Outras inquisições

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JORGE LUIS BORGES

Este livro: Outras inquisições, é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II
1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP

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OUTRAS INQUISIÇÕES Otras Inquisiciones Tradução de Sérgio Molina

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whose long wall the wand’ ring .OUTRAS INQUISIÇÕES – 1952 A Margot Guerrero A MURALHA E OS LIVROS He.

a rigorosa abolição da história. (Não de outra sorte um rei. mítico ou verdadeiro. Che Huang-ti. proibiu qualquer menção à morte. Tampouco é rotineiro pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória de seu passado. dias atrás. porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. Todas as coisas querem persistir em seu ser. mas nada nos diz da muralha.Tartar bounds. pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em um orbe fechado. mandou matar todas as crianças para matar uma. que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador. esses dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. em sua dura justiça. Contemporâneo das guerras de Aníbal. II. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princípio do tempo. Dunciad. e Chuang Tzu. Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros canônicos porque estes o acusavam. Che Huang-ti. O fato de as duas vastas operações – as quinhentas a seiscentas léguas de pedra opostas aos bárbaros. inquietou-me. Li. que constava de tantos aposentos como dias tem o ano. segundo os historiadores. 76. isto é.. na Judéia. Che Huang-ti. Indagar as razões dessa emoção é o fito desta nota. os ortodoxos não viram senão impiedade. rei de Tsin. reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal. Cercar uma horta ou um jardim é comum. e recluiu-se em um palácio figurativo. a única singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. queimou os livros. da segunda face do mito.) Essa conjetura é aceitável.. o legendário imperador que . Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e. tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro. e procurou o elixir da imortalidade. e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti. nesses anos. quando Che Huang-ti ordenou que a história começasse com ele. não há mistério nas duas medidas. Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. escreveu Baruch Spinoza. É o que dão a entender alguns sinólogos. cercar um império. Che Huang-ti condenara a mãe ao desterro por libertinagem. e Lao-tsé). e Confúcio. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes. erigiu a muralha. porque as muralhas eram defesas. mas eu sinto que os fatos referidos são algo mais que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. do passado – procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e. o Imperador Amarelo. não. que também mandou queimar todos os livros anteriores a ele. ao mesmo tempo. Historicamente.

para além das conjeturas que permite.inventou a escrita e a bússola. e ele apagará minha memória e será minha sombra e meu espelho. e ele destruirá minha muralha. que é apenas forma. que eu saiba. em 1877. livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem. 1950. de que. mas. afirmou que todas as artes aspiram à condição da música. Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o império porque sabia que este era precário e destruído os livros por entender que eram livros sagrados. já Pater. e assem até o infinito. ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. que não se produz. tão néscia e tão inútil. A muralha tenaz que neste momento. mas um dia há de viver um homem que sinta como eu. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado. também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. a desmedida muralha. essa iminência de uma revelação. Este. Quarto Imperador. os rostos trabalhados pelo tempo. é talvez o fato estético. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce. carecem de base histórica. segundo o Livro dos Ritos. em enorme escala. ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. é verossímil que a idéia nos toque por si mesma.. e não o saberá". Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de modo secreto se anulam. até o dia de sua morte. sob seu império. semelhantemente. Ambas as conjeturas são dramáticas. ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador. os estados de felicidade. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir. certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo. em inscrições que perduram. Isso (segundo a ordem que escolhêssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que começou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar. e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos. (Sua virtude pode estar na oposição entre construir e destruir.. A música. Buenos Aires. Terceiro Imperador. Sonhou em fundar uma dinastia imortal. a mitologia. projeta seu sistema de sombras sobre terras que não verei é a sombra de um César que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado. Che Huang-ti jactou-se. deu às coisas seu nome verdadeiro. poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não em um "conteúdo" conjeturai. Talvez a muralha fosse uma metáfora. ou estão prestes a dizer algo. talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado. ou seja. como eu destruí os livros.) Generalizando o caso anterior. e em todos. . Essa notícia favorece ou tolera outra interpretação. todas as coisas receberam o nome que lhes convém. Falei de um propósito mágico.

A ESFERA DE PASCAL .

condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus.000. o céu dos céus. lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. que era uma esfera eterna. que exulta em sua solidão circular". intuir essa esfera. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim. compilados ou forjados desde o século I1. o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas. farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade. no XVI. isso bem pode ser verdade. do ar e do fogo integram uma esfera sem fim. os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios. há uma etapa em que as partículas da terra. segundo os sacerdotes de Thot. Parmênides. ou menos má. de Platão. que também era Hermes). repetiu a imagem ("o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada. Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita. Para a mente medieval. poucos anos antes de sua morte. cuja força é constante do centro em qualquer direção"). Hermes Trismegisto. o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor. ou no Asclépio. que a apresenta como sendo de Platão. o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia. 183) entende que Xenófanes falou analogicamente. pois sujeito e predicado se anulam. para representar a divindade. Albertelli (como. ou infinitamente crescente. antes. e na enciclopédia Speculum Triplex. mas nenhuma O limita. que as idades vindouras não esqueceriam: "Deus é uma esfera inteligível. "O céu. Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie. o rapsodo Xenófanes de Colofônio. em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum. Parmênides lecionou na Itália. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota. em um desses fragmentos. quarenta anos depois. No século XIII. o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual. da água. que chamamos Deus". Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto. mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos. segundo Clemente de Alexandria. segundo Jâmblico. 36. também atribuído a Trismegisto. . A história universal seguiu seu curso. 20.Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. quase. "o Sphairos redondo.525. a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose. mas afirmou-se que um deles. ditara um número variável de livros (42. o teólogo francês Alain de Lille – Alanus de Insulis – descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula. 148). No Timeu. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". Seis séculos antes da era cristã. e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati. Fragmentos dessa biblioteca ilusória.

que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. A terra ocupa o centro do universo. Naquele século desanimado. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas. o espaço absoluto que inspirou os . a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras. que é feito de luz. exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas. Glanvill entendeu que Adão. V). No Renascimento. transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinqüenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental. de Júpiter. de Vênus. na Ceia das Cinzas. porque. se o futuro e o passado são infinitos. Este é rodeado pelo Empíreo. setenta anos depois. Milton. no sexto. também chamado Primeiro Móvel. a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. que são como as fadas e os pigmeus. lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos. no espaço. e assim o declarou pela boca de Bruno. 27). "pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós". para Giordano Bruno. negador de Aristóteles. O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica. e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro. não haverá realmente um quando. do Princípio e da Unidade.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World. Isso foi escrito com exultação em 1584. de Saturno). É uma esfera imóvel. "medalha de Deus". de Mercúrio. por obra do pecado de Adão. do Sol. que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias". a oitava. os rudimentos do Paraíso". em torno dela giram nove esferas concêntricas. tampouco haverá um onde. De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico. desfrutou de uma visão telescópica e microscópica. ainda à luz do Renascimento. de John Donne. ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma" (Da Causa. de Carnpanella e de Bacon.não te contém". As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua. disse Salomão (I Reis 8. o céu das estrelas fixas. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice. segundo a biografia de Johnson. Robert South famosamente escreveu: "Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão. em algum lugar. a humanidade acreditou que chegara à idade viril. de Marte. a nona. não restava nem um reflexo desse fervor. o céu cristalino. No tempo. ninguém sabe o tamanho de seu rosto. Para um homem. temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra. (No quinto capítulo do Gênesis consta que "todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos". para se justificar. que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima. Este proclamou. porque. Ninguém está em algum dia. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. e Atenas.

o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação. Deplorou que o firmamento não falasse. 1951. revela que Pascal começou a escrever effroyable: "Uma esfera terrível. comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus. foi um labirinto e um abismo para Pascal. era menos real que o abominado universo. Sentiu o peso incessante do mundo físico. mas Deus. 1941). cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". sentiu vertigem. Buenos Aires. mas a edição crítica de Tourneur (Paris. medo e solidão. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito. para ele. O texto é assim publicado por Brunschvicg. A FLOR DE COLERIDGE . Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas. e expressou-os em outras palavras: "A natureza é uma esfera infinita.hexâmetros de Lucrécio.

ignoro se escrita em fins do século XV11I ou princípios do XIX. do presente e do porvir são episódios ou fragmentos de um único poema infinito. Essa história poderia ser levada a termo sem mencionar um único escritor". viaja fisicamente ao futuro. Diz. Claro que o é. a profetisa de Edda Saemundi. Paul Valéry escreveu: "A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras. volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi. literalmente: "Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali. invoco-as para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma idéia. agora. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pediram uma flor como prova.. O que pensar?" Não sei qual será a opinião de meu leitor acerca dessa imaginação. os romanos. eu a considero perfeita. não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. o destino militar de sua posteridade. A primeira versão intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado. continua e reforma uma antiqüíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros.Por volta de 1938. empoeirado e muito abatido. em 1844. sem dúvida. O protagonista de Wells. O segundo texto que alegarei é um romance que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde. Isaías vê a desolação de Babilônia e a restauração de Israel. construído por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry. Vinte anos antes. Enéias. descobrirão. Shelley sentenciou que todos os poemas do passado. ao contrário desses espectadores proféticos. por meio dos textos heterogêneos de três autores. no povoado de Concord. 2. eu. chronic tem o valor etimológico de "temporal"). como em outras. na ordem da literatura. Essas considerações (implícitas. há neles tal unidade central que é inegável serem obra de um único cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays.. Usá-la como base de outras invenções felizes parece previamente impossível. The Time Machine. O primeiro texto é uma nota de Coleridge. e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão. depois da cíclica batalha em que nossa terra há de perecer.. no verão de 1894. e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. Volta exausto. o retorno dos deuses que. Wells. nesse romance. as peças de xadrez com que antes jogaram. de uma meta. a definitiva. outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu quantos livros há no mundo. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação. no panteísmo) permitiriam um infindável debate.. que habitam em palácios . VIII). 1821). tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem. espalhadas entre as ervas de uma nova pradaria.

. que avança ou recua no tempo como os outros veículos no espaço. desconhecia o texto de Coleridge. 2 Em meados do século XVII. embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que se costuma chamar de clássicas. não os indivíduos. Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. páginas e sentenças alheias. o triste e labiríntico Henry James. ao morrer. V. sobre a relação deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography. fascinado por essa tela. a literatura é o essencial. James cria. os subterrâneos e nictalopes morlocks. Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem. Este. o epigramatista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bemaventurados são um (Cherubinischer Wandersmann. como nas ficções anteriores. mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender. Para as mentes clássicas. 1O5-1O). Ralph Pendrel. é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. V. a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e ainda não se combinaram.. A terceira versão que comentarei. pois intui algo de incomum e anômalo nessas feições futuras. o motivo da viagem é uma das conseqüências da viagem. um incomparável regressos in infinitum. 9). assim. que é uma variante ou elaboração de The Time Machine. Entre as pessoas que encontra.. Wells. em sua obra The Destructive Element (p. à força de compenetrar-se dessa época. (Os dois procedimentos são impossíveis. figura. este o pinta com temor e aversão. A causa é posterior ao efeito. é invenção de um escritor muito mais complexo que Wells. 1 Não li The Sense of Past.2 tais fatos são irrelevantes. Essa é a segunda versão da imagem de Coleridge. verossimilmente. Este. Refiro-me ao autor de A Humilhação dos Northmore.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebível veículo. deste último. necessariamente. ao século XVIII. deixou inacabado um romance de caráter fantástico. cit. A rigor.. o pintor.dilapidados e ruinosos jardins. 7) e que todo cristão deve ser Cristo (op. volta com as têmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha. em suas obras. mas o de James é menos arbitrário. traslada-se ao século XVIII. consegue trasladar-se à data em que foi executada. Claro que. segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Mais inacreditável que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura. a mais trabalhada. o de James volta ao passado. se for válida a doutrina de que todos os autores são um autor. já que seu herói. George Moore e James Joyce incorporaram. ambas as condutas. o nexo entre o real e o imaginário (entre atualidade e passado) não é uma flor. o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista.) Em The Sense of the Past. que se alimentam dos primeiros). não é indispensável ir tão longe. James foi amigo de Wells. The Sense of the Past.

limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca. de Bacon e dos dois Escalígeros. fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastarse da razão e da ortodoxia. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal. eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. de Maquiavel. de Erasmo. Uma última observação. de Quintiliano. Outra testemunha da unidade profunda do Verbo. podem evidenciar um mesmo sentido da arte.embora superficialmente opostas. que. de Vives.. Esse homem foi Carlyle. fazem-no por confundir esse escritor com a literatura. impessoal. foi Whitman. Durante muitos anos. foi De Quincey. de Justo Lipsio. O SONHO DE COLERIDGE . foi o insigne Ben Johnson. foi Johannes Becher. Um sentido ecumênico. foi Rafael Caninos-Asséns. empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames favoráveis ou adversos que dele mereciam seus contemporâneos.. outro pegador dos limites do sujeito.

sem a ulterior restauração delas. por ora. o Venerável. não é único. que. O caso. esgueirou-se de uma festa por prever que lhe passariam a harpa. basta-nos reter. com não pequena surpresa e mortificação – conta Coleridge –. ai de mim. "Descobri. recordar o restante. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor. mas o outro disse: "Canta o princípio das coisas criadas". de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. em um dos dias do verão de 1797. foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível. isto é. o sonhador. que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de não discutido esplendor. uma noite.O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares. ao despertar. de palavras que as manifestavam. o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. tudo o mais. que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata. a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro. Caedmon era um rústico pastor e já não era jovem. embora retivesse de modo vago a forma geral da visão. depois. o de Jekyll & Hide. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho. e ele sabia-se incapaz de cantar. . deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo. na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões. formas gerais. uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. No estudo psicológico The World of Dreams. passadas algumas horas. acordou. Stevenson recebeu do sonho argumentos. O caso ocorreu em fins do século VII. o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar. um poema de cerca de trezentos versos. Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum. mais afim com a inspiração verbal de Coleridge é a que Beda. No sonho de Coleridge. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música são vãos e por vezes prejudiciais. IV. embora extraordinário. Caedmon respondeu que não sabia. mas. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson. com a certeza de ter composto. tinha desaparecido como as imagens na superfície de um rio onde se atira uma pedra. ou recebido. o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e. em 1884. simplesmente." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-los poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. Recolheu-se ao estábulo. e no sonho alguém o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. 24). salvo umas oito ou dez linhas soltas. para dormir entre os cavalos.

paixão. de Rachid ed-Din. Há. a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica. e a encarnação. recitou versos que jamais ouvira. e a vinda do Espírito Santo e o ensinamento dos apóstolos. Se esse fato for verdadeiro. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase não apresentam outra virtude exceto sua origem onírica. mas Coleridge já era um poeta. Confrontadas com essa simetria. À primeira vista. um desenho traçado pelo acaso. ressurreições e aparições dos livros piedosos. o Compêndio de Histórias. no século XIII. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o . que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos. que magnífica até o insondável a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. enquanto a Caedmon foi revelada uma vocação. a história do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos séculos e ainda não chegou a seu fim. de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memória". como as formas de leões ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. e assim cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e do êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida. que descendia de Kubla. Foi o primeiro poeta sacro da nação inglesa. ressurreição e ascensão do Senhor. entretanto. Que explicação preferiremos? Aqueles que de antemão rejeitam o sobrenatural (eu procuro. e também o terror do Juízo Final. Em uma página. Não os esqueceu. o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. sonha um poema sobre o palácio. sempre. Kubla Khan erigiu um palácio. apareceu em Paris. no século XVIII. nada ou muito pouco são. Esperemos que tenha reencontrado seu anjo. as doçuras do céu e as mercês e os juízos de Deus". Não aprendeu a ler. Vinte anos depois. um fato ulterior. Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud. a meu ver. e muitas outras coisas da Escritura. ao despertar. Um imperador mongol. lê-se: "A leste de Chan-tong. O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816. Anos mais tarde. que não tinha como saber que essa construção se derivara de um sonho. fragmentariamente. então. e sim de Deus". que data do século XIV.Caedmon. um poeta inglês. sonha um palácio e o edifica conforme a visão. e pôde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. as levitações. mas os monges explicavam-lhe passagens da história sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcíssimos versos. incluir-me nesse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência. o horror dos castigos infernais. porque não aprendeu dos homens. sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. "ninguém igualou-se a ele – diz Beda –.

talvez a chave esteja no último. um texto não identificado pelos sinólogos em que Coleridge pudesse ter lido. na noite. mas obriga-nos a postular.1 Essa conjetura é verossímil. o primeiro biógrafo de Coleridge. julgado por leitores de gosto clássico. ainda pôde escrever: "O extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais que uma curiosidade psicológica". 585. de paliar ou justificar o que nele há de truncado e rapsódico. em uma noite a séculos de nós. da Companhia de Jesus. a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao fim. Quem sabe um arquétipo ainda não revelado aos homens. um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead). capaz. e ele o construiu. mas é lícito suspeitar que ele não teve êxito. Traill. p. entrevejo ou creio entrever outra. arbitrariamente.palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção. 2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu.2 Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. o segundo. esteja ingressando paulatinamente no mundo. antes de 1816. o poema. o sonho de Kubla. sua primeira manifestação foi o palácio. alguém. mais duradouras que mármores e metais. Ao primeiro sonhador foi oferecida. O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade. Em 1884. Kubla Khan era muito mais ousado que hoje. do poema consta-nos que foram resgatados não mais que cinqüenta versos. o poema sobre o palácio. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria. Já escrita a explicação acima. Talvez a série de sonhos não tenha fim. W. constatou que do palácio de Kubilai Khan só restavam ruínas. a segunda. . que não soube do sonho do anterior. destruído o palácio. não menos atrevido que inútil. o período enorme revela um executor sobre-humano. DUNNE 1 No início do século XIX ou final do XVIII. O TEMPO E J. é cabível supor que. também. que se deu cinco séculos mais tarde. um poema (ou princípio de poema) sugerido pelo palácio. o padre Gerbillon. 358. Se o esquema não falhar. a semelhança dos sonhos deixa entrever um plano. Por exemplo. ao segundo. sonhará o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dará a forma de um mármore ou de uma música. 1927. Em 1691. a visão do palácio. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais. talvez.

que repete ou resume os argumentos dos três anteriores. de outro sujeito C consciente de B. mas de um sujeito A que observa e. esse é o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam. portanto. uma primeira história rudimentar. Faber & Faber) –. Antes de esclarecer esse esclarecimento. anoto alguns prévios avatares das premissas. acrescenta que esses inumeráveis sujeitos íntimos não cabem nas três dimensões do espaço. publiquei uma préhistória. Os hindus não têm sentido histórico (isto é: perversamente. Antes dos vinte anos. que extraiu do interminável regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. Dunne. sustenta que há apenas uma diferença verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafísicos puros. capítulo XXII) raciocina que um sujeito consciente não só é consciente daquilo que observa. A discussão (a mera exposição) de sua tese teria excedido os limites dessa nota. pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung. preferem o exame das idéias ao dos nomes e datas dos filósofos). convido meu leitor para repensarmos o que diz este parágrafo. são as inferências do autor. mas consta-nos que essa negação radical da introspecção tem cerca de oito séculos. um objeto sensígeno e esse personagem imperioso: o Eu" 1 Nachvedische Philosophie der Inder. e sim nas não menos inumeráveis dimensões do tempo.No número 63 da revista Sur (dezembro de 1939). "O sujeito conhecedor". capítulo 19). como bom herdeiro dos nominalistas britânicos.. O argumento único. Huxley. Nem todas as omissões desse esboço eram involuntárias: excluí deliberadamente a menção a J. pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que também se conhece a si mesmo. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. tomo 2. "não é conhecido como tal. Antes de comentá-las. de boas ironias e de diagramas. seria necessária uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda". Alenta-me a escrevê-lo o exame do último livro de Dunne – Nothing Dies (1940. se nossa alma fosse conhecível. O sétimo dos muitos sistemas filosóficos da índia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento. da regressão infinita. de outro sujeito B que é consciente de A e. W. . já deduzira que o eu é inevitavelmente infinito. para ser mais exato. o que é quase escandaloso. de parábolas. e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie. Schopenhauer a redescobre. Este (An Experiment with Time. insólito. p. Exornado de histórias.. 1920. portanto. 367). 318. Seu mecanismo nada tem de novo. p. Não sem mistério. Herbart também jogou com essa multiplicação ontológica. Por volta de 1843. "pois. repete ele. que em toda sensação distinguem "um sujeito sensível.

sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionésimo. um verbo e um complemento. ‘Não sei qual será a opinião de meu leitor. um tempo segundo para o traslado do primeiro. Postula que o futuro já existe e que devemos trasladar-nos a ele.. Dunne é uma vítima ilustre desse mau hábito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimensão do espaço. fora descoberta e recusada por Schopenhauer. Consta na página 829 do segundo volume da edição históricocrítica de Otto Weiss. no qual flui. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho. substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito. a segunda. ligeiramente mascarado. "a absurda conjetura de um segundo tempo. . a terceira. imóvel. um terceiro para o traslado do segundo.(Essays. o futuro. comete um erro semelhante ao dos distraídos poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco. e assim até o infinito. livro 2.. prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginários) do sujeito inicial.. teremos. 3 Meio século antes de ser proposta por Dunne. Sua opinião parece-me válida. é o passado. um tempo determinado.2 como Uspenski no Tertium Organum.3 Assim é a máquina proposta por Dunne. mas considera-os tão compreensíveis quanto a simultânea percepção de uma voz e de um rosto. Não pretendo saber que coisa é o tempo (nem mesmo se é uma "coisa"). como todos os movimentos. mas intuo que o curso do tempo e o tempo são um único mistério. e não dois. esse fluir. 1902) admite que a consciência da dor e a dor são dois fatos distintos. p. Nesses tempos hipotéticos ou ilusórios têm interminável morada os sujeitos imperceptíveis que o outro regressus multiplica. bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente. mas esse postulado basta para transformá-lo em espaço e para requerer um tempo segundo (que também é concebido sob forma espacial. rápida ou lentamente. Quanto à consciência da consciência. Nenhum dos quatro livros de 2 Neste poema do século XV há uma visão de "três mui grandes rodas": a primeira. "Se o espírito – disse Leibniz – tivesse de repensar o pensado. invocada por Dunne para instalar em cada indivíduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos. o presente. giratória. 87). Essa translação. com suas vicissitudes e pormenores. tomo 6. imóvel. e assim até o infinito" (Nouveaux Essais sor l’Entendement Humain. capítulo 1).. suspeito. que não é outro senão o próprio sujeito. em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo cósmico. exige. Dunne. ele postula que o futuro já existe. O procedimento criado por Dunne para a obtenção imediata de um número infinito de tempos é menos convincente e mais engenhoso. o primeiro". Gustav Spiller (The Mind of Man. portanto. ou os rios mortais de nossas vidas.

Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. e Shakespeare colaborarão conosco. O tempo verdadeiro. folheá-las. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge... qualquer falácia cometida pelo autor resulta insignificante. segundo ele. é o inatingível último termo de uma série infinita. sonhar. Que razões haveria para postular que o futuro já existe? Dunne fornece duas: uma.. Ele também quer evitar os problemas de uma criação contínua. o autor fala de um tempo que é perpendicular a outro. ou uma série de histórias. outra. surpreendentemente. No homem que amanhã conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem à noite. confluem o passado imediato e o imediato porvir. e nossos amigos. GOSSE 4 A frase é reveladora. para Dunne. Diante de uma tese tão esplêndida. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e com eles urdir uma história.Dunne deixa de propor infinitas dimensões do tempo. A CRIAÇÃO E P H. (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem é viver. . Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos. No capítulo XXI do livro An Experiment with Time. a relativa simplicidade que essa hipótese outorga aos inextricáveis diagramas típicos de seu estilo. Na vigília percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme. Deus. supõe que a eternidade já nos pertence e que isso é corroborado pelos sonhos de cada noite.4 mas essas dimensões são espaciais. os sonhos premonitórios. no sonho abarcamos uma área que pode ser vastíssima.. Nestes. Dunne.) Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade.

redutível a uma fórmula. O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal.) Nessa moderada versão de certa fantasia de Laplace – a de que o estado presente do universo é. ao derradeiro Adão. 1907) e de H. Introduzo exemplos ilustrativos que não constam nessas breves páginas. my God. . stood in one place. da qual Alguém poderia deduzir todo o porvir e todo o passado –. recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son. Este a divulgou no livro Omphalos (Londres. Em vão vasculhei as bibliotecas em busca desse livro. Talvez o exemplo mais intenso esteja na penúltima estrofe de "Hymn to God. que é Jesus. mas o zoólogo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafísica: o problema do tempo. em teoria. aquele em que morrem todos os homens. 1940). No capítulo de sua Lógica que trata da lei da causalidade. Nietzsche! oh. Adão.1 Essa contraposição. 1 Na poesia devota. composto por John Donne: We think that Paradise and Calvary. (Também deduz – oh. que Adão foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e três anos. Essa vinculação é de 1857. my face. 1 Coríntios 15) contrapõem o primeiro homem. Pitágoras! – que a repetição de qualquer estado comportaria a repetição de todos os outros e faria da história universal uma série cíclica. and find both Adams met in me. Look Lord. G. 1857). mas que julgo compatíveis com o pensamento de Gosse. and Adam’s tree. A Lenda Áurea diz que o lenho da Cruz provém daquela Árvore proibida que está no Paraíso. John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante é conseqüência de seu estado no instante precedente e que a uma inteligência infinita bastaria o conhecimento perfeito de um único instante para saber a história do universo. traduzida em mitos e em simetria. Wells (All Aboard for Ararat. escreve. oitenta anos de esquecimento talvez equivalham à novidade. As the first Adam’s sweat surrounds. Essa insensata precisão certamente influenciou a cosmogonia de Gosse. March 23. para denotar que foi concebido em pecado. essa conjunção é comum. para redigir esta nota. por descender de Adão. May the last Adam’s blood my soul embrace. No primeiro capítulo do Ulisses. Sir Thomas Browne (Religio Medici. cujo subtítulo é Tentativa de Desatar o Nó Geológico. She had no navel". pressupõe certa enigmática paridade. Duas passagens da Escritura (Romanos 5. passada e vindoura. 1642)."The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim). curiosamente. naked Eve. Christ’s Cross. Mill não descarta a possibilidade de uma futura intervenção externa capaz de interromper a série. in my sickness". Joyce também evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem mãe: "Heva. Louis Auguste Blanqui! oh.163O. para ser mais que uma simples blasfêmia. os teólogos.

Afirma que o estado q fatalmente produzirá o estado r. No vale de Luján perduram esqueletos de gliptodonte. De nada adiantou Gosse expor a base metafísica da tese: quão inconcebível é um instante de tempo sem outro instante precedente e outro ulterior. preciso. o t. inacreditável) que Philip Henry Gosse propôs à religião e à ciência. Surge Adão. um tempo rigorosamente causal. Gosse. A segunda: sua involuntária 2 Cf. O Gênesis atribuía seis dias – seis dias hebreus inequívocos. O princípio da razão exige que nenhum efeito careça de causa. Spencer: Facts and Comments. que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus. Como conciliar Deus com os fósseis. mas c não ocorreu. e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e três anos. e assim até o infinito. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação. mas só as posteriores à Criação existiram realmente. uma catástrofe divina – a consummatio mundi. . Um passado hipotético. embora nenhum cordão umbilical o ligue a uma mãe. o estado s. mas também um infinito passado. Não sei se ele conheceu a antiga sentença que consta das páginas iniciais da antologia talmúdica de Rafael Caninos-Asséns: "Não era senão a primeira noite. Sir Charles Lyell com Moisés? Gosse. mas admite que. propôs uma solução assombrosa. fortalecido pela prece. uma discrepância preocupava os homens. A primeira: sua elegância um tanto monstruosa. Em 1857. mas esse primeiro instante comporta não só um infinito porvir. surge Adão (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo. As duas a rejeitaram. mas minucioso e fatal. porque o mundo foi criado em f ou em h. já interrompido por um ato pretérito: a Criação. infinito. Em vão repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigação de não instruir os homens em ciência alguma. mas jamais houve gliptodontes. 1902. já que as ciências constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano. o s. Mill imagina um tempo causal. O estado n fatalmente produzirá o estado v.2 todas deixam vestígios concretos. Os jornalistas reduziram-na à doutrina de que Deus teria escondido fósseis sob a terra para pôr à prova a fé dos geólogos. o estado n pressupõe o estado c. os paleontólogos impiedosamente exigiam enormes acumulações de tempo. mas pode não ocorrer. como dita Santo Agostinho.. o estado r. claro. O futuro é inevitável. mas uma série de séculos já a precedera". Essa é a tese engenhosa (e. de ocaso a ocaso – à criação divina do mundo. infinito. acima de tudo. p. mas antes de v pode ocorrer o Juízo Universal. Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma supérflua e vasta mentira". essas causas requerem outras causas. antes de t. que regressivamente se multiplicam.. 148-51. Deus espreita nos intervalos. Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse. digamos – pode aniquilar o planeta.

supõe que o planeta foi criado há poucos minutos. partindo de razões estéticas. uma tese idêntica à de Gosse. Bertrand Russell atualizou-a. 5) formulou. Revelou quão insípido. Buenos Aires. larvas. Buenos Aires. Spinoza e os atomistas. Chateaubriand (Génie du Christianisme. 1941. . teria sido um primeiro dia da Criação povoado de filhotes. Em 1802. 1921). 4. 1941). Post-Scriptum. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire. provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusório. como pensaram o Vedanta e Heráclito... sua demonstração indireta de que o universo é eterno. e irrisório. OS ALARMES DO DOUTOR AMÉRICO CASTRO1 1 La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico (Losada. crias e sementes. No capítulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres. la nature dans son innocence eût été moins belle qu’elle ne 1"est aujourd’hui dans sa corruption".redução ao absurdo de uma creatio ex Nihilo. I.

para não duvidar de sua probidade. de Llanderas e de Malfatti. cuja causa remota são "as conhecidas circunstâncias que fizeram dos países platinos zonas aonde a pulsação do império hispânico chegava já sem brio". (N. Acumula retalhos de Pacheco. a expoliação. inversão proposital das sílabas): "Com um pingado / e um pão doce / você vem para a cidade / bancando o grã-fino". Com idêntica eficácia caberia argumentar que em Madri já não restam vestígios do espanhol. a degola. de Last Reason.) não se contenta em observar uma "confusão lingüística em Buenos Aires": arrisca a hipótese do "lunfardismo" e da "mística gauchofilia".. los tenela muy juncales. Não suspeita que tais exercícios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te venís pal Centro / de grau bacán”)2 são caricaturais. los he dicaito yo. para não pôr em dúvida sua inteligência. livro oitavo) não se contenta em observar que os dragões atacam os elefantes durante o verão: arrisca a hipótese de que o fazem para beber todo seu sangue. de Contursi. é muito frio. Para demonstrar a primeira tese – a corrupção do idioma espanhol no Prata –. 1896): El minche de esa rumi dicen no tenela bales. de Palermo. ao contrário. Falar em problema judeu é postular que os judeus são um problema. etc. o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofístico. o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. o fuzilamento. El chibel barba del breje menjindé a los burós: apincharé ararajay y menda la pirabó. O doutor Castro (La Peculiaridad Lingüística. Outro demérito dos falsos problemas é o de promoverem soluções também falsas. Plínio (História Natural. de cândido. como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Español: Su Lenguaje. declara-os "sintomas de grave alteração". como ninguém ignora.A palavra problema pode ser uma insidiosa petição de princípio.3 2 2 Tradução literal dos versos. é vaticinar (e recomendar) as perseguições. que. de Enrique González Tuñón. sendo o primeiro em vesre (de al revés. de Vacarezza.) . de Lima. da T. transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem..

esqueceram esta ou aquela acepção desta ou daquela palavra.) O doutor Castro imputa-nos arcaísmo.. o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da língua em Buenos Aires.. 1915). (N. espirajushiar [fugir]. imediatamente resolve que os argentinos também devem esquecê-la. / eu mesmo os vi. / / No melhor dia do ano / peguei o touro à unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela". (Falam. baseados em Hernández. Viajei pela Catalunha. Desnecessário advertir que ninguém diz minushia [mulher]. / ela os tem muito vistosos.Diante de sua poderosa treva. baseados nos alunos da terceira série. que só podem ser inteiramente compreendidos por quem está familiarizado com as gírias rio-platenses". não há gírias neste país. 1928).4 Na página 139. canushia [polícia]. em voz mais alta. sim. da T. talvez por ter sido citado por Arturo Costa Álvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata.) 4 Consta do vocabulário giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires. después espirajushió por temor a la canushia. em Orense. com o aprumo de quem ignora a dúvida. por Alicante.. Castro ignora esse léxico. É fato que o idioma espanhol padece 3 Tradução literal dos versos em caló (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem que não tem pêlos. [Tradução literal dos versos em lunfardo: "O grã-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polícia". Essas corporações vivem de reprovar os sucessivos jargões que inventam. da T. (N. Com exceção do lunfardo (modesto esboço carcerário que ninguém sequer sonha em comparar ao exuberante caló dos espanhóis). baseados em um palhaço que trabalhou com os Podestá. de institutos dialetológicos.. é quase límpida esta pobre copla em lunfardo: El bacán le acanaló el escracho a la minushia. na 87. guardo gratíssimas lembranças desses lugares. o cocoliche. morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri. por Castela. jacta-se de ter decifrado um diálogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais bárbaros de expressão.)] . pela Andaluzia. Não padecemos de dialetos. embora padeçamos. Improvisaram o gauchesco. Seu método é curioso: descobre que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga. jamais observei que os espanhóis falassem melhor que nós. o vesre. As gírias: ce pluriel est bien singulier. tais riquezas lhes devemos e deveremos. sim. Em tais detritos se apóiam. Não menos falsos são "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires".

quer que digamos de gorra. Às vezes o estilo é comercial: "As bibliotecas do México possuíam livros de alta qualidade" (p... Só os espanhóis julgam-no árduo: talvez porque os perturbem as atrações do catalão. ingente aparelho ortopédico que mecanicamente. do basco e do valenciano. Nesse livro. esse inexplicável leitor de Carlos de la Púa e de Yacaré revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano. 31). Os compadritos de Last Reason emitem metáforas hípicas. 72). condensação da energia sem rumo da massa. a forma não contradiz o conteúdo. do maiorquino. inépcia para formar palavras compostas). 9). do galego. visivelmente. um homem ao estilo de Ramírez ou Artigas. talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo. Alonso e P. o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. se o destino não torcer o rumo dos sinais propícios. encurrala o rebanho disperso" (p. impunha preços fabulosos" (p. a contínua trivialidade do pensamento não exclui o pitoresco dislate: "Surge então a única coisa possível. O espanhol é facílimo. mas aceita a tomadura de pelo.. Henríquez Ureña" (p. A ciência e o pensamento filosófico têm nomes de extrema distinção entre seus cultivadores" (p. . que ele não canaliza porque não é guia. Condena os idiotismos americanos. mas não da imperfeição que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade. Às vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramática de A. Não quer que digamos de arriba. pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas. acham que um livro pode suportar este cacofônico título: La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico). dizem le mató em vez de lo mató. em cada página desse livro. Groussac preferiu a definição: "miliciano de retaguarda". costumam ser incapazes de pronunciar Atlántico ou Madrid. que..de várias imperfeições (monótono predomínio das vogais. e ridiculamente chamao "centauro máximo". do bable. o tirano. por preferir os idiotismos espanhóis. e sim corpulência esmagadora. 52). Por vezes. por zombaria. A poesia.) Proscreve – entendo que com toda a razão – a palavra cachada. excessivo relevo das palavras.o doutor Castro. (Com melhor estilo e juízo mais lúcido. atitude intensamente receptiva que não demorará a converter-se em força criadora. Despreza López e venera Ricardo Rojas. 71. talvez por um erro da vaidade. Esse examinador do "fato lingüístico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrídio. bestialmente. nega os tangos e refere-se às xácaras com respeito. 49). "A alfândega seca. não é mais lógica nem mais encantadora. é pródigo em superstições convencionais. mais versátil no erro. conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense são valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforço. O doutor Castro.

E pelo rosto do amigo Duas lágrimas rolaram.À errônea e mínima erudição o doutor Castro acrescenta o incansável exercício da adulação. Transcrevo aqui as últimas estrofes do Martín Fierro: Cruz e Fierro numa estância Uma tropilha apanharam. Eu não sei se. sem ironia. Males que conhecem todos Mas qu’inda ninguém contou. a sério. é algo que dá o que pensar". da prosa rimada e do terrorismo.S. A fronteira atravessaram. Por ser verdade contei Todas as desgraças ditas: É um tear de desditas Todo gaúcho de lei. Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios. À frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo. Tombaram nas correrias Mas espero. P. E já com estas notícias Minha canção terminei. Eu me despeço e já vou Que aqui cantei a meu modo. . algum dia. E depois de ter passado Numa madrugada clara. Saber deles algo certo. em campo aberto. Del Campo ou Hernández. Adentraram no deserto. E seguindo o fiel do rumo. Mas ponha sua esperança No Deus que tudo assinou. – Leio na página 136: "Tentar escrever como Ascasubi. sem serem ouvidos.

NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO . eu pergunto: Quem é mais dialetal? O cantor das límpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopédicos que encurralam rebanhos. o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto. apesar da inclusão de meu nome nesse catálogo. sem ironia". dos gêneros literários que jogam football e das gramáticas torpedeadas? Na página 122."A sério. não me julgo totalmente incapacitado para falar de estilística.

As ilusões do patriotismo não têm fim. No primeiro século de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hábito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão são, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, é o compreensível ou inocente propósito de fomentar os melhores traços argentinos. Ignoram, porém, os argentinos; na polêmica, preferem defini-los em função de algum fato exterior; dos conquistadores espanhóis (digamos), ou de uma imaginária tradição católica, ou do "imperialismo saxão". O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração,1 a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel "O Estado é a realidade da idéia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse "herói" é um incompreensível canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranqüilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro. O mundo, para o europeu, é um cosmos em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que há de ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de não ser ruim, apesar do prêmio. Em geral, o argentino descrê das circunstâncias. Pode ignorar a fábula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos – os Lamed Wufniks – que não se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o
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O Estado é impessoal: o argentino só concebe relações pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime. Apenas constato um fato; não o justifico nem desculpo.

universo; quando a ouvir, não estranhará que esses beneméritos sejam obscuros e anônimos... Seu herói popular é o homem só que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potência ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas não registram fatos análogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada há em comum entre os dois, mas o tema do primeiro é a vindicação da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pook’s Hill); o do segundo, a insuportável e trágica solidão de quem carece de um lugar, por humilíssimo que seja, na ordem do universo. Dirão que os traços que assinalei são meramente negativos ou anárquicos; acrescentarão que não comportam explicação política. Ouso sugerir o contrário. O mais urgente dos problemas de nossa época (já denunciado com profética lucidez pelo quase esquecido Spencer) é a gradual intromissão do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, há de encontrar justificativa e deveres. Sem esperança e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mínimo de governo. O nacionalismo pretende embair-nos com a visão de um Estado infinitamente incômodo; essa utopia, uma vez alcançada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construíssem, sua antítese. Buenos Aires, 1946.

QUEVEDO

Assim como a outra, a história da literatura é pródiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glória parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele não consta. Muito tentei inquirir as razões dessa extravagante omissão; certa vez, em uma conferência esquecida, julguei encontrá-las no fato de suas duras páginas não fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo é ter êxito", observou George Moore.) Para alcançar a glória, eu dizia, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra ou alguma circunstância biográfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hipérboles cuja repetição faz a glória... Ignoro se essa explicação é correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo não é inferior a ninguém, mas não encontrou um símbolo que se apoderasse da imaginação das pessoas. Homero tem Príamo, que beija as homicidas mãos de Aquiles; Sófocles tem um rei que decifra enigmas e que os oráculos levam a decifrar o horror de seu próprio destino; Lucrécio tem o infinito abismo estelar e a discórdia dos átomos; Dante, os nove círculos infernais e a Rosa paradisíaca; Shakespeare, seus mundos de violência e de música; Cervantes, o venturoso vaivém de Sancho e Quixote; Swift, sua república de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominação e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e sórdidos labirintos. Não há escritor de fama universal que não tenha cunhado um símbolo; este, convém lembrar, nem sempre é objetivo e externo. Góngora ou Mallarmé, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrário, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um protótipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesuítico, 1904, p. 59). Lamb disse que Edmund Spencer era the poets’ poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que é o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo é preciso ser (em ato ou em potência) um homem de letras; inversamente, ninguém que tenha vocação literária pode não gostar de Quevedo. A grandeza de Quevedo é verbal. Julgá-lo um filósofo, um teólogo ou (como pretende Aureliano Fernández Guerra) um homem de Estado é um erro que podem permitir os títulos de suas obras, não o conteúdo. Seu tratado Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidação ao argumento. Como Cícero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente

Análoga discrepância percebe-se no Marco Bruto.1 O leitor distraído pode julgar-se edificado por essa obra. o mais atinado. Escreve que a transmigração das almas é uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta".. Sua Política de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Señor deve ser considerada. exporei à vergonha os que pouca tiveram. e não os ministros o rei". Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empédocles. ao 1 Reyes certeiramente observa (Capítulos de Literatura Española. acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus.república de luzes".. a doutrina gnóstica de que o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar. pássaro e mudo peixe que surge do mar". do episódio da samaritana. Ou são panfletos circunstanciais. da repetição da fórmula sequebantur. apesar de sua ambiciosa aparência. que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves. provavelmente falsas. loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutón. Quevedo depreende. . não passa de um arrazoado contra os maus ministros. com a dignidade da linguagem. que exercem obscuro encanto sobre a imaginação dos homens: a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. e à vista do mar. Quevedo tudo salva. Nesse tratado. Mas entre essas páginas podem encontrar-se alguns dos traços mais característicos de Quevedo". p. apenas estudioso da verdade.. do qual fora povo. precipitou-se no fogo". de Tácito e de Lucano. o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeição. O espanhol. do episódio dos pães e dos peixes. que os reis devem remediar as necessidades. e Bião de Boristenas. Empédocles de Agrigento afirmou: "Já fui criança. parece regressar ao árduo latim de Sêneca. moça. Quevedo moteja de infames. discípulo do imundo e desatinado Teodoro". Quevedo. Fiel a esse cabalístico pressuposto. em suas páginas lapidares. A Política de Dios. nenhum valor além do retórico. agora. 1939. "um completo sistema de governo. o que não passa de terrorismo.. in fine).133): "As obras políticas de Quevedo não propõem uma nova interpretação dos valores políticos nem têm. ou são obras de declamação acadêmica. ou quase. segundo Aureliano Fernández Guerra. O assombro vacila entre a arbitrariedade do método e a trivialidade das conclusões. Na história da filosofia há doutrinas. homem tão insensato que. nobre e conveniente". Entretanto. e são: Diágoras de Mileto. que "o rei deve conduzir os ministros. Para estimar o valor dessa sentença. basta-nos lembrar que os quarenta e sete capítulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que não seja a curiosa hipótese de que os atos e palavras de Cristo (que foi. Os gnósticos. touceira. é invulnerável a esse encanto. malditos. Rex Judaeorum) são símbolos secretos a cuja luz o político deve resolver seus problemas. e. expedida essa variante estelar do argumento cosmológico. afirmando ter sido peixe. como se sabe. embora as cláusulas o sejam. discípulos de Demócrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu). onde o pensamento não é memorável. Protágoras de Abdera. mudou-se em tão contrária e oposta natureza que morreu borboleta do Etna.

91) – não é um fato cientifico. de que a metáfora é o contato momentâneo de duas imagens. pagaram grandes e soberanas vitórias com as aclamações de um triunfo. (N.atormentado e duro latim da idade de prata. As trivialidades ou eternidades da poesia – águas equiparadas a cristais. Cochite y hervite: 1. para que não descaíssem de prerrogativas de tesouro os ramos. mas muito mais por serem falsas. ou a troche y moche: às tontas. p. Há uma diferença fundamental: Luciano.2 Quevedo foi equiparado. divinamente destinado a salvar do esquecimento as locuções zurriburi. confusão. foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência. pessoa precipitada. sujeito desprezível. sua prosa. os poemas eróticos de Quevedo são insatisfatórios. Muitos períodos merecem. Abarrisco. a repetição de palavras dão a esse texto uma precisão ilusória. não menos múltipla. Verbi gratia. cochite hervite. não as permitiram à pretensão. Quítame allá esas pajas (en un): num átimo. o hipérbato. e sim ao mérito". fascinadas. Examinada. combatendo as divindades olímpicas no século II. ser julgados de perfeitos. Quevedo. Quevedo. homem de apetites veementes. limita-se a observar uma tradição literária. o mármore e as vozes. passo a discutir sua poesia. essencialmente. também deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carícias e nestas não se fia"). as ervas. quítame allá esas pajas e a trochi-moche. Outros estilos freqüentou Quevedo com não menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscón. este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem. abarrisco. canalha. e. O ostentoso laconismo. deliberados exercícios de petrarquismo. recompensaram vidas quase divinas com estátuas. Trochi-moche(a). nunca deixou de aspirar ao ascetismo estóico. e sim artístico. "A linguagem – observou Chesterton (G. ou a barrisco: conjuntamente e sem distinção. 1904. ainda que brevemente. faz uma obra de polêmica religiosa. para ele a linguagem foi. considerados jogos de hipérboles. ao repetir esse ataque no século XVI de nossa era. mãos equiparadas a neve. Com o propósito de "expô-los à vergonha". a Luciano de Samósata. sem eira nem beira.. feito rápida e atabalhoadamente. Considerados documentos de uma paixão. ou exigem. costumam ser admiráveis.) . Esqueceu-se. muitas gerações. urdiu com eles a rapsódia intitulada Cuento de Cuentos." Quevedo nunca a entendeu assim. em mais de uma ocasião.. esses motivos bastam para explicar o 2 Zurriburi: 1. olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos – incomodavam-no por serem fáceis. F. não a metódica assimilação de duas coisas. Também execrou os idiotismos. um instrumento lógico. o quase algébrico rigor. ao censurá-las. o estilo desmesurado e orgiástico (mas não ilógico) de La Hora de Todos. Watts. 2. a aridez. 2. a oposição de termos. da T. preferiram ver nessa redução ao absurdo um museu de primores.

Em fuga irrevogável corre a hora. As grandes almas que a morte ausenta. H. duque de Osuna. de sua Torre de Juan Abad. cujo sentido não é enigmático. Digo o mesmo da seguinte expressão: o pranto militar. que "canta façanhas de amor e formosura". orar despertos ao sonho da vida). sua coragem ou seu desengano.artificialismo voluntário daquela Musa IV de seu Parnaso. vingadora. Não direi que se trata de uma transcrição da realidade. livros juntos. muerto en la prisión" –. neste soneto que ele enviou. E aquela o melhor cálculo assenta. bom dom Joseph. porque a realidade não é verbal. Das injúrias dos anos. porém doutos. Eu vivo dialogando co’os defuntos E os mortos com os olhos ouço ao perto. mas o soneto é eficaz a despeito deles. Livra. Por exemplo. a esplêndida eficácia do dístico Sua Tumba são de Flandres as Campanhas e seu Epitáfio a sangrenta Lua é anterior a toda interpretação e não depende dela. naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia. Que na lição e estudo nos melhora. Não faltam traços cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos. 109): Recolhido na paz destes desertos. sempre abertos. não por causa deles. a douta Imprensa. a Dom José de Salas (Musa. Emendam e secundam meus assuntos. Se nem sempre entendidos. mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece animá-las. e sim corriqueiro. o . Em músicos. O acento pessoal de Quevedo está em outros poemas. Com poucos. calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos. Nem sempre ocorre o mesmo. no mais ilustre soneto desse volume – "Memoria inmortal de don Pedro Girón.

gongorismos intercalados. Assim. IV. o ponto de partida de Quevedo é um texto clássico.3 Grande é o âmbito da obra poética de Quevedo. E luz rumina em campos celestiais. Confundindo lamentos e latidos. para provar que ele também era capaz de jogar esse jogo. e foi vestido. II) . 31): Serão pó.pranto dos militares. opacas e rangentes severidades.) Tremeram fundamente umbrais e portas Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura. E em nossa palidez cegam os prados. Fundos suspiros deu a negra gente. a memorável linha (Musa. que de algum modo prefiguram Wordsworth. (Musa. O Cérbero calou-se. (Elegias. E por trás dele os cônsules gemeram. de Juvenal. que em reinos vãos e baldos Perturbam o silêncio e os ouvidos." (N. ou exaltação. variantes de Pérsio. Co"as três gargantas ao latido prontas. e de repente. Desertos montes como cãs cendrados. de Joachim de 3 4 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu. Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos cães. da T. Quanto à sangrenta Lua. Que não merecem ver do céu luzeiros. porém pó apaixonado é uma recriação. Ao ver a nova luz divina e pura. das Escrituras. de Sêneca. de uma de Propércio. 19): Ut meus oblito pulvis amore vacet.5 urbanidades e doçuras da Itália ("humilde solidão verde e sonora"). IX) 5 À dura lide um animal nascido E símbolo zeloso dos mortais.4 bruscas magias de teólogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"). O solo sob os pés gemeu inteiro. De Jove foi disfarce. (Musa. Que um tempo empederniu as mãos reais. 1. é melhor ignorar que se trata do símbolo dos turcos. Compreende pensativos sonetos. eclipsado por não sei que piratarias de Dom Pedro Téllez Girón. Não poucas vezes.

áspide em lírio. ou distrair.7 lúgubres pompas da aniquilação e do caos. de Yeats e de George. Derramando pelos ombros O balanço de suas lêndeas. Ali onde vives. E tu. o nojo.Bellay. Padeces um magnífico delírio. Este. Os melhores poemas de Quevedo existem para além da moção que os gerou e das comuns idéias que os animam. Quando a felicidade delinqüente O horror obscuro em esplendor te mente. puros e independentes como uma espada ou um anel de prata. VI) . Não são obscuros. Pois a seu modo Estrelas mente o ouro. Mas não descansa. Para quem sabe examinar-te. oh Liças!. brevidades latinas. V) 7 Este Dom Fábio cantava Para gradis e sacadas De Aminta. por exemplo: "Farta já a Toga do veneno tírio". 6 A Méndez chegou berrando De azeites bem suarenta. com enigmas. Cobre-te em tesouros d’Oriente. Crês que em Palácio a Jove porfiar podes. Víbora em rosicler. que de esquecê-lo Disseram que não se lembra. teu martírio. evitam o erro de perturbar. Ou todo em ouro rígido e palente. Farta já a Toga do veneno tírio. São (para dizê-lo de algum modo) objetos verbais.6 escárnios de curioso artifício. senhor de tudo e tantos louros. ao contrário de outros de Mallarmé. és podre E pura vilania. troças. (Musa. (Musa. sem saber que morres. o lodo.

Como Joyce. como nenhum outro escritor. . como Shakespeare. Francisco de Quevedo é menos um homem que uma vasta e complexa literatura.Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo. como Dante. como Goethe. mas ele continua sendo o primeiro artífice das letras hispânicas.

assombrosamente. Cotejado com outros livros clássicos (a Ilíada. é apenas insinuado. mais eficaz. a discussão de sua novidade interessa-me menos que a de sua possível verdade. devia nela figurar. como os crimes e o mistério em uma paródia de romance policial. em outras passagens. porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuição. Intimamente. com seu senso paródico. o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote. O plano de sua obra vedava o maravilhoso. para Cervantes o real e o poético são antinomias. mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e. em 1942. por coincidência. o Quixote é realista. entretanto. No sexto capítulo da primeira parte. como já anotei. a colheita literária de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria. Na realidade. as tragédias e comédias de Shakespeare). Joseph Conrad pôde escrever que excluía de sua obra o sobrenatural. enternecidos pela evocação de La Mancha. a Eneida. As vastas e vagas geografias do Amadís ele opõe os poeirentos caminhos e as sórdidas estalagens de Castela. o problema é tratado de modo explícito. Cervantes não podia recorrer a talismãs nem a sortilégios. Conrad e Henry James romancearam a realidade por julgála poética. ou Antonio Machado. mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginário. observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano. imaginemos um romancista de nosso tempo que. O Quixote é menos um antídoto dessas ficções que uma secreta despedida nostálgica. este. Paul Groussac. seriam para ele incompreensíveis. de Cervantes. embaladoras fábulas do cativeiro". ou Azorín. cada romance é um plano ideal. a Comédia dantesca. dizendo que este é mais versado em desgraças que em versos e que o livro tem algo de boa invenção. mas nem aquele século nem aquela Espanha eram para ele poéticos. porém. esse realismo.MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE É verossímil que estas observações tenham sido enunciadas alguma vez. Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo. Cervantes criou para nós a poesia da Espanha do século XVII. homens como Unamuno. o barbeiro é amigo do autor e não o admira muito. . a Farsália. difere essencialmente daquele que foi exercido no século XIX. por isso mesmo. o mundo do leitor e o mundo do livro. Cervantes amava o sobrenatural. um dos livros examinados é a Galatéia. destacasse os postos de gasolina. ao menos de maneira indireta. e eis que. Nos capítulos em que se discute se a bacia do barbeiro é um elmo e a albarda um jaez. e quem sabe muitas vezes.

estranhamente. e a resolução de Scherazade. que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer. que fingiu que o Sartor Resartus era a versão parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Diógenes Teufelsdroeckh. onde um asceta os ensina a ler. que viveu mais de um mês e meio em sua casa. tendo encomendado a tradução a um mourisco. como um tapete persa. Também surpreende saber. Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. mas não procura graduar suas realidades. no início do nono capítulo. acompanhados pelo alaúde. o livro em que eles estudam. cantam o Ramayana. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolação? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imóvel rei escutar para sempre a truncada história das Mil e Uma Noites. o rei ouve a própria história da boca da rainha. mas não conclui nada. que não sabem quem é seu pai. Rama ouve sua própria história. agora infinita e circular. A necessidade de completar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolações.propõe algo. enquanto concluía a tarefa. figura no Ramayana. também. Pensamos em Carlyle. que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do século III. e ainda mais assombroso. que o entretém com fábulas. Rama ordena um sacrifício de cavalos. Estes. os filhos de Rama. E bem conhecida a história liminar da série: o desolado juramento do rei. reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta.. leitores do Quixote. sonho de Cervantes. Um artifício análogo ao de Cervantes. que o romance inteiro foi traduzido do árabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo. As invenções da filosofia não são menos fantásticas que as da arte: Josiah Royce. até que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. e o efeito (que devia ser profundo) é superficial. mágica entre as noites. que abrange todas as outras e também – de monstruoso modo – a si mesma. ou forma de um sonho de Cervantes. pensamos no rabino castelhano Moisés de León. no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899). Ouve o início da história. julga Cervantes. onde se representa uma tragédia que é mais ou menos a de Hamlet. O barbeiro.. poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demônios.. a essa festa comparece Valmiki com seus alunos.. o Ramayana. a correspondência imperfeita entre a obra principal e a secundária diminui a eficácia dessa inclusão. formulou a seguinte: "Imaginemos que . os protagonistas do Quixote são.. procuram abrigo em uma selva. que inclui no cenário de Hamlet outro cenário. No último livro. Essa compilação de histórias fantásticas duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central em contos adventícios. Valmiki. Aqui é inevitável lembrar o caso de Shakespeare.. Esse mestre é. Nenhuma tão perturbadora quanto a da noite DCII. Esse jogo de estranhas ambigüidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira. Nessa noite.

A obra é perfeita. tudo aí tem seu correspondente. e no qual também são escritos. se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores. e lêem. tal mapa deve conter um mapa do mapa. . que deve conter um mapa do mapa do mapa. podemos ser fictícios. que não esteja registrado no mapa. e assim até o infinito". seus leitores ou espectadores. não há detalhe do solo da Inglaterra. Desta sorte. e Hamlet. por menor que seja. nós. e procuram entender. Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote. Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem. espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inversões sugerem que.uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. Em 1833.

quando sonha – escreve Addison –. as doenças. no soneto "Varia imaginación". o sonhador. as manias. continuava em sua aldeia puritana de 1 Texto de uma conferência proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em março de 1949. não é falso dizer que nunca se afastou dela. as que formulam íntimas conexões entre duas imagens. amou-a com o triste amor que inspiram. os fracassos." Muito antes. Esta a que me refiro é a que liga os sonhos a uma apresentação teatral. sempre existiram. Cinqüenta anos depois. As verdadeiras. onde lemos: O sonho. em essência. equipara as invenções literárias às invenções oníricas. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bíblico. Se a literatura é um sonho. muito velha. muito depois. atores e público. o numeroso Deus dos panteístas. sem dúvida. urdidor de agradáveis espanholadas –. exatos volumes.NATHANIEL HAWTHORNE1 Começarei a história das letras americanas com a história de uma metáfora. Pouco anteriores no tempo. uma espécie de Eduardo Gutiérrez infinitamente inferior a Eduardo Gutiérrez. há outros escritores americanos – Fenimore Cooper. mas podemos ignorá-los sem risco algum. Salem padecia. o persa Omar Khayyam escrevera que a história do mundo é uma representação que Deus. No século XVIII. Addison a enunciará com mais precisão. em seu teatro sobre o vento armado. ou melhor. sombras usa vestir de vulto belo. as que ainda podemos inventar são as falsas. as que não vale a pena inventar. de dois traços anômalos na América: era uma cidade. com alguns exemplos dessa metáfora. planeja. Quevedo formulou-a no início do Sueño de la Muerte. Hawthorne viveu até 1836. um sonho dirigido e deliberado. "A alma. era uma cidade em decadência. No século XVII. é teatro. apesar de pobre. Luis de Góngora. a literatura aos sonhos. . o suíço Jung. em encantadores e. a fim de distrair sua eternidade. Hawthorne nasceu em 1804. Não sei quem a inventou. no porto de Salem. Washington Irving. representa e contempla. talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. já então. nas pessoas que não nos amam. é bom que esta nossa história das letras americanas tenha os versos de Góngora por epígrafe e seja inaugurada com a análise de Hawthorne. mas fundamentalmente um sonho. em Londres ou em Roma. autor de representações.

Tituba. Naquele tempo não existia (para felicidade das crianças. Hawthorne era alto. sua viúva. essa palavra é importante e. se ainda não forem pó. Sabese que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gênero indefensáveis. e agora já não encontro a chave. Louisa e Elizabeth. bonito. recluiu-se em seu quarto. quando desaprovou que os escultores. o capitão Nathaniel Hawthorne. Hawthorne acrescenta: "Não sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericórdia divina. um jogo de vãs repetições. No mesmo andar estavam os quartos das irmãs. ilícito. a mãe de Nathaniel. por exemplo. tranquei-me em um calabouço. indagar se o gênero alegórico é. Seu pai. Quando o capitão Hawthorne morreu. Duas tarefas nos deparam: a primeira. em pleno século XIX. agora. no corredor. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas). no cemitério de Charter Street. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. o primeiro livro que ele comprou com o próprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo. de fato. talvez a mesma que o primeiro Hawthorne. sem o menor propósito de fazê-lo. magro. Em 1837. embora seus biógrafos não o digam. sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. a melhor vindicação. Que eu saiba. em se tratando da obra de Hawthorne. no segundo andar da casa. Também. em 1630. quase teria medo de sair". de febre amarela.. desde o dia de hoje. Justice Hawthorne procedeu com severidade e. e. que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virgílio e Beatriz para depois . no Suriname. mesmo que a porta estivesse aberta. Uma mancha tão profunda que deve perdurar em seus velhos ossos. "Tão conspícuo foi – escreveu Nathaniel. a de Chesterton. Acabei de pronunciar a palavra alegorias. entre elas uma escrava. a segunda. John Hawthorne. William Hawthorne de Wilton. foi juiz nos processos de feitiçaria de 1692. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantásticos.. morreu em 1808. eu o faço em nome deles e peço que qualquer maldição que se tenha abatido sobre minha raça seja-nos. escreveu a Longfellow: "Vivi recluído. Essas pessoas não comiam juntas e quase não se falavam. com sinceridade. a Bíblia. Converti-me em prisioneiro. nas Índias Orientais. foram condenadas à forca. sem dúvida. esculpissem estátuas nuas. trouxera da Inglaterra junto com uma espada. Tinha o andar balançado dos homens do mar. talvez imprudente ou indiscreta. indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gênero. moreno. em que dezenove mulheres. saía para caminhar." Depois desse arroubo pictórico.Salem. na hora do crepúsculo vespertino. a melhor refutação das alegorias é a de Croce. perdoada". Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrim’s Progress. no último. a refeição de cada um era deixada em uma bandeja. o nosso Nathaniel – no martírio das bruxas que é lícito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. o de Nathaniel. um de seus antepassados. sem dúvida) literatura infantil.

mas quando um abstrato. Seria um gênero bárbaro ou infantil. Não sei se a tese de Chesterton é válida. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. melhor ela será. ilustre na Inglaterra em fins do século XIX e acusado. o de Hawthorne. a um frio jogo de abstrações. segundo essa interpretação desdenhosa. que Dante é a alma. ou a razão. Dito de outro modo: Beatriz não é um emblema da fé. de alegorismo. a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar.".. Ortega pode . A alegoria. digamos) e o escritor que pensa por meio de abstrações (Benda ou Bertrand Russell). Há o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare. Chesterton já a refutara sem que aquele o soubesse. mais extensa. ou Donne. assaz pobre. No mais. "para desonra do entendimento do leitor". o som "fé". muitas vezes. uma distração da estética. os dois escritores são antagônicos. ou a luz natural. Dante primeiro teria pensado: "A razão e a fé operam a salvação das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao céu" e depois. ocorre o denunciado por Croce. Virgílio a filosofia. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. a das alegorias e das fábulas. e Beatriz a teologia ou a graça. outro. Tão incomunicada e tão vasta é a literatura! A página pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts. viria a ser uma adivinhação. como Hawthorne.. um processo íntimo. o caso de José Ortega y Gasset. ou fazer-se passar por tal. sei que. quanto menos uma alegoria for redutível a um esquema. uns valem tanto quanto outros. mas nega que esse gênero seja condenável. um trabalhoso e arbitrário sinônimo da palavra fé. como disse Wordsworth. no entanto. para citar um exemplo notório desse mal. ou Victor Hugo. Segundo Croce. uma série de estados análogos – que é possível indicar por meio de dois símbolos: um. É. entre muitas outras. Daí infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam à inapreensível realidade. Crê. Escreve: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. a priori. Chesterton admite que Watts produziu alegorias. Argumenta que a realidade é. em todas as suas fusões e conversões. quer ser também imaginativo. Croce formulou essa refutação em 1907.. onde pensou teologia ou fé.de uma interminável riqueza e que a linguagem dos homens não esgota esse vertiginoso caudal. onde pensou razão ou filosofia. pôs Virglio e. é. pôs Beatriz. em 1904. ou dar a entender. segundo o argumento de Croce (o exemplo não é dele). mais lenta e muito mais incômoda que as outras. um raciocinador. a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. Percebemos que um processo lógico foi enfeitado ou disfarçado pelo autor. o que seria uma espécie de mascarada. Beatriz. cujo bom pensamento é obstruído por laboriosas e adventícias metáforas. que esses matizes..explicar.

do mesmo ano: "Um homem. que se trata do homem que legou a casa". de intuições. O outro é mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenções. atormentando-o terrivelmente". à espera de um acontecimento e da aparição dos principais atores. Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. moralmente submisso a ele. encontram um criado sombrio que o testamento proíbe demitir. não por meio de mecanismo dialético. está escrito: "Uma serpente é admitida no estômago de um homem e alimentada por ele. ou fantástico. e são elas mesmas os atores". este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos. não sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial. por fim. às vezes. por fim. que o caráter sonhado era o verdadeiro. (Não sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento. ao pensamento. ou levemente horrível. que os personagens não se comportem como ele queria. Os sonhos tinham razão. Esta. Outro exemplo. dos quinze aos trinta e cinco anos. de 1836. da realidade e da arte. Em um deles. durante a vigília. A explicação seria a percepção instintiva da verdade". digamos assim. Moral: a felicidade está em nós mesmos". Hawthorne era homem de contínua e curiosa imaginação. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua. e o outro continua executando aquela ação até o fim de seus dias". Este os atormenta.) Ou este. Esta. por fim. descobre-se. O acontecimento já está ocorrendo.raciocinar. descubra que ela é a única culpada e a causa. como se os dois estivessem em um deserto". São melhores aquelas fantasias puras que não procuram justificativa nem moralidade e que parecem não ter outro fundo além de um obscuro terror. a falseá-las e a deformá-las. Os herdeiros mudam-se para aí. pensa bem de outro e confia nele plenamente. Foi prejudicado por um erro estético: o desejo puritano de fazer de cada imaginação uma fábula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e. cujo tema (não ignorado por Pirandello nem por André Gide) é a coincidência ou a confusão do plano estético e do plano comum. digo que pensava por meio de imagens. como costumam pensar as mulheres. Revela-se. que execute uma ação. a sujeição ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua mansão a um casal pobre. mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. Isso já basta. misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa. de 1838: "Imaginar no meio da multidão um homem cujo destino e cuja vida estão sob o poder de outro. mas Hawthorne se vê na obrigação de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixão maligna". bastante curiosos. cujo tema também é a escravidão. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que. que é uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro. que ocorram fatos não . O que ordena morre. Não digo que ele fosse pouco inteligente. ou talvez humilhante. bem ou mal. Mais um. mas não imaginar. mas refratário. Citarei mais dois esboços.

Hawthorne. tais momentâneas confluências do mundo imaginário e do mundo real – do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real – são. situações. Hawthorne primeiro imaginava. acho que o autor os chama assim – pecam por inverossímeis. uma situação para só depois procurar personagens que a encarnassem. chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mármore de um templo e. em vão. Das razões acima poder-se-ia deduzir. e sim para definir seus personagens. também se nota. Pouco importam os pueris escândalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no príncipe Hamlet. os lentos e antitéticos diálogos – "arrazoados". Situações. Eu entendo que é assim. ou uma série de situações. não para surpreender nossa boa-fé. e um dos personagens ser ele mesmo". e o que ela tece são batalhas e desventuras da própria guerra de Tróia. ao contrário. e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. que o ponto de partida de Hawthorne eram. ou parecem-nos. ou permitir. pois na Eneida consta que Enéias. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginário e o real. porque neles. guerreiro da guerra de Tróia. a trama é mais visível que os atores. Sua origem. Pouco importam fatos inacreditáveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou. Percebe-se nos esboços algo mais grave que as duplicações e o panteísmo. Tais jogos. escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memoráveis de seu romance Victory. de que um homem é todos os homens. onde a forma geral (quando existe) só é visível ao final e onde um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham. talvez esteja naquela passagem da Ilíada em que Helena de Tróia tece seu tapete. quem sabe involuntariamente. entre tantas imagens de guerreiros. modernos. contos admiráveis. Nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas. e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. de antemão. Não sou romancista. que ele propendia à noção panteísta de que um homem é os outros. também sua própria imagem.previstos por ele e que se aproxime uma catástrofe que ele tentará. nos esboços que citei. que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. quero dizer. Os vinte e quatro capítulos que compõem A Letra Escarlate contêm muitas passagens . mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista. como reflexos e duplicações da arte. dada sua brevidade. Esse conto poderia prefigurar seu próprio destino. primeiro concebia uma situação. Percebe-se que o estímulo de Hawthorne. evitar. não personagens. em geral. As aventuras do Quixote não estão muito bem idealizadas. Esse método pode produzir. mas não resta dúvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele. mas nunca romances admiráveis. sua antiga origem. mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg é real". Esse aspecto deve ter impressionado Virgílio.

abriu a porta de casa e entrou. por um instante.) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entendê-lo. Wakefield está de botas. a mulher recordará esse sorriso último. Imaginará o marido no caixão com o sorriso gelado no rosto. distrai-se. mas nenhum deles comoveume tanto quanto a singular história de Wakefield. ou então no paraíso. Durante esse longo período. Este imagina Wakefield como um homem pacato. deita-se. está a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem. que seu propósito é investigar a impressão que uma semana de viuvez causará à exemplar senhora Wakefield. No dia seguinte. de cartola. sorri. Wakefield. chega ao esconderijo que tinha preparado. no mais tardar. Wakefield. quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viúva. passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina. As interpretações do enigma podem ser infinitas. Sabe que tem um propósito. com fins literários. como se tivesse se ausentado por algumas horas. propenso a mistérios pueris. de sobretudo. perplexo. por fim. redigidas em boa e sensível prosa.memoráveis. instalou-se a um passo de sua casa e aí. um marido constante. fecha a porta da rua. ociosas. Simplesmente. mas custa-lhe defini-lo. Diz a ela – não podemos esquecer que estamos no início do século XIX – que vai tomar a diligência e que voltará. ausentando-se de casa por toda uma semana. no entardecer de um dia de outubro. o conto "Wakefield" é a história conjetura) desse desterrado. Quando já o davam por morto. imaginá-lo. leva guarda-chuva e malas. (Foi. que o sabe aficionado a inofensivos mistérios. Caminha. Wakefield – acho isto admirável – ainda não sabe o que lhe acontecerá fatalmente. o homem. A curiosidade o impele para a rua. até o dia de sua morte. Quase arrependido. e muitas vezes avistou sua mulher. teme que o tenham observado e que o denunciem. congratula-se. Descobre. acorda mais cedo que de costume e. ou fingiu. de . custa a acreditar que já está aí. Murmura: "Espiarei minha casa a distância". um homem acanhado. e ela recordará esse sorriso e pensará que talvez não seja viúva. Todos acreditarão que está morto. A mulher. Refletiu sobre o tema. Acomoda-se junto à lareira e sorri. Duvida. depois de dar algumas voltas. incluída nos Twíce-Told Tales. sem ninguém suspeitar. mas capaz de longas. na grande cama vazia. Anos mais tarde. despede-se da mulher. timidamente vaidoso. egoísta. com a resolução mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher. Sai. um marido exemplar. estende os braços e repete em voz alta: "Não dormirei sozinho outra noite". defendido pela preguiça. de grande proeza imaginativa e mental. ter lido no jornal. sorrindo com astúcia e serenidade. um dia. vejamos a de Hawthorne. Sai. o caso de um senhor inglês que abandonou a mulher sem motivo algum. Hawthorne lera no jornal. passou vinte anos escondido. a guardar segredos insignificantes. em seguida a entreabre e. incompletas e vagas meditações. pergunta-se o que fazer. na glória. não lhe pergunta as razões da viagem. dentro de alguns dias.

uma única noite causou nele uma transformação. enfim. já estabelecera uma nova rotina. Então recua. ou quase nunca sabe. No centro de Londres. Wakefield foge para seu esconderijo. Mentalmente. porque. Nesse ponto começa. renunciou a seu lugar e a seus privilégios entre os homens vivos. o médico. A multidão os separa e os perde. Wakefield fita a própria casa. antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias". Em seu rosto brinca. Já há muito deixou de saber que sua conduta é estranha. Cara a cara. está bem ali. Talvez esteja. antes comum. Possuído. os dois olham-se nos olhos. em meio à multidão de Londres. Wakefield compra uma peruca ruiva. e talvez não a trocasse pela felicidade. Começa a chover. Wakefield emagreceu. outro dia. como que se ocultando. os dois se cruzam na rua. Na memória. de fato. e ela o vai esquecendo. A mulher engordou. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem .repente percebe que o hábito. onde um soluço o estremece. Não sabe. embora não o saiba. sem se dar conta de que há vinte anos vem repetindo a mesma coisa. enxerga a miserável singularidade de sua vida. aterrorizado. Wakefield continua amando sua mulher. mas teme que sua brusca reaparição possa agravar o mal. ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. graças ao extraordinário intento que executou. de certo modo. mas deixa adivinhar que ele já estava. Muda seus hábitos. as chamas lançam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. desligou-se do mundo. volta-se para olhar sua casa. Seus olhos miúdos espreitam ou se perdem. Repete "logo voltarei". porque ele já é outro. Um dia o boticário entra na casa. levou-o à própria porta e que está a ponto de entrar. Aflige-o a suspeita de que sua ausência não causara suficiente comoção à senhora Wakefield. sua fronte baixa parece sulcada de rugas. esta parece-lhe diferente. o matreiro sorriso que conhecemos. Hawthorne não nos conta seu destino ulterior. Parece-lhe ridículo molhar-se quando sua casa. tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama. Acostumou-se à tristeza. Numa manhã de domingo. uma tarde igual a outras tardes. passado algum tempo. Pela janela vê que no primeiro andar a lareira está acesa. morto. Uma tarde. Wakefield preocupa-se. "dentro de tantas semanas". caminha obliquamente. Com todo o morno afeto de que seu coração é capaz. leva na mão um missal e ela inteira parece um emblema de plácida e resignada viuvez. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. seu lar. que é outro. Wakefield voltou. os vinte anos de solidão parecem-lhe um interlúdio. como que fugindo. Em sua alma operou-se a mudança moral que o condenará a vinte anos de exílio. Decide não voltar antes de pregar-lhe um bom susto. a longa aventura. deixa o tempo correr. Sem ter morrido. seu rosto. Será que alguém o viu? Será que alguém o persegue? Chegando à esquina. agora. "Wakefield! Wakefield! Você está louco!". E assim passam-se dez anos. a milhares de tardes anteriores. Por um instante. espectral. traiçoeiro. agora é extraordinário. diz a si mesmo. um mero parêntese. contra o adornado forro. Wakefield sente uma rajada de frio.

mas este modifica. as iras e os castigos do Velho Testamento. a profunda trivialidade do protagonista. que não há ato. e afina. para ocultar o herói. Em outras narrações. resolvem destruir o passado. Hawthorne permite-lhe voltar. se há verdade nessa opinião. cujas multidões lhe servem. Dirão que isso nada tem de singular. congregam-se ao entardecer em um dos vastos territórios do oeste da América. Nessa ficção alegórica. Cria-os e de certo modo os justifica. Se Kafka tivesse escrito essa história. cujo fim é talvez a variedade. não deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado. corre o terrível risco de perder seu lugar para sempre. foi determinado por Kafka.aparente de nosso misterioso mundo. com todos os diplomas. o que seria de Marlowe sem Shakespeare? O tradutor e crítico Malcom Cowley vê em "Wakefield" uma alegoria da curiosa reclusão de Nathaniel Hawthorne. e todos a tudo – que o indivíduo que se desvia. pois o orbe de Kafka é o judaísmo. o sabor mesmo dos contos de Kafka. aliás. às Fúrias. a estranha circunstância. com todas as . que trabalhou no início do século XX. Há o fundo nebuloso. Aqui. Schopenhauer escreveu. contra o qual se perfila o pesadelo. redigido no início do século XIX. A observação é justa. mas seu alcance não excede a ética. Nessa breve e ominosa parábola – que data de 1835 – já estamos no mundo de Herman Melville. Uma parábola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas não é. como Wakefield. nem doença que não sejam voluntários. nesta limita-se a uma Londres burguesa. eu gostaria de intercalar uma observação. é a que se intitula Earth’s Holocaust: o Holocausto da Terra. ainda mais desvalido. Hawthorne invoca um passado romântico. A circunstância. sem nenhum demérito de Hawthorne. A essa planície ocidental chegam homens de todos os confins do mundo. mas uma retórica. Para tanto. no mundo de Kafka. Assim. Corre o risco de ser. por exemplo. No centro acendem uma altíssima fogueira que alimentam com todas as genealogias. que contrasta com a magnitude de sua perdição e que o entrega. Um mundo de castigos enigmáticos e de culpas indecifráveis. a leitura de "Wakefield". A dívida é mútua. um grande escritor cria seus precursores. nem pensamento. Hawthorne prevê um momento em que os homens. Há. prejudicada que foi pela preocupação com a ética. mas sua volta não é menos lamentável nem menos atroz que sua longa ausência. de sentir em um conto de Hawthorne. seria possível conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que não faltasse ao universo. Wakefield jamais conseguiria voltar para casa. fartos de acumulações inúteis. famosamente. por um momento que seja. a singular história de Wakefield. e entre a horrenda história de Wakefield e muitas histórias de Kafka não há apenas uma ética comum. o Pária do Universo". cada homem vive ajustado a um sistema com tão refinado rigor – e os sistemas entre si. e o de Hawthorne. "Wakefield" prefigura Franz Kafka.

com todos os títulos de nobreza. com todas as coroas. com toda a artilharia. Purifiquemos essa esfera interior. com todos os tronos. com todas as dalmáticas. com todos os tambores marciais. com todos os álcoois. com todas as espadas. Hawthorne assiste com assombro e certo escândalo à combustão. com todos os livros. com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visível fugirão como fantasmas. Outro espectador – o demônio – observa que os empresários do holocausto se esqueceram de atirar o essencial. no qual as figuras mudam. da depravação ingênita dos homens e não parece ter percebido que sua parábola de uma ilusória destruição de todas as coisas encerra um sentido filosófico e não apenas moral. com todos os charutos. com todas as constituições e códigos. um homem com ar pensativo diz-lhe que ele não deve alegrar-se nem se entristecer. A mente que uma vez os sonhou voltará a sonhá-los. Hawthorne conclui assim: "O coração. com todas as guilhotinas. com todos os títulos de propriedade. mas não os fragmentos de vidro. com todas as sacas de café. se há Alguém que agora está sonhando-nos e que sonha a história do universo. nada se terá perdido. Hawthorne. comparasse a história a um caleidoscópio. com todo o dinheiro. a aniquilação das religiões e das artes. em seu livro Parerga und Paralipomena. com todas as forcas. com todos os brasões. com todos os dosséis. com todas as tiaras. no qual se encontra a raiz de todo pecado. o coração humano. De fato. aqui tão fielmente descrita. Um sonho tão insubstancial que pouco importará que a fogueira. enquanto a mente continuar sonhando. pois a vasta pirâmide de fogo não consumiu senão aquilo que nas coisas é consumível. com todas as bandeiras. A convicção dessa verdade. essa é a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a miséria do mundo são apenas símbolo.medalhas. se o mundo é o sonho de Alguém. que parece fantástica. com todos os metais preciosos. com todos os instrumentos de tortura. e que somente destruíram algumas formas. com todas as ordens. com todas as cartas de amor. com esse instrumento imperfeito. o incêndio geral das bibliotecas não é muito mais importante que a destruição dos móveis de um sonho. com todos os cetros. pois. a uma eterna e confusa tragicomédia em que mudam os papéis e as máscaras. seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mãos em vez de um fogo imaginado e uma parábola". Essa mesma intuição de que o universo é uma projeção de nossa alma e de que a história universal está em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History". com todas as caixas de chá. se não sobrepujarmos a inteligência e não tentarmos. e especificamente calvinista. discernir e corrigir o que nos aflige. mas não os atores. . fez com que Schopenhauer. toda nossa obra será um sonho. deixou-se levar pela doutrina cristã. com todas as púrpuras. com todas as mitras. aqui. o coração. como é doutrina da escola idealista.

entre os antepassados de Hawthorne. Outro é o de Platão. por certo tempo. Corresponde. todas as coisas voltam. Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou. A passagem é curiosa. o marceneiro. que se apagasse toda a memória das coisas pretéritas e que todo o regime da vida recomeçasse. O passado é indestrutível. ao antigo pleito entre a ética e a estética ou. Tantos literatos. "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell – conta Samuel Johnson – apresentou-se. em seu devido tempo e geração? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista. que no décimo livro da República raciocina deste modo: "Deus cria o Arquétipo (a idéia original) da mesa. Na Inglaterra. foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram melões no lugar onde haviam sido enterrados".. é à abnegação e coragem de obscuros e anônimos homens de letras que a posteridade deve a conservação do cânone de Confúcio. salvo os que ensinassem agricultura. medicina ou astrologia. que declarou que toda representação de uma coisa viva comparecerá perante o Senhor. em meados do século XVII. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su propôs que a história começasse com o novo monarca. um simulacro". e uma das coisas que voltam é o projeto de abolir o passado. não sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China. também filho de puritanos." A passagem é curiosa. culpada. conta-se que quase sentia vergonha de habitar um . entre a teologia e a estética. Para extirpar as vãs pretensões da antigüidade. três séculos antes de Jesus Cristo. se se preferir. que modo de glorificar a Deus ou de ser útil aos homens. que tomou para si o título de Primeiro Imperador.Quanto à fantasia de abolir o passado. imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance. Como Stevenson." Ou seja. o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e – paradoxalmente – é uma das provas de que o passado não pode ser abolido. No prefácio de A Letra Escarlate. cedo ou tarde. porque encerra uma espécie de confidência e corresponde a escrúpulos íntimos. também. De Plotino. a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres. no dia do Juízo Final. Os anjos ordenarão ao artífice que a anime. Muitas obras valiosas pereceram. com adversa fortuna.. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e proíbe aos homens adorar ídolos. conta-se. este fracassará e será atirado no Inferno. o que é pior. – Está escrevendo um livro de histórias! Que oficio será esse. Outro é o de Maomé. Alguns doutores muçulmanos postulam que a proscrição vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas). "O que ele estará fazendo? – pergunta um antigo espectro aos outros. esse mesmo propósito ressurgiu entre os puritanos. muito seriamente. ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construção da Grande Muralha.

Se há algo no autor. Quem desejar objetividade. o eventualmente falso. quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrará menos em seus laboriosos romances que em alguma página secundária ou nos leves e patéticos contos. Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que não é ilusória) do modo que sabemos. mais autônomos. Não sei muito bem como justificar minha discrepância. o falso. essa relativa e parcial objetividade. Andrew Lang comparou esse romance com os de Émile Zola. o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma geração perdura e se prolonga nas subseqüentes. nos três romances americanos e no Fauno de Mármore vejo apenas uma série de situações urdidas com destreza profissional para comover o leitor. compôs moralidades e fábulas. Os personagens de A Letra Escarlate – sobretudo Hester Prynne. é talvez a razão que levou dois escritores tão agudos (e tão díspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos. Por volta de 1916. ou com a teoria dos romances de Émile Zola. O fato de Hawthorne perseguir. Em Hawthorne. assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e não são meras projeções do autor ligeiramente disfarçadas. se for genuína. para representá-las. um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar. quem tiver fome e sede de objetividade. que armava. fez e procurou fazer da arte uma função da consciência. os romancistas da Inglaterra e da França acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemães eram demônios. se responder a uma visão genuína. sua obra. ainda. são as moralidades que ele acrescentava no último parágrafo ou os personagens que idealizava.corpo e que não permitiu aos escultores a perpetuação de seus traços. não poderá ser absurda. não uma espontânea e viva atividade da imaginação. nenhum propósito. pude muitas vezes verificar que os propósitos e teorias literárias não passam de estímulos e que a obra final costuma ignorá-los e até contradizê-los. sempre a visão germinal era verdadeira. como uma espécie de castigo herdado. Assim. que os de outras ficções de Hawthorne. Certa vez. Essa objetividade. Hei de tolerar. poderá afetar de modo irreparável sua obra. propósitos de índole moral não invalida. a heroína – são mais independentes. ou tolerar. seu testemunho imprescindível. que seja perpetuada a imagem desta imagem?". Plotino disse: "já muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. porém. por mais fútil ou errôneo que seja. que a procure em Joseph Conrad ou em Tolstói. não sei que utilidade pode resultar da aproximação desses nomes heterogêneos. em seus romances. para nos limitarmos a um único exemplo. costumavam apresentá-los como seres humanos. mas sua obra. Esta (repito) construiu o argumento . Ouso discordar dessas autoridades. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler. salvo um momentâneo assombro. não pode invalidar.

"Essa fenda – disse seu amigo – era apenas uma boca do abismo de escuridão que está abaixo de nós. pois Roma inteira. agora lerei uma página do Marble Faun para que vocês ouçam Hawthorne. aquela em que o herói se atirou com seu bom cavalo. no final afundamos. caiu aí. Todos os exércitos e os triunfos caíram. Pena ter sido tapado tão depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada. "Penso – disse Miriam – que não há pessoa que não lance um olhar nessa fenda. não leu De Quincey. não leu Keats. corresponde ao século XVIII. Imaginemos o enorme e escuro buraco. Devemos pisar com muito cuidado. seu estilo. Hawthorne.. não leu Victor Hugo – que tampouco leram uns aos outros. em Hawthorne denunciou "a notável influência de Hoffmann". e quem esteja em busca de novidades as encontrará com mais facilidade nos antigos. em momentos de sombra e abatimento. nessa caverna. Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporâneos. em toda a parte. de vândalos e dos soldados francos. com um estrondo de pedras desabando. estava cheio de visões proféticas (cominações de todos os infortúnios de Roma). ditame que parece basear-se em uma equânime ignorância de ambos os autores. dois contos. para aplacar os deuses. Groussac não suportava a possibilidade de um americano ser original. Reza o texto de Hawthorne: "Admitamos – disse Kenyon – que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna. Todos os templos caíram. Foi um tolo alarde de heroísmo o de Cúrcio. A imaginação de Hawthorne é romântica. O Palácio dos Césares caiu. impenetravelmente fundo." . quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas. não o entrelaçamento dos episódios nem a psicologia – de algum modo temos de chamá-la – dos atores. basta apoiar o pé.geral e as digressões. ou seja. Talvez tenha feito bem. abriu-se no centro do Fórum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano. ainda que brevemente. talvez nossos contemporâneos se pareçam – sempre – demais a nós mesmos. apesar de alguns excessos. Hawthorne ignorou-os até onde lhe foi possível. marchando. armado e a cavalo. com vagos monstros e rostos atrozes olhando cá para cima e enchendo de horror os cidadãos que em sua borda se debruçavam. A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta entre esse abismo e nós e que sustenta nosso mundo ilusório. e depois atiraram milhares de estátuas. segundo os historiadores latinos. referi. Li vários fragmentos do diário que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solidão. segundo seus biógrafos. como vemos agora. Inevitavelmente. Não é necessário um terremoto para rompê-la. e soava a música marcial enquanto se precipitavam. Sem dúvida. ao pálido fim do admirável século XVIII. de sombras de gauleses. O tema é aquele poço ou abismo que.. de intuição.

Até aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razão (da mera razão que não deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir é indefensável. A fenda aberta no meio do fórum é demasiadas coisas. Ao longo de um único parágrafo é a fenda de que falam os historiadores latinos e também a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e também é o horror essencial da vida humana, e também o Tempo, que devora estátuas e exércitos, e também a Eternidade, que encerra os tempos. É um símbolo múltiplo, um símbolo capaz de muitos valores, talvez incompatíveis. Para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos é o de Hawthorne. Uma vez, ele propôs-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerência, as estranhezas e a falta de propósito dos sonhos", e maravilhou-se de que ninguém, até então, tivesse executado algo semelhante. No mesmo diário em que registrou esse estranho projeto – que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vão executar e que talvez só Lewis Carroll tenha realizado –, Hawthorne anotou milhares de impressões banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicável abundância faz a consternação de todos os biógrafos. "Parecem cartas gratas e inúteis – escreve com perplexidade Henry James – dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impressão de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqüentava. Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dúvida, mereciam esse ardente destino. Este é um aposento assombrado, porque milhares e milhares de visões povoaram seu âmbito, e algumas agora são visíveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imóvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora começo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitário e por que não podia romper suas grades invisíveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e áspero e teria o coração coberto do pó terrenal... Na verdade, não passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de visões". A cifra talvez não seja uma hipérbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes são apenas uma pequena parte dos muitíssimos que ele esboçou em seu diário. (Entre os completos há um – "Mr. Higginbotham’s catastrophe" [A morte repetida] – que prefigura o

gênero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utópica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, também amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, até essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfândega de Boston, foi cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florença, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tênue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginações fantásticas. No início desta aula mencionei a doutrina do psicólogo Jung que equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina não parece aplicável às literaturas que utilizam a língua espanhola, clientes do dicionário e da retórica, não da fantasia. Em contrapartida, é adequada às letras da América do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) são mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse traço procede a curiosa veneração que os norte-americanos tributam às obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant é mais importante que Hugo. A razão disso é que para um escritor norte-americano é possível ser Hugo, mas não, sem violência, ser Maupassant. Comparada à dos Estados Unidos, que já deu vários homens de gênio e que influiu na da Inglaterra e na da França, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no século XIX, ela produziu algumas páginas de realismo – algumas admiráveis crueldades de Echeverría, de Ascasubi, de Hernández, do ignorado Eduardo Gutiérrez – que, até agora, os norte-americanos não superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegarão, não é menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o é, mas de um modo alucinatório. De um modo infernal, não terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne. Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqüila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e até podemos inventar a história que ele sonhava – a última de uma série infinita – e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitável, esta deficiente e por demais digressiva lição. Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a série English Men of Letters, de Morley.

Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na próxima aula estudaremos, se a indulgência de vocês tolerar, a glória e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

de uma quase incoerente mas titânica vocação para a felicidade. não é verdade. Whitman redigiu suas rapsódias em função de um eu imaginário. Um dos propósitos das composições de Whitman é definir um homem possível – Walt Whitman – de ilimitada e negligente felicidade. intimamente. Whitman. da manhã na América. em Long Island. mas por trás da obra desses eminentes artífices não há uma personalidade comparável à de Valéry. de . Valéry personifica ilustremente os labirintos do espírito. verossimilmente. entretanto. magnifica as virtudes mentais. como aquele. do fervor e da ventura. é o homem definido pelas composições de Valéry. Rilke e Eliot escreveram versos mais memoráveis que os de Valéry.VALÉRY COMO SÍMBOLO Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valéry é. A distinção é válida. Valéry é símbolo de infinitas destrezas. com Whitman. uma operação arbitrária e (o que é pior) inepta. O que. Joyce e Stefan George efetuaram modificações mais profundas em seu instrumento (talvez o francês seja menos modificável que o inglês e o alemão). criado por essa obra. feito em parte dele mesmo. mas também de infinitos escrúpulos. Assim. em outra (também na realidade). à primeira vista. daí seu costume de datar os poemas em territórios que ele nunca conheceu. Valéry criou Edmond Teste. Whitman. as interjeições do corpo. esse personagem seria um dos mitos de nosso século se todos. homem de letras e devoto de Tennyson. não menos hiperbólico. Yeats. em tal página de sua obra. daí que. herói semidivino de Leaves of Grass. ele tenha nascido nos estados do Sul e. Ou seja. as capacidades humanas da filantropia. mas tem a singular virtude de não identificar Whitman. o poeta inglês Lascelles Abercrombie pôde exaltar Whitman por ter criado. O orbe inteiro da literatura parece não admitir duas aplicações mais antagônicas da palavra poeta. "da riqueza de sua nobre experiência. A circunstância de que essa personalidade seja. Valéry é Edmond Teste. A sentença é vaga e superlativa. em parte de cada um de seus leitores. une-os: a obra dos dois é menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar. essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". Whitman. não o julgássemos um mero Doppelgänger de Valéry. Daí as discrepâncias que têm exasperado a crítica. Para nós. Valéry é uma derivação do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebível Deus dos teólogos. Um fato. Este não magnifica. não menos ilusório. Valéry é símbolo da Europa e de seu delicado crepúsculo.

em um século que adora os caóticos ídolos do sangue. de Shakespeare: "He is nothing in himself". dos áugures da seita de Freud e dos comerciantes do surréalisme. Paul Valéry deixa-nos. De um homem que. o símbolo de um homem infinitamente sensível a todo fato e para quem todo fato é um estímulo capaz de suscitar uma infinita série de pensamentos. De um homem cujos admiráveis textos não esgotam.certo modo. De um homem que transcende os traços diferenciais do eu e de quem podemos dizer. é a benemérita missão que desempenhou (que continua desempenhando) Valéry. Propor lucidez à humanidade em uma era baixamente romântica. . como William Hazlitt. na melancólica era do nazismo e do materialismo dialético. nem sequer definem. ao morrer. suas omnímodas possibilidades. uma projeção da obra não minimiza o fato. Buenos Aires. preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem. da terra e da paixão. 1945.

o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras. Nos intervalos da astronomia. pois na Pérsia (como na Espanha de Lope e de Calderón) o poeta deve ser fecundo. na solidão de sua biblioteca. e aprende o Alcorão e as tradições com Hassan Ibn al-Sabbah. ou faz de conta que acredita. para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemáticas.. Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composições de quatro versos. meio brincando. mas cultiva a astronomia. um mal-estar ou uma premonição o interrompe. juram que. e retornará à Unidade. Dizem-no prosélito de Alfarabi.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma pensão anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. e para sê-lo não é indispensável ter fé. nasce na Pérsia. Morre nesse mesmo . para as de terceiro. que será vizir de Alp Arslan. lê. Os três amigos. por fim. o conquistador do Cáucaso. porque todo homem culto é um teólogo. mediante a intersecção de cônicas. No ano 517 da Hégira. Descrê da astrologia judiciária. dos quais o primeiro. mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difíceis passagens do Alcorão. no século XI da era cristã (esse século foi para ele o quinto da Hégira). e as cinqüenta e tantas epístolas da herética e mística Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. colabora na reforma do calendário promovida pelo sultão e compõe um famoso tratado de álgebra. com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas árduas páginas de sua álgebra. que ensinou que o mundo é eterno. que no vocabulário do Islã é o Platão Egípcio ou o Mestre Grego. da álgebra e da apologética. É ateu.. que entendeu que as formas universais não existem fora das coisas. Levanta-se. Umar Ibn Ibrahim. (Hassan pede e obtém um cargo elevado e. o agraciado não se esquecerá dos outros dois. Umar está lendo um tratado cujo título é O Uno e os Múltiplos. ou Assassinos. que oferece soluções numéricas para as equações de primeiro e segundo graus e geométricas. nas transmigrações da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitágoras falara com um cão. Os arcanos do número e dos astros não esgotam sua atenção. manda apunhalar o vizir. assinala a página que seus olhos não voltarão a ver e reconcilia-se com Deus.O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD Um homem. e com Nizam al-Mulk. futuro fundador da seita dos Hashishin. os textos de Plotino. Certa crônica diz que ele acredita. e de Avicena. número exíguo que será desfavorável a sua glória. Anos mais tarde. se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles. Nizam chega à dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto à sombra de sua ventura. na qual se argumenta que o universo é uma emanação da Unidade. o segundo e o último rimam entre si. meio a sério.

dia. da rosa e do rouxinol e. todo homem cuja alma encerre um mínimo de música pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida. FitzGerald. e descobrem que eles são o Simurg e que o Simurg é todos e cada um deles. FitzGerald interpolou. de fato. solitário e maníaco. às quais não se sente inferior. Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perpétuo entre os maiores poetas da Inglaterra". alguém lhe empresta uma coleção manuscrita das composições de Umar. seguida de outras. observa que ao mesmo tempo há nele "uma melodia que escapa e uma inscrição que dura". Thackeray). Lê e relê o Quixote. um poema inglês com referências persas. em uma ilha ocidental e boreal que os cartógrafos do Islã desconhecem. a despeito de sua modéstia e cortesia. surge um extraordinário poeta. que não se parece com nenhum dos dois. Alguns críticos entendem que o Omar de FitzGerald é. Por esses anos. menos intelectual que Umar. passados os séculos. a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para . O caso convida a conjeturas de índole metafísica. o Simurg. Publicou um diálogo decorosamente escrito. Acontece um milagre: da fortuita conjunção de um astrônomo persa que condescendeu à poesia e de um inglês excêntrico que percorre. à hora do pôr-do-sol. e finalmente arribam a seu palácio. ricas em variações e escrúpulos. se os astros forem propícios. FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino é a literatura e a ensaia com indolência e tenacidade. as da noite e da sepultura. e na Inglaterra nasce um homem. Dickens. um rei saxão que derrotou um rei da Noruega é derrotado por um duque normando. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e começou uma tradução de Mantiq al-Tayr. que fica além dos sete mares. com suas luzes. Umar professou (sabemos) a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. Por volta de 1854. sensível ao que há de romântico e de clássico nesse livro sem par. mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos. Sete séculos se passam. afinou e inventou. livros orientais e hispânicos. Entende que. que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas não quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil). e medíocres versões de Calderón e dos grandes trágicos gregos. É amigo de pessoas ilustres (Tennyson. Carlyle. Euphranor. talvez sem entendê-los por completo. Em 1859 publica a primeira versão do Rubaiyat. FitzGerald verte uma para o latim e entrevê a possibilidade de tecer com elas um livro contínuo e orgânico em cujo princípio estejam as imagens da manhã. e Chesterton. agonias e mutações. a epopéia mística dos pássaros que procuram seu rei. porém talvez mais sensível e mais triste. mas resolve não abusar desse módico privilégio. A esse propósito improvável e até inverossímil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente. feita sem outra lei afora a ordem alfabética das rimas. e seu amor estende-se ao dicionário em que procura as palavras. no fim.

em um longínquo idioma germânico entremeado de latim. porque os dois eram muito diferentes e é provável que em vida não tivessem entabulado amizade. Deus ou faces momentâneas de Deus. analogamente. a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpúreas sobre papel amarelo. Mais verossímil e não menos maravilhosa que tais conjeturas de índole sobrenatural é a suposição do acaso benéfico. por volta de 1857. essencialmente. e a morte. Isaac Luria. na de FitzGerald.cumprir. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou leões. configuraram. essa especulação (cujo nome técnico é panteísmo) permitiria pensar que o inglês pôde recriar o persa porque ambos eram. talvez a alma de Umar tenha-se hospedado. . No Rubaiyat lê-se que a história universal é um espetáculo que Deus concebe. entre o inglês e o persa. as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um único poeta. para nossa felicidade. o destino literário que em Nishapur as matemáticas reprimiram. o poema. representa e contempla. esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford. ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoiá-la ou instruí-la. o Leão. mais do que nenhuma. Toda colaboração é misteriosa. Esta.

ou descuidam deles. afirmo.SOBRE OSCAR WILDE Mencionar o nome de Oscar Wilde é mencionar um dandy que também foi poeta. Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James. As notas miscelâneas que ele prodigalizou . nenhum é tão acessível aos estrangeiros. expressão a ele atribuída por Ricketts e Hesketh Pearson. sua obra não encerra um único verso experimental. ou Symphony in Yellow –. Também é evocar a noção da arte como um jogo seleto ou secreto – à maneira da tapeçaria de Hugh Vereker e de Stefan George – e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plínio. Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos. Essa atribuição confirma o hábito de vincular ao nome de Wilde a noção de passagens decorativas. percebo algo que seus panegiristas parecem não ter sequer suspeitado: o fato constatável e elementar de que Wilde. quase sempre. E evocar o exangue crepúsculo do século XIX e essa opressiva pompa de hibernáculo ou de baile de máscaras. Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarmé. A métrica de Wilde é espontânea. tem razão. como este duro e sábio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ. conteria meros artifícios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepúsculos del Jardín. A insignificância técnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrínseca. a sintaxe de Wilde é sempre simplíssima. o vocabulário do poema "The sphinx" é estudiosamente magnífico. Consideremos. 2). dez anos mais tarde. a verdades parciais e contradizem fatos notórios. Wilde dirigiu os estetas e. A obra de Wilde é povoada desses artifícios – basta lembrar o décimo primeiro capítulo de Dorian Gray. Ela se apóia em um cúmulo de circunstâncias: em torno de 1881. É refutada por um fato capital: em verso ou em prosa. ou The Harlot’s House. desolate else. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de púrpura). os decadentes. mas sua índole adjetiva é notória. ou tenta parecer espontânea. por exemplo. a noção de que Wilde foi uma espécie de simbolista. The Soul of Man under Socialism não é apenas eloqüente. XXVIII. Se a obra de Wilde correspondesse à natureza de sua fama. é também justo. é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de causar assombro com gravatas e metáforas. Leitores incapazes de decifrar um parágrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lêem Lady Windermere’s Fan em uma mesma tarde. Dentre os muitos escritores britânicos. mas todas correspondem. III) de impor "o selo da classe média" à última dessas seitas. left by mankind". mas que já aparece no exórdio da Epístola aos Pisões. Nenhuma dessas evocações é falsa.

da aprovação do leitor. aquilo que foi e que será (ibidem). Wilde é daqueles afortunados que podem prescindir da aprovação da crítica e até. mas não a sentenças como a de que a música nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist). para dizer de uma vez as palavras fatais. Uma observação à margem. Chesterton é um homem que quer recuperar a infância. Ao contrário de Chesterton. foi muito mais que um Moréas irlandês. assumir as formas do espanto. Não transcrevo essas linhas para a veneração do leitor. p. 2 A sentença é de Reyes. sempre se esquecem"). vistos uma vez.1 não indigna de Léon Bloy ou de Swedenborg. tinha razão. como Boswell. Como Gibbon. "em suma. como Voltaire. foi um homem do século XVIII. se não me engano. como Lang. ainda por cima. o Grande. de que não há homem que não seja. um homem que conserva. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde. o sabor fundamental de sua obra é a felicidade. Segundo esse fatalismo dialético.na Pall Mall Gazette e no Speaker são fartas de perspícuas observações que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatória. um clássico". a curiosa tese de Leibniz. a cada instante. na página mais inócua. Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem). ou aquela. 158). se atribui a Wilde. que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. morrer na Babilônia é uma qualidade desse rei. como Johnson. isso talvez seja aplicável a alguma de suas boutades ("um desses rostos britânicos que. em geral. Foi prejudicado pela perfeição. ou aquela outra de que se arrepender de um ato é alterar o passado (De Profundis). Como Chesterton. sua obra é tão harmoniosa que pode parecer inevitável e até banal. que tanto escandalizou Arnauld: "A noção de cada indivíduo encerra a priori todos os fatos que a este hão de ocorrer". uma invulnerável inocência. O nome de Oscar Wilde é associado às cidades da planície. Nela espreitam o diabólico e o horror. mas cuja valorosa obra sempre está a ponto de se converter em pesadelo. 1 Cf. . ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol). Foi. ao estilo de Ramón Llull. ao julgamento e à prisão. pode. às vezes. essa dificuldade não os faz menos plausíveis. o fato de Alexandre. tido como modelo de saúde física e moral. em que pese aos hábitos do mal e ao infortúnio. Wilde. que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol. Este. pois o prazer que seu trato nos proporciona é irresistível e constante. alego-as como indício de uma mentalidade muito diversa daquela que. foi um homem engenhoso que. sua glória. como a soberba.2 Deu ao século o que o século exigia – comédies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos – e executou coisas tão díspares com uma sorte de negligente felicidade.

os católicos exaltam Chesterton. ao contrário. and clean”). Chesterton pensou. convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. no fim. CHESTERTON: A Second Childhood. Neste país.. não de artifício retórico. os livre-pensadores o negam. Chesterton foi católico. substituí-las por outras que são deste mundo. Chesterton acreditou na Idade Média dos prérafaelistas ("Of London. The Paradoxes of Mr. que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão.. prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much. Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate. nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton. Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério. um símbolo ou espelho de Chesterton. small and white. Antes. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma. Tais crenças podem ser justas. Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie. Chesterton. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções. mas o interesse que despertam é limitado.SOBRE CHESTERTON Because He does not take away The terror from the tree. propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para. The Poet and the Lunatics. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial. como Whitman. Como todo escritor .

em que se diz que nos céus. algo. cego e central. Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos. imagina (The Man Who Was Thursday. de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto. uma torre. propuseram-se criar um mundo de espanto. Chesterton é julgado por causa disso. e até pelo atroz. Define o próximo pelo distante. fala de uma árvore que devora os pássaros e que. em vez de folhas. Pergunta se porventura um homem tem três olhos. mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo. VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais. nomeia-os com palavras de Ezequiel (1. 222). fala de um labirinto sem centro. "the stuff his dreams were made of". e menos. Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens. "um terrível cristal".").1 fala de uma prisão de espelhos. perguntados sobre a beleza do filho. 22). se fala dos próprios olhos. . depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. 2). Poe e Baudelaire. Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos. um monstrorum artifex (Plínio. depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe. estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano. nos ocidentais. XXVIII. e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. ele é mais belo que Apolo. dá penas. Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico. o fogo. Chesterton fala com os pais do Super-Homem. provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka. assim como o Urizen atormentado de Blake. fala de um homem devorado por autômatos de metal. que seria fácil multiplicar. mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes.. ou um pássaro três asas. e. fala.que professa um credo. IV. 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos". a estrutura é muito outra"). Morre vítima de uma corrente de ar. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4. não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm. se da noite. Seu caso é semelhante ao de Kipling.. Tais exemplos. algo secreto. é natural que sua obra seja fértil em formas do terror. que não sai de um quarto escuro. é malvada. no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra. o ar e a água. contra os panteístas. Visto de nosso plano inferior. que uma árvore. é reprovado ou aclamado por isso. por si só. cuja arquitetura. depois traduzidos por Rückert (Werke. claro que. mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand. Esse 1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto").

no parágrafo inicial desta nota. O homem senta-se para esperar. até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo. .desacordo. um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles. 3 A noção de portas atrás de portas. Agora vou fechála". Recordo duas parábolas opostas.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress. Em sua agonia. mediante a pura razão. 2 Não a explicação do inexplicável. Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. aparece no Zohar. (Kafka comenta essa parábola. O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras3 e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião. Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas. 92. senhor". ou seja. no nono capítulo de O Processo. complicando-a ainda mais. também Martin Buber: Tales of the Hasidim. um fato inexplicável. Isso é tudo. os autores de romances policiais se impõem.2 Por isso afirmei. mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira. para mim. Emblemas dessa guerra são. símbolos e espelhos de Chesterton. que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história. Passam-se os dias e os anos. que se interpõem entre o pecador e a glória. as aventuras do padre Brown. Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola. pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?". As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros. com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão. Ver Glatzer: In Time and Eternity. de Bunyan. cada qual mais forte que o anterior. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. e sim do confuso é a tarefa que. 3O. até que ele morre. em geral. essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. mas a fé católica. cada uma das quais pretende explicar.

um trabalhador esforçado e risonho. exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e Luciano de Samósata. a fotografia falante.1 A maior felicidade de seus argumentos não basta para elucidar a 1 Wells. quando não em coisas impossíveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura. a travessia da África em balão. a Lytton. em The Outline of History (1931). assim como a Rosney. a Robert Paltock. Verne. para todas as idades do homem. como em um espelho. perguntado acerca de Wells. Wells. Verne escreveu para adolescentes. O parecer é de 1899. G. já apontada em algum momento pelo próprio Wells: as ficções de Verne transitam em coisas prováveis (um navio submarino. escandalizado com as licenças que The First Men in the Moon se permite. mas não explicam por que Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac. um homem que volta de outra vida com o coração à direita. mas o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se baseia pode não ser inútil. A mais notória dessas razões é de ordem técnica. respondeu: – E um Júlio Verne científico. . Há outra diferença. as crateras de um vulcão extinto que levam ao centro da terra). as de Wells. ou em aniquilá-lo. nomes incompatíveis. H. a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells. Wells e Júlio Verne são. Todos o sentimos assim. um navio mais extenso que os de 1872. disse com indignação: "Il invente!". um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte). a descoberta do Pólo Sul. Wells (antes de resignar-se a especulador sociológico) foi um admirável narrador. agora. um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe.O PRIMEIRO WELLS Harris conta que Oscar Wilde. que em mudar de assunto. As razões que acabo de citar parecem-me válidas. uma flor que devora um homem. Em algum lugar li que Verne. porque foi inteiramente invertido. em meras possibilidades (um homem invisível.

como o Apóstolo. . ou um ponto de partida. É importante para a execução da obra. O que eles narram não é apenas engenhoso. Deus. quase a despeito do autor. Isso pode ser observado em todos os gêneros. como duvidaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. o argumentum ontologicum. não de arrazoados. Bom herdeiro dos nominalistas britânicos. não existiria o Quixote e Shaw valeria menos que O ´Neill. Moreau. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambigüidade. mas não a circunstância de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. parece confessar que este não é inevitável para ele. 14) "Eu Sou Aquele que Sou". 5. (Se os argumentos fossem tudo. Além do mais. mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narrações. é um espelho que delata os traços do leitor e é também um mapa do mundo. toleramos que Deus afirme (Êxodo 3. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência. o argumento não pode ser mais que um pretexto. é tudo para todos. como Hegel ou Anselmo. agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells. Evidentemente. ou The Invisible Man – deve-se a uma razão mais profunda. Em livros não muito breves. esse não é o meu caso. que são. é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. podemos considerá-lo onisciente. o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que a arte exige de nós. Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinações da "Prússia". não odeia ninguém nem ama ninguém. escreveu Spinoza (Ética. não para o prazer da leitura. mas não que declare e analise. os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestáveis. a precedência dos primeiros romances de Wells – The Island of Dr. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não entendê-lo por completo. Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se às doutrinas contrárias às suas.) Em minha opinião. por exemplo. o mais admirável de sua obra admirável. porque suas pálpebras não vedam a luz. Com essa lúcida inocência Wells procedeu em seus primeiros exercícios fantásticos. em meu entender. Deus não deve teologizar. tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto. A realidade atua por meio de fatos. O acossado homem invisível que é obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos. podemos confundi-lo com o universo ou com Deus. este deve parecer ignorante de todo simbolismo. os melhores romances policiais não são os de melhor argumento. sabemos que é falível. Duvidamos de sua inteligência. 17). o conciliábulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil é o Vaticano e é Lhassa. assim que ele se rebaixa a arrazoar. espelha nossa solidão e nosso terror.questão.

talvez sejam os últimos. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou. ampliou as possibilidades do romance. combateu o comunismo. historiou o passado. Penso que haverão de incorporar-se. Wells é menos um literato que uma literatura. The Plattner Story. . reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó. redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima. The First Men in the Moon. construiu enciclopédias. nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine.. polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc. registrou vidas reais e imaginárias. "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico". Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens. o nazismo e o cristianismo. à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão. São os primeiros livros que eu li. The Island of Dr. historiou o futuro. como Voltaire. prodigou parábolas sociológicas. para além da morte do idioma em que foram escritos.Como Quevedo. como Goethe. como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus. como mais algum outro.. para além dos limites da glória de quem os escreveu. Moreau.

essa distinção também deveria ser aplicável ao suicídio. que. nem todo suicida é culpado de pecado mortal. de Homero. ou sobrecarregada. sem nenhuma proibição exceto a de dá-lo "à estampa ou ao fogo". above.1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr.O BIATHANATOS Devo a De Quincey (com quem minha dívida é tão vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informação sobre o Biathanatos. 336) resume assim: o suicídio é uma das formas do homicídio. . Três páginas ocupa o catálogo. por um douto catálogo de exemplos fabulosos ou autênticos. De fato. segundo consta no Hexameron de Ambrósio. VIII. segundo a boa lógica. o filho primogênito do poeta deu o velho manuscrito à estampa. Donne morreu em 1631. que é declarada no subtítulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada. símbolo do amor paternal. em 1642 eclodiu a guerra civil. a omissão de outros de 1 De que ele realmente foi um grande poeta são prova estes versos: Licence my roving hands and let them go Before. below. "para defendê-lo do fogo". e nelas pude notar esta vaidade: a inclusão de exemplos obscuros ("Festo. "matam-se quando infringem as leis de seu rei". between. e as abelhas. que De Quincey (Writings.. O my America! my new-found-land. behind. os canonistas distinguem o homicídio voluntário do homicídio justificável. 1). (Elegies. Esse tratado foi composto no início do século XVII pelo grande poeta John Donne.. que se matou para ocultar os estragos de uma doença de pele"). até o pelicano. essa é a tese aparente do Biathanatos. em 1644. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega. XIX) 2 Cf. Assim como nem todo homicida é um assassino. VII. favorito de Domiciano. O Biathanatos tem por volta de duzentas páginas.2 "que mil coisas escreveu que ninguém além dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por não ter entendido a adivinha dos pescadores".

Francisco de Vitoria e o jesuíta Gregorio de Valencia negaram-se a incluí-lo entre os suicidas. Não lhe interessava o caso de Sansão – e por que haveria de interessar-lhe? – ou só lhe interessava. que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos é. chamou-o à tarefa. V. Não há no Antigo Testamento herói que não tenha sido alçado a essa dignidade. 20). a prévia certeza de que esses defensores têm razão faz com que os leiamos com negligência. que diz que Sansão. 1. viu nesse problema casuístico apenas uma sorte de metáfora ou simulacro. Abel representa a morte do Salvador. a hipótese de um livro que para dizer A diz B. Catão –. Invertendo a tese agostiniana. in fine) defendeu-o da acusação de suicídio. que afirma que Sansão. Donne. digamos. para Santo Agostinho. naturalmente. os quietistas acreditaram que Sansão. a ressurreição. 30). Milton (Samson Agonistes. examina as mortes voluntárias relatadas nas Escrituras. à maneira de um criptograma. Donne. como "emblema de Cristo". matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Españoles. é artificial. Também recusa a conjetura de Santo Agostinho. depois de provar que essa conjetura é gratuita. "por violência do demônio. mas não a de um trabalho animado por uma intuição imperfeita. para São Paulo. 8). na terceira parte do Biathanatos. Começa por estabelecer que esse "homem exemplar" é emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arquétipo de Hércules. suspeito. Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta está aberta") e Schopenhauer ("Seria o monólogo de Hamlet a reflexão de um criminoso?") vindicaram o suicídio em abundantes páginas. para refutá-los. a nenhuma dedica tantas páginas como à de Sansão. "prodigioso esboço foi Jó de Cristo". foi símbolo de Cristo. não foi culpado pelas mortes alheias nem pela própria. e seu irmão Seth.virtude persuasiva – Sêneca. que poderiam parecer fáceis demais. Isto me parece mais verossímil. um argumento implícito ou esotérico sob o argumento notório. que Donne tenha aventado essa idéia é possível ou provável. para Quevedo. Donne . Temístocles. "como a espada que dirige seus gumes pela disposição de quem a empunha" (A Cidade de Deus. Donne. transcreve as últimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingança: "Morra eu com os filisteus" (Juízes 16. ao derrubar os pilares do templo. Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicação do suicídio com o próprio suicídio. Adão é imagem daquele que viria. I. ou julguei perceber. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos até que percebi. encerra o capítulo com uma sentença de Benito Pereiro. não menos em sua morte que em outros atos. e sim que obedeceu a uma inspiração do Espírito Santo. Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma antevisão desse argumento. ridículo. mesmo que momentânea ou crepuscular. Donne.

para a ferida. Antes de Adão ser moldado do pó da terra. na capela do palácio de Whitehall. e as gerações de homens. Dessas passagens. dito de Sansão. 15) e a curiosa locução "entregou o espírito". Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft. dito de Cristo". e os espinhos. e isso quer dizer que os elementos. no princípio dos tempos. antes de o firmamento separar as águas das águas. 2. como eu. Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (João 10. os séculos anteriores o prepararam. sugere Donne. terse limitado a um versículo de São João e à repetição do verbo "expirar" é algo inverossímil e até inacreditável. . bem pode ser falso. Donne escreveu essa conjetura em 1608. indicar que Cristo se suicidou. e Roma. confirmadas pelo versículo "Ninguém tira a vida de mim. penso naquele trágico Philipp Batz. o fundamental. na verdade.incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior. II. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos. para explicitar essa tese. sem dúvida. A de um deus que constrói o universo para construir seu patíbulo. Mainländer nasceu em 1841. para a coroa do escárnio. 3 Cf. Sou eu mesmo que a dou" (João 10. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. ávido de não ser. Ele foi. 18). que os quatro evangelistas utilizam para dizer "morreu". para teatro dessa morte futura. e Judá foram tirados do nada para destruí-lo. o Pai já sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e. VIII. Ao reler esta nota. Filosofia da Redenção. Para o cristão. e Babilônia. leitor apaixonado de Schopenhauer. preferiu não insistir sobre um tema blasfemo. destruiu a si mesmo. criou a terra e os céus. Essa idéia barroca insinua-se por trás do Biathanatos. 398. infere que o suplício da cruz não matou Jesus Cristo e que. e o orbe. ele se matou. e o sangue e a água. Nesse mesmo ano.3 O fato de Donne. Cristo morreu de morte voluntária. não o é. este se matou com uma prodigiosa e voluntária emissão de sua alma. os seguintes o refletem. De Quincey: Writings. que na história da filosofia é chamado Philipp Mainländer. Sob sua influência (e talvez sob a dos gnósticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que. O declarado fim do Biathanatos é atenuar o suicídio. quase agonizante. O capítulo que fala diretamente de Cristo não é efusivo. a vida e a morte de Cristo são o acontecimento central da história do mundo. em 1876. em 1631 incluiu-a em um sermão que proferiu. publicou seu livro. e Egito.

nunca vi nesses memoráveis fragmentos uma contribuição para os problemas. Pascal. antes. Certamente. a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente. Valéry. mas sim seu exato reverso. ele foi incomparável. Vi-os. cheguei a pensar que essa exclamação fosse de origem bíblica. porque. porque. no espaço. se futuro e passado são infinitos. não encontrei a passagem que procurava. Pascal. para nós. subseqüente. O mundo de Pascal é o de Lucrécio (e também o de Spencer). Nesta. No tempo. Assim como a definição quintessence of dust não nos ajuda a entender os homens. a definição roseau pensant não nos ajuda a entender os homens. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. Percorri.PASCAL Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. basta lembrar o famoso fragmento 207 da edição de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro. tampouco haverá um onde. como traços ou epítetos de Pascal. as Escrituras. dizem. creio. quanto a mim. acusa Pascal de uma dramatização voluntária. ilusórios ou verdadeiros. 12): "No presente vemos por espelho e . mas apenas um homem. sua obra reflete a vertigem de um teólogo. lembro-me. que fala da "infinita imensidão de espaços que ignoro e que me ignoram". Pascal menciona com desdém "a opinião de Copérnico". mas. e sim de um poeta perdido no tempo e no espaço. não há nada no universo que não sirva de estímulo ao pensamento. as palavras trêmulas de um homem que se sabe nu até as entranhas sob a vigilância de Deus. desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. que abordam. como predicados do sujeito Pascal. não haverá realmente um quando. mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francês. Diz o Apóstolo (I Coríntios 13. e que talvez não exista. No primeiro. e sim o príncipe Hamlet. o fato é que seu livro não projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialético. encontrou Deus. mas sua expressão dessa graça é menos eloqüente que sua expressão da solidão. E bem verdade que este busca Deus e aquele propõe-se libertar-nos do temor aos deuses.

habituados à meditação melancólica. Para ilustração do Pari. esse trabalho poderia ser ampliado. Para Swedenborg. é evidente que tal fim foi alcançado. 13). também Bernard Shaw: Man and Superman. Antes de Pascal. que é a do órgão visual. então conhecerei como agora sou conhecido". Este. 1942). que a atribui a Hermes Trismegisto. As notas. a história não registra deuses cônicos. o editor cita passagens congêneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura. para ilustração do fragmento 1 Que eu me lembre. . um dos mais vãos e frívolos. III. como para Boehme (Sex Puncta Theosophica. é perfeita e convém à divindade (Cícero: De Natura Deorum. V) aplicou a sentença de Trismegisto ao universo material. declarando em palavras incorruptíveis a desordem e a miséria (on mourra seul). No segundo parágrafo. 2 De Coelo et Inferno. 17). Empédocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita. Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111. aos anjos. Ao pé de alguns textos. ou no simbólico Roman de Ia Rose. em compensação. híspido e confuso" do manuscrito. embora registre ídolos. 34). 9. o significativo é que a metáfora que Pascal usa para definir o espaço foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade. A forma da esfera. Na opinião de alguns historiadores. Pascal afirma que a natureza (o espaço) é "uma esfera infinita cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". não sabem falar com os anjos. Essa edição3 propõe-se reproduzir. caberia citar os textos de Arnobio. mediante um complexo sistema de sinais tipográficos. Não é um místico.obscuramente.2 Importa-se menos com Deus que com a refutação daqueles que o negam. o insigne panteísta Giordano Bruno (Da Causa. que a dá como de Platão. cúbicos ou piramidais. Orígenes entendeu que os mortos ressuscitarão em forma de esfera. na página 71 do primeiro volume. 3 A de Zacharie Tourneur (Paris. de Sirmond e de Algazel indicados por Asín Palacios (Huellas del Islam. Esférico foi Deus para Xenófanes e para o poeta Parmênides. 1941). No presente conheço só em parte. que supõem que o céu é um prêmio e o h-demo um castigo e que. Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma.1 Não a grandeza do Criador. 535. então veremos face a face. publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmológica de Santo Tomás e de Leibniz. é um dos homens mais patéticos da história da Europa. são pobres. não um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. e sim a grandeza da Criação perturba Pascal. Não menos exemplar é o caso do fragmento 72. Isso pouco importa. inclui-se entre os cristãos denunciados por Swedenborg. o céu e o inferno são estados que o homem busca com liberdade. ao contrário.11. Madri. o editor não a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrédulo". Cf. o aspecto "inacabado. aplicando o cálculo de probabilidades às artes apologéticas. Por exemplo.

. onde homens iguais cumprem. Pascal (que também pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxágoras de que tudo está em cada coisa) pôs esses mundos idênticos um dentro do outro..”). Demócrito pensou que no infinito há mundos iguais. destinos iguais. É lógico pensar (embora ele não o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim. . aquela passagem do décimo livro de A República. onde se diz que Deus cria o arquétipo da mesa. sua reaparição em Leibniz (Monadologia.. dans 1´enceinte de ce raccourci d´atome. e o pintor. 67) e em Hugo (La Chauve-Souris): Le moindre grain de sable est un globe qui roule Traînant comme la terre une lugubre foule Qui s´abhorre et s´acharne. para ilustração do fragmento 72 (" Je lui veux peindre l´immensité. de tal sorte que não há átomo no espaço que não encerre universo nem universo que não seja também um átomo. sua prefiguração no conceito de microcosmo. um simulacro do arquétipo.. o simulacro de um simulacro.contra a pintura. sem nenhuma variação.. o marceneiro..

Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres. pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. pela criptografia. já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama. Wilkins foi capelão de Carlos Luís. consultei. o Wörterbuch der Philosophie (1924). A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 páginas in-quarto. Wilkins morreu em 1672. para redigir esta nota. de P A. Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional. The Life and Times of John Wilkins (1910). todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos. pela trajetória de um planeta invisível. jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon”. mas trata-se de pura vanglória. se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. em algum momento. 1668). Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua". a cada . pela música. Não há edição da Gramática de Ia Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos. Todos nós. príncipe palatino. Sylvia Pankhurst. Dangerous Thoughts (1939).). Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia. sem nenhuma corroboração. Wright Henderson. Delphos (1935) de E. excetuando as palavras compostas e as derivações. Por outro lado. de Fritz Mauthner. etc. pela confecção de colméias transparentes. esbanjando interjeições e anacolutos. de Lancelot Hogben. se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614. pela possibilidade de uma viagem à lua. Essa omissão é justa. essa mesma Real Academia elabora. Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford.O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. nada se pode acrescentar a tais debates. felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola".. mas condenável.

felino. serralho. quer dizer elemento. Consideremos a oitava categoria. redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 1 Teoricamente. carnívoro.) As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários. uma consoante. recrementícios (limalhas. por sua vez subdivisíveis em espécies. oito 1000.tantos anos. uma chama. chácara. imela. imafe. Wilkins divide-as em comuns (pederneira. uma vogal. a quer dizer animal. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal. Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros. piso. três 11. birer. o fogo. uma porção do elemento fogo. latão). a cada diferença. No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso. em uma epístola com data de novembro de 1629. que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. John Wilkins. gato. do doutor Pedro Mata. que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching. já anotara que. imego. abo. abi. aboje. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos. é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo. seis 110. por volta de 1664. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre. Por exemplo: de. No idioma análogo de Letellier (1850). imaca. opala). que é o dos algarismos. eqüino. a das pedras. falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. janela. etc. casa. módicas (mármore. cobre). ab. um para cada número inteiro. azougue) artificiais (bronze. ferrugem) e naturais (ouro. um dicionário que define os vocábulos do espanhol. . imogo. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845). subdivisíveis em diferenças. cascalho. safira) e insolúveis (hulha. o mais simples requer apenas dois. estanho. oblongo. piçarra). Descartes. dois 10. mamífero. encadernar. refere-se a um peixe vivíparo. imedo. aboj. imede. acometeu o intento. âmbar. coral). imafo.1 ele também propôs a formação de um idioma análogo. o número de sistemas numéricos é ilimitado. poste.. geral. Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. cinco 101.. preciosas (pérola. quatro 100. um 1. teto. pilar. a cada espécie. bire. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras.. mediante o sistema decimal de numeração. imaru. Zero escreve-se 0. A beleza figura na décima sexta categoria. como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. Essas ambigüidades. elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta. hospital. encadernador. imaba quer dizer edifício. abiv. deb. no colégio. imarri. cada uma das letras que as integram é significativa. transparentes (ametista. herbívoro. Definido o procedimento de Wilkins. lazareto. cada palavra define-se a si mesma. sete 111.. É invenção de Leibniz. depois. greda e arsênico). o primeiro dos elementos. deba.

budismo. falta conjeturar seu propósito. de carne avermelhada. (i) que se agitam como loucos. (l) etcétera. fluvial. 1779). (f) fabulosos. a 298 ao mormonismo. Pode-se ir além. (c) amestrados. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1. zana. "O mundo – escreve David Hume – talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade. (n) que de longe parecem moscas. o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é. envergonhado de sua execução deficiente. e a 294 ao bramanismo. a 263 ao Dia do Senhor. (g) cães soltos. sem dúvida. (h) incluídos nesta classificação. (m) que acabam de quebrar o vaso. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. xintoísmo e taoísmo. define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso. notoriamente. Se houver. unificador. Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas. em todas as suas fusões e conversões. Crê que mesmo de dentro . contudo. não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino. as definições. (Teoricamente. Vícios e defeitos vários. que tenha essa ambiciosa palavra. Virtudes e qualidades idades várias”. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. correspondendo a 262 ao Papa.) Esperanças e utopias à parte. passado e vindouro. Proteção dos animais. talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. engenhoso. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador. não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. (d) leitões.Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. falta conjeturar as palavras. que esses matizes. as sinonímias do secreto dicionário de Deus. A palavra salmão não nos diz nada. V. que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion. ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada. (b) embalsamados. a 268 às escolas dominicais. alvo de zombaria dos deuses superiores. A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode. dissuadir-nos de planejar esquemas humanos.. ou a obra de um deus subalterno. a 282 à Igreja Católica Romana. Verbi gratia. (e) sereias. o vocábulo correspondente. (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo. Crê. no entanto.000 subdivisões.. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos. mesmo sabendo que eles são provisórios. as etimologias. Não recusa as subdivisões heterogêneas. pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. a 179: "Crueldade com os animais.

o lobo ou o cervo. nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. Trata-se de um apólogo de Han Yu. exatamente. e assim até o infinito. e a flecha. De início. a metade da metade da metade. a forma desse ilustre problema é. prosador do século IX. não se presta a uma classificação. assim o declaram as odes. a metade da metade. p. 1904). KAFKA E SEUS PRECURSORES Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. a de O Castelo. F. Watts. nem sempre é fácil encontrá-lo. Este é o parágrafo que assinalei. eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas. porque antes deverá percorrer a metade do percurso entre os dois. pensei reconhecer sua voz. em ordem cronológica. Em tais condições. e antes. e antes.de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento. Um móvel que se encontra no ponto A (declara Aristóteles) não poderá chegar ao B. e consta na admirável Anthologie Raisonée de la Littérature Chinoise (1948) de Margouliè. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura. Até os párvulos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade. misterioso e tranqüilo: "Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro. ou seus hábitos. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou. e o móvel. Registrarei aqui alguns deles. os anais. depois de algum convívio. poderíamos estar diante do unicórnio e não saberíamos com . 88. e sim no tom. Não é como o cavalo ou o touro. a afinidade não está na forma.

O sujeito da outra são as expedições ao Pólo Norte. não se chega. ou acredita ter. justamente por sabê-lo afeito ao mal. Teriam admitido. pergunta: "E se esse amigo for Deus?". e que nem todos poderiam empreender a aventura. como se percebe facilmente. as cédulas do Banco da Inglaterra. Este último fato é o mais significativo. mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autênticas. O outro intitula-se "Carcassonne" e é obra de Lord Dunsany. vê monstros e fadiga os desertos e as montanhas. também. no vapor de carreira – ou um passeio dominical em carro de praça são verdadeiras expedições ao Pólo Norte. do mesmo modo. subjuga reinos. Há quem ponha em dúvida os gestos. Um deles pertence às Histoires Désobligeantes. no último verso. Não sabemos como é o unicórnio". . é o fato de Kierkegaard. e o fato é que. que eu saiba. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito. um amigo famoso. até o momento. e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres. Ele nunca o viu. A afinidade mental de ambos os escritores é coisa por ninguém ignorada. em maior ou menor grau. e os grafólogos afirmam a apocrifia das cartas. 1938). vigiado incessantemente. desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma missão. publicado em 1876.1 O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. que traz duas curiosas ilustrações. assim como Kafka. os heterogêneos textos que enumerei parecem-se a Kafka. em seu Kierkegaard (Oxford University Press. Uma é a história de um falsificador que examina. entretanto. se não me engano. talvez impossível. encontrei-a no poema "Fears and scruples". que chegar ao Pólo era difícil. (Este conto é. teriam anunciado que. qualquer viagem – da Dinamarca a Londres. de Léon Bloy. Quanto à quarta prefiguração. Por fim. encontra-se a idiossincrasia de Kafka. digamos. ter sido pródigo em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro. o que não se destacou ainda. Minhas notas registram. Um homem tem. olhando-se bem. no último. o tal amigo não pôde ajudá-lo. dois contos. Lowrie.) Se não me engano. atlas. mas. embora por vezes a divisem. de Browning. transcreve duas. nem todos se parecem entre si. Deus. de Jung. Os párocos dinamarqueses teriam declarado de seus púlpitos que participar de tais expedições convinha à saúde eterna da alma. Ver o último capítulo de Psychologie und Alchemie (Zurique. mas eles nunca chegam a Carcassonne. O homem. Em cada um desses textos. o reverso exato do anterior. no primeiro. não a 1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mãos do vulgo são temas tradicionais da literatura chinesa. 1944).segurança que se trata dele. guias ferroviários e baús e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. nunca se sai de uma cidade. se ele não tivesse escrito.

a palavra precursor é indispensável. mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. . não existiria. não importa a identidade ou a pluralidade dos homens. Buenos Aires. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado.perceberíamos. Browning não o lia como agora nós o lemos. profetiza a obra de Kafka. 25_26. 2 Ver T S. de Robert Browning. 1951. vale dizer. p. Eliot: Points of View (1941). O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes que Browning ou Lord Dunsany. mas se deveria tentar purificá-la de toda conotação de polêmica ou de rivalidade. O fato é que cada escritor cria seus precursores. O poema "Fears and scruples". como há de modificar o futuro.2 Nessa correlação. No vocabulário crítico.

aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui. 1. como nós. mas não o julgaria. afirmou: "É árdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo. a do grego corresponde à época da palavra oral. mas não respondem uma palavra às perguntas que lhes são feitas". As duas teleologias. o mesmo conceito de uma justificativa estética para os males. a palavra escrita não passava de um sucedâneo da palavra oral. em uma das comédias de Bernard Shaw. lia até "os papéis rasgados das ruas". Para atenuar ou eliminar esse inconveniente. no Timeu. "que parecem vivas. que talvez não escutasse tudo o que as pessoas diziam. é impossível divulgá-lo a todos os homens".DO CULTO AOS LIVROS No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que cantar. ameaça a biblioteca de Alexandria. e. É uma memória de infâmias". e a do francês. uma piada sacrílega. Um livro. a uma época da palavra escrita. alguém exclama que aí arderá a memória da humanidade. mas o livro não escolhe seus leitores. homem de cultura pagã: "O mais prudente é não . 3) defende que ele assim procedeu por ter mais fé na virtude da instrução falada. É voz corrente que Pitágoras não escreveu. O fogo. contudo. Uma fala em cantar. uma vez descoberto. A razão é clara: para os antigos. não são inteiramente coincidentes. em minha opinião. O mestre escolhe o discípulo. Este. narrou uma fábula egípcia contra a escrita (cujo hábito faz as pessoas descuidarem do exercício da memória e dependerem de símbolos) e disse que os livros são como as figuras pintadas. a declaração de Mallarmé: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir. e. uns trinta séculos mais tarde. qualquer livro. Gomperz (Griechische Denker. a outra em livros. ele imaginou o diálogo filosófico. O César histórico. no Fedro. que podem ser malvados ou néscios. esse receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria. Mais força que a mera abstenção de Pitágoras tem o testemunho inequívoco de Platão. é para nós um objeto sagrado: já Cervantes. e César lhe diz: "Deixa que arda.

) À noção de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpõe-se a do Livro Absoluto. . pedisse explicação de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la. a de uma Escritura Sagrada. que uma única vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (João 8. resultaria em conseqüências maravilhosas. (Esse conceito místico. na Numídia. e nestas outras. conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o espírito. a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de códices. que derivam também das evangélicas: "Não deis o santo aos cães nem jogueis vossas pérolas aos porcos. no conceito do livro como fim. com um livro. culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada. Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do século II. o maior dos mestres orais. para penetrar melhor o sentido. Essa sentença é de Jesus. de Henry James e de James Joyce. pudemos vê-lo ler caladamente e nunca de outro modo. livre do tumulto das questões alheias. Para os 1 Os comentadores advertem que. certamente era bom". Um admirável acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao chamá-lo instante) em que teve início o vasto processo. Contra um Ignorante Comprador de Livros. naquele tempo. Conta Santo Agostinho. da pena sobre a voz. pois o escrito fica" (Stromateis). atento às dificuldades do texto. ele redigiria suas Confissões e ainda o inquietaria aquele singular espetáculo: um homem em um aposento. do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada nas mãos de uma criança". transposto à literatura profana. Resultaria. para que não as pisoteiem e depois se voltem para vos destroçar". pois não havia sinais de pontuação nem sequer divisão de palavras. com a passagem de muitas gerações. Em todo o caso que fosse o propósito de tal homem. a arte de ler em voz baixa. sem proferir uma palavra nem mover a língua. Santo Agostinho foi discípulo de Santo Ambrósio.escrever. no livro seis das Confissões: "Quando Ambrósio lia. bispo de Milão. O diálogo de Luciano de Samósata. treze anos mais tarde. que sumia com facilidade. omitindo o signo sonoro. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz. com o que não poderia ler tantos volumes como desejava. lendo sem articular as palavras. encerra um testemunho desse costume no século II. 6). por volta do ano 384. e depois de algum tempo retirávamo-nos.1 Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição. e sim aprender e ensinar de viva voz. em fins do século IV iniciou-se o processo mental que. talvez receoso de que um ouvinte. corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido. não queria que o ocupassem com outra coisa. a estranha arte que ele iniciava. era costume ler em voz alta. nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava –. passados muitos anos. e ler em grupo. redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé. não como instrumento de um fim. Muitas vezes – posto que ninguém era proibido de entrar.

e qual a água. Francis Bacon declarou. revela que Jeová dos Exércitos. em número limitado. e como (por exemplo) a letra kaf. A Mãe do Livro. e qual sobre a graça. por 2 Nas obras de Galileu é freqüente o conceito do universo como livro. é um dos atributos de Deus. os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. um abeceddarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. em seu Advancement of Learning. serviu parra formar o sol no mundo. Que os números sejam instrumentos ou elementos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico. pronunciado com a língua. George Sale observa que esse incriado Alcorão não é outra coisa senão sua idéia ou arquétipo platônico. e qual sobre a sabedoria. transmitidos ao Islã pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena. Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso. No início do século XVII. que revela Seu poderio. e qual sobre a paz. . e qual sobre o fogo. O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as. o Algazel dos escolásticos. combinou-as. que conformavam. como Sua eternidade ou Sua ira. declarou: "O Alcorão é copiado em um livro. o segundo. escrito na Síria ou na Palestina por volta do século VI. opinava que o mundo era redutível a formas essenciais (temperaturas. como a alma dos homens ou o universo. A idéia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo. que as letras o sejam é claro indício do novo culto à escrita. Bacon propunha-se muito mais que construir uma metáfora. é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos. Florença. para justificar a noção da Mãe do Livro. continua perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos". pesos. o volume das criaturas. Em seguida. criou o universo mediante os números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. permutou-as e com elas produziu tudo o que é e tudo o que será". Al Kitab) não é mera obra de Deus. Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. que tem poder sobre a vida. que Deus nos oferecia dois livros para que não incorrêssemos no erro: o primeiro. está depositado no Céu. Muhammad al-Gazali. 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. que revela Sua vontade. guardado no coração e. Mais longe foram os cristãos. sendo este a chave daquele. A segunda seção da antologia de Favaro (Galileo Galilei: Pensieri.muçulmanos. cores).2 Sir Thomas Browne. revela-se qual letra tem poder sobre o ar. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação). no entanto. pesou-as. No capítulo XIII. o volume das Escrituras. Motti e Sentenze. lemos que o texto original. No primeiro capítulo de sua Bíblia encontra-se a famosa sentença: "E Deus disse: seja a luz. gravou-as. e a luz foi". e qual sobre a cólera. e qual sobre o sonho. o "Alcorão" (também chamado O Livro. densidades.

mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta" (L´Âme de Napoléon. 1951. estampou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual também somos escritos. suas idéias. ou letras de um livro mágico. I. Depois. confirmou: "Dois são os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e público manuscrito que é patente a todos os olhos. existe para um livro. somos versículos. ou palavras. círculos e outras figuras geométricas". e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo. segundo Bloy. Léon Bloy escreveu: "Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. e os caracteres são triângulos. lê-se: "Todas as coisas são artificiais. A língua desse livro é matemática. porque a Natureza é a Arte de Deus". 1912). segundo Mallarmé. Duzentos anos se passaram e o escocês Carlyle. o universo). No mesmo parágrafo. 16). é o mundo. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. seus sentimentos. O mundo. . Quem nunca O viu no primeiro.. Buenos Aires. Transcrevo o seguinte parágrafo: "A filosofia está escrita naquele enormíssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer. a que correspondem seus atos. seu imorredouro Nome no registro da Luz. descobriu-O no segundo" (religio Medici. superou a conjetura de Bacon. nem qual é seu nome verdadeiro. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro..volta de 1642. mas ininteligível se antes não estudarmos a língua nem conhecermos os caracteres em que está escrito.

ouviu Rute. como a árvore dá folhas. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o escólio: “Naturalmente. a ave é imortal porque é uma dríade. Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questão. é também uma falha poética. Keats. “que não abatem as famintas gerações” e cuja voz. mas sim sua interpretação. em uma antiga tarde. que eu saiba. a permanência da vida do pássaro. que ele poliria muito pouco. em uma das noites do mês de abril de 1819. na sétima. a moabita. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro. a meu ver. Em sua monografia sobre Keats. no jardim suburbano. e sim à espécie”. Em 1895. chamou o rouxinol de dríade. tísico. Keats opõe-se à fugacidade da vida humana. alegou esse epíteto para sentenciar que. a falácia incluída nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu…”. O nó do problema está na penúltima estrofe. em campos de Israel. compôs em um jardim em Hampstead. sua virtude. que John Keats.R.O ROUXINOL DE KEATS Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a “Ode a um rouxinol”. à idade de vinte e três anos. publicada em 1887. duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza. em que entende a vida do indivíduo. em que entende a vida da espécie”. e sentiu sua própria mortalidade. uma divindade dos bosques. Keats. é aquela que. agora. com toda a seriedade. e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. . F. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente. outro crítico. Amy Lowell escreveu com mais acerto: “O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou poético logo intuirá que Keats não se refere ao rouxinol que cantava nesse momento. ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare. que. Bridges repetiu a denúncia. Transcrevo sua curiosa declaração: “Com um erro de lógica. na primeira estrofe de seu poema. Garrod. pobre e talvez desafortunado no amor. não foi discutida por ninguém.

talvez incapaz de definir a palavra arquétipo. em um parágrafo metafísico de Schopenhauer. Se não me engano. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser. Ver T. o aristotélico. Como é possível que Garrod. a mera enumeração desses fatos parece agravar o enigma. antecipou-se em um quarto de século a uma tese de Schopenhauer. sua razão deriva de algo essencial na mente britânica. para aqueles. . a exata chave da estrofe. Keats. falta esclarecer uma segunda. No capítulo 41. Através das latitudes e das épocas. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. Bridges escreveu um poema platônico intitulado “The fourth dimension”. para estes. 1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats. pôde escrever: “Nada sei. para. lê-se o seguinte: “Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. Esclarecida assim a primeira dificuldade. Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. Os últimos sentem que as classes. congregou e deu nome aos Cambridge Platonists —. Keats. os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides. A chave. suspeito. está. uma ordem. os primeiros. no século XVII. adivinhou o espírito grego nas páginas de algum dicionário escolar. na primeira estrofe de “Sailing to Byzantium”. que. A “Ode a um rouxinol” data de 1819. a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos. essa ordem. entendo que. que nunca a leu. em unia alusão deliberada ou involuntária à “Ode”. 1950. Leavis e os outros1 não tenham chegado a essa interpretação evidente? Leavis é professor de um dos colégios de Cambridge — a cidade que. sem exagerada injustiça. de todos. nada li”. de índole muito diversa. que são generalizações. e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute. p. o indivíduo é de certo modo a espécie. que. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. R. 211. Henn: The Lonely Tower. sutilíssima prova dessa adivinhação ou recriação é ele ter intuído no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platônico. é o mapa do universo. Ou seja. em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. as ordens e os gêneros são realidades. o menos vão é o da norte-americana Amy Lowell. mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro”. mas nego a oposição que nele se postula entre o efêmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genérico.Cinco pareceres de cinco críticos atuais e passados recolhi. Platão. fala em “morrentes gerações” de pássaros.

ser Berkeley e ser Hume. e sim os indivíduos. mestre da humana razão (Dante. O real.” (N. todos invocam Aristóteles. Aristóteles. como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. ele agora é um tanto irreal. Platão. em todas as línguas do orbe. 2). disse Coleridge.” (N. antigo cantor da tarde. inassimilável e ímpar. e sim os rouxinóis concretos. Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. da T. por Milton e Matthew Arnold. a economia da fórmula de Occam. Um escrúpulo ético. não o rouxinol genérico. William James. Kant. impede-o de transitar por abstrações. “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”2 permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”3 Os homens. de Swinburne. IV. Heráclito. os realistas. nascem aristotélicos ou platônicos. é talvez inevitável. essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke. De tão exaltado pelos poetas.) “Ser é ser percebido. nachtigall. Locke. O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu. usignolo). foi celebrado por Chaucer e Shakespeare. mas os nominalistas são Aristóteles. da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica.Spinoza. mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre. desfruta de nomes melodiosos (nightingale. e escrever. não são os conceitos abstratos. 2 3 “Os entes não devem ser multiplicados além do necessário. menos afim com a calhandra que com o anjo. o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica. as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado. o outro. Nas árduas escolas da Idade Média. da T. que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida. Hume. Não entende a “Ode a um rouxinol”. Convivio. como os alemães. trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta. O rouxinol. E natural. para essa mente. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII. não uma incapacidade especulativa. Francis Bradley. há cerca de setenta anos.) .

em Swedenborg. sua severa gramática e sua sintaxe. Agora eu não o conheço senão imperfeitamente: mas então o conhecerei com uma visão clara. a Verdade não pode mentir. (Nos fragmentos psicológicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure há uma hipótese afim: a de que o mundo externo – as formas. 1896. 129 . p. representaram cegamente um drama secreto. volume 1. determinado e premeditado por Deus. – e nela nossas vidas e o mais tênue detalhe de nossas vidas – tem valor inconjeturável.) Um versículo de São Paulo (I Coríntios 13.. simbólico. mas então conhecerei como sou 1 Writings. na escuridão. da maneira que eu sou conhecido". não vai uma distância infinita. Como os fatos referidos pela Escritura são verdadeiros (Deus é a Verdade. impossível ser mais palavroso e mais frouxo. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum". Muitos devem tê-la percorrido. ninguém tão assombrosamente como Léon Bloy. as temperaturas. ou que mal soletramos. devemos admitir que os homens. etcétera).O ESPELHO DOS ENIGMAS A idéia de que a Sagrada Escritura tem (além de seu valor literal) um valor simbólico não é irracional e é antiga: está em Filão de Alexandria. Agora conheço em parte. a lua – é uma linguagem que esquecemos.. Cipriano de Valera é mais fiel: "Agora vemos por espelho. ao executá-los. Daí a pensar que a história do universo. nos cabalistas. mas então veremos face a face. e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores". 12) inspirou Léon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente não vemos Deus senão como em um espelho e sob imagens obscuras: mas então o veremos face a face. Também De Quincey1 a declara: "Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo têm suas chaves correspondentes. Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas.

recebemos. afirma São Paulo. Bloy não imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva. e não veremos de outro modo até o advento d´Aquele que está todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas. Não penso tê-las esgotado: espero que algum especialista em Léon Bloy (eu não sou) venha a completá-las e retificá-las. A primeira é de junho de 1894. percebidos ‘em um espelho’. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos corações. Basta-me citar . Torres Amat entende que o versículo se refere a nossa visão da divindade. em um espelho.. por uns poucos seres humanos. até a dor mais lancinante. Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno. etc. diz São Paulo. A segunda é de novembro do mesmo ano. de lamentos e afrontas) há versões ou facetas diversas. Vemos agora. a nossa visão geral. Não sabemos se tal coisa que nos aflige não é o secreto princípio de nossa alegria ulterior. como todos sabem. Em cada uma das páginas de L´Ame de Napoléon. livro cujo propósito é decifrar o símbolo Napoleão. Eis aqui algumas. quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?" A terceira é de uma carta escrita em dezembro. Ao longo de sua obra fragmentária (povoada. " A quarta é de maio de 1904. que resgatei das páginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat. Somos dormentes que gritam durante o sono. de Le Vieux de la Montagne e de L ´Invendable. Cipriano de Valera (e Léon Bloy). Quando pensamos dar. quem pode garantir que não é o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade. é porque ela verdadeiramente existe em nossa alma"." A sexta é de 1912. "Aterrorizante idéia de Joana acerca do texto Per speculum. O Czar é o chefe e pai espiritual de cento e cinqüenta milhões de homens. pelo qual Deus quis morrer. Se vemos a Via Láctea." A quinta é de maio de 1908. "Recordo uma de minhas idéias mais antigas. Vemos todas as coisas ao contrário. considerado precursor de outro herói – também ele homem e símbolo – oculto no futuro. Então (ouço de uma querida alma angustiada) nós estamos no céu e Deus sofre na terra.conhecido". que é a alma do homem. vistos ao contrário. Se os pobres de seu império vivem oprimidos sob seu reinado. perante Deus. A aterrorizante imensidão dos abismos do firmamento é uma ilusão. literalmente: ‘em enigma por um espelho’. "Per speculum in aenigmate. per speculum in aenigmate. se desse reinado resultam imensas catástrofes. "Tudo é símbolo. Traduzo-a assim: "A sentença de São Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabóia para mergulhar no Abismo verdadeiro. Atroz responsabilidade que não passa de aparência. quem é rei. um reflexo exterior de nossos abismos. quem é verdadeiramente Czar. Talvez ele apenas seja responsável.. Que eu saiba.

a que correspondem seus atos.2 Léon Bloy postula esse caráter hieroglífico – esse caráter de escrita divina. Julgava-se um católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas. a fazer conta de sua forma. Parece improvável que o mundo tenha sentido. ou uma montanha.duas passagens.. Ouso julgá-los verossímeis. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. dentro da doutrina cristã. ninguém tratou de examiná-los. suas idéias. Que eu saiba. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo.. Os parágrafos acima talvez pareçam ao leitor meras gratuidades de Bloy. como a dos homens um triângulo. poderá indagar o leitor. Uma: "Cada homem está na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partícula. Eu entendo que é assim. "Nenhum homem sabe quem é". de criptografia dos anjos – em todos os instantes e em todos os seres do mundo. ainda. nem qual é seu nome verdadeiro. uma opala amarela. e talvez inevitáveis. Bloy (repito) só fez aplicar a toda a Criação o método que os cabalistas judeus tinham aplicado à Escritura. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta". Outra: "Não há na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele é. um texto em que a colaboração do acaso é calculável em zero. Sua apologia é que nada pode ser contingente na obra de uma inteligência infinita. . 2 O que é uma inteligência infinita?. mais improvável. desde o dia de seu nascimento até o de sua morte. que tenha duplo ou triplo sentido. Os passos dados por um homem. seus sentimentos. a observar as minúsculas e maiúsculas. a somar o valor numérico das letras.. O supersticioso crê penetrar essa escrita orgânica: treze comensais articulam o símbolo da morte. irmão secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas. mas entendo que o mundo hieroglífico postulado por Bloy é o mais conveniente à Dignidade do Deus intelectual dos teólogos.. Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima. dos materiais invisíveis que servirão para edificar A Cidade de Deus". Estes pensaram que uma obra ditada pelo Espírito Santo era um texto absoluto: vale dizer. Não há teólogo que não a defina. Essa premissa portentosa de um livro impenetrável à contingência. a procurar acrósticos e anagramas e a outros rigores exegéticos dos quais não é difícil zombar. seu imorredouro Nome no registro da Luz. eu prefiro um exemplo. o da desgraça. levou-os a permurtar as palavras escriturais. desenham no tempo uma inconcebível figura. observará o incrédulo. de uni livro que é um mecanismo de propósitos infinitos. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente. afirmou Léon Bloy.

o "absurdo Ironside". o "rancoroso cortiço" Irlanda do Sul. algumas parecem-me injustas. nas horas centrais da batalha. por tanques fabricados na Tchecoslováquia. a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britânica. Mais importante que esses resmungos epigramáticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria facílimo triplicar ou quadruplicar) é a doutrina desse manual . os norte-americanos e ingleses "que traíram a causa liberal na Espanha". A Handbook of Constructive World Revolution – corre o risco de parecer. "que parece não poupar o menor esforço para que a Alemanha ganhe uma guerra que já perdeu". "o inconsolável viúvo quintessencial da Liga das Nações". Sir Samuel Hoare. os generais do exército francês. "que chia como um coelho esganado". "embora ninguém saiba o que é o proletariado nem como e onde ele dita". varrem os estilhaços de vidro e retomam as tarefas da véspera". à primeira vista. Goering. o Ministério das Relações Exteriores inglês. no dia seguinte. Reuni algumas invectivas de Wells: não são literariamente memoráveis. "derrotados pela consciência da inépcia. que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado. Eden. "mental e moralmente néscio". Josef Stálin. Também demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra. por vozes e rumores radiofônicos e por alguns mensageiros de bicicleta".DOIS LIVROS O último livro de Wells – Guide to the New World. os que opinam que esta guerra "é uma guerra de ideologias" e não uma fórmula criminosa "da desordem presente". os ingênuos que supõem que basta exorcizar ou destruir os demônios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisíaco. uma simples enciclopédia de injúrias. Suas bem legíveis páginas denunciam o Führer. "aniquilados de cidades que. mas demonstram a imparcialidade de seus ódios e de sua indignação.

em vão insinuei que uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita. Nesse livro. instam seus leitores. insignificante. Também recordo com certo estupor uma assembléia convocada em repúdio ao anti-semitismo. Na verdade. no mesmo dialeto do inimigo. tal repressão não é descabida: limita-se a exigir dos Estados. a principal é esta: a diferença entre judeus e nãojudeus parece-me.revolucionário. Wells. sim. No terceiro artigo – "Free . todos juraram que um judeu-alemão difere enormemente de um alemão. por mais patéticos ou pitorescos que sejam. falavam em Raça e Povo. com um léxico de Gauleiter. quis compartilhar minha opinião. naquele dia. Vindicadores da democracia. em geral. econômico ou étnico. outros. a escutar o palpitar de um coração que recolhe os íntimos mandados do sangue e da terra. Em vão lembrei-lhes que não outra coisa diz Adolf Hitler. p. 204). marxistas. ninguém pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg. Ninguém. ou a vitória é inacessível e inútil. disputando a hegemonia do mundo com os alemães... em vão citei a sábia declaração de Mark Twain: "Eu não pergunto de que raça é um homem. inacreditavelmente. basta que seja um ser humano. Se não forem essa frente. 1940 –. porque quase todos os meus contemporâneos o são. para sua melhor convivência. que se julgam muito diferentes de Goebbels. 1939. uma mais nobre espécie de nazistas." Let the People Think é o título de uma seleção de ensaios de Bertrand Russell. todos. durante a Guerra Civil Espanhola. Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis traços diferenciais. Até os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas. não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido em um determinado país e de pertencer a tal raça (ou a tal boa mescla de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. Inacreditavelmente. Esse dever é um privilégio. na obra cujo comentário esbocei. ilusória ou imperceptível. por mais que o neguem ou o ignorem. "Ninguém em seu perfeito juízo – declara Wells – pensa que os homens da Grã-Bretanha são um povo eleito. Desde 1925. São. Os três capítulos finais discutem alguns problemas menores. às vezes. insta-nos a repensar a história do mundo sem preferências de caráter geográfico. não é nazista. a frente de batalha da humanidade. Há várias razões para que eu não seja um anti-semita. Lembro-me de certas discussões indecifráveis. nacionalistas. não são nada. Tal doutrina é resumível nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revolução geral (com a de um mundo federado). como em outros – The Fate of Homo Sapiens. 48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. Russell também emite conselhos de universalidade. Wells. Uns declaravam-se republicanos. The Common Sense of War and Peace. o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos. O capítulo XII (p. outros.

de Guilherme. podemos conjeturar que não há no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam. que nos exaspera ou exalta e que com certa freqüência nos aniquila. baseia a superioridade dos alemães na ininterrupta posse de um idioma puro. negam-se a entender que a afirmação: "Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta" é mero eufemismo para admitir a perda de B. pugnaz. ostensivamente triunfais. Das pessoas que conheço. Hitler. Essa razão é quase inesgotavelmente falaz.thought and official propaganda”. O autor começa observando que os fatos políticos provêm de especulações muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgação de uma doutrina e sua aplicação. profunda. confundem a verdade com o corpo doze.. Em 1870 aclamou a vitória da "paciente. pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo. de Frederico II. podemos lembrar que o alemão é menos "puro" que o basco ou que o hotentote. quando não quíchua ou querandí. sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur. escreveu que a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam. Fichte (1762-1814). Nossos "nacionalistas" já exercem esse método paradoxal: ensinam a história argentina de um ponto de vista espanhol. ele propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. nobre. uma transcrição de Karl Marx. intranqüila. 251). p. Louvou a Idade Média. condenou as rajadas de vento parlamentar. horrendo em públicos exércitos e em secretos espiões. pensam "sport"). em 1843. na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation. não o são as representações.. hipersensível França" (Miscellanies. gesticulante.. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos. é um pleonasmo de Carlyle (17951881) e até de J. Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle. Por exemplo. Este. Daí o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporâneos: a realidade é sempre anacrônica. Russell propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Pior ainda: exercem uma sorte de magia. Mais complexa e eloqüente é a contribuição de Carlyle. o Bastardo. de Knox. sólida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona. de Cromwell. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. reescrever essa história do ponto de vista francês. G. vindicou a memória do deus Thor. pouquíssimas sequer a soletram.. Dos outros artigos. O primeiro. do taciturno doutor Francia e . É assim: a "atualidade candente". por mais que os puristas digam "esporte". Lênin. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses. não é menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". podemos indagar por que é preferível um idioma sem mistura. tomo VII. pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas. não passa de uma reverberação imperfeita de velhas discussões. vangloriosa.

propôs a transformação das estátuas – "horrendos solecismos de bronze" – em úteis banheiras de bronze. . Bertrand Russell conclui: "De certo modo. é lícito afirmar que o ambiente do início do século XVIII era racional e o de nosso tempo. de 1850. e inventou. incensou.de Napoleão. almejou um mundo que não fosse "o caos provido de umas eleitorais". anti-racional". Quem quiser mais imprecações ou apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets. condenou a abolição da escravatura. alegrou-se por haver um quartel em cada povoado. preconizou a pena de morte. a Raça Teutônica. Eu suprimiria o tímido advérbio que encabeça a frase.

Cansado. e o temor. denunciam o imperialismo. a descoberta de que uma emoção coletiva pode não ser indigna. pensei comigo. mas aplaudiram os prodígios do Blitzkrieg. Mas ele ocorreu. Esses versáteis. Freud não concluiu e Walt Whitman não pressentiu que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta? Quem sabe. são anti-semitas. mas vindicam e promulgam a tese do espaço vital. de Shaw. mas reprovam com vigor as piratarias britânicas. abençoam a guerra submarina. que qualquer incerteza seria preferível a um diálogo com esses consangüíneos do caos. optei por supor que certo espírito noveleiro. Ponderei.ANOTAÇÃO AO 23 DE AGOSTO DE 1944 Essa jornada populosa deparou-me três heterogêneos assombros: o grau físico de minha felicidade quando soube da libertação de Paris. à força de exercer a incoerência. e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunhá-lo. idolatram San Martín. O livro foi Man and Superman. condenam os artigos de Versailles. Logo de início entendi que seria inútil interrogar os protagonistas. a magia dos símbolos Paris e libertação seja tão poderosa que os partidários de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. mas abominam a América "saxã". Sei que investigar esse entusiasmo é correr o risco de parecer-me aos vãos hidrógrafos que indagavam por que basta um único rubi para deter o curso de um rio. um livro e uma lembrança me iluminaram. mas aos da Alemanha o de Zaratustra. também. Noites mais tarde. De mais a mais. aplicam aos atos da Inglaterra o cânone de Jesus. e a simples adesão à realidade eram explicações verossímeis do problema. para os quais a infinita repetição da interessante fórmula "sou argentino exime da honra e da piedade. mas professam uma religião de origem hebréia. muitos me acusarão de pesquisar um fato quimérico. mas opinam que a independência da América foi um erro. a passagem a que me refiro é aquela do sonho metafísico de John Tanner. onde se afirma que o horror do Inferno é sua . perderam por completo a noção de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raça germânica. o enigmático e notório entusiasmo de muitos partidários de Hitler.

colabora com os inevitáveis exércitos que o aniquilarão. de nojo. brincar de ser um viking. um tártaro.irrealidade. no limite. inclusive o Diabo. Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidação. na solidão central do próprio eu. com Hércules. É inabitável. entrou em minha casa. como os infernos de Erígena. uma impossibilidade mental e moral. anunciou a grande notícia: os exércitos nazistas tinham ocupado Paris. Então compreendi que ele também estava apavorado. Senti um misto de tristeza. misteriosamente. . essa doutrina pode comparar-se à de outro irlandês. um pele-vermelha) é. Algo que não entendi me conteve: a insolência do júbilo não explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamação. pode desejar que ele triunfe. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. Nesse dia. um germanófilo. de modo cego. Toda oposição era inútil. há uma ordem – uma única ordem – possível. João Escoto Erígena. de mal-estar. O nazismo padece de irrealidade. cujo nome não quero lembrar. Hitler. postado à porta. matar e ensangüentar por ele. nada poderia deter sua vitória. Ser nazista (brincar de barbárie enérgica. A lembrança foi daquele dia que é o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. que negou a existência substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas. Creio poder interpretálos assim: para europeus e americanos. os homens só podem morrer por ele. Acrescentou que muito em breve esses exércitos entrariam em Londres. um conquistador do século XVI. mentir por ele. um gaúcho. assim como os abutres de metal e o dragão (que não deviam ignorar sua condição de monstros) colaboraram. Ninguém. retornariam a Deus.

construtor de palácios e libertino.. todos preferem a biografia genealógica. mal consegue reservar um parêntese para o Maelström e para a cosmogonia de Eureka. outra. a biografia cirúrgica. outra. das falácias por ele perpetradas. de Fonthill. outra. Tudo isso pode parecer uma completa quimera.. a biografia econômica. Chapman. 33. Tão complexa é a realidade. 39. Não é inconcebível uma história dos sonhos de um homem. fascinado por suas mudanças de domicílio. grande senhor. 21. Confrontei várias críticas a Vathek. O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contemporânea: agora. O prefácio que Mallarmé escreveu para sua reimpressão de 1876 é pródigo em observações felizes (por exemplo: . Uma das hipotéticas biografias registraria a série 11. outra. outra. tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido. 17. de todos os momentos em que ele imaginou as pirâmides. romance a cujas dez últimas páginas William Beckford deve sua glória. de seu comércio com a noite e com as auroras. mas prescinde de uma análise de Vathek. esta curiosa revelação feita no prefácio a uma biografia de Bolívar: "Neste livro fala-se tão escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleão". bibliófilo. a série 3. 30... o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma menção às obras de Michelangelo. outra. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observações. a série 9. destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labiríntica. e quase infinito. a biografia militar de um soldado. Setecentas páginas in-oitavo compreende certa vida de Poe. a biografia psiquiátrica. viajante. encarnou um tipo bastante comum de milionário. Outro exemplo. William Beckford. 12.. Ninguém se resigna a escrever a biografia literária de um escritor. e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo. 13. infelizmente.. seu biógrafo. em 1943.SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda menção às obras de Michelangelo. o autor.. 21. de biografias de um homem destacando fatos independentes. não é. a biografia tipográfica. 22. dos órgãos de seu corpo..

não da mística: o eletivo Inferno de Swedenborg – De Coelo et Inferno. 1 Da literatura. mas também é o Inferno. negra de abominações sua alma. Gravados na folha há misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek.faz notar que o romance se inicia no terraço de uma torre de onde se lê o firmamento.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literários. o Inferno é o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal. Um mercador chega à capital do império: seu rosto é tão terrível que os guardas que o conduzem à presença do califa avançam de olhos fechados. na escuridão. Belloc (A Conversation with an Angel. para concluir em um subterrâneo encantado). Vathek desce às profundezas do mundo. cujo instrumento será um homem sem par. o dolente regno da Comédia. nesta é o castigo e a tentação. O mercador vende uma cimitarra ao califa. O califa entrega-se às artes mágicas. os talismãs que subjugam o mundo. no décimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah. mas está escrito em um dialeto etimológico do francês. a fábula de Vathek não é complexa. propõe-lhe abjurar a fé muçulmana e adorar os poderes das trevas. Uma silenciosa e pálida multidão de pessoas que não se olham erra pelas soberbas galerias de um palácio infinito. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura. 1928) tece opiniões sobre Beckford sem condescender a argumentos. equipara sua prosa à de Voltaire e julga-o um dos homens mais vis de sua época. A terra se abre. "one of the vilest men of his time". Seguem-se muitos anos sangrentos. que virá de uma terra desconhecida.) Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a invenção do Alcáçar do Fogo Subterrâneo é a maior glória de Beckford. eu disse. um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma região onde tudo é maravilhoso e digno do maior príncipe da terra". Talvez o julgamento mais lúcido seja o de Saintsbury. de ingrata ou impossível leitura. (Na congênere história do doutor Fausto. e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram. outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar". a voz do mercador. Sob suas abóbadas poderá contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram. Essencialmente. logo desaparece. o mercador exige quarenta sacrifícios humanos. com terror e esperança. 554 – é de data anterior. a ele será franqueado o Alcáçar do Fogo Subterrâneo. Se o fizer. nono califa abássida) ergue uma torre babilônica para decifrar os planetas. Vathek. Um homem (que logo desaparece também) consegue decifra-los. chega a uma montanha deserta. 545. O ávido califa cede. os diademas dos sultões préadamitas e de Solimão Bendaud. Não mentiu o mercador: o Alcáçar do Fogo Subterrâneo é rico em esplendores e em talismãs. Estes auguram-lhe uma sucessão de prodígios. .

Henley traduziu-a para o inglês em 1785. Beckford. em alemão) é aplicável a certas páginas de Vathek. de Piranesi. as sempre menosprezadas e admiráveis Mille et Une Nuits. os satânicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe. é malvada. no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. Marino. Buenos Aires. Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothèque Orientale. uma torre. de Galland. e que. de Barthélemy d´Herbelot. esse epíteto (unheimlich. que eu me lembre. . Excedi-me em alguns exemplos. o epíteto uncanny. publicou o texto original. de Charles Baudelaire e de Huysmans. La Princesse de Babylone. Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominável da cor parda.. Escreveu-a no idioma francês. Há um intraduzível epíteto inglês. fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro. Chesterton (The Man Who Was Thursday. que Vathek antecipa. nos confins orientais. de Voltaire. A Divina Comédia é o livro mais justificável e mais firme de todas as literaturas: Vathek é uma mera curiosidade. Poe. A distinção é válida. the perfume and suppliance of a minute. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa revisão e esse prefácio. Melville dedica muitas páginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportável da baleia. o de Backford. talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idéia de uma prisão. Eu complementaria essa lista com as Carceri d ´Invenzione. de Hamilton. creio.. é um lugar onde ocorrem fatos atrozes. a editora Perrin. por si só. Só de três dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trágica história de seu califa. 1943. O original é infiel à tradução. enumera cinco palácios dedicados aos cinco sentidos. no primeiro capítulo de Vathek. Saintsbury observa que o francês do século XVIII é menos apto que o inglês para transmitir os "indefinidos horrores" (a expressão é de Beckford) da singularíssima história. águas-fortes elogiadas por Beckford. em Adone. algo. que uma árvore. os Quatre Facardins. já descrevera cinco jardins análogos. cuja arquitetura. os túneis de um pesadelo. revisado e prefaciado por Mallarmé. IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez uma árvore que já é mais. A versão inglesa de Henley consta do volume 856 da Everyman´s Library.não é um lugar atroz. e menos. para denotar o horror sobrenatural. a nenhum livro anterior. contudo. que representam poderosos palácios que são também labirintos inextrincáveis. de Paris. mesmo que de modo rudimentar.

Pickwick e o Dom Quixote. (No sétimo capítulo de E1 Payador. A esse gênero nômade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon. Chamar essas ficções de romances picarescos parece-me injustificado. Do gênero de romances que aqui considero. a mera variedade.SOBRE THE PURPLE LAND Esse romance primigênio de Hudson é redutível a uma fórmula tão antiga que quase pode compreender a Odisséia. essa disparidade tão simétrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade. Além disso. ascético. mas é indispensável uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. por suas limitações locais e temporais (século XVI espanhol. pela conotação mesquinha da palavra. louco e altissonante. o . baixo. tão elementar que o nome de fórmula sutilmente a difama e desvirtua. sensato e espirituoso. a incoerência e a variedade não são impraticáveis. para. e vêm a seu encontro as aventuras. escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde. O herói põe-se a caminhar. (Em sua autobiografia literária. A desordem. alto. em segundo. talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes. as sete viagens de Simbad. urgido por não sei que patriótica perversão. alguns capítulos adiante.) Aponto essas falhas sem animadversão. o gênero é complexo. os mais rudimentares buscam a mera sucessão de aventuras. Lembrei alguns exemplos famosos. um vilão carnudo.) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro. Kipling mostra-se impenitente e até inconsciente. reduzindo-os a figuras de circo. faço-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade. em primeiro lugar. comilão. dar-lhe o horrível ofício de espião. Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes". o libérrimo Kim. século XVII). o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. nosso Lugones já insinuou essa recriminação.

acostumado a essas coisas. os fatos cumprem a função de mostrar o caráter do herói. É o caso da segunda parte do Quixote. o movimento é duplo. o âmbito que The Purple Land abrange é incomparavelmente maior. Nesses enfadonhos capítulos. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens. Suas Wanderjahre são também Lehrjahre.. The Purple Land é fundamentalmente crioula. O primeiro. sua gradual conversão a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prevê um pouco Nietzsche. pintor nem intérprete semelhante a Hudson. Como se vê. falseada por bravatas e . que é lógico imputar às contingências da improvisação: a vã e cansativa complexidade de certas aventuras. recíproco: o herói modifica as circunstâncias. Ezequiel Martínez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta. visível: as aventuras do rapaz inglês Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. em todos os seus romances. Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade. Hernández é uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou. O Martín Fierro (em que pese ao projeto de canonização de Lugones) é menos a epopéia de nossas origens – em 1872! – que a autobiografia de um faquista. encerram a máxima filosofia e a suprema justificação da América perante a civilização ocidental e os valores da cultura acadêmica". é o caso da primeira parte do Dom Quixote. por exemplo. Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior).Marujo. Aria por Arias. do Huckleberry Finn. A circunstância de o narrador ser um inglês justifica certos esclarecimentos e certas ênfases necessárias para seu leitor e que seriam anômalas em um gaúcho. As páginas finais de The Purple Land. Rousseau e Nietzsche.. invisível: o venturoso acrioulamento de Lamb. Hudson sentiu na própria carne os rigores de uma vida semibárbara. as circunstâncias modificam o caráter do herói. descreveu e comentou. de The Purple Land. incorre em prolixidades análogas. Essa ficção. quando não suas absurdidades e manias. só por meio dos sedentários volumes da Histoire Générale des Voyages e das epopéias homéricas. Sem dúvida. Martinez Estrada não hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros canônicos de nossa literatura gauchesca. Padece de um erro evidente. de Mark Twain. talvez forneçam o exemplo mais puro. íntimo. Penso nas do final: são bastante complicadas para cansar a atenção. na realidade.. Seria deplorável que alguma distração topográfica e três ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones. O segundo.. Hudson parece não entender que o livro é sucessivo (quase tão puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscón) e o entorpece com artifícios inúteis. Nelas o herói é um mero sujeito. nem nunca o terão. tem dois argumentos. tão impessoal e passivo quanto o leitor. mas não para despertá-la. No número 31 da revista Sur. Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land. Em outros (pouco mais complexos). Isso não quer dizer que The Purple Land seja inatacável. pastoril.

como Hernández. O gaúcho é homem taciturno. Don Segundo Sombra. no círculo mágico dos pampas. mais coragem. as complexas delícias da memória e da introspecção. Se. Hudson. Martín Fierro nas letras – consegue certa notoriedade policial com uma rebelião matreira. a moça que se entrega a um forasteiro. O organismo típico da guerra gaúcha. algum indivíduo – Hormiga Negra nos documentos judiciais. os gaúchos são exclusivos da província de Buenos Aires. em vez de interrogar a literatura. Quando muito. mandam os caudilhos da cidade. mas sempre foi interrompido pela felicidade. Buenos Aires. é estragado pelo afã de magnificar as tarefas mais inocentes. a montonera. o gaúcho ensimesmado pitando com fruição o tabaco negro. Melhor para a veracidade do retrato. Apesar do brusco sangue . nenhuma nos do país. o que toma duplamente injustificável esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episódio de guerra. As de Hudson perduram na memória: os tiros britânicos retumbando na noite de Paysandú. Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafísica. nos ativermos à história. a paradoxal razão dessa primazia é a existência de uma grande cidade. antes da batalha. Güiraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo. Na literatura argentina. escolhe para as andanças de seu herói as coxilhas da outra banda do rio. as imaginações de um homem tornem-se lembranças pessoais de muitos outros. ele escolhe a terra cárdea onde a montonera fatigou suas primeiras e últimas lanças: o Estado Oriental do Uruguai. com o tempo. Outro acerto de Hudson é o geográfico. comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influência exerceu nos destinos de sua província. no artigo sobre Bunyan. como Eduardo Gutiérrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes. Ninguém ignora que seu narrador é um gaúcho. maravilhase de que. Melhorando até a perfeição uma frase divulgada por Boswell. caberia replicar. Macaulay.lamentações que quase profetizam o tango. só aparece em Buenos Aires de modo esporádico. na secreta margem de um rio. Embora nascido na província de Buenos Aires. mas tudo isso aparece fragmentário e secreto em três volumes incidentais. como já disse. de quatrocentas páginas cada um. o gaúcho desconhece. A frase (uma das mais memoráveis que o trato das letras me deparou) é típica do homem e do livro. Hudson (como Ascasubi. Alguém há de observar que em The Purple Land o gaúcho não aparece senão de modo lateral. Manda a cidade. mãe de insignes literatos "gauchescos". mostrá-lo autobiográfico e efusivo já é deformá-lo. secundário. Em Ascasubi há traços mais vívidos. ou despreza. a despeito da veracidade dos diálogos. mais felicidade. Essa escolha propícia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra – acaso que favorece as circunstâncias do amor errante.

penso na têmpera venturosa de Richard Lamb.) Não penso no debate caótico entre pessimistas e otimistas. também de sabor quase paradisíaco. em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser. Perceber ou não os matizes crioulos pode parecer trivial. não penso na felicidade doutrinária que. Hudson. os espanhóis). também americano. Uma observação última. de Mark Twain. dentre todos os estrangeiros (sem excluir. mas o fato é que. Buenos Aires. inexoravelmente. Cunningham. (Outro. Robertson. Miller. Burton. é o Huckleberry Finn. amigas ou aziagas. 1941. claro. o inglês é o único a percebê-los.derramado e das separações. . o patético Whitman impôs a si mesmo. Graham. The Purple Land é dos pouquíssimos livros felizes que há na terra.

Dizer então Cântico dos cânticos é o mesmo que em vernáculo dizer Cântico entre os cânticos. Elohim rege os verbos no singular. homem entre os homens. "Falei no calor de minha ira". Apesar da imprecisão que o plural sugere. onisciente. quando se quer encarecer alguma coisa. isto é. antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Júpiter. assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". o Servo dos Servos de Deus.DE ALGUÉM A NINGUÉM No princípio. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia é a única verdadeira. parece limitar a divindade: em fins do século V. lê-se "Arrependeu-se Jeová de ter feito homem na terra e isto pesoulhe no coração" e em outro. como dizem as versões inglesas. por oposição. onipresente. Essa nomenclatura. Rei dos Reis. Elohim é concreto. um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e esbatendo. propagam-se as palavras onipotente. Deus é os Deuses (Elohim). plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crêem ser um eco de anteriores politeísmos ou uma premonição da doutrina. o incógnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus não convém nenhum predicado afirmativo. João. seja para bem ou para mal. em um lugar da Escritura. o primeiro versículo da Lei diz literalmente: "No princípio fez os Deuses o céu e a terra". que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis. mas não tem conteúdo". no texto original é um superlativo de rei: "Propriedade é da língua hebréia – diz Frei Luis de León – dobrar assim iguais palavras. de Gregório Magno. in the cool of the day. chama-se Jeová Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou. que sem dúvida inspirou. declarada em Nicéia. "Porque eu Jeová teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro. os teólogos habilitam o prefixo omni-. O sujeito de tais locuções é indiscutivelmente Alguém. Escritos em grego. o Irlandês. tudo se pode negar. É definido por traços humanos. cujo nome na história ficou Escoto . Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó. Nos primeiros séculos de nossa era. isto é. ou Scotus. Este último. como as outras. os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no século IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Eríugena. Nada se deve afirmar d´Ele. Sou Aquele que Sou. Pedra de Israel. Deus dos Exércitos. de que Deus é Uno e Triplo.

Intimamente não era nada. é ser tudo. aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso é mais do que ser um Quem ou um Quê. João. o número de grãos de areia seria menor que o número de coisas que Buda ignora. inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos. o Irlandês. e é incompreensível a si mesmo e a toda inteligência". Analogamente. O processo que acabo de ilustrar está longe de ser aleatório. intui a infinita concatenação de todos os efeitos e causas do universo. de certo modo. em 1774. a confusa intuição dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais que ser algo e que. afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais são que modificações da mente de seu inventor. que é o nada. mas o universal. é mais que bom. Seu contemporâneo Ben Jonson ama-o sem chegar à idolatria. Deus é o nada primordial da creatio ex Nihilo. recorre à palavra Nihilum. Hugo.Erígena. ao pé da figueira. são Deus. Os primeiros textos narram que Buda. podemos observá-la inequivocamente no caso de Shakespeare." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens. são o universo. afirmam que nada é real e que todo conhecimento é fictício.1 Ser uma coisa é inexoravelmente não ser todas as outras. e que se houvesse tantos Ganges como grãos de areia há no Ganges. que se encontra potencialmente no particular. exceto em sua semelhança com todos os homens. o abismo em que foram gerados os arquétipos e depois os seres concretos. esse ditame é recriado por Coleridge. os últimos. Samkara ensina que os homens. as passadas e futuras encarnações de cada ser. o discursivo século XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan. on this side Idolatry. é mais que sapiente. que é a única realidade. Este formula uma doutrina de índole panteísta: as coisas particulares são teofanias (revelações ou aparições do divino) e por trás de tudo está Deus. equipara-o ao oceano. um efeito. Para defini-1o. no sono profundo. para quem Shakespeare já não é um homem. e sim uma variante literária do infinito Deus de Spinoza. Irlandês Irlandês. que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante não tenho reino ou meu reino é ilimitado. mas admite que muitas vezes é insípido e empolado. mas como a substância capaz de infinitas modificações. das quais sua existência pessoal era apenas uma. ou seja. escritos séculos mais tarde. porque não é um quê. foi a ele revelado não como abstraído da observação de uma pluralidade de casos. não é bom. Dryden declara-o o Homero dos poetas dramáticos da Inglaterra. mas era tudo o que são os demais. E Nada e Nada. ou o que podem ser". doravante meu 1 No budismo. A magnificação até o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos. "A pessoa Shakespeare – escreve – foi uma natura naturata. Essa falácia está nas palavras daquele rei legendário do Industão. e mais uma vez tantos Ganges como grãos de areia nos novos Ganges. Não é sapiente. no início do século XIX. depois. "mas que não sabe o que é. a figura se repete. . que é uma sementeira de formas possíveis.

Buenos Aires.corpo não me pertence ou pertence-me a terra inteira". 1950. talvez não haja nada além de formas. . uma delas é o processo que esta página denuncia. no sonho há formas que se repetem. Schopenhauer escreveu que a história é um infindável e perplexo sonho das gerações humanas.

a lenda a recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. Na noite de sua concepção. um doente ou um morto. confundindo-os. o Bodhisattva. Siddhartha. um homem doente e um homem morto. O testemunho consta de um dos livros do cânone.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrar-se da vida e da 1 Esse sonho é. 2 Essa metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar. Yama cumpre essa função. a mãe de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante. Pode ser que essa ameaçadora parábola não seja invenção de Buda. um criminoso sob suplicio e um morto. outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses. por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros. é filho de um grande rei. o tempo fez dos dois textos um só e. seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama"). A realidade pode ser complexa demais para a transmissão oral. da cor da neve e com seis presas. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industão. o número seis é habitual (seis vias de transmigração. são eles: uma criança. um velho encurvado. há um homem velho. adoecer. o pré-Buda. este admite que sim. o elefante. seis Budas anteriores a Buda. 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua própria vida. às doenças e à velhice. cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. a multiplicação das presas não pode incomodar os espectadores de uma arte que. e avisam que nosso destino é nascer. os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. animal doméstico. é símbolo de mansidão. Buda declarou que essa reflexão o induziu a abandonar sua própria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. rodas ou cilindros que giram em torno de um eixo. da estirpe do sol. contando o zênite e o nadir. compõe figuras de múltiplos braços e rostos.FORMAS DE UMA LENDA Às pessoas repugna ver um velho. pura fealdade. . caducar. sofrer justo castigo e morrer. Não o é para os hindus. seis pontos cardeais. Suddhodana. embora estejam sujeitas à morte. mas não decifrou seu aviso. basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya. um aleijado. para nós. para sugerir que Deus é o todo. Tanto na parábola como na declaração. forjou outra história.

Em outra saída vê um homem sendo conduzido em um féretro. foi composta na Islândia. explicam-lhe. mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um cego. é convertido à fé pelo ermitão Barlaão. O cardeal César Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano. Em outra saída. No início do século VII. Quatro saídas de Siddhartha e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do acaso. para comemorar esses encontros. uma Barlaams Saga. uma manhã. determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha. a leste e a oeste das muralhas.morte. um indólogo contemporâneo. a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. os astrólogos predizem que ele reinará sobre um reino maior. A paz está em seu rosto. de Menéndez y Pelayo. a pedido do Haakon Haakonarson. vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem viver. sai em sua carruagem e vê com estupor um homem encurvado. em sua continuação das Décadas. A. Foucher. dedicados ao deleite dos sentidos. escreve que. Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda. porém. que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e Josafá. Josafá (Josafat Bodhisattva) é filho de um rei da índia. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e não a eterna. Diogo do Couto denunciou. coberto de lepra e de chagas. inclusive o holandês e o latim. e morrer é a lei de todo aquele que nasce. em 1615. Menos atentos ao estético que à conversa Algumas são manuais. outras são como grandes moinhos movidos pela água ou pelo vento. as analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafá. mas em outra saída vê um homem sendo devorado pela febre. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas. Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusória felicidade. em meados do século XIII. em terras ocidentais. admitida a ignorância prévia do Bodhisattva. ao norte. . Siddhartha. ordena voltar imediatamente. um defeito: os encontros que ela postula são eficazes mas inverossímeis. Pergunta que homem é esse. A lenda que. que é o da Glória. Siddhartha acaba de encontrar o caminho. o rei confina-o em um palácio. de onde é retirado tudo o que pode revelar que ele é corruptível. o cocheiro explica que é um doente e que ninguém está livre desse perigo. ao sul. por fim. No início do século V de nossa era. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de Orígenes de la Novela. o cocheiro explica que é um velho e que todos os homens da terra serão como ele. inquieto. cujo corpo não é como o dos outros". o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industão em busca de livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Açoka erigiu. "cujos cabelos não são como os dos outros. de um leproso e de um moribundo e. o homem imóvel é um morto. cujo tom sarcástico nem sempre é inteligente ou urbano. mas Siddhartha. a última. e trata de recluí-lo em um palácio.

instalado no quarto céu. e os prosélitos. e em particular o budismo. Dessa compilação em verso e prosa. Lalitavistara. o morto e o monge são simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. Assim. o continente. Mais longe foi o Lalitavistara. ensinam que o mundo é ilusório. Em uma biografia lendária do século XVI. Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. e a roda das 3 Rhys Davids suprime essa locução introduzida por Burnouf.3 o mundo. o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez. "Minuciosa relação do jogo" (de um Buda) é o que quer dizer. escrita em sânscrito impuro.das pessoas. porém. já sabe quem são e o que representam. e o Nirvana. no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita. os doutores quiseram justificar essa anomalia. costuma-se falar com certa ironia.. quando interroga o cocheiro. 1. aos olhos do budismo do Norte. o enigma merece em meu entender. oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua mãe tem a força de dez mil elefantes. dirige cada etapa de seu destino. ode espantarse com formas criadas por sua própria divindade. que não podem tolerar que Buda não saiba o que sabe um criado. revela o texto da obra aos deuses. . com outra mitologia ou vocabulário. por que me abandonaste?". segundo Winternitz. basta lembrar que todas as religiões do Industão. tudo isso é razoável se o entendermos como um sonho de Siddhartha. que é outro sonha. a história do Redentor é inflada até a opressão e até a vertigem.) A humanidade do Filho. Siddhartha produz quatro formas que o encherão de estupor. (Nosso século. tais sutilezas dogmáticas. o do céu ordena as coisas. 82). as quatro aparições são quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha. na última forma da lenda. Buda. Para desatar o problema não são indispensáveis. a vida de Buda sobre a terra. o leproso. 37-41). o da terra as padece ou executa. meu Deus. rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas. Foucher vê nisso um mero servilismo dos autores. no estranho poema.. Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras. diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam. exceto o cocheiro e o príncipe. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que não é sonhado por ninguém. a de Buda. que teriam feito o leitor se deter. O Buda. Teologicamente. faz as divindades projetarem as quatro figuras simbólicas e. ele fixou o período. outra solução. talvez coubesse responder: o livro é da escola do Mahayana. que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno. Siddhartha escolhe sua nação e seus pais. pois. segunda pessoa de Deus pôde gritar da cruz: "Meu Deus. para Koeppen (Die Religion des Buddha. fala em inconsciente. um jogo ou um sonho é para o Mahayana. em suas páginas. mas seu emprego nessa frase é menos incômodo que o de grande Travessia ou Grande Veículo. analogamente.

e Buda são igualmente irreais.transmigrações. não acrescentam realidade. minha erudição. e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade. Ninguém se extingue no Nirvana. mero nome. doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. todas as gerações e o universo. porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mágicas. foi erodindo a história. assim. Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota. Em fins do século XIX. depois o príncipe e. o príncipe feliz morre na reclusão do palácio. primeiro tornou fantásticas as figuras. ênfases do Nada. lemos em um famoso tratado. de 9 a 49. . sem ter descoberto a dor. Oscar Wilde propôs uma variante. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo X11 inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros. os excessos numéricos do poema subtraem. incluído o livro que o declara e o homem que o lê. A cronologia do Industão é incerta. feita de verdade substancial e de erros fortuitos. O irreal. não me surpreenderia que minha história da lenda fosse legendária. mas sua efígie póstuma a divisa do alto do pedestal. com o príncipe. 51 e 53) são imensas e monstruosas bolhas. Paradoxalmente. muito mais.

é uma alegoria. A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante. À Jerusalém adiciona-se uma página em prosa que expressa outro pensamento do poeta. Chesterton a vindica. Mas também devemos ser justos com o alegórico e advertir que em alguns casos é inócuo. não a prejudicam.) Que eu saiba. 83). I.DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES Para todos nós. Watts. As palavras de Croce são cristalinas. basta-me repeti-las em vernáculo: "Se o símbolo for concebido como inseparável da intuição artística. ao Adone. 50). podendo-se por um lado expressar o símbolo e por outro a coisa simbolizada. o poeta da lascívia. o tom é mais hostil: "A alegoria não é um modo direto de manifestação espiritual. será sinônimo da intuição mesma. é ciência. por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana. opino que aquele está com a razão. a palavra clemência ou a palavra bondade". Esta é aquele e aquele é esta. a reflexão de que o prazer desmedido leva à dor. que sempre tem caráter ideal. mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificável pôde desfrutar de tantos favores. F. limitar-me-ei aos dois últimos. por Croce (Estetica. chega . Croce não admite diferença entre conteúdo e forma. 198). à estátua. (Meu primeiro propósito foi escrever "não é outra coisa senão um erro da estética". do Adone. 39) e por Chesterton (G. acrescentadas a uma obra concluída. Croce nega a arte alegórica. diante de uma estátua. o gênero alegórico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. XI. de Marino. um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender. Na página 222 do livro La Poesia (Bári. Se o símbolo for concebido como separável. a alegoria é um erro estético. ou arte arremedando a ciência. o suposto símbolo é a exposição de um conceito abstrato. por De Quincey (Writings. mas logo me dei conta de que minha sentença comportava uma alegoria. recair-se-á em um erro intelectualista. Da Jerusalém Libertada pode-se extrair qualquer moralidade. o escultor pode pôr um cartaz dizendo que se trata da Clemência ou da Bondade. guiado por Virgílio. neste ensaio. Tais alegorias. São expressões que extrinsecamente se adicionam a outras expressões. 1946). e sim uma sorte de escrita ou de criptografia". VII).

nem o romano Boécio. além de intolerável. os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um é Parmênides. Um signo mais preciso que o monossílabo. o outro. se os nominalistas são Aristóteles. mas.a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcança a fé. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Convívio. mais rico e mais feliz. essa ordem. William James. "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. guiado pela razão). o único debate medieval com algum valor filosófico é o que confrontou nominalismo e realismo. que são generalizações. todos invocam Aristóteles. Chesterton. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. Francis Bradley. que esses matizes. Locke. Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas. há lugar para outras. Crê. para aqueles. Através das latitudes e das épocas. a alegoria pode ser uma delas. Hume. escrevendo na torre de Pavia. Spinoza. IV. para vindicar o alegórico. em todas as suas fusões e conversões. . vertida e comentada por Boécio. É feita de palavras. provocou nos inícios do século IX. mas destaca a importância dessa controvérsia tenaz que uma sentença de Porfírio. Heráclito. que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do século XI e que William de Occam reanimou no século XIV. Os últimos intuem que as idéias são realidades. Sentimos que.. Aristóteles. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. os realistas são Platão. é tola e frívola. como a arquitetura ou a música. um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminações secretas que essa palavra indica. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. Como explicar essa discórdia sem recorrer a uma petição de princípio sobre a volubilidade dos gostos? Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. que figurou a história de sua paixão em Vita Nuova. o juízo é temerário. Nas árduas escolas da Idade Média. a linguagem não passa de um sistema de símbolos arbitrários. Nem Dante. 2). no entanto. mestre da humana razão (Dante. que perdura em duzentos manuscritos. Segundo a opinião de George Henry Lewes. é o mapa do universo. à sombra da espada de seu carrasco." Declarada a insuficiência da linguagem. Não sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razão. para o aristotélico.. teriam entendido esse sentimento. os primeiros. uma ordem. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. mas não é uma linguagem da linguagem. para estes. Platão. sei que a arte alegórica pareceu em algum momento encantadora (o labiríntico Roman de la Rose. começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade. Kant. o De Consolatione. consta de vinte e quatro mil versos) e agora é intolerável.

Esta é fábula de abstrações. em Knightes Tale. verossimilmente. os conceitos abstratos). e sim a humanidade. hoje abarca todas as pessoas. Uma tese agora inconcebível pareceu evidente no século IX e de certo modo perdurou até o século XIV O nominalismo. a literatura alegórica. por isso. para os homens da Idade Média. Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina". em toda alegoria há algo de romanesco. . outrora novidade de uns poucos. Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer. as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. os romances contêm um elemento alegórico. Ninguém se declara nominalista porque não há quem seja outra coisa. e para o nominalismo. a versão. as formas. entretanto. Mas procuremos entender que. e sim o gênero. e até o fim do século XII seus adversários são chamados pelo nome de moderni". tantos anos multiplicaram até o infinito as posições intermediárias e as distinções. O original está no sétimo livro da Teseida. não as espécies. Maurice de Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adesões. o substantivo não eram os homens. mas ouso apontar uma data ideal. O cronista Heriman (século XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialética in re. é possível afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Platão diria as idéias. os indivíduos. Os indivíduos que os romancistas propõem aspiram a ser genéricos (Dupin é a razão. A passagem da alegoria ao romance. De tais conceitos (cuja manifestação mais clara talvez seja o quádruplo sistema de Erígena) adveio. nós. sua vitória é tão vasta e fundamental que seu nome é inútil. assim como o romance o é de indivíduos. não os gêneros. A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais. de espécies a indivíduos. Dom Segundo Sombra é o Gaúcho). Buenos Aires. demandou alguns séculos.Como era de esperar. As abstrações são personificadas. e sim a espécie. 1949. tentou traduzir para o inglês o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traições") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri. que talvez não se julgasse nominalista. em meu entender. do realismo ao nominalismo. e sim Deus. não os indivíduos. com o punhal sob a capa").

I. no Samson Agonistes (86-89): The Sun to me is dark And silent as the Moon. ou seja. e a entonação que impõe a sua voz. John Stuart Mill. 101. o temor de Mill e a caótica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escárnio. pela 1 Assim foi interpretada por Milton e Dante. tudo que é possível exprimir. enquanto na Eneida significaram o interlúnio. a escuridão que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tróia.. mas exageram uma propensão que é comum: fazer da metafísica.. ou que uma série de estruturas verbais. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro é mais que uma estrutura verbal. 60. subdivididos em setores com palavras latinas. . Raimundo Lúlio (Ramón Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concêntricos. desiguais e giratórios. uma sorte de jogo combinatório. temos: "d´ogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros.NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW Em fins do século XIII.1 A literatura não é esgotável. Cf. aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal. Kurd Lasswitz. e das artes. em fins do XIX. When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave. as palavras amica silentia lunae significam agora a lua íntima. que registrasse todas as variações dos vinte e tantos símbolos ortográficos. temeu que um dia se esgotasse o número de combinações musicais e que no futuro não houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts. M. no início do século XIX. é o diálogo que trava com seu leitor. 28). A máquina de Lúlio. V. Esse diálogo é infinito. e as mutáveis e duradouras imagens que ele deixa na memória. em todas as línguas. Na Comédia (Inferno. silenciosa e resplandecente. a julgar por certas passagens que parecem imitativas. Tillyard: The Miltonic Setting. E.

Uma literatura difere da outra. obter essa filosofia. um súbito favor da conversa. apresenta a mesma doutrina. no diálogo. de Swedenborg. o tratado De Coelo et Inferno. Penso que de nós não saem criaturas mais lúcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. menos pelo texto que pelo modo que é lida: se me fosse dado ler qualquer página atual – esta. em função de uma experiência de Heráclito. ulterior ou anterior. além de muitíssimas outras. se é que já não o perderam. Blanco Posnet. Caberia responder que a fórmula obtida por eliminação careceria de valor e até de sentido. e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. As questões sindicais e municipais de suas primeiras obras perderão o interesse. Renan. dada a primeira. uma forma de relação. Pensar em Monsieur Teste ao 2 Também em Swedenborg. eu saberia como será a literatura do ano 2000. no pior. Júlio César superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. por obra do metódico acaso. sobretudo. Herrera y Reissig). Afirmei que um livro é um diálogo. pode emitir observações inteligentes e transparecer estupidez. Isso nos leva a um problema estético até hoje não formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que não. um gênero oral. mas sentese mais o valor de Dom Quixote. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação. Shotover. Com a literatura ocorre o mesmo. como os bemaventurados o Céu. Kreegan. A lapidar fórmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Heráclito: Raimundo Lúlio diria que. não uma coisa escrita). basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e. Flaubert) e. e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de íntima afinidade. A concepção da literatura como jogo formal leva. Nesse parecer fundamento minha convicção sobre a preeminência de Shaw. à força de provar variantes. Em Man and Superman lê-se que o Inferno não é um estabelecimento penal. Se a literatura não fosse mais que uma álgebra verbal. no melhor dos casos. qualquer um poderia produzir qualquer livro. mesmo que "Heráclito" fosse apenas o presumível sujeito dessa experiência. para que tivesse alguma virtude. deveríamos concebê-la em função de Heráclito. suspeito. . ao bom trabalho do período e da estrofe. um interlocutor não é a soma ou a média daquilo que diz: pode não falar e transparecer que é inteligente.suficiente e simples razão de que um único livro não o é. às incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracián. publicado em 1758. a um decoro artesão (Johnson.2 mas Lavínia. D´Artagnan executa inúmeras façanhas enquanto Dom Quixote é surrado e escarnecido. é um eixo de inumeráveis relações. a fonte de suas eloqüentes tiradas e das idéias expostas em seus prefácios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler. os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se não menos incômodos que os de Shakespeare (o humorismo é. Richard Dudgeon e. por exemplo – como será lida no ano 2000.

O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas. ou que o seja unicamente em função de alguns epigramas.lado deles ou no histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e até com escândalo a primazia de Shaw. . Buenos Aires. repetindo um lugar-comum da época: "Bernard Shaw é um aniquilados do conceito heróico.. 214). um matador de heróis" (Dichtung und Dichter der Zeit. são. o social reduz-se a um conflito de indivíduos. Bernard Shaw eduziu quase inumeráveis personagens. chamou Nihil). O caráter do homem e suas variações são o tema essencial do romance de nosso tempo. a filosofia não lhe interessa. B. a lírica é a complacente magnificação de venturas ou desventuras amorosas. do fortuito concurso dos átomos de Demócrito. mas no fundo contentam a vaidade. não em Sérgio Saranoff. ao contrário. S. Em 1911. que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fáceis nas colunas dos jornais. salvo ser escarnecido ou vencido. nesse sentido. A ética também não: para ele. tão comparável à divindade primordial que outro irlandês. João Escoto Erígena. Albert Soergel pôde escrever. ou de nações. A obra de Shaw. 1951. deixa um sabor de libertação. em que tudo é lícito. não concebia que o heróico pudesse prescindir do romântico e encarnar no capitão Bluntschli de Arms and the Man. ou de classes. Costumam afetar desespero e angústia. A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contém uma admirável carta daquele. Os temas fundamentais de Shaw são a filosofia e a ética: é natural e inevitável que ele não seja valorizado neste país. imorais. O argentino sente que o universo não passa de uma manifestação do acaso.. tais disciplinas. ou dramatis personae: o mais efêmero será. fomentam essa ilusão do eu que o Vedanta reprova como erro capital. Desse nada (tão comparável ao de Deus antes de criar o mundo. da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ninguém". que formalmente podem ser admiráveis. suspeito. as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de nós o interessante interlocutor de um diálogo secreto e contínuo com o nada ou com a divindade. aquele G.

Lemos aí que o pastor de ovelhas. é a finalidade destas páginas. e o nome verdadeiro. que era mantido oculto.HISTÓRIA DOS ECOS DE UM NOME Isolados no tempo e no espaço. esquecer o nome (perder a identidade pessoal) é talvez o maior. lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma. os nomes não são símbolos arbitrários. que era por todos conhecido. ou grande nome. e foi executado. Moisés. 2 Os gnósticos herdaram ou redescobriram essa singular opinião. . e sim parte vital daquilo que definem. espécie de chave universal de todos os céus. narrar e pesar essas palavras. De Quincey. perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". por seu lado. cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno. nos últimos dias da República. ou primitivo. Quinto Valério Sorano cometeu o sacrilégio de revelá-lo. Formou-se assim um vasto vocabulário de nomes próprios. são muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo. discute e parece negar um vínculo necessário entre as palavras e as coisas. 1 Um dos diálogos platônicos. Entre os antigos egípcios prevaleceu um costume análogo. A lição original é famosa.. um sonho e um homem que está louco. e que não o ignora. um deus. autor e protagonista do livro. os aborígines da Austrália recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivíduos da tribo vizinha.1949). e seus dois ecos. Também importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses. o Crátilo. Antes de examinar essas misteriosas palavras. chamado Êxodo. repetem uma obscura declaração. talvez não seja ocioso lembrar que para o pensamento mágico. dos demônios e das portas do outro mundo. que Basilides (segundo Ireneu) reduziu à cacofônica ou cíclica palavra Kaulakau. Segundo a literatura funerária.2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para tê-la em seu poder" (La Religion Égyptienne. Consta no terceiro capítulo do segundo livro de Moisés..1 Assim.

"Eu Sou Aquele que Sou" é uma afirmação ontológica. o homem é degradado publicamente. porque não é um quê nem um quem. que. que a palavra eu só pode ser pronunciada por Deus. cujo chão é o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e por vezes pavoroso. A doutrina de Spinoza. "Eu Sou Aquele que Sou" declara que só Deus existe realmente ou. à maneira dos feiticeiros egípcios. isto que sou me fará viver". porque isso excederia a compreensão de seu interlocutor humano. mas amanhã posso revestir qualquer forma.O selvagem oculta seu nome para que este não seja submetido a operações mágicas. Moisés. Deus não diz quem é. um soldado fanfarrão e covarde. Lemos isso no Gog und Magog. a despeito de constar de muitas palavras. ou sua sombra. Mauthner já analisou e condenou esse hábito mental. o que Ele era. (No século IX. teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de tê-lo em seu poder. não toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. Segundo essa primeira interpretação. e também as formas da opressão. como em um espelho caído. muito lateralmente. 1938) escreve que viver é penetrar em um estranho aposento do espírito.) Que interpretações suscitou a tremenda resposta que Moisés escutou? Segundo a teologia cristã. que é Deus. que faz da extensão e do pensamento meros atributos de uma substância eterna. o sentencioso nome de Deus. Ego sum qui sum. analogamente. nós é que não existimos". consegue ser promovido a capitão. Moisés perguntou ao Senhor qual era Seu nome: não se tratava. Nos conceitos de calúnia e injúria perdura essa superstição. mas hei de comer. de uma curiosidade de ordem filológica. I am that I am –. até que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comédia. como ensinou o Maggid de Mesritch. escreveu um mexicano. um miles gloriosos. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" também pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei". Nessa comédia entrevemos. sim. e dormir como um capitão. e então Shakespeare intervém e põe em sua boca palavras que refletem. aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "Não serei mais capitão. e sim de indagar quem era Deus. como vimos. o nome que. da injustiça e da adversidade". mais precisamente. que poderiam matar.3 Multiplicado pelas línguas humanas – Ich bin der ich bin. Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é. . por meio de um estratagema. e beber. cresceu e reverberou pelos séculos. é mais impenetrável e mais firme que os que constam de uma única. de fato. Deus teria respondido: "Hoje converso contigo. 3 Buber (Was ist der Mensch?. bem pode ser uma magnificação desta idéia: "Deus existe. ou. O ardil é descoberto. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. enlouquecer ou escravizar seu possuidor.

a um erro. Esse caráter sentencioso e sombrio às vezes estende-se ao que se diz sobre ele. começarei a morrer pela copa". não sabemos se com resignação. as palavras que. e quem sabe "Ser é ser tudo".Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cômica para ser um homem e todos os homens. ou por outras pessoas que padecem de análogas misérias. Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia. que para ele talvez tenham sido um único instante insuportável. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. como se aqueles que o julgam não quisessem ficar para trás. e também "Sou o que Deus quer que eu seja. Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representação. Negava-se a usar óculos. Começou a perder a memória. escreveu Thackeray. Até que uma tarde. e também "Sou uma parte do universo. uma forma da eternidade do inferno. A surdez. ouviram-no repetir. isso deve-se a uma confusão. ou como quem se afirma e se ancora em sua íntima essência invulnerável: "Sou aquilo que sou. Aqui termina a história da sentença. já perto de morrer. a modo de epílogo. "Serei uma desventura. mas sou". por um suplente que não consegue chegar a titular. por fim. sou aquilo que sou". Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz. Tomei-me por outro. talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. Não fui essas pessoas. mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert). em um dos anos que durou a longa agonia de Swift. Mais que na seqüência de seus dias. elas foram. tão inevitável e necessária quanto as outras". ele imaginou com minucioso desprezo uma estirpe de homens decrépitos e imortais. se tanto. Mas nada é tão patético quanto sua aplicação das misteriosas palavras de Deus. a vertigem. porque sua memória é insuficiente para passar de uma linha a outra. A última versão veio à luz em mil setecentos e quarenta e tantos. Na terceira parte de Gulliver. louco e já moribundo. ou pelo doente que não pode sair de casa. que ocupará os pensadores dos . não podia ler e era incapaz de escrever. ou quem sabe para esconjurá-lo magicamente. o tecido das roupas que vesti e descartei. Verbi gratia. sou o que de mim fizeram as leis universais". com desespero. velho. porque o decorrer do tempo modificou a linguagem. ou pelo acusado em um processo de difamação. entregues a débeis apetites que não podem satisfazer. e de ler. Em 1717 dissera a Young. sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser. quero apenas acrescentar. o dos Night Thoughts: "Sou como esta árvore. ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha. a idiotia agravaramse e foram aprofundando a melancolia de Swift. incapazes de conversar com seus semelhantes. Swift perdura para nós em algumas poucas frases terríveis. terá sentido Swift. o medo da loucura e. "Pensar nele é como pensar na ruína de um grande império". De inteligência glacial e de ódio glacial vivera Swift.

alçado pelos coturnos. um único ator. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). Os olhos vêem o que estão habituados a ver. houve muitíssimas jornadas históricas. inaugura-se uma época na história do mundo. Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exército da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milícias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje. profundamente. nas quais se percebe a influência de Cecil B. Esse sou eu. a coisa que era Swift. e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". o hipócrita. a obscura raiz de Parolles. é mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser. segundo o que se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles. na Alemanha e na Rússia) foi forjá-las ou simulá-las. em razão mesmo de sua anomalia. Sabe-se que o drama nasceu da religião de Dionísio.séculos vindouros. embora seu livro a registre. Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representação. com profusão de prévia propaganda e persistente publicidade. Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador é tão ilusório quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa. até. e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itália. têm menos relação com a história que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a história. a verdadeira história. Detive-me. Outra coisa: a vontade. "elevou de um a dois o número de atores". passaria inadvertido. e podemos dizer que assistimos a sua origem". durante muito tempo. Um prosador chinês observou que o unicórnio. constatei que o sujeito dessa misteriosa ação era Esquilo e que este. originalmente. Depois desse dia. trajando preto ou púrpura e com o rosto aumentado por . Cheguei a essa reflexão graças a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega e que despertou meu interesse. O PUDOR DA HISTÓRIA No dia 20 de setembro de 1792. Tácito não reparou na Crucificação. Tais jornadas. por ser ligeiramente enigmática. secretas. de Mille.

Aconteceu na Islândia. talvez apenas um princípio de assombro. Com o segundo ator entraram em cena o diálogo e as indefinidas possibilidades da reação de uns personagens sobre outros. Naquele dia de uma primavera remota. já que é tão alto. e Peer Gynt. digamos. dividia a cena com os doze indivíduos do coro. na Itália e na África. "– Então – disse Tostig – dize a teu rei que lutaremos até a morte. e Sigismundo. prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se às fileiras do invasor. Harold Filho de Godwin. estavam revestidos de ferro. pensativo: "– Quem era esse cavaleiro que tão bem falou? "– Harold Filho de Godwin". que antes militara em Bizâncio. que dará ele ao rei Harald Sigurdarson? "– Ele não foi esquecido – respondeu o cavaleiro. fez-lhes frente o exército saxão. mas nunca saberemos se pressentiu. – Receberá sete palmos de terra inglesa e. O drama era uma das cerimônias do culto e. naquele teatro da cor do mel. .uma máscara. o historiador e polígrafo Snorri Sturluson. irmão do rei saxão da Inglaterra. "– Se verdadeiramente és Tostig – disse o cavaleiro –. em 1225. e Fausto. desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). escrevia a última empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson. mais um. venho dizer-te que teu irmão oferece a ti seu perdão e um terço do reino. em sua chácara de Borgarfjord. "– Se eu aceitar – disse Tostig –. cobiçava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. "Os cavaleiros se retiraram. Um espectador profético teria visto que ele vinha acompanhado por multidões de aparências futuras: Hamlet. da unidade à pluralidade. Harald Sigurdarson perguntou. os homens. e outros que nossos olhos ainda não podem discernir. o que eles terão pensado. Um dos cavaleiros gritou: "– Está aqui o conde Tostig? "– Não nego estar aqui – disse o conde. mas um dia. sequer de modo imperfeito. Nas Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagórica. Isso poderia ter acontecido. chamado o Implacável (Hardrada). os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Victor Hugo levantou a segunda hipótese) a não anunciada aparição de um segundo ator. e Macbeth. Outra jornada histórica descobri em minhas leituras. e também os cavalos. o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escândalo. Com um exército norueguês. no século XIII de nossa era. quinhentos anos antes da era cristã. como todo ritual. Ao sul de Jorvik. e assim até o infinito. correu em algum momento o risco de tornar-se invariável. Para a instrução das futuras gerações. quão significativa era essa passagem do um ao dois. Tostig. Expostos os fatos anteriores.

Outros capítulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exército norueguês foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e também o conde (Heimskringla, X, 92). Há um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitações perpetradas pelos profissionais do patriotismo) não costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do heróico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundível, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o êxito"), na balada anglo-saxã de Maldon ("Meu povo pagará o tributo com lanças e velhas espadas"), na Canção de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitáfio para um Exército de Mercenários, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trás da aparente simplicidade do historiador há um delicado jogo psicológico. Harold finge não reconhecer o irmão, para que este, por sua vez, perceba que não deve reconhecê-lo; Tostig não o trai, mas tampouco trairá seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmão, mas não a tolerar a intromissão do rei da Noruega, procede de modo muito compreensível. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um terço do reino, dar sete palmos de terra.1 Há somente uma coisa mais admirável que a admirável resposta do rei saxão: a circunstância de que seja um irlandês, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. É como se um cartaginês tivesse legado a memória da façanha de Régulo. Com razão escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islândia) deleitam-se em aprender e registrar a história de todos os povos e não consideram menos glorioso publicar as excelências alheias que as próprias". Não o dia em que o saxão proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histórica. Uma data profética de algo que ainda está no futuro: o olvido de sangues e nações, a solidariedade do gênero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de pátria; Snorri, ao relatá-la, supera e transcende tal conceito. Outro tributo a um inimigo lembro nos últimos capítulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemão e escreve as seguintes palavras: "Então, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmãos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adição, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").
1

Buenos Aires, 1952.

NOVA REFUTAÇÃO DO TEMPO
Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1 DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

NOTA PRELIMINAR Se publicada em meados do século XVIII, esta refutação (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 – depois de Bergson –, é a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o precário artifício de um argentino extraviado na metafísica. Ambas as conjeturas são verossímeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, não posso prometer, em troca de minha dialética rudimentar, uma conclusão inaudita. A tese que propalarei é tão antiga quanto a flecha de Zenão ou a carruagem do rei grego, no Milinda Pañha;2 a novidade, se é que há alguma, consiste em
1

"Antes de mim não existia o tempo, depois de mim não existirá. / Comigo ele veio ao mundo, também comigo perecerá." (N. da T.)
2

Não há exposição do budismo que deixe de mencionar o Milinda Pañha, obra apologética do século II, que relata um debate cujos interlocutores são o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este

aplicar a esse fim o clássico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, são pródigos em parágrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, não obstante, a conseqüência inevitável de sua doutrina. O primeiro artigo ("A") é de 1944 e apareceu no número 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, é uma revisão do primeiro. Deliberadamente, não fundi os dois em um só, por entender que a leitura de dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil. Uma palavra sobre o título. Não me escapa que este é um exemplo do monstro que os lógicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que é nova (ou antiga) uma refutação do tempo é atribuir-lhe um predicado de índole temporal, que instaura a noção que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mantê-lo, para que seu ligeiríssimo escárnio prove que não exagero a importância desses jogos verbais. De mais a mais, tão saturada e animada de tempo está nossa linguagem que é bem provável que não haja nestas páginas uma sentença que de certo modo não o exija ou invoque. Dedico estes exercícios a meu antepassado Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), que legou às letras argentinas algum decassílabo memorável e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teológicas e expondo na cátedra os princípios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver. J. L. B. Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

argumenta que, assim como a carruagem do rei não é as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lança, nem o jugo, tampouco o homem é a matéria, a forma, as impressões, as idéias, os instintos ou a consciência. Não é a combinação dessas partes nem existe fora delas... Ao término de uma controvérsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se à fé de Buda. O Milinda Pañha foi vertido para o inglês por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

é declarada em certa página de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte". Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. de certo modo. de meu Fervor de Buenos Aires (1923). Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz. Essa refutação está. só podem existir em uma mente que as perceba. eu a vejo e a toco. Dois argumentos me encaminharam a esta refutação: o idealismo de Berkeley e o princípio dos indiscerníveis. estando fora de meu escritório. ou seja.. .A I No decorrer de uma vida consagrada às letras e (vez por outra) à perplexidade metafísica. pude divisar ou pressentir uma refutação do tempo. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse.. ou que algum outro espírito a percebe.. Afirmo que esta mesa existe. 3) observou: "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. qualquer que seja o objeto que elas formem). de Leibniz. Se. que transcrevo mais adiante. Tentarei fundamentar todos eles com este escrito. nem sequer o penúltimo da série. em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrição em qualquer sepulcro" e "O truco". de qualquer modo que se combinem (isto é.. da qual eu mesmo descreio. mas que costuma visitar-me à noite e no exausto crepúsculo. menos demonstrativo e racional que divinatório e patético. eu fizer a mesma afirmação. com ilusória força de axioma. Berkeley (Principies of Human Knowledge. nem nossas paixões.

por se tratar de dois sistemas visuais independentes. Essa é. Berkeley (Principies of Human Knowledge. Este (The Mind of Man. . para o idealista Schopenhauer. que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo é minha representação. De fato. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. Em outro parágrafo. só pode existir na mente. Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer também é justo contrapor o monismo de Spiller. Se responderes que sim. Uma delas é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a poderosa fábrica do universo – não existem fora de uma mente. Entendê-la é fácil. difícil é pensar dentro de seus limites. o sexto. 1902) argúi que a retina e a superfície cutânea invocadas para explicar o visual e o tátil são. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazêlo. não têm outro ser salvo serem percebidos. não existem quando não os pensamos. nego que os objetos possam existir fora da mente". como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". por sua vez. comete negligências reprováveis. é para mim insensato.sem relação com o fato de serem ou não percebidas. Logo no primeiro capítulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenômeno cerebral e distingue "o mundo na cabeça" do "mundo fora da cabeça". Em 1844. sem ninguém por perto para percebê-los. os olhos e as mãos do homem são menos ilusórios ou aparenciais que a terra e o sol. 10 e 116) também negou as qualidades primárias – a solidez e a extensão das coisas – e o espaço absoluto. ele publica um volume complementar. Berkeley já fizera Philonous dizer: "O cérebro de que falas. Seu esse est percipi. direis. Ou seja. a doutrina idealista. mas tão-somente uns olhos que vêem um sol e umas mãos que sentem o contato de uma terra". ao mesmo tempo. No parágrafo 23 acrescentou. sendo uma coisa sensível. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. O próprio Schopenhauer. em 1713. nas palavras de seu inventor. prevenindo objeções: "Mas. ao expôla. dois sistemas táteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") não é maior que o imaginado (o "cerebral") e não o contém. capítulo VIII. Mas. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vê-las basta-nos abrir os olhos. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung – ano de 1819 – formula a seguinte declaração. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". nada mais fácil. nada mais fácil que imaginar árvores em um prado ou livros em uma biblioteca. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". O homem que confessa esta verdade sabe claramente que não conhece um sol nem uma terra.

como quem diz "troveja" ou "relampeja". eles são percebidos por Deus. um pouco de frio. a forma e a cor são a lua. abre os olhos com negligência. que são continuidades. Se alguém suspeitar de uma falácia. nega tal existência (Treatise of Human Nature. também a refuta e faz de cada homem "uma coleção ou feixe de percepções. "porque eu não sou meramente minhas idéias. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansável da água. fui iterativo e explícito. Hume. um mundo feito de tempo. para que meu leitor fosse penetrando nesse instável mundo mental.Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos. talvez. com mais lógica. pois. é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. dizer "penso" é postular o eu. se quiser. vê uma linha indistinta que são as árvores. tampouco se pode falar das percepções da mente. nem objetivo nem subjetivo. perdida na escuridão parcial. Acumulei acima citações dos apologistas do idealismo. 98). não histórico. escolhi um instante entre dois sonhos. Repito: não há por trás dos rostos um eu secreto. não é lícito falar da forma da lua ou de sua cor. Hume. Um mundo de impressões evanescentes. logo existo" cartesiano fica invalidado. 2). A série? Negados o espírito e a matéria. quando nenhum indivíduo os percebe. I. de sua própria vida. 4. a jangada. um instante literário. I. um labirinto incansável. eu afirmo que não menos ilógico é pensar que são termos de uma série cujo princípio é 1 Para facilidade do leitor. faz. no século XVIII. é uma petição de princípio. A essa quase perfeita desagregação chegou David Hume. . que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez" (obra citada. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. em seguida. 1. e sim outra coisa: um princípio ativo e pensante" (Dialogues. mergulha no sono imemorial como em uma água escura. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (obra citada. um caos. Uma vez aceito o argumento idealista. já que a mente não passa de uma série de percepções. propôs que em lugar de "penso" disséssemos impessoalmente "pensa". 6). o cético. vê um vago número de estrelas. para Hume. do absoluto tempo uniforme dos Principia. Para Hume. 3). não sei que direito nós temos a essa continuidade que é o tempo. negado também o espaço.1 A metafísica idealista declara que acrescentar a essas percepções uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) é temerário e inútil. prodigalizei suas passagens canônicas. um mundo sem matéria nem espírito. 2). poderá intercalar outro exemplo. somos apenas a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes. Em uma das noites do Mississipi. Ambos afirmam o tempo: para Berkeley. censurei Schopenhauer (não sem ingratidão). segue rio abaixo. Lichtenberg. Berkeley afirmou a identidade pessoal. Huckleberry Finn acorda. Imaginemos um presente qualquer. um sonho. a governar os atos e a captar as impressões. um mundo sem a arquitetura ideal do espaço. O "penso. 4. 2.

aquele na cidade de Montevidéu. de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849. nem as prisões. Acrescento: se o tempo é um processo mental. eu. Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida. como podem compartilhá-lo milhares de homens. que sempre se referem a fatos futuros. existe cada momento que vivemos. Hume negou a existência de um espaço absoluto. essa felicidade não foi contemporânea dessa traição. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo. em que todos os fatos se encadeiam. ou seja. Tentarei um método mais direto. em um elevado número de casos. sem nada saber um do outro. não posso caminhar pelos subúrbios na . Acrescentar ao rio e à margem percebidos por Huck a noção de outro rio substantivo de outra margem. interrompido e como que entorpecido de exemplos. nem sequer uma de suas noites. Tomemos uma vida ao longo da qual amiúdam as repetições: a minha. pensando na fidelidade de meu amor. o capitão Isidoro Suárez. em que cada coisa tem seu lugar. para o idealismo.. este em Edimburgo.. ela me enganava": se cada estado que vivemos é absoluto. Não passo diante de La Recoleta sem lembrar que aí estão sepultados meu pai. assim como eu estarei. porque os dois homens morreram. no início de agosto de 1824. nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. nego. não existe tal história. inúmeras vezes. a soma de todos os fatos. injustificável. também a simultaneidade. muitos. ou mesmo dois homens distintos? O argumento dos parágrafos acima. não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato. isso dura a história do universo. com argumentos do idealismo. nem o perdão. tais fatos não foram contemporâneos (agora o são). em um elevado número de casos. a vasta série temporal que o idealismo admite. à frente de um esquadrão de hussardos do Peru. Nego. decidiu a vitória de Junín.tão inconcebível quanto seu fim. embora não sua lembrança. pode parecer intrincado. Verbi gratia. Ou melhor. é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare – um. acrescentar outra percepção a essa rede imediata de percepções é. incapaz de modificar os "anteriores". que somos o minucioso presente. a sucessividade. entre quatro e dez e quatro e onze. Nem a vingança. Cada instante é autônomo. Em outras palavras: nego. No início de agosto de 1824. como não existe a vida de um homem. por exemplo. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão. para mim. a descoberta da traição é mais um estado. a de um único tempo. Dizem-me que o presente. A desventura de hoje não é mais real que a ventura pretérita. a fatos que não ocorrerão conosco. dura entre alguns segundos e uma ínfima fração de segundo. meus avós e bisavós. De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre. nenhum? – entre 1592 e 1594. em seguida. não seu imaginário conjunto. o specious present dos psicólogos. lembro já ter lembrado o mesmo. Busco um exemplo mais concreto. O universo.

cada vez que ouço um germanófilo vituperar o Yiddish. a participação delas em sua sorte não o fará ter dez mil vezes mais fome nem multiplicará por dez mil o tempo de sua agonia. nem mais universal na destruição. de ossinhos imperceptíveis. tal soma não existe. de fagulhas. Não se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos. penso em você. ainda. Não sei se existe. de C. Essas tautologias (e outras que calo) são minha vida inteira. talvez influenciado por Santo Agostinho. 139). em minha infância. Shakespeare? Ignoro. penso em Adrogué. porém. 830) atribui a Anaxágoras a doutrina de que o ouro consta de partículas de ouro. se não há pluralidade. aquele que mata um único homem destrói o mundo. o osso. um dialeto alemão. (Cf. de temperatura. VII. mas nos quais se dá o mesmo processo). antes de mais nada. sofrerá toda a inanição havida e por haver. de luz. Tal proposição é compatível com a deste trabalho. literalmente. ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. quem aniquilasse todos os homens não seria mais culpado que o primitivo e solitário Caim. Josiah Royce. cabe perguntar: esses idênticos momentos não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a série do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare não são. há diferenças de ênfase. pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio é outro") impõe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"). dois momentos iguais. 86): "O que você pode padecer é o máximo que se pode padecer na terra. o que é ortodoxo. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism. penso que o Yiddish é. Eu entendo que é assim. Naturalmente. epidemias – são uma só dor. S. o fogo. . II. I. admiro sua destreza dialética. guerras. entende que o tempo é feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre é também uma sucessão" (The World and the Individual. cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos. O quinto parágrafo do quarto capítulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que. Suspeito. o que pode ser mágico. Postulada essa igualdade. cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade. pouco maculado pelo idioma do Espírito Santo. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios. não posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que só se perde aquilo que não se teve realmente. concedendo-nos a ilusão de tê-lo inventado. também The Problem of Pain. na mente de um indivíduo (ou de dois indivíduos que se ignoram. Se você morrer de inanição. como a lembrança. para a justiça de Deus. a ética do sistema que acabo de esboçar. de estado fisiológico geral.) Lucrécio (De Rerum Natura. Helena. Nem a pobreza nem a dor são acumuláveis". "Nunca entrarás duas vezes no mesmo rio". Lewis. Se dez mil pessoas morrerem com você. que o número de variações circunstanciais não é infinito: podemos postular. elas se repetem sem precisão. cada vez que recordo o fragmento 91 de Heráclito.solidão da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos.

aceitei os mais obscuros convites do acaso. embora seu primeiro significado fosse de pobreza. dispus-me à máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma só delas. A calçada era uma escarpa sobre a rua. uma sorte de gravitação familiar empurrou-me a outros bairros. O reverso do conhecido. em sereníssima folga de pensar. na escassa medida do possível. estive em Barracas: localidade não visitada por meu hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um sabor estranho a esse dia. o intemporal. não é apta para pensar o eterno. A rua era de casas baixas. trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte": "Quero registrar aqui uma experiência que tive algumas noites atrás: futilidade por demais evanescente e extática para ser chamada de aventura. a figueira escurecia a esquina. mas suas ainda misteriosas imediações: confins que possuí inteiro em palavras e pouco em realidade.II Toda linguagem é de índole sucessiva. desbarrancava-se em direção ao Maldonado. Sua noite não tinha destino algum. o beco. sem outra consciente predeterminação senão evitar as avenidas ou ruas largas. Tomava-a irreal sua própria tipicidade. Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentação anterior talvez prefiram esta página de 1928. barro da América ainda não conquistado. Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra já antedita por mim. parecia simplificada por meu cansaço. Passo a historiá-la. vizinhos e mitológicos a um só tempo. os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverência a meu peito. Ao fundo. nada complicada em si. suas costas. Não quero com isso significar o bairro meu. depois do jantar. já pampiano. A visão. por demais irracionável e sentimental para pensamento. saí para caminhar e recordar. o preciso âmbito da infância. Realizei. e. a rua era de barro elementar. mas não vivida com inteira dedicação até esse momento. Nenhuma casa se aventurava à rua. Na tarde que precedeu essa noite. Contudo. o segundo certamente era de felicidade. Já a mencionei antes. isso que chamam caminhar a esmo. quase tão efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisível esqueleto. Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. Não quis impor um rumo a essa caminhada. A marcha levou-me a uma esquina. como era serena. "Assim a rememoro. são para mim essas ruas penúltimas. com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram. Sobre a terra turva e . Aspirei noite.

Abravanel. não. Imaginei a data: época recente em outros países.. Judas. "Fiquei olhando essa simplicidade. os de muita intensidade ou muito desalento – são mais impessoais ainda. cheiro provinciano de madressilva. Fique. não o é no intelectual. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade.. é. Gemisto. "É assim que a escrevo. O tempo. então. mas já remota neste mutável lugar do mundo. Difícil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado. barro fundamental – não é apenas idêntica à que existiu nessa esquina faz tantos anos. no episódio emocional a vislumbrada idéia. "É evidente que o número de tais momentos humanos não é infinito. sem esperança de integrar o infinito censo. sem semelhanças nem repetições. B Das muitas doutrinas que a história da filosofia registra. e senti por ele um carinho pequeno. talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. para quem a única coisa real são os protótipos (Norris. senti-me um percebedor abstrato do mundo. se podemos intuir essa identidade. 1829). mas efundir luz íntima. A observação é de Carlyle (Novalis. do tamanho de um pássaro. murinho límpido. a mesma. os da audição de uma mesma música. Não acreditei. facilmente refutável no plano sensitivo. Mas nem nossa pobreza é certa. Arrisco esta conclusão: a vida é pobre demais para não ser também imortal. os de aproximação do sono. e na confessa irresolução desta página o momento verdadeiro de êxtase e a possível insinuação de eternidade de que essa noite não me foi avara". aos filósofos por ele mencionados caberia acrescentar. mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não tenha havido outro ruído senão o também intemporal dos grilos. Os elementares – os de sofrimento físico e prazer físico. é uma delusão: a indiferença ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo. para quem tudo que não seja a divindade é contingente (Malebranche. de cuja essência o conceito de sucessão parece inseparável. Só depois consegui definir essa imaginação. Senti-me morto. antes. ter remontado às presumíveis águas do Tempo. indefinido temor imbuído de ciência. Talvez cantasse um pássaro. certamente em voz alta: isto aqui é o mesmo de trinta anos atrás. Pensei. que é a melhor claridade da metafísica.caótica. uma taipa rosada parecia não albergar luz de lua. os teólogos. posto que o tempo. Plotino). Johannes . agora: essa pura representação de fatos homogêneos – noite em serenidade. os platônicos. suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade.

de qualquer modo que se combinem (isto é. Hume aplicou-os à consciência. meu propósito é aplicá-los ao tempo. floresceu no século XVIII. estando fora de meu escritório. eu a vejo e a toco. mas entendeu que o mundo material (o de Toland. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. prevenindo objeções: "Mas. nego que os objetos possam existir fora da mente". entenda-se bem.. formas que ninguém toca. os cheiros. Acreditou no mundo de aparências que os sentidos urdem. No parágrafo 6..Eckhart). houvesse dores que ninguém sente. (O deus de Berkeley é um ubíquo espectador cujo fim é dar coerência ao mundo. No parágrafo 23 acrescentou. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. Julgou que acrescentar uma matéria às percepções é acrescentar ao mundo um inconcebível mundo supérfluo. nada mais fácil. O idealismo é tão antigo quanto a inquietude metafísica: seu apologista mais agudo. contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung. além dessas percepções. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. Isso não significa. seu mérito não consistiu na intuição dessa doutrina.) . que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley. Afirmo que esta mesa existe. George Berkeley. Parmênides). os monistas. Esta é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a enorme fábrica do universo – não existem fora de uma mente. nem nossas paixões. qualquer que seja o objeto que elas formem). Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialética. ou seja. que tenha negado as cores.. 3): "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. os sons e os contatos. os sabores. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". o que ele negou foi que. Se. cores que ninguém vê. Berkeley usou-os contra a noção de matéria. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. digamos) é uma duplicação ilusória. De fato. é para mim insensato. sem relação com o fato de serem ou não percebidas.. Observou (Principles of Human Knowledge. Hegel.. ou que algum outro espírito a percebe. Berkeley negou a matéria. 1). II. não têm outro ser salvo serem percebidos. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vêlas basta-nos abrir os olhos. nada mais fácil que imaginar árvores em um parque ou livros em uma biblioteca. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. eu fizer a mesma afirmação. Seu esse est percipi. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". que compõem o mundo externo. e sim nos argumentos que idealizou para justificá-la.. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazê-lo. sem ninguém por perto para percebê-los. não existem quando não os pensamos. ao mesmo tempo. direis. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. só podem existir em uma mente que as perceba.

"uma sucessão de momentos indivisíveis" (Treatise of Human Nature. O cérebro. abarcar um número infinito de séculos. 116. repetidas vezes. I. efetivamente. quando Berkeley já escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus. Berkeley (Principles of Human Knowledge. que são continuidades. este não quis que acrescentássemos a noção metafísica de um eu à sucessão de estados mentais. 6). Corrobora Hume (Treatise of Human Nature. Mais indecifrável ainda é o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. Herbert Spencer acredita refutá-la (Principles of Psychology. argumentando que. só pode existir na mente. A metáfora não deve enganar-nos. esta deve ser infinita no tempo e no espaço. 226) negou o espaço absoluto. II): "O cérebro. 1). O primeiro é verdade se entendermos que todo tempo é tempo percebido por alguém. o tempo é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. Uma vez aceito o argumento idealista. para Hume. Entretanto. VIII.. antecipando-se a David Hume. já que. pois é tão absurdo falar em substância espiritual como em substância material". ao ensinar que para os idealistas o mundo é um fenômeno cerebral. aquele não quisera que acrescentássemos a noção metafísica de matéria à sucessão de impressões. Aquele negara a matéria. 4. como ressalta Alexander Campbell Fraser. 2. e não podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais é feito o teatro". Para Berkeley. necessariamente. Se responderes que sim. se não há nada fora da consciência. David Hume. negados a matéria e o espírito. e até procurou negála mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princípios forem válidos. Tão lógica é essa ampliação dos argumentos de Berkeley que este já previra. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?".. I. Berkeley negou que houvesse um objeto por trás das impressões dos sentidos. raciocina Hylas. não é menos parte do mundo externo que a constelação de Centauro. que houvesse um sujeito por trás da percepção das mudanças. A mente é uma espécie de teatro. 3). o segundo é ilícito. 6): "Somos uma coleção ou um conjunto de percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez. 98). errôneo se inferirmos que esse tempo deve. como coisa sensível. no terceiro e último dos Dialogues. voltam e se combinam de infinitas maneiras. onde as percepções aparecem ou desaparecem. negado também o espaço. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. este negou o espírito. não sustentadas por nenhuma substância.A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. não sei com que direito podemos reter essa continuidade que é o tempo. Siris. tu mesmo não serás mais que um sistema de idéias flutuantes. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. As percepções constituem a mente. Fora de cada percepção (atual . II.

diz o antigo texto. Segundo ele. existiam como termo n de uma infinita série temporal. consideremos o momento do sonho. só existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. Como. por um acaso não impossível. mas consta-nos que a imagem foi subjetiva. o sonho de Chuang Tzu é proverbial. Este. ao menos de modo aproximado. Existia como termo momentâneo da "coleção ou conjunto de percepções" que foi. e exterior. imaginemos que. entre n . ainda que fornecida pela memória. que sem dúvida era ele. não existe o espírito. naquele momento não existia o corpo de Chuang Tzu. não existe a matéria. A doutrina do paralelismo psicofísico julgará que essa imagem deve corresponder a alguma alteração no sistema nervoso do sonhador. vincularemos esses instantes com os do despertar e com o período feudal da história chinesa? Isso não quer dizer que nunca saberemos. acrescentar um eu aos processos parece-lhe não menos exorbitante. ou um de seus momentos. Postulada essa igualdade. segundo Berkeley. mas não um sonhador.ou conjeturai). um perceber. sonhou que era uma borboleta e. a não ser como percepção na mente divina. 1889). não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. nem o negro quarto em que ele sonhava. o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu. acrescentar à borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma vã duplicação. dentre seus quase infinitos leitores. a data daquele sonho. não há outra realidade afora a dos processos mentais. Não consideremos o despertar. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele não era Chuang Tzu. Entende que houve um sonhar. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu". há cerca de vinte e quatro séculos. naquele momento o espírito de Chuang Tzu não existia. para denunciar que tal história não existe? . tampouco o tempo há de existir fora de cada instante presente. Imaginemos que. entende que falar de objetos e de sujeitos é incorrer em uma impura mitologia. cabe perguntar: esses instantes coincidentes não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a história do mundo. é alheia a este. uns quatro séculos antes de Cristo. um deles sonha que é uma borboleta e depois que é Chuang Tzu. nem sequer um sonho. Pois bem. se cada estado psíquico é suficiente. ao acordar. de qual quer evento do orbe.I e n + I. se vinculá-lo a uma circunstância ou a um eu é uma ilícita e ociosa adição. quer dizer que a fixação cronológica de um evento. Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um móvel triângulo amarelo. abolidos o espaço e o eu. Para o idealismo. Na China. fora de cada estado mental. era uma borboleta. Tomemos um momento de máxima simplicidade: Verbi gratia. esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. a mente de Chuang Tzu.

e contesta que o presente seja divisível ou indivisível. um estado de G será contemporâneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. o tempo não existe. Se as razões que apontei forem válidas. Um estado precede o outro quando se sabe anterior. estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da consciência. o tempo não é ubíquo. digamos. se for indivisível. no topo. De fato. ou a estátua sensível de Condillac. como tampouco existem o passado e o porvir. Pela dialética de Berkeley e de Hume. Pode significar a eternidade de Platão ou de Boécio e também os dilemas de Sexto Empírico. De resto. em sua teoria da apreensão. 197) nega o passado. porque não pertence ao conhecível e é prévia condição do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung. Não é indivisível. porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. IV) que.Negar o tempo é duas negações: negar a sucessão dos termos de uma série.. a frase negação do tempo é ambígua. XI. o mundo externo. e. cada indivisível momento de duração está em toda a parte" (Principia. I. por Newton. Ergo. é uma possessão que nenhum mal pode arrebatar. pois não há meio naquilo que carece de princípio e de fim. ou o animal hipotético de Lotze. cada fração de tempo não preenche simultaneamente o espaço inteiro. 42). Ninguém viveu no passado.. nem sequer meio. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade.) Meinong. com o sujeito. admite a dos objetos imaginários: a quarta dimensão. F. Observa (Appearance and Reality. H. e o futuro. o espaço já não existe. há um ponto indivisível que toca a tangente e é o agora. Tais raciocínios. submetida ao princípio da razão. cuja forma é o tempo. negam as partes para depois negar o todo. que carece de forma. suas relações se reduzem à consciência de que as relações existem. que afirmou: "Cada partícula de espaço é eterna. a história universal. O tempo é como um círculo a girar indefinidamente: o arco que desce é o passado. o que sobe é o porvir. negar o sincronismo dos termos de duas séries. o eu. III. nossas vidas. II. cheguei à sentença de Schopenhauer: "A forma da aparição da vontade é só o presente. (Claro que. 54). Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung. não será menos complicado que o tempo. a este orbe nebuloso também pertencerão a matéria. ou a raiz quadrada de -I. porque nesse caso ele não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro. que já foi. que ainda não é. ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida. eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. . Um tratado budista do 2 Antes. Imóvel como a tangente. esse inextenso ponto marca o contato do objeto. não existe. se o agora for divisível em outros agoras. como se vê. tampouco é divisível. Este (Adversus Mathematicos. o tempo será mera relação entre coisas intemporais. não o passado nem o porvir. a esta altura da argumentação. se cada termo é absoluto. 4). mas.

. ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor. negar o eu. VI. mas não viveu nem viverá" (obra citada.3 (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann. é um fogo que me consome. vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser. o Visuddhimagga (Caminho da Pureza). mas eu sou o tigre. So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen. amigo.século V. da T. é um tigre que me despedaça. 407). I. Freund. 1675) 3 "Basta. 18): "O homem de ontem morreu no de hoje. sou Borges. And yet. mas eu sou o rio. Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhões e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão. a vida de um ser dura o que dura uma idéia.) . vertiginosamente construída por uma série de homens momentâneos e solitários. O tempo é um rio que me arrebata. toca a terra em um único ponto. ao rodar. 373). sentença que podemos comparar com esta de Plutarco (De E apud Delphos.. mas eu sou o fogo. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal. O mundo. o homem do momento presente vive. o homem de um momento futuro viverá. Negar a sucessão temporal. 263. "O homem de um momento pretérito – adverte-nos o Caminho da Pureza – viveu. negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. eu. Im Fall du mehr willst lesen. Como uma roda de carruagem." (N. infelizmente. é terrível porque é irreversível e férreo. I. O tempo é a substância de que sou feito. dura a vida o que dura uma única idéia" (Radhakrishman: Indian Philosophy. es ist auch genug. and yet. Se queres ler mais. é real. infelizmente. mas não vive nem viverá. mas não viveu nem vive. o de hoje morre no de amanhã".

SOBRE OS CLÁSSICOS Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia. de Arnold e de Sainte-Beuve. (Lembremos. li que um dos cinco textos canônicos editados por Confúcio é o Livro das Mutações. Limitar-me-ei. dispostas verticalmente. ao longo do tempo. então. não é um instrumento válido para o estudo da ética. e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores.) O que é. a formação análoga de ship-shape. em latim. isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras. saber que hipócrita era ator. agora. de passagem. sem dúvida razoáveis e luminosas. De modo semelhante. por exemplo. em minha idade. feito de 64 hexagramas que esgotam as possíveis combinações de seis linhas truncadas ou inteiras. máscara. Um imperador pré-histórico os . Meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901). e persona. de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidação de um conceito. as coincidências ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. cálculo significa pedrinha e que os pitagóricos usavam dessas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra. frota. Saber que. Dadas tais transformações. que podem beirar o paradoxal. um livro clássico? Tenho ao alcance da mão as definições de Eliot. para fixar o que hoje entendemos por clássico. Acabo de completar sessenta e tantos anos. mas não os consultarei. é inútil saber que esse adjetivo advém do latim classis. uma truncada e três inteiras. Em seu segundo capítulo. que depois tomaria o sentido de ordem. consta de duas linhas inteiras. a expor o que pensei sobre esse ponto. ou I Ching. de Herbert Allen Giles. Um dos esquemas.

Assim. agora. A glória de um poeta depende. outros. acredito . Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração. já que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo. Confúcio declarou a seus discípulos que. fatal. na solidão de suas bibliotecas. Para alemães e austríacos. talvez. da excitação ou da apatia das gerações de homens anônimos que a põem à prova. essas decisões variam. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. encontraria nelas todos os alimentos que o espírito requer. embora meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras seja completo. profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim. para não perder sua virtude. uma das mais famosas formas do tédio. Para os estrangeiros. tenho certeza de que. Por volta de 1930. para mim. Gastam-se à medida que o leitor os reconhece. e que para sempre o serão. Deliberadamente escolhi um exemplo extremo. Uma preferência pode muito bem ser uma superstição. ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado. ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentários. Eu. como Wilhelm. ou asas. As emoções que a literatura suscita são. uma leitura que demanda um ato de fé. ao sul do Tweed. mesmo que de modo levíssimo. o Livro das Mutações corre o risco de parecer uma simples chinoiserie. um calendário. Além das barreiras lingüísticas. Cada qual descrê de sua arte e de seus artifícios. o Fausto é uma obra genial. para outros. um instrumento para a adivinhação do futuro. interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. outros. eternas. outros. mas os meios devem variar constantemente. Previsivelmente. que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração de Voltaire ou de Shakespeare. algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade. se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida. A Divina Comédia. Chego.descobriu na carapaça de uma das tartarugas sagradas. sob a influência de Macedonio Fernández. se o tempo me propiciasse a ocasião de seu estudo. Macbeth (e. Livros como o de Jó. Clássico é aquele livro que uma nação. como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. uma filosofia enigmática. a minha tese. eu acreditava que a beleza era privilégio de uns poucos autores. outros. mas nada sabemos do futuro. em suma. salvo que diferirá do presente. Não tenho vocação de iconoclasta. ou um grupo de nações. agora sei que é comum e que está a nossa espreita nas casuais páginas do medíocre ou em uri diálogo de rua. um vocabulário de certa tribo. interferem as políticas ou geográficas. Burns é um clássico na Escócia. que continuarão a lê-lo. mas ele foi devotamente lido e relido por gerações milenares de homens cultíssimos.

(N. como o Apóstolo.) . e incorporada às Obras Completas de 1974.) 1 "O mundo criado é como um livro em que se lê a Trindade. 464. lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. mas que essas contadas invenções podem ser tudo para todos. Quero também aproveitar esta página para retificar um erro. 442. p.(nesta tarde de um dos últimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley. ao revisar as provas. nos miscelâneos trabalhos deste volume. no Breviloquium de São Boaventura – obra do século XIII – lê-se: "Creatura mundi est quasi quidam líber in quo legitur Trintas". Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos.1 Ver Étienne Gilson: La Philosophie au Moyen Âge. do Coord. Uma. Em um ensaio. Isso talvez seja indício de um ceticismo essencial." (N. para pressupor (e verificar) que o número de fábulas ou metáforas de que é capaz a imaginação dos homens é limitado. de janeiro-abril de 1966. para avaliar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor estético e até pelo que encerram de singular e de maravilhoso. Outra. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolástico. 1 Esta versão do ensaio foi publicada na revista Sur. é um livro que as gerações de homens. da T. urgidas por razões diversas. EPÍLOGO Duas tendências descobri. atribuí a Bacon a idéia de que Deus compôs dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura.

Dunne A Criação e P H. L. W. Buenos Aires. Gosse Os alarmes do doutor Américo Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valéry como símbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analítico de John Wilkins Kafka e seus precursores . B. OUTRAS INQUISIÇÕES (1952) A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J.J. 25 de junho de 1952.

Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotação ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De alguém a ninguém Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw História dos ecos de um nome O pudor da história Nova refutação do tempo Sobre os clássicos Epílogo .

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