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O PLANETA DA
ÚLTIMA ESPERANÇA

Autor
K. H. SCHEER

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Um planeta inóspito e selvagem é o futuro esconderijo
do chefe supremo Iratio Hondro...

Depois de terem vagado durante meses pelo espaço,


Perry Rhodan e seus companheiros regressaram à Terra,
muito embora por vezes sua situação fosse tão desesperada
que ninguém teria acreditado que ainda tivessem uma
chance.
Os calendários do planeta Terra registram os últimos
dias do mês de junho do ano de 2.329. Os planos da
organização terrorista Estrela Negra, cujos agentes
fanatizados por pouco não destruíram os mundos principais
do Sistema Solar, puderam ser totalmente frustrados.
Ninguém mais contesta a posição de Perry Rhodan como
Administrador Geral do Império Solar, e em sua maioria os
administradores das colônias terranas reconheceram que nas
atuais condições políticas reinantes na Galáxia, é mais
seguro permanecer sob a proteção do Império que seguir
seus próprios objetivos egoísticos.
Mas Iratio Hondro, chefe supremo de Plofos, um dos
mundos coloniais mais antigos e poderosos do Império Solar,
não desiste nem mesmo quando seu regime, baseado no
terror e na opressão, é derrubado pelos agentes de Allan D.
Mercant.
Iratio Hondro consegue fugir e transfere-se para O
Planeta da Última Esperança...

======= Personagens Principais: = = = = = = =


Miles Traut — Um homem que deveria construir um canhão de
conversão, mas acaba produzindo um rifle de elefante.
Eve Narkol — Noiva secreta de Miles.
Shelo Bontlyn — Um técnico em radiocomunicações que é o primeiro
a ouvir a mensagem de Perry Rhodan.
Professor Kelo Kontemer — Que nem mesmo com o veneno do chefe
supremo se tornou totalmente submisso.
Konta Hognar — Comandante do estabelecimento secreto Última
Esperança.
Major Meri Hafgo — Um homem que arrisca um jogo secreto.
Iratio Hondro — Um criminoso fugitivo.
1

Shelo Bontlyn, substituto do chefe da central de rádio e rastreamento de Última


Esperança, aguçou o ouvido.
O zumbido do elevador antigravitacional não poderia deixar de ser notado. O
mesmo superava o crepitar da estática do cosmos e causou uma sensação desagradável
em Shelo Bontlyn.
Shelo voltou a puxar para a frente o encosto da poltrona de controle, que deixara
inclinada para trás. Embora não fosse ilícita, uma posição confortável durante as horas de
serviço sempre causava certo desagrado.
Dois robôs QB que emitiam um brilho metálico apareceram na abertura do elevador
antigravitacional. Seus pés bateram ruidosamente no chão. Com dois passos colocaram-se
no interior da sala semicircular em que funcionava a central de rádio e rastreamento.
Shelo Bontlyn não fez nenhum movimento. Examinou os controles com uma
atenção redobrada. O indicador do hipertransmissor estava no vermelho. Era proibido,
sob pena de morte, transmitir qualquer mensagem sem permissão do comandante do
respectivo núcleo.
Bontlyn olhou instintivamente para a sala de transmissão, protegida por um campo
energético azulado. Ninguém a não ser Konta Hognar, chefe da estação secreta de Última
Esperança, podia manipular os controles do campo defensivo.
Uma das telas estava desligada. Parte da sala refletia-se na mesma, permitindo que
Bontlyn observasse discretamente a abertura do elevador.
Reconheceu dois pés, aos quais se seguiu um par de pernas finas e compridas. Dali
a alguns segundos um homem alto saltou do campo antigravitacional. Os dois robôs QB
mantiveram-se em posição de espera, com os braços de armas na horizontal.
Shelo Bontlyn passou a respirar um pouco mais depressa. Martirizado por um
princípio de medo, procurou reconstituir seus atos nos últimos dias. Não acontecera nada
que exigisse o aparecimento inesperado do comandante do chefe do núcleo e do chefe de
segurança, Konta Hognar.
Num gesto distraído, Shelo comprimiu a tecla do rastreador de freqüências
inteiramente automatizado. Luzes verdes e azuis deslizaram pelas escalas. O aparelho
fazia o vasculhamento dos setores menos comuns, à razão de noventa e oito milhões de
freqüências marginais por segundo.
As comunicações de rádio de cerca de quarenta espaçonaves estavam sendo
recebidas. Geralmente as mensagens eram transmitidas em código. Shelo não se
importou. De qualquer maneira, as cento e oitenta freqüências principais estavam sendo
vigiadas constantemente. Para isso havia outros aparelhos, com gravadores de fita
sincronizados.
Passos aproximaram-se. Seu som era semelhante ao rufar de tambores distantes. O
comandante do núcleo parou. O ruído cessou.
— Hondro é grande, técnico Bontlyn — disse o homem alto a título de
cumprimento. Shelo sentiu a respiração do outro em sua nuca.
— Hondro é grande, senhor — respondeu Bontlyn, usando a mesma frase esquisita.
Não virou a cabeça. Cabia-lhe examinar ininterruptamente os controles.
— Durante minha presença, o senhor fica dispensado de executar sua tarefa — disse
a voz.
Shelo levantou-se, virou-se e ficou em posição de sentido.
Konta Hognar usava o conjunto-uniforme azul da guarda pessoal do chefe supremo.
O V vermelho que se via do lado esquerdo do peito brilhava.
Bontlyn levantou os olhos para o rosto do comandante de Última Esperança. Konta
Hognar, por sua vez, baixou os olhos para o técnico de estatura mediana, cujos cabelos
ruivos arrepiados produziam reflexos esverdeados à luz das telas. Os robôs
permaneceram em silêncio. Seus braços armados continuavam em posição de disparo.
Shelo Bontlyn levou apenas um segundo para perceber que o homem poderoso e
odiado que se encontrava à sua frente não viera na intenção de convidá-lo a iniciar sua
última caminhada. Além disso não se teria dado ao incômodo de executar pessoalmente
uma tarefa como esta.
No seu íntimo Shelo sentiu-se aliviado. Assumiu uma postura mais descontraída.
Hognar, que normalmente observava todos os detalhes, não percebeu o alívio do técnico
de radiocomunicações.
Ainda um tanto distraído, perguntou:
— Certamente ainda não há notícias de nosso mundo, não é mesmo?
Era antes urna constatação que uma pergunta.
— Não senhor, nenhuma notícia — confirmou Bontlyn.
No mesmo instante lembrou-se de que o tratamento de senhor era uma das raras
peculiaridades da linguagem terrana que continuavam a ser usadas no linguajar
plofosense. Plofos, uma antiga colônia terrana, que era o terceiro planeta do sol Eugaul,
fora o primeiro mundo a alcançar a independência, formando um império separado da
Terra.
Konta Hognar juntou as mãos nas costas e foi para perto de uma das telas.
A mesma mostrava parte da superfície de Última Esperança. O comandante do
planeta-base plofosense não parecia olhar conscientemente para a tela. Shelo Bontlyn
achava a situação cada vez mais estranha. Nunca vira aquele homem magro numa atitude
como esta.
— Na minha opinião o senhor é um dos subordinados mais leais do chefe supremo,
técnico Bontlyn. Sua estação ressente-se da falta de pessoal não é mesmo?
— Sempre damos um jeito — respondeu Shelo cautelosamente.
— Não esperava outra resposta. O senhor sabe que não podemos dispensar um
único homem fisicamente capaz para romper o domínio do Império governado pelo patife
chamado Perry Rhodan.
Shelo confirmou a opinião de seu chefe, se bem que com certas restrições de que
Konta Hognar não teve conhecimento.
Bontlyn não tinha uma opinião muito favorável sobre as condições políticas e
militares em que o Império Unido se encontrava naquele momento. Nem mesmo a súbita
reaparição do personagem lendário chamado de Perry Rhodan seria capaz de impedir a
decomposição do Império Unido, que estava em pleno andamento. Os povos estranhos
separavam-se do Império e a Aliança Galáctica se desmantelava.
Mas apesar de tudo Shelo Bontlyn não concordava com a afirmação de que Perry
Rhodan era um patife.
Konta Hognar virou-se. Parecia ter tomado uma decisão. Shelo percebeu a súbita
mudança em seu estado de espírito e voltou a ficar em posição de sentido.
— Obrigado; era só o que eu queria saber. Se houver alguma novidade, avise-me
imediatamente.
O homem magro despediu-se com um cumprimento reservado e saiu andando em
direção ao elevador. Dali a dois minutos desapareceu juntamente com os robôs que o
acompanhavam.
Bontlyn enxugou o suor da testa. Foi-se acomodando em sua poltrona de controle e
olhou para as telas' dispostas em semicírculo.
Qual fora mesmo o motivo da vinda de Konta Hognar? Certamente não
comparecera durante o segundo período de descanso somente para declarar que achava
que Bontlyn era um subordinado do chefe supremo que merecia toda confiança e que a
estação se ressentia da falta de pessoal.
Shelo refletiu muito sobre o estranho incidente e finalmente chegou à conclusão de
que alguma inquietação inferior devia ter levado o comandante do núcleo ao submundo
da central de rádio e rastreamento.
Por que Hognar estava inquieto? Seria por causa do súbito regresso de Rhodan?
Um sorriso feroz apareceu no rosto do técnico Bontlyn. Uma centelha de ódio
apareceu em seus olhos claros. Logo se deu conta de que aquilo era uma reação perigosa.
Olhou cautelosamente em torno e esforçou-se para permanecer calmo.
Na estação instalada no pólo norte do planeta infernal denominado Última
Esperança, situado a 21.513 anos-luz da Terra, não havia motivo para sorrir quando em
virtude de certas ligações indiretas alguém se lembrava do chefe supremo do império
plofosense.
Shelo Bontlyn lembrara-se do odiado ditador ao recordar o nome de Perry Rhodan,
Em meados do mês de março do ano de 2.329, ou seja, há cerca de quatro meses,
tempo padrão, a guarnição de Última Esperança fora informada sobre o regresso do
Administrador Geral solar. Dali em diante o mundo escaldante ficara em estado de
alarme. Graças à sua posição, Shelo Bontlyn era um dos poucos homens que possuíam
informações mais detalhadas sobre o que havia atrás dos acontecimentos.
Era bem verdade que para os técnicos vigorava a proibição de ouvir as mensagens
trocadas entre as diversas instâncias administrativas do Império, mas de vez em quando
faziam sua escuta.
Especialmente Shelo Bontlyn era levado pelo rancor que lhe inspirava o chefe
supremo a arriscar a vida para saber o que estava acontecendo no âmbito da Galáxia.
A última mensagem secreta vinda de Plofos era tranqüilizadora demais. O sistema
de Eugaul fora transformado em área interditada, na qual nenhuma espaçonave estranha
podia penetrar sem uma licença especial. Nem mesmo as naves terranas!
Shelo Bontlyn e outros membros da equipe científica estacionada em Última
Esperança tinham discutido em segredo sobre o tempo durante o qual os terranos ainda
tolerariam as artimanhas políticas de Iratio Hondro. O bloqueio do sistema de Eugaul só
poderia causar grandes complicações militares e econômicas.
A inquietação interior de Konta Hognar tornava-se perfeitamente compreensível,
desde que a gente se desse conta de que o súbito regresso de Perry Rhodan, que há muito
fora dado como morto, causara um verdadeiro choque na Galáxia.
Os chefes de governo dos sistemas solares dominados pelo planeta Terra viram-se
de uma hora para outra diante do homem ao qual a Humanidade devia sua ascensão à
categoria de grande potência cósmica.
Shelo Bontlyn imaginava perfeitamente que os chefes separatistas controlados pelo
chefe supremo haviam procurado desesperadamente uma saída que lhes permitissem
imprimir um curso final positivo às medidas de política interna já iniciadas. Até então
não se tinha ouvido falar em qualquer revolta na área do Império Solar. Pelo contrário.
As comunicações de rádio, cujo volume experimentara um crescimento extraordinário
nos últimos dias já voltara ao normal.
Shelo Bontlyn soubera tirar suas conclusões. Para ele não havia dúvida de que o
pulso firme e a conhecida genialidade de Rhodan já haviam restabelecido a paz e a
ordem.
Só por isso o técnico Bontlyn não concordava em que um homem que provara ser
um patife chamasse outro homem de patife.
Bontlyn voltou a sorrir. Lançou um olhar pensativo para os controles visuais da
central de rádio e rastreamento.
Lembrou-se do dia em que fora banido. Fazia três anos. Cometera o erro de opor-se
a uma instrução objetivamente errônea fornecida por um oficial do serviço secreto.
Quatro horas depois disso Shelo Bontlyn sofrerá a pena de degredo perpétua. Seu
próximo paradeiro fora o único planeta do gigantesco sol vermelho chamado Bolo.
Última Esperança, era este o nome do mundo em cuja calota polar norte o comando
científico do chefe supremo instalara um instituto de pesquisas.
Só alguns meses depois de sua chegada o técnico amargurado, que já não acreditava
na justiça, ficara sabendo que o tinham induzido propositadamente a opor-se ao
cumprimento de uma ordem.
Iratio Hondro, que governava o sistema de Eugaul, precisava de cientistas e técnicos
competentes para Última Esperança, onde se tentaria desvendar o mistério do canhão
conversor terrano. Os resultados das pesquisas já realizadas eram bastante promissores.
Apesar disso Shelo Bontlyn não conseguia habituar-se à situação. Em Última
Esperança havia oitocentas e onze pessoas, sendo seiscentos e cinqüenta e três homens e
cento e cinqüenta e oito mulheres. Todos trabalhavam no programa do canhão conversor.
Cerca de duzentos membros da equipe masculina portavam o veneno. Antes da
partida tinham recebido uma injeção da toxina diabólica usada pelo chefe supremo para
transformar todas as personalidades importantes e influentes em mortos em perspectiva.
Só o chefe supremo conhecia o segredo do veneno depositado no organismo das
pessoas. Era o único que possuía a chamada droga neutralizadora, que tinha de ser
injetada a intervalos de trinta dias para evitar que a pessoa intoxicada sofresse uma morte
triste.
Nenhuma pessoa intoxicada pelo veneno de Iratio Hondro poderia assumir o risco
de conspirar contra o mesmo. A falta da dose de substância neutralizadora representaria o
fim.
Konta Hognar era um dos homens intoxicados. Por isso mesmo seu nervosismo era
perfeitamente explicável. A última nave de abastecimento tinha partido há oito semanas.
Desde então não houvera notícias de Plofos. As mensagens de rotina que chegavam
diariamente não significavam nada. Não atingiam o problema propriamente dito.
Ao recostar-se na poltrona, Shelo Bontlyn sentiu um ódio ainda mais intenso por
Iratio Hondro. Um homem que, para firmar sua própria posição, recorria à escravização
indireta de seus subordinados, de escrúpulos. Tinha de permanecer na trilha previamente
traçada para não soçobrar.
Shelo ligou as quatro câmaras de superfície da face diurna. Uma claridade ofuscante
encheu as telas.
Shelo estreitou os olhos. O pólo norte do planeta Última Esperança ficava numa
área de alternância bastante instável. Nessa área reinava constantemente uma estranha
penumbra entre o sol abrasante dá face diurna e a noite gelada da outra metade do
planeta.
O planeta Última Esperança levava 64:03 horas para descrever uma rotação
completa em tomo do próprio eixo. Como ficava muito próximo do sol, na face diurna
reinavam temperaturas que normalmente nenhum ser vivo suportaria.
O esfriamento das massas de chão firme que mergulhavam na face noturna era
muito rápido. O calor armazenado durante o dia era irradiado para o espaço dentro de
poucas horas. A atmosfera do planeta era formada exclusivamente por certos resíduos
gasosos, insuficientes para efetuar a regulagem das condições climáticas.
No entanto, os ramanescentes dos gases atmosféricos bastavam para produzir
horríveis ciclones na área da penumbra. O planeta Última Esperança era um mundo
pouco acolhedor, no qual nenhum ser humano deveria pisar. Apesar disso os
descendentes de antigos colonos terranos se encontravam lá, por ordem de um demagogo
e usurpador ávido de poder, que conquistara o governo pela violência, e recorria à força
para manter e firmar sua posição.
Shelo olhou demoradamente para as telas cintilantes. O sol vermelho denominado
Bolo encontrava-se bem no sul. De vez em quando nuvens de gases incandescentes
expelidas pela gigantesca estrela apareciam na linha do horizonte.
Sempre que uma nuvem de energia cósmica desse tipo se precipitava espaço afora,
se expandia e se desmanchava lentamente numa incandescência, a área de penumbra do
pólo norte se iluminava, e os receptores ligados crepitavam.
Há muito Shelo Bontlyn teria tentado a fuga, se neste mundo existisse um lugar que
valesse a pena ser procurado.
Os soldados da Guarda Azul sabiam melhor que os próprios desterrados que seria
suicídio abandonar a grande estação com seus confortáveis alojamentos, seu equipamento
de climatização e os depósitos de mantimentos. Ninguém conseguiria sobreviver do lado
de fora. Nem na face diurna, nem na face noturna.
Por isso mesmo só havia pequenos postos de controle nas estradas, e muitas vezes
os mesmos nem estavam guarnecidos. Ninguém seria louco a ponto de transferir-se
voluntariamente para o inferno número um, se no inferno número dois a situação ainda
era mais ou menos suportável.
Bontlyn esboçou um sorriso. A comparação entre os dois infernos acabara de
ocorrer-lhe. Gostava dela. Depois disso voltou a refletir sobre as chances que o chefe
supremo ainda poderia ter para eliminar o poder de Perry Rhodan.
Sem dúvida havia um ditado conhecido em todo o Universo. A julgar pelo mesmo,
a raça humana só podia ser derrotada por seres humanos. Acontecia que os plofosenses
eram criaturas humanas! Até eram seres humanos muito bem treinados, dotados de
excelentes capacidades físicas e espirituais. Seus antepassados tinham pertencido à elite
dos povos terranos, pois do contrário não teriam sido capazes de emigrar. No início da
época expansionista a saída para outros planetas só era permitido a personalidades
vigorosas.
A política desenvolvida por Hondro baseava-se neste fato. Conhecia a qualidade das
reservas de que podia dispor. Era bem verdade que Perry Rhodan dispunha de reservas
ainda melhores.
Shelo Bontlyn deu um suspiro leve e resignado, o que fazia sempre que suas
reflexões chegavam a este ponto.
O fim do terceiro turno de guarda estava chegando ao fim. Dali a uma hora seria
revezado.
O técnico de estatura mediana bocejou e voltou a modificar a posição do encosto de
sua poltrona. Neste mesmo instante um homem alto que envergava o uniforme do
Império Solar entrou na estação de hiper-rádio do planeta Plofos. As insígnias que trazia
sobre os ombros eram inconfundíveis. Tratava-se de Perry Rhodan, Administrador Geral
do Império Unido e chefe do governo do Império Solar.
Várias pessoas estavam em sua companhia, entre elas o antigo chefe do serviço
secreto de Plofos, Isit Huran, e um neutralista, o Almirante Geral Arnt Kesenby.
Uma mulher jovem de cabelos ruivos entrou ao lado de Rhodan. Os oficiais fizeram
continência.
Era o dia 3 de julho de 2.329, tempo padrão.
2

Shelo Bontlyn, que estava cochilando, sobressaltou-se. O receptor de hipertron de


freqüência superelevada acabara de dar um sinal. Linhas branco-acinzentadas
trabalhavam na tela do aparelho que funcionava a velocidade superior à da luz. Estas
linhas ordenaram-se, assumiram formas definidas e formaram a figura geométrica que
representava o sinal de chamada.
A freqüência de hipercomunicação oficial do planeta Plofos tinha sido fixada em
1124,37589 gigatrons. A potência da emissora principal de Plofos chegava a oitenta e
dois milhões de quilowatts.
Os dedos de Shelo correram pelas teclas dos comandos automáticos. Telas de
controle iluminaram-se.
Realmente, a transmissão correspondente ao sinal de chamada vinha de Plofos. O
regulador de freqüências estava exatamente em 1124,37589 gigatrons. O rastreador
direcional inteiramente automatizado indicava a recepção dos impulsos transmitidos no
setor de Eugaul com uma precisão de mais ou menos 0:003 horas-luz.
A energia dos impulsos captados pelas antenas especiais correspondia, com uma
diferença máxima de 3,96 quilowatts, causada pelas influências do ambiente exterior, à
potência do transmissor instalado em Plofos. Diante da energia dispendida, da distância
percorrida pelos impulsos, da perda natural de potência e das distorções produzidas pelo
campo energético do sol de Bolo, os computadores positrônicos que entraram em
funcionamento automaticamente constataram com uma segurança de cem por cento que
não se tratava de alguém que tentasse imitar os sinais da grande estação de rádio de
Plofos. Isso seria tecnicamente impossível, a não ser que alguém tivesse conseguido
construir um emissor exatamente igual em outro planeta do sistema de Eugaul.
Shelo passou a respirar mais depressa. Uma vez concluídos os controles
estabelecidos no regulamento, ligou o som e a imagem do receptor de hipercomunicação.
De forma quase inconsciente, mas de qualquer maneira sem uma intenção definida,
comprimiu a tecla do receptor de ontrex. Dessa forma o som e a imagem da transmissão
seriam gravados.
Ao lado dele os computadores de decodificação começaram a zumbir. Plofos
naturalmente transmitiria uma mensagem codificada e condensada.
Mas o técnico de hiperfreqüências Shelo Bontlyn esqueceu um detalhe. Mais tarde
seria incapaz de explicar por que não comprimira o botão de chamada logo após o
primeiro sinal de chamada, a fim de alarmar o comandante da base.
A omissão tornava-se ainda mais surpreendente porque uma hora antes Konta
Hognar viera pessoalmente para perguntar se havia notícias de Plofos.
Shelo esqueceu o mundo que o cercava. Estupefato, contemplava a grande tela
reservada para as transmissões diretas vindas do sistema de Eugaul.
Um homem alto colocara-se à frente da objetiva. Os olhos cinzentos pareciam ser a
única coisa viva em seu rosto estreito e duro.
Shelo Bontlyn não deu atenção a este detalhe. A imagem televisada era colorida e
tridimensional. Por isso mesmo reconhecia-se perfeitamente o uniforme que o homem
usava. Este uniforme não mostrava o azul da guarda plofosense, mas o verde suave da
Frota Solar.
— Perry Rhodan...! — cochichou Shelo de si para si, estupefato. — Rhodan...!
Bontlyn comprimiu os punhos fechados contra as braçadeiras da poltrona e ergueu-
se ligeiramente. Quando Rhodan começou a falar, o técnico deixou-se cair para trás. Com
um movimento rápido reduziu o volume do som. Ninguém mais deveria ouvir o que o
terrano tinha a dizer.
Um chamado normal não teria deixado Shelo sobressaltado. O que o deixou tão
nervoso foi o fato de que Rhodan estava falando pelo transmissor central de Plofos. Era
impossível que tivesse havido algum engano.
— Aqui fala o Administrador Geral — disse uma voz estranha. — Estou chamando
todos os planetas habitados por humanos, especialmente os mundos em que estão
instaladas as bases secretas do criminoso foragido Iratio Hondro.
Shelo Bontlyn respirava apressadamente. Olhou em torno, perplexo. Tomara que
ninguém tivesse ouvido! Iratio Hondro, um criminoso foragido...!
— Os senhores já devem ter notado que me encontro no salão principal do
hipervídeo de Plofos — prosseguiu Rhodan com a mesma calma de antes.
— Iratio Hondro, também conhecido como o chefe supremo do sistema de Eugaul,
foi deposto por uma decisão do povo plofosense. Foi destituído do poder e condenado à
morte à revelia pelos tribunais plofosenses. Na qualidade de chefe do Império Solar, fui
incumbido de instalar um governo militar provisório. Assim que os distúrbios resultantes
da revolução tenham chegado ao fim, haverá eleições livres. Intimo os comandantes de
todas as bases pertencentes ao império plofosenses a nos informarem sobre a posição dos
planetas secretos. Fica-lhes proibido dar qualquer tipo de apoio ao chefe supremo. Como
tenho conhecimento de que os dirigentes da área política, da frota e do setor científico
receberam contra sua vontade uma injeção de veneno que, à falta de uma dose de
absorção a ser aplicada de trinta em trinta dias, causa a morte, quero prestar a declaração
que segue:
— A biomedicina terrana, ajudada por um pesquisador ara, conseguiu desvendar o
segredo da natureza desse veneno. Não se trata de uma toxina, conforme se supunha, mas
a um grupo de vírus submetidos a uma mutação por meios radiológicos. Os
microorganismos são inofensivos, enquanto mantidos num estado de hibernação
cristalina. O estado de hibernação é produzido pela chamada droga neutralizadora do
chefe supremo. Conseguimos produzir um hormônio ao qual foi dado o nome de
biocompentim. Este medicamento mata os vírus tóxicos. Todas as pessoas residentes em
Plofos que portavam o veneno, inclusive o antigo chefe do serviço secreto, Isit Huran,
que certamente já conhecem, e o Almirante Arnt Kesenby, foram curados. Todas as
pessoas que até aqui mantinham a opinião perfeitamente explicável, resultante do instinto
de autoconservação, de que deviam obediência ao chefe supremo, são liberadas desse
dever sob dois aspectos diferentes. A cura poderá ser promovida imediatamente. O
juramento prestado perdeu a validade. Ouçam o que Isit Huran tem a dizer a este respeito.
Shelo Bontlyn sabia que tinha ficado pálido. Percebeu por causa da repentina falta
de sangue no cérebro e das faixas vermelhas que ondulavam diante de seus olhos.
Seus pensamentos atropelaram-se. Será que Rhodan compreendia todo o alcance da
afirmação que acabara de fazer sobre o biocompentim? Será que esse terrano enxergava
todas as conseqüências do fato de que os mortos vivos estavam prestes a ser salvos?
Nenhuma informação sobre o chefe supremo Iratio Hondro, nem mesmo a notícia
de sua morte, poderia provocar um impacto tão violento. Finalmente chegara a hora em
que os escravos contaminados pelo mesmo poderiam rebelar-se. Ninguém teria por que
estremecer ao pensar no fim do prazo de trinta dias. Nenhum ser humano seria obrigado a
prestar obediência irrestrita ao chefe supremo, para o bem e o mal, somente para receber
uma ampola da substância neutralizante antes que fosse tarde.
— Aqui fala Isit Huran — disse outra voz.
Tinha uma entonação fraca que lhe era característica. Shelo Bontlyn nem teve
necessidade de olhar para a tela. No sistema de Eugaul só havia um único homem que
possuía uma voz como esta.
Mas o técnico acabou por levantar a cabeça. Lançou um olhar odiento para o
homem alto e magro, cuja calva se destacava que nem uma esfera brilhante contra o
fundo cinzento.
Isit Huran fora o homem mais temido de Plofos. Era considerado o colaborador
mais íntimo do chefe supremo, embora se dissesse à boca pequena que ninguém odiava
Iratio Hondro tanto quanto justamente Isit Huran. Acontece que portava o veneno. O
chefe supremo pudera dar-se ao luxo de zombar do ódio daquele homem magro. Mais
que isso: Huran não fora destituído de suas funções, embora Hondro estivesse informado
sobre os verdadeiros sentimentos do chefe de seu serviço secreto.
— Podemos dar crédito às declarações do Administrador Geral. Recebi a última
injeção da droga neutralizante há seis semanas e continuo vivo. O novo preparado
denominado biocompentim cura qualquer pessoa em cujas veias tenha sido inoculado o
veneno. Peço aos comandantes das Bases secretas que revelem imediatamente suas
posições, a fim de que possamos enviar um cruzador ligeiro com o curativo. O antigo
chefe supremo fugiu. A organização de suprimento por ele montada entrou em colapso.
Em Plofos não foi encontrada uma única ampola com o antídoto que já conhecíamos. Por
isso já não se pode contar com o fornecimento tempestivo da mesma. Entrem em contato
com Plofos antes que o prazo chegue ao fim. Em outra oportunidade os senhores serão
informados sobre as condições políticas atualmente reinantes.
Depois do chefe do serviço secreto falou o comandante supremo da frota
plofosense, Almirante Arnt Kesenby. Todo mundo sabia que também era ou ao menos
tinha sido um portador do veneno. Os homens que ocupavam posições semelhantes à sua
tinham sido sistematicamente intoxicados.
Kesenby reforçou as informações dos que tinham falado antes dele. Era como
tinham dito: qualquer um podia ser curado sem complicações.
Mory Abro, filha do chefe neutralista e combatente subversivo Lorde Kositch Abro,
morto em um tiroteio, foi a última a colocar-se à frente da câmara. Fez um relato frio e
objetivo sobre o curso da revolução. Não fez segredo da intervenção decisiva da Terra.
— Só poderia ser! — cochichou Shelo Bontly para si. — Tinha de ser a Terra!
Quem mais poderia ser?
Shelo esperou que a última alocução fosse concluída. Desligou, pôs-se a refletir por
um instante e retirou a fita de ontrex gravada da máquina. Agiu sob uma espécie de
compulsão. Qualquer um dos movimentos que executou bastaria para condená-lo à
morte.
Shelo apagou os registros automáticos do aparelho. Arrancou os números de
chamada dos codificadores, ligou o sistema de ventilação dos tubos de hipertron para a
potência máxima e fez tudo para manter em segredo o recebimento de uma mensagem
videofônica.
Dali a dez minutos ninguém mais seria capaz de constatar que a estação tinha
recebido um chamado de Plofos.
O último ato praticado por Shelo foi o mais perigoso. Correu para uma sala
contígua, onde ficava o sistema de ampliação da estação de rádio. A fita de ontrex
desapareceu num dispositivo de reprodução. O mesmo até dispunha de um mecanismo de
tempo que era usado quando se pretendia transmitir a intervalos regulares certas
mensagens propagandísticas.
No momento em que Shelo voltou à sala do transmissor, ouviu o zumbido do
elevador antigravitacional. Era o revezamento que estava chegando.
Shelo assobiou uma melodia. Passos aproximaram-se. Shelo continuava a assobiar.
— Gostaria de saber qual é a causa do seu bom-humor — disse um homem de meia
idade em tom contrariado. — Houve alguma novidade?
Shelo levantou-se, bocejou e abanou a cabeça.
— Nada. Que novidade poderia acontecer por aqui? Aliás, há uma novidade. Konta
Hognar apareceu por aqui a duas horas.
O homem de meia idade empalideceu.
— Hognar? Esteve aqui, na sala de rádio?
— Compareceu em pessoa. Avise-o imediatamente se chegar alguma notícia de
Plofos. É preferível colocar todos os rádioperadores em regime de prontidão, para que
não percamos nada. Foi uma decisão que tomei. Parece que Hognar está esperando certas
notícias.
Shelo saiu caminhando em direção ao elevador. Os alojamentos do pessoal ficavam
cinco andares acima da sala de rádio. Entre esta e aqueles havia laboratórios e depósitos.
A base do planeta Última Esperança ficava nos flancos da cadeia de montanhas situada
junto ao pólo norte, conhecida como a serra do Dragão Sentado. Uma espaçonave que
passasse por ali por acaso jamais poderia descobrir as gigantescas instalações.
O técnico de meia idade sentou. Estava apavorado. Shelo imaginava que o mesmo
não se arriscaria a dar um cochilo.
— Viva o grande Hondro — disse Shelo antes de saltar para dentro do campo
energético do elevador. Não ouviu a resposta.
Empurrou-se fortemente e subiu como se não pesasse absolutamente nada. As duas
eclusas de segurança eram controladas por robôs de guerra. Estes não opuseram nenhum
obstáculo à passagem do técnico.
Quando Shelo chegou ao andar em que ficavam os alojamentos, situado apenas
vinte metros embaixo da superfície, ouviu-se o tilintar dos despertadores. O período de
repouso noturno tinha chegado ao fim. O enfadonho dia-a-dia iria ter início.
Na zona de penumbra do planeta Última Esperança não havia uma seqüência
uniforme de dia e noite, pela qual pudesse ser orientado o ritmo vital das pessoas.
Em virtude disso os dirigentes da base tinham optado por um ritmo de vinte horas.
Depois de quatorze horas de trabalho seguiam-se seis horas de repouso, que podiam ser
aproveitadas à vontade para o sono ou o lazer. Ao elaborar esta regulamentação, os
dirigentes tinham esquecido propositadamente de que uma pessoa que só dispõe de seis
horas de repouso dificilmente tem oportunidade para dedicar-se a alguma forma de lazer.
Os cálculos psicológicos do chefe supremo tinham dado certo. Raros eram os
homens ou mulheres que sacrificavam parte das escassas horas de repouso para
desenvolver alguma atividade social ou dedicar-se a um hobby.
Além disso a Guarda Azul, que estava sob o comando direto de Konta Hognar,
prestava muita atenção para que as pessoas não conversassem demoradamente,
especialmente sobre coisas ligadas ao Império, ao dever de obediência irrestrita, às
injeções de toxina e aos motivos do degredo que lhes tinha sido imposto.
Shelo Bontlyn caminhou lentamente pelos corredores compridos. Sentia uma
estranha calma. Era a calma de um homem que depois de anos de inatividade finalmente
fizera uma coisa que seu sentimento de justiça, seu orgulho e seu senso de ordem lhe
recomendara desde o primeiro dia.
Shelo desviou-se de alguns membros da polícia da base e entrou num tranqüilo
corredor lateral identificado pelo número 14-A.
Era onde ficavam os aposentos dos principais cientistas e técnicos, entre os quais
não estava incluído Shelo Bontlyn, embora oficialmente ocupasse a posição de substituto
do chefe da central de rádio e de rastreamento. Acontece que um simples substituto não
tinha direito a apartamento; especialmente no setor 14-A.
Shelo seguia por um rumo bem definido. Fizera aquilo a que sua consciência e seu
instinto o impelira num arroubo momentâneo. Naquele momento Bontlyn já não sabia o
que fazer.
O mecanismo de tempo estava correndo. Não havia como desligá-lo.
Shelo hesitou. Começou a transpirar. Só então deu-se conta do que tinha feito. Há
pouco ainda se admirara de sua calma. Mas naquele momento começou a ficar nervoso.
Olhou em torno e bateu numa porta de aço revestida de verniz branco, na qual se lia
o número 183.
Pôs-se a esperar.
3

Miles Traut, 35 anos, 1,87 m de altura, desligou a ducha, olhou para o registro de
consumo, que indicava um dispêndio elevado demais e entrou na cabine de ar quente.
Passou uma toalha pelos cabelos louros e curtos, apalpou a barba com os dedos e
resolveu só aplicar o creme de remoção depois do próximo ciclo de guarda.
Miles Traut era chefe de seção e dirigia o laboratório de pesquisa TU-13, ao qual os
escalões mais elevados atribuíam uma importância extraordinária. Pouca gente sabia por
que Traut, que era um dos engenheiros mais competentes na área de hiperarmas, tinha
escapado à injeção de veneno. E o que sabiam não tinham um conhecimento muito exato
a este respeito.
Traut fora mais cauteloso que os outros. E, o que era mais importante, reagira mais
depressa do que por exemplo Shelo Bontlyn.
Ao perceber que pretendiam levá-lo a emitir uma opinião que representasse traição
à pátria e a desobedecer a uma ordem, logo tomou suas providências. Percebera que seria
inútil resistir à vontade do chefe supremo.
Por isso dirigira-se ao palácio do governo e apresentara-se como voluntário para
servir em uma das bases secretas: Usara uma explicação bem plausível, dizendo que já
estava cansado de trabalhar nas condições reinantes em Plofos, onde a qualquer momento
os mutantes terranos poderiam espionar a gente.
Conseguira causar uma profunda impressão. Miles Traut foi enviado ao planeta
Última Esperança, sem receber uma injeção de veneno.
Graças a estas circunstâncias Miles Traut pertencia à classe das pessoas capacitadas
que estavam em condições de trabalhar mais intensamente contra o chefe supremo que o
comum das pessoas. Traut não tinha motivo para preocupar-se com a obtenção de uma
ampola de droga neutralizante, mas assim mesmo precisava ter cuidado.
Fazia dois anos que Miles se encontrava no mundo infernal denominado Última
Esperança, mas para ele o mesmo não representava a última esperança que poderia
entreter. Miles trabalhava num plano que um dia lhe permitiria sair desse planeta.
Naturalmente trabalhava em conjunto com Eve Narkol, uma programadora de
computador positrônico muito delicada, de cabelos negros, que também fora obrigada a
transferir-se para este mundo.
Ao lembrar-se de Eve, Miles sorriu. Ninguém linha conhecimento da ligação secreta
existente entre os dois. Isso seria perigoso. Caso seus planos falhassem, poderiam exercer
certa pressão tanto contra ele como contra Eve Narkol. Em Plofos a idéia de punir os
parentes de uma pessoa pelos atos cometidos pela mesma era francamente aceita.
Miles nem pensava em permitir que alguém usasse Eve para fazer chantagem contra
ele. Por isso era preferível que seu noivado com a mesma permanecesse em segredo. Um
único homem estava informado a este respeito, mas o mesmo sabia ficar com a boca
fechada. O nome desse homem era Shelo Bontlyn.
Miles foi à sala. No pequeno quarto que ficava ao lado trabalhava um robô do
comando de faxina. Miles não deu atenção à máquina.
Vestiu um conjunto limpo de fibra artificial, fechou o colarinho e comprimiu o
botão do dispositivo de suprimentos. Dali a alguns segundos um lanche saiu do tubo
transportador.
Miles comeu devagar, refletindo sobre a experiência que tinha pela frente. No
momento estava trabalhando no comando hipertrônico de um gerador de conversão, por
meio do qual objetos materialmente estáveis seriam desmaterializados.
A desmaterialização não era nenhum problema. Era realizada por qualquer
transmissor. A dificuldade consistia na concentração e na manutenção das unidades
energéticas pertencentes a dimensões superiores. Mas isso também não era impossível. O
que parecia praticamente impossível era a irradiação do campo esférico numa direção
determinada, sua concentração durante um vôo em velocidade superior à da luz e a
rematerialização no alvo, onde não havia uma estação receptora semelhante à dos
transmissores.
Miles Traut acreditava ter encontrado uma solução bastante promissora. A técnica
de comando da desmaterialização tinha de ser modificada. Era onde parecia estar o
segredo do canhão conversos dos terranos. Não havia dúvida de que a rematerialização
não era resultado do acaso, nem constituía conseqüência da atuação de uma estação
receptora, com a qual o processo não apresentaria nenhum problema.
Ao que parecia, tudo dependia de que se conseguisse dominar o efeito de dispersão
por meio de um comando de tempo de regulagem contínua. Para isso se tornava
necessário fazer o cálculo do tempo de vôo hiperveloz, depois de cujo término
forçosamente teria de ocorrer a rematerialização, em virtude de um catalisador de quinta
dimensão — isto naturalmente sem o uso de uma estação receptora.
Miles Traut imaginava que estava no caminho certo. O mais difícil seria camuflar
sua descoberta e utilizá-la em seus próprios planos. Miles nem pensava em presentear o
chefe supremo com o canhão conversor.
Neste ponto suas reflexões foram interrompidas por uma batida na porta. Miles
sobressaltou-se e entesou o corpo. Bateram novamente, desta vez um pouco mais forte.
Miles passou a mão pela boca e olhou para o relógio. Faltavam trinta e dois minutos
para o início de seu turno de trabalho. Tinha de ser pontual, fingir-se de muito interessado
no trabalho, fazer de conta que estava impaciente para voltar ao escritório.
Bateram pela terceira vez, ainda mais forte. Miles levantou-se. Preferiu não acionar
o mecanismo automático de abertura.
Dali a alguns segundos Shelo Bontlyn esgueirou-se pela fresta da porta. Miles deu
uma olhada rápida pelo corredor. Não havia ninguém à vista. Ninguém pensava em sair
de seus alojamentos mais cedo do que fosse necessário.
Miles fechou a porta e colocou a trava. Encostou-se ao metal liso da parede, cruzou
as mãos sobre o peito e baixou os olhos para o amigo, que estava ofegante.
Shelo lançou um olhar preocupado para o robô de trabalho.
— Este não é perigoso — disse Miles em tom calmo. — Além disso não tem
nenhuma vontade de descobrir o motivo de sua visita. Já comeu alguma coisa?
Shelo esteve a ponto de dar início a uma explicação apressada. Miles Traut
interrompeu-o com um sinal e foi à sala. Apontou para uma poltrona.
— O equipamento de escuta não está funcionando — disse com um sorriso alusivo.
— Sente e sirva-se. Os técnicos de primeira categoria recebem um excelente tratamento.
Vamos, sente logo!
Shelo acomodou-se sem dizer uma palavra. Ainda estava transpirando.
— Acho que você possui bastante inteligência e autocontrole para saber se deve vir
a uma hora tão estranha. Costumamos encontrar-nos depois de nosso turno de trabalho —
quando nos encontramos. Então...?
Shelo afastou o pão de trigo torrado. O tratamento realmente era de primeira classe.
O chefe supremo fazia tudo que estava ao seu alcance para satisfazer seus colaboradores
mais importantes ao menos neste ponto.
— Já sei — respondeu Shelo, que já recuperara a calma.
Perto de Miles sentia-se mais seguro. Traut parecia irradiar um fluido que inspirava
confiança. Era um dos raros homens em cuja presença a gente tem a impressão de que
nada pode sair errado.
Shelo foi diretamente ao assunto.
— Na hora do jantar, ou seja, dentro de quatorze horas, aproximadamente, o estúdio
de filme e som entrará em funcionamento, isto porque um idiota chamado de Shelo
Bontlyn colocou há trinta minutos uma fita de ontrex e procedeu à respectiva regulagem
do mecanismo de tempo. As pessoas que trabalham nesta base estarão reunidas nos
refeitórios. Antes que a Guarda Azul possa desligar o aparelho, para o que, como se sabe,
é necessário ir à estação de rádio, os ouvintes forçados terão visto e ouvido tudo que está
armazenado na fita. Se o rádio-operador de plantão receber aviso pelo intercomunicador
para desligar o aparelho de reprodução, ele sofrerá um choque elétrico. As instalações
estão eletrificadas há trinta minutos. Enker Holt, que me revezou, é um velho indolente.
Levará algum tempo para lembrar-se de que pode desligar a chave-mestra de força da
sala contígua. Antes disso fará pelo menos três tentativas de descobrir a fonte do erro.
Até é possível que o primeiro choque elétrico o deixe inconsciente. A programação não
prevê nenhuma transmissão de propaganda para hoje. Por isso ninguém tentará entrar no
estúdio nas próximas quatorze horas. Mas se isso acontecer, será azar meu. Não havia
outro meio de fazer chegar a notícia mais importante das últimas décadas aos banidos. Se
fizesse um relato verbal, ninguém acreditaria em mim. Graças à providência que tomei,
todos ficarão sabendo no mesmo instante o que aconteceu em Plofos — tanto pelo som
como através da imagem. Não poderia haver prova melhor.
Shelo calou-se e mordeu o pão, que já esfriara. Miles Traut fitou-o com uma
expressão indiferente. Empalidecera ligeiramente.
Shelo não precisaria fornecer uma explicação mais minuciosa sobre as
conseqüências de seu ato. Miles pôs-se a refletir por um instante. Finalmente perguntou:
— O que aconteceu mesmo em Plofos? Suponho que você tenha recebido alguma
notícia.
— Recebi e resolvi sonegá-la até a hora do jantar. O chefe supremo foi deposto.
Está fugido. Mory Abro, chefe dos neutralistas, foi nomeado chefe do governo provisório
por Perry Rhodan. Exercerá o cargo até a data das eleições já anunciadas. As pessoas que
trazem o veneno no sangue podem ser curadas. Os terranos desvendaram o segredo de
Hondro. Isit Huran e o Almirante Arnt Kesenby confirmaram estas informações.
Shelo fez um relato preciso. Não omitiu nenhum detalhe. Finalmente calou-se e
olhou para Miles, que continuava imóvel em sua poltrona. Só seus olhos claros
chamejantes pareciam exprimir uma emoção.
— Julguei conveniente transmitir a notícia aos homens na íntegra — acrescentou
Bontlyn em tom hesitante. — Aposto qualquer coisa de que Konta Hognar a teria
ocultado.
— Não se esqueça de que também está envenenado e a cura está à vista.
— Não é um homem intoxicado igual a qualquer outro. É um tipo superfanático,
para o qual a injeção não representa uma chantagem. Acha que Plofos, nossa equipe e
principalmente o chefe supremo são invencíveis. Preferiria morrer a comunicar a posição
do planeta Última Esperança pelo hiper-rádio. Eu mesmo já teria transmitido o pedido de
socorro, se pudesse chegar à sala dos transmissores. Mas na situação em que me encontro
não tive outra alternativa senão fazer o que fiz.
Miles Traut levantou-se. Lançou um olhar pensativo para o amigo.
— Estas notícias comoverão o mundo, Shelo! Todos verão e ouvirão o que o
Administrador Geral tem a dizer. Quais serão as conseqüências?
Miles fitou o técnico ruivo com uma expressão irônica.
— Certamente você quer que eu dê um jeito nisso, não é mesmo?
Shelo ficou calado. Traut foi ao quarto e dispensou o robô de trabalho. No momento
e que a máquina estava rolando pela porta, disse:
— Hognar tirará suas conclusões e logo saberá quem levou a fita ao estúdio. O
velho Enker Holt nunca seria capaz de uma coisa dessas. Você será preso e fuzilado dez
minutos depois da transmissão. Já pensou nisso?
Shelo não respondeu. Ficou ainda mais pálido. Miles deu uma risada. Seus olhos
continuavam a brilhar, refletindo um fogo interior.
— Está bem. Você não será fuzilado, porque não será encontrado. Você poderá usar
meu equipamento secreto. Programei uma tartaruga. Você conhece os veículos de esteira
da classe scout, que por vezes usamos em nossas expedições. Além disso posso entregar-
lhe uma arma, embora primitiva. Foi fabricada por mim mesmo. Você tentará ficar vivo
por uns três dias. Organizarei uma revolta no interior da base. Por aqui há mais de
duzentas pessoas que trazem o veneno nas veias. Sozinho, Konta Hognar não é o fator
decisivo, ao menos nas atuais circunstâncias. Conseguirá manter o controle por cerca de
dois dias, mas a pressão cada vez mais forte dos banidos acabará por vencer sua
resistência. Você terá de agüentar até lá. Alguém o viu quando veio para cá?
— Ninguém.
— Tomara — respondeu Traut. — De qualquer maneira, minha posição não será
nada fácil. Todo mundo sabe que somos amigos. Vá ao seu alojamento e durma um
pouco. Compareça ao refeitório número três durante a pausa do almoço. Lá Eve lhe
fornecerá instruções mais detalhadas. Enker Holt ficará quatorze horas na sala de rádio?
— Sim, seu turno é este. Depois dele será a vez de Manchum. Posso descansar seis
horas. Depois disso terei de fazer a verificação das câmaras de superfície. Não terei mais
oportunidade de desligar o mecanismo de tempo. Os robôs de vigilância não me
deixariam descer.
Miles fez um gesto de pouco caso. Uma tormenta de emoções rugia em seu interior.
Shelo Bontlyn cometera um ato impulsivo, colocando-o subitamente diante de uma série
de fatos consumados. Se Shelo tivesse sido mais esperto, teria colocado os registros num
lugar seguro, preparado a fuga e só depois disso providenciado a reprodução da
mensagem recebida. Os acontecimentos começavam a precipitar-se depois de vários anos
em que não acontecera absolutamente nada.
— Então Hondro está fugindo! — disse Miles para si. — Até que enfim este patife
foi deposto. Quanto a mim, não serei presunçoso a ponto de julgar que a população
plofosense representa uma elite do gênero humano. Os terranos mostraram quem tem o
poder nas mãos. Com Rhodan não se podia fazer jogos sujos, pelo menos não por
bastante tempo para alcançar o resultado desejado. Mory Abro — já a vi. Mais tarde
fugiu juntamente com o pai para um mundo desconhecido. É uma mulher encantadora,
mas também perigosa, com um sentimento de justiça muito acentuado e uma grande dose
de orgulho. Rhodan, que costuma pensar de forma perfeitamente lógica, deve saber por
que fez dela a chefe do governo. Naturalmente Mory sairá vitoriosa das eleições. Bem,
para mim está certo. Não sou amigo de Hondro. Além disso acho conveniente chegarmos
a um acordo com o Império Solar. Afinal, somos todos humanos. Antes que as quatorze
horas cheguem ao fim, Konta Hognar deve saber o que aconteceu em nosso mundo de
origem. Rhodan mandará repetir sua mensagem a intervalos regulares. Sem dúvida a
alocução original foi gravada.
— Quanto a isso não tenho a menor dúvida. Rhodan fará tudo para divulgar a
grande novidade — confirmou Shelo.
A cor de seu rosto voltara ao normal. Imaginara que Miles encontraria uma saída.
— Quer dizer que podemos aguardar calmamente os acontecimentos — conjeturou
Miles Traut. — Se o comandante de nosso núcleo realmente quiser mudar de idéia e
continuar vivo, terá tempo de sobra para agir em conformidade com isso. É possível que
a esta hora seu colega Enker Holt já tenha recebido a repetição da mensagem. Convocará
imediatamente os guardas. Podemos contar com isso. Se Hognar ficar quieto, saberemos
que você terá de dar o fora. Você me deu pouco tempo para os preparativos, cabeça de
fogo.
— Sinto muito — confessou Shelo, acabrunhado. — Não me lembrei de que
poderia ter levado a fita. Mas nesta altura isso não pode ser mais mudado.
Miles olhou para o relógio. Estava na hora.
No momento em que dava um sinal para Shelo, a campainha da porta soou. Shelo
sobressaltou-se. Parecia um animal acuado. Passou os olhos pelo recinto, à procura de um
esconderijo. Miles pôs-se a escutar.
— Visita a esta hora? — perguntou, perplexo. — Fique bem quietinho, Shelo. Hoje
o diabo está solto.
Miles abriu a porta. Soube controlar-se muito bem. Não esperara ver o chefe da
segurança.
Os olhos de Konta Hognar eram indiferentes como sempre. Pareciam fixar um
ponto situado além de Miles.
— Vejo que tem visita. Estou incomodando?
— Viva o grande Hondro, senhor — respondeu Miles com um sorriso. — Fico
satisfeito em poder cumprimentá-lo em meu apartamento. Não quer entrar, senhor? Shelo
Bontlyn resolveu ver-me por um instante. Devo confessar que é difícil resistir à sua fome
insaciável de torradas frescas.
Konta Hognar resolveu exibir um sorriso amável. Miles abriu de vez a porta. No
momento em que o comandante do núcleo entrava na sala, Shelo estava mastigando com
a boca cheia.
— Viva o grande Hondro — disse em tom quase ininteligível. — Queira desculpar,
senhor. Já estava de saída.
Konta Hognar olhou discretamente em torno. Miles convidou-o a sentar.
Miles voltou a olhar para o relógio. Não poderia ter deixado de compreender a
repreensão indireta. Seu turno de serviço começara há um minuto. Hognar tivera bastante
inteligência para não fazer uma alusão mais precisa ao atraso.
Shelo continuava em posição de sentido ao lado da mesa sobre a qual estava servido
o lanche. Miles estava à espera.
Hognar cruzou as mãos nas costas. Era uma postura típica dele.
— Vim para conversar a sós com o senhor sobre o andamento de seus trabalhos.
Suponho que o terceiro par de olhos que se encontra presente não tomará conhecimento
de minha presença.
Fitou Shelo, que se limitou a acenar com a cabeça.
— Muito bem. Como vai seu trabalho, técnico Traut? Acabo de receber certas
notícias diante das quais se torna imprescindível forçar seus trabalhos. Precisamos do
canhão conversor. Se precisar de alguma coisa, é só avisar. Posso colocar imediatamente
à sua disposição todos os cientistas e engenheiros. Não estou brincando, Traut! Temos
muita pressa.
Miles sabia por que de repente havia tanta pressa na conclusão de seus trabalhos.
Certamente Hognar ouvira a repetição da mensagem.
— Farei tudo que estiver ao meu alcance, senhor.
— Isso não basta. Exijo dados concretos — respondeu o chefe de segurança do
planeta Última Esperança em tom áspero.
— Preciso aguardar a experiência marcada para hoje, senhor. Na hora do almoço
poderei dar informações mais precisas.
— O senhor almoçará no laboratório. Sinto muito, mas o destino de nosso mundo é
mais importante que o conforto de todos os elementos incompetentes que estão sob meu
comando. Esta observação não inclui o senhor, Traut. Sei que se apresentou
voluntariamente. Vim, por assim dizer, como amigo. Não me decepcione. Quando
receberei um protótipo com o qual possamos fazer experiências? O canhão conversor
plofosense poderá mudar o destino dos povos galácticos.
Naquele momento Miles Traut teve certeza absoluta de que Hognar estava
informado sobre a deposição do chefe supremo. Sem dúvida também soubera que as
pessoas que portavam o veneno podiam ser curadas. Apesar disso nem pensava em usar o
rádio para revelar a posição do planeta Última Esperança.
Miles modificava seus planos de um instante para outro.
— Dentro de quatro ou cinco dias, senhor — respondeu em tom calmo. — Gostaria
que o senhor permitisse que eu saísse ainda hoje com um veículo grande. Preciso montar
outro centro de pesquisas fora da base.
— Qual é a finalidade da mesma?
— Antes da conclusão de meus trabalhos preciso de um conversor de matéria de
quinta dimensão instalado na superfície. A rematerialização ainda está causando certos
problemas. Preciso de dados comparativos para fazer o ajuste dos intervalos.
— Concedido. Mandarei equipar uma tartaruga. Mais tarde voltaremos a encontrar-
nos. Técnico Bontlyn, o senhor guardará sigilo absoluto sobre a palestra que acabo de ter
com Traut.
— Naturalmente, senhor.
— Viva o grande Hondro.
Hognar encostou os dedos ao rádio-capacete e foi saindo. Assim que a porta se
fechou atrás dele, os amigos entreolharam-se com uma expressão grave. Miles rompeu o
silêncio.
— Terei de ir com você, pinga-fogo. Hognar chegou cinco minutos antes da hora.
Se você não estiver mais aqui quando a mensagem que você gravou for transmitida, logo
serei colocado embaixo do detector cerebral. Se além do mais a mentira que acabo de
contar sobre o prazo em que o canhão estiver concluído for descoberta, serei fuzilado. É
claro que precisarei muito mais que quatro ou cinco dias para construir o canhão.
— Sinto muito — voltou a afirmar Bontlyn. — Tenho certeza de que Hognar ouviu
a mensagem. No seu íntimo sente-se desesperado. Só quer tocar adiante seu projeto com
todos os meios ao seu alcance porque espera poder prestar um serviço ao chefe supremo
com a nova arma. Hognar está louco.
— Sim, mas é um louco perigoso. Poucas vezes vi um homem tão astuto. De
qualquer maneira receberemos um veículo completamente equipado. Nas atuais
condições seria mesmo difícil tirar o carro do hangar sem que ninguém o percebesse.
— Já começo a compreender por que pediu permissão para ir à superfície.
— Pois é. Desse jeito também levarei para fora os mantimentos que consegui
guardar. Estão escondidos em vários estojos de equipamentos. Acho que você deve ir
embora. É pena que foi visto aqui. Vamos! Dê o fora.
Shelo retirou-se. Do lado de fora encontrou-se com dois guardas. Prendeu a
respiração ao passar por eles. Desta vez os dois homens que trajavam conjuntos-
uniformes azuis usavam capacetes de combate acolchoados com aparelhos de radiofonia
embutidos. Suas armas também tinham sido trocadas. As peças que seguravam na curva
do cotovelo eram armas termoelétricas, e não simples armas de choque.
Miles, que saiu do apartamento pouco depois de Shelo, também percebeu a
mudança. Estava na hora de darem as costas ao centro de pesquisas do planeta Última
Esperança.
4

Sete horas, tempo padrão. Os cronômetros do planeta Última Esperança, ajustados


para o ciclo de vinte horas, indicavam a pausa do almoço.
Às zero horas costumavam soar as sereia que despertavam o pessoal, às sete horas
era servida a refeição principal, o pessoal trabalhava até as quatorze horas e depois era
concedida uma pausa de descanso de seis horas, que terminava às vinte horas, quando
voltavam a soar as sereias. Este ritmo estabelecido na área de penumbra do planeta
Última Esperança era imutável.
Num gesto distraído, Eve Narkol levou a colher à boca. A refeição consistia num
cozido. O físico Kelo Kontemer, um homenzinho de cabelos brancos e rosto enrugado,
com um par de olhos penetrantes, estava sentado à mesma mesa.
Miles Traut e o técnico de hiperfreqüências Shelo Bontlyn estavam trabalhando no
programa do canhão conversor. Os dois não tinham recebido permissão para dirigir-se ao
refeitório número 3. Duas horas após o início de seu turno de trabalho, Traut pedira que
Bontlyn fosse destacado para ajudá-lo. Segundo dizia, o engenheiro de superarmamentos
precisava de um especialista para examinar os circuitos de comando ultronmáticos na
parte do conversor que funcionava na quinta dimensão.
Em virtude disso, Shelo Bontlyn também recebera ordem para ingerir sua refeição
às pressas no local de trabalho.
Eve Narkol olhou discretamente em torno. Cerca de cem pessoas tinham
comparecido ao refeitório número 3, e pelo menos trinta delas tinham recebido a injeção
de toxina. O professor Kelo Kontemer também era um dos mortos vivos.
Os olhos escuros de Eve fitaram o homenzinho, que comia sem apetite o caldo
grosso de carne que tinha à sua frente.
No grande recinto reinava o silêncio. Os cientistas e técnicos preferiram abster-se de
conversas. O único ruído que se ouvia eram as batidas das louças. De vez em quando
alguém dizia uma palavra sem importância. Ninguém costumava falar sobre seus
problemas, a não ser que estivesse a sós com alguém.
Nas últimas horas o véu de um mistério parecia cobrir o centro de pesquisas do
planeta Última Esperança. Era um mistério deprimente e impenetrável, que só umas
poucas pessoas sabiam interpretar.
Todos haviam notado a súbita mudança do equipamento dos guardas. Os capacetes
de combate representavam outro segredo. Konta Hognar atravessava os corredores
compridos e os pavimentos extensos que nem um lobo excitado. Fazia perguntas,
repreendia as pessoas e com uma distração indisfarçável distribuía elogios sem
fundamento.
Muitos dos banidos tinham criado um instinto seguro para o extraordinário.
Especialmente o professor Kelo Kontemer, inimigo pertinaz do chefe supremo e defensor
intransigente da liberdade individual, percebera imediatamente que a situação se tornara
tensa logo após o início do turno de trabalho. Certamente acontecera uma coisa que
somente o comandante do núcleo seria capaz de explicar.
A atividade febril que se desenvolvia nos laboratórios do setor de novos
armamentos também deu a pensar a Kontemer. Miles Traut, conhecido e apreciado por
todos, não aparecera no refeitório.
Alguém andara falando que fora preso, mas o boato encontrou seu desmentido
quando vários homens viram o engenheiro de superarmas numa experiência.
Kelo Kontemer estava à espera de alguma coisa que só conseguia definir pelo
sentimento. De vez em quando levantava a cabeça e lançava um olhar para Eve Narkol.
Era a primeira vez que a programadora de computadores positrônicos sentara à mesma
mesa que Kontemer. Este era considerado um revolucionário, que várias vezes escapara à
execução somente porque acreditavam que não podiam dispensá-lo.
Costumava dizer certas coisas que teriam levado qualquer outro homem
imediatamente à câmara de dissolução. Konta Hognar chegara à conclusão de que deveria
apresentar aquele cientista que vivia se queixando como um ranzinza doentio.
Os outros banidos perceberam que esta afirmação não passava de um mecanismo
psicológico de defesa, que Hognar usava para tranqüilizar a própria consciência. Não
queria dispensar a colaboração de Kontemer. Portanto, só lhe restava apontá-lo como um
psicopata.
Em virtude disso todo mundo evitava os contatos com Kontemer. O cientista era o
homem mais solitário do planeta Última Esperança.
Tanto mais era de admirar que justamente nesse dia Eve Narkol tivesse ocupado a
mesma mesa que ele. Kontemer notara que Eve hesitara ao vê-lo.
As outras mesas já estavam ocupadas. Eve demonstrara um evidente mal-estar ao
acomodar-se à frente de Kontemer. Konta Hognar, que como de costume viera
inspecionar o refeitório, limitara-se a franzir a testa. Eve não se importara. Tinha uma
missão bem definida.
Descansou a colher, afastou os cabelos escuros que lhe cobriam a testa e pôs a mão
no bolso externo do conjunto que trajava. Antes de levar o lenço à boca, voltou a olhar
em torno. Ninguém estava olhando para ela. Os dois guardas estavam de pé junto à porta.
— Professor...!
Kontemer continuou a levar calmamente a colher à boca. Seu rosto continuava
impassível. Apenas as rugas entre o nariz e a boca aprofundaram-se um pouco.
— Estou ouvindo, Eve — cochichou sem mover os lábios.
A moça percebeu que há algum tempo o cientista esperava que ela lhe dirigisse a
palavra. Kontemer era um homem inteligente. Seu corpo franzino era mais resistente e
robusto do que a segurança gostaria que fosse.
— Miles Traut o requisitará depois do almoço. Trata-se de um programa secreto.
Não se espante com nada, acompanhe o jogo. O chefe supremo foi derrubado. Perry
Rhodan mandou ocupar o sistema de Eugaul.
A mão de Kontemer tremeu por um instante. A colher bateu ruidosamente no prato
de plástico. Mas o cientista logo recuperou o autocontrole. Inclinou-se ainda mais
fortemente sobre o prato e murmurou:
— Tem certeza?
— Bontlyn recebeu a primeira transmissão da mensagem. Ficou bem quieto. Os
terranos são capazes de curar as pessoas intoxicadas. Sairemos da base pelas doze horas.
Cuidado...!
Eve passou o lenço pelos lábios e afastou o prato. Um homem da Guarda Azul
aproximou-se. Parou junto à mesa, fitou Kontemer e dirigiu-se a Eve.
— Dirija-se imediatamente ao laboratório de armamentos. O técnico Bontlyn
precisa de sua colaboração numa programação difícil. Apresse-se.
Eve levantou-se. Seu rosto estreito iluminado pelas luzes artificiais tinha o aspecto
de uma mancha pálida.
— Naturalmente. Irei imediatamente.
Eve retirou-se sem olhar para o físico. Kontemer esvaziou o prato, raspou os restos
grudados na borda aprofundada e só então levantou a cabeça.
Seu olhar parecia indiferente. Fez como se não visse o guarda. Mas quando este
olhou ostensivamente para o relógio, Kontemer observou em tom de surpresa:
— O senhor não há de esperar que um doente mental saiba olhar o relógio. Já está
na hora?
— Faltam três minutos — respondeu o homem da Guarda Azul em tom indignado.
— Se fosse o senhor, procuraria controlar essa língua afiada...
— Ora essa, meu chapa. O senhor não tem competência para dar conselhos. Quer
dizer que faltam três minutos?
Kontemer seguiu o guarda com os olhos enquanto o mesmo se afastava. Depois
levantou-se. No momento em que estava apertando o cinto de seu conjunto de trabalho, o
chefe de segurança entrou no salão. Konta Hognar não perdeu tempo.
Passou entre as fileiras de mesas na postura rígida que lhe era peculiar, parou à
frente de Kontemer e disse em voz alta:
— Professor, o senhor se dirigirá imediatamente aos laboratórios do setor TU-13.
Apresente-se ao técnico Traut. Suponho que sua perturbação mental melhorará um pouco
quando tiver a seu cargo uma tarefa correspondentes à sua especialização. Faça o favor...
Hognar deu um passo para o lado e apontou para a porta. Kontemer olhou em torno,
espantado, e respondeu com um sorriso:
— Vejo que o senhor me conhece muito bem. De hoje de manhã em diante muita
gente tem sido retirada de repente de seus postos. Ao que parece, o técnico Traut
desempenha algum papel em tudo isso. Descobriu alguma coisa? Ou será que o império
do chefe supremo está pegando fogo?
— Seria conveniente que o senhor se calasse — advertiu o chefe de segurança. —
Vá andando.
Ao retirar-se, o cientista ficou satisfeito em notar que todas as conversas tinham
cessado. Um silêncio pesado reinava no salão.
Kontemer ainda não sabia exatamente de que forma Miles Traut pretendia
aproveitar a notícia da queda do chefe supremo, mas alguma coisa parecia estar em
andamento. Além disso Kelo Kontemer tinha a impressão de já conhecer os segredos do
técnico Traut.
Provavelmente Kontemer era o único entre os banidos do planeta Última Esperança
que soubera interpretar corretamente o fato de Traut se ter oferecido como voluntário.
Para ele o jovem colega era um homem arrojado e muito inteligente, que no momento
decisivo fora mais hábil que os outros. Era este o lado forte de Traut.
Kontemer preferiu não fazer outras alusões. Não devia complicar
desnecessariamente a situação. Além disso o cientista conhecia seu gênio impulsivo.
Chegara a hora de ficar calado.
Assim que Kelo Kontemer desapareceu, os outros técnicos e cientistas também se
levantaram. Parte da elite intelectual de Plofos saiu caminhando em direção às portas —
tal qual fazia todos os dias.
Konta Hognar soube controlar-se muito bem. De vez em quando cumprimentava
uma pessoa que lhe parecia mais digna de confiança e melhor alinhada com suas idéias.
Os cumprimentos eram retribuídos de forma reservada ou com uma cordialidade fingida.
Konta Hognar era um homem inteligente. Só tinha um ponto fraco. Não conseguia
imaginar que pudesse existir uma pessoa nascida em Plofos que não sentisse um
entusiasmo irrestrito pelos objetivos do chefe supremo.
Para Konta Hognar a simples idéia era um ato de alta traição. Por isso seu
subconsciente se recusava a encarar essa possibilidade.
Eram doze horas, tempo da base. Fazia cinco minutos que os últimos aparelhos
tinham sido carregados pelos robôs de trabalho.
Na comprida plataforma de carga da tartaruga estavam alinhados os aparelhos que,
segundo Traut, eram necessários para os trabalhos externos. Parte do equipamento
consistia exclusivamente em revestimentos de plástico desmontados, cujo conteúdo fora
substituído pelas provisões de mantimentos, medicamentos, ferramentas e recipientes de
água guardados em segredo.
As únicas peças genuínas eram um transmissor de pequenas dimensões e o
respectivo reator energético. Miles não fora descuidado a ponto de carregar o veículo
especial exclusivamente com suprimentos.
O veículo tinha quase nove metros de comprimento.
Deslocava-se sobre esteiras comuns. Diante das condições extraordinárias reinantes
no planeta Última Esperança, o uso de campos energéticos não parecera recomendável.
Na escaldante face diurna do planeta tinha havido constantes perturbações dos mesmos.
As esteiras eram movidas por quatro motores elétricos. A energia dos mesmos era
fornecida por um microrreator com um banco conversor acoplado.
A cabine térmica pressurizada de formato semi-esférico com os holofotes e antenas
de rastreamento sobrepostas tinha o aspecto de uma cabeça de inseto. As tartarugas eram
veículos feios, mas nunca tinham falhado.
Konta Hognar vigiou o carregamento. Miles solicitara quantidades surpreendentes
de água. Segundo dizia, esta era necessária para a refrigeração dos novos comandos
ultronmáticos.
Konta não desconfiou de nada, embora Traut fizesse questão de fazer a experiência
com o conversor na face do planeta batida pelo sol. Normalmente Hognar talvez teria
chegado à conclusão de que devia haver certa ligação entre a área que Traut escolhera
para suas experiências e as quantidades enormes de água solicitadas pelo mesmo. Mas no
momento tinha outros problemas.
Olhava constantemente para o relógio. Os dois guardas designados para
acompanhar Traut já estavam sentados na cabine.
Fazia quinze minutos que Eve Narkol e Shelo Bontlyn tinham chegado ao pavilhão
das viaturas. O professor Kontemer estava sentado numa caixa de ferramentas, nos
fundos do recinto, e observava os acontecimentos. Miles ainda não tinha chegado.
— Verifiquem os trajes protetores — ordenou Hognar.
De tão nervoso que estava, nem parecia dar-se conta de já ter dado a mesma ordem
quatro vezes.
Contornou o carro, mexeu em alguns dos aparelhos presos à plataforma e voltou a
olhar para o relógio.
Dali a alguns instantes chegou Miles Traut. Trajava o traje protetor prateado
especialmente construído para defender a pessoa contra temperaturas muito elevadas.
Os conjuntos de termoplan possuíam seu próprio suprimento de energia. O
equipamento de climatização exigia grandes quantidades de eletricidade. Os resíduos
gasosos incandescentes encontrados na face diurna não permitiam que se recorresse ao
processo de condensação de ar para garantir a respiração. Por isso o portador do traje
tinha fie levar o ar de que precisava, e este devia ser regenerado constantemente. Os
gases venenosos exalados pela pessoa eram captados por um regenerador atômico, que os
transformava em oxigênio purificado, perfeitamente respirável. O circuito ininterrupto
exigia quantidades insignificantes de gases de complementação. O equipamento técnico
sofisticado fizera com que os conjuntos com isolamento térmico se tornassem pesados e
desajeitados. No entanto, eram capazes de absorver temperaturas exteriores até oitocentos
graus centígrados.
— Até que enfim o senhor chegou — constatou Hognar, fazendo uma observação
totalmente supérflua.
Aproximou-se rapidamente de Miles e puxou-o para um lado.
— Técnico Traut, confio em sua competência e em sua proverbial lealdade. Os dois
guardas que o acompanham deverão obedecer às suas ordens. Não volte enquanto a
experiência não for bem sucedida. Se necessário, repita a mesma cinco ou dez vezes.
Exijo resultados concretos. Seu videofone está em boas condições. Preste atenção para
não sucumbir ao calor mortal ou cair num pantanal de chumbo.
— Conheço os perigos da superfície do planeta, senhor — disse Miles para acalmar
seu interlocutor nervoso.
— Está bem, está bem. Assim mesmo quero que tenha cuidado. A tartaruga está
muito bem equipada. Caso venha a sentir-se mal, vá imediatamente à cabine. Isto é uma
ordem.
— Entendido, senhor. Não assumirei nenhum risco para a vida e a saúde. Mas na
experiência jogarei todos os trunfos numa só carta. O senhor não me deu muito tempo.
Hognar deu uma risada. Por um instante seu rosto descontraiu-se. Miles quase
chegou a ter a impressão de que aquele oficial estava radiante que nem uma criança.
Hognar sempre demonstrava uma alegre excitação quando acreditava ter ouvido algumas
palavras que revelavam uma grande fidelidade à linha do governo.
— Muito bem, técnico Traut. Eventuais avarias nos aparelhos e instrumentos não
terão a menor importância. O senhor pode gastar bilhões. O que quero é um canhão
conversor que possa ser usado. Os terranos estão ficando muito atrevidos. O senhor
entende?
Miles franziu a testa.
— Pois nós lhes daremos uma lição, senhor. Viva o grande Hondro.
— Viva o grande Hondro — respondeu o comandante da base num tom que quase
chegava a ser enlevado, — Sinto-me muito satisfeito por ter um homem com suas idéias
entre meus subordinados.
“Sinto muito”, pensou Miles num assomo fugaz.
Hognar inclinou-se para a frente, num gesto íntimo.
— Diga-me uma coisa. O senhor realmente acha necessário levar o professor
Kontemer? Todo mundo conhece suas estranhas idéias.
Miles lançou um olhar muito frio para o cientista grisalho. Até conseguiu dar uma
expressão cínica ao seu rosto.
— Sei o que estou fazendo, senhor. É claro que conheço Kontemer. Politicamente
pode-se confiar em Eve Narkol e Shelo Bontlyn. Além disso os mesmos são especialistas
de primeira ordem. Kontemer também é um cientista muito competente. E este é um dos
dois motivos por que resolvi levá-lo.
— Qual é o outro motivo? — perguntou Hognar, esticando as palavras.
— Em sua fase inicial o novo conversor é perigoso. Kontemer cuidará dele. Ficarei
bem longe. Se pedir a presença de outro físico pelo rádio, faça o favor de não fazer
perguntas.
O chefe de segurança sorriu. Compreendera perfeitamente — ou melhor, acreditava
ter compreendido.
— Não farei perguntas — ressaltou. — O senhor é ainda mais competente do que
eu acreditava. Dentro em breve terei oportunidade de conceder-lhe a graça de ser
apresentado pessoalmente ao chefe supremo.
— Saberei apreciar a honra, senhor. Mas pretendo concluir minha tarefa antes da
chegada do chefe supremo.
O rosto de Hognar assumiu uma expressão sombria. Por um instante seus olhos
assumiram a costumeira expressão forte e penetrante. Perguntou em tom desconfiado:
— Quem lhe deu a idéia de que Iratio Hondro chegará em breve ao planeta Última
Esperança? Vamos, responda, técnico Traut!
Miles fitou o chefe de segurança com uma expressão de espanto.
— Que é isso, senhor? O senhor não acaba de dizer que pretende apresentar-me ao
chefe supremo? Não acredito que tenha a intenção de demitir-me desonrosamente e
mandar-me de volta para Plofos. Por isso a idéia de que o chefe supremo está para...
— Ah, quer dizer que interpretou assim? Queira desculpar. A suposição não chega a
ser absurda. Cá entre nós, técnico Traut, o chefe supremo realmente chegará dentro de
alguns dias. Recebi notícias neste sentido.
Miles saiu caminhando em direção ao carro. Estava agitado por dentro.
Cumprimentou Eve com um ligeiro aceno de cabeça. Kontemer foi tratado de cima para
baixo. De vez em quando Traut lhe dava uma ordem em tom arrogante.
Kontemer fez algumas observações sarcásticas. Miles fez como se não tivesse
ouvido. Estava tudo na mais perfeita ordem — com exceção dos dois soldados da Guarda
Azul. Um deles dirigia o carro, enquanto o outro estava sentado no banco traseiro, de
onde controlava os aparelhos de rádio e de rastreamento.
Miles teve de fazer um grande esforço para não soltar uma praga ao notar que
nenhum dos guardas trazia uma arma mortal. Ambos tinham consigo as armas de choque
geralmente usadas por ali, que somente causavam uma paralisia transitória do sistema
nervoso.
Certamente Konta Hognar acreditava ter agido de forma diplomática ao proibir que
os guardas levassem armas energéticas. Tratava-se de uma prova de confiança toda
especial, que Traut não apreciava nem um pouco na situação em que se encontrava. Bem
que teria apreciado uma boa arma de longo alcance. Mas não poderia fazer qualquer
observação nesse sentido. Hognar desconfiaria imediatamente.
As quatro pessoas entraram. O professor Kelo Kontemer foi o último. Conhecia o
risco que estava assumindo.
Era claro que a manipulação do conversor não era perigosa, mas em compensação o
plano de Traut oferecia perigo sob numerosos aspectos.
Kontemer teria de voltar à base, para encarregar-se daquilo que Traut já não podia
fazer pessoalmente. Uma vez transmitida a notícia chocante, o cientista precisaria
fomentar a revolta. E ninguém melhor para isso que Kelo Kontemer.
A tartaruga penetrou na grande eclusa de materiais. Seus motores elétricos
zumbiam. O hangar de veículos ficava na altura da superfície do planeta. Além dos
portões externos começava o inferno do mundo chamado Última Esperança.
O aparelho de telecomunicação foi examinado. A ligação com a central do serviço
de segurança era perfeita.
As turbobombas sugaram o ar respirável para fora da eclusa. No momento em que
os medidores de pressão indicavam a marca zero, as escotilhas externas abriram-se.
O sol vermelho arremessava suas protuberâncias chamejantes para o espaço negro.
As línguas de fogo pareciam estandartes perfeitamente demarcados a se precipitarem
sobre a linha do horizonte, revelando que bastaria percorrer alguns quilômetros para
atingir a face diurna do planeta.
— Traut chamando central. Aqui tudo em ordem. Pressão na cabine permanece
uniforme. Equipamento de climatização e de regeneração de ar na marca verde.
Temperatura de 22 graus centígrados, umidade relativa do ar 60 por cento. Reator
funcionando perfeitamente. Solicito permissão de saída.
Um dos guardas fez um gesto de elogio. O procedimento do técnico Traut era
correto.
— Permissão concedida. Boa sorte, técnico Traut — disse a voz de Hognar.
Miles lembrou-se das inúmeras vezes em que imaginara as dificuldades e os perigos
de uma eventual fuga.
E agora tudo estava saindo bem diferente. Deixavam-no partir à vontade e ainda lhe
entregavam um veículo especial muito bem equipado.
Os pensamentos de Shelo Bontlyn eram semelhantes. Mais duas horas, e o turno da
tarde chegaria ao fim. Pouco depois das quatorze horas do ciclo de vinte horas as pessoas
que trabalhavam na base compareceriam aos refeitórios. Dali a alguns minutos o
mecanismo de tempo colocaria em funcionamento o aparelho que reproduzia a gravação
feita na fita de ontrex.
Dali em diante o ambiente começaria a fermentar no interior do centro de pesquisa
do planeta Última Esperança.
Eve Narkol estava mais preocupada com o presente que com o futuro. O plano de
Miles era excelente. No momento a pessoa que corria maior perigo nesse jogo arriscado
era o professor Kontemer — isso por vários motivos.
A tartaruga saiu zumbindo pelos portões exteriores. Quando as sapatas da esteira
atingiram as pedras soltas, o ruído aumentou, transformando-se numa série de
desagradáveis estrondos. As telas frontais mostravam a bizarra linha entrecortada da área
de penumbra. Era onde começava a face diurna propriamente dita, cheia de lagos de
chumbo e estanho fundido.
Era onde ficava o inferno do planeta Última Esperança.
5

O sol vermelho Bolo acabara de aparecer sobre a linha do horizonte. Tinha a forma
de uma foice estreita. Com ele veio o calor e os furacões que rugiam na zona periférica,
travando a luta incessante entre o frio e o calor.
A tartaruga atravessou esta área em velocidade relativamente elevada. Assim que as
montanhas do pólo norte ficaram atrás do abaulamento do planeta, as tormentas
diminuíram. O silêncio passou a reinar — um silêncio apavorante.
O deserto pedregoso do pólo norte avançava bastante para o sul. Depois de duas
horas Miles Traut avistou os contornos das montanhas cônicas que formavam um anel
gigantesco de cerca de trezentos quilômetros de diâmetro em torno do pólo norte. Em sua
maioria, os topos das montanhas tinham formato cônico. Era dali que vinha seu nome.
Miles dissera que pretendia realizar a primeira experiência do outro lado das
montanhas, já que precisava de uma barreira material estável. Era uma afirmação tão
absurda como muitas outras. Já não havia como voltar atrás.
Quando faltavam apenas alguns minutos para as 14 horas, a tartaruga tinha
percorrido cerca de cento e quarenta quilômetros. Uma vez atingidos os primeiros
contrafortes da serra, a velocidade teve de ser reduzida.
Neste momento duas coisas diferentes aconteceram quase ao mesmo tempo.
Para além da linha do horizonte as sereias anunciaram o fim de mais um turno de
trabalho. Criaturas cansadas, física e mentalmente esgotadas pelos turnos de trabalho
prolongados e pela incessante carga nervosa, caminhavam apaticamente em direção aos
refeitórios.
Os soldados da Guarda Azul pareciam estar em toda parte. Continuavam a usar os
rádio-capacetes, sob os quais os rostos pareciam sombrios e ameaçadores.
Nas últimas duas horas Konta Hognar quase não saíra da sala de rádio. Depois que
o veículo de Traut atravessou a área de penumbra e penetrou no deserto onde o calor
fazia tremer o ar, as tempestades magnéticas típicas do sol próximo fizeram-se notar.
A transmissão de imagem tornou-se muito deficiente. Era impossível usar as ondas
ultracurtas. As ondas longas, capazes de acompanhar a curvatura da superfície do planeta,
sofriam uma interferência tão violenta que o contato foi quase completamente
interrompido.
Em conformidade com as ordens que lhe tinham sido dadas, Traut ligara o
hipertransmissor. Os impulsos de nível superior emitidos pelo mesmo não eram afetados
nem pelo impacto das energias solares, nem pela massa quadridimensional do planeta.
Era bem verdade que estes impulsos eram dotados de um efeito dispersivo bastante
acentuado. Uma espaçonave que passasse por acaso pela área não teria a menor
dificuldade em fazer a determinação goniométrica da posição do planeta Última
Esperança. Conforme a qualidade do receptor, o alcance do rastreamento ficava situado
entre dois e trinta e oito anos-luz.
Konta Hognar decidira assumir o risco de uma eventual localização goniométrica do
planeta. Fazia questão de poder alcançar Miles Traut a qualquer instante.
O segundo acontecimento resumia-se numa frase curta pronunciada por Miles
Traut:
— Pare!
O motorista do veículo comprimiu os botões do acoplamento hidráulico das esteiras
e pôs o pé no freio. Os veículos-tartaruga usados no planeta Última Esperança eram
seguros justamente porque em sua construção tinham sido dispensados os equipamentos
técnicos mais sofisticados. Com eles os veículos se tornariam mais modernos e
confortáveis, mas em compensação os enguiços seriam mais freqüentes.
O veículo parou junto a uma crista montanhosa estreita, que se erguia subitamente
em meio à planície e cujas cumeeiras entrecortadas se estendiam até a cadeia de
montanhas.
Traut virou a cabeça. Estava sentado no banco da frente, ao lado do motorista. Eve
Narkol e o professor Kontemer tinham-se acomodado no banco do meio.
Shelo Bontlyn estava sentado bem atrás, ao lado do rádio-operador. O terceiro
banco era bem mais curto que os outros. O pequeno espaço livre abrigava uma cabine
especial com os aparelhos de rádio e rastreamento.
— Técnico Bontlyn, encarregue-se da estação de hipercomunicação — ordenou
Miles.
O guarda que trazia um V vermelho do lado esquerdo do peito levantou os olhos
com uma expressão de espanto. Achava estranho receber ordens de um banido.
— Vamos, saia do lugar — disse o motorista, dirigindo-se ao colega. — Devemos
dar todo o apoio possível ao técnico Traut.
O rádio-operador pertencente ao serviço de segurança levantou-se e esgueirou-se
entre Bontlyn e o banco da frente. Estava com as mãos úmidas. Eram quatorze horas e
cinco minutos.
Miles compreendeu a tormenta que rugia no interior de seu amigo. Se o dispositivo
de tempo falhasse, ou se por algum motivo tivesse sido desligado, não teriam outra
alternativa senão voltar.
Shelo não se atreveu a pensar nas conseqüências. Se não dispusesse de informações
que pudessem ser provadas, o professor Kontemer não teria como fomentar a revolta.
Miles preferira propositadamente não incluir a previsão de uma falha deste tipo em
seus planos. Segundo as previsões, deveriam abandonar a estação, aguardar o resultado
da notícia da fuga de Hondro e voltar.
No momento só poderiam verificar se a fita de ontrex era reproduzida segundo o
programa ou não.
Shelo sentou à frente dos aparelhos. Miles sabia que ficara devendo uma explicação
para a substituição. Os dois guardas já se entreolhavam com uma expressão desconfiada.
— Estabeleça contato direto com meu laboratório — pediu Miles, dirigindo-se ao
amigo. — Peça ao técnico Moret Unbulk que dirija a câmara de televisão sobre o
conversor e que acione o mesmo. Quero estar em condições de verificar a qualquer
momento o que está acontecendo no laboratório.
Shelo confirmou com um aceno de cabeça. A instrução que acabara de ser dada
pertencia ao plano. Unbulk não desconfiava de nada. Regularia a câmara do setor TU-13
para o conversor, e dessa forma sua objetiva grande-angular também alcançaria o
equipamento que transmitia as mensagens internas da base.
O rádio-operador pertencente à Guarda Azul não teve a menor idéia do que estava
acontecendo. Fez um sinal tranqüilizador para o motorista e recostou-se no assento.
Miles virou a cabeça ainda mais para trás. Colocou o braço esquerdo sobre o
encosto do banco, fazendo com que a mão direita se aproximasse como que por acaso da
arma do motorista.
Shelo chamou a central de segurança do planeta Última Esperança. Konta Hognar
não estava presente. A permissão para mudar a focalização foi concedida.
Dali a alguns segundos o técnico Unbulk apareceu na tela do receptor de
hipercomunicação. Shelo transmitiu as instruções que Miles lhe havia fornecido.
As quatorze horas e dez minutos o conversor entrou em funcionamento. O uivo do
aparelho foi nitidamente reproduzido pelo receptor.
Miles formulou perguntas, que obtiveram uma resposta precisa. Shelo olhou para o
relógio.
As 14:12 horas o mecanismo de tempo faria funcionar o aparelho que reproduziria a
gravação na fita. A esta hora o técnico de hiperfreqüência que estivesse de plantão ainda
deveria encontrar-se na grande estação, que não era a mesma usada pela divisão de rádio
do serviço de segurança. O técnico Enker Holt não tinha nada a ver com as comunicações
videofônicas entre a base e o veículo-tartaruga. Sua tarefa consistia em vigiar o espaço
cósmico.
Nem por um segundo Miles Traut perdeu o controle da situação. Sabia que, uma
vez concluído o turno de trabalho, os banidos levavam de dez a quatorze minutos para
chegar ao refeitório. Naquele momento a maior parte dos homens e mulheres que
trabalhavam na base já devia estar sentada junto às mesas.
— Nível de refrigeração quinze — anunciou o técnico Unbulk. — O funcionamento
do aparelho é perfeito.
— Ligue a objetiva para o maior ângulo — ordenou Traut. — Quero ver os
controles.
No mesmo instante a imagem abrangeu uma área mais ampla. A tela instalada à
esquerda do conversor foi mostrada.
As 14:12 em ponto aconteceu uma coisa que pouca gente esperava. O técnico
Unbulk e Konta Hognar, comandante da base, não estavam incluídos entre estas pessoas.
De repente o zumbido monótono do conversor foi interrompido por uma voz
retumbante saída do alto-falante. Miles viu Unbulk virar-se e lançar um olhar espantado
para a tela.
— Aqui fala o Administrador Geral — disse uma pessoa de uniforme. O rosto de
Rhodan aparecia nitidamente na tela.
— Dirijo-me a todos os planetas habitados por seres humanos, especialmente às
bases secretas instaladas pelo criminoso foragido Iratio Hondro. Os senhores já devem ter
notado que me encontro na sala principal de transmissão da central plofosense de
hipervídeo.
— Iratio Hondro, conhecido como o chefe supremo do sistema de Eugaul, foi
deposto por decisão do povo plofosense, destituído do poder e condenado à morte à
revelia pelos tribunais plofosenses. Como chefe do Império Solar fui incumbido de...
Ouviu-se o rugido de um tiro energético. Miles viu que o motorista arregalara os
olhos de espanto. Percebera muito tarde que alguém encostara sua própria arma de
choque ao seu corpo.
O guarda logo perdeu os sentidos. Com um movimento rápido Shelo reduziu o
volume da transmissão. Mal e mal se ouvia a voz de Rhodan.
O outro soldado da Guarda Azul viu a arma do colega apontada para ele. Atrás do
cano grosseiro apareciam os contornos do rosto de Miles.
— Sinto muito, mas o senhor terá de fazer o que eu disser — explicou Traut. —
Levante os braços e fique quieto. Quero ouvir a exposição de Rhodan na íntegra.
O soldado permaneceu imóvel. Nem pensava em levantar os braços.
— Pedirei que me seja dada a honra de executá-lo pessoalmente — disse com a voz
fria. — Será que o senhor realmente pensa que pode enganar a Guarda Azul do planeta
Última Esperança?
A cena estava assumindo feições irreais. Miles sabia que os membros da Guarda
Azul tinham passado por um treinamento especial. Quase todos pertenciam à classe das
pessoas loucas, capazes de enfrentar a morte com um sorriso nos lábios.
Com um movimento rápido, Shelo tirou a arma do soldado.
— Ora veja, o senhor também é um deles. Que coisa interessante, técnico Bontlyn.
Já começo a compreender quem é responsável pela transmissão proibida.
— O que é isso? — gritou Kontemer, exaltado.
Fez menção de levantar-se, mas caiu para trás quando Miles apontou a arma de
choque para ele.
— O senhor sairá com os policiais, professor.
— Será que o senhor ficou louco? A temperatura reinante lá fora já chega a
trezentos e cinqüenta graus. Não admito...!
— O senhor vai sair — repetiu Miles, sem elevar a voz. — Não podemos confiar no
senhor, professor. Não aprecio as pessoas que não sabem controlar sua língua e seu
gênio. Feche seu traje protetor e tire o rádio de pulso.
Kontemer virou-se para o soldado da Guarda Azul como se estivesse pedindo
auxílio.
— Faça alguma coisa — gritou o homenzinho. — Ele nos matará. Morreremos
antes que alguém nos encontre. Eu...!
Ouviu-se o rugido de outra arma de choque. O soldado que tentara agarrar Eve
Narkol e usá-la como escudo deu um gemido e caiu sobre o assento. Miles guardou a
arma. A voz de Isit Huran, chefe do serviço de segurança plofosense, estava saindo do
alto-falante. O mesmo afirmou que os terranos possuíam um medicamento capaz de curar
as pessoas em cujas veias tinha sido inoculado o veneno.
Shelo suspirou profundamente. O professor Kontemer de repente ficou bem calmo.
Com um sorriso irônico no rosto apalpou os guardas inconscientes.
— O senhor representa muito bem, professor — disse Traut em tom de elogio. — O
guarda poderá confirmar que o senhor se colocou contra mim. Está preparado?
— Deixe-me ouvir as notícias — pediu Kontemer. — Realmente são capazes de
abalar o mundo.
Shelo deu uma risadinha forçada.
— São capazes de abalar o mundo, mas também são perigosas. O senhor é capaz de
imaginar o que está acontecendo neste momento nos refeitórios? Eu sabia que o velho
Enker Holt não seria bastante rápido. Agora já não me importo que desliguem a fita.
Dali a um minuto a transmissão de trivídeo foi interrompida. A voz de Mory Abro
silenciou no meio da palavra. A tela escureceu. A central do serviço de segurança
também estava fora do ar.
Shelo desligou o transmissor. O receptor continuou ligado. Kontemer levantou e
fechou o capacete pressurizado. Começou a falar; Sua voz parecia abafada.
— Pronto, Miles. Nem quero saber o que pretende fazer daqui em diante. Faça o
possível para sobreviver por alguns dias. Provavelmente os guardas e eu seremos
encontrados dentro de duas horas. Assim que a agitação no interior da base diminuir um
pouco, Konta Hognar lembrar-se-á do senhor. Quando isso acontecer, é bom que esteja
bem longe. Tentarei bancar o inocente. Se tiver um pouco de sorte, Hognar não me
submeterá ao interrogatório com o detector. A segurança caçará o senhor. Não se esqueça
de que a unidade energética da tartaruga pode ser localizada. Acho que seria conveniente
abandonar o carro e procurar um bom esconderijo. Com uma camada de rocha de trinta
metros em cima de sua cabeça, as unidades energéticas de pequena potência que
abastecem seus trajes protetores não poderão ser detectadas. Faça o possível para
encontrar uma caverna. É o único conselho que lhe posso dar.
Não havia mais muita coisa a dizer. Os homens fizeram uma verificação apressada
dos trajes protetores em que estavam enfiados os soldados inconscientes, tiraram seus
rádios de pulso e abriram as escotilhas da eclusa.
Traut e Shelo carregaram para fora os corpos duros dos soldados e colocaram-nos
na sombra de uma rocha saliente.
Em cima dele o sol vermelho Bolo dardejava seus raios. Ainda estavam bem além
do círculo polar norte. Assim mesmo a temperatura exterior era de aproximadamente
trezentos e cinqüenta graus centígrados. O volume da energia térmica armazenada pela
rocha era tão grande que não convinha sentar nas pedras.
Kontemer ficou de pé. Resolveu virar os corpos dos homens inconscientes a
intervalos regulares, para evitar que os trajes protetores sofressem um superaquecimento
de um dos lados.
Miles enfiou os contatos de seu rádio de capacete na tomada do traje protetor de
Kontemer. A comunicação radiofônica por cabo não poderia ser ouvida por mais
ninguém.
— O senhor será submetido a um interrogatório minucioso, professor. Diga que
salvou a vida dos dois guardas. Além disso faça uma observação da qual se conclua que
somos agentes aconenses.
— Agentes aconenses? — perguntou Kelo Kontemer em tom de perplexidade.
— Isso mesmo. Diga que deduziu isso de certas observações feitas por mim e por
Bontlyn. Dessa forma o senhor estará mais protegido. Afirme que continua a não gostar
do regime de força reinante no planeta Última Esperança, mas diga também que apesar
de tudo prefere o chefe supremo a um grupo aconense, que afinal de contas não pertence
à humanidade.
— O senhor é um homem perigoso, Miles Traut!
— Não sei; pode ser. Por fim, dê a entender muito discretamente que em algum
lugar existe uma espaçonave pronta para decolar à minha disposição.
— Qual é a fundamentação lógica que poderei apresentar?
Miles olhou nervosamente em torno. Shelo e Eve estavam à sua espera no interior
da tartaruga. As comunicações radiofônicas com a central continuavam interrompidas.
— Diga que em sua opinião um homem com a minha inteligência não sairia ao
acaso para o deserto escaldante. Devo ter um destino bem definido, que pode
perfeitamente ser uma espaçonave. Konta Hognar entrará em pânico. Ele mesmo não
dispõe de nenhuma espaçonave. Ninguém pode sair do planeta. Use este argumento para
apoiar minha fuga, procure criar confusão e não se esqueça da tarefa principal que terá de
cumprir. A esta hora os banidos já sabem o que aconteceu em Plofos. Procure criar
insatisfação e ódio entre eles. A única coisa que terá de fazer é conquistar a sala principal
do transmissor e expedir um pedido de socorro dirigido a Perry Rhodan. Pouco depois
disso uma flotilha de naves de guerra do Império poderá chegar ao planeta. Rhodan só
está esperando informações sobre a posição da base.
Antes de retirar os contatos do aparelho de Kontemer, Traut disse em tom hesitante:
— Provavelmente o chefe supremo chegará nos próximos dias ao planeta Última
Esperança. Hognar fez uma observação neste sentido. É possível que tenha dito isso para
enganar-me ou instigar-me. Não tenho certeza. Se uma espaçonave pousar no planeta, o
senhor saberá.
— Certamente — respondeu Kontemer em tom sarcástico. — Meu jovem amigo, o
senhor está esperando demais de algumas centenas de pessoas desesperadas e esgotadas.
Se Iratio Hondro aparecer por aqui, ele trará sua guarda pessoal. O senhor realmente
acredita que depois disso ainda haverá alguém que tente uma revolução?
— Não. Minha loucura não chega a este ponto. O senhor deverá tomar as medidas
decisivas antes da chegada de Hondro. Além disso tenho a impressão de que o senhor
está subestimando a vitalidade dos banidos. Sabe lá do que o ser humano é capaz quando
vê uma centelha de esperança? Confie nesta circunstância e conte com a possibilidade de
que até mesmo alguns membros da Guarda Azul se sentirão inseguros. Nem todos são tão
frios e corajosos como este rádio-operador.
Apontou para a figura imóvel do guarda. Depois disso Miles Traut saiu andando.
Foi entrando lentamente na eclusa, fechou a escotilha externa e fez a compensação
da pressão. Dali a instantes os motores elétricos da tartaruga começaram a uivar.
Em virtude da rarefação dos remanescentes de ar, Kontemer quase não percebeu o
ruído. O veículo de esteiras acelerou e desapareceu num desfiladeiro. Miles sabia que não
tinha muito tempo.
Dentro de uma hora a situação reinante na base voltaria mais ou menos ao normal.
Assim que o chefe de segurança tivesse certeza de poder continuar a exercer seu regime
de força, passaria a cuidar de Miles Traut.
A segurança dispunha de alguns veículos aéreos de alta velocidade. Geralmente
evitava-se usar os aparelhos na face diurna do planeta. Mas desta vez tratava-se de pegar
um traidor foragido, e por isso Konta Hognar não teria nenhuma dúvida em enviá-los
para lá.
Miles Traut estava pensando nisso enquanto fazia descer o veículo em velocidade
alucinante pelo desfiladeiro.
A cadeia de montanhas cônicas era estreita. Um bom veículo era capaz de
atravessá-la em meia hora. Atrás dela começava um deserto pedregoso, interrompido
constantemente por cadeias de montanhas baixas.
Miles Traut nem pensava em procurar um esconderijo nas montanhas cônicas.
Eve Narkol estava sentada ao lado do motorista. De vez em quando mostrava um
sorriso animador para Traut, que se esforçava para disfarçar o nervosismo cada vez mais
forte.
— Isso não poderia ser evitado, Miles — observou Eve em tom calmo. — Um dia
tinha de acontecer. Se Kontemer tiver bastante habilidade, poderemos voltar dentro de
pouco tempo.
— Se...! — observou Bontlyn, que se encontrava no assento traseiro. — Pelo que
vejo, nas discussões travadas nos últimos trinta minutos houve uma porção de se. Posso
perguntar aonde iremos? O planeta Última Esperança é muito grande.
— Estou procurando alguma coisa.
Shelo virou a cabeça. Seu receptor continuava calado.
— Está procurando alguma coisa? Será que é um cruzador do Império Solar?
Miles levou algum tempo para responder.
— Por aqui existem grandes jazidas de minérios com fortes camadas reflexivas.
Precisamos descobrir uma caverna natural situada num grupo de colinas que fica além
das montanhas cônicas. Por cima desta caverna deve haver uma camada de rocha bem
grossa. Todas as unidades energéticas da tartaruga serão desligadas.
— Quer evitar o rastreamento energético? E as radiações residuais?
— Serão absorvidas por uma cobertura adicional. Tenho placas no compartimento
de carga. Acho que devemos abandonar o veículo e esconder-nos nas proximidades.
Eve empalideceu. Imaginava o que Miles quis dizer. Este fitou a moça de lado e
colocou a mão sobre seu braço.
— Só se for absolutamente necessário — acrescentou. — Só sairemos se houver um
risco imediato de sermos localizados. Compreendeu?
— Compreendi — cochichou Eve.
Shelo Bontlyn não disse mais nada. Era especialista no assunto e sabia que o perigo
de serem localizados pelos aparelhos rastreadores era muito grande. O reator precisava
ser desligado quanto antes. Não confiava muito no efeito protetor das placas. Para ele, a
interferência energética bastante intensa produzida pelo sol próximo seria muito mais
eficiente.
Até então esta interferência perturbara o funcionamento de qualquer aparelho.
6

O comandante da base, Konta Hognar, sempre se esforçava para ser amável e


prestativo. Detestava as atrocidades do fundo do coração — isto quando seu sentimento
de honra e a fidelidade ideológica não o obrigavam de usar a força, apesar de toda a
antipatia que lhe inspirava a violência.
O traço esquizofrênico do caráter deste homem alto já se manifestara imediatamente
após a transmissão, num sentido bem definido. Depois de ouvir as primeiras palavras
pronunciadas pelo odiado Administrador Geral, Konta Hognar se transformara num
demônio insensível que, revelando um aspecto notável de sua perturbação mental,
acreditava firmemente estar agindo em prol da lei e da ordem.
Apesar de tudo, Hognar não conseguiu interromper a transmissão antes que fosse
tarde. Ligou imediatamente para o técnico de rádio de plantão e lhe deu ordem de
desligar o aparelho reprodutor da fita.
Hognar acreditou que Holt fosse agir bem depressa, e por isso perdeu alguns
minutos preciosos.
Acontece que Enker Holt levou muito tempo para compreender a situação. Correu
para a salinha de transmissão para desligar o aparelho, mas levou um choque elétrico.
Impulsionado pelo medo, tentou descobrir a causa da perturbação. Como não
conseguiu imediatamente, a insegurança levou-o a entrar em contato com a central de
segurança para pedir instruções mais detalhadas.
Só quando Hognar se pôs a berrar que nem um louco deu-se conta de que
excepcionalmente deveria agir por iniciativa própria. Compreendeu que a transmissão
tinha de ser interrompida de qualquer maneira.
Hognar já tinha posto em marcha um comando da Guarda Azul. Quando o mesmo
chegou à central de rádio, Enker Holt acabara de tomar a decisão de interromper o
suprimento de energia.
Minutos preciosos tinham sido perdidos, minutos durante os quais os banidos do
planeta Última Esperança fitaram as telas estupefatos.
O instinto disse a Hognar que falhara no momento decisivo. Não deveria ter
deixado Holt na sala de rádio sem que ninguém o vigiasse.
Assim que a transmissão foi abruptamente interrompida, Hognar aproximou-se dos
microfones. Destacamentos de guardas fortemente armados tomaram posição nos
refeitórios. O cintilar dos campos de disseminação dos canos das armas energéticas
tornou supérflua qualquer palavra de advertência. Os banidos assumiram uma atitude
discreta. No entanto, o brilho que de repente surgiu em numerosos olhos era
inconfundível. Até mesmo as pessoas mais apáticas tiveram seu interesse despertado. Até
parecia que um ser invisível tinha espalhado uma nova vitalidade.
O segundo erro cometido por Hognar foi ainda mais grave que o primeiro. Levou
meia hora tentando negar a queda do chefe supremo. Minimizou as notícias a este
respeito, dizendo que as mesmas não passavam de um truque da segurança terrana, e
apontou as declarações do chefe do serviço secreto, Isit Huran, e as do Almirante Arnt
Kesenby, como atos de alta traição.
Enquanto falava, Hognar tornava-se cada vez mais confuso. Só se interrompeu
quando um oficial da Guarda Azul fez um gesto insistente em sua direção.
Depois disso a melhor coisa que Hognar soube fazer foi mandar que os cientistas e
técnicos que trabalhavam na base do planeta Última Esperança se recolhessem aos seus
alojamentos. Os banidos foram avisados de que sofreriam penas graves se saíssem de
seus quartos sem uma permissão especial.
Foi o terceiro erro cometido por Hognar.
No início muitos banidos tiveram suas dúvidas. Especialmente as pessoas em cujo
sangue corria o veneno ficaram indecisos sobre se deviam dar crédito ao que acabavam
de ouvir.
Mas quando Hognar declarou em seu desmentido que um rádio-operador criminoso
tinha falsificado a mensagem e a transmitira para agitar o ambiente, até mesmo os mais
desconfiados começaram a compreender.
Os homens e mulheres que trabalhavam no planeta Última Esperança possuíam
cérebros bem treinados. Eram perfeitamente capazes de imaginar de que maneira fora
promovida a transmissão.
Embora tivesse cometido alguns erros nos momentos decisivos, Hognar já
dominava novamente a situação. Seus homens ocuparam os pontos-chave da base.
Cento e cinqüenta membros da Guarda Azul, entre eles trinta e quatro pessoas que
portavam o veneno, estavam decididos a abafar qualquer resistência no nascedouro.
Uma hora depois dos acontecimentos — era pouco depois das quinze horas, tempo
da base — o técnico de subfreqüências Enker Holt se contorcia sob os impulsos
dolorosos emitidos pelo aparelho usado no interrogatório.
Holt asseverara inúmeras vezes que era inocente. Sua inocência deveria ser
confirmada sob o detector cerebral.
O sentimento da dor desapareceu. O técnico ficou completamente calmo.
A sala dos interrogatórios ficava no bloco central da segurança. Dois oficiais e um
médico estavam presentes.
— Pronto, senhor — disse o médico, que pertencia à Guarda Azul. — O centro da
vontade foi bloqueado.
Konta Hognar voltara a acalmar-se. Sabia perfeitamente que sua alocução apressada
produzira um resultado exatamente oposto ao que pretendia. Já voltara a agir segundo um
plano preciso e cuidadosamente elaborado. Nem tudo estava perdido. Os banidos estavam
em seu poder.
Hognar inclinou-se para a frente. O rosto de Holt, quase irreconhecível sob o
capacete do detector, parecia uma máscara de cera.
— Técnico Holt, quando o senhor recebeu a primeira mensagem de
hipercomunicação de Plofos?
— Dez minutos depois do início do meu turno.
— O que fez em seguida?
— Avisei o comandante do núcleo.
— Gravou a mensagem em fita de ontrex?
— Gravei.
— Fez uma cópia da gravação?
— Não.
Hognar empalideceu. Fitou o médico.
— Será que a regulagem de seu aparelho é correta?
— Quanto a isso não existe a menor dúvida, senhor. Posso garantir que este homem
só diz a verdade.
Hognar prosseguiu no interrogatório. Suas suspeitas tornaram-se cada vez mais
fortes, até transformar-se numa certeza.
— O senhor levou a gravação original, que devia fazer em conformidade com as
normas de serviço, à sala de transmissão de mensagens internas? Colocou a fita no
aparelho reprodutor e ligou o mecanismo de tempo?
— Não.
— Quer dizer que a única coisa que fez foi avisar o comandante do núcleo,
conforme determinam as instruções?
— Isso mesmo.
Konta Hognar interrompeu o interrogatório, num momento em que mal haveria
tempo para evitar que as células cerebrais de Holt sofressem danos irreparáveis.
O médico desligou o detector. Fitou seu comandante com uma expressão de dúvida.
— Faça tudo que estiver ao seu alcance para evitar que a mente deste homem sofra
algum prejuízo — disse em tom deprimido. — Cometi um engano.
Konta Hognar retirou-se da sala de interrogatórios. Caminhava muito ereto. Uma
cena que se passara quinze horas atrás ocupava sua mente. Lembrou-se praticamente de
todas as palavras que Miles Traut dissera.
Houvera uma explicação plausível para a presença do rádio-operador Shelo
Bontlyn. O técnico apreciava as torradas frescas. A seguir Traut requisitara Bontlyn para
trabalhar no programa de conversores. E agora fazia doze horas que os dois viajavam
para o sul.
Hognar apressou o passo. Olhou para o relógio. Quando chegou à pequena sala de
rádio da segurança, teve certeza de que a fita de ontrex com a fala traiçoeira só poderia
ter sido colocada por Shelo Bontlyn.
Restava saber se Miles Traut participara do complô, ou se requisitara Bontlyn por
acaso.
— Estabeleça contato videofônico com o técnico Traut — ordenou Hognar ao
rádio-operador de plantão.
Naquele momento Hognar nem desconfiava que Traut ouvira a transmissão em
virtude de um pequeno truque. Além de tudo, acontecera uma coisa que nem mesmo
Miles Traut esperara:
O técnico Moret Unbulk não mencionou uma única vez o fato de que poucos
segundos antes que as telas se iluminassem ligara a objetiva grande-angular.
Por enquanto Unbulk era a única pessoa que sabia que os ocupantes do veículo-
tartaruga estavam informados sobre os acontecimentos.
Hognar achava pouco provável que a transmissão tivesse sido ouvida no interior do
veículo. A única coisa que o guarda de serviço pôde dizer foi que permitiu a transferência
da ligação para o laboratório.. Quando lhe perguntaram sobre as imagens recebidas no
interior do mesmo, fez uma declaração verídica, dizendo que Traut quis observar o
conversor. Diante de seu nervosismo perfeitamente compreensível, o rádio-operador não
notara que na fase decisiva a objetiva abrangera uma das telas do sistema de
intercomunicação. No momento da transmissão, tivera outras preocupações que observar
seus controles.
Hognar resolveu recorrer ao blefe. Se Traut fosse inocente, certamente voltaria.
Além disso havia dois homens da Guarda Azul no veículo-tartaruga, e os mesmos
mereciam toda confiança. Estes pensamentos esperançosos fizeram com que Hognar
desperdiçasse ainda mais tempo.
Esperou o aquecimento do transmissor de hipercomunicação. Depois chamou o
veículo-tartaruga — duas, cinco, dez vezes. Desta forma gastou mais tempo, que Traut
soube aproveitar.
Miles Traut não respondeu. O estratagema concebido por Hognar falhara antes que
uma única palavra fosse proferida.
Hognar olhou para os oficiais que o cercavam. Demonstrava uma calma
surpreendente.
— Está bem, fomos enganados por um traidor muito esperto. Major Hafgo, o
parque de veículos está a seu cargo. Mande decolar três veículos aéreos e faça sair três
veículos-tartaruga. Se o rastreamento aéreo não for possível, em virtude das
interferências solares, siga a pista por meio dos sensores dos carros. Quero que me
tragam Traut, Bontlyn e os outros ocupantes do veículo, nem que tenham de persegui-los
até os confins deste mundo. Se for necessário abrir fogo contra o veículo, lembrem-se de
que os dois homens da Guarda Azul que viajavam no mesmo estão mortos. Se não fosse
assim, Traut nunca teria ido tão longe. Mais alguma pergunta?
O Major Hafgo fez continência. Era um homem intoxicado. Não tinha mais
perguntas. Estava tudo claro. Eram 15:30 horas, tempo da base.
***
Quase uma hora mais tarde — eram 16:29 — um veículo aéreo descobriu três
figuras cujos trajes protetores de termoplan refletiam a luz do sol como se fossem
espelhos.
As pessoas caminhavam cambaleantes na direção norte. Ao que parecia, tentavam
alcançar a base.
O aparelho pousou. Cinco homens da Guarda Azul desceram e aproximaram-se
com as armas apontadas aos homens, que pareciam totalmente exaustos.
O professor Kontemer literalmente estava sendo arrastado pelos dois soldados
jovens e bem treinados da Guarda Azul.
Ao ser colocado no aparelho, Kontemer estava quase inconsciente. Mas conseguiu
reunir bastante energia para gritar em voz rouca para o oficial:
— Sou inocente. Traut obrigou-me a sair. Cuidado, é um agente aconense. Ouvi...
— Um agente de quem? — gritou o piloto. — Vamos, fale, Kontemer!
— Miles — Miles e Bontlyn pensaram que eu estivesse louco de medo. Foram
imprudentes. É um agente aconense. Encontre-o.
Dali a vinte minutos Kontemer estava deitado numa cama da clínica da base. Já se
recuperara.
Konta Hognar entrou no quarto com o Major Hafgo e Eson Muting. Os lábios
rachados de Kontemer tremiam. Procurou erguer-se na cama.
— Fique deitado — advertiu o médico.
— Agora não — gemeu o cientista grisalho. Com o esforço, seu rosto enrugado
transformou-se numa careta.
Fitou Hognar com uma expressão de súplica.
— Sei o que pensa de mim, senhor. Mas quero observar que nunca me prestaria a
trair meu povo. Sou um ser humano. Se Miles estivesse agindo por conta dos terranos,
talvez ficasse quieto. Acontece que está a serviço dos aconenses.
— Acalme-se — disse Hognar em tom discreto. — Conte tudo na devida ordem:
Não precisa tremer de medo. Já soube que Traut o ameaçou. Provavelmente salvou a vida
de dois membros importantes da Guarda Azul. Procure controlar-se e conte tudo que
aconteceu. Também foi atingido por uma arma de choque?
— É claro que não — respondeu Kontemer com uma risada amarga. — Afinal, não
poderia ter feito nada a um jovem robusto como Traut. Bontlyn é seu cúm...
— Já sabemos. Qual foi o comportamento de Eve Narkol?
— Parece ser amiga de Miles.
— Interessante! Não sabíamos disso. Conseguiu descobrir por que motivo Miles
Traut lançou esta operação maluca? O que pretende conseguir com a fuga? Deveria saber
que sua tentativa é inútil.
Kontemer hesitou. Olhou em torno, assustado. Pôs-se a refletir apressadamente.
Hognar parecia dar crédito ao que ele dizia.
— Acredito que Traut tenha saído principalmente porque Bontlyn se apoderou da
fita gravada. Ouvi Traut fazer acusações violentas ao amigo, por ter ido ao seu
apartamento. O senhor os surpreendeu lá.
— É espantoso que tenha ouvido tanta coisa, professor! — observou o Major
Hafgo.
Kontemer percebeu que devia ser mais cauteloso.
— Realmente falaram sobre isso, senhor. Os rádios de capacete estavam ligados.
Quando os dois homens da Guarda Azul foram colocados fora do veículo, surgiu uma
discussão violenta. Fiquei deitado no chão, à espera de um tiro com a arma de choque.
Mas ninguém me deu atenção.
— Isso é perfeitamente plausível — concluiu Hognar. — Vamos ser lógicos,
professor. Sei perfeitamente que Miles tinha um motivo indireto para fugir. É claro, que,
se Bontlyn estivesse aqui, mandaria interrogá-lo. Acontece que a chegada das novidades
vindas de Plofos foi tão surpreendente que não consigo acreditar que a subtração da fita
gravada tenha sido planejada por Bontlyn e Miles no âmbito de uma conspiração. Não há
dúvida de que o técnico Bontlyn agiu por iniciativa própria. Só pode ter informado seu
amigo mais tarde. Tudo isso teria vindo à tona num interrogatório feito com o detector.
Não mandaria executar Traut, porque não posso dispensá-lo. Certamente não ignora isso.
Por isso devemos supor que em hipótese alguma Traut quis submeter-se a um
interrogatório por meio do detector, não por causa do crime cometido por Bontlyn, mas
por outros motivos. Gostaria de ser informado sobre isso. Procure lembrar-se! Qualquer
palavra dita por eles pode ser importante.
No seu íntimo Kontemer respirou aliviado. Hognar estava na pista errada, onde
queriam colocá-lo.
— Sem dúvida tinha medo de que o senhor pudesse descobrir que é um espião
aconense.
— Sem dúvida — disse Hognar em tom exaltado. — Mas no estágio atual das
pesquisas com o canhão de conversão não mandaria executá-lo por isso. Traut sabe
calcular suas chances. Qual é o motivo real de sua fuga?
Kontemer sentiu que chegara a hora de fazer uma alusão à pretensa nave espacial.
— Senhor, não ouvi nada além do que já contei. Traut parecia aborrecido com o
conteúdo das notícias. Até parecia que acreditava que sem a interferência dos terranos
conseguiria mais para seus chefes. Não posso informar mais que isso. Só sei que o senhor
tem de pegar esse patife.
— Isso nós também sabemos, professor — disse o Major Hafgo.
Era um homem baixo de rosto grosseiro e olhos muito afundados nas órbitas.
— Não tem alguma suposição? Afinal, seu ponto forte sempre foi este.
Kontemer passou a mão pelos lábios. Recostou-se lentamente no travesseiro.
— O que vou dizer realmente não passa de uma suposição, senhor — preveniu o
cientista. — Traut parecia saber muito bem para onde ir. Atirou-me para fora do veículo,
tirou os dois guardas juntamente com Bontlyn e saiu em alta velocidade, como alguém
que quer chegar a um lugar bem definido. Suponho que haja uma espaçonave no planeta
Última Esperança. Não há nada de que eu não julgue os aconenses capazes.
Hognar e seus oficiais entreolharam-se. Retiraram-se sem dizer uma palavra.
Kontemer ficou só. Imaginava que Hognar só esperara uma indicação como esta. A
mesma parecia deixá-lo satisfeito no seu íntimo.
O chefe de segurança cometeu o erro de superestimar o inimigo. Os motivos de
Traut tinham sido bastante corriqueiros, mas um fanático como Konta Hognar não seria
capaz de imaginar uma coisa dessas.
Saiu à procura de outros motivos, para tornar plausível a fuga. Não conseguia
compreender que um homem como Miles Traut arriscasse a própria vida somente para
escapar a um regime de força.
Kontemer deu uma risadinha.
As coisas continuavam a correr segundo os planos.
7

As chamadas de rádio da segurança foram recebidas por Shelo Bontlyn pouco antes
das 17 horas. Ao mesmo tempo os rastreadores do veículo-tartaruga detectaram três
objetos voadores, que circulavam em baixa velocidade sobre as montanhas cônicas,
vasculhando a área.
Traut dera ordem para que as chamadas não fossem respondidas. Os veículos
voadores tinham chegado tão perto que apesar das interferências da energia solar a
localização goniométrica seria certa.
De início Traut andara com a idéia de fingir-se de ignorante e “espantar-se” com as
interferências de rádio. Isso já não era possível. Por mais espantoso que isso pudesse
parecer, Hognar perdera muito tempo antes de dar início às buscas sistemáticas. Miles
não conhecia em detalhe as circunstâncias que o haviam levado a isso, mas imaginava
mais ou menos o que tinha acontecido no centro de pesquisas do planeta Última
Esperança.
Konta Hognar já devia ter descoberto através das declarações de Kontemer e dos
guardas que a alocução de Rhodan também fora ouvida no interior do veículo-tartaruga.
— Ainda lhe dou um prazo de quinze minutos, no máximo — observou Shelo
Bontlyn com uma estranha calma, que formava um forte contraste com seu rosto pálido,
que refletia o jogo de emoções.
Miles não respondeu. Os rastreadores de microondas do veículo-tartaruga estavam
funcionando há uma hora, mas nenhuma jazida de minério capaz de refletir as ondas de
radar tinha sido encontrada.
— Preparem-se para descer — disse sem virar a cabeça. Preferiu não olhar mais
para a moça.
Sentada a seu lado, Eve Narkol estava muito tensa. Tinha os dedos cravados na
braçadeira da poltrona. O veículo corria em alta velocidade pelo terreno acidentado do
deserto escaldante. Quanto mais avançavam para o sul, maior era o calor. O sistema de
refrigeração dos motores elétricos estava funcionando a plena potência. Os termômetros
externos indicavam uma temperatura pouco superior a quatrocentos graus centígrados. Os
resíduos atmosféricos rarefeitos e quase imponderáveis expandiram-se sob o efeito do
calor. De vez em quando formavam véus esvoaçantes, cujo brilho e agitação davam uma
falsa sensação de vida.
A orientação da viagem foi puramente visual. Os rastreadores não funcionavam
bem. O sol Bolo parecia ter entrado em mais uma fase de tremendas emanações de
energia. Em virtude disso surgiram fortes tempestades magnéticas. Só os aparelhos que
funcionavam em velocidade superior à da luz continuavam a funcionar perfeitamente.
Diante do efeito dispersivo, Miles preferiu não usá-los. Se o fizesse, os rastreadores de
quinta dimensão com que estavam equipados os veículos voadores os localizariam numa
questão de minutos.
As montanhas cônicas desapareceram atrás da linha do horizonte. Mais ao sul uma
série de montanhas íngremes limitava o desolado deserto pedregoso. Era onde começava
a zona de lagos e mares de chumbo derretido. Era onde começava a paisagem mortífera
dos vulcões em erupção e do bramido das agitações do solo, que já tinham devorado mais
de uma equipe de exploradores.
Miles sabia que não devia arriscar-se a avançar mais para o sul. Além do trópico
norte as temperaturas ficavam em torno de seiscentos graus centígrados.
— Talvez deveríamos ter ido para a face noturna — observou Eve.
Só manifestou esta opinião para não ficar sem dizer nada. O ambiente no interior da
cabine pressurizada começou a tornar-se deprimente. As serpentinas de refrigeração que
corriam junto às paredes dotadas de isolamento térmico já apresentavam grandes crostas
de gelo.
— Neste caso já teríamos sido capturados — objetou Miles. — Na área escura os
aparelhos funcionam muito bem. Nossa única chance está aqui mesmo, na área das
tempestades magnéticas e do bombardeio de raios cósmicos. Eles já nos localizaram,
Shelo?
— Ainda não. Não estou recebendo impulsos de radar. Ainda estão com medo de
penetrar nesta área. Com os veículos aéreos isto se torna ainda mais perigoso. Os
aparelhos antigravitacionais deixam de inspirar confiança. Sem dúvida mandaram alguns
veículos-tartaruga ocupados por tropas de elite atrás de nós. Esta gente conhece seu
trabalho. Além disso sabem que dificilmente avançaremos até a área vulcânica. Ou será
que vamos avançar...?
Assustada, Eve prendeu a respiração. Seus cabelos escuros estavam grudentos de
suor. Cercavam a testa pálida como se fosse um véu de luto.
Miles dirigiu o veículo para uma formação rochosa íngreme, contornou a mesma e
parou ao sul dela, onde estava protegido contra o rastreamento. O uivo dos motores
cessou. O ruído produzido pelo equipamento de climatização diminuiu. Os vaporizadores
emitiram um ruído borbulhante. De vez em quando nuvens de gases luminosos passavam
pelas vigias de vidro térmico.
Bem adiante o sol em foice chamejava. A maior parte do mesmo continuava oculto
atrás da linha do horizonte.
Miles virou-se e olhou para Shelo.
— A arma que eu mesmo fabriquei está escondida num estojo de materiais. Trata-se
de um rifle dobrável de tipo primitivo, como antigamente era usado na Terra. Os dois
canos chegaram a ser protendidos. É uma arma de grande alcance e de uma precisão
surpreendente. Os cartuchos foram feitos de envoltórios de plástico com projéteis de
cobre maciço sobrepostos calibre doze milímetros. Pelos meus cálculos, a energia do
impacto deve ser de aproximadamente mil metros/quilograma. É um valor bem elevado.
Não sei qual é a força de penetração. Só atirei uma vez com a arma para ajustar a mira.
Deve-se fazer pontaria com o entalhe e a mira. O rifle de cano duplo foi construído com
base em descrições e desenhos antigos, que encontrei na biblioteca. Foi um jogo
perigoso. Seja como for, a arma é muito mais eficiente e seu alcance é maior que o das
duas armas de choque. Conforme as circunstâncias, poderemos derrubar um veículo
aéreo com a mesma. Encarregue-se da direção, Shelo. Vou pegar o rifle.
Bontlyn fitava atentamente as telas de controle dos rastreadores de impulsos. De vez
em quando as mesmas registravam a presença de uma onda de raios rastreadores. Os
veículos aéreos tentavam localizar a tartaruga por meio de vibrações reflexivas. Ao que
parecia, as tentativas de registrar as emanações energéticas transmitidas pela mesma não
tinham sido bem sucedidas.
Miles colocou um capacete térmico e ligou o equipamento de climatização de seu
traje protetor. Enquanto caminhava em direção à escotilha interna da eclusa, Bontlyn
disse com a voz apagada:
— Um rifle de cano duplo com cartuchos e projéteis de cobre! Pelo grande sol de
Eugaul! E isso no século vinte e quatro, a era das armas energéticas. Será que você não
poderia ter tido uma idéia melhor?
Levantou os olhos e fez um gesto de desculpa.
— Esqueça. Estou sendo injusto. Sei que é muito difícil usar uma ferramenta
qualquer sem que ninguém o perceba. Você conseguiu muita coisa.
Um sorriso forçado apareceu no rosto de Miles. No momento em que este estendia a
mão para abrir a escotilha, Eve Narkol começou a gritar.
— Miles — está ouvindo, Miles? Miles...!
O engenheiro de superarmas virou-se abruptamente.
— Miles...! — choramingou Eve. — Ouça este ruído...!
Era um tamborilar rítmico, que não poderia deixar de ser ouvido, apesar da
atmosfera rarefeita. Aproximava-se rapidamente. Tinha-se a impressão de que um gigante
estivesse marretando o chão a intervalos regulares.
Depois de mais alguns segundos a tartaruga começou a balançar. O tamborilar
transformou-se num estrondo.
Os abalos eram propagados pelas camadas rochosas e transmitidos para o veículo-
tartaruga. A cabine começou a tremer cada vez mais fortemente. Miles segurava-se
desesperadamente nas maçanetas da escotilha.
Os rastreadores manipulados por Shelo falharam por completo. Os rastreadores
energéticos passaram por cima da marca vermelha. As pontas luminosas dos registros
gráficos incharam, transformando-se em curvas, das quais constantemente saíam
lampejos.
— É um marcha-forte — gemeu Bontlyn. — Era só o que faltava. Passará por cima
de nós, nos esmagará, nos pisará e além de tudo causará uma explosão nuclear de
potência média com sua energia orgânica.
Miles tirou o capacete e ocupou o assento do motorista. O conversor do reator
energético uivou.
— O que pretende fazer? — perguntou Shelo em tom nervoso. — Não faça
bobagens, Miles. Você não poderá viajar protegendo-se do rastreamento atrás de um
marcha-forte. Isso não acabará bem. Ele nos destruirá sem perceber.
O veículo arrancou. Traut não respondeu às palavras de Shelo. Um plano audacioso
estava amadurecendo em seu cérebro. O veículo-tartaruga contornou a colina e a planície
ampla estendeu-se à sua frente. Neste instante as lentes das objetivas externas
enquadraram o monstro.
O corpo do mesmo era formado por um triângulo isósceles de cerca de 520 metros
de lado. A altura do corpo chegava a uns noventa metros.
O monstro, que tinha o aspecto de uma gigantesca arraia terrana, movimentava-se
com a ponta do triângulo para a frente. Andava sobre 36 pernas relativamente curtas, da
grossura de uma coluna; eram dezoito de cada lado.
O que mais chamava a atenção era a cauda de 50 metros de espessura, erguida em
todo seu comprimento de cerca de 640 metros, e que apresentava uma luminosidade
ultra-azul na ponta.
Era a antena de recepção orgânica do marcha-forte, com a qual absorvia a energia
solar para utilizá-la em seu metabolismo.
O monstro que se aproximava a uma velocidade de aproximadamente oitenta
quilômetros por hora parecia ser surdo e cego. Os dezoito pares de pernas subiam e
desciam num ritmo mecânico. Os pés que terminavam em garra produziam um forte
estrondo no solo ao serem levantados e voltarem a cair. As tremendas batidas das pernas
causavam o tamborilar típico.
Miles dobrou para a esquerda, manteve o veículo na altura da cabeça da criatura
monstruosa e fez um giro de cento e oitenta graus com seu veículo-tartaruga.
As esteiras abriram sulcos profundos no chão. Massas de rocha pulverizada
levantaram-se atrás delas.
Shelo gritou algumas palavras que ninguém entendeu. Eve Narkol estava gritando.
Parecia que seu corpo endurecera de pavor. Só os lábios faziam alguns movimentos.
Miles acompanhou a velocidade do marcha-forte. Chegava cada vez mais perto do
monstro, mas teve o cuidado de não se aproximar do campo de irradiação fulminante de
sua cauda.
— Será que você enlouqueceu? Miles...!
Shelo sacudiu o amigo pelos ombros. Traut não esboçou a menor reação. Estava
disposto a arriscar uma coisa que ninguém tentara antes dele.
O marcha-forte não possuía inteligência mensurável; apenas era dotado de um
instinto prático, que obrigava aquela criatura a correr ininterruptamente — corria durante
toda a vida.
Um ser não-humano que chegara ao planeta Última Esperança na época inicial da
navegação espacial dera a esses monstros o nome de marcha-forte. A guarnição da base
plofosense adotara este nome estranho, mas adequado.
Mais tarde houve interesse em estudar os hábitos desses animais — se é que
realmente eram animais. Não se conseguira descobrir quase nada sobre seu organismo
inacreditável. A única coisa que se sabia era que o marcha-forte nunca ingeria qualquer
alimento. Vivia da energia solar em sua forma pura, captada diretamente com sua cauda
receptora.
Ao que parecia, era este o motivo por que os monstros do planeta Última Esperança
se esforçavam durante toda a vida para nunca entrar em contato com a face noturna do
planeta.
Para evitar que isso acontecesse, marchavam ininterruptamente para o oeste, a fim
de compensar o movimento de rotação do planeta.
Marchavam depressa, mas não bastante depressa para neutralizar inteiramente a
velocidade de rotação daquele mundo incandescente. Por isso sempre chegava a hora em
que os marcha-forte caíam no frio da face noturna, onde seu corpo endurecia depois de
alguns minutos.
Mas assim que o movimento de rotação os mergulhava novamente na luz do sol,
pareciam despertar de uma hibernação e logo reiniciavam sua marcha para o oeste.
O marcha-forte não parecia conhecer outras tarefas. O instinto o impelia para a
frente, fazia com que seus passos retumbassem pelos desertos e pelas montanhas, e o
levava a manter sempre a mesma rota.
Um monstro desse tipo nunca se enganava na trajetória. Nunca se encontrava com
outro indivíduo da mesma espécie, pois a distância entre a rota de um e outro era de pelo
menos algumas centenas de quilômetros.
O sol Bolo estava no apogeu. Era meio-dia. O marcha-forte que fora avistado pelos
ocupantes do veículo-tartaruga utilizava a trajetória situada mais ao norte. Surdo e
possesso, insensível e esmagando tudo que se encontrava à sua frente, corria a uma
velocidade média de cerca de vinte quilômetros por hora para o oeste. Nunca seria capaz
de compreender que não conseguiria emparelhar-se com o sol. Simplesmente corria.
— Miles...! — gritou Shelo, dominado pelo pânico.
Apavorado, fitava o monstro que se aproximava, e cujo corpo não conseguiam
enxergar mais em toda extensão.
O gigantesco triângulo estava entrecortado na superfície e apresentava elevações, o
que lhe dava o aspecto de uma paisagem de cratera endurecida. Nas costas do monstro se
haviam formado montanhas, grotas e pontas salientes. Ninguém seria capaz de dizer de
que eram feitas as matérias duras que cresciam descontroladamente; Em compensação
sabia-se que o marcha-forte absorvia um volume de energia equivalente ao de uma
bomba atômica, da mesma forma que um acumulador suga a corrente elétrica. Nunca
ninguém fora capaz de matar um monstro desta espécie.
Miles não deu atenção aos gritos de advertência. Estava concentrado
exclusivamente na excrescência que pendia logo atrás da ponta da cabeça. A mesma
revolvia o chão, abrindo sulcos profundos nas pedras esfaceladas. O monstro nem parecia
ter percebido que o cascão saliente o transformara num arado vivo. Provavelmente o
cascão pendurado cairia um belo dia ou seria lixado a ponto de não tocar mais o chão.
Miles Traut nem estava pensando nisso. A única coisa que notou foi a rampa que
representava uma subida segura e parecia oferecer proteção e segurança.
Shelo quis puxar o amigo para trás. Não teve tempo para isso. De repente o veículo-
tartaruga descreveu uma curva fechada e deslocou-se em alta velocidade em direção à
rampa.
As sapatas das esteiras penetraram ruidosamente no material duro que nem aço,
agarraram-se ao mesmo, atiraram porções do mesmo para trás e finalmente encontraram a
necessária aderência.
Houve um terrível solavanco e Bontlyn foi arremessado sobre o banco traseiro. O
estrondo das inúmeras pernas misturou-se ao uivo dos motores elétricos. O veículo-
tartaruga foi subindo devagar pela encosta acidentada.
Miles só parou quando teve certeza de que a rampa tinha ficado para trás. O veículo
estava parado sobre as costas estáveis do marcha-forte, que não percebera a presença do
visitante não convidado, nem notara que partes de sua blindagem tinham sido quebradas.
Seguia seu destino, correndo para o oeste.
Miles desligou o sistema de propulsão. A paisagem do planeta Última Esperança foi
desfilando pelas vigias. O único ruído que se ouvia era o estrondo produzido pelas pernas
do monstro.
O veículo-tartaruga estava parado pouco menos de quinze metros atrás da ponta do
triângulo, que apontava a direção em que o monstro se deslocava. O minúsculo cérebro
do mesmo estava abrigado nessa ponta. Era possível que o mesmo não possuísse nenhum
sistema nervoso central e se orientasse pelos impulsos pouco intensos transmitidos por
colônias de células cuja natureza não conseguimos compreender.
O monstro não se incomodou com o corpo estranho que se viu obrigado a carregar.
O ouvido de Shelo logo se acostumou ao ruído das pernas do marcha-forte. O
barulho do equipamento de climatização era menos intenso que antes. Naquele momento
consumia pouco menos de 68 quilowatts-hora.
Miles pigarreou. Os aparelhos de rastreamento tinham deixado de funcionar, com
exceção do transmissor de hipercomunicação. Até mesmo o sistema eletrônico de
transmissão das imagens óticas entrou em pane. Mas a visão direta era perfeita.
Bem em cima deles brilhava e chamejava a antena receptora da cauda do monstro.
De vez em quando eram atingidos por uma rajada magnética. Fora disso não acontecia
absolutamente nada.
8

O Major Hafgo, comandante-substituto da base e encarregado das linhas de


abastecimento para Plofos, raramente ria. Naquele momento estava rindo.
— Fogo...! — ordenou. No mesmo instante levantou a mão direita, que segurava a
arma narcotizante.
Foi o primeiro a atirar. Quase no mesmo instante quarenta homens da Guarda Azul
estavam puxando os gatilhos.
Trilhas energéticas cintilantes penetraram nas fileiras dos cientistas revoltados. As
pistolas narcotizantes dos membros da Guarda Azul criaram uma cortina tremeluzente,
em cujo interior os corpos de pessoas excitadas caíam ao chão.
Não demorou mais de dez segundos para que o Major Hafgo dominasse a situação.
O refeitório número três, que ultimamente tinha sido o foco das revoltas, parecia um
campo de batalha. Os homens desesperados do planeta Última Esperança, especialmente
os portadores de veneno cuja época de incubação chegara ao fim, acabavam de tentar
uma revolta contra os guardas da base.
Cerca de cinqüenta pessoas, que não tinham sido atingidas pelos raios narcotizantes,
estavam paradas junto às paredes, com as mãos levantadas. Estupefatos, dando a
impressão de que uma onda de perturbação mental os envolvera de repente, fitavam os
corpos contorcidos das pessoas inconscientes, que permaneceriam imóveis pelo menos
por trinta minutos.
O Major Hafgo não estava rindo mais. Seu rosto largo e anguloso parecia
simbolizar toda a crueldade deste mundo. Foi a impressão que teve o professor
Kontemer, que conseguira desviar-se em tempo dos raios disparados pelas armas.
A dois metros do lugar em que se encontrava Hafgo três homens da Guarda Azul
jaziam no chão. Dois deles tinham sido atingidos por raios narcotizantes. O terceiro era
Konta Hognar, que não perdera os sentidos.
Levantou-se gemendo, esfregou as costas doloridas e procurou instintivamente o
objeto com o qual um desconhecido o golpeara na cabeça.
Hafgo aproximou-se do chefe e ajudou-o a pôr-se de pé.
— Sinto muito, senhor. Está machucado?
Hognar fitou o oficial de ombros largos por um instante como se fosse um
sonâmbulo. Finalmente sua vista clareou.
— Acho que não, Major Hafgo, acho que não — balbuciou.
Estava com o rosto vermelho de raiva. Virou-se abruptamente.
O professor Kontemer estava parado mais para trás. Erguera ligeiramente as mãos,
embora as armas narcotizantes dos membros da Guarda Azul também estivessem
apontadas para ele.
Nenhum detalhe escapava aos olhos de Hafgo, muito afundados nas órbitas.
— O senhor aí — coloque as pessoas inconscientes em posição mais confortável —
disse, dirigindo-se a um membro da Guarda Azul. Depois passou a falar aos homens
calados, enfileirados junto à parede.
— Os senhores saberão desculpar meu procedimento — disse em tom irônico. —
Acreditavam que poderiam conseguir alguma coisa, derrubando dois guardas e o
comandante da base? Só pode ter sido uma ação inspirada no diletantismo, damas e
cavalheiros. Será que suas pretensões chegavam ao ponto de tirar a chave mecânica da
sala de transmissões que o comandante trazia consigo e comunicar a posição do planeta
Última Esperança à frota do Império?
Konta Hognar estava furioso. Abriu apressadamente o conjunto-uniforme e apalpou
o codificador achatado, que constantemente trazia preso ao pescoço por uma fita de
plástico.
Nunca ninguém ouvira Hognar dizer um palavrão, mas desta vez usou uma
expressão menos convencional. No mesmo instante soltou um gemido de dor, pôs a mão
na cabeça e sentou numa cadeira.
Dois médicos cuidaram dele e das pessoas inconscientes. O Major Hafgo esperou
pacientemente até que as pessoas narcotizadas estivessem deitadas em posição mais ou
menos confortável. Só depois disso voltou a fazer uso da palavra. Hognar não disse nada.
Para ele um mundo desmoronara. O ataque destruíra suas idéias otimistas sobre a
fidelidade política dos desterrados.
Hafgo caminhou cautelosamente entre as pessoas inconscientes e parou a certa
distância de Kelo Kontemer.
Os olhares dos dois cruzaram-se.
— Belo trabalho, major — disse Kontemer com uma calma espantosa. — Meus
cumprimentos. O senhor gosta de atirar em pessoas indefesas? Acho que isso pertence ao
programa de treinamento da Guarda Azul de Plofos.
Hafgo não perdeu a calma. Voltou a guardar a arma. Quando começou a falar, deu a
impressão de ser ainda mais perigoso que Konta Hognar.
O grau de inteligência dos dois era mais ou menos o mesmo. Acontece que Hafgo
era mais duro e estava menos impregnado das concepções idealistas do chefe da base.
— Ora essa, professor! Até parece que o senhor não sabe avaliar a situação. Se não
tivéssemos atirado, esta gente estaria morta. Graças à medida que tomei no intuito de
protegê-los, deverão despertar dentro de meia hora, quando então só nos restará fazer
votos de que esqueçam o incidente.
— Não venha me dizer que acaba de fazer um benefício aos meus colegas. Até
parece que lhes proporcionou um sono reparador — esbravejou Kontemer.
O Major Merl Hafgo voltou a sorrir.
— O senhor me tirou as palavras da boca. Um dia o senhor ainda vai reconhecer
que realmente agi em benefício de seus colaboradores. Afinal, meus homens poderiam ter
atirado com armas térmicas, não é mesmo? Por que acha que dei ordem para que as
armas mortíferas fossem substituídas por pistolas narcotizantes?
— O senhor agiu por iniciativa própria — gritou Hognar, que já recuperara as
energias. — Não me recordo de ter dado qualquer ordem neste sentido. Por que resolveu
substituir o armamento do grupo que estava sob seu comando?
Hognar levantou-se. Parecia nervoso. De repente Kontemer sentiu-se dominado
pelo pânico e reconheceu que naquele momento Hognar se transformara num fanático
implacável.
O Major Hafgo virou-se e ficou em posição de sentido.
— Viva o grande Hondro, senhor — respondeu sem levantar a voz. — Julguei mais
conveniente aos interesses plofosenses não matar nossos cientistas mais importantes.
Precisamos do canhão conversor, senhor.
Kontemer olhava ora para Hafgo, ora para o comandante. Hognar apoiava-se com
ambas as mãos sobre uma mesa. Estava na hora da refeição. As comidas não tinham sido
tocadas. A revolta irrompera espontaneamente. De repente alguém golpeara os guardas
de plantão. Outros deixaram-se arrastar pelos acontecimentos. Kontemer reprovava este
procedimento, que perturbava seus planos.
Os olhos de Hognar pareciam chispar fogo.
— Major Hafgo, quero que o grupo comandado pelo senhor seja equipado
imediatamente com armas energéticas eficientes. Qualquer elemento que não seja digno
de confiança será fuzilado imediatamente. Prepare uma mensagem circular. Entendido?
— E o programa do canhão conversor? — objetou Kontemer.
— Faça o favor de ficar quieto! — gritou Hognar, fora de si. — Não tolero nenhum
ato de insubordinação.
— O senhor é um assassino! — disse uma mulher de meia idade, que estava de pé
ao lado de Kontemer e olhava para o chefe de segurança. — Isso mesmo, é um assassino!
Conheço cerca de trinta pessoas que precisam receber nos próximos seis dias sua injeção
de antídoto. Dispõe do mesmo nesta base? De forma alguma! Não possui uma única
ampola da substância neutralizante. Quer dizer que todas as pessoas que trazem o veneno
em suas veias terão uma morte miserável. Entre estas pessoas estão alguns cavalheiros
pertencentes à Guarda Azul.
A mulher deu uma risada histérica. Seu rosto estava marcado pelo desespero.
Hognar voltou a baixar a arma, que levantara instintivamente. Revelou um espantoso
autodomínio. Voltara a ser o estrategista que sabia perfeitamente que uma objeção desse
tipo não poderia ser abafada a gritos.
O Major Hafgo voltou para junto dos seus soldados. Uma vez lá, fez meia-volta.
Hognar fitou-o com uma expressão nervosa. De repente Kontemer começou a falar:
— O senhor só pode estar louco. O senhor e todos os idiotas que querem manter-se
fiéis a um ditador deposto. A espaçonave que esperam não virá! Se ainda tiver um pouco
de decência e sentimento humano, entre em contato imediatamente com a central de rádio
terrana de Plofos e solicite o envio de um cruzador ligeiro do Império com o
medicamento. Eu...!
O tiro narcotizante disparado por Hognar fez com que Kontemer caísse ao chão,
inconsciente. O rugido do tiro perdeu-se na sala.
— Temos o dever de agüentar enquanto nos restar uma centelha de vida — disse
Hognar em meio ao silêncio. — Hondro é grande! Amanhã, o mais tardar, chegará seu
comando especial com o antídoto. Quero que saibam que meu prazo de incubação
terminará dentro de vinte e cinco horas. Se a morte exigir suas vítimas por aqui, serei o
primeiro exemplo. O planeta Última Esperança não pode ser mais uma vítima do
expansionismo do Império.
— Não enquanto estivermos vivos — acrescentou o Major Hafgo. —
Providenciarei para que isso não aconteça. Meu prazo só termina dentro de quinze dias,
tempo padrão. Depois de mim virão homens íntegros, que não se deixarão influenciar por
uma simples injeção protetora. O projeto do canhão conversor tem de ser levado avante.
Temos de fazer sacrifícios. É nosso dever. Hondro é grande!
A mulher de meia idade ajoelhou-se ao lado de Kontemer e apoiou a cabeça do
cientista nos braços.
— Vá embora, monstro — disse Arin Montan, a matemática mais competente de
Plofos. — Vá, antes que sua presença me dê náuseas. Duzentas pessoas terão de morrer.
— Serei o primeiro — gritou Hognar.
— Se quiser, saia correndo à frente dos outros, seu psicopata. Já não sabe o que está
dizendo. Eu o perdôo.
Hognar saiu cambaleante. Os homens da Guarda Azul permaneceram imóveis. O
Major Hafgo não deixou que os acontecimentos o impressionassem.
— Madame, a senhora não deveria ter sido tão violenta nos seus ataques — disse
num tom que quase chegava a ser amável. — Konta Hognar é um homem admirável.
Cumprirei sua ordem, equipando as unidades sob meu comando com armas energéticas,
Peço-lhe encarecidamente que se abstenha de qualquer ato precipitado. A senhora é
matemática, não é? Pois bem, neste caso deve ser capaz de calcular que mesmo depois do
falecimento de duzentas pessoas que receberam a injeção do veneno ainda restará uma
força de trabalho especializada bastante numerosa para completar o projeto de construção
do canhão conversor. Do ponto de vista objetivo, não há necessidade de revelar a posição
deste planeta. Se dos oitocentos e onze cientistas que se encontram neste centro de
pesquisa setecentos tivessem recebido a injeção de veneno, eu mesmo não teria a menor
dúvida de mandar expedir a mensagem, pois neste caso o prosseguimento de nosso
programa vital se tornaria impossível. Mas na situação em que nos encontramos o mesmo
ainda pode ser levado avante. Hondro é grande!
O Major Merl Hafgo despediu-se, colocando o dedo no rádio-capacete, e retirou-se.
Ouviram-se vozes de comando. Os soldados da Guarda Azul retiraram-se. Não houve
nenhuma prisão.
Arin Montan chorou. Lá fora Hafgo encontrou-se com seu superior. Konta Hognar
estava encostado à placa de aço de uma escotilha de segurança e lançava os olhos pelo
comprido corredor.
— O senhor ouviu com que nome ela me brindou, Major Hafgo? — perguntou com
a voz débil. — O senhor ouviu? Não sou nenhum psicopata. Faço tudo que está ao meu
alcance para cumprir meu dever. Se necessário, teremos de recorrer à intimidação. Hafgo,
posso confiar no senhor?
— O senhor ouviu o que eu disse à dama.
Hognar confirmou com um gesto. Havia manchas vermelhas em seu rosto.
— Excelente, excelente mesmo! Neste ato nomeio-o meu sucessor. Major Muting, o
senhor ouviu minha ordem?
Muting aproximou-se e fez continência. Era um homem alto e esbelto de cabelos
louros.
— Entendido, senhor.
— O senhor também recebeu uma injeção do veneno, não recebeu?
— Recebi, sim senhor. Meu prazo termina antes do de Hafgo. Ele terá de procurar
um bom comandante. Se necessário, algum subalterno terá de assumir o posto. O que
importa é somente sua lealdade e seu estado de saúde.
Hognar alisou o cabelo, assumiu a postura rígida que lhe era peculiar e olhou em
torno. O brilho de seus olhos apagara-se quase por completo.
— O planeta Última Esperança pode ser defendido. Hafgo, inicie imediatamente a
mudança de armamento de sua tropa. Retiro a repreensão que formulei contra o senhor.
Foi preferível não reprimir o primeiro motim com armas térmicas. O senhor agiu
equilibradamente. Mas daqui em diante devemos ser mais duros para com os traidores
que se encontram entre nós. Seus homens já possuem o novo armamento, Major Muting?
— Desde que Traut fugiu, senhor.
— Ah, sim, Traut. Seus restos mortais ainda não foram encontrados?
— Nossas máquinas estão vasculhando a superfície do planeta há mais de sessenta
horas, senhor — respondeu Hafgo. — O veículo-tartaruga desapareceu sem deixar o
menor vestígio. Nossos veículos de esteira também não encontraram nada. Os rastros
produzidos pelas esteiras do veículo de Traut terminam exatamente na trilha de um
marcha-forte. Certamente o veículo de Traut foi esmagado pelo monstro e depois
transformado em energia. As filmagens realizadas pelos pilotos mostram perfeitamente
um marcha-forte que cruzou a rota de Traut. Os cálculos de probabilidade indicam com
uma segurança de cem por cento que Traut deve ter saído de trás de uma formação
rochosa que impedia sua visão no momento em que o monstro se aproximava.
Provavelmente Traut não teve tempo para desviar-se do mesmo. Foi atingido pelo
destino, senhor. Traut, Shelo Bontlyn e Eve Narkol estão mortos.
— Estão mortos — repetiu Hognar que nem um autômato. — Vou deitar um pouco.
Cuidem para que a paz e a ordem reinem por aqui, senhores.
Os dois oficiais fizeram continência. Eson Muting cochichou para seu colega:
— O senhor conhece minhas idéias, Hafgo. Nunca duvidei do destino grandioso de
Plofos, mas nesta altura acho que deveríamos pensar numa rendição em condições
razoáveis e honrosas.
O rosto de Hafgo assumiu uma expressão mais dura. Seus olhos arregalados
pareciam fitar um ponto situado atrás de Muting.
— O senhor disse alguma coisa?
Muting ficou nervoso. Olhou em torno, apavorado.
— O senhor me interpretou mal. Eu disse que poderíamos pensar numa rendição
honrosa.
— Ah, pensar. O senhor se exprime de forma muito cautelosa, Muting, mas quase
chega a cometer um ato de alta traição. Como a situação é bastante tensa, quero ser
generoso e esquecer o que o senhor acaba de dizer. Afinal, o senhor ainda dispõe de cerca
de oito dias, não é mesmo?
Muting cerrou os lábios. Os soldados da Guarda Azul que se encontravam por perto
mantinham uma disciplina férrea. Ninguém fez qualquer observação, mas por outro lado
não havia ninguém que nunca fosse capaz de ler os pensamentos desses homens. Além de
Hafgo, Muting e do comandante Hognar havia mais trinta e uma pessoas intoxicadas
entre os membros da Guarda Azul.
O Major Hafgo fitou seus homens.
— Será que os senhores não têm nada a fazer? — perguntou em tom gelado. —
Façam o favor de dirigir-se ao arsenal para trocar as armas narcotizantes por armas
energéticas.
O tenente da patrulha gritou algumas ordens. Os jovens saíram marchando.
— O senhor ainda não conseguiu convencer-me, Hafgo — disse Muting em voz
baixa. — Não sei se o programa do canhão conversor realmente ainda será exeqüível
depois que duzentos dos nossos cientistas mais importantes tiverem morrido.
— Depois que tiverem tombado, Major Muting! Tombado por Plofos. Percebe a
diferença sutil que existe entre suas idéias e as minhas?
Alguém deu uma risada estridente. O comandante Konta Hognar apareceu de
repente, saindo de um corredor lateral. Seu rosto parecia tenso. Ouvira a discussão.
— Não me sinto muito bem, Hafgo — confessou; fungando fortemente. — Neste
momento passo o comando ao senhor. Quanto ao senhor, Muting, faça o favor de não
esquecer o juramento que prestou. Farei como se não tivesse ouvido seu deslize. Fui
ofendido: alguém disse que sou um psicopata. Resolvi ser tolerante tão-somente porque
sei que não sou nenhum louco. Sou um grande homem — não, Hondro é grande!
Hognar saiu cambaleando, apoiado por dois robôs médicos. Os dois oficiais
seguiram-no com os olhos sem dizer uma palavra.
— Está liquidado — cochichou Hafgo. — Sinto muito, Muting, mas sou mais
antigo no serviço que o senhor. Logo, terá de obedecer às minhas ordens. Poderei confiar
no senhor? Hondro encontrará um meio de levar o antídoto ao planeta Última Esperança.
Sabe perfeitamente que nosso programa de pesquisas é de importância vital, inclusive
para ele. Quer aceitar a lógica da minha explanação?
Muting confirmou com um gesto.
— Está bem. No momento seu estado de espírito não me interessa. Tenho certeza de
que não estarei condenando ninguém à morte se deixar de transmitir o pedido de socorro.
Hondro já deve ter enviado uma espaçonave com o medicamento a bordo. Afinal o
planeta Última Esperança é sua base mais importante.
— É o que o senhor pensa.
— O quê? Será que o senhor acredita que existem outros planetas secretos, nos
quais estão sendo desenvolvidos projetos importantes?
— Exatamente, senhor.
Hafgo saiu andando. Sem virar a cabeça, disse em voz alta, para que Muting
pudesse entendê-lo:
— Pois pense o que quiser. O planeta Última Esperança será defendido. Custe o que
custar! Se fosse o senhor, procuraria esquecer o que acaba de dizer. Entendido, Major
Muting?
***
O nome do técnico de hiperfreqüências que estava de plantão era Carie Manchun.
Não portava o veneno em suas veias, mas estava convencido de que era necessário
transmitir o pedido de socorro. Provavelmente Carie Manchun teria revelado a posição
galáctica do planeta, se pudesse chegar à sala do transmissor.
Shelo Bontlyn dera início à revolta. Miles Traut a forçara com as medidas por ele
adotadas, e homens como Kelo Kontemer arriscavam a vida para levar avante o que tinha
sido iniciado.
Há horas o técnico Manchun refletia sobre como convencer os oficiais mais
importantes da Guarda Azul de que era muito importante expedir uma mensagem de
hipercomunicação para Perry Rhodan.
As 13:11 horas, tempo da base, abandonou as tentativas de encontrar argumentos
convincentes. Dali a um minuto os transmissores deram um sinal. O símbolo do chefe
supremo apareceu nas telas. Só ficou visível por dois segundos. A potência do
transmissor era muito reduzida.
Dali a mais um minuto Carie Manchun recebeu uma mensagem codificada, que
além do mais era tão fortemente condensada que só pôde ser ouvida durante um décimo
de segundo.
Manchun ligou o decodificador. No mesmo instante chamou a central do serviço de
segurança. O Major Hafgo foi o primeiro a comparecer à estação de rádio. Depois dele
vieram o Major Muting e dois tenentes.
Às 13:30 horas o texto da mensagem tinha sido decifrado. Os decifradores
positrônicos foram parando lentamente. Hafgo pegou a fita com a mensagem. Seu rosto
permaneceu impassível. Assim que terminou a leitura da mensagem, dirigiu-se sem
maiores explicações à sala de transmissão de mensagens internas. Manchun recebeu
ordem para ligar a ampliação, colocar o microfone à frente da boca de Hafgo e a
empurrar a chave-mestra que acionava os alto-falantes instalados em toda parte.
O substituto do comandante da base, que estava doente, começou a falar.
— Major Merl Hafgo chamando todos os ocupantes da base. Acabamos de receber
uma mensagem de hipercomunicação que anuncia a chegada de Iratio Hondro a este
planeta. O chefe supremo comunicou, que há um número suficiente de injeções
neutralizadoras a bordo de sua nave para abastecer a guarnição do planeta Última
Esperança por vários anos. Os receios manifestados por algumas pessoas são infundados.
O chefe supremo chegará ao planeta Última Esperança dentro de dez horas. Repito...!
Quando entregou o texto decifrado a Muting, o Major Hafgo ainda estava falando.
Muting leu. Depois ficou em posição de sentido.
— Estou inteiramente à sua disposição, senhor — disse assim que Hafgo concluiu a
segunda leitura.
— Pois então! Ninguém deve duvidar das declarações das pessoas que conhecem o
chefe supremo há vários anos.
***
O professor Kelo Kontemer empalideceu. Todo mundo tinha ouvido a notícia.
Kontemer lembrou-se de seu plano. A revolta que nem começara direito tinha chegado ao
fim. Se Hondro aparecesse pessoalmente e fizesse uma distribuição generosa das injeções
neutralizadoras, o motivo básico da resistência teria desaparecido.
Kontemer olhou para os outros homens e mulheres que da mesma forma que ele
tinham despertado há pouco menos de uma hora da narcose produzida pelas armas de
choque. Todos baixaram os olhos.
Kontemer deu uma risada amarga. As pessoas atingidas pelas armas de choque
ainda se encontravam no refeitório número três.
— Iratio Hondro é o diabo mais astuto que existe na Galáxia. Imaginou o que
aconteceu por aqui, ou o que ainda poderia acontecer. Provavelmente todos estão
perfeitamente tranqüilos, não estão? Por enquanto sua preciosa vida parece estar salva.
No entanto, quero dar-lhes um bom conselho. Aguardem para ver se o chefe realmente
tem o antídoto a bordo de sua nave. Se Hondro fugiu apressadamente, conforme afirmam
Perry Rhodan e o chefe do serviço secreto de Plofos, ele certamente não teve tempo para
colocar o antídoto destinado à guarnição do planeta Última Esperança a bordo de sua
nave. Ao fugir, Hondro tinha outras preocupações. Quanto a isso, não tenham a menor
dúvida. Mas de outro lado possui bastante inteligência e experiência para saber o que está
acontecendo neste mundo. Se não dermos nosso golpe antes que ele chegue com sua
tropa de elite, estaremos perdidos. Aposto qualquer que não tem uma única injeção a
bordo de sua nave. A mensagem não passa de um truque.
Kontemer falara em tom insistente. Ninguém deu atenção aos três guardas parados
junto à porta, que tinham as armas engatilhadas. Eles se limitavam a acompanhar os
acontecimentos. O Major Hafgo já não levava a sério as falas revolucionárias. Para ele a
única coisa que importava eram os fatos.
— Desista, caro amigo, desista — pediu a matemática Arin Montan em tom
cansado. — O senhor está falando para uma parede. Somos cientistas e não estamos
acostumados a enfrentar a morte.
Os três homens da Guarda Azul sorriram.
— A comida está esfriando — advertiu um sargento. — Quantas vezes ainda
teremos de requentá-la?
Kontemer compreendeu que tinha perdido. Amargurado, sentou ao lado de Arin
Montan.
***
O Major Merl Hafgo tentou receber a chave de impulsos da sala do transmissor
principal das mãos do comandante que adoecera. Hognar recusou-se a entregá-la, embora
o major tivesse feito tudo para convencê-lo de que era muito importante informar o chefe
supremo antes de sua chegada sobre as condições reinantes no planeta Última Esperança.
Depois de algum tempo Hognar sacou a arma e ameaçou Merl Hafgo com a mesma.
O major retirou-se. Um médico confirmou que o comandante da base estava prestes a
sofrer uma crise psíquica.
No momento em que Kontemer fazia sua alocução no interior do refeitório número
três, Hafgo entrou na sala do pequeno transmissor da segurança. O oficial de plantão era
o Tenente Batengo, que se levantou e ficou em posição de sentido.
— Entre em contato imediatamente com os pilotos e motoristas de nossos
comandos de buscas — ordenou Hafgo em tom lacônico. — Os planadores e os veículos-
tartaruga deverão voltar imediatamente à base. Não podemos dar-nos mais ao luxo de
usar uma tropa em boas condições de combate para procurar os restos mortais de três
pessoas. Avise os comandantes das patrulhas pelo hiper-rádio de que o chefe supremo
chegará dentro de dez horas. Os condutores dos veículos deverão tentar chegar aqui antes
disso.
O Major Hafgo esperou que os diversos comandantes confirmassem o recebimento
da ordem.
Os veículos aéreos começaram a voltar dali a meia hora. Suas tripulações estavam
exaustas e aborrecidas. Os três veículos-tartaruga correram à velocidade máxima para o
norte. Os comandantes das patrulhas sentiam-se satisfeitos por escapar ao inferno do
planeta Última Esperança.
9

Correu o mais que pôde. Os passos titânicos fizeram-no percorrer quilômetro após
quilômetro, mas nem assim conseguiu escapar ao destino.
O movimento de rotação do planeta transportou-o cada vez mais para o leste, até
que o sol vermelho Bolo desapareceu atrás da linha do horizonte ao oeste. Lutou mais
trinta minutos contra a escuridão e a tempestade, irradiando os remanescentes de suas
reservas de energia térmica para o vácuo da face noturna do planeta. Depois disso seu
corpo endureceu.
O corpo imóvel do marcha-forte jazia entre a rocha nua, que só de vez em quando
apresentava alguns sedimentos cristalinos. A cauda gigantesca erguia-se para o céu que
nem um dedo acusador. Era uma coluna de material de blindagem dura como aço, que até
então nenhum ser humano conseguira analisar.
As criaturas humanas que se encontravam sobre o corpo entrecortado do monstro
não tinham nenhum interesse em qualquer tipo de experiência científica. Ao menos
naquele momento.
Os campos elétricos de interferência desapareceram. Todos os aparelhos
funcionavam satisfatoriamente. As temperaturas reinantes na face noturna do planeta
Última Esperança ficavam em torno de cento e oitenta graus centígrados negativos. Por
ali qualquer ser vivo enrijeceria, a não ser que possuísse alguma proteção técnica contra a
inclemência da natureza.
Fazia dez minutos que Shelo Bontlyn tinha recebido a mensagem de
hipercomunicação expedida pelo substituto do comandante da base. Do texto da mesma
depreendia-se que os homens acreditavam que o veículo-tartaruga em que viajava Traut
tinha sido destruída e que seus ocupantes estavam mortos. Além disso ficaram sabendo
que o chefe supremo chegaria ao planeta Última Esperança dentro de dez horas.
Miles Traut não perdeu tempo. Imaginava perfeitamente o que significava o
anúncio da carga trazida pela nave para as pessoas desesperadas que se encontravam no
centro de pesquisa. Provavelmente Hondro afirmara numa mensagem condensada que
estava em condições de salvar as pessoas intoxicadas. Era o que Miles esperava, pois
conhecia Iratio Hondro.
Os motores do veículo-tartaruga voltaram a zumbir. Miles fez o mesmo virar sem
sair do lugar. As sapatas penetraram no corpo do marcha-forte, encontraram apoio e
movimentaram o veículo. As pontas irreais da blindagem da criatura saíram do campo de
visão. As telas frontais mostraram os contornos da paisagem. A estação polar ficava a
cerca de trezentos quilômetros de distância. O marcha-forte mantivera-se exatamente na
trajetória preestabelecida. Dessa forma a distância real para a base não aumentara. O
veículo apenas mudara de posição.
O veículo-tartaruga passou ruidosamente pelo corpo do marcha-forte, alcançou a
excrescência em forma de rampa e desceu para o solo. Os últimos vinte metros caíam
num ângulo de aproximadamente quarenta e cinco graus.
As rodas propulsoras dianteiras bateram fortemente numa formação rochosa,
tirando o carro definitivamente de cima do monstro.
Os dois homens e a moça permaneceram calados por alguns minutos, até que Miles
fizesse parar o veículo.
As telas de popa reproduziam os contornos luminosos da mais estranha criatura viva
que já fora vista.
— Muito obrigado, meu chapa, muito obrigado mesmo! — disse Traut para si.
Finalmente sorriu. — Quem sabe se um dia não poderemos ajudá-lo em alguma coisa?
Olhou para Eve. Esta parecia mais estreita. Seu rosto retratava as canseiras das
últimas sessenta horas.
Shelo pensava de forma mais prática que seu amigo. Suspirou, recostou-se no
assento e disse:
— Respeito a simpatia que você sente pela criatura que nos salvou a vida, mas
gostaria de saber como continuarão as coisas. Acho que a potência de seu rifle de cano
duplo não basta para derrubar uma nave.
Miles não respondeu. Acelerou o veículo. Dali a instantes o veículo-tartaruga corria
em ângulo reto em relação ao rastro perfeitamente reconhecível do marcha-forte.
Mais uma vez Miles fazia o veículo correr numa velocidade que quase chegava a
ser irresponsável. Seguia diretamente para o norte. Quanto a isso não havia nenhuma
dúvida. Tudo dependia de que deixassem para trás quanto antes a cadeia das montanhas
cônicas. Atrás dela começava o deserto de pedras relativamente plano, que permitia
velocidades ainda mais elevadas.
Shelo controlou-se até que os topos das primeiras montanhas aparecessem no
horizonte. O centro da Via Láctea com seus bilhões de estrelas estava muito próximo, e
assim havia bastante luz para que se reconhecessem os acidentes do terreno. Não era
necessário ligar o farol infravermelho, fácil de localizar com os rastreadores.
Duas horas depois do início da viagem Miles atingiu os contrafortes da cadeira de
montanhas. Parou e procurou o respectivo mapa de posição. Qualquer veículo-tartaruga
possuía o mesmo.
— Precisamos seguir pelo desfiladeiro das lagartas — disse para si. — Fica aqui. —
Bateu com o dedo indicador no mapa. — Trata-se de uma passagem sinuosa entre as
montanhas e, segundo diz o mapa, é fácil de atravessar. Resta saber se deixaram guardas
por lá.
— Três veículos participavam das buscas — disse Shelo. — Os veículos voadores
certamente já pousaram no interior da base. Provavelmente os veículos-tartaruga da
Guarda Azul não abandonaram a face diurna. Das inúmeras mensagens de rádio que
foram trocadas depreende-se que os comandantes receberam ordem para procurar nossos
restos mortais. Você poderá atravessar o desfiladeiro sem problemas.
— Tomara — disse Eve. — Para mim já chega. Nunca esquecerei a aventura que
tivemos com o marcha-forte.
— Será que posso perguntar o que faremos daqui em diante? — perguntou Shelo,
dirigindo-se ao técnico de armamentos. — Pelo que conheço você, já deve ter um plano.
Então...?
Miles comprimiu os botões da embreagem das esteiras. O veículo saiu rolando em
direção ao desfiladeiro.
— Não tenho nenhum plano — respondeu Miles depois de algum tempo. —
Excepcionalmente não tenho. Estamos isolados por aqui. Se Kontemer ainda não tomou
nenhuma providência, só nos restará voltar ao marcha-forte e fazer votos de que ainda
não tenha acordado.
— Não tem nenhum plano? — repetiu Bontlyn, espantado. Levantou-se apavorado
e inclinou o corpo. — Não é possível. Hondro deverá chegar dentro de oito horas.
— Será que você quer que eu ataque uma espaçonave com uma arma de fogo
primitiva e duas pistolas narcotizantes? Ou acha que devemos parar e perguntar ao Major
Hafgo a que ponto chegou Kontemer? Esperemos! Tenho certeza de que haverá um
momento favorável. Se Hondro não chegar com um número suficiente de injeções
neutralizadoras, a situação mudará dentro de alguns segundos.
Shelo ficou calado. Estava refletindo sobre a competência do chefe supremo. O
veículo-tartaruga subiu pela estrada que dava para o desfiladeiro. Os rastreadores não
mostraram nenhuma reação. A face noturna do planeta estava vazia e sem vida.
Levaram quase duas horas para atravessar as montanhas cônicas. Depois disso
entraram numa ampla planície.
Depois de mais três horas a primeira luminescência destacou-se no horizonte. Era o
lugar em que começava a área de penumbra com suas tormentas. Miles voltou a
perguntar-se como era possível que num mundo em que os remanescentes atmosféricos
eram tão rarefeitos houvesse tamanha turbulência.
Traut reduziu a velocidade. Estavam chegando cedo demais.
— Este é o Dragão Sentado — disse Shelo de repente, apontando para a tela frontal.
— Os contornos são inconfundíveis. E agora?
Miles parou um instante e desligou o reator energético. Só o dispositivo de
calefação continuava a funcionar. Olhou para o relógio.
— Hondro será pontual. É uma de suas características. Ainda temos pouco menos
de três horas. Vamos comer alguma coisa?
— Comer numa hora destas? — perguntou Shelo, um tanto desesperado. — Não
posso pôr nada na boca.
— Azar seu. Conheço uma depressão em forma de grota situada ao leste da base,
onde ninguém nos localizará. Aliás, por lá devem ter outros problemas e certamente não
estão interessados em observar o ambiente hostil. Da grota que acabo de mencionar vê-se
o campo de pouso. Dali não é muito longe para a entrada leste. Vamos aguardar.
Miles saiu do assento do motorista e espreguiçou-se. Eve notou que os traços de seu
rosto se tornaram mais duros. Miles Traut, engenheiro de superarmas, estava decidido a
jogar todos os trunfos numa só cartada.
Eve comprimiu a chave do aquecedor automático de três conservas. Miles pegou
seu rifle.
Os dois canos paralelos eram de aço leve, com elevado grau de resistência à pressão
e à torção. A parte dianteira era muito curta, a tal ponto que dificilmente a mão esquerda
encontraria apoio na mesma.
Em compensação o cabo de pistola que servia de coronha tinha sido muito bem
moldado com massa plástica. Os dois gatilhos, que faziam detonar o cartucho por meio
de um estilete, tinham de ser armados antes do tiro. Miles preferira não acoplar os canos
dobráveis com um dispositivo de armação automática. Na verdade, abstivera-se de tudo
que pudesse tornar a arma mais complicada. O importante era que a arma pudesse
disparar a qualquer momento — e isso Traut garantia.
Como não tivera possibilidade de fazer um ajuste preciso dos canos, para obter um
campo de tiro uniforme, colocara uma mira e um entalhe em cada um deles. Dessa forma
as prováveis inexatidões na ligação dos canos não tinham nenhuma importância. Seriam
catastróficas se o construtor tivesse optado por uma única linha de tiro.
O peso do projétil de cobre maciço de 12 milímetros de diâmetro era de 34,2
gramas. Miles guiara-se por certas indicações históricas e, do ponto de vista prático,
construíra uma espingarda de matar elefantes.
Dobrou os canos para baixo e enfiou dois cartuchos compridos nas câmaras de tiro.
Shelo observou-o um pouco tenso. Bontlyn, um técnico de hiperfreqüências muito
competente, sentia-se fascinado pela imitação de uma arma antiqüíssima.
— E estranho que nossos antepassados pudessem fabricar uma coisa destas — disse
em tom pensativo. — Não eram nada bobos, não acha?
Miles deu uma risada.
— Certamente não eram, do contrário a esta hora não estaríamos aqui. Outra
pergunta. Acho que você concorda comigo em que o cobre não se inclui na classe dos
metais sujeitos a influências magnéticas.
Shelo estreitou os olhos. Eve esqueceu-se de esvaziar a conserva aquecida.
— Sem dúvida. Por quê?
Traut voltou a colocar os canos na posição original. Ouviu-se um forte clique. Outro
clique se fez ouvir quando Miles armou os gatilhos.
— Por nada, meu chapa, por nada.
Dali a uma hora o veículo-tartaruga saiu rolando.
Os motores quase não produziam nenhum ruído. Miles contornou as encostas leste
do Dragão Sentado e mergulhou na depressão.
A arma estava guardada no banco do meio.
1O

O Major Merl Hafgo ficou em posição de sentido à frente da objetiva da pequena


estação de rádio. A tela mostrava o rosto de um homem baixo e de ombros largos. Iratio
Hondro chamara com a precisão de um minuto. Antes disso os rastreadores já haviam
detectado a presença da pequena espaçonave. A mesma descrevia uma órbita estreita em
torno do planeta Última Esperança.
O chefe supremo deposto do império plofosense avançara em vôo linear direto até o
sistema do sol Bolo. Uma vez concluída a manobra de penetração, entrara em contato
com a estação de rádio.
Hafgo contemplava o rosto anguloso como quem se encontra diante de um ser
dotado de poderes sobrenaturais. Nos últimos dias os cabelos crespos de Hondro se
tinham tornado bastante grisalhos. Apesar disso um fluido de força e arrojo parecia
emanar desse homem.
— Mande sair seus subordinados, major — disse uma voz saída do alto-falante.
— Isso já foi feito, senhor — respondeu Hafgo.
Continuou em posição de sentido. O chefe supremo sorriu.
— Muito bem, Hafgo. O senhor deve ter tido seus motivos. Informe sem rodeios.
As notícias de Plofos foram captadas no planeta Última Esperança?
— Foram, sim senhor. Houve tumultos, mas consegui reprimir os mesmos. O
comandante da base, Konta Hognar, adoeceu.
A seguir Hafgo relatou os incidentes das últimas setenta horas. Não esqueceu
nenhum detalhe. Concluiu da seguinte forma:
— Sua mensagem trouxe certo alívio, senhor. A Guarda Azul do planeta Última
Esperança mantém o controle da situação. Permite uma observação confidencial,
senhor...?
O rosto de Hondro parecia uma máscara. Merl Hafgo imaginava que sua nave
contornava o planeta com os canhões prontos para disparar.
— Pergunte à vontade. A situação não permite evasivas.
— Quantas ampolas do medicamento neutralizante realmente tem a bordo, senhor?
Ou... — Hafgo hesitou — será que não conseguiu levar nenhuma?
— O senhor é um oficial muito competente, major — respondeu o chefe supremo
com a maior calma. — Descobriu que tive de partir às pressas? Neste caso poderá
imaginar que não tive tempo para ir ao meu depósito secreto. Dependo exclusivamente
das reservas que já se encontravam a bordo desta nave. Posso dispensar cinqüenta doses,
no máximo, Major Hafgo. Devo confessar que a alusão a uma quantidade ilimitada de
injeções não passou de uma manobra estratégica. Imagino perfeitamente o ambiente de
desespero reinante no planeta Última Esperança. Mas o senhor vê que apesar disso não
esqueci meus fiéis seguidores deste mundo. Cinqüenta doses bastam para resolver as
dificuldades do momento. Duas naves foram enviadas especialmente para trazer novos
suprimentos. Por enquanto ainda estou no poder.
— Quanto a isso não tenho a menor dúvida, senhor — disse o major num tom que
quase chegava a ser devoto. — Só mantive a base do planeta Última Esperança porque o
projeto do canhão conversor está prestes a ser concluído. Dentro de quinze dias, tempo
padrão, poderei entregar os primeiros canhões em condições de serem usados em
combate.
O rosto de Hondro aumentou de tamanho. Inclinou-se para a frente.
— Estava para pedir informações sobre isso. Quais são as sugestões que o senhor
pode apresentar? Quando termina seu tempo de incubação?
— Ainda faltam treze dias, senhor. Peço que esqueça este ponto. Minha vida não é
importante. O que importa é somente a causa. Gostaria de pedir-lhe que fornecesse o
medicamento exclusivamente aos nossos cientistas. Fiz uma lista das pessoas cujo prazo
termina dentro de algumas horas. Acho que é recomendável fornecer o remédio em
primeiro lugar que em virtude de um risco de vida imediato têm uma tendência maior
para os atos inspirados pelo pânico. Desta forma poderemos sufocar a centelha da
resistência. Pelo menos por enquanto. Os membros da Guarda Azul que receberam a
injeção são discretamente vigiados por homens de confiança. No interesse de nosso
mundo de origem, que depende do canhão conversor, sugiro que nenhum membro da
tropa seja contemplado. Os cientistas devem ter preferência.
Iratio Hondro permaneceu calado por algum tempo. Desligou o som e conversou
com alguém que Hafgo não via. Depois de algum tempo o alto-falante voltou a emitir um
estalo.
— Major, sinto-me bastante impressionado por sua atitude franca e leal. O senhor
será o único oficial que receberá uma ampola para prevenir qualquer eventualidade. Não
veja nisso um favor especial. Neste ato o senhor é investido nas funções de coronel da
Guarda Azul e comandante da base do planeta Última Esperança. Chame seu pessoal para
a sala de rádio.
Hafgo obedeceu. O Major Muting, o Tenente Batengo e mais dois oficiais entraram.
Hondro dirigiu-lhes a palavra em tom de comando.
— Agradeço por sua ação desinteressada. As injeções serão aplicadas assim que
minha nave pousar. O Major Hafgo foi promovido ao posto de comandante da base. O
Comandante Konta Hognar, que adoeceu, deve ser colocado num lugar seguro. Coronel
Hafgo, apodere-se da chave de impulsos antes que esse doente mental faça uma
bobagem.
Hondro fez um gesto de cumprimento e desligou. Muting deu os parabéns ao novo
comandante. Hafgo limitou-se a acenar com a cabeça.
Dali a dez minutos entrou no quarto de Hognar, acompanhado de um comando
formado por oficiais. Antes que Hognar compreendesse o que estava acontecendo, foi
agarrado e seguro sobre a cama.
Hafgo abriu o uniforme de Hognar e pegou a chave automática.
— Sinto muito, senhor. Fui nomeado comandante por ato do comandante supremo.
Neste momento o chefe supremo está pousando no planeta.
Hognar choramingou e caiu nos travesseiros. Um médico aplicou-lhe uma injeção
de calmante.
Depois disso o coronel Hafgo fez um discurso para os cientistas. Leu os nomes de
cinqüenta pessoas que receberiam a injeção de droga neutralizante antes dos outros. O
professor Kontemer e Arin Montan estavam entre estas pessoas.
— Dirijam-se em grupo ao refeitório número três. Receberão imediatamente a
injeção. Como vêem, seus receios eram infundados. As outras pessoas que receberam a
injeção de veneno receberão o antídoto nos próximos dias, antes que termine seu prazo.
Hafgo desligou. No momento em que uma espaçonave esguia descia da escuridão
do espaço e iniciava a operação de pouso com os propulsores chamejantes, o Coronel
Hafgo estava à espera na eclusa principal. Usava seu uniforme de gala.
Antes disso convocara os duzentos e trinta homens intoxicados da Guarda Azul. Ele
e Konta Hognar ocupavam os números trinta e três e trinta e quatro da lista.
Quando o rugido dos propulsores diminuiu e os abalos do solo cessaram, Hafgo
disse em tom indiferente:
— Minha gente, receberemos a injeção depois dos cientistas. Exijo disciplina.
Qualquer ordem minha deverá ser cumprida imediatamente.
Hafgo fitou os homens um após o outro. Entre os condenados da morte estavam
todos os oficiais e pessoas mais graduadas. Ninguém deu uma resposta. Mas ninguém
deixaria de notar o rosto de Muting, que parecia uma máscara de cera. Hafgo apressou-se
em acrescentar algumas palavras:
— Sargento Falbert, seu prazo termina logo, não é?
— Dentro de onze horas, senhor.
— Muito bem. Receberá imediatamente a injeção. Entregar-lhe-ei pessoalmente
uma ampola. Major Muting, mande os homens entrarem em forma. Os membros do
comando de recepção deverão ocupar seus veículos.
Três veículos-tartaruga saíram da eclusa leste. O campo de pouso cuidadosamente
aplainado ficava a apenas algumas centenas de metros.
Hafgo contemplou a estranha espaçonave que acabara de trazer o chefe supremo.
Não tinha o formato esférico geralmente observado, mas sua figura estreita e alta
apontava para o céu estrelado. Media oitenta metros por vinte. Atrás das gigantescas
aletas de popa parecia haver um propulsor muito potente. Na opinião de Hafgo, Iratio
Hondro só escapara à frota do Império porque providenciara em tempo a construção de
uma nave superveloz.
Um sorriso de admiração apareceu no rosto de Hafgo. O chefe supremo de Plofos
nunca esquecera qualquer detalhe.
Os três carros pararam junto à nave esguia, em torno da qual fora erguido um
campo energético protetor logo após o pouso.
Vinte homens desceram. Usavam trajes espaciais leves. Iratio Hondro foi o
vigésimo primeiro a descer. Estava acompanhado exclusivamente por oficiais graduados
da Guarda Azul, todos eles fortemente armados.
— Até parece que não confiam muito em nós — disse Muting para si.
— Cale a boca! — disse Hafgo em tom áspero. — Depois dos últimos
acontecimentos, as medidas de segurança são perfeitamente compreensíveis. Mande
desembarcar o comando de guardas. Os homens devem manter uma postura exemplar.
Dez homens, entre os quais havia sete oficiais, esperaram que uma fresta com os
contornos de um ser humano surgisse no campo energético. Hafgo adiantou-se e fez
continência. Seu rádio-capacete estava ligado.
— Seja bem-vindo no planeta Última Esperança, senhor — disse, cumprimentando
seu ídolo. — Sentimo-nos felizes por vê-lo em boas condições.
O chefe supremo mostrou um sorriso um tanto distraído, disse algumas palavras de
elogio e foi apertando as mãos dos homens. O Major Muting ficou preocupado ao notar
que o chefe supremo estava acompanhado por dois antis, cujos campos energéticos
individuais mostravam um brilho esverdeado.
Entraram no carro. Ninguém percebeu que dois homens estavam deitados numa
depressão a menos de quinhentos metros de distância, observando o encontro.
— A raposa demorou bastante para chegar à conclusão de que deveria pousar neste
planeta — disse Miles Traut. — Naturalmente quis sondar primeiro a situação. Hondro
ficou muito cauteloso. Estou curioso para ver o que vai fazer com as cinqüenta ampolas
prometidas naquela mensagem de rádio. Hafgo é um fanático inescrupuloso, mais louco
ainda que Konta Hognar. Afastou elegantemente seu antigo chefe. Evidentemente Hafgo
descobrirá um meio de reservar algumas ampolas para seu uso pessoal. A recusa de
receber o medicamento foi uma hábil manobra psicológica. Até mesmo Hondro deixou-se
enganar pela mesma.
— Talvez não! — afirmou Shelo. — Não subestime este homem. Vamos andando?
Se não alcançarmos a eclusa de emergência agora, nunca mais chegaremos lá. No
momento as operações de rastreamento devem ser bastante superficiais.
No momento em que os três veículos-tartaruga desapareceram atrás dos portões
camuflados abertos na rocha, Miles Traut e Shelo Bontlyn saíram correndo.
Traut sabia exatamente onde ficava a minúscula saída de emergência. Já a
inspecionara duas vezes.
***
Iratio Hondro acabara de fazer um discurso, durante o qual a irradiação quase
hipnotizante de sua personalidade mais uma vez se revelara em toda a extensão. Os dois
antis davam-lhe cobertura. As armas energéticas dos outros dezoito oficiais estavam
levantadas em atitude ameaçadora.
Hondro afirmara que a situação em Plofos logo experimentaria uma mudança
favorável a ele. A contra-revolução já estaria sendo iniciada. Oito grupos de povos, que
também não simpatizavam com o Império, já se encontravam no espaço com uma frota
gigantesca. Só estavam à espera do canhão conversor.
Cinqüenta cientistas tinham recebido a injeção de antídoto. A ampola que o chefe
supremo entregara pessoalmente a Hafgo estava guardada no bolso do uniforme do
mesmo. Hondro entregara cinqüenta e uma injeções ao todo.
O maior perigo tinha sido afastado. Um grupo de escravos de elite fora salvo no
último instante. Muting e os outros membros da Guarda Azul em cujas veias corria o
veneno encontravam-se nos fundos do gigantesco laboratório no qual o grupo estava
reunido.
Os cientistas que acabavam de receber a injeção baixaram as mangas dos conjuntos
que trajavam durante o trabalho. Hafgo afastou-se discretamente. Hondro iniciou outro
discurso, no qual asseverou que todos receberiam a injeção em tempo.
Hafgo foi em direção à saída. Mandou que os dois guardas postados lá fossem ver
como estava passando Konta Hognar, que já devia sentir os efeitos do veneno.
Hafgo olhou para o laboratório e caminhou alguns metros pelo comprido corredor.
Parou junto a uma porta que dava para o mesmo. Abriu-a lentamente. Viu uma galeria
escura à sua frente.
— Técnico Traut — disse em voz alta e clara. — Está na hora de mostrar se sua
espingarda de cano duplo realmente vale alguma coisa. Abra fogo contra os dois antis.
Cuidarei de Hondro e seus dezoito algozes. Vamos logo! O que está esperando? Por que
acha que chamei os comandos de busca de volta e indiquei na mensagem a hora de
chegada de Hondro?
Um homem saiu da sombra. O Coronel Hafgo viu à sua frente a boca da espingarda
de cano duplo. Sorriu.
— Pois então! Eu sabia que um homem com suas qualidades não se deixaria
esmagar por um marcha-forte. Certamente achavam que sou um sujeito que não vale
nada, não é mesmo? Não tive outra alternativa senão induzir Hondro a pousar neste
planeta. Ou será que o senhor acha que Rhodan poderia chegar em tempo para salvar os
cientistas que correm maior perigo? Fui obrigado a aguardar a chegada de Hondro. Já
podem comunicar nossa posição. A chave de impulsos encontra-se em meu poder.
Miles estava perplexo. Shelo baixou a arma narcotizante.
— Como sabia que usaríamos a eclusa de emergência? Por que resolveu abrir
justamente esta porta?
— Há algumas semanas vi quando o senhor examinou o fecho automático. Também
notei que construiu uma arma em segredo. Atire os projéteis antimagnéticos de sua arma
através dos campos defensivos dos antis. Os sacerdotes do deus Baalol estão
desprevenidos. Vamos andando. Não temos tempo para fazer perguntas.
Miles seguiu o oficial. Estava um tanto atordoado com a surpresa. Uma vez chegado
à porta laboratório, encostou imediatamente a arma ao ombro. Seguiram-se duas
detonações. O recuo da arma atirou o técnico para trás, mas mais adiante duas criaturas
caíram mortas.
— Hondro só tem cinqüenta ampolas — gritou Hafgo. — Ninguém mais poderá
obter uma injeção. Fomos enganados. Fogo, Muting!
Os trinta e dois homens intoxicados levaram apenas uma fração de segundo para
compreender a situação. Antes que Miles pudesse recarregar a espingarda, Muting
levantou sua arma. Trinta e um homens instigados pela raiva e pelo desespero seguiram
seu exemplo. Agiram com uma rapidez extraordinária. Para a guarda pessoal de Hondro
isso foi a segunda surpresa. Antes que pudessem apontar suas armas, viram-se envolvidas
por um fogo energético devastador.
Os olhos de Hafgo brilharam num ódio incontido. O tempo em que tivera de tatear
cuidadosamente para atingir a posição-chave do planeta Última Esperança tinha chegado
ao fim. O criminoso galáctico, que o transformara num morto vivo, estava na mira de sua
arma. Hondro nunca desconfiara de que Merl Hafgo fosse um inimigo tão ferrenho.
Ninguém seria capaz de percebê-lo, pois o major agira com muita habilidade.
Enquanto fazia pontaria e atirava, transmitia suas ordens pelo rádio-capacete. Os
guardas que se encontravam na sala de reuniões eram os únicos que tinham percebido o
que estava acontecendo.
Os cientistas fugiram pelas saídas laterais. Kontemer ficou para observar o fim do
homem chamado Iratio Hondro.
Hafgo disparou pela quinta vez contra o ditador, mas ainda desta vez a trilha
energética foi repelida por um campo defensivo individual de alta potência. Hondro já
percebera que se deixara enganar por um oficial inteligente, que além do mais era um
bom psicólogo e um grande artista. Iratio estava enxergando a situação. Hafgo só queria
um suprimento rápido para os desterrados que corriam maior perigo. Provavelmente não
conseguira a chave de impulsos do enorme campo defensivo da sala do transmissor, pois
do contrário já teria transmitido o pedido de socorro para Rhodan.
Hondro viu seus últimos seguidores sucumbirem ao furacão de fogo desencadeado
pelos guardas do planeta Última Esperança. Saiu correndo para dentro das salvas de
Hafgo.
Seu campo defensivo protegido pelos antis repeliu as torrentes de energia. No
mesmo instante Merl Hafgo caiu ao chão, atingido pelo tiro energético de Hondro. Este
saiu correndo. Miles estava escondido atrás da primeira curva do corredor.
O chefe supremo atingiu alguns membros da Guarda Azul, que ainda não estavam
bem informados sobre os acontecimentos. Acreditavam que os cientistas se tivessem
revoltado. Abriram fogo, para proteger o ditador contra os revolucionários que o
perseguiam, e revidaram ao ataque.
Hondro ainda poderia ter conquistado a base do planeta Última Esperança, se não
fosse um homem chamado Miles Traut.
O mesmo estava deitado no chão, atrás da curva do corredor. Apoiara os canos da
arma pesada sobre o ombro de Merl Hafgo, que jazia ferido. Quando Hondro apareceu na
linha de tiro, Miles puxou o gatilho.
Mais uma vez ouviu-se um terrível estrondo. O campo energético que protegia
Hondro foi atravessado pelo projétil primitivo. O terrível impacto fez com que o ditador
girasse em torno do próprio eixo e fosse atirado contra a parede. Miles viu que só o
atingira no ombro direito. Disparou mais um tiro, mas errou o alvo. O projétil ricocheteou
e saiu uivando pelo corredor.
Dali a alguns minutos os membros da Guarda Azul colocaram o comandante
supremo na eclusa de ar. Hondro estava inconsciente. Pretendiam levá-lo para sua nave.
No momento em que era recebido pelos tripulantes junto ao campo defensivo da
nave, Shelo Bontlyn entrou na central de rádio.
Deixou o operador de plantão inconsciente com um tiro da arma narcotizante e
desligou o campo defensivo com o aparelho de impulsos. Os dedos de Shelo passaram
sobre as teclas e os botões.
A seu lado os conversores da unidade energética começaram a uivar. O rádio-
capacete reproduziu as ordens de Hafgo. A guarnição obedecia a contragosto, mas
obedecia.
Um tremor sacudiu a base. Era a nave de Hondro que estava decolando. No mesmo
instante o Major Muting acionou os potentes campos defensivos dá base. No momento
em que os canhões da nave abriram fogo, conforme Hafgo esperava, e os tiros
começaram a derreter a rocha do Dragão Sentado, a energia dos tiros já era absorvida
pelo campo defensivo.
Shelo Bontlyn não deu atenção aos acontecimentos.
Também não percebeu que Eve Narkol se aproximava com o carro-tartaruga e
estava sendo recebida pelos membros da Guarda Azul.
***
O tiro que atingira o coronel Merl Hafgo perfurara sua cocha. Já não sentia dores. O
calmante turvara sua visão.
Kontemer, Miles Traut, Eve Narkol e o Major Muting estavam reunidos junto ao
seu leito de doente. Dois médicos estavam aspergindo bioplástico sobre a ferida. Na sala
de operação estavam sendo feitos os preparativos de uma amputação.
— Muting, no bolso esquerdo de meu uniforme há uma ampola de antídoto — disse
Hafgo. — Quero que o sargento Falbert injete o remédio imediatamente em seu corpo. O
patife do Hondro quis enganar-nos. Tenho certeza de que nos deixaria morrer. Os homens
estão sob controle?
— Já estão, senhor. A mensagem foi expedida. Foram bastante sensatos para não
oferecer resistência.
— Muito bem. Acho que o senhor gostaria de fazer uma porção de perguntas.
Poupe-me desse incômodo, ao menos por enquanto. A única coisa, que posso dizer é que
desde minha chegada ao planeta Última Esperança procurei um meio de escapar a este
inferno. Era praticamente impossível, pois não queria colocar em perigo os homens que
se encontravam aqui. Por isso resolvi representar. Desculpe as palavras desumanas que
por vezes tive de proferir. Não pude agir de outra forma.
— O senhor precisa descansar — disse Miles, profundamente impressionado.
Hafgo deu uma risada forçada.
— Ainda não. Andei observando o senhor, Traut e também o senhor, Kontemer.
Consegui convencer Konta Hognar de que não podíamos dispensá-los. Sorte sua,
professor. O senhor foi muito imprudente. Sua revolta não poderia ter sido desencadeada
num momento menos apropriado.
— Obrigado; obrigado mesmo — disse o cientista, profundamente envergonhado.
— Deixe para lá. Se não fosse o senhor, Traut e Bontlyn, não poderiam ter
desencadeado minha operação. O senhor fez rolar a avalanche. Hognar entrou em
colapso, e só então consegui a chave da sala de rádio. A fuga de Traut foi uma incógnita
nos meus planos. Por isso resolvi abrir ontem as travas da pequena escotilha. E os fujões
regressaram conforme eu esperava, diante da ordem de retirada dos comandos de busca.
Se o senhor não tivesse matado os dois antis, Traut, a esta hora estaríamos todos mortos.
E a confirmação de Plofos? Será que receberam nosso pedido de socorro?
Shelo Bontlyn entrou antes que Hafgo acabasse de proferir a última palavra. Seus
olhos brilhavam.
— Perry Rhodan em pessoa confirmou o recebimento da mensagem. Há um
cruzador-patrulha do Império a apenas quatro mil anos-luz do planeta Última Esperança.
Faz parte do destacamento de plantão, que traz um suprimento do remédio. A nave
poderá chegar dentro de algumas horas. Rhodan partirá imediatamente com a nave-
capitânia da frota. Por aqui ninguém vai morrer, senhor. Acho que devemos agradecer
isso ao senhor.
Hafgo fez um gesto de pouco caso e perdeu os sentidos.
***
As pessoas intoxicadas acabavam de receber a injeção de que precisavam. O
cruzador terrano chegara mais cedo do que se esperava.
Dali a dois dias toda a guarnição da base Última Esperança entrou em forma. Só
faltava Konta Hognar, que falecera, e seis membros da Guarda Azul, que tinham perecido
numa batalha com a guarda pessoal de Hondro.
Hafgo estava vivo. Resistira muito bem à amputação.
Fazia uma hora que a nave-capitânia terrana Thora tinha pousado no planeta Última
Esperança. Perry Rhodan e Atlan, lorde-almirante no exercício do governo e comandante
da USO, inspecionaram as instalações da base.
Conversaram com os homens. Rhodan não mandou efetuar nenhuma prisão. Os
membros da Guarda Azul tinham sido iludidos. Só naquele momento perceberam que por
anos a fio se haviam mantido fiéis a um monstro.
Traut, Perry Rhodan e Atlan afastaram-se um pouco dos homens que discutiam
nervosamente. Miles fitou os olhos cinzentos do grande estadista terrano.
— Certamente o senhor quererá saber que direção tomou Hondro — principiou
Traut em tom pensativo. — Talvez possa dar-lhe uma indicação. Se sobreviver ao tiro
dado por mim, continuará a ser um elemento perigoso.
Atlan, o arcônida, sentou na borda de uma mesa de laboratório. Seu cabelo louro-
claro brilhava sob a luz artificial.
— Uma indicação? Sabe onde poderíamos encontrar o chefe supremo?
— Não sei exatamente, senhor. Mas conheci um velho físico, falecido há um ano.
Éramos bastante amigos. Ele já estivera num planeta misterioso, ao qual foi dado o nome
Opposite. Deve ficar no centro galáctico. Pelo que disse o físico, o mesmo foi transferido
para o planeta Última Esperança, porque o serviço secreto acreditava que aqui suas
qualidades poderiam ser mais bem aproveitadas. Pelo que se diz, em Opposite são
realizadas experiências muito perigosas com molkex. O velho aludiu a uma arma terrível
que estava sendo criada por lá. É só o que eu sei. Procure um mundo chamado Opposite.
Perry Rhodan soltou um suspiro. Lançou um olhar que quase chegava a ser
recriminador para o engenheiro de superarmas.
— Um nome sempre é melhor que nada. Sabe lá qual é o tamanho da condensação
central da Via Láctea? De qualquer maneira fico-lhe grato pela informação. Sua conduta
foi exemplar, senhor Traut. Será que mais tarde poderia mostrar-me sua lendária
espingarda de cano duplo?
Miles deu uma risada. Quando outros cientistas dirigiram a palavra aos dois
dirigentes do Império, Miles e Eve Narkol retiraram-se. Os membros da Guarda Azul,
que tinham sido desarmados, seguiram-nos com os olhos. Não pareciam muito à vontade.
Finalmente alguns deles riram.
— Como teve a idéia de aplicar o truque do marcha-forte? — perguntou o Tenente
Batengo. — Que idéia maluca! Nunca esperaríamos uma coisa dessas.
— Foi justamente por isso que resolvi subir nas costas dele — disse Miles com um
sorriso.
Batengo fitou o técnico louro e disse:
— O senhor pode dar-se por feliz por ter tido um aliado secreto por aqui. Hafgo fez
muita coisa pelo senhor. Se Hognar não tivesse adoecido, a situação estaria bem
diferente.
— Sem dúvida — confirmou Miles. — Sem dúvida teríamos de lamentar pelo
menos cinqüenta mortos. E um deles seria o senhor, tenente. O biocompentim dos
terranos realmente parece ser bem melhor que as injeções neutralizadoras de Hondro.
Como se sente um morto ressuscitado?
Miles foi saindo. Perto de mil pessoas, entre elas oitocentos e onze técnicos e
cientistas, entraram nos refeitórios. Desta vez conversavam animadamente e sem medo.
Acabavam de ser libertados de um pesadelo. De repente o planeta Última Esperança não
parecia ser um mundo tão infernal como fora poucas horas antes.

***
**
*
O planeta Última Esperança revelou-se
inadequado para os objetivos de Iratio Hondro,
assim que se espalhou a notícia de que existia um
medicamento que eliminava a dependência dos
escravos de Hondro para com as injeções mensais
que conservavam a vida.
Hondro prossegue em sua fuga, enquanto Perry
Rhodan dá ordem para que as unidades da Frota
Solar procurem o chefe supremo — e vasculhem o
centro da Galáxia à procura do neo-molkex
desaparecido.
Tschato, o leão, pertence ao comando de
buscas. E descobre uma coisa: A Dança Infernal dos
Gigantes..., título do próximo volume desta coleção.

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