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O ALGARVE E AS GUER- RAS LIBERAIS

Coordenação e prefácio do COR INF Nuno Pereira da Silva

Maio de 2011

Ilustração da Capa: Quadro “As Guerras Liberais” de Mestre Mário Silva Edição: Regimento de Infantaria N.º 1 Autores: Nuno Miguel Pascoal Dias Pereira da Silva, Coronel de Infantaria Comandante do Regimento de Infantaria n.º 1; COR Américo Henriques; Prof. Dr. Vasco Pereira da Silva; Dr. Luís Bívar de Azevedo; Dr. Pedro Nunes; Prof. Dr. António Rosa Mendes; GEN Alexandre Sousa Pinto; Dr. Joaquim Nunes; CAP Arnaldo Anica; Prof. Dr. José Vilhena Mesquita; ALF Vera Olivei- ra Rodrigues; ALF Pedro Rafael. Paginação, impressão e acabamento: Regimento de Infantaria n.º 1 Depósito Legal: 326850/11 ISBN: 978-989-20-2393-9

ÍNDICE

PREFÁCIO … CONFERÊNCIAS PROFERIDAS:

7

CONFERÊNCIA 1: AS LUTAS LIBERAIS …………………………………

……….

9

CONFERÊNCIA 2: AS CONSTITUIÇÕES LIBERAIS PORTUGUESAS

29

CONFERÊNCIA 3: AS GUERRAS LIBERAIS E O ALGARVE. ALGUMAS NOTAS HIS-

TÓRICAS …………………………………………………………………………

47

CONFERÊNCIA 4: O REMECHIDO ………………………………………………….

67

CONFERÊNCIA 5: A PARTICIPAÇÃO DO SUL DO PAÍS NAS GUERRAS LIBERAIS

 

137

………………………………………………………………………………………… CONFERÊNCIA 6: O LIBERALISMO E A IGREJA

…………….…….………… CONFERÊNCIA 7: A CAMPANHA DO REMEXIDO ……………………………

149

161

CONFERÊNCIA 8: O ALGARVE E AS LUTAS LIBERAIS ……………………… 167

181

POSFÁCIO ……………………………………………………………………………. 187

SÍNTESE CURRICULAR DOS CONFERENCISTAS

PREFÁCIO

Este novo livro editado pelo Regimento de Infantaria n.º 1 é o 2.º volume duma trilo- gia sobre a história do Algarve, que se iniciou com as invasões francesas e terminará com a 1.ª República. Esta nossa iniciativa pretende desta forma contribuir para o conhecimento mais apro- fundado do papel desta província na História de Portugal. Foi nesta nossa província que desembarcaram as tropas liberais comandadas pelo Duque da Terceira com destino a Lisboa, onde desembarcaram a 24 de Julho. Os conferencistas que participaram nos três painéis de conferências organizados pelo RI1 são oriundos do meio académico, eclesiásticos e militar sendo personalidades de relevan- te prestígio dado o seu conhecimento aprofundado da História da época. Assim, os discursos dos referidos conferencistas são da sua própria responsabilidade. Parece-nos relevante realçar a extraordinária disponibilidade de todos os conferencis- tas em colaborar nesta iniciativa, pois fizeram-no a título gracioso. O presente livro é editado em DVD constituído pelos textos dos conferencistas, pelo registo áudio das suas conferências, tendo também disponíveis algumas fotografias do evento. No dia 19 de Maio data do lançamento do livro os textos constantes neste livro e no anterior “O Algarve e as Invasões Francesas” serão colocados online, para consulta aberta no blog “História do Algarve”.

É de realçar a disponibilidade da empresa “Delta Cafés” e do Instituto Superior Dom Afonso III em patrocinarem esta iniciativa facto que permitiu o lançamento do presente livro.

Nuno Miguel Pascoal Dias Pereira da Silva Coronel de Infantaria Comandante do Regimento de Infantaria 1

CONFERÊNCIA 1:

AS LUTAS LIBERAIS

Todo o drama das chamadas “Lutas Liberais” pode considerar-se como tendo tido ori- gem numa fria madrugada de finais de 1807, após a Família Real e a corte terem embarcado para o Brasil na sequência da entrada em Portugal dos exércitos franco-espanhóis do general Jean Andoche Junot. Considerada por muitos historiadores como uma brilhante retirada estratégica, e por outros como uma pura e simples fuga, a saída do topo da hierarquia portuguesa para a nossa colónia de além-Atlântico foi talvez, na sua verdade histórica, um misto das duas coisas, mas um misto que teve o indubitável mérito de salvar a Independência da Pátria Portuguesa, garantindo à Coroa a capacidade de diálogo com todos os inimigos do Império Napoleónico. Podemos dizer até, e creio que com toda a propriedade, que “o mal não esteve na ida….esteve, isso sim, no tardio da volta”. A essência de todo o problema que se viveu em Portugal após a hecatombe terrível das Invasões Francesas prendeu-se pois, e em grande medida, com a permanência da Família Real no Brasil durante o período de 1807 a 1821, que foi na realidade o período capital da tentativa de desmembramento, físico e ideológico, de uma certa Europa pós-revolucionária. Assinalado pelas decisões do Congresso de Viena, pelo estabelecimento da Santa Aliança e pela assumpção, por parte da Grã-Bretanha, do papel primordial de fiel da balança de um equilíbrio de poder europeu em tudo dependente da sua vontade política, o período em causa corresponde também, como reacção aos retrocessos aplaudidos em Viena, ao início das lutas liberais na Europa.

Parte importantíssima dos problemas que então afligiram Portugal, a Grã-Bretanha, verdadeira vencedora das guerras da Revolução e do Império, foi, na altura, o exemplo acaba- do da máxima diplomática que diz: “As Nações não têm amigos, têm interesses”. Por força dos Tratados de 1807, o “secreto de Agosto”, e de 1808 e 1810, a Grã-Bretanha assenhoreou- se do comércio do Brasil, transferiu para Londres o centro desse mesmo comércio, e abriu à nossa “Jóia da Coroa” os caminhos de uma independência há muito sonhada. Materializando, igualmente de forma exemplar, aquela máxima diplomática, a Grã-Bretanha, pese embora o sacrifício extremo de muitos dos seus filhos, defendeu aqui os seus interesses vitais, ao trans- formar Portugal no santuário da sua estratégia para vencer Napoleão na Península Ibérica, santuário traduzido num formidável campo de batalha defendido a todo o custo, e sem que o preço a pagar lhe caísse directamente em cima. Vencedora da guerra, senhora dos mares, fiel da balança de uma Europa perigosamen- te reaccionária, a Grã-Bretanha o nosso suposto grande defensor - capitalizando porventura da situação desesperada em que nos encontrávamos, ia colocar-nos agora o “pé no pescoço” de duas formas distintas: Recuperando tudo quanto o Marquês de Pombal lhe havia “tirado” ao minimizar as consequências do Tratado de Methuen; e dominando a sociedade portuguesa ao dominar o seu Exército, superiormente enquadrado por oficiais britânicos num Portugal que, por força da Guerra Peninsular, havia sido transformado num “grande quartel”. Agravando ainda mais o desesperado da nossa situação, o governo português, uma regência que o povo alcunhava de “os Reis do Rossio” (porque habitavam o Palácio da Inqu i- sição, situado no local onde hoje está o Teatro Nacional D. a Maria II.) era completamente controlado pelo Marechal Beresford, o Comandante do Exército, que aqui punha e dispunha, amparado por um estatuto de verdadeiro residente e certo da lealdade dos oficiais britânicos que lhe comandavam as tropas. Como facilmente se pode compreender, toda esta situação de subalternidade superior- mente assumida, ganhava mais e mais foros de intolerabilidade no coração das elites portu- guesas e, sobretudo, no dos oficiais portugueses do Exército Português, tão vencedores da Guerra Peninsular quanto os britânicos o haviam sido, e que se viam sistematicamente prete- ridos nas suas carreiras e nas suas promoções. O início de todo este drama começa pois por uma questão meramente corporativa, ou seja, os oficiais do Exército Português não queriam o comando britânico, pelo que muitos deles organizaram uma revolta.

Ora, tal revolta estava mascarada com uma certa ideia de liberalismo, embora nem todos os seus intervenientes compartilhassem essa ideia. Segundo consta, a revolta era dirigi- da contra o governo britânico, ou seja, contra o comando britânico que, na realidade, existia em Portugal. Tudo isto viria a conduzir à “famosa” conspiração de Gomes Freire de Andrade, tris- temente ocorrida em 1817. Os homens que fizeram a conspiração de Freire de Andrade (se é que esta foi dirigida por Gomes Freire de Andrade, porque, na realidade, nunca se provou tal facto), pertenciam às várias lojas maçónicas, entradas definitivamente na vida dos portugueses durante todo o período da Guerra Peninsular. Em Portugal existiam “maçons”, (sem dúvida alguma!), vindos das tropas portuguesas que haviam combatido com Napoleão ou que tinham estado junto do Exército britânico, tal como havia ainda um importante grupo de maçons oriundos do próprio Exército britânico. A maçonaria era, de facto, uma realidade, uma moda da época, e uma moda com a qual o Portugal que então sabia ler e escrever se tinha profundamente envolvido. Assim, pode dizer-se com alguma certeza histórica que “o problema de 1817” nasceu em duas lojas maçó- nicas: a “Filantropia” e a “Virtude”. Sabe-se hoje, que membros da loja “Virtude” quiseram atrair para a maçonaria a Condessa de Juromenha, Dona Maria da Luz (que era amante de Beresford), para por ela estarem ao corrente das intenções e pensamentos do comando britâni- co.

Parece pois não restarem grandes dúvidas quanto à íntima ligação maçónica, e à forte tonalidade anti-britânica, de todo o movimento corporativo que esteve na origem remota do levantamento liberal português. Denunciado à Regência (ou seja, “aos reis do Rocio e ao Marechal Beresford) por dois oficiais do Exército Português, Andrade Corvo e Morais Sarmento (eles próprios maçons) este movimento conduziu à tragédia do Campo de Santana, ou dos Mártires da Pátria, e ainda à execução, por enforcamento de Gomes Freire de Andrade, no sítio do Almarjão, em frente do Forte de S. Julião da Barra, num local no lado oposto da marginal, hoje assinalado por um cruzeiro rodeado por uma cerca. Entretanto no Brasil, e em 1815, D. João VI proclamava o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, dando assim à nossa imensa colónia de além-Atlântico o estatuto de reino, numa altura em que a América do Sul Espanhola começava a sentir o terramoto político que a iria dividir em pequenas e grandes repúblicas independentes. Admitimos hoje que tal conjunto de movimentos independentistas nunca poderiam suceder no Brasil, uma vez que o Brasil

tinha um “cimento unitário de reino”, muito embora este raciocínio pareça ser desmentido pelas revoltas republicanas do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais, muito na linha do que sucedeu no reinado de D. a Maria I com a revolta do “Tiradentes”, o que aponta para um certo sentimento de independência, e de partição do grande Brasil em vários mosaicos republica- nos.

Ora, se tal não sucedeu, foi porque D. João VI, para além da criação do Reino Unido, teve a sorte extraordinária de, dentro do próprio Brasil, existir um movimento de homens de ideias avançadas, chefiado por José Bonifácio de Andrade Silva, movimento que foi, sem dúvida, o grande farol que iluminou o caminho do Brasil para a independência assente na grandeza da sua unidade. D. João VI estava pois “assentado no Brasil” e separado de Portugal, muito embora estivesse à frente de um Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Porém, no entender dos portugueses “que sabiam ler” e que viviam em Portugal, tal situação significava como que um virar dos pólos desta esfera imperial, ao tornar Portugal praticamente numa colónia de um Brasil que, pelo seu tamanho, riqueza e potência, passaria a ser o grande motor desse mesmo império, tudo sob o “olho sagaz” da Inglaterra que assim esperava continuar a controlar todo o seu comércio. Como se pode compreender, esta situação levou a que uma certa elite portuguesa e que vivia na Metrópole, e à qual pertenciam muitos dos apoiantes do que sucedera em 1817, começasse a ter um sentimento profundo de revolta, não só contra o predomínio inglês na vida nacional, mas também contra a ausência, tão longamente inexplicável, da Família Real. Quanto à Grã-Bretanha, era sabido nos meios mais chegados à Regência que o seu governo, por intermédio de Lord Strangford e de Charles Stuart, pressionava D. João VI para regressar a Portugal, uma vez que, se tal acontecesse, teriam o Brasil isolado sob a sua esfera de influência, coisa que de certa forma já acontecia. Porém D. João VI recusava-se a regressar a Portugal, o que, segundo opiniões hoje expressadas em várias obras, se devia à sua forte convicção quanto às ambições britânicas de completo assenhoreamento do comércio brasileiro. (Não nos podemos contudo esquecer de outras opiniões sobre esta matéria….e devidas a contemporâneos dos acontecimentos…). Fosse como fosse, tudo isto e toda a confusão em que se vivia então na nossa Metró- pole, levou à criação de um movimento no Norte, mais precisamente centrado na cidade do Porto, que englobava em grande parte maçons reunidos num “clube” de ideias liberais cha- mado “Sinédrio”, o qual tinha na sua chefia um advogado muito famoso na praça da Invicta -

Manuel Fernandes Tomás um natural da Figueira da Foz a quem Rocha Martins chamou “o mais probo dos cidadãos do seu tempo. Ainda segundo Rocha Martins, Fernandes Tomás estava apoiado por dois vultos ilus- tres da cultura portuguesa da época, dois homens que, tal como ele, estavam prontos para tudo sacrificar na luta pela implantação do liberalismo esclarecido em Portugal: Silva Carvalho e Ferreira Borges (que por curiosidade, têm ainda hoje ruas com os seus nomes, na que é cha- mada a “Lisboa liberal”). Ora sucede que o “Sinédrio” do Porto arregimentou, entre 1818 e 1820, um importante grupo de intelectuais, de militares, de comerciantes e de juristas, que comungavam de uma mesma grande ideia para mudar os destinos do Portugal de então: «É necessário libertar a Pátria do “domínio britânico”, tornando-se igualmente imperativo que a “soberania passe a residir na Nação”.» Quer isto dizer, meus queridos amigos, que ideias tão modernas como sejam “o Rei soberano absoluto já não tem razão de ser, ou o Rei reina mas não governa”, estão subjacentes ao movimento militar que em 24 de Agosto de 1820 rebentou no Porto, no Campo de Santo Ovídeo, e ao qual se juntou, no mês de Setembro daquele mesmo ano, o levantamento de Lis- boa.

A união entre as forças revoltadas de Lisboa e as forças do Porto, estabeleceu uma Junta Suprema de Governação do Reino que reunia os homens que tinham feito o levantamen- to, na sua maioria movidos mais por uma ideia profundamente anti-britânica do que por um ideal liberal, e entre eles muitos militares como Gaspar Teixeira, António da Silveira, Mages- si, Teles de Jordão e outros, que, curiosamente, iriam depois participar na Guerra Civil, mas do lado absolutista. Obviamente que na Junta Suprema participava também a grande intelectualidade da chamada “Nobreza de Toga”, figuras da talha de um Borges Carneiro, de um Ferreira Borges ou de um Manuel Fernandes Tomás, isto para não falar do ainda jovem Vila Flor o futuro duque da Terceira - ou do conde da Taipa, homens estes que, sendo militares, tinham uma grande influencia junto daquela intelectualidade, com quem iriam constituir o grande bastião do grupo liberal. No entanto, este bastião do grupo liberal encontrou-se, desde o triunfo da Revolução, dividido em duas grandes facções: De um lado, aqueles que diziam que a “soberania reside na Nação, e que o Rei reina mas não governa”, ou seja, os chamados “vintistas puros”; E do outro lado, aqueles que afirmavam que a “soberania reside na Nação, residindo por isso tam-

bém na própria Pessoa do Rei”, os chamados “liberais monárquicos”, aqueles que, sem qual- quer tonalidade de republicanismo, irão ser mais tarde, na projecção do drama, os grandes apoiantes da Carta Constitucional. Mas, à partida e logo após o triunfo da Revolução vintista, aquilo a que os revolucio- nários imediatamente se propuseram, foi à elaboração de uma Constituição, elaboração essa que originou o aparecimento de duas linhas de pensamento, como primeira cisão entre eles:

De um lado uma linha militar, de “bota cardada do poder pelo poder”, englobando aqueles que no fundo queriam fundamentalmente expulsar os britânicos; E do outro lado a linha dos intelectuais vintistas, que queriam uma Constituição feita com base na Constituição que melhor conheciam, a Constituição espanhola de 1812, conhecida como Constituição de Cádiz, e que era chamada “a Pepa”, por ter sido promulgada no dia 18 de Março, o dia de São José. Foi a luta entre estes grupos de apoiantes das duas formas de Constituição, se é que se pode chamar “Constituição” a uma delas, que originou, no dia 11 de Novembro de 1820, as primeiras gritarias e as primeiras pancadarias nas ruas de Lisboa (verdadeiro intróito de todo o drama que depois veio) num movimento logo chamado de “Martinhada”. Curiosamente, a “Martinhada” foi dirigida pelo General Gaspar Teixeira, saindo deste movimento a Constituição de Cádiz como base inspiradora da futura Constituição Portuguesa, e também dos procedimentos para a eleição da Assembleia que recebeu o nome de Cortes Constituintes. Lançava-se assim o trabalho de elaboração da Constituição, começando pela prepara- ção das eleições para a Constituinte, e levando de imediato ao Palácio das Necessidades, a sede das Cortes, o delírio da discussão política em nome da liberdade do povo. Mas se o Por- tugal “que sabia ler” estava profundamente empenhado em todo este processo, a maioria esmagadora dos portugueses, o Portugal que “não sabia ler”, o Portugal amante apaixonado do trono e do altar, o Portugal que se identificava mais profundamente com o Povo Português vencedor da Guerra Peninsular, não percebia, nem queria perceber, absolutamente nada do que se estava a discutir. E o que era ainda mais evidente, é que esse Portugal assistia embas- bacado a todo aquele arraial de discursos e gritarias em nome da sua liberdade, sendo que, na verdade mais pura, não entendia patavina do jogo liberal, e estava a “anos-luz” de poder per- ceber, ou sequer aceitar, a Democracia. E foi assim, com toda esta confusão e todo este alheamento, que Portugal viu nascer a sua primeira Constituição. E muito embora tal Constituição começasse com as palavras «Em nome da Santíssima Trindade (…)», e tivesse como principal patrocinador, e grande presiden-

te de todo aquele areópago, Frei Francisco de S. Luís, a verdade é que o que mais à evidência saía do texto constitucional, era o ataque declarado “ao altar”, a destituição pura e dura do poder do trono (“o Rei reina mas não governa”) e o cercear de privilégios daquela que tinha sido a grande força motora e de comando do Povo Português na Guerra Peninsular, a Nobreza Rural de um Portugal eminentemente rural. Por tudo isto, não é de estranhar que uma vaga de fundo se levantasse, vinda dos solares de província e dos altares da Igreja, espiritualmente liderada por dois homens desta mesma Igreja, Frei Fortunato de São Boa Ventura e José Agostinho de Macedo, que numa luta tremenda contra tudo o que se identificasse com o ideal liberal, o faziam confundir, aos olhos da Nação, com as invasões francesas, e com tudo o que de mau nos tinha chegado nas pontas das baionetas dos exércitos franceses. E para dar mais ênfase à sua retórica anti-liberal, Fortunato e José Agostinho escreviam e diziam que aquilo que os liberais queriam, tal como os franceses antes deles, era uma destruição das grandes tradições, das grandes âncoras, das grandes amarras, em que assentara sempre a vivência e a liberdade do Povo Português: O paternalismo monárquico ligado ao altar, e a Santa Madre Igreja em íntima comunhão com o trono. Piorando ainda mais este quadro, e colocando-o no caminho da tragédia, logo que a ideia do liberalismo e a certeza da Revolução chegaram ao Brasil, os brasileiros imediatamen- te reclamaram o mesmo para eles, ou seja, queriam também o liberalismo para o Brasil, tal e como estava instituído em Portugal. Assim começou no Brasil um movimento que, com base nos ideais liberais, iria con- duzir, por força de circunstâncias comuns ao Reino Unido, não só ao regresso da Família Real a Portugal, mas à presença no Brasil, representante Pátrio em nome do Imperador, do filho mais velho de D. João VI, o Príncipe Real, D. Pedro, entregue à direcção espiritual de José Bonifácio Andrade da Silva, e de todo um grupo de intelectuais brasileiros que já sonhavam com qualquer coisa mais, para além desse mesmo liberalismo. Quando os portugueses, na Metrópole, cometeram uma das asneiras mais tremendas do liberalismo, ao pedirem nas Cortes o regresso do Brasil ao estatuto de colónia, retirando- lhe os Tribunais Supremos, para ali enviando tropas, e praticamente exigindo o regresso a Portugal do Príncipe Real D. Pedro, a reacção brasileira foi tremenda, materializada numa autentica em direcção à independência, independência essa que já havia sido prevista por D. João VI quem, aquando do seu regresso a Portugal, teria dito ao filho: «Tu ficas, mas não te esqueças, se o Brasil se tornar independente, guarda a coroa para ti, que sempre me hás de ter respeito, e não a deixes cair na mão de qualquer um destes aventureiros.».

Estava assim dado o mote para aquilo que depois viria a suceder, quando de Lisboa se exigiu o regresso de D. Pedro à Metrópole, imagem definida da nova Pátria que começava a nascer com a resposta do seu próximo fundador: «Fico e sou o defensor perpétuo do Brasil!» Mandaram-se então tropas para o Brasil e ordenou-se ao Brigadeiro Madeira para resistir pelas armas, enquanto à esquadra se mandava bloquear os portos. E finalmente,

aquando do levantamento republicano do Rio Grande do Sul, numa altura em que D. Pedro foi a S. Paulo com a sua cavalaria da Guarda Paulista para o debelar, a ordem imperiosa para

o regresso imediato do Príncipe a Lisboa, pondo fim a toda a agitação independentista, che- gou.

Estava-se a 7 de Setembro de 1822, e foi nas margens do Ypiranga que D. Pedro rece- beu, das mãos de um dos seus Ajudantes, a ordem expressa das Cortes para regressar a Lis- boa, perdendo assim o Brasil o seu estatuto de membro de Reino Unido. Subido nos estribos e desembainhando a espada, o Príncipe arrancou as cores azul e encarnado do seu chapéu arma- do e gritou: «Independência ou morte, estamos separados de Portugal!». Acabara de se fechar

a primeira página do drama que tão profundamente iria enlutar a nossa Terra. A independência do Brasil conduziu ao desmoronamento do Império Português do outro lado do Atlântico, já que tudo o que tinha sido um verdadeiro motor de Portugal, mat e- rializado pela Companhia de Jesus e pelas campanhas dos Guararapes, pela epopeia de D. João V e pelos sonhos do Marquês de Pombal com a sua Companhia do Grão Pará e Mara- nhão, todo o domínio soberano daquele manancial extraordinário que era o Brasil, acabara de se perder. Mas por outro lado, para aqueles que em Portugal lutavam contra o nascente regime liberal, a independência do Brasil tomava a forma de pecado mortal do liberalismo maçónico, garrote vil passado no pescoço do nosso comércio, traição infame e verdadeiro dobre de fina- dos anunciando a ruína inevitável da Pátria. Quanto a D. João VI, que à sua chegada a Lisboa havia jurado a Constituição, ao con- trário da sua mulher, a espanhola D.ª Carlota Joaquina, que se recusara a fazê-lo, via-se agora confrontado com o problema da independência do Brasil, independência que ele, como impe- rador do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, imediatamente condenou com uma completa rejeição. Porém, o facto de ter jurado a Constituição liberal, agora mais do que nunca identifi- cada com a desgraça da Pátria, afastou o Rei dos favores do “Portugal profundo”, tradiciona- lista e fanaticamente católico, e que acabava de encontrar na Rainha Dona Carlota Joaquina, então exilada entre Queluz e o Ramalhão, como represália pela recusa da Constituição, o líder

imediato dos inimigos do novo sistema. E tal era o ódio que a Rainha votava à Constituição e aos seus apoiantes, que os liberais lhe chamavam “a megera de Queluz”. D.ª Carlota Joaquina tornava-se assim no chefe espiritual daqueles que combatiam o regime liberal, e que eram cada vez mais. E eram-no porque os portugueses, de uma forma geral e na sua esmagadora maioria, continuavam a não perceber o jogo democrático, a não entender as ideias liberais, a ver na Maçonaria o motor malvado dos ataques ao altar e ao tro- no, para além de começarem agora a ouvir, da boca do Clero e da Nobreza Rural, tudo o que significava, em ruína e em desgraça nacional, a independência do Brasil… Como temos vindo a constatar, reinava então em Portugal uma confusão tremenda, agravada de forma alarmante por um crescente sentimento de revolta popular, e tudo aquilo combinado com o estado verdadeiramente desgraçado em que o Reino se encontrava como reflexo directo da destruição causada pela Guerra Peninsular. Assim sendo, facilmente se compreende que Manuel da Silveira, 2.º Conde de Ama- rante, logo no início de 1823, se tenha revoltado em Trás-os-Montes, recusando o regime libe- ral, e aclamando a Monarquia absoluta, tradicional e de direito divino, tal e qual como todos os seus antepassados, e desde que Portugal era Portugal, a tinham entendido, aceitado e defendido. Esta revolta levou ao primeiro choque armado entre as facções liberais e absolutistas, num combate que aconteceu na Serra de Santa Bárbara, e que terminou com a vitória absolu- tista. Porém, metidos de seguida em Amarante pelo General Luís de Rêgo, que era sogro de Rodrigo da Fonseca Magalhães (outro dos grandes vultos deste período do liberalismo) as tropas absolutistas acabaram vencidas, e o conde de Amarante e as suas tropas foram obriga- dos a refugiar-se em Espanha. Acontece que, devido a este levantamento, foram mandadas tropas para o Norte do Reino a fim de debelarem a corrente de revoltas que se estavam a verificar nas populações. Como muito bem sabemos, a Norte do Tejo Portugal ainda hoje é profundamente tradiciona- lista, e era precisamente contra o expressar indignado desse mesmo tradicionalismo que essas tropas, constituídas pelos filhos desse mesmo Portugal tradicionalista, foram enviadas. Assim, é perfeitamente compreensível à luz do pensamento dos dias de hoje, que os soldados dos Regimentos de Infantaria 16, 18 e 23, que seguiram para o Norte a combater as revoltas popu- lares, se tenham revoltado ao chegar a Vila Franca de Xira, soltando vivas à Monarquia abso- luta e negando, de armas na mão, o constitucionalismo liberal.

«Abaixo a Constituição, viva o Rei absoluto!». E foi ao reboar deste grito de revolta popular, que a Rainha Dona Carlota Joaquina, que era “má como as cobras” mas extraordina- riamente esperta, mandou o seu filho mais novo, o Senhor Infante D. Miguel, para chefiar aquele levantamento. Símbolo acabado do português de então, marialva, cavaleiro, toureiro, “brigão”, mulherengo e praticamente analfabeto, D. Miguel, acompanhado pelos seus ajudantes de campo e entre eles o conde de Vila Flor, foi recebido em Vila Franca num ambiente de verda- deiro delírio, tendo ali recebido o apoio do Exército e de individualidades das mais diferentes origens sociais da vida portuguesa. E é curioso recordar que, entre aqueles que em Vila Fran- ca apoiaram D. Miguel, para além do conde de Vila Flor, estava João Carlos de Saldanha de Oliveira e Daun, os dois militares que, num futuro bem próximo, iriam ser, com toda a honra e glória, os mais importantes comandantes liberais. Por aqui podemos constatar até que ponto a sociedade portuguesa estava aterrorizada com tudo aquilo que sucedia, com a incerteza do futuro imediato, com a alteração permanente da ordem pública, com a incapacidade demonstrada pelo poder politico liberal, e via em D. Miguel qualquer coisa que, na realidade histórica, ele não era nem podia ser. E, momento marcante deste movimento, recordamos aqui o encontro de D. João VI com o seu filho em Vila Franca, e a entrada absolutamente triunfal que os dois tiveram em Lisboa, com o povo rendido a atrelar-se aos varais da carruagem, e o Rei a nomear D. Miguel como Generalíssimo do Exército. Este movimento de Vila Franca, ocorrido em Maio de 1823 e a que se chamou “Vila- francada”, conduziu ao fim da Constituição de 1822, e representou o encerramento do prime i- ro capítulo da história do liberalismo em Portugal. No entanto, e como evidência histórica de capital importância, ele viria a originar a ascensão de D. Miguel como grande vedeta e grande chefe da causa absolutista, dando a todos aqueles que defendiam o tradicionalismo monárqu i- co de direito divino um líder perfeitamente identificado com a causa, e com a mãe que na vida, para além de uma ambição desmedida, só o via a ele. Mal rodeado e pior aconselhado desde o inicio da sua vida politica, D. Miguel seria o homem que iria assumir a chefia de uma tentativa de golpe de Estado, quando os liberais, ras- gada a Constituição, pediram a D. João VI que, à imagem do que D. Luís XVIII fizera em França, desse a Portugal uma Carta Constitucional. Porém, D. João VI, (um homem que a História hoje quer “lavar”, dizendo-o um monarca de extraordinário bom senso) mais uma vez iria deixar Portugal “agarrado às cuecas”, perdoem-me a expressão mas não encontro outra

(!!), ao não dar qualquer Carta Constitucional, e ao rodear-se de homens incapazes de lidar, com a força que só o prestigio garante, com toda a problemática da luta directa entre as clien- telas rivais de liberais e absolutistas. E para piorar ainda mais as coisas, o único homem de autentico valor que se encontrava próximo do Rei, para o apoiar e aconselhar, o marquês de Loulé, esse acabou cobardemente assassinado em Salvaterra de Magos, às mãos do nascente “caceteirismo” absolutista. Inevitavelmente, a luta directa entre as facções, agravada pela permanente indecisão do Rei, acabou por redundar, em 30 de Abril de 1824, numa tentativa de golpe de Estado, a chamada “Abrilada”, o qual só não redundou numa grande vitória absolutista, muito poss i- velmente com a abdicação do Rei, porque o corpo diplomático, tendo à frente o Embaixador de França, Hyde de Neuville, não o permitiu. Protegido pelos diplomatas estrangeiros, mais do que por portugueses, D. João VI procurou o seguro refúgio da nau inglesa Windsor Castle,

e daí, com as “costas quentes”, ajustou as contas com o filho, demitindo-o de Generalíssimo, e

enviando-o pura e simplesmente para Viena, para a Áustria, para junto de Metternich (outra asneira brutal de D. João VI) onde o Infante, como “peixe na água”, aprendeu na perfeição todos os malabarismos da reacção vencedora de Waterloo. Lançou-se assim Portugal numa tentativa de recuperação do sistema liberal, tentativa que, “ponta abaixo e ponta acima”, “aqui caio além me levanto”, lá se foi aguentando até à morte de D. João VI, em 10 de Março de 1826. Acontece porém que em 1825, aquando do reconhecimento da independência do Bra- sil, D. João VI promulgou dois documentos, historicamente importantíssimos e, ainda hoje, motivo de acesa discussão entre as diferentes correntes monárquicas. Resumidamente, num desses documentos, Sua Majestade reconhece, de facto, a independência do Brasil, tendo como Imperador o seu filho D. Pedro, “sucessor destes reinos de Portugal e do Brasil”, enquanto que num outro documento, assinado em data posterior, Sua Majestade o Senhor D. João VI, reconhece e confirma a independência do Brasil, mas “não se refere a D. Pedro como

o sucessor da coroa portuguesa”. Parece hoje “facto aceite” o assassinato de D. João VI. Diz-se até que Sua Majestade terá sido envenenado com uma laranja, disso se acusando mutuamente liberais e absolutistas. Talvez que esta situação possa justificar o facto de D. João VI não ter indicado, à hora da sua morte, o nome do sucessor, coisa que era pouco habitual na prática dos monarcas portugueses. No entanto D. João VI, ou alguém por ele (as opiniões variam) indicou quem iria ser a cabeça

da Regência: a sua filha Dona Isabel Maria, apoiada pelo Duque de Cadaval, pelo Duque de Lafões, e por uma plêiade de pessoas da máxima confiança de D. João VI. Mas fosse como fosse, a verdade é que Portugal caminhava a passos de gigante no sentido de uma catástrofe, governado como estava por uma fraqueza política perigosamente incapaz, sem Carta Constitucional ou Constituição que o regesse, económica e socialmente destroçado, e vendo-se agora a caminho de ter, sentado no trono, o homem que lhe levara o Brasil.

Dentro da imposição tradicional do funcionamento sucessório, o Duque de Lafões foi enviado ao Brasil com o intuito de aclamar D. Pedro IV como rei de Portugal, na esperança que o Imperador brasileiro abdicasse da Coroa Portuguesa em nome de D. Miguel. No entanto, antes que o Duque de Lafões chegasse ao Brasil, chegaram ali as notícias da morte de D. João VI, e D. Pedro, interiorizando a sua condição de herdeiro da Coroa, resolveu dar imediatamente a Portugal uma Carta Constitucional, a Carta Constitucional de 1826. Documento do máximo interesse politico e Histórico, a Carta tem, como lei fundamen- tal, uma particularidade que dá à Coroa força interventora na decisão politica: É que na Carta o Rei detém o “poder moderador” entre o “poder legislativo”, o “poder executivo” e o “poder judicial”. E esta particularidade torna, à partida, a Carta diferente da Constituição de 1822, onde imperava, sem peias, a ideia de que “o Rei reina mas não governa”. Mas a essência da Carta Constitucional, “outorgada mas não votada”, levava a divi- sões dentro do próprio movimento liberal, onde aqueles que apoiavam a Constituição de 1822, nas suas bases de votação democrática e limitação do poder real, iriam agora, por força do quadro geral da situação já descrita, apoiar a Carta Constitucional como amarra de união entre as correntes liberais. E muito embora, inicialmente, todos se tenham reunido em torno da Carta Constitucional, mormente os “vintistas” e os “cartistas”, a verdade é que esta “união” se desfez imediatamente após a Guerra Civil…. Quando a Carta Constitucional chegou a Portugal, a Infanta Regente Dona Isabel Maria não a fez jurar imediatamente, sempre na esperança de guardar a possibilidade de não reunir cortes para a proclamar. No entanto, o General Saldanha, condecorado com a “medalha da poeira” evocadora da “Vilafrancada” e agora Governador das Armas do Porto, ameaçou a Regência com a intervenção militar, forçando assim a proclamação da Carta e o seu juramen- to.

Reflexo imediato desta atitude de força, o convite formulado pela Regente ao General Saldanha para formar governo, ainda hoje não espanta ninguém.

Gostaria aqui de dizer que o General João Carlos de Saldanha de Oliveira Daun foi um homem extraordinário, um romântico, e um soldado de fantástica bravura. Mas obriga a ver- dade Histórica a dizer também, que ele foi um golpista e um revolucionário ambicioso famin- to de poder. Há quem diga até que teria algo de louco, sendo inclusivamente violento, iberista, e maçon com ideias de prática política de imposição pela força. Sinteticamente, um dos gran- des chefes da causa liberal, Cândido José Xavier, tinha para ele uma definição curiosíssima:

«O Saldanha à frente da “canalha” é muito mais perigoso do que D. Miguel à frente dos Sil- veiras». Por tudo isto, a Grã-Bretanha não queria, nem podia, admitir para Portugal um gover- no do qual fizesse parte o General Saldanha, com todos os perigos de violências e confrontos que daí certamente adviriam. E assim, pretextando impedir uma mais do que anunciada Guer- ra Civil, a velha aliada impôs-nos a presença da divisão do General Clinton e, para cúmulo da nossa vergonha e coroar da intervenção militar estrangeira nos negócios do Reino, acabou por forçar a demissão de Saldanha. A que miséria tinha chegado Portugal!!! Entrava-se assim no período crucial que antecedeu a Guerra Civil, período fundamen- talmente caracterizado por uma série de levantamentos absolutistas, arregimentando a esma- gadora maioria do “Portugal profundo” enquadrado pela Igreja e pela Nobreza Rural, de braço dado com a Grande Aristocracia de facção “miguelista”. Afirmavam estes defensores apaixo- nados da tradição, do trono e do altar, a culpa maçónica da desordem social agravada pela grosseira impraticabilidade dos princípios expressados na Carta Constitucional e na Constitu i- ção, superiormente maquinada pelo “brasileiro” D. Pedro, traidor à Pátria por mor da inde- pendência do Brasil. Ou seja, juntavam-se no mesmo saco os ódios à “pedreirada” (como insultante ao trono e ao altar) e o ataque determinado à realeza de D. Pedro IV, impossibilita- do de ser Rei de Portugal pela sua condição de estrangeiro (chamavam-lhe até “o imperador dos macacos”) impossibilidade constante das antigas leis fundamentais do Reino, que remo n- tavam aos tempos de D. Afonso Henriques e às cortes de Lamego. Assim, para estes defenso- res da causa identificada com a tradição monárquica ancestral, o Rei era Rei por direito divino e, como tal, soberano absoluto de Portugal. Porém, para o ser de pleno direito, tinha de ser português, pelo que, e para evitar a repetição dos “Felipes”, o “brasileiro” não podia ser Rei de Portugal, cabendo assim a legitimidade sucessória ao Senhor Infante D. Miguel. Acontece porém que - pressionado por um lado pela Inglaterra (que nunca aceitaria as Coroas de Portugal e do Brasil novamente juntas), por outro pelos brasileiros que temiam um

retrocesso no seu processo de independência, e ainda por outro pela sua própria postura face a Portugal - logo após ter sido aclamado rei de Portugal no Rio de Janeiro, e após ter dado ao Reino a Carta Constitucional, D. Pedro IV realizou um acto de abdicação em nome da sua filha D.ª Maria da Glória, Princesa do Grão-Pará e futura D.ª Maria II de Portugal. Estava-se no dia 2 de Maio de 1826 e, na sua essência, o acto de abdicação de D. Pedro IV podia resumir-se da seguinte forma:

«Eu abdico na minha filha, com duas condições: D. Miguel deverá casar com a minha filha D.ª Maria da Glória, e deverá ainda jurar a Carta Constitucional. Perante o cumprimento de tais condições, será D. Miguel, em meu lugar, Regente até à maioridade da minha filha.» Esta decisão do, agora, Rei D. Pedro IV, foi apoiada por quase todas as Cortes da Europa, sendo porém categoricamente recusada pela esmagadora maioria do povo português, na sua “teima” de considerar que D. Pedro não podia abdicar de um trono a que não tinha direito. No entanto, em Viena de Áustria e aconselhado por Metternich, o Senhor Infante, como então chamavam a D. Miguel, aceitou os termos da proposta do Rei seu irmão e, depois de cumprir o acordado (com o “casamento” resumido “ao papel”, claro está!) regressou a Por- tugal.

Estava-se no principio da Primavera de 1828, e a esmagadora demonstração de apoio, amor, delírio apaixonado, que constituiu a chegada de D. Miguel a Lisboa, com um povo inteiro a cantar “o Rei chegou!!!”, não só alarmou todos os liberais, como convenceu, de vez, os absolutistas, de que a realeza de D. Miguel, muito embora violando todos os acordos que tinham permitido o regresso do Infante a Portugal, era o único caminho, politica e patriotica- mente, correcto. Porém, a par do fervor popular de “o Rei chegou”, o regresso de D. Miguel e as medi- das de carácter administrativo por ele imediatamente tomadas, correram paredes meias com a maior onda de perseguições, de prisões arbitrárias, e com o pior “caceteirismo”, numa abertu- ra imperdoável aos actos de maior torpeza, maior vingança pessoal, maior vandalismo, que se possa imaginar. Na mão de sicários da baixeza do General Telles Jordão e mais do filho, do sota Leonardo, do Sedvem toureiro, do Zé Veríssimo da policia, ou do “Preto dos palitos”, a “ordem pública” imposta a cacete pelo partido de D. Miguel, instigada pela “megera de Que- luz” (finalmente triunfante) e escrupulosamente dirigida por José António de Oliveira Leite, o sinistro conde de Basto, levou o terror a campear nas ruas, a ferocidade mais primária a expulsar o que de melhor existia nos quadros da Nação, uma camarilha boçal de analfabetos aos degraus do poder, e o descrédito internacional à própria Monarquia.

Na aclamação, como Rei absoluto, de D. Miguel I, em Cortes Gerais da Nação, este, que havia jurado a Carta Constitucional, tudo desdisse e tudo anulou, arrastando assim para o seu partido um odioso tão evidente, que o reconhecimento internacional da sua Coroa se tor- nou mais do que problemático. A título de curiosidade, lembro-vos que os miguelistas dizem, ainda hoje, que D. Miguel não jurou a Carta Constitucional, tendo jurado sobre um livro escrito por José Agost i- nho de Macedo, intitulado “Os burros”, razão pela qual, os liberais apelidavam os absolutistas de burros. Igualmente, e quanto ao seu casamento, também voltou com a palavra atrás, ao afirmar “não poder casar com a sobrinha, uma vez que esta tinha apenas 7 anos e ele, D. Miguel, 24, sendo portanto tal casamento inconcebível. Fugiam os liberais para Inglaterra e para França, e enchiam-se as enxovias de São Julião da Barra, onde imperava o Telles Jordão. Esvaziava-se o Portugal que “sabia ler”, mas era também significativo o número dos que ficavam, dispostos a lutar pelo seu ideal e por aquilo que consideravam ser a legitimidade da Senhora Dona Maria II. E foram esses fiéis que se revoltaram em Aveiro, ainda antes da aclamação de D. Miguel. Mal dirigidos e pior enquadrados, animados de todo o ideal do mundo mas incapazes de enfrentar quem quer que fosse, os revoltosos de Aveiro e de outras localidades do Norte e Centro do Reino marcharam sobre o Porto, e aí foram recebidos em triunfo. Porém, o comandante da revolta, o General Sousa Refóios, não era um chefe militar à altura dos acontecimentos, e assim não foi de estranhar a derrota esmagadora que o Exército governamental, sob o comando do General António Coutinho e Povoas, lhe impôs na Cruz de Marossos, perto de Coimbra. Debandaram, é este o termo, os liberais de escantilhão para o Porto, e aí encontraram aqueles que tinham regressado da Grã-Bretanha, a bordo do “Belfast”, para apoiar a revolta. Ali estavam, pois, o conde Vila Flor e o General Saldanha, o conde da Taipa e Cândido José Xavier, todos sob a superior liderança, imposta aliás pelos ingleses, do marquês de Palmela, como chefe de expedição e futuro chefe de Governo. Mas tomando conhecimento da catástrofe da Cruz de Marossos, e da proximidade do Exército de Povoas, os liberais apavoraram-se, e rapidamente partiram, outra vez a bordo do dito “Belfast” de volta a Inglaterra e ao exílio. Ficou este movimento conhecido como a “Belfastada”, e dele saíram os liberais inter- na e externamente enxovalhados. Salvou-se daquela vergonha a personalidade fascinante de Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o futuro marquês de Sá da Bandeira, que retirou

sobre a Galiza com o que restava das pobres tropas liberais, levando-as daí para a Inglaterra, e para o sofrimento nos barracões de Plymouth. Tentava a diplomacia miguelista que o governo do Rei absoluto fosse internacional- mente reconhecido, mas a barreiras a tal reconhecimento levantavam-se por todos os lados. Na Grã-Bretanha, onde governava de Wellington que pessoalmente apoiava D. Miguel, o governo não tinha força, nem vontade, suficiente para reconhecer o governo miguelista. Na França, onde o governo de Polignac era o que de mais reaccionário havia na Europa e muito embora estivesse sentado no trono D. Carlos X, também não havia força bastante para conse- guir reconhecer o governo de D. Miguel. Assim, o governo miguelista foi apenas reconhecido pela Santa Sé (tendo em conta que a luta dos liberais era contra o altar), e pela Espanha (uma Espanha absolutista, que havia sido invadida pelo Exército Francês do duque d’Angoulême. A título de curiosidade, existe em Paris uma praça muito famosa, com o nome Trocadéro, cele- brando a batalha de Trocadéro, onde os absolutistas, com o auxilio do duque d’Angoulême, venceram os liberais, impondo o regime “apostólico” de Fernando VII). Mas também a Rússia e os Estados Unidos da América reconheceram o governo de D. Miguel, sendo relevante o reconhecimento dos americanos, presos aos interesses que eles tinham no Brasil e na América do Sul, incompatíveis com uma nova união de Portugal com o Brasil.

Com os liberais perseguidos, presos ou enforcados e, na sua maioria exilados na Fran- ça e Inglaterra, foi no meio do Atlântico, no arquipélago dos Açores, e especialmente na ilha Terceira, que se instalou o grande bastião da causa liberal. Para ali convergiram, pois, todos os esforços, todos os seguidores, todos os voluntários, da causa da Liberdade, identificada agora com a Rainha a Senhora Dona Maria II. Bateram-se os liberais na Terceira, e ali se cobriram de glória no Pico do Celeiro e na Praia da Vitória. Ali ganhou fama o conde de Vila Flor, e dali partiu para conquistar para a causa todo o arquipélago, e com ele a credibilidade internacional. E foi ali que se assentou a força do chamado Exército Libertador, constituído em boa parte por tropas estrangeiras, financiadas por dinheiros estrangeiros, e superiormente dirigidas por D. Pedro, que entretanto abdicara da Coroa no Brasil em nome do seu filho, D. Pedro de Alcântara. Foi este o modo encontrado, e internacionalmente aceite, para que, e como simples duque de Bragança, D. Pedro pudesse apoiar a causa da sua filha, a Senhora Dona Maria II, e dirigir, como Regente e em seu nome, a luta contra o absolutismo.

E do “outro lado”? Do outro lado estava Portugal em peso, porque essa é a verdade Histórica e indesmentível, idolatrando uma causa e um homem, um homem que foi, talvez juntamente com Sidónio Pais, o Chefe de Estado mais amado de toda a nossa História. É verdade que estavam milhares de pessoas presas, torturadas e muitas enforcadas. É igualmente verdade que, à simples suspeita de “malhado” ou “pedreiro livre”, qualquer cida- dão podia sofrer a repressão mais tremenda, e é também verdade que o governo absolutista carregava com o odioso de toda a Europa civilizada. Mas verdade superior a todas estas, ver- dade que era crida como dogma no coração da maioria esmagadora dos portugueses, a Coroa de Sua Majestade o Senhor D. Miguel I, Rei absoluto por vontade do seu Povo expressa em Cortes Gerais, e Rei Português em toda a dimensão, valia ao “Portugal profundo” o sacrifício da própria vida dos seus filhos. E essa, doa a quem doer, era a verdade! Quando, em França, Carlos X caiu devido à revolução de 1830, e na Grã-Bretanha, o duque de Wellington perdeu o lugar de Primeiro-Ministro a favor de George Hamilton- Gordon, 4.º Conde de Aberdeen, tudo isto complicado pelo estalar da Guerra Civil em Espa- nha enfrentando “Carlistas” com “Isabelinos”, no quadro do conflito português o apoio à cau- sa liberal viria a mudar completamente. Agora, toda a legitimidade estava do lado da Rainha, e D. Miguel representava a usurpação. À causa liberal abriram-se créditos e facilidades de recrutamento, enquanto que à causa miguelista, e muito por culpa das asneiras clamorosas dos seus dirigentes, até a esquadra lhe levaram!!! Cabe aqui relembrar que, apesar do tempo que já passou, é hoje ainda vulgar ouvir dizer que “a causa liberal era apoiada pelo estrangeiro, e que era uma causa mercenária”, como se os dinheiros de Outrequin & Jouge fossem portugueses, e os Bourmont, Eliot, Almé, Brevielle, Larochejaquelin e tantos outros, fossem nascidos em Mafra ou na Costa da Capar i- ca.

Junho de 1832. De Ponta Delgada, e sob o comando do inglês Rose Sartorius, vai sair para o Cont i- nente a “grande esquadra liberal”, na realidade a força naval mais heterogénea que imaginar se possa. Nela vão embarcados cerca de 7.500 homens que, sob o comando supremo do Impe- rador (como lhe chamavam os seus homens, numa aproximação claríssima ao seu herói insp i- rador Napoleão Bonaparte) constituem o Exército Libertador. Para se lhe opor, o governo de D. Miguel não tinha, praticamente nada. E radica aqui uma das principais razões militares do desfecho da Guerra Civil. Como consequência da estúpida

repressão miguelista e do seu desvairado “caceteirismo”, os esbirros do conde de Basto che- garam ao exagero de perseguir súbditos estrangeiros radicados em Portugal. Ora foi precisamente por causa da agressão e prisão de dois súbditos franceses que a França orleanista e liberal, apoiante de D. Maria II, enviou ao Tejo a esquadra do Almirante Roussin, para exigir a libertação dos seus súbditos e uma indemnização. Bem tentaram o vis- conde de Santarém e o duque de Cadaval que o conde de Basto libertasse os presos, mas qual

Nem ele, nem o Rei queriam “arrear bandeira”, e o Almirante Roussin levou a Esqua-

dra portuguesa para Toulon, arreando-lhe as bandeiras e internando-a. Assim, foi sem qualquer oposição significativa que, no início do mês de Julho de 1832, a esquadra liberal fundeou em frente à praia dos Ladrões, em Arnosa de Pampelido, junto a Vila do Conde, e as tropas da Rainha desembarcaram, levando a Guerra Civil ao Con- tinente.

Iniciada muito antes de 1832, a chamada Guerra Civil de 1832-34 lançou Portugal numa luta dramática, de consequências desastrosas (e, no fundo, ainda hoje sentidas) que iria enlutar a Pátria até 1850, até ao movimento da Regeneração. Ora essa luta, que se retratou no “Setembrismo”, no “golpe dos arsenalistas, na revolta dos marechais, na ditadura de Costa Cabral e na revolução heróica da “Maria da Fonte”, nem com a Guerra da Patuleia se conse- guiu esclarecer, e conduziu à vergonha de uma intervenção militar estrangeira que levaria à Convenção de Gramido. Luta fratricida e impiedosa, marcando gerações de portugueses e libertando forças incontroláveis, a Guerra Civil e tudo o que a originou, mais talvez do que as desgraças a que deu origem, pode, e deve, ser considerada como o berço da Republica e de tudo o que se lhe seguiu. Foi, pois, um esboço dos antecedentes imediatos de todo o drama que se viveu em Portugal e que dividiu os portugueses, assentado na sua impreparação para compreender a finalidade e a execução do jogo democrático, na criminosa manutenção da sua ignorância para proveito das forças políticas, e na péssima situação financeira, comercial, industrial e social, em que o Reino se encontrava devido à Guerra Peninsular e à independência do Brasil, que eu

quê!

vos quis transmitir de uma forma muito simples e, espero bem, que clara.

Muito obrigado.

Tavira, 11 de Janeiro de 2011 Coronel Henriques

CONFERÊNCIA 2:

AS CONSTITUIÇÕES LIBERAIS PORTUGUESAS 1

Vasco Pereira da Silva 2

Enquanto simples jurista, venho aqui falar-vos de leis, o que na realidade é pouco emocionante, comparativamente à análise dos factos históricos. Muito embora, na realidade, tais factos históricos, se traduzam em normas, e tais normas possuam uma carga histórica. Ora, a minha uma visão relativamente ao Direito constitucional, é uma visão cultural e aberta, sendo que não considero que o Direito se possa fechar numa redoma, num domínio inteira- mente fechado. A minha perspectiva é a de jurista, ou seja, parto das normas e interpreto-as, integrando-as na realidade cultural. Isto é, integro esses factos jurídicos e introduzo-lhes a dimensão jurídica, que utiliza uma metodologia diferente da história. Ora, como jurista, tenho como base as normas, sendo que parto destas para análise dos factos. Assim, falar-vos-ei das constituições liberais portuguesas. Na verdade, é curioso, terem existido três constituições liberais portuguesas, em sentido literal, ou seja, a constitui- ção de 1822, a Carta Constitucional e a constituição de 1838. Porém, acrescento ainda, a cons- tituição de 1911, porque em rigor, na altura, o que se traduzia por República em Portugal, era, na verdade, um liberalismo serôdio, ou seja, tardio, do ponto de vista constitucional, que con- sumou o que as constituições liberais do século XIX não foram capazes de fazer.

1 O presente texto resulta da transcrição de uma conferência feita oralmente.

2 Doutor e Agregado em Direito. Professor das Faculdades de Direito da Universidade de Lisboa e da Universi- dade Católica Portuguesa.

As constituições liberais portuguesas de 1822, 1826 e 1838, definem, apesar das rela- ções difíceis entre a Igreja e o poder político, como religião oficial do Estado: a católica. Por- tanto, ao contrário do que se passou em França, Espanha e Itália, o laicismo não era inteira- mente assumido no quadro constitucional. De facto, esse passo laico foi dado pela constitui- ção de 1911 uma típica constituição liberal que introduz a dimensão republicana e a dimen- são laica, que na realidade, já estavam em embrião nas constituições liberais, mas que as con- dições do país não permitiram que se realizasse. Aliás, as constituições, enquanto factos cultu- rais, servem para “fazer coisas”, isto é, têm uma realidade que é utilitária. Ora, é Montes- quieu, no seu célebre “L’esprit des lois”, quem pela primeira vez vem afirmar que as consti- tuições têm de ser interpretadas sociologicamente, e que inclusivamente, servem para repre- sentar as classes sociais. De facto, as constituições são tão ou mais eficazes, completas, aca- badas, quando são capazes de representar essas ditas classes sociais, porque têm uma dimen- são sociológica, isto é, servem para algo, e quando não servem, é de alguma forma sintomát i- co de algum fracasso. Assim, tendo em conta as constituições portuguesas liberais, pode afir- mar-se que a que resistiu, foi a constituição de 1826, uma vez que as constituições de 1822 e a de 1836 foram constituições relativamente falhadas, as quais apenas conseguiram ter períodos de regência muito curtos, isto é, não tendo por isso, marcado verdadeiramente o século XIX português. A constituição de 1826 é a constituição menos liberal, sendo teoricamente menos liberal que a constituição de 1822. Pode afirmar-se que a constituição de 1826, é a constitui- ção mais adequada ao século XIX português, uma vez que, no século XIX português, o libera- lismo foi uma realidade que veio do estrangeiro, ou seja, de início não existiam condições sociais, pois não havia burguesia, não havia mercado, todas essas coisas iriam apenas surgir na segunda metade do século XIX, e foi por essa razão que sucederam todas estas guerras anteriormente mencionadas. Foi necessário esperar pela constituição menos liberal de todas, que em termos teóri- cos, foi a que acabou por dar origem ao período mais longo do liberalismo português, que corresponde à segunda metade do século XIX, e portanto, essa é, na óptica de um jurista, a constituição mais adequada à realidade portuguesa. Na verdade, as constituições, para serem bem sucedidas, deverão resolver problemas políticos e integrar as classes sociais. Quando tal não acontece, as constituições dir-se-ão falhadas, isto é, destinar-se-ão ao “caixote do lixo da história”, como dizia uma certa linguagem marxista, mas que, enfim, também pode ser utili- zada de forma irónica, sem qualquer conotação marxista, mas que tem a ver com a dimensão histórica das constituições.

Ora bem, existe também um fenómeno muito comum em Portugal: é que as constitui- ções são todas revolucionárias, sendo que a única que aparentemente não o é, é a constituição de 1826. Assim, a revolta de 1820, encontra-se na origem da constituição de 1822, e conse- quentemente, da constituição de 1826; a revolução de 1836 encontra-se na origem da consti- tuição de 1838; a revolução de 1910 encontra-se na génese da constituição de 1911; a revolu- ção de 1926 está na origem da constituição de 1933; a revolução de 1974, está na origem da constituição de 1976. Portanto, todas as constituições resultaram de rupturas, e consequente- mente de um fenómeno revolucionário, e todas elas tinham como objectivo construir uma nova ordem, ou seja, todas se propunham como objectivo resolver todos os problemas. A ideia de transição, de sedimentação constitucional, foi uma ideia britânica e não uma realidade portuguesa. Posteriormente, umas constituições sobreviviam e outras não, ou seja, trata-se de uma lógica tipicamente francesa, em que as constituições resultavam de revo- luções, e pretendiam impor uma nova ordem. Ora, essa nova ordem, resultava no quadro da realidade de um determinado país. Para além disso, também existe outra coisa que não deixa de ser curiosa, é que as revoluções são de facto todas muito parecidas, uma vez que, na ori- gem das revoluções, encontram-se fenómenos corporativos e, a dirigi-las, encontra-se o Exér- cito. Existem ainda outras causas, além das dimensões corporativas, relativamente ao surgi- mento da primeira constituição (de 1822), é o facto de existir uma pequena burguesia em Lis- boa e no Porto, a qual liderou a Revolução. Assim, quando olhamos para a realidade histórica, ou quando se fala de dimensões da democracia em sentido usual nos dias de hoje, trata-se de convenções que os juristas utilizam. Efectivamente porém, estas revoluções eram feitas com uma população muito reduzida, uma vez que são executadas na sequência de um pequeno golpe, que é associado a uma ideia maior, que se encontra na origem deste golpe, e que irá em posteriormente, impor-se na sociedade e estabelecer um esquema de organização política. Ora bem, a constituição de 1822, foi a que instaurou o constitucionalismo em Portugal, e consequentemente, o liberalismo político em Portugal. Além disso, o que estava em causa, do ponto de vista constitucional, era a instauração de um Reino Unido - o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve -, e esta era uma realidade que surgiria em todas as constituições liberais. Mas, curiosamente, nunca existiu qualquer Reino Unido no Algarve, sendo o Algarve o álibi para se retirar o poder ao Brasil, inicialmente em 1822, razão pela qual se recorreu ao Algarve. O objectivo da constituição de 1822, era que o Brasil se mantivesse ligado a Portu- gal.

A revolução de 1820 sucedera, com o objectivo de fazer com que o Rei retornasse a Portugal, ou seja, à metrópole, uma vez que Portugal tinha então o seu centro, isto é, a sua capital, no Rio de Janeiro, e para os portugueses (residentes na metrópole), era essencial que a capital de Portugal, retornasse para a metrópole, isto é, para Lisboa. Ora, a razão da revolução de 1820, era precisamente a insatisfação dos portugueses mais instruídos, residentes em Por- tugal (na metrópole), relativamente à alteração da capital de Portugal, para o Rio de Janeiro. Na verdade, todos se encontravam insatisfeitos por exemplo, a nobreza encontrava-se longe do reino, portanto não poderia influenciar o Rei, e além disso, não possuía vida de Corte. Ora,

a nobreza que se encontrava no Brasil, era na verdade, considerada a verdadeira Corte. De

facto, em Portugal não havia Corte, uma vez que a burguesia não tinha o poder de influenciar ninguém, por estar longe do Rei. No entanto, depois de o Rei retornar a Portugal (à metrópo- le), colocava-se ainda outro problema: o Brasil era o centro, isto é, possuía a capital do Reino de Portugal. Assim, era necessário contentar o Brasil, uma vez que era preciso evitar que o

Brasil se tornasse independente, pois o retorno da capital do Reino de Portugal para Lisboa, não iria certamente agradar aos brasileiros. Ora, tal como os portugueses não gostaram de ver

a capital de Portugal transitar para o Rio de Janeiro, evidentemente que, também os brasileiros

não iriam gostar que o Brasil fosse transformado numa província. Assim, a ideia do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, destinava-se, por um lado, a garantir que o Brasil conti- nuasse a pertencer ao Reino de Portugal, mas ao mesmo tempo, destinava-se a diminuir o papel do Brasil no reinado, colocando a seu lado o Algarve Reino de Portugal, Brasil e Algarves. Assim, pode afirmar-se que o Algarve surge como um álibi das constituições libe- rais, porque em rigor, não existia Reino Unido algum. Isto porque o Brasil ficaria sem qualquer poder, uma vez que aquilo que a constituição previa era apenas que ali houvesse uma deputação permanente do poder executivo. Assim, no Brasil, não existia Câmara legislativa, nem Supremo Tribunal, e nem órgãos próprios do Governo, sendo que, nem na Europa nem em Portugal existiam organismos representativos do Brasil, nem havia uma segunda Câmara, de tipo federal, como era normal em Estados mistos. Portanto, a ideia de que existia um Estado misto, era, na realidade uma ficção, e assim, sendo ficção, tanto o era para o Brasil como para o Algarve. Ora, existia aqui, por um lado, uma tentativa de resolver o problema do Brasil e, simultaneamente, dar uma compensação, isto é, criar um álibi para que os brasileiros não ficassem demasiado ufanos com tal situação. No entanto, tal situação falhou ainda antes de a constituição entrar em vigor, após o grito de Ipi- ranga. Os revolucionários queriam evitar o grito de Ipiranga, aliás, em consequência disso, a

própria forma da constituição era muito curiosa, pois, seguiu uma técnica legislativa original, que não se fez em mais nenhuma constituição portuguesa. As Cortes constituintes eleitas - Portugal, Brasil, África e Ásia -, começaram por aprovar umas bases da constituição, preci- samente as bases que foram aprovadas para tentar acalmar o Brasil, ou seja, para tentar que o Brasil não se tornasse independente. Após a situação anteriormente referida, criou-se a consti- tuição em 1822, precisamente nesse acto entre 1820 e 1822, quando estava em causa, uma solução a dar aos brasileiros. Assim, era necessário dizer que se tratava de um Estado misto, ou seja, um Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, no entanto, tal construção falhou. Assim, por essa razão, a constituição de 1822 historicamente foi uma constituição falhada, pois, a partir do momento em que entrou em vigor, não conseguiu resolver o seu principal problema político evitar a independência do Brasil -, tal como era o seu propósito. As fontes da constituição de 1822 são várias, desde a constituição espanhola de 1812 - a constituição de Cádiz - e as constituições francesas (1791-1785). Ora, a constituição de 1822 era uma constituição tipicamente liberal e política, de acordo com a lógica do Estado liberal do século XIX, sendo que, de acordo com o dogma do liberalismo político, tem como matérias apenas a organização e a separação dos poderes e a defesa dos direitos individuais. Do ponto de vista sociológico, porém, a constituição de 1822 não foi tão efectiva como a constituição de 1826, o que estava relacionado com a forma como a sociedade estava representada no quadro do poder político de então. Nos termos do artigo 29.º da constituição de 1822, o Governo da nação portuguesa era uma monarquia constitucio- nal hereditária que regulava o exercício dos três poderes, sendo que, nos termos do artigo 30.º da mesma constituição, constava o princípio da separação de poderes: o poder legislativo, executivo e judicial. Isto significava, do ponto de vista sociológico, que o poder mais impor- tante do Estado, o legislativo, que residia nas Cortes, era atribuído à classe burguesa, embora com dependência da sanção do Rei (aqui, denota-se uma tentativa de agradar o Rei, com um poder de sanção, mas que não era efectivo, pois, na prática, não correspondia a um verdadeiro poder de colaboração entre os órgãos, mas sim a um simples poder de veto suspensivo); o poder executivo encontrava-se no Rei, que o exercitava com a colaboração da nobreza, que indirectamente estava representada sob a autoridade do mesmo Rei; e o poder judicial encon- trava-se na mão dos juízes. Além disso, cada um dos poderes era autónomo e independente, sendo que nenhum deles podia influenciar o outro. Tal lógica era típica do liberalismo político, ou seja, a separa- ção de poderes e garantia dos direitos individuais que, do ponto de vista teórico, correspondia

à criação de um modelo de Estado liberal, o qual pode ser metaforicamente considerado como tendo “dois pais e duas mães”. Assim, por um lado, na base do Estado encontrava-se a ideia democrática de Hobbes e de Rousseau. Porém, a democracia de Hobbes e Rousseau era apenas uma ligeira reminiscên- cia, que só existia no momento inicial, uma vez que, para Hobbes, ela dava origem ao “Levia- tã” – um monstro todo-poderoso -, enquanto que, em Rousseau, ela dava origem à criação da vontade geral, que se impunha totalitariamente à vontade particular. Há ainda que ter em con- ta que, quando se fala em democracia, é a democracia do século XIX, e não a actual que está em causa. A noção de democracia está relacionada com a origem do poder, sendo que o poder tinha uma origem democrática e baseava-se num pacto, algo diferente do que existia até aí, ou seja, é a ideia que se encontra actualmente na base das democracias, em que a legitimidade do poder não é a monarquia, não é o poder divino, incutido a uma pessoa, o poder resulta de um contrato. No entanto, os pais deste Estado democrático e liberal Hobbes e Rousseau -, tam- bém faziam com que a democracia desaparecesse, por efeito do pacto social, ela era uma espécie de “pecado original” do Estado. Além disso, havia o conteúdo dado, pelos autores a quem denomino de “as mães do Estado”, porque o seu pensamento, de alguma maneira, possui um lado mais afectivo, mais terno, que são Locke e Montesquieu - são estes dois autores que irão dizer que o Estado preci- sa de ter um conteúdo, que é o da separação de poderes e da garantia dos direitos individuais. De tudo isto resulta uma ideia de constituição, que é exclusivamente política. Uma constituição que não se ocupa da economia, da sociedade - tudo isso é alheio à constituição, tudo isso é resolvido pela sociedade, pela lógica da “mão invisível”, que conduz as coisas pelo melhor caminho. Portanto, o Estado não tem a ver com a economia, ocupa-se apenas da polí- tica, e o conteúdo da constituição é a separação de poderes e a garantia dos direitos indivi- duais, e é isto que corresponde à realidade do século XIX. Enfim, existe um teórico socialista do século XIX que brinca, dizendo que este Estado liberal é uma espécie de “cão de guarda” da propriedade, alimentado a impostos, uma vez que a função principal do Estado era ser o guardião da propriedade e a intervenção do Estado limitava-se aos impostos. Neste modelo, a Administração não devia sequer intervir na sociedade. O Estado era por natureza, um Estado minimalista, portanto um Estado muito diferente daquele que conhecemos actualmente. É por isso que a constituição de 1822, como é típico das constituições liberais, abre com um título, que corresponde aos direitos e deveres individuais dos portugueses, e há aqui um grande tratamento da questão dos direitos, como questão essencial da liberdade. Surge

aqui uma trilogia, que irá aparecer depois nas outras constituições liberais portuguesas, logo no artigo 1.º, onde se explica que a função da constituição é manter a liberdade, a segurança e a propriedade de todos os portugueses. Ora, é esta trilogia liberdade, segurança e propriedade, que está na origem da constituição. Na constituição de 1822, define-se liberdade de uma forma negativa, que também é uma ideia muito liberal, estabelecendo-se no artigo 2.º , que liberdade é «os portugueses não serem obrigados a fazer o que a lei não manda, nem deixar de fazer o que ela não proíbe.» É, portanto, uma ideia que corresponde a esta lógica, de um Estado mínimo. O Estado define os limites da liberdade, que é uma ideia muito enraizada, mesmo nos dias de hoje, mas é uma ideia do século XIX. Quando as pessoas definem liberdade, em termos de linguagem do senso comum, normalmente utilizam uma frase bastante popular: “a minha liberdade termina onde acaba a liberdade dos outros”. Mas, a verdade é que a liberdade não termina nem começa, sendo que esta ideia do terminar e do começar é uma ideia liberal, era ver a liberdade como propriedade, tal como dizia o saudoso Prof. Lucas Pires, correspondia a uma espécie de direito real da liberdade”. Nestes termos, a liberdade tem limites, confina a Norte, a Sul, a Este e a Oeste, e esses limites são definidos pela lei. Na verdade, nos nossos dias, a questão deveria ser colocada de forma diferente, pois é a minha liberdade que é condição da dos outros, não termina nem acaba. O problema não é do meio nem do fim, a ideia do meio e do fim, é a ideia liberal, a ideia do século XIX, da definição dos limites da liberdade, a tal lógica negativa, que era a lógica do Estado liberal. E portanto, as leis que definiam estas balizas, eram extremamente importantes na lógica da constituição, e mesmo quando no artigo 6.º se estabelece o direito sagrado da propriedade privada, direito sagrado inviolável - é a expressão do legislador -, mesmo aqui se estabelece uma limitação, dizendo que podia haver expropria- ção por utilidade pública, e que essas implicariam indemnização. Também o artigo 9.º, da constituição de 1822, define a igualdade dos cidadãos perante a lei, à luz do século XIX e não à luz do século XX. A igualdade era entendida como a igual- dade perante a lei, a libertação dos vínculos, a lógica do acabar com a estratificação da nobre- za, isto é, tratava-se de fazer com que, independentemente do nascimento, todos pudessem ter condições de acesso a todos os cargos, não estava ainda relacionada com a dimensão social, uma vez que essa questão só irá surgir no século XX, a ideia de que as pessoas devem ter condições económicas equilibradas, e isso não é uma noção liberal. A noção liberal é a de uma liberdade jurídica, todos nascem iguais, a única excepção a esta lógica é a da fonte de legitimidade da monarquia, daí a noção de compromisso destas constituições (compromisso

este que só desaparece em 1911). Daí também a possibilidade de entender que a constituição de 1911 é a última constituição liberal, ela é, portanto, em sentido metafórico, a última consti- tuição do século XIX e não a primeira do século XX. Enquanto, nos outros países, por essa altura, tinham começado a surgir as constituições do Estado social, a nossa constituição de 1911 era ainda uma constituição liberal, do século XIX, portanto. Depois, surgem-nos as garantias da lei penal, a abolição das penas cruéis e infamantes, e a finalizar esta parte da constituição, no artigo 19.º, estabelecem-se deveres do Estado, e entre estes deveres do Estado, o primeiro é o venerar a religião. Isto mostra bem a já referida especificidade do liberalismo português, que não era laico, ou melhor, não tinha a coragem de se assumir como laico, mesmo que gostasse de o ser. Mesmo se alguns liberais gostariam de introduzir essa dimensão do laicismo, nenhuma das constituições portuguesas era laica, todas elas consagravam a religião católica como religião oficial do Estado. E o primeiro dever “público” era o de venerar a religião, só em seguida deveriam “amar a pátria”, obedecer à constituição e às leis, e contribuir para as despesas do Estado (a tal lógica do imposto, que era importante). Também, se por um lado, desaparecem as penas infamantes (a abolição da escra- vatura não surge ainda, pois ainda era muito cedo para ela surgir em Portugal, embora tenha- mos sido os pioneiros nesta realidade). Enfim, a escravatura não estava sequer incluída na ideia da igualdade liberal, jurídica, dos cidadãos perante a lei, aspecto que só surgirá mais tarde, durante a consolidação do liberalismo português. Há uma outra coisa curiosa na constituição de 1822, que era a mais liberal de todas, é que as restrições ao sufrágio são quase todas restrições capacitárias. Ora bem, há que esclare- cer, na lógica da representação social, que as constituições liberais são constituições burgue- sas, elas foram feitas para que o burguês esteja representado no Parlamento e, consequente- mente, para que o burguês mande. A função legislativa é a principal do Estado, e é a nova classe, a classe ascendente, a burguesia, que surge com o liberalismo político, que está repre- sentada no Parlamento. Assim, as constituições liberais dos demais países europeus são quase todas censitárias, isto é, estabelecem restrições de renda para se poder votar. O voto também não é universal (isso é uma realidade do século XX), o voto é restrito e é censitário, ou seja, quem vota é quem tem um determinado número de rendimentos, e quem pode ser eleito, tem rendimentos ainda superiores. Curiosamente, a constituição de 1822 - a constituição mais liberal de todas -, tem como restrição principal, a capacitária, ou seja, deve-se saber ler e escrever, chegando à idade de 25 anos completos para se poder votar. No entanto, esta restrição capacitária, no fundo,

também é uma restrição censitária, porque só sabia ler e escrever quem tinha condições mone- tárias, e, portanto, por detrás desta restrição capacitária também está encoberta uma restrição de natureza censitária. Portanto, aqui, curiosamente, as regras censitárias, surgem na condição de ser eleito, não na condição de votar, mas na condição de ser eleito. A constituição estabele- ce um sistema estratificado de vários órgãos eleitorais, vários colégios eleitorais com regras de elegibilidade progressivamente mais exigentes, em que se excluem os vadios, os falidos (quem não sabe tomar conta do seu património, não pode tomar conta do património do Esta- do o que se calhar é um princípio muito sábio, a recuperar actualmente das antigas consti- tuições liberais); em que se exige um mínimo de renda para poder ser eleito, ou seja, não é qualquer um que pode ser eleito. Como ironizava o saudoso Prof. Lucas Pires, havia aqui uma inversão de algo que corresponde à realidade de hoje, ou seja, actualmente, ascende-se ao poder para ficar rico, enquanto que, na época liberal, era preciso ser rico para ascender ao poder. Assim, quem iria para o Parlamento seria a burguesia, o que corresponde à realidade do século XIX. Quanto à forma do Estado, tínhamos um Estado misto. Mas era um Estado misto apa- rente, não havendo em rigor nada típico de um Estado composto. A constituição usa uma lin- guagem algo flutuante, pois fala no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, sendo que o Algarve só aparece nesta enumeração como Reino, embora depois, acabe por ser tratado como qualquer província, além de haver uma outra referência, no artigo 38.º, ao Reino de Angola, embora não fosse acrescentado o nome de Angola ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Por outro lado, a união real era aparente, porque em primeiro lugar não havia, nem nos órgãos nacionais, representantes do Estado brasileiro, eleitos enquanto tal. Ora, o que é normal, é que num Estado misto, exista uma segunda Câmara para representação dos Estados, que integram esse Estado misto. Portanto, deveria existir representação do Brasil ao nível do poder legislativo, o que, na verdade, não havia em Portugal. A única coisa que se fez como sucedâneo disto, foi permitir que, no Conselho de Estado, houvesse representação do Brasil, mas também dos Algarves e todas as outras províncias, mas, em rigor, o Conselho de Estado não tinha importância nenhuma, pois apenas desempenhava uma função de consulta do chefe de Estado. Além disso, também não havia órgãos de poder próprios no Brasil, pois não estava previsto na constituição que houvesse uma Câmara legislativa, nem que houvesse um poder executivo, nem um poder judicial no Brasil, prevendo-se apenas no texto constitucional que houvesse apenas uma deputação do executivo do Brasil.

Tudo isto explica porque é que a constituição de 1822 não funcionou. O Brasil, que até então possuía a capital do Reino de Portugal e do Brasil - o Rio de Janeiro -, que era a capital do império na Europa e Além-mar, de um momento para o outro, ficaria sem qualquer poder. O Brasil perderia a Corte e ficaria consequentemente “sem nada”, ficaria com uma Delegação do poder executivo do Continente. Assim sendo, como é óbvio, esta constituição acabou por

falhar, apesar da votação das bases da constituição, que tentou refrear os ânimos autonomistas brasileiros. Tal não foi, no entanto, conseguido e, por essa razão, a constituição não foi capaz de resolver os problemas que se colocavam. Entre as diferentes instituições políticas, na lógica da separação de poderes, as Cortes eram descritas no artigo 102.º. As Cortes serviam, como se viu, para a representação da bur- guesia, elas tinham o monopólio do poder legislativo e a própria iniciativa legislativa era exclusiva dos Deputados, outra coisa que não corresponde à realidade de hoje. Existia, a pro- pósito do processo legislativo, uma norma muito curiosa (o artigo 106.º), sobretudo para os dias de hoje, em que vivemos numa altura em que existem leis a mais e existem leis por tudo,

o que é algo bastante diferente do que acontecia em 1822. De facto, no âmbito da constituição

de 1822, existiam muito poucas leis, precisamente porque o Estado devia interferir o mínimo na vida pública e, portanto, o processo legislativo era um processo muito curioso, onde se

começava por ler uma proposta, e depois, esperava-se que houvesse 15 dias para as pessoas reflectirem sobre a proposta, e posteriormente, começava-se a discutir a proposta, e em caso de urgência, poderia haver uma proposta provisória. Portanto, as leis demoravam meses, ou até anos a serem feitas, uma vez que as leis deveriam ser reflectidas, pensadas. As Cortes tinham ainda poder constituinte, tomavam juramento ao Rei, legislavam em matéria de imposto, entre outras coisas. No que respeita ao Rei, que era a cabeça do executivo, tinha um poder importante de impedir, para usar a expressão de Montesquieu (“le pouvoir d’empêcher”), ou seja, de impedir

a actuação do Parlamento, na lógica dos freios e contra-pesos que é o mecanismo de separa-

ção de poderes. O Parlamento criava as leis, mas estas podiam ser impedidas pelo Chefe de Estado, o que actualmente corresponde às figuras da promulgação e do veto. Ora bem, na lógica do século XIX, falava-se antes em poder de sanção, sendo esta vista como uma forma de colaboração entre o Rei e as Cortes, e nas constituições liberais esta sanção gozava de uma

eficácia absoluta. Deste modo, o Rei concorda ou não com o decreto do parlamento e, caso não concorde, aquele não entraria em vigor.

Curiosamente, na constituição de 1822, este poder do Rei era tão enfraquecido, que havia apenas um mero veto suspensivo, que era superado até pelo silêncio do Rei. Pois, o artigo 114.º, expressa que, caso o Rei não se pronunciasse num prazo de 1 mês, era como se tivesse sancionado a lei, o que corresponderia quando muito a uma ideia de colaboração subordinada, onde, na verdade, o Rei não tinha qualquer poder efectivo. O Rei, de facto, na

constituição de 1822, não gozava de poder de sanção, do qual irá, no entanto, gozar nas cons- tituições de 1826 e de 1838 e, também por isso, é que essas constituições são mais adequa- das à realidade do século XIX português. De facto, na constituição de 1822, o predomínio era do Parlamento, onde estava representada a burguesia. O Rei, para além disso, nomeava e demitia os Secretários de Estado, nomeava para os cargos públicos, tinha interferência nas relações internacionais, mas não detinha porém qualquer poder efectivo. Duas notas ainda. Uma para referir uma realidade muito curiosa do século XIX portu- guês, que depois não transitou para o século XX, que é a de haver juízes electivos, para além de juízes de facto. Outra, para acentuar o carácter rígido da constituição de 1822, o que con- traria uma ideia feita dos nossos dias, da rigidez das constituições actuais por contraponto à flexibilidade das do passado. A constituição de 1822 tinha requisitos temporais de revisão, pois só podia ser revista de 4 em 4 anos, além de que exigia ainda uma maioria qualificada quanto à necessidade de revisão; determinava a necessidade de mandato específico de revisão

e de uma maioria qualificada para a sua aprovação, ou seja, era muito mais rígida que a actual constituição de 1976. Em termos de apreciação final, como já foi referido, a constituição falhou, do ponto de

vista das relações com o Brasil, e na lógica do Estado misto, mas também é falhada, porque não foi capaz de contentar de forma eficaz todas as classes sociais. Assim, na lógica de Mon- tesquieu, a divisão do “bolo do poder”, pelas diferentes classes sociais, não correspondia à lógica da constituição de 1822. A lógica da constituição de 1822, dava todo o poder à Burgue- sia, sendo esta a classe que se encontrava no parlamento, e o próprio Rei, indirectamente, representava a classe senhorial. Ora, na verdade, o Rei tinha uma função subordinada, porque

a sanção não existia. Uma constituição que dava todo o poder à burguesia só poderia funcio-

nar num país que tivesse uma classe burguesa forte, que tivesse uma estrutura capitalista, o que não existia em Portugal, em 1822. Por todas essas razões, a constituição falhou.

Na segunda metade do século XIX, irão surgir os esteios para o liberalismo político, com o surgimento de um verdadeiro mercado nacional, que fará surgir uma classe burguesa mais forte. Mas tudo isso vai surgir demasiado tarde, do ponto de vista da constituição de

1822, pois já tinha passado o seu tempo. Assim, no que respeita à representação das classes sociais, a constituição de 1822 estava fora do seu tempo, porque dava todo o poder à burgue- sia e a burguesia em Portugal era inexistente, na altura. Era uma classe fraca, que não tinha força para se impor sozinha, embora tivesse alguma importância em Lisboa e no Porto, e mesmo assim reduzida. De facto, a burguesia tinha ajudado a fazer a revolução, mas não era ainda capaz de sustentar um modelo de Estado (tão) liberal, e é por isso que esta constituição viria a ter períodos de vigência muito limitados (de Setembro de 1822 a Junho de 1823, e depois de 1836 a 1838, e após a revolução Setembrista até surgir a constituição de 1838). Embora, a constituição de 1822 tenha sido muito importante do ponto de vista doutrinário e tenha marcado uma ruptura com a ordem do passado, ela seria também uma constituição falhada, podendo-se acrescentar ironicamente que esta constituição estava reservada ao “cai- xote do lixo da história”. Posteriormente, temos a constituição de 1826, a qual, independentemente de juízos ideológicos, vai ser a mais adequada e apropriada para a realidade do século XIX português. Esta constituição, na realidade, chamava-se Carta Constitucional, e foi outorgada pelo monar- ca – “D. Pedro, pela graça de Deus, outorga a seguinte constituição”. Portanto, logo na feitura da constituição, existe uma legitimidade do poder constituinte, que é monárquico, enquanto que, a constituição de 1822 era democrática, elaborada pelas Cortes. A ideia do poder moderador era de Benjamin Constant, cuja influência na elaboração da constituição era assumida por D. Pedro IV, e correspondia à prática do “orleanismo” fran- cês, de Louis Philippe. Só que o poder moderador, tal como caracterizado por Constant e apli- cado em França, era diferente do português, dando-se aqui algo que, com excesso de ironia, mas com alguma razoabilidade, Vasco Pulido Valente costuma chamar de “uma tradução do francês em calão”. O quarto poder ou o poder moderador, que cabia ao monarca, não é um poder de intervenção directa no jogo político, pois o Rei era apenas um árbitro, e não um jogador. Em termos simplificados, pode-se afirmar que o que correspondia ao poder modera- dor, era basicamente o que corresponde actualmente aos poderes do Presidente, num sistema semi-presencial, como o nosso. Tratava-se de uma espécie de reunião das “faculdades de impedir” (“facultés d’empecher”), que Montesquieu havia concebido como dispersas entre os diferentes poderes políticos, e concentrá-las num único órgão, atribuindo a esse órgão um poder de arbitragem. Ora, na constituição de 1826, aquilo a que se chama poder moderador, não era apenas o poder de arbitrar, era o poder de actuar. Existe aqui, portanto, uma realidade que faz do Chefe de Estado a “chave” do poder político, pois o Governo depende quase exclu-

sivamente do Rei, tal como é o Rei que nomeia Deputados para uma das Câmaras a Câmara dos Pares -, interferindo assim tanto no poder executivo como no legislativo. Isso explica o fenómeno do “rotativismo à portuguesa”, na segunda metade do século XIX, que consiste numa manifestação de concentração do poder real, em que o Rei decidia, a seu bel-prazer, quando era altura de mudar de governo. Assim, enquanto que, em Inglaterra,

havendo uma crise política, o chefe de Estado dissolvia o parlamento e convocava eleições, nomeando depois, para formar governo o líder do partido vencedor, em Portugal, perante uma crise política, o Rei convocava igualmente eleições, só que antes convidava o líder do partido da oposição a formar Governo, que a seguir ganhava as eleições. Assim, as eleições eram

sempre ganhas pelo partido do poder (e há quem diga que o mesmo sucede ainda hoje

qual, a seguir, ratificava a sua actuação anterior, em “ditadura” (com o parlamento dissolvi-

do).

Assim, o Rei não era apenas um árbitro do sistema, mas também um jogador com um poder muito importante, pois detinha o poder de interferência no poder legislativo e execut i- vo, e até no poder judicial. Ora tal resultava da realidade portuguesa, não tinha nada a ver com Benjamin Constant, nem com a respectiva ideia de poder moderador. Em termos de representação social, a constituição de 1926 é completamente diferente da constituição de 1822, porque aqui, a “classe velha”, a classe do “antigo regime”, ou seja, a classe senhorial, sentia-se representada pelo Rei, que tinha poder, e portanto, havia um equilí- brio entre o poder da burguesia na Câmara Baixa do Parlamento com o poder da aristocracia, que estava na Câmara Alta, e que era representada pela Rei. Assim, havia aqui uma nova lógi- ca que funcionou bem, no início do século XIX, mas que irá funcionar ainda melhor na segunda metade do século XIX. Pois, por essa altura, irá ser criada uma nova estratificação social, em que irá surgir uma nova nobreza e uma nova burguesia, criadas pela lógica liberal. Ora na realidade, esta nova “nobreza liberal” vem da burguesia (são os tempos do “foge cão, que te fazem barão, para onde, que me fazem visconde”) e tal irá contribuir para que a const i- tuição de 1826 consiga ter um período de vigência mais amplo do que o sucedido anterior- mente.

), o

Do ponto de vista dos direitos fundamentais, temos aqui uma realidade, que sendo curiosamente de “arrumação” das matérias, não deixa de ter a sua importância. O Professor Jorge Miranda está sempre preocupado com a questão da “arrumação” da constituição, e essa preocupação tem alguma razão de ser, pois ela tem subjacente uma determinada valoração das matérias. Assim, a Carta Constitucional, em vez de começar como a de 1822 e a de 1838, com

os direitos fundamentais, remete os direitos fundamentais para o fim, o que pode significar uma certa desvalorização da sua importância relativa. Assim, será o último artigo da const i- tuição que irá falar dos direitos fundamentais, sendo este o artigo mais longo da constituição, embora o único. Este artigo encontra-se, aliás, muito bem escrito, dele constando realidades novas: a proibição da retroactividade das leis; a liberdade de deslocação e emigração; a liber- dade de trabalho e emprego; a propriedade intelectual; a proibição das perseguições por razões religiosas (embora continue a existir a religião oficial, nos termos do artigo 6.º); os prenúncios dos direitos de tipo cultural (no quadro da instrução); a garantia da nobreza heredi- tária. Uma tal consagração, nos direitos fundamentais, da garantia da nobreza hereditária, sig- nifica uma lógica de continuidade entre o liberalismo e o antigo regime, sendo certo que a constituição de 1826 conseguiu contentar ambos os lados, tendo sido, por isso, a mais ade- quada para a realidade do século XIX português. Contudo, se do ponto de vista sistemático, a relevância dos direitos fundamentais é menor na Carta Constitucional do que em 1822 e em 1838, tal não significa que a Carta Cons- titucional seja menos liberal do que as demais portuguesas constituições. Aliás, foi no quadro desta constituição, que mais tarde se aboliu a pena de morte: primeiro, no Acto Adicional de 1852, para os crimes políticos; depois, para os crimes civis, pela Carta de Lei de 1 de Junho de 1867. Do ponto de vista do sistema político, existiam quatro funções do Estado, dando ori- gem a um sistema “monárquico, hereditário e representativo” (artigo 4ª.). Esta enumeração é muito curiosa, pois o Regime começa por ser monárquico, sendo a constituição dada pelo monarca, e em que o Rei detém um grande poder, podendo mesmo interferir com os demais; é depois hereditário, estando aqui incluída a preservação da aristocracia liberal; e a seguir, é representativo, ou seja, dá poder aos burgueses, no âmbito do Parlamento. Temos aqui uma lógica de compromisso, que é a lógica, no fundo, de todas as constituições, que são também compromissos sociais. Neste caso, tratava-se de um compromisso que era o mais adequado à realidade portu- guesa, tendo em conta que a classe burguesa, na primeira metade do século XIX, tinha ainda um peso reduzido. Havia, desde logo, o poder moderador, que era a chave de toda a organiza- ção política. Através dele, o Rei interferia nos demais poderes estaduais, nomeadamente no legislativo, elegendo os membros de uma das Câmaras (a Câmara dos Pares). Este foi, de res- to, o problema mais discutido nos finais do século XIX português, uma vez que os sucessivos actos constitucionais, consoante eram mais liberais ou mais monárquicos, estabeleciam a lóg i-

ca totalmente representativa das duas Câmaras, ou atribuíam ao monarca o poder de nomear os membros de uma das Câmaras. Além disso, o monarca tinha poderes de sanção, ou seja, o diploma não entrava em vigor enquanto não tivesse a concordância do rei. Além destes poderes relativamente ao executivo, o monarca possuía também poderes em relação ao executivo, designadamente de nomeação e demissão livre de todos os minis- tros. A lógica era de responsabilidade exclusiva do Governo, perante o Chefe de Estado, num quadro de concentração de poderes. Mas o monarca era também dotado de poderes relativos ao poder judicial, incluindo o de suspender magistrados, de perdoar e moderar penas. Con- forme se disse antes, em rigor, o que correspondia ao poder moderador português não era tan- to a reunião dos “poderes de impedir” num único poder do Estado, mas antes a atribuição de poderes de controlo do Chefe de Estado, em relação a todos os demais poderes públicos. Daí que, os actos de poder moderador eram os únicos que não eram sujeitos a referenda ministe- rial, ou seja, eram actos livres, em que nem sequer a assinatura dos ministros era necessária, como acontecia em relação a todos os actos do poder legislativo. Mas o rei era também o chefe do poder executivo. De resto, pode-se falar de um sis- tema de concentração de poderes no rei, que não correspondia à ideia do liberalismo político, mesmo se temperado com os poderes do legislativo e com a autonomização do Chefe do exe- cutivo, que era uma prática, que iria surgir no quadro português, também por influência fran- cesa. Esta realidade, de alguma maneira, fornece uma “fatia importante do bolo do poder” à burguesia, mantendo, porém, a representação da nobreza hereditária, numa fórmula política mais equilibrada, entre a nova e a velha classe preponderante. Posteriormente, porém, tudo se viria a transformar na segunda metade do século XX, com o surgimento de uma nova arist o- cracia liberal, que vinha reforçar o poder da burguesia. Na segunda metade do século XIX, existia o já referido fenómeno de rotativismo à portuguesa, que era inspirado no britânico, embora completamente diferente no caso portu- guês. Assim, existiam dois grandes partidos (surgidos na fase dos melhoramentos materiais do “Fontismo”), que alternavam entre si o poder. O Governo, de resto, não dependia do Parla- mento, mas sim do rei, sendo que, no início, dependia apenas dele, mas posteriormente passou a haver a lógica de dupla responsabilidade política. Ora, ocorrendo uma crise política, o rei demitia o governo e dissolvia o parlamento, mas convidava o partido da oposição a formar governo, antes das eleições. Seguidamente, o partido da oposição ganhava as eleições e legi- timava tudo o que tinha sido feito até então - é o chamado “bill de indemnidade”. Entre o momento em que foi nomeado um novo Governo e entre o momento em que haveria eleições,

havia a prática dos actos ilegais, totalmente ilegais e inconstitucionais, porque quem actuava era o Governo que elaborava leis, e quem podia elaborar as leis era o Parlamento, e o Parla- mento não existia. Daí que, após as eleições, o primeiro acto do Parlamento recém-eleito era conceder um “bill de indemnidade”, ou seja, convalidar tudo o que tinha sido feito até então. Na realidade, estava-se perante uma situação de inconstitucionalidade orgânica, mas como as eleições haviam sido ganhas pelo governo, “a coisa resolvia-se” a contento. Embora a constituição de 1826 fosse a de mais longa vigência no século XIX portu- guês, há ainda que contar com a constituição de 1838. A constituição de 1838 era um co m- promisso entre a constituição de 1822 e a constituição de 1826, isto é, representava um co m- promisso entre Vintistas e Cartistas, embora estivesse mais próxima da constituição de 1822, sendo assim, mais Vintista do que Cartista. Tal compromisso detectava-se logo na elaboração da constituição, decorrente do acordo entre as Cortes e o monarca, sendo elaborada pelas Cor- tes, mas havendo porém uma sanção real. Esta constituição foi influenciada pela constituição francesa de 1830, pela constituição belga de 1831, pela constituição brasileira e pela consti- tuição espanhola de 1837. O drama da constituição de 1838, que teve um período muito curto de vigência (entre 1838 a 1842), era o de que, na realidade, não agradava a ninguém. O seu carácter demasiada- mente compromissório, acabou por levar a que ninguém se revisse na Constituição de 1838, nem os Vintistas nem os Cartistas, sendo que ambos preferiam ou a constituição de 1822 ou a Carta constitucional. Pois, como dizia, com ironia, Lucas Pires, “as soluções meias-tintas em Portugal, em regra, transformam-se em soluções troca-tintas”, o que pode bem servir para caracterizar o drama desta nossa constituição. Tal como sucedia em 1822, a constituição de 1838 detém um título III bastante desen- volvido, com os direitos e garantias fundamentais dos portugueses, acrescentando novos direi- tos: a liberdade de associação, a liberdade de reunião, o direito de resistência. No que respeita ao direito de propriedade, existia algo muito curioso (que estava relacionado com a criação do capitalismo em Portugal, nos finais do século XIX), que é a norma que consagrava uma espé- cie de irreversibilidade das privatizações - em contraponto com a norma da constituição de 1976, que estabelecia a irreversibilidade das nacionalizações. O que estava em causa era ter- minar com os vínculos da propriedade, pondo termo à a propriedade vinculada, que fazia com que a propriedade se transmitisse do pai para o filho varão mais velho (o que era algo que contrariava a lógica do capitalismo e da sociedade burguesa). Assim, tratava-se não apenas de

revogar a lei dos vínculos, pela via legislativa, como também afirmar, do ponto de vista cons- titucional, que tal era “irreversível”, que não podia ser mudado. A constituição de 1838 consagrava uma lógica de tripartição de poderes, em que o poder legislativo competia às Cortes com sanção de rei (o que significava que, na realidade, o rei tinha mais poderes em 1838 do que tinha tido em 1822); o poder executivo cabia ao rei, que o exercia através dos Ministros e Secretários de Estado; e o poder judicial cabia aos juízes e aos jurados. O poder legislativo comportava duas Câmaras, mas que não tinham qualquer utilidade social, pois eram ambas electivas, sendo certo que havia restrições censitárias maiores para a Câmara Alta do que para a Câmara Baixa (vide os artigos 34.º, 75.º e 77.º). Poder-se-ia consi- derar que o objectivo era colocar os cidadãos mais ricos e mais burgueses na Câmara Alta, enquanto que os cidadãos menos ricos ou menos burgueses deveriam ser colocados na Câma- ra Baixa, mas era uma distinção que não tinha qualquer sentido, sendo irrelevante, do ponto de vista sociológico. Fazendo a comparação, de acordo com a constituição de 1838, foram atribuídos ao rei mais poderes, do que na constituição de 1822, pois o chefe de Estado possuía efectivos pode- res de sanção das leis (não havendo, portanto, possibilidade de superar o veto legislativo do monarca). O sistema de Governo procurava fazer um compromisso entre os poderes do monarca e os poderes do Parlamento, ou seja, em termos sociológicos, havia uma partilha do “bolo” do poder entre a burguesia e a aristocracia (que, indirectamente, era representada atra- vés do monarca). Assim, a burguesia tinha a fatia maior do “bolo” e o monarca tinha poderes de sanção, mas apesar de tudo, era ainda muito poder para a burguesia no século XIX portu- guês. Por essa razão, a constituição de 1838 também falhou, porque efectivamente a realidade do século XIX português era diferente, mais conforme com a “constelação de forças” espe- lhada na constituição de 1826. Para terminar, apenas uma referência breve à constituição de 1911, que é, conforme antes se disse, ainda uma das constituições liberais portuguesas. Pois, a constituição de 1911, com a introdução do republicanismo e do laicismo, continua a manter o espírito das constitui- ções liberais portuguesas, como os liberais de 1822 tentaram fazer e não conseguiram. Por essa razão, reafirmo ironicamente, que a constituição de 1911 não é a primeira constituição do século XX português, mas sim a última constituição liberal portuguesa.

É tempo de acabar, e vou fazê-lo de forma erudita, parafraseando o Padre António Vieira, quando “pedia desculpa, por não ter tido tempo para ser mais breve”

Tavira, 11 de Janeiro de 2011 Prof. Dr. Vasco Pereira da Silva

CONFERÊNCIA 3:

AS GUERRAS LIBERAIS E O ALGARVE. ALGUMAS NOTAS HISTÓ- RICAS

Quero antes de mais agradecer o honroso convite que me foi dirigido para participar no II Ciclo de Conferências, subordinado ao tema “As guerras Liberais”, que em boa hora o Regimento de Infantaria nº 1, por iniciativa do seu Comandante, Senhor Coronel Nuno Pere i- ra da Silva, decidiu promover. Acresce a minha satisfação por estar hoje aqui, como farense de nascimento e membro de uma Família que, há mais de dois séculos radicada no Algarve, nesta sagrada Terra se bateu, até ao sacrifício da vida e dos bens, pela Pátria e pelas Causas em que acreditou. Aquele dia 7 de Agosto de 1822 amanhecera radioso, embora temperado com a frescu- ra pura e suave da imensa planície, que se estende sobre os altos píncaros das serras de Pirat i- ninga.

Ao chegar ao ribeirão do Ipiranga, desceu do cavalo e acolheu-se à sombra das árvores que recortavam as margens. Lançou, então, os olhos sobre o vasto horizonte e gozou o encanto do extraordinário panorama que se lhe oferecia. A exuberante natureza tropical mostrava-se em todo o seu esplendor, apesar da altura em que se encontrava, provando a poderosa fertilidade daquela terra. Envolvido pela vista e pelos ruídos quase musicais da brisa, brincando com as folhas das árvores, e das águas a correr no ribeirão, por pouco não deu pela chegada precipitada de

um cavaleiro que, prestes a desfalecer, se atirou a seus pés, apresentando-lhe um maço de papéis lacrados. Ao lê-los, o seu semblante transformou-se completamente, denotando a profunda irri- tação que as notícias de Lisboa lhe causavam. Passaram-lhe, então, pelo pensamento, as afrontas, humilhações, insultos a que as Cor-

tes de Lisboa o vinham há muito sujeitando, a si e aos seus deputados. Num arrôbo, próprio do seu temperamento desempoeirado mas colérico, chamou para junto de si toda a comitiva que ali se achava espalhada e, arrancando do chapéu o laço portu- guês, atirou-o ao chão, clamando com energia: “Independência ou Morte!”. Este gesto de D. Pedro, então com 24 anos, Príncipe Herdeiro do Reino Unido de Por- tugal e do Brasil e Regente do Brasil, veio não só desfazer a esperança de obrigar o Brasil a integrar-se no Estado nacional português, como pôr em causa a primeira experiência liberal portuguesa, abrindo, por outro lado a questão sucessória, que viria a dividir o país e a provo- car a guerra civil. A capacidade de analisar e julgar é um modo de pensamento alargado, ou seja, é a possibilidade de uma pessoa pensar, colocando-se no lugar de outrem, é o senso comum a todos que orienta a nossa imaginação quando sondamos o comportamento intencional, isto é,

a acção dos sujeitos históricos, permitindo avaliá-los de modo a justificar as suas acções, ou seja, adoptar o ponto de vista deles, conceber como eles viram uma determinada situação e julgar, abstraindo dos nossos próprios interesses e preconceitos pessoais. Desta maneira, a História terá de colocar-se dentro da opinião recebida: ocupar-se, não

dos problemas sugeridos pelas teorias sociais, elaboradas na actualidade, mas sim daquelas que preocuparam as sociedades passadas. Uma das principais heranças da Revolução Francesa foi a ideia moderna de revolução

e a figura do revolucionário moderno, hoje interiorizada por todos nós. Talvez se torne, assim, difícil apercebermo-nos da aterradora novidade que o fenómeno então constituiu. Porém, se não conseguirmos entender o grande pânico vivido pelos nossos antepassados, arriscamo-nos

a não compreender o objecto dos seus esforços e tampouco o ardor das lutas que travaram. O século XIX já foi chamado o século das revoluções. Todas estas revoluções tiveram como pontos comuns serem quase todas dirigidas con- tra a ordem estabelecida, quase todas empreendidas em prol da liberdade, da democracia polí- tica ou social, da independência ou unidade nacionais.

A agitação revolucionária tem como primeira fonte a Revolução Francesa de 1789, mas não se esgota nela. De facto, no fim do século XVIII, começa a fazer-se sentir no Continente a influência política da Inglaterra, onde os princípios do liberalismo e do governo representativo se impu- seram às tentativas absolutistas. A uma primeira vaga a que correspondem os movimentos liberais que se produzem em nome da liberdade, contra as sobrevivências ou os regressos intempestivos do antigo regime, seguiu-se uma segunda vaga, formada pelas revoluções democráticas propriamente ditas. Note-se que, entre 1830 e 1850, liberalismo e democracia se diferenciavam e até se opunham: a democracia é o sufrágio universal, o governo do povo, enquanto o liberalismo é o governo de uma elite. Durante a segunda metade do século XIX, são estas correntes que se vão sucedendo e combatendo, mas ambas têm como inimigo comum a ordem estabelecida, os princípios ofi- ciais, as instituições legais, as classes dirigentes, as dominações estrangeiras. É o conflito entre as forças de renovação e os poderes estabelecidos, que explica ta m- bém a violência e a frequência das confrontações, que quase sempre levaram à prova de força, tanto a nível nacional como europeu. As transformações políticas operadas em Portugal no século XIX, não constituíram factos isolados do nosso percurso histórico, mas significaram a nossa adaptação a uma “nova rerum ordo” que se impôs a todo o mundo e se tornou o modo de ser e agir de toda uma civi- lização. Voltando à independência do Brasil, hoje é geralmente aceite que qualquer que tivesse sido a evolução política portuguesa, o Brasil teria conseguido a sua emancipação. Tal decorre, não só do ideário revolucionário da época, como dos sinais manifestados pelos movimentos independentistas de Fevereiro de 1821, em Pernambuco, no Pará e no Maranhão, mas também da independência americana e da evolução dos acontecimentos nas colónias espanholas, entre 1818 e 1824. Acresce que a proclamação de D. Pedro e a sua qualidade de primeiro imperador cons- titucional, são hoje considerados factos políticos de grande repercussão histórica, demonstra- tivos de aguda previsibilidade, habilidade e coragem políticas. Com efeito, não só se conseguiu manter, entre as duas nações, o nexo das ligações dinásticas, como se conservou, por quase 70 anos, uma monarquia num vasto continente semeado de repúblicas.

A nova situação do Brasil viria a ser confirmada solenemente na Carta de Lei e Édito

Perpétuo de 15.11.1825, subscrito por D. João VI, que ratifica o Tratado de reconhecimento da independência do Brasil, de 29 de Agosto do mesmo ano.

A monarquia dualista de 1815 mudava de sistema político, recebia uma nova estrutura,

mas subsistia.

Naqueles instrumentos que reconheciam a independência do Brasil, firmavam-se,

por a sucessão das duas Coroas

Imperial e Real pertencer a meu sobre todos muito amado Filho e Príncipe D. Pedro, nele por este mesmo acto e carta patente, cedo e transfiro já, de minha livre vontade, o pleno exercício

da soberania do Império do Brasil para o governar denominando-se Imperador do Brasil e Príncipe Real de Portugal e Algarves, reservando para mim o título de Imperador do Brasil e o de Rei de Portugal e Algarves com a plena soberania destes dois Reinos e seus domínios”. Entretanto, a Constituição, que resultara da revolução liberal-burguesa de 1820, foi jurada pelo Congresso a 30.9.1822 e pelo Rei D. João VI no dia seguinte, 1 de Outubro.

A opinião pública inquietava-se com a situação instável do país e manifestava a sua

desilusão sobre os prometidos benefícios do regime constitucional.

A Rainha D. Carlota Joaquina recusara jurar a Constituição; o Conde de Amarante, em

Vila Real, rebela-se contra a Constituição. Em Outubro-Dezembro de 1822, realiza-se o Congresso de Verona, que configura a contra-ofensiva reaccionária ao liberalismo. Em Abril de 1823, um exército francês, agindo em nome da Santa Aliança, invade a

Espanha para forçar a abolição da Constituição de Cádiz e restabelecer Fernando VII como Rei absoluto Em Portugal, a ruptura viria a acontecer em 27.5.1823, quando um regimento da guar- nição de Lisboa partiu para Vila Franca de Xira, de onde o seu comandante exigiu o restabe- lecimento dos direitos do Rei.

também, os direitos de D. Pedro ao Trono de Portugal: ”

e

O Infante D. Miguel, à testa de um numeroso grupo, junta-se aos revoltosos.

Ao fim da tarde desse dia, todos os regimentos da capital apoiavam o movimento da “Vila- francada”. Restabeleceram-se as prerrogativas reais; D. Miguel foi nomeado Comandante em Chefe do Exército; foi criada um junta encarregada de elaborar uma nova constituição. As facções que compunham a junta não se entenderam e, em 30.4.1824, a guarnição militar de Lisboa saiu à rua, vitoriando o Infante D. Miguel que, em proclamações à popula-

ção, afirmava que o Rei corria perigo e acusava as autoridades constituídas de constranger o Rei a não permitir o regresso à antiga ordem. Inicialmente D. João VI contemporizou com o Infante, mas alguns dias depois, a 9 de Maio, pressionado pelo corpo diplomático, aceitou refugiar-se no navio inglês “Windsor Cas- tle”, ancorado no Tejo, reassumindo o comando em chefe do exército e mandou vir o Infante à sua presença para o informar da sua expatriação. D. João VI viria a falecer 2 anos depois, a 10.3.1826. Nesses dois anos, Portugal foi governado por um absolutismo moderado. A prometida constituição nunca se concretizou, chegando o soberano a anunciar a sua intenção de convo- car as Cortes à maneira antiga. Numerosos liberais fugiram do país, exilando-se em Inglaterra e em França. Pouco antes de falecer, D. João VI nomeara um Conselho de Regência, presidido por sua filha, a Infanta D. Isabel Maria. Essa Regência ordenou, desde logo, que os documentos oficiais passassem a ser emit i- dos em nome de D. Pedro IV, Rei de Portugal e enviou ao Rio de Janeiro uma delegação de altas personalidades a fim de “ em nome da Nação Portuguesa render preito a D. Pedro como Rei natural e legítimo soberano felizmente chamado pela ordem de sucessão a ocupar o tro- no”.

Uma semana depois de o falecimento de D. João VI ser conhecido no Brasil, D. Pedro abdicou a favor de sua filha, D. Maria da Glória, então com 7 anos, sob a condição de ela casar com seu tio D. Miguel, ao qual seria confiada a Regência do Reino, e que em Portugal fosse jurada uma nova constituição. A Carta Constitucional viria a ser outorgada por D. Pedro a 29.4.1826. Julgou D. Pedro com esta solução de compromisso concitar o apoio das três correntes do espectro político português: liberais, moderados e absolutistas. Recorde-se que o modelo de carta constitucional, adoptado pela primeira vez em Fran- ça por Luís XVIII, em 4.6.1814 e logo depois nos Países Baixos, na Noruega e no Grão- Ducado de Varsóvia, foi um instrumento que, sob a aparência de um regresso ao Antigo Regime e sob a cor de uma restauração, fez apreciáveis concessões ao espírito da época e à reivindicação liberal de um texto constitucional. Em 25.3.1824, D. Pedro havia outorgado ao Brasil uma Carta Constitucional. Nos termos da Carta Constitucional de 1826, o Rei, através do exercício do poder moderador, era a chave de toda a organização política, conservando uma intervenção efectiva

nos três poderes do Estado: no executivo, nomeando e demitindo livremente os ministros; no legislativo, reservando-se o direito de dissolução e de veto; no poder judicial, atribuindo-se o direito de moderar ou anular as penas. Foi esta latitude de poderes reais que fez nascer a oposição dos elementos mais rad i- cais do liberalismo, oposição que, logo em 1836 se manifestou com a revolução de Setembro e, depois, com a restauração cartista de 42, deu origem ás lutas da Patuleia, só terminadas em 51 com a Regeneração. Entretanto, a Regente D. Isabel Maria fez aclamar a nova Rainha D. Maria II e jurar a Carta em todo o país, organizando também as eleições para as novas Cortes. Em Viena, o Infante D. Miguel aceitou as condições de seu irmão, jurou a Carta e rea- lizou os esponsais com a sobrinha. Por Decreto de 3.7.1827, D. Pedro nomeia o Infante seu Lugar-Tenente e Regente do

Reino.

Em Fevereiro de 1828, D. Miguel regressa a Portugal, onde jurou novamente fidelida- de a D. Pedro e a D. Maria II, assim como à Carta Constitucional. Porém, em Março de 1828, D. Miguel dissolveu as Cortes, voltando a convocá-las, como Cortes Gerais da Nação, para 23 de Junho desse ano, com os seus três braços, clero,

nobreza e povo, segundo o tradicional modelo histórico. Foi então deliberado o reconhecimento da realeza de D. Miguel, desde a data da morte de seu pai e a declaração de nulidade de todos os actos praticados por D. Pedro desde então. No dia 11.7.1828, D. Miguel foi aclamado Rei, de acordo com o antigo uso da Nação, prestando o juramento protocolar. As potências estrangeiras retiraram os seus representantes diplomáticos até 1829, data em que quase todas elas, à excepção da Inglaterra, França e Áustria, formalmente reconhece- ram a realeza miguelista.

A primeira reacção militar contra a restauração absolutista deu-se ainda em 1828, com

uma revolta eclodida no Porto e alargada a quase todas as guarnições militares a norte do Mondego. Os revoltosos foram perseguidos até ao Porto pelas tropas governamentais do General Póvoas, quando entrou na barra do Douro o navio “Belfast”, fretado pelos emigrados liberais

em Inglaterra e que transportava Palmela, Saldanha, Vila Flor e outros militares liberais.

A esperança renasceu, mas em breve a situação militar se revelou insustentável e o

“Belfast” foi obrigado a regressar a Inglaterra.

Apenas o então major Sá Nogueira e poucos mais lograram, com muit a bravura e dili- gência, conduzir as tropas em retirada pelo Minho até à Galiza. Cerca de 200 conseguiram, depois, seguir para Plymouth. Foi o episódio da “Belfastada”. Esta revolta proporcionou aos miguelistas o pretexto para lançar uma feroz e intensa perseguição aos liberais, que se traduziu em cerca de 1000 prisões, devassas, julgamentos sumários, sem qualquer garantia para os arguidos (a Alçada de triste memória), condenações à forca, etc. No Algarve, pode dizer-se que os acontecimentos precederam o movimento do Porto. O 2º Batalhão de Infantaria nº 2, aquartelado em Tavira, já em fins de Março começara a reagir contra os actos de D. Miguel. Algumas famílias de Tavira tinham fugido e o general de divisão, Luís Inácio Xavier Palmeirim, procurara, por ordem do dia, manter a ordem e serenar o batalhão. Conhecida, porém, a proclamação de D. Miguel como Rei absoluto pelo Senado de Lisboa, em 25 de Abril de 1828, os miguelistas pronunciaram-se entusiasticamente a favor da aclamação de D. Miguel. Estavam de guarnição no Algarve o Regimento de Infantaria nº 2, comandado pelo Tenente-Coronel Luís Maldonado d’ Eça, e o Regimento de Artilharia nº 2, comandado pelo major Chateauneuf. O Regimento de Infantaria estava dividido em dois batalhões, um comandado pelo Tenente-Coronel Maldonado d’ Eça, de guarnição em Lagos e o outro comandado pelo major Manuel Bernardo de Melo, em Tavira. Embora os oficiais superiores dos dois regimentos fossem afectos à causa constitucio- nal, não podiam confiar nos soldados, pois a maior parte deles haviam pertencido ao dissolvi- do Regimento nº 14, que fora forçado a refugiar-se em Espanha, durante o regime constitu- cional.

Em Lagos, Maldonado d’Eça procurou aclamar D. Pedro IV, mas o Governador da praça, Ludovice, deu-lhe voz de prisão e dominou facilmente um início de rebelião. Em Tavira, Manuel Bernardo de Melo, saiu da cidade com um contingente, ao qual se juntaram 6 companhias das milícias de Lagos e com essa força procurou entrar em Faro, espe- rando o apoio do Regimento de Artilharia nº 2 e do seu comandante Chateauneuf. Este, porém, viu-se desautorizado pelos seus homens, que passaram a obedecer aos oficiais absolu- tistas, em particular ao Tenente Landerset.

Após um tiroteio de cerca de três horas, os constitucionais retiraram e procuraram seguir rumo a Beja, mas foram aprisionados no caminho, conduzidos a Faro, onde o Major Chateauneuf foi assassinado pela populaça com requintes de ferocidade, tendo o seu corpo sido retalhado. Cerca de dois anos antes, havia sido dominado um outro pronunciamento militar em

Tavira, favorável à causa miguelista, em que tiveram papel decisivo alguns dos mesmos pro- tagonistas. Na “Gazeta de Lisboa”, de 4.11.1826, transcreve-se o ofício, datado de 28.10.1826,

em que Saldanha dá conta da ocorrência à Regente D. Isabel Maria: “

foi unicamente militar, e auxiliada por alguns magistrados e outros Empregados Públicos, pela maior parte filhos de outras Províncias, não chegando talvez a vinte o número de Algar- vios, não empregados, que estejam complicados na rebelião. O espírito dos Povos foi sempre bom mesmo dominados pela força e ameaços; merecendo particular consideração a conduta dos Eclesiásticos; podendo o Clero deste Reino servir de modelo ao Clero de Portugal A conduta do Regimento nº 2 de Artilharia, nº 2 de Infantaria, Regimento de Milícias de Lagos e Segundo Batalhão do Regimento de Milícias de Tavira, e da oficialidade de todos estes Cor- pos é digna da Contemplação de Sua Alteza: porém com muita especialidade o Major Cha-

rebelião de Tavira

a

teauneuf, Comandante do Segundo de Artilharia, o Coronel Simões do Segundo de Infantaria, os Coronéis de Milícias de Tavira Marçal Henrique de Azevedo e Luiz Garcia de Bívar; e do Coronel de Milícias de Lagos José de Mendonça de Almeida

A revolta do Porto teve repercussões na Madeira e na Ilha Terceira dos Açores. A pri-

meira foi dominada pelos miguelistas, mas na Terceira os revoltosos aguentaram-se firme- mente, estimulando com o seu exemplo os liberais espalhados pelas outras ilhas.

A eficácia do Conde de Vila Flôr conduziu, em breve, ao domínio de quase todo o

arquipélago.

A presença de D. Maria II em Inglaterra, para onde fora enviada por seu pai, deu novo

alento aos milhares de exilados que, com o dinheiro vindo do Brasil, ao abrigo do Tratado de Paz de 1825, organizaram uma expedição que desembarcou nas praias da Terceira, nos prin- cípios de 1829. Em 1830, deu-se uma viragem na política europeia.

Em Julho, foi derrubada, em França, a monarquia tradicionalista de Carlos X, substi- tuída pela “Monarquia de Julho”, de cariz liberal, com Luís Filipe, Duque de Orleans.

A Santa Aliança perderia a sua posição anti-revolucionária e os movimentos liberais reanimaram-se por toda a Europa, incluindo a vizinha Espanha. Em Lisboa, houve duas revoltas, sufocadas com um saldo de mais de 200 mortos. No Brasil, crescia a oposição ao governo de D. Pedro, em grande parte devido à sua cada vez maior preocupação com os assuntos portugueses, pelo que o Imperador, em 7 de Abril de 1831, abdicou a Coroa imperial em seu filho e partiu para Londres com sua filha Maria da Gloria. Em Inglaterra, contraiu, em condições leoninas, vários empréstimos que lhe permit i- ram equipar uma expedição que, organizada em Belle-Isle, com o beneplácito de Luís Filipe de França, zarpou para os Açores, tendo desembarcado na Terceira em Março de 1832. Nesta ilha, D. Pedro assumiu a Regência em nome de sua filha e constituiu o primeiro ministério liberal, com Palmela e Mouzinho da Silveira. Em Junho de 1832, à testa de um exército de 7500 homens (900 portugueses, 2300 franceses, 2130 ingleses, 900 belgas, 500 polacos, 400 irlandeses, 370 escoceses), embarcou rumo a Portugal, tendo desembarcado na praia dos Ladrões, próximo do Mindelo, no dia 8 de Julho desse ano. As forças regulares miguelistas, entretanto organizadas, totalizavam 80.000 homens, além de 30.000 voluntários. As tropas de D. Miguel que protegiam o Porto foram apanhadas de surpresa e bateram em retirada, permitindo a entrada do exército liberal, 4 dias depois, quase sem disparar um tiro.

Os miguelistas reorganizaram-se e cercaram o Porto, situação que veio a caracterizar a guerra durante cerca de um ano. Uma engenhosa linha de fortificações à volta da cidade, oferecia uma protecção quase inexpugnável. Por outro lado, o acesso ao mar era salvaguardado pela esquadra do inglês Sartorius, permitindo o abastecimento em víveres, armas e soldados. A população portuense foi aderindo à causa de D. Pedro, passando a ajudar com dinheiro, trabalho, homens para recrutamento. Contudo, em Junho de 1833, no sentido de aliviar a pressão sobre o Porto, os liberais decidiram uma expedição marítima ao Algarve, comandada por Vila Flôr, já Duque da Terce i- ra.

Esta expedição iria mudar as perspectivas da guerra.

Transportadas na esquadra de Napier, as tropas de Terceira desembarcaram, em 24.6.1833, na pequena praia da Altura, entre Cacela e Monte Gordo. Quase sem resistência, foram tomadas Tavira, Olhão e São Bartolomeu de Messines. No dia 5 de Julho, ao largo do Cabo de São Vicente, deu-se o combate naval entre as duas forças navais, tendo a esquadra miguelista ficado completamente destroçada. De Lagos, o corpo expedicionário marchou rumo a Beja para aí apoiar um pronuncia- mento liberal. No mesmo sentido resolveu seguir o Visconde de Molelos, comandante da divisão miguelista do Sul, com vista a sufocar a rebelião de Beja, deixando assim o caminho livre para Lisboa. Terceira, dando conta deste erro táctico, saiu de São Bartolomeu de Messines, passa por São Marcos da Serra e atravessa o Alentejo. A 20 de Julho, toma Alcácer do Sal e no dia seguinte acampa diante de Setúbal, que conquista 2 dias depois. Daqui passa a Azeitão e Cacilhas, derrotando, em Vale da Piedade a Cavalaria migue- lista e as tropas de Teles Jordão, morto na refrega. Almada rende-se no dia seguinte. Tomados de pânico, o Duque de Cadaval e o seu ministério abandonam Lisboa com toda a guarnição, proporcionando a entrada triunfal do Duque da Terceira, em 24.7.1833. Dois dias depois arriba ao Tejo a esquadra de Napier. Em 28 de Julho, chega D. Pedro do Porto, onde deixou Saldanha como governador

militar.

O grosso das forças miguelistas, com a presença do próprio D. Miguel, continuava retido no cerco do Porto, porém as alarmantes notícias sobre os sucessos do inimigo determi- naram o levantamento do cerco e a marcha para o sul, com o objectivo de reconquistar a capi- tal.

Saíram-lhes ao encontro as forças liberais que as bateram em combates sucessivos, de que se recordam Almoster (Fevereiro de 1834) e Asseiceira (Maio de 1834). Entretanto, a evolução dos acontecimentos, leva a um progressivo reconhecimento da autoridade de D. Pedro. Por outro lado, em Espanha é alterada a lei sucessória, por forma a afastar D. Carlos da sucessão de seu irmão Fernando VII e a jurar herdeira D. Isabel, filha do segundo casa- mento desse soberano.

D.

Carlos, tradicionalista como D. Miguel, retirou-se para Portugal, de onde envia um

protesto a seu irmão. Estes acontecimentos, servirão de pretexto à intervenção no nosso território das tropas do general Rodil, em Abril de 1834. No final deste mês, é celebrado o Tratado da Quádrupla Aliança, entre a Inglaterra, a

França, a Espanha e o governo de D. Pedro. Perdiam-se definitivamente as esperanças para a causa de D. Miguel. Em 26 de Maio de 1834, é assinada a Convenção de Évora Monte, pela qual se põe fim às hostilidades e se determina o exílio de D. Miguel.

Mais decretou a Convenção uma ampla amnistia geral, sendo mantidas aos oficiais as patentes que tinham em 1828, e garantida aos funcionários civis e religiosos uma indemniza- ção pela irradiação dos seus cargos.

D. Miguel passaria a receber uma pensão anual de 60 contos.

Chegado a Génova, D. Miguel publicou, no dia 20.6.1834, um protesto, considerando nulas e de nenhum efeito as cláusulas da Convenção. Em Setembro desse ano, em Roma, declara ao Papa, por intermédio do Marquês de Lavradio, que fora coagido a aceitar a Convenção, pelo que não renunciara aos seus direitos ao Trono. Esta atitude de D. Miguel, determinaria a publicação, em 19.12.1834, já no reinado de D. Maria II, falecido que era D. Pedro, da chamada Lei da Pro scrição e Banimento, que esti- pulava a exclusão de D. Miguel e de toda a sua descendência da sucessão na Coroa de Port u- gal.

A referida Carta de Lei, cujo conteúdo viria a ser acolhido na Constituição de 1838,

seria revogada, já em pleno Estado Novo, pela Lei nº 2040 de 27.5.1950.

O fim da guerra civil não trouxe a desejada e necessária estabilidade ao país.

A situação económica revelava-se extremamente difícil.

A emancipação do Brasil prejudicara fortemente o comércio, faltavam equipamentos e

quadros profissionais.

A única fonte de riqueza era a terra, sobre a qual recaiam os impostos e as rendas que

favoreciam as classes possidentes.

A situação política caracterizava-se pela fragilidade do poder executivo, pela falta de

definição ideológica das correntes políticas, pela marginalização das camadas populares e

indisciplina dos chefes militares, que se consideravam credores do regime e como tal detento- res do direito natural de mandar. Desta maneira, a vida política esteve, durante largo tempo, mais subordinada aos movimentos e ajustes de quartéis do que às disposições constitucionais. A oposição via na Carta Constitucional uma das causas da degradação da situação política e pugnava pelo regresso do regime da Constituição de 1822. O motim, ocorrido em Espanha, em Agosto de 1836, que forçou à reposição da Cons- tituição de 1812, deu o mote para o movimento popular de Setembro de 1836, liderado por Passos Manuel, que obrigou a Rainha a pôr em vigor a Constituição de 1822. Igual manifestação popular viria ainda a manifestar-se em Novembro desse ano, sufo- cando o contra-golpe da “Belenzada”, visando a restauração da Carta. O governo saído do movimento revolucionário ficou conhecido como “setembrista”, designação que até meados do século acabou por exprimir a ala mais à esquerda do liberalis- mo.

Em Julho de 1837, dá-se um simulacro de guerra civil, conhecido como a “revolta dos Marechais” (Saldanha e Terceira), sendo a Carta proclamada nos quartéis de muitas cidades da província, situação que viria a ser debelada, em Setembro desse ano, através de encarniça- dos combates. Os grupos civis mais radicais, mostravam-se frustrados relativamente às consequência da revolução em que se haviam empenhado e dispunham-se a recuperá-la com novas acções. Contavam com a Guarda Nacional e sobretudo com o batalhão dos arsenalistas, for- mado por trabalhadores do Arsenal. Porém, na noite de 13.3.1838, as tropas do governo cercaram os arsenalistas no Ros- sio, em Lisboa, e dizimaram-nos a rajadas de metralhadora. O “massacre do Rossio”, deu o golpe de misericórdia ao setembrismo que foi perden- do gradualmente força, deixando aos conservadores o protagonismo político. Entretanto, é preparada a Constituição de 1838, que representou um compromisso entre a Carta e a Constituição de 1822, mas cuja duração não foi para além de 1842. Neste ano, depois de um golpe de Estado pacífico, desencadeado do Porto por Costa Cabral, foi reposta a Carta Constitucional. José Bernardo Costa Cabral, um dos chefes arsenalistas, passara, em breves anos, da esquerda radical para a direita cartista.

Mas mais importante que esta viragem política, de resto comum a outras notáveis figu- ras desta época, foi a nova concepção de acção política que lhe estava subjacente. Costa Cabral foi o primeiro intérprete esclarecido do realismo político, da “real poli- tik”, como hoje lhe chamaríamos. Com efeito, preocupou-se menos com os princípios do que com os factos, menos com

o futuro do que com o presente. Traçou, assim, como objectivos prioritários: a restauração da ordem do Estado, a eficácia do serviço público, a pacificação dos meios políticos, o desenvolvimento económico. As suas reformas foram penetrando no interior do país, atingindo o modo de pensar e de agir ancestral e tradicional, que continuava a caracterizar sobretudo os meios rurais.

A acção de Costa Cabral, traduzida num quase despotismo, contrastando com o seu

apregoado respeito pela Carta e pelas liberdades nela consignadas, provocou um desconten- tamento generalizado, que foi tomando progressivamente contornos revolucionários.

O detonador desta situação explosiva foi a Lei da Saúde, que proibia o enterramento

dentro das igrejas, disposição que surgia aos olhos do povo como uma ofensa sacrílega e um

atentado à dignidade humana. Acresce que, ao mesmo tempo, se iniciava o cadastro da propriedade rústica, com vista

ao lançamento da contribuição predial, logo se entendendo que o governo pretendia avaliar as courelas para as vender aos ingleses. Em meados de Abril de 1846, à semelhança do que acontecera no princípio desse mês na Galiza, deflagrou uma revolta dos camponeses minhotos, a que se deu o nome de “Maria da Fonte”, pelo papel preponderante que as mulheres desempenharam e pelo facto de os pri- meiros incidentes terem tido origem na freguesia de Fonte Arcada, concelho de Póvoa de Lanhoso.

A revolta foi, curiosamente, apoiada por setembristas, absolutistas, moderados, alguns

cartistas de direita, reunindo assim, numa estranha aliança (coalizão), generais, aristocratas, clérigos, burgueses, proletários e trabalhadores rurais, o que não deixa de constituir um sinal de esvaziamento ideológico e revolucionário. Os pronunciamentos políticos e militares eclodiram um pouco por todo o país. Costa Cabral viria a ser afastado, mas alguns meses depois a Rainha formava um

ministério, presidido por Palmela, com moderados das alas setembrista e cartista.

A nova situação política não agradou a ninguém, reacendendo os ânimos, sobretudo

quando Palmela foi substituído, em Outubro de 1846, por Saldanha, então cabralista convicto, nomeado para controlar, com mão de ferro, os acontecimentos. José da Silva Passos, apoiado por setembristas e anti-cabralistas, desencadeia no Porto um movimento popular e constitui uma “Junta Provisória do Governo Supremo do Reino”,

presidida pelo Conde das Antas e tendo Passos como vice-presidente. Formam-se outras juntas em todo o país e inicia-se a guerra civil.

A Junta governativa provisória do Algarve mandou espalhar uma proclamação, na

qual se exortavam os habitantes do Algarve a pegarem em armas, acrescentando “que a Rainha estava coacta e por isso havia derrubado um ministério para eleger outro da mesma política dos cabrais; convida os habitantes da província a juntarem-se para ir salvar a soberana e pô-la em plena liberdade e sustentar a Carta Constitucional, como também o Decreto de 10 de Fevereiro de 1842, e que devem fazer isso para não cair a Nação na Escravidão ”

A proclamação era assinada pelas seguintes personalidades:

Luís Maldonado d’Eça – governador civil do distrito de Faro José Pedro Celestino Soares Comandante da 8ª Divisão Militar Joaquim Pedro Júdice Samora Juiz de Direito de Tavira Manuel José de Bívar Gomes da Costa António Sarmento de Saavedra Teixeira Às forças da Junta Provisória do Governo Supremo – chamadas “patuleias” – aliaram- se várias guerrilhas miguelistas. Reiniciam-se as tentativas de restauração miguelista e entre 20 e 23 de Outubro de 1846 dá-se, no Minho, a revolta dos “Pinotes”. Saldanha derrota o Conde de Bonfim em Torres Novas e os guerrilheiros miguelistas, comandados por Macdonell, são vencidos em Braga. Costa Cabral é nomeado por Saldanha para ministro em Madrid e daí manobrou no

sentido de conseguir o apoio de Espanha e de convencer Londres de que a “Patuleia” projec- tava restaurar D. Miguel.

A intervenção miguelista nestes conflitos, servia de pretexto para que o levantamento

nacional fosse conotado como uma questão dinástica, que poria em causa o trono de D. Maria II, pretexto desejado pelos Cabrais, mas temido por Ribeiro Saraiva, defensor de uma solução armada em defesa da legitimidade de D. Miguel, pois o perigo miguelista aceleraria o proces- so de intervenção estrangeira, previsto no quadro do Tratado da Quádrupla Aliança.

Em fins de Março de 1847 a Junta do Porto organizou uma expedição ao Algarve, com cerca de 1000 homens.

A expedição desembarcou em Lagos e em Sagres, atravessou o Algarve e o Alentejo e

ocupou Setúbal a 16 de Abril, aí esperando pela adesão dos revoltosos de Lisboa. Por esta altura, Sá da Bandeira teve uma primeira abordagem, por parte do Coronel

inglês Wylde, com vista à negociação do termo das hostilidades. Em 29.6.1847, após as intervenções espanholas e inglesa terem ajudado a vencer a Junta, foi assinada a Convenção de Gramido. Embora a “Patuleia” se articule com a “Maria da Fonte”, é na origem um movimento político e militar influenciado pela ideologia pequeno-burguesa que em França conduziu à revolução de 1848 e à Segunda República. Tratou-se, mais, como alguém já referiu, de uma reacção do liberalismo doutrinal con- tra o neo-aristocracismo devorista dos barões do cabralismo.

O Algarve, como noutras ocasiões de grande significado histórico, participou activa-

mente nos conflitos político-militares que rechearam o século XIX. Naturalmente que as assimetrias ditadas pela morfologia da região, distinguindo o longo lito- ral da abrupta serra, não deixaram de marcar a vida e a mentalidade das respectivas popula-

ções.

Desta maneira, o litoral algarvio proporcionou, desde logo, o contacto com o exterior, desenvolvendo-se as relações económicas com outros países, sobretudo de África, Mediterrâ- neo e Europa central. Atraídos pela excelente posição geográfica do Algarve e pelas oportunidades de negó- cio que a sua produção frutífera oferecia, particularmente o figo e a laranja, estrangeiros e pessoas de outras regiões de Portugal aqui se vieram instalar. De entre os mais importantes, referirei John Barr Crispin, Consul de Inglaterra, edifi- cador em Faro da casa onde nasci, que serviu, durante alguns anos, de Arquivo Distrital de Faro; e Manuel José Gomes da Costa, meu 5º Avô, nascido em Santo Tirso de Prazins, conce- lho de Guimarães, que para Faro veio residir, nesta cidade constituindo uma das mais sólidas casas de comércio da província, sobretudo orientada para a exportação de fruta. Pelo seu casamento com Maria Francisca da Paz de Bívar Albuquerque de Mendonça Weinholtz, deu origem a uma família com profundas raízes no Algarve.

Não é assim de admirar que a actividade económica e os contactos com outras menta- lidades e culturas viessem estimular o acesso ao ensino superior e à adopção de novos para- digmas políticos e sociais, permeáveis ao ideário liberal. Em contraposição, o interior algarvio, pelo isolamento geográfico, estaria mais afecto ao que se convencionou chamar de “tradicionalismo apostólico”, consubstanciado pelo cac i-

quismo dos grandes proprietários rurais e pelo controlo espiritual exercido pelo clero local. Recordemos, também, que foi a posição geo-estratégica do litoral algarvio que facili- tou a entrada dos exércitos libertadores do Duque da Terceira, em 24.6.1833, em Cacela, e do Visconde de Sá da Bandeira, em 31.3.1847, em Lagos. Perdoe-se-me, finalmente a imodéstia de acrescentar, ainda, algumas notas, quase pes- soais, que mais não pretendem ser do que o testemunho da participação de uma das famílias algarvias que, na época conturbada do liberalismo e das guerras civis, teve alguma notorieda- de, que muito honra os seus descendentes, constituindo parte integrante da memória e capital simbólico familiares. O palácio Bívar, em Faro, berço e residência de várias gerações, até hoje, alojou, por cedência voluntária, o Estado Maior do Exército Libertador, quando das invasões francesas, contribuindo os seus proprietários com avultada quantia de dinheiro para custear as despesas

militares.

No mesmo palácio, no dia 1 de Agosto de 1826, se realizou uma sessão solene, segui-

da de baile, comemorativa da outorga da Carta Constitucional por D. Pedro IV. Do casamento do já referido Manuel José Gomes da Costa, Coronel de Milícias e

Cavaleiro da Ordem de Cristo, importante comerciante em Faro, com Maria da Paz de Bívar Weinholtz, filha e neta de oficiais generais do Sleswig-Holstein, então integrado na Dinamar- ca, que reorganizaram a artilharia portuguesa e foram os inventores da peça considerada pre- cursora das modernas metralhadoras, nasceram, entre outros:

. Luís Garcia de Bívar Gomes da Costa, já anteriormente mencionado, a propósito da revolta

de Tavira, em 1826, onde se distinguiu. Durante as invasões francesas, alistou-se, apenas com 14 anos, fazendo a campanha da liber- tação sem receber qualquer soldo. Pelas suas convicções liberais, foram-lhe confiscados os bens e forçado a emigrar;

. Frederico Jacob de Bívar Gomes da Costa, preso em Lisboa, em 17.11.1830, por José Verís- simo e encarcerado, por largos anos, na Torre de São Julião da Barra.

.

Maria Feliciana de Bívar Gomes da Costa, casou com seu primo, José Lino de Almeida Coe-

lho de Bívar e foram os pais do Visconde de Bívar, Francisco de Almeida Coelho de Bívar, ao qual se devem importantes obras públicas no Algarve, entre as quais, a ponte sobre o r io Ara- de, a estrada litoral do Algarve, o caminho-de-ferro, a linha telegráfica de Faro a Sagres, etc. Com José Lino de Almeida Coelho de Bívar ocorreu um episódio que não resisto em

relatar, pelo que ilustra de coerência e dignidade, não obstante as atitudes extremas provoca- das pelas lutas políticas, vividas em clima de paixão e violência. José Lino foi assassinado na casa da sua quinta, junto ao rio Alvor, pela guerrilha miguelista do “Trovoadas”, um marinheiro chamado José de Oliveira, cuja alcunha lhe vinha do nome do navio em que prestara serviço. Houve quem acusasse o próprio Remexido desse crime, mas o certo é que ele, publi- camente, o reprovou, tendo mandado fuzilar o assassino, no mesmo local onde havia comet i- do o crime. Além disso, o Remexido apresentou, pessoalmente, desculpas à família Bívar, seus rivais políticos, mandando colocar homens seus às portas dos palácios Bívar, em Faro e em Portimão, para evitar eventuais incidentes.

. Manuel José de Bívar Gomes da Costa, enquanto Capitão de Milícias, em Tavira, foi preso

no pronunciamento de Abril de 1828 e nessa situação se manteve até Março de 1831, sendo- lhe confiscados os bens. Pelas suas acções, foi condecorado com o grau de Cavaleiro das Ordens da Torre e Espada e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa. De 31.3.1837 a 29.2.1840, foi Administrador Geral do Algarve. Foram seus filhos:

. Luís Frederico de Bívar Gomes da Costa, o Conselheiro Luís Bívar, como ficou conhecido.

Tendo iniciado a sua carreira de magistrado em Tavira, como Delegado do Procurador Régio, em 1853, foi Presidente da Relação de Lisboa, Juiz Conselheiro do Supremo Tribunal de Jus-

tiça, Deputado, Presidente da Câmara dos Pares do Reino e da Câmara dos Deputados, em várias legislaturas, Par do Reino Vitalício, Conselheiro de estado efectivo, Grã-Cruz das Ordens da Torre e Espada, de Cristo e de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, me m- bro proeminente do partido Regenerador e uma das figuras mais respeitadas na sua época.

. Jerónimo Augusto de Bívar Gomes da Costa, meu trisavô, licenciado em Medicina, sócio

correspondente do Instituto de Coimbra, Chefe do partido Regenerador do Algarve, Governa- dor Civil do Distrito de Faro de 31.3.1881 a 18.2.1886

Ambos estes irmãos eram genros do Conselheiro Dr. Mateus António Pereira da Silva, natural de Vila Real de Santo António, que tendo iniciado a sua carreira de magistrado em Tavira e Lagos, passou aos Açores, onde foi Corregedor e Procurador e o 1º Recebedor Geral do país. Foi Venerável da Maçonaria de 1833 a 1835, Presidente da Câmara Municipal de Tavira em 1838 e Deputado às Cortes em 1846.

O nosso percurso histórico revela um Portugal de contrastes sucessivos, entre o real e

o mítico, entre o atraso quase alarmante e os lampejos inovadores de uma exuberante criação

cultural universalizante. Se bem que esta contradição possa reflectir a peculiaridade e a força anímica do Por- tuguês, não sendo um sinal de fragilidade, mas a expressão de uma capacidade de imaginação, constantemente adaptável às circunstâncias, por outro lado, sempre nos faltou a prospectiva, o

projecto, a reconversão da experiência passada em rampa para o futuro.

A História faz-se de altos e baixos, de avanços e de recuos, de vitórias e de derrotas,

de rejeições e de cedências, de lágrimas de tristeza e de alegria, mas o fio condutor dos vários momentos históricos é a esperança, o sonho.

Como já tive ocasião de dizer, noutras circunstâncias, entre nós, esse sonho decorre da nossa criatividade mitogénica, que segundo Gilbert Durand, “modelou a alma de um povo, mas também tutelou a sua História”, acrescentando que “esses mitos que se mantêm vivos na tradição popular ou na obra dos poetas, pensadores e artistas de hoje fazem de Portugal um lugar onde o pensamento europeu pode reencontrar as suas fontes”. Embora aparentemente história e utopia sejam dois conceitos dialécticos, contrastantes

e antinómicos, no fundo, entrelaçam-se e completam-se, formando um “continuum”.

A História alimenta-se de utopia, nas ideias, na ideologia, na projecção reformista ou

revolucionária.

Por outro lado, a utopia encontra as suas raízes na História e desenvolve-se através do tempo e dos espaços históricos.

O pensamento utópico é um pensamento polissémico, que atravessa a filosofia, a poli-

tologia e muitas outras disciplinas, traduzindo a aspiração a um mundo melhor, a uma socie-

dade mais feliz. Neste sentido, a utopia confunde-se com a história da esperança, com a história da liberdade, no seu imparável movimento para o futuro.

Mas é também um olhar para o passado, reflectindo os dramas pessoais, a história das ideias, das instituições, da sociedade, das artes. Na verdade, quando se elaboram ideias que transcendem a ordem existente, cai-se no campo da ideologia e desta passa-se, inevitavelmente, à utopia. Esta é assim uma metáfora da História. Porém, uma força positiva, pois na vida é dia- léctica, na arte e na política é oposição, é renovação, inquietação, representando a resistência ao encrostamento político, escolástico, profissional, humano. Traduz, afinal, a capacidade de sonhar e de realizar o sonho.

Muito obrigado,

Tavira, 11 de Janeiro de 2011 Luís Bívar de Azevedo

CONFERÊNCIA 4:

O REMECHIDO

Introdução

Ainda antes de dar início a este trabalho é importante referir o porquê da escolha da redacção, de Remechido (ch) em vez de Remexido (x). Como José Joaquim de Souza Reis assinava desta forma e como as regras de ortogra- fia permite que “os nomes de pessoas podem-se escrever como estão escritos no registo” 3 . Porque em 1911 o governo nomeia uma comissão para estabelecer a ortografia a usar. Com um projecto já existente, esta comissão vai usar então este projecto de ortografia simplificada para regulamentar a ortografia portuguesa. Com esta reforma na ortografia desaparece as consoantes dobradas, tal como os gru- pos ph e ch para f e x, e ainda alguns exageros pseudo-etimológicos 4 . Como conseguiu José Joaquim de Sousa Reis comandar uma guerrilha que esteve constantemente na mesa das preocupações de um novo governo então instituído? Como con- seguiu obter tão bons resultados na busca de uma causa que ele obrigatoriamente teve de ten- tar alcançar, num país então dividido? Como, conseguiu escapar às suas buscas, até ao dia da sua captura? Estes são os objectivos que, nomeadamente, este trabalho visa alcançar, isto por- que, a literatura existente não aborda a parte militar que nela está subjacente. Assim este tra-

3 PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora. 10 p

4 MATEUS VILLALVA, Maria Helena Mira; Alina, coord. (2006) O Essencial Sobre a História do Portu- guês. Lisboa. 2005.Caminho. 78 p

balho reveste-se de algum carácter importante, nem pelo simples facto que não se constata a existência, no meio militar, a existência de literatura que aborde este tema. A finalidade é, então, de alimentar a Instituição Exército com um tema, que preocupou os chefes militares das guerras liberais. Como metodologia utilizada na sua maior parte, foi a pesquisa documental em literatu- ra já existente de outros autores, foi a pesquisa na sua origem dos documentos existentes da época e por fim entrevistar algumas pessoas, que seus antepassados lhes deixaram alguma história oral. Juntando tudo isto e estabelecendo cruzamentos é possível alcançar um pouco de mais conhecimento nesta matéria, mas sempre usando uma abordagem militar. Foi, assim,

então estruturar o trabalho inicialmente com um enquadramento histórico para o inteirar e relacionar o decurso da história no século XIX a luta de guerrilha, recorrendo para isso à pes- quisa documental existente e que aborda a História de Portugal. Como outro item do trabalho

é a abordagem ao José Joaquim de Sousa Reis, a sua biografia até meados da guerra civil,

para isso a metodologia usada foi pesquisa documental e alguma investigação. Foi então necessário recorrer, não só a literatura existente como a documentos existentes em arquivo para descrever, o crescimento de José Joaquim de Sousa Reis, o surgimento da sua alcunha, o trabalho que desenvolvia para a monarquia então instituída e o seu enquadramento como mili- tar, até 1820. Com o início das guerras liberais foi necessário descrever num capítulo as acções desencadeadas pelo Remechido. Inicialmente com a sua entrada na vida militar, seguidamente

a sua participação na guerra civil propriamente dita, esta desenvolvida no Algarve e por fim a sua participação na batalha de Sant’Anna, a última grande batalha no qual Remechido teve uma enorme importância no desenrolar da acção absolutista. Para a redacção deste capítulo em semelhança com os anteriores a metodologia usada foi a pesquisa documental, embora também foi usada a história oral, através das entrevistas. É com a vitória Liberal que se dá uma reviravolta nos acontecimentos, passando Remechido a ter a necessidade de sobreviver às vinganças liberais, formando então uma guer-

rilha e a actuar com ela de forma não convencional. Está então retratado um quinto parágrafo,

a descrição da guerrilha ao nível do comando, do teatro de operações e zonas de empenha-

mento, operações, informação e contra informação e logística. Este é o capítulo mais impor- tante de todo o trabalho desenvolvido, pois dá a conhecer na generalidade a acção que Reme- chido desenvolvia com a sua guerrilha bem como sustentava os seus homens. Este também é um capítulo em que está espelhado a tentativa de separação do tema com literatura existente,

revestindo-o de carácter militar, através da pesquisa em artigos existentes da época e com história oral. Este capítulo aborda um período desde a reactivação da guerrilha em 1836 até meados da captura de Remechido. Captura essa que está descrita num sexto parágrafo em que aborda a resposta liberal para eliminação da guerrilha (1837-1838). Estão, assim, descritas num primeiro sub-capítulo algumas das diferentes acções desenvolvidas pelos liberais, e num segundo capítulo a acção desenvolvida para a captura de Remechido em finais de Julho de 1838. A metodologia utilizada para a redacção deste sexto e último capítulo é a pesquisa documental, tanto em literatura já existente como em artigos militares e administrativos decorrentes da época retratada. Assim este trabalho sobre a guerrilha do Remechido tem em certos aspectos e seme- lhanças com obras literárias existentes, isto porque a abrangência de bibliografia utilizada e existente não é muito grande, embora seja importante para a estudar a nível militar. Embora existir uma tentativa de alcançar novos resultados e percepções através do uso de história oral. Dado que existiu uma força não convencional que causou tantos problemas a um então novo governo e tipo de governação, como é que um homem de nome Remechido com uma força de 350 homens actuou por forma criar tantas preocupações? Ou seja, como eram suas acções e como as conseguia desencadear por toda a região algarvia? Como conseguia susten- tar a sua guerrilha? São estas as questões de cariz militar que o trabalho propõe abordar.

Enquadramento Teórico

Para o desenvolvimento deste trabalho a literatura utilizada foi variada, embora a obra existente que o sustenta é a de MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa-América. Nº 175. Embora que na parte final do trabalho seja utilizado os documentos existentes no Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1. Tal como as literaturas de Anónimo. (1838). Lisboa. Bio- grafia de Remexido. Lisboa, e SORIANO, Simão José da Luz (1887), Vida do Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, Tomo I, Cap XI, O livro que sustenta o enquadramento histórico é de MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. Edi- torial Estampa.

Capítulo I 1. O Enquadramento Histórico

A Guerra Civil Portuguesa (1832-1834) teve a sua origem embrionária em Viena

nomeadamente com o congresso de Viena (1814-1816) 5 . Aqui, reuniram-se os países que criaram a Ordem Internacional, de nome Santa Aliança. Os países participantes foram a Rús-

sia, Prússia, Império Austríaco, França, Portugal e Espanha, embora não se confirme a pre- sença deste último 6 .

A Santa Aliança foi criada no sentido da defesa e restabelecimento do absolutismo, ou

seja, da consolidação da restauração das Dinastias Monárquicas existentes no Antigo Regime antes das Guerras Napoleónicas 7 . O objectivo de defesa e consolidação da restauração das Dinastias Absolutistas que a santa Aliança apresentou, fez com que se acelerasse o apareci- mento das Nacionalidades. Entraram assim em confronto os Restauracionistas Ultras e os Regeneradores Liberais 8 .

Se para os Restauracionistas Ultras era necessário destruir o aparecimento da revolu-

ção-regeneração, que surgiu antes da Revolução Francesa, sendo necessário uma restauração total. Para os Regeneradores Liberais era necessário reformar instituições e garantir a emanc i-

pação dos povos 9 .

A Revolução Liberal, de 1820, em Portugal deveu-se a um complexo processo politi-

co-diplomatico que determinou a entrada no movimento liberal, nacionalista e constitucional. Bem como, resposta à forte depressão económica que se seguiu às campanhas da Guerra Peninsular, tendo sido agravada pela separação económica do Brasil, ao qual se veio a acen- tuar ainda mais com a abertura dos seus portos a outros países. A ausência da família real e dos órgãos superiores da administração central originou um vazio político tal como um sur- gimento de um clima de pessimismo e descontentamento 10 em Portugal. Para além disso, tam- bém, a tentativa inglesa de influenciar a politica interna através das medidas militares imple-

5 VARGUES, Isabel Nobre. Portugal, a Santa Aliança dos Reis e a Santa Aliança dos povos. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 45

6 NOGUEIRA, José Manuel Freire (2005). De Viena a Évora-Monte. In: Doutoramento em História Militar, Lisboa, 2005.

7 VARGUES, (Ob. Cit.), Pag 45

8 Idem

9 Vargues, (Ob. Cit). Pag 63

10 SARAIVA, José Hermano. A Revolução de 1820. In: SARAIVA, José Hermano, Dir. (1983) História de Por- tugal; Vol 5. Lisboa. Publicações Alfa;5; Pag 374

mentadas por Beresford, em relação a um regulamento e recrutamento militar, conduziram a essa revolução. Por detrás deste arranque político de cariz liberal encontrava-se a imprensa. Todavia essa não se encontrava em Portugal, pois embora sendo portuguesa, parecendo uma falácia, esta imprensa escrita em português, era publicada em Inglaterra, na sua grande parte, devido à liberdade de imprensa que lá se praticava. Isto fazia com que se divulgassem opiniões e pas- sasse para o público 11 , toda uma ideologia liberal em Portugal que se formava no exterior e era canalizada para o interior 12 . Posteriormente algumas das altas entidades do reino em Lisboa, exerceram uma enor- me acção no sentido de evitar as tentativas de transformação política. Estas resultaram em perseguições, exílios e prisões. As tentativas de transformação política surgiram com as asso- ciações secretas, que formavam o principal foco de descontentamento, no qual vão constituir um movimento revolucionário. Este movimento vai reflectir uma efectividade na tomada de consciência liberal por parte de alguns sectores da sociedade portuguesa 13 . Em 1817, criou-se um novo governo cujo objectivo principal era o de afastar os ingle- ses e outros estrangeiros do controle militar e promover a “salvação e a independência” de Portugal 14 . Os elementos que constituíam esta sociedade maçónica 15 , referida anteriormente, eram oriundos na sua maioria, de militares regressados a Portugal depois de terem desempe- nhado funções no exército napoleónico. Como cabecilha desta organização e promotor da Revolução Liberal, temos o general Gomes Freire de Andrade e Castro, ao qual em Outubro de 1817 o processo de captura dos maçons chega ao fim com a captura e posteriormente sen- tença de morte do general Gomes Freire 16 , com a acusação de ser o autor da conspiração, jun- tamente com mais onze elementos, e com a deportação, expulsão e absolvição de outros. Mas esta limpeza não foi suficiente para eliminar todos os maçons, isto porque a ideia de libertar o país continuava bem assente. Foi, então, que no Porto foi fundado o Sinédrio 17 ,

11 VARGUES, Isabel Nobre. Portugal, a Santa Aliança dos Reis e a Santa Aliança dos povos. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 48

12 Idem. Pag 50

13 Idem. Pag 52

14 Ibidem

15 Sociedade secreta que surgiu vinculada às ideias do laicismo humanitário e liberal do iluminismo. Originaria- mente era uma das sociedades secretas que chegara ao séc. XVII apoiando em fundamentos de filosofia natural e até mítico-alquimicos, tal como se depreende do simbolismo dos signos e números. O seu nome deriva do fran- cês maçon “pedreiro” e os integrantes como pertencentes à franco-maçonaria. A organização maçónica estrutura- se segundo lojas, federadas por países, embora não existiam instituições de carácter mundial.

16 Ver foto I.1.1.1. em anexo B

17 VARGUES, Isabel Nobre. Portugal, a Santa Aliança dos Reis e a Santa Aliança dos povos. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 54

uma associação secreta, criada, por juristas tais como Manuel Fernandes Tomás 18 e José da Silva Carvalho. Esta associação formada para interferir a quando de uma revolta popular, manteve-se cautelosa, mas, com a noticia dos acontecimentos revolucionários em Espanha 19 , passou a actuar de forma ofensiva, tentando juntar a ela forças militares que, de alguma fo r- ma, tivessem um peso considerável no decurso de um movimento revolucionário, para que fosse alcançado o sucesso. Dá-se, então, a 24 de Agosto de 1820, um pronunciamento militar clássico, este tratou de ser uma sublevação de uma força militar, longe do poder político com o objectivo de obter a adesão da Guarnição Militar de Lisboa 20 . Isto veio a permitir o derrube de antigas classes mais importantes (o clero e a nobreza) sendo o poder ocupado pela Nova Burguesia. Este movimento durou cerca de três anos, até que em 1823, as Cortes Ordinárias estando a traba- lhar na formação de uma nova ordem liberal e constitucional, na Europa estava em curso uma contestação contra o liberalismo revolucionário. No Congresso de Verona foram tomadas deliberações pela Santa Aliança sobre a necessidade de intervenção militar francesa na Penín- sula Ibérica (que tinham pelo nome de “cem mil filhos de S. Luís” 21 ) que ameaçavam os libe- rais revolucionários na península. No seguimento desta notícia, o secretario de Estado dos Negócios de Guerra, Manuel Gonçalves de Miranda 22 , deslocou-se às Cortes a 1 de Fevereiro de 1823, onde deu a conhecer os acontecimentos na Europa através de um relatório, que cha- mava a atenção dos deputados para que colocassem os olhos na Europa e a necessidade de preparar uma possível intervenção militar. Isto fez com que fosse criado um corpo militar de defesa que tinha como nome Guarda Nacional. Mas este alerta não foi suficiente para deter a rebelião contra-revolucionária que, em 23 de Fevereiro, Manuel da Silveira, começou em Trás-os-Montes, mas sendo promovida em Espanha e financiada pelo ouro da França 23 . Três meses depois, dá-se uma revolta militar absolutista mais uma vez contra o regime liberal. Esta revolta foi originada por um regimento de Vila Franca de Xira que se rebelou, ao qual o infante D. Miguel encabeçou, e que teve o

18 Ver foto I.1.1.2.em anexo B

19 Vargues, (Ob. Cit.). Pag 55

20 NOGUEIRA, José Manuel Freire (2005). De Viena a Évora-Monte. In: Doutoramento em História Militar, Lisboa, 2005

21 VARGUES-TORGAL, Isabel Nobre; Luís Reis. Oposições à revolução de 1820 no Triénio Liberal. In: MAT- TOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag

66

22 Ver foto I.1.1.3. em anexo B

23 VARGUES-Torgal, 23 VARGUES-TORGAL, Isabel Nobre; Luís Reis. Oposições à revolução de 1820 no Triénio Liberal. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 66.

nome de Vila-Francada, terminando assim o primeiro movimento liberal e voltando D. Miguel ao poder. Mas o avanço e tentativa das forças contra-revolucionárias, não terminara aqui, apenas se vão presenciar anos de moderação, com movimentos de oposição contra- revolucionários. É, então, que em meados de 1832, parte dos Açores a expedição liberal, com o objec-

tivo de repor no trono D. Maria da Glória, o qual tinha sido usurpado por D. Miguel. Esta esquadra liberal comandada por D. Pedro, era constituída por cerca de 8000 homens e mais de 50 navios 24 . Foi com este movimento que se deu inicio à Guerra Liberal, tendo o desembarque sido feito a 8 de Julho na praia da Arnosa de Pampelido, perto do Mindelo a norte do Porto, seguindo então direcção ao Porto, sem qualquer resistência absolutista. D. Miguel que foi, assim apanhado de surpresa por um desembarque no Porto e não em Lisboa, enviou logo de

seguida forças para

A proporcionalidade das forças opositoras era enorme, ou seja, entre 8000 e 8500 por parte dos liberais, contra 80 000 por parte dos absolutistas, entre os quais existiam ainda mer- cenários estrangeiros. Apresentando de início uma posição táctica ofensiva com algumas vitó- rias, devidas à descoordenação e rivalidades entre os chefes militares absolutistas no Porto,

essas operações foram repudiadas passando a uma postura defensiva. Foram construídas trin- cheiras e redutos em torno do Porto mas com uma força liberal exterior, na margem esquerda do rio Douro, no Convento da Serra do Pilar, funcionando as duas como centros de resistên- cia.

O cerco à cidade do Porto durou cerca de um ano, com a situação para a parte dos libe- rais desesperante, devido à falta de alimentos, doenças, deserções, indisciplina. Os absolutistas estando a preparar o último assalto à cidade, os liberais desenvolveram uma inteligente manobra de diversão, enviando uma coluna de 2500 homens para o Algarve comandada pelo duque da Terceira, com a finalidade de aliviar a pressão das forças absolutis- tas no Porto.

destroçar o invasor 25 .

24 SILVA, António Martins. A Vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucional: cartismo, setem- brismo e cabralismo. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lis- boa. 1993. Editorial estampa. Pag 90

25 SILVA, (Ob. Cit.). Pag 90

Capítulo II 1. Remechido, o homem monárquico

1.1. A sua infância

Algarve, ano de 1796, na Povoação de Estombar, situada entre Silves, Vila de Lagoa e Vila Nova de Portimão, nasce no dia 19 de Outubro, José, filho legítimo de Joaquim José dos Reis, e de Clara Maria do Carmo 26 . Filho de lavradores, perdeu o pai quando tinha sete anos de idade, a sua educação

ficou, então, entregue ao seu tio José Joaquim de Souza, padre de algumas igrejas, entre elas a paróquia de Alcantarilha 27 , e muito respeitado no Algarve, ensinou-lhe as primeiras letras. José Joaquim de Souza Reis quando completou a idade de catorze anos ingressou no Seminá- rio Episcopal de Faro, pois o seu tio pretendia que ele seguisse a vida eclesiástica 28 . Manifes- tando talento na gramática, retórica, filosofia, ganhou conhecimento em direito canónico tal como em história eclesiástica e em teologia dogmática, por fim foi também grande metafísico

e poeta 29 . Recebendo as ordens menores ficou habilitado para celebrar missa, com apenas vinte anos de idade.

1.2. O Nascer da Alcunha

Em Setembro de 1818 aquando das festas da Nossa senhora da Saúde, o seu tio solici- tou que o bispo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar concedesse a concessão para que

o sobrinho pregasse na dita festa. O bispo lendo o seu sermão autorizara-o mas só com autori-

zação condicionada de apenas pregar de tarde 30 , isto porque as ordens que possuía não o per- mitia pregar de manhã. Este sermão então colocado pelo José Joaquim de Souza Reis foi tão

26 Inventário de Registos Paroquiais em microfilme. Localização: Concelho de Lagoa, Freguesia de Estombar, Baptismos. A. D. F., S.G. U., 0452 P. 2.1.54.3

27 OLIVEIRA, Dr. Manuel Alves de. Dir (1987) Moderna Enciclopédia Universal. Lisboa. Círculo de Leitores. Lexicoteca. Vol 16. 28 Anónimo. Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. pag 4

29 Idem, pag 5 30 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa, pag 6

bem composto que o bispo do Algarve, ordenou um elogio em público pelo próprio tio de José Joaquim de Souza Reis 31 , dado que era um seminarista e futuro prior. Foi também na continuidade destas festividades de S. B. Messines, que após alguns dias José Joaquim de Souza Reis, com o seu tio e fora do seminário, teve a oportunidade de conhecer uma senhora com que veio a namorar e de futuramente a casar. A esposa chamava- se D. Maria Clara Machado de Bastos, descendente de algarvios, muito reconhecidos em ser- viços na guerra da aclamação de 1640, e naturais de Tavira. Era também sobrinha do Capitão de Ordenanças 32 Manuel Inácio de Bastos 33 . Mas este namoro e casamento teve muitos entraves por parte do tio de José Joaquim de Souza Reis, porque este o havia educado para a profissão sacerdotal. Assim sendo negou- lhe o matrimónio. Mas foi então que José Joaquim de Souza Reis usou todo o seu talento e todos os estratagemas imagináveis para fazer mudar a ideia do seu tio. Sendo superior a todas as objecções José Reis conseguiu a autorização do tio. Casou em 1819 34 e foi nesta ocasião em que a sua esposa lhe colocou a alcunha de Remechido como reconhecimento do seu esforço e incansabilidade com que conseguiu o “sim” do tio. O casamento foi aceite por toda a população de S. B. Messines 35 , tal como a sua alcu- nha que ficou conhecida e respeitada por todos 36 . Deste matrimónio nasceram sete filhos 37 .

1.3.O Homem

José Joaquim de Sousa Reis passou a residir em S. B. Messines na casa do tio de sua mulher e tomando em parte dos negócios, que eram a renda dos dízimos 38 de S. Marcos da

31 Idem

32 As ordenanças foram instituídas em 1570 no reinado de D. Sebastião, embora a decisão de modernizar as forças militares portuguesas ter se dado por volta de 1505, ano em que o rei D. Manuel fixou a politica geral de Portugal em relação à Europa e às descobertas. Sem forças militares de carácter permanente desde o desapareci- mento dos besteiros do conto, milícias populares vindas dos tempos medievais, a intenção de D. Manuel foi de criar uma organização militar em comparação com a existente na altura na Suíça. As forças militares eram recru- tadas junto da população em geral, combatendo em grandes quadrados compactos, armadas com armas existen- tes na altura, tais como, piques, alabardas, arcabuzes e espadas. Esta táctica fora usada, com o mesmo sistema de armas, por forças com que os Cantões tinham mantido a sua independência face a Carlos o Temerário, Duque de Borgonha. As ordenanças foram de novo restabelecidas em 1640, e a sua organização passou a ser de carácter definitivo, como meio de recrutamento para o exercito em 1643.

33 Anónimo. (ob. cit.), Pag 7

34 Idem.

35 A população de S. B. Messines era constituída sensivelmente por 800 fogos e 2700 habitantes.

36 Anónimo. (1838). (Ob. Cit.). Pag 7

37 Ver foto II.1.2.1. em anexo B

Serra. Deslocando-se pessoalmente com empregados para fazer a respectiva cobrança nos montes e serras na sua área de responsabilidade, fez com que Remechido tomasse conheci- mento de todos os locais, caminhos, veredas e pessoas existentes por onde fazia as cobranças. Mas também administrava os bens do tio da sua mulher, que eram substanciais 39 . Como representava algum estatuto reconhecido, Remechido reconheceu a necessidade de melhoramentos naquele local. Assim, para bem-estar dos residentes, empregou-se e conse- guiu com que a Câmara de Silves providenciasse a construção de uma Escola de primeiras letras, de um forno público 40 e a autorização para a realização da Feira da Nossa Senhora da Saúde 41 , esta em 1825. Mas suscitou também algumas inimizades e invejas das pessoas mais ricas de S. B. Messines, devido ao facto de ser uma pessoa que captou a estima e veneração da população em tão pouco tempo.

Capítulo III 1. A Acção do Remechido na Guerra Liberal

1.1.A Entrada na vida Militar

José Joaquim de Souza Reis Remechido tendo sido reconhecido junto da população e tendo em consideração a sua posição social, foi eleito para o cargo de juiz de vintena 42 , após a Revolução de 1820 43 . Foi proposto também, já em 1824, a alferes da companhia de ordenan- ças, uma tropa de 3ª linha que tinha como missão a defesa de S. B. Messines 44 . “Sendo de seguida rejeitada a proposta, sob pretexto de ser apontado como constitucional, devido à cega obediência com que desempenhou as funções de juiz de vintena, no ano de 1820” 45 . Isto por-

38 O dízimo foi a prática bíblica de dar a deus uma décima parte dos ganhos, que era paga através de imposto associado à religião, que os reis na antiguidade exigiam aos seus povos. Historicamente eram pagos na forma de bens, como com produtos agrícolas.

39 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 8

40 Vereação da Câmara de Silves de 17NOV1824

41 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido.Lisboa. Publicações Europa- América. Nº 175

42 Em cada lugar ou localidade com mais de vinte fogos havia um juiz de vintena, que decidia verbalmente as desavenças entre vizinhos. Estes eram nomeados pelas Câmaras Municipais da sua localidade, entre os homens bons de cada localidade.

43 CABRITA, Aurélio Nuno. (2005).O Remexido - Traços biográficos de um homem coerente e fiel aos seus princípios. In: Arquivo Municipal de Lagoa. Remexido. Lagoa. Pag 33

44 Idem

45 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 9

que os absolutistas ainda estavam no poder antes do Pronunciamento Militar de 24 de Agosto e da implantação do novo governo liberal a 1 de Outubro do mesmo ano. Não sendo estes os seus sentimentos, de constitucional, mas sim co mpatriota, foi sem- pre sua intenção “obedecer às autoridades constituídas por qualquer governo, fosse ele de direito e de facto46 . Foi, então, no ano de 1828, que foi confirmada a sua nomeação a capitão de ordenanças, tinha então trinta e um anos de idade. Três anos após esta nomeação, Reme- chido mereceu elogios e considerações públicas devido às funções desempenhadas 47 . A 22 de Fevereiro de 1828, o Rei D. Miguel regressa a Portugal, para cumprir “as determinações que a seu respeito o irmão D. Pedro, planeara um governo de regência, substituindo o da infanta D. Isabel, e a efectivação do projecto de casamento com a sobri- nha…”, “…a 26 de Fevereiro assume a regência e nomeia um executivo através do juramen- to que o infante D. Miguel faz à Carta Constitucional no Palácio da Ajuda.48 . Mas o facto, foi, de D. Miguel passou a exercer actos políticos no sentido de legitimar um poder absoluto, faltando assim ao seu juramento. “ Os miguelistas venciam os liberais, obrigando-os a importante êxodo, …”, “…a repressão exerceu-se rapidamente sobre os revolucionários, criando-se tribunais especiais as alçadas -, onde foram julgados e condenados à morte” 49 . Em 1831, D. Pedro abdicara da coroa brasileira para reaver o trono português, com o empréstimo de esforços ingleses 50 , e existindo revoltas militares um pouco por todo o país e mais propriamente no Algarve. Devido à influência da maçonaria algarvia nas forças arma- das 51 foi então organizado, na cidade de Faro, o Batalhão de Voluntários realistas. Aqui o comandante das forças nomeou Remechido para ser um dos seus oficiais subordinados. Apre- sentando-se, então, em Faro, foi promovido a alferes, mas o facto de estar sete léguas 52 de distância da família fez com que redigisse um requerimento apresentando como motivo e “alegando a fraqueza da perna, que havia partido em rapaz jogando à bola” 53 . O Remechido

46 Idem

47 Ibidem 48 VARGUES, Isabel Nobre; TORGAL, Luís Reis. Da revolução à contra-revolução: vintismo, cartismo, absolu- tismo. O exílio politico. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 74 49 Idem Pag 76

50 SILVA, António Martins. A Vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucional: cartismo, setem- brismo e cabralismo. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal - O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lis- boa. 1993. Editorial estampa. Pag 89 51 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido.Lisboa. Publicações Europa- América. Nº 175

52 Cada légua tem uma distância de 5000 metros logo sete léguas são 35 Km

53 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 9

pediu, então, “cunha” ao seu compadre Manuel Raimundo Telles Moniz Corte Real, capitão- mor do Termo de Silves, a fim de que este pedisse transferência para Silves, isto porque, Remechido seria mais útil em Silves do que no Batalhão de Realistas de Faro 54 . Mas como esta concessão foi de cariz temporário, o Remechido pediu a sua demissão, voltando para jun- to de sua família em S. B. Messines onde colocou as armas de parte e se dedicou à agricultu- ra 55 .

Com a ordem do Governo então instituído 56 , Visconde de Mollelos foi nomeado então, General do Algarve. Esta ordem determinava que os Capitães-mores dos Termos dividissem as ordenanças em Terços, foi então que o Remechido foi nomeado Comandante dos Terços de Ordenanças do Termo de Silves, tendo em seu comando um número de 345 homens em armas 57 .

1.2. Participação na Guerra Civil

1.2.1 O desembarque Liberal no Algarve

Os Liberais apesar do cerco imposto pelos absolutistas, no Porto, mantinham o moral elevado, apesar dos bombardeamentos e surtidas sucessivas. Mas a falta de dinheiro, o rigor do Inverno, em Novembro e Dezembro, a ameaça de fome fez abater o moral. Embora os absolutistas contassem com 20 000 homens em armas contra uma força liberal de 10 000 homens em armas, em postura defensiva, não tinham capacidade para entrar no perímetro defensivo. E os liberais não tinham força para de lá sair. Este conflito materializado de dois para um fez com que se atingisse um impasse táctico 58 . Este impasse tinha sido ultrapassado com sucesso para os miguelistas caso tivessem optado por um bloqueio táctico à foz do Dou- ro, que iria instalar a fome às forças liberais. Com alguns sucessos por parte do exército, e com falta de capacidade operacional por parte da marinha liberal, D. Pedro contratou Napier, um oficial da Marinha britânica que já tinha

54 Com D. Miguel, foi decretado a 28 de Fevereiro de 1828 uma nova organização do exército, este extinguiu os Batalhões Nacionais e criou os Batalhões de Voluntários Realistas e em 1829 o Exército foi reduzido devido a factores de natureza económica, ficando assim com: 12 Regimentos de Infantaria; 4 Batalhões de Caçadores; 4 Regimentos de Artilharia; 8 Regimentos de Cavalaria; 1 Batalhão de Artífices Engenheiros.

55 PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora. Pag 16

56 Governo de D. Miguel, instituído com o seu juramento à Carta no Palácio da Ajuda.

57 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 10

58 NOGUEIRA, José Manuel Freire (2004) As Guerras Liberais Uma reflexão Estratégica sobre a História de Portugal. Lisboa. Instituto da Defesa Nacional. Edição Cosmos. Pag 250

estado em Portugal aquando da 3ª invasão francesa, nomeadamente na batalha do Buçaco e na defesa das linhas de Torres. Com ele vieram 5 vapores e mais de 600 mercenários 59 . Napier detendo informações de os burgueses abastados e defensores do Liberalismo se encon- travam nas principais localidades do Algarve, (Olhão, Faro e Lagos) 60 (era aqui nestas princi- pais localidades que se encontravam os burgueses abastados, e defensores do Liberalismo 61 ), como também Napier tinha também guardado boas memórias do Rio Guadiana, sabia que para alcançar a vila de Mértola com os vapores (nova tecnologia ao alcance de um chefe mili- tar) rapidamente, e após isso, poderia marchar até Beja, com a esperança de se realizar um levantamento favorável à causa 62 . Este movimento torneante foi uma manobra táctica muito inteligente que libertou os liberais do seu cerco cerrado no Porto e obrigou os absolutistas a dividirem as suas forças, e abandonar as posições que ocupavam. Assim sendo, o embarque das forças expedicionárias para realizar esta manobra começou no dia 12 de Junho e terminou no dia 14 do mesmo mês, tendo sido a partida no dia 21. Foi, então, que, na noite do dia 23 de Junho, a força liberal dobrou o cabo de S. Vicen- te e pelas 15 horas da tarde estava junto à praia da Alagoa 63 situada entre o forte de Cacela e o Monte Gordo, a praia escolhida para de fazer o desembarque. 64 Terceira comandava as tropas, Palmela ia como governador civil dos territórios que se conquistassem, Napier comandava a esquadra: 3 fragatas, 1 corveta, 1 brigue, 5 vapores.” 65 O desembarque ocorreu sem qualquer tipo de oposição.

1.2.2 A Travessia

Logo com a chegada desta força liberal, o comandante miguelista do Algarve, General Mollelos, que possuía 1600 homens em armas, constituídos por Batalhões Realistas de Faro,

59 NOGUEIRA, (ob. cit.). Pag 255

60 LOPES, João Baptista da Silva (1841) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, 1º Volume, Lisboa, Academia Real das Ciências de Lisboa. Pag 18

61 Doutrina político-económica e sistema doutrinário que se caracteriza pela sua atitude de abertura e tolerância a vários níveis. Surgiu na época do iluminismo contra o espírito absolutista. Parte do conceito de que o conheci- mento da razão humana e o direito à acção e realização própria, livre e sem limites, é o melhor sistema para a satisfação dos desejos e necessidades da humanidade. Exigia não só a liberdade de pensamento mas também a

liberdade

económica.

Na sua origem, o liberalismo não era só partidário das liberdades individuais mas também da dos povos, não

sendo estranho aos movimentos de libertação nacional surgidos durante o séc. XIX.

62 NOGUEIRA, José Manuel Freire (2004) As Guerras Liberais Uma reflexão Estratégica sobre a História de Portugal. Lisboa. Instituto da Defesa Nacional. Edição Cosmos. Pag 256

63 Ver foto III.1.2.1.1.em anexo B

64 SORIANO, Simão José da Luz (1887), Vida do Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, Tomo I, Cap XI, Pag 349

65 Idem, Pag 257

política

e

Tavira, Beja e Serpa e ainda 100 cavalos de Cavalaria nº 5 66 , travou um combate de encontro que a força constitucional estava a desenvolver, um corpo de 2500 homens em armas. Este foi

o primeiro combate travado nas terras do Algarve na ponte de Almargem 67 , com o objectivo

da força liberal alcançar Tavira. Deste combate resultou a sua perca para os absolutistas ju n- tamente com uma peça de artilharia e munições (peça de calibre 6 e munições de calibre 3) 68 .

Mollelos vendo que a sua força estava em menor número, retirou-se para Faro, e de seguida, por S. Marcos da Serra, em direcção a S. Clara até Messejana. Tendo o duque da Terceira ordenado um reconhecimento à força miguelista 69 , Mollelos reconheceu a necessidade de se defender contra a sua perseguição e reconhecimento. Ordenou, então, aos capitães-mores que reunissem as ordenanças da arma de infantaria e de cavalaria. O Remechido que estava ini- cialmente proposto a comandante de ordenanças de cavalaria 70 , foi nomeado comandante de ordenanças de infantaria. Recebeu, então, ordem para reunir os seus homens de espingarda. Após a retirada do Visconde Mollelos de Faro para o Alentejo, mais propriamente Santa Clara a Velha, no dia 30 de Junho, Remechido após receber ordem no dia anterior, para

a sua tropa irregular seguir esta retirada, recebe então ordem para ocupar o ponto miguelista

em S. Marcos da Serra com a finalidade de reunir homens de 1ª e 2ª linha para se juntarem ao Visconde, pois a sua retirada não lhe dera tempo para tal. Mas juntamente à ordem, emanava que Remechido, naquele local de S. Marcos da Serra, intercepta-se as comunicações e fizesse prisioneiros, pois a estrada para Lisboa passava por S. Bartolomeu de Messines, primeira povoação da serra algarvia, e S. Marcos da Serra 71 , estando a 2 léguas de distância. Enquanto Visconde Mollelos aguardava um aumento dos efectivos, composto por milícias 72 de Tomar, caçadores nº1 de Tavira, um batalhão de infantaria nº14 e um esquadrão de cavalaria nº2 comandado pelo brigadeiro José Pinheiro, e por forças vindas do Porto, esta sendo uma Brigada constituída por um Batalhão de infantaria nº 8 e nº17, milícias de Aveiro, realistas de Penafiel, um esquadrão de cavalaria nº4 e por duas peças de artilharia de calibre

66 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 10

67 Ver foto III.1.2.2.1.em anexo B

68 SORIANO, (ob. Cit.). Pag 350 69 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido.Lisboa. Publicações Europa- América. Nº 175. Pag 28

70 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 10

71 LOPES, João Baptista da Silva (1841) Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica do Reino do Algarve, 1º Volume, Lisboa, Academia Real das Ciências de Lisboa. Pag 76 72 As Milícias foram criadas em 1643, no reinado de D. João IV, devido ao compromisso da coroa com as clas-

ses privilegiadas das províncias, que aceitaram um aumento dos impostos, mas ganharam o privilégio de não

serem recrutadas para as tropas de linha.

nº 3 comandadas pelo brigadeiro Brito Taborda, que encontrando-se em Coimbra no dia 2 de Julho, saíra de ao encontro do Visconde juntando-se a ele no dia 12 do mesmo mês 73 . Reunin- do assim um efectivo de 6000 homens em armas. Quando o Remechido estava a executar a ordem dada pelo Visconde fez prisioneiro um espião, este com a missão de localizar o Remechido. Terceira após ter conquistado Loulé e Quarteira, marchou em direcção a S. B. Messines. Mas como Terceira tinha receio de entrar na serra algarvia (para sul do Malhão, o terreno é demasiado áspero, dá pouca facilidade de transporte…) 74 e no Alentejo, então recuou para Loulé para recrutar homens 75 e esperou pela conquista de Lagos por parte de Napier, e do desenrolar do encontro naval entre as esquadras liberal e absolutista 76 . Remechido fez como prisioneiros alguns homens que dias antes tinham desertado das forças do Visconde de Mollelos. Estes eram o Tenente Couceiro de Cavalaria nº 5 juntamente com quatro homens 77 , e ainda uma força de reconhecimento comandada pelo Ajudante de Ordens do Duque da Terceira, o major José Pedro de Mello 78 . Vencida a batalha naval de 5 de Julho, por Napier, Terceira decide então entrar pela serra e de seguida no Alentejo em direcção a Lisboa. Sendo esta uma operação conjunta, fez com que Napier saísse de Lagos, no dia 13 de Julho, em direcção à foz do Tejo para a blo- quear, tal como Terceira que deixara S. B. Messines no mesmo dia. O comandante absolutista, Visconde Mollelos não possuindo informações acerca do desenrolar das operações no País, tal como das operações do duque da terceira, e da veracida- de de pedidos de ajuda 79 , parte em direcção a Beja, já que lhe constava que “aí houvera um pronunciamento liberal” 80 . Entretanto ordenou a Remechido que “operasse segundo os movi- mentos da Divisão Constitucional” 81 , e que fosse ao encontro do major André Camacho Jorge Barbosa, mais conhecido por Camacho, que se encontrava em Almodôvar. A finalidade deste encontro, ordenado por Mollelos, era a de organizar as guerrilhas existentes em duas guerri- lhas realistas, após a retirada da força liberal. A guerrilha da direita, comandada pelo Capitão

73 SORIANO, Simão José da Luz (1887), Vida do Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, Tomo I, Cap XI, Pag 351

74 TAVEIRA, Alfredo pereira (1905), Sumário Histórico Sobre a Defesa de Portugal, Lisboa, 2ª parte (1815- 1905), M. Gomes, Editor, Livreiro de suas Majestades e Altezas, Pag 129

75 NOGUEIRA, José Manuel Freire (2004) As Guerras Liberais Uma reflexão Estratégica sobre a História de Portugal. Lisboa. Instituto da Defesa Nacional. Edição Cosmos. Pag 261 76 SORIANO, Simão José da Luz (1887). Vida do Marquês de Sá da Bandeira. Lisboa. Tomo I. Cap XI. Pag 351

77 Anónimo. (1838). Lisboa. Biografia de Remexido. Lisboa. Pag 12

78 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa- América. Nº 175. Pag 28 79 SORIANO, Simão José da Luz (1887). Vida do Marquês de Sá da Bandeira. Lisboa. Tomo I. Cap XI, Pag 358

80 NOGUEIRA, (ob. cit.). Pag 261

81 Anónimo, (ob. cit.). Pag 13

de Ordenanças Remechido, ia actuar na zona ocidental do Algarve, ou seja no Barlavento (a partir de S. B. Messines), e a guerrilha da esquerda, comandada por Camacho, ia actuar na zona oriental 82 , ou seja, no Sotavento (a partir de Salir). Acompanhando os movimentos liberais na sua entrada para o Alentejo, Remechido deslocou-se para Santa Ana da Serra e de seguida para S. Marcos da Serra para executar a ordem. Por ele passara, no dia 14 de Julho, o Duque da Terceira, pela estrada principal, enquanto o Remechido se encontrava nos pontos mais altos, observando a sua marcha 83 . Ainda antes do início do deslocamento liberal para Lisboa, as guerrilhas já tinham interceptado várias cartas, bagagens, munições e ordens que se destinavam à força de mano- bra liberal. Mas foi com a entrada na serra, que a guerrilha comandada pelo Capitão de Orde- nanças Remechido, começou a executar ataques de flagelação. Estas operações ofensivas por parte de forças irregulares constavam de ataques rápidos e combinados que Remechido execu- tou contra a força liberal a quando da sua passagem da serra algarvia para o Alentejo. Cance- lou os ataques quando se apercebeu que a força liberal deixara as terras algarvias.

1.2.3 A Resposta Absolutista

Após o cumprimento da ordem do Visconde de Mollelos em dividir as ordenanças, e com a travessia da serra para o Alentejo por parte do Duque da Terceira, ambas as guerrilhas num avanço coordenado saíram da serra em direcção ao litoral 84 . Com o objectivo de aclamar D. Miguel, ou seja, reconquistar vilas e aldeias, que tinham caído na posse dos malhados 85 , durante seis dias de conquista do Duque da Terceira pelas terras do Algarve. Pois nas mesmas ficaram, algumas forças a materializar a sua posse. Com um efectivo de “185 ordenanças de infantaria e 10 soldados” 86 , iniciou Remechi- do a sua progressão em direcção à aldeia de S. B. Messines. Mas durante esta progressão foi surpreendido por uma força numericamente superior, no local de Águas Velhas (29SNB5935) 87 , que o obrigou a retirar e procurar outra direcção de ataque 88 .

82 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 28

83 Anónimo. (1838). Biographya de Remechido o Célebre Guerrilheiro do Algarve. Edição da Typographya de Tavira. Tavira. 1892. Pag 13

84 MACHADO-CARDOSO, (ob. cit.), Pag 28

85 Termo usado pelos absolutistas para distinguir aqueles que não defendiam a causa de D. Miguel.

86 Anónimo, (ob. cit.), Pag 15

87 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Marcos da Serra (Silves), nº578, 1978. (Escala 1:25 000)

Ao ter a necessidade de planear um ataque, acampou no Monte Grande 89 (29SNB6227) 90 , a sua ordem de operações para aquela acção foi, a de aclamar o nome de D. Miguel sem a necessidade de existirem vinganças particulares 91 . Para isso, o ataque dava-se entre as 23 e 00 horas da noite, pois tendo ele morado ali conhecia os hábitos dos habitantes, cujo costume era de recolher cedo. 92 A manobra constava de dividir a força em três, ordenan- do que fosse uma pela direita, contornando o Penedo Grande e a seguir dirigir-se para a aldeia, conservando, no entanto na Ermida de S. Pedro seis soldados de cavalaria para evitar que alguém que por ali passasse descobrisse a manobra e os denunciasse à população. Orde- nou o Remechido que outra força deveria subir até à linha de alturas do Penedo Grande e aguardasse a coberto das vistas até que este envolvesse e surgisse, em frente, pela N. Senhora da Saúde. Por fim, a força da esquerda contornava o Penedo Grande pela esquerda. 93 Porém, quando se efectuava a manobra, a sua força foi descoberta por um rapaz que os denunciou à população, abrindo esta logo de seguida fogo sobre a força. Todavia quando este chega a S.B.Messines já a sua força tinha controlado a situação. De salientar, no entanto, que foi ordenado o fuzilamento de alguns dos seus homens porque estes não tinham cumprido a ordem vinganças pessoais, e ele não queria que situações como aquelas se voltassem a repetir 94 . A 20 de Julho pelas 8 da manhã, sábado, chega a notícia a Albufeira de que S. B. Mes- sines tinha sido atacada e tomada pelo Remechido no dia anterior 95 . Daí surgiu o alarme e a preocupação dos habitantes, isto porque Albufeira apoiava o Liberalismo. Foi, então, no dia 24 de Julho, que se deu uma das piores carnificinas por parte dos absolutistas contra os libe- rais. O testemunho encontra-se relatado por um anónimo que narrou e deu o nome de “Memó- ria dos desastrosos acontecimentos de Albufeira por ocasião da Invasão dos Guerrilhas em Julho de 1833”. Durante quatro dias, desde que os habitantes receberam as notícias do suce- dido que se prepara a defesa da vila, em que o efectivo liberal era de quase 250 homens em armas 96 , a guerrilha do Remechido atacou com a sua força, novamente dividida em três. E

88 Anónimo. (1838). Biographya de Remechido o Célebre Guerrilheiro do Algarve. Tavira, Edição da Typo- graphya de Tavira. 1892. Pag 15

89 Ver imagem III.1.2.3.1.em anexo B

90 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Bartolomeu de Messines (Silves), nº587, 1979. (Escala 1:25 000)

91 Anónimo, (ob. cit.), Pag 16

92 Idem. Pag 15

93 Ver imagem III.1.2.3.1. em anexo B

94 Anónimo, (ob. cit.), Pag 16

95 PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora. Pag 39 96 PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora. Pag 39

desta contava também com mulheres para que estas carregassem todo o produto das pilhagens em burros. A motivação dos guerrilheiros era originada com tudo aquilo que conseguiam arrecadar com o saque que faziam às vilas atacadas, mas para além disso, os ataques eram momentos oportunos para eliminar credores, isto fazia aumentar a sede de matar por parte dos absolutistas. Este facto fez com que Remechido quase perdesse o comando dos seus guerri- lheiros, e para não ter o mesmo destino que os malhados, teve de acatar os pedidos dos seus homens mesmo contra a sua vontade. Quase em simultâneo, mas no dia 23 de Julho, Camacho, comandante das forças da esquerda, cercara e atacara a cidade de Loulé. Como tinha sido planeado pelos dois coman- dantes, o do barlavento e do sotavento, estes prosseguiram “nas suas marchas rápidas, e com algumas escaramuças” e foram entrando “gradualmente nas terras, fazendo as acclamações e constituindo as autoridades97 , ou seja, substituindo a guarda nacional 98 pelos voluntários realistas. Os liberais com pouca representação de forças, fizeram com que a resposta absolu- tista resultasse numa sucessão de triunfos militares absolutistas em terras do Algarve. E para esta viragem da situação militar foi necessária a decisiva acção das guerrilhas, mesmo haven- do indisciplina e “fraca combatividade dos guerrilheiros, audaciosos no saque a povoações abertas, inaptos, porém, a guerra regular, que obrigava a efectuar ataques, debaixo de fogo cerrado do inimigo99 . Por outro lado, os liberais ficaram circunscritos a Faro, Lagos e Olhão 100 suportando um enorme assédio, estes confinados aos muros das vilas, com apenas capacidade apenas de manobra por mar, (o qual não era controlado pelos absolutistas) e care- cendo dos bens principais de subsistência, enfrentando cerca de seis meses de ataques violen- tos.

97 Anónimo. (1838). Biographya de Remechido o Célebre Guerrilheiro do Algarve. Edição da Typographya de Tavira. Tavira. 1892.Pag 16

98 A Guarda Nacional foi criada em Março de 1823, pelo facto de na Europa estar a decorrer uma contestação contra o liberalismo revolucionário. As deliberações tomadas no congresso de Verona pela Santa Aliança sobre a necessidade de intervenção militar francesa na Península (os chamados cem mil filhos de S. Luís) ameaçavam os liberais revolucionários europeus, e em particular os da Península Ibérica.

99 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 32 100 Idem. Pag 34

1.3. A Batalha de Sant’Anna

1.3.1. A Reconquista Liberal do Algarve

D. Pedro queria aumentar a sua área de influência no Alentejo porque embora a sua causa apenas existisse no Algarve, (mais propriamente em Lagos, Faro e Olhão) estas guarni- ções não tinham capacidade ofensiva para conquistar o Alentejo. Isto porque se encontravam na defensiva durante meses contra os absolutistas e também porque o número de efectivos era enormemente reduzido. Vendo a necessidade de nomear um novo governador militar do Algarve, D. Pedro “nomeou para tal cargo por portaria de 19 de Fevereiro de 1834101 , o barão de Sá da Bandeira, que partiu imediatamente para lá acompanhado apenas de um aju- dante de campo 102 . Sá da Bandeira foi com a missão inicial de avaliar as forças liberais exis- tentes. Desembarcou, no dia 20 de Fevereiro, em Lagos, inspeccionou as fortificações e a guarnição 103 , pegou na tropa que não era necessária para manter a defesa da cidade de Lagos e embarcou rumo a Faro. Aqui, procedeu da mesma forma e preparou as forças para a ofensiva liberal, iniciando-se a mesma no dia 23 do mesmo mês, estabeleceu depois o contacto efectivo logo em Pechão, onde havia um acampamento que tinha a finalidade de observar a cidade de Faro 104 , iniciando-se um combate do que resultou a vitória de Sá da Bandeira. Continuou assim uma marcha que apresentou uma direcção Tavira, Castro Marim. Daqui resultou o con- trolo do rio Guadiana para a parte liberal, isto porque o rio Guadiana era ponto de passagem das forças absolutistas para o Alentejo e ponto de passagem dos cereais vendidos para o estrangeiro de onde provinha o dinheiro necessário para o esforço de guerra absolutista. Depois de conquistar toda a faixa litoral do sotavento, era intenção de Bandeira conquistar o interior do Sotavento, para isto tomou a direcção S. Brás de Alportel Loulé em perseguição aos absolutistas, tendo ganho sempre os combates travados. Com o sotavento na posse dos liberais era necessário conquistar o barlavento e enfren- tar o grosso das forças absolutistas. Para isso foi enviado para o Algarve um corpo de atirado- res belga que os liberais contrataram, “proveniente do batalhão de atiradores de Mosa, que se evidenciara na guerra da independência da Bélgica de 1830-1831, caracterizava-se pela dis-

101 SORIANO, Simão José da Luz (1887), Vida do Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, Tomo I, Cap XI, Pag

396

102 Idem, Pag 397

103 Ibidem

104 Ibidem

ciplina e combatividade105 , constituindo assim uma divisão liberal com um efectivo de cerca de 900 homens em armas 106 , partindo em perseguição dos absolutistas. Voltando às operações no dia 10 de Março, regressou a S. Brás de Alportel, isto porque ali se encontrara de novo força inimiga e com um efectivo superior de 2000 homens em armas. Após renhido combate, os absolutistas retiraram para Almodôvar, uma vila no Alentejo 107 . Ainda antes de ir em per- seguição da força absolutista que se encontrava na mesma vila alentejana, Bandeira passou no dia 15 de Março por S. B. Messines, no intuito de ordenar à esposa do Remechido que escre- vesse uma carta para que o seu marido se entregasse juntamente com os seus guerrilheiros e com a promessa de serem bem recebidos 108 . Se esta acção psicológica do barão, Sá da Bandei- ra, tivesse sido acatada pelo Remechido teria provavelmente sido uma mais valia para os libe- rais que teriam ganho a posse de todo o Algarve. De notar que ainda antes da batalha de 24 de Abril de 1834, ocorreu um acontecimen- to que considerando as narrativas da época convém, no entanto, sublinhar que as opiniões divergem em saber se foi a força onde se encontrava Sá da Bandeira a quando da sua marcha para entrar em contacto com os absolutistas que se encontravam em Almodôvar, e que o mesmo Sá da Bandeira não contra-atacou por não querer abrandar a marcha 109 ou se foi um batalhão móvel de Lagos que por ali passava, a sofrer uma emboscada no Vale da Mata 110 e a sofrer grande perda de mortos e feridos 111 . Colocando posições políticas à parte dos autores das narrativas, a realidade é que Remechido fez uso do terreno, atacou uma força em movi- mento.

Sá da Bandeira iniciou uma perseguição aos absolutistas no Alentejo e optou por divi- dir a força, para que uma parte desta fosse eliminar as guerrilhas existentes em Mértola e a outra aguardasse em Almodôvar, no sentido de controlar o Algarve e evitar um novo controle desta região por parte dos miguelistas. Entretanto, Sá da Bandeira foi informado que D. Miguel estava a formar uma outra força, constituída por “2000 homens, composta pelos regi- mentos de infantaria nº2 e 14, caçadores nº4, 200 cavallos, 8 bocas de fogo, alguns batalhões de voluntários realistas, e corpos de milícias”, comandados pelo brigadeiro Tomás Cabrei-

105 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 36

106 Idem. Pag 37

107 SORIANO, Simão José da Luz (1887). Vida do Marquês de Sá da Bandeira. Lisboa. Tomo I. Cap XI. Pag

401

Idem 109 SORIANO, (ob. cit.), Pag 401

110 Ver foto III.1.3.1. em anexo B

111 MACHADO-CARDOSO, (ob. cit.), Pag 41

108

ra 112 . Sá da Bandeira informou então Lisboa que necessitava de mais forças. Na ausência de guerrilhas em Mértola, a força que era comandada pelo coronel Charlier, voltou a 21 de Mar- ço a Almodôvar para formar novamente o grosso da força de Sá da Bandeira para ir atacar Beja, iniciando aqui a conquista liberal no Alentejo e a concretizar o objectivo estratégico de D. Pedro. É aqui em Beja que Sá da Bandeira também recebe informações de que uma força absolutista comandada pelo brigadeiro Bourmont teria iniciado uma manobra para envolver a força liberal, atacando-a pela sua retaguarda, cortando-lhe a saída para o Algarve e para efec- tuar esta manobra entrou em Espanha onde já teria passado a margem esquerda do Guadia- na113 . Com a força comandada por Cabreira e com a força de Bourmont a envolvê-lo, Sá da Bandeira que teria ficado cercado e sem capacidade de manobra, decidiu assim voltar de novo ao Algarve para reunir toda a força e enfrentar Cabreira. Após ter reunido todas as suas for- ças, Bandeira marchou para S. B. Messines, no dia 10 de Abril, iniciando o combate contra a força de Bourmont que o perseguia, na localidade de Benafátima, a noroeste de S. Marcos da Serra (de acordo com os manuscritos do senhor Francisco Vargas). Foi então que, no dia 23 do mesmo mês, Cabreira entrou no Algarve e pernoitou em S. Marcos da Serra. Entretanto já Bandeira tinha recuado para S. B. Messines. Os defensores do absolutismo 114 tendo reunido toda a sua força juntamente com as guerrilhas, formaram um corpo de entre “3000 a 4000 homens”. Os liberais encontravam-se junto à Igreja de Sant’Anna com apenas 1500 homens. Assim a posição de Cabreira era na margem esquerda do Rio Arade, a norte, no sítio da Pedra Alva (29SNB62862718) 115 , e de Bandeira na margem direita, a sul, na Igreja de Sant’Anna (29SNB62362644) 116 . Nesta importante batalha as forças de Remechido foram importantes pois atacaram um flanco libe- ral, tornando insuportável a continuação das operações liberais. Foram também, as forças de Remechido que feriram Sá da Bandeira, quando este foi “ousadamente metter-se de espada

112 SORIANO, Simão José da Luz (1887). Vida do Marquês de Sá da Bandeira. Lisboa. Tomo I. Cap XI., Pag

402

113 SORIANO, (Ob. Cit.), Pag 403

114 Doutrina política que predominou na Europa desde os secs. XVI-XVIII e cuja forma de governo caracterizou

essa

O absolutismo nasceu como forma de compensação dos abusos da nobreza. Em Portugal, o absolutismo foi esta-

II.

Com D. José, já no séc. XVIII, tomou a forma de absolutismo esclarecido (apesar de se humanizar o direito penal, se fomentar o ensino, a cultura e a tolerância religiosa, os povos continuam a não tomar parte nas decisões do estado). 115 Ver foto III.1.3.2. em anexo B

belecido

época.

mesma

tendo-se

desde

D.

João

I,

reforçado

com

D.

João

116 Ver foto III.1.3.3. em anexo B

na mão entre as fileiras do inimigo117 . Em suma, a vitória desta batalha para os miguelistas deveu-se ao facto de Cabreira empregou as guerrilhas e a tropa apeada a executar os ataques contra a cavalaria de Sá da Bandeira uma vez que este teimava em a aplicar em terreno muito acidentado para vencer uma força numericamente superior. Mas para além destes acontec i- mentos, a cena política estava preste a mudar com a intervenção da Inglaterra e da França nomeadamente a liderarem um acordo que teve pelo nome de Quádrupla Aliança. A finalida- de deste acordo era de tanto a coroa espanhola como a coroa portuguesa, se comprometerem a pôr um fim aos conflitos peninsulares recebendo “uma dotação compatível com o seu estatu- to118 . Para isso, era necessário exilar os príncipes absolutistas de Portugal e Espanha que estavam a desenvolver a guerra civil nos seus países. Caso isto não fosse conseguido, era levantada a hipótese de os países fundadores do acordo virem a intervir com forças armadas. Com os principais países da Europa no lado liberal, a causa absolutista estava perdida. Foi a 26 de Maio de 1834, na localidade de Évora Monte, assinada uma convenção com o mesmo nome, que estipulava rendição incondicional dos absolutistas e o exílio de D. Miguel. Para o grupo dos vencidos, no qual está inserida a guerrilha do Remechido, só lhes restava voltar pacificamente para as suas casas “e retomar as suas actividades não milita- res119 .

Capítulo IV 1. A Acção de Guerrilha (1834-1838)

1.1. A Reactivação da Guerrilha

A palavra “guerrilhaetimologicamente significa “pequena guerra”. Fala-se que já César enfrentara a luta de guerrilhas nas Gálias e na Grã-Bretanha. A divulgação deste termo na Europa ocorre a partir da luta dos guerrilheiros espanhóis contra os exércitos invasores de Napoleão I 120 . Em Portugal, as guerrilhas foram sempre úteis no decorrer de conflitos como é o caso da Guerra das Laranjas em 1801 durante a preparação da guerra contra Espanha, em

117 SORIANO, Simão José da Luz (1887), Vida do Marquês de Sá da Bandeira, Lisboa, Tomo I, Cap XI, Pag

406

118 SILVA, António Martins. A Vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucional: cartismo, setembrismo e cabralismo. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa. Pag 93

119 PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora. Pag 130

que se dá “uma significativa alteração na utilização das Ordenanças. Por ordem do Duque de Lafões vão ser levantadas na Província de Trás-os-Montes, pelo então coronel do regi- mento de Cavalaria de Chaves, Manuel Inácio Pamplona Côrte-Real, futuro Conde de Sub- Serra, duas Companhias de Voluntários Reais do Monte e seis Companhias francas recruta- das nas Ordenanças, com as quais se cria o Corpo de Voluntários Pagos de Trás-os-Montes. As duas primeiras companhias serão comandadas por oficiais das Ordenanças, as outras por oficiais subalternos, havendo algumas comandadas por cadetes, dos regimentos de Trás-os- Montes. O Marquês de Alorna também mandará levantar uma na Beira, mas sem autoriza- ção. É a aplicação, pelo duque e pelos oficiais mais chegados a si, das ideias de Frederico II da Prússia, que defendia a criação em tempo de guerra de unidades de voluntários para rea- lizarem a guerra de postos, ou como se dizia em francês - a petite guerre -, ou ainda como vai ser mais conhecida, na sua tradução espanhola, a guerrilha. Em Portugal, como o próprio nome das companhias indica, e vem expresso claramente nas instruções do duque aos gene- rais como base da táctica a utilizar na campanha, este tipo de guerra é conhecido por Guerra de Montanhas.121

Após a convenção de Évora Monte, e com o fim da guerra civil, surge um novo tipo de guerra por todo o país, isto é a guerra subversiva 122 , porque nasce no seio dos defensores libe- rais a prática de assassinar os vencidos, aliada à vingança. Tudo isto gerou a insegurança “de muitos antigos oficiais e soldados do exército miguelista” que passaram a esconder armas e a andar a monte. Também fez nascer o descontentamento do povo devido à situação de miséria em que o país se encontrava, juntamente com a grande dívida externa provocada pelos gastos de guerra. Aliado estava também presente a grande distância entre a burguesia e o povo, pois o individualismo agrário, a apropriação de baldios com os pequenos camponeses a serem expropriados das suas terras, fez aumentar o proletariado agrícola, o que levou ao aumento do desemprego sazonal 123 e ainda nos serviços administrativos, o despedimento dos funcionários absolutistas em favor dos liberais 124 . Foi a partir daqui que o novo regime começou a deparar com grandes resistências em relação à implementação do seu novo governo por parte do

122 Luta conduzida no interior de um território, por parte da população, ajudada ou reforçada ou não do exterior, contra a autoridade de direito ou de facto, com o fim de, pelo menos paralisar a sua acção. É prolongado, metó- dico e com o objectivo de conquistar o poder.

123 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 43

124 Idem, Pag 44

Alentejo e do Algarve, mas “principalmente na serra do Algarve, onde nos finais da guerra civil se formaram temíveis guerrilhas, que se reactivaram com sucesso a partir de 1836125 .

Como absolutista e antigo oficial de ordenanças miguelista Remechido volta a casa 126 . Mais tarde recebe a informação de que todos os oficiais Miguelistas estavam a ser assassina- dos. Sentiu então necessidade de se esconder em locais inóspitos, tais como a gruta do Bar- ranco 127 , (onde de facto esteve durante dezassete meses 128 ) e ainda numa outra que se encon- tra a uns metros a norte 129 de sua casa onde provavelmente também se escondeu. A 21 de Março de1836, D. Miguel proclama uma corrida às armas para acabar com os assassínios executados pelos liberais, juntamente com isto, nomeia oficiais para comandar tais operações. Entre eles está Remechido que é nomeado Governador do Algarve e Comandante em Chefe Interino do Exército do Sul 130 . Mas foi o facto dos liberais ordenarem uma punição da sua esposa e a prisão do seu filho, Manuel da Graça Reis, que o levou a passar à ofensiva. Rece- bendo então ordem, começou a organizar a sua força 131 , constituída por “miguelistas foragi- dos132 que procuravam sobreviver em pequenos grupos através de roubos feitos à população e escondendo-se depois nas serras do Algarve. Entre eles estavam soldados desertores que tinham desertado, uma prática frequente, devido à saudade dos seus parentes, do desejo de liberdade, o medo de guerra, a severidade da vida militar, e o tipo de comunicação estabeleci- do entre soldados e oficiais 133 . Estavam também lavradores que tinham posições divergentes em relação à guerrilha, uns porque albergavam os guerrilheiros juntos dos seus montes e facultavam-lhes cobertores 134 , (escondem-lhes as armas, trocam dinheiro para os pagamentos e fornecem informações sobre os movimentos da tropa) 135 para além de também vender géne- ros 136 e outros forneciam informações sobre os movimentos das guerrilhas, tendo, por isso o

125 http://www.esa.ipb.pt/estudosrurais/Pdfs/Antonio_Cardoso.pdf

126 Ver foto IV.1.1.1. em anexo B

127 Ver foto IV.1.1.2. em anexo B

128 OLIVEIRA, Francisco Xavier de Ataíde de. Monografia de S. Bartolomeu de Messines, Porto, (1909), Pag

132

129 Ver Foto IV.1.1.3. em anexo B

130 Carta do Remechido a José Maria do Carvalhal, Ten-Cor de Inf 14, de 26 de Novembro de 1836. A.H.M., 1ª divisão, 21 secção, caixa 7, nº1 131 Correspondência de Remechido para José Maria Pestanha a 26 de Agosto de 1836, A. H. M., 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1.

132 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag. 61

133 COSTA, Fernando Dores. Condicionantes Sociais das Práticas de Recrutamento Militar (1640-1820), Comissão Portuguesa de História Militar, VII Colóquio, Lisboa, 1996, Pag 271

134 Testemunho deixado pelo entrevistado sr. Vítor Manuel da Palma Anastácio

135 MACHADO-CARDOSO, (ob. cit.), Pag 95

136 Testemunho deixado pelo entrevistado senhor Francisco Vargas

destino do “barranco137 ou de lhe queimar a casa (como aconteceu no sítio da Casa Queima- da) 138 . A guerrilha era constituída também por ferradores 139 e correeiros, estes muito impor- tantes na manutenção da Logística. Por fim, por assalariados rurais, “homens novos, solteiros, desenraizados, sem perspectivas de ascensão social, para eles a guerrilha representou um meio de satisfazer carências vitais140 . Reuniu assim inicialmente 45 homens que andavam a monte e atacou a povoação de S. B. Messines.

1.2. A Organização do Comando

A cadeia Hierárquica da guerrilha era constituída pelo Comandante em Chefe do Exército de Operações de Portugal, mais propriamente, D. Miguel, dado que era assim que se assumia 141 . O lado politico bem como alguns dos fundos para o esforço de guerra das guerri- lhas, provinham do estrangeiro, mais propriamente de Roma pelo Frei Fortunato de S. Bo a- ventura, ex - arcebispo de Évora que assumiu a direcção do partido de D. Miguel juntamente com Francisco Alexandre, bispo de Viseu 142 , esses fundos para além de provirem de Roma e de Áustria ( ), provinha também de Lisboa, de “João Plácido Baldy, chefe da junta miguelista de Lisboa, implicado na chamada Conspiração dos Marnotas 143 ”.Como comandante opera- cional que recebia ordens de D. Miguel, temos Remechido, que após a proclamação de 21 de Março de 1836 foi nomeado comandante em chefe do exército do sul, “atendendo aos feitos praticados pelo Remechido”, e em 1838 foi nomeado Brigadeiro, Comendador da Torre e Espada, Governador do Algarve, e Comandante das Forças Realistas ao Sul do Tejo. A locali- dade de onde emanava as suas ordens, não era um local fixo, nem se tratava de um quartel- general, isto porque nos documentos encontrados na sua posse, após a sua captura, só estava indicado “Quartel”, e a seguir a este termo estava indicada a localidade, de onde se encontra- va, sendo assim quartel móvel e não fixo. Como ajudante e secretário interino, padre Manuel

137 Significa fuzilar

138 Testemunho deixado pelo entrevistado senhor Francisco Vargas

139 Carta de Marçal José Espada, Ajudante e secretário interino, a Francisco José Nogueira a 23 de Junho de 1838., A.H.M. 1ª divisão, 21 secção, caixa 7, nº1 Ver digitalização IV.1.2.1. em anexo B

140 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag101

141 Carta do Remechido a José Maria do Carvalhal, Ten-Cor de Inf 14, de 26 de Novembro de 1836. A.H.M., 1ª divisão, 21 secção, caixa 7, nº1

142 MACHADO-CARDOSO, (ob. cit.),. Pag 55

143 Numa pequena povoação junto a Loures eclodiu em 13/5/1837 uma revolta absolutista conhecida por "Cons- piração dos Marnotas". Veteranos do exército miguelista, atravessaram o Tejo em Muge e aclamaram D. Miguel em Samora Correia,ao verem o exército governamental debandaram, sendo alguns dos seus intervenientes con- denados à morte (1839) e outros amnistiados (1840).

José Espada, o Estado-Maior era constituído por Simão Francisco Cabrita (chefe de Estado- Maior Interino), Manuel da Graça Reis Remechido (Ajudante do General Interino), Joaquim José Alves Ribeiro (Lugar Tenente Mestre), Francisco Joaquim Nogueira (Alferes Comandan- te de Caçadores nº 2), João Luís Monteiro Baiôa (Tenente Comandante do Regimento de Infantaria nº 2), Fermino da Costa Lobo (Tenente Comandante do Regimento de Infantaria nº 14) 144 , estes aconselhavam e auxiliavam Remechido no seu exercício de comando. Estes Regimentos são os locais de onde estes oficiais miguelistas eram provenientes antes da Convenção de Évora Monte e não de um Regimento que existisse na realidade, isto porque, a título de exemplo, Remechido no final das suas cartas assinava “Quartel nas Serras” e no entanto não existia qualquer tipo de quartel, o que existia era um “buraco” escavado à mão feito pelos próprios guerrilheiros, com cerca de mais de 20 metros de comprido por 1 de largura (embora estas medidas variasse consoante a necessidade) e no final era redondo, este local onde Remechido na sua grande maioria das vezes emanava as suas ordens, situava-se em 29SNB56303936 145 a 4 quilómetros a norte de S. Marcos da Serra 146 . Mas por outro lado era o quartel era móvel, porque estava situado onde Remechido se encontrava, para preparar as operações, outro exemplo, desta vez Quartel nos vales147 , este situado no Vale da Mata 148 , em 29SNB60622942 149 .

1.3. O Teatro de Operações e Zonas de Empenhamento

Remechido possuía o título de Comandante do Exército do Sul, a sua zona de empe- nhamento era o Algarve e Alentejo, as zonas de acção dos seus subordinados não eram muito coerentes, apenas é sabido que em 1838 as forças estavam dispostas desta forma, Francisco Joaquim Nogueira como comandante da Divisão do Centro 150 , com o comando na zona da Serra do Caldeirão, com os seus subalternos, Ramos a actuar na zona de Almodôvar, Tomás de José Alvalede comandante do Regimento nº 14 e comandante da Divisão da Direita, com o

144 Relação da nomeação dos oficiais de Estado-Maior da Divisão do Exército do Sul em Novembro de 1836, A. H. M., 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1

145 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Marcos da Serra (Silves), nº578, 1978. (Escala 1:25 000)

146 Ver foto IV.1.2.2. em anexo B

147 Correspondência de Remechido para Francisco José Nogueira a 24 de Fevereiro de 1838, A. H. M., 1ª divi- são, 21.ª secção, caixa 7, nº1 Ver digitalização IV.1.2.3. em anexo B

148 Ver foto IV.1.2.4. em anexo B

149 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. Amorosa (Silves), nº586, 1978. (Escala 1:25 000)

150 Ver imagem IV.1.3.1. em anexo B

comando na zona da serra de Monchique, com os seu subalternos, Carvalho na zona de Alje- zur, Ribeira na zona de S. Martinho das Amoreiras, Odemira e S. Luzia. Por fim com João Luís Leão Monteiro Baiôa, major comandante de Brigada actuava na zona compreendida pela linha do Guadiana, mas para além das suas zonas de empenhamento serem relativamente estas, as forças também podiam se desempenhar nas operações de outra zona.

1.4. As Operações

As operações desencadeadas pela guerrilha logo após à sua reactivação revestiram-se de carácter rápido e sincronizado, pelo que, logo a 19 de Julho de 1936, a guerrilha executou um ataque à vila de Ourique com um efectivo de 30 a 40 homens em armas 151 . Este ataque para além de destruir as forças liberais mal organizadas na defesa das localidades, foi também um golpe de mão, ou seja, um ataque em terreno controlado pelo inimigo com a finalidade, neste caso, de libertar onze miguelistas que se encontravam presos, e não de conquistar ou manter a posse de terreno, retirando no final de cumprir a missão 152 . É então que, de acordo com o “Memorial das Operações153 de Remechido, e após esta operação, ele se reuniu na Foz do Zebro (29SNB70563096) 154 , no Concelho de S. Barnabé para desenvolver um ataque deliberado a S. B. Messines, isto porque, esta reunião durou desde o dia 15 até o dia 21 de Agosto. Atacou assim S. B. Messines no crepúsculo náutico matutino do dia 23 do mesmo mês com 45 ordenanças e 5 de pau, de onde morreram onze liberais e quatro absolutistas. Esta operação foi executada apenas por fogos de mosquetes e ataques corpo a corpo. As suas operações seguintes tiveram diferentes intervalos de actuação e diferentes locais, isto para não se tornar previsível, tanto as datas dos ataques e os locais, para que as forças liberais não se precaverem, e para que os ataques fossem bem planeados. Assim após o ataque a S. B. Messines, o próximo desencadeou-se no dia 16 de Setembro em Sabóia e em S. Clara, no Alentejo, mas nestes locais só se efectivou a prisão e o fuzilamento de quatro libe- rais. No dia 21 de Setembro entra em Salir, outra localidade no interior algarvio, sem qualquer pressão liberal, mas no dia 6 de Outubro, entra em Benafim, uma localidade perto da anterior,

151 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 62

152 EXÉRCITO PORTUGUÊS. Estado-Maior do Exército (1987) RC 130-1 OPERAÇÕES. Lisboa. Departamen- to de Operações. Volume I. Capitulo 8. secção II. Pag 10

153 Ver digitalização IV.1.4.1. em anexo B

154 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Bartolomeu de Messines (Silves), nº587, 1978. (Escala 1:25 000)

mas quando se retirava para o interior da serra do Caldeirão, no sitio do Malhão, no dia 7 de madrugada foi travado um combate com uma força de S. B. Messines, comandada pelo capi- tão Neutel, (nasceu em 1797 na freguesia de Santa Marinha, concelho e comarca de Ceia, bispado de Coimbra. Era filho legítimo do Dr. Manuel Mendes Neutel e de D. Joana Clara Madureira Lobo. Veio para S. B. Messines com a ordem de perseguir as guerrilhas. Foi capi- tão de infantaria 4 e casou nesta povoação com D. Maria da Piedade Figueiredo, filha legítima do major José Gregório de Figueiredo e de D. Catarina Jacinta, da mesma povoação; e nesta povoação se conservou até à sua morte em 13 de Junho de 1886.) 155 , e com o tenente Fonseca. Neste encontro o capitão Neutel dispôs as forças por forma a executar um duplo envolvimento à guerrilha, mas sem sucesso, dado que a guerrilha conseguiu dispersar, embora o que refere o Memorial é que Remechido poderia ter derrotado o sucesso se as suas forças tivessem aguentado firmes e a guarda avançada no seu posto”. São nestes encontros de fogo directo com pressão para os guerrilheiros que Remechido não consegue derrotar forças organizadas. Na continuação das suas operações após a este combate Remechido dispersa as forças para que fosse difícil a sua perseguição, com parte da sua força sendo perseguida, ele continua a flagelar os poucos efectivos que se encontram nas povoações, neste caso, no dia 16 de Outubro, volta a S. Clara de Sabóia e prende quatro soldados, no dia 21 de Outubro entrou em contacto com a guarda nacional de S. B. Messines, em Monte Mogo (29SNB54583260) 156 , pois esta, desde o dia 7 de Setembro que perseguia a guerrilha, Remechido mais uma vez não falando por si mas sim pela guerrilha relata “as guerrilhas se puseram em fuga, e nem que- rendo fazer alto, e frente ao inimigo”, isto salienta a fuga da guerrilha aos combates contra forças organizadas e pretendendo apenas roubar as populações e matar. Ainda é de salientar o facto do seu comandante nem sempre consegue exercer a actividade de comando, pois em semelhança com os trágicos acontecimentos de Albufeira, Remechido teve ordenar o fuzila- mento de liberais que já se encontravam presos, por exigências dos seus homens, com a ameaça de perder o comando e ser morto juntamente com os liberais, caso não cumprisse este pedido, logo para alcançar a sua missão necessitava de concretizar algumas exigências dos seus homens. No dia 22 de Novembro entra em S. Ana da Serra e captura 23 porcos ao Prior, no dia 30 no sítio da Cortinhola na freguesia de Alte foi travado um pequeno tiroteio, mas Remechi-

155 http://www.remexido.web.pt/ 21de Junho de 2006

156 Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Marcos da Serra (Silves), nº578, 1978. (Escala 1:25 000)

do decidiu não atacar porque lhe chegaram informações de que o destacamento de S. B. Mes- sines, continuando na sua perseguição, lhe cortara o caminho de retirada. No dia 1 de Dezem- bro, tendo lhe chegado informações que os destacamentos de Monchique e de Odemira mar- chavam em direcção a Alte e tendo passado a noite em S. Barnabé, Remechido foi ao encon- tro deles, e assim que a força liberal avistou as guerrilhas pôs-se em fuga deixando para trás bagagens e furtos que fizera. No dia seguinte foi capturado o Correio do Alentejo, correio esse que no seu trajecto de Lisboa para o Algarve passava por Almodôvar em seguida para Lou- lé 157 . A última operação ordenada por Remechido foi uma entrada em S. Martinho das Amo- reiras, Alentejo, em que foram capturados 15 armas, 2 cavalos e algum fornecimento ainda foram fuzilados alguns liberais. Ano de 1837, ainda de acordo com o “memorial das operações”, as operações desen- cadeadas pela guerrilha comandada por Remechido, foram baseadas na generalidade, na cap- tura de armas, mantimentos, correios vindos de Lisboa para o Algarve e vice-versa, animais, tanto para servir de transporte, como para alimentação, dinheiro, pessoas que cometeram cri- mes contra a guerrilha, informações sobre os pontos de marcha inimiga 158 e pequenas forças liberais. Foi também neste mesmo ano, mais propriamente a 9 de Março de 1837, que Reme- chido necessitou de ocultar os seus homens, pois as forças liberais possuíam um grande número de efectivos empenhados na caça à guerrilha, para escaparem, ordenou que dispersas- sem e se ocultassem com a população, para isso foi necessário que escondessem as armas. Com os seus homens ocultos Remechido com apenas o seu estado-maior e uma força de cava- laria, ordena um reconhecimento em força “para os sítios de Mértola”, e que consistiu num ataque para “ incomodar o inimigo quanto pudesse, a fim de ver se podia conseguir alguma divergência”, realizado por uma força de volume apreciável, com o fim de pôr à prova a resis- tência do inimigo e de obter informações para a sua ordem de batalha 159 .

1.5. Informação e Contra-informação

A informação e contra-informação foram utilizadas desde logo, com a reactivação da guerrilha, por esta sempre utilizada, e com uma importância enorme, pois foi a informação

157 CARIMBOS DE CORREIO: ALGARVE SÉC. XIX. Arquivo Municipal de Lagoa, Lagoa, Setembro, 2005

158 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 66

159 EXÉRCITO PORTUGUÊS. Estado-Maior do Exército (1987) RC 130-1 OPERAÇÕES. Lisboa. Departamen- to de Operações. Volume I. Capitulo 5. secção II. Pag 10

que contribuiu para a longa sobrevivência da guerrilha, através da segurança, assegurando o segredo. É exemplo da necessidade de Remechido possuir informações sobre as posições e marchas dos liberais 160 , estas recolhidas através do emprego específico das suas forças, de acordo com a sua localização, mas também foram usadas pessoas que não faziam parte da guerrilha 161 , que lhe forneciam informações acerca de manobras envolventes ou laterais dos liberais a quando de uma operação desencadeada pela guerrilha.

O transporte de correspondência entre Remechido e os seus comandantes era feito a partir de

bagageiros, homens destacados para entregar a correspondência 162 , mas para que estes homens não fossem seguidos, e os liberais descobrissem o quartel de Remechido, a corres- pondência e outro material tinha o destino de Vale Grou de Cima (29SNB5240), isto quando o cerco à guerrilha andava mais apertado, só depois é que algum homem do quartel de Reme- chido é que ia a este local, de noite, levantar o material e/ou correspondência 163 . A informação também era adquirida através da captura do correio proveniente de Lisboa para o Algarve

com ordens, material de guerra e dinheiro, que Remechido usou para pagar aos seus homens,

e do Algarve para Lisboa, esta rota do correio era bem conhecida pela guerrilha 164 . Como

João Baptista da Silva Lopes escreve no segundo capítulo, número 7, sobre correios e estradas do livro “Corografia ou Memória Económica, Estatística e Topográfica de Reino do Algar-

ve”, “A caixa geral do correio do Algarve é estabelecida em Faro, onde chega de Lisboa nas terças, quintas e sábados das 10 as 11 horas da manhã, e parte nas terças, sextas, e domin- gos à 1 hora da tarde”, para além do conhecimento por parte de Remechido 165 das datas de travessia dos correios, as estradas por onde estes passam são óptimas para emboscadas feitas pela guerrilha, e mais uma vez como João Baptista da Silva Lopes escreve “As estradas do Algarve são menos más na beira-mar, no barrocal porém piores, e na serra são péssimas. Algumas povoações apenas se comunicam entre si por veredas, , As comunicações com o Alentejo pelos pontos da serra já mencionados são quase intransitáveis,…, Não havendo fre- quentemente passagem de pessoas estranhas da província, e existindo conhecimentos, amiza- des e parentescos entre as que nela são moradores…”.

160 Correspondência de António Venâncio Ramos a Remechido no dia 13 de Junho de 1838, A. H. M., 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1.

161 Despesa feita com os espias no mês de Março de 1837, A. H. M., 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1. Ver digitalização IV.1.5.1. em anexo B

162 Correspondência de Nogueira para Remechido em 28 de Julho de 1838, A. H. M., 1ª divisão, 21.ª secção, caixa 7, nº1. Ver digitalização IV.1.5.2. em anexo B

163 Correspondência de Remechido para Nogueira em 21 de Março de 1838, (Idem)

164 Correspondência de Remechido para Nogueira em 9 de Junho de 1838, (Idem)

165 Ver foto IV.1.5.3.em anexo B

A contra-informação sempre foi usada pela guerrilha, existem provas disso, a nível da corres- pondência, esta apresentava uma enorme falta de informação. Desde o lo cal do quartel, à patente, e nome dos subordinados de Remechido, é exemplo, de Francisco Nogueira que em Fevereiro de 1838 era Capitão e em Março de 1838 era o tenente Joaquim Nogueira Cama- cho.

1.6. A Logística

Para Remechido, a logística, sempre apresentou uma enorme importância, a preocupa- ção de manter os seus homens está espelhado no conteúdo das correspondências. Principal- mente quando os liberais intensificam a pressão militar no Algarve, após à chamada de aten- ção por parte da Câmara de Silves, a 21 de Janeiro de 1837, sobre o efectivo e operações desencadeadas pela guerrilha 166 . A guerrilha que sempre teve o apoio da população rural, dei- xou de o ter, então aumentaram as movimentações para adquirir os materiais 167 e víveres, através dos saques às aldeias 168 embora o elevado grau de perigosidade em serem capturados, e a aquisição de material de guerra, proveniente de Lisboa, dirigida para Nogueira e poste- riormente repartida pelas forças de Remechido também se complicou. A alguns dias de Remechido dar inicio a um movimento ou operação, a troca de cor- respondências entre si e os seus homens aumentava, para coordenar as operações e para a aquisição de toda a logística para suportar a dita operação, é o exemplo da aquisição de pedreneiras, ferragens, pão 169 , pólvora, e homens provenientes de outras zonas de empenha- mento. Só quando toda a logística estava disponível, é que davam início à operação, deixando homens a cuidar de animais que possuíam e a guardar todo o material não necessário, estes, em buracos feitos pelos mesmos, e cobertos com vegetação. Estes “quartéis” nas serranias onde só os guerrilhas conheciam o seu local, eram locais para se esconderem e para pernoita- rem, existindo a algumas léguas de distância das principais localidades. Mas também eram locais onde exerciam todos os tipos de trabalhos para o esforço de guerrilha, tal como ferrar

166 Representação à rainha da Câmara de Silves de 21 de Janeiro de 1837, A. H. M., Guerrilha do Remechido 1837, 1ª Divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1. Ver digitalização IV.1.6.1. em anexo B

167 Proclamação de Remechido ao juiz de S. Martinho a 27 de Dezembro de 1836, A. H. M., 1ª Divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1. Ver digitalização IV.1.6.2. em anexo B

168 Relação dos dinheiros tirados de indiferentes povos da serra e do Algarve pelo sargento Vintura, 4 de Julho de 1838, A. H. M., 1ª Divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1. Ver digitalização IV.1.6.3. em anexo B

169 Correspondência de Remechido para Nogueira em 7 de Julho de 1838, A. H. M., 1ª Divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1.

cavalos, criar gado para se alimentarem e até existiam sepulturas 170 . Onde carecia destes bura- cos, um pequeno número de guerrilheiros iam ao monte onde vivia uma pequena família, sen- do os movimentos feitos maioritariamente no período nocturno, esta também a algumas léguas de distância do local a ser atacado e pedir que lhes fornecessem alguns cobertores, pedindo também que os fossem deixar num determinado local e noutro dia os fossem buscar num outro local diferente 171 .

Capítulo V 1. Resposta Liberal

1.1. Resposta liberal para o aniquilamento da guerrilha (1837-1838)

Uma resposta para o aniquilamento da guerrilha nem sempre foi eficaz, isto porque numa representação da Câmara de Silves à rainha, está espelhado a preocupação de eliminar os actos de guerrilha. Em que até é sugerido, a 21 de Janeiro de 1837, pela própria Câmara “várias formas de extingui-la se tem aprontado de diferentes partes = queimar parte da serra, estabelecer colunas volantes, guarnecer os povos que habitam nas faldas, recolher os habitan- tes a povoações para que os voluntários ou constrangidos não forneçam alimentos aos guerr i- lheiros, retirar gados, formar uma guerrilha constitucional para perseguição daquela…” 172 . Com o pedido de ajuda tomado em atenção, mas estas propostas não sendo levadas a cabo, os liberais formaram uma cintura táctica, em semelhança com a executada numa povoação junto a Ayamonte, Espanha 173 , em que formaram uma linha constituída por seis destacamentos 174 , por espiões à paisana, tiraram gados, haveres, a guarda nacional passaram a revistar importan- tes pontos de passagem, o uso de passaporte 175 , e retiraram as armas pessoais das pessoas, tanto que era necessário as pessoas mais necessitadas em defender-se aquando das suas deslo- cações, solicitar uma licença de uso e porte de arma 176 .

170 Entrevista ao senhor Constantino.

171 Entrevista ao senhor Vítor Manuel Anastácio

172 Representação à rainha da Câmara de Silves de 21 de Janeiro de 1837, A. H. M., Guerrilha do Remechido 1837, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1.

173 FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Melo. (2002) Rebeldes e Insubmissos. Resistências Populares ao Libera- lismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento.

174 Memorial das Operações de Remechido, A. H. M., 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº 1.

175 MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa. Publicações Europa - América. Nº 175. Pag 66

176 Requerimentos recebidos pelo Governo Civil de Faro 1837, A. D. F., Mç 2/Cx 414

Os Liberais também tentaram minimizar os prejuízos causados aos agricultores mais abastados, tanto que criaram um Decreto de 31 de Agosto de 1833, que conferia as pessoas danosas uma indemnização sobre as perdas e danos causados pelos guerrilheiros, para isso criaram peritos nas áreas da agricultura, da construção (pedreiros) e da serralharia (carpinte i- ros) 177 .

Mas é com a chegada a 15 de Dezembro de 1837 do coronel Fontoura que os liberais conseguem derrotar a guerrilha de Remechido. De acordo com Machado e Monteiro, Fontou- ra pagou e vestiu as suas tropas, estabeleceu depósitos de víveres em diversos locais, cons- truiu um hospital de campanha em Loulé, mobilizou um grande número de homens da Guarda Nacional para o Algarve e Alentejo para o seu uso na defesa de pontos importantes, conferin- do à tropa de linha mobilidade para executarem batidas à serra. Para além de melhorar o uso da tropa, também, fortificou os muros das aldeias, retirou das serras ferreiros, ferradores obri- gando-os a recolher-se às guarnições militares e aos habitantes dos montes, ao deslocarem-se para as vilas, trancando as suas habitações e levando consigo todos os seus mantimentos e gados, inutilizou moinhos e azenhas, fez com que os párocos convencessem os paroquianos a hostilizar os rebeldes, ordenou o fuzilamento de pessoas capturadas com armas na mão e por fim fez com que os correios e abastecimentos vindos de Lisboa para o Algarve mudassem de rota passando não pela serra algarvia mas sim pelo rio Guadiana. Esta táctica privou a guerr i- lha de abastecimentos, contacto com as populações da serra, do uso da sua mobilidade dada pela cavalaria. Aumentaram assim as dificuldades dos pagamentos aos homens, aumentaram também as deserções e a insubordinação. Isto obrigou Remechido a adoptar mais uma vez a táctica de camuflagem e dispersão da guerrilha, embora continuasse com a eliminação de espias e a tentativa de captura de correios, e por fim reduziu as despesas causadas pelas rações a oficiais, praças e escoltas. Tentando recorrer assim mais em frequência aos lavradores das serras.

1. 2. A Captura de Remechido

Com a continuação das suas manobras de aumento de efectivos, Remechido foi, de acordo com o Oficio do Coronel Fontoura ao barão da Ponte de Santa Maria de 30 de Julho, localizado por espias. Foi então através de uma operação de junção entre a 1ª coluna coman-

177 Auto de Instalação e Actas das Sessões da Comissão de Liquidação das perdas e Danos Causados pela Usur- pação. A. D. F., Subsecção B/B, série 1, nº 1.

dada pelo major Vasconcelos em que esta tomou a direcção Almodôvar, Corte das Velhas, onde deveria aguardar pela 5ª coluna, comandada pelo capitão Cabral que partiria de S. Mar- tinho das Amoreiras sob a mesma direcção, estas iriam juntar-se às 3ª e 6ª colunas, comanda- das por Capitão Neutel e major Cardoso, ambas vindas de S. B. Messines, no sítio de Monte Grou. Mas foi no dia 28 de Julho de 1838 pelas 18 horas que Remechido à frente de 248 homens foi emboscado no sítio da Portela da Corte das Velhas (29SNB5443) 178 pelas 1ª e 5ª colunas, não possuindo linha de fuga devido às 3ª e 6ª colunas, aguardou, através de fogo de supressão pela caída da noite, mas em vão. Foi então conduzido a S. B. Messines e posterior- mente a Faro onde num julgamento à pressa, no edifício da Misericórdia de Faro, e ordenado

o seu fuzilamento a 2 de Julho de 1838, pelas 18 horas no Campo da Trindade onde actual- mente fica situado o Jardim João de Deus e a escola Tomás Cabreira.

Conclusão

Sabe-se que Remechido estudou num seminário com o objectivo de ser padre e como tal não possuía conhecimentos militares. Porém o facto de andar de monte em mo nte, de casa em casa e por todos os caminhos existentes nas serras, tornou-o muito conhecedor do terreno existente. Para além disso o seu esforço incessante para a melhoria da localidade de S. Barto- lomeu de Messines fez com que captasse todo o apoio, estima e veneração dos seus habitan- tes.

A nível militar, Remechido actuava com diferente número de efectivos, consoante os momentos, isto é, podia actuar com 45 ou com 350 homens. Actuava com uma força forte em infantaria quando possuía um maior efectivo de homens e/ou com cavalaria com números reduzidos de efectivos para conferir uma maior mobilidade. Remechido sempre procurou

actuar como força convencional e nestas actuações a técnica e táctica utilizada era deveras diferente à usada pelos liberais que ainda utilizavam as tácticas das guerras peninsulares. Remechido, pelo contrário dividia a força em três, com uma parte a apoiar e duas a flanquear. Utilizava carabinas curtas para efectuar tiro a cavalo e não fazia uso de forças de artilharia. Como nem sempre possuía dinheiro para pagar aos seus homens, estes eram motiva- dos pelo saque às localidades, pois dividia os produtos do saque por eles. Sempre que possível

e necessário utilizava mulheres munidas com burros para efectuarem o carregamento dos pro- dutos roubados. Agricultores abastados pelos quais Remechido tinha confiança trocavam o

178 Ver foto V.1.2.1.em anexo B

dinheiro que vinha para a guerrilha por dinheiro mais pequeno ou em géneros para a subsis- tência dos seus homens. Numa fase inicial fornecia também os mesmos géneros a habitantes pobres da serra, adquirindo assim sua confiança. Com a necessidade de conseguir actuar e manter zonas de empenhamento em todo o Algarve e sul do Alentejo forneceu relativas zonas de empenhamento aos seus homens, mas consoante a necessidade para os ataques fazia junção de forças. Estabelecendo assim uma troca de informações constante entre si e os seus homens, mas ao qual, a correspondência não apresentava informação perceptível de entendimento a quem a adquirisse fora da guerrilha, apresentando às vezes contradições. Quando o cerco à guerrilha estava mais apertado Reme- chido ordenava que os seus homens fossem para as suas terras e que passassem por meros agricultores, escondendo as armas em buracos feitos pela guerrilha em locais mais recônditos da serra. Estes locais eram denominados de “quartel” e, para além de serem usados para esconder o armamento, eram também usados como esconderijo das forças para pernoitar. Era daqui que Remechido emanava as suas ordens e para além disso também se efectuava a cria- ção de animais para a alimentação da guerrilha, sua mobilidade e execução de todos os tipos de trabalhos e ofícios. Os quartéis estavam situados consoante a necessidade, tanto perto das localidades como longe, e também consoante a necessidade poderia estar empenhado alguém a guarnecer ou não. A alimentação dos guerrilheiros para além de advir do saque provinha também de agricultores que lhes forneciam alimentação através do pedido de Remechido aos mesmos. Estes deixavam os víveres em locais estabelecidos por Remechido e que mais tarde este ia buscar.

As operações desenvolvidas por Remechido estavam orientadas para a flagelação de tropas liberais, estacionadas nas localidades que estavam a guarnecer, bem como ou movi- mento, mas evitando o confronto directo com forças organizadas. Quando se davam encontros com este tipo de forças, Remechido ordenava a retirada e dispersão, voltando a reunir a força dispersa em determinado local que ele anteriormente definia. Os ataques eram previamente bem planeados, pois Remechido possuía espiões que o informavam acerca das posições e marchas dos liberais. Mas também possuía uma enorme preocupação em eliminar espiões liberais, que foram causa principal da sua captura. Como os espiões de Remechido eram bas- tante importantes para a aquisição de informações, a captura do correio que vinha de Lisboa para o Algarve foi preocupação incessante, pois assim adquiria ordens e informações, e foi

também com a mudança da rota do correio que se propiciou a sua captura no dia 28 de Julho de 1838 na Portela da Corte das Velhas. Remechido tentou sempre manter a ordem e a disciplina dos seus homens, para isso e sempre que necessário ordenava castigos para aqueles que não cumpriam as suas ordens. Mas também tentava que o seu nome não tivesse um cariz de facínora. Para isso todos aqueles que fossem capturados e não fossem reconhecidos por terem executado crimes contra os seus homens, Remechido ordenava a sua libertação. Remechido evitava o confronto directo com forças organizadas, o que nem sempre era poss í- vel, pois os combates travados foram bastantes e sempre com baixas para ambas as partes.

Anexos

Anexo A. Quadros Dados dos Entrevistados

Nome

Vítor

Manuel

Constantino

Manuel Coelho

José

Alves

P. Anastácio

Francisco

Vargas

Vargas

Sebastião

Idade

51

82

77

72

Estado

Casado

Viúvo

Casado

Casado

Profissão

Mecânico

Reformado

Reformado

Reformado

Filiação

Pai: Manuel Joaquim Anas- tácio Mãe: Maria de Lurdes Lopes Palma

Pai:

António

Pai:

António

Pai:

Manuel

Mariano

Pedro Vargas

Vargas

Mãe:

Maria

Mãe:

Elvira

Mãe:

Isabel

José

Coelho

Solda-

Lourenço

do

Alves

Naturalidade

S.

Bartolomeu

S.

Bartolomeu

S.

Marcos

da

S.

Bartolomeu

de Messines

de Messines

Serra

de Messines

Residência

S.

Bartolomeu

S.

Bartolomeu

Corte Pereiro

Sant’Anna

-

de Messines

de Messines

S.

Bartolomeu

Passadeiras

de Messines

Data hora

7

de Abril de

5 de Agosto de

2

de Julho

de

20 de Maio de

 

2006 17:12

2006 20:10

2006 13:30

2006 18:20

Local

S.

Bartolomeu

Bem Parece S. Bartolomeu de Messines

Corte Pereiro - S. Bartolomeu de Messines

Sant’Anna

-

de Messines

Passadeiras

Anexo B. Fotos

Foto I.1.1. Gomes Freire

Passadeiras Anexo B . Fotos Foto I.1.1. – Gomes Freire Fonte: www.genealogia.netopia.pt (10out06) Foto I.1.2.

Fonte: www.genealogia.netopia.pt (10out06)

Foto I.1.2. Manuel Fernandes Tomás

(10out06) Foto I.1.2. – Manuel Fernandes Tomás Fonte: www.genealogia.netopia.pt (10out06) 103

Fonte: www.genealogia.netopia.pt (10out06)

Foto I.1.3.: Foto de Manuel Gonçalves de Miranda Fonte:www.sgmf.pt ( 10 de Outubro de 2006)
Foto I.1.3.: Foto de Manuel Gonçalves de Miranda
Fonte:www.sgmf.pt ( 10 de Outubro de 2006)
Foto II.1.2.1. – Filhos de Remechido

Fonte: http://www.remexido.web.pt

Foto III.1.2.1.1. Praia da Alagoa

Foto III.1.2.1.1. – Praia da Alagoa Fonte: Fotografia tirada pelo autor Foto III.1.2.2.1. – Ponte de

Fonte: Fotografia tirada pelo autor

Foto III.1.2.2.1. Ponte de Almargem

Fonte: Fotografia tirada pelo autor Foto III.1.2.2.1. – Ponte de Almargem Fonte: Fotografia tirada pelo autor

Fonte: Fotografia tirada pelo autor

Foto III.1.2.3.1. Manobra do ataque de Remechido a S. B. Messines

– Manobra do ataque de Remechido a S. B. Messines Fonte: Carta Militar de Portugal. S.

Fonte: Carta Militar de Portugal. S. Bartolomeu de Messines (Silves), nº587

Foto III.1.3.1. Local do Vale da Mata onde foi desencadeada a emboscada por parte da guerrilha

onde foi desencadeada a emboscada por parte da guerrilha Fonte: Foto retirada pelo autor Foto III.1.3.2.

Fonte: Foto retirada pelo autor

Foto III.1.3.2. – Igreja de Sant’Anna

da guerrilha Fonte: Foto retirada pelo autor Foto III.1.3.2. – Igreja de Sant’Anna Fonte: Foto tirada

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto III.1.3.3. Pedra Alva

Foto III.1.3.3. – Pedra Alva Fonte: Foto tirada pelo autor Foto IV.1.1.1. – Antiga casa de

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto IV.1.1.1. Antiga casa de Remechido

Pedra Alva Fonte: Foto tirada pelo autor Foto IV.1.1.1. – Antiga casa de Remechido Fonte: Foto

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto IV.1.1.2. Gruta do Barranco

Foto IV.1.1.2. – Gruta do Barranco Fonte: Foto tirada pelo autor Foto IV.1.1.3. – Gruta do

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto IV.1.1.3. Gruta do Penedo Grande

do Barranco Fonte: Foto tirada pelo autor Foto IV.1.1.3. – Gruta do Penedo Grande Fonte: Foto

Fonte: Foto retirada pelo autor

Foto IV.1.2.1. - Carta de Marçal José Espada, Ajudante e secretário interino, a Francisco José Nogueira a 23 de Junho de 1838

interino, a Francisco José Nogueira a 23 de Junho de 1838 Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.2.2. Antigo Local do Quartel de Remechido

Foto IV.1.2.2. – Antigo Local do Quartel de Remechido Fonte: Foto tirada pelo autor 111

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto IV.1.2.3. - Correspondência de Remechido para Francisco José Nogueira a 24 de Feve- reiro de 1838

para Francisco José Nogueira a 24 de Feve- reiro de 1838 Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.2.4. Local onde estava o esconderijo no Vale da Mata

Foto IV.1.2.4. – Local onde estava o esconderijo no Vale da Mata Fonte: Foto tirada pelo

Fonte: Foto tirada pelo autor

Foto IV.1.2.5. Carta do Remechido a José Maria do Carvalhal, Tenente-Coronel de Infan- taria 14, de 26 de Novembro de 1836

– Carta do Remechido a José Maria do Carvalhal, Tenente-Coronel de Infan- taria 14, de 26
Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1 115

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.3.1 Zonas de Empenhamento

Foto IV.1.3.1 – Zonas de Empenhamento Fonte: Imagem Google Earth, Esquema desenvolvido pelo autor 116

Fonte: Imagem Google Earth, Esquema desenvolvido pelo autor

Foto IV.1.4.1. - Memorial das Operações de Remechido

Foto IV.1.4.1. - Memorial das Operações de Remechido 117
118
119
120
121
Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1 122

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.5.1. - Despesa feita com os espias no mês de Março de 1837

- Despesa feita com os espias no mês de Março de 1837 Fonte: Arquivo Histórico Militar,

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.5.2. - Correspondência de Nogueira para Remechido em 28 de Julho de 1838

de Nogueira para Remechido em 28 de Julho de 1838 Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão,

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.5.3. Remechido

Foto IV.1.5.3. – Remechido Fonte: Arquivo Histórico Militar 125

Fonte: Arquivo Histórico Militar

Foto IV.1.6.1. - Representação à rainha da Câmara de Silves de 21 de Janeiro de 1837

à rainha da Câmara de Silves de 21 de Janeiro de 1837 Fonte: Arquivo Histórico Militar,

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.6.2. Proclamação de Remechido ao juiz de S. Martinho a 27 de Dezembro de 1836

Foto IV.1.6.2. Proclamação de Remechido ao juiz de S. Martinho a 27 de Dezembro de 1836
Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1 128

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto IV.1.6.3. Relação dos dinheiros tirados de indiferentes povos da serra e do Algarve pelo sargento Vintura, 4 de Julho de 1838

serra e do Algarve pelo sargento Vintura, 4 de Julho de 1838 Fonte: Arquivo Histórico Militar,

Fonte: Arquivo Histórico Militar, 1ª divisão, 21ª secção, caixa 7, nº1

Foto V.1.2.1. Portela da Corte das Velhas

Foto V.1.2.1. – Portela da Corte das Velhas Fonte: Foto tirada pelo autor 130

Fonte: Foto tirada pelo autor

Bibliografia

Fontes Manuscritas:

ARQUIVO DISTRITAL DE FARO:

Requerimentos recebidos pelo Governo Civil de Faro 1837, Mç 2/Cx 414

Subsecção B/B

Auto de Instalação e Actas das Sessões da Comissão de Liquidação das perdas e Danos Cau- sados pela Usurpação, série 1, nº 1.

ARQUIVO HISTÓRICO MILITAR:

1ª divisão, 21ª secção:

Correspondência Relativa às Operações do Algarve, 1834, caixa 7, nº 16. Relação da nomeação dos oficiais de Estado-Maior da Divisão do Exército do Sul em Novembro de 1836,caixa 7, nº1. Carta do Remechido a José Maria do Carvalhal, Tenente-Coronel de Infantaria 14, de 26 de Novembro de 1836, caixa 7, nº1. Carta de Marçal José Espada, Ajudante e secretário interino, a Francisco José Nogueira a 23 de Junho de 1838, caixa 7, nº1. Correspondência de Remechido para Francisco José Nogueira a 24 de Fevereiro de 1838, caixa 7, nº1. Correspondência do Tenente de Infantaria nº 2 Camacho para Francisco Joaquim Nogueira a 10 de Março de 1838, caixa 7, nº1. Correspondência de António Venâncio Ramos a Remechido no dia 13 de Junho de 1838, cai- xa 7, nº1. Despesa feita com os espias no mês de Março de 1837, caixa 7, nº1. Correspondência de Nogueira para Remechido em 28 de Julho de 1838, caixa 7, nº1. Correspondência de Remechido para Nogueira em 21 de Março de 1838, caixa 7, nº1.

Ofício do coronel Fontoura ao barão da Ponte de Santa Maria de 30 de Julho de 1838, Docu- mentos Relativos ao Aprisionamento do Chefe de Guerrilhas José Joaquim de Sousa Reis, caixa 7, nº 1. Representação à rainha da Câmara de Silves de 21 de Janeiro de 1837, caixa 7, nº 1. Memorial das Operações de Remechido, caixa 7, nº 1. Correspondência de Remechido para Nogueira em 7 de Julho de 1838, caixa 7, nº 1. Proclamação de Remechido ao juiz de S. Martinho a 27 de Dezembro de 1836, caixa 7, nº 1. Relação dos dinheiros tirados de indiferentes povos da serra e do Algarve pelo sargento Vin- tura, 4 de Julho de 1838, caixa 7, nº 1. Correspondência de Remechido para José Maria Pestanha a 26 de Agosto de 1836, caixa 7,

nº1.

Correspondência de Remechido para Nogueira em 21 de Março de 1838, caixa 7, nº 1. Correspondência de Remechido para Nogueira em 9 de Junho de 1838, caixa 7, nº1.

Livros

- Anónimo. (1838). Biografia de Remexido. Lisboa. Na tipografia da S. P. das Bellas Letras.

- Anónimo. (1838). Biographya de Remechido o Célebre Guerrilheiro do Algarve. Tavira, Edição da Typographya de Tavira. 1892.

- COSTA, Fernando Dores (1996). Condicionantes Sociais das Práticas de Recrutamento

Militar (1640-1820), Comissão Portuguesa de História Militar, VII Colóquio, Lisboa;

- EXÉRCITO PORTUGUÊS. Estado-Maior do Exército (1987) RC 130-1 OPERAÇÕES. Lis- boa. Departamento de Operações. Volume I.

- FERREIRA, Maria de Fátima Sá e Melo. (2002) Rebeldes e Insubmissos. Resistências Populares ao Liberalismo (1834-1844), Porto, Edições Afrontamento;

- LOPES, João Baptista da Silva (1841) Corografia ou Memória Económica, Estatística e

Topográfica do Reino do Algarve, 1º Volume, Lisboa, Academia Real das Ciências de Lis-

boa.

- MACHADO-CARDOSO, António; António, Luc. (1981) A Guerrilha do Remexido. Lisboa.

Publicações Europa - América. Nº 175;

- MATEUS VILLALVA, Maria Helena Mira; Alina, coord. (2006) O Essencial Sobre a História do Português. Lisboa. 2005.Caminho.

- NOGUEIRA, José Manuel Freire (2004) As Guerras Liberais Uma reflexão Estratégica

sobre a História de Portugal. Lisboa. Instituto da Defesa Nacional. Edição Cosmos;

- OLIVEIRA, Dr. Manuel Alves de. Dir (1987) Moderna Enciclopédia Universal. Lisboa. Círculo de Leitores. Vol 16. Lexicoteca.

- OLIVEIRA, Francisco Xavier de Ataíde de (1909). Monografia de S. Bartolomeu de Messi-

nes, Porto.

- PINTO, José M. Castro (2005) O Remechido Entre a Guerra e o Amor. Lisboa. Plátano Editora.

- SARAIVA, José Hermano. A Revolução de 1820. In: SARAIVA, José Hermano, Dir. (1983) História de Portugal; Vol 5. Lisboa. Publicações Alfa;5;

- SILVA, António Martins. A Vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucio- nal: cartismo, setembrismo e cabralismo. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. Editorial Estampa.

- SILVA, António Martins. A Vitória definitiva do liberalismo e a instabilidade constitucio- nal: cartismo, setembrismo e cabralismo. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. Ano?. Editorial estampa

- TAVEIRA, Alfredo Pereira (1905), Sumário Histórico Sobre a Defesa de Portugal, 2ª parte (1815-1905), Lisboa, Livreiro de suas Majestades e Altezas, M. Gomes Editor.

- VARGUES, Isabel Nobre. Portugal, a Santa Aliança dos Reis e a Santa Aliança dos povos.

In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. Editorial Estampa.

- VARGUES-TORGAL, Isabel Nobre; Luís Reis. Oposições à revolução de 1820 no Triénio

Liberal. In: MATTOSO, José. Dir. História de Portugal- O Liberalismo (1807-1890). Vol 5. Lisboa. 1993. Editorial estampa.

Periódicos consultados:

- CABRITA, Aurélio Nuno. (2005).O Remexido - Traços biográficos de um homem coerente e fiel aos seus princípios. In: Arquivo Municipal de Lagoa. Remexido. Lagoa.

- CARIMBOS DE CORREIO: ALGARVE SÉC. XIX. Arquivo Municipal de Lagoa, Lagoa, Setembro, 2005

Eventos Científicos:

- NOGUEIRA, José Manuel Freire (2005). De Viena a Évora Monte. In: Doutoramento em História Militar, Lisboa, 2005.

Endereços da Internet consultados:

- http://www.remexido.web.pt/ (21 Junho 2006)

- http://www.genealogia.netopia.ptpessoaspes_foto_all.phpstart=128&idx=0&show=g-

(10Outubro06)

- http://www.genealogia.netopia.ptpessoaspes_show.phpid=52250-

(10Outubro06)

Mapas:

- Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Marcos da Serra (Silves), nº578, 1978. (Escala 1:25 000).

- Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. S. Bartolomeu de Messines (Silves), nº587, 1979. (Escala 1:25 000)

- Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. Amorosa (Silves), nº586, 1978. (Escala 1:25 000)

- Portugal. Serviço Geográfico do Exército. Carta Militar de Portugal. Pereiras (Gare). Perei- ras, nº570, 1969. (Escala 1: 25 000)

Materiais multimédia

Arquivo Distrital de Faro. Inventário de Registos Paroquiais em microfilme. Localização:

Concelho de Lagoa, Freguesia de Estombar, Baptismos. Cota ADF/SGU 0452 P.2.1.54.3

Tavira, 10 de Fevereiro de 2011 Tenente INF Pedro Vargas Neves

CONFERÊNCIA 5:

A PARTICIPAÇÃO DO SUL DO PAÍS NAS GUERRAS LIBERAIS

Fui convidado para vos falar hoje sobre A Participação do Sul do País nas Guerras

Liberais no âmbito do II Ciclo de Conferências do RI1 subordinado ao tema O Algarve e as Guerras Liberais. Peço desculpa aos organizadores mas assumi o ónus de alterar, de certa forma, o título da conferência que me foi solicitada limitando-me a falar-vos das Guerras Liberais, sem cuidar especialmente do que, no seu decorrer, aconteceu no Algarve.

É que estou convencido erradamente, talvez de que não se pode tratar convenientemente o

tema pretendido sem percebermos primeiro muito bem a génese e a problemática das Guerras Liberais “tout court”. Procurarei, no entanto, dar algumas ideias gerais do que ocorreu neste reino.

E digo bem reino, porquanto, começo por lembrar que os algarvios só são portugueses desde a

implantação da República, há 100 anos portanto. Desde a sua conquista definitiva em 1249 por D. Afonso III, ainda na 1ª Dinastia, o Algarve constituiu um reino independente que, mais tarde, em 1415 com a conquista de Ceuta, passou a designar-se no plural Algarves (daquém e dalém mar); o Norte de África português fazia parte do dito reino.

Recordo, principalmente para conhecimento dos mais novos e dos menos dedicados à Histó- ria, que a capital dos Algarves foi, até 1640, além-mar em Ceuta assim como, em termos religiosos, ali se situava também a sede episcopal do Bispo do Algarve. Até em termos herá l- dicos os oficiais de armaria eram chefiados pelos reis de armas designados pelas respectivas nações o rei de armas Portugal e o rei de armas Algarve de quem dependiam os arautos designados pelas cidades capitais dos respectivos reinos o arauto Lisboa e o arauto Ceuta.

Esta era a situação vigente aquando dos acontecimentos que iremos tratar. Torna-se necessário lembrar, ainda, que no princípio do século XIX os espanhóis e os france- ses fizeram várias tentativas para tomar conta destes nossos territórios. O Algarve sem qua l- quer ajuda e Portugal com a ajuda britânica conseguiram passar de invadidos a invasores e derrotar o inimigo, já em França, em 1814. Militarmente foi obra de que todos nos podemos e devemos orgulhar, mas cujas consequên- cias foram terríveis em termos económicos, comerciais e financeiros. Portugal e o Algarve saíram vitoriosos, mas … «de rastos», situação que estava longe de estar resolvida aquando da guerra civil. Os franceses, derrotados, deixaram-nos, no entanto, alguns dos novos conceitos saídos da Revolução Francesa que, seis anos passados, germinaram no Porto quando, em 1820, se impôs a D. João VI, ainda no Brasil para onde se tinha retirado em 1807, uma Constituição que, em teoria, passava o poder das mãos do rei para as do povo.

D. João VI regressa à Europa deixando o reino do Brasil, agora integrando de pleno direito o

novo Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve, ali deixando seu filho D. Pedro como seu

representante.

Este D. Pedro, príncipe real do Reino Unido, em 1822, declara unilateralmente a separação do

Brasil e coroa-se como imperador D. Pedro I, assumindo, assim, a nacionalidade brasileira (acrescenta aos nomes de vários dos seus filhos um “de Alcântara Brasileiro”) e renunciando, portanto, à nacionalidade portuguesa (ainda não estava em voga a dupla nacionalidade).

D. João VI morre em 1826, vítima de envenenamento como hoje se sabe ser certo, e deixa um

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