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Aceitação e tolerância de leite de cabra em pré-escolares

O leite de cabra foi introduzido na alimentação humana há séculos, quando os povos nômades da
Ásia a do Oriente Médio domesticaram a cabra; isto data aproximadamente de 8.000 a.C. É um
alimento nutritivo natural e tanto ele como o leite de vaca têm sido largamente utilizados na
alimentação infantil em vários países.

Na Grécia Antiga os médicos recomendavam o use do leite de cabra para crianças enfermas, devido
à sua fácil digestibilidade. Além disso, aquelas alérgicas ao leite de vaca podem usualmente tolerá-
lo.

O leite de cabra, diferentemente do leite de vaca, tem características únicas: alta digestibilidade,
alcalinidade distinta a maior capacidade tamponante.

A importância do leite de cabra na alimentação infantil não reside apenas no valor biológico de seus
nutrientes, mas também em suas características de hipoalergenicidade. Isto vem aumentando
gradativamente o seu consumo nos processos alérgicos de origem alimentar, particularmente
aqueles relacionados às proteínas do leite de vaca.

A composição protéica do leite de cabra a de vaca é similar, mas o teor reduzido de a-s-1-caseína
no primeiro favorece a formação de coágulos finos a suaves, o que facilita o processo digestivo. O
leite de cabra contém percentual mais elevado de ácidos graxos de cadeia curta a média,
facilitando a digestibilidade, favorecendo o esvaziamento gástrico e, em conseqüência, reduz a
incidência de aparecimento de refluxo gastresofágico.

Os teores de vitamina no leite de cabra estão próximos aos do leite de vaca, exceto pelas vitaminas
B6, B 12 a ácido fólico, as quais estão diminuídas no leite de cabra; os teores de vitamina A estão
aumentados e, além disso, as cabras fisiologicamente convertem todo o caroteno em vitamina A,
conferindo ao leite a coloração esbranquiçada, pela ausência deste pigmento. Os níveis de vitamina
C e D do leite são baixos a aproximadamente os mesmos para o leite de cabra a de vaca.

Quanto aos minerais, o leite de cabra apresenta maior quantidade de cálcio, potássio, magnésio,
fósforo, cloro e manganês, porém, menor quantidade de sódio, ferro, zinco, enxofre a molibdênio,
quando comparado ao leite de vaca.

Apesar dos excelentes benefícios do leite de cabra, não se pode esquecer que casos de reações
cruzadas entre proteínas homólogas do leite de vaca podem ocorrer. Assim, a boa tolerância do uso
do leite de cabra se traduz positivamente quando a alergia às proteínas do leite de vaca se
manifesta em sintomas gastrointestinais a de vias aéreas superiores menos intensos.

O uso de fórmulas lácteas, com a utilização de leites de vaca a outras espécies animais, além de
fórmulas de soja, tem sido o padrão em crianças menores de um ano, em países em
desenvolvimento. No entanto, a ocorrência de anemia carencial em caráter epidêmico, em crianças
menores de cinco anos, em nosso meio, tem ressaltado a necessidade da utilização de fórmulas
adequadas, modificadas a que possuam características de boa absorção, especialmente em
lactentes.

O objetivo do presente trabalho foi o de avaliar o consumo do leite de cabra em crianças


freqüentadoras de creches municipais da cidade de São Paulo, visando a análise da tolerância,
aceitação, avaliação do crescimento pôndero-estatural e da hemoglobina, comparando-o ao do leite
de vaca, tradicionalmente usado nessas instituições.

A criança institucionalizada em creches recebe alimentação que, programaticamente, atinge 100%


das recomendações diárias para o grupo etário, com uma oferta láctea que não ultrapassa duas
ofertas diárias. O volume de ingestão láctea atinge um valor médio de 200 ml na instituição, o que
determina um baixo aporte de cálcio a outros nutrientes.

Uma das possibilidades que explicam a baixa ingestão láctea é a intolerância subclínica à lactose e
à proteína do leite de vaca, que fazem com que um número elevado de crianças não aceitem
grandes quantidades de leite durante o dia. Inúmeras possibilidades de intervenção têm sido
tentadas, em projetos desenvolvidos por vários investigadores, visando a aumentar a oferta. Um
produto misto de proteína láctea a de soja foi utilizado em crianças institucionalizadas em creches
municipais de São Paulo, com bons resultados frente ao leite de vaca isolado.

Desde a época dos gregos, a utilização de leite de cabra em lactentes tem sido associada à boa
tolerância, bom crescimento ponderal e possível uso em comunidades com dificuldades de
aceitação de leite de vaca. É claro que, em países mediterrâneos, o grande rebanho caprino
favorece o seu uso.

O leite de cabra tem sido utilizado em casos de inapetência, repulsa, cólicas, vômitos, problemas de
sono, comportamentos pós-prandiais inadequados a eczemas, relacionados a ou agravados pela
ingestão de leite de vaca. Vários autores referem que o leite de cabra tem, possivelmente, maior
digestibilidade, maior capacidade tamponante e maior alcalinidade que o leite de vaca, favorecendo
sua melhor absorção.

No presente estudo houve uma maior aceitação do leite de cabra em relação ao de vaca. Mesmo
havendo um maior número de crianças menores no grupo que recebeu leite de vaca, com
conseqüente maior ingestão, verificou-se que as crianças que receberam leite de cabra tomaram
duas vezes mais que as que estavam recebendo leite de vaca. 0 grupo que ingeriu leite de cabra
em pó teve aceitação superior a 100% do volume oferecido, em todas as faixas etárias,
ligeiramente superior ao volume ingerido de leite de cabra UHT, sob a forma líquida, enriquecida
com ferro a vitaminas, que mesmo assim manteve o dobro de aceitação em relação ao leite de
vaca. Preparados ambos da mesma maneira, puros ou com adição de achocolatados, o leite de
cabra foi sempre melhor aceito, sem haver decréscimo desta quantidade ao longo dos meses. 0
resultado de menor aceitação para o leite UHT pode estar relacionado ao gosto metálico do leite
enriquecido com ferro amino quelato, de difícil estabilização em meios lácteos. No entanto,
aceitação superior a 90% do ofertado foi mantida durante todo o período de intervenção.

Não houve diferença estatística no desenvolvimento pôndero-estatural das crianças,


independentemente do leite ingerido. O número de crianças com baixo peso ou estatura foi
bastante inferior ao encontrado em outros trabalhos, nas mesmas situações sociais a econômicas e
este fato pode estar relacionado à pequena mudança antropométrica observada durante o estudo.

Concluímos que o leite de cabra é uma excelente opção para substituição do leite de vaca, após o
primeiro ano de vida, permitindo crescimento e desenvolvimento adequados. Quando utilizado o
leite de cabra em pó, enriquecido com ácido fólico, parece haver um favorecimento da absorção de
ferro na dieta. Quando utilizado leite UHT enriquecido com ferro e vitaminas, existe um claro
benefício na quantidade de ferro biodisponível. Não houve registro de intolerância ou alergias no
decorrer do estudo. O leite de cabra foi melhor aceito, numa proporção de 50% a 65% a mais do
que o leite de vaca, tanto em crianças que anteriormente tomavam o mesmo como quando
comparados ao grupo-controle. Em crianças normais, sem alergia ou intolerância láctea, o uso de
leite de cabra favoreceu o incremento da ingestão de leite e, conseqüentemente, de cálcio.

Fonte: Pedriatria Moderna - Volume XXXV

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