marcelo cid

os doze nomes
e outros contos

o hérmio

acima se formava a chuva, que caía em gotas quase esféricas, acompanhada de trovões que faziam tremer a casa toda; abaixo, vi meu primo chegar, e ele trazia o hérmio. Sujou de lama o tapete na entrada da casa, e vestia vermelho. A prata estava em suas mãos, num frasco de vidro. Que digo? Sou vago e incorreto; mas como dar conhecimento do metal, senão comparando-o a outros, dizendo que era brilhante como a prata, mas líquido como o mercúrio? E tomando a parte pelo todo, pois o hérmio, para mim, era aquela quantidade no frasco, embora muitos o contestem. Há hérmio na natureza e em muitos atanores,1 foi-me dito. Eu lia na mesa favorita algo de que já não me recordo. O visitante aproximou-se, saudando-me com um gesto tímido, depois disse, com voz também sem emoção: “Veja isso.” Ele tinha o cabelo molhado e a face muito pálida. Abriu o frasco e derramou com cuidado sobre a mesa a quantidade como de uma unha daquele líquido metálico, que escorreu lentamente, viscoso, até concentrar-se, ovoide ou quase circular, no centro. “Mercúrio!” – eu exclamei, espantado pelo uso do metal venenoso como brinquedo.
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Atanor: o forno dos alquimistas.

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“Não é mercúrio...” – ele disse, acompanhado de um daqueles trovões, que eram como pavorosas reticências. Olhei com mais curiosidade aquela moeda líquida, pequeno espelho que refletia com beleza a luz amarelada da lâmpada e nossas faces diminutas. Percebi então que meu primo tinha a mão direita fechada com firmeza, as juntas esbranquiçadas, pequenas veias muito azuis. Ele aproximou a mão misteriosa da gota, e esta (arrepio-me lembrando) moveu-se. Lentamente, como deve se mover uma ameba com seus pés falsos, ela moveu-se. A repugnância não havia ainda me tomado; desconfiei de alguma inclinação da mesa, inexistente. Como para vencer minhas suspeitas, o inesperado ilusionista moveu seu punho em sentido contrário, e o obediente elemento o seguiu. Depois a mão desenhou no ar lentos círculos, que o líquido repetia sobre a mesa, deixando um fino rastro viscoso – como poeira fina de alumínio, mas úmida. Não era agradável de acompanhar. Ver o pequeno espelho mover-se como se procurasse alimento ou um semelhante causou-me asco. Meu primo enfiou então a mão esquerda no bolso, de onde a tirou fechada como a direita, e a gota, agora sob a influência daquele par, dividiu-se em duas partes iguais, cada uma seguindo um dos punhos em seus movimentos serpenteantes. O modo como de uma gota surgiram duas é a imagem mais viva e inquietante que guardo daquela tarde chuvosa. O disco prateado líquido, entre as duas mãos de meu primo, ia se alongando demoradamente (reluto em dizer “dolorosamente”, mas foi o que passou por minha cabeça naqueles instantes) – como se a coisa lamentasse a própria divisão. Do estiramento, por fim, surgiram duas partes idênticas, discoides, ligadas por um cada vez mais delgado fio metálico, que finalmente se rompeu, após o que me pareceu uma disputa das duas partes – não sei se entre si, como num minúsculo cabo de guerra, ou contra o elo que insistia em mantê-las unidas. Enfim, 22

eu via repetir-se sobre a mesa, de modo lento, mas facilmente perceptível e impressionante, as imagens que um livro de Biologia, em suas primeiras páginas (nas dedicadas aos seres mais simples) mostrava em sequência de fotos. Recordo que assombrou-me certa vez, no laboratório da escola, o comportamento vegetal (por assim dizer) de determinada substância química, numa espécie de aquário, que, na forma de arvorezinhas ou teia de cristal, buscava a luz e a água – lentamente demais para se ver ao vivo, mas claramente perceptível ao longo de algumas horas. Senti o mesmo desconforto ao ver o hérmio, mas num grau extremo – que porém não desviava meus olhos admirados da massa brilhante. Aquele espetáculo deve ter durado uns quinze minutos, tempo em que minha curiosidade transformou-se em fascínio mudo e a pergunta sobre a natureza do elemento não foi feita. De qualquer modo, a questão devia estar em meus olhos, pois meu primo a respondeu ao final de sua interessante e algo sinistra apresentação. Ele então revelou: “É hérmio”, disse, como se a coisa fosse-me há muito familiar. “Só dois metais”, continuou, “são líquidos à temperatura ambiente: o mercúrio e o hérmio. Mas só um deles tem propriedades magnéticas. Adivinhe qual.” Abriu então as duas mãos e descobri que elas até ali escondiam pequenos ímãs bojudos. Não senti naquele momento que ele revelava o truque, desmistificando a mágica. Pelo contrário, o truque, senti desconfortável, era parte da mágica. Falou mais algumas coisas sobre o hérmio, tão obscuras agora quanto a origem daquele elemento cuja quantidade no frasco, ele disse, seria minha se eu quisesse. Não lembro se respondi que sim, mas o recipiente de vidro de conteúdo brilhante em minha estante nos dias seguintes indicava que foi esse o caso. 23

A chuva parou e o visitante mostrou-se apressado. Sua presença era muito rara em minha casa, como as chuvas foram raras naquela estação. “Não é perigoso?” consegui perguntar-lhe antes que partisse. Ele respondeu depois de um longuíssimo segundo: “Não. Mas tome os cuidados habituais.” Assim passei a ter o hérmio em minha casa. Por três dias esqueci-me do frasco. Por algum motivo o sol brilhante no céu tirava de mim a estranha sensação de náusea, quanto ao metal. Era como se o frasco sempre tivesse estado lá, um adorno entre outros de gosto duvidoso. No quarto dia, entretanto, dominou-me a curiosidade sobre aquele estranho elemento, mistério da natureza (mas não sabia e não sei de qual natureza). De início, consegui um poderoso magneto; com ele atraía e conduzia pela superfície da mesa aquela coisa metálica obediente, em evoluções que nunca deixavam de lembrar os movimentos de alguma criatura. Comecei com uma gota como a de meu primo, mas o efeito era melhor e mais belo, com todos os reflexos distorcidos de luz, se eu usasse uma quantidade maior. A mesa enfim pareceu-me pequena e passei então ao piso frio, onde a massa viscosa, quando arrastada lentamente, deixava atrás de si um traço brilhante mas repugnante, como se uma lesma cromada se dissolvesse enquanto avançava. Consegui outra mesa, maior, mas de tampo fino o suficiente para que não impedisse a ação do ímã, por baixo. Na superfície dessa mesa eu espalhava quantidades mínimas de limalha – de ferro e alumínio – e fazia o disco mover-se sobre elas, apenas para observar maravilhado como as partículas de ferro se confundiam à massa e com ela seguiam o lento curso que eu lhes desse, enquanto o alumínio permanecia imóvel. O hérmio, depois de misturado às menores partículas de metal 24

não-magnético que consegui, parecia expeli-las. De fato, cerca de 30 minutos após misturados (se deixados em repouso na mesa), mesmo com o alumínio quase feito pó, poder-se-ia encontrá-los em dois montinhos distintos. O processo era muito lento para ser percebido, mas de fato ocorria: o alumínio disperso na massa prateada era primeiro ajuntado e depois repelido pelo hérmio que, por uma estranha antipatia, chegava a afastar-se alguns centímetros do outro metal. Nessas ocasiões, algo do terror se insinuava em mim. Mas pensava que o conhecimento afastaria o medo, e certas vezes a curiosidade é invencível. Uma das coisas mais desagradáveis nesses experimentos era quando o próprio ímã tocava o metal líquido. Era difícil separálos, isto é, difícil limpar o magneto. Eu, no entanto, o fazia, compenetrado, e logo reiniciava a busca do conhecimento do que tinha à minha frente. Repeti o que tanto me impressionara na primeira vez que vi o hérmio, sua “reprodução”. E o fiz várias vezes, de modo a conseguir inúmeras pequenas gotas, que depois unia manipulando o magneto sob o tampo da mesa. Quanto a outras características da substância, posso dizer que não tinha qualquer odor, tampouco sabor. Era frio ao toque, ardia em pequenos ferimentos das mãos. Não se misturava à água, depositando-se pesadamente no fundo do recipiente, mas com determinados ácidos obtive alguns efeitos interessantes. Certa vez coloquei no centro da mesa uma pequena gota de ácido sulfúrico, à qual conduzia a grande ameba de prata. Quando as duas substâncias se encontravam, pensava ver o hérmio dissolvendo o ácido, e não o oposto. Parecia-me observar em grande escala a alimentação de um ser unicelular, uma célula incomum fagocitando a partícula que a nutria. Dessa reação resultava um pouco de massa esbranquiçada, que quando seca se tornava em pó muito irritante (tenho ainda um pouco desse 25

pó, satisfatoriamente mineral, como ossos secos). Mas a quantidade de hérmio parecia não diminuir. Creio ter conseguido descrever algumas das propriedades da substância. Se não o fiz com o distanciamento que desejava, se não fui tão impessoal quanto a Ciência deve ser, ou menos impressionável, como a outra Ciência recomenda, os parágrafos seguintes me justificarão. Saí para tratar de alguns assuntos no centro da cidade na manhã de um dia que foi muito quente. Retornei quase à noite. Lancei como sempre um olhar mecânico ao frasco de vidro em minha estante, para descobrir – com horror! – que a substância vencera a tampa firme de plástico e se libertara, transbordando pelo móvel, pingando ao chão, onde havia um fino rastro viscoso que sumia pelas frestas entre o piso e a parede. Recuei com pavor, sentindo nas têmporas os batimentos de meu coração. A razão fugiu-me por longos minutos, mas quando retornou pensei ver tudo claramente: o líquido no frasco, como resultado da temperatura incomum, havia dilatado, como dilata o mercúrio nos termômetros. Um ligeiríssimo declive do assoalho explicaria o rastro viscoso de algumas gotículas sujeitas à gravidade. Calmamente, comecei a recolher a substância de volta ao frasco, o que fiz com cuidado extremo, procurando recuperar cada mínima gotícula, para enfim notar que quase metade do hérmio se perdera. Impossível ser essa a quantidade perdida pelas frestas, estava certo. A temperatura! – pensei, como num estalo. Ora, como o hérmio se expandia também poderia se contrair. Mas havia a temperatura baixado tanto? E se o fenômeno era tão evidente, por que não o havia percebido até então? Afinal convenci-me de que a perda de alguma quantidade, aliada à contração do metal era toda a explicação, sendo o mais devaneio de minha mente facilmente sugestionável. 26

Retomei, sem preocupações, os experimentos com o hérmio. Essa atividade se tornara um entretenimento. Repetia a dança do magneto, dividia a massa aos pares em partes cada vez menores. Depois as ajuntava e admirava o belo espelho líquido sobre a mesa, os reflexos no disco de talvez um palmo de diâmetro: as luzes em bela distorção, os livros na estante, minha própria face. Nenhum ímã estava próximo dali. Esta minha certeza nada nem ninguém pode diminuir. Por horas, naquela noite, tive um potente magneto em minhas mãos, mas este agora estava no porão, de onde nenhuma interferência seria possível. Estou absolutamente certo. Olhava já cansado meu reflexo na superfície do hérmio. O espelho mantinha-se firme como um disco dos que se arremessam, como uma moeda enorme e valiosa, como uma seção perfeita de um pilar cilíndrico de pura prata. Estava firme, imóvel, estável, condenado à sua natureza. A última expressão de minha face que pude ver foi a do mais absoluto terror. Um brevíssimo instante antes disso pareceu-me ver o líquido pulsar. Então vi minha imagem deformar-se, como plástico que perde sua forma ao fogo. A coisa moveu-se em minha direção, sem a lentidão que era própria de seus movimentos, mas como um predador na selva. Sei que o pânico pode ter dois efeitos: a imobilidade ou a ação explosiva. Este último, por sorte, foi o daquela ocasião. Corri ao meu quarto no outro extremo da casa, onde encerrei-me quase hermeticamente, para logo perceber que estava cercado de metal – não do abençoado alumínio, mas do maléfico ferro, irmão do hérmio e a ele tão simpático – de ferro era o armário de bom tamanho, o pequeno banco forrado de couro cru, e do mesmo metal – desgraça! – era a velha cama. Não me sinto embaraçado ao dizer que atirei esses móveis pela janela, nem ao dizer que me cortei seriamente tentando desmontar a pesada cama. E por que 27

me sentiria mal ao mencionar que desliguei todos os aparelhos elétricos do quarto? O velho rádio – nele havia ímãs, tenho certeza – causou grande estrondo ao cair sobre o armário de ferro em meu jardim. Não sei se passei a noite toda em claro, mas as horas em que estive em meu quarto, ouvindo o silêncio, pareceram ser mais que todas as horas de muitas noites. O espelho às minhas costas eu cobri com tecido negro, e assim tem estado desde então.

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