Outras inquisições

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JORGE LUIS BORGES

Este livro: Outras inquisições, é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II
1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP

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OUTRAS INQUISIÇÕES Otras Inquisiciones Tradução de Sérgio Molina

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OUTRAS INQUISIÇÕES – 1952 A Margot Guerrero A MURALHA E OS LIVROS He. whose long wall the wand’ ring .

inquietou-me. segundo os historiadores. cercar um império. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e. a rigorosa abolição da história. em sua dura justiça. escreveu Baruch Spinoza. mandou matar todas as crianças para matar uma. Che Huang-ti. que também mandou queimar todos os livros anteriores a ele. Dunciad. Che Huang-ti.Tartar bounds. nesses anos. os ortodoxos não viram senão impiedade.) Essa conjetura é aceitável.. quando Che Huang-ti ordenou que a história começasse com ele. dias atrás. Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. Tampouco é rotineiro pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória de seu passado. 76.. que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador. mas eu sinto que os fatos referidos são algo mais que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. não. (Não de outra sorte um rei. esses dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. Cercar uma horta ou um jardim é comum. mas nada nos diz da muralha. o Imperador Amarelo. rei de Tsin. o legendário imperador que . erigiu a muralha. Contemporâneo das guerras de Aníbal. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princípio do tempo. Historicamente. Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros canônicos porque estes o acusavam. tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro. Li. e Lao-tsé). Indagar as razões dessa emoção é o fito desta nota. pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em um orbe fechado. e Chuang Tzu. Todas as coisas querem persistir em seu ser. proibiu qualquer menção à morte. queimou os livros. porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. porque as muralhas eram defesas. da segunda face do mito. Che Huang-ti. que constava de tantos aposentos como dias tem o ano. a única singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. II. do passado – procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e. O fato de as duas vastas operações – as quinhentas a seiscentas léguas de pedra opostas aos bárbaros. não há mistério nas duas medidas. na Judéia. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes. mítico ou verdadeiro. e recluiu-se em um palácio figurativo. É o que dão a entender alguns sinólogos. Che Huang-ti condenara a mãe ao desterro por libertinagem. e procurou o elixir da imortalidade. e Confúcio. reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal. e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti. ao mesmo tempo. isto é.

talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado. deu às coisas seu nome verdadeiro. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce. os rostos trabalhados pelo tempo. sob seu império. Isso (segundo a ordem que escolhêssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que começou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar.) Generalizando o caso anterior. que eu saiba. é talvez o fato estético. em enorme escala. Buenos Aires. como eu destruí os livros. que é apenas forma. mas. carecem de base histórica. essa iminência de uma revelação. semelhantemente. já Pater. Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o império porque sabia que este era precário e destruído os livros por entender que eram livros sagrados. mas um dia há de viver um homem que sinta como eu. que não se produz. Quarto Imperador. e assem até o infinito.inventou a escrita e a bússola. Falei de um propósito mágico. ou estão prestes a dizer algo. Talvez a muralha fosse uma metáfora.. . a mitologia. Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de modo secreto se anulam. e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos. ou seja. A música. ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador. até o dia de sua morte. Este. e ele destruirá minha muralha. 1950.. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado. tão néscia e tão inútil. Sonhou em fundar uma dinastia imortal. em 1877. Essa notícia favorece ou tolera outra interpretação. (Sua virtude pode estar na oposição entre construir e destruir. poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não em um "conteúdo" conjeturai. todas as coisas receberam o nome que lhes convém. de que. afirmou que todas as artes aspiram à condição da música. a desmedida muralha. A muralha tenaz que neste momento. para além das conjeturas que permite. é verossímil que a idéia nos toque por si mesma. segundo o Livro dos Ritos. ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. Terceiro Imperador. e não o saberá". ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. os estados de felicidade. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir. certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo. Che Huang-ti jactou-se. e em todos. também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. em inscrições que perduram. projeta seu sistema de sombras sobre terras que não verei é a sombra de um César que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado. e ele apagará minha memória e será minha sombra e meu espelho. Ambas as conjeturas são dramáticas. livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem.

A ESFERA DE PASCAL .

de Platão. compilados ou forjados desde o século I1. o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas.000. Fragmentos dessa biblioteca ilusória. o céu dos céus. Hermes Trismegisto. no XVI. o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual. quarenta anos depois. "o Sphairos redondo. segundo Jâmblico. 183) entende que Xenófanes falou analogicamente. e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati. Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto. que chamamos Deus". ou menos má. Albertelli (como. mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos. condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus. A história universal seguiu seu curso. que as idades vindouras não esqueceriam: "Deus é uma esfera inteligível. porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. do ar e do fogo integram uma esfera sem fim. isso bem pode ser verdade. No século XIII. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim. que era uma esfera eterna. em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. ou no Asclépio. Parmênides. mas afirmou-se que um deles. que também era Hermes). há uma etapa em que as partículas da terra. em um desses fragmentos. segundo os sacerdotes de Thot. mas nenhuma O limita. os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios. . também atribuído a Trismegisto. que a apresenta como sendo de Platão. quase.525. Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita. Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie. segundo Clemente de Alexandria. o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia. Seis séculos antes da era cristã. o teólogo francês Alain de Lille – Alanus de Insulis – descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula. da água. antes. repetiu a imagem ("o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada. 36. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". cuja força é constante do centro em qualquer direção"). lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. Para a mente medieval. 20. o rapsodo Xenófanes de Colofônio. Parmênides lecionou na Itália. "O céu. farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade. o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor. e na enciclopédia Speculum Triplex. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota. para representar a divindade. formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum. ou infinitamente crescente. poucos anos antes de sua morte. que exulta em sua solidão circular". a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose. pois sujeito e predicado se anulam. intuir essa esfera. No Timeu. ditara um número variável de livros (42. 148).Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas.

Milton. de Mercúrio. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice. setenta anos depois. porque. ainda à luz do Renascimento. temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra. disse Salomão (I Reis 8. o céu das estrelas fixas. porque. Isso foi escrito com exultação em 1584. a nona. Naquele século desanimado. Este é rodeado pelo Empíreo. Robert South famosamente escreveu: "Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão. para se justificar. os rudimentos do Paraíso". "medalha de Deus". do Sol. Para um homem. para Giordano Bruno. o céu cristalino. no sexto. ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma" (Da Causa. a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras. "pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós". V). de Carnpanella e de Bacon. não haverá realmente um quando. e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico. transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinqüenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental. que é feito de luz. tampouco haverá um onde. a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas. desfrutou de uma visão telescópica e microscópica. As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua. que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias". de Júpiter. no espaço. e Atenas. negador de Aristóteles. por obra do pecado de Adão. também chamado Primeiro Móvel. deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. Este proclamou. que são como as fadas e os pigmeus. A terra ocupa o centro do universo. de Marte. do Princípio e da Unidade. lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos. É uma esfera imóvel. em algum lugar. No tempo. na Ceia das Cinzas.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World. de Saturno). segundo a biografia de Johnson. (No quinto capítulo do Gênesis consta que "todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos". No Renascimento. a oitava. que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica. a humanidade acreditou que chegara à idade viril. de John Donne. 27). Glanvill entendeu que Adão. se o futuro e o passado são infinitos. e assim o declarou pela boca de Bruno. ninguém sabe o tamanho de seu rosto. que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima. de Vênus. o espaço absoluto que inspirou os . não restava nem um reflexo desse fervor. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro. Ninguém está em algum dia.não te contém". em torno dela giram nove esferas concêntricas.

era menos real que o abominado universo. que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito. 1951. Deplorou que o firmamento não falasse. o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação. mas a edição crítica de Tourneur (Paris. A FLOR DE COLERIDGE . cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".hexâmetros de Lucrécio. sentiu vertigem. Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus. revela que Pascal começou a escrever effroyable: "Uma esfera terrível. medo e solidão. e expressou-os em outras palavras: "A natureza é uma esfera infinita. Buenos Aires. 1941). O texto é assim publicado por Brunschvicg. foi um labirinto e um abismo para Pascal. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. mas Deus. para ele. Sentiu o peso incessante do mundo físico.

. que habitam em palácios .. Diz. no verão de 1894. 1821). Usá-la como base de outras invenções felizes parece previamente impossível. do presente e do porvir são episódios ou fragmentos de um único poema infinito.. invoco-as para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma idéia. viaja fisicamente ao futuro. a profetisa de Edda Saemundi. há neles tal unidade central que é inegável serem obra de um único cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays. Claro que o é. chronic tem o valor etimológico de "temporal"). Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação. O primeiro texto é uma nota de Coleridge. eu a considero perfeita. ignoro se escrita em fins do século XV11I ou princípios do XIX. continua e reforma uma antiqüíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. literalmente: "Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali. construído por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry. Wells. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pediram uma flor como prova. Essa história poderia ser levada a termo sem mencionar um único escritor". depois da cíclica batalha em que nossa terra há de perecer. Vinte anos antes. ao contrário desses espectadores proféticos. e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão. A primeira versão intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado. eu. nesse romance. na ordem da literatura. Enéias. The Time Machine. Essas considerações (implícitas. sem dúvida. tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem. não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Isaías vê a desolação de Babilônia e a restauração de Israel. O segundo texto que alegarei é um romance que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde. em 1844. como em outras. e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura.Por volta de 1938.. agora. outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu quantos livros há no mundo. VIII). espalhadas entre as ervas de uma nova pradaria. no povoado de Concord. descobrirão. o retorno dos deuses que. a definitiva. volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi. Shelley sentenciou que todos os poemas do passado. no panteísmo) permitiriam um infindável debate. O que pensar?" Não sei qual será a opinião de meu leitor acerca dessa imaginação. Volta exausto. O protagonista de Wells. por meio dos textos heterogêneos de três autores. o destino militar de sua posteridade. Paul Valéry escreveu: "A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras. os romanos. de uma meta. 2. as peças de xadrez com que antes jogaram. empoeirado e muito abatido.

desconhecia o texto de Coleridge. Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. assim.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebível veículo. deixou inacabado um romance de caráter fantástico. ambas as condutas. traslada-se ao século XVIII. não os indivíduos. James foi amigo de Wells. Entre as pessoas que encontra. à força de compenetrar-se dessa época. 2 Em meados do século XVII. Essa é a segunda versão da imagem de Coleridge. deste último. embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que se costuma chamar de clássicas. Este. Refiro-me ao autor de A Humilhação dos Northmore. o motivo da viagem é uma das conseqüências da viagem. Para as mentes clássicas. Mais inacreditável que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura. (Os dois procedimentos são impossíveis. é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. pois intui algo de incomum e anômalo nessas feições futuras. já que seu herói. V. 1O5-1O).2 tais fatos são irrelevantes. mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender. A rigor. a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e ainda não se combinaram. o de James volta ao passado. Este. que se alimentam dos primeiros). o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista. ao morrer. figura. páginas e sentenças alheias. necessariamente. sobre a relação deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography. a mais trabalhada. consegue trasladar-se à data em que foi executada. o epigramatista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bemaventurados são um (Cherubinischer Wandersmann. cit. segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Ralph Pendrel. os subterrâneos e nictalopes morlocks. A causa é posterior ao efeito. 9). o nexo entre o real e o imaginário (entre atualidade e passado) não é uma flor. em suas obras. é invenção de um escritor muito mais complexo que Wells. Wells. não é indispensável ir tão longe. George Moore e James Joyce incorporaram. 7) e que todo cristão deve ser Cristo (op. James cria. um incomparável regressos in infinitum. mas o de James é menos arbitrário. The Sense of the Past. A terceira versão que comentarei.dilapidados e ruinosos jardins. volta com as têmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha..) Em The Sense of the Past.. ao século XVIII. 1 Não li The Sense of Past. Claro que. . V. em sua obra The Destructive Element (p. se for válida a doutrina de que todos os autores são um autor. Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem. o pintor.. que é uma variante ou elaboração de The Time Machine. este o pinta com temor e aversão. verossimilmente. que avança ou recua no tempo como os outros veículos no espaço. fascinado por essa tela. a literatura é o essencial. como nas ficções anteriores. o triste e labiríntico Henry James.

Um sentido ecumênico. O SONHO DE COLERIDGE .. de Bacon e dos dois Escalígeros. podem evidenciar um mesmo sentido da arte.embora superficialmente opostas. foi o insigne Ben Johnson.. Durante muitos anos. Uma última observação. impessoal. limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca. foi Rafael Caninos-Asséns. eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. foi De Quincey. de Maquiavel. fazem-no por confundir esse escritor com a literatura. Outra testemunha da unidade profunda do Verbo. fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastarse da razão e da ortodoxia. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal. outro pegador dos limites do sujeito. de Quintiliano. foi Johannes Becher. foi Whitman. de Vives. de Justo Lipsio. que. de Erasmo. Esse homem foi Carlyle. empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames favoráveis ou adversos que dele mereciam seus contemporâneos.

não é único. que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata. esgueirou-se de uma festa por prever que lhe passariam a harpa." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-los poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. mas o outro disse: "Canta o princípio das coisas criadas". por ora. em um dos dias do verão de 1797. deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo. No estudo psicológico The World of Dreams.O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música são vãos e por vezes prejudiciais. uma noite. e ele sabia-se incapaz de cantar. . sem a ulterior restauração delas. em 1884. o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. o Venerável. ou recebido. ao despertar. O caso. de palavras que as manifestavam. um poema de cerca de trezentos versos. IV. Caedmon respondeu que não sabia. salvo umas oito ou dez linhas soltas. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível. mais afim com a inspiração verbal de Coleridge é a que Beda. Recolheu-se ao estábulo. No sonho de Coleridge. atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum. tinha desaparecido como as imagens na superfície de um rio onde se atira uma pedra. acordou. Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson. basta-nos reter. o de Jekyll & Hide. O caso ocorreu em fins do século VII. foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. com não pequena surpresa e mortificação – conta Coleridge –. embora extraordinário. 24). depois. mas. o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar. que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de não discutido esplendor. tudo o mais. de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e. simplesmente. isto é. passadas algumas horas. ai de mim. embora retivesse de modo vago a forma geral da visão. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor. Stevenson recebeu do sonho argumentos. que. Caedmon era um rústico pastor e já não era jovem. formas gerais. e no sonho alguém o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro. recordar o restante. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho. o sonhador. com a certeza de ter composto. para dormir entre os cavalos. "Descobri. na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões.

sonha um palácio e o edifica conforme a visão. Anos mais tarde. recitou versos que jamais ouvira. Kubla Khan erigiu um palácio. as levitações. sonha um poema sobre o palácio. um desenho traçado pelo acaso. paixão. e também o terror do Juízo Final. a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica. como as formas de leões ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. e sim de Deus". O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816. no século XIII. mas os monges explicavam-lhe passagens da história sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcíssimos versos. que data do século XIV. Que explicação preferiremos? Aqueles que de antemão rejeitam o sobrenatural (eu procuro. e pôde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. então. sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. a história do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos séculos e ainda não chegou a seu fim. um fato ulterior. ressurreições e aparições dos livros piedosos.Caedmon. um poeta inglês. Esperemos que tenha reencontrado seu anjo. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o . que magnífica até o insondável a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud. previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. À primeira vista. no século XVIII. e muitas outras coisas da Escritura. Foi o primeiro poeta sacro da nação inglesa. Vinte anos depois. mas Coleridge já era um poeta. Não aprendeu a ler. Confrontadas com essa simetria. e assim cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e do êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida. porque não aprendeu dos homens. nada ou muito pouco são. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase não apresentam outra virtude exceto sua origem onírica. o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. o horror dos castigos infernais. Em uma página. fragmentariamente. Há. de Rachid ed-Din. Não os esqueceu. "ninguém igualou-se a ele – diz Beda –. ao despertar. a meu ver. Se esse fato for verdadeiro. enquanto a Caedmon foi revelada uma vocação. que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos. sempre. incluir-me nesse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência. lê-se: "A leste de Chan-tong. que não tinha como saber que essa construção se derivara de um sonho. entretanto. ressurreição e ascensão do Senhor. apareceu em Paris. que descendia de Kubla. as doçuras do céu e as mercês e os juízos de Deus". Um imperador mongol. o Compêndio de Histórias. de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memória". e a encarnação. e a vinda do Espírito Santo e o ensinamento dos apóstolos.

na noite. mas obriga-nos a postular. o sonho de Kubla.2 Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. 585. 2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu. ainda pôde escrever: "O extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais que uma curiosidade psicológica". p. o padre Gerbillon. e ele o construiu. mas é lícito suspeitar que ele não teve êxito. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria. W. a segunda. de paliar ou justificar o que nele há de truncado e rapsódico. Kubla Khan era muito mais ousado que hoje. que se deu cinco séculos mais tarde. um texto não identificado pelos sinólogos em que Coleridge pudesse ter lido. do poema consta-nos que foram resgatados não mais que cinqüenta versos. o primeiro biógrafo de Coleridge. a visão do palácio. DUNNE 1 No início do século XIX ou final do XVIII. Já escrita a explicação acima. não menos atrevido que inútil. Quem sabe um arquétipo ainda não revelado aos homens. o segundo. o poema sobre o palácio. Em 1691. 1927. que não soube do sonho do anterior. arbitrariamente. o poema. O TEMPO E J. O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais. da Companhia de Jesus. Por exemplo. sonhará o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dará a forma de um mármore ou de uma música. é cabível supor que.1 Essa conjetura é verossímil. em uma noite a séculos de nós. a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras. esteja ingressando paulatinamente no mundo. destruído o palácio. julgado por leitores de gosto clássico. ao segundo. . Ao primeiro sonhador foi oferecida. um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead). a semelhança dos sonhos deixa entrever um plano. Traill. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao fim. talvez. Talvez a série de sonhos não tenha fim. entrevejo ou creio entrever outra. Em 1884. mais duradouras que mármores e metais. antes de 1816. um poema (ou princípio de poema) sugerido pelo palácio. o período enorme revela um executor sobre-humano. capaz. alguém. 358.palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção. constatou que do palácio de Kubilai Khan só restavam ruínas. sua primeira manifestação foi o palácio. também. Se o esquema não falhar. talvez a chave esteja no último.

são as inferências do autor. Não sem mistério.. Exornado de histórias. Alenta-me a escrevê-lo o exame do último livro de Dunne – Nothing Dies (1940. de boas ironias e de diagramas.. Antes dos vinte anos. "pois. W. Huxley. tomo 2. Faber & Faber) –. da regressão infinita. mas de um sujeito A que observa e. publiquei uma préhistória. Os hindus não têm sentido histórico (isto é: perversamente. Antes de comentá-las. anoto alguns prévios avatares das premissas. Nem todas as omissões desse esboço eram involuntárias: excluí deliberadamente a menção a J. "O sujeito conhecedor". Por volta de 1843. o que é quase escandaloso. para ser mais exato. pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que também se conhece a si mesmo. já deduzira que o eu é inevitavelmente infinito. e sim nas não menos inumeráveis dimensões do tempo. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. Schopenhauer a redescobre. mas consta-nos que essa negação radical da introspecção tem cerca de oito séculos. portanto. "não é conhecido como tal. capítulo XXII) raciocina que um sujeito consciente não só é consciente daquilo que observa. um objeto sensígeno e esse personagem imperioso: o Eu" 1 Nachvedische Philosophie der Inder. de outro sujeito B que é consciente de A e. O argumento único. portanto. Este (An Experiment with Time. esse é o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam. Dunne. que repete ou resume os argumentos dos três anteriores. acrescenta que esses inumeráveis sujeitos íntimos não cabem nas três dimensões do espaço. 318. preferem o exame das idéias ao dos nomes e datas dos filósofos). se nossa alma fosse conhecível. capítulo 19). A discussão (a mera exposição) de sua tese teria excedido os limites dessa nota. pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung. . seria necessária uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda". como bom herdeiro dos nominalistas britânicos. que extraiu do interminável regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. convido meu leitor para repensarmos o que diz este parágrafo. de parábolas. sustenta que há apenas uma diferença verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafísicos puros. insólito.No número 63 da revista Sur (dezembro de 1939). p. O sétimo dos muitos sistemas filosóficos da índia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento. e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie. Seu mecanismo nada tem de novo. de outro sujeito C consciente de B. Antes de esclarecer esse esclarecimento. 367). que em toda sensação distinguem "um sujeito sensível. Herbart também jogou com essa multiplicação ontológica. 1920. repete ele. p. uma primeira história rudimentar.

O procedimento criado por Dunne para a obtenção imediata de um número infinito de tempos é menos convincente e mais engenhoso. ele postula que o futuro já existe. . suspeito. esse fluir. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente. comete um erro semelhante ao dos distraídos poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco. a terceira. um tempo segundo para o traslado do primeiro. Dunne. exige. "a absurda conjetura de um segundo tempo. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho.(Essays. no qual flui. Quanto à consciência da consciência. Nesses tempos hipotéticos ou ilusórios têm interminável morada os sujeitos imperceptíveis que o outro regressus multiplica.. o primeiro". portanto. em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. a segunda. mas esse postulado basta para transformá-lo em espaço e para requerer um tempo segundo (que também é concebido sob forma espacial. "Se o espírito – disse Leibniz – tivesse de repensar o pensado. rápida ou lentamente. prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginários) do sujeito inicial. fora descoberta e recusada por Schopenhauer. como todos os movimentos. substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito. bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento.2 como Uspenski no Tertium Organum. como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo cósmico. um terceiro para o traslado do segundo. Consta na página 829 do segundo volume da edição históricocrítica de Otto Weiss.. livro 2. Postula que o futuro já existe e que devemos trasladar-nos a ele. e assim até o infinito" (Nouveaux Essais sor l’Entendement Humain. é o passado.. sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionésimo. um tempo determinado. Dunne é uma vítima ilustre desse mau hábito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimensão do espaço. e não dois. com suas vicissitudes e pormenores. Gustav Spiller (The Mind of Man.3 Assim é a máquina proposta por Dunne. 3 Meio século antes de ser proposta por Dunne. mas intuo que o curso do tempo e o tempo são um único mistério. ‘Não sei qual será a opinião de meu leitor. o futuro. o presente. mas considera-os tão compreensíveis quanto a simultânea percepção de uma voz e de um rosto. Sua opinião parece-me válida. p. imóvel.. Não pretendo saber que coisa é o tempo (nem mesmo se é uma "coisa"). 87). ou os rios mortais de nossas vidas. teremos. que não é outro senão o próprio sujeito. 1902) admite que a consciência da dor e a dor são dois fatos distintos. capítulo 1). imóvel. invocada por Dunne para instalar em cada indivíduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos. Nenhum dos quatro livros de 2 Neste poema do século XV há uma visão de "três mui grandes rodas": a primeira. tomo 6. giratória. um verbo e um complemento. Essa translação. e assim até o infinito. ligeiramente mascarado.

) Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade. Deus. ou uma série de histórias. Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. confluem o passado imediato e o imediato porvir..Dunne deixa de propor infinitas dimensões do tempo. Na vigília percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme. e Shakespeare colaborarão conosco. No capítulo XXI do livro An Experiment with Time. outra. Dunne. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge. qualquer falácia cometida pelo autor resulta insignificante. A CRIAÇÃO E P H. sonhar. Nestes. Que razões haveria para postular que o futuro já existe? Dunne fornece duas: uma.. surpreendentemente. Ele também quer evitar os problemas de uma criação contínua. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e com eles urdir uma história. para Dunne. GOSSE 4 A frase é reveladora. no sonho abarcamos uma área que pode ser vastíssima. No homem que amanhã conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem à noite. supõe que a eternidade já nos pertence e que isso é corroborado pelos sonhos de cada noite.. é o inatingível último termo de uma série infinita. e nossos amigos. (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem é viver. os sonhos premonitórios. a relativa simplicidade que essa hipótese outorga aos inextricáveis diagramas típicos de seu estilo..4 mas essas dimensões são espaciais. Diante de uma tese tão esplêndida. segundo ele. Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos. folheá-las. . o autor fala de um tempo que é perpendicular a outro. O tempo verdadeiro.

Wells (All Aboard for Ararat. essa conjunção é comum. que Adão foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e três anos. my face. and find both Adams met in me. composto por John Donne: We think that Paradise and Calvary.163O. Adão. O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal. in my sickness". and Adam’s tree. Joyce também evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem mãe: "Heva. . Talvez o exemplo mais intenso esteja na penúltima estrofe de "Hymn to God. Em vão vasculhei as bibliotecas em busca desse livro. redutível a uma fórmula. (Também deduz – oh. May the last Adam’s blood my soul embrace. Nietzsche! oh. my God.) Nessa moderada versão de certa fantasia de Laplace – a de que o estado presente do universo é."The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim). 1642). recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son. para redigir esta nota. mas que julgo compatíveis com o pensamento de Gosse. Introduzo exemplos ilustrativos que não constam nessas breves páginas. 1940). escreve. As the first Adam’s sweat surrounds. naked Eve. da qual Alguém poderia deduzir todo o porvir e todo o passado –. G. John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante é conseqüência de seu estado no instante precedente e que a uma inteligência infinita bastaria o conhecimento perfeito de um único instante para saber a história do universo. ao derradeiro Adão. Este a divulgou no livro Omphalos (Londres. traduzida em mitos e em simetria. 1 Na poesia devota. curiosamente. para ser mais que uma simples blasfêmia. os teólogos. A Lenda Áurea diz que o lenho da Cruz provém daquela Árvore proibida que está no Paraíso. Look Lord. 1907) e de H. 1 Coríntios 15) contrapõem o primeiro homem. mas o zoólogo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafísica: o problema do tempo. Essa insensata precisão certamente influenciou a cosmogonia de Gosse. Christ’s Cross. She had no navel". No capítulo de sua Lógica que trata da lei da causalidade. Mill não descarta a possibilidade de uma futura intervenção externa capaz de interromper a série. em teoria. cujo subtítulo é Tentativa de Desatar o Nó Geológico. aquele em que morrem todos os homens. No primeiro capítulo do Ulisses. Essa vinculação é de 1857. pressupõe certa enigmática paridade. Pitágoras! – que a repetição de qualquer estado comportaria a repetição de todos os outros e faria da história universal uma série cíclica. Louis Auguste Blanqui! oh.1 Essa contraposição. stood in one place. Duas passagens da Escritura (Romanos 5. passada e vindoura. por descender de Adão. 1857). para denotar que foi concebido em pecado. Sir Thomas Browne (Religio Medici. que é Jesus. oitenta anos de esquecimento talvez equivalham à novidade. March 23.

infinito. mas jamais houve gliptodontes. A segunda: sua involuntária 2 Cf. Spencer: Facts and Comments. claro. o t. Surge Adão. De nada adiantou Gosse expor a base metafísica da tese: quão inconcebível é um instante de tempo sem outro instante precedente e outro ulterior. Os jornalistas reduziram-na à doutrina de que Deus teria escondido fósseis sob a terra para pôr à prova a fé dos geólogos. que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus. 1902. Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma supérflua e vasta mentira". Em vão repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigação de não instruir os homens em ciência alguma. mas minucioso e fatal.Afirma que o estado q fatalmente produzirá o estado r. os paleontólogos impiedosamente exigiam enormes acumulações de tempo. e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e três anos. e assim até o infinito. Em 1857. como dita Santo Agostinho. Não sei se ele conheceu a antiga sentença que consta das páginas iniciais da antologia talmúdica de Rafael Caninos-Asséns: "Não era senão a primeira noite. surge Adão (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo. mas c não ocorreu. Como conciliar Deus com os fósseis. A primeira: sua elegância um tanto monstruosa. já que as ciências constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano. o estado r. preciso. o estado s. propôs uma solução assombrosa. um tempo rigorosamente causal. uma catástrofe divina – a consummatio mundi. o s. mas uma série de séculos já a precedera". infinito. O princípio da razão exige que nenhum efeito careça de causa... O futuro é inevitável. antes de t. embora nenhum cordão umbilical o ligue a uma mãe. uma discrepância preocupava os homens. acima de tudo. digamos – pode aniquilar o planeta. mas esse primeiro instante comporta não só um infinito porvir. . que regressivamente se multiplicam. Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse. mas só as posteriores à Criação existiram realmente. essas causas requerem outras causas. Um passado hipotético. mas pode não ocorrer. de ocaso a ocaso – à criação divina do mundo. Essa é a tese engenhosa (e. inacreditável) que Philip Henry Gosse propôs à religião e à ciência. p. Mill imagina um tempo causal. Sir Charles Lyell com Moisés? Gosse. Deus espreita nos intervalos. mas antes de v pode ocorrer o Juízo Universal. mas admite que. As duas a rejeitaram.2 todas deixam vestígios concretos. o estado n pressupõe o estado c. porque o mundo foi criado em f ou em h. O estado n fatalmente produzirá o estado v. 148-51. Gosse. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação. mas também um infinito passado. No vale de Luján perduram esqueletos de gliptodonte. O Gênesis atribuía seis dias – seis dias hebreus inequívocos. já interrompido por um ato pretérito: a Criação. fortalecido pela prece.

Revelou quão insípido. 5) formulou. partindo de razões estéticas. 1941. Buenos Aires. Bertrand Russell atualizou-a. No capítulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres. Buenos Aires. crias e sementes. I. 4. larvas. sua demonstração indireta de que o universo é eterno. uma tese idêntica à de Gosse.redução ao absurdo de uma creatio ex Nihilo.. Em 1802. teria sido um primeiro dia da Criação povoado de filhotes. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire. la nature dans son innocence eût été moins belle qu’elle ne 1"est aujourd’hui dans sa corruption". .. Chateaubriand (Génie du Christianisme. provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusório. 1921). e irrisório. OS ALARMES DO DOUTOR AMÉRICO CASTRO1 1 La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico (Losada. Post-Scriptum. 1941). como pensaram o Vedanta e Heráclito. Spinoza e os atomistas. supõe que o planeta foi criado há poucos minutos.

a degola. o fuzilamento. o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofístico. ao contrário. de Palermo. a expoliação. de Contursi.A palavra problema pode ser uma insidiosa petição de princípio. transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem. 1896): El minche de esa rumi dicen no tenela bales.) . da T. de Lima. de Llanderas e de Malfatti.. (N. Outro demérito dos falsos problemas é o de promoverem soluções também falsas. declara-os "sintomas de grave alteração".) não se contenta em observar uma "confusão lingüística em Buenos Aires": arrisca a hipótese do "lunfardismo" e da "mística gauchofilia". El chibel barba del breje menjindé a los burós: apincharé ararajay y menda la pirabó. Não suspeita que tais exercícios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te venís pal Centro / de grau bacán”)2 são caricaturais. O doutor Castro (La Peculiaridad Lingüística. de Enrique González Tuñón. Plínio (História Natural. inversão proposital das sílabas): "Com um pingado / e um pão doce / você vem para a cidade / bancando o grã-fino". etc. cuja causa remota são "as conhecidas circunstâncias que fizeram dos países platinos zonas aonde a pulsação do império hispânico chegava já sem brio". como ninguém ignora. como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Español: Su Lenguaje. livro oitavo) não se contenta em observar que os dragões atacam os elefantes durante o verão: arrisca a hipótese de que o fazem para beber todo seu sangue. o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. que. los tenela muy juncales. Para demonstrar a primeira tese – a corrupção do idioma espanhol no Prata –. para não pôr em dúvida sua inteligência. para não duvidar de sua probidade. é muito frio. de Vacarezza. é vaticinar (e recomendar) as perseguições. Falar em problema judeu é postular que os judeus são um problema. sendo o primeiro em vesre (de al revés.3 2 2 Tradução literal dos versos.. Com idêntica eficácia caberia argumentar que em Madri já não restam vestígios do espanhol. Acumula retalhos de Pacheco. de Last Reason. de cândido. los he dicaito yo.

. por Castela. baseados em um palhaço que trabalhou com os Podestá. em voz mais alta. por Alicante. embora padeçamos. morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri. después espirajushió por temor a la canushia. (Falam. Em tais detritos se apóiam. que só podem ser inteiramente compreendidos por quem está familiarizado com as gírias rio-platenses". espirajushiar [fugir]. baseados em Hernández. em Orense.. (N. Improvisaram o gauchesco.. pela Andaluzia. Não menos falsos são "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires". sim. da T. talvez por ter sido citado por Arturo Costa Álvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata. (N. Desnecessário advertir que ninguém diz minushia [mulher]. é quase límpida esta pobre copla em lunfardo: El bacán le acanaló el escracho a la minushia. As gírias: ce pluriel est bien singulier. o cocoliche. [Tradução literal dos versos em lunfardo: "O grã-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polícia". na 87. não há gírias neste país. Não padecemos de dialetos. jacta-se de ter decifrado um diálogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais bárbaros de expressão. guardo gratíssimas lembranças desses lugares. Castro ignora esse léxico. 1928). Viajei pela Catalunha.Diante de sua poderosa treva. esqueceram esta ou aquela acepção desta ou daquela palavra.) O doutor Castro imputa-nos arcaísmo.. / / No melhor dia do ano / peguei o touro à unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela".4 Na página 139. Com exceção do lunfardo (modesto esboço carcerário que ninguém sequer sonha em comparar ao exuberante caló dos espanhóis). jamais observei que os espanhóis falassem melhor que nós.) 4 Consta do vocabulário giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires. com o aprumo de quem ignora a dúvida. sim. Essas corporações vivem de reprovar os sucessivos jargões que inventam. o vesre. da T. imediatamente resolve que os argentinos também devem esquecê-la. / eu mesmo os vi.)] . / ela os tem muito vistosos. Seu método é curioso: descobre que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga. baseados nos alunos da terceira série. tais riquezas lhes devemos e deveremos. de institutos dialetológicos. o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da língua em Buenos Aires. É fato que o idioma espanhol padece 3 Tradução literal dos versos em caló (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem que não tem pêlos. 1915). canushia [polícia].

talvez por um erro da vaidade. do maiorquino. O doutor Castro. conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense são valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforço. e sim corpulência esmagadora. acham que um livro pode suportar este cacofônico título: La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico). nega os tangos e refere-se às xácaras com respeito. do bable. excessivo relevo das palavras. por zombaria. mas aceita a tomadura de pelo. pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas. do galego. o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. condensação da energia sem rumo da massa. do basco e do valenciano. A poesia. 52). dizem le mató em vez de lo mató. ingente aparelho ortopédico que mecanicamente. talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo. Às vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramática de A. Por vezes... A ciência e o pensamento filosófico têm nomes de extrema distinção entre seus cultivadores" (p. mais versátil no erro. não é mais lógica nem mais encantadora. Condena os idiotismos americanos. 71. inépcia para formar palavras compostas). Despreza López e venera Ricardo Rojas.) Proscreve – entendo que com toda a razão – a palavra cachada. Henríquez Ureña" (p. visivelmente. 72). 49). Só os espanhóis julgam-no árduo: talvez porque os perturbem as atrações do catalão. um homem ao estilo de Ramírez ou Artigas. e ridiculamente chamao "centauro máximo". que ele não canaliza porque não é guia. 31). Nesse livro. impunha preços fabulosos" (p. esse inexplicável leitor de Carlos de la Púa e de Yacaré revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano. em cada página desse livro. O espanhol é facílimo. bestialmente. Groussac preferiu a definição: "miliciano de retaguarda". a forma não contradiz o conteúdo. se o destino não torcer o rumo dos sinais propícios. . por preferir os idiotismos espanhóis. encurrala o rebanho disperso" (p.. mas não da imperfeição que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade. Alonso e P. quer que digamos de gorra. Não quer que digamos de arriba. (Com melhor estilo e juízo mais lúcido. Às vezes o estilo é comercial: "As bibliotecas do México possuíam livros de alta qualidade" (p. atitude intensamente receptiva que não demorará a converter-se em força criadora.. Esse examinador do "fato lingüístico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrídio. "A alfândega seca. 9). é pródigo em superstições convencionais.de várias imperfeições (monótono predomínio das vogais. Os compadritos de Last Reason emitem metáforas hípicas. que. costumam ser incapazes de pronunciar Atlántico ou Madrid.o doutor Castro. a contínua trivialidade do pensamento não exclui o pitoresco dislate: "Surge então a única coisa possível. o tirano.

da prosa rimada e do terrorismo. em campo aberto. Males que conhecem todos Mas qu’inda ninguém contou. sem ironia. . E já com estas notícias Minha canção terminei. À frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo. Tombaram nas correrias Mas espero. algum dia. a sério. sem serem ouvidos. E depois de ter passado Numa madrugada clara. Del Campo ou Hernández.S. Eu não sei se. Saber deles algo certo. é algo que dá o que pensar". Adentraram no deserto. Transcrevo aqui as últimas estrofes do Martín Fierro: Cruz e Fierro numa estância Uma tropilha apanharam. P. E seguindo o fiel do rumo. Mas ponha sua esperança No Deus que tudo assinou. Eu me despeço e já vou Que aqui cantei a meu modo.À errônea e mínima erudição o doutor Castro acrescenta o incansável exercício da adulação. A fronteira atravessaram. Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios. – Leio na página 136: "Tentar escrever como Ascasubi. E pelo rosto do amigo Duas lágrimas rolaram. Por ser verdade contei Todas as desgraças ditas: É um tear de desditas Todo gaúcho de lei.

sem ironia". NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO ."A sério. não me julgo totalmente incapacitado para falar de estilística. o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto. dos gêneros literários que jogam football e das gramáticas torpedeadas? Na página 122. eu pergunto: Quem é mais dialetal? O cantor das límpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopédicos que encurralam rebanhos. apesar da inclusão de meu nome nesse catálogo.

As ilusões do patriotismo não têm fim. No primeiro século de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hábito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão são, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, é o compreensível ou inocente propósito de fomentar os melhores traços argentinos. Ignoram, porém, os argentinos; na polêmica, preferem defini-los em função de algum fato exterior; dos conquistadores espanhóis (digamos), ou de uma imaginária tradição católica, ou do "imperialismo saxão". O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração,1 a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel "O Estado é a realidade da idéia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse "herói" é um incompreensível canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranqüilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro. O mundo, para o europeu, é um cosmos em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que há de ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de não ser ruim, apesar do prêmio. Em geral, o argentino descrê das circunstâncias. Pode ignorar a fábula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos – os Lamed Wufniks – que não se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o
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O Estado é impessoal: o argentino só concebe relações pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime. Apenas constato um fato; não o justifico nem desculpo.

universo; quando a ouvir, não estranhará que esses beneméritos sejam obscuros e anônimos... Seu herói popular é o homem só que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potência ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas não registram fatos análogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada há em comum entre os dois, mas o tema do primeiro é a vindicação da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pook’s Hill); o do segundo, a insuportável e trágica solidão de quem carece de um lugar, por humilíssimo que seja, na ordem do universo. Dirão que os traços que assinalei são meramente negativos ou anárquicos; acrescentarão que não comportam explicação política. Ouso sugerir o contrário. O mais urgente dos problemas de nossa época (já denunciado com profética lucidez pelo quase esquecido Spencer) é a gradual intromissão do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, há de encontrar justificativa e deveres. Sem esperança e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mínimo de governo. O nacionalismo pretende embair-nos com a visão de um Estado infinitamente incômodo; essa utopia, uma vez alcançada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construíssem, sua antítese. Buenos Aires, 1946.

QUEVEDO

Assim como a outra, a história da literatura é pródiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glória parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele não consta. Muito tentei inquirir as razões dessa extravagante omissão; certa vez, em uma conferência esquecida, julguei encontrá-las no fato de suas duras páginas não fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo é ter êxito", observou George Moore.) Para alcançar a glória, eu dizia, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra ou alguma circunstância biográfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hipérboles cuja repetição faz a glória... Ignoro se essa explicação é correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo não é inferior a ninguém, mas não encontrou um símbolo que se apoderasse da imaginação das pessoas. Homero tem Príamo, que beija as homicidas mãos de Aquiles; Sófocles tem um rei que decifra enigmas e que os oráculos levam a decifrar o horror de seu próprio destino; Lucrécio tem o infinito abismo estelar e a discórdia dos átomos; Dante, os nove círculos infernais e a Rosa paradisíaca; Shakespeare, seus mundos de violência e de música; Cervantes, o venturoso vaivém de Sancho e Quixote; Swift, sua república de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominação e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e sórdidos labirintos. Não há escritor de fama universal que não tenha cunhado um símbolo; este, convém lembrar, nem sempre é objetivo e externo. Góngora ou Mallarmé, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrário, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um protótipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesuítico, 1904, p. 59). Lamb disse que Edmund Spencer era the poets’ poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que é o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo é preciso ser (em ato ou em potência) um homem de letras; inversamente, ninguém que tenha vocação literária pode não gostar de Quevedo. A grandeza de Quevedo é verbal. Julgá-lo um filósofo, um teólogo ou (como pretende Aureliano Fernández Guerra) um homem de Estado é um erro que podem permitir os títulos de suas obras, não o conteúdo. Seu tratado Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidação ao argumento. Como Cícero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente

e. e são: Diágoras de Mileto. Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empédocles.república de luzes". Quevedo tudo salva. Quevedo moteja de infames. não passa de um arrazoado contra os maus ministros. Nesse tratado. discípulo do imundo e desatinado Teodoro". e Bião de Boristenas. Mas entre essas páginas podem encontrar-se alguns dos traços mais característicos de Quevedo". Rex Judaeorum) são símbolos secretos a cuja luz o político deve resolver seus problemas. O espanhol. embora as cláusulas o sejam. homem tão insensato que. apesar de sua ambiciosa aparência. discípulos de Demócrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu). Sua Política de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Señor deve ser considerada. Fiel a esse cabalístico pressuposto. pássaro e mudo peixe que surge do mar". ao 1 Reyes certeiramente observa (Capítulos de Literatura Española. Empédocles de Agrigento afirmou: "Já fui criança. Protágoras de Abdera. nobre e conveniente". onde o pensamento não é memorável. provavelmente falsas. 1939. da repetição da fórmula sequebantur. . p. ou são obras de declamação acadêmica. A Política de Dios. touceira. que "o rei deve conduzir os ministros. apenas estudioso da verdade. Ou são panfletos circunstanciais. Os gnósticos. agora.133): "As obras políticas de Quevedo não propõem uma nova interpretação dos valores políticos nem têm. acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus. Para estimar o valor dessa sentença. in fine). que exercem obscuro encanto sobre a imaginação dos homens: a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. e não os ministros o rei". loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutón. do qual fora povo.. malditos. em suas páginas lapidares.. e à vista do mar. afirmando ter sido peixe. Entretanto. do episódio dos pães e dos peixes. Escreve que a transmigração das almas é uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta". que os reis devem remediar as necessidades. parece regressar ao árduo latim de Sêneca. Análoga discrepância percebe-se no Marco Bruto. Quevedo. o que não passa de terrorismo. nenhum valor além do retórico. com a dignidade da linguagem. "um completo sistema de governo. a doutrina gnóstica de que o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar. o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeição. moça. precipitou-se no fogo". ou quase... como se sabe. exporei à vergonha os que pouca tiveram. expedida essa variante estelar do argumento cosmológico. mudou-se em tão contrária e oposta natureza que morreu borboleta do Etna. Na história da filosofia há doutrinas. Quevedo depreende. o mais atinado. que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves.1 O leitor distraído pode julgar-se edificado por essa obra. do episódio da samaritana. é invulnerável a esse encanto. segundo Aureliano Fernández Guerra. O assombro vacila entre a arbitrariedade do método e a trivialidade das conclusões. basta-nos lembrar que os quarenta e sete capítulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que não seja a curiosa hipótese de que os atos e palavras de Cristo (que foi. de Tácito e de Lucano.

a repetição de palavras dão a esse texto uma precisão ilusória. em mais de uma ocasião. ao repetir esse ataque no século XVI de nossa era. e sim ao mérito". deliberados exercícios de petrarquismo. mãos equiparadas a neve. ou a troche y moche: às tontas. confusão.. considerados jogos de hipérboles. Outros estilos freqüentou Quevedo com não menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscón. 1904. olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos – incomodavam-no por serem fáceis. sujeito desprezível. Examinada. divinamente destinado a salvar do esquecimento as locuções zurriburi. quítame allá esas pajas e a trochi-moche. ao censurá-las. Com o propósito de "expô-los à vergonha". essencialmente. também deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carícias e nestas não se fia"). a aridez. para ele a linguagem foi. a oposição de termos. ser julgados de perfeitos. Verbi gratia. recompensaram vidas quase divinas com estátuas. muitas gerações. a Luciano de Samósata. Esqueceu-se. as ervas. p.. ainda que brevemente.atormentado e duro latim da idade de prata. combatendo as divindades olímpicas no século II. foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência. ou a barrisco: conjuntamente e sem distinção. 2. Abarrisco. o estilo desmesurado e orgiástico (mas não ilógico) de La Hora de Todos. para que não descaíssem de prerrogativas de tesouro os ramos. o hipérbato. Há uma diferença fundamental: Luciano. e. Quítame allá esas pajas (en un): num átimo. da T. canalha. Cochite y hervite: 1. nunca deixou de aspirar ao ascetismo estóico. passo a discutir sua poesia. urdiu com eles a rapsódia intitulada Cuento de Cuentos. Considerados documentos de uma paixão. mas muito mais por serem falsas. e sim artístico. As trivialidades ou eternidades da poesia – águas equiparadas a cristais. Watts. 91) – não é um fato cientifico. F. pagaram grandes e soberanas vitórias com as aclamações de um triunfo. O ostentoso laconismo.2 Quevedo foi equiparado. este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem. cochite hervite. (N. não a metódica assimilação de duas coisas. costumam ser admiráveis. 2. fascinadas. abarrisco. feito rápida e atabalhoadamente. o quase algébrico rigor. os poemas eróticos de Quevedo são insatisfatórios. não as permitiram à pretensão. o mármore e as vozes. Quevedo. não menos múltipla. Muitos períodos merecem. de que a metáfora é o contato momentâneo de duas imagens. "A linguagem – observou Chesterton (G. limita-se a observar uma tradição literária. Trochi-moche(a). homem de apetites veementes. um instrumento lógico. faz uma obra de polêmica religiosa." Quevedo nunca a entendeu assim.) . esses motivos bastam para explicar o 2 Zurriburi: 1. sem eira nem beira. sua prosa. pessoa precipitada. preferiram ver nessa redução ao absurdo um museu de primores. Também execrou os idiotismos. Quevedo. ou exigem.

de sua Torre de Juan Abad. neste soneto que ele enviou. não por causa deles. Livra. mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece animá-las. a esplêndida eficácia do dístico Sua Tumba são de Flandres as Campanhas e seu Epitáfio a sangrenta Lua é anterior a toda interpretação e não depende dela. As grandes almas que a morte ausenta. O acento pessoal de Quevedo está em outros poemas. Não faltam traços cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos. Por exemplo. H. livros juntos. calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos. Das injúrias dos anos. Não direi que se trata de uma transcrição da realidade. Que na lição e estudo nos melhora. Nem sempre ocorre o mesmo. no mais ilustre soneto desse volume – "Memoria inmortal de don Pedro Girón. Com poucos. mas o soneto é eficaz a despeito deles. Digo o mesmo da seguinte expressão: o pranto militar. Emendam e secundam meus assuntos. Em fuga irrevogável corre a hora. a douta Imprensa. a Dom José de Salas (Musa. sua coragem ou seu desengano. porém doutos. sempre abertos.artificialismo voluntário daquela Musa IV de seu Parnaso. Se nem sempre entendidos. porque a realidade não é verbal. duque de Osuna. muerto en la prisión" –. Eu vivo dialogando co’os defuntos E os mortos com os olhos ouço ao perto. orar despertos ao sonho da vida). e sim corriqueiro. vingadora. cujo sentido não é enigmático. bom dom Joseph. 109): Recolhido na paz destes desertos. o . naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia. E aquela o melhor cálculo assenta. Em músicos. que "canta façanhas de amor e formosura".

IX) 5 À dura lide um animal nascido E símbolo zeloso dos mortais. de Sêneca. De Jove foi disfarce. eclipsado por não sei que piratarias de Dom Pedro Téllez Girón. 1. de uma de Propércio. de Juvenal. porém pó apaixonado é uma recriação. para provar que ele também era capaz de jogar esse jogo. o ponto de partida de Quevedo é um texto clássico. ou exaltação. gongorismos intercalados. Quanto à sangrenta Lua. é melhor ignorar que se trata do símbolo dos turcos.) Tremeram fundamente umbrais e portas Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura. que de algum modo prefiguram Wordsworth. opacas e rangentes severidades." (N. Compreende pensativos sonetos. (Musa. 31): Serão pó. (Musa. IV. variantes de Pérsio. da T. e foi vestido. Que um tempo empederniu as mãos reais. (Elegias. das Escrituras. a memorável linha (Musa. Fundos suspiros deu a negra gente. II) .4 bruscas magias de teólogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"). E luz rumina em campos celestiais. Confundindo lamentos e latidos. Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos cães. E por trás dele os cônsules gemeram.3 Grande é o âmbito da obra poética de Quevedo. Co"as três gargantas ao latido prontas. O solo sob os pés gemeu inteiro. 19): Ut meus oblito pulvis amore vacet. E em nossa palidez cegam os prados. O Cérbero calou-se. Ao ver a nova luz divina e pura. Desertos montes como cãs cendrados.5 urbanidades e doçuras da Itália ("humilde solidão verde e sonora"). que em reinos vãos e baldos Perturbam o silêncio e os ouvidos. e de repente. Assim. de Joachim de 3 4 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu. Não poucas vezes.pranto dos militares. Que não merecem ver do céu luzeiros.

o lodo. que de esquecê-lo Disseram que não se lembra. São (para dizê-lo de algum modo) objetos verbais. por exemplo: "Farta já a Toga do veneno tírio". Cobre-te em tesouros d’Oriente. (Musa. Ali onde vives. Para quem sabe examinar-te. ou distrair. sem saber que morres. oh Liças!. Pois a seu modo Estrelas mente o ouro.7 lúgubres pompas da aniquilação e do caos. com enigmas. teu martírio. senhor de tudo e tantos louros. Ou todo em ouro rígido e palente. ao contrário de outros de Mallarmé. Quando a felicidade delinqüente O horror obscuro em esplendor te mente. Os melhores poemas de Quevedo existem para além da moção que os gerou e das comuns idéias que os animam. V) 7 Este Dom Fábio cantava Para gradis e sacadas De Aminta. puros e independentes como uma espada ou um anel de prata. de Yeats e de George. evitam o erro de perturbar. brevidades latinas.Bellay. Não são obscuros. o nojo. és podre E pura vilania. troças. Mas não descansa. Derramando pelos ombros O balanço de suas lêndeas. Crês que em Palácio a Jove porfiar podes. Víbora em rosicler. áspide em lírio.6 escárnios de curioso artifício. Este. E tu. 6 A Méndez chegou berrando De azeites bem suarenta. Padeces um magnífico delírio. VI) . (Musa. Farta já a Toga do veneno tírio.

como Dante. Como Joyce. Francisco de Quevedo é menos um homem que uma vasta e complexa literatura.Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo. . como nenhum outro escritor. como Shakespeare. como Goethe. mas ele continua sendo o primeiro artífice das letras hispânicas.

e quem sabe muitas vezes. as tragédias e comédias de Shakespeare). mas nem aquele século nem aquela Espanha eram para ele poéticos. ao menos de maneira indireta. a Farsália. Cervantes criou para nós a poesia da Espanha do século XVII. por isso mesmo. dizendo que este é mais versado em desgraças que em versos e que o livro tem algo de boa invenção. este. Na realidade. Nos capítulos em que se discute se a bacia do barbeiro é um elmo e a albarda um jaez. Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo. homens como Unamuno. a Eneida. a colheita literária de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria. Cervantes não podia recorrer a talismãs nem a sortilégios. porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuição. ou Azorín. a Comédia dantesca. em 1942. em outras passagens. o mundo do leitor e o mundo do livro. As vastas e vagas geografias do Amadís ele opõe os poeirentos caminhos e as sórdidas estalagens de Castela. difere essencialmente daquele que foi exercido no século XIX. assombrosamente.MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE É verossímil que estas observações tenham sido enunciadas alguma vez. seriam para ele incompreensíveis. o barbeiro é amigo do autor e não o admira muito. o problema é tratado de modo explícito. Intimamente. Conrad e Henry James romancearam a realidade por julgála poética. destacasse os postos de gasolina. a discussão de sua novidade interessa-me menos que a de sua possível verdade. de Cervantes. devia nela figurar. com seu senso paródico. como já anotei. enternecidos pela evocação de La Mancha. o Quixote é realista. embaladoras fábulas do cativeiro". para Cervantes o real e o poético são antinomias. e eis que. como os crimes e o mistério em uma paródia de romance policial. Cervantes amava o sobrenatural. mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginário. mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e. O plano de sua obra vedava o maravilhoso. O Quixote é menos um antídoto dessas ficções que uma secreta despedida nostálgica. observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano. Joseph Conrad pôde escrever que excluía de sua obra o sobrenatural. o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote. um dos livros examinados é a Galatéia. imaginemos um romancista de nosso tempo que. No sexto capítulo da primeira parte. é apenas insinuado. esse realismo. por coincidência. cada romance é um plano ideal. entretanto. ou Antonio Machado. . Cotejado com outros livros clássicos (a Ilíada. mais eficaz. Paul Groussac. porém.

tendo encomendado a tradução a um mourisco. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolação? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imóvel rei escutar para sempre a truncada história das Mil e Uma Noites. Essa compilação de histórias fantásticas duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central em contos adventícios.. Nessa noite. leitores do Quixote. No último livro. o Ramayana. mas não procura graduar suas realidades. Nenhuma tão perturbadora quanto a da noite DCII. Esse mestre é. e ainda mais assombroso. Estes. cantam o Ramayana.. que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer. que não sabem quem é seu pai. como um tapete persa. A necessidade de completar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolações. Esse jogo de estranhas ambigüidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira. os protagonistas do Quixote são. que abrange todas as outras e também – de monstruoso modo – a si mesma. ou forma de um sonho de Cervantes. O barbeiro. Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. onde se representa uma tragédia que é mais ou menos a de Hamlet.. até que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. que viveu mais de um mês e meio em sua casa. também.. acompanhados pelo alaúde. figura no Ramayana. que fingiu que o Sartor Resartus era a versão parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Diógenes Teufelsdroeckh. que o romance inteiro foi traduzido do árabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo. e a resolução de Scherazade. E bem conhecida a história liminar da série: o desolado juramento do rei. os filhos de Rama. julga Cervantes. que o entretém com fábulas. a essa festa comparece Valmiki com seus alunos. no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899). Aqui é inevitável lembrar o caso de Shakespeare. o livro em que eles estudam. agora infinita e circular. pensamos no rabino castelhano Moisés de León. onde um asceta os ensina a ler. Valmiki. que inclui no cenário de Hamlet outro cenário. mas não conclui nada. reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta. Ouve o início da história. poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demônios.. As invenções da filosofia não são menos fantásticas que as da arte: Josiah Royce. Um artifício análogo ao de Cervantes. no início do nono capítulo. e o efeito (que devia ser profundo) é superficial. que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do século III. a correspondência imperfeita entre a obra principal e a secundária diminui a eficácia dessa inclusão. Pensamos em Carlyle. mágica entre as noites. procuram abrigo em uma selva. Rama ordena um sacrifício de cavalos. formulou a seguinte: "Imaginemos que . sonho de Cervantes.propõe algo. Rama ouve sua própria história. o rei ouve a própria história da boca da rainha. Também surpreende saber. estranhamente.. enquanto concluía a tarefa.

e procuram entender. por menor que seja. não há detalhe do solo da Inglaterra. Em 1833. A obra é perfeita. se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores. podemos ser fictícios. Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem. e assim até o infinito". que deve conter um mapa do mapa do mapa. seus leitores ou espectadores. . Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote. tal mapa deve conter um mapa do mapa. e Hamlet. Desta sorte. e no qual também são escritos. que não esteja registrado no mapa.uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. nós. espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inversões sugerem que. tudo aí tem seu correspondente. e lêem.

em encantadores e. Hawthorne viveu até 1836. equipara as invenções literárias às invenções oníricas. os fracassos. Salem padecia. as que formulam íntimas conexões entre duas imagens. uma espécie de Eduardo Gutiérrez infinitamente inferior a Eduardo Gutiérrez. quando sonha – escreve Addison –. Cinqüenta anos depois. as que não vale a pena inventar. Hawthorne nasceu em 1804. já então. atores e público. as doenças. onde lemos: O sonho. Quevedo formulou-a no início do Sueño de la Muerte. Não sei quem a inventou. exatos volumes. Washington Irving. autor de representações. não é falso dizer que nunca se afastou dela. planeja. No século XVIII. o numeroso Deus dos panteístas. as manias. as que ainda podemos inventar são as falsas. a fim de distrair sua eternidade. no soneto "Varia imaginación". é teatro. sempre existiram. o sonhador. era uma cidade em decadência. há outros escritores americanos – Fenimore Cooper. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bíblico. um sonho dirigido e deliberado. o suíço Jung. As verdadeiras. a literatura aos sonhos. Se a literatura é um sonho. urdidor de agradáveis espanholadas –. é bom que esta nossa história das letras americanas tenha os versos de Góngora por epígrafe e seja inaugurada com a análise de Hawthorne. com alguns exemplos dessa metáfora. Pouco anteriores no tempo. amou-a com o triste amor que inspiram. sombras usa vestir de vulto belo. no porto de Salem. continuava em sua aldeia puritana de 1 Texto de uma conferência proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em março de 1949. Addison a enunciará com mais precisão. mas fundamentalmente um sonho. . em essência.NATHANIEL HAWTHORNE1 Começarei a história das letras americanas com a história de uma metáfora. "A alma. Luis de Góngora. o persa Omar Khayyam escrevera que a história do mundo é uma representação que Deus. ou melhor. muito velha. apesar de pobre. sem dúvida. Esta a que me refiro é a que liga os sonhos a uma apresentação teatral. nas pessoas que não nos amam. em seu teatro sobre o vento armado. de dois traços anômalos na América: era uma cidade. talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. muito depois. mas podemos ignorá-los sem risco algum. em Londres ou em Roma. No século XVII." Muito antes. representa e contempla.

Converti-me em prisioneiro. Essas pessoas não comiam juntas e quase não se falavam. embora seus biógrafos não o digam. desde o dia de hoje. e. em pleno século XIX. o capitão Nathaniel Hawthorne. Seu pai. o nosso Nathaniel – no martírio das bruxas que é lícito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. saía para caminhar. em se tratando da obra de Hawthorne. o primeiro livro que ele comprou com o próprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias.. talvez a mesma que o primeiro Hawthorne. no último. quase teria medo de sair". foram condenadas à forca. Sabese que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gênero indefensáveis. a Bíblia. que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virgílio e Beatriz para depois . sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. com sinceridade. No mesmo andar estavam os quartos das irmãs. Uma mancha tão profunda que deve perdurar em seus velhos ossos. foi juiz nos processos de feitiçaria de 1692. Quando o capitão Hawthorne morreu. a melhor vindicação. por exemplo. em que dezenove mulheres. e agora já não encontro a chave. a segunda. a mãe de Nathaniel. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo. recluiu-se em seu quarto. no segundo andar da casa. Hawthorne era alto. Tinha o andar balançado dos homens do mar. Justice Hawthorne procedeu com severidade e. John Hawthorne. quando desaprovou que os escultores. Em 1837. o de Nathaniel. Também. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. sem o menor propósito de fazê-lo. sua viúva.. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantásticos. no corredor. talvez imprudente ou indiscreta. Duas tarefas nos deparam: a primeira. a melhor refutação das alegorias é a de Croce. sem dúvida. bonito. morreu em 1808. ilícito. nas Índias Orientais. em 1630. Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrim’s Progress. esculpissem estátuas nuas. "Tão conspícuo foi – escreveu Nathaniel. moreno.Salem. tranquei-me em um calabouço. Que eu saiba. Tituba. de febre amarela. no Suriname. a de Chesterton. na hora do crepúsculo vespertino. de fato. perdoada". indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gênero. um jogo de vãs repetições. Hawthorne acrescenta: "Não sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericórdia divina." Depois desse arroubo pictórico. Louisa e Elizabeth. essa palavra é importante e. sem dúvida) literatura infantil. Naquele tempo não existia (para felicidade das crianças. escreveu a Longfellow: "Vivi recluído. indagar se o gênero alegórico é. mesmo que a porta estivesse aberta. um de seus antepassados. magro. a refeição de cada um era deixada em uma bandeja. agora. entre elas uma escrava. no cemitério de Charter Street. Acabei de pronunciar a palavra alegorias. se ainda não forem pó. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas). eu o faço em nome deles e peço que qualquer maldição que se tenha abatido sobre minha raça seja-nos. William Hawthorne de Wilton. trouxera da Inglaterra junto com uma espada.

mas quando um abstrato.explicar. uma série de estados análogos – que é possível indicar por meio de dois símbolos: um. cujo bom pensamento é obstruído por laboriosas e adventícias metáforas. em 1904. digamos) e o escritor que pensa por meio de abstrações (Benda ou Bertrand Russell). mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. no entanto. outro. Beatriz. em todas as suas fusões e conversões. onde pensou razão ou filosofia. A alegoria. Crê. Escreve: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. Há o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare. que esses matizes. Daí infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam à inapreensível realidade. a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. ocorre o denunciado por Croce. É. a um frio jogo de abstrações. ou Victor Hugo. o som "fé". Segundo Croce. pôs Virglio e. Tão incomunicada e tão vasta é a literatura! A página pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts. uma distração da estética. ou fazer-se passar por tal. muitas vezes. o de Hawthorne. de alegorismo. segundo o argumento de Croce (o exemplo não é dele). a das alegorias e das fábulas. mais extensa. ou a razão. Chesterton admite que Watts produziu alegorias. quanto menos uma alegoria for redutível a um esquema. para citar um exemplo notório desse mal. o caso de José Ortega y Gasset. ilustre na Inglaterra em fins do século XIX e acusado. melhor ela será. que Dante é a alma. pôs Beatriz. a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar. onde pensou teologia ou fé. quer ser também imaginativo.. um raciocinador. mas nega que esse gênero seja condenável. Seria um gênero bárbaro ou infantil.. segundo essa interpretação desdenhosa. ou a luz natural. Percebemos que um processo lógico foi enfeitado ou disfarçado pelo autor. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. Croce formulou essa refutação em 1907. e Beatriz a teologia ou a graça. Não sei se a tese de Chesterton é válida. entre muitas outras. Chesterton já a refutara sem que aquele o soubesse. uns valem tanto quanto outros. mais lenta e muito mais incômoda que as outras.". a priori. um processo íntimo. Virgílio a filosofia. "para desonra do entendimento do leitor". ou dar a entender.. Argumenta que a realidade é. ou Donne. como disse Wordsworth. assaz pobre. Dante primeiro teria pensado: "A razão e a fé operam a salvação das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao céu" e depois. Dito de outro modo: Beatriz não é um emblema da fé.. Ortega pode . sei que. um trabalhoso e arbitrário sinônimo da palavra fé. o que seria uma espécie de mascarada. No mais. é.de uma interminável riqueza e que a linguagem dos homens não esgota esse vertiginoso caudal. viria a ser uma adivinhação. como Hawthorne. os dois escritores são antagônicos. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados.

Os sonhos tinham razão. pensa bem de outro e confia nele plenamente. São melhores aquelas fantasias puras que não procuram justificativa nem moralidade e que parecem não ter outro fundo além de um obscuro terror. cujo tema também é a escravidão. bem ou mal. que execute uma ação. de intuições. que os personagens não se comportem como ele queria. Esta. a falseá-las e a deformá-las. Moral: a felicidade está em nós mesmos". mas não imaginar. do mesmo ano: "Um homem. ou talvez humilhante. atormentando-o terrivelmente". este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos. ou fantástico. mas refratário. que o caráter sonhado era o verdadeiro. não sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial. Em um deles. a sujeição ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua mansão a um casal pobre. que é uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro. Citarei mais dois esboços. por fim. de 1838: "Imaginar no meio da multidão um homem cujo destino e cuja vida estão sob o poder de outro. por fim. da realidade e da arte. ou levemente horrível. O acontecimento já está ocorrendo. Este os atormenta. Revela-se. O que ordena morre. moralmente submisso a ele. ao pensamento. misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa. cujo tema (não ignorado por Pirandello nem por André Gide) é a coincidência ou a confusão do plano estético e do plano comum. Foi prejudicado por um erro estético: o desejo puritano de fazer de cada imaginação uma fábula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e. à espera de um acontecimento e da aparição dos principais atores. encontram um criado sombrio que o testamento proíbe demitir. Isso já basta. Os herdeiros mudam-se para aí. mas Hawthorne se vê na obrigação de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixão maligna". bastante curiosos. descubra que ela é a única culpada e a causa. que se trata do homem que legou a casa". digamos assim. mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. como costumam pensar as mulheres. que ocorram fatos não . de 1836. (Não sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento. como se os dois estivessem em um deserto". está escrito: "Uma serpente é admitida no estômago de um homem e alimentada por ele. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que. durante a vigília.raciocinar. Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua. às vezes. Mais um. Não digo que ele fosse pouco inteligente. O outro é mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenções.) Ou este. A explicação seria a percepção instintiva da verdade". descobre-se. e são elas mesmas os atores". e o outro continua executando aquela ação até o fim de seus dias". Outro exemplo. por fim. dos quinze aos trinta e cinco anos. digo que pensava por meio de imagens. Esta. não por meio de mecanismo dialético. Hawthorne era homem de contínua e curiosa imaginação.

não personagens. como reflexos e duplicações da arte. Pouco importam os pueris escândalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no príncipe Hamlet. dada sua brevidade. chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mármore de um templo e. Percebe-se nos esboços algo mais grave que as duplicações e o panteísmo. tais momentâneas confluências do mundo imaginário e do mundo real – do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real – são. pois na Eneida consta que Enéias. ao contrário. nos esboços que citei. de antemão. Das razões acima poder-se-ia deduzir. que o ponto de partida de Hawthorne eram. mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg é real". Esse aspecto deve ter impressionado Virgílio. de que um homem é todos os homens. acho que o autor os chama assim – pecam por inverossímeis. uma situação para só depois procurar personagens que a encarnassem. e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. mas não resta dúvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele. Eu entendo que é assim. quero dizer. Os vinte e quatro capítulos que compõem A Letra Escarlate contêm muitas passagens . também sua própria imagem. Pouco importam fatos inacreditáveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou. ou parecem-nos. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginário e o real. e sim para definir seus personagens. os lentos e antitéticos diálogos – "arrazoados". guerreiro da guerra de Tróia. Nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas. Tais jogos. ou permitir.previstos por ele e que se aproxime uma catástrofe que ele tentará. a trama é mais visível que os atores. talvez esteja naquela passagem da Ilíada em que Helena de Tróia tece seu tapete. evitar. também se nota. Situações. situações. mas nunca romances admiráveis. Sua origem. e um dos personagens ser ele mesmo". Hawthorne. em geral. que ele propendia à noção panteísta de que um homem é os outros. quem sabe involuntariamente. em vão. Hawthorne primeiro imaginava. porque neles. contos admiráveis. Esse conto poderia prefigurar seu próprio destino. sua antiga origem. As aventuras do Quixote não estão muito bem idealizadas. modernos. Percebe-se que o estímulo de Hawthorne. que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista. escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memoráveis de seu romance Victory. e o que ela tece são batalhas e desventuras da própria guerra de Tróia. e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. não para surpreender nossa boa-fé. entre tantas imagens de guerreiros. Esse método pode produzir. ou uma série de situações. primeiro concebia uma situação. Não sou romancista. onde a forma geral (quando existe) só é visível ao final e onde um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham.

egoísta. passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina. na grande cama vazia. depois de dar algumas voltas. Hawthorne lera no jornal. dentro de alguns dias.) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entendê-lo. um dia. Simplesmente. Todos acreditarão que está morto. Este imagina Wakefield como um homem pacato. com a resolução mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher. com fins literários. incluída nos Twíce-Told Tales. Sai. o conto "Wakefield" é a história conjetura) desse desterrado. Caminha. perplexo. no entardecer de um dia de outubro. de . que seu propósito é investigar a impressão que uma semana de viuvez causará à exemplar senhora Wakefield. imaginá-lo. Quase arrependido. timidamente vaidoso. ou fingiu. deita-se. redigidas em boa e sensível prosa. um marido constante. congratula-se. ou então no paraíso. na glória. incompletas e vagas meditações. fecha a porta da rua. está a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem. passou vinte anos escondido. que o sabe aficionado a inofensivos mistérios. ausentando-se de casa por toda uma semana.memoráveis. de sobretudo. acorda mais cedo que de costume e. Sai. e muitas vezes avistou sua mulher. estende os braços e repete em voz alta: "Não dormirei sozinho outra noite". chega ao esconderijo que tinha preparado. Wakefield – acho isto admirável – ainda não sabe o que lhe acontecerá fatalmente. defendido pela preguiça. mas capaz de longas. mas nenhum deles comoveume tanto quanto a singular história de Wakefield. As interpretações do enigma podem ser infinitas. Descobre. Wakefield está de botas. como se tivesse se ausentado por algumas horas. mas custa-lhe defini-lo. o caso de um senhor inglês que abandonou a mulher sem motivo algum. Wakefield. Durante esse longo período. a guardar segredos insignificantes. Imaginará o marido no caixão com o sorriso gelado no rosto. até o dia de sua morte. um marido exemplar. pergunta-se o que fazer. leva guarda-chuva e malas. em seguida a entreabre e. Acomoda-se junto à lareira e sorri. Wakefield. Refletiu sobre o tema. propenso a mistérios pueris. ociosas. sorri. Duvida. por fim. não lhe pergunta as razões da viagem. um homem acanhado. Murmura: "Espiarei minha casa a distância". de cartola. e ela recordará esse sorriso e pensará que talvez não seja viúva. distrai-se. instalou-se a um passo de sua casa e aí. teme que o tenham observado e que o denunciem. (Foi. abriu a porta de casa e entrou. Sabe que tem um propósito. No dia seguinte. ter lido no jornal. custa a acreditar que já está aí. Anos mais tarde. vejamos a de Hawthorne. sorrindo com astúcia e serenidade. A curiosidade o impele para a rua. despede-se da mulher. por um instante. a mulher recordará esse sorriso último. o homem. A mulher. de grande proeza imaginativa e mental. Diz a ela – não podemos esquecer que estamos no início do século XIX – que vai tomar a diligência e que voltará. quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viúva. Quando já o davam por morto. sem ninguém suspeitar. no mais tardar.

Decide não voltar antes de pregar-lhe um bom susto. Sem ter morrido. Pela janela vê que no primeiro andar a lareira está acesa. que é outro. No centro de Londres. morto. os dois olham-se nos olhos. antes comum. diz a si mesmo. ou quase nunca sabe. a milhares de tardes anteriores. de certo modo. passado algum tempo. Um dia o boticário entra na casa. e ela o vai esquecendo. Wakefield emagreceu. de fato. desligou-se do mundo. a longa aventura. A multidão os separa e os perde. Possuído. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. sua fronte baixa parece sulcada de rugas. Repete "logo voltarei". agora é extraordinário. espectral. em meio à multidão de Londres. Wakefield foge para seu esconderijo. como que se ocultando. agora. volta-se para olhar sua casa. caminha obliquamente.repente percebe que o hábito. porque ele já é outro. onde um soluço o estremece. uma única noite causou nele uma transformação. Então recua. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem . Já há muito deixou de saber que sua conduta é estranha. Cara a cara. Talvez esteja. Wakefield sente uma rajada de frio. aterrorizado. seu rosto. sem se dar conta de que há vinte anos vem repetindo a mesma coisa. Começa a chover. Wakefield continua amando sua mulher. Seus olhos miúdos espreitam ou se perdem. Será que alguém o viu? Será que alguém o persegue? Chegando à esquina. Wakefield compra uma peruca ruiva. Com todo o morno afeto de que seu coração é capaz. renunciou a seu lugar e a seus privilégios entre os homens vivos. Aflige-o a suspeita de que sua ausência não causara suficiente comoção à senhora Wakefield. Wakefield preocupa-se. Wakefield voltou. outro dia. Não sabe. Hawthorne não nos conta seu destino ulterior. os dois se cruzam na rua. seu lar. embora não o saiba. contra o adornado forro. Wakefield fita a própria casa. mas deixa adivinhar que ele já estava. mas teme que sua brusca reaparição possa agravar o mal. enfim. um mero parêntese. Em seu rosto brinca. uma tarde igual a outras tardes. como que fugindo. Numa manhã de domingo. o médico. porque. esta parece-lhe diferente. ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. Muda seus hábitos. e talvez não a trocasse pela felicidade. está bem ali. traiçoeiro. os vinte anos de solidão parecem-lhe um interlúdio. levou-o à própria porta e que está a ponto de entrar. Em sua alma operou-se a mudança moral que o condenará a vinte anos de exílio. Mentalmente. o matreiro sorriso que conhecemos. Acostumou-se à tristeza. tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama. antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias". Por um instante. A mulher engordou. Na memória. enxerga a miserável singularidade de sua vida. E assim passam-se dez anos. Nesse ponto começa. as chamas lançam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. deixa o tempo correr. já estabelecera uma nova rotina. leva na mão um missal e ela inteira parece um emblema de plácida e resignada viuvez. graças ao extraordinário intento que executou. "Wakefield! Wakefield! Você está louco!". "dentro de tantas semanas". Parece-lhe ridículo molhar-se quando sua casa. Uma tarde.

que trabalhou no início do século XX. resolvem destruir o passado. Para tanto. Aqui. o que seria de Marlowe sem Shakespeare? O tradutor e crítico Malcom Cowley vê em "Wakefield" uma alegoria da curiosa reclusão de Nathaniel Hawthorne. corre o terrível risco de perder seu lugar para sempre. e entre a horrenda história de Wakefield e muitas histórias de Kafka não há apenas uma ética comum. com todos os diplomas. que não há ato. e afina. a profunda trivialidade do protagonista. foi determinado por Kafka. congregam-se ao entardecer em um dos vastos territórios do oeste da América. Há o fundo nebuloso. Schopenhauer escreveu. Em outras narrações. a estranha circunstância. Assim. de sentir em um conto de Hawthorne. que contrasta com a magnitude de sua perdição e que o entrega. Hawthorne permite-lhe voltar. por um momento que seja. Há. as iras e os castigos do Velho Testamento. contra o qual se perfila o pesadelo. nem pensamento. mas uma retórica. Nessa ficção alegórica. nem doença que não sejam voluntários. fartos de acumulações inúteis. sem nenhum demérito de Hawthorne. às Fúrias. Dirão que isso nada tem de singular. eu gostaria de intercalar uma observação. um grande escritor cria seus precursores. se há verdade nessa opinião. A observação é justa. não deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado. mas este modifica. a singular história de Wakefield. a leitura de "Wakefield". mas sua volta não é menos lamentável nem menos atroz que sua longa ausência. Hawthorne prevê um momento em que os homens. A dívida é mútua. Nessa breve e ominosa parábola – que data de 1835 – já estamos no mundo de Herman Melville. pois o orbe de Kafka é o judaísmo. cada homem vive ajustado a um sistema com tão refinado rigor – e os sistemas entre si. e todos a tudo – que o indivíduo que se desvia. prejudicada que foi pela preocupação com a ética. e o de Hawthorne. Wakefield jamais conseguiria voltar para casa. redigido no início do século XIX. A essa planície ocidental chegam homens de todos os confins do mundo. Se Kafka tivesse escrito essa história. como Wakefield.aparente de nosso misterioso mundo. nesta limita-se a uma Londres burguesa. "Wakefield" prefigura Franz Kafka. o Pária do Universo". é a que se intitula Earth’s Holocaust: o Holocausto da Terra. o sabor mesmo dos contos de Kafka. cujas multidões lhe servem. por exemplo. para ocultar o herói. Cria-os e de certo modo os justifica. Um mundo de castigos enigmáticos e de culpas indecifráveis. A circunstância. No centro acendem uma altíssima fogueira que alimentam com todas as genealogias. aliás. Uma parábola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas não é. ainda mais desvalido. Corre o risco de ser. no mundo de Kafka. famosamente. com todas as . cujo fim é talvez a variedade. mas seu alcance não excede a ética. Hawthorne invoca um passado romântico. seria possível conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que não faltasse ao universo.

Um sonho tão insubstancial que pouco importará que a fogueira. essa é a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a miséria do mundo são apenas símbolo. se há Alguém que agora está sonhando-nos e que sonha a história do universo. com todas as tiaras. fez com que Schopenhauer. com todas as constituições e códigos. discernir e corrigir o que nos aflige. e especificamente calvinista. . Outro espectador – o demônio – observa que os empresários do holocausto se esqueceram de atirar o essencial. como é doutrina da escola idealista. se não sobrepujarmos a inteligência e não tentarmos. a aniquilação das religiões e das artes. com todas as ordens. com todas as coroas. um homem com ar pensativo diz-lhe que ele não deve alegrar-se nem se entristecer. com todas as bandeiras. em seu livro Parerga und Paralipomena. toda nossa obra será um sonho. com todos os tambores marciais. A convicção dessa verdade. com todos os álcoois. nada se terá perdido. e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visível fugirão como fantasmas. com todas as púrpuras. com todo o dinheiro. Hawthorne. se o mundo é o sonho de Alguém. Essa mesma intuição de que o universo é uma projeção de nossa alma e de que a história universal está em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History". no qual as figuras mudam. comparasse a história a um caleidoscópio. enquanto a mente continuar sonhando. com todas as forcas. com todas as caixas de chá. com todas as cartas de amor. e que somente destruíram algumas formas. o incêndio geral das bibliotecas não é muito mais importante que a destruição dos móveis de um sonho. com todos os metais preciosos. seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mãos em vez de um fogo imaginado e uma parábola". o coração humano. Hawthorne assiste com assombro e certo escândalo à combustão. com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. com toda a artilharia. no qual se encontra a raiz de todo pecado. com todas as dalmáticas. que parece fantástica. deixou-se levar pela doutrina cristã. com esse instrumento imperfeito. com todos os brasões. com todas as mitras. com todos os charutos. com todos os dosséis. mas não os atores. Hawthorne conclui assim: "O coração. aqui tão fielmente descrita. com todas as guilhotinas. com todos os títulos de propriedade. o coração. De fato. com todos os títulos de nobreza. pois. com todas as espadas. Purifiquemos essa esfera interior. com todas as sacas de café. aqui. com todos os instrumentos de tortura. A mente que uma vez os sonhou voltará a sonhá-los. mas não os fragmentos de vidro. pois a vasta pirâmide de fogo não consumiu senão aquilo que nas coisas é consumível. com todos os livros. a uma eterna e confusa tragicomédia em que mudam os papéis e as máscaras. com todos os tronos. com todos os cetros. da depravação ingênita dos homens e não parece ter percebido que sua parábola de uma ilusória destruição de todas as coisas encerra um sentido filosófico e não apenas moral.medalhas.

No prefácio de A Letra Escarlate. um simulacro". – Está escrevendo um livro de histórias! Que oficio será esse. não sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China.. este fracassará e será atirado no Inferno. Muitas obras valiosas pereceram. é à abnegação e coragem de obscuros e anônimos homens de letras que a posteridade deve a conservação do cânone de Confúcio. imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance." Ou seja. A passagem é curiosa. e uma das coisas que voltam é o projeto de abolir o passado. Na Inglaterra. muito seriamente. que no décimo livro da República raciocina deste modo: "Deus cria o Arquétipo (a idéia original) da mesa. Corresponde. também.. que se apagasse toda a memória das coisas pretéritas e que todo o regime da vida recomeçasse. o que é pior. Os anjos ordenarão ao artífice que a anime. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su propôs que a história começasse com o novo monarca. se se preferir." A passagem é curiosa. "O que ele estará fazendo? – pergunta um antigo espectro aos outros. O passado é indestrutível. Para extirpar as vãs pretensões da antigüidade. Outro é o de Platão. conta-se que quase sentia vergonha de habitar um . em seu devido tempo e geração? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista. com adversa fortuna. que tomou para si o título de Primeiro Imperador. Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou. três séculos antes de Jesus Cristo. todas as coisas voltam. em meados do século XVII. que declarou que toda representação de uma coisa viva comparecerá perante o Senhor. Tantos literatos. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e proíbe aos homens adorar ídolos. Alguns doutores muçulmanos postulam que a proscrição vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas). entre a teologia e a estética. cedo ou tarde.Quanto à fantasia de abolir o passado. medicina ou astrologia. ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados. entre os antepassados de Hawthorne. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construção da Grande Muralha. culpada. a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres. salvo os que ensinassem agricultura. esse mesmo propósito ressurgiu entre os puritanos. ao antigo pleito entre a ética e a estética ou. De Plotino. Outro é o de Maomé. foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram melões no lugar onde haviam sido enterrados". que modo de glorificar a Deus ou de ser útil aos homens. no dia do Juízo Final. porque encerra uma espécie de confidência e corresponde a escrúpulos íntimos. o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e – paradoxalmente – é uma das provas de que o passado não pode ser abolido. Como Stevenson. o marceneiro. por certo tempo. também filho de puritanos. conta-se. "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell – conta Samuel Johnson – apresentou-se.

poderá afetar de modo irreparável sua obra. Andrew Lang comparou esse romance com os de Émile Zola. para nos limitarmos a um único exemplo. não pode invalidar. os romancistas da Inglaterra e da França acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemães eram demônios. Hei de tolerar. o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma geração perdura e se prolonga nas subseqüentes. Por volta de 1916. o eventualmente falso. são as moralidades que ele acrescentava no último parágrafo ou os personagens que idealizava. porém. se responder a uma visão genuína. para representá-las. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos. Certa vez. não poderá ser absurda. propósitos de índole moral não invalida. Assim. mais autônomos. mas sua obra. sempre a visão germinal era verdadeira. a heroína – são mais independentes. como uma espécie de castigo herdado. essa relativa e parcial objetividade. Os personagens de A Letra Escarlate – sobretudo Hester Prynne. quem tiver fome e sede de objetividade. ou tolerar. nos três romances americanos e no Fauno de Mármore vejo apenas uma série de situações urdidas com destreza profissional para comover o leitor. em seus romances. que seja perpetuada a imagem desta imagem?". nenhum propósito. ainda. que os de outras ficções de Hawthorne. O fato de Hawthorne perseguir.corpo e que não permitiu aos escultores a perpetuação de seus traços. Ouso discordar dessas autoridades. seu testemunho imprescindível. Se há algo no autor. não sei que utilidade pode resultar da aproximação desses nomes heterogêneos. Essa objetividade. quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrará menos em seus laboriosos romances que em alguma página secundária ou nos leves e patéticos contos. salvo um momentâneo assombro. Em Hawthorne. sua obra. se for genuína. assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e não são meras projeções do autor ligeiramente disfarçadas. compôs moralidades e fábulas. Quem desejar objetividade. Não sei muito bem como justificar minha discrepância. por mais fútil ou errôneo que seja. Plotino disse: "já muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler. é talvez a razão que levou dois escritores tão agudos (e tão díspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne. não uma espontânea e viva atividade da imaginação. pude muitas vezes verificar que os propósitos e teorias literárias não passam de estímulos e que a obra final costuma ignorá-los e até contradizê-los. um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar. que armava. que a procure em Joseph Conrad ou em Tolstói. Esta (repito) construiu o argumento . Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que não é ilusória) do modo que sabemos. o falso. costumavam apresentá-los como seres humanos. fez e procurou fazer da arte uma função da consciência. ou com a teoria dos romances de Émile Zola.

de vândalos e dos soldados francos. Groussac não suportava a possibilidade de um americano ser original." . e soava a música marcial enquanto se precipitavam. A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta entre esse abismo e nós e que sustenta nosso mundo ilusório. de intuição. de sombras de gauleses. em toda a parte. basta apoiar o pé. Imaginemos o enorme e escuro buraco. A imaginação de Hawthorne é romântica.. apesar de alguns excessos. não leu Victor Hugo – que tampouco leram uns aos outros. abriu-se no centro do Fórum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano. referi. pois Roma inteira. Inevitavelmente. "Essa fenda – disse seu amigo – era apenas uma boca do abismo de escuridão que está abaixo de nós. não o entrelaçamento dos episódios nem a psicologia – de algum modo temos de chamá-la – dos atores. O Palácio dos Césares caiu. nessa caverna. Reza o texto de Hawthorne: "Admitamos – disse Kenyon – que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna. Devemos pisar com muito cuidado. em momentos de sombra e abatimento. com um estrondo de pedras desabando. Hawthorne. estava cheio de visões proféticas (cominações de todos os infortúnios de Roma). Foi um tolo alarde de heroísmo o de Cúrcio. armado e a cavalo. Todos os exércitos e os triunfos caíram. e quem esteja em busca de novidades as encontrará com mais facilidade nos antigos. e depois atiraram milhares de estátuas. segundo os historiadores latinos. como vemos agora. quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas. não leu De Quincey. com vagos monstros e rostos atrozes olhando cá para cima e enchendo de horror os cidadãos que em sua borda se debruçavam. Talvez tenha feito bem. impenetravelmente fundo. Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporâneos. talvez nossos contemporâneos se pareçam – sempre – demais a nós mesmos. segundo seus biógrafos. para aplacar os deuses. "Penso – disse Miriam – que não há pessoa que não lance um olhar nessa fenda. não leu Keats. Sem dúvida. em Hawthorne denunciou "a notável influência de Hoffmann". aquela em que o herói se atirou com seu bom cavalo. Li vários fragmentos do diário que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solidão. ainda que brevemente. marchando. Hawthorne ignorou-os até onde lhe foi possível. corresponde ao século XVIII. agora lerei uma página do Marble Faun para que vocês ouçam Hawthorne. dois contos. caiu aí. O tema é aquele poço ou abismo que. Todos os templos caíram. ao pálido fim do admirável século XVIII. Pena ter sido tapado tão depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada. no final afundamos. ou seja. ditame que parece basear-se em uma equânime ignorância de ambos os autores..geral e as digressões. Não é necessário um terremoto para rompê-la. seu estilo.

Até aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razão (da mera razão que não deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir é indefensável. A fenda aberta no meio do fórum é demasiadas coisas. Ao longo de um único parágrafo é a fenda de que falam os historiadores latinos e também a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e também é o horror essencial da vida humana, e também o Tempo, que devora estátuas e exércitos, e também a Eternidade, que encerra os tempos. É um símbolo múltiplo, um símbolo capaz de muitos valores, talvez incompatíveis. Para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos é o de Hawthorne. Uma vez, ele propôs-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerência, as estranhezas e a falta de propósito dos sonhos", e maravilhou-se de que ninguém, até então, tivesse executado algo semelhante. No mesmo diário em que registrou esse estranho projeto – que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vão executar e que talvez só Lewis Carroll tenha realizado –, Hawthorne anotou milhares de impressões banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicável abundância faz a consternação de todos os biógrafos. "Parecem cartas gratas e inúteis – escreve com perplexidade Henry James – dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impressão de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqüentava. Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dúvida, mereciam esse ardente destino. Este é um aposento assombrado, porque milhares e milhares de visões povoaram seu âmbito, e algumas agora são visíveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imóvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora começo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitário e por que não podia romper suas grades invisíveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e áspero e teria o coração coberto do pó terrenal... Na verdade, não passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de visões". A cifra talvez não seja uma hipérbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes são apenas uma pequena parte dos muitíssimos que ele esboçou em seu diário. (Entre os completos há um – "Mr. Higginbotham’s catastrophe" [A morte repetida] – que prefigura o

gênero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utópica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, também amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, até essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfândega de Boston, foi cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florença, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tênue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginações fantásticas. No início desta aula mencionei a doutrina do psicólogo Jung que equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina não parece aplicável às literaturas que utilizam a língua espanhola, clientes do dicionário e da retórica, não da fantasia. Em contrapartida, é adequada às letras da América do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) são mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse traço procede a curiosa veneração que os norte-americanos tributam às obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant é mais importante que Hugo. A razão disso é que para um escritor norte-americano é possível ser Hugo, mas não, sem violência, ser Maupassant. Comparada à dos Estados Unidos, que já deu vários homens de gênio e que influiu na da Inglaterra e na da França, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no século XIX, ela produziu algumas páginas de realismo – algumas admiráveis crueldades de Echeverría, de Ascasubi, de Hernández, do ignorado Eduardo Gutiérrez – que, até agora, os norte-americanos não superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegarão, não é menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o é, mas de um modo alucinatório. De um modo infernal, não terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne. Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqüila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e até podemos inventar a história que ele sonhava – a última de uma série infinita – e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitável, esta deficiente e por demais digressiva lição. Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a série English Men of Letters, de Morley.

Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na próxima aula estudaremos, se a indulgência de vocês tolerar, a glória e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

"da riqueza de sua nobre experiência. Ou seja. O que. em Long Island. da manhã na América. herói semidivino de Leaves of Grass. Whitman redigiu suas rapsódias em função de um eu imaginário. não é verdade. do fervor e da ventura. O orbe inteiro da literatura parece não admitir duas aplicações mais antagônicas da palavra poeta. criado por essa obra. Whitman. mas tem a singular virtude de não identificar Whitman. entretanto.VALÉRY COMO SÍMBOLO Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valéry é. o poeta inglês Lascelles Abercrombie pôde exaltar Whitman por ter criado. mas também de infinitos escrúpulos. Valéry criou Edmond Teste. une-os: a obra dos dois é menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar. daí seu costume de datar os poemas em territórios que ele nunca conheceu. Daí as discrepâncias que têm exasperado a crítica. Valéry é uma derivação do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebível Deus dos teólogos. não menos ilusório. Valéry é símbolo de infinitas destrezas. essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". à primeira vista. as interjeições do corpo. Este não magnifica. ele tenha nascido nos estados do Sul e. não o julgássemos um mero Doppelgänger de Valéry. intimamente. Para nós. com Whitman. Um fato. em tal página de sua obra. Valéry é símbolo da Europa e de seu delicado crepúsculo. em outra (também na realidade). Joyce e Stefan George efetuaram modificações mais profundas em seu instrumento (talvez o francês seja menos modificável que o inglês e o alemão). não menos hiperbólico. daí que. é o homem definido pelas composições de Valéry. Yeats. Whitman. verossimilmente. Um dos propósitos das composições de Whitman é definir um homem possível – Walt Whitman – de ilimitada e negligente felicidade. de uma quase incoerente mas titânica vocação para a felicidade. A distinção é válida. de . as capacidades humanas da filantropia. Valéry é Edmond Teste. como aquele. esse personagem seria um dos mitos de nosso século se todos. A circunstância de que essa personalidade seja. homem de letras e devoto de Tennyson. A sentença é vaga e superlativa. Rilke e Eliot escreveram versos mais memoráveis que os de Valéry. Valéry personifica ilustremente os labirintos do espírito. feito em parte dele mesmo. Assim. em parte de cada um de seus leitores. Whitman. magnifica as virtudes mentais. mas por trás da obra desses eminentes artífices não há uma personalidade comparável à de Valéry. uma operação arbitrária e (o que é pior) inepta.

é a benemérita missão que desempenhou (que continua desempenhando) Valéry. . De um homem cujos admiráveis textos não esgotam. na melancólica era do nazismo e do materialismo dialético. nem sequer definem. preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem. Propor lucidez à humanidade em uma era baixamente romântica. da terra e da paixão. uma projeção da obra não minimiza o fato. como William Hazlitt. em um século que adora os caóticos ídolos do sangue. o símbolo de um homem infinitamente sensível a todo fato e para quem todo fato é um estímulo capaz de suscitar uma infinita série de pensamentos. De um homem que. de Shakespeare: "He is nothing in himself". Paul Valéry deixa-nos. dos áugures da seita de Freud e dos comerciantes do surréalisme. suas omnímodas possibilidades. Buenos Aires. 1945. ao morrer.certo modo. De um homem que transcende os traços diferenciais do eu e de quem podemos dizer.

Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composições de quatro versos. nas transmigrações da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitágoras falara com um cão. o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras. lê. É ateu.O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD Um homem.. na solidão de sua biblioteca. ou Assassinos. Umar Ibn Ibrahim. número exíguo que será desfavorável a sua glória. no século XI da era cristã (esse século foi para ele o quinto da Hégira). pois na Pérsia (como na Espanha de Lope e de Calderón) o poeta deve ser fecundo. e de Avicena. o conquistador do Cáucaso. colabora na reforma do calendário promovida pelo sultão e compõe um famoso tratado de álgebra. mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difíceis passagens do Alcorão. da álgebra e da apologética. (Hassan pede e obtém um cargo elevado e. mediante a intersecção de cônicas. com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas árduas páginas de sua álgebra. que entendeu que as formas universais não existem fora das coisas. e retornará à Unidade. que será vizir de Alp Arslan.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma pensão anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. o agraciado não se esquecerá dos outros dois. Certa crônica diz que ele acredita. Os três amigos. para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemáticas. porque todo homem culto é um teólogo. o segundo e o último rimam entre si. e as cinqüenta e tantas epístolas da herética e mística Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. No ano 517 da Hégira. Nizam chega à dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto à sombra de sua ventura. Levanta-se. que oferece soluções numéricas para as equações de primeiro e segundo graus e geométricas. juram que. Umar está lendo um tratado cujo título é O Uno e os Múltiplos. se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles. na qual se argumenta que o universo é uma emanação da Unidade. ou faz de conta que acredita. que ensinou que o mundo é eterno. Os arcanos do número e dos astros não esgotam sua atenção. Morre nesse mesmo . e aprende o Alcorão e as tradições com Hassan Ibn al-Sabbah. meio a sério. e para sê-lo não é indispensável ter fé. para as de terceiro. e com Nizam al-Mulk. por fim. que no vocabulário do Islã é o Platão Egípcio ou o Mestre Grego.. dos quais o primeiro. futuro fundador da seita dos Hashishin. os textos de Plotino. meio brincando. manda apunhalar o vizir. assinala a página que seus olhos não voltarão a ver e reconcilia-se com Deus. nasce na Pérsia. um mal-estar ou uma premonição o interrompe. Nos intervalos da astronomia. Descrê da astrologia judiciária. mas cultiva a astronomia. Dizem-no prosélito de Alfarabi. Anos mais tarde.

a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para . às quais não se sente inferior. Dickens. porém talvez mais sensível e mais triste. surge um extraordinário poeta. e descobrem que eles são o Simurg e que o Simurg é todos e cada um deles. com suas luzes. Carlyle. mas resolve não abusar desse módico privilégio. Thackeray). que não se parece com nenhum dos dois. feita sem outra lei afora a ordem alfabética das rimas. talvez sem entendê-los por completo. seguida de outras. da rosa e do rouxinol e. ricas em variações e escrúpulos. Alguns críticos entendem que o Omar de FitzGerald é.dia. se os astros forem propícios. à hora do pôr-do-sol. um poema inglês com referências persas. O caso convida a conjeturas de índole metafísica. menos intelectual que Umar. que fica além dos sete mares. e finalmente arribam a seu palácio. Euphranor. Por volta de 1854. um rei saxão que derrotou um rei da Noruega é derrotado por um duque normando. todo homem cuja alma encerre um mínimo de música pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida. e Chesterton. agonias e mutações. e na Inglaterra nasce um homem. alguém lhe empresta uma coleção manuscrita das composições de Umar. afinou e inventou. as da noite e da sepultura. É amigo de pessoas ilustres (Tennyson. solitário e maníaco. a epopéia mística dos pássaros que procuram seu rei. de fato. e seu amor estende-se ao dicionário em que procura as palavras. FitzGerald interpolou. Entende que. Umar professou (sabemos) a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. observa que ao mesmo tempo há nele "uma melodia que escapa e uma inscrição que dura". A esse propósito improvável e até inverossímil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente. sensível ao que há de romântico e de clássico nesse livro sem par. a despeito de sua modéstia e cortesia. Em 1859 publica a primeira versão do Rubaiyat. Sete séculos se passam. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e começou uma tradução de Mantiq al-Tayr. livros orientais e hispânicos. passados os séculos. o Simurg. Publicou um diálogo decorosamente escrito. Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perpétuo entre os maiores poetas da Inglaterra". e medíocres versões de Calderón e dos grandes trágicos gregos. Acontece um milagre: da fortuita conjunção de um astrônomo persa que condescendeu à poesia e de um inglês excêntrico que percorre. FitzGerald. Lê e relê o Quixote. Por esses anos. no fim. FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino é a literatura e a ensaia com indolência e tenacidade. em uma ilha ocidental e boreal que os cartógrafos do Islã desconhecem. mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos. que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas não quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil). FitzGerald verte uma para o latim e entrevê a possibilidade de tecer com elas um livro contínuo e orgânico em cujo princípio estejam as imagens da manhã.

configuraram. representa e contempla. por volta de 1857. Isaac Luria. em um longínquo idioma germânico entremeado de latim. a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpúreas sobre papel amarelo. Esta. ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoiá-la ou instruí-la. entre o inglês e o persa. as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um único poeta. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou leões. o poema. essencialmente. o Leão. mais do que nenhuma. analogamente. talvez a alma de Umar tenha-se hospedado. Toda colaboração é misteriosa.cumprir. esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford. o destino literário que em Nishapur as matemáticas reprimiram. porque os dois eram muito diferentes e é provável que em vida não tivessem entabulado amizade. para nossa felicidade. e a morte. No Rubaiyat lê-se que a história universal é um espetáculo que Deus concebe. Deus ou faces momentâneas de Deus. . Mais verossímil e não menos maravilhosa que tais conjeturas de índole sobrenatural é a suposição do acaso benéfico. na de FitzGerald. essa especulação (cujo nome técnico é panteísmo) permitiria pensar que o inglês pôde recriar o persa porque ambos eram.

Nenhuma dessas evocações é falsa. Dentre os muitos escritores britânicos. afirmo. sua obra não encerra um único verso experimental. III) de impor "o selo da classe média" à última dessas seitas. Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarmé. É refutada por um fato capital: em verso ou em prosa. ou Symphony in Yellow –. Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos. Ela se apóia em um cúmulo de circunstâncias: em torno de 1881. A insignificância técnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrínseca. como este duro e sábio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ. tem razão. dez anos mais tarde. desolate else. mas sua índole adjetiva é notória. Também é evocar a noção da arte como um jogo seleto ou secreto – à maneira da tapeçaria de Hugh Vereker e de Stefan George – e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plínio. The Soul of Man under Socialism não é apenas eloqüente. A obra de Wilde é povoada desses artifícios – basta lembrar o décimo primeiro capítulo de Dorian Gray. é também justo. left by mankind". os decadentes. Se a obra de Wilde correspondesse à natureza de sua fama. 2). nenhum é tão acessível aos estrangeiros. quase sempre. XXVIII. o vocabulário do poema "The sphinx" é estudiosamente magnífico.SOBRE OSCAR WILDE Mencionar o nome de Oscar Wilde é mencionar um dandy que também foi poeta. A métrica de Wilde é espontânea. percebo algo que seus panegiristas parecem não ter sequer suspeitado: o fato constatável e elementar de que Wilde. mas que já aparece no exórdio da Epístola aos Pisões. E evocar o exangue crepúsculo do século XIX e essa opressiva pompa de hibernáculo ou de baile de máscaras. Essa atribuição confirma o hábito de vincular ao nome de Wilde a noção de passagens decorativas. ou tenta parecer espontânea. ou The Harlot’s House. a verdades parciais e contradizem fatos notórios. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de púrpura). Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James. mas todas correspondem. Wilde dirigiu os estetas e. conteria meros artifícios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepúsculos del Jardín. As notas miscelâneas que ele prodigalizou . Consideremos. expressão a ele atribuída por Ricketts e Hesketh Pearson. ou descuidam deles. Leitores incapazes de decifrar um parágrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lêem Lady Windermere’s Fan em uma mesma tarde. é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de causar assombro com gravatas e metáforas. por exemplo. a noção de que Wilde foi uma espécie de simbolista. a sintaxe de Wilde é sempre simplíssima.

como Voltaire. O nome de Oscar Wilde é associado às cidades da planície. Não transcrevo essas linhas para a veneração do leitor. um clássico". 1 Cf. a curiosa tese de Leibniz. "em suma. a cada instante. sempre se esquecem"). tinha razão. o fato de Alexandre. o sabor fundamental de sua obra é a felicidade. que tanto escandalizou Arnauld: "A noção de cada indivíduo encerra a priori todos os fatos que a este hão de ocorrer". na página mais inócua. Segundo esse fatalismo dialético. ao julgamento e à prisão. Como Chesterton. alego-as como indício de uma mentalidade muito diversa daquela que. o Grande. assumir as formas do espanto. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatória. um homem que conserva. morrer na Babilônia é uma qualidade desse rei. mas não a sentenças como a de que a música nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist). ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol). como Lang. pois o prazer que seu trato nos proporciona é irresistível e constante. às vezes. Foi prejudicado pela perfeição. Este. essa dificuldade não os faz menos plausíveis. se não me engano. mas cuja valorosa obra sempre está a ponto de se converter em pesadelo. Uma observação à margem. para dizer de uma vez as palavras fatais. sua obra é tão harmoniosa que pode parecer inevitável e até banal. uma invulnerável inocência. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde. se atribui a Wilde.2 Deu ao século o que o século exigia – comédies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos – e executou coisas tão díspares com uma sorte de negligente felicidade. Ao contrário de Chesterton. ou aquela. ou aquela outra de que se arrepender de um ato é alterar o passado (De Profundis). como Johnson. aquilo que foi e que será (ibidem). p. 2 A sentença é de Reyes.1 não indigna de Léon Bloy ou de Swedenborg. ao estilo de Ramón Llull. 158). Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem). em que pese aos hábitos do mal e ao infortúnio. em geral. vistos uma vez. Como Gibbon. da aprovação do leitor. como a soberba. ainda por cima. Chesterton é um homem que quer recuperar a infância. que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol. Wilde é daqueles afortunados que podem prescindir da aprovação da crítica e até. de que não há homem que não seja. foi muito mais que um Moréas irlandês. tido como modelo de saúde física e moral. Nela espreitam o diabólico e o horror. isso talvez seja aplicável a alguma de suas boutades ("um desses rostos britânicos que. Wilde. como Boswell. Foi. pode. foi um homem engenhoso que. . que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. sua glória. foi um homem do século XVIII.na Pall Mall Gazette e no Speaker são fartas de perspícuas observações que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury.

Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie. CHESTERTON: A Second Childhood. Chesterton. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério. Chesterton acreditou na Idade Média dos prérafaelistas ("Of London. prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much. The Poet and the Lunatics. não de artifício retórico. supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série. convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. os livre-pensadores o negam. nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton.. and clean”). Como todo escritor . The Paradoxes of Mr. os católicos exaltam Chesterton. Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial. propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para. Tais crenças podem ser justas. Chesterton foi católico. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma. um símbolo ou espelho de Chesterton. mas o interesse que despertam é limitado. como Whitman. Neste país. que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão. no fim.. Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial. Antes. ao contrário. Chesterton pensou. Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate.SOBRE CHESTERTON Because He does not take away The terror from the tree. small and white. substituí-las por outras que são deste mundo. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções.

cuja arquitetura. aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4. VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais. em que se diz que nos céus. Tais exemplos. de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto. Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos. claro que. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe. a estrutura é muito outra"). 22). algo secreto. "the stuff his dreams were made of". imagina (The Man Who Was Thursday. XXVIII. nos ocidentais. "um terrível cristal". Seu caso é semelhante ao de Kipling. que uma árvore. ou um pássaro três asas. contra os panteístas. Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. e. depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. por si só. algo. IV. 2). nomeia-os com palavras de Ezequiel (1. que seria fácil multiplicar. Chesterton fala com os pais do Super-Homem.que professa um credo. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand. . 222). perguntados sobre a beleza do filho. no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra. fala de um labirinto sem centro. Pergunta se porventura um homem tem três olhos."). Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens. que não sai de um quarto escuro. não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm. se da noite. ele é mais belo que Apolo. mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos. Visto de nosso plano inferior. estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano. e menos. cego e central. fala de um homem devorado por autômatos de metal. mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo. Chesterton é julgado por causa disso. Esse 1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto"). Poe e Baudelaire. é malvada.. Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos. que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico. propuseram-se criar um mundo de espanto. é natural que sua obra seja fértil em formas do terror. é reprovado ou aclamado por isso. Define o próximo pelo distante. depois traduzidos por Rückert (Werke. e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. uma torre. o ar e a água. e até pelo atroz. Morre vítima de uma corrente de ar. assim como o Urizen atormentado de Blake.. fala. fala de uma árvore que devora os pássaros e que. provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka. 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos".1 fala de uma prisão de espelhos. mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes. um monstrorum artifex (Plínio. se fala dos próprios olhos. dá penas. em vez de folhas. o fogo.

O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras3 e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião. símbolos e espelhos de Chesterton. até que ele morre. (Kafka comenta essa parábola. pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?". 3O.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress. Recordo duas parábolas opostas. O homem senta-se para esperar. . Em sua agonia. cada uma das quais pretende explicar.2 Por isso afirmei. mediante a pura razão. os autores de romances policiais se impõem. Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas. com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão. até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo. as aventuras do padre Brown.desacordo. 92. senhor". mas a fé católica. Isso é tudo. ou seja. e sim do confuso é a tarefa que. que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história. cada qual mais forte que o anterior. essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. para mim. mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira. 2 Não a explicação do inexplicável. Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome. Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola. de Bunyan. As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros. Emblemas dessa guerra são. um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. Ver Glatzer: In Time and Eternity. O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. também Martin Buber: Tales of the Hasidim. aparece no Zohar. que se interpõem entre o pecador e a glória. 3 A noção de portas atrás de portas. junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. complicando-a ainda mais. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. Agora vou fechála". Passam-se os dias e os anos. no nono capítulo de O Processo. no parágrafo inicial desta nota. em geral. um fato inexplicável.

em meras possibilidades (um homem invisível. a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. já apontada em algum momento pelo próprio Wells: as ficções de Verne transitam em coisas prováveis (um navio submarino. Em algum lugar li que Verne. disse com indignação: "Il invente!". a Lytton. nomes incompatíveis. H. exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e Luciano de Samósata. as crateras de um vulcão extinto que levam ao centro da terra).O PRIMEIRO WELLS Harris conta que Oscar Wilde. respondeu: – E um Júlio Verne científico. Verne. agora. Wells (antes de resignar-se a especulador sociológico) foi um admirável narrador. um trabalhador esforçado e risonho. uma flor que devora um homem. um homem que volta de outra vida com o coração à direita. para todas as idades do homem. . a fotografia falante. mas o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se baseia pode não ser inútil. as de Wells. a travessia da África em balão. percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells. ou em aniquilá-lo. O parecer é de 1899. G. quando não em coisas impossíveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura. assim como a Rosney. perguntado acerca de Wells.1 A maior felicidade de seus argumentos não basta para elucidar a 1 Wells. em The Outline of History (1931). porque foi inteiramente invertido. um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe. um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte). a descoberta do Pólo Sul. Verne escreveu para adolescentes. Há outra diferença. um navio mais extenso que os de 1872. como em um espelho. que em mudar de assunto. Wells e Júlio Verne são. As razões que acabo de citar parecem-me válidas. a Robert Paltock. A mais notória dessas razões é de ordem técnica. escandalizado com as licenças que The First Men in the Moon se permite. Wells. mas não explicam por que Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac. Todos o sentimos assim.

tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto. o argumentum ontologicum. a precedência dos primeiros romances de Wells – The Island of Dr. é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambigüidade. ou The Invisible Man – deve-se a uma razão mais profunda. assim que ele se rebaixa a arrazoar. é tudo para todos. espelha nossa solidão e nosso terror. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não entendê-lo por completo. Com essa lúcida inocência Wells procedeu em seus primeiros exercícios fantásticos. escreveu Spinoza (Ética. Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinações da "Prússia". em meu entender. o argumento não pode ser mais que um pretexto. 14) "Eu Sou Aquele que Sou". como Hegel ou Anselmo. não para o prazer da leitura. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência. este deve parecer ignorante de todo simbolismo. o mais admirável de sua obra admirável. os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestáveis. que são. sabemos que é falível. porque suas pálpebras não vedam a luz. ou um ponto de partida. O que eles narram não é apenas engenhoso. É importante para a execução da obra. O acossado homem invisível que é obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos. Moreau. Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se às doutrinas contrárias às suas. toleramos que Deus afirme (Êxodo 3. 17). o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que a arte exige de nós. é um espelho que delata os traços do leitor e é também um mapa do mundo. mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narrações. não de arrazoados. não odeia ninguém nem ama ninguém. Deus. A realidade atua por meio de fatos. Duvidamos de sua inteligência. por exemplo. parece confessar que este não é inevitável para ele.) Em minha opinião. Isso pode ser observado em todos os gêneros. podemos considerá-lo onisciente. Além do mais. mas não a circunstância de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. o conciliábulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil é o Vaticano e é Lhassa. mas não que declare e analise. agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells. não existiria o Quixote e Shaw valeria menos que O ´Neill. como duvidaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. Bom herdeiro dos nominalistas britânicos. Deus não deve teologizar. podemos confundi-lo com o universo ou com Deus. os melhores romances policiais não são os de melhor argumento. Em livros não muito breves. . 5. quase a despeito do autor.questão. esse não é o meu caso. Evidentemente. como o Apóstolo. (Se os argumentos fossem tudo.

The Plattner Story. como Goethe. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou. construiu enciclopédias. redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima. . Penso que haverão de incorporar-se. ampliou as possibilidades do romance. The Island of Dr. registrou vidas reais e imaginárias. combateu o comunismo. reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó. São os primeiros livros que eu li. Wells é menos um literato que uma literatura. polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc. prodigou parábolas sociológicas. talvez sejam os últimos. o nazismo e o cristianismo.. à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão. como Voltaire..Como Quevedo. Moreau. The First Men in the Moon. para além dos limites da glória de quem os escreveu. como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus. para além da morte do idioma em que foram escritos. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens. "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico". historiou o futuro. nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine. como mais algum outro. historiou o passado.

.. segundo consta no Hexameron de Ambrósio. VII. favorito de Domiciano. above. que se matou para ocultar os estragos de uma doença de pele"). que De Quincey (Writings. e nelas pude notar esta vaidade: a inclusão de exemplos obscuros ("Festo.1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr. De fato. e as abelhas. between. de Homero. sem nenhuma proibição exceto a de dá-lo "à estampa ou ao fogo". o filho primogênito do poeta deu o velho manuscrito à estampa. que é declarada no subtítulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega. em 1644. 1). segundo a boa lógica.O BIATHANATOS Devo a De Quincey (com quem minha dívida é tão vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informação sobre o Biathanatos. até o pelicano. que. em 1642 eclodiu a guerra civil. O my America! my new-found-land. 336) resume assim: o suicídio é uma das formas do homicídio. "para defendê-lo do fogo". (Elegies. essa é a tese aparente do Biathanatos. a omissão de outros de 1 De que ele realmente foi um grande poeta são prova estes versos: Licence my roving hands and let them go Before. Donne morreu em 1631. VIII. nem todo suicida é culpado de pecado mortal. Assim como nem todo homicida é um assassino. XIX) 2 Cf. essa distinção também deveria ser aplicável ao suicídio. os canonistas distinguem o homicídio voluntário do homicídio justificável. behind.2 "que mil coisas escreveu que ninguém além dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por não ter entendido a adivinha dos pescadores". ou sobrecarregada. por um douto catálogo de exemplos fabulosos ou autênticos. símbolo do amor paternal. O Biathanatos tem por volta de duzentas páginas. below. Três páginas ocupa o catálogo.. "matam-se quando infringem as leis de seu rei". Esse tratado foi composto no início do século XVII pelo grande poeta John Donne.

transcreve as últimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingança: "Morra eu com os filisteus" (Juízes 16. ao derrubar os pilares do templo. suspeito. Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta está aberta") e Schopenhauer ("Seria o monólogo de Hamlet a reflexão de um criminoso?") vindicaram o suicídio em abundantes páginas. encerra o capítulo com uma sentença de Benito Pereiro. I. depois de provar que essa conjetura é gratuita. os quietistas acreditaram que Sansão. in fine) defendeu-o da acusação de suicídio. examina as mortes voluntárias relatadas nas Escrituras. Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma antevisão desse argumento. Não há no Antigo Testamento herói que não tenha sido alçado a essa dignidade. Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicação do suicídio com o próprio suicídio. "como a espada que dirige seus gumes pela disposição de quem a empunha" (A Cidade de Deus. "prodigioso esboço foi Jó de Cristo". que Donne tenha aventado essa idéia é possível ou provável. naturalmente. a hipótese de um livro que para dizer A diz B. para São Paulo. 8).virtude persuasiva – Sêneca. Donne. como "emblema de Cristo". que poderiam parecer fáceis demais. não menos em sua morte que em outros atos. e seu irmão Seth. Donne. foi símbolo de Cristo. que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos é. mesmo que momentânea ou crepuscular. ou julguei perceber. Não lhe interessava o caso de Sansão – e por que haveria de interessar-lhe? – ou só lhe interessava. que afirma que Sansão. Donne. e sim que obedeceu a uma inspiração do Espírito Santo. 20). que diz que Sansão. a ressurreição. para refutá-los. Temístocles. na terceira parte do Biathanatos. não foi culpado pelas mortes alheias nem pela própria. Também recusa a conjetura de Santo Agostinho. 30). Começa por estabelecer que esse "homem exemplar" é emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arquétipo de Hércules. Invertendo a tese agostiniana. à maneira de um criptograma. é artificial. para Quevedo. Francisco de Vitoria e o jesuíta Gregorio de Valencia negaram-se a incluí-lo entre os suicidas. Donne. 1. V. a prévia certeza de que esses defensores têm razão faz com que os leiamos com negligência. chamou-o à tarefa. a nenhuma dedica tantas páginas como à de Sansão. "por violência do demônio. viu nesse problema casuístico apenas uma sorte de metáfora ou simulacro. um argumento implícito ou esotérico sob o argumento notório. Milton (Samson Agonistes. Abel representa a morte do Salvador. ridículo. matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Españoles. Donne . Catão –. digamos. Adão é imagem daquele que viria. para Santo Agostinho. Isto me parece mais verossímil. mas não a de um trabalho animado por uma intuição imperfeita. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos até que percebi.

e isso quer dizer que os elementos. Essa idéia barroca insinua-se por trás do Biathanatos. na verdade. indicar que Cristo se suicidou. a vida e a morte de Cristo são o acontecimento central da história do mundo. destruiu a si mesmo. para a ferida. dito de Cristo". em 1631 incluiu-a em um sermão que proferiu. terse limitado a um versículo de São João e à repetição do verbo "expirar" é algo inverossímil e até inacreditável. bem pode ser falso. Filosofia da Redenção. publicou seu livro. sem dúvida. 3 Cf. Ao reler esta nota. o fundamental. Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (João 10. leitor apaixonado de Schopenhauer. ele se matou. Sou eu mesmo que a dou" (João 10. ávido de não ser. na capela do palácio de Whitehall.3 O fato de Donne. os seguintes o refletem. que os quatro evangelistas utilizam para dizer "morreu". e os espinhos. este se matou com uma prodigiosa e voluntária emissão de sua alma. e Judá foram tirados do nada para destruí-lo. confirmadas pelo versículo "Ninguém tira a vida de mim. O capítulo que fala diretamente de Cristo não é efusivo. II. que na história da filosofia é chamado Philipp Mainländer. penso naquele trágico Philipp Batz. Donne escreveu essa conjetura em 1608. em 1876. para teatro dessa morte futura. Cristo morreu de morte voluntária. preferiu não insistir sobre um tema blasfemo. como eu. 398. o Pai já sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e. Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft. Antes de Adão ser moldado do pó da terra. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos. e o orbe. antes de o firmamento separar as águas das águas. e Egito. para a coroa do escárnio. Nesse mesmo ano. Ele foi. O declarado fim do Biathanatos é atenuar o suicídio. e Roma. e as gerações de homens. dito de Sansão. sugere Donne. . 18). Dessas passagens. 2. não o é. infere que o suplício da cruz não matou Jesus Cristo e que. criou a terra e os céus.incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior. 15) e a curiosa locução "entregou o espírito". e Babilônia. VIII. para explicitar essa tese. no princípio dos tempos. quase agonizante. Sob sua influência (e talvez sob a dos gnósticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que. Mainländer nasceu em 1841. A de um deus que constrói o universo para construir seu patíbulo. e o sangue e a água. De Quincey: Writings. Para o cristão. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. os séculos anteriores o prepararam.

no espaço. mas apenas um homem. ele foi incomparável. porque. que fala da "infinita imensidão de espaços que ignoro e que me ignoram". a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente. Nesta. e sim de um poeta perdido no tempo e no espaço. como predicados do sujeito Pascal. não haverá realmente um quando. e sim o príncipe Hamlet. encontrou Deus. se futuro e passado são infinitos. subseqüente. dizem. as palavras trêmulas de um homem que se sabe nu até as entranhas sob a vigilância de Deus.PASCAL Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. quanto a mim. as Escrituras. mas sim seu exato reverso. Valéry. antes. E bem verdade que este busca Deus e aquele propõe-se libertar-nos do temor aos deuses. não há nada no universo que não sirva de estímulo ao pensamento. e que talvez não exista. que abordam. mas sua expressão dessa graça é menos eloqüente que sua expressão da solidão. lembro-me. creio. sua obra reflete a vertigem de um teólogo. como traços ou epítetos de Pascal. Pascal. Certamente. mas. porque. não encontrei a passagem que procurava. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. No primeiro. o fato é que seu livro não projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialético. a definição roseau pensant não nos ajuda a entender os homens. para nós. basta lembrar o famoso fragmento 207 da edição de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro. mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francês. Assim como a definição quintessence of dust não nos ajuda a entender os homens. Diz o Apóstolo (I Coríntios 13. cheguei a pensar que essa exclamação fosse de origem bíblica. tampouco haverá um onde. Percorri. No tempo. nunca vi nesses memoráveis fragmentos uma contribuição para os problemas. desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. Pascal. Pascal menciona com desdém "a opinião de Copérnico". O mundo de Pascal é o de Lucrécio (e também o de Spencer). ilusórios ou verdadeiros. acusa Pascal de uma dramatização voluntária. 12): "No presente vemos por espelho e . Vi-os.

Este. caberia citar os textos de Arnobio. na página 71 do primeiro volume. A forma da esfera. Madri. ao contrário. 3 A de Zacharie Tourneur (Paris.2 Importa-se menos com Deus que com a refutação daqueles que o negam. esse trabalho poderia ser ampliado. Na opinião de alguns historiadores. o editor cita passagens congêneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura.obscuramente. 1941). III.11. embora registre ídolos. Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111. 17). o insigne panteísta Giordano Bruno (Da Causa. o aspecto "inacabado. 13). Cf. é um dos homens mais patéticos da história da Europa. Não menos exemplar é o caso do fragmento 72. Pascal afirma que a natureza (o espaço) é "uma esfera infinita cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". 9. Antes de Pascal. declarando em palavras incorruptíveis a desordem e a miséria (on mourra seul). e sim a grandeza da Criação perturba Pascal. 2 De Coelo et Inferno. publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmológica de Santo Tomás e de Leibniz. que supõem que o céu é um prêmio e o h-demo um castigo e que. um dos mais vãos e frívolos. o céu e o inferno são estados que o homem busca com liberdade. que a dá como de Platão. híspido e confuso" do manuscrito. Essa edição3 propõe-se reproduzir. então veremos face a face. de Sirmond e de Algazel indicados por Asín Palacios (Huellas del Islam. para ilustração do fragmento 1 Que eu me lembre. 535. aos anjos. Esférico foi Deus para Xenófanes e para o poeta Parmênides. então conhecerei como agora sou conhecido". Empédocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita.1 Não a grandeza do Criador. que é a do órgão visual. Isso pouco importa. em compensação. Para ilustração do Pari. No presente conheço só em parte. As notas. Não é um místico. habituados à meditação melancólica. o editor não a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrédulo". Orígenes entendeu que os mortos ressuscitarão em forma de esfera. No segundo parágrafo. aplicando o cálculo de probabilidades às artes apologéticas. mediante um complexo sistema de sinais tipográficos. é evidente que tal fim foi alcançado. também Bernard Shaw: Man and Superman. que a atribui a Hermes Trismegisto. cúbicos ou piramidais. inclui-se entre os cristãos denunciados por Swedenborg. 1942). não sabem falar com os anjos. são pobres. Para Swedenborg. Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma. o significativo é que a metáfora que Pascal usa para definir o espaço foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade. é perfeita e convém à divindade (Cícero: De Natura Deorum. . Ao pé de alguns textos. Por exemplo. não um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. 34). a história não registra deuses cônicos. como para Boehme (Sex Puncta Theosophica. V) aplicou a sentença de Trismegisto ao universo material. ou no simbólico Roman de Ia Rose.

destinos iguais... o simulacro de um simulacro. sua prefiguração no conceito de microcosmo. É lógico pensar (embora ele não o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim. sua reaparição em Leibniz (Monadologia.. Demócrito pensou que no infinito há mundos iguais. onde homens iguais cumprem. sem nenhuma variação. dans 1´enceinte de ce raccourci d´atome. e o pintor.. onde se diz que Deus cria o arquétipo da mesa. o marceneiro. um simulacro do arquétipo.contra a pintura. de tal sorte que não há átomo no espaço que não encerre universo nem universo que não seja também um átomo.. para ilustração do fragmento 72 (" Je lui veux peindre l´immensité. 67) e em Hugo (La Chauve-Souris): Le moindre grain de sable est un globe qui roule Traînant comme la terre une lugubre foule Qui s´abhorre et s´acharne.”). Pascal (que também pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxágoras de que tudo está em cada coisa) pôs esses mundos idênticos um dentro do outro.. . aquela passagem do décimo livro de A República.

pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. excetuando as palavras compostas e as derivações. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia. Delphos (1935) de E. Wilkins foi capelão de Carlos Luís.).O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. Wright Henderson. esbanjando interjeições e anacolutos. Sylvia Pankhurst. Dangerous Thoughts (1939). etc. Por outro lado. a cada . para redigir esta nota. todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos. felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola". pela confecção de colméias transparentes. mas trata-se de pura vanglória. Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional. príncipe palatino. Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres. Essa omissão é justa. pela possibilidade de uma viagem à lua. se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. The Life and Times of John Wilkins (1910). em algum momento. A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 páginas in-quarto. nada se pode acrescentar a tais debates. 1668). o Wörterbuch der Philosophie (1924). pela trajetória de um planeta invisível. Wilkins morreu em 1672. pela música. Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua". se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614. mas condenável. Não há edição da Gramática de Ia Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos. consultei. de Fritz Mauthner.. de Lancelot Hogben. Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford. de P A. sem nenhuma corroboração. essa mesma Real Academia elabora. pela criptografia. Todos nós. jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon”. já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama.

o fogo. mediante o sistema decimal de numeração. poste. imego.. falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. imaba quer dizer edifício. uma vogal. A beleza figura na décima sexta categoria. estanho. em uma epístola com data de novembro de 1629. greda e arsênico). No idioma análogo de Letellier (1850).. aboj. cobre). que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. preciosas (pérola. imedo. já anotara que. imafe. encadernador. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras. Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros.. uma chama. que é o dos algarismos. por sua vez subdivisíveis em espécies. imela. azougue) artificiais (bronze. subdivisíveis em diferenças. No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII. herbívoro. pilar. é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo. como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. cada uma das letras que as integram é significativa. transparentes (ametista.tantos anos. imarri. abi. aboje. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal. É invenção de Leibniz.. Consideremos a oitava categoria. gato. módicas (mármore. o primeiro dos elementos. seis 110. deb. teto. refere-se a um peixe vivíparo. . piso. do doutor Pedro Mata. depois. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos. a cada espécie. o número de sistemas numéricos é ilimitado. carnívoro. quatro 100. imafo. um para cada número inteiro. lazareto. recrementícios (limalhas. quer dizer elemento. serralho. piçarra). bire. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso. uma porção do elemento fogo. oito 1000. a quer dizer animal. imogo. janela. latão). imaca. safira) e insolúveis (hulha. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845). uma consoante. dois 10. oblongo. Definido o procedimento de Wilkins.) As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários. no colégio.1 ele também propôs a formação de um idioma análogo. ferrugem) e naturais (ouro. um 1. acometeu o intento. cada palavra define-se a si mesma. imaru. um dicionário que define os vocábulos do espanhol. cinco 101. Descartes. etc. a das pedras. birer. encadernar. redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 1 Teoricamente. eqüino. opala). coral). ab. Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. John Wilkins. Wilkins divide-as em comuns (pederneira. por volta de 1664. mamífero. que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching. sete 111. Zero escreve-se 0. Por exemplo: de. hospital. imede. a cada diferença. felino. deba. cascalho. elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta. casa. abiv. âmbar. Essas ambigüidades. abo. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre. chácara. geral. o mais simples requer apenas dois. três 11.

as sinonímias do secreto dicionário de Deus. passado e vindouro. (Teoricamente. xintoísmo e taoísmo. fluvial. que tenha essa ambiciosa palavra. (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo. (n) que de longe parecem moscas. (c) amestrados. A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode. Proteção dos animais. de carne avermelhada. em todas as suas fusões e conversões. budismo. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. contudo. ou a obra de um deus subalterno. que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion. a 298 ao mormonismo. envergonhado de sua execução deficiente. Vícios e defeitos vários. não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. A palavra salmão não nos diz nada. Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas. 1779). (i) que se agitam como loucos.. (e) sereias. unificador. no entanto. Pode-se ir além. Verbi gratia. Se houver. engenhoso. a 263 ao Dia do Senhor. falta conjeturar seu propósito. alvo de zombaria dos deuses superiores. "O mundo – escreve David Hume – talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade. Crê que mesmo de dentro . (l) etcétera. (m) que acabam de quebrar o vaso. Virtudes e qualidades idades várias”.) Esperanças e utopias à parte. a 268 às escolas dominicais. V. ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada.000 subdivisões. (f) fabulosos. talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. (b) embalsamados. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador. zana. as etimologias. as definições. que esses matizes.. pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico. não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino. a 282 à Igreja Católica Romana. sem dúvida. dissuadir-nos de planejar esquemas humanos. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. e a 294 ao bramanismo. define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso.Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Não recusa as subdivisões heterogêneas. o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é. Crê. (g) cães soltos. o vocábulo correspondente. (d) leitões. falta conjeturar as palavras. (h) incluídos nesta classificação. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. a 179: "Crueldade com os animais. mesmo sabendo que eles são provisórios. correspondendo a 262 ao Papa. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. notoriamente. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1.

Este é o parágrafo que assinalei. o lobo ou o cervo. Em tais condições. KAFKA E SEUS PRECURSORES Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. Até os párvulos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. pensei reconhecer sua voz. e sim no tom. misterioso e tranqüilo: "Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro. porque antes deverá percorrer a metade do percurso entre os dois. Um móvel que se encontra no ponto A (declara Aristóteles) não poderá chegar ao B. 88. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. Não é como o cavalo ou o touro. ou seus hábitos. prosador do século IX. Trata-se de um apólogo de Han Yu. e antes. De início. e a flecha. depois de algum convívio. poderíamos estar diante do unicórnio e não saberíamos com . a de O Castelo.de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade. a metade da metade. e consta na admirável Anthologie Raisonée de la Littérature Chinoise (1948) de Margouliè. e assim até o infinito. e o móvel. eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas. O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento. a metade da metade da metade. os anais. Registrarei aqui alguns deles. F. exatamente. e antes. a afinidade não está na forma. nem sempre é fácil encontrá-lo. em ordem cronológica. assim o declaram as odes. p. nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. não se presta a uma classificação. Watts. a forma desse ilustre problema é. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou. e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura. 1904).

guias ferroviários e baús e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. não a 1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mãos do vulgo são temas tradicionais da literatura chinesa. em maior ou menor grau. e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres. Em cada um desses textos. nem todos se parecem entre si. o tal amigo não pôde ajudá-lo. encontra-se a idiossincrasia de Kafka. Um deles pertence às Histoires Désobligeantes. dois contos. pergunta: "E se esse amigo for Deus?". ou acredita ter. o que não se destacou ainda. e os grafólogos afirmam a apocrifia das cartas. (Este conto é. Um homem tem. é o fato de Kierkegaard. olhando-se bem. publicado em 1876. mas eles nunca chegam a Carcassonne. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro. no vapor de carreira – ou um passeio dominical em carro de praça são verdadeiras expedições ao Pólo Norte. teriam anunciado que. Minhas notas registram. Este último fato é o mais significativo. de Browning. Ele nunca o viu. as cédulas do Banco da Inglaterra. Ver o último capítulo de Psychologie und Alchemie (Zurique. em seu Kierkegaard (Oxford University Press. até o momento. embora por vezes a divisem. atlas. nunca se sai de uma cidade. que eu saiba. . Há quem ponha em dúvida os gestos. vê monstros e fadiga os desertos e as montanhas. talvez impossível. assim como Kafka. que traz duas curiosas ilustrações. e que nem todos poderiam empreender a aventura. não se chega. de Léon Bloy. o reverso exato do anterior. do mesmo modo. os heterogêneos textos que enumerei parecem-se a Kafka. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito. 1944). A afinidade mental de ambos os escritores é coisa por ninguém ignorada. O sujeito da outra são as expedições ao Pólo Norte.1 O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. também. transcreve duas. Deus.segurança que se trata dele. no último. entretanto. Quanto à quarta prefiguração. Os párocos dinamarqueses teriam declarado de seus púlpitos que participar de tais expedições convinha à saúde eterna da alma. vigiado incessantemente. O homem. mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autênticas. Não sabemos como é o unicórnio". O outro intitula-se "Carcassonne" e é obra de Lord Dunsany. ter sido pródigo em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. Uma é a história de um falsificador que examina. Por fim. Teriam admitido. mas. Lowrie. e o fato é que. um amigo famoso. como se percebe facilmente. se não me engano. no primeiro. subjuga reinos. de Jung. digamos. no último verso. se ele não tivesse escrito. desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma missão. justamente por sabê-lo afeito ao mal. encontrei-a no poema "Fears and scruples".) Se não me engano. que chegar ao Pólo era difícil. qualquer viagem – da Dinamarca a Londres. 1938).

1951. Buenos Aires. mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. como há de modificar o futuro. No vocabulário crítico.perceberíamos. não existiria. a palavra precursor é indispensável. não importa a identidade ou a pluralidade dos homens.2 Nessa correlação. p. Eliot: Points of View (1941). 2 Ver T S. Browning não o lia como agora nós o lemos. O poema "Fears and scruples". profetiza a obra de Kafka. mas se deveria tentar purificá-la de toda conotação de polêmica ou de rivalidade. vale dizer. de Robert Browning. 25_26. O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes que Browning ou Lord Dunsany. . O fato é que cada escritor cria seus precursores. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado.

que talvez não escutasse tudo o que as pessoas diziam. a uma época da palavra escrita. mas não respondem uma palavra às perguntas que lhes são feitas". em minha opinião. como nós. é para nós um objeto sagrado: já Cervantes. aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui. esse receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria. ele imaginou o diálogo filosófico. Uma fala em cantar. afirmou: "É árdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo. que podem ser malvados ou néscios. uma vez descoberto. a declaração de Mallarmé: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir. a do grego corresponde à época da palavra oral. alguém exclama que aí arderá a memória da humanidade. homem de cultura pagã: "O mais prudente é não . É uma memória de infâmias". O mestre escolhe o discípulo. 1. o mesmo conceito de uma justificativa estética para os males. "que parecem vivas. e a do francês. mas não o julgaria. Mais força que a mera abstenção de Pitágoras tem o testemunho inequívoco de Platão. uns trinta séculos mais tarde. Para atenuar ou eliminar esse inconveniente. ameaça a biblioteca de Alexandria. é impossível divulgá-lo a todos os homens". uma piada sacrílega. e César lhe diz: "Deixa que arda. qualquer livro. Gomperz (Griechische Denker. no Timeu. Um livro. em uma das comédias de Bernard Shaw. e. narrou uma fábula egípcia contra a escrita (cujo hábito faz as pessoas descuidarem do exercício da memória e dependerem de símbolos) e disse que os livros são como as figuras pintadas. não são inteiramente coincidentes. contudo. mas o livro não escolhe seus leitores. e. 3) defende que ele assim procedeu por ter mais fé na virtude da instrução falada. a palavra escrita não passava de um sucedâneo da palavra oral. no Fedro. lia até "os papéis rasgados das ruas". As duas teleologias.DO CULTO AOS LIVROS No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que cantar. O César histórico. É voz corrente que Pitágoras não escreveu. Este. A razão é clara: para os antigos. a outra em livros. O fogo.

e depois de algum tempo retirávamo-nos. que uma única vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (João 8. da pena sobre a voz. que derivam também das evangélicas: "Não deis o santo aos cães nem jogueis vossas pérolas aos porcos. com um livro. O diálogo de Luciano de Samósata.escrever. não queria que o ocupassem com outra coisa. lendo sem articular as palavras.) À noção de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpõe-se a do Livro Absoluto. no conceito do livro como fim. Em todo o caso que fosse o propósito de tal homem. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz. culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada. que sumia com facilidade. pedisse explicação de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la. a de uma Escritura Sagrada. não como instrumento de um fim. naquele tempo. no livro seis das Confissões: "Quando Ambrósio lia. o maior dos mestres orais. omitindo o signo sonoro. corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido. conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o espírito. passados muitos anos. pudemos vê-lo ler caladamente e nunca de outro modo. Resultaria. nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava –. livre do tumulto das questões alheias. resultaria em conseqüências maravilhosas. com o que não poderia ler tantos volumes como desejava. e sim aprender e ensinar de viva voz. sem proferir uma palavra nem mover a língua. por volta do ano 384. Muitas vezes – posto que ninguém era proibido de entrar. pois não havia sinais de pontuação nem sequer divisão de palavras. Para os 1 Os comentadores advertem que. Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do século II. treze anos mais tarde. transposto à literatura profana.1 Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição. do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada nas mãos de uma criança". bispo de Milão. com a passagem de muitas gerações. a arte de ler em voz baixa. redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé. era costume ler em voz alta. pois o escrito fica" (Stromateis). Um admirável acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao chamá-lo instante) em que teve início o vasto processo. Santo Agostinho foi discípulo de Santo Ambrósio. Contra um Ignorante Comprador de Livros. e nestas outras. para penetrar melhor o sentido. talvez receoso de que um ouvinte. encerra um testemunho desse costume no século II. Conta Santo Agostinho. de Henry James e de James Joyce. na Numídia. ele redigiria suas Confissões e ainda o inquietaria aquele singular espetáculo: um homem em um aposento. . em fins do século IV iniciou-se o processo mental que. e ler em grupo. certamente era bom". (Esse conceito místico. atento às dificuldades do texto. 6). para que não as pisoteiem e depois se voltem para vos destroçar". a estranha arte que ele iniciava. Essa sentença é de Jesus. a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de códices.

Florença. e qual sobre a graça. está depositado no Céu. o segundo. em número limitado. pesou-as. Que os números sejam instrumentos ou elementos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico. que as letras o sejam é claro indício do novo culto à escrita. que revela Sua vontade. Mais longe foram os cristãos. transmitidos ao Islã pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena. no entanto. lemos que o texto original. e qual sobre o sonho. a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo. Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. que conformavam. Francis Bacon declarou. e qual sobre a paz. revela que Jeová dos Exércitos. serviu parra formar o sol no mundo. e qual sobre o fogo. um abeceddarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. e qual sobre a cólera. escrito na Síria ou na Palestina por volta do século VI. A idéia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. é um dos atributos de Deus. e qual a água. por 2 Nas obras de Galileu é freqüente o conceito do universo como livro. permutou-as e com elas produziu tudo o que é e tudo o que será". revela-se qual letra tem poder sobre o ar. em seu Advancement of Learning. como Sua eternidade ou Sua ira. . opinava que o mundo era redutível a formas essenciais (temperaturas. é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos. Al Kitab) não é mera obra de Deus. o Algazel dos escolásticos. o volume das Escrituras. combinou-as. continua perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos". A segunda seção da antologia de Favaro (Galileo Galilei: Pensieri. George Sale observa que esse incriado Alcorão não é outra coisa senão sua idéia ou arquétipo platônico. pesos. No primeiro capítulo de sua Bíblia encontra-se a famosa sentença: "E Deus disse: seja a luz. e a luz foi". e qual sobre a sabedoria. sendo este a chave daquele. 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. Muhammad al-Gazali. o "Alcorão" (também chamado O Livro. o volume das criaturas. A Mãe do Livro. e como (por exemplo) a letra kaf. os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. cores). No início do século XVII. O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as. gravou-as.muçulmanos. densidades.2 Sir Thomas Browne. que revela Seu poderio. declarou: "O Alcorão é copiado em um livro. Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso. Em seguida. guardado no coração e. como a alma dos homens ou o universo. que Deus nos oferecia dois livros para que não incorrêssemos no erro: o primeiro. que tem poder sobre a vida. criou o universo mediante os números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. Motti e Sentenze. para justificar a noção da Mãe do Livro. No capítulo XIII. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação). Bacon propunha-se muito mais que construir uma metáfora. pronunciado com a língua.

1912). Depois. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. círculos e outras figuras geométricas". 1951. segundo Mallarmé. é o mundo. a que correspondem seus atos. nem qual é seu nome verdadeiro. existe para um livro. mas ininteligível se antes não estudarmos a língua nem conhecermos os caracteres em que está escrito. O mundo. Léon Bloy escreveu: "Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. No mesmo parágrafo. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta" (L´Âme de Napoléon. Transcrevo o seguinte parágrafo: "A filosofia está escrita naquele enormíssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer. lê-se: "Todas as coisas são artificiais. A língua desse livro é matemática. somos versículos. suas idéias. confirmou: "Dois são os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e público manuscrito que é patente a todos os olhos. seus sentimentos. em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro. Duzentos anos se passaram e o escocês Carlyle. ou letras de um livro mágico. I. segundo Bloy. . estampou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual também somos escritos. ou palavras. superou a conjetura de Bacon.. Quem nunca O viu no primeiro. porque a Natureza é a Arte de Deus". descobriu-O no segundo" (religio Medici. e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo.volta de 1642. Buenos Aires. seu imorredouro Nome no registro da Luz. o universo). e os caracteres são triângulos. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. 16)..

chamou o rouxinol de dríade. não foi discutida por ninguém. à idade de vinte e três anos. em campos de Israel. mas sim sua interpretação. que. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente. e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. no jardim suburbano. Keats. pobre e talvez desafortunado no amor. com toda a seriedade. é também uma falha poética. é aquela que. sua virtude. Em 1895. Keats opõe-se à fugacidade da vida humana. a moabita. em que entende a vida do indivíduo. a permanência da vida do pássaro. F. . e sentiu sua própria mortalidade. que John Keats. em que entende a vida da espécie”. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o escólio: “Naturalmente. na primeira estrofe de seu poema. em uma das noites do mês de abril de 1819. Garrod.R. em uma antiga tarde. Em sua monografia sobre Keats. como a árvore dá folhas. Amy Lowell escreveu com mais acerto: “O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou poético logo intuirá que Keats não se refere ao rouxinol que cantava nesse momento. outro crítico. uma divindade dos bosques. “que não abatem as famintas gerações” e cuja voz. Transcrevo sua curiosa declaração: “Com um erro de lógica. na sétima. Keats. tísico. Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questão. agora. alegou esse epíteto para sentenciar que. a meu ver. que ele poliria muito pouco. a ave é imortal porque é uma dríade. ouviu Rute.O ROUXINOL DE KEATS Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a “Ode a um rouxinol”. e sim à espécie”. a falácia incluída nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu…”. Bridges repetiu a denúncia. ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare. O nó do problema está na penúltima estrofe. compôs em um jardim em Hampstead. duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza. publicada em 1887. que eu saiba.

suspeito. Bridges escreveu um poema platônico intitulado “The fourth dimension”. de todos. a exata chave da estrofe. a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. que. lê-se o seguinte: “Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. em um parágrafo metafísico de Schopenhauer. Através das latitudes e das épocas. é o mapa do universo. sutilíssima prova dessa adivinhação ou recriação é ele ter intuído no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platônico. essa ordem. A “Ode a um rouxinol” data de 1819. Como é possível que Garrod. para estes. o aristotélico. para. fala em “morrentes gerações” de pássaros. em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. talvez incapaz de definir a palavra arquétipo. p. para aqueles. No capítulo 41. nada li”. mas nego a oposição que nele se postula entre o efêmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genérico. os primeiros. falta esclarecer uma segunda.Cinco pareceres de cinco críticos atuais e passados recolhi. sem exagerada injustiça. as ordens e os gêneros são realidades. Os últimos sentem que as classes. A chave. pôde escrever: “Nada sei. sua razão deriva de algo essencial na mente britânica. 211. a mera enumeração desses fatos parece agravar o enigma. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser. em unia alusão deliberada ou involuntária à “Ode”. os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides. adivinhou o espírito grego nas páginas de algum dicionário escolar. e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute. antecipou-se em um quarto de século a uma tese de Schopenhauer. mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro”. na primeira estrofe de “Sailing to Byzantium”. uma ordem. Platão. está. o indivíduo é de certo modo a espécie. . de índole muito diversa. 1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats. entendo que. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. que. Ou seja. Keats. 1950. Se não me engano. Keats. que nunca a leu. Esclarecida assim a primeira dificuldade. Ver T. o menos vão é o da norte-americana Amy Lowell. Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. congregou e deu nome aos Cambridge Platonists —. que são generalizações. R. Leavis e os outros1 não tenham chegado a essa interpretação evidente? Leavis é professor de um dos colégios de Cambridge — a cidade que. no século XVII. Henn: The Lonely Tower.

e sim os indivíduos. o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica. usignolo).” (N. 2). não uma incapacidade especulativa. Convivio. desfruta de nomes melodiosos (nightingale. os realistas. todos invocam Aristóteles. O rouxinol. como os alemães. O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível. Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. Francis Bradley. que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida. e sim os rouxinóis concretos. inassimilável e ímpar. IV. Hume. Heráclito. William James. nachtigall. não o rouxinol genérico. Nas árduas escolas da Idade Média. Um escrúpulo ético. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu. O real. disse Coleridge. da T. essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke. ele agora é um tanto irreal. em todas as línguas do orbe.) “Ser é ser percebido. Platão. impede-o de transitar por abstrações. da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. E natural. “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”2 permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”3 Os homens. para essa mente. De tão exaltado pelos poetas.Spinoza. por Milton e Matthew Arnold. não são os conceitos abstratos. o outro. é talvez inevitável. mas os nominalistas são Aristóteles. a economia da fórmula de Occam. mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre. há cerca de setenta anos. Não entende a “Ode a um rouxinol”. Kant. e escrever. trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta. de Swinburne.” (N. ser Berkeley e ser Hume. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII. mestre da humana razão (Dante. as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado. foi celebrado por Chaucer e Shakespeare. Aristóteles. menos afim com a calhandra que com o anjo. como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. nascem aristotélicos ou platônicos. Locke.) . antigo cantor da tarde. 2 3 “Os entes não devem ser multiplicados além do necessário. da T.

ninguém tão assombrosamente como Léon Bloy.. Como os fatos referidos pela Escritura são verdadeiros (Deus é a Verdade. Agora eu não o conheço senão imperfeitamente: mas então o conhecerei com uma visão clara. Cipriano de Valera é mais fiel: "Agora vemos por espelho. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum". p. Também De Quincey1 a declara: "Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo têm suas chaves correspondentes. mas então conhecerei como sou 1 Writings. impossível ser mais palavroso e mais frouxo.) Um versículo de São Paulo (I Coríntios 13. Agora conheço em parte. devemos admitir que os homens. mas então veremos face a face. a lua – é uma linguagem que esquecemos. Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas.. determinado e premeditado por Deus. sua severa gramática e sua sintaxe. da maneira que eu sou conhecido". na escuridão. representaram cegamente um drama secreto. as temperaturas. 129 . a Verdade não pode mentir. etcétera). Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente não vemos Deus senão como em um espelho e sob imagens obscuras: mas então o veremos face a face. simbólico. ao executá-los. ou que mal soletramos. volume 1. Daí a pensar que a história do universo. 1896. (Nos fragmentos psicológicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure há uma hipótese afim: a de que o mundo externo – as formas. – e nela nossas vidas e o mais tênue detalhe de nossas vidas – tem valor inconjeturável. não vai uma distância infinita.O ESPELHO DOS ENIGMAS A idéia de que a Sagrada Escritura tem (além de seu valor literal) um valor simbólico não é irracional e é antiga: está em Filão de Alexandria. Muitos devem tê-la percorrido. em Swedenborg. nos cabalistas. 12) inspirou Léon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores".

Não penso tê-las esgotado: espero que algum especialista em Léon Bloy (eu não sou) venha a completá-las e retificá-las. um reflexo exterior de nossos abismos. "Per speculum in aenigmate. quem é verdadeiramente Czar. percebidos ‘em um espelho’. Somos dormentes que gritam durante o sono. "Recordo uma de minhas idéias mais antigas. A primeira é de junho de 1894. " A quarta é de maio de 1904. Quando pensamos dar. diz São Paulo. Basta-me citar . Torres Amat entende que o versículo se refere a nossa visão da divindade. Traduzo-a assim: "A sentença de São Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabóia para mergulhar no Abismo verdadeiro. de lamentos e afrontas) há versões ou facetas diversas. vistos ao contrário. até a dor mais lancinante. Se os pobres de seu império vivem oprimidos sob seu reinado. "Aterrorizante idéia de Joana acerca do texto Per speculum. etc. por uns poucos seres humanos. Cipriano de Valera (e Léon Bloy). que resgatei das páginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos corações. A segunda é de novembro do mesmo ano. Então (ouço de uma querida alma angustiada) nós estamos no céu e Deus sofre na terra. quem pode garantir que não é o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade. que é a alma do homem. Vemos todas as coisas ao contrário. Em cada uma das páginas de L´Ame de Napoléon." A sexta é de 1912. se desse reinado resultam imensas catástrofes. Que eu saiba. considerado precursor de outro herói – também ele homem e símbolo – oculto no futuro. pelo qual Deus quis morrer.conhecido". Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno. literalmente: ‘em enigma por um espelho’.. recebemos." A quinta é de maio de 1908. como todos sabem. Vemos agora. quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?" A terceira é de uma carta escrita em dezembro. "Tudo é símbolo. per speculum in aenigmate. de Le Vieux de la Montagne e de L ´Invendable. Não sabemos se tal coisa que nos aflige não é o secreto princípio de nossa alegria ulterior. perante Deus. Se vemos a Via Láctea. é porque ela verdadeiramente existe em nossa alma". a nossa visão geral. O Czar é o chefe e pai espiritual de cento e cinqüenta milhões de homens. e não veremos de outro modo até o advento d´Aquele que está todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas.. quem é rei. em um espelho. Atroz responsabilidade que não passa de aparência. Bloy não imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva. Eis aqui algumas. Ao longo de sua obra fragmentária (povoada. livro cujo propósito é decifrar o símbolo Napoleão. A aterrorizante imensidão dos abismos do firmamento é uma ilusão. afirma São Paulo. Talvez ele apenas seja responsável.

irmão secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas. Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima.. Os passos dados por um homem. seu imorredouro Nome no registro da Luz. ainda. Bloy (repito) só fez aplicar a toda a Criação o método que os cabalistas judeus tinham aplicado à Escritura. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros.. Estes pensaram que uma obra ditada pelo Espírito Santo era um texto absoluto: vale dizer.2 Léon Bloy postula esse caráter hieroglífico – esse caráter de escrita divina. uma opala amarela. nem qual é seu nome verdadeiro. que tenha duplo ou triplo sentido.. poderá indagar o leitor. Eu entendo que é assim. . Os parágrafos acima talvez pareçam ao leitor meras gratuidades de Bloy. Essa premissa portentosa de um livro impenetrável à contingência. de uni livro que é um mecanismo de propósitos infinitos. Que eu saiba. de criptografia dos anjos – em todos os instantes e em todos os seres do mundo. ninguém tratou de examiná-los. 2 O que é uma inteligência infinita?. afirmou Léon Bloy. Uma: "Cada homem está na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partícula. Ouso julgá-los verossímeis. eu prefiro um exemplo. desenham no tempo uma inconcebível figura. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente. ou uma montanha. como a dos homens um triângulo. dentro da doutrina cristã. observará o incrédulo. Julgava-se um católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas. a que correspondem seus atos. o da desgraça. mas entendo que o mundo hieroglífico postulado por Bloy é o mais conveniente à Dignidade do Deus intelectual dos teólogos. Parece improvável que o mundo tenha sentido. dos materiais invisíveis que servirão para edificar A Cidade de Deus". Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo. Outra: "Não há na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele é.duas passagens. suas idéias. um texto em que a colaboração do acaso é calculável em zero. seus sentimentos. mais improvável.. Sua apologia é que nada pode ser contingente na obra de uma inteligência infinita. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. levou-os a permurtar as palavras escriturais. desde o dia de seu nascimento até o de sua morte. e talvez inevitáveis. O supersticioso crê penetrar essa escrita orgânica: treze comensais articulam o símbolo da morte. a somar o valor numérico das letras. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta". a procurar acrósticos e anagramas e a outros rigores exegéticos dos quais não é difícil zombar. Não há teólogo que não a defina. a observar as minúsculas e maiúsculas. "Nenhum homem sabe quem é". a fazer conta de sua forma.

DOIS LIVROS O último livro de Wells – Guide to the New World. por vozes e rumores radiofônicos e por alguns mensageiros de bicicleta". o Ministério das Relações Exteriores inglês. os generais do exército francês. uma simples enciclopédia de injúrias. "mental e moralmente néscio". Mais importante que esses resmungos epigramáticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria facílimo triplicar ou quadruplicar) é a doutrina desse manual . que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado. os ingênuos que supõem que basta exorcizar ou destruir os demônios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisíaco. o "rancoroso cortiço" Irlanda do Sul. A Handbook of Constructive World Revolution – corre o risco de parecer. Também demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra. a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britânica. o "absurdo Ironside". os norte-americanos e ingleses "que traíram a causa liberal na Espanha". "que parece não poupar o menor esforço para que a Alemanha ganhe uma guerra que já perdeu". Suas bem legíveis páginas denunciam o Führer. varrem os estilhaços de vidro e retomam as tarefas da véspera". nas horas centrais da batalha. Sir Samuel Hoare. Josef Stálin. "derrotados pela consciência da inépcia. Goering. "que chia como um coelho esganado". algumas parecem-me injustas. no dia seguinte. "embora ninguém saiba o que é o proletariado nem como e onde ele dita". Eden. por tanques fabricados na Tchecoslováquia. mas demonstram a imparcialidade de seus ódios e de sua indignação. os que opinam que esta guerra "é uma guerra de ideologias" e não uma fórmula criminosa "da desordem presente". Reuni algumas invectivas de Wells: não são literariamente memoráveis. "o inconsolável viúvo quintessencial da Liga das Nações". à primeira vista. "aniquilados de cidades que.

às vezes. Nesse livro. a frente de batalha da humanidade. 1940 –. 1939. uma mais nobre espécie de nazistas. para sua melhor convivência." Let the People Think é o título de uma seleção de ensaios de Bertrand Russell. The Common Sense of War and Peace.revolucionário. econômico ou étnico. Russell também emite conselhos de universalidade. em vão insinuei que uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita. Até os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas. ninguém pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg. O capítulo XII (p. p. inacreditavelmente. disputando a hegemonia do mundo com os alemães. no mesmo dialeto do inimigo. 48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. outros. ou a vitória é inacessível e inútil. todos juraram que um judeu-alemão difere enormemente de um alemão. por mais que o neguem ou o ignorem. a principal é esta: a diferença entre judeus e nãojudeus parece-me. marxistas. sim. Wells. 204). em geral. por mais patéticos ou pitorescos que sejam. Na verdade. como em outros – The Fate of Homo Sapiens. Desde 1925. Os três capítulos finais discutem alguns problemas menores. Vindicadores da democracia. Wells. Em vão lembrei-lhes que não outra coisa diz Adolf Hitler. Tal doutrina é resumível nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revolução geral (com a de um mundo federado). Há várias razões para que eu não seja um anti-semita. falavam em Raça e Povo. o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos. insta-nos a repensar a história do mundo sem preferências de caráter geográfico. em vão citei a sábia declaração de Mark Twain: "Eu não pergunto de que raça é um homem. não é nazista. não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido em um determinado país e de pertencer a tal raça (ou a tal boa mescla de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. Se não forem essa frente. tal repressão não é descabida: limita-se a exigir dos Estados. No terceiro artigo – "Free . ilusória ou imperceptível. Também recordo com certo estupor uma assembléia convocada em repúdio ao anti-semitismo. na obra cujo comentário esbocei. insignificante. porque quase todos os meus contemporâneos o são. basta que seja um ser humano. Ninguém. não são nada. outros. com um léxico de Gauleiter. Uns declaravam-se republicanos. naquele dia. instam seus leitores. "Ninguém em seu perfeito juízo – declara Wells – pensa que os homens da Grã-Bretanha são um povo eleito. quis compartilhar minha opinião.. Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis traços diferenciais. que se julgam muito diferentes de Goebbels. Esse dever é um privilégio. Inacreditavelmente. a escutar o palpitar de um coração que recolhe os íntimos mandados do sangue e da terra. São. Lembro-me de certas discussões indecifráveis. todos. durante a Guerra Civil Espanhola.. nacionalistas.

pensam "sport"). de Guilherme. Pior ainda: exercem uma sorte de magia. é um pleonasmo de Carlyle (17951881) e até de J. na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation. Dos outros artigos. ostensivamente triunfais. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle.thought and official propaganda”. confundem a verdade com o corpo doze. pouquíssimas sequer a soletram. Hitler. p. pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo. de Frederico II. por mais que os puristas digam "esporte". Louvou a Idade Média. não o são as representações. reescrever essa história do ponto de vista francês. baseia a superioridade dos alemães na ininterrupta posse de um idioma puro. uma transcrição de Karl Marx. ele propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. vangloriosa. tomo VII. que nos exaspera ou exalta e que com certa freqüência nos aniquila. Este. O autor começa observando que os fatos políticos provêm de especulações muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgação de uma doutrina e sua aplicação. Russell propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses. 251). podemos indagar por que é preferível um idioma sem mistura. intranqüila. de Knox. hipersensível França" (Miscellanies. Lênin. Nossos "nacionalistas" já exercem esse método paradoxal: ensinam a história argentina de um ponto de vista espanhol. condenou as rajadas de vento parlamentar.. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos. o Bastardo. quando não quíchua ou querandí. Daí o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporâneos: a realidade é sempre anacrônica. em 1843. Das pessoas que conheço. podemos lembrar que o alemão é menos "puro" que o basco ou que o hotentote. sólida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona. de Cromwell. Essa razão é quase inesgotavelmente falaz. não passa de uma reverberação imperfeita de velhas discussões. sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur.. Mais complexa e eloqüente é a contribuição de Carlyle. escreveu que a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam. G. podemos conjeturar que não há no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam. profunda.. negam-se a entender que a afirmação: "Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta" é mero eufemismo para admitir a perda de B. Fichte (1762-1814). do taciturno doutor Francia e . pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas. Em 1870 aclamou a vitória da "paciente. Por exemplo. pugnaz. vindicou a memória do deus Thor. não é menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". horrendo em públicos exércitos e em secretos espiões. O primeiro.. nobre. É assim: a "atualidade candente". gesticulante.

alegrou-se por haver um quartel em cada povoado. é lícito afirmar que o ambiente do início do século XVIII era racional e o de nosso tempo. almejou um mundo que não fosse "o caos provido de umas eleitorais". e inventou. propôs a transformação das estátuas – "horrendos solecismos de bronze" – em úteis banheiras de bronze. condenou a abolição da escravatura. Eu suprimiria o tímido advérbio que encabeça a frase. anti-racional". . Quem quiser mais imprecações ou apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets. a Raça Teutônica.de Napoleão. Bertrand Russell conclui: "De certo modo. preconizou a pena de morte. incensou. de 1850.

a passagem a que me refiro é aquela do sonho metafísico de John Tanner. também. e a simples adesão à realidade eram explicações verossímeis do problema. aplicam aos atos da Inglaterra o cânone de Jesus. para os quais a infinita repetição da interessante fórmula "sou argentino exime da honra e da piedade. que qualquer incerteza seria preferível a um diálogo com esses consangüíneos do caos. pensei comigo. Sei que investigar esse entusiasmo é correr o risco de parecer-me aos vãos hidrógrafos que indagavam por que basta um único rubi para deter o curso de um rio. a descoberta de que uma emoção coletiva pode não ser indigna. abençoam a guerra submarina. condenam os artigos de Versailles. Cansado. mas opinam que a independência da América foi um erro. perderam por completo a noção de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raça germânica. denunciam o imperialismo. mas reprovam com vigor as piratarias britânicas. Esses versáteis. onde se afirma que o horror do Inferno é sua . mas aos da Alemanha o de Zaratustra. Ponderei. e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunhá-lo. Noites mais tarde.ANOTAÇÃO AO 23 DE AGOSTO DE 1944 Essa jornada populosa deparou-me três heterogêneos assombros: o grau físico de minha felicidade quando soube da libertação de Paris. o enigmático e notório entusiasmo de muitos partidários de Hitler. O livro foi Man and Superman. Logo de início entendi que seria inútil interrogar os protagonistas. Freud não concluiu e Walt Whitman não pressentiu que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta? Quem sabe. são anti-semitas. à força de exercer a incoerência. mas abominam a América "saxã". De mais a mais. mas professam uma religião de origem hebréia. idolatram San Martín. um livro e uma lembrança me iluminaram. muitos me acusarão de pesquisar um fato quimérico. mas aplaudiram os prodígios do Blitzkrieg. a magia dos símbolos Paris e libertação seja tão poderosa que os partidários de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. mas vindicam e promulgam a tese do espaço vital. Mas ele ocorreu. optei por supor que certo espírito noveleiro. de Shaw. e o temor.

há uma ordem – uma única ordem – possível. Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidação. O nazismo padece de irrealidade. de nojo. Senti um misto de tristeza. Toda oposição era inútil. Nesse dia. É inabitável. os homens só podem morrer por ele. um gaúcho. Algo que não entendi me conteve: a insolência do júbilo não explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamação. entrou em minha casa. nada poderia deter sua vitória. como os infernos de Erígena. A lembrança foi daquele dia que é o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. um pele-vermelha) é. colabora com os inevitáveis exércitos que o aniquilarão. assim como os abutres de metal e o dragão (que não deviam ignorar sua condição de monstros) colaboraram. Acrescentou que muito em breve esses exércitos entrariam em Londres. na solidão central do próprio eu. inclusive o Diabo. mentir por ele. um tártaro. Ninguém. uma impossibilidade mental e moral. Ser nazista (brincar de barbárie enérgica.irrealidade. cujo nome não quero lembrar. de modo cego. anunciou a grande notícia: os exércitos nazistas tinham ocupado Paris. um germanófilo. essa doutrina pode comparar-se à de outro irlandês. no limite. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. João Escoto Erígena. que negou a existência substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas. matar e ensangüentar por ele. Então compreendi que ele também estava apavorado. Creio poder interpretálos assim: para europeus e americanos. postado à porta. com Hércules. pode desejar que ele triunfe. retornariam a Deus. um conquistador do século XVI. brincar de ser um viking. . a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. misteriosamente. Hitler. de mal-estar.

Uma das hipotéticas biografias registraria a série 11. outra. de todos os momentos em que ele imaginou as pirâmides. a biografia psiquiátrica. outra. não é. de biografias de um homem destacando fatos independentes. 22. grande senhor. viajante. Ninguém se resigna a escrever a biografia literária de um escritor. Tudo isso pode parecer uma completa quimera. a série 3. a biografia econômica. mas prescinde de uma análise de Vathek. todos preferem a biografia genealógica. o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma menção às obras de Michelangelo.SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda menção às obras de Michelangelo. O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contemporânea: agora. mal consegue reservar um parêntese para o Maelström e para a cosmogonia de Eureka. encarnou um tipo bastante comum de milionário. a série 9. tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido. e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo. 30. Confrontei várias críticas a Vathek. 13. O prefácio que Mallarmé escreveu para sua reimpressão de 1876 é pródigo em observações felizes (por exemplo: . e quase infinito.. o autor. destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labiríntica. de Fonthill. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. bibliófilo. 12. William Beckford. Não é inconcebível uma história dos sonhos de um homem.. a biografia cirúrgica. seu biógrafo. das falácias por ele perpetradas. 17. Setecentas páginas in-oitavo compreende certa vida de Poe. 21. O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observações. construtor de palácios e libertino... 33.. romance a cujas dez últimas páginas William Beckford deve sua glória.. fascinado por suas mudanças de domicílio. outra. dos órgãos de seu corpo. esta curiosa revelação feita no prefácio a uma biografia de Bolívar: "Neste livro fala-se tão escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleão". a biografia militar de um soldado. outra. 21. a biografia tipográfica. infelizmente. de seu comércio com a noite e com as auroras. outra.. Tão complexa é a realidade. outra. Outro exemplo. Chapman. 39. em 1943..

na escuridão. um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma região onde tudo é maravilhoso e digno do maior príncipe da terra". . a voz do mercador. Um homem (que logo desaparece também) consegue decifra-los. no décimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature. o dolente regno da Comédia. Essencialmente. Um mercador chega à capital do império: seu rosto é tão terrível que os guardas que o conduzem à presença do califa avançam de olhos fechados. mas também é o Inferno. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura. logo desaparece. Seguem-se muitos anos sangrentos. 1928) tece opiniões sobre Beckford sem condescender a argumentos. propõe-lhe abjurar a fé muçulmana e adorar os poderes das trevas. o mercador exige quarenta sacrifícios humanos. negra de abominações sua alma.) Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a invenção do Alcáçar do Fogo Subterrâneo é a maior glória de Beckford. (Na congênere história do doutor Fausto. outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar". Se o fizer. equipara sua prosa à de Voltaire e julga-o um dos homens mais vis de sua época. Gravados na folha há misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek. O ávido califa cede. "one of the vilest men of his time". chega a uma montanha deserta. que virá de uma terra desconhecida. 1 Da literatura. Talvez o julgamento mais lúcido seja o de Saintsbury. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literários. mas está escrito em um dialeto etimológico do francês. cujo instrumento será um homem sem par. Não mentiu o mercador: o Alcáçar do Fogo Subterrâneo é rico em esplendores e em talismãs. Vathek desce às profundezas do mundo. e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram. eu disse. com terror e esperança. Sob suas abóbadas poderá contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram. de ingrata ou impossível leitura. A terra se abre. a ele será franqueado o Alcáçar do Fogo Subterrâneo. os talismãs que subjugam o mundo. Belloc (A Conversation with an Angel. a fábula de Vathek não é complexa. 545. O mercador vende uma cimitarra ao califa.faz notar que o romance se inicia no terraço de uma torre de onde se lê o firmamento. O califa entrega-se às artes mágicas. os diademas dos sultões préadamitas e de Solimão Bendaud. Vathek. o Inferno é o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal. para concluir em um subterrâneo encantado). não da mística: o eletivo Inferno de Swedenborg – De Coelo et Inferno. Estes auguram-lhe uma sucessão de prodígios. nono califa abássida) ergue uma torre babilônica para decifrar os planetas. Uma silenciosa e pálida multidão de pessoas que não se olham erra pelas soberbas galerias de um palácio infinito. 554 – é de data anterior. nesta é o castigo e a tentação.

de Barthélemy d´Herbelot. em alemão) é aplicável a certas páginas de Vathek.. em Adone. Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominável da cor parda. por si só. que uma árvore. no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. uma torre. é um lugar onde ocorrem fatos atrozes. Henley traduziu-a para o inglês em 1785. A versão inglesa de Henley consta do volume 856 da Everyman´s Library. O original é infiel à tradução.. que Vathek antecipa. o epíteto uncanny. de Piranesi. mesmo que de modo rudimentar. a nenhum livro anterior. IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez uma árvore que já é mais. Há um intraduzível epíteto inglês. Escreveu-a no idioma francês. Marino. Saintsbury observa que o francês do século XVIII é menos apto que o inglês para transmitir os "indefinidos horrores" (a expressão é de Beckford) da singularíssima história. de Galland. é malvada. os satânicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe. contudo. de Voltaire. Excedi-me em alguns exemplos. algo. Eu complementaria essa lista com as Carceri d ´Invenzione. de Paris. nos confins orientais. esse epíteto (unheimlich. os túneis de um pesadelo. A distinção é válida. no primeiro capítulo de Vathek. cuja arquitetura. Chesterton (The Man Who Was Thursday. que eu me lembre. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa revisão e esse prefácio. as sempre menosprezadas e admiráveis Mille et Une Nuits. La Princesse de Babylone. creio. de Hamilton. o de Backford. de Charles Baudelaire e de Huysmans. Melville dedica muitas páginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportável da baleia. 1943. a editora Perrin. Buenos Aires. talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idéia de uma prisão. Só de três dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trágica história de seu califa. Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothèque Orientale. the perfume and suppliance of a minute. para denotar o horror sobrenatural. e menos. águas-fortes elogiadas por Beckford. publicou o texto original. Beckford. já descrevera cinco jardins análogos. os Quatre Facardins. A Divina Comédia é o livro mais justificável e mais firme de todas as literaturas: Vathek é uma mera curiosidade. Poe. revisado e prefaciado por Mallarmé.não é um lugar atroz. enumera cinco palácios dedicados aos cinco sentidos. e que. que representam poderosos palácios que são também labirintos inextrincáveis. . fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro.

sensato e espirituoso. urgido por não sei que patriótica perversão.SOBRE THE PURPLE LAND Esse romance primigênio de Hudson é redutível a uma fórmula tão antiga que quase pode compreender a Odisséia. reduzindo-os a figuras de circo. talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes. (No sétimo capítulo de E1 Payador. Além disso. em segundo. pela conotação mesquinha da palavra. Chamar essas ficções de romances picarescos parece-me injustificado. a incoerência e a variedade não são impraticáveis. um vilão carnudo. alto.) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro. faço-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade. em primeiro lugar. o gênero é complexo. alguns capítulos adiante. e vêm a seu encontro as aventuras. Do gênero de romances que aqui considero. a mera variedade. século XVII).) Aponto essas falhas sem animadversão. os mais rudimentares buscam a mera sucessão de aventuras. por suas limitações locais e temporais (século XVI espanhol. essa disparidade tão simétrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade. A esse gênero nômade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon. Kipling mostra-se impenitente e até inconsciente. mas é indispensável uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. Pickwick e o Dom Quixote. as sete viagens de Simbad. louco e altissonante. o . Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes". nosso Lugones já insinuou essa recriminação. (Em sua autobiografia literária. o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. dar-lhe o horrível ofício de espião. tão elementar que o nome de fórmula sutilmente a difama e desvirtua. para. o libérrimo Kim. escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde. ascético. baixo. Lembrei alguns exemplos famosos. comilão. O herói põe-se a caminhar. A desordem.

acostumado a essas coisas. tem dois argumentos. por exemplo. invisível: o venturoso acrioulamento de Lamb. de The Purple Land. Martinez Estrada não hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros canônicos de nossa literatura gauchesca. quando não suas absurdidades e manias. Como se vê. encerram a máxima filosofia e a suprema justificação da América perante a civilização ocidental e os valores da cultura acadêmica". recíproco: o herói modifica as circunstâncias. tão impessoal e passivo quanto o leitor... falseada por bravatas e . Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior). Aria por Arias. Hernández é uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou. é o caso da primeira parte do Dom Quixote. Essa ficção. íntimo. Ezequiel Martínez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta. Suas Wanderjahre são também Lehrjahre. A circunstância de o narrador ser um inglês justifica certos esclarecimentos e certas ênfases necessárias para seu leitor e que seriam anômalas em um gaúcho. Rousseau e Nietzsche. Penso nas do final: são bastante complicadas para cansar a atenção. Nesses enfadonhos capítulos.. O Martín Fierro (em que pese ao projeto de canonização de Lugones) é menos a epopéia de nossas origens – em 1872! – que a autobiografia de um faquista. descreveu e comentou. talvez forneçam o exemplo mais puro. Sem dúvida. os fatos cumprem a função de mostrar o caráter do herói. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens. Em outros (pouco mais complexos). mas não para despertá-la. em todos os seus romances. na realidade. o âmbito que The Purple Land abrange é incomparavelmente maior.Marujo. Nelas o herói é um mero sujeito. pastoril. visível: as aventuras do rapaz inglês Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. as circunstâncias modificam o caráter do herói. que é lógico imputar às contingências da improvisação: a vã e cansativa complexidade de certas aventuras. O primeiro. o movimento é duplo. só por meio dos sedentários volumes da Histoire Générale des Voyages e das epopéias homéricas. The Purple Land é fundamentalmente crioula. incorre em prolixidades análogas. Hudson sentiu na própria carne os rigores de uma vida semibárbara. nem nunca o terão. As páginas finais de The Purple Land. pintor nem intérprete semelhante a Hudson. sua gradual conversão a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prevê um pouco Nietzsche. Isso não quer dizer que The Purple Land seja inatacável. Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land.. Padece de um erro evidente. É o caso da segunda parte do Quixote. de Mark Twain. O segundo. Hudson parece não entender que o livro é sucessivo (quase tão puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscón) e o entorpece com artifícios inúteis. No número 31 da revista Sur. Seria deplorável que alguma distração topográfica e três ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones. Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade. do Huckleberry Finn.

Melhor para a veracidade do retrato. maravilhase de que. no artigo sobre Bunyan. Hudson (como Ascasubi. as imaginações de um homem tornem-se lembranças pessoais de muitos outros. Quando muito. o que toma duplamente injustificável esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episódio de guerra. comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influência exerceu nos destinos de sua província. Embora nascido na província de Buenos Aires. só aparece em Buenos Aires de modo esporádico. secundário. no círculo mágico dos pampas. nos ativermos à história. a montonera. Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafísica. de quatrocentas páginas cada um. as complexas delícias da memória e da introspecção. a moça que se entrega a um forasteiro. escolhe para as andanças de seu herói as coxilhas da outra banda do rio. a paradoxal razão dessa primazia é a existência de uma grande cidade. Don Segundo Sombra. caberia replicar. Macaulay. ou despreza. nenhuma nos do país. mãe de insignes literatos "gauchescos". Outro acerto de Hudson é o geográfico. Manda a cidade. Hudson. o gaúcho ensimesmado pitando com fruição o tabaco negro. a despeito da veracidade dos diálogos. O organismo típico da guerra gaúcha. é estragado pelo afã de magnificar as tarefas mais inocentes. mas tudo isso aparece fragmentário e secreto em três volumes incidentais. como Eduardo Gutiérrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes. As de Hudson perduram na memória: os tiros britânicos retumbando na noite de Paysandú. Alguém há de observar que em The Purple Land o gaúcho não aparece senão de modo lateral. em vez de interrogar a literatura. mostrá-lo autobiográfico e efusivo já é deformá-lo. Apesar do brusco sangue . Essa escolha propícia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra – acaso que favorece as circunstâncias do amor errante. Na literatura argentina. mais felicidade. Melhorando até a perfeição uma frase divulgada por Boswell. Martín Fierro nas letras – consegue certa notoriedade policial com uma rebelião matreira. Buenos Aires. Güiraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo.lamentações que quase profetizam o tango. com o tempo. Em Ascasubi há traços mais vívidos. ele escolhe a terra cárdea onde a montonera fatigou suas primeiras e últimas lanças: o Estado Oriental do Uruguai. Se. os gaúchos são exclusivos da província de Buenos Aires. como já disse. na secreta margem de um rio. mais coragem. o gaúcho desconhece. mandam os caudilhos da cidade. antes da batalha. Ninguém ignora que seu narrador é um gaúcho. O gaúcho é homem taciturno. A frase (uma das mais memoráveis que o trato das letras me deparou) é típica do homem e do livro. como Hernández. mas sempre foi interrompido pela felicidade. algum indivíduo – Hormiga Negra nos documentos judiciais.

também americano. em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser. Miller. (Outro. 1941.) Não penso no debate caótico entre pessimistas e otimistas. amigas ou aziagas. o inglês é o único a percebê-los.derramado e das separações. Robertson. Hudson. . mas o fato é que. Burton. dentre todos os estrangeiros (sem excluir. o patético Whitman impôs a si mesmo. não penso na felicidade doutrinária que. Cunningham. Uma observação última. é o Huckleberry Finn. Perceber ou não os matizes crioulos pode parecer trivial. os espanhóis). Graham. The Purple Land é dos pouquíssimos livros felizes que há na terra. de Mark Twain. também de sabor quase paradisíaco. claro. inexoravelmente. Buenos Aires. penso na têmpera venturosa de Richard Lamb.

Deus dos Exércitos. Essa nomenclatura. de Gregório Magno. "Porque eu Jeová teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro. o primeiro versículo da Lei diz literalmente: "No princípio fez os Deuses o céu e a terra". seja para bem ou para mal. um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e esbatendo. antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Júpiter. Este último. parece limitar a divindade: em fins do século V. isto é. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia é a única verdadeira. mas não tem conteúdo". o Servo dos Servos de Deus. in the cool of the day. propagam-se as palavras onipotente.DE ALGUÉM A NINGUÉM No princípio. Elohim é concreto. em um lugar da Escritura. plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crêem ser um eco de anteriores politeísmos ou uma premonição da doutrina. cujo nome na história ficou Escoto . É definido por traços humanos. João. homem entre os homens. quando se quer encarecer alguma coisa. onipresente. Escritos em grego. "Falei no calor de minha ira". de que Deus é Uno e Triplo. ou Scotus. os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no século IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Eríugena. Nos primeiros séculos de nossa era. Nada se deve afirmar d´Ele. Dizer então Cântico dos cânticos é o mesmo que em vernáculo dizer Cântico entre os cânticos. Sou Aquele que Sou. isto é. lê-se "Arrependeu-se Jeová de ter feito homem na terra e isto pesoulhe no coração" e em outro. Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó. Pedra de Israel. assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". o Irlandês. Deus é os Deuses (Elohim). como as outras. no texto original é um superlativo de rei: "Propriedade é da língua hebréia – diz Frei Luis de León – dobrar assim iguais palavras. Apesar da imprecisão que o plural sugere. por oposição. que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis. onisciente. o incógnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus não convém nenhum predicado afirmativo. tudo se pode negar. que sem dúvida inspirou. chama-se Jeová Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou. Elohim rege os verbos no singular. O sujeito de tais locuções é indiscutivelmente Alguém. os teólogos habilitam o prefixo omni-. como dizem as versões inglesas. Rei dos Reis. declarada em Nicéia.

Dryden declara-o o Homero dos poetas dramáticos da Inglaterra. afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais são que modificações da mente de seu inventor. que é uma sementeira de formas possíveis. o número de grãos de areia seria menor que o número de coisas que Buda ignora. . "mas que não sabe o que é. e sim uma variante literária do infinito Deus de Spinoza. Para defini-1o. os últimos. são o universo. O processo que acabo de ilustrar está longe de ser aleatório. ou seja.Erígena. para quem Shakespeare já não é um homem. intui a infinita concatenação de todos os efeitos e causas do universo. escritos séculos mais tarde. um efeito. exceto em sua semelhança com todos os homens. afirmam que nada é real e que todo conhecimento é fictício. mas o universal. e que se houvesse tantos Ganges como grãos de areia há no Ganges. Este formula uma doutrina de índole panteísta: as coisas particulares são teofanias (revelações ou aparições do divino) e por trás de tudo está Deus. mas como a substância capaz de infinitas modificações. as passadas e futuras encarnações de cada ser. ao pé da figueira. que é o nada. o Irlandês. equipara-o ao oceano. Irlandês Irlandês. foi a ele revelado não como abstraído da observação de uma pluralidade de casos. on this side Idolatry. podemos observá-la inequivocamente no caso de Shakespeare. E Nada e Nada. inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos. mas admite que muitas vezes é insípido e empolado. e mais uma vez tantos Ganges como grãos de areia nos novos Ganges. ou o que podem ser". aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso é mais do que ser um Quem ou um Quê. o discursivo século XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan. doravante meu 1 No budismo. são Deus. de certo modo. Os primeiros textos narram que Buda. porque não é um quê. Intimamente não era nada. Hugo. João. Samkara ensina que os homens. que se encontra potencialmente no particular. "A pessoa Shakespeare – escreve – foi uma natura naturata. depois. Deus é o nada primordial da creatio ex Nihilo. é mais que bom. é mais que sapiente. que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante não tenho reino ou meu reino é ilimitado. o abismo em que foram gerados os arquétipos e depois os seres concretos. e é incompreensível a si mesmo e a toda inteligência". Seu contemporâneo Ben Jonson ama-o sem chegar à idolatria. em 1774. a confusa intuição dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais que ser algo e que. não é bom. esse ditame é recriado por Coleridge. é ser tudo. A magnificação até o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos. Analogamente. no sono profundo. mas era tudo o que são os demais. recorre à palavra Nihilum. que é a única realidade.1 Ser uma coisa é inexoravelmente não ser todas as outras. das quais sua existência pessoal era apenas uma. Não é sapiente." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens. Essa falácia está nas palavras daquele rei legendário do Industão. a figura se repete. no início do século XIX.

corpo não me pertence ou pertence-me a terra inteira". Schopenhauer escreveu que a história é um infindável e perplexo sonho das gerações humanas. no sonho há formas que se repetem. . 1950. talvez não haja nada além de formas. Buenos Aires. uma delas é o processo que esta página denuncia.

os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. é filho de um grande rei. um criminoso sob suplicio e um morto. este admite que sim. a lenda a recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. forjou outra história. Tanto na parábola como na declaração. Não o é para os hindus. o pré-Buda. por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros. outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses. animal doméstico. o número seis é habitual (seis vias de transmigração. um aleijado. Siddhartha. O testemunho consta de um dos livros do cânone. seis pontos cardeais. 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua própria vida. adoecer. há um homem velho. rodas ou cilindros que giram em torno de um eixo. a mãe de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante. cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama"). 2 Essa metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar. confundindo-os. da estirpe do sol. seis Budas anteriores a Buda. da cor da neve e com seis presas.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrar-se da vida e da 1 Esse sonho é. basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya. Pode ser que essa ameaçadora parábola não seja invenção de Buda. às doenças e à velhice. para nós. sofrer justo castigo e morrer. contando o zênite e o nadir. é símbolo de mansidão. e avisam que nosso destino é nascer. mas não decifrou seu aviso.FORMAS DE UMA LENDA Às pessoas repugna ver um velho. embora estejam sujeitas à morte. caducar. um velho encurvado. Suddhodana. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industão. pura fealdade. o elefante. o Bodhisattva. Yama cumpre essa função. compõe figuras de múltiplos braços e rostos. um homem doente e um homem morto. são eles: uma criança. para sugerir que Deus é o todo. Buda declarou que essa reflexão o induziu a abandonar sua própria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. a multiplicação das presas não pode incomodar os espectadores de uma arte que. A realidade pode ser complexa demais para a transmissão oral. um doente ou um morto. . Na noite de sua concepção. o tempo fez dos dois textos um só e.

o rei confina-o em um palácio. ao norte. o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industão em busca de livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Açoka erigiu. Em outra saída vê um homem sendo conduzido em um féretro. de um leproso e de um moribundo e. outras são como grandes moinhos movidos pela água ou pelo vento. inclusive o holandês e o latim. um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e Josafá. e morrer é a lei de todo aquele que nasce. coberto de lepra e de chagas. que é o da Glória. Siddhartha acaba de encontrar o caminho. a pedido do Haakon Haakonarson. Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda. explicam-lhe. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas. A. a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. dedicados ao deleite dos sentidos. a leste e a oeste das muralhas. A lenda que. mas Siddhartha. sai em sua carruagem e vê com estupor um homem encurvado. cujo tom sarcástico nem sempre é inteligente ou urbano. ordena voltar imediatamente. cujo corpo não é como o dos outros". um defeito: os encontros que ela postula são eficazes mas inverossímeis. Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusória felicidade. em sua continuação das Décadas. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e não a eterna. que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. de onde é retirado tudo o que pode revelar que ele é corruptível. Diogo do Couto denunciou. foi composta na Islândia. Menos atentos ao estético que à conversa Algumas são manuais. admitida a ignorância prévia do Bodhisattva. o cocheiro explica que é um velho e que todos os homens da terra serão como ele. as analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafá. escreve que. O cardeal César Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano. uma Barlaams Saga. vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem viver. em terras ocidentais. de Menéndez y Pelayo. o homem imóvel é um morto. inquieto. em 1615. um indólogo contemporâneo. a última. No início do século V de nossa era. mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um cego. mas em outra saída vê um homem sendo devorado pela febre. o cocheiro explica que é um doente e que ninguém está livre desse perigo. os astrólogos predizem que ele reinará sobre um reino maior. por fim. ao sul. Siddhartha. A paz está em seu rosto. para comemorar esses encontros. Quatro saídas de Siddhartha e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do acaso. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de Orígenes de la Novela. Pergunta que homem é esse. "cujos cabelos não são como os dos outros. Em outra saída. uma manhã. porém. em meados do século XIII. e trata de recluí-lo em um palácio. Foucher. No início do século VII. é convertido à fé pelo ermitão Barlaão. Josafá (Josafat Bodhisattva) é filho de um rei da índia.morte. . determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha.

escrita em sânscrito impuro. e em particular o budismo. Siddhartha escolhe sua nação e seus pais. Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. na última forma da lenda. Foucher vê nisso um mero servilismo dos autores. 37-41). oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua mãe tem a força de dez mil elefantes. rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas. ode espantarse com formas criadas por sua própria divindade. por que me abandonaste?". o da terra as padece ou executa. tudo isso é razoável se o entendermos como um sonho de Siddhartha. outra solução. mas seu emprego nessa frase é menos incômodo que o de grande Travessia ou Grande Veículo. segundo Winternitz. o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez. 82). e os prosélitos. Assim. que é outro sonha. o leproso. "Minuciosa relação do jogo" (de um Buda) é o que quer dizer. e a roda das 3 Rhys Davids suprime essa locução introduzida por Burnouf. Siddhartha produz quatro formas que o encherão de estupor.) A humanidade do Filho. faz as divindades projetarem as quatro figuras simbólicas e. a vida de Buda sobre a terra..das pessoas. costuma-se falar com certa ironia. as quatro aparições são quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha. . que não podem tolerar que Buda não saiba o que sabe um criado. basta lembrar que todas as religiões do Industão.. Em uma biografia lendária do século XVI. já sabe quem são e o que representam. o do céu ordena as coisas. com outra mitologia ou vocabulário. Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras. dirige cada etapa de seu destino. exceto o cocheiro e o príncipe. quando interroga o cocheiro. fala em inconsciente. que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno. 1. Dessa compilação em verso e prosa. instalado no quarto céu. o continente. O Buda. no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita. os doutores quiseram justificar essa anomalia. e o Nirvana. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que não é sonhado por ninguém. Teologicamente. meu Deus. tais sutilezas dogmáticas. o enigma merece em meu entender. pois. que teriam feito o leitor se deter. o morto e o monge são simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. Para desatar o problema não são indispensáveis. a de Buda. no estranho poema. segunda pessoa de Deus pôde gritar da cruz: "Meu Deus. em suas páginas. a história do Redentor é inflada até a opressão e até a vertigem. um jogo ou um sonho é para o Mahayana. para Koeppen (Die Religion des Buddha. Buda. revela o texto da obra aos deuses. Lalitavistara.3 o mundo. analogamente. diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam. ele fixou o período. Mais longe foi o Lalitavistara. porém. (Nosso século. ensinam que o mundo é ilusório. aos olhos do budismo do Norte. talvez coubesse responder: o livro é da escola do Mahayana.

porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mágicas. feita de verdade substancial e de erros fortuitos. o príncipe feliz morre na reclusão do palácio. Em fins do século XIX. primeiro tornou fantásticas as figuras. não acrescentam realidade. assim. depois o príncipe e. ênfases do Nada. e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade. incluído o livro que o declara e o homem que o lê. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo X11 inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros. A cronologia do Industão é incerta. mero nome. lemos em um famoso tratado. doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. Ninguém se extingue no Nirvana. os excessos numéricos do poema subtraem. Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota. de 9 a 49. sem ter descoberto a dor. foi erodindo a história. O irreal. 51 e 53) são imensas e monstruosas bolhas. muito mais. com o príncipe. todas as gerações e o universo. mas sua efígie póstuma a divisa do alto do pedestal. não me surpreenderia que minha história da lenda fosse legendária. Oscar Wilde propôs uma variante. e Buda são igualmente irreais.transmigrações. . Paradoxalmente. minha erudição.

guiado por Virgílio. o poeta da lascívia. neste ensaio. acrescentadas a uma obra concluída. opino que aquele está com a razão. a reflexão de que o prazer desmedido leva à dor. mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificável pôde desfrutar de tantos favores. Watts. VII). diante de uma estátua. 39) e por Chesterton (G. à estátua. ou arte arremedando a ciência. Mas também devemos ser justos com o alegórico e advertir que em alguns casos é inócuo.DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES Para todos nós. é ciência. I. o gênero alegórico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. São expressões que extrinsecamente se adicionam a outras expressões. À Jerusalém adiciona-se uma página em prosa que expressa outro pensamento do poeta. Da Jerusalém Libertada pode-se extrair qualquer moralidade. o tom é mais hostil: "A alegoria não é um modo direto de manifestação espiritual. não a prejudicam. por De Quincey (Writings. As palavras de Croce são cristalinas. a alegoria é um erro estético. podendo-se por um lado expressar o símbolo e por outro a coisa simbolizada. (Meu primeiro propósito foi escrever "não é outra coisa senão um erro da estética". Croce nega a arte alegórica. F. recair-se-á em um erro intelectualista. 83). Esta é aquele e aquele é esta. basta-me repeti-las em vernáculo: "Se o símbolo for concebido como inseparável da intuição artística. XI. 50). a palavra clemência ou a palavra bondade". é uma alegoria. 1946). Tais alegorias. Se o símbolo for concebido como separável. limitar-me-ei aos dois últimos. será sinônimo da intuição mesma. um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender. o suposto símbolo é a exposição de um conceito abstrato. e sim uma sorte de escrita ou de criptografia". 198). o escultor pode pôr um cartaz dizendo que se trata da Clemência ou da Bondade.) Que eu saiba. Chesterton a vindica. Croce não admite diferença entre conteúdo e forma. chega . Na página 222 do livro La Poesia (Bári. do Adone. por Croce (Estetica. que sempre tem caráter ideal. A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante. por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana. de Marino. mas logo me dei conta de que minha sentença comportava uma alegoria. ao Adone.

Nas árduas escolas da Idade Média. Locke. vertida e comentada por Boécio. Através das latitudes e das épocas. mas não é uma linguagem da linguagem. mais rico e mais feliz. mestre da humana razão (Dante. é tola e frívola. para aqueles. em todas as suas fusões e conversões. há lugar para outras. Segundo a opinião de George Henry Lewes.a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcança a fé. Platão. o único debate medieval com algum valor filosófico é o que confrontou nominalismo e realismo. uma ordem. todos invocam Aristóteles. Hume. que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do século XI e que William de Occam reanimou no século XIV. Chesterton. para vindicar o alegórico. Francis Bradley. consta de vinte e quatro mil versos) e agora é intolerável. Heráclito. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. Convívio. os realistas são Platão. IV. para o aristotélico. "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. essa ordem. se os nominalistas são Aristóteles. William James. o De Consolatione.. começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade. Não sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razão. Kant. 2). teriam entendido esse sentimento.. além de intolerável. à sombra da espada de seu carrasco. para estes. o juízo é temerário. Um signo mais preciso que o monossílabo. um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminações secretas que essa palavra indica. no entanto. que são generalizações. Spinoza. os primeiros. . que esses matizes. Aristóteles. o outro. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. Como explicar essa discórdia sem recorrer a uma petição de princípio sobre a volubilidade dos gostos? Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. a alegoria pode ser uma delas. é o mapa do universo. Nem Dante. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. que perdura em duzentos manuscritos. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados." Declarada a insuficiência da linguagem. escrevendo na torre de Pavia. nem o romano Boécio. Sentimos que. que figurou a história de sua paixão em Vita Nuova. É feita de palavras. a linguagem não passa de um sistema de símbolos arbitrários. guiado pela razão). sei que a arte alegórica pareceu em algum momento encantadora (o labiríntico Roman de la Rose. Crê. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. provocou nos inícios do século IX. Os últimos intuem que as idéias são realidades. Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas. os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um é Parmênides. mas. mas destaca a importância dessa controvérsia tenaz que uma sentença de Porfírio. como a arquitetura ou a música.

O cronista Heriman (século XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialética in re. e sim o gênero. é possível afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Platão diria as idéias. Dom Segundo Sombra é o Gaúcho). Mas procuremos entender que. e sim a espécie. os romances contêm um elemento alegórico. para os homens da Idade Média. a literatura alegórica. não os indivíduos. outrora novidade de uns poucos. em toda alegoria há algo de romanesco. A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais. assim como o romance o é de indivíduos. Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer. as formas. . sua vitória é tão vasta e fundamental que seu nome é inútil. com o punhal sob a capa"). verossimilmente.Como era de esperar. as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. e sim a humanidade. em meu entender. a versão. Uma tese agora inconcebível pareceu evidente no século IX e de certo modo perdurou até o século XIV O nominalismo. Maurice de Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adesões. hoje abarca todas as pessoas. entretanto. que talvez não se julgasse nominalista. Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina". De tais conceitos (cuja manifestação mais clara talvez seja o quádruplo sistema de Erígena) adveio. e sim Deus. Esta é fábula de abstrações. tantos anos multiplicaram até o infinito as posições intermediárias e as distinções. e até o fim do século XII seus adversários são chamados pelo nome de moderni". Os indivíduos que os romancistas propõem aspiram a ser genéricos (Dupin é a razão. Buenos Aires. demandou alguns séculos. não os gêneros. de espécies a indivíduos. o substantivo não eram os homens. Ninguém se declara nominalista porque não há quem seja outra coisa. mas ouso apontar uma data ideal. A passagem da alegoria ao romance. 1949. não as espécies. do realismo ao nominalismo. e para o nominalismo. nós. As abstrações são personificadas. em Knightes Tale. tentou traduzir para o inglês o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traições") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri. O original está no sétimo livro da Teseida. por isso. os conceitos abstratos). os indivíduos.

enquanto na Eneida significaram o interlúnio.NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW Em fins do século XIII. Na Comédia (Inferno. When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave. temos: "d´ogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros. . em fins do XIX. desiguais e giratórios. as palavras amica silentia lunae significam agora a lua íntima.1 A literatura não é esgotável. V. ou que uma série de estruturas verbais. uma sorte de jogo combinatório. 28). Tillyard: The Miltonic Setting. e a entonação que impõe a sua voz. M. a julgar por certas passagens que parecem imitativas. Raimundo Lúlio (Ramón Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concêntricos. ou seja. I. Esse diálogo é infinito. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro é mais que uma estrutura verbal. Kurd Lasswitz. mas exageram uma propensão que é comum: fazer da metafísica. que registrasse todas as variações dos vinte e tantos símbolos ortográficos. temeu que um dia se esgotasse o número de combinações musicais e que no futuro não houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts. aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal. subdivididos em setores com palavras latinas.. 60. é o diálogo que trava com seu leitor. no Samson Agonistes (86-89): The Sun to me is dark And silent as the Moon. e as mutáveis e duradouras imagens que ele deixa na memória.. 101. no início do século XIX. e das artes. Cf. A máquina de Lúlio. em todas as línguas. tudo que é possível exprimir. pela 1 Assim foi interpretada por Milton e Dante. silenciosa e resplandecente. o temor de Mill e a caótica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escárnio. a escuridão que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tróia. E. John Stuart Mill.

para que tivesse alguma virtude. Isso nos leva a um problema estético até hoje não formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que não. um interlocutor não é a soma ou a média daquilo que diz: pode não falar e transparecer que é inteligente. não uma coisa escrita). Blanco Posnet. qualquer um poderia produzir qualquer livro. As questões sindicais e municipais de suas primeiras obras perderão o interesse. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação. Kreegan. a um decoro artesão (Johnson. Renan. Herrera y Reissig). Caberia responder que a fórmula obtida por eliminação careceria de valor e até de sentido. suspeito. dada a primeira. uma forma de relação. A lapidar fórmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Heráclito: Raimundo Lúlio diria que. . por obra do metódico acaso. Shotover. Richard Dudgeon e. Penso que de nós não saem criaturas mais lúcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. ulterior ou anterior. menos pelo texto que pelo modo que é lida: se me fosse dado ler qualquer página atual – esta. os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se não menos incômodos que os de Shakespeare (o humorismo é.2 mas Lavínia. sobretudo. a fonte de suas eloqüentes tiradas e das idéias expostas em seus prefácios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler. Flaubert) e. em função de uma experiência de Heráclito. A concepção da literatura como jogo formal leva.suficiente e simples razão de que um único livro não o é. apresenta a mesma doutrina. D´Artagnan executa inúmeras façanhas enquanto Dom Quixote é surrado e escarnecido. eu saberia como será a literatura do ano 2000. é um eixo de inumeráveis relações. Em Man and Superman lê-se que o Inferno não é um estabelecimento penal. às incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracián. um súbito favor da conversa. Pensar em Monsieur Teste ao 2 Também em Swedenborg. se é que já não o perderam. Afirmei que um livro é um diálogo. deveríamos concebê-la em função de Heráclito. mas sentese mais o valor de Dom Quixote. no melhor dos casos. de Swedenborg. publicado em 1758. Com a literatura ocorre o mesmo. Júlio César superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e. mesmo que "Heráclito" fosse apenas o presumível sujeito dessa experiência. Se a literatura não fosse mais que uma álgebra verbal. no diálogo. por exemplo – como será lida no ano 2000. o tratado De Coelo et Inferno. um gênero oral. à força de provar variantes. e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de íntima afinidade. ao bom trabalho do período e da estrofe. no pior. Uma literatura difere da outra. Nesse parecer fundamento minha convicção sobre a preeminência de Shaw. além de muitíssimas outras. obter essa filosofia. pode emitir observações inteligentes e transparecer estupidez. como os bemaventurados o Céu.

A ética também não: para ele. em que tudo é lícito. Desse nada (tão comparável ao de Deus antes de criar o mundo. S. B. ao contrário. aquele G. João Escoto Erígena.lado deles ou no histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e até com escândalo a primazia de Shaw. mas no fundo contentam a vaidade. 1951. um matador de heróis" (Dichtung und Dichter der Zeit. a lírica é a complacente magnificação de venturas ou desventuras amorosas. . ou de nações. ou dramatis personae: o mais efêmero será. da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ninguém". que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fáceis nas colunas dos jornais. tais disciplinas. O caráter do homem e suas variações são o tema essencial do romance de nosso tempo. salvo ser escarnecido ou vencido. A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contém uma admirável carta daquele. 214). que formalmente podem ser admiráveis. suspeito. Os temas fundamentais de Shaw são a filosofia e a ética: é natural e inevitável que ele não seja valorizado neste país. A obra de Shaw. O argentino sente que o universo não passa de uma manifestação do acaso. tão comparável à divindade primordial que outro irlandês. O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas. não em Sérgio Saranoff. são. imorais. repetindo um lugar-comum da época: "Bernard Shaw é um aniquilados do conceito heróico. o social reduz-se a um conflito de indivíduos. não concebia que o heróico pudesse prescindir do romântico e encarnar no capitão Bluntschli de Arms and the Man. ou que o seja unicamente em função de alguns epigramas. ou de classes.. do fortuito concurso dos átomos de Demócrito. Buenos Aires. Costumam afetar desespero e angústia. as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de nós o interessante interlocutor de um diálogo secreto e contínuo com o nada ou com a divindade. deixa um sabor de libertação.. Em 1911. Bernard Shaw eduziu quase inumeráveis personagens. Albert Soergel pôde escrever. fomentam essa ilusão do eu que o Vedanta reprova como erro capital. a filosofia não lhe interessa. nesse sentido. chamou Nihil).

Entre os antigos egípcios prevaleceu um costume análogo. os nomes não são símbolos arbitrários. Também importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses. Moisés. e seus dois ecos.HISTÓRIA DOS ECOS DE UM NOME Isolados no tempo e no espaço. e foi executado. espécie de chave universal de todos os céus. dos demônios e das portas do outro mundo. 2 Os gnósticos herdaram ou redescobriram essa singular opinião. nos últimos dias da República. e o nome verdadeiro. repetem uma obscura declaração. Consta no terceiro capítulo do segundo livro de Moisés. Antes de examinar essas misteriosas palavras. são muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo. De Quincey. um sonho e um homem que está louco. 1 Um dos diálogos platônicos. narrar e pesar essas palavras. perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". os aborígines da Austrália recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivíduos da tribo vizinha. discute e parece negar um vínculo necessário entre as palavras e as coisas. Quinto Valério Sorano cometeu o sacrilégio de revelá-lo. Segundo a literatura funerária. que Basilides (segundo Ireneu) reduziu à cacofônica ou cíclica palavra Kaulakau. Lemos aí que o pastor de ovelhas. autor e protagonista do livro.. que era mantido oculto. que era por todos conhecido. . cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno. ou grande nome. lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma. é a finalidade destas páginas. o Crátilo. A lição original é famosa. ou primitivo. chamado Êxodo.. e que não o ignora.1949).2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para tê-la em seu poder" (La Religion Égyptienne. e sim parte vital daquilo que definem. por seu lado. talvez não seja ocioso lembrar que para o pensamento mágico. esquecer o nome (perder a identidade pessoal) é talvez o maior. um deus. Formou-se assim um vasto vocabulário de nomes próprios.1 Assim.

que. da injustiça e da adversidade". é mais impenetrável e mais firme que os que constam de uma única. à maneira dos feiticeiros egípcios. bem pode ser uma magnificação desta idéia: "Deus existe. Mauthner já analisou e condenou esse hábito mental. que é Deus. ou sua sombra. o homem é degradado publicamente. até que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comédia. consegue ser promovido a capitão. enlouquecer ou escravizar seu possuidor. Moisés. (No século IX. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" também pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei". Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é. . por meio de um estratagema. a despeito de constar de muitas palavras. um miles gloriosos. ou. um soldado fanfarrão e covarde. Deus não diz quem é. isto que sou me fará viver". o que Ele era. Segundo essa primeira interpretação. sim. cresceu e reverberou pelos séculos. Nos conceitos de calúnia e injúria perdura essa superstição.) Que interpretações suscitou a tremenda resposta que Moisés escutou? Segundo a teologia cristã. "Eu Sou Aquele que Sou" declara que só Deus existe realmente ou.3 Multiplicado pelas línguas humanas – Ich bin der ich bin. como ensinou o Maggid de Mesritch. muito lateralmente. I am that I am –. como em um espelho caído. o nome que. que poderiam matar. de fato. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. que faz da extensão e do pensamento meros atributos de uma substância eterna. e também as formas da opressão. não toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. mais precisamente. e beber. 1938) escreve que viver é penetrar em um estranho aposento do espírito. Deus teria respondido: "Hoje converso contigo. Ego sum qui sum. como vimos. o sentencioso nome de Deus. e sim de indagar quem era Deus. Moisés perguntou ao Senhor qual era Seu nome: não se tratava. de uma curiosidade de ordem filológica. cujo chão é o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e por vezes pavoroso. porque isso excederia a compreensão de seu interlocutor humano. Nessa comédia entrevemos. que a palavra eu só pode ser pronunciada por Deus. e então Shakespeare intervém e põe em sua boca palavras que refletem. A doutrina de Spinoza. aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "Não serei mais capitão. "Eu Sou Aquele que Sou" é uma afirmação ontológica. mas hei de comer. nós é que não existimos". e dormir como um capitão. O ardil é descoberto. Lemos isso no Gog und Magog. mas amanhã posso revestir qualquer forma. analogamente.O selvagem oculta seu nome para que este não seja submetido a operações mágicas. porque não é um quê nem um quem. teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de tê-lo em seu poder. 3 Buber (Was ist der Mensch?. escreveu um mexicano.

ou quem sabe para esconjurá-lo magicamente. sou o que de mim fizeram as leis universais". Swift perdura para nós em algumas poucas frases terríveis. A surdez. velho. escreveu Thackeray. a modo de epílogo. uma forma da eternidade do inferno. e também "Sou o que Deus quer que eu seja. o tecido das roupas que vesti e descartei. o dos Night Thoughts: "Sou como esta árvore. Começou a perder a memória. com desespero. não sabemos se com resignação. as palavras que. isso deve-se a uma confusão. por um suplente que não consegue chegar a titular. Na terceira parte de Gulliver. ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha. Não fui essas pessoas. Verbi gratia. se tanto. Mas nada é tão patético quanto sua aplicação das misteriosas palavras de Deus. Aqui termina a história da sentença. elas foram. ou como quem se afirma e se ancora em sua íntima essência invulnerável: "Sou aquilo que sou. e também "Sou uma parte do universo. já perto de morrer. a idiotia agravaramse e foram aprofundando a melancolia de Swift. sou aquilo que sou". Tomei-me por outro. terá sentido Swift. ou pelo acusado em um processo de difamação. Até que uma tarde. que para ele talvez tenham sido um único instante insuportável. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. como se aqueles que o julgam não quisessem ficar para trás. ou pelo doente que não pode sair de casa. mas sou". incapazes de conversar com seus semelhantes. "Serei uma desventura. louco e já moribundo. ouviram-no repetir. tão inevitável e necessária quanto as outras". não podia ler e era incapaz de escrever. entregues a débeis apetites que não podem satisfazer. a um erro. e de ler. porque o decorrer do tempo modificou a linguagem. ou por outras pessoas que padecem de análogas misérias. ele imaginou com minucioso desprezo uma estirpe de homens decrépitos e imortais. Mais que na seqüência de seus dias. por fim. A última versão veio à luz em mil setecentos e quarenta e tantos. mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert). Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representação. Esse caráter sentencioso e sombrio às vezes estende-se ao que se diz sobre ele. quero apenas acrescentar. começarei a morrer pela copa". "Pensar nele é como pensar na ruína de um grande império". Negava-se a usar óculos. o medo da loucura e. De inteligência glacial e de ódio glacial vivera Swift. a vertigem. Em 1717 dissera a Young. porque sua memória é insuficiente para passar de uma linha a outra. em um dos anos que durou a longa agonia de Swift. Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia.Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cômica para ser um homem e todos os homens. Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz. sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser. talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. e quem sabe "Ser é ser tudo". que ocupará os pensadores dos .

profundamente. e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itália. alçado pelos coturnos.séculos vindouros. com profusão de prévia propaganda e persistente publicidade. Os olhos vêem o que estão habituados a ver. Sabe-se que o drama nasceu da religião de Dionísio. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). inaugura-se uma época na história do mundo. até. originalmente. Tácito não reparou na Crucificação. Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exército da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milícias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje. a verdadeira história. Esse sou eu. nas quais se percebe a influência de Cecil B. Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador é tão ilusório quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa. a coisa que era Swift. na Alemanha e na Rússia) foi forjá-las ou simulá-las. constatei que o sujeito dessa misteriosa ação era Esquilo e que este. durante muito tempo. o hipócrita. por ser ligeiramente enigmática. e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representação. em razão mesmo de sua anomalia. embora seu livro a registre. "elevou de um a dois o número de atores". passaria inadvertido. têm menos relação com a história que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a história. é mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser. um único ator. de Mille. houve muitíssimas jornadas históricas. Detive-me. Outra coisa: a vontade. Tais jornadas. segundo o que se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles. Depois desse dia. e podemos dizer que assistimos a sua origem". Um prosador chinês observou que o unicórnio. trajando preto ou púrpura e com o rosto aumentado por . Cheguei a essa reflexão graças a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega e que despertou meu interesse. secretas. O PUDOR DA HISTÓRIA No dia 20 de setembro de 1792. a obscura raiz de Parolles.

"– Então – disse Tostig – dize a teu rei que lutaremos até a morte. o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escândalo. e outros que nossos olhos ainda não podem discernir. os homens. "Os cavaleiros se retiraram. que antes militara em Bizâncio. Nas Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagórica. e Peer Gynt. o que eles terão pensado. Ao sul de Jorvik. correu em algum momento o risco de tornar-se invariável.uma máscara. e Sigismundo. Um dos cavaleiros gritou: "– Está aqui o conde Tostig? "– Não nego estar aqui – disse o conde. "– Se verdadeiramente és Tostig – disse o cavaleiro –. Harold Filho de Godwin. na Itália e na África. no século XIII de nossa era. chamado o Implacável (Hardrada). pensativo: "– Quem era esse cavaleiro que tão bem falou? "– Harold Filho de Godwin". O drama era uma das cerimônias do culto e. talvez apenas um princípio de assombro. mas um dia. mas nunca saberemos se pressentiu. . quinhentos anos antes da era cristã. mais um. já que é tão alto. da unidade à pluralidade. Com o segundo ator entraram em cena o diálogo e as indefinidas possibilidades da reação de uns personagens sobre outros. Naquele dia de uma primavera remota. Para a instrução das futuras gerações. quão significativa era essa passagem do um ao dois. prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se às fileiras do invasor. dividia a cena com os doze indivíduos do coro. cobiçava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. sequer de modo imperfeito. o historiador e polígrafo Snorri Sturluson. estavam revestidos de ferro. e Fausto. Expostos os fatos anteriores. desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). e Macbeth. e assim até o infinito. fez-lhes frente o exército saxão. venho dizer-te que teu irmão oferece a ti seu perdão e um terço do reino. que dará ele ao rei Harald Sigurdarson? "– Ele não foi esquecido – respondeu o cavaleiro. em 1225. em sua chácara de Borgarfjord. – Receberá sete palmos de terra inglesa e. escrevia a última empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson. Tostig. os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Victor Hugo levantou a segunda hipótese) a não anunciada aparição de um segundo ator. Outra jornada histórica descobri em minhas leituras. Isso poderia ter acontecido. Com um exército norueguês. Aconteceu na Islândia. como todo ritual. Harald Sigurdarson perguntou. digamos. "– Se eu aceitar – disse Tostig –. naquele teatro da cor do mel. irmão do rei saxão da Inglaterra. Um espectador profético teria visto que ele vinha acompanhado por multidões de aparências futuras: Hamlet. e também os cavalos.

Outros capítulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exército norueguês foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e também o conde (Heimskringla, X, 92). Há um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitações perpetradas pelos profissionais do patriotismo) não costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do heróico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundível, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o êxito"), na balada anglo-saxã de Maldon ("Meu povo pagará o tributo com lanças e velhas espadas"), na Canção de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitáfio para um Exército de Mercenários, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trás da aparente simplicidade do historiador há um delicado jogo psicológico. Harold finge não reconhecer o irmão, para que este, por sua vez, perceba que não deve reconhecê-lo; Tostig não o trai, mas tampouco trairá seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmão, mas não a tolerar a intromissão do rei da Noruega, procede de modo muito compreensível. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um terço do reino, dar sete palmos de terra.1 Há somente uma coisa mais admirável que a admirável resposta do rei saxão: a circunstância de que seja um irlandês, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. É como se um cartaginês tivesse legado a memória da façanha de Régulo. Com razão escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islândia) deleitam-se em aprender e registrar a história de todos os povos e não consideram menos glorioso publicar as excelências alheias que as próprias". Não o dia em que o saxão proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histórica. Uma data profética de algo que ainda está no futuro: o olvido de sangues e nações, a solidariedade do gênero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de pátria; Snorri, ao relatá-la, supera e transcende tal conceito. Outro tributo a um inimigo lembro nos últimos capítulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemão e escreve as seguintes palavras: "Então, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmãos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adição, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").
1

Buenos Aires, 1952.

NOVA REFUTAÇÃO DO TEMPO
Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1 DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

NOTA PRELIMINAR Se publicada em meados do século XVIII, esta refutação (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 – depois de Bergson –, é a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o precário artifício de um argentino extraviado na metafísica. Ambas as conjeturas são verossímeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, não posso prometer, em troca de minha dialética rudimentar, uma conclusão inaudita. A tese que propalarei é tão antiga quanto a flecha de Zenão ou a carruagem do rei grego, no Milinda Pañha;2 a novidade, se é que há alguma, consiste em
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"Antes de mim não existia o tempo, depois de mim não existirá. / Comigo ele veio ao mundo, também comigo perecerá." (N. da T.)
2

Não há exposição do budismo que deixe de mencionar o Milinda Pañha, obra apologética do século II, que relata um debate cujos interlocutores são o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este

aplicar a esse fim o clássico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, são pródigos em parágrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, não obstante, a conseqüência inevitável de sua doutrina. O primeiro artigo ("A") é de 1944 e apareceu no número 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, é uma revisão do primeiro. Deliberadamente, não fundi os dois em um só, por entender que a leitura de dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil. Uma palavra sobre o título. Não me escapa que este é um exemplo do monstro que os lógicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que é nova (ou antiga) uma refutação do tempo é atribuir-lhe um predicado de índole temporal, que instaura a noção que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mantê-lo, para que seu ligeiríssimo escárnio prove que não exagero a importância desses jogos verbais. De mais a mais, tão saturada e animada de tempo está nossa linguagem que é bem provável que não haja nestas páginas uma sentença que de certo modo não o exija ou invoque. Dedico estes exercícios a meu antepassado Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), que legou às letras argentinas algum decassílabo memorável e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teológicas e expondo na cátedra os princípios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver. J. L. B. Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

argumenta que, assim como a carruagem do rei não é as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lança, nem o jugo, tampouco o homem é a matéria, a forma, as impressões, as idéias, os instintos ou a consciência. Não é a combinação dessas partes nem existe fora delas... Ao término de uma controvérsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se à fé de Buda. O Milinda Pañha foi vertido para o inglês por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

Tentarei fundamentar todos eles com este escrito. em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrição em qualquer sepulcro" e "O truco". qualquer que seja o objeto que elas formem). ou seja. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz. de certo modo. de meu Fervor de Buenos Aires (1923). menos demonstrativo e racional que divinatório e patético. Se. de Leibniz. é declarada em certa página de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte". .. Dois argumentos me encaminharam a esta refutação: o idealismo de Berkeley e o princípio dos indiscerníveis. só podem existir em uma mente que as perceba. da qual eu mesmo descreio.. mas que costuma visitar-me à noite e no exausto crepúsculo.. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. ou que algum outro espírito a percebe. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. pude divisar ou pressentir uma refutação do tempo. 3) observou: "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. que transcrevo mais adiante. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. com ilusória força de axioma. Afirmo que esta mesa existe. estando fora de meu escritório.A I No decorrer de uma vida consagrada às letras e (vez por outra) à perplexidade metafísica. nem nossas paixões.. eu a vejo e a toco. Berkeley (Principies of Human Knowledge. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. de qualquer modo que se combinem (isto é. eu fizer a mesma afirmação. Essa refutação está. nem sequer o penúltimo da série.

só pode existir na mente. Essa é. difícil é pensar dentro de seus limites. não existem quando não os pensamos. Berkeley (Principies of Human Knowledge. Entendê-la é fácil. Em 1844. não têm outro ser salvo serem percebidos. por se tratar de dois sistemas visuais independentes. De fato. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazêlo. Mas. em 1713. nego que os objetos possam existir fora da mente". Este (The Mind of Man. que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo é minha representação. direis. capítulo VIII. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". sendo uma coisa sensível. comete negligências reprováveis. No parágrafo 23 acrescentou. ao mesmo tempo. Se responderes que sim. nada mais fácil que imaginar árvores em um prado ou livros em uma biblioteca. a doutrina idealista. prevenindo objeções: "Mas. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. Ou seja.sem relação com o fato de serem ou não percebidas. dois sistemas táteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") não é maior que o imaginado (o "cerebral") e não o contém. os olhos e as mãos do homem são menos ilusórios ou aparenciais que a terra e o sol. mas tão-somente uns olhos que vêem um sol e umas mãos que sentem o contato de uma terra". . 10 e 116) também negou as qualidades primárias – a solidez e a extensão das coisas – e o espaço absoluto. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung – ano de 1819 – formula a seguinte declaração. Berkeley já fizera Philonous dizer: "O cérebro de que falas. é para mim insensato. Uma delas é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a poderosa fábrica do universo – não existem fora de uma mente. 1902) argúi que a retina e a superfície cutânea invocadas para explicar o visual e o tátil são. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vê-las basta-nos abrir os olhos. O próprio Schopenhauer. Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer também é justo contrapor o monismo de Spiller. por sua vez. Em outro parágrafo. sem ninguém por perto para percebê-los. O homem que confessa esta verdade sabe claramente que não conhece um sol nem uma terra. ao expôla. ele publica um volume complementar. o sexto. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". Seu esse est percipi. nas palavras de seu inventor. Logo no primeiro capítulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenômeno cerebral e distingue "o mundo na cabeça" do "mundo fora da cabeça". para o idealista Schopenhauer. nada mais fácil.

a forma e a cor são a lua. Se alguém suspeitar de uma falácia. eu afirmo que não menos ilógico é pensar que são termos de uma série cujo princípio é 1 Para facilidade do leitor. a governar os atos e a captar as impressões. um mundo feito de tempo. Lichtenberg. a jangada. censurei Schopenhauer (não sem ingratidão). talvez. perdida na escuridão parcial.1 A metafísica idealista declara que acrescentar a essas percepções uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) é temerário e inútil. com mais lógica. é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. faz. 4. A série? Negados o espírito e a matéria. 2). se quiser. um mundo sem a arquitetura ideal do espaço. poderá intercalar outro exemplo. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansável da água. Berkeley afirmou a identidade pessoal. Em uma das noites do Mississipi. Imaginemos um presente qualquer. para Hume. vê um vago número de estrelas. é uma petição de princípio. 1. Um mundo de impressões evanescentes. segue rio abaixo. no século XVIII. 2. um caos. nega tal existência (Treatise of Human Nature. I. O "penso. logo existo" cartesiano fica invalidado. Acumulei acima citações dos apologistas do idealismo. Huckleberry Finn acorda. já que a mente não passa de uma série de percepções. como quem diz "troveja" ou "relampeja". I. mergulha no sono imemorial como em uma água escura. Hume. prodigalizei suas passagens canônicas. fui iterativo e explícito. Hume. . em seguida. um sonho. um instante literário. dizer "penso" é postular o eu. não sei que direito nós temos a essa continuidade que é o tempo. eles são percebidos por Deus. Ambos afirmam o tempo: para Berkeley. somos apenas a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes. que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez" (obra citada. negado também o espaço. também a refuta e faz de cada homem "uma coleção ou feixe de percepções. A essa quase perfeita desagregação chegou David Hume. um pouco de frio. um mundo sem matéria nem espírito. 3). "porque eu não sou meramente minhas idéias. de sua própria vida. não é lícito falar da forma da lua ou de sua cor. que são continuidades. do absoluto tempo uniforme dos Principia. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (obra citada. vê uma linha indistinta que são as árvores. propôs que em lugar de "penso" disséssemos impessoalmente "pensa". 6). Uma vez aceito o argumento idealista. o cético. para que meu leitor fosse penetrando nesse instável mundo mental. Repito: não há por trás dos rostos um eu secreto. 2). 98). tampouco se pode falar das percepções da mente. pois. 4. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. quando nenhum indivíduo os percebe. e sim outra coisa: um princípio ativo e pensante" (Dialogues. um labirinto incansável. não histórico. Para Hume.Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos. abre os olhos com negligência. nem objetivo nem subjetivo. escolhi um instante entre dois sonhos.

tais fatos não foram contemporâneos (agora o são). não existe tal história. meus avós e bisavós. para mim. Verbi gratia. ou mesmo dois homens distintos? O argumento dos parágrafos acima. assim como eu estarei. que somos o minucioso presente. nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. dura entre alguns segundos e uma ínfima fração de segundo. a sucessividade. injustificável. nem as prisões. Nego.. a descoberta da traição é mais um estado. pensando na fidelidade de meu amor. decidiu a vitória de Junín. Nem a vingança. pode parecer intrincado. em seguida. de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849. o specious present dos psicólogos. aquele na cidade de Montevidéu. este em Edimburgo. essa felicidade não foi contemporânea dessa traição. é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare – um. nego. Em outras palavras: nego. por exemplo. sem nada saber um do outro. entre quatro e dez e quatro e onze. interrompido e como que entorpecido de exemplos.. que sempre se referem a fatos futuros. no início de agosto de 1824. a vasta série temporal que o idealismo admite. ou seja. Dizem-me que o presente. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão. O universo. como podem compartilhá-lo milhares de homens. No início de agosto de 1824. De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre. Acrescento: se o tempo é um processo mental. Não passo diante de La Recoleta sem lembrar que aí estão sepultados meu pai. nem sequer uma de suas noites. em um elevado número de casos. existe cada momento que vivemos. inúmeras vezes. não posso caminhar pelos subúrbios na . não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato.tão inconcebível quanto seu fim. ela me enganava": se cada estado que vivemos é absoluto. como não existe a vida de um homem. muitos. Tentarei um método mais direto. Acrescentar ao rio e à margem percebidos por Huck a noção de outro rio substantivo de outra margem. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo. Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida. Tomemos uma vida ao longo da qual amiúdam as repetições: a minha. em que todos os fatos se encadeiam. nem o perdão. Cada instante é autônomo. a soma de todos os fatos. Ou melhor. Hume negou a existência de um espaço absoluto. à frente de um esquadrão de hussardos do Peru. A desventura de hoje não é mais real que a ventura pretérita. em um elevado número de casos. incapaz de modificar os "anteriores". nenhum? – entre 1592 e 1594. lembro já ter lembrado o mesmo. isso dura a história do universo. eu. para o idealismo. porque os dois homens morreram. a fatos que não ocorrerão conosco. embora não sua lembrança. o capitão Isidoro Suárez. não seu imaginário conjunto. também a simultaneidade. a de um único tempo. Busco um exemplo mais concreto. com argumentos do idealismo. acrescentar outra percepção a essa rede imediata de percepções é. em que cada coisa tem seu lugar.

S. cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade. Se dez mil pessoas morrerem com você. Tal proposição é compatível com a deste trabalho. cabe perguntar: esses idênticos momentos não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a série do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare não são. O quinto parágrafo do quarto capítulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que. de temperatura. 830) atribui a Anaxágoras a doutrina de que o ouro consta de partículas de ouro. de C. na mente de um indivíduo (ou de dois indivíduos que se ignoram. Eu entendo que é assim. porém. Lewis. que o número de variações circunstanciais não é infinito: podemos postular. (Cf. a ética do sistema que acabo de esboçar. cada vez que ouço um germanófilo vituperar o Yiddish. tal soma não existe. Suspeito. para a justiça de Deus. há diferenças de ênfase. entende que o tempo é feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre é também uma sucessão" (The World and the Individual. penso que o Yiddish é. admiro sua destreza dialética. dois momentos iguais. penso em Adrogué. se não há pluralidade. . Shakespeare? Ignoro. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism. Helena. ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. I. literalmente. de ossinhos imperceptíveis. elas se repetem sem precisão. Nem a pobreza nem a dor são acumuláveis". não posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que só se perde aquilo que não se teve realmente. concedendo-nos a ilusão de tê-lo inventado. cada vez que recordo o fragmento 91 de Heráclito. o que é ortodoxo. pouco maculado pelo idioma do Espírito Santo. mas nos quais se dá o mesmo processo). Naturalmente. talvez influenciado por Santo Agostinho. de estado fisiológico geral. pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio é outro") impõe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"). também The Problem of Pain. o que pode ser mágico. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios. 86): "O que você pode padecer é o máximo que se pode padecer na terra. a participação delas em sua sorte não o fará ter dez mil vezes mais fome nem multiplicará por dez mil o tempo de sua agonia. penso em você. 139). guerras. quem aniquilasse todos os homens não seria mais culpado que o primitivo e solitário Caim. aquele que mata um único homem destrói o mundo. um dialeto alemão. como a lembrança. II. Essas tautologias (e outras que calo) são minha vida inteira. cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos. Não sei se existe. "Nunca entrarás duas vezes no mesmo rio". o fogo. antes de mais nada. sofrerá toda a inanição havida e por haver.) Lucrécio (De Rerum Natura. ainda. nem mais universal na destruição. Josiah Royce. o osso. Postulada essa igualdade.solidão da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos. epidemias – são uma só dor. em minha infância. Não se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos. de fagulhas. de luz. VII. Se você morrer de inanição.

Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra já antedita por mim. e. desbarrancava-se em direção ao Maldonado. saí para caminhar e recordar. o preciso âmbito da infância. Sua noite não tinha destino algum. não é apta para pensar o eterno. Sobre a terra turva e . Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentação anterior talvez prefiram esta página de 1928. uma sorte de gravitação familiar empurrou-me a outros bairros. estive em Barracas: localidade não visitada por meu hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um sabor estranho a esse dia. Realizei. Já a mencionei antes. cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverência a meu peito. em sereníssima folga de pensar. O reverso do conhecido. a figueira escurecia a esquina. depois do jantar. quase tão efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisível esqueleto. o intemporal. mas não vivida com inteira dedicação até esse momento. barro da América ainda não conquistado. a rua era de barro elementar. vizinhos e mitológicos a um só tempo. com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram. Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. parecia simplificada por meu cansaço. A calçada era uma escarpa sobre a rua. o beco. A visão. mas suas ainda misteriosas imediações: confins que possuí inteiro em palavras e pouco em realidade. dispus-me à máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma só delas. Tomava-a irreal sua própria tipicidade. suas costas. Não quis impor um rumo a essa caminhada. aceitei os mais obscuros convites do acaso. Ao fundo. Na tarde que precedeu essa noite. Nenhuma casa se aventurava à rua. embora seu primeiro significado fosse de pobreza. já pampiano. por demais irracionável e sentimental para pensamento.II Toda linguagem é de índole sucessiva. A rua era de casas baixas. Aspirei noite. na escassa medida do possível. Não quero com isso significar o bairro meu. "Assim a rememoro. sem outra consciente predeterminação senão evitar as avenidas ou ruas largas. Contudo. isso que chamam caminhar a esmo. são para mim essas ruas penúltimas. o segundo certamente era de felicidade. como era serena. A marcha levou-me a uma esquina. nada complicada em si. Passo a historiá-la. trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte": "Quero registrar aqui uma experiência que tive algumas noites atrás: futilidade por demais evanescente e extática para ser chamada de aventura. os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite.

senti-me um percebedor abstrato do mundo. os de aproximação do sono. murinho límpido. indefinido temor imbuído de ciência. e na confessa irresolução desta página o momento verdadeiro de êxtase e a possível insinuação de eternidade de que essa noite não me foi avara". Arrisco esta conclusão: a vida é pobre demais para não ser também imortal. e senti por ele um carinho pequeno. sem semelhanças nem repetições. Abravanel. é uma delusão: a indiferença ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo. "É assim que a escrevo. Os elementares – os de sofrimento físico e prazer físico. para quem a única coisa real são os protótipos (Norris. não. os teólogos. Fique. "É evidente que o número de tais momentos humanos não é infinito. é. Não acreditei. uma taipa rosada parecia não albergar luz de lua. facilmente refutável no plano sensitivo. aos filósofos por ele mencionados caberia acrescentar. mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não tenha havido outro ruído senão o também intemporal dos grilos. cheiro provinciano de madressilva. os de muita intensidade ou muito desalento – são mais impessoais ainda. Talvez cantasse um pássaro. no episódio emocional a vislumbrada idéia. A observação é de Carlyle (Novalis. barro fundamental – não é apenas idêntica à que existiu nessa esquina faz tantos anos. certamente em voz alta: isto aqui é o mesmo de trinta anos atrás. se podemos intuir essa identidade. O tempo. ter remontado às presumíveis águas do Tempo. a mesma. posto que o tempo. então. "Fiquei olhando essa simplicidade. que é a melhor claridade da metafísica. Senti-me morto. os platônicos. Imaginei a data: época recente em outros países. mas efundir luz íntima. agora: essa pura representação de fatos homogêneos – noite em serenidade. não o é no intelectual. Plotino). O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. antes.. talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. Judas. sem esperança de integrar o infinito censo.caótica.. Mas nem nossa pobreza é certa. os da audição de uma mesma música. Só depois consegui definir essa imaginação. do tamanho de um pássaro. mas já remota neste mutável lugar do mundo. Johannes . de cuja essência o conceito de sucessão parece inseparável. Difícil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado. para quem tudo que não seja a divindade é contingente (Malebranche. Pensei. 1829). B Das muitas doutrinas que a história da filosofia registra. suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. Gemisto.

Hume aplicou-os à consciência. seu mérito não consistiu na intuição dessa doutrina. nego que os objetos possam existir fora da mente". 1).. sem ninguém por perto para percebê-los. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. qualquer que seja o objeto que elas formem). ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vêlas basta-nos abrir os olhos. Isso não significa. meu propósito é aplicá-los ao tempo. que compõem o mundo externo. De fato.. estando fora de meu escritório. digamos) é uma duplicação ilusória. No parágrafo 23 acrescentou. Esta é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a enorme fábrica do universo – não existem fora de uma mente. nem nossas paixões. entenda-se bem.Eckhart). Afirmo que esta mesa existe. Acreditou no mundo de aparências que os sentidos urdem. e sim nos argumentos que idealizou para justificá-la. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". Berkeley negou a matéria. é para mim insensato. cores que ninguém vê. nada mais fácil. ou seja. 3): "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. os sabores. II.. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". além dessas percepções. Se. os monistas. eu a vejo e a toco. George Berkeley. de qualquer modo que se combinem (isto é. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. No parágrafo 6. Observou (Principles of Human Knowledge. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. os sons e os contatos. eu fizer a mesma afirmação. Julgou que acrescentar uma matéria às percepções é acrescentar ao mundo um inconcebível mundo supérfluo. (O deus de Berkeley é um ubíquo espectador cujo fim é dar coerência ao mundo. nada mais fácil que imaginar árvores em um parque ou livros em uma biblioteca. formas que ninguém toca. os cheiros. direis. Parmênides).. não existem quando não os pensamos.) . Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. ou que algum outro espírito a percebe. sem relação com o fato de serem ou não percebidas. ao mesmo tempo. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. O idealismo é tão antigo quanto a inquietude metafísica: seu apologista mais agudo. floresceu no século XVIII. não têm outro ser salvo serem percebidos.. o que ele negou foi que. Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialética. contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung. que tenha negado as cores. houvesse dores que ninguém sente. só podem existir em uma mente que as perceba. Berkeley usou-os contra a noção de matéria. Hegel. que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazê-lo. Seu esse est percipi. prevenindo objeções: "Mas. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. mas entendeu que o mundo material (o de Toland..

II. Se responderes que sim. Entretanto. I. tu mesmo não serás mais que um sistema de idéias flutuantes. e não podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais é feito o teatro".. O cérebro. 6): "Somos uma coleção ou um conjunto de percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. 1). argumentando que. este não quis que acrescentássemos a noção metafísica de um eu à sucessão de estados mentais. I. Fora de cada percepção (atual . A mente é uma espécie de teatro. o segundo é ilícito. Uma vez aceito o argumento idealista. David Hume. A metáfora não deve enganar-nos. este negou o espírito. O primeiro é verdade se entendermos que todo tempo é tempo percebido por alguém. já que. aquele não quisera que acrescentássemos a noção metafísica de matéria à sucessão de impressões. esta deve ser infinita no tempo e no espaço. no terceiro e último dos Dialogues. só pode existir na mente. 116. VIII. II): "O cérebro. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". Aquele negara a matéria. quando Berkeley já escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus. que são continuidades. o tempo é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. Mais indecifrável ainda é o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. 98). 4. voltam e se combinam de infinitas maneiras. Siris. repetidas vezes. Berkeley negou que houvesse um objeto por trás das impressões dos sentidos. negados a matéria e o espírito.A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (Treatise of Human Nature. que houvesse um sujeito por trás da percepção das mudanças. não sei com que direito podemos reter essa continuidade que é o tempo. onde as percepções aparecem ou desaparecem. 3). 2. não é menos parte do mundo externo que a constelação de Centauro. pois é tão absurdo falar em substância espiritual como em substância material". negado também o espaço. abarcar um número infinito de séculos. errôneo se inferirmos que esse tempo deve. como ressalta Alexander Campbell Fraser. Herbert Spencer acredita refutá-la (Principles of Psychology. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. ao ensinar que para os idealistas o mundo é um fenômeno cerebral.. Tão lógica é essa ampliação dos argumentos de Berkeley que este já previra. para Hume. não sustentadas por nenhuma substância. e até procurou negála mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princípios forem válidos. Para Berkeley. 226) negou o espaço absoluto. raciocina Hylas. Corrobora Hume (Treatise of Human Nature. como coisa sensível. antecipando-se a David Hume. 6). necessariamente. As percepções constituem a mente. se não há nada fora da consciência. efetivamente. Berkeley (Principles of Human Knowledge.

acrescentar um eu aos processos parece-lhe não menos exorbitante. e exterior. de qual quer evento do orbe. se cada estado psíquico é suficiente. o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu.ou conjeturai). Para o idealismo. fora de cada estado mental. nem sequer um sonho. sonhou que era uma borboleta e. Na China. não existe o espírito. Segundo ele. um deles sonha que é uma borboleta e depois que é Chuang Tzu. por um acaso não impossível. quer dizer que a fixação cronológica de um evento. Existia como termo momentâneo da "coleção ou conjunto de percepções" que foi. dentre seus quase infinitos leitores. ainda que fornecida pela memória. a não ser como percepção na mente divina. a data daquele sonho. 1889). há cerca de vinte e quatro séculos. consideremos o momento do sonho. a mente de Chuang Tzu. esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. Como. Este. Pois bem. segundo Berkeley. era uma borboleta. Entende que houve um sonhar. é alheia a este. entre n . vincularemos esses instantes com os do despertar e com o período feudal da história chinesa? Isso não quer dizer que nunca saberemos. entende que falar de objetos e de sujeitos é incorrer em uma impura mitologia. imaginemos que. existiam como termo n de uma infinita série temporal. mas não um sonhador. ao acordar. nem o negro quarto em que ele sonhava. abolidos o espaço e o eu. Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um móvel triângulo amarelo. não há outra realidade afora a dos processos mentais. acrescentar à borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma vã duplicação. não existe a matéria. cabe perguntar: esses instantes coincidentes não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a história do mundo. diz o antigo texto. se vinculá-lo a uma circunstância ou a um eu é uma ilícita e ociosa adição. A doutrina do paralelismo psicofísico julgará que essa imagem deve corresponder a alguma alteração no sistema nervoso do sonhador. uns quatro séculos antes de Cristo. que sem dúvida era ele. Tomemos um momento de máxima simplicidade: Verbi gratia. naquele momento não existia o corpo de Chuang Tzu. ao menos de modo aproximado. só existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. o sonho de Chuang Tzu é proverbial. Postulada essa igualdade. tampouco o tempo há de existir fora de cada instante presente. não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. Imaginemos que. para denunciar que tal história não existe? . Não consideremos o despertar. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu".I e n + I. com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele não era Chuang Tzu. naquele momento o espírito de Chuang Tzu não existia. ou um de seus momentos. um perceber. mas consta-nos que a imagem foi subjetiva.

eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. Não é indivisível. se cada termo é absoluto. negar o sincronismo dos termos de duas séries. que carece de forma. a esta altura da argumentação. o eu. estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da consciência. Ninguém viveu no passado. De resto. II. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade. com o sujeito. 197) nega o passado. o mundo externo. suas relações se reduzem à consciência de que as relações existem. tampouco é divisível. Pode significar a eternidade de Platão ou de Boécio e também os dilemas de Sexto Empírico. se for indivisível. o que sobe é o porvir. como se vê. esse inextenso ponto marca o contato do objeto. Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung. um estado de G será contemporâneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. e contesta que o presente seja divisível ou indivisível. digamos. cada indivisível momento de duração está em toda a parte" (Principia. F. nossas vidas. I. porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. o tempo será mera relação entre coisas intemporais. cuja forma é o tempo. XI. 4). Tais raciocínios. o tempo não existe. cheguei à sentença de Schopenhauer: "A forma da aparição da vontade é só o presente. porque nesse caso ele não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro. não será menos complicado que o tempo. o tempo não é ubíquo. Um tratado budista do 2 Antes. Ergo. a frase negação do tempo é ambígua. ou a raiz quadrada de -I. III. (Claro que. submetida ao princípio da razão.) Meinong. o espaço já não existe. que já foi. cada fração de tempo não preenche simultaneamente o espaço inteiro. . por Newton. a história universal. não existe. Pela dialética de Berkeley e de Hume. porque não pertence ao conhecível e é prévia condição do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung. IV) que. que afirmou: "Cada partícula de espaço é eterna. ou o animal hipotético de Lotze. Um estado precede o outro quando se sabe anterior. mas. negam as partes para depois negar o todo. admite a dos objetos imaginários: a quarta dimensão. em sua teoria da apreensão. pois não há meio naquilo que carece de princípio e de fim. De fato. como tampouco existem o passado e o porvir. que ainda não é.Negar o tempo é duas negações: negar a sucessão dos termos de uma série. H. Imóvel como a tangente. 42).. ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida. Se as razões que apontei forem válidas. é uma possessão que nenhum mal pode arrebatar. a este orbe nebuloso também pertencerão a matéria. e. se o agora for divisível em outros agoras. Este (Adversus Mathematicos. e o futuro. 54). no topo. nem sequer meio. O tempo é como um círculo a girar indefinidamente: o arco que desce é o passado. Observa (Appearance and Reality. não o passado nem o porvir. ou a estátua sensível de Condillac.. há um ponto indivisível que toca a tangente e é o agora.

eu. vertiginosamente construída por uma série de homens momentâneos e solitários. da T. ao rodar. O tempo é a substância de que sou feito. vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser. infelizmente. o Visuddhimagga (Caminho da Pureza). mas não viveu nem vive. negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. Negar a sucessão temporal. sentença que podemos comparar com esta de Plutarco (De E apud Delphos. o homem de um momento futuro viverá. O mundo. negar o eu. mas eu sou o rio. infelizmente.) . mas eu sou o fogo. So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen. O tempo é um rio que me arrebata. Como uma roda de carruagem. 407). o homem do momento presente vive. Im Fall du mehr willst lesen. Se queres ler mais.. o de hoje morre no de amanhã". 373).século V. es ist auch genug. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal. ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor. 263. mas não vive nem viverá. I. And yet. é um fogo que me consome. Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhões e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão. a vida de um ser dura o que dura uma idéia." (N. dura a vida o que dura uma única idéia" (Radhakrishman: Indian Philosophy. mas eu sou o tigre. sou Borges. VI.. é um tigre que me despedaça. é terrível porque é irreversível e férreo. é real. toca a terra em um único ponto. amigo. Freund. and yet. I.3 (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann. 18): "O homem de ontem morreu no de hoje. mas não viveu nem viverá" (obra citada. 1675) 3 "Basta. "O homem de um momento pretérito – adverte-nos o Caminho da Pureza – viveu.

Saber que. isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras.) O que é. Limitar-me-ei. uma truncada e três inteiras. li que um dos cinco textos canônicos editados por Confúcio é o Livro das Mutações. e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores. de Herbert Allen Giles. a formação análoga de ship-shape. que podem beirar o paradoxal. dispostas verticalmente. (Lembremos. mas não os consultarei. ou I Ching. não é um instrumento válido para o estudo da ética. Um imperador pré-histórico os . é inútil saber que esse adjetivo advém do latim classis. Acabo de completar sessenta e tantos anos. ao longo do tempo. de passagem. que depois tomaria o sentido de ordem. agora. De modo semelhante. as coincidências ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. consta de duas linhas inteiras. um livro clássico? Tenho ao alcance da mão as definições de Eliot. em latim. Meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901). Um dos esquemas. e persona. Dadas tais transformações. feito de 64 hexagramas que esgotam as possíveis combinações de seis linhas truncadas ou inteiras. a expor o que pensei sobre esse ponto. de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidação de um conceito. Em seu segundo capítulo. cálculo significa pedrinha e que os pitagóricos usavam dessas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra. por exemplo. de Arnold e de Sainte-Beuve. para fixar o que hoje entendemos por clássico. frota. então. máscara.SOBRE OS CLÁSSICOS Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia. em minha idade. saber que hipócrita era ator. sem dúvida razoáveis e luminosas.

essas decisões variam. Confúcio declarou a seus discípulos que. Eu. eu acreditava que a beleza era privilégio de uns poucos autores. ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentários. interferem as políticas ou geográficas. mas nada sabemos do futuro. Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas. o Fausto é uma obra genial. um calendário. para não perder sua virtude. na solidão de suas bibliotecas. eternas. ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado. e que para sempre o serão. Cada qual descrê de sua arte e de seus artifícios. se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida. a minha tese. Burns é um clássico na Escócia. algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade. da excitação ou da apatia das gerações de homens anônimos que a põem à prova. ao sul do Tweed. Livros como o de Jó. outros. um instrumento para a adivinhação do futuro. como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim. uma leitura que demanda um ato de fé. como Wilhelm. Uma preferência pode muito bem ser uma superstição. Para os estrangeiros. Previsivelmente. Além das barreiras lingüísticas. embora meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras seja completo. Deliberadamente escolhi um exemplo extremo. ou asas. As emoções que a literatura suscita são. fatal. já que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo. sob a influência de Macedonio Fernández. encontraria nelas todos os alimentos que o espírito requer. acredito . A Divina Comédia. tenho certeza de que. para outros. uma filosofia enigmática. que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração de Voltaire ou de Shakespeare. outros. outros.descobriu na carapaça de uma das tartarugas sagradas. Macbeth (e. salvo que diferirá do presente. que continuarão a lê-lo. se o tempo me propiciasse a ocasião de seu estudo. mas ele foi devotamente lido e relido por gerações milenares de homens cultíssimos. o Livro das Mutações corre o risco de parecer uma simples chinoiserie. Não tenho vocação de iconoclasta. mas os meios devem variar constantemente. interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. agora sei que é comum e que está a nossa espreita nas casuais páginas do medíocre ou em uri diálogo de rua. Gastam-se à medida que o leitor os reconhece. em suma. ou um grupo de nações. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração. para mim. Assim. A glória de um poeta depende. mesmo que de modo levíssimo. Para alemães e austríacos. talvez. agora. outros. Clássico é aquele livro que uma nação. um vocabulário de certa tribo. Por volta de 1930. uma das mais famosas formas do tédio. Chego.

nos miscelâneos trabalhos deste volume.) . como o Apóstolo.1 Ver Étienne Gilson: La Philosophie au Moyen Âge. ao revisar as provas. lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. 442. atribuí a Bacon a idéia de que Deus compôs dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura.) 1 "O mundo criado é como um livro em que se lê a Trindade. para pressupor (e verificar) que o número de fábulas ou metáforas de que é capaz a imaginação dos homens é limitado. é um livro que as gerações de homens. mas que essas contadas invenções podem ser tudo para todos. da T. de janeiro-abril de 1966. Uma. Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos. EPÍLOGO Duas tendências descobri. Em um ensaio. Outra. Quero também aproveitar esta página para retificar um erro. no Breviloquium de São Boaventura – obra do século XIII – lê-se: "Creatura mundi est quasi quidam líber in quo legitur Trintas". Isso talvez seja indício de um ceticismo essencial." (N. p. do Coord. para avaliar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor estético e até pelo que encerram de singular e de maravilhoso. 464. (N. urgidas por razões diversas. e incorporada às Obras Completas de 1974.(nesta tarde de um dos últimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley. 1 Esta versão do ensaio foi publicada na revista Sur. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolástico.

Dunne A Criação e P H. Buenos Aires. W. B.J. OUTRAS INQUISIÇÕES (1952) A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J. L. Gosse Os alarmes do doutor Américo Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valéry como símbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analítico de John Wilkins Kafka e seus precursores . 25 de junho de 1952.

Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotação ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De alguém a ninguém Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw História dos ecos de um nome O pudor da história Nova refutação do tempo Sobre os clássicos Epílogo .

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