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Formação: histórias

XPERIENCIA BRASILEIRA
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Os 500 Anos de Brasil são os inspiradores de Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000), coletânea de ensaios produzidos por mestres da nossa historiografia que, iluminando momentos do passado, lançam luz sobre o presente. Seu coordenador, o historiador Carlos Guilherme Mota, autor de importantes trabalhos individuais, foi o responsável por duas marcantes obras coletivas, Brasil em perspectiva (1968) e 1822: dimensões (1972). Neste primeiro volume, Viagem incompleta. Formação: histórias, ao qual se seguirá Viagem incompleta. A grande transação, os temas tratados vão da pré-história da América tropical à passagem da monarquia para a república. A Editora SENAC São Paulo e o SESC São Paulo, ao apresentar estas reflexões, estão certos de contribuir para os debates sobre os fundamentos de nossa cidadania e identidade cultural.
ISBN 85-7359-110-2

Co-edição:

S A O

P A U L O

V I A G E M INCOMPLETA
Carlos Guilherme Mota

Formação: htetórias
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Viagem incompleta. A experiência brasileira (1500-2000). Formação: histórias / Carlos Guilherme Mota (organizador). - São Paulo : Editora SENAC São Paulo, 2000. Vários autores. Bibliografia. "«^JSBN 85-7359-110-2 1. Brasil - Civilização 2. Brasil - História - 1500-2000 3. Cultura - Brasil 4. Raças - Brasil I. Mota, Carlos Guilherme, 1941. 99-5473 índices para catálogo sistemático: 1. 2. 3. 4. Brasil : Civilização Brasil : Cultura : Civilização : História Brasil: Formação histórica Brasil : História: 1500-2000 981 981 981 981 Go-edição: CDD-981

A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA
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SÃO PAULO

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P A U L O

br) Sumário Nota do Editor. Pimenta. 1999 "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista João José Reis. 197 Todos os direitos desta edição reservados à Editora SENAC São Paulo Rua Teixeira da Silva.br © Carlos Guilherme Mota. i Nota do Co-Editor.tibirica@sp.SP Tels.senac. P.sp. Pensando o Brasil: a construção de um povo Stuart B. Pereira J.br) Vendas: José Carlos de Souza Jr. 531 .senac. Quartim de Moraes Editor: A. da Nóbrega Pesquisa Iconográfico: Emporium Brasilis Memória e Produção Cultural Edição de Imagens e Legendas: Carlos Guilherme Mota e Vladimir Sacchetta Reproduções Fotográficas e Laboratório: Rangel Estúdio Capa: João Baptista da Costa Aguiar Editoração Eletrônica: Antônio Carlos De Ângelo Impressão e Acabamento: Hamburg Donnelley Gráfica Editora Gerência Comercial: Marcus Vinicius B.br) Coordenação de Prospecção Editorial: Isabel M. B. 71 "Gente da terra braziliense da nasção".br) Administração: Márcio Tibiriçá (marcio. M.senac. 241 Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX Karen Macknow Lisboa.CEP 01060-970 .CEP 04002-032 Caixa Postal 3595 .ADMINISTRAÇÃO REGIONAL DO SENAC NO ESTADO DE SÃO PAULO Presidente do Conselho Regional: Abram Szajman Diretor do Departamento Regional: Luiz Francisco de Assis Salgado Superintendente de Operações: Darcio Sayad Maia EDITORA SENAC SÃO PAULO Conselho Editorial: Luiz Francisco de Assis Salgado Clairton Martins Décio Zanirato Júnior Darcio Sayad Maia A.senac. Schwartz.São Paulo . 177 Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) Carlos Guilherme Mota. Groenitz Izilda de O. 127 Por que o Brasilfoidiferente? 0 contexto da independência Kenneth Maxwell. 45 Uma Nova Lusitânia Evaldo Cabral de Mello.senac. Monteiro Márcio Delia Rosa Maristela S. 103 Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) István Jancsó e João Paulo G. (11) 884-8122 / 884-6575 / 889-9294 Fax(11)887-2136 E-mail: eds@sp. 29 A gênese do Brasil Jorge Couto. 265 .senac.senac. Quartim de Moraes (quartim@sp. Alves (vinicius@sp.br Home page: http://www. 9 Introdução Carlos Guilherme Mota.br) Preparação de Texto: Luiza Elena Luchini Luiz Carlos Cardoso Revisão de Texto: Ivone P. P.br) Coordenação de Produção Editorial: Antônio Roberto Bertelli (abertell@sp. 11 Incursões à pré-história da América tropical AzizNacibAb' Saber.senac. (jjr@sp. Alexandre (ialexand@sp.

uma análise da "alma brasileira" pelo psicanalista Roberto Gambini em diálogo com a jornalista Lucy Dias. 301 Nota do Editor \ J r a n d e virtude dos aniversários "redondos" de eventos históricos é que eles convidam à reflexão sobre o período entre os dois pontos-limite. num único lance distinguindo melhor alguns aspectos sem deixar de abarcar com segurança o conjunto.um banquete no trópico. foi o primeiro deles. coletânea de resenhas de livros fundamentais do país. Estes 500 Anos de Brasil são inspiradores também porque encontram a inteligência do país em plenas condições para um balanço da trajetória. É como se um olhar abrangente partisse de uma posição privilegiada. como este que se apresenta em dois volumes. vale também como Introdução ao Brasil conduzida com competência por mestres da historiografia brasileira. A grande transação. escrita por Paulo Markun. Por acreditar nisso. em um trabalho que é prova da maturidade alcançada pelos estudos históricos em nosso país. seguida por Outros 500. 3 6 i . A biografia da heroína brasileira Anita Garibaldi. Mas tem a admirável completude de uma série de estudos que honram seu grande tema: o Brasil. a que se seguirá Viagem incompleta. e por Introdução ao Brasil . a Editora SEN AC São Paulo já lançou três livros sobre o tema e prepara-se para outros mais. A viagem é incompleta pelos motivos que o organizador do livro expõe adiante. Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república I Roberto Ventura. organizada por Lourenço Dantas Mota. Este Viagem incompleta. Formação: histórias.I O Brasil no espelho do Paraguai I Francisco Alambert. aqui coordenados pelo saber de Carlos Guilherme Mota. 329 Sobre os autores.

num processo contínuo de encontro da sociedade consigo mesma e. para qualificar sua ação cotidiana.Nota do Co-Editor x V reflexão sobre nossa formação histórica. mais precisamente. num enfoque interdisciplinar. antes de tudo. com a sua capacidade de criação. novas idéias de Brasil.Serviço Social do Comércio. propõe-se contribuir para o debate das grandes questões que estão na origem da formação da nacionalidade brasileira. política e cultural com que lidamos a toda hora. um olhar para o presente e para a necessidade de se buscarem explicações para os fatos que conduzem ou condicionam nossas ações. o olhar histórico é. relacionadas com nossa própria formação social. O SESC . políticos e econômicos. que serão de grande valia para a reflexão sobre a constituição de uma cidadania e identidade cultural. Este primeiro volume apresenta uma visão renovada da história. Danilo Santos de Miranda Diretor Regional do SESC em São Paulo . já que não se trata de um olhar objetivo sobre um passado encerrado. cumpre dois objetivos ao assumir a co-edição desta publicação. Os 500 anos de Brasil e. cuja reflexão se constitui em fundamento para a cidadania. Em segundo lugar. construíram a organização social. propõe-se contribuir para o aperfeiçoamento dos modelos institucionais de ação cultural. seus costumes sociais. na verdade. portanto. mas o recurso a modelos de interpretação que nascem das necessidades e formulações do presente. Em primeiro lugar. mais que uma tarefa. Assim. segundo o organizador Carlos Guilherme Mota. os 180 anos desde a fundação de um Estado Brasileiro. suas crenças e sua inserção no contexto internacional globalizado. é uma condição permanente de todos aqueles que. na busca de uma pedagogia que estabeleça parâmetros para uma educação social e permanente. A compreensão das condições atuais de nossa existência como sistema social será sempre um processo inacabado. cuja missão é oferecer oportunidades de desenvolvimento pessoal e comunitário por meio do lazer sociocultural a seu público específico e à população em geral. necessitam entender as raízes de nossas mazelas e virtudes.

Btf • /*r#f Introdução nt kCarlos Guilherme Mota 0 despotismo de certo país que conheço é açucarado e mole. José Bonifácio OI RIPTI* v - i ^ -i v ^ . mas por isso mesmo perigoso. e abastardar os corações. por tirar todo nervo aos espíritos.

vasto campo interdisciplinar. "Espanha". concluiu: "No Brasil. Idéias de "Brasil". obedecem a um plano geral. um de seus poetas-cantores. Um longo processo.I -Ldéias de Brasil. Os dois volumes. o futuro já era". eis a temática geral da obra que o leitor tem sob seus olhos.quão dessemelhante .ainda resta por fazer na Terra brasilis. Ou . "Amazonas". como "China". porém particularmente incompleto. sob o título geral de "Formação: histórias". ao comentar o encerramento de um longo ciclo histórico-cultural iniciado com a Semana de 22. sobretudo no que se refere aos direitos e deveres da cidadania. ao mesmo tempo que discutem com as historiografias clássica e contemporânea. perquirem-se nestas páginas alguns significados de nossa formação e existência enquanto povo. dos sentidos da história do processo civilizador no Brasil. Terra sobre a qual. abarca cinco séculos daquilo que se poderia denominar "experiência brasileira". desde os pródromos. Antônio Carlos Jobim.quase tudo. Procurando escapar dos modismos da pós-modernidade periférica e do convencionalismo. primeiras viagens e projetos de uma "Nova Lusitânia" nos trópicos. até a articulação . reconstroem processos e aspectos menos óbvios do passado. Trata-se. se constatarmos que muito . planejada em dois volumes. de orientações intelectuais distintas.como a triste "Bahia". inacabado como tudo em história. independentes. enfim. O primeiro volume. o tom dominante dos escritos. de indagar. trata da gênese e consolidação de idéias de Brasil. Daí. conforme a perspectiva . ao longo dos estudos e ensaios elaborados por especialistas convidados. De nossos modos de pensar e fazer história. em que os autores. aqui. A obra. exercitando a indagação interdisciplinar. num distante ano de 1986.

Maria Yedda Linhares. que. de urbanização e de inserção na ordem internacional. Desde o "Brasil mestiço" dos intelectuais da Primeira República até os impasses da esquerda nas últimas quatro décadas. Demais. na segunda metade do século. políticos. pesquisadores. Luís Henrique Dias Tavares. Não se retrocederá . nos quadros do neocolonialismo. a pesquisa histórica adquiriu novos conteúdos. incorporando as experiências e descobertas de historiadores mais maduros. diplomatas. procurou-se evitar persistente visão linear e supostamente evolutiva da chamada história do Brasil. quase sempre sem sucesso. Agora. como Manuel Correia de Andrade. Uma sociedade em que se misturavam valores da velha ordem estamental-escravista com os novos valores da sociedade de classes emergente. a continuação e aprofundamento crítico das obras de Florestan Fernandes e de Antônio Cândido . em busca da especificidade de nossa formação. a reedição ampliada de Os donos do poder.dos embates. Os estudos e ensaios aqui incluídos procuram desvendar essas idéias de Brasil. à falta de melhor qualificação. mas também de retrocessos e desencontros culturais. Warren Dean. sociológicas. MI Nesta viagem transecular. na teoria e na prática. O segundo volume é dedicado praticamente ao "longo" século XX.três autores já consagrados que veriam suas biografias intelectuais intensificadas e politizadas no último quartel do século XX . Ernani Silva Bruno. Fernando A. uma sociedade por assim dizer nacional. hoje. Joaquim Barradas de Carvalho. Leslie Bethell. Os estudos aqui reunidos foram elaborados no apagar de luzes do século XX. alcançando. Richard Graham. Richard Morse. com ênfase nas novas interpretações históricas. das produções intelectuais. do jurista e historiador Raymundo Faoro. histórias . Charles R. sob o título geral "A grande transação". Até porque a historiografia brasileira se atualizou bastante. sugerem uma revitalização e ampliação notável dos estudos históricos entre nós. João José Reis. Longo processo pontilhado por insurreições. Impossível deixar de registrar o papel crítico e solidário que desempenharam na resistência à última ditadura. com obras tão estimulantes como as de José Murilo de Carvalho. o travo de nossa mal-ajambrada e improvável civilização que. Novais e tantos outros. tornaram-se fundamentais em nossa historiografia as produções de Stanley e Bárbara Stein. por oferecer abordagens inovadoras da história do Brasil. Francisco Iglésias. independência política e conflitos agudos. Com efeito. o leitor encontra nestas páginas elementos para uma visão renovada da história . Nele. Boxer. José Honório Rodrigues. Nos anos 70. já no século XIX. o objetivo se amplia. deixando seqüelas estruturais e imensa dívida social. jornalistas. Século de descobertas e inovações. literárias sobre "nossas identidades". marcou várias gerações de historiadores. se imagina "tropical". para mencionarmos alguns intelectuais e pesquisadores de expressão. Frédéric Mauro. o período da descolonização e a formação de um "Brasil mestiço". religiosos e econômicos. impasses e resultados do que se poderia denominar pensamento brasileiro. no mundo contemporâneo? Na entrada de um novo século (e de um novo milênio. a partir dos anos 50. II "Onde o Brasil?". Como nos inserimos. perguntava num verso conhecido o poeta Carlos Drummond de Andrade. estudantes e leitores em geral.. obra coletiva de 1968. política e cultural. bem como de uma moderna organização institucional. de que história/histórias/estórias está-se falando? Numa visão atualizada. E pensando nas tarefas que nos aguardam na elaboração de nossa cidadania nacional e internacional no século XXI. passando pelos projetos da ditadura civil-militar que nos avassalou no período de 1964 a 1984. qual o motivo dessa sensação de estranha inatualidade cultural e política que atravessa nossa cultura? Sobre quais bases materiais e éticas construímos nossas auto-imagens coletivas e nossas utopias? Em suma. que as obras emblemáticas de Gilberto Freire e Caio Prado Júnior traduziriam exemplarmente. são tratadas as experiências de implantação de idéias republicanas e de conceitos contemporâneos de cultura e de Estado. Thomas Skidmore.14 Carlos Guilherme Mota Introdução 15 de uma ordem colonial escravista.ou melhor. John Wirth. durante o qual se consolidou. trazem eles indagações agônicas. com mais de vinte reedições. Evaldo Cabral de Mello. orientadas no sentido da busca de um novo padrão social. que se encerra numa profunda crise mundial de valores. entre muitos outros. dúvidas antigas. retoma-se aqui a experiência de Brasil em perspectiva. fato não despiciendo para historiadores). Estes textos carregam o mal-estar de nosso tempo. Joseph Love.

econômicos e sobretudo culturais . é surpreendente o florescimento de novas frentes historiográficas que. Com efeito. patriarcais e outras sugere o quanto resta ainda a se percorrer nesta Viagem incompleta. econômica que ainda está por se esclarecer. as novas experiências da China.16 Carlos Guilherme Mofa Introduçõo „ 17 aqui. Os desencontros de formações de temporalidades tão distintas tornaram-se dramáticos. a exemplo do que ocorreu em outros países em conjunturas de crise. desde a última ditadura. em que se revisita a própria idéia de América Latina.que não permitem entendêlo como país moderno. instituições e normas que se referem. Hipóteses de criação de centros de estudos avançados e de pesquisas históricas voltam a preocupar governantes responsáveis e lideranças universitárias. a desagregação da União Soviética. Indicativa dessa situação é a coexistência de costumes. portanto.como percebeu Marx para outra época e contexto .da democracia contemporânea.\"fim das ideologias". vale grifar. Nesse quadro. pensamos ter construído mais uma ponte para o futuro. a que chamamos. documentários. numa conflituosa. com maior nitidez. de uma ordem socialista e mesmo anarcossindicalista). economias. de "fim da história". provocando a sensação de desmobilização. Eis. a unificação européia. tantas são as camadas histórico-culturais socavadas nesse bloco. econômica e cultural contemporânea. em menor escala. a atuação de filhos de remanescências coloniais. Em verdade. Crise que se esclarece na confluência de duas ordens de acontecimentos. De inatualidade. política. muitas vezes o historiador vê-se obrigado a se transmudar em arqueólogo cultural. estudos. ideológica. dando a sensação de "fim de ci- cio". vêm revelando inquietude discreta porém malcontida em páginas e páginas de teses. no mesmo passo em que a globalização impõe novos hábitos. a educação e a habitação . a hegemonia norte-americana e a globalização obrigam-nos a outra consideração histórico-historiográfica. como . que enfeixa e mescla interpretações clássicas e inéditas sobre as ambíguas identidades do Brasil após 500 anos de história luso-brasileira e 180 anos de busca de vida independente. que aliás não existe. delineando-se então. obviamente não dissociadas. na perspectiva do organizador. De nossos modos de viver e fazer a história. Nessa perspectiva. A história do Brasil propriamente.incluam-se aqui a saúde. Numa região do planeta em que vários passados irresolvidos ainda se fazem presentes. opaco e compacto. a queda do Muro de Berlim. de remanescentes oligarquias imperiais e da Primeira República. Mas não trabalhamos. obrigando os pesquisadores a dar maior atenção aos estudos de história para formular um conceito mais eficiente e efetivo de democracia. a "dois Brasis". as novas tecnologias revolucionando as comunicações e o renascimento de religiões fundamentalistas abalaram os alicerces das interpretações históricas que definiam e aprisionavam os sentidos mais radicais da vida social. lenta. inquisitoriais. O Brasil . para simplificar. os embates em busca de um projeto para a futura nação. nestes dois volumes. sugerindo as dificuldades de convivência ainda hoje . de derrapagem permanente. Não se trata apenas de lugar-comum dizer-se. A primeira. No período em que se processou a colonização portuguesa. a dos acontecimentos que sinalizariam o colapso de uma série de mecanismos explicativos da História Contemporânea. de crise internacional e nacional. de contrato (ou. o Brasil passaria a existir somente após 1817-1831. diversas idéias de Brasil são procuradas ou revisitadas pelos autores destes estudos. imperiais. Ao incorporarmos muitas das novas contribuições dessa historiografia que se consolida com todas as inquietações e impasses de nosso presente nesta obra. de "sociedade brasileira". complicada estruturação política. mais ou menos. apenas. à discussão de "um" Descobrimento. Com efeito. A segunda ordem de acontecimentos se refere à produção intelectual em (e sobre) nosso país. valores. atitudes e paradigmas para se pensar o presente como história e aprofundar-se a crítica da cultura. de eterno recomeço. na atualidade. filipinas. quando se esboça uma historiografia "brasileira". joaninas. inclusive para se "re-situar" a trajetória do Brasil nessa nova era histórica. ou muitos mais. social. relacionandose com novas frações de classe já orientadas no sentido da construção de uma moderna sociedade capitalista. Portanto. a resposta ao desafio que nos foi proposto pelos editores. No caso de nosso país. O momento atual. neste "longo amanhecer" . ensaios. CD-ROMs e artigos. com a equivocada "História do Brasil Colonial". torna-se particularmente propício para tais reflexões.chega ao século XXI ostentando uma série de indicadores sociais.a expressão é de Celso Furtado . agudizase a consciência da necessidade de reconstrução histórico-cultural de nossas experiências coletivas e identidades. somente se afirmaria no período da independência.de "estamentos pretéritos com classes futuras" nessa região de pesada herança colonial. portanto.ou o conjunto de experiências coletivas a que generosa e espaçosamente denominamos "Brasil" .

Numa visão que a licença poética permite. hipóteses e projetos de Brasil. estamos em dívida com a História Contemporânea. entretanto. pensar. aqui. dando origem ao chamado gentio. Ou seja. possuem experiência reconhecida. qual "novo objeto" para a velha História das Mentalidades e das representações mentais. na senda dos historiadores Jorge Couto. Porque. incorporando sons. a história estava no lugar. por assim dizer. o que permite esperar-se de seus trabalhos algum efeito duradouro nos estudos históricos entre nós. na justiça do trabalho. que. os quadros mentais e culturais aprimorados nos períodos imperial e republicano parecem reforçar o peso conservador e específico dessa história. cores e valores a um só tempo carregados e animadores de um imaginário específico. medir a assustadora distância entre o atraso e a modernidade (em várias dimensões. radicalmente. numa três longue durée. como nos dizem reiteradamente os vigilantes professores Eric Hobsbawm.« nos anos 40-60. ideólogos. adensado e razoavelmente auto-referido a partir do primeiro quartel do século XIX. também não por acaso. não nos detivemos no tema das "origens". tenta-se por meio do referido estudo rastrear as vicissitudes de grupos que. acesso às novas tecnologias. nutrido por um déficit histórico estrutural. Ignacy Sachs. essa. Como se constata.onde se torna impossível distinguir "causas" de "efeitos". IV No primeiro volume. escolhidos dentre gerações. Formação: histórias. "explicadores do Brasil" em busca de "nossas" raízes. Sem tais discussões e análises torna-se ínvia a construção do futuro. Sair desse impasse. diplomatas. "Brasil". Stanley Stein. região colonial e neocolonial em que a grande lavoura e suas elites continuavam a requerer braços de escravos negros. entre outros. em busca de insuspeitada e polêmica história. István Jancsó e de outros. "mestiça". permite supor não ser impossível alcançarmos o objetivo nesta nova e desafiadora empreitada. Dilacerados entre formas agudas de provincianismo retrógrado e de cosmopolitismo elitista acendrado. A já longínqua experiência do Brasil em perspectiva. pinturesca e mitológica. Velha história. com flutuações de época. Abre o volume estudo inquietante do professor Aziz Ab'Saber. as questões de espaço/tempo e de formação étnica das sociedades plurais dessas partes do planeta. foram "descobertos" pelos europeus e logo expostos à pedagogia da sujeição. não pode prescindir da discussão renovada sobre nosso passado coletivo. Procura ele estimular a reflexão do leitor sobre movimentos ancestrais de gentes no espaço no qual viria a se formar o conjunto a que hoje denomina-se "sociedade brasileira". Até porque a geografia humana é. sugerindo-se a abertura de uma abordagem propriamente geo-histórica e civilizacional.delinearam-se formas próprias de pensamento. não . futuro espaço "brasileiro". de fato.como Frédéric Mauro registrou na revista Annales. termo a um só tempo vago e concreto. sugeriuse aos autores acompanharem desde logo idéias.18 Carlos Guilherme Mota Introdução * . Nos quadros do neocolonialismo . Preferiu-se adotar a noção de "gênese". juristas e historiadores que comparecem nesta publicação. no Brasil. formas de participação social em empresas urbanas e rurais.. tornou-se com efeito tema de representações mentais fortíssimas. livro coletivo da "génération qui monte" . desde os direitos mínimos de cidadania até educação superior. Alain Touraine. demora a se afirmar. o Haiti poderia ter sido aqui. eis a tarefa a que se propõem os pesquisadores. Enfrentando a complexidade do tema. de "nosso caráter". Qual seja a de auxiliar na renovação dos estudos históricos e na compreensão de nosso complexo país. palavra com dimensão geográfica. relacionado a modos de ser. mais que oferecer elementos para o arranque em direção à contemporaneidade. temerosos do haitianismo que poderia incendiar a lavoura e as almas com as fagulhas da revolução de ToussaintLouverture. Como ponto de partida comum. Tais estudiosos. as estruturas político-administrativas. de Braudel . teorias e instituições distintas. certamente. relativizam-se aqui.publicado em 1968 por Paul Monteil e prefaciado pelo saudoso professor João Cruz Costa. Tentar desvendar e traduzir em linguagem renovada os mecanismos que geram as múltiplas ambigüidades que confundem em nosso país os espaços público e privado. professores. Específico e. isto é. agir. ao longo de milênios. a mais ancestral das disciplinas históricas. em sindicatos. que o peso do passado colonial ainda está presente nos impedimentos e resistências aos esforços para se constituir a nova sociedade civil democrática. e assim por diante. Nestes estudos. social. nossa "vocação" latino-americanista. embora muitos personagens teimassem em viver fora de foco. Nesta terra. e procurar responder às demandas de nosso tempo. aos habitantes que.. se deslocaram para este subcontinente. etc). visto que o colonialismo é um sistema . histórica. já na passagem da monarquia à república. polarizam e incandescem de tempos em tempos a sensibilidade de intérpretes. examinam-se algumas idéias mais remotas de Brasil até a consolidação de uma sociedade por assim dizer nacional. fabricado.

"Onde o Brasil?". homem ilustrado para quem não era "das menores desgraças o viver em . sua biografia ganhou nova dimensão e sentido com a tese do professor Joaquim Barradas de Carvalho. idéias de Brasil afirmam-se já no século XVQ. Neste verso-pergunta que ainda ressoa no ar talvez resida o fulcro de nosso projeto coletivo. revisitada superiormente por Evaldo Cabral de Mello. e a razão que move os autores destes estudos e ensaios. representação mental que. No percurso de quatro séculos. das relações de trabalho e da utópica sociedade capitalista. percorre-se neste primeiro volume desde as primeiras experiências da Nova Lusitânia. nessas ambigüidades e tensões mal-resolvidas ("brancos quase negros. advertia ele: "nesse emaranhado de raízes está o cerne das resistências que hoje [portugueses e brasileiros] temos de vencer se não queremos apenas sobreviver como museus de resolutas eras mas sim afirmarmo-nos pela capacidade de construir um mundo em perpétua mudança. em que descreve com rigor a estrutura e funcionamento da açucarocracia. autor de Recopilação de notícias soteropolitanas e brasãicas. de identidade. de colonização e descolonização. Franceses. Naquele século. Note-se que a idéia de Brasil do governante holandês. Esses homens pensadores e de ação. Interessa notar. na interpretação dos escritos críticos de Stuart B. também ajudariam a delinear o perfil do novo mundo. mais notáveis entretanto seriam a ação e o trabalho escrito do padre Antônio Vieira. mulatos quase brancos"). que dariam projeção e sentido ao Brasil nos quadros da Modernidade. atormentaria no século XVII o poeta Gregório de Matos Guerra na Bahia.". ganhando diminuto espaço em Tordesilhas. dentre os quais incluem-se o príncipe de Nassau e o pintor Frans Post. em contrapartida. A corte portuguesa. ao lado de modernos cientistas da natureza e outros observadores. João José Reis. já no fim do século XIX. István Jancsó e João Paulo Pimenta. mais elaborada e localizada no espaço. o principal estudioso da expansão portuguesa. como testemunham as obras de religiosos e colonizadores da Nova Lusitânia.. da Sorbonne. de um "Brasil mestiço". da École des Hautes Études. Essa idéia de Brasil. Schwartz. autor do Esmeraldo de Situ Orbis. Tese publicada em 1983 pela Fundação Calouste Gulbenkian em livro apresentado por Fernand Braudel. de uma obra como a do jesuíta toscano Antonil. que a inserção do Novo Mundo na geopolítica e economia da Modernidade provocaria elaborações notáveis. ocupada com os problemas de sua sobrevivência na Europa. frouxamente equacionadas. que viveu exilado entre nós nos anos 60. de Kenneth Maxwell. Companheiro de viagem de Cabral em 1500. História de uma ideologia. e prefaciado por Pierre Chaunu. Lisboa. e holandeses. como propôs Vitorino Magalhães Godinho. "Brasil". ampliava surpreendentemente a discussão sobre o que seria o Brasil. significado e dimensão internacional. Carlos Guilherme Mota. resistência negra. indicando sua natureza. escrita no fim do século XVIII em Salvador. Estudar a história mas também procurar entender as "maneiras pelas quais os homens percepcionavam a história vivida". autor do provocativo Caráter nacional brasileiro.20 Carlos Guilherme Moto Introdução 21 sem resistência e levantes. no período em que a colônia portuguesa esteve sob o domínio habsburgo (1580-1640). posteriormente. Karen M.. Difícil imaginar a produção. Em 1970. ao lado do professor Luís dos Santos Vilhena. descurou de sua ação colonial durante a União Ibérica. adquirindo então concretude no "fino brasil" de Duarte Pacheco Pereira. Visões do Paraíso foram alimentadas a cada passo. examinam-se os diversos conceitos de "povo". personagem renascentista e provável achador (se é que houve um) das terras da América do Sul em 1498. Idéias de "Brasil" deitam suas raízes no universo medieval anglo-saxônico. inaugurando possibilidades outras para a definição de uma sociedade nova no mundo tropical. também no Monte Brasil dos Açores. de "contrato" (entre aspas). Francisco Alambert. permitindo a emergência de outros interesses e visões no Novo Mundo. autor de Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas (1711). como o protestante calvinista Jean de Léry. desde Lima Barreto a Dante Moreira Leite. num intenso processo de motivações que Sérgio Buarque de Holanda inventariou em obra clássica. sob o título À Ia recherche de Ia specificité de Ia renaissance portugaise. constitui outra das intenções destes capítulos. Dir-se-ia que o Brasil começa a se descobrir Brasil. o príncipe Maurício de Nassau. até a constituição. sob a lente da crítica de Roberto Ventura. Como se sabe. atiçaria a vigilância e animaria a mordacidade dos críticos da cultura contemporânea e das ideologias nacionais. quando segmentos das elites que habitavam estas partes passam a refletir sobre os significados de suas próprias experiências e modos de povoar o continente. No arco do tempo. merece ser revisitada no dealbar deste novo século. quando lançou o verso contundente: "Que me quer o Brasil que me persegue?". preocupado com a "situação colonial" de nossos povos. Tema que hoje persiste. nas questões da propriedade. ainda.

daria o toque de despertar para uma série de movimentos sociais de porte que sinalizaram o processo de descolonização a que se assistiu na primeira metade do século XIX. privilegiaram-se certos momentos. a grande insurreição nordestina de 1817 . geográfica. cultural. e assim por diante. mas imitador por ora. deve chamar e acolher todos os estrangeiros que lhe podem servir de mestres no ramo da instrução. cultural. aqui como alhures. As lutas pela independência. embora mais freqüentemente como ideologia. inconfidências e conspirações que marcaram o século XVIII.1 O leitor notará que. 173.a chamada "Revolução Pernambucana" de 6 de março . Nas linhas da Ilustração européia. Sinalizações e diretivas por vezes até antagônicas que. organização de Míriam Dolhnikoff (São Paulo: Companhia das Letras. p. expresso na defesa da liberdade de comércio. pres- v Nessa história ocorreram entretanto algumas poucas rupturas. não por acaso denominada "Revolução" pelo historiador Caio Prado Júnior. como Cipriano Barata e o padre Diogo Antônio Feijó (ex-deputados às cortes de Lisboa). articuladas numa possível história. para utilizarmos a expressão do historiador José Murilo de Carvalho. dos planos reacionários da Restauração ou dos projetos dos liberais anglo-saxônicos. na expressão andradina) pensamento brasileiro. com pequenos ajustes às novas necessidades. Após diversos conflitos. e física.e a "South America". como "Brasil". Numa história estrutural prefigurada. do Período Regencial (1831-1840) ou da República Nova (1930-1937). Pensamento. social e política com o santista José Bonifácio. o Brasil .chegaria até a sistematizar em "arquétipos". hoje em dia. Ao longo do processo de descolonização. transformaram-se em teorias do Brasil. contextos e modas. todas possuindo forte significado social. num figurino que pressupunha a sucessão de elites educadas que dele se alimentavam. a ser tema constante nas pautas revolucionárias. Até porque a tal idéia deformação repontou em diferentes períodos e fases do longo processo de ocupação e usos sociais do espaço que se foi definindo. a despeito do caráter regional ou mesmo local da maior parte delas. tanto do ponto de vista geopolítico como lingüístico-cultural. na limitação do poder absoluto dos reis. ou formas de pensamento específicas que um analista agudo como Michel Debrun . as múltiplas características. Conhecem-se melhor. e economia pública: deve não querer ser original. ou o jornalista Evaristo da Veiga. Projetos para o Brasil. 1998). alimentando as linhas de força de um ("para dizer assim". Idéias de Brasil adquiriram nova dimensão histórica. dele se utilizaram às vezes como utopia. imaginava Bonifácio. um dos líderes do 7 de abril de 1831.22 Carlos Guilherme Mota Introdução 23 colônias". homem da Ilustração e fundador da política externa brasileira. ponto de inflexão no século XIX brasileiro. processo dramaticamente inacabado. econômico e político. requereu a costura metódica do conceito de nacionalidade. desde a insurreição de 1817 até a proclamação da república em 1889. nessa riquíssima viagem histórica. econômico-administrativa e a organização da sociedade pós-colonial.passa a ter seu lugar histórico bem localizado no sistema mundial de dependências. em casos raros. apropriando-se das outras nações o que convém melhor à sua situação política. além do impacto da ação antijesuítica severa do marquês de Pombal na colônia. A identidade nacional passaria. na abertura de frentes e formas inovadoras de informação e instrução. A principal delas foi a da Independência. processo mais marcado por continuidades. do que por rupturas significativas. ao mesmo tempo.autor de Conciliação e outras estratégias . política e social a que por vezes denominamos "nossa formação". . por meio de uma ação política mais abrangente e cosmopolita: Como o Brasil começava a civilizar-se no século XIX. o conjunto dessas teorias. culminando com a Revolução Praieira (1848). alcança-se o século XIX com uma idéia mais abrangente e universal do que pudesse vir a ser essa entidade abstrata denominada "Brasil". estadista da independência. Com ele. inscreveram-se em movimentos e vagas revolucionárias internacionais. de pensamento que definiriam as pautas pelas quais se regeriam a vida política. A "formação das almas". plasmaram-se algumas matrizes José Bonifácio de Andrada e Silva. ao mesmo tempo que o reproduziriam indefinidamente. De fato. contextos e situações. "nossa identidade" coletiva se delineava. intensamente problemática. mas também com oponentes a seu projeto de nação. desenharam uma idéia geral de Brasil mais nítida e. Identidade a ser alcançada. Tal foi o caso do Primeiro Reinado (1822-1831). desde então. os variados modos de pensar e as contraditórias diretivas histórico-culturais desses diferentes "Brasis" que se foram tornando "Brasil". Todavia.

Aos segmentos radicalizados das elites urbanas progressistas apresentavase então a alternativa clássica que a História costuma apresentar aos povos: reforma ou revolução. teorias da . Cândido. Florestan. a CEPAL e as idéias de Raul Prebisch eram sinônimos de modernidade. também se difundiria nos meios acadêmicos e políticos. o compositor e musicólogo Heitor Villa-Lobos (que uniria a dimensão erudita à produção popular. Ao longo do percurso. Buarque. capitalistas e neocapitalistas coordenaram então esforços para romper com o atraso a partir de um esperado take offáo capitalismo no Brasil: para isso. Com a aceleração do processo histórico mundial . ou seja. Bonfim. de quadrantes diversos. como Astrojildo Pereira. setores da intelligentsia brasileira começariam a se descobrir terceiro-mundistas. retardava a "integração" do Brasil "moderno" na contemporaneidade. e em geral bem aceitas. Transitava-se então. A essa altura. encaixada no aparelho de Estado complexo e pesado. preocupadas com a "superação do subdesenvolvimento" a qualquer preço. recorde-se que. somando seus esforços às lideranças intelectuais de esquerda. Nesse grupo. muitos intelectuais se afirmariam. É de notar.fixariaem definitivo a idéia de Brasil contemporâneo. afirmou-se a noção de "Cultura Brasileira". Uma História do Pensamento Brasileiro. Sodré. o sociólogo Fernando de Azevedo (um dos criadores da Universidade de São Paulo). disseminando uma certa visão de Brasil por meio dos corais e cantos orfeônicos). que ainda está por fazer. Ao lado das Ligas Camponesas. inaugurando a visão dualista na História do Brasil. seria o convite a uma outra viagem.24 Carlos Guilherme Mota Introdução 25 supõe um rastreamento rigoroso. Nesse contexto. Otávio Brandão e Mário Pedrosa. Nesse contexto. menos incompleta. Faoro. sociólogos e historiadores dos anos 50 (Furtado. quase uma contrapartida do realismo mágico da literatura latinoamericana daquela época. os educadores-fundadores da Escola Nova centralizariam nos anos 30 uma notável rede de intérpretes do Brasil. a de Jacques Lambert.da qual o Congresso de Bandung em 1955 foi apenas um sinal -. responsável por um novo conceito de cidade.de. Neste mesmo passo. inscreve-se a figura ímpar de Carlos Drummond de Andrr. com figuras estelares como Anísio Teixeira. além de Rodrigo Melo Franco de Andrade. Caio. o geógrafo Delgado de Carvalho (cujos atlas e mapas desenhariam em nosso imaginário o lugar do "espaço brasileiro" no mundo). Na direita. "a gente da terra braziliense da nasção"? Como se forma a nação. pensavam Lambert e os dualistas. Bastide)? O quadro se torna mais rico e complexo quando nos lembramos do papel desempenhado pelo Instituto Superior de Estudos Brasileiros (Iseb) e por revistas como Anhembi (de Paulo Duarte) e Revista Brasiliense (de Caio Prado Júnior) e. na esquerda. da consciência amena de atraso para a consciência de "país subdesenvolvido". Rubens Borba. Sem maiores considerações de ordem histórica ou civilizacional. com suas ideologias culturais e realidades étnicas? Como se cristalizaram as decantadas "heranças coloniais". das lutas da pequena burguesia urbana por reformas de base. Quem era "povo" nessas partes do Novo Mundo. que seriam objeto de críticas. provocando até mesmo a crítica de Gilberto Freire e José Honório Rodrigues. o economista norte-americano Walt Whitman Rostow circulava em vôos rasantes pela América Latina ensinando as fórmulas da redenção a empresários e militares bisonhos. no século XX. na expressão do professor Antônio Cândido. o sociólogo Gilberto Freire (que inventaria um povo mestiço para a nova nação). tendências. Câmara Cascudo) e dos economistas. transplantado e remodelado durante o período colonial? Qual o significado da descolonização a que se assiste na passagem do século XVIII ao XIX? Como se construiu esse "Brasil mestiço". cobrindo desde o campo políticoeconômico ao educacional e filosófico. ainda nos anos 50 uma "terceira via" já era procurada. fabricaram nos anos 60 as discutidas. empobrecendo a interpretação euclidiana: o país "atrasado". de uma educação democrática e da implantação da cultura do subdesenvolvimento. o urbanista Lúcio Costa. as idéias fortes de Oliveira Viana marcariam o debate na primeira metade do século XX. pela Revista Civilização Brasileira (de Ênio Silveira e Moacir Félix) e Tempo Brasileiro (de Eduardo Portela). que. ao qual se associava Mário de Andrade. Milliet. José Honório. Fora dessa constelação. alguns temas e problemas repontam e persistem. com o passar do tempo. histórias e atualizações por parte dos "redescobridores" do Brasil dos anos 30 (Freire. portanto. na definição de um conceito nacional de patrimônio histórico. cientistas políticos. o mapeamento das escolas. se consolidaria como a viga mestra de todo um sistema político-cultural de longa duração. entretanto. Tal conjunto de intelectuais. Com efeito. encontrou-se uma fórmula curiosa. Mário. idéias e projetos inovadores de Brasil se desenvolveram e expandiram. de uma ideologia que. os ideólogos do reformismo desenvolvimentista. uma curiosa mitologia dos "dois Brasis". individualidades. depois. Em busca de uma política externa independente de Washington. homem de ação e poesia.

na longue durée. desvendado nos anos 70 pelo professor Florestan Fernandes em sua obra clássica A revolução burguesa no Brasil. com adesão e apoio de setores da pequena burguesia progressista radicalizada. quero me referir à atualidade de incontáveis formulações que indicam a existência de consciências críticas e muito agudas ao longo de toda nossa História. e. Ainda reboam no ar palavras como as de frei Joaquim do Amor Divino. pois. nos "quadros do capitalismo associado e dependente". como escreveria Florestan Fernandes em 1981 é que "não enfrentamos como e enquanto tal a questão da descolonização". o Caneca. E um império tal em que ordem deve ser colocado entre as potências? Será uma potência de primeira ordem? Será de segunda? Nem de uma. apontando para uma revisão profunda de nossa historiografia. dos escravos negros e dos negros livres. condutora de um projeto amplo de reformas de base. entretanto. das crianças. dos pés descalços. em contraposição à história dos brancos de frei Vicente do Salvador até Varnhagen e Pedro Calmon. a de implantação de uma ordem republicana reformista-desenvolvimentista e "modernizadora" (no sentido dos anos 50-60). poucos meses antes de sua prisão e fuzilamento: E quando teremos constituição feita pela Nação? Nunca. a terceira. com as teorias da contra-revolução preventiva. O problema. nunca. cinco séculos de História podem representar muito. Para terminar. e não Império constituído. . nada obstante muito real: a dos sem-história. O golpe civil-militar de 1964. A primeira. dos excluídos em geral. para utilizarmos o velho conceito. Cinco séculos que permitem. uma hipotética república socialista de base popular operário-camponesa. um outro horizonte se apresenta. a despeito de certas determinações dos processos de articulação dos sistemas coloniais da História Moderna. Grande desafio. para além de todos. amarelecido pelo tempo. fundamentando três possibilidades históricas então esboçadas. a segunda. revelando a natureza e o sentido profundos desta história. das mulheres. na feitura dessa outra História. de História das Mentalidades. com destacada participação do país no plano internacional por meio de uma política externa independente. assim. Pois. finalmente. cujos códigos mais profundos cumpre aos historiadores ir desvendando. com implicações políticoculturais de longa duração. começam a surgir as sagas anônimas dos "índios".. e que marcariam fundamente o pensamento no Brasil no século XX. convém evitar o tom finalista. outras porém prosperaram. indagar do sentido ou sentidos das Histórias plurais de nossas formações histórico-ideológicas. amantes da pesquisa inspirados pelo velho Lucien Febvre. dos idosos. de inquietante atualidade. integrada ao novo capitalismo ocidental. E. dessa forma. sob o rótulo generoso. e por isso nunca império.. o modelo autocrático-burguês. Será potência nullius diocoeseos. de uma república socialista-sindicalista mobilizadora. sobretudo no que diz respeito à experiência particular afro-luso-brasileira. Experiência de uma cultura já miscigenada na Península Ibérica. transformando-se em projetos e políticas públicas. gerando interpretações inéditas.26 Carlos Guilherme Mota Introdução 27 dependência. muito difundidas e discutíveis sobre a "adaptabilidade" dos portugueses nos trópicos. por Johan Huizinga e outros mestres ainda se obstinam em cultivar. essa categoria imensa e silenciosa. condicionada por um modelo histórico-social de cunho fortemente autoritário. Seja na vertente dos encontros e desencontros de civilizações autóctones e forâneas. viria realinhar o Brasil nos quadros da Guerra Fria. Explicitava-se. as possibilidades históricas de cada época se inscreviam e se inscrevem inescapavelmente nas estruturas de amplos conjuntos de variáveis e sistemas de valores. Finalmente. De civilizações enfim. Se algumas dessas visões de Brasil desapareceram. que viria a predominar nessas partes do globo. este. considerada a História das civilizações americanas. nunca. vi Para concluir. porque até hoje é incógnita a ordem das potências projetadas. E que Império então vem a ser o Brasil? Império projetado. principal personagem de nossa história. a que muitos leitores e estudiosos. nos horizontes da esquerda. Uma outra idéia de Brasil despontava. nem de outra ordem. seja na reafirmação de uma história "dos de baixo". publicadas no Tiphys Pernambucano a 15 de janeiro de 1824.

• > Incursões à pré-história da América tropical Aziz Nacib Ab'Sáber ** il ..

que corresponde ao fim do milênio. envolvendo todos os tempos e todos os espaços". Razão pela qual a riqueza dos informes fragmentários — derivados dos estudos pré-históricos somados aos conhecimentos conseguidos na proto-história e nos esforços das etnociências . . Vale dizer.**»*. A Fernand Braudel ficamos devendo o postulado de que "a história é a história de todas as histórias". Bastide chegou à conclusão de que "o homem é o único ser vivo da face da Terra que é capaz de retraçar a trajetória da espécie. Franz Boas. alguns homens privilegiados contaram com a sucessão das escritas. diante de representantes agressivos de sociedades mais complexas. com a invenção do alfabeto: documentos básicos que forjaram a historiografia. No decorrer do século. muito antes que as relações de trocas de excedentes e antes mesmo do advento do mundo urbano das cidades-estados e vastos impérios. na década de 20. Um fato. Uma propositura que ampliou e desdobrou as possibilidades temáticas da pesquisa historiográfica no Brasil. e. por fim. Essas meditações nos obrigam a ampliar os procedimentos necessários para retraçar a história do ser humano.em um de seus momentos de grande clarividência intelectual quando teceu considerações comparativas entre os atributos das sociedades animais e as sociedades humanas. para o entendimento de acontecimentos tristes e dramáticos da história do Novo Mundo. nos mais diferentes espaços ecológicos e conjunturas temporais. Mas uma terceira meditação e reconhecimento ficamos devendo a Roger Bastide . alertava para a letalidade dos contatos étnicos entre grupos de culturas primárias. algumas reflexões sobre atributos essenciais do homem despertaram grande interesse cultural entre jovens pesquisadores voltados para as ciências humanas. Mas a história da humanidade e da cultura nasceu há dezenas ou centenas de milhares de anos antes da história formal. referente à "Sociologie des Animaux". certamente fundamental. Para tanto.deve mere- J XüÉy. Tendo como ponto de partida o inigualável texto de Mareei Mauss.

mas que as culturas por eles elaboradas foram absolutamente autóctones.atravessaram os largos espaços congelados ou em processo de congelamento J . cresciam até ao exagero as possibilidades de se desenvolverem atividades de caçadores. os pré-historiadores foram obrigados a alternar fatos e hipóteses. Mas.. sujeitas a glaciações rigorosas nos períodos muito frios do pleistoceno.32 AzJzNadbAb'Sáber Incursões ò pré-história da América tropical 33 cer um lugar especial na reconstrução dos eventos e conquistas culturais do homem. seguiam para Oeste.vieram de além-Atlântico (África).o caucásico. fugindo sempre das encostas e cimeiras de cordilheiras. Uma espécie de préhistória longa (parafraseando Braudel) intercalada por rupturas radicais. a idéia não superada de que a humanidade se dividia em três estoques raciais básicos . o negróide e o mongolóide . colonizadores. Da territorialidade oeste-leste da Eurásia e da Ásia Oriental . nos anos 40. de modo quase passivo e muito sofrido. como possível área de acesso dos caçadores da Eurásia e do Leste Europeu para o continente americano. Os grupos humanos coletores-caçadores nômades e seminômades que perambularam por diferentes espaços ecológicos da Ásia dependiam quase exclusivamente dos atributos da biota regional ou sub-regional. Os paleoíndios mais arcaicos eram mongolóides do Leste Asiático.caminhadas dos primeiros humanos para o Novo Mundo . vieram da Finisterra portuguesa da Europa. Aliás esses estavam tão desorientados quanto os humanos. E foi assim. De tal forma que. Durante os períodos glaciais do pleistoceno o nível do mar recuava dezenas e dezenas de metros. através do uso de couros e peles de animais. os grupos humanos dependentes da fauna. acantonaram-se em raras grutas e lapas. através de adaptações sofridas. ao desenvolver suas rústicas e rotineiras atividades de sobrevivência. Uma história que possui maior profundidade de tempo quando estendida para a época ou épocas da passagem dos asiáticos para as Américas. o mais longo período de tempo e a mais complexa trajetória de homens fica para os grupos ameríndios. a única lógica geográfica comanditária e orientadora residia nas disponibilidades de recursos naturais. sem saber que estavam transpondo continentes. somente podem ser interpretadas como parte de uma arcaica história de longuíssima duração. suficientes para a sua alimentação. Uma preferência marcante por uma vivência em terras baixas e corredores de fauna. fiscalizados por uma imaginação lógica. Utilizando os interespaços existentes entre glaciários provenientes das montanhas e aqueles oriundos da expansão dos mantos de gelo das regiões polares. Esse é o caso da vigorosa pressuposição da região de Beringhe. sentenciou que os homens que povoaram as Américas eram alóctones. Nisso tudo. participaram todos os estoques raciais do mundo.. Lentos deslocamentos e longas vivências em latitudes diferentes. enquanto pobres grupos negróides escravizados . É possível que manadas outras. As adaptações obrigatórias. em compensação.. descendo de cordilheiras superglaciadas e estreitando espaços intermontanos. provenientes do Leste da Eurásia. Mas que. Muito mais tarde os caucásicos. ao longo do século.é a grande tarefa do processo educacional.exímios caçadores. Aprimorar e persistir . em qualquer tentativa intelectual responsável. Nas regiões mais gélidas desaparecia a possibilidade de se realizarem coletas da biodiversidade vegetal. no entremeio dos espaços glaciados em expansão. aprendendo intuitivamente a se defender do frio.sujeitos a uma tenebrosa migração forçada e desumana . de raízes mongolóides. na história populacional do Brasil.para o norte e para o sul . Isso não implica dizer que na transposição do paleoespaço de Beringhe todos os homens seguiram sempre atrás da caça para leste. A região de Beringhe tornou-se uma larga e maciça ponte de gelo (glacial landbridge) que escondia os estreitos e mares adjacentes.na tarefa de socializar informes essenciais . da flora e dos rios e riozinhos foram obrigados a se adaptar gradualmente a diversos sistemas ecológicos. pequenos grupos de homens . que alguns pequenos grupos acabaram passando da Ásia para as terras hoje correspondentes ao Alasca e ao Canadá. Mas é quase certo que pequenos agrupamentos de homens permaneceram nos espaços colinosos. não mais pôde haver dúvida sobre a procedência asiática dos mais remotos grupos humanos que chegaram à América. inconscientes de seu destino. Pablo Martinez Del Rio. sofridas por grupos de caçadores coletores pré-históricos da Ásia do Leste. porém. Tanto na Europa quanto na Ásia alguns grupos humanosficaramencurralados entre altas montanhas glaciadas e planuras nórdicas. cobrindo setores de mares subpolares. enquanto as massas de gelo estocadas nos pólos e altas montanhas ampliavam-se no espaço. Para entender as possíveis rotas e tempos da passagem . Não tem sido fácil divulgar para todos os homens a crônica e as etapas dos conhecimentos acumulados sobre sua própria espécie. Na cultura primária e intuitiva do homo sapiens. em alguns momentos críticos da história climática quaternária do planeta. Quando se fixou. E a pré-história humana não pode ser excluída dessa recuperação de trajetórias. recobertas por glaciações ditas continentais. muitos grupos migraram para áreas mais quentes.

000 anos A. Embarcações. ou pelo atropelo.conhecido genericamente por WürmWisconsin sofreu um detalhamento maior que conduziu os especialistas a subdividirem o aludido período em quatro estádios: Würm IV (de 22. em busca de outros recursos naturais. pode-se pensar até mais longe. através de montanhas e depressões intermontanas de três alinhamentos cordilheiranos. além das montanhas ocidentais da América do Norte. na direção do Sul. os primeiros homens que saíram das regiões glaciadas do noroeste americano através de adaptações sucessivas . nessas duas ou mais épocas de paleoespaços glaciados. também. Entretanto. as florestas estavam em recuo e climas mais secos tendiam a penetrar por imensas e alongadas depressões interplanálticas do grande planalto brasileiro. Fato particularmente verdadeiro em relação aos homens que se acantonaram nas raras e disputadas cavernas de distritos cársticos brasileiros (São Raimundo Nonato.500 anos A.34 Aziz Nodb Ab'Sóber Incursões ò pré-história do Américo tropical 35 (Beringhe). para efeitos de cotejo com os sítios pré-históricos de datações obtidas pela técnica C14. entre 6. Trajetórias entrelaçadas. climaticamente desarranjado pelas implicações das glaciações quaternárias. ao fim do último período glacial.000 e 5. eventualmente sedentarizáveis em grutas. o período glacial do pleistoceno superior . de sucessivos redutos florestais. Cumpre notar. os amedrontava.000 a 13. instintivamente..parece ter se iniciado. Componentes da fauna pleistocênica da Eurásia não teriam passado para o continente americano se não existissem essas presumidas pontes de gelo.* Um momento em que o nível do mar que tinha estado a -100 metros. dotados de uma certa fixidez locacional. predominantemente nômades e muito belicosos. atingir espaços intertropicais das terras brasileiras. na faixa atual de fronteiras do Canadá e Estados Unidos.000 A. haveriam de construir os cenários dos grandes lagos regionais. até chegar ao território atual da Colômbia e Venezuela. ou amadurecido. não fossem as manadas faunísticas em migração pelas terras baixas da Eurásia.000 * Antes do presente. numa proteção relativa. os quais alcançaram o seu máximo por ocasião do atimum climático. lapas ou beira de pequenos lagos.P. Grutas e lapas atenuavam periculosidades. Nesse sentido. durante as horas de sono. E somente a partir do México tiveram a oportunidade de encontrar e se aproveitar dos recursos naturais biodiversos. A diferenciação de línguas e culturas . que na época dessa miúda e extensa trajetória. forte glaciação de altitude. por vários flancos. A noite. . Mas é possível que tenha havido condições para migrações oeste-leste.000 a 26. Lutas pela conquista de espaços ecológicos mais favoráveis. Würm II (de 62. que animais mortos pela fadiga. após a transposição do espaço Beringhe . Aquelas mesmas que. Nos últimos anos. existem apenas duas a três correlações possíveis. em escala sub-regional. Há que considerar ainda que. porém. limitação de espaços costeiros.encontraram "ilhas" de umidade no entremeio de terras ressequidas. eram ofertas naturais complementares para os silentes habitantes das terras do frio. Não se sabe nada de quando teriam inventado ou recriado a importante arte de fazer fogo. Parece ter acontecido de tudo um pouco na trajetória que conduziu os grupos pré-históricos para o sudoeste dos Estados Unidos.perambulando pelas diferentes regiões do oeste americano . no pleistoceno terminal. e. por meio de impensadas descobertas.P. A trajetória dos homens pré-históricos. porém sucessivamente mais cálidas.).tomados apenas como referência . em um ou mais tempos. nem falar. Eram pequenos grupos de caçadores-coletores. deve ter sido muito complexa. durante as fases de sedentarização relativa de alguns grupos. No que diz respeito à idade das glaciações quaternárias. e. ocorriam fortes atividades de pulsação das línguas das geleiras norte-orientais. Conflitos intertribais arcaicos.). finalmente. à Colômbia e ao vasto continente tropical sul-americano. muito cedo descobriram o valor das cavernas como lugar de moradia. Fato que provavelmente aconteceu ao sabor dos processos de (re)tropicalização do espaço total. porque inexistiambiotas vegetais regionais próximas para qualquer fornecimento de madeiras. Descendo por entre montanhas geladas e altiplanos ressequidos. e depois ao México. arredores de Lagoa Santa. E. Ou desde quando adquiriram o hábito cultural do sepultamento. Tudo complicando as projeções dos homens para o Sul. Ao atingir o sudoeste dos Estados Unidos e o México . sudoeste de Goiás). de faunas e de homens. Além do que a existência do frio e do gelo ofertava um excelente ambiente de conservação das carnes obtidas nas caçadas mais rendosas. elevou-se até 3 metros acima de seu nível de hoje. ou seja.P.derivadas de condicionantes ecológicas regionais . E. nas margens de uma Amazônia contraída e biogeograficamente fragmentada. os caçadores adaptados aos climas gélidos jamais teriam uma fonte tão rica para sua alimentação. dominado por águas frias. nível do mar mais baixo. Würm III (de 40. ou por outros animais. à América Central.atingiram a América Central. mais tarde.

descobriram-se alguns sinais da presença humana mais antiga na região. já se haviam diferenciado os três macroestoques raciais da face da Terra: negróides da África. É certo que. Würm III e Würm II. grupos humanos arcaicos já haviam estado na Austrália. de 22. pode-se chegar à conclusão de que o período principal das transposições foi Würm TV (de 22.muito bem conduzidas pelo grupo de Niede e sua equipe. caucasóides da Europa. no caso. porém. que pode introduzir modificações radicais nesse raciocínio.000 a 70. para a passagem Austrália e Nova Zelândia.000 até 120. Em busca de uma precisão relativa para se atingir uma idéia mais lógica sobre o tempo principal . que remontariam a 43.em termos médios e aproximados. . onde caçadores não teriam chance de navegar de um continente para outro. em Würm IV. No nordeste da Ásia. porém. por Niede Guidon e sua equipe.. Gottweig e Brorup Amersfort. O conhecimento sobre as profundidades de tempo do período quaternário . Nosso problema.000 a 13. grosso modo. provavelmente.em geral de mais curta duração do que os tempos glaciados . em Riss. surgiram datações sobre a presença de homens pré-históricos na região de São Raimundo Nonato. Ninguém sabe ao certo em que estádio ou interestádio os primeiros grupos de homo sapiens passaram do nordeste eurasiático para as Américas.época essencial para a história evolutiva da espécie humana . Muito antes. que abrange sobretudo Würm IV. com a gradual formação de uma gigantesca ponte de gelo (glacial landbridgé). Trata-se de um espaço de tempo duas vezes maior. ou pouco mais. teria passado para o Alasca apenas em Würm IV. grupos humanos de caçadores atingiram o extremo nordeste da Ásia. que existe no mínimo há 80. Há que considerar sempre que "pontes de gelo" na região de Beringhe existiram em outros estádios de Würm . ou em outros subperíodos "würmianos".e. que fazem recuar bastante a época das primeiras migrações de grupos humanos para as Américas. o rebaixamento do nível do mar .P. durante e entre os estádios glaciares do pleistoceno superior (WürmWisconsin). Estavam nesse pé as tendências para a aceitação científica da época de passagem e chegada de grupos mongolóides para a América do Norte e o continente australiano.000 A.36 AazNadbAb'Sáber Incursões o pré-história do Américo tropical 37 a 46. conhecendo-se os intervalos de tempo do período glaciário de Würm-Wisconsin superior.000 anos A.P. no momento em que se processaram grandes migrações de pequenos grupos humanos ao longo da fachada pacífica da Ásia e Oceania. pois os mongolóides com .designados respectivamente por Pardorf. Todos os subperíodos de Würm sendo separados por interestádios cálidos . porém. Até hoje.ou os possíveis tempos .000 A.000 A. Um importante fato complicador. segundo diversos autores. No entanto. da Eurásia Oriental para a América do Norte. assim como a idade relativa máxima de homo sapiens e sua possível diferenciação na categoria macroestoque racial.abaixo do interglaciário Eemein .).).000 anos A.P. quando surgiu um informe complicador. De 2. a tendência entre diversos cientistas reside em considerar a "passagem" ou a "chegada" do homem pré-histórico nas Américas como sendo. Doutra banda.000 até 13. no máximo desde 100.P.000 anos antes do presente. ou seja. Fato que não autoriza ninguém a pensar em nenhuma autoctonia. composta de brasileiros e franceses .é imprescindível para qualquer discussão séria sobre a chegada do homo sapiens das Américas.000 anos A.possibilitou outro quadro de trânsito préhistórico. a partir de uma indefinida área de difusão migratória.P. Würm I (85. O homo sapiens atingiu a Austrália e a Nova Zelândia através de espaços emersos criados pela emendação das ilhas dos chamados arcos insulares regionais. Gunz e Bibed.das migrações humanas oeste-leste. está ligado às datações e pesquisas de Niede Guidon.000 a 80.P. Por meio de pesquisas arqueológicas pré-históricas .em Würm IV . O homo sapiens.200. o homo sapiens moderno passou a existir desde Eemein. Ou seja. Na realidade grupos humanos mongolóides caminharam para o sul-sudeste e para o norte-nordeste. Teria sido assim no paleoespaço de Beringhe. Mendel. relacionado às datações de alguns componentes do jazigo pré-histórico de São Raimundo Nonato (Piauí). no sul do Piauí. Inesperadamente. como também na extremidade sul. no momento em que o nível dos mares desceu a pouco mais de uma centena de metros. através de arcos insulares exondados.ocorreram quatro macroperíodos glaciais: Riss. Nesse conjunto todo de interestádios ou intergracionários. existe a necessidade de conhecer melhor os quatro estádios glaciais do período WürmWisconsin superior. por caminhos e ambientes muito mais difíceis.P.) . que ali existiu durante milhares de anos (Würm IV). e os mongolóides da Ásia. ali chegando pela eventual coalescência dos "arcos insulares" regionais.000 A. do que as datações feitas em jazigos da América do Norte e porção ocidental da América do Sul. fica restrito ao tempo pré-histórico do homo sapiens. cruzando uma larga e maciça ponte de gelo.

atingindo o seu máximo de altura durante o otimum climático. A transgressão responsável por tais processos dependeu da liberação de águas que estavam retidas nas geleiras dos pólos e altas montanhas. atomizava a umidade provinda do Atlântico. constituem evidências concretas de que os seus habitantes mais antigos já sabiam fazer e manejar o fogo. Os sinais de fogueiras.geologicamente falando . . Tudo. para 25. dependentes de pequenos recuos e avanços dos mares tropicais. ou em margens de baías oriundas de ingressões marinhas. Entretanto. em relação ao nível de hoje.P.P. já que os mares em recuo. o nível do mar recuou pela plataforma continental adentro. as massas de areias dispostas em largas rampas pela regressão marinha em processo criavam um ambiente hostil e temporariamente não ecumênico. Uma afirmação que tem apenas o valor de um lembrete. Se os blocos de pedras. ou quase tudo.000 anos A. ao longo da rampa exondada da plataforma continental. descendentes de remotos caçadores. representadas pelos "cinzeiros" basais. relacionadas com o otimum climático (de 6. restingas. aumentavam substancialmente ariquezae a diversidade da biota aquática salobra. ao inverso. "cinzeiros" na linguagem dos arqueólogos são cinzas de ancestrais fogueiras. Um fato paradoxal. em uma fase flutuante posterior ao máximo alcançado no aludido otimum.. existe garantia total que alguns grupos ocuparam preferencialmente setores da costa em áreas dotadas de lagunas. por vagas e vagas de pequenos grupos humanos que encontraram sua moradia natural em cavernas e seu entorno.500 a 5. Já ficou explicado que passando porflutuantesmantos de gelo. mais antiga do que a época dos sambaquis?". completamente à margem dos litorais. Entretanto. do que resultava uma grande impossibilidade de ocupação por parte de grupos humanos.000 e 12. com maior grau de certeza. tradicional e ancestralmente vinculados à caça e à coleta.P. foram detectados "cinzeiros" e blocos de pedras que fizeram remontar a idade dos sítios habitados por humanos para 43.500 anos A. existentes no chão das lapas de São Raimundo.38 Aziz Nodb Ab'Sáber Incursões à pré-história da América tropical 39 certeza vieram da Ásia. seria mais verossímil no cenário dos velhos abrigos naturais dos mais antigos povoadores da região. Freqüentemente se pergunta "por que inexistem docu- mentos da presença ameríndia no litoral brasileiro. Em São Raimundo Nonato foram detectados registros concretos da presença humana através de ossadas de aproximadamente 10. forem alóctones em relação às paredes. não teria sido fácil deixar sinais marcantes de sua arcaica diáspora. As datações podem ocasionar controvérsias mas o significado arqueológico permanece com muita lógica. De forma que. em sua maioria.000 anos A. determinando semiaridez costeira e faixas semi-áridas em compartimentos de relevo interiores.000 anos A.P Ao ensejo dessa tão importante regressão . sob o impacto da corrente fria em avanço sul-norte.000 anos A. Uma das questões em aberto da pré-história dos grupos humanos mais antigos aqui chegados reside na inexistência de registros de uma ancestral caminhada pela faixa costeira do Brasil atlântico. estuários ou lagamares. encontrados nas proximidades dos "cinzeiros". No estado atual das pesquisas. os pequenos grupos humanos chegados à América Tropical passaram a exercer atividades híbridas de coletores. para arcaicos churrasqueamentos de produtos da caça.P. em grupos de caçadores-coletores.000 anos A. quando o mar tornou a subir no holoceno. Tudo indica que o recuo foi lento a princípio e bastante rápido . as praias preexistentes recuaram por dezenas de quilômetros. As datações mais antigas têm sido encontradas em sítios de notável continentalidade. aconteceu. O mar desceu e as correntes marítimas frias subiram até níveis de latitude mais baixos. até menos de 100 ou 110 metros. caçadores e eventualmente pescadores. ficaram sem respostas. Ou. tetos e emboques das lapas. mas que na realidade revela um certo conformismo com as questões enigmáticas. abaixo dos achados mais diretos. até chegar ao nível aproximadamente de 3 metros acima de seu nível atual. Além da semi-aridez da retroterra. Existem razões para se pensar que o processo transgressivo inicial foi relativamente lento. Desses fatos decorreram algumas indagações que. Para quem não saiba. Nesse contexto a secura da faixa costeira tornou-se marcante devido à atomização da umidade forçada pela presença de uma vigorosa corrente das águas frias (páleoMalvinas/Falkland). A maior parte das restingas e lagunas da costa brasileira teve sua origem ou definição. Um questionamento que às vezes se desdobra em sutis afirmações: "não existem registros concretos da presença de homens préhistóricos na região costeira porque os únicos registros arqueológicos devem estar abaixo das atuais águas costeiras!".entre 15.000 e 13.P. os diversos achados de São Raimundo Nonato representam o encontro de sítios de sedentarização. na condição de caçadores nômades. Somente entre 6. Em termos de interdisciplinaridade tem grande importância para a préhistória brasileira saber que.000 e 3.de tipo glácio-eustático .000 anos A. ou mais. entre 23. quando a retomada da tropicalidade foi mais radical.P).

e retrair caatingas para o contexto do atual Nordeste Seco. assim. O aparecimento de sedimentos aluviais argilosos nas planícies de inundação. Vale dizer que assim se constituiu o grupo humano responsável pela construção dos sambaquis: os chamados "homens dos sambaquis". Um fato que significava uma diversificação de ofertas da natureza rústica. Ao que se somaram o aumento progressivo e irregular do nível do mar. A massa fantástica de areias geradas durante a regressão pré-flandiana (ou. Era uma época em que os pequenos grupos humanos dependiam da caça nas caatingas arbóreas e trechos de cerrados existentes nos rebordos de chapadas e chapadões. Ou. a formação de solos aluviais argilosos em sedimentos transportados por rios triturados por massas de argilas em suspensão. os arqueólogos e pré-historiadores . porque a maior parte da drenagem era ainda intermitente sazonária. relacionada com a presença de formações abertas em compartimento de relevo extremamente favoráveis a deslocamentos extensivos e progressivos. tal como hoje no Nordeste Seco.40 AzJzNadbAb'Sáber Incursões ò pré-história da América tropical 41 O litoral sul de São Paulo. dispostos em mosaico. sujeitos à ampliação da semi-aridez. e grotasflorestadasde mananciais. que fez emendarflorestasna fachada atlântica e na Amazônia.bem caracterizadas pelos arqueólogos brasileiros . reduzir cerrados aos chapadões e altiplanos do Brasil Central.P. cerrados e eventuais redutos florestais. durante os últimos milênios do holoceno. Não existiam aproximações freqüentes em relação à beira-rio. No conjunto dessas tarefas para busca de sítios ecológicos . por imensos tratos do território. Em muitas áreas. ou entre serranias e chapadões interiores. para complementação de alimentos. descoberta da cerâmica.P.P. favoreceu uma preferência por sítios beiradeiros. Era uma escolha preferencial. transformando-se em pescadores-caçadores e criando uma nova cultura de marcante vinculação ecológica.000 e 12. -. é o setor da costa brasileira que melhor documenta o feixe alternado de restingas elaborado ao sabor dos pequenos avanços e recuos do nível geral terminal dos oceanos. no domínio ampliado das caatingas. Foi nesse momento. ainda. traduzidas pela coalescência dos redutos florestais. grutas e lapas. mas vasculhavam com freqüência os rebordos úmidos de chapadas e serras. Durante a máxima acentuação da semi-aridez na América Tropical acontecida entre 15.000 anos A. . o retorno da tropicalidade após 12. ressalvado o caso do Nordeste Seco. os grupos humanos mongolóides da Ásia até a América do Norte e Central entraram pelo território brasileiro adentro utilizando os amplos corredores e depressões colinosas.através de duras pesquisas de campo conseguiram recuperar parte dos segredos de jazigos fragmentários. O fato de muitas lapas e cavernas estarem localizadas nos sopés de chapadas de calcários e arenitos tornava possível o encontro de dois ou três ecossistemas dotados de recursos naturais diferentes: caatingas e agrestes. correspondiam ao eixo maior das depressões interplanálticas existentes entre chapadas descontínuas.000 e 9. assim como a perenização da drenagem. No que tange aos vastíssimos espaços da hinterlândia brasileira. e em tais circunstâncias fisiográficas e ecológicas. propiciadoras de sedentarização. designado corretamente de região lagunarestuarina de Cananéia-Iguape. Na verdade. E.000 anos A. onde ocorriam desvãos de blocos rochosos residuais superpostos. Sobre eles existem numerosas informações em nossa rica bibliografia pré-histórica. encarceradores de lagunas piscosas. acabaram por descobrir e utilizar subáreas espaçadas de cavernas.700 anos A.para sobrevivência .. Tudo induz à crença de que grupos humanos de culturas pré-históricas diferentes .utilizaram lapas e cavernas até aproximadamente a grande diáspora dos povos de línguas guaranis ou até as mudanças climáticas e ecológicas processadas no território pela (re)tropicalização plena. ocorriam tratos de chão pedregosos e lajedos rasos. Acrescidos de abrigos em lajedos. a decomposição de rochas e argilização. que antigos grupos de caçadores-coletores encontraram condições para viver mais próximos do mar. entre nós. Os "corredores" de terras baixas (lowlands). a par com o importante acontecimento relacionado com a presença de moradias naturais. desvendar complexos de culturas regionais dos ameríndios que se fixaram em diversos sítios e áreas de influência pretéritas. então existentes. précananeense) foi o capital básico de sedimentos (re)aproveitados para gerar os sucessivos terraços de construção marinha. ocasionou mudanças ecológicas marcantes. Tem-se a impressão de que os pequenos grupos de caçadores-coletores preferiam obrigatoriamente os corredores de formações abertas. É importante assinalar que (à exceção do caso anômalo e controverso de São Raimundo Nonato) a ocupação das escassas cavernas processou-se entre 20. de atividades de coleta e caça nas florestas biodiversas dos redutos de flora eventualmente ocorrentes. e um importante acréscimo de ofertas da natureza pela piscosidade dos rios que ficaram em franca e extensiva perenização. As pesquisas arqueológicas na pilha de sedimentos antropogênicos do chão das lapas e cavernas revelam diferentes vagas de ocupação que se estenderam por milhares de anos a partir das descobertas iniciais.

vol. 1994-1995. C. Recensão. Do que resultou uma trágica eliminação étnica. Nova York. Aziz Nacib. Soe. "Espaços ocupados pela expansão dos climas secos na América do Sul por ocasião dos períodos glaciais quaternários". . CAILLEUX. Betty L. Desalojando. vol.USP.D. Jean. 1984. 1. 4. 1984. 1621-42. 111-23. 2. UFPE. 8. 1992. Annette. Gabriela. São Paulo: IGEOG-USP. Prous. André. 1977. pp.PaleoecologyofBeringia. E chegaram até a Amazônia. 80-95. 296. Science de Ia Terre. Museu Goeldi. Rio de Janeiro: Paz e Terra. MARTIN. F. Roosevelt. na pré-história brasileira.Recife: UFPE.42 Aziz Nadb Ab'Sáber Incursões à pré-história da América tropical 43 Os povos de língua tupi-guarani que vasculharam e fizeram migrações sucessivas e progressivas por milhões de quilômetros quadrados do território tropical e subtropical da América do Sul caracterizam-se por forte adaptabilidade aos domínios de florestas. da Univ.Arqueologia. existem excelentes bibliografias sobre a arqueologia e a préhistória do Brasü. pp. Revista de Arqueologia. n. GUTDON. l. A. "Relações biológicas entre populações indígenas atuais e préhistóricas do Brasil".envolvendo índios e negros. Clio . 119-74. B. complicada e desumana letalidade. n.612. XReunião da SAB-Resumos. Reflexões sobre o povoamento da América Dédalo. os homens dos sambaquis fixados em beira de restingas. André. et alii. das Letras.1956. "Redutos florestais. Acta Anthropogenética. 223-34. 12. Idem na série derevistasda SAB. vol. Os antigos habitantes da área arqueológica de Lagoa Santa (MG). vol. . em CARNEIRO DA CUNHA. EMPERATRE.). p. Pedro Ignacio. Martin. M. Marflia C. IPH . Pré-história do Nordeste do Brasil Recife: Ed. [Réplica a observações consideradas inverídicas em trabalho crítico de André Prous. 1996. forjadores de um povo diversificado e maravilhoso. ao uso dos rios. América pré-histórica. F. R. 5-165. 8. 1992. 59-79. 9-16. 1. 7-41. São Paulo. "L'ere Quaternaire". 2. Journ. pp. procedentes da Europa Ocidental. 1977. Arma Curtenius. . Museu Nacional. Paleoclimas n. pp. adaptados a viver da pesca e coleta de "frutos do mar". 1997. de Ia Soe. MEGGERS. de Mello e. ScfflMnz. n. Revista Veja.pp. 11. Foi nesse contexto de ocupação. ROOSEVELT. São Paulo: Abril. 1979. toda a faixa litorânea frontal do país. Clio/Anais do1Simpósio de Pré-História Brasileira. São Paulo: Cia. Dominados por latifundiários. LAMING-EMFERAIRE. Um contato que redundou em vasta. Schmitz. "Missions archéologiques tranco-brésiliennes en Lagoa Santa.] Clio . PROUS. 248. finalmente. Daniel Hessel. Minas Gerais. A primeira brasileira. n. 3. Paris: Focus Intern. SALZANO. Expulsando e sobrepondo-se belicosamente aos viventes dos sistemas lagunares estuarinos. P. 1984. 17-18. pp. vol. 1996. I. de Biogéographie. Eight Millenium Pottery from a Prehistoria Shell Midden in Brazilian Amazônia Science. Arqueologia brasileira Brasília: Ed. 254. os tupis incorporaram pela primeira vez. "Zones phytogéographiques et morphoclimatiques au Quaternaire au Brésil". Meggers. & LAMTNG. pp. vol. Manuela. a par com uma miscigenação gradual . da Cunha. Salzano. 53-68. pp. pp.] . 153-62. alheio às desigualdades sociais e aos atributos eternos da ciência e da cultura. HopaNS. bastante generalizada dos povos de língua tupi-guarani. Somm. & TRICART. J. Les sambaquis de Ia cote méridionale du Brésil (Campagne de fouilles 1954-1956. S. comandados por elites insensíveis e uma tecnoburocracia incompetente e pouco criativa.25 ago. 1957. Ainda que por alguns séculos o país tenha vivido uma plena protohistória. 53-89. n. 1991. A. 1992. 6. de Brasília. Paris. Arquivos do Museu de História Natural. TEICH. pp. "Povoamento da América indígena: questões controversas".etalii. pp. pp. 1999. Universidade Sinos. "Arqueologia amazônica". n. permanentemente pressionado pela insensibilidade do invasor. Francisco M. M. que os colonizadores caucasóides. Recife: UFPE. O pleistoceno no sudeste do Piauí. ALVIM. Recife. Por um capitalismo hipócrita e uma nefasta pseudoglobalização. São Leopoldo: Instituto Anchietano de Pesquisas. [Nos trabalhos de G.Brésü:LegnmdabrideI-apaVerme^^ 1979. História dos índios no Brasil. 1999. -Bordas. Amers. tendo por preferência barras de rios e riachos encostadas em morrotes ou maciços costeiros florestados. refúgios de fauna e refúgios de homens". Universitária da UFPE. Alvim e M. . "The peopling of the Américas as viewed from South America". incluindo moradias e tabas construídas em pontos de diques marginais e sítios de baixos terraços. Recife: UFPE.Arqueologia. 691-730. 1990. Recife: UFPE. 1. A. n. Niède. M. 23. São Paulo: SAB.Instituto de Pré-História .Arqueologia.No\ãYoik: Academic Press. C. Bibliografia selecionada AB' SABER. entraram em contato com os povos indígenas de origem mongolóide. "Assentamentos no Pantanal do Mato Grosso do Sul". pp. pp.M. Belo Horizonte. & SOUZA. n. n. vol. Clio . Caçadores e coletores da pré-história do Brasü. 1982. . 45. 1969.

m U A gênese do Brasil - Jorge Couto .

em abril de 1500. de uma terra firme habitada por gentes desconhecidas. A forma de integrar a possessão sul-americana no contexto do Império Português levou à adoção dos sistemas de arrendamento e. O surto de expansão quatrocentista e quinhentista lusitano contribuiu decisivamente para o estabelecimento de ligações marítimas e comerciais entre todos os continentes. posteriormente. designadamente nos campos da geografia. João III a desencadear o processo A. as questões suscitadas pelo encontro de gentes tão diferentes das então conhecidas. bem como para o surgimento de profundas mutações de natureza cultural. A arribada dos portugueses provocou. seguindo-se. assim. aos mais diversos níveis. ocuparam progressivamente o vasto espaço sul-americano. daí resultando. botânica e zoologia. desenvolveram um modelo de aproveitamento do ecossistema. os ameríndios. a modificação da concepção européia do mundo. notícias sobre o "adiamento". primitivos habitantes do território que. inserindo-se no contexto das opções estratégicas globais definidas pela corte de Lisboa nas três primeiras décadas de Quinhentos. construíram uma civilização original e combateram ferozmente pela conquista dos nichos ecológicos mais favoráveis. Ilha ou terra firme? Eis a primeira interrogação que o "adiamento" colocou aos homens da esquadra de Cabral. na região ocidental do Atlântico Sul. ocorridas entre 1529 e 1548. subseqüentemente. posteriormente. induziram o governo de d. viria a ser designado por Brasil. de "capitanias de mar e terra". o "descobrimento sociológico do Brasil". na feliz expressão do historiador Capistrano de Abreu. avultando. em outros Estados europeus. entre os mais relevantes. de imediato. .longo de milênios. divulgaram-se em Portugal e. As significativas alterações geopolíticas e econômicas. profundas repercussões na América do Sul. A partir dos contatos estabelecidos pelos homens da esquadra de Cabral com a terra e a gente brasílicas.

lugar-tenente. os membros da tripulação encontraram alguns sinais de terra: "muita quantidade d'ervas compridas a que os marcantes chamam botelho e assim outras. Aires Gomes da Silva. Diogo Dias. o capitão-mor alterou deliberadamente o rumo para oeste em busca de terra. os navios mais ligeiros (caravelas). do aumento demográfico. A 22 de abril toparam. Entre os dias 29 e 30. Ilha ou terra firme? A 9 de março de 1500 zarpou de Lisboa a segunda armada da índia. Ultrapassada a linha equinocial. ao longo desse período. para entabular relações com os indígenas que se encontravam na praia. Nicolau Coelho. primeiramente d'um grande monte. rumando muito provavelmente para sudoeste.500 homens. a gente de guerra. Foi.que levou dez dias a transpor . "com aves.que sopra francamente de leste . de acordo com as recomendações de Vasco da Gama. tendo. 21. ou seja. Luís Pires. Na terça-feira. constituída por 13 velas (nove naus. ancoraram a cerca de meia légua (milha e meia) da foz do posteriormente denominado rio do Frade. Por volta do dia 18. incluindo a tripulação. devido ao regime de ventos que ocorre na região. A 14 desse mês.consubstanciado na fórmula de Ilha Brasil . então. Gaspar de Lemos. passando a frota a cerca de 210 milhas a ocidente do arquipélago de Fernando de Noronha. ao qual monte alto o capitão pôs nome o Monte Pascoal e à terra a Terra de Vera Cruz". ou seja. pelo que a esquadra terá passado a navegar a um rumo próximo do sudoeste. Tendo o Brasil resultado de um processo de construção empreendido pelos portugueses em cooperação ou conflito com outros grupos étnicos. segundo o testemunho do célebre escrivão cabralino. tendo o capitão-mor optado por não se deter nessas ilhas para efetuar a aguada prevista nas instruções. oito religiosos franciscanos.que deram origem a uma criação profundamente original e distinta de cada uma das suas componentes. então. A tenaz luta travada pelos portugueses para garantir a soberania sobre a fachada leste do continente sul-americano influenciou a formulação do projeto . área em que o vento se aproxima bastante de leste. fechando sempre sobre a costa.200 e 1. a armada passou ao largo do arquipélago das Canárias e a 22 alcançou as ilhas de Cabo Verde. os agentes comerciais e escrivães. Bartolomeu Dias. a esquadra encontrar-se-ia a 5 o N. a volta pelo largo em busca do alísio de sudeste. a frota encontrou vento escasso. nessa latitude (cerca de 17° S). No dia imediato (quinta-feira. o cosmógrafo mestre João. iniciando a penetração na zona das calmarias equatoriais . um vigário e oito sacerdotes seculares. Os visíveis progressos alcançados em finais de Quinhentos nos domínios do controle do litoral. J .de construir uma América Portuguesa do Amazonas ao Prata. 1. Sancho de Tovar (que comandava a nau El-Rei. experimentado sucessivamente três modelos institucionais distintos que levaram à elevação da Terra do Brasil à dignidade de Província de Santa Cruz. e d'outras serras mais baixas a sul dele e de terra chã com grandes arvoredos. os indianos que tinham sido levados para Lisboa por Vasco da Gama e alguns degredados. A I o 1/4 a norte do equador. seguidos pelos de maior tonelagem (naus).48 Jorge Couto A gênese do Brasil 49 de colonização do Brasil. procedendo cautelosamente a operações de sondagem. do crescimento dos espaços urbanos. do incremento das atividades econômicas e da expansão do catolicismo levaram muitos a considerar a promissora província sul-americana uma Nova Lusitânia ou um Outro Portugal. a que também chamam rabo d'asno". a horas de véspera [entre as 15 horas e o sol-posto]" tiveram "vista de terra. Nuno Leitão da Cunha. Simão de Miranda de Azevedo. a rota terá sido corrigida para sul-sudoeste. a armada fundeou a cerca de 6 léguas (19 milhas) da costa. A esquadra transportava entre 1. 23 de abril). ameríndios e africanos.. Vasco de Ataíde. o feitor. por volta de 10 de abril. Simão de Pina e Pero de Ataíde. os intérpretes.. a que chamam furabuchos [. a armada encontrar-se-ia na altura da baía de Todos os Santos (13° S). três caravelas e uma naveta de mantimentos) capitaneadas por Pedro Álvares Cabral. mui alto e redondo. isto é. iniciando. comandado por Nicolau Coelho. Apesar de. tendo a corrente equatorial sul afastado a sua rota cerca de noventa milhas para oeste. da ampliação da área cultivada. destacam-se os aspectos relacionados com os intercâmbios civilizacionais euro-afro-americanos — da lingüística à zoologia e da gastronomia às epidemias .para atingir mais rapidamente o seu objetivo prioritário que era o de alcançar a monção do Índico. tendo por missão substituir o capitão-mor em caso de impedimento deste). decidido enviar um batei a terra. pela manhã. estando investido no cargo de sota-capitão. Após esse adiamento.] e. dispor de vento favorável . favorecendo a busca de terra..

miúdas [. uma forte ventania de "sudeste. respectivamente. optando-se apenas por deixar dois degredados com a missão de aprender a língua e recolher informações. com uma copazinha pequena de penas vermelhas e pardas. os dois nativos aprisionados na véspera e de desembarcar o degredado Afonso Ribeiro. por terem atingido o local pouco antes do pôr-do-sol. Depois de percorrerem cerca de 10 léguas (quase 32 milhas). compelindo-o a regressar à armada. comparar os cálculos das léguas percorridas e estimar a distância a que se encontravam do cabo . Terminada a reunião. dia de Pascoela. à prossecução das tentativas para obter mais informações sobre os habitantes da terra e à criação de um clima de cordialidade com os tupiniquins. num improvisado púlpito. tendo-os deposto a pedido dos seus companheiros que se encontravam nos batéis.] e um ramal [colar] grande de continhas brancas. autorizando a tripulação a folgar. levou a que os capitães e os pilotos decidissem aproar a norte. as embarcações de maior tonelagem penetraram na baía. no qual participaram portugueses e ameríndios. ao amanhecer.. aproveitaram a permanência em terra para armar na praia o grande astrolábio de pau mais confiável do que os pequenos astrolábios de latão utilizados a bordo com o objetivo de tomar a altura do sol ao meio-dia. piloto do capitão-mor. Nos dias imediatos procedeu-se à transferência da carga da naveta de mantimentos para as outras 11 embarcações. A partir de então começaram progressivamente a estabelecer-se relações cordiais entre os marinheiros lusos e os tupiniquins traduzidas em trocas de objetos (carapuças. No mesmo dia. tendo as naus fundeado a cerca de uma légua do recife. alguns dos quais foram convidados a tomar refeições e a pernoitar nas naus. manilhas e guizos por arcos. que fez caçar [afastar do local onde estavam fundeadas] as naus. conduzindo-os à nau-capitânia com o objetivo de os interrogar.. o comandante reuniu em conselho na nau-capitânia todos os capitães da esquadra que concordaram com a sua proposta no sentido de mandar ao rei o navio auxiliar com a "nova do achamento" da Terra de Vera Cruz e. à conclusão do aprovisionamento de água e lenha. Na tarde do mesmo dia.]". em busca de um ancoradouro abrigado. onde os nativos só tinham possibilidades de chegar a nado ou em canoa. Na praia encontravam-se perto de duzentos homens armados com arcos e flechas. sendo Nicolau Coelho e Bartolomeu Dias incumbidos pelo capitão-mor de devolver à liberdade. guardião dos franciscanos. compridas. com a missão de a explorar mais detalhadamente na viagem de regresso. Concluídas as tarefas de marinharia. com chuvaceiros. No sábado.50 Jorge Couto A gênese do Brasil 51 Os primeiros contatos entre os tripulantes da pequena embarcação e o grupo de 18 a 20 ameríndios foram dificultados pelo barulho ensurdecedor provocado pela rebentação que impediu tentativas mais prolongadas de entendimento. por exemplo. tendo. No domingo. capturado dois mancebos índios que se encontravam numa almadia. Afonso Lopes. Na noite de quinta para sexta-feira. Essa decisão foi tomada por Cabral como medida de segurança para evitar quaisquer hipóteses de ataques de surpresa de que. Afonso Lopes e Pero Escobar. O cosmógrafo. como de papagaio [. com uma mui larga entrada". com presentes. onde pudessem verificar o estado de abastecimento da frota em água e lenha. ao som de gaita. que. à qual assistiram a tripulação e cerca de duzentos tupiniquins que se encontravam na praia fronteiriça. sondou o porto. no ilhéu da Coroa Vermelha. com o objetivo de dispensar a aguada na costa da África. encontraram "um arrecife [a Coroa Vermelha] com um porto dentro. uma carapuça de linho e um sombreiro preto por "um sombreiro de penas d'aves. muito bom e muito seguro [a baía Cabrália]. ainda houve oportunidade para trocar um barrete vermelho. circunstância que foi aproveitada por Diogo Dias para organizar um baile. reuniram-se todos os comandantes na nau de Cabral. que tinha por missão obter informações mais detalhadas sobre os autóctones. à construção de uma grande cruz. também se encarregou da pregação. 25 de abril. os tripulantes das expedições de Dias e Gama tinham sido alvo na costa africana. Os ameríndios não permitiram que o degredado ficasse entre eles. o capitão-mor foi efetuar um reconhecimento das margens do rio Mutari. no decurso dessa operação. os pilotos ultrapassaram a barra do Buranhém. um altar destinado à celebração da missa. Contudo. uma parte da tripulação foi folgar e pescar no ilhéu. distante da praia. bem como os pilotos das naus do capitão-mor e do sota-capitão. também.. foi presidida por frei Henrique de Coimbra. aí fundeando. especialmente a capitania". onde lançaram as âncoras. Foi ainda deliberado que se não tomasse nenhum indígena para o enviar ao reino. dissertando sobre o significado da quadra pascal e do descobrimento daquela terra.. A primeira cerimônia cristã no Brasil. flechas e adornos de penas) e na colaboração prestada pelos indígenas nas operações de abastecimento de água e lenha. o capitão-mor mandou armar.

no prosseguimento da derrota rumo ao cabo da Boa Esperança.. Esta última testemunha não ficou. e foram animados pelos naturais do país que mostravam ter piedade deles". o que lhe permitiu adquirir uma visão mais próxima da realidade. deixando. do cosmógrafo e do escrivão sobre o "achamento da terra nova".. todavia. . de avistar mais uma parcela da orla marítima. até ao local selecionado.. "os quais começaram a chorar. e que de outra ilha vêm aqui almadias [. O traçado geral da faixa costeira explorada. Manuel I recebeu. da constelação austral. Na carta que enviou a d. Essa referência a uma hipotética representação cartográfica da Terra do Brasil. flechas e outros objetos fornecidos pelos tupiniquins. Na previsão de que a nova descoberta pudesse suscitar a eclosão de disputas com Castela acerca da esfera de influência em que o novo domínio se situava. a esquadra cabralina zarpou do ancoradouro brasílico. na posse de Pero Vaz da Cunha. indicando que a terra era "grande. e que eram quatro. tomando conhecimento dos sucessos protagonizados pela segunda armada da índia até 1Q de maio inclusive. O autor da vulgarmente designada Relação do piloto anônimo aborda a questão de forma mais dubitativa. em terra. Pero Vaz de Caminha considera-a uma ilha. por seu turno. efetuada a 27 de abril por aqueles três técnicos. circunscrita ao litoral reconhecido até à baía Cabrália. Gaspar de Lemos. provavelmente no decorrer de julho de 1500. comandada por Gaspar de Lemos. bem como as missivas dos capitães. não indicando se a terra era ou não habitada. inseridos no padrão cartográfico real. o comandante da expedição ordenou a partida para Lisboa da naveta de mantimentos. bem como da existência no poente de uma grandiosa terrafirmeaustral que o monarca denominou de Terra de Santa Cruz.52 Jorge Couto A gênese do Brasil 53 da Boa Esperança. Manuel data-a de "Porto Seguro. o Bisagudo. ressalva que se tratava de uma carta antiga. em que foram pregadas as armas e a divisa reais. "melhor ser vista". para conhecer a localização da nova terra. bastaria consultar o mapamúndi que se encontrava em Lisboa. onde a mesma estava desenhada. uma margem de erro inferior a 40' por excesso. A 1Q de maio. sexta-feira. os topônimos correspondentes às estremas atingidas. Terra de Santa Cruz. Terra dos Papagaios e Novo Mundo D. No entanto. arcos. ultrapassados diversos constrangimentos políticos e diplomáticos. todavia. hoje. um reconhecimento do litoral brasílico compreendido entre Porto Seguro e o cabo de São Jorge . que se inclinava para a "última opinião pelo seu tamanho". da vossa ilha da Vera Cruz. refere que "[. ou seja.numa extensão superior a 150 léguas. contudo. primeiro dia de maio de 1500".. o rei decidiu manter segredo sobre o assunto até obter informações sobre os respectivos limites. tem suscitado acesa polêmica devido às implicações decorrentes da sua interpretação apontarem ou não para a existência de precursores de Cabral naquela região brasílica. do feitor. anterior a abril de 1500. 2. o capitão-mor procedeu à escolha do sítio onde deveria ser erguida a grande cruz construída em madeira da terra. deu o resultado de 17° S. o que permitiu obter a confirmação de que se tratava de um continente. mestre João Faras. foram. A medição da latitude da baía Cabrália (que está atualmente fixada em 16° 21' S). adiantando. O bacharel mestre João. que não é visível do mar. além de recomendações de natureza náutica. por conseguinte. tendo tido oportunidade. uma vez que no encerramento da Carta a d. uma passagem em que informa o monarca dé que.] quase entendemos por acenos que esta era ilha. dois grumetes que tinham desertado nas vésperas da partida e igual número de degredados. Manuel I. comandada por Gaspar de Lemos. sextafeira. enviando ao rei papagaios.identificado com o atual cabo de Santo Agostinho . 2 de maio. efetuou. ainda.]". No sábado. A naveta de mantimentos. seguindo-se a celebração da segunda missa na Terra de Vera Cruz. procede à primeira descrição e a um esboço de representação da Cruz. O cosmógrafo e físico régio acrescenta. uma legenda alusiva ao descobrimento. Concluídas as cerimônias litúrgicas. de forma a. na viagem de retorno a Lisboa. porém não pudemos saber se era ilha ou terra firme". situado nas proximidades da foz dorioMutari. endereçando a sua missiva de "Vera Cruz no primeiro de maio de 500". na seqüência da expedição cabralina. Foi então organizada uma procissão que transportou a cruz. onde a implantaram. o rei de Portugal tomou decisões conducentes a integrar funcionalmente os domínios do Novo Mundo no contexto do Império. sendo que a do norte se encontra assinalada com uma bandeira das Quinas. No início de 1501. de acordo com o escrivão cabralino. Não são concordantes as opiniões dos autores dos três relatos sobre o descobrimento do Brasil relativamente à natureza da terra achada. tendo.

Os navios de Gonçalo Coelho zarparam de Lisboa entre 10 e 14 de maio de 1501. os dados sobre a posição geográfica da Terra de Vera Cruz. Apesar de todas essas movimentações. para além de ter vencido os reis católicos na corrida pela chegada ao Oriente (1499). "porque o rei impôs a pena de morte a quem a mandar para fora". e não faz a mínima referência ao envio da expedição de Coelho que havia partido de Lisboa em maio. pertencente à sociedade constituída entre d. por navios lusos.. O selo de secretismo com que o Venturoso rodeou os resultados náuticos da expedição de Cabral encontra-se bem patente numa missiva. iniciando aí o reconhecimento da orla marítima que se estendeu até ligeiramente ao sul de Cananéia (25° 03' S). iniciou a aproximação ao litoral brasílico por alturas do cabo de Santo Agostinho e efetuou a aguada na costa pernambucana. situandose. comandada por Nuno Leitão da Cunha. todavia. com a missão de determinar os limites da terra firme descoberta por Cabral. Os monarcas castelhanos . Manuel apercebeu-se que. No decurso da viagem foram descobertos e batizados importantes acidentes geográficos. o porto de São Vicente (22 de janeiro) e a Cananéia (29 de fevereiro). Manuel I ao adiamento do Brasil é invalidado pela tomada das decisões já referidas que apontam no sentido contrário ao dessa hipótese. Omite. No início de agosto de 1501. enviou-lhes uma missiva (28 de agosto de 1501). Com efeito. sublinhando que a mesma era muito conveniente e necessária para a navegação da índia. d. para tornar refresco na Terra de Santa Cruz.alertados pelos rumores que circulavam sobre o achamento. em que Ângelo Trevisano. Marchioni. Ao receber as notícias sobre a descoberta da grande terrafirmeaustral . tendo-se efetuado importantes conciliábulos entre alguns membros de ambas as tripulações que permitiram a Vespúcio chegar à conclusão de que a Terra de Santa Cruz pertencia ao mesmo continente que ele havia visitado no decurso da expedição de Ojeda. É muito provável que entre os objetivos cometidos à expedição de 1501-1502 se encontrasse o de efetuar um levantamento das potencialidades econômicas da Terra de Santa Cruz. A segunda . datada de 10 de agosto desse ano. acabava de abrir uma nova frente de competição com Castela.e mais importante . por volta dos 5 o S. dessa vez no hemisfério ocidental. capitão-mor da terceira armada da índia. secretário do embaixador veneziano Domenico Pisani junto de Isabel e Fernando. seguiu o rumo sudeste e efetuou uma . o que revela a existência de um calendário político para a sua divulgação. fato indiciado pela participação de dois destacados florentinos que se encontravam intimamente associados a empreendimentos marítimos e comerciais nas "índias de Castela". a baía de Todos os Santos (1Q de novembro). O soberano lusitano.54 Jorge Couto A gênese do Brasil 55 A primeira consistiu em dar instruções a João da Nova. não transpiraram notícias sobre a descoberta efetuada pela esquadra de Cabral nas paragens ocidentais. Cretico. a existência de populações caracterizadas pela nudez e a abundância e variedade de papagaios.deram instruções ao seu representante em Portugal para que insistisse junto do "diletofilho"no sentido de lhes dar conta dos resultados obtidos pela segunda armada da índia. O argumento de que a inexistência de informações sobre o assunto se deveria à pouca importância atribuída por d. a flotilha afastou-se do litoral a partir aproximadamente dos 26° S. Pisani e Trevisano) vão aludir constantemente ao descobrimento da Terra dos Papagaios . A partir de 26 desse mês.foi a de armar uma flotilha de três caravelas. bem como os resultados das medições de latitude efetuadas em Porto Seguro. designadamente o cabo de São Roque (16 de agosto). Álvaro de Bragança e mercadores italianos. a flotilha comandada por Gonçalo Coelho atingiu a costa brasílica no Rio Grande do Norte. No início de março de 1502.designação que lhe foi atribuída por esses diplomatas e mercadores -.cujas estremas setentrional e meridional eram desconhecidas . em que atribui a descoberta feita por Cabral a um "milagre divino". a baía (Angra) dos Reis (6 de janeiro). cujo comando confiou a Gonçalo Coelho. redigida em linguagem muito cautelosa e ambígua. a serra de São Tome (21 de dezembro). No final do mês encontraram ancoradas nesse porto duas naus da armada de Cabral que regressavam da índia. na região meridional. de terras no poente que poderiam estar situadas no seu hemisfério de influência . primeira unidade da segunda armada da índia a regressar do Oriente. cabo Frio. afrotazarpou do Tejo na primeira quinzena de março. numa extensão superior a 370 léguas. as missivas de italianos residentes em Portugal e Castela (Affaitadi. todavia. o rio de São Francisco (4 de outubro). o cabo de Santa Cruz (posteriormente designado de Santo Agostinho). Na noite de 23 para 24 de junho de 1501 chegou ao Tejo a nau Anunciada. pondo em relevo o encontro de uma terra desconhecida. informava o analista Malapiero que não tinha sido possível obter uma carta de marear da referida viagem. dirigindo-se a Bezeguiche (Senegal) para tomar refresco. pressionado pelo embaixador dos sogros.

A expressão divulgou-se rapidamente. Jorge Lopes Bixorda . designação atribuída ao Brasil pelo cartografo Vesconte de Maiollo em homenagem ao navegador que comandara a expedição de reconhecimento de 1501-1502. Este primeiro documento impresso sobre o Brasil foi publicado em italiano na cidade de Paris.foram incorporados. Os resultados das explorações lusitanas nas paragens ocidentais . na representação cartográfica do Novo Mundo austral.grande armador que em 1509 comandara pessoalmente uma nau de sua propriedade que partiu para a índia integrada na armada do marechal d. frio intenso e ilhas de gelo. A experiência proporcionada pela realização da viagem de 1501-1502 revelou que o aprovisionamento de pau-brasil efetuado no decurso da permanência dos navios nos ancoradouros tornava a operação muito demoradae. por conseguinte. tendo. com a obrigação do beneficiário a povoar e aproveitar economicamente. pouco lucrativa. Manuel I procedeu à primeira doação efetuada pela monarquia portuguesa em território americano. As contrapartidas consistiam no pagamento anual do quarto e do dízimo dos rendimentos obtidos. embaixador de Veneza. a exploração geográfica e comercial do Brasil estava confiada à sociedade de mercadores chefiada por Fernão de Loronha. Pedro Pasqualigo.detinha o exclusivo do comércio da árvore tintureira por prazo e em condições desconhecidos. Uma das conseqüências da viagem de 1501-1502 consistiu em reforçar a noção de continentalidade da terrafirmeocidental que já ganhara consistência na corte manuelina no decurso de 1501. Após o regresso a Lisboa. Em 1513. ela já era empregada nos círculos portugueses desde 1501. Terra do Brasil Em data anterior a 3 de outubro de 1502. Concedia o monopólio da exploração do território à sociedade encabeçada por Fernão de Loronha e vedava a importação do Oriente da variedade asiática do pau-brasil. O contrato. o famoso "Cantino". acabados de regressar da Terra Nova (Canadá). nas cartas padrão regias. o meridiano de Tordesilhas . pelo que a mesma não era freqüentada por embarcações regias. Manuel I arrendou a Terra de Santa Cruz a uma associação de mercadores. Contudo.encontra-se deslocado para oriente. em janeiro de 1504. conduziu uma expedição castelhana às terras austrais. o rei concedeu. 3. mas sim pelas pertencentes aos respectivos arrendatários. A afirmação de que "é achada esta terra não navegada pelos navios de Vossa Alteza e. A carta-portulano de Fano. ou seja. um piloto português a serviço de Fernando. Esse tipo de alteração intencional introduzida nas cartas-portulano por motivos políticos manteve-se até 1515-1516. tinha uma duração prevista de três anos. pouco depois. em julho desse ano. atestar que os homens da expedição de Gaspar Corte-Real. os dos vossos naturais" significa que. saído dos prelos a versão latina intitulada Mundus Novus (Veneza.56 Jorge Couto A gênese do Brasil 57 profunda incursão em águas austrais até cerca de 50°. foi falsificado de modo a impedir a revelação de que as terras situadas a partir daquele local pertenciam à coroa de Castela. Manuel] descobriu nesta [viagem de 1500] um novo mundo. 1504). da autoria de Duarte Pacheco Pereira (1505). a seguinte inscrição em dialeto genovês: Terá de Gonsalvo Coigo vocatur Santa Croxe. passando a ser muito utilizada para nomear o continente austral recentemente descoberto pela armada de Cabral. d. o traçado da costa brasílica desde Cananéia . pelo prazo de duas vidas. ou seja. Regressou a Lisboa entre 22 de julho e 7 de setembro desse ano.do extremo setentrional (Terra Nova) à região austral (Cananéia) . o Católico. em 18 de outubro desse ano. Américo Vespúcio redigiu uma relação sumária da viagem de 1501-1502 que enviou a Lourenço di Pierfrancesco de' Mediei. queficavamreservadas para a coroa.local por onde passava. a capitania da Ilha de São João (atual Fernando de Noronha) a Fernão de Loronha. conforme comprova a seguinte passagem de uma carta remetida. excetuando as matériasprimas tintureiras. Daí que se tenha chegado à conoíuslb O^ J/F "A U> u %° . por Marchioni para Florença: "Este rei [d. por vosso mandado e licença. d. como acontecia com os territórios pertencentes ao Velho Mundo. Da valiosa produção cartográfica de 1502 somente se conserva o planisfério português anônimo. Fernando Coutinho . enfrentando violentas tempestades. provavelmente em 1503. Com efeito. mas é perigoso navegar no âmbito desses mares". ao sul. de acordo com as informações fornecidas por Pedro Rondinelli. Decorrido algum tempo sobre o arrendamento do Brasil. à data da redação do Esmeraldo de Situ Orbis. drogas e especiarias. datada de 8 de junho de 1504. contém. acreditavam na continuidade da "quarta parte" do mundo desde a região glacial até a Terra dos Papagaios. No entanto. com numerosas alterações introduzidas sem o conhecimento do autor. época em que João Dias de Sólis. Terra de Gonçalo Coelho que se chama Santa Cruz. como mostra o fato de.

a tábua incluída na sua obra que apresenta os primeiros topônimos e "alturas da costa do Brasil" para a região costeira sul-americana compreendida entre os 25 e 35° e. Desvendado o segredo de que o reino vizinho tinha direito a uma parcela das terras austrais. abrangendo a "terra do Brasil. designadamente a de 1503-1504. Esta obra inclui ainda a primeira menção conhecida de Cruzeiro do Sul. da autoria de Martin Fernández . 1516). na qual figuravam os textos vespucianos . por outro. na primeira vintena de Quinhentos. intitulada Paesi Novamente Retrovati (Vicenza. por ele criado. a medições de latitude de norte a sul do litoral da Terra de Santa Cruz. Durante cinco meses edificaram a feitoria-fortaleza numa ilha nas imediações do cabo Frio. organizada por Fracanzano da Montalboddo. Os elementos fornecidos pelo Guia náutico de Évora foram incorporados na Suma de geographia (Sevilha.local de encontro fixado pelo regimento régio para o reagrupamento das armadas . fato que integrou na trama da sua célebre obra.a chegada do capitão-mor. posteriormente rebatizada de Trindade (20° 30' S). rumou. logo que arribassem. d. em seguida. em outubro. Manuel apressou-se a mandar publicá-los de forma a poder invocar. Os navegadores portugueses exploraram. dirigindo-se. A 10 de junho de 1503 zarpou de Lisboa a segunda armada de Gonçalo Coelho. Por volta de 1516. impressa em Florença em 1505 ou 1506. A substituição do símbolo da paixão e redenção cristãs por um "pau que tinge panos" seria duramente criticada. 1508) . pela primeira vez.versão latina da coletânea de relações de viagens portuguesas e castelhanas. A divulgação desses dados até então ciosamente conservados em sigilo . tendo a naucapitânia naufragado. o fato de nas imediações da baía do Maranhão (2 o 1/3 S) surgir cartografado no atlas Homem-Reinéis umriodenominado "Joham de lixboa". tendo regressado a Portugal a 18 de junho de 1504. numa carta de Afonso de Albuquerque a d. constituída por seis navios. nas inevitáveis negociações que se seguiriam sobre a definição dos respectivos limites. surgiu. onde apareceu pela primeira vez o neologismo América. foi. concluída em Lisboa a 4 de setembro de 1504. 1519).58 Jorge Couto A gênese do Brasil çn de que a solução mais rentável consistiria em edificar uma feitoria. pela primeira vez. atribuindo-a a obra do demônio. sob o título Quatuor Navigationes e publicou-a na sua Cosmographiae Introdução (Saint-Dié. Lisboa procedeu. após ter sido modificada e ampliada por um compilador. Utopia (Louvain. que tinha como um dos objetivos prioritários o de construir uma feitoria na terra do pau-brasil. ou seja. Aliás. Lorena. os navios de Vespúcio e de outro comandante cuja identidade se desconhece rumaram para sul a fim de cumprir uma das cláusulas do contrato de arrendamento: fundar um estabelecimento lusitano no Novo Mundo. Uruguai). na segunda metade do século XVI. deixando o feitor João de Braga com uma guarnição de 24 homens. bem como o respectivo regimento para a determinação de latitudes. de João de Lisboa. os direitos de Portugal aos territórios situados entre Cananéia e o rio da Prata. designação que gradualmente suplantou a denominação oficial de Terra de Santa Cruz e as italianas de Terra dos Papagaios ou de Gonçalo Coelho. provavelmente também da autoria daquele reputado piloto. o termo Brasil (tradução de ibirapitanga. que atribui àquele acidente geográfico a latitude de 35°. baseados na prioridade do descobrimento. O cosmógrafo alemão Martim Waldseemuller traduziu-a para o latim. munições e mantimentos para seis meses. em que Américo Vespúcio descreve as viagens que efetuou. daí resultando que uma das unidades descobriu. 12 peças de artilharia. o cabo de Santa Maria (Punta dei Este. No início da segunda década de Quinhentos. para sudeste. a esquadra dispersou-se. Devido a essa ocorrência. A 10 de agosto a expedição encontrou a ilha de São João. armas.revela uma mudança de estratégia da coroa portuguesa. concluído por volta de 1514. no Regimento da declinação do sol. a ilha da Ascensão. Foi a partir do ltinerarium Portugallensium (Milão. conforme demonstram. o trecho do litoral compreendido entre Cananéia e o rio de Santa Maria (Prata). pudessem ser rapidamente carregadas. por razões náuticas. cuja guarnição deveria obter a colaboração dos indígenas para o abate e preparação das árvores no período em que se aguardava a chegada das naus. Depois de refrescar nas ilhas de Cabo Verde. de modo que estas. para sul-sudoeste. tábuas de latitudes das regiões situadas ao sul do equador. foram impressas. 1507). Após terem aguardado inutilmente na baía de Todos os Santos . até 1514. da banda do sul" a costa compreendida entre o "rio do arrecife" (2 o S) e o "cabo de Santa Maria" (35° S). por João de Barros e por Pero de Magalhães de Gândavo.que Thomas More tomou conhecimento do episódio referente à fundação da primeira feitoria portuguesa no Novo Mundo. Manuel I e no globo de Marini (1512).depois de os castelhanos terem chegado ao rio da Prata . nos seus baixios. "árvore vermelha" ou "pau cor de brasa") para identificar a terra austral. por um lado. que rebatizou de São Lourenço. já aparece referenciado no Livro de marinharia. nesse mesmo dia. 1507). A Lettera dirigida a Pedro Soderini. situado na entrada do estuário daquele rio (34° 59' S).

concluiu que tal empresa exigia avultados recursos financeiros e demográficos de que não dispunha. escreveu. econômico e judicial da coroa com a manutenção das capitanias-donatárias. a manutenção da autonomia dos grupos tribais. fatores de natureza socioeconômica e geopolítica encontram-se na origem da "colonização pon- . que ao descrever o litoral brasílico situado entre o cabo de Santo Agostinho e o cabo de Santa Maria fornece as latitudes corretas. dificultaram significativamente a penetração portuguesa no sertão. pretendendo responder à tenaz resistência oposta por vários grupos tribais ameríndios à fixação de portugueses no seu território e às alterações verificadas nas vertentes geopolítica e econômica mundiais. resistir vitoriosamente às investidas francesas. em 1552. Através do primeiro modelo . Este segundo modelo . ao longo do período compreendido entre 1530 e 1548. na introdução de profundas modificações no quadro das relações entre tupis e portugueses. embora reduzindo substancialmente as suas atribuições iniciais. Numa primeira fase (1500-1530).o sistema misto . Província de Santa Cruz A partir de finais da década de 20 de Quinhentos.de exclusividade particular (1534-1548) . em pouco tempo. com especial incidência no sudeste. Adotou. condicionando a forma de ocupação do território brasílico nos séculos XVI e XVII. O isolamento do litoral. tendo adotado. Além dos condicionalismos de ordem geográfica. mas ao tratar da costa ao norte do primeiro topônimo é "incrivelmente errôneo". fomentar o crescimento econômico e aperfeiçoar o funcionamento das instituições. defendendo-a. judicial e fiscal).60 Jorge Couto A gênese do Brasil 61 de Enciso. e às pouco frutuosas tentativas de missionação empreendidas por franciscanos. insuficiente para atingir os objetivos pretendidos devido à desproporção existente entre as elevadas exigências materiais e humanas que a sua concretização implicava e as disponibilidades dos donatários (capitães-governadores) e também aos abusos a que dava ocasião a total ausência de fiscalização regia. em diversos pontos da costa brasílica pôs em causa o equilíbrio existente. constitui um importante elemento para a interpretação do processo quinhentista de colonização do Brasil. com caráter permanente. João III (15211557) decidiu iniciar a colonização do Brasil. 4. No entanto. à fixação de um escasso número de "lançados" no Brasil. simultaneamente. provocando dois tipos de reações distintas por parte das comunidades aborígines: aceitação pacífica ou resistência armada. arbitrando ao rio Maranon (Amazonas) a latitude de 7o 30' S. contudo.que articulava um forte empenhamento militar. por conseguinte. No fim de 1548. o qual garantira. em vários domínios (militar. um modelo misto que mantinha as capitanias-donatárias. d. devido ao seu empenhamento em outras zonas geográficas do globo então consideradas prioritárias. devido às dificuldades em transpor as barreiras topográficas. O governo régio optou. localizadas a curta distância das terras baixas. d. na Primeira década da Ásia: "E por honra de tão grande terra chamemos-lhe Província". João III resolveu experimentar uma terceira solução . que conjugava recursos régios e particulares. embora expropriando os seus titulares de muitas das competências inicial- mente concedidas. Uma das conseqüências do avanço do processo colonizador residiu. separada do planalto por linhas de escarpas abruptas com alturas superiores a 800 metros. articulava-as com o funcionamento de órgãos da administração regia estabelecidos na Província de Santa Cruz e. a partir de 1534. Pode-se afirmar que as características geográficas de várias regiões. de ataques internos e externos tendo permitido alcançar progressos significativos na ocupação da terra brasílica. o relacionamento entre portugueses e indígenas limitou-se à prática do escambo. contudo. à criação de feitorias. submetia-as à inspeção de representantes diretamente nomeados pelo rei instalados no próprio território. por recorrer a particulares para quem transferiu na quase totalidade a iniciativa da colonização. Essa situação era agravada pela existência de um reduzido número de vales importantes entre os rios Doce (ao norte) e Jacuí (ao sul). três modelos diferentes para garantir o sucesso da empresa. representou um sério obstáculo para as ligações entre os sítios portuários da costa e os compartimentos do planalto de clima tropical de altitude. consolidava a presença lusitana no Brasil. A paulatina fixação dos europeus.revelou-se.de exclusividade regia (1530-1533) -. Esta solução. até então. a coroa procurou assegurar com os seus próprios recursos tão ambiciosa tarefa. A estreita faixa costeira. o humanista João de Barros. Os progressos verificados a partir da criação do governo geral foram tão significativos que um dos donatários.

essenciais para viabilizar a empresa colonizadora . base estabelecida no planalto de Piratininga que constituía uma cunha para a penetração na região platina. por um lado. as condições ideais para a cultura da cana sacarina e o fabrico de açúcar . cidade que assegurava o domínio efetivo da baía da Guanabara.62 Jorge Couto A gênese do Brasil 63 tual". Esse tipo de estrutura econômica gerou uma formação social dominada por um restrito número de membros (os senhores de engenho) em que a massa da população era constituída por escravos. em primeiro lugar. localizado no interior . ocupando todas as baías e embocaduras de rios suscetíveis de permitir a ancoragem de navios gauleses e. urgia enfrentar a ameaça francesa. para manter a ligação entre as capitanias do Norte e do Sul e. "Ilha Brasil" A coroa de Portugal nunca desistiu de ampliar os limites meridionais da América portuguesa até. a "lagoa Eupana".em que o mapa de Bartolomeu Velho (1561) assumiu uma função paradigmática . A recepção do mito ameríndio da "Ilha Brasil" . na fundação de São Paulo.no sentido de impedir a saída de uma expedição espanhola. desse modo. consolidando-se a economia de produção em que a cultura da cana e o fabrico do açúcar . verificando-se que aquela visão fabulosa da geografia sul-americana se difundiu lentamente na Europa a partir de protótipos portugueses da segunda metade de Quinhentos . pelas duas principais bacias hidrográficas sul-americanas comunicantes através de um grande lago central.região central na época quinhentista . nela não penetrando decididamente como o tinham feito os espanhóis. num tripé: na escolha da Bahia . ou seja. o seu representante na corte de Carlos V de efetuar diligências junto do sobrinho e genro . por outro. sobretudo no século XVII. o governo régio optou por concentrá-los na costa. a margem norte do rio da Prata. D. gradualmente substituídos por cativos africanos. na criação de São Sebastião do Janeiro.assumiram um papel primordial.que encontra claro acolhimento na cartografia lusa a partir de meados de Quinhentos . única que permitia integrar o Brasil na economia-mundo. logrando alcançar grande aceitação nas escolas cartográficas flamengas. através do sertão. separada da América Espanhola por "fronteiras naturais". em 1625. mesmo no período da Monar- .uma vez que o Brasil constituiria uma entidade territorial distinta. já que. Dispondo Portugal de reduzidos recursos demográficos no século XVI..para sede do governo geral. em novembro-dezembro de 1553. verificando-se a existência de um setor intermédio pouco numeroso (lavradores. donde todas se socorressem e fossem governadas". Essa concepção teve importantes repercussões nas cartas-portulano. do ponto de vista geopolítico. Tratava-se de utilizar um argumento de natureza geográfica . reforçando. em segundo lugar. a segurança de ambas as povoações. como o "coração no meio do corpo. funcionando. pelo menos.o príncipe herdeiro de Castela (futuro Filipe II) . que se aprestava para partir de Sevilha com destino ao rio da Prata. primeiramente formada por indígenas que foram sendo. mercadores e artesãos). com São Paulo. As pretensões portuguesas de ampliar significativamente a extensão da Província de Santa Cruz estão bem patentes. O "modelo insular" de fixação no território brasílico foi sagazmente apreendido por frei Vicente do Salvador que escreveu. ou seja. João III incumbiu. uma vez que aquela região sul-americana "é da minha conquista e cai debaixo da minha demarcação". Essa solução surgia como a única fórmula suscetível de conferir legitimidade às ambições lusitanas de estender as fronteiras da América portuguesa tão desmesuradamente para o sul da linha divisória. segundo as palavras de um franciscano seiscentista. a fase da economia de escambo foi superada. a ocupação apenas dos pontos estratégicos da orla costeira. unidos por um lago".insere-se na estratégia portuguesa de desenvolver a teoria de que a Província de Santa Cruz seria uma ilha "rodeada pelo oceano e por dois grandes rios [o Amazonas e o Prata]. Apesar dessa configuração. francesas e italianas. a sociedade colonial possuía um apreciável grau de mobilidade. daí resultando a criação de um eixo triangular: Metrópole-Brasil-África. originou uma estrutura fundiária caracterizada pela grande propriedade e pelo recurso intensivo a mão-de-obra escrava. Em meados de Quinhentos.se conjugarem nas proximidades da faixa marítima. a partir de meados do século XVI. contentarem-se os portugueses em arranhar a costa como os caranguejos. A opção pela agricultura de exportação.que justificaria a inclusão de uma hipótese não prevista no articulado do Tratado de Tordesilhas. A estratégia lusitana de consolidação e ampliação da América portuguesa assentou. essencial. finalmente. e. 5.complementados por roças de mantimentos e criação de gado .

sintetizando. nomeado lente de Língua Brasílica no Colégio da Bahia. etc). que viveu a maior parte da sua vida no Brasil. representante das funções domésticas e principal força produtora no sustento do grupo tribal. somente começou a ser utilizada na segunda metade do século XVII. desde os primórdios da construção do Brasil. elaborada por volta de 1586. a atividade missionária e o engenho desempenharam. designação que. numa primeira fase. Elaborou ainda uma Doutrina geral na língua do Brasil (1574). que fecham a terra do Brasil. os elementos das culturas européia e ameríndia. tendo sido. um Dialogo da doctrina christãa. na obra Tratados da terra e gente do Brasil (1585). na prática. então. assim. portugueses e africanos. o que revela as marcas indeléveis que este projeto plasmou no imaginário luso-brasileiro. de cariz fortemente comparatista. um Confessionário brasílico. o processo de aculturação foi enriquecido com o elemento africano. ou de ouro. Simão de Vasconcelos.. um papel fundamental no processo de aculturação entre índios. no início da década de 1570. o das Amazonas e o da Prata. como uma verdadeira língua geral. princípio e fim desta costa. lingüística e religiosa lusitana . sermões. ainda. desde o início do processo de colonização. o projeto luso de construção de um grande Brasil: Estes dois rios. Um dos elementos fundamentais do contato interétnico foi a mulher indígena. estudando-a e elaborando. No entanto. bem como sermões e avisos para a educação e instrução dos índios na Língua do Brasil. de elementos da matriz cultural. no mobiliário doméstico. Porto Seguro e São Paulo. Ela constituiu. na oficina de Antônio de Mariz. "língua da terra" e. os laços matrimoniais entre portugueses e mulheres índias contribuíram para que os primeiros adotassem muitos hábitos tupis (na alimentação. iniciando-se. numa obra de cariz náutico da autoria de Luís Teixeira. são dois portentos da natureza. que "pelo Brasil entendo aquela parte da América. A língua tupi constituiu um veículo privilegiado de contato entre europeus e indígenas. a gradual simbiose entre as componentes euro-afro-americana que viria a moldar biológica e culturalmente a formação da sociedade brasileira. informalmente. cantigas e outras obras em língua tupi. a aculturação dos colonos. nas formas de sociabilidade. poesias. Ainda em finais do século XVDI afirmava Alexandre Rodrigues Ferreira. .apesar da prevalência. A partir da segunda metade de Quinhentos. bem como numa importante descrição do Brasil que. ainda em Quinhentos. Esta obra. Os mestiços desempenharam um papel decisivo como agentes de aculturação. Com efeito. "representa uma nova estratégia de abordagem das línguas exóticas que entram no colóquio universalizante do mundo descoberto". Até então era referida por "língua do Brasil". Funcionou. que "este Brasil é já outro Portugal". provocando. bem ao sul do estuário platino. São como duas chaves de prata. que circulou manuscrita largo tempo. sobretudo nas áreas urbanas. 1538-1591) que viveu quase 40 anos entre os índios da Bahia.não poderia. 6. o escambo. algumas obras sobre o tema. a miscigenação. através da gradual e crescente ligação com o europeu. em 1587. O padre José de Anchieta redigiu a primeira Arte de grammatica da lingoa mais usada na costa do Brasil. "língua brasílica". afirmava. tratava-se de uma componente do império português que possuía características bem vincadas e que . transmitindo-os a grupos tribais que nunca tinham entrado em contato com os portugueses. Ou são como duas colunas de líquido cristal que a demarcam entre nós e Castela. defendia que os limites da demarcação da coroa de Portugal na América do Sul se estendiam à ponta do Marco. Os primeiros jesuítas dedicaram particular atenção à língua tupi. O primeiro Vocabulário na língua brasílica foi composto pelo padre Leonardo do Vale (c. em 1595. um jesuíta seiscentista português.64 Jorge Couto A gênese do Brasil 65 quia Dual (1580-1640). sobretudo. designadamente com o latim. o jesuíta Fernão Cardim. Além desse aspecto fundamental. mas também do terreno.. não só por parte do marítimo. estendendo-se a áreas de outras formações lingüísticas ameríndias. sintetizou admiravelmente. compreendida entre os rios Amazonas e da Prata". no seguinte trecho. contudo. um incansável pesquisador da fauna e da flora amazônicas. ser automaticamente associada ao padrão metropolitano. tendo merecido honras de impressão em Coimbra. que incluía a foz do rio da Prata no hemisfério português. Um outro Portugal? No final de Quinhentos. Compôs. um instrumento para a desorganização social e conseqüente transferência da propriedade dos meios de produção das sociedades nativas para a emergente sociedade colonial.

pela introdução da chapa de ferro perfurada no ralador. Várias frutas. contributos lingüísticos que se traduziram pela incorporação na língua portuguesa de vocábulos de origem tupi-guarani. tucano e urubu. Saliente-se que a introdução de utensílios metálicos aumentou o rendimento das atividades indígenas: na agricultura. e cortados os fazem de açúcar de mistura como os confeitos. bolos semelhantes a filhos. mediante o uso do anzol de metal . aumentou a eficácia das expedições e alterou os padrões guerreiros. paca.o pindaré ("anzol diferente") . inicialmente. ou zoológicas. jibóia. e bolos amassados com leite e gema de ovos" e outras "mil invenções" que eram sobremaneira apreciadas. além de outros relacionados com a gastronomia. Segundo Gabriel Soares de Sousa. mangaba. O embaixador gaulês Nicot conheceu o tabaco em Portugal. nomeadamente. jararaca. contribuíram para criar uma sociedade fortemente miscigenada. Os cruzamentos étnicos de portugueses com ameríndias e negras. até. Essa prática divulgou-se de tal forma que o primeiro bispo do Brasil condenou publicamente o donatário do Espírito Santo. táticas guerreiras aborígines. influenciadas pelo vocábulo amêndoa). tendo-se divulgado. açúcar e bordados de canela e. mas o incremento do clima de conflito provocou uma mudança nas estruturas dos assentamentos indígenas. dentes ou espinhos. . passado a chamar-se "nicotina". incluindo as de fogo. como abacaxi. eram enviadas para Portugal para tratar os enfermos. além de consumidas frescas. O hábito de fumar terá sido introduzido em Portugal por Luís de Góis. objetos. amendoim (da raiz tupi mindoim. araçá. feitos com farinha e condimentados com leite de coco. sobretudo ligados a espécies botânicas. a ingressar na Companhia de Jesus. O conhecimento do cão . mas que era também fumado e mascado conforme o comprova a descoberta arqueológica de cachimbos. cipó. em homenagem àquele diplomata. ananás (do guarani naná). através da utilização de machados no abate de árvores. e imitando os índios gastam nisso dias e noites". como os beijus. carimã. em substituição das pedras aguçadas. um dos companheiros de Martim Afonso de Sousa na fundação de São Vicente e que veio. também os portugueses assimilaram produtos. mandioca. maracanã. piranha. na França com a designação de "erva da rainha" e. botânicos e zoológicos geraram uma cultura portadora de uma profunda originalidade. já em 1561. toim. de que fazem pinhoadas". largamente utilizado nas sociedades indígenas com finalidades mágico-religiosas e medicinais. camuci e araçá) que. posteriormente. bem como entre as diversas variantes possíveis. por praticar o rito gentílico de "beber fumo" como os plebeus. jenipapo. As mulheres portuguesas preparavam diversas especialidades culinárias com base nos derivados da mandioca. capim. No decênio de 1580. mingau. surucucu. religiosos. na pesca. técnicos. da caça e pesca à construção de habitações e à guerra. de enxadas no cultivo da terra e de facas para cortar as ramas da mandioca.e de pontas de ferro nos arpões. como arara. como a das emboscadas. ainda. na confecção de alimentos. Um dos hábitos ameríndios que mais arraigadamente se entranharam nos costumes dos colonos foi o do consumo de tabaco. A utilização de armas européias. e o têm por vício. maracujá e piaçaba. Alguns autores suspeitam que a utilização de barro nas construções indígenas se deve também à influência lusitana. e. remeteu amostras a Catarina de Médicis com recomendações sobre as suas virtualidades medicinais. E também os curam em peças delgadas e compridas. como beiju. que fazem das amêndoas. Tendo-se revestido o processo de aculturação em terras brasílicas de um caracter recíproco. um senhor de engenho do Recôncavo Baiano. Verificou-se a rápida adoção pelos índios da tecnologia européia nos mais variados domínios. caju. eram também utilizadas para fazer conservas (ananás) e marmeladas (ibá. estilos de vida e. a partir da tapioca (fécula alimentícia da mandioca).66 Jorge Couto A gênese do Brasil 57 Dos contatos luso-ameríndios resultaram. a "tapioca-molhada" ou "tapioca-de-coco". Com a carimã (farinha seca fina) aquecida faziam "muito bom pão.utilizado pelos índios para perseguir os animais e forçá-los a abandonar os esconderijos — associado ao uso de armas de fogo facilitaram o esforço de caça. tatu. ou por preguiça. generalizando-se a construção de paliçadas. depois. que concluiu em 1587 a redação da sua obra Notícia do Brasil. menduí ou outras variantes. aipim. do ponto de vista biológico. as mulheres portuguesas confeccionavam com amendoim "todas as coisas doces. um jesuíta censurava grande parte dos portugueses que viviam no Brasil por "beberem este fumo. pipoca ou tapioca. Vasco Fernandes Coutinho. na qual os intercâmbios lingüísticos. cutia. tamanduá. sagüim.

portugueses e africanos no início do povoamento afinais de Quinhentos. GUEDES. História dos índios no Brasil. Portugal. 4. . DIAS.). FREIRE. 1989. 1988. O descobrimento do Brasil. Couro. capital geográfica do Brasil. História geral da civilização brasileira. LEITE. 1550-1835. Lisboa: Vega. História da Companhia de Jesus no Brasil. 1955. 1943. CUNHA. Sérgio Buarque de (dir. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial. 1992. ed. o Brasil e o Atlântico (1570-1670). Carlos Malheiro (ed. HOLANDA. Porto: Litografia Nacional. 2. Ameríndios. 1989. SCHWARTZ. Lisboa-Rio de Janeiro: Portugalia/INL. 2 vols. Rio de Janeiro: José Olympio.). Lisboa: Cosmos. Manuela Carneiro da (org. São Paulo: Companhia das Letras. Jaime. ed. 7. ed. 1938-1950. Max Justo. 10 vols. Lisboa: Estampa.A construção do Brasil. Gilberto. Jorge. MAURO. História da colonização portuguesa do Brasil. Formação da família brasileira sob o regime de economia patriarcal. 1995. 1985. Stuart B.68 Jorge Couto Bibliografia selecionada CORTESÂO. São Paulo: Companhia das Letras. Serafim. Rio de Janeiro: Livros de Portugal. 1921-1926.). São Paulo: Difel. Afundação de São Paulo. Casa-grande & senzala. Frédéric. 2 vols.

i ir * 01 Uma Nova Lusitânia Evaldo Cabral de Mello / #/ »nVK * i J É| r ? 1 ! 1 .

onde a rigorosa motivação religiosa dos colonos insuflou o projeto de uma nova Sion. A par de manifestação afetiva. de uma sociedade paralela destinada a realizar. João III. asserção. o donatário Duarte Coelho não se apartou da praxe. por exemplo. o padre Cardim afiançava: "Este Brasil é já outro Portugal". vale dizer. Ao menos desde os anos sessenta do século XVI. tais denominações exprimiam de forma abreviada um mesmo programa colonial. Contudo. as aspirações religiosas e políticas da Reforma. como ocorrerá adiante. nesse caso. com exceção da Nova Inglaterra. emprestava ao adjetivo o significado de uma ruptura. não para transformálo ou transcendê-lo". "em termos sociais ou religiosos. Nova Extremadura. o que. de Massachusetts. desse lado do Atlântico. empregava-se o . frustradas pelo anglicanismo. já descrevia o Brasil como uma "nova Lusitânia". aliás. Nova França. O chamado foral que concedeu à vila de Olinda e suas cartas a el-rei são invariavelmente datadas d' "esta Nova Lusitânia". Ao designar de Nova Lusitânia a capitania que lhe doara d. Gândavo. jamais de Pernambuco. ausente das outras designações. a modalidade inicial que o sentimento nativista assume nas crônicas do primeiro século de colonização (1532-1630) não consiste. igualmente válida para os estabelecimentos criados no hemisfério pelas demais nações européias. Nova Galícia. Nova Granada. o Brasil foi criado para reproduzir Portugal. Schwartz segundo a qual. Nova Holanda. Dessa ambição de prolongar o Velho Mundo no Novo.V-^uriosamente. Nova Lusitânia tampouco vingou. mas ao contrário no orgulho pela lusitanidade que já caracterizaria a vida cotidiana nos principais núcleos de povoamento. da boca meridional do canal de Santa Cruz à foz do São Francisco. O fenômeno torna-se compreensível quando se tem em mente a perspicaz observação de Stuart B. na afirmação da originalidade da nova terra. a prática de apor-se às áreas conquistadas os nomes das regiões ou dos países donde eram originários os seus fundadores: Nova Espanha.

no primeiro donatário. que chamaram a madeira "Pernambuco hout". representaria a espinha dorsal da colônia. O fato é que a escolha de Nova Lusitânia denota. encarregados do cultivo da cana. Gândavo insistiu no emprego da primitiva designação. por conseguinte. adotou-se naturalmente o uso que se impusera na terra. Tratar-se-ia. o qual. o que poderia reforçar uma das explicações aventadas para o nome de Olinda. Donde informar certa feita haver agido . pois a de Brasil fora dada pelo "vulgo mal considerado". portanto. d. certo gosto das humanidades. de comedida. isto é. ficaria afastada a objeção levantada por Sérgio Buarque de Holanda. provavelmente por fidelidade à memória do marido. contudo. embora a viúva. originalmente utilizado apenas para designar o ponto do litoral. Na Europa. soando mais agradavelmente a ouvidos cristãos o nome de um lenho em que se realizara o mistério da Redenção e não o de uma madeira que servia apenas para tinturaria. que consideravaridícula. Falecido o primeiro donatário. Duarte Coelho servira como capitão-mor de armadas no Atlântico. Assim. menos de uma Nova Lusitânia do que de uma Nova Madeira. e o autor da relação do naufrágio alude mesmo à "capitania de Pernambuco. A designação de pernambucanos para os moradores e os naturais da capitania não se fez. como de "pau de Pernambuco". ocasião em que terá podido conhecer o sistema agroindustrial da Madeira. no seu espírito a Nova Lusitânia deveria ser a chasse gardée não dos detentores do equipamento fabril mas de uma classe de médios e pequenos produtores que se valendo subsidiariamente da mão-de-obra servil. como fez Brito Freire. que chamara a atenção para sua inclinação a empregar expressões latinas na correspondência com el-rei. das partes do Brasil da nova Lusitânia". novela de cavalaria então na moda. Lusitânia e lusitanijà eram vocábulos que circulavam nas obras de autores portugueses e estrangeiros.74 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 75 topônimo tupi. teimasse. o mesmo gosto literário que o levou a batizar sua capitania de Nova Lusitânia pode tê-lo induzido a designar a urbe fundada no ângulo do mar e do Beberibe com o nome de uma heroína de romance. onde se situara a feitoria de Cristóvão Jaques. e do pau-brasil. Destarte. atividades eminentemente dispersivas do esforço colonizador. na terra firme fronteira à ilha de Itamaracá. ou de uma das personagens femininas do Amadis de Gaula. costume que seguirão os holandeses. segundo a qual. que foi verdadeiramente o modelo da sua experiência brasileira. em referir-se à Nova Lusitânia. sabido que o emprego de Lusitânia constituiu novidade dos fins do século XV trazida pelo renascimento dos estudos clássicos. Nas entrelinhas das suas cartas dá para perceber que sua resistência às pressões da coroa visando à busca de metais preciosos e sua oposição ao corte de pau-brasil. Em conseqüência. Nos anos imediatamente anteriores à sua chegada à terra. caracterizando-se Olinda no Amadis pela qualidade de "mesurada". inicialmente conferido à América portuguesa. resultaria incompatível com as inclinações de povoadores rústicos. Embora tenha solicitado licença regia para importar escravos da Guiné. comprometedoras da estabilidade da capitania. como ocorria na Madeira. que ali foi o vinho e entre nós o algodão. que concentrariam a etapa fabril e que moeriam a cana de uma classe média de agricultores. A preterição sofrida pelo nome de Nova Lusitânia fora a mesma que já vitimara o de Santa Cruz. Que Duarte Coelho não o fora. Só excepcionalmente Nova Lusitânia foi empregado para designar toda a América portuguesa. na sua história da guerra holandesa. Varnhagen sugeriu que ele adviria de "alguma casa. Também protestou contra a mudança o autor dos Diálogos das grandezas do Brasil. e o relato da expedição de James Lancaster fala sempre de "Fernambuck". inclusive sob o aspecto de certa diversidade da produção exportável. portanto. já percebera havia muito o historiador Pedro de Azevedo. topônimo posteriormente adotado para o ancoradouro da foz do Capibaribe-Beberibe.segundo a qual ele teria nascido da exclamação de um criado de Duarte Coelho extasiado diante da beleza do sítio em que se ergueria a vila. talvez por cautela de cristão-novo. de cujos inconvenientes ele teve plena consciência. que haviam identificado os portugueses aos lusitanos sublevados outrora contra a dominação romana. já os denomina frei Vicente do Salvador. a correspondência oficial consagrou o costume. esperar. A correspondência dos cônsules venezianos em Lisboa menciona a "terra di Pernambuci". ainda intitula seus conterrâneos os baianos de "os da Bahia". substituição muito criticada então por João de Barros e por Pedro de Mariz. Quando se iniciava a colonização do Brasil. Procurou-se também conciliar as denominações em "Pernambuco da Nova Lusitânia". quinta ou burgo" cara a Duarte Coelho. A substituição de Nova Lusitânia por Pernambuco simboliza no plano da toponímia a mutação que viria a sofrer o programa colonial do primeiro donatário. como se vê do seu elogio da lavoura de subsistência. no século subseqüente. resultavam do seu projeto de criação de uma colônia baseada na produção de açúcar por número reduzido de engenhos. Brites de Albuquerque. de maneira a evitar as distorções da monocultura da cana. Rejeitando a versão. termo que já na "Prosopopéia" viria a adquirir travo literário e erudito.

a partir dos anos sessenta. que. devido às condições ecológicas e à disponibilidade limitada de terras aráveis. Certa tonalidade democrática manifestase na presença de fidalgos. O valor da mão-de-obra limita-se a 5% do investimento açucareiro. desvinculada do campo. Se ao longo de Quinhentos. isto se deveu à 1 proximidade da costa africana e ao papel desempenhado pela ilha no devassamento dessa região. Deu-se início à colonização da Paraíba. pp. carpinteiros. que a pretexto da hostilidade do gentio encetaram. mantimentos. que não se podiam evidentemente dar ao luxo de recorrer maciçamente ao trabalho escravo. ocupou-se a terra firme de Itamaracá. o escriba donatarial escreveu por inadvertência "contra o povo" em lugar de "com o povo". vigia na Madeira um sistema misto em que o açúcar desempenhava o papel hegemônico. outros usam de pescar. fronteira à ilha homônima. ed. A grande maioria deles (89%) não possui mais de cinco e os que detêm maior número não dispõem de mais de 14. sobretudo. cuja técnica seus peritos trouxeram inclusive para nós. mas não exclusivo. Ao passo que a etapa produtiva tinha assim uma feição eminentemente lusitana. e várzea do Capibaribe ao sul. mas dos seus filhos e do seu cunhado. a Madeira não conheceu a simbiose entre o açúcar e o escravo que se verificou nas Canárias e sobretudo no Brasil e no Caribe. Essas condições. A um número restrito de fábricas. outros canaviais. que é a principal e mais necessária coisa para a terra. a comercialização achava-se sob o controle de florentinos. indício de uma escravatura de feitio mediterrâneo. Na Madeira dos primeiros decênios do século XVI. genoveses e flamengos. . 48-9). Como acentuou Alberto Vieira.76 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 77 contra os "donos dos engenhos [que] queriam esfolar o povo". a exemplo do que acontecia no Portugal metropolitano. mediante a simples substituição da referência aos algodoais pela alusão à vinha e ao trigo: Entre todos os moradores e povoadores.1 Desde finais do século XV. outros usam de navios que andam buscando mantimentos e tratando por terra conforme ao regimento que tenho posto. penetrando-se pelos vales do Araripe. a conquista da área litorânea entre os montes Guararapes e a região de Porto Calvo. doméstico e artesanal. outros algodoais. Essa Nova Madeira do projeto donatarial não sobreviverá ao derradeiro quartel do século XVI. compreendida entre Igaraçu ao norte. Quando Duarte Coelho faleceu (1654). nela. Como assinalaram Virgínia Rau e Jorge Borges de Macedo. como também a própria tradição da agroindústria açucareira do Mediterrâneo. A expansão territorial não foi obra do primeiro donatário. Destarte. à luz do sentido do período. no sentido freiriano da expressão. outros. exceção da grande propriedade alentejana. A descrição feita por Duarte Coelho da estrutura social da sua donatária poderia ter sido copiada da que existia na Madeira. Funchal. a presença africana aumentou. uns fazem engenhos de açúcar porque são poderosos para isso. Gonsalves de Mello e Cleonir Xavier de Albuquerque (Recife: 1967). É evidente. sendo também empregados na exploração do sal. correspondia um número amplo de lavradores de cana. isto é. J. induziram a separação entre o cultivo da cana e o fabrico do açúcar. isto é. O regime da terra caracterizou-se. sua capitania era apenas a "ilha". os lavradores que lhes forneciam a matéria-prima e os víveres. em Atas do Seminário Internacional. A leitura paleográfica deste trecho acrescenta: "amtes vou comtra o povo que comtra os donos dos enjenhos mas ha negra cobiça do mundo he tanta que turba o juizo aos homens para não comsederem no que é razão e justiça" (pp. os quais. ao boom açucareiro iniciado nos anos setenta mercê do avanço da fronteira agrícola pela mata pernambucana. A. outros mestres de açúcares. "Escravos com e sem açúcar na Madeira". AbriuAlberto Vieira. pela várzea do Goiana. Jerônimo de Albuquerque. porém. que haviam originalmente predominado na ilha. Mais tarde. pela média e pequena propriedade. fundou-se a vila de Natal (1599) e avançou-se pela metade meridional de Alagoas. forjara-se ali uma paisagem agrária bem diversa da que o açúcar virá a criar nos espaços continentais do Brasil. ferreiros. pp. portanto. esse tipo de mão-de-obra concentrava-se no meio urbano. ela também causou o parcelamento intenso dos "poios". 93. porém. 46-7. onde os africanos adensavam-se tão somente em I^isboa e cidades principais. 102. comerciantes. dos terrenos agricultados. A topografia acidentada da Madeira favorecia a irrigação por meio das levadas. via de regra os proprietários de fábricas não possuíam canaviais. o engenho localizando-se à distância da matéria-prima indispensável às suas moendas. graças à presença da vinha e da cultura tritícola. Itapirema e Catuama mas.2 Cartas de Duarte Coelho a el-rei. que também é muito necessário para a terra. artesãos e funcionários da coroa entre os lavradores de cana. terminarão por sedentarizar-se em proprietários de engenhos. oleiros e oficiais de formas e sinos para os açúcares e outros oficiais. vale dizer. 1996. apenas 16% dos produtores de açúcar são donos de escravos. Embora os engenhos madeirenses o utilizassem subsidiariamente. outros são mestres de engenhos. situavam-se as cinco fábricas de açúcar existentes.

No rio Formoso e em Una. outra subzona cristalina. a ocupação agarrava-se ainda mais ao litoral. elas se diferenciam graças ao fato de que. prevalecendo um grau importante de integração das etapas comercial e industrial. As casas-grandes que pintou Franz Post eram. Enquanto na mata norte os canaviais ficaram circunscritos às várzeas quaternárias recortadas pelos tabuleiros. poupando apenas. como o engenho do Salvador do Mundo. Daí que a mata norte e a mata sul também sejam designadas como mata seca e mata úmida. enquanto a mata norte engloba. Fora sobretudo pela várzea do Capibaribe que se adentrara essa modesta ocupação e onde se verificara maior proporcionalidade entre a área de produção açucareira e a de subsistência. substituindo rapidamente o trabalho engajado pelo africano e promovendo uma concentração acelerada da propriedade da terra. Smith. que tornava disponíveis terras mais planturosas. de ver que as atividades agrícolas estavam terceirizadas. mas também porque ele permite observar. embora a utilização simultânea do critério estrutural introduza na mata norte a distinção entre a subzona sedimentar a leste. Do ponto de vista climático. graças a essa polarização. não é apenas pór conhecê-lo de perto. todos vitimados no curto prazo pela instabilidade do mercado internacional. o açúcar deu-lhe finalmente a oportunidade de que necessitava. a mudança por que passou a Nova Lusitânia. o que já não se verificará a partir do domínio neerlandês. características bem distintas das que dominarão no Pernambuco post bellum. como na Madeira. os cimos das colinas. a cerca de 10 km da vila. Como pressentiu Gilberto Freire. embora a fronteira de roçados e de currais se prolongasse até a altura de Lagoa do Carro ou Limoeiro. os colonos ingleses experimentaram sucessivamente. "uma transcrição quase literal do tipo mais comum das casas rurais da mãe-pátria". viabilizando o recurso maciço à mão-de-obra servil. e se o domínio da grande lavoura não atingiu entre nós o ponto a que chegou naquela ilha do Caribe. isto é.78 Evoldo Cabral de Mello Uma Novo Lusitânia 79 se assim à iniciativa dos colonos toda a franja marítima do Rio Grande do Norte ao São Francisco. ela se faz sentir mais fortemente na mata norte do que na mata sul. o engenho de açúcar constituiu inicialmente a prolongação da loja. a Olinda ante bellum concentrou as funções urbanas do comércio de importação e exportação e de sede das autoridades civis e eclesiásticas. Aí. Na do Sirinhaém. esta última estrutura é a que domina na superfície da mata sul. sob o regime de engajamento (indentured service). a oeste. A quem inicialmente afoitou-se a construí-los a distância. podia ocorrer o que ocorreu a Diogo Fernandes. Na várzea do Pirapama. segundo Robert C. às várzeas fluviais e às encostas suaves. mais nitidamente do que na Bahia ou no Rio. erguido por seu cunhado. de vez que no rumo oeste a ocupação não ultrapassara os setenta quilômetros. do comércio e da vida urbana. e o de Nossa Senhora da Ajuda. com o fumo. Ao constituir-se em Brasil holandês. Se me detenho no caso pernambucano. cujo engenho de Camaragibe foi destruído pela indiada hostil. ajuda a compreender. Do ponto de vista geológico. Mussurepe era o extremo dos canaviais. e encorajando a monocultura. condições ambas inexistentes em Barbados. o equipamento manufatureiro. a liquidação do modelo madeirense pela continentalização. embora ambas as zonas sofram a diminuição dos totais pluviométricos no sentido leste-oeste. vale dizer. que se situa no extremo oposto da madeirense. indígena e africana. onde a cartografia holandesa registrará os derradeiros topônimos. O engenho era sobretudo a fábrica. os canaviais cessavam na confluência com o Camaragibe. A cultura da cana teve de adaptarse a estas condições. Entre nós. Naribeirado Capibaribe. o algodão e o anil. quer no centro quer num dos ângulos da fachada. isto é. As primeiras fábricas foram edificadas nos arredores de Olinda. Em meados do século XVII. junto ao terraço litorâneo. a poente. onde se refugiaram os restos da mata atlântica. do falecimento de Duarte Coelho ao final de Quinhentos. a experiência barbadiana de meados de Seiscentos. levantado por Duarte Coelho. e a cristalina. fugindo das chãs e dos tabuleiros interflúvios. O Pernambuco pós-duartino foi em vários sentidos a prefiguração de Barbados. e os mesmos telhados de quatro águas e cumeeira do Pernambuco do século XVQ". nos dois primeiros decênios. e pela presença de população nativa. uma subzona de tabuleiros sedimentares e. para fornecimento de lenha aos engenhos. marcado "desde o Minho e Trás-osMontes e por toda a Beira Alta e a Beira Baixa" pelas mesmas características: "os mesmos esteios no andar térreo usado para depósito. na mata sul eles podiam caminhar desimpedidamente pela superfície de "meias laranjas". O solo e a topografia do sul pernambucano prestavam-se à cultura extensiva da cana bem melhor que os do núcleo histórico duartino. com a insurreição pernambucana contra o domínio holandês. o que eqüivale a dizer que a propriedade do engenho correspondia freqüentemente ao comerciante olindense. as varandas abertas e as escadas externas. Os geógrafos costumam distinguir a mata norte e a mata sul. separadas grosso modo pelo paralelo do Recife. Por outro lado. foi sobretudo graças ao contrapeso oferecido pela continentalidade brasileira. . essa região era predominantemente latitudinal. pela oferta de terras. a penetração ainda não alcançara o ponto médio da bacia fluvial.

"fazenda" referia-se à parte agrícola do conjunto açucareiro. mas aludia apenas às instalações fabris. devido à renovação substancial dos quadros açucarocráticos.80 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 81 Tipo de habitação que persistiu já entrado o século XIX. Em Pernambuco ou na Bahia. Só muito depois. Essa nomenclatura tornou-se insuficiente ao se acelerarem a tendência ao arrendamento e a transmissão por venda ou herança da propriedade açucareira. Escusado assinalar que ambos critérios podiam ser usados para a mesma propriedade: Agostinho de Holanda preferia designar seu engenho por Santo Agostinho. Enquanto a primeira parece indicar a propriedade fundiária que extrapola a utilização açucareira. e a ereção da capela ao mesmo nível da casa-grande ou mais acima. Num texto oficial de meados de Seiscentos. sobretudo. Recurso compreensível em vista de que essas listas foram elaboradas com base em documentos de natureza fiscal. seguiu-se ao longo de Quinhentos o costume madeirense de designar o engenho pelo nome do seu proprietário: "engenho de Pero Cardigo". já expulsos os holandeses. Este primitivismo ante bellum tinha sua razão de ser inclusive no fato de que a existência cotidiana do grande proprietário rural ainda encontrava-se presa à vila. mesmo quando esta designação já fora descartada. O segundo critério é o topônimo indígena: Araripe. divulgado entre nós por publicações como O fazendeiro do Brasil e do Manual do agricultor brasileiro. em que o relevante era o nome do contribuinte. fábrica e capela). já se pode visualizar o decantado "triângulo rural". "engenho novo de Fernão Soares". de designar os engenhos segundo os oragos ou o topônimo indígena. a iconografia holandesa já indica as linhas de força do seu assentamento em termos da ocupação dos níveis do terreno: a instalação da fábrica na proximidade do curso d'água de que depende para a força motriz e para outros usos. em decorrência da necessidade prática de controle das atividades e do imperativo simbólico de expressão de domínio. do nome do rio em cuja margem a fábrica se ergueu. que só muito posteriormente serão distinguidas pela denominação de moita. as sesmarias são generosamente concedidas. usava-se a voz "terras" ("terras de Pero Dias da Fonseca") ou "fazenda" ("fazenda de Vicente Correia"). durante o período holandês. no passar do tempo. Na esteira da continentalização. (Daí ter sido as autoridades batavas a adotar a prática. esse ordenamento assumiu moldes mais estáveis sob a forma de um pátio retangular. ao passo que seu feitor já o invoca pelo topônimo indígena. conotando a predominância do Sagrado. Somente a partir de finais de Quinhentos. as casas-grandes na eminência próxima. editados em fins de Setecentos e em meados da centúria seguinte. Embora esses edifícios desconhecessem originalmente uma disposição rígida entre si. transportado. armas e bagagens. os engenhos ainda eram majoritariamente relacionados segundo os proprietários. servindo à criação de gado ou ao cultivo de subsistência. as fábricas de açúcar se levantam à beira dos cursos d'água. a construção da casa-grande na parte mais elevada do terreno. A ambição de fundar uma Nova Lusitânia. embora passasse a ser construído com material nobre e se tornasse melhor acomodado às exigências de conforto de um grupo social que entrementes abandonara a vida urbana pela rural. Quando se possui mais de um engenho. insinuam-se os dois outros critérios que substituirão vinte. resistiu quanto pôde. a propriedade passará a chamar-se apenas de engenho Velho ou engenho Novo. da Madeira para o Brasil. na meia encosta. trinta anos depois. os partidos de cana se fundam pelas várzeas. e muitas vezes sutilmente. Pernambuco e Bahia foram sistematicamente listados pelos nomes dos donos. em seus relatórios. a designação segundo o nome do proprietário resistiu por mais tempo. e. Em lugar da expressão "engenho". disposição que Geraldo Gomes. Nos paisagistas nassovianos. a distinção é cronológica: "engenho velho de Fernão Soares". Mas nos documentos oficiais.) Como na Madeira. mesmo se na vida real ela era progressivamente abandonada. prática que então distava de ser geral: "engenho de São Brás". O primeiro é o nome do orago. sem criação nossa. único estudioso a ocupar-se competentemente do assunto. . sugeriu que pode ter resultado do exemplo das colônias açucareiras do Caribe. isto é. cujo êxito dependia da prática de se dotar de capela o engenho de açúcar. critério também adotado por José Israel da Costa na sua relação de 1623. ela transcorria entre a dupla residência da vila e do campo. no máximo adaptações às circunstâncias mais anchas da ecologia da mata. o termo "engenho" ainda não se havia generalizado para o conjunto da unidade produtiva. O mesmo pode ser dito acerca do "livro das urcas". o modelo de organização espacial do engenho de açúcar (casa-grande. mas a toponímia dos engenhos resiste a aderir aos nomes da terra. Quando Diogo de Campos Moreno redigiu a primeira versão do "Livro que dá razão do Estado do Brasil". documento alfandegário. via de regra. pois mercê da modéstia das distâncias que prevalecia antes da continentalização. como ainda ocorrerá no século XLX. os engenhos da Paraíba. Quando. Subipema. o nome do dono for abandonado. o costume de usar o nome do proprietário.

É no cotidiano mesteiral que se pode melhor entrever a vigência do modelo de relações cidade-campo importado do reino. Este opinava que o gentio da terra devia proporcionar a principal mão-de-obra. aliás. cujas andanças em período relativamente breve podem ser reconstituídas. praticamente nos mesmos termos em que o fizera Duarte Coelho setenta anos antes. como na índia. surgem de empreitada pelos engenhos. já são freqüentes os que se estabelecem mais duradouramente. quase imperceptível. com o próprio governador-geral d. Não prevaleceu assim a rigidez institucional de outros países da Europa. de uma independência maior do que virá a ocorrer. com efeito.. de modo a evitar "tanto negro de Guiné". preso com ele em Olinda após a liquidação da presença francesa no Maranhão. O autor dos Diálogos faz. inclusive na entressafra. Olinda ainda não possuía mercado de africanos.] a mulher gozou de uma liberdade maior de ação". inclusive no tocante ao grau de treinamento e de conhecimento da arte que se exigia do oficial que a praticava. como demonstrou Stuart Schwartz.. estas últimas transplantadas para o Brasil. em redes. Basta percorrer as páginas da visitação inquisitorial. dos quais se necessitava de inverno a verão. Além das obras feitas no telhado olindense de João Nunes. entre muitos. quando se efetuava o "apontamento". como se vê no caso do pedreiro Pero da Silva. Então. para topar com o teor eminentemente reinol que ainda tinha o cotidiano colonial. sobretudo carpinteiros. pois a instabilidade e a improvisação também caracterizavam os quadros corporativos no reino. da persistência dos modelos de vida urbana dizia respeito à condição feminina. a manutenção do equipamento fabril. A vila pertence aos reinóis e a seus descendentes. O autor dos Diálogos das grandezas simplesmente ignorou a existência de escravidão ao descrever a estrutura social da capitania. no Cabo e em Jaboatão. incentivado pelo avanço da fronteira agrícola e pelos preços do açúcar. No começo do século XVII. Sua quase totalidade compunhase de reinóis. a colônia pudesse entreter a ficção de ser o prolongamento americano de Portugal. Deles necessitavam os engenhos para levantar a . Diogo de Meneses. Um exemplo. Mas se a longo prazo a ocupação de novos espaços condenara o projeto duartino. contudo. Portugal desconheceu uma tradição gremial sólida e suas corporações de ofício datavam apenas de um século. que vive uma fase de acentuado crescimento econômico. na documentação do Santo Ofício. o crescimento dariquezacolonial dela decorrente permitiu que. dos de Portugal". O preto que se atrevesse a aparecer na vila por iniciativa própria corria o risco de ser delatado e recambiado para o meio rural. que virá a ser reprimida pela ruralização da vida colonial e pela conseqüente reclusão das mulheres dos grupos privilegiados. Outros artífices independentes e nomádicos. observava que "os descendentes dos primeiros conquistadores não diferem em nada. na altura em que ele escrevia completava-se. rebentos de lavradores pobres ou remediados para quem a atividade mesteiral representava uma promoção social. os quais eram vendidos no porto do Recife. entre muitos. moradores na vila. E. que se fazia naqueles andores de pau-dejangada a que se referiu Brandônio. sobretudo. Os artesãos residem em Olinda. o processo de adoção do trabalho africano nos engenhos. isto é. Ademais dos artesãos que se assoldadam por empreitada ou por curtos períodos. atendendo indiferentemente a clientela urbana e a rural. à segregação da escravatura africana nos engenhos. que resistirá inutilmente à continentalização. embora já se façam notar os primeiros efeitos da expansão territorial na tensão entre a liberdade da empreitada e a absorção da mão-de-obra mesteiral pelo engenho sob a forma de salário. preocupação que ele partilhava.82 Evatdo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 83 aos efeitos da continentalização. o elogio da rede como meio de transporte sobre a cadeirinha. gozando. e sobre o palanquim. cujo serviço doméstico está freqüentemente a cargo de índias e mamelucas. Veja-se também o caso dos artesãos. sem falar em que certas atividades subalternas eram monopolizadas por imigrantes portugueses do sexo masculino antes de serem relegadas no século XVII aos escravos ou à população mestiça mais livre de ambos os sexos. em costumes e hábitos. sua regulamentação só se processando ao longo de Quinhentos e de Seiscentos. devido. A organização dos mesteres resumia-se à concentração urbana segundo as principais especialidades e à incorporação de confrarias religiosas que funcionavam como entidades de benemerência. vinte e tantos anos antes. Já Gilberto Freire havia percebido que "nos primeiros tempos de colonização [. causa do endividamento crescente dos colonos. ei-lo trabalhando em Paratibe. no curto. como em Portugal. Esses carpinas são particularmente numerosos na população mesteiral de Pernambuco de finais de Quinhentos. O Brasil estava deixando de ser a Nova Lusitânia para transformar-se na Nova Guiné. uma das razões da sua presença rala. e. indivíduos de origem rural. campeando a tolerância na aplicação das regras. inclusive. inclusive as restrições cria- das para o seu deslocamento. a leitura da documentação inquisitorial passa a impressão de certa autonomia feminina. E. relativamente à grande propriedade. de que falava Brandônio. Fenômeno específico da nova terra? Nada disso. o companheiro de La Ravardière.

Que o dissesse o senhor do engenho do Meio. Fundamental foi a este respeito o papel dos jesuítas.84 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 85 casa-grande e os demais edifícios. Um século depois. que ainda não avizinhavam povoações suficientemente importantes para atraí-los. . Esse devaneio estético-utilitário será realizado anos depois pelo conde de Nassau no seu palácio de Friburgo. e de tais artesãos. As casas da Companhia de Jesus possuíam invariavelmente suas "cercas". aonde era um prazer merendar ao ar livre como no colégio de Olinda. o qual. nada ficando a dever aos de Portugal.3 Olinda. No Pernambuco de finais de Quinhentos. E tantos melões que não há [como] esgotá-los. com sua horta "muito grande. com muitos pepinos e outras boas comodidades. os engenhos da várzea do Capibaribe ou de Igaraçu dispunham na vila. Ao invadir a capitania. leitor dos clássicos. herdeiro do locus amenus. quem observasse a semelhança entre o horto do colégio de Olinda e a cerca ideal imaginada pelo autor dos Diálogos. que lhe custariam um processo pelo Santo Ofício. inclusive diversas variedades de frutas de espinho. Nessa dificuldade bem como na do pagamento de salário estarão a longo prazo os incentivos ao treinamento de escravos. um ferreiro e um seleiro. O oleiro é outro ofício muito procurado no meio rural. no outro extremo. homem arreliado de seu. 3 Fernão Cardim. o ofício possui sua hierarquia especializada. para a confecção das caixas de açúcar. De Pernambuco. Mesmo quando não assalariava o artesão. que num caso excepcionalmente bem-sucedido. a demanda do engenho era esporádica. porque o céu as rega. um marceneiro. Também tem um poço.. que se tornavam muitas vezes tão impontuais e inconfiáveis quanto os da vila. a de "carpinteiro de carro". São Paulo: Nacional. embora não requeresse a assiduidade do carpina. o qual tendo entregue a um deles o conserto de uma caldeira. reconstituir o projeto colonial da Nova Lusitânia através da paisagem que os colonos procuraram implantar entre nós mediante a aclimatação de espécies vegetais do reino. só conseguiu tê-la de volta após invectivá-lo com expressões desrespeitosas a Deus e à Virgem Maria. eram abastados de legumes de Portugal. tanto da Europa quanto da África". a que se referiam com indisfarçada satisfação os cronistas do século XVI. dos carros de boi e das embarcações. e dentro nela um jardim fechado com muitas ervas cheirosas e duas ruas de pilares de tijolo com parreiras e uma fruta que chamam maracujá". muito demandado num sistema de produção em que o transporte da matéria-prima no interior do engenho e do açúcar encaixado para os trapiches estava a cargo dos carros de boi. "pobremente acomodados nas vivendas das casas". o que na pena de uma batavo não é pequeno elogio. por enquanto. ainda não se pratica. Tratados da terra e gente do Brasil (3. isto é. e enfim para a renovação e reparação periódica de todo esse equipamento. para a feitura das moendas. Pois que a curiosidade dos portugueses. pomares e hortas. lembrava-se decerto do velho tópico do jardim de delícias. "o melhor e o mais alegre que vi no Brasil". A nata era composta de "carpinteiros de engenho". Até mesmo os moradores de Natal. figueiras de Portugal e outras frutas da terra. Mas não havia que se fiar nesses artistas de beira de estrada. do Fogo morto. o já mencionado companheiro de La Ravardière dirá: "o que faz as coisas mais agradáveis é que agora se encontra comumente no país o que lhe era exótico no passado. um sapateiro. este último antepassado distante do mestre José Amaro. Caberia ainda deter-se em outros aspectos do feitio lusitano da existência. 1978). um grande romeiral de que colhem carros de romãs. Já houve. pois os mesteres são monopolizados pelos filhos do reino e pelos naturais da terra. fonte e tanque. 197. É assim que a documentação inquisitorial identifica como moradores de engenho até mesmo um imaginário.. segundo o padre Cardim. p. Para as demais tarefas. também chamados "mestres de fazer engenho".] grandes e belos pomares e hortas. Pode-se.. nos quais há de tudo". o senhor de engenho de Quinhentos tinha todo interesse em tê-lo à mão e em evitar os inconvenientes da concorrência. aliás. ainda que não é necessário para as laranjeiras. os holandeses encontrarão "em todos os lugares [.] levou-os a transferir para ali muitas plantas estrangeiras. inclusive. tanto assim que no tempo de Antonil ainda se debatia a necessidade da sua presença contínua no engenho. eles ou já estarão substituídos pela mão-de-obra servil ou então definitivamente integrados ao salariado dos engenhos. de José Lins do Rego. ascendeu à condição de senhor. ed. estava cingida por um cinturão de hortas em que se cultivava toda sorte de vegetais da metrópole. com a possibilidade de trabalhar para terceiros quando não fosse necessário. como Salvador ou o Rio.. para o que já se lhe começava a conferir o status de morador. querendo todas as coisas na medida do seu gosto [. A coisa só mudava de figura nas fábricas sitas em freguesias apartadas. Este.

vos quero dar em seu lugar crescidos e alevantados coqueiros. num ou noutro ponto. o qual inicialmente só existia nas hortas e quintais. Enquanto. "com o qual se cozinha arroz para iguaria". oferecendo um espaço de lazer aos habitantes. menciona quanto ao Brasil apenas a água. a não ser a da chuva. Pouco depois. que não provocariam surpresa no futuro brasileiro. de outro. lamentando que não se fizesse o vinho de coco. tanto ele quanto Ambrósio Fernandes Brandão e frei Vicente manifestaram a queixa de que os colonos do Brasil não sabiam aproveitá-lo. 146. os pomares. tendo-se resignado a ceder a linha de frente aos cenográficos coqueirais. e as cuias feitas da casca. que se tornaram um símbolo local. o que significa que as árvores datavam das décadas de 1560 e 1570. produzia ao cabo de cinco ou seis anos. as diferenças. Da casca. a área onde se ergueu o edifício e o próprio jardim. graças aos jesuítas que transplantaram inclusive o coqueiro. muitos dos quais septuagenários ou octogenários. Gonsalves de Mello (2. Por fim. é até possível datar os primeiros transplantes. na realidade. No caso de Pernambuco. vegetais nativos particularmente estimados pelo sabor. o conde resolveu sombrear seu palácio com avenidas de coqueiros. p. mas não no de Olinda. a única utilização do coco consistia em comer sua polpa e beber sua água. tanto assim que só muito tempo decorrido da aclimatação do coqueiro começaram a contemplá-lo com olhos utilitários. que não menos zunido fazem com suas folhas açoitadas do vento. mandou trazer em carros de boi. Àquela altura. Porto Seguro. O autor dos Diálogos das grandezas é. que privilegiavam seus próprios vegetais. tão vinculado à alimentação e à cultura indígenas. Ilhéus. Diálogos das grandezas do Brasil. a de serviço. o biombo que oferecia ao viajante que vinha por mar a primeira visão da terra. na alimentação. donde se disseminou pela franja costeira. as áreas internas em que este último se repartia: a área de recreação. o óleo tinha valor medicinal como laxativo e no combate ao reumatismo. fria e clara". por estar desaproveitada. porém. setecentos pés. Com esse fim. praticamente os mesmos que Garcia da Orta descrevera para a índia. o azeite para os alimentos e para a iluminação. quase todos esses usos. Brandônio dispunha-se a plantá-lo no seu jardim ideal. no de Brandônio já existiam a goiabeira. pareciam insólitos às primeiras gerações de colonos portugueses. ed. mais explícito. pela retaguarda das falésias que rematavam os tabuleiros. que frei Calado comparou às famosas de Aranjuez. E também se haviam adaptado vegetais africanos e asiáticos. ao referir às vantagens que se tiravam do coco na América hispânica e nas Filipinas. sendo utilizado como material de construção civil e até de construção naval. Markgraf. nem se lhe utilizasse o azeite e nem sequer a palha. No período ante bellum. enxergavam apenas uma terra nonotonamente baixa. "doce. seu leite. através de Cabo Verde. e cortada. uma "planície safara. uso. cujos terraços marítimos haviam sido o hábitat do cajueiro. ed. . de um lado. Ainda ao tempo de frei Vicente do Salvador. Os navegantes do primeiro século. como tantas outras espécies vegetais e animais. no jardim dos jesuítas. na descrição de Barléus. Contudo. circunscrevendo. No litoral da índia. Gândavo ainda não menciona o coqueiro mas nos anos oitenta ele surge nos pomares dos colégios da Companhia de Jesus em Salvador. 1966). o coqueiro era a base imemorial de um complexo econômico e ecológico. só se admitira o maracujá. tinham o papel de delimitar o espaço externo e interno. ao passo que na índia seria necessário esperar vinte. Gabriel Soares pretenderia que o coqueiro se adaptara tão facilmente que. e. cobria-se de mato". vinagre e açúcar. com que se ornam grandemente semelhantes pomares e jardins. Quando Nassau ajardinou seu palácio de Friburgo. O coqueiro tinha de enfrentar os hábitos da terra. despida de arvoredos e arbustos que. por J. um processo lento que implicava vencer as inércias do cotidiano material. em áreas praieiras afastadas de água potável. Essas alamedas. aliás. Dele também se tiravam aguardente. bem arborizada de bosques de cajueiros e dos manguezais da foz dos rios. aconselhando liricamente ao interlocutor: porque não suceda invejardes os alamos e choupos de nosso Portugal. Por isso. Há muito os cajueirais fazem figura de parente pobre. Recife: Imprensa Universitária. A. como Pero Lopes de Sousa. Devido à escassez de documentação. e só poderia triunfar depois de provar suas vantagens. a de criação de animais domésticos e os grandes viveiros. aqui e ali. como nas Maldivas. mal se vislumbra a verdadeira mutação da paisagem ao impor-se o coqueiro do Oriente ao cajueiro nativo.4 Mas foi Nassau quem tirou todo o partido decorativo da árvore. essencial. o tamarineiro e o ananás.86 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 87 Já se insinuavam. Ambrósio Fernandes Brandão. de três ou quatro milhas de distância. a população fazia cuias de beber. a primeira função do coqueiro na América portuguesa foi meramente ornamental. Esses primeiros coqueirais vieram. consumiam-se-lhe a água e o miolo e fabricava-se o "copra". Sendo a ilha de Antônio Vaz. entre nós.

ainda com anterioridade ao boom açucareiro. vegetação rasteira e cajueiros. no decurso de sua vida no Brasil. o estilo da existência material vigente no reino resiste tão brava quanto inutilmente ao impacto da continentalização e da ruralização. mencionou nada menos de dois mil. os soldados se dessedentavam com laranjas. plantara principalmente coqueiros. o que não seria possível caso eles já aí estivessem. espiando de trás das edificações que margeiam o rio. Marchando pela praia de Pau Amarelo. Esse primeiro jardim nassoviano situava-se. a situação não mudara. como se conclui da carga das embarcações portuguesas apresadas pelos inimigos. na Alemanha e nos Países Baixos. A começar pelos hábitos alimentares. sem levar em conta a inércia dos hábitos alimentares dos habitantes. por conseguinte. de 60 e 70 pés de altura e da espessura de um tonei. Ao tempo da invasão holandesa. A. como ao tempo de Pero Lopes de Sousa. Por outro lado. esta da Boa Vista. que passeou por elas. 1947). posterior ao período holandês. sem falar numa quantidade inumerável das mais comuns". Trinta anos depois. no interior do chamado groot kwartier. Pyrard de Lavai observou que o Brasil importava toda espécie de víveres não só de Portugal como das ilhas. antes. atual praça da Independência. era provavelmente uma mata de cajueiros. Gonsalves de Mello. ao passo que a fachada marítima carece deles. o coqueiro ainda era bem raro.88 Evoldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 89 No fim da vida. limões e roletes de cana. E em começos do século XVII. Richshoffer divisava a vila sobre as colinas. limitando-se aos núcleos de população e servindo de decoração a uma que outra casa-grande de engenho. pois muitos devem quanto têm) providas de todo o necessário". fenômeno de longo prazo. inclusive da farinha de trigo trazida de Portugal ou de São Paulo. Plantado o horto. . gabando-se de haver plantado. existia um pequeno coqueiral ao lado do forte da margem norte do rio. os famosos coqueirais das praias olindenses ainda não existiam. O bosque. transcrito por J. de quem provavelmente a ouviu. situado ao norte de Olinda. que afetou o suprimento de gêneros reinóis e reduziu o nível de renda da açucarocracia. quando das marchas pelo interior. O provável é que a aceitação dos produtos alternativos da terra pela gente de prol só se tenha generalizado a partir da guerra holandesa. para admiração de todo o mundo e de todos os habitantes.000 árvores de toda espécie. Nesses núcleos urbanos de Quinhentos. Informa Anchieta que o pão de trigo era consumido sobretudo em Pernambuco e na Bahia.000 ao todo. 313-6. Em 1630. o que atribuía à produção insuficiente da colônia. Aí. cifra idêntica à de Nassau. A substituição maciça do cajueiro pelo coqueiro ao longo do nosso litoral. referido por Baers. Nassau abandonara a casa. o então chamado "terreiro dos coqueiros". que não haviam jamais visto replantar uma árvore. mostra claramente os dois hortos: o coqueiral mais denso sob a legenda "Mauritiopolis" e o coqueiral menor de Friburgo. vendo-se apenas terras baixas. referem os Diálogos das grandezas que "alguns e não poucos usam também de pão. O provável é que esta última correspondesse ao total de coqueiros plantados pelo conde em todo o Recife e não apenas em Friburgo. com as folhas e os frutos. foi. Nos anos sessenta. que mandam amassar e cozer em suas casas. Pernambuco já era bem abastecido dos gêneros do reino. que o conflito previsivelmente apressou. Uma gravura anterior ao incêndio de Olinda registra os coqueiros do horto dos jesuítas. o uso da farinha de mandioca não foi tão universal quanto se pretendeu. cerca de 2. do vinho e do azeite. Entre nós. Os grupos privilegiados mantêm-se fiéis à tríade canônica do trigo. mais altos e densos. existente na atual praça Dezessete. portanto. ele criara um horto. de Tempo dosflamengos(Rio de Janeiro: José Olympio. Só no burgo ele e a soldadesca puderam ser providos de cocos. feito de farinha que com- 5 "Mémoire". rotineiramente carregadas daqueles artigos. "mais de 40. por conseguinte. que comportou uma verdadeira revolução ecológica. pp. sem que um só tenha morrido. Nassau aboletara-se inicialmente numa enorme casa de construção portuguesa. Outra gravura. Frei Vicente verá "as casas dos ricos (ainda que seja à custa alheia. pois sendo "denso e intrincado" não poderia corresponder a um coqueiral. Nassau recordava suas experiências de jardinagem. Uma gravura de Mauriciópolis permite distinguir esses coqueiros. nesse primeiro século. Nos primeiros decênios de sua aclimatação em Pernambuco. que excluía a área ao norte do Forte Ernesto. Destarte. dos coqueiros do jardim do palácio. e da ruralização dos modos de vida. principalmente desta espécie e tamanho. vindo habitar nele. Na Paraíba. mas frei Calado. da conclusão de Friburgo. Uma gravura da vila da Conceição (ilha de Itamaracá) representa coqueiros nas elevações mas não nas terras baixas de um e outro lado do canal de Santa Cruz. onde veio a ser construído Friburgo.5 Barléus falou de setecentos coqueiros nas aléias de Friburgo. quando da invasão holandesa. areiais. no espaço entre sua residência e o Forte Ernesto (Convento de Santo Antônio).

aliás. mais resistentes ao transporte e ao calor. à mandioca e a outros alimentos indígenas. já é invenção da arte culinária das colonas. devido à falta de navios. não dispensava os outros gêneros da metrópole. Quando Cardim foi pregar na matriz de Olinda. às de Portugal". que vestem muitas sedas e jóias e creio que levam nisto vantagem. A despeito do clima. razão pela qual a gente acaudalada de Pernambuco mandava buscá-la. como se verificava no reino. utilizando a matériaprima da terra à maneira de como se fazia em Portugal com a farinha de trigo na confecção de filhos mouriscas. sem necessidade de ser guardada. e nisto se tratam com fausto. O vinho. como o bálsamo da cabriúva. aliás. suas mulheres e filhas. embora no Rio Grande do Norte se fizessem queijos e requeijões à maneira de Lisboa. confessava Cardim) e de em São Paulo fabricarem a bebida. o ananás em conserva. e a batata e os pinhões como purgativo. a roupa de verão servia para o inverno. ademais do vinho de Alvor. passas e figos. damascos. Naquela. por não serem tão nobres. que se não traja melhor nela do que se trajam no Brasil os senhores de engenho. Os primeiros cronistas já se gabavam. Quanto aos religiosos. e outros homens afazendados e mercadores". O jacarandá já estava sendo empregado na fabricação de leitos e em outros fins. fazendo dele "tanta questão que o cobrem de açúcar". dos queijos e de outras coisas de comer. . Quanto às práticas médicas. embora fossem poucos entre os primeiros os que sobreviviam à mudança de clima. Do Algarve. muito apropriado à dor de pedra. devido à temperança do clima. como observou Braudel. Pela gente de prol. aos purgativos importados do reino e a médicos. Contudo. A despeito da quantidade de vinhas cultivadas na terra ("nunca vi em Portugal tantas uvas juntas. Devido ao clima. já se recorria a "diferentes estilos" de tratamento das enfermidades e já avançava a assimilação de vegetais nativos. os "criollos" convertiamse progressivamente ao milho. a marmelada de ibás. Do ponto de vista da adaptação alimentar. barbeiros e cirurgiões. a grande maioria dos colonos apegava-se às modas do reino. onde a profissão era especialidade feminina. excelentes contra as câimbras. as parturientes guardavam-se do ar. Mas não eram apenas as ervas e frutas brasileiras que começavam a ser utilizadas na metrópole. aliás. sobretudo da Madeira e das Canárias. Importava-se até mesmo queijo de ovelha. bugios e papagaios. O beiju. generalizava-se a aplicação nas feridas do azeite da copaúba. das azeitonas. rases e mais panos finos como em Portugal. os povoadores por não haverem ainda se aproveitado das raízes e ervas da terra. graças à prosperidade açucareira. de pertinas compridas" e freqüentassem a missa dominical em "roupões ou bernéus de cacheira sem capa". segundo Moreau. o Brasil era sempre abastecido pelo produto do reino. a mandioca era preferencialmente ingerida sob a forma de beijus. de que o Brasil já convertia Portugal a vários dos seus costumes. As exceções eram o Rio de Janeiro e São Vicente. só querendo servir-se dela. O fenômeno evidentemente é a conhecida manifestação de novo-riquismo. os colonos ainda davam preferência. A diferença em relação ao reino consistia em que. é provável que a América espanhola se tenha antecipado à portuguesa. como o vinho e o azeite. Brandônio assegurava ter ouvido "a homens mui experimentados na corte de Madri. me acompanharam até o púlpito. como era o caso dos jesuítas. Daí que os habitantes de Piratininga trajassem arcaicamente "de burel e pelotos pardos e azuis. havia adotado a farinha de mandioca. o consumo conspícuo tomava a forma de serviços de prata e de camas ornadas de damasco. veludos. Ademais. porque há muitas que vivem desse ofício". máxime as mulheres. porque custam dinheiro". os luso-brasileiros transformaram o pão de trigo numa iguaria refinada. devido à crise de meados do século XVI. os mordomos da confraria do Santíssimo Sacramento. pois no reino como no Brasil o vestuário dos dias de semana é chão. como a batata e os pinhões muito utilizados nas purgas. "todos vestidos de veludo e damasco de várias cores.90 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 91 pram do Reino ou mandam buscar às casas das padeiras. Já se havia também descoberto as virtudes da água da Paraíba no tratamento das eólicas e da dor de pedra. com franjas de ouro e colchas da índia. Só quando as estreitezas da guerra complicaram o abastecimento. isso evidentemente nos domingos e dias de festa. no começo do século XVII. Anchieta notou que os colonos vestiam-se "de todas as sedas. E havia grande estima pelos sagüins. continuariam ainda dependentes do aprovisionamento de víveres metropolitanos. fazia parte do passado mesmo dos reinóis modestos. Mesmo quem. além do vinagre. segundo Anchieta. inclusive por gente modesta. enquanto os mazombos brasileiros. estavam adstritos obviamente à obrigação de se vestirem como em Portugal. pois é Olinda da Nova Lusitânia". estimados por mais saborosos e de digestão mais fácil. Como ali. embora não fizesse tanto efeito quanto o ananás verde. "havendo por melhores as que vêm de Portugal já corruptas. No interior das residências. Brandônio criticava. como vi nestas vinhas". camueis e araçás. chegavam. embora não guardassem tanto tempo o leito. a seda era o tecido mais buscado. de quem os cronistas diziam maravilhas. e não é muito achar-se esta polícia em Pernambuco.

As éguas baianas eram "tão formosas [. que. O tema do "grande reino" surge inclusive em autores do reino. tinha ademais sobre esta a vantagem de custar menos trabalho. ao passo que Alviano atribui à natureza brasileira os males da colonização. exultava Brandônio. sem necessidade de rega nem de estéreo. "mais alto e forte que em Portugal". de lombo de porco ou veado). e certo gênero delas "tem melhor sabor que as de Portugal". segundo Gândavo. e as abóboras e as couves. que exprimem duas atitudes distintas. Nesse sentido. exceto em São Vicente e no Rio de Janeiro. embora cá e lá fossem da mesma casta. previa Gabriel Soares. surge a dicotomia da terra e do homem. crescendo "tão compridas como lanças". provocaria a calorosa querela teológica a que se referiu o autor dos Diálogos das grandezas.92 Evaldo Cabral de Mello Uma Novo Lusitânia 93 Somente em finais de Quinhentos e começos de Seiscentos é que começaram a se afirmar as modalidades do sentimento local que já não se contentavam em frisar o casticismo da América portuguesa. sendo considerada. tendo o mesmo gosto da carne de vaca (ou. Enquanto na Madeira a planta só dava duas safras. entenda-se. tãoricae variada quanto a da Espanha. e já parem no segundo. A água de laranjeira tinha "mais suave cheiro que a de Portugal".. radicado na terra. o sabor e o cheiro do ananás levavam de vencida todas as outras frutas da Espanha. havia canaviais na Bahia que davam havia trinta anos. vivendo nos rios. Na realidade. ao cabo do primeiro ano. tendo em vista que seu hábitat eram as águas. É certo que Gândavo já escrevera que os bolos de aipim excediam no sabor ao pão do reino e que o ananás era tão delicioso que não conhecia em Portugal fruta que lhe fizesse vantagem. Mesmo admitindo a superioridade do bom trigo. Mas é Gabriel Soares. ao menos desde a crônica de Gabriel Soares. O viço dos canaviais das várzeas era tal que o sumo das suas canas só coalhava quando misturado ao de canas velhas. acamavam. do que em Alvalade. podendo ser ingerida ao longo do ano. Os eqüinos multiplicam-se vertiginosamente. como haviam podido constatar os primeiros governadores-gerais. o oposto da capivara. Do Pará a São Vicente.. A farinha de mandioca só perdia em qualidade e sabor para o trigo de boa espécie. o trabalho rotineiro da lavoura. Os bovinos são muito mais fecundos. Esse sonhado grande império já não é mais apenas o prolongamento ultramarino do reino. ela já é uma clara opção pelo continente contra a ilha. pastava na terra. por se não acharem bem com ele. que a compara e a seus produtos de maneira sistematicamente favorável. a cana-de-açúcar não exigia irrigação ou estéreo. mas tem muito mais fundo". Ao contrário da Madeira ou do Velho Mundo. As favas podiam ultrapassar as de Évora em tamanho. Sendo ainda de seis meses. "davam-se melhor no Brasil que no Minho". pois as novilhas já recebem o touro. o milho. a que se tornará crescentemente sensível a colônia. Alviano e Brandônio. certo rio da Bahia era "tão formoso como o do Guadiana. o qual. e que os peixes. por trás dela. embora o toucinho não fosse tão gordo. que "não comiam no Brasil pão de trigo. da península ibérica. carne e não peixe. as terras baixas não cansando jamais e as altas produzindo quatro. A carne de porco era tão sadia que fazia na terra as vezes da galinha na alimentação dos enfermos no reino. "se fará tão soberano que seja um dos Estados do mundo". a qual concluiu tratar-se verdadeiramente de um pescado. a ponto de seus preços haverem caído seis vezes em relação ao que custavam no começo. Gabriel Soares ressalvava que a farinha de mandioca era "mais sadia e proveitosa [. não saindo a pastar fora delas. como Luís Mendes de Vasconcelos. portanto.. nossos primeiros cronistas foram também nossos primeiros ufanistas. Os pepinos se davam melhor do que em Lisboa. o centeio e a cevada eram inferiores à mandioca. plantando-se até mesmo nos altos. o tema. que exprime o antagonismo do reinol recém-chegado e do colono estabelecido na terra. em caso de necessidade. da fundação de "um grande império" no Brasil. Até mesmo os nabos e rábanos.. em conexão com o argumento do apoio mútuo que. É sabido que os Diálogos das grandezas foram construídos com base na oposição entre os interlocutores. e a ilha. As galinhas baianas "eram maiores e mais gordas" que as portuguesas. Assim. são "quase setecentas léguas: terra bastantíssima para se poder situar nela grandes reinos e impérios". e assim o fazem outras muitas pessoas". Brandônio os imputa aos povoadores. A beleza. cinco vezes e até mais. de vez que o "trigo do mar". As figueiras não criavam bicho como em Portugal nem as atacavam as formigas. mas já conta com evidentes superioridades sobre a metrópole. . que. sobretudo porque o continente é a promessa de minas. As limas e as cidreiras eram maiores e mais saborosas que as do reino. A lavoura de mantimentos. A arquicitada lamentação de frei Vicente do Salvador sobre a tendência dos colonos a comportarem-se como caranguejos não tem outra inspiração. devem prestar-se metrópole e colônia. quintessência dos legumes metropolitanos. para não mencionar o manjericão.] como as melhores de Espanha". Em termos da dicotomia freiriana. tinham muito melhor sabor.] por ser de melhor digestão". Assim. A exceção era o peixe-boi.

Ele mesmo. de Lei e de Rei. o que também pode ser afirmado a respeito do queijo feito do leite do mesmo animal. Os camarões. Não experimentara nem centeio nem cevada mas o milho europeu se dá melhor e em mais quantidade do que se dá em Portugal. Alviano mesmo admitira que. ser geralmente mais discriminador nas sociedades primitivas do que nas históricas. tanto assim que "de alguns asnos cavalares que se mandaram vir do Reino se produziram maravilhosos machos e mulas". mesmo que fosse apenas para "enchimento de colchões".94 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 95 Na sua condição de cristão-novo. Brandônio mostrara-se otimista. cit. onde eram vítimas do gorgulho. ademais dos próprios. Destarte. a começar pelo "muito algodão que aqui se colhe" e de que se poderia fazer toda sorte de tecidos. que propusera o plano de cultivar no Brasil as drogas da índia para destruir o comércio holandês das especiarias. e quando a houvesse. Brandônio. Ambrósio Fernandes Brandão podia tomar uma distância crítica vis-à-vis dos demais reinóis. talvez. porque a gente da terra se contenta somente com aquilo que os passados deixaram em uso. fizesse do Brasil o entreposto desses produtos. pois se os colonos se empregam no cultivo da cana e no fabrico do açúcar. sem quererem anadir outras novidades de novo. de maneira que se vêm a mostrar nisto serem todos padrastos do Brasil. Do ideal. sabemos. ademais de "outras muitas coisas".6 Brandônio inventaria. "a terra é disposta para se haver de fazer nela todas as agriculturas do mundo". aliás. como as das favas e feijões. apenas insinuado. a exemplo do que fizera d. não os havia apenas no mar. com lhes ser ele madre assaz benigna. que. embora nem mesmo um nativista enragé como ele ousasse negar a nocividade e o incômodo do bicho-de-pé. j 6 Ambrósio Fernandes Brandão. Em lugar de se cultivar hortaliças. e até aduz vantagens. embora. por exemplo. frei Vicente do Salvador fará todo um programa nativista. op. A longo prazo. . assinalara a superioridade do produto reinol cultivado no Brasil sobre seu similar metropolitano. os colonos preferem comprar a que vem do reino muito cara. como em Portugal. Para o nosso franciscano. da "pouca curiosidade e menos indústria dos que a habitam". constatando que ele se dava muito bem nas campinas mas não nas várzeas. Uma réplica. carência fonética interpretada no sentido de que os indígenas eram destituídos de Fé. plantara e colhera trigo. citando o exemplo do vocabulário do parentesco. sendo fértil de tudo. com o que já não haveria "necessidade de coisa nenhuma das que trazem de Portugal. Frei Vicente incorre mesmo em grave ofensa às suscetibilidades reinóis quando assinala ser a língua geral mais rica de vocábulos que a língua portuguesa. O defeito não é da terra mas da "culpa. Ao passo que Gabriel Soares. de autarquia colonial. isto se deve a que não a acham "capaz de mais benefício". de vez que "os que ficarem sem ocupação. porque nele se dão os mantimentos de todas as outras". como na descrição das madeiras utilíssimas desconhecidas do outro lado do Atlântico. ao contrário. ao contrário de Brandônio. Como seus antecessores. o L e o R. o autor da História do Brasil vai além. À maneira dos antecessores. não consumiam as sementes na planta nem se recolhiam em celeiros. Os muares criavam-se facilmente no Brasil. pois não somente possuía uma flora mais rica como também assimilava a alheia em condições mais vantajosas que as do próprio lugar de origem. "com tantas sortes de vinhos [indígenas]. replica-lhe Brandônio tratar-se de "erro crasso". pp. ao contrário do trigo. bem se puderam escusar os que se trazem das Canárias e ilha da Madeira". frei Vicente não se priva das comparações. de força hão de buscar alguma de novo de que lancem mão". mas também nos rios. Tendo afirmado Alviano ter o Brasil na conta da terra "mais ruim do mundo". julgando que semelhante falta de iniciativa seria remediada pelo crescimento demográfico. mas não se usa dele.. o cronista franciscano preferirá a solução que. o Brasil tinha o melhor dos dois mundos. seguindo o exemplo da índia. ao argumento muito usado de que o tupi desconhecia o F. ainda que entendam claramente que se lhes há de conseguir do uso delas muita utilidade. importam-se de Portugal. 142 e ss. que não criavam bicho nem tinham a casca tão dura como no reino. tirando partido da brevidade e segurança da navegação com o reino. fora de poucas". Manuel com os venezianos. "é o Brasil mais abastado de mantimentos que quantas terras há no mundo. não sendo as pulgas tantas. que. o cronista acentua não existirem no Brasil piolhos e percevejos. graças à antropologia. não vendo "nenhuma província ou reino dos que há na Europa. Ásia ou África que seja tão abundante". as da mandioca e do aipim. porém. mas sua utilização deixou de ser praticada por pura inércia. e Brandônio aventara a conveniência de se escusar o próprio azeite do reino. afirmando a superioridade do produto nativo sobre o português. de vez que. Em vez de se aproveitarem da lã das ovelhas. negligência e pouca indústria de seus moradores". as potencialidades inexploradas da terra.

não pudera resistir às armas de Filipe II. sem quererem tratar de mercancias. mas não há dúvida para que lado se inclina a argumentação do frade: pois primeiramente pode sustentar-se com seus portos fechados sem socorro de outras terras. Brandônio refere haver previsto um astrólogo da corte de d. 1954). Se me disserem que não pode sustentar-se a terra que não tem pão de trigo e vinho de uvas para as missas. ao passo que "os moradores eram os que a conservavam e acrescentavam com seu trabalho e haviam conquistado à custa do seu sangue". Azeite? faz-se de cocos de palmeiras. (Este já lamentara. ed. Frei Vicente pretenderá que. devido à sua posição estratégica. pois se o salmista louva Sião por ter suas portas abertas a todos. Ora. E com isto está que tem os portos abertos e grandes barras e baías. Manuel que a terra que vinha recém-descoberta por Cabral haveria de tornar-se "uma opulenta província. por onde cada dia lhe entram navios carregados de trigo. embora contando com uma extensão continental. para a eventualidade de invasão estrangeira do reino. que os lucros do Brasil fossem todos para os reinóis. louva também Jerusalém por ter tudo dentro de si. Os comerciantes reinóis eram acusados de só virem "a destruir a terra. Neste século de Quinhentos.. . A condenação abrange indiferentemente os Avis lusitanos e os Habsburgo castelhanos. que. já se hão despovoado alguns lugares e. ele coloca em termos das Escrituras a questão de se é preferível a autarcia ou seu contrário. a história de frei Vicente já fere algumas teclas nativistas. Vinho? de açúcar se faz mui suave e. ou quem. a despeito do apoio naval francês e inglês. levando dela em três ou quatro anos que cá estavam quanto podiam". único a sabê-la verdadeiramente estimar. pois este divino sacramento é nosso verdadeiro sustento. pois "raramente se pagam". Daí que frei Vicente reserve avaramente seus elogios aos governadores-gerais que protegiam os colonos da usura mercantil. concedo. refugio e abrigo da gente portuguesa".. Francisco de Sousa. como se vira durante a tentativa independentista do prior do Crato. preferindo se intitularem reis da Guiné "por uma caravelinha que lá vai e vem". O Destarte. 71. uma delas o tratamento dispensado no reino à colônia. que uns e outros usam da terra não como senhores mas como usufrutuários". as ilhas podiam ser facilmente conquistadas. que proporcionaria a base ideal para a reconquista da mãe-pátria. que monopolizavam o comércio. da possibilidade de passarem-se el-rei e seus vassalos à América. Após constatar que "com não haver hoje cem anos [. que só cuidam da América para receber seus rendimentos. Amêndoas? também se escusam com a castanha de caju. já vigia também entre os colonos a crença no papel messiânico a ser desempenhado pelo Brasil nos destinos de Portugal. mas para isto basta o que se dá no mesmo Brasil em São Vicente e campo de São Paulo. 7 Frei Vicente do Salvador. demasiado distante. como d.7 João III. São Paulo: Melhoramentos. cogitou-se. como agora dissemos. et sic de ceterís. Quanto à índia. Senão pergunto eu: de Portugal vem farinha de trigo? a da terra basta. que hospedara e banqueteara o almirante Diogo Valdez e seu séquito durante oito meses.. Preso à sua cultura eclesiástica. que deixam a troco das da terra. antes em diminuição". Especiaria? há muitas espécies de pimenta e gengibre. superior à dos Açores. Os serviços prestados no Brasil não eram recompensados. Foi frei Vicente que concluiu a redação da sua história sob o impacto da ocupação holandesa de Salvador (1624-1625). Ferro? muitas minas há dele.. "porque.com o deixar ferver dois dias embebeda como de uvas. História do Brasil (4. exceção de d. Nem mesmo os povoadores escapam à crítica: "por mais arraigados que na terra estejam e mais ricos que sejam. demasiado próximos. elas fornecem uma resposta equívoca.. Devido a seu reduzido território. Pano? faz-se de algodão com menos trabalho do que lá se faz o de linho e de lã.] que se começou a povoar. para quem o querrijo. tudo pretendem levar a Portugal [. para com Pero Coelho de Sousa e para com certo pró-homem baiano. Sal? cá se faz artificial e natural. porque debaixo do algodoeiro o pode a fiandeira estar colhendo efiando.] nem por isso vai em aumento. tratando os mais [governadores] do que hão-de levar e guardar.nem faltam tintas com que se tinja. tornara-se querido e respeitado.96 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 97 Escusado assinalar que a conotação autárquica desses tópicos acarretava potencialmente a contestação do monopólio colonial. vinho e outras ricas mercadorias. e da índia. tinha o ônus da navegação demorada e perigosa. argumento já esgrimido por Brandônio. a ponto de não lhe usarem o nome.] e isto não têm só os que de lá vieram mas ainda os que cá nasceram. sem que se lhe fizesse qualquer mercê. "porque os naturais da terra se ocupam no granjeamento dos seus engenhos e no benefício de suas lavouras. posto que alguns o fazem". como indicava o comportamento da coroa para com o primeiro donatário de Pernambuco. sendo a terra tão grande e fértil [. p. João III. ele acusa os monarcas portugueses de fazerem pouco caso do Brasil. e em São Vicente está um engenho onde se lavra finíssimo. já ao tempo da fundação de Salvador e ao longo do reinado de d. O Brasil gozava de ambas vantagens. quem formulou o primeiro programa nativista para o Brasil. aliás. ele só tratava do que havia de dar e gastar"..

donde tornará rico e honrado". Quando da sua segunda missão a Paris (1646-1649). granjeou com a mulher dois mil ou três mil cruzados. o que só não fez devido à revolta dos colonos paraenses. pelo qual Carlos II prometeu apoiar militarmente Portugal. O cro8 "Papéis concernentes a Gaspar Dias Ferreira". O português a quem acontece decair de fortuna. haviam voltado ricos a Portugal muitos que ali haviam aportado sem eira nem beira nem ramo de figueira. 78. João III. Outrora deliberou-se em Portugal. onde. cujo tratado destinava-se a propagandear "a fertilidade e abundância" da nova terra junto às "muitas pessoas que nestes Reinos vivem com pobreza e não duvidem escolhê-la para seu remédio". Esse papel messiânico do Brasil era visto igualmente em termos de promoção econômica e social da população do reino. "tudo o que neste Estado [do Brasil] não for de Sua Majestade crescerá devagar e durará muito pouco". senhor de dois engenhos. Ninguém mais autorizado para formular o tópico do que Gaspar Dias Ferreira. finalmente realizado no século XIX. 1887. O que frei Vicente não podia prever é que. De Pernambuco.98 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 99 Brasil é que possuía todos os requisitos. a Grande Mademoiselle. elevar o Brasil a Reino. indo para lá o Rei. que o retiveram em Belém. de modo que "com muita facilidade podem [os portugueses] cá vir e tornar quando quiserem ou ficar-se de morada". Ainda segundo o jesuíta. João IV e depois na regência da sua viúva.8 Ainda outro tema já presente nesses primeiros textos da história brasileira é o da superioridade da ação do Estado sobre a atividade privada. nem também os seus vassalos melhor e mais seguro refúgio do que o Brasil. onde foram tomar navio para se embarcarem". O indivíduo em questão fora mandado para o Rio Grande do Norte. teve sua pré-história no reinado de d. decorrido pouco mais de um decênio da redação da sua obra. o duque de Orléans. além de mais generosos nas doações pias. passeando ele ombro com ombro com o capitão. isolando internacionalmente Portugal. conselheiro do conde de Nassau e protegido do vice-rei da Bahia. No seu parecer sobre a compra do Nordeste aos holandeses. É conhecida a estória narrada por frei Vicente a respeito de certo homem de Leiria. sabe-se por uma carta do padre Antônio Vieira que a nomeação de Francisco de Brito Freire para o governo de Pernambuco (1661-1663) resultará da preocupação da rainha regente de "prevenir a seus filhos [inclusive d. tornando-se compadres do capitão-mor. Mas a reação francesa foi negativa. com o que o tema do Brasil refúgio entroncava-se com o da construção do "grande império". mais próxima nem mais freqüentada. a reconquista de Portugal pela Espanha]. pois graças a sua j fartura ela era especialmente acolhedora. Teodósio. ao passo que o monarca ficaria com o domínio dos Açores e do estado do Maranhão e Grão-Pará. que então se encontrava missionando no Maranhão. em cuja menoridade a regência seria exercida pelo almejado sogro. lisboeta que chegara pobre a Pernambuco e aí se tornara homem rico e honrado. 32. com a prima de Luís XIV. Arqueológico e Geográphico da Paraíba. e. que então muito se temia. Vieira. como eu as vi em Pernambuco. mesmo quando d. d. na menoridade] uma retirada segura. "comendo todos a uma mesa. A idéia só foi definitivamente descartada graças à assinatura do tratado de aliança luso-britânico de 1661. vol. em Revista do Instituto Histórico. recebeu a ordem de seguir para Pernambuco. Sua navegação era fácil. a restauração portuguesa. Do segundo projeto de retirada da família real para o Brasil no decurso da guerra da restauração. em cuja companhia retornaram ao reino. no caso em que algum sucesso adverso [isto é. contrastando o florescimento das capitanias que "o braço real tomou mais à sua conta" com o atraso a que estariam relegadas as terras donatariais. como consta de sua história. a despeito de ser "a pior [terra] do Brasil". assentando-se a mulher no mesmo estrado que a fidalga. rubricado de sua real mão com três cruzes". . Para Diogo de Campos Moreno. frisava Gabriel Soares de Sousa. Suas dimensões permitiriam abrigar toda a população do reino. Luísa de Gusmão. Portugal não tem outra região mais fértil. O "brasileiro" das novelas de Camilo Castelo Branco é a derradeira encarnação do mito da terra da árvore das patacas. necessitasse deste último remédio". tão grande é a capacidade daquele país. d. conde de Montalvão. punido pelo seu bispo com a sentença irônica de que "vá degredado por três anos para o Brasil. segura e rápida. O tópico já se encontra em Gândavo. Pois a verdade é que o projeto de transmigração da família real para o Brasil. o príncipe d. p. João IV propôs abdicar em favor do filho. a ser constituídos em reino autônomo. Afonso XI. Tanto assim que os colonos se mostravam mais largos que os habitantes do reino no comer e no vestir. o marquês de Niza foi instruído a negociar o casamento do herdeiro do trono. Gaspar escrevia: Eu o [Brasil] chamo o jardim do Reino e a albergaria dos seus súditos. João IV recomendara o projeto num papel encontrado após seu falecimento "em sua gaveta secreta. é para lá que se dirige. signo da promoção social do casal. recolocaria na ordem do dia a velha idéia do reinado de d.

An Historical Geographyfrom its Origin to 1914. ele a explicava pelo auxílio que lhe dispensara a coroa sob a forma de "capitais. ou seja. Igrejas. Tarcizio do Rego. J. Nova York: CambridgeUniversity Press. ele silencia ou não percebe algo essencial. Geraldo. Recife: Fundação Gilberto Freire. QUIRINO. Bibliografia selecionada FREIRE. Alberto. que constituíam a fonte de recursos com que a coroa financiava suas despesas de gestão e defesa da América portuguesa. "Escravos com e sem açúcar na Madeira". SMTTH. a receita dos seus dízimos era insuficiente para cobrir as despesas com o aparato burocrático que o governo central aí instalara. casas e móveis.100 Evaldo Cabral de Mello Uma Nova Lusitânia 101 nista invocava o exemplo da Bahia. que o superávit obtido no rendimento dos dízimos do açúcar. Recife: Imprensa Universitária. VIEIRA. Aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do Nordeste do Brasil. Atas do Seminário Internacional. Recife: Univ. as autoridades tinham todo interesse em promover o crescimento local. Daí que Campos Moreno advogasse a estatização das capitanias donatariais. Jorge Borges de. 1985. GUERRA. nas quais porque o são aumentam-se cada dia as povoações e crescem as fazendas". ed. 1966. 1962. Virgínia & MACEDO. SCHWARTZ. O açúcar da Madeira nosfinsdo século XV. a Bahia. . Malgrado ariquezada principal capitania regia. presídios e fortificações". Mesmo a exceção conspícua que era a prosperidade de Pernambuco. HOLANDA. nas capitanias regias. A falta de ação donatarial estaria ligada à incapacidade dos seus agentes. Ruy. RAU. GALLOWAY. 1983. 1989. São Paulo: Livraria Duas Cidades. StuartB. Sérgio Buarque de. Os habitantes do Brasil no fim do século XVI. Nova York: Cambridge University Press. Gilberto. 1996. Na realidade. GOMES. São Paulo: Nacional. 1997. The Sugar Cane Industry. 1979. era exclusivamente gerado pela capitania donatarial de Pernambuco. descontada essa contribuição. pois. Lisboa: Funchal. Visão do paraíso. Rio de Janeiro: José Olympio. H. ao passo que. de Pernambuco/IPHAN. "todas hoje de Sua Majestade. 1985. Funchal. Sugar Plantations in the Formation ofBrazilian Society: Bahia 1550-1835. na expectativa de promoção no serviço público. de vez que nestas capitanias "nunca se encontra pessoa ) respeitável no governo". as contas do Estado do Brasil apenas se equilibrariam. Engenho & arquitetura. do Rio de Janeiro. RobertC. Engenho e tecnologia. Fed. 2. Nordeste. 1969. da Paraíba e do Rio Grande do Norte.

Schwartz . Pensando o Brasil: a construção de um povo • Stuart B.OI "Gente da terra braziliense da nasção".

De alguma forma. Neste breve estudo examinarei as dificuldades de se criar um conceito de povo dentro das malhas de uma sociedade escravista. em alguma medida. das identidades e das expectativas da população colonial. quando não o fazem em outros * Tradução de Adriana Lopez.. se tornou um método de estratégia argumentativa e discursiva. essas diferentes concepções de Brasil tiveram de ser I reconciliadas de alguma forma. o Brasil tem sido tanto uma I idéia quanto um lugar. onde. quase sempre homens. Essas concepções diferentes dependiam. sempre houve uma variedade de Brasis que se disputavam. assim como uma projeção para o futuro. foi freqüentemente mais um projeto do que uma | realidade. Significou coisas diferentes para pessoas diferentes e l o próprio termo tem sido redefinido e reinterpretado para refletir as diferenças e discrepâncias entre pessoas de variadas extrações e posições sociais. . publicam seus trabalhos. embora a realização desse objetivo numa I sociedade multirracial e escravista tenha sido um processo extremamente I complexo. a habilidade em recapturar os conceitos variantes de Brasil sempre tem sido limitada pelo fato de que aquilo que conhecemos a respeito da mentalidade dos habitantes do Brasil colonial freqüentemente tem sido extraído dos escritos de um pequeno contingente da elite alfabetizada. em especial. e tentarei sugerir que o próprio conceito de povo passou por diversas transformações históricas no início da história moderna do Brasil. Essa definição dependia. projetos diferentes para o que o Brasil deveria ser ou representar. Antes que pudessem existir os brasileiros. às vezes nacional ou até social. de quem eram os "verdadeiros" brasileiros. A definição | do "verdadeiro Brasil". Para os historiadores. um povo que se via enquanto ] comunidade política. das divisões sociais. inclusive. a grande maioria deles educados em Portugal. em oposição ao Brasil do momento. O Brasil. às vezes geográfica. enquanto idéia.L / e s d e os primórdios de sua existência.

a não ser. logo foram ultrapassadas por outras realidades econômicas. A designação original. as primeiras avaliações a respeito do Brasil estavam relativamente livres dessas definições. especialmente aqueles de origem africana. "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". e não suas palavras. portanto. elas não obstante enriquecem e complicam a questão do que o Brasil significava para seus habitantes. contrariado pela diminuição de autoridade que o desmembramento do Sul representava. Schwartz "Gente do terra braziliense da nasção". do convés dos navios. mas a reevocação de suas idéias apresenta dificuldades. Colonial ldentity in the Atlantic World. tem tanto proveito sem lhe custar de sua fazenda um só vintém". no início do século XVII. 15-50. aqui como no caso de outras novas "descobertas". mas as referências ao status econômico e jurídico desses eram muito mais populares. pareciam a distância como lençóis. o primeiro governador-geral do Brasil.3 As expectativas de encontrar riquezas em forma de metais preciosos. como nos Diálogos das grandezas do Brasil (1618). Essas pessoas eram menos apegadas a Portugal do que os letrados e os clérigos. em N. os termos "negro da terra" e "índios" eram utilizados com mais freqüência do que qualquer outro para designar os indígenas enquanto verdadeiros habitantes da terra. Mas a sua visão do Brasil enquanto um Peru não era compartilhada por todos. o termo "brasileiro" era a eles 1 aplicado. quase que exclusivamente brancos da classe superior. 1500-1800 (Princeton: Princeton University Press. Terra de Santa Cruz.106 Stuait B. havia manifestado expectativas de que o Brasil pudesse tornar-se "um outro Peru". escreveu à coroa: "crea-me V. sob o olhar vigilante da Igreja e do Estado. a "terra dos lençóis". ou "gente brasília" e. . Em 1608. 1959). Mg. não era como a terra e seus habitantes nativos deveriam ser chamados. Devido à ausência de uma universidade ou mesmo da imprensa na colônia. deixa claro que ao contrário do Peru. é claro. prático e raramente edênico. A questão da adoção do nome Brasil e sua preferência sobre o de Terra de Santa Cruz é discutida por Pero de Magalhães Gândavo. "carneiros de carga" (llamas) para transportar a prata extraída. p. e pia. utilizando. Mg. Canny & A. esses autores publicavam seus trabalhos na metrópole e para um público metropolitano. por insistência do ex-governador Francisco de Sousa. História geral do Brasil (São Paulo: Melhoramentos. II. 146. seus escritos não podem ser considerados como representativos do desenvolvimento de uma consciência de sua própria classe e muito menos da massa dos habitantes iletrados da colônia. indígena ou mestiça. Schwartz. que as verdadeiras minas do Brasil são açúcar e pau-brasil de que V.). Francisco Adolfo de Varnhagen.4 As declarações de Meneses colocam em relevo uma realidade. ao adotar-se o nome de Brasil para a nova conquista. no caso de estudarmos suas ações. mas o que deveria significar ou representar. Pensando o Brasil: a construção de um povo 107 países da Europa. em reconhecimento aos longos trechos de praias de areia que. disputou a primazia durante um breve período com o termo descritivo de "terra dos papagaios" e com a designação dada pelos marinheiros. e da possível vinculação do estabelecimento do governo geral na colônia em 1549 com a descoberta das minas de Potosí pelos espanhóis (1545). as capitanias do Sul foram desmembradas visando a formação de uma colônia distinta. o significado foi. Pagden (orgs. manifestadas nas primeiras crônicas. Assim. 1952). Assim. sua relação com a madeira tintorial vermelha (pau-brasil). o açúcar dava à colônia 2 Já discuti esse problema em detalhe em Stuart B. que gerou fantasias utópicas de riqueza. vol. Documentos do século XVI algumas vezes se referem aos habitantes indígenas como "os brasis". No caso do Brasil. realizou-se uma tentativa para alcançar esse objetivo. a questão que surgia. Tampouco podemos afirmar se a madeira recebeu o nome devido à terra ou se a terra adotou o nome da madeira. 1576). Diogo de Meneses. História da província Santa Cruz a que vulgarmente chamamos Brasil (Lisboa: Biblioteca Nacional. dado o precedente medieval da mitológica ilha Brasyl e da associação do nome à brasa e. 3 4 Sérgio Buarque de Holanda. especialmente no que diz respeito a formas que possam ser recapturadas pelos historiadores. O governador-geral na Bahia. já que eles encontraram poucos meios para expressá-las. na medida em que procuravam definir tanto o território como a própria relação que mantinham com este.2 Considerações de ordem econômica também desempenharam um papel na designação dos habitantes da terra. Francisco de Sousa havia de fato tentado convencer a coroa de que minas semelhantes às peruanas poderiam ser estabelecidas no Brasil. pp. Uma vez que o nome da terra se consolidou devido ao uso contínuo. A etimologia do termo Brasil também pode ser questionada. 1989). em grande medida.1 Se as diferenciações entre a elite e o "povo" são tratadas enquanto pertencentes à classe ou à cultura. Visão do paraíso (Rio de Janeiro: José Olympio. ocasionalmente no século XVII. inclusive. com a qual Cabral batizara o novo litoral. Tome de Sousa. De fato. A questão da definição do território e de seus habitantes surgiu durante o século XVI. Apesar de comentários ocasionais que davam a entender que a proximidade entre o Brasil e o Peru prometia acesso àriquezados metais e apesar dos recorrentes rumores e expectativas. no final do século XVI.

real ou potencial.] porque o Brazil leva todo este reino trás de si. o público e os particulares [. apenas tem os sentimentos de homens. um lugar para enriquecer ou progredir na carreira. mas até a sua defesa revelava o despeito com que eram tratados os nativos do Brasil: [. O açúcar também transformou o Brasil na principal fonte de riqueza do Império português. dos quais a produção de açúcar dependia. nem alfândegas... frei Antônio do Rosário escreveu que o Brasil se tornara a "verdadeira índia e Mina de Portugal". ff. 293-293v.]5 Esse reconhecimento do Brasil enquanto base econômica do sistema imperial português e seu caráter essencial. nem o pau que dali se traz. p. uma visão que ressuscitou quando da descoberta do ouro. nem meio de que possam viver. que as cidades do Brasil não são povoadas desta mizeravel gente. portanto. uma vez que o Brasil havia adquirido seu status enquanto lugar de riqueza. o Prior do Crato. durante o século XVIII. nem situação em que se paguem os tribunais. e o volume do comércio de açúcar deu ao Brasil a sua raison d'être. Luís da Cunha. A possibilidade ambicionada pela França de ter uma base no Brasil quase certamente motivou o auxílio concedido por Catarina de Médicis a d. 1702). Luís da Cunha no sentido de se transferir a corte de Portugal para o Brasil estão em Visconde de Carnaxide. A sugestão de se transferir a corte de Lisboa para o Brasil.] pois não sabe como possa vir à cabeça de hum homem. cx. porque a "índia já não he índia". chega a considerar a idéia de se estabelecer como rei no Brasil e esperava utilizar a colônia como base de suas futuras pretensões. cujos povos. escreveu ao rei em Madri a respeito das implicações calamitosas que adviriam da possível perda do Brasil: [. era reiterada ocasionalmente por membros da corte e conselheiros políticos. "Instruções inéditas" de d. 79. nem portos secos. as religiões. citado em Sérgio Buarque de Holanda. sem falar da diferença dos climas. que queriam interferir na aquisição do Império português pretendida por Filipe II . tentou superar o preconceito contra os habitantes da colônia. Antônio na década de 1580. 5 6 mais precisamente.. 8 As sugestões feitas por d. quando a notícia da conquista de Salvador pelos holandeses chegou a Lisboa.. Antônio para justificar a invasão de Pernambuco persistiram até a década de 1620. eventualmente moldou a composição e a estrutura da sociedade. A chegada da corte em 1808 foi. quando o comércio de açúcar se torna menos lucrativo.também consideravam o Brasil como uma presa de valor. Antônio. mas um lugar a ser evitado a qualquer custo. que tinham nas alfândegas situados os seus juros e suas tenças.. 217. d. 117. quando ariquezada colônia brasileira havia se tornado a pedra-de-toque do império português. nem cabo Verde. enquanto fonte de riqueza.6 Na Europa de então. surgida durante o século XVIII. .]8 Esse problema. ao que respondo.ou. a verdadeira grandeza exigia igualmente um grande povo. Ao chegarmos ao século XVIII. mas de muitos e bons portugueses que delia se servem. mas a realização de um projeto acalentado desde longa data e uma atitude que reconhecia o que o Brasil havia passado a significar para a corte portuguesa. porque sem Brazil. cit.. e ministros e seus salários. o da terra sem um povo digno de sua riqueza. Visão do paraíso. a questão do caráter dos habitantes do Brasil começa a emergir. Não bastava ser o soberano de uma terra opulenta. 1952). o conde de Basto..7 Mesmo em meio a tais considerações políticas. conselheiro de d. Frei Antônio do Rosário. D. No início do século XVIII. Apesar do reconhecimento do potencial econômico do Brasil. Em Madri. p. Frutas do Brasil numa nova e ascética monarquia consagrada à Santíssima Senhora do Rosário (Lisboa: Oficina de Antônio Pedrozo Garlam. 1929). A importação de africanos em massa. 53-5. é claro. Sebastião. João V e o Brasil (Lisboa: Serviços Culturais da Câmara Municipal. que se seguiu à morte de d. a nobreza. não há Angola. João V. Pensando o Brasil: a construção de um povo 109 um traço característico. O irmão jesuíta Inácio Brandão escreveu para seus irmãos 7 ACA. Parece nítido que durante a luta pela sucessão ao trono de Portugal. na concepção de Brasil que povoava a mente daqueles que governavam a colônia. em 1578. o governador de Portugal. misericórdias e hospitais. as rendas reais. As cortes da Europa que lhe ofereceram ajuda . data do início do século XVII e persiste até o final daquele século. e nesse aspecto o Brasil era considerado deficiente. rumores de que os holandeses estabeleceriam um descendente de d. que conserva toda a sua razão.108 StuartB. propor que hum Rey de Portugal trocasse a sua residência da Europa pela América. Foi.. e dar vida a outros. também começou a servir de lugar de fuga ou sede alternativa de império para os monarcas europeus de grandes ambições ou esperanças limitadas. Luís da Cunha a Marco Antônio de Azevedo (Lisboa.. e as exigências desse cultivo haviam estabelecido uma base econômica e social diferente para a colônia. como em Lisboa nos servimos de negros [. prevaleceu.Sdiwartz "Gente da terra braziliense da nasçõo". d. E assim foi este golpe o mais universal que podia padecer o rei. pp. não apenas um expediente imediatista. nem consulado. este era visto pela maioria dos portugueses como um lugar de exílio e perigo. Em 1624.

Representantes do povo foram proibidos de presenciar algumas discussões dos vereadores e foram por eles acusados de provocar a agitação popular durante os protestos da "Maneta". tal como a "nação cristão novo" ou "de nação Angola". f. "he certo que quem conhece Portugal e esperementa o Brasil com fundamentos pode dizer que deceu do ceu ao inferno e se Deus destas terras o levar a comtas. e para os funcionários coloniais. 1 ' Para um excelente estudo recente. 209-23. 14 "Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (20 agosto 1603). Lavradio é. O imaginário da Restauração pernambucana (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. falo em etnicidade em vez de nacionalidade. as pessoas que poderiam ser chamadas de população indígena ou nativa da colônia.Sdiwortz "Gente da terra broziliense da nasção". ANTT. e o Brasil. pagãos e escravos? Nos cálculos coloniais.' Funcionários régios ficavam frustrados e exasperados pela ausência de respeito às leis por parte de seus habitantes. pp. Colonial Identity in the Atlantic World.. Ver Maria Helena Flexor. Pensando o Brasil: a construção de um povo 111 de ordem em Portugal. Schwartz. pp. talvez.] se possível for pondo em cada pau huma forca e em cada légua hum ministro porque so assim se sugeitarão de todo e se não obedientes porque de outra forma não he possível porque canalha semelhante não ha no mundo todo.]10 O marquês de Lavradio notou que os ministros reais vinham ao Brasil com a única esperança de concluir o mandato para retornar e "gozar o descanso de suas pátrias".12 O conceito de "povo" enquanto terceiro estado na sociedade de ordens e na base de toda sociedade não chegou a se estabelecer na colônia. por sua vez.. 119. em 1640. desenvolveram-se percepções alternadas. essencialmente. No próprio Brasil. Segredos internos (São Paulo: Companhia das Letras. a posição de juiz do povo foi extinta e "ficava a Cidade Capital do Estado do Brasil igual amais humilde villa delle". Canny & A. 1998). 158-9. cit. Cartório dos Jesuítas. 13 Ver a discussão em Evaldo Cabral de Mello. O surgimento do nativismo na colônia tem sido detectado por vários autores. aquele que poderia ser chamado de o povo brasileiro era formado. . em primeiro lugar. e não se confiava muito nelas nem na sua capacidade. mas a idéia de um "povo". The Lord Mayor ofLisbon. tanto quanto me é dado a entender. em N. 15 Aqui. em 1736.16 Os membros pertencentes à nobreza da terra se consideravam leais vassalos e 12 ANTT. Mesmo depois da Restauração. 1986).. pelas pessoas de origem mista. Numa carta ao conde de Prado. maço 70. Em 1602. 1500-1800. Os habitantes da colônia e o meio físico desafiavam as concepções européias. ver Pedro Cardim. MSSB. Schwartz.). Rubro veio. quizas porque elles forão e são da mesma molde [. sendo a maior galhardia dos donos das fazendas proteger ladrões e matadores de que utilizão em seu serviço. Padgen (orgs. Que tipo de comunidade podia existir onde tantos de seus habitantes eram culturalmente diferentes. 10 Toda a questão da representação dos artesãos no Brasil ainda merece investigação. escrita em 1768. no caso. quando membros da Ordem de São Bento propuseram admitir noviços pertencentes à "gente da terra braziliense de nasção". pasta 28. mas também o fato de que essas pessoas de origem mista eram definidas pelo lugar em que haviam nascido. o Brasil. a desconfiança dos beneditinos nas habilidades dessa "gente". n. porque no século XVII. Lavradio achava a colônia quente.]". comentava: "Este país o achei com pouco mais adiantamento que aquele que lhe estabeleceu Pedro Álvares Cabral quando fez a descoberta desta conquista". "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". 16 Evaldo Cabral de Mello. cit. Cortes e cultura política no Portugal do antigo regime (Lisboa. João IV autorizou a representação popular na Câmara da Bahia. Em 1713. ausente.11 Devido a uma variedade de motivos.. 10. pp. 1974). não enviava representantes às cortes que eram convocadas em Portugal. a iniciativa foi sumariamente rejeitada. 15-50. as tradições medievais portuguesas de representação dos artesãos no governo municipal (o juiz do povo e a casa de 24) nunca foram plenamente instituídas na colônia.110 StuaitB. As referências mais antigas falam de "pessoas de menor condição". em que se considera o fato de se ter nascido no Brasil como elemento que define a identidade e como elemento precursor da nacionalidade. o Brasil tinha uma população mas não tinha um "povo". Stuart B. The Portuguese Tribune ofthe People and his 24 Guilds (Nova York: University Press of America. um caso que merece destaque. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador (Salvador: PMS.. orgânica e constitucionalmente vinculado ao corpo da política e ao rei estava.14 O que interessa neste episódio é.. nenhuma instituição representativa ou corte era permitida na colônia. Manuscritos do Brasil. o termo "nação" ainda era utilizado enquanto denominador de um certo grupo. Domingos Álvares Teles Brandão escreveu de Minas Gerais. Rubro veio. Nenhum outro funcionário da coroa na colônia foi mais eficaz e menos apaixonado do que ele. 12 lv.15 Este é o primeiro momento. que: [. em 1711. me parece será inferno perpetuo [.13 Esse era o problema central. rude e povoada por um excesso de negros. quando d. e que esse lugar estava sendo utilizado como critério para definir sua etnicidade.. Stuart B. "moradores" e "povoadores". em larga medida. esta não 9 funcionou muito bem nem chegou a durar muito tempo. Inicialmente. 1989). Harry Bernstein. suja.. O imaginário da Restauração pernambucana. 1988).

e uma imensa massa de população servil importada constituía a principal força de trabalho. Isso tinha um efeito particular na posição social das pessoas de origem mista. no final do período colonial. assim como a reprodução de hierarquias sociais baseadas em padrões europeus se consolidou. o exame dos escritos de um grupo limitado de intelectuais. a população era rarefeita. dos "Brasis". havia poucos escravos africanos. isolado. a cronologia separava essas regiões do resto do Brasil. Nos lugares onde uma economia vibrante. apesar do fato de que nessas fronteiras a presença de missionários se dava numa escala que já havia desaparecido nas zonas de exportação. grande quantidade de índios e uma grande proporção de pessoas de origem mista. as instituições reais e o governo local estavam presentes. assim como variava o número relativo de europeus. e o eventual desenvolvimento de instituições européias civis e religiosas. O estado do Maranhão era. Em meados do século XVII. Isto é uma maneira de dizer que as divisões sociais e culturais que caracterizaram a sociedade brasileira tinham influência profunda em como os brasileiros se percebiam e como eles começaram a pensar a respeito de seu país dentro do contexto colonial. a importância do papel desempenhado pelos mestiços. a dimensão geográfica desse processo. Nestas. seja um processo falho. onde haviam sido criadas colônias de exportação. também. Na medida em que a ameaça dos índios diminuiu. e onde o fluxo constante de imigrantes europeus. eclesiásticos e judiciais. os governadores residentes na Bahia tinham pouco controle sobre o Sul. a Portugal. baseada no açúcar.112 StuarfB. o estabelecimento de colonos europeus era intenso. No interior e nas periferias da colônia. então. O Brasil não era. incentivava a correspondência entre cada capitania e a metrópole. e devido às transformações ocorridas dentro da própria sociedade colonial. A organização social variava. em grande parte. em realidade. Esses sentimentos provavelmente se alastraram mais rapidamente entre os mestiços. São Paulo permaneceu uma área rústica até bem avançado o século XVIII. que se sentiam pouco ligados a Portugal e os quais. Essa divisão social das formas de percepção faz com que o método tradicional de abordagem desse tópico. mas era constituído por uma série de colônias. mamelucos e mestiços. essencialmen- te. embora as tentativas formais de se criar um governo à parte. pelo menos. nos séculos XVII e XVIII. às vezes. de origem mista. Infelizmente. o status dos mestiços declinou. se tornou um vice-reinado virtualmente separado. É preciso considerar. enquanto mediadores e tradutores. Os ingleses tinham razão quando falavam. Na costa entre Pernambuco e Rio de Janeiro. do Rio de Janeiro para o sul. e uma grande porcentagem das elites locais ainda era nascida na Europa ou estava estreitamente vinculada. sob Francisco Xavier Mendonça Furtado. africanos e pessoas indígenas de origens diversas. Ligados às elites coloniais brancas e vinculados por laços familiares e de interesse a Portugal.Schwortz "Gente da terra braziliense da nasção". os mamelucos e os pardos. tal como o estado do Maranhão. a composição da sociedade e a estrutura de governo eram diferentes. essas áreas pretendiam ser uma réplica da Europa. os modelos culturais e os estilos europeus predominavam.1608-1612). A promoção desses vínculos fazia parte da política colonial portuguesa. Essas periferias desenvolveram uma reputação de obstinada independência e eram chamadas. a grande corrente de imigrantes forçados africanos. uma colônia independente (1621-1777) com seu governador e seu bispo reportando diretamente a Lisboa. tivessem fracassado (1573-1578. Ali. apenas um. ou. As capitanias do Sul também haviam sido tratadas como uma região separada e. Em meados do século XVIII. o papel desempenhado pelos mestiços tendia . Até essa época. esses intelectuais eram os menos aptos a desenvolver uma noção da diferença. A mudança no status dos mestiços e dos mamelucos ocorreu devido à mudança no relacionamento entre portugueses e índios. Conventos se estabeleceram. operavam regularmente. é difícil recapturar a percepção que tinham de si mesmos e do Brasil que viviam. Nessas áreas. de as "La Rochelle" do Brasil. distante do resto do Brasil e mais próximo de Lisboa de navio do que do Rio de Janeiro. Embora nas duas regiões a adoção da cultura e da língua dos índios fosse comum. na mineração e no cultivo do algodão se desenvolveu. constituíam cerca de 40% da população da colônia. corpos de administradores. conforme a época e o lugar. Mas o Brasil sempre teve significados diferentes em momentos diferentes para pessoas diferentes. em vez de Salvador. e a maioria de seus habitantes era de pessoas indígenas ou caboclas. que visava limitar o poder do governador-geral e dos vice-reis. pois havia de fato mais de uma colônia. a exploração destes enquanto fonte de mão-de-obra era intensa. proibia o estabelecimento de uma universidade na colônia e geralmente agia para coibir o desenvolvimento da unidade colonial. Pensando o Brasil: a construção de um povo 113 também pensavam constituir a verdadeira população. o número de europeus fora de Belém ou São Luís muito pequeno. dado que esse segmento da população era. o meio-irmão do marquês de Pombal. por interesse e experiência. também diminuiu nas áreas mais povoadas das capitanias do litoral. analfabeto. a população de origem européia era pequena.

tornando esse serviço. 1972). e até as pessoas brancas casadas com elas. esse tipo de avaliação negativa se tornou comum. Pensando o Brasil: a construção de um povo 115 a permanecer cada vez mais reduzido. a força primária por trás dessas medidas era dirigida contra os mulatos. p. Talvez 40% da população. uma tendência a outorgar um status comum a todas as pessoas de origem mista. Nas regulamentações emitidas pelo Mosteiro de São Bento na Bahia. da parte de gente pouco confiável. 224. separados e diferenciados da sociedade branca. dessa forma transformando todas essas categorias em pessoas igualmente repreensíveis. todas as pessoas de cor eram cada vez mais identificadas como iguais. 1-1-36. Estes não eram considerados enquanto parte da república. "foi-me grandíssimo trabalho o descobrir algum branco.7. dos crimes cometidos constantemente pelos "bastardos (mestiços). Serrão e A. Um funcionário colonial escreveu no Ceará. cabras e negros no sertão. mas ao entrar o século XVIII. 19 ACMS. de qualquer maneira. Quando se sugeriu à Câmara de Salvador que se formassem companhias de índios. "Leis acresentadas da Junta do Pombeiro" (1602). com a finalidade de coibir o contrabando. não obstante. 1986).Schwartz "Gente da terra brazíliense da nasção". 34.21 No início do século XVIII. governador de Minas Gerais. 1750-1822 (Lisboa: Estampa. a câmara respondeu que pessoas desse tipo "abandonariam o comboio em troca de um barril de aguardente". 90v. 82-3 ("Licenciado Antônio Pereira Porto por ser indigno de semelhante emprego porque [. A eleição de um certo homem para a Câmara de Cachoeira. a maior parte dos quais haviam nascido na África.) v. Essa situação começou a mudar. porque "o número de brancos aumentou. H.18 O preconceito contra as pessoas de origem mista se tornou cada vez mais agudo durante o século XVIII. as pessoas de origem mista. Essa mudança constituiu um segundo estágio no processo de integração dos mestiços à sociedade colonial. mais do que contra os mestiços. Estes últimos eram considerados brancos apenas por padrões ditos brasileiros. que "os mamelucos são a pior casta de gente de todo o Brasil". a nobreza da 17 18 Mosteiro de São Bento (Salvador). Um terço da população era formado por escravos. O processo de transição na avaliação se tornou mais nítido graças às ações do Senado da Câmara de Natal. caixa 3 (24 março 1724). do clero. Além disso. na Bahia. desnecessário. a quem se depreciava e das quais se desconfiava.17 No século XVIII. 21 APB. Nova história da expansão portuguesa (Lisboa: Estampa. posto que a experiência tem mostrado que eles são menos capazes devido à inferioridade de suas pessoas e a sua natural inclinação à perturbação e sublevação da república". e isso a despeito do fato de que tinha diploma universitário. havia. o caráter da população brasileira havia se tornado nítido. que verdadeiramente o fosse. fosse formada por pessoas de origem mista. citado em Maria Beatriz Nizza da Silva (org. mas eram vistos como uma força de trabalho necessária. 124. porque os [que] lá chamam branco. 1986). Lavradio escreveu em 1768. e alem desto he de exercício mecânico porque vive de curar feridas"). papel avulso. reclamava. J. de certos comércios e profissões. ff. em 1723. Embora seja fácil detectar comentários negativos a respeito dos índios durante o século XVI. eram excluídas do governo municipal..20 Freqüentemente. 22 Marquês de Lavradio. das irmandades leigas. tal como haviam feito no passado. pasta 28. em termos de suas características negativas.] he um homem cuya qualidade de sangre ainda se não sabia por não haver conhecimento delle. carijós (índios). 3 volumes publicados até a presente data. mulatos e negros". O conde de Sabugosa. foi contestada em 1748 porque "ele era um homem cuja qualidade de sangue ainda era desconhecida". 27 (24 fev. AHU. Oliveira Marques (orgs. esse tipo de atitude não era comum quando se tratava dos mestiços. no Rio Grande do Norte. p. viii. f. A leve suspeita de antecedentes dessa natureza era suficiente para garantir a desqualificação.19 Em Minas Gerais.22 Embora já por essa época tivessem começado a emergir um discurso e um sentimento nativista entre as elites coloniais. em 1724. inimigos internos e uma ameaça em potencial. Na medida em que continuavam a ser reconhecidos como diferentes dos escravos africanos ou dos negros. A câmara tentou proibir os mestiços de ocuparem o cargo de vereador. Rio Grande do Norte. os mestiços passaram a ser. Ordens regias 27. Cartas da Bahia. e até por aqueles brancos que não tinham acesso ao status de elite e caíam na categoria dos mecânicos. O processo de mudança torna-se evidente a partir das avaliações feitas sobre o caráter destes. 1768-1769 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. cada vez mais. n. isto é. a Ordem decidiu "que não se tome e recebão para Religiosos pessoa que tenha raça de mestiço nem outros que não forem de gente nobre ou de que se espera poder resultar sua entrada em proveito". 1730).114 StuortB. em 1720. ACC.. O Império luso-brasileiro. as pessoas comuns. passam entre nós com muito favor por mulatos". Correspondência. 20 . Pernambuco e outras partes do Brasil.). Quem quer que tenha sugerido uma idéia desse tipo "no conhece a calidade dessa gente em quem por natureza se unio a inconstância e o interesse".

a distância "da cabeça e do coração da monarquia". um estranho jovem que se autodenominava "o Sereníssimo Príncipe do Brasil". entre os quais havia "muitos negros. Muitas pessoas haviam aderido à sua causa: [. [José Freire de Montarroio Mascarenhas]. Em outubro de 1733.. mas o que ele representou para aqueles que o seguiram e que alternativa para o Brasil ele projetava eram motivo de preocupação para as autoridades da época e provocam nosso interesse no presente. a preocupação com o incidente era tamanha que o conde de Sabugosa havia escrito para os governadores do Rio de Janeiro. de onde ele era. mamalucos.. Histórico e Geográfico Pernambucano. Os Orizes conquistados ou noticia da conversam dos indomnitos Orizes Procazes (Lisboa. 53. governador da Bahia. 10 de agosto de 1734). ff. . o conde de Sabugosa. 26 Conde de Sabugosa ao ouvidor de Alagoas. uma preocupação política começou a se delinear. a vasta maioria da população era considerada por essa elite e pelo regime colonial como desmerecedora de seu status enquanto povo da colônia. o governo se sentiu mais chocado do que ameaçado pelo incidente. Conde de Sabugosa ao rei (Bahia. 1716). mulatos. coleção Conde de Arcos. Em 1733. era considerada um perigo verdadeiro. emitiu a ordem de prisão em Alagoas de "um peralvilho que dava a entender ser príncipe". alertando-os da possível chegada desse príncipe. APB. em Revista do Instituto Arqueológico. O conde de Sabugosa havia ordenado: "o siga ate com effeito o prender em outra qualquer parte porque convém muito ao sossego deste estado que seja 23 24 25 Consulta de Conselho Ultramarino (1716). p. relatou à coroa que. Sua riqueza.]26 Inicialmente. se havia estado em algum "reino estrangeiro". não só por aquella rezão. mas a criação de alternativas políticas e sociais. criado condes e marqueses. 11-2. Mas.. mas além disso havia uma profunda desconfiança para com a maioria da população. havia causado tumulto no interior. o Brasil havia-se tomado a jóia da coroa do império português. códice 32. "Nobres e mascates na Câmara do Recife. João Gomes Ayala (Bahia. ff.116 Stuart B. 5 de julho de 1733).] que muitos o Reconhecião e veneravão pelo império e soberania com que se tratava passando a sua barbaridade e locura ao excesso de fazerem com elle grossas despezas. fato reconhecido pela criação do título de "Príncipe do Brasil" dado ao herdeiro do trono. mas o número crescente de pessoas de antecedentes mistos também ocupava a atenção dos administradores coloniais.25 Havia já notícia de que esse "Príncipe do Brasil" criara distúrbios similares na Paraíba. e a "pouca sujeição e obediência" de seus habitantes eram todos motivos de preocupação. 141. Conhecemos pouco a respeito do programa. e o governo estava ficando preocupado com isso: com tais quimeras e demonstrações que consiguio da barbaridade e cegueira de muytos moradores delia ser reconhecido e servido. assim como a "plebe". No início do século XVIII. citado em José Antônio Gonsalves de Mello. mas representativo da reação nervosa do governo colonial face à instabilidade potencial da população brasileira. Menciono aqui apenas um único incidente. Duarte Sodré Pereira. APB. Ordens regias 153. conhecido como o homem que havia reduzido os índios orizes à autoridade colonial. Diziam que Dias Lassos havia outorgado uma falsa patente de coronel da Capitania de Sergipe a seu tio Manuel Curvelho. no sul de Pernambuco. ampliou seu elenco de seguidores. e que o governador de Pernambuco havia tomado providências para prendê-lo. um certo Eusébio Dias Lassos. A partir desse ponto. São Paulo e Minas Gerais. AUC. Quando ele passou pela região de Garanhuns. O governador de Pernambuco. o "Príncipe do Brasil" passou para a história. e outros vadios criminozos e os índios das Aldeaas do Palmar".. 478v-479. senão também pelas mercês que fez a muitos o titulo de Condes e Marquezes [. e quem o havia convencido a ir para o Brasil.23 Já era suficientemente ruim que um grande contingente de escravos minasse a estabilidade da colônia. Era este um movimento no sertão do sul de Pernambuco que havia unido os ricos e poderosos. Havia motivos de sobra que obrigavam a coroa a se preocupar com sua colônia. Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". em Alagoas.]24 Por trás desse jovem aventureiro havia um padre de intenções duvidosas.141. que merece mais atenção do que aqui lhe podemos dedicar. n. quando se tornou aparente que um número significativo de pessoas poderosas e bem relacionadas o haviam apoiado. 1713-1738". Recife. ordens regias 29... A coroa desejava descobrir se o jovem aventureiro era português. Pensando o Brasil: a construção de um povo 117 terra. e tratado com tal grande discomodo de suas pessoas e prejuizo da sua fazenda ambisiosos das honras e mercês com que lhes prometia Remunerar aquelle obséquio a seu tempo [. Agradeço a Evaldo Cabral de Mello por esta referência. especialmente do tipo que poderiam unir classes nitidamente opostas. mas que também ganhara fama indisputável de arruaceiro. em clara oposição à soberania do rei de Portugal.

33 O autor deseja agradecer à medievalista Rita Gomes pelas suas sugestões a este respeito. cf. se forem contrárias à sua opinião . Os habitantes do Brasil haviam adquirido a reputação de viverem sob liberdade descontrolada. O padre Dias Lassos escapou. discutir suas ordens. Cartas do Senado 132 (5 de julho de 1755). 33. APB.25. de forma amigável. Vemos como negros. Arquivo 1. ff. no auge de sua revolução e estado de cidadania jamais chegou a esse ponto. ver o rei ao conde de Azambuja (junho de 1766). Durante os preparativos para a festa do Espírito Santo. Cf. Johnson. Sobre os ciganos.1697 on the coasts of África (Londres: M. pp. 1805). 28 Sobre a questão de se considerar a vadiagem equivalente aos mulatos e outras pessoas de cor em Minas Gerais. 32 (1910). citados por Affonso Ruy: "As filhas do país têm um timbre tal que a filha do homem mais pobre. além de demonstrarem relutância no serviço ao rei.30 Reclamações semelhantes foram feitas durante todo o século pelos governadores. a mais desamparada mulatinha forra. Por exemplo. 34 Officio do governo interino para o conde de Oeiras (1765). que freqüentemente consente. APB. entretanto. Isto também pode ser visto em IHGB. Vários observadores notaram essa atitude. mas essa atitude se estende aos mulatos e até aos negros [. mulatos e mestiços.. quando afirmou que "a gente comum é insolente ao extremo". onde a maioria da população era não apenas pobre.29 Os administradores coloniais tampouco podiam contar com a população para prestar o serviço militar voluntariamente. qualidades potenciais para causar problemas. com excessiva mobilidade. Aqui pode-se ver o criado branco conversando com seu senhor de igual para igual e. raramente havia sido utilizado no século XVI. O viajante francês Froger fez uma observação semelhante em 1698. 169v-174. O rei se queixava. 32 . nesse aspecto. ff. e tergiversar no cumprimento delas. Narrative of a Voyage to Brazil (Lisboa: J. que de "povo" passa a ser "plebe" no discurso da época.19. mulatos.]32 Pouco se esperava dessa população tão insubordinada. Embora o termo "plebeu" tivesse raízes clássicas. A primeira revolução social brasileira. mas formada por negros. p. Pensando o Brasil: a construção de um povo 119 rigorosamente castigado o atrevimento deste aventureiro e de todos os que barbara e imprudentemente o seguem [.32. no século XVIII o termo "plebe" começou a aparecer cada vez mais enquanto descrição pejorativa da população brasileira. ver APB.33 O conceito de "plebe". Ordens regias 59. 2 de outubro de 1733). 3 ' Governador da Bahia Manuel da Cunha Meneses a Martinho de Melo e Castro (16 de outubro de 1775) em ABNRJ. 122-123. conforme atestou em 1805: É chocante ver quão pouca subordinação à hierarquia é conhecida neste país: a França. mamelucos e vadios haviam se tornado termos equivalentes para falar de uma população problemática.27 O caso do "Príncipe do Brasil" revela uma crescente desconfiança a respeito da gente comum na cabeça dos administradores coloniais.]". mas a visão mais enfática a esse respeito talvez tenha sido a do inglês Thomas Lindely. Se durante o século XVI. com mais facilidade irão para o patíbulo de que servir ainda uma Duquesa. 43. da "arraia-miúda". O sistema não fica nisso. a representação do "povo" era freqüentemente positiva e a posição política do terceiro estado era codificada por meio de sua participação nas cortes e reconhecida em expressões tais como a "câmara e povo". Esses eram. os membros da irmandade costumavam sair às ruas fantasiados. 32 (1910).28 Tentativas para controlar essa população tiveram escasso sucesso. 1696. vadios e outros elementos instáveis das populações do sertão a fixar residência não obteve o resultado esperado. e essa desconfiança se refletia na transformação do terceiro estado. A Relation ofa Voyage Made in the Years 1695. ao limitar os festejos de rua da Irmandade do Espírito Santo. Comparem-se esses comentários com aqueles de 1798. 1951). 68-69. precisamente. ver Laura de Mello e Souza. Arquivo 1. IHGB. ABNRJ. ordens regias 29.o que é bem aceito pelo senhor. Os desclassificados do ouro. Thomas Lindley. n. BNRJ.19. sem nenhua outra cousa mais que adeverem quartada a grande liberdade com que vivem".. em 1726: "é incrível a repugnância que tem os filhos do Brasil a ocupação e exercício de soldados.1. se na terra houvesse". 97. No século XVIII. quando se tratava dos mais miseráveis. foi exacerbado no contexto colonial. os termos utilizados pelo governador da Bahia para descrever as condições que ele tentava controlar em 1765..1. n. nas décadas de 1750 e 1760 o esforço dos governos para obrigar os ciganos. Ver Affonso Ruy. cantando e pedindo dinheiro sob a direção de um "imperador". 1798 (Salvador. 148. Ordens regias 30. 30 O rei a Vasco Fernandes César de Meneses (18 de março de 1726). governador da Bahia ao Conselho Ultramarino (25 de setembro de 1761). com as conotações negativas que tinha para os portugueses e brasileiros das classes superiores. Gillyflower.0 jovem foi preso e enviado a Portugal. do mais abjecto. o termo "plebe" começou a ser utilizado com mais freqüência.Schwortz "Gente da terra braziliense da nasção".118 StuartB. 1698). Autores como Fernão Lopes preferiam falar do "comum povo livre e não sujeito" ou. que viam os habitantes do Brasil como crianças desobedientes e irresponsáveis.34 O governador tentou limitar as atividades da irmandade aos domingos e dias santos "por não andarem tanta 27 Conde de Sabugosa ao rei (Bahia. geralmente de forma pejorativa. cit.31 O que talvez causasse mais irritação às autoridades metropolitanas era a insubordinação das pessoas de condição mais baixa. 319. 29 Sobre "sítios volantes". 37..

sua visão da gente comum é uma daquelas em que as divisões de raça e. o potencial para se sustentar uma grande população era imenso. setecentos mil e tantos habitantes. Depois. com o immoderado desejo das honras de que o priva não tanto o accidente. enquanto a nobreza é sua alma. Ele lembrou ao ministro colonial em Lisboa que "a plebe é formada pelos homens brancos criados no temor e no respeito às leis e à cristandade". Na discussão a respeito da "plebe". mas juntas.. 910. Aqui vemos claramente a maneira como a raça havia exacerbado as distinções de classe.38 Aqui estava um país de terras extensas. O frade carmelita Domingos de Loreto Couto enviou. segundo Santos Vilhena. 37 Português de nascimento.. conforme atestam as afirmações de Luís dos Santos Vilhena em suas Notícias soteropolitanas (1798).. por natureza. Mas o governo estava mais preocupado com o fato de que apenas um quarto da população da cidade era branca. sua visão de Brasil combina um certo orgulho e expectativa de grandeza. em 1757. mas vivendo há muito na colônia. e muitos deles famintos?". Ver também José Antônio Gonsalves de Mello. O da cor preta tanto que se vê com a liberdade. Esse tipo de percepção encontra expressão em termos muito mais negativos no final do século. de escravidão complicam a definição do que constituiria o vulgo ou a plebe.Schworb "Gente da terra braziliense da nasção".120 StuartB.. enquanto súditos leais da coroa. "imensas matas" e riquezas minerais. Carlos Guilherme Mota. poucos em número. Loreto Couto percebe as pessoas comuns como o "corpo" da república. levando em consideração o potencial geográfico do país. que ser nobre. o animal sozinho não obedece a nenhuma delas. o manuscrito de um trabalho extraordinário chamado Desagrados do Brasil e glórias de Pernambuco?5 Esse trabalho de "nacionalismo crioulo" é essencialmente uma defesa do caráter. cuida que nada mais lhe falta para ser como os brancos. e a explicação para esse estado de coisas era a escravidão e seus efeitos. a maior parte pobres. ficaria com quarenta milhões de habitantes tão povoado como Portugal se acha com os que de presente tem. 17891801 (Lisboa: Livros Horizonte. Como era. e adverte que a plebe era. das virtudes e contribuições dos pernambucanos. Pensando o Brasil: a construção de um povo 121 gente como vadia a semana inteira". Santos argumenta: se Portugal com a falta de população que todos lhe conhecem. cit. seguem o pastor. que "um país extensíssimo. como a substancia. também. Utilizei a edição de Braz do Amaral... então. e de desespero e frustração com sua situação social. Essa interseção entre raça e posição social pode ser vista com mais nitidez ainda nos trabalhos de um dos autores mais curiosos do século XVIII. Excetuando os senhores de engenho. nem porque exercitam officios mecânicos perdem esta presumpção [.36 Embora Loreto Couto reconheça que os pardos e os pretos poderiam realizar contribuições positivas ao corpo social da colônia. ao então conde de Oeiras (posteriormente marquês de Pombal). e riquíssimo. 1985). e que a "mais baixa plebe da Bahia é composta por mulatos insolentes e negros brutos" que. / ^ **£ .. mas capaz de ser mobilizada pelos ventos. porque todo aquelle que he branco na cor. alguns poucos comerciantes e lavradores. mal se accomoda com as 35 diferenças. fecundo por natureza. olhando proporcionalmente. Embora o autor compartilhasse dos preconceitos e das pressuposições raciais de sua classe. Leopoldo Jobim. A Bahia no século XVIII. Tomando como referência Platão. 1986). Faltava ao Brasil um "povo". pp. rios grandiosos. Atitudes de inovação no Brasil. 1969). 226-227. 3 vols. ele se debruça sobre o problema colonial: Não é fácil determinar nestas Províncias quaes sejão os homens da Plebe. o que chama a atenção é o fato de que Loreto Couto elogia não apenas os membros da elite colonial mas também índios. Era "uma congre- 36 37 Domingos Loreto Couto. se perguntava Santos Vilhena. "Carta 24". o potencial para estabelecer "um poderoso e rico império" e. "uma colônia que possa competir com as melhores que se conheçam em qualquer parte do mundo". p. cit. ed. 1981). causavam desordens contínuas. (Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. imóvel. (Salvador: Itapuã. Diretoria de Assuntos Culturais. Sobre Santos Vilhena ver. assim como num rebanho de ovelhas. vemos como as concepções clássicas sobre a gente comum são alteradas devido à situação colonial. mas na Bahia esse não era o caso. /^\~ &Q^ Santos Vilhena. entende estar fora da esfera vulgar. inclui em si três milhões. Estudos pernambucanos: crítica e problemas de algumas fontes da história de Pernambuco (Recife: Fundarpe. em A Bahia.] O vulgo da cor parda. 1967). na carneirada. Cipião e Catão. sob os efeitos do vinho e sob a direção de seu "Imperador". José Antônio Gonsalves de Mello... 38 Loreto Couto. pp. negros. por implicação. o resto da população era "ignorante e semibárbara". Apesar da infertilidade de boa parte dos solos. pardos e até mulheres. Desagravos. 195-224. o Brasil descoberto sem aqueles obstáculos.. Na sua opinião o mesmo he ser alvo. Ideologia e colonialismo (Rio de Janeiro: Forense Universitária. Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. é habitado por colonos.

53. Isso eram sonhos. mas agora sob a influência da Revolução Francesa. mas parece ter sido uma questão de autocriação e autodefinição. nas quais os direitos dos homens seriam respeitados. ao qual o legado da escravidão havia privado de um povo e lhe legara uma plebe. o único do não proprietário. de uma vez por todas. 157.. as grandes extensões de terra subutilizadas. 1794 (Niterói: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. e arranjos similares haviam criado uma população sem terra e coibiam o surgimento de famílias com base econômica sólida. que se baseavam na "quimérica igualdade dos homens". em grande medida. A Bahia. . e até a distribuição de terras não resolveria o problema enquanto existisse a escravidão. um bacharel de Coimbra que alegava ter sido preso exclusivamente devido à animosidade de um certo frei Raimundo "porquanto este era inimigo dos brasileiros. apesar de maior em número. Só a eliminação. depois de reis.. ele detestava os mulatos e crioulos que se recusavam a respeitar os brancos. 43 Ibid. o que é sabido. p. Como então o Brasil finalmente chegou a ter um "povo"? A pergunta ainda merece ser estudada. e ele expressava pouca simpatia por aqueles descendentes de escravos que haviam se juntado às fileiras da população livre. op. porque entre cristãos. "É axioma inegável.. 53. Santos Vilhena acreditava que a solução para o problema estava na terra. pp. "Quem gera o cidadão é a propriedade. 46. diziam os procuradores reais. de sorte que constava haver dito ao atual vice-rei deste estado que se não receasse dos franceses. 1. As discussões de Silva Alvarenga e outros ampliaram o foco das atenções a respeito da forma republicana de governo e a rejeição dos ditames da Igreja e do Estado. 42 Ibid..]". Auto de perguntas feitas ao preso Jacinto José da Silva. 117-9. os autos da devassa do fracassado movimento de 1794 no Rio de Janeiro são instrutivos. Manuel José Novais de Almeida havia escrito pedindo que libertassem seus escravos no Brasil. enquanto na Europa o trabalhador se dispunha a trabalhar em troca de seu sustento. dos escravos da população convenceria a gente comum do erro de acreditarem que "cavar e lavar é só da repartição daqueles miseráveis [escravos]".40 Santos Vilhena. enquanto os conspiradores do Rio de Janeiro pertenciam. que haja cristãos cativos". resultaria na formação de duas grandes repúblicas americanas. em "as nossas colônias do Brasil". no ano de 2440. Outros depoimentos revelaram que a animosidade de frei Raimundo se baseava em sua crença de que os brasileiros eram ultramontanos e apoiavam a autoridade do Papa sobre a da coroa. ele escreveu: A sociedade política compõem-se de proprietários. p.Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". e sem meios de subsistência não pode haver homens [. vol.]" Mas. cit. "e servi-vos com gente forra e livre. imaginava um Brasil de grandes potencialidades. Como outros de sua classe. e os mulatos ricos que desejavam ser fidalgos. A Bahia. Na formulação clássica. do que estes. ibid. flagelavam e atropelavam o povo [.]". o que desejavam era pôr as carapuas na cabeça e. Pensando o Brasil: a construção de um povo 123 gação de pobres". no seu papel de brilhante colonialista... êle porém se esforça pelo vender pelo mais que pode.43 Alguns dos envolvidos também foram capazes de pensar um Brasil sem escravos. uma conspiração 41 39 40 Santos Vilhena. 1994). Ver também Carlos Guilherme Mota. que havia se convencido de que a agricultura era "trabalho de negros" e que se negava a cultivar a terra ou praticar outros ofícios.4! Os jovens que participaram desse movimento começavam a se considerar brasileiros e a conceber um Brasil de outro tipo. Vários membros da sociedade colonial começaram a reivindicar o lugar de "filhos da terra" e a constituir o "povo" do Brasil...42 Essas idéias produziram um esquema utópico que. Santos Vilhena. como é seu trabalho. Autos da devassa -prisão dos letrados do Rio de Janeiro. pp. pois que eles recebiam o poder dos povos e que o rei que era tirano devia padecer na forca assim como outro qualquer malfeitor. Mas. 160-1. terei menos inimigos. os morgados. na sua maioria. cit. pp. porque enquanto príncipes. que sem homens não há sociedade. uma no Norte e outra no Sul. e representavam "o ódio da nobreza do estado monacal".122 StuartB." Muito antes do que Marx..39 No Brasil. O artesão Inácio do Amaral havia dito: "que matar aos reis não era pecado. Santos Vilhena se opunha à escravidão não pelo que tinha feito com os escravos.. não parece bem aos olhos da boa filosofia. isso não acontecia. com um novo significado inclusive Nesse aspecto. Tomemos por exemplo o depoimento do jovem carioca Mariano José Pereira. na Bahia. e dos que não o são. cit. e neste litígio sucumbe de ordinário o contendor mais débil. mas por causa do que havia feito com o "povo". aqueles são infinitamente menos em número. mais sim dos filhos do Brasil [. p. Pretende o proprietário comprar pelo menor preço possível. às elites coloniais. As lições e o vocabulário da Ilustração e da Revolução Francesa não desapareceram entre alguns setores da população colonial. ou jornaleiro. quatro anos depois. o que inibia o crescimento da população. 919. 183. para o bem do povo.

contra o império: história do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo/Bahia: Hucitec/EDUFBA.Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro IHGB . Nicholas & PAGDEN. Colonial Identity in the Atlantic World 1500-1800. F.). SCHWARTZ. MELLO. VILHENA. Os desclassificados do ouro. 1982. Cortes e cultura política no Portugal do antigo regime. 1996).. Pedro.Arquivo Nacional da Torre do Tombo (Lisboa) APB . Lisboa: Livros Horizonte. 1798. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos alfaiates (São Paulo: Pioneira. "The Formation of a Colonial Identity in Brazil". SOUZA. Carlos Guilherme.). 3 vols. Lisboa: Arcádia. O imaginário da restauração pernambucana.Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro MSSB . um no qual a escravidão seria abolida. MOTA.Arquivo da Câmara de Cachoeira (Bahia) ACMS . brancos. Schwartz "Gente da terra braziliense da nasção". TAVARES. A outra história: ideologia e protesto popularnos séculosXVIIa XIX. Oficiais mecânicos na cidade do Salvador. Salvador: PMS. 1987). Bibliografia selecionada AFFONSO. Lisboa. 2 vols. cit. Laura de Mello e. Salvador: Itapuã. não havia dúvida de que o Brasil tinha um povo.124 Stuart B.44 Essas declarações foram feitas em nome do Povo Bahinense Republicano. as distinções de cor eliminadas. 1967. e a igualdade de hierarquia e de oportunidade estabelecida. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife. A Bahia no século XVIII. 1951. Autos da devassa da conspiração dos alfaiates. Pensando o Brasil: a construção de um povo 125 de artesãos e escravos.1990. Maria Helena. CARDIM. Anthony.). José Antônio Gonsalves (ed. Luís dos Santos. mais recentemente. Stuart B. Luís Henrique Dias Tavares. FLEXOR. 1798. István Jancsó. o tempo em que todos seremos iguais". Rubro veio. A estrutura na antiga sociedade portuguesa.Arquivo Público do Estado da Bahia AUC . Salvador: editora. Katia M. GODINHO. Desagravos do Brasil e glórias de Pernambuco. Cristopher. 1969). A primeira revolução social brasileira. Salvador: Arquivo Público do Estado da Bahia. Luís Henrique Dias. APEB. de Queirós Mattoso. Evaldo Cabral de. Ruy. 1975. História da sedição intentada na Bahia em 1798: a conspiração dos alfaiates. O papel que este desempenharia na formação da nova nação e como superaria o fardo da escravidão e das definições raciais são questões que ainda merecem ser determinadas. (Ed. 1974. Também eles podiam imaginar um Brasil diferente. 1789-1801. Como afirmava um de seus pasquins: "Animai-vos Povo bahinense que está para chegar o tempo feliz da nossa Liberdade: o tempo em que todos seremos irmãos. os portos abertos.Arquivo Nacional (Rio de Janeiro) ANTT . Couro. Domingos de Loreto. Vitorino Magalhães. Princeton: Princeton University Press. 1971. e para muitos brasileiros do início do século XIX. 1975). em CANNY. Na Bahia. 1998.Arquivo da Câmara Municipal de Salvador AHU .Mosteiro de São Bento (Salvador) 44 Os relatos clássicos estão em Affonso Ruy. Rio de Janeiro: Graal. Abreviaturas ACA . Hnx. Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapuã.Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Braz do Amaral (ed. 1969.Arquivo da Universidade de Coimbra BNRJ .Arquivo Histórico Ultramarino (Lisboa) ANRJ .Arquivo da Casa de Alba (Madri) ACC . Para eles. em KRANTZ. Atitudes de inovação no Brasil. A primeira revolução social brasileira. São Paulo: Pioneira. . 1986. "Os pobres e o povo na Inglaterra do século XVII". 1969. pardos e negros também formulou idéias semelhantes. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1981. e.

Pimenta .Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) István Jancsó João Paulo G.

utilizando-se de um barco inglês. ver Valentim Alexandre. Santos. representantes da Província de São Paulo. e desprovidos dos necessários passaportes. a Intendência Geral de Polícia informou que nenhum deles havia solicitado passaporte (cf. Sobre o vintismo. a reger os destinos da nação portuguesa. Berbel. o outro. o outro de 22 do mesmo mês de 1822. 1822: dimensões (São Paulo: Perspectiva. Tomaz. Mota (org. Ambos foram redigidos em Falmouth. A 2 de outubro. tornando públicas as razões que os levaram a abandonar Lisboa de modo irregular1 e buscar refugio na Inglaterra. 1999). um datado de 20 de outubro. em Carlos G. Em 6 de outubro divulgava-se em Lisboa a fuga dos sete deputados para Falmouth. A nação como artefato: deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. 1972). . cit. o Correio Braziliense publicou dois manifestos de deputados de províncias brasileiras às Cortes Gerais Extraordinárias e Constituintes da Nação Portuguesa. No dia 12 do mesmo mês.. eleitos por São Paulo. 1821-1822 (São Paulo: Hucitec/ Fapesp. mas não obteve resposta. 193. assim como outros já o haviam feito antes. Sobre a participação dos deputados brasileiros.-E/m novembro de 1822. Berbel. Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português (Porto: Afrontamento. o que não ocorreu sem bons motivos. op. 1980). F. Nos dois casos os subscritores ofereciam ao público os motivos que os levaram a dar por encerrada sua participação na elaboração da Constituição que daria forma ao novo pacto político destinado.). na perspectiva original do vintismo. 1993) e Fernando P. deputados pela Bahia. p. Márcia R. as de Cipriano José Barata de Almeida. Geografia e economia da Revolução de 1820 (Lisboa: Europa-América. Francisco Agostinho Gomes e José Lino Coutinho.2 1 2 Os sete embarcaram sem a devida autorização das cortes. e de Antônio Manuel da Silva Bueno e Diogo Antônio Feijó. O primeiro trazia as assinaturas de Antônio Carlos Ribeiro de Andrada Machado e Silva e José Ricardo da Costa Aguiar e Andrada. "Brasileiros nas Cortes Constituintes de 1821-1822". ver Márcia R. Antônio Carlos solicitou autorização para que lhe fosse permitido retirar-se de Portugal.

pátria não se confunde com país.. n. n. declarar "à Nação Portuguesa. Essa mesma percepção perpassa o documento dos dois representantes de São Paulo. C. 8 "Descrição dos festejos no Rio de Janeiro por conta da aclamação de D. da Unesp. Pedro como monarca do império brasileiro. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 131 Ainda que diferentes em extensão e detalhado de seu arrazoado. em Correio Braziliense ou Armazém Literário (CB). 1822. lbid. 1822. n. que de Lisboa se passaram à Inglaterra"..10 A análise atenta da documentação revela que a instauração do Estado brasileiro se dá em meio à coexistência. nas Cortes de Portugal. o teor das exposições tem muitos pontos em comum. abaixo assignados".à distância que separava esses homens do cenário político americano.9 com o que têm por encerrada sua missão. já que pátria e país não encontram equivalência na abrangência que lhe corresponda. Este é inequivocamente o Brasil ao qual os eleitos por Portugal querem impor uma "Constituição onde se encontram tantos artigos humilhantes e injuriosos".8 mesmo que nem todos pensem da mesma forma. uma carta cujo autor vê na iniciativa da convocação de uma Constituinte no Brasil "o único modo de salvar a Nação de um e outro hemisfério". vol. do Brasil e da Nação em geral". quando para aí regressassem. o da comunidade que os elegeu para representá-la nas cortes. 174. 15 out. já que no próprio epicentro americano da ruptura política a mesma dissonância perpassa as expressões de identidade política coletiva. dando forma ao rompimento político com o reino europeu. XXIX. Os redatores do Revérbero anunciam que. lamentando que. "Declaração de alguns deputados do Brasil. "para prevenir qualquer suspeita alheia de verdade que possa ocasionar sua inesperada retirada de Lisboa". 1822.7 A nação à qual ele se refere é a portuguesa. nov. e a ela caberia julgar o "merecimento de sua conduta". por seu turno. pátria é o lugar de origem. no interior do que fora anteriormente 6 3 4 5 "Protesto dos deputados de São Paulo. 1999). Cipriano Barata e seus companheiros das províncias da Bahia e de São Paulo também cuidavam de esclarecer que "desde que tomaram assento no Congresso de Portugal [fizeram-no para lutar] pelos interesses de sua Pátria. país e nação. em Correio Braziliense. 10 Correio Braziliense. Pedro I". o Brasil é o seu país. 18. dez. 157. a declararem a sua total independência. desloca-se para outra esfera.4 Em meio à emocionada exposição do que era descrito como inevitável desastre político. 153.5 Para eles. nov. XXIX. servindo-se. 1822. mas a nação à qual pertencem é a portuguesa. em Revérbero Constitucional Fluminense (RCF) n. Iara L. É a ela que fariam. para o qual as cortes de Portugal estimularam os cidadãos do outro lado do Atlântico. e ao mundo inteiro. Na "Declaração" assinada por Cipriano Barata. 19 out. e Nação livre". 256 e ss. É grande a tentação de atribuir a aparente dissonância dos conceitos em especial naquilo que toca à identificação da nação à qual se sentiam todos pertencentes como sendo a portuguesa . . dentre as quais ganham relevância as de pátria. 1822. os motivos que os obrigaram a assim obrar". mas como seus esforços malograram e chegaram a ser tomados por "atentados contra a mesma Nação". ao final e ao cabo. dada a proclamação da independência. 24 set.] dos diferentes acontecimentos [havidos] durante o tempo de sua missão". O Revérbero Constitucional Fluminense publica. pp.130 Istvón Jancsó e João Paulo G. vol. A nação. "apesar dos desejos de união daqueles povos. n. expressão ajustada ao novo contexto vivido pelo império em fase acelerada de dissolução e. os dois textos contêm várias idéias-chave.3 os mesmos deputados portugueses que apontavam como os responsáveis pela desunião. Pátria coroada: o Brasil como corpo político autônomo (São Paulo: Ed. 174. e os que na América aclamam o imperador são "portugueses do Brasil". 9 Correio do Rio de Janeiro. vol. e constituírem-se em nação separada de Portugal". suspendiam a publicação do periódico já que o país "é nação. 175. dotada de maior atualidade política. Antônio Carlos e Costa Aguiar são enfáticos quanto a ter se empenhado "quanto neles esteve por arredar a nação portuguesa" do rumo que lhes parecia ser da desonra. dentre os quais o de atribuir aos eleitos por Portugal a responsabilidade pelo rompimento da unidade da nação portuguesa. quisesse "o mau destino de Portugal que vencessem os facciosos". como a sua Província. onde desde o começo de outubro estavam em curso os preparativos para a coroação de d. n.6 Mas logo se percebe que se trata de algo mais entranhado. "exposição circunstanciada [. reconhecendo nesta iniciativa o "único modo de vincular a Nação em laços mais estáveis e duradouros". Souza. 1822". ainda que estes não recorram ao termo pátria. XXIX. 1822. A mesma fórmula é usada pelo Correio Braziliense. 7 "Carta do desembargador Bernardo José da Gama de 19 jun. em seu número de 24 de setembro. em Correio do Rio de Janeiro (CRJ). quando se referem ao corpo político formado por seus representados. portanto. decidiram. Bahia e São Paulo são suas pátrias.

.leva forçosamente à reabertura da discussão de questões de fundo no tocante à formação da nação brasileira. 1997). em seu interior. em História geral da civilização brasileira. em Carlos G. Sobre essas questões.13 Hoje é assente que não se deve tomar a declaração da 1 vontade de emancipação política como equivalente da constituição do Estado nacional brasileiro. ele será apenas a resultante de um concurso ocasional de forças que estão longe. Buenos Aires. 13 A ênfase na multiplicidade de possibilidades inscritas na transição da colônia para o império deve-se a Caio Prado Jr. em Carlos Guilherme Mota (org. No Brasil. Isso está nitidamente explicitado em Homens de grossa ventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. 1989. I. 38 (conferência pronunciada na Sorbonne em 1882). "A interiorização da metrópole (1808-1853)". tomo II. pp. 1982). com "Introdução ao estudo da emancipação política do Brasil". de Wilma Peres Costa. de múltiplas identidades políticas.). Essas identidades políticas coletivas sintetizavam. enriqueceram a percepção da complexidade do processo em pauta. Mercado atlântico. "As dimensões da independência". Mas este final não existe antes dela. 147-59. "A economia mercantil escravista nacional e o processo de construção do Estado do Brasil (1808-1850)".). 160-84. de Florentino. A construção da ordem. p. Pimento Pejas de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 133 a América portuguesa. 15-26. instituições e questão racial no Brasil. {Formação do Brasil contemporâneo: colônia (São Paulo: Brasiliense. 1992). 1989). sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Diadorim. caso particular do capítulo dedicado às "Inconfidências" do final do século XVIII. dele em co-autoria com Florentino. em Jornal de Resenhas. 1. criado em 1838. Jancsó. Relativamente à primeira questão. a obra de Francisco Adolfo de Varnhagen. em Boletín dei Instituto de Historia Argentina y Americana "Dr. Mota (org.sua desagregação". que rejeita a análise de Novais (e de toda a linhagem que remonta a Caio Prado Jr. Novais. Sérgio Buarque de Holanda. a verticalização do . Schwarcz. reconhecendo-se particulares. todas elas. e a historiografia recente tem revelado razoável consenso quanto a evitar o equívoco de reduzi-lo à ruptura unilateral do pacto político que integrava as partes da América no império português. Uma história do tráfico atlântico de escravos entre África e Rio de Janeiro. em Carlos G. contribuíram de maneira decisiva para a longevidade dessa visão de história. Mais recentemente. O primeiro centra-se na idéia de crise do Antigo Regime e. 1988). n. cada qual à sua maneira. 64-125. cada qual referia-se a alguma realidade e a algum projeto de tipo nacional. em Tamás Szmrecsányi & José Roberto do Amaral Lapa (orgs. o passado. aboliu definitivamente a dicotomia "brasileiros" versus "portugueses" como fundamento do processo de emancipação. Ainda que numa perspectiva diferente. Os sentidos do Império: questão nacional e questão colonial na crise do Antigo Regime português. não há dúvida.). de José Murilo de Carvalho. História econômica da Independência e do Império (São Paulo: Hucitec. A política imperial (São Paulo/ Rio de Janeiro: Vértice/Iuperj. Esboço tentativo de uma síntese dessas proposições está em Maria Odila da Silva Dias. 1996). 1993). séculos XVIII e XIX (São Paulo: Cia. e do conceito de crise que adota (cf. pp. cabe lembrar as obras de limar Rohloff de Mattos. 1979). O tempo saquarema. com seu Os donos do poder: formação do patronato político brasileiro (Porto Alegre: Globo. O espetáculo das raças: cientistas. e Emília Viotti da Costa. Se atentarmos para as manifestações dos contemporâneos expressando sentimentos de pertencimento a uma nação. nem está 'imanente' no passado. Raymundo Faoro. 1822: dimensões. Nesse sentido. 1993). em seu rastro. das Letras. Apenas para pontuar algumas de maior impacto. estudos valiosos têm dado continuidade ao debate. "O fim do Império". Seu objetivo: conferir ao Estado imperial que se consolidava em meio a resistências uma base de sustentação no constituído de tradições e de uma visão organizada do que seria o seu passado. pp. / u Nos anos que se seguiram à independência. para além dele. Origens do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: idéias filosóficas e sociais e estruturas de poder no Segundo Reinado (Rio de Janeiro: IHGB. a independência política da colônia. 3a série. o primeiro grande acontecimento de conjunto que vamos presenciar será. de Fragoso. 1822: dimensões. Os estudos desses historiadores. A elite política imperial (Rio de Janeiro/Brasília: Campus/Ed. para quem "o final da cena.) com base em ampla pesquisa documental. das Letras. "A herança colonial . iQué es una nación? (Madri: CEC. n. 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. Mota (org.132 István Jancsó e João Paulo G. 1987). O segundo organiza-se em torno do que se pode chamar de arqueologia da nação.para quem a nação é um plebiscito diário12 . Barman. da UnB.15 ' Os conceitos aqui utilizados têm muito a ver com os utilizados por José Carlos Chiaramonte em "Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de 1810". A formação do Estado imperial (São Paulo: Hucitec. 1968). enriquecidos com a publicação de Em costas negras. Nessa tarefa. Resultou disso atribuir-se ao rompimento do Brasil com Portugal um sentido de "fundação" tanto do Estado como também da nação brasileiros. 1988). cada qual só por si. cujas organicidades expressavam e cujos futuros projetavam. 1942). Emilio Ravignani". cit. cit. veremos que o resultado de uma hipotética consulta realizada dentro das fronteiras do nascente império brasileiro nos termos sugeridos por Renan . 1777-1808 (São Paulo: Hucitec. de tenderem. cit. balizam alternativas de seu futuro. deve-se a Fernando A. paradoxalmente. Posteriormente. 1980) e Teatro de sombras.). e durante todo o século XIX. ver Arno Wehling (coord. Este tem como protagonistas historiadores do porte de Valentim Alexandre (cf. e retomados em outros de seus estudos referidos a seguir. 1960). Brasil em perspectiva (São Paulo: Difel. Novais a percepção e a demonstração da importância interpretativa do conceito de crise.. ou antes. 1958).). Brazil: The Forging ofa Nation (1798-1852) (Stanford: Stanford Univ. >}5 Essa questão tem dois divisores de águas. da tradição historiográfica na qual este se situa. e. o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. O enquadramento macro-histórico da questão recebeu impulso renovado com Fernando A.. obra que permanece no centro do debate.). de Roderick J. o presente e o futuro das comunidades humanas em cujo interior eram engendradas. João Luís Ribeiro Fragoso e Manolo Florentino têmse destacado na crítica às proposições de Novais e. e perpassa menos enfaticamente O arcaísmo como projeto. já desdobrando questões postas. 1996). já buscando novos enfoques. 12. e Lilia M. 1870-1930 (São Paulo: Cia.14 assim como o é o reconhecimento de que o nexo entre a emergência desse Estado com a da nação em cujo nome ele foi instituído é uma das questões mais controversas da nossa historiografia. Press. O Brasil monárquico (São Paulo: Difel.11 cada qual expressando trajetórias coletivas que. do Antigo Sistema Colonial. 12 Ernest Renan. para aquele fim". uma construção historiográfica foi adquirindo consistência. com seu fundamental Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. pp. mas numa análise relativa à história então em curso na América tem pontos frágeis que desequilibram a arquitetura da obra. representam um avanço importante no conhecimento do período mas. Afirmar que a formação do Estado brasileiro foi um processo de grande complexidade não apresenta nenhuma novidade. 8 mar.

Os estudos têm privilegiado a formação do Estado. 1789-1801 (Lisboa: Horizonte. Trajetória política do Brasil. por exemplo. pois é dessa ordem o período da emergência dos novos Estados nacionais latino-americanos. João Paulo G. 297-330. Pernambuco 1666-1715 (São Paulo: Cia. 1990). com o que dele faz. n. ou de Luciano de A. e István Jancsó. 1997). para quem o mesmo nativismo pernambucano seria um esboço de uma "consciência nacional brasileira". 18 A esse respeito.). pelo que é preciso reconhecê-las como variáveis importantes da inteligibilidade dos fenômenos de ordem política.d. Eludir essa questão. Quanto à arqueologia da nação. desenha-se uma tendência que visa a romper com a idéia de já ter existido. os projetos de sua radical subversão). em texto recente. 1640-1761 (São Paulo: USP. conforme revelado por estudos recentes como os de Rogério Forastieri da Silva. Pimenta Pejas de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência do identidade nadonal brasileiro) 135 São agudas as divergências de interpretação quanto à interface dessas duas dimensões da realidade: Estado e nação. Fiscais e meirinhos: a administração no Brasil colonial (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Em primeiro lugar. das Letras. a partir daí. 1998. pelo que não se deve confundir o uso que dele faz Evaldo Cabral de Mello. realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra. 17 Para ilustrar o intrincado dessa questão. n. onde merecem indiscutível destaque os estudos de José Carlos Chiaramonte.d. Gouvêa. cf. autor que dele lança mão como instrumento de expressão de uma especificidade histórica pernambucana. além de João Paulo G. Anthony Smith. 1996). Nações e nacionalismos desde 1780: programa. Nobres contra mascates. Russel-Wood.17 casos da idéia de nação ou de identidade nacional. n. Nações e nacionalismo (Lisboa: Gradiva. Francisco Iglésias. José Ramón Recalde. nos séculos que antecederam a emancipação política. 1983). Pueblo y poderes en Ia historia de Espaha (Barcelona: Crítica. cf "Centros e periferias no mundo luso-brasileiro. 1500-1964 (São Paulo: Cia. em Revista Brasileira de História. 1982). de longa tradição e nenhuma precisão conceituai. 187-249. Afronda dos mazombos. 1790-1822". 36. 1998). cf. Nação e consciência nacional (São Paulo: Ática. 1997). FFLCH-USP. avançar no entendimento da complexa relação entre ambos. 1975). 1998. deve-se ter clara consciência da extraordinária provisoriedade das formas e significados que caracterizam as situações de crise. Mas é preciso lembrar que nativismo tem quase tantos significados quantos são os historiadores que dele lançam mão. Maria de Fátima S. admitido como nacional. incluindo-se aí. pp. Buenos Aires. tese de doutorado. 1996). 1976). Novais. 18. Profundamente enraizado tanto na memória coletiva quanto na historiografia que lhe serve de paradigma erudito. 18.18 Em segundo lugar. Benedict Anderson.19 Para os homens que viveram a dissolução do império português O avanço que já se faz notar nesse profícuo campo de estudos poderá contribuir para um posicionamento cada vez mais correto dos interesses políticos. as normas que configuram o Estado. Eraest Gellner. s. pp. "Reflexiones sobre los fundamentos de Ias estructuras nacionales". das Letras. Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. em Hidalgos. Eric J. Estado e nação na crise dos . que. apontar para duas preliminares. Hobsbawm. 16 Estudos recentes sobre os mecanismos de funcionamento do aparato estatal imperial. Mas convém. 36. em Cuadernos dei Instituto Ravignani. esse mito assume formas diversas. Na Bahia. entre outros. mestrado. antes de fazê-lo. O corpo da pátria: imaginação geográfica e política externa no Brasil. pp. Colônia e nativismo: a história como "biografia da nação" (São Paulo: Hucitec. Los orígenes de Ia nacionalidad uruguaya (Montevidéu: Arca. mito. Numa outra vertente. do que fazê-lo com dimensões da realidade confinadas (desdenhosamente) ao universo da subjetividade. Bahia e Minas Gerais. a formação de um "senso de brasilidade" que teria obrigado a metrópole a "considerar o Brasil sob uma perspectiva mais brasileira do que portuguesa". Pimenta. vol. 1997). amotinados y guerrilleros. caso de A. 1993). que analisa a questão em comparação com as historiografias argentina e uruguaia. o que se estende tanto à noção de Estado quanto à de nação. 2. uma identidade "brasileira" ou mesmo uma "consciência nacional" dos colonos. Rio de Janeiro. Sem dúvida parece mais fácil lidar com variáveis nitidamente objetivadas (como o são.para.de identidades políticas coletivas engendradas em condições coloniais. Olinda restaurada (Rio de Janeiro/São Paulo: Forense-Universitária/Edusp. questão que ganha densidade no interior do debate historiográfico. A dificuldade em lidar com a intersecção de fenômenos com abrangências distintas (dentre os quais os de caráter nacional e regional numa perspectiva teleológica) perpassa obras de historiadores de inegável importância. de Demétrio Magnoli. do sentimento e da emoção (em algum grau partilhadas pelo próprio historiador). Pimenta. Séculos XVII e XVIII (São Paulo. 1808-1912 (São Paulo: Edunesp. não resolve o problema posto pela evidente objetivação dessas expressões da subjetividade mediante práticas políticas com poderosa interferência na definição dos objetivos que os homens se propõem a alcançar. no recém-editado Honra e pátria (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. vale a pena dedicar mais atenção ao outro termo dessa equação .134 Istvón Jancsó e João Poulo G. 1982). 1998). ambos em História da vida privada no Brasil: cotidiano e vida privada na América portuguesa (São Paulo: Cia. USP. "Condições da privacidade na colônia". 1991). tese de doutorado. 19 Fernando A. "A sedução da liberdade: cotidiano e contestação política no final do século XVII". 1995). Bicalho. s.a nação . Como a inferência tem eficácia investigativa sabidamente reduzida. 1808-1828 (São Paulo. Mota. ver Pierre Vilar. de István Jancsó. J. Atitudes de inovação no Brasil.. Ver também uma abordagem da questão para as primeiras décadas do século XIX em conjunto com a América espanhola.16 reconhecido como brasileiro e. A cidade e o Império: o Rio de Janeiro na dinâmica colonial portuguesa. Uma de suas vertentes é aquela que se serve da idéia de nativismo.). vol. geral por inferência). e de Carlos Real de Azúa. deve-se ter em mente que não é obra do acaso a tradicional preferência dos estudiosos pelo Estado e os fatos a ele imediatamente conexos. 279-306. em Revista Brasileira de História. contra o Império: história do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec. "El mito de los orígenes en Ia historiografia latinoamericana". 1990). La construcción de Ias naciones (Madri: Siglo XXI. têm revelado dimensões até então pouco conhecidas: Graça Salgado (coord. Las teorias dei nacionalismo (Barcelona: Península. 1500-1808". nos ajustes de relações entre centros e periferias ocorridas no século XVIII dentro do império português. fiscalidade e identidade colonial na América portuguesa. Maria Fernanda B. em especial na esfera americana. 1997). Revoltas. vale a pena recorrer à análise/testemunho de Lucien Febvre. tais como o de Carlos G. "Redes de poder na América Portuguesa: o caso dos homens bons do Rio de Janeiro. estão estudos visando a desvendar as dimensões e os limites . Figueiredo. a partir daí (em conhecimento da complexidade da formação social e dos mecanismos econômicos que lhes correspondem acaba por corroborar as teses que são objeto de sua crítica. dissert. em situações-limite. entretanto. vê. econômicos e sociais dos colonos dentro do conjunto do império. 1989). das Letras.

23 A leitura dos autores contemporâneos é altamente elucidativa a esse respeito. ainda que a organização política do absolutismo em colônia resultasse em práticas. cit. Isso se deu. Civilização material. um baiense) de todos que não fossem portugueses (holandeses. de outros portugueses (por exemplo. correspondia o fortalecimento de centros de convergência com feição de pólos articuladores dos múltiplos espaços sociais criados . Novais. do reinol. pernambucano ou baiense significava ser português. e ao mesmo tempo. percebe-se desde os tempos de 20 21 impérios ibéricos no Prata. condições de inclusão e exclusão. cidadania. uma terceira diferença é a que distingue./ A conquista e colonização da América em cada um de seus quadrantes desdobrou-se. é a que lhe permitia distinguir-se. com maior ou menor nitidez. correndo em paralelo na conformidade dos trâmites do ordenamento formal do Estado. Cultura e opulência do Brasil (São Paulo: Nacional. do paulista). já agora desdobramento de uma trajetória coletiva instituidora de sua legitimidade e ancestralidade. 1967). numa viragem: aquela mediante a qual o conquistador/colonizador tornou-se colono. Essa foi a matriz das novas identidades coletivas emergentes no universo colonial. Isso era válido tanto para o todo do império luso quanto para cada uma das suas dependências americanas. No que se refere a Salvador. nunca se deve esquecer que a provisoriedade característica do período traduziu-se na coexistência não apenas de idéias relativas ao Estado. "Formas de identidad política en ei Rio de Ia Plata luego de 1810". em algum momento. cit.21 Como a questão está agora centrada na dimensão política (uma dentre outras) desse processo de emergência de identidades coletivas. É evidente que todos os caminhos do universo colonial centravam-se em Lisboa. A primeira é aquela que distinguia um português da América (por exemplo. estruturas operacionais e tramitações que. Andreoni (André João Antonil). antes de tudo. eventualmente reveladoras de tendências à harmonização entre si ou. 1936). com grande importância para as condições coloniais do período. A questão da provisoriedade como característica das colonizações portuguesa e espanhola já tinha sido anteriormente destacada por Sérgio Buarque de Holanda em seu clássico Raízes do Brasil (Rio de Janeiro: José Olympio. simultânea com a anterior. tal qual o senhor de engenho de Antonil não se confundia com os fidalgos do reino. com sua implementação.20 Finalmente. ao baiense. sempre conformadas pela confrontação de cada qual com outras de similar conteúdo. Vem daí que aos projetos de futuro contrapostos corresponderam outras tantas definições de Estado. pp. séculos XV-XVII: o jogo das trocas (São Paulo: Martins Fontes.22 convém verificar de que maneira os problemas da vida vivida encontravam os meios de seu ordenamento e. Chiaramonte. O que interessa ressaltar. e era assim que se sabiam diante dos espanhóis.136 István Jancsó e João Paulo 6. à incorporação de novos territórios ao controle efetivo da coroa (a jurisdição. cada qual descrevendo elementos do pacto tido como adequado para transformar comunidades em nação* Dessa forma. 23 e ss. espanhóis). Assim é que os colonos de São Paulo reconheceram-se como paulistas. 1995). A. como agente da reiteração ampliada de uma formação societária particular informadora dos objetivos de sua ação. de sua representação. economia e capitalismo. para o universo platino. quando este se percebe não somente como agente da expansão dos domínios do rei de Portugal (e por esta via. conforme o padrão estrutural proposto pory Braudel. a percepção da crise não se deu de modo uniforme. "Condições de privacidade na colônia". aqueles que são americanos dos que não partilham essa condição. 22 A esse respeito. J. cit. por aqueles outros dos domínios do rei de Espanha com quem se defrontavam. a partir daí. Essa concomitância de formas de expressar a diversidade era perfeitamente compatível com os padrões do Antigo Regime português. . também há especificidades. é a concomitante emergência de três diferenças. no caso da América portuguesa.sempre uma grande cidade. mas também. A. se distinguiam dos modelos metropolitanos. como regra geral. já que não se deve esquecer que as identidades coletivas são sempre reflexas. 1808-1828. preexistindo à ocupação efetiva). quando não. ver J. padrões de lealdade e critérios de adesão. A esse respeito. C. ainda que se tratasse de uma forma diferenciada de sê-lo. da cristandade). 23 Fernand Braudel. o esboço da comunidade humana cujo futuro projetavam. A segunda. mas. e ao conseqüente manejo econômico e político destes. Pimento na América. cada qual expondo. franceses. eram percebidos. Portanto. Na América portuguesa.. expressando irredutibilidades portadoras de alto potencial de conflito. Mas quanto a estas. entre os portugueses. ver F. com o que das diferentes percepções resultaram múltiplos projetos políticos. aqui. mas também à nação e às correspondentes identidades políticas coletivas. ser paulista. como portugueses.

estabeleceu marcos das identidades coletivas no universo luso-americano. ao proclamarem que sua família era. pontos nodais de uma trama que configurava a Capitania da Bahia. em pouco menos da metade dos casos esta designava o todo da América portuguesa.29 que cada qual destacava a existência. sendo possível notar esse seu uso pelo contexto do discurso em que as frases estão inseridas. ed. no limite. sem sujeição à Europa". A dialética da colonização (São Paulo: Cia. Notícia geral de toda esta Capitania da Bahia desde o seu descobrimento até o presente ano de 1769 (Salvador: Tip. Para a importância dos cuidados no trato do vocabulário político para evitarem-se anacronismos. enfim. penetrando as entradas da terra para a extração do ouro para o Real Quinto e [o] bem comum. ideando engenhos de minerar. também. 101-38. Caldas.30 E é de notar que o sucesso de cada situação particular (regional) dos quais se nutria o projeto colonizador luso em seu conjunto estabelecia.26 por Caldas. 30 Uma crítica às proposições de Anderson em relação à América está em J. e Sylvianne RémiGiraud & Pierre Retat (dir. J. cit. A terra era o "País de Minas". 1781)".35 32 Ver Alfredo Bosi. e não os naturais . 1976). mas nunca se deve esquecer que este coexistia com o colonizador. 27 J. cit. quanto os confrontantes nos quais essas identidades se espelhavam. os diversos sertões e suas vilas). 1994). "naturais de Minas".). 1922). como "filhos da América". e ocupando imensas e copiosas fábricas na agricultura e lavoura do ouro. 28 José da Silva Lisboa. Rio de Janeiro. das Letras. edição fac-similar. os europeus) e. prioridades contrastantes na alocação de recursos escassos. 33 Os dados e quantificações estão em As identidades políticas coletivas na Capitania de Minas Gerais no final do Século XVIII. em Cuadernos dei Instituto Ravignani. Notícias soteropolitanas e brasílicas. ver. Obviamente a expressão "nacionais" designa. os arrematadores dos muitos contratos [. aqueles que os têm povoado. "América" referia-se à Capitania de Minas. C. Pueblo y poderes en Ia historia de Espana.27 em parte por José da Silva Lisboa28 ou por Vilhena. seja de moeda para pagamentos devidos. [São de Portugal]. na reação dos paulistas despojados do que tinham por seu bom direito com o advento do controle político sobre a região das Minas Gerais com o conde de Assumar. em Seminário Tiradentes Hoje: imaginário e política na república brasileira (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro.. ibid. rotas de contrabando interno. Pense-se.. 2.33 Eis as identidades políticas coletivas: a mineira (expressão do específico regional). traziam como argumento serem eles e seus iguais os verdadeiros artífices da grandeza e prosperidade dos domínios do monarca..] nestas Minas. ou de soldados para fazer face a problemas que os requeriam. o que encontramos? Os envolvidos são "filhos de Minas". Francisco C. é preciso lembrar. I. 1992). evidentemente. 1750-1808 (2.. distintos mas complementares. 1978). dotados de tessituras sociais próprias pressupondo precisa territorialidade. o que se expressa em disputas entre governadores. A.32 Lendo atentamente os Autos da devassa da Inconfidência Mineira. onde ademais encontra-se também Maria Lúcia Montes. Andreoni. p. além de Chiaramonte.34 a americana (expressão da relação de alteridade com os metropolitanos. É esse o significado do sentimento de familiares de Inácio da Silva Alvarenga. A devassa da devassa. Essa construção de territórios (e da sua conseqüente representação). as condições para a emergência de sua múltipla negatividade. 26 Sebastião da Rocha Pita. A seu favor. Falcon. Para a inconfidência mineira: Kenneth Maxwell. vol. 124. em Anais da Biblioteca Nacional. Chiaramonte. 2 vols. uma dentre outras com as quais in agia. 3 ' Discurso histórico e político sobre a sublevação que nas Minas houve no ano de 1720. Beneditina. das primeiras da terra. no tocante às identidades coletivas tendencialmente politizadas. denota a complexidade crescente do sistema e do seu manejo político. 1996). e muitas outras manifestações de estranhamento. 1951). mas com as quais não se confundia. passando por Rocha Pita. negadora daquela. 25-76. conspirador nas Minas em 1789. Os "filhos de Minas" viam-se. "Carta a Domingos Vandelli (18 out. amotinados y guerrilleros. 24 23 Autos da devassa da Inconfidência Mineira (ADIM). tanto definindo (recorrendo à expressão de Anderson) as rotas de peregrinação. Das cerca de 74 ocorrências da palavra "América" nos Autos. Les mots de Ia nation (Lion: PUL. A. aí. 1994). 29 Luís dos Santos Vilhena. de rotas que integravam espaços hierarquicamente ordenados (o Recôncavo e suas cidades. Essa trama. pp. "por antigüidade dos paulistas". UBA. n.31 tornada com o correr do tempo referência de uma ancestralidade contraposta à portuguesa e. de farinha da qual endemicamente se carecia. A inconfidência mineira: Brasil e Portugal. percebido como "continente" ou como capitania. Pierre Vilar. Buenos Aires. convergindo para esta cidade. op.138 Istvón Jancsó e João Paulo G. História da América portuguesa (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/ Edusp. "El mito de los orígenes en Ia historiografia latinoamericana". pp. Hidalgos. vereadores da Câmara de Vila Rica solicitaram ao trono que "filhos de Portugal" (era o seu caso) tivessem preferência sobre os "naturais da terra" no acesso aos cargos. 42. Mas em outros momentos. e "comerciado todas as fazendas do Rio de Janeiro para as Minas. Em março de 1763. 34 É conveniente lembrar que em documentação da época "mineiro" significa estritamente o envolvido na atividade mineradora. "1789: a idéia republicana e o imaginário das Luzes". 1958. Rio de Janeiro: Paz e Terra. de Roberta Giannubilo Stumpf. vol. s. por exemplo. a portuguesa. estabelecendo fazendas. ao que corresponderiam vantagens quando "esse continente viesse a ser governado por nacionais. "O imaginário republicano do século XVIII e Tiradentes". inédito.d. 35 As considerações têm-se centrado no colono. (Salvador: Imprensa Oficial do Estado. edição de Laura de Mello e Souza (Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro. em permanente expansão. apenas naturalidade. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 139 / / \ \ Gregório de Matos24 e Antonil25.

no qual não cabia boa parcela dos homens livres que tinham nesta condição a origem de sua linhagem. tanto no que lhe é geral. Reis (org. Circuito fechado: quatro ensaios sobre o "poder institucional" (São Paulo: Hucitec. G. confrontado com o colono que não apenas disputava primazias com base em direitos advindos de uma ancestralidade específica contraposta à genérica portuguesa.). 1988). A carta está no Arquivo Histórico Ultramarino (cx. O escravismo subvertia o modelo. dos S. É de notar. o mais freqüentemente é encontrá-la no mesmo personagem que oscila entre um e outro. cit. 40 L. a unidade cujo manejo impunha esta percepção. ainda. excluídos os que integravam o aparato administrativo metropolitano. 16) e foi localizada por Roberta G. aquele que "tem dilatado este Império de Vossa Magestade". Escravidão e invenção da liberdade. R. vol.140 Istvón Joncsó e João Paulo 6. 81. A força coesiva do conjunto luso-americano era indiscutivelmente a Metrópole. para os coloniais. já agora envolvendo a totalidade dos membros dessas sociedades . isso não é de surpreender. Mas atenção: naturais da terra inquiridos. J. 41 Ibid. 136. Quanto a essa questão. o termo que se segue. 1992). 42 J. pouco mais que uma abstração. 38 36 que. não utilizam o vocábulo Brasil para designar a territorialidade subjacente à identidade política coletiva que querem designar. mineiros e sujeitos estabelecidos na terra" os interesses do real erário foram criteriosamente observados. quanto no respeitante a cada um de seus desdobramentos particulares. escudados tão-somente "na naturalidade da terra". 39 Afonso M. deve-se lembrar dela". cit. 108. Florestan Fernandes. Ainda que passando ao largo dos múltiplos problemas que merecem atenção. e de suas estratégias particulares de reiteração. passaram a empolgar as posições disputadas. da S. mas que atribuía a esta uma qualidade tal que lhe autorizava ver "a todos os de Portugal [como] homens comuns. mais ainda. doe. dos Santos. cf.40 quer dos poderosos da terra. J. No rascunho da nação: inconfidência no Rio de Janeiro (Rio de Janeiro: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro. E não deixavam de lembrar que durante o tempo em que se "compôs a câmara de filhos de Portugal.inclusive os escravos . op.. Na verdade. Ver. As sociedades escravistas coloniais repousavam ^ sobre a exclusão de um segmento fundamental . 141. 37 Ibid. cf. enquanto para a Metrópole se tratava ^ de algo muito concreto. a quem os autores agradecem. p. Eis o colonizador. Stumpf. E isso implica reconhecer no ^scravismo uma das variáveis ordenadoras do sistema. para tanto. o ordenamento estamental da sociedade erigia-se como fundamento da boa ordem baseada na natural e necessária desigualdade entre os homens. Ou de "brasilienses" ou "brasilianos" que poderiam eventualmente ser tomados por equivalentes.das relações que em seu interior eram pactadas. Nada de brasileiros?6 nenhuma identidade política coletiva ultrapassando o regional. conforme o registro mordaz de Silva Lisboa.37 É por isso que é correto afirmar que a "apreensão de conjunto das partes a que 'genericamente' se chamou de Brasil" estava "no interior da burocracia estatal portuguesa". De resto Tomás Antônio Gonzaga é o único a utilizar a expressão "povos do Brasil". p.e que eram vitais para a sua existência: as relações de trabalho. e isto é de absoluta relevância. mas para pontuar a importância do escravismo. op. Stumpf. fossem negros ou pardos.42 E é evidente que tudo isso tem poderoso impacto sobre a configuração das identidades coletivas e. que a generalização do escravismo resultava na erosão do sistema estamental. Estudos sobre o negro no Brasil (São Paulo: Brasiliense. configurando poderoso instrumento de acomodação de tensões. Ocorre. cit. e que definiam a sua feição. .39 Mas essas relações pactadas se efetivavam na concomitante prática de outras relações muito concretas.os escravos . Vilhena. op. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 141 Para designar o todo da América portuguesa. quer se trate de escravos. 1. em número de ocorrências. posto que o escravismo inviabilizava a participação do portador desta condição na complexa tessitura de liberdades desiguais cuja trama tinha por pressuposto o exercício de algum direito. sobre suas condições de politização num contexto no qual a clivagem racial como linha de demarcação das exterioridades que permitiam distinguir homens livres de escravos tendia à diluição. o que deixou de ocorrer quando outros. p. e o continente do Brasil representava. O caráter cumulativo do resultado das múltiplas modalidades de obtenção da alforria resultou no aumento do número de homens livres com origem africana. que essa coexistência de colono e colonizador enquanto expressões de referências conflitantes.41 ainda que estes fossem extremamente zelosos na ostentação das exterioridades de sua condição.. Essa fratura de grande poder dissolvente do paradigma original (peninsular) das sociabilidades é poderosamente ilustrada pela indignação de Vilhena diante do pouco apreço dos naturais da Bahia pelo respeito às condições distintivas típicas da sociedade do Antigo Regime. 1976). para os colonos. é de notar que os estudos de Stuart Schwartz e João José Reis sugerem a hipótese de que as aspirações de padrão estamental (busca da diferenciação formal das condições individuais) tinham largo curso entre a população escrava. Não é difícil perceber que os homens de então se viam diante de uma fratura entre a realidade objetiva da vida social e a sua representação. é Brasil. com outros mais opróbros". Lisboa.38 O reconhecimento da diversidade das identidades coletivas no universo colonial a partir do desdobramento das trajetórias das formações societárias envolvidas somente pode ajudar na compreensão da politização dessas identidades se consideradas as características básicas dessas sociedades.

de Laura de Mello e Souza. o mercado africano (tanto de escravos quanto de produtos Mas essa diluição da concomitância de predicado racial e estatuto jurídico de seu portador tinha como contrapartida fazer com que homens livres de baixa condição econômica e escravos acabassem por se amalgamar num conjunto que. Mary C. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 143 o que tendia a reforçar o apego da elite (ou dos aspirantes a pertencer a ela) à identidade portuguesa. ao fim e ao cabo. Trata-se do "Povo Baiense".142 Istvón Jancsó e João Paulo G. vol. o contorno da comunidade que partilhará dessa nova ordem é definido com clareza. a urgência de sua superação desdobra-se no reordenamento das referências. partilhavam padrões de sociabilidade semelhantes. Mattoso.. ed. Todo projeto de mudança supõe. a desordem revolucionária penetrava em todos os seus poros. ver. para além da reiteração das condições sociais de existência. de parentesco. Florentino. Press. O liberto: o seu mundo e os outros. p.49 Essa futura nova ordem. já que a sua lealdade ao trono decorria. Desclassificados do ouro (Rio de Janeiro: Graal. não há como ignorar que esses mercados atravessavam uma conjuntura de profundas transformações.44 a diversidade gerando a possibilidade de integração. 1985. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. sob formas mutantes. O feitor ausente. A carta de d. 1969). L. e nem poderia deixar de ser dessa maneira. tese de doutorado. p. Memórias históricas e políticas da Província da Bahia (Salvador: Imprensa Oficial do Estado. 134.1790-C. no presente. 1982). 1790-1830 (Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. vale dizer. econômico. 50 lbid.. p. 46 1. de Alencastro. 1808-1842 (2. que se faça uma revolução "nesta cidade e seu 45 LuísF. aquela "boa ordem que para este fim se tem pensado". ver Alcir Lenharo. 151-74. III. 44 Para o estudo desse fenômeno na área de influência do Rio de Janeiro. 1988).50 impõe. esboçando novas conexões na esteira das rotas das mercadorias. Fernando está em Inácio Accioli de C. já menos evidente: a crise não aparece à consciência dos homens como modelo em via de esgotamento. a instauração de formas previsíveis de vida social.] Liberdade". já que os homens buscam. 1988). sociais e políticas do período subseqüente. Ser escravo no Brasil (São Paulo: Brasiliense. 1993). 1999).. entre outros fatores. E todo projeto de uma nova ordem implica o esboço mais ou menos preciso da comunidade que partilhará. 1992). inscrito nas mentes e nas práticas dos homens que em seu interior se defrontavam na busca de alternativas para uma situação que não lhes parecia conveniente preservar ou.Lecommercedesvivants: traited'esclaveset "paxlusitana"dansVAtlantique Sud. Sobre essas relações horizontais na esfera dos estratos inferiores das sociedades coloniais. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura. Fragoso. Cecília Helena de Salles Oliveira. sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro C. que percebiam como ameaçada e forcejavam em manter. instauradora da "liberdade. 150. História do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec. mas como percepção da perda de operacionalidade das formas consagradas de reiteração da vida social. a trajetória comum que levará à nova.46 Numa situação de crise. e do mesmo autor e M. construindo redes de lealdade que poderiam transbordar para a esfera política. Fernando José de Portugal percebia o potencial explosivo desse fenômeno ao informar a corte de que pouco havia a temer quanto às simpatias de membros da elite baiana por idéias subversivas. p. e Silva. especificamente. remete a outra. 1790-1890 (Salvador/Brasília: Corrupio/CNPq. deste continente do Brasil como era chamado. 157. da UFMG. fossem esses de caráter religioso. do risco de uma insurreição de escravos que tinham por inimigos os seus senhores. apolitização dessas identidades coletivas que então emergem e definem seus contornos se dá num contexto no qual a crescente complexidade da vida econômica instaura novas abrangências que exigem atenção. que beira a obviedade. 49 Ibid. Jancsó. J. . Presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapuã. então. e também Norma e conflito: aspectos da história de Minas no século XVIII (Belo Horizonte: Ed. condição da necessária "pureza de sangue" para quem almejasse galgar a escada social do Antigo Regime. nas grandes cidades principalmente. Karasch. D. Esta afirmação. 148. Leila Mezan Algranti. de Q. é na generalização da busca de alternativas que a crise se manifesta.. seria constitutivo das relações raciais. 48 Md. 1931). 1987). e de como deverá fazê-lo. Esse foi. Kátia de Q.45 E ao fazê-lo. p. R. 152. Maria Inês Cortes de Oliveira. tornando o processo ainda mais complexo. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. As tropas da moderação: o abastecimento da Corte na formação política do Brasil.48 para o qual "está para chegar o tempo feliz da [. 43 americanos).1840 (Rio de Janeiro: Diadorim. sobre coartação. das quais o fluxo conectava mercados regionais crescentemente dinâmicos. 1820-1824 (Bragança Paulista: Edusf/ícone. 1996). Relações de mercado e projetos políticos no Rio de Janeiro. mesmo porque. 47 Cf. A segunda abrangência a ser considerada é aquela do locus de realização das mercadorias coloniais: o mercado europeu ou.47 nos termos de um dos pasquins remanescentes dentre os afixados na Bahia em 12 de agosto de 1798. 1992). Em outras palavras. Mattoso. Estudo sobre a escravidão urbana no Rio de Janeiro (Petrópolis: Vozes. A primeira destas é a da América portuguesa. 203. pp. p. um processo errático. rio final do século XVIII. dando forma ao temor de que. E também não há como deixar de reconhecer que é dessas transformações que as negatividades inscritas nas identidades coletivas derivadas do sucesso do empreendimento colonizador se alimentavam. 1999). 1982). 1808-1850 (Princeton: Princeton Univ. K. Na Bahia contra o Império.. igualdade e fraternidade".43 De resto. Slave Life in Rio de Janeiro. Paris. a instauração da ordem no lugar do que é percebido como desordem. A astúcia liberal. Para os seus autores.

o próprio d. etc. à monarquia.55 Afinal. conforme se pode ver pelo termo de comparação. (I a edição de 1663). C. Rodrigo de Sousa Coutinho. entre outros. Ibid.] evitar"56 a condenável e irracional desumanidade das condições deste transporte. 58 "Memória sobre o melhoramento dos domínios da América". por essa via. dos interesses. mesmo porque. S J. Fernando é taxativo quanto à conveniência de alterá-las. p. mas estes. " Na Bahia do final do século XVIII coexistiam diferentes projetos de futuro. assim como várias identidades políticas coletivas. a nação pensável. mas a referência é o Estado. governador da capitania e integrante da elite política reformista cujo expoente maior era o conde de Linhares. d.54 dá cabal conta da questão. que é o Papa. porque tem diversas línguas umas das outras. pelo contrário.53 Nos termos dos pasquins o povo é o baiense. p. e sobre capelão". . de Mendonça. O intendente Câmara (Rio de Janeiro: Imprensa Nacional. 55 lbidem. bastando. a biscainha da francesa. fabricantes de açúcar. Não que passassem ao largo da diversidade.52 E tudo isso se fará para que "qualquer comissário. "a nação portuguesa se tem diversa da castelhana. Para frei Simão de Vasconcelos. 1799 que trata do regimento das Arquiações (de 1684) da obrigação de tocarem as embarcações destinadas ao comércio da escravatura nas ilhas de São Thomé e Príncipe. 270. suprime-se ipsofacto seu instrumento (o exclusivo). 54 Ibid. afinal a nova ordem desejada estava sendo esboçada com base em interesses individuais e coletivos muito reais. fr.51 para que finde "para sempre o péssimo jugo ruinável da Europa". e tanto mais diversas são as nações. sendo o exclusivo mecanismo (um dentre outros) da dominação metropolitana. portanto. opondo-se ou aliando-se a outras nações de acordo com os seus interesses. das diversas identidades políticas coletivas. Simão de Vasconcelos. e da Sicília.. que é o rei de Espanha: contudo essa diversidade não faz diversa a nação Romana.. 121. Pimenta' Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 145 termo".. da holandesa.. 2. em M. o melhor caminho para a superação da desordem. dos conflitos e. 1933). mascates. Ora. contudo porque os homens delas falam uma só língua. Indivíduos e grupos com os mesmos interesses objetivos podem ver na restauração da ordem perdida ou. o que tem inegável importância operativa. n. para além da "Nação portuguesa que procurou remediar estes males. para quem "o português nascido nas quatro partes do mundo" o é porque participa de um Estado "cujo sacrossanto princípio da unidade [é] a Monar-\r quia [. e Siciliana". 1800. esse deixar de fazê-lo vem de que era por demais evidente que a supressão dos vínculos coloniais.58 Para esses homens a única > identidade nacional era aquela que remetia ao Estado e. tabacos. p. Para d. podem resultar em projetos referidos a temporalidades diversas.110 e ss. além de (retornando ao terreno da obviedade). pelo que é inútil procurar o brasileiro. ainda que envolvam indivíduos ou grupos sociais que tenham por base os mesmos interesses objetivos. pelo que portugueses eram os fiéis vassalos dos Braganças. no qual "responde-se largamente a carta regia de 22 ago. E ainda que os pasquins não mencionem expressamente a extinção do exclusivo colonial como objetivo central do "povo baiense republicano". lavradores de mandioca. Diversas regiões são as de Roma. quanto são mais diversas as línguas. conflitantes entre si. palpáveis e sobretudo díspares. de 4 jul. Atendendo a solicitação da Secretaria de Estado (o ano é de 1798) para que opinasse sobre a conveniência de se modificarem normas referentes ao transporte de escravos. esclarecer de público que "aqui virão todos os estrangeiros tendo porto aberto".. que em seu interior o capitalismo mercantil engendrou. A urgência na instauração da ordem encerra grande potencial gerador de conflitos. 57 Compare-se esta idéia de nação com outra vigente no século anterior. A nação é a portuguesa. onde a Grã-Bretanha é tomada por nação. a nação portuguesa. vol.. Arquivo Nacional-Fundo Marquês de Aguiar. p. afinal viam com clareza a nação 56 Ibid.51 Isso não deve surpreender. 53 Ibid. suprimida a condição de sua vigência (a da dominação metropolitana).. inclusive as de tipo nacional. Crônica da Companhia de Jesus (Petrópolis/Brasília: Vozes/INL. outras Nações como a Grã-Bretanha têm também dado providência para [. ao fim e ao cabo. dada a natureza da crise. hajam de ter o direito sobre as suas fazendas". of. 52 51 151. 1977). é uma só nação. esta da biscainha. na destruição final das sobrevivências daquela. Tudo isso obviamente não é linear ou transparente. 155. cf. nos termos do Antigo Regime e do sistema colonial. pp.. f.] a que tem a fortuna de pertencer". a nação era una e indivisível[na^e^ttema diversidade de suas partes. 1. p. a temporalidade diversa a referir os projetos (passado ou futuro) não suprime a contemporaneidade das práticas. na medida em que essa concepção está em estrita conformidade com o que pensa. Diverso príncipe é o dos romanos. mercador. Fernando José de Portugal. reconhecidamente exigindo reformas. Este é o povo que configura a comunidade imaginada. centro do projeto político da revolução mediante a qual tornar-se-ia possível adotar "a total Liberdade Nacional". 155.144 István Joncsó e João Paulo G. e o dos sicilianos. 152.

Dessa feita. O nacional dos autores dos panfletos sediciosos distingue-se daquele da ilustração quanto ao fundamento que lhe é subjacente. cap. de Q. pp. São Paulo. cit.. A nova ordem que propugnavam não buscava sua legitimidade em direitos históricos ou em ancestral trajetória comum. tida por incompatível com o racional manejo político do império. inédito. O que ocorreu na Bahia de 1798.62 o que.. da integração subordinada das colônias no império luso. típicos dos nacionalismos europeus emergentes no século XVIII. na prática.. apontando para uma contradição inerente à cultura política à qual se referia. Novais. do que os contemporâneos bem sabiam e bem temiam. situação colonial e periférica. a sua simples existência criava um impasse para a soldagem dos interesses dos diversos estratos contra os inimigos do povo. cit. é que o projeto que lhe era subjacente não tocou somente na condição (a dominação política). pois a privação da liberdade do povo baiense não advinha da sujeição à nação portuguesa. é no espaço da colônia. . local da máxima opressão.. p. o que.. propuseram o rompimento com o trono era o dos homens do século XVIII. felizes e soberanos nas suas terras serão". Sendo o escravo propriedade. de resto. Nunca devemos esquecer que o universo mental dos que. Vem daí que é inútil procurar alguma ideologia nacionalista entre os sediciosos baianos de 1798. Desse modo. mas ao trono. e todos o sabiam. Este era reconhecido como o supressor da liberdade por via do Estado que lhe servia de suporte e com o qual se identificava. o povo baiense instituidor potencial de um novo Estado que viria a ser nacional mediante um pacto de cidadãos. E no que diz respeito à questão 64 65 K. Não porque sua abolição fizesse parte do projeto revolucionário explicitado nos pasquins. 61 Débora Pupo. É por isso que a idéia de nação presente nos pasquins apenas aparentemente segue o modelo ilustrado de d. condição necessária do novo pacto político instituidor do Estado e da nação. Este era o baiense. Anais do Arquivo Público da Bahia (AAPB) (Salvador. aqueles "baianos [que quando] longe de si lançarem mil despóticos tiranos. Ibidem. Jancsó. sempre atendendo à lógica da preservação do sistema imperial e de seus fundamentos sociais e políticos.] felizes" a não ser "na reunião de um só todo"60 amalgamado pela monarquia. 60 59 uma nova ordem na qual os "homens pardos e pretos [. fortemente marcado pela condição colonial. mediante um pacto político instituísse o Estado que lhe desse forma. não é uma particularidade do Antigo Regime português. afastando-se deste radicalmente pois se fundamenta na vontade dos povos e não no papel coesivo do trono. passa por desdobramentos que aceleram o rompimento dos limites definidos de antemão. a opressão não era percebida como a de uma nação estrangeira. Na Bahia contra o Império. 3. ou no instrumento (o exclusivo). mas porque o ingresso na sociedade política de homens egressos dessa condição. Mattoso. ao contrário das outras situações de contestação política na América portuguesa. 1959).146 Istvón Jancsó e João Paulo G. que são criadas as condições para que sejam ultrapassados os limites que para a metrópole eram sua própria salvaguarda: somente na colônia poder-se-ia vislumbrar a alternativa da ruptura política. ao contrário do que se deu nas Minas Gerais (1789). ultrapassou os limites do que poderia ser assimilado pelas classes dominantes no interior das formações sociais resultantes da colonização portuguesa na América. Fernando (nação = Estado). com o que o discurso se radicalizou.] todos serão iguais"64 não politizou apenas a questão social mas também a questão racial.59 Apenas que a cultura política do absolutismo ilustrado recusava o reconhecimento da politização dessa diversidade. e o caminho de sua instauração é a revolução. A exigência programática de Ibidem. Não era assim que a dominação era reconhecida. mas para que viesse a constituir-se em nação seria preciso que. Imprensa Oficial da Bahia. mas à qual era preciso reformar por exigência das Luzes. A. Portugal e Brasil na crise do Antigo Sistema Colonial. Cultura política e identidades coletivas na Bahia de 1798.. na Bahia de então.65 O inimigo do povo não tinha uma configuração nacional.63 Convém lembrar que a maior radicalidade social da violência revolucionária francesa deu-se em São Domingos. p. A assimilação dessas na esfera do poder..61 cuja cabeça rolou na França. 163 e ss. 223. a sedição avançou sobre a sua decorrência: o escravismo. cujas partes "jamais poderão ser [. 63 Essas manifestações de crise em áreas periféricas de Estados absolutistas do final do século XVIII estão apontadas em I. erode a legitimidade do poder absoluto do soberano. 62 F. cit. op. vol. O confronto delineado em 1798 na Bahia colocava frente a frente a monarquia absoluta e uma comunidade que afirmava ter configuração específica. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 147 constituindo "um só todo composto de partes tão diferentes". 157. e cuja base repousava sobre a igualdade jurídica dos cidadãos e no respeito integral ao direito de propriedade. 1998. 35. fossem livres ou escravos.

Bahia. insistindo em saber sabido. especialmente o cap. abr.48.] que modela rigorosamente todos os indivíduos no interior do seu quadro [. alertou para o problema ao ponderar que um Monarca. Maquiavel. cit. se confrontado o quadro emergente do 1808 com aquele prevalecente anteriormente a essa data. Em ambos os casos se trata dos que têm por pátria a Bahia. O Correio Braziliense. Que tudo isso se tenha dado mediante a combinação de elementos de permanência e mudança é quase redundante em se tratando de acontecimentos que não estavam inscritos na lógica da trajetória precedente do império. protagonistas de uma ruptura histórica que reconheciam como pro66 67 L. traça o nexo histórico da peculiar lógica da instalação da sede da monarquia no Brasil. da soberania do estado português. como é o Soberano de Portugal. em sua maioria. e por K. estão os que se têm por portugueses. O estudo de Maria de Lourdes Viana Lyra. mesmo no centro revolucionado do Antigo Regime europeu. antes de tudo. eventualmente republicanos.. processo magnificado no Rio de Janeiro. op. 1992). de Carvalho. o Brasil.. vol. Ainda que a arqueologia dessa alternativa afinal prevalecente seja sugestiva.67 funda e cujos desdobramentos eram imprevisíveis. O que é de destacar é que na nova situação ampliou-se grandemente o número de personagens que formavam a sociedade política69 na América portuguesa. Uma Província no Império (Rio de Janeiro: Nova Fronteira. op. Correio Braziliense. paradoxalmente. conferir uma inteligibilidade que acomodasse não apenas as experiências políticas já acumuladas. assegurar a perfeita continuidade das ações de governo nas novas condições. que as partes da América.. imprimindo-lhes sua marca. eram adventícios nesse quadrante e sentiam-se vivendo sob o signo da provisoriedade. 16.. a política e o Estado moderno. aqueles que constituíam os pontos nodais da estrutura imperial. com o que afastamo-nos da idéia de "elite política" tal qual utilizada por J. Por um lado. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 149 nacional. e ainda mais se devem evitar as perniciosas conseqüências que desses errados nomes se seguem. No plano da vida política convém. cabendo-lhes. 2a parte. atento a essa situação. "A nação na América espanhola: a questão das origens". e autor e leitores sabiam disso. mas com repercussões nos grandes centros de convergência dos domínios luso-americanos. A instalação da corte bragantina no Rio de Janeiro produziu enorme impacto sobre a percepção que os homens da época tinham da adequação do Estado português ao novo equilíbrio entre as suas diferentes partes.148 Istvón Jancsó e João Paulo G. Não eram colonizadores ou delegados da coroa.68 mas aos quais era imperativo. e menos ainda traduzir-se em ideologia política. cit. na situação advinda. traduzido para o português pelo professor dr. no estrito sentido de fiéis vassalos de sua majestade. Tornou-se patente. que possui tão extensos domínios. op. mas também os projetos de futuro que delas derivavam. A Beira. estão os que se têm por baienses. Para o simultâneo processo em curso na América espanhola. 3. Portugal e Brasil: bastidores da política. XVI. a índia devem todos ser considerados como partes integrantes do Império. G. 1810. uma pátria que ainda não engendrou um patriotismo político a ela referido. A utopia do poderoso império. e província de seus Estados. A instalação do aparelho central de poder incrustou na América uma elite política cujos membros. Por outro. . 68 Não se tratava. de questões de forma ou precedência. liberadas dos constrangimentos do exclusivo colonial. 69 O conceito de "sociedade política" aqui adotado remete a Antônio Gramsci.]. é bom lembrar que. cap. não há como deixar de reconhecer que ela derivou da imposição de circunstâncias que tornaram-na a única alternativa tida então por exeqüível para a sobrevivência da dinastia. devem evitar-se as odiosas diferenças de nome. especialmente pp.. o Algarve. século XIX. cit. com o que a ilusão da perfeita continuidade traduziu-se numa série de acomodações cuja história é a da crise do Antigo Regime português. de Q. o nacional mal começava a assumir nítido contorno político. e em cujo interior identidades políticas distintas coexistiam e se confrontavam na gestação histórica de alternativas de futuro cujas formas apenas se esboçavam. conforme já se viu. Febvre. viviam o encerramento de uma modalidade multissecular de dependência. n. Pimenta. detentora de um patrimônio cultural do qual participam todos os seus membros". IV. P. 2. de Capitanias e Províncias. ver François-Xavier Guerra. 230. entretanto. Mattoso. por maior relevância que essas dimensões da vida política assumissem na época. E se Lucien Febvre tem razão ao afirmar que a nação é "uma realidade psicológica profunda [. não deve fazer distinção entre província. n. número temático "La Nation" (Paris: Gallimard/Le Seuil. o que eqüivalia dizer. J. 23. publicado originalmente em La Pensée Politique. constrangidos a isso por obra das circunstâncias da grande política européia. resida a corte onde residir. M. Não é necessário insistir no fato de que a realidade prevaleceu sobre as intenções..66 o que se percebe nessa Bahia de final do século não se aproxima da sua proposição. Marco Morei. A que comunidade politicamente instituída os baianos expressavam seu pertencimento? Temos aí pelo menos duas variantes. p. 1995). agora contrapostas. eram exilados ainda que em domínios de seu rei.. chamar a atenção para a alteração na configuração da sociedade que a ela tinha acesso. 1798-1822.

a curiosa concordância dos envolvidos quanto a ter sido proferidas expressões indicativas de desapreço ao poder acaba por revelar. isto é. Ele propõe-se a implantar uma fábrica de cordas valendo-se de técnica desconhecida nos domínios lusos. Ainda que o projeto subversivo seja por tudo inverossímil. as autoridades acabaram por admitir a hipótese de que tudo não passava de condenáveis excessos verbais. PUC.Sujeito na História: práticas e representações. os meandros da relação entre cultura política e interesses práticos no interior da sociedade política na América. . Este documento foi analisado por Andréa Slemian. versão ampliada do que já estava em curso durante o fim do período colonial. culturais ou políticos) instrumento de afirmação de sua diferenciação (quando não. Calmon. caixa 2. dava suporte à ilusão dos reinóis de que os padrões de sociabilidade assimilados em Portugal poderiam ter plena vigência nas partes do Brasil. dar-lhe feição européia. essa Devassa de 1810 expõe. além da de Pernambuco. Mas não eram somente as gentes da corte os novos atores políticos que buscavam fazer valer seus interesses. pessoas que desconheciam na maior parte os padrões de sociabilidade vigentes na América. a tão temida revolução. paper apresentado no XIV Encontro Regional de História . Manuel Ferreira da Câmara. Os pareceres elaborados por João Rodrigues de Brito. e seu curso em meio a conversações contemplando assuntos de interesse dos envolvidos (para Veiga. acesso a cargos de maior importância na administração).72 que os termos do debate se alteraram radicalmente no Brasil. M. com o que pleiteava-se a sua revisão.71 Com tudo isso. Coleção Devassas. "A sedução da liberdade". isto é. Ao final. a sociedade política foi grandemente alargada com a instalação da corte e da nata da administração imperial (e sua clientela). que passou desde então a incorporar ingredientes que antes eram tipicamente peninsulares. econômicos. 1821. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 151 Em primeiro lugar. o conhecimento dos mercados. Percebe-se.754. José Diogo Ferrão Castelo Branco e Joaquim Inácio de Cerqueira Bulcão foram editados por F. "Uma análise da sociabilidade política no Império português: uma Devassa em 1810 no Rio de Janeiro". oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. Detiveram como suspeitos a Francisco Xavier de Noronha Torrezão. sob a feição de uma aparente comédia de erros. 1* edição publicada em Lisboa. e Manuel Luís da Veiga. oficial da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos. 7 72 ' Ver I. condição da liberação dos proprietários para fazer o melhor uso de seus capitais. Com a supressão do exclusivo abriu-se uma nova conjuntura impondo outros parâmetros para o debate político.Auto de perguntas feitas a Manuel Luís da Veiga e a Francisco Xavier de Noronha Torrezão. as normas do pacto colonial eram apontadas como o grande obstáculo para a expansão das atividades econômicas. conforme revela uma devassa que teve lugar em 1810 no Rio de Janeiro. se não a existência de alguma trama revolucionária em curso. o fato de que a eventualidade de desordens políticas envolvendo a plebe urbana era cogitada. privilégios relativamente ao mercado dos produtos de sua manufatura. do ordenamento político da sociedade. para Torrezão. Naquele quadrante. pois revelou-se impossível esclarecer a quem era justo atribuir intenções de teor sedicioso. tanto daquele comprador (tem contatos nas praças de Salvador. Move-lhe. Com o correr dos interrogatórios abandonou-se a busca de eventuais nexos da suposta trama subversiva. As autoridades foram levadas a abri-la por temor de preparação de uma ação subversiva. e viam no domínio dosritospeninsulares (sociais. 1923). poucos anos tendo se passado desde o inquérito promovido pelo Senado da Câmara da cidade de Salvador por solicitação do conde da Ponte. ambos peninsulares. A instalação da corte no Rio de Janeiro em meio aos esforços para dotar a cidade das características compatíveis com a sua nova condição. no limite. Jancsó. de sua superioridade) em relação aos da terra.70 Essa devassa é uma peça rara. cit. no limite revolucionária.o empreendedor moderno . quando um punhado de letrados debruçou-se sobre o estado vigente e as perspectivas de futuro da economia da Bahia. de G. Devassa de 1810 . mantendo-os presos por algo como cinco meses. Trata-se de idéias constantes dos autos. corpo doutrinário informe e tendente a fissuras e à diversificação. à parte o natural desejo de lucro. 1998. aquelas mesmas cuja notícia deflagrou o processo. Arquivo Nacional (AN). de resto. A economia brasileira no alvorecer do século XIX (Salvador: Progresso. Ilhéus e Rio de Janeiro. bastava para justificar tanto a sua ação quanto o constrangimento ao qual foram submetidos os envolvidos. Manuel Luís da Veiga surge como um homem dos novos tempos .pondo em prática o que Rodrigues de Brito e seus companheiros na Bahia desejavam. São Paulo.150 Istvón Jancsó e João Paulo G. avaliada e tida 70 como instrumento de pressão política objetivando a revisão de medidas específicas (no caso em pauta: o Tratado com a Inglaterra) ou. é revelador de uma variante de cultura política que se espraiava pela corte. em 1807. o que. homem de cabedias radicado em Pernambuco. ainda que já praticada na índia inglesa.

152 Istvón Jancsó e João Paulo G. no plano das identidades coletivas. ou mais clara73 É este o valor estimado do engenho constante do inventário dos bens de João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes de Brito. Ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (São Paulo: Cia. não é descabida a hipótese de que a devassa e documentação conexa informam sobre um momento do confronto entre os interesses da grande lavoura e os da emergente burguesia manufatureira na América. às iniciativas que conferiam visibilidade à liquidação da condição colonial. A luta pela industrialização no Brasil (2. cit. esbarraram na alteração substanF. PUC. mente. ed. por volta de 80 contos de réis). em sua maioria. Mas o episódio mostra também que esse Estado chamado a redefinir seu papel continua operando mediante os ritos tradicionais do Antigo Regime.77 Essas expectativas. crise já instaurada como a sua natureza. e é conforme as prescrições deste que se organizam os contatos entre Veiga e Torrezão . 1975). num do presente com o futuro. 1945). de momento.o empreendedor capitalista e o funcionário graduado. p. "A prática da contestação no Correio Braziliense"'. entre as elites locais. portanto. a adesão entusiasmada à nova ordem deu-se por toda parte. expressam a insatisfação recorrendo a expressões que remetem a uma cultura política que. 21. por esta via. por seu turno. São Paulo: AlfaOmega. da historiografia contemplando o significado de José da Silva Lisboa. A devassa expõe.Sujeito na história: práticas e representações.76 revelando a urgência na redefinição do papel do Estado no tocante à vida econômica. Luz. "A percepção da mudança". Sobre as elites das partes americanas do império.73 e Veiga estimava em 400 contos de réis o valor da matéria-prima a ser beneficiada. A companhia à cuja testa está (e que reúne sócios ingleses) dispunha de fundos da ordem de 120 contos de réis (o valor de um bom engenho de açúcar em operação orçado. de projetos radicados em temporalidades distintas. o que. quanto do mercado fornecedor de matéria-prima (afibrade coco). Guerra. 41-75. p. o defensor do livre comércio à outrance. do que resultou ter recebido o apoio às suas iniciativas administrativas de pessoas com larga tradição de crítica ao absolutismo luso. São Paulo. 38. J. 1998. cit. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 153 onde pretendia instalar a empresa). G. A quem supunha estar por trás de suas dificuldades? José da Silva Lisboa75 e. com Torrezão enredado num diálogo do presente com o passado. em Anais do Arquivo da Bahia (Salvador: Imprensa Oficial do Estado.se bem com o sinal invertido . A economia política na sociedade escravista (São Paulo: Dep. a nova situação despertou grandes e positivas expectativas entre as elites das diversas partes do Brasil. é incompatível com os fundamentos e a natureza absolutistas desse mesmo Estado. Pimenta. 74 A esse respeito ver Nícia V. Quanto à polêmica entre Veiga e José da Silva Lisboa. e Veiga. e foi analisada por Slemian. 1996). de que na nova situação ampliar-se-ia a sua participação na gestão da coisa pública com a maior proximidade do centro do poder. caso da Bahia onde a ação do conde dos Arcos valeu-se desse estado de ânimo. p. esta insere-se numa mais ampla que. colidindo com José da Silva Lisboa. caso de Veiga. as desventuras de Veiga e Torrezão iluminam a própria crise do Antigo Regime português. das Letras. Dotado de meios materiais para o empreendimento. na adesão dessas. engendrando um surto daquilo que François-Xavier Guerra designa. Quem obstaculizava suas pretensões? A Junta de Comércio. 1991). Jancsó. na forma como estava regulamentado.quanto aquele que afetava os recém-chegados. 76 Partindo das análises de Antônio Penalves Rocha. então. envolvia figura do porte de Hipólito José da Costa. cuja escala não era irrelevante. o deslocamento. ver Antônio Penalves Rocha. op. todos papers apresentados no XIV Encontro Regional de História . Diante do sentimento de perda dos peninsulares. no confronto entre partidários do livre comércio e os do protecionismo agora nos termos da nova ordem. abundante no litoral. ambos buscando a satisfação de interesses particulares junto a ele. centrandose. com o que estamos diante do confronto de um "industrialista" típico da época.74 e não apenas à Capitania de Pernambuco como lhe havia sido concedido. de imediato. e I. o que se traduziu. diante da recusa. Havia a percepção. apontando para alguns dos impasses criados pela abertura dos portos e a concomitante supremacia inglesa. Para muito além da cessão de moradias e outras facilitações para a instalação dos recém-chegados (fenômeno fundamentalmente centrado no Rio de Janeiro). analisando o processo então em curso na América espanhola. no limite. Já João José Reis estima valor semelhante para a média do total de riqueza de um senhor de engenho de Salvador entre 1800 e 1850: 82 contos e 980 mil-réis (A morte é uma festa. Este não se polariza mais entre defensores do exclusivo e os do livre comércio. agora. P. op. o livre comércio que. riquíssimo senhor de escravos e de terras falecido em maio de 1809 ("Cópia do inventário do conde da Ponte". entretanto. Ao fim e ao cabo. como patriotismo imperial. lembrar que se trata. A economia política na sociedade escravista. Pouco importa. o conde da Ponte. comparativamente ao período pré-joanino. o impacto da instalação da corte na América foi tão profundo .. . o que veio buscar no Rio de Janeiro? A resposta é clara: obter privilégios extensivos ao império. traduziu-se no reforço de sua adesão aportuguesa. nos dois casos. O que é notável é que os dois projetos fundem-se em práticas de idêntica natureza quando adentram a esfera do Estado e. então. 75 Sobre José da Silva Lisboa. Tem consciência da importância do empreendimento. cit. transformava os produtos ingleses em adversários formidáveis das manufaturas nacionais. História-USP/Hucitec. X. de um dos eixos do debate político.

como lembrou mais tarde Silvestre Pinheiro Ferreira. Portanto.que definia seus contornos como uma comunidade politicamente imaginável. todos os súditos do monarca português. é apontada por Wilma Peres Costa. e por J. quando integrada no vocabulário político do Antigo Regime.. no limite. subordinando as outras regiões ao Rio de Janeiro. p. Chiaramonte. que no período anterior expressava apenas um predicado genérico que distinguia portugueses da Bahia ou de São Paulo dos de Portugal. em Annaes da Bibliotheca Nacional do Rio de Janeiro (ABN) . encontrou no recém-criado Reino do Brasil a referência palpável da sua politização. Era por dirigirem-se para a mesma metrópole que as múltiplas administrações africanas. Pimenta. não se deu de modo linear e uniforme. os fluxos de comunicação. cit. 1808-1828.. vol. tinha imediato sentido prático. onde se realizava a unidade do todo por eles formado. . O tradicional equilíbrio político entre as capitanias ou. "Formas de identidad política en ei Rio de ia Plata luego de 1810". 78 variantes anteriormente apontadas tenham se mantido. foi bruscamente substituído por outro que instaurava uma hierarquia entre espaços sociais que anteriormente relacionavam-se horizontalmente.81 um conglomerado de capitanias atadas pela subordinação ao poder de um mesmo príncipe numa entidade política dotada de precisa territorialidade e de um centro de gravidade que. era esse o movimento predominante que organizava o conjunto e lhe conferia inteligibilidade. em Revista do Departamento de Geografia (São Paulo: FFLCH-USP. Halperin-Donghi. cit. Uma tentativa de síntese panorâmica desses processos no interior do império português a partir de outros referenciais teóricos (a relação centro-periferia) foi recentemente empreendida por Russel-Wood. numa perspectiva envolvendo América hispânica e portuguesa (estes dois mais diretamente centrados na compreensão da conformação das identidades políticas coletivas). e J. asiáticas e americanas identificavam-se como partes de um mesmo conjunto. p.79 Em meio a esse jogo de "perde e ganha" envolvendo regiões e setores das elites. A partir de então a anterior identidade \uso-americana poderia tornar-se brasileira e como tal se autonomizar. "Centros e periferias no mundo luso-brasileiro. inovou na definição dos referenciais políticos. 8 ' Em termos práticos as implicações da mudança foram irrelevantes. as referências de vassalagem que informavam as relações entre colônias e metrópole tinham em Lisboa o ponto natural de sua convergência. Mas revelam também. ver também Paulo Pedro Perides. 184.. com aquelas que as outras encerravam.a portuguesa e as outras ancoradas em trajetórias instauradas pela colonização. 1996). Ainda que isso se desse mediante a trama de outras "redes" que interligavam as regiões coloniais entre si. que estas .. prestavam lealdade a um mesmo monarca. era-o também de todo o império. fenômeno carregado de grande potencial de conflito. p. ou seja. G. mesmo que no tocante à trajetória das identidades políticas no universo americano as Esses centros de convergência poderiam articular mais de uma capitania dado seu peso mercantil. O novo reino transformara. Rio de Janeiro: Topbooks. cultural ou político. entretanto. a nação brasileira tornava-se pensável se referida ao Estado — o Reino do Brasil . cit. Tudo isso. a elevação do Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarve. cit. Todos eles revelam que os processos em curso têm pontos em comum já que a crise geral que afetava os impérios ibéricos tinha a mesma matriz. mais exatamente. eram de tal forma ligadas às da Bahia e Pernambuco. ed. João VI no Brasil (3. 156.. "Memórias e cartas biográphicas. Na nova situação criada com a instalação da corte no Rio de Janeiro esse quadro foi radicalmente subvertido. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência do identidade nacional brasileira) 155 ciai do tradicional equilíbrio entre as partes do continente do Brasil. "A organização político-administrativa e o processo de regionalização do território colonial brasileiro". por exemplo. não somente porque o centro do poder tenha-se transferido para a América. alteração que. cada qual expressando uma possibilidade de projeto de nação incompatível. As capitanias de Sergipe e Paraíba. as práticas administrativas. 79 A resistência de províncias que relutavam em enviar ao novo centro recursos financeiros. respectivamente. 1877-1878. A alteração na direção das tradicionais rotas de peregrinação no interior do império português se fez sentir de modo desigual na vida dos homens que dele faziam parte. onde quer que residissem. 3.82 A partir daí. A condição americana. Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. integrantes de uma mesma nação. 80 Silvestre Pinheiro Ferreira. entre os grandes centros de convergência do espaço luso-americano. conforme já se viu.78 cada qual ligado a Lisboa. retornando novamente aos termos de Benedict Anderson. op. 1995). Da mesma forma.77-91. 9. C. além de sê-lo do novo reino. circunscrevendo a importância da elevação do Brasil à condição de Reino Unido ao universo da alta diplomacia. que os processos têm marcada especificidade derivada das condições particulares que eram diferentes nos dois casos. vol. op. 82 Trata-se da variante brasileira do processo que para a região platina foi descrito com profundidade por T. carta XXII".. somando-se ao elenco de identidades políticas que já então coexistiam . P. palavra carregada de significados específicos.em especial suas capitais . Desde os primórdios da colonização. 1500-1808".István Jancsó e João Paulo G. em especial os provenientes de tarifas de exportação. o que identificava-os como portugueses. seus significados tornaram-se passíveis de alteração substantiva. a ponto de Oliveira Lima não dedicar uma única linha a questões dessa ordem no capítulo de seu D. a que "o vulgo considerou de insignificante formalidade"80. ainda que apenas no plano simbólico. cit.constituíamse em centros de convergência para aquelas.. cada qual à sua maneira.

87 j . Por outro lado. e o movimento revolucionário de Pernambuco de 1817. G. Aos seus olhos. segundo a qual o movimento em curso era pontual desvio de norma. p. portanto. veio dar forma a uma nova diferenciação interna à identidade portuguesa. a ancestral identidade portuguesa tendia a colidir com a pernambucana. 1969). cit. o recurso cada vez mais freqüente ao conceito de império no vocabulário político dessa época revela a necessidade de uma fórmula que expressasse a nova configuração do Estado bragantino cuja sede do poder deixava de ser equivalente à condição de metrópole. Biblioteca Nacional/Divisão de Obras Raras e Publicações. era mais difícil de ser alcançada pelos envolvidos pela vertigem revolucionária desatada no Nordeste brasileiro. no que nada há de surpreendente. entre um povo que ainda reverenciava as suas antigas instituições" (João Armitage. 84 Cf. Pimenta.. e não por Convém lembrar que o acesso a títulos. Essa visão dos acontecimentos estava em flagrante oposição com a interpretação oficial veiculada pela Gazeta do Rio de Janeiro. dignidades e honrarias tornou-se amplamente acessível aos portugueses do Brasil. 39. 89 Apud C. G. Senão. Nordeste 1817: estruturas e argumentos (São Paulo: Perspectiva. e respeito. destacando em especial serem estes últimos "brasileiros [que] têm muito amor. Armitage nos informa que "achando-se as finanças em estado de apuro. Sem dizê-lo. em Londres. jul. pp.87 Mas a nitidez na apreensão do significado dos eventos revelada por Hipólito José da Costa. eram desde então apenas europeus. "não podia deixar de ser grande o entusiasmo suscitado por esta distribuição de honras. P.. vol. p. o que trazia em si a temida perspectiva de uma situação na qual "pretos comandam brancos. J. G.. 9. Pimento Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 157 mas porque o próprio conceito de metrópole foi esvaziado de qualquer sentido com o colapso do antigo sistema colonial. G. estes eram as "fiéis ovelhas Pernambucanas do Governo Espiritual deste Bispado". Os reinais de antes (com toda a conotação hierárquica envolvida neste recurso classificatório que sé sabia repousar sobre formas de subordinação muito precisas) não eram mais metropolitanos. 83 maquinações de alguns indivíduos". do que haviam conjuntamente concedido todos os Monarcas da casa de Bragança seus predecessores". O antigo nexo estava em acelerado processo de erosão. Tavares. Mota. Rio de Janeiro. XIX.89 o que veio depois a ocor- 86 Correio Brazüiense. vol. a existência de uma nova linha de corte (a palavra-chave neste caso é "concidadão") em torno do qual se organizava a polarização da política local. que apontou para o fato de ser "a comoção no Brasil [. Para estes. o bispado local definiu o perfil dos que poderiam reivindicar legitimamente a condição de pernambucanos. e brancos pretos". reduzindo a eficácia da velha fórmula usada pelo governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro ao tentar apaziguar os ânimos exaltados no Recife pré-revolucionário em 1817. pertencentes "à espécie branca [que] é toda européia. os da cidade. recorreu [D. Francisco M. todos concidadãos do mesmo reino unido". (a I a edição é de 1840). de 14 maio 1817. 148. 110.156 Istvón Jancsó e João Paulo G. agora reino equiparado ao de Portugal. J. ancorada numa linha de continuidade radicalmente excludente em termos raciais (o que eqüivalia a dizer sociais). 85 Ver C. 101. cit.] motivada por um descontentamento geral. vejamos. op. "todos portugueses. apenas uma "mancha" nas "páginas da História Portuguesa. 88 Documentos históricos (DH). 1972). 1972). 1817.83 Foi nessa direção que a alteração do estatuto do Brasil. P.85 Isso foi de pronto reconhecido pela argúcia do Correio Brazüiense. que os vassalos desta nação consagram ao seu Soberano".84 o governador mostrava. pp. Gazeta do Rio de Janeiro.88 A ênfase na circunscrição da linhagem legitimadora dos agentes da ruptura política. com o que se suprimia o conteúdo hierarquizante da diferenciação entre portugueses de um ou de outro lado do Atlântico. aferro e respeito aos seus progenitores".86 expondo. os prelados revelavam ser inerente ao abrir mão da identidade portuguesa o grave risco da indiferenciação da elite branca com os homens negros e pardos que compunham a maior parcela dos habitantes do país. p. Sobre a questão do escravismo. Nordeste 1817: estruturas e argumentos. n. Conclamando "os nascidos em Portugal" e "os nascidos no Brasil" à harmonia com o argumento de serem.. de um "desacato à lealdade Portuguesa" no qual "não teve parte a maioridade de seus habitantes". 9). Conclui o cronista que com isso. pp. op. 142-62. tão distinta pelos testemunhos de amor. conferiu inquestionável visibilidade à instabilidade dos novos tempos. Numa proclamação de apoio ao Governo Patriótico que se assenhoreou do poder no Recife.152 e ss. cit. 112 e ss. mostra qual era o cerne da dificuldade. Mota. que instaurou por breve tempo um governo republicano no Nordeste do Brasil. ainda que repudiando-a. problemas que diziam respeito à nação. revelando o crescente desconforto de uma concomitância de cuja vigência demonstravam enorme dificuldade em se desvencilhar. João] a uma profusa distribuição de títulos honoríficos" de modo que "durante o período da sua administração concedeu maior número de insígnias. todos vassalos do mesmo soberano. n. História do Brasil (São Paulo: Martins. subordinadora de um vasto leque de colônias díspares na América. Pimenta. ou descendente dos europeus". História da revolução de Pernambuco de 1817 (Recife: Governo do Estado.

Paris: Aubier. Cf. em Pernambuco e sua área de influência) em alternativa política de tipo nacional. vol. sois pernambucanos".95 e que acabou tornando-se. não se diferenciando quanto a isso a não ser na medida em que um galho diferia de outro. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 159 rer. Guerra. aberto à adesão de todos que aceitassem. 15 92 "Decreto do Governo Provisório da República de Pernambuco regulamentando a Constituição". o recurso à idéia de nação reforça-se como parte 93 90 9l Documentos históricos. como já ocorrera em 1798 na Bahia. Os três meses de vida da República Pernambucana ."revestida da soberania pelo Povo. 9. valores.] descendentes dos valorosos lusos. Vexpansion révolutionnaire de Ia France dons le monde de 1789 a 1799 (2. agora não mais pensada nos termos do Antigo Regime português. fórmula que expressava a "perfeita igualdade de cada [um] a respeito dos outros". e F. vol. em pátria (nos termos que já se viu ser os dos deputados que escreveram os manifestos de Falmouth). 1983). alternativa sempre referida a um território (real ou virtual) e a um conjunto de normas. 95 Documenos históricos. mas nos de outra matriz cuja origem está na revolução burguesa. ed. fossem de outras capitanias do Nordeste. p. seu programa. em quem ela só reside"-92 foram curtos para que o Estado emergente da revolução assumisse uma conformação estável e dotada do necessário conjunto de referências que pudessem autonomizar identi- dades políticas coletivas de tipo nacional a elas referidas. ambos comuns aos membros da nação. viesse de onde viesse (em termos espaciais) essa adesão. cit. p. independentemente do partido que tenham tomado durante os conflitos. fossem da Capitania de Pernambuco. Pierre Vilar. op.Istvón Jancsó e João Paulo G. essa idéia sempre contemplava duas variáveis definidoras da comunidade cuja natureza pretendia expressar: uma herança (memória e história) e um território. os defensores do status quo mobilizaram-se em defesa dos pactos que se materializavam na monarquia absoluta.94 Ainda que comportando grandes variações de conteúdo. 94 Jacques Godechot. 16. Nos dois casos os protagonistas dos eventos de 1817 reconheciam-se como galhos de um mesmo tronco. em Documentos históricos. falam cm povo (fonte e sustentáculo do poder nos termos da nova ordem). Cl. Por outro lado. ainda que carregado de enorme fluidez. instituições e símbolos (de vigência efetiva ou virtual) que lhe confeririam visibilidade. Apelando aos "habitantes de Pernambuco". . a abrangência espacial do movimento chegou a atingir praticamente toda a região desde a Bahia até o Ceará. Cl. para o bem e para o mal. sois brasileiros. deslocando-se para o centro dos ideários políticos. G. La Grande Nation. Ensayos sobre Ias revoluciones hispânicas (México: FCE.93 a revolução não chegou a liberar as forças que poderiam transformar a tendência centrífuga latente nas diversas partes do sistema imperial na América (neste caso..p. o que torna perfeitamente compreensível a ausência quase absoluta do termo nação do seu vocabulário político. Mota. É preciso ter em mente que nas primeiras décadas do século XIX o conceito de nação. ordens religiosas. sois americanos. Os revolucionários não recorrem à valorização de um passado que lhes é específico (e como tal distintivo de outros) ao justificar suas ações. E é bom lembrar que essa dificuldade não pode ser debitada à prudência de prelados. cit. 1993). Pelo fato de o movimento de 1817 ter sido contido nos limites de uma ação de recorte partidário e. individual ou coletivamente. Ibid.. CIV. aquele da natureza dos pactos social e político que fundamentavam a unidade da nação portuguesa reconhecida como comum a todos.90 expondo um dos limites que tolhiam a clara identificação dos atributos que deveriam abrir as portas da inclusão de seu portador na "comunidade política imaginada". Com isso.91 O confronto dos dizeres da Gazeta do Rio de Janeiro com os termos dos proclamas do bispado e do governo revolucionário revela uma clara concordância quanto à natureza da trajetória coletiva comum que ambos assumiam como sua. Os revolucionários aceitavam a adesão tanto de indivíduos quanto de organizações coletivas (corporações militares. Modernidade independências.. Era este o alcance da questão subjacente aos cuidadosos termos da proclamação quando insistia na imperativa necessidade da união dos brancos. 34. já que o discurso do próprio governo revolucionário vinha pautado pelo mesmo diapasão. A distinção deslocou-se para outro patamar. na nação (ainda que virtual no caso do 1817 pernambucano). Os rebeldes. câmaras municipais). espalhava-se rapidamente pelo universo atlântico. No discurso da Revolução de 1817 constata-se uma enorme ambigüidade quanto a esses pontos. Nordeste 1817: estruturas e argumentos. para que se unissem à causa da "Pátria [que é] nossa mãe comum". p. pois portugueses. X. os homens do governo dirigiram-se a eles com o argumento de serem todos "seus filhos [. como tal. Enquanto os revolucionários eram movidos pela perspectiva de nova ordem social e política que emergiria (pela via da revolução) da vontade popular. e na urgência da superação da "fatal indisposição entre europeus e brasileiros". vol. C. a marca distintiva de seu discurso. tudo isso fundindo-se em patriota..

Pelo contrário. finalmente. constitucionais e pés de chumbo: a cultura política da independência. São Paulo e Minas Gerais). 1998. as Cortes Constituintes em Lisboa assumiram o papel de centro de poder e de articulação política do império. De fato.]. e foram assim reconhecidas. Marcus J. acrescentou o ministro de d. Carlos H. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergênda da identidade nadonal brasileira) 161 orgânica da fala do poder. É sabido que foi na porção européia do império que irromperam em revolução as tensões geradas pelas contradições acumuladas em seu interior. antagônicos nem excludentes. dos elementos constitutivos de uma terceira alternativa para o enfrentamento de uma crise cuja superação crescia em urgência. M. 1977). A revolução liberal de 1820. 97 .96 Os contemporâneos reconheceram imediatamente a intensidade das mudanças em curso e. 18171824". e participar com eles dos benefícios da constituição liberal que ora se faz em Lisboa. 36. com a vitória dos liberais no reino europeu. 1982). quase imediata e. com seu uso revelando. e Lúcia Maria B. vacilantes quanto aos rumos a seguir diante dos acontecimentos.. "provavelmente a esta hora tem feito outro tanto Pará. esta província desempenhara importante papel estratégico na liquidação do movimento revolucionário pernambucano. 371).. a quem desejam estar perpetuamente unidos. Geraldo Mártires Coelho.. Oliveira. para o caso de Pernambuco. p. 260. A independência do Brasil na Bahia (2. nação (entendida como depositária de uma herança comum a ser preservada) -. originados do receio do povo de que sejam frustrados os desejos que tem manifestado de aderir aos votos de seus irmãos de Portugal. vol. mas porque. Pereira das Neves. entretanto.o caso do Nordeste (18081824). trabalho apresentado no VII Congresso da AHILA. e deste na América. além dos trabalhos de Dênis de Antônio de Mendonça Bernardes. interesse traduzido em estudos pontuais contemplando a diversidade de seus desdobramentos nos dois hemisférios e revelando o turbilhão de forças centrífugas que então foi ativado no espaço americano. não somente porque. iniciada no Porto e rapidamente espalhada pelo império. tratava-se.97 o que resultou em fundados temores dos ministros. que desde antes já vira com grande preocupação o potencial disruptivo da diversidade englobada no novo Reino Unido. João VI. 1821: "os comandantes e oficiais das tropas de linha da guarnição da cidade da Bahia em presença do governador e capitão-geral conde de Palma.) Que o dia de hoje seja de reconciliação geral entre os habitantes desta província. Cecília Helena de S. "O processo de independência. n. A imprensa liberal no Pará de 1822 (Belém: Cejup. 331-65. pouco antes (em 1817). e por Thomas Wisiak. Para a Bahia. 1992).. Esses componentes da cultura política que se adensava no continente americano -pátria (fosse ela Pernambuco. 1877-1878. Florença. carta IV.98 96 Para seu impacto na Província do Rio de Janeiro. ed. tornara-se. de Carvalho. que este poder vacilava diante das imposições do novo tempo. ainda que alimentando alternativas diferentes para o Antigo Regime português na América. 98 Anais da Biblioteca Nacional (ABN). quanto ao núcleo central do poder imperial. quiseram de comum acordo impedir efusão de sangue. aparentemente consensual. cada qual à sua maneira. Assim que chegou a notícia da nova ordem instaurada em Lisboa. não eram. chegou a vaticinar que "decidiu-se a sorte do Brasil: quebrou-se o nexo que unia suas províncias ao centro comum: e com a dissolução do Brasil se consumou a dissolução da Monarquia [. Paraíba ou qualquer outra). resolveram o seguinte (. a questão é trabalhada por Luís Henrique Dias Tavares. sendo de esperar que "as outras províncias segui-las-hão de perto". para o Pará. O movimento autonomista no Brasil. que por qualquer diferença de opinião política estejam discordes até agora" (apud Affonso Ruy. 18. tem merecido renovado interesse dos historiadores. para São Paulo. a adesão da Bahia à revolução liberal foi. Tendências políticas na Bahia na crise do Império português (inédito). que infelizmente podia resultar em motins. foi em meio ao torvelinho que este se deu conta de que a diversidade constitutiva do império. 3. A fragilidade desse consenso é expressa na Resolução do conselho militar de 10 fev. juntamente com o conjunto articulado em torno da corte (Rio de Janeiro.. Anarquistas. Silvestre Pinheiro Ferreira. vista a distância. condição da sua impotência. como por exemplo. 1820-1822 (São Paulo: FFLCH-USP. Corcundas.160 Istvón Jancsó e João Paulo 6. até então um dos fundamentos de seu poder. A província de São Paulo de 1819 a 1823 (Lisboa: Cosmos. cit. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1993). Tip. demagogos e dissidentes. na nova situação advinda. O que ocorreu na Bahia é exemplar quanto a esse ponto. em Revista Brasileira de História. ainda que a sua síntese não se tivesse completado no 1817 nordestino. com o que. sempre carregada de referências ao passado. vol. A Bahia acaba de desligar-se da obediência de Sua Magestade com o pretexto de aderir ao sistema das Cortes de Lisboa". a formação do Estado nacional e a questão regional no Brasil . esses conceitos já despontavam como portadores parciais. Maranhão e Pernambuco". entrementes. teses de doutorado. História política e administrativa da cidade do Salvador (Salvador. desencadeando uma sucessão de eventos que destroçaram seu formato longamente maturado. "Cavalcantis e Cavalgados: a formação das alianças políticas em Pernambuco. povo (como fonte e agente do pacto político) e. Oberacker Jr. 1985. da mais rica das partes do Reino do Brasil. radicalmente contrapostas em 1817. ainda que carregada de tensões.. Beneditina. no seu caso. op. 1949). pp. p.

exaltada como regeneração. de C. parte 1. de aclamação por cabildo abierto. pela agricultura. op. São Paulo: Brasiliense. e em cuja eficácia confiavam. Proclamando lealdade ao soberano e dizendo agir em seu nome para evitar "o derramamento de sangue de seus fiéis vassalos". vol. eventualmente de conteúdo revolucionário. O procedimento para a constituição da Junta Provisional seguiu o modelo já antes adotado na América espanhola no período que se abriu em 1810. que vinha carregado de antagonismos de vários tipos. 272. que o temor da perda do controle do processo político e da conseqüente desordem social levou-as a lançar mão dos mecanismos políticos que lhes eram familiares. foram propostos. viu-se afastada dos centros de decisão.102 Essa opção por um critério arcaizante para a sua composição obstava que os recortes políticos de tipo partidário viessem a servir de base para a representatividade da Junta. Francisco de Sierra y Mariscai. cada qual apontando para diferentes projetos de organização política que iam desde a subordinação incondicional ao governo português até a ruptura com plena autonomia provincial ("Idéias gerais sobre a revolução no Brasil". corporações e personalidades (com suas clientelas). "Democrata" e "Aristocrata". a começar devido às diferentes formas com que essas regiões perceberam a presença da corte no Brasil desde 1808 ("O tamoio e a política dos Andradas na independência do Brasil". Outra testemunha da época.. passou a constituir-se. ed. ver José Tengarrínha. assim como o foi o tenente-coronel Manuel Pedro de Freitas Guimarães para o Governo de Armas. cit. de cujos portadores o traço comum era bem mais político-ideológico do que sociológico (fato novo emergindo naqueles momentos de desmantelamento da velha ordem). antes contidos na esfera da política local. Da liberdade mitificada à liberdade subvertida. E com essa opção uma longa tradição oposicionista. cap. pulverizou o contorno até então imposto à sociedade política. e ignorando a rapidez com que alianças eram feitas e desfeitas no acelerado aprendizado do fazer política num contexto no qual as velhas normas haviam perdido vigência e as novas ainda não haviam sido estabelecidas.. p.99 Esse processo. 1977). Luís H. em Evolução política do Brasil e outros estudos (10. o deão José Fernandes da Silva Freire. sob risco de passar ao largo das proporções dessa dimensão da conflagração política em curso tendo por cenário principal (mas não exclusivo) o universo das classes dominantes. pp. cmABN. pelo comércio. cit. disputando no plano mental a hegemonia com as outras que remontavam a diversa tradição: a do reformismo ilustrado. até então represada. D. por obra da revolução liberal. 1821. Tavares lembrou das cartas do então governador das armas coronel Luís Inácio Madeira de Melo. As diversas províncias do reino americano tornaram-se cenários de intensa atividade política abertamente contraposta às regras até então vigentes. p. 1993). 6). V. pela milícia. pode-se apontar para a emergência de três vertentes básicas quanto à futura forma de organização do Estado no âmbito da província. A complexidade do quadro político baiano emergente da adesão da província às Cortes Constituintes revela que um quarto de século de experiência política acumulada no enfrentamento da crise do Antigo Regime português. Francisco Antônio Filgueiras e José Antônio Rodrigues Viana. Decreto de 4 jul. 27). do Estado português com o qual se identificavam com renovado entusiasmo na nova conjuntura. estava profundamente enraizada na mente dos homens que aí viviam.101 e que foi até então contida fora dos limites do espaço público quando derivava de práticas contrapostas ao absolutismo. . com o espaço da coisa pública alargada em tal escala e profundidade. classes.. quanto ao que se refere às culturas políticas e formações de tipo partidário que os expressavam. especialmente cap. Paulo José de Melo de Azevedo e Brito. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nodonal brasileira) 163 Os fatos confirmaram esses temores. 43. 40-52. o desembargador Luís Manuel de Moura Cabral. p. identificou três "partidos": "Europeu". disputando posições que lhes permitissem influir no desenho da nova ordem que viria a emergir com a re-fundação. pelo clero. 1821.100 Essa medida. Não se pode perder de vista. o que provocou reações violentas. formalizando a adesão da Bahia à nova ordem liberal. Na Bahia. Para secretários foram aclamados o desembargador José Caetano de Paiva e o bacharel José Lino dos Santos Coutinho. traduziu-se em acentuada aceleração dos ritmos da vida política. já notava que nas províncias do Nordeste a revolução teve um impacto diverso com relação às do Centro-Sul. Jancsó. contra o império. apud Inácio A. em que se fazem referências a grupos constitucionais. ordens. 1920. Essa experiência. A constituição da primeira Junta de Governo. independentistas e independentistas republicanos disputando o controle da província (op. 180). Passando ao largo de matizes importantes em se tratando de um quadro de extrema fluidez política. com grupos.162 István Jancsó e João Paulo G. pela acolhida que teve. Para uma análise de seus desdobramentos em Portugal. e pela cidade. partidos. Ata da Câmara Municipal de Salvador de 10 fev. com cada um dos grupos funcionais (cuja natureza era corporativa) detentores de reconhecido poder indicando seu representante. refletiu esse reflexo conservador. os tenentes-coronéis Francisco de Paula Oliveira e Francisco José Pereira. Ver I. e Silva. cit. Uma exploração no interior da repressão à imprensa periódica de 1820 a 1828 (Lisboa: Colibri. "Teoria e prática da contestação na colônia". ram as elites da Bahia para conformarem a nova ordem. num dos instrumentais ao qual recorre99 100 101 Caio Prado Jr. aceleração magnificada com a decretação da liberdade de imprensa pelas cortes. Tratando-se do caso da Bahia. que essas elites baianas viam-se diante de uma situação totalmente nova. alargando-a tanto no tocante aos interesses objetivos que em seu interior se confrontavam.

107 A bancada eleita contava com personalidades de considerável peso intelectual e era portadora de múltiplas referências políticas. para fazer face à radicalização política em contexto de confrontação armada quando da guerra da independência na Bahia. 1866). Para o periódico baiano Idade d'Ouro do Brasil.105 A terceira vertente. e Silva. via na adesão ao sistema constitucional o caminho para a afirmação da autonomia da província. op. se absolutista ou constitucional. A nação como artefato: deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. tratou-se de uma experiência ímpar na América portuguesa. 1821). F. desdobrada em variantes marcadas por referenciais ideológicos conflitantes. Para Pereira Rebouças. e o debate político na América fazia eco às suas palavras. adros de igrejas. em Revista do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.106 Tudo isso. É o caso dos já referidos Cipriano Barata e João Ladislau e Melo. Berbel. Não são poucas as referências acerca das intenções do marechal Felisberto Gomes Caldeira Brant e seu subordinado major Hermógenes de Aguilar Pantoja na resistência à adesão da Bahia à revolução do Porto. aí amargavam o cativeiro. assim como fazê-lo quanto às condições de reiteração ampliada da ordem social escravista que esta havia engendrado e dá qual se alimentava. Camillo de Lellis Masson & C . Os deputados (na proporção de um para cada 30 mil moradores) eram escolhidos por via indireta: compromissários escolhidos em suas freguesias indicavam os eleitores paroquiais que elegeriam os eleitores de fato. Vicente Antônio da Silva Corrêa [assinada na Bahia. 1822. enfim. cit. mas o é também em meio à adesão ao vintismo e à identidade nacional portuguesa que este representava. A nação partida ao meio: tendências políticas na Bahia na crise do Império português. via na restauração da combalida unidade do império. op. p. lojas maçônicas. Este recebia visitas e até mudas de roupa de João Ladislau de Figueiredo e Melo. e Inácio A. ambos afastados da organização do governo provisional. p.). o marechal Brant "deu repetidas mostras de que não queria comunicação com Portugal" (n. 1821-22".e das identidades políticas coletivas que as sintetizavam . Mas neste hemisfério os significados eram nuançadamente diferentes. praças e ruas. o caminho para o enfrentamento das dificuldades geradas pela crescente preponderância estrangeira. abria as portas para o reencontro da nação consigo mesma. Carta ao ilustríssimo e excelentíssimo Sr. indivíduos também oriundos daquela tradição emergente em 1798. fossem européias ou americanas. um dos responsáveis pelo início do levante baiano e colega de Cipriano Barata. É isso que está presente nas manifestações dos deputados que a província elegeu para representá-la nas Cortes Constituintes de Lisboa. de C. a seguir. 1923. inédito. alimentando o antagonismo entre trajetórias coletivas contrapostas . Isso é perceptível na ação dos independentistas. Márcia R. vinha explodindo em iniciativas isoladas. 19 fev. agora pela via constitucional. na fala dos que estavam empenhados em dar forma ao projeto constitucional. VIII. cit.. herdeira da tradição republicana que emergiu em 1798 e permeou a solidariedade de baianos aos presos políticos que. Expressavam essa tendência. Barata chegou a ser identificado. 17. a sua revolução. testemunha do movimento. entretanto. corpo político dotado de feição própria a ser integrado no império português em igualdade de condições como todas as suas outras partes. 456).164 Istvón Jancsó e João Paulo G. Mesmo assim. entre outros. as eleições provinciais no Brasil ocorreram ao longo do segundo semestre daquele ano. aqueles a quem caberia a escolha dos deputados representantes da província. da Viúva Serva e Carvalho. especialmente p.. assim como o era a natureza do reencontro de seus presumidos herdeiros com o passado. como um sans-culotte por Francisco de Sierra y Mariscai (op. cada qual encerrando projetos de Estado e de nação que se contrapunham umas a outras. ao derrotar o despotismo. ameaçando tanto interesses mercantis ancorados na velha ordem. Condições tanto mais ameaçadas na medida em que crescia a pressão inglesa contra a manutenção do tráfico. 48. Para os vintistas portugueses. para os quais não havia contradição entre nação. Com tudo isso. caso de Ferrão Castelo Branco e Pedro Rodrigues Seguindo-se as instruções do decreto de 18 abr. após a derr rota da revolução pernambucana. Dada a sua trajetória radical. 1822). . 267). subsistia.) e Ladislau. que também prestava solidariedade aos presos e comandava reuniões que precederam o dia 10 de fevereiro de 1821 (Evaristo Ladislau e Silva. num cenário formado por efêmeros clubs. este último era "homem aferradamente inimigo de Portugal e de Portugueses" ("Recordações patrióticas.104 A segunda vertente. Recordações biográficas do coronel João Ladislau de Figueiredo e Mello (Salvador: Tip. L. refletindo a terminologia em voga entre os liberais europeus. Dela faziam parte representantes da melhor tradição agrária baiana com experiência nas coisas do Estado na esfera local.103 orientava-se pela ruptura total com Portugal. Esse quadro movediço gerou um vocabulário político com ingredientes novos. já se vê. em carta de 17 jan. 1821-1822. cuja precipitação alijou-os da luta política efetiva. n. defendia-se dos rótulos de "francês" e "pedreiro livre" que se lhe atribuíram nas cortes de Lisboa (João Ladislau de Figueiredo e Melo.. em 17 jan. mas que naqueles anos de 1820 inclinavam-se a apoiar uma proposta monarquista constitucional. cit. boticas. na medida em que foi o seu primeiro processo eleitoral supra-municipal (Thomas Wisiak. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 165 A primeira delas. na Bahia a diversidade política. 13. Sabe-se que esses presos receberam liberdade no dia da adesão da Bahia à revolução portuguesa e que entre eles encontrava-se o paulista Antônio Carlos de Andrada. ou seja. 1822] (Salvador: Tip. cap. 1821. onde se urdiam alianças esboçando convergências de maior abrangência política tendo em vista as eleições que vieram a polarizar o debate político e. ainda em 1821. povo e pátria. cit. independentemente da ordem política ali prevalecente. de Alencastro. residências particulares.

Tavares. liberais de feição cosmopolita com profundo conhecimento do cenário político europeu. vol. um agregado de "Províncias 108 109 1. 1821. 1985. I. entendendo por isso "nivelar a antiga Corte do Rio de Janeiro com todas as mais províncias do Brasil". Luís Henrique D. militar devotado à casa de Bragança com destacado papel na vitória das forças legalistas sobre os revolucionários pernambucanos de 1817. sobre Luís Paulino da França. ver Antônio d'01iveira P. Conforme os trabalhos das cortes confrontassem em termos práticos as especiflcidades americana e européia na busca de claras definições constitucionais (com a evidente referência aos concomitantes sucessos políticos no além-mar). o padre Marcos Antônio de Sousa. Wisiak. Caio Prado Jr. fosse pela imprensa local ou por seus pares europeus nas cortes. Palavras de Domingos Borges de Barros na sessão de 25 jul.0 1u Para elementos biográficos dos representantes baianos. O panfletário da independência (São Paulo: Brasiliense. sabiam ter por tarefa "fazer uma Constituição para a nação portuguesa. Os paulistas vinham munidos de uma proposta política cujos termos contemplavam o geral desejo de união da nação portuguesa (sentimento partilhado por todos). cada uma [governando-se] por leis particulares de municipalidade". de algum tipo de patriotismo a ele referido. Evolução política do Brasil e outros estudos. Em sessão de 1« jul. mais próximos de si que os europeus. cf. . Quando de sua chegada a Lisboa. Tratava-se de uma entidade política emergente que ainda não era depositária de adesão emocional. casos de Agostinho Gomes e Cipriano Barata. Wisiak.109 levando às cortes a vontade dos povos de uma das partes de um Brasil entendido. como Domingos Borges de Barros. da perspectiva provincial para outro patamar: o brasileiro. Rio de Janeiro. o que tendeu a conferir maior concreção à idéia de Brasil. Mas sua percepção quanto a esse ponto sofreu mutações com o correr do tempo. o fato de serem naturais da província e de contarem com a confiança de segmentos importantes do eleitorado. e Marco Morei. cujo prestígio já se notou com sua indicação para secretário da Junta Provisional de Governo que deu uma primeira forma à nova ordem política em fevereiro de 1821. jovem político de discurso radicalizante.. Refletindo o sentimento dos que os elegeram. "liberalmente foi concebido pelo imortal D. op. ver Luís Henrique D. contra o Império. cit. em Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em sessão de 3 jul. A "conspiração dos alfaiates" (São Paulo: Pioneira. entretanto. Isso se deu por etapas. Cartas baianas. 131. 1821-1824. op. o localismo de origem cedia lugar à ampliação de horizontes.. Berbel. o Brasil era tido por um conjunto disperso. suas pátrias conforme já se mostrou anteriormente. cit.2 113 Palavras de Lino Coutinho na sessão de 6 mar. sobre Cipriano Barata.112 Esses deputados. da França. T. 1822. Os deputados baianos (e não somente estes) deram-se conta de que os objetivos que tinham por seus impunham o estabelecimento de alianças com representantes de outras províncias americanas. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 167 Bandeira. cit. uma criação que. Sobre Agostinho Gomes. eles sabiam-se representantes de suas províncias de origem. Tavares. como "verdadeiramente uma continuação de Portugal". e José Lino Coutinho. cit. tenderam a deslocar o eixo dos posicionamentos da bancada.166 Istvón Jancsó e João Poulo 6. eram em geral designados como brasileiros em Lisboa. subordinando entretanto essa união ao respeito à 1. Mais do que tudo. 1986). mas essa identidade atribuída e assumida não os vinculava ao Reino do Brasil. Ao lado destes estavam Luís Paulino de Oliveira Pinto da França. João VI". 1822. depositários da tradição revolucionária antiabsolutista que remonta a 1798 e reafirmada em 1817. nas palavras de Lino Coutinho.110 Mas o que era isso de Brasil para esses homens? A leitura de suas falas durante os trabalhos da Constituinte permite afirmar que viam no Brasil uma construção política recente.da Uerj. Esse deslocamento acelerou-se com a chegada da bancada de São Paulo. T.. e os mais que representavam províncias americanas.. cit. cit. [que] são outros tantos reinos que não têm ligação uns com os outros.113 revelando o desconforto de uma elite ciosa de sua riqueza e poder diante de uma subordinação que jamais foi aceita de bom grado desde a transferência da sede dos vice-reis em 1763. op. 1822. Palavras de Lino Coutinho na sessão de 29 dez. cf. 1822. Cipriano Barata de Almeida. e assim se reconheciam. cf. op. sem suprimir as diferenças políticas entre seus membros. Subsídios para o estudo dos problemas da opção na independência brasileira (São Paulo/Rio de Janeiro: Nacional/Ed. História da sedição intentada na Bahia em 1798. 1975).111 sem tradição particularmente valorizada a diferenciá-la no interior do Estado português. Na Bahia. 1980). 347. não conhecem necessidades gerais. esta que se acha espalhada mais que outra alguma em todo o universo". indicando tão-somente terem sido eleitos no além-mar. nos termos de Luís Paulino. membro proeminente do clero local. Jancsó. os baianos anteviam na reorganização do Estado português uma oportunidade para a liquidação da supremacia política do Sudeste no espaço político americano. Na verdade. Cipriano Barata. p. As crescentes dificuldades na harmonização dos interesses representados pelas delegações européias e americanas. ver Thomas Wisiak.108 Tinham em comum sólida formação intelectual.

sem tornar-se impedimento para a reivindicação de paridade nos órgãos decisórios que regeriam os destinos da nação. 1963). p.). Obras científicas. mas depois da revolução tudo parece necessidade. O argumento esgrimido para sustentar a legitimidade da reivindicação era familiar a todos: o risco da ruptura da ordem social. "O liberalismo. 1. História da América Latina. História de Portugal. p. como de resto por toda a América.. Os dados para o Brasil são fornecidos por Maria Luiza Marcílio. 1820). aflorou pela via da crítica retórica aos excessos das práticas escravistas.6 Ibid.389) de escravos. Não estava. op. vol. sugeriu que aí se tomassem iniciativas no rumo de necessárias mudanças pois "qualquer favor concedido antes da revolução será recebido com entusiasmo. comunicação apresentada no IV Congresso de História da Bahia. de C. cit. cit.132. (Lisboa: Estampa. aquele possuía a alta porcentagem de 30% (ou seja. e todos os bons se deitarão nos braços de Sua Majestade.119 Com o avançar dos acontecimentos. 118 Cf. o que certamente se faria já que.596. excetuando-se índios) ser superior à de Portugal (em torno de 3. pp. marechal Felisberto Caldeira Brant Pontes. ainda que relativizando a importância política do problema ao remetê-lo à pauta das definições normativas. em José Mattoso (dir. a 1° out. em J. em fins de 1820 o comandante da guarnição da capitania. a Junta de São Paulo eliminava qualquer hipótese de alteração no status quo escravista ao localizar na eventualidade de uma precipitada extensão de atributos civis aos "miseráveis escravos" a perspectiva de virem estes a reclamar "direitos com tumultos e insurreições.. 425. De fato.). perguntou-se o articulista. 1821. políticas e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva (Santos.026. os de Portugal por Rui Cascão.7 Estimativas demográficas para o ano de 1819 apontam que não obstante a população total do Brasil (em torno de 3. 1807-1890". entretanto.116 Que essa circunstância colidisse com os princípios em nome dos quais a regenedora revolução da nação portuguesa se fazia. com o que estabeleciam o poderoso nexo que conferia unidade ao Reino do Brasil. 1. pp. "A população do Brasil colonial". Para melhor visão dessa questão. vol. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 169 especificidade das condições reais de existência das elites americanas. e sabe Deus que caráter desenvolverá ela em um país de tantos negros e mulatos!". op. Também na Bahia. em Leslie Bethell (org.118 O escravismo não chegou a tornar-se objeto de deliberação substantiva das cortes.). II. 120 O termo encontra-se na "Reclamação da Junta da Bahia aos Habitantes da Província". apud Hendrik Kraay.5 Ibid. caberia aos deputados paulistas evitar que "a diversidade de costumes [. 1999). segundo os autores do documento. quanto no que remetia para a dela derivada diversidade racial da população. eufemismo desfeito com meridiana precisão com a afirmação de que esta "diversidade de circunstâncias" advinha de ser "composta [a população] no Brasil de classes de diversas cores. V. II. excetuando-se as ilhas atlânticas). 98 1.450 para o ano de 1821. e pessoas umas livres e outras escravas". cit. J. 27 set. "Demografia e sociedade". s. Reis e Eduardo Silva . e Silva.). A política racial nas forças armadas. "América Latina colonial" (São Paulo/Brasília: Edusp/Funag. em Inácio A. Salvador.. p.. de ameaça à boa ordem. mas o documento dos paulistas deslocou-o para a centro da proposta de organização do Estado português que traziam. argüindo professarem alguns na província a idéia de que "a raça africana torna perigosa a Constituição". no simples trato do escravismo a inovação que veio de São Paulo. de buscar a reorganização política de partes iguais (as várias províncias representadas). tanto no que significava em si mesma (relações escravistas). A leitura das "Lembranças e apontamentos do Governo Provisório para os senhores deputados da Província de São Paulo"114 revela com perfeita nitidez que seus autores reconheciam no escravismo o núcleo forte das diferenças entre americanos e peninsulares. 98 A esse respeito é útil a leitura de Antônio P. 338. "O jogo duro do Dois de Julho: o 'Partido Negro' na independência da Bahia". "os Deputados das Cortes são porventura nécios para não terem em vista providências que tal artigo exige?". 284-5.d. já que fundamentava o princípio da diversidade que este Estado deveria abrigar. p. o debate político era inevitavelmente permeado por esta variável fundamental da realidade.107. 96 1.121 1 1 4 ' Ver Edgard de Cerqueira Falcão (org. ver. de João José Reis.120 e o Idade d'Ouro do Brasil sinalizava nela reconhecer previsível fator de discórdia ou.117 em evidente contradição com o princípio de cidadania em nome do qual as cortes agiam. 1823-1838. De fato. 12 > Número 47 de 23 mar. e tinham nesta a questão em relação à qual não havia o que transigir em Lisboa. Antes mesmo da adesão da província à nova ordem. Não se tratava. vol. p. em março de 1821 a Junta de Governo qualificou "a escravidão doméstica dos naturais da África" como "cancro". 1999. diferenciando-o nos seus fundamentos sociais se confrontado com o Reino de Portugal.. mas sim de buscar a unidade entre duas formações sociais distintas na sua base.] e das circunstâncias estatísticas"115 fosse ignorada quando das definições constitucionais respeitantes à igualdade dos direitos civis e políticos. " Carta de Felisberto Caldeira Brant ao conde de Palmela (21 dez.. Edgard de Cerqueira Falcão (org. 93-102. que podem trazer cenas de sangue e de horrores". op. Rocha. temendo as indecisões da corte do Rio de Janeiro. no limite.).168 István Jancsó e Joõo Paulo G.

Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata. que sempre tive horror à escravidão.. op. é significativo que ao tratar da questão da escravidão africana. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 171 A novidade que veio na bagagem da bancada paulista foi a clara exposição de que a forma de organização do Estado português deveria subordinar-se diretamente às condições de reiteração do sistema escravista na América ou. que "o Brasil é um reino bem como Portugal. que são sempre referidas a terceiros (os habitantes do Brasil. nota 117). São Paulo.124 Os baianos tinham atada à sua imagem a condição escravocrata.). 1780-1870 (Montevidéu: Taurus. cit. 1822. As críticas orientais à escravidão africana no Brasil testemunham. dentre os quais Lino Coutinho. desejara suprimir. os mesmos setores da sociedade oriental que apoiavam a incorporação da região ao Brasil como "Província Cisplatina" estavam entre os mais ardorosos defensores do fim da escravidão africana no Prata. D. numa escala mais ampla. pp. cit.170 Istvón Jancsó e João Paulo 6. e vem a ser. em José Pedro Barrán/Gerardo Caetano/Teresa Porzecanski (orgs. Sabiam-no perfeitamente porque assim eram vistos. 1822. e cuja supremacia. 5 abr. sinônimos). independentemente de sua origem. colocada não apenas como fator limitador da incorporação. sete meses mais tarde. os portugueses em geral.125 Mas na construção de sua auto-imagem (de liberais) isso era subsumido como conseqüência de "circunstância" derivada 124 125 (orgs. cit. malgrado a desproporção entre o número de cidadãos do reino americano que nas Cortes Constituintes se faziam representar. é a mais alta de toda a história da cidade (Ernesto M. proclamar. pp. 122 123 Sessão de 3 jul. mas principalmente como diferencial a forjar identidades políticas distintas e incompatíveis entre si.)..). e sabiam que esta condição projetava sua sombra sobre a identidade da comunidade imaginada à qual pertenciam. Campagna Caballero. das Letras. e n. publicadas em Luís H. advogado que pouco tempo depois se encarregaria da defesa de duas escravas responsáveis pela morte de sua proprietária. ainda que correspondesse à média do Brasil (cf. Departamento de História/USP. A população de Montevidéu. Nesta ocasião. o Pacífico exponha esta diferenciação adquirindo contornos de incompatibilidade e de ameaça ao sucesso da incorporação da Cisplatina com o Brasil. É o que atestam as "Instruções" do governo baiano datadas de março de 1822 recebidas pelos deputados. quando das sessões das cortes dedicadas ao debate da extensão dos direitos de cidadania aos libertos. Por último. e desgraçados daqueles que tentarem contra a sua categoria e grandeza. mais claramente. Pimenta. as exigências dessa reiteração. e sabiam perfeitamente disso. n. na prática. esta análise encontrase em João Paulo G. por aqueles que. 245-6). 1987. periódico de Montevidéu que veio à luz em dezembro de 1821 com a tarefa principal de defender as vantagens proporcionadas pela proteção oferecida pelo império português (liberdade política e segurança na atividade comercial que encontrava-se debilitada na região desde 1810: a desejada boa ordem) em nenhum momento equipara os "orientais" a "portugueses americanos" ou "brasileiros" (estes sim. posto que colocavam sua extinção como garantia da ordem social. uma rica senhora montevideana.7 jun. o Pacífico Oriental de Montevideo (POM). dentro do império português (João Paulo G. os deputados baianos estavam enredados pelo caráter escravista da elite que representavam. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista (São Paulo: Cia. Vem daí que. com crescente intensidade. Entre Ia honra y ei desorden. que a forma de organização do Estado deveria refletir. fato gerador de desconforto para alguns. "às avessas".123 alimentava poderosamente a sua crescente antagonização com os representantes do reino peninsular. 1996). à época integrada como Província Cisplatina ao Reino do Brasil. é poderosamente ilustrativa desse jogo de espelhos. 25.. 1989). Obes redigiu a defesa em forma de um verdadeiro manifesto pela abolição do tráfico (o episódio foi trazido à tona por Anibal Bardos Pinto. vale destacar que o representante escolhido pela Cisplatina para atuar junto às Cortes da Nação Portuguesa foi Lucas José Obes. Em um comentário sobre os inconvenientes "que nos resultam de perpetuar o vergonhoso tráfico de nossos irmãos os africanos". construíam-na pelo reflexo diferenciado da que tinham por sua naquela que atribuíam aos portugueses. a população de Montevidéu contou com um contingente de escravos africanos que beirava a cifra de 30% que. ele é indivisível. o editor lembra o exemplo "sangrento" de Santo Domingo (Haiti) como demonstração dos perigos de se adotar tal tipo de mão-de-obra.122 revelando admitir que o reino americano era dotado de um centro de gravidade próprio. "Historias privadas de Ia esclavitud: un proceso criminal en tiempo de Ia Cisplatina". Pimenta. 16. Coube ao próprio Lino Coutinho. a paridade das representações do Brasil e de Portugal nos organismos diretivos do Estado passou a subordinar todos os outros objetivos dos deputados da Bahia. É evidente que o correr dos acontecimentos políticos no alémmar. portadores de outra identidade de tipo nacional. pp. Berbel. . Tavares. Pesquisas recentes mostram que entre os anos 1810 e 1823. 174 e ss. quando de sua chegada a Lisboa. Ainda que isso não fosse dito.74-5. esta situação. emflagrantecontradição com os princípios liberais que referiam a feitura da constituição. 1822. 1822. Assim. constrangido a proclamar. do que mantinham-se informados. ser "preciso que eu faça um mani- festo neste Congresso. levando-os a reforçar alianças com todos que. Os receios do Pacífico tinham fundamento. associada com governos "despóticos" e "arbitrários" contrários às idéias de "liberdade" (traduzidos do POM. Sessão de 17 abr. os habitantes de suas províncias). como de resto todos os portugueses da América e. desmembrando suas províncias para [aniquilá-lo]". ver M. viam na união das províncias americanas a alternativa que se deveria priorizar. A esse respeito. op. cit. tampouco inclui-os na "pátria" ou "nação portuguesa". sua demografia histórica urbana. tese de doutorado). 1726-1852. A percepção dessa dimensão do problema alterou a prioridade que a bancada baiana atribuía às relações de sua província com o centro articulador do espaço político brasileiro (o Rio de Janeiro). A análise do periodismo da região da Banda Oriental do Uruguai. pp. que em dezembro do ano anterior forcejava pela supressão da função centralizadora da sede da corte. A independência do Brasil na Bahia. 172-95. apesar de ser Brasileiro". Assim. Historias de Ia vida privada en ei Uruguay. cf.

panfletos. caberia à Constituição reconhecê-los como iguais. perpassam muitas das manifestações políticas da época. ainda não apareceu uma que encaminhasse a quebrar a indivisibilidade da união da Monarquia. n. também manifestou-se na ocasião. p. p. eu sei fazer essas distinções. ainda que ilegítimos. Projetos para o Brasil (São Paulo: Cia. 1998). o que não sei fazer é distinção do merecimento quando ele está no branco. mamelucos. Seu colega de bancada. 1822. 181. no que tange às identidades políticas coletivas. cit. por motivo de áspera divergência e para escândalo e escárnio da assembléia. indistintamente. A imprensa liberal no Pará de 1822.. ademais. j . que se não esfarele ao pequeno toque de qualquer nova convulsão política. cit. além do que revelam sobre o significado de pátria. no negro ou no pardo". políticas e sociais de José Bonifácio de Andrada e Silva. ver o estudo introdutório em Miriam Dolhnikoff (org. da diferença entre os originários da África e os que ele tem por brasileiros. em E. O Paraense. afirmando reconhecer em todos. das Letras. onde. Poder-se-iam multiplicar os exemplos. 57. para que saia um Todo homogêneo e compacto. por extensão. Manuel Emílio Gomes de Carvalho. cabras. II. usando argumentos que já se viu serem os do Revérbero Constitucional Fluminense ou do Correio do Rio de Janeiro. e em amalgamar tantos metais diversos. e mesmo todos os crioulos e libertos". aquela massa de gente de outras origens com a qual. expressão sintética de sua diferença e superioridade diante dos muitos para quem essa condição estava fora do alcance. sem exceção. 7 set. tido por radical sanscolote126 (sic). Saberem-se portugueses constituía o cerne da memória que esclarecia a natureza das relações que mantinham com o restante do corpo social nas suas pátrias particulares. pp.128 Barata chegou a atracar-se fisicamente.). Na sua opinião. porventura sinceras em alguns casos individuais. "gente todas nossas [que] são portugueses e cidadãos muito honrados e valorosos". Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nadonal brasileira) 173 do que era aceito como inevitável ordem das coisas. eludiram esta questão. Para uma abordagem atualizada do pensamento político do Andrada.]. desqualificando o problema do escravismo como variável política a ser contemplada pelas cortes. proclamava. de repente.. cuidemos pois desde já em combinar sabiamente tantos elementos discordes e contrários. Cipriano Barata. 311-4.127 E eis que do discurso libertário emerge.172 Istvén Joncsó e Joõo Paulo G. país e nação na construção da identidade política de seus autores e. e todos eles revelariam a onipresença do escravismo como variável a determinar o horizonte mental desses homens. vol. Luís Paulino Pinto da França. Todos. de Cerqueira Falcão (org.. Ele não estava "pelo que disse um ilustre Deputado. ou de brasileiros. Não era simples para as elites luso-americanas despirem-se de algo tão profundamente arraigado como a identidade portuguesa. No extremo norte. Com a independência do Brasil viam-se. os índios. não se deve esquecer que os manifestos de Falmouth. "Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura". 1979). que não sabe fazer distinção de cores. Por fim. a escravidão é tratada novamente por "cancro" (grifos originais).. para além das diferenças de visão de futuro e da cultura política que professassem. p. E com o escravismo subsumido pelo seu inverso. a profundidade do enraizamento. das audiências às quais eram dirigidas. fazendo-o mediante o artifício de tê-lo presente pelo seu contrário: a questão da cidadania. diante de uma tarefa cuja complexidade foi enunciada com desalentada precisão de metalurgista por José Bonifácio de Andrada e Silva: É da maior necessidade ir acabando tanta heterogeneidade física e civil. ou contra a qual caberia organizar o novo corpo político. op. demagogos e dissidentes. coincidentemente no dia 7 de setembro de 1822. 126. de repúdio às distinções raciais a qualificar homens livres.130 129 130 126 127 128 Segundo Francisco de Sierra y Menescal. cit. entre os dois Reinos Irmãos". e crioulos.). 1822.129 perseverando na defesa de uma possibilidade que já estava perdida. e mestiços". proclamações oficiais ou cartas privadas desenha-se um quadro de amarga perplexidade diante do fracasso das cortes na sua tarefa de consolidar a união da nação portuguesa. 32. O Paraense. documentam sentimentos de frustração e perda que. publicado por Geraldo Mártires Coelho. fossem eles "filhos de portugueses. Soam quase patéticas as manifestações. pôde fluir com plena desenvoltura a retórica liberal dos representantes das elites baianas e das de todas as outras partes do Reino do Brasil. Sessão de 13 ago. igualando-os quanto a esse ponto. que "no meio mesmo do Labirinto de opiniões de Províncias inteiras e Povos. Da leitura de jornais. Os deputados brasileiros nas Cortes de Lisboa (Brasília: Senado Federal. senhor de engenho e de muitos escravos com quem. nascidos no reino do Brasil. de qualquer cor ou qualidade. José Bonifácio de Andrada e Silva. de resto. Obras científicas. oferece o elenco da diversidade cromática da sociedade americana formada por "mulatos [. sobre a qual. na mente de Barata e malgrado sua intenção expressa. Anarquistas.

conceitos distintos mas reciprocamente referidos. HOLANDA. NOVAIS. a partir de então "pátria mãe" e não mais "reino irmão". outras resultantes das respostas que os homens produziam para a sua superação. de Antônio Penalves Rocha. desses vis escravos. em (org. A independência política do Brasil. "A dissolução da herança colonial". Fernando. São Paulo: Brasiliense. e antes disso já se anunciara no 1798 baiano: a impossível equivalência entre corpo social e nação em contexto escravista. enorme mosaico de diferenças. mudança de significado que estabeleceu a precisa alteridade na qual pôde se refletir a identidade nacional brasileira. Idéia de revolução no Brasil. 6. paper apresentado no X Congresso Internacional sobre a Ilustração. locais de reiteração de trajetórias particulares engendradoras dos "Povos" e de suas identidades coletivas. 1789-1801. 1777-1808. MELLO E SOUZA. j . Acresce que. E nesse quadro de contradições. João VI no Brasil. 1997. Carlos Guilherme. LIMA. Cotidiano e vida privada na América portuguesa. quanto das que distinguiam o Pará de Pernambuco ou Minas Gerais da Cisplatina. não parece ser irrelevante destacar que a identidade nacional brasileira emergiu para expressar a adesão a uma nação que deliberadamente rejeitava identificar-se com todo o corpo social do país. 1966. & NOVAE. 1500-1800. Rio de Janeiro: Briguiet. D. Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial. rompida a "indivisibilidade da união da Monarquia".3. quanto demarca a multiplicidade dos âmbitos reais.131 Bibliografia selecionada ABREU. MELLO. ed. 1996. de Oliveira. "multiplicando cada vez mais o número de nossos inimigos domésticos. 1989. ed. Rio de Janeiro: Toopbooks. e sua geração. 1997. Rubro veio—o imaginário da restauração pernambucana.174 István Jancsó e João Paulo G. da difícil "amalgamação" das diferenças. concretos. O plural do periodista tanto remete a um linguajar ancien regime. Sérgio Buarque de. 1999. 131 Segundo Bonifácio. Pimenta Peças de um mosaico (ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional brasileira) 175 Os termos enunciados pelo Andrada revelam que este. São Paulo: Cia. Capítulos de história colonial. Fernando Antônio. MOTA. Rio de Janeiro: Toopbooks.). cit. II.). História geral da civilização brasileira. Sobre o antiescravismo do Andrada. 1992. Capistrano de.\ol.. São Paulo: Cortez. na mesma "Representação" (op. Rio de Janeiro: José Olympio. São Paulo: Difel. 156-7). Caio. M. 1998. ed. "Idéias antiescravistas na sociedade escravista brasileira dos princípios do século XIX". 5. 1954. p. por seu turno. PRADO JR. . Dublin. e d São Paulo: Hucitec. cujas peças mal se acomodavam no império emergente do rompimento com Portugal. Quanto a pátrias. Formação do Brasil contemporâneo. tanto aquelas às quais se referia José Bonifácio. ver. 1957.4. Evaldo Cabral de. ed. o texto d'O Paraense é claro: estas são as províncias. que nada têm que perder. 24. e fazia os maranhenses saberem-se diferentes dos baianos. é o país. Domingos". debatiam-se com o mesmo paradoxo que paralisara os revolucionários de 1817. São Paulo: Hucitec. e dotou-se para tanto de um Estado para manter sob controle o inimigo interno. antes tudo que esperar de alguma revolução como a de S. O Brasil. algumas diretamente derivadas da crise que tudo penetrava. alteraram-se os significados de pátria e país. Raízes do Brasil. das Letras.. 1985. Laura de (org.

Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência Kenneth Maxwell I I Li I .

analisarei a história * Tradução de Adriana Lopez. poucos trabalhos acadêmicos a respeito da independência do Brasil. e assim continuou até pelo menos meados do século XIX. em segundo lugar. delinearei alguns aspectos-chave do contexto internacional no qual se desenrolou a independência. no fim de 1807. ainda que rudimentar. a invasão de Portugal pelo general Junot obriga a corte portuguesa a buscar refugio no Brasil . os eventos que se desenrolaram nos dois lados do Atlântico estavam intimamente vinculados e não podem ser explicados sem se compreender o que os conectava.a* -L ^1 a última metade do século XX. quando Portugal e as grandes potências européias reconhecem a independência do Brasil se ressente da falta de um esboço interpretativo. Em primeiro lugar. publicaram-se. Historiadores portugueses ainda por vezes escrevem como se o Brasil nunca tivesse sido uma colônia de Portugal. Meu objetivo é. Portugal e Brasil faziam parte formal e institucional de um "Reino Unido". A história do período que transcorre das Guerras Napoleônicas . examinarei alguns problemas teóricos e práticos a respeito do estudo da independência do Brasil. A interpretação dos problemas políticos e econômicos do Brasil e de Portugal foi extensa. de forma preliminar. dar uma nova visão do movimento de independência do Brasil no contexto comparativo atlântico.quando. De fato. Apesar disso. surpreendentemente. Para finalizar. . em terceiro. entre 1815el821. Menos atenção ainda tem sido devotada ao estudo sobre o impacto que a descolonização do vasto império português na América do Sul teve sobre a própria metrópole.até 1825. e historiadores brasileiros freqüentemente ignoram a importante dimensão transatlântica dos conflitos políticos internos e das limitações econômicas do Brasil. o processo de "descolonização".

eventualmente pagar indenizações ou assumir o compromisso de quitar débitos coloniais. Temos a tendência de pressupor que todas essas mudanças ocorrem para o melhor. estamos pensando na emancipação política do status de colônia. como inevitáveis. capatazes e administradores brancos. É claro que a natureza explícita da multiplicidade de problemas e decisões a serem tomadas transforma tais momentos em temas fasci- nantes para a investigação histórica. entretanto. onde as populações. temporariamente. consideramos um movimento de independência como uma "coisa ruim". conforme a situação. da "escravidão" sobre a "liberdade". Depois da Segunda Guerra Mundial. essencial para garantir a legitimidade de qualquer Estado novo. assim como questões que envolvem a política das grandes potências. Da mesma forma do que em outros momentos na vida da história de uma nação. no momento de sua independência de Portugal. não estamos especulando a respeito das conexões entre percepções. capatazes e administradores europeus que expulsaram os representantes das coroas de Espanha e Portugal .180 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 181 social e econômica da independência do Brasil. O Brasil tinha. por exemplo. não depende apenas de fatores internos: o reconhecimento do novo status de nação pelas outras nações é essencial. a disposição destas em intervir ou não. A nova nação também deve cumprir com obrigações no plano internacional: contrair empréstimos. 322 anos de existência. assim como o é. desta forma. Se " considerarmos que as nações independentes da América Latina emergiram " após três séculos de dominação ibérica. questões de organização. também se pressupõe que ocorreu uma certa democratização da política interna ou. evidentemente. não estava só ao enfrentar esse dilema. O impacto provocado pela Espanha e Portugal nas Américas v havia sido muito mais profundo e. Menciono isto apenas para indicar o quanto nossa visão sobre a independência e a descolonização pode ser subjetiva. particularmente onde não havia uma grande população de colonos brancos para complicar a transição. esperamos ver a derrota do despotismo e a emergência de algum tipo de fórmula institucional que expresse a vontade popular. Questões geopolíticas surgem. ao menos. organizar a vida econômica e financeira. Apesar disso. as religiões. que geralmente significa a assinatura de um tratado internacional com a ex-metrópole. Raramente. sobre outras sociedades mais antigas do Oriente Médio até a China. todas essas acusações podem ser imputadas ao novo regime. Preliminarmente. ^ O Brasil. realizar e financiar transações comerciais. i Iniciaremos o estudo do estabelecimento de novas nações a partir de velhos impérios com uma certa expectativa e algumas pressuposições. idéias e ações. portanto. as estruturas sociais e os padrões de comportamento nunca foram desenraizados ou destruídos da maneira catastrófica como foram nas antigas civilizações da América pré-colombiana. no ano 2000 sua experiência enquanto nação independente da dominação formal européia ainda será mais curta do que o período em que esteve sob dominação colonial. da reação sobre o liberalismo. portanto. a "persistência colonial" das nações da América \ Latina era diferente daquela herdada pelos Estados pós-coloniais que emergiram dos impérios europeus na Ásia e na África a partir de meados do século XX. de um regime "imposto" sobre um regime "representativo". como criar bancos e como impor tarifas ou negociar tratados comerciais e como criar uma moeda factível. Apesar disso. vale notar. um triunfo do "despotismo" sobre a "liberdade". mais permanente do que foi o impacto dos europeus que se impuseram. mas assistindo à transformação dessas idéias em estratagemas institucionais e sociais. por exemplo. e. a sua liberalização. A constelação das forças externas. assim como de fato foram feitas na época. eventualmente. a persistência da herança colonial se tornou uma questão premente. como uma regressão. talvez seja mais importante nesse momento do que em qualquer outra época da história de uma nação. no caso da independência do Brasil. Na Améri-y ca Latina foram precisamente os soldados. da oligarquia sobre a democracia. decisões fundamentais de natureza fundadora se fazem necessárias no momento da independência. e em marcos constitucionais. Essas decisões podem envolver questões profundas que dizem respeito a vários aspectos da vida nacional: a organização das esferas social e econômica. A legitimidade. a reconciliação (ou pelo menos uma aceitação formal do pedido de separação). africanos e asiáticos alcançaram a independência formal negociando a retirada ou tomando em armas e expulsando um punhado de soldados. desta vez. vista a partir das grandes continuidades entre os períodos colonial e nacional reivindicados pela atual literatura que diz respeito ao Brasil. e das grandes descontinuidades que dizem respeito a Portugal. questões institucionais a respeito das estruturas constitucionais.

Até recentemente. A abertura dos portos \do Brasil. entre os quais os próprios franceses. Embora essa ação tivesse como base motivações ideológicas. as causas e a dinâmica da mudança. portanto. ficaram temporariamente fora da jogada. Nesse sentido. mas também pressionaram para que essas barreiras fossem removidas por meio da intervenção governamental. foi a primeira ação adotada pela recém-chegada corte portuguesa. No que diz respeito aos interesses dos comerciantes britânicos no Brasil. situavam a emergência do Brasil enquanto nação independente dentro do contexto da passagem do capitalismo mercantil para o capitalismo industrial na Europa. Eles não tinham nenhum interesse em perpetuar a dominação política e econômica de Portugal sobre o Brasil. que se desenvolveram a partir do final do século XVIII. Até 1818. depois da fuga de Lisboa. pela geografia e por sua experiência colonial. Tal quadro criou uma enorme empecilho no caso da América Latina colonial. em franca expansão. esse grupo recebia do Nordeste do Brasil uma grande porcentagem da matéria-prima utilizada em suas manufaturas. como disse uma vez Gilberto Freire. Mas a teoria da dependência tende a homogeneizar a experiência da América Latina num modelo explicativo mundial. A teoria da dependência sublimava qualquer investigação a respeito de como a preeminência européia havia sido alcançada e limitava as explicações sobre as grandes mudanças de sistemas (o fim do feudalismo. por exem- pio. o surgimento do capitalismo e assim por diante) à dinâmica interna das sociedades européias.fosse ela européia. A América Latina não pode ser compreendida em sua totalidade se enxergada apenas pela ótica do contexto das nações do 'Terceiro Mundo" que passaram a existir a partir do colapso dos impérios coloniais francês. Estudiosos brasileiros estavam. um "Novo Mundo nos trópicos". foi essencialmente pragmática e se tornou inevitável a partir do momento em que a França mostrou determinação em incorporar os portos de Portugal ao bloqueio continental contra a Grã Bretanha. de fato. africana ou nativa tornou-se de tal maneira miscigenada que não pôde ser outra vez segregada facilmente. Sob forte influência dos movimentos de descolonização da África e da Ásia do século XX. que beneficiavam seus empreendimentos desde meados do século XVII. Acima de tudo. é claro. Os interesses da indústria têxtil de algodão na Grã Bretanha e seus apologistas certamente acreditavam que suas vantagens relativas permitiriam que seus produtos rompessem as barreiras tarifárias mercantilistas dos países ibéricos. monolíticos. Apesar disso. não é de surpreender que os britânicos reivindicassem privilégios especiais.182 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto do independência 183 e a uma só vez usurparam a soberania de uma grande massa de população indígena e de escravos africanos. de fato. cujo controle havia sido desde o começo dos tempos modernos um componente essencial na construção de uma ordem de dominação mundial européia. o Brasil negociava seu relacionamento com o mundo externo dentro das pesadas limitações impostas pela história. essa abordagem freqüentemente tem negado autonomia às forças sociais e econômicas em jogo nas chamadas regiões "periféricas". os interesses britânicos em Portugal e no Brasil não eram. uma sociedade de colonos que se implantou no Novo Mundo e onde a população . muitos competidores europeus. britânico e holandês entre 1945 e 1965. É importante. com efeito. O Tratado Anglo-Brasileiro . A profundidade extraordinária do impacto da colonização espanhola e portuguesa no hemisfério ocidental foi de tal ordem que o processo Yde construção nacional se tornou um assunto intrinsecamente incestuoso. bastante enamorados dessa construção teórica e desempenharam um papel importante em sua evolução. Tanto a professora Emflia Viotti da Costa como Fernando Novais. e as conseqüentes mudanças que essa passagem ocasionou no sistema econômico internacional. Por outro lado. os comerciantes britânicos rapidamente saturaram os mercados consumidores do Brasil. Em tais circunstâncias favoráveis. Dois anos depois da abertura dos portos. tinham interesse no livre comércio. a interpretação desse período crítico tem sido fortemente influenciada pela teoria da dependência. em 1808. onde a maioria da população era formada por escravos e não por consumidores livres. não sobrevalorizar o poder das forças puramente econômicas ou estimar em demasia a inevitabilidade dessas mudanças mais amplas. dois lobbies ou grupos de interesses distintos mantinham relações econômicas com Portugal no século que antecede a independência do Brasil: os comerciantes importadores de vinhos e os exportadores de produtos têxteis de lã tinham forte interesse em manter o velho regime de tarifas que os favoreciam e tendiam a privilegiar seus direitos extraterritoriais em Portugal. li Na década de 1820. o Brasil era. os agressivos manufatureiros de tecidos de algodão de Lancashire. desincentivava a investigação do processo.

coligidos e reproduzidos por Edgard de Cerqueira Falcão (Santos. o Brasil. pp. < A pressão comercial britânica foi também algumas vezes contraproducente no que concerne aos interesses políticos de mais longo alcance. quando advertia seus contemporâneos. apareceram em 1811 e 1812 no Rio de Janeiro e na Bahia. Esse foi o caso da questão do tráfico de escravos. e ao criar. com certeza) que as potências hegemônicas nem sempre praticam aquilo que apregoam. o que José Bonifácio de Andrada e Silva havia antevisto.1 III O quadro político e institucional da independência do Brasil não é menos conturbado e contraditório do que foi a transição econômica. . datados de 1810. uma enorme demanda de suprimentos de algodão cru para abastecer os teares da velha e da nova Inglaterra. que dependiam do trabalho escravo. O preço pelo reconhecimento da independência em 1825 foi esse. o peso da economia britânica se opunha freqüentemente aos propósitos das iniciativas políticas. 115-58. mais uma vez. Nathaniel Leff argumenta que o motivo principal das baixas taxas de crescimento econômico do Brasil durante o século XIX era o setor agrícola. na primeira metade do século XIX. as exportações de café totalizavam apenas 19% do total exportado pelo Brasil. Foram também os comerciantes de Nova York. onde as baixas rendas e a demanda inelástica. a influência dos proprietários de terras e os interesses dos traficantes no Brasil eram suficientemente fortes para resistir. especialmente no que diz respeito ao relacionamento com a Grã Bretanha. essa participação chegou a 63% do total. antes ou depois. no Brasil. se viram obrigados a equilibrar a necessidade de autonomia e a necessidade de apoio político e militar. E não eram apenas os comerciantes do Rio de Janeiro e da Bahia que financiavam o tráfico ilegal de escravos ou o comércio legal de algodão. Londres e Liverpool. Aqui. políticas e sociais. o que o levou a fazer um apelo corajoso. Isso foi. à diplomacia da Armada britânica. logo no início da independência nacional.. uma região crítica em termos de oposição política organizada contra Lisboa na década de 1820.184 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 185 de 1810 impunha. respectivamente. e a ambigüidade da passagem do Brasil de colônia para nação independente é melhor exemplificada na enigmática pessoa de d. intrínsecas ao trabalho escravo. e nos estados do nordeste da América do Norte ajudou a reavivar o escravismo nas Américas. sucumbindo a um relacionamento neocolonial com a maior potência industrial da época. aos brasileiros em seu manifesto a favor da abolição da escravidão e de suas propostas de reforma agrária em 1822: "A experiência e a razão demonstram què a riqueza reina onde há liberdade e justiça e não onde há cativos e corrupção". 1965). precisamente. a produção de café em larga escala só se desenvolveu depois que a independência foi alcançada. Obras científicas. não cresceremos". ^Ironicamente. como que para recordar aos britânicos (e para relembrar aos brasileiros. Portugal e. a potência naval e econômica dominante. argumentava José Bonifácio. A expansão do mercado consumidor de café na Europa e na América do Norte teve como conseqüência uma retomada intensiva do tráfico de escravos para o Rio de Janeiro e a expansão do trabalho escravo no Vale do Paraíba e em São Paulo. diplomáticas efilantrópicasda Grã Bretanha. mas nas duas décadas seguintes. De fato. especialmente em São Paulo. a resistência aos argumentos antiescravistas no Brasil foi provavelmente mais fraca durante o período da independência do que em qualquer outro momento. 3 vols. mais tarde. É irônico notar que a primeira e a segunda edição da Riqueza das nações. tarifas mais altas aos portugueses do que aos próprios britânicos. uma imposição que discriminava a "mãe pátria" e repre-. restringiam o ritmo do crescimento no resto da economia. sentava um severo golpe às já frágeis chances de reconciliar Portugal com o Brasil e seu novo status enquanto sede da monarquia. ao criar um vasto mercado consumidor urbano para produtos tais como o café e o açúcar. na medida em que estes se chocavam de frente com interesses fortemente consolidados no Brasil. Pedro e dos abortados planos de 1 José Bonifácio de Andrada e Silva. completando: "Se este mal persiste. de Adam Smith. mas em vão. sobre os efeitos negativos de longo prazo que o fracasso em lidar com a questão da escravidão e da reforma agrária traria para o futuro do Brasil. Sidney Minz tem argumentado que a revolução industrial na Inglaterra. e assim sacrificar suas perspectivas econômicas. durante mais de quarenta anos. No Sul do país. café e açúcar. Na década de 182130. Apesar dos compromissos assumidos em tratados firmados entre o Brasil e a Grã Bretanha para abolir o tráfico. ao mesmo tempo. assim como em meados do século XVII. \ publicadas no Brasil.

desde 1808. a "independência".. conforme George Canning.. D. preocupava-se constantemente que as agitações sob a superfície. o governo de Londres sempre havia. que no 7 de setembro de 1822. e que pode acabar. pelos atos políticos do soberano comum de Portugal e Brasil. estabilidade. será uma monarquia ou uma república [. poderiam acender [. durante a residência de Sua Mais Fiel Majestade no Brasil. como o eram o México.. o secretário de Assuntos Estrangeiros britânico escreveu sucintamente em 1823: A única questão é se o Brasil.tinham idéias claras a esse respeito. apenas indiretamente. Ibid. desde 16 de dezembro de 1815o Brasil fazia parte de um reino unido. deploráveis em si e causadores da miséria de seus vizinhos. ao qual os súditos da monarquia portuguesa na Europa. que ele se tornou V econômica e politicamente independente entre 1808 e 1820. independente de Portugal. no prazo de uma década voltou para Portugal para lutar na guerra civil contra seu irmão. portanto. A partir daquele momento. pp. Henry Chamberlain. o Brasil era estritamente uma colônia. Até o momento da emigração da Família Real para o Brasil. herdeiro do trono português. 2 vols. O que estava em jogo no início da década de 1820 era mais uma questão de monarquia. que gradualmente exaltaram a condição do Brasil e quase inverteram suas relações com Portugal para transformar. quando escreve para Sir Charles Stuarteml825: Não podemos deixar de lembrar que a diferença entre a relação de Portugal com o Brasil e aquela da Espanha com suas Américas nada mais é do que esta . África e Ásia voltavam o olhar em busca de liderança. uma grande preocupação na Europa. líderes da pequena minoria de brasileiros que queriam reformas fundamentais. de fato. talvez. Evitar a revolução no Brasil era. sobretudo para os republicanos de Pernambuco que se insurgiram em duas ocasiões para repudiá-lo. (Londres/Nova York: Oxford University Press. também. em pé de igualdade com Portugal. onde ele foi o governante que rejeitou a constituição e demitiu José Bonifácio e seus irmãos. uma imagem totalmente incompatível com aquela traçada pela historiografia brasileira. O Brasil havia sido independente. gritou "Independência ou morte". mais evidentes nas ruas e na Assembléia Constituinte no Rio... É vital reconhecer. mas muito "despótico" para muitos brasileiros.tanto a Grã Bretanha como os membros da Santa Aliança . primeiro começou uma série de relaxamentos e. conforme o perfil traçado pela historiografia portuguesa. Canning enfatiza o contraste entre essas situações.]. Tornou-se "independente" em 1822 apenas depois do fracasso da experiência de "centro imperial". A questão. nos arredores de São Paulo. I. Seu papel.186 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independendo 187 reforma propostos por José Bonifácio. é o de um defensor do "constitucionalismo". portanto. 265-6 . p.] uma chama [. assegurando assim que sua filha se tornasse a rainha de Portugal. \> Ele era um rei demasiado "liberal" para os padrões da Santa Aliança na Europa. o herói que havia emancipado o Brasil de Portugal e o governante temporário que.] que não será possível controlar. continuidade e integridade territorial do que xde revolução colonial. Essa circunstância pouco comum explica por que em 1820 foi Portugal que declarou sua "independência" do Brasil. em setembro de 1822. a concessão de privilégios. pp..2 Os grandes aliados europeus de Portugal . a mãe pátria numa Dependência de fato. mas que o Brasil tem sido elevado ao estatuto de reino irmão. em 1822. Pedro era. Webster (org.que todas as colônias espanholas progrediram apesar da mãe pátria. o Brasil declarou sua "independência" j 2 Charles K. nas margens do Ipiranga. e só depois.. a uma só vez. o ministro britânico no Rio de Janeiro em 1824. com a destruição do governo imperial e a divisão do país numa variedade de pequenos estados republicanos independentes. enquanto desempenhava o papel de centro do Império Luso-Brasileiro. ou o Peru ou Buenos Aires. feito uma clara distinção x entre as circunstâncias do Brasil e aquelas da América espanhola. 3 4 Ibid.). depois. no Brasil.4 A questão importante a respeito do Brasil é. Britain and the Independence ofLatin America.3X Desde o estabelecimento da corte portuguesa no Rio de Janeiro em 1808. 240-1. 236. A preservação da monarquia numa parte da América é objetivo de vital importância para o Velho Mundo. vol. estava exagerando. quando Dom Pedro.. ao invés de dependência colonial. para Xtodas as intenções e propósitos. tal como temos testemunhado nas colônias da América espanhola em nossa vizinhança. 1938). 1812-1830: Select Documents from the Foreign Office Archives. não era certamente a "morte" e.

Henry Chamberlain assim disse a George Canning: Não há dez pessoas em todo o Império que considerem o tráfico um crime. e em 1817 em Pernambuco. já que uma das reações à ameaça vinda de baixo foi a de se propor a eliminação do trabalho escravo e a substituição deste por trabalhadores livres. e tenderam a produzir uma maior coalizão dentro da elite. como os que haviam ocorrido na América do Norte e em boa parte da América espanhola. I. a resposta às perguntas acima formuladas é. especialmente entre a dos proprietários de terras. ou que o enxerguem sob qualquer outro ponto de vista a não ser aquele do lucro ou do prejuízo. é que todos esses movimentos republicanos foram. Pedro na proteção de seu novo império aos desafios impostos pelos republicanos. Até os britânicos. Mas no Brasil. à guerra e a um protetorado britânico de fato. Portanto. e esse fator foi crítico para determinar o sucesso de d. e que haviam rejeitado tanto a monarquia como a dominação européia? Essas perguntas não são apenas teóricas .. e não por rebeldes de algum porto colonial da América. A idéia do status de colônia ao qual Portugal tem sido com efeito reduzido. as perguntas interessantes. Mais uma vez. O manifesto do Porto declarava: Os portugueses começam a perder as esperanças para com o único recurso e meio de salvação que lhes foi deixado em meio à ruína que quase consumiu sua querida terra natal. que apesar de muito falarem. do que no Brasil. interpretados como revoltas regionais ^contra a autoridade centralizada e uma ameaça à integridade territorial da América portuguesa. op.]5 IV Mas se a revolução "anticolonial" ocorreu no Porto e não no Rio de Janeiro.. são as seguintes: o desejo de independência no Brasil era suficientemente forte para que o desenlace resultasse na independência se as Cortes não tivessem obrigado o rei a voltar para a Europa. que foi promulgado pelos rebeldes do Porto em 1820. p. certamente levantaria problemas fundamentais numa sociedade hierarquizada em termos raciais e sociais.ns aux - **" *'— *•*»» 6 Charles K. o que implica numa distância de duzentas léguas e excessivo custo e demora [.. havia perdido não só a monarquia. soava como muitas outras declarações de independência dos estados coloniais e continha muitas das mesmas queixas. "não". em particular. a força dos interesses dos proprietários de escravos. o temor de uma revolução social não foi argumento suficiente para obrigar os poderosos a desafiar seus interesses materiais mais imediatos e a embarcar no caminho da reforma do sistema de produção baseado no trabalho escravo. vol. na década de 1820. Webster. no Brasil. o medo do contágio da revolta de escravos do Haiti estava sempre presente nas mentes. Aqui. Em outras palavras. como também se sujeitara a invasões. o Brasil apresenta ambigüidades. a base social^ predisposta a enfrentar mudanças radicais era mais forte em Portugal. aflige profundamente todos aqueles cidadãos que ainda conservam o sentimento de dignidade nacional.6 Sr^r^rrzr Souvera. cit. e o motivo disso é que o movimento a favor da continuidade era mais forte no Brasil do que em Portugal que. a única diferença era que esse manifesto fora promulgado por rebeldes de uma cidade na Europa.é preciso recordar que o republicanismo havia sido a principal corrente ideológica entre os conspiradores de Minas Gerais em 1788-89. provavelmente. O sistema da monarquia centralizada havia estabelecido uma forte presença institucional desde 1808. dos alfaiates baianos em 1789. O problema. 233. as ameaças à ordem social depois de 1790 ficaram estreitamente associadas ao republicanismo. ou ao menos poderiam ser. a despeito da eclosão de uma série de revoltas de escravos na Bahia durante esse período.188 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 189 de Portugal. não aboliram o trabalho escravo em suas próprias colônias até meados da década de 1830. e a "liberdade". uma mera especulação mercantil que deve ter prosseguimento enquanto for vantajosa. se também chegasse a implicar em "igualdade". reconheciam. o sentimento antimonarquista no Brasil era suficientemente forte para provocar um movimento republicano. . tratando-se do caso do Brasil. O "Manifesto da Nação Portuguesa aos soberanos e povos da Europa". Enquanto isso. em 1808. assim como durante a década de 1820. na perspectiva do Brasil. A justiça é administrada a partir do Brasil para os povos leais da Europa.

que o progresso de São Paulo se devia "à extraordinária preponderância [lá] da raça branca". se possível fosse.. Outros consideravam a escravidão como essencial à prosperidade do Brasil. Poderíamos enfrentar a crise e a oposição daqueles que se dedicam ao tráfico. de uma ponta até a outra. o Brasil deve evitar se tornar uma "Negrolândia". O Rio Grande do Sul. contudo. a necessidade do fornecimento de braços africanos diminuirá gradativamente. sistema legal e governo que o Brasil. havia sido.] A segunda consideração diz respeito à conveniência política. Assim que estes começarem a produzir esse efeito. com grande realismo. para que as lavouras do país possam continuar produzindo. a verdadeira e sólida indústria não pode se enraizar. Tomando como exemplo a Ilha da Madeira. mas uma resposta aos problemas postos por uma sociedade em que as principais lideranças intelectuais acreditavam que o equilíbrio racial da população era perigosamente instável. mas porque desejavam eliminar os negros. tal como José da Silva Lisboa e José Bonifácio. problemas que eram fundamentais para se estabelecer o tipo de sociedade. Sabemos que. A primeira se baseia na absoluta necessidade de tomarmos medidas para garantir um aumento da população branca antes da abolição. 8 José da Silva Lisboa. infelizmente. quase sempre eram aqueles que estavam mais comprometidos com o tráfico de escravos e a escravidão. a raça não diminui e declina. o faziam não por causa da humanidade dos escravos. eram os mais favoráveis ao livre comércio Ibid. " A melhor área da América será povoada por rebentos da África ou da Europa?".. e nossa população não será significativa e.. todo o país entraria em convulsão. igualmente.. não eram tanto o resultado de sentimentos de ordem "humanitária" ou "filantrópicos". Aqueles que apoiavam a interferência do governo.. Aqueles que atacavam o laissezfaire quando este exigia a remoção daquilo que consideravam controles governamentais ajuizados. 1818.. Os ideólogos do "livre comércio" no Brasil também adotaram essa postura essencialmente racista.. José da Silva Lisboa. colonizado "pela raça portuguesa. pp. com o fim do suprimento de negros. questionava. e se os proprietários rurais tivessem seu suprimento de trabalhadores repentinamente cortado. . caso contrário. mas se torna melhor e mais branca [. tentar no momento presente propor uma medida que iria indispor a totalidade da população do interior [. ele garantia que "a experiência tem mostrado que uma vez que se estanca o suprimento de africanos. João VI. Uns viam a população escrava como o inimigo interno e. mas não podemos.] mas devo frisar candidamente que a abolição não pode ser imediata. talvez até. Se a abolição viesse para eles antes que estivessem preparados. acreditavam que o Brasil não se desenvolveria sem a criação de uma força de trabalho livre e da europeização ou do branqueamento da população. a outra de ordem política.. particularmente no tocante ao controle de preços e à garantia do abastecimento de produtos de subsistência para a população. Estado. eram também os que mais se opunham ao tráfico de escravos e à escravidão. e não pela população da Etiópia". e não há como calcular as conseqüências para o governo ou para o próprio país. deixo que vossa mercê faça julgamento do efeito que isso teria sobre essa classe de gente desinformada e pouco ilustrada. Uma é de ordem econômica. aboliríamos a ambos. o celeiro do Brasil. causando grandes transtornos [. e m 1818.. estamos tão profundamente convencidos destas verdades que. 8 A questão da escravidão levantava assim problemas fundamentais sobre qual seria o caminho desejável para o desenvolvimento do Brasil.] esperamos adotar medidas para atrair imigrantes europeus para cá sem perda de tempo.. na medida em que afeta a popularidade e. portanto. quando isso significava a remoção das funções reguladoras do Estado. tal como José Bonifácio. e eu explicarei as duas principais considerações que nos levam a essa determinação.7 Estas objeções à escravidão. 222-3. a lavoura diminuirá. a prosperidade vigorosa não pode existir. enquanto isso persistir e o estado de escravidão tiver continuidade no país. Aqueles poucos que pregavam a eventual emancipação dos 7 escravos. que havia clamado pela abertura dos portos ao príncipe regente e m 1808. sem um grau de risco que nenhum homem em sã consciência possa pensar em correr. Rio de Janeiro. Para evitar "o horrível espetáculo da catástrofe que reduziu a rainha das Antilhas a uma Madagascar".190 Kennerh Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 191 O próprio José Bonifácio descreveu a situação tal como a viu. pouco trabalho fazem. a estabilidade do governo..]" Ele desejava ver o câncer da escravidão eliminado desde o rio da Prata até o Amazonas. ao enviado britânico Henry Chamberlain em abril de 1823: Estamos totalmente convencidos da inadequação do tráfico de escravos [. iria adotar. Aqueles que eram os mais ardorosos defensores do laissezfaire. Os brancos. e eu espero que em alguns poucos anos se coloque um pontofinalno tráfico para sempre [. na impressão regia. argumentava. Era u m a questão que dividia os homens "esclarecidos". enquanto estado independente.] A quase totalidade de nossa agricultura é feita por negros e escravos. Memória dos benefícios políticos do governo de el-rey nosso senhor d.

MeyerAyba) PINTURA RUPESTRE.. que criou condições hostis às suas propostas.FUMDHAM) CAPIVARA. SÃO RAIMUNDO NONATO. o quanto desejo a sua total cessação. e até que seja feito. tanto o interno quanto o de dimensão atlântica. o quanto acredito ser ele prejudicial ao país. José Bonifácio alertou os britânicos a não pressionarem demais ou andarem rápido demais: Você sabe o quanto eu. mas seu zelo "revolucionário" ficava estritamente limitado a um desejo de acesso aos mercados. foram logo descartados. o "patriarca" do movimento da independência. colocaria em risco a existência do governo. O Brasil é suficientemente grande e produtivo para nós. PARQUE NACIONAL SERRA DA Museu do Homem Americano .192 Kenneth Maxwell internacional. embora isso não possa ser feito imediatamente. (Claus C. Os "patriotas" do Brasil eram realistas e não podiam ir além da sua base de apoio social. à proteção da propriedade e a garantias de que as dívidas seriam pagas. PIAUÍ. A própria abolição é uma das principais medidas que desejo apresentar à Assembléia sem falta. Podiam abraçar o liberalismo. PINTURA RUPESTRE. A escravidão e o capitalismo industrial provaram ser compatíveis.] Com relação às Colônias ou à Costa da África. Desejaria que seus navios de patrulha tomassem todos os navios negreiros que encontrassem no mar. Aqueles que assim fizeram.foi uma dupla vítima. em abril de 1823. em conversas secretas mantidas com Henry Chamberlain. estavam amargamente divididos quando se tratava de abolir ou não a escravidão. porque o livre comércio prometia estimular a imigração de europeus e oferecia a possibilidade de uma aliança com a Grã Bretanha contra o tráfico de escravos. De fato. PlAUÍ. e estamos satisfeitos com o que a Providência nos deu. e um dos mais ardorosos defensores de mudanças estruturais . Não foi apenas o próprio sistema econômico.. nada queremos lá ou em qualquer outra parte. Não quero mais vê-los. de fato. se tentarmos fazê-lo repentinamente. (Fundação . ele também foi vítima das políticas adotadas pela Grã Bretanha. Intelectuais. como José Bonifácio. Nesse contexto. longe de concordarem a respeito deste tema central. As pessoas não estão preparadas para isso. a monarquia e a continuidade eram fundamentais. em suma. detesto o tráfico de escravos. nos quadros do sistema atlântico do século XIX .o capitalismo industrial vicejou graças ao algodão e ao café produzidos por escravos tanto quanto o capitalismo comercial havia vicejado com o açúcar produzido por escravos. mas isso deve ser bem administrado e não podemos ter pressa [.A NA AMÉRICA TROPICAL. Nesse quadro. eles são a gangrena de nossa prosperidade.inclusive da abolição da escravidão e do tráfico de escravos . cuja excessiva pressão ajudou a minar a única administração que tinha um verdadeiro compromisso com o fim da escravidão e do tráfico de escravos. traficantes e patriotas brasileiros. SÃO RAIMUNDO NONATO. sinceramente. José Bonifácio de Andrada e Silva. o centralismo. A TRAÇO DE UMA DAS MUITAS CIVILIZAÇÕES QUE ANTECEDERAM A PRESENÇA EUROPÉ.

NOS ANOS SETENTA DO SÉCULO XX.MANOEL O C N U I O D ZR -:M TRIUNFO AO SEU LADO DI REITO DEBAIXO RO PALIO •:ri HM. DOMINGOS DE VAQUAL PUBLICOU \WA í. 30MALAÜARNAJNDIA. ESPECIALISTA EM QUESTÕES DE GEOGRAFIA E COSMOGRAFIA. DOIS ANOS ANTES DA EXPEDIÇÃO DE PEDRO ÁLVARES CABRAL. (Iconographia) DUARTE PACHECO PEREIRA. NAVEGADOR E AUTOR DE ESMERALDO DE SLTU ORBIS (ESCRITO DE 1505 A 1508). VICEREÍEGOUERNADOR. (Biblioteca Mário de Andrade. NOBRE PORTUGUÊS.ONTINENTEALCANÇÓU NO A>BRAZAO DE ARMAS EME: r íECEO A SINGULARONRADfi ELRE1.:i. PARIS.ESTALEIRO DA RIBEIRA DAS NAUS. SELEMNJSIMAPRO CliíAÓ QUE MANDOU FAZER PARA ESTE FIM D£ .D. G. (Arquivo C.\ cvr. 1733. TALHO-DOCE POR LAFITAU. Mota) . A HIPÓTESE DE DUARTE PACHECO SER O VERDADEIRO "DESCOBRIDOR" DO BRASIL JÁ EM 1498. O Í R A N D E CAPITÃO GENERAL DA ARMADADE CALE. J £LLOJ5EU5 RELEUANTEf.K(rAN'!E(ORft CAÓ pENfiGIRI. tf RUI <pS QUE FESNAQUElLl' . São Paulo) O HISTORIADOR PORTUGUÊS JOAQUIM BARRADAS DE CARVALHO LEVANTOU.CÀ icosoBrsPom ^ ^ ^ ^ ^ ^ de " O FINO B R A S I L " DUARTE PACHECO PEREIRA (1480-1533). (Iconographia) PORTO DE LISBOA E A FROTA DAS ÍNDIAS. ME S.

DE SUA AUTORIA. TAPEÇARIA GoBELIN. MARBURG. (Biblioteca Nacional. PORMENOR DA PRANCHA "PARAHYBA E RIO GRANDE". São Paulo) . vossa comida. (MASP. 1692. 557. DE FRANS POST. Rio de Janeiro) O ÍNDIO CAÇADOR. (Iconographia) "Estou chegando eu. BARLEUS. G. C. ILUSTRAÇÃO DO LIVRO DUAS VIAGENS AO BRASIL. Rio de Janeiro) 1550. GRAVURA DO LIVRO UNE FÊTE BRÉS1L1ENNE CÉLÉBRÉE À ROUEN EN HOLANDESES E ÍNDIOS ALIADOS. 1647.I | COSTUMES DOS ÍNDIOS. (Biblioteca Nacional." Hans Staden HANS STADEN.

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VERGUEIRO CONVERSA COM F E I J Ó . À DIREITA. ÓLEO DE GEORGINA DE ALBUQUERQUE. Rio de Janeiro) JOSÉ BONIFÁCIO POR DEBRET (Biblioteca Mário de Andrade. MARTIM FRANCISCO. JOSÉ BONIFÁCIO. (Museu Histórico Nacional. ClPRIANO BARATA. "SESSÃO DAS CORTES DE LISBOA". em Projetos porá o Brasil CIPRIANO BARATA DE ALMEIDA. ao Rei e às autoridades constituídas no Brasil. MANUEL ANTÔNIO FARINHA E LUÍS PEREIRA NÓBREGA . Rio de Janeiro) . São Paulo) CAETANO MIRANDA MONTENEGRO. GONÇALVES LEDO. CIRURGIÃO FORMADO PELA V UNIVERSIDADE DE COIMBRA. NESSA REUNIÃO .errei em querer dar-lhe uma monarquia constitucional. se o soltarmos."Mostre-se ao Brasil que não o queremos avassalar como os antigos déspotas. ou para o despotis mo . há-de trazê-los a obedecer às Cortes. ATRÁS." Borges Carneiro. REVOLUCIONÁRIO BAIANO E \ DEPUTADO Às CORTES DE LISBOA. ANTÔNIO CARLOS DISCURSA. Onde está uma aristocracia rica e instruída? Onde está um corpo de magistratura honrado e independente? E que pode um clero imoral e ignorante. DE OSCAR PEREIRA DA SILVA. sem crédito e sem riqueza? Que resta pois?" José Bonifácio. ou leão tal que. São Paulo) SESSÃO DO CONSELHO DE 2 DE SETEMBRO DE 1 8 2 2 . (Museu Paulista. porém contra os facciosos rebeldes. (Biblioteca Nacional. mostre-se que ainda temos um cão de fila. Avulsos. JOSÉ CLEMENTE PEREIRA.SÃO TOMADAS AS PRIMEIRAS MEDIDAS PARA A PROCLAMAÇÃO DA INDEPENDÊNCIA. 22 de maio de 1822 "0 Brasil agora é feito para a democracia.COM _ PARTICIPAÇÃO DA PRINCE- SA LEOPOLDINA.

São Paulo) . 1 8 4 0 ." Justiniano José da Rocha. (Biblioteca Nacional."E Evaristo apoderou-se da revolução no mesmo dia em que ela triunfou [7 de abril de 1831]. Açõo. (Biblioteca Mário de Andrade. 1 8 5 9 . SPIX & MARTIUS. C. C. LITOGRAFIA DE SlSSON. 1823-1831. 1 8 6 6 . LITOGRAFIA DE MARIN LAVIGNE. quietaçáo no presente. KlDDER. São Paulo) PERNAMBUCO. Evoristo da Veiga EVARISTO DA VEÍGA. ansiedade do futuro. arrefecimento das paixões. reação e transação JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA. LITOGRAFIA. frustrando os propósitos dos que a queriam levar às últimas conseqüências." Otávio Tarqüínio de Sousa. Rio de Janeiro) FESTA DOS COROADOS (DETALHE). LITOGRAFIA. período de transação. PROFESSOR E JORNALISTA. (Biblioteca Mário de Andrade. (Biblioteca Nacional. Rio de Janei "De 1852 até hoje [1855].

Rio de Janeiro) (Biblioteca Nacional. escravos africanos trazidos do Sudão e afamados na história das sublevações baianas contra os escravistas. BAHIA. LITOGRAFIA DE LUDWIG & BRIGGS. VISTA DE SALVADOR. LITOGRAFIA DE GEORGE H."Não seria justo que nos dessem tão bem a liberdade?" 0 escravo crioulo Francisco NEGRO COM FACÃO." Carlos Marighella. Por que resisti à prisão "NEGROS QUE VÃO LEVAR AÇOITES". mmmm DESCENDENTE DE HAUSSÁS. (Biblioteca Nacional. LÔWENSTERN. (Iconographia) . C. Rio de Janeiro) I MARIA RITA MARIGHELLA. 1838. 1827. (Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro) &S» "Minha ascendência por linha materna procede de negros haussás. LITOGRAFIA. JEAN FERDINAND DENIS.

Rio de Janeiro) C H I C O D I A B O atravessando com uma lança o monstro mais bárbaro 6 hediondo. (Biblioteca Nacional. que tem visto o mundo—o execrando Francisco Solano Lopcz. (Museu da República.. Ó L E O DE P E D R O BRUNO.. N. Rio de Janeiro) SERTANEJAS DO ARRAIAL DE CANUDOS PRESAS PELO EXÉRCITO.' ' P Á T R I A " . destruidor de sua própria pátria!. 1 8 7 0 . 4 8 5 . SEMANA ILUSTRADA. dconographia . 2 7 MAR.

um longo e cumulativo processo. O caminho teve momentos árduos. as medidas das Cortes logo refletiram esses imperativos. eram uma tentativa de "recolonização" que faria o tempo voltar atrás nos treze anos em que o Rio havia sido a sede do governo. e à formulação da constituição liberal. Pedro desafiou as instruções das Cortes para que retornasse à Europa. op. com certeza. Pedro. com a relativa imobilidade administrativa. que manteve sua continuidade ao longo do caminho. À DIREITA. G. em grande parte. O reconhecimento internacional só veio em 1825. como ainda se puseram a legislar para colocar um fim aos poderes que ele havia cedido a seu filho mais velho. João VI a retornar para Lisboa. depois. uma vez reunidos os constituintes. portanto. Webster. d. com o JOSÉ HONÓRIO RODRÍGUES TOMA POSSE NA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. os industriosos. FRANCISCO IGLÉSIAS. 1816. depois de longas negociações e da promessa de que o Brasil pagaria a Portugal uma grande indenização. entretanto. e só chegou ao fim uma década depois. em 7 de setembro de 1822. vol." José Honório Rodrigues. com a alienação das elites. O período colonial e sua sobrevivência determinam todo o subdesenvolvimento posterior. cit. As Cortes não só obrigaram d.Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 193 "Não houve ruptura do regime colonial. que sobreviveu com o absolutismo do regime imperial. devido à perda dos privilégios e monopólios de Portugal no comércio colonial. I. com a fragilidade da conjuntura e a estabilidade da estrutura. aqui eles terão fartura.9 Para alimentar esse sistema atlântico e para manter a organização econômica da produção. Primeiro aceitou o título de "Defensor Perpétuo do Brasil" dado pelo Conselho Municipal do Rio de Janeiro no início de 1822 e. Os ressentimentos e as dificuldades financeiras e econômicas que levaram à convocação das Cortes em Lisboa. com apoio total dos odiados comerciantes e imigrantes portugueses no Brasil. A emancipação política do Brasil é. Os brasileiros viram que as medidas das Cortes de Lisboa. em 1820. 1970 população que queremos é branca. emitiu sua declaração de "independência" nas cercanias de São Paulo. imutável e incapaz de atender às necessidades nacionais. 222-3. (Arqui C. Mota) 9 Charles K. e espero ver chegar logo da Europa os pobres. com um clima bom. d. 1969. eles são os colonos que queremos. Com esses acontecimentos como pano de fundo. pp. e. uma coisa era evidente: o Brasil não preci-\ sava de Portugal. 1808. surgiram. na fronteira da Banda Oriental. A guerra eclodiu com renovado vigor no Sul. .. com a legislação arcaica. aqui eles serão felizes. os desditosos. que havia sido deixado no Rio na condição de regente. 1822 e até 1831 são todos momentos importantes na afirmação dessa gradual separação e na definição da nacionalidade.

MANNING. João (orgs. Pedro. (Vol. Alan M. Nova York: PenguinBooks. Porto: Afrontamento. 1994. 1986. 8 vols. por casamento. Textos políticos. 1938. John H. Miriam (org. era sobrinho. François-Xavier. delineando no Sul umafronteiramenos ambiciosa do que aquela que havia sido pleiteada durante a colônia ou o reino unido. Nuno Luis. Org. coligidos e reproduzidas por Edgard de Cerqueira Falcão. Dom Pedro: the Strugglefor Liberty in Brazil and Portugal. Lisboa: Difel. 19-54. Diplomatic Correspondence ofthe United States Concerningthe Independence ofthe Latín-American Nations. 1975-1976. 2 vols. O liberalismo). 3 vols. MINTZ. TORGAL. Estrutura industrial e mercado colonial: Portugal e Brasü(17801830). DOLHNTKOFF. PEDREIRA. Projetos para o Brasil. LUÍS Castro & GUERRA. . Britain and the Independence of Latin America. VALENTIM.). 1798-1834. Durham: Duke University Press. Zaragoza: IberCaja. São Paulo: Companhia das Letras. História da expansão portuguesa.1982. (org. 1985. 2 vols. 1989. Santos: 1965. revolução e contra-revolução. ARQUIVOS DIPLOMÁTICOS DA INDEPENDÊNCIA. 10 vols. em 1831. (org. 5 vols. Nova York: Oxford University Press. 5 vols.). De los impérios a Ias naciones: Iberoamérica. Lisboa: Banco de Portugal. 1993. História de Portugal. Jorge Miguel Viana. WEBSTER. 1960. Underdevelopment anddevelopment in Brazil. 1998. 1812-1830: Select Documentsfrom the Foreign Office Archives. pp. Rio de Janeiro. 1808-1930). Lisboa: Estampa. 17801808. MACAULAY. não chegou a se realizar e. Cambridge: Harvard University/David Rockefeller Center for Latin American Studies. (Vol. Charles K. de Andrée Mansuy Diniz Silva. 1998. FRAGOSO. Rio de Janeiro: José Olympio. José (org. LEFF. Rio de Janeiro: Francisco Alves.). Lisboa: Estampa. Mercado e privilégios: a indústria portuguesa entre 1750 e 1834. no qual os imigrantes europeus e os trabalhadores livres substituiriam os escravos. 4. Do ponto de vista administrativo. Obras científicas. não é de surpreender que qualquer tentativa de alterar a organização econômica do trabalho tenha falhado. A Bahia e o extremo norte aderiram depois de bastante atividade militar. Lisboa: Estampa. LETVA. Pernambuco tentou se emancipar mais uma vez em 1824. o país não foi "nacionalizado" até ofimdo curto reinado de d. John & TAYLOR. em COATSWORTH. 1925-[1926]. em terra e no mar. Francisco & CHAUDHURI. MATOSO. Londres/Nova York: Oxford University Press. Londres/Boston: Allen&Unwin. CARDOSO. WilliamR. João Luís Ribeiro. 5 vols. José Bonifácio de Andrada e. a monarquia ruiu junto com e l a . O pensamento econômico em Portugal nos finais do século XVIII. o tráfico de escravos perdurou até a metade do século e a escravidão até a década de 1880/E também não é de surpreender que quando a escravidão ruiu. O modelo alternativo para o desenvolvimento do Brasil. MADUREIRA. 1998.). Sweetness and Power: The Place of Sugar in modern History. Os sentidos do império: questão nacional e questão colonial na crise do antigo regime português. 1997. sob o auspício britânico. 1790-1830. 5. 1922. História dosfundadores do império do Brasil. COATSWORTH. Independência.). 1997-1999. (orgs. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. 2 vols. José Luis. Sidney W. Antônio. Latin America and the World Economy since 1800. José Honório. Neill. como conseqüência. 3 vols. Lisboa: Círculo de Leitores. do Estado-tampão independente do Uruguai. econômicos efinanceiros. LUÍS Reis & ROQUE. "Economic and Institutional Trajectories in Nineteenth Century Latin America". Kirti (orgs.. 1997. do rico empresário que denunciou a conspiração de Minas às autoridades reais em 1789) colocaram um ponto final nas revoltas separatistas regionais. SILVA. Do Brasüpara África.). Otávio Tarqüínio de. políticas e sociais. 1994.194 Kenneth Maxwell Por que o Brasil foi diferente? 0 contexto da independência 195 estabelecimento. . E foi apenas na década de 1840 que as ações do duque de Caxias (um homem que. y ^ Bibliografia selecionada ANNINO. Nathaniel H.). Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. SOUSA. BETHENOOURT. Nessas circunstâncias. 1993. Dom Rodrigo de Souza. CounNHO. ironicamente. Alexandre. RODRIGUES.

José Bonifácio Em cada país permanece uma matriz da História. para encher o vazio.r m Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) Carlos Guilherme Mota Deve o Brasil olhar para trás. mas com prudência. e essa matriz dominante marca a consciência coletiva de cada sociedade. até o ponto atual de outras nações. que tem desde o ponto de que saiu. preenchendo a série intermédia com brevidade. k AAarc Ferro * .

os desafios da contemporaneidade se impunham às suas lideranças. Idéias de "Brazil" se adensaram naquele período decisivo compreendido aproximadamente entre 1817 e 1850. mas já no compasso das revoluções liberais que varreriam o mundo a partir de 1820. nas Américas do Norte e do Sul. com foco na república dos Estados Unidos e em algumas capitais européias. primeira metade do século XIX. na maré montante da revolução ocidental. Desenredando-se das malhas da Santa Aliança. na Europa. como Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos.I N. de uma identidade propriamente nacional. Sufocado pelo clima político-ideológico da Restauração antibonapartista. alguns de seus problemas básicos.«i cialmente o capítulo "A nação como novidade: da revolução ao liberalismo". 1 Para a discussão do conceito de nação e nacionalismo.1 Carregando um passado de três séculos de escravidão e pesada tradição clerical de base jesuítica. ver Eric J. . Programa. posto que não era uma nação. e depois revolucionárias liberais. 1990). plasmam-se novas idéias de Brasil no mundo luso-afro-brasileiro. primeiro ilustradas. mito e realidade (Rio de Janeiro: Paz e Terra. a longa caminhada do novo e malformado país-continente na busca. ou sequer equacionado. Hobsbawm. Sem unidade constitucional ou cultural consolidada. o Brasil emerge em 1822-1823 como entidade política no cenário internacional. Nações e nacionalismo desde 1780. o processo de descolonização no Brasil ganha alento até 1848. naqueles anos decisivos. marcada por avanços e recuos. espe. dentre elas José Bonifácio e irmãos. tem início. quando se consolidaram estruturas de dominação da sociedade estamental-escravista e se adaptaram teorias sociais e culturais que embasariam o nascente modelo autocrático-burguês. sem ter resolvido.

individual. mobilizaram-se cerca de 600 cidadãos armados em 30 de março. na coletânea Ensaios livres. do mesmo autor. então. de Otávio Tarqüínio de Sousa em co-autoria com Sérgio Buarque de Holanda. Sobre essas "outras" idéias de Brasil. ao sentimento coletivo de "viver em nação independente". a das revoluções de 1830. emergiram com vigor as temáticas da independência/dependência. 5 vols. publicada postumamente por Leda Boechat Rodrigues (São Paulo: Imaginário.3 2 3 Para uma compreensão desse processo. do "viver em colônias". Martinenche e José Veríssimo. completando-se. A vaga revolucionária liberal de 1820 é o pano de fundo da Independência política de 1822-1823. Ver. 94-5 (Coleção História dos Fundadores do Império do Brasil). é de Manuel de Oliveira Lima. A data da insurreição da tropa (comandada pelos irmãos Lima e Silva) e da manifestação popular no Campo de Santana contra o monarca fora marcada para o dia 6 de abril e. Formação histórica da nacionalidade brasileira (Rio de Janeiro: Leitura. o 7 de abril de 1831. até o manual História do Brasil. . o autor de Recopilação de notícias soteropolitanas e brasüicas. 1975) e Circuito fechado (São Paulo: Hucitec. Da consciência amarga. Naquele contexto preciso. "A sociedade escravista no Brasil". 1988). Em José Honório Rodrigues. J. Mota). assim como ideologias e modos de pensar que caracterizariam o perfil dessa entidade político-institucional abstrata denominada "Brasil". insurreições. especialmente o capítulo V (edição brasileira. que se desdobraria. 1970). "entre meio-dia e três horas da tarde tinham afluído ao Campo de Santana cerca de duas mil pessoas. o estudo "O parlamentarismo no Brasil e seu retorno". e sobretudo após 1831. após 1822. De fato. Reis (org. alimentada pela elaboração contínua de uma História nacional e. alcançando o estudo de Nelson Werneck Sodré. Com efeito.4 Naquela encruzilhada histórica. Estudos sobre o negro no Brasil (São Paulo: Brasiliense/CNPq. Quando o movimento liberal-nacional de 1831 eclodiu no Rio de Janeiro. Independência: revolução e contra-revolução (Rio de Janeiro: Francisco Alves. Colonial Heritage in Latin America (Nova York: Oxford University Press. 1991. o leitor poderá encontrar uma vasta gama de informações. No processo. da construção da sociedade civil particularmente no tocante à questão dos escravos. 1988). de uma historiografia que a cultivasse. Historiografia que se definiria e se adensaria na vertente que vem de Abreu e Lima. As razões da Independência. A revolução burguesa no Brasil (Rio de Janeiro: Zahar. quando Pedro I é forçado a abdicar. algumas matrizes e formas de pensamento. especialmente o capítulo 1. golpes e acomodações.2 Delinearam-se então. Caio Prado Júnior (sobretudo em suas obras Evolução política do Brasil e Formação do Brasil contemporâneo). de sensibilidade e dominação. com atuação da imprensa e surgimento de partidos ou facções. pp. M. tinha início a História do Brasil. Ou seja. estilos de comportamento. descrito na Bahia pelo professor Luís dos Santos Vilhena em 1801. Ver também a importante coletânea. Oliveira Lima. Revolução e contra-revolução da Independência. passou-se nessas partes da América do Sul por experiência histórica de grande profundidade. 1976). 1944). tendo como pilar a idéia de nação. Nação à qual deveria corresponder. A meu ver. a obra que representa a culminância dessa linhagem. Constâncio. com seus modos de pensar. na véspera da abdicação. dos índios. torna-se uma data revolucionária nessa periodização. ver. Às cinco esse número dobrara". a sociedade "brasileira". do contrato 4 Ver a descrição desses acontecimentos em Otávio Tarqüínio de Sousa. Escravidão e invenção da liberdade. E se desdobrando. as manifestações envolviam coletividades maiores. no bojo de outra vaga revolucionária internacional. portanto. modos de ser e tipos de comportamento social e político que passariam a ser progressivamente identificados como "nacionais". do modelo político ideal. na obra de José Honório Rodrigues. também liberal e nacional. pontilhado de conflitos. forjou-se a "nacionalidade" como categoria histórica e. apropriação e usos do espaço que tipificariam o sistema social específico que se implantou naqueles anos decisivos de formação do Brasil contemporâneo. à semelhança de outros Estados nacionais. uma "sociedade" mais ou menos homogênea. formas de sociabilidade. Apuram-se. de auto-explicação histórico-geográfico-cultural. Evaristo da Veiga (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp.. das formas de inserção do Brasil no sistema internacional. A denominada Revolução da Independência foi o ponto de partida para a construção de um sistema ideológico consistente. não menos importante. de Florestan Fernandes. J. Capistrano.). como ideologia política e cultural.200 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 201 Modelo que definiria o padrão civilizatório consolidado ao longo do processo de formação econômico-social e político-cultural que marcaria os dois séculos seguintes. 1975). de produções "naturais" e identificadoras da nação emergente. pela Paz e Terra). sobretudo a partir de seu estudo Rebelião escrava no Brasil. suas reverberações chegando aos nossos dias. prefácio de Carlos G. mais recentemente. Stein. ao assinalar também uma mudança de mentalidade. o historiador João José Reis vem oferecendo interpretações inovadoras desde 1982. com prefácios de Gilberto Freire. sintetizando a referida teoria da História do Brasil que tem origem na Independência. mais nitidamente. Ver também de Barbara e Stanley J.

. desenharam-se variadas idéias de Brasil. 208-209. além de ensaios. p. dos filhos deste homem. cit. organizados para combater os colonos revolucionários da América espanhola. sejam exemplos da regra e não a regra deles mesmos. negociações. "Todo governo em revolução só faz descontentes". representada por Metternich e o czar. respectivamente. 276. e abastardar corações". o Brasil integrava-se no concerto das nações. conflitos. Mas que justiça tem um homem para roubar a liberdade de outro homem. de 9 de dezembro de 1829. aquarelas e sonetos.7 Entretanto. Freire. de 11 de abril de 1831. exílios e sensibilidades desencontradas. e por fim principal a felicidade dos homens. no Piemonte. citados no presente capítulo. Ibid. "sem muito sangue. mas por isso mesmo perigoso. Se José Bonifácio julgava que. tratados descritivos e traçados urbanísticos. em Projetos para o Brasil.é a da Constituição. 1999). Alguns princípios que deveriam reger a sociedade nacional a ser construída surgiam explícitos nas mentes das principais lideranças reformistas ou revolucionárias. houve tentativa fracassada de se implantar um regime constitucional (insurreição decabrista. Na França. ver a síntese de seu pensamento em nosso estudo. 470. o movimento carbonário impõe uma constituição. Antônio Cândido. os "carbonários". atemorizada com esses movimentos liberais. sobretudo nos meios universitários. aos quais se somam as 6 "A propriedade foi sancionada para o bem de todos". Thouars e Colmar. que o próprio patriarca já criticava: "O despotismo de certo país que conheço é açucarado e mole. n. militares de Cádiz. a começar pelo monarquista-constitucional José Bonifácio. em Evaristo da Veiga. restabelecendo-se o poder absoluto.. e o que é pior. Faoro.os cidadãos dos Estados Unidos. "Avulsos". a democracia brasileira que se possa estabelecer. nunca se estabelecerá senão quando passar à aristocracia republicana. de 1830 ("o sol de julho") e de 1848 ("a primavera dos povos") mudariam a fisionomia do mundo. que iriam caracterizar as formas de pensamento do que comumente. Belfort. da identidade cultural. crítico do escravismo: A sociedade civil tem por base primeira a justiça.. garantidora da inviável "paz" do Segundo Império e da ordem escravista. por tirar todo nervo aos espíritos. Na vaga liberal de 1820. Caio. Na Espanha. os estamentos senhoriais e as classes comerciais. Ver Otávio Tarqüínio de Sousa. obrigaram o rei Ferdinando I a submeter-se a uma Constituição. Em Nápoles.). obrigando o rei Fernando VII a restabelecer a Constituição de 1812. sublevam-se em janeiro de 1820 sob o comando do tenente-coronel Riego. se denominava "nação". incluído em Lourenço Dantas Mota (org. José Bonifácio.marcadamente conservadores. naquela conjuntura.] os homens sejam colocados dentro do quadro das doutrinas. Sobre a questão social. 60.. capítulos III. num processo que desembocaria na Conciliação de meados do século. A linha está traçada . se consideradas em seu resultado geral. 1825). sobrinho do rei. em 1821. em Projetos para o Brasil. seu antagonista o jornalista Evaristo da Veiga. em julho de 1820. em fevereiro de 1820. enfim. Como se sabe. o duque de Berry. definiria o ponto "ideal" desse processo: Nada de jacobinismo de qualquer cor que seja. Buarque. logo reprimidos todos pelas forças austríacas. de acomodação entre as províncias e elites de variada extração. do sistema educacional e. é então que seremos livres e dignos de rivalizar com os nossos conterrâneos e primogênitos da liberdade americana. é assassinado. Um banquete no trópico (São Paulo: Editora SENAC São Paulo.6 A revolução e a contra-revolução da Independência. IV e V. n. teve caráter constitucionalista e foi prontamente reprimida por Metternich. faturas de pagamentos. de 1823 a 1841 ocorreram várias deportações.. p. 477. As citações de Evaristo acham-se na Aurora Fluminense. sob o comando de Pepe. nos embates políticos sobretudo. A Europa absolutista do Ancien Regime. n. Ver também as sínteses dos pensamentos de Nabuco. . Introdução ao Brasil. o Brasil será dos Brasileiros.202 Carlos Guilherme Moto Idéios de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 203 de trabalho e da propriedade -. e dos filhos destes filhos?5 o esforço dos liberais [. Capistrano.. o que se consolidou foi um certo tipo de imaginário e de consciência propriamente nacional . 250. José Honório e Florestan. cit. Com a descolonização e a Independência. e livre [.bem como uma determinada idéia de Brasil . As três vagas revolucionárias européias de 1820. Nada de excessos. advertia mais adiante o deputado José Bonifácio de Andrada e Silva. e o movimento da "Charbonnerie" se estende a Saumur. com a morte do czar Alexandre I. confluíram num processo reformista. Tornar prática a Constituição que existe sobre o papel deve ser 5 Em meio a intensa internacionalização. de 27 de abril de 1831. 1998). outra figura dominante no cenário político e cultural da primeira metade do século XIX. em sua "Representação à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa do Império do Brasil sobre a escravatura". organização de Miriam Dolhnikoff (São Paulo: Companhia das Letras. Euclides. ou governos dos sábios e honrados". a primeira sublevação eclodiu na Alemanha. pp. Também na Rússia.] do dia 7 de abril de 1831 começou a nossa existência nacional.

com foco em Paris. o Brasil nasce alinhado com os movimentos contemporâneos. no plano ideológico. 1976). nessa perspectiva. que irão desembocar na "Questão nacional" a partir da segunda metade do século XIX. na interpretação de Florestan Fernandes.204 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 205 revoltas nacionais na Grécia e nas colônias ibéricas na América. nessa sociedade em que se reforçou o senhoriato escravista e se entranhou a ideologia cultural do escravismo. sobretudo os do Período Regencial (1831-1840). 9 Florestan Fernandes. desde Joa8 quim Nabuco. perpassando os quase dois séculos de nossa independência política. 1964). Duroselle. Não por acaso o mais fecundo historiador brasileiro do século XX. Quando muito. Idéia fundadora ligada à de nacionalidade que remanesce no discurso historiográfico-cultural nascente. Daí entender-se por que um liberal como Evaristo . já na segunda metade do século. a formação dessa idéia de Brasil teve desdobramentos mais complexos. esboça-se um esforço para reconstruir algumas das determinações desse passado tal como foi vivido e percebido por essa sociedade que começava a se pensar "brasileira". de Benjamin Constant. e assim por diante. pp. 34-6. 1968). UEurope de 1815 à nos jours (Paris: PUF.ou. e persiste em temáticas e visões ora exóticas e pitorescas. com desdobramentos. O século XIX (1815-1914) (São Paulo: Cultrix. crê assistir a um "complô jacobino". de "nossa nacionalidade" encontra sua raiz nessa determinada conjuntura histórica internacional e num contexto sociocultural específico. nessa perspectiva. Rui Barbosa e o senador Sousa Dantas. Os estudos clássicos do historiador Jacques Godechot permitem compreender que. Não procuramos aqui "enunciar uma verdade histórica válida para todos e que seria tão absurda quanto imaginária". do sistema representativo e da liberdade de imprensa . quando menos. Ver também René Rémond. consolidou-se como eficiente "disfarce para ocultar a metamorfose dos laços de dependência. entende-se por que "esse processo histórico-social que vinculou o destino da nação emergente ao neocolonialismo provocou conseqüências de enorme monta para a estruturação e a evolução do capitalismo dentro do país". Caio Prado Júnior. ou melhor. 96-7. 114. pp. a "Idade Moderna do Brasil") cristalizara-se já encravada no sistema mundial de dependências da época. quando mais "avançadas". 1970). já com registro jacobino no último quartel do século. 1952). Sérgio Corrêa da Costa. Discurso que se realimenta de tempos em tempos. No plano ideológico. com uma elite que se educara no fino trato com os interesses europeus aqui implantados. conciliações e reformas que se prolongariam por todo o século. de suas vertentes ideológicas mais brandas. ora rebrotando em análises que consideram tal formação "tardia" e desatualizada. Stanley e Barbara Stein. os dois últimos conhecidos como "os nossos ingleses". corresponderia um conjunto de formulações que poderiam ser enfeixadas sob o rótulo de pensamento "liberal". não seria uma idéia fora do lugar. No ápice desse processo. p.-B. O liberalismo. Sociedade de classes e subdesenvolvimento (Rio de Janeiro: Zahar. com a vitória do pensamento conservador. o resultado foi. .defensor da liberdade constitucional. em seguida liberal-nacional. ora alimentando projetos político-econômicos em que "nossa cultura" surge como notavelmente promissora. Naquele contexto. para racionalizar a persistência da escravidão e das formas correlatas de dominação patrimonialista". 10-4. afirmar-se-iam algumas das melhores cabeças do país. a dessa formação histórico-cultural abarcada pela idéia de "Brasil".proclamava no seu jornal Cf. Nos quadros desse novo colonialismo criado pelo imperialismo. ou. Em conclusão. criaram-se mecanismos e mores que definiriam e encaminhariam no plano propriamente político a longa história de conflitos. denominou esse período decisivo como sendo de "Revolução da Independência". de Siéyès a Chateaubriand e Madame de Staôl. depois liberal. Pedro I e Metternich (Rio de Janeiro: Editora A Noite. A problemática de "nossa identidade". enraízam-se os discursos reformista ilustrado. conceituação dialetizada e aprofundada por outro importante estudioso do período. como adverte Marc Ferro.8 Nesses embates entre revolução e restauração. o enraizamento histórico-social da doutrina e da ação conservadora da contra-revolução francesa ao longo do século XIX . segundo expressão de Stanley e Barbara Stein. segundo Florestan Fernandes. Tal nó aperta quando se constata que a idéia de "Brasil contemporâneo" (ou. ao contrário. José Honório Rodrigues.9 Numa visão de conjunto. que definiu essa fase crucial de nossa história como de revolução e também de contra-revolução. importa notar que. pp. Reside aí o nó histórico em que se enreda nossa ambígua contemporaneidade. A essa "estrutura neocolonial de predizíveis e inevitáveis conseqüências sociais". essa ideologia por assim dizer liberal cumpriria papel importante ao abrandar as relações de dominação do Ancien Regime geradas no período colonial. J. com a vitória permanente da contra-revolução preventiva e fortalecimento do Estado. A herança colonial da América Latina (Rio de Janeiro: Paz e Terra.

com a descoberta de um outro Brasil pelo republicanista radical Euclides da Cunha (1866-1909). 1 ° Lia-se. e várias obras de Bentham. se instituía e se estabilizava. o número de leitores aumentou. Evaristo (pseudônimo arcádico. pois na história das formas de pensamento. a teoria da História do Brasil . quando se observa que aquela por muitos considerada a primeira história "nacional" tenha sido escrita justamente por ele. ou ainda. no Peru. E essa temática torna-se atual nesta passagem de século. Havia intensa atividade de leiloeiros (em geral. Sismondi. Tal idéia conservadora de Brasil. travestida em teoria da História. ao revelar indiretamente as mazelas da república. somente alterada com o movimento republicanista. uma outra visão "nacional" da História do Brasil. Os sertões. esquecida talvez das duras recomendações político-sociais que o pitoresco Bragança escreveu para sua sucessora. Evaristo vendia em sua loja de livros. 1996). não por acaso inglês. nos projetos dos teóricos e educadores da Revolução Mexicana de 1910. de Ricardo. o vencedor da guerra contra o Paraguai. em áreas de passado colonial. Em 1823. Racine e Voltaire. além das boas maneiras do imperador-sábio Pedro n.. tendo por balizas cronológicas 1808 e 1831. sede da monarquia tropical. fica muito.]". europeizante e colonialista que a de Martius ou Varnhagen. Em nossa perspectiva. por sintetizar todo o século XIX. A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil (1817-1820) (São Paulo: Hucitec/ Fapesp. nessa vertente e desse modo. também procedia ao julgamento da monarquia e do legado colonial. abrindo um novo período de crítica para a construção da nova História das Mentalidades no Brasil. em José Carlos Mariátegui. por exemplo. com escritório na rua da Alfândega. a retomada do movimento republicanista. instalou-se no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Manuel Bonfim. esposa do conde francês D'Eu. Broussais. mas evite-se a revolução". pode ser considerado o sinalizador de uma nova era nos estudos históricos. Alterada. entretanto. ser escrita com mais acerto por um estrangeiro". e livros sobre os Estados Unidos e sobre o México. foi publicada pela Livraria Martins Fontes em 1999 (Coleção Temas Brasileiros). Curioso tal comentário.11 O país tomava forma sob a preeminência inglesa. numa visão atualizada e crítica. a princesa Isabel. Apesar de seu tempero comtiano ("o mais robusto pensador do século"). ele vendia obras de Say. Inserido naquele contexto econômico-cultural. Para uma visão mais ampla do tema. Sismondi.10 Em síntese. A força dessa ideologia mobilizadora da improvável "paz do Segundo Império" foi suavizada. a Proclamação da República e a repressão a Canudos encerra-se uma certa visão de Brasil: assiste-se ao tournant decisivo. em alguns casos. E também de um certo modo de se contar nossa história. Uma nova edição de À margem da História. A formação da leitura no Brasil (São Paulo: Ática. uma certa ideologia do "caráter nacional" brasileiro. de Constant. A partir de fora. porém com viva elaboração interna. correspondente comercial de Hipólito José da Costa. Após 1822 e a Constituinte. obra publicada em 1902. Blackstone. Linhagens de pensamento assemelhadas às que em Cuba desaguariam nas posições de José Marti e.. abrigou-se nas teorias de Varnhagen e alimentou o substrato ideológico da contra-revolução vencedora. o estudo insuplantado de Euclides. de poeta aliás medíocre: Alcino) era leitor. desde 1831 até 1850. o principal dos quais era Jorge Dodsworth. Ganilh. No Rio de Janeiro. prefaciada por Miguel Reale. de Capistrano de Abreu a Florestan Fernandes. indicava em 1836 o nascimento de uma nação. Say. em cujos compêndios se fabricava. "Da Independência à República (esboço político)". Com a guerra contra o Paraguai.206 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 207 Aurora Fluminense: "Faça-se tudo quanto é preciso. pela ideologia regressista de liberais como Bernardo de Vasconcelos ("Fui liberal"). ingleses). que anunciava a chegada de números do Correio Braziliense em navios que vinham de Liverpool. pois nesse momento despontaram historiadores como Solano Constando e Abreu e Lima. sob nova linguagem. com sinais diferentes. 1997).com sua correspondente periodização . Em 1827. publicado em 1900 e incluído em seu livro À margem da História. de tudo fica um pouco. ver Mansa Lajolo e Regina Zilberman. . que seria combatida depois pela melhor tradição historiográfíca por assim dizer radical. Foy.condensada nessa síntese antológica constitui a matriz da qual partiriam os estudos posteriores de Caio. 1 ' O estudo mais recente e crítico sobre essa visão é o de Karen M. fundadora do quadro político-ideológico que seria dominante entre 1824 e 1889. José Honório Rodrigues. de vez que aquela visão conservadora. o Diário do Rio de Janeiro anunciava venda de livros em oito lojas. volta a enternecer a nova historiografia pós-moderna. além de Constant e Bentham. Lisboa. plasmou-se. em 8 volumes. nas principais cidades do Brasil. a obra de John Armitage. menos conservadora. o Cours de politique constitutionelle. Florestan e mesmo Raymundo Faoro (para citarmos alguns clássicos do pensamento radical no Brasil): "Somos o único caso histórico de uma nacionalidade feita por uma teoria política [. mas não apagada completamente. No plano político-institucional. à contra-revolução vencedora correspondeu a metodologia da conciliação a partir de meados do século XIX. a abolição da escravatura. em 1821. Como escrevia ele na introdução de seu livro: "É possível que a história contemporânea possa. Fixava-se. o conceito de nação. uma consistente idéia de Brasil se consolidara por volta dos anos 1840-50.

Dias sobre a interiorização da metrópole. de internacionalização abrupta do mundo luso-brasileiro. a um só tempo antiescravistas e conservadores. Com nota de Eugênio Egas. também no mundo jurídico. e o método de se escrever "nossa" história. 1992). de afirmação na política européia e mundial e de construção de seu império informal garantiria. seria um designativo desse tipo de comportamento ideológico e político-cultural. British Pre-eminence in Brazil (Nova York: Octagon 12 Books. n. 290 e 292. 1983). A metrópole portuguesa. "Nabuquismo". quando se forjam as matrizes de pensamento referidas por Marc Ferro. Literatura jurídica no Império (Rio de Janeiro: Topbooks. mudou abruptamente de status. quando se deu a famosa inversão colonial. começavam a avultar as figuras de Cairu. 1981). von Martius. 1972). A presença de viajantes. A manipulação da história no ensino e nos meios de comunicação (São Paulo: Ibrasa. ver especialmente capítulo V. O conhecido texto de Carl Friedrich Phillip von Martius foi publicado na RHIGB. Tais ambigüidades estarão na base da formação de uma certa linhagem de intelectuais prestigiosos e anglicizados. ver Immanuel Wallerstein. cientistas (ou naturalistas. 13 Cf. 18271850". de Fernando Tomaz sobre os brasileiros nas Cortes Constituintes de Lisboa. aliás. Pedro Dutra. E também Alan Manchester. 1730-1840s (Nova York: Academic Press. em que discute a autoria da obra. A Aliança inglesa. funcionava como peça-chave desse braço diplomático da contra-revolução européia. torna-se imperioso não se confundirem as diferentes temporalidades. de Bernardo Pereira de Vasconcelos. Alves Branco. 1947). "Dos cursos jurídicos ao Código Comercial. tempo do mito e tempo da história. The modem world-system III. estancando-se o lento processo de emancipação que se delineara desde o último quartel do século anterior. e comenta a vida de Armitage. a monitoração e auditoria da vigilante e conservadora Santa Aliança nos negócios brasileiros. na expressão da época). potência em fase de acelerada revolução industrial. 1964). aventureiros e artistas estrangeiros . onde já vinham se manifestando sentimentos e propostas de autonomização desde o século anterior. Rio de Janeiro. Foi um impacto tremendo. da tradução. de Antônio Carlos de Andrada. a chegada dos Braganças e sua corte trouxe novos elementos para a discussão dos projetos de emancipação. uma certa maneira esteticizada de olhar o mundo social brasileiro. nesta caracterização de uma identidade propriamente nacional. de Emília Viotti da Costa sobre José Bonifácio. Apesar das controvérsias sobre o ritmo do processo de emancipação em curso. não somente a preeminência de seus interesses ao longo do período da formação nacional como. prefácio de Miguel Reale. Carlos Guilherme Mota (org. The secondera ofgreat expansion ofthe capitalistworld-economy. se internacionalizando e ocupando lugar de destaque no Atlântico Sul. definido por um alemão. janeiro de 1845. sobretudo. Subsídios para seu estudo.dá conta dessa internacionalização que agrava o teor pré-revolucionário de vida e acelera os acontecimentos que abrem a fase brilhante de fundação da História propriamente nacional. escoltados pela armada inglesa. e de Carlos Guilherme Mota sobre os europeus no Brasil às vésperas da Independência. comerciantes. José Clemente Pereira. assistira à transmigração da família real. No transcorrer desse processo de internacionalização é que se adensa o sentido e se define o momentum de nossa fundação. História do Brasil (São Paulo/Belo Horizonte: Itatiaia/Edusp. 14 Para a compreensão do período. de Maria Odila S.ejáno contexto da Restauração.12 Nessa altura. da corte portuguesa e de numeroso contingente de altos e médios funcionários para o Rio de Janeiro. 2 volumes (Lisboa: Imprensa Nacional. Entretanto. a partir da varanda. 15 Marc Ferro. de Frédéric Mauro. tradução em português. em seu imperativo e categórico "Como se deve escrever a história do Brasil". "notadamente quando se trata do problema das origens". pp. 13. em especial os estudos de Jacques Godechot sobre a revolução do Ocidente. invadida por tropas de Napoleão Bonaparte. ocorrido a partir de 1807-1808.15 John Armitage. ao mesmo tempo.14 A Inglaterra exercia assim um duplo papel: era inovadora no tocante a relações de produção (contra o tráfico e o regime escravista) mas. sobretudo no tocante à abolição da escravatura. Assim colocado entre dois fogos. A tutela da Inglaterra. José Almada. 24. dando novo contorno ao Estado e normas à sociedade nacional. 1989).com freqüência exercendo combinadamente mais de um desses papéis .) 1822: Dimensões (São Paulo: Perspectiva. Carneiro de Campos e.13 II A nova imagem de Brasil toma vulto e se adensa na confluência de dois processos distintos. dentre eles Machado e Nabuco. espiões. o Brasil.208 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 209 um inglês. com reverberações na obra de Gilberto Freire. sobre a conjuntura atlântica e a Independência. O primeiro. após 1815. o principal autor do Código Criminal de 1830. .

1988) (1. travada entre comerciantes franceses e ingleses. 17 O livro nono. fazer uso dela ou negligenciá-la [. processo no qual se afirmaram novas lideranças nativistas. G. Pode-se apressar esta revolução determinando os grandes proprietários a educar seus filhos na Europa. Indícios de encontros em Londres de Gomes Freire e do líder brasileiro Domingos José Martins (além do venezuelano Miranda. F.. 1983). 1968). a chamada Revolução Pernambucana de 6 de março constitui.). o sistema luso-brasileiro trepida nos dois lados do Atlântico. 144-155. Como se nota. no Rio de Janeiro. pela Oxford University Press) e O império marítimo português (1415-1825) (Lisboa: Edições 70. em seu clássico Evolução política do Brasil e outros estudos. Da turbulência desse período. Nesse processo.] A história dessa colônia não será mais sua sátira. diversamente do peso que comumente se atribui às conjurações do século anterior. Ao ressaltar a acirrada competição por mercado nos portos brasileiros.. ex-combatente na Revolução Francesa) são eloqüentes o bastante para sinalizar as articulações atlânticas naquela conjuntura pré-revolucionária. 1997). em inglês. banhadas na ideologia da Restauração. Para o estudo de algumas raízes históricas do nativismo. Nessa perspectiva.. como se sabe. em favor desta. em 1963. também no Brasil. Fernando A. Em 1817. em vários níveis e dimensões. em 1933. e seus rebatimentos no mundo luso-brasileiro. forjaram-se as matrizes histórico-institucionais e culturais do Brasil contemporâneo. As vicissitudes e a crise do sistema colonial foram analisadas por Charles R. e que atingiu o mundo luso-brasileiro quando nele ainda tentavam suas elites ilustradas superar o descompasso histórico detectado anteriormente pelo marquês de Pombal. aumentavam quando vislumbrava o perigo de uma eclosão revolucionária de vulto no Brasil ("mais um pouco e teríamos visto aqui os sans-culottes"). é o de descolonização em que se enredara o Império português. tal processo já se vislumbrava na crise abrangente do antigo sistema colonial.. revista e aumentada. ed. Crise perceptível. Brasil em Perspectiva (São Paulo: Difel. veja-se Evaldo Cabral de Mello. vivia-se. foi publicado em português. Ver pp.210 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 211 O segundo processo. Arquivo Nacional/UnB. por uma educação viciosa e monástica. menos conjuntural. nos dá conta um viajante-comerciante como o francês L.. Boxer em Relações raciais no império colonial português 1415-1825 (Porto: Afrontamento. Não por acaso trechos da obra do abade Raynal (1713-1796).17 A descolonização. publicados em 1770. Suas apreensões conservadoras. "O Brasil nos quadros do antigo sistema colonial". Rubro veio: o imaginário da revolução pernambucana (2. o ponto de não-retorno e de aceleração do processo de descolonização que conduziu à Independência e à abdicação de Pedro I em 1831. Rio de Janeiro: Topboòks. pois alguns revolucionários derrotados e feitos prisioneiros em 16 A primeira análise crítica desse processo foi efetuada por Caio Prado Júnior. ed. com o Brasil e o Algarve (1815). bem como a grande insurreição do Nordeste brasileiro. apontando caminhos para que "os portugueses que moram no Brasil ousem libertar-se de sua tirania": Talvez os próprios preconceitos dos quais estão imbuídos. ed. . sobretudo os capítulos "Inventário da memória" e "A cultura histórica do nativismo". denominado O estabelecimento dos portugueses no Brasil. deixava ele entrever por que estes últimos quase sempre levavam vantagem ao oferecer produtos industrializados e serviços a preço menor. Novais. Articulações que terão aliás desdobramentos significativos. que aqui esteve naqueles anos. em C.) (o original. com os desdobramentos no período regencial.d. O abade Raynal indicava a desproporção nas relações entre metrópole e colônia. logo abalado pelos eventos de 1817 na excolônia e na metrópole e já engolfado na crise mundial que conduziu à vaga Revolução de 1820. sugerem a profundidade da crise que antecede e anuncia a revolução liberal de 1820 em Portugal e a independência nacional do Brasil em 1822. Com efeito. a Histoire philosophique et politique des établissements et du commerce des européens dons les deux Indes.. quando se consolidou o Estado nacional. sejam muito antigos em seus espíritos para serem arrancados. s. é de 1969). 1998. pontas de lança que eram da Revolução Industrial. processo aprofundado a partir da insurreição nordestina de 1817. Tollenare.16 Examinado na longa duração. Mota (org. eram sabidos de cor em Minas Gerais por inconfidentes. e Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial (1777-1808) (2. o levante nacionalista de Gomes Freire de Andrade em Portugal naquele ano. atraso nunca recuperado. A luz parece estar reservada às gerações seguintes. o dealbar de uma disputa de potências européias por mercados mundiais e "zonas de influência" em partilhas que iriam se estender até as primeiras décadas do século XX. descrevendo esse contexto específico com riqueza de detalhes. reformando e aperfeiçoando a instituição pública em Portugal [. São Paulo: Hucitec. iniciada na última quadra do século anterior. ocorreria entretanto no sentido da integração do complexo lusobrasileiro ao novo sistema mundial de dependências: ensaiou-se primeiramente o equilíbrio paritário sob a fórmula de Reino Unido de Portugal.] É possível acostumar os jovens a estimar sua razão ou a desprezá-la.

Imaginação geográfica e política externa do Brasil 1808-1912 (São Paulo: Moderna/Unesp. de país independente. 1980). tendo os revolucionários presos chegado a discutir até mesmo o conceito de classe soriai. símbolos. Essays on the Independence of Brazil (Baltimore: J. From Colony to Nation. de formas de consciência nativista. sem a análise daquele ponto de partida. Cecília Helena de Salles Oliveira. esclarecendo-se a ambígua consciência nacional nascente. nunca antes experimentado nestas partes. três anos depois sairão diretamente do cárcere baiano (o célebre "Ateneu". a Itália e a Bélgica. 1988). Hopkins Univ. O corpo da pátria. que comporiam o que se denominava civilização. desde a crise do sistema colonial até meados do século. independência passam a ter um valor. contra o Império. A construção da ordem (Rio de Janeiro: Campus. Clientelismo e política no Brasil do século XIX (Rio de Janeiro: Ed. sobre "A liderança nacional" (Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves. 1988). Vários estudos vêm aprofundando o conhecimento desse período. A curva do processo é estudada passo a passo. o defensor da unidade italiana. A ideologia liberal no processo da Independência do Brasil. vol. nos dois lados do Atlântico.1961). Esse episódio se insere no rastilho internacional do "despertar das nacionalidades". História do ensaio de sedição de 1798 (São Paulo: Hucitec/Edufba. sensibilidades. O Brasil como corpo político autônomo. Na Bahia.). 1999). ao definir essa "hora do advento das nações". Brazil. remanescência de 1817. propiciou-lhes o primeiro desafio de uma possível unidade. 1780-1831 (São Paulo: Unesp.19 Ou para um novo "amálgama".20 Naquele contexto. em que examina as "matrizes da nação" e a formal configuração da Nação-Estado. que analisamos em "Novos usos de velhas palavras: a noção de classe". a importante análise de Roderick J. 1972). A Assembléia Constituinte de 1823 (Petrópolis: Vozes. 1970). "patriota". Fernando A. que. estávamos compaginados. Na Constituinte portuguesa se discutiam a representação. sendo obrigados a se exilar. "pátria". de José Murilo de Carvalho. em que se explicitaram as contradições efetivas entre metrópole e colônia. de José Honório Rodrigues. para usarmos um termo-chave. Nos principais centros urbanos brasileiros. no capítulo "As formas de pensamento revolucionárias". de transformação histórica. O "Ateneu". prefácio de Vitorino Magalhães Godinho. Atitudes de inovação no Brasil (Lisboa: Horizonte. Foi uma experiência pré-nacionfcl. 1996). Estruturas e argumentos (São Paulo: Perspectiva. a cidadania. 4. não éramos portugueses. 1999). Maria de Lourdes Viana Lyra. Ao reunir. A astúcia liberal. Márcia Regina Berbel. José Honório Rodrigues. após a derroiajiias aulas informais no cárcere d^ Salvador. 1973). Afinal. sob vaias e até pedradas. não poderão ser compreendidas as trajetórias de personagens que avultarão na história do Império.212 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 213 1817. quando se constatou. no calor dos debates das Cortes Constituintes em Lisboa . vários de nossos deputados sairiam fugidos. terá sido o primeiro embrião de uma escola de pensamento propriamente nacional de altíssima qualidade. e o sentido inédito de ruptura. 1821-22 (São Paulo: Hucitec. Independência: revolução e contra-revolução. alinhados com a Grécia. Ver também de István Jancsó. e Carlos Guilherme Mota. Geografia e economia da Revolução de 1820 (Lisboa: Europa/América. Constituição. 1996). Souza. Deputados do Brasil nas Cortes portuguesas. dentre outros. Do mesmo modo. UFRJ. e de A. num momento em que também a Polônia. C. Iara L. "Nação". 1997). usos e costumes próprios. em Nordeste 1817. o fim do sistema colonial.. e Richard Granam. de Manuel Correia de Andrade (org. a propósito. mascaradas pela solução de compromisso do Reino Unido. 1975-1976). gente com ótimo currículo e proveniente de diferentes regiões da excolônia. Além dos livros clássicos de Fernando Piteira Santos. prático. 1974). como Antônio Carlos ou Muniz Tavares. A independência política do Brasil (São Paulo: Hucitec. 1997). de Vicente Barretto. Confederação do Equador (Recife: Fundação Joaquim Nabuco/Massangana. Press. âlgtrnsrepresentantes de províncias distintas. 1820-1824 (Bragança Paulista: Edusp/ícone Editora. Freqüentemente abafado ou apagado pela historiografia.18 Aos deputados brasileiros^as Cortes Liberais Constituintes de Lisboa terá sido de 'extrema valia a passagem pela "escola" revolucionária de 1817. No decorrer da Revolução de 1820. caro ao mineralogista José Bonifácio. difusas e vincadas por localismos. aprofundava-se a sensação de abertura para o mundo. entidades imaginárias em que se "amalgamavam" valores. 19 . aliás percebido por Mazzini. Novais e Carlos Guilherme Mota. 1999). 1973). passado entre os prezos d'Estado na cadea da Bahia". a Hungria e a Irlanda buscavam afirmar-se en- 18 Tal discussão aparece em "Um episódio da história da Revolução de 1817 na Província de Pernambuco. A utopia do poderoso império (Rio de Janeiro: Sette Letras. para além de simbólico.T)ara analisarem o momento vivido. Aí se localiza a primeira ruptura séria. possuía um significado muito específico. relações de mercados e projetos políticos no Rio de Janeiro. definitivamente. no Brasil.momento decisivo na definição de nossa vaga "nacionalidade" e demarcação de diferenças . presos. Demétrio Magnoli. esse acontecimento acelera a viragem mental que já se vinha processando: transita-se então. 1994). Barman. completada. A nação como artefato. citem-se. Russell-Wood (ed. de onde acompanhavam os acontecimentos do mundo e estudavam) já eleitos deputados para representar o Brasil nas Cortes Constituintes em Lisboa.). The Forging ofa Nation 1798-1852 (Stanford: Stanford University Press. para uma consciência mais ampla. Pátria coroada. 20 Ver. 17891824 (Brasília: Câmara dos Deputados. rechaçados ao defender os interesses da ex-colônia.

como José Bonifácio. uma reflexão ou um texto que revele não a "influência" estrangeira imediata. de Hipólito José da Costa. este último. Em contrapartida. se adquiria a certeza de que o mundo acompanhava as transformações operadas no Brasil e na América do Sul. expressão da nova configuração social mais urbana e da nova mentalidade reformista. adverte o historiador James Epstein. o mais conhecido deles é Martinez [Domingos José Martins]. numa ' Jacques Godechot. Ao analisar o período que nos interessa. Àquela altura. cultura e mentalidades (18171850) (em preparo). 1822: Dimensões. domingo. noticiavam os acontecimentos do Brasil o Journal des Débats. "com muita propriedade. "A independência do Brasil e a revolução do Ocidente". fora do mundo luso-brasileiro. ou "puras" linguagens de classe. e vice-versa. de uma nova maneira de abordar o mundo. Cipriano Barata ou Frei Caneca ou. verdadeiros anarquistas. de pesquisa: o próprio Patriarca é unrestuoídso de Camões. em Paris. Thomas Jefferson e Adams se alinhassem com a intelectualidade mais culta de seu tempo. em seu pequeno jornal Tifis Pernambucano. Como estudou Jacques Godechot. e. na América espanhola fossem.22 Apesar de muitas importações de idéias e teorias. intelectuais de sólida formação. a partir sobretudo da ação de Bolívar. Ele não tem o talento nem a reputação necessária para desempenhar o papel de um chefe de governo. o momento em que a Revolução Francesa se aprofundou: As proclamações do governo provisório [de Pernambuco] não contêm senão repetições do estilo de 1793 a respeito do "monstro infernal da realeza". Já na edição de lfl de junho de 1817. do ponto de vista metodológico. pp. inclusive em lideranças como Vergueiro. das ações pode ser reduzido a determinações sociológicas de classe social. em que pese o fato de ter. Bordeaux. em Carlos Guilherme Mota (org. A 5 de junho. Naquele período. em que se dá conta do achamento de Cabral em 1500: busca-se e define-se uma "origem" para ixBrasiLNasi&jirna "história". Na Inglaterra. e portanto colocava franceses e brasileiros em guarda contra seus progressos". visto que muitas formas de pensamento revolucionárias no Brasil também ocorreram durante a Revolução de 1820. o que é mais difícil. permanecido preso à ideologia da Ilustração. A época é de reconstrução histórica. acompanhava os acontecimentos do México e do Peru. Demais. o órgão parisiense dos "ultras". Sociedade. não houve movimentos "puros" de classe. compara-se 1817 a 1793. dentre outros. 2 . a seqüência americana da revolução que havia transformado a Europa. Daí não surpreender que os libertadores . Frei Caneca. Sabem os historiadores que nem tudo. havia algo original nas falas e teorizações dos "nacionais". das representações visuais. 33-4. na província. Liverpool. o Correio BrazMense. cultor da língua nacional e tradutor (inclusive de escritos de Humboldt). e da França e dos Estados Unidos chegavam repercussões das ações emancipadoras. em larga medida. o Journal du Commerce. as rotas comerciais mantinham contatos. La Quotidienne. acompanhando a posição de Eric Hobsbawm. cit.214 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 215 quanto nações. Baltimore. em que se vislumbram vertentes de pensamento que se afirmariam ao longo da nascente "História do Brasil". notam-se em vários autores formulações que parecem genuínas e inovadoras. de Cipriano Barata.. "coexistiram e se combinaram historicamente estamentos pretéritos e classes futuras". Um conjunto de grandes críticos e grandes personagens surgiram naquele momento. Feijó e José Bonifácio. no mundo das palavras. como em qualquer outro. histórico e lingüístico. também historiador. reflexão e da reconstrução do passado cultural. Nesse contexto é que se "descobre" a própria Carta de Pero Vaz de Caminha (1817). 22 As trajetórias desses personagens. o patriotismo passava a se nutrir da pesquisa. Vale notar que Marx. Lino Coutinho e outros estão sendo analisadas em nosso livro Idéia de Brasil.). num contexto de mndaçjovirações da elite colonial acreditam na possibilidade TJêsêTpoder acertar o passo da nascente História do Brasil com a História das Nações. Como detectar uma nova forma de pensamento. com portos como Barcelona. apesar da aceleração dos acontecimentos. na América do Norte. examinava passo a passo a vida brasileira. os foundingfathers Benjamin Franklin. falido fraudulento. A noção revolucionária de "pátria" soava com timbre mais radical e persistente nas ex-colônias. Nesse ângulo. educação. o Journal de Toulouse. a primeira página inteira é dedicada ao Brasil: enxergou na insurreição. ou seja.21 O desafio mais complexo. dispensava particular atenção a esses períodos de transição em que. mas uma certa continuidade de tradições mentais consolidadas? Ou detectar aquelas formas que não são portuguesas. que publicou durante quatro meses notícias do Brasil em quase todos os seus números. Os chefes do tumulto são todos homens desprezíveis.expressão que adquiriu significado próprio. reside todavia na definição de matrizes de pensamento. que sofrerá avanços e "regressos" nos anos 30 e 40. Marselha.

1971). Sociedade de classes e subdesenvolvimento. como os antigos centros. The British Admirais (Londres. Linhagem da qual o citado Caio Prado Júnior. depois com o vapor. a História e a Historiografia. indo desembocar no fim do século e se prolongando no século XX. History ofRoyal Navy (Nova York. Geoffrey Marcus. mapear. Ficase sabendo. com o aprimoramento das técnicas náuticas e das informações. Mas a "civilização ocidental não se espraiou". revelando nessa abordagem uma "outra" Inglaterra. controlar o novo território americano. 1910). do que o leitor seria levado a imaginar. The Navy in Transition 1814-1864 (Londres. se intensificou a dinâmica da vida cotidiana. publicado em português em 1999. 1587-1808 (Londres. tornando-se noção mais precisa e palpável. adquirindo nova dimensão a desprezada "história dos costumes". notava Florestan Fernandes. As denominadas Corvgrafias. The Age of Nelson 1793-1815 e The Royal Navy (Nova York. se transformou e por vezes se enriqueceu. Há livros mais antigos. The Royal Navy and Anglo-Jewry 1740-1820 (Londres. vivas e brindes em tavernas e portos.24 III Naqueles anos de aceleração histórica. por exemplo. onde se articulava o império "informal". projetos. a Geografia e a História. inauguram uma tradição de estudos geo-históricos. Salvador e Recife. que se afirmam com Aires do Casal e Daniel Pedro Müller. A história do meio ambiente se amplia com uma plêiade de naturalistas europeus ligados a museus e centros de pesquisa. cit. Letters ofthe English Seamen. A cidade passa a contar: ao sul do equador. refaz-se assim o diálogo plurissecular entre o presente e o passado. em 1822. 1989). 1994). acompanhavam a América meridional em seu movimento de libertação com discursos. havia na Inglaterra mais atenção ao que acontecia nessas partes do Atlântico Sul. não estaria indissociada do projeto que José Bonifácio elaborou para a Constituinte de 1823 a criação do Serviço de Proteção ao índio (1910) pelo coronel Cândido Rondon. o grande historiador e expert nesta terra. Manuel Diegues Júnior. a de espaço se expande. A geografia torna-se mais precisa. eram utilizadas. Raymond Howell. como os de Robert Southey. Political Language.. que também escreveu uma história do período: ele. Nelson's Navy (1989). Brian Lavery. Gilberto Freire. p. dentre outros intelectuais. a história da expansão européia adquire novo sentido à luz da história das mentalidades. receptoras do Liberalismo. meticulosos almirantes ingleses da South American Station. Com efeito. The History ofthe Royal Navy (1983). 1790-1850 (Oxford: Oxford University Press. inclusive relativos à citada South American Station. com métodos. 1968). ritos. Peter Kemp. mais científica. ganham nova respiração. The Royal Navy and the Slavers (Nova York. chegando a constituir uma "escola" de excelente formação. o professor Epstein indica como as noções de Estado. Manuel Correia de Andrade e Aziz Ab'Saber fazem parte. ver o excelente livro de Mary Louise Pratt. Ritual. Epstein. república. Afinal. tendo produzido documentação fundamental para o conhecimento do Atlântico e do Pacífico naquele período. e a tradição da geo-histó23 ria ganha novo impulso nesses primeiros momentos do neocolonialismo. Um dos agentes mais visíveis e citados foi José Maria Lisboa. Michael A. homens de Estado amoldariam. comerciantes. Lewis. Na perspectiva da História das Mentalidades. O tempo como que encurta. 23 Cf.. encontrando-se nessas plagas antenas teóricas nativas. 14. Christopher Lloyd. Radical Expression. e.216 Carlos Guilherme Moto Idéios de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 217 Inglaterra também convulsionada. em particular. atualizadora de uma compreensão de Brasil que deita suas raízes no período da Independência. Ao saltar de seu leito. 24 Florestan Fernandes. and Symbol in England. internacionalismo. cidadania. "como as águas de um rio que transborda". em interpretações como as de Sílvio Romero. etc. de 1992. Sobre a potência hegemônica nos mares. a Inglaterra. nessa época em que o governo central queria conhecer. estudo de James A. 1965). o futuro visconde de Cairu. Sobressaem-se nesse panorama os eficientes. uma série de estudos tomam boa parte de nossa atenção. não só a nova capital do Império pulsa e chama a atenção do mundo. convertendo-se numa variante do que deveria ser à luz dos modelos originais".1833-48) e de Esther Meynell. adquirindo outras dimensões nas mentes das pessoas. em ebulição desde o início da Revolução Industrial.23 Nessa perspectiva. normas. as novas idéias ao lugar. 1969). 1987).25 Ao contrário da noção de tempo. ela "se corrompeu. O capitalismo comercial vive no Atlântico redefinições significativas. de Stanford. Para uma reflexão mais atual sobre produção literária e imperialismo. William Ward. The Navy and the Slave Trade (Londres. Do mesmo modo. que setores do mundo do trabalho inglês. portanto. idéias de Brasil fervilhavam não somente no gabinete-biblioteca de Robert Southey. J . revolução. da longa duração. E uma série de estudos mais recentes. The Royal Navy and the Slave Trade (Londres. história. em conexão direta com os principais políticos do parlamento inglês. como o de Antony Preston. a seu modo. em que aliás nunca aportou. Euclides.. 1969). Geoffrey Green. Imperial Eyes.

na expulsão de Pedro I em 1831 e na Revolução Praieira (1848). . São Paulo: Martins. Cf. da família Andrada e Silva. a Revolução de 1817. a Sabinada (Bahia. 1855). igualdade nas pretensões legais. deslocaram posições de mando. direta ou indiretamente. até a Liberal (São Paulo-Minas. agrestes. ed. de tal forma que chegaria a escrever com ironia extremada: O Brasil é uma terra de igualdade. depois na Confederação do Equador (1824). 1842). o advogado Antônio Carlos. 1835). Movimentos que teriam desdobramentos e seqüência em Recife em 1821-22. marcado por violências ancestrais que a fuga da corte apenas agudizava. impôs-se outra. seus hábitos. cheio de moléstias desconhecidas. Processo marcado por movimentos insurrecionais que ocupariam toda a primeira metade do século XIX. Além da vergonha nacional configurada pela fuga dos Braganças . possuir e transmitir a propriedade. Como ele terá notado . 1838-41). Boa parcela das lideranças que fizeram a independência e arquitetaram a nação tinha formação ligada às ciências naturais e aplicadas. movimento em que se colocou a questão da emancipação dos escravos. Tal fato fora sentido na pele pelo próprio José Bonifácio. há muito tempo boa parcela da elite ilustrada e liberal já não era portuguesa. em suas Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. Otávio Tarquínio de Sousa . permaneceria referencial e paradigmática no processo mais amplo de formação do Estado nacional. Sem passado nem futuro. enfim. ao retornar tardiamente ao Brasil em 1819. a temperatura. bem consideradas as coisas. Com a escravidão.que.vergonha que transborda dramaticamente em diversas memórias e cartas dramáticas . igualdade no modo de adquirir. conheceram outras terras e centros de pesquisa. como temia o comerciante inglês John Luccok. p. para usarmos a expressão de Johan Huizinga.. adocicados. Igualdade no exercício dos direitos. porém internacionalizada. esses reinóis vivem num mundo colonial convulsionado e atravessado pela insegurança. Quando José Bonifácio retornara ao Brasil. de que era "brasileiro". republicanista. e privilégios de indivíduos e de classes [. 1835-45) e a Revolução Praieira (1848). Interessa aqui frisar que. a Balaiada (Maranhão. 1951). reacenderam antagonismos..218 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 219 "Redescobrem-se" temas relacionados com o peso da natureza nesse novo imaginário. aprofundara-se o "teor violento da vida". nunca explicitado. e com raiva. a mais notável. e a questão social atenazava a consciência das elites nativas esclarecidas. O novo imaginário se alimenta do impacto da transferência da corte e do prolongado choque cultural provocado por centenas de reinóis que jamais haviam pisado em território americano. Descobria-se que a decantada "adaptação aos trópicos" não se daria assim tão facilmente. já agora "brasileiro". Mas não foi somente nesse segmento que ocorreram atitudes de inovação. o movimento de 1817 fora a primeira e mais radical revolução anticolonialista no mundo luso-afro-brasileiro. "Prefácio". provocaram desconfortos. A natureza.. distante da Europa desarranjada pelas revoluções e por Napoleão.. igualdade nos impostos. 1837-38). essas novas elites dirigentes emergiam na cena política tendo como expoentes o radical Frei Caneca e o inquieto irmão de José Bonifácio. Nos trópicos. a Cabanagem (Pará. Sempre evocada. os sabores. verdadeira antecâmara do movimento de Independência de 22. muitas lideranças ou ideólogos do Império participaram ou tiveram ancestrais com um pé em 1817. os cheiros mostravam-se diferentes.. Outros. dos Males (Bahia. valores e sotaque lusitanos ("sou português castiço") logo teriam de se adaptar aos modos e modas da ex-colônia tropical.J26 Em verdade. Liderada por setores da burguesia comercial nativa. a exemplo de Abreu e Lima (o autor de O socialismo. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil (2. Imaginário em trans-formação. cit. "politizaram" o debate. do clero e da administração.de acordo com seu principal biógrafo. Na revolução nordestina de 26 27 Cf. pelo simples argumento. 189. Ao "descobrir" o Novo Mundo sem fronteiras. 1835-40). dramático. de José de Alencar. Sua reconversão à terra natal se processou muito rapidamente. A revolução trouxe um forte sentido de ruptura e fundação republicanista. a da tutela inglesa. uma das personalidades mais prestigiosas do mundo português. ao não ser convidado a vir participar do ministério de João VI no Brasil. o pacto consensual Brasil-Portugal já vinha se rompendo. tenso. a terra já entrara no "perigoso rodamoinho que ameaça levar o País ao vórtice da Revolução". igualdade perante a justiça.21 Como se enfatizou. abrindo o ciclo de movimentos liberais-constitucionais e nacionais. desde as revoltas escravas de 1826 e. Mundo precário. pouco edificante em termos de brio nacional do "poderoso império". Projetos para o Brasil. Não há pois interesses. a Revolução Farroupilha (Rio Grande do Sul.

a historiografia mais recente vem cultivando a interpretação do processo de descolonização desde suas origens na Inconfidência Mineira (1789.centrada na construção da nação independente após a grande insurreição nordestina. ser e não ser no nascente imaginário social nacional (desde a poesia. trigos e farinhas. o ensaio histórico e po- 28 29 "Carta ao conde de Funchal". em seguida.220 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 221 1817 prefiguram-se também as dificuldades que o Brasil viria a ter.29 IV Quando. a "Nova Guiné do Rio de Janeiro". Mais ainda. em 1777). difusas porém impregnadas de valores do sistema ideológico configurado naquele período decisivo. Carlos Guilherme Mota. porém reagente às vanguardas mais liberais e republicanistas daquele tempo: Se já agora pudesse tomar a liberdade de lhe enviar por escrito idéias que me têm ocorrido sobre novas leis regulativas da escravatura inimiga política e amoral mais cruel que tem essa Nova China. ou o revolucionário Muniz Tavares. irmão do conde de Linhares (seu protetor até falecer em 1812). depois consolidada em grandes interpretações e. cit. entre outros. depois os sonhos nativistas-localistas dos inconfidentes e. se me dessem e me deixassem de mãos livres. nessa óptica. criar pescarias e salgações e experimentar o meu projeto de civilizar a cristãos e índios. cit. a História do Brasil? Numa abordagem mais ampla.. de projetos . até a expulsão do imperador Pedro I (1831). em 1813.. em seguida. João VI]. tendo como resultado uma teoria social duramente antiescravista bastante avançada (vale sublinhar). ou talvez mesmo na Inconfidência de Curvelo. em Nordeste 1817. as do reformismo ilustrado. nas simplificações para manuais de História do Brasil. liberal e ao mesmo tempo recolonizadora. seis anos antes de voltar ao Brasil. acompanhando a formação dessa ideologia . Ideologia nacional nascente que deixa para trás o desenho da "Nova Lusitânia". Um pequeno país que me convinha era Santa Catarina. Revela-se. para novos estabelecimentos de manteigas. mas não revolucionário. Bonifácio propõe "que se removam os obstáculos à indústria. a combinação de uma ponta de utopismo arcaico com a visão moderna e ilustrada dos males do mundo colonial.28 Como se sabe. queijos. pelo conde de Linhares. o Patriarca. defendeu em diversas ocasiões a educação física e científica. Quando começa essa História. E que não se impeçam "os vôos espontâneos da atividade particular". nessa permanência da velha idéia de Brasil como "Nova Lusitânia". Tudo porém dentro de certos limites. 1813. revela-se o busílis. se com o tempo e jeito não se procurar curar esse cancro.vale dizer. 163-72. mas ter no Brasil um "governilho" pequeno e bem organizado para cuidar: Já estou velho e mal-acostumado para ser sabujo e galopim de ante-salas. Império sonhado também pelo próprio José Bonifácio que. Pois as fronteiras de sua ideologia eram. ir plantar as artes e agricultura européia. o Brasil se descobre Brasil? Vale refletir a propósito da imagem aparentemente "estabilizada" e harmoniosa de "nossa" História. e que seria indicado para substituí-lo no ministério joanino. como a de muitos de seus contemporâneos. que amargurava alguns expoentes do reformismo ilustrado no mundo luso-brasileiro. quando o país já dera passos decisivos na consolidação de uma custosa emancipação política. em relação à metrópole portuguesa após a Revolução de 1820. Os modos pelos quais se consolidaram essas idéias de "Brasil" na primeira metade do século XIX. adeus um dia do Brasil.. que a razão e a ciência ganhem pés diariamente". entretanto. as utopias do "poderoso império". Poderia nele. o ensino da agricultura ("deve ser ambulatório") e a ginástica. criada a partir de relatos e projetos. porque detesto o ser desembargador de presente e de futuro. de literatura panfletária e viagens. Aqui. Pensamento brumoso. poucos anos depois. "As formas de pensamento reformistas". Rodrigo de Sousa Coutinho. mas se me quisessem dar algum governilho subalterno. manifestava ao conde de Funchal. folgarei muito ir morrer na pátria e viver o resto de meus dias debaixo do meu natural Senhor [D. pp. "para evitar revoluções". Prefere-se todavia uma outra perspectiva. cf. Domingos Antônio. A passagem da ideologia reformista ilustrada para a liberal pode ser acompanhada em personagens como o advogado Aragão e Vasconcelos. d. não desejar morrer como mero desembargador. Peço um governilho.] na razão inversa desde a nobreza até a plebe". pôr em administração regular os bosques. Criticando a "Nova China". pois sou português castiço. em seu amplo projeto civilizatório. sonhado. a instrução para as "diversas classes da nação [. ajuntando-se-lhe os campos vizinhos de Curitiba. em Projetos para o Brasil. .

era editor da revista O Progresso) e Abreu e Lima (o "general das massas"). ou mais propriamente. o poder metropolitano contra-revolucionário foi exercido de modo rápido. provocando seu exílio em Bordeaux). como se sabe.30 Mas o 7 de abril de 1831 constitui acontecimento decisivo e nítido: f~ sublinha o fim do processo de ruptura e se consolida a independência política nacional. A revolução foi regional. apesar de suas diferenças e antagonismos.e entrou nas argumentações pró e contra independência. dialética da colonização. se o soltarmos. de Victor Cousin. brutal e exemplar. p. Toda periodização pressupõe entretanto uma teoria geral da História. e impõe ou informa negociações. como se constatou nas intervenções do prestigioso deputado português Borges Carneiro. observa-se como a identidade coletiva foi se desenhando. nação precariamente independente . a conspiração dos Suassunas (1801) foi abafada em face da importância e prestígio social dos envolvidos. finalmente. Manuel Borges Carneiro e o Vintismo (Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. Na curva do processo. Aprofundemos a questão. liberais e conservadoras. o Brasil vai consolidar sua identidade propriamente nacional. no Brasil. desdobrando-se pelos anos 30 e 40. sugere que as forças nacionais. porém contra os facciosos rebeldes. Em Pernambuco. o quase-branco Tiradentes. é verdade. 221.222 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 223 lítico e a literatura em geral. No caso da História do Brasil em formação. parte do Reino Unido e. permanecem tema essencial para o historiador das mentalidades. t. econômico e político adensava idéias de revolução. sendo punido com a morte o mais modesto deles. já possuíam consistência para manter o Estado e a sociedade dentro de regras por elas criadas. até a música. o teatro). tomando forma e adquirindo sentido em oposição à metrópole. das disparidades internas. orientada pelo mesmo ilustrado Rodrigo de Sousa Coutinho: foram prontamente liquidados quatro modestos artesãos e muito mais gente perseguida. ao Rei e às autoridades constituídas no Brasil por aquelas e por este. a construção da nova ordem não pode deixar de traduzir a participação das diferentes regiões e interesses em jogo. a periodização de uma história que se autodenomine nacional só pode ter início em 1817. os negreiros. há-de trazê-los a obedecer às Cortes. Ao longo desse processo. se destacariam agentes de uma vanguarda já nacional-radical. como os conhecidos revolucionários pernambucanos Antônio Pedro de Figueiredo (o mulato "Cousin Fusco". Centro de História da Cultura da Universidade Nova de Lisboa. nessa lentíssima. quase consensual e aparentemente neutra. A ex-colônia . . aliás já esboçado na intolerada Constituinte de 1823 e definido. Negociações como as que se processaram nas cortes de Lisboa e que terminaram com a ruptura. depois nos embates com grupos que.define aos poucos sua fisionomia a partir dos conflitos com interesses monopolistas da ex-metrópole. tendo seqüência nas insurreições de 1817 . Abandonado finalmente o paradigma das Ordenações Filipinas em 1830. ou leão tal que. Já na repressão aos "pardos alfaiates" baianos. dentre muitos outros. a nação emergente precisará acionar um novo sistema jurídico-político.ramificadas por todo o Nordeste . em 22 de maio de 1822: Mostre-se ao Brasil que o não queremos avassalar como os antigos déspotas. constitui outro plano não menos importante das lutas sociais. 6. e logo depois acelerada. dependendo da vertente historiográfica adotada. mostre-se que ainda temos um cão de fila.. 1831 representa o ponto de inflexão: marginalizado o poder central. em Cultura e política. pois mobiliza e desmobiliza memória(s) coletiva(s). A perda do poder pelo representante da Casa de Bragança nascido em Portugal e a ascensão de seu filho. no plano das formas de pensamento nem tudo é pacífico.primeiro.imperador que será também exilado meio século depois . A partir dos confrontos e negociações de projetos entre suas lideranças ilustradas. representam o setor mais arcaico do Ancien Regime (nomeadamente. quando se inicia a ruptura. observa-se que a repressão à Inconfidência Mineira.aliás aguardadas . de cima para 30 Diário das Cortes. citado por Zília Osório de Castro. altamente burocratizada e ritualizada. Primeiro. A datação do início do processo de independência pode não ser nítida. tradutor da História da filosofia. e duramente esmagada. na harmonização. tanto na história concreta das lutas sociais quanto na historiografia. já brasileiro e controlado por / regentes que participaram das cortes de Lisboa . Historiografia que. velha e sofisticada praça internacional onde o milieu cultural. mas deu o sinal para uma série de outras mobilizações regionais . deu-se contra os brancos insurretos ou suspeitos. no processo de definição de sua própria existência (visto que antes do Primeiro Reinado tal história era um nãoser). 1990). demorada. sempre precária. em seguida nas dificuldades para sua inserção no cenário internacional (monitorado pela Inglaterra) e. Nessa perspectiva. que vencerão José Bonifácio. após 1822. nos trabalhos sobre fronteiras e mapas a sinalização é clara. perguntando: quando os Brasis se tornam Brasil! Se nos estudos geo-históricos.e na República de 1824.

o Brasil. provarás. pró-americana) e apaziguar os interesses envolvidos na região do Prata. porém. após a Semana de 22. buscando "nossas raízes". considerado a primeira obra que dava conta do Brasil contemporâneo. reprimir manifestações separatistas (como a avançada e republicanista Confederação do Equador. e estes. um olhar externo também assinalava a construção de uma identidade brasileira. e depois no Ato Adicional de 1834. com o registro do novo tempo. de Joaquim Manuel de Macedo. depois José Bonifácio e seu grupo. para a feitura de suas obras. exilando Ledo e sua facção. memórias que deixaram. remapeando. O contexto social. uma certa imagem do "tipo brasileiro" já estava consolidada. . Com efeito. do já citado amigo de Evaristo da Veiga. Antes. razões principais e finais. ou nas Memórias de um sargento de milícias (1852). mas o próprio Pedro I. a problemática da "nacionalidade". V Ora. prender prolongadamente Cipriano Barata e muitos outros. tocando-se. traduzindo. desenhos. tornadas "clássicas". também fixariam os traços da sociedade que se formava nestas partes da América do Sul. Aquele texto. a crise de 29 e a Revolução de 1930. o periodismo. 1824. recepções e desfiles em Londres e Paris. Gonçalves de Magalhães escrevera seu famoso Discurso sobre a história da literatura brasileira. porém. as forças progressistas. político e mesmo cultural. chama a atenção do observador a disparidade entre o colorido. Coroando o processo.. indicando uma maneira de se pensar. quanto mais em se tratando de uma reflexão histórica sobre essa literatura. a informação principal naquele período decisivo. Manuel Antônio de Almeida Memórios de um sofgento de milkios. ter sido ela elaborada pelo próprio Evaristo. um grupo-geração de intelectuais brilhantes. Muitos estrangeiros. ou seja. Vale relembrar que.224 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 225 baixo. cuidando. quando a nacionalidade é revista. John Armitage. garantindo-se um lugar liberal no panteão português. Da Constituinte de 1823. tornouse imperioso agenciar um custoso reconhecimento diplomático internacional. Não terá sido por acaso que. Ou seja. Não só as crônicas de viajantes e panfletos. e não menos importante. defensor do constitucionalismo. naquele mesmo ano de 1836. reeditando. à consolidação do reinado. Lideranças das camadas médias urbanas já atuam no cenário. pois.. exiladas ou anuladas paulatinamente. abominado pelo Andrada. exatamente um século depois. fechavam o círculo dentro do qual se passavam os terríveis combates das citações. seria necessário eliminar ou neutralizar as dissidências. como se constata em obras como A moreninha (1844). não por acaso fora escrita por um inglês: tão grande era a proximidade entre os dois que se acreditou. educadas nesse universo de sobrados e mucambos que dariam o tom à vida nacional no século XIX e parte do XX. os extremos se tocam. netos dessas elites oligarquizadas ao longo do século XIX. e a opacidade das narrativas já dos meados do século XIX. e todos esses trejeitos judiciais que se chamava o processo. reelaboravam. Visto o Brasil em conjunto na primeira metade do Dezenove. 1852 Em meados do século XIX. autores de Brazil and the Brazilians (1857). nos anos 20 e 30 daquela centúria difundia-se pelas elites a sensação de participarem de um momento fundador e de descobertas. naturalistas e artistas que aportaram à ex-colônia. já em 1836. de caráter muito avançado para o tempo. Para colocá-lo em prática. já se alterara substancialmente. no Brasil. exilado. acabaram por ser chamadas de volta. com a outorga da Constituição de 1824. vivacidade e a qualidade das informações da grande maioria de viajantes. sobretudo em face da manutenção do regime escravista. novos viajantes como os norte-americanos missionários protestantes Kidder e Fletcher. o que se comprova nos registros. É fato consabido que nada mais definitivo há do que a produção literária para sublinhar uma identidade. Não por acaso esses redescobridores do Brasil das primeiras décadas do século XX buscaram. durante muito tempo. marcada por um olhar nacional. "nossa formação". de Manuel Antônio de Almeida. de organizar a reação a seu irmão absolutista Miguel. no sentido de se criarem condições para uma visão de mundo mais urbana e internacionalizada. e por essa razão abortada. revirando bibliotecas européias em busca de originais e do riquíssimo material deixado por aqueles personagens que certificaram o nascimento de uma nação. que traduziam a mediocrização da vida comum. surgia em Londres a famosa History of Brazil. irão procurar novas interpretações do Brasil. articulado por José Bonifácio e mal administrado pelos sucessores. como vimos. revelaria algum brilho em suas viagens.

como concluía Magalhães em seu célebre Discurso. diversa. aparecendo o classicismo como manifestação do passado colonial. Pois. e a despeito de serem muito marcados pela "Madama" de Staêl e outros.. de vez que. introduzindo suas idéias a Magalhães. ex-estudantes. José Bonifácio.1830 e 1848. embora . com suas maneiras pequeno-burguesas. reformista ilustrado e universalizante para o do intelectual particularista alinhado na tarefa patriótica na construção nacional". não abandonaria a problemática da independência. João Manuel Pereira da Silva. Discurso sobre a história da literatura do Brasil. como analisou Antônio Cândido. No plano do saber institucionalizado. Desse modo. o ex-diretor do famoso Reverbero Constitucional Fluminense (1821-22). a passagem do "tipo-ideal do intelectual esclarecedor. na política e cultivando os estudos históricos. 34 Gonçalves de Magalhães. antes reforçava-a. nem clássicos nem portugueses.. adquiriram consciência da necessidade de promoção de uma literatura autônoma. com foco em Paris entre 1833 e 1836. A tônica. 11. II. Porto-Alegre tivera contato com o português Almeida Garrett em 1832. No Brasil. mobilizaram contingentes de pesquisadores. davam um sentimento de libertação relativamente à mãe-pátria". empostando a voz das camadas médias urbanas emergentes.32 Liderados por Gonçalves de Magalhães. E suas relações se estendiam a Portugal. mais os impulsos do capitalismo industrial nascente. por sua vez. com o projeto de articular "no plano da arte o que fora a Independência na vida política e social". mas sim com o fim de tirar úteis lições para o presente. Liderados por Gonçalves de Magalhães.226 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 227 Na primeira metade do século XIX. p. aprisionado nos quadros mentais do classicismo. políticos. o patriarca da independência. cit. como se verifica nas conclusões do famoso Discurso sobre a história da literatura do Brasil (1836): Como não estudamos a história só com o únicofitode conhecer o passado. 51. artistas e escritores. negociantes. 33 Antônio Cândido. seguia com admiração a atividade jornalística de Evaristo da Veiga que. milhando na literatura. estimulados pela liberdade de expressão pregada por seu inimigo Evaristo da Veiga e adeptos. Cria-se.um tanto inspirados por Chateaubriand. que a marcha reflectida e regular da servil imitação". participavam desse grupo de Paris Francisco de Sales Torres Homem. na busca do nacional idealizado. elaborava-se uma nova linguagem. a biologia e a antropologia. As revoluções burguesas de 1820. nota-se. Madame de Staêl e Garrett. e com uma "colônia" de gente franco-brasileira. com os temas do nativismo agora revestidos e adensados por forte sentimento patriótico. Nesse processo. Formação da literatura brasileira (São Paulo: Martins. Ele e seus admiradores viam-se obrigados a ceder passo ao movimento de jovens que. Formação da literatura brasileira. desse grupo. 1964). cit. 12. depois a sociologia. com Januário da Cunha Barbosa. Esse grupo. o que talvez explique a rápida e entusiasmada adesão deste ao romantismo. dada pelo romantismo. Manuel de Araújo Porto-Alegre.. chegado no ano seguinte a Paris. indicando o sentido geral da construção da contemporaneidade. "uma literatura independente. ainda nas palavras do autor da Formação da literatura brasileira. vol.. não apenas uma literatura. vendo-se obrigado a esquecer o que lá aprendeu para pensar o Brasil. 1994). 50. o nacionalismo literário e a busca de modelos novos. assim no estudo do que chamamos modelos não nos devemos limitar à sua reprodução imitativa.. Observando-se o perfil dos formadores da nacionalidade. p. ficaria marginalizado das novas tendências dominantes de seu tempo.34 31 Antônio Cândido. o mais combatente da independência. lutava pela expressão de um país livre. Discurso sobre a história da literatura do Brasil (Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. o movimento geral das idéias vinculava-se à formação dos novos Estados-nação e da expansão imperialista. no diapasão do tempo. adotavam teses que repudiavam a imitação. p. de vez que. Gonçalves de Magalhães. homens de negócios. Na França mantinha contatos diretos e indiretos com Ferdinand Dénis.diga-se . firmam-se os estudos históricos e lingüísticos. o velho árcade Américo Elísio. "mais vale um vôo arrojado deste gênio. p.31 Até o ex-liberal Bernardo Pereira de Vasconcelos chegaria a dizer ter-se tornado "bárbaro" a partir dos estudos na Universidade de Coimbra. e do Diário Fluminense (1830-31).. livreiros.33 Tal grupo integrava-se nas correntes do romantismo e do nacionalismo da época. 32 .

Os ingleses. foi membro das Sociedades de Medicina e de História Natural de Edimburgo.35 A obra apresenta. o "general das massas". note-se). com cerca de 60 páginas. Lineana de Nova York e Paris e. para além dos registros. Sua obra em dois volumes. Têm-se. do Cousin Fusco. O tomo II abarca da morte de d. Tais livros aparecem num contexto em que a vida do país atravessava fase de grandes convulsões. escrito pelo general José Inácio de Abreu e Lima.228 Carlos Guilherme Moto Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 229 vi Mas a expressão mais forte e sistemática dessa consciência histórica e identidade nacional formulava-se na produção historiográfica. somente pode ser captada na historiografia que se define no fim dos anos 30 e início dos anos 40. ficção e. Seguindo de perto os acontecimentos. ou melhor. na qual se destacavam figuras como Evaristo da Veiga e Bernardo Pereira de Vasconcelos. n° 12. neles. situada na rue de Ia Vieille-Monnaie. produzir histórias não é a mesma coisa. inaugurando uma nova fase de conhecimentos sobre o Brasil. chegando a apeá-lo do poder. dentre outros: a História do Brasil. dois livros tornam-se desde logo fundamentais. ainda. obrigando-nos em conseqüência a repensar a história das ideologias e mentalidades no Brasil do século XIX. a consciência de nação somente se consolidaria plenamente quando se conseguiu elaborar uma história própria. Todavia. de Francisco Solano Constâncio. É ela que nos interessa nesse passo. Ao localizá-los no contexto da época. Difícil entender-se como sua obra. por outro lado. quando menos. revelam perspectiva mais avançada e estimulante que os de Varnhagen. da ficção. Esses dois historiadores são também contemporâneos da fundação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1838) e viveram no clima político da declaração da maioridade de Pedro II. em 1654. longevidade. as faculdades de Direito de São Paulo e de Olinda. Formavam-se as novas elites nacionais. e até contra mulheres solteiras e casadas". No primeiro volume. abrangendo desde aspectos geográficos até informações sobre clima. memórias. escravidão. João IV e regência da rainha d. O ambiente conturbado do país pode ser apreendido em observações do livro de Solano Constâncio. na 11. Em inúmeras obras de autores estrangeiros surpreende-se a existênciaou. Solano Constâncio. Constâncio julga que o limite natural da presente história deveria ser a separação definitiva do Brasil (já com s. pois "quando as luzes se apagaram ele recebeo uma forte contusão na testa". dando-se novo impulso à intensa atividade jornalística já existente. até "expedicções nocturnas das quais o próprio imperador participou mascarado e com dois valentões". de anuários e cronologias. do barão de Caxias. Nessa perspectiva. deixaram textos históricos de maior valor por revelarem a compreensão de História enquanto processo. numa delas levando a pior. . dentre os quais o referido Armitage talvez seja o mais importante. tema de História das Mentalidades. etc. tendo sido impressa pela famosa Typographie de Casimir. e o conhecido Compêndio da história do Brasil. da definição de uma identidade histórica propriamente nacional. apareceu em 1839 editada em Paris pela Livraria Portugueza de J. médico. com quase 500 páginas. havia dez anos. dois marcos que indicam a abertura de um novo período na história do autoconhecimento. "Brazil". brasileira. Nessa perspectiva. reino mineral. autor do Dicionário crítico e etimológico da língua portuguesa.de formulação e interpretação histórica sobre o que vinha a ser o "Brasil". aparece sob variadas formas. Como e quando nasce tal identidade? Aqui nos deparamos com a questão central em nosso excurso: descrever e narrar. esboços . uma consciência propriamente nacional. lideranças que tanto aborreceram Pedro I. Luísa às primeiras expedições para descobrir mina (1674-75) até a abdicação de 1831. doenças. para além dessas "petites histoires". em que menciona desde "attentados contra diversas pessoas. apresentandose de modo variado no quadro geral das representações mentais do período. escrever diários. A nosso ver. O resto é História. ficou à sombra durante tantos anos. apresentando relato ano por ano dentro de uma linha "analytica e chronológica" rigorosa. a História do Brasil de Francisco Solano Constâncio surpreende por sua qualidade de interpretação e argumentação consistente. permitindo fixar novos marcos na História da Historiografia no Brasil. Vale notar que Constâncio e Abreu e Lima são contemporâneos de Feijó. população. quando foi reconhecida 35 No Quai Voltaire. nos estudos historiográficos. um diagnóstico do Brasil em 1831. Nada obstante. fósseis. na introdução. não se deve ainda perder de vista o fato de estarem já em funcionamento. trata desde o descobrimento até a expulsão "completa" dos holandeses do Brasil. Solano Constâncio organiza uma interpretação que revela por inteiro sua teoria da independência. P Aillaud.

lutador da independência e ex-revolucionário internacional (combatera sob o comando de Bolívar). político e literário do Brasil. nem sempre bem escrito. já em meados do século XX. Uma maneira inovadora de entender-se o Bra36 37 Embora controverso. como também o tipo de narrativa de Solano. Ele enfatiza o papel e a probidade de José Bonifácio. 4 ' Sobre o autor. pois revela uma certa simpatia por Pedro I e esperanças em Pedro II (a quem o livro é dedicado). quatro meses depois da coroação de Pedro II. publicado em 1835. a nosso ver. critica o desprezo do imperador pela "opinião publica" e o confronto com o ministro da Fazenda. então recorria à astúcia [. 3s . em História e historiadores do Brasil (São Paulo: Fulgor.40 Solano menciona a perseguição de d. Déspota por inclinação e hábito. 1943). queria derrubar Pedro do trono. quando ainda continuava a guerra civil no Rio Grande do Sul. Denuncia. Pedro a jornalistas e à liberdade de expressão. repontando. como até aqui. preocupado em fixar e controlar as atitudes do Príncipe Regente. nas interpretações de Otávio Tarquínio de Sousa. ed. 40 Ibidem. e do qual aagora descia sem que hum só indivíduo compadecesse de sua sorte. de fato. Rio de Janeiro: Paz e Terra. e Abreu e Lima demarca e periodiza a nova etapa: Uma nova era começou no 18 de julho de 1841. revela-se positivo sobretudo quando descreve movimentos de insurreição como os de 1817 e 1824. e vis cortezãos.39 Havia. ver José Honório Rodrigues. podem [os novos tempos se] annunciar como muito lisongeiros debaixo do reinado do SEGUNDO PEDRO. em outros historiadores que se lhe seguem. nem perseverança para o seguir com firme resolução. tyrannicos senhores. o marquês de Barbacena. ed. História do Brasil. tão pouco tempo havia. "recomendando as instituições da Federação Americana como modelo que se devia imitar". ainda. e o fato de ter recorrido in extremis a José Bonifácio ("De Vossa Magestade nem hum copo d'água aceitarei". muita expectativa no ar quanto aos destinos da nação.38 E perguntava o "General das Massas": "Quaes serão os futuros do Brasil?". Compêndio de história do Brasil (Rio de Janeiro: Eduardo e Henrique Laemmert. 1965) e Teoria da História do Brasil (5. Pedro a descer de um throno onde.41 Seu Compêndio. não podia deixar de ter funestos resultados.. Historiando o insucesso na guerra contra Buenos Aires. analisando a atuação diplomático-militar do Brasil no Rio da Prata. ou fala do fuzilamento de frei Joaquim Caneca. 1978). 5.e aqui reside a importância da crítica e reconstrução historiográficas -. com poucas alterações . do início de uma tradição historio gráfica que merece referência e atenção.. 39 José Inácio de Abreu e Lima. Já Abreu e Lima é mais citado. Rio de Janeiro: Nacional. assim como dez annos antes tinha marcado a Providência um deccenio para o nosso purgatório. cit. Trata-se.] Essa contínua instabilidade.. teria dito o Patriarca). conclui: Não tinha talento para meditar e coordenar hum plano. deve ter sido muito impactante e convincente. o tinha levado o voto geral dos Brasileiros. Abreu e Lima. Não somente tal interpretação. Pedro foi sempre a violência. "homem ameno de variada cultura".. Ver o estudo introdutório de Barbosa Lima Sobrinho a O socialismo (2. Se o mau fado nos não persegue mais. p. articulando uma nova periodização em que se enfatiza o processo de independência e a expulsão do imperador. ele termina seu Compêndio de história do Brasil em 1841. pois pode ser reencontrada. "José Inácio de Abreu e Lima". quando Brasil carecia de hum bom systema de administração adotado com madurez e seguido com constância. rejeitado. e quando não podia vencer a resistência. "A periodização na História do Brasil". que Caldeira Brant inseria em jornais republicanos artigos violentos contra o sistema monárquico. começando-se então "uma nova épocha": Mas pareceo-nos acertado reservar para remate a Revolução que obrigou o Imperador D. cap.230 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 231 sua independência pela Coroa de Portugal. 415. p. Ao criticar a atuação desastra- Francisco Solano Constâncio. o primeiro impulso de D. Retomando várias teses de seu famoso Bosquejo histórico. criado entre míseros escravos. embora não haja estudo aprofundado que o situe no contexto da historiografia nascente. que. 1979). contrapondo-se à visão bragantina e reacionária de Varnhagen. 304. p. Ibid. 414.36 Após comentar a atuação de Pedro. produziu interpretação em geral progressista da História.37 sil e se interpretar a História destas partes na perspectiva da descolonização.

Nação que. uma certa idéia desse todo nacional. um povo. Nesse momento em que a idéia de Brasil-nação se afirma em cada embate. elaborada por um homem de ação. tornando o livro mais manual". a marquesa de Santos. fantasma político do qual falava Abreu e Lima. pois. abreviando um pouco a leitura. um hino com uma letra fantástica. no caso vertente. lembrando a velha estória dos irmãos inimigos). de interpretações. embora não tenha se transformado em dominante. como demonstravam os movimentos e levantes políticos e sociais do período regencial. O volume em foco é uma edição abreviada. o padrinho velho e sábio José Bonifácio. para além da história convencional ou "oficial". publicada em Paris em 1839). muito ao contrário. de uma "edição mais adequada para os COLLEGIOS e para toda a Mocidade Brasileira que pelo volumoso não intimidasse os jovens leitores".quando não admiração .. depois uma origem precisa entre 1817 e 1824. Nesse sentido. uma família com o avô liberal (d. a dedicatória a Pedro II não invalida suas formulações mais duras e independentes ao longo do Compêndio. menciona inclusive o trágico episódio em que morreram sufocados 254 insurretos no porão de um navio. de vez que os Braganças continuavam no poder.. desigual. e por isso mesmo apreciava com certa complacência . que em época de crise volta a ser chamado para cuidar do netomenino Pedro II. a seu modo. Sobretudo em relação à antiqüíssima História de Portugal. um lugar de nascimento (no riacho do Ipiranga. a nosso ver. ainda. cuja identidade se reitera e reconstrói a cada embate. e a Cisplatina). reforçando o paternalismo duro de Pedro e a "bondade" do avô Andrada. seja na França de Charles Fourier e de Horace Say (o autor da Histoire des relations commerciales entre Ia France et le Brésil.. Domitila. completando o quadro.j á brasileiro. Deu-se. o "berço esplêndido"). a partir do conflito colônia-metrópole. A construção de uma identidade nacional se dá formulando-se uma história própria. E. Já Varnhagen ficaria conhecido. inventando-se um passado. Construía. Apesar de tratar-se de interpretação cheia de altos e baixos. dois outros marcos da denominada historiografia nacional. com notas e documentos e sete estampas "muito finas". uma mãe austríaca e sábia (d. como se sabe. Pedro). acontecimento que bastaria para pôr abaixo a interpretação oficial de uma história harmoniosa e incruenta. Os estudos e as pesquisas historiográficas vêm recuando no tempo no sentido e no esforço de se rastrearem os fragmentos de textos e relatos que permitam compreender a passagem da crônica e do memorialismo à interpretação histórica compendiada e "estabilizada". seja em relação a congêneres em Portugal. Ou seja. Imaginário que se sustenta com a continuidade bragantina. na construção de seu imaginário. não poderia ser só de lutas. sobretudo com a tutela estrangeira (inglesa) e com a escravidão (de negros africanos). 1830). a permanência de dois monarcas da família dos Braganças à frente do Estado independente amorteceu o caráter revolucionário da descolonização.. e criticado. o Patriarca. depois. nos Estados Unidos. revela a existência de bolsões de produção e reflexão intelectual que devem ser reavaliados. o autor do importante ensaio sobre revolução e contra-revolução em Portugal na balança da Europa (Lisboa. Tal passagem. um inimigo conspirador na família (d. além do amigo boêmio Chalaça. A idéia contemporânea de Brasil se funda quando se consolida na historiografia uma idéia de nação. tal história obviamente não era tampouco de quietação. sábio e . . um pai jovem e impulsivo (o príncipe d. uma intensa e prolongada "negociação" de sentidos. Leopoldina). Mas ela tem altitude se situada no contexto da época. Claro que existem problemas. Do contraste entre esses autores com Varnhagen ou Pereira da Silva. uma guerra (em verdade duas: contra os portugueses de Avilez e Madeira. houve até perigo de um retorno de Pedro I. constata-se que uma historiografia propriamente nacional mais consistente e mais sofisticada antecedeu a visão "oficial" do Brasil. uma interpretação dos conflitos.232 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 233 da de Cochrane e Grenfeld no Maranhão. general. e incorporando as diferenças ou sedições externas. Trata-se. Sua qualidade nada desprezível.sobretudo . a fronteira mais problemática do território nacional. que se prolongaram pelo Segundo Reinado. inclusive no tocante à Província Cisplatina. De outra parte. Por certo Abreu e Lima. como Almeida Garrett. dos dois grossos volumes originais. Visão que. teve seu "embrião" na colônia. mais os traumas de nascimento. jovem. ele oferece informações por isso mesmo importantes. para se acertar uma visão histórica "equilibrada" do passado com o presente. ela entretanto se sustenta numa perspectiva nitidamente nacional. suavizada com o segundo Pedro. dissolvendo e harmonizando as contradições internas. João VI). sempre revelou uma visão hierárquica em suas atitudes. de William Lloyd Garrison. Miguel. Uma edição que facilitasse a "profícua instrucção que a Mocidade deve colher sobre a Historia pátria. como os editores informam na abertura. por seu aulicismo militante. formato pequeno. simpática em geral aos revolucionários.a atuação de almirantes e comandantes em suas relações com subordinados. lutas e ajustamentos. No caso de Abreu e Lima. constitui importante indicador na longa trajetória de colônia a nação.

marcada por supostas continuidades.. sabedores (supunham eles e os áulicos do Segundo Reinado) do "véritable point de vue ou doit se placer tout historien du Brésil". mas não se sabia o que era viver em nação independente. surpreendem-se algumas formulações nas vozes de escritores e ex-participantes das revoluções de 1817. 69. tendo escrito também uma biografia de Pedro I. cit. Essas formas de pensamento contra-revolucionárias regressivas marcariam indelevelmente a mentalidade nascente da "Democracia coroada". Essa transição foi percebida pelo professor e jornalista Justiniano José da Rocha (1812-1862).234 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 235 O mito de uma história sem rupturas. os "anarquistas". prenhes de certezas quando se posicionavam para escrever sobre o Brasil.]". ed. Parte VII [. Trata-se de uma elite liberal. Por volta de meados do século XIX. 1.42 Em resposta às insurreições e levantes. Mas. as pessoas sentiam mais em seu cotidiano o peso do mundo exterior. citado por Otávio T. eu vi com pesar os moderados ao leme da revolução [. Sobre a. Deputado. revoluções..] eu vi com pesar os moderados ao leme da revolução. escritores e publicistas abria outros horizontes mentais. exdeputado junto às cortes e figura importante na Regência e nos anos 50. O mundo dos sobrados e das cidades. Cronista e. Teófilo Otôni [. 2. em À margem da História. vem daí. Projetado por homens de idéias liberais muito avançadas.. como era o citado Evaristo da Veiga. Circular. Nada obstante. de Varnhagen e dos ideólogos da contra-revolução. 1822. journée. com vertente mais tipo classe média (retiro esta expressão de Caio Prado Júnior e Paulo Mercadante).. um modo de interpretar o mundo que envolve essa idéia essencialmente cultural que evoca a palavra "Brazil". para Euclides da Cunha. de leitores de Constant e Bentham. conflitos e levantes de escravos sob a Regência. reformista. transação** onde conclui: O observador que desprevenido confrontar as épocas. e os liberais de 1841 a 1851 desempenharam o mesmo papel. numa vertente mais conservadora.] O que houve foi o caso vulgar das revoluções triunfantes [. do vapor. engenheiros. fundou os jornais Atlante. Digamos melhor: umo situação de equilíbrio. de Sousa em Evaristo da Veiga... ao substituírem os velhos engenhos.. cit.. viveu-se a maior mudança da história do subcontinente.. Secretário do Clube dos Amigos Unidos. Carioca. se considerada na vertente que se desdobra de José Bonifácio a Machado de Assis e Gilberto Freire. Mas ficaria famoso pela autoria do definitivo documento-panfleto Ação. demarcando a passagem para uma nova fase. uma postura. jurado sobre o sangue dos Canecas e Ratclifes. até então. Independência. fizeram os mesmos benefícios [.. Ou.. 1901. Brasil. reação. na ordem liberal e pesadamente unitária. inteligente e generosa. iniciado em outras reuniões secretas. Justiniano José da Rocha estudou no Liceu Henri IV em Paris e se formou em direito em São Paulo. médicos.] 0 segundo império foi uma parada. p. na significação mais lata da palavra. Euclides da Cunha e por essa razão os liberais avançados. e sobretudo entre 1817 e 1850. raramente revolucionária. a ideologia da contra-revolução logo se instaurou. no esforço de abafar a utopia republicana.] O Brasil adquirira nova fisionomia. instabilidades. 1855.] Estávamos como nos grandes dias da Convenção" ("Da Independência à República". se cultivada na perspectiva de Martius. J . foram alijados da história. de 1839 a 52. Nem em cidades cosmopolitas. "o conceito é falso [. davam novo tom à vida. 43 Rio de Janeiro. com escravos. 99. ed... temia-se a república. 1824 e 1831 que permitem detectar essa nova identidade nascente. 158 e 162. a chegada da corte. Deixava-se de viver em colônia. Ou rígida e aborrecida. sobretudo. Desde 1808. cujas idéias podem ter o sentido de contraponto e finalização do processo da independência. As usinas. solta. p. das pontes de aço e das ferrovias. Primeiro. a voz do senador Nicolau Vergueiro. Mas também uma certa maneira de pensar. pp. dos bacharéis. verá que em tudo e por tudo os caramurus de 1831 a 1836.. as ambigüidades da escravidão em contraste com os desafios das inovações que emanavam dos principais centros do capitalismo. cf. que nos dois últimos anos espreitavam somente a ocasião de dar com segurança o grande golpe. cometeram os mesmos erros. depois as insurreições. o movimento tinha por fim o estabelecimento do governo do povo por si mesmo. 42 O julgamento sobre os rumos que tomou a "revolução" do 7 de abril de 1831 foi feito por Teófilo Otôni: "O 7 de abril foi uma verdadeira journée des dupes.

44 Concluindo. São Paulo: Brasiliense.] Sob o pregão do progresso conservador apareceu a época da transação. denunciava a volta do "despotismo imperial" e. 1985). 1995. 1985. 1982. 1996. 3 "Reações e transações". Rio de janeiro: Editora da UJ^RJ/Relume-Durnará. 1985. O "progresso conservador" vencera. rev. 1975. Guerras civis em Pernambuco no século XIX. BEIHELL. a "estabilidade" do Segundo Reinado e a consolidação de um Estado nacional dependente. Relatos de viagem e transculturação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. escrevera o Libelo do povo (sob o pseudônimo de "Timandro").) . Imprensa e ideologia em São Paulo. Aspectos da influência britânica sobre a vida. Luís Henrique Dias. Arnaldo D. onde a democracia havia posto um elemento seu. como se percebe pelo julgamento do jornalista. e aum.) CONTER. vol. & FLORENTINO. A nação estava constituída. FREIRE. levantes e movimentos revolucionários. o retorno dos "inimigos da Nacionalidade". José Honório. vol. 1988. 2. São Paulo: Edusp. Teatro de sombras: a política imperial. "Vida política.). Mansa & ZILBERMAN. de 1936. Liberais e conservadores assemelhavamse em sua visão de Brasil e. que seriam. 3. O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. A seu lado. Liberais & liberais. antiescravista. vol. Sérgio Buarque de (org. ed. CARVALHO. é um dos momentos vivos do jacobinismo nativo. O parlamento e a consolidação do império. 2 "Dispersão e unidade". Recife: Fundação Joaquim Nábuco/Massangana. Origens e unidade (1500-1960). sociedade agrária e elite mercantil no Rio de Janeiro. conflitos. 1994. soldando as diferenças. Alfredo.. formado em medicina no Rio e direito em Paris. 44 Francisco Iglésias. Rio de Janeiro: Diadorim. a Praieira. Tomo II. Ele.. com o Libelo do povo. BANDEIRA. meio século depois. 1848-1868". mas havia a consciência desse processo de desmobilização nacional. Rio de Janeiro. A formação da leitura no Brasil. 14. 347. Jeanne Berrance de. como Euclides documentaria o fim de uma época.). denso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: Cultrix. Brazil: Empire andRepublic. v. 1 "O processo de emancipação". Mary Louise. Ver também sua clássica História da sedição intentada na Bahia em 1798. 359. Presença dos Estados Unidos no Brasil. A literatura brasileira. 1999. "Timandro. FERRAZ. TAVARES. 1999. Recife: Editora Universitária da UFPe. p. No juízo do historiador mineiro Francisco Iglésias. MARSON. Cambridge: Cambridge University Press. Izabel Andrade. FRAGOSO. (Coleção Brasiliana. São Paulo: Nacional. 1998. radical. Decadência do patriarcado rural e desenvolvimento do urbano. Justiniano sinalizava o fim de um período. 1987. Manolo. . PRATT. mal esconderiam tumultos. Bauru: Edusc. Brasília: Centro de Documentação e Informação. ed. HOLANDA. São Paulo: Difel. João Luiz. 1840-1861. 1822-1842. Raymundo. LAJOLO. vol. Prefácio de Sérgio Buarque de Holanda. detentor da idéia desmobilizadora e sufocante de um Brasil "estável". Os donos do poder. porém. 1977. Regina. Leslie (ed). esse estado de coisas. com ele. do "grupo de Paris". 1948. cada um a seu tempo. não estava só. Prefácio de Armando Souto Maior. História geral da civilização Brasileira. Os olhos do império. São Paulo: Ática. Bosi. provocado pelos eventos de 1848". Bibliografia selecionada ANDRADE. Porto Alegre/São Paulo: Globo/Edusp. a Farroupilha. 1979. Rio de Janeiro: José Olympio. Moniz. José Murilo de. Gilberto. 1973. 3. despontava também a dura crítica a. aplastados pelos mecanismos políticos e culturais criados nessa longa história de formação do patronato político brasileiro. São Paulo: Pioneira. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. como a Cabanada. 1975. FAORO. A Revolução Praieira. 1996. c. Socorro. Contribuição à história do Congresso Nacional do Brasil no período da monarquia. nos quadros do neocolonialismo. o contemporâneo Francisco de Sales Torres Homem (1812-1876). ed. José Aderaldo. ed. 1840. também ele. História concisa da literatura brasileira. RODRIGUES. Matizes do vocabulário político e social. Rio de Janeiro: José Olympio. CASTELLO. História geral da civilização brasileira (5. vol. O diagnóstico demolidor de Justiniano José da Rocha encerrava um ciclo de reflexões sobre o Brasil. 1993. Dois séculos de história.236 Carlos Guilherme Mota Idéias de Brasil: formação e problemas (1817-1850) 237 O trabalho da reação monárquica foi completo. Formação do patronato político brasileiro.Confederação do Equador. Ingleses no Brasil. O império do progresso. unido. 2 vols. Cipriano Barata de Almeida. a reação colocou um elemento oposto [. Sales Torres Homem. 2 tomos. 1989. 1822-1930. O Brasil monárquico. 1790-c. 1961. CASTRO. publicação em que. a paisagem e a cultura do Brasil. São Paulo: Difel. A milícia cidadã: a Guarda Nacional de 1831 a 1850. Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro.). (1. Sobrados e mucambos. tomo II. em Sérgio Buarque de Holanda (org. Manuel Correia de (org. 1790-1830. Petrópolis/Campinas: Vozes/Unicamp.

238 Carlos Guilherme Mota URICOCHEA. de Almeida. The modem world-system III. I730-I840s. 367. 1978. 1808-1850. The second era ofgreat expansion ofthe capitalistworld-economy. Immanuel. São Paulo: Nacional. WALLERSTHN. Brasiliana. São Paulo: Difel. Desafio americano à preponderância britânica no Brasil. Fernando. WRIGHT. 1972. 1989. Antonia Fernanda P. vol. O Minotauro imperial Burocratização e Estado patrimonial brasileiro no século XIX.) I . (Col. Nova York: Academic Press.

Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista

João José Reis

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J_-/urante a maior parte do século XIX, a escravidão no Brasil experimentou uma vigorosa expansão, associada ao incremento da lavoura de exportação, o crescimento das cidades, a intensificação do tráfico de escravos. Nos primeiros anos do século, a economia açucareira já havia se recuperado de um longo período de estagnação, aproveitando um mercado internacional que se tornara menos competitivo com a saída do Haiti, seu maior fornecedor até a revolução escrava que destruiu sua economia exportadora juntamente com o regime escravista. Os engenhos brasileiros prosperaram até que, a partir da década de 1830, tiveram que enfrentar o crescimento da produção do açúcar cubano e daquele extraído da beterraba. Também prosperaram os campos de algodão em diversas regiões, no Norte. Minas Gerais, apesar da decadência da mineração, tornou-se um fenômeno de utilização maciça e diversificada da mão-de-obra escrava, não só na nascente lavoura cafeeira, mas sobretudo naquela dedicada ao abastecimento interno, fazendas de gado, pequenas fundições, indústria têxtil, além do que restara da prospecção mineral. A escravidão ganhou também volume nas charqueadas e plantações de chá e cereais sulistas, no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. Foi entretanto nas lavouras de café onde o trabalho escravo mais vicejou durante o século XIX, após tentativas malsucedidas de utilização do trabalho de colonos imigrantes. Produzido em várias regiões do Brasil, seu cultivo se concentrou no Vale do Paraíba a partir da década de 1830 e posteriormente ocupou largas áreas do oeste paulista, fazendo dessas regiões o grande celeiro do escravismo na segunda metade do século. Entretanto, a escravidão envolveu praticamente todas as atividades produtivas, e não apenas aquelas ligadas ao setor exportador. Já mencionamos

* Este trabalho faz parte de um projeto mais amplo apoiado pelo CNPq.

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João José Reis

"Nos adiamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista

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o caso de Minas Gerais, a respeito do qual devemos acrescentar que a região chegou a ter a maior concentração regional de escravos não dedicados à agricultura exportadora. Mas em diversas outras regiões também observase a presença maciça de trabalhadores cativos nas lavouras de abastecimento interno, na plantação de cereais, da mandioca, de produtos hortifrutigranjeiros, na pesca, na caça, na coleta de madeiras, em pequenas indústrias. Registre-se, finalmente, a formação de grandes centros urbanos escravistas, como Recife, Salvador e sobretudo o Rio de Janeiro. O Rio chegou a representar a maior cidade no hemisfério em população escrava, que se aproximou de 80 mil em meados do século. Nas cidades desenvolveu-se um sistema peculiar de trabalho escravo ao ganho, abrangendo sobretudo os serviços de transporte de cargas e pessoas (em cadeiras de arruar), mas também o pequeno comércio ambulante, nos ofícios manuais e, é claro, o serviço doméstico, um setor numeroso e ocupado principalmente por escravas. A escravidão brasileira alcançaria seu ápice no século XIX, difundida como estava em todo o território nacional, os diversos setores da economia, conformando praticamente todas as instituições sociais, inclusive a família. Saliente-se também que a propriedade sobre escravos não se limitava a grandes senhores de engenho, fazendeiros e mineradores. Tanto no campo como na cidade era grande o número de pequenos escravistas, donos de um, dois, três escravos, trabalhadores na pequena lavoura, nos serviços de rua ou no de casa. Por todas essas características, os escravos marcaram em profundidade os costumes, o imaginário, a cultura e até, através de uma intensa miscigenação, o próprio perfil étnico-racial de nossa população. Tendo sido o Brasil o último país do hemisfério a abolir a escravidão, em 1888, pode-se dizer que a história do século XIX brasileiro, que viu esse imenso território formar-se enquanto nação independente, se confunde com a história do apogeu e queda do regime escravista. Nesse sentido, os números da demografia são eloqüentes. Foi durante o século XIX que o país mais recebeu escravos africanos, se contabilizados os quase três séculos de duração do tráfico de seres humanos. Como é sabido, apesar da proibição desse comércio em 1831, ele prosseguiu até 1850. Nessa primeira metade do século, estima-se que entraram no país cerca de um milhão e meio de africanos, principalmente através do porto do Rio de Janeiro, sem dúvida o maior terminal do tráfico no Atlântico. Segundo uma estimativa recente, entre 1790 e 1830, ali desembarcaram 697.945

escravos, 123.590 apenas nos três últimos anos do tráfico legal (1828-30).l Dessa forma, em quarenta anos o Rio importou o equivalente a mais de um terço da população cativa no Brasil em 1818, que era de 1.930.000 pessoas, e, ainda, o equivalente a cerca de 17% de todos os escravos importados para o Brasil enquanto durou o comércio negreiro. O tráfico se constituiu no mecanismo mais usado para repor a mão-deobra escrava ao longo da história do escravismo brasileiro. Com sua proibição definitiva em 1850, a população escrava declinaria, apesar de ainda crescer, durante as duas décadas seguintes, nas regiões cafeeiras mais prósperas, através do tráfico interno, sobretudo no sentido norte-nordeste para o sudeste. Em seu conjunto, os escravos no Brasil eram 1.715.000 em 1864, 1.540.829 em 1874, 1.240.806 em 1884 e apenas 723.419 em 1887, às vésperas da abolição.2 O revigoramento da escravidão, e seu eventual declínio, não se deu de forma tranqüila, dependente sempre da visão e dos desígnios das tradicionais classes dominantes brasileiras. Estas ganharam a independência do país, impuseram seu estilo na formação do Estado nacional, conciliaram discursos liberais e civilizatórios com a manutenção da escravidão. Mas não foi essa a única visão de Brasil disponível na época. Além de não estar sempre unidas, além dos desafios levantados por dissidências regionais amiúde com apelo popular, de enfrentar periodicamente a contestação do povo livre do campo e da cidade, sobretudo no conflagrado período regencial, as elites brasileiras e os escravistas de um modo geral tiveram de enfrentar a resistência dos cativos em cada lugar em que a escravidão floresceu. Essa resistência sugere que o projeto vencedor de um país escravocrata não foi desfrutado sem a contestação dos principais perdedores. As rebeliões representaram a mais direta e inequívoca forma de resistência escrava coletiva. Mas nem toda revolta previa a destruição do regime escravocrata ou mesmo a liberdade imediata dos escravos nela envolvidos. Muitas visavam apenas corrigir excessos de tirania, diminuir até um limite tolerável a opressão, reivindicando benefícios específicos - às vezes a reconquista de ganhos perdidos - ou punindo feitores particularmente cruéis. Eram levantes que alvejavam reformar a escravidão, não destruí-la. Em 1789,
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Manolo Florentino, Em costas negras (São Paulo: Companhia das Letras, 1997), pp. 50-1. Robert Conrad, The Destruction of Brazilian Slavery, 1850-1888 (Berkeley: Univers)t?3>Tr) > V U Califórnia Press, 1972), pp. 283-5. /> <?\

africanos que vinham de experiências guerreiras recentes. Arquivo Público do Estado da Bahia (APEBa).4 Mas. não menos intrépidos nagôs. Naquele ano o marquês de Aguiar. proibindo que se reunissem para batuques e outros folguedos que lhes dessem ocasião de conspirar. doe. em se tratando de escravos africanos. além disso. Exa.] além de não ter havido [no Rio de Janeiro] até agora desordens. como fora o caso no engenho Santana há pouco mencionado. acesso a roças de subsistência. Sobre a pacificação da população escrava em decorrência de uma maior presença das redes familiares. Além do fator africano. 22-3-1814. A paz das senzalas (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Onde os africanos natos constituíam a maioria dos escravos. ou as revoltas regionais do período regencial na década de 1830. os crioulos (negros nascidos no Brasil) não eram exatamente passivos.3 As revoltas tornaram-se mais freqüentes exatamente a partir do final do século XVIII. intrépidos e capazes de qualquer empreza. há exemplos de levantes de planteis predominantemente crioulos. direito de escolher seus feitores. foi mais difícil para a classe senhorial controlar a senzala. em Hispanic American Historical Review. Que a Bahia tivesse sido o palco de muitas revoltas escravas deve-se ao fato de que para lá convergiram nagôs e haussás em grande número. particularmente os de Nação Aussá. Ademais. licença para celebrar livremente suas festas. especialmente nos últimos anos da escravidão. em número superior a duas dezenas. e mais ainda. ver recente trabalho de Manolo Florentino e José Roberto Góes. João VI. os escravos mataram o feitor e se adentraram nas matas com as ferramentas do engenho. eles se associaram. pp. e. 1997). até reaparecerem algum tempo depois com uma proposta de paz em que pediam melhores condições de trabalho. entre as quais o envolvimento em conflitos ligados à expansão do Islã e guerras civis em território iorubá. Ambos os grupos.246 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 247 por exemplo. favorecidas pela expansão das áreas dedicadas à agricultura comercial e a conseqüente intensificação do tráfico escravo. Além de fugirem sistematicamente e formarem quilombos. da circulação de ideologias liberais e mais tarde abolicionistas. escreveu ao liberal conde dos Arcos: [. Maranhão. muitos deles bastante jovens e sem experiência com a arte da guerra. Tratarei adiante sobre religião enquanto ideologia e linguagem da revolta escrava. mais do que os africanos. os escravos nascidos na África parecem ter sido o principal agente de combustão. 89. e os [negros] dessa Cidade [Salvador]. 5 Marquês de Aguiar ao conde dos Arcos. que fez crescer a população cativa e em particular o seu contingente africano. Essas primeiras revoltas foram realmente levadas a cabo sobretudo pelos "intrépidos" haussás. Rio de Janeiro. 57: 1 (1979). especificamente haussás e nagôs. que o governador da capitania da Bahia melhor controlasse seus escravos.. só encerrado vinte anos depois. O governo metropolitano instalado no Rio reconhecia essa situação e por isso exigiu. Com o declínio da população escrava africana depois do fim do tráfico. entre estes. ainda num período de tráfico aberto. em Pernambuco. cuja importância aliás declinaria com o fim do tráfico. no engenho Santana de Ilhéus. encontravam dificuldade em constituir famílias (em decorrência da alta taxa de masculinidade nos planteis). Sergipe. que há huma grande differença entre os Negros Angolas e Benguellas nesta Capital. mesmo antes disso. foram promovidas por cativos de origem africana. que são muito mais resolutos. 69-81. bem sabe V. contavam com numeroso contingente muçulmano. Bahia.5 Nessa época. depois substituídos pelos. Já para o Rio de Janeiro seguiram nesse período africanos principalmente de origem banto. os crioulos responderiam pela formação de quilombos e a promoção de revoltas. Ordens regias. Uma proporção alta de escravos na população e. de africanos do mesmo grupo étnico. "Resistance and Accommodation in Eighteenth-Century Brazil". em 1814. um maior número de africanos. um ambiente francamente favorável à rebeldia escrava foi-se formando ao longo do século XIX em torno dos movimentos pela independência. Mas. . reforçava a identidade coletiva e estimulava a consciência de força diante das camadas livres nacionais. ministro de d. como os motins antilusos na Bahia. das revoltas regionais. especialmente o primeiro. deve-se chamar a atenção para que alguns grupos étnicos se mostraram mais aguerridos do que outros. entre outras exigências.. entre 1821 e 1831. 116. 3 4 Stuart Schwartz. ou unidos aos. cuja campanha rebelde culminou com a revolta dos males em 1835. vol. a movimentos concebidos por outros setores sociais. já havia começado o ciclo de revoltas escravas baianas. se na Bahia e outras regiões. facilidades para comercializar os excedentes dessas roças. As revoltas escravas na Bahia na primeira metade do século XIX.

acrescentar István Jancsó. de Queirós Mattoso. logo após ter sido derrubado. Tavares. 1988). principalmente artesãos e soldados. Luís Henrique D. por uma revolta de seu próprio povo soberano. Na conjuntura da descolonização no Brasil. 1969). 1990). entretanto. de Carvalho. influenciou a rebeldia negra nas Américas. Escravidão. 18241835". 1975). o fim da discriminação racial e da escravidão.10 Mas permanecia "imortal" na poesia popular pernambucana. depois Haiti.7 O "haitianismo" se tornou a expressão que definiria a influência daquele movimento sobre a ação política de negros e mulatos. Henri-Christophe.uma das denominações dos movimentos antilusos -. revelaram aos cativos que os homens livres estavam divididos. ao lado da corrente anticolonialista liderada pelos proprietários rebeldes. pp. em Pernambuco. A presença francesa no movimento democrático baiano de 1798 (Salvador: Itapoã. os palácios governamentais e mesmo os clubs rebeldes brancos. além de desmascarar a hipocrisia dos brancos. Atitudes de inovação no Brasil. "Hegemony and Rebellion in Pernambuco (Brazil). A única revolução escrava bem-sucedida no Novo Mundo aconteceu em Saint Domingue. pp. transformando-se num símbolo de resistência escrava em todo o hemisfério. soldados do batalhão de pardos saquearam lojas de portugueses e distribuíram pasquins contendo versos haitianistas: Qual eu Imito a Cristóvão Esse Imortal Haitiano Eia! Imitai ao seu povo Oh meu povo soberano!9 7 Katia M. O Brasil não ficou de fora. The Black Jacobins (2. em sua colônia antilhana senhores mulatos e brancos racharam na luta pelo poder. que conciliavam esses princípios com a escravidão. pp. University of Illinois Urbana-Champaign. que em 18Í1 se proclamara rei Henri I do Haiti. embora tendo à frente homens pardos livres e libertos. o Haiti esteve na ordem do dia. Em 1824. História da sedição intentada na Bahia em 1798 (São Paulo: Pioneira. Por uma dessas ironias da história.6 A revolução francesa também estimulou a rebeldia negra no continente americano por vias indiretas. as casas senhoriais. Luiz Mott. em 1814. Uma interessante interpretação recente. A revolução haitiana destruiu uma das mais lucrativas colônias européias e criou um Estado negro nas Américas. R. 1989.248 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 249 A onda de tranformações políticas e ideológicas que varreu o mundo atlântico. 117-20. insinuaram-se tendências mais radicais constituídas por pretos e mulatos interessados numa revolução social inspirada na que ocorrera na colônia francesa. e Carlos Guilherme Mota. Os escravos aproveitaram-se da situação e da retórica revolucionárias do dia para agir. 11-8. Nova York: Vintage. Nas conjunturas revolucionárias de 1817 e 1824 no Nordeste. Talvez mais do que as senzalas e barracos. várias vozes ligadas à ordem advertiram sobre uma reprodução aqui do fenômeno haitiano. homossexualidade e demonologia (São Paulo: ícone. s. quem sabe. The Overthrow of Colonial Slavery. 8 . que assim sugeria um projeto revolucionário para o Brasil. em 1820. episódio que ganha maior significado se lembrarmos que Dessalines era também militar. 1776-1848 (Londres: Verso. 1789-1801 (Lisboa: Horizonte. 1988). na chamada era das revoluções. os escravos falavam abertamente nas ruas sobre os sucessos nas antilhas francesas. Na revolução pernambucana de 1817. O estudo clássico sobre esta revolução é de C. de inspiração francesa. teses de doutorado. Sergipe. como um pesadelo. p. 257. contou com a participação de alguns escravos e incluiu em seu programa. 1963). ed. deram-se vivas ao "Rei do Haiti" e a "São Domingos. no início da década de 1790. o Haiti penetrou. num jantar "mata-caiado" . 1972). L. que enfatiza a tradição quilombista dos cativos haitianos para o desenlace do movimento.8 No mesmo ano. durante a chamada Confederação do Equador. Em 1805.d. 66-7 e nota 86. seu retrato decorava medalhões pendurados dos pescoços de milicianos negros no Rio de Janeiro. o Grande São Domingos". incluindo até. 10 Robin Blackburn. em 1798 na Bahia. um monarca negro. Naquele momento em que a França se via ela própria dividida por uma revolução. em Laranjeiras. The Making of Haiti (Knoxville: The University of Tennessee Press. inclusive no Brasil. James. Os debates em torno do direito dos homens e das nações à liberdade. diminuindo a importância dos "ideais democrático-burgueses". caso as divergências entre portugueses e brasileiros se Carlos Guilherme Mota. quando foi assim saudado em 1824 em Pernambuco. A chamada Conspiração dos Alfaiates. já havia cometido suicídio. escravos e livres nos quatro cantos do continente americano. um lembrete de que era possível vencer a classe senhorial. o Cristóvão do verso. 9 Marcus Joaquim M. apenas um ano após a proclamação da independência haitiana por JeanJacques Dessalines. o comandanteem-chefe das forças haitianas que derrotaram os exércitos de Napoleão en6 viados para recuperar a ilha e reintroduzir a escravidão. Nordeste 1817 (São Paulo: Perspectiva. é de Carolyn Fick..). Na Bahia contra o império (São Paulo/Salvador: Hucitec/EDUFBA. 1996). Já na Bahia escravocrata.

"e todos apareceram na ocasião da missa armados de armas de fogo. "Nas fronteiras da Independência". em 1867. Unicamp. Em 1822. antes até da própria colônia haver se desvencilhado da metrópole. as cortes portuguesas desejavam "escravizar" os brasileiros. concluía: "Oh! Brasileiros. por exemplo. opinião semelhante tiveram um cônsul e um almirante. Esse temor foi usado junto aos proprietários como moeda de negociação pelo comandante das forças que combateram os revolucionários pernambucanos em 1817. que se achão libertos não só em virtude do systema Constitucional. Reis e E. 129. não se reconhecendo enquanto representante daqueles homens" (p. nota 34). os quais. dissertação de mestrado. revelando que muitos cativos se fizeram atores ativos no cenário da descolonização. resultando de medida tão malvada [. Campinas. havia dúvida) teriam proclamado o fim da escravidão. sobretudo os escravos crioulos. 50. Na Bahia. peticionou pela liberdade aos deputados da Bahia nas cortes. 1993. Insurreição de escravos em Viana. resolvida a independência. Mota.. eram outros São Domingos". Em trabalho recente Iara Lis Carvalho Souza. que não era francês. mas a tradição oral escrava. Aproveitaram como puderam a nova conjuntura aberta pela revolução constitucional do Porto. esse episódio mostra que o haitianismo representou um temor de longa duração a sobressaitar a alma do escravismo brasileiro. Tempos depois. em maio de 1822. Durante os tumultos da independência na Bahia. Magda Ricci. Nordeste 1817. fez José Garcês. Juizes de Paz.12 Esse tipo de discurso foi comum em todo o Brasil. após falar em quebra de algemas e esmagamento de grilhões. Alguns decidiram agir como verdadeiros cidadãos.284. 119. p. cit. despresando a obediência. que seus senhores têm sonegado. Os escravos ouviam a tudo com atenção e muitos traduziram o falatório dos brancos em causa própria. G. pp.. correu entre os escravos de Itu o providencial boato de que as cortes (ou o rei de Portugal. No Espírito Santo. pp. 27-3-1831. Pedro I. 92. inculcão no seu modo de proceder huma próxima sublevação. p. "O jogo duro do Dois de Julho". Una. Queimado e Pedra da Cruz se reunissem para ouvir do vigário a proclamação da liberdade. procurou mas não encontrou a petição dos crioulos de Cachoeira no Diário das Cortes. um escravo espalhara o aviso de que os escravos de Jacaraípe. Mundinha Araújo. a independência nos "libertaria" dos "grilhões" portugueses.. das Letras. As notícias sobre os conflitos luso-brasileiros chegadas a Portugal através de cartas de sua irmã em Salvador. São Paulo. ainda persistia na Bahia e alhures expressões como "facção lusa escravizadora" para definir os seguidores de d. O fenômeno repetiu-se em vários lugares. João J. provavelmente exageravam sobre o potencial revolucionário da situação. da mesma forma que os patriotas diziam querer libertar o país da metafórica escravidão colonial. 1994). negros nascidos no Brasil. paus. Segundo o comandante militar de Salvador em 1822. o próprio discurso anticolonial serviu de argumento à rebelião negra.11 Na conjuntura da descolonização portuguesa no Brasil. refletir: "Se faltasse a tropa. ambos franceses. um grupo de escravos crioulos de Cachoeira.. mas os senhores e as autoridades ituanas e vizinhas insistiam em mantê-la. o português Inácio Luís Madeira de Melo. 222-226.] acharem-se os Escravos de tal forma seduzidos. caros compatriotas! Nunca mais sereis escravos. Lembremos que a propaganda patriótica insistia na imagem da escravidão para definir retoricamente os laços que ligavam o Brasil a Portugal: o Brasil seria "escravo" de Portugal. Tramerim. 12 Sobre Itu. talvez traumatizados com o que ocorrera em sua colônia. A iniciativa política escrava podia ir longe. por exemplo.13 Outros escravos já achavam ter conseguido a liberdade das cortes e do rei de Portugal. como por Decretos d'El Rei.250 João José Reis "Nos adiamos em campo a trator da liberdade": a resistência negro no Brasil oitocentista 251 aprofundassem. o ouvidor de Itu. J. cit. em J. Pátria coroada (São Paulo: Editora da Unesp. etc". 90-91. APEBa. maço 2. "O jogo duro". J. nem vis colonos". Silva. manifesta na forma de rumores. no Recôncavo baiano. Aqui o instrumento não seria o da petição. Francisco Carinhanha para Joaquim Azevedo. uma autoridade do Maranhão se lembrou do Haiti em meio ao medo de que os brancos fossem massacrados durante uma revolta no município de Viana. agitadores andavam infundindo nos Escravos as idéas mais Luciferinas para se sublevarem. os escravos acompanharam rumores que aparentemente não teriam nascido nas senzalas. da cultura escrita dos senhores. . Negociação e conflito (São Paulo: Cia. que. onde escravos desceram do quilombo São Benedito para sublevar as senzalas das fazendas locais. Bem mais tarde. 1989). 11 C. declarandolhes. Caetité. Por sua data avançada. 94. que se identificavam como brasileiros e apostavam na possibilidade de se libertarem da escravidão real. centro da produção açucareira. Mas não estavam sozinhos. 258. 1867 (São Luís: Sioge. Em 1821. Em 1822. Reis. que promoveu a reunião das cortes em Lisboa. 1999). Reis. p. 13 Sobre a Bahia. mas aparentemente estes não encaminharam o documento para discussão. o que a fez concluir que "a bancada baiana não levou avante a petição.

da Universidade. Esse abolicionismo radical levou muitos rebeldes bem-te-vis a debandarem para o lado da legalidade. Piccolo. 16 Libelo acusatório. constituíram revoltas diferentes que convergiram apenas na fasefinaldo conflito. que vieram a formar o batalhão de Lanceiros Negros. maço 2. pp. com freqüência promovendo perigosas alianças entre estes e homens livres pobres. favoreceram a rebeldia escrava. 258. 29-3-1822). 182.252 João José Reis "Nos adiamos em campo o tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 253 E acrescentava que a Bahia estava próxima a repetir "o horroroso quadro. Lana Lage Lima. em duas outras ocasiões. que apresenta a Ilha de São Domingos".18 A guerra externa também podia enfraquecer o controle dos escravos. Santos. Desconhecem-se. 1998). João Reis.860 (Proclamação de Madeira de Mello. cap. na decisiva batalha de Porongos. "Quilombos maranhenses". Os quilombos de Mato Gros- 17 14 Magda Ricci. O próprio Chagas foi condenado à morte e enforcado em setembro de 1842. embora alguns tenham se bandeado para a Sabinada em 1838. Reis e F. "A questão da escravidão na Revolução Farroupilha". 71-5. no entanto. 2 (São Paulo: Brasiliense. e os escravos. Ver também. ou bem-te-vis. maço 2. 1983). muito provavelmente. escreveu em 1840 que "a República é para não haver a escravidão".17 Os escravos do Maranhão participaram ativamente do movimento da independência. pp. pp. 222-6. Vilma Almada. A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão (São Paulo: Ática. em 1844. os rebeldes liberais. 1986).embora existisse entre seus segmentos mais humildes uma certa identidade racial -.1824. Gomes (orgs. os conflitos entre os homens livres. Em nenhum dos casos os escravos responderam positivamente a esse abolicionismo interesseiro e limitado. APEBa. 166. afrouxava sua vigilância individual e coletiva. em J. . quando já quase vencidos. e que não deve ser confundido com princípios abolicionistas. cap. Rebeldia e abolicionismo (Rio de Janeiro: Achiamé. depois de devidamente indenizados). L. O escravo gaúcho (Porto Alegre: Ed. futuro duque de Caxias. "Nas fronteiras da Independência". e dos movimentos antilusos que se seguiram. as quarteladas. Como os farroupilhas. assinado no ano seguinte entre os rebeldes e Caxias: "está garantida pelo governo imperial a liberdade dos escravos que tenham servido nas fileiras republicanas ou nelas existiam". ou ainda à Cabanada (1832-1835). pp. pp. 225-30. Mário Maestri. chegaram perto de convocar a escravaria para sua causa em troca de alforria. sobre a participação negra nos movimentos de homens livres. as rebeliões federalistas. que como na Bahia lá também foi cruento. pp. 18 Maria Januária V. os crioulos. 76-82.).1821-22. Com freqüência a rebelião escrava não passava de um perigo potencial. 1832 e 1837. que o governo temia fosse atiçada por inimigos políticos. para recompensar os bons serviços dos escravos-soldados. Em 1831. alguns homens livres que conspiravam contra a corte foram acusados de querer levantar "os escravos do país". cit. 433-65. Posteriormente. na fronteira com Alagoas. estes liderados pelo liberto cearense Cosme Bento das Chagas. A Sabinada. Escreve Marcus Carvalho: Não é possível entender a existência de negros rebeldes atacando os arredores do Recife sem referência as divisões políticas das elites em 1817. que celebrou a paz. facilitando o papel repressor do mesmo Caxias que mais tarde sufocaria os farrapos e seus combatentes escravos. 1981). os quilombolas instalados nas imediações de Recife costumavam aumentar suas fileiras e sua ousadia no ritmo das ondas que agitavam o universo dos homens livres. A desunião dos homens livres. iniciada no início do século XIX. Bons serviços: este o mesmo princípio que orientava a concessão das cartas de alforria privadas. quantos escravos teriam sido realmente beneficiados. em APEBa. p.15 Na Bahia. Escravismo e transição (Rio de Janeiro: Graal. que obrigou o governo provincial a concentrar todo o seu aparato repressivo no outro lado da província. no entanto. que se intitulava "tutor e imperador da liberdade". Os líderes farroupilhas haviam exigido assim. 1996).14 Em toda parte. os balaios não tinham um ideário abolicionista . 1984). Rebelião escrava. Os sobreviventes negros foram. contemplados pelo artigo 7 do Convênio de Ponte Verde. o líder dos escravos. 50v. como foi o caso da época da independência. Paulo César Souza. 1987). 1986). 7 (São Paulo: Brasiliense.1831. f. favoreceu grandemente a rebelião escrava porque revelava aos cativos a debilidade política dos senhores. sobre o Espírito Santo.856. e Helga I. Nessa ocasião. Já os farroupilhas do Rio Grande do Sul alistaram escravos dos adversários (e os de simpatizantes. uma vaga de medo varreu a província de que a "classe escrava" estava em pé de guerra. e diminuía sua capacidade de retaliação militar.16 Rebeldes federalistas. Foi o caso do conflito com o Paraguai. mas Chagas. brutal- mente massacrados por Luís Alves de Lima e Silva. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo (Recife: Editora Universitária UFPE. Revolução. Liberdade por um fio (São Paulo: Companhia das Letras. uma onda de revoltas escravas. 96-102. Mathias Assunção. em tese. 1993). durante a Balaiada (1838-1841). recrudesceu após a independência paralelamente aos mata-marotos. Em Pernambuco. 15 Marcus Carvalho. significando.. em Anais da V Reunião da SBPH (São Paulo. p.

São Paulo. porque eles faziam suas próprias leituras. além de colocar os senhores à mercê de seus escravos. Num outro extremo do Brasil. por exemplo. 220. se repetiu em outras áreas escravistas das Américas. entrando com elle em conversa.20 No Brasil. eles cuja presença no Brasil era decisiva para a reprodução do escravismo. pp. a propósito. Lana Lage Lima. Nessa leitura. agora em São Mateus. no Espírito Santo. o Maranhão. procuram obter [a liberdade] por meios violentos e criminosos".254 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 255 so. Rebeldia negra e abolicionismo. apud Suely R. cit. indo de recolhida para o Sítio encontrando-se na sahida da villa. deveriam também sê-lo no Brasil. Suas estratégias de liberdade constantemente se chocavam com a visão gradualista do abolicionismo oficial. supondo lhes ser ocultada pelos senhores. A lei de 1831 proibindo o tráfico transatlântico de cativos foi interpretada como emancipadora por escravos da vila de Itapemirim. 167-74. encetaram uma revolta de grande proporção em número de participantes. como resultado de uma leitura libertária feita pelos escravos da retórica e do noticiário abolicionistas. em particular a Lei do Ventre Livre em 1871. que abolia definitivamente o comércio transatlântico de africanos. comerciantes e lavradores da região alegavam que o recrutamento de guardas nacionais para o Paraguai diminuíra a capacidade de combate aos quilombos. 1998). não só de escravos. sobre Demerara. pp. os escravos da colônia inglesa de Demerara (parte da atual Guiana) também traduziram como abolicionistas leis metropolitanas que visavam tão-somente reformar a escravidão. Exemplos não faltam. e. Vilma Almada. Cativos do sertão (São Paulo/Cuiabá: Marco Zero/Universidade Federal de Mato Grosso. engrossaram suas fileiras não apenas com escravos fugidos. Ao mesmo tempo. segundo os vereadores da vila de Turiaçu. 79. C.. Tratava-se de uma reação à lei de 1850. mas com desertores do exército e homens livres em fuga do recrutamento. a lei de 1871 promoveu o desassossego entre os escravos. escreveu o presidente da província. que alguma coisa disso há de acontecer. Vinte anos depois. escrevendo em julho de 1867. embora não em termos de revolta coletiva. Depoimento de Francisco. pois o importante é que interpretavam de acordo com seus interesses. A mesma lei também entrou na complexa malha de motivações dos escravos que conspiraram contra seus senhores no município cafeeiro de Campinas. mas esse depoimento demonstra que os escravos acompanhavam. Em 1823.do que imaginar que esse sistema de trabalho e modo de vida desaparecessem por aqui. de cada conjuntura desfavorável à sobrevivência do sistema. Os escravos participaram ativamente. Vilma Almada interpretou esse e outros episódios posteriores.] os negros já não vem para o Brazil. Em seu depoimento. Escravismo e transição. Tratava-se do primeiro instru- 19 Luiza R. Correu o boato entre eles de que "a novíssima Lei de Repressão ao Tráfico os há libertado da escravidão que eles.. se os negros passavam a ser livres na África. em 1832. Emilia Viotti da Costa. da desorganização e extinção do escravismo brasileiro.. autoridades.. por acreditarem que os senhores e o governo colonial se recusavam a adotá-las. Insurreição de escravos. os escravos insistiam na mesma tecla. se os africanos haviam deixado de ser capturados e transportados da África como escravos. p. Volpato. A conspiração de Campinas foi descoberta e a revolta terminou por não acontecer. p. Escravidão negra em São Paulo (Rio de Janeiro: José Olympio. e às vezes surpreendentemente. Coroas de glória. como de criminosos e desertores". O mesmo aconteceria em Campos. 135-8. O fenômeno. Não se pode dizer que fossem politicamente ingênuos por interpretarem "erroneamente" o que se discutia no mundo dos brancos. cit. Rio de Janeiro: os escravos se inquietaram porque interpretaram as discussões em torno daquela lei como sinal de abolição definitiva da escravidão. Mundinha Araújo. o escravo crioulo Francisco disse que no domingo. de novo no Espírito Santo. não seria justo que nos dessem tão bem a liberdade?" ao que lhe respondera o Joaquim. com Joaquim Ferreiro escravo do capitam Joaquim Teixeira. elle Reo dicera "ora Tio Joaquim [. 1993). 1977). que teriam experimentado "incremento excessivo. foi da maior importância para a agitação escrava a longa trajetória abolicionista. . província vizinha ao teatro da guerra. 84-5. lágrimas de sangue (São Paulo: Companhia das Letras. discutiam e agiam estimulados pelo noticiário sobre as coisas que lhes diziam respeito.. nada mais lógico . pp. desde as leis que haviam proibido o tráfico. cit. a guerra também repercutiu nos quilombos locais. amiúde radicais. Reis de Queiroz.e mais "justo" .19 Entre as mudanças políticas do século. Visto por um outro ângulo. 186-97. Só depois da guerra as autoridades puderam deslanchar a repressão contra quilombolas e desertores. 93. e por fim as campanhas da última década do regime. até as que reformaram a escravidão. o abolicionismo como propriamente movimento social.

os escravos da fazenda Castelo. da circulação de boca em boca de informações sobre novas possibilidades de ruptura com o domínio senhorial. e os escravos souberam aproveitar a nova situação acionando-o com bastante freqüência em seu favor. envolvendo apenas algumas dezenas de escravos. O plano e o pânico (Rio de Janeiro/São Paulo. quando era o caso. em geral restritos a uma ou duas propriedades e. o discurso abolicionista ganhava terreno entre homens e mulheres livres. Mas houve também revoltas que. Keila Grinberg. em épocas anteriores nem todo levante visava apenas punir feitores. que o tema da abolição nas revoltas escravas não teve de esperar o momento de maior agitação abolicionista para emergir. a população livre. medo branco (São Paulo: Paz e Terra. 22 Elciene Azevedo. na feliz expressão do historiador Sidney Chalhoub. Onda negra. que assassinavam feitores e senhores.23 É importante observar. Orfeu de Carapinha (Campinas: Editora da Unicamp/Cecult. ver. Insurreição de escravos. juizes que emperravam suas demandas ou as julgavam desfavoravelmente. libertar somente os poucos escravos nele envolvidos ou fugir para formar quilombos. ver. reformar aspectos da escravidão. durante uma revolta em Viana. 23 . pp. cit. moveriam ações contra seus senhores por se encontrarem ilegalmente escravizados. Em 1867. Num dos lances do levante eles obrigaram o administrador de uma das fazendas conflagradas a escrever uma carta onde declaravam: "nos achamos em campo a tratar da Liberdade dos Cativos.]". republicanos . pouco conhecidas na época porque. 1990).21 Animados com a nova situação. embora logo sufocadas. no Maranhão. 33-4. "politizou o cotidiano" das relações entre senhores e escravos. pp. segundo a historiadora Maria Helena Machado. nos meses anteriores ao 13 de maio. Ronaldo M. como por exemplo a posse de pecúlio e a alforria por valores arbitrados em juízo.256 João José Reis "Nos odiámos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 257 mento legal que estabelecia abertamente certos direitos dos escravos diante dos senhores. fugas em massa das fazendas de café. Foram comuns os levantes pequenos. havia uma espécie de censura à imprensa que visa- va evitar pânico e incentivo adicional à rebeldia. incluíram a liberdade em seus programas. EDUFRJ/Edusp.. Com isso.. regionalistas. em Campinas. Ou seja. 45-57.. Nesse esforço contaram os cativos com a solidariedade de homens livres. Maria Helena Machado. Sobre ações de liberdade. além deste livro. alianças que antes eram ocasionais ou envolvendo interesses individuais res- 2 ' Sidney Chalhoub. se rebelaram aos gritos de "Mata branco" e "Viva a liberdade" . 1987). Há notícias de muitas conspirações e revoltas em São Paulo. promotor de dezenas de ações de liberdade em São Paulo. "Liberdades em arbítrio". castigando publicamente. já que todos aqueles trazidos para o país de contrabando eram considerados livres. importados após 1831. o fenômeno não teria se generalizado sem alguma elaboração coletiva. tiveram tanto o objetivo de punir essa gente como o de reivindicar a liberdade. de Azevedo. pp. 1980). no próprio Maranhão e outras regiões do país. Sobre resistência escrava e seu impacto sobre as populações livres. Em 1882.e realmente mataram toda a família de um administrador da fazenda. Os rebeldes de Viana já haviam perdido a paciência. cresceram as alianças entre os escravos e essa gente. São inúmeros os estudos que os mostram levando seus senhores ao tribunal para garantir esses direitos através do instrumento legal da ação de liberdade. Pela primeira vez o Estado se intrometia em profundidade nas relações escravistas. inclusive membros da elite branca. Durante a fase final da escravidão aconteceram levantes e a formação de quilombos em várias partes do país. no entanto. a lei da ambigüidade (Rio de Janeiro: Relume-Dumará. federalistas. II e Célia Maria M. nos últimos anos da escravidão. dos Santos. 92-4. 73. agora estava dividida em torno da questão específica da escravidão. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte (São Paulo: Companhia das Letras. por exemplo. muitos escravos de origem africana. Resistência e superação do escravismo na província de São Paulo (São Paulo: IPE/USP. pois a muito que esperamos por ella [. entre eles dedicados advogados abolicionistas como o negro baiano Luís Gama. e logo depois se entregavam pacificamente ao delegado local. 1994). A lei. Se agora nem todo levante visava a liberdade definitiva. os quilombolas do mocambo de São Benedito ocuparam propriedades da região com um programa abolicionista. em Padê (1989). com ou sem o concurso de agentes abolicionistas. embora fossem na sua maioria movimentos localizados. Embora a resistência legal dos escravos tivesse o teor de batalhas individuais. 1994). através de canais informais. especialmente cap.os conflitos lusobrasileiro. vários movimentos escravos dos anos vinte e trinta.24 Antes disso. anteriormente dividida em torno de outras questões . inclusive o movimento abolicionista. cujo andamento e resultados ele discutia na imprensa. e Eduardo Spiller Pena. 1999).22 Mas os escravos não se detiveram na luta legal após 1871.. inclusive crianças. Liberata. além do livro de Chalhoub acima. sem no entanto alcançarem a desejada liberdade. A diferença é que. 24 Apud Mundinha Araújo.

o mesmo momento aproveitado pelos escravos para celebrar seus deuses e deles adquirir força espiritual para mudar o mundo. domingos e dias santos. 679. Ali.258 João José Reis "Nos achamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocenrista 259 tritos. pp. vol. mas mundo afora. Manuel Congo. A própria revolta foi marcada para acontecer no final do mês sagrado do Ramadã daquele ano. O historiador norte-americano Eugene Genovese chega a afirmar que. Enfim. em 1838. os escravos não costumavam romper com o universo senhorial sem a ajuda de seus deuses. 31-2. e a transformaram em instrumento da liberdade escrava. em 1832. os quais principalmente no tempo do Natal fazem algumas desordens em razão de estarem mais folgados do serviço pelos dias santos". a formação dos quilombos. Testing the Chains (Ithaca: Cornell University Press. não só porque seus líderes contavam com o relaxamento do controle senhorial.27 No contexto do folguedo escravo se verificavam experiências culturais bastante distantes de qualquer ideário "liberal". Grande parte da política escrava se celebrava num campo de poder localizado em algum lugar entre o cotidiano e outro mundo. o ataque à escravidão nem sempre acompanhava o calendário ou usava a linguagem da grande política secular. talvez com alguma conotação religiosa.26 25 Para os escravos. é um dos levantes escravos de que se tem conhecimento em cuja devassa mais se mencionam feitiços. cit. os rebeldes escravos freqüentemente se apropriaram da ideologia liberal. Isso nos leva a uma discussão importante sobre a resistência escrava no Brasil. Na nova conjuntura aberta pelo avanço do abolicionista. durante o levante. desenvolvendo novas estratégias. f. ele acredita. 26 João Reis. o escravo Felizardo disse que as "meizinhas era para amansar aos brancos Eugene Genovese. esmagado em 1826 nas imediações de Salvador. A conspiração de Campinas. além de mãode-obra muitas vezes. que coincidia com a popular festa católica de Nossa Senhora da Guia. o campo político da atuação escrava se ampliaria.28 Muitos dos líderes rebeldes africanos foram também sacerdotes de religiões africanas. Com freqüência a melhor hora de atacar estava marcada no calendário da miúda política do cotidiano ou da misteriosa política do universo espiritual.25 Se no Brasil este último despertou os rebeldes de olho e ouvido na retórica do liberalismo. na era das revoluções burguesas e das independências americanas. Rebelião escrava. O presidente da Bahia explicou em 1831 que em sua província eram "freqüentes as sublevações de escravos.. 28 (1995-96). a festa do Lailat al-Qadr. a Noite da Glória.. . mas porque contavam com a disposição de escravos possuídos por um espírito de liberdade amiúde cultivado no campo do divino. Essa tese já foi refutada muitas vezes por historiadores de várias regiões e rebeliões nas Américas. As revoltas eram planejadas para os dias festivos. o senhor baixava a guarda nos períodos de festas. mestres muçulmanos formaram a liderança do movimento da revolta dos males em 1835 e. From Rebellion to Revolution (Nova York: Vintage. sob cuja proteção acreditavam estar de corpo fechado contra as balas e espadas dos soldados. 136-55. Como vimos antes. cit. 1979). muitas conspirações e revoltas escravas ocorreram exatamente nos períodos festivos. 140. teriam praticamente desaparecido os africanismos ideológicos e culturais que no período anterior. especialmente as noites festivas. potencializando o movimento escravo. Em meu artigo "Quilombos e revoltas escravas no Brasil". funcionava uma casa de candomblé. seus seguidores ocuparam as ruas usando vestimentas islâmicas e amuletos contendo passagens do Alcorão . o Islã africano também circulava no mundo atlântico como uma ideologia de transformação social. tida como propriedade do homem livre. haviam orientado a rebeldia negra. pp. Entre seus muitos críticos. por exemplo. identidade e solidariedade coletivas eram potencializadas através de símbolos erituaisque reafirmavam os valores espirituais e étnicos do grupo. líder de uma revolta em Vassouras. como foram as relações de quilombolas com taverneiros e lavradores. ou inspirou negros (sobretudo crioulos) e mulatos sob a forma indireta e africanizada do "haitianismo". não só no Brasil. Correspondência do Presidente. em Revista USP. listo diversos casos de revoltas acontecidas ou planejadas para acontecer em dias festivos. Na Bahia. o mesmo não se pode dizer da corrente central das rebeliões escravas baianas e outros movimentos levados a cabo pelos africanos.e não trechos da Declaração dos Direitos do Homem . 27 28 APEBa. The Making of Haiti. embora não imprimindo um sentido absolutamente novo. Segundo esse registro do tempo. aos quais forneciam produtos por eles cultivados ou roubados. como de resto nas Américas. 1982) e Carolyn Fick. Perguntado sobre o assunto. No interior do quilombo do Urubu baiano. Por isso. Ou seja. como. os quais concluíram que nem os quilombos representaram um retorno a uma África perdida nem as ideologias africanas cederiam inteiramente lugar ao novo ideário democrático burguês em expansão. Ali se produzia um clima extraordinário de liberdade e de inversão ritual do mundo que os escravos rebeldes procuraram perpetuar na vida cotidiana. era chamado "pai" Manuel. Michael Craton.

64 e ss. Escravidão negra. p. Ele mesmo escreveu. As circunstâncias não são muito claras. 1987) e especialmente Flávio Gomes. mata-los. da qual participariam escravos de origem banto espalhados por vários munícipios do Vale do Paraíba e sul de Minas Gerais. durante a missa festiva. 33 Maria Helena Machado. cuja igreja ajudaram penosamente a construir. ver Maria Januária V.. 1979). João Luiz Pinaud et alii. 32 31 . Esses rebeldes buscaram a liberdade através de uma linguagem religiosa sincrética. Metido numa revolta liberal.260 João José Reis "Nos adiamos em campo a tratar da liberdade": a resistência negra no Brasil oitocentista 261 para as armas dos mesmos não ofenderem a elles pretos e se levantarem afoitamente com os mesmos brancos. no Espírito Santo. para cuja irmandade o liberto cearense recrutava seus combatentes.] em cuja procissão conduziam uma porção de imagens e paramentos da Igreja". Adiante chamava seu movimento de "partido sagrado dessa Irmandade". poderiam atribuir tal poder ao padre. Foi o que aconteceu em 1882 na fazenda Castelo. 2 (Rio de Janeiro. 216. cit. bantos e outros. cit... Reis de Queiroz. Libertos e escravos associados a irmandades negras integraram esse movimento em defesa do direito de ocuparem sepulturas em espaço sagrado. medida essencial para que lograssem a boa morte que os levaria à liberdade no outro mundo. comandante dos escravos da Balaiada. escravos devotos de Santo Antônio teriam se envolvido numa conspiração com data marcada para o dia de um outro santo. Até Cosme Bento das Chagas. 96-102. que combinava elementos do registro religioso africano. mas sugerem que só escravos católicos e devotos daquele santo. tal como cinqüenta anos antes no mesmo município. Em 1836 escravos baianos se juntaram à plebe livre católica na destruição de um cemitério construído para fazer valer a proibição dos enterros nas igrejas. Sufocada a rebelião descobriu-se. não diretamente vinculado ao movimento. 1995). e até messiânicas.. Era tudo engano. 118-9. Suely R. e ficarem elles pretos todos forros". em Campinas. Cosme e seus liderados faziam uma viagem cultural própria. Consta que Cosme Chagas era devoto de Nossa Senhora do Rosário.29 Como sugere o caso de Cosme. Os escravos cristianizados criaram no Novo Mundo uma forma peculiar de catolicismo que às vezes os ajudou na revolta. 3. cit. O plano e o pânico. Os líderes. Em 1849. em Revista USP. 132. Ele fora visto "conduzido em uma cadeira nos braços dos negros dando vivas à liberdade da escravatura [. 111.32 Santo Antônio reapareceria em São Paulo na última década da escravidão. de que um missionário capuchinho iria persuadir seus senhores a alforriá-los no dia de São José. o papel da religião na revolta escrava não se limitou apenas a expressões de maior densidade africana. São Paulo. 12 (1991-92). o roubo e o assassinato de feitores e proprietários agrícolas". Algo muito próximo do que se entende hoje como a umbanda paulista. "entretinhão continuadamente os escravos da fazenda em sessões de feitiçaria. Santos. Sobre Campinas. como fora a Balaiada. podiam servir aos objetivos abolicionistas dos escravos melhor às vezes do que ideologias seculares. cap. Robert Slenes. nas quais abertamente pregavão a desobediência aos senhores. 30 Afonso Cláudio. 111. ou "Pai Diogo".. As "meizinhas" eram poções em geral feitas de raízes e vendidas pelos escravos congos da região. Insurreição negra e justiça (Rio de Janeiro: Expressão e Cultura/OAB. o que depois veio a ser pai-de-santo. em 1847. segundo o depoimento de um escravo. no ano seguinte. os rebeldes de Queimado. mas consta que buscou sacralizar sua liderança com elementos do catolicismo popular. já estavam reduzidos a minoria. num português tortuoso: "Toudos que quiserem dotarem a Lei Consedo a irmandade do Rosário onde tenho o meu isercio [exército]". A Balaiada. Insurreição do Queimado (Vitória: Editora da Fundação Ceciliano Abel de Almeida.31 Em Vassouras. era infamado de feiticeiro. Sua presença aqui sugere que ideologias religiosas. foram convencidos por seu líder. Tínhamos lá uma umbanda abolicionista. São João. provavelmente significando. mas popular entre os escravos da região. pp.33 Sobre a revolta de Manuel Congo. "'Malungu' Ngoma Vem". no episódio antes referido brevemente. Santos. Robert Slenes suspeita da cumplicidade de Santo Antônio em uma vasta conspiração. 219. Arquivo Nacional. cap. era o escravo de nação rebolo Diogo. especialmente banto. A Balaiada. pp. Os escravos vestiram suas melhores roupas e se dirigiram à igreja para ouvir do frade a boa nova.30 29 Santos católicos estiveram envolvidos em outras lutas escravas. em avançado estado de crioulização. pp. o escravo Elisiário. A imagem de Santo Antônio fazia parte dosrituaisde curandeirismo de um tal João Galdino Camargo. encarregado de distribuir as poções protetoras. que nada tinha do racionalismo liberal. cit. como no caso de Manuel Congo. Maria Januária V. especialmente capítulos II e III. quando os africanos. uma complexa teia conspiratória envolvendo líderes que distribuíam "bebida preparada com raízes" para fechar o corpo. Histórias de quilombolas. Sobre Bento das Chagas. santa popularíssima entre os negros brasileiros. 88. Um dos cabeças dessa conspiração. Outros escravos tocados pelo catolicismo preferiram não esperar a liberdade encontrada na morte. àqueles do catolicismo popular e mesmo do espiritismo.

. Negociação e conflito: a resistência negra no Brasil escravista. Rebelião escrava no Brasil: a história do levante dos males (1835). 1988. de. 1981. traduziram e emprestaram significados próprios às reformas operadas no escravismo brasileiro ao longo do século XDC. Ao contrário do que um dia escreveu Fernando Henrique Cardoso. São Paulo: Companhia das Letras. Eduardo. Porto Alegre: Mercado Aberto. Flávio dos Santos. São Luís: Sioge. Embora fossem derrotados tantas vezes. MOURA. Os escravos. Fizeram política sim. 1995. SANTOS. 34 Fernando Henrique Cardoso. 1998-99. Recife 1822-1850. Bibliografia selecionada ANDRADE. Minas Gerais: o caso Carrancas". ed. Capitalismo e escravidão (São Paulo: Difel. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. 2. selecionaram temas que lhes interessavam do ideário liberal e anticolonial. Maria Januária Vilela. Tivessem eles se adequado aos desígnios senhoriais.). foram muitas vezes usadas como instrumentos da revolta social. GOMES. Rebeliões da senzala. não permitindo que a abolição se transformasse em um negócio apenas de brancos. CARVALHO. ou com a linguagem do brancofiltradapor seus interesses. Histórias de quüombolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro. . Rebelião negra e abolicionismo. Insurreição de escravos em Viana. mas não deixaram de assimilar com os mesmos objetivos muitos aspectos de ideologias seculares disponíveis nos diversos ambientes sociais em que circulavam. Não fosse a ação dos escravos rebeldes. João José Reis. ed. & GOMES. pp. 45-82. MACHADO. Fizeram da religião africana ou do catolicismo popular instrumentos de interpretação e transformação do mundo. mas com uma linguagem própria. CHALHOUB. São Paulo. Salvador. o escravismo brasileiro talvez tivesse adentrado o século XX. que tem demonstrado ser possível entender os escravos como sujeitos históricos ativos. 1999. e quando estes o fizeram o movimento escravo cresceu. dispunham de poucos recursos políticos. UFRJ/Edusp. Marcus J. 1867. Sujeitos políticos e por isso históricos. sua "consciência de revolta" não se esgotou "na fabulação e nas crenças religiosas". pois eles marcaram limites além dos quais seus opressores não seriam obedecidos. mas não desconheciam o que se passava no mundo dos poderosos. O plano e o pânico: os movimentos sociais da década da abolição. emAfro-Ásia. 4. A Balaiada e a insurreição de escravos no Maranhão. os escravos identificaram rapidamente as brechas abertas pela legislação emancipacionista e freqüentemente levaram seus senhores aos tribunais em defesa de direitos garantidos em lei. No Brasil da segunda metade do século XIX. Recife: Editora Universitária UFPE. Flávio dos Santos (orgs. Marcos Ferreira de. Rio de Janeiro: Achiamé. a escravidão teria sido um horror maior do que foi. Maria Helena. de que foram capazes de desenvolver uma visão crítica da sociedade em que viviam e uma visão de futuro redimido. 1994. obviamente. ed. 1998. 2. os escravos se constituíram em força decisiva para a derrocada final do regime que os oprimia. Alguns de seus líderes tiveram posturas abolicionistas muito antes de o abolicionismo ser adotado por largos setores livres da sociedade. 1986. Liberdade: rotinas e rupturas do escravismo. & SILVA. 1994. n° 21-22. como tivemos oportunidade de demonstrar. 1962). 1983. Lana Lage da Gama. . 2.262 João José Reis "Nos achomos em campo o trator da liberdade": o resistência negra no Brasil oitocentisto 263 O que discutimos até aqui se baseia numa historiografia da escravidão relativamente recente. São Paulo: Brasiliense. ed. 1999. 242-3. ou ainda combinando elementos da cultura escrava com o discurso da elite liberal. Ática. São Paulo: Companhia das Letras. Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil.34 Estas. REÍS. São Paulo: Companhia das Letras. Visões da liberdade: uma história das últimas décadas da escravidão na Corte. no sentido de que a história não passou por eles incólume. Mundinha. Aproveitaram-se das divisões entre estes. M. ARAÚJO. Clóvis. pp. Sidney. 1998. "Rebelião escrava na Comarca do Rio das Mortes. Rio de Janeiro/São Paulo: Ed. LIMA.

JhiV* * 4E * ' .f -r. 0 fri 4 .Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX „p. • Karen Macknow Lisboa .

). 41-4. artistas. 133. ocorre a derrocada do antigo sistema colonial. mercenários. 1976).. educadores vindos de diferentes regiões do Velho Mundo e dos Estados Unidos. Superado o exclusivismo português. V. residir e estabelecer-se nas cidades.. portos e lugares do país. "Europeus no Brasil à época da independência". "Europeus no Brasil à época da independência". História geral da civilização brasileira. C. ver Ilka Boaventura Leite. "A herança colonial: sua desagregação". e também Carlos Oberacker. em 1822: dimensões (São Paulo: Perspectiva. inúmeros estrangeiros podem finalmente visitar a desconhecida terra.). 120. tese de doutorado apresentada ao Departamento de Ciências Sociais da FFLCH-USP.. p. em decorrência dos privilégios comerciais que desfrutavam no Brasil. Negros e viajantes estrangeiros em Minas Gerais. aos principais centros da ex-colônia. Carlos Guilherme Mota (org. vol. 60. viajar. os ingleses gozavam o direito de negociar. p. mimeo. São Paulo. naturalistas e artistas estrangeiros". chegando a emprestar.). tão promissora em riquezas naturais. Mota (org. cit. . pp.3 Apesar do predomínio inglês.2 Entre os estrangeiros. entre os primeiros a lançar publicações sobre o Brasil no Velho Mundo. em Sérgio Buarque de Holanda (org. que se 1 2 3 Sérgio Buarque de Holanda (org. cit. desde o Tratado de 1810. Difel. "Viajantes. 1975). estando. Pelo segundo artigo do Tratado de 1810. Trata-se. 1. de um dos aspectos do processo de "internacionalização" pelo qual o Brasil estava passando. em História geral da civilização brasileira (4. diplomatas. 1972). Brasil em perspectiva (6. imigrantes. pois. 1986. Sobre a predominância inglesa relacionada à literatura de viagem e à história sobre o Brasil. 1. naturalistas. em 1822: dimensões.13. São Paulo: Difel.). Sérgio Buarque de Holanda refere-se a um "novo descobrimento do Brasil"1 empreitado por comerciantes. em Carlos Guilherme Mota (org. p. cap. Século XIX. Virgílio Noya Pinto. Não é difícil compreender que eles exerceram significativa influência tanto sobre a economia quanto sobre o campo das idéias.J-Jrni 1808 abrem-se os portos da colônia portuguesa na América do Sul e. a presença dos ingleses é a mais expressiva. especialmente os portuários. tomo II. "Balanço das transformações econômicas no século XIX". vol. um "caráter cosmopolita". ed. conseqüentemente. ed. G. tomo II. vilas. São Paulo. nesse momento.). p.

Nesse período. observavam a vida social. pp. 84-6. Os viajantes no Brasil. op. tanto rural como urbana. com maior ou menor afinco.que estavam para se firmar como nações unificadas .6 A literatura de viagem sobre o Brasil no século XIX é muito extensa. paleontologia. em Revista de Historia de América. "Imagens do Brasil no Velho Mundo". op. A pesquisa científica e as "descobertas" de novas espécies e matérias-primas não serviam meramente como contribuição para a montagem de museus. para mencionar o mais importante. com notórios interesses comerciais manifestados por uma burguesia em franco fortalecimento. igualmente era possível fazer-se uma longa viagem.268 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 269 estende ao longo do século. 1981. Flora Sussekind. epístola. num continente formado por numerosas repúblicas independen- 6 5 Lembrando aqui Pedro Moacyr Campos. cit. cit.como a historiografia. sem o transtorno de cruzar fronteiras. como o estudo da natureza e a multiplicidade étnica que carateriza a nossa sociedade. estatística. ou seja. focalizando a questão em torno dos dois aspectos que o particularizam no contexto da América e da Europa: primeiramente. astronomia.ainda incipientes. cf. nas grandes expedições científicas. conferência. E. sobretudo até meados do século. a fauna e a flora. ver (capítulos introdutórios) Elisabeth Mendes. Essa diferença reflete o perfil dos estrangeiros errantes no Brasil. passando por regiões muito diversas. Entre os alemães. razões menos práticas foram motivo de interesse.. Esse grande afluxo forasteiro talvez se explique por razões muito práticas: em relação ao restante da América Latina. cit. tomo II. dependendo dos objetivos da viagem. nos escritos desses forasteiros estão sendo avaliadas as potencialidades econômicas.ainda não estariam participando ostensivamente da corrida expansionista. Tomando por base alguns desses depoimentos de estrangeiros. pretendemos. contribuindo para a produção de imagens sobre o país e para a sua inserção no concerto das nações européias. as viagens dos estrangeiros e a sua produção intelectual devem ser compreendidas no contexto da expansão capitalista e neocolonialista do século XIX. meteorologia. São Paulo. viajar no Brasil era mais seguro devido à relativa estabilidade política e à presença de muitos estrangeiros. A nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na Viagem pelo Brasil. pois. a ênfase nos assuntos é diferente. todos estudavam. 40-63. em Sérgio Buarque de Holanda (org. a fíccional . 1817-1820 (São Paulo: Hucitec/Fapesp. seu lugar no processo de internacionalização do Brasil era mais periférico. perscrutar as imagens criadas sobre o Brasil. mimeo.-. se comparados com Londres e Paris . A condição feminina no Rio de Janeiro. Karen Macknow Lisboa. o interesse de explorar o país. 1977. n. Alicia Tjarks. Daí uma das razões da variedade temática que caracteriza a literatura de viagem. 83. A Selected Bibliography". como ocorria entre os ingleses. a economia e as questões escravistas e indígenas. além do apoio que muitos naturalistas e exploradores receberam de d. outras nacionalidades voltaram seus interesses ao país e deixaram igualmente importantes registros de suas viagens ou estadias em forma de relato.-jun. jan. a instalação de jardins botânicos e a ampliação de sociedades e academias científicas . . Pedro II. em decorrência de seu próprio status no continente europeu. artistas a 4 mercenários. Ilka Boaventura Leite. obviamente. século XIX (São Paulo: Hucitec/Pró-memória/Edusp. desconsiderando-se o trágico episódio no México. diário e material iconográfico. Em jogo estão a conquista. observa-se a existência de dois grupos distintos representados por momentos político-expansionistas diferentes: Inglaterra. vol. investigavam as relações de trabalho.. a Suécia e a Itália . dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP. Rússia e os EUA estariam interessados na "exploração imediata". 209-10. mineralogia. 1. É evidente que os naturalistas. os recursos naturais. Pedro Moacyr Campos. 1808-1822. Salvo eventualmente o México. zoologia. Já a Alemanha. Campos investiga tanto a literatura de viagem. particularmente. Míriam Moreira Leite (org. o qual se manifestou. II. Ilka Boaventura Leite. que analisa as "imagens" que nas primeiras décadas do século XIX a literatura européia criou sobre o Brasil. Em suma. de produção.5 o que não excluía. De comerciantes. México. por sua vez. 7 A respeito das tipologias de viajantes e características do gênero literatura de viagem. França e. 1997).4 De um modo geral. cap. a Áustria. A melhora dos meios de transporte e de comunicação e a difusão de notícias acerca das riquezas e das possibilidades econômicas do país também motivaram a vinda de muitos estrangeiros. aventureiros. op. 1981) (Estudos Históricos).mas também implicavam um significativo retorno econômico e prestígio político. geografia. pp. "Brazil: Travei and Description. 1991). 1800-1899. pp. não se tem notícia de tantos comerciantes.. em menor escala. diplomatas. aprofundaram os temas da história natural: botânica. nenhum país exerceu tanta atração sobre os europeus e norte-americanos como o Brasil. por exemplo.).).de autores que conheciam ou não o país .7 servindo de rico "laboratório" para os estudos sobre as diferentes "raças" e "culturas". o fato de ter sido a única monarquia. a ampliação e a manutenção de novos mercados e a coleta de amostras da natureza. O Brasil não é longe daqui (São Paulo: Companhia das Letras. compêndio. sociais e naturais do país.

11 J. conforme Hobsbawm demonstra. não havia ainda uma teoria sobre o que seria a nação e os Estados-nações. em terceiro lugar. fomos obrigados a selecionar alguns autores. trad. trad. 47-8. em segundo lugar. cuja voz não carece ser medida em léguas quadradas. na prática. nota-se que os autores viajantes preocupavam-se com questões em torno da formação da nação. o fim do pacto colonial e do exclusivismo português serviu de ensejo para que dispensassem mais atenção ao assunto. trad.8 Provavelmente 8 Vale lembrar que. I. a provada capacidade para a conquista. pp. Hobsbawm apura a existência de três critérios que permitiam a um povo ser classificado como nação. na década de 1820. da miscigenação e do projeto civilizador. a existência de uma elite cultural longamente estabelecida. De 1830 a 1880.10 E ponderam que a presença da corte real no Brasil. a questão central é a imposição eurocêntrica de valores e crenças preconcebidos para se enxergar uma sociedade historicamente diferente. em seguida. Viagem pelo Brasil. 1981). sem a preocupação de conferir a sua veracidade. Maria Célia Paoli. e sim posterior. Diante do enorme universo de escritores viajantes e da abrangência do período aqui tratado. O processo civilizador. "que possuísse um vernáculo administrativo e literário escrito". como prova darwiniana do sucesso evolucionista como espécies sociais. Para tanto.um mamute ressuscitado. ele servia apenas para países que tivessem um razoável território ou que estivessem em condições de expandir sua área. Pedro II. Nesse período. a abertura dos portos e o comércio com nações de outras partes do mundo exerceram incalculável influência. A despeito de suas variantes (o conceito franco-inglês de civilização e o conceito alemão de cultura). considerando no mínimo um relato de viagem por década. Basílio de Magalhães e Ernst Winkler (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. favorecendo o surgimento de um sentimento de patriotismo. algo ainda inédito. num período em que predominava o trabalho livre. F. como herdeiros da Ilustração. ver Norbert Elias.] são exigências essenciais da nacionalidade". vol.270 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 271 tes. David Jardim (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. há somente um pequeno número de Estados-nações. Esse "princípio da nacionalidade" era aceito por grande parte dos pensadores sérios a respeito do assunto. rev. ao menos na capital. pp. O "nascimento da nação" o próprio fato de testemunharem as mudanças políticas. A relação que se estabelece entre a chegada da família real. 185 (grifos meus). veremos primeiramente como os estrangeiros registram o momento do "nascimento da nação" brasileira. embora as teorias a esse respeito ainda fossem incipientes. a "selvageria americana". a abertura dos portos é considerada o primeiro grande esforço para realizar a obra de unificação do terri- O império do Novo Mundo entra no concerto dos Estados europeus . dotados de múltiplos recursos [. . em segundo lugar. de ter mantido por mais tempo o escravismo.. Ver Eric J. 1825-1835 Nas primeiras três décadas do século XIX. fora removida pela "influência da civilização e cultura da velha e educada Europa". Dez anos no Brasil. A "escola histórica" dos economistas alemães. D. conceitua uma idéia "liberal" de nação: a nação teria que ser de tamanho suficiente para formar uma unidade viável de desenvolvimento: "um território extenso e uma grande população. o que ajudava na conscientização do povo de sua existência coletiva. O conceito não é paralelo à própria formação dos Estados-nações na Europa. bem como servia. B. econômicas e sociais decorrentes da transferência da corte portuguesa..9 Para os bávaros Spix e Martius. 36-50. Nações e nacionalismo. acreditando na superioridade do europeu. cultura e selvageria. Anna Maria Quirino (Rio de Janeiro: Paz e Terra. 53 (grifos meus). de Ramiz Galvão. P. no início do século XIX. Pedro desposa a princesa da casa de Habsburgo. 10 Considerando o contexto da expansão do capitalismo. Mas. bem como justificar. trad. mantendo certa unidade nesse processo. nas páginas que se seguem. Ruy Jungmann (Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. E indagava-se quais das numerosas populações européias classificáveis como uma "nacionalidade" poderiam vir a ser um Estado e quais dos numerosos Estados estariam dotados de um caráter de "nação". Carl Seidler. a expansão e domínio político. vindo a ser um império mais poderoso do que o reino europeu. a partir de meados do século.11 Já para o comerciante inglês Luccock. von Spix & C. E. examinaremos alguns aspectos dos complexos e controversos temas da escravidão. Viagem pitoresca através do Brasil. Eldorado e Alemanha. Esse esforço ultrapassaria os limites propostos a este trabalho. recuperaremos algumas facetas da imagem de d. e. desde que tivesse suficiente dimensão territorial: primeiramente era necessária a associação histórica entre o povo e o Estado ou um Estado de passado recente e razoavelmente durável. 9 Alcide Orbigny. a visão de mundo desses viajantes se apoia nos conceitos complementares de civilização e barbárie. Hobsbawm. Lúcia Furquim Lanmeyer. perfectibilidade e degeneração. e como modelo serviam a Inglaterra e a França. é importante lembrar que. desde 1780. von Martius.fantasia e diuturna realidade. 1976). Para mais detalhes acerca dessa distinção. p. Vale ainda ressalvar que estamos lidando com "imagens" que os autores criaram a respeito do Brasil. 1990). por fim. a montagem do Estado e a fundação da nação evidencia-se em alguns relatos: o francês Alcide Orbigny comenta em sua obra que a formação do Estado se deu com a mudança da família real. Leopoldina da Áustria: dois mundos heterogêneos celebram bodas . 1990). econômico e cultural.

trad. o momento decisivo para a. Poderia ser citada uma lista interminável de autores que fazem semelhantes observações. Beschreibung meiner Reise von Hamburg nach Brasilien im Juni 1824 nebst Nachrichten über Brasilien bis zum Sommer 1825 und über die Auswanderer dahin (Braunschweig: Friedrich Vieweg. ainda seria considerado como uma das nações do mundo. Percebeu também 12 John Luccock. H. Ed. livro 3. "no futuro. 7. apoiado pela Inglaterra. dependendo de sua nacionalidade e posição política. Assim. comenta Luccock. 23-5. a ameaça de desintegração da colônia fora evitada pela grande "habilidade do governo". p. relevantes mudanças no "estado intelectual e material da antiga colônia". A inversão política. 1859). Ao seu ver. Krüsi. e que entre as províncias havia mesmo interesses diferentes e rivalidades. Desde então. convicto de que o Brasil. 17 John Armitage. Dolores. trad. Fruto dessas transformações foram o "sentimento de independência. com jurisdição separada e suprema? Ou deveria voltar "à situação abjeta" e "degradante" de colônia? E se alcançada a independência. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. que se manifestava abertamente. Deveria o Brasil permanecer parte da monarquia portuguesa. Finalmente. não fora a vinda da família real e abertura dos portos (Orbigny.. Ver. em que. Viagem ao Brasil (1820-21). 14 A título de exemplo. foi sintetizada com a seguinte observação: "Pode-se dizer com muita razão. vitórias ou derrotas sangrentas". e nos anais da história do mundo transatlântico". que Portugal se desmembrou do Brasil do que o Brasil de Portugal". Nacional. formação de um caráter e de sentimentos nacionais foi a elevação do Brasil a reino unido. o fato de receberem seus governadores da mesma corte e que se orientavam comercialmente para a mesma metrópole. mas sim os desdobramentos da Revolução do Porto. von Rango. E considera que os acontecimentos causadores da separação do Brasil de Portugal "influíram menos na situação interna" do país do que na "política geral". O Rio de Janeiro visto por dois prussianos em 1819. a independência assume relevância na história universal: era ela o "acontecimento memorável ante as nações civilizadas. que ocorria naquele tempo.. e sim como a "conservação e a legalização de uma ordem de coisas" que existia havia muitos anos. 1989). trad. 1949). deixando de ser sacrificado aos interesses de outra nação". cap. Quando a corte chegou. deveria ser um reino centralizado com a capi- 15 Johann Moritz Rugendas. 60-61. Sérgio Milliet (4. a atuação dos ingleses é entendida como uma ajuda na formação da unidade territorial e da formação da nação. 16 Ibid. Spix e Martius. ed. 1826).. teria se desmembrado do Brasil.] pareceu sentir-se guindado à categoria mais elevada na escala dos seres humanos". analisou com cuidado a emancipação: "A questão da independência começava a ser publicamente agitada e desta derivaram várias questões". a convocação das cortes e o juramento da constituição. criticados. 67. por exemplo: T. é 1808. 38. p. na verdade. aliás. Paul Harro Harring.13 Se para Luccock.15 Rugendas também acha que o marco inicial da história do Brasil e do Rio de Janeiro. é vista não como uma modificação da situação do Brasil. Viagem pitoresca através do Brasil. um inglês extremamente arguto. pp. Rugendas) ou a elevação a reino unido (Luccock) que desperteram um "espírito que não havia ainda aparecido anteriormente". pp. l3 Ibidem. II. 376 (grifos meus). pp. sim. que progrediu em conseqüência das "inúmeras relações comerciais com as nações européias". vol. uma consciência própria de sua importância e a resolução de manter sua nova dignidade". segundo o autor. a unidade do território seria mantida e o poder centralizado na capital do novo reino. ein Charaktergemalde aus Süd-Amerika (Basiléia: Chr. As influências dessa preponderância sobre as instituições civis e a "marcha da civilização" ele prefere não analisar. 1966). que o idioma inglês havia se propagado com maior intensidade graças ao aumento do comércio. 136. 132-3. p. era necessário lembrar de que anteriormente as províncias eram quase "completamente desligadas umas das outras" e que talvez o único traço que elas tinham em comum era a "semelhança da língua". Edgar Sussekind de Mendonça e Flavio Poppe de Figueiredo (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. 1975).272 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 273 tório. von Leithold & L. São Paulo: Martins. História do Brasil (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. outros se queixam da preponderância inglesa. ver Maximilian Wied Neuwied. Schumacher. em particular. e não o Brasil de Portugal. Houve. 134. O "povo [. 141. A emancipação.17 Maria Graham. pp. mas não evocou nenhum sentimento especial.14 O pintor alemão Rugendas notou que as classes abastadas tinham a obstinada mania de querer imitar os costumes ingleses. diz ele. que observou de perto a vida política do país. Civilização. Milton da Silva Rodrigues (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. trad.12 Para compreender a extensão e importância desse "sentimento nacional". na perspectiva de súdito britânico. Joaquim de Sousa Leão Filho (São Paulo: Cia. . P.16 Já para John Armitage. Portugal. Os interesses políticos e econômicos ingleses que motivaram a vinda da família real são notados por vários estrangeiros e. 1981). pp. considera que não houve grandes "acontecimentos.63.

pp. escusa ele os "erros do ex-imperador e de seus ministros". As províncias separadas seriam mais facilmente dominadas por Portugal. 128-32. de algum modo. ao tratado de independência.21 levanta vários problemas que obstacularizavam o pacto proposto à "nação" e critica a sua desconexão com a realidade social. Vasconcelos (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Pedro I. 1863). cit. de Sousa (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Brazil and Ia Plata: the Personal Record ofa Cruise (Nova York: G. já o "Brasil unido sobrepujaria qualquer força que Portugal pudesse enviar contra ele". Américo Jacobina Lacombe (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. à instituição do gabinete secreto e ao protecionismo dos portugueses naturalizados geraram dúvidas no "povo" devido à lusofilia do monarca em detrimento dos interesses dos brasileiros. Depois. brancos e homens de cor. de alforriados e cativos". 1981). trad. Carl Seidler. Brasil pitoresco. ao sublinhar a inversão dos papéis da metrópole com a colônia. João Etienne Filho e Malta Lima (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp.do império de 1825 a 1835. que é retomado por vários autores. 1856). Pedro. trad. Putnam & Co. Nesse sentido. Apesar de. João VI à América até a abdicação do Imperador d. D. P. 2 ' Cf. de homens livres. trad. 19 Ver também Charles Ribeyrolles. durante os dez anos de sua administração. 96-7. Apesar de defender as boas intenções do monarca. transpira certa ambigüidade. E conclui com Saint-Hilaire: "neste país. não se cansa de explorar a imagem de Pedro I como déspota.19 O monarca não soube ser "homem do seu povo". apura Granam. pp. suas atitudes com relação à política externa. XVI-XVII. porém sem os louros da vitória. 22 Ferdinand Denis. Também Rugendas. trad. 1980). 50 e ss. e Harro Harring. 1974). 49. p. Nota-se que a colonização portuguesa explica o atraso do Brasil. questiona o conteúdo da proposta do monarca por não ter "adivinhado todas as necessidades de um povo. Carl Seidler. cf. em que são descritas as desventuras da Guerra Cisplatina e os acontecimentos. pois. I. a sociedade não existia. 213 (grifos meus). em que se encontram elementos os mais heterogêneos". Igualmente. Stewart. I. É ele um dos personagens centrais do que o autor chamaria de uma "mogiganga tragi-heróica". no cômputo do processo. em Viagem pelo Distrito dos Diamantes e litoral do Brasil. num momento posterior. S. 20 J . pois o Brasil. pp. Pedro I em decorrência do golpe que deu na Assembléia Constituinte (1824). p. era necessário conhecer os habitantes. responsável perante o rei e as cortes de Lisboa? Essa possibilidade era defendida pelos republicanos e pelos que temiam a separação. Diário de uma viagem pelo Brasil. cuja população oferecia um "amálgama estranho de americanos e portugueses. 1990). na época da independência. vol. faz referência à impopularidade de d. porém. à ingerência nos negócios de Portugal. Dez anos no Brasil. Charles Expilly. argumento. ver a crítica que faz o naturalista inglês Charles Bunbury à Carta Constitucional e ao governo. "o povo" estaria "desconfiado de tudo". deveria tender a unir os brasileiros e dar-lhes. Diante dos acontecimentos. o período colonial representaria um estado de "escuridão e ignorância" anterior ao da Idade Média. cada qual com seu governo supremo. 163-4. contudo. Também nunca soube ele conciliar a opinião pública com o seu governo. Le Brésil tel qu 'il est (Paris: Charlieu et Huiillery. Ver também Ribeyrolles. em caso de luta entre ambos. mercenário alemão que veio ao Brasil para integrar as tropas imperiais. Pedro". Brasil. à França ou à Alemanha. cf. p. ela "nada tinha de brasileiro". pp. mal conhecia a cidade. Primeiramente. 1980). "estimulado por sentimentos generosos". diante da conduta política de d. citando e concordando com Saint-Hilaire. Daniel Parish Kidder. op. II. trad. 136-41.20 Já num momento posterior à independência e às complicações em torno da elaboração da Constituição de 1824.. C. 1980). pp. Leonam de Azeredo Penna (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. vol. Brasil pitoresco. mal conhecia o Rio. reforça a debilidade dos ex-colonizadores. que reforça o papel modernizador do Brasil em oposição a Portugal. Charles James Fox Bunbury. Ferdinand Denis. trad. teria feito "certamente mais progressos em inteligência do que nos três séculos decorridos desde a sua descoberta até a proclamação da Constituição Portuguesa em 1820". Viagem de um naturalista inglês ao Rio de Janeiro e Minas Gerais. Para Stewart.274 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 275 tal no Rio ou deveria haver várias províncias sem ligação. Bertholdo Klinger (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. figura que para muitos autores. Reminiscências de viagens e permanência nas Províncias do Sul do Brasil. 37-8. Ainda assim. "Resumo histórico das revoluções do Brasil desde a chegada do rei d. educação moral e política". de modo geral. e com dificuldade se podiam descobrir alguns elementos de sociabilidade". 1980).. pp. cit. vol. 87. op. cit. Charles Ribeyrolles. cf. Helena G. pp. Para isso.22 18 Maria Graham. e Carta Constitucional estabelecer princípios justos. ter ele expressado "sentimentos que deveriam lisonjear o espírito nascente de nacionalidade". profundamente. Moacir N.. John Armitage. Auguste de Saint-Hilaire.18 Armitage também se refere à desconfiança do "povo". advoga ele que a nova forma de governo deveria ter sido "adaptada a este triste estado de coisas. por nunca "ter-se constituído verdadeiramente brasileiro". no período da regência. trad. um Napoleão transatlântico. e talvez conviesse tão bem ao México como ao Brasil. cf. representante do atraso. Gastão Penalva (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp.

op. considerações de um brasileiro". Graças à intervenção da Inglaterra e à presença da metrópole foi possível "guardar as jóias e as pessoas sagradas do reino". Mas isso não exclui que um "espírito de nacionalidade brasileira. cf. afinal. expulsou várias vezes os deputados da câmara e atirou nos representantes do povo. 217.. 57. No entanto. Resta saber qual seria. dominada pela anarquia e derramamento de sangue. a independência e a monarquia . 27 Em seu romance Dolores. esses estrangeiros introduzem conceitos àquele tempo inéditos para a criação de imagens sobre o Brasil: Saint-Hilaire. cit. E a vinda da família real colaborou para a decadência moral e não para o processo civilizador.25 Martius. cit. porém. construindo um Estado e uma Igreja moralmente decaídos.não era exatamente feliz.. esteja se desenvolvendo no país. 50. que. cônscio do dubioso passado do europeu colonizador. 316. em O Estado do direito entre os autóctones do Brasil (São Paulo: Edusp. O reverendo norte-americano Stewart também considera que "o traço monarquista do governo" é a única razão pela qual se justifica que o Brasil seja uma exceção na América do Sul. 110. refere-se às guerras napoleônicas. embora não exclua a existência de elementos de desordem. a ameaça de desintegração da unidade territorial e as revoltas e guerras civis são palco frutífero para projeções republicanas. regozija-se. com armas. Crente de que as forças republicanas no Brasil seriam incombatíveis. p. op. 271-2.. Wilhelm Schüch. II. devido à "heterogeneidade" da população.27 Essas passagens ajudam a ilustrar como esses autores articulam os acontecimentos da história política e econômica . Ribeyrolles. a ausência de uma "sociedade" obstaculiza o desenvolvimento de sentimentos de nacionalidade. op. Harring insere um breve ensaio intitulado "Fragmentos sobre o Brasil. cit. op. F. "já não havia mais aqui uma colônia mas um Império". retomadas por Denis. cit. 26 C. cit. Stewart. Críticas à parte. Para mais detalhes sobre esse texto. Entre os autores viajantes há uma voz que distoa nesse coro conservador: é a do jornalista e pintor revolucionário teuto-dinamarquês Harro Harring. apontam para um descompasso entre o sistema político e a realidade social. p. anunciando a decadência e lançando-se em sua própria cova. Sua postura antimonarquista e antieuropéia pleiteia pela fundação da república do Brasil integrada aos "Estados Unidos da América do Sul". Apesar de atribuírem aos eventos históricos importância e significados nem sempre similares. o autor pleiteia um sistema que esteja mais de acordo com as especificidades da sociedade brasileira. retrospectivamente.. o que tem sido tão destrutivo para o avanço da liberdade e da civilização. p.276 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX As sagazes observações de Saint-Hilaire. pp. deixando entender que ao sul da linha do equador também os próprios preceitos políticos sofrem inversão. o republicano. nas entrelinhas dessas observações. vol.23 A despeito dos preconceitos dos autores (a observação de que não havia "sociedade" e tampouco "sociabilidade").. e sim por conta da liberdade das relações comerciais. a elevação do Brasil a reino. o juramento da Constituição. Ver também Spix e Martius. ao longo do século. é o apoio à monarquia. que explorou inescrupulosamente aricanatureza e seu habitante autóctone. pp. Kidder. Armitage achava que a monarquia constitucional era o melhor instrumento para introduzir a "civilização". op. o que é remarcável nas observações é a percepção de um sistema político. curiosamente. em seu tratado "Como se deve escrever a história do Brasil". pois. considerando que a sorte do Brasil . bem como propiciar os "aperfeiçoamentos sociais". 126. Ou seja.. cit. porém "mais favorável". que não consegue dar conta da complexa realidade social do país. Saint-Hilaire. ver infra. o que prevalece unânime.a vinda da família real. 104-7. p. Ribeyrolles. I. p. Harro Harring. unidade. referindo-se às numerosas revoltas que caracterizam o período. pp. de modelo europeu. "Como se deve escrever a história do Brasil" (1845). é de se supor que o texto seja dele mesmo e não de "um brasileiro".24 A comparação com as repúblicas sul-americanas corrobora o argumento: Saint-Hilaire chama a atenção para o perigo do federalismo e a conseqüente decadência econômica e social devido à desintegração territorial. op. 227-8. a Revolução do Porto.em relação às demais colônias na América Latina . compartilhando uma visão comum entre estrangeiros. pp.26 Durante a Regência. patriotismo e de uma nação civilizada. baseado em moralidade". vol. Como ele não atribui nenhuma autoria. Kidder. 25 » . op.. Armitage. relaciona a monarquia com a unidade do território. cit.. op. Aos seus olhos. III. 222. 1982).com a formação da nação e do Estado. vol. cit. testemunha do período da regência. trad. Saint-Hilaire admite que o país tenha progredido não por esforços empreendidos pelo governo. ao contrário dos outros viajantes aqui citados. von Martius. critica ele a monarquia constitucional. sublinha que a monarquia constitucional não somente é uma proteção ao perigo republicano mas também é o melhor sistema num país onde há "tão grande número de escravos". a ruptura com o exclusivismo português com a abertura dos portos e o aumento do comércio exterior. E esse 23 24 era o "sinal do poderio".

30 Além de ser um monarca por assim dizer humanitário. D.. p. que era contra a escravidão.278 Karen Madcnow Üsboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 279 formação de um sentimento de patriotismo.. "preconceitos mesquinhos". de um espírito brasileiro. p. e que revela interesse sincero pela ciência e literatura. p. Sobre a suposta limitação de atuação de Pedro II.. 1975). Pedro II. Saint-Hilaire não foi testemunha ocular da abdicação de d. muito "rara". op. a ciência e a moralidade. os súditos. após o período da Regência. pp. cit. que alimenta a vontade de se livrar dos entraves do passado e de caminhar com o século. apoiados também em datas e marcos fundadores. Em suas apreciações.apesar de suas inegáveis conquistas .31 Na obra de Kidder e Fletcher. Expilly parece esquecer que o monarca dispunha do quarto poder. o fato de d. e porque um príncipe brasileiro" estava no poder. "opressão". tal qual defende Expilly. na história da civilização. 110-2. uma administração brasileira. op. D. As barbas do imperador (São Paulo: Companhia das Letras. 302. I. XVII. op. como Ribeyrolles simplificaria anos mais tarde. interpretado como um indicador do estágio na escalada dos seres humanos na evolução e no progresso social e na possibilidade de um "povo" e sua nação poderem ingressar na história da humanidade. 143 (grifo no original). Mais uma vez retoma-se a imagem do atraso português. George Gardner. assume ele um papel de destaque no processo de modernização do império. seus destinos repousam atualmente sobre a cabeça de uma criança".28 28 De modo geral. cit. 319. o conhecimento. "egoísmo". assume o imperador uma posição de exclusividade. não ser europeu. de uma sociedade coesa. de unidade territorial. pp. . Ver também Stewart. Ribeyrolles. assim enaltecem os autores. Evidencia-se também que a monarquia constitucional . op. de unanimidade de sentimentos. cit. O processo de formação do Estado-nação era. referindo-se a ele Expilly. Primeiramente. referindo ao período turbulento de 1831 a 1840. op. 211. de exceção. 324. pois. ou. por assim dizer. O autor escusa a sua falta de tomada de decisão quanto à emancipação dos escravos em virtude da limitação de seus poderes conforme rezava a Constituição e não por falta de simpatia pela questão. Pedro II ou um "Saul em Israel" Muito provavelmente o que contribui para se considerar a monarquia constitucional como o melhor sistema para governar o Brasil foi. como uma força motriz para o processo civilizador. É d. Pedro II ser uma garantia para a unidade territorial diante das ameaças de desintegração ocorridas na Regência: "É uma criança que ainda une as províncias deste vasto império".. Pedro I (1831). 88. pp. de ser um "mau" colonizador . e de ser dotado de uma "filantropia esclarecida". enfatiza o autor. XVI. "O espírito estreito. a feliz realidade de Pedro II. a ocupação do trono por d. a cultura. Essa combinação seria na "história das nações". e contra ele o Brasil teria que lutar. 31 Expilly. preservada.. Pedro II é tido como monarca que condenou o tráfico negreiro. cit. 1998).em oposição ao sistema republicano era vista. p. e sim brasileiro. cit. "O infante nasceu brasileiro. A paz do reino estaria garantida graças a um "conselho de regência brasileira. despontando como contraponto à sociedade de um país que ainda estaria no início de sua marcha para o progresso e a civilização. As passagens que se seguem mostram um monarca que representa a civilidade. considera Stewart que o poder do imperador era mais limitado que o poder do presidente dos EUA. A pátria adotou-o. Com isso. 221.. para a grande maioria.. Milton Amado (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. Em segundo lugar. de destaque no contexto social e político do país. segundo a qual tentaria conciliar os direitos sagrados dos homens com os direitos legais dos proprietários. a ordem estaria. Stewart imprime ao imperador o papel de destaque e de fundador do império. Mas entre os homens que dirigem a opinião pública. cit.que deixou uma nefasta herança no país. p. de um sentimento de independência.29 No entanto. em nítida oposição ao seu pai. o poder moderador. o naturalista francês fixa duas imagens que se perpetuarão ao longo do século. de nacionalismo. A ele é conferida uma "combinação" em que a legitimidade sangüínea se une a um caráter que respeita a Constituição. "ignorância". há um que desponta. o que não impediu que escrevesse palavras acerca do herdeiro do trono: "Quanto ao Brasil. que justamente ampliava o seu campo de atuação. indolente e vaidoso da metrópole deixou marcas nos costumes e nas instituições". de um caráter nacional. algumas páginas são dedicadas ao imperador. Foi proclamado. e as crises cessaram". trad. de opinião pública. que se traduz em "superstição".. op. 30 Lilia Moritz Schwarcz. Viagem ao interior do Brasil (1836-1841). "imobilidade". 29 Saint-Hilaire. vol. em uma palavra. Pedro II. Ver também Stewart.

O povo surge como massa coadjuvante. No entanto. é substituída por uma outra em que o monarca representa traços do "caráter nacional". criando descontentamento entre as várias facções políticas. ressalva o autor. 34 35 Max Leclerc. Por isso mesmo. "a monarquia não foi derrubada. pp. tornando-se uma personalidade cujas características não se diferenciam dos demais brasileiros. assistira passiva e ingenuamente à queda do regime. "Mas antes de tudo era ele brasileiro na alma. humilde e simples. 1942). pp. apoiadas nos direitos civis defendidos na Constituição brasileira. porém.34 Também para Leclerc a brasilidade do monarca é o aspecto decisivo em sua conduta. conciliador.. "agastado por longos anos de um governo paternal e anárquico". sendo responsável pelo próprio ocaso. qualifícando-o como homem de inteligência e caráter.280 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 281 como sendo um "Saul em Israel" . dos "temperamentos delicados". 1954). Além disso. op. 131-3. Novamente. I. é outro autor que reforça a imagem de exclusividade do imperador Pedro II como sendo uma exceção na sociedade brasileira. o que não era a regra no império. Além disso. 33 Ribeyrolles. cujos traços eram "a tolerância. Cartas do Brasil. como queriam acreditar alguns viajantes. Seria ele "conservador". opõem-se as imagens de um imperador 32 Daniel Parish Kidder & James Cooley Fletcher. à qual se juntava a falta de precisão nas idéias".35 Este breve panorama permite notar que a imagem de Pedro II. a "indecisão de seu caráter. vol.33 Foi necessário cair a monarquia para que d. brasileiro no caráter". a conciliação. Pedro II de Leclerc não preenche os quesitos de um monarca esclarecido. centralizador e usurpador do poder. sua instintiva desconfiança para com a novidade". teria ele a vocação de harmonizar os partidos que se hostilizam reciprocamente no cenário da política brasileira. 294-7. A desatenção para com as coisas militares e a hesitação quanto ao processo da abolição e às tomadas de providência para proteger o setor produtivo foram os seus grandes erros. assim sugere o jornalista francês Leclerc. Embora reitere a imagem do monarca que combateu a ameaça da anarquia republicana e fosse a força motriz para a pacificação e união do império após o sangrento e instável período da Regência. Ibid. sugere o autor. pp. Sérgio Milliet (São Paulo: Nacional. Bourbons e Habsburgos: "afabilidade". que justamente estariam privados dessa liberdade e que não gozavam dos mesmos direitos por não ser considerados cidadãos. propiciando o fim do regime. 77-8." Sob o manto da superioridade aristocrática. pois o "crime" da escravidão não seria responsabilidade do monarca e tampouco do governo. 1941). Brasil. respeitador da ordem constitucional. e sim seria uma "doença social". Pedro II é monarca que honra a Constituição. o d. inovador e modernizador. um edifício "mal construído". Elias Dolianti (São Paulo: Nacional. trad. 134-41. cit. o imperador acaba sendo protegido pela sua sagrada aura da imunidade. dotado de conhecimentos literários e científicos e de uma exemplar conduta moral. e o cidadão em todos os seus movimentos". ela desmoronou por assim dizer". trad.32 Ribeyrolles justapõe afigurado imperador e o governo com a sociedade escravocrata. Oscar Canstatt. adverte Ribeyrolles. a "intermitente apatia e a mania de deixar tudo para o dia seguinte". cujo relato refere-se ao ano de 1871. pp. a sociabilidade". 148. cit. "simplicidade nos trajes e maneiras. I.. agora é o império que é visto como instituição "caduca". pp. avesso a inovações. Atrás dessa "paz aparente" ocultavam-se as "úlceras da escravidão". Eduardo de Lima Castro (Rio de Janeiro: Pongetti. "Em variedade de conhecimentos científicos e profundo saber não pode ser comparado com nenhum brasileiro. Stewart. diz Leclerc. que sabe proteger o seu povo quando ameaçado (quando da Guerra do Paraguai). que goza de um lugar privilegiado no contexto social e político do país. apesar de ser republicano. 269-72.. Canstatt. op. seriam traços "tipicamente brasileiros" e que influenciaram o seu governo. terra e gente (1871). sua lentidão em tomar partido. é econômico em relação aos seus gastos na corte. Se antes a colonização portuguesa desvelava todo o atraso do país. Conclui o autor que a liberdade era o preceito máximo do indivíduo: "A alma é livre em todas as suas confidencias. dos "corações altivos". . razão do sofrimento das "almas elevadas". que. evitando que ele e sua família sejam um peso para a nação."de ombros para cima sobressaía [ele] entre todos" . que. o viajante não esquece dos escravos. O que significa que o meio brasileiro teria definido mais o seu caráter do que o sangue dos Braganças. vol.. e sim formadora de sua personalidade. No entanto. Pedro II fosse interpretado sob o sinal da debilidade. trad. p. ela não é mais garantia da unidade do território e da estabilidade da monarquia. que teria que ser removida. que visita o Brasil imediatamente após o 15 de novembro de 1889. O Brasil e os brasileiros. cujo desmoronamento se deu naturalmente. fazendo uma tímida alusão às contradições que caracterizavam o país: o estilo de governo do imperador reforçaria o "espírito geral" do reino.

trad. o escravismo no Brasil... Em 1826.. p. porém se esquivava de falar dela profundamente. condicionaram essas construções tão contrastantes. como uma força motriz para conduzir o processo civilizador. cit.. quando de sua estada no 36 Evidentemente.39 Outro aspecto que relativiza uma eventual crueldade ou injustiça da instituição é a certeza de que a escravidão contribuiria para o processo civilizador dos negros. com a convenção sobre a extinção do tráfico negreiro firmada entre o Brasil e a Inglaterra. por exemplo. Obviamente. não é necessário dizer o quanto a visão de mundo e as ideologias que a delineiam. uma "úlcera no organismo político". sociais e políticas para se ajustar a elas e manter-se no poder. op. 155. permaneciam ainda as espinhosas questões da escravidão e da miscigenação. 80. no período de 1808 a 1888. 154. Evidentemente.282 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 283 como representante mor da civilidade. A África é interpretada como o continente da barbárie e os africanos transportados para o Brasil. vol. I. o mercado interno cresce. miscigenação e projeto civilizador Neste "mais democrático dos impérios". forjando alguns mitos que se perpetuarão ao longo dos séculos XIX e XX. p. mas não tão ricos". 39 Richard Francis Burton. p. Observam-se três . e portanto uma grande "sorte" para um país em parte ainda tão bárbaro. cit. op. vol. p. II. uma "doença social". Apesar da falta de precisão nos relatos. 1976). cessa o tráfico. hereditários. 24-5. Vejamos primeiro o caso da escravidão.. (Munique: Fr. social e politicamente. são formuladas as teorias raciais em que as diferenças seriam determinadas biologicamente.. Acreditava-se numa humanidade única (monogenismo). cujo potencial de mudança dependeria mais do meio e da formação do que de padrões biológicos e. 37 Kidder & Fletcher. ou as imagens degradantes. todos os homens livres. passou por várias transformações. enquanto a miscigenação pode ser um fator para promover ou atrasar o processo civilizador. 160. p. cit. de modo que regiões economicamente em decadência tornam-se fornecedoras de mão-de-obra escrava para as lavouras de café e os centros urbanos no sudeste. a notória benevolência dos senhores para com seus escravos provocaria ausência de respeito e temor dos últimos pelos primeiros. cit. Igualmente deve-se mencionar o processo abolicionista e as formas de protesto contra a instituição que se manifestam ao longo do século até a abolição. op.. 92. Em compensação. p. sendo um propulsor do processo civilizador. 155 e Ribeyrolles. como sugere o diplomata inglês Richard Burton. [. nesta "monarquia rodeada de instituições republicanas". cit. O mais significativo talvez seja o da docilidade.. 151. argumentando que outros já o teriam feito. porém complementares. p.] "tão nobres quanto o rei. Segundo o diplomata. Weech. considerado moral e intelectualmente superior ao negro. que caminharia para a civilização. p. Denis. cit. 148. Nas primeiras décadas do século XIX. Reise über England und Portugal nach Brasilien undden vereinigten Staaten des La Plata Stromes wahrendden Jahren 1823 bis 1827. portanto. Gardner. Auer. não. sublinha a seriedade do tema e insurge-se contra muitos estrangeiros que se apropriam das informações de uma maneira irresponsável. p. tal qual Ribeyrolles timidamente apontou. os conceitos complementares de "perfectibilidade e degeneração" da Ilustração ainda servem como chave interpretativa para as diferentes "raças" e "culturas". cit. vol. David Jardim Júnior (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. e do monarca decaído que não percebeu as transformações econômicas. Ou então. p. baseada no "Bill Aberdeen" (1845). Seidler. X. Todos são [. são iguais. que se expressaria em comportamentos ainda mais bárbaros. o que naturalmente muitos viajantes irão criticar. op. a escravidão sempre é assunto e comumente repetese uma série de aspectos. teriam mais chances de superar o seu estado de decadência graças ao convívio com o branco. isso não excluía a idéia de que os europeus (a "raça branca") gozariam de uma superioridade intelectual e moral em relação às demais etnias. em 1850. Viagem do Rio de Janeiro a Morro Velho. Escravidão. 1831).37 embora fosse ela algo terrível. cit. Richard Burton A despeito das imagens que cultuaram a figura de Pedro II como um monarca que incorporou os mais altos valores e virtudes da cultura européia. I. todos os homens brancos. op. pp. autorizando a marinha inglesa a tratar os navios negreiros como navios piratas e submeter os envolvidos à justiça britânica. sendo que a escravidão será entendida como contra-senso à civilidade do império. Em meados do século. ainda que em condição de cativos. op. para criticá-la quanto à sua frouxidão.40 Já o norte-americano Thomas Ewbank. Duas questões distintas.] A sociedade só conhece duas divisões. amenidade e brandura da nossa escravidão. Denis. 233. ou como sinônimos. nesta "república disfarçada em império". op.36 Grande parte dos viajantes reconhecia a sua importância. abrindo o campo para o racismo científico. cit. vol. 250.. inicia-se a controvertida questão do contrabando de cativos africanos.. Friedrich von Weech..38 A brandura servia de escudo para eventuais ataques à própria instituição. em conseqüência do aumento da pressão britânica sobre o Brasil. op. Gardner. 38 Kidder & Fletcher. homem branco e homem negro. criada por notórios interesses econômicos e que se opõe à civilidade do império. Finalmente. op.. de cada um desses observadores. homem livre ou escravo. I. 40 Spix & Martius.

. ver George W. associada à brandura. Ao assistir a um leilão de escravos. o que. Em que sentido a vida destas pobres criaturas [escravos em fazendas] é melhor aqui do que fora na África nativa é coisa que não se pode conceber. médicos. [.. cit. uma vez livres. pautada no poligenismo. do que padecer pela vida o que padecem. 4 ' Thomas Ewbank. 42 Weech. Esse não gozaria de melhores condições de vida que o cativo no Brasil. Reisen durch Südamerika (Stuttgart: Brockhaus.que não "pegou" . Os negros libertos gozam dos mesmos direitos dos brancos. p. a Constituição brasileira consagrava as garantias individuais. e seu corpo. pp. cit. cit. seguindo os preceitos da Declaração dos Direitos do Homem formulada na Revolução Francesa. Victorian Anthropology (Nova York: The Free Press. utiliza-se do mesmo recurso para argumentar a favor da mobilidade social e concluir que. queria provar — com base em diferenças físicas e. que. 42. Stocking. 325. 42-3. 123. tendo as peles convertidas em cola e os ossos em marfim negro. p. 44 Johann Jakob von Tschudi. deduz que a situação do escravo é "horrorosa". os homens brancos ou mulatos. Harring. Weech afirma que em todas as culturas houve a prática de castigos e que. trad. da igualdade de chances para "todos" os súditos. questiona essa leitura otimista. O espetáculo das raças (São Paulo: Companhia das Letras. para ajudar a construir o mito da democracia racial. cit. a comparação com o trabalhador livre europeu. generaliza a viajante.] Do que eu vi.. cit. Para Denis. Ver também Burton. op. artistas. pp. pp. 43-66. em que os mecanismos de exclusão são inerentes ao sistema. A vida no Brasil ou diário de uma visita à terra do cacaueiro e das palmeiras. se possuem energia e talento. 1899). que Sérgio Buarque de Holanda descreverá sessenta anos mais tarde. Kidder e Fletcher lembram que a Constituição do período imperial não discrimina a cor como base para os direitos civis. postos à venda. e Lilia Moritz Schwarcz. importantes vertentes: a escola etnológico-biológica. trad. com tudo que lhe pertence.. Assim vi pela primeira vez em minha vida os ossos e os músculos de um homem. p.284 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 285 Brasil. I. 233. desde que sejam livres. A educadora alemã Ina von Binzer considera o brasileiro mais bondoso do que o americano. 1971). Ina von Binzer. Land undLeute in ethischer. Alice Rossi e Luisita da Gama Siqueira (Frankfurt: Teo Ferrer de Maquita. cit. 1976). sobretudo devido ao direito do senhor de revogar a alforria de seu cativo por motivo de ingratidão. pp. op. determinavam a história (arianismo). compara a autora. Para mais detalhes sobre o pensamento racial na Ilustração. Thomas Ewbank havia notado. O que ainda reforçava a idéia da amenidade do sistema escravista era a crença na mobilidade e integração social do liberto. Kidder & Fletcher.147. Raul de Sá Barbosa (Rio de Janeiro: Paz e Terra. pp. pp. ver Thomas Skidmore. 159-60. ela somente era válida para os cidadãos. vol. II. No entanto. "os direitos humanos são mais respeitados do que nos EUA". 1994). a possibilidade de os negros livres compartilharem os mesmos direitos dos brancos era tão real que explicava o fato de serem menos dispostos a se revoltar do que em todas as outras partes da América meridional. tanto que há numerosos professores. Cidadão de fato livre somente se torna- 43 Denis. penso que seria melhor para muitos terem sido sacrificados na mocidade. segundo a qual.. Preto no branco. portanto. De fato. mesmo após o embargo de 1865 . sabe-se que o status legal do escravo liberto transpirava ambigüidade. 55-7. A escola histórica (representada por Gobineau) preconizava que as raças superiores. ao longo de um processo históricoevolutivo. 145. ed. 65-70. deputados e até ministros de "cor". "portanto.. Ver também Burton. Sobre as principais teorias racistas no século XIX. Alegrias e tristezas de uma educadora alemã no Brasil. quando se forma uma classe de trabalhadores explorados e vivendo em condições marginalizadas. vol. a população livre. condenadas ao desaparecimento. Jamil Almansur Haddad (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. 1976).42 Essa comparação fazia sentido no contexto da revolução industrial. 152.43 À deriva de dar conta da complexidade de uma sociedade escravista.. das quais sua raça está excluída nos EUA". a branca. Do pouco que pôde Ver. o cotejo peca por desconsiderar a questão da coisificação do escravo em relação ao senhor. p. 1993). Brasilien. os autores recorrem à comparação com os EUA. aliás. 101. politischer undvolkswirtschafilicher Beziehung und Entwicklung (Leipzig: Hermann Zieger. pp. as raças "superiores".44 No entanto. que visita o Brasil de 1857 a 1859.. 214. trad. "em nossa civilizada Europa". O naturalista e diplomata suíço Tschudi. lembrando-nos timidamente do "homem cordial". de quem ele se torna propriedade particular. dificultando a formação da cidadania. p. ou seja. Moritz Lamberg. Ainda assim. "O desprezo de um lado e o sentimento de amargura do outro não são aqui tão grandes como entre os nossos irmãos do Norte". bilíngüe. 233-4. op. 1987). o homem livre recebe tratamento pior que o escravo nas propriedades e lares brasileiros. p. em 1845-1846.41 Um outro argumento para escusar a escravidão era.. teriam predominado sobre as raças inferiores. mentais — a inferioridade dos negros e índios em relação aos brancos. op. op.. cit. sua alma e seu espírito entregues a quem pagasse mais. no Brasil. Lamberg. op. A terceira vertente era a do darwinismo social. choca-se com a frieza do tratamento. ou seja. op. podem erguer-se às mais altas posições sociais. Leid und Freud einer Erzieherin in Brasilien.

p. O legado da "raça branca" (São Paulo: Dominus/ Edusp. na província fluminense. cit. Igreja e Estado estaria se firmando. Pautados ainda em máximas do pensamento racial da Ilustração. na epígrafe desse tópico. não se esboçou nenhuma modalidade de resistência aberta. História da vida privada. Por paradoxal que pareça. 316. 48 49 Ibid.). A esse respeito. como escravo.48 Essa idéia Martius desenvolverá mais tarde em seu tratado Como se deve escrever a história do Brasil. cit.uma visão que transpira ainda o humanismo da Ilustração. vol. no ano de 1833. 83. entendendo-a como a "peculiaridade histórica do povo e da nação" brasileira. uma mistura tão grande de "raças". quatro quintos da população o eram. Em síntese.. evidentemente. de todos os continentes. brancos e mulatos em posições antagônicas de luta. quando de passagem por Salvador. Ser escravo no Brasil (São Paulo: Brasiliense. A eles cabe absorver "os pequenos confluentes das raças índia e etiópica". II. "Vida privada e ordem privada no Império". de contradições e longe de revelar a complexidade social. mais polêmica se tornava a questão. 87-8. no mínimo. Finalmente. não tinha preconceitos de "raça". o que não era a regra. No Rio de Janeiro. 194. Com certeza era esse um dos aspectos que mais lhes chamava a atenção.. de todos os gênios".. cf. expressam esse fenômeno prenhe. 246. I. no final da década. em oposição às teorias racistas que vão tomando cada vez mais o espaço . 50 Martius. não tendo nenhuma estrutura ou mecanismo que os integre dignamente na sociedade. a questão da mobilidade social e integração do homem de "cor" nos conduz ao segundo grande assunto que ocupava a mente desses forasteiros: o da miscigenação. embora os portugueses. em Fernando Novais (org. pp. 178-84. sobretudo a partir de meados do século.47 A sociedade brasileira não somente era um rico manancial para se estudar diferentes "raças" e "culturas".286 Karen Macknow Lisboa Olhares estrangeiros sobre o Brasil do século XIX 287 va o forro munido de carta sem restrição alguma. "sabiamente". justamente quando se leva em consideração que o negro ou mestiço (quanto mais escuro).. op. era identificado no imaginário da população. ou seja. p. cit. quatro eram brancos. quando a população de africanos aumentava consideravelmente. Luiz Felipe de Alencastro. não se "formaram [. vol. cf. 1982).. Se ela faz referência à suposta mobilidade de nossa sociedade escravista.45 A educadora observa a questão da escravidão no interior de São Paulo. Tendo viajado pelo país. 1965).. também percebe que muitos escravos quando libertos vivem na marginalidade. como representantes da raça branca. Ina von Binzer. Florestan Fernandes. "os padrões de relações raciais elaborados sob a égide da escravidão e da dominação senhorial". dedicado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e que serviria de base metodológica para ulteriores estudos sobre a história do Brasil. E quanto mais o debate sobre as teorias raciais. profetiza o autor. Já Spix e Martius. considerada intelectualmente superior às demais. op. acalentava os fóruns científicos. Em 1840.que redundou na perpetuação do status quo ante". "índoles" e "classes". observam que nem Londres nem Paris apresentavam uma variedade. mas também para se indagar quais seriam os benefícios ou prejuízos de tal mistura racial. cit. por outro vislumbra ele o desaparecimento desses 45 46 47 Katia M. defendem timidamente que a mistura das raças é um benefício para a constituição de uma sociedade civilizada em que o tripé burguesia. pp. lançou mão da mescla das raças "para alcançar os mais sublimes fins". Em Niterói. de antemão. consciente e organizada. defende o naturalista. ver Karen Macknow Lisboa. em cada dez habitantes. na Viagem pelo Brasil. Segundo o censo de 1849. 180 e ss. 59% da população de Campos era escrava. 24-30. vol. independentemente de seu status. Florestan Fernandes observa que. p. O "gênio da história". durante a fase de consolidação da ordem social competitiva em São Paulo. Spix & Martius. pp. Vale ressaltar que Martius escreveu o tratado no auge do tráfico negreiro (década de 1840). quase metade da população era escrava. A integração do negro na sociedade de classes.. Spix e Martius. 152. E o censo de 1870 revela que 20% da população do país. não teria ele notado que. Era como se mirassem num "espelho mágico" e vissem passar "representantes de todas as épocas. cit. .e não a ação . em várias regiões. As palavras de Burton. seria preta e 38% mulata. embora escravista... a maioria da população não era branca?50 Se por um lado Martius sublinha a importância dos autóctones e dos africanos na construção da nação . graças à qual teria se formado uma sociedade tão heterogênea. em 1818. 2.46 Não resta dúvida de que esses depoimentos contribuíram para a imagem de uma sociedade que. p. op.49 Muito provavelmente nenhum viajante explorou de forma tão metódica a miscigenação. op. formem o "mais poderoso e essencial motor". de Queirós Mattoso. que colocasse negros.] barreiras que visassem impedir a ascensão do 'negro'. vol. Essa situação certamente condizia com a grande maioria da população e revelava nitidamente a "omissão" por parte das classes dirigentes e do governo diante do processo abolicionista. atestando a sua interpretação enganosa quanto aos dados demográficos. III. pp. na antevéspera da abolição. foi a omissão do branco . Tanto o negro quanto o índio contribuíram para o "desenvolvimento da nacionalidade brasileira". nem se tomaram medidas para conjurar os riscos que a competição desse elemento racial pudesse acarretar para o 'branco'.

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grupos, apostando num paulatino branqueamento da sociedade.51 Ou seja, na medida em que a miscigenação poderia propiciar o branqueamento da população e, assim, a homogeneização social, é ela interpretada positivamente como fator civilizatório e de formação nacional. Já uma diferente interpretação encontramos no republicano Ribeyrolles. Para ele, até aí concordando com o princípio de Martius, a fusão das raças seria um dos meios para se atingir a civilização. Contudo, a seu ver, os brancos, no Brasil, eram "débeis", devido ao calor e à ociosidade, e, portanto, ao contrário do que Martius advoga, não poderiam ser irradiadores da civilização. Grande esperança residiria nos mestiços, polemiza Ribeyrolles, atribuindo-lhes central importância na formação da sociedade burguesa. Nesse desenvolvimento, nem os escravos nem os índios teriam um papel decisivo. Embora os cativos, assim explica o autor, fossem a grande mão-de-obra nacional, não podiam eles dar conta da demanda de trabalho, devido a seu número exíguo. E os índios, carentes de educação, estavam inaptos para contribuir nesse processo. Os mestiços, pois, híbridos quanto à cor, teriam um "espírito ativo" e "fortes músculos", constituindo a grande força de trabalho e produção. Os melhores profissionais seriam os mulatos, formando a "verdadeira burguesia brasileira", defende o autor,52, opondo-se abertamente a uma forte tendência do período (final da década de 1860) em que se tentava, a qualquer preço, provar cientificamente a inferioridade dos mulatos. Queria-se demonstrar que os casamentos híbridos geravam descendentes degenerados e mais fracos, ou, no pior dos casos — por absurdo que seja - , até estéreis. Nesse contexto, evidentemente não faltariam vozes desconfiadas da mistura racial. Gardner pondera que as raças mistas eram uma ameaça repu' No meio político e intelectual brasileiro, a discussão do "branqueamento" da sociedade brasileira tomou enorme fôlego no período abolicionista, quando também o pensamento racista já fora sistematizado em várias vertentes. Segundo Thomas Skidmore, a tese do branqueamento baseava-se na suposição da superioridade branca e no uso dos "eufemismos raças 'mais adiantadas' e 'menos adiantadas'". Acreditava-se que por meio da miscigenação o negro desapareceria e a população ficaria progressivamente mais clara. Os miscigenados não seriam produto da degeneração, mas estariam aptos a produzir descendentes cada vez mais brancos. Isso se explicaria em parte pelo fato de o gene branco ser mais forte e em parte porque os parceiros brancos seriam mais procurados para procriação; cf. Thomas Skidmore, op. cit., p. 81. Vale notar que Martius não explica o fenômeno da mestiçagem e do decorrente branqueamento do ponto de vista biológico. Nesse sentido, suas idéias se pautam em conceitos filosóficos, em coerência com o "racismo da Ilustração" (Stocking). 52 Ribeyrolles, op. cit., vol. I, pp. 93, 156.
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blicana à monarquia e ao poder dos brancos. Também o interesse dos europeus pelas "bonitas" e "amáveis" mulatas, que aceitam permanecer numa "posição inferior" por consentir que esses homens não se casariam com elas, segundo observa Burmeister, contribuía para "baixar a moralidade do povo brasileiro, dando, assim, à raça de cor uma expansão cada vez maior". Stewart nota que a mistura se apresenta em todas as esferas da vida, "doméstica, social, civil, militar, no palácio imperial e diante dos altares da Igreja", o que não deixa de ser "revoltante", sobretudo por ele ser um visitante dos EUA, tal qual faz questão de mencionar. 'Terríveis" e "assustadores" mestiços formam a maioria da população, cujo desejo era de se tornar branca, conclui o missionário, apontando, despropositalmente, para o racismo que plasma as relações sociais. Por que querer ser branco se havia os mecanismos de ascensão e integração para a população de "cor", tal qual tantos estrangeiros enxergavam? E, por fim, o famoso naturalista Agassiz, representante da escola etnológico-biológica, que não tardou em radicalizar os males da miscigenação, declarando que os mestiços seriam um grupo degenerado.53 Em extensão à questão da miscigenação, voltaria a questão da nação. Vimos que, para Martius, tanto brancos quanto negros e índios constituíram a base da nação, emprestando à mistura racial a tarefa histórica na formação nacional, e que para Ribeyrolles os mestiços, sobretudo os mulatos, representam a "verdadeira burguesia". Trata-se de concepções que os defensores das teorias racistas obviamente não admitiriam. Esse é o caso do diplomata suíço Tschudi, que, levando às últimas conseqüências as mesmas preocupações de Denis e Saint-Hilaire quanto à heterogeneidade da população, asseverou que a miscigenação torna-se um empecilho para pensar o império como nação. Tschudi constata que a única ligação que existe entre os habitantes do império é a "forma de governo". Ao contrário das nações européias, onde, além dessa forma de ligação, a união se faz através da ascendência ou origem comum e, portanto, de um caráter, em suas linhas gerais, comum, essas nações formam um todo limitado pela sua ascendência, seu caráter, sua língua, sua história, suas necessidades. No Brasil, no entanto, observa-se uma ascendência miscigenada, impossibilitando assim a formação de um "tipo

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Gardner, op. cit., p. 26; Burmeister, op. cit, p. 71; e Stewart, op. cit, pp. 72-3; Louis & Elizabeth Agassiz, Viagem ao Brasil (1868) (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp, 1983). Sobre a recepção da obra de Agassiz no meio brasileiro, ver Skidmore, op. cit., p. 67.

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nacional" e de um "caráter brasileiro". O naturalista conclui que nos povos da Europa reina a nacionalidade, no Brasil a individualidade (grifo no original). Por fim, o autor tece observações para definir o "brasileiro". Sob esse termo não entende ele o total da população, mas somente a parte "mais inteligente", de origem preponderantemente branca.54 Pode-se repreendêlo, reconhece Tschudi, de ser aleatório e injusto, mas acredita ele ter justificado a sua postura. Ao descrever a vida intelectual, social e administrativa dos brasileiros, recusa-se a juntar o "indígena apático", o "caboclo preguiçoso", o "rude negro liberto", o "superficial mulato" aos descendentes de colonos civilizados, em sua maioria de origem latina.55 Em suma, no olhar desses forasteiros, essa "sociedade multicolorida, heterogênea, bizarra", como a adjetivou Expilly, teria que passar por transformações para evitar sua estagnação ou mesmo decadência para um estado de barbárie e desorganização social tanto quanto assegurar o seu caminho para tornar-se uma nação civilizada. O maior debate, certamente, gira em torno da questão da miscigenação e a dúvida que esta suscita quanto à viabilidade de o Brasil se tornar uma sociedade "civilizada" nos moldes europeus. A despeito dessa polêmica, ao longo do século, há uma certa unanimidade quanto às providências a ser tomadas, visando a constituição do Estado e do sistema monárquico-constitucional: moralizar as instituições públicas (governo, administração, Igreja, etc.) e privadas (família, casamento, etc), bem como o trabalho e as relações sociais de toda natureza; expandir e melhorar o ensino básico e médio, aumentar o comércio, incrementar os meios de transporte e comunicação, instalar indústrias e investir na produtividade agrícola. Alguns viajantes enfatizarão a necessidade de reformas morais e religiosas. Kidder acreditava que a formação de uma "grandeza nacional" dependia do combate ao vício, à ignorância, superstição e intolerância, cuja arma seria a "piedade" e o "poder do saber". O que mais precisava o Brasil era de "evangelizadores piedosos". Já Ewbank é mais extremo ao afirmar que o catolicismo era que impedia o progresso do país e, em geral, da América do Sul. Não bastariam "evangelizadores piedosos" para se alcançar al-

gum esclarecimento entre a população, mas sim precisava-se de reformadores, a exemplo de um Lutero ou Fenelon...56 No olhar providencial e (re)formador dos viajantes não resta dúvida, porém, de que o grande problema para o progresso do país estava na mãode-obra escrava, deixando entrever a contradição da ideologia liberal, que projetava no país a constituição de uma sociedade burguesa inserida no mundo capitalista e a prática da escravidão. O mito da brandura, do potencial civilizador da escravidão e da possível ascensão social do liberto não era suficiente para sustentar a instituição. Numerosos autores se opõem à escravidão por corromper moralmente a sociedade, afetando as relações humanas (licenciosidade, libertinagem sexual, exploração humana) e a disposição ao trabalho. Autores como Tschudi e Burton reforçaram a idéia de que o escravismo era o caminho mais certo para destruir economicamente o país. O diplomata inglês, munido de um transparente racismo, acusa diretamente o negro, concluindo que a "importação" do negro ("cativo, proscrito, criminoso") da África pode ter contribuído para a melhora da "raça", mas prejudicou a "raça superior" que o admitiu, no sentido moral e físico, sobretudo indispondo-o ao trabalho e, acima de tudo, ao melhor de todos os trabalhos em um país jovem: a agricultura. "Onde os negros trabalham, todo trabalho se torna servil, e, em conseqüência, o povo carece do 'altivo camponês, orgulho do País'". Também a educadora Ina von Binzer desmascara a desmoralização do trabalho provocado pela escravidão. No entanto, enfatiza ela que todo trabalho é realizado pelos negros, em contraste com a classe dos proprietários que, completamente dependente dos escravos, acostumouse ao ócio.57 Expilly, após observar por mais de dois anos a sociedade escravista na década de 1860, reconhecia que a corrupção agia reciprocamente. A escravidão oblitera o senso moral tanto dos opressores como dos oprimidos. E, em alguns casos, o vício do qual alguns escravos são acusados é resultado de senhores inebriados pelo poder absoluto que exercitam, tendo esquecido as noções mais simples de direito e justiça. Também encontramos visões mais lúcidas em Ribeyrolles. Nota ele que os negros escravos formavam a "mão-de-obra nacional", cuja produtividade, contudo, era limitada pela violência, suplício e opróbrio que caracterizavam a própria instituição. E mais:
56 57

54

Saint-Hilaire, que esteve em nossas paragens entre 1816 e 1822, se refere ao Brasil como sendo um país onde "não havia brasileiros", ou seja, não havia "homogeneidade" entre os habitantes, ou algo que lhes imprimia alguma identidade; cf. op. cit., p. 213. 55 Tschudi, op. cit., vol. I, pp. 119-20.

Kidder, op. cit., pp. 271-2; Ewbank, op. cit., p. 19. Tschudi, op. cit., vol. I, p. 116; Burton, op. cit., p. 230; Binzer, op. cit., p. 157.

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impede mesmo a formação do "povo", pois a escravidão representa a "morte da sociedade e das almas". O escravo não é integrado na sociedade por meio da lei, do direito e da família, que são as bases para se edificar um "povo", desmascarando a segregação que dominava as relações sociais.58 Desde as primeiras décadas do século compartilhava-se a opinião de que a população era numericamente exígua, moralmente decaída e culturalmente despreparada para enfrentar o desafio de explorar uma natureza tão pródiga.59 Com o término do tráfico (1850) e o avanço do abolicionionismo, o problema da mão-de-obra recrudesce, necessitando de soluções. Os muitos males que perduram no Brasil há séculos somente seriam remediados com o emprego da mão-de-obra livre em larga escala e a dedicação à agricultura, advertiria Burton, entre outros. E praticamente todos os autores estavam de acordo que a grande salvação estaria na imigração européia. Ribeyrolles insistia na necessidade de aumentar a população e educá-la, preparando-a para o trabalho, o que poderia ser auxiliado por meio da imigração européia e de um projeto colonizador oficial, organizado pelo governo. Ina von Binzer afirma categoricamente que "a gente preta é um peso para o Brasil, formando a escravidão uma verdadeira chaga, ainda pior para os senhores do que para os escravos; e isso mais se nota [...] nas vésperas de ser extinta". Comparando as condições de trabalho no Brasil com os EUA, deduz que a falta de moral aqui reinante impede que os ex-cativos sejam absorvidos no mercado. "O brasileiro [...] despreza o trabalho e o trabalhador." Portanto, "como esperar que o escravo, criado em animalesca ignorância, mas dentro dessa ordem de idéias, seja capaz de adquirir outras por si [...]"?, pergunta-se a educadora. E conclui: "Tenho a impressão de que o Brasil logo de início irá sofrer horrivelmente com a abolição da escravatura, porque não se decidiram aqui pela imigração européia, nem ofereceram aos mais úteis imigrantes - os germânicos - condições bastante favoráveis".60 Com exceção de Ribeyrolles, que deposita a esperança nos mestiços para impulsionar o processo civilizador - embora tivesse notado que esses pouco queriam dedicar-se à agricultura, o que era uma grande desvantagem

para a economia do país -, 61 a ênfase na vinda dos europeus - e não asiáticos, ou até, como explicita Ina von Binzer, de preferência germânicos - reitera a crença na vocação civilizatória do europeu nas ex-colônias, devolvendolhe o papel de fundador e formador da sociedade. É notório como alguns autores atribuirão ao imigrante a incumbência pedagógica de moralizar essa sociedade tida como tão corrupta e decaída, em todos os sentidos, como se pode acompanhar pelas palavras de Leclerc, sintetizando o que muitos viajantes expressaram anteriormente. Leclerc chega no Brasil, como vimos, imediatamente após a queda da monarquia e, portanto, mais de um ano após a abolição. O jornalista avalia que os últimos anos do império teriam sido anárquicos e que os males da escravidão ainda atormentavam o país. O autor resume:
O "commonwealth" brasileiro durante mais de um século baseou-se na escravidão; ao faltar esta encontrou-se sem alicerces [...] A sociedade brasileira trocou um sistema bárbaro e inumano pelo desconhecido; voltou ao estado inorgânico; é um protoplasma em que as células giram em busca de uma lei de agrupamento.62

O autor nota que o escravismo foi um fator de coesão e organização da sociedade e do Estado durante o império. Contudo, teria ele impedido a constituição da família, base para a formação da sociedade moderna. Portanto, com o fim do sistema escravista, instaura-se um período de absoluta instabilidade, já que, no seu entender, não havia uma malha social capaz de absorver os impactos de tamanha mudança. O Brasil de 1889 era um país em crise, adverte Leclerc. A herança do império foi a pior possível. A seu ver havia uma crise política, mas cujo desenlace se aproximaria, graças ao "bom senso do povo brasileiro", embora, como disse em outro lugar, as "massas" não obtiveram educação política de forma que o "espírito público" não se formou, lembrando-nos as observações de alguns estrangeiros sobre o Brasil do início dos Oitocentos. A isso se acrescentaria uma "crise social", cuja resolução seria mais difícil de se prever e que somente seria superada quando a disciplina fosse restabelecida no exército, na administração e no povo; e, por fim, a "crise econômica" devido à abolição da escravidão, que somente poderia ser remediada com uma imigração "bem conduzida". Com

58

Expilly, op. cit., pp. 289 e ss.; Ribeyrolles, op. cit., vol. I, p. 92 e vol. II, p. 91. Denis, op. cit., pp. 397-8; Spix & Martius, op. cit., vol. I, pp. 87,118 e vol. III, p. 316; Stewart, op. cit., p. 89. 60 Burton, op. cit., p. 231; Ribeyrolles, op. cit., vol. I, pp. 154-6; Binzer, op. cit., pp. 244-5.
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' Ribeyrolles, op. cit., vol. I, p. 93. Leclerc, op. cit., pp. 156-7.

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estas observações, o autor recupera a imagem de um Brasil caótico, em estado primevo, aguardando que uma nova ordem seja criada. Por isso.mesmo pleiteia ele, com urgência, a vinda de imigrantes europeus, que devem fundar suas famílias para servir de "exemplo" e mostrar "o valor da família pura, liberta de contatos aviltantes e corruptos com o elemento servil". Era pois necessário reabilitar o trabalho livre e a dignidade humana. Associada à crise da mão-de-obra, estaria o problema do latifúndio. A concentração de grandes propriedades por poucos e a falta de terra para ser distribuída aos imigrantes (salvo no sul do país) seriam uma das maiores mazelas, obstando o desenvolvimento social e econômico do país ou, em outras palavras, dificultando o projeto imigratório.63 Em suma, a notória insistência para a vinda de colonos europeus não somente deveria solucionar o caso da mão-de-obra, educando e disciplinando o trabalhador, mas, em última instância, também seriam eles úteis para acelerar o branqueamento da sociedade. Pois abolir a escravidão não resolvia o problema do grande contingente de mão-de-obra de origem escrava e tampouco a questão racial. A população continuaria negra e mestiça. E um caminho certo para branqueá-la seria por meio da introdução de famílias européias. Finalmente, as preocupações reveladas por esses forasteiros também tiveram os seus interlocutores brasileiros, quer no parlamento, quer nos movimentos e sociedades abolicionistas e imigrantistas, desvelando a angústia de nossas elites quanto à cor que a sociedade brasileira ia tomando.64 O Brasil imperial mostrou muitas caras aos viajantes estrangeiros. Longe de esgotar a multiplicidade de imagens que eles criaram a respeito de nossa sociedade, nosso governo, nossas instituições e nossa história, é notório que o Brasil de 1808 a 1889 desponta como grande terra prenhe de potenciais, mas que permanece num constante estado de formação, de ainda estar por fazer, pelo processo civilizador, um eufemismo para dominação de valores cunhados pelos europeus e transpostos ao Novo Mundo. Nossos autores identificaram que com a vinda da família real iniciou-se o processo de ruptura com o antigo sistema colonial e foram colocadas as bases para se

"Ibid., pp. 86-90, 157, 173. 64 Para uma interessante discussão a esse respeito, ver Célia Maria Marinho de Azevedo, Onda negra, medo branco: o negro no imaginário das elites, século XIX (São Paulo: Paz e Terra, 1987); Thomas Skidmore, op. cit.; e Roberto Ventura, Estilo tropical (São Paulo: Companhia das Letras, 1991).

pensar o país como nação. Sentimentos nacionais, espírito público, patriotismo, sentimento de independência sustentariam os primeiros passos de uma nação conduzida por um monarca constitucional. Mas apesar desses votos esperançosos, que procuravam equiparar o jovem reino às demais nações européias, restava o problema do escravismo, a maior herança do período colonial e que distanciava o Brasil das potências européias. Em oposição a essa instituição, que corrompia econômica e moralmente a sociedade, é construída a imagem de d. Pedro II, um ícone da cultura e civilização européia, emprestando estabilidade ao império ao longo de sua permanência por mais de quarenta anos no poder. No entanto, ele não foi capaz de sanar a "doença social" do escravismo. Igualmente a heterogeneidade da população - outra herança do período colonial - , que se manifestava na mistura entre negros, índios e brancos, imprimindo à sociedade brasileira um especial caráter, muito diferente do que ocorria na Europa e nos EUA, revela-se, no olhar dos nossos forasteiros, como um desafio para dar continuidade à formação de uma nação civilizada. Tratando-se justamente do século em que se procura provar cientificamente a absurda idéia da inferioridade de seres humanos que não fossem brancos e em que as teorias racistas se convertem em moeda corrente para explicar as diferenças culturais, a questão da miscigenação assume especial importância. Dependendo da filiação ideológica do autor, ela torna-se um empecilho para o progresso, acelerando a degeneração social. Por outra parte, essa discussão permitiu que muitos viajantes, como vimos, colocassem os fundamentos para a construção do mito da democracia racial, que os nossos intelectuais da década de 1930 - sobretudo Gilberto Freire - levarão adiante, configurando-lhe o papel de identidade nacional. No cômputo da polêmica, porém, e em correspondência com as ansiedades das nossas elites, a tendência geral era querer branquear o país, o que, finalmente, não se reduzia ao problema da "cor", mas obviamente ao da negação de uma cultura que não se encaixava nos modelos, por assim dizer, europeus. Na medida em que os imigrantes do Velho Mundo vão chegando, destinados, entretanto, somente a certas regiões, estatisticamente os dados demográficos vão mudando e, como num passe de mágica, a sociedade vai se "branqueando". Mas sabe-se que a segregação entre os grupos étnicos se acirrou, desmentindo o próprio mito da democracia racial; sabe-se que as diferenças econômicas entre as regiões do Brasil não foram superadas; sabe-se que as diferenças sociais entre as classes continuavam a produzir fossos intrans-

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poníveis, furtando de uma grande parte da população o direito da cidadania. Por fim, a despeito das amarras ideológicas dos nossos visitantes, que se traduziam em concepções racistas, classistas, eurocêntricas, colonizàdoras e na incapacidade de relativizar as diferenças do ponto de vista cultural, a leitura de seus textos nos conduz a temas de nossa longa duração.

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O Brasil no espelho do Paraguai Francisco Alambert A revolução de 64 começou na Guerra do Paraguai. Glauber Rocha .

diferenças exaltadas e violências consumadas. por hegemonia. já então formalmente republicanas e antiescravistas. No Brasil. as tensões se acirravam à medida que íamos definindo nossas fronteiras. Mas. seria impossível pensar qualquer conjunto de identidade "americana". Nosso liberalismo sonhava ser a diferença. a Argentina e o Paraguai). relações entre o Brasil e seus vizinhos sul-americanos ao longo do século XIX e início do século XX marcaram-se por tensões. a ideologia liberal. mas fundamentalmente diante de nossos vizinhos americanos. Desse modo.1 Não éramos apenas uma "idéia fora do lugar" diante do modelo liberal europeu. uma guerra pela identidade afetada pela iminente derrocada de nosso império escravista e seu modelo de "civilização". . dentro do mundo sul-americano. mas antes de tudo.A. contra o qual fizemos uma guerra que era uma luta por territórios. tanto ao norte (com a disputa pelo controle dos rios amazônicos) quanto ao sul (com a questão platina e os conflitos intermitentes com o Uruguai. descarrilhava". a particularidade significativa diante do modelo liberal-revolucionário europeu que nossos "bárbaros" vizinhos meramente copiariam. "As idéias fora do lugar". Roberto Schwarz. p. então o "outro" do Brasil foi toda a América Latina. No campo ideológico. nosso "oposto" foi o Paraguai. vista em oposição às "outras" nações americanas. conforme Roberto Schwarz escreveu em ensaio conhecido: "impugnada a todo instante pela escravidão. em Ao vencedor as batatas (São Paulo: Duas Cidades. No campo geopolítico. num determinado momento do século XIX. que era a das jovens nações emancipadas da América. Se a imagem que um país constrói de si está relacionada à diferença que impõe em relação a imagens de outras nações. 1981). 15. as diferenças traduziam-se numa guerra de idéias assentada na defesa brasileira de sua "civilização" imperial e escravista.

perpassa os anos.0 sociólogo descobriu que para a formação desses homens e mulheres foi importante a presença rotineira de brincadeiras infantis inspiradas na Guerra do Paraguai.. atrasado aos olhos da cultura da corte. mimeo. sob o crivo da ironia e da perplexidade questionadora. chega a todos que. emblemas e sinais característicos da história e da cultura de toda a América Latina são apresentados na forma de um quebra-cabeça. Gilberto Freire. de analisar as cons- 2 Cf. O Paraguai. mitos. Sensibilidades que não se encontram entre historiadores e especialistas perceberam isso com imensa clareza na capacidade de propor problemas. Numa obra de 1994 intitulada O paradoxo do santo. 1998. o "mal-estar" de nossa "civilização".condicionaram (mais do que as diferenças "lingüísticas". O presente ensaio organiza-se em torno da seguinte questão: como um evento histórico pôde funcionar ao mesmo tempo para demarcar o futuro das relações tensas entre o Brasil e o resto da América Latina e ainda servir como base fantasmagórica no processo de constituição da idéia de "cultura brasileira"? Uma das respostas possíveis seria que a busca da diferença diante da América do Sul foi um dos caminhos pelos quais desenhou-se a imagem do Brasil como cultura "originar. Paulo. a única pergunta. econômicas. "culturais" ou relativas à colonização hispânica) a sombra que se projeta nas obscuras relações entre o Brasil e o resto da América Latina. Na primeira. foi a que mais impregnou-se entre nós. eu não sei o que é América Latina". também Ricardo Salles. revelando-lhe justamente sua condição de civilização em estado de infância. elaborou uma espécie de painel intitulado to be continued. autoritário. justamente o que principia na Guerra do Paraguai." Entrevista ao jornal O Estado de S. passado. Mas vencida a guerra contra as "crianças" guaranis. Trata-se. mas sabemos. por onde começar a desatar os nós. Ordem e progresso (Rio de Janeiro: José Olympio. apenas a constatação de uma impossibilidade que a própria história.usado como metáfora da situação latino-americana . das representações e das identidades). nos legou. personagem e fundo da obra.nada menos que o proclamado patrono da América espanhola . A imagem das crianças e da infância atémse a ela. o momento em que o mundo imperial-escravista enfrentou sua mais forte crise externa e interna. Guerra do Paraguai e narrativa nacional. uma das justificativas "civilizacionais" vinha da idéia de que faríamos um bem ao inimigo. Cf. do "país do futuro". para falar com Freud. passados muitos anos e muitas mudanças políticas. Gilberto Freire elaborou ampla pesquisa biográfica com pessoas nascidas entre 1850 e 1900.304 Francisco AJombert 0 Brasil no espelho do Paraguai 305 A Guerra do Paraguai representou no campo da cultura (no sentido das ideologias. parece que a idéia do "Brasil criança". Regina Silveira nos apresenta um desses nós. das Interpretações que se lhe seguiram . 1997.. memória e modernidade. Memórias de guerra. "Caderno 2". criava-se a idealização de soldados como heróis nacionais. da idéia de Brasil construída em oposição aos outros estados de herança colonial que lhe são contemporâneos. história. p. . D12. A memória da guerra poderia não ser nomeada. a pergunta essencial aliás. No espelho do Paraguai . e a artista também.. a Guerra do Paraguai entranha-se de maneira efetiva na composição ideológica nacional. bárbaro..a uma sombra projetada na parede da escultura que Brecheret. sociais. nosso escultor modernista por excelência. mas também idéias e imagens que buscavam transferir ao outro as mazelas que nossa realidade nos impunha. uma montagem caótica onde figuras. serviria então para nos salvar de nossas próprias condições e definir a imagem civilizada que tanto buscávamos.a que aconteceu entre 1864 e 1870 e a Guerra das Letras. já que. a artista contrapõe uma pequena figura de Santiago a cavalo .2 Mais do que nossa historiografia possa ter pensado (pois de fato nunca pensou).. éramos então um povo "adulto". Não há resposta à vista nem mesmo trilhas a seguir por entre o caos dos símbolos. fez do duque de Caxias. Na obra. É desnecessário comentar o impasse que o paradoxo e o jogo da sombra e da projeção instalam entre presente. dito de outra forma. 1962).3 Não vemos por onde puxar o fio da meada. 8 set. A artista plástica Regina Silveira reconheceu e interpretou a questão em duas obras. mas convertia-se em "cultura". Diante dela. é a constatação da impossibilidade que a própria artista sintetiza: "Na verdade. dos Documentos. 3 "Regina Silveira devora e subverte arquitetura e história. Os motivos e as conseqüências que produziram a Guerra do Paraguai . portanto. ou. Em seu livro Ordem e progresso. Quando lutávamos contra a "barbárie" paraguaia..construiu-se um dos elementos de nossa "identidade nacional". para nossos ideólogos do Império. Nessas brincadeiras. cantaram eu fui no Itororó. incivilizado. num momento ou noutro. Sobre a república guarani foram atirados exércitos.

Nesse sentido.4 Ele se entranha na obra do autor. e a análise crítica esboçada pelo jovem Monteiro Lobato. funciona como uma espécie de ideólogo do império. as mulheres a sua honra. neces- sidade. prepara as manifestações públicas. deixa de ser uma temeridade para se tornar orgulho. Coleção Ensaios Contemporâneos. 1969). "Depois de Aguirre. do Segundo Reinado e suas conseqüências para a vida cultural brasileira posterior. 299. "ninguém mais hesita"? Não seria tão absurdo ver López como o seu "Outro". ibid. a oposição radical entre a sonhada "civilização brasileira" e a cultura paraguaia ou latino-americana. É esse o pensamento de um epigrama publicado no último número da Semana Ilustrada: 'jogase agora no Prata. passa-se a López. deveriam funcionar como um espelho invertido. 1998). ao lado da abolição da escravidão. em suas crônicas. Machado. 1865. 1995). tão grande e ameaçadora era sua presença para que a identidade pudesse se ver livre. não quer funcionar como "centelha" para inflamar nossos ânimos guerreiros? Seu desejo não é exatamente poder um dia dizer algo como: contribuí com minha parte de escritor. não é exatamente o mesmo que faz Machado no campo de cá? Suas crônicas não funcionam exatamente assim./Um jogo dos menos maus:/0 López é o rei de copas/O Aguirre é o rei de paus"'. a princípio. É esse o presente que o ditador bárbaro de uma bárbara nação sem imperador oferece aos seus: O cavaleiro paraguaio convoca as multidões. n. convocando uma particular "multidão" restrita ao mundo da corte. Brito Broca.6 Prontamente. Mas como tudo se move ardilosamente na obra do escritor. . p. Jackson Editores. 1864. defesa da civilização contra a barbárie. Tudo poderia ser muito simples. Serão abordados três momentos em que se apontam as contradições desse processo: a obra de Machado de Assis. poesias. podemos acompanhar também o início de uma reflexão crítica que apontará na saga bélica nacional os indícios das contradições que efetuaram a construção da idéia de Brasil que se erigiu nos anos posteriores.). i O tema da Guerra do Paraguai na obra de Machado de Assis ainda é um campo quase inexplorado.5 4 Cf. mimeo. segundo Machado. em Machado de Assis e a política (São Paulo/Brasília: Polis/INL. Passou a ser também um passeio da civilização. Explorei mais detidamente esse tema em minha tese de doutoramento Civilização e barbárie. um ajuste de contas que reporia no lugar as coisas que a América do Sul vinha confundindo. apelativa aos valores pátrios. o discurso crítico dos positivistas. ainda que se demonstrasse. Suas atitudes. no final das contas. "Machado de Assis e a Guerra do Paraguai". uma centelha basta para inflamá-los. ainda mais dignas de uma resposta em armas. A guerra era desejo. em Machado de Assis desconhecido (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. corre uma faísca elétrica por todos os peitos. 24 jan. tudo aplaude. Marques (org. a guerra. dependendo da ocasião. "A Guerra do Paraguai". contemporâneas ao conflito. A Guerra do Paraguai. exercício da honra. 1946). publicada em 24 out. C. 3. Humberto Peregrino. Era melhor matá-lo logo.306 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 307 truções e os artifícios ideológicos que estão no fundo do debate cultural e político ocasionado pelo mais decisivo momento. Tudo se extasia. Ninguém mais hesita. Em suas primeiras crônicas de juventude. todos vão depor no altar da pátria o óbolo do seu dever . como o Paraguai era o "Outro" do Brasil. Crônicas (1864-1867) (Rio de Janeiro: W. Ora. Mata-se o dois de paus e arma-se a cartada ao rei de copas. 1955). ou aquilo que se imaginava serem suas convicções. 130 anos depois (Rio de Janeiro: Relume-Dumará. tudo era otimismo e possibilidade de redenção. falalhes a linguagem da liberdade e do valor.os homens o seu sangue. Francisco Solano López representa a negatividade total. História e cultura: representações culturais e projeções da Guerra do Paraguai nas crises do Segundo Reinado e da Primeira República (São Paulo: FFLCH-USP. Fundação Pró-Memória. A Guerra do Paraguai na obra de Machado dè Assis (João Pessoa: Departamento Cultural da Universidade Federal da Paraíba. é quem vai decidir a sorte da contenda? Sua linguagem irônica e indignada. que tudo tinha um ar de solenidade civilizatória e obrigação cívica. Raimundo Magalhães Jr. 1983). o antiexemplo do caminho "liberalmonárquico" a ser trilhado. no momento em que comenta ou encena questões ligadas à Guerra do Paraguai. na virada do século. na 5 6 Machado de Assis... Observar a maneira com que nosso maior escritor acompanhou e refletiu sobre as questões da guerra permitenos compreender a formação de um ideário cujos traços principais são. assim como outros escritores de sua época (destacando-se o visconde de Taunay). da opinião que pesa e que. A mentira no poder inventa ações políticas que nosso cronista se esforça em ridicularizar para mostrá-las ainda mais ameaçadoras. contos e romances. desejo escondido no inconsciente nacional. Uma parte desse trabalho foi publicada em Maria Eduarda M. M.

Uma batalha pela idéia do Brasil diferente e superior ao resto da América. vol. contra qualquer resíduo de indecisão marcial: Quebre as duras algemas que roxeiam Pulsos de escravos.. Para a expressão de tais sentimentos. em luz . A guerra é o fato que trabalha em todas as cabeças. 1865... "A cólera do Império". agora claramente extremados. Onde levar a flama da justiça. III. o desinteresse. Vença uma vez no campo.] Basta isso? Ainda não. bem como essa representação do Brasil escravocrata como campeão da liberdade. mas aclara. Deixa um raio de nova liberdade. Agora. 1997). p. p. Neles. . é nossa glória/Rejeitar grilhão servilj/Pareça a nossa memória/Salva a honra do Brasil".9 7 8 9 Era o golpe final. só próprio De almas livres!) então rompem-se os elos De homens a homens. 1976). dirigido certeiro no coração do problema brasileiro. idéias centrais para a formação do espírito bélico. ibid.308 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 309 alma de homens e mulheres. mas certamente é uma defesa da guerra em nome de determinados ideais de "civilização". que. uma apologia do exército como instituição salvadora nacional. 327. que desperta todos os sentimentos nacionais". Os últimos versos funcionam como o tiro de misericórdia. Galante de Sousa. ou resumisse. outra nas almas. o que no caso poderia não ser. O transe marcial.] Então (nobre espetáculo. que provoca todas as dedicações.. Também é luz: abrasa. a guerra funciona como plano. Vejamos como o tema se apresenta agora em um desses contos.. lhe desperta os brios. Por ocasião da questão anglo-brasileira. Machado de Assis: a pirâmide e o trapézio (São Paulo: Nacional. aniquilam-se: perdura Uma idéia. "Um capitão de voluntários" trata de um homem que resolve partir para a guerra 24jan. 299. pp. 327. ainda que esse personagem não lhe caísse bem. Outra. 1865..vale dizer. 298-9. Mas o cronista Machado de Assis se encaminhou para a ficção. tão grande. ibid.em fogo. identificado por J. 10 Raymundo Faoro. tão bem retratado por Machado.. mortífero. Se o império é fogo.10 O Paraguai. em uma de suas estrofes inflamadas. Em contos como "Um capitão de voluntários" ou "Uma noite". da corte e deve também dizer bastante (esse é um assunto que os estudiosos do autor ainda estão por abordar mais firmemente) sobre a formação política e ideológica do grande escritor. Abafam-se. seria o curativo de uma ferida aberta. no "ventre das mães". Era justamente a batalha das "almas" que estava em processo. que não pode ser represado: "Todos desejam a entrada das forças libertadoras"7. Por um momento a guerra torna-se a religião da nação em comunhão e o escritor seu capelão. por exemplo (assim como no romance laia Garcia). realinhando a reflexão para outros campos. O bom sono estava salvo com essa guerra redentora. p. o tema da Guerra do Paraguai assume novos timbres. O fruir a guerra deve ser experimentado como êxtase coletivo. fundo e situação importantes no quadro pintado pela narrativa. Lá onde a tirania oprime um povo. ibid. Faça-os homens. a "Liberdade".. em Obra completa (Rio de Janeiro: José Aguilar. como quer Faoro. a indecisão e a dúvida. Já vinha de antes essa pulsão patriótica em versos. uma guerra contra a apatia. O teatro de guerra compôs o palco ideal para que Machado lançasse. diz: "Nação livre.. deu-lhe o mote para exercer o papel de publicista do Império. que trazem sutis inflexões à abordagem. o mais estranho dos países dessa estranha América que rodeava ao longe o mundo da rua do Ouvidor. Seu "testemunho" distante dos casos e razões da guerra diz muito desse lugar onde repousava a "opinião pública" nacional . família. 21 fev. Coração. Machado teria publicado um "Hino Patriótico". como glorificação dos mais altos ideais civilizatórios.8 "Todos" juntos com "todos". Nossos escravocratas recebiam da pena poética o mais cobiçado presente: ganhavam o direito de ser os libertadores dos "escravos" dos outros ao mesmo tempo que podiam continuar a ser escravizadores em sua própria nação. a da pátria [. "Todos os espíritos estão voltados para o sul. se fez contista ao mesmo tempo que a guerra chegava a seu fim. os súditos da corte escravista podiam tomar para si a tarefa de libertar os "escravos" paraguaios. Suas agruras se consubstanciam nos símbolos da força e do saber . a lírica seria o lugar mais apropriado: [. agora mais do que antes.para alcançarem a "Justiça". Não lhe basta escrever uma vitória.

. Prefiro os argentinos. deixa para outros os relatos do episódio terrível. p.12 A princípio. p. podiam ser melhor balanceadas. e agora. . "um modelo de graçasfinas"..11 como se diz já no fim da narrativa. O narrador e Maria aproximam-se. A Guerra do Paraguai esta- 1 ' "Um capitão de voluntários". um primeiro narrador. traição.14 É uma explicação bastante convincente e. "alguma coisa mais particular que o patriotismo". l2 Ibid.16 como diz o narrador numa passagem. Também morrera uma filha que tivera antes de conhecer "X" (não sabemos ao certo em que circunstância). Antes. O amigo fica só com seus "remorsos". Um episódio que envolve amizade. logo depois perdi a impressão. Entretanto. eu estive quase a alistar-me como voluntário da pátria. o narrador nos insere nas circunstâncias das relações estreitas entre os três personagens.mulher que "tinha em si o fogo e o gelo". 685. moral ambígua.] a Guerra do Paraguai. vai se operando uma transformação nas certezas quanto ao caráter civilizador do conflito . . fiquei indignado. anos depois de seu término. t6 Ibidem. 55. para todos e para si. o tema da guerra é introduzido. Entretanto.Eu não. "Um capitão de voluntários". "logo depois da proclamação da república"17 (seria um monarquista?.. chora-se também a morte do império?). declarando que tais ações não são mais que "fantasias" passageiras.. Tudo na vida da corte.. mas palavra. nem que me fizessem coronel não me alistaria. 694.Não. no interesse da nossa gente. . p. cit. proporcionando-nos tanto uma outra situação quanto uma posição diferenciada diante do evento. A isso responde ceticamente "X". iJ Ibid. em seu teatro de bons modos e hipocrisia. que logo formarão um trágico triângulo amoroso. "a causa foi complexa". olhe. separam-se. Simão de Castro nos contará um episódio de sua vida. este também um dos protagonistas da trama. quando regressava dos anos que passou no Rio Grande do Sul à espera (ou não. em Obra completa (Relíquias de casa velha). 693. é ir à guerra -justo ele. A princípio. que logo se retirará.até mesmo quanto à posição que o país deveria assumir diante de seus supostos aliados.. e.Eu. nos dá notícia de que a história a seguir será um relato escrito por outro narrador. porém. pp.. "Ibid. 688-9. sim. Do ceticismo à dúvida.. Mais velho. por extensão. francamente. p. diz algo do sutil ceticismo que tomou nosso escritor nos anos posteriores àqueles em que escrevia seu evangelho bélico em versos e crônicas. ao embarcar para a Europa. "X" era seu melhor amigo (só na última linha do textoficamossabendo seu nome: Emílio). O amálgama histórico entre uma guerra de sentido duvidoso e os dilemas morais e regras subsumidas da ordem social brasileira formam o fundo de uma tela pintada com cores de tragédia. Raimundo Magalhães Jr. pois nunca são claros seus motivos) do retorno do homem com quem viveu. O marido descobre tudo. Vemos Maria dedicada a recolher donativos para a guerra. "Machado de Assis e a Guerra do Paraguai". não digo que não seja como todas as guerras. Maria morre em Curitiba.. como a posição da Argentina que "enriquecera com os fornecimentos ao nosso exército e à nossa esquadra. . que acreditava ter sido melhor a aliança com López. conduz a sorte do voluntariado e desmascara sutilmente a honra patriótica. "X" morre em combate. Nesse conto o tema da hesitação. envolvemse. das motivações que animaram o próprio escritor). por bondade ou por vergonha. acho que tínhamos feito muito melhor se nos aliássemos ao López contra os argentinos. que sucede aquela impressão de ceticismo: .Também gosto deles. 690-1. não enfrenta nem o amigo traidor nem a mulher adúltera. da apresentação de diferentes atitudes e opiniões sobre o conflito bélico. cit. pp. poderia explicar-se pelas razões e conseqüências da guerra que. não se sabe se por amizade e amor. até que.310 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 311 quando se descobre traído pela mulher e pelo melhor amigo. compõe uma tragédia dissimulada. quando López tomou o "Marquês de Olinda".15 Assim. No início.. a par do conflito amoroso. não entusiasma. mas. de certa forma. amores ilícitos. 15 14 . as mudanças de atitude. Seu castigo. na campanha.[. posta na boca de "X". abandono. esse julgamento quase iconoclástico diante das antes sagradas razões do conflito. É o que se vê num diálogo surpreendente entre "X" e seu amigo. são ainda os temas íntimos e domésticos que surpreendem e dirigem os saltos narrativos. cit. e que pode ser tomado como metáfora das causas e das resoluções da própria guerra (e. uma baiana que "fora educada no Rio Grande do Sul". dá o tom particular. Não se revolta. uma guerra não declarada. era melhor ficar com López. obtendo as vantagens e nos deixando os ônus". "X" vivia maritalmente com Maria. serei o que devo ser".13 Magalhães Júnior notou que essa posição crítica. guerra e morte. O esforço de guerra não é mais do que a máscara ideal para o destino das identidades em crise: "lá fora torno a ser o que sou.

Montevideo et le Paraguay devant Ia civilization (Paris: E. vice-diretor da Igreja Positivista do Rio de Janeiro. Dessa forma. No que se seguiu. tudo podia ser aceito. E. Duríssimo crítico da monarquia e do escravismo brasileiro. colocaram em jogo uma outra visão do ideal civilizacional. em Machado de Assis. é um tema que leva ao problema da decisão e seus motivos. Já Reclus esboçou o projeto de uma federação na zona equatorial. É como se nos mostrasse que aqui não existe essa relação de substância.como disse Alfredo Bosi comentando outro aspecto pouco conhecido da militância positivista . travando verdadeiras batalhas pelos jornais para denunciar a incúria do império. que se incorporaram à ideologia brasileira. No segundo. "A arqueologia do Estado-Providência: sobre um enxerto de idéias de longa duração". e a rigor. Buenos Aires. Não era pouco. mesmo. em Dialética da colonização (São Paulo: Companhia das Letras. Machado parece problematizar a ausência efetiva. 1986). ao contrário de propostas integracionistas oriundas do século XIX. "Les republiques de 1'Amérique du Sud . tomo LXV. Uma chave cujos desdobramentos poderiam ser contra-ideológicos. Le Brésil. 20 Alfredo Bosi. ou principalmente. mas também numa interpretação negativa do papel da guerra na constituição da nacionalidade brasileira. 18 Cf. Aqui. o sudeste (até São Paulo) e o Mato Grosso. chamou de "idéias fora do lugar". numa resolução bem típica daquilo que Roberto Schwarz.leurs guerres et leurs projets de civilization". Ver do mesmo autor. e 15 jul. Afinal. Machado contribuiu para criar imagens e estereótipos que vieram para ficar. I et II". a luta contra a herança da Guerra do Paraguai iniciou-se com eles. 304. a princípio. diante da América Latina. encenou discretamente a crítica desse mesmo processo que ajudou a iniciar. como a que professou o escritor francês Charles Expilly ou o geógrafo anarquista Elisée Reclus. Expilly. 1866. em Revue des Deux Mondes. na construção de nossa "modernidade". em todos os seus campos e sentidos. Expilly sonhava com a constituição de uma nova "civilização latina" que incluiria indígenas e africanos no sul da América do Sul a partir do Paraguai (para ele a mais progressista das nações latino-americanas). o que nos permite supor que a transposição do esquema positivista para o Brasil produziu pelo menos um aspecto novo: o universalismo dos positivistas pensava a América Latina como um todo. além do Uruguai. as províncias argentinas. Dentu. C. 15 out.18 Assim. Com isso. Raimundo Teixeira Mendes. Machado de Assis: ficção e história (Rio de Janeiro: Paz e Terra. na qual caberia o Brasil inteiro. p. Machado parece encenar a questão do deslocamento do político para o privado. comenta um incidente ocorrido em 25 de maio de 1910.. "Le Brésil et Ia colonization. Ir ou não à guerra. escolher participar de um evento político nacional. A hipocrisia e a ilusão que o cronista e o poeta Machado de Assis viam no Paraguai era a mesma que o contista via inteira nos jogos da corte brasileira. a Guerra do Paraguai e os conflitos inerentes à sua interpretação se fizeram presentes sempre que tivemos que nos defrontar com os impasses da "modernidade". talvez tenham ensaiado abrir . as interpretações flutuaram entre essa possibilidade de reconhecimento do "país profundo" com seu contrário. Cf. Cf. entre nós. resolver a questão pendente da guerra era fundamental para a efetiva retomada de um projeto republicano de integração latino-americana. de uma relação substanciosa entre os acontecimentos de caráter nacional e o engajamento político dos "cidadãos" (vale dizer. Nessa visada. 1862. à qual opunham seu projeto republicano de inspiração comtiana. unindo a região amazônica brasileira e andina.312 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 313 va aqui. 19 . 1 1 Os ideólogos positivistas ligados à Igreja Positivista do Rio de Janeiro foram os mais duros críticos do envolvimento do Brasil na guerra e suas conseqüências. no primeiro momento. John Gledson. Se a Belle Époque européia terminou com uma guerra. a nossa começou com uma. no Brasil. Os positivistas foram apóstolos dessa união. em Revue des Deux Mondes. unindo. o sul. Como em Machado. a partir do conflito com o Paraguai. Paris: tomo XXXIX.20 Em um artigo intitulado "Pela fraternidade sul-americana e especialmente Brazil-Argentina". na cidade argentina de Rosário de Santa Fé. A Semana: crônicas (1892-1893) (São Paulo: Hucitec. a idealização do Brasil como nação original . a guerra permaneceu como fantasmagoria. iniciou também a crítica necessária para a compreensão do lugar e das conseqüências da Guerra do Paraguai na vida cultural brasileira. 1992). 15 jun. pensando a obra do escritor ao mesmo tempo que o movimento das idéias e sua efetivação no Brasil. De fato. no qual "um grupo de moços exaltados" teria arrancado a bandeira brasileira do "Café Paulista". e as decisões políticas funcionam no terreno privado como um fim em si mesmas."as trilhas que sulcam o processo civilizatório". nosso oposto metaforizado pela imagem demonizada do Paraguai cujo futuro posterior a guerra reforçou. Reclus. 1996). O teatro da guerra não era mais que uma extensão do teatro social. Por isso. pautado em seus princípios universalizantes.e por isso. "Introdução". aqueles poucos a quem a cidadania era permitida).19 Assim. 1866).

da guerra fratricida entre ela e o Brasil (Rio de Janeiro: Sede Central da Igreja Positivista do Brasil. as coisas mudam defiguraquando se pensa em territórios e propriedades: Porém as mesmas reflexões demonstram que o erro cometido pelo Brasil e Argentina. Por isso. Fazia-se necessário combater esses efeitos. Raimundo Teixeira Mendes. dirige e desestabiliza o presente. Charles Expilly.314 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 315 Como resposta. A resposta vem certeira: [.a América. impondo arbitrariamente os limites que quiseram à nossa irmã a República do Paraguai. 11. os supremos interesses da Humanidade não consentem que se pretenda anular o fato consumado há quase meio século.rematarão as atrocidades praticadas contra as ingênuas tribos selvagens. o artigo positivista aproveita para atacar as "encenações militaristas". Com efeito. que se alastrou pelo século XDC.]22 Procurando responder à guerra de fatos e contrafatos. tão marcado pelo passado escravista. Em "Paraguai-Argentina-Brasil". um grupo de brasileiros atacou o consulado argentino no Rio Grande do Sul. Isso demonstra a ênfase na questão americana e na utopia da constituição de um campo comum de afinidades e interesses na América do Sul. reparação direta alguma... que fazia rondar fantasmagoricamente a hipótese de anexação do Paraguai pelo Brasil ou pela Argentina.]25 Vale observar. quando ele [o Brasil] assimilar a cabal reparação do crime que a Guerra do Paraguai constitui". a independência da nossa irmã a Rep.. neste solene momento. 21 Tudo é dito em nome da moral e dos altos valores da humanidade: 'Toda a guerra provém sempre do atraso moral e mental dos beligerantes". agora. O primeiro deles era a possibilidade sempre crescente de conflitos com a Argentina. E conclui destacando o lugar chave da Guerra do Paraguai nesse clima. com relação ao alto preço que pagaria o Brasil por ter mantido a escravidão. ressurgindo no presente como um trauma não resolvido: "o dia de hoje só poderá ser de regozijo para os brasileiros. o Ocidente. respeitosamente lembrar que . 1912. 19 ago. É dessa guerra nefanda que data a recrudescência do espírito militante que tem perturbado até hoje a evolução pacífico-industrial do povo brasileiro e dos povos sul-americanos. por um mais honroso "africano".p. porém. a Guerra do Paraguai teria um papel especial.26 24 Publicado no Jornal do Comércio. por exemplo. os positivistas afirmam agora: "O verdadeiro culto dos antepassados prescreve a confissão de suas culpas e erros". cujo objetivo era proclamar o silêncio pelos erros do império escravista em nome da unidade da pátria. aqui. sob todos os aspectos e especialmente sob o aspecto moral. pelo monstruoso aniquilamento da mais americana talvez das nações americanas [.] cumpre-nos.. e nas desgraçadas condições em que o foi. agora assume um sentido negativo. mediante a sincera reparação dos maiores crimes e erros de nossos antepassados e contemporâneos. para submeter as questões de limites ao arbitramento.. mortalmente vencida. "Pela fraternidade universal". 26 Ibid.. ansiosamente aguardam a inauguração da realização dessas esperanças regeneradoras. 25 maio 1910. 23 "Ainda pela fraternidade universal". em Jornal do Comércio. 27-8. p. Os quadros que tentam celebrá-la hão de despertar em nossos descendentes o horror que hoje nos acusaria a contemplação de uma cena de antropofagia ou de um navio negreiro! [. edição da manhã. A confraternização Brasil-Argentina. como para a Humanidade. 25 set. Em outro artigo. 18 set.] os prejuízos foram imensos.21 Os positivistas tocavam as feridas abertas e retomavam as críticas de. não comportaria.. 25 . os positivistas afirmam que dentre todas as guerras "fratricidas". Jornal do Comércio. 1912. Tal preocupação se justificava na medida em que eles acreditavam que as rivalidades entre Brasil e Argentina poderiam redundar em outro conflito23 derivado da questão da dívida paraguaia. quando a par com a escravidão da raça africana . e não mais a "verdade dos fatos" como antes. usado repetidas vezes no lugar de América Latina. publicam uma série de artigos com o título "A confraternização Brasil-Argentina". 22 Jornal do Comércio. uma vez que opôs "quatro povos irmanados biológica e sociologicamente". sutilmente provocando os "contemporâneos". Entretanto. 4. Nesses artigos é formulada uma incisiva pergunta: "o que lucrou a Humanidade com a Guerra do Paraguai?". Detectando o clima de violência e rivalidade entre os dois países. a Humanidade.há meio século . pp. seção "Ineditorial".. 1912). 1912. infelizmente. diz: [. além da referência à escravidão e da substituição do termo "negro". e o cancelamento da sacrttega dívida resultante para esta..24 A "verdade histórica". senhoras do continente colombiano. do Paraguai. Jornal do Comércio. e o emprego do termo "continente colombiano". O passado não exposto da guerra contra o Paraguai assombra. caso não houvesse indenização.

Pela fraternidade universal. como é sabido. britânicas e germânicas. Um de seus artigos conclui-se assim.. Outro momento que suscita a retomada do debate sobre a guerra e sua herança é a proposta de construção de um monumento em homenagem a Riachuelo: [. Pois. 25 maio 1911. positivistas. p.31 Seria necessária uma abordagem teórica incisiva para que se pudesse explicar efetivamente a situação do positivismo brasileiro diante desse projeto americanista esboçado. termos que remontam à caracterização que dela faziam autores como Expilly e Reclus: a "República do Paraguai é a mais americana das nações ocidentais [.. no mais das vezes meramente doutrinárias. Essa utopia integracionista seria o "progresso" e o futuro da "civilização".29 ou restritos aos críticos estrangeiros passam a fazer parte da edificação de uma espécie de contra-história do conflito sul-americano. de outro (Rio de Janeiro: Typ. põe em questão até mesmo a glorificação do militarismo que se acoplou à república. ainda antes de se iniciarem os "famosos anos vinte". os positivistas tiveram a capacidade de nos alertar para as dificuldades do caminho que o passado nos legou para que chegássemos a qualquer estágio considerável de "civilização" e "justiça". estipulada pelos aliados. em tom de pergunta inquietante: "a política sem ideais do Império fez com que fosse o Governo brasileiro o último a abolir a escravidão africana..] A campanha nos foi uma enorme calamidade. 4. 29 "Passou. o militarismo e a Guerra do Paraguai. como se sabe. independente de sua doutrinação. Com a autoridade do político imperial. Mas é certo também que tais perguntas eram muito melhores do que suas respostas. em seguida a sérios reveses..28 Um novo cânone de personagens históricos vai se formando com a cruzada positivista. não compensada por glória militar equivalente.. citado em artigo publicado no Jornal do Comércio. como é sabido. desgastada pelos anos de abominação a que foi submetida pelo esforço em justificar a guerra é colocada em novos termos. indispõe-se com a saga guerreira nacional. p. Nesse processo. por força das condições nacionais esboçadas anteriormente . esteve disposto a negociar a paz [. o Apostolado. como o do deputado e escritor Cristiano Otôni. a mesma política continuada pela República reserva ao Governo brasileiro a triste sorte de ser o último a abandonar o regime militar. pelo menos. eram as idéias de Comte. 14. fez-se sentir a influência da nefanda instituição. 10 dez. Para nossos fins e limites resta dizer que se pode encontrar.] tão ibérica como a argentina ou a brasileira". os positivistas faziam perguntas inconvenientes. "desde que não é possível ressuscitar os aborígines e restituirlhes os territórios usurpados".] Foi com a escravidão que se elaborou o passado brasileiro. Numa outra coleção de artigos.. e especialmente sul-americana". e especialmente sul-americana: a propósito de mais uma comemoração da desgraçada guerra travada entre os quatro povos irmãos.. por certo.. cit. [. do qual. ou. machucada de saída por uma guerra de sentido obscuro. legitima os sentimentos negativos em relação ao conflito e. negra.. publicada em 1910. 3. 1906. "Pela fraternidade universal. José Bonifácio é recuperado como crítico de primeira hora da guerra. a ele López. argentino. E a isso chama-se Pátria?". os próprios positivistas foram adeptos. momento-chave onde todas as distorções nacionais se irmanaram contra qualquer desejo de união americanista -. Ainda na própria execranda guerra. o discurso positivista conseguiu alcançar um tom ainda mais forte em suas críticas. do Apostolado Positivista do Brasil. Seus princípios. que via a grandeza futura da humanidade como resultante da fusão da "raça branca" com as "raças" italianas e ibéricas. foram libertados escravos para servirem no exército. Raimundo Teixeira Mendes. que o nosso inimigo. de um lado e paraguaio. p. cuja glorificação descabida ocasiona estas linhas.a escravidão. . nesse caso específico pelo menos. acabou por revisar fortemente uma parte da história que envolveu o fim da monarquia e o início de uma sociedade civil. a imagem da nação estável e justa forjada em oposição à América Latina "bárbara" e retrógrada. nem por aumento de segurança em nossa fronteira". Autores e depoimentos antes silenciados. uma ou duas vezes. A combalida imagem do Paraguai. ou seja. brasileiro. amarela. Por tudo isso. além de Benjamin Constant. por conseguinte.. Pela fraternidade universal.] E que a grande dificuldade era a pretensão de depôlo. que substi- 30 31 Raimundo Teixeira Mendes. etc. E quem se lembraria hoje de propor que se erigisse um monumento à escravidão como fator importante na constituição do povo brasileiro?30 Ibid. desconcerta a memória da nação vitoriosa. 28 27 Como podemos ver. uruguaio. no tempo. 1910). Vai ficando claro que a crítica positivista.316 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 317 Agora. Jornal do Comércio.27 As fontes nacionais nas quais se baseiam as idéias positivistas sobre a situação da América são conhecidas. resta reocupar os territórios e as identidades arruinadas através dos princípios civilizados ocidentais. Mas.

21 jan. em prol da integridade do pátrio território. 35 O papel específico de Lobato. III Do mesmo modo como Machado de Assis percebera que depois da Guerra do Paraguai os relógios andavam mais depressa .34 Monteiro Lobato parece ter percebido as transformações no tempo que a ordem do progresso sob o capitalismo impunha após o fim de outro conflito. Em 21 de março de 1916.32 Especialmente. Machado de Assis. Antônio Costa Ferreira et alii. representantes denodados das três raças constitutivas de nosso povo. política e cultural brasileira quanto ele. Seja como for. públicos preitos de amor e gratidão aos que. com seus avanços e ambigüidades. o tema da Guerra do Paraguai não poderia deixar de aparecer em suas preocupações. 1893. 1978). pelos guerreiros heróicos do indígena Felippe Camarão. seria possível "irmanar mais intimamente os membros das classes militares entre si". considerando um nobilíssimo dever cívico render homenagens aos que no passado souberam amar e sentir a Pátria Brasileira. mais ou menos na mesma época em que os positivistas faziam sua pregação. 1995). Se a Primeira República durasse muito mais do que durou. portanto. O texto do requerimento. cit. a modernização batia definitivamente às portas do Brasil —. Um jeca nos vernissages (São Paulo: Edusp.. 29. as crises foram se sucedendo ao longo dos anos vinte e início dos trinta. Carmen L. questionando a herança da guerra. É como se os autores percebessem. São Félix. Para esse dia de culto cívico lembramos o 26 de janeiro. quer nos campos de batalha..318 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 319 turram o binômio "civilização-barbárie" por "modernidade-brasilidade". a Guerra do Paraguai era ainda um pesadelo de difícil despertar. o que. Tal proposição visava reavaliar a história de uma tragédia nacional (que no caso nasceu de uma vitória). Vladimir Sacchetta. substituindo o culto da guerra pela celebração do país das três raças irmanadas. Talvez nenhum outro intelectual de sua época tenha dado tanta atenção ao tema da modernização e aos impactos do progresso capitalista na estrutura econômica. aniversário da "capitulação da Campina do Taborda". 6 ago. Assim. 1916. Bahia. durante a construção do sentido da "cultura brasileira". Em 1921. é o seguinte: Há mais de nove lustros que o Paraguai e o Brasil mantêm os mais amistosos desígnios nas suas relações internacionais. 1988). Relembrar. na formação intelectual moderna brasileira tem sido objeto de muitos estudos recentemente.35 Por isso mesmo. mesmo ano em que aparecem a novela Os negros e a coletânea de contos Cidades mortas. um trauma muito longe de ser equacionado no inconsciente da nação. John Gledson (org. Vasda B.. a Primeira Guerra Mundial de 1914-1918. Requerimento ao presidente da República (Venceslau Brás) pedindo a abolição dos festejos comemorativos pela vitória brasileira nas batalhas de Tuiuti e Riachuelo. do negro Henriques Dias e dos brancos André Vidal e Fernandes Vieira. Cf. em todos os recantos do País. Um documento como esse pode nos mostrar como de fato a batalha sobre os sentidos da guerra penetrou o século e permaneceu presente. Monteiro Lobato: furacão na Botocúndia (São Paulo: Editora SENAC São Paulo. 34 Gazeta de Notícias. fazia o temor da guerra voltar a assombrar o mundo dos vivos e o silêncio dos mortos. Mareia Camargos.] E.). . pedimos designe o Governo da República um dia para que anualmente se prestem. honraram o nome brasileiro. o trauma histórico estaria resolvido a partir de sua substituição pela "ideologia da cultura brasileira". em meio de públicas solenidades os atos de guerra havidos entre os dois povos irmãos [. bem como cria tensões dentro dessas mesmas classes. 1997). Cf.. O documento encontra-se na seção de manuscritos da Biblioteca Nacional. glorioso epílogo da luta defensiva sustentada durante 24 anos. 2f. Ideologia da cultura brasileira (São Paulo: Ática. era também esse o momento em que os Institutos Históricos e a Revista do Brasil voltavam a se interessar pelo tema da Guerra do Paraguai. Lobato reúne vários escritos dispersos e Os autores sabiam bem o que pretendiam.ou seja. 33 Penso aqui à maneira crítica de Carlos Guilherme Mota.] ofende aos intuitos e destoa dos ditames de uma sã política racional orientada para a confraternização dos povos [. formulando um novo mito que fala à memória e substitui a lembrança do belicismo escravista pela ideologia do caráter "cordial" brasileiro (que então se afirmava).. bem como "estreitar ainda mais os laços de fraternidade que os prendem às classes civis". vez por outra. De Jeca a Macunaíma: Monteiro Lobato e o modernismo (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. como uma sombra.. na paz e na guerra.33 Porém. p. Tadeu Chiarelli. esse drama que acomete as "classes militares" e as opõe "às classes civis". Landers. quer nas outras esferas da atividade humana. A Semana: crônicas (1892-1893). impresso com assinaturas autografadas. aqui reproduzido em parte. e propunham uma readequação do jogo da memória histórica. frutos desse ataque revisionista. era lançado na Bahia um requerimento pedindo a abolição dos festejos de Tuiuti e Riachuelo. e propusessem uma saída conciliadora para tentar esvaziar as contradições. Azevedo.

36 o exaltamento das virtudes guerreiras. pois se atem ao mundo na medida em que se constitui num infernal círculo vicioso onde tanto a vitória quanto a derrota não se diferenciam. agora. porque são vítimas do monstro Estado. era muito mais difícil para Rebouças enxergar a guerra como metáfora. 37 Monteiro Lobato. Alfredo D'Escragnolle Taunay. Nele. a publicação de textos como: Mário Bulhões Ramos. E a porta de entrada na nossa Grande Guerra foi o episódio de Uruguaiana. A obra de Batista Pereira resume todos os argumentos favoráveis ao império brasileiro no momento em que a discussão sobre os sentidos da Guerra do Paraguai ganhou destaque nos anos 20. o "parasita" que sugava as forças de liberdade que emanavam do povo.. 1928). que é creditada a montagem exclusiva desse circo de horrores: [. n. pois não podem sanar as chagas criadas. na vitória. 38 Ibid. Antônio Batista Pereira. 39 Cf. Uruguaiana foi tema de uma espécie de resenha incluída no livro. o embelezamento sistemático da carniçaria. a mentalidade bélica enfraquecida nos anos de paz". idealizá-la como um espetáculo exclusivo de nobreza. a Grande Guerra do século XIX sul-americano. "O pai da guerra". fica apenas indicada a particularidade do tema no ideário da revista. Ibid. encontramos surpreendentes abordagens do tema da Guerra do Paraguai e sua relação com a formação da sociedade brasileira. fundada e dirigida por Lobato desde 1916. "Teorias do fascismo alemão". p. ano 8. 1. vol. 1986). pensada em oposição ao povo livre. 42 Todo um estudo ainda está por ser feito. Por ora. como alguém mais afinado com a maquinaria da modernidade (em sua acepção fundadora: a bélica). além da publicação do Diário de Rebouças. um mundo que se esforçava por sobreviver ao fim da era dos impérios. cit. que àquela época vinha sendo publicado por Yan de Almeida Prado na Revista do Brasil. Ele se pergunta: quem afinal é o "pai da guerra"?37 Para nosso liberal exaltadíssimo. revigoram..41 A Primeira Guerra Mundial deu o mote para que Lobato colocasse o Brasil no rol das línguas dos Estados que mentem. pela editora da revista. mantendo "vivida a mentalidade guerreira". a apresentação estética de todos os crimes. 53. mentira inglesa. mentira francesa de outro. 53. mentira italiana. "O pai da guerra".. mentira em todos os idiomas.38 Trilhando esse caminho. embora contemporânea de trabalhos como os de Batista Pereira ou dos ideólogos da guerra dos anos 20. A guerra era seu meio mais terrível de existência e perpetuação. 57.] pois os povos não fizeram a guerra. Obras escolhidas de Walter Benjamin (São Paulo: Brasiliense. Walter Benjamin. "A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica". era nossa mentira ainda pulsando num mundo de muitas mentiras bélicas. nov. em Revista do Brasil. 95. analisando a presença da Guerra do Paraguai na fase dos anos 20 da Revista do Brasil. . em A onda verde e o presidente negro (São Paulo: Brasiliense. vol. impondo a "todas as almas uma idéia suprema de vingança". dirigida por Lobato. Mentira alemã de um lado. responsável por sua permanência e reprodução: "a apoteose dos heróis. p. exemplos e soluções. ou.320 Francisco Alambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 321 reflexões e os publica no volume intitulado A onda verde. 1920). O monstro empolga-os e a partir da escola organiza a mentira viva de que se alimenta e em que se rebolca. 1951). arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Como um observador menos preso do que Taunay aos "mistérios" da natureza.42 O ressurgimento do diário de Rebouças teve um peso decisivo no debate sobre as conseqüências da guerra nos projetos civilizadores brasileiros. O presente de Monteiro Lobato era o tempo da Primeira República e das conseqüências da modernização estimulada pelo café nos ritmos da vida nas franjas dos centros urbanos. Civilização contra barbárie (São Paulo: Rossetti&Camara. se choca radicalmente com a maneira com que as heranças e conseqüências do conflito vinham sendo abordadas. Eles são vítimas da guerra. coisa que pode ser notada se arrolarmos. em Magia e técnica. A Guerra do Paraguai. Como era uma máquina de pensar paralelos.39 especialmente na forma que lhe deu o nazismo (que antes já havia promovido a estetização da política). 1923. 24. Ele soube ver e aproximar desse quadro a grande tragédia européia de então: a Primeira Guerra Mundial. "O bailado sobre o cadáver de Solano López". Lobato se aproxima da famosa interpretação de Walter Benjamin quanto ao caráter estetizante da guerra. Dias de guerra e de sertão (São Paulo: Edição da Revista do Brasil. São Paulo. pp. 40 41 Monteiro Lobato. 53-8.40 É à instituição estatal. Um dos textos do livro apela a um problema freudiano.. A idéia de pensar o episódio e sua importância para a sociedade brasileira foi sugerida a Lobato pela leitura de trechos do diário de André Rebouças. irá se pôr a refletir primeiramente sobre o papel da guerra no destino das civilizações. o pai da guerra era o Estado. Trata-se de uma reflexão que. sob todas as formas. A realidade lhe assolava as quimeras. com a aproximação da crise da Primeira República.36 Lobato soube ver melhor do que qualquer outro de seus contemporâneos os impasses nos quais o país transitava e sua íntima relação com um fato do passado. p.

cit. simbolizada pelo velho cego. sentado num mocho de três pernas. . o mal-amado do modernismo brasileiro". E não é azul". p. deu com o Império em terra. prosseguir na guerra foi um desastre. 1996). não está diretamente ligada às forças econômicas e ao rolo compressor do progresso. às dezenas. entretanto. pp. Mas. 43 Monteiro Lobato. negar o azul dos grandes homens e de seus feitos. a razão da decadência. baseia-se numa crítica ao progresso compreendido como predador do modelo social erigido em torno da sociedade agrícola e provinciana.44 Esse projeto de "descolorir" a história é consubstanciado num esboço literário chamado "Voluntários da pátria". 95-6. pronunciado pelo ancião como murmúrio em resposta às histórias do desenrolar da Grande Guerra. levaram Lobato a esboçar uma violenta e satírica reflexão sobre história. a ciência da pontuação! [. Seus contos querem encenar em seu movimento a passagem de um Brasil précapitalista para uma ordem capitalista acelerada e implacável. O crítico da história deve proceder com a mesma aproximação destemida. A montanha de longe pode evocar a estabilidade tranqüila do azul de safira.. rico de incidentes..322 Francisco AJambert 0 Brasil no espelho do Paraguai 323 O pesadelo de Rebouças fez Lobato acordar para as fantasmagorias da guerra e sua presença e peso na constituição do Brasil moderno. cit. de cócoras à soleira da porta. ele era a memória semiviva. 99. descasca-os dos realismos dolorosos. "Cinco anos de guerra foram suficientes para desenvolver entre nós o germe do militarismo. na política. é retomada: Foi de ontem a Guerra do Paraguai. Em "Voluntários da pátria". simbolizada pelo colapso imposto à tradição e ao estilo de vida rural. pp. o narrador percebe estar diante de um veterano soldado da Guerra do Paraguai. em A onda verde e o presidente negro. esse velho cujo cadáver ali passa na rede com rumo ao cemitério. "Monteiro Lobato. Para fixar a imagem dessa mentira.tão rapidamente o Brasil evoluiu daí para cá. pitoresco e não raro heróico". "as cidades moitas de Lobato não morreram de morte natural". no entanto.45 O início desse "conto" é marcado pelo que já foi descrito em mais de uma oportunidade como a "obsessão" de Lobato com a idéia de "decadência".46 Na literatura adulta lobatiana esse processo de análise da decadência. Uruguaiana e a Guerra do Paraguai. "Uruguaiana". o qual.seja o Estado monárquico de antes. De bruços num porretão de cego. de suas "cidades mortas". tão ao gosto naturalista de Lobato: Foi lá que vimos. lembrando um quadro de Almeida Júnior ou de outro de nossos retratistas daquele mundo destroçado. "Veteranos do Paraguai". não são apenas essas as razões do quadro desolador.. centrada no mundo urbano-industrial. O fazê-la vírgula.. 35. onde a idéia da estetização da guerra como fator de manipulação política e manutenção do estado de violência na sociedade. Sua forma aproxima-o tanto da narrativa ficcional quanto da crônica ou da impressão de testemunho. memória. em Contos escolhidos (São Paulo: Brasiliense. bossoroca.]43 como disse Marisa Lajolo. cit. aos pinotes. Que grande ciência. uma tarde.48 46 Marisa Lajolo. seus veteranos ainda vivem por aí ao léu. bem como do ponto de vista imperial. p. a contra-história que ainda podia ser encontrada para ser consultada. apenas "roendo a meia pataca do soldo". ibid. senhoreando-se da situação. "Veteranos do Paraguai". buscando o "colorido da grisalha suja das coisas contemporâneas". desfigura-os num sentido estético. desenvolvida em "O pai da guerra". que vagava quase como mendigo... para ele a maior ilusão da natureza. É o meio da humanidade poder ver-se com bons olhos [. em A onda verde e o presidente negro. Uruguaiana está na história devidamente estilizada ao sabor do paladar patriótico. guerra e patriotismo. Uruguaiana deveria ter sido um ponto final. seja o republicano de sua época. 36. 44 Nesse texto. como um livro: "um velho soldado é sempre um livro interessante. Representante de um passado que já então havia se tornado história oficial. parece um fato de priscas eras . mas a um fato do passado que fantasmagoricamente reaparece no presente. Do ponto de vista humano. 9. 3540. Ao ouvir o nome "Curupaiti". A narrativa se inicia através de uma cena de composição pictórica. p.. perambeira. 48 Ibid. 47 Monteiro Lobato. p.]". Lobato aproxima-a da cor azul. mata híspida tramada de cipós e arranha-gato. à porta dum casebre. precipício. mas de perto é só "aspereza. atentamente ouvia ler notícias da Grande Guerra a um menino descalço. fez uma República para uso e gosto dos militares. o texto e a fluência ensaística das idéias fazem o crítico de arte empedernido e mal-humorado se encontrar com um surpreendente crítico da história e das mentiras do Estado modernizador brasileiro ..47 Nesse ponto. Tem isso a história de generoso: estiliza os fatos. 43 Monteiro Lobato. vistas pelo olhar ambíguo e doloroso de Rebouças. Seu nome era Pedro Alfaiate.

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Em seu célebre ensaio sobre Nicolai Leskov, Walter Benjamin também relacionou a perda de experiências narráveis e transmissíveis aos horrores da Grande Guerra de 1914. Segundo Benjamin, o soldado que voltava das batalhas constitui um dos tipos arcaicos fundadores do "reino narrativo". Mas a guerra da técnica, que imita da esfera da produção de massas a capacidade industrial de matar, matou também no soldado sobrevivente aquelas experiências narráveis cujo caráter exemplar era o fundamento de sua sabedoria.49 O velho soldado narrador de Lobato pertence a essa categoria. Porém, sua experiência trágica de guerra antecede em décadas a experiência bélica da guerra total européia à qual Benjamin se refere como marco. Também nesse sentido a Guerra da Tríplice Aliança antecipa as guerras do século XX. Pedro Alfaiate tem muito o que contar, mas tudo o que pode narrar de sua experiência subordina-se a uma tragédia que se inscreve mais na ordem do inenarrável que na categoria das experiências exemplares. Por isso, a escassez de testemunhos, lendas e fábulas de homens comuns sobre a Guerra do Paraguai não deve ser creditada apenas ao fato concreto de que a imensa maioria das tropas era formada por analfabetos, escravos, etc. O fato de que um acontecimento de tal magnitude na vida de milhares de pessoas tenha deixado pouquíssimas marcas na memória coletiva é sintomático desse estado de empobrecimento e falta de sentido construtivo dessa experiência em nossa vida cotidiana desde então. De fato, é o horror que cerca tudo. Passado e presente, ligados pela aproximação da guerra que encerrou o século XIX brasileiro e da que iniciava o século XX, a saber: a Grande Guerra européia e sua conseqüência na América, em especial no mundo do interior, em guerra contra o progresso e a "modernidade" que engendrara ambos os conflitos. Por isso a aproximação da técnica da batalha do passado e do presente é apresentada como continuidade e paralelo. A descrição das trincheiras do Paraguai feita pelo veterano cego se aproxima assombrosamente das famosas lutas de trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Deixar falar a memória do homem simples era a estratégia lobatiana para dinamitar os discursos da boa guerra e a força do heroísmo cívico a
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duras penas construídos desde a ironia cínica do primeiro Machado de Assis. Essa espécie de Jeca Tatu destroçado de Lobato era a contraprova da historiografia e da memória cívica nacional, o testemunho definitivo que os positivistas procuravam mas não podiam encontrar, pois seu olhar só via os documentos oficiais, os depoimentos solenes. A cantiga infantil do "Itororó", celebrizada na memória das crianças, como identificou Gilberto Freire, também é confrontada pela fala do velho cego, onde horror e tristeza se unem ao heroísmo inútil. Na lembrança do Alfaiate, tudo era "terrível" e "triste", fazendo com que a façanha fundadora da nacionalidade perdesse todo sentido. Nesse ponto, a história de Pedro Alfaiate é interrompida e a narrativa toma outro rumo. O narrador imparcial cede lugar a outro que apresenta sua defesa do "verdadeiro tipo do herói humilde, que o é sem saber". A ele contrapõe um outro personagem, de cuja identidade nada sabemos. Esse novo soldado é o oposto daquele porque escondia-se na enfermaria durante os combates, só sabia da guerra através da "janela do hospital". A covardia e o cinismo eram sua marca, por isso "era incapaz de dar às suas narrativas uma impressão belicosa". A anteposição entre o heroísmo do homem simples e desse outro, cuja facilidade em esconder-se dos conflitos pode significar tratar-se de alguém com certa patente e favores, é evidente e bastaria para encerrar a nota. Mas o herói e o desertor sobreviveram. O primeiro destroçado, o segundo sem demonstrar qualquer crise de consciência por seus atos "antipatrióticos". A "pátria", a "nação" pela qual lutou o voluntário verdadeiro abandonou-o na miséria das cidades mortas, também elas abandonadas, velhas e cegas aos olhos do progresso que fazia história empilhando seus derrotados. O velho soldado que Lobato flagrou vagando pelas cidades mortas seria a última esperança de negar a Guerra do Paraguai como ato de redenção que separaria a "civilização" brasileira da "barbárie" latino-americana simbolizada por Solano López. Seu destino mostrava que a "barbárie" estava entre nós mesmos. Entretanto, desde então a versão "heróica" do conflito seria contada pelo covarde sobrevivente. Sua figura tornar-se-ia responsável pela perpetuação do belicismo no interior da república. Através de seu discurso, a guerra seria definitivamente içada a símbolo do orgulho pátrio, a elemento de definição da idéia de Brasil que se inscreveria no século XX. Vimos que o debate sobre o significado da Guerra do Paraguai para a constituição do ideal do Brasil civilizado - a "Guerra das Letras" que antecedeu e ultrapassou a guerra do campo de batalha -, com suas contradições e

Walter Benjamin, "O narrador - Considerações sobre a obra de Nicolai Leskov", em Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas de Walter Benjamin, cit., vol. 1, p. 198.

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ambigüidades,firma-separa além do momento em que nasce, sedimentandose como uma referência constante para a reflexão sobre o "caráter" brasileiro - e, por conseguinte, sua "cultura" própria - e sua relação com a América Latina, ao mesmo tempo que, mais ou menos explícito, perpassa diversos momentos em que se tentou pensar o Brasil e suas possibilidades civilizadas e civilizadoras. Do binômio antitético "civilização-barbárie" passamos, com a república e os projetos modernizadores, para outro binômio, agora ancorado nas oposições "moderno-passado", "progresso-atraso", sem que seus conteúdos tenham se modificado significativamente. Pois a violência, o cinismo ético, o preconceito, se associam, fazem parte dos despojos de nossos "bens culturais", no sentido de Benjamin,50 e, em larga medida, deram-nos o sentido de nosso caminho para a civilização, seja lá o que isso queira dizer entre nós. Monteiro Lobato via-se diante da ausência de acumulação de um legado crítico sobre as questões relativas à Guerra do Paraguai, na medida em que as formas de utilizá-la para justificar a formação da nação brasileira e de sua cultura, a forma dos interesses das classes dominantes, foi ela também vencedora de todas as batalhas de que participou.

Bibliografia selecionada
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"Todos os que até hoje venceram participam do cortejo triunfal, em que os dominadores de hoje espezinham os corpos dos que estão prostrados no chão. Os despojos são carregados no cortejo, como de praxe. Esses despojos são o que chamamos bens culturais [...] Nunca houve um monumento de cultura que não fosse também um monumento de barbárie", cf. Walter Benjamin, "Sobre o conceito da história", em Magia e técnica, arte e política: Ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras Escolhidas de Walter Benjamin, cit., vol. 1, p. 225.

Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república
Roberto Ventura

o s escritores. parecia imperativo colocar em discussão a organização do país. a queda da monarquia e os conflitos da nascente república trouxeram à tona dúvidas sobre o futuro do país. 1991). . ex-escravos recém-libertos? Como garantir a vitória da civilização sobre a barbárie em uma terra povoada por uma maioria de negros. cujo atraso era atribuído à grande diversidade de sua população.1 Os letrados se mostravam divididos entre a valorização dos aspectos originais do povo brasileiro e a meta de se construir uma sociedade branca de molde europeu. políticos e cientistas repensaram a identidade cultural e política do Brasil em meio às transformações que levaram à extinção da escravidão em 13 de maio de 1888 e à implantação do regime republicano em 15 de novembro de 1889. índios e mestiços? De quê forma manter a unidade de uma nação marcada por diferenças raciais. Ante a liberdade prometida pela abolição e a igualdade oferecida pela nova Constituição . analisado com ceticismo por cientis- Abordei tal debate sobre raça e cultura em Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. ao mesmo tempo que buscavam as raízes da identidade brasileira em manifestações compósitas e mestiças. Que lugar atribuir ao africano e a seus descendentes.que transformava todos em cidadãos . Adotavam teorias sobre a inferioridade das raças nãobrancas e das culturas não-européias. e formados pelas faculdades de direito e medicina ou pelas escolas de engenharia. vindos de famílias da elite rural e política ou das camadas médias urbanas. A adoção do trabalho assalariado. culturais e regionais de toda espécie? Como escolher os governantes pelo voto. Observado por viajantes estrangeiros. se grande parte da população era analfabeta e inculta? Estas foram algumas das questões debatidas por intelectuais..

Com um enfoque mais amplo do que nos artigos de jornal. como o cético Machado de Assis. como correspondente. foi percebida como a síntese dos perigos e ameaças representados por um Brasil mestiço. se voltaram para as formas sincréticas de literatura. já que pouco se sabia sobre a doutrina de seu líder. o cruzamento de raças era tomado como pista para explicar a possível inviabilidade do Brasil como nação. o que serviu de justificativa ao massacre da comunidade. Quatro expedições militares foram enviadas até a completa destruição da cidade. que escreveu uma série de reportagens sobre as últimas semanas do conflito. Relatou. 1897). Muitos.e da literatura nacionais. o engenheiro Euclides da Cunha. dominado por fanatismos e superstições. O Estado de S.2 Mais de 12 jornais enviaram repórteres e fotógrafos a Canudos na primeira cobertura ao vivo de uma guerra no Brasil. Propunha que fosse enviado um repórter a Canudos. temido por boa parte das elites locais. que submeteu a exame científico. conheceu o líder religioso no interior de Sergipe na década de 1870 e registrou alguns poemas populares em sua homenagem. com o fim da guerra. também interessados nos efeitos da mestiçagem. que investigou a contribuição dos povos e raças à formação do folclore. O médico Raimundo Nina Rodrigues. quando passaram a ser abordados 2 Machado de Assis. 1897). Arinos. como afirmavam o governo e grande parte da imprensa. Por outro lado. como Sílvio Romero. A campanha foi fotografada por Flávio de Barros e pelo espanhol Juan Gutiérrez. 3. negava que o movimento tivesse uma orientação monárquica. diretor de O Comércio de São Paulo. Machado observou. com o predomínio do mulato. fatos sobre os quais silenciara antes nas reportagens. como a separação entre a Igreja e o Estado e a introdução do casamento civil. O crescimento de Canudos mostraria porém que o poder público e os habitantes das grandes cidades seguiam ignorando o interior do país. capaz de mobilizar milhares de seguidores. "A nossa Vendéia" (14 mar. que se opunha às leis seculares do novo regime. Seus seguidores foram acusados de fazer parte de uma conspiração internacional com o objetivo de restaurar a monarquia. em Canudos: diário de uma expedição (Rio de Janeiro: José Olympio. que se estendeu por quase um ano. para fazer o retrato do Conselheiro e colher a verdade sobre a seita. Consideravam o Brasil como uma nação multiétnica ou uma "sociedade de raças cruzadas". 1897). explicou a guerra como o resultado do choque entre dois processos de mestiçagem: o cruzamento de raças no litoral. cuja população foi estimada entre 10 mil e 25 mil habitantes. caso único e singular de miscigenação extremada. 1969). cinco anos após o extermínio da comunidade. no início da república. no livro. que ligavam Salvador à base de operações do Exército em Monte Santo. do Rio de Janeiro. tendo recebido. 1944). das quais foram os primeiros intérpretes. sob a liderança de Antônio Conselheiro. "Crônica" (31 jan. tornada possível graças à instalação de linhas telegráficas. o escravo e o mestiço foram incorporados ao discurso literário e cultural a partir da década de 1860. que publicaram artigos e crônicas sobre o conflito. de novembro de 1896 a outubro do ano seguinte. . por trazer riscos de degeneração ou esterilidade devido à fusão de raças díspares. da Faculdade de Medicina da Bahia. fez um diagnóstico psiquiátrico do Conselheiro com base em artigos de jornal e nos relatórios da Igreja e do governo. em A semana (Rio de Janeiro: Jackson. vol. em artigo no Estado de S. Nina Rodrigues e Euclides da Cunha. religião e cultura. Paulo. O crítico Sílvio Romero. Euclides da Cunha.332 Roberto Ventura Um Brasil mestiço:raçae cultura na passagem da monarquia à república 333 tas europeus e norte-americanos. 1943). na expressão de Romero. "Campanha de Canudos (O epílogo da guerra)" (9 out. trataram de Antônio Conselheiro. morto em ação. como a degola dos prisioneiros e o comércio de mulheres e crianças. que Canudos apresentava uma feição de mistério. em sua coluna na Gazeta de Notícias. Euclides denunciou a violência da campanha militar em Os sertões. O governo republicano se atirou em uma longa e sangrenta guerra. A comunidade se formara no nordeste da Bahia em 1893. A polêmica Alencar-Nabuco O negro. publicado em 1902. o republicano Euclides da Cunha e o monarquista Afonso Arinos. o seu crânio. Outros escritores e cientistas. e a formação no interior da raça e da cultura sertanejas. Afonso Arinos. em Obra completa (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro. ocorrida em 1793. Euclides comparou. A rebelião de Canudos. o conflito à revolta dos camponeses monarquistas e católicos da região da Vendéia contra a Revolução Francesa. encaravam a mestiçagem como uma desvantagem evolutiva e uma ameaça à civilização. Paulo enviou. O assunto mobilizou os escritores.

com a "perversão" dos costumes. que causavam má impressão aos viajantes estrangeiros. romances e peças teatrais. Apesar de lutar pela supressão do cativeiro.3 Escravos atormentados. oscilam entre a imagem nobre do negro e a afirmação de sua influência maléfica sobre as famílias brancas. 3 A polêmica que Joaquim Nabuco travou com José de Alencar em 1875 nas páginas de O Globo. que sofrem nas mãos de senhores impiedosos e cruéis. que tinha sido destacado por autores românticos. O indígena. pois a emancipação prematura traria ameaças à agricultura e à estabilidade da monarquia. Spix e Martius registraram sua revolta com tais leilões e com os castigos físicos sofridos pelos escravos no Brasil. que poderia colocar em risco a civilização brasileira. como ponto de partida. Tal interesse pelo afro-brasileiro surgiu no momento em que se discutia o futuro da agricultura e a necessidade de substituir a mãode-obra escrava. 246. 4 José de Alencar. vol. desapareceu como personagem ficcional ou assunto poético no último terço do século XIX. Os efeitos da escravidão. e a sua visão literária do cativeiro. só tendo sido retomado e revalorizado com o movimento modernista na década de 1920.334 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura no passagem da monorquio à república 335 em poemas. O debate teve. "Sob o signo de Cam". por direito de compra. "Cartas de Erasmo" (1865). em Alencar. de um lado. 1. de modo a resguardar a imagem civilizada da capital do império. enquanto recordam uma África idílica e articulam planos de vingança. 1. nos debates parlamentares e em artigos na imprensa. Os votos de Alencar na Câmara dos Deputados mostrariam a fé profunda que tinha nos destinos dessa instituição. como Gonçalves Dias e José de Alencar. concebido como "infecção" moral. injusto e pouco rentável.4 Alencar proibiu em 1869. no Rio de Janeiro. Alencar julgou a escravidão um "fato social necessário". Como observou Alfredo Bosi. A substituição do trabalho escravo pelo assalariado se deu associada à percepção de uma sociedade dividida entre senhores indefesos. cuja manutenção se tornara inviável após a proibição do tráfico em 1850. de Bernardo Guimarães. de outro. como sua própria civilização. marcada pelo tratamento sentimental dos escravos. em Obra completa (Rio de Janeiro. para Nabuco. p. forjado pela cultura da Independência. anunciava a derrocada de um sistema de trabalho há muito arraigado.059. pertencia o escravo. Darwin. ou O cortiço (1896). que concedeu liberdade aos descendentes de escravos. O futuro líder abolicionista criticou. Tomando a arte como o retrato da sociedade ideal fundada no trabalho livre e na harmonia entre as raças. Romances como A escrava Isaura (1875). concebia a arte como expressão idealizada da sociedade branca e cosmopolita. passou a ser denunciado como cruel. p. mostra essa mudança cultural que colocou o negro. ao se colocar contra a Lei do Ventre Livre em 1871. 1992). rejeitava o realismo de Alencar na tematização da escravidão. 1959-60). pois as transações de compra e venda de cativos se mantiveram. benevolente e civilizador. para se encaminhar para as possíveis formulações de um projeto de civilização nacional. o escravo e o mestiço no centro das atenções. O jesuíta. resultado da pressão da Inglaterra. porém. a contradição entre a sua posição de deputado do império. que combateu com argumentos de liberal ortodoxo. . contrário à intervenção do Estado no círculo familiar e na autoridade do patriarca a que. que recebeu subvenção dos governos imperial e provincial no final da década de 1880. cujo domínio político e cultural seria a pré-condição para a civilização moderna. a trilogia de Joaquim Manuel de Macedo. Debret. em Dialética da colonização (São Paulo: Companhia das Letras. A medida de Alencar teve um efeito apenas cosmético. a venda de escravos em praça pública e extinguiu os leilões no mercado do Valongo. que só poderia ser abolido com a evolução da sociedade brasileira. Nova Aguilar. isentas de contradição. antes tido como natural. As vítimas algozes (1869). O cativeiro. A escravidão passou a ser vista como problemática e se falava entre as elites de um "perigo negro". não sendo mais feitas em mercado aberto. uma "linha negra" que limitava e comprometia não apenas o teatro do país. O cativeiro era. a estréia da peça de Alencar. como símbolo de autonomia da ex-colônia frente à metrópole. de Aluísio Azevedo. A Lei do Ventre Livre de 1871. O projeto de abolição dos escravos se ligava a um programa de apoio à imigração européia. Nas Cartas de Erasmo (1865). e escravos violentos. Alfredo Bosi. como ministro da Justiça. foram um dos temas recorrentes no pensamento abolicionista e nos textos literários que trataram do cativeiro. o mito do bom selvagem deixou de ter o que dizer: "Era um símbolo de outros tempos. As críticas de Nabuco não são. do Rio de Janeiro. favorável à manutenção da escravidão. e que só poderia sobreviver como assunto de retórica escolar". surgem nos poemas de Castro Alves e Fagundes Varela.

importantes fatores para a democratização do país. que culminaria com a abolição e a república. a eclosão da campanha abolicionista em 1879 coincidiu com a aparição de uma opinião pública autônoma e com o fortalecimento da imprensa. sem indenização aos senhores de escravos. acusada de submeter a sociedade a uma espécie de cativeiro político. estaria inspirado pela "idéia de fundar a literatura tupi". a escravidão teria corrompido a nação. o senador Nabuco de Araújo criticou. 663. Atribuindo o atraso brasileiro à manutenção do cativeiro. teve início com a demissão do gabinete liberal de Zacarias de Góis em 1868. necessitando para tanto "desacreditar a sociedade brasileira. 0 abolicionismo O deputado Joaquim Nabuco retomou a questão da escravidão em O abolicionismo (1883). as batatas: forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro (São Paulo: Duas Cidades. o capital e o trabalho. Nabuco ampliou a extensão do termo escravidão. O guarani. Ao vencedor. e a população assalariada e empobrecida não ousa tê-los". A polêmica Alencar-Nabuco (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro. escrita a partir da imitação das obras estrangeiras. 7 Joaquim Nabuco. O teatro de Alencar.7 Para Nabuco. mas para escondê-las". O baixo nível de vida da população resultaria do monopólio da terra. baseada na contribuição européia e na ação diferenciadora do meio. o poder autoritário da coroa. políticos e burocratas. que tomou como eixo de uma interpretação global da sociedade brasileira. Tal campanha se ligou ao movimento intelectual progressista que chamou de "novo liberalismo". O pai de Joaquim Nabuco. "um estado no Estado". 66 e ss. dependentes dos proprietários de terras. em que a terra se concentrava nas mãos dos grandes proprietários. desde os cativos. » Cf. revelando aspectos da sociedade brasileira. cujas bandeiras eram o estímulo à indústria e ao trabalho livre e a necessidade de reforma do sistema político com a introdução de eleições diretas. uma "falsa literatura tupi". ao servir de asilo para as fortunas desbaratadas pela escravidão. p. cuja influência maléfica se estenderia às diversas esferas sociais. pp.6 Nabuco relacionava a idéia de uma literatura nacional.). os funcionários públicos seriam "servos da gleba do governo". Roberto Schwarz. De modo semelhante aos agregados e moradores. tornando possível a crítica à ordem estabelecida. para seu crítico. gerado pela grande propriedade escravista. 31-2. 209. seriam. O abolicionismo (1883) (Petrópolis: Vozes. como o naturalismo. Nabuco. como as de Cooper e Chateaubriand. condenados a "uma dependência da qual só para os fortes não resulta a quebra do caráter". 1977).8 A revolta dos liberais levou à formação do Partido Liberal Radical em 1869 e 5 6 Afrânio Coutinho (org. como a escravidão e os indígenas. Os romances indianistas de Alencar. 113-4. Um estadista do Império (1897-9) (Rio de Janeiro: Nova Aguilar. seria outro dos efeitos do cativeiro. em que realizou uma das primeiras análises sociológicas do país. . agregados e moradores até a camada dos proprietários. Para ele. que monopolizava a terra. em desacordo com os padrões europeus: "Nabuco põe o dedo em fraquezas reais. a vida civilizada do nosso país". J. Divulgavam-se idéias filosóficas e científicas. A epidemia do funcionalismo. D. em um famoso discurso.336 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: roça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 337 As críticas de Nabuco ao teatro de Alencar e a seus romances indianistas se relacionam à sua perspectiva cosmopolita. Como observou Roberto Schwarz. pregava a abolição imediata. obra de propaganda política. o positivismo e o evolucionismo. Pedro II dissolveu a Câmara e convocou eleições. 1975). que traziam a crença no progresso e na evolução.5 A posição de Nabuco aponta para a exclusão do escravo e do indígena da cena cultural por meio da abolição do cativeiro e da sua eliminação como tema literário. pp. "vocação de todos". como forma de dar início a uma revolução social e econômica. as eleições eram controladas pelos chefes locais e o sistema de produção oferecia poucos empregos fora da burocracia estatal. 1977). A longa crise do Segundo Reinado. 1978). A escravidão impediria o influxo de novas idéias e a formação de opinião pública. ao corromper as instituições políticas: "As senzalas não podem ter representantes. Iracema e Ubirajara. à reforma das bases do trabalho e à construção da nação sob a hegemonia dos grupos letrados. o realismo de Alencar inspirava a Nabuco aversão por não guardar as aparências. e do desconhecimento da realidade dos "selvagens" brasileiros. com personagens escravos e cenas de moralidade duvidosa. pp. de modo a obter uma maioria parlamentar conservadora e formar outro gabinete de mesma filiação partidária. 84. ao gerar uma estrutura arcaica. determinação social básica.

1982). Política (São Paulo: Ática.9 O movimento abolicionista se estendeu até 1888. pois parte de suas fileiras se aliara à grande propriedade contra a extensão das reformas sociais. levando-o a uma orientação antipopular: "A mim. liderado por Joaquim Nabuco. Acabar com a escravidão não nos basta. em Discursos parlamentares (São Paulo: Instituto Progresso Editorial. Nabuco. capaz de instituir a pequena propriedade e de fixar o exescravo à terra. 1949). Tavares Bastos e José do Patrocínio. A partir do "mandato da raça negra". Os abolicionistas reprovaram assim os grupos dissidentes que levaram a questão às senzalas. na busca de uma solução pacífica. o "advogado gratuito de duas classes sociais que. promovendo fugas e levantes. Nabuco. que a agitação republicana era uma reação dos proprietários contra a lei de 13 de maio. ainda que omisso quanto à questão do cativeiro. Como afirmou Nabuco em O abolicionismo: "Não é aos escravos que falamos. com a missão de formar uma opinião pública.11 A visão de Joaquim Nabuco sobre a república se relaciona à sua intransigente defesa da monarquia parlamentar. mas aos seus "algozes". de modo a não trazer transtornos à ordem social. porém. "Joaquim Nabuco: teoria e práxis". 71-5. em Joaquim Nabuco. em São Paulo. Seus participantes se nomeavam "delegados" ou "advogados" da causa da abolição perante a massa escrava. deliberada no interior da comunidade de cidadãos.10 Segundo as suas lideranças. 1888). o novo regime com a classe proprietária. Semelhante origem comprometeria. o movimento deveria se restringir ao âmbito das elites e das classes médias urbanas. não teriam meios de reivindicar os seus direitos": os escravos e os ingênuos.o latifúndio. 373. e organizado pela Sociedade Brasileira contra a Escravidão. O abolicionismo apresentava modelo de exclusão. José do Riba-Mar" (5 nov. Surgiram assim as bases de uma opinião pública burguesa. de outra forma. O abolicionismo colocava em pauta tanto a libertação dos escravos. cit. Crescia o número de jornais diários e se ampliava o círculo de leitores com a politização trazida pelos movimentos republicano e abolicionista e com o processo de urbanização resultante da liberação de capitais após a proibição do tráfico. me sobra consciência de que estou com o povo defendendo a monarquia. o movimento teria se dispersado após a abolição. Essa restrição do âmbito do movimento foi formulada por Joaquim Nabuco por meio do modelo jurídico da delegação. a ambigüidade e a omissão do movimento republicano em relação ao 1 9 Paula Beiguelman. Segundo Nabuco. pp. porque não há. "Agitação republicana no Exército" (5 nov. Essa ameaça se insinuou na proposta de Nabuco e Rebouças de vincular o projeto de emancipação à questão da posse da terra. que barrava a participação do escravo da agitação e da propaganda pela reforma das bases do trabalho. "Discurso num meeting popular na Praça de S. Sua interpretação mostra. O movimento abolicionista não atingiu as reformas sociais pretendidas. 285-6. De modo a induzir o trono à extinção do cativeiro. Afirmou. 31 e ss. . para os pequenos. que revela muito de sua formação como bacharel em direito pela Faculdade do Recife. lugar para os analfabetos. em suas palavras. o que poderia suscitar ódios e vinganças. ao afirmar que a "emancipação dos escravos" deveria vir junto com a "democratização do solo": "Uma é o complemento da outra. abrigada à sombra da república. Os abolicionistas representariam. ao incluir a reforma agrária e a ampliação do voto. incompatibilizado com a ordem monárquica. 341. pp. com a criação de um imposto territorial antilatifundiário e a realização de reforma agrária. pp. em discursos parlamentares de 1888 e 1889. André Rebouças defendia que a propaganda não deveria se dirigir às "vítimas" do cativeiro. ultrapassava a própria emancipação. de forma irremediável. Nabuco assumiu essa vinculação nos discursos de sua campanha ao parlamento em 1884. a reparação das injustiças. "Apresentação do Ministério Ouro Preto" (11 jun. O abolicionismo. 10 J. sendo desarticulado quando ameaçou transbordar dos quadros de pensamento dominantes. em Conferências e discursos abolicionistas (São Paulo: Instituto Progresso Editorial. 1884). 1949). em que cidadãos livres expressavam suas idéias de modo independente da vontade do monarca. a propaganda abolicionista se dirigiu às camadas urbanas. na esperança de obter. ' J. quanto a redenção da consciência dos senhores.338 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 339 do Partido Republicano em 1870. como o reunido em torno de Antônio Bento e do jornal Redenção. é aos livres". o movimento assumiu a representação da sociedade total e estabeleceu um programa político que. para os pobres". é preciso destruir a obra da escravidão" . pelo remorso e arrependimento.. capaz de atuar politicamente para pressioná-la. 1889). uma "desforra do escravismo". na república. pp.

A abolição não foi causa da república. A elevação dos preços dos escravos. sem trair os compromissos com os senhores de escravos. os escravos agradecidos talvez continuassem a trabalhar em suas propriedades após a emancipação. porque as tuas faltas recairão unicamente sobre ti. 1978). Na peça de Alencar.12 Longe de ser uma conquista merecida. O Partido Conservador só admitiu a abolição em 1888. de Machado de Assis. com a proibição do tráfico. como quem o amaldiçoa: Toma: é a tua carta de liberdade. que concedia liberdade aos escravos com mais de sessenta anos. sobretudo a cafeicultura paulista. nos malefícios econômicos do cativeiro. a revolta dos senhores de escravos criou um ambiente propício ao levante militar. A questão da escravidão e da abolição colocou o trono em um difícil equilíbrio entre duas facções. em senhor de si mesmo.340 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 341 cativeiro. foram adotadas medidas que beneficiaram os setores mais prósperos. embora não dispusesse de meios materiais e morais para realizar essa proeza nos quadros de uma economia competitiva. O demônio familiar (1858). A abolição contribuiu portanto para a marginalização do afro-brasileiro. o senhor Eduardo concede a alforria ao moleque Pedro. O Partido Republicano nunca se mostrou partidário da abolição. A aquisição da cidadania deveria transformar o escravo em pessoa.. cit. que. quando esta se tornou inevitável. O escravo foi excluído do movimento abolicionista. dotada de liberdade e habilitada a contratar-se no mercado. partilhada por Nabuco. quando se deu a conversão do Partido Liberal. Muito embora abolicionismo e republicanismo tenham se desenvolvido. A extinção do cativeiro foi incluída nos programas dos partidos oficiais do império somente a partir de 1884. a liberdade se transformou em ameaça para o negro entregue à própria sorte. não se pode identificar ambos os movimentos. por não admitir que o governo interviesse em seus bens. 4. como tendências paralelas. ela será a tua punição de hoje em diante. A lei abolicionista de 1871 e a de 1885. Quase 150 mil imigrantes chegaram ao país entre 1887 e 1888 e o seu fluxo aumentou com a república. que o obrigava a absorver o programa emancipador. de Alencar. Mas a realização da emancipação sem indenização aos proprietários de escravos rompeu o equilíbrio mantido pela coroa entre os partidários e os adversários da medida. e de livrar a família de um motivo permanente de confusões e desgostos. até que os se12 Florestan Fernandes. a partir de 1870. sem que fossem criadas condições favorá- veis ao negro na transição entre o mundo servil e a sua nova existência de cidadão. tornando-se responsável por sua pessoa e por seus dependentes. 15. gerou a crença. raciocinava o barão. cujos líderes se proclamavam representantes dos interesses da massa de cativos.. Mesmo não tendo sido determinante para a proclamação da república. de modo lento e gradual. Os poderes públicos aplicaram recursos oficiais no estímulo à imigração. ao barrar sua participação na esfera política e na nova ordem econômica. A consciência abolicionista se baseou na crítica ao escravismo em termos éticos e econômicos. p. em Obra completa. ante os rumores da abolição. personagem do Memorial de Aires. deixaram os senhores de escravos bastante apreensivos quanto às garantias oferecidas pela coroa à manutenção de seu "patrimônio". que determinou a queima dos registros públicos de escravos. pela concessão de subsídios à imigração qué asseguraram suprimento de mão-de-obra barata. sentirás a necessidade do trabalho honesto e apreciarás os nobres sentimentos que hoje não compreendes. Com isso. ministro da Fazenda do primeiro governo republicano. como insinuou Nabuco. para reformar as bases do trabalho. Eticamente. . pp. aprovando a Lei Áurea no parlamento.. sendo bastante divergentes suas bases de sustentação. Em compensação. sumária e abruptamente. concebido como prejuízo a partir da premissa da maior rentabilidade do trabalho assalariado. 13 J.13 A liberdade é concedida com a dupla função de punir o moleque intrigante. "O demônio familiar" (1858). A esperança de obter indenização foi frustrada por Rui Barbosa. porque a moral e a lei te pedirão uma conta severa de tuas ações. expulso do aconchego patriarcal. Sua indignação foi bem expressa pelo barão de Santa-Pia. Livre. vol. A integração do negro na sociedade de classes (São Paulo: Ática. o que foi comentado por Florestan Fernandes: O liberto viu-se convertido. o abolicionismo irrompeu a partir da negação da representação do escravo como coisa e da percepção de sua condição de homem. na expectativa de conquistar a adesão ou a simpatia dos escravocratas descontentes. 135-6. concedeu alforria aos seus escravos.

A literatura e a arte nacionais teriam sido criadas pela fusão das raças e pela incorporação a uma expressão civilizada das "faculdades de imaginação e sentimento dos selvagens do continente americano e africano". ainda que fosse favorável à emancipação lenta e espontânea. Explicou.14 Atribuía a formação da literatura brasileira a esse vínculo entre a mestiçagem e a poesia popular. teria vingado o programa de abolição gradual. sem qualida14 Sílvio Romero. resultante da mistura de raças inferiores: "O servilismo do negro. Tendo como origem o canto dos mestiços no trabalho. p. nos Estudos sobre a poesia popular no Brasil (1888). Como povo de origem latina. capazes de fornecer critérios científicos para a análise da literatura e da cultura a partir do destaque dos fatores raciais e da influência do meio.342 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 343 nhores. realizado pela Constituição de 1891. tal desinteresse pela cultura afro-brasileira e abordou o papel das raças e da mestiçagem na criação do folclore. nesse dia começou de originar-se a literatura brasileira". "desafortunados que nos ajudaram a ter fortuna". O escravo e o liberto. Romero atribuía a ausência de estudos afro-brasileiros. deveriam ser transformados em "objeto de ciência". formado a partir de cinco fatores: o português. Na sua opinião. outros grupos. à idealização romântica do indígena e à questão da escravidão. a partir do poeta Gregório de Matos. Baseou-se em uma hierarquia étnica. 216. Sílvio Romero foi o autor da primeira história sistemática da literatura brasileira e de estudos inovadores sobre a poesia popular. A concessão do estatuto de cidadão ao ex-escravo. a cargo da livre iniciativa do indivíduo. e relacionou o seu surgimento à ação do mestiço: "No dia em que o primeiro mestiço cantou a primeira quadrinha popular nos eitos dos engenhos. A questão foi retomada no prólogo de sua história literária. Adotando o ponto de vista arianista. se propôs a substituir o senhor na tutela dos escravos. resultante do cruzamento entre ibéricos e latinos. no século XVII. libertos e ingênuos. apesar do ato do governo imperial que apenas teria apressado. voltados para o negro e o mestiço. 4. representadas pelo naturalismo e evolucionismo. História da literatura brasileira (1888) (Rio de Janeiro: Garnier. a preguiça do índio e o gênio autoritário e tacanho do português produziram uma nação informe. mostrariam sinais de decadência. O bacharel letrado.. . em que aplicou às manifestações eruditas os mesmos critérios raciais dos estudos sobre a poesia popular. vol. "cativos que nos auxiliaram na conquista da liberdade". 2. pela crescente autonomia frente às culturas portuguesa. no Rio de Janeiro. A perspectiva anti-romântica e pró-abolicionista de Romero se relacionava ao seu projeto de investigação da contribuição cultural das raças. Fazia ainda um apelo à abolição dos escravos. o meio físico e a influência estrangeira. levou à tentativa de se estabelecerem limites à sua participação na esfera política. Os colonizadores teriam trazido assim para o Brasil os males crônicos das raças atrasadas. eslavos e saxões caminhariam para o progresso. ainda que de modo menos acentuado do que os negros e indígenas. cujo caráter específico dependeria da integração de elementos díspares. o índio. da família. durante as comemorações da Lei Áurea: "No momento em que traço estas linhas troa por toda a parte o ruído das festas da abolição". Combateu o romantismo e fez propaganda do abolicionismo. corroídos pelo remorso e arrependimento. do município e da província. 1902). O folclore brasileiro teria sido criado graças à atuação do mestiço. que apresentariam a impossibilidade orgânica de produzir por si. os portugueses estariam incapacitados para a civilização. o negro. até então vistos como "máquina econômica". Denunciou. Tal destaque da presença africana se prolongou na História da literatura brasileira (1888). desprovidas do impulso inventivo dos germanos e saxões. a partir dessa concepção etnográfica. em que o negro era tido como superior ao indígena e o branco. escrito nos dias 18 e 19 de maio de 1888. 1. como os celtas e latinos. que dividia em diversos ramos: enquanto os germanos. a literatura teria se afirmado. Tomou a literatura como expressão da raça e do povo. com sua consciência jurídica. Foi o maior divulgador do que chamou de "bando de idéias novas". Literatura e poesia popular Bacharel em direito pela Faculdade do Recife. Os portugueses são considerados povo inferior. a completa erradicação do cativeiro. em três ou quatro anos. africana e indígena. professor de filosofia no Colégio Pedro II. o "agente transformador por excelência". xiii. p. a dependência cultural como impulso psicológico ou tendência de caráter. como mais evoluído do que ambos.. vol. tipo novo. encaminhassem a resolução da questão. Romero definiu a cultura brasileira como mestiça. estabeleceu distinções no interior da raça branca.

17 Sílvio Romero registrou. na História geral do Brasil (1855). os grupos. 17 Carl Friedrich Philipp von Martius. do monarquista Francisco Adolfo de Varnhagen. em que o trono assumia um papel central como princípio tutelar da nação. em Sergipe.15 A formação do povo a partir de três raças sem originalidade teria resultado na tendência à imitação do estrangeiro. e recomendava não se comer carnes e doces às sextas-feiras e aos sábados. Previa assim o total branqueamento da população brasileira em três ou quatro séculos.16 Mas o historiador abraçava. pp. Estudos sobre a poesia popular no Brasil (Rio de Janeiro: Laemmert. 1982). autor de obras como Os africanos no Brasil (1932) e As coletividades anormais (1939). que deveriam adotar uma orientação etnográfica e abordar a ação dos fatores raciais em suas diversas manifestações: línguas. Valorizou a miscigenação como fator de adaptação das raças e culturas ao meio local. com base nas etnias e em seu cruzamento. Tal mimetismo traria prejuízos à produção intelectual. Martius estabeleceu as bases da historiografia naturalista de base racial no ensaio que apresentou em 1845 ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro: "Como se deve escrever a história do Brasil". pp. um dos autores de Reise in Brasilien (Viagem pelo Brasil) (1823-31). 16 Francisco Adolfo de Varnhagen. 355. que alguns identificavam com Santo Antônio. 1888). de forma pioneira. costumes.344 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 345 des fecundas e originais". pentes e botinas. Estudos sobre a poesia popular do Brasil. História geral do Brasil (1855) (São Paulo: Melhoramentos. onde estes. 1. o futuro líder de Canudos. o que faria com que os autores e escolas não procedessem uns dos outros. línguas e culturas negras e os fenômenos de sincretismo entre os cultos vindos da África e a religião católica. caso fosse preciso. a inferioridade das culturas africanas legitimava o tráfico de escravos para a América. que lançou a tese da fusão de raças como princípio formador da civilização brasileira. outros com o próprio Jesus Cristo: Do céu veio uma luz Que Jesus Cristo mandou. que se mostravam dispostos a pegar em armas. o ensaio do naturalista alemão Carl Friedrich von Martius. 13 Sílvio Romero. 1978). Para Varnhagen. por terem sempre que mudar de orientação a partir do influxo externo. Nina Rodrigues procurou delimitar um objeto. melhorariam "de sorte". Ambos tiveram. como antecedente. a esse respeito. "Como se deve escrever a história do Brasil" (1845). e acreditava que o elemento branco seria vitorioso na "luta entre raças" devido à sua superioridade evolutiva. Médico e etnólogo. ao contrário de Romero. submetidos à influência benéfica da civilização. Santo Antônio Aparecido Dos castigos nos livrou! Romero era promotor público em Estância. realizou os primeiros estudos de etnologia afro-brasileira. fazia-se acompanhar por um grupo de fiéis. que se mostrara favorável. é próximo ao que Romero adotaria no estudo da literatura e das tradições populares. 18 Sílvio Romero. nos Estudos sobre a poesia popular no Brasil. mitologias. as quadras que ouviu no interior de Sergipe sobre Antônio Conselheiro. em que proibia o uso de chalés. precondição para a vitória do colonizador europeu nos trópicos. defensor da escravidão. Em sua peregrinação pelo interior do Nordeste. de modo a estudar sua presença no Brasil. o negro ou o afro-brasileiro. Aproximava-se. como a "falta de seriação nas idéias" e a "ausência de uma genética". investigando. . cit. para defendê-lo. O naturalista formulou um programa para os historiadores do Brasil. em O estado do direito entre os autóctones do Brasil (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia/Edusp. vol. o projeto de uma civilização cristã.. rezava terços e ladainhas e fazia pregações. à miscigenação como forma de integrar os índios e negros à população branca.18 A etnologia afro-brasileira Enquanto Romero se voltava para a contribuição dos povos e raças à formação do folclore e da literatura. coberto por uma túnica de algodão azul. conhecimentos e superstições. Com cabelos grandes e longas barbas. Seu enfoque histórico. 21-2. 224-5. quando o Conselheiro passou pela cidade em 1874. Sua teoria da mestiçagem e do branqueamento partia de uma combinação de pressupostos racistas (existência de diferenças étnicas inatas) e evolucionistas (lei da concorrência vital e da sobrevivência do mais apto). p.

foram tomadas como obstáculos à implantação da democracia representativa e à universalização dos princípios liberais. a criminalidade e a degeneração poderiam ser previstas e entendidas a partir dos cruzamentos raciais. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil (Bragança Paulista: Ed. Aproximava-se assim do historiador Varnhagen. 1999). Cesare Lombroso e Paul Broca. o índio e o mestiço tivessem responsabilidade penal reduzida e direitos de cidadania limitados. São Francisco. Nina Rodrigues se destacou. Defendia que a raça fosse considerada como atenuante da responsabilidade penal. a questão étnica. como também ao crime devido à sobrevivência psíquica de caracteres retrógrados. O atraso evolutivo dos negros e a degeneração psíquica dos mestiços colocavam em perigo as classes superiores. p. ameaçadas pela maré crescente da "negritude". Propôs assim que o negro. entraria em contradição com a realidade do país. "misto de médico com cientista social". tendo sido professor da disciplina na Faculdade de Medicina da Bahia de 1891 a 1906. Acreditando que cada raça se encontrava em estádios evolutivos distintos. o de "médico político". em As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil. tornando problemática a implantação de um sistema político baseado em eleições periódicas. . índios e mestiços. A defesa da abolição não implicava o abandono da teoria das desigualdades étnicas que havia justificado o cativeiro. propôs critérios diferenciados de cidadania e a divisão da legislação penal em vários códigos. de povos ou raças em etapas evolutivas distintas. desenvolvidos por André Retzius. marcada pela heterogeneidade étnica. A loucura. O negro. procuravam desfazer as ilusões de igualdade política contidas na primeira Constituição republicana. na crítica aos pressupostos liberais do regime republicano. de modo semelhante ao 9 Mariza Corrêa. por adotarem os costumes. nada teria em comum com a revoltante exploração realizada pelos escravistas. Seu enfoque mostra a compatibilidade entre a consciência abolicionista e as concepções racistas e escravocratas. abolida a escravidão e proclamada a república. de 1894. era preciso criar um código em princípio igualitário que unificasse o país. 0 Raimundo Nina Rodrigues. Para os juristas. a "evidência científica" da sua inferioridade . que produziam uma população fraca e doente. com seu enfoque médico e etnológico. em uma mesma sociedade. Tais concepções negativas se mantiveram após a abolição. 1938). políticos e cientistas se perguntavam sobre as causas das diferenças entre os homens. O mestiço também apresentaria alto grau de criminalidade em razão da degeneração resultante do cruzamento de raças díspares. que transformara formalmente todos em cidadãos. ao contrário. resultante da coexistência. tenderia não só à loucura e à paranóia. mas trazia. Propôs. uma total reformulação da legislação penal segundo as concepções dos criminalistas italianos e dos legistas franceses.19 Para Rodrigues. que partia para a disputa de espaços políticos até então reservados aos bacharéis de direito e aos "homens da lei". Univ. Assumia um novo papel. o interesse pela raça negra. Muitos intelectuais. Partiu dos métodos da frenologia e da antropometria. quando as populações não-brancas. não deveria impedir a ciência de abordar. como sujeito. adaptados às condições climáticas e raciais de cada uma das regiões do país. em razão dos cultos fetichistas e da ausência de monoteísmo. em sua opinião. apoiada na universalidade das idéias.346 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 347 Foi ainda o responsável pela criação da medicina legal no país. sobretudo os egressos das faculdades de direito e de medicina. apesar da "viva simpatia" que o negro brasileiro lhe inspirava. favorável à escravidão. os não-brancos ameaçariam a civilização por serem incapazes de ingressar.evidência que. que ainda não havia ultrapassado o estádio infantil da humanidade. o reforço dessas concepções. de modo a se poder lidar com a "criminalidade étnica". Para Nina Rodrigues. que dominava o país em razão da campanha abolicionista. que determinavam a capacidade humana a partir do tamanho e da proporção do cérebro dos diferentes povos. As raças humanas e a responsabilidade penal no Brasil (1894) (São Paulo: Nacional. que situava os africanos nos limites da noção de humanidade. Já os médicos julgavam que só se poderia pensar num projeto nacional mediante o reconhecimento das diferenças e o estabelecimento de uma orientação científica capaz de assegurar a execução das leis e o progresso do país. Céticos com as promessas de igualdade trazidas pela abolição e pela república.20 A concepção liberal de justiça. Proclamava. os escritores. como o livre-arbítrio e a capacidade de discernimento. as superstições e os cultos de origem africana: "A civilização ariana está representada no Brasil por uma fraca minoria da raça branca a quem ficou o encargo de defendê-la". formadas de negros. de forma "imparcial". 219. na ordem liberal-republicana. A existência de raças não-brancas desmentiria princípios fundamentais ao liberalismo.

"A loucura epidêmica de Canudos" (1897). com o advento da república. Julgava que o líder da comunidade sofria de psicose progressiva ou de delírio sistematizado. nas fases de sua existência. Rodrigues fez um diagnóstico de Antônio Conselheiro como vítima de um delírio de perseguição ou de uma psicose progressiva. cujos resultados eram previamente decididos em acordos de gabinete.exceção feita aos indígenas. já que sua população não se submetia às leis republicanas. que reviveram as tendências impulsivas das raças inferiores. Euclides seguia. Os mestiços seriam igualmente incapazes de compreender a passagem da monarquia à república. Os sertões revisitados Euclides da Cunha retomou. atávicos. ético e religioso. dominado por uma população mestiça. o Conselheiro teria sido capaz de sintetizar as superstições das populações sertanejas. teorias raciais baseadas na crença na inferioridade dos não-brancos. na mesma situação jurídica do negro e do índio. os aspectos de mal social gravíssimo. que davam ares de ciência ao preconceito de cor. ao relatar a Guerra de Canudos. Tal programa de expulsão das populações não-brancas do contrato social restabeleceria. em As coletividades anormais (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. . do que por um desenvolvimento intelectual. o enfoque médico e etnológico de Nina Rodrigues. mostrando-se contrário às tentativas de condenação dos cultos afro-brasileiros pelo clero ou à sua repressão pela polícia. resumindo. resultante da fusão de raças e culturas desiguais. Explicou a guerra como o resultado do choque entre os curibocas do sertão. como Canudos e Palmares. enquanto o mestiço teria sua responsabilidade definida segundo o estrato a que pertencesse. o liberto apresentavam à época da colônia e do império. grande parte dos eleitores com a política dos governadores inaugurada pelo presidente Campos Sales (1898-1902). infantil e inculta. tidos como neurastênicos e desequilibrados pela mistura entre brancos e negros. Julgava ser necessária a intervenção armada em Canudos. p. condensadas no seu "misticismo feroz e extravagante". forma política tida como superior. Os africanos no Brasil (São Paulo: Nacional. na população mestiça à sua volta.348 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 349 louco e à criança. A partir de informações recebidas em Salvador. As elites civis de São Paulo e Minas Gerais passaram a se revezar no poder graças ao controle e à manipulação das eleições. a situação jurídica de exclusão da cidadania que o índio. 140. que ganhou. p. o escravo e. as proporções de uma epidemia coletiva. de ameaça à ordem social. 1939). ao sertão. menos por ignorância. em que o representante concreto do poder é substituído por uma abstração: a lei. em Os sertões. O Conselheiro teria achado. emitiu o seguinte juízo sobre os seguidores do Conselheiro: "Serão monarquistas como são fetichistas. mantidos sob tutela estatal -. a elite da Primeira República segregou. que o transformara de enviado divino no próprio filho de Deus. "a nota étnica dos instintos guerreiros. Já os mestiços "degenerados" deveriam ser considerados total ou parcialmente isentos. Viu o novo regime como obra dos maçons e de outros inimigos da religião e se rebelou contra atos de cobrança de impostos. Nina Rodrigues opunha o litoral. o que explicaria a surpreendente resistência armada que a população de Canudos ofereceu às expedições militares enviadas contra a comunidade. Paulo. condições favoráveis à propagação de seu delírio. sob a tutela do Estado ou da família. como Nina Rodrigues. de fato. os mestiços "comuns" teriam sua responsabilidade reduzida. 121. que teria representado "a maior das ameaças ao futuro povo brasileiro". Valorizou o mestiço do sertão. Por sua inferioridade evolutiva. Com sua pregação religiosa. e os mestiços do litoral. que presenciou como repórter de O Estado de S. reduto da civilização e dos grupos brancos. se tivesse sido seguido. fez vibrar no jagunço. herdados de seus ancestrais indígenas. a domesticação do índio e a submissão do negro seriam incapazes de transformá-los em homens civilizados. mas não os fariam adquirir consciência do direito e do dever. mal extintos".21 Mas a repressão se 21 justificaria apenas nos casos. já em seus momentos finais. que apresentaria vantagem sobre o mulato do litoral. Como elemento passivo e ativo da agitação que tomou o interior da Bahia. Enquanto os mestiços "superiores" seriam tidos como plenamente responsáveis. devido ao isolamento histórico e à ausência de componentes africanos. Sua loucura deveria ser interpretada em termos étnicos e sociológicos como o reflexo do meio em que viveu. formados de brancos e índios. em parte. O castigo e a violência poderiam contê-los. Raimundo Nina Ribeiro. insuficiente ou incompleto". 1932). Caberia ao negro e ao indígena uma responsabilidade atenuada ou nula. Escrevendo em outubro de 1897 sobre a Guerra de Canudos. assim como fora inevitável a extinção do quilombo de Palmares no século XVII. Embora não tenha vingado sua proposta de restrição dos direitos civis e políticos da população brasileira.

128. Ou progredimos. Ao afirmar o caráter específico da miscigenação sertaneja. Atuara antes. vítima das forças republicanas. tendo sido expulso da Escola Militar em 1888 por ato de insubordinação. com cultura própria e evolução autônoma garantidas pelo isolamento geográfico. nas páginas finais de Os sertões. p. Discutiu ainda a fundação da república por meio de um golpe militar e os problemas que tal origem trouxera ao novo regime. 71. que considerava a história guiada pelo conflito entre raças. Paulo. A Guerra de Canudos prolongou. enraizado no solo. para combater outra "desordem". Imaginou o sertanejo como o resultado da confluência entre a bravura indígena e a ousadia dos bandeirantes paulistas. A imitação dos sentidos: prólogos. . expandiu a idéia de nação e valorizou o país interior em vez do litoral. 1998). submetidas a estudos antropométricos. Fizera ainda propaganda política no jornal A Província de S. cuja história seria movida pelo choque entre etnias e culturas destinadas ao desaparecimento. a "desordem" criada pelo marechal Floriano. à altura dos grandes heróis dos poemas épicos e dos romances de cavalaria. ligado a plano de rebelião para a derrubada da coroa. em Raça de gigantes (1926). antes de tudo. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral. de modo semelhante a um titã grego ou a um guerreiro antigo coberto por armadura. Paulo. Criticava agora. observou que o novo regime fora incapaz de romper com o passado: "A República poderia ser a regeneração. na Faculdade de Medicina da Bahia.. uma coleção de cabeças de bandidos e criminosos memoráveis. o mito do bandeirante. Não o foi [. por Oliveira Viana. Leopoldo Bernucci. e por Alfredo Ellis Júnior. decretada de improviso e introduzida como "herança inesperada" ou "civilização de empréstimo". Aderia assim à denúncia da política dos governadores e à pregação pela revisão constitucional do deputado e jornalista Júlio de Mesquita e do grupo reunido. contemporâneos e epígonos de Euclides da Cunha (São Paulo: Edusp. a partir de 1901. em História geral das bandeiras paulistas (1924-50). que deu origem ao atual O Estado de S.." Elevou. com o esmagamento inevitável dos fracos pelos fortes. Alarmado com o avanço da cultura estrangeira. o homem do sertão. um forte. como militante republicano. Em trecho de Os sertões. "O sertanejo é. Construiu uma teoria fatalista do Brasil. base sobre a qual se poderia criar o brasileiro do futuro. observou que apresentava o crânio "normal" de um mestiço. criou uma imagem grandiosa do homem do sertão como ser autêntico. que não foi incluído na versão final do livro. Recorreu às concepções do sociólogo austríaco Ludwig Gumplowicz. cf.350 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à repúblico 351 que tornavam mais estável sua evolução racial e cultural. Euclides discutiu as origens do homem americano. em Populações meridionais do Brasil (1920).] a velha sociedade não teve energia para transformar a revolta feliz numa revolução fecunda". cujo caráter guerreiro e individualista lançou as bases da hegemonia de São Paulo. nos últimos anos da monarquia. O curiboca do sertão é tomado como o resultado da união entre os desbravadores vindos de São Paulo e os indígenas oriundos do continente americano. em torno do jornal O Estado de S. atacando o imperador e a família real e pregando a revolução. Canudos teria resultado da instabilidade dos primeiros anos de uma república. a Revolta da Armada. Difundiu. uma outra representação análoga. Os sertões: campanha de Canudos (1902) (São Paulo: Ática. quer o militarismo dos primeiros governos dos marechais Deodoro da Fonseca (1889-1891) e Floriano Peixoto (1891-1 894).22 Com base em teorias sobre uma suposta origem autóctone do homem americano. da Cunha. enviado ao etnólogo em Salvador. lançou um brado de alerta em Os sertões: "Estamos condenados à civilização. em 23 22 Euclides da Cunha. quer o liberalismo artificial de uma Constituição que as elites civis desrespeitavam por meio de fraudes eleitorais. Chamou o sertanejo de "rocha viva" da nacionalidade. depois retomado por Afonso d'Escragnolle Taunay. segundo Ellis Júnior. 105. 1995). para Euclides. ou desaparecemos". 131-2. expandindo o território da colônia portuguesa nos séculos XVII e XVIII. uma "sub-raça superior". em Os sertões. manuscrito de Os sertões. Paulo e da dissidência do Partido Republicano Paulista. pp. que copiava os códigos europeus. que penetraram pelos rios Tietê e São Francisco rumo ao interior. Sobre o Conselheiro. Nina Rodrigues como o representante da ciência encarregada de dar a "última palavra" sobre Canudos pelo exame do crânio do Conselheiro. sem traços de anomalia ou degeneração. em Os sertões. a formação racial do sertanejo e os malefícios da mestiçagem. Retratou-o como vaqueiro envolto em gibão de couro.23 Euclides ironizou. E. em que a Marinha e o Exército se enfrentaram de 1893 a 1894 na capital da república. junto com o mito do sertanejo. Do cruzamento entre brancos e índios teria resultado. Rodrigues mantinha.

O cérebro ficou conservado em formol no Museu Nacional do Rio de Janeiro até 1983. vol. pp. as faculdades de medicina de Salvador e do Rio de Janeiro. Não exprimiram.. Com a eclosão da campanha abolicionista e do movimento republicano. formulada pelos intelectuais e divulgada pela imprensa e pelas instituições acadêmicas e científicas. O chamado racismo científico foi adotado por escritores. libertos e 24 25 26 R. em Dialética da colonização. O espetáculo das raças. Formou-se. Aceitando a premissa básica do racismo . 25-32: 1-5. o racismo científico e o liberalismo progressista. Enquanto os modelos liberais regulamentavam as esferas públicas. Para uma abordagem das instituições científicas que privilegiaram o modelo racial. o que só foi limitado sob pressão internacional. 1870-1930 (São Paulo: Companhia das Letras. com grande participação de escravos. Politicamente. 0 sincretismo de raças e culturas A teoria das desigualdades raciais se difundiu no Brasil nas três últimas décadas do século XIX. estando asseguradas a livre competição e a liberdade pessoal entre eles. 131-133. o Museu Paraense Emílio Goeldi e o Museu Paulista. O antropólogo RoquettePinto observou que se tratava de um órgão notável pelariquezae complexidade das circunvoluções.. como a valorização da miscigenação e a ideologia do branqueamento. portanto. já que se articulavam aos grupos nacionais identificados à modernidade ocidental. o Museu Nacional. em busca dos traços físicos e anatômicos do crime ou do estilo. junto com os ideários naturalistas. O liberalismo foi fundamental na articulação de um discurso empenhado na construção da nação e da cidadania. que os adotaram junto com os modelos liberais de Estado. . se fez presente nas relações pessoais e nas vivências cotidianas. políticos e cientistas e teve uma acolhida entusiasta nos órgãos de imprensa e nos estabelecimentos de ensino e pesquisa. cf. por meio do qual a classe economicamente dominante assumiu o seu papel de grupo dirigente. imigrantes no trabalho produtivo. sua cidade natal. com o objetivo de restringir os pressupostos igualitários das revoluções burguesas e de limitar a participação dos não-brancos na esfera política. "Relações do cérebro com a inteligência". em As coletividades anormais. cujas formas de cultura e religião eram depreciadas como atrasadas ou degeneradas. Edgard Roquette-Pinto. cit. M.27 As teorias racistas foram redefinidas e adaptadas às condições locais. N. Lilia Moritz Schwarcz.25 O crânio do messias e o cérebro do escritor despertaram o interesse dos legistas e antropólogos da época. Schwarcz. cit. como a Faculdade de Direito do Recife.24 O médico Afrânio Peixoto retirou o cérebro de Euclides da Cunha após sua morte em agosto de 1909. instituições e questão racial no Brasil. cit. L. As concepções racistas se tornaram parte da identidade da classe senhorial e dos grupos dirigentes em uma sociedade hierarquizada e estamental. sobretudo na zona que governa as faculdades de expressão. ganhou força. 1949-50. Bosi. apresentando-se como parlamentar face à coroa e como antidemocrata perante a vasta população escrava ou pobre. em Revista de Educação Pública (Rio de Janeiro).26 O racismo se ligava aos interesses de uma elite letrada em se diferenciar da massa popular. cf.a superioridade da 27 Sobre esse enviesamento oligárquico e racial do liberalismo. a visão racial. no período monárquico. positivistas e evolucionistas. A. O espetáculo das raças: cientistas. Recorria-se ao liberalismo para legitimar o cativeiro e defender o direito dos traficantes e dos senhores rurais de submeter o escravo mediante coação jurídica e de negociá-lo como mercadoria. no Rio de Janeiro.352 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 353 que se associavam os caracteres antropológicos de diferentes raças. 7. os brancos eram considerados iguais enquanto cidadãos livres. quando foi enterrado em Cantagalo. que se articulou com a prática escravista após a independência e com os modelos racistas a partir da abolição e da república. o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. 1993). justificando hierarquias sociais e políticas com base em critérios biológicos. O dogma racial da desigualdade foi introduzido como princípio de naturalização de diferenças em uma sociedade formalmente liberal. Rodrigues. um liberalismo oligárquico. "A escravidão entre dois liberalismos". "A loucura das multidões". apenas interesses colonialistas e imperialistas. dando origem a modelos de pensamento. enquanto tentativas de eliminar a contradição entre a realidade étnica. ao lado do discurso liberal. um modelo racial. Tal conclusão confirmaria o diagnóstico anterior de que a rebelião de Canudos teria resultado do contágio psíquico de uma população fetichista por um delirante crônico. constando das leis e das medidas de âmbito geral.

contido no programa imigrantista. a partir de 1880. acabaram por desmentir tais previsões de pureza racial. pois achava que a tríplice desaparição do negro. "Sílvio Romero polemista" (1898-99). integradas e extintas pela mistura progressiva. como o crítico literário Araripe Júnior e o historiador Manuel Bonfim. o processo de branqueamento. A miscigenação. o racismo científico se tornou moeda corrente no debate cultural e político brasileiro no último terço do século XIX. A valorização da mestiçagem e a ideologia do branqueamento foram contribuições originais que atenuaram. p. como Sílvio Romero. pp.29 Ainda que não "Tristão de Alencar Araripe Júnior. A questão étnica se tornou central no momento de implantação do regime republicano e do trabalho assalariado. entre o pressuposto da igualdade formal entre os homens e o princípio racista da desigualdade inata. vol. pp. segundo ele. à "mongolização" do país. com isso. O deputado Joaquim Nabuco foi uma das vozes que se ergueram contra a importação de asiáticos que levaria. predominariam na mistura. 1976). Euclides da Cunha e Oliveira Viana. Até 1910 apenas intelectuais isolados. de forma quase unânime. que só deveriam ser admitidos com autorização do Congresso. o que tornaria necessária a revisão do modelo político da Primeira República. cuja população se tornou cada vez mais mestiça. . produziria uma população cada vez mais "clara". O antropólogo João Batista de Lacerda. que condenavam o Brasil ao atraso e à barbárie. diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro. afirmavam seus ideólogos. Sílvio Romero e Euclides da Cunha valorizaram a miscigenação como mecanismo de assimilação dos grupos inferiores. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro (Rio de Janeiro: Paz e Terra. autor de A América Latina (1905). era ainda mais "otimista". Araripe atribuía o racismo da ciência européia ao expansionismo das nações dominantes. O ideal de branqueamento.28 Apesar das críticas de Araripe e Bonfim. Mas a essa provisão liberal se acrescentava cláusula. na expressão atual de Roberto Schwarz. enquanto grupo superior. em Obra crítica (Rio de Janeiro: Casa de Rui Barbosa. se revelou no decreto de 1890. O racismo científico foi adotado. A imigração era concebida como processo de incorporação de elementos étnicos superiores. Romero propôs o "branqueamento" como saída para reabilitar as raças consideradas inferiores. A partir de critérios etnológicos. O programa de imigração chinesa. ao refrear suas tendências democráticas e dar argumentos para estruturas sociais e políticas autoritárias. Surgia. Enquanto Nina Rodrigues tomava a miscigenação como sinônimo de atraso e degeneração. portanto. enviesando as idéias liberais. o racismo científico então dominante. porém.354 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 355 raça branca . de origem européia. 82. em desacordo com a formação racial brasileira. fora rejeitado no parlamento. Nina Rodrigues. ainda que parcialmente. que chamava de "sofisma abjeto do egoísmo humano" e "etnologia privativa das grandes nações salteadoras". 1958-70). escritores e cientistas. Os censos demográficos do Brasil no século XX.400. Sílvio Romero acreditava que o branqueamento levaria de três a quatro séculos para se completar. Skidmore. pois os brancos. Manuel Bonfim. os fundamentos do racismo. que acelerariam. que tomavam a condenação das raças não-brancas e da miscigenação como idéia "fundada para autorizar a expansão e justificar a expropriação dos povos sem esquadras". A proclamada inferioridade dos não-brancos e a previsão de esterilidade dos mestiços feita por alguns naturalistas levantavam dúvidas sobre o porvir do país e colocavam um dilema para a elite brasileira. proposto pelo visconde de Sinimbu no final da década de 1870.d. 29 Thomas E. A América Latina: males de origem (1905) (Rio de Janeiro/Paris: Garnier. Pôde pensar. cujo principal objetivo era justificar a dominação de países e grupos sociais: "A ciência alegada pelos filósofos do massacre é a ciência adaptada à exploração". que estabelecia: "É inteiramente livre a entrada nos portos da República dos indivíduos válidos e aptos para o trabalho que não se acharem sujeitos à ação criminal do seu país". já que as leis evolutivas tornavam "inevitável" a vitória do branco. atacaram tais concepções. "idéia fora de lugar". Bonfim também criticava o pretenso caráter científico do racismo. como Buckle. de modo a escapar à armadilha determinista de autores europeus e norte-americanos. Gobineau e Agassiz.. proclamaram o liberalismo. 278-398. 327. do índio e do mestiço necessitaria de apenas um século. "Clóvis Beviláqua" (1899). pela miscigenação. que oscilava entre o liberalismo e o racismo.). sem contestar. uma saída brasileira para a questão étnica: fundir para extinguir as raças tidas como inferiores. s. excluindo os "indígenas da Ásia ou da África". 3. uma "solução" para o dilema racial que escapava às previsões pessimistas sobre o futuro da civilização no Brasil. com o argumento de que os chineses corromperiam a formação racial no país.

os mitos de identidade nacional baseados na fusão e integração de raças e culturas. que a ideologia da mestiçagem se manteve mesmo após a rejeição. Oliveira Viana. quando se mostrou cético quanto ao futuro branqueamento da população brasileira e passou a aceitar as teorias arianistas contrárias à mestiçagem. p. só ingressaram no país a partir da primeira década do século XX. Romero passou a temer que o país viesse a ser dominado por raças inferiores ou cruzadas. 1943. qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo (Rio de Janeiro: Achiamé.30 A teoria racial de Sílvio Romero marcou dois intérpretes do Brasil.356 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia à república 357 tenha sido aplicado. em Evolução do povo brasileiro (1923). representados pela elite branca ou ariana. em 1943. talvez. Romero fundou.31 O reajuste das teorias racistas adquiriu tal autonomia em relação às premissas iniciais. Ao questionar o futuro branqueamento da população brasileira. Essas concepções. presentes em ambos. a partir da década de 1930. na obra de Sílvio Romero. que se apropriaram de facetas distintas de sua obra: Oliveira Viana e Gilberto Freire. que substituiu o escravo pelo imigrante europeu. "Prefácio" (1913). Com base no pressuposto das desigualdades étnicas. cuja mudança de posição em relação à mestiçagem trouxe à tona uma orientação antidemocrática. pois os povos cruzados seriam sempre inferiores às raças ditas puras: "populações que se mestiçaram — nunca mais deixam de ser mestiçadas". O perfil interpretativo passou a ser moldado não mais pelos conceitos de raça e natureza. 160-2. Ao comentar a publicação. mas é em grande parte um mal".22 Freire observou. o enfoque dos aspectos clânicos da sociedade brasileira e a defesa de um sistema político autoritário. Por outro lado. mas pelos de cultura e caráter. da terceira edição da História da literatura brasileira de Romero. uma coisa fatal e irremediável. Considerava agora a mistura de raças uma "desvantagem". pp. capaz de manter acesa a chama do progresso e da civilização. foram propostos modelos políticos autoritários. quando a imigração européia se tornou problemática. que reflete a desilusão dos intelectuais com o modelo liberal da Primeira República. que marcariam a cultura brasileira moderna. Tal Brasil. o destaque dos fatores étnicos. em Obrafilosófica(Rio de Janeiro: José Olympio. que antes rejeitara. Os grupos asiáticos. que 31 32 30 S. Freire considerou a teoria da mestiçagem um dos fundamentos do pensamento democrático moderno. Rio de Janeiro. que afirmavam a supremacia do Estado e de seus dirigentes sobre a sociedade. como a perspectiva arianista. 1969). Carlos Guilherme Mota e Flora Süssekind abordaram essa mudança na literatura e no ensaio histórico-social. junto com Euclides da Cunha. ainda que rejeitasse o seu preconceito racial e a crença na inferioridade étnica. Adotou idéias antiliberais de defesa da elite ariana. "Valorização do mestiço". Cf. A partir de 1930. em Casa-grande & senzala (1933). a valorização da miscigenação e o interesse pelo folclore e pelas tradições populares. apresentados como defesa dos valores da civilização. Mota. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica (São Paulo: Ática. G. 201. no cultural e no econômico. a crítica à miscigenação e à democracia. se apoiou em aspectos da reflexão de Romero posterior a 1900. ao contrário. por exemplo. Gilberto Freire retomou. no prefácio a Casa-grande & senzala. 1984). com a ênfase no social. Sua confiança nas vantagens dos cruzamentos raciais foi abalada a partir de 1900. Süssekind. em A Manhã. o decreto mostra o modelo brancófilo do imigrantismo. F. O abandono do racismo científico tornou. . observou sobre as misturas raciais: "Como a democracia é. 24 jul. tanto em Romero quanto em Viana. substituídos pela abordagem culturalista de Gilberto Freire e dos antropólogos Roquette-Pinto e Artur Ramos. Gilberto Freire. A difusão das teorias raciais e da crítica positivista ao modelo democrático deu origem a ideologias antiliberais. mais entusiástica a valorização da miscigenação como criação de uma identidade nacional a partir da síntese de raças e culturas. 1901). De 1870 a 1910. C. Romero. 1978). Tal constatação aparece. Seguindo as teses do francês Gobineau sobre a decadência da civilização a partir do abastardamento dos arianos. precondição para a articulação de um discurso antiliberal no Brasil. do racismo científico e dos modelos evolucionistas. em particular japoneses. "reduto imesclado de gente superior". foram formuladas a partir da indagação sobre a especificidade da formação nacional. Martins Pena: ensaio crítico (Rio de Janeiro: Garnier. o branqueamento se converteu no cadinho de raças de uma sociedade multirracial. A crítica ao liberalismo e a virada autoritária no pensamento brasileiro no início do século XX se deram a partir da constatação da divergência entre os modelos europeus e a formação racial brasileira. biológicos e climáticos produziu a ideologia do branqueamento como forma de ajuste do racismo europeu às condições brasileiras.

entre senhores e escravos. 1999. São Paulo: Companhia das Letras. Ideologia da cultura brasileira (1933-1974): pontos de partida para uma revisão histórica. Flora. 1976. 1994. MOTA. presente no ensaio histórico-social de Gilberto Freire. Porto Alegre: Mercado Aberto. 1993. São Paulo: Companhia das Letras. Bragança Paulista: Ed. 1991.358 Roberto Ventura Um Brasil mestiço: raça e cultura na passagem da monarquia ò república 359 seu ensaio se baseava na diferença entre raça e cultura. Lilia Moritz. o sociólogo criou o mito da "democracia racial" ou do "novo mundo nos trópicos". elogios épicos à sensualidade da mulata. "A escravidão entre dois liberalismos". Euclides da Cunha e Gilberto Freire revelam a tensão entre o projeto de integração à civilização e a construção diferenciada da idéia de nação. que proclamavam a inviabilidade da nação brasileira. VENTURA. Alfredo. Raça e corna literatura brasileira. Tal Brasil. . 1984. "Sob o signo de Cam". Mariza. Carlos Guilherme. capaz de aperfeiçoar o legado ocidental segundo padrões mais flexíveis. Heloísa Toller. GOMES. David. Jeffrey D. 1870-1914. Belle Époque tropical: sociedade e cultura de elite no Rio de Janeiro na virada do século. SÜSSEKIND. de modo a separar os fatores genéticos das influências sociais e culturais. As marcas da escravidão: o negro e o discurso oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos. Racial Identity and National Consciousness in Brazilian Literature. A miscigenação corrigiu. qual romance?: uma ideologia estética e sua história: o naturalismo. tal ideologia foi incorporada ao senso comum e se tornou parte integrante da representação do país. reaparece nos romances de Jorge Amado. Cambridge: Cambridge University Press. SCHWARCZ. A ideologia da mestiçagem. 1993. Rio de Janeiro: Ed. em Dialética da colonização. São Paulo: Ática. que entravam em conflito com a pretensa superação do paradigma étnico-biológico. ao criar o mestiço como elemento de mediação entre os dois mundos. As ilusões da liberdade: a escola Nina Rodrigues e a antropologia no Brasil. a distância entre a casa-grande e a senzala. Roberto. Tenda dos milagres (1969). 1992. políticos e cientistas do final do século XIX e início do século XX. as imagens de um Brasil mestiço propostas por Sílvio Romero. como fusão harmoniosa de raças e culturas. HABERLY. David T. instituições e questão racial no Brasil: 1870-1930. 1983. Estilo tropical: história cultural epolêmicas literárias no Brasil. NEEDELL. Rio de Janeiro: Achiamé. BROOKSHAW. Three SadRaces. como Gabriela. capaz de reduzir e amortecer as tensões sociais e os antagonismos culturais. 1978. Rompendo com o pessimismo das teorias deterministas do século XLX. que marcou a cultura brasileira desde os seus primórdios. Thomas E. CORRÊA. São Francisco. O espetáculo das raças: cientistas. Freire e Amado se mantiveram presos a concepções de etnicidade. Bibliografia selecionada Bosi. São Paulo: Companhia das Letras. Formulada por escritores. SKIDMORE. para Freire. ao atribuírem valor psicológico às raças e glorificarem a formação de uma cultura sincrética a partir do seu cruzamento. Preto no branco: raça e nacionalidade no pensamento brasileiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra. se tornou elemento recorrente na cultura brasileira como traço específico ou marca de identidade nacional. A apologia da mestiçagem. Tereza Batista cansada de guerra (1973) e Tieta do Agreste (1977). cravo e canela (1958). UFRJ-Eduerj. 1983. São Paulo: Companhia das Letras. Univ. Promessa reconfortante e utópica de uma futura unidade racial e cultural.

ingressou no Instituto Rio Branco. Mais conhecido como geomorfologista. Nobres contra mascates. Artístico e Arqueológico do Estado de São Paulo (Condephaat). 1998). Pernambuco. Rio de Janeiro: Topbooks. A construção do Brasil. Faculdade de Filosofia da PUC . os Países Baixos e o Nordeste (Rio de Janeiro: Topbooks. e é professor honorário do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo. 1997). 1995). Jorge Couto Docente na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa onde. ambos na FFLCH/USP. Contributo para o estudo da desamortização no Brasil colonial (1759-1808). do início do povoamento afinais de quinhentos (Lisboa: Cosmos. Escola de Jornalismo "Casper Libero". É doutor em História por notório saber pela Universidade de São Paulo. O negócio do Brasil. iniciando a carreira diplomática em 1962. atuou em diversas faculdades particulares do Estado de São Paulo (Faculdade de Filosofia "Sedes Sapientie". em 1960. O nome e o sangue. 1630-1654 (2. ed. É autor das teses O colégio dos jesuítas do Recife e o destino do seu patrimônio (1759-1777) e O patrimônio da Companhia de Jesus da Capitania-Geral de Pernambuco. Foi presidente do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico. Evoldo Cobrai de Mello Após estudos de Filosofia da História em Madri e Londres. O imaginário da restauração pernambucana (2. Uma fraude genealógica no Pernambuco colonial (São Paulo: Companhia das Letras. em São José do Rio Preto. ! i ! ! .São Paulo. No campo do ensino uni versitário. Guerra e açúcar no Nordeste. 1666-1715 (São Paulo: Companhia das Letras. 1871-1889 (2. Rubro veio. Defendeu tese de doutorado (1956) e livre-docência em Geografia (1965). Rio de Janeiro: Topbooks. 1992. em sua Faculdade de origem. no decorrer de 1945-46. Ameríndios. Rio de Janeiro: Topbooks. onde fez Especialização em Geografia. é membro da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e representante do Ministério da Cultura na Comissão Mista Luso-Brasileira para as Comemorações do V Centenário do Descobrimento do Brasil. Atual presidente do Instituto Camões (Portugal). Entre 1979 e 1983 colaborou com a Unesp. Afronda dos mazombos. 1999). Faculdade Campineiras. na qualidade de Diretor do Ibille (Instituto Bio-Ciências e Ciências Exatas). [ i j j j . Publicou.Sobre os autores AzizNacibAb'Sáber Bacharelou-se em 1943 e obteve o título de Licenciado em 1944. 1989). ed. Portugal. 1998). Publicou os livros: Olinda restaurada. desde 1986. em 1998. ed. leciona História do Brasil. O norte agrário e o Império. diferenciou suas preocupações e escritos por todo um vasto leque de áreas científicas. do Ministério das Relações Exteriores. Faculdade de Filosofia de Sorocaba). portugueses e africanos. 1995). ao longo de 50 anos de trabalho e pesquisas.

Ex-professor visitante das Universidades de Londres. do Texas e da Escola de Altos Estudos de Paris (1985) e Visiting Scholar da Universidade de Stanford (EUA). Carlos Guilherme Mota Historiador. e Estilo tropical: história cultural e polêmicas literárias no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. de Burocracia e sociedade no Brasil colonial (São Paulo: Perspectiva. João Paulo G. Princeton e Columbia e atuar por seis anos como diretor da Tinker Foundation. Atualmente leciona Estética e História da Arte no Instituto de Artes da Unesp.Schwartz Professor de História na Yale University (EUA). John's College e pela Universidade de Cambridge. 1817 (São Paulo: Perspectiva. 1992) e Documentos de história do Brasil (São Paulo: Scipione. É autora de vários artigos e do livro A Nova Atlântida de Spix e Martius: natureza e civilização na "Viagem pelo Brasil (1817-1820)" (São Paulo: Hucitec/Fapesp. Organizou. É autor. com Flávio Gomes. a área de História Cultural do Instituto de Estudos Avançados da USP. KennethR. respectivamente. Coordenador das obras coletivas Brasil em perspectiva (São Paulo: Difel. A Semana de 22 (São Paulo: Scipione. 1997). no Journal of Social History e na The Cambridge History ofLatin America. FrandscoAlambert Doutor em História pela Universidade de São Paulo. Publicou. 1979) e Segredos internos. entre outros. KarenMocknowÜsboa Mestre e doutoranda em História Social pela Universidade de São Paulo. entre outros. Ideologia da cultura brasileira (São Paulo: Ática. Foi professor da Universidade Federal da Bahia e da Universidade de Nantes. Ingressou no Conselho de Relações Internacionais após ter ensinado nas universidades de Yale. é doutorando na mesma universidade. Fink. 1987). na França.362 Sobre os autores Sobre os autores 363 StuarfB. Princeton e Brandeis. Seus livros mais recentes incluem Chocolate. Maxwell Fellow em Estudos Americanos e diretor de Estudos Latino-americanos do Instituto Nelson and David Rockefeller da Universidade de Harvard. na American Historical Review. Doutor Honoris pela Universidade Federal da Bahia. piratas e outros malandros: ensaios tropicais (1999). 1986). 1993). Autor de Nordeste. Pombal: Paradox ofthe Enlightenment (1995). João José Reis Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia. Nos Estados Unidos. UNIVERSIDADDES^^ANCA ••••••••••li ""6405132363 í i . e de estudos sobre o Brasil-colônia. tendo sido professor visitante em várias universidades. É autor de História e dependência: cultura e sociedade em Manoel Bomfim (São Paulo: Moderna. foi professor visitante das universidades de Michigan. Bacharel e mestre pelo St. Pimenta Mestre em História pela Universidade de São Paulo. publicados na Hispanic American Historical Review. Liberdade por um fio: historio dos quilombos no Brasil (São Paulo: Companhia das Letras. escravos e mestiços em um país tropical (Munique: W. entre outros. assunto de seu mestrado e doutorado. Arte e História da Cultura da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 1997). 1972). IstvánJancsó Livre-docente pela Universidade Federal Fluminense. 1991). dentre elas a Universidade de São Paulo. 1968) e 7522: dimensões (São Paulo: Perspectiva. professor titular (aposentado) de História Contemporânea da Faculdade de Filosofia. Engenhos e escravos na sociedade colonial (São Paulo: Companhia das Letras. onde apresentou a dissertação "Estado e nação na crise dos impérios ibéricos no Prata (1808-1828)". entre outros livros. também publicado em inglês. 1972). The Making ofPortuguese Democracy (1995). Idéia de revolução no Brasil. 1989). revisto e ampliado. Professor no programa de pós-graduação em Educação. 1789-1801 (São Paulo: Cortez. Atualmente. 1992). Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. é professor do departamento de História da Faculdade de Filosofia. possui outro mestrado e doutorado pela Universidade de Princeton. Escritores. em co-autoria com Flora Süssekind. Está preparando uma biografia de Euclides da Cunha. de 1993 a 1994. A morte é umafesta: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX (São Paulo: Companhia das Letras. 1984). como Slave rebellion in Brazil (Baltimore: Johns Hopkins University Press. 1998). Coordenou. tendo sido o primeiro diretor do Instituto de Estudos Avançados da USP (1986-1988). em co-autoria. 1988). e The New Spain: From Isolation to Influence (1994). Roberto Ventura Professor de Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo. É pesquisador do Núcleo de Estudos da América Latina do Instituto de Estudos Avançados da USP. Pesquisa a literatura de viagem sobre o Brasil. Foi professor do Departamento de História da PUC-SP e da Universidade Federal Fluminense e do Departamento de Filosofia da Unesp-Marília. de Rebelião escrava no Brasil: a história do Levante dos Males (1835) (São Paulo: Brasiliense. 1997). é autor.

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br Centro de Tecnologia em Beleza Tel. crítica.br Taubafé Tel.br Jundiaí TeL (11) 7396-8228 «Fax: (11) 7396-8223 E-maiL iun@sp.br ^^•••A _#_^MA_Jk f"í• *"« sugestão.senac. (15) 227-2929 «Fax: (15) 227-2900 E-maiL sor@sp.senoc.senac.senac.senac.senac.br Bebedouro TeL: (17) 342-8100 «Fax: (17) 342-3517 E-maiL beb@sp.br Sorocaba Tel.br Itapira TeL: (19) 863-2835 «Fax: (19) 863-1518 E-maiL ita@sp.: (11) 287-6199 • Fox: (11) 287-6201 E-mail: ctb@sp.br Ribeirão Preto TeL: (16) 624-2900 «Fax: (16) 624-3997 E-maiL rip@sp.br Santana TeL (11) 6973-0311 • Fax: (11)6973-0704 E-mail: ano@sp.: (11) 236-2267 .br Santo Amaro Tel. (19) 891-7676 «Fax: (19) 891-7771 E-maiL mog@sp.br Votuporanga TeL: (17) 421-0022-Fax: (17) 421-9007 E-maiL vot@sp.senac.br Centro de Educação em Turismo e Hotelaria Tel.senac.senac.senac.: (11) 227-3055 • Fax: (11) 227-3431 E-mail: ces@sp.br Barretos TeL (17) 322-9011 • Fax: (17) 322-9336 E-mail: bar@sp.senac.br Piracicaba TeL: (19) 434-9700 .senac.senac.br Limeira TeL: (19) 451-4488 «Fax: (19) 441-6039 E-maiL lim@sp.senac.br Santos TeL: (13) 222-4940» Fox: (13) 235-7365 E-maiL san@sp.senac.br Centro de Educação em Informática Tel.br Vila Prudente Tel.br Franca TeL: (16) 723-9944 «Fax: (16) 723-9086 E-maiL fra@sp.senac.br Centro de Educação Comunitária para o Trabalho Tel.senac.br Cata nd uva TeL: (17) 522-7200 «Fax: (17) 522-7279 E-maiL cat@sp.senac.br _.senac.senac.: (11) 603-1622-Fax: (11) 209-6042 E-mail: gru@sp.senac.: (11) 272-6588 .senac.Fax: (11) 236-2247 E-mail: sW@sp.br Presidente Prudente TeL: (18) 222-9122 .br Mogi-Guaçu Tel.senac.br Guarulhos Tel.: (11) 3865-4888-Fax: (11) 3862-9680 E-mail: cem@sp.Fax: (11) 6163-3219 E-mail: vpr@sp.br Grande Hotel Campos do Jordão Hotel-Escola SENAC TeL: (12) 260-6000-Fox: (12) 260-6100 E-maiL ghj@sp.senac.br foquem Tel.Fax: (14) 422-2004 E-maiL mar@sp.senac.br .senac.senac. f f V X V A * ^ Utilize o fax S N C {li) 3J07-7976.br São João da Boa Vista TeL: (19) 623-2702-Fax: (19) 623-2702 E-maiL sjb@sp.Fax: (19) 434-7303 E-maiL. (19) 482-1211 • Fax: (19) 482-1665 E-mail: ghp@sp.senac.br São Carlos TeL: (16) 271-8228 «Fax: (16) 271-8229 E-maiL car@sp.senac.senac.senac.senac.: (11) 523-8822-Fox: (11) 247-8253 E-mail: sam@sp.: (11) 217-1597-Fax: (11) 217-1619 E-mail: cct@sp.senac.Fax: (11) 3862-9199 E-mail: cca@sp.: (18) 623-8740 • Fax: (18) 623-1404 E-mail: aca@sp.senac.br Centro de Tecnologia em Administração e Negócios TeL: (11) 221-9622 • Fax: (11) 221-9407 E-mail: can@sp.: (11) 6944-5488-Fax: (11) 6944-9022 E-mail: itq@sp.br Campinas TeL: (19) 231-4877 «Fax: (19) 231-4645 E-maiL cam@sp.: (11) 263-2511 • Fax: (11)864-4597 E-mail: cet@sp. (12) 232-5066 «Fax: (12) 232-3686 E-maiL tau@sp.senac.senac.br Rio Claro TeL: (19) 523-4500 «Fax: (19) 523-3930 E-maiL ric@sp.br Rede SescSenac de Televisão Tel.br Centro de Educação Ambiental Tel.senac.Fax: (18) 222-8778 E-maiL ppr@sp.: (11) 4994-8811 .senac.senac.br Centro de Idiomas TeL (11) 236-2277-Fax: (11) 259-5246 E-maih cid@sp.Fax: (11) 3667-2743 E-mail: cedi@sp.senac.: (11) 3662-2152.br Tatuapé TeL (11) 293-9188 «Fax: (11) 294-2437 E-mail: tat@sp.br Grande Hotel São Pedro Hotel-Escola SENAC Tel.senac.Fax: (17) 233-7686 E-maiL sjr@sp.senac.senac. elogio.br São José dos Campos TeL: (12) 329-2300 .Fax: (11) 236-2255 E-mail: gde@sp.CEP 01060-970 ^ • • ^ ^ " ^ ^ ^ ou 0 E-maíl: canol_abertD@sp. Interior Araçatuba Tel.senac.: (11) 236-2050 «Fax: (11) 255-0792 E-mail: cei@sp.br Itapetininga TeL: (15) 272-5463 .semK.br Centro de Educação em Moda Tel.senac.br Osasco Tel: (11) 7081-8799 «Fax: (11) 7081-7056 E-mail: osa@sp.br Marília TeL: (14) 433-8933 .br Jaú TeL: (14) 622-2272-Fax: (14) 621-6166 E-maiL jau@sp.br Sanle André Tel.br Editora SEN AC São Paulo Tel.senac.br Centro de Educação em Design de Interiores Tel.senac.senac.br São José do Rio Preto TeL: (17) 233-1565 .Fax: (12) 329-2656 E-maiL sjc@sp.pir@sp.Fax: (15) 272-5177 E-maiL ipe@sp.: (11) 884-8122 «Fax: (11) 887-2136 E-mail: eds@sp.Fax: (11) 4994-8429 E-mail: sad@sp.senac.br Centro de Educação em Saúde Tel.: (11) 5581-0697-Fax: (11) 5581-2910 E-mail: cea@sp.Fax: (16) 236-9337 E-mail: ara@sp.senac.senac. EA _____!____ a Caixa Postal 3595 .senac.REDE DE UNIDADES SENAC-SP Capital e Grande São Paulo Centro de Comunicação e Artes Tel: (11) 3872-6722 .senac.br Centro de Tecnologia do Varejo TeL (11) 864-7211 • Fax: (11)262-2803 E-mail: crv@sp.br Guaratinguetá TeL: (12) 522-2499 «fax: (12) 522-4786 E-maiL gua@sp.br Botucatu TeL: (14) 822-2536 «Fax: (14) 821-3981 E-maiL bot@sp.br Faculdades SENAC TeL: (11) 236-2000 .br Araroquara TeL: (16) 236-2444 .br Centro de Tecnologia e Gestão Educacional TeL (11) 236-2080 «Fax: (11) 257-1437 E-mail: cte@sp. ^ L ^ J f c * " i > * 4 ^ A Ou peíoo informação que você preciso.senac.senac.br Bauru TeL (14) 227-0702-Fax: (14) 227-0278 E-maiL bau@sp.

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