Construindo a espiritualidade CRISTÃ

RELEMBRANDO Esta nossa última revista teve um total de dez lições, que apresentaram cada uma um aspecto da espiritualidade que devemos construir, e cada um baseado em algum personagem bíblico. Em Jesus aprendemos a alicerçar nossa vida no amor; com Jacó vimos a importância de reconstruir nossa identidade; com Davi aprendemos sobre o quebrantamento; com o povo de Israel vimos a importância que Deus dá para a família; com Oséias, o afeto e intimidade na relação conjugal; com José, o valor do perdão; com Daniel, a indispensável vida de oração; com Abraão, a inestimável fé; com Neemias, a integridade; e, por fim, com Josué e Calebe, a importância da visão. Cada um destes aspectos integra a espiritualidade cristã, mas eles não são os únicos. Muitos outros elementos são importantes e indispensáveis. Contudo, estes aqui apontados e estudados devem agora ser colocados em prática a fim de que o povo de Deus demonstre uma piedade que se evidencie mais pelo seu poder e seus efeitos do que apenas do falar e discuti-los. CONCEITUAÇÃO Espiritualidade é a característica da prática diária na vida de alguém, cujos Espiritualidade cristã refere-se à princípios são orientados pela crença que busca por uma existência cristã possui a respeito de Deus e do mundo autêntica e satisfatória, espiritual. Para simplificar, espiritualidade é a envolvendo a união das ideias forma como uma pessoa pratica aquilo em que fundamentais do cristianismo realmente acredita. Uma definição exata, porém, não é unânime entre os estudiosos, de modo com toda a experiência de vida que oferecemos aqui a definição de Alister baseada em e dentro do âmbito McGrath. Na definição dele espiritualidade é um da fé cristã. processo contínuo de busca por um estilo de Alister E. McGrath vida que transpareça em suas experiências as ideias fundamentais do cristianismo. Nesta definição não existe espiritualidade sem estes dois elementos muito importantes: teoria e prática. Não se pode colocar em prática princípios não aprendidos, tanto quanto é inviável discutir ideias que não podem ser concretizadas. A espiritualidade cristã só é possível com esta união. A NECESSIDADE DE COLOCAR O APRENDIZADO NA PRÁTICA Quanto à teoria não é necessário discuti-la, porquanto as lições estudadas ao longo dos últimos meses ofereceram-nos a base sobre a qual pensamos a espiritualidade. Agora nos convém considerar os princípios estudados em sua forma concreta, em nosso dia-a-dia. Sobre falar a verdade, disse Dietrich Bonhoeffer: “Veridicidade que não é concreta não tem caráter de verdade perante Deus” 1. Assim, alguns destes aspectos que nós estudamos, como o amor, o quebrantamento, o afeto e a intimidade, o perdão, a fé e a integridade não são apenas princípios abstratos para os cristãos, mas devem se concretizar na nossa realidade diária para que sejam legítimos diante de Deus. Cristãos que não colocam em prática o que aprendem são indiferentes que não se importam com sua própria condição diante de Deus:
“Tornai-vos, pois, praticantes da palavra e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos. Porque, se alguém é ouvinte da palavra e não praticante, assemelhase ao homem que contempla, no espelho, o seu rosto natural; pois a si mesmo se contempla, e se retira, e para logo se esquece de como era a sua aparência. Mas, aquele que considera, atentamente, na lei perfeita, lei da liberdade, e nela persevera, não sendo ouvinte negligente, mas operoso praticante, esse será bemaventurado no que realizar” (Tiago 1.22-25 – Revista e Atualizada)

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Bonhoeffer, Dietrich. Ética. 9 ed. São Leopoldo, RS, 2009.

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Construindo a espiritualidade CRISTÃ
QUE TIPO DE PESSOAS DEUS QUER QUE SEJAMOS? Jesus disse: “Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus” (Mt 5.20 – Almeida Revista e Atualizada). Já disse certo autor que caímos frequentemente no engano de achar que Deus não espera que nos sacrifiquemos para fazer Sua vontade quando na verdade é justamente isso que Ele espera. Isso diz respeito ao fato de que a nossa prática aos seus mandamentos vai muito além do mero cumprimento externo deles, mas de uma nova atitude de coração para com tudo aquilo que Ele espera de nós. Não apenas fazer Sua vontade, mas amar Sua vontade. Este é o tipo de amor perfeito à Lei de Deus que só Jesus demonstrou ter de forma integral: “Quanto amo a tua lei! É a minha meditação, todo o dia” (Salmos 119.97 – Almeida Revista e Atualizada). Entendamos isto: todos cujos corações não estão inclinados à Lei de Deus não podem obedecê-lo em espírito e em verdade. “Guardo no coração as tuas palavras, para não pecar contra ti” (Salmos 119.11 – Almeida Revista e Atualizada). O tipo de pessoas que Deus espera que sejamos, à semelhança de Seu Filho, não se entrega ao preconceito, não se submete à ordenanças triviais que dividem as pessoas, não é seletivo quanto á quem deve se beneficiar de sua bondade, não estabelece limites para perdoar, não submete seu amor á nenhum tipo de condição para com aqueles que escolhe amar. Não foi por pouca coisa ou por motivo simples que Deus, o Pai, disse a seu respeito: “Este é o meu filho amado em quem me comprazo”. Se você reconhece que está muito longe de ser igual a Jesus Cristo, e que seu coração tantas vezes mostra-se indisposto para com a vontade de Deus, veja no final da lição um apêndice contendo uma indicação do pastor John Piper sobre como orar em favor da alma. O PERIGO DE NEGLIGENCIARMOS A PRÁTICA DA PALAVRA DE DEUS Um cristão não pode mais viver de acordo com a sua própria vontade, mas de acordo com a vontade de Deus. Isso, por si só, evidencia que mesmo os cristãos precisam da graça e força de Deus para que possam cumprir aquilo que Ele deseja. Portanto, não devemos nos entregar ao luxo de ficarmos sossegados nem mesmo diante da dúvida sobre o que fazer, mas buscar Sua direção. Muitas vezes colocamos obstáculos para não cumprirmos a clara vontade de Jesus. Obstáculos como “devo perdoar se o fulano fez assim e assim comigo?”, “porque amar alguém que rejeita e até mesmo menospreza o meu amor?”, ou ainda, “eu sei que devo fazer isso, mas veja se não tenho razão...”. Fazer o que Ele deseja, não esqueçamos, não é só um dever, mas um prazer para o cristão. Obedecer a Deus, não pelo dever, mas pelo amor que se tem a Ele, e pelo prazer que se tem de agradá-lo é a essência da verdadeira obediência. Acredito que o perigo de negligenciarmos a prática da Palavra de Deus está mais clara e solenemente declarado nas palavras de Jesus no encerramento do sermão do monte (Mateus 7.24-27). Que estas palavras de Jesus sejam constantes vigias de nossas consciências, acusando-nos sempre que estivermos nos desviando, a fim de que percebamos o grande perigo que estamos correndo em não praticar a vontade de Deus revelada em sua Palavra.

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Construindo a espiritualidade CRISTÃ

APÊNDICE2
Como Orar Em Favor Da Alma (A Sua E A De Outros)
Eis a maneira como eu oro em favor da minha alma. Faço estas súplicas repetidas vezes – em favor de mim mesmo, minha esposa, meus filhos, nossos presbíteros e pastores e toda a nossa igreja. Isto é o “feijão e arroz” de minha vida de oração. 1. A primeira coisa que minha alma necessita é uma inclinação por Deus e sua Palavra. Sem isso, nada valioso acontecerá em minha vida. Tenho de querer conhecer a Deus, ler a sua Palavra, aproximar-me dEle. De onde vem esse “querer”? Vêm de Deus, por isso, Salmos 119.36 nos ensina a orar: “Inclina-me o coração aos teus testemunhos e não à cobiça”. 2. Preciso ter os olhos do meu coração abertos, para que, quando a minha inclinação levar-me à Palavra, eu veja o que ela realmente diz e não as minhas próprias ideias. Quem abre os olhos do coração? Deus o faz. Por isso, Salmos 119.18 nos ensina a orar: “Desvenda os meus olhos, para que eu contemple as maravilhas de tua lei”. 3. Também preciso que meu coração seja iluminado com essas maravilhas. Tenho de ver a glória que há nessas maravilhas e não somente os fatos interessantes. Quem ilumina o coração? Deus o ilumina. Por isso, Efésios 1.18 nos ensina a orar que sejam “iluminados os olhos do vosso coração”. 4. Preocupo-me em que o meu coração não fique dolorosamente fragmentado e partes dele permaneçam na escuridão, enquanto outras partes estão iluminadas. Por isso, anelo que o meu coração esteja unido com o de Deus. De onde procede a integralidade do coração e a união com Deus? De Deus. Por isso, Salmos 86.11 nos ensina a orar: “Andarei na tua verdade; une o meu coração no temor do teu nome” (Bíblia Revista e Corrigida). 5. O que eu realmente espero desse envolvimento com a Palavra de Deus e com o Espírito Santo, em resposta às minhas orações, é que meu coração se satisfaça com Deus, e não com o mundo. De onde vem essa satisfação? Ela vêm de Deus. Por isso, Salmos 90.14 nos ensina a orar: “Sacianos de manhã com a tua benignidade, para que cantemos de júbilo e nos alegremos todos os nossos dias”. 6. Não desejo que minha felicidade seja fraca ou débil, e sim forte e durável, em meio às piores adversidades. Quero ser forte na alegria e perseverar durante as épocas de provações. De onde vem esse vigor e perseverança? Eles vêm de Deus. Por isso, Efésios 3.16 nos ensina a orar: “Para que, segundo a riqueza de sua glória, vos conceda que sejais fortalecidos com poder, mediante o seu Espírito no homem interior”. 7. Não quero que meu vigor em Cristo seja frutífero apenas para mim, mas também para os outros. Evidentemente, “mais bem-aventurado é dar do que receber” (Atos 20.35). Por isso, quero produzir boas obras e atos de amor para as outras pessoas, de modo que a glória de Deus seja vista em minha vida, e outros provem e vejam que o Senhor é bom. Quem produz essas obras de amor? Deus as produz. Por isso, Colossenses 1.10 nos ensina a orar: “A fim de viverdes de modo digno do Senhor... frutificando em toda boa obra”. 8. Finalmente, para que não perca o alvo final, eu oro, dia após dia – como um tipo de bandeira que drapeja sobre todas as minhas orações – “Santificado seja o teu nome” (Mateus 6.9). Senhor, faze que o teu nome seja conhecido, temido, amado, apreciado, admirado, adorado e crido, por causa da minha vida e ministério. Tudo isso eu oro em nome de Jesus, porque Deus nos dá todas essas coisas somente com base na morte de Jesus. Ele morreu por mim e removeu a ira de Deus, para que o Pai me desse gratuitamente todas essas coisas (Romanos 8.32).

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Extraído do livro PROVAI E VEDE, de John Piper, editora FIEL.

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