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viola de samba e samba de viola

no recôncavo baiano
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 103

Mes t r e Quad rad o , c o m


o m ac h e t e , mar grand e ,
munic í pi o v era cru z .
foto : l ui z santo s .

pesquisa de campo, no entan- preparava meu doutorado so-


to, acabou conhecendo um tipo bre samba carioca, estive na casa
de samba sobre o qual não existia de Ralph nos Estados Unidos.
então literatura específica, e que o Ele presenteou-me com uma fita
fascinou, levando-o a redirecionar cassete que guardo ciumentamen-
o tema de suas pesquisas: o sam- te até hoje, contendo trechos das
apresentação ba de viola ou samba chula. Ralph gravações que fizera no Recôncavo,
não concluiu seu doutorado, mas incluindo maravilhosos toques de
escreveu dois artigos fundamentais machete, totalmente diferentes do
sobre o assunto ora aqui republi- que eu já ouvira até então em violas
cados (Waddey, 1980 e 1981), além brasileiras. No primeiro semestre
de ter reunido vasto acervo sobre a de 2004, na ocasião das discussões
música tradicional do Recôncavo, ocorridas no Ministério da Cultu-

R alph Cole Waddey, nascido em


Cincinatti - Ohio (EUA) em
1943, há muitos anos é pesquisador
incluindo gravações, exemplares
de instrumentos e documentação
associada. Junto com o acervo de
ra e no Iphan sobre a candidatura
brasileira à Terceira Proclamação
das Obras-Primas do Patrimônio
e amigo da música brasileira. Na Tiago de Oliveira Pinto, que tam- Oral e Imaterial da Humanidade da
segunda metade dos anos 1970, era bém realizou importantes pesquisas Unesco, penso que não foi pequeno
aluno de doutorado em Etnomusi- sobre o samba de roda nos anos o papel desempenhado pela escuta
cologia na Universidade de Austin, 1980 e 1990, conforme citado com destas gravações, em uma reunião
Texas, sob orientação do saudoso mais detalhes neste dossiê, o acervo não isenta de emoção, na escolha
Gerard Béhague, e tinha intenção de Ralph é uma das mais impor- final do samba de roda como nosso
de escrever uma tese sobre a mú- tantes coleções etnográficas sobre o candidato.
sica da capoeira. Quando chegou assunto hoje existentes. Mais do que por seu pionei-
em Salvador para seu período de Em 1993, quando eu próprio rismo e importância histórica, a
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mac h e t e . foto : je an
jau l b ert.

viola de samba
e samba de viola
no recôncavo
baiano1

inclusão dos artigos de Ralph Cole defensor da pureza e do valor das


Waddey na publicação deste dossiê suas tradições de raiz africana. O
se justifica pela qualidade de sua pressuposto é que somente o samba
etnografia e por sua atualidade. merece tal desprezo: que é despro-
Quando viajei pelo Recôncavo com vido de arte por ser tão simples,
a equipe que trabalhou na pesquisa que não exige nem aprendizagem
aqui apresentada tive aquela sensa- especial nem talento para a sua exe-
ção, às vezes descrita por pesquisa- cução, e que é tão sem importância
dores de campo, como de familia- perante quem o cultiva, que pode
ridade via literatura. Muito do que ser feito em qualquer ocasião ou
estava vendo então pela primeira lugar. Nada mais longe da verdade.
vez, já podia reconhecer ou prever, Pois, conforme insistia em dizer
graças às minuciosas descrições de “Cobrinha Verde”,2 “samba é coisa
Ralph, que havia lido em inglês
numa revista norte-americana, e
que agora se tornam acessíveis a um
N ão é raro ouvir na Bahia, como
me disse um amigo, que “sam-
ba é apenas coisa que neguinho faz
séria”.
O conceito de “samba” é tão
vasto e profundo na música e na
público mais amplo, como há mui- em esquina de rua”. Esta observação vida brasileiras que praticamente
to merece a cultura brasileira. não causaria surpresa se partisse de desafia definição. É um gênero
alguém do círculo, bastante am- (musical e coreográfico), um acon-
Carlos Sandroni plo, para quem toda a arte popular tecimento e um grupo de pessoas.
Professor-Adjunto de Etnomusicologia baiana é primitiva, pagã e selvagem. Como gênero, freqüentemente não
da Universidade Federal de Pernambuco Mas neste caso teve origem num se distingue de outros, a não ser
baiano que se autoclassificava como pela região e pelos nomes que aí
mulato, com curso superior, pro- recebe, como os “cocos” do ser-
fissional liberal, e que se considera tão da Bahia3 e outras áreas mais
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1. VIOLA DE SAMBA

ao Norte. O samba a que Cobri- VIOLA em regiões onde os estilos musicais


nha Verde se refere é o “samba de A forma e a construção da viola exigem, idealmente, uma forma
viola”. “Samba de viola”, “samba brasileira são aproximadamente as diferente do instrumento. Este é
de chula”, “samba de parada”, do violão. Suas dimensões, depen- o caso do Recôncavo baiano, onde
“samba de partido alto”, “samba dendo da região e do uso, variam: está desaparecendo não somente a
sant’amarense”, “samba amarra- podem ser as mesmas desse último arte de fabricar a viola, como o uso
do”, todos se referem a um mesmo instrumento, ou consideravelmente até mesmo da viola industrializada
fenômeno: variam as denominações menores. Seu braço tem trastos, (que cede lugar ao violão e mesmo à
conforme diferentes aspectos que e, na execução, pode ser ponteada guitarra).
apresenta. Na realidade, é o texto, a ou “rasgada” com palheta ou com Aqueles que, no Recôncavo, de-
“chula”, que formalmente dissocia os dedos. O que, de maneira digna têm a arte e ciência da viola são de
de outros este tipo de samba, mas é de nota, distingue a viola do vio- parecer que é o “primeiro dos ins-
a viola, sua presença na execução do lão e lhe determina em boa parte a trumentos”. É duplo esse primado.
gênero e seu significado no evento, sonoridade, bem como a técnica, é A viola é o primeiro no sentido de
que mais o caracterizam aos olhos ser instrumento de encordoamento admitir-se ser o mais antigo. Com
dos seus participantes. em ordens duplas, tendo de oito a efeito, sabemos pelo menos que um
A primeira parte deste ensaio é doze cordas (mais freqüentemente instrumento denominado “viola”
dedicada ao instrumento, na forma dez), afinadas em pares de oita- está há muito tempo no Brasil. O
de que se reveste no Recôncavo. vas e uníssonos. Este instrumento jesuíta José de Anchieta escreveu,
A segunda examinará o samba do popular ainda é, embora rara- no século XVI, que os meninos
Recôncavo segundo as suas várias mente, feito por artesãos. A viola índios “fazem as suas danças à por-
denominações, e como gênero, industrializada, fabricada em São tuguesa, com tamboris e violas”.5
acontecimento e grupo de pessoas.4 Paulo, e por isso chamada pelos Esta antigüidade, ao lado da asso-
violeiros do Recôncavo de “viola ciação com os primeiros senhores
paulista”, hoje predomina inclusive portugueses, contribui por si para
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o segundo sentido do primado: o nando breves e simples interlúdios de outros instrumentos de cordas
sentir-se que é o primeiro dentre os de solos, que, no caso do “repen- (como o violão e o cavaquinho) e
instrumentos. Afirma-se ser o mais te”, proporcionam ao cantador um instrumentos de percussão (ten-
nobre e histórico, o mais brasileiro rápido momento para pensar no do como centro o pandeiro). A
e, ao mesmo tempo, o mais euro- próximo improviso. exatidão é essencial na complexa
peu. Na Bahia, tanto no sertão como, interação entre as violas, os outros
Em duas regiões brasileiras, a de maneira particular, no Recôn- instrumentos e quem dança ou
música da viola encontrou apre- cavo, a viola acompanha a dança e canta. Este complexo e preciso rela-
ciável número de cultivadores na o canto. O violeiro não só fornece cionamento, mais a necessidade de
indústria de discos. A viola é o um fundo rítmico aos que dançam, uma conveniente e bem-estrutura-
ponto de apoio do acompanhamen- como é encorajado a desafiá-los a da variedade musical, caracterizados
to da “música caipira”, cujo centro acompanhar com os pés a destreza pela maneira de combinar violas de
é o Estado de São Paulo, tendo se rítmica dos dedos do executante. diferentes tamanhos, afinações e
industrializado principalmente em Um “toque” (breve padrão harmô- toques, proporciona um verdadeiro
função desse mercado. Visto ser nico, melódico e rítmico) básico é ideal de conjunto que funciona na
São Paulo a metrópole fabril, ali constantemente repetido, mas há prática e se articula na teoria tradi-
é também fabricada, prevalecen- dentro desse padrão uma urdidura cional oral, parte dela aforismática,
do, pois, em todo o país, a “viola em ornamentação e ritmo de con- parte racional. Efetivamente, pou-
paulista”. No nordeste brasileiro, a siderável complexidade. O conjun- cas coisas podem ser mais típicas da
“viola repentista” é a companheira to instrumental consiste de várias complexidade do Recôncavo baiano
necessária do cantor de “repentes” violas (de tamanhos diferentes, ou, - arcaico, místico, tradicional, em
e “desafios” improvisados. O acom- se do mesmo tamanho, afinadas rápida mudança e de extraordinária
panhamento de violas nos estilos diferentemente, ou ainda, se afina- heterogeneidade - do que a viola e
caipira e repentista é musicalmente das da mesma maneira, executando sua música, e os usos e significações
bastante secundário, proporcio- toques diferentes), eventualmente de ambas.
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S e u Z é d e L e linh a e se u
mac h e t e . foto : l ui z
santo s .

VIOLA NO RECÔNCAVO ainda ativo na Bahia: Clarindo dos virtude de morar nas proximidades
Quase todos os aspectos da viola Santos, nascido em 1922 (falecido de Salvador e que, mais no interior
do Recôncavo comportam duas em 1o de dezembro de 1980), rocei- do Estado, poderia deparar-me
espécies de explicações e descri- ro, residente a cerca de 75 quilô- com outros artesãos, pelo menos
ções: uma natural, a outra sobre- metros de Salvador, perto da cidade em meia atividade. A nenhum ou-
natural; uma mundana, a outra de Santo Amaro da Purificação, ca- tro encontrei pessoalmente: ape-
extraterrena, mística e mítica. O pital da antiga economia açucareira, nas, aqui e ali, um nome vagamente
primado que, entre os instrumen- onde era conhecido como “Cla- lembrado; ninguém, contudo, que
tos, lhe atribuem os músicos po- rindo da Viola” e expunha à venda ainda trabalhasse em violas. Aqueles
pulares, pode ser explicado pelos os seus instrumentos na barraca de que ainda tocavam o instrumento
seus poderes não musicais (as forças um amigo no mercado municipal, usavam os antigos, feitos à mão, já
que se diz possuir) e pela vincula- quando não tinha encomendas de cheios de remendos, ou a “viola
ção, na mente dos que ainda usam instrumentos especiais. Os seus paulista” industrializada. Os arte-
o instrumento, com os primeiros eram largamente usados e aprecia- sanais eram bem semelhantes aos de
colonizadores e senhores do Brasil. dos pelos violeiros que encontrei Clarindo, com variações menores
É, ademais, o instrumento popular em Salvador, nos sambas do bairro no tamanho e na madeira usada,
mais inacessível, e por conseguinte do Alto da Santa Cruz, muitos de de acordo com as disponibilidades
o primeiro e mais elevado, tanto do cujos residentes (alguns dos quais locais. Viajei permanentemente
ponto de vista musical - pelas difi- violeiros) provinham de Santo com duas das violas de Clarindo,
culdades em dominá-lo - como do Amaro. Verifiquei que os instru- fosse para usá-las eu mesmo, caso
ângulo econômico, devido ao custo mentos de Clarindo eram usados encontrasse um mestre desejoso de
da técnica, dos materiais e ferra- e tinham preferência em Santo ensinar-me qualquer coisa, fosse
mentas necessários à sua feitura. Amaro e em volta, assim como em para fixar em gravação a arte de al-
Um único fabricante de violas Cachoeira. Suspeitava haver loca- gum violeiro que não dispusesse de
me foi possível localizar em 1976 lizado unicamente o Clarindo em instrumento. Jamais afastei-me de
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uma localidade sem que me rogas- diâmetro, o inferior de cerca de 22 três-quartos, possui dez cordas de
sem deixar as criações de Clarindo cm, e a cintura de mais ou menos metal em cinco pares. A posição
com os violeiros locais, e em certa 12 cm. A viola de “três-quartos” para a execução da viola é seme-
oportunidade invocou-se mesmo, tem o comprimento de 89,5 cm, o lhante à do violão, e o instrumen-
em defesa do pedido, uma chula bojo superior de 20 cm, o inferior to é encordoado de tal maneira
tradicional, “ou me venda ou me de 29,5 cm, e a cintura de 15 cm. A que as ordens mais agudas estão
dá” (o que aconteceu ao fim de uma altura da caixa de ressonância, tanto mais perto do colo do músico que
sessão de gravação). Sinto-me, por do machete como da três-quartos, as mais graves. As três primeiras
conseguinte, à vontade para usar as é de cerca de 6 cm. A regra do ma- ordens, mais agudas, são de fios de
violas de Clarindo como modelos chete tem o comprimento de cerca aço nu afinados em uníssono. As
de descrição. de 18 cm, e a da três-quartos, cerca mais graves são afinadas em oitavas,
Clarindo fazia violas para os de 23 cm, dividida por dez trastos com uma corda revestida e a outra,
violeiros do Recôncavo de prefe- de bronze ou de cobre, espaçados a “requinta”, sem revestimento.6
rência em dois tamanhos: o “ma- de modo que produzam intervalos, A “requinta” do quarto par é de fio
chete” e a “três-quartos”, usadas grosso modo, de segundas menores. do mesmo diâmetro das cordas do
lado a lado no conjunto tradicional Instrumentos de ambos os tama- terceiro par. As requintas dos dois
de samba, por vezes acompanha- nhos podem ter outros trastos de pares mais graves são dispostas de
das também do cavaquinho e do madeira de lei ou de metal encrava- tal maneira que, com o instrumen-
violão moderno, que a tenda de dos na face da caixa de ressonância, to na posição de tocar, estão mais
Clarindo podia igualmente pro- apenas nas duas ordens mais agu- distantes do colo do músico do que
duzir. O “machete” (nome ao que das, a “prima” e a “segunda”. as suas correspondentes uma oitava
parece oriundo da Ilha da Madeira) Uma denominação coletiva mais baixa.
tem de comprimento cerca de 76 em curso no Recôncavo para esses Hoje em dia, a caixa de resso-
centímetros, com o bojo superior instrumentos é “viola de dez cor- nância é com mais freqüência feita
de aproximadamente 17 cm em das”. O machete, assim como a de pinho, embora se usem o cedro
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d etalhe d a mão
e sque r da no m achete.
foto: j ean jaulbe rt.

e o jacarandá no fundo e nos lados, rial, de acordo com o seu “toque” de unha crescida, ou às vezes com a
quando as condições, sobretudo e gosto. O processo se denomina dedeira). O violeiro faz seus to-
as financeiras, assim permitem. “surrar a viola”, no sentido de cas- ques essencialmente em torno de
A regra ainda é amiúde de jaca- tigá-la ou de domá-la para adquirir padrões de acordes formados na
randá, como são as dez “craveiras” o desempenho desejado. mão esquerda, ponteando somente
(cravelhas) de afinação, o cavalete Podem negá-lo os músicos que com o indicador nos três pares de
e (de jacarandá e piaçaba) o relevo se servem de palheta, mas o uso cordas mais agudos e o polegar nos
ornamental na forma de losangos exclusivo dos dedos é geralmente dois mais graves. Nunca vi na Bahia
(às vezes em rosas, com talos de mais apreciado. A palheta é segura violeiro que ponteie com três ou
fio de piaçaba) que acompanha os pelo polegar e o indicador, limi- mesmo dois dedos.
contornos da borda exterior da face tando assim o executante a rasgar Foi empiricamente que Cla-
e circunda a abertura da mesma, ou a dedilhar uma única nota de rindo aprendeu a fazer violas.
de aproximadamente 6,5 cm de cada vez, o que resulta num padrão Contou-me que, depois que o seu
diâmetro. Os trastos são de bronze interrompido, às vezes de notá- antigo fornecedor de instrumentos
ou de cobre, estes últimos me- vel habilidade e muito próprio à converteu-se em “crente”, abju-
nos dispendiosos e mais comuns. textura do conjunto, um tanto rando assim a música, e especial-
Conquanto a ação das cordas de aço semelhante à harpa. Todavia, quem mente a viola e tudo o que significa,
mais agudas - extremamente finas se utiliza do indicador e do polegar Clarindo decidiu que era capaz de
-, ao cortarem os trastos e neles pode conseguir o efeito da palheta reproduzir um instrumento que-
deixarem incisões, exija a freqüen- - “catando” a melodia - com a unha brado que possuía. Não negava as
te substituição destes, isto serve de crescida desse dedo (ou mesmo com imperfeições da sua primeira obra.
ocasião ao proprietário da viola a espécie de palheta que se prende Os lados de suas violas são arquea-
para temperar em seu instrumento no indicador) enquanto mantém o dos ao redor de uma sólida forma
as idiossincrasias e imperfeições da pulso rítmico do toque - a “mar- de jacarandá (que Clarindo herdou
regra, as tensões internas e o mate- cação” - com o polegar (também do seu amigo renascido na religião,
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juntamente com algumas relutantes “Dengosa”. Meu mestre em Salva- deve ser seduzida pelo executante e
instruções sobre o seu emprego) dor, Antônio Moura da Silva, nas- tornar-se sedutora em suas mãos.
e colados sob pressão. Enquanto cido em Santo Amaro e conhecido Nem mesmo a Virgem Maria
a viola se arma e adquire forma no bairro do Alto da Santa Cruz está imune aos poderes da viola.
(na realidade, em todas as fases de como “Candeá”, denominou “Me- Ouve-se dizer na Bahia que a “pri-
construção, enquanto o instru- nina Linda” o machete que Clarin- ma” da viola (a ordem de cordas de
mento não se acha fisicamente nas do fez para ele. Inscreveu o nome afinação mais aguda) é ao mesmo
mãos do construtor), põe-se um na face da viola para complementar tempo abençoada e maldita. No
ramo de arruda para afastar o “mau os fragmentos de espelhos e as fitas sertão do estado, afirma-se que a
olhado”, que, deitado durante o do Nosso Senhor do Bonfim que viola recebe os favores da Virgem
tempo vulnerável de gestação, antes acrescentou aos relevos de jacaran- Maria porque é o instrumento mais
do acabamento e de receber nome, dá, de autoria de Clarindo, a fim apropriado para o seu ofício. Mas,
pode significar que nunca virá “a de embelezar a sua Menina Linda. no Recôncavo, se diz que a prima
prestar”. Ganha assim personalida- Quando contei a este que havia foi excomungada porque Nossa
de e, supõe-se, defesas pessoais. dado o nome de “Prima Julieta” à Senhora não pôde resistir ao seu
O proprietário do instrumento três-quartos que me preparara, dis- chamado, e uma noite desceu do
dá-lhe o nome. A viola favorita de se-me que já lhe havia dado o nome altar para sapatear ao som da viola.
Clarindo se chamava “Princesa Ma- de “Venância”, ajuntando, contu- História semelhante se conta
rinalva”. Outro violeiro de Santo do, “Prima Julieta cai bem” e que de Cristo. Este teria sido obrigado
Amaro recordou-se com saudades eu tinha liberdade para continuar a sair em busca de São João e São
da sua viola “Moça Velha Branca” com o novo nome. No Recôncavo, Pedro, que, despachados em missão
que tinha vendido quando, uns dez a viola é efetivamente mulher, e as terrena, terminaram envolvendo-se
anos antes, atravessava tempos difí- suas qualidades e formas femininas num samba de viola, desviando-se
ceis. A que possuía em 1977, quan- são realçadas pela ornamentação e assim do objetivo. Tendo final-
do foi feita a entrevista, chamava-se o nome que o dono lhe dá. A viola mente reencontrado os discípulos,
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S eu N inin ho e Do na
Maria Aug u sta,
t radic io nais
samb a dor es de São Braz,
m unicí pi o S anto Am aro
d a Pu ri f ica ção. foto:
l uiz santos .

o próprio Cristo tampouco resistiu, conseqüência perfeitamente natural


e, antes de seguir caminho, deu de certas facetas de execução implí-
alguns passos ao som da viola. citas nas relações de intervalos entre
Os violeiros pesam cuidadosa- as cordas livres.
mente as conseqüências de tocar A afinação rio-abaixo (chama-
os seus instrumentos em certos da “guitarra boiadeira” no sertão)
lugares, ocasiões e afinações. Nas proporciona consonância em todos
florestas, especialmente se afinada os cinco pares livres. Entre a quinta
em rio-abaixo e manejada entre parelha (a mais grave) e a quarta, há
a meia-noite e as seis da manhã, o intervalo de uma quinta perfeita;
a viola atrai “bichos do chão”, os entre o quarto e o terceiro pares,
“encantes” da floresta (os caboclos)7 uma quarta perfeita; entre o tercei-
e, o que lhe seja talvez mais caracte- ro e o segundo, uma terça maior;
rístico, “o Homem”, isto é, Sata- e entre o “segundo” e a “prima”
nás. excomungada, uma terça menor.
Pode-se aprender a arte da O resultado é uma tríade maior
viola de maneira natural, através de formada nos três pares agudos com
longos anos de audição, imitação e a fundamental dobrada uma oi-
emulação, ou de maneira sobrena- tava mais baixa e em uníssono nas
tural, por meio de um pacto com o duas cordas do quinto par e o seu
Demônio. A predileção deste pela quinto grau similarmente dobrado
afinação em rio-abaixo é explicada no quarto par. (Ver Exemplo 1, na
pelos violeiros como resultado dos página 142.)
mágicos poderes de atração daquela “Candeá” dizia com desdém
forma de afinar, e também como que qualquer um pode tocar viola
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em rio-abaixo; tudo o que se tem a a moça a segui-lo. Suspeita-se que to pares, há uma quinta perfeita;
fazer é “passar o dedo, e qualquer o violeiro humano tem poderes entre o quarto e o quinto, uma
floreio dá certo”. Mostrava que o de sedução aparentados com os do quarta perfeita. (Ver Exemplo 1.)
instrumento pode ser tocado em Diabo, e os violeiros têm consciên- Esta afinação toma o seu nome do
rio-abaixo dispensando a mão es- cia da sensibilidade dos seus instru- uso de uma meia-pestana sobre os
querda; demonstrava como o diabo mentos. três pares mais agudos, no quinto
seduziu “a filha do Barão” duran- Visto que todos os intervalos trasto, como centro da formação
te um samba, ao tocar um padrão entre as cordas livres em rio-abaixo da mão esquerda, “atravessando”
simples que usa as cordas livres, o são acusticamente puros, a sonori- assim a viola e criando uma tríade
tempo suficiente para desobrigar a dade do instrumento é efetivamente maior cuja fundamental é dobrada
mão esquerda e possibilitar-lhe fa- bastante ressonante e penetrante no quarto par. Essa tríade forma no
zer sinais à moça, no sentido de que nessa afinação. A maioria dos caso o acorde de tônica, do mes-
se preparasse para acompanhá-lo na violeiros, todavia, limita-se a tocar mo modo que, em rio-abaixo, a
fuga “rio-abaixo”. Somente a moça em apenas uma tonalidade em rio- tríade tônica é formada pelos três
compreendeu os sinais; seus pais se abaixo, outra razão para o desprezo primeiros pares livres. O acorde de
congratulavam por terem encon- em que o têm alguns executantes. dominante é facilmente produzido
trado um violeiro tão talentoso que A afinação “travessa”, como a (na sua segunda inversão) nos três
podia tocar com uma única mão. “rio-abaixo”, forma uma tríade pares mais agudos desta meia-pes-
Foi evidentemente a consonância maior nas três ordens mais agudas, tana do quinto trasto, apertando-se
entre as cordas livres que permitiu mas o quarto par é um tom inteiro o primeiro par no sétimo trasto
à mão do violeiro/Satanás os gestos mais grave do que o do rio abai- com o dedo anular, e o segundo
não-musicais. O encantamento da xo, invertendo-se assim a posição par no sexto trasto com o médio.
afinação, que, tratado pelo violeiro do pentacorde e do tetracorde na O indicador permanece no quinto
apropriado, pode mesmo chamar oitava entre o terceiro e o quinto trasto do primeiro par. A quinta do
os espíritos das florestas, induziu pares; entre o terceiro e o quar- acorde subdominante já está pre-
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d etalhe do m achete.
foto: je an jaulbe rt.

sente também no quarto par livre. tanto os violeiros como os canta- terminologia a ela associada, que é
O acorde dominante está presente dores gostam ocasionalmente de o vocabulário básico da teoria mu-
na sua posição fundamental nos três mudar de tonalidade, seja para aco- sical européia adaptado às práticas e
pares mais agudos em aberto, com a modar os seus diferentes âmbitos de categorias musicais locais, permite
sua fundamental dobrada no quinto vozes, seja para usufruir a satisfação aos músicos organizar verbalmen-
par. O violeiro remove o indica- estética que uma mudança de to- te o conjunto e sua apresentação.
dor do quinto trasto para passar nalidade proporciona. A mudança Suponho que foi introduzida por
da tônica à dominante. Embora a não somente altera a altura real da mestres de música europeus que
maioria dos violeiros se limitem a música, como também cada tona- ensinaram em Santo Amaro no
apenas uma tonalidade na travessa, lidade tem implicações próprias século XIX, e que depois veio a ser
recursos consideráveis de ornamen- de ritmo, andamento e textura. A absorvida pela população local, na
tação melódica e de complexidade afinação mais apreciada em San- medida em que cada elemento se
rítmica derivam-se desta estrutura to Amaro, chamada “natural”, é a tornou necessário para uma músi-
tão simples. Um sinal de domínio mesma do violão moderno, sem a ca realmente baiana - isto é, onde
da viola (embora mais característico sua corda mais grave, a sexta (e sem elementos europeus e africanos
do sertão) é o domínio do toque pensar em alturas absolutas). Nessa combinaram-se numa forma local.
“iúna”,8 que é executado somente afinação, o violeiro consegue tocar As relações tonais e a termino-
em travessa. Uma das combinações em certo número de tonalidades. logia a ela associadas penetraram
ideais do conjunto de violas para O termo “natural” é usado tanto nesta teoria musical popular de
o samba tradicional emprega uma no sentido de “correto” como de maneira singular. Os acordes se
machete em travessa para preencher “nativo”. Esta afinação é, por con- formam na viola afinada em natural
o registro mais alto. seguinte, originária e peculiar de em posições que seriam familiares
No samba de viola de Santo Santo Amaro, mas também a mais à maioria dos tocadores de violão
Amaro e imediações (e, em Salva- correta e apropriada, porque mais e as suas fundamentais são deno-
dor, no estilo “sant’amarense”), versátil e erudita que as outras. A minadas segundos. Executar numa
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tonalidade e denominá-la pela sua


tônica é comum entre os violeiros
que tocam em natural. Ré maior é
o tom mais comum para o samba,
principalmente porque, na altura
real em que as violas estão afinadas,
o âmbito vocal é confortável para
a maioria dos cantadores. Existem
os conceitos de maior e menor, e
se reconhece que só as tonalidades
maiores são apropriadas ao sam-
ba. Em “Ré maior”, a “primeira
parte” é um acorde de Ré maior;
a “segunda parte” é um acorde de
Lá maior com sétima, a que não se
chama “dominante”, mas se admite
“quase igual à primeira parte de Lá
maior”, demonstrando-se assim o
reconhecimento das proximida-
des tonais: vê-se que a dominante
de um tom está relacionada com a
tônica de outro.
Nesta teoria musical popular,
tonalidade não é apenas a identifi-
cação de uma tônica e suas relações
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S eu Z é de L elinh a. foto:
l uiz san tos.

harmônicas. Indica também a posi- foram representados em alguns esquerda o tratamento rítmico da
ção ao longo da regra (ou braço) da sistemas renascentistas de tablatura mão direita (“marcação”) específi-
viola onde o acorde é formado. “Ré para o alaúde. “Ré maior sustenido co de cada um. O resultado é que
maior grande” compõe-se ape- bemol” é Ré maior numa quarta cada tom se identifica não somente
nas nas quatro ordens mais graves posição, ainda mais aguda, ou seja através da sua altura em relação a
e toca-se usando um padrão que “mais embaixo”. O “Sustenido de outros tons, como também pela
percorre a quarta e a quinta ordens. Lá maior” é conhecido por um maneira distinta de ser executado.
“Ré maior pequeno”, demonstrado nome especial, “samango”, palavra “Lá maior”, por exemplo, dá a sen-
no Exemplo 2, é talvez o mais comum de provável origem banto, que sig- sação de uma breve passagem pela
de todos os “tons” da viola para nifica “preguiçoso” ou “indolente”. sua subdominante, remanescente
samba. “Ré maior sustenido” não é A tonalidade e as posições onde do son jarocho mexicano e do son mon-
um acorde maior com a fundamen- as “partes” se formam têm impli- tuno cubano (suponho que não seja
tal de Ré sustenido, como seria na cações de ritmo e andamento bem simples coincidência), o que não
teoria musical convencional euro- definidas, no sentido de que cada acontece em “Ré maior” (Exemplo 2).
péia. É, sim, um acorde cuja fun- uma é tocada de determinada ma- Além disso, cada violeiro tem o seu
damental é Ré, mas formado numa neira ou conforme certo padrão. próprio padrão melódico e rítmi-
posição mais adiante na regra da Cada tonalidade ou posição, pois, co básico, com a sua ornamenta-
viola; vale dizer, o acorde soa mais é virtualmente um toque. Esses ção, para a execução de cada tom.
agudo. O violeiro diria que este padrões são ditados ao menos em “Toque”, por conseguinte, é uma
acorde é “mais embaixo”, referên- parte pelas características inerentes forma de composição para o reper-
cia à maneira como o instrumento às próprias formações: a mão pode tório da viola: é a célula através da
é empunhado: os sons mais agudos fazer certas coisas mais facilmente qual o violeiro individual introduz
da viola encontram-se mais perto em determinadas posições do que o seu próprio material no sistema
do chão (em termos espaciais, mais em outras. Complementa a ma- musical e a sua própria música na
baixos), da mesma forma como neira de formar os acordes na mão execução.
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 116

sa m ba s uspir o do
ig uape, em san tiag o
d o iguape, c achoe ira.
foto: lu iz san tos.

Essas noções teóricas são im- mas afinada uma quarta ou uma em seu “Sol maior”. Quando o
portantes, principalmente na quinta mais grave. (Ver Exemplo 1.) tocador da machete, que funcio-
formação apropriada do conjunto O executante da viola maior afina a na como viola-guia, murmura aos
de violas, ou seja, um conjunto de sua “prima”, posta uma quarta mais ouvidos do tocador da três-quartos
instrumentos de diferentes tama- grave, em uníssono com a “segun- que se senta ao seu lado, “Samba
nhos, afinados diferentemente uns da” da machete. Para afinar uma em Lá”, cumpre ao último perceber
em relação aos outros e tocados quinta mais grave, o instrumento logo que vai tocar em “Ré”. Se não
diferentemente uns dos outros. A maior afina a sua “segunda” uma perceber, o violeiro-guia lhe infor-
maioria dos violeiros concordam oitava mais grave do que a “prima” ma. É a tonalidade do machete que
em que um conjunto de samba com do instrumento menor. verbalmente define a tonalidade do
muitas violas resulta, na palavra de Afinadas em “natural”, em conjunto em qualquer ocasião, e,
certo informante, em verdadeira qualquer altura, as “primas” tan- uma vez que cada tonalidade tem as
“bagunça”, basicamente por duas to do instrumento menor como suas facetas de estilo, é o estilo da
razões: primeiro, num grupo ex- do maior são chamadas “Mi”. A tonalidade do machete que predo-
cessivamente numeroso, os músicos “segunda” é sempre “Si”, a tercei- mina. Os cantadores (que podem
tendem a não se acostumar às regras ra ordem “Sol”, a quarta “Ré” e a ser ou não os próprios violeiros)
de conjunto; em segundo lugar, quinta “Lá”. Conseqüentemente, são livres para pedir determinado
instrumentos em demasia inevi- com a sua “segunda” afinada em tom. “Lá maior”, por exemplo,
tavelmente tumultuam a sutileza uníssono com a prima do mache- exige que os cantadores cantem em
e a nitidez do ideal sonoro de um te, o tocador da três-quartos deve âmbito extremamente agudo (usan-
agrupamento de violas. A com- tocar a sua terceira, a que chama do o falsete), ou em outro muito
binação a que se dá preferência, “Sol”, quando a última faz soar a grave. Tende a ser mais langoroso
no estilo de Santo Amaro, é uma sua quarta ordem, chamada “Ré”. que outras tonalidades, executan-
machete afinada em natural e uma Quando a machete toca em “Ré do-se em andamento mais lento.
três-quartos, também em natural, maior”, cabe à três-quartos tocar Os cantadores devem sustentar, por
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 117

períodos maiores, difíceis alturas de anular-se de tocar do violeiro-guia. ocasionalmente um pequeno tam-
inflexão lamuriosa, particularmente A machete em “travessa” (que do bor de tamanho variável, e prato-
nos finais de frases. mesmo modo deve atingir textura e-faca (de preferência esmaltado, e
Quando um segundo machete apropriada no registro mais alto) quanto mais arrebentado melhor).
integra o conjunto, seja na au- afina a sua “prima”, sua quarta e Qualquer dos componentes do
sência de uma viola três-quartos, sua quinta ordens em uníssono com conjunto pode figurar também
seja como terceiro componente do aqueles mesmos pares da machete entre os cantadores, que cantam
grupo, é recomendável que o seu em “natural”, com as duas outras aos pares, principalmente em terças
tocador a afine em “travessa”. Se ordens ajustadas de modo que paralelas. Ocasionalmente, em-
é dos que preferem tocar somen- ofereçam intervalos apropriados bora seja raro, um dos cantadores
te em “natural”, provavelmente à afinação. O músico continuará não fará parte do conjunto instru-
deverá (afina o seu instrumento em a chamar a quarta e a quinta or- mental. No decorrer de uma típica
uníssono com a machete do compa- dens respectivamente “Ré” e “Lá” noite de samba, os músicos poderão
nheiro) optar por uma execução em e reconhece que só pode acompa- sair do conjunto e a ele retornar,
“sustenido”, ou em “sustenido-be- nhar com facilidade a machete em mudando a sua função musical
mol”. Se resolvesse ignorar as con- “natural” se a última tocar em “Ré”. interna, numa constante recompo-
siderações de textura que o tocar Tal como um violeiro me declarou, sição do grupo que faculta varieda-
em outra posição procura cumprir, “em travessa não se fala em tonali- de estilística e a resistência física ao
o violeiro-guia provavelmente dade”. samba “de valor”, o qual “só acaba
sugeriria que o primeiro tocasse em A percussão do conjunto apro- quando o dia arraiar”.
determinada posição tonal. Con- priado para o samba consiste de um
tinuar ignorando a sugestão não ou dois pandeiros (talvez três, caso
levaria à outra coerção que um dar os tocadores sejam bastante cuida-
de ombros, um balançar de cabeça dosos para tocar no mesmo estilo e
de brando desgosto, e um discreto não “esmagar” as vozes e as violas),
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 118

2. samba de viola

T em-se dito do samba que é


quase tudo, do sublime ao ri-
dículo.9 Este estudo toma a defesa
tomados em conjunto, esses nomes
proporcionam uma definição com-
pleta do gênero.
bre o samba, concentrando-se em
argumentos a respeito da etimolo-
gia da palavra e numa polêmica so-
de algo mais próximo do primeiro A compreensão do significado bre se o samba se originou na Bahia
ponto de vista, pois, longe de ser completo desse tipo de samba exige ou no Rio de Janeiro, obscurece
um passatempo de esquina, o samba também a sua apreciação como o passado e ignora o presente. O
pode ser uma arte complexa, bem ocasião, como evento ritual, que é primeiro destes argumentos pare-
como parte de atos e eventos reli- parte integrante das mais impor- ce preocupado com uma remota
giosos. tantes festas da religião doméstica fonte africana do samba e o outro
Na primeira parte deste estudo, da família, num quase inseparável com uma distante fonte brasileira.
examinaram-se várias propriedades sistema de crenças herdado da Áfri- Ambas as atitudes são grandemente
físicas, musicais e simbólicas da ca e do catolicismo popular, nota- dedutivas e ignoram o comporta-
viola brasileira no Recôncavo, o damente nas pequenas localidades mento humano que os seus par-
instrumento musical que dá a um e nas áreas rurais circunvizinhas do ticipantes denominam “samba”.10
gênero de samba o mais comum dos Recôncavo. Um samba é o evento Ambas evidenciam uma tentativa
seus nomes: “samba de viola.” Os que se desenrola através da execu- de encontrar um passado para o
outros nomes - “samba de chula” ção do gênero musical do mesmo samba com pouco conhecimento de
(ou “samba chulado”) [Nota da nome. seu presente. Neste ensaio, enfim,
revisão: na pesquisa de 2004, en- Finalmente, “samba” assume convém procurar-se flores antes de
contramos mais a expressão “samba um sentido de identidade de grupo raízes.
chula”], “samba de parada”, “sam- que discrimina os indivíduos com- O propósito deste estudo não é
ba santo-amarense”, “samba de petentes para participar do evento e buscar uma definição geral de sam-
partido alto”, “samba amarrado” para execução do gênero de manei- ba: o assunto é vasto e tenho comi-
- identificam o mesmo gênero por ra correta. go que irrelevante. O objetivo aqui
diferentes aspectos, e realmente, Muito do que se tem escrito so- em jogo é lançar a vista sobre uma
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 119

D ona Fia com prato-e-


faca , do S amb a de Rod a
d e P iraj uía . foto: lu iz
san tos .

forma específica de comportamen- O GÊNERO uma ou duas vezes, praticamente


to artístico que os seus executantes O que se segue deverá servir de sem metro, a fim de fixar a tonali-
denominam “samba” (com os seus texto básico. É o sumário do mí- dade, permitindo assim aos outros
já mencionados qualificativos) e nimo dos eventos que constituem violeiros que estabeleçam as suas.
por esse meio contribuir para uma o gênero. Esta célula de execução O toque das violas adquire metro
noção válida de pelo menos um dos (que, na terminologia de músi- de forma gradativa, dentro, apro-
gêneros em que cabe aquele termo, ca e dança, poderia chamar-se ximadamente, dos quatro próximos
do qual se tem abusado bastante. A de “peça”) ajudará a esclarecer os compassos, e os instrumentos de
orientação que seguiremos é em- vários nomes que o gênero recebe. percussão entram a seu próprio
pírica: é resultado de trabalho e de Uma seqüência de tais células, e a critério, tocando o pandeiro mais
observações de campo; as fontes se- maneira como são concatenadas a ou menos conforme o padrão dado
cundárias têm uma posição de fato fim de produzir a seqüência, geram no Exemplo 3.
secundária. a estrutura e a dinâmica do gênero. Mantém-se o prato na palma
Pressupõe-se um conjunto aberta de uma mão, como se fosse
musical mínimo e ideal do tipo um pastelão que o tocador estivesse
descrito na primeira parte do pre- prestes a lançar no próprio rosto.
sente estudo: uma viola “machete” Arranha-se a faca na borda do pra-
afinada em “natural” e tocando em to da maneira vista no Exemplo 4.
“Ré maior pequeno”, uma viola São as palmas dos demais
“três-quartos” afinada em “natu- presentes uma parte essencial da
ral” e tocando em “Lá maior”, um percussão. Situação típica é a de
pandeiro11, e um prato-e-faca. A pessoas que se mantém de pé junto
viola principal (a viola machete, das paredes da sala, geralmen-
viola-guia) toca o padrão de “Ré te pequena, a um lado da qual os
maior” (demonstrado no Exemplo 2) músicos permanecem sentados,
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 120

foto d e gil b erto se na,


d o arqu i vo d e ral ph
wa d d ey.

exceto o tocador de prato-e-faca, claro que o conjunto está conve- faca, como no Exemplo 9. As palmas
que normalmente fica em pé (a não nientemente formado, de entre os mudam para o mesmo padrão e
ser que também cante chula). Essas músicos que formam o conjunto reduzem grandemente o volume,
palmas constituem o que pode cha- primário entram dois cantadores muitas cessando de todo. O prato-
mar-se de conjunto musical secun- com o texto do canto, uma “chula”, e-faca parece assim funcionar como
dário, proporcionando não só um em terças paralelas, como no Exemplo um instrumento-guia em relação ao
acréscimo de sonoridade percussi- 8. Ao completar-se a chula, dois conjunto secundário.
va, como também (o que é talvez de outros cantadores podem responder Com o término do relativo (ou,
importância maior) um estímulo ao (sem perder nem um só tempo, se se não se canta relativo, ao térmi-
envolvimento e ao entusiasmo de adequadamente executada) com um no da chula), o prato-e-faca e as
todos os que estão na sala. As pal- “relativo”,12 cujo texto seria, su- palmas retornam ao seus padrões
mas entram à vontade, principal- postamente, relevante para a chula iniciais, mas com insistência ainda
mente no padrão dado no Exemplo (ou, justamente, “relativo” a ela), maior, a fim de encorajar o dança-
5. Outras pessoas, à medida que o relevância essa que os próprios mú- dor - “sambador” ou “sambadora”
conjunto se forma e o entusiasmo sicos reconhecem ser muitas vezes (com mais freqüência uma mu-
cresce, podem bater palmas, num duvidosa (ou que não sabem, ou lher)13 - que logo entra na “roda”
padrão de colcheias de igual acen- não querem, explicar). De maneira (o espaço livre no centro da sala,
tuação, como no Exemplo 6. Outros, típica, o relativo consiste em dois aproximadamente em círculo),
ainda, curvando a palma direita e, versos, ocupando oito compassos, para “sambar” ou “sapatear”.14 Os
com uma rápida torção do punho, e é cantado uma vez, também em movimentos dos pés, minúsculos,
em golpes contra a esquerda, po- terças paralelas, e imediatamente intricados, rápidos, e às vezes quase
dem percutir da forma mostrada no repetido. imperceptíveis (o “sapateado”, tam-
Exemplo 7. Durante o canto, o prato-e-faca bém chamado “repicado”, “recol-
Depois de cerca de dezesseis se modifica, passando-se a bater chete”, ou “miudinho”) são quase
compassos, ou após tornar-se na borda do prato com as costas da os únicos movimentos do corpo na
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 121

dinho”, parece flutuar na direção Então a que vai dançar movi-


dos músicos, de onde o pandeiro menta-se para o centro da roda,
a chama para a “boca do banco”. onde dança breve tempo, “dá três
O tocador de pandeiro segura o voltas” e, finalmente, movendo-se
seu instrumento numa posição rapidamente para a periferia da
horizontal, perto do chão e do roda, “passa” o samba a alguém
seu banco ou tamborete (ou mes- da sua escolha, mediante um sinal
mo cadeira), entre as suas pernas que faz parte de um conjunto, um
abertas e executa o padrão mostrado repertório, de sinais apropriados,
no Exemplo 10, com a extensão dos sendo talvez o mais comum a “um-
seus dedos fechados sobre a pele bigada”: a dançadeira abre os bra-
folgada do pandeiro. A mulher ços e estende o ventre, ou melhor
que dança se apresenta diante de o umbigo, na direção da pessoa a
coreografia do samba no estilo do cada instrumento, especialmente quem está passando a dança. Os
Recôncavo adequadamente execu- diante da viola-guia ou do músico dois podem se tocar efetivamente,
tado. que oferece o ritmo mais atraente, ou não. Outros sinais são um toque
Ao dançar, a mulher mantém escolhendo entre um repertório de do joelho no de quem vai dançar
o queixo levantado, o rosto volta- passos específicos (presumindo-se (mais comum entre homens), ou
do para o lado, de modo altivo, as que ela seja do número, rapida- estender as mãos juntas, num gesto
mãos nos quadris, ou segurando mente declinando, daquelas que de prece (ou adoração), na direção
de leve com uma mão a sua saia ainda dominam esse repertório). A do rosto da pessoa que recebe o
na altura da coxa, suspendendo-a viola-guia toca uma “passagem”, tal encargo. O tempo desta na roda é
delicadamente.15 Ela entra na roda, como a do Exemplo 11, para a mulher, indeterminado, e dura essencial-
vindo do seu lugar na periferia e, como dizem os violeiros, “tirar no mente de acordo com a sua vontade
com os pequenos passos do “miu- pé o que a viola tira no dedo”. (moderada pela apreciação ou a
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 122

S am ba Ch u la os Fil h os
da Pi tangu eira, d e s ã o
franc is c o d o c ond e .
foto : l ui z santo s.

falta dela por parte dos demais par- Introdução instrumental uma mudança e/ou um intervalo.
ticipantes em relação à sua dança), Chula A (+ Relativo A) A célula de execução está completa
mas uma execução típica dura entre Dançador A e, embora seja raro na prática, um
16 e 48 compassos musicais. Chula A (+ Relativo A ou B) samba como evento poderia em tese
O novo dançador - homem Dançador B consistir apenas desta célula (exa-
ou mulher - espera no seu lugar Chula A (+ Relativo A, B, ou C) tamente como um recital ou con-
enquanto se repete a chula, e esta Dançador C certo poderia consistir de apenas
é respondida pelo mesmo relativo, Chula B (+ Relativo D) uma peça). Um novo ciclo começa,
por outro, ou por nenhum. Tipi- Dançador D... geralmente após um descanso de
camente, uma chula e seus relativos alguns minutos (e habitualmente
são executados três vezes, cada vez ...e assim por diante. Os parênteses com o reabastecimento dos músicos
separada por uma seqüência de servem para lembrar que os relati- em bebidas, e às vezes comidas), em
dança. Três ou mais chulas diferen- vos podem ou não estar presentes, e nova tonalidade.
tes são geralmente ligadas, antes que que o mesmo relativo pode ou não O que se transcreve no Exemplo 8
os instrumentos parem e se reagru- ser repetido para a mesma chula (e é excelente demonstração de regis-
pem. Um dançador se apresenta qualquer combinação destas possi- tro alto, chamado “voz de mulher”,
entre duas diferentes chulas exa- bilidades). que é talvez o principal refinamen-
tamente como se o intervalo fosse O ciclo termina mais comu- to, ou maneirismo, da execução
apenas entre repetições da mesma mente logo depois de uma chula vocal para os cantores masculinos
chula.16 (e seu relativo), a critério da vio- de chulas no estilo sant’amarense.
Em resumo, um ciclo completo la-guia, que se interrompe por Ambos os cantores nesta apresen-
característico obedece ao seguinte motivos próprios ou por indicação tação eram homens. A despeito da
esquema: de outro músico ou de uma pessoa região tonal aguda, os sons vocais
de responsabilidade do conjunto são relaxados. O timbre não é ás-
secundário, ou da casa, para fazer pero, e a produção vocal parece ser
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 123

de verdadeiro contratenor. Neste


exemplo, como acontece comu-
mente, a voz mais aguda é chama-
da “primeira voz”, e a mais grave
“segunda voz”. Essencialmente,
contudo, a primeira voz é a voz-
guia, e como tal pode ser tanto a
mais aguda como a mais grave.
O cantor que escolhe a chula
e entra em primeiro lugar escolhe
também a parte e o registro em que
cantará; o outro cantor deve então
adaptar-se da maneira mais con-
veniente. Uma primeira voz pode
selecionar certo registro no qual a
sua segunda, para ajustar-se ade-
quadamente, seja forçada, de ma-
neira desconfortável, a um registro
elevado. Esta forma de competição,
de acordo com Antônio “Can-
deá” Moura, é comum no “samba
de estiva” (mas de forma alguma
exclusiva dele), no qual a primeira
é comumente a voz mais grave. Um
par de cantadores (“parceiros”),
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 124

altamente acostumados um ao ou- são apenas implícitos. A fixação do se fossem um só. Os dois freqüen-
tro, pode mesmo permutar as vozes texto é bastante livre, e os valores temente cantam olhando atenta-
em certas frases em determinadas rítmicos variam de execução para mente um para o outro, especial-
chulas, como fazem Cobrinha execução. Os valores dados no Exem- mente se antes não cantaram juntos
Verde e Candeá no último verso (*) plo 8 não devem, por conseguinte, com freqüência. Parcerias são
desta chula: ser tomados muito literalmente. escolhidas com cuidado e cultiva-
As alterações cromáticas tam- das com carinho. Cobrinha Verde
Ô liga,19 ô liga meu bem bará, (bis) bém são tratadas um tanto livre- celebrava esse tipo de relação numa
Roxo, não. Sou mulatinho, mente, e o rebaixamento do sétimo chula que cantava tendo Candeá
Cabelo crespo, cacheadinho. grau da escala, característico da como parceiro:
Bicho do mato tem três pé. música tradicional brasileira, espe-
Ele pula alí, dança candomblé. cialmente no Nordeste, por vezes Era eu e era Candeá,
Pimenta de jiriquitá.20 ocorre, por vezes não. Mais pre- E nós dois andava junto.
*Vou beber na venda de Loriana. cisamente, o sétimo grau é tratado Não sei se Deus consente
como neutro: pode ser uma sétima Numa cova dois defunto.
O Exemplo 8 também mostra menor ou uma sétima maior, ou
outra importante faceta do estilo pode cair em algum ponto inter- Melodias específicas, tipos
de canto: pouco do que os canta- mediário. melódicos e tratamento dos tipos
dores fazem acontece em cima do A liberdade de expressão que tal melódicos variam consideravel-
tempo; só raramente uma sílaba fluidez oferece exige cuidado, pre- mente de acordo com os cantadores
não se antecipa, ou ligeiramente se cisão e intimidade proporcionais individuais, grupos e localidades. O
retarda, em relação ao pulso rítmi- entre os parceiros e cantadores, a tratamento dessas variantes e variá-
co. Tempo e metro são claramente fim de atingir o ideal de exatidão do veis será abordado em futuro estu-
expressos pelos instrumentos de estilo. Os cantadores devem agir e do. Um traço melódico recorrente,
percussão, mas, para os cantadores, reagir, em sua apresentação, como todavia, que é identificado e deno-
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 125

sa mb a t ra dici onal d a
i l ha , m ar gran de, i lh a
d e itapari ca . foto: lu iz
santos.

minado pelos próprios cantadores Ô, vem a cavalaria da donzela Teodora. (bis) Exemplo 8 vai no sentido contrário.
(caso raro, em contraste com o Cada cavalo uma sela, cada sela uma senhora. O “repicado” do estilo coreo-
extenso vocabulário teórico aplica- Três Maria, três Joana, três tocador de viola. gráfico tradicional de samba está
do à viola e seu uso) é o “baixão” - a Quem me dera aquela roxa pra raiar no colo rapidamente cedendo terreno ao
sensível na oitava inferior sustida dela. “rebolado” do samba de Carnaval
na sílaba final do penúltimo verso, Toca viola, ioiô. Minha santa é virtuosa. (e acrescente-se, dos programas de
como no Exemplo 12. A sustentação Mulher que engana homem é danada de auditório da televisão). O reper-
da sílaba final de cada verso sobre teimosa, ô, iaiá.21 tório dos sapateados - “bate-sola”,
vários tempos é característica do “corta-jaca”, “samba-no-coco” e
estilo de Santo Amaro propriamen- Candeá canta esta chula de duas “charre” (ou “chale”) - está caindo
te dito (cidade sede do município maneiras: numa delas, sustenta a em esquecimento, e os dançado-
do mesmo nome, em contraste com última sílaba da palavra “teimosa”, res mais jovens ignoram também a
seus distritos atuais e os já emanci- deixando fora a palavra “iaiá”; na seqüência apropriada de eventos na
pados, como, por exemplo, Sauba- outra, acrescenta a palavra “iaiá”, e roda. Esta espécie de mudança, que
ra). No estilo “estiva”, essas sílabas sustenta sua sílaba final. De pas- consiste numa diminuição concre-
finais são quase truncadas, mas no sagem, diga-se que ele apresenta ta do repertório, estabelece nítido
verdadeiro estilo santo-amarense as esta chula como uma que “não pega contraste com o processo de mu-
interjeições “Ô ai-ai”, “Ô ah-ah”, relativo”. (“- Por que não pega, dança do passado, no qual o mate-
ou mesmo “Ô iaiá” são acrescen- Sr. Candeá?” “- Não pega. É por rial era reinterpretado em termos
tadas ao fim do texto da chula e isto.”) Esta chula é cantada com do estilo tradicional preexistente, e
estendidas sobre vários compassos, um baixão na palavra “virtuosa”, nele incorporado.
ao invés da sílaba final do texto, tal e demonstra também outro tra- O “charre”, que ainda pode
como nesta chula que Candeá cos- ço comum: com mais freqüência ser encontrado entre os da velha
tumava cantar: repete-se o primeiro verso de uma geração na localidade de Saubara,
chula do que se deixa de fazê-lo. O é claramente o charleston22 executa-
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 126

do no estilo do samba tradicional claro. todavia, enfrentarão dificuldades


- isto é, com movimentos de pés “Samba de viola” refere-se e despesas para contarem com a
contidos e com os braços retidos evidentemente ao instrumento que presença de violeiros, e a viola ge-
nos lados, em lugar dos balanços e constitui o centro do conjunto ralmente não acompanha sambas de
os saltos das pernas e dos braços do instrumental de acompanhamento outros tipos.
charleston “autêntico”. Reconhece- deste samba. O assunto “viola” já “Samba de parada” refere-se
se que o charre, ou “chale”, “veio foi extensamente tratado, mas vale ao fato de os cantadores pararem o
de fora”, muitos anos atrás, e que a pena ressaltar que este instru- canto enquanto o dançador dança
era uma “dança” (tomando-se esta mento proporciona uma definição e o dançador interromper a dança
palavra no sentido de algo diferente existencial do samba. A simples para que os cantadores cantem. Em
de “samba”). O charleston natu- presença da viola e de sua bagagem contraposição, no “samba corrido”
ralizou-se e enriqueceu o gênero simbólica no samba dá a este gêne- não somente o canto e dança são
antigo ao assumir o estilo tradicio- ro um dos seus nomes de uso mais simultâneos, como também mais de
nal, ao passo que o rebolado invade generalizado. Noutras palavras, a um dançador pode entrar na roda a
aquele gênero e expulsa o estilo mesma célula de execução musical um só tempo, coisas rigorosamente
tradicional. pode ser, e efetivamente é, feita sem proibidas no samba de parada.
Esta descrição pretende atingir a viola, quando o instrumento não O fator formal essencial e prin-
a função essencial de definir um está disponível. O estilo da dança cipal elemento organizador nesse
gênero que, mesmo para os seus e do canto, os textos, e a seqüência estilo de samba é a chula, do que
participantes, se impõe através de dos eventos são os mesmos, mas se deriva a denominação “samba
nomes variados e intercambiáveis, são acompanhados somente pelo de chula” (ou “samba chulado”).
cada um se referindo simplesmente conjunto de percussão. Outro ins- Um ensaio substancial poderia ser
a uma faceta diferente do mesmo trumento - a sanfona, por exemplo elaborado sobre a históra dos vários
samba. O exame de cada um desses - pode fazer a substituição musical gêneros musicais e coreográficos
nomes em separado torná-lo-á bem da viola. Os promotores do evento, aos quais o nome de “chula” tem
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 127

toca dor es do gru po


paparutas. foto: lu iz
san tos .

sido aplicado. Tem sido considera- tiva). Uma constante entre todas E assim por diante, sempre
do, como canto e dança, sinônimo essas variáveis é que a forma textual lamentando as tarefas que Maria
ou uma variante do fandango e do do samba chulado é essencialmente não executa por causa de sua indis-
sapateado, populares no século XIX européia. As chulas são de extensões posição. Este corrido só termina
em Portugal, no Rio de Janeiro, diferentes, mas cada chula indivi- quando, após certo tempo, os par-
São Paulo e Rio Grande do Sul.23 dual tem uma extensão e duração ticipantes se cansam, e outro solista
Todos os relatos estão de acordo em específicas. Em contraste, o padrão entra com outro corrido.
que a chula virtualmente se extin- breve do chamado do solo e da res- É difícil criar, de forma sumá-
guiu em todos esses lugares. posta do grupo, e a duração inde- ria, uma idéia geral significativa
No samba do Recôncavo, a terminada do samba “corrido” são de algo tão variado no conteúdo e
chula24 é o texto do canto. Chulas eminentemente africanos, como na forma como a chula. Uma das
são poemas, de extensão variável, neste exemplo. características que as chulas pare-
porém mais comumente de quatro cem compartilhar é um senso de
versos, e ecléticos ao extremo, tanto (Solo) Que é que Maria tem? intimidade - uma proximidade
na forma como no assunto. A chula (Grupo) ‘Tá doente. pessoal entre o cantador e o assun-
pode ter sentido lógico, mensa- Que é que Maria tem? to - expresso em linguagem muito
gem clara, ser narrativa e linear, ‘Tá doente. coloquial. Esta qualidade foi vista
ou pode ser altamente simbólica, Maria não lava roupa. nos exemplos já oferecidos.
parecendo expressar uma livre ‘Tá doente. A chula no Exemplo 8 é um diá-
associação. A chula, como vimos, Maria não varre a casa. logo pastoral em que um vizinho
pode ser seguida por um “relativo”, ‘Tá doente. aparece para pedir emprestado uma
tipicamente de dois versos, que se Maria não vai pra rua. cadela à sua pouco compreensiva
considera adequado para a chula ‘Tá doente. comadre,25 para ajudar a expulsar
que o precede (adequação esta que, Que é que Maria tem? um boi da sua roça. O nome da
na prática, muitas vezes é só rela- ‘Tá doente. cachorra é Caravela: coisas do mar
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 128

foto d e gil b erto s e na ,


do arqu i vo d e ral ph
waddey.

são imunes às coisas da terra, como Ô, compadre, que dia você chegou? Cheguei
por exemplo os “bichos do chão” ontem.
(eufemismo para cobras) e a raiva, Fui na guerra dos Canudos, não morri.
razão por que freqüentemente os Dia de fogo cerrado, mataram todo soldado.
cães recebem nomes marítimos.26 Dia de fogo primeiro, mataram Antônio
Na chula, o vizinho chama a ca- Conselheiro.
chorra exatamente como se estivesse Dia de fogo segundo, mataram todo jagunço.
na roça: “Ecô, Caravela!”. A pri- Ô, compadre, que dia você chegou? Cheguei
meira chula citada no texto deste ontem.
trabalho trata com ironia noções
raciais: “Roxo, não. Sou mulatinho A chula pode ser a respeito do
- cabelo crespo, cacheadinho”. O próprio samba, como acontece
cantador decide que uma bebida na com esta conversa (também chula
venda de uma certa “Loriana” pode de “Cobrinha”) entre pai e filho. Ói o velho lá!
resolver os problemas. A segunda O último diz o que se passou no Ô, meu pai, de meia-noite para o dia,
chula citada no texto é uma declara- samba da noite anterior. Faca fora desafia.
ção de amizade fraternal e de união Ói o velho fora de lá!
entre os dois cantadores. Ô, meu pai, ainda ontem fui no samba. Deu
Esse senso de intimidade apa- bom. A mistura de temas e idéias,
rece até nas chulas a respeito de Ói o velho lá! como ocorre na chula referida na
acontecimentos históricos, tal como Deu muito comida, meu pai. nota 21, pode indicar a recomposi-
numa das chulas favoritas de Co- Ói o velho lá! ção a partir de mais de uma fonte,
brinha Verde, também na forma de Tinha muita bebida, meu pai. e isto certamente conviria à natu-
diálogo: Ói o velho lá! reza permissiva da chula em todos
Tinha moça bonita, meu pai. os seus aspectos. Em outros casos,
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 129

todavia, esta livre associação parece corrente, e podem ser paródias de mento mesmo, durante o samba,
obedecer a uma coerência impres- outros textos, tal como esta chula de como foi a precedente. Pode então
sionista, expressa na linguagem autoria de Candeá, baseada numa entrar no repertório estabelecido
lírica das imagens vivas do cotidiano cantiga muito ouvida alguns anos e ser cantada por qualquer pessoa,
do Recôncavo, tal como nesta chula atrás nas emissoras baianas. embora seja reconhecida como
freqüentemente cantada por Can- a chula de autor tal. Do mesmo
deá. Quando será modo, uma chula já existente é
O dia da minha sorte? conhecida como a chula do indiví-
Ô, vem do mar, Antes da minha morte, duo que a introduziu no repertório
Do outro lado de lá. Olha eu. Esse dia chegará. de um grupo ou local específicos.
Cabocolinho, venha cá serear. Qualquer um pode então cantá-la,
Que coisa bonita eu acho, Sou filho de Oxum. reconhecendo-se que é a chula de
Banana madura no fundo do cacho. Sou neto de Iemanjá. quem a introduziu, muito embora
Céu de amor. Sou filho de Ogum. este não reclame autoria, como é
Céu de amor é céu de amar. Sou neto de Oxalá. exatamente o caso, por exemplo,
Da forma que o barco anda, meu mano, Antes da minha morte, da chula citada, “Ô, meu pai ...”:
Como o vento leva. Minha sorte vai mudar. Candeá admitia tê-la aprendido
Deus me livre de eu andar, mulher, nos sambas de sua juventude, em
Como o barco anda. A mais notável contribuição de Santo Amaro da Purificação.
Candeá ao texto é o apelo que faz à Uma vaga idéia da idade relativa
Além da possibilidade de uma sua relação com seus orixás, inclu- das chulas no repertório é reconhe-
chula ser refeita de pedaços de sive de parentesco de “santo”. cida pelos que as executam, mas não
outros textos, as chulas são também Embora não seja essencialmente se apresenta nenhuma razão ana-
extraídas intactas de outros reper- um gênero improvisado, às vezes a lítica. O violeiro Crispim Ubaldo
tórios, inclusive da música popular chula pode ser composta no mo- Evangelista, agricultor em Senzala
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 130

S am ba d e R o da Ra í z es
d e Ango la , d e s ã o
franc is c o d o c ond e .
foto : l ui z santo s.

página ao la d o
S e u M undinh o e
S e u J o ã o d e Iaiá, da
Marujada d e Sau bara .
foto : l ui z santo s .

(perto de Oliveira dos Campinhos, pessoas na roda. Um dançador entra na roda; re-
localidade nas proximidades de Diz-se que o “samba amarrado” pete-se a chula acima, e outro entra
Santo Amaro), nascido em 1911,27 se refere, por um lado, a um ritmo na roda. Este ciclo pode acontecer
apresenta como “a primeira chu- um tanto calmo e ao uso refina- várias vezes. O samba é então “de-
la” esta, que se transcreve com um do e reservado de vozes, violas e samarrado”, cantando-se a chula,
relativo. mesmo percussão, em comparação desta vez com os seus versos finais:
com o samba corrido, mais “solto”
(Chula) e demonstrativo. Candeá, todavia, Na Feira de Santana,
Minha sinhá, minha iaiá. (bis) dá uma explicação mais específica Eu vendi meu boi fiado
Quem tem amor tem que dá. do samba amarrado com base numa Por um bom dinheiro, ai, ai.
Quem não tem não pode dá. forma especial de chula. O samba é
Mulata baiana, quero ver a palma zoá. “amarrado” cantando-se os ver- Introduz-se uma nova chula, e o
Chora mulata, chora sos finais da chula somente depois samba continua.
Na prima desta viola. da repetição final desta, como no Nos tempos presentes, associa-
seguinte exemplo. Canta-se inicial- se mais comumente o “partido alto”
(Relativo) mente a chula desta forma: com o samba do Rio de Janeiro,
Ô, vi Amélia namorando. Eu vi Amélia. mas há considerável indicação de
Eu vi Amélia namorando. Namora, Amélia. Garimpeiro, boiadeiro, que o termo e o estilo do samba que
Olha seu gado esparramado. identifica possam ter emigrado da
As chulas podem ter também Sinhazinha mandou me chamar Bahia.28 A palavra partido, já se vê,
sentido imediato. Existem textos Lá de cima do sobrado. significa, entre outras coisas, uma
especiais para começar uma noite Um conto de réis eu dou associação política formal. Parti-
de samba, para permitir a um novo Pela boiada do gado, do é também um extenso campo
cantador se apresentar, e para lou- Tirando tortos e magros de cana-de-açúcar, e deste modo
var ou provocar outros músicos e Que não possam viajar. partido alto pode significar uma
plantação em terreno elevado. A um público não distraído nem por da Purificação e seus arredores o
Prof. Zilda Paim, de Santo Amaro outras dançadeiras, nem por textos samba que apresenta tais elementos
da Purificação, explica que partido cantados. Este aspecto oferece estilísticos. A expressão tem eviden-
alto era o samba que os senhores de também uma explicação da predo- temente mais sentido fora do que
engenho estimulavam para exibir as minância de mulheres nesta espé- dentro de Santo Amaro, e o seu
suas “cabrochas e mucamas” favo- cie de samba. A participação dos sentido, por exemplo, em Salvador
ritas, vale dizer, as suas amantes es- senhores de terra explica o uso de é diferente daquele que tem em Ca-
cravas prediletas.29 Cobrinha Verde um instrumento de origem euro- choeira. Na primeira cidade, centro
afirma que o partido alto é o samba péia (a viola), e de um texto cantado onde muitos estilos regionais se
da “ristrocacia”.30 em língua européia, e de estrutura reuniram, “samba sant’amarense”
Partido alto pode, pois, referir- européia. refere-se em sentido generalizado
se a um discreto refúgio no canavial Raízes etimológicas e históricas ao estilo de samba do Recôncavo,
em terreno alto, assim como ao são de pouco interesse para os mú- exemplificado pelo de Santo Ama-
partido, ou sociedade, dos “barões sicos do Recôncavo. São mais prag- ro. Em outros locais do Recôncavo,
do açúcar” do Recôncavo. A his- máticos, e os informantes definem muitos dos quais têm seus próprios
tória oral falha em especificar qual o partido alto em termos estilísticos estilos bastante semelhantes ao de
dessas é a válida (se alguma delas o claros e simples: é cantado em duas Santo Amaro, o termo refere-se
for), mas esta hipótese proporciona vozes, a “primeira” e a “segun- a detalhes específicos e menores
pelo menos explicações parciais aos da”; só uma mulher entra na roda do repertório, ao uso da viola, à
vários elementos estilísticos desse de cada vez, e só quando a chula maneira de dançar e ao estilo do
gênero de samba. O canto cessa, e (possivelmente com seu relativo) canto.
em contraste com o samba corrido, terminou.
apenas uma mulher de cada vez é Samba “santo-amarense”
admitida na roda, a fim de mostrar refere-se ao fato de que está mais
sua habilidade e seus encantos a associado à cidade de Santo Amaro
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 132

O EVENTO gumas vizinhanças de Saubara, e em junto adequado se reúna numa base


É verdade que este gênero de outras localidades do Recôncavo, diária. Enfim, vale lembrar que o
samba, e qualquer outro, pode ser as pessoas costumam sambar quase samba de viola é da “aristocracia”,
apresentado nas esquinas, mas no todas as noites, depois do dia de nas palavras de Cobrinha Verde, e,
mesmo sentido em que um quar- trabalho. Trata-se porém de uma nas de Marcelino Amorim, “dono”
teto de cordas da música erudita execução do gênero apenas, infor- do toque “iúna” referido alhures
também pode ser - e realmente é mal e recreativo, e não do samba neste ensaio, é “música clássica”.31
- apresentado nos passeios públicos como evento. Predomina em tais Muito mais provável é que o samba
(e até nos metrôs) das metrópoles momentos, aliás, o samba corrido. informal de recreio venha a ser o
européias e norte-americanas. As É pouco provável que um samba corrido: é mais fácil formar o gru-
apresentações de música de câma- de viola se realize numa esquina de po, e, já que qualquer número de
ra a céu aberto (e nos túneis dos rua. Sem mencionar o anonimato pessoas pode “brincar” e quase ao
metrôs) podem ser prejudicadas e a confusão de uma via pública, o mesmo tempo, é bem mais iguali-
em comparação com as audições de fato é que os violeiros e os canta- tário.
salas de concertos, em termos de dores de chulas são extremamente Isto não pretende relegar o
acústica e de vários outros fatores exigentes a propósito do ambiente samba corrido a uma ordem infe-
ambientais (e, é claro, muitas vezes em que se apresentam (inclusive no rior. No evento completo do sam-
em termos da habilidade musical que se refere ao ambiente huma- ba, os corridos e as chulas com suas
dos executantes), mas o gênero e a no e à conduta dos presentes), até paradas se complementam, como
forma artísticos em si são os mes- mesmo quando esse ambiente é veremos.
mos, e tanto os executantes como parte da sua própria vizinhança, já O samba acontece adequa-
os ouvintes reconhecem que a rua que o conjunto de violas é peque- damente entre quatro paredes e
não é o meio ideal, e nem sempre o no, e os cantadores são apenas dois, realiza-se, mais caracteristicamente,
adequado, para a apresentação. o som que produzem não é alto. É nas salas da frente das casas parti-
É verdade também que em al- igualmente improvável que o con- culares. É um evento doméstico, de
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 133

foto de gi lbe rto se na,


d o arquivo de ra l ph
waddey.

página ao l ado
Caru ru de C os me e
Da mião, em m arag ogipe.
foto: lu iz santos .

família e, por extensão, de vizi- parte de uma religião pessoal que


nhança e comunidade. Realiza-se o indivíduo escolhe e assume, e
em ocasiões especiais, de significa- no qual, em certa medida, elege o
ção religiosa direta ou indireta. As tempo e a maneira de cumprir os
da última categoria incluem ritos atos indicados. O samba pode ser a
de passagem: nascimentos, casa- parte pública, celebratória e re-
mentos, batismos, e mesmo festas creativa de um ritual completo que
de quinze anos. As da primeira são ajuda a cumprir a obrigação.
mais interessantes para este ensaio. A comemoração em homena-
Os eventos de natureza direta- gem a São Roque, realizada todos
mente religiosa32 e ritual ocorrem os anos no dia desse santo (16 de
em dias dedicados a um santo, seja agosto) por determinado morador
patrono de nascimento de alguém, em sua casa num lugarejo perto
um santo que se escolheu como de Santo Amaro, reúne todos os quitetura baiana, se erguem numa
protetor, ou cuja intervenção se elementos. São Braz é um vilarejo à colina, a cavaleiro do arraial. O
solicitou. No sistema de crenças beira da maré, que depende quase São Roque católico, como muitos
afro-baiano, que funciona em inteiramente da pesca. Tem uma leitores sabem, está associado ao
íntima relação com o catolicismo rua principal sem pavimentação, Obaluaiê afro-baiano, a qualidade
popular, pode mesmo ser o próprio que atravessa uma pequena praça jovem do idoso Omolu, que está as-
santo quem demonstra interesse em com uma capela e termina no outro sociado a São Lázaro. Juntos, são as
ser procurado (em outras palavras, lado da colina, perto do mangue. divindades que controlam as enfer-
o santo pode tomar a iniciativa). Várias ruas se estendem a partir da midades e a peste.
Em resumo, estes eventos po- rua principal. As ruínas de uma Esse morador e um primo seu
dem ser “promessa” ou “obrigação” igreja barroca dedicada a São Braz, têm suas casas localizadas perto
de alguém. A obrigação é de fato de importância na história da ar- uma da outra, na rua principal
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 134

de São Braz. Na véspera do dia de santos preferidos no culto domés- Os participantes dão uma salva de
São Roque, gambiarras são esten- tico). A reza é aberta físicamente palmas e respondem, “Viva!”, e
didas entre as duas casas. Na sala e simbolicamente à comunidade, amiúde soltam-se foguetes na rua,
de uma delas, realiza-se uma festa e o grupo participante consiste de diante da casa.
de candomblé em homenagem a todos aqueles que desejam assistir. O estilo musical que prevalece
Obaluaiê, ritual em que o orixá é Este grupo se reúne ao redor do no evento começa gradativamente
chamado com tambores e ciclos de altar e da rezadeira, respondendo, a modificar-se, num processo de
cânticos de origem africana. Simul- também em canto, a suas preces. transformação musical que leva
taneamente, na outra casa, perten- O estilo musical destas preces diretamente ao samba. Dando um
cente ao primo, realiza-se uma reza é europeu. O tempo é lento e o passo da Europa rumo ao Brasil,
e um samba para São Roque.33 ritmo, quadrado. O canto pode ser as mulheres cantam uma roda34
A reza é um ciclo de orações em uníssono, ou às vezes em terças de despedida a São Roque (Exemplo
cantadas em português (com al- paralelas improvisadas. A impressão 13). Toda a assembléia entra com
gumas respostas em latim, às vezes é geralmente de lamento, embora, as palmas em cima do tempo, e o
de memória apenas fonética, “Ora é claro, nada em absoluto exista de andamento se acelera à medida que
pros nobres”, por exemplo) e “ti- lamento no rito. A reza prolon- sucessivamente a roda se repete.
radas” por uma “rezadeira”, pessoa ga-se por aproximadamente meia Alguns dos músicos que acompa-
especializada, na grande maioria hora. Encerra-se com uma ladai- nharão o samba assistiram à reza, e,
dos casos mulher, e trazida de fora nha de despedida para o santo ou a em certo ponto, pode-se ouvir um
pelo dono da casa. Reza ajoelhada - santa, freqüentemente agradecen- timbal que se vem juntar ao con-
ou sentada numa esteira de palha de do-lhe a presença e expressando a junto (Exemplo 14). A roda termina
artesanato local - diante de um altar esperança de que a ocasião se repita quando a rezadeira interrompe com
(chamado às vezes de “pejí”) ornado no ano vindouro. Ao fim da ladai- outra saudação, “Bença, Senhor
com imagens do santo reverenciado nha, a rezadeira saúda o santo três São Roque!”. Quase imediatamen-
(e talvez com imagens dos outros vezes, “Viva Senhor São Roque!” te, as mulheres iniciam uma segun-
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 135

foto d e gi l b erto s ena ,


do arqui vo d e ra l ph
wadd ey.

O samba de Messias foi um A primeira chula cantada é com


grande e feliz acontecimento no freqüência diretamente apropriada
ano em que este caso foi registra- a abrir uma noitada:
do. Os violeiros geralmente con-
cordaram em que o conjunto era Dona da casa, cheguei agora.
demasiadamente grande e que, Foi agora que eu cheguei,
por conseguinte, jamais se ajustou Com Deus e Nossa Senhora.
devidamente, resultando assim na [Nota: Esta chula é cantada na
“bagunça” - palavras suas - a que abertura do CD Samba de roda – Patri-
se aludiu muito atrás neste estudo. mônio da Humanidade]
Viola, cavaquinho e violão eram
de São Braz mesmo. Dois violei- Em Saubara, um músico pode
ros foram trazidos de localidades apresentar-se e introduzir-se no
da despedida ao santo, desta vez em próximas, sendo o transporte pago samba com esta chula, pela qual
forma de samba - mais precisamen- pelo patrocinador. O alojamento parece louvar sua própria conduta:
te, um corrido (Exemplo 15). Uma foi problema menor, pois o sono
ou várias pessoas podem entrar na foi coisa rara. Comida e bebida Pela primeira vez que chego,
roda para sambar diante do altar, foram abundantes no samba, e Peço licença.
que permanece exposto por toda certo número de casas se abriu para Apertei a mão das moças,
a noite. O conjunto de cordas e descanso de forasteiros e vizinhos E dos mais velhos dei a bença.
percussão (a “charanga”) arranja- igualmente. Ajoelhei pedi perdão.
se no lugar competente, e quando O samba não é em absoluto uma Eu dei a bença aos mais velhos,
o corrido das mulheres termina, cadeia de eventos inteiramente ho- E às moças eu apertei a mão.
o samba de viola está pronto para mogênea e indiscriminada durante
começar quase imediatamente. as muitas horas que pode durar.
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 136

Os cantadores podem zom- Ao que outro par poderá res- que, pelas graças de uma mulher da
bar um do outro, ou louvarem-se ponder com este relativo: roda, o ciúme e mesmo a violência
mutuamente, em suas chulas. Um se excitem. Uma forma comum de
par deles pode cantar da seguinte Colega meu, elogio a uma sambadora particular
forma: Vou mandar de relepada. (e também uma forma de partici-
Quando Deus mandar a chuva, pação para quem não está dançan-
Se minha mulher souber Você vai na enxurrada. do) é o grito, “Olhe seu marido,
Que um cantador me venceu, mulher!” (ou, “Marido, olhe sua
Ela jura, bate fé, Não é incomum que dois mulher!”), destinado a provocá-la
“Isto não aconteceu”. cantadores se convidem a sair da ainda mais a caprichar na roda (e,
Arruma a trouxa e vai-se embora. casa “para ver se o corpo agüenta o de passagem, enciumar o compa-
Não quer morar mais eu. que a boca fala”, nem é incomum nheiro dela). De qualquer forma,
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 137

S a mb a de Rod a de
P irajuí a. foto: lu iz
san tos.

diz-se que um samba sem pelo me- Em determinado momento da boca, e ele ou ela entra na roda para
nos ameaça de briga “não prestou”. noitada, o samba pode se tornar sambar ao som da seguinte chula
Tal como diz a chula, “De meia- mais lúdico, com a execução de e seu corrido, repetidos enquanto
noite para o dia, faca fora desafia”. “brincadeiras” contendo diálogo a pessoa que dança permanece na
Várias vezes durante a noi- falado e representação, e usando roda:
te, tanto para proporcionar uma adereços e objetos de cena, como
mudança de passo como para dar o “Samba de Severo”. Nesse, um (Chula, solo)
trégua aos violeiros e cantadores mestre de cerimônias pergunta a Quando eu tinha meu Severo,
de chula, os corridos substituem as vários indivíduos (identificados Eu comi de prato cheio.
chulas. O corrido pode ser variante por um chapéu que passa de um Hoje que não tenho Severo,
de uma chula, como neste caso: ao próximo escolhido), os quais Nem bem cheio nem bem meio.
improvisam papéis de forasteiros, (Corrido)
(Chula) porque apareceram no samba sem (Solo) O Severo é bom.
Eu via Maria sentada, serem chamados. O intruso inven- (Grupo) É bom demais.
Sentada no tamborete, ta qualquer pretexto para estar nas (Solo) O Severo é bom.
Cozendo sua costura, vizinhanças e algum grau de paren- (Grupo) É bom rapaz.
Bordando seu ramalhete. tesco, ou outro vínculo freqüen-
Chora, chorei, chora. temente sugestivo, com um certo Quem dança passa o samba ao
Chora, Maria, chora “Severo”. Quem indaga procura próximo “forasteiro”, colocando
Na prima desta viola, paciente porém insistentemente o chapéu em sua cabeça, a música
Chora. saber se o penetra “faz o que Seve- pára, e repete-se o interrogatório.
ro faz”. Este desafia em resposta: É difícil recusar o chapéu, e assim
(Corrido) “Pinique aí pra ver!”. A percussão este samba é usado para provocar a
Ô, chora, Maria, chora, (bis) começa antes, se possível, destas participação dos que se marginali-
Na prima desta viola. palavras terminarem de sair da sua zam, assim como fazer um intervalo
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 138

S am ba e m dia d e Caruru
d e C os m e e Dami ã o .
foto : l ui z santo s .

página ao la d o
L í d er es d o Sam ba d e
Cast r o A lv es . foto : l ui z
san to s.

humorístico, malicioso e até final- (Solo) Porque apanhou violeiros e cantadores às vezes re-
mente gaiato (combinação que aliás Nhem, nhem, nhem. sistem ao cansaço, enquanto exaus-
carateriza o fino senso de humor do Porque não mamou. tos nos seus lugares, continuam a
Recôncavo). De uma forma ou de Nhem, nhem, nhem. cantar e tocar, espichando o pes-
outra, geralmente aumenta a ani- Chora, menino. coço e forçando os olhos para além
mação. O samba de Severo termina Nhem, nhem, nhem. da porta, aguardando “o dia raiar”,
quando alguém, decidindo que se O menino é chorão. para sentirem-se satisfeitos com o
prolongou o suficiente, anuncia Nhem, nhem, nhem. samba. Um bom samba pode muito
que ele ou ela (é indiferente que Chora, menino. bem “entrar no dia seguinte”, e
seja mulher) é Severo em carne e Nhem, nhem, nhem. não é raro ouvir-se que um samba
osso. Entra na roda, e não passa o O menino é chorão. continua diretamente na segunda
chapéu. (...) noite da festa. Mas os tempos estão
Outros sambas com teor de mudando rapidamente, e, nos dias
representação não incluem diálogo Noutro samba, “Coça-quipá”,35 de hoje, é motivo de satisfação en-
falado. Em “Chora, menino”, um quem dança finge ter comichões, contrar-se mesmo uma só noite de
objeto representando um neném e coça as partes do corpo, indo das samba rigorosamente executado.
(pode ser uma boneca mesmo, ou menos às mais provocativas.
uma garrafa, um trapo, um pedaço O valor de um samba é calcu-
de pau, qualquer coisa) passa de lado em boa medida por sua dura-
dançador para dançador, enquanto ção. É lógico que um samba bom,
se canta um corrido sobre o choro “quente”, tende inevitavelmente a
da criança: durar mais do que um samba fraco;
mas parece haver mais do que isto.
(Solo) Chora, menino. Nenhum samba digno de lembran-
(Grupo) Nhem, nhem, nhem. ça termina antes do amanhecer. Os
O GRUPO O “samba” não é certamente, indústria turística, e ainda mais
É inegável que os participantes na Bahia, um grupo ou sociedade quando falam com forasteiros.
de um samba, durante sua efetiva- formal (salvo para fazer apresenta- “Nosso samba”, contudo, pode
ção, formam um grupo. É claro ções). Há, todavia, forte reconheci- também ser usado de referência a
também que o samba tem signi- mento de afinidade com um certo, todos aqueles que são considerados
ficação religiosa e mesmo função e muitas vezes bem específico, competentes para executar o gênero
religiosa direta. No culto domés- grupo de pessoas competentes em com propriedade e da mesma forma
tico, o samba se realiza não apenas um estilo de samba, na maioria dos participar do evento. Admite-se
para um santo, mas diante dele, casos estreitamente identificado, e que o conceito é tênue, e certa-
presente em seu altar. Tanto Souza freqüentemente com fortes cono- mente merece mais estudo, mas não
Carneiro como N’Landu-Longa tações regionais e até micro-regio- há dúvida alguma de que o samba é
sugeriram a natureza religiosa do nais. um importante ponto de referência
samba no passado, quer africano, A relação está implícita na lin- para os seus participantes no seu
quer brasileiro, e o último chega guagem que os participantes usam ambiente social.
a afirmar que o samba remonta a a propósito do gênero. “Nosso
um grupo de iniciação ao qual se samba” pode ser usado para in-
permanece ligado por toda a vida. A dicar aquele grupo de músicos e
questão é saber se o samba da Bahia, dançadores que juntos costumam
presentemente, retém ou não uma realmente executar o gênero. É,
qualidade de identidade com um noutras palavras, o conjunto de
grupo estabelecido - grupo que apresentação (performance). Assim, os
dure além da identidade momen- músicos de samba podem referir-se
tânea assumida enquanto o gênero ao seu “conjunto”, especialmente
se apresenta, e há participação no aqueles que tiveram experiência
evento do samba. com grupos de “folclore” para a
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 140

um epílogo
pessoal

F ui informado da viola do
Recôncavo e do seu samba no
decorrer de um trabalho que fazia
Amaro da Purificação homens, e
mulheres, famosos nas redondezas
por suas proezas como violeiros,
de um instrumento musical cujo
tipo realmente adequado é fabri-
cado por um minúsculo grupo de
em Salvador sobre o repertório como conhecedores de grande nú- artesãos em plena fase de extinção.
musical do jogo de capoeira, e foi mero de chulas, como possuidores Para os herdeiros naturais dessa
através de informantes de capoei- de um “grito” excepcional, como tradição - os descendentes dos
ra, especialmente o saudoso Rafael “bagunceiros”. Conheci um fazedor violeiros, cantadores e sambadeiras
Alves França, o Mestre “Cobrinha de violas. Através de Santo Ama- - muitas vezes este samba antigo
Verde”, que pela primeira vez fui ro, conheci São Braz, e Saubara (e representa um passado de pobre-
apresentado aos violeiros do Alto da lá Marujos, Cristãos e Mouros, e za rural e de imobilidade social
Santa Cruz, em Salvador, entre os França, Oropa, Portugal, e Bahia). e econômica. Na verdade, pouco
quais Antônio “Candeá” Moura e Descobri, afinal, uma tremenda existe nas vidas da maioria dos meus
seus colegas - na sua maioria, como rede de samba e sambas, e uma informantes que indique outra coi-
“Cobrinha”, emigrados do Recôn- arte musical de considerável com- sa. O interesse do estudioso de fora
cavo. Foi Cobrinha o primeiro a plexidade, aparentemente nunca os espanta, o que parece ter tido
insistir em que eu, como músico, antes tratada, salvo de passagem, em pelo menos algum efeito na reava-
precisava conhecer “nosso samba... qualquer espécie de publicação. liação positiva da tradição na mente
samba de viola”, e levou-me a ver A música e a sua rede, todavia, daqueles que a herdaram.
“Candeá”, que morava alí perto. estavam e estão rapidamente desa- A reação da classe média com
Através do samba, conheci o parecendo, como acontece a tanta formação universitária, especial-
Recôncavo. Aos poucos, comecei coisa da cultura tradicional do mente entre indivíduos de meia-
a viajar com os músicos do “Alto” Recôncavo. Talvez o samba de viola idade, e tanto mais “politizados”
para as terras natais deles, nos dias fosse a única que jamais tinha sido melhor, pode ser bem diferente.
de festa ou de “obrigação” de pa- registrada, mesmo pela indústria do Bom número de amigos meus nos
rente ou amigo. Conheci em Santo turismo, e é a única que depende campos profissional, acadêmico,
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 141

S e u Pe dr o Sa m ba d or
e Do na P orc ina , e m
marac angal ha . foto :
l ui z san tos .

Nélson de Araújo, morreu também


Clarindo dos Santos, “Clarindo da
Viola”, sem deixar no Recôncavo
quem faça violas para seus violeiros
e para os violeiros do futuro.
O samba de viola faz parte de
um cosmos [mundo] de compor-
tamento simbólico repleto [pleno]
e coerente. Se é uma arte bela e
expressiva, como aqui se afirma, é
urgente que seja divulgada (e prati-
cada), para que os filhos e as filhas
dos violeiros do Alto da Santa Cruz
jornalístico ou artístico (muitos dos gela. É um claro símbolo de nacio- e das mulheres de Saubara possam
quais, como os próprios violeiros, nalismo saudável, de um Brasil de ainda cantar:
têm laços íntimos e recentes com certo modo mais brasileiro, menos “Ainda ontem fui no samba.
o Recôncavo), têm se expressado comprometido com o desarmô- Deu bom”.
quase maravilhados com o samba de nico modelo de desenvolvimento
viola. Muitos afirmam relembrá-lo e da idolatria alienante da cultura
das suas infâncias, e espantam-se internacional de massa das recentes
de vê-lo ainda existente. Muitos décadas - um Brasil que esperam,
me expressaram o ponto de vista de ou esperavam, conquistar.
que, para eles, esse estilo musical Desde que este ensaio foi inicia-
representa a quintessência de uma do, sem falar nas mortes do “Co-
música brasileira verdadeira e sin- brinha Verde”, do “Candeá” e do
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 142

exemplos
musicais

A altura real é dada na nota


inicial entre parênteses; esta
nota mostra a altura da primeira
Exemplo 1: AFINAÇÃO DA VIOLA

As cordas simples são indicadas que são tangidas antes do par uma
nota do exemplo não circunscrita por notas cheias; as revestidas, por oitava mais baixa, pelo movimen-
por parênteses. Todas as alturas nos notas brancas. As “requintas” da to do polegar do violeiro quando
Exemplos 1 e 2 são na prática uma quarta e quinta ordens são indica- avança na direção do indicador. A
quinta e uma sétima menor mais das por hastes. As cordas são repre- afinação “requintada” é outra usada
agudas do que aqui demonstrado, e sentadas na pauta na ordem física em Santo Amaro, mas é menos
as violas que foram discutidas neste segundo a qual estão colocadas no comum que as demais examinadas,
ensaio são afinadas uma sétima instrumento. Isto significa que as e não é descrito no texto.
acima das alturas mostradas nos “requintas” estão numa posição tal
exemplos, dependendo da execu-
ção, isto é, das características dos
instrumentos e das vozes dos canta-
dores presentes.
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 143

Exemplo 2: RÉ MAIOR E LÁ MAIOR

A altura aqui indicada é da “mache-


te”, mas os padrões se formariam
da mesma maneira na viola “três
quartos” afinada em “natural”.
O tempo num samba seria colcheia
entre aproximadamente 96 e 120.

Exemplo 3: PANDEIRO d’uma nota representa o som agudo Esta é uma transcrição rudimentar
da batida de toda a palma no couro e simplificada da maneira altamen-
Cada semicolcheia representa o do instrumento, comprimido pela te sofisticada que o instrumento é
retinir das rodelas do pandeiro, pressão do polegar da mão direi- tocado. Consegue-se complexidade
produzido pelo movimento do ta sobre o couro moderadamente através da variação dos acentos e
punho da mão esquerda (com o comprimido; as notas entre parên- batidas da mão direita e da tensão
qual mais habitualmente se segura o teses são os sons das rodelas por si aplicada sobre o couro pelo polegar
instrumento). Um círculo (_) acima mesmas, isto é, sem golpes da mão da mão que segura o pandeiro.
d’uma nota representa um som direita sobre o couro do pandeiro.
profundo produzido pela batida
do polegar da mão direita sobre o
couro livre, não comprimido, do
pandeiro; o sinal “mais” (+) acima
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 144

Exemplo 4: PRATO-E-FACA

As notas acentuadas e aquelas cujas


hastes não estão conectadas com
uma nota precedente representam
sons produzidos pelo dorso da faca
batendo na borda do prato; as notas
cujas hastes estão conectadas repre-
sentam os sons produzidos pela faca
raspando o prato, sem se afastar
dele.

Exemplo 5: PALMAS Exemplo 6: PALMAS Exemplo 7: PALMAS


{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 145

Exemplo 8: CHULA E RELATIVO

O relativo está grandemente sim-


plificado no exemplo que se trans-
creveu. Só se oferece a voz mais
aguda; a mais grave, na maioria dos
casos, combinaria em terças para-
lelas. O tratamento rítmico, como
o da chula, seria caracterizado por
antecipações e retardamentos na
batida.

Exemplo 8: PRATO-E-FACA
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 146

Exemplo 10: PANDEIRO “BOCA DE


BANCO”

(Os círculos têm a mesma significa-


ção que no Ex. 1)

Exemplo 11: PASSAGEM DE VIOLA

Exemplo 12: “BAIXÃO”


{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 147

Exemplo 13: RODA, “ADEUS, SÃO


ROQUE”

Exemplo 14: TIMBAL


{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 148

Exemplo 15: CORRIDO, “ATÉ P’RO


ANO”
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 149

1. Este ensaio foi publicado, na sua qual leva em conta a formação dos terrenos
primeira versão, em inglês, na Revista de e a resultante utilização dos solos. (...)
Música Latinoamericana, Vol. I, N._ 2 (ou- Recôncavo quer dizer açúcar, açúcar e
tubro, 1980), e Vol. II, N._ 2 (outubro, fumo, massapê, (...) casas-grandes caindo
1981) da University of Texas Press (Austin, em ruínas, (...) os grandes navios petro-
Texas, EUA). A “Parte I: Viola de Samba” leiros aportados na entrada do boqueirão,
foi editada em português, em tradução na Ilha de Madre de Deus, bem defronte
Notas de Nélson de Araújo, na série monográ- à igrejinha de Loreto no mais puro estilo
fica Ensaios/Pesquisas, N._ 6 (dezembro, jesuítico seiscentista na Ilha dos Frades.”
1980), do Centro de Estudos Afro-Orien- Machado Nedo, Zahidé. Quadro sociológico da
tais da Universidade Federal da Bahia “civilização” do Recôncavo, pp. 3-4.
(Salvador, Bahia). 5. Anchieta, José de, S.J. Poesias, p.
O estudo que resultou nesta publicação 743, n._ 9.
começou mediante pesquisa subsidiada 6. Os nomes pelos quais as cordas
pelo Social Sciences Research Council do são chamadas no Sul do Brasil são pouco
American Council of Learned Societies, usados na Bahia. Câmara Cascudo, em seu
no decorrer da qual o autor esteve ligado Dicionário do folclore brasileiro, verbete “Viola”,
à University of Illinois, como candidato dá os seguintes nomes: “prima” e “con-
ao Ph.D., e ao Centro de Estudos Afro- traprima” (1._ par); “requinta” e “contra-
Orientais, ao qual deseja apresentar pro- requinta” (2._ par); “turina” e “contratu-
fundos agradecimentos pela cordialidade e rina” (3._ par); “toeira” e “contratoeira”
apoio, durante esses longos anos, dos seus (4._ par); “canotilho” ou “bordão” e
funcionários, alunos, professores e, no- “contracanotilho” (5._ par).
tadamente, dos seus diretores, Guilherme 7. Algumas cerimônias dos cultos dos
de Souza Castro, Nélson de Araújo, Júlio caboclos comportam violas, como as que
Braga e Jeferson Bacelar. envolvem o “Boiadeiro”, sendo o instru-
2. Rafael Alves França, conhecido mento favorito deste.
como “Cobrinha Verde”, é dos mais 8. Diz-se que o “iúna” imita o canto do
renomados dentre os mestres tradicionais pássaro que dá o nome ao toque.
da capoeira. Também fazia curas, segun- 9. N’Totila N’Landu-Longa, em
do suas palavras, “pelas ervas e as águas”. conferência pronunciada no CEAO (10
Foi quem primeiro me abriu caminho de maio de 1978), da qual há uma grava-
ao mundo da viola, dos violeiros e do seu ção depositada na biblioteca deste órgão,
samba, no qual era exímio. sugere que “samba”, como vocábulo e fato,
3. No sertão da Bahia, o gênero pode é descendente do quicongo sáamba, que
ser chamado “coco”, mas o evento recebe o significa o grupo iniciatório no qual uma
nome de “samba”. pessoa se torna habilitada para funções
4. A significação dos termos usados no políticas, sociais e religiosas, passando a
título é o verdadeiro assunto do presen- significar, por analogia, a hierarquia das
te trabalho, sendo conveniente, todavia, divindades. Edison Carneiro, em Fol-
acrescentar a seguinte citação: “O chamado guedos tradicionais (p. 36), sugere que
Recôncavo geográfico, compreendendo “samba” deriva de semba e significa umbi-
a área em torno da Bahia de Todos os gada, através do qual a dança passa de uma
Santos, cuja entrada é a cidade do Salva- pessoa à próxima. Batista Siqueira afirma,
dor, se estende, no conceito fisiográfico, o em A origem do termo “samba” (p. 30), que
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 150

“samba” vem da palavra carirí equivalente 12. O Recôncavo baiano é uma ver- suas parceiras femininas, seu estilo é mais
ao português “cágado”. dadeira civilização, embora regional e já comumente um tanto diferente, caracteri-
Existem diversas outras explicações arcaica (veja Machado Neto, 1971, e Milton zado pelos movimentos de pernas e braços
etimológicas. Há por exemplo em Lu- Santos, 1959). Nesta civilização, como em (conhecidos como “piegas”) mais exube-
anda, Angola, uma rodovia à beira-mar, qualquer outra, as diferenças entre lugares rantes e acrobáticos.
chamada “Estrada da Samba”, usada quase próximos são às vezes nítidas e rigorosa- 14. Existem em todo o Brasil, e mesmo
diariamente pelo autor deste trabalho mente reconhecidas pelos habitantes. em toda a Bahia, vários estilos do “sapate-
quando teve ocasião de passar uns meses Na cidade de Santo Amaro da Purifica- ado”. No Recôncavo “sapatear” significa
de 1996 neste país a serviço da ONU. O ção, sede do município do mesmo nome, dançar nos pequenos e rápidos movimen-
pedido de uma explicação ao povo do lugar não se canta relativo. No lugar de Santa tos do pé característicos do samba. O sa-
recebeu, de um informante amigo, a res- Elisa, do mesmo município, e em Saubara pateado (ou “sapateio”) pode ser executado
posta de que “samba” era “uma espécie de - cidade só recentemente emancipada de facilmente de pés descalços.
braço do mar”, e de outro participante da Santo Amaro -, o relativo entra a rigor. 15. Conheço uma certa sambadora, de
mesma conversação cordial, “qual nada - é Em São Braz, também no município de apelido “Da Véia” (da velha), de Saubara,
um tabuleiro no interior”. Terreno fértil, Santo Amaro, e só uns 18km de Saubara, que samba daquela maneira, segurando a
mas para outra colheita. não entra. O hábito do lugar onde está saia com a mão esquerda e acrescentando
10. Uma exceção é Samba rural paulista de se realizando o samba prevalece naquele sua marca registrada de encostar de leve na
Mário de Andrade, trabalho baseado em samba, mas, já que é comum em qualquer bochecha direita as pontas dos dedos (ou
observação de campo. samba a presença de cantores de lugares apenas a do dedo indicador) da mão direi-
11. O pandeiro tradicional do Re- vizinhos, porém de hábitos divergentes, ta, a palma para cima - olhando para cima
côncavo consta de um aro de madeira são proporcionalmente comuns os choques como se estivesse distraída ou desinteres-
(de preferência jenipapo), com rodelas estilísticos, e não raros os atritos em torno sada. Estas marcas registradas maneiristas
recortadas de folhas de flandres (hoje em deles. [Nota do revisor: a pesquisa realiza- são permitidas, e mesmo estimuladas,
dia, de tampas de garrafa de cerveja ou da em 2004 mostra certas diferenças com entre os participantes. Diversas pessoas
refrigerante, achatadas e desamassadas) e o aqui afirmado neste ponto. O grupo com podem empregar o mesmo maneirismo,
com membrana de pele de cobra, veado ou que trabalhamos em São Braz canta relati- ou semelhante, da mesma forma que cada
bode (e por esta razão esse instrumento é vo, como se percebe na faixa 1 do CD Samba cantador tem sua própria voz e sua pró-
muitas vezes chamado apenas de “bode”). de roda, patrimônio da humanidade]. pria maneira de interpretar, mas sempre
O couro esticado é pregado na orla do aro, 13. Uma vez que esta descrição visa a dentro do estilo. Certos maneirismos não
e é apertado durante o samba, conforme oferecer um modelo, use-se como exem- seriam considerados apropriados ao estilo.
a necessidade, mediante calor gerado pela plo a situação, mais comum, de mulhe- O estilo do samba - tanto coreográfico
queima de papel de embrulho, papel-jor- res que dançam e homens que tocam os quanto musical - reconhece os elementos e
nal ou palha. Recentemente, entraram instrumentos e cantam as chulas. Não o comportamento que nele não cabem.
em uso pandeiros industrializados, com se pretende ignorar a presença de mu- 16. Convida-se o leitor a comparar a
membranas de plástico esticadas por uma lheres como violeiras (o que de resto é descrição do samba que se faz no presente
coroa de ferro e apertadas por tarrachas de muito raro), nem a de homens na roda estudo com a do fado feita por Manuel
ferro. A sonoridade desse instrumento é, de samba. O melhor prato-e-faca que Antônio de Almeida no seu romance
evidentemente, diferente da sonoridade do ouvi no Recôncavo esteve (e continua) nas Memórias de um sargento de milícias (pag. 39 e
seu congênere artesanal, e os músicos mais mãos de Joselita Moreira (a muito querida seg.), que transcorre no Rio de Janeiro
ortodoxos sentem que o pandeiro moder- “Zelita”) de Saubara, e o Exemplo 4 é uma “no tempo do Rei”, quer dizer, na segunda
no é ruidoso demais. Queixam-se também tentativa de transcrever o seu estilo. Os década do século XIX.
- mencione-se de passagem - que a mem- homens, que predominam nas rodas do “Todos sabem o que é o fado, essa dan-
brana de plástico é altamente vulnerável a sertão, são comuns nas do Recôncavo, mas ça tão voluptuosa, tão variada, que parece
derretimento e perfuração pelas brasas dos são secundários, e embora possam dançar filha do mais apurado estudo da arte. Uma
cigarros dos seus tocadores. no mesmo estilo de sapateado, como fazem simples viola serve melhor do que instru-
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 151

mento algum para o efeito. quenos Mundos, Tomo I, O Recôncavo, “Bandas pag. 50:
O fado tem diversas formas, cada qual de pífanos na Bahia e em Sergipe”, pag. “O partido alto, que tanto delicia os
mais original. Ora, uma só pessoa, homem 321. veteranos do samba, não se executa para o
ou mulher, dança no meio da casa por A “Donzela Teodora” é, como se sabe, grande público, nem exige a bateria das es-
algum tempo, fazendo passos os mais difi- um dos grandes temas da literatura de colas. Ao som de reco-reco, prato e faca,
cultosos, tomando as mais airosas posições, cordel do Nordeste. A história é compro- chocalho, cavaquinho e de canções tradi-
acompanhando tudo isso com estalos que vadamente de origem árabe-medieval, e cionais, como na Bahia - um estribilho
dá com os dedos, e depois pouco e pouco foi estudada por Luís da Câmara Cascudo sobre o qual o cantador versa ou improvisa
aproximando-se de qualquer que lhe em Cinco Livros do Povo, Vaqueiros e Cantadores, - um único dançarino, homem ou mulher,
agrada; faz-lhe diante algumas negaças e e outras publicações. Introduzida remo- ocupa o centro da roda, passando a vez
viravoltas, e finalmente bate palmas, o que tamente na Península Ibérica, desde 1840 com uma umbigada simulada. Os antigos
quer dizer que a escolheu para substituir o vem sendo publicada no Brasil, na forma relembram assim “os velhos tempos” da
seu lugar. de folhetos em prosa, posteriormente em chegada do samba ao Rio de Janeiro.”
Assim corre a roda até que todos te- versos. Na literatura árabe, aparece em O verbete “Partido Alto” na Enciclopé-
nham dançado.” várias coleções das Mil e Uma Noites. dia da Música Brasileira: Erudita, Folcló-
17. Antônio Moura (“Candeá”), 22. Dança de salão de origem norte- rica e Popular diz o seguinte:
“primeira”, e Henrique Santana da Silva, americana dos anos 1920 (e das boates de “Tipo de samba dançado nos morros
“segunda”. A gravação sobre a qual se fez bebida clandestina da lei seca) que leva cariocas. Trazido da Bahia para a cidade do
esta transcrição foi realizada em 12/4/78, o nome do porto importante do estado Rio de Janeiro em fins do século passa-
na casa de Candeá, no Alto da Santa Cruz, de Carolina do Sul, fundado no tempo do, foi um dos elementos formadores das
bairro de Salvador. Candeá faleceu em colonial inglês e, por sinal, berço de uma escolas de samba. Dançado em roda, carac-
Salvador em 11 de março de 1988. cultura africana-norteamericana de peso. teriza-se por não haver dança enquanto se
18. Antônio Moura, comunicação 23. A semelhança do “sapateado” tira o canto estrófico, sem refrão. Depois
pessoal, 1978. do Rio Grande do Sul e dos “piegas” do de cantada cada estrofe, um dos raiadores
19. Lira? “lundu”, ainda assim conhecido no sertão (dançarinos) sai sambando e, partindo dos
20. Jiquiriçá? da Bahia, certamente merece mais estudo tocadores, dá duas voltas na roda, termi-
21. Os versos desta chula são uma em termos de formas arcaicas e possivel- nando com a umbigada. O que a recebe sai
curiosa incorporação da “Donzela Teo- mente em termos de uma remota formação dançando, depois de cantada outra estrofe,
dora” - velha história popular portuguesa musical e coreográfica do Brasil. e assim sucessivamente. As mulheres mui-
passada para o Brasil - ao folclore musical 24. A palavra “chula” (forma femini- tas vezes dançam o miudinho. Os partici-
do interior baiano. Ainda recentemente, na de “chulo”) significa como se sabe, em pantes batem palmas, marcando o ritmo e
o pesquisador Nélson de Araújo, um dos seu sentido mais geral, “vulgar, rude ou acompanhando os instrumentos: violões,
tradutores deste trabalho, encontrou o rústico”. cavaquinhos, flautas, pandeiros e prato-e-
mesmo tema literário servindo à melodia 25. Por sinal, “comadre” ou “com- faca.”
de um dos “toques” de conhecida banda de padre”, como se sabe, pode significar, 29. Zilda Paim. Comunicação pessoal,
pífanos de Uauá, no sertão baiano de Ca- segundo costume do Recôncavo, amizade 1980.
nudos. A melodia, recolhida por um dos ou título de respeito e afeto mútuos, além 30. Rafael Alves França, “Cobrinha
integrantes da banda no começo do século do relacionamento sacramental. Verde”. Entrevista gravada em 12 de se-
e desde antão fazendo parte do seu reper- 26. Agradece-se ao Prof. Cid Teixeira tembro de 1977.
tório de “toques” fora originariamente por esta elucidação, feita em comunicação 31. Numa conversa de botequim alguns
uma modinha cantada pela população de pessoal. anos atrás no Alto da Santa Cruz, perto
Uauá tal como relata Nélson de Araújo, 27. Falecido no início da década dos da casa de Marcelino, o autor e alguns
primeiro em artigo intitulado “Calumbi, a anos noventa. praticantes do samba de viola, entre eles o
banda baiana de pífanos”, publicado em A 28. Sobre o “partido alto”, escreve Marcelino, estavam trocando idéias sobre
Tarde (edição de 9.12.84) e depois em Pe- Edison Carneiro em Folguedos Tradicionais, o tipo de música que a gente apreciava. O
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 152

autor, quase pedindo desculpas, disse que vezes o samba de um dia emendava com a vital do autor). A música do candomblé
gostava de, entre outras coisas, “música manhã do outro. Hoje o Samba de Oxum, para Omolu na casa do primo-vizinho é
clássica”. Marcelino não vacilou: inter- pelas dificuldades de vida das pessoas que inteiramente audível na gravação, ao fun-
veio com animação, “Eu também gosto da o compõem, mudou. É feito somente com do, assim como se ouve a discreta entrada
música clássica – samba de viola!” atabaques, agogô, o prato-e-faca e as pal- do timbal mencionado vários parágrafos
32. Souza Carneiro (pai de Edison mas, e é realizado num dia só. adiante.
Carneiro), em Os mitos africanos no Brasil (pag. Nesse dia, as expectativas das pessoas na Além disso, e por certo digna de regis-
436 e segs.) afirma que o samba era uma casa ficam voltadas para o Samba de Oxum, tro, é a realização de uma cerimônia muita
“dança dos negros feita sempre em honra que geralmente se inicia à tarde e segue rara, levada a efeito pela última vez depois
aos Orixás, por algum motivo religioso até que se dê a festa por encerrada, com a de muitos anos de cumprimento em São
. . . saindo dos candomblés para o meio saída da cozinha do tradicional bacalhau a Braz por uma senhora, que então a esta
da rua” só após “os primeiros séculos do martelo. parte faleceu.
descobrimento”. As mulheres se arrumam com o traje de Referimos-nós à “comida dos cachor-
Valiosa elucidação de notável caso de ‘crioula’, todas elas muito enfeitadas com ros”. Como foram os cães que, com suas
um samba (de viola, da forma que ve- torço, colares e pulseiras. Estão, na sua lambidas, sararam as feridas de São Lázaro,
remos) que não saiu do candomblé foi maioria, descalças. O samba pode começar oferecia-se todos os anos aos cachorros de
gentilmente fornecida por Márcia Maria no salão, onde se realiza o candomblé, São Baz (começando com sete escolhidos),
de Souza em abril de 1985, em forma de e terminar na cozinha, ou vice-versa. Às em homenagem a esses animais, assim
pequeno manuscrito, aqui publicado pela vezes, ainda arrumando a cozinha após o como ao santo, um banquete completo
primeira vez. almoço, o samba vai começando, até que com vinho (Vinho Composto Jurubeba
O Gantois - um dos terreiros da Bahia surja um tocador de atabaque. Assim, o “Leão do Norte”), seguido por um ciclo de
mais respeitados por sua ortodoxia e a me- samba se arruma e vai para o salão, onde cantos em louvor ao santo. Este costume
ticulosidade com que cumpre as obrigações ficam todos em círculo, batendo palmas. extremamente raro tem sido registrado
da casa - da mãe de santo Maria Escolástica São as próprias mulheres que tiram noutras partes do Brasil. [Espera-se que
Conceição Nazareth, mais conhecida como o samba, uma por uma, horas seguidas Gilberto Sena possa realizar a sua pla-
Mãe Menininha, comemora anualmente sapateando, segurando nos lados da saia, nejada e mais detalhada descrição deste
um Samba de Oxum. levantando-a um pouco em certos mo- banquete de São Braz, a despeito da morte
Os eventos rituais da casa obedecem a mentos. Cada mulher tem suas caracterís- de quem a promovia.]
um calendário de festas móveis começando ticas próprias no uso dos pés e dos braços. 34. A roda é uma dança circular,
na última sexta-feira de setembro com as A mulher na roda escolhe sua sucessora acompanhada de cantos, geralmente
Águas de Oxalá. Este ciclo de festas públi- e a chama, ora com a umbigada, ora com realizada fora de casa, em metro binário
cas continua até festejar todos os orixás, as mãos juntas estiradas e dirigidas para a simples, ritmo quadrado e em andamento
encerrando-se nos fins de novembro ou outra. moderado de marcha.
no início de dezembro. A festa de Oxum, As pessoas no samba vão se revezando 35. Quipá é uma erva que provoca
orixá da mãe de santo, é uma das mais na roda e nos instrumentos musicais, até comichões.
importantes da casa. Realiza-se, geralmen- ser servido o bacalhau a martelo, que ter-
te em novembro, a festa de Oxum num mina o ritual Samba de Oxum.
domingo e, na segunda-feira seguinte, o 33. A reza e o samba aqui usados como
Samba de Oxum. modelos realizaram-se da noite de 15 para
Segundo alguns informantes, esse a manhã de 16 de agosto de 1978, e foram
samba, até mais ou menos 1980, era samba gravados quase na íntegra pelo autor,
de viola, com todos os elementos que com a parceria de Gilberto de Lemos
normalmente compõem esse tipo de ‘brin- Sena (parceiro, aliás, irmão inseparável e
cadeira’: viola, atabaque, prato-e-faca, e indispensável nas investidas de “campo”
as palmas. Eram três dias de samba, e às que produziram este trabalho e esta época
{ Samba de Roda do Recôncavo Baiano } 153

d e ta l h e d e baiana
d o sa m ba d e r o da
s u er d i e c k . foto :
már c i o vianna.
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