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PODER JUDICIÁRIO TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO

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ACÓRDÃ O

TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO ACÓRDÃO/DECISÃO MONOCRATICA REGISTRADO(A) SOB N°

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Vistos, relatados e discutidos estes autos de Apelação n° 990.09.126454-7, da Comarca de Itaí, em que são apelantes HELENA DE FÁTIMA GABRIEL e RENATO MENDES DE SOUZA sendo apelado MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE SÃO PAULO.

ACORDAM, em 5" Câmara de Direito Criminal do Tribunal de Justiça de São Paulo, proferir a seguinte decisão: "DERAM PROVIMENTO AO RECURSO PARA ABSOLVER OS APELANTES, COM FUNDAMENTO NO ARTIGO 386, INCISO III, DO CÓDIGO DE PROCESSO PENAL. V.U.", de conformidade com o voto do Relator, que integra este acórdão.

julgamento teve a participação dos

Desembargadores TRISTÃO RIBEIRO (Presidente), SÉRGIO RIBAS E JUVENAL DUARTE.

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São Paulo, 06 de maio de 2010.

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TRISTÃO

RIBEIRO

PRESIDENTE

E

RELATOR

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20 J

VOTO N° 15.184 (RL) Apelação criminal n° 990.09.126454-7 - Itaí Apelantes: HELENA DE FÁTIMA GABRIEL e OUTRO Apelada: JUSTIÇA PÚBLICA

Vistos.

Trata-se de apelações interpostas por HELENA DE FÁTIMA GABRIEL e RENATO MENDES DE SOUZA de sentença que os condenou, como incursos no artigo 229, c.c. o artigo 29, ambos do Código Penal, a primeira às penas de 02 (dois) anos de reclusão, em regime aberto, e 10 (dez) dias-multa, de valor unitário mínimo, substituída a privativa de liberdade por prestação de serviços à comunidade e prestação pecuniária de 01 (um) salário mínimo, e o segundo às penas de 02 (dois) anos, 07 (sete) meses e 15 (quinze) dias de reclusão, também em regime aberto, e 17 (dezessete) dias-multa, de unidade mínima, postulando, em síntese, a absolvição com fundamento na atipicidade da conduta ou por insuficiência probatória.

Os recursos foram regularmente processados e, nesta instância, a douta Procuradoria Geral de Justiça manifestou-se, preliminarmente, pelo reconhecimento da ocorrência de abolitio criminis, diante da redação dada ao artigo 229, do Código Penal, pela Lei n° 12.015/09, ou, se superada a questão, pela absolvição dos réus.

É o relatório.

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Os apelos comportam provimento.

Com efeito, a denúncia imputou aos réus a

conduta de manter estabelecimento comercial destinado a proporcionar

encontros com fins libidinosos, segundo a redação do artigo 229, do Código

Penal, vigente à época, pois no bar que possuíam havia freqüentemente uma

prostituta, que alugava o quarto contíguo ao estabelecimento para atender os

clientes (fls. 01-D/02-D).

Todavia, com o advento da Lei n° 12.015/09,

a redação do mencionado artigo 229, do Código Penal, foi alterada, punindo-se

agora não mais quem mantém "casa de prostituição ou lugar destinado a

encontros para fins libidinosos", mas somente a conduta daquele que mantém

"estabelecimento em que ocorra exploração sexual", como bem destacou o

douto Procurador de Justiça.

Dessa forma, segundo a nova redação, só haverá crime quando a prostituição for decorrente de exploração, pela manutenção de situação análoga à escravidão ou pela vulnerabilidade da pessoa prostituída, mas não quando o proprietário ou o gerente utilizar bar para angariar clientes e alugar quarto para os encontros com as prostitutas, cuja atividade não é ilícita, ainda que isso ocorra no mesmo estabelecimento comercial, sendo tal conduta, então, atípica, conforme leciona Luiza Nagib Eluf, Procuradora de Justiça do Estado de São Paulo: "Assim, a lei n" 12.015/09 corrigiu

uma distorção decorrente de tabus e preconceitos do começo do século passado e passou a considerar crime apenas "estabelecimento em que ocorra exploração sexual",

o que foi um grande acerto. Crime é manter pessoa em condição de explorada,

sacrificada, obrigada a fazer o que não quer. Explorar é colocar em situação análoga à

de

escravidão, impor a prática de sexo contra vontade ou, no mínimo, induzir a isso, sob

as

piores condições, sem remuneração nem liberdade de escolha. A prostituição forçada

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é exploração sexual, um delito escabroso, merecedor de punição severa, ainda mais se

profissional

praticado

contra crianças.

O resto não merece a atenção do direito penal. A

do sexo, por opção própria,

regulamentando-se

a atividade"

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paz,

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crime". Revista Consultor Jurídico, 01 out. 2009. Artigo originalmente publicado no jornal "Folha de São Paulo" de 01/10/2009. Disponível em:

Assim, no tocante aos estabelecimentos que

alugam quartos e mantêm bar, sauna e afins, e são, por isso, freqüentados

voluntariamente por prostitutas adultas e capazes, pois sabem que a ocasião é

propícia para angariar clientes, houve abolitio criminis, e o agente que

respondia antes pela redação original do art. 229, agora não mais responde,

devendo a atipicidade retroagir nos termos do artigo 2 o , parágrafo único, do

Código Penal, a não ser que se comprove que o proprietário ou gerente do

estabelecimento explorava a prostituta, obrigando-a a comercializar o próprio

corpo, mas não, repita-se, quando não há qualquer vínculo que as impeça de

se recusar a atender algum cliente, ou mesmo fazê-lo em local diverso, como

ocorria no caso em tela, conforme se depreende da própria prova produzida

pela acusação.

Ante o exposto, dou provimento ao recurso

para absolver os apelantes, com fundamento no artigo 386, inciso III, do

Código de Processo Penal.

TRISTÃO RIBEIRO Relator