Outras inquisições

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JORGE LUIS BORGES

Este livro: Outras inquisições, é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II
1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP

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OUTRAS INQUISIÇÕES Otras Inquisiciones Tradução de Sérgio Molina

. Dessa forma. a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. de maneira totalmente gratuita. portanto distribua este livro livremente.Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar. o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição.

whose long wall the wand’ ring .OUTRAS INQUISIÇÕES – 1952 A Margot Guerrero A MURALHA E OS LIVROS He.

e Chuang Tzu. Dunciad. tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro. não. mas nada nos diz da muralha. segundo os historiadores. Contemporâneo das guerras de Aníbal. pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em um orbe fechado. Che Huang-ti.. II. e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti. Li. inquietou-me. esses dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. ao mesmo tempo. reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal. proibiu qualquer menção à morte. que constava de tantos aposentos como dias tem o ano. porque as muralhas eram defesas. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princípio do tempo. mandou matar todas as crianças para matar uma. Che Huang-ti. e Confúcio. e procurou o elixir da imortalidade. em sua dura justiça. erigiu a muralha. o legendário imperador que . mas eu sinto que os fatos referidos são algo mais que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. O fato de as duas vastas operações – as quinhentas a seiscentas léguas de pedra opostas aos bárbaros.) Essa conjetura é aceitável. (Não de outra sorte um rei. Indagar as razões dessa emoção é o fito desta nota. porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. queimou os livros. escreveu Baruch Spinoza. do passado – procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e. Todas as coisas querem persistir em seu ser.Tartar bounds. que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador. e Lao-tsé). e recluiu-se em um palácio figurativo.. mítico ou verdadeiro. a única singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. o Imperador Amarelo. 76. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes. dias atrás. quando Che Huang-ti ordenou que a história começasse com ele. cercar um império. na Judéia. É o que dão a entender alguns sinólogos. Che Huang-ti. Historicamente. Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros canônicos porque estes o acusavam. os ortodoxos não viram senão impiedade. a rigorosa abolição da história. nesses anos. Cercar uma horta ou um jardim é comum. Tampouco é rotineiro pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória de seu passado. rei de Tsin. não há mistério nas duas medidas. que também mandou queimar todos os livros anteriores a ele. isto é. da segunda face do mito. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e. Che Huang-ti condenara a mãe ao desterro por libertinagem.

já Pater. mas um dia há de viver um homem que sinta como eu. projeta seu sistema de sombras sobre terras que não verei é a sombra de um César que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce. e assem até o infinito. Ambas as conjeturas são dramáticas. a mitologia. até o dia de sua morte. carecem de base histórica. ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador. talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado. segundo o Livro dos Ritos. livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem. ou seja. em enorme escala. para além das conjeturas que permite. ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. Che Huang-ti jactou-se. ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. e não o saberá". e ele apagará minha memória e será minha sombra e meu espelho. essa iminência de uma revelação. e ele destruirá minha muralha. Isso (segundo a ordem que escolhêssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que começou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar. tão néscia e tão inútil. Este. os estados de felicidade. Talvez a muralha fosse uma metáfora. os rostos trabalhados pelo tempo. Quarto Imperador. mas. que não se produz. que eu saiba. Sonhou em fundar uma dinastia imortal.) Generalizando o caso anterior. Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de modo secreto se anulam. .inventou a escrita e a bússola. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir. Terceiro Imperador. semelhantemente. A muralha tenaz que neste momento. A música. Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o império porque sabia que este era precário e destruído os livros por entender que eram livros sagrados. 1950. e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos. é verossímil que a idéia nos toque por si mesma. poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não em um "conteúdo" conjeturai. ou estão prestes a dizer algo. em inscrições que perduram. sob seu império. e em todos.. também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. a desmedida muralha. (Sua virtude pode estar na oposição entre construir e destruir. Falei de um propósito mágico. deu às coisas seu nome verdadeiro.. de que. Essa notícia favorece ou tolera outra interpretação. afirmou que todas as artes aspiram à condição da música. como eu destruí os livros. que é apenas forma. é talvez o fato estético. todas as coisas receberam o nome que lhes convém. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado. certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo. Buenos Aires. em 1877.

A ESFERA DE PASCAL .

o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas. Parmênides lecionou na Itália. isso bem pode ser verdade. também atribuído a Trismegisto. repetiu a imagem ("o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada. em um desses fragmentos. no XVI. Albertelli (como. ditara um número variável de livros (42. Fragmentos dessa biblioteca ilusória. Para a mente medieval. . lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. e na enciclopédia Speculum Triplex. o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor. o teólogo francês Alain de Lille – Alanus de Insulis – descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula. o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia. cuja força é constante do centro em qualquer direção"). Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota. 36. quase. ou menos má.000. Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita. o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual. intuir essa esfera. que exulta em sua solidão circular". segundo Jâmblico. ou no Asclépio. compilados ou forjados desde o século I1. para representar a divindade. No século XIII. A história universal seguiu seu curso. da água. o céu dos céus. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim. Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. que era uma esfera eterna. 183) entende que Xenófanes falou analogicamente. pois sujeito e predicado se anulam. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas. Hermes Trismegisto. 148). poucos anos antes de sua morte. que chamamos Deus". que as idades vindouras não esqueceriam: "Deus é uma esfera inteligível. os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios. do ar e do fogo integram uma esfera sem fim. Parmênides. 20. Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie. No Timeu. porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. que a apresenta como sendo de Platão. o rapsodo Xenófanes de Colofônio. "o Sphairos redondo. quarenta anos depois. que também era Hermes). formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum. mas afirmou-se que um deles.525. segundo os sacerdotes de Thot. antes. farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade. mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos. em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus. há uma etapa em que as partículas da terra. Seis séculos antes da era cristã. segundo Clemente de Alexandria. ou infinitamente crescente. e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati. de Platão. "O céu. a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose. mas nenhuma O limita.

do Princípio e da Unidade. em algum lugar. não restava nem um reflexo desse fervor. e Atenas. porque. o espaço absoluto que inspirou os . se o futuro e o passado são infinitos. As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua. de Vênus. ninguém sabe o tamanho de seu rosto. Este proclamou. os rudimentos do Paraíso". também chamado Primeiro Móvel. Glanvill entendeu que Adão. exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas. ainda à luz do Renascimento. de Marte. a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica. (No quinto capítulo do Gênesis consta que "todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos".não te contém". que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias". se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. e assim o declarou pela boca de Bruno. de Carnpanella e de Bacon. No Renascimento. tampouco haverá um onde. transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinqüenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental. de John Donne. que é feito de luz. 27). setenta anos depois. não haverá realmente um quando. que são como as fadas e os pigmeus. no espaço. de Mercúrio. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice. para Giordano Bruno.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World. Isso foi escrito com exultação em 1584. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro. a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras. Robert South famosamente escreveu: "Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão. disse Salomão (I Reis 8. de Júpiter. De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico. de Saturno). a nona. Ninguém está em algum dia. No tempo. o céu das estrelas fixas. É uma esfera imóvel. Naquele século desanimado. do Sol. em torno dela giram nove esferas concêntricas. lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos. que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima. que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. negador de Aristóteles. e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. no sexto. "medalha de Deus". por obra do pecado de Adão. Milton. a humanidade acreditou que chegara à idade viril. deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. segundo a biografia de Johnson. temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra. na Ceia das Cinzas. para se justificar. porque. Este é rodeado pelo Empíreo. a oitava. A terra ocupa o centro do universo. Para um homem. o céu cristalino. desfrutou de uma visão telescópica e microscópica. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas. V). "pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós". ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma" (Da Causa.

para ele. mas Deus. que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito. revela que Pascal começou a escrever effroyable: "Uma esfera terrível. medo e solidão. Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas. comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. e expressou-os em outras palavras: "A natureza é uma esfera infinita. sentiu vertigem. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". Sentiu o peso incessante do mundo físico. O texto é assim publicado por Brunschvicg. A FLOR DE COLERIDGE . mas a edição crítica de Tourneur (Paris. era menos real que o abominado universo. 1951. Deplorou que o firmamento não falasse. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".hexâmetros de Lucrécio. o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação. 1941). Buenos Aires. foi um labirinto e um abismo para Pascal.

eu a considero perfeita.. e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão. O protagonista de Wells. sem dúvida. no povoado de Concord. a profetisa de Edda Saemundi. volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi. espalhadas entre as ervas de uma nova pradaria. nesse romance. Wells. outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu quantos livros há no mundo. Volta exausto. chronic tem o valor etimológico de "temporal"). Essas considerações (implícitas. por meio dos textos heterogêneos de três autores. no verão de 1894. ignoro se escrita em fins do século XV11I ou princípios do XIX. o retorno dos deuses que. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação. O segundo texto que alegarei é um romance que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde. agora. O que pensar?" Não sei qual será a opinião de meu leitor acerca dessa imaginação. Usá-la como base de outras invenções felizes parece previamente impossível. The Time Machine. 2. em 1844. empoeirado e muito abatido. tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem. VIII). Enéias.Por volta de 1938.. a definitiva. Diz. os romanos. Vinte anos antes. Shelley sentenciou que todos os poemas do passado. continua e reforma uma antiqüíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros.. as peças de xadrez com que antes jogaram. literalmente: "Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali. na ordem da literatura. O primeiro texto é uma nota de Coleridge. eu. como em outras. de uma meta. invoco-as para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma idéia. depois da cíclica batalha em que nossa terra há de perecer. Claro que o é. Isaías vê a desolação de Babilônia e a restauração de Israel. viaja fisicamente ao futuro. que habitam em palácios . e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. o destino militar de sua posteridade. Essa história poderia ser levada a termo sem mencionar um único escritor". no panteísmo) permitiriam um infindável debate. Paul Valéry escreveu: "A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pediram uma flor como prova. do presente e do porvir são episódios ou fragmentos de um único poema infinito. ao contrário desses espectadores proféticos. 1821). há neles tal unidade central que é inegável serem obra de um único cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays. construído por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry. A primeira versão intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado.. não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. descobrirão.

como nas ficções anteriores. volta com as têmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha. ao século XVIII. 7) e que todo cristão deve ser Cristo (op. já que seu herói. cit. verossimilmente. necessariamente. à força de compenetrar-se dessa época. Ralph Pendrel. não os indivíduos. em sua obra The Destructive Element (p. Para as mentes clássicas.2 tais fatos são irrelevantes. pois intui algo de incomum e anômalo nessas feições futuras. que se alimentam dos primeiros). a mais trabalhada. Entre as pessoas que encontra. assim.. Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. o triste e labiríntico Henry James. figura. o pintor. Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem.dilapidados e ruinosos jardins. o motivo da viagem é uma das conseqüências da viagem. páginas e sentenças alheias. Wells. V. . que é uma variante ou elaboração de The Time Machine. deste último. mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender. um incomparável regressos in infinitum. o epigramatista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bemaventurados são um (Cherubinischer Wandersmann. Este. é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista.. o de James volta ao passado. ambas as condutas. ao morrer.. desconhecia o texto de Coleridge. mas o de James é menos arbitrário. 2 Em meados do século XVII. Claro que. em suas obras. V. a literatura é o essencial. os subterrâneos e nictalopes morlocks. A rigor. Refiro-me ao autor de A Humilhação dos Northmore. 9).) Em The Sense of the Past. 1 Não li The Sense of Past. Essa é a segunda versão da imagem de Coleridge. sobre a relação deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography. Mais inacreditável que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura. traslada-se ao século XVIII. fascinado por essa tela. se for válida a doutrina de que todos os autores são um autor. não é indispensável ir tão longe. James cria.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebível veículo. (Os dois procedimentos são impossíveis. George Moore e James Joyce incorporaram. embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que se costuma chamar de clássicas. consegue trasladar-se à data em que foi executada. deixou inacabado um romance de caráter fantástico. o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista. A causa é posterior ao efeito. segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. The Sense of the Past. é invenção de um escritor muito mais complexo que Wells. A terceira versão que comentarei. 1O5-1O). este o pinta com temor e aversão. Este. o nexo entre o real e o imaginário (entre atualidade e passado) não é uma flor. a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e ainda não se combinaram. que avança ou recua no tempo como os outros veículos no espaço. James foi amigo de Wells.

de Erasmo. outro pegador dos limites do sujeito. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal. foi Whitman.embora superficialmente opostas. limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca. foi Johannes Becher. impessoal. Uma última observação. podem evidenciar um mesmo sentido da arte. de Quintiliano. Esse homem foi Carlyle. que. de Bacon e dos dois Escalígeros. foi De Quincey. empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames favoráveis ou adversos que dele mereciam seus contemporâneos. de Justo Lipsio. Outra testemunha da unidade profunda do Verbo. fazem-no por confundir esse escritor com a literatura. de Vives. Durante muitos anos.. eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. Um sentido ecumênico. O SONHO DE COLERIDGE . de Maquiavel. foi Rafael Caninos-Asséns. foi o insigne Ben Johnson.. fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastarse da razão e da ortodoxia.

e no sonho alguém o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. . sem a ulterior restauração delas. salvo umas oito ou dez linhas soltas. Stevenson recebeu do sonho argumentos. ou recebido. Caedmon era um rústico pastor e já não era jovem. por ora. o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. mais afim com a inspiração verbal de Coleridge é a que Beda. passadas algumas horas. com não pequena surpresa e mortificação – conta Coleridge –. atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum. uma noite. simplesmente. Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini. ai de mim. 24). esgueirou-se de uma festa por prever que lhe passariam a harpa. com a certeza de ter composto. embora retivesse de modo vago a forma geral da visão. formas gerais. No estudo psicológico The World of Dreams. O caso. Caedmon respondeu que não sabia. depois. mas. e ele sabia-se incapaz de cantar. deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo. isto é. em um dos dias do verão de 1797. na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões. embora extraordinário. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música são vãos e por vezes prejudiciais. o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar. que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor. de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. O caso ocorreu em fins do século VII.O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares. ao despertar. que. uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e. que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de não discutido esplendor. foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan. "Descobri. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson. No sonho de Coleridge. tinha desaparecido como as imagens na superfície de um rio onde se atira uma pedra. o Venerável. recordar o restante. Recolheu-se ao estábulo. de palavras que as manifestavam. não é único. mas o outro disse: "Canta o princípio das coisas criadas". Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho. o sonhador. para dormir entre os cavalos." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-los poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. um poema de cerca de trezentos versos. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. em 1884. IV. tudo o mais. basta-nos reter. acordou. a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro. o de Jekyll & Hide. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível.

paixão. Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud. e a encarnação. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase não apresentam outra virtude exceto sua origem onírica. a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica. incluir-me nesse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência. À primeira vista. Kubla Khan erigiu um palácio. no século XVIII. fragmentariamente. de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memória". a meu ver. um desenho traçado pelo acaso. e a vinda do Espírito Santo e o ensinamento dos apóstolos. Há. e assim cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e do êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida. sonha um palácio e o edifica conforme a visão. que não tinha como saber que essa construção se derivara de um sonho. O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816. as levitações. ressurreições e aparições dos livros piedosos. ao despertar. e pôde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. que data do século XIV. um poeta inglês. sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. lê-se: "A leste de Chan-tong. sempre. que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos. entretanto. o Compêndio de Histórias. "ninguém igualou-se a ele – diz Beda –. de Rachid ed-Din. mas os monges explicavam-lhe passagens da história sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcíssimos versos. como as formas de leões ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. que magnífica até o insondável a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. Foi o primeiro poeta sacro da nação inglesa. as doçuras do céu e as mercês e os juízos de Deus". Um imperador mongol. Anos mais tarde. Vinte anos depois. porque não aprendeu dos homens. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o . Confrontadas com essa simetria. recitou versos que jamais ouvira. o horror dos castigos infernais. no século XIII. previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. Não os esqueceu.Caedmon. a história do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos séculos e ainda não chegou a seu fim. Que explicação preferiremos? Aqueles que de antemão rejeitam o sobrenatural (eu procuro. e também o terror do Juízo Final. Em uma página. mas Coleridge já era um poeta. e sim de Deus". um fato ulterior. Se esse fato for verdadeiro. e muitas outras coisas da Escritura. ressurreição e ascensão do Senhor. então. Esperemos que tenha reencontrado seu anjo. nada ou muito pouco são. que descendia de Kubla. Não aprendeu a ler. apareceu em Paris. enquanto a Caedmon foi revelada uma vocação. sonha um poema sobre o palácio.

da Companhia de Jesus. um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead). Em 1691. destruído o palácio. o padre Gerbillon. em uma noite a séculos de nós. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria. Ao primeiro sonhador foi oferecida. ainda pôde escrever: "O extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais que uma curiosidade psicológica". 2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu. mas obriga-nos a postular. Já escrita a explicação acima. um poema (ou princípio de poema) sugerido pelo palácio. julgado por leitores de gosto clássico. o segundo. O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade. capaz.2 Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. o primeiro biógrafo de Coleridge. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais. O TEMPO E J. talvez. o período enorme revela um executor sobre-humano. alguém. Por exemplo. . também. que se deu cinco séculos mais tarde. Em 1884. mas é lícito suspeitar que ele não teve êxito. de paliar ou justificar o que nele há de truncado e rapsódico. na noite. p. Quem sabe um arquétipo ainda não revelado aos homens. Se o esquema não falhar. o poema. 1927. Talvez a série de sonhos não tenha fim. arbitrariamente. é cabível supor que. o sonho de Kubla. DUNNE 1 No início do século XIX ou final do XVIII. esteja ingressando paulatinamente no mundo. e ele o construiu. a visão do palácio. talvez a chave esteja no último. mais duradouras que mármores e metais. constatou que do palácio de Kubilai Khan só restavam ruínas. um texto não identificado pelos sinólogos em que Coleridge pudesse ter lido. não menos atrevido que inútil. Traill. sonhará o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dará a forma de um mármore ou de uma música. a semelhança dos sonhos deixa entrever um plano. o poema sobre o palácio. sua primeira manifestação foi o palácio. Kubla Khan era muito mais ousado que hoje. 585. a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras. a segunda. ao segundo.palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção. entrevejo ou creio entrever outra.1 Essa conjetura é verossímil. que não soube do sonho do anterior. W. antes de 1816. 358. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao fim. do poema consta-nos que foram resgatados não mais que cinqüenta versos.

são as inferências do autor. Huxley. Não sem mistério. capítulo 19). seria necessária uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda". O argumento único. convido meu leitor para repensarmos o que diz este parágrafo. da regressão infinita. e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie. mas consta-nos que essa negação radical da introspecção tem cerca de oito séculos. Dunne. anoto alguns prévios avatares das premissas. esse é o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam. de parábolas. Herbart também jogou com essa multiplicação ontológica. que extraiu do interminável regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. 1920. Os hindus não têm sentido histórico (isto é: perversamente.. "O sujeito conhecedor". publiquei uma préhistória. W. preferem o exame das idéias ao dos nomes e datas dos filósofos). mas de um sujeito A que observa e.. Por volta de 1843. Seu mecanismo nada tem de novo. e sim nas não menos inumeráveis dimensões do tempo. o que é quase escandaloso. como bom herdeiro dos nominalistas britânicos. capítulo XXII) raciocina que um sujeito consciente não só é consciente daquilo que observa. Exornado de histórias.No número 63 da revista Sur (dezembro de 1939). de boas ironias e de diagramas. Schopenhauer a redescobre. de outro sujeito C consciente de B. insólito. repete ele. A discussão (a mera exposição) de sua tese teria excedido os limites dessa nota. portanto. uma primeira história rudimentar. 367). Este (An Experiment with Time. um objeto sensígeno e esse personagem imperioso: o Eu" 1 Nachvedische Philosophie der Inder. Antes dos vinte anos. acrescenta que esses inumeráveis sujeitos íntimos não cabem nas três dimensões do espaço. Antes de comentá-las. de outro sujeito B que é consciente de A e. p. sustenta que há apenas uma diferença verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafísicos puros. Nem todas as omissões desse esboço eram involuntárias: excluí deliberadamente a menção a J. Alenta-me a escrevê-lo o exame do último livro de Dunne – Nothing Dies (1940. 318. se nossa alma fosse conhecível. que repete ou resume os argumentos dos três anteriores. . que em toda sensação distinguem "um sujeito sensível. para ser mais exato. portanto. Faber & Faber) –. "pois. tomo 2. já deduzira que o eu é inevitavelmente infinito. Antes de esclarecer esse esclarecimento. "não é conhecido como tal. O sétimo dos muitos sistemas filosóficos da índia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung. p. pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que também se conhece a si mesmo.

a segunda.2 como Uspenski no Tertium Organum. mas esse postulado basta para transformá-lo em espaço e para requerer um tempo segundo (que também é concebido sob forma espacial. o futuro. um verbo e um complemento. comete um erro semelhante ao dos distraídos poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco. Quanto à consciência da consciência. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente. ele postula que o futuro já existe. "a absurda conjetura de um segundo tempo. um tempo segundo para o traslado do primeiro.. a terceira.3 Assim é a máquina proposta por Dunne. Postula que o futuro já existe e que devemos trasladar-nos a ele. Consta na página 829 do segundo volume da edição históricocrítica de Otto Weiss. livro 2. é o passado. e não dois. exige. p. 1902) admite que a consciência da dor e a dor são dois fatos distintos. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho. sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionésimo. portanto. rápida ou lentamente. Nesses tempos hipotéticos ou ilusórios têm interminável morada os sujeitos imperceptíveis que o outro regressus multiplica. em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginários) do sujeito inicial. capítulo 1). fora descoberta e recusada por Schopenhauer. 87). invocada por Dunne para instalar em cada indivíduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos. Sua opinião parece-me válida. como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo cósmico. esse fluir. imóvel. tomo 6. imóvel. Dunne. ou os rios mortais de nossas vidas. que não é outro senão o próprio sujeito. Gustav Spiller (The Mind of Man. teremos. no qual flui.. . e assim até o infinito. giratória. "Se o espírito – disse Leibniz – tivesse de repensar o pensado. mas intuo que o curso do tempo e o tempo são um único mistério. Nenhum dos quatro livros de 2 Neste poema do século XV há uma visão de "três mui grandes rodas": a primeira. Essa translação. e assim até o infinito" (Nouveaux Essais sor l’Entendement Humain. suspeito. um tempo determinado. mas considera-os tão compreensíveis quanto a simultânea percepção de uma voz e de um rosto. um terceiro para o traslado do segundo. O procedimento criado por Dunne para a obtenção imediata de um número infinito de tempos é menos convincente e mais engenhoso. ‘Não sei qual será a opinião de meu leitor. substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito. Dunne é uma vítima ilustre desse mau hábito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimensão do espaço.(Essays... bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento. ligeiramente mascarado. Não pretendo saber que coisa é o tempo (nem mesmo se é uma "coisa"). 3 Meio século antes de ser proposta por Dunne. como todos os movimentos. com suas vicissitudes e pormenores. o primeiro". o presente.

a relativa simplicidade que essa hipótese outorga aos inextricáveis diagramas típicos de seu estilo. qualquer falácia cometida pelo autor resulta insignificante. os sonhos premonitórios. Deus. ou uma série de histórias.4 mas essas dimensões são espaciais..Dunne deixa de propor infinitas dimensões do tempo. A CRIAÇÃO E P H. No homem que amanhã conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem à noite. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge. confluem o passado imediato e o imediato porvir. No capítulo XXI do livro An Experiment with Time. Diante de uma tese tão esplêndida. O tempo verdadeiro. no sonho abarcamos uma área que pode ser vastíssima. (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem é viver. Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos. para Dunne. GOSSE 4 A frase é reveladora. Dunne. folheá-las. é o inatingível último termo de uma série infinita.. Ele também quer evitar os problemas de uma criação contínua. segundo ele. outra. sonhar..) Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade. surpreendentemente. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e com eles urdir uma história. e Shakespeare colaborarão conosco. Na vigília percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme. e nossos amigos. o autor fala de um tempo que é perpendicular a outro. Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. Nestes. supõe que a eternidade já nos pertence e que isso é corroborado pelos sonhos de cada noite. .. Que razões haveria para postular que o futuro já existe? Dunne fornece duas: uma.

ao derradeiro Adão. os teólogos. March 23. curiosamente. oitenta anos de esquecimento talvez equivalham à novidade. 1857). G. 1642). traduzida em mitos e em simetria. Duas passagens da Escritura (Romanos 5. May the last Adam’s blood my soul embrace. . Mill não descarta a possibilidade de uma futura intervenção externa capaz de interromper a série. Louis Auguste Blanqui! oh.163O. and find both Adams met in me. Este a divulgou no livro Omphalos (Londres. 1 Na poesia devota. (Também deduz – oh. Pitágoras! – que a repetição de qualquer estado comportaria a repetição de todos os outros e faria da história universal uma série cíclica. She had no navel". aquele em que morrem todos os homens. naked Eve. escreve. Adão. cujo subtítulo é Tentativa de Desatar o Nó Geológico. para ser mais que uma simples blasfêmia. As the first Adam’s sweat surrounds. mas o zoólogo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafísica: o problema do tempo. No primeiro capítulo do Ulisses. A Lenda Áurea diz que o lenho da Cruz provém daquela Árvore proibida que está no Paraíso. and Adam’s tree.1 Essa contraposição. em teoria. in my sickness". my face. No capítulo de sua Lógica que trata da lei da causalidade.) Nessa moderada versão de certa fantasia de Laplace – a de que o estado presente do universo é. my God. 1907) e de H. redutível a uma fórmula. stood in one place."The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim). pressupõe certa enigmática paridade. recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son. Talvez o exemplo mais intenso esteja na penúltima estrofe de "Hymn to God. John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante é conseqüência de seu estado no instante precedente e que a uma inteligência infinita bastaria o conhecimento perfeito de um único instante para saber a história do universo. 1940). Christ’s Cross. O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal. Nietzsche! oh. para denotar que foi concebido em pecado. 1 Coríntios 15) contrapõem o primeiro homem. Essa vinculação é de 1857. Look Lord. composto por John Donne: We think that Paradise and Calvary. que é Jesus. Joyce também evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem mãe: "Heva. que Adão foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e três anos. por descender de Adão. Sir Thomas Browne (Religio Medici. essa conjunção é comum. mas que julgo compatíveis com o pensamento de Gosse. da qual Alguém poderia deduzir todo o porvir e todo o passado –. para redigir esta nota. Introduzo exemplos ilustrativos que não constam nessas breves páginas. passada e vindoura. Em vão vasculhei as bibliotecas em busca desse livro. Wells (All Aboard for Ararat. Essa insensata precisão certamente influenciou a cosmogonia de Gosse.

A primeira: sua elegância um tanto monstruosa. As duas a rejeitaram. mas jamais houve gliptodontes. o estado s.. o estado n pressupõe o estado c. mas c não ocorreu. mas só as posteriores à Criação existiram realmente. de ocaso a ocaso – à criação divina do mundo. Gosse. digamos – pode aniquilar o planeta. Os jornalistas reduziram-na à doutrina de que Deus teria escondido fósseis sob a terra para pôr à prova a fé dos geólogos. infinito. preciso. Essa é a tese engenhosa (e. já interrompido por um ato pretérito: a Criação. mas antes de v pode ocorrer o Juízo Universal. um tempo rigorosamente causal.. Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse. Deus espreita nos intervalos. Em vão repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigação de não instruir os homens em ciência alguma. mas admite que. o s. propôs uma solução assombrosa. mas uma série de séculos já a precedera". De nada adiantou Gosse expor a base metafísica da tese: quão inconcebível é um instante de tempo sem outro instante precedente e outro ulterior. mas minucioso e fatal. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação. e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e três anos. Mill imagina um tempo causal. Surge Adão. infinito. Em 1857. essas causas requerem outras causas. Como conciliar Deus com os fósseis. mas esse primeiro instante comporta não só um infinito porvir. claro. p.Afirma que o estado q fatalmente produzirá o estado r. surge Adão (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo. porque o mundo foi criado em f ou em h. antes de t.2 todas deixam vestígios concretos. Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma supérflua e vasta mentira". acima de tudo. Um passado hipotético. 1902. inacreditável) que Philip Henry Gosse propôs à religião e à ciência. mas pode não ocorrer. que regressivamente se multiplicam. uma discrepância preocupava os homens. O estado n fatalmente produzirá o estado v. já que as ciências constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano. que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus. embora nenhum cordão umbilical o ligue a uma mãe. O princípio da razão exige que nenhum efeito careça de causa. e assim até o infinito. mas também um infinito passado. fortalecido pela prece. O futuro é inevitável. Spencer: Facts and Comments. uma catástrofe divina – a consummatio mundi. A segunda: sua involuntária 2 Cf. os paleontólogos impiedosamente exigiam enormes acumulações de tempo. Sir Charles Lyell com Moisés? Gosse. O Gênesis atribuía seis dias – seis dias hebreus inequívocos. o estado r. No vale de Luján perduram esqueletos de gliptodonte. Não sei se ele conheceu a antiga sentença que consta das páginas iniciais da antologia talmúdica de Rafael Caninos-Asséns: "Não era senão a primeira noite. . 148-51. o t. como dita Santo Agostinho.

1941. No capítulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres. Spinoza e os atomistas. la nature dans son innocence eût été moins belle qu’elle ne 1"est aujourd’hui dans sa corruption". partindo de razões estéticas. 5) formulou. larvas. e irrisório. 1921). Chateaubriand (Génie du Christianisme. . sua demonstração indireta de que o universo é eterno. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire. OS ALARMES DO DOUTOR AMÉRICO CASTRO1 1 La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico (Losada. provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusório. uma tese idêntica à de Gosse. Bertrand Russell atualizou-a. como pensaram o Vedanta e Heráclito. Post-Scriptum. crias e sementes. Buenos Aires. I. Em 1802. Buenos Aires. 1941). teria sido um primeiro dia da Criação povoado de filhotes. supõe que o planeta foi criado há poucos minutos. 4. Revelou quão insípido...redução ao absurdo de uma creatio ex Nihilo.

que. é muito frio. etc. El chibel barba del breje menjindé a los burós: apincharé ararajay y menda la pirabó. ao contrário. para não duvidar de sua probidade.) . O doutor Castro (La Peculiaridad Lingüística. de Enrique González Tuñón. para não pôr em dúvida sua inteligência. de Llanderas e de Malfatti. cuja causa remota são "as conhecidas circunstâncias que fizeram dos países platinos zonas aonde a pulsação do império hispânico chegava já sem brio".. Outro demérito dos falsos problemas é o de promoverem soluções também falsas. como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Español: Su Lenguaje. livro oitavo) não se contenta em observar que os dragões atacam os elefantes durante o verão: arrisca a hipótese de que o fazem para beber todo seu sangue. a expoliação.. o fuzilamento. de Last Reason. inversão proposital das sílabas): "Com um pingado / e um pão doce / você vem para a cidade / bancando o grã-fino". declara-os "sintomas de grave alteração". de Contursi. de cândido. 1896): El minche de esa rumi dicen no tenela bales. sendo o primeiro em vesre (de al revés. da T. los he dicaito yo. o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofístico. Plínio (História Natural. de Vacarezza.) não se contenta em observar uma "confusão lingüística em Buenos Aires": arrisca a hipótese do "lunfardismo" e da "mística gauchofilia". de Palermo. los tenela muy juncales.3 2 2 Tradução literal dos versos. Com idêntica eficácia caberia argumentar que em Madri já não restam vestígios do espanhol. é vaticinar (e recomendar) as perseguições. Para demonstrar a primeira tese – a corrupção do idioma espanhol no Prata –. de Lima.A palavra problema pode ser uma insidiosa petição de princípio. Não suspeita que tais exercícios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te venís pal Centro / de grau bacán”)2 são caricaturais. Acumula retalhos de Pacheco. (N. transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem. o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. Falar em problema judeu é postular que os judeus são um problema. a degola. como ninguém ignora.

imediatamente resolve que os argentinos também devem esquecê-la. canushia [polícia]. Não menos falsos são "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires". [Tradução literal dos versos em lunfardo: "O grã-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polícia". Em tais detritos se apóiam. jacta-se de ter decifrado um diálogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais bárbaros de expressão. da T. Não padecemos de dialetos. por Castela.) O doutor Castro imputa-nos arcaísmo. / / No melhor dia do ano / peguei o touro à unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela". da T. morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri.Diante de sua poderosa treva. Viajei pela Catalunha. sim. Castro ignora esse léxico.4 Na página 139. Seu método é curioso: descobre que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga. talvez por ter sido citado por Arturo Costa Álvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata. baseados em um palhaço que trabalhou com os Podestá. embora padeçamos. em voz mais alta. o vesre. guardo gratíssimas lembranças desses lugares. na 87. é quase límpida esta pobre copla em lunfardo: El bacán le acanaló el escracho a la minushia.. com o aprumo de quem ignora a dúvida.) 4 Consta do vocabulário giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires.)] . después espirajushió por temor a la canushia.. As gírias: ce pluriel est bien singulier. Com exceção do lunfardo (modesto esboço carcerário que ninguém sequer sonha em comparar ao exuberante caló dos espanhóis). baseados nos alunos da terceira série. (N. pela Andaluzia. por Alicante. / ela os tem muito vistosos. em Orense. não há gírias neste país. sim. que só podem ser inteiramente compreendidos por quem está familiarizado com as gírias rio-platenses". o cocoliche. (Falam.. 1928). baseados em Hernández. Essas corporações vivem de reprovar os sucessivos jargões que inventam.. (N. o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da língua em Buenos Aires. Desnecessário advertir que ninguém diz minushia [mulher]. esqueceram esta ou aquela acepção desta ou daquela palavra. É fato que o idioma espanhol padece 3 Tradução literal dos versos em caló (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem que não tem pêlos. 1915). de institutos dialetológicos. / eu mesmo os vi. jamais observei que os espanhóis falassem melhor que nós. Improvisaram o gauchesco. tais riquezas lhes devemos e deveremos. espirajushiar [fugir].

Condena os idiotismos americanos. não é mais lógica nem mais encantadora. se o destino não torcer o rumo dos sinais propícios. encurrala o rebanho disperso" (p. e ridiculamente chamao "centauro máximo". mais versátil no erro. . Só os espanhóis julgam-no árduo: talvez porque os perturbem as atrações do catalão. 31). o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. O doutor Castro. a forma não contradiz o conteúdo. mas não da imperfeição que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade. Às vezes o estilo é comercial: "As bibliotecas do México possuíam livros de alta qualidade" (p. e sim corpulência esmagadora. esse inexplicável leitor de Carlos de la Púa e de Yacaré revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano. ingente aparelho ortopédico que mecanicamente. em cada página desse livro. um homem ao estilo de Ramírez ou Artigas. Groussac preferiu a definição: "miliciano de retaguarda". talvez por um erro da vaidade. 9). do bable.. quer que digamos de gorra. A poesia. conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense são valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforço.. 52). impunha preços fabulosos" (p. nega os tangos e refere-se às xácaras com respeito. dizem le mató em vez de lo mató.. Alonso e P. atitude intensamente receptiva que não demorará a converter-se em força criadora. bestialmente.o doutor Castro. do basco e do valenciano. a contínua trivialidade do pensamento não exclui o pitoresco dislate: "Surge então a única coisa possível. que ele não canaliza porque não é guia. por zombaria. 72). visivelmente. Não quer que digamos de arriba..) Proscreve – entendo que com toda a razão – a palavra cachada. A ciência e o pensamento filosófico têm nomes de extrema distinção entre seus cultivadores" (p. Por vezes. Despreza López e venera Ricardo Rojas. mas aceita a tomadura de pelo. "A alfândega seca. é pródigo em superstições convencionais. 71. o tirano. por preferir os idiotismos espanhóis. Às vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramática de A. excessivo relevo das palavras. acham que um livro pode suportar este cacofônico título: La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico). (Com melhor estilo e juízo mais lúcido. pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas. O espanhol é facílimo. do galego. Henríquez Ureña" (p. 49). condensação da energia sem rumo da massa. costumam ser incapazes de pronunciar Atlántico ou Madrid.de várias imperfeições (monótono predomínio das vogais. que. do maiorquino. Esse examinador do "fato lingüístico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrídio. Os compadritos de Last Reason emitem metáforas hípicas. Nesse livro. talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo. inépcia para formar palavras compostas).

a sério. Por ser verdade contei Todas as desgraças ditas: É um tear de desditas Todo gaúcho de lei. – Leio na página 136: "Tentar escrever como Ascasubi. E pelo rosto do amigo Duas lágrimas rolaram. Mas ponha sua esperança No Deus que tudo assinou. Del Campo ou Hernández. sem ironia. Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios. P. Eu não sei se. . E depois de ter passado Numa madrugada clara. sem serem ouvidos. E seguindo o fiel do rumo. Eu me despeço e já vou Que aqui cantei a meu modo. À frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo. Adentraram no deserto. é algo que dá o que pensar". em campo aberto. algum dia.S. da prosa rimada e do terrorismo. Transcrevo aqui as últimas estrofes do Martín Fierro: Cruz e Fierro numa estância Uma tropilha apanharam. Males que conhecem todos Mas qu’inda ninguém contou.À errônea e mínima erudição o doutor Castro acrescenta o incansável exercício da adulação. A fronteira atravessaram. E já com estas notícias Minha canção terminei. Tombaram nas correrias Mas espero. Saber deles algo certo.

"A sério. apesar da inclusão de meu nome nesse catálogo. NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO . sem ironia". o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto. dos gêneros literários que jogam football e das gramáticas torpedeadas? Na página 122. eu pergunto: Quem é mais dialetal? O cantor das límpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopédicos que encurralam rebanhos. não me julgo totalmente incapacitado para falar de estilística.

As ilusões do patriotismo não têm fim. No primeiro século de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hábito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão são, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, é o compreensível ou inocente propósito de fomentar os melhores traços argentinos. Ignoram, porém, os argentinos; na polêmica, preferem defini-los em função de algum fato exterior; dos conquistadores espanhóis (digamos), ou de uma imaginária tradição católica, ou do "imperialismo saxão". O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração,1 a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel "O Estado é a realidade da idéia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse "herói" é um incompreensível canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranqüilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro. O mundo, para o europeu, é um cosmos em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que há de ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de não ser ruim, apesar do prêmio. Em geral, o argentino descrê das circunstâncias. Pode ignorar a fábula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos – os Lamed Wufniks – que não se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o
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O Estado é impessoal: o argentino só concebe relações pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime. Apenas constato um fato; não o justifico nem desculpo.

universo; quando a ouvir, não estranhará que esses beneméritos sejam obscuros e anônimos... Seu herói popular é o homem só que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potência ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas não registram fatos análogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada há em comum entre os dois, mas o tema do primeiro é a vindicação da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pook’s Hill); o do segundo, a insuportável e trágica solidão de quem carece de um lugar, por humilíssimo que seja, na ordem do universo. Dirão que os traços que assinalei são meramente negativos ou anárquicos; acrescentarão que não comportam explicação política. Ouso sugerir o contrário. O mais urgente dos problemas de nossa época (já denunciado com profética lucidez pelo quase esquecido Spencer) é a gradual intromissão do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, há de encontrar justificativa e deveres. Sem esperança e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mínimo de governo. O nacionalismo pretende embair-nos com a visão de um Estado infinitamente incômodo; essa utopia, uma vez alcançada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construíssem, sua antítese. Buenos Aires, 1946.

QUEVEDO

Assim como a outra, a história da literatura é pródiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glória parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele não consta. Muito tentei inquirir as razões dessa extravagante omissão; certa vez, em uma conferência esquecida, julguei encontrá-las no fato de suas duras páginas não fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo é ter êxito", observou George Moore.) Para alcançar a glória, eu dizia, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra ou alguma circunstância biográfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hipérboles cuja repetição faz a glória... Ignoro se essa explicação é correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo não é inferior a ninguém, mas não encontrou um símbolo que se apoderasse da imaginação das pessoas. Homero tem Príamo, que beija as homicidas mãos de Aquiles; Sófocles tem um rei que decifra enigmas e que os oráculos levam a decifrar o horror de seu próprio destino; Lucrécio tem o infinito abismo estelar e a discórdia dos átomos; Dante, os nove círculos infernais e a Rosa paradisíaca; Shakespeare, seus mundos de violência e de música; Cervantes, o venturoso vaivém de Sancho e Quixote; Swift, sua república de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominação e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e sórdidos labirintos. Não há escritor de fama universal que não tenha cunhado um símbolo; este, convém lembrar, nem sempre é objetivo e externo. Góngora ou Mallarmé, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrário, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um protótipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesuítico, 1904, p. 59). Lamb disse que Edmund Spencer era the poets’ poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que é o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo é preciso ser (em ato ou em potência) um homem de letras; inversamente, ninguém que tenha vocação literária pode não gostar de Quevedo. A grandeza de Quevedo é verbal. Julgá-lo um filósofo, um teólogo ou (como pretende Aureliano Fernández Guerra) um homem de Estado é um erro que podem permitir os títulos de suas obras, não o conteúdo. Seu tratado Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidação ao argumento. Como Cícero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente

. Análoga discrepância percebe-se no Marco Bruto. Na história da filosofia há doutrinas. Ou são panfletos circunstanciais. touceira. como se sabe. 1939.. do episódio da samaritana. A Política de Dios. é invulnerável a esse encanto. homem tão insensato que. pássaro e mudo peixe que surge do mar". moça. O assombro vacila entre a arbitrariedade do método e a trivialidade das conclusões. loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutón.133): "As obras políticas de Quevedo não propõem uma nova interpretação dos valores políticos nem têm. precipitou-se no fogo". o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeição. o que não passa de terrorismo. p. onde o pensamento não é memorável. e. exporei à vergonha os que pouca tiveram. o mais atinado.1 O leitor distraído pode julgar-se edificado por essa obra. Empédocles de Agrigento afirmou: "Já fui criança. provavelmente falsas. apesar de sua ambiciosa aparência.. in fine). O espanhol. apenas estudioso da verdade. segundo Aureliano Fernández Guerra. e Bião de Boristenas. que exercem obscuro encanto sobre a imaginação dos homens: a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. que os reis devem remediar as necessidades. Entretanto. discípulo do imundo e desatinado Teodoro". afirmando ter sido peixe. Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empédocles. que "o rei deve conduzir os ministros. expedida essa variante estelar do argumento cosmológico. Mas entre essas páginas podem encontrar-se alguns dos traços mais característicos de Quevedo". Quevedo moteja de infames. agora. do qual fora povo. e não os ministros o rei".. "um completo sistema de governo. com a dignidade da linguagem. Rex Judaeorum) são símbolos secretos a cuja luz o político deve resolver seus problemas. ao 1 Reyes certeiramente observa (Capítulos de Literatura Española. acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus. do episódio dos pães e dos peixes. que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves. Quevedo tudo salva. e à vista do mar. parece regressar ao árduo latim de Sêneca. em suas páginas lapidares. Sua Política de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Señor deve ser considerada. Nesse tratado. embora as cláusulas o sejam. não passa de um arrazoado contra os maus ministros. nobre e conveniente". Quevedo. basta-nos lembrar que os quarenta e sete capítulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que não seja a curiosa hipótese de que os atos e palavras de Cristo (que foi. ou são obras de declamação acadêmica. e são: Diágoras de Mileto.república de luzes". Quevedo depreende. nenhum valor além do retórico. discípulos de Demócrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu). malditos. a doutrina gnóstica de que o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar. Escreve que a transmigração das almas é uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta". de Tácito e de Lucano. ou quase. Os gnósticos. mudou-se em tão contrária e oposta natureza que morreu borboleta do Etna. da repetição da fórmula sequebantur.. Para estimar o valor dessa sentença. Protágoras de Abdera. Fiel a esse cabalístico pressuposto.

pessoa precipitada. este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem. a Luciano de Samósata. O ostentoso laconismo. F. Considerados documentos de uma paixão. As trivialidades ou eternidades da poesia – águas equiparadas a cristais. limita-se a observar uma tradição literária. e sim ao mérito". essencialmente. de que a metáfora é o contato momentâneo de duas imagens. mãos equiparadas a neve. a repetição de palavras dão a esse texto uma precisão ilusória. confusão. para que não descaíssem de prerrogativas de tesouro os ramos.2 Quevedo foi equiparado. divinamente destinado a salvar do esquecimento as locuções zurriburi. o hipérbato. Há uma diferença fundamental: Luciano. recompensaram vidas quase divinas com estátuas. homem de apetites veementes.atormentado e duro latim da idade de prata. canalha. ou exigem. não menos múltipla. Watts. 1904. não as permitiram à pretensão. combatendo as divindades olímpicas no século II. ou a troche y moche: às tontas. urdiu com eles a rapsódia intitulada Cuento de Cuentos. deliberados exercícios de petrarquismo. o quase algébrico rigor. pagaram grandes e soberanas vitórias com as aclamações de um triunfo. Quítame allá esas pajas (en un): num átimo. Verbi gratia. 91) – não é um fato cientifico. para ele a linguagem foi. também deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carícias e nestas não se fia"). foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência. Quevedo. a aridez. Também execrou os idiotismos. fascinadas. o estilo desmesurado e orgiástico (mas não ilógico) de La Hora de Todos. quítame allá esas pajas e a trochi-moche. preferiram ver nessa redução ao absurdo um museu de primores. 2. da T. "A linguagem – observou Chesterton (G. mas muito mais por serem falsas. Esqueceu-se. Examinada. sujeito desprezível. a oposição de termos. ou a barrisco: conjuntamente e sem distinção. não a metódica assimilação de duas coisas.) . ainda que brevemente. o mármore e as vozes. Com o propósito de "expô-los à vergonha". p. Abarrisco. Muitos períodos merecem. considerados jogos de hipérboles. abarrisco. sem eira nem beira. (N. feito rápida e atabalhoadamente. nunca deixou de aspirar ao ascetismo estóico. ao repetir esse ataque no século XVI de nossa era. cochite hervite. sua prosa. em mais de uma ocasião. e. ao censurá-las. Quevedo. Cochite y hervite: 1. ser julgados de perfeitos. Trochi-moche(a). Outros estilos freqüentou Quevedo com não menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscón." Quevedo nunca a entendeu assim. e sim artístico. faz uma obra de polêmica religiosa. olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos – incomodavam-no por serem fáceis. costumam ser admiráveis.. 2. muitas gerações. esses motivos bastam para explicar o 2 Zurriburi: 1. um instrumento lógico. passo a discutir sua poesia. os poemas eróticos de Quevedo são insatisfatórios. as ervas..

a douta Imprensa. livros juntos. Em músicos. calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos. Por exemplo. porém doutos. Não direi que se trata de uma transcrição da realidade.artificialismo voluntário daquela Musa IV de seu Parnaso. cujo sentido não é enigmático. Não faltam traços cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos. Em fuga irrevogável corre a hora. Que na lição e estudo nos melhora. Eu vivo dialogando co’os defuntos E os mortos com os olhos ouço ao perto. E aquela o melhor cálculo assenta. Das injúrias dos anos. vingadora. no mais ilustre soneto desse volume – "Memoria inmortal de don Pedro Girón. bom dom Joseph. mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece animá-las. Digo o mesmo da seguinte expressão: o pranto militar. não por causa deles. o . de sua Torre de Juan Abad. 109): Recolhido na paz destes desertos. Se nem sempre entendidos. orar despertos ao sonho da vida). a Dom José de Salas (Musa. As grandes almas que a morte ausenta. H. naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia. Emendam e secundam meus assuntos. Livra. e sim corriqueiro. neste soneto que ele enviou. O acento pessoal de Quevedo está em outros poemas. muerto en la prisión" –. a esplêndida eficácia do dístico Sua Tumba são de Flandres as Campanhas e seu Epitáfio a sangrenta Lua é anterior a toda interpretação e não depende dela. Nem sempre ocorre o mesmo. Com poucos. sempre abertos. duque de Osuna. sua coragem ou seu desengano. porque a realidade não é verbal. que "canta façanhas de amor e formosura". mas o soneto é eficaz a despeito deles.

Confundindo lamentos e latidos. O Cérbero calou-se. 31): Serão pó. II) . De Jove foi disfarce. E em nossa palidez cegam os prados. variantes de Pérsio. é melhor ignorar que se trata do símbolo dos turcos. Compreende pensativos sonetos. Não poucas vezes. Co"as três gargantas ao latido prontas. gongorismos intercalados. que em reinos vãos e baldos Perturbam o silêncio e os ouvidos. porém pó apaixonado é uma recriação. da T. (Musa. IV.3 Grande é o âmbito da obra poética de Quevedo. eclipsado por não sei que piratarias de Dom Pedro Téllez Girón. de uma de Propércio. E luz rumina em campos celestiais. Ao ver a nova luz divina e pura. que de algum modo prefiguram Wordsworth. O solo sob os pés gemeu inteiro. para provar que ele também era capaz de jogar esse jogo. (Elegias. 1.pranto dos militares. Quanto à sangrenta Lua. Que um tempo empederniu as mãos reais. das Escrituras. Desertos montes como cãs cendrados. de Juvenal. a memorável linha (Musa. e de repente. ou exaltação. 19): Ut meus oblito pulvis amore vacet." (N.) Tremeram fundamente umbrais e portas Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura. Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos cães.4 bruscas magias de teólogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"). opacas e rangentes severidades. de Sêneca. de Joachim de 3 4 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu. IX) 5 À dura lide um animal nascido E símbolo zeloso dos mortais. Fundos suspiros deu a negra gente.5 urbanidades e doçuras da Itália ("humilde solidão verde e sonora"). Assim. Que não merecem ver do céu luzeiros. E por trás dele os cônsules gemeram. e foi vestido. o ponto de partida de Quevedo é um texto clássico. (Musa.

Crês que em Palácio a Jove porfiar podes. Farta já a Toga do veneno tírio. Pois a seu modo Estrelas mente o ouro.7 lúgubres pompas da aniquilação e do caos. VI) . São (para dizê-lo de algum modo) objetos verbais. és podre E pura vilania. Cobre-te em tesouros d’Oriente. com enigmas. por exemplo: "Farta já a Toga do veneno tírio". Não são obscuros. Mas não descansa. Ou todo em ouro rígido e palente. ao contrário de outros de Mallarmé. brevidades latinas. Quando a felicidade delinqüente O horror obscuro em esplendor te mente.6 escárnios de curioso artifício. puros e independentes como uma espada ou um anel de prata. Víbora em rosicler. Os melhores poemas de Quevedo existem para além da moção que os gerou e das comuns idéias que os animam. Este. o lodo. teu martírio. Ali onde vives.Bellay. (Musa. Para quem sabe examinar-te. ou distrair. troças. áspide em lírio. o nojo. 6 A Méndez chegou berrando De azeites bem suarenta. que de esquecê-lo Disseram que não se lembra. Padeces um magnífico delírio. senhor de tudo e tantos louros. oh Liças!. sem saber que morres. E tu. evitam o erro de perturbar. (Musa. V) 7 Este Dom Fábio cantava Para gradis e sacadas De Aminta. de Yeats e de George. Derramando pelos ombros O balanço de suas lêndeas.

Francisco de Quevedo é menos um homem que uma vasta e complexa literatura. como Shakespeare. Como Joyce.Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo. como Goethe. . como nenhum outro escritor. como Dante. mas ele continua sendo o primeiro artífice das letras hispânicas.

difere essencialmente daquele que foi exercido no século XIX. como já anotei. Nos capítulos em que se discute se a bacia do barbeiro é um elmo e a albarda um jaez. ao menos de maneira indireta. homens como Unamuno. em 1942. Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo. a Comédia dantesca. mais eficaz. este. o problema é tratado de modo explícito. a colheita literária de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria. um dos livros examinados é a Galatéia. Cervantes não podia recorrer a talismãs nem a sortilégios. No sexto capítulo da primeira parte. devia nela figurar. entretanto. Cotejado com outros livros clássicos (a Ilíada. seriam para ele incompreensíveis. embaladoras fábulas do cativeiro". mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e. O Quixote é menos um antídoto dessas ficções que uma secreta despedida nostálgica. Conrad e Henry James romancearam a realidade por julgála poética. o barbeiro é amigo do autor e não o admira muito. como os crimes e o mistério em uma paródia de romance policial. e quem sabe muitas vezes. destacasse os postos de gasolina. a Farsália. O plano de sua obra vedava o maravilhoso. por coincidência. é apenas insinuado. observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano. o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote. enternecidos pela evocação de La Mancha. com seu senso paródico. o Quixote é realista. mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginário. . em outras passagens. Paul Groussac. As vastas e vagas geografias do Amadís ele opõe os poeirentos caminhos e as sórdidas estalagens de Castela. cada romance é um plano ideal. Cervantes criou para nós a poesia da Espanha do século XVII. porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuição. o mundo do leitor e o mundo do livro. Intimamente. as tragédias e comédias de Shakespeare). a discussão de sua novidade interessa-me menos que a de sua possível verdade. Cervantes amava o sobrenatural. de Cervantes. a Eneida. por isso mesmo. assombrosamente. porém. Joseph Conrad pôde escrever que excluía de sua obra o sobrenatural. ou Azorín. e eis que. imaginemos um romancista de nosso tempo que.MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE É verossímil que estas observações tenham sido enunciadas alguma vez. ou Antonio Machado. esse realismo. mas nem aquele século nem aquela Espanha eram para ele poéticos. dizendo que este é mais versado em desgraças que em versos e que o livro tem algo de boa invenção. Na realidade. para Cervantes o real e o poético são antinomias.

. procuram abrigo em uma selva. poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demônios. acompanhados pelo alaúde. Rama ouve sua própria história. e a resolução de Scherazade. A necessidade de completar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolações.. As invenções da filosofia não são menos fantásticas que as da arte: Josiah Royce. Esse jogo de estranhas ambigüidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira. como um tapete persa. que viveu mais de um mês e meio em sua casa. Estes. os protagonistas do Quixote são. ou forma de um sonho de Cervantes. reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta. também. Essa compilação de histórias fantásticas duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central em contos adventícios. e o efeito (que devia ser profundo) é superficial. o rei ouve a própria história da boca da rainha. Também surpreende saber. julga Cervantes. que abrange todas as outras e também – de monstruoso modo – a si mesma. Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. Nenhuma tão perturbadora quanto a da noite DCII. Pensamos em Carlyle. e ainda mais assombroso. o livro em que eles estudam. que não sabem quem é seu pai. leitores do Quixote. a correspondência imperfeita entre a obra principal e a secundária diminui a eficácia dessa inclusão. os filhos de Rama. Aqui é inevitável lembrar o caso de Shakespeare. No último livro. mas não conclui nada. tendo encomendado a tradução a um mourisco. que o romance inteiro foi traduzido do árabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo. cantam o Ramayana.. figura no Ramayana. no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899). Valmiki. onde se representa uma tragédia que é mais ou menos a de Hamlet. agora infinita e circular. enquanto concluía a tarefa. Esse mestre é. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolação? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imóvel rei escutar para sempre a truncada história das Mil e Uma Noites. Rama ordena um sacrifício de cavalos. que fingiu que o Sartor Resartus era a versão parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Diógenes Teufelsdroeckh. pensamos no rabino castelhano Moisés de León. estranhamente. onde um asceta os ensina a ler. que o entretém com fábulas. o Ramayana. até que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. O barbeiro. mágica entre as noites. sonho de Cervantes. que inclui no cenário de Hamlet outro cenário. a essa festa comparece Valmiki com seus alunos. Ouve o início da história. no início do nono capítulo. que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer. Nessa noite.propõe algo.... Um artifício análogo ao de Cervantes. formulou a seguinte: "Imaginemos que . que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do século III. E bem conhecida a história liminar da série: o desolado juramento do rei. mas não procura graduar suas realidades.

seus leitores ou espectadores. . Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote. não há detalhe do solo da Inglaterra. se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores. e procuram entender. Em 1833. que deve conter um mapa do mapa do mapa. tudo aí tem seu correspondente. tal mapa deve conter um mapa do mapa. e Hamlet. Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem. espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inversões sugerem que.uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. A obra é perfeita. e lêem. que não esteja registrado no mapa. por menor que seja. nós. podemos ser fictícios. e assim até o infinito". Desta sorte. e no qual também são escritos.

já então. sombras usa vestir de vulto belo. de dois traços anômalos na América: era uma cidade. as que formulam íntimas conexões entre duas imagens. mas fundamentalmente um sonho. é bom que esta nossa história das letras americanas tenha os versos de Góngora por epígrafe e seja inaugurada com a análise de Hawthorne. era uma cidade em decadência. uma espécie de Eduardo Gutiérrez infinitamente inferior a Eduardo Gutiérrez. Se a literatura é um sonho. no porto de Salem. As verdadeiras. continuava em sua aldeia puritana de 1 Texto de uma conferência proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em março de 1949. um sonho dirigido e deliberado. urdidor de agradáveis espanholadas –. a literatura aos sonhos.NATHANIEL HAWTHORNE1 Começarei a história das letras americanas com a história de uma metáfora. há outros escritores americanos – Fenimore Cooper. exatos volumes. "A alma. Washington Irving. ou melhor. é teatro. Hawthorne viveu até 1836. No século XVII. os fracassos. em Londres ou em Roma. Quevedo formulou-a no início do Sueño de la Muerte. nas pessoas que não nos amam. Salem padecia. Não sei quem a inventou. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bíblico. Luis de Góngora. Addison a enunciará com mais precisão. mas podemos ignorá-los sem risco algum. as que não vale a pena inventar. Hawthorne nasceu em 1804. equipara as invenções literárias às invenções oníricas. o suíço Jung. . sempre existiram. não é falso dizer que nunca se afastou dela. com alguns exemplos dessa metáfora. a fim de distrair sua eternidade. quando sonha – escreve Addison –. muito velha. o sonhador. em essência. em encantadores e. Pouco anteriores no tempo. sem dúvida. as doenças. o persa Omar Khayyam escrevera que a história do mundo é uma representação que Deus. apesar de pobre. autor de representações. No século XVIII." Muito antes. talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. representa e contempla. no soneto "Varia imaginación". em seu teatro sobre o vento armado. planeja. onde lemos: O sonho. as que ainda podemos inventar são as falsas. as manias. Esta a que me refiro é a que liga os sonhos a uma apresentação teatral. amou-a com o triste amor que inspiram. o numeroso Deus dos panteístas. muito depois. Cinqüenta anos depois. atores e público.

tranquei-me em um calabouço. embora seus biógrafos não o digam. quando desaprovou que os escultores. moreno. sem dúvida) literatura infantil. Uma mancha tão profunda que deve perdurar em seus velhos ossos. Converti-me em prisioneiro. o capitão Nathaniel Hawthorne. entre elas uma escrava. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. Acabei de pronunciar a palavra alegorias. foi juiz nos processos de feitiçaria de 1692. foram condenadas à forca. com sinceridade. indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gênero. sem o menor propósito de fazê-lo. Tituba. Essas pessoas não comiam juntas e quase não se falavam. Louisa e Elizabeth. Quando o capitão Hawthorne morreu. a melhor vindicação. eu o faço em nome deles e peço que qualquer maldição que se tenha abatido sobre minha raça seja-nos. Justice Hawthorne procedeu com severidade e. ilícito. e. Tinha o andar balançado dos homens do mar. agora. Hawthorne era alto. um de seus antepassados. escreveu a Longfellow: "Vivi recluído. em pleno século XIX. William Hawthorne de Wilton. o primeiro livro que ele comprou com o próprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias. mesmo que a porta estivesse aberta. bonito. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantásticos. talvez a mesma que o primeiro Hawthorne. nas Índias Orientais. se ainda não forem pó. no Suriname. talvez imprudente ou indiscreta. sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. por exemplo. Seu pai. no segundo andar da casa. no cemitério de Charter Street." Depois desse arroubo pictórico. Que eu saiba. que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virgílio e Beatriz para depois . perdoada". na hora do crepúsculo vespertino. "Tão conspícuo foi – escreveu Nathaniel. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo. a segunda. esculpissem estátuas nuas. No mesmo andar estavam os quartos das irmãs. Hawthorne acrescenta: "Não sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericórdia divina. Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrim’s Progress. o nosso Nathaniel – no martírio das bruxas que é lícito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. a refeição de cada um era deixada em uma bandeja. Sabese que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gênero indefensáveis. a melhor refutação das alegorias é a de Croce. quase teria medo de sair". Naquele tempo não existia (para felicidade das crianças. em que dezenove mulheres. no corredor. essa palavra é importante e. Também.. indagar se o gênero alegórico é. de febre amarela. sua viúva. em se tratando da obra de Hawthorne. sem dúvida. de fato. um jogo de vãs repetições. Duas tarefas nos deparam: a primeira. morreu em 1808. no último. em 1630. magro. a Bíblia. desde o dia de hoje. saía para caminhar. o de Nathaniel. e agora já não encontro a chave. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas).. recluiu-se em seu quarto.Salem. trouxera da Inglaterra junto com uma espada. a mãe de Nathaniel. Em 1837. John Hawthorne. a de Chesterton.

que Dante é a alma.". o que seria uma espécie de mascarada. muitas vezes. uma série de estados análogos – que é possível indicar por meio de dois símbolos: um. uma distração da estética. melhor ela será. a das alegorias e das fábulas. digamos) e o escritor que pensa por meio de abstrações (Benda ou Bertrand Russell). ou a razão. Dito de outro modo: Beatriz não é um emblema da fé. quanto menos uma alegoria for redutível a um esquema.. Tão incomunicada e tão vasta é a literatura! A página pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts. Chesterton já a refutara sem que aquele o soubesse. pôs Beatriz. a um frio jogo de abstrações. como disse Wordsworth. pôs Virglio e. é. o caso de José Ortega y Gasset. Crê.. o de Hawthorne. Virgílio a filosofia. A alegoria. segundo o argumento de Croce (o exemplo não é dele). viria a ser uma adivinhação. a priori. em todas as suas fusões e conversões. ou dar a entender.. uns valem tanto quanto outros. É. os dois escritores são antagônicos.de uma interminável riqueza e que a linguagem dos homens não esgota esse vertiginoso caudal. "para desonra do entendimento do leitor". um raciocinador.explicar. Há o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare. ou Victor Hugo. assaz pobre. Croce formulou essa refutação em 1907. ou a luz natural. como Hawthorne. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. ou fazer-se passar por tal. outro. mais lenta e muito mais incômoda que as outras. Ortega pode . mas nega que esse gênero seja condenável. de alegorismo. Dante primeiro teria pensado: "A razão e a fé operam a salvação das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao céu" e depois. Chesterton admite que Watts produziu alegorias. entre muitas outras. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. onde pensou razão ou filosofia. a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. um trabalhoso e arbitrário sinônimo da palavra fé. ou Donne. Seria um gênero bárbaro ou infantil. e Beatriz a teologia ou a graça. o som "fé". a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar. cujo bom pensamento é obstruído por laboriosas e adventícias metáforas. mas quando um abstrato. mais extensa. Beatriz. Não sei se a tese de Chesterton é válida. no entanto.. para citar um exemplo notório desse mal. Percebemos que um processo lógico foi enfeitado ou disfarçado pelo autor. ilustre na Inglaterra em fins do século XIX e acusado. Argumenta que a realidade é. em 1904. Daí infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam à inapreensível realidade. Segundo Croce. Escreve: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. quer ser também imaginativo. onde pensou teologia ou fé. que esses matizes. um processo íntimo. No mais. ocorre o denunciado por Croce. segundo essa interpretação desdenhosa. sei que.

este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua. que ocorram fatos não . do mesmo ano: "Um homem. às vezes. bastante curiosos. e o outro continua executando aquela ação até o fim de seus dias". Não digo que ele fosse pouco inteligente. pensa bem de outro e confia nele plenamente. Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. à espera de um acontecimento e da aparição dos principais atores. não por meio de mecanismo dialético. por fim. durante a vigília. O que ordena morre. ou levemente horrível. que o caráter sonhado era o verdadeiro. São melhores aquelas fantasias puras que não procuram justificativa nem moralidade e que parecem não ter outro fundo além de um obscuro terror.) Ou este. Mais um. Hawthorne era homem de contínua e curiosa imaginação. Isso já basta. atormentando-o terrivelmente". não sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial. ou talvez humilhante. mas Hawthorne se vê na obrigação de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixão maligna". descubra que ela é a única culpada e a causa. mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. Esta. ao pensamento. Outro exemplo. a falseá-las e a deformá-las. digamos assim. como se os dois estivessem em um deserto". misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa. Citarei mais dois esboços.raciocinar. está escrito: "Uma serpente é admitida no estômago de um homem e alimentada por ele. mas refratário. cujo tema também é a escravidão. bem ou mal. Moral: a felicidade está em nós mesmos". dos quinze aos trinta e cinco anos. e são elas mesmas os atores". ou fantástico. que execute uma ação. descobre-se. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que. cujo tema (não ignorado por Pirandello nem por André Gide) é a coincidência ou a confusão do plano estético e do plano comum. Este os atormenta. Foi prejudicado por um erro estético: o desejo puritano de fazer de cada imaginação uma fábula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e. que se trata do homem que legou a casa". de 1836. A explicação seria a percepção instintiva da verdade". digo que pensava por meio de imagens. da realidade e da arte. mas não imaginar. Os sonhos tinham razão. Em um deles. de intuições. de 1838: "Imaginar no meio da multidão um homem cujo destino e cuja vida estão sob o poder de outro. Os herdeiros mudam-se para aí. por fim. por fim. O acontecimento já está ocorrendo. moralmente submisso a ele. encontram um criado sombrio que o testamento proíbe demitir. (Não sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento. que é uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro. que os personagens não se comportem como ele queria. Esta. como costumam pensar as mulheres. Revela-se. O outro é mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenções. a sujeição ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua mansão a um casal pobre.

Hawthorne primeiro imaginava. Das razões acima poder-se-ia deduzir. e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. situações. Os vinte e quatro capítulos que compõem A Letra Escarlate contêm muitas passagens . Esse método pode produzir. pois na Eneida consta que Enéias. Pouco importam os pueris escândalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no príncipe Hamlet. como reflexos e duplicações da arte. As aventuras do Quixote não estão muito bem idealizadas. ou uma série de situações. Pouco importam fatos inacreditáveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou. Não sou romancista. os lentos e antitéticos diálogos – "arrazoados". Situações. também sua própria imagem. ao contrário. acho que o autor os chama assim – pecam por inverossímeis. a trama é mais visível que os atores. modernos. Nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas. ou permitir. ou parecem-nos. quem sabe involuntariamente. em vão. evitar. Tais jogos. Sua origem. que ele propendia à noção panteísta de que um homem é os outros. escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memoráveis de seu romance Victory. mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg é real". quero dizer. porque neles. Esse conto poderia prefigurar seu próprio destino. Hawthorne. e um dos personagens ser ele mesmo". contos admiráveis. onde a forma geral (quando existe) só é visível ao final e onde um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham. mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista. não para surpreender nossa boa-fé. e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. não personagens. chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mármore de um templo e. e sim para definir seus personagens. sua antiga origem. mas não resta dúvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele.previstos por ele e que se aproxime uma catástrofe que ele tentará. Percebe-se nos esboços algo mais grave que as duplicações e o panteísmo. primeiro concebia uma situação. nos esboços que citei. que o ponto de partida de Hawthorne eram. uma situação para só depois procurar personagens que a encarnassem. de antemão. tais momentâneas confluências do mundo imaginário e do mundo real – do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real – são. talvez esteja naquela passagem da Ilíada em que Helena de Tróia tece seu tapete. em geral. também se nota. que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. entre tantas imagens de guerreiros. guerreiro da guerra de Tróia. de que um homem é todos os homens. e o que ela tece são batalhas e desventuras da própria guerra de Tróia. Eu entendo que é assim. Percebe-se que o estímulo de Hawthorne. mas nunca romances admiráveis. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginário e o real. Esse aspecto deve ter impressionado Virgílio. dada sua brevidade.

por fim. teme que o tenham observado e que o denunciem. que seu propósito é investigar a impressão que uma semana de viuvez causará à exemplar senhora Wakefield. abriu a porta de casa e entrou. estende os braços e repete em voz alta: "Não dormirei sozinho outra noite". Duvida. depois de dar algumas voltas. ou então no paraíso. fecha a porta da rua. de . Sai. o caso de um senhor inglês que abandonou a mulher sem motivo algum. no entardecer de um dia de outubro. Durante esse longo período. com fins literários. deita-se. na grande cama vazia. Refletiu sobre o tema. no mais tardar. como se tivesse se ausentado por algumas horas. leva guarda-chuva e malas. mas custa-lhe defini-lo. ou fingiu. (Foi. ausentando-se de casa por toda uma semana. um marido exemplar. incompletas e vagas meditações. não lhe pergunta as razões da viagem.) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entendê-lo. Wakefield. mas capaz de longas.memoráveis. Sabe que tem um propósito. Diz a ela – não podemos esquecer que estamos no início do século XIX – que vai tomar a diligência e que voltará. congratula-se. Wakefield – acho isto admirável – ainda não sabe o que lhe acontecerá fatalmente. e ela recordará esse sorriso e pensará que talvez não seja viúva. custa a acreditar que já está aí. Murmura: "Espiarei minha casa a distância". de grande proeza imaginativa e mental. um homem acanhado. Imaginará o marido no caixão com o sorriso gelado no rosto. egoísta. imaginá-lo. que o sabe aficionado a inofensivos mistérios. sorrindo com astúcia e serenidade. de cartola. despede-se da mulher. dentro de alguns dias. defendido pela preguiça. passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina. perplexo. um marido constante. Descobre. Wakefield está de botas. pergunta-se o que fazer. A mulher. em seguida a entreabre e. até o dia de sua morte. na glória. um dia. passou vinte anos escondido. Caminha. Anos mais tarde. Quase arrependido. distrai-se. incluída nos Twíce-Told Tales. timidamente vaidoso. ociosas. está a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem. No dia seguinte. acorda mais cedo que de costume e. mas nenhum deles comoveume tanto quanto a singular história de Wakefield. Simplesmente. a guardar segredos insignificantes. e muitas vezes avistou sua mulher. Todos acreditarão que está morto. propenso a mistérios pueris. As interpretações do enigma podem ser infinitas. chega ao esconderijo que tinha preparado. o conto "Wakefield" é a história conjetura) desse desterrado. sem ninguém suspeitar. Quando já o davam por morto. quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viúva. Acomoda-se junto à lareira e sorri. Este imagina Wakefield como um homem pacato. sorri. por um instante. A curiosidade o impele para a rua. instalou-se a um passo de sua casa e aí. ter lido no jornal. Hawthorne lera no jornal. vejamos a de Hawthorne. redigidas em boa e sensível prosa. Sai. a mulher recordará esse sorriso último. com a resolução mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher. de sobretudo. Wakefield. o homem.

Sem ter morrido. onde um soluço o estremece. Wakefield emagreceu. "Wakefield! Wakefield! Você está louco!". E assim passam-se dez anos. como que fugindo. Em seu rosto brinca. Cara a cara. sua fronte baixa parece sulcada de rugas. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem . Em sua alma operou-se a mudança moral que o condenará a vinte anos de exílio. embora não o saiba. que é outro. morto. Acostumou-se à tristeza. a longa aventura. contra o adornado forro. Com todo o morno afeto de que seu coração é capaz. mas teme que sua brusca reaparição possa agravar o mal. aterrorizado. Pela janela vê que no primeiro andar a lareira está acesa. Já há muito deixou de saber que sua conduta é estranha. renunciou a seu lugar e a seus privilégios entre os homens vivos. desligou-se do mundo. Parece-lhe ridículo molhar-se quando sua casa. Wakefield voltou. Na memória. como que se ocultando. Repete "logo voltarei". graças ao extraordinário intento que executou. enxerga a miserável singularidade de sua vida. Então recua. agora é extraordinário. passado algum tempo. ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. os dois se cruzam na rua. Wakefield continua amando sua mulher. agora. a milhares de tardes anteriores. já estabelecera uma nova rotina. Wakefield fita a própria casa. A mulher engordou. Wakefield preocupa-se. esta parece-lhe diferente. tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama. Wakefield foge para seu esconderijo. caminha obliquamente. está bem ali. uma única noite causou nele uma transformação. antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias". Wakefield sente uma rajada de frio. volta-se para olhar sua casa. seu rosto. sem se dar conta de que há vinte anos vem repetindo a mesma coisa. de fato. diz a si mesmo. Uma tarde. as chamas lançam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. e talvez não a trocasse pela felicidade. leva na mão um missal e ela inteira parece um emblema de plácida e resignada viuvez. Muda seus hábitos. outro dia. Não sabe. deixa o tempo correr. Nesse ponto começa. um mero parêntese. porque ele já é outro. Por um instante. Hawthorne não nos conta seu destino ulterior. mas deixa adivinhar que ele já estava. os dois olham-se nos olhos. ou quase nunca sabe. de certo modo. Wakefield compra uma peruca ruiva. traiçoeiro. uma tarde igual a outras tardes. Aflige-o a suspeita de que sua ausência não causara suficiente comoção à senhora Wakefield. Começa a chover. enfim. porque. levou-o à própria porta e que está a ponto de entrar. o matreiro sorriso que conhecemos. antes comum. Numa manhã de domingo. os vinte anos de solidão parecem-lhe um interlúdio. Decide não voltar antes de pregar-lhe um bom susto. Talvez esteja.repente percebe que o hábito. e ela o vai esquecendo. seu lar. Um dia o boticário entra na casa. Mentalmente. o médico. Será que alguém o viu? Será que alguém o persegue? Chegando à esquina. A multidão os separa e os perde. "dentro de tantas semanas". Seus olhos miúdos espreitam ou se perdem. Possuído. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. espectral. No centro de Londres. em meio à multidão de Londres.

se há verdade nessa opinião. a estranha circunstância.aparente de nosso misterioso mundo. no mundo de Kafka. mas uma retórica. mas sua volta não é menos lamentável nem menos atroz que sua longa ausência. aliás. Wakefield jamais conseguiria voltar para casa. resolvem destruir o passado. Hawthorne prevê um momento em que os homens. a singular história de Wakefield. foi determinado por Kafka. Uma parábola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas não é. por um momento que seja. as iras e os castigos do Velho Testamento. cada homem vive ajustado a um sistema com tão refinado rigor – e os sistemas entre si. Nessa breve e ominosa parábola – que data de 1835 – já estamos no mundo de Herman Melville. eu gostaria de intercalar uma observação. o Pária do Universo". Se Kafka tivesse escrito essa história. Dirão que isso nada tem de singular. e afina. que contrasta com a magnitude de sua perdição e que o entrega. famosamente. pois o orbe de Kafka é o judaísmo. Nessa ficção alegórica. ainda mais desvalido. Cria-os e de certo modo os justifica. nem pensamento. que não há ato. Hawthorne invoca um passado romântico. Em outras narrações. "Wakefield" prefigura Franz Kafka. Há. Corre o risco de ser. nesta limita-se a uma Londres burguesa. um grande escritor cria seus precursores. A circunstância. sem nenhum demérito de Hawthorne. A dívida é mútua. Para tanto. corre o terrível risco de perder seu lugar para sempre. cujo fim é talvez a variedade. contra o qual se perfila o pesadelo. com todos os diplomas. às Fúrias. cujas multidões lhe servem. com todas as . fartos de acumulações inúteis. que trabalhou no início do século XX. e entre a horrenda história de Wakefield e muitas histórias de Kafka não há apenas uma ética comum. a profunda trivialidade do protagonista. de sentir em um conto de Hawthorne. para ocultar o herói. não deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado. o que seria de Marlowe sem Shakespeare? O tradutor e crítico Malcom Cowley vê em "Wakefield" uma alegoria da curiosa reclusão de Nathaniel Hawthorne. o sabor mesmo dos contos de Kafka. A observação é justa. Há o fundo nebuloso. Aqui. por exemplo. é a que se intitula Earth’s Holocaust: o Holocausto da Terra. a leitura de "Wakefield". Schopenhauer escreveu. e o de Hawthorne. e todos a tudo – que o indivíduo que se desvia. Hawthorne permite-lhe voltar. Assim. mas seu alcance não excede a ética. nem doença que não sejam voluntários. congregam-se ao entardecer em um dos vastos territórios do oeste da América. prejudicada que foi pela preocupação com a ética. No centro acendem uma altíssima fogueira que alimentam com todas as genealogias. Um mundo de castigos enigmáticos e de culpas indecifráveis. redigido no início do século XIX. mas este modifica. como Wakefield. seria possível conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que não faltasse ao universo. A essa planície ocidental chegam homens de todos os confins do mundo.

como é doutrina da escola idealista. Purifiquemos essa esfera interior. que parece fantástica. e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visível fugirão como fantasmas. no qual as figuras mudam. se não sobrepujarmos a inteligência e não tentarmos. com todas as ordens. no qual se encontra a raiz de todo pecado. fez com que Schopenhauer. Hawthorne conclui assim: "O coração. com todas as guilhotinas. com todos os instrumentos de tortura. se o mundo é o sonho de Alguém. comparasse a história a um caleidoscópio. se há Alguém que agora está sonhando-nos e que sonha a história do universo. e que somente destruíram algumas formas. mas não os atores. discernir e corrigir o que nos aflige. com todas as púrpuras. Outro espectador – o demônio – observa que os empresários do holocausto se esqueceram de atirar o essencial. o incêndio geral das bibliotecas não é muito mais importante que a destruição dos móveis de um sonho. Hawthorne assiste com assombro e certo escândalo à combustão. A mente que uma vez os sonhou voltará a sonhá-los. com todos os brasões. com todas as caixas de chá. enquanto a mente continuar sonhando. com todas as tiaras. o coração humano. com todo o dinheiro. Um sonho tão insubstancial que pouco importará que a fogueira. pois. com todas as mitras. A convicção dessa verdade. . e especificamente calvinista. com toda a artilharia. com todos os tambores marciais. essa é a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a miséria do mundo são apenas símbolo. com esse instrumento imperfeito. nada se terá perdido. mas não os fragmentos de vidro. deixou-se levar pela doutrina cristã.medalhas. em seu livro Parerga und Paralipomena. com todas as coroas. aqui tão fielmente descrita. com todas as sacas de café. com todas as constituições e códigos. com todos os títulos de nobreza. com todas as espadas. com todas as bandeiras. com todos os livros. Hawthorne. com todos os títulos de propriedade. da depravação ingênita dos homens e não parece ter percebido que sua parábola de uma ilusória destruição de todas as coisas encerra um sentido filosófico e não apenas moral. a aniquilação das religiões e das artes. seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mãos em vez de um fogo imaginado e uma parábola". toda nossa obra será um sonho. com todos os cetros. Essa mesma intuição de que o universo é uma projeção de nossa alma e de que a história universal está em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History". pois a vasta pirâmide de fogo não consumiu senão aquilo que nas coisas é consumível. com todos os dosséis. com todos os charutos. com todas as cartas de amor. com todos os álcoois. com todos os tronos. o coração. um homem com ar pensativo diz-lhe que ele não deve alegrar-se nem se entristecer. com todos os metais preciosos. com todas as forcas. De fato. aqui. com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. com todas as dalmáticas. a uma eterna e confusa tragicomédia em que mudam os papéis e as máscaras.

A passagem é curiosa. o que é pior.. que no décimo livro da República raciocina deste modo: "Deus cria o Arquétipo (a idéia original) da mesa. medicina ou astrologia. se se preferir. muito seriamente. por certo tempo. em meados do século XVII.. um simulacro". ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados. "O que ele estará fazendo? – pergunta um antigo espectro aos outros. no dia do Juízo Final. este fracassará e será atirado no Inferno. todas as coisas voltam. cedo ou tarde. De Plotino. Tantos literatos. esse mesmo propósito ressurgiu entre os puritanos. No prefácio de A Letra Escarlate. O passado é indestrutível. Os anjos ordenarão ao artífice que a anime. a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres. Corresponde. também. Para extirpar as vãs pretensões da antigüidade. foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram melões no lugar onde haviam sido enterrados"." A passagem é curiosa. conta-se que quase sentia vergonha de habitar um .Quanto à fantasia de abolir o passado. três séculos antes de Jesus Cristo. Outro é o de Maomé. que modo de glorificar a Deus ou de ser útil aos homens. o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e – paradoxalmente – é uma das provas de que o passado não pode ser abolido. não sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China. "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell – conta Samuel Johnson – apresentou-se. salvo os que ensinassem agricultura. Na Inglaterra. que tomou para si o título de Primeiro Imperador. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construção da Grande Muralha. também filho de puritanos. que se apagasse toda a memória das coisas pretéritas e que todo o regime da vida recomeçasse. e uma das coisas que voltam é o projeto de abolir o passado. Outro é o de Platão. o marceneiro. porque encerra uma espécie de confidência e corresponde a escrúpulos íntimos." Ou seja. entre os antepassados de Hawthorne. conta-se. é à abnegação e coragem de obscuros e anônimos homens de letras que a posteridade deve a conservação do cânone de Confúcio. Muitas obras valiosas pereceram. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e proíbe aos homens adorar ídolos. que declarou que toda representação de uma coisa viva comparecerá perante o Senhor. imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance. culpada. Como Stevenson. ao antigo pleito entre a ética e a estética ou. Alguns doutores muçulmanos postulam que a proscrição vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas). entre a teologia e a estética. Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su propôs que a história começasse com o novo monarca. com adversa fortuna. em seu devido tempo e geração? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista. – Está escrevendo um livro de histórias! Que oficio será esse.

Se há algo no autor. para representá-las. fez e procurou fazer da arte uma função da consciência. em seus romances. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler. Essa objetividade. Por volta de 1916. que seja perpetuada a imagem desta imagem?". que a procure em Joseph Conrad ou em Tolstói.corpo e que não permitiu aos escultores a perpetuação de seus traços. O fato de Hawthorne perseguir. Não sei muito bem como justificar minha discrepância. quem tiver fome e sede de objetividade. são as moralidades que ele acrescentava no último parágrafo ou os personagens que idealizava. não sei que utilidade pode resultar da aproximação desses nomes heterogêneos. que os de outras ficções de Hawthorne. Certa vez. ou com a teoria dos romances de Émile Zola. o eventualmente falso. costumavam apresentá-los como seres humanos. como uma espécie de castigo herdado. propósitos de índole moral não invalida. Assim. Quem desejar objetividade. mas sua obra. assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e não são meras projeções do autor ligeiramente disfarçadas. seu testemunho imprescindível. nos três romances americanos e no Fauno de Mármore vejo apenas uma série de situações urdidas com destreza profissional para comover o leitor. não uma espontânea e viva atividade da imaginação. não pode invalidar. pude muitas vezes verificar que os propósitos e teorias literárias não passam de estímulos e que a obra final costuma ignorá-los e até contradizê-los. um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar. compôs moralidades e fábulas. não poderá ser absurda. Ouso discordar dessas autoridades. essa relativa e parcial objetividade. por mais fútil ou errôneo que seja. mais autônomos. sempre a visão germinal era verdadeira. é talvez a razão que levou dois escritores tão agudos (e tão díspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne. se for genuína. para nos limitarmos a um único exemplo. Plotino disse: "já muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. Esta (repito) construiu o argumento . o falso. o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma geração perdura e se prolonga nas subseqüentes. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos. a heroína – são mais independentes. sua obra. ou tolerar. Andrew Lang comparou esse romance com os de Émile Zola. Hei de tolerar. Em Hawthorne. se responder a uma visão genuína. Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que não é ilusória) do modo que sabemos. nenhum propósito. os romancistas da Inglaterra e da França acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemães eram demônios. poderá afetar de modo irreparável sua obra. salvo um momentâneo assombro. ainda. quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrará menos em seus laboriosos romances que em alguma página secundária ou nos leves e patéticos contos. porém. que armava. Os personagens de A Letra Escarlate – sobretudo Hester Prynne.

ainda que brevemente. Foi um tolo alarde de heroísmo o de Cúrcio. pois Roma inteira. Sem dúvida. com vagos monstros e rostos atrozes olhando cá para cima e enchendo de horror os cidadãos que em sua borda se debruçavam. Devemos pisar com muito cuidado. impenetravelmente fundo. Pena ter sido tapado tão depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada. "Essa fenda – disse seu amigo – era apenas uma boca do abismo de escuridão que está abaixo de nós. não leu Victor Hugo – que tampouco leram uns aos outros. para aplacar os deuses. abriu-se no centro do Fórum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano. Hawthorne. Imaginemos o enorme e escuro buraco. Todos os exércitos e os triunfos caíram. como vemos agora... caiu aí. Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporâneos. Li vários fragmentos do diário que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solidão. e quem esteja em busca de novidades as encontrará com mais facilidade nos antigos. e soava a música marcial enquanto se precipitavam. aquela em que o herói se atirou com seu bom cavalo. nessa caverna.geral e as digressões. apesar de alguns excessos. O tema é aquele poço ou abismo que. estava cheio de visões proféticas (cominações de todos os infortúnios de Roma). segundo os historiadores latinos. ou seja. em momentos de sombra e abatimento. com um estrondo de pedras desabando. Não é necessário um terremoto para rompê-la. Reza o texto de Hawthorne: "Admitamos – disse Kenyon – que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna. no final afundamos. Groussac não suportava a possibilidade de um americano ser original. Todos os templos caíram. em toda a parte." . referi. marchando. dois contos. não o entrelaçamento dos episódios nem a psicologia – de algum modo temos de chamá-la – dos atores. segundo seus biógrafos. quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas. seu estilo. agora lerei uma página do Marble Faun para que vocês ouçam Hawthorne. A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta entre esse abismo e nós e que sustenta nosso mundo ilusório. Inevitavelmente. e depois atiraram milhares de estátuas. de intuição. corresponde ao século XVIII. Hawthorne ignorou-os até onde lhe foi possível. de vândalos e dos soldados francos. basta apoiar o pé. "Penso – disse Miriam – que não há pessoa que não lance um olhar nessa fenda. A imaginação de Hawthorne é romântica. Talvez tenha feito bem. não leu De Quincey. talvez nossos contemporâneos se pareçam – sempre – demais a nós mesmos. não leu Keats. em Hawthorne denunciou "a notável influência de Hoffmann". ao pálido fim do admirável século XVIII. de sombras de gauleses. ditame que parece basear-se em uma equânime ignorância de ambos os autores. O Palácio dos Césares caiu. armado e a cavalo.

Até aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razão (da mera razão que não deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir é indefensável. A fenda aberta no meio do fórum é demasiadas coisas. Ao longo de um único parágrafo é a fenda de que falam os historiadores latinos e também a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e também é o horror essencial da vida humana, e também o Tempo, que devora estátuas e exércitos, e também a Eternidade, que encerra os tempos. É um símbolo múltiplo, um símbolo capaz de muitos valores, talvez incompatíveis. Para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos é o de Hawthorne. Uma vez, ele propôs-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerência, as estranhezas e a falta de propósito dos sonhos", e maravilhou-se de que ninguém, até então, tivesse executado algo semelhante. No mesmo diário em que registrou esse estranho projeto – que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vão executar e que talvez só Lewis Carroll tenha realizado –, Hawthorne anotou milhares de impressões banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicável abundância faz a consternação de todos os biógrafos. "Parecem cartas gratas e inúteis – escreve com perplexidade Henry James – dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impressão de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqüentava. Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dúvida, mereciam esse ardente destino. Este é um aposento assombrado, porque milhares e milhares de visões povoaram seu âmbito, e algumas agora são visíveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imóvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora começo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitário e por que não podia romper suas grades invisíveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e áspero e teria o coração coberto do pó terrenal... Na verdade, não passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de visões". A cifra talvez não seja uma hipérbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes são apenas uma pequena parte dos muitíssimos que ele esboçou em seu diário. (Entre os completos há um – "Mr. Higginbotham’s catastrophe" [A morte repetida] – que prefigura o

gênero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utópica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, também amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, até essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfândega de Boston, foi cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florença, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tênue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginações fantásticas. No início desta aula mencionei a doutrina do psicólogo Jung que equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina não parece aplicável às literaturas que utilizam a língua espanhola, clientes do dicionário e da retórica, não da fantasia. Em contrapartida, é adequada às letras da América do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) são mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse traço procede a curiosa veneração que os norte-americanos tributam às obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant é mais importante que Hugo. A razão disso é que para um escritor norte-americano é possível ser Hugo, mas não, sem violência, ser Maupassant. Comparada à dos Estados Unidos, que já deu vários homens de gênio e que influiu na da Inglaterra e na da França, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no século XIX, ela produziu algumas páginas de realismo – algumas admiráveis crueldades de Echeverría, de Ascasubi, de Hernández, do ignorado Eduardo Gutiérrez – que, até agora, os norte-americanos não superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegarão, não é menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o é, mas de um modo alucinatório. De um modo infernal, não terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne. Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqüila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e até podemos inventar a história que ele sonhava – a última de uma série infinita – e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitável, esta deficiente e por demais digressiva lição. Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a série English Men of Letters, de Morley.

Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na próxima aula estudaremos, se a indulgência de vocês tolerar, a glória e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

ele tenha nascido nos estados do Sul e. Ou seja. herói semidivino de Leaves of Grass. Valéry é Edmond Teste. feito em parte dele mesmo. com Whitman. não menos hiperbólico. Daí as discrepâncias que têm exasperado a crítica. Um dos propósitos das composições de Whitman é definir um homem possível – Walt Whitman – de ilimitada e negligente felicidade. é o homem definido pelas composições de Valéry. em outra (também na realidade). daí que. entretanto. Valéry criou Edmond Teste. une-os: a obra dos dois é menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar. Rilke e Eliot escreveram versos mais memoráveis que os de Valéry. Yeats. Assim. como aquele. à primeira vista. não o julgássemos um mero Doppelgänger de Valéry. Para nós. A distinção é válida. magnifica as virtudes mentais. de . as interjeições do corpo. da manhã na América. Joyce e Stefan George efetuaram modificações mais profundas em seu instrumento (talvez o francês seja menos modificável que o inglês e o alemão).VALÉRY COMO SÍMBOLO Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valéry é. A circunstância de que essa personalidade seja. em tal página de sua obra. de uma quase incoerente mas titânica vocação para a felicidade. mas por trás da obra desses eminentes artífices não há uma personalidade comparável à de Valéry. Whitman. Whitman. Valéry é símbolo de infinitas destrezas. as capacidades humanas da filantropia. Um fato. Valéry é símbolo da Europa e de seu delicado crepúsculo. mas também de infinitos escrúpulos. não menos ilusório. Este não magnifica. O orbe inteiro da literatura parece não admitir duas aplicações mais antagônicas da palavra poeta. homem de letras e devoto de Tennyson. Valéry é uma derivação do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebível Deus dos teólogos. Whitman. mas tem a singular virtude de não identificar Whitman. O que. intimamente. em Long Island. verossimilmente. "da riqueza de sua nobre experiência. em parte de cada um de seus leitores. do fervor e da ventura. A sentença é vaga e superlativa. daí seu costume de datar os poemas em territórios que ele nunca conheceu. o poeta inglês Lascelles Abercrombie pôde exaltar Whitman por ter criado. esse personagem seria um dos mitos de nosso século se todos. essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". não é verdade. uma operação arbitrária e (o que é pior) inepta. criado por essa obra. Valéry personifica ilustremente os labirintos do espírito. Whitman redigiu suas rapsódias em função de um eu imaginário.

da terra e da paixão. 1945. é a benemérita missão que desempenhou (que continua desempenhando) Valéry. Buenos Aires. como William Hazlitt. em um século que adora os caóticos ídolos do sangue. De um homem que. dos áugures da seita de Freud e dos comerciantes do surréalisme. nem sequer definem. Paul Valéry deixa-nos. o símbolo de um homem infinitamente sensível a todo fato e para quem todo fato é um estímulo capaz de suscitar uma infinita série de pensamentos. De um homem cujos admiráveis textos não esgotam. suas omnímodas possibilidades. . De um homem que transcende os traços diferenciais do eu e de quem podemos dizer.certo modo. de Shakespeare: "He is nothing in himself". Propor lucidez à humanidade em uma era baixamente romântica. na melancólica era do nazismo e do materialismo dialético. preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem. ao morrer. uma projeção da obra não minimiza o fato.

os textos de Plotino. Nizam chega à dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto à sombra de sua ventura. que no vocabulário do Islã é o Platão Egípcio ou o Mestre Grego. nasce na Pérsia. É ateu. Nos intervalos da astronomia. juram que. Certa crônica diz que ele acredita. e de Avicena. porque todo homem culto é um teólogo. que será vizir de Alp Arslan.. Umar está lendo um tratado cujo título é O Uno e os Múltiplos. ou faz de conta que acredita. futuro fundador da seita dos Hashishin. o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras. e para sê-lo não é indispensável ter fé. o conquistador do Cáucaso. número exíguo que será desfavorável a sua glória. Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composições de quatro versos. e com Nizam al-Mulk. no século XI da era cristã (esse século foi para ele o quinto da Hégira). e aprende o Alcorão e as tradições com Hassan Ibn al-Sabbah. na qual se argumenta que o universo é uma emanação da Unidade. Levanta-se. na solidão de sua biblioteca. para as de terceiro. manda apunhalar o vizir. Os arcanos do número e dos astros não esgotam sua atenção. Dizem-no prosélito de Alfarabi. (Hassan pede e obtém um cargo elevado e. mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difíceis passagens do Alcorão. dos quais o primeiro. assinala a página que seus olhos não voltarão a ver e reconcilia-se com Deus. lê. Os três amigos. para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemáticas. Umar Ibn Ibrahim. colabora na reforma do calendário promovida pelo sultão e compõe um famoso tratado de álgebra. se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles. Morre nesse mesmo .. da álgebra e da apologética. que entendeu que as formas universais não existem fora das coisas. Anos mais tarde. um mal-estar ou uma premonição o interrompe. nas transmigrações da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitágoras falara com um cão. que oferece soluções numéricas para as equações de primeiro e segundo graus e geométricas.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma pensão anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. No ano 517 da Hégira. o agraciado não se esquecerá dos outros dois. pois na Pérsia (como na Espanha de Lope e de Calderón) o poeta deve ser fecundo. meio brincando. o segundo e o último rimam entre si. e retornará à Unidade.O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD Um homem. mediante a intersecção de cônicas. Descrê da astrologia judiciária. ou Assassinos. com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas árduas páginas de sua álgebra. por fim. que ensinou que o mundo é eterno. e as cinqüenta e tantas epístolas da herética e mística Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. mas cultiva a astronomia. meio a sério.

Em 1859 publica a primeira versão do Rubaiyat. um poema inglês com referências persas. solitário e maníaco. o Simurg. FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino é a literatura e a ensaia com indolência e tenacidade. É amigo de pessoas ilustres (Tennyson. em uma ilha ocidental e boreal que os cartógrafos do Islã desconhecem. Alguns críticos entendem que o Omar de FitzGerald é. feita sem outra lei afora a ordem alfabética das rimas. Umar professou (sabemos) a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. Acontece um milagre: da fortuita conjunção de um astrônomo persa que condescendeu à poesia e de um inglês excêntrico que percorre. que fica além dos sete mares. mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos. Carlyle. a despeito de sua modéstia e cortesia. Por esses anos. Thackeray). e seu amor estende-se ao dicionário em que procura as palavras. a epopéia mística dos pássaros que procuram seu rei. Por volta de 1854. afinou e inventou. com suas luzes. livros orientais e hispânicos. e medíocres versões de Calderón e dos grandes trágicos gregos. FitzGerald interpolou. sensível ao que há de romântico e de clássico nesse livro sem par. mas resolve não abusar desse módico privilégio. Dickens. talvez sem entendê-los por completo. no fim. se os astros forem propícios. as da noite e da sepultura. Lê e relê o Quixote. O caso convida a conjeturas de índole metafísica. alguém lhe empresta uma coleção manuscrita das composições de Umar. porém talvez mais sensível e mais triste. ricas em variações e escrúpulos. passados os séculos. e Chesterton. menos intelectual que Umar. e finalmente arribam a seu palácio. de fato. A esse propósito improvável e até inverossímil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente. às quais não se sente inferior. que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas não quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil). observa que ao mesmo tempo há nele "uma melodia que escapa e uma inscrição que dura". Entende que. Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perpétuo entre os maiores poetas da Inglaterra". surge um extraordinário poeta. e na Inglaterra nasce um homem. a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para . seguida de outras. e descobrem que eles são o Simurg e que o Simurg é todos e cada um deles. Publicou um diálogo decorosamente escrito. FitzGerald verte uma para o latim e entrevê a possibilidade de tecer com elas um livro contínuo e orgânico em cujo princípio estejam as imagens da manhã. FitzGerald. da rosa e do rouxinol e. um rei saxão que derrotou um rei da Noruega é derrotado por um duque normando. todo homem cuja alma encerre um mínimo de música pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e começou uma tradução de Mantiq al-Tayr. agonias e mutações. Sete séculos se passam. à hora do pôr-do-sol. que não se parece com nenhum dos dois.dia. Euphranor.

para nossa felicidade. Deus ou faces momentâneas de Deus. as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um único poeta. ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoiá-la ou instruí-la. por volta de 1857. essa especulação (cujo nome técnico é panteísmo) permitiria pensar que o inglês pôde recriar o persa porque ambos eram. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou leões. Isaac Luria. e a morte. representa e contempla. na de FitzGerald. o Leão. analogamente. Toda colaboração é misteriosa. No Rubaiyat lê-se que a história universal é um espetáculo que Deus concebe. mais do que nenhuma. . entre o inglês e o persa. esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford. o poema. Mais verossímil e não menos maravilhosa que tais conjeturas de índole sobrenatural é a suposição do acaso benéfico. configuraram. o destino literário que em Nishapur as matemáticas reprimiram. em um longínquo idioma germânico entremeado de latim. a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpúreas sobre papel amarelo. essencialmente.cumprir. porque os dois eram muito diferentes e é provável que em vida não tivessem entabulado amizade. Esta. talvez a alma de Umar tenha-se hospedado.

mas todas correspondem. o vocabulário do poema "The sphinx" é estudiosamente magnífico. desolate else. E evocar o exangue crepúsculo do século XIX e essa opressiva pompa de hibernáculo ou de baile de máscaras. 2). ou tenta parecer espontânea.SOBRE OSCAR WILDE Mencionar o nome de Oscar Wilde é mencionar um dandy que também foi poeta. Ela se apóia em um cúmulo de circunstâncias: em torno de 1881. a noção de que Wilde foi uma espécie de simbolista. por exemplo. ou The Harlot’s House. ou descuidam deles. a verdades parciais e contradizem fatos notórios. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de púrpura). As notas miscelâneas que ele prodigalizou . ou Symphony in Yellow –. é também justo. dez anos mais tarde. sua obra não encerra um único verso experimental. Consideremos. como este duro e sábio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ. left by mankind". Dentre os muitos escritores britânicos. Também é evocar a noção da arte como um jogo seleto ou secreto – à maneira da tapeçaria de Hugh Vereker e de Stefan George – e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plínio. Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos. conteria meros artifícios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepúsculos del Jardín. Leitores incapazes de decifrar um parágrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lêem Lady Windermere’s Fan em uma mesma tarde. Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James. a sintaxe de Wilde é sempre simplíssima. é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de causar assombro com gravatas e metáforas. afirmo. quase sempre. Se a obra de Wilde correspondesse à natureza de sua fama. expressão a ele atribuída por Ricketts e Hesketh Pearson. nenhum é tão acessível aos estrangeiros. A métrica de Wilde é espontânea. mas que já aparece no exórdio da Epístola aos Pisões. Nenhuma dessas evocações é falsa. A insignificância técnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrínseca. Essa atribuição confirma o hábito de vincular ao nome de Wilde a noção de passagens decorativas. Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarmé. XXVIII. The Soul of Man under Socialism não é apenas eloqüente. mas sua índole adjetiva é notória. É refutada por um fato capital: em verso ou em prosa. percebo algo que seus panegiristas parecem não ter sequer suspeitado: o fato constatável e elementar de que Wilde. tem razão. Wilde dirigiu os estetas e. os decadentes. A obra de Wilde é povoada desses artifícios – basta lembrar o décimo primeiro capítulo de Dorian Gray. III) de impor "o selo da classe média" à última dessas seitas.

que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol. uma invulnerável inocência. de que não há homem que não seja. Este. ao julgamento e à prisão. ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol).1 não indigna de Léon Bloy ou de Swedenborg. mas não a sentenças como a de que a música nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist). O nome de Oscar Wilde é associado às cidades da planície. que tanto escandalizou Arnauld: "A noção de cada indivíduo encerra a priori todos os fatos que a este hão de ocorrer". a curiosa tese de Leibniz. como Voltaire. o fato de Alexandre. p. o sabor fundamental de sua obra é a felicidade. como Johnson. Chesterton é um homem que quer recuperar a infância. essa dificuldade não os faz menos plausíveis. ainda por cima. foi um homem engenhoso que. em que pese aos hábitos do mal e ao infortúnio. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde. a cada instante. 2 A sentença é de Reyes. morrer na Babilônia é uma qualidade desse rei. Ao contrário de Chesterton. o Grande. Uma observação à margem. um clássico". foi muito mais que um Moréas irlandês. se não me engano. ao estilo de Ramón Llull. que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. Wilde. Como Chesterton. Não transcrevo essas linhas para a veneração do leitor. pois o prazer que seu trato nos proporciona é irresistível e constante. sempre se esquecem"). como Boswell.2 Deu ao século o que o século exigia – comédies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos – e executou coisas tão díspares com uma sorte de negligente felicidade. ou aquela. pode. um homem que conserva. às vezes. aquilo que foi e que será (ibidem). Foi. Wilde é daqueles afortunados que podem prescindir da aprovação da crítica e até. da aprovação do leitor. vistos uma vez. se atribui a Wilde. em geral. sua glória. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatória. como a soberba. 1 Cf. foi um homem do século XVIII. para dizer de uma vez as palavras fatais. "em suma. alego-as como indício de uma mentalidade muito diversa daquela que. assumir as formas do espanto. isso talvez seja aplicável a alguma de suas boutades ("um desses rostos britânicos que. na página mais inócua. sua obra é tão harmoniosa que pode parecer inevitável e até banal. Foi prejudicado pela perfeição. . tinha razão. ou aquela outra de que se arrepender de um ato é alterar o passado (De Profundis). Segundo esse fatalismo dialético. Como Gibbon. Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem). como Lang. Nela espreitam o diabólico e o horror. tido como modelo de saúde física e moral.na Pall Mall Gazette e no Speaker são fartas de perspícuas observações que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury. mas cuja valorosa obra sempre está a ponto de se converter em pesadelo. 158).

no fim. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério. um símbolo ou espelho de Chesterton. supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma. Antes. Chesterton pensou. como Whitman. The Poet and the Lunatics. Chesterton acreditou na Idade Média dos prérafaelistas ("Of London. Chesterton. The Paradoxes of Mr. Tais crenças podem ser justas. ao contrário. que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão. convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. CHESTERTON: A Second Childhood. Como todo escritor . mas o interesse que despertam é limitado.SOBRE CHESTERTON Because He does not take away The terror from the tree. Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial. Chesterton foi católico.. small and white. os católicos exaltam Chesterton. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções. prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. não de artifício retórico. and clean”). Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate. os livre-pensadores o negam. propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para.. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much. Neste país. nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton. Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial. Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie. substituí-las por outras que são deste mundo.

Seu caso é semelhante ao de Kipling. e menos. Pergunta se porventura um homem tem três olhos. Define o próximo pelo distante. se fala dos próprios olhos. por si só.. Tais exemplos. 222). nos ocidentais. VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais. Chesterton fala com os pais do Super-Homem. uma torre. depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. fala. dá penas. em vez de folhas. contra os panteístas. estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano. que uma árvore. é malvada. 2). mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo. ou um pássaro três asas. em que se diz que nos céus. IV. mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos. depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe. 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos". fala de uma árvore que devora os pássaros e que. Chesterton é julgado por causa disso. "um terrível cristal". de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto. ele é mais belo que Apolo. Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens. cuja arquitetura. assim como o Urizen atormentado de Blake. Morre vítima de uma corrente de ar. Visto de nosso plano inferior. claro que. o ar e a água. provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka. é natural que sua obra seja fértil em formas do terror.1 fala de uma prisão de espelhos. e. Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm.. no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra. algo secreto. XXVIII. 22). perguntados sobre a beleza do filho. Esse 1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto"). mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes. que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico. imagina (The Man Who Was Thursday. "the stuff his dreams were made of".que professa um credo. ."). fala de um homem devorado por autômatos de metal. algo. Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos. nomeia-os com palavras de Ezequiel (1. que seria fácil multiplicar. e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. Poe e Baudelaire. um monstrorum artifex (Plínio. se da noite. que não sai de um quarto escuro. a estrutura é muito outra"). Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos. cego e central. propuseram-se criar um mundo de espanto. aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4. o fogo. e até pelo atroz. é reprovado ou aclamado por isso. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. depois traduzidos por Rückert (Werke. fala de um labirinto sem centro. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand.

em geral. no nono capítulo de O Processo. Ver Glatzer: In Time and Eternity. um fato inexplicável. senhor". (Kafka comenta essa parábola. Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola. e sim do confuso é a tarefa que. As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros. O homem senta-se para esperar. O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. cada uma das quais pretende explicar. complicando-a ainda mais.desacordo. até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo. até que ele morre. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira. Isso é tudo. símbolos e espelhos de Chesterton. ou seja. que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história. que se interpõem entre o pecador e a glória. Recordo duas parábolas opostas. . as aventuras do padre Brown. Emblemas dessa guerra são. junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. 3O. Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome. Em sua agonia. no parágrafo inicial desta nota. 92. Passam-se os dias e os anos. também Martin Buber: Tales of the Hasidim. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. para mim. pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?". Agora vou fechála". mas a fé católica. de Bunyan. mediante a pura razão. com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão. 3 A noção de portas atrás de portas. um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles. aparece no Zohar.2 Por isso afirmei. essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. cada qual mais forte que o anterior. Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas. os autores de romances policiais se impõem.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress. O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras3 e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião. 2 Não a explicação do inexplicável.

a Lytton. perguntado acerca de Wells. Todos o sentimos assim. . em The Outline of History (1931).O PRIMEIRO WELLS Harris conta que Oscar Wilde. um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe. a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. um homem que volta de outra vida com o coração à direita. um navio mais extenso que os de 1872. a fotografia falante. assim como a Rosney. Em algum lugar li que Verne. ou em aniquilá-lo. Wells e Júlio Verne são. As razões que acabo de citar parecem-me válidas. O parecer é de 1899. que em mudar de assunto. a Robert Paltock. Wells. Há outra diferença. percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells. para todas as idades do homem. a travessia da África em balão. Verne. a descoberta do Pólo Sul. mas o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se baseia pode não ser inútil.1 A maior felicidade de seus argumentos não basta para elucidar a 1 Wells. G. disse com indignação: "Il invente!". um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte). H. porque foi inteiramente invertido. uma flor que devora um homem. exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e Luciano de Samósata. nomes incompatíveis. um trabalhador esforçado e risonho. em meras possibilidades (um homem invisível. as crateras de um vulcão extinto que levam ao centro da terra). mas não explicam por que Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac. quando não em coisas impossíveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura. já apontada em algum momento pelo próprio Wells: as ficções de Verne transitam em coisas prováveis (um navio submarino. as de Wells. Wells (antes de resignar-se a especulador sociológico) foi um admirável narrador. escandalizado com as licenças que The First Men in the Moon se permite. A mais notória dessas razões é de ordem técnica. Verne escreveu para adolescentes. respondeu: – E um Júlio Verne científico. agora. como em um espelho.

o conciliábulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil é o Vaticano e é Lhassa. tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto. toleramos que Deus afirme (Êxodo 3. agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells. escreveu Spinoza (Ética.questão. como Hegel ou Anselmo. não de arrazoados. o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que a arte exige de nós. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambigüidade. porque suas pálpebras não vedam a luz. é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. Moreau. os melhores romances policiais não são os de melhor argumento. os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestáveis. em meu entender. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não entendê-lo por completo. é um espelho que delata os traços do leitor e é também um mapa do mundo. Deus não deve teologizar. esse não é o meu caso. A realidade atua por meio de fatos. não para o prazer da leitura. Em livros não muito breves. Isso pode ser observado em todos os gêneros. não existiria o Quixote e Shaw valeria menos que O ´Neill. o argumento não pode ser mais que um pretexto. por exemplo. Além do mais. 17). sabemos que é falível. este deve parecer ignorante de todo simbolismo. ou The Invisible Man – deve-se a uma razão mais profunda. É importante para a execução da obra. Com essa lúcida inocência Wells procedeu em seus primeiros exercícios fantásticos. O acossado homem invisível que é obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos. como o Apóstolo. assim que ele se rebaixa a arrazoar. Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinações da "Prússia". Deus. Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se às doutrinas contrárias às suas. podemos confundi-lo com o universo ou com Deus. . a precedência dos primeiros romances de Wells – The Island of Dr. o argumentum ontologicum. quase a despeito do autor. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência. O que eles narram não é apenas engenhoso. podemos considerá-lo onisciente. ou um ponto de partida. não odeia ninguém nem ama ninguém. 5. (Se os argumentos fossem tudo.) Em minha opinião. Duvidamos de sua inteligência. mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narrações. que são. é tudo para todos. Bom herdeiro dos nominalistas britânicos. como duvidaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. o mais admirável de sua obra admirável. 14) "Eu Sou Aquele que Sou". parece confessar que este não é inevitável para ele. mas não que declare e analise. espelha nossa solidão e nosso terror. mas não a circunstância de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. Evidentemente.

Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou. Wells é menos um literato que uma literatura. como Voltaire. talvez sejam os últimos. construiu enciclopédias. redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima. . como mais algum outro. The Plattner Story. prodigou parábolas sociológicas.. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens. The First Men in the Moon.Como Quevedo. registrou vidas reais e imaginárias. Moreau. para além dos limites da glória de quem os escreveu. historiou o futuro. "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico". o nazismo e o cristianismo. ampliou as possibilidades do romance. combateu o comunismo. reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó. polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc. como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus. como Goethe. à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão. The Island of Dr.. São os primeiros livros que eu li. historiou o passado. Penso que haverão de incorporar-se. para além da morte do idioma em que foram escritos. nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine.

1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr. . e as abelhas. (Elegies. até o pelicano. em 1644. que se matou para ocultar os estragos de uma doença de pele"). behind. 336) resume assim: o suicídio é uma das formas do homicídio.O BIATHANATOS Devo a De Quincey (com quem minha dívida é tão vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informação sobre o Biathanatos. segundo a boa lógica. Assim como nem todo homicida é um assassino. favorito de Domiciano. ou sobrecarregada. que. "para defendê-lo do fogo". nem todo suicida é culpado de pecado mortal. between. "matam-se quando infringem as leis de seu rei". O my America! my new-found-land. a omissão de outros de 1 De que ele realmente foi um grande poeta são prova estes versos: Licence my roving hands and let them go Before. símbolo do amor paternal. De fato. VII. Donne morreu em 1631. que é declarada no subtítulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada. o filho primogênito do poeta deu o velho manuscrito à estampa. por um douto catálogo de exemplos fabulosos ou autênticos. below. sem nenhuma proibição exceto a de dá-lo "à estampa ou ao fogo". XIX) 2 Cf. above. O Biathanatos tem por volta de duzentas páginas. os canonistas distinguem o homicídio voluntário do homicídio justificável. VIII.. que De Quincey (Writings. Três páginas ocupa o catálogo. 1). essa é a tese aparente do Biathanatos. Esse tratado foi composto no início do século XVII pelo grande poeta John Donne. essa distinção também deveria ser aplicável ao suicídio. em 1642 eclodiu a guerra civil. segundo consta no Hexameron de Ambrósio. de Homero. e nelas pude notar esta vaidade: a inclusão de exemplos obscuros ("Festo.2 "que mil coisas escreveu que ninguém além dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por não ter entendido a adivinha dos pescadores".. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega.

não menos em sua morte que em outros atos. que poderiam parecer fáceis demais. viu nesse problema casuístico apenas uma sorte de metáfora ou simulacro. Donne. 1. 30). que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos é. matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Españoles. que afirma que Sansão. Donne. ridículo. Não lhe interessava o caso de Sansão – e por que haveria de interessar-lhe? – ou só lhe interessava. Temístocles.virtude persuasiva – Sêneca. é artificial. transcreve as últimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingança: "Morra eu com os filisteus" (Juízes 16. encerra o capítulo com uma sentença de Benito Pereiro. mesmo que momentânea ou crepuscular. e seu irmão Seth. Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta está aberta") e Schopenhauer ("Seria o monólogo de Hamlet a reflexão de um criminoso?") vindicaram o suicídio em abundantes páginas. para São Paulo. Abel representa a morte do Salvador. 8). digamos. a hipótese de um livro que para dizer A diz B. não foi culpado pelas mortes alheias nem pela própria. suspeito. mas não a de um trabalho animado por uma intuição imperfeita. e sim que obedeceu a uma inspiração do Espírito Santo. para Quevedo. I. na terceira parte do Biathanatos. foi símbolo de Cristo. Começa por estabelecer que esse "homem exemplar" é emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arquétipo de Hércules. V. Milton (Samson Agonistes. examina as mortes voluntárias relatadas nas Escrituras. ao derrubar os pilares do templo. a prévia certeza de que esses defensores têm razão faz com que os leiamos com negligência. naturalmente. a ressurreição. Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicação do suicídio com o próprio suicídio. um argumento implícito ou esotérico sob o argumento notório. in fine) defendeu-o da acusação de suicídio. Também recusa a conjetura de Santo Agostinho. Isto me parece mais verossímil. Donne . Invertendo a tese agostiniana. "por violência do demônio. que diz que Sansão. à maneira de um criptograma. 20). Donne. para refutá-los. chamou-o à tarefa. "como a espada que dirige seus gumes pela disposição de quem a empunha" (A Cidade de Deus. Adão é imagem daquele que viria. como "emblema de Cristo". "prodigioso esboço foi Jó de Cristo". Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma antevisão desse argumento. Donne. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos até que percebi. Francisco de Vitoria e o jesuíta Gregorio de Valencia negaram-se a incluí-lo entre os suicidas. para Santo Agostinho. Catão –. depois de provar que essa conjetura é gratuita. os quietistas acreditaram que Sansão. Não há no Antigo Testamento herói que não tenha sido alçado a essa dignidade. a nenhuma dedica tantas páginas como à de Sansão. ou julguei perceber. que Donne tenha aventado essa idéia é possível ou provável.

infere que o suplício da cruz não matou Jesus Cristo e que. na verdade. e as gerações de homens. Sob sua influência (e talvez sob a dos gnósticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que. II. Mainländer nasceu em 1841. Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (João 10. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. preferiu não insistir sobre um tema blasfemo. bem pode ser falso. e Egito. ele se matou. para a ferida. dito de Cristo". a vida e a morte de Cristo são o acontecimento central da história do mundo. Dessas passagens. penso naquele trágico Philipp Batz. dito de Sansão. Nesse mesmo ano. e Roma. destruiu a si mesmo. antes de o firmamento separar as águas das águas. O capítulo que fala diretamente de Cristo não é efusivo. em 1631 incluiu-a em um sermão que proferiu. os seguintes o refletem. quase agonizante. O declarado fim do Biathanatos é atenuar o suicídio. Ele foi. Filosofia da Redenção. indicar que Cristo se suicidou. e o orbe. para explicitar essa tese. . este se matou com uma prodigiosa e voluntária emissão de sua alma. Sou eu mesmo que a dou" (João 10. e Judá foram tirados do nada para destruí-lo. na capela do palácio de Whitehall. 2. De Quincey: Writings. leitor apaixonado de Schopenhauer. 15) e a curiosa locução "entregou o espírito". que na história da filosofia é chamado Philipp Mainländer. Essa idéia barroca insinua-se por trás do Biathanatos. publicou seu livro. sem dúvida. terse limitado a um versículo de São João e à repetição do verbo "expirar" é algo inverossímil e até inacreditável. e o sangue e a água. Cristo morreu de morte voluntária. ávido de não ser. Ao reler esta nota. criou a terra e os céus.3 O fato de Donne. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos. os séculos anteriores o prepararam. 3 Cf. 18). A de um deus que constrói o universo para construir seu patíbulo. e Babilônia. para a coroa do escárnio. que os quatro evangelistas utilizam para dizer "morreu". não o é. no princípio dos tempos. o Pai já sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e. VIII. sugere Donne. em 1876. e os espinhos. Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft. o fundamental.incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior. Para o cristão. confirmadas pelo versículo "Ninguém tira a vida de mim. para teatro dessa morte futura. 398. Donne escreveu essa conjetura em 1608. e isso quer dizer que os elementos. Antes de Adão ser moldado do pó da terra. como eu.

subseqüente. que abordam. encontrou Deus. lembro-me. Assim como a definição quintessence of dust não nos ajuda a entender os homens.PASCAL Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. nunca vi nesses memoráveis fragmentos uma contribuição para os problemas. não encontrei a passagem que procurava. acusa Pascal de uma dramatização voluntária. mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francês. O mundo de Pascal é o de Lucrécio (e também o de Spencer). ilusórios ou verdadeiros. as palavras trêmulas de um homem que se sabe nu até as entranhas sob a vigilância de Deus. a definição roseau pensant não nos ajuda a entender os homens. porque. mas apenas um homem. como predicados do sujeito Pascal. Diz o Apóstolo (I Coríntios 13. sua obra reflete a vertigem de um teólogo. creio. não há nada no universo que não sirva de estímulo ao pensamento. não haverá realmente um quando. Pascal menciona com desdém "a opinião de Copérnico". no espaço. Percorri. Nesta. Certamente. 12): "No presente vemos por espelho e . se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. como traços ou epítetos de Pascal. a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente. para nós. desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. tampouco haverá um onde. No primeiro. mas. antes. Valéry. mas sim seu exato reverso. quanto a mim. Vi-os. Pascal. e que talvez não exista. as Escrituras. E bem verdade que este busca Deus e aquele propõe-se libertar-nos do temor aos deuses. e sim o príncipe Hamlet. dizem. basta lembrar o famoso fragmento 207 da edição de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro. o fato é que seu livro não projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialético. ele foi incomparável. mas sua expressão dessa graça é menos eloqüente que sua expressão da solidão. que fala da "infinita imensidão de espaços que ignoro e que me ignoram". porque. Pascal. No tempo. e sim de um poeta perdido no tempo e no espaço. cheguei a pensar que essa exclamação fosse de origem bíblica. se futuro e passado são infinitos.

o editor cita passagens congêneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura. No segundo parágrafo. publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmológica de Santo Tomás e de Leibniz. 9. Empédocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita.2 Importa-se menos com Deus que com a refutação daqueles que o negam. inclui-se entre os cristãos denunciados por Swedenborg. Por exemplo. é evidente que tal fim foi alcançado. 17). que a dá como de Platão. 3 A de Zacharie Tourneur (Paris. então veremos face a face. Essa edição3 propõe-se reproduzir. não sabem falar com os anjos. Não menos exemplar é o caso do fragmento 72. para ilustração do fragmento 1 Que eu me lembre. 1941). que é a do órgão visual. As notas. um dos mais vãos e frívolos. Cf. Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111. . caberia citar os textos de Arnobio. a história não registra deuses cônicos. que a atribui a Hermes Trismegisto. então conhecerei como agora sou conhecido". Não é um místico. é um dos homens mais patéticos da história da Europa. é perfeita e convém à divindade (Cícero: De Natura Deorum. que supõem que o céu é um prêmio e o h-demo um castigo e que. o significativo é que a metáfora que Pascal usa para definir o espaço foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade. declarando em palavras incorruptíveis a desordem e a miséria (on mourra seul). não um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma.obscuramente. Pascal afirma que a natureza (o espaço) é "uma esfera infinita cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". ou no simbólico Roman de Ia Rose. Na opinião de alguns historiadores. ao contrário. Isso pouco importa. o insigne panteísta Giordano Bruno (Da Causa. A forma da esfera. Orígenes entendeu que os mortos ressuscitarão em forma de esfera. Antes de Pascal. o céu e o inferno são estados que o homem busca com liberdade. híspido e confuso" do manuscrito. habituados à meditação melancólica. 2 De Coelo et Inferno. aplicando o cálculo de probabilidades às artes apologéticas. No presente conheço só em parte. Este. o aspecto "inacabado. embora registre ídolos. 535. mediante um complexo sistema de sinais tipográficos. esse trabalho poderia ser ampliado. também Bernard Shaw: Man and Superman. são pobres. Para ilustração do Pari. de Sirmond e de Algazel indicados por Asín Palacios (Huellas del Islam.1 Não a grandeza do Criador. e sim a grandeza da Criação perturba Pascal. Para Swedenborg. em compensação. cúbicos ou piramidais. 34). aos anjos. Madri. 13). o editor não a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrédulo". 1942). Ao pé de alguns textos.11. Esférico foi Deus para Xenófanes e para o poeta Parmênides. como para Boehme (Sex Puncta Theosophica. V) aplicou a sentença de Trismegisto ao universo material. III. na página 71 do primeiro volume.

um simulacro do arquétipo. o simulacro de um simulacro. Pascal (que também pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxágoras de que tudo está em cada coisa) pôs esses mundos idênticos um dentro do outro.contra a pintura. onde se diz que Deus cria o arquétipo da mesa. onde homens iguais cumprem.”).. o marceneiro.. . de tal sorte que não há átomo no espaço que não encerre universo nem universo que não seja também um átomo. sem nenhuma variação. sua prefiguração no conceito de microcosmo. e o pintor.. aquela passagem do décimo livro de A República. Demócrito pensou que no infinito há mundos iguais. destinos iguais. para ilustração do fragmento 72 (" Je lui veux peindre l´immensité. sua reaparição em Leibniz (Monadologia.... dans 1´enceinte de ce raccourci d´atome. É lógico pensar (embora ele não o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim. 67) e em Hugo (La Chauve-Souris): Le moindre grain de sable est un globe qui roule Traînant comme la terre une lugubre foule Qui s´abhorre et s´acharne.

Wright Henderson. sem nenhuma corroboração.). felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola". pela criptografia. The Life and Times of John Wilkins (1910). Todos nós. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia. essa mesma Real Academia elabora. pela música. se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres. consultei. A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 páginas in-quarto. Delphos (1935) de E. Por outro lado. etc. Sylvia Pankhurst. o Wörterbuch der Philosophie (1924). Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua". príncipe palatino. mas condenável. nada se pode acrescentar a tais debates. pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. Dangerous Thoughts (1939). esbanjando interjeições e anacolutos. jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon”. 1668). de P A. de Lancelot Hogben. Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford.. mas trata-se de pura vanglória. Wilkins morreu em 1672. de Fritz Mauthner. em algum momento. Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional. Essa omissão é justa. Wilkins foi capelão de Carlos Luís. a cada . todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos. já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama. excetuando as palavras compostas e as derivações. se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614. pela confecção de colméias transparentes. pela trajetória de um planeta invisível. Não há edição da Gramática de Ia Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos. para redigir esta nota. pela possibilidade de uma viagem à lua.O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins.

teto. a cada diferença. Descartes. Wilkins divide-as em comuns (pederneira. ferrugem) e naturais (ouro. abo. um para cada número inteiro. geral. ab. Zero escreve-se 0.. a quer dizer animal. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso. que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. a cada espécie. cascalho. oblongo. poste. lazareto. John Wilkins. cinco 101. . No idioma análogo de Letellier (1850). imedo. encadernar. Consideremos a oitava categoria. greda e arsênico). imede. pilar. uma consoante. seis 110. um dicionário que define os vocábulos do espanhol. bire. deb.. é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo. uma vogal. imafe. que é o dos algarismos. o mais simples requer apenas dois. imaba quer dizer edifício. piso. abiv. estanho. transparentes (ametista. Definido o procedimento de Wilkins. âmbar. falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. acometeu o intento. sete 111. um 1. azougue) artificiais (bronze. No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII. refere-se a um peixe vivíparo. imego. subdivisíveis em diferenças. por sua vez subdivisíveis em espécies. Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros. cada palavra define-se a si mesma. Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. do doutor Pedro Mata.1 ele também propôs a formação de um idioma análogo. oito 1000. imaca. latão). dois 10. aboj. três 11.. quer dizer elemento. por volta de 1664. a das pedras. cada uma das letras que as integram é significativa. depois. serralho. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845). recrementícios (limalhas. coral). elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta. piçarra). Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras. felino. safira) e insolúveis (hulha. eqüino. o número de sistemas numéricos é ilimitado.) As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários. imafo. Por exemplo: de. que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching. carnívoro. uma chama. cobre). em uma epístola com data de novembro de 1629. encadernador. como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. imarri. Essas ambigüidades. deba. imaru. A beleza figura na décima sexta categoria. o fogo. abi. módicas (mármore. mamífero. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal. birer. hospital. herbívoro. etc. preciosas (pérola. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos. casa. o primeiro dos elementos. já anotara que. uma porção do elemento fogo. gato.tantos anos. É invenção de Leibniz. no colégio. mediante o sistema decimal de numeração. imogo. aboje.. redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 1 Teoricamente. opala). quatro 100. janela. imela. chácara.

alvo de zombaria dos deuses superiores. xintoísmo e taoísmo. de carne avermelhada.Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos.. Pode-se ir além. notoriamente. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador. a 268 às escolas dominicais. que tenha essa ambiciosa palavra. que esses matizes. A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode. (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo. a 282 à Igreja Católica Romana. Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas. mesmo sabendo que eles são provisórios. budismo. sem dúvida. falta conjeturar seu propósito. Virtudes e qualidades idades várias”. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1. a 263 ao Dia do Senhor. define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso. o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo.. (g) cães soltos. (n) que de longe parecem moscas. a 298 ao mormonismo. a 179: "Crueldade com os animais. (i) que se agitam como loucos. talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. correspondendo a 262 ao Papa. as sinonímias do secreto dicionário de Deus. unificador. no entanto. em todas as suas fusões e conversões. dissuadir-nos de planejar esquemas humanos. "O mundo – escreve David Hume – talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade. (f) fabulosos. 1779). (c) amestrados. passado e vindouro. o vocábulo correspondente. Crê que mesmo de dentro . Se houver. Não recusa as subdivisões heterogêneas. contudo. não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos. A palavra salmão não nos diz nada. V. pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico. Vícios e defeitos vários. falta conjeturar as palavras. Proteção dos animais. que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion. (h) incluídos nesta classificação. ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada. envergonhado de sua execução deficiente. engenhoso. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. fluvial. zana. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Crê. as definições. e a 294 ao bramanismo.000 subdivisões. (m) que acabam de quebrar o vaso.) Esperanças e utopias à parte. as etimologias. não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino. (l) etcétera. (e) sereias. Verbi gratia. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. (b) embalsamados. ou a obra de um deus subalterno. (Teoricamente. (d) leitões.

e antes. os anais. exatamente. e a flecha. prosador do século IX. a metade da metade. nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. ou seus hábitos. Um móvel que se encontra no ponto A (declara Aristóteles) não poderá chegar ao B. Até os párvulos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. e sim no tom. pensei reconhecer sua voz. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. assim o declaram as odes. Este é o parágrafo que assinalei. depois de algum convívio. e assim até o infinito. De início. misterioso e tranqüilo: "Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro. a afinidade não está na forma. a metade da metade da metade. nem sempre é fácil encontrá-lo. KAFKA E SEUS PRECURSORES Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka.de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. Trata-se de um apólogo de Han Yu. Registrarei aqui alguns deles. não se presta a uma classificação. e o móvel. Não é como o cavalo ou o touro. as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade. e consta na admirável Anthologie Raisonée de la Littérature Chinoise (1948) de Margouliè. eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas. e antes. p. a de O Castelo. Em tais condições. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou. 88. em ordem cronológica. F. porque antes deverá percorrer a metade do percurso entre os dois. poderíamos estar diante do unicórnio e não saberíamos com . e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura. Watts. a forma desse ilustre problema é. o lobo ou o cervo. 1904). O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento.

O sujeito da outra são as expedições ao Pólo Norte. do mesmo modo. como se percebe facilmente. encontra-se a idiossincrasia de Kafka. Não sabemos como é o unicórnio". digamos. Minhas notas registram.1 O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. e os grafólogos afirmam a apocrifia das cartas. mas. embora por vezes a divisem. de Jung. O outro intitula-se "Carcassonne" e é obra de Lord Dunsany. Ver o último capítulo de Psychologie und Alchemie (Zurique.) Se não me engano. vigiado incessantemente. Este último fato é o mais significativo. de Léon Bloy. Deus. entretanto. Os párocos dinamarqueses teriam declarado de seus púlpitos que participar de tais expedições convinha à saúde eterna da alma. assim como Kafka. . Em cada um desses textos. ter sido pródigo em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. talvez impossível. e que nem todos poderiam empreender a aventura. Um homem tem. mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autênticas. 1938). 1944). (Este conto é. é o fato de Kierkegaard. em maior ou menor grau. até o momento. se não me engano. transcreve duas. Lowrie. no primeiro. não a 1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mãos do vulgo são temas tradicionais da literatura chinesa. nunca se sai de uma cidade. dois contos. pergunta: "E se esse amigo for Deus?". Por fim. os heterogêneos textos que enumerei parecem-se a Kafka. o que não se destacou ainda. qualquer viagem – da Dinamarca a Londres. Uma é a história de um falsificador que examina. no último verso. atlas. no último. também. desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma missão. Teriam admitido. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro. o reverso exato do anterior. nem todos se parecem entre si. guias ferroviários e baús e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. Ele nunca o viu. não se chega. Há quem ponha em dúvida os gestos. ou acredita ter. no vapor de carreira – ou um passeio dominical em carro de praça são verdadeiras expedições ao Pólo Norte. as cédulas do Banco da Inglaterra. que eu saiba. se ele não tivesse escrito. que traz duas curiosas ilustrações. teriam anunciado que. em seu Kierkegaard (Oxford University Press. O homem. mas eles nunca chegam a Carcassonne. subjuga reinos. A afinidade mental de ambos os escritores é coisa por ninguém ignorada. publicado em 1876. de Browning. que chegar ao Pólo era difícil. um amigo famoso. encontrei-a no poema "Fears and scruples". justamente por sabê-lo afeito ao mal.segurança que se trata dele. olhando-se bem. Um deles pertence às Histoires Désobligeantes. o tal amigo não pôde ajudá-lo. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito. e o fato é que. e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres. vê monstros e fadiga os desertos e as montanhas. Quanto à quarta prefiguração.

não existiria. O fato é que cada escritor cria seus precursores. não importa a identidade ou a pluralidade dos homens. profetiza a obra de Kafka. 2 Ver T S. 25_26. a palavra precursor é indispensável. vale dizer. mas se deveria tentar purificá-la de toda conotação de polêmica ou de rivalidade. O poema "Fears and scruples". Seu trabalho modifica nossa concepção do passado. mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. No vocabulário crítico. de Robert Browning. O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes que Browning ou Lord Dunsany. Buenos Aires. 1951. Browning não o lia como agora nós o lemos.2 Nessa correlação. p. como há de modificar o futuro. . Eliot: Points of View (1941).perceberíamos.

As duas teleologias. O fogo. que podem ser malvados ou néscios. a palavra escrita não passava de um sucedâneo da palavra oral. e. ele imaginou o diálogo filosófico. a uma época da palavra escrita. é impossível divulgá-lo a todos os homens". contudo. em minha opinião. que talvez não escutasse tudo o que as pessoas diziam. narrou uma fábula egípcia contra a escrita (cujo hábito faz as pessoas descuidarem do exercício da memória e dependerem de símbolos) e disse que os livros são como as figuras pintadas. não são inteiramente coincidentes. e César lhe diz: "Deixa que arda. uma piada sacrílega. O mestre escolhe o discípulo. mas não respondem uma palavra às perguntas que lhes são feitas". uns trinta séculos mais tarde. o mesmo conceito de uma justificativa estética para os males. Este. mas não o julgaria. lia até "os papéis rasgados das ruas".DO CULTO AOS LIVROS No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que cantar. É uma memória de infâmias". afirmou: "É árdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo. como nós. "que parecem vivas. esse receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria. a outra em livros. A razão é clara: para os antigos. é para nós um objeto sagrado: já Cervantes. Um livro. a do grego corresponde à época da palavra oral. a declaração de Mallarmé: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir. e. aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui. O César histórico. 3) defende que ele assim procedeu por ter mais fé na virtude da instrução falada. 1. uma vez descoberto. alguém exclama que aí arderá a memória da humanidade. Uma fala em cantar. ameaça a biblioteca de Alexandria. e a do francês. Mais força que a mera abstenção de Pitágoras tem o testemunho inequívoco de Platão. homem de cultura pagã: "O mais prudente é não . Para atenuar ou eliminar esse inconveniente. no Timeu. Gomperz (Griechische Denker. mas o livro não escolhe seus leitores. É voz corrente que Pitágoras não escreveu. no Fedro. qualquer livro. em uma das comédias de Bernard Shaw.

pois o escrito fica" (Stromateis). atento às dificuldades do texto. Contra um Ignorante Comprador de Livros. do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada nas mãos de uma criança". e nestas outras. sem proferir uma palavra nem mover a língua. 6). a arte de ler em voz baixa. não queria que o ocupassem com outra coisa. lendo sem articular as palavras. o maior dos mestres orais. que sumia com facilidade. conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o espírito. culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada. que uma única vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (João 8. a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de códices. que derivam também das evangélicas: "Não deis o santo aos cães nem jogueis vossas pérolas aos porcos. redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé. O diálogo de Luciano de Samósata. Muitas vezes – posto que ninguém era proibido de entrar. certamente era bom". para penetrar melhor o sentido.escrever. corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido. com a passagem de muitas gerações. Para os 1 Os comentadores advertem que. para que não as pisoteiem e depois se voltem para vos destroçar". bispo de Milão. passados muitos anos. nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava –. naquele tempo. de Henry James e de James Joyce. livre do tumulto das questões alheias. resultaria em conseqüências maravilhosas. e sim aprender e ensinar de viva voz. ele redigiria suas Confissões e ainda o inquietaria aquele singular espetáculo: um homem em um aposento. Essa sentença é de Jesus. Um admirável acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao chamá-lo instante) em que teve início o vasto processo. e ler em grupo. com um livro. Conta Santo Agostinho. omitindo o signo sonoro. talvez receoso de que um ouvinte. com o que não poderia ler tantos volumes como desejava. na Numídia. a de uma Escritura Sagrada. no conceito do livro como fim. transposto à literatura profana. por volta do ano 384. encerra um testemunho desse costume no século II. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz. pedisse explicação de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la. era costume ler em voz alta. Resultaria. da pena sobre a voz.) À noção de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpõe-se a do Livro Absoluto. não como instrumento de um fim. e depois de algum tempo retirávamo-nos. em fins do século IV iniciou-se o processo mental que. pois não havia sinais de pontuação nem sequer divisão de palavras. Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do século II. Santo Agostinho foi discípulo de Santo Ambrósio. a estranha arte que ele iniciava. no livro seis das Confissões: "Quando Ambrósio lia.1 Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição. treze anos mais tarde. Em todo o caso que fosse o propósito de tal homem. (Esse conceito místico. . pudemos vê-lo ler caladamente e nunca de outro modo.

sendo este a chave daquele. Florença. pesou-as. por 2 Nas obras de Galileu é freqüente o conceito do universo como livro. e a luz foi". O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as. e qual sobre a sabedoria. que revela Sua vontade. No capítulo XIII. 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. o segundo. escrito na Síria ou na Palestina por volta do século VI. guardado no coração e. densidades. revela que Jeová dos Exércitos. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação). continua perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos".2 Sir Thomas Browne. como a alma dos homens ou o universo. criou o universo mediante os números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. pronunciado com a língua. e qual sobre a graça. Motti e Sentenze. Francis Bacon declarou.muçulmanos. no entanto. lemos que o texto original. Muhammad al-Gazali. A idéia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. em seu Advancement of Learning. gravou-as. que revela Seu poderio. o "Alcorão" (também chamado O Livro. que as letras o sejam é claro indício do novo culto à escrita. transmitidos ao Islã pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena. e qual sobre o fogo. . cores). que Deus nos oferecia dois livros para que não incorrêssemos no erro: o primeiro. como Sua eternidade ou Sua ira. Al Kitab) não é mera obra de Deus. os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. Em seguida. é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos. pesos. A segunda seção da antologia de Favaro (Galileo Galilei: Pensieri. combinou-as. Que os números sejam instrumentos ou elementos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico. George Sale observa que esse incriado Alcorão não é outra coisa senão sua idéia ou arquétipo platônico. e qual sobre a paz. o volume das criaturas. permutou-as e com elas produziu tudo o que é e tudo o que será". e qual sobre a cólera. a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo. Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso. para justificar a noção da Mãe do Livro. A Mãe do Livro. No primeiro capítulo de sua Bíblia encontra-se a famosa sentença: "E Deus disse: seja a luz. um abeceddarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. e como (por exemplo) a letra kaf. em número limitado. Mais longe foram os cristãos. declarou: "O Alcorão é copiado em um livro. e qual sobre o sonho. e qual a água. No início do século XVII. que tem poder sobre a vida. Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. opinava que o mundo era redutível a formas essenciais (temperaturas. Bacon propunha-se muito mais que construir uma metáfora. que conformavam. o Algazel dos escolásticos. está depositado no Céu. revela-se qual letra tem poder sobre o ar. o volume das Escrituras. serviu parra formar o sol no mundo. é um dos atributos de Deus.

e os caracteres são triângulos. superou a conjetura de Bacon. Léon Bloy escreveu: "Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta" (L´Âme de Napoléon. somos versículos. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. A língua desse livro é matemática. porque a Natureza é a Arte de Deus". 1912). círculos e outras figuras geométricas". Quem nunca O viu no primeiro.volta de 1642.. Depois. O mundo. segundo Mallarmé. Duzentos anos se passaram e o escocês Carlyle. e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo. I. ou palavras. confirmou: "Dois são os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e público manuscrito que é patente a todos os olhos. suas idéias. existe para um livro. mas ininteligível se antes não estudarmos a língua nem conhecermos os caracteres em que está escrito. é o mundo. Transcrevo o seguinte parágrafo: "A filosofia está escrita naquele enormíssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer. estampou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual também somos escritos.. seus sentimentos. . o universo). em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro. descobriu-O no segundo" (religio Medici. 1951. segundo Bloy. No mesmo parágrafo. ou letras de um livro mágico. Buenos Aires. a que correspondem seus atos. lê-se: "Todas as coisas são artificiais. seu imorredouro Nome no registro da Luz. 16). nem qual é seu nome verdadeiro.

duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza. à idade de vinte e três anos. Garrod. Amy Lowell escreveu com mais acerto: “O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou poético logo intuirá que Keats não se refere ao rouxinol que cantava nesse momento. como a árvore dá folhas. tísico. em uma antiga tarde. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro. em uma das noites do mês de abril de 1819. chamou o rouxinol de dríade. Keats opõe-se à fugacidade da vida humana. com toda a seriedade. Keats. mas sim sua interpretação. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o escólio: “Naturalmente. e sim à espécie”. não foi discutida por ninguém. agora. . “que não abatem as famintas gerações” e cuja voz. que John Keats. Transcrevo sua curiosa declaração: “Com um erro de lógica. a permanência da vida do pássaro. Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questão. que ele poliria muito pouco. e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. e sentiu sua própria mortalidade. na primeira estrofe de seu poema. compôs em um jardim em Hampstead. uma divindade dos bosques. Em 1895. publicada em 1887. a moabita. pobre e talvez desafortunado no amor. no jardim suburbano. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente. a meu ver.O ROUXINOL DE KEATS Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a “Ode a um rouxinol”. sua virtude. O nó do problema está na penúltima estrofe. Bridges repetiu a denúncia. é aquela que. Em sua monografia sobre Keats. Keats. que. em campos de Israel. F. é também uma falha poética.R. ouviu Rute. a falácia incluída nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu…”. alegou esse epíteto para sentenciar que. outro crítico. na sétima. ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare. em que entende a vida da espécie”. que eu saiba. em que entende a vida do indivíduo. a ave é imortal porque é uma dríade.

R. Através das latitudes e das épocas. Esclarecida assim a primeira dificuldade. sem exagerada injustiça. A chave. na primeira estrofe de “Sailing to Byzantium”. de índole muito diversa. lê-se o seguinte: “Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. Keats. para aqueles. em unia alusão deliberada ou involuntária à “Ode”. em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. suspeito. que. Leavis e os outros1 não tenham chegado a essa interpretação evidente? Leavis é professor de um dos colégios de Cambridge — a cidade que. os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides. 1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats. Bridges escreveu um poema platônico intitulado “The fourth dimension”. No capítulo 41. as ordens e os gêneros são realidades. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. Keats. que são generalizações. sua razão deriva de algo essencial na mente britânica. Ou seja. o indivíduo é de certo modo a espécie. os primeiros. Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. essa ordem. em um parágrafo metafísico de Schopenhauer. p. mas nego a oposição que nele se postula entre o efêmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genérico. congregou e deu nome aos Cambridge Platonists —. Henn: The Lonely Tower. está. pôde escrever: “Nada sei. e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute. Como é possível que Garrod. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. para. no século XVII. antecipou-se em um quarto de século a uma tese de Schopenhauer. a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos. Ver T. Platão. 211. Se não me engano. a exata chave da estrofe. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser. adivinhou o espírito grego nas páginas de algum dicionário escolar. mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro”. falta esclarecer uma segunda. que nunca a leu. talvez incapaz de definir a palavra arquétipo. a mera enumeração desses fatos parece agravar o enigma. sutilíssima prova dessa adivinhação ou recriação é ele ter intuído no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platônico. Os últimos sentem que as classes. de todos. para estes. A “Ode a um rouxinol” data de 1819.Cinco pareceres de cinco críticos atuais e passados recolhi. o aristotélico. . nada li”. uma ordem. que. entendo que. o menos vão é o da norte-americana Amy Lowell. fala em “morrentes gerações” de pássaros. é o mapa do universo. 1950.

mas os nominalistas são Aristóteles.Spinoza. em todas as línguas do orbe. da T. não uma incapacidade especulativa. foi celebrado por Chaucer e Shakespeare.) . Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu. 2 3 “Os entes não devem ser multiplicados além do necessário. Locke. IV.” (N. da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. O rouxinol. há cerca de setenta anos. ser Berkeley e ser Hume. “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”2 permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”3 Os homens. que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida. disse Coleridge. mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre. Aristóteles. os realistas. O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível. ele agora é um tanto irreal. de Swinburne. não o rouxinol genérico. Nas árduas escolas da Idade Média. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII. como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. para essa mente. essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke. a economia da fórmula de Occam. William James.” (N. Heráclito. e sim os indivíduos. 2). por Milton e Matthew Arnold. as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado. antigo cantor da tarde. Francis Bradley. todos invocam Aristóteles. De tão exaltado pelos poetas. nachtigall. Convivio. é talvez inevitável. mestre da humana razão (Dante. Hume. impede-o de transitar por abstrações. E natural. Kant. o outro. nascem aristotélicos ou platônicos. e sim os rouxinóis concretos. e escrever. desfruta de nomes melodiosos (nightingale. o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica. como os alemães. trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta. menos afim com a calhandra que com o anjo. usignolo). inassimilável e ímpar. não são os conceitos abstratos. Platão. Um escrúpulo ético. da T.) “Ser é ser percebido. O real. Não entende a “Ode a um rouxinol”.

Como os fatos referidos pela Escritura são verdadeiros (Deus é a Verdade. as temperaturas. Agora conheço em parte. p. mas então veremos face a face. na escuridão. 1896. a Verdade não pode mentir. Muitos devem tê-la percorrido. sua severa gramática e sua sintaxe. ou que mal soletramos. volume 1. ao executá-los. Agora eu não o conheço senão imperfeitamente: mas então o conhecerei com uma visão clara. Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas. representaram cegamente um drama secreto. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum". impossível ser mais palavroso e mais frouxo. não vai uma distância infinita. 12) inspirou Léon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. etcétera). 129 .O ESPELHO DOS ENIGMAS A idéia de que a Sagrada Escritura tem (além de seu valor literal) um valor simbólico não é irracional e é antiga: está em Filão de Alexandria. devemos admitir que os homens. da maneira que eu sou conhecido". Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente não vemos Deus senão como em um espelho e sob imagens obscuras: mas então o veremos face a face. e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores". em Swedenborg. – e nela nossas vidas e o mais tênue detalhe de nossas vidas – tem valor inconjeturável. mas então conhecerei como sou 1 Writings. a lua – é uma linguagem que esquecemos.. (Nos fragmentos psicológicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure há uma hipótese afim: a de que o mundo externo – as formas. Daí a pensar que a história do universo.) Um versículo de São Paulo (I Coríntios 13.. Cipriano de Valera é mais fiel: "Agora vemos por espelho. ninguém tão assombrosamente como Léon Bloy. determinado e premeditado por Deus. simbólico. nos cabalistas. Também De Quincey1 a declara: "Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo têm suas chaves correspondentes.

Torres Amat entende que o versículo se refere a nossa visão da divindade. vistos ao contrário. um reflexo exterior de nossos abismos. livro cujo propósito é decifrar o símbolo Napoleão. Quando pensamos dar. Talvez ele apenas seja responsável. em um espelho. Se os pobres de seu império vivem oprimidos sob seu reinado." A quinta é de maio de 1908. "Recordo uma de minhas idéias mais antigas. de Le Vieux de la Montagne e de L ´Invendable. A primeira é de junho de 1894. Bloy não imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva. Não penso tê-las esgotado: espero que algum especialista em Léon Bloy (eu não sou) venha a completá-las e retificá-las. A aterrorizante imensidão dos abismos do firmamento é uma ilusão. recebemos. Vemos agora. como todos sabem. Não sabemos se tal coisa que nos aflige não é o secreto princípio de nossa alegria ulterior. perante Deus. quem pode garantir que não é o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade. afirma São Paulo. Cipriano de Valera (e Léon Bloy). Então (ouço de uma querida alma angustiada) nós estamos no céu e Deus sofre na terra." A sexta é de 1912. que resgatei das páginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat. se desse reinado resultam imensas catástrofes. percebidos ‘em um espelho’. Vemos todas as coisas ao contrário. "Aterrorizante idéia de Joana acerca do texto Per speculum. Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno. diz São Paulo. Ao longo de sua obra fragmentária (povoada. Eis aqui algumas. e não veremos de outro modo até o advento d´Aquele que está todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas. Traduzo-a assim: "A sentença de São Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabóia para mergulhar no Abismo verdadeiro. de lamentos e afrontas) há versões ou facetas diversas. quem é rei. que é a alma do homem.. literalmente: ‘em enigma por um espelho’. considerado precursor de outro herói – também ele homem e símbolo – oculto no futuro. "Tudo é símbolo. até a dor mais lancinante. "Per speculum in aenigmate. a nossa visão geral. quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?" A terceira é de uma carta escrita em dezembro. per speculum in aenigmate. Atroz responsabilidade que não passa de aparência. quem é verdadeiramente Czar. " A quarta é de maio de 1904. A segunda é de novembro do mesmo ano.. é porque ela verdadeiramente existe em nossa alma".conhecido". etc. Que eu saiba. pelo qual Deus quis morrer. Basta-me citar . por uns poucos seres humanos. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos corações. Somos dormentes que gritam durante o sono. Se vemos a Via Láctea. O Czar é o chefe e pai espiritual de cento e cinqüenta milhões de homens. Em cada uma das páginas de L´Ame de Napoléon.

um texto em que a colaboração do acaso é calculável em zero.. a que correspondem seus atos. 2 O que é uma inteligência infinita?. Os passos dados por um homem. Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima. Bloy (repito) só fez aplicar a toda a Criação o método que os cabalistas judeus tinham aplicado à Escritura. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo.2 Léon Bloy postula esse caráter hieroglífico – esse caráter de escrita divina. "Nenhum homem sabe quem é". dentro da doutrina cristã. poderá indagar o leitor. O supersticioso crê penetrar essa escrita orgânica: treze comensais articulam o símbolo da morte. Uma: "Cada homem está na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partícula. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros.. Sua apologia é que nada pode ser contingente na obra de uma inteligência infinita. Eu entendo que é assim. desde o dia de seu nascimento até o de sua morte. Os parágrafos acima talvez pareçam ao leitor meras gratuidades de Bloy. uma opala amarela. Outra: "Não há na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele é.. observará o incrédulo. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta". Essa premissa portentosa de um livro impenetrável à contingência. nem qual é seu nome verdadeiro. a somar o valor numérico das letras. ainda. que tenha duplo ou triplo sentido. seu imorredouro Nome no registro da Luz. dos materiais invisíveis que servirão para edificar A Cidade de Deus". como a dos homens um triângulo. afirmou Léon Bloy. a procurar acrósticos e anagramas e a outros rigores exegéticos dos quais não é difícil zombar. Julgava-se um católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas. de criptografia dos anjos – em todos os instantes e em todos os seres do mundo.. mas entendo que o mundo hieroglífico postulado por Bloy é o mais conveniente à Dignidade do Deus intelectual dos teólogos. mais improvável. o da desgraça.duas passagens. de uni livro que é um mecanismo de propósitos infinitos. levou-os a permurtar as palavras escriturais. ou uma montanha. eu prefiro um exemplo. ninguém tratou de examiná-los. e talvez inevitáveis. suas idéias. desenham no tempo uma inconcebível figura. Que eu saiba. a observar as minúsculas e maiúsculas. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo. Não há teólogo que não a defina. Parece improvável que o mundo tenha sentido. Estes pensaram que uma obra ditada pelo Espírito Santo era um texto absoluto: vale dizer. a fazer conta de sua forma. irmão secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente. seus sentimentos. Ouso julgá-los verossímeis. .

A Handbook of Constructive World Revolution – corre o risco de parecer. por tanques fabricados na Tchecoslováquia. que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado. Reuni algumas invectivas de Wells: não são literariamente memoráveis. "que chia como um coelho esganado". os norte-americanos e ingleses "que traíram a causa liberal na Espanha". algumas parecem-me injustas. por vozes e rumores radiofônicos e por alguns mensageiros de bicicleta". "que parece não poupar o menor esforço para que a Alemanha ganhe uma guerra que já perdeu". Sir Samuel Hoare. mas demonstram a imparcialidade de seus ódios e de sua indignação. Suas bem legíveis páginas denunciam o Führer. "o inconsolável viúvo quintessencial da Liga das Nações". o "rancoroso cortiço" Irlanda do Sul. Também demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra.DOIS LIVROS O último livro de Wells – Guide to the New World. "derrotados pela consciência da inépcia. no dia seguinte. "embora ninguém saiba o que é o proletariado nem como e onde ele dita". Mais importante que esses resmungos epigramáticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria facílimo triplicar ou quadruplicar) é a doutrina desse manual . Goering. varrem os estilhaços de vidro e retomam as tarefas da véspera". os generais do exército francês. os ingênuos que supõem que basta exorcizar ou destruir os demônios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisíaco. o Ministério das Relações Exteriores inglês. Josef Stálin. Eden. "aniquilados de cidades que. o "absurdo Ironside". "mental e moralmente néscio". à primeira vista. uma simples enciclopédia de injúrias. os que opinam que esta guerra "é uma guerra de ideologias" e não uma fórmula criminosa "da desordem presente". a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britânica. nas horas centrais da batalha.

204). instam seus leitores. 1940 –. O capítulo XII (p. outros. Ninguém. Wells. "Ninguém em seu perfeito juízo – declara Wells – pensa que os homens da Grã-Bretanha são um povo eleito. com um léxico de Gauleiter. p. ninguém pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg. para sua melhor convivência. todos juraram que um judeu-alemão difere enormemente de um alemão. falavam em Raça e Povo. No terceiro artigo – "Free . a frente de batalha da humanidade. uma mais nobre espécie de nazistas. tal repressão não é descabida: limita-se a exigir dos Estados. outros. Até os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas. The Common Sense of War and Peace. econômico ou étnico. em geral.. Há várias razões para que eu não seja um anti-semita. insignificante. disputando a hegemonia do mundo com os alemães. Russell também emite conselhos de universalidade. nacionalistas. Tal doutrina é resumível nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revolução geral (com a de um mundo federado). não são nada. por mais que o neguem ou o ignorem. todos. na obra cujo comentário esbocei. que se julgam muito diferentes de Goebbels. Wells.. quis compartilhar minha opinião. em vão citei a sábia declaração de Mark Twain: "Eu não pergunto de que raça é um homem. 48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. durante a Guerra Civil Espanhola. o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos. Uns declaravam-se republicanos. em vão insinuei que uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita. Vindicadores da democracia. Esse dever é um privilégio. Os três capítulos finais discutem alguns problemas menores." Let the People Think é o título de uma seleção de ensaios de Bertrand Russell. como em outros – The Fate of Homo Sapiens. inacreditavelmente. Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis traços diferenciais. porque quase todos os meus contemporâneos o são. Desde 1925. ilusória ou imperceptível. Também recordo com certo estupor uma assembléia convocada em repúdio ao anti-semitismo. Inacreditavelmente. insta-nos a repensar a história do mundo sem preferências de caráter geográfico. não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido em um determinado país e de pertencer a tal raça (ou a tal boa mescla de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. Em vão lembrei-lhes que não outra coisa diz Adolf Hitler. Na verdade. às vezes. basta que seja um ser humano. 1939. sim.revolucionário. Se não forem essa frente. Nesse livro. não é nazista. no mesmo dialeto do inimigo. São. por mais patéticos ou pitorescos que sejam. a principal é esta: a diferença entre judeus e nãojudeus parece-me. ou a vitória é inacessível e inútil. marxistas. Lembro-me de certas discussões indecifráveis. naquele dia. a escutar o palpitar de um coração que recolhe os íntimos mandados do sangue e da terra.

Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses. O autor começa observando que os fatos políticos provêm de especulações muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgação de uma doutrina e sua aplicação. não passa de uma reverberação imperfeita de velhas discussões. Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle. não o são as representações. Hitler. intranqüila. é um pleonasmo de Carlyle (17951881) e até de J. quando não quíchua ou querandí. Louvou a Idade Média. Nossos "nacionalistas" já exercem esse método paradoxal: ensinam a história argentina de um ponto de vista espanhol. O primeiro. por mais que os puristas digam "esporte".thought and official propaganda”. sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur. Este. confundem a verdade com o corpo doze. vangloriosa. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos. 251). Essa razão é quase inesgotavelmente falaz. de Frederico II. G. Fichte (1762-1814). de Guilherme. pouquíssimas sequer a soletram. pensam "sport"). pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo. negam-se a entender que a afirmação: "Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta" é mero eufemismo para admitir a perda de B. não é menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation. Lênin. Daí o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporâneos: a realidade é sempre anacrônica. baseia a superioridade dos alemães na ininterrupta posse de um idioma puro. Mais complexa e eloqüente é a contribuição de Carlyle. vindicou a memória do deus Thor. condenou as rajadas de vento parlamentar. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. hipersensível França" (Miscellanies. podemos conjeturar que não há no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam. uma transcrição de Karl Marx. horrendo em públicos exércitos e em secretos espiões. ostensivamente triunfais. o Bastardo. ele propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. reescrever essa história do ponto de vista francês.. podemos lembrar que o alemão é menos "puro" que o basco ou que o hotentote.. de Knox. Pior ainda: exercem uma sorte de magia. sólida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona. de Cromwell. gesticulante. Em 1870 aclamou a vitória da "paciente. É assim: a "atualidade candente". escreveu que a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam. pugnaz.. Das pessoas que conheço. pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas. p. nobre. Dos outros artigos. podemos indagar por que é preferível um idioma sem mistura. que nos exaspera ou exalta e que com certa freqüência nos aniquila. Por exemplo. profunda. tomo VII.. em 1843. do taciturno doutor Francia e . Russell propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas.

alegrou-se por haver um quartel em cada povoado. a Raça Teutônica. preconizou a pena de morte. é lícito afirmar que o ambiente do início do século XVIII era racional e o de nosso tempo. condenou a abolição da escravatura. . Quem quiser mais imprecações ou apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets. anti-racional". Bertrand Russell conclui: "De certo modo. de 1850. Eu suprimiria o tímido advérbio que encabeça a frase. e inventou. incensou.de Napoleão. almejou um mundo que não fosse "o caos provido de umas eleitorais". propôs a transformação das estátuas – "horrendos solecismos de bronze" – em úteis banheiras de bronze.

mas abominam a América "saxã". mas opinam que a independência da América foi um erro. e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunhá-lo. abençoam a guerra submarina. mas aplaudiram os prodígios do Blitzkrieg. que qualquer incerteza seria preferível a um diálogo com esses consangüíneos do caos. Ponderei. mas aos da Alemanha o de Zaratustra. Logo de início entendi que seria inútil interrogar os protagonistas. também. a magia dos símbolos Paris e libertação seja tão poderosa que os partidários de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. Freud não concluiu e Walt Whitman não pressentiu que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta? Quem sabe. à força de exercer a incoerência. muitos me acusarão de pesquisar um fato quimérico. denunciam o imperialismo. Mas ele ocorreu. Esses versáteis. mas reprovam com vigor as piratarias britânicas. perderam por completo a noção de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raça germânica. a passagem a que me refiro é aquela do sonho metafísico de John Tanner. idolatram San Martín. onde se afirma que o horror do Inferno é sua . aplicam aos atos da Inglaterra o cânone de Jesus. para os quais a infinita repetição da interessante fórmula "sou argentino exime da honra e da piedade. Noites mais tarde. De mais a mais.ANOTAÇÃO AO 23 DE AGOSTO DE 1944 Essa jornada populosa deparou-me três heterogêneos assombros: o grau físico de minha felicidade quando soube da libertação de Paris. mas professam uma religião de origem hebréia. optei por supor que certo espírito noveleiro. O livro foi Man and Superman. e a simples adesão à realidade eram explicações verossímeis do problema. mas vindicam e promulgam a tese do espaço vital. são anti-semitas. um livro e uma lembrança me iluminaram. de Shaw. pensei comigo. Sei que investigar esse entusiasmo é correr o risco de parecer-me aos vãos hidrógrafos que indagavam por que basta um único rubi para deter o curso de um rio. condenam os artigos de Versailles. a descoberta de que uma emoção coletiva pode não ser indigna. Cansado. e o temor. o enigmático e notório entusiasmo de muitos partidários de Hitler.

de mal-estar. assim como os abutres de metal e o dragão (que não deviam ignorar sua condição de monstros) colaboraram. no limite. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. como os infernos de Erígena. essa doutrina pode comparar-se à de outro irlandês.irrealidade. com Hércules. Senti um misto de tristeza. Então compreendi que ele também estava apavorado. Acrescentou que muito em breve esses exércitos entrariam em Londres. de modo cego. há uma ordem – uma única ordem – possível. entrou em minha casa. A lembrança foi daquele dia que é o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. um gaúcho. João Escoto Erígena. brincar de ser um viking. postado à porta. um germanófilo. mentir por ele. uma impossibilidade mental e moral. de nojo. Ninguém. . um tártaro. retornariam a Deus. pode desejar que ele triunfe. inclusive o Diabo. misteriosamente. Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidação. os homens só podem morrer por ele. Algo que não entendi me conteve: a insolência do júbilo não explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamação. cujo nome não quero lembrar. que negou a existência substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas. colabora com os inevitáveis exércitos que o aniquilarão. Ser nazista (brincar de barbárie enérgica. Nesse dia. anunciou a grande notícia: os exércitos nazistas tinham ocupado Paris. a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. Hitler. Creio poder interpretálos assim: para europeus e americanos. na solidão central do próprio eu. matar e ensangüentar por ele. O nazismo padece de irrealidade. Toda oposição era inútil. um conquistador do século XVI. É inabitável. um pele-vermelha) é. nada poderia deter sua vitória.

Tudo isso pode parecer uma completa quimera. Ninguém se resigna a escrever a biografia literária de um escritor. dos órgãos de seu corpo. outra. a biografia cirúrgica. mal consegue reservar um parêntese para o Maelström e para a cosmogonia de Eureka. tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido. o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma menção às obras de Michelangelo. infelizmente. 21. seu biógrafo. destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labiríntica... 22.. 39. e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo.. outra. Tão complexa é a realidade.. Chapman. 13. esta curiosa revelação feita no prefácio a uma biografia de Bolívar: "Neste livro fala-se tão escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleão". a biografia militar de um soldado. 17. grande senhor. Uma das hipotéticas biografias registraria a série 11.SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda menção às obras de Michelangelo. 12. encarnou um tipo bastante comum de milionário. a biografia econômica. em 1943. fascinado por suas mudanças de domicílio. O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observações. viajante. mas prescinde de uma análise de Vathek. não é. outra. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. e quase infinito. de seu comércio com a noite e com as auroras. de todos os momentos em que ele imaginou as pirâmides. a série 9. Não é inconcebível uma história dos sonhos de um homem... de biografias de um homem destacando fatos independentes. outra. 30. todos preferem a biografia genealógica. bibliófilo. Setecentas páginas in-oitavo compreende certa vida de Poe. outra. O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contemporânea: agora. William Beckford. construtor de palácios e libertino. outra. a biografia psiquiátrica. a biografia tipográfica. a série 3. romance a cujas dez últimas páginas William Beckford deve sua glória. o autor. Confrontei várias críticas a Vathek. O prefácio que Mallarmé escreveu para sua reimpressão de 1876 é pródigo em observações felizes (por exemplo: . de Fonthill.. Outro exemplo. 33. das falácias por ele perpetradas. 21.

mas também é o Inferno. Sob suas abóbadas poderá contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram. Não mentiu o mercador: o Alcáçar do Fogo Subterrâneo é rico em esplendores e em talismãs. eu disse. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura. nono califa abássida) ergue uma torre babilônica para decifrar os planetas. chega a uma montanha deserta. um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma região onde tudo é maravilhoso e digno do maior príncipe da terra". os talismãs que subjugam o mundo. Estes auguram-lhe uma sucessão de prodígios. no décimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature. Talvez o julgamento mais lúcido seja o de Saintsbury. Um homem (que logo desaparece também) consegue decifra-los. que virá de uma terra desconhecida. 1928) tece opiniões sobre Beckford sem condescender a argumentos. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literários. .) Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a invenção do Alcáçar do Fogo Subterrâneo é a maior glória de Beckford. O califa entrega-se às artes mágicas. 545. 1 Da literatura. Seguem-se muitos anos sangrentos. mas está escrito em um dialeto etimológico do francês. de ingrata ou impossível leitura. O ávido califa cede. a fábula de Vathek não é complexa. a ele será franqueado o Alcáçar do Fogo Subterrâneo. logo desaparece. não da mística: o eletivo Inferno de Swedenborg – De Coelo et Inferno. o mercador exige quarenta sacrifícios humanos. Belloc (A Conversation with an Angel. 554 – é de data anterior. Vathek. Gravados na folha há misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek. e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram. para concluir em um subterrâneo encantado). na escuridão. A terra se abre. nesta é o castigo e a tentação. outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar". "one of the vilest men of his time".faz notar que o romance se inicia no terraço de uma torre de onde se lê o firmamento. Essencialmente. os diademas dos sultões préadamitas e de Solimão Bendaud. com terror e esperança. o Inferno é o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal. (Na congênere história do doutor Fausto. a voz do mercador. equipara sua prosa à de Voltaire e julga-o um dos homens mais vis de sua época. Se o fizer. Um mercador chega à capital do império: seu rosto é tão terrível que os guardas que o conduzem à presença do califa avançam de olhos fechados. negra de abominações sua alma. cujo instrumento será um homem sem par. O mercador vende uma cimitarra ao califa. Uma silenciosa e pálida multidão de pessoas que não se olham erra pelas soberbas galerias de um palácio infinito. Vathek desce às profundezas do mundo. o dolente regno da Comédia. propõe-lhe abjurar a fé muçulmana e adorar os poderes das trevas.

. Marino. A Divina Comédia é o livro mais justificável e mais firme de todas as literaturas: Vathek é uma mera curiosidade. fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro. uma torre. já descrevera cinco jardins análogos. talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idéia de uma prisão. algo. em alemão) é aplicável a certas páginas de Vathek. cuja arquitetura. para denotar o horror sobrenatural. Beckford. the perfume and suppliance of a minute. Henley traduziu-a para o inglês em 1785. esse epíteto (unheimlich. que eu me lembre. Melville dedica muitas páginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportável da baleia. mesmo que de modo rudimentar. no primeiro capítulo de Vathek. de Paris. em Adone. a nenhum livro anterior. é um lugar onde ocorrem fatos atrozes. de Piranesi. La Princesse de Babylone. Chesterton (The Man Who Was Thursday. de Hamilton. A distinção é válida. A versão inglesa de Henley consta do volume 856 da Everyman´s Library. é malvada. os Quatre Facardins. de Galland. nos confins orientais. Saintsbury observa que o francês do século XVIII é menos apto que o inglês para transmitir os "indefinidos horrores" (a expressão é de Beckford) da singularíssima história. Poe. Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominável da cor parda. o epíteto uncanny. . os satânicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe. e menos. revisado e prefaciado por Mallarmé. Só de três dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trágica história de seu califa. que representam poderosos palácios que são também labirintos inextrincáveis. de Voltaire. Escreveu-a no idioma francês. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa revisão e esse prefácio. creio. o de Backford. O original é infiel à tradução. 1943. IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez uma árvore que já é mais. os túneis de um pesadelo.. de Charles Baudelaire e de Huysmans. enumera cinco palácios dedicados aos cinco sentidos. águas-fortes elogiadas por Beckford. que uma árvore.não é um lugar atroz. no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. publicou o texto original. de Barthélemy d´Herbelot. por si só. a editora Perrin. contudo. Há um intraduzível epíteto inglês. e que. Excedi-me em alguns exemplos. Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothèque Orientale. as sempre menosprezadas e admiráveis Mille et Une Nuits. Eu complementaria essa lista com as Carceri d ´Invenzione. que Vathek antecipa. Buenos Aires.

urgido por não sei que patriótica perversão. reduzindo-os a figuras de circo. alto. por suas limitações locais e temporais (século XVI espanhol. a mera variedade. ascético. para. Além disso. Lembrei alguns exemplos famosos. o gênero é complexo. Chamar essas ficções de romances picarescos parece-me injustificado. nosso Lugones já insinuou essa recriminação.SOBRE THE PURPLE LAND Esse romance primigênio de Hudson é redutível a uma fórmula tão antiga que quase pode compreender a Odisséia. (No sétimo capítulo de E1 Payador. Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes".) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro. comilão. talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes.) Aponto essas falhas sem animadversão. os mais rudimentares buscam a mera sucessão de aventuras. faço-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade. um vilão carnudo. em segundo. escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde. Kipling mostra-se impenitente e até inconsciente. (Em sua autobiografia literária. sensato e espirituoso. o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. alguns capítulos adiante. O herói põe-se a caminhar. em primeiro lugar. as sete viagens de Simbad. tão elementar que o nome de fórmula sutilmente a difama e desvirtua. pela conotação mesquinha da palavra. a incoerência e a variedade não são impraticáveis. A desordem. A esse gênero nômade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon. e vêm a seu encontro as aventuras. essa disparidade tão simétrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade. louco e altissonante. mas é indispensável uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. o . século XVII). Pickwick e o Dom Quixote. dar-lhe o horrível ofício de espião. Do gênero de romances que aqui considero. o libérrimo Kim. baixo.

Martinez Estrada não hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros canônicos de nossa literatura gauchesca.Marujo. Aria por Arias.. de The Purple Land. Rousseau e Nietzsche. do Huckleberry Finn. falseada por bravatas e . de Mark Twain. É o caso da segunda parte do Quixote. Nesses enfadonhos capítulos. incorre em prolixidades análogas. encerram a máxima filosofia e a suprema justificação da América perante a civilização ocidental e os valores da cultura acadêmica". íntimo. pintor nem intérprete semelhante a Hudson. Ezequiel Martínez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta. Padece de um erro evidente.. só por meio dos sedentários volumes da Histoire Générale des Voyages e das epopéias homéricas. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens. Essa ficção. O primeiro. o movimento é duplo. sua gradual conversão a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prevê um pouco Nietzsche. O segundo. Como se vê. tem dois argumentos. invisível: o venturoso acrioulamento de Lamb. descreveu e comentou. na realidade. As páginas finais de The Purple Land. O Martín Fierro (em que pese ao projeto de canonização de Lugones) é menos a epopéia de nossas origens – em 1872! – que a autobiografia de um faquista. A circunstância de o narrador ser um inglês justifica certos esclarecimentos e certas ênfases necessárias para seu leitor e que seriam anômalas em um gaúcho. nem nunca o terão. Em outros (pouco mais complexos).. quando não suas absurdidades e manias. em todos os seus romances. tão impessoal e passivo quanto o leitor. Penso nas do final: são bastante complicadas para cansar a atenção. Hudson sentiu na própria carne os rigores de uma vida semibárbara. The Purple Land é fundamentalmente crioula. Hernández é uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou. o âmbito que The Purple Land abrange é incomparavelmente maior. Sem dúvida. os fatos cumprem a função de mostrar o caráter do herói. acostumado a essas coisas. por exemplo. recíproco: o herói modifica as circunstâncias. as circunstâncias modificam o caráter do herói. Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land. Nelas o herói é um mero sujeito. pastoril.. que é lógico imputar às contingências da improvisação: a vã e cansativa complexidade de certas aventuras. mas não para despertá-la. é o caso da primeira parte do Dom Quixote. visível: as aventuras do rapaz inglês Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. talvez forneçam o exemplo mais puro. Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior). Suas Wanderjahre são também Lehrjahre. Seria deplorável que alguma distração topográfica e três ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones. No número 31 da revista Sur. Hudson parece não entender que o livro é sucessivo (quase tão puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscón) e o entorpece com artifícios inúteis. Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade. Isso não quer dizer que The Purple Land seja inatacável.

as complexas delícias da memória e da introspecção. mostrá-lo autobiográfico e efusivo já é deformá-lo. Embora nascido na província de Buenos Aires. Don Segundo Sombra. Quando muito. mas sempre foi interrompido pela felicidade. Hudson. Essa escolha propícia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra – acaso que favorece as circunstâncias do amor errante. a moça que se entrega a um forasteiro. os gaúchos são exclusivos da província de Buenos Aires. secundário. mandam os caudilhos da cidade. como já disse. Se. Em Ascasubi há traços mais vívidos. Melhorando até a perfeição uma frase divulgada por Boswell. Alguém há de observar que em The Purple Land o gaúcho não aparece senão de modo lateral. Ninguém ignora que seu narrador é um gaúcho. ele escolhe a terra cárdea onde a montonera fatigou suas primeiras e últimas lanças: o Estado Oriental do Uruguai. a despeito da veracidade dos diálogos. como Hernández. O organismo típico da guerra gaúcha. Hudson (como Ascasubi. mais coragem. Güiraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo. o gaúcho ensimesmado pitando com fruição o tabaco negro. mais felicidade. Outro acerto de Hudson é o geográfico. Macaulay. na secreta margem de um rio. em vez de interrogar a literatura. só aparece em Buenos Aires de modo esporádico. como Eduardo Gutiérrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes. nenhuma nos do país. A frase (uma das mais memoráveis que o trato das letras me deparou) é típica do homem e do livro. escolhe para as andanças de seu herói as coxilhas da outra banda do rio. mas tudo isso aparece fragmentário e secreto em três volumes incidentais. a montonera. no artigo sobre Bunyan. As de Hudson perduram na memória: os tiros britânicos retumbando na noite de Paysandú.lamentações que quase profetizam o tango. caberia replicar. Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafísica. nos ativermos à história. a paradoxal razão dessa primazia é a existência de uma grande cidade. O gaúcho é homem taciturno. de quatrocentas páginas cada um. maravilhase de que. com o tempo. ou despreza. as imaginações de um homem tornem-se lembranças pessoais de muitos outros. Manda a cidade. Melhor para a veracidade do retrato. mãe de insignes literatos "gauchescos". algum indivíduo – Hormiga Negra nos documentos judiciais. o que toma duplamente injustificável esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episódio de guerra. o gaúcho desconhece. Apesar do brusco sangue . é estragado pelo afã de magnificar as tarefas mais inocentes. Na literatura argentina. Buenos Aires. antes da batalha. no círculo mágico dos pampas. comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influência exerceu nos destinos de sua província. Martín Fierro nas letras – consegue certa notoriedade policial com uma rebelião matreira.

também americano. . os espanhóis). mas o fato é que. em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser. penso na têmpera venturosa de Richard Lamb. também de sabor quase paradisíaco. 1941. Uma observação última. inexoravelmente. de Mark Twain. dentre todos os estrangeiros (sem excluir.) Não penso no debate caótico entre pessimistas e otimistas. Miller. Cunningham. Perceber ou não os matizes crioulos pode parecer trivial. amigas ou aziagas. não penso na felicidade doutrinária que. o patético Whitman impôs a si mesmo. Robertson. Graham. claro. The Purple Land é dos pouquíssimos livros felizes que há na terra. é o Huckleberry Finn. Burton. Hudson. Buenos Aires. o inglês é o único a percebê-los.derramado e das separações. (Outro.

DE ALGUÉM A NINGUÉM No princípio. Essa nomenclatura. cujo nome na história ficou Escoto . quando se quer encarecer alguma coisa. O sujeito de tais locuções é indiscutivelmente Alguém. declarada em Nicéia. Sou Aquele que Sou. o Servo dos Servos de Deus. Deus é os Deuses (Elohim). Dizer então Cântico dos cânticos é o mesmo que em vernáculo dizer Cântico entre os cânticos. no texto original é um superlativo de rei: "Propriedade é da língua hebréia – diz Frei Luis de León – dobrar assim iguais palavras. chama-se Jeová Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou. que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis. seja para bem ou para mal. o primeiro versículo da Lei diz literalmente: "No princípio fez os Deuses o céu e a terra". tudo se pode negar. Deus dos Exércitos. como as outras. Este último. em um lugar da Escritura. Apesar da imprecisão que o plural sugere. os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no século IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Eríugena. lê-se "Arrependeu-se Jeová de ter feito homem na terra e isto pesoulhe no coração" e em outro. Elohim rege os verbos no singular. Escritos em grego. Nada se deve afirmar d´Ele. plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crêem ser um eco de anteriores politeísmos ou uma premonição da doutrina. Rei dos Reis. de que Deus é Uno e Triplo. de Gregório Magno. É definido por traços humanos. os teólogos habilitam o prefixo omni-. como dizem as versões inglesas. um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e esbatendo. Elohim é concreto. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia é a única verdadeira. propagam-se as palavras onipotente. parece limitar a divindade: em fins do século V. Pedra de Israel. isto é. Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó. onipresente. o incógnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus não convém nenhum predicado afirmativo. por oposição. homem entre os homens. assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". "Falei no calor de minha ira". que sem dúvida inspirou. ou Scotus. onisciente. mas não tem conteúdo". in the cool of the day. isto é. Nos primeiros séculos de nossa era. o Irlandês. João. antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Júpiter. "Porque eu Jeová teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro.

Essa falácia está nas palavras daquele rei legendário do Industão. Este formula uma doutrina de índole panteísta: as coisas particulares são teofanias (revelações ou aparições do divino) e por trás de tudo está Deus. em 1774. Hugo. "A pessoa Shakespeare – escreve – foi uma natura naturata. Samkara ensina que os homens. Os primeiros textos narram que Buda. on this side Idolatry. intui a infinita concatenação de todos os efeitos e causas do universo. os últimos. E Nada e Nada. porque não é um quê. mas era tudo o que são os demais. Analogamente. e é incompreensível a si mesmo e a toda inteligência". é mais que sapiente. o abismo em que foram gerados os arquétipos e depois os seres concretos. Para defini-1o. depois. Irlandês Irlandês. Deus é o nada primordial da creatio ex Nihilo. o discursivo século XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan. no início do século XIX. não é bom. aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso é mais do que ser um Quem ou um Quê. João. ao pé da figueira. O processo que acabo de ilustrar está longe de ser aleatório. Dryden declara-o o Homero dos poetas dramáticos da Inglaterra. Não é sapiente. recorre à palavra Nihilum. Intimamente não era nada. que é a única realidade. o Irlandês. inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos. são o universo. doravante meu 1 No budismo. mas o universal. A magnificação até o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos.Erígena. das quais sua existência pessoal era apenas uma. e que se houvesse tantos Ganges como grãos de areia há no Ganges. mas como a substância capaz de infinitas modificações. "mas que não sabe o que é. que é uma sementeira de formas possíveis. esse ditame é recriado por Coleridge. ou seja. são Deus. . mas admite que muitas vezes é insípido e empolado. que é o nada. que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante não tenho reino ou meu reino é ilimitado. Seu contemporâneo Ben Jonson ama-o sem chegar à idolatria. e mais uma vez tantos Ganges como grãos de areia nos novos Ganges. ou o que podem ser". no sono profundo. um efeito. podemos observá-la inequivocamente no caso de Shakespeare. exceto em sua semelhança com todos os homens. a confusa intuição dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais que ser algo e que." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens. é mais que bom. equipara-o ao oceano. de certo modo. afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais são que modificações da mente de seu inventor. as passadas e futuras encarnações de cada ser. que se encontra potencialmente no particular. a figura se repete. para quem Shakespeare já não é um homem. o número de grãos de areia seria menor que o número de coisas que Buda ignora. escritos séculos mais tarde. e sim uma variante literária do infinito Deus de Spinoza. afirmam que nada é real e que todo conhecimento é fictício. é ser tudo.1 Ser uma coisa é inexoravelmente não ser todas as outras. foi a ele revelado não como abstraído da observação de uma pluralidade de casos.

uma delas é o processo que esta página denuncia. Schopenhauer escreveu que a história é um infindável e perplexo sonho das gerações humanas. 1950. . no sonho há formas que se repetem.corpo não me pertence ou pertence-me a terra inteira". Buenos Aires. talvez não haja nada além de formas.

embora estejam sujeitas à morte. contando o zênite e o nadir. há um homem velho. o Bodhisattva. forjou outra história. Na noite de sua concepção. Yama cumpre essa função. da estirpe do sol. este admite que sim. A realidade pode ser complexa demais para a transmissão oral. para nós. Suddhodana. a lenda a recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. o pré-Buda. para sugerir que Deus é o todo. um homem doente e um homem morto. um aleijado. o número seis é habitual (seis vias de transmigração. sofrer justo castigo e morrer. O testemunho consta de um dos livros do cânone. e avisam que nosso destino é nascer. rodas ou cilindros que giram em torno de um eixo. seis pontos cardeais. basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya. Tanto na parábola como na declaração. adoecer. é símbolo de mansidão. outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses. da cor da neve e com seis presas. . a multiplicação das presas não pode incomodar os espectadores de uma arte que.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrar-se da vida e da 1 Esse sonho é. um velho encurvado. animal doméstico. são eles: uma criança. mas não decifrou seu aviso. um doente ou um morto. Não o é para os hindus. confundindo-os. um criminoso sob suplicio e um morto. os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. a mãe de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante. caducar. Buda declarou que essa reflexão o induziu a abandonar sua própria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. o elefante. por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industão.FORMAS DE UMA LENDA Às pessoas repugna ver um velho. compõe figuras de múltiplos braços e rostos. pura fealdade. é filho de um grande rei. Pode ser que essa ameaçadora parábola não seja invenção de Buda. 2 Essa metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar. cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. seis Budas anteriores a Buda. às doenças e à velhice. Siddhartha. o tempo fez dos dois textos um só e. 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua própria vida. seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama").

Pergunta que homem é esse. o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industão em busca de livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Açoka erigiu. ordena voltar imediatamente. a última. dedicados ao deleite dos sentidos. Em outra saída vê um homem sendo conduzido em um féretro. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas. A lenda que. o cocheiro explica que é um velho e que todos os homens da terra serão como ele. a leste e a oeste das muralhas. Josafá (Josafat Bodhisattva) é filho de um rei da índia. A paz está em seu rosto. uma Barlaams Saga. foi composta na Islândia. Quatro saídas de Siddhartha e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do acaso. os astrólogos predizem que ele reinará sobre um reino maior. explicam-lhe. inquieto. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e não a eterna. O cardeal César Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano. um defeito: os encontros que ela postula são eficazes mas inverossímeis. Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda. Foucher. . de onde é retirado tudo o que pode revelar que ele é corruptível. a pedido do Haakon Haakonarson. em meados do século XIII. cujo tom sarcástico nem sempre é inteligente ou urbano. e trata de recluí-lo em um palácio.morte. cujo corpo não é como o dos outros". Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusória felicidade. sai em sua carruagem e vê com estupor um homem encurvado. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de Orígenes de la Novela. a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e Josafá. por fim. que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. ao norte. que é o da Glória. o cocheiro explica que é um doente e que ninguém está livre desse perigo. o rei confina-o em um palácio. em sua continuação das Décadas. No início do século V de nossa era. um indólogo contemporâneo. porém. para comemorar esses encontros. vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem viver. A. de Menéndez y Pelayo. uma manhã. é convertido à fé pelo ermitão Barlaão. Em outra saída. de um leproso e de um moribundo e. em terras ocidentais. Siddhartha acaba de encontrar o caminho. No início do século VII. mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um cego. ao sul. Menos atentos ao estético que à conversa Algumas são manuais. "cujos cabelos não são como os dos outros. determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha. Diogo do Couto denunciou. em 1615. mas Siddhartha. o homem imóvel é um morto. mas em outra saída vê um homem sendo devorado pela febre. inclusive o holandês e o latim. Siddhartha. coberto de lepra e de chagas. e morrer é a lei de todo aquele que nasce. outras são como grandes moinhos movidos pela água ou pelo vento. admitida a ignorância prévia do Bodhisattva. escreve que. as analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafá.

das pessoas. e os prosélitos. . ensinam que o mundo é ilusório. ode espantarse com formas criadas por sua própria divindade. Mais longe foi o Lalitavistara. rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas. a de Buda. "Minuciosa relação do jogo" (de um Buda) é o que quer dizer. quando interroga o cocheiro. costuma-se falar com certa ironia. aos olhos do budismo do Norte. no estranho poema. faz as divindades projetarem as quatro figuras simbólicas e.. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que não é sonhado por ninguém.3 o mundo. basta lembrar que todas as religiões do Industão. Dessa compilação em verso e prosa. 37-41). segundo Winternitz. mas seu emprego nessa frase é menos incômodo que o de grande Travessia ou Grande Veículo. os doutores quiseram justificar essa anomalia. no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita. exceto o cocheiro e o príncipe. meu Deus. Para desatar o problema não são indispensáveis. Assim. e o Nirvana. Lalitavistara. e em particular o budismo. já sabe quem são e o que representam. talvez coubesse responder: o livro é da escola do Mahayana. analogamente.) A humanidade do Filho. o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez. o leproso. por que me abandonaste?". porém. que teriam feito o leitor se deter. o continente. que é outro sonha. um jogo ou um sonho é para o Mahayana. instalado no quarto céu. (Nosso século. para Koeppen (Die Religion des Buddha. dirige cada etapa de seu destino. e a roda das 3 Rhys Davids suprime essa locução introduzida por Burnouf. 82). Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. o da terra as padece ou executa. o enigma merece em meu entender. revela o texto da obra aos deuses. o morto e o monge são simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. as quatro aparições são quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha. 1. segunda pessoa de Deus pôde gritar da cruz: "Meu Deus. que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno. Buda. o do céu ordena as coisas. tais sutilezas dogmáticas. O Buda. que não podem tolerar que Buda não saiba o que sabe um criado. em suas páginas. oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua mãe tem a força de dez mil elefantes. tudo isso é razoável se o entendermos como um sonho de Siddhartha. Siddhartha escolhe sua nação e seus pais. com outra mitologia ou vocabulário. escrita em sânscrito impuro. a história do Redentor é inflada até a opressão e até a vertigem. Siddhartha produz quatro formas que o encherão de estupor. ele fixou o período. diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam. pois. a vida de Buda sobre a terra.. outra solução. Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras. fala em inconsciente. na última forma da lenda. Foucher vê nisso um mero servilismo dos autores. Em uma biografia lendária do século XVI. Teologicamente.

A cronologia do Industão é incerta. O irreal. porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mágicas. Paradoxalmente. e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo X11 inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros. primeiro tornou fantásticas as figuras. não me surpreenderia que minha história da lenda fosse legendária. ênfases do Nada. 51 e 53) são imensas e monstruosas bolhas. depois o príncipe e. e Buda são igualmente irreais. doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. mero nome. mas sua efígie póstuma a divisa do alto do pedestal. Em fins do século XIX. feita de verdade substancial e de erros fortuitos. assim. incluído o livro que o declara e o homem que o lê.transmigrações. foi erodindo a história. com o príncipe. todas as gerações e o universo. não acrescentam realidade. muito mais. minha erudição. Ninguém se extingue no Nirvana. o príncipe feliz morre na reclusão do palácio. lemos em um famoso tratado. . Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota. Oscar Wilde propôs uma variante. de 9 a 49. os excessos numéricos do poema subtraem. sem ter descoberto a dor.

Croce nega a arte alegórica. à estátua. por De Quincey (Writings. é uma alegoria. Tais alegorias. guiado por Virgílio. I. é ciência. acrescentadas a uma obra concluída. As palavras de Croce são cristalinas.) Que eu saiba. São expressões que extrinsecamente se adicionam a outras expressões. de Marino. recair-se-á em um erro intelectualista. podendo-se por um lado expressar o símbolo e por outro a coisa simbolizada. chega . basta-me repeti-las em vernáculo: "Se o símbolo for concebido como inseparável da intuição artística. o poeta da lascívia. o gênero alegórico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. VII). Mas também devemos ser justos com o alegórico e advertir que em alguns casos é inócuo. XI. a reflexão de que o prazer desmedido leva à dor. 39) e por Chesterton (G. 1946). opino que aquele está com a razão.DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES Para todos nós. e sim uma sorte de escrita ou de criptografia". por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana. do Adone. o tom é mais hostil: "A alegoria não é um modo direto de manifestação espiritual. que sempre tem caráter ideal. será sinônimo da intuição mesma. a palavra clemência ou a palavra bondade". diante de uma estátua. 50). ao Adone. a alegoria é um erro estético. Chesterton a vindica. (Meu primeiro propósito foi escrever "não é outra coisa senão um erro da estética". o escultor pode pôr um cartaz dizendo que se trata da Clemência ou da Bondade. Esta é aquele e aquele é esta. neste ensaio. F. mas logo me dei conta de que minha sentença comportava uma alegoria. 198). Da Jerusalém Libertada pode-se extrair qualquer moralidade. Watts. 83). A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante. À Jerusalém adiciona-se uma página em prosa que expressa outro pensamento do poeta. mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificável pôde desfrutar de tantos favores. Se o símbolo for concebido como separável. limitar-me-ei aos dois últimos. Croce não admite diferença entre conteúdo e forma. por Croce (Estetica. ou arte arremedando a ciência. um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender. o suposto símbolo é a exposição de um conceito abstrato. não a prejudicam. Na página 222 do livro La Poesia (Bári.

um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminações secretas que essa palavra indica. para o aristotélico. É feita de palavras. a alegoria pode ser uma delas. Kant. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. que são generalizações. Locke. consta de vinte e quatro mil versos) e agora é intolerável. William James. para vindicar o alegórico.. o outro. começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade.. é tola e frívola. sei que a arte alegórica pareceu em algum momento encantadora (o labiríntico Roman de la Rose. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. mas destaca a importância dessa controvérsia tenaz que uma sentença de Porfírio. se os nominalistas são Aristóteles. Segundo a opinião de George Henry Lewes. os realistas são Platão. Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas. Chesterton. 2). mestre da humana razão (Dante. . é o mapa do universo. para aqueles. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um é Parmênides. em todas as suas fusões e conversões. Não sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razão. vertida e comentada por Boécio. mais rico e mais feliz. Através das latitudes e das épocas. nem o romano Boécio. escrevendo na torre de Pavia. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. que figurou a história de sua paixão em Vita Nuova. Sentimos que. Hume. que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do século XI e que William de Occam reanimou no século XIV. os primeiros. Francis Bradley. Aristóteles. a linguagem não passa de um sistema de símbolos arbitrários. Os últimos intuem que as idéias são realidades. Nas árduas escolas da Idade Média. Convívio. mas não é uma linguagem da linguagem. Um signo mais preciso que o monossílabo. todos invocam Aristóteles. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. à sombra da espada de seu carrasco. "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes." Declarada a insuficiência da linguagem. o De Consolatione. como a arquitetura ou a música. o juízo é temerário. o único debate medieval com algum valor filosófico é o que confrontou nominalismo e realismo. que esses matizes. essa ordem. além de intolerável. Platão. há lugar para outras. para estes. Heráclito. mas.a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcança a fé. no entanto. guiado pela razão). Crê. uma ordem. provocou nos inícios do século IX. IV. Nem Dante. Spinoza. Como explicar essa discórdia sem recorrer a uma petição de princípio sobre a volubilidade dos gostos? Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. teriam entendido esse sentimento. que perdura em duzentos manuscritos.

e sim a espécie. tentou traduzir para o inglês o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traições") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri. e sim a humanidade. A passagem da alegoria ao romance. Os indivíduos que os romancistas propõem aspiram a ser genéricos (Dupin é a razão. A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais.Como era de esperar. O original está no sétimo livro da Teseida. As abstrações são personificadas. outrora novidade de uns poucos. 1949. De tais conceitos (cuja manifestação mais clara talvez seja o quádruplo sistema de Erígena) adveio. entretanto. mas ouso apontar uma data ideal. em Knightes Tale. Esta é fábula de abstrações. a versão. hoje abarca todas as pessoas. as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. os indivíduos. Mas procuremos entender que. por isso. e até o fim do século XII seus adversários são chamados pelo nome de moderni". e sim o gênero. a literatura alegórica. Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina". Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer. . tantos anos multiplicaram até o infinito as posições intermediárias e as distinções. sua vitória é tão vasta e fundamental que seu nome é inútil. não as espécies. com o punhal sob a capa"). os romances contêm um elemento alegórico. nós. o substantivo não eram os homens. que talvez não se julgasse nominalista. os conceitos abstratos). Dom Segundo Sombra é o Gaúcho). Uma tese agora inconcebível pareceu evidente no século IX e de certo modo perdurou até o século XIV O nominalismo. em toda alegoria há algo de romanesco. as formas. de espécies a indivíduos. O cronista Heriman (século XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialética in re. Maurice de Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adesões. é possível afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Platão diria as idéias. Buenos Aires. demandou alguns séculos. assim como o romance o é de indivíduos. não os indivíduos. e sim Deus. não os gêneros. para os homens da Idade Média. em meu entender. verossimilmente. Ninguém se declara nominalista porque não há quem seja outra coisa. do realismo ao nominalismo. e para o nominalismo.

ou que uma série de estruturas verbais. em todas as línguas.1 A literatura não é esgotável. Na Comédia (Inferno. When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave. mas exageram uma propensão que é comum: fazer da metafísica. no Samson Agonistes (86-89): The Sun to me is dark And silent as the Moon. as palavras amica silentia lunae significam agora a lua íntima. uma sorte de jogo combinatório.. 101. enquanto na Eneida significaram o interlúnio. temos: "d´ogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros. desiguais e giratórios. Cf. que registrasse todas as variações dos vinte e tantos símbolos ortográficos. Tillyard: The Miltonic Setting. I. aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal. silenciosa e resplandecente. tudo que é possível exprimir. 28). 60. John Stuart Mill. e as mutáveis e duradouras imagens que ele deixa na memória. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro é mais que uma estrutura verbal. é o diálogo que trava com seu leitor. Esse diálogo é infinito. Kurd Lasswitz. ou seja. e das artes. a julgar por certas passagens que parecem imitativas. em fins do XIX. o temor de Mill e a caótica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escárnio. no início do século XIX. V. A máquina de Lúlio. Raimundo Lúlio (Ramón Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concêntricos. pela 1 Assim foi interpretada por Milton e Dante. a escuridão que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tróia. temeu que um dia se esgotasse o número de combinações musicais e que no futuro não houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts.. subdivididos em setores com palavras latinas. E. e a entonação que impõe a sua voz. . M.NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW Em fins do século XIII.

não uma coisa escrita). se é que já não o perderam. o tratado De Coelo et Inferno. Uma literatura difere da outra. dada a primeira. Shotover. obter essa filosofia. menos pelo texto que pelo modo que é lida: se me fosse dado ler qualquer página atual – esta. para que tivesse alguma virtude. Kreegan. é um eixo de inumeráveis relações. A concepção da literatura como jogo formal leva. A lapidar fórmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Heráclito: Raimundo Lúlio diria que. deveríamos concebê-la em função de Heráclito. apresenta a mesma doutrina.2 mas Lavínia. Pensar em Monsieur Teste ao 2 Também em Swedenborg. basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e. por obra do metódico acaso. no melhor dos casos. qualquer um poderia produzir qualquer livro. Isso nos leva a um problema estético até hoje não formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que não. . Com a literatura ocorre o mesmo. e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de íntima afinidade. um interlocutor não é a soma ou a média daquilo que diz: pode não falar e transparecer que é inteligente. a um decoro artesão (Johnson. Richard Dudgeon e. mas sentese mais o valor de Dom Quixote. mesmo que "Heráclito" fosse apenas o presumível sujeito dessa experiência. suspeito. e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. sobretudo. de Swedenborg. no pior. ulterior ou anterior. a fonte de suas eloqüentes tiradas e das idéias expostas em seus prefácios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler. um gênero oral. em função de uma experiência de Heráclito. Herrera y Reissig). os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se não menos incômodos que os de Shakespeare (o humorismo é. à força de provar variantes. um súbito favor da conversa. Afirmei que um livro é um diálogo. Em Man and Superman lê-se que o Inferno não é um estabelecimento penal. D´Artagnan executa inúmeras façanhas enquanto Dom Quixote é surrado e escarnecido. Caberia responder que a fórmula obtida por eliminação careceria de valor e até de sentido. Se a literatura não fosse mais que uma álgebra verbal. Nesse parecer fundamento minha convicção sobre a preeminência de Shaw. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação. pode emitir observações inteligentes e transparecer estupidez. no diálogo. Penso que de nós não saem criaturas mais lúcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. Júlio César superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. às incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracián. Blanco Posnet. ao bom trabalho do período e da estrofe. uma forma de relação. Flaubert) e. Renan. além de muitíssimas outras. por exemplo – como será lida no ano 2000. publicado em 1758. eu saberia como será a literatura do ano 2000. como os bemaventurados o Céu. As questões sindicais e municipais de suas primeiras obras perderão o interesse.suficiente e simples razão de que um único livro não o é.

O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas. são. que formalmente podem ser admiráveis. que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fáceis nas colunas dos jornais. O argentino sente que o universo não passa de uma manifestação do acaso. salvo ser escarnecido ou vencido.lado deles ou no histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e até com escândalo a primazia de Shaw. tais disciplinas. Buenos Aires. ou dramatis personae: o mais efêmero será. ou de classes. ao contrário. tão comparável à divindade primordial que outro irlandês. um matador de heróis" (Dichtung und Dichter der Zeit. a lírica é a complacente magnificação de venturas ou desventuras amorosas. chamou Nihil). imorais. não concebia que o heróico pudesse prescindir do romântico e encarnar no capitão Bluntschli de Arms and the Man. A ética também não: para ele. não em Sérgio Saranoff.. aquele G. Os temas fundamentais de Shaw são a filosofia e a ética: é natural e inevitável que ele não seja valorizado neste país. Costumam afetar desespero e angústia. . Em 1911. 1951. a filosofia não lhe interessa. B. deixa um sabor de libertação. fomentam essa ilusão do eu que o Vedanta reprova como erro capital. ou de nações. Albert Soergel pôde escrever. em que tudo é lícito. nesse sentido. o social reduz-se a um conflito de indivíduos. as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de nós o interessante interlocutor de um diálogo secreto e contínuo com o nada ou com a divindade. O caráter do homem e suas variações são o tema essencial do romance de nosso tempo. 214). do fortuito concurso dos átomos de Demócrito. mas no fundo contentam a vaidade. Desse nada (tão comparável ao de Deus antes de criar o mundo. S. Bernard Shaw eduziu quase inumeráveis personagens. A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contém uma admirável carta daquele. A obra de Shaw. suspeito.. da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ninguém". repetindo um lugar-comum da época: "Bernard Shaw é um aniquilados do conceito heróico. ou que o seja unicamente em função de alguns epigramas. João Escoto Erígena.

um sonho e um homem que está louco.1 Assim. o Crátilo. são muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo. discute e parece negar um vínculo necessário entre as palavras e as coisas. A lição original é famosa. e o nome verdadeiro. esquecer o nome (perder a identidade pessoal) é talvez o maior. espécie de chave universal de todos os céus. Consta no terceiro capítulo do segundo livro de Moisés. Segundo a literatura funerária. . 1 Um dos diálogos platônicos. perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". Quinto Valério Sorano cometeu o sacrilégio de revelá-lo.. que Basilides (segundo Ireneu) reduziu à cacofônica ou cíclica palavra Kaulakau. narrar e pesar essas palavras. e seus dois ecos. que era por todos conhecido. talvez não seja ocioso lembrar que para o pensamento mágico. ou primitivo. por seu lado. autor e protagonista do livro. De Quincey.1949). Formou-se assim um vasto vocabulário de nomes próprios. chamado Êxodo.. Entre os antigos egípcios prevaleceu um costume análogo. ou grande nome. que era mantido oculto.2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para tê-la em seu poder" (La Religion Égyptienne. Antes de examinar essas misteriosas palavras. e sim parte vital daquilo que definem. lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma. repetem uma obscura declaração. e foi executado. Também importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses. Moisés. é a finalidade destas páginas. cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno. e que não o ignora. dos demônios e das portas do outro mundo. os nomes não são símbolos arbitrários. um deus.HISTÓRIA DOS ECOS DE UM NOME Isolados no tempo e no espaço. nos últimos dias da República. 2 Os gnósticos herdaram ou redescobriram essa singular opinião. Lemos aí que o pastor de ovelhas. os aborígines da Austrália recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivíduos da tribo vizinha.

Segundo essa primeira interpretação. bem pode ser uma magnificação desta idéia: "Deus existe. Ego sum qui sum. Nos conceitos de calúnia e injúria perdura essa superstição. e beber. até que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comédia. mas hei de comer. e dormir como um capitão. nós é que não existimos". Nessa comédia entrevemos. o homem é degradado publicamente. cujo chão é o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e por vezes pavoroso. ou. cresceu e reverberou pelos séculos. que a palavra eu só pode ser pronunciada por Deus. o sentencioso nome de Deus. I am that I am –. que poderiam matar. A doutrina de Spinoza. Deus não diz quem é. muito lateralmente. mas amanhã posso revestir qualquer forma. porque isso excederia a compreensão de seu interlocutor humano. ou sua sombra.) Que interpretações suscitou a tremenda resposta que Moisés escutou? Segundo a teologia cristã. o nome que. e sim de indagar quem era Deus. o que Ele era. Lemos isso no Gog und Magog. (No século IX. teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de tê-lo em seu poder. analogamente. "Eu Sou Aquele que Sou" declara que só Deus existe realmente ou. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. por meio de um estratagema. da injustiça e da adversidade". que é Deus. 3 Buber (Was ist der Mensch?. . e também as formas da opressão. Moisés perguntou ao Senhor qual era Seu nome: não se tratava. aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "Não serei mais capitão. como em um espelho caído. sim. porque não é um quê nem um quem. enlouquecer ou escravizar seu possuidor. 1938) escreve que viver é penetrar em um estranho aposento do espírito. Mauthner já analisou e condenou esse hábito mental.3 Multiplicado pelas línguas humanas – Ich bin der ich bin. "Eu Sou Aquele que Sou" é uma afirmação ontológica. a despeito de constar de muitas palavras. Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é. que. é mais impenetrável e mais firme que os que constam de uma única. consegue ser promovido a capitão. como ensinou o Maggid de Mesritch. Deus teria respondido: "Hoje converso contigo. isto que sou me fará viver". de uma curiosidade de ordem filológica. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" também pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei". como vimos. de fato.O selvagem oculta seu nome para que este não seja submetido a operações mágicas. escreveu um mexicano. e então Shakespeare intervém e põe em sua boca palavras que refletem. O ardil é descoberto. mais precisamente. um miles gloriosos. Moisés. que faz da extensão e do pensamento meros atributos de uma substância eterna. um soldado fanfarrão e covarde. não toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. à maneira dos feiticeiros egípcios.

incapazes de conversar com seus semelhantes. ou como quem se afirma e se ancora em sua íntima essência invulnerável: "Sou aquilo que sou. a idiotia agravaramse e foram aprofundando a melancolia de Swift. ou pelo acusado em um processo de difamação. Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz. talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. por um suplente que não consegue chegar a titular. uma forma da eternidade do inferno. mas sou". Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia. Tomei-me por outro. o tecido das roupas que vesti e descartei. "Pensar nele é como pensar na ruína de um grande império". como se aqueles que o julgam não quisessem ficar para trás. Aqui termina a história da sentença. Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representação. louco e já moribundo. que para ele talvez tenham sido um único instante insuportável. Verbi gratia. se tanto. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. Não fui essas pessoas. a um erro. começarei a morrer pela copa". porque o decorrer do tempo modificou a linguagem. não sabemos se com resignação. porque sua memória é insuficiente para passar de uma linha a outra. Na terceira parte de Gulliver. o dos Night Thoughts: "Sou como esta árvore.Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cômica para ser um homem e todos os homens. e de ler. velho. a modo de epílogo. por fim. sou aquilo que sou". Até que uma tarde. a vertigem. com desespero. escreveu Thackeray. ou por outras pessoas que padecem de análogas misérias. sou o que de mim fizeram as leis universais". Negava-se a usar óculos. ou pelo doente que não pode sair de casa. e também "Sou o que Deus quer que eu seja. isso deve-se a uma confusão. Em 1717 dissera a Young. o medo da loucura e. tão inevitável e necessária quanto as outras". mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert). já perto de morrer. terá sentido Swift. que ocupará os pensadores dos . ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha. em um dos anos que durou a longa agonia de Swift. e também "Sou uma parte do universo. De inteligência glacial e de ódio glacial vivera Swift. Mas nada é tão patético quanto sua aplicação das misteriosas palavras de Deus. sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser. Swift perdura para nós em algumas poucas frases terríveis. as palavras que. A última versão veio à luz em mil setecentos e quarenta e tantos. ou quem sabe para esconjurá-lo magicamente. ouviram-no repetir. quero apenas acrescentar. Esse caráter sentencioso e sombrio às vezes estende-se ao que se diz sobre ele. entregues a débeis apetites que não podem satisfazer. e quem sabe "Ser é ser tudo". ele imaginou com minucioso desprezo uma estirpe de homens decrépitos e imortais. elas foram. "Serei uma desventura. A surdez. Começou a perder a memória. Mais que na seqüência de seus dias. não podia ler e era incapaz de escrever.

com profusão de prévia propaganda e persistente publicidade. Depois desse dia. por ser ligeiramente enigmática. Outra coisa: a vontade. e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". em razão mesmo de sua anomalia. constatei que o sujeito dessa misteriosa ação era Esquilo e que este. e podemos dizer que assistimos a sua origem". "elevou de um a dois o número de atores". Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exército da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milícias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje. a verdadeira história. Esse sou eu. têm menos relação com a história que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a história. até. embora seu livro a registre. a coisa que era Swift. secretas. trajando preto ou púrpura e com o rosto aumentado por . Cheguei a essa reflexão graças a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega e que despertou meu interesse. Sabe-se que o drama nasceu da religião de Dionísio.séculos vindouros. a obscura raiz de Parolles. segundo o que se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles. Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representação. Um prosador chinês observou que o unicórnio. durante muito tempo. Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador é tão ilusório quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa. houve muitíssimas jornadas históricas. O PUDOR DA HISTÓRIA No dia 20 de setembro de 1792. inaugura-se uma época na história do mundo. e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itália. na Alemanha e na Rússia) foi forjá-las ou simulá-las. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). alçado pelos coturnos. profundamente. o hipócrita. Detive-me. Tácito não reparou na Crucificação. Os olhos vêem o que estão habituados a ver. originalmente. Tais jornadas. de Mille. é mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser. um único ator. passaria inadvertido. nas quais se percebe a influência de Cecil B.

e outros que nossos olhos ainda não podem discernir. Ao sul de Jorvik. que dará ele ao rei Harald Sigurdarson? "– Ele não foi esquecido – respondeu o cavaleiro. fez-lhes frente o exército saxão. Aconteceu na Islândia. os homens. irmão do rei saxão da Inglaterra. talvez apenas um princípio de assombro. Para a instrução das futuras gerações. Com o segundo ator entraram em cena o diálogo e as indefinidas possibilidades da reação de uns personagens sobre outros. em 1225. já que é tão alto. Expostos os fatos anteriores. o historiador e polígrafo Snorri Sturluson. Harold Filho de Godwin. mas nunca saberemos se pressentiu. e Sigismundo. prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se às fileiras do invasor. . Harald Sigurdarson perguntou. Um dos cavaleiros gritou: "– Está aqui o conde Tostig? "– Não nego estar aqui – disse o conde. Um espectador profético teria visto que ele vinha acompanhado por multidões de aparências futuras: Hamlet. mas um dia. dividia a cena com os doze indivíduos do coro. e assim até o infinito. Nas Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagórica. naquele teatro da cor do mel. "– Se verdadeiramente és Tostig – disse o cavaleiro –. "Os cavaleiros se retiraram. sequer de modo imperfeito. e Fausto.uma máscara. digamos. no século XIII de nossa era. "– Então – disse Tostig – dize a teu rei que lutaremos até a morte. O drama era uma das cerimônias do culto e. – Receberá sete palmos de terra inglesa e. o que eles terão pensado. Outra jornada histórica descobri em minhas leituras. Naquele dia de uma primavera remota. na Itália e na África. da unidade à pluralidade. e também os cavalos. que antes militara em Bizâncio. venho dizer-te que teu irmão oferece a ti seu perdão e um terço do reino. quão significativa era essa passagem do um ao dois. Isso poderia ter acontecido. cobiçava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. em sua chácara de Borgarfjord. pensativo: "– Quem era esse cavaleiro que tão bem falou? "– Harold Filho de Godwin". Tostig. quinhentos anos antes da era cristã. e Peer Gynt. desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). chamado o Implacável (Hardrada). os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Victor Hugo levantou a segunda hipótese) a não anunciada aparição de um segundo ator. como todo ritual. correu em algum momento o risco de tornar-se invariável. e Macbeth. Com um exército norueguês. o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escândalo. "– Se eu aceitar – disse Tostig –. mais um. estavam revestidos de ferro. escrevia a última empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson.

Outros capítulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exército norueguês foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e também o conde (Heimskringla, X, 92). Há um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitações perpetradas pelos profissionais do patriotismo) não costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do heróico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundível, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o êxito"), na balada anglo-saxã de Maldon ("Meu povo pagará o tributo com lanças e velhas espadas"), na Canção de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitáfio para um Exército de Mercenários, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trás da aparente simplicidade do historiador há um delicado jogo psicológico. Harold finge não reconhecer o irmão, para que este, por sua vez, perceba que não deve reconhecê-lo; Tostig não o trai, mas tampouco trairá seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmão, mas não a tolerar a intromissão do rei da Noruega, procede de modo muito compreensível. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um terço do reino, dar sete palmos de terra.1 Há somente uma coisa mais admirável que a admirável resposta do rei saxão: a circunstância de que seja um irlandês, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. É como se um cartaginês tivesse legado a memória da façanha de Régulo. Com razão escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islândia) deleitam-se em aprender e registrar a história de todos os povos e não consideram menos glorioso publicar as excelências alheias que as próprias". Não o dia em que o saxão proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histórica. Uma data profética de algo que ainda está no futuro: o olvido de sangues e nações, a solidariedade do gênero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de pátria; Snorri, ao relatá-la, supera e transcende tal conceito. Outro tributo a um inimigo lembro nos últimos capítulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemão e escreve as seguintes palavras: "Então, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmãos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adição, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").
1

Buenos Aires, 1952.

NOVA REFUTAÇÃO DO TEMPO
Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1 DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

NOTA PRELIMINAR Se publicada em meados do século XVIII, esta refutação (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 – depois de Bergson –, é a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o precário artifício de um argentino extraviado na metafísica. Ambas as conjeturas são verossímeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, não posso prometer, em troca de minha dialética rudimentar, uma conclusão inaudita. A tese que propalarei é tão antiga quanto a flecha de Zenão ou a carruagem do rei grego, no Milinda Pañha;2 a novidade, se é que há alguma, consiste em
1

"Antes de mim não existia o tempo, depois de mim não existirá. / Comigo ele veio ao mundo, também comigo perecerá." (N. da T.)
2

Não há exposição do budismo que deixe de mencionar o Milinda Pañha, obra apologética do século II, que relata um debate cujos interlocutores são o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este

aplicar a esse fim o clássico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, são pródigos em parágrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, não obstante, a conseqüência inevitável de sua doutrina. O primeiro artigo ("A") é de 1944 e apareceu no número 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, é uma revisão do primeiro. Deliberadamente, não fundi os dois em um só, por entender que a leitura de dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil. Uma palavra sobre o título. Não me escapa que este é um exemplo do monstro que os lógicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que é nova (ou antiga) uma refutação do tempo é atribuir-lhe um predicado de índole temporal, que instaura a noção que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mantê-lo, para que seu ligeiríssimo escárnio prove que não exagero a importância desses jogos verbais. De mais a mais, tão saturada e animada de tempo está nossa linguagem que é bem provável que não haja nestas páginas uma sentença que de certo modo não o exija ou invoque. Dedico estes exercícios a meu antepassado Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), que legou às letras argentinas algum decassílabo memorável e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teológicas e expondo na cátedra os princípios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver. J. L. B. Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

argumenta que, assim como a carruagem do rei não é as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lança, nem o jugo, tampouco o homem é a matéria, a forma, as impressões, as idéias, os instintos ou a consciência. Não é a combinação dessas partes nem existe fora delas... Ao término de uma controvérsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se à fé de Buda. O Milinda Pañha foi vertido para o inglês por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

Dois argumentos me encaminharam a esta refutação: o idealismo de Berkeley e o princípio dos indiscerníveis. Berkeley (Principies of Human Knowledge. Se. de meu Fervor de Buenos Aires (1923). ou seja. eu a vejo e a toco. Afirmo que esta mesa existe. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. nem sequer o penúltimo da série. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz. pude divisar ou pressentir uma refutação do tempo. menos demonstrativo e racional que divinatório e patético. 3) observou: "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. é declarada em certa página de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte". nem nossas paixões. de certo modo.. eu fizer a mesma afirmação. mas que costuma visitar-me à noite e no exausto crepúsculo. Essa refutação está. de qualquer modo que se combinem (isto é. só podem existir em uma mente que as perceba. Tentarei fundamentar todos eles com este escrito.A I No decorrer de uma vida consagrada às letras e (vez por outra) à perplexidade metafísica. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrição em qualquer sepulcro" e "O truco". estando fora de meu escritório. qualquer que seja o objeto que elas formem). nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. ou que algum outro espírito a percebe. que transcrevo mais adiante.. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. da qual eu mesmo descreio. . de Leibniz... com ilusória força de axioma.

Berkeley (Principies of Human Knowledge. capítulo VIII. nada mais fácil que imaginar árvores em um prado ou livros em uma biblioteca. sem ninguém por perto para percebê-los.sem relação com o fato de serem ou não percebidas. prevenindo objeções: "Mas. os olhos e as mãos do homem são menos ilusórios ou aparenciais que a terra e o sol. Essa é. Ou seja. por se tratar de dois sistemas visuais independentes. Berkeley já fizera Philonous dizer: "O cérebro de que falas. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". nas palavras de seu inventor. No parágrafo 23 acrescentou. De fato. mas tão-somente uns olhos que vêem um sol e umas mãos que sentem o contato de uma terra". Mas. O homem que confessa esta verdade sabe claramente que não conhece um sol nem uma terra. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". Entendê-la é fácil. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vê-las basta-nos abrir os olhos. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. ao expôla. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. nada mais fácil. Em 1844. por sua vez. 10 e 116) também negou as qualidades primárias – a solidez e a extensão das coisas – e o espaço absoluto. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazêlo. Este (The Mind of Man. dois sistemas táteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") não é maior que o imaginado (o "cerebral") e não o contém. ao mesmo tempo. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer também é justo contrapor o monismo de Spiller. o sexto. a doutrina idealista. em 1713. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung – ano de 1819 – formula a seguinte declaração. comete negligências reprováveis. não têm outro ser salvo serem percebidos. Logo no primeiro capítulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenômeno cerebral e distingue "o mundo na cabeça" do "mundo fora da cabeça". não existem quando não os pensamos. para o idealista Schopenhauer. só pode existir na mente. é para mim insensato. direis. ele publica um volume complementar. sendo uma coisa sensível. O próprio Schopenhauer. Se responderes que sim. nego que os objetos possam existir fora da mente". difícil é pensar dentro de seus limites. 1902) argúi que a retina e a superfície cutânea invocadas para explicar o visual e o tátil são. . Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. Seu esse est percipi. Uma delas é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a poderosa fábrica do universo – não existem fora de uma mente. que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo é minha representação. Em outro parágrafo.

de sua própria vida. censurei Schopenhauer (não sem ingratidão). somos apenas a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. Berkeley afirmou a identidade pessoal. 6). um instante literário.1 A metafísica idealista declara que acrescentar a essas percepções uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) é temerário e inútil. nega tal existência (Treatise of Human Nature. 4. Hume. que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez" (obra citada. para que meu leitor fosse penetrando nesse instável mundo mental. propôs que em lugar de "penso" disséssemos impessoalmente "pensa". 98). A essa quase perfeita desagregação chegou David Hume. Se alguém suspeitar de uma falácia. "porque eu não sou meramente minhas idéias. Ambos afirmam o tempo: para Berkeley. logo existo" cartesiano fica invalidado. vê uma linha indistinta que são as árvores. 1. quando nenhum indivíduo os percebe. um mundo sem a arquitetura ideal do espaço. nem objetivo nem subjetivo. pois. 2. poderá intercalar outro exemplo. Huckleberry Finn acorda. vê um vago número de estrelas. como quem diz "troveja" ou "relampeja". eu afirmo que não menos ilógico é pensar que são termos de uma série cujo princípio é 1 Para facilidade do leitor. é uma petição de princípio. 4. Imaginemos um presente qualquer. um labirinto incansável. um sonho. Em uma das noites do Mississipi. talvez. Lichtenberg. não sei que direito nós temos a essa continuidade que é o tempo. mergulha no sono imemorial como em uma água escura. . também a refuta e faz de cada homem "uma coleção ou feixe de percepções. e sim outra coisa: um princípio ativo e pensante" (Dialogues. a governar os atos e a captar as impressões. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansável da água. a jangada. do absoluto tempo uniforme dos Principia. 2). Um mundo de impressões evanescentes. I. abre os olhos com negligência. Para Hume. 3). já que a mente não passa de uma série de percepções. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (obra citada. fui iterativo e explícito. não histórico. tampouco se pode falar das percepções da mente. perdida na escuridão parcial.Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos. faz. prodigalizei suas passagens canônicas. um mundo feito de tempo. para Hume. O "penso. escolhi um instante entre dois sonhos. negado também o espaço. no século XVIII. é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. eles são percebidos por Deus. Hume. segue rio abaixo. Uma vez aceito o argumento idealista. se quiser. o cético. dizer "penso" é postular o eu. Repito: não há por trás dos rostos um eu secreto. não é lícito falar da forma da lua ou de sua cor. A série? Negados o espírito e a matéria. 2). um caos. com mais lógica. I. em seguida. um mundo sem matéria nem espírito. um pouco de frio. que são continuidades. Acumulei acima citações dos apologistas do idealismo. a forma e a cor são a lua.

a soma de todos os fatos. inúmeras vezes. Verbi gratia. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo. embora não sua lembrança. eu. não posso caminhar pelos subúrbios na . porque os dois homens morreram. Hume negou a existência de um espaço absoluto. ela me enganava": se cada estado que vivemos é absoluto. para mim. que sempre se referem a fatos futuros. tais fatos não foram contemporâneos (agora o são). Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida. O universo. ou seja. a sucessividade. em um elevado número de casos. para o idealismo. dura entre alguns segundos e uma ínfima fração de segundo. em que todos os fatos se encadeiam. não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato. a fatos que não ocorrerão conosco. Acrescento: se o tempo é um processo mental. a vasta série temporal que o idealismo admite. essa felicidade não foi contemporânea dessa traição. a descoberta da traição é mais um estado. interrompido e como que entorpecido de exemplos. nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. acrescentar outra percepção a essa rede imediata de percepções é. Dizem-me que o presente. nem as prisões. em que cada coisa tem seu lugar. no início de agosto de 1824.. de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849. Tomemos uma vida ao longo da qual amiúdam as repetições: a minha. Em outras palavras: nego. nenhum? – entre 1592 e 1594. De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre. nem o perdão. nego. existe cada momento que vivemos. o specious present dos psicólogos. que somos o minucioso presente.tão inconcebível quanto seu fim. injustificável. Nem a vingança. este em Edimburgo. por exemplo. entre quatro e dez e quatro e onze. ou mesmo dois homens distintos? O argumento dos parágrafos acima. Nego. sem nada saber um do outro. é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare – um. à frente de um esquadrão de hussardos do Peru. isso dura a história do universo. muitos. pensando na fidelidade de meu amor. nem sequer uma de suas noites. o capitão Isidoro Suárez. Busco um exemplo mais concreto. meus avós e bisavós. com argumentos do idealismo. incapaz de modificar os "anteriores". pode parecer intrincado. não existe tal história.. também a simultaneidade. aquele na cidade de Montevidéu. lembro já ter lembrado o mesmo. em um elevado número de casos. a de um único tempo. Tentarei um método mais direto. Não passo diante de La Recoleta sem lembrar que aí estão sepultados meu pai. em seguida. não seu imaginário conjunto. como não existe a vida de um homem. Ou melhor. como podem compartilhá-lo milhares de homens. decidiu a vitória de Junín. Acrescentar ao rio e à margem percebidos por Huck a noção de outro rio substantivo de outra margem. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão. No início de agosto de 1824. Cada instante é autônomo. assim como eu estarei. A desventura de hoje não é mais real que a ventura pretérita.

cada vez que recordo o fragmento 91 de Heráclito. Postulada essa igualdade. guerras. a ética do sistema que acabo de esboçar. mas nos quais se dá o mesmo processo). de fagulhas. Se dez mil pessoas morrerem com você. Lewis. 139). epidemias – são uma só dor. penso em Adrogué. quem aniquilasse todos os homens não seria mais culpado que o primitivo e solitário Caim. penso que o Yiddish é. Shakespeare? Ignoro. o que é ortodoxo. S. 86): "O que você pode padecer é o máximo que se pode padecer na terra. nem mais universal na destruição. Nem a pobreza nem a dor são acumuláveis". cabe perguntar: esses idênticos momentos não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a série do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare não são. II. ainda. Helena. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism. se não há pluralidade. I. (Cf.) Lucrécio (De Rerum Natura. o que pode ser mágico. Não sei se existe. Essas tautologias (e outras que calo) são minha vida inteira. entende que o tempo é feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre é também uma sucessão" (The World and the Individual. também The Problem of Pain. 830) atribui a Anaxágoras a doutrina de que o ouro consta de partículas de ouro. dois momentos iguais. não posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que só se perde aquilo que não se teve realmente. concedendo-nos a ilusão de tê-lo inventado. Tal proposição é compatível com a deste trabalho. talvez influenciado por Santo Agostinho.solidão da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos. de C. cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade. para a justiça de Deus. penso em você. Eu entendo que é assim. a participação delas em sua sorte não o fará ter dez mil vezes mais fome nem multiplicará por dez mil o tempo de sua agonia. de ossinhos imperceptíveis. em minha infância. porém. pouco maculado pelo idioma do Espírito Santo. O quinto parágrafo do quarto capítulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que. aquele que mata um único homem destrói o mundo. o fogo. admiro sua destreza dialética. Suspeito. Se você morrer de inanição. ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. sofrerá toda a inanição havida e por haver. de luz. cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos. elas se repetem sem precisão. . As ruidosas catástrofes gerais – incêndios. VII. Josiah Royce. cada vez que ouço um germanófilo vituperar o Yiddish. Não se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos. que o número de variações circunstanciais não é infinito: podemos postular. antes de mais nada. há diferenças de ênfase. tal soma não existe. literalmente. Naturalmente. um dialeto alemão. de temperatura. como a lembrança. pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio é outro") impõe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"). "Nunca entrarás duas vezes no mesmo rio". de estado fisiológico geral. na mente de um indivíduo (ou de dois indivíduos que se ignoram. o osso.

o beco. com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram. "Assim a rememoro. a rua era de barro elementar. Tomava-a irreal sua própria tipicidade. Já a mencionei antes. na escassa medida do possível. Sua noite não tinha destino algum. Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. em sereníssima folga de pensar. Sobre a terra turva e . Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra já antedita por mim. Na tarde que precedeu essa noite. a figueira escurecia a esquina. quase tão efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisível esqueleto. A marcha levou-me a uma esquina. mas suas ainda misteriosas imediações: confins que possuí inteiro em palavras e pouco em realidade. uma sorte de gravitação familiar empurrou-me a outros bairros. isso que chamam caminhar a esmo. trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte": "Quero registrar aqui uma experiência que tive algumas noites atrás: futilidade por demais evanescente e extática para ser chamada de aventura. são para mim essas ruas penúltimas. desbarrancava-se em direção ao Maldonado. A rua era de casas baixas. depois do jantar. Não quis impor um rumo a essa caminhada. como era serena. dispus-me à máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma só delas. Contudo. suas costas. embora seu primeiro significado fosse de pobreza. A visão. O reverso do conhecido. barro da América ainda não conquistado. por demais irracionável e sentimental para pensamento. Aspirei noite. Nenhuma casa se aventurava à rua.II Toda linguagem é de índole sucessiva. o preciso âmbito da infância. não é apta para pensar o eterno. Passo a historiá-la. Não quero com isso significar o bairro meu. saí para caminhar e recordar. Realizei. cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverência a meu peito. Ao fundo. vizinhos e mitológicos a um só tempo. mas não vivida com inteira dedicação até esse momento. estive em Barracas: localidade não visitada por meu hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um sabor estranho a esse dia. aceitei os mais obscuros convites do acaso. e. nada complicada em si. A calçada era uma escarpa sobre a rua. já pampiano. Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentação anterior talvez prefiram esta página de 1928. o intemporal. sem outra consciente predeterminação senão evitar as avenidas ou ruas largas. os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. o segundo certamente era de felicidade. parecia simplificada por meu cansaço.

Fique. sem semelhanças nem repetições. "É assim que a escrevo. Abravanel. barro fundamental – não é apenas idêntica à que existiu nessa esquina faz tantos anos. os de aproximação do sono. a mesma. suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. Plotino). de cuja essência o conceito de sucessão parece inseparável.. uma taipa rosada parecia não albergar luz de lua. os da audição de uma mesma música. e na confessa irresolução desta página o momento verdadeiro de êxtase e a possível insinuação de eternidade de que essa noite não me foi avara". os teólogos. "É evidente que o número de tais momentos humanos não é infinito. ter remontado às presumíveis águas do Tempo. 1829).. os platônicos. A observação é de Carlyle (Novalis. talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. O tempo. mas já remota neste mutável lugar do mundo. agora: essa pura representação de fatos homogêneos – noite em serenidade. sem esperança de integrar o infinito censo. Judas. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. os de muita intensidade ou muito desalento – são mais impessoais ainda. se podemos intuir essa identidade. Pensei. Não acreditei. não o é no intelectual. Johannes . murinho límpido. no episódio emocional a vislumbrada idéia. Os elementares – os de sofrimento físico e prazer físico. Só depois consegui definir essa imaginação. posto que o tempo. então. certamente em voz alta: isto aqui é o mesmo de trinta anos atrás. facilmente refutável no plano sensitivo. B Das muitas doutrinas que a história da filosofia registra. "Fiquei olhando essa simplicidade. do tamanho de um pássaro. Talvez cantasse um pássaro. não. antes. é. aos filósofos por ele mencionados caberia acrescentar. mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não tenha havido outro ruído senão o também intemporal dos grilos. Mas nem nossa pobreza é certa. Senti-me morto. Gemisto. para quem a única coisa real são os protótipos (Norris. Difícil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado.caótica. para quem tudo que não seja a divindade é contingente (Malebranche. indefinido temor imbuído de ciência. é uma delusão: a indiferença ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo. cheiro provinciano de madressilva. senti-me um percebedor abstrato do mundo. e senti por ele um carinho pequeno. Arrisco esta conclusão: a vida é pobre demais para não ser também imortal. mas efundir luz íntima. Imaginei a data: época recente em outros países. que é a melhor claridade da metafísica.

Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. Observou (Principles of Human Knowledge. entenda-se bem. prevenindo objeções: "Mas. sem relação com o fato de serem ou não percebidas. Se.. ao mesmo tempo. 3): "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung. Hume aplicou-os à consciência. floresceu no século XVIII. eu a vejo e a toco. nego que os objetos possam existir fora da mente". mas entendeu que o mundo material (o de Toland. Hegel. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. digamos) é uma duplicação ilusória. além dessas percepções. Parmênides). 1). Berkeley negou a matéria. formas que ninguém toca. não existem quando não os pensamos. e sim nos argumentos que idealizou para justificá-la. eu fizer a mesma afirmação. nada mais fácil que imaginar árvores em um parque ou livros em uma biblioteca. (O deus de Berkeley é um ubíquo espectador cujo fim é dar coerência ao mundo.. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". No parágrafo 6. nem nossas paixões. II. Isso não significa. Afirmo que esta mesa existe. houvesse dores que ninguém sente. De fato. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. O idealismo é tão antigo quanto a inquietude metafísica: seu apologista mais agudo.. ou seja. que compõem o mundo externo. que tenha negado as cores. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse.. George Berkeley. nada mais fácil. Acreditou no mundo de aparências que os sentidos urdem. só podem existir em uma mente que as perceba. sem ninguém por perto para percebê-los. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley. os sabores. Seu esse est percipi. os cheiros. cores que ninguém vê. ou que algum outro espírito a percebe. os sons e os contatos. o que ele negou foi que. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazê-lo.. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialética. qualquer que seja o objeto que elas formem). Berkeley usou-os contra a noção de matéria. meu propósito é aplicá-los ao tempo. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vêlas basta-nos abrir os olhos.. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. não têm outro ser salvo serem percebidos.Eckhart). seu mérito não consistiu na intuição dessa doutrina. estando fora de meu escritório. Esta é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a enorme fábrica do universo – não existem fora de uma mente. Julgou que acrescentar uma matéria às percepções é acrescentar ao mundo um inconcebível mundo supérfluo. os monistas. é para mim insensato. direis. No parágrafo 23 acrescentou.) . de qualquer modo que se combinem (isto é.

226) negou o espaço absoluto. II): "O cérebro. negado também o espaço. que houvesse um sujeito por trás da percepção das mudanças.. que são continuidades. este negou o espírito. argumentando que. voltam e se combinam de infinitas maneiras. 4. Se responderes que sim. Para Berkeley. I. antecipando-se a David Hume. e não podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais é feito o teatro".. Mais indecifrável ainda é o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. necessariamente. A mente é uma espécie de teatro. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (Treatise of Human Nature. abarcar um número infinito de séculos. Uma vez aceito o argumento idealista. O cérebro. 1). não sustentadas por nenhuma substância. 98). Aquele negara a matéria. como coisa sensível.A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. raciocina Hylas. 116. só pode existir na mente. já que. pois é tão absurdo falar em substância espiritual como em substância material". e até procurou negála mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princípios forem válidos. Corrobora Hume (Treatise of Human Nature. repetidas vezes. Siris. quando Berkeley já escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". negados a matéria e o espírito. David Hume. VIII. Berkeley (Principles of Human Knowledge. aquele não quisera que acrescentássemos a noção metafísica de matéria à sucessão de impressões. II. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. ao ensinar que para os idealistas o mundo é um fenômeno cerebral. 6). o tempo é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. 6): "Somos uma coleção ou um conjunto de percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez. tu mesmo não serás mais que um sistema de idéias flutuantes. esta deve ser infinita no tempo e no espaço. Berkeley negou que houvesse um objeto por trás das impressões dos sentidos. O primeiro é verdade se entendermos que todo tempo é tempo percebido por alguém. como ressalta Alexander Campbell Fraser. este não quis que acrescentássemos a noção metafísica de um eu à sucessão de estados mentais. Herbert Spencer acredita refutá-la (Principles of Psychology. não sei com que direito podemos reter essa continuidade que é o tempo. não é menos parte do mundo externo que a constelação de Centauro. Fora de cada percepção (atual . o segundo é ilícito. se não há nada fora da consciência. As percepções constituem a mente. Tão lógica é essa ampliação dos argumentos de Berkeley que este já previra. para Hume. A metáfora não deve enganar-nos. I. efetivamente. no terceiro e último dos Dialogues. 3). onde as percepções aparecem ou desaparecem. Entretanto. 2. errôneo se inferirmos que esse tempo deve.

não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. a não ser como percepção na mente divina. Pois bem. não existe a matéria. Este.I e n + I. diz o antigo texto. Não consideremos o despertar. 1889). ou um de seus momentos. esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. a mente de Chuang Tzu. entre n . segundo Berkeley. Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um móvel triângulo amarelo. por um acaso não impossível.ou conjeturai). ainda que fornecida pela memória. é alheia a este. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu". tampouco o tempo há de existir fora de cada instante presente. A doutrina do paralelismo psicofísico julgará que essa imagem deve corresponder a alguma alteração no sistema nervoso do sonhador. sonhou que era uma borboleta e. cabe perguntar: esses instantes coincidentes não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a história do mundo. vincularemos esses instantes com os do despertar e com o período feudal da história chinesa? Isso não quer dizer que nunca saberemos. não existe o espírito. naquele momento não existia o corpo de Chuang Tzu. ao menos de modo aproximado. acrescentar um eu aos processos parece-lhe não menos exorbitante. quer dizer que a fixação cronológica de um evento. para denunciar que tal história não existe? . a data daquele sonho. não há outra realidade afora a dos processos mentais. dentre seus quase infinitos leitores. fora de cada estado mental. consideremos o momento do sonho. com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele não era Chuang Tzu. naquele momento o espírito de Chuang Tzu não existia. abolidos o espaço e o eu. só existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. de qual quer evento do orbe. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. mas consta-nos que a imagem foi subjetiva. há cerca de vinte e quatro séculos. Segundo ele. Para o idealismo. um perceber. Imaginemos que. se vinculá-lo a uma circunstância ou a um eu é uma ilícita e ociosa adição. Como. Postulada essa igualdade. ao acordar. Tomemos um momento de máxima simplicidade: Verbi gratia. um deles sonha que é uma borboleta e depois que é Chuang Tzu. mas não um sonhador. que sem dúvida era ele. acrescentar à borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma vã duplicação. e exterior. Na China. nem o negro quarto em que ele sonhava. o sonho de Chuang Tzu é proverbial. Existia como termo momentâneo da "coleção ou conjunto de percepções" que foi. se cada estado psíquico é suficiente. o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu. entende que falar de objetos e de sujeitos é incorrer em uma impura mitologia. uns quatro séculos antes de Cristo. Entende que houve um sonhar. era uma borboleta. imaginemos que. existiam como termo n de uma infinita série temporal. nem sequer um sonho.

Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung. (Claro que. se o agora for divisível em outros agoras. I. Se as razões que apontei forem válidas. O tempo é como um círculo a girar indefinidamente: o arco que desce é o passado. ou o animal hipotético de Lotze. o tempo não é ubíquo. ou a estátua sensível de Condillac. estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da consciência. porque não pertence ao conhecível e é prévia condição do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung. que já foi. e contesta que o presente seja divisível ou indivisível. XI. com o sujeito. o eu. cheguei à sentença de Schopenhauer: "A forma da aparição da vontade é só o presente. admite a dos objetos imaginários: a quarta dimensão. IV) que. porque nesse caso ele não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro. ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida. no topo. a história universal. o tempo não existe. e o futuro. se cada termo é absoluto. cuja forma é o tempo. digamos. o espaço já não existe. nossas vidas. como tampouco existem o passado e o porvir. Um estado precede o outro quando se sabe anterior. não o passado nem o porvir. e.. o tempo será mera relação entre coisas intemporais. 42). negam as partes para depois negar o todo. Um tratado budista do 2 Antes. mas.) Meinong. . 4). se for indivisível. um estado de G será contemporâneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. II. eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. Ergo. F. esse inextenso ponto marca o contato do objeto. cada fração de tempo não preenche simultaneamente o espaço inteiro. suas relações se reduzem à consciência de que as relações existem. Pode significar a eternidade de Platão ou de Boécio e também os dilemas de Sexto Empírico. Observa (Appearance and Reality. nem sequer meio. não será menos complicado que o tempo. De resto. porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. é uma possessão que nenhum mal pode arrebatar. por Newton. o mundo externo. submetida ao princípio da razão. De fato. a este orbe nebuloso também pertencerão a matéria. Imóvel como a tangente. H. negar o sincronismo dos termos de duas séries. Este (Adversus Mathematicos. que afirmou: "Cada partícula de espaço é eterna. pois não há meio naquilo que carece de princípio e de fim. 54). Ninguém viveu no passado. Não é indivisível. como se vê. ou a raiz quadrada de -I. 197) nega o passado. a esta altura da argumentação. que ainda não é. cada indivisível momento de duração está em toda a parte" (Principia. que carece de forma. tampouco é divisível. III. há um ponto indivisível que toca a tangente e é o agora.Negar o tempo é duas negações: negar a sucessão dos termos de uma série. a frase negação do tempo é ambígua. não existe.. o que sobe é o porvir. Pela dialética de Berkeley e de Hume. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade. Tais raciocínios. em sua teoria da apreensão.

Freund. So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen. vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser. mas não viveu nem viverá" (obra citada. ao rodar. a vida de um ser dura o que dura uma idéia. sou Borges. I. vertiginosamente construída por uma série de homens momentâneos e solitários. 18): "O homem de ontem morreu no de hoje. amigo. dura a vida o que dura uma única idéia" (Radhakrishman: Indian Philosophy. mas não vive nem viverá. 407). é um fogo que me consome.3 (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann. VI. negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos.. sentença que podemos comparar com esta de Plutarco (De E apud Delphos. es ist auch genug. infelizmente.. mas não viveu nem vive. Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhões e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão. Como uma roda de carruagem. toca a terra em um único ponto. é um tigre que me despedaça. mas eu sou o tigre. é real. 1675) 3 "Basta. and yet. o de hoje morre no de amanhã". ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor. I. And yet. Im Fall du mehr willst lesen. mas eu sou o rio. O mundo. eu.) . o Visuddhimagga (Caminho da Pureza). O tempo é um rio que me arrebata. é terrível porque é irreversível e férreo. negar o eu. 263. infelizmente. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal. o homem de um momento futuro viverá.século V. o homem do momento presente vive. O tempo é a substância de que sou feito. mas eu sou o fogo." (N. da T. "O homem de um momento pretérito – adverte-nos o Caminho da Pureza – viveu. Negar a sucessão temporal. 373). Se queres ler mais.

frota. a expor o que pensei sobre esse ponto. em latim. ou I Ching. em minha idade. de Herbert Allen Giles.SOBRE OS CLÁSSICOS Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia. uma truncada e três inteiras. Limitar-me-ei. dispostas verticalmente. e persona. Saber que. Meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901).) O que é. a formação análoga de ship-shape. que podem beirar o paradoxal. sem dúvida razoáveis e luminosas. máscara. cálculo significa pedrinha e que os pitagóricos usavam dessas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra. Acabo de completar sessenta e tantos anos. li que um dos cinco textos canônicos editados por Confúcio é o Livro das Mutações. ao longo do tempo. De modo semelhante. então. Um dos esquemas. (Lembremos. as coincidências ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores. isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras. saber que hipócrita era ator. de Arnold e de Sainte-Beuve. que depois tomaria o sentido de ordem. por exemplo. agora. para fixar o que hoje entendemos por clássico. Dadas tais transformações. não é um instrumento válido para o estudo da ética. consta de duas linhas inteiras. Um imperador pré-histórico os . um livro clássico? Tenho ao alcance da mão as definições de Eliot. Em seu segundo capítulo. mas não os consultarei. de passagem. é inútil saber que esse adjetivo advém do latim classis. feito de 64 hexagramas que esgotam as possíveis combinações de seis linhas truncadas ou inteiras. de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidação de um conceito.

se o tempo me propiciasse a ocasião de seu estudo. um calendário. mesmo que de modo levíssimo. outros. acredito . outros. para mim. Livros como o de Jó. Burns é um clássico na Escócia. mas ele foi devotamente lido e relido por gerações milenares de homens cultíssimos. salvo que diferirá do presente. se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida. essas decisões variam. na solidão de suas bibliotecas. Para os estrangeiros. ou um grupo de nações. A glória de um poeta depende. uma leitura que demanda um ato de fé. Cada qual descrê de sua arte e de seus artifícios. Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas. Assim. encontraria nelas todos os alimentos que o espírito requer. e que para sempre o serão. para não perder sua virtude. um instrumento para a adivinhação do futuro. Para alemães e austríacos. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. Confúcio declarou a seus discípulos que. outros. já que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração. que continuarão a lê-lo. a minha tese. profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim. agora sei que é comum e que está a nossa espreita nas casuais páginas do medíocre ou em uri diálogo de rua. mas nada sabemos do futuro. Chego. eternas. em suma. mas os meios devem variar constantemente. o Livro das Mutações corre o risco de parecer uma simples chinoiserie. talvez. Além das barreiras lingüísticas. A Divina Comédia. outros. Deliberadamente escolhi um exemplo extremo. As emoções que a literatura suscita são. um vocabulário de certa tribo. agora. Por volta de 1930. embora meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras seja completo. o Fausto é uma obra genial. Macbeth (e.descobriu na carapaça de uma das tartarugas sagradas. ou asas. para outros. Clássico é aquele livro que uma nação. uma filosofia enigmática. da excitação ou da apatia das gerações de homens anônimos que a põem à prova. sob a influência de Macedonio Fernández. Gastam-se à medida que o leitor os reconhece. uma das mais famosas formas do tédio. ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentários. ao sul do Tweed. como Wilhelm. que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração de Voltaire ou de Shakespeare. fatal. como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade. interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. Não tenho vocação de iconoclasta. tenho certeza de que. interferem as políticas ou geográficas. ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado. eu acreditava que a beleza era privilégio de uns poucos autores. Previsivelmente. Uma preferência pode muito bem ser uma superstição. Eu.

para pressupor (e verificar) que o número de fábulas ou metáforas de que é capaz a imaginação dos homens é limitado. e incorporada às Obras Completas de 1974. p. 1 Esta versão do ensaio foi publicada na revista Sur. Quero também aproveitar esta página para retificar um erro. no Breviloquium de São Boaventura – obra do século XIII – lê-se: "Creatura mundi est quasi quidam líber in quo legitur Trintas". Isso talvez seja indício de um ceticismo essencial. ao revisar as provas. para avaliar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor estético e até pelo que encerram de singular e de maravilhoso. Outra. urgidas por razões diversas. Em um ensaio." (N.) . da T. 442. Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos.) 1 "O mundo criado é como um livro em que se lê a Trindade. lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. nos miscelâneos trabalhos deste volume. atribuí a Bacon a idéia de que Deus compôs dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura. mas que essas contadas invenções podem ser tudo para todos. de janeiro-abril de 1966. como o Apóstolo. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolástico.1 Ver Étienne Gilson: La Philosophie au Moyen Âge.(nesta tarde de um dos últimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley. 464. é um livro que as gerações de homens. EPÍLOGO Duas tendências descobri. Uma. do Coord. (N.

L. OUTRAS INQUISIÇÕES (1952) A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J. B. Gosse Os alarmes do doutor Américo Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valéry como símbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analítico de John Wilkins Kafka e seus precursores .J. Dunne A Criação e P H. 25 de junho de 1952. Buenos Aires. W.

Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotação ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De alguém a ninguém Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw História dos ecos de um nome O pudor da história Nova refutação do tempo Sobre os clássicos Epílogo .

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