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Abstract

Espaços Fluidos

Debora Maria Santiago 1

The expression “fluid spaces” is used for thinking on works which, once installed, can be perceived in theirs intimacy with space. The development of an idea of impermanence is then possible through the work installed and activated by the spectator, turning the work mobile: gaining the quality of fluidity.

Keywords: fluid spaces, spectator, transient/transitory.

O espaço na produção artística percorre toda sua história no ocidente,

mas torna-se foco de discussão no modernismo, quando os mecanismos que delimitam espaço e obra dissolvem-se. Ao se diluírem no espaço expositivo propriamente dito, procuraram novos espaços de atuação estabelecendo-se como uma forma de articulação com o espaço do mundo em comum. Este

termo é proposto por Alberto Tassinari em "O espaço moderno" para indicar a junção do espaço do mundo com o espaço da obra em si. Porém a junção não exclui a distinção entre o espaço da obra e o espaço do mundo, havendo assim uma duplicidade. Diversas abordagens sobre o espaço nas artes visuais têm sido propostas e experimentadas. Nesta pesquisa, o objetivo é refletir acerca de algumas destas proposições, como o espaço vem sendo tratado pelos artistas na produção contemporânea e, a partir destas observações, abordar minha própria produção artística.

O título "Espaços Fluidos" foi por mim proposto pensando em obras que,

ao serem instaladas, podem ser percebidas através de íntima relação com o espaço. Impermanentes, estas relações são articuladas na pesquisa a partir da

1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação - Mestrado em Artes Visuais da UDESC. Formada em Escultura pela Escola de Música e Belas Artes do PR (1995). Freqüentou o curso de Filosofia da UFPR e

a Pós-Graduação em História da Arte do Século XX da Escola de Música e Belas Artes do PR. Desde

1994 vem apresentando sua produção em exposições individuais e coletivas no Brasil, Portugal, Espanha

e Alemanha.

noção de espaço em obra, da comunicação entre o espaço do mundo em

comum e o espaço da obra, todos conceitos apresentados por Alberto Tassinari, conforme assinalei anteriormente.

A incorporação do espaço e o não isolamento da obra são situações que

aprofundo a partir dos textos de Brian O'Doherty em seu livro "No interior do cubo branco: a ideologia do espaço da arte", sobretudo quando o espaço do qual se refere o autor é tido como um elemento ativo e, como tal, nega a suposta neutralidade imposta pelo cubo branco. Tais relações com a arquitetura são acrescidas pelas relações que se dão no uso, como o lugar praticado definido por Michel de Certeau em seu texto "A

invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer". Ou seja, a experiência do lugar e sua alteração a partir de seus usos lhe proporcionam a qualidade de fluidez. A possibilidade de realizar diversas operações no espaço o torna móvel, lugar praticado por excelência.

O autor difere os conceitos de lugar e de espaço e aponta características

que lhes são fundamentais: o lugar é inerte, onde são distribuídos elementos, cada coisa em seu lugar. Já o espaço é o cruzamento de vários lugares, que pode ser modificado constantemente pelas ações do sujeito. São estas ações - práticas cotidianas do homem ordinário - que condicionam o espaço, tornando-o lugar praticado. O uso do espaço se faz por táticas não calculadas e são, conforme sublinha Certeau, artes de fazer, que usam de astúcia e não de um saber científico, afinadas as circunstâncias e possibilitando movimentos que mudam a organização do espaço. Em um segundo momento a pesquisa abordará as relações da obra com o espectador. Esta relação está sendo pensada através do termo espaço de performação, desenvolvido por Regina Melim, definido-o como espaço que surge do encontro do espectador com a obra, possibilitando a criação de um espaço de ação e experimentação que se prolonga no espectador, ampliando as operações possíveis da obra. Ao apresentar obras que lidam com diversas formas de apreensão pelo espectador, me aproximo de outro termo proposto por Guy Brett em seu livro "Kinetic Art" que é o conceito de estrutura viva referindo-se as proposições artísticas de Lygia Clark e Helio Oiticica onde era imprescindível a participação ativa do espectador, considerando ambos como uma espécie de co-autor.

Ao pensar a obra instalada e ativada pelo espectador é possível então desenvolver a idéia de "impermanência", operação que a torna móvel, ou seja, lhe dá a qualidade de fluidez. Na série "Desenhos nas paredes" (realizados desde 2003) e nos "Móbiles" (realizados desde 2005) estas relações podem ser percebidas desde o início da produção da obra, quando se dá a experiência do lugar e a partir daí o início do processo de criação. O registro fotográfico é incapaz de me proporcionar a descrição do espaço, assim como para o espectador é impossível apreender a obra através do mesmo. Os desenhos são realizados diretamente sobre as paredes e os móbiles montados a partir das qualidades do lugar negando uma aura de eternidade do sentido do único e permanente. A obra instalada, realizada, se configura não apenas em uma ocupação do espaço, mas também na sua impermanência. Impermanência que se desdobra tanto no ato de sua ocupação como na ativação posterior, quando instalada pelo espectador. Alguns autores vêm discutindo sobre a impermanência da obra, entre eles Harold Rosenberg. No livro "Objeto Ansioso" o autor apresenta os móbiles do artista Alexander Calder, algo inteiramente novo no contexto artístico do período. Já Cristina Freire, no recente livro "Arte Conceitual" da coleção Arte+ organizada por Glória Ferreira, trata da impermanência através de obras como projetos e registros, ou seja, idéias e conceitos. Ao invés da permanência, o que é tratado por estes autores é a transitoriedade. Ao compartilhar destas idéias, percebo que a obra única cede lugar à reprodutibilidade através de suas diferentes montagens e ativações no espaço. Contrária a autonomia, a obra se estabelece através do contexto.

Referências Bibliográficas

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