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O Algarve e as Invasões Francesas

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Coordenação e prefácio do COR INF Nuno Pereira da Silva

Novembro 2010
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O Algarve e as Invasões Francesas

Ilustração da Capa: Silva Edição: Colaboradores:

Serigrafia “ Olhão da Restauração” Mestre Mário

Regimento de Infantaria N.º 1 Nuno Miguel Pascoal Dias Pereira da Silva Coronel de Infantaria Comandante do Regimento de Infantaria 1

Paginação, impressão e acabamento: Europress, Lda. Depósito Legal:

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ÍnDICE
PREFACIO ........................................................................................................... 7 O CAÍQUE “BOM SUCESSO”............................................................................. 9 O ALGARVE E A 1.ª INVASÃO FRANCESA .................................................... 21 ALGUMAS EXPRESSÕES ORAIS RESULTANTES DAS INVASÕES FRANCESAS EM PORTUGAL – UM TIPO DE PATRIMÓNIO IMATERIAL................................................................................................... 49 SEBASTIÃO CABREIRA (1763‑1833), UM MILITAR NA REVOLTA CONTRA OS FRANCESES NO ALGARVE ........................................................................ 63 SOBRE A INVASÃO DE JUNOT NO ALGARVE ............................................. 71 NOTAS BREVES SOBRE TAVIRA E AS INVASÕES FRANCESAS ................... 87 INVASÕES FRANCESAS – JUNOT E A RESISTÊNCIA À OCUPAÇÃO ......... 101 D. FRANCISCO GOMES DO AVELAR, BISPO DO ALGARVE, E AS INVA‑ SÕES FRANCESAS........................................................................................... 121 A BRIGADA DO ALGARVE DURANTE A GUERRA PENINSULAR .............. 129 SÍNTESE CURRICULAR DOS CONFERENCISTAS ............................................ 147

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O Algarve e as Invasões Francesas

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PREFÁCIO
O Regimento de Infantaria 1 promoveu um ciclo de Conferências denomi‑ nado “O Algarve e as Invasões Francesas”, no âmbito das comemorações do dia da unidade, que ocorre no dia 27 de Setembro, data em que o Regimento teve um papel preponderante na Batalha do Buçaco, tendo a sua conduta na região de Sula contribuído para a vitória das Forças Anglo Lusas. Durante o corrente ano comemora‑se o bicentenário da vitória das Forças Anglo Lusas em Portugal, contra o exército de Napoleão comandado na última invasão por “Massena”, o filho querido da Vitória, tendo sido em Portugal que pela primeira vez o exército napoleónico foi derrotado no “Campo de Batalha”. O ciclo de Conferências do RI 1, que agora publicamos em livro teve o patrocínio do programa cultural do exército denominado por “Programa Afonso Henriques”, e está integrado nas comemorações oficiais do Bicentenário das Invasões Francesas. Quisemos convidar para este ciclo de conferências reputados cientistas da Universidade do Algarve, Militares, representantes do clero e da sociedade civil, que com os seus saberes muito contribuíram para o cabal esclarecimento desta época conturbada da nossa história. O Coronel Henriques, um dos conferencistas, efectuou uma comunicação oral excelente, que nós apensámos a este livro em CD áudio, pois pensámos que seria difícil e que se perderia muito da sua intervenção se a passássemos a escrito. 7

O Algarve e as Invasões Francesas
Pensamos que este livro muito contribuirá para o conhecimento da História de Portugal e em especial do Algarve, que foi Reino até à implementação da República. Este ciclo de Conferências foi o primeiro a ser organizado pelo RI 1, es‑ tando programado para o próximo ano, iniciarmos um novo ciclo dedicado ao período das “Guerras Liberais” no Algarve, pretendendo no final lançar novo livro aquando das comemorações dos 215 anos do Aquartelamento da Atalaia, que se comemora em Maio do próximo ano. Nuno Miguel Pascoal Dias Pereira da Silva Coronel de Infantaria Comandante do Regimento de Infantaria 1

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O CAÍQUE “BOM SUCESSO”
de Olhão ao Rio de Janeiro, no ano da graça de 1808

Quem se dispuser a passear no Jardim “O Pescador”, fronteiro ao espelho de água da Ria Formosa, entre esta e a Av. Cinco de Outubro, encostado ao topo ocidental dos edifícios dos Mercados, na cidade de Olhão, encontrará aí diversos painéis de azulejos alusivos à história daquela cidade. Um destes, uma réplica de um original da autoria de Jorge Colaço, retrata a Baía de Gua‑ nabara e o porto do Rio de Janeiro, nos princípios do século XIX, vendo ‑se, em primeiro plano, uma pequena embarcação à vela, de dois mastros – um caíque algarvio! Aos estrangeiros e aos portugueses de outras paragens, este painel pouco lhes dirá; os olhanenses, porém, sabem todos por certo, tratar ‑se do célebre caíque “Bom Sucesso”. Esta embarcação fez em 1808 e uma viagem entre Olhão e o Rio de Janeiro, que ficou famosa, relacionada com a revolta de Olhão contra os franceses de Junot, acontecimentos estes que estão na base da elevação da então freguesia de Olhão, a vila, da especificidade desta terra e da identidade das suas gentes. E ali bem perto, mesmo em frente aos edifícios dos Mercados, atracada em cais próprio, flutua uma réplica, à escala natural, do atrás mencionado caíque, que em boa hora a Autarquia mandou construir há cerca de meia dúzia de anos e que proporciona à juventude local cruzeiros e passeios na ria. Neste texto, iremos abordar a viagem do caíque “Bom Sucesso”, ligando o Algarve ao Brasil, realizada de 6 de Julho a 22 de Setembro de 1808, há 9

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precisamente duzentos e dois anos, efeméride que a cidade de Olhão, com natural orgulho, oportunamente comemorou e a que, modestamente, nos quisemos também associar.

Panorama Histórico da época
No início do século XIX, Portugal vivia uma situação, a nível de política externa, muito complexa e difícil. Sob a pressão simultânea da França e da Inglaterra, as grandes potências de então, em conflito, o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, procurava, desesperadamente, manter‑se neutral. Mas, como se sabe, neutrais são os países fortes, que o podem ser, e não aquele que apenas o desejam…e o dilema político era fácil de equacionar: por um lado, uma aliança com a França, a potência continental, significaria o fim do lucrativo comércio com o Brasil, a perda das colónias e das ilhas adjacentes, e muito provavelmente – como então acontecera à cidade de Copenhaga, capital da Dinamarca – o bombardeamento de Lisboa e a des‑ truição da nossa esquadra pela “Royal Navy”; por outro lado, a manutenção dos tradicionais laços de amizade com a potência marítima, a Inglaterra, não teria consequências menos gravosas, pois seria previsível a invasão do reino por tropas francesas e a consequente queda da dinastia de Bragança. E foi isto, exactamente, o que veio a acontecer no Outono de 1807! Napoleão, Imperador dos franceses, insatisfeito com a forma tímida e pou‑ co empenhada como o governo português dera finalmente cumprimento ao “bloqueio continental”, por ele decretado, em Berlim, em 21 de Novembro de 1806, determinou a invasão de Portugal por tropas francesas e espanholas, sob o comando do general Jean‑Andoche Junot. E no tratado de Fontainebleau, acordou com a Espanha, a queda da Casa Real de Bragança e a divisão de Portugal em três pequenos estados. A entrada de tropas estrangeiras, o exército de Junot, em território nacional ocorreu na fronteira da Beira Baixa, em 19 de Novembro 1807, através da ponte sobre o rio Erges, em Segura, marchando aquelas forças depois por Zebreira e Idanha‑a‑Nova até Castelo Branco, onde chegaram dia 21. Este facto forçou o Príncipe Regente a tomar a dolorosa decisão de transferir a Corte para o Brasil, dando corpo a um plano há muito gizado e a que a Inglaterra dava o seu apoio. Assim, mais de 10.000 pessoas, os seus haveres pessoais, os arquivos do Estado, o Tesouro Nacional e muitas riquezas embarcaram na Esquadra e nos navios mercantes surtos no Tejo. Esta imensa frota, de mais 10

O Caíque “Bom Sucesso”
de cinquenta navios, saiu a barra a 29 de Novembro de 1807, para desespero de Junot, que entrou em Lisboa precisamente no dia seguinte e que da areia da praia de Carcavelos, junto à fortaleza de S. Julião da Barra, apenas ficou “a ver navios”… A viagem decorreu sem novidade, sob a escolta de uma pequena força naval do Reino Unido, tendo D. João desembarcado em terras brasileiras, em S. Salvador da Baía, a 23 de Janeiro. Após uma estadia de cerca de um mês, onde avulta a assinatura, a 28, do decreto que determina a abertura dos portos brasileiros ao comércio internacional, o Principe‑Regente continua a viagem que termina, finalmente, a 7 de Março, com o desembarque no Rio de Janeiro, a nova cidade capital do Império Português.

A revolta dos Olhanenses
Entretanto, embora o Príncipe Regente tivesse deixado instruções para que não houvesse resistência, a ocupação de Portugal por tropas francesas e espanholas não se fez pacificamente. Junot dissolveu o exército português, enviando para França os seus melho‑ res quadros – a Legião Portuguesa – sob o comando de D. Pedro de Almeida Portugal, 3.º Marquês de Alorna, e demitiu a Junta de Regência, que D. João havia nomeado antes da partida. Um dos membros desta, a que nos referire‑ mos posteriormente, o Monteiro‑Mor, Conde de Castro Marim, não querendo pactuar com os franceses, retirou‑se para o Algarve, para a sua casa de Tavi‑ ra. Junot lançou também pesados impostos, a que acresciam os desmandos, roubos e saques, que a maioria dos franceses, do soldado ao general, se não coibia de fazer. Nestas circunstâncias, não espanta que o espírito de revolta das populações e o desejo de liberdade, sempre latentes, tenham começado então a germinar e a crescer… Por esta altura, também em Espanha se sucedem curiosos desenvol‑ vimentos políticos: o Rei Carlos IV e o Príncipe herdeiro D. Fernando desentendem ‑se por causa do Primeiro ‑Ministro, Manuel Godoy, simul‑ taneamente amante da Rainha Maria Luísa, e Napoleão, num gesto de aparente apaziguamento familiar, chama ambos a Bayona ; tudo porém, não passava de uma armadilha, pois ali mesmo os dois foram feitos prisio‑ neiros. O Imperador nomeia em seguida o seu irmão José Bonaparte, rei de Espanha. Os espanhóis contudo, reagiram de imediato a esta situação: as manifestações hostis da população de Madrid, reprimidas violentamente pelas tropas de Murat, Duque de Berg, deram origem aos massacres do 11

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“Dos de Mayo” (que Francisco Goya celebrizou na tela), pelas províncias espanholas surgiram diversas “Juntas de Governo” e começou a guerrilha, dando início àquela que mais tarde ficou conhecida na História de Espanha como sendo a “Guerra da Independência”. Neste tempo, era Olhão apenas uma pequena povoação de pescadores, uma freguesia recente, mas próspera e em rápido crescimento. A sua popu‑ lação, de cerca de 5.000 habitantes, vivia da pesca e do comércio marítimo. Uma pequena guarnição de 24 franceses fazia cumprir as ordens de Junot, que proibiam as viagens para longe, para Gibraltar e Marrocos, impedindo também os contactos com a Esquadra Inglesa, que pairava ao largo, e que taxavam fortemente a pesca, para grande insatisfação dos olhanenses. O primeiro sinal de revolta foi dado por João da Rosa, Escrivão do Com‑ promisso Marítimo, que contrariando as ordens em vigor, destapou, na Igreja Matriz, quando das festas de Santo António, a 13 de Junho 1808, as armas reais da Casa de Bragança. Mas só três dias depois a revolta viria a eclodir, mais exactamente, a 16 de Junho. O Coronel Lopes de Sousa, Governador de Vila Real de Sto. António, mas então a residir em Olhão, ao aproximar‑se da Igreja Matriz, para assistir à Missa das dez horas e meia da manhã, no dia do Corpo Santo, ouviu ler um edital de Junot, e logo de viva voz se insurgiu e o rasgou, dizendo mesmo, ...que já não havia portugueses como os de outrora…. “Ah! Portugueses, já não merecemos este nome, nada somos já!”. À saida da Missa levantou‑se então grande burburinho entre os presentes, houve vivas ao Principe Regente e à Casa de Bragança e ali mesmo a popu‑ lação o nomeou seu Capitão, dirigindo‑se todos em seguida para o quartel da guarnição francesa a fim de os prender, como efectivamente aconteceu. Poderemos imaginar o que se terá passado, se observarmos uma tela alusiva a este evento, do pintor olhanense Jorge Timóteo, que se encontra hoje colocada em local de honra no salão nobre da Câmara Municipal de Olhão. Entretanto, o Governador francês do Algarve, o general Maurin, ao saber destes acontecimen‑ tos, procurou concentrar as suas forças em Faro, para submeter os revoltosos, mandando chamar as suas tropas, que totalizavam cerca de mil homens, e que se encontravam na sua maioria na fronteira do Guadiana, pois a Andaluzia revoltara‑se já e obedecia à Junta de Sevilha. Sabendo destes movimentos por terem capturado alguns “correios” franceses, os olhanenses atacaram de surpresa, na madrugada do dia 18, junto da Barra Nova, três embarcações que navegavam pelos esteiros da ria, vindas de Vila Real de Sto. António, capturando cerca de 80 estremunhados soldados franceses e, mais importante ainda, o respectivo armamento e munições. Em seguida, montaram com sucesso uma emboscada 12

O Caíque “Bom Sucesso”
na ponte romana de Quelfes, sobre a ribeira de Marim, provocando a uma coluna de cerca de duzentos granadeiros franceses, muitas baixas entre mortos e feridos. Na tarde desse mesmo dia 18 de Junho, na Meia – Légua, entre Faro e Olhão, defrontaram‑se de novo as milícias olhanenses e as forças francesas, registando‑se algumas baixas de ambos os lados. Um discreto monumento – diria mesmo, talvez demasiado discreto! – Colocado entre a estrada nacional n.º 125 e a linha férrea, em frente a uma casa de cantoneiros, a exactamente 3 kms de Olhão, recorda estes combates. No dia seguinte, 19 de Junho, com o toque a rebate dos sinos das Igrejas, revolta‑se finalmente a população de Faro, situação que depois se estendeu a todo o reino do Algarve, o que obrigou as forças francesas, receosas também de um possível desembarque inglês, que muitos boatos, judiciosamente lançados, referiam, a fugirem sem demora para lá da serra do Caldeirão. Constituiu‑se então em Faro, por eleição, um Supremo Conselho de Re‑ gência, sob a liderança do Conde de Castro Marim, Monteiro‑Mor e, como atrás referido, membro da Junta de Regência que Junot dissolvera. O Conselho organizou a defesa do Reino do Algarve e tomou as primeiras medidas de carácter político‑militar. Mas tornava‑se necessário levar ao Príncipe Regente, no Rio de Janeiro, a notícia do patriótico levantamento dos olhanenses, bem como solicitar a sua concordância com as decisões entretanto tomadas. Um olhanense, Miguel do Ó, membro do Conselho eleito pelo povo, cede então a sua embarcação – o caíque “Bom Sucesso” – alcunhado também de “Dra‑ go”, para esta tarefa, e de imediato se oferecem 17 “valorósos algarvenses”, como os jornais da época lhes chamaram, para o tripularem e fazerem tão arriscada viagem.

Os caíques algarvios
O caíque era uma embarcação muito comum na costa do Algarve, de cerca de 18 metros de comprimento e 5,5 metros de boca, deslocando aproximada‑ mente duas mil arrobas ou trinta toneladas. O casco tinha formas alongadas, com linhas relativamente finas, e as amuras elevadas. A proa era ligeiramente levantada e arredondada, a popa baixa e rasa, quadrada com painel e leme por fora. As amuras eram geralmente decoradas com característicos desenhos de um olho humano de grandes dimensões. O convés era corrido, de vante para ré, dispondo de três ou quatro escotilhas, para serventia. O pequeno pontal obrigava os tripulantes a andarem curvados no interior da embarcação, 13

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o que se tornava muito incómodo e cansativo, sobretudo em viagens longas. Armava dois mastros pequenos e fortes – o “traquete” a vante, e o “grande” a ré – ligeiramente divergentes para cima, onde trabalhavam dois bastardos qua‑ drangulares. Ao virar por davante as vergas normalmente não cambavam, indo uma “de boa volta” e a outra “contra o pau”. A vela do “traquete” era larga e a do “grande” era estreita e de menor área, embora pudesse ter maior guinda (ser mais alta). Com mau tempo a vela do “traquete” rizava (era parcialmente recolhida), enquanto a vela grande era arriada, podendo ser substituída pela “cachapana”, vela com carangueja, isto é, com verga, de menor área vélica e que envergava no mastro. As suas duas velas latinas tinham uma superfície de cerca de 150 m2, e em situações de calmaria podiam também armar dois ou três pares de remos. A sua característica armação vélica, semelhante à das caravelas, tornava‑os velozes e de fácil manobra, e o pano latino permitia‑ ‑lhes bolinar (navegar contra o vento), ganhando caminho contra a direcção do vento. Eram estas embarcações, os “caíques de pesca”, as mais usadas na pesca do alto, ao largo da costa do Algarve, mas também nos mares de Lara‑ che, na pesca da pescada, da cavala e do sarrajão, e noutras áreas da costa de Marrocos. Os “caíques de carrego” transportavam pessoas e mercadorias em viagem de cabotagem ao largo da costa portuguesa. A guarnição de um caíque de pesca era numerosa, constando geralmente de um mestre, vinte cinco a trinta camaradas, quatro moços e dois cães de água; os caíques de carrego tinham apenas cinco tripulantes. Os cães de água eram uma raça de bichos peludos que se colocavam um em cada bordo da embarcação, atentos ao peixe que se soltava das linhas de pesca; o cão saltava então para a água e ia agarrá‑lo, trazendo‑o para bordo, na boca. Diz‑se, e talvez com algum fundamento, que algumas fortunas em Olhão se terão feito certamente, com o contrabando e com os lucros do tráfego para Gibraltar, obtidos nestas embarcações, quando dos diversos cercos a que esta praça esteve sujeita pelos exércitos espanhóis no decurso do século XVIII. No século XIX, os “caíques “de Olhão fizeram muitas viagens pelo Me‑ diterrâneo, foram mesmo até Odessa, no Mar Negro, e pelo Atlântico, até Angola, onde muitos olhanenses se estabeleceram na costa sul, entre Porto Alexandre e a Baía dos Tigres. Este tipo de embarcações entretanto, deixou de ser usado, em meados do século passado (século XX), quando da utilização generalizada da propulsão a motor.

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O Caíque “Bom Sucesso” A Navegação de então
A determinação da posição no alto‑mar, nos inícios do sec. XIX, era ob‑ tida por estima, através da proa da agulha magnética, corrigida da declina‑ ção magnética, e da velocidade, dada pela barquinha, ou calculada a olho, por carteação, obtendo‑se o “ponto de fantasia”. Com o octante (antecessor do sextante) ou com a balestilha ou o astrolábio, que os antecederam, e com uma tabela de declinações do Sol, era possível conhecer a latitude ao meio‑dia verdadeiro, quando aquele astro atingia a altura máxima na passa‑ gem meridiana, com uma precisão muito aceitável, da ordem dos minutos. O ponto obtido com a latitude verdadeira e com a carteação era designado por “ponto de esquadria”. A longitude verdadeira, contudo, era muito mais difícil de determinar. Embora nesta altura já fossem conhecidos métodos astronómicos para a obter, como o das distâncias lunares, e já existissem cronómetros razoavelmente precisos, estes métodos eram pouco práticos e não estavam certamente ao alcance do piloto de uma pequena embarcação, plataforma aliás pouco estável, devido ao balanço, para fazer com precisão observações astronómicas. Por outro lado, a circulação geral dos ventos e das correntes no Oceano Atlântico era já conhecida dos pilotos portugueses, desde os séculos XV e XVI, sendo protegida, como se sabe, com grande secretismo. Para navegar para a costa sul do Brasil era necessário, a partir do arquipé‑ lago de Cabo Verde, progredir para sul e ligeiramente para leste, deixando o cabo Palmas, na costa ocidental de África, a cerca de oitenta léguas, ou cento e cinquenta milhas, pelo través, e após cruzar as calmarias equatoriais, ao começar a receber os ventos alísios da circulação do hemisfério sul, abrir então a proa para oeste e depois rondando sucessivamente para sul, numa rota muito semelhante à usada para demandar a Índia.

A subsistência a bordo
A alimentação da guarnição colocava problemas de planeamento compli‑ cados nas viagens oceânicas. A duração da viagem era de difícil estima, face às contingências dos ventos e das correntes; o número de elementos a bordo era relativamente numeroso e as possibilidades de reabastecimento nos portos de escala por vezes muito limitadas. A base da alimentação era a bolacha ou biscoito, que com o tempo, com a humidade e o calor, ganhava bicho. O pão, trazido de terra, aquecido e 15

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reaquecido, aguentava uma, no máximo, duas semanas. A carne de vaca, ou de porco, o toucinho e o peixe salgados, transportados em barricas, tinham que ser cozidos em água do mar, para perderem parte do sal. Carne e peixe secos, queijo e manteiga salgada, faziam também parte da alimentação. Era também normal transportarem‑se animais vivos para abate, galinhas e patos, leitões e cabritos, e mesmo animais de maior porte; mas isto só era viável em navios grandes e na parte inicial da viagem, pois a água e a alimentação dos animais tinha também que ser transportada. Nas latitudes tropicais alguns peixes voadores podiam bater nas velas e cair a bordo, especialmente se o navio tivesse uma borda baixa, e alguns peixes poderiam mesmo ser pescados ao corrico ou com arpão; mas no mar alto, as capturas eram escassas, embora por vezes se pudesse encontrar uma ou outra tartaruga comestível. Contudo, quando das escalas, ao navegar junto à costa, ou com o navio fundeado, era possível obter peixe fresco, permitindo melhorar e tornar mais nutritivo o rancho da guarnição. Feijão, cereais, batatas e cebolas aguentavam‑se algum tempo; as frutas e vegetais, tinham de ser consumidos nas primeiras semanas, antes que apodrecessem. A falta de frescos, sabemos hoje, originava o escor‑ buto, mal que afectava as guarnições provocando por vezes muitas baixas. Os frutos secos, designadamente os figos e as alfarrobas, as amêndoas e as nozes do Algarve, assim como as azeitonas, muito energéticos, fariam certa‑ mente parte da dieta alimentar dos mareantes. O emprego do fogo a bordo, nomeadamente na cozinha, era objecto de restrições e de severo controlo, o que se compreende em navios de madeira, e para se cozinhar era preciso existirem condições de tempo favoráveis, o que nem sempre acontecia. Além disso, era necessário transportar lenha em quantidade, para assegurar o funcionamento da cozinha. A água era recolhida em fontes e poços de confiança, pouco antes da partida, e transportada a bordo em pipas. Caso não houvesse cuidado em assegurar que a água era potável ao “fazer aguada”‑ e em certas escalas não o era‑ a água poderia ganhar vermes ou apodrecer. De qualquer modo, a sua permanência nas pipas, durante muito tempo, dava‑lhe um sabor a tani‑ no, muito pouco agradável. O vinho era transportado também em pipas ou tonéis, e aguentava‑se durante bastante tempo, embora os calores tropicais o afectassem, e por vezes o fizessem azedar. Era muitas vezes bebido com água, numa proporção de meio por meio. Aguardentes, rum, licores e bagaços eram também transportados a bordo, com fins terapêuticos, ou para serem servidos à guarnição, em circunstâncias ou ocasiões especiais.

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O Caíque “Bom Sucesso” A viagem Olhão – Rio de Janeiro
A viagem iniciou‑se assim, com grande comoção geral, no dia 6 de Julho de 1808, precedida de solene Missa de despedida, celebrada pelo pároco de Olhão, o padre António Malveiro, na Igreja Matriz, de Nossa Senhora do Rosário, em Olhão. A primeira escala, após terem avistado as ilhas de Porto Santo e da Madeira, oito dias depois, foi na cidade do Funchal, onde ganha‑ ram um tripulante adicional: um jovem praticante de piloto, de seu nome, Francisco Domingues Machado, que ali se lhes juntou. Muito embora as informações existentes sobre a forma como decorreu a viagem sejam muito escassas, podemos no entanto, ter uma pálida ideia das suas peripécias e dificuldades. Parece que não dispunham de instrumentos de navegação e apenas levavam uma carta de grande escala. Navegando para sul e para oeste, arrostando com tempestades e calmarias, a uma velocidade média de quatro nós e meio, a embarcação foi sendo levada pelos ventos gerais e pelas correntes até à costa da América do Sul, não chegando assim a escalar, como devia, em Cabo Verde. Verificaram então que se encontravam muito a norte, no paralelo da Guiana, nos cinco graus de latitude Norte, perto de Caiena, colónia francesa, e portanto inimiga. Tiveram assim de se fazer de novo ao mar e progredir para sul, ao longo da costa, muitas centenas de milhas, contra a corrente e com ventos adversos, certamente com longos períodos vencidos à força de remo. Mas passado o cabo Santo Agostinho, nos oito graus de latitude sul, no Nordeste brasileiro, voltaram a ter ventos e correntes favoráveis e escalaram enfim, Pernambuco, após mais de mês e meio entre mar e céu. Depois, continuaram para sul, ao longo da costa do Brasil, até ao Rio de Janeiro, porto onde deram entrada a 22 de Setembro de 1808, concluindo assim, com sucesso, a árdua missão de “correio marítimo”, que o Supremo Conselho de Regência do Algarve lhes havia confiado. Diz‑se que “A sorte protege os audazes”, e assim foi neste caso! Pasme‑se, como uma pequena embarcação de pesca do alto conseguiu vencer mais de cinco mil milhas em mar aberto, arrostando com ventos fortes e mares encapelados, e atravessando áreas frequentadas por navios negreiros e onde operavam numerosos corsários franceses! Esta viagem suscitou grande admiração na época, designadamente na cidade do Rio de Janeiro, sendo a guarnição do caíque alvo de muitas homenagens pela sua façanha. Até José Agostinho de Macedo, padre, polemista e escri‑ 17

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tor famoso, celebrizou este acontecimento, dedicando‑lhe um poema épico, “O Novo Argonauta”, publicado no ano de 1809, de que se transcrevem os seguintes versos: Talvez ignore o frígido Tamisa, E o Sena transformado em sangue e luto, Que o Atlântico mar banhe a pequena E mal sabida Olhão: he esta a pátria Do novo heroe, do vencedor dos mares Co’ as frágeis armas d’hum batel pequeno; Cuja façanha audaz deixa esquecidos De Américo, e Colombo o nome, e os feitos.

Merecidas Recompensas Reais
O Príncipe Regente D. João, consciente do valor do feito, recompensou com largueza e generosidade a guarnição do caíque. Comprou‑lhes a embarcação por seis mil cruzados e guardou‑a no Arsenal de Marinha da Ilha das Cobras, no Rio de Janeiro (no entanto, um pedido nosso de informações à Directoria do Patrimônio Histórico e Cultural da Marinha Brasileira, não permitiu obter quaisquer registos ou referências a esta embarcação). O piloto, Manuel de Oliveira Nobre, foi nomeado Capitão do Porto de Olhão, com um vencimento anual de quatrocentos mil réis, função que desem‑ penhou até à sua morte, em 1850. Terá assim sido, provavelmente, o primeiro “capitão do porto”, cargo inicialmente de características honoríficas, uma vez que só foi regulamentado mais tarde, em 1839. A muitos outros tripulantes foram atribuídas, vitaliciamente, funções autárquicas no novo município de Olhão. Foi‑lhes ainda concedido o hábito da Ordem de Cristo, com uma apetecida tença anual, bem como postos na Marinha de Guerra e – talvez o mais importante para mareantes e pescadores – foi‑lhes concedida isenção do imposto de pescado para as suas lanchas. Reconhecendo as acções patrió‑ ticas dos olhanenses, D. João respondeu ainda ao pedido de alvíssaras que lhe havia sido feito, atribuindo o merecido e tão desejado estatuto de “Vila” à freguesia de Olhão, que desde então, com justo orgulho, se passou a de‑ signar por “Vila do Olhão da Restauração”. Por alvará de 15 de Novembro, o Príncipe Regente concedeu aos seus habitantes o uso de uma medalha, na qual estava gravada a letra – O – com a legenda “Viva a Restauração e o 18

O Caíque “Bom Sucesso”
Príncipe Regente Nosso Senhor”. Além disso, D. João fez do Monteiro‑Mor, Conde de Castro Marim, D. Francisco de Mendonça e Menezes, o primeiro Marquês de Olhão. A embarcação levava como mestre, Manuel Martins Garrocho e como pi‑ loto, Manuel de Oliveira Nobre. Na cidade do Funchal embarcou ainda um jovem praticante de piloto, Francisco Domingues Machado, como já atrás foi referido. O jornal “O Telégrafo Português”, de Maio de 1809, refere uma tripulação constituída por dezassete “algarvenses” que, segundo o historiador olhanense Alberto Iria, já falecido, e cuja obra nos serve de referência, terão sido: António da Cruz Charrão, António Pereira Gémeo, António dos Santos Palma, Domingos do Ó Borrego, Domingos de Sousa, Francisco Lourenço, João Domingos Lopes, João do Moinho, Joaquim do Ó, Joaquim Ribeiro, José da Cruz, José da Cruz Charrão, José Pires e Pedro Ninil. Algumas famílias tradicionais de Olhão, descendentes destes valorósos ma‑ reantes, conservam ainda hoje relíquias destes tempos, tais como espadins e medalhas oferecidas pelo Príncipe Regente, e pergaminhos, amarelecidos pelo tempo, com os alvarás de nomeação para cargos autárquicos, ou da isenção do imposto de pescado. No Museu da Cidade, no Largo da Restauração, em Olhão, podem‑se ver alguns destes testemunhos materiais, bem como o ori‑ ginal “Livro do Compromisso”, narrando os acontecimentos a que nos vimos referindo, registados pelo escrivão João da Rosa.

Uma breve nota final
Nasci em Lisboa, estudei em Lisboa e considero‑me um lisboeta, mas sou descendente de algarvios, do lado materno e paterno, e também tenho raí‑ zes em Olhão. Em casa de minha avó materna, Noémia Machado Godinho, nascida em Olhão em 1893 e falecida em Lisboa em 1975, por diversas vezes ouvi referências a termos tido um antepassado tripulante do célebre caíque, mas não me lembro de lhe ouvir dizer qual o seu nome. Porém, consultando algumas certidões de nascimento, obtidas recentemente no Arquivo Distrital de Faro, foi possível identificar um antepassado, José da Silva Vaz, descendente directo do tripulante Joaquim Ribeiro, que também assinava Joaquim do Ó Ribeiro, e que portanto, terá sido meu avô em sexto grau. Esta constatação é assim uma razão adicional para me interessar por uma viagem, a todos os títulos notável, que mostrou à evidência o espírito de coragem e deter‑ minação dos olhanenses de então, credores, hoje e para sempre, da nossa 19

O Algarve e as Invasões Francesas
admiração e das nossas homenagens, a que eu próprio me desejo também publicamente associar. Tavira, 21 de Setembro de 2010 Alexandre da Fonseca V/Alm

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O ALGARVE E A 1.ª InVASÃO FRAnCESA
António Rosa Mendes (Universidade do Algarve)

1. Fevereiro de 1808: os franceses ocupam o Algarve
Desde que na Primavera de 1249 o rei D. Afonso III descera a apoderar‑se de Faro e do restante pouco que os mouros ainda ocupavam no barlavento algarvio, nunca o “Reino do Algarve” – que de facto jamais existiu como tal –, doravante definitivamente incorporado na Monarquia Portuguesa, sofrera uma invasão estrangeira. Como bem notava pelos finais do século XVIII Damião Faria e Castro, “o Algarve nas guerras com Castela ordinariamente a barreira dos montes e do Guadiana o faz ser lugar de descanso”1. O vizinho castelhano era o inimigo recorrente e belicoso, mas a ríspida serra a norte e o largo rio a leste embargavam‑lhe o passo; as ameaças sur‑ giam antes do mar, e mesmo daí a costa ocidental, escarpada e hostil, não convidava a desembarques; exposta ao perigo, sobretudo do crónico corso magrebino, só a fachada sul, que abria ao Golfo de Cádis e ao Mediterrâneo. Ocasionalmente, outros temíveis piratas a demandavam. Num terrível Verão de 1596, vindos precisamente de saquear a cidade de Cádis, os ingleses do Conde de Essex fundearam na praia de Farrobilhas, junto da herdade do Ludo,
1 Castro, Damião António de Lemos Faria e, História Geral de Portugal, e suas Conquistas, t. XVIII, p. 219.

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O Algarve e as Invasões Francesas
a 24 de Julho, e numa orgia de dois dias de pilhagens arrasaram e acabaram incendiando uma Faro indefesa e abandonada. A 27, depois de carregarem o que de valioso puderam arrecadar, despediram2. Fora uma surtida de sal‑ teadores, não uma invasão. De resto, periférico e deprimido, ruralizado e desvitalizado, o Algarve não atraía a cobiça de ninguém. Intentara o Marquês de Pombal, entre 1770 e 1777, uma “Restauração do Reino do Algarve” que todavia não logrou inverter o marasmo e se frustrou, deixando apenas marca visível na fundação de uma nova urbe, Vila Real de Santo António. Na entrada do século XIX, o Algarve era irrelevante e não pesava. Contudo, nem por isso escapou incólume ao medonho torvelinho que então assolou a Europa, quando a França napoleó‑ nica se enfrentou à Grã‑Bretanha pela hegemonia mundial. No jogo das alianças que as duas potências gizaram, Portugal estava amarrado aos interesses britânicos, enquanto Napoleão engodou a Espanha. Pelo Tratado de Fontainebleau, celebrado em 27 de Outubro de 1807, franceses e espanhóis acordaram na repartição arbitrária do território português, a eito retalhado em três pedaços, a faixa central para os primeiros, o norte acima do Douro e o sul – Alentejo e Algarve – para os segundos. À data desse Tratado já o exérci‑ to comandado por Junot se pusera em movimento. Entrou pela Beira, e a 20 de Novembro estava em Castelo Branco; a trancos e barrancos, demorou dez dias até atingir Lisboa; na véspera, 29 de Novembro, a família real portuguesa e a nobreza palaciana abalavam do Tejo barra fora, com destino ao Brasil; o Príncipe‑Regente D. João evitara in extremis a captura, mas deixava aos portu‑ gueses a recomendação de acolherem hospitaleiramente os invasores. Instaurava‑se assim um regime de colaboracionismo. Mesclaram‑se nas élites dirigentes, mormente na aristocracia mas também nos sectores burgueses, o medo, a subserviência e até a adesão oportunista; aceitavam tudo, desde que para já preservassem postos e privilégios, porque mais que tudo, mais que os franceses, temiam a reacção popular. Aí acudiu a autoridade moral da Igreja, apelando à ordem e à tranquilidade; os bispos, em uníssono, multiplicaram‑se em pastorais apaziguadoras; o do Algarve, afinando por esse melífluo diapasão, exortava aos seus diocesanos: “Lembrem‑se que este exército é de Sua Majestade o Imperador dos Franceses e Rei de Itália, Napoleão o Grande, que Deus tem destinado para amparar e proteger a religião e fazer a felicidade dos povos. Confiem com segu‑ rança neste homem prodigioso, desconhecido de todos os séculos: ele derramará

2

Ver Magalhães, Joaquim Romero, O assalto dos ingleses a Faro em 1696.

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O Algarve e a 1.ª Invasão Francesa
sobre nós a felicidade da paz, se respeitarem as suas determinações…”3. Legítimo ou intruso – questão que para a doutrina oficial da Igreja se não punha, porquan‑ to emanava sempre da vontade divina –, o poder absoluto requeria submissão absoluta, cumprindo aos povos acatá‑lo e sofrê‑lo com resignação. As autoridades locais agiram pressurosamente em conformidade. As de Faro, então, excederam‑se em zelos e servilismo. Logo em 9 de Dezembro de 1807, a Câmara Municipal providenciava medidas para alojar condignamente as tropas francesas ou espanholas que se esperavam na cidade; as freguesias do concelho foram intimadas a aprovisionar essas tropas com lenha em abun‑ dância e palha de centeio para os enxergões; e convocava para o próximo dia 11 magna reunião plenária de “todas as pessoas desta Cidade, tanto da primeira ordem, Nobres e Eclesiásticas, como mais pessoas do Povo, para se tratarem negócios que respeitam ao bem comum desta Cidade e seu Termo”; tudo isto com a cominação “de ficarem suspeitos os que faltarem”4. Em 17 seguinte, instava pela urgência dos preparativos: aquartelamentos decentes para a soldadesca, habitações cómodas e bem trastejadas para a oficialagem5. Os camaristas farenses queriam mostrar serviço aos “hóspedes”. Acabaram estes por chegar em 22 de Janeiro de 1808 e, consoante previa o convénio de Fontainebleau, eram espanhóis. Permaneceram exactamente um mês, aboletados no Palácio Episcopal por deferência de D. Francisco Gomes do Avelar, a quem, escreve o reitor do Seminário de Faro, “fizeram grandes obséquios de honra, agradecendo‑lhe por fim o bom acolhimento que suas tropas acharam neste povo, devido tudo à boa disciplina eclesiástica que o mesmo Senhor tanto recomendava nas suas homilias ao mesmo povo” 6. Mas em 22 de Fevereiro os espanhóis retiravam. Receberam inopinadas ordens para partir, e horas depois eram rendidos pelo general francês Antoine Maurin à frente de duas colunas de cerca de quatrocentos homens. O motivo da substituição estava na derrogação da cláusula do Tratado de Fontainebleau que atribuía à Espanha o sul do território português; no passado 1 de Feve‑ reiro, Junot decretara formalmente abolida a soberania do Príncipe‑Regente D. João e que o Reino de Portugal passaria a ser governado na totalidade por ele próprio, Junot, em nome do Imperador. Como consequência, destacou
3 4 5 6

Ver Brandão, Raul, El‑Rei Junot, p. 155. Ver Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 14, pp. 346‑347. Ver idem, ibidem, doc. n.º 15, p. 347.

P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 79.

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Maurin para o comando militar do Algarve; nos finais de Março enviou um reforço de mil soldados e um delegado civil, Goguet, designado corregedor ‑ ‑mor e encarregado de dirigir a administração pública. Maurin, tal como os antecessores espanhóis, foram recebidos em Faro com inexcedíveis obséquios. Instalou‑se numas casas senhoriais ao lado do “Arco da Vila” (onde hoje está o Governo Civil) que o bispo D. Francisco Gomes do Avelar mandara erguer, e nesses aposentos, refere o reitor do Seminário, “foi cumprimentado pela Nobreza, em cujo número entrava o Exm.º Senhor D. Francisco oferecendo‑lhe seu palácio para quartel, que não aceitou para si, mas sim para um seu ajudante, quatro criados, e seus cavalos”7. Acrescenta o reitor que o general “quis cativar os ânimos da Nobreza com um jantar público em dia de Ramos, para que foi convidado o Prelado do Bispado que não aceitou alegando moléstia, e actual trabalho naquele dia solene” 8. D. Francisco, prudente, escusou‑se… A nobreza, solícita, acorreu ao abjecto beija‑mão. Ocorreu isto a 10 de Abril de 1808. No dia 14, quinta‑feira santa, diz João da Rosa9 que entraram as tropas francesas no Lugar de Olhão, uma povoação
7 8 9

Idem, ibidem, p. 80. Idem, ibidem, loc. cit.

Nesse ano de 1808 João da Rosa era escrivão do Compromisso Marítimo. Tinha experiência na função, que vinha há muito exercendo em mais de uma confraria: pelo menos desde 1790 na do Santíssimo Sacramento, entre 1798 e 1805 na de Nossa Senhora da Soledade. Pertencia à selecta mi‑ noria dos que por então eram capazes de, mais do que rabiscar o nome – raro o que não assinasse de cruz –, redigir umas laudas de prosa; um dos seus contados pares seria talvez Manuel de Gouvea Pai Avô, que em 1806 acumulava de escrivão da Fábrica da Igreja e da confraria de Nossa Senhora da Soledade; sujeito letrado, sem dúvida, o Dr. Feliciano Peres, “médico aprovado e partidista deste Lugar”, que em 1803 intervém como testemunha num testamento; e noutro testamento, este de 1793, foi igualmente testemunha Francisco Baptista, identificado como “mestre de meninos”. Eles, a que há que evidentemente somar o próprio escrivão desses testamentos, Tomé de São Pedro, quase que perfariam o escol alfabetizado daquela sociedade local em que saber ler era privilégio de poucos e saber escrever de menos ainda. À‑parte, claro, o pároco e os clérigos seus ajudantes, por exigência do múnus que desempenhavam. De resto, nada mais se conhece acerca desse escrivão João da Rosa a não ser uma curta menção de Ataíde Oliveira dando‑o como “casado com Ana Maria, e morador no Bairro do Pelourinho”. Como quer que seja, é positivo que com três dedos da mão pegou da pena e lavrou um relato dos “casos sucedidos” em Olhão no ano de 1808. Lembrança lhe chamou. É um documento único, embora não o único documento coevo que regista esses sucessos. Para os reconstituir, a todos haverá que recorrer; porém nenhum deles apresenta, como o de João da Rosa, a sinceridade e a espontaneidade que são timbre dos depoimentos fidedignos; além do mais, a imedia‑ ção resultante de provir de uma testemunha directa dos factos. E depois, nisso se singularizando dos que logo foram estampados pela imprensa, o texto de João da Rosa não se destinava à publicidade; efectivamente, ele escreveu‑o no livro do Compromisso Marítimo, a folhas 196‑200, entre cópias de ordens, alvarás, provisões, sentenças e outros assentos vários, para ali trasladados pela sua utilidade e porque nesse tempo não existiam no Algarve prelos. Era tão‑só uma Lembrança, uma singela Lembrança para ficar na memória dos valorosos marítimos deste Lugar de Olhão… Veja‑se a edição actualizada deste texto fundamental, com o título de O Manuscrito de João da Rosa, revista e anotada por António Rosa Mendes, Helena Vinagre e Veralisa Brandão, Câmara Municipal de Olhão, 2008.

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O Algarve e a 1.ª Invasão Francesa
de mareantes e que pertencia ao concelho de Faro. E vai ser nesse Lugar de Olhão que cerca de dois meses volvidos, a 16 de Junho, eclode o levantamento popular contra o invasor. Indaguemos, pois, as motivações mais fundas dessa primazia olhanense que pôs termos à ocupação francesa do Algarve.

2. Dois meses de desespero
Instalaram‑se os franceses em Olhão nos meados de Abril, e daí a mea‑ dos de Junho foi um crescendo de tensão, dois meses em que a massa da revolta levedou. Exteriorizava‑se de início só pelos olhos, que sempre são o espelho da alma e não mentem: uns “olhos de veneno e má vontade” com que segundo João da Rosa os olhanenses miravam de esguelha os intrusos, os quais “diziam em Faro que a gente deste Lugar era má gente que nunca olhava para eles com olhos direitos”10. Sobejavam‑lhes os motivos para o mau olhado. Numa localidade marítima como Olhão, onde todo o mundo vivia do que agenciava na pesca e na ca‑ botagem, a presença dos ocupantes, que se comportavam como saqueadores sem escrúpulos, afectou todos os circuitos económicos e todas as normas que os regulavam como malha apertada, e introduziu assim uma instabilidade so‑ cial sem precedentes. Às demasias do fisco estavam eles acostumados. Agora, contudo, era muito mais grave do que esses excessos que por reiterados se tornaram usuais; agora eram os abusos e as prepotências às escâncaras. As extorsões fiscais, mal que bem, suportavam‑se: estavam na ordem natural das coisas. O que perturbava o monolítico sistema mental que ao fim e ao cabo aceitava essa ordem eram a confusão e a incerteza provocadas pela arbitra‑ riedade dos novos senhores. Já se não sabia com o que contar. Caíra‑se no império da violência iníqua e despótica, da devassidão e da corrupção des‑ caradas. Não podia haver maior factor de desestabilização naquela sociedade moldada por parâmetros de rígida previsibilidade. João da Rosa é muito eloquente a respeito. Lendo‑o atentivamente, percebe‑se que as atribulações materiais se dobravam em psicológicas. Eram os tributos acrescidos, sim; mas era muito mais do que isso. Ele era os barcos todos numerados, para não escaparem ao controlo, sequer as míseras lanchi‑ nhas dedicadas à apanha da amêijoa ou da murraça na ria; ele era o imposto extraordinário de 88 mil réis mensais para o faustoso sustento de Maurin e, como se não bastasse, a humilhação de terem de deslocar‑se a Faro entregá‑lo
10

O Manuscrito de João da Rosa, p. 17.

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ao sátrapa; ele era os foros de casas e terras e as dízimas do pescado, antes cobrados pelas autoridades portuguesas e agora pelas francesas; ele era a exigência infame de que qualquer “barco de navego” esportulasse dez moe‑ das de ouro por viagem, “fora o que dava mais ao Governador francês que estava assistindo neste Lugar de Olhão”11; ele era, para cúmulo, os latrocínios cometidos nos objectos sagrados, cruzes, lâmpadas, coroas das imagens e “tudo que tocava a prata”12 rapinado para fundir e enviar para França. Era, em suma, a quebra abrupta das rotinas estabelecidas e a cujo compasso imperturbável a vida transcorria por seus eixos, dura e ruim porém previsível como o ritmo cósmico das estações. Um desarranjo que feria “principalmente este Lugar de Olhão, sendo uma das terras deste Reino do Algarve que lhe foram carregados mais tributos, chegando mais que até o Governador francês que estava mandando e governando este povo obrigava este Compromisso lhe dar peixe todos os dias por deixar ir os pescadores ao mar a pescar, e não os deixava ir senão alto dia com sol e vir com sol, sendo que se alguém não viesse a horas os mandaria prender”13. Tal o escabroso rol de vexames que João da Rosa especifica na sua Lem‑ brança; na carta que em 2 de Julho escreveu ao Príncipe‑Regente e que o caíque “Bom Sucesso” levou ao Brasil, o mesmo João da Rosa compendia os gravames: “Contribuições avultadas umas sobre as outras; a tudo estava sujeito este Povo, e este Reino; e demais só deste Real Compromisso fomos obrigados a dar ao General Francês do Algarve para seu prato a quantia de 88 mil réis por mês a fim de conceder licença para estes pobres mareantes irem pescar, não falando naquilo de que pagam de vinte por cento, e não se viam mais que violências, e opressões”14. O Padre João Coelho Carvalho confirma: “Os governadores das praças obrigaram os mestres dos barcos de pesca a pagar um tanto por mês, os de Faro pagavam a 400 e os de Olhão a 600 réis”; a tudo se concedia licença, “contanto que pagasse bem”; e tudo servia “de pretexto para sacar dos navegantes avultadas quantias para conse‑ guir faculdade de navegar”15. José Acúrsio das Neves também é lapidar: “Por dinheiro se fazia tudo”16.
11 12 13 14 15

Ibidem, p. 13. Ibidem, loc. cit. Ibidem, p. 15. In Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 86, p. 388.

P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 80.
16 Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 1, p. 360.

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Era tudo isso, pois; era, revertendo à Lembrança de João da Rosa, verem‑ ‑se “estes miseráveis marítimos, por todas as partes, por mar e por terra, com tantos tributos, em miserável estado, vendendo as suas roupas e alfaias de casa quase dadas, quase menos pela metade, perdendo muitos dias de irem ao mar pelas encomendas que o francês lhes dava”17. Era tudo isso, enfim, mas era ainda mais – e o mais vibra e palpita nesta perícope quase sacrílega com que o escrivão do Compromisso apostrofa o próprio mar que era fonte de subsistência e a própria divindade que era fonte de tudo: “E mais era que parecia que o Nosso Senhor e o próprio mar estavam contra eles, que iam dias e dias ao mar e não matavam nada, que parecia que se tinha secado todo o mar e todo o peixe no mar”18. Até Deus os desamparara; e o mar, estéril. Chama‑se a isto dizer tudo em pouco. Numa palavra: desespero.

3. O 16 de Junho, “dia de gloriosa memória”
E a 16 de Junho – rebentou, explodiu. Vinha‑se acumulando em surdina, insidiosamente, a custo represo e como que aguardando momento azado para deflagrar. Aparentemente, os franceses ou não detectaram ou subestimaram a carga de electricidade que ia saturando a atmosfera. Goguet, o corregedor‑mor, reportava em 11 de Maio para o seu superior em Lisboa, o Intendente‑Geral da Polícia Lagarde, que a província de que era administrador gozava de um sossego pouco menos que idílico; pacatíssimas as gentes, e qualquer veleidade de desordem fácil de neutralizar19. Em outro relatório, de 19 de Maio seguinte, louva o bispo Avelar: prelado de confiança, muito respeitado e muito estima‑ do, tem sobremaneira contribuído para manter a tranquilidade pública; enfim, assevera o ilustre mandarim, “tout est calme dans les Algarves” 20. Mas talvez o bispo não estivesse tão seguro disso. Só assim se explica que a 21 do mesmo mês emitisse uma pastoral exortando o seu rebanho “a que vos lembreis que a nossa Santa Lei e Religião nos manda que procuremos sempre viver em paz com todos, e sujeitar‑nos a quem governa com uma

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O Manuscrito de João da Rosa, p. 13. Ibidem, loc. cit. Ver Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 49, pp. 371‑372. Idem, ibidem, doc. n.º 52, pp. 372‑373.

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perfeita sujeição e obediência, e tratar a todos os nossos próximos, e as tropas que ao presente se acham entre nós, com afável caridade, para merecermos a protecção do Senhor, que é Deus de paz, e deste modo mostraremos ao Augusto Imperador e Rei que satisfizemos às suas boas intenções”21; o pre‑ caucioso lembrete do vigilante pastor delata que este pulsava pruridos de indisciplina entre as suas ovelhas. Não, nem tudo estava calmo no Algarve. O tempo, farejava‑o o bispo, aberruntava vendaval. Entrou Junho, mês festivo da tradição dos santos populares, principiando pelo “nosso Santo António português, cuja imagem temos na capela deste Compromisso”22. O escrivão João da Rosa tratou de véspera ir arranjar a dita capela, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, para a função do dia 13; e estava ele nesses preparos quando de repente – “de repente, olhando para as armas reais que estão na dita capela, na Igreja, que se achavam já há muitos meses tapadas e pregadas com pregos”, de repente arrancou de supetão o painel que as ocultava e pô‑las a descoberto, “sem olhar a mais nada, confiado em Deus e Nossa Senhora da Conceição e no nosso Santo António”23. Agiu por impulso, como se tira destas palavras em que fala de si próprio e do seu acto na terceira pessoa, e desacatou ostensivamente a proibição, em vigor desde o 1 de Fevereiro passado, de se exi‑ birem em público os símbolos do Reino e as insígnias da Casa de Bragança. Aquele dia de Santo António decorreu exaltado: “vindo o povo deste Lugar à missa, vendo as armas reais destapadas, se lhe infundiu na alma e no coração aquele amor e lealdade” e as embarcações surtas na praia “levantaram a ban‑ deira portuguesa acima, sem temerem o inimigo nem a mais nada senão a sua liberdade e serem fiéis ao nosso amado Príncipe”24. Já na noite anterior, relata o bem informado major Landerset, “haviam os de Olhão aclamado o Príncipe‑ ‑Regente Nosso Senhor, e arvorado a Bandeira Portuguesa no tope de um grande mastro enramalhetado, que cravaram na terra, à roda do qual, de mistura com os cânticos que usam dedicar ao Santo, fizeram ressoar os vivas à Sereníssima Casa de Bragança: e foi tão geral o contentamento, e forte o entusiasmo de que se possuíram ao verem soltas as Reais Quinas, que a terem então quem os dirigisse teriam voado às armas como fizeram três dias depois”25.
21 22 23 24 25

Idem, ibidem, doc. n.º 12, pp. 344‑345. O Manuscrito de João da Rosa, p. 17. Ibidem, loc. cit. Ibidem, loc. cit.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 459.

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Três dias depois, quinta‑feira, calhava a celebração de preceito do San‑ tíssimo Corpo de Cristo, na folhinha do calendário litúrgico uma daquelas solenidades em que os fiéis são obrigados, sob pecado mortal, a assistir ao santo sacrifício da missa. Dobravam os sinos a chamá‑los, eram pelas dez e meia da manhã, o adro da Igreja de Nossa Senhora do Rosário estava ates‑ tado de gentio. Nesse comenos, chega o coronel José Lopes de Sousa. Viria fardado a preceito, muito hirto e aprumado dentro do uniforme de jaleco azul ferrete com gola e canhão de veludo cor de laranja, brancos os botões e as pan‑ talonas, botas negras com esporas, pendente do boldrié o sabre faiscando nas guarnições de prata, na cabeça o casco alto com penacho escarlate que lhe magnificava a estatura. Achava‑se ele em Olhão porquê, se, militar de carreira, era desde 1787 governador da praça de Vila Real de Santo António? Na primeira linha da sua Declaração adianta logo que “para convalescer das suas moléstias”26; João da Rosa, na carta de 2 de Julho ao Príncipe‑Regente, dá‑o como “retirado” daquele governo e residente “neste Lugar por não que‑ rer estar debaixo das ordens do General Junot”27; na Lembrança confirma e acrescenta significativamente que os olhanenses o “já tinham chamado a si por este se ter ausentado de Vila Real para não estar sujeito ao francês, vindo assistir neste Lugar sem mando, mais a sua família”28. Com efeito, uma filha do coronel, Ana Joaquina, natural de Elvas, morava em Olhão com o marido, o capitão João Martins Pereira. Tudo indica pois que Lopes de Sousa pedira baixa (e o francês lha concedera de bom grado, sendo sua política licenciar a oficialagem portuguesa) e viera residir – “assistir” – para Olhão, em casa de filha e genro. Homem daquela patente e prestígio, demais a mais familiar‑ mente enraízado no Lugar, suscitava, do alto dos seus 63 anos de idade, a consideração geral; e estava ao corrente dos últimos sucessos, não lhe sendo difícil avaliar o estado de espírito da população. E naquela manhã, ao dirigir‑se para a missa, por entre magotes de gente irrequieta, que à passagem se descobria e o saudava com respeito – “Muito bom dia, Senhor Coronel!” –, já ele a trazia fisgada? É de crer que sim. Ao invés de João da Rosa, que no destapar das armas reais operara sponte sua, de arremesso, sem prévia deliberação, José Lopes de Sousa muito provavel‑
26 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 303. 27 28

In Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 86, p. 388. O Manuscrito de João da Rosa, p. 19.

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mente traria engatilhada a arenga que desfechou à chusma de marítimos e mais povo. Uma fala incisiva que João da Rosa reproduz em meia dúzia de palavras no discurso indirecto: “que já não havia homens do mar marítimos como os antigos”29. O coronel, como se aprecia, soube tocar‑lhes a corda sensível… O pretexto para o ex abrupto seria o edital de Junot, datado do 11 de Junho anterior, “pregado à porta da Igreja”, segundo João da Rosa 30, “afixado ao lado da porta da Igreja”, segundo o próprio Lopes de Sousa 31; tanto monta; pretende o coronel que “muita gente lia” esse papel, o que se afigura inverosímil (quanto muito alguém o deletreava em voz alta, para os circunstantes); e acresce que o teor do anúncio – uma invectiva contra as tropas espanholas que Junot mandara desarmar após o general Ballesta, no Porto, se ter insubordinado – não seria de molde a sobreexcitar os ânimos; só se fosse por terminar com um “Viva o Imperador Napoleão” e ostentar o ominoso selo do ocupante. Funcionou como causa oportuna e eficiente, e a não ser essa outra seria, que o coronel vinha disposto a atear o rastilho. Não havia como desaproveitar ocasião tão propícia, dia santo de guarda, o povo na rua, em ponto de ebulição e, demonstrara ‑o pelo Santo António, disposto a tudo. Ao repto do instigador responderam todos em uníssono. “Todos”, como já ficou notado, é advérbio que compulsivamente escorre da pena de João da Rosa: “eles todos juntos a uma voz lhe responderam que eles eram homens como os seus antecessores e bons e fiéis vassalos a Sua Majestade e que por ele queriam morrer e dar até a última pinga de sangue do seu corpo, dizendo mais que os mandasse e governasse como seu chefe, que para tudo estavam prontos e mais que prontos”32. Não se ficaram pelas vozearias. Continua o escrivão: “E logo sem mais demora, correndo cada um que mais podia a rasgar o edital que estava pre‑ gado na porta da Igreja e o fizeram em bocadinhos e o pisaram aos pés…”33. Esta a versão da Lembrança; a da carta ao Príncipe‑Regente, não obstante ser do mesmo punho, difere um tanto: aí diz que quem “o rasgou” foi José
29 30 31

Ibidem, loc.cit. Ibidem, loc.cit.

“Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 303.
32 33

Ibidem, loc.cit. Ibidem, loc.cit.

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Lopes de Sousa34; este, na Declaração, é terminante quanto à sua autoria: “… deita mão ao terrível edital, ele o arranca, rasga e pisa aos pés” 35. Talvez que João da Rosa conglobasse num só, por economia narrativa, dois momentos; é que um segundo exemplar do edital estava afixado “no pelourinho” – isto é, no edifício da cadeia36 – que distava da Igreja umas centenas de metros, e precipitaram‑se “outros logo correndo ao pelourinho a fazer o mesmo ao outro edital”37. Ou então quis, na carta ao Príncipe‑Regente, propositadamente endossar os louros do temerário gesto ao coronel. Após este cena tumultuária no adro, entraram de roldão no templo. Deu ‑ ‑se início à missa, “e durante ela sente‑se”, regista Landerset, um “continuado sussurro”38. E como não, se todo o mundo andava com azougue nas veias! Oficiava o padre António de Matos Malveiro, que anos mais tarde reivindicaria “a honra de ser o primeiro que neste Reino de V. Majestade deu na missa a collecta pro Rege, de que os celebrantes estavam privados pelas extravagantes leis do Tirano”39. Esta collecta pro Rege tem sido aturadamente confundida com um… “peditório para o Rei”! Como se o monarca de Portugal, reino que era seu património e de que era por direito divino omnipotente dono e senhor, fosse um indigente para quem se esmolasse! O padre deu (não “fez”, como comummente escrevem os néscios em matéria de liturgia) pro Rege (pelo Rei, e não “para o Rei”, como os mesmos ignorantes do latim elementar traduzem) a collecta, uma oração dita pelo sacerdote em plena missa e em nome de todos os presentes, por essa designação de collecta se querendo significar que ele reúne, colecta, recolhe numa só, dando‑lhes destarte pública expressão, as súplicas silenciosas de todos os fiéis. Braços estendidos em cruz, virado para a nave pejada, padre Malveiro orou algo a modos de: “E livrai de todas as adversidades a nossa Rainha, o nosso Príncipe‑Regente, a nossa Família Real…”. Uma prece interdita pelos franceses, que ordenaram substituir a in‑ vocação dos governantes portugueses pela de Napoleão.

34 35

Ver Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 86, p. 388.

“Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 303.
36 Antero Nobre demonstrou concludentemente que “pelourinho” era o nome por que era cha‑ mada a cadeia. Ver “As Justiças de Olhão”, in Opúsculos Históricos sobre Olhão, pp. 102‑106. 37 38

O Manuscrito de João da Rosa, p. 19.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 459.
39

ANTT, Min. Reino, maço 246, cx. 330.

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Posto isto, se as cabeças referviam escandecidas, mais escandecidas fica‑ ram. Malveiro acabou de vulcanizar uma assembleia já de si incandescente. Assim que pronunciou o proverbial: Ite, missa est – um latim que toda a gente entendia à perfeição e com que se dava por finda a cerimónia –, saíram para o adro e aí recresceu a multidão no mais desarvorado tumulto. Estrugiam nos ares os sinos a rebate e o confuso alarido dos “vivas” ao soberano de Portugal e “morras” ao Imperador dos franceses. Caudilho aclamado daquela patuleia, José Lopes de Sousa curou de acalmar a balbúrdia e imprimir alguma disciplina nas hostes: “O Governador os sossega, e lhes ordena…”, exprime ele na Declaração40. Dado que a prioridade fosse obter armamento – porquanto, no inventário de João da Rosa, as “armas que havia na terra eram forcados, fisgas, besteiros e paus, espadas velhas, espadins, paus, pedras”41…”, as ordens foram para o ir buscar às fortalezas da Armona e de São Lourenço; tanto João da Rosa como Lopes de Sousa usam esse verbo, “buscar”, o que denuncia haver pré‑ vias inteligências com os respectivos comandantes. Contudo, se o primeiro, o sargento Jacinto Ramalho Ortigão, “logo entregou a eles marítimos tudo o que lá tinha em seu poder, sem pôr a menor dúvida, que constava de duas peças de bronze, uma caixa de pólvora e mais munições, e chegando ainda mais que ele mesmo mais os seus soldados embarcaram dos barcos e nos vieram ajudar”, já o segundo, o tenente José Alberto, “obrando pelo contrário não quis entregar nada, antes embolando as peças e mandando formar soldados contra eles mareantes, os quais se vieram embora sem trazerem nada”42. Um aderiu sem hesitar, o outro roeu a corda, mas ambos estariam decerto ao corrente da conjura. O que mais ninguém refere, à excepção de Acúrsio das Neves (e não se enxergam motivos para suspeitar que este cuidadoso cronista inventou), é o facto de Lopes de Sousa ter feito “afixar por editais uma proclamação, em que a arte não brilhava, mas que falava aos corações, exprimindo sentimentos tão enérgicos como naturais e cristãos”43. A ter sido assim, estamos perante a prova provada de que o levantamento foi preparado, pois não é plausível que

40 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 303. 41 42 43

O Manuscrito de João da Rosa, p. 19. Ibidem, p. 21.

Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 2, p. 140.

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o coronel forjicasse ali na hora, no meio da barafunda, aqueles proclamas. João da Rosa, na carta ao Píncipe‑Regente, redigida logo após os acon‑ tecimentos, em 2 de Julho, certifica que, “achando‑se sem armas” embora, “se atreveram a ir acometer um corpo de tropas inimigas armadas, e nós os portugueses algumas espingardas que cada um de seus donos tinha, que jun‑ tas com quarenta dos soldados de pé de castelo” – quer dizer, de artilharia ligeira, e que com certeza seriam os que da fortaleza da Armona se vieram juntar aos insurrectos – “marcharam todos atacar os franceses e vendo o inimigo a intrepidez com que todo este povo os atacava, pois não temia a morte, se retiraram e principiaram a temer este povo, pois se aprisionaram 58”; e, acrescenta, “como neste Lugar não houvesse prisões com segurança, o dito Governador os mandou conduzir a Espanha e ao mesmo tempo pedir armamento, o que se fez”44. Colige‑se portanto que a 16 de Junho existia efectivamente tropa inimiga em Olhão e que os sublevados aprisionaram nada menos do que 58 franceses, os quais foram transferidos para Espanha por emissários de Lopes de Sousa que “ao mesmo tempo” iam solicitar ajuda. Preenchida, por este passo da carta ao Príncipe‑Regente, a lacuna da Lembrança, revertamos a esta: “Outros barcos foram à armada inglesa, que se achava ancorada na Figueirita, para ver se nos mandava algum auxílio ou nos socorriam com algum armamento”45. Nesses barcos, infere‑se, seguiram então os prisioneiros franceses. Quanto aos ingleses, escusaram‑se a fornecer fosse o que fosse, e os de Olhão “largando foram a Ayamonte, topando lá o Capitão Sebastião Martins Mestre, da cidade de Tavira”46. Aqui ocorre outra interrogação: estariam Lopes de Sousa e Martins Mes‑ tre mancomunados? É que este último, no dia de Santo António, dera um golpe de mão na Fortaleza de S. João da Barra de Tavira e no dia imediato demandara a esquadra inglesa que pairava próximo da foz do Guadiana; e, segundo Lopes de Sousa na Declaração, “ainda se achava ali presente a bordo”47 quando, a 16, pela tarde decerto, chegaram João Gomes Pincho e os demais olhanenses enviados pelo governador. A simultaneidade induz a pensar numa acção concertada, porém Lopes de Sousa, num atestado em que
44 45 46 47

Ver ibidem, doc. n.º 86, pp. 388‑389. O Manuscrito de João da Rosa, p. 21. Ibidem, loc. cit.

“Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304.

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exarou os bons serviços de Martins Mestre, afasta tal suposição ao mencionar que a “casualidade o achou a bordo naquele dia dezasseis em que ali soube da revolução de Olhão”48, só na sequência se tendo juntado aos insurrectos. Um encontro de acaso, que todavia João da Rosa dá como tendo acontecido não na esquadra inglesa mas já em Ayamonte; e, prossegue, o capitão Martins Mestre “sabendo o que eles lá iam buscar, e juntamente que Olhão estava levantado contra os franceses, os estimou muito e lhes deu tudo o que era preciso para darem socorro a este Lugar, e por sua via alcançaram 130 espin‑ gardas” (Lopes de Sousa confirma este número), que trouxeram para Olhão no barco “de que era mestre Cristóvão Gomes” e “chegando todos a terra a este Lugar todos muito contentes”49. Mas isto já na noite de 17 de Junho, o dia seguinte ao dia que João da Rosa cunhou como de gloriosa memória.

4. Três dias de solidão
Foram três dias, assinala João da Rosa na carta ao Príncipe‑Regente, em que os de Olhão se viram “ameaçados por todos os lados para sermos ataca‑ dos” e “sem que Cidade, Povo ou Lugar algum se resolvesse a socorrer ‑nos”50. Três dias, pois, em que sozinhos sustentaram o levantamento. Três dias e também as noites, como depois regista na Lembrança, porque “tanto fez de noite como de dia, todos nós pegados em armas das que havia sem ninguém descansar, com rebates de noite e de dia, nem se dormir” 51. Em Faro, distância de uma légua, quanto sucedia em Olhão imediatamente soou às autoridades. E se não reagiram de pronto é porque lhes faleciam forças para tanto. A conjuntura favorecia os rebeldes. Com a Andaluzia em pé de guerra, o grosso das tropas que ocupavam o Algarve deslocara ‑se para a fronteira do Guadiana, desguarnecendo a capital onde, pelas informações entre outros de Landerset, restaram apenas cerca de “duzentos soldados franceses destinados para guarda do General Maurin, que estava gravemente enfermo”52. O seu lugar‑tenente, coronel Maransin, estanciava entre Mértola
48 49 50 51 52

Ver Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 431, p. 430. O Manuscrito de João da Rosa, p. 21 In Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 86, p. 389. O Manuscrito de João da Rosa, p. 26.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 460.

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e Vila Real de Santo António, temente quer de que os espanhóis intentassem atravessar o rio quer de um desembarque dos ingleses. A ele apelou Goguet, que em Faro tomara as rédeas do assunto; pedia reforços para conjurar o levantamento de Olhão; “logo que no mesmo dia soube que Olhão estava levantado”, aponta João da Rosa, “mandou ordens a Tavira e a Vila Real de Santo António para virem para Faro todos juntos, para virem arrasar Olhão e passarem tudo à espada”53; no entretanto, o administrador francês curava de ganhar tempo. O dia 17 foi assim de sobressaltadas vésperas, um entreacto. Pela noite arribou o barco de mestre Cristóvão Gomes, com Sebastião Martins Mestre e as 130 espingardas cedidas pela Junta de Ayamonte. Distribuíram‑nas pelos “homens do mar e alguns da terra que assistiam neste Lugar”, anota o escrivão, e “recebendo as ditas armas todos ficaram muito contentes e fortes, como se estivessem na melhor praça de armas das mais fortes que houvesse no mundo”54. O moral, conforma se revela, era alto; julgavam‑se os sublevados pouco menos que invencíveis, pois que, tal os antigos, lutavam pro aris et focis, pelos altares e pelos lares. Na manhã do dia seguinte, sábado, tiveram ventos de que navegavam os fran‑ ceses de Tavira para Faro em três chavecos – embarcações pequenas, à vela ou remos –, e arrojaram‑se a acometê‑los. “Logo o Povo com intrepidez lhe requereu o ataque”, reconhece justamente o proclamado chefe Lopes de Sousa, “o que pôs em execução, comandando esta expedição o referido Capitão Sebastião Martins Mestre com os paisanos embarcados em um caíque”55. Os chavecos entraram pela Barra Grande a fim de alcançarem o porto de Faro, e eles interceptaram‑ ‑nos junto à Barra Nova; declara o padre João Coelho de Carvalho, e talvez não erre, que “foram tomados e sem resistência, porque os franceses ignoravam o levantamento, e os supunham pescadores, que iam para a pesca”56. Abarbataram suculenta presa – cópia de armas e munições – e sobretudo evitaram que o contingente – “setenta e sete soldados franceses, quatro oficiais e um quartel‑ ‑mestre”57, todos capturados – se somassem à guarnição de Faro.

53 54 55

O Manuscrito de João da Rosa, p. 23. Ibidem, pp. 21‑23.

“Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304.
56 P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 82. 57

O Manuscrito de João da Rosa, p. 23.

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Mas mal regressados a terra esperava‑os o aviso de que uma coluna de 185 efectivos, oriunda de Vila Real de Santo António, chegara pelo meio‑ ‑dia a Moncarapacho “para o mesmo fim de reunião em Faro”, assinala José Lopes de Sousa, um comandante que não precisa dar ordens porque só tem de anuir à iniciativa popular: atesta ele que “logo o Povo influído quer marchar, e corre a atacar estes inimigos, apesar da desigualdade em armas, e munições”58. Atacar um corpo de soldados granadeiros e caçadores, bem artilhados de projécteis explosivos e espingardas de tiro certeiro, era sem dúvida temerário arrojo. Não obstante, posto que no cansado caminho para Faro, pelo barrocal acidentado, perto das faldas do Cerro de S. Miguel, os franceses tivessem de franquear o barranco da ribeira de Marim pela estreita ponte velha de Quelfes, tão apertada no seu arco único que os obrigava a afunilar quase a conta‑gotas, decidiram, capitaneados por Martins Mestre, armar‑lhes aí uma espera. Sobre esta emboscada incidem valorações díspares. Lopes de Sousa é assaz lacónico e limita‑se a dizer que “acossam o inimigo, o mais que era de esperar”59. Já o padre Carvalho, prolixo acerca do que não vira mas lhe “constara”, particulariza que na Ponte de Quelfes os franceses “foram atacados pelos paisanos, que por medo e ignorância militar os não derrotaram de todo: emboscados deitaram muito mal a primeira descarga, e fugindo logo, deixaram sós os dois chefes que os comandavam: foi aqui que os franceses mataram um segador ocupado em seu trabalho, e dos franceses no combate só consta que morresse um ou dois”60. Não confere com João da Rosa, que esteve no terreno: “começámos a atirar os primeiros tiros e os fomos perseguindo em peleja entre os matos do Jóinal, matando‑lhes dezoito soldados franceses, fora doze feridos entrando em Faro estropiados”61. Um ou dois, dezoito abatidos e ademais uma dúzia de feridos – em que ficamos? Por seu turno José Acúrsio da Neves, baseado não indica ele em quê, faz uma apreciação negativa do episódio: “Se se tivessem podido reprimir os primeiros ímpetos do povo, o encontro seria provavelmente muito fatal aos franceses, por causa das emboscadas que os esperavam entre ribanceiras;

58 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304. 59 60

Idem, ibidem, loc. cit.

P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, pp. 81‑82.
61

O Manuscrito de João da Rosa, p. 23.

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mas os paisanos mostraram‑se muito cedo, e os inimigos tiveram tempo de acautelar‑se: foram continuando a sua marcha, em pelotões, fazendo fogo de retirada, e fizeram alto a meia légua de Faro, mandando aviso ao general, e tendo sofrido alguma perda, que ocultaram. Dos nossos somente saiu contuso o Mestre, e foram mortos fora da acção um velho e dois rapazes” 62. Para além de que a contusão sofrida por Martins Mestre, bem como as mortes do velho e dos rapazes, ocorreram com posterioridade, a versão do cronista não convence. Não custa admitir que os paisanos, bisonhos, arreba‑ tados, precipitados, peixes fora de água – “uma gente maruja estranha em tais empresas”, consoante a frase de Lopes de Sousa63 –, actuassem sem a eficácia e a disciplina da tropa adestrada e arregimentada. Porém, se à Ponte de Quelfes não aniquilaram a coluna francesa (eram quase dois centenares, e experimentados!), destroçaram‑na. Isso até Acúrsio da Neves implicitamente admite. Porque nessa jornada de 18 de Junho, na manhã e na tarde, no mar e na terra, na Barra Nova e na Ponte de Quelfes, as duas acções, e ambas de iniciativa popular, revelaram‑se decisivas. A não surtirem, os franceses de Faro, recompostos, breve estariam em condições para, como João da Rosa se não cansa de repetir, “virem arrasar Olhão e passar tudo à espada”. E não hesitariam fazê‑lo, como não hesitaram em Beja poucos dias depois. Foi todavia longa a tarde daquele sábado. E resulta intrincado discernir, na imprecisão dos diversos relatos, aquilo que exactamente se seguiu ao recontro da Ponte de Quelfes. Parece seguro que pelo matagal de jóina (um miúdo arbusto leguminoso) os paisanos continuaram acossando – sempre “em peleja”, no dizer de João da Rosa64 – os franceses até alturas da Meia‑Légua (meia légua distante de Faro), onde os destroçados lograram reagrupar‑se. Intentaram daí, com auxílios recebidos da cidade, um contra‑ataque? O ponto é duvidoso. Ponte Negrão afirma que sim, que “tentando investir Olhão foram rechaçados com perda de 25 homens, deixando no campo 16 mortos, suas mochilas, um obús mal encravado, com todas as munições e pólvora espalhada pela terra”65. João da Rosa é omisso a respeito, e mais ninguém confirma o

62 Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 2, p. 142. 63 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304. 64 65

O Manuscrito de João da Rosa, p. 23.

“Relação da feliz e gloriosa Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 3, p. 313.

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lance neste circunstancialismo, a não ser aproximadamente, e sempre por lhe “constar”, o padre João Coelho de Carvalho: “No dia 18 de Junho tentaram os franceses atacar Olhão, mas o povo mal armado resistiu, havendo por ambas as partes alguns mortos e feridos; não constando quantos morressem da parte dos franceses, consta que do povo de Olhão neste encontro, ou escaramuça, morreu um velho por loucura, pois se foi meter entre eles” 66. Também Lopes de Sousa declara que passou “a suster os inimigos que constava virem de Faro chegando, a atacar os seus paisanos, que no fim da tarde são perseguidos” – os inimigos, entenda‑se –, sendo então que Martins Mestre “recebeu uma grande contusão no peito”, com a achega de que “foi constante perder o inimigo alguma gente, cujo número ocultaram”, e que “da nossa parte faleceu um homem velho que os inimigos mataram fora da acção, e mais dois rapazes”67. Alude ao mesmo combate noticiado por Ponte Negrão? Fica a questão em suspenso, a aguardar melhor prova. O que pode dar‑se com firmeza por provado, porque todos os testemunhos nisso são concordes, é que pela noite os franceses concentraram forças no Rio Seco, “avenida de Olhão para Faro” na expressão apropriada de Sebastião Cabreira68; mobilizaram por acréscimo, segundo ele e outros indicam, 60 artilheiros portugue‑ ses ainda no activo, para cujo comando foi destacado – a contragosto, também sublinham todos – o tenente Belchior Cabreira, irmão do ditoso Sebastião. Para o major Landerset, que estava em Faro, eram estas umas “medidas absolutamente de defensiva, para evitar a reunião do povo de Olhão com o de Faro, já a esse tempo sobejamente irritado com a notícia de ter corrido sangue português”69. Lopes de Sousa, em Olhão, fez uma leitura inversa: “Ameaçava o inimigo este Lugar, não só com as suas forças, mas com as portuguesas, que estavam ao seu serviço, com que saem de Faro a formar o ataque com peças e obuzes de artilharia, sendo o oficial português nomea‑ do para comandar a respectiva tropa do seu regimento o tenente Belchior Drago Cabeira”70.
66 P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 81. 67 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304. 68 69

Cabreira, Sebastião Drago de Brito, Relação histórica da revolução do Algarve, p. 8.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 461.
70 “Declaração da Revolução…”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 1, p. 304.

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Decerto por isso, entendeu Lopes de Sousa por prudente meter terra pelo meio – ou, antes, mar, pois embarcou nessa mesma noite, levando consigo Martins Mestre para lhe fazer companhia, rumo de Ayamonte; o coronel jus‑ tifica a fuga (e como chamar‑lhe de outro modo?) com o “fim de não ficar frustrada a revolução, por ver que as mesmas tropas portuguesas o vinham atacar”, pelo que iria reclamar dos vizinhos espanhóis “novos socorros, e ar‑ mamento, e munições, de que tanto necessitava”71, além de transferir para lá os onerosos prisioneiros franceses; mas está visto que tanto ele como Mestre davam a “revolução” por perdida e buscavam pôr a salvo o canastro, sem pejo de que os olhanenses ficassem entregues à sua sorte. Como de facto ficaram. Cônscios da investida iminente, na noite de 18 para 19, informa o padre Carvalho, “dormiram todas as famílias nos barcos em o rio, ficando muito pouca gente em terra”72. Para a deserção dos dois cabecilhas militares, Lopes e Mestre, concorreu também o edital que a Câmara de Faro, no próprio dia 18, mandou publicar em Olhão. O documento (é fácil adivinhar porquê) não subsistiu. Na carta ao Príncipe‑Regente, João da Rosa só revela por elipse que o édito camará‑ rio “nos ameaçava bastantemente”73. Acúrsio das Neves é que compendia o teor desse que qualifica de “tristíssimo edital”: os edis farenses vituperavam o levantamento do povo de Olhão como “o mais tumultuoso e escandaloso atentado contra a segurança da nação” e compeliam “aquele povo a tirar‑ ‑se da cegueira em que se achava e que era ainda tempo de dissipar, não sendo seguido semelhante partido por pessoa alguma, antes procurando as pessoas daquela cidade os meios justos de persuadir os seus parentes e ami‑ gos, residentes em Olhão, a que abraçassem o bem que se lhes propunha, obedecendo a quem governava e apartando de si os males eminentes a que estavam expostos”. Não era tudo. Acrescenta o relator: “Ainda dizia mais o edital: increpava aqueles valorosos restauradores da pátria de fazerem com que a fiel nação portuguesa viesse a ser marcada com o ferrete infame da ingratidão”; e, indignado embora – “Que blasfémia!” –, pede indulgência para com os camaristas de Faro: “bastam‑lhes os remorsos, a dor acerba que terão sentido de serem os instrumentos maquinais dos pérfidos tramas dos nossos

71 72

Idem, ibidem, p. 305.

P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 82.
73

In Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 86, p. 389.

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opressores”74. Os de Olhão não estariam tão certos disso: sobeja experiência tinham, e correlativo sentimento, de que os seus opressores, os de sempre e os de agora, se dobravam e confundiam. E talvez que Landerset se não equivocasse ao reputar defensivas as ma‑ nobras dos franceses. Amanheceu o domingo 19 de Junho, e eles não se dispuseram a avançar sobre Olhão. Apostavam mais no engodo. João da Rosa captou muito bem o tom laivoso da mensagem que fizeram chegar aos sediciosos: “… que o seu Imperador Bonaparte nos daria muitos dobrados privilégios dos que tínhamos do nosso Rei e não pagaríamos tributos nenhuns, seríamos livres de todos os direitos, isentos de tudo, e que o seu Imperador seria nosso amigo, que faria tudo como nós quiséssemos…”75. Uma fartura! Uma cornucópia! Um maná! O mensageiro, irmão de Maurin, à cautela ficou à Meia‑Légua “esperan‑ do pela nossa resposta, porque neste tempo tudo quanto vinha de Faro se aprisionava”76. Forjicaram a resposta em casa do padre Malveiro, e, a avaliar pelo transunto que João da Rosa dá, não podia ser mais peremptória e acin‑ tosa: “respondeu o povo todo junto a uma voz e resoluto que não queriam reconhecer o Bonaparte por seu Rei, senão o Príncipe D. João de Portugal e toda a mais Família Real, e que não se queriam entregar nem queriam seus privilégios nem suas dádivas, que pelo seu Príncipe estavam prontos até à última pinga de sangue do seu corpo, se queria guerras que eles estavam prontos no campo, que viesse mais todos os franceses e todo Faro, que esta‑ vam prontos para tudo”77. Nem mais. Ao mesmo tempo punham a correr que em Olhão havia tropa inglesa, e com tanta convicção que, assevera o padre Carvalho, essa era a “comum persuasão em Faro no dia 19”78. Como quer que fosse, o comando francês, encabeçado no capitão Gaviel, não se resolvia a acometer Olhão. Baldada a primeira tentativa de aliciamento, pelo início da tarde o próprio capitão em pessoa “se afoitou a adiantar ‑se das suas tropas em direitura do caminho de Olhão”; o narrador é agora o major

74 Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 2, pp. 143‑144. 75 76 77 78

O Manuscrito de João da Rosa, pp. 23‑25. Ibidem, p. 25. Ibidem, loc. cit.

P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 82.

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Landerset79: “… e logo que avistou uma pequena guarda avançada de alguns paisanos, à distância quase de tiro de espingarda, lhes acenou com um lenço, chamando‑os com muita confiança”; corresponderam os paisanos, curiosos de se inteirarem do que o solicitante pretendia; e este “entrou a persuadir ‑lhes, da forma com que se pôde entender, que o General Francês estava pronto a perdoar àquele Povo, logo que ele se tranquilizasse, e reconhecesse o Governo Francês, que a pesca havia de ser favorecida, e todos seriam indemnizados dos males que haviam padecido, que bem conhecia, enfim, que o autor de tudo era o coronel José Lopes de Sousa, mas que deste mesmo nada preten‑ dia, senão que ele se ausentasse daquele Lugar”. Mais do mesmo, portanto; e ignorava que o coronel já lhe fizera a vontade. Os paisanos, moita‑carrasco, calaram‑se muito bem calados e só prometerem que sim, que transmitiriam a proposta ao juiz do Compromisso Marítimo – “cuja autoridade”, intervém o omnipresente Cabreira, desta vez chistoso, ele que em geral é um sensaborão, o capitão francês cuidou ser a de “algum General imediato” 80… Reuniram‑se pouco depois, na Quinta do Chantre, sítio do Torrejão de Cima, terreno neutro a meio caminho das duas localidades enfrentadas, as delegações de Faro e Olhão. Os representantes da cidade, transportados em vistosas seges, eram da mais alta hierarquia: o corregedor Manuel José Plácido da Silva Negrão, superior magistrado da comarca, e o juiz de fora Manuel Herculano de Freitas Azevedo Falcão, por inerência presidente da Câmara Municipal; não podia faltar um senhor cónego, e para o efeito foi designado o reverendo chantre da Sé, aliás dono da quinta; o capitão Gaviel fez‑se acompanhar do major Landerset que, bilingue porque filho de pai suíço de fala francesa, lhe serviria de intérprete. Por parte dos de Olhão comparece‑ ram, entre os mais grados, José Martins Micano, o tal “juiz” que presidia ao Compromisso, e o “eleito mais velho”, António Martins Calado. Eis como Landerset levanta acta do encontro: “Depois de terem conferido, e de lhes serem anunciadas pelos Ministros as mesmas promessas ditadas pelo Capitão, todos se mostraram inclinados à pacificação, declarando o deplorável estado em que se viam por falta de mantimentos, e por não terem quem os dirigisse militarmente, havendo na noite antecedente o Coronel José Lopes de Sousa e o Capitão Sebastião Martins Mestre passado a Espanha a pedir auxílio à Junta de Sevilha e Ayamonte, e
79 “Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, pp. 461‑462. 80

Cabreira, Sebastião Drago de Brito, Relação histórica da revolução do Algarve, p. 8.

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achando‑se neste meio tempo governados pelo Prior daquele Lugar de Olhão, cujo zelo e patriotismo eles tanto louvavam. À vista destas razões concluíram por fim que mandariam no dia seguinte a Faro pessoas capazes para tratarem definitivamente”81. Ou seja que arranjaram artes de empatar uma resolução final; ficava para o dia seguinte… Mas aqui é obrigatório dar a palavra a João da Rosa, que também integrava a comitiva olhanense; conta ele que, após as costumadas blandícias com que procuraram rendê‑los – “que pedíssemos nós os fiadores que quiséssemos e seria tudo o que nós determinássemos” –, temperadas pelas igualmente costumadas ameaças – “se não quiséssemos fazer o que ele dizia seríamos todos passados à espada e Olhão arrasado para memória das mais terras” –, o mais que ficou ajustado foi que “se queríamos assim no outro dia à Meia‑Légua viria um tabelião fazer a escritura”82. Estavam nisto, porque torna, porque deixa, fica para amanhã, logo se vê… Remata o escrivão do Compromisso: “Estando nestas práticas chegou um piquete francês de cavalo, todo suado, a toda a pressa, a dar‑lhes notícia que Faro estava levantado. E logo todos se foram embora para Faro, levando consigo a tropa francesa e alguma portuguesa obrigados à força, que vinham combater com este Lugar de Olhão…”83. Seria pelo meio da tarde desse domingo 19 de Junho. Em Faro eclodira a revolta. Acabavam para Olhão aqueles três dias da mais desamparada, tre‑ mebunda, ignóbil solidão.

5. O levantamento em Faro.
O levantamento em Faro (em, e não de) não foi homólogo do levantamento de Olhão (de, e não em). A preposição é importante e demarca a abissal diferen‑ ça. Metonimicamente, Olhão levantou‑se contra o opressor; como recalca João da Rosa, foram todos, sem distinção de género, idade ou estado: “tanto faziam homens como mulheres, rapazes, raparigas, até o mesmo pároco da igreja e os padres, todos dizendo em altas vozes: Queremos morrer pelo nosso amado Príncipe e toda a Família Real”84; e tanto assim que puderam ser apontados
81 “Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 462. 82 83 84

O Manuscrito de João da Rosa, p. 26. Ibidem, loc.cit. O Manuscrito de João da Rosa, p. 19.

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a dedo aqueles poucos que se excluíram e recusaram aderir ao movimento massivo: “reservando várias pessoas que fugiram nesta ocasião do combate e nos largaram neste conflito e se ausentaram para fora deste povo”85. Entre esses contados trânsfugas estiveram José de Mendonça, juiz de vintena (espécie de avindor, encarregado de arbitrar causas menores), e o escrivão Tomé de São Pedro; ambos eram da confiança da Câmara de Faro, que os nomeava, e decerto por isso permaneceram fiéis à autoridade constituída; também por isso foram depois destituídos: “em consequência da representação que fizeram os marítimos do mesmo Lugar de Olhão”, a vereação farense em 27 de Julho não teve remédio senão substituí‑los por Joaquim Viegas e Manuel Lopes Pestana, respectivamente86. Excepções que não existiriam sem a esmagadora regra, e portanto só a confirmam. O levantamento foi – in totum, in solidum – o levantamento de Olhão. Em Faro foi o inverso. Aqui, nesta cidade que já em 1577 Frei João de S. José destacava por nela haver “gente nobre e cavaleirosa”87, aqui não operou o todo, mas a parte. A parte, quer dizer: estritamente a plebe, a peonagem, o povo miúdo e de baixa extracção. Porque quanto à conivência da gente nobre com o intruso, estamos conversados; essa “gente nobre da governança da terra”, cujo grupo fundamental era o dos vereadores, não se limitou passivamente a acatar o invasor, antes com ele colaborou activamente e desde a primeira hora, consoante ficou patente no zelo e servilismo dos próceres camaristas farenses. A tudo se prestaram, transferindo com imperturbável consciência para os novos senhores a acrisolada fidelidade que na véspera protestavam à Coroa, à Pátria, à Religião… E não se deram de o fazer porque os ocupantes lhes não buliram nos privilégios; Mr. Goguet, o corregedor‑mor delegado de Junot, veio superintendê‑los, não veio substituí‑los, até porque não tinha por quem; manteve‑os nos cargos e no mando e não lhes beliscou minimamente as regalias. Continuaram a exercer o poder concelhio, aproveitando com o despudor de sempre os seus ofícios para benefício próprio e dos afins, em conúbio com os reverendos cónegos do Cabido da Sé, os mais deles oriundos das famílias de melhor lote, e tão ricos em dízimos, propriedades e rendas que estadeavam das maiores fortunas do Algarve. Um contubérnio aristocrático ‑ ‑clerical que enformava a hierarquizada e cristalizada sociedade de Faro, e com que os franceses contaram para firmar e consolidar o seu domínio88.

85 86 87 88

Ibidem, p. 28. Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 20, pp. 340‑341. Ver Duas Descrições do Algarve do Século XVI, p. 47. Ver Magalhães, Joaquim Romero, O Algarve económico (1600‑1773), pp. 323‑362.

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O Algarve e as Invasões Francesas
Ninguém das notabilidades da cidade mexeu um dedo sequer – e segu‑ ramente teriam cinco em cada mão, porque tinham as duas – em apoio dos insurrectos de Olhão. Mudos e quedos precatadamente se ficaram no decurso tormentoso daqueles três dias de brasa. E resulta em absoluto inócua e írrita uma pretensa “Sociedade Patriótica” que, a crer num historiador que crê o que quer crer (e em quem outros historiadores quiseram crer 89), integraria “algumas das figuras mais categorizadas da cidade, militares e civis”90. Destes, dos civis, nem um nome para registo; dos militares, tem‑se por Sebastião Cabreira a notícia de que “alguns Patriotas” – que estranhamente se abstém de identificar91 – reuniriam em casa dele, Cabreira, isso sim “sempre firmes nos projectos de salvar a Pátria, quando as circunstâncias fossem oportunas, para o que tomavam todas as medidas necessárias, e todas perigosas, pois que o Inimigo era vigilante, potente, e ressabiado”92. Que drásticas e arris‑ cadas medidas fossem, omite; o “Inimigo”, todavia, não andaria demasiado apoquentado com as ponderosíssimas ninharias que se esperluxavam nesses graves conciliábulos; tanto mais que, conforme Cabreira confessa, ele e os putativos salvadores da pátria preocupavam‑se sobretudo “em conter a Plebe para não se revolucionar intempestivamente, do que proviria o maior dano e obstáculo para a justa causa, pois que não havia armas, os traidores ainda formigavam pela Cidade, nem modo havia para se tocar a rebate” 93. Não havia?! Para os “Patriotas”, não; para a “Plebe”, sim havia. Na locan‑ da do Bento – o Bento, um quidam a quem não atinam com o sobrenome, Landerset trata‑o por “Bento Álvares Penedo”94, Cabreira por “Bento Alves”95, apenas o escrupuloso Acúrsio das Neves esclarece chamar‑se Bento Álvares da Silva Canedo96; tanto monta, porém: era plebeiamente o Bento Tendeiro –,
89 90 91

Ver Valente, Vasco Pulido, Ir prò Maneta. A Revolta contra os Franceses (1808), p. 14. Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 61.

Segundo Belchior Cabreira (irmão de Sebastião Cabreira), Joaquim Filipe de Landerset “era dos principais membros de uma Sociedade Patriótica, que então se juntava diariamente na Cida‑ de de Faro, que tinha por objecto a feliz Restauração da Monarquia Portuguesa, Sociedade que principiou a fazer‑se suspeita pelos Espias” (Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, doc. n.º 384, p. 425). Mas não indica outros membros da ínclita “Sociedade”.
92 93 94

Cabreira, Sebastião Drago de Brito, Relação histórica da revolução do Algarve, pp. 5‑6. Idem, ibidem, p. 9.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 462.
95 96

Cabreira, Sebastião Drago de Brito, Relação histórica da revolução do Algarve, p. 81.

Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 2, p. 146.

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O Algarve e a 1.ª Invasão Francesa
nos fundos dessa lojeca ou baiuca onde acamaradava com mais uns quantos da mesma igualha, tal o Zé do Botequim97, e não aspiravam à glória de salvar a pátria, mas tão‑somente a expulsar os franceses, a súcia cujos apodos de‑ nunciam a categoria social congeminou o estratagema para o rebate. Na manhã de domingo, dia 19, enquanto a guarnição francesa se concen‑ trava fora de Faro para fazer frente aos de Olhão, untaram com uma “peça”, moeda que valia uns apreciáveis 6400 réis, a única mão de Manuel do Nas‑ cimento, aliás o Maneta, sujeito que o atento Acúrsio das Neves não esquece qualificar como “da baixa plebe”98. Vai de lá o Maneta, a pretexto de dar as badaladas “de parida”, com que se concitavam os fiéis a orar por uma mulher em trabalhos de parto, logrou que o guardião da torre sineira da Igreja do Carmo lhe passasse de boamente para a destra manita a chave; apanhou‑ ‑se dentro, e trancou‑se; e às horas marcadas pelos mandantes – horas de jantar, uma e meia, duas da tarde – eis que a súbitas o sino sonorosamente soa, dlim‑dlão, e se prolonga, tão‑badalão, afinal não era toque “de parida”, não cessava de repicar com fragor, dlim‑dlão‑tão‑badalão, a ditosa manápula (olha se tivesse a outra!) do Maneta puxando com freima de obstinado a corda, dlim‑dlão e mais tão‑badalão, nunca tamanho chinfrim se tinha ouvido, até parecia o dia do juízo, o badalo maluco percutindo o bronze, vibrando, retinindo agudamente, reboando por sobre o casario em derredor, atroando a urbe que sopitava na canícula do sol a pino, assarapantando o gentio que engolia as sopas ou se preparava para a sestinha da ordem. O padre João Coelho de Carvalho, sem desmerecer de sacerdote aureolado das mais excelsas virtudes teologais, de que a caridade não seria a menor, é muito cru. Com efeito, pertencem‑lhe estas desapiedadas e aspérrimas observações: quando, “no dia 19, pelas duas horas da tarde, se ouviu sinal de rebate na torre do Carmo, tudo ficou assustado, e ninguém saiu…” – este pronome ninguém está por magnates, maiorais, graúdos, pessoas bem‑nascidas e de prol, que nem

97 Ver P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à contradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 84. Segundo Fr. Joaquim Soares, os outros que com o Bento Tendeiro estavam dentro do “segredo” eram: Francisco Tavares, Diogo José de Sousa Marinho, José de Sousa Coelho e Simão Ramos (Compêndio histórico dos aconte‑ cimentos mais célebres motivados pela revolução de França e principalmente desde a entrada dos franceses em Portugal até à segunda restauração deste e gloriosa aclamação do Príncipe regente D. João VI, p. 17). 98 Neves, José Acúrsio das, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Restau‑ ração deste Reino, vol. 2, p. 146.

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O Algarve e as Invasões Francesas
vê‑los; porque de seguida, ressalva: “… senão os que tinham traçado a revolução muito antes, gente da plebe, e rapazes”99. Acorreram o Bento Tendeiro, o Zé do Botequim e seus compadres de conjura, mais uma turbamulta de rapazio alvo‑ roçado. Prossegue o acerbo padre: “A populaça em chusma acudiu ao largo do Carmo, onde também apareceu o Governador da Praça, o coronel da artilharia portuguesa, para impedir o rebate; o povo levantou‑se contra ele, obrigando‑o a mandar vir a tropa que tinha ido auxiliar os franceses”100. Acagaçado, o coronel Caetano António de Almeida deu contrafeito as ordens reclamadas; “e porque o povo desconfiava, foi ele mesmo conduzi‑la, e fazê‑la vir para a cidade”101, na qual entraram de charola, à frente a moçanhada com canas verdes alçadas102, ululando vivas à Augusta Soberana, ao Príncipe‑Regente Nosso Senhor, a toda a Família Real, enquanto a ilesa mão do Maneta, que se não cansava, insistia rebatendo porfiadamente a campânula do Carmo. Nem isso porém comoveu aquele indefinido ninguém: “A este tempo continuava o rebate, mas ninguém de juízo aparecia para governo”103. Pois não, nada de salvadores da pátria, que não havia toque de rebate que os desentocasse. Esperavam, amalhados bem amalhadinhos, para ver em que paravam as modas e para que lado as coisas pendiam. Assim de imisericordioso e severo é o nosso padre Carvalho. Veraz, perspicaz, mas muito cru. Enfim, também justo. Absolve, de entre os mais pusilânimes, os manos Cabreiras: “Foi preciso ir a casa dos oficiais, dos quais alguns se esconderam em suas casas; de todos só foram mais prontos, depois de chamados pelos cabeças da Revolução, um dos quais era um José vulgarmente chamado o do Botequim, os Cabreiras, que eram três irmãos, um capitão, Sebastião Duarte Cabreira, e dois tenentes, Severo Cabreira e Belchior Cabreira”104. Sim, é verdade, Sebastião acordou, e, “não vendo senão Plebe amotinada” – palavras dele –, logo “principiou a organizar o Povo”, que logo “o elegeu e aclamou por seu Capitão Mandante”105. Saltou, no momento azado, para a testa do populacho
99 P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 83. 100 101 102

Idem, ibidem, loc. cit. Idem, ibidem, loc. cit.

Ver também Joaquim Filipe de Landerset, “Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 463.
103 P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, p. 83. 104 105

Idem, ibidem, loc. cit. Cabreira, Sebastião Drago de Brito, Relação histórica da revolução do Algarve, pp. 11 e 39.

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O Algarve e a 1.ª Invasão Francesa
enfurecido, “rapazes com canas verdes” e “paisanos sem talento”, na carac‑ terização do padre, que conclui: “Foi gente deste carácter a que aprisionou alguns franceses, fugitivos ou escondidos”106. Os mesmos que aprisionaram o general Maurin e desarmaram os soldados que lhe faziam guarda.

6. A retirada dos franceses
“Fugidas que foram as tropas francesas do Algarve” – reata João da Rosa –, “passando nessa noite desviadas deste Lugar, perdidos por essas fazendas com medo que tinham da gente de Olhão, não tomando estradas direitas toda a noite, deixando por cima deste Lugar, na estrada de São Bartolomeu, um obus mais uma peça, tudo encravado com muita pólvora escramalhada por essas estradas, entrando em Tavira pela manhã cansados, estropiados do caminho e de não dormirem aquela noite, na tarde se formaram todos, onde se dizia que vinham arrasar Olhão e passar tudo à espada; formadas as tropas francesas, tomaram a Rua de São Lázaro pela estrada do Alentejo, e idos que saíram de Tavira se alevantou a cidade no dia vinte de Junho”107. Foi então a vez de o retirado governador e capitão‑general do Algarve, o Conde Monteiro‑Mor e de Castro Marim, despertar. “Este honrado Fidalgo” – agora toma a palavra Landerset –, “desejando aproveitar‑se do primeiro momento para manifestar a fidelidade e amor que professava ao seu Príncipe, e o patriotismo de que era animado”, assim que as tropas francesas largaram – mandou tocar a re‑ bate; “e logo, apesar de se achar enfermo, saiu do seu Palácio, pondo‑se à testa do Povo, que concorria a unir‑se‑lhe, animado com a sua presença, e dando todas as providências possíveis para a pronta defesa da Cidade” 108. Os franceses ainda assediaram debalde Castro Marim, após o que abalaram para Mértola. Não voltariam ao Algarve.

106 P. João Coelho de Carvalho, “Memória da Revolução do Algarve”, in Da quadrilha à con‑ tradança: o Algarve no tempo das invasões francesas, pp. 83‑84. 107 108

O Manuscrito de João da Rosa, p. 26.

“Breve Notícia da Feliz Restauração do Reino do Algarve”, in Iria, Alberto, A invasão de Junot no Algarve, p. 465.

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O Algarve e as Invasões Francesas

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ALGUMAS EXPRESSÕES ORAIS RESULTAnTES DAS InVASÕES FRAnCESAS EM PORTUGAL – UM TIPO DE PATRIMÓnIO IMATERIAL
NOTA PRÉVIA
Este artigo resulta de uma feliz conjugação entre o comando do Regimento de Infantaria N.º1 (Tavira) e a Direcção de História e Cultura Militar, pela importância, necessidade e pertinência que ambos atribuem à salvaguarda, divulgação e valorização do património imaterial do Exército. Na actualidade, é comum ouvir‑se falar em património imaterial, mas não é frequente relacioná‑lo e enquadrá‑lo com a legislação em vigor. A fim de partilhar com os leitores esta dupla condição e transferi‑la para uma tipifica‑ ção de património imaterial resultante das invasões francesas em Portugal, o presente artigo está organizado da seguinte forma: 1 – Introdução. 2 – O conceito de Património Cultural Imaterial. 3 – Uma tipificação de Património Cultural Imaterial resultante das inva‑ sões francesas em Portugal 4 – Algumas considerações finais.

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O Algarve e as Invasões Francesas 1 – INTRODUçãO
No sentido de simplificar o enquadramento geral em torno deste tema, de seguida apresentam‑se dois quadros, um de âmbito internacional e outro nacional, das principais actividades relativas ao Património Cultural Imaterial, por ordem cronológica. Quadro N.º1 – Principais actividades de âmbito internacional.
PRINCIPAIS ACTIVIDADES RELACIONADAS COM O PATRIMÓNIO IMATERIAL Declaração Universal dos Direitos do Homem. Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais. Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e Natural. Criação da Secção para o Património Não‑material. Recomendação para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e do Folclore. Proclamação das Obras‑primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade. (Estão listadas 90 Obras Primas). ANO 1948 1966 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS ÂMBITO INTERNACIONAL

1972

1982

1989 UNESCO 1997 2001 2003 2005

Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial.

2003

No campo internacional, a atenção reside na Organização das Nações Unidas (ONU), nomeadamente na Declaração Universal dos Direitos do Ho‑ mem de 1948 e no Pacto Internacional sobre os Direitos Económicos, Sociais e Culturais de 1966. Através da Conferência Geral das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, denominada por UNESCO, vários países assinaram a Convenção para a Protecção do Património Mundial, Cultural e 50

Algumas Expressões Orais Resultantes das Invasões Francesas ....
Natural de 1972. Neste contexto, alguns países em vias de desenvolvimento, entre os quais a Bolívia, protestaram por dois factores: • Inexistência de património material relevante e importante para constar na lista da UNESCO; • Existência de outro património não material, cuja preservação e divul‑ gação contribuem para o enriquecimento da diversidade cultural e da criatividade humana. Assim, em face à opulência, complexidade e relevância do património material, designadamente o imóvel, surge em assimetria um conjunto de manifestações imateriais de comunidades, grupos e indivíduos com papel inestimável de património cultural imaterial como factor de aproximação, intercâmbio e entendimento entre os seres humanos. Constituem exemplos os seguintes casos: o Forte da Graça, em Elvas, é um dos bens portugueses da lista depositada junto da UNESCO em 2004, para efeitos de inserção na sua Lista de Património Mundial, Cultural e Natural. Mas podia ser a Grande Muralha da China, o Mosteiro da Batalha, os Palácios da Dinastia Ming, entre tantos outros bens imóveis listados como património mundial. Em despropor‑ ção, existem algumas comunidades, como é o caso das sul‑americanas, com práticas ancestrais e de valor intangível que urge igualmente salvaguardar.

ASSIMETRIA

Figura 1 – Forte da Graça (Elvas). Fonte: www.portugalnotavel.com

Figura 2 – Manifestações imateriais (América Latina). Fonte: www.brasilia.unesco.org

Em 1982 foi criada na UNESCO a Secção para o Património Não‑material, e, na sequência dos trabalhos encetados, foi elaborada em 1989 a Recomenda‑ ção para a Salvaguarda da Cultura Tradicional e do Folclore. Posteriormente, em 1997, verificou‑se a Proclamação das Obras‑primas do Património Oral e Imaterial da Humanidade, para distinguir os exemplos mais notáveis de espaços culturais ou formas de expressão popular e tradicional, tais como as línguas, a literatura oral, a música, a dança, os jogos, a mitologia, os rituais, os costumes, o artesanato, a arquitectura e outras artes, bem como formas 51

O Algarve e as Invasões Francesas
tradicionais de comunicação e informação. Foram realizadas três edições de proclamações, em 2001, 2003 e 2005, totalizando 90 obras‑primas! A Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial foi adoptada em 2003 pela UNESCO, e tem por objectivos: • A salvaguarda do património cultural imaterial; • O respeito pelo património cultural imaterial das comunidades, dos grupos e dos indivíduos em causa; • A sensibilização, a nível local, nacional e internacional, para a importân‑ cia do património cultural imaterial e do seu reconhecimento mútuo; • A cooperação e o auxílio internacionais, no quadro de um mundo cada vez mais globalizado, que ameaça uniformizar as culturas do mundo e aumentando simultaneamente as desigualdades sociais. E a nível nacional, o que se verificou? Quadro N.º2 – Principais actividades de âmbito nacional.
PRINCIPAIS ACTIVIDADES RELACIONADAS COM O PATRIMÓNIO IMATERIAL Lei N.º 13/85 – Lei de Bases do Património Cultural. Lei N.º 107/01 – Nova Lei de Bases do Património Cultural. Decreto‑lei N.º 97/07 – Criação do Instituto dos Museus e da Conservação (IMC). Resolução N.º12/08 – Aprova a Convenção para a Sal‑ vaguarda do Património Cultural Imaterial adoptada pela UNESCO (2003). Decreto‑lei N.º139/09 – Institui de forma integrada os conceitos de Património Cultural Material e Imaterial e sua salvaguarda. Portaria N.º196/10 – Aprova o formulário para pedido de inventariação e as normas de preenchimento da ficha de inventário do Património Cultural Imaterial. ÂMBITO NACIONAL

ANO

1985 2001

Assembleia da República

2007

Governo

2008

Assembleia da República

2009 Governo 2010

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Algumas Expressões Orais Resultantes das Invasões Francesas ....
Da análise deste quadro, destaca‑se o seguinte: • Em 1985, foi aprovada pela Assembleia da República a Lei de Bases do Património Cultural, onde, no seu artigo 43.º, se faz referência aos deveres do Estado na protecção do património imaterial; • A Lei n.º 107/01, a nova lei de bases do património cultural, refere nos seus artigos 2.º, 91.º e 92.º o conceito e âmbito do património cultural, âmbito e regime de protecção e deveres das entidades públicas; • Em 2007, o Decreto‑lei n.º 97 de 2007 cria o Instituto dos Museus e da Conservação (IMC) com competências também na área do património cultural imaterial, através do seu Departamento de Património Imate‑ rial; • Em 2008, foi aprovada pela Assembleia da República a Resolução n.º12 sobre a Convenção para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, adoptada pela UNESCO em 2003; • Em 2009, o Governo decretou o regime jurídico de salvaguarda do património cultural imaterial, através do Decreto‑lei N.º139/09, que institui de forma integrada os conceitos de Património Cultural Material e Imaterial e sua salvaguarda; • Finalmente, em 2010, o Governo aprovou a Portaria n.º 196, estabele‑ cendo o formulário para pedido de inventariação e as normas de pre‑ enchimento da ficha de inventário do património cultural imaterial. Chegados aqui, interroga‑se naturalmente qual é o conceito de Património Cultural Imaterial?

2 – O CONCEITO DE PATRIMóNIO CULTURAL IMATERIAL
Apenas se considera Património Cultural Imaterial “o património que se mostre compatível com as disposições nacionais e internacionais que vinculem o Estado Português em matéria de direitos humanos, bem como as exigên‑ cias de respeito mútuo entre comunidades, grupos e indivíduos. Abrange os seguintes domínios: • Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do patri‑ mónio cultural imaterial; • Expressões artísticas e manifestações de carácter performativo; • Práticas sociais, rituais e eventos festivos; 53

O Algarve e as Invasões Francesas

• Conhecimentos e práticas relacionadas com a natureza e o universo; • Competências no âmbito de processos e técnicas tradicionais.” 109 Assim, com este conceito, domínios e outras características do património cultural imaterial, percepcionadas por cada comunidade, grupo e indivíduos, surgem várias e complexas problematizações. De seguida, apenas será tido em apreço o domínio das “tradições e expressões orais”, na sequência das invasões francesas em Portugal.

3 – UMA TIPIFICAçãO DE PATRIMóNIO CULTURAL IMATERIAL RESULTANTE DAS INVASÕES FRANCESAS
Para esta abordagem, foi adoptada a metodologia de investigação empí‑ rica. Constitui apenas um exercício, um ponto de partida, necessariamente diferente do ponto de chegada com mais tempo e maior maturação, exigindo um aprofundamento no estudo e investigação. Contudo, ainda foi possível consultar alguma bibliografia sobre esta temática, centrada no funcionamento da língua e sua dinâmica, possibilitando a verificação do grau de comple‑ xidade, plasticidade e insegurança que uma simples expressão oral encerra. Por cada uma das expressões orais seguintes, será desenvolvida uma sucinta análise, à luz da morfologia e da semântica.

Domínio 1 – Tradições e expressões orais, incluindo a língua como vector do património cultural imaterial
• Expressão oral n.º1 – “À grande e à francesa” Esta expressão tem o significado “de forma luxuosa”. A sua origem está identificada e associada ao período em que o General Junot viveu em Portugal, na sequência da primeira invasão dos franceses ao território Português (1807/1808), e sempre de modos extremamente luxuosos.110 A imaginação, a observação e a sabedoria populares encarregaram‑se de criar esta expressão.

– Decreto‑lei N.º 139/09, Diário da República, Iª Série, N.º 113, de 15 de Junho de 2009, página 3648.
109 110

– Disponível em: http://stellium.bloguepessoal.com e http://www.arara.fr/BBEXPRESSOESIDIOMATICAS.html

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Algumas Expressões Orais Resultantes das Invasões Francesas ....
Quanto à sua morfologia, ela parece não ter derivado desde a origem até à actualidade, mantendo‑se desta forma na memória colectiva e na tradição oral portuguesa. Em relação à sua semântica, aplica‑se igualmente o que atrás foi descrito acerca da morfologia. • Expressão oral n.º2 – “Sair à francesa” Esta expressão tem o significado “de descortesia e falta de educação”. Contudo, a sua origem está identificada e associada a uma prática francesa do século XVIII: quem, pretendendo abandonar uma sala repleta de pessoas, fosse despedir‑se dos convidados cometia um acto impertinente, ao incomodar pessoas embrenhadas em conversas, passatempos, jogos ou amores agradáveis. Daí que se “saísse à francesa”, isto é, sem cerimónia, sem aviso prévio, sem dar conhecimento a ninguém. O costume generalizou‑se por toda a parte, até que, mais tarde, veio a adquirir um sentido oposto, ou seja, de descortesia e falta de educação.111 Quanto à sua morfologia, esta expressão parece não ter derivado desde a origem até à actualidade, mantendo‑se desta forma na memória colectiva e na tradição oral portuguesa. Em relação à sua semântica, é verificável a evolução em sentido oposto ao significado inicial da expressão. Quando e em que circunstâncias se operou esta dinâmica? Por que agentes ela foi “indevidamente” apropriada? São duas questões simples, mas as respectivas respostas são difíceis de formular e do‑ cumentar. O certo, porém, é que a sua utilização está associada a “descortesia e falta de educação”, configurando complexidade, plasticidade e insegurança no seu emprego. • Expressão oral n.º3 – “Tudo como dantes, Quartel‑general em Abrantes” Esta expressão tem o significado de “imobilismo e de falta de reacção”. A sua origem está identificada e associada ao facto do General Junot, no tempo da primeira invasão francesa, ter “instalado, calmamente, o seu quartel ‑ ‑general em Abrantes e em Lisboa o governo nada fazia para se opor ao avanço do general francês. Ninguém ousava resistir‑lhe. O Príncipe Regente não tomava qualquer medida no sentido de evitar a progressão do exército

111

– Disponível em: http://singrandohorizontes.wordpress.com

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O Algarve e as Invasões Francesas
invasor; e daí, quando alguém perguntava o que se passava, a invariável resposta era: tudo como dantes, quartel‑general em Abrantes.”112 Há outra versão que transmite uma mensagem associada a “tudo estava sob controlo”, pois o reino continuava independente como antes. 113 Quanto à sua morfologia, esta expressão parece ter derivado desde a origem até à actualidade. É verificável a existência de formas diferentes utilizadas por certas comunidades de países de língua portuguesa:114 Tudo como antes no quartel de Abrantes; Tudo como dantes no quartel de Abrantes; Tudo como dantes no quartel‑general de Abrantes; Tudo como dantes, quartel‑general em Abrantes. Em relação à sua semântica, é igualmente verificável a evolução da ex‑ pressão e em vários sentidos. Quando e em que circunstâncias se operou esta dinâmica? Por que agentes? São muito complexas e diversas as possíveis respostas, na medida em que existem múltiplas perspectivas, das quais sa‑ liento duas: – Militar – Abrantes constitui um ponto importante para as manobras tác‑ tica e logística, possuindo também valor estratégico, porque é aí que se traça a charneira do continente, quer no plano Norte/Sul quer no plano Oeste/Este – o General Foy considerou‑a a “chave de Portugal”; – Político – Abrantes “cresceu e afirmou‑se como a terra do quartel‑general, de estratégia, de expectativa estratégica, de planeamento, de logística, de sustentabilidade da vida colectiva e do território.” 115 O certo, porém, é que a sua utilização na tradição oral continua a ser sinónimo de imobilismo, configurando também complexidade, plasticidade e insegurança no seu emprego. • Expressão oral n.º4 – “Ir para o maneta” Esta expressão tem o significado “de estragar‑se; desaparecer; morrer.” A sua origem está identificada e associada ao General Loison, que tinha ‑ ‑ ‑ ‑

112 – SILVA, Joaquim Candeias da, Guerra Peninsular – A libertação de Abrantes em Agosto de 1808, Ed. Câmara Municipal de Abrantes, 2008, página 26. 113 114 115

– SILVA, Joaquim Candeias da, op cit, página 27. – Disponível em: http://www.hkocher.info/minha_pagina/port/port_t04.htm

– CARVALHO, Nelson Augusto Marques de, Guerra Peninsular – A libertação de Abrantes em Agosto de 1808, Ed. Câmara Municipal de Abrantes, 2008, página 5.

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perdido um braço, anteriormente às invasões francesas em Portugal. Foi o responsável pelas torturas aos presos, e tinha, inclusivamente, causado várias mortes. Por ser tão terrível nas torturas que executava, surgiu um medo popu‑ lar pelo General Loison, mas ninguém o tratava por esse nome. Para o povo, Loison era "o maneta". E quando havia o perigo de ser capturado, ouvia ‑se logo o conselho: "Tem cuidado, que ainda vais para o maneta." A expressão “Ir para o Maneta” vem igualmente registada no Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, de Guilherme Augusto Simões [que lhe dá o significado de «escangalhar‑se, estragar‑se; perder‑se (no sentido de não ter recuperação)»], e em Novos Dicionários de Expressões Idiomáticas, de António Nogueira Santos («desaparecer; acabar‑se; avariar‑se; morrer»). Já Aquilino Ribeiro preferiu atestar a variante “Mandar para o Maneta”, como vem no seu Dicionário do Calão: «dar cabo de alguém ou escangalhar alguma coisa.» Eduardo Nobre (in Novo Calão Português) também optou por “Mandar para o Maneta”: «escangalhar qualquer coisa.»116 Quanto à sua morfologia, esta expressão parece ter derivado desde a ori‑ gem até à actualidade. É verificável a existência de formas diferentes utilizadas por certos autores:117 – Ir para o Maneta; – Ir prò Maneta; – Mandar para o Maneta. Em relação à sua semântica, é igualmente verificável a evolução da ex‑ pressão, pelo menos em dois sentidos: às pessoas e às coisas. A utilização da expressão oral “Ir para o Maneta” envolvia essencialmente as primeiras. Estas eram submetidas à dureza e crueldade do General Loison, de forma impiedosa, significando ir e não voltar ou tudo perder, até a vida. Em relação às coisas, o referido General denotava a sua total falta de escrúpulos no que tocava à apropriação em proveito próprio dos saques e impostos cobrados em zonas ocupadas, resultando daí destruição, estrago e irreparabilidade. A sua utilização na tradição oral continua a ser sinónimo de tudo se per‑ der, configurando também alguma complexidade, plasticidade e insegurança no seu emprego. De seguida, analisam‑se os três parâmetros – complexidade, plasticidade e insegurança – referentes àquelas quatro expressões, e o respectivo grau

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– Disponível em: http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=14239 – Disponível em: http://letratura.blogspot.com/2007/10/ir ‑para‑o‑maneta.html

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quanto à morfologia e semântica, esquematizados em quatro tabelas e da seguinte forma:
Expressão oral Estrutura Parâmetro Complexidade Morfologia n.º1 – “À grande e à francesa” Semântica Plasticidade Insegurança Complexidade Plasticidade Insegurança Expressão oral Estrutura Parâmetro Complexidade Morfologia n.º2 – “Sair à fran‑ cesa” Semântica Plasticidade Insegurança Complexidade Plasticidade Insegurança Expressão oral Estrutura Parâmetro Complexidade n.º3 – “Tudo como dantes, Quartel‑general em Abrantes” Morfologia Plasticidade Segurança Complexidade Semântica Plasticidade Insegurança Expressão oral Estrutura Parâmetro Complexidade Morfologia n.º4 – “Ir para o Maneta” Semântica Plasticidade Segurança Complexidade Plasticidade Insegurança X X X Grau Alto X X X X X X Grau Alto Médio X X X X X X Baixo Médio Baixo Grau Alto Médio Baixo X X X Grau Alto Médio Baixo X X X X X X

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Explicação dos parâmetros: – Complexidade – Do ponto de vista da morfologia, uma expressão oral considera‑se complexa quando se verifica a existência de pluralidade de formas escritas em diversas referências bibliográficas e em diferentes momen‑ tos. Relativamente à semântica, quando há vários significados dados a uma determinada expressão oral, produzidos por diversos agentes, em momentos e circunstâncias pouco documentados. – Plasticidade – Do ponto de vista da morfologia, uma expressão oral considera‑se plástica quando se verifica a modelação da forma escrita, em diversas referências bibliográficas, sem romper a estrutura formal original. Relativamente à semântica, quando há derivações de significados dados a uma determinada expressão oral, produzidos por diversos agentes, em momentos e circunstâncias mutáveis. – Insegurança – Do ponto de vista da morfologia, uma expressão oral considera‑se insegura quando não se verifica o seu emprego de forma única, em diversas referências bibliográficas. Relativamente à semântica, quando há derivações de significados dados a uma determinada expressão oral, produ‑ zidos por diversos agentes, em momentos e circunstâncias mutáveis. Explicação dos graus: – Alto – Quando há registo de quatro ou mais formas escritas de uma determinada expressão oral, ou quando existem três ou mais derivações de significados, incluindo os de sentido oposto, ou quando o seu emprego é multidireccional. – Médio – Quando há registo de duas a três formas escritas de uma deter‑ minada expressão oral, ou quando existem duas derivações de significados, incluindo os de sentido oposto, ou quando o seu emprego é bidireccional. – Baixo – Quando há registo de uma forma escrita de uma determinada expressão oral, ou quando existe apenas um significado, ou quando o seu emprego tem carácter único.

5. ALGUMAS CONSIDERAçÕES FINAIS
A inventariação, que consiste no levantamento participado, de proximida‑ de, sistemático, actualizado e tendencialmente exaustivo, constitui o primeiro passo de uma caminhada que, nesta área do património cultural imaterial, se sabe por onde começar mas não acabar. Para isso é vital a existência de uma 59

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base de dados, de plataforma aberta e arquitectada por domínios e categorias, em linha e de acesso público. O IMC dispõe organicamente do Departamento de Património Imaterial, de abrangência nacional. À sua semelhança, também a DHCM deve ter uma estrutura e recursos dimensionados para a salvaguarda do património imate‑ rial do Exército, bem como atribuídas competências para definir e difundir as respectivas normas, metodologias e procedimentos. Deve constituir objectivo do Exército a inscrição, no inventário nacional, de algumas manifestações do seu património imaterial, cuja abrangência é nacional. Para tal é necessária a existência de uma Comissão de Patrimó‑ nio Imaterial, presidida pelo Director da DHCM e composta por militares representantes das Armas e Serviços do Exército. A fim de se alcançar este desiderato, é importante a realização de jornadas de sensibilização, educação e informação a nível local, regional e nacional, sobre o património imaterial do Exército. Também é fundamental a apresentação de projectos de investi‑ gação nos estabelecimentos de ensino superior (por exemplo, na Academia Militar), em centros de investigação, entre outras entidades. Ainda se torna imprescindível a realização de estudos pós‑graduados em património imaterial do Exército, até porque “Portugal é obra de Soldados!”. No seio das instituições e organizações nacionais, o Exército é detentor de uma riqueza e diversidade ímpares de património imaterial que urge sal‑ vaguardar e divulgar. Algumas expressões orais, resultantes das invasões francesas e anteriormente identificadas, testemunham a importância e pertinência do tema. Simultane‑ amente, o correspondente processo de salvaguarda e divulgação prefigura complexidade, plasticidade e insegurança. Uma tipificação de património cultural imaterial resultante das invasões francesas foi atrás analisada. O seu enfoque incidiu em quatro expressões orais, associadas àquelas invasões e que se encontram na tradição das comu‑ nidades de língua portuguesa. Através de três parâmetros – complexidade, plasticidade e insegurança – e respectivos graus – alto, médio e baixo – foi possível verificar a relação directa existente entre aqueles parâmetros em todas as referidas expressões, quer sob a perspectiva da morfologia quer da semântica. As suas variações são resultado da tradição oral ser transmi‑ tida de geração em geração, essencialmente de boca em boca, e raramente escritas. Nessa cadeia de transmissão, existem demasiados intermediários e a mensagem final acaba por derivar da original, embora permaneçam elementos comuns. 60

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Portanto, o processo de inventariação deste tipo de património prefigura altos graus de complexidade e de insegurança. Mas, uma caminhada começa com pequenos passos. E este artigo é um deles.

Referências Bibliográficas
Legislação:
Decreto‑lei N.º 97/07, Diário da República, Iª Série, N.º 63, de 29 de Março de 2007. Decreto‑lei N.º 139/09, Diário da República, Iª Série, N.º 113, de 15 de Junho de 2009. Lei N.º 13/85, Diário da República, Iª Série, N.º 63, de 29 de Março de 2007. Lei N.º 107/01, Diário da República, Iª Série, N.º 209, de 8 de Setembro de 2001. Portaria N.º 196/10, Diário da República, Iª Série, N.º 69, de 9 de Abril de 2010. Resolução N.º12/08, Diário da República, Iª Série, N.º 60, de 26 de Março de 2008. Livros: a. AAVV, Guerra Peninsular – A libertação de Abrantes em Agosto de 1808, Ed. Câmara Municipal de Abrantes, 2008. b. CUNHA, Celso; Cintra, Lindley, Nova Gramática do Português Con‑ temporâneo, Ed. João Sá da Costa, 7ª Ed., Lisboa, 1990. c. NOBRE, Eduardo, Novo Calão Português, Ed. Casa do Livro, 1ª Ed., Lisboa, 1979. d. SANTOS, António Nogueira, Novos Dicionários de Expressões Idio‑ máticas, Ed. João Sá da Costa, Lisboa, 1990. e. SIMÕES, Guilherme Augusto, Dicionário de Expressões Populares Portuguesas, Ed. Perspectivas e Realidades, 1ª edição, Lisboa, 1984.

Sites:
a. http://www.unesco.pt/ b. http://www.unesco.org/ c. http://unesdoc.unesco.org/ d. http://stellium.bloguepessoal.com 61

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e. http://www.arara.fr/BBEXPRESSOESIDIOMATICAS.html f. http://singrandohorizontes.wordpress.com g. http://www.hkocher.info/minha_pagina/port/port_t04.htm h. http://www.ciberduvidas.pt/pergunta.php?id=14239 i. http://letratura.blogspot.com/2007/10/ir‑para‑o‑maneta.html

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SEBASTIÃO CABREIRA (1763‑1833), UM MILITAR nA REVOLTA COnTRA OS FRAnCESES nO ALGARVE
Em primeiro lugar queria dizer que para mim foi uma honra aceitar o repto do comandante Pereira da Silva para hoje estar aqui. Por esse motivo devo agra‑ decer, em meu nome pessoal, em nome do Reitor da Universidade do Algarve e em nome do Departamento de História, Arqueologia e Património de que faço parte, o convite que me foi endereçado para estar presente nesta sessão de co‑ memoração do aniversário do Regimento de Infantaria 1 de Tavira Em relação ao que me trouxe cá, devo asseverar que este artigo tem como objectivo primacial fazer uma análise da obra de Sebastião Cabreira Relação His‑ tórica da Revolução do Algarve contra os Francezes, que dolozamente invadirão Portugal no anno de 1807. Devido à definição desse objectivo terão que ficar de fora desta pesquisa as acções do Coronel José Lopes de Sousa, comandante da guarnição de Vila Real de Santo António e que petiscou lume na revolta de Olhão, assim como a actividade do Pároco de Olhão António Matos Malveiro e da população olhanense em geral, incluindo a viagem do Caíque Bom Sucesso; a demanda do Capitão Sebastião Martins Mestre de Tavira; o papel do Comerciante de Faro Bento Álvares Canedo; os recontros com os franceses na Ria Formosa e na Ponte de Quelfes; a actuação da Junta de Sevilha que tinha aberto as hos‑ tilidades contra as tropas de Napoleão debaixo da bandeira de Fernando VII; e,

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por último, os feitos de Joaquim Filipe Landercet que, apenas, será referido de modo bastante superficial118. No entanto, antes de iniciarmos a análise do texto em questão convém fornecer, ainda que com brevidade, os traços gerais da vida de Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, Cavaleiro Professo da Ordem de S. Ben‑ to de Avis, Comendador da Torre e Espada (D. João VI) e Conselheiro de Estado (D. Pedro IV). Pelos elementos respigados em Alberto Iria 119, sabemos que era natural de Faro onde nasceu a 6 de Janeiro de 1763. Era filho de José Cabreira de Brito Alvelos Drago Valente e de Isabel Urdes Barreto. Fez a sua formação académica em Matemática na Faculdade de Filosofia da Universidade de Coimbra e assentou praça, como Cadete, no Regimento de Artilharia 2 de Faro. Teve parte activa nas campanhas do Roussillon e da Catalunha na qualidade de 2.º tenente do citado Regimento, nestas campanhas teve papel significativo ao lado de seus irmãos: Deoclaciano ou Deoclesiano 120, Belchior e Severo. Já de regresso à pátria esteve no acantonamento do Alentejo em 1797 e comandou a artilharia do Exército da Beira Baixa na campanha de 1801121. Teve uma participação activa nos acontecimentos de 1808 em Faro, no Algarve e no Alentejo, matéria de que trata a sua obra Relação Histórica da Revolução do Algarve contra os Francezes, que dolozamente invadirão Portugal no anno de 1807. Diga‑se, desde já, que existe uma outra obra que descreve estes acontecimentos, de um seu coevo, também membro da Junta
118 Em relação aos sucessos citados pode‑se consultar, por exemplo, José Acúrsio das Neves, História Geral da Invasão dos Francezes e da restauração deste Reino, Lisboa, Officina de Simão Thaddeo Ferreira, 1811, em especial o Tomo III que trata do Algarve; Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Peninsular – 1808‑1814), Lisboa, Livro Aberto, 2004; O Manuscrito de João da Rosa, Edição Actualizada e Anotada, Olhão, Câmara Municipal de Olhão, 2008 e João Coelho de Carvalho, “Invasão Francesa no Algarve”, in Francisco Xavier Athaide Oliveira, Biografia de D. Francisco Gomes do Avelar, Arcebispo‑Bispo do Algarve, Porto, Typographia Universal, 1902, pp. 175‑198. Sobre a Guerra Peninsular é útil a consulta de, por exemplo, Francisco Augusto de Magalhães (Coord.), Nota bibliographica em ordem chronologica das obras existentes na bibliotheca que mais ou menos exten‑ samente tratam da Guerra Peninsular ou com ella se relacionam, Lisboa, Imprensa Nacional, 1909 e Christovam Ayres de Magalhães Sepúlveda, Dicionario Bibliografico da Guerra Peninsular contendo a indicação de obras impressas e manuscritas em português, espanhol, catalão, francês, inglês, italiano, alemão, latim, etc., 2 Volumes, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1924. 119 120 121

Alberto Iria, Op. Cit., pp. 283 a 285. Iria escreve o nome das duas maneiras, embora a segunda apareça mais amiúde.

Data da chamada Guerra das Laranjas, nome que tomou a disputa entre Portugal e Espa‑ nha, que terminou com a perda de Olivença, devido ao facto de à Rainha castelhana terem sido enviados os odoríficos frutos.

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Sebastião Cabreira (1763‑1833), um militar na revolta...
Governativa do Reino do Algarve, Joaquim Filipe de Landercet, obra publicada no final de A Invasão de Junot no Algarve122. Em 1811, depois de ter liderado a artilharia do porto de Peniche, assume o comando do seu antigo Regimento. Em 1817, data da conjura liberal de Gomes Freire de Andrade, é promovido a Coronel do Regimento de Artilharia 4 e é nessa qualidade que participa no movimento de 24 de Agosto de 1820, tendo sido nomeado Vice‑Presidente da Junta do Governo e Comandante da Força Armada que rumou ao Sul. Na capital foi promovido a Brigadeiro e, ainda, ocupou a cadeira de Presidente da Junta Preparatória das Cortes. Foi, em 9 de Maio de 1821, empossado como Governador das Armas do Algarve e em 13 de Março de 1823 deixa o comando no Reino do Algarve e regressa a Lisboa. Depois de 1828 teve necessidade de se exilar em Inglaterra, passando daí aos Açores, onde foi nomeado, corria o ano de 1829, Presidente do Governo Provisório da Ilha Terceira. Foi dessa ilha atlântica que acompanhou as tropas que desembarcaram no Mindelo. Em 1831 é investido, por D. Pedro IV, como Comandante Geral da Artilharia e, no ano seguinte, Governador Interino das Armas do Porto e Minho. Veio a falecer no Cerco da Cidade do Porto, já na patente de Marechal de Campo, no dia 3 de Junho de 1833, no mesmo exacto dia em que era agraciado com o título de Visconde da Guarda. Convém realçar que o texto, que melhor alcunharíamos de processo com os seus trinta e três quesitos finais, é redigido por António Maria do Couto. Este autor, segundo as informações de Inocêncio Francisco da Silva, terá provavelmente nascido em Lisboa, filho de Veríssimo José do Couto que era Comissário dos Trigos. Morreu a 16 de Agosto de 1843 com 65 anos de idade, o que, contas feitas, dá como data de nascimento o ano de 1778 ou 1779. Teve actividade docente como Professor Régio de Língua Grega, primeiro no Bairro de Belém e, de seguida, no Rossio. Foi compulsivamente afastado do Ensino, pelas suas opiniões políticas, entre 1828 e 1833, ano em que foi reintegrado. Corria o ano de 1840 quando foi investido no cargo de Reitor do Liceu Nacional de Lisboa, múnus que ocupou até ao seu falecimento. Segundo um estudioso do mutua‑ lismo terá sido um dos sócios fundadores do Montepio Geral123.

Alberto Iria, Op. Cit,, pp. 457 a 476. O texto de Joaquim Filipe de Landercet foi publicado, originalmente, em Lisboa em 1809 na Nova Officina de João Rodrigues Neves, com o título de Breve Noticia da Feliz Restauração do Reino do Algarve.
122 123 António Maria do Couto foi autor prolixo, facto que nos dá conta Inocêncio Francisco da Silva e Pedro Venceslau Brito Aranha no Dicionário Bibliográfico Português, Tomo I, pp. 197 a 200 e Tomo VII, pp. 243 a 244. Escreveu uma obra sobre esta época: Memórias sobre a má política do Ministério francez em Portugal nos annos de 1807 e 1808, Lisboa, Typ. Lacerdina, 1808, 8.º de 31 pp.

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Passemos, agora, à descrição dos acontecimentos, ou seja, à exposição por‑ menorizada da actividade do então Capitão de Artilharia Sebastião Cabreira no Algarve e, também, no Alentejo enquanto Ajudante General do Presidente da Junta Governativa do Algarve, Francisco de Melo da Cunha Mendonça e Meneses, Conde Monteiro Mor, futuro Marquês de Olhão e Governador do Reino. Antes de mais, não se pode deixar de notar que no momento em que se iniciam os sucessos de Faro o autor esteja a dar à “natureza o costumado repouso, e dormia” quando um magala o foi pôr ao corrente dos aconteci‑ mentos “e sem mais hesitar, veste a farda, empunha a espada, sai à rua, e acaba de amotinar a cidade exclamando «Viva o Princípe Regente» e convida os Portugueses à defesa da Pátria e à restituição do Reino ao seu legítimo Soberano”124. O facto de descansar prendia‑se com “a vigília contínua em que andava, havia muitos dias, indagando os movimentos do inimigo e os sentimentos do povo, furtando‑se aos traidores e aos espias”125. Depois de encomendar a seu irmão Severo Leão Cabreira a defesa do Campo do Pé da Cruz com duas peças que possuía e após dar ordens ao outro irmão, Belchior de sua graça, passou ao campo da Esperança onde mandou arrombar o paiol de pólvora para guarnecer as peças de artilharia, ficando, assim, com dois postos defendidos militarmente. Na iminência do ataque dos franceses, Sebastião, de conluio com seus familiares, organizou a defesa da cidade e “não houve algaravense que não ficasse a pé firme esperando o Inimigo”, tendo uma das peças de bateria uma pontaria tão afinada que, em pouco tempo, destroçou os gauleses. Procedeu‑se, então, à clausura do general francês conjuntamente com os empregados, oficiais, comissário geral e cerca de cem soldados sem qualquer violência por parte da população civil por esmero do Autor. Após estes suces‑ sos era necessária a defesa da cidade cobrindo “todas as entradas, colocando artilharia nas melhores posições para evitar o ataque do inimigo, o qual se receava que seria na madrugada do seguinte dia, por haver juntado todas as tropas que tinha em Vila Real”126. O que teve como necessária conclusão, “que logo que principiou a organizar o povo, este o elegeu e aclamou por seu Capitão Mandante”127.

124 125 126 127

Sebastião Cabreira, Op. Cit., p. 9. Idem, Ibidem. Idem, Ibidem, p. 11. Idem, Ibidem, p. 39.

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No dia seguinte após entrevista com o Bispo Francisco Gomes do Avelar foi ministrado armamento a todos os eclesiásticos e “à vista de tão brilhantes disposições e de uma conveniência de vontades tão uniforme, ninguém duvidava em Faro do bom êxito dos negócios públicos, pelo que dizia respeito a esta parte do Algarve, porém não davam pouco que pensar as outras ramificações do Reino, que ainda estavam indecisas em se rebelarem contra o Tirano, e talvez reputassem ousadia quanto viam acontecer em Faro e Olhão” 128. Foi, então, que por alvitre do Bacharel Ventura José Crisóstomo se foi levar notícia e tentar o amotinamento geral das vilas e cidades de todo o Algarve. De imediato partiu para Albufeira Sebastião Duarte da Silva Negrão, onde de seguida se hasteou a bandeira nacional nomeando governador interino o Tenente Joaquim Albino “cujo exemplo foi à porfia imitado em todas as mais terras do barlavento até ao Cabo de S. Vicente”129. Nesse mesmo dia e respondendo a um apelo do Prior de Olhão, destacou Sebastião Cabreira “em socorro dos habitantes de Olhão 160 homens e 2 peças de artilharia, 1 de 6 e outra de 3, e os Tenentes Maximiliano Augusto Penedo e António Teixeira Valente aos quais deu as necessárias ordens no caso de ataque”130. Foram, também, enviados dois emissários a Tavira para forçarem Marasin a render‑se, no entanto, este tinha saído da cidade com o propósito de atra‑ vessar a serra e passar para o Alentejo. Em vista disto Cabreira demandou a progressão de 100 homens e 2 peças de artilharia, comandadas pelo Capitão Narciso Duarte, para a aldeia de S. Brás a fim de sossegar os moradores e travar o passo às forças de Junot. No entanto, as tropas francesas ao toma‑ rem conhecimento dos movimentos do exército nacional decidiram rodeá ‑las evitando o confronto. No entretanto, o Conde Monteiro Mor, Francisco de Melo da Cunha Mendonça e Meneses, Capitão General do Reino, futuro Marquês de Olhão e Governador do Reino de Portugal, vivendo como particular na cidade de Tavira, decidiu rebelar‑se, após a fuga de Marasin, e reclamar o domínio da cidade para a propriedade do Princípe Regente. Após este golpe de audácia foi, identicamente, o Capitão Cabreira que proveu de armas e munições os revoltados de Tavira.

128 129 130

Idem, Ibidem, p. 12. Idem, Ibidem, p. 13. Idem, Ibidem.

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Perante tudo isto geral “foi o assombro com que os habitantes de Faro viram que o patriotismo reinava em todo o Algarve, e que o Capitão General em que os Algaravios tanto confiavam era o que mais disputava a glória de unir e comandar os povos contra o inimigo comum”131. Embora já sem intervenção do futuro Marechal de Campo há que contar com a incursão das tropas napoleónicas contra Castro Marim, que não deu qualquer fruto pois os gauleses não conseguiram penetrar na Vila defendida pelo Capitão‑mor, os Tenentes de Granadeiros e Caçadores do Regimento n.º 14 e pelo Juiz da Alfândega de Vila Real de S. António. A investida do dia seguinte não teve, também, qualquer resultado, pelo contrário, o comandante do exército de Junot foi aprisionado em conjunto com 43 soldados. É, deste modo, que se permite concluir que “em menos de 8 dias foi todo o Algarve livre dos seus opressores dos quais bem poucos escaparam, únicos que se refugiaram para a Vila de Mértola”132. No entanto, “o sossego público ainda não estava equilibrado por falta de disciplina, a qual nunca se pode estabelecer de chofre e repentinamente entre paisanos armados e ordenanças pouco sujeitas ao rigor militar; pelo que eram frequentes os rebates, pouco segura a vida dos Cidadãos, e quase comum a fazenda dos particulares”133. Por esse motivo é requerido a Sebastião Cabreira, pelo Cónego António Luís de Macedo, doutor pela Universidade de Coimbra e o Arcediago de Tavira, Gaspar Limpo Leitão de Aguiar, que fossem nomeados sete oficiais militares que com outros tantos clérigos, aristocratas e populares, pudessem ser empossados pelo Bispo Francisco Gomes do Avelar e magistrados, de forma a deter a autoridade do Reino. Por essa razão foram indigitados o Conde Monteiro‑mor (Presidente), Joaquim Filipe de Landercet e Sebastião Cabreira (Militares), o Arcediago da Sé e o Cónego António Luís de Macedo (Religiosos), o Desembargador José Duarte da Silva Negrão e José Bernardo da Gama (Nobres) e Miguel do Ó filho, Major de Ordenanças, e Manuel Aleixo, Mestre pedreiro (Povo). A re‑ organização do exército foi a primeira tarefa da Junta. Todavia, “apesar da Junta criada, a quem o Justificante obedecia, o Povo continuava a fazer‑lhe requisições de todas as maneiras” e de que foi também ele Sebastião Cabreira que, no dia 7 de Agosto achando‑se os habitantes de
131 132 133

Idem, ibidem, p. 15. Idem, ibidem, p. 16. Idem, ibidem.

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Faro amotinados, embora a Junta Governativa se achasse em funções, os apaziguou, fazendo‑lhes depor as armas e restabelecendo a ordem134. Que mesmo depois de mandar prender os cabecilhas do motim, através de seu irmão Belchior, “nem por isto deixou o Povo de o amar, como dantes” 135. Outras acções foram empreendidas de súbito, como tentar negociar com o Supremo Conselho de Espanha sediado em Sevilha um tratado em que se “reconhecesse a independência do Algarve”136, o envio das boas novas ao Princípe Regente no Brasil e a tentativa de negociar um empréstimo com Inglaterra para a compra de material bélico. A partir deste momento começa a obra a tratar dos acontecimentos no Alentejo, com a reunião do corpo francês que marcha para Beja. Convém salientar que é já na campanha do Alentejo que é investido como Ajudante General do Conde Monteiro‑mor. Por serem fora do então reino em que nos encontramos não vamos tratar delas em pormenor, finalizando deste modo a exposição das acções militares de Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, futuro Visconde da Guarda. Para findar a exposição dos acontecimentos pretendemos fazer referência ao facto de ter sido Sebastião Cabreira que “ordenara ao Povo que trouxesse por distintivo o laço encarnado em sinal da nossa liberdade, a cujo exmplo o tomaram também na Província do Alentejo, distintivo que a Suprema Junta Governativa do Reino mandou conservar por Decreto”137. Não queríamos, no entanto, terminar esta exposição sem asseverar que a obra do militar farense provocou alguma controvérsia entre os historiadores da época, à semelhança do que irá acontecer com uma petição dirigida a D. João VI depois da Revolução de 1820. Sobre essa questão, que não queremos repisar, a minha perspectiva já se encontra exposta em letra de forma nas Actas do Congresso Histórico de Olhão de 2008 que serão, ao que julgo, brevemente editadas. Obrigado a todos. A. Paulo Dias Oliveira138

134 135 136 137 138

Vd. Idem, ibidem, p. 41. Idem, ibidem. Idem, ibidem, p. 18. Idem, ibidem, pp. 41‑42.

Departamento de História, Arqueologia e Património – Faculdade de Ciências Humanas e Sociais – Universidade do Algarve. Seminário Livre de História das Ideias – Centro de História da Cultura – Faculdade de Ciências Sociais e Humanas – Universidade Nova de Lisboa.

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SOBRE A InVASÃO DE JUnOT nO ALGARVE
Por: Adérito Fernandes Vaz

INTRODUçãO
Para que a 1ª Invasão Francesa tivesse acontecido, houve um longo pro‑ cesso, que teve a sua marcha no tempo. Os ideais liberais começaram a chegar a Portugal através dos livros de conhecidos autores franceses, como Voltaire, Diderot, Rousseau e outros, já no tempo do Marquês de Pombal. A seguir começou a haver conhecimento da Constituição Francesa de 1791, da Declaração dos Direitos do Homem e de diversas publicações liberais. O combate político a estes ideais era realizado pela Inquisição e o próprio Marquês de Pombal criou a “Real Mesa Censória” para travar os avanços da mentalização da Revolução Francesa. D. Maria I, reformando muito, do que vinha do Marquês, substituiu a “Real Mesa Censória” pela “Mesa da Comissão Geral sobre o Exame e Censura de Livros” presidida por um padre e oito deputados, em que quatro eram pro‑ fessores de teologia. A própria polícia tornou‑se repressiva à literatura liberal, com o intendente Pina Manique. Contudo, não conseguiu evitar a criação de lojas maçónicas e os panfletos, que circulavam entre a população. Um factor bastante favorável,

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O Algarve e as Invasões Francesas
a não haver maior divulgação foi a grande percentagem de analfabetos da população portuguesa. Apesar dos portadores de livros liberais serem presos, as novas doutrinas avançavam nos meios académicos e os afrancesados iam aumentando. A Ma‑ çonaria estendia‑se a todo o país, a moda francesa do traje era uma novidade, com o uso de luvas e os laços com as cores francesas. A França tinha expandido os seus ideais, de acabar com o absolutismo dos reis e Portugal procurou a neutralidade, mas ser neutro é para quem pode e para melhor situação fez uma aliança com a Espanha e a Inglaterra contra a França pelos seus excessos agressores. A Espanha veio a entender‑se com a Inglaterra e só depois abriu as portas a Portugal como aderente. Iniciou a invasão dos Pirinéus pelo Rosssilhão, onde Portugal enviou tropas para cumprir o acordo, com uma divisão de 5.000 homens, que lutaram ao lado dos espanhóis. Os espanhóis retiraram quando chegou o Inverno do ano de 1794 e os portugueses tiveram de seguir‑lhes o caminho. A Espanha mais uma vez, de costas voltadas para Portugal assinou em Basileia a paz com os franceses. A situação portuguesa, considerada de velho aliado da Inglaterra, tornou‑ ‑se complicada perante a França, como inimigo da Revolução Francesa, que propôs à Espanha, governada pelo primeiro‑ministro Manuel Godoy, aniquilar Portugal, caso não abandonasse a aliança com a Inglaterra, não abrisse os portos aos franceses e espanhóis, fechasse aos ingleses e entregasse à Espanha uma ou mais províncias. Portugal não aceitou estas condições e em 02 de Março de 1801 foram invadidas as fronteiras portuguesas no Alentejo. Em 28 de Maio de 1801, em Badajoz, reuniram‑se os plenipotenciários dos países envolvidos, pela França, Luciano Bonaparte, pela Espanha Manuel Godoy e por Portugal, Luís Pinto de Sousa Coutinho. As imposições a Portugal foram bastante pesadas, porque para além das Praças de Elvas, Campo Maior e Olivença pretendia a Espanha a fortaleza de Sagres. Não houve acordo e só em 06 de Junho de 1801 foi assinado o tratado de paz de Badajoz. Olivença ficou para a Espanha, alegando Manuel Godoy, que não constava nas instruções recebidas do rei Carlos IV, mas nas suas Memórias escreveu, que foi para acabar com um foco de contrabando, como se não fosse uma vulgaridade nas fronteiras através dos séculos. 72

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
É curioso, como Manuel Godoy pretendia a fortaleza de Sagres, para com o extremo Norte do Cabo Finisterra, ocupar a totalidade dos extremos da Península Ibérica. Foi em 30 de Maio de 1801, que na guerra das Laranjas, o marquês de Castelar com 4.000 homens entrou em Olivença, com a rendição do último governador português, Júlio César Augusto de Chermont. A ocupação efectiva realizou‑se no ano seguinte, em fins de Fevereiro de 1802, pelo general Juan Caraffa, em nome de Carlos IV de Espanha, que era sogro do Príncipe Regente. A França com Napoleão tentou dominar a Inglaterra pelo bloqueio decretado em Berlim em 1806, que deixou Portugal, mais uma vez, numa situação am‑ bígua, que acabou por situar‑se muito afastada da pretendida neutralidade. O Príncipe Regente, segundo a própria declaração de 26/XI/1808, antes de partir para o Brasil, refere que cedia em parte as propostas, mas Napoleão não aceitou e em 1807, estabeleceu o Tratado de Fontainebleau, que dividia Portugal em três partes, onde o Alentejo e o Algarve seriam um principado para o ministro espanhol Mamuel Godoy e mandou Junot para a 1ª invasão, cujos acontecimentos mais relevantes no Algarve serão assinalados pelas respectivas datas. Em Portugal foram tomadas duas facções políticas, a dos defensores da monarquia absoluta e da igreja, em nome da soberania nacional e os da defesa dos ideais da Revolução Francesa pelo liberalismo, com um estado, com um governo dividido pelos poderes executivo, legislativo e judicial. Mas, o grande mal de Napoleão para os portugueses, mesmo para os crentes dos novos ideais, foi a “contribuição de guerra” com decisão de 23/ XII/1807, com uma contribuição extraordinária de 100 milhões de francos impostos a Portugal, contribuição, que seria repartida pela cidade e pela província, segundo as posses de cada um e aos cuidados de Junot para a sua pronta arrecadação.

I
1 – Em 09/XI/1795, no Palácio de Queluz foi nomeado o capitão – ge‑ neral Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, Governador do Reino do Algarve, pela Rainha D. Maria I, para a cidade de Tavira e sede do quartel‑general. 73

O Algarve e as Invasões Francesas
Não existe no “Regimento dos Governadores do Algarve” a expressão de capital, mas pelas funções atribuídas e competências, considera‑se ser a capital do Algarve, a cidade onde o Governador desempenhava as suas funções, que antes de 1755, tinha sido a cidade de Lagos. Faro era a sede da diocese, a cidade, onde se encontrava o Bispo, desde 1597, quando D. Jerónimo Osório se deslocou de Silves. Segundo o “Regimento dos Governadores do Algarve” o Governador, com o Bispo do Algarve “teria a conta que elle merece e he razao da sua dignidade, e possais tomar do seu parecer e consellos nas cousas do meu serviço em que for necessario ... e pedir‑lhe‑heis a informação que vos for necessaria, que vos elle dara das cousas do dito Reino e do que convem prover‑se nellas”. 2 – Em 26/XI/ 1807, o Príncipe Regente, antes de embarcar para o Brasil a 29/XI/1807, nomeou Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, conde de Castro Marim, em tenente‑general dos seus exércitos e na falta de qualquer deles” na Regência. Refere o Príncipe Regente, que “tendo por certo que os meus reinos e povos serão governados e regidos por maneira que a minha consciência seja desencarregada, e eles governadores cumpram inteiramente a sua obrigação, enquanto Deus permitir que eu esteja ausente desta capital”. Ficaram Francis‑ co de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses com essa grande obrigação, ao mesmo tempo, que tinha de sujeitar‑se aos franceses, quando o Príncipe Regente diz: – “que tentou por todos os meios conservar a neutralidade, mas devido às circunstâncias pretendeu “evitar as funestas consequências que se devem seguir a uma defesa, que seria mais nociva que proveitosa, servindo só de derramar sangue em prejuízo da humanidade e capaz de acender mais a dissensão de umas tropas que têm transitado por este reino com o anúncio e a promessa de não cometerem hostilidade!”. Diz‑se, que o exército português não se encontrava em condições de fazer frente aos franceses, mas no estado miserável que chegaram a Lisboa, para os derrotar não precisaria muito. Mas, havia que contar com o exército espanhol, que ocupou o Alentejo e o Algarve, com sede em Setúbal e tinha mais duas divisões, uma em Lisboa, outra no Porto. Pensa‑se, que o Príncipe Regente, também pretendeu evitar uma guerra civil, entre portugueses contra franceses e portugueses dos ideais da Revolução Francesa, o que só veio a acontecer mais tarde, com os filhos D. Pedro e D. Miguel. Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Menezes, conde de Castro Marim, no “Mapa das Forças de Que se Compunha o Exército do Algarve”, assume a nomeação de tenente‑general dos Exércitos de SA.R. 74

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
Numa carta para o Príncipe Regente também comunicou que já tinha os Exércitos do Norte organizados. 3 – Em 17/XII/1807 foi recebido em Faro, pelo Desembargador, Duarte da Silva Negrão, um ofício para arranjar alojamentos para os soldados que iam invadir o país, que seriam os espanhóis. Entre personalidades famosas, que trabalharam para o bem estar dos in‑ vasores, que veio a fazer parte da Junta de Regência do Algarve, salienta ‑se Miguel do O, como consta no seu termo de assentada: – “concorrendo com a mais eficaz liberalidade com os seus bens e frutos, assim para os aquarte‑ lamentos dessas tropas estrangeiras, enquanto se conservarão com o rebuço de amigos, obsequiando os seus generais, e mais officialidade para não mo‑ lestarem o povo com as suas extrucções”. 4 – Em 20/XII/1807 foi recebido pelo Juiz de Fora de Tavira, Francisco Félix da Mota Pinheiro, ofício do quartel‑general espanhol em Setúbal, em dominação administrativa, para dividir a cidade em bairros. Nesse ofício lê ‑ ‑se “Desejam, que efectivamente, se louvem e que os Portugueses tenham cada dia mais provas de esmero, com que o Governo Espanhol procura a sua felicidade”. O ofício era do Juiz Mayor das Províncias do Alentejo e Algarve e Comarca de Setúbal, D. Joaquim Maria Sotelo, nomeado pelo Excelentíssimo Marquês de Socorro Generalíssimo Chefe deste Partido. Os oito bairros de Tavira foram apresentados, dividindo a cidade pelas ruas e cada um, possuía um responsável. 5 – Em 22/01/1808 entraram tropas espanholas pela fronteira de Vila Real de Santo António, com o conde de Campigny, pertencentes à divisão de Se‑ túbal e o comando instalou‑se em Faro, frente à Sé, perto do Bispo. Porque foram para Faro? Por ser a cidade mais central! Por ser a sede de diocese! Por estar mais afastada da fronteira! Pensa‑se, que sendo Tavira a cidade do ex – quartel – general, com o Regimento de Infantaria n.º 14, com 1253 homens, não haveria instalações suficientes e não iriam juntar portugueses com espanhóis, que possivelmen‑ te, para os invasores não seria conveniente, além de ficar mais próximo da fronteira. Esta referência é apontada, porque o Regimento de Infantaria n.º 14 só foi licenciado pelo Junot, em 14 de Abril de 1808, enquanto as milícias foram em 11/01/1808. 75

O Algarve e as Invasões Francesas
6 – Em 23/01/1808, o Juiz de Fora de Tavira respondeu ao quartel‑general espanhol em Setúbal, que tacitamente suplantou e eliminou o quartel‑general em Tavira, com a cidade dividida em bairros, com os respectivos responsáveis. 7 – Em 18/02/1808 Junot sanciona os vereadores da Câmara Municipal de Tavira para o ano de 1808, capitão‑mor António Aragão Costa, Manuel Vaz Velho, Bacharel Pedro Manuel Paes Tavares e Procurador Manuel Baptista, obedecendo ao dito de Napoleão, escrito por Junot em 23/XII/1807, que “quer que este belo país seja administrado e governado todo por inteiro, em seu nome e pelo general‑chefe do seu exército”. “As tropas portuguesas comanda‑ das pelos mais recomendáveis dos seus chefes, formarão bem depressa uma só família com os soldados de Merengo, de Austerlitz, de Lena, de Trudland e não haverá entre eles outra rivalidade que a do valor e da disciplina. Dizia Junot, que, “a instrução pública, esta mãe da civilização dos povos, se derramará pelas províncias e o Algarve e a Beira Alta terão também um dia o seu Camões”. Junot gozava de grande confiança de Napoleão, porque até pretendera casar com uma sua irmã e mais tarde, quando o líder foi afastado do exército, foi quem lhe deu algum dinheiro. Do sancionamento dessa Pauta dos vereadores, em nome do Imperador dos Franceses e Rei da Itália, só tomaram posse em 20 de Abril de 1808. 8 – Em 23/02/1808 chegaram a Faro as primeiras tropas francesas, após os espanhóis terem retirado para Espanha, pelo desentendimento com os fran‑ ceses, que antes tinham acordado pelo Tratado de Fontainebleau. Segundo o tenente – coronel Landerset, houve no Algarve tropas espanholas até fins de Março de 1808. Os franceses instalaram‑se também em Faro, como os espanhóis, seguindo a mesma conduta. O comando instalou‑se numa casa, também próxima do Bispo, onde no presente, foi construído o edifício do Governo Civil. Também as tropas francesas estiveram no Algarve, com o Regimento de Infantaria n.º 14, que só foi licenciado em 14 de Abril de 1808. 9 – Em 21/V/1808, o Bispo do Algarve, D. Francisco Gomes de Avelar, que forçosamente tinha de sujeitar‑se ao invasor francês, quando a igreja ficara perturbada com Napoleão, pela coroação do imperador, que rejeitou que a coroa fosse colocada na cabeça pelo Papa, fez uma pastoral, onde disse: ‑“Haveis de saber, que a Eterna Sabedoria, que tudo rege, há disposto que a nossa Deputação, que se foi apresentar ao Augusto Imperador dos 76

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
Franceses, Rei de Itália e Protector da Confederação do Rheno, tivesse a feli‑ cidade de ser benignamente recebido por sua Magestade Imperial e Real com promessa de usar com todos Nós os Portugueses dos efeitos de Sua Cordeal beneficência. Todos pois nos devemos unir em dar a Deus as devidas graças por ter movido a piedade a um tão grande Monarcha .... que a Nossa Santa Lei e Religião nos manda que procuramos sempre vier em paz com todos e sujeitarmos a quem governa com uma perfeita sujeição e obediência; e tratar a todos os nossos próximos e as tropas, que ao presente se acham entre nós, com afável caridade, para merecermos a Protecção do Senhor, que é Deus da paz; e deste modo mostraremos ao Augusto Imperador e Rei que satisfazemos às suas Boas Intenções. Egualmente exhortamos a todos os soldados nossos Diocesanos, que tives‑ sem desertado, que sem demora se recolham para onde são chamados pelo Decreto que sobre isto se publicou para evitarem o perigo gravíssimo a que estão expostos... e se assim esperamos que os Paes e parentes dos mesmos desertores os obriguem e persuadam a que cumpram o que lhes é mandado, para não causarem dano tão notável a si e a todo o Reino. Em 02 /V/1808 já os espanhóis se tinham revoltado em Madrid contra o Murat. Segundo a Carta do Compromisso Marítimo de Olhão, que seguiu no caíque Bom Sucesso, assinada pelo escrivão João da Rosa, diz: ‑“era fazerem um recrutamento desde a idade de quinze anos até quarenta fosse solteiro ou casado, Frade ou Clérigo como se viu na lista que tinha vindo do Corregedor ‑ Mor francês, que era o Sr. Gouguet. 10 – Em 12/VI/1808, já em Olhão, o escrivão João da Rosa, nas vésperas do dia de Santo António, tinha posto a descoberto as armas portuguesas no altar de Nossa Senhora da Conceição e no dia 13/6/1808, o capitão das milícias Sebastião Martins Mestre tinha‑se apoderado da fortaleza de S. João da Barra em Cabanas de Tavira, mas teve de refugiar‑se na esquadra inglesa, que estava por perto. 11 – Em 16/VI/1808, o coronel Lopes de Sousa, que estava em Olhão, quando ia para a missa do dia de Corpo de Deus rasgou o edital afixado na parede, à porta de igreja matriz a incitar contra os espanhóis e exaltou os pescadores para a revolta, que aclamaram a Rainha e o Príncipe Regente. Todos obedeciam a Francisco de Melo da Cunha e Meneses, de acordo com as nomeações do Príncipe Regente na Declaração de 26/XI/1807 e fazia parte nesse movimento com os pescadores, Sebastião Martins Mestre, o sar‑ gento Jacinto Ramalho Ortigão da fortaleza de S. Lourenço, o Padre Malveiro 77

O Algarve e as Invasões Francesas
e outros olhanenses, que deviam pertencer ao movimento clandestino, onde se considera também a influência do Bispo. 12 – Em 18/VI/1808, os revoltosos de Olhão, comandados pelo capitão das milícias Sebastião Martins Mestre atacaram, numa espécie de emboscada, uma coluna francesa que se deslocava pela ponte de Quelfes, sendo o pri‑ meiro movimento armado. Vários autores indicam que mataram 25 franceses, sem haver registo do lugar onde foram sepultados. Outro relato de um oficial do tempo, diz, que os franceses mataram três olhanenses e desconhece‑se as baixas francesas. 13 – Em 19/VI/1808, o capitão francês, Gaviel, que estava em Faro deslocou‑ ‑se às proximidades de Olhão com o Juiz de Fora de Faro, para convencer o coronel Lopes de Sousa e o capitão das milícias Sebastião Martins Mestre a desistirem de incitar os pescadores à revolta. O capitão Gaviel não tendo conseguido os seus intentos e convencido, que os ingleses se encontravam por perto, porque a esquadra inglesa per‑ manecia na costa, partiu para Tavira a juntar‑se à Legião do Meio‑Dia do coronel Marasin. Deslocou‑se por caminhos paralelos à Estrada Real (actual E. N. 125), possivelmente, com receio de poder cair nalguma emboscada montada pelas tropas inglesas. 14 – Em 19/VI/1808, o Juiz de Fora de Faro, depois do capitão Gaviel ter retirado para Tavira, foi para a Câmara Municipal de Faro e pelas catorze horas aclamou a Rainha e o Príncipe Regente, conforme acta vinda do Ar‑ quivo Nacional do Brasil, tendo a seguir enviado ofícios a todas as Câmaras do Algarve e para Santiago do Cacém no Alentejo. 15 – Em 20/VI/1808 chegou o capitão Gaviel a Tavira, tendo no trajecto os soldados roubado a custódia da igreja da Luz de Tavira, que o sacristão vira e avisou o povo, que foi recuperá‑la à entrada da cidade. Nesse dia, com a Legião do Meio‑dia formaram e marcharam pela rua de S. Lázaro (actual Almirante Cândido dos Reis) para Mértola. Jamais regressaram ao Algarve e Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses mandou tocar os sinos das igrejas de Tavira. Em Faro formou‑se uma Junta Provisional presidida pelo Bispo D. Fran‑ cisco Gomes de Avelar. 16 – De 21/VI/1808 a 27/VI/1808, no arquivo, não se encontrou actas da Câmara Municipal e foi no período, que se formou também a Junta Provisional 78

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
de Tavira e o conde de Castro Marim começou de imediato a reorganizar o Regimento de Infantaria n.º14, que tinha sido licenciado em 14 de Abril, com armamento conseguido em Sevilha e Gibraltar. O coronel Belchior da Costa Correia, Governador da Praça, abriu os de‑ pósitos aos populares, apesar de haver poucas armas. Os oficiais das milícias, ordenanças e Infantaria n.º 14 apresentaram‑se e conseguiram 100 espingardas e 70 terçados. O farmacêutico Miguel Ferreira Baptista trouxe uma peça de bronze calibre 6 da fortaleza de S. João da Barra e seis a oito espingardas. O maior recheio foi trazido do paiol da pólvora. O material de guerra da fortaleza foi transportado nos barcos de Domin‑ gos Rodrigues Cunha e Lourenço Rodrigues Cunha (irmãos) e António da Trindade. O barco correio em ligação a Lisboa pertencia ao tavirense Gaspar José da Silva Torres. Surgiu a notícia, que as tropas francesas de Vila Real de Santo António rumavam para Tavira ao encontro do coronel Marasin. Para enfrentar este situação saiu o ajudante de milícias António Pedro de Brito Vila Lobos. Na estrada da rua de S. Lázaro (actual Alm. C. Reis) foi colocada a peça de bronze de 6 da fortaleza de S. João da Barra. Para a ponte do Almargem avançou a companhia de Ordenanças sob o comando do capitão António Xavier de Oliveira Corte Real. O capitão João Ribeiro Lopes, Ajudante de Ordens do Governador, por determinação deste, empregou‑se na construção de duas baterias, a da Assêca e a da ponte de S. Lázaro. No dia 21 de Junho de 1808, novo rebate de sinos das igrejas de Tavira com a aproximação de tropas francesas. Foi o ajudante de milícias António Pedro de Brito Vila Lobos que foi ao encontro dos franceses comandados por Berthier. O ajudante de milícias apresentou‑se como enviado do conde de Castro Marim, como se estivesse debaixo da obediência francesa e comunicou ‑ ‑lhe haver em Tavira 5.000 ingleses. Os franceses retiraram e seguiram o caminho que lhes foi indicado. Em 21 de Junho, uma companhia francesa pretendia entrar em Castro Marim, mas foi repelida, com fogo dos baluartes. Aí encontrava ‑se João da Guarda e os irmãos António Fernando, Francisco da Paula, José da Guarda que eram oficiais do R.I.14 de Tavira. O conde de Castro Marim, depois da retirada definitiva, não perdeu tempo e mandou o caíque do mestre Nicolau Martins a Gibraltar de onde trouxe 79

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armas e munições. Este caíque chegou no dia 26/6/1808 com 700 espingardas, 400 arrobas de pólvora, caixotes de balas e um barril de pederneira. Sebastião Martins Mestre no dia 20 de Junho de 1808 deslocou ‑se a Sevilha e trouxe armamento no caíque do mestre Domingos Dias, que entrou a 24/ VI/1808, na barra de Vila Real de Santo António. No dia 26 de Junho de 1808, Sebastião Martins Mestre foi a Ayamonte para trazer 400 espingardas. Nomes de tavirenses considerados pelo Príncipe Regente, que lutaram contra a ocupação francesa, constam: José Pedro de Oliva Pontes, Manuel da Conceição Santos, Pedro José Quiste, Agostinho Vaz Velho, Francisco Xavier Mimoso, Pedro António Baptista Machado e Agostinho Veloso Peixoto da Silva Vaz Velho. Há uma grande participação do apelido conjunto Vaz Velho, que tinha origens da Freguesia da Conceição de Tavira. 17 – Em 27/VI/1808, por deslocação do Bispo D. Francisco Gomes de Avelar a Tavira, convenceu Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Me‑ neses, tenente‑general do exército real a ir para Faro formar a Junta Suprema do Reino do Algarve, que acabou por ceder, tendo ido “escondidamente” e deu origem, a que os futuros governadores já não regressassem a Tavira e Faro ficou no futuro, com o estatuto de capital do Algarve, quando já era sede de Diocese. 18 – Em 02/VII/1808, o Bispo D. Francisco Gomes de Avelar escreveu uma carta para seguir no caíque Bom Sucesso e comunicou ao Príncipe Re‑ gente, que o Povo de Olhão foi o primeiro a revoltar‑se contra a presença francesa. 19 – Em 02/VII/1808, João da Rosa, escrivão do Compromisso Marítimo de Olhão escreveu uma carta para também seguir no caíque Bom Sucesso, comunicando ao Príncipe Regente, que no dia 16 de Junho de 1808, o co‑ ronel Lopes de Sousa rasgou o edital à porta da igreja matriz e houve pelos pescadores a aclamação à Rainha e ao Príncipe Regente e os movimentos de revolta. Em manuscrito do Compromisso Marítimo de Olhão, João da Rosa escreveu, que foram os pescadores que arrancaram o edital, mas todos os documentos mencionam o coronel Lopes de Sousa, como o próprio João da Rosa também comunicou ao Príncipe Regente. 20 – Em 05/VII/1808, Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, conde de Castro Marim, mas que nos documentos encontrados só assinava 80

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
por Monteiro – Mor, tenente‑general do exército real e Presidente da Junta Suprema do Algarve, assina o relatório para seguir no caíque Bom Sucesso. 21 – Em 06/VII/1808 parte o caíque Bom Sucesso, em diligência de Es‑ tado, com o mestre Manuel Martins Garrocho com o seu caíque, segundo o salvo‑conduto, com uma tripulação de Olhão de dezasseis homens e como prisioneiro para a ilha da Madeira, Mateus Garcia com a mulher e dois filhos menores, para lá ser libertado. Qual a situação daquela mulher a bordo de um caíque, para fazer a higiene, naquela situação, naquele tempo? Pensa ‑se que haverá matéria para um romance histórico! Na ilha da Madeira embarcou mais um piloto, que já possuía alguma ex‑ periência de ter navegado a Macau. Seguiram dezassete homens. 22 – Em 10/VIII/1808, o conde de Castro Marim deixou a Junta Suprema e partiu para o Alentejo, com cerca de 5.000 homens. Era Vice‑Presidente da Junta, o Bispo D. Francisco Gomes de Avelar que deu continuidade e aí se conservou, como Governador interino, depois da Junta ter sido extinta, até 16/XII/1816, quando faleceu, que o cargo foi ocupado pelo coronel inglês John Austin. 23 – Em 17/VIII/1808 travou‑se a batalha da Roliça com a derrota das tropas francesas. 24 – Em 21/VIII/ 1808 travou‑se a batalha do Vimeiro, também com a derrota das tropas francesas. Segundo a enciclopédia Portuguesa e Brasileira, as tropas foram comanda‑ das pelo coronel Trant e distinguiu‑se a artilharia comandada por Pereira de Faria, os Regimentos de Cavalaria 6, 11 e 12, os de Infantaria 21, Infantaria 14 (de Tavira) e Caçadores 6. Uma esquadra, que vinha da ilha da Madeira com tropas sob o comando de Beresford, chegou à vista de Lisboa. 25 – Em 30/VIII/1808 foi assinado o acordo de Sintra, entre ingleses e franceses, com ausência de portugueses, em que os franceses saíam de Por‑ tugal com a colocação na França e direito a todas as bagagens. Só se justifica pelo interesse de entrar em Lisboa sem derramamento de sangue. 26 – Em 31/VIII/1808 foi ratificado o acordo de Sintra, também sem a presença de portugueses. Mais tarde, um português, que tinha participado na invasão de Massena, foi capturado e condenado à morte, tendo invocou o art.º 17 do Tratado de Sintra, mas acabou por ser condenado, porque alegaram, que Portugal não tinha ratificado esse tratado. 81

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27 – Em 15/IX/1808 saíram as tropas francesas, com embarque no cais do Sodré (Lisboa). 28 – Em 22/IX/1808 chegou o caíque Bom Sucesso ao Rio de Janeiro (Brasil). 29 – Em 15/XI/1808, o Príncipe Regente, por Alvará passa o lugar de Olhão a Vila de Olhão da Restauração e a atribuição de uma medalha. Apesar do título a vila, não houve a desanexação da cidade de Faro, onde se encontrava a Junta Suprema. Só veio a acontecer em 1826, com a criação do concelho, com termo e Juiz de Fora. 30 – Em 21/XII/1808, o Príncipe Regente conferiu o título de Marquês de Olhão da Restauração a Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, que era conde Castro Marim, cujo título já fora adquirido quando era Governador em Tavira. 31 – Em 02/01/1809, o Príncipe Regente respondeu em Carta Régia ao ofício de 05/VII/1808 do Conde de Castro Marim, da Junta Suprema, já extinta nessa altura, onde reconheceu, que o movimento contra a presença francesa principiou em Olhão e agradeceu ao Marquês de Olhão, Amigo e à extinta Junta de que fora Presidente. 32 – Em 03/01/1809 o Príncipe Regente, escreveu uma Carta de Prego à Câmara Municipal de Faro, em resposta ao envio da acta da aclamação da Rainha a do próprio Príncipe com os ofícios enviados a todas as Câmaras Municipais do Algarve. Foi o Juiz de Fora de Faro, Manuel Herculano de Freitas Azevedo Falcão, que no dia 19/VI/1808, aclamou a Rainha e o Príncipe Regente e deve ter sido preterido pela Junta Suprema, pelo que, depois de extinta, procurou pôr a verdade no devido lugar. A acta da aclamação é simples comparado com outras descrições, narradas por outros, que também como o Juiz de Fora de Faro, mesmo forçosamente, tinham servido os invasores.

II
A 1ª Invasão Francesa considera‑se a mais relevante, não só, por ter sido a primeira, mas pela retirada da Rainha e do Príncipe Regente em 29/XI/1807 para o Brasil e pelo tempo, que o general Junot, mesmo sem a devida legiti‑ midade, porque não houve abdicação, sempre acabou por governar. 82

Sobre a Invasão de Junot no Algarve
Em Espanha o rei Fernando VII abdicou, mesmo forçado e foi substituído por José Napoleão, irmão do Imperador francês. O Príncipe Regente também tentou mostrar aos franceses, que não estava destituído e com o exército português do Brasil, ocupou a Guiana Francesa. Não é por acaso, que o escritor Raul Brandão, mais conhecido pelo livro “Os Pescadores”, onde refere Olhão e Tavira, que foi major do exército, es‑ creveu o livro “El‑Rei Junot”. Entrou em Lisboa em 30/XI/1807 e retirou em 15/9/1808. No Algarve, as tropas francesas saíram de Tavira no dia 20/VI/1808, sem qualquer perseguição, pelo receio do desembarque das tropas inglesas, quando a esquadra inglesa era avistada na costa. A grande fraqueza dos franceses, foi a retirada dos espanhóis, quando ficaram com menos três divisões, porque só dispunham de mais uma divisão de cavalaria. Inicialmente, fora o cumprimento do Tratado de Fontainebleau, mas as circunstâncias alteraram‑se e o isolamento francês começou a ser notório, sem forças para enfrentar portugueses, ingleses e espanhóis. Após a retirada, o principal responsável português nomeado pelo Prínci‑ pe Regente, pela Declaração de 26/XI/1807 teve de cumprir a sua missão e assumir‑se como o chefe de todos os movimentos de defesa, para no caso de uma segunda ocupação do território algarvio, por tropas francesas. Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Menezes, a quem o Príncipe Regente chamava Amigo, à frente da Junta Suprema do Reino do Algarve, com o resto do país ocupado de tropas francesas, criou por algum tempo, um território independente, mesmo amedrontado, mas disposto à luta, para defender‑se da opressão a que fora sujeito, quer pelos pesados impostos de guerra, quer pela mobilização de gente para servir nas fileiras do exército francês, para lutar em vários lugares da Europa. Não há dúvida, que deixaram uma abertura às novas ideias de luta contra o absolutismo, mas veio dar origem a uma guerra civil, após a morte do rei D. João VI, guerra essa, que considera‑se, que já tinha sido evitada, quando Junot chegou a Portugal, onde também havia muita gente à espera de lutar contra o absolutismo, embora ainda fosse em minoria. No Algarve a presença da 1ª invasão francesa ficou marcada pela abertura da barra entre a ilha da Culatra e da Barreta, no lugar do farol do Cabo de Santa Maria, que ficou a chamar‑se a Barra Nova ou de Junot. Olhão, criou o embrião, que proporcionou a elevação a concelho em 1826 e logo, em 15/XI/1808 obteve o título de Vila e a distinção de Vila da Restauração. 83

O Algarve e as Invasões Francesas
No presente, possui uma réplica do caíque Bom Sucesso, que é um or‑ gulho dos olhanenses e manifesta um feito histórico dos homens do mar na travessia do Atlântico Sul, em condições dificultosas, que realça o patriotismo, ao terem lutado por aquilo em que acreditavam, que era correr com as tropas francesas do país. Em Tavira, pela 1ª invasão francesa, ao ter ido para a cidade, para o pri‑ meiro Hospital Militar, o major médico Daniel Pessoa da Cunha, que casou com D. Joana Xavier Pereira de Faro, teve um filho tavirense, que foi o ge‑ neral Francisco Araújo Pessoa, deixando a descendência do apelido Pessoa localmente e proporcionou, que o neto, poeta Fernando Pessoa, quando garoto, que veio da África do Sul, tivesse passado alguns dias de férias na cidade do Gilão. Atribui‑se, a toda esta situação, de ter tomado o heterónimo de Álvaro de Campos, nascido em Tavira e que dá o nome à Biblioteca Municipal. Quando o caíque Bom Sucesso chegou ao Rio de Janeiro, o Príncipe Re‑ gente deu‑lhes uma avultada soma de 6.000 cruzados, que correspondendo cada cruzado a 400 réis, totalizava 2.400.000, que de modo algum poderia ser para a tripulação. Presume‑se, que foi entregue ao Bispo D. Francisco Gomes de Avelar, que teria feito obras de defesa em várias fortalezas e em Tavira correspondente a essa data encontra‑se a torre do relógio, com a data de 1809, que encontrava‑se destruída pelo terramoto de 1755. Como ponto negativo, sem uma justificação precisa, havendo a dúvida, se não teria sido fraqueza da própria pedra, pela erosão do tempo, que se confunde, com as cinco quinas picadas do escudo, na Porta D. Manuel I, na rua da Galeria, frente à Câmara Municipal, que atribui‑se aos franceses da 1ªinvasão francesa. Em Faro, com a deslocação do Conde de Castro Marim, nomeado pelo Príncipe Regente, tenente‑general do exército real e indicado para a Regência, ter deixado Tavira e ter ido fazer parte da Junta Suprema do Reino do Algarve em Faro, veio proporcionar, que no futuro todos os governadores ficassem em Faro e nessa continuidade veio a designar‑se por capital.

III
Considera‑se como principais figuras, na luta contra a 1ª invasão france‑ sa:

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Sobre a Invasão de Junot no Algarve
1 – Francisco de Melo da Cunha de Mendonça e Meneses, Marquês de Olhão, como o principal responsável, indicado pelo Príncipe Regente. 2 – D. Francisco Gomes de Avelar, Bispo do Algarve, como Vice‑Presidente da Junta Suprema do Reino do Algarve e influência sobre o clero, com o padre Malveiro em Olhão, o padre Sacramento em Tavira, que fez parte da Junta Provisional e lançava falsos panfletos contra os franceses. 3 – Coronel Lopes de Sousa, governador da Praça de Vila Real de Santo António, que em Olhão incitou os pescadores à revolta contra a ocupação francesa. 4 – Capitão Sebastião Martins Mestre, capitão das milícias de Tavira, que tinham sido licenciadas, que foi um estratego operacional. Todos estes homens de 1808, são dotados de vastas biografias, que me‑ lhor identificam as suas actuações contra a ocupação francesa em 1808 no Algarve. Bibliografia: – As Navegações dos Olhanenses em Caíques e a 1ª Invasão Francesa no Contexto Regional e Nacional – Adérito Fernandes Vaz – 2008 Edição Elos Clube de Olhão – Olhão da Restauração no Tempo e a 1ª Invasão Francesa no Contexto Regional e Nacional – Adérito Fernandes Vaz – 2009 Edição Elos Clube de Olhão – Actas da Câmara Municipal de Tavira de 1808 – Documentação do Arquivo Nacional do Brasil levada pelo caíque Bom Sucesso e outros. – A Invasão de Junot – Alberto Iria – 1941 – Enciclopédia Portuguesa e Brasileira Tavira, 09 de Novembro de 2010 Adérito Fernandes Vaz

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O Algarve e as Invasões Francesas

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nOTAS BREVES SOBRE TAVIRA E AS InVASÕES FRAnCESAS
Quando em 29 de Novembro de 1807, a Família Real deixou Lisboa a caminho do Brasil, pela presença das forças invasoras de Napoleão, o país ficou entregue a uma regência. Porém a entrada dos franceses na Corte, alterou, imediatamente, a situação, sendo Portugal dividido ao meio, ficando estes, senhores da parte do Reino além do Tejo, e deixando a região aquém do Tejo ao domínio do exército espanhol, seu aliado. Estes, por sua vez, fizeram quartel‑general em Setúbal e fizeram destacar para o Algarve uma divisão comandada pelo Marquês Campigny, que se veio instalar em Faro. Estiveram os espanhóis apenas um mês nesta região, pois aqui chegaram em 22 de Janeiro de 1908 e daqui saíram a 22 de Fevereiro. Foram as tropas do país vizinho recebidas em Faro com alguma cortesia, pois ao que parece terem sido essas as directrizes deixadas pelo Príncipe Herdeiro antes de partir. Não hostilizar as tropas de Napoleão… e, por conseguinte, os espanhóis que os acompanhavam. Por isso o general Campigny e todo o seu estado‑maior ficaram alojados no palácio episcopal de Faro e sustentado pelo Bispo da Diocese, D. Fran‑ cisco Gomes do Avelar. 87

O Algarve e as Invasões Francesas
E foi tal o tratamento dos eclesiásticos, aos intrusos espanhóis, que mere‑ ceram de Campigny e do seu ajudante, Frederico Moreta, grandes obséquios de honra, agradecidos que foram pelo bom acolhimento que as suas tropas acharam neste povo. Não teria sido bem assim, pois que no curto espaço de tempo que esti‑ veram no Algarve, os espanhóis sofreram algumas mortes “secretas”, talvez bem merecidas, pelos crimes que também eles aqui praticaram, neste curso espaço de tempo. Em 22 de Fevereiro, o general espanhol recebeu ordem, que iria ser subs‑ tituído por tropas francesas, e sem esperar a chegada dos soldados de Junot, partiu pela fronteira do Guadiana. Com a saída dos espanhóis, duas horas depois, chega a Faro o general Maurin, à frente de duas colunas de 400 homens. Pouca gente para uma região como é o Algarve… Chegado a Faro, o general francês alojou‑se, então, nas casas de um tal João Carlos, onde foi procurado e cumprimentado pela nobreza e entidades da terra, e ainda pelo Bispo D. Francisco Gomes de Avelar, que querendo dar o mesmo tratamento aos franceses, que tinha dispensado aos espanhóis, lhes ofereceu o seu palácio para quartel‑general. Mas, inesperadamente, recebeu uma recusa de Maurin, que preferiu o alojamento inicialmente escolhido. Porém, aceitou, sim, a oferta, mas para ele instalar o seu ajudante, quatro criados e os seus cavalos. E a primeira visita que o francês fez às instalações do bispado, foi para ver os seus cavalos, coisa que fazia todos os dias. Por isso era frequentemente ser visto com o ajudante, a limpar os cavalos, pelo que se dizia, na altura, em Faro, que ambos tinham por princípios a educação recebida em alguma estrebaria. Apesar desta grosseria, dias depois, o general francês procurou cativar a atenção da nobreza e de algumas entidades do Algarve, organizando para isso um jantar público, no Domingo de Ramos, para o qual convidou aquelas mais próximas e representativas personalidades, nas quais incluiu o Prelado D. Francisco Gomes de Avelar. Claro que o Bispo, ressentido, talvez, da atitude do francês, recusou ‑se, alegando que estavam na Semana Santa e que tinha imensos compromissos e muito trabalho. A esta escusa fez o francês que não compreendeu, e foi acrescentando ao Bispo, que ficasse descansado que ele respeitava a religião e que o jantar não meteria nenhum prato de carne, que quebrasse o jejum dos católicos. 88

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
Mesmo assim o Prelado escusou‑se ao compromisso e não foi ao jantar… Todavia o jantar não tinha como finalidade única, a aproximação com as forças vivas da terra, nem consistia um motivo de convivência e harmonia com as populações locais. O objectivo do repasto era outro… A finalidade de Mourin era pressionar os presentes, para que anuíssem a uma sua pretensão… … Que era o de convencer as entidades presentes, e também o clero, de contribuírem para o seu “prato”. Isto é. Lançar um imposto extraordinário e pessoal, para o sustento da sua “casa militar”, arrecadando, pelo menos e nas três comarcas do Reino do Algarve, um valor de um conto e duzentos mil reis, mensais. Como é evidente os três corregedores presentes torceram o nariz à exi‑ gência do general, e o Corregedor da Comarca de Faro, dirigiu‑se mesmo ao General Junot protestando contra o que considerava um absurdo. E a verdade é que Junot deu ordem para que nada fosse entregue, o que resultou numa descompostura imperiosa, que o corregedor Manuel José Plácido, recebeu em público do general Maurin. Claro que os algarvios, se não pagavam de uma maneira, acabavam por pagar de outra… E qualquer motivo servia de protesto para que os Governadores das Praças, obrigassem o povo a abrir o cordão às bolsas. Como era o caso dos mestres dos barcos de pesca, que pagavam um tributo mensal, para a manutenção das tropas invasoras. Por exemplo: Os pescadores de Faro pagavam 400 réis e os de Olhão 600 réis. E se não pagassem eram proibidos de sair a barra para pescarem, com a desculpa de que iam para o mar contactar com os barcos ingleses que nave‑ gavam ao largo, ou acusados de irem fazer contrabando com Marrocos. (Neste aspecto não se enganavam muito, especialmente os marítimos de Olhão). O comportamento de oficiais e praças, rapidamente entraram no exagero, e as violências na usurpação de alojamentos e valores domésticos, deu azo a que as populações passassem a odiar os franceses. E a confiscação das pratas das igrejas, que chegou a ser avaliada em quarenta milhões, delapidaram o património religioso das mais pequenas terras. Só das igrejas e conventos de Tavira, foram entregues aos franceses, pelo Juiz de Fora, Francisco Félix da Matta Pinheiro, seis caixotes com utensílios religiosos de prata. 89

O Algarve e as Invasões Francesas
Tudo isto foi contribuindo para os acontecimentos de Olhão, no dia 13 de Maio, como já foi brilhantemente exposto pelo Prof. Dr. António Roda Mendes e pelo Dr. Adérito Vaz. Não quero, por isso entrar nesta faceta da luta contra os franceses, e passemos à sua retirada por Tavira… As tropas francesas retiraram dos subúrbios de Faro e Olhão, na noite de 19 de Junho de 1808, abandonando algum armamento (obus) e pólvora, e conduziram‑se para Tavira, onde chegaram na madrugada do dia 20. Mas antes de chegarem a Tavira, nesta jornada de retirada das tropas francesas, deu‑se um interessante facto que, apesar de ser muito conhecido, não quero deixar de referir. Pela passagem pela Luz de Tavira, os soldados encon‑ traram a bonita igreja manuelina daquela, então, aldeia, que por acaso possuía (e possui) uma valiosa alfaia religiosa, utilizada para guardar a hóstia sagrada. Era (e ainda é) esta Custódia, muito venerada pelos habitantes da Luz de Tavira, que foi, desde logo, cobiçada pelos saqueadores. Para dar um cunho de veracidade a este facto, vejamos como Ataíde de Oliveira, nos relata o acontecimento, na ”Monografia da Luz de Tavira”, pu‑ blicado em 1913. “É sabido que por ocasião da invasão francesa os soldados de Napoleão e os seus mais cotados cabos de guerra fizeram mão baixa nos objectos de mais valor que lhe vieram à mão. Quando fugiam do Algarve e passaram pela povoação da Luz, lançaram mão do objecto de mais valor e furtaram a Custódia. Não se atreveu o sacristão a gritar contra os ladrões, mas logo que estes saíram do Templo e seguiram o caminho de Tavira, denunciou o furto à freguesia. Logo um grupo dos mais valentes e destemidos correu sobre eles... Encontraram‑nos na estrada muito próximo da cidade. Fizeram alto. O grupo não tinha língua para lhes falar, (ignoravam o idioma francês), mas levava aos ombros uns aparelhos que fa‑ lam todas as línguas – armas carregadas até à boca. Por sinais significou o grupo o que ali o levava. E a estes sinais responderam os soldados de Napoleão, entregando a Custódia. Não foi necessário queimar uma escova, e estamos con‑ vencidos de que não entregariam o objecto furtado se não estivessem à vista os 90

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
bacamartes algarvios. No entanto é caso para louvar o procedimento heróico dos habitantes da Luz que souberam sustentar a sua dignidade.” Chegados que foram à cidade de Tavira, aqui vieram encontrar um outro corpo que havia chegado de Vila Real de Santo António, para com eles se enquadrar. E ambos se reuniram na Praça da Ribeira, onde demoraram algum tempo com as armas ensarilhadas, porém numa atitude de hostilidade e de provocação. Viriam, passado algum tempo, já pela tarde, a retirar pela Serra de Tavira. Antes, porém, ainda tentaram alguma provocação que desse lugar à reacção dos tavirenses, sem resultado. Um oficial francês, a certo momento, irrompeu a cavalo pela Praça, tra‑ zendo um capacho velho com trapos, na garupa do animal, fazendo espalhar pelo largo, toda aquela velharia. Queria ele, com esta atitude, dar motivo para que o povo que assistia debaixo das arcadas da Câmara reagisse com insultos e desse lugar ao saque, por parte dos soldados franceses. Por felicidade o povo não reagiu e os soldados franceses, mesmo os mais novos, não esboçaram qualquer sinal de escárnio à atitude do oficial, talvez por medo de ambos os lados, pelo que os franceses abalaram, sem provo‑ carem quaisquer hostilidades. Mas, já depois da partida, poderia ter havido… Isto porque, ainda as tropas iam nos arrabaldes da cidade, ouviu‑se um to‑ que a rebate, por ordem do Monteiro‑mor, que fez a tropa voltar para trás. Este toque de rebate, poderia ter tido consequências graves, não fora a acção de um valente jovem tavirense, que correndo ao encontro do comando francês, fingindo‑se enviado do dito Monteiro‑mor, o foi avisar que não vol‑ tassem, porque estavam a desembarcar na costa de Tavira 5.000 ingleses. O certo é que este estratagema deu resultado, por que ele aguçou a des‑ confiança dos franceses da existência em terra de tropas inglesas, porquanto eles tinham observado em Faro e Olhão, a existência da esquadra inglesa, muito chegada a terra. Em consequência deste fingido amigável aviso, os franceses deram meia volta e marcharam pela Serra de Santa Maria, em direcção a Giões e depois a Alcoutim. Contudo não foi pacífica esta retiradas dos homens de Napoleão. Pois tiveram que largar pelo caminho, parte da bagagem e algum produto dos saques que haviam feito. 91

O Algarve e as Invasões Francesas
Isto porquê? Não foram os ingleses que os perseguiram, mas sim a “Cavalaria à paisana”, isto é, uma força de voluntários a cavalo, que, pelo percurso de duas léguas, serra a dentro, foram na sua peugada. Realça referir, que o comandante desta pequena força de cavalaria, era o Capitão de Ordenanças, Silvestre Falcão (creio que pai do Dr. Silvestre Falcão, um dos homens que mais contribuiu para a implantação da República no Algarve, que foi governador civil de Coimbra e Ministro do Interior), e que na sequência desta perseguição e ataques ao inimigo fizeram prisioneiros, um oficial e quarenta e cinco soldados franceses. Passaram os franceses por Giões e Alcoutim, aqui sem tempo para hosti‑ lidades e pilhagens, e dirigiram‑se a Mértola. E aqui, sim… Segundo o cronista Francisco Xavier Ataíde de Oliveira, nesta vila alen‑ tejana, provocaram os maiores desacatos e roubos, e, fizeram ali grandes insultos à religião. Entraram na Igreja Matriz, fizeram da pia baptismal uma salgadeira de toucinho; queimaram as imagens, quebraram retábulos e as portas da sacris‑ tia, etc. Seguiram depois para Beja, onde se juntaram ao grosso do exército invasor francês do general Junot.

SEBASTIãO MARTINS MESTRE (Século XIX) Herói contra os Franceses
Um dos algarvios que mais se distinguiu nesta revol‑ ta algarvia contra as forças da 1ª evasão napoleónica, comandada pelo general Junot, terá sido Sebastião Martins Mestre. Ele é referido nas crónicas algarvias do tempo, re‑ latando os acontecimentos da revolta em Olhão, como um herói na luta contra os franceses. Contudo a história está cheia de grandes homens que por circunstâncias adversas e atitudes ambíguas no 92

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
seu comportamento, ofuscaram uma vida de glória, foram lançados para o esquecimento e alheados das páginas da História que, em certa altura, aju‑ daram a escrever. Pela mudança dos ventos políticos que lançam, por vezes, a sua imagem heróica, acabam esses homens por serem transformados em “carrascos” e “traidores”, terminando esmagados os seus feitos de valentia, por comporta‑ mentos julgados perniciosos, erróneos e precipitados. Sebastião Martins Mestre, um algarvio do século XIX, figura interveniente em dois dos maiores cataclismos da Sociedade Portuguesa, a Invasão dos Exércitos de Napoleão e a Luta fratricida que foram as Guerras Liberais, é uma figura que apenas é citada na História do Algarve, pela parte negativa, omitindo‑se todo o protagonismo e valor da sua coragem, determinação e vivência positiva, que também tivera em grande plano. Sobre a sua biografia já alguns historiadores algarvios se têm debruçado, nomeadamente Adérito Vaz, Arnaldo Anica e António Rosa Mendes. Mas, para a eternidade, um facto é morrer‑se em glória, outro ser abatido como “facínora” e “traidor”. Portanto será lógico admitir‑se que para se ser herói é preciso oportunismo e sorte; mas para ser considerado traidor, bastará por vezes a inconsistência e o azar. Sebastião Mestre viveu estas duas fases de psicologia humana. Só que, enquanto novo, gloriou‑se com a sensação do dever atribuído a um herói, deixando para o resto da vida o outro lado da moeda. Enquanto soldado foi um ídolo, quando se tornou político, abraçou a condição de traidor. Mas, quem foi afinal e na realidade Sebastião Martins Mestre? Terá nascido em Castro Marim, por volta dos anos de 1762 e 1764, por‑ quanto dá‑se notícia de ter assentado praça em 1782, no Regimento de Infan‑ taria de Tavira, no ano em que é nomeado Governador e Capitão Geral do Algarve, o Conde Vale dos Reis, que se instala nesta cidade. Não se sabe se neste período seguiu a vida militar, mas se o foi estaria presente no contin‑ gente que ocupava a Fortaleza de São João da Barra, da qual se defendiam os navios portugueses dos ataques dos xavecos argelinos que infestavam a costa algarvia, ou nos encontros fronteiriços com os espanhóis. Tinha uma ascendência burguesa e teria participado em algum evento em que se distinguiu, porquanto em 1800 fora agraciado pelo Regente D. João, com o Hábito da Ordem de Santiago. Para que lhe fosse efectivamente atribuído este título honorífico, Sebastião Mestre requereu ao futuro rei D. João VI, a “dispensa das provas e habilitações”, nas quais se provasse a sua limpeza de sangue, que justificasse a ausência de judeus ou mouros na sua família. 93

O Algarve e as Invasões Francesas
Em 1802 já não estaria ligado à vida militar, era casado com D. Maria Filipes e residiria em Tavira, pois dá‑se notícia de ter adquirido ao tenente Diogo Leite Pereira Lima de Melo Virgolino, uma porção de sapal situado entre Cabanas da Armação e o Ribeiro da Canada. Neste mesmo ano vai com a esposa para Gibraltar, onde se estabelece comercialmente e viria a nascer sua filha Catarina Filipes Martins, mais tarde mãe do arqueólogo tavirense Sebastião Estácio da Veiga. Entretanto o governo reserva‑lhe o primeiro posto que vagasse no Regimento de Milícias de Tavira, o que dá a entender que a sua ausência seria uma interrupção temporária na vida militar. Durante os cinco anos que viveu em Gibraltar, não nos é acessível qualquer facto da sua existência. Porém a ameaça francesa que paira sobre a pátria por‑ tuguesa, deverá ter sido o motivo que pesou no retorno de Sebastião Mestre ao Algarve, pois em 2 de Outubro de 1807 é promovido ao posto de capitão do Regimento de Milícias de Tavira, não aceitando a ofensiva napoleónico que se viria a iniciar pouco mais de um mês depois, com a entrada em Portugal das tropas invasoras comandadas pelo marechal Junot, nem o seu posterior domínio. Revoltado contra a presença napoleónica no Algarve, e na mesma altura que em Olhão se esboçavam indícios de revolta conta o invasor, em 13 de Junho de 1808 apodera‑se da fortaleza de S. João da Gomeira e assegurando‑se da fidelidade dos soldados ali estacionados, parte de barco para a barra do Guadiana, pedir auxílio à esquadra inglesa que ali se encontrava fundeada. Esta atitude fora um acto individual do seu patriotismo ou uma acção concertada com a rebelião olhanense? O facto é que o instigador do movimento de Olhão era o coronel José Lopes de Sousa, governador da Praça de Vila Real de Santo António, bem conhecido de Sebastião Mestre. E quando este último chegou à esquadra inglesa ali foi encontrar, João Gomes Pincho, de Olhão, em igual missão, em nome do coronel Lopes de Sousa. O esforço dos dois homens junto dos ingleses fora a princípio infrutífero, mas a sua argumentação e persistência consegue a entrega de 130 espingar‑ das, por parte da Junta Revolucionária de Aiamonte. Sebastião Mestre junta‑se então aos olhanenses e passa a comandar as iniciativas armadas. A reacção dos franceses contra estas movimentações algarvias leva ‑os a tomar as devidas medidas. E em 17 de Junho partem de Tavira para Faro, três chavegas com soldados franceses. A notícia é conhecida em Olhão e dali sai Sebastião Mestre com um grupo de paisanos, num caíque, para lhes dar luta. A abordagem faz‑se junto à Barra‑Nova e num golpe feliz são capturados homens e armamento de 77 soldados, 4 oficiais e 1 quartel mestre. 94

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
Com o fim de por termo à revolta os franceses, movimentam por terra tropas de Vila Real de Santo António e Tavira. Sabe‑se, por isso, que no dia 18 de Junho, uma coluna de 185 efectivos vinha daqueles lados e que de‑ veria chegar cerca do meio‑dia a Moncarapacho, marchando ao encontro de uma outra vinda de Faro, com o objectivo de cercarem Olhão. De imediato Sebastião Mestre organizou os seus escassos efectivos e decidiu armar uma espreita à coluna francesa, escolhendo para isso a Ponte de Quelfes. Não fora fácil este encontro, que acabou por desbaratar e por em fuga as tropas de Napoleão, e em que muitos dos algarvios combateram apenas com seis cartuchos para as espingardas, por falta de munições, e em que o próprio comandante Sebastião Mestre ficou ferido. Estes acontecimentos de Olhão foram o prelúdio da libertação de Portugal e a figura de Sebastião Martins Mestre, uma das que muito contribuiu para este estado de graças.

De liberal a miguelista
Se até 1 de Junho de 1819, data em que é reformado como coronel, Se‑ bastião Mestre pautara a vida como um militar que prestara um grande serviço ao seu país. Agora, com novo estatuto social, iria enveredar pela fase mais carismática e polémica de uma existência pungente de vigor e heroísmo. A partir do ano seguinte a política passa a ser o motivo vivo da sua exis‑ tência como homem público. Para trás havia ficado a guerra e o terror da invasão imperialista de Napoleão, e o país, com novos portugueses, olhava para a Europa e para a sua cruzada liberal, como uma nova luta contra o espírito tradicionalista. O pronunciamento militar no Porto, a 24 de Agosto de 1820, é o princípio da revolução liberal do país. Quatro meses depois fazia‑se já sentir o poder da nova ordem, com a realização das primeiras eleições por sufrágio indi‑ recto, que resultaram na escolha de uma maioria burguesa de comerciantes, proprietários e burocratas, para integrar as Cortes Constituintes. Promulgada a Constituição, em Setembro de 1822, tudo parece mudar. E as Câmaras Municipais, pela primeira vez, sujeitam‑se a escrutínio para a eleição do seu executivo. Sebastião Martins Mestre deixa‑se levar por esta torrente libertadora, e em 1822 era já um avançado liberal, que na Praça da Ribeira em Tavira, levanta vivas à Constituição. Figura de relevo no meio citadino, conhecido o seu 95

O Algarve e as Invasões Francesas
heroísmo na Revolta de Olhão contra os franceses, candidata‑se e vence as eleições para a Câmara Municipal de Tavira, tornando‑se assim o primeiro presidente democrata do município, tomando posse do cargo no dia 14 de Outubro de 1822. Pouco mais de seis meses iria durar o seu mandato. Um levantamento militar de inspiração absolutista, liderado pelo príncipe D. Miguel, com o apoio da rainha‑mãe, D. Carlota Joaquina, tenta mudar a situação política do país, e Sebastião Mestre é obrigado a abandonar o cargo. Não voltou à Câmara de Tavira, mas em 6 de Fevereiro de 1824 é nomeado para Governador da Praça de Vila Real de Santo António, cargo que ocupava em 1826, quando adere ao partido miguelista e, possivelmente, apoia a suble‑ vação deste ano, levada a cabo pelo Regimento de Infantaria 14 de Tavira e pelo Batalhão de Caçadores 4 de Mértola, para a aclamação de D. Miguel. Falhada a tentativa miguelista, Sebastião Mestre retira‑se e exila‑se, possi‑ velmente em Espanha, pois é conhecida uma sentença do Juiz de Ordenações de Vila Real de Santo António, arrematando por 3 anos os rendimentos das fazendas sequestradas ao prófugo Sebastião Martins Mestre. Porém, em 1928, quando D. Miguel regressa a Lisboa para jurar a Carta Constitucional e casar com a sobrinha D. Maria da Glória, prometendo tomar conta do governo sob as leis liberais, Sebastião Martins Mestre é reconduzi‑ do no cargo de Governador de Vila Real de Santo António, e revela, desde então, o seu cariz cruel e bárbaro, contra a população local, tornando‑se um cacique miguelista, ambicioso e vingativo, na perseguição a todo aquele que fosse apontado como liberal.

Governador Déspota
Este comportamento assaz cruel que maculou a personalidade de Sebas‑ tião Mestre, nos últimos anos que governou a Praça de Vila Real de Santo António, é referido por Ataíde de Oliveira, na monografia que escreveu sobre este concelho. São, certamente, testemunhos não documentados e apenas reflexos de opiniões partidárias, afirmadas por sentimentos recalcados e vingativos, contra as acções nada consensuais do governador miguelista, que nesta altura era um homem idoso, mas ainda de grande vigor físico. A perseguição que terá movido aos liberais, consequência da atribulada época em que se vivia, visava sobretudo aquelas personalidades mais notórias 96

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
que se opunham à sua presença como representante da figura real de D. Mi‑ guel ou à sua ambição pessoal e comportamento reprovável. Uma delas fora o pároco da Vila, José da Encarnação de Almeida, que no púlpito desmistificava a propaganda dos legitimistas, quando afirmavam serem os liberais inimigos da religião e da pátria. Uma força militar, vinda de Tavira, prendeu o padre e um seu compadre Manuel José de Barros, posteriormente enviados para a cadeia do Limoeiro em Lisboa. Também a família Pessanha, muito conceituada em Vila Real de Santo António e Castro Marim, pelas suas ideias liberais, fora perseguida por Sebas‑ tião Mestre, terminando com a prisão dos irmãos, Francisco e António Friz Pessanha, degredados para Cabo Verde, onde faleceram. Muitos mais casos de liberais, perseguidos, presos e mortos, pesaram na consciência do odiento governador que no dizer de Ataíde de Oliveira se tornou ganancioso e corrupto, em todos os actos que dele dependiam. Toda a gente temia aquele homem de 70 anos, quando em 24 de Junho de 1833 correu a notícia que uma força expedicionária, comandada pelo Duque da Terceira, desembarcara entre Monte Gordo e Cacela. Porém esta força de libertação encaminhou‑se para Tavira, deixando intacto o poder de Sebastião Mestre que, como homem de acção, conseguiu assegurar o domínio do leste algarvio, mantendo as praças de Alcoutim, Castro Marim e Vila Real de Santo António, sob a sua alçada e até impedindo uma incursão liberal pelo rio Guadiana. No entanto o seu poder chegou ao fim, quando após a Convenção de Évora Monte se verificou a submissão de D. Miguel. Nessa altura Sebastião Martins Mestre foi chamado a sofrer as consequências dos seus crimes, mas desta vez, talvez porque os anos começavam a pesar e a desilusão se apoderara dele, não saiu de Vila Real, onde foi preso, logo que os liberais foram investidos no poder.

Morte de Sebastião Mestre
Sobre a sua morte correram diversas versões, chegando a afirmar‑se que o coronel e governador de Vila Real de Santo António, sendo preso fora meti‑ do na cadeia da Vila, e ali conservado três dias sem comer nem beber, para depois o arrastarem da prisão e o assassinarem às punhaladas e baionetadas dos guardas, comandados pelo Provedor do concelho. Refere Ataíde Oliveira, na sua monografia, que esta e outras versões não são verdadeiras, e conta: 97

O Algarve e as Invasões Francesas
“Em 24 de Maio de 1834 deu‑se a Convenção de Évora Monte. Era de prever que Sebastião Mestre sofresse as consequências dos seus crimes. A prudência devia aconselhá‑lo a que se ausentasse da vila. Não seguiu os con‑ selhos da prudência. Logo que os liberais foram investidos no poder, meteram em processo o odiado governador. Por essa ocasião chegaram a Vila Real o pobre prior José Encarnação Almeida e Manuel José de Barros. Foram tamanhos os tormentos experimentados no Limoeiro, e tão custoso o caminho percorrido por estas vítimas, que pouco tempo depois o prior Encarnação caía no túmulo; e Manuel José de Barros, não podendo encarar o governador, mas sendo de génio brando e pacífico, ausentava‑se para Santa Barbara de Nexe. A morte do bondoso pároco foi muito sentida por todo o concelho de Vila Real; e seu cunhado José da Cruz Azevedo, que ao pároco devia imensos fa‑ vores, protestava tirar dura vingança do ex‑governador Sebastião Mestre. Teve este de responder a um conselho de guerra em Lisboa. Foi preso nas cadeias de Vila Real. Receosas as autoridades de que o povo quisesse fazer justiça por suas mãos, acometendo o preso, foi reforçada a cadeia com uma guarda militar, e resolvido em segredo meter o preso em um barco, em certa noite, leva‑lo para Mértola e dali para Lisboa. Escolheu‑se pessoa séria e de autoridade que comandasse a força, que igualmente era composta de militares valentes e sérios. Em uma noite, muito adiantada, quando era geral o sossego, saiu o preso da cadeia, escoltado pela força pública. Ao dobrar uma esquina, saiu de um portal um vulto, que de um salto caiu sobre o preso, dando‑lhe profunda punhalada. O preso ainda deu alguns passos, indo cair morto em frente da porta da casa, hoje habitada pela viúva de João Nené. Fora rápido o ataque e no primeiro momento produziu grande confusão. Ninguém então conheceu o agressor, porque este desaparecera quase por en‑ canto. Seguiram‑se alguns gritos, toda a gente saiu à rua, e em pouco tempo o povo – ou antes – a massa popular, lançou mão do cadáver, e arrastava‑o pelas ruas até ao muro do cemitério. Todos os liberais censuraram e condenaram tamanha violência. Muitos anos depois ainda o comandante da escolta não podia conter a indignação que lhe causara o acontecimento (...) Soube‑se mais tarde que o assassino do ex‑governador fora José da Cruz Azevedo, e este era simplesmente sargento de milícias.(...) José da Cruz Azevedo tinha a alma repassada de dor pela mor‑ te recente de seu cunhado, que exalara o seu último suspiro por motivo das perseguições continuas e violentas do infame governador, mas nem por isso deixou de ser assassino de um homem, que caminhava protegido pela força 98

Notas breves sobre Tavira e as Invasões Francesas
pública, e que ia responder pelos seus actos perante um tribunal a quem a Lei conferia todos os poderes de julgar. (...) É certo que o povo de Vila Real – a massa popular – arrastou o cadáver do governador pelas ruas da Vila, mas o povo é sempre o mesmo de todos os tempos: levanta cânticos de louvor ao sol, quando nasce, com a mesma consciência com que o apedreja, quando mergulha no mar.” Sebastião Martins Mestre foi um algarvio polémico, que ficou, certamen‑ te, ligado à História do Algarve. Viveu gloriosamente quando comandou os olhanenses e ajudou a expulsar os franceses da sua terra pátria. Mas morreu humilhado, pelos seus próprios patrícios, por ter usado o poder que adquiriu, de um modo desumano. A História é assim...

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O Algarve e as Invasões Francesas

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InVASÕES FRAnCESAS – JUnOT E A RESISTÊnCIA À OCUPAÇÃO
Tenente‑Coronel Abílio Pires Lousada139

1. Invasões Francesas
Os temas Guerra Peninsular e Invasões Francesas estão na ordem do dia em Portugal, fruto das comemorações do seu bicentenário (2007‑2014). Efectivamente, com maior ou menor amplitude ou solenidade, o quotidiano português de há 200 anos revive‑se de norte a sul do País, cada terra tem os seus episódios para contar, os feitos das gentes a relembrar, os heróis a enaltecer e as agruras a repisar. Neste contexto, as Invasões Francesas deixaram marcas evidentes no País. De facto, invadido militarmente pela França, primeiro, e controlado politica‑ mente pela Inglaterra, depois, Portugal assistiu à desagregação das instituições estatais, à falência do tecido económico‑financeiro, ao caos social e à erosão das possessões coloniais no Atlântico Sul o que, em última instância, conduziu à implantação do Liberalismo (1820) e à independência do Brasil (1822). Por que foi Portugal invadido pelos franceses em 1807? Porque, sem o desejar, o País se viu na rota de colisão entre o poder continental Francês e o poder marítimo inglês.
139 Tenente‑Coronel do Exército. Mestre em Estratégia e pós‑graduado em História Militar. Professor de História Militar do Instituto de Estudos Superiores Militares.

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O Algarve e as Invasões Francesas
No palco europeu, a Inglaterra permanecia como a grande opositora dos exércitos napoleónicos, beneficiando de um superior poder naval e da es‑ pecificidade insular do seu território. Para Napoleão, a solução passava por isolar do continente as ilhas britânicas, estrangulando‑a economicamente, exigindo a Portugal o corte dos laços de amizade que mantinha com o alia‑ do secular. Incapaz de sustentar uma neutralidade proclamada, na corte do Regente Dom João sobreveio o dilema perante a atitude a tomar: escolher entre a aproximação à França ou a manutenção do secular entendimento com a Inglaterra. A escolha do campo francês implicava o conflito marítimo com a Inglaterra, que fazia perigar as vantagens comerciais do Atlântico Sul (Brasil), essenciais para a economia do Reino; conservar a aliança inglesa conduziria, inevitavelmente, à invasão do território nacional por franceses e espanhóis (aliados nessa altura). Desta forma, para Portugal “o dilema era o da morte por asfixia [Inglaterra] ou por invasão [França]”140. A ambiguidade marcou a conduta inicial. Com a ameaça de invasão na‑ poleónica o Regente Dom João decretou, a 22 de Outubro de 1807, a partir de Mafra141, o fecho dos portos aos navios britânicos; depois, sabendo que tropas francesas já marchavam em território Nacional, inflectiu «encostando ‑ ‑se» à Inglaterra. Assim, por sugestão inglesa (Lorde Strangford), ficou esti‑ pulado, a 24 de Novembro de 1807, a retirada da Corte para o Brasil sob protecção inglesa, a liberdade de navegação à marinha mercante deste país e a constituição de um Conselho de Regência destinado a governar Portugal em nome do Príncipe142. Desta forma, Portugal assumia a ameaça francesa e predispunha‑se a uma invasão previamente anunciada. A verdade é que o tema «Invasões Francesas» fazem parte do imaginário grandiloquente da historiografia política e militar portuguesa. Quando aborda‑ mos o assunto, surge‑nos na memória os nomes dos comandantes invasores, Junot, Soult e Massena, dos generais britânicos Wellesley e Beresford e dos portugueses Francisco da Silveira, Bernardim Freire de Andrade e Manuel
140 José Hermano Saraiva, História Concisa de Portugal, Mem Martins, Publicações Europa‑ ‑América, 19ª Edição, 1998. 141 Desde princípios de Junho de 1807 que Dom João estabelecera a sua residência no Palácio de Mafra, “onde passava uma vida de isolamento, dando mostras da mais profunda tristeza e evitando o mais possível tratar de assuntos políticos”: Vitoriano J. César, Breve Estudo sobre a Invasão Franco‑Hispânica de 1807 em Portugal e Operações Realizadas até à Convenção de Sintra, Lisboa, Typ. da Cooperativa Militar, 1903. 142 Kenneth Leight, A Transferência da Capital e Corte para o Brasil, Lisboa, Tribuna, Novembro de 2007.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
Sepúlveda. Depois, arrolamos as batalhas vitoriosas do Exército Aliado (Luso ‑ ‑Britânico) na Roliça, Vimeiro e Buçaco, sem esquecer, claro, a defesa das Linhas de Torres Vedras. Tendo em atenção os factores que podiam favorecer as invasões napoleó‑ nicas, principalmente a limitação de efectivos143 e, por inerência, a necessidade imperiosa de condução de uma campanha curta no tempo e no espaço, sem demasiados contratempos impostos pelas características da natureza, em que Lisboa fosse atingível com sucesso garantido, os teatros do Alto Alentejo e da Beira Alta eram os mais evidentes. Mas, curiosamente, apesar de ser o eixo mais permissivo do traçado fronteiriço português e o mais vantajoso para operações militares ofensivas, o Alentejano nunca foi utilizado pelos france‑ ses como eixo de penetração principal! Já o teatro da Beira Alta, central em relação ao País e que o corta de Leste a Oeste, permite a um exército invasor separar o Porto de Lisboa e garantir uma posição central que lhe permite manobrar por linhas interiores caso tenha efectivos militares suficientes. Esta foi a realidade verificável com a invasão de Massena. Que razões objectivas explicam que Junot tenha utilizado o eixo de pe‑ netração da Beira Baixa, em 1807, Soult o do Minho, primeiro, e o da várzea de Chaves, depois, em 1809, Massena o do Beira Alta, em 1810, tal como Marmont, em 1812? Estamos perante experiências consecutivas atendendo aos sucessivos desaires das invasões napoleónicas? Não necessariamente. Junot utilizou o eixo da Beira Baixa (Segura) por questões de tempo e de (não) resistência. A fronteira da Beira Baixa, apesar de ser o mais central de todos os teatros portugueses, tinha o inconveniente de não cortar transver‑ salmente o País, como acontece com o da Beira Alta. Mas lembremos que o «Exército de Observação da Gironda» estava concentrado em Bayona, que a corte portuguesa se preparava para retirar para o Brasil, que o Príncipe D. João dera instruções ao tecido nacional para não resistir aos franceses e Napoleão ordenara que o exército de Junot marchasse rapidamente em direc‑ ção a Lisboa, utilizando o eixo de progressão mais curto, com a finalidade de aprisionar a família real, fazendo‑o sem contratempos em face da imprevisível
143 Napoleão utilizou a Península Ibérica como teatro de operações para negar apoio continental à Grã‑Bretanha e limitar a sua liberdade de acção naval, quer mar do Norte e no Mediterrâneo, quer no Atlântico, enquanto fórmula de a estrangular economicamente. Visto que as principais campanhas terrestres dos franceses ocorriam no centro da Europa, onde a Áustria e a Prússia eram os adversários a abater, era nessa região que se concentrava o grosso dos efectivos do imperador, pelo que a canalização de contingentes militares para a Península, em geral, e Por‑ tugal, em particular, era feita com parcimónia.

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O Algarve e as Invasões Francesas
resistência portuguesa. Acresce que a invasão de Junot foi conjugada pela hispânica a partir do teatro do Alentejo. A Invasão de Soult pelo Minho/Várzea de Chaves explica‑se pela presença do seu Corpo de Exército na Galiza, onde lavrava a insurreição espanhola e marcava presença o contingente militar inglês de John Moore. Assim, invadir Portugal pela raia do Norte foi o óbvio, porque o mais próximo, mediante um desdobramento das forças francesas presentes na região. Além disso, previa‑se marchar ao longo do litoral mediante ligação do eixo Braga‑Porto‑ ‑Coimbra‑Lisboa. A invasão de Massena pela raia da Beira Alta, com l’Armée du Portugal, justifica‑se pela utilização do numeroso potencial militar assente na neces‑ sidade de utilizar um eixo que apresentasse menor condicionamentos aos movimentos, de modo a facilitar a conquista decisiva de Lisboa. Como o eixo era o mais longo de todos, previa‑se a sua conjugação com um ataque secundário a partir de Elvas, praça‑forte que barrava o eixo, à semelhança do que acontecia com a de Almeida na Beira Alta. Já no que concerne à efémera invasão de Marmont pelo mesmo eixo, em 1812, basta lembrar que os exércitos franceses estavam em movimento de retracção, combatendo contra contingentes espanhóis, portugueses e ingleses na região de Salamanca. Esta descrição, que resume o quadro das invasões a que Portugal foi sujeito, está incompleta, porque a Guerra Peninsular foi sobretudo popular, constituindo a resistência do campesinato português o tormento da presença napoleónica na «Lusitânia». Em 1808 assistimos a movimentos subversivos contra um poder de facto e a contusão da tropa invasora, através de acções que irrompem mediante uma tríade patriótica de gente do povo, militares e clérigos, que denominamos milícias populares. Em 1809 a situação evolui. A resistência é organizada e eminentemente portuguesa, efectuada através de Regimentos de Milícias e Brigadas de Ordenanças, ou seja, assenta em con‑ tingentes irregulares institucionalizados que designamos milícias regimentais. Em 1810 a força irregular está enquadrada no exército regular aliado e actua em conformidade com planos de operações assente no conceito de operações do comandante em chefe. Na resistência popular aos franceses é perceptível que a intrusão encontrou em cada localidade uma especificidade própria relativamente à amplitude da oposição: localidades houve que ergueram a voz mas não almejaram dar continuidade aos seus anseios por excesso de receio; outras resistiram paulati‑ namente e puderam fluir num quotidiano amargo; outras ainda aquietaram ‑se, 104

Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
porque demasiado próximas do centro do poder francês ou porque o fervor populacional se resumiu à intrepidez de uns quantos irredutíveis; algumas localidades sofreram as agruras de uma luta sem quartel, tornando‑se mártires da causa. À época dos acontecimentos, o Algarve era uma província nevrálgica de Portugal, atendendo à costa, onde velava a supremacia naval britânica, a vizinhança com a Espanha, visto como um actor perturbador da soberania portuguesa, e o maciço montanhoso constituído pelas serras do Caldeirão e Monchique, que desligava o Algarve do Alentejo, área de operações de excelência para um exército invasor. Ou seja, o Algarve era, de alguma for‑ ma, uma região blindada a manobras e a pressões militares feitas a partir do Alentejo. Pelo que se constata, estava fora de questão invadir Portugal ocupando o Algarve. Primeiro porque o eixo terrestre a partir de Vila Real Santo António obrigava a empenhar forças que as desligavam do resto do país; depois por‑ que efectuar um desembarque na costa (Vila Real de Santo António, Olhão Portimão, Faro ou Lagos) era inviável devido à supremacia naval britânica; por fim, em qualquer dos casos, avançar para Norte a partir do Algarve obrigava o exército a marchas contra o maciço montanhoso que separa o Algarve do Alentejo. Assim, inserir o Algarve na gesta das Invasões Francesas significa incidir, fundamentalmente, a epopeia da resistência da terra e das gentes em 1808, ano em que o Algarve se levantou em armas contra a ocupação a partir de Olhão, a 16 de Junho, alastrando o movimento subversivo em bloco a toda a província, anulando a presença intrusa.

2. O “Exército de Observação da Gironda” e a Invasão de Portugal
Ainda antes da formalização do Tratado de Fontainbleau144, a 29 de Julho de 1807, Napoleão ordenou ao general Andoche Junot145 a organização do
144 Pelo Tratado de Fontainebleau (27 de Outubro de 1807), a França e a Espanha acordaram dividir Portugal entre si, em três partes: Reino da Lusitânia Setentrional, que compreendia a re‑ gião a Norte do Douro, exceptuando Trás‑os‑Montes (ex‑rainha da Etrúria); o Reino da Lusitânia Meridional, formado pelo Alentejo e pelo Algarve (Protectorado do espanhol Manuel Godoy); as regiões de Trás‑os‑Montes, Beira e Estremadura (controlo francês). 145 O general Andoche Junot era, à época, Governador de Paris, e fora embaixador da França em Portugal, em 1805.

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«Exército de Observação da Gironda», que concentrou em Bayonna durante os meses de Agosto e Setembro. Objectivo: invadir e ocupar Portugal. Ficou estipulado a colaboração de tropas hispânicas, que em conjunto repartiriam o território Português, uma mistura dos preconceitos iluministas de Napoleão e os rancores de Carlos IV”146. Portugal transformava‑se, desta forma, em palco de guerra do confronto entre a Inglaterra e a França. Com um efectivo à volta dos 26 500 homens (infantes, cavaleiros e arti‑ lharia), Junot iniciou a marcha a 17 de Outubro, entrando em Espanha via Fuentarrábia147, onde sentiu as dificuldades da falta cooperação popular his‑ pânica no que respeita a fornecimento de víveres e alojamento, revelando‑se a travessia da Espanha um tormento e um augúrio do que aguardava Junot na chegada à raia Portuguesa na Beira Baixa (Segura), a 19 de Novembro. Com o exército «partido», roto e faminto, Junot atingiu Castelo Branco (20 Novembro) de pilhagem em pilhagem, no limiar da subsistência. As dificuldades aumentaram na marcha para Abrantes (onde chegaram a 22 de Novembro), “com a difícil passagem do Zêzere, (…) a desolação da terra e a pobreza dos habitantes”148, agravadas por um Inverno particularmente rigoroso e chuvoso. Mais do que uma força militar conquistadora e temida, que se apressava para «libertar» o país da perniciosa tutela dos ingleses», como proclamava Junot, o exército francês parecia pedir clemência e estar à beira do fim, a largos quilómetros de atingir Lisboa. Mas pôde continuar, face a algumas recepções pouco menos que caloro‑ sas e, sobretudo, à quase total ausência de resistência. Este foi o legado do regente Dom João que, antes de embarcar rumo ao Brasil (27 de Novembro) decretou “que a defesa contra as tropas do imperador seria mais nociva que proveitosa”149, vincando a preocupação em evitar escusado derramamento de sangue e a depredação das localidades. Semelhante atitude mostravam as «pastorais» das autoridades religiosas nacionais, sugerindo à população “«toda a quietação e auxílio às tropas francesas»”150.

146 Jorge Borges de Macedo, História Diplomática Portuguesa, Constantes e Linhas de Força, Lisboa, Instituto de Defesa Nacional, s/d. 147 148

Vitoriano J. César, ob. cit.

Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal (1807‑1832), Lisboa, Editorial Verbo, vol. VII, 1983.
149 150

Vitoriano J. César, ob. cit.

David Martelo, Os Caçadores. Os Galos de Combate do Exército de Wellington, Lisboa, Tribuna, Novembro de 2007.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
Entretanto, depois de ultrapassar Abrantes (24 Novembro), Junot toma conhecimento que a Família Real Portuguesa se prepara para retirar para o Brasil; escreve ao Ministro da Guerra “para embaraçar o embarque e acres‑ centa: «não forcem o meu exército a disparar as espingardas. Dentro de quatro dias estarei em Lisboa»”151. Junot ficou preocupado com a notícia do embarque da Rainha, Príncipe regente e demais corte, e percebe‑se porquê. A par da ocupação de Lisboa, as instruções que o comandante francês trazia de Napoleão diziam respeito à captura da família Real, que materializava, no seu conjunto, a conquista de Portugal. Captura que falhou por um dia, pois só chegou a Lisboa a 30 de Novembro e «ficou a ver navios». Uma chegada, para não variar, debaixo de intempérie, entrando na capital portuguesa a conta gotas, com uma van‑ guarda a rondar os 1 500 soldados, em estado miserável e parecendo alguns deles autênticos cadáveres vivos152. Ou seja, o temido «Exército da Gironda» transformou‑se “num bando de maltrapilhos disfarçado de penachos e galões de meia dúzia de generais escudados na fama de Napoleão”153. E, no entanto, só em Lisboa estariam à volta de 15 000 homens aptos a pegar em armas. Mas como as deliberações de boa recepção do Príncipe Regente eram para cumprir …154.

3. “El Rei” Junot
O comandante‑chefe do “Exército da Gironda”, chegado a Lisboa, instalou‑ ‑se no Palácio do Barão de Quintela, os oficiais acomodaram‑se em casas

151 152

Raul Brandão, El‑Rei Junot, Lisboa, Imprensa Nacional‑Casa da Moeda, Junho de 1982. Baron de Thiébault, Relation de L’Expedition du Portugal Faite en 1807 et 1808, Paris, Álvaro Guerra, Razões de Coração, Porto, Público Comunicação Social, SA, 2002.

1817.
153 154

Na iminência da ofensiva napoleónica a Portugal, por Decretos de 1806 ‑1807, intentou‑se a reorganização do Exército. Para o efeito, criou as Divisões do Norte, Centro e Sul, constituídas por 12 Brigadas de Infantaria, 12 Regimentos de Cavalaria e 4 de Artilharia; organizou 48 Regimentos de Milícias e 24 Brigadas de Ordenanças; todos os homens dos 17 aos 40 anos passaram a estar obrigados ao recenseamento militar. Diz‑nos Vitoriano César que “um tal sistema de recrutamento, se tivesse sido posto em prática em toda a sua plenitude, permitiria uma organização respeitável das nossas forças militares”: Vitoriano José César, “A Evolução do Recrutamento em Portugal desde os seus Primórdios até à Lei de 1807”, In Revista Militar, n.º 8, Agosto de 1909. Estas medidas não estavam, porém, ainda em plena execução quando Junot invadiu Portugal.

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O Algarve e as Invasões Francesas
particulares e os soldados foram colocados nos conventos, desfrutando “do direito de luz e lume”155. Recebido como um «príncipe», Junot proclamou:”«moradores de Lisboa, vivei sossegados em vossas casas, não receis couza alguma do meu exército, nem de mim; os vossos inimigos [os ingleses] somente devem temer‑nos. O Grande Napoleão, meu Amo, envia‑me para vos proteger (…)»”156. Depois, prenho de entusiasmo, escreveu a Napoleão que «este povo está bem na mão! Sou aqui obedecido melhor e mais depressa do que era o príncipe regente».157 As unidades francesas foram, então, posicionadas: a Divisão de Delaborde em Lisboa; a de Loison ocupou Sintra, Mafra e o litoral até ao Mondego; a Divisão de Travot guarnece a barra e defende o porto de Lisboa; para Elvas marcharam dois batalhões e outro para Almeida. Posteriormente, Quesnal juntou a sua força ao contingente espanhol estacionado no Porto. Em Lisboa, Lagarde foi designado Intendente da polícia (Março de 1808), com indicações para manter a ordem pública, através da informação e de repressão 158. Entretanto, também o contingente militar espanhol entrou em Portugal e, em obediência a Fontainebleau, estacionaram no Alentejo e Algarve, a 4 de Dezembro (Divisão Solano), posicionaram‑se no entre Douro e Minho, a 10 de Dezembro (Divisão de Taranco), e Caraffa, com uma Divisão, disseminou ‑se por Lisboa, Setúbal, Sesimbra, Mafra e Santarém, a 25 de Dezembro. Tudo parecia em boa ordem, “os grandes aderiam, os pequenos esperavam”159, aqueles mais por receio, estes expectantes. De facto, no povo que directamente vivia o quotidiano franco‑hispânico, obrigado a cooperar, fluía uma nostalgia silenciosa, sentimentos reprimidos que o menor incidente podia acicatar, so‑ bretudo na região de Lisboa. Foi o que aconteceu a 13 de Dezembro, quando o incauto Junot se lembrou, no seguimento de uma parada militar no Rossio, de substituir a Bandeira Real Portuguesa pela tricolor da República Francesa no Castelo de S. Jorge. Nessa noite, uma desorganizada turba popular resolveu «lavar» a afronta a tiro e à paulada contra os militares de Junot, originando a primeira repressão sangrenta da ocupação.

155 156 157

Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Idem.

General Foy, Histoire de la Guerre de la Península sous napoleon, Tomo IV ; Livre 8.º, Bondouin Fréres, Editions, Paris, 1827.
158 Lagarde tornou‑se uma das figuras mais odiadas da ocupação, chamando‑lhe o povo monsier lagarto. 159

José Hermano Saraiva, ob. cit.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
Ficava o aviso. Aqui e ali surgia um soldado francês morto, os insultos iam em crescendo e Junot proibiu os seus homens de frequentar lugares considerados perigosos, como, por exemplo, Alfama e o Bairro Alto, locais de vinho, diversão nocturna e prostituição. Entretanto, as sevícias dos militares franceses iam em crescendo. Do outro lado dos Pirinéus, Napoleão, pragmático, avisava Junot por carta: ”«Recebo a sua carta de 21 de Dezembro. Vejo com prazer que, desde 1 de Dezembro, dia da sua entrada em Lisboa, até 18, em que começaram a manifestar‑se os primeiros sintomas de insurreição, nada fez. (…). Desar‑ me os habitantes; despeça todas as tropas portuguesas; (…), mantenha ‑se numa atitude de severidade que o faça temer. Mas parece que (…) não tem nenhum conhecimento do génio dos portugueses e das circunstâncias em que se encontra. Será vergonhosamente expulso de Lisboa, apenas os ingleses tenham efectuado um desembarque, se continuar a proceder com essa moleza”160. Consequentemente, entre finais de Dezembro de 1807 e Março do ano seguinte, Junot impõe medidas de largo alcance: o Exército de Linha é des‑ mantelado (22 de Dezembro de 1807), sangrando‑se a possibilidade de a oficialidade portuguesa poder causar problemas futuros, mas alguns oficiais foram para as suas casas na província, entregues ao ócio e a aguardar o mo‑ mento de agir; a partir do remanescente desse Exército, organizou‑se a Legião Portuguesa (Março de 1808), constituída por 9 000 homens e enquadrada pelos prestigiados marquês de Alorna e os generais Gomes Freire de Andrade e Manuel Pamplona, que combateu por Napoleão no teatro europeu; seguiu‑se o desmantelamento das milícias e das ordenanças (11 de Janeiro de 1808), um passo em falso, pois empurrou o «povo miliciano» para a clandestinidade161; e Napoleão, a esse respeito, não deixou de avisar “«(…) vigiai os soldados que forem devolvidos aos lares, a fim de que não apareçam chefes audaciosos que formem núcleos de concentração no interior»”162; a pretexto de acabar com os acidentes na caça, desarmou a população proibindo o uso de armas de

160 161

António Pedro Vicente, Guerra Peninsular 1801‑1814, vol. 13, Porto, QuidNovi, 2006.

Assim, mantendo incólume, na província, o rotineiro treino dominical, estes “soldados sem uniforme” desarmados, iriam, em conjunto com a tropa regular licenciada, orientar a guerra sub‑ versiva que os próprios franceses favoreceram: Manuel Themudo Barata, “A Guerra Subversiva – Soldados Sem Uniforme”, in nova História Militar de Portugal, Direcção de Manuel Themudo Barata e Nuno Severiano Teixeira, vol. 3, Rio de Mouro, Círculo de Leitores, Abril de 2004.
162

General Foy, ob. cit.

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fogo em todo o território163; a 1 de Fevereiro, Junot decretou a extinção da Casa de Bragança, proclamando: “«Habitantes do reino de Portugal (…). Decidiu‑se a sorte de Portugal, assegurou‑se a sua felicidade futura, pois que Napoleão o to‑ mou debaixo da sua omnipotente protecção. O príncipe do Brasil, abandonando Portugal renunciou a todos os seus direitos á soberania deste reino»”164; a 4 de Fevereiro, por ordem de Napoleão, lançou‑se um imposto extraordinário de 100 milhões de francos, para efeitos de guerra, montante a repartir pelas províncias em conformidade com “«as posses de cada huma»”165; todos os bens da Casa Real, das pessoas que foram para o Brasil e dos ingleses residentes foram confiscados; o comércio externo foi sujeito ao controlo do imperialismo francês; os camponeses foram submetidos a todo o tipo de requisições em bens e géneros; as peças em ouro e prata das igrejas roubadas para alimentar a ocupação. Portugal tornou‑se numa Nação amordaçada. Perante isto, na capital algumas elites políticas e religiosas nacionais submetiam‑se ou acomodavam‑se, enquanto se sucediam os desfiles milita‑ res, as festas palacianas e os atendimentos públicos de Junot no palácio de Alecrim166. Lisboa era uma sombra da capital cosmopolita de outros tempos, uma cidade cinzenta, vadia e arruinada. Entretanto, em Mafra, um jornaleiro de nome Jacinto Correia era fuzilado a 25 de Janeiro de 1808, no topo sul do Convento de Mafra por ter morto, em legítima defesa, dois soldados franceses que o pretenderam roubar; tratou‑se de um dos primeiros actos isolados de resistência à ocupação, timbrada pela exortação do saloio “se todos fossem como eu nem um só francês ficaria vivo”, no momento do julgamento em Conselho de Guerra167. No mês seguinte, Loison mandou fuzilar nove soldados portugueses nas Caldas da Rainha, por se terem envolvido em desacatos com franceses; cruzes canhoto que vais para o maneta. Enquanto isso, os ingleses velavam no Atlântico, junto à costa 168. Mas foi na periferia de Portugal que emergiu a revolta, através de uma
163 Mas, o desarmamento não foi completo, muitos particulares “preferiu sonegá‑las, sujeitando‑ ‑se embora ao rigor do castigo”: Mário Domingues, Junot em Portugal, Lisboa, Romano Torres, 1972. 164 165 166 167

Gazeta de Lisboa, 5 de Fevereiro de 1808, cit, Mário Dominguez, ob. cit.. Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Idem. Raul Brandão, ob. cit.

168 Desde 26 de Dezembro de 1807 que os ingleses ocupavam a Madeira, através do Major ‑ ‑General Carr Beresfrod, utilizada enquanto base naval para vigiar os acontecimentos em Portugal ao longo da costa.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
«arraia‑miúda» que viveu longos meses preocupada em sobreviver a um amar‑ go quotidiano, suportou a intrusão estrangeira porque assim lho exigiram, «engoliu» o abandono da Família Real e aguentou a colaboração das «classes superiores». Mas, a nostalgia deu lugar à raiva, quando surgiu a obrigatorieda‑ de de dar pão e cama a um intruso agressivo, contribuir com os seus parcos rendimentos para a ostentação e sustentação do invasor, tolerar sevícias de toda a ordem e a toda a hora ao usurpador. Sentimentos acumulados que foram sendo libertados ocasionalmente, mas que acabaram por explodir de forma generalizada e incontrolável, passando a resistência da mera não cola‑ boração com o ocupante até ao confronto directo. Resistência que foi instigada e alimentada pelo clero paroquial, reconhecidos como “«santos pastorais»”169. O que não espanta, se atentarmos na «heresia» praticada pelos franceses descrita pelo Abade de Baçal: “(…) Igrejas profana‑ das e roubadas (…); delas faziam estrebarias, dos altares manjedouras e dos santos estilhas para cozinharem o rancho”170. O fervor religioso mostrar‑se‑ia remédio santo sem antídoto francês171.

4. O Levantamento em Massa dos Camponeses
Curiosamente, a motivação decisiva para a revolta em Portugal veio de Espanha. Como vimos, a Espanha mantinha‑se como aliado da França. Mas a si‑ tuação precipitou‑se quando Napoleão obrigou o rei Carlos IV e o Príncipe Fernando a abdicarem, tornando a Espanha um Estado satélite da França, governada pelos Bonaparte. Foi o suficiente para o estalar de uma insurreição popular em Madrid, em 2 de Maio de 1808. No imediato, as patrulhas francesas foram atacadas de todos os lados. Tiros partiam das janelas, água e azeite a ferver eram jogados do alto das sacadas e pelas ruas turbas de madrilenos vagavam, coléricos, dando caça

169 Ana Cristina Bartolomeu de Araújo, “As Invasões Francesas e a Afirmação das Ideias Liberais”, in O Liberalismo (1807‑1890), quinto volume, Coordenação de Luís Reis Torgal e João Lourenço Roque, História de Portugal, direcção de José Mattoso, Círculo de Leitores, Julho de 1993.

Francisco Manuel Alves, Abade de Baçal, Bragança. Memórias Arqueológico‑Históricas do Distrito de Bragança, Tomo I, Câmara Municipal de Bragança / Instituto Português de Museus – Museu Abade de Baçal, Coordenação Geral da Edição Gaspar Martins Pereira, Junho de 2000.
170 171

Álvaro Guerra, ob cit.

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O Algarve e as Invasões Francesas
aos franceses. Bravura popular que não demorou a ser cruelmente reprimida pela tropa de Murat, “tornando as ruas e vielas de Madrid num matadouro em céu aberto”172. As ondas de choque da capital espanhola repercutiram‑se de imediato a outras regiões. A Espanha estava em pé de guerra. As consequências da Insurreição espanhola não demoraram a fazer‑se sentir em Portugal. Murat pede a Junot o envio de tropas para guarnecer a fronteira luso‑espanhola, sendo destacado Loison para Almeida, com perto de 4 000 homens, e Kellermann para Badajoz, com 2 000 soldados173. Junot viu‑se, as‑ sim, obrigado a dispersar os seus efectivos. Mas, pior, os acontecimentos de Espanha motivaram os efectivos espanhóis presentes em Portugal a regressarem ao seu país. De facto, o general Ballesta, que ocupava o Norte de Portugal em nome da coroa hispânica, retirou para a Galiza a 6 de Junho, não sem antes prender o comandante francês Quesnal e parte dos seus soldados no Porto, passando o poder ao Brigadeiro Luís Oliveira e Costa. Imediatamente, o Porto aclamou o Príncipe Regente, hasteando a Bandeira Portuguesa na fortaleza de São João da Foz, imitado por Chaves nesse mesmo dia, e Braga e Vila Pouco de Aguiar a 8 de Junho. Mas sem consequências imediatas. Utilizando uma expressão do Abade de Baçal, o Porto “retrogradou” a 7 de Junho, porque o Brigadeiro Oliveira e Costa, temendo a reacção francesa, mandou de novo arrear a Bandeira Portuguesa e proclamou fidelidade a Ju‑ not; Chaves, Braga e Vila Pouca, aquietaram‑se, tentando perceber a marcha dos acontecimentos. 4.1. Resistência Armada a Norte do Mondego Mas em Portugal não havia força armada organizada para dar brado ao estado de alma: a frota naval foi, na sua maioria, para o Brasil; o exército de Linha foi anulado e as melhores tropas encaminhadas para a Europa (Legião Portuguesa); as milícias mantinham‑se em casa, como sempre, mas sem ar‑ mamento; o mesmo sucedia com as ordenanças (povo armado), que teriam à disposição os instrumentos caseiros. É neste contexto que as populações assumem o ónus da resistência: camponeses, pescadores, carpinteiros, ser‑ ralheiros, milícias, e ordenanças, oficiais, padres, gente vilipendiada e ferida no seu orgulho munidos de artefactos domésticos como machados, varapaus,
172 Juliet Wilson Bareau, Goya e a Espanha do seu Tempo, parte III, Yale University Press, 1997, página web, consultada em 21 de Janeiro de 2008. 173

Vitoriano J. César.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
roçadoras, foices, martelos, facas, uma ou outra arma de fogo. O povo era o exército, anárquico mas motivado, rudimentar mas disponível, violento mas generoso. Depois de o Porto engolir o seu grito de revolta de 6 de Junho e Braga e Chaves se aquietarem dois dias depois, Bragança carregou nos ombros o ónus da insurreição, a 11 de Junho174, galvanizando Trás‑os‑Montes. Enquanto isso, Junot encarava os acontecimentos como um mero movimento de cam‑ pónios, acreditando que ela se resolveria com simples operações de polícia175. Começou por utilizar o verbo enquanto manobra dilatória, dizendo que os franceses travavam, em Espanha, os apetites de anexação de Madrid e que “chegou o tempo de reunir os esforços comuns, contra o inimigo comum”176, a Espanha, claro. Seguidamente, tomando conhecimento da prisão de Quesnal e sentindo os efeitos do motim portuense, ameaçou: “Portugueses. Que delírio he o vosso? Em que abismo de males quereis vós ficar sepultados? Depois de sete mezes da mais perfeita tranquilidade, da melhor armonia, que razão pode fazer‑vos correr a pegar em armas, e contra quem? Contra hum exército que deve assegurar a vossa independência (…); sem o qual finalmente cessareis de ser portugueses? (…) Quereis pois que a antiga Lusitânia não seja mais que huma província da Hespanha?177. Ninguém ficou convencido. “Submeter o povo à dura prova de obedecer sem acreditar foi tarefa difícil e precária”178. A plebe revoltava‑se, furiosa e descontroladamente, contra os franceses. Protegidos pelo hábito, serão, sobretudo, os prelados a tomar conta da situação. Realmente, no Porto o Bispo Dom António de S. José de Castro toma o controlo dos acontecimentos, a 18 de Junho, e é apoiado pelas autoridades civis, militares e religiosas da cidade. Como se constata, “do Porto tinham saído as faíscas da revolução que foram atear o fogo em Bragança e em toda a província de Trás‑os‑Montes; de Bragança reverberaram as labaredas para o Porto”179.

174 175

Na cidade só se tomou conhecimento que o Porto se aquietara alguns dias depois.

Vasco Pulido Valente, Ir Pró Maneta. A Revolta contra os Franceses, Lisboa, Alêtheia Editores, Novembro de 2007.
176 Carlos de Azeredo, As Populações a norte do Douro e os Franceses em 1808 e 1809, Porto, Museu Militar do Porto, 1984. 177 178 179

Gazeta de Lisboa, 26 de Junho de 1808, cit. Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Ana Cristina Bartolomeu de Araújo, ob. cit.

José acúrsio da Neves, História Geral da Invasão dos Franceses em Portugal e da Res‑ tauração deste Reino, Porto Edições Afrontamento, 2008.

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O Algarve e as Invasões Francesas
A 19 de Junho, os militares da cidade agrupam‑se no Campo de Santo Ovídio e aí juram “defender pela espada a independência, a religião e o soberano”180. Depois, uma turba popular de 10 000 indivíduos concentra‑se junto ao Epis‑ copado da cidade e um Padre Franciscano instiga alto e bom som: “Vamos: dêmos mais um publico argumento da nossa utilidade. Ver‑me‑heis á vossa frente: segui‑me. A táctica necessária para a empreza facilmente se aprende: o amor, a vontade, a coragem e o interesse tudo vencem. Nada vos intimide, nem ainda a consciência. Cravae o ferro no inimigo, e banhado no seu sangue, pendurae‑o por cima das vestes sagradas, e offerecei a Hóstia Pacifica sobre os vossos altares”; o povo, ufano, gritava «mata! Mata!»181. Estabelece‑se, então, um Governo provisório para o Reino e lavra‑se em Manifesto o restabelecimento da soberania nacional: “Em nome do Príncipe regente de Portugal, a Junta provisional do supremo governo da cidade do Porto faz saber a todos os seus vassalos do dito senhor que o governo Francês se acha inteiramente abolido e exterminado deste país, e restituída nele a autoridade do nosso legítimo soberano (…)”182. Secundando o Porto, Guimarães, Braga e Vieira do Minho levantam‑se em armas: em Guimarães, o papel galvanizador coube a Monsenhor Miran‑ da, que aproveitou a missa da colegiada para o efeito, a 18 de Junho; nesse mesmo dia, em Braga foi confirmada a posse da Junta do Porto, “o que deu origem a que Arcebispo, a Vereação, a Nobreza e o Povo dessem mostras do seu entusiasmo”; em Viana do Minho, a aclamação do Príncipe Regente foi convocada pelo General Luís do Rego Barreto183. Era de mais para um «sossegado» Junot, que mediu mal a gravidade e a amplitude dos acontecimentos. Disso dá conta o barão de Thiébault, notando que, com mais ou menos audácia, a insurreição se espalhou por todo o ter‑ ritório, e que apesar de ter falhado em Lisboa, alcançou o sucesso no Porto, espalhando‑o por Trás‑os‑Montes, Minho e Beiras, prendendo e fuzilando quantos franceses encontraram; regiões que, segundo Thiébault, cederam ao impulso dos espanhóis, às seduções inglesas, às insinuações activas dos padres e dum grande número de fidalgos, onde o entusiasmo e o furor eram evidentes184.
180 181 182 183 184

Idem. Raul Brandão, ob. cit. José Acúrsio da Neves, ob. cit. Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Barão de Thiébault, ob. cit.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
Assim, a resposta, a carimbar com ferro e fogo, foi concedida a Loison que, com 2 600 homens, 50 cavalos e 4 peças de artilharia, saiu de Almeida, a 17 de Junho, e se dirigiu para o Entre o Douro e Minho, decidido a afogar em sangue a insurreição nortenha. Loison, na sua marcha de Almeida para o Porto, passou por Pinhel e Tran‑ coso, que atinge a 18 de Junho, passa em Sernancelhe e Moimenta da Beira, onde chega a 19 e entra em Lamego no dia 20, altura em manda reconhecer a passagem do Douro na Régua. Na manhã de 21 atravessa o Douro e ruma em direcção de Mesão Frio, em ziguezague pela meia encosta da vertente sul do rio Teixeira, através da áspera e solitária «estrada pombalina». Entretanto, a 19 de Junho, a notícia da marcha do general francês é conhe‑ cida na Régua e em Vila Real; à sua aproximação, as populações avisavam: «Vem aí o Jinot com as guilhotinas». O General Francisco da Silveira organizou, então, uma força de milícias, ordenanças e paisanos para se lhe opor. Silveira divide as suas forças em duas colunas e ataca a testa da coluna francesa nas ravinas de Padrões da Teixeira e, simultaneamente, a sua retaguarda e as bagagens na Régua. Assim, com a frente da sua força detida e fustigada nos Padrões da Tei‑ xeira e a retaguarda atacada e isolada na Régua, Loison, impotente, retirou para Almeida, não sem antes cair numa outra emboscada, montada no lugar do santinho, a 2Km da Régua185. Portanto Loison não foi capaz, sequer, de ultrapassar a Régua, quanto mais de chegar ao Porto, inviabilizando o cumprimento da missão dada por Junot. Destroçado e enraivecido, Loison retrocedeu para Almeida, onde chegou a 1 de Julho. Esta foi a primeira grande vitória militar da resistência portuguesa, o indis‑ ciplinado mas aguerrido campesinato, coordenado pelo baixo clero e pelos senhores da terra e comandado por oficiais determinados, opunha‑se com su‑ cesso ao exército francês de Junot e reduzia ao ridículo o temido Loison 186. Entretanto, o «raide» de Loison teve o efeito pernicioso de sublevar as Beiras: Lamego e Aveiro a 22 de Junho, Coimbra a 23, Viseu a 30, Guarda a 2 de Julho, depois, Leiria, Castelo Branco e outras localidades.

185 186

Vitoriano José César, ob. cit.

Os combates em Padrões de Teixeira apresentam a tipologia de guerrilha: Contudo, como já referimos anteriormente, preferimos denominar estas acções de guerra irregular assente nas milícias regimentais.

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O Algarve e as Invasões Francesas
Fora da periferia, a revolta de Coimbra (23 de Junho à noite – véspera de S. João) revelou‑se singular187. O pequeno destacamento francês exis‑ tente na cidade (44 homens) foi aprisionado por milícias e ordenanças do Porto e alguns voluntários da Mealhada dirigidas pelo padre José Bernardo de Azevedo, depois de acometerem o Colégio de S. Tomé na rua de Santa Sofia188. No dia seguinte, foi nomeado como governador da cidade Manuel Pais de Aragão Trigoso, vice‑Reitor da Universidade, e como governador de armas o General Bernardim Freire de Andrade, depois substituído pelo seu irmão Nuno. Os recursos da Universidade foram de imediato colocados ao dispor da causa: os laboratórios reajustaram‑se ao fabrico de pólvora e balas, os populares cortaram pontes, obstruíam estradas e armaram‑se e os académicos formaram um corpo militar, constituído por lentes e estudantes. Entretanto, organizou ‑ ‑se um corpo de voluntários (estudantes, populares e milícias) com destino à Figueira da Foz, que atacou o forte de Santa Catarina na manhã de 26 de Junho com 3 000 patriotas. Guarnecido por 80 franceses, o forte capitulou no dia seguinte. A ocupação do forte foi uma acção deveras importante pois permitiu o contacto efectivo com os ingleses junto à costa. De facto, o Almirante britânico Cotton, que permanecia expectante a bordo do navio Hibernia, informava “que os franceses tinham sido expul‑ sos das províncias do Norte e que a libertação do reino, assim como a da Espanha, estava iminente”189. Confuso, Junot impediu toda a gente de sair de Lisboa, de contactar os ingleses na costa e de festejar as festas de S. João e de S. Pedro; para o País avisou que “qualquer povoação onde se pegasse em armas contra o exército francês seria entregue ao saque e os seus habitantes passados a fio de espada”190. As ameaças, mais uma vez, não encontraram quem as escutasse. 4.2. Da «Blindagem» Algarvia ao Martírio Alentejano Entretanto, secundando a região nortenha, sublevaram‑se as localidades do Sul do território, com epicentro no Algarve, alastrando depois ao Alentejo,
187 Fernando Barreiros, notícia Histórica do Corpo Militar Académico de Coimbra, (1808‑ ‑1811), Lisboa, Livraria Bertrand e Aillaud, 1918. 188 189 190

Vitoriano José César, ob. cit. Barão de Thiébault, ob. cit. Idem.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
apesar de estar pejado de tropas francesas. Portanto, “o movimento restaura‑ dor evolui da periferia para o centro, isto é, das zonas mais desguarnecidas e próximas da fronteira (…) para as regiões onde a presença do invasor era mais sentida191. A resistência algarvia iniciou‑se em Olhão, nas vésperas de Santo António, com o descerramento das Armas Reais na Igreja Matriz e a explosão de raiva dos habitantes, não obstante a presença de um forte dispositivo militar francês em Faro. O paladino da revolta foi o Coronel José Lopes de Sousa, que sentiu na presença da esquadra naval britânica fundeada em Vila Real de Santo An‑ tónio o ponto de apoio. A Olhão acorreram populares de Faro e Ayamonte e, no dia seguinte, um grupo de «marinheiros» embarcou numa frágil embarcação pesqueira e rumou ao Brasil a dar notícia ao Príncipe Regente 192. Secundando Olhão, Faro e Aiamonte revoltaram‑se de imediato. Até finais de Junho, em efeito de dominó, Tavira, Vila Real de Santo António, Loulé, Albu‑ feira, Portimão, Silves, Lagos proclamam a causa da Dinastia de Bragança. Em Faro a «restauração» do reino teve como mentor o Capitão Sebastião Drago Cabreira, que aproveitou o desnorte francês face a Olhão para sublevar a localidade a 19 de Junho. Enquanto em Olhão os residentes tergiversavam entretendo os franceses, em Faro a guarnição do General Maurin foi presa e o corregedor Goguet e Turi foi obrigado a fugir. Em Tavira, a resistência foi encabeçada pelo Capitão Martim Mestre, que libertou a urbe a 21 de Junho. Nesse mesmo dia, Castro Marim assumiu a sua quota‑parte do processo, ca‑ bendo ao Juiz da Alfândega de Vila Real de Santo António, João da Guarda Cabreira, a responsabilidade da acção. A 22 de Junho, uma força francesa acomete a vila mas é repelida por fogo de Artilharia. No Algarve, onde os levantamentos alastram em bloco por toda a província e se actua em conjunto mediante uma luta sem quartel, a ocupação francesa sente a impotência de impor a submissão. A província era uma região nevrál‑ gica no confronto entre portugueses e ingleses, atendendo à sua longa costa e à vizinhança com a Espanha193. Os franceses retiraram das povoações, permitindo a criação da Junta do Algarve. Esta, de imediato reorganiza os antigos Regimentos da província e
Ana Cristina Bartolomeu de Araújo, ob. cit.

191 192

Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. A proeza do pesqueiro Bom Sucesso impeliu D. João a conceder a Olhão o título de vila.
193 Alberto Iria, A Invasão de Junot no Algarve (Subsídios para a História da Guerra Pe‑ ninsular. 1808‑1814), Lisboa, 1941.

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O Algarve e as Invasões Francesas
efectua contactos com a Junta de Sevilha e envia emissários a Gibraltar, onde obtêm espingardas e pólvora194. A insubordinação subiu depois para o Alentejo, onde Alcoutim, São Brás de Alportel, Mértola e Silves aderiram. Em Julho, revoltaram‑se Vila Viçosa, Beja e Évora. No entanto, como a presença francesa no Alentejo era forte, os povoados dispersos e o terreno favorável, a maior parte dos levantamentos foram sufocados debaixo de um banho de sangue. Não obstante, junto à fronteira Marvão, a 27 de Junho, Ouguela, a 4 de Julho, Castelo de Vide e Portalegre, no dia 6, e Campo Maior, a 8 de Julho, são restauradas a expensas da entreajuda de espanhóis, de que destaca Fran‑ cisco Moretti. Instalado em Lisboa, Junot olha o evoluir dos acontecimentos com crescente preocupação. Com Portugal sublevado de Norte a Sul, a capital está entre dois fogos, sendo evidente que a sua tropa, principalmente depois da retirada dos espanhóis, era curta par ocupar todo o Portugal. Ter‑lhe‑á certamente afluído o aviso de Napoleão: “retirará vergonhosamente de Portugal”. Assim, a 28 de Junho, deu ordem para a concentração das suas forças em torno da cintura de Lisboa. O espírito da derrota apossara‑se de “El‑Rei Junot”. Desesperado, Junot deu ordem para a concentração das suas forças em torno da cintura de Lisboa: Setúbal, Leiria (retomada pelos franceses), Ou‑ rém, Tomar, Santarém, Rio Maior, Óbidos, Mafra, Sintra e Sacavém eram para sustentar. Quanto a Lisboa, a sua defesa devia ser assegurada até ao limite, tendo Elvas como refúgio em caso de insucesso195. Mandou regressar Loison de Almeida e Kellermann de Elvas. Tarefa difícil, com o País revoltado de Norte a Sul, encontrar alguém que fizesse chegar as ordens de Junot aos destinatários. Para se ficar com uma ideia, consta que para Loison foram expedidas 25 cartas e nenhuma delas chegou ao desti‑ no196. Mas pôde regressar, fazendo uma matança em Tomar na sua marcha de Almeida para Lisboa. A região de Lisboa tornou‑se o centro de operações da repressão, de onde Junot lançou uma campanha de terror no Alentejo. Em Beja, o general Kellermann foi assaz sangrento, onde proclamou a 1 de Julho: “«Habitantes do Alentejo! Beja tinha‑se revoltado, Beja já não existe. Os seus criminosos habitantes foram passados a fio de espada, e as suas casas entregues à pilha‑
194 195 196

Vitoriano José César, ob. cit. Barão de Thiébault, ob. cit. Idem.

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Invasões Francesas – Junot e a resistência à Ocupação
gem e ao incêndio»”197. Em Évora (29 de Julho), tarefa semelhante foi levada a efeito por Loison, que aí causou «uma mortandade horrorosa». Mas tudo era inconsequente e os resultados vácuos, à passagem dos generais franceses a populaça ou se refugiava ou se aquietava pois, passada a vaga assassina, logo se erguia blasfemando‑o. Assim foi acontecendo, um pouco por todo o lado porque “não havia um inimigo que ele pudesse perseguir e destruir. O inimigo era toda a gente e ninguém. Toda a gente porque toda a gente o podia atacar; ninguém porque ele não podia considerar inimigo quem o não atacasse”198. Como observou nas suas memórias um seu conterrâneo, o marechal Jourdan: “estas terríveis execuções militares não serviram senão para azedar os espíritos e dar uma nova energia ao povo”199.

5. O Ocaso da Presença Francesa
Com Lisboa amordaçada, a Estremadura manietada e a região entre o Minho e Mondego e o Algarve em estado de independência, restavam os ingleses para escorraçar a tropa francesa. E, realmente, os ingleses, que acompanhavam do mar o evolui da situação, aprontavam‑se; e as populações esperavam. Assim, a 1 de Agosto de 1808, os ingleses desembarcaram em Lavos, na foz do Mondego, 14 000 homens e artilharia em perfeita tranquilidade, só possível porque o Norte do País estava controlado pelos patriotas e devido à pressão que o Batalhão Académico de Coimbra (698 elementos) e 3 000 ordenanças de Carapinheira de Campo, Montemor‑o‑Velho e Tentúgal exer‑ ciam na região200. Comandava a força o general Arthur Wellesley, que três dias depois “assinava uma proclamação em que prometia libertar o Reino”201, marchando para Sul em direcção a Lisboa, apoiado na retaguarda for efecti‑ vos portugueses de Bernardim Freire de Andrade. Seguiu‑se o encontro entre os generais ingleses Wellesley e Trant e os portugueses Bernardim Freire de Andrade e Morais Bacelar, que se apresentaram em Leiria com 6 000 soldados enviados pela Junta do Porto202. Da «conferência» surgiram desentendimentos
197 198 199 200 201 202

Mário Domingues, ob. cit. Vasco Pulido Valente, ob. cit. Carlos de Azeredo, ob. cit. Manuel Themudo Barata, ob. cit. Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, D. João VI, Rio de Mouro, Círculo de Leitores,

2006.

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O Algarve e as Invasões Francesas
sobre a estratégia a seguir: Wellesley pretendia atacar Junot próximo de Lis‑ boa, junto à costa, apoiado no mar pela frota inglesa e em terra pelas forças portuguesas; Bernardim Freire queria que os ingleses atacassem na raia beirã, pois receava uma ofensiva francesa vinda de Espanha203. Prevaleceu o conceito de operação britânico. Entretanto, como reagiu Junot aos acontecimentos? Mandou Loison e Kel‑ lermann regressar do Alentejo, dirigiu‑se para Torres Vedras, onde instalou o quartel‑general, e ordenou a Delabord que marchasse para Óbidos a barrar a progressão inglesa. Preocupado que, na sua ausência, Lisboa se sublevasse, enganou a população ao informar que “o inimigo estava em aperto”204. Em vão, na Roliça, área montanhosa a sudeste de Óbidos, onde Delaborde se entrincheirou com 6‑7 mil soldados, os ingleses desbarataram os franceses (17 de Agosto), obrigando‑os a recuar para Torres Vedras, deixando atrás de si inúmeras baixas. Quatro dias depois feriu‑se um novo recontro no Vimeiro, perto de Torres Vedras. Já com Junot e Loison presentes, a que se juntou o remanescente das forças de Delaborde, a iniciativa da batalha pertenceu ‑lhes, que não impediu nova derrota dos franceses, desta vez conclusiva. Era o ocaso da presença de Junot em Portugal. O acordo foi celebrado em Sintra, na Convenção assinada a 30 de Agosto. Um acordo concretizado entre franceses e ingleses, que deixaram à margem do processo negocial qualquer representação portuguesa, que suscitou viva contestação205. Efectivamente, para os portugueses a Convenção foi um logro e um abuso, uma “consagração diplomática da política de rapina”206, apro‑ veitando os franceses para retirar calmamente por mar, sob escolta naval britânica, com os despojos surripiados durante a ocupação. Que diferença a retirada sobranceira dos vencidos quando comparada com o miserabilismo do exército que, nove meses antes, penetrara vitoriosamente Portugal.

203 204 205 206

Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Joaquim Veríssimo Serrão, ob. cit. Jorge Pedreira e Fernando Dores Costa, ob. cit. Vasco Pulido Valente, ob. cit.

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D. FRAnCISCO GOMES DO AVELAR, BISPO DO ALGARVE, E AS InVASÕES FRAnCESAS
Por: Padre Joaquim José Duarte Nunes
A História de Portugal ao considerar as Invasões Francesas, mormente a Primeira, reserva lugar destacado para o Algarve. Neste quadro o Bispo D. Francisco Gomes do Avelar é uma personalidade incontornável. Esta breve comunicação procura evidenciar a sua actuação e traçar, num rápido esboço, o retrato do Homem e do Bispo.

1. O Homem
D. Francisco Gomes do Avelar nasceu em 1739, a 17 de Janeiro, no lugar do Mato – Calhandriz, Alhandra – numa família rural de condição modesta e morreu em Faro, Arcebispo‑bispo e Governador do Algarve, a 15 de Dezembro de 1816. A sua vida decorre entre estas duas datas e ao estatuto e funções que correspondentes no contexto do Antigo Regime. Aos 14 anos foi para Lisboa. Em Setembro de 1757 entrou na Congregação do Oratório, sendo ordenado presbítero em 1763, dez anos depois de ter vindo para a capital do Reino. Neste espaço de tempo passou, provavelmente, do domínio das primeiras letras – do saber ler, escrever e contar – para o dos saberes humanísticos e teológicos, superiores, que o habilitaram ao ensino 121

O Algarve e as Invasões Francesas
da Retórica, Filosofia, Moral e Escritura na mesma Escola em que se formara. Este dado assume significado especial tendo em conta o elevado grau, qua‑ lidade e modernidade (interesse pelas artes e técnicas, nomeadamente) do ensino dos Oratorianos. Entre 1784 e 1788 esteve em Roma, para onde fora acompanhando o Núncio Vicente Ranuzzi. Este tempo serviu‑lhe para alargar os horizontes culturais, nomeadamente no âmbito artístico e técnico. Meses depois, foi indicado por D. Maria I para Bispo do Algarve e, con‑ firmada a escolha por Bula papal, foi ordenado a 26 de Abril de 1789. Destas notas biográficas ressaltam traços do perfil do Homem: a inteligência e a cultura, humana e teológica aliada aos conhecimentos práticos e técnicos. Não estamos perante um homem qualquer, perante um erudito eclesiástico, mesmo de profundo saber livresco. D. Francisco conhece e pratica saberes tão diversos quanto a arquitectura, a engenharia de pontes e calçadas ou agronomia e, ao mesmo tempo o latim, o grego ou o hebraico, a filosofia ou a teologia.

2. O Bispo
Como se fora pincelada inicial do esboço é conveniente acentuar que num tempo em que o bispo é visto mais como príncipe que pastor, mais aliado do Trono que servidor do Altar, o ministério episcopal de D. Francisco Gomes foi verdadeiramente o de um PASTOR, servidor do Povo que lhe foi confia‑ do. A chave de leitura de toda a diversidade da sua acção e que a unifica é, deve ser, a pastoralidade. Foi Pastor, Bispo segundo as orientações tridentinas, que continuavam inovadoras; nomeadamente: o dever de residência, a preocupação com a formação do clero ou a obrigação da Visita Pastoral periódica. Ao contrário de outros, residiu sempre na sua diocese, o que tendo em conta o carácter periférico do Algarve é significativo e revelador do cuidado pastoral e sua primazia em tudo o que fez. O Algarve não tinha Seminário que proporcionasse e garantisse adequada formação ao clero diocesano (o clero algarvio tinha sido formado nos Colégios da Companhia de Jesus até à sua expulsão), pelo que tratou de levar por diante, enfrentando dificuldades, a construção do edifício e a fundação da instituição que concretiza em 1897. Durante os anos que esteve à frente da diocese fez, por si, a Visita Pastoral às Paróquias com a periodicidade canónica: deu a volta por três vezes. Nestas 122

D. Francisco Gomes do Avelar, Bispo do Algarve, e as Invasões ...
Visitas tomou conhecimento da realidade eclesial e social, da vida religiosa, das necessidades dos fiéis e dos homens (o espiritual e o profano), corrigiu abusos, orientou, apontando caminhos de renovação, providenciou as medi‑ das convenientes. São preocupações que tem a ver com o dever pastoral do Bispo, aliado ao conhecimento directo da realidade diocesana que motiva a sua interven‑ ção na reconstrução dos estragos do Terramoto, ainda por fazer; na reforma urbanística; no mecenato artístico; na organização da vida económica e social; ou na organização da assistência aos pobres. Em cada um destes aspectos teve uma acção decisiva, voltada para o fu‑ turo. De tal modo que, em muitos casos, só o futuro dará execução aos seus desenhos sempre modernos. Enumero aqui algumas referências significantes: trouxe de Itália o arquitecto Francisco Xavier Fabri, introdutor do gosto neo‑ clássico, para projectar o Seminário, novas igrejas, nova organização urbana, o Arco da Vila como entrada nobre da Vila‑a‑dentro de Faro; a construção de novas igrejas para substituir as que o terramoto derrubara ou a recons‑ trução das que o mesmo terramoto deixara danificadas (Albufeira, Aljezur, Santa Maria de Tavira ou Lagoa, entre outras); o projecto urbano para Aljezur, centrado no núcleo da Igreja Nova; promoveu uma notável acção mecenática patrocinando a cultura artística, adquirindo obras de arte nas oficinas de Itália ou de Lisboa, sejam pinturas ou esculturas; ao dar conta do estado das vias de comunicação existentes promoveu a construção de estradas, calçadas e pontes com instruções precisas, técnicas, de como proceder manifesto nas que publicou em 1809; escreveu, em 1813, um pequeno folheto acerca da enxertia do zambujeiro, síntese de muitas indicações directas e que apenas foi publicado em 1819, depois da sua morte; instruiu acerca da importância do figo para o povo agricultor e o modo de desenvolver a sua cultura e comércio; ampliou a acção humanitária da Misericórdia de Faro, de que foi Provedor, e atendeu às necessidades dos pobres e sua assistência mediante indicações a Misericórdias para que tivessem hospitais, boticas, recolhimentos, e para tudo concorria com as suas esmolas; reformou as Caldas de Monchique abrindo a possibilidade aos pobres para beneficiarem dos banhos. Sendo já vasta a enumeração poderia, sem repetições prolongar‑se sempre evidenciando a grandeza do Bispo e a primazia da motivação: serviço pastoral aos que estavam ao seu cuidado.

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O Algarve e as Invasões Francesas 3. O Bispo e o Homem perante a invasão do Algarve
Antes de avançar neste assunto impõe‑se a apresentação de dois pontos prévios: • o tratado franco espanhol assinado em Fontainebleu, 27 de Outubro ‑ de 1807, dividiu o território português entre as potências signatárias, ficando o Algarve, juntamente com o Alentejo e a Andaluzia, a constituir um Principado, Principado dos Algarves, a entregar a Manuel Godoy; • as instruções deixadas ao Conselho de Regência nomeado pelo prín‑ cipe D. João impuseram a colaboração com os franceses em ordem à preservação da paz, constituíram a base legal para a actuação das diversas autoridades e garantiam a conservação da soberania. 3.1 A invasão do Algarve Na impossibilidade de resistir aos exércitos de Napoleão ou anuir ao Bloqueio Continental e a presença no território nacional das tropas francesas comandados por Junot impuseram a D. João e aos aliados britânicos a solu‑ ção da retirada para o Brasil. No dia 29 de Novembro de 1807 a Corte e a Família Real embarcaram rumo ao Rio de Janeiro. Junot teria visto as velas da esquadra régia sair da barra do Tejo, instalou‑se em Lisboa e assumiu, em certa “parceria” com o Conselho de Regência, o governo do Reino acaute‑ lando o relacionamento com a Espanha. A 1 de Fevereiro de 1809, dissolve a Regência e torna‑se El rei Junot. Em conformidade com as cláusulas de Fontainebleau, as tropas espanholas invasoras tomaram conta do sul, fazendo quartel‑general em Setúbal. É desta cidade que sai a divisão que ocupará o Algarve, sob o comando do marquês de Campigny, que chega a Faro a 22 de Janeiro de 1808 e se instala no Paço, à custa do bispo. Nesta ocasião verifica‑se que D. Francisco Gomes segue a orientação do Regente: recebe o general e a sua comitiva, escreve aos párocos recomendando o comportamento amistoso do povo em relação aos espanhóis. Assim, prevalece o ambiente de bom acolhimento devido à intervenção do bispo, pelo menos publicamente. A proximidade com a Andaluzia, o poder ainda manifesto da monarquia espanhola e a ameaça da perda da soberania do Reino do Algarve justificam a prudência. Contudo, a realidade revela al‑ guns sinais de resistência aos quais o bispo não podia ser indiferente, muito menos ignorar: a morte secreta de soldados ocupantes.

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D. Francisco Gomes do Avelar, Bispo do Algarve, e as Invasões ...
A alteração da relação franco‑espanhola e do quadro político decorrente da dissolução do Conselho de Regência, parece motivar a saída dos militares espanhóis e a sua substituição por franceses, os quais chegaram a Faro a 22 de Fevereiro de1808, a mesma data da saída daqueles sem se terem encontrado, como seria natural em caso de substituição simples. Com a chegada das tropas francesas a Faro tudo se modificou: violento desrespeito do vencedor pelo vencido e progressiva oposição ao invasor. De tudo isto deu conta D. Fran‑ cisco e de tudo deveria ter informação. Nem o general francês ficou instalado no Paço, apesar do convite do bispo nem D. Francisco, passadas as cortesias iniciais, aceitar convite para jantar no Domingo de Ramos seguinte. A imposição de impostos para alojamento dos militares, de licenças aos pescadores para saírem ao mar, a requisição da prata das igrejas e a banição das armas dos Braganças e dos escudos nacionais tudo se conjuga para a cres‑ cente oposição aos invasores, a que se juntavam violências de toda ordem. Ao mesmo tempo em Espanha sucediam‑se acontecimentos reveladores dos projectos do Imperador: denúncia dos termos do tratado de Fontaine‑ bleau e da aliança franco‑espanhola, prisão da Família Real e elevação de José Bonaparte ao trono de Madrid. Tudo isto levou à sublevação popular e ao seu esmagamento por parte dos franceses, os quais recorreram a tropas estacionadas no Algarve. Em conjunto estes factos avolumaram quer a reacção popular quer o maior comprometimento do clero na oposição ao francês invasor. 3.2 A revolta de Olhão A revolta popular assume significado particular no Reino do Algarve vindo a eclodir em Olhão, cujos pescadores se viram sobrecarregados com uma taxa mensal de 600 réis para poderem ir ao mar. Na véspera de Santo António, 12 de Junho, e dos seus festejos populares, o secretário do Compromisso Marítimo destapou as armas reais que encimavam o altar de Nossa Senhora da Conceição. Nesta noite, por entre os festejos ouviram‑se vivas à casa de Bragança. Dias depois, a 16 de Junho, os olhanenses viram afixado à porta da igreja paroquial um edital de Junot convidando os portugueses a atacar a Espanha em revolta. Esta foi a gota que fez transbordar o vaso, acendeu ‑se o rastilho que levou à explosão da revolta e afirmação patriótica da restau‑ ração da soberania. Tomando por cabeça o coronel José Lopes, governador de Vila Real, que estava na povoação, levantou‑se o povo de Olhão contra os franceses. As tentativas para acalmar os ânimos não foram bem sucedidas como o não foram as que procuram sufocar a revolta na sua génese. 125

O Algarve e as Invasões Francesas
A 18 de Junho as tropas francesas atacam Olhão e vêem‑se obrigadas a retirar: um pequeno combate que se torna o acontecimento decisivo em todo o desenrolar do processo de reacção aos franceses e à sua expulsão. Neste quadro não se pode esconder a presença de navios da esquadra britânica que navegavam próximo da costa, assinalando a sua presença e, seguramente, em contacto com os homens do mar. 3.3 A revolta em Faro A revolta de Olhão rapidamente foi conhecida em Faro, onde se inicia‑ ram movimentações de igual sentido. Primeiro sinal foi a oposição popular à movimentação de tropas portuguesas para atacar os olhanenses e o ataque a alguns partidários dos invasores, apesar da presença de tropas francesas na cidade. Todos os acontecimentos, suas notícias e informações mais reservadas não podiam deixar de ser do conhecimento de D. Francisco. No dia seguinte, 19 de Junho, a sublevação chegou a Faro. Tocaram a rebate os sinos do Carmo a juntar o povo e demais habitantes da cidade, que já se tinham começado a organizar‑se. Refira‑se que um grupo de notáveis reuniu‑se à volta do capitão Sebastião Brito Cabreira, que contava com o apoio do clero, o qual se tornou comandante dos revoltosos que dominaram a cidade e o que restava das tropas estrangeiras. No meio dos acontecimentos e seus protagonistas surge José da Palma, criado de D. Francisco. É no Paço Episcopal que são aprisionados, a seu pedido o general Malé, o seu ajudante e um oficial e ali permanecem guardados à vista pela nobreza da cidade. Refira‑se que os populares impuseram a expulsão dos franceses. Os acontecimentos de Faro, a 19 de Junho, evidenciam a presença, segu‑ ramente actuante de D. Francisco Gomes: participação de gente da sua casa nas movimentações e colaboração com a prisão dos oficiais. O dia seguinte, 20 de Junho, voltam os sinos a juntar o povo e a convocar o clero, regular e secular. No Campo da Esperança compareceram os reli‑ giosos da cidade, o cabido e D. Francisco que abertamente se colocaram ao lado da restauração. Aliás, o clero pegou em armas ficando responsável por um posto da guarda. A intervenção directa do Prelado e seu pronunciamento não são duvidosas. Para garantir o governo do Reino do Algarve era necessário eleger e em‑ possar deputados legítimos e reconhecidos. No dia 22, foram convocados os Três Estados da cidade para, na igreja do Carmo, ser eleita uma Junta Provi‑ sional. Quem recebeu os votos e o juramento dos eleitos foi D. Francisco e, 126

D. Francisco Gomes do Avelar, Bispo do Algarve, e as Invasões ...
enquanto o presidente eleito, o conde de Castro Marim e Monteiro ‑mor, não chegou a Faro exerceu a presidência interinamente. O conde de Castro Marim, D. Francisco de Melo da Cunha Mendonça e Meneses, que fora governador militar do Algarve até à vinda dos franceses, estava então em Tavira, cuja população o queria para presidir a uma Jun‑ ta local que pretendia ser a primeira. Face à situação foi o bispo a Tavira para,em Câmara, convencer o Monteiro‑mor a vir para Faro, o que sucedeu não sem dificuldades. 3.4 O governo da Junta Esta Junta assumiu um poder que poderia parecer excessivo. Foi constituída para prover o necessário na ausência do Príncipe Regente, fazendo observar as leis do Reino e garantindo a soberania. O envio de emissários a Sevilha ou a organização da defesa da fronteira do Guadiana podem manifestar esta postura, no que respeita ao período anterior à legitimação do governo do Algarve por parte do Regente, D. João. Neste conjunto, primeiro, de acontecimentos se evidencia a determinante acção de D. Francisco Gomes neste período da vida e história do Algarve. Um segundo conjunto significativo: quando o conde de Castro Marim orga‑ nizado um contingente militar composto por 5000 homens sai do Algarve para colaborar com as tropas anglo‑portuguesas na expulsão dos franceses, passou ao Alentejo, chegou a Beja no dia 19 de Agosto, e seguindo depois para Lisboa, estava em Évora quando se assinou a Convenção de Sintra, em 30 do mesmo mês de Agosto. Neste período, D. Francisco Gomes assume o governo. A Regência nomeou‑o governador do Reino do Algarve com todos os poderes militares e civis. Nesta qualidade deu especial atenção à defesa do Guadiana, prevenindo a ameaça da penetração de tropas francesas presentes na Andaluzia. De facto avançaram até Aiamonte e só a determinação e a coragem do comando incansável do Bispo evitou a invasão. Nesta acção não poupou esforços, mesmo financeiros, para garantir a defesa do Reino do Algarve. Com as vitorias militares de Roliça e Vimeiro e a assinatura da Convenção de Sintra, em Agosto de 1808, as circunstâncias mudaram, alteraram ‑se os equilíbrios políticos a favor das chefias militares inglesas, pelo que procurou livrar‑se dos encargos políticos e militares que tinha assumido. Foi nomeado um comandante de armas para o Algarve, o Inglês John Austin. D. Francisco Gomes do Avelar conservou, porém, as atribuições de capitão‑geral e o título de Governador até à data da sua morte. 127

O Algarve e as Invasões Francesas
3.5 Conclusão Concluo, para evidenciar a determinação e patriotismo de D. Francisco citando partes de um Proclama ou Exortação Pastoral dirigido ao contingente recrutado no Algarve que marchava para o combate em defesa do país. As primeiras palavras são do Bispo, pastor e teólogo, a parte final expressa os sentimentos do Português: “Amados Filhos meus em Jesus Cristo (…). Este Senhor [Jesus Cristo] vai pois agora capitaneando as nossas tropas, as nossas milícias, e a nós todos, que nos imos afrontar para pelejarmos em massa, se o inimigo temerário se atrever a procurar‑nos novamente. Se marcharmos contra ele, bem sabeis que as nossas bandeiras se ornam com os sinais da nossa Redenção, e que as nossas insígnias são as maravilhosas cinco chagas e os trinta dinheiros, com que o próprio Filho de Deus remiu o mundo; à sombra deles sempre os portugueses vencerão e nunca serão vencidos. (…) Amados Algarvios, bons patrícios portugueses, ou morrer ou vencer. Quem vence, animoso, triunfa do inimigo: quem morre na defensa da Pátria, e muito mais para conservar e defender a Fé e a Santa Religião, triunfa da morte, para viver eternamente. Para que vades defendidos do Deus Omnipotente, vos dou em seu nome a minha bençao; e saindo vós ao campo, subirei Eu ao Santo Monte orar e sacrificar a Deus por vós, para que o Senhor das Vitórias vo‑la dê do vosso inimigo mui completa; e todos cantaremos eternamente as suas Misericórdias. Dada em Faro aos 13 de Dezembro de 1808, F. Bispo e Governador interino das Armas.” (in Francisco Xavier de Athayde Oliveira, Biografia de D. Francisco Go‑ mes do Avelar, Typogrphia Universal, Porto 1902, pp 201‑204)

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A BRIGADA DO ALGARVE DURAnTE A GUERRA PEnInSULAR
Por: José Paulo Ribeiro Berger «A humildade só é virtude quando não revela fraqueza.» Provérbio português.

1.Portugal na Europa de Napoleão Bonaparte
No ano de 1807 Napoleão I, imperador dos franceses, tinha vencido to‑ das as grandes potências europeias. Toda a Europa continental estava sujeita ao seu génio militar e ao poder que lhe era conferido pelos exércitos da França. A Península Ibérica, no extremo ocidental da Europa, fazia parte dos objectivos políticos e económicos dos dois Estados, que no Velho Continente, disputavam entre si a supremacia mundial – França e Inglaterra. Nessa época, os Estados europeus agrupavam‑se em dois grandes blocos: os que eram amigos ou aliados do imperador dos franceses e os que se lhe opunham. Entre estes encontrava‑se a Inglaterra. Esta, a potência marítima mundial, constituiu‑se como um único inimigo poderoso que activamente combatia as aspirações do Império francês. Paralelamente, os territórios de portugueses e espanhóis na América eram um prémio muito apetecido para estas duas potências. 129

O Algarve e as Invasões Francesas
Dois anos antes, em 1805, ao largo do cabo Trafalgar, à entrada do Me‑ diterrâneo, a marinha inglesa tinha destruído praticamente toda a esquadra francesa e parte da espanhola que a ela estava aliada. Desde então, Napoleão, sem a força naval suficiente para dominar as rotas comerciais mundiais, como alternativa, viu‑se obrigado a procurar a hegemonia do comércio continental europeu. Concebeu um plano genial em que seriam cortadas todas as relações mercantes da Inglaterra com o Continente. Este plano levaria à destruição da economia inglesa pelos seus alicerces. Minaria a capacidade de resistência do Estado Inglês, asfixiando o seu comércio internacional. Para tal Napoleão decretou em Berlim o bloqueio continental. Este resumia‑se em proibir todo o tráfico mercante com as Ilhas Britânicas e declarar que todas as mercadorias com origem em Inglaterra ou nas suas colónias podiam ser apresadas. O império britânico, que ainda não se tinha refeito das consequências da independência das suas colónias na América, via‑se então submetido a uma nova e duríssima prova. Foi, com efeito, um terrível golpe que Napoleão di‑ rigiu contra o seu mais directo adversário. Tinha como objectivo aniquilá‑lo completamente para poder mudar o centro de gravidade da economia euro‑ peia de Londres para Paris. A Inglaterra iria passar por momentos de muita angústia. Se o Imperador dos franceses conseguisse o apoio dos restantes Estados europeus, efectivando um completo bloqueio continental, a Inglaterra seria obrigada a render‑se sem ter sido vencida pela força das armas. Perante esta realidade o Governo britânico estava consciente de que a Inglaterra só poderia manter‑se e sobreviver economicamente se dominasse todas as rotas comerciais internacionais o que só sucederia se fosse a única potência a dominar no mar. Preferencialmente dirigiu a sua capacidade bélica naval contra todos os Estados que voluntariamente, ou à força, se tinham submetido ao sistema napoleónico. As contínuas expedições dos corsários britânicos destruíram o comércio marítimo da França e ocuparam as suas possessões ultramarinas. Também as colónias de Espanha e da Holanda so‑ freram idênticas consequências. A Dinamarca foi atacada de surpresa. A sua capital, Copenhaga foi bombardeada durante três dias até que os dinamar‑ queses entregaram toda a sua frota. Durante a época do bloqueio continental a Inglaterra conseguiu afundar mais de 1 000 navios de guerra inimigos e apresar mais de 4 000 navios de transporte, que foram incorporados na sua frota mercante. Pela premente necessidade de sobrevivência económica passou a praticar o contrabando. Os seus navios no Mediterrâneo, desde Gibraltar e Malta, mantinham um activo tráfico clandestino com a Península Ibérica. Por acréscimo os ingleses procuraram novos mercados e estabeleceram rela‑ 130

A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular
ções mercantes e comerciais com as colónias espanholas da América do Sul. Posteriormente conseguiram também benefícios da Côrte portuguesa para o comércio com o Brasil. Apesar das intenções e esforços de Napoleão para isolar a Inglaterra, o bloqueio continental tinha falhas por não ter sido cumprido por todos os Estados. Na Península Ibérica, Portugal, que desde longa data tinha a Inglaterra como o aliado mais antigo, com a qual mantinha uma importante relação comercial, não interrompeu com ela as relações comerciais com a prontidão exigida pelo imperador dos franceses. Para tal aproveitou as circunstâncias políticas internas dos países peninsulares que levaram à sua invasão. O cataclismo que originou – a Guerra Peninsular – foi algo mais do que um conflito bélico entre portugueses e espanhóis contra os usur‑ padores franceses. Foi a Guerra Peninsular que decidiu o futuro da Europa napoleónica. A necessidade aliou portugueses, ingleses e espanhóis em episódios épicos contra os franceses, mas que trouxeram e infligiram um sofrimento atroz aos seus povos. Esta guerra teria que transcender, necessariamente, os limites geográficos das fronteiras de Portugal. Os territórios de Portugal e da Espanha foram cenários de sangrentas batalhas, em que as forças militares nacionais, e entre elas a Brigada do Algarve, mostraram o valor da sua vontade e a co‑ ragem dos seus combatentes que percorreram os caminhos da Península até França, ombreando com os seus aliados espanhóis e ingleses, a difícil tarefa de combater “La Grande Armée française”, o melhor exército da altura. Em Julho de 1807, com o tratado de Tilsit, vai abrir‑se um novo capítulo na guerra europeia. Em Agosto, Napoleão faz concentrar tropas em Baiona para a invasão de Portugal. Portugal teria que se juntar no bloqueio continental que a França decretara contra a Inglaterra: fechar os seus portos à navegação britânica, declarar a guerra aos ingleses, prender todos os ingleses residentes e sequestrar os seus bens em Portugal. Sob o comando do General Jean‑Andoche Junot, as tropas francesas en‑ traram na Espanha e alcançaram a fronteira portuguesa em 20 de Novembro. Ali se juntaram com as tropas espanholas e sem encontrar resistência militar chegaram a Lisboa, a 30. Um dia antes, a Família Real e a corte portuguesa haviam saído para o Brasil a bordo de uma larga esquadra naval, protegida por navios britânicos. A divisão espanhola de Solano, saindo de Badajoz, to‑ mara entretanto Elvas e Campo Maior, indo estabelecer o seu quartel ‑general em Setúbal, ocupando também Alcácer do Sal e, no Algarve, Tavira e Lagos. A divisão de Tarranco, com cerca de 6 mil homens, entrou por Valença e foi 131

O Algarve e as Invasões Francesas
garantir a tomada da cidade do Porto, onde já estava o general Juan Carrafa com 4 mil homens, vindos por Tomar e Coimbra. Entretanto, Napoleão havia enviado mais tropas para o Norte de Espanha que vão ocupando várias cidades e regiões de Espanha. O rei espanhol é forçado a abdicar e a partir de Maio de 1808 incorrem insurreições populares contra as tropas francesas de ocupação por toda a Espanha. A notícia do levantamento do povo espanhol levou o general Solano a retirar com as suas tropas para Espanha. Em Portugal, as tropas francesas muito reduzidas concentram‑se numa área em volta de Lisboa, delimitada pelo Atlântico, o rio Tejo, e por uma linha que ia de Peniche até Abrantes. No resto do território, os franceses dispu‑ nham de forças em posições fortificadas em Setúbal, Almeida e Elvas. Mas a resistência portuguesa crescia. A partir de Junho vai iniciar‑se um período de revoltas populares contra a ocupação francesa e no Porto foi criada a Junta Provisional do Supremo Governo do Reino, sob a direcção do bispo do Por‑ to, D. António de Castro. No dia 1 de Agosto de 1808, as tropas britânicas começaram a desembarcar na foz do Mondego, tendo‑se juntado em Leiria com as forças portuguesas do general Bernardim Freire de Andrade e Castro. Na vinda para Sul para libertação de Lisboa foram travados os combates de Óbidos e da Roliça e a batalha do Vimeiro, que levaram ao estabelecimento da Convenção de Sintra. Enquanto em Portugal se estava livre da ocupação os espanhóis, em revolta contra os usurpadores franceses, obtêm apoio das tropas britânicas estaciona‑ das no Norte de Portugal. Sob o comando de John Moore, o exército inglês passa a fronteira portuguesa para combater os franceses, sendo derrotado e obrigado a retirar pela Corunha. No início e 1809 o marechal Nicolas Jean de Dieu Soult vai invadir o país pela fronteira de Trás‑os‑Montes e Alto Douro. Depois das forças militares portuguesas conduzirem a defesa do Norte de Portugal nos quatro primeiros meses de 1809, o tenente‑general Arthur Wellesley, que a 7 de Março tinha redigido um memorando aconselhando o governo britânico a defender Portugal e a incorporar tropas portuguesas, é nomeado, em 2 de Abril, comandante ‑ ‑em‑chefe do exército britânico na Península. A 22 de Abril, desembarcará em Lisboa com reforços militares substituindo sire John Craddock. Convencido, pela troca de impressões com D. Miguel Pereira Forjaz e com Beresford, da utilidade imediata do novo exército português, Wellesley incorpora unidades deste no exército britânico, designadamente um batalhão por brigada. Dirige‑se para Coimbra onde chega a 2 de Maio. A 4 de Maio é comandante‑em‑chefe 132

A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular
da força expedicionária britânica na Península Ibérica e ao mesmo tempo também marechal‑general do Exército português. A 12 Maio desse mesmo ano, tropas inglesas sob o comando do general Arthur Wellesley e do comandante‑ ‑em‑chefe do exército português, o Marechal William Carr Beresford, recon‑ quistam a cidade do Porto expulsando o invasor, que se retirou para a Galiza, libertando o Norte de Portugal pondo fim a outra invasão francesa. Continuou em sua perseguição internando‑se em Espanha seguindo, ao longo do Tejo, em direcção de Madrid. Apesar da utilidade do exército português, o próprio Wellesley obstina‑se em cooperar prioritariamente com os exércitos espanhóis ficando o exército português na fronteira. Não conseguiu passar de Talavera de la Reyna onde, no final de Julho, teve de travar batalha com os franceses. O resultado desta batalha e o perigo em que ficou envolvido fez com que o marechal Beresford entrasse com o exército português em Espanha, para proteger o flanco do seu exército. Por não se sentir apoiado pelos espanhóis retirou regressando a Portugal por Mérida e Badajoz. Instalou o seu quartel ‑ ‑general em Badajoz e as suas tropas acantonaram em Elvas, Badajoz, Campo Maior e em outras praças nas margens do rio Guadiana. A atenção e sensibilidade de Wellington para a importância do terreno permitiam‑lhe dispôr da certeza de que o território português era defensável em conjunto com os homens do exército expedicionário britânico e o novo exército português. Wellington tinha sido autorizado pela Regência portuguesa, que decretara a mobilização em todas as províncias, a dispor de parte das forças do exército português. Estas tinham começado a ser treinadas de acordo com o modelo britânico sob a orientação de William Carr Beresford que fôra empossado, a 15 de Março, como marechal comandante do exército português. A sua missão era compatibilizar a organização e a táctica do exército português com a britânica, permitindo uma actuação conjunta no campo de batalha. Era necessária disciplina e também treino táctico. Os regimentos portugueses estavam a ser equipados com armamento britânico e instruídos na manobra, técnicas e vozes de comando do exército inglês. Mas foi D. Miguel Pereira Forjaz, membro da Regência Portuguesa, e secretário de Estado dos Negócios da Guerra, que se destacou como o principal responsável pela reorganização do Exército Português. Beresford a ele estava subordinado e a cooperação entre eles é, nesta fase, quase perfeita. O cuidado posto na preparação das tropas permitiu que os regimentos de infantaria e cavalaria, assim como os batalhões de caçadores, fossem normalmente integrados com as forças do exército inglês, passando assim a constituir‑se mais um outro novo exército, o 133

O Algarve e as Invasões Francesas
exército anglo‑português, sob o comando superior de Wellington. Activara‑se o recrutamento da tropa de milícias e de ordenanças que passaram a estar também sujeitos aos regulamentos militares do exército regular. Formaram ‑se depósitos de recrutas em todas as províncias e um depósito geral em Mafra. Em termos militares, comparando o potencial de ambos os contendores, isoladamente, os britânicos dificilmente teriam capacidade para enfrentarem as forças napoleónicas. Mas com o novo exército português a situação mudava de figura. Assim, em Março de 1810, aconselhado por Wellington, considerando que abandonar Portugal seria o mesmo que por nas mãos dos franceses o melhor ponto e os mais apropriados meios para um ataque a Inglaterra, o governo britânico decide tomar a seu cargo o pagamento da parte das tropas do exército português que estavam integradas e constituiriam com as inglesas o exército aliado anglo‑português. Em conjunto com estas medidas relativas à organização dos exércitos Welling‑ ton preparou muitas outras destinadas a evitar que os invasores pudessem utilizar os recursos locais. As praças de Valença, Peniche, Setúbal, Almeida, Elvas e Abrantes foram guarnecidas por tropas de primeira e de segunda linha. No Norte, o general Pinto Bacelar tinha sob o seu comando as milícias do general Silveira, do brigadeiro Miller, e dos coronéis Wilson e Trant, para com elas defender a região a norte do Douro. No território compreendido entre Penamacor e o Tejo estavam dez regimentos de milícias. No Alentejo estavam mais quatro e no Algarve três. Toda a população masculina, dos dezasseis aos sessenta anos, estava organizada em companhias de ordenanças, mesmo que mal treinadas e parcialmente armadas. Wellington aproveitou o facto para as utilizar em operações de desgaste do inimigo. Estas forças normalmente andavam dispersas, mas quando se agrupavam podiam atacar os franceses e provocar o corte das linhas de reabastecimentos ou outras acções de combate irregular, rápidas e de surpresa. Conseguiu convencer a Regência portuguesa a dar as instruções necessárias às autoridades para que, à aproximação das forças francesas e com a retirada do exército anglo‑português, todas as povoações das Beiras, Ribatejo e Estremadura fossem evacuadas. Também deveriam ser transportados ou em alternativa destruídos todos os géneros que constituís‑ sem reservas alimentícias ou forragens para os animais. O mesmo deveria ser feito aos carros e às embarcações. Esta medida designada como a política da “terra queimada” foi causadora de graves transtornos que afectaram as forças francesas invasoras. Mas a sua aplicação e cumprimento exauriu os campos e foi uma tragédia para as populações destas regiões.

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A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular 2. Organização do Exército Português
Quando no Outono de 1807 Napoleão decidiu invadir Portugal, ele tinha boas razões para pensar que não teria grande resistência. O Exército Portu‑ guês estava de facto profundamente dividido, era pouco coeso e descarac‑ terizado. Em 1806, o exército fora pela primeira vez reorganizado e modernizado, mesmo em tempo de paz, em divisões e brigadas, e os Corpos das diversas armas numerados, devendo tal numeração regular de futuro o seu lugar cons‑ tante na linha, abolindo as designações anteriores e numerando os diversos regimentos das diversas armas, de modo a formar na linha por ordem numé‑ rica e não pela antiguidade, ou graduação do seu chefe. Ao mesmo tempo se aboliram as designações anteriores numeraram‑se os diversos regimentos das diversas armas. O exército regular formava assim três grandes Divisões, denominadas do Norte, Centro e Sul, dependendo cada uma delas dos res‑ pectivos comandos regionais. A reserva era formada pela Legião de Tropas Ligeiras organizada com base nas tropas de caçadores. Foi com esta organização que o Regimento de Infantaria de Lagos passou a ter o n.º 2. Da mesma forma o Regimento de Infantaria de Tavira passou a ter o n.º 14. Em conjunto constituíam uma Brigada da Divisão do Sul. Esta Brigada ficou conhecida como a Brigada do Algarve – a única identificada pelo nome da sua região e tal facto devia‑se a ter sido levantada no Reino do Algarve, um dos vários reinos da Nação. Mas esta organização não foi devidamente implementada. Estava, assim, o nosso Exército reduzido, mal preparado e ineficazmente comandado. Depois de Junot ocupar Lisboa recebe de Napoleão a ordem de desarmar os habitantes e despedir as tropas portuguesas. O Exército foi desmobilizado por uma ordem de 22 de Dezembro de 1807 e em Janeiro do ano seguinte terminou‑se também com a reserva combativa da Nação, as Milícias e as Or‑ denanças. Os soldados com mais de oito anos de serviço foram mandados para casa deixando as armas com os franceses. Os cavalos foram para os dragões franceses. Nos soldados com menos tempo de serviço, foi feita a selecção das melho‑ res e mais preparadas forças do Exército Português. Comandada por ilustres militares portugueses constituiu‑se a Legião Portuguesa que foi enviada para França. Organizada em 16 de Janeiro de 1808, tinha um total de 9 000 homens e constava de 5 regimentos de infantaria, 4 de cavalaria e 1 batalhão de In‑ fantaria ligeira. Cerca de novecentos militares dos Regimentos de Infantaria n.º 135

O Algarve e as Invasões Francesas
2 e 4 foram integrados no 5.º Regimento de Infantaria da Legião Portuguesa e com ela se dirigiram para França distinguindo‑se depois em combate nos vários campos de batalha, em Espanha, Áustria, Rússia e muitos outros. A partir das revoltas de Junho de 1808, que se registaram em todo o ter‑ ritório nacional, oficiais, sargentos e soldados começaram a apresentar‑se nos quartéis dos seus antigos regimentos, muitos usando os velhos uniformes e trazendo como armas tudo o que podiam encontrar. Estas forças, então mal, fraca e irregularmente organizadas, não representavam mais do que pequenos grupos mal armados e sem disciplina. Portugal tinha que ser defendido. Este objectivo era também do interesse dos britânicos. Para tal seria necessário algo mais do que os exércitos ex‑ pedicionários britânicos ou as ajudas em dinheiro, armas e equipamentos. O Exército Português tinha de renascer e preparar‑se para, uma vez mais, defender o seu território e independência nacional. D. Miguel Pereira Forjaz Secretário dos Negócios da Guerra, Estrangeiros e Marinha, em nome da regência portuguesa, vai tomar então as medidas necessárias para a defesa de Portugal levando a cabo as reformas do Exército que tardavam em ser aplicadas desde o plano de 1803 e da reorganização de 1806. Para recompletar as unidades ordenou‑se que se reunissem nos seus antigos quartéis todos os oficiais e praças desmobilizados pelos franceses, concedeu‑se perdão aos desertores e chamaram‑se todos os soldados que tinham tido baixa desde 1801 até 30 de Novembro de 1807. No final de 1808 foram então criadas as seguintes forças em Portugal: 6 Batalhões de Caçadores, de 628 praças cada com 5 companhias, sendo uma de atiradores de elite; 24 Regimentos de Infantaria, com um efectivo de 1 550 homens cada um, com 1 batalhão a 10 companhias (8 de fuzileiros, 1 de granadeiros e 1 de atiradores); 12 Regimentos de Cavalaria, a 594 homens, com 4 esquadrões de 2 companhias; 4 Regimentos de Artilharia. Restabeleceram‑se os Regimentos de Milícias, em número de 48, pos‑ suindo quando completos 1 101 homens cada um, tendo cada regimento 9 companhias. Foram mandadas reunir todas as Companhias de Ordenanças, organizadas em 24 Brigadas. Cada companhia tinha 240 homens e chegou ‑ ‑se às 1 536 companhias. Em Lisboa foram criadas 16 legiões divididas por distritos, cada com 3 batalhões e cada batalhão com 10 companhias. As Ordenanças constituindo‑se como bolsa de recrutamento forneceram para as Milícias e para o Exército de primeira linha entre 60 000 a 70 000 com‑ batentes. Os Regimentos da Brigada do Algarve passaram também a existir de novo. 136

A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular
O rápido crescimento e a melhoria constante do Exército Português notaram ‑se logo. No ano seguinte, 1809, Soult já vai ter grande difi‑ culdade para se opor ao Exército Português. A partir de Março vai ser comandado pelo general Beresford que, após assumir o seu comando vai introduzir medidas disciplinares de grande severidade, bem como algumas inovações tácticas, de acordo com o praticado pelos restantes exércitos europeus. Beresford estabeleceu o seu QG em Tomar, iniciando a reorganização do Exército pelas unidades do centro e sul, uma vez que as do norte estavam já empenhadas contra a 2.ª invasão francesa que entretanto se iniciara. Su‑ priu a falta de oficiais portugueses, confiando, de acordo com a regência, os principais postos a oficiais ingleses. Os regulamentos foram adaptados pelos regulamentos ingleses, de forma a melhorar a eficiência de funcionamento de um exército combinado (luso‑britânico). O Exército Português, no período 1808‑14, contou ainda com os subsídios britânicos resultantes do acordo entre as duas coroas.

3.A Brigada do Algarve
A Brigada do Algarve era constituída pelos regimentos de Infantaria n.º 2, de Lagos, e n.º 14, de Tavira. Foi levantada em 16 Abril 1809, sendo coman‑ dante o marechal José Lopes de Sousa. A partir de 1810, foi seu comandante o brigadeiro Agostinho Luiz da Fonseca e, em 1813, o brigadeiro António Hipólito da Costa Pela Ordem Geral de 12 de Agosto de 1813, passou a ser a Brigada n.º 2. Foi a única brigada que era designada pelo seu território – Brigada do Algarve. Consistia a Brigada nos Regimentos de Infantaria 2 (Lagos) e 14 (Tavira). Nunca integrou um Batalhão de Caçadores, como aconteceu nas outras bri‑ gadas. Foi integrada na Divisão Portuguesa em 16 de Dezembro de 1809. A Divisão Portuguesa, que integrava também a 4ª Brigada com os Regi‑ mentos de Infantaria 4 e 10 e batalhão de caçadores 10, era comandada pelo Brigadeiro General John Hamilton e actuava com a 2ª Divisão do Exército Anglo‑Luso, às ordens do tenente‑general Rowland Hil. Depois, Silveira, Conde de Amarante, comandou a Divisão Portuguesa até 3 de Setembro 1813, sendo substituído pelo general Carlos Frederico Lecor que assumiu também o comando da Divisão Portuguesa. 137

O Algarve e as Invasões Francesas
3.1 O Regimento de Infantaria n.º 2, de Lagos: Teve origem no Terço Novo do Algarve, por decreto de 14 de Agosto de 1693. Em 19 de Maio de 1806, tomou a designação de Regimento de Infantaria n.º 2. Em 31 de Dezembro de 1807 foi licenciado por ordem do general Solano. Por Decreto de 16 de Janeiro de 1808 foi integrado na Legião Portuguesa. O Exército Português é restabelecido, por decreto de 30 de Setembro de 1808. O Regimento de Infantaria n.º 2 é mandado reunir a 14 de Outubro de 1808. Integrou a Brigada do Algarve, que foi levantada em 16 de Abril de 1809. Foi integrada na Divisão Portuguesa, em 16 de Dezembro de 1809. Actuou com a 2ª Divisão do Exército Anglo‑luso, sob as ordens do ge‑ neral Hill. O Regimento recrutava na cidade de Lagos e seu Termo, na cidade de Silves, e nas vilas de Alvor, e seu termo, Aljezur e Vila do Bispo, assim como na Praça de Sagres. 3.2 O Regimento de Infantaria n.º 14, de Tavira Teve origem no Terço do Algarve, por um decreto de 1657. Em 7 de Dezembro de 1796 passou a designar‑se Regimento de Tavira Em 19 de Maio de 1806, tomou a designação de Regimento de Infantaria n.º 14. Em 31 de Dezembro de 1807 foi licenciado por ordem do general Solano. Por Decreto de 16 de Janeiro de 1808 foi integrado na Legião Portuguesa. O Exército Português é restabelecido, por decreto de 30 de Setembro de 1808. O Regimento de Infantaria n.º 14 é mandado reunir a 14 de Outubro de 1808. Integrou a Brigada do Algarve, que foi levantada em 16 de Abril de 1809. Foi integrada na Divisão Portuguesa, em 16 de Dezembro de 1809. Actuou com a 2ª Divisão do Exército Anglo‑luso, sob as ordens do ge‑ neral Hill. 138

A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular
O Regimento recrutava na cidade de Faro e seu Termo, nas vilas de Albu‑ feira, e Castro Marim e Portimão, na vila de Cacela e na Praça de Alcoutim. 3.3 Os Regimentos de Milícias do Algarve Em 1793, as antigas Tropas Auxiliares, foram reorganizadas, passando a chamar‑se Milícias. Na organização do Exército de 1806, o país foi dividido em 3 Divisões Militares Territoriais, por sua vez divididas em 24 distritos de recrutamento. A cada um desses distritos correspondiam: 1 Regimento de infantaria de 1ª linha, 2 regimentos de milícias e 1 brigada de ordenanças. Assim, ficaram a existir as seguintes unidades de milícias do Algarve na Divisão do Sul: Regimento de Milícias de Lagos e Regimento de Milícias de Tavira.

4. Reflexões
Foi o soldado português, filho desse povo glorioso que tudo deu em de‑ fesa da sua Pátria, como sempre o fizera quando descobriu e deu mundos ao Mundo, e entre eles os militares da Brigada do Algarve, que todos os comandantes supremos, dos exércitos que tão bravamente se defrontaram em Portugal, nas campanha de 1810‑1811, e nas campanhas seguintes em território espanhol e francês, reconheceram como o factor inesperado de desequilíbrio decisivo para as derrotas de um e para as vitórias de outro. Para Massena as tropas portuguesas tinham subido a alto grau de destaque, de tal forma o impressionaram, que registou nas suas memórias: «…o soldado português, inteligente, sóbrio, caminheiro, infatigável … pode emparelhar com os anglo ‑ ‑hanoverianos e excedê‑los.». Para os aliados ingleses, as tropas portuguesas, como afirmara Beresford, o seu comandante, e depois também Wellington: «… adquiriram a estima, a admiração e a confiança dos seus companheiros de armas (…) e se tornaram dignas de fazerem honra às mais aguerridas (…) são dignas de combaterem nas fileiras do exército inglês». Em 1812 o exército aliado tinha aproximadamente 90 000 homens, mais de metade dos quais eram portugueses e que nas batalhas e muito penosas campanhas da guerra peninsular iriam mostrar ao Mundo o seu valor. Durante a Guerra Peninsular o Exército Português participou em cerca de 280 acções de combate (15 batalhas, 215 combates, 14 sítios, 18 assaltos, 6 bloqueios e 12 defesas de praças). Sofreu 21 141 baixas em acção. 5 160 139

O Algarve e as Invasões Francesas
mortos, dos quais 213 oficiais e 4 974 soldados e graduados, 9 372 feridos e 6 609 prisioneiros ou extraviados, números que não incluem as baixas e mortos entre as milícias ou ordenanças. Em termos populacionais, Portugal terá perdido como consequência da guerra, cerca de 215 000 pessoas numa população que se estimava em cerca de 2,8 milhões de habitantes.

5. Anexos
Alvará de 19 de Maio de 1806. «Convindo muito ao Meu Real Serviço; para estabelecer a boa Ordem e regularidade da Disciplina do Exercito, que ele seja organizado mesmo em tempo de paz em Brigadas e Divisões, e que os Corpos das diversas Armas, que o compõem, sejam numerados, a fim de que por essa numeração tenha cada um para o futuro o seu lugar constante na Linha, sem que dependa para isto da Graduação e Antiguidade do Chefe, que o comanda. Por todos estes motivos, Hei por bem a este respeito Determinar o seguinte: O Exercito será formado em três Divisões, com as denominações seguintes: Divisão do Sul, Divisão do Centro, Divisão do Norte. Cada Divisão será composta de oito Regimentos de Infantaria, divididos em quatro Brigadas, quatro Regimentos de Cavalaria e um de Artilharia, exceptu‑ ando a Divisão do Sul, que compreenderá dois Regimentos dessa Arma. Os Regimentos de Infantaria serão numerados de um até vinte e quatro; os de Cavalaria, de um até doze; e os de Artilharia, de um até quatro, e esses números serão distribuídos promiscuamente pelos Corpos das três Divisões. A composição de cada Divisão será portanto da seguinte maneira: A Divisão do Centro será composta dos Regimentos de Infantaria, N.º 1 Lippe, N.º 4 Freire, N.º 7 Setúbal, N.º 10 Lisboa, N.º 13 Peniche, N.º 16 Vieira Telles, N.º 19 Cascais, N.º 22 Serpa; dos de Cavalaria, N.º 1. Alcântara, N.º 4 Mecklemburg, N.º 7 Cais, N.º 10 Santarém; do de Artilharia, N.º 1, primeiro da Corte. A Divisão do Sul será composta dos Regimentos de Infantaria, N.º2 La‑ gos, N.º 5 Primeiro de Elvas, N.º 8 Castelo de Vicie, N.º 11 Penamacor, N.º 14 Tavira, N.º 17 Segundo de Elvas, N.º 20 Campo Maior, N.º 23 Almeida; dos de Cavalaria, N.º 2 Moura, N.º 5 Évora, N.º 8 Elvas, N. º 11 Almeida; dos de Artilharia, N.º 2 Algarve e N.º 3 Estremoz. A Divisão do Norte será composta dos Regimentos de Infantaria, N.º 3 Primeiro de Olivença, N.º 6 Primeiro do Porto, N.º 9 Viana, N.º 12 Chaves, 140

A Brigada do Algarve durante a Guerra Peninsular
N.º 15 Segundo de Olivença, N.º 18 Segundo do Porto, N.º 21 Valença, N.º 24 Bragança; dos de Cavalaria, N.º 3 Olivença, N.º 6 Bragança, N.º 9 Chaves, N.º 12 Miranda; do de Artilharia, N.º 4 do Porto. Na Divisão do Centro os Regimentos N.os 1 e 13 comporão a Primeira Bri‑ gada; N. os 4 e 16 comporão a Segunda; N. os 7 e 19 comporão a Terceira; N. os 10 e 22 comporão a Quarta. Na Divisão do Sul os Regimentos N. os 2 e 14 comporão a Primeira Brigada; os N. 5 e 17 comporão a Segunda; N. os 8 e 20 comporão a Terceira; N. os 11 e 23 comporão a Quarta. Na Divisão do Norte os Regimentos N. os 3 e 15 comporão a Primeira Bri‑ gada; N. os 6 e 18 comporão a Segunda; N. os 9 e 21 comporão a Terceira; N. os 12 e 24 comporão a Quarta. Os Corpos entrarão na Linha dos Lados para o Centro pela ordem da sua numeração, e afim mesmo entrarão as Brigadas pela sua numeração dos Lados para o Centro, quando a Linha for mandada formar por Brigadas. O Corpo da Legião de Tropas Ligeiras que pela presente Organização não fica numerado; porque pela qualidade do seu Serviço não lhe pertence Lugar na Linha de mistura com os outros Corpos; quando por qualquer motivo concorrer a ela, tomará o lugar, que lhe for definido pelo General Comandante. O Conselho de Guerra o tenha afim entendido e mande expe‑ dir as Ordens necessária, para que tenha a rua devida execução. Palácio de Queluz em dezanove de Maio de mil oitocentos e seis. "Com a Rubrica do PRÍNCIPE REGENTE N. S.» ACÇÕES, COMBATES E BATALHAS EM QUE OS REGIMEnTOS DE In‑ FAnTARIA DA BRIGADA DO ALGARVE PARTICIPARAM DURAnTE A GUERRA PEnInSULAR (SEGUNDO CLÁUDIO DE CHABY)
ACÇÕES Batalha do Buçaco, 27/9/1810 Combate do Bucalho, 28/10/1810 Combate da Redinha, 12/3/1811 1.º sítio da Praça de Olivença, de 9 a 15/4/1811 REGIMEnTOS DE InFAnTARIA 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 18, 19, 21 e 23 2 1, 2, 3, 6, 9, 11, 15, 16, 18, 21 e 23 2, 4, 10, 11, 14 e 23

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O Algarve e as Invasões Francesas

Sítio da Praça de Badajoz, de 5 a 16/5/1811 Batalha de Albuera, 16/5/1811 Combate do Bosque de Albuera, 18/5/1811 2.º Sítio da Praça de Badajoz, de 19/5 a 17/6/1811 3.º Sítio da Praça de Badajoz, de 16/3 a 7/4/1812 Defesa da Passagem do Tormes, de 8 a 14/11/1812 Batalha de Vitoria, 21/6/1813 Bloqueio da Praça de Pamplona, de 30/6 a 18/7/1813 Combates do Porto da Maya, 7 e 8/7/1813 Combate do Porto de Arriète, 25/7/1813 Batalha dos Pirinéus, 28/7/1813 Combate de Banca, 1/10/1813 Batalha de Nivelle, 10/11/1813 Batalha de Nive, de 9 a 13/12/1813 Combate de Sauveterre, 18/2/1814 Batalha de Hortés, 27/2/1814 Combate de Aire, 2/3/1814 Combate de Viella, 13/3/1814 Combate de Tarbes, 20/3/1814 Batalha de Toulouse, 10/4/1814

2, 4, 5, 10, 11, 14, 17 e 23 2, 4, 5, 10, 11, 14 e 23 2 2, 4, 5, 7, 9, 10, 14, 17, 19 e 21 2, 3, 5, 9, 11, 13, 14, 15, 17, 21, 23 e 24 1, 2, 4, 10, 11, 14, 16, 18 e 23 1, 2, 3, 4, 6, 7, 9, 10, 11, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 23 e 24 2, 4, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 21 e 23 2 e 14 2 e 14 2, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 18, 19, 21 e 23 2, 4, 10 e 14 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 23 e 24 1, 2, 3, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 21, 23 e 24 2 e 14 2, 4, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 17, 18, 19, 21 e 23 2, 4, 6, 10, 14 e 18 2 2, 8, 9, 12, 14, 17 e 21 2, 4, 6, 8, 9, 10, 11, 12, 14, 17, 18, 21 e 23

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O Algarve e as Invasões Francesas
Ministério do Reino – Livros 314‑321 e 380‑383. Biblioteca do Exército (BiblEx/DHCM‑PT) Diplomas dos Regimentos da Guerra Peninsular Monografias dos Regimentos do Exército Português Biblioteca nacional Digital – Portugal (BnD‑PT) Cartografia El Archivo Histórico nacional – Espanha (AHn‑ES) Consejos – L.3279, L.5517, L.5523, L.11986. Diversos‑Colecciones – 63, 73, 95, 107, 108, 110, 114, 125, 127, 131, 136, 139, 140, 151. Estado – 8.A, 51.A, 19.B, 39.B, 7.C, 11.D, 62.G, 52.H Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar – Portugal (GEAEM/DIE‑PT) Livros de Correspondência – n.º 3, 4, 5, 6, 7. Cartografia Library of University of Southampton – Inglaterra (LUS‑UK) Wellington Papers – WP1/166, 187, 613, 637, 661. Museu Militar do Buçaco (MusMilBuçaco/DHCM‑PT) Quadro – Mapa das forças do exército português de 1.ª linha que comba‑ teram nas 280 acções da Guerra Peninsular… – INCM Service Historique de l’Armée de Terre – França (SHAT‑FR) Série C7 – Boîtes 1, 10, 11, 19, 29, 23, 24, 26, 27, 28. Série 1M – Boîtes 1356, 1357, 1358, 1359.

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SÍnTESE CURRICULAR DOS COnFEREnCISTAS
ANTÓNIO ROSA MENDES – Licenciado em História e em Direito pela Universidade de Lisboa, mestre em História Cultural e Política pela Univer‑ sidade Nova de Lisboa, e doutor em História Moderna pela Universidade do Algarve. Professor na Universidade do Algarve, nas disciplinas de História da Cul‑ tura, História do Algarve e Direito do Património Cultural. Colaborou na História de Portugal dirigida por José Mattoso e na História de Portugal dirigida por João Medina Foi presidente de Faro, Capital Nacional da Cultura 2005. Foi membro da Comissão das Comemorações do 2.º Centenário de Olhão da Restauração e coordenador científico do Congresso “Olhão, o Algarve e Portugal no Tempo das Invasões Francesas” HENRIQUE ALEXANDRE MACHADO DA SILVA DA FONSECA – Vice‑ ‑almirante, licenciado em Ciências Sociais e Políticas pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas. Estudou no Colégio Militar e ingressou na Escola Naval, em 1963. Iniciou a sua carreira na Marinha em 1967, como Oficial de Guarnição, foi Oficial Imediato e comandou 4 navios, designadamente a Lancha de Desem‑ barque Grande “Aríete”, na Guiné‑Bissau, e a fragata “Corte Real”, de que foi o seu primeiro comandante, e por diversas vezes a Força Naval Operacional em exercícios, acumulando um total de mais de 23.000 horas de navegação. 147

O Algarve e as Invasões Francesas
Foi professor de Navegação, Marinharia e Arte de Comando na Escola Naval e serviu por diversas vezes no estado‑maior do Comando Naval bem como no comando NATO CINCIBERLANT, em Oeiras. Desempenhou as funções de Oficial‑General, 2º Comandante Naval, res‑ ponsável pelo treino e pela logística, de Superintendente dos Serviços do Material e de Comandante Naval, passou à situação de reserva, em Dezembro de 2005. No período de Janeiro de 1976 a meados de 1978, foi vogal do Conselho de Imprensa. Recentemente frequentou o Programa de Alta Direcção de Empresas, na Escola de Direcção e Negócios. É o editor e director da publicação bimestral “Revista de Marinha”. É membro activo da Academia de Marinha, Sociedade de Geografia de Lisboa e da Sociedade Histórica da Independência de Portugal. Presidente da Confraria Marítima de Portugal e do Observatório da Segu‑ rança Marítima. FRANCISCO AMADO RODRIGUES – Tenente‑coronel de Cavalaria, licencia‑ do em ciências militares, na especialidade de cavalaria, pela academia militar, tendo ingressado no quadro permanente em 1989. Está a chefiar a repartição de património da direcção de história e cultura militar desde 26 de Outubro de 2009. Comandou tropas, aos diferentes escalões de pelotão, de esquadrão e de grupo, durante sete anos e meio, sempre na escola prática de cavalaria. Oficial de estado‑maior, como chefe da secção de operações, informações e segurança, chefe da secção de instrução e director de formação da escola prática de cavalaria, durante três anos. Director do curso de cavalaria da academia militar. Esteve colocado durante oito anos, na Academia Militar, em funções docentes, dos quais dois foram em acumulação com a direcção do curso de cavalaria. Licenciado em história pela universidade aberta e mestre em museologia e museografia pela universidade de Lisboa, com a dissertação “uma nova rede de museus para o exército português”, defendida em 2005. AMÉRICO JOSÉ GUIMARÃES FERNANDES HENRIQUES – Coronel de Infantaria, licenciado em Ciências Militares (1966 a 1970), especialidade de Infantaria, pela Academia Militar (1970), com o curso Educação Física Militar, de Páraquedismo do Exercito dos EUA, e o curso de Estado Maior 148

Síntese curricular dos conferencionistas
Comissão de Serviço na Guerra do Ultramar em Moçambique em 1972/73 no Batalhão de Comandos. Instrutor em Tavira no CISMI, na Escola Prática de Infantaria (EPI), Academia Militar e no Centro Militar de Educação Física e Desportos (CMEFD). Foi professor no Instituto de Altos Estudos Militares (IAEM), actual Instituto de Estudos Superiores Militares (IESM). Exerceu funções de Comandante de Companhia na 1ªBMI (Brigada Mista Independente), de Comandante de Batalhão na Escola Prática de Infantaria (EPI), de Chefe de Estado Maior do Comando Operacional (Cop) nos Açores, de Chefe do Gabinete do Governo Militar de Lisboa (GML), Adido Militar em Washington, Chefe do Serviço de Informações para o Médio Oriente no Quartel General (QG)/Nato/Bruxelas. ANTÓNIO PAULO DIAS OLIVEIRA – Mestrado em História Cultural e Política (FCSH‑UNL,1997). A formação inicial foi na área da filosofia (UCP, 1989), tendo enveredado uns anos depois pela História das Ideias. Doutorado na área de História Contemporânea (UALG, 2007). Professor Auxiliar do Departamento de História, Arqueologia e Património na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais, onde é docente do Curso de Património Cultural e dos Mestrados de História do Algarve e de História da Arte. Além do estudo do movimento krausiano em Portugal, que foi objecto das dissertações de mestrado e doutoramento, tem investigado o fenómeno do Integralismo Lusitano. ABÍLIO PIRES LOUSADA – Tenente‑Coronel, licenciado em Ciências Mili‑ tares, especialidade de Infantaria, pela Academia Militar (1991), Mestre em Estratégia pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, Pós‑graduado em Relações Internacionais e em História Militar pela Uni‑ versidade Lusíada de Lisboa. Prestou serviço na Escola Prática de Infantaria (Mafra), no Regimento de Infantaria 19 (Chaves) e no Centro Militar de Educação Física e Desportos (Mafra), com funções nas componentes operacionais e de instrução. Na Escola Superior Politécnica do Exército (Amadora), comandou a Companhia de Alunos durante três anos, foi responsável pelo Planeamento Escolar e leccionou, em acumulação, a disciplina de História Militar em cinco anos lectivos. 149

O Algarve e as Invasões Francesas
Professor de História Militar no Instituto de Estudos Superiores Militares. Possui, entre outros, o curso de Estado‑Maior e de Estado‑Maior Conjunto, do Instituto de Altos Estudos Militares. Leccionou História do Pensamento Militar (2006, 2007, 2009 e 2010) aos Cursos de Promoção a Oficial General e de Estado‑Maior das Forças Arma‑ das Angolanas, na Escola Superior de Guerra, em Luanda, cujo currículo dos cursos inclui a História Político‑Militar de Angola. OFIR RENATO DAS CHAGAS – Tirou o curso de Electromecânica, com a particularidade de ter sido o primeiro e único aluno da 1ª turma a fazê‑lo. Entrou em 1953 para a função pública, no antigo Posto Agrário de Tavira e depois Estação Agrária da XV Região Agrícola, como funcionário adminis‑ trativo. Em 1972 ingressou no Quadro do Serviço Nacional de Emprego, como Técnico de Emprego, vindo a aposentar‑se em 1997, como Chefe de Serviços do Instituto do Emprego e Formação Profissional, no Centro de Emprego de Vila Real de Santo António. Cedo iniciou a colaboração assídua na imprensa regional, nomeadamente no “Povo Algarvio” e no “Jornal do Algarve”. Em 1973 criou com Luís Horta o jornal “O Tavira” e do “Lestalgarve”, sendo Director destes dois jornais durante a sua publicação. Autor de “Tavira ‑ Memórias de Uma Cidade”. ADÉRITO FERNANDES VAZ – Cumpriu serviço militar obrigatório, com dois anos em Portugal e outros dois anos em Moçambique, como alferes miliciano, onde comandou por cerca de um ano, um Destacamento na fronteira com a Zâmbia, com 4 Sargentos e 40 Praças. Frequentou o Instituto de Estudos Sociais em Lisboa e é licenciado em Direito pela Universidade de Lisboa. Frequentou os cursos de formação de Direito Comunitário e de Direito da Saúde. Coordenou o Gabinete Jurídico a nível Regional. Durante dois anos fez rádio na Rádio Atlântico, com os programas “Al‑ garve Reflexos Etnográficos de Uma Região” e “Conhecer o Algarve é um Enriquecimento Cultural” que lhe valeu o 3º lugar nos prémios R.T.A .1995, sendo o 1º e o 2º para a R.D.P. No ano de 1966, no dia 14 de Julho, participou num programa da Rádio Alfa de Paris. 150

Síntese curricular dos conferencionistas
Leccionou na Universidade Sénior de Faro. Fez parte das Direcções das Associações de Imprensa do Algarve e dos Corpos Sociais do CASCD da Saúde e Segurança Social do Distrito de Faro, que é uma IPSS. Sobre a 1ª Invasão Francesa, escreveu dois volumes, em que o primeiro foi apresentado na Câmara Municipal do Rio de Janeiro e o segundo foi‑lhes enviado para juntar, assim como para o Arquivo Nacional do Brasil que co‑ laborou, no ano, que também comemoravam a chegada do Príncipe Regente ao Brasil. JOAQUIM JOSÉ DUARTE NUNES – Padre, Sacerdote do Presbitério da Diocese do Algarve, e é Natural de Monchique. Actualmente é membro do Departamento Diocesano de Pastoral Litúrgica, Secretariado do Património Cultural da Igreja, e Chanceler da Diocese. Licenciado em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, completou os estudos teológicos na Faculdade de Teologia da Universidade Católica. Tem colaborado com diversas instituições na realização de exposições de arte religiosa e elaboração dos respectivos catálogos. Participou nas Jornadas de História do Instituto Superior de Teologia de Évora com trabalhos relacionadas com a História da igreja no Algarve. Lecciona no Seminário de Faro, Ano Propedêutico, História da Igreja. JOSÉ PAULO RIBEIRO BERGER – Tenente‑coronel, engenheiro militar. Licenciado em Ciências Sócio‑Militares, com pós‑graduação em Museologia e Museografia. Chefe do Gabinete de Estudos Arqueológicos da Engenharia Militar da Direcção de Infra‑Estruturas do Exército. Integra a Comissão do Exército para as Comemorações do Bicentenário da Guerra Peninsular. Presidente da Direcção da Liga de Amigos do Arquivo Histórico Militar. Membro da Ordem dos Engenheiros, da Sociedade de Geografia de Lisboa e do International Council of Museums.

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