aceitar a coisa no estado em que se acha. 516 a 519. Se o risco corre para o credor. é de propriedade do credor. que pode. porém. por excelência. altera o tratamento jurídico. e a obrigação resolver-se-á. nessa hipótese. 865. Em razão de diferençar-se da simples obrigação de dar. com direito a reclamar em um ou em outro caso indenização das perdas e danos. úteis e voluptuárias.OBRIGAÇÃO DE FAZER E NÃO FAZER A obrigação de fazer tem como objeto da prestação. Assim. B) DETERIORAÇÃO POR CULPA DO DEVEDOR Na impossibilidade total em razão de culpa. porque o que se dá. se alguém arrendar fração determinada de campo. sem o que o credor. a própria atividade. o código alude no art. isto é.Entre as obrigações de dar coisas conumera-se a de restituir. § 2º . posto que não se dirija . O credor terá apenas ressalvado seus direitos até o dia da perda. 2ª parte. do C/C. a restituição. A – OBRIGAÇÃO DE RESTITUIR E IMPOSSIBILIDADE Em se tratando da obrigação de restituir. De modo geral. que em parte se tornar imprestável. É preciso distinguir: a) se o aumento ou melhoramento se deu pelo acréscimo natural em razão do motivo ocasional ou fortuito. no equivalente. responderá este pelo equivalente mais perdas e danos. o art. desde que não haja culpa do devedor. o proprietário ou legitimado que o deu em locação possa exigir o que faltar até o término do contrato. no caso de deterioração do bem a ser restituído a entrega somente ocorrerá através do exercício formativo extintivo (denúncia). aplicam-se as regras do art. torna-se idêntica à obrigação de dar. o inquilino ou arrendatário poderá deixar de pagar o aluguel e partir da data da destruição. É o problema do dinheiro. de coisa móvel e consumível. Por outro lado. 870. bem como direito de retenção. sofrerá o credor a perda. poderá o credor exigir o equivalente. Assim. cabendo ao devedor a restituição da indenização. salvo. nos termos do art. vigorará o previsto nos art. C) – MELHORAMENTOS E ACRESCIDOS Pode ocorrer que no desenvolvimento do processo. que se relacionam com as benfeitorias necessárias. das de dar. isto é. Na hipótese de perda ou deterioração parcial. a obrigação será de fazer.

entretanto o cumprimento da obrigação de fazer constitui negocio jurídico. Obrigação de fazer. também. as fases de nascimento e desenvolvimento e de adimplemento das obrigações de fazer constitui ato-fato. do C/C. relaciona-se a trabalho ou a serviço determinado. art. 22. 16 desta Lei e 346 do CPC. redução à escravidão ou mesmo esfacelamento do corpo humano. desde que inscritos em qualquer tempo. No qual se afirma que o compromisso de compra e venda. desde que inscrito no Registro de Imóveis. da inexecução dos deveres poderia resultar morte. inclinou-se por considerar o précontrato inscrito como gerador de um tipo específico de direito real. Embora nitidamente obrigacional pretendem alguns que a sua natureza jurídica. Essa pretensão é. não se constitui em figura jurídica. Antigamente. Mas nem todos os deveres supõem relação com a economia. B) . Impede a execução contra o devedor a circunstancia de a pretensão dirigir-se contra certa atividade praticada. se transmuda para o direito real. Outra hipótese é a execução especifica proveniente de obrigações de fazer. Mas.OBRIGAÇÃO DE FAZER E EXECUÇÃO Nesse tipo de obrigação tem o credor contra o devedor certamente a pretensão de exigir o adimplemento. a Tornou-se corrente. conforme prevista na parte final do art. 1218. após o registro. segunda a qual quando não se tratasse de obrigação de dar (de transmissão de propriedade ou algo equivalente) se cogitaria da obrigação de fazer. gera a obrigação de fazer. outorga direito real oponível a terceiros. de modo geral. No nosso C/C interessa a relação da obrigação de fazer e a repercussão patrimonial. A OBRIGAÇÃO DE FAZER COMO PROCESSO No processo da obrigação de fazer distinguem-se. nem sempre será possível exigir a condenação “in natura”. cujo descumprimento facultam ao lesado o uso do meio substituto da prestação especifica. de compromisso de compra e venda de imóveis não loteados. A mais importante delas é o pré contrato de venda de imóvel ao abrigo do Decr. a “quaestio iuris” somente pode ser resolvida a luz dos princípios que comandam o desenvolvimento das relações obrigacionais. a definição de Savigny. As hipóteses enumeradas sob tal categoria são as de “pactum de contrahendo”. então. A jurisprudência. em inumeráveis arestos. Em alguns casos. com as modificações decorrentes da Lei nº 649/1949. aliás. somente acionável no que toca à exigência de perda e danos. 1. de declarar vontade através de sentença judicial. 22 do Dec. O ato somente se destaca da pessoa depois de realizado. cujo preço tenha sido pago no ato de sua constituição ou que deva sê-lo em uma ou mais prestações. de modo a poder-se afirmar que dever de que não promana pelo menos perdas e danos. . o que estabelece o art. Lei nº 58/1937. Em se tratando de obrigação de fazer. Pontes de Miranda afirma que a patrimonialidade não é elemento necessário à definição da obrigação. I. lei nº 58 com a redação que lhe deu a Lei nº 649: “Os contratos sem cláusula de arrependimento. É o. 881. atribuem ao compromissário direito real oponível a terceiro e lhe confere o direito de adjudicação nos temos do art. perdas e danos. contudo. a qual deu nova redação ao art. em razão do caráter pessoal da prestação. tem-se sempre as hipóteses de compra e venda e de obrigação de fazer.imediatamente a uma atribuição patrimonial (existe a compra e venda que ocasiona obrigação de dar). Quando se fala em patrimonialismo dos deveres. A) – OBRIGAÇÃO DE FAZER E PATRIMONIALISMO No descumprimento de obrigação de dar resulta a possibilidade de exigir a execução específica ou.

FERNANDA DINIZ CAMPOS 2 OBRIGAÇÃO DE NÃO FAZER (MICHELE) A PARTIR DA PÁG. entregá-la ainda realizada por terceiros. então. que se dirige à impossibilidade ou inaptidão superveniente. se a prestação de fato se impossibilitar por culpa do devedor. formula-se a regra de que. 171 . cuidando-se de obra que possa ser feita por outrem. o devedor libera-se. A atividade que deve ser praticada pode-se tornar impossível. portanto. Em se tratando de mera inaptidão inicial. ao vincular emanação da personalidade. algo que está ligado indissociavelmente com o conceito de liberdade. como inaptidão se equipara a impossibilidade. responderá este por perdas e danos. 879. em virtude de seu caráter pessoal.C) – OBRIGAÇÃO DE FAZER E IMPOSSIBILIDADE A obrigação de fazer é de todas a que mais de perto toca o indivíduo como pessoa. objetivamente impossível. A obrigação é. Se a impossibilidade for posterior. a teor do art. não se pode falar de mera inaptidão. 879. o devedor assume o risco de prestá-la. a qual pode ocorrer através de impedimento natural. Já na parte do art. Se a impossibilidade for inicial e se tratar de obrigação pessoalíssima. no entanto. a prática de um ato.

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