Outras inquisições

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JORGE LUIS BORGES

Este livro: Outras inquisições, é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II
1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP

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OUTRAS INQUISIÇÕES Otras Inquisiciones Tradução de Sérgio Molina

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OUTRAS INQUISIÇÕES – 1952 A Margot Guerrero A MURALHA E OS LIVROS He. whose long wall the wand’ ring .

nesses anos. que constava de tantos aposentos como dias tem o ano.Tartar bounds. quando Che Huang-ti ordenou que a história começasse com ele. cercar um império. e Chuang Tzu. ao mesmo tempo. (Não de outra sorte um rei. Indagar as razões dessa emoção é o fito desta nota. da segunda face do mito.. proibiu qualquer menção à morte. mas nada nos diz da muralha. mandou matar todas as crianças para matar uma. e Confúcio. Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros canônicos porque estes o acusavam. porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. inquietou-me. e procurou o elixir da imortalidade. Che Huang-ti condenara a mãe ao desterro por libertinagem. o Imperador Amarelo. É o que dão a entender alguns sinólogos. Che Huang-ti. os ortodoxos não viram senão impiedade. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes. dias atrás. II. reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal. rei de Tsin. em sua dura justiça. queimou os livros. Todas as coisas querem persistir em seu ser. pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em um orbe fechado. e recluiu-se em um palácio figurativo. Historicamente. a única singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. do passado – procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e. mítico ou verdadeiro. Che Huang-ti. mas eu sinto que os fatos referidos são algo mais que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. isto é. Cercar uma horta ou um jardim é comum. Tampouco é rotineiro pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória de seu passado. esses dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. porque as muralhas eram defesas. tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro. não. na Judéia. escreveu Baruch Spinoza. não há mistério nas duas medidas. erigiu a muralha. a rigorosa abolição da história. Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. Contemporâneo das guerras de Aníbal. que também mandou queimar todos os livros anteriores a ele. O fato de as duas vastas operações – as quinhentas a seiscentas léguas de pedra opostas aos bárbaros. Che Huang-ti. e Lao-tsé). o legendário imperador que . que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador. Li.. 76. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princípio do tempo. segundo os historiadores. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e. e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti.) Essa conjetura é aceitável. Dunciad.

todas as coisas receberam o nome que lhes convém. ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador. A música. em inscrições que perduram. Che Huang-ti jactou-se. 1950. também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. . os estados de felicidade. que é apenas forma. Essa notícia favorece ou tolera outra interpretação. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce. Falei de um propósito mágico. projeta seu sistema de sombras sobre terras que não verei é a sombra de um César que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado. tão néscia e tão inútil. e ele destruirá minha muralha. Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de modo secreto se anulam. deu às coisas seu nome verdadeiro. e assem até o infinito. Quarto Imperador. é verossímil que a idéia nos toque por si mesma. em 1877. Este. Ambas as conjeturas são dramáticas. Isso (segundo a ordem que escolhêssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que começou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado. sob seu império. e em todos. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir. a desmedida muralha.. mas um dia há de viver um homem que sinta como eu. a mitologia. (Sua virtude pode estar na oposição entre construir e destruir.. essa iminência de uma revelação. em enorme escala. os rostos trabalhados pelo tempo. ou estão prestes a dizer algo. poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não em um "conteúdo" conjeturai. Buenos Aires. Talvez a muralha fosse uma metáfora. carecem de base histórica. livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem. como eu destruí os livros. talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado. Sonhou em fundar uma dinastia imortal. Terceiro Imperador. mas. ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. até o dia de sua morte. certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo. Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o império porque sabia que este era precário e destruído os livros por entender que eram livros sagrados. que não se produz. e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos.inventou a escrita e a bússola. que eu saiba. semelhantemente. ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. afirmou que todas as artes aspiram à condição da música. para além das conjeturas que permite. A muralha tenaz que neste momento. de que. já Pater.) Generalizando o caso anterior. é talvez o fato estético. e ele apagará minha memória e será minha sombra e meu espelho. ou seja. segundo o Livro dos Ritos. e não o saberá".

A ESFERA DE PASCAL .

mas nenhuma O limita. ditara um número variável de livros (42. isso bem pode ser verdade. compilados ou forjados desde o século I1. o rapsodo Xenófanes de Colofônio. do ar e do fogo integram uma esfera sem fim. que chamamos Deus". 20. o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia. há uma etapa em que as partículas da terra. Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita. em um desses fragmentos. que também era Hermes). segundo Jâmblico. que era uma esfera eterna. da água. repetiu a imagem ("o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada. Fragmentos dessa biblioteca ilusória. o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual. quarenta anos depois. que as idades vindouras não esqueceriam: "Deus é uma esfera inteligível. Seis séculos antes da era cristã. ou infinitamente crescente. que a apresenta como sendo de Platão. Para a mente medieval. farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade. mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim. quase. Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie. 183) entende que Xenófanes falou analogicamente. de Platão. poucos anos antes de sua morte. pois sujeito e predicado se anulam. segundo Clemente de Alexandria. Hermes Trismegisto. também atribuído a Trismegisto.525. "O céu. "o Sphairos redondo. antes. Parmênides. condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus. segundo os sacerdotes de Thot. 36. que exulta em sua solidão circular". cuja força é constante do centro em qualquer direção"). em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. Parmênides lecionou na Itália. ou menos má. Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto. e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota. A história universal seguiu seu curso. No século XIII. 148). a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose. formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum.000. o teólogo francês Alain de Lille – Alanus de Insulis – descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula. o céu dos céus. No Timeu. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. intuir essa esfera. o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". mas afirmou-se que um deles. ou no Asclépio. Albertelli (como. os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios. . e na enciclopédia Speculum Triplex. para representar a divindade. porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas. lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. no XVI.Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas.

segundo a biografia de Johnson. e assim o declarou pela boca de Bruno. No tempo. em algum lugar. Ninguém está em algum dia. setenta anos depois. que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens. de Saturno). do Princípio e da Unidade. a oitava. que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias". Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas. os rudimentos do Paraíso". que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima. (No quinto capítulo do Gênesis consta que "todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos". temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra. e Atenas. a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras. que é feito de luz. lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos. No Renascimento. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice. 27). também chamado Primeiro Móvel. a humanidade acreditou que chegara à idade viril. o espaço absoluto que inspirou os . disse Salomão (I Reis 8. no sexto. "medalha de Deus". em torno dela giram nove esferas concêntricas. Milton. exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas. não restava nem um reflexo desse fervor. transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinqüenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental. As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua. porque. a nona. de Mercúrio. para se justificar. não haverá realmente um quando. de Vênus. de Carnpanella e de Bacon. A terra ocupa o centro do universo. por obra do pecado de Adão. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro. no espaço. a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. "pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós". porque. ninguém sabe o tamanho de seu rosto. e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. tampouco haverá um onde. o céu das estrelas fixas. É uma esfera imóvel. V). Para um homem. Isso foi escrito com exultação em 1584. De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico. Robert South famosamente escreveu: "Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão. o céu cristalino. para Giordano Bruno.não te contém". Este proclamou. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma" (Da Causa.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World. na Ceia das Cinzas. Naquele século desanimado. do Sol. Este é rodeado pelo Empíreo. deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. se o futuro e o passado são infinitos. desfrutou de uma visão telescópica e microscópica. Glanvill entendeu que Adão. de John Donne. ainda à luz do Renascimento. que são como as fadas e os pigmeus. O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica. de Marte. de Júpiter. negador de Aristóteles.

1951. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus. medo e solidão. A FLOR DE COLERIDGE .hexâmetros de Lucrécio. e expressou-os em outras palavras: "A natureza é uma esfera infinita. comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação. que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito. mas Deus. Deplorou que o firmamento não falasse. para ele. revela que Pascal começou a escrever effroyable: "Uma esfera terrível. O texto é assim publicado por Brunschvicg. Sentiu o peso incessante do mundo físico. 1941). mas a edição crítica de Tourneur (Paris. Buenos Aires. sentiu vertigem. Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas. foi um labirinto e um abismo para Pascal. era menos real que o abominado universo. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".

Essa história poderia ser levada a termo sem mencionar um único escritor". ignoro se escrita em fins do século XV11I ou princípios do XIX. e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão. A primeira versão intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado. e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura.Por volta de 1938. Essas considerações (implícitas. The Time Machine. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação. de uma meta.. continua e reforma uma antiqüíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. nesse romance. depois da cíclica batalha em que nossa terra há de perecer. volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi. como em outras.. 2. Claro que o é.. ao contrário desses espectadores proféticos. Wells. os romanos. outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu quantos livros há no mundo. Volta exausto. invoco-as para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma idéia. Diz. chronic tem o valor etimológico de "temporal"). literalmente: "Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali. construído por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry. do presente e do porvir são episódios ou fragmentos de um único poema infinito.. O segundo texto que alegarei é um romance que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde. por meio dos textos heterogêneos de três autores. Shelley sentenciou que todos os poemas do passado. Vinte anos antes. a definitiva. no verão de 1894. a profetisa de Edda Saemundi. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pediram uma flor como prova. Enéias. Paul Valéry escreveu: "A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras. em 1844. não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. Usá-la como base de outras invenções felizes parece previamente impossível. no panteísmo) permitiriam um infindável debate. O primeiro texto é uma nota de Coleridge. eu. Isaías vê a desolação de Babilônia e a restauração de Israel. descobrirão. espalhadas entre as ervas de uma nova pradaria. sem dúvida. o destino militar de sua posteridade. O protagonista de Wells. 1821). o retorno dos deuses que. que habitam em palácios . empoeirado e muito abatido. agora. na ordem da literatura. eu a considero perfeita. há neles tal unidade central que é inegável serem obra de um único cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays. O que pensar?" Não sei qual será a opinião de meu leitor acerca dessa imaginação. as peças de xadrez com que antes jogaram. viaja fisicamente ao futuro. VIII). no povoado de Concord. tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem.

James foi amigo de Wells.. Essa é a segunda versão da imagem de Coleridge. é invenção de um escritor muito mais complexo que Wells.. figura. . 7) e que todo cristão deve ser Cristo (op.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebível veículo. Claro que. mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender. A rigor. o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista. ambas as condutas. Este. segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. Este. Ralph Pendrel.. ao século XVIII. é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. à força de compenetrar-se dessa época. Wells. o triste e labiríntico Henry James. deste último. Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. como nas ficções anteriores. o pintor. o motivo da viagem é uma das conseqüências da viagem. o epigramatista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bemaventurados são um (Cherubinischer Wandersmann. a mais trabalhada. a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e ainda não se combinaram. embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que se costuma chamar de clássicas. Refiro-me ao autor de A Humilhação dos Northmore. 2 Em meados do século XVII. que se alimentam dos primeiros). V. 9). Entre as pessoas que encontra.) Em The Sense of the Past. cit. traslada-se ao século XVIII. se for válida a doutrina de que todos os autores são um autor. o de James volta ao passado.dilapidados e ruinosos jardins. fascinado por essa tela. volta com as têmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha. (Os dois procedimentos são impossíveis. necessariamente. 1 Não li The Sense of Past. deixou inacabado um romance de caráter fantástico. já que seu herói. assim. A terceira versão que comentarei. a literatura é o essencial. em sua obra The Destructive Element (p. verossimilmente. sobre a relação deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography. em suas obras. 1O5-1O). consegue trasladar-se à data em que foi executada. Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem. o nexo entre o real e o imaginário (entre atualidade e passado) não é uma flor. V. mas o de James é menos arbitrário. não é indispensável ir tão longe. George Moore e James Joyce incorporaram. este o pinta com temor e aversão. Para as mentes clássicas. não os indivíduos. James cria. que é uma variante ou elaboração de The Time Machine. que avança ou recua no tempo como os outros veículos no espaço. A causa é posterior ao efeito. desconhecia o texto de Coleridge. os subterrâneos e nictalopes morlocks. pois intui algo de incomum e anômalo nessas feições futuras. um incomparável regressos in infinitum. The Sense of the Past. Mais inacreditável que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura.2 tais fatos são irrelevantes. páginas e sentenças alheias. ao morrer.

impessoal. de Maquiavel. foi Whitman. que. outro pegador dos limites do sujeito. Durante muitos anos. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal. Uma última observação. Um sentido ecumênico. foi Rafael Caninos-Asséns. empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames favoráveis ou adversos que dele mereciam seus contemporâneos. foi o insigne Ben Johnson. Esse homem foi Carlyle.. Outra testemunha da unidade profunda do Verbo.embora superficialmente opostas. fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastarse da razão e da ortodoxia. foi Johannes Becher. de Justo Lipsio.. de Quintiliano. eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. foi De Quincey. O SONHO DE COLERIDGE . de Bacon e dos dois Escalígeros. fazem-no por confundir esse escritor com a literatura. podem evidenciar um mesmo sentido da arte. limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca. de Erasmo. de Vives.

o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor. Caedmon respondeu que não sabia. um poema de cerca de trezentos versos. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música são vãos e por vezes prejudiciais. o sonhador. em um dos dias do verão de 1797. que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de não discutido esplendor. o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar. salvo umas oito ou dez linhas soltas. embora extraordinário. que. recordar o restante. de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum. No sonho de Coleridge. uma noite. Caedmon era um rústico pastor e já não era jovem. passadas algumas horas. depois. No estudo psicológico The World of Dreams. acordou. . ao despertar. uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. não é único. ai de mim." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-los poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. sem a ulterior restauração delas. por ora. basta-nos reter. O caso ocorreu em fins do século VII. o Venerável. em 1884. e no sonho alguém o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. isto é. na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões. esgueirou-se de uma festa por prever que lhe passariam a harpa. e ele sabia-se incapaz de cantar. tudo o mais. O caso. o de Jekyll & Hide. com não pequena surpresa e mortificação – conta Coleridge –. formas gerais. tinha desaparecido como as imagens na superfície de um rio onde se atira uma pedra. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho. mais afim com a inspiração verbal de Coleridge é a que Beda. de palavras que as manifestavam. o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata. Recolheu-se ao estábulo. mas. 24). com a certeza de ter composto. Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini. a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro. ou recebido. mas o outro disse: "Canta o princípio das coisas criadas". "Descobri. IV. simplesmente. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo. embora retivesse de modo vago a forma geral da visão. para dormir entre os cavalos. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson.O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares. Stevenson recebeu do sonho argumentos. foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan.

fragmentariamente. sonha um palácio e o edifica conforme a visão. mas Coleridge já era um poeta. um poeta inglês. Anos mais tarde. ressurreições e aparições dos livros piedosos. de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memória". nada ou muito pouco são. porque não aprendeu dos homens. de Rachid ed-Din. que magnífica até o insondável a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. e a vinda do Espírito Santo e o ensinamento dos apóstolos. recitou versos que jamais ouvira. incluir-me nesse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase não apresentam outra virtude exceto sua origem onírica. entretanto. sempre. então. Não os esqueceu. mas os monges explicavam-lhe passagens da história sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcíssimos versos. Foi o primeiro poeta sacro da nação inglesa. lê-se: "A leste de Chan-tong. Em uma página. que data do século XIV. Não aprendeu a ler. ao despertar. Kubla Khan erigiu um palácio. no século XVIII. um fato ulterior. e muitas outras coisas da Escritura. o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816. que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos. a meu ver. que não tinha como saber que essa construção se derivara de um sonho. e sim de Deus". as doçuras do céu e as mercês e os juízos de Deus". Esperemos que tenha reencontrado seu anjo. Há. como as formas de leões ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud. e a encarnação. o horror dos castigos infernais. e pôde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica. e assim cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e do êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida. Se esse fato for verdadeiro. as levitações. enquanto a Caedmon foi revelada uma vocação. Que explicação preferiremos? Aqueles que de antemão rejeitam o sobrenatural (eu procuro. e também o terror do Juízo Final.Caedmon. um desenho traçado pelo acaso. ressurreição e ascensão do Senhor. "ninguém igualou-se a ele – diz Beda –. À primeira vista. o Compêndio de Histórias. a história do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos séculos e ainda não chegou a seu fim. previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. que descendia de Kubla. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o . no século XIII. sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. apareceu em Paris. sonha um poema sobre o palácio. paixão. Um imperador mongol. Vinte anos depois. Confrontadas com essa simetria.

ainda pôde escrever: "O extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais que uma curiosidade psicológica". o sonho de Kubla. antes de 1816. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais. talvez. que se deu cinco séculos mais tarde. esteja ingressando paulatinamente no mundo. constatou que do palácio de Kubilai Khan só restavam ruínas. 358. é cabível supor que. Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao fim. a visão do palácio. Quem sabe um arquétipo ainda não revelado aos homens. o primeiro biógrafo de Coleridge. mais duradouras que mármores e metais. julgado por leitores de gosto clássico. Traill.palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção. não menos atrevido que inútil. Talvez a série de sonhos não tenha fim. a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras. ao segundo. o segundo. mas é lícito suspeitar que ele não teve êxito. capaz. destruído o palácio. na noite. arbitrariamente. talvez a chave esteja no último. 2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu. um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead). Já escrita a explicação acima. entrevejo ou creio entrever outra. O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade. Se o esquema não falhar. alguém. sua primeira manifestação foi o palácio. que não soube do sonho do anterior. p. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria. W. também. Por exemplo. sonhará o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dará a forma de um mármore ou de uma música.2 Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. 585. Em 1884. o padre Gerbillon. O TEMPO E J. e ele o construiu. . a segunda. de paliar ou justificar o que nele há de truncado e rapsódico. um poema (ou princípio de poema) sugerido pelo palácio. o poema sobre o palácio. o poema. 1927. mas obriga-nos a postular. da Companhia de Jesus. um texto não identificado pelos sinólogos em que Coleridge pudesse ter lido. Ao primeiro sonhador foi oferecida. Em 1691. DUNNE 1 No início do século XIX ou final do XVIII. do poema consta-nos que foram resgatados não mais que cinqüenta versos. a semelhança dos sonhos deixa entrever um plano. em uma noite a séculos de nós. o período enorme revela um executor sobre-humano. Kubla Khan era muito mais ousado que hoje.1 Essa conjetura é verossímil.

No número 63 da revista Sur (dezembro de 1939). anoto alguns prévios avatares das premissas. O sétimo dos muitos sistemas filosóficos da índia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento. Exornado de histórias. "não é conhecido como tal. capítulo 19). preferem o exame das idéias ao dos nomes e datas dos filósofos). como bom herdeiro dos nominalistas britânicos. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. p. da regressão infinita. mas consta-nos que essa negação radical da introspecção tem cerca de oito séculos. se nossa alma fosse conhecível. que em toda sensação distinguem "um sujeito sensível. Os hindus não têm sentido histórico (isto é: perversamente. Schopenhauer a redescobre. de parábolas. Seu mecanismo nada tem de novo. Este (An Experiment with Time. esse é o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam. Não sem mistério. Faber & Faber) –. Antes de comentá-las. portanto. tomo 2. "pois. sustenta que há apenas uma diferença verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafísicos puros. uma primeira história rudimentar. são as inferências do autor. Por volta de 1843. pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que também se conhece a si mesmo. para ser mais exato. 367). "O sujeito conhecedor". W. Antes dos vinte anos. publiquei uma préhistória. Huxley. mas de um sujeito A que observa e. Antes de esclarecer esse esclarecimento. e sim nas não menos inumeráveis dimensões do tempo.. Herbart também jogou com essa multiplicação ontológica. portanto. 318. Alenta-me a escrevê-lo o exame do último livro de Dunne – Nothing Dies (1940. . o que é quase escandaloso. que extraiu do interminável regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. O argumento único.. Dunne. pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung. e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie. Nem todas as omissões desse esboço eram involuntárias: excluí deliberadamente a menção a J. já deduzira que o eu é inevitavelmente infinito. que repete ou resume os argumentos dos três anteriores. de outro sujeito B que é consciente de A e. p. de outro sujeito C consciente de B. insólito. capítulo XXII) raciocina que um sujeito consciente não só é consciente daquilo que observa. convido meu leitor para repensarmos o que diz este parágrafo. seria necessária uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda". repete ele. acrescenta que esses inumeráveis sujeitos íntimos não cabem nas três dimensões do espaço. de boas ironias e de diagramas. um objeto sensígeno e esse personagem imperioso: o Eu" 1 Nachvedische Philosophie der Inder. 1920. A discussão (a mera exposição) de sua tese teria excedido os limites dessa nota.

capítulo 1). O procedimento criado por Dunne para a obtenção imediata de um número infinito de tempos é menos convincente e mais engenhoso. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho. rápida ou lentamente. 1902) admite que a consciência da dor e a dor são dois fatos distintos. Nenhum dos quatro livros de 2 Neste poema do século XV há uma visão de "três mui grandes rodas": a primeira. teremos. comete um erro semelhante ao dos distraídos poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco. e assim até o infinito" (Nouveaux Essais sor l’Entendement Humain.2 como Uspenski no Tertium Organum. com suas vicissitudes e pormenores. a terceira. livro 2.. giratória. esse fluir. 3 Meio século antes de ser proposta por Dunne. um tempo determinado. ou os rios mortais de nossas vidas. Quanto à consciência da consciência. imóvel. que não é outro senão o próprio sujeito.(Essays. "Se o espírito – disse Leibniz – tivesse de repensar o pensado. Sua opinião parece-me válida. ligeiramente mascarado. como todos os movimentos. Gustav Spiller (The Mind of Man. tomo 6. prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginários) do sujeito inicial. e não dois. bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento. em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. e assim até o infinito. a segunda.. invocada por Dunne para instalar em cada indivíduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos. um terceiro para o traslado do segundo. imóvel. Dunne. 87). um verbo e um complemento. Postula que o futuro já existe e que devemos trasladar-nos a ele. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente. o futuro. mas esse postulado basta para transformá-lo em espaço e para requerer um tempo segundo (que também é concebido sob forma espacial. portanto. Essa translação. substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito. Dunne é uma vítima ilustre desse mau hábito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimensão do espaço. sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionésimo. suspeito. um tempo segundo para o traslado do primeiro.. p. fora descoberta e recusada por Schopenhauer. mas considera-os tão compreensíveis quanto a simultânea percepção de uma voz e de um rosto. . o primeiro". ele postula que o futuro já existe. Nesses tempos hipotéticos ou ilusórios têm interminável morada os sujeitos imperceptíveis que o outro regressus multiplica. exige. ‘Não sei qual será a opinião de meu leitor. o presente. mas intuo que o curso do tempo e o tempo são um único mistério. como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo cósmico. Não pretendo saber que coisa é o tempo (nem mesmo se é uma "coisa"). Consta na página 829 do segundo volume da edição históricocrítica de Otto Weiss.. "a absurda conjetura de um segundo tempo.3 Assim é a máquina proposta por Dunne. no qual flui. é o passado.

sonhar. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge. Que razões haveria para postular que o futuro já existe? Dunne fornece duas: uma. No capítulo XXI do livro An Experiment with Time. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e com eles urdir uma história. Na vigília percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme. o autor fala de um tempo que é perpendicular a outro. Diante de uma tese tão esplêndida. é o inatingível último termo de uma série infinita.4 mas essas dimensões são espaciais. Deus. . confluem o passado imediato e o imediato porvir.Dunne deixa de propor infinitas dimensões do tempo. para Dunne. a relativa simplicidade que essa hipótese outorga aos inextricáveis diagramas típicos de seu estilo. folheá-las. qualquer falácia cometida pelo autor resulta insignificante. GOSSE 4 A frase é reveladora. e Shakespeare colaborarão conosco.. Dunne. surpreendentemente. No homem que amanhã conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem à noite. os sonhos premonitórios. Nestes. A CRIAÇÃO E P H. e nossos amigos.. supõe que a eternidade já nos pertence e que isso é corroborado pelos sonhos de cada noite.. (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem é viver. segundo ele. Ele também quer evitar os problemas de uma criação contínua.. Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. O tempo verdadeiro. no sonho abarcamos uma área que pode ser vastíssima. outra.) Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade. ou uma série de histórias. Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos.

Pitágoras! – que a repetição de qualquer estado comportaria a repetição de todos os outros e faria da história universal uma série cíclica. que é Jesus. She had no navel". and find both Adams met in me. pressupõe certa enigmática paridade. Nietzsche! oh. passada e vindoura. 1857). Em vão vasculhei as bibliotecas em busca desse livro. Sir Thomas Browne (Religio Medici. ao derradeiro Adão. my God. recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son. O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal. traduzida em mitos e em simetria. Essa insensata precisão certamente influenciou a cosmogonia de Gosse. composto por John Donne: We think that Paradise and Calvary. 1 Coríntios 15) contrapõem o primeiro homem. curiosamente. 1642). da qual Alguém poderia deduzir todo o porvir e todo o passado –. cujo subtítulo é Tentativa de Desatar o Nó Geológico. . oitenta anos de esquecimento talvez equivalham à novidade.163O. para denotar que foi concebido em pecado. que Adão foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e três anos. May the last Adam’s blood my soul embrace. and Adam’s tree. No primeiro capítulo do Ulisses. No capítulo de sua Lógica que trata da lei da causalidade. Introduzo exemplos ilustrativos que não constam nessas breves páginas. redutível a uma fórmula. os teólogos. A Lenda Áurea diz que o lenho da Cruz provém daquela Árvore proibida que está no Paraíso.1 Essa contraposição. John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante é conseqüência de seu estado no instante precedente e que a uma inteligência infinita bastaria o conhecimento perfeito de um único instante para saber a história do universo.) Nessa moderada versão de certa fantasia de Laplace – a de que o estado presente do universo é. Louis Auguste Blanqui! oh. Essa vinculação é de 1857. (Também deduz – oh. Adão. 1940). Look Lord. para ser mais que uma simples blasfêmia. escreve. in my sickness". para redigir esta nota. Wells (All Aboard for Ararat."The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim). em teoria. mas o zoólogo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafísica: o problema do tempo. March 23. Christ’s Cross. As the first Adam’s sweat surrounds. stood in one place. Duas passagens da Escritura (Romanos 5. Este a divulgou no livro Omphalos (Londres. 1907) e de H. my face. Joyce também evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem mãe: "Heva. naked Eve. mas que julgo compatíveis com o pensamento de Gosse. G. essa conjunção é comum. aquele em que morrem todos os homens. 1 Na poesia devota. por descender de Adão. Mill não descarta a possibilidade de uma futura intervenção externa capaz de interromper a série. Talvez o exemplo mais intenso esteja na penúltima estrofe de "Hymn to God.

Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse. o estado n pressupõe o estado c. Spencer: Facts and Comments. fortalecido pela prece. p. mas também um infinito passado. como dita Santo Agostinho. mas admite que. infinito. e assim até o infinito. 1902. mas minucioso e fatal. que regressivamente se multiplicam. embora nenhum cordão umbilical o ligue a uma mãe. Gosse. Mill imagina um tempo causal. Em 1857. um tempo rigorosamente causal.Afirma que o estado q fatalmente produzirá o estado r. mas esse primeiro instante comporta não só um infinito porvir. O Gênesis atribuía seis dias – seis dias hebreus inequívocos. Um passado hipotético. já que as ciências constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano. No vale de Luján perduram esqueletos de gliptodonte. claro. o estado s. preciso.2 todas deixam vestígios concretos. e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e três anos. Deus espreita nos intervalos. mas só as posteriores à Criação existiram realmente. essas causas requerem outras causas. porque o mundo foi criado em f ou em h. Em vão repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigação de não instruir os homens em ciência alguma. o s. De nada adiantou Gosse expor a base metafísica da tese: quão inconcebível é um instante de tempo sem outro instante precedente e outro ulterior. acima de tudo. uma discrepância preocupava os homens. surge Adão (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo. Essa é a tese engenhosa (e. mas antes de v pode ocorrer o Juízo Universal. 148-51. mas uma série de séculos já a precedera".. digamos – pode aniquilar o planeta. infinito. o estado r. O princípio da razão exige que nenhum efeito careça de causa. A primeira: sua elegância um tanto monstruosa. Não sei se ele conheceu a antiga sentença que consta das páginas iniciais da antologia talmúdica de Rafael Caninos-Asséns: "Não era senão a primeira noite. Surge Adão. mas c não ocorreu. os paleontólogos impiedosamente exigiam enormes acumulações de tempo.. O estado n fatalmente produzirá o estado v. Como conciliar Deus com os fósseis. Sir Charles Lyell com Moisés? Gosse. mas pode não ocorrer. de ocaso a ocaso – à criação divina do mundo. o t. Os jornalistas reduziram-na à doutrina de que Deus teria escondido fósseis sob a terra para pôr à prova a fé dos geólogos. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação. uma catástrofe divina – a consummatio mundi. inacreditável) que Philip Henry Gosse propôs à religião e à ciência. mas jamais houve gliptodontes. que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus. A segunda: sua involuntária 2 Cf. Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma supérflua e vasta mentira". O futuro é inevitável. já interrompido por um ato pretérito: a Criação. antes de t. propôs uma solução assombrosa. . As duas a rejeitaram.

provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusório. 5) formulou. 1921).. la nature dans son innocence eût été moins belle qu’elle ne 1"est aujourd’hui dans sa corruption". como pensaram o Vedanta e Heráclito. OS ALARMES DO DOUTOR AMÉRICO CASTRO1 1 La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico (Losada. Em 1802. Spinoza e os atomistas. teria sido um primeiro dia da Criação povoado de filhotes. sua demonstração indireta de que o universo é eterno. Chateaubriand (Génie du Christianisme. e irrisório. 1941. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire. Buenos Aires. Revelou quão insípido. 1941). Buenos Aires. larvas. 4. Bertrand Russell atualizou-a. I. uma tese idêntica à de Gosse. crias e sementes. Post-Scriptum.redução ao absurdo de uma creatio ex Nihilo.. No capítulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres. supõe que o planeta foi criado há poucos minutos. partindo de razões estéticas. .

para não pôr em dúvida sua inteligência. o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofístico. de Last Reason. Não suspeita que tais exercícios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te venís pal Centro / de grau bacán”)2 são caricaturais. a expoliação. ao contrário. declara-os "sintomas de grave alteração". livro oitavo) não se contenta em observar que os dragões atacam os elefantes durante o verão: arrisca a hipótese de que o fazem para beber todo seu sangue. O doutor Castro (La Peculiaridad Lingüística. Com idêntica eficácia caberia argumentar que em Madri já não restam vestígios do espanhol. o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. da T. o fuzilamento. a degola. de Lima.. de Enrique González Tuñón. de Llanderas e de Malfatti. Plínio (História Natural. Falar em problema judeu é postular que os judeus são um problema. é muito frio. Acumula retalhos de Pacheco. 1896): El minche de esa rumi dicen no tenela bales. de cândido. los tenela muy juncales. El chibel barba del breje menjindé a los burós: apincharé ararajay y menda la pirabó.. etc. transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem. Para demonstrar a primeira tese – a corrupção do idioma espanhol no Prata –. Outro demérito dos falsos problemas é o de promoverem soluções também falsas. de Contursi. inversão proposital das sílabas): "Com um pingado / e um pão doce / você vem para a cidade / bancando o grã-fino".) não se contenta em observar uma "confusão lingüística em Buenos Aires": arrisca a hipótese do "lunfardismo" e da "mística gauchofilia". que. para não duvidar de sua probidade. cuja causa remota são "as conhecidas circunstâncias que fizeram dos países platinos zonas aonde a pulsação do império hispânico chegava já sem brio".A palavra problema pode ser uma insidiosa petição de princípio. sendo o primeiro em vesre (de al revés.) . los he dicaito yo. (N.3 2 2 Tradução literal dos versos. é vaticinar (e recomendar) as perseguições. de Vacarezza. como ninguém ignora. como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Español: Su Lenguaje. de Palermo.

Desnecessário advertir que ninguém diz minushia [mulher]. / ela os tem muito vistosos. talvez por ter sido citado por Arturo Costa Álvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata. Com exceção do lunfardo (modesto esboço carcerário que ninguém sequer sonha em comparar ao exuberante caló dos espanhóis). (Falam. Não menos falsos são "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires".. espirajushiar [fugir]. esqueceram esta ou aquela acepção desta ou daquela palavra. Castro ignora esse léxico. Essas corporações vivem de reprovar os sucessivos jargões que inventam. Viajei pela Catalunha. baseados nos alunos da terceira série. baseados em um palhaço que trabalhou com os Podestá. o cocoliche. na 87. (N. (N. / eu mesmo os vi.. jamais observei que os espanhóis falassem melhor que nós. em voz mais alta. guardo gratíssimas lembranças desses lugares. sim.Diante de sua poderosa treva. / / No melhor dia do ano / peguei o touro à unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela". da T. después espirajushió por temor a la canushia.. embora padeçamos. que só podem ser inteiramente compreendidos por quem está familiarizado com as gírias rio-platenses". o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da língua em Buenos Aires. não há gírias neste país.4 Na página 139. 1915). Não padecemos de dialetos. jacta-se de ter decifrado um diálogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais bárbaros de expressão. As gírias: ce pluriel est bien singulier.) O doutor Castro imputa-nos arcaísmo. sim. Em tais detritos se apóiam. com o aprumo de quem ignora a dúvida.) 4 Consta do vocabulário giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires. pela Andaluzia.. Improvisaram o gauchesco. imediatamente resolve que os argentinos também devem esquecê-la. canushia [polícia].)] . Seu método é curioso: descobre que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga. da T. é quase límpida esta pobre copla em lunfardo: El bacán le acanaló el escracho a la minushia. morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri. [Tradução literal dos versos em lunfardo: "O grã-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polícia". de institutos dialetológicos. por Castela. em Orense. baseados em Hernández. por Alicante. o vesre. 1928). tais riquezas lhes devemos e deveremos. É fato que o idioma espanhol padece 3 Tradução literal dos versos em caló (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem que não tem pêlos.

o doutor Castro. acham que um livro pode suportar este cacofônico título: La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico). dizem le mató em vez de lo mató. nega os tangos e refere-se às xácaras com respeito. encurrala o rebanho disperso" (p.. por preferir os idiotismos espanhóis. mais versátil no erro. visivelmente. 52). 49). condensação da energia sem rumo da massa. "A alfândega seca. O doutor Castro. Groussac preferiu a definição: "miliciano de retaguarda".. mas não da imperfeição que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade. 72). pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas. costumam ser incapazes de pronunciar Atlántico ou Madrid. ingente aparelho ortopédico que mecanicamente. se o destino não torcer o rumo dos sinais propícios. impunha preços fabulosos" (p. bestialmente. não é mais lógica nem mais encantadora. Às vezes o estilo é comercial: "As bibliotecas do México possuíam livros de alta qualidade" (p. do basco e do valenciano. excessivo relevo das palavras. talvez por um erro da vaidade. o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. atitude intensamente receptiva que não demorará a converter-se em força criadora. (Com melhor estilo e juízo mais lúcido. conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense são valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforço. a contínua trivialidade do pensamento não exclui o pitoresco dislate: "Surge então a única coisa possível. é pródigo em superstições convencionais. Condena os idiotismos americanos.. mas aceita a tomadura de pelo. Às vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramática de A. Nesse livro. 31). por zombaria. Despreza López e venera Ricardo Rojas.) Proscreve – entendo que com toda a razão – a palavra cachada. e sim corpulência esmagadora. quer que digamos de gorra. Henríquez Ureña" (p. do galego. Esse examinador do "fato lingüístico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrídio. a forma não contradiz o conteúdo. que. Alonso e P. inépcia para formar palavras compostas). do maiorquino.. Não quer que digamos de arriba. um homem ao estilo de Ramírez ou Artigas. Os compadritos de Last Reason emitem metáforas hípicas.de várias imperfeições (monótono predomínio das vogais. Só os espanhóis julgam-no árduo: talvez porque os perturbem as atrações do catalão. em cada página desse livro. 9). e ridiculamente chamao "centauro máximo". Por vezes. que ele não canaliza porque não é guia. A poesia. esse inexplicável leitor de Carlos de la Púa e de Yacaré revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano. talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo. do bable. 71. A ciência e o pensamento filosófico têm nomes de extrema distinção entre seus cultivadores" (p. o tirano. O espanhol é facílimo. .

Mas ponha sua esperança No Deus que tudo assinou. Por ser verdade contei Todas as desgraças ditas: É um tear de desditas Todo gaúcho de lei. é algo que dá o que pensar". em campo aberto. E seguindo o fiel do rumo. A fronteira atravessaram.S. Del Campo ou Hernández. Saber deles algo certo. Eu não sei se. E pelo rosto do amigo Duas lágrimas rolaram. Adentraram no deserto. Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios. – Leio na página 136: "Tentar escrever como Ascasubi. da prosa rimada e do terrorismo. P. Males que conhecem todos Mas qu’inda ninguém contou. sem serem ouvidos.À errônea e mínima erudição o doutor Castro acrescenta o incansável exercício da adulação. Eu me despeço e já vou Que aqui cantei a meu modo. E já com estas notícias Minha canção terminei. algum dia. À frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo. Tombaram nas correrias Mas espero. a sério. . sem ironia. E depois de ter passado Numa madrugada clara. Transcrevo aqui as últimas estrofes do Martín Fierro: Cruz e Fierro numa estância Uma tropilha apanharam.

não me julgo totalmente incapacitado para falar de estilística. apesar da inclusão de meu nome nesse catálogo. NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO ."A sério. o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto. eu pergunto: Quem é mais dialetal? O cantor das límpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopédicos que encurralam rebanhos. sem ironia". dos gêneros literários que jogam football e das gramáticas torpedeadas? Na página 122.

As ilusões do patriotismo não têm fim. No primeiro século de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hábito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão são, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, é o compreensível ou inocente propósito de fomentar os melhores traços argentinos. Ignoram, porém, os argentinos; na polêmica, preferem defini-los em função de algum fato exterior; dos conquistadores espanhóis (digamos), ou de uma imaginária tradição católica, ou do "imperialismo saxão". O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração,1 a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel "O Estado é a realidade da idéia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse "herói" é um incompreensível canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranqüilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro. O mundo, para o europeu, é um cosmos em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que há de ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de não ser ruim, apesar do prêmio. Em geral, o argentino descrê das circunstâncias. Pode ignorar a fábula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos – os Lamed Wufniks – que não se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o
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O Estado é impessoal: o argentino só concebe relações pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime. Apenas constato um fato; não o justifico nem desculpo.

universo; quando a ouvir, não estranhará que esses beneméritos sejam obscuros e anônimos... Seu herói popular é o homem só que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potência ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas não registram fatos análogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada há em comum entre os dois, mas o tema do primeiro é a vindicação da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pook’s Hill); o do segundo, a insuportável e trágica solidão de quem carece de um lugar, por humilíssimo que seja, na ordem do universo. Dirão que os traços que assinalei são meramente negativos ou anárquicos; acrescentarão que não comportam explicação política. Ouso sugerir o contrário. O mais urgente dos problemas de nossa época (já denunciado com profética lucidez pelo quase esquecido Spencer) é a gradual intromissão do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, há de encontrar justificativa e deveres. Sem esperança e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mínimo de governo. O nacionalismo pretende embair-nos com a visão de um Estado infinitamente incômodo; essa utopia, uma vez alcançada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construíssem, sua antítese. Buenos Aires, 1946.

QUEVEDO

Assim como a outra, a história da literatura é pródiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glória parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele não consta. Muito tentei inquirir as razões dessa extravagante omissão; certa vez, em uma conferência esquecida, julguei encontrá-las no fato de suas duras páginas não fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo é ter êxito", observou George Moore.) Para alcançar a glória, eu dizia, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra ou alguma circunstância biográfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hipérboles cuja repetição faz a glória... Ignoro se essa explicação é correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo não é inferior a ninguém, mas não encontrou um símbolo que se apoderasse da imaginação das pessoas. Homero tem Príamo, que beija as homicidas mãos de Aquiles; Sófocles tem um rei que decifra enigmas e que os oráculos levam a decifrar o horror de seu próprio destino; Lucrécio tem o infinito abismo estelar e a discórdia dos átomos; Dante, os nove círculos infernais e a Rosa paradisíaca; Shakespeare, seus mundos de violência e de música; Cervantes, o venturoso vaivém de Sancho e Quixote; Swift, sua república de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominação e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e sórdidos labirintos. Não há escritor de fama universal que não tenha cunhado um símbolo; este, convém lembrar, nem sempre é objetivo e externo. Góngora ou Mallarmé, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrário, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um protótipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesuítico, 1904, p. 59). Lamb disse que Edmund Spencer era the poets’ poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que é o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo é preciso ser (em ato ou em potência) um homem de letras; inversamente, ninguém que tenha vocação literária pode não gostar de Quevedo. A grandeza de Quevedo é verbal. Julgá-lo um filósofo, um teólogo ou (como pretende Aureliano Fernández Guerra) um homem de Estado é um erro que podem permitir os títulos de suas obras, não o conteúdo. Seu tratado Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidação ao argumento. Como Cícero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente

in fine).. que exercem obscuro encanto sobre a imaginação dos homens: a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. Nesse tratado. "um completo sistema de governo. Fiel a esse cabalístico pressuposto. do episódio dos pães e dos peixes. é invulnerável a esse encanto. Quevedo moteja de infames. p. e não os ministros o rei".república de luzes". e à vista do mar. O espanhol. moça. Entretanto. A Política de Dios. Protágoras de Abdera. discípulos de Demócrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu). e Bião de Boristenas. Análoga discrepância percebe-se no Marco Bruto. Empédocles de Agrigento afirmou: "Já fui criança. . provavelmente falsas. Na história da filosofia há doutrinas. O assombro vacila entre a arbitrariedade do método e a trivialidade das conclusões. a doutrina gnóstica de que o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar. mudou-se em tão contrária e oposta natureza que morreu borboleta do Etna. Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empédocles. ao 1 Reyes certeiramente observa (Capítulos de Literatura Española. loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutón. embora as cláusulas o sejam. basta-nos lembrar que os quarenta e sete capítulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que não seja a curiosa hipótese de que os atos e palavras de Cristo (que foi. ou são obras de declamação acadêmica. Sua Política de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Señor deve ser considerada. precipitou-se no fogo". homem tão insensato que. agora. expedida essa variante estelar do argumento cosmológico. nobre e conveniente". 1939. Quevedo tudo salva. apesar de sua ambiciosa aparência. que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves. apenas estudioso da verdade. nenhum valor além do retórico.1 O leitor distraído pode julgar-se edificado por essa obra. em suas páginas lapidares. que os reis devem remediar as necessidades. pássaro e mudo peixe que surge do mar".133): "As obras políticas de Quevedo não propõem uma nova interpretação dos valores políticos nem têm. não passa de um arrazoado contra os maus ministros. ou quase. como se sabe. Rex Judaeorum) são símbolos secretos a cuja luz o político deve resolver seus problemas. que "o rei deve conduzir os ministros. Mas entre essas páginas podem encontrar-se alguns dos traços mais característicos de Quevedo". o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeição. o que não passa de terrorismo. discípulo do imundo e desatinado Teodoro". o mais atinado. malditos... e são: Diágoras de Mileto. Quevedo depreende. Os gnósticos. Escreve que a transmigração das almas é uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta". do episódio da samaritana. Ou são panfletos circunstanciais. parece regressar ao árduo latim de Sêneca. acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus. de Tácito e de Lucano. com a dignidade da linguagem. onde o pensamento não é memorável. do qual fora povo. touceira. Quevedo. Para estimar o valor dessa sentença. afirmando ter sido peixe. e. segundo Aureliano Fernández Guerra.. exporei à vergonha os que pouca tiveram. da repetição da fórmula sequebantur.

em mais de uma ocasião. sua prosa. divinamente destinado a salvar do esquecimento as locuções zurriburi. Watts. essencialmente. 91) – não é um fato cientifico. preferiram ver nessa redução ao absurdo um museu de primores. Quítame allá esas pajas (en un): num átimo. Trochi-moche(a). limita-se a observar uma tradição literária. ou a troche y moche: às tontas. ou a barrisco: conjuntamente e sem distinção. abarrisco. "A linguagem – observou Chesterton (G. as ervas. passo a discutir sua poesia. faz uma obra de polêmica religiosa. para ele a linguagem foi. ainda que brevemente. não as permitiram à pretensão. Cochite y hervite: 1. 2. Examinada.) .. homem de apetites veementes. e sim ao mérito". de que a metáfora é o contato momentâneo de duas imagens. muitas gerações. canalha. As trivialidades ou eternidades da poesia – águas equiparadas a cristais. Também execrou os idiotismos. e sim artístico. o estilo desmesurado e orgiástico (mas não ilógico) de La Hora de Todos. sujeito desprezível. ser julgados de perfeitos. p. a Luciano de Samósata. mãos equiparadas a neve. olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos – incomodavam-no por serem fáceis. da T. a repetição de palavras dão a esse texto uma precisão ilusória. os poemas eróticos de Quevedo são insatisfatórios. considerados jogos de hipérboles.2 Quevedo foi equiparado. 2. este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem. Há uma diferença fundamental: Luciano. a oposição de termos. O ostentoso laconismo. feito rápida e atabalhoadamente. para que não descaíssem de prerrogativas de tesouro os ramos. e. 1904. também deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carícias e nestas não se fia"). não menos múltipla. ao censurá-las. combatendo as divindades olímpicas no século II. Abarrisco. o quase algébrico rigor. Esqueceu-se. Com o propósito de "expô-los à vergonha". pessoa precipitada. confusão. quítame allá esas pajas e a trochi-moche. F. cochite hervite. a aridez. sem eira nem beira. deliberados exercícios de petrarquismo. fascinadas. recompensaram vidas quase divinas com estátuas. Outros estilos freqüentou Quevedo com não menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscón. (N. pagaram grandes e soberanas vitórias com as aclamações de um triunfo. ou exigem." Quevedo nunca a entendeu assim. Verbi gratia. nunca deixou de aspirar ao ascetismo estóico. costumam ser admiráveis. ao repetir esse ataque no século XVI de nossa era. o hipérbato. foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência. mas muito mais por serem falsas. um instrumento lógico.atormentado e duro latim da idade de prata.. esses motivos bastam para explicar o 2 Zurriburi: 1. Muitos períodos merecem. Considerados documentos de uma paixão. Quevedo. Quevedo. não a metódica assimilação de duas coisas. urdiu com eles a rapsódia intitulada Cuento de Cuentos. o mármore e as vozes.

naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia.artificialismo voluntário daquela Musa IV de seu Parnaso. não por causa deles. porque a realidade não é verbal. no mais ilustre soneto desse volume – "Memoria inmortal de don Pedro Girón. livros juntos. Eu vivo dialogando co’os defuntos E os mortos com os olhos ouço ao perto. Das injúrias dos anos. As grandes almas que a morte ausenta. Se nem sempre entendidos. H. de sua Torre de Juan Abad. cujo sentido não é enigmático. bom dom Joseph. o . e sim corriqueiro. Com poucos. Nem sempre ocorre o mesmo. a esplêndida eficácia do dístico Sua Tumba são de Flandres as Campanhas e seu Epitáfio a sangrenta Lua é anterior a toda interpretação e não depende dela. Emendam e secundam meus assuntos. vingadora. Em músicos. a Dom José de Salas (Musa. mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece animá-las. Livra. porém doutos. que "canta façanhas de amor e formosura". Que na lição e estudo nos melhora. Não direi que se trata de uma transcrição da realidade. Por exemplo. neste soneto que ele enviou. orar despertos ao sonho da vida). O acento pessoal de Quevedo está em outros poemas. calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos. a douta Imprensa. sua coragem ou seu desengano. Não faltam traços cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos. sempre abertos. Em fuga irrevogável corre a hora. mas o soneto é eficaz a despeito deles. muerto en la prisión" –. 109): Recolhido na paz destes desertos. E aquela o melhor cálculo assenta. Digo o mesmo da seguinte expressão: o pranto militar. duque de Osuna.

Assim. Que não merecem ver do céu luzeiros. a memorável linha (Musa. Confundindo lamentos e latidos. e de repente. E luz rumina em campos celestiais. variantes de Pérsio. De Jove foi disfarce. IX) 5 À dura lide um animal nascido E símbolo zeloso dos mortais. Desertos montes como cãs cendrados.5 urbanidades e doçuras da Itália ("humilde solidão verde e sonora"). Quanto à sangrenta Lua. de Juvenal. 1. O solo sob os pés gemeu inteiro. 19): Ut meus oblito pulvis amore vacet. de Joachim de 3 4 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu. que de algum modo prefiguram Wordsworth. eclipsado por não sei que piratarias de Dom Pedro Téllez Girón. 31): Serão pó. Ao ver a nova luz divina e pura. Compreende pensativos sonetos. II) . para provar que ele também era capaz de jogar esse jogo. porém pó apaixonado é uma recriação. Que um tempo empederniu as mãos reais. opacas e rangentes severidades. de Sêneca. gongorismos intercalados.) Tremeram fundamente umbrais e portas Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura. Não poucas vezes. o ponto de partida de Quevedo é um texto clássico. Fundos suspiros deu a negra gente.pranto dos militares. é melhor ignorar que se trata do símbolo dos turcos. que em reinos vãos e baldos Perturbam o silêncio e os ouvidos. (Musa. (Musa. O Cérbero calou-se. (Elegias. e foi vestido. ou exaltação.4 bruscas magias de teólogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"). E em nossa palidez cegam os prados." (N. IV. de uma de Propércio. das Escrituras. Co"as três gargantas ao latido prontas. da T.3 Grande é o âmbito da obra poética de Quevedo. E por trás dele os cônsules gemeram. Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos cães.

senhor de tudo e tantos louros. VI) . Crês que em Palácio a Jove porfiar podes. Para quem sabe examinar-te. Pois a seu modo Estrelas mente o ouro. de Yeats e de George.Bellay. o lodo.7 lúgubres pompas da aniquilação e do caos. troças. Não são obscuros. Padeces um magnífico delírio. Derramando pelos ombros O balanço de suas lêndeas. Ou todo em ouro rígido e palente. o nojo. (Musa. áspide em lírio. por exemplo: "Farta já a Toga do veneno tírio". ou distrair. evitam o erro de perturbar.6 escárnios de curioso artifício. Mas não descansa. São (para dizê-lo de algum modo) objetos verbais. E tu. teu martírio. brevidades latinas. Ali onde vives. Farta já a Toga do veneno tírio. Este. Víbora em rosicler. V) 7 Este Dom Fábio cantava Para gradis e sacadas De Aminta. oh Liças!. és podre E pura vilania. (Musa. Cobre-te em tesouros d’Oriente. ao contrário de outros de Mallarmé. 6 A Méndez chegou berrando De azeites bem suarenta. Quando a felicidade delinqüente O horror obscuro em esplendor te mente. que de esquecê-lo Disseram que não se lembra. Os melhores poemas de Quevedo existem para além da moção que os gerou e das comuns idéias que os animam. sem saber que morres. com enigmas. puros e independentes como uma espada ou um anel de prata.

Francisco de Quevedo é menos um homem que uma vasta e complexa literatura.Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo. mas ele continua sendo o primeiro artífice das letras hispânicas. Como Joyce. como nenhum outro escritor. como Shakespeare. como Dante. como Goethe. .

porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuição. mas nem aquele século nem aquela Espanha eram para ele poéticos. Intimamente. assombrosamente. como já anotei. devia nela figurar. o barbeiro é amigo do autor e não o admira muito. porém. a Eneida. este. o mundo do leitor e o mundo do livro. seriam para ele incompreensíveis.MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE É verossímil que estas observações tenham sido enunciadas alguma vez. observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano. Nos capítulos em que se discute se a bacia do barbeiro é um elmo e a albarda um jaez. o problema é tratado de modo explícito. um dos livros examinados é a Galatéia. e eis que. o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote. Cervantes amava o sobrenatural. Cotejado com outros livros clássicos (a Ilíada. o Quixote é realista. a Farsália. O plano de sua obra vedava o maravilhoso. para Cervantes o real e o poético são antinomias. difere essencialmente daquele que foi exercido no século XIX. mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e. Na realidade. por coincidência. Cervantes criou para nós a poesia da Espanha do século XVII. Conrad e Henry James romancearam a realidade por julgála poética. e quem sabe muitas vezes. Cervantes não podia recorrer a talismãs nem a sortilégios. por isso mesmo. a colheita literária de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria. Joseph Conrad pôde escrever que excluía de sua obra o sobrenatural. O Quixote é menos um antídoto dessas ficções que uma secreta despedida nostálgica. esse realismo. as tragédias e comédias de Shakespeare). cada romance é um plano ideal. em outras passagens. Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo. As vastas e vagas geografias do Amadís ele opõe os poeirentos caminhos e as sórdidas estalagens de Castela. ou Azorín. entretanto. Paul Groussac. mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginário. ou Antonio Machado. ao menos de maneira indireta. mais eficaz. No sexto capítulo da primeira parte. imaginemos um romancista de nosso tempo que. de Cervantes. em 1942. destacasse os postos de gasolina. enternecidos pela evocação de La Mancha. dizendo que este é mais versado em desgraças que em versos e que o livro tem algo de boa invenção. a Comédia dantesca. é apenas insinuado. homens como Unamuno. embaladoras fábulas do cativeiro". . com seu senso paródico. a discussão de sua novidade interessa-me menos que a de sua possível verdade. como os crimes e o mistério em uma paródia de romance policial.

que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer. Pensamos em Carlyle. a essa festa comparece Valmiki com seus alunos. sonho de Cervantes. no início do nono capítulo. E bem conhecida a história liminar da série: o desolado juramento do rei. Estes. que abrange todas as outras e também – de monstruoso modo – a si mesma. As invenções da filosofia não são menos fantásticas que as da arte: Josiah Royce. Rama ouve sua própria história. reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta. ou forma de um sonho de Cervantes. procuram abrigo em uma selva. no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899).propõe algo. formulou a seguinte: "Imaginemos que . e o efeito (que devia ser profundo) é superficial. os protagonistas do Quixote são. e ainda mais assombroso. que o entretém com fábulas. onde um asceta os ensina a ler. o Ramayana. cantam o Ramayana.. figura no Ramayana.. tendo encomendado a tradução a um mourisco. que fingiu que o Sartor Resartus era a versão parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Diógenes Teufelsdroeckh. julga Cervantes. Valmiki. que viveu mais de um mês e meio em sua casa.. Esse jogo de estranhas ambigüidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira. acompanhados pelo alaúde. e a resolução de Scherazade. enquanto concluía a tarefa. mas não procura graduar suas realidades.. a correspondência imperfeita entre a obra principal e a secundária diminui a eficácia dessa inclusão. como um tapete persa. Nenhuma tão perturbadora quanto a da noite DCII. que o romance inteiro foi traduzido do árabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo. Essa compilação de histórias fantásticas duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central em contos adventícios. o livro em que eles estudam. que inclui no cenário de Hamlet outro cenário.. pensamos no rabino castelhano Moisés de León. que não sabem quem é seu pai. Ouve o início da história. No último livro. os filhos de Rama. que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do século III. Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. leitores do Quixote. Aqui é inevitável lembrar o caso de Shakespeare. A necessidade de completar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolações. agora infinita e circular. também. O barbeiro.. o rei ouve a própria história da boca da rainha. Um artifício análogo ao de Cervantes. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolação? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imóvel rei escutar para sempre a truncada história das Mil e Uma Noites. Também surpreende saber. poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demônios. mas não conclui nada. Esse mestre é. Nessa noite. mágica entre as noites. estranhamente. onde se representa uma tragédia que é mais ou menos a de Hamlet. até que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. Rama ordena um sacrifício de cavalos.

Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem. . tal mapa deve conter um mapa do mapa. seus leitores ou espectadores. por menor que seja. não há detalhe do solo da Inglaterra. podemos ser fictícios. e procuram entender. tudo aí tem seu correspondente. e no qual também são escritos. Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote. e Hamlet. A obra é perfeita. e lêem. que não esteja registrado no mapa. se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores. que deve conter um mapa do mapa do mapa. Desta sorte. Em 1833. espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inversões sugerem que.uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. nós. e assim até o infinito".

não é falso dizer que nunca se afastou dela. Cinqüenta anos depois. o persa Omar Khayyam escrevera que a história do mundo é uma representação que Deus. a literatura aos sonhos. um sonho dirigido e deliberado. Washington Irving. onde lemos: O sonho. . as manias. Pouco anteriores no tempo. Se a literatura é um sonho. em encantadores e. as que não vale a pena inventar. o suíço Jung. no porto de Salem.NATHANIEL HAWTHORNE1 Começarei a história das letras americanas com a história de uma metáfora. equipara as invenções literárias às invenções oníricas. a fim de distrair sua eternidade." Muito antes. autor de representações. Não sei quem a inventou. é teatro. atores e público. de dois traços anômalos na América: era uma cidade. era uma cidade em decadência. mas podemos ignorá-los sem risco algum. Esta a que me refiro é a que liga os sonhos a uma apresentação teatral. no soneto "Varia imaginación". é bom que esta nossa história das letras americanas tenha os versos de Góngora por epígrafe e seja inaugurada com a análise de Hawthorne. em essência. apesar de pobre. No século XVII. Addison a enunciará com mais precisão. "A alma. as doenças. nas pessoas que não nos amam. Quevedo formulou-a no início do Sueño de la Muerte. No século XVIII. com alguns exemplos dessa metáfora. as que ainda podemos inventar são as falsas. ou melhor. continuava em sua aldeia puritana de 1 Texto de uma conferência proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em março de 1949. talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. sombras usa vestir de vulto belo. o sonhador. Hawthorne nasceu em 1804. muito depois. planeja. urdidor de agradáveis espanholadas –. muito velha. mas fundamentalmente um sonho. as que formulam íntimas conexões entre duas imagens. já então. sempre existiram. em Londres ou em Roma. exatos volumes. Hawthorne viveu até 1836. os fracassos. As verdadeiras. sem dúvida. quando sonha – escreve Addison –. amou-a com o triste amor que inspiram. o numeroso Deus dos panteístas. Salem padecia. uma espécie de Eduardo Gutiérrez infinitamente inferior a Eduardo Gutiérrez. em seu teatro sobre o vento armado. Luis de Góngora. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bíblico. representa e contempla. há outros escritores americanos – Fenimore Cooper.

e. com sinceridade. magro. o nosso Nathaniel – no martírio das bruxas que é lícito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. no cemitério de Charter Street. no corredor. e agora já não encontro a chave. Uma mancha tão profunda que deve perdurar em seus velhos ossos. de febre amarela. sua viúva. entre elas uma escrava. Justice Hawthorne procedeu com severidade e. sem dúvida) literatura infantil. ilícito. Também. morreu em 1808. esculpissem estátuas nuas. tranquei-me em um calabouço. a refeição de cada um era deixada em uma bandeja. na hora do crepúsculo vespertino. talvez imprudente ou indiscreta. No mesmo andar estavam os quartos das irmãs. em se tratando da obra de Hawthorne. talvez a mesma que o primeiro Hawthorne. embora seus biógrafos não o digam. desde o dia de hoje. perdoada". a de Chesterton. Converti-me em prisioneiro. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. escreveu a Longfellow: "Vivi recluído. indagar se o gênero alegórico é. quase teria medo de sair". a segunda. agora. em pleno século XIX. indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gênero. Tituba. foram condenadas à forca. de fato. Duas tarefas nos deparam: a primeira. em 1630. Quando o capitão Hawthorne morreu. recluiu-se em seu quarto.. Tinha o andar balançado dos homens do mar. que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virgílio e Beatriz para depois . a melhor refutação das alegorias é a de Croce. Em 1837. a melhor vindicação. o primeiro livro que ele comprou com o próprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias. nas Índias Orientais. Seu pai. "Tão conspícuo foi – escreveu Nathaniel. no Suriname. se ainda não forem pó. a Bíblia. o de Nathaniel. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantásticos. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas). Louisa e Elizabeth. sem dúvida. eu o faço em nome deles e peço que qualquer maldição que se tenha abatido sobre minha raça seja-nos. o capitão Nathaniel Hawthorne. moreno.Salem. em que dezenove mulheres.. Naquele tempo não existia (para felicidade das crianças. Acabei de pronunciar a palavra alegorias. Essas pessoas não comiam juntas e quase não se falavam. por exemplo. Hawthorne acrescenta: "Não sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericórdia divina. quando desaprovou que os escultores. William Hawthorne de Wilton. a mãe de Nathaniel. no segundo andar da casa. saía para caminhar. sem o menor propósito de fazê-lo. trouxera da Inglaterra junto com uma espada. Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrim’s Progress. Hawthorne era alto. Sabese que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gênero indefensáveis. Que eu saiba. um jogo de vãs repetições. sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. no último. bonito. foi juiz nos processos de feitiçaria de 1692. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo. John Hawthorne. mesmo que a porta estivesse aberta. um de seus antepassados." Depois desse arroubo pictórico. essa palavra é importante e.

ou Donne. em todas as suas fusões e conversões. mas nega que esse gênero seja condenável. um processo íntimo. segundo o argumento de Croce (o exemplo não é dele). Não sei se a tese de Chesterton é válida. ou a razão. pôs Virglio e. mais extensa. o que seria uma espécie de mascarada. uns valem tanto quanto outros. e Beatriz a teologia ou a graça. quanto menos uma alegoria for redutível a um esquema. mais lenta e muito mais incômoda que as outras. A alegoria. é. o som "fé". a das alegorias e das fábulas. de alegorismo. ou a luz natural. entre muitas outras. Seria um gênero bárbaro ou infantil. pôs Beatriz. para citar um exemplo notório desse mal. como Hawthorne. onde pensou teologia ou fé. segundo essa interpretação desdenhosa.. ou Victor Hugo. Dito de outro modo: Beatriz não é um emblema da fé.. quer ser também imaginativo. o caso de José Ortega y Gasset. o de Hawthorne. um trabalhoso e arbitrário sinônimo da palavra fé.explicar. os dois escritores são antagônicos. a um frio jogo de abstrações. outro. viria a ser uma adivinhação. a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. É. ou fazer-se passar por tal. cujo bom pensamento é obstruído por laboriosas e adventícias metáforas. Segundo Croce.de uma interminável riqueza e que a linguagem dos homens não esgota esse vertiginoso caudal. que esses matizes. No mais. onde pensou razão ou filosofia. Crê. Dante primeiro teria pensado: "A razão e a fé operam a salvação das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao céu" e depois... ocorre o denunciado por Croce. melhor ela será. mas quando um abstrato. em 1904. Chesterton admite que Watts produziu alegorias. Percebemos que um processo lógico foi enfeitado ou disfarçado pelo autor. Argumenta que a realidade é. Beatriz. assaz pobre. "para desonra do entendimento do leitor". sei que. a priori. Escreve: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. Tão incomunicada e tão vasta é a literatura! A página pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts. muitas vezes. no entanto. um raciocinador. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. ilustre na Inglaterra em fins do século XIX e acusado. ou dar a entender.". como disse Wordsworth. uma série de estados análogos – que é possível indicar por meio de dois símbolos: um. que Dante é a alma. a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar. Croce formulou essa refutação em 1907. Há o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare. Ortega pode . uma distração da estética. digamos) e o escritor que pensa por meio de abstrações (Benda ou Bertrand Russell). mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. Virgílio a filosofia. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. Daí infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam à inapreensível realidade. Chesterton já a refutara sem que aquele o soubesse.

da realidade e da arte. que é uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro. bastante curiosos. misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa. Foi prejudicado por um erro estético: o desejo puritano de fazer de cada imaginação uma fábula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e. que ocorram fatos não . por fim. Os sonhos tinham razão. cujo tema (não ignorado por Pirandello nem por André Gide) é a coincidência ou a confusão do plano estético e do plano comum. e são elas mesmas os atores". descobre-se. Este os atormenta. durante a vigília. como costumam pensar as mulheres. mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. que execute uma ação. cujo tema também é a escravidão. Em um deles. (Não sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento. este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos. São melhores aquelas fantasias puras que não procuram justificativa nem moralidade e que parecem não ter outro fundo além de um obscuro terror. mas Hawthorne se vê na obrigação de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixão maligna". pensa bem de outro e confia nele plenamente. que os personagens não se comportem como ele queria. como se os dois estivessem em um deserto". O acontecimento já está ocorrendo.raciocinar. Isso já basta. ao pensamento. que se trata do homem que legou a casa". por fim. à espera de um acontecimento e da aparição dos principais atores. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que. do mesmo ano: "Um homem. Revela-se. Citarei mais dois esboços. Não digo que ele fosse pouco inteligente. de intuições. Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. ou levemente horrível. por fim. a sujeição ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua mansão a um casal pobre.) Ou este. O outro é mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenções. às vezes. mas não imaginar. não por meio de mecanismo dialético. A explicação seria a percepção instintiva da verdade". moralmente submisso a ele. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua. mas refratário. dos quinze aos trinta e cinco anos. está escrito: "Uma serpente é admitida no estômago de um homem e alimentada por ele. e o outro continua executando aquela ação até o fim de seus dias". Os herdeiros mudam-se para aí. bem ou mal. Esta. que o caráter sonhado era o verdadeiro. Moral: a felicidade está em nós mesmos". encontram um criado sombrio que o testamento proíbe demitir. atormentando-o terrivelmente". de 1836. O que ordena morre. a falseá-las e a deformá-las. não sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial. descubra que ela é a única culpada e a causa. Outro exemplo. Hawthorne era homem de contínua e curiosa imaginação. Mais um. Esta. ou fantástico. de 1838: "Imaginar no meio da multidão um homem cujo destino e cuja vida estão sob o poder de outro. digo que pensava por meio de imagens. ou talvez humilhante. digamos assim.

sua antiga origem. Das razões acima poder-se-ia deduzir. que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. Percebe-se que o estímulo de Hawthorne. os lentos e antitéticos diálogos – "arrazoados". mas nunca romances admiráveis. Percebe-se nos esboços algo mais grave que as duplicações e o panteísmo. pois na Eneida consta que Enéias. em vão. e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. Os vinte e quatro capítulos que compõem A Letra Escarlate contêm muitas passagens . escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memoráveis de seu romance Victory. nos esboços que citei. entre tantas imagens de guerreiros. Esse método pode produzir. acho que o autor os chama assim – pecam por inverossímeis. talvez esteja naquela passagem da Ilíada em que Helena de Tróia tece seu tapete. chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mármore de um templo e. situações. não personagens. quero dizer. Sua origem. Tais jogos. Hawthorne. Não sou romancista. que ele propendia à noção panteísta de que um homem é os outros. Eu entendo que é assim. Hawthorne primeiro imaginava. tais momentâneas confluências do mundo imaginário e do mundo real – do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real – são. mas não resta dúvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele. Situações. porque neles. também se nota. mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg é real". e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. Nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas. que o ponto de partida de Hawthorne eram. ou parecem-nos. primeiro concebia uma situação. de antemão. e sim para definir seus personagens. onde a forma geral (quando existe) só é visível ao final e onde um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham. mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista. não para surpreender nossa boa-fé. e um dos personagens ser ele mesmo". ao contrário. ou uma série de situações. evitar. Pouco importam os pueris escândalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no príncipe Hamlet. Esse conto poderia prefigurar seu próprio destino. guerreiro da guerra de Tróia. As aventuras do Quixote não estão muito bem idealizadas. contos admiráveis. Pouco importam fatos inacreditáveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou. ou permitir. dada sua brevidade. em geral. a trama é mais visível que os atores. também sua própria imagem. Esse aspecto deve ter impressionado Virgílio. como reflexos e duplicações da arte. uma situação para só depois procurar personagens que a encarnassem.previstos por ele e que se aproxime uma catástrofe que ele tentará. e o que ela tece são batalhas e desventuras da própria guerra de Tróia. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginário e o real. quem sabe involuntariamente. modernos. de que um homem é todos os homens.

ou então no paraíso. distrai-se. Hawthorne lera no jornal. A mulher. Sai. chega ao esconderijo que tinha preparado. pergunta-se o que fazer. custa a acreditar que já está aí. passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina. Sabe que tem um propósito. sorri. Wakefield – acho isto admirável – ainda não sabe o que lhe acontecerá fatalmente.) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entendê-lo. o conto "Wakefield" é a história conjetura) desse desterrado. despede-se da mulher. A curiosidade o impele para a rua. o caso de um senhor inglês que abandonou a mulher sem motivo algum. Descobre. Quando já o davam por morto. Diz a ela – não podemos esquecer que estamos no início do século XIX – que vai tomar a diligência e que voltará. e muitas vezes avistou sua mulher. depois de dar algumas voltas. Duvida. ociosas. no mais tardar. com a resolução mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher. que seu propósito é investigar a impressão que uma semana de viuvez causará à exemplar senhora Wakefield. Durante esse longo período. a mulher recordará esse sorriso último. deita-se. mas capaz de longas. um dia. ou fingiu. de sobretudo. a guardar segredos insignificantes. mas nenhum deles comoveume tanto quanto a singular história de Wakefield. defendido pela preguiça. imaginá-lo. que o sabe aficionado a inofensivos mistérios. ausentando-se de casa por toda uma semana. acorda mais cedo que de costume e. teme que o tenham observado e que o denunciem. Todos acreditarão que está morto. No dia seguinte. Sai. de cartola. perplexo. o homem. As interpretações do enigma podem ser infinitas. (Foi. incompletas e vagas meditações. na glória. Anos mais tarde. abriu a porta de casa e entrou. Refletiu sobre o tema. congratula-se. um marido exemplar. dentro de alguns dias. Acomoda-se junto à lareira e sorri. Este imagina Wakefield como um homem pacato. e ela recordará esse sorriso e pensará que talvez não seja viúva. leva guarda-chuva e malas. até o dia de sua morte. Wakefield está de botas. Murmura: "Espiarei minha casa a distância". sorrindo com astúcia e serenidade. não lhe pergunta as razões da viagem. Imaginará o marido no caixão com o sorriso gelado no rosto. por fim. em seguida a entreabre e. Caminha. redigidas em boa e sensível prosa. propenso a mistérios pueris.memoráveis. de grande proeza imaginativa e mental. um homem acanhado. Wakefield. instalou-se a um passo de sua casa e aí. fecha a porta da rua. ter lido no jornal. passou vinte anos escondido. de . como se tivesse se ausentado por algumas horas. egoísta. mas custa-lhe defini-lo. um marido constante. estende os braços e repete em voz alta: "Não dormirei sozinho outra noite". no entardecer de um dia de outubro. Wakefield. Quase arrependido. por um instante. sem ninguém suspeitar. com fins literários. Simplesmente. vejamos a de Hawthorne. quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viúva. incluída nos Twíce-Told Tales. na grande cama vazia. timidamente vaidoso. está a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem.

de certo modo. Muda seus hábitos. antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias". seu rosto. levou-o à própria porta e que está a ponto de entrar. No centro de Londres. Parece-lhe ridículo molhar-se quando sua casa. Na memória. sua fronte baixa parece sulcada de rugas. volta-se para olhar sua casa. Wakefield emagreceu. sem se dar conta de que há vinte anos vem repetindo a mesma coisa. "Wakefield! Wakefield! Você está louco!". Decide não voltar antes de pregar-lhe um bom susto. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem . em meio à multidão de Londres. A multidão os separa e os perde. ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. graças ao extraordinário intento que executou. as chamas lançam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. Será que alguém o viu? Será que alguém o persegue? Chegando à esquina. "dentro de tantas semanas". Wakefield continua amando sua mulher. ou quase nunca sabe. porque ele já é outro. porque. agora. espectral. Sem ter morrido. já estabelecera uma nova rotina. um mero parêntese. como que fugindo. a milhares de tardes anteriores. caminha obliquamente. deixa o tempo correr. Talvez esteja. Wakefield voltou. Não sabe. Possuído. passado algum tempo. Começa a chover. leva na mão um missal e ela inteira parece um emblema de plácida e resignada viuvez. agora é extraordinário. outro dia. desligou-se do mundo. mas deixa adivinhar que ele já estava. Nesse ponto começa. aterrorizado. Wakefield fita a própria casa. Pela janela vê que no primeiro andar a lareira está acesa. morto. Um dia o boticário entra na casa. Hawthorne não nos conta seu destino ulterior. Mentalmente. tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama. mas teme que sua brusca reaparição possa agravar o mal. Cara a cara. e talvez não a trocasse pela felicidade. contra o adornado forro. Wakefield preocupa-se. onde um soluço o estremece. o médico. Numa manhã de domingo. Aflige-o a suspeita de que sua ausência não causara suficiente comoção à senhora Wakefield. Repete "logo voltarei". de fato. Com todo o morno afeto de que seu coração é capaz. A mulher engordou. traiçoeiro. renunciou a seu lugar e a seus privilégios entre os homens vivos. e ela o vai esquecendo. embora não o saiba. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. Já há muito deixou de saber que sua conduta é estranha. Então recua. antes comum. Em sua alma operou-se a mudança moral que o condenará a vinte anos de exílio. seu lar. os dois olham-se nos olhos. os vinte anos de solidão parecem-lhe um interlúdio. Acostumou-se à tristeza. esta parece-lhe diferente. que é outro. Wakefield compra uma peruca ruiva. Wakefield foge para seu esconderijo. enfim. a longa aventura. Seus olhos miúdos espreitam ou se perdem. uma tarde igual a outras tardes. uma única noite causou nele uma transformação. Wakefield sente uma rajada de frio. o matreiro sorriso que conhecemos. Por um instante. como que se ocultando. Em seu rosto brinca. diz a si mesmo. Uma tarde. os dois se cruzam na rua. enxerga a miserável singularidade de sua vida. está bem ali.repente percebe que o hábito. E assim passam-se dez anos.

Nessa ficção alegórica. Wakefield jamais conseguiria voltar para casa. Corre o risco de ser. por exemplo. Se Kafka tivesse escrito essa história. "Wakefield" prefigura Franz Kafka. fartos de acumulações inúteis. cada homem vive ajustado a um sistema com tão refinado rigor – e os sistemas entre si.aparente de nosso misterioso mundo. Assim. de sentir em um conto de Hawthorne. o sabor mesmo dos contos de Kafka. cujo fim é talvez a variedade. cujas multidões lhe servem. aliás. para ocultar o herói. mas este modifica. por um momento que seja. A essa planície ocidental chegam homens de todos os confins do mundo. Em outras narrações. Dirão que isso nada tem de singular. famosamente. foi determinado por Kafka. contra o qual se perfila o pesadelo. Aqui. que contrasta com a magnitude de sua perdição e que o entrega. No centro acendem uma altíssima fogueira que alimentam com todas as genealogias. a profunda trivialidade do protagonista. a leitura de "Wakefield". um grande escritor cria seus precursores. mas uma retórica. resolvem destruir o passado. mas seu alcance não excede a ética. Uma parábola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas não é. congregam-se ao entardecer em um dos vastos territórios do oeste da América. a estranha circunstância. se há verdade nessa opinião. sem nenhum demérito de Hawthorne. e entre a horrenda história de Wakefield e muitas histórias de Kafka não há apenas uma ética comum. prejudicada que foi pela preocupação com a ética. A observação é justa. Nessa breve e ominosa parábola – que data de 1835 – já estamos no mundo de Herman Melville. A dívida é mútua. nesta limita-se a uma Londres burguesa. é a que se intitula Earth’s Holocaust: o Holocausto da Terra. o Pária do Universo". Hawthorne prevê um momento em que os homens. com todos os diplomas. Para tanto. e todos a tudo – que o indivíduo que se desvia. que não há ato. o que seria de Marlowe sem Shakespeare? O tradutor e crítico Malcom Cowley vê em "Wakefield" uma alegoria da curiosa reclusão de Nathaniel Hawthorne. redigido no início do século XIX. eu gostaria de intercalar uma observação. Há o fundo nebuloso. mas sua volta não é menos lamentável nem menos atroz que sua longa ausência. e o de Hawthorne. como Wakefield. não deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado. Hawthorne permite-lhe voltar. pois o orbe de Kafka é o judaísmo. A circunstância. ainda mais desvalido. corre o terrível risco de perder seu lugar para sempre. com todas as . e afina. Há. Cria-os e de certo modo os justifica. a singular história de Wakefield. Hawthorne invoca um passado romântico. que trabalhou no início do século XX. nem pensamento. nem doença que não sejam voluntários. Schopenhauer escreveu. às Fúrias. Um mundo de castigos enigmáticos e de culpas indecifráveis. as iras e os castigos do Velho Testamento. no mundo de Kafka. seria possível conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que não faltasse ao universo.

com esse instrumento imperfeito. com todas as cartas de amor. com todos os instrumentos de tortura. Hawthorne. com todas as bandeiras. com todas as coroas. toda nossa obra será um sonho. o incêndio geral das bibliotecas não é muito mais importante que a destruição dos móveis de um sonho. com todas as púrpuras. nada se terá perdido. com todos os títulos de nobreza. pois. com todos os álcoois. a aniquilação das religiões e das artes. com todos os títulos de propriedade. e especificamente calvinista. com todas as caixas de chá. em seu livro Parerga und Paralipomena. no qual as figuras mudam. enquanto a mente continuar sonhando. com todas as constituições e códigos. deixou-se levar pela doutrina cristã. com todas as guilhotinas. no qual se encontra a raiz de todo pecado. com todos os brasões. comparasse a história a um caleidoscópio. com todas as tiaras. com todas as forcas. com todas as sacas de café. com todos os dosséis. com todas as dalmáticas. Purifiquemos essa esfera interior. discernir e corrigir o que nos aflige. com todo o dinheiro. fez com que Schopenhauer. Um sonho tão insubstancial que pouco importará que a fogueira. com todos os cetros. o coração humano. aqui tão fielmente descrita. a uma eterna e confusa tragicomédia em que mudam os papéis e as máscaras. Hawthorne conclui assim: "O coração. da depravação ingênita dos homens e não parece ter percebido que sua parábola de uma ilusória destruição de todas as coisas encerra um sentido filosófico e não apenas moral.medalhas. De fato. Outro espectador – o demônio – observa que os empresários do holocausto se esqueceram de atirar o essencial. com todos os metais preciosos. e que somente destruíram algumas formas. com todos os livros. com toda a artilharia. se há Alguém que agora está sonhando-nos e que sonha a história do universo. aqui. seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mãos em vez de um fogo imaginado e uma parábola". mas não os fragmentos de vidro. o coração. com todas as ordens. Essa mesma intuição de que o universo é uma projeção de nossa alma e de que a história universal está em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History". com todos os charutos. com todas as espadas. A mente que uma vez os sonhou voltará a sonhá-los. um homem com ar pensativo diz-lhe que ele não deve alegrar-se nem se entristecer. A convicção dessa verdade. Hawthorne assiste com assombro e certo escândalo à combustão. com todos os tambores marciais. com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. mas não os atores. . que parece fantástica. se o mundo é o sonho de Alguém. essa é a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a miséria do mundo são apenas símbolo. e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visível fugirão como fantasmas. como é doutrina da escola idealista. com todas as mitras. se não sobrepujarmos a inteligência e não tentarmos. pois a vasta pirâmide de fogo não consumiu senão aquilo que nas coisas é consumível. com todos os tronos.

No prefácio de A Letra Escarlate. conta-se que quase sentia vergonha de habitar um . que se apagasse toda a memória das coisas pretéritas e que todo o regime da vida recomeçasse. Na Inglaterra. Como Stevenson. todas as coisas voltam. – Está escrevendo um livro de histórias! Que oficio será esse. conta-se... "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell – conta Samuel Johnson – apresentou-se. A passagem é curiosa. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e proíbe aos homens adorar ídolos. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construção da Grande Muralha. Outro é o de Platão. Corresponde. por certo tempo." Ou seja. salvo os que ensinassem agricultura. Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou. no dia do Juízo Final. Para extirpar as vãs pretensões da antigüidade. medicina ou astrologia. se se preferir. e uma das coisas que voltam é o projeto de abolir o passado. que tomou para si o título de Primeiro Imperador. em seu devido tempo e geração? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista. o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e – paradoxalmente – é uma das provas de que o passado não pode ser abolido. o que é pior. não sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China. Os anjos ordenarão ao artífice que a anime. que modo de glorificar a Deus ou de ser útil aos homens. Tantos literatos. este fracassará e será atirado no Inferno. um simulacro". com adversa fortuna. porque encerra uma espécie de confidência e corresponde a escrúpulos íntimos. esse mesmo propósito ressurgiu entre os puritanos. foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram melões no lugar onde haviam sido enterrados". também filho de puritanos. é à abnegação e coragem de obscuros e anônimos homens de letras que a posteridade deve a conservação do cânone de Confúcio." A passagem é curiosa. muito seriamente. De Plotino. em meados do século XVII. culpada. que no décimo livro da República raciocina deste modo: "Deus cria o Arquétipo (a idéia original) da mesa. ao antigo pleito entre a ética e a estética ou. que declarou que toda representação de uma coisa viva comparecerá perante o Senhor. O passado é indestrutível. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su propôs que a história começasse com o novo monarca. imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance. Alguns doutores muçulmanos postulam que a proscrição vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas).Quanto à fantasia de abolir o passado. a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres. "O que ele estará fazendo? – pergunta um antigo espectro aos outros. ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados. entre a teologia e a estética. cedo ou tarde. três séculos antes de Jesus Cristo. também. entre os antepassados de Hawthorne. Muitas obras valiosas pereceram. o marceneiro. Outro é o de Maomé.

mais autônomos. Assim. fez e procurou fazer da arte uma função da consciência. Quem desejar objetividade. se for genuína. como uma espécie de castigo herdado. Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que não é ilusória) do modo que sabemos. não sei que utilidade pode resultar da aproximação desses nomes heterogêneos.corpo e que não permitiu aos escultores a perpetuação de seus traços. que os de outras ficções de Hawthorne. Ouso discordar dessas autoridades. um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar. Hei de tolerar. salvo um momentâneo assombro. Por volta de 1916. assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e não são meras projeções do autor ligeiramente disfarçadas. nos três romances americanos e no Fauno de Mármore vejo apenas uma série de situações urdidas com destreza profissional para comover o leitor. sempre a visão germinal era verdadeira. os romancistas da Inglaterra e da França acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemães eram demônios. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos. quem tiver fome e sede de objetividade. O fato de Hawthorne perseguir. a heroína – são mais independentes. é talvez a razão que levou dois escritores tão agudos (e tão díspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne. ou tolerar. não poderá ser absurda. propósitos de índole moral não invalida. ainda. Andrew Lang comparou esse romance com os de Émile Zola. Plotino disse: "já muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma geração perdura e se prolonga nas subseqüentes. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler. mas sua obra. se responder a uma visão genuína. poderá afetar de modo irreparável sua obra. por mais fútil ou errôneo que seja. compôs moralidades e fábulas. ou com a teoria dos romances de Émile Zola. que a procure em Joseph Conrad ou em Tolstói. Não sei muito bem como justificar minha discrepância. que armava. não pode invalidar. que seja perpetuada a imagem desta imagem?". seu testemunho imprescindível. o falso. quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrará menos em seus laboriosos romances que em alguma página secundária ou nos leves e patéticos contos. Em Hawthorne. nenhum propósito. costumavam apresentá-los como seres humanos. em seus romances. Esta (repito) construiu o argumento . sua obra. Se há algo no autor. Os personagens de A Letra Escarlate – sobretudo Hester Prynne. pude muitas vezes verificar que os propósitos e teorias literárias não passam de estímulos e que a obra final costuma ignorá-los e até contradizê-los. essa relativa e parcial objetividade. para nos limitarmos a um único exemplo. para representá-las. são as moralidades que ele acrescentava no último parágrafo ou os personagens que idealizava. não uma espontânea e viva atividade da imaginação. Certa vez. Essa objetividade. porém. o eventualmente falso.

caiu aí. Todos os templos caíram. com um estrondo de pedras desabando. armado e a cavalo. e depois atiraram milhares de estátuas. "Essa fenda – disse seu amigo – era apenas uma boca do abismo de escuridão que está abaixo de nós. abriu-se no centro do Fórum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano. estava cheio de visões proféticas (cominações de todos os infortúnios de Roma). Pena ter sido tapado tão depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada. apesar de alguns excessos. O Palácio dos Césares caiu. com vagos monstros e rostos atrozes olhando cá para cima e enchendo de horror os cidadãos que em sua borda se debruçavam. no final afundamos. seu estilo. de sombras de gauleses. Groussac não suportava a possibilidade de um americano ser original. Talvez tenha feito bem. e soava a música marcial enquanto se precipitavam. basta apoiar o pé. Devemos pisar com muito cuidado. agora lerei uma página do Marble Faun para que vocês ouçam Hawthorne. pois Roma inteira. segundo os historiadores latinos. ainda que brevemente.. em momentos de sombra e abatimento. aquela em que o herói se atirou com seu bom cavalo. nessa caverna. dois contos. marchando. não o entrelaçamento dos episódios nem a psicologia – de algum modo temos de chamá-la – dos atores. em toda a parte. Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporâneos. ditame que parece basear-se em uma equânime ignorância de ambos os autores. não leu Keats. "Penso – disse Miriam – que não há pessoa que não lance um olhar nessa fenda.. não leu Victor Hugo – que tampouco leram uns aos outros. quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas. O tema é aquele poço ou abismo que. e quem esteja em busca de novidades as encontrará com mais facilidade nos antigos. Hawthorne. segundo seus biógrafos. impenetravelmente fundo. A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta entre esse abismo e nós e que sustenta nosso mundo ilusório. de vândalos e dos soldados francos. não leu De Quincey. Foi um tolo alarde de heroísmo o de Cúrcio. para aplacar os deuses. em Hawthorne denunciou "a notável influência de Hoffmann". Não é necessário um terremoto para rompê-la. como vemos agora. A imaginação de Hawthorne é romântica. Reza o texto de Hawthorne: "Admitamos – disse Kenyon – que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna. corresponde ao século XVIII.geral e as digressões. ou seja. talvez nossos contemporâneos se pareçam – sempre – demais a nós mesmos. Inevitavelmente." . Hawthorne ignorou-os até onde lhe foi possível. Li vários fragmentos do diário que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solidão. referi. Todos os exércitos e os triunfos caíram. Imaginemos o enorme e escuro buraco. de intuição. ao pálido fim do admirável século XVIII. Sem dúvida.

Até aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razão (da mera razão que não deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir é indefensável. A fenda aberta no meio do fórum é demasiadas coisas. Ao longo de um único parágrafo é a fenda de que falam os historiadores latinos e também a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e também é o horror essencial da vida humana, e também o Tempo, que devora estátuas e exércitos, e também a Eternidade, que encerra os tempos. É um símbolo múltiplo, um símbolo capaz de muitos valores, talvez incompatíveis. Para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos é o de Hawthorne. Uma vez, ele propôs-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerência, as estranhezas e a falta de propósito dos sonhos", e maravilhou-se de que ninguém, até então, tivesse executado algo semelhante. No mesmo diário em que registrou esse estranho projeto – que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vão executar e que talvez só Lewis Carroll tenha realizado –, Hawthorne anotou milhares de impressões banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicável abundância faz a consternação de todos os biógrafos. "Parecem cartas gratas e inúteis – escreve com perplexidade Henry James – dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impressão de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqüentava. Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dúvida, mereciam esse ardente destino. Este é um aposento assombrado, porque milhares e milhares de visões povoaram seu âmbito, e algumas agora são visíveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imóvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora começo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitário e por que não podia romper suas grades invisíveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e áspero e teria o coração coberto do pó terrenal... Na verdade, não passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de visões". A cifra talvez não seja uma hipérbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes são apenas uma pequena parte dos muitíssimos que ele esboçou em seu diário. (Entre os completos há um – "Mr. Higginbotham’s catastrophe" [A morte repetida] – que prefigura o

gênero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utópica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, também amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, até essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfândega de Boston, foi cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florença, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tênue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginações fantásticas. No início desta aula mencionei a doutrina do psicólogo Jung que equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina não parece aplicável às literaturas que utilizam a língua espanhola, clientes do dicionário e da retórica, não da fantasia. Em contrapartida, é adequada às letras da América do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) são mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse traço procede a curiosa veneração que os norte-americanos tributam às obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant é mais importante que Hugo. A razão disso é que para um escritor norte-americano é possível ser Hugo, mas não, sem violência, ser Maupassant. Comparada à dos Estados Unidos, que já deu vários homens de gênio e que influiu na da Inglaterra e na da França, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no século XIX, ela produziu algumas páginas de realismo – algumas admiráveis crueldades de Echeverría, de Ascasubi, de Hernández, do ignorado Eduardo Gutiérrez – que, até agora, os norte-americanos não superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegarão, não é menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o é, mas de um modo alucinatório. De um modo infernal, não terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne. Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqüila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e até podemos inventar a história que ele sonhava – a última de uma série infinita – e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitável, esta deficiente e por demais digressiva lição. Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a série English Men of Letters, de Morley.

Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na próxima aula estudaremos, se a indulgência de vocês tolerar, a glória e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

de . mas tem a singular virtude de não identificar Whitman. essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". à primeira vista. daí que. as interjeições do corpo. verossimilmente. Valéry personifica ilustremente os labirintos do espírito. não é verdade. em tal página de sua obra. criado por essa obra. da manhã na América. ele tenha nascido nos estados do Sul e. uma operação arbitrária e (o que é pior) inepta. não menos hiperbólico. A sentença é vaga e superlativa. Para nós. em parte de cada um de seus leitores. Joyce e Stefan George efetuaram modificações mais profundas em seu instrumento (talvez o francês seja menos modificável que o inglês e o alemão). Whitman. Assim. Whitman. Whitman redigiu suas rapsódias em função de um eu imaginário. entretanto. Este não magnifica. une-os: a obra dos dois é menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar. herói semidivino de Leaves of Grass. A distinção é válida. magnifica as virtudes mentais. o poeta inglês Lascelles Abercrombie pôde exaltar Whitman por ter criado. é o homem definido pelas composições de Valéry. em outra (também na realidade). as capacidades humanas da filantropia. de uma quase incoerente mas titânica vocação para a felicidade. em Long Island. não menos ilusório. Um fato. Valéry é Edmond Teste. com Whitman. Um dos propósitos das composições de Whitman é definir um homem possível – Walt Whitman – de ilimitada e negligente felicidade. Daí as discrepâncias que têm exasperado a crítica. Valéry criou Edmond Teste.VALÉRY COMO SÍMBOLO Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valéry é. Ou seja. daí seu costume de datar os poemas em territórios que ele nunca conheceu. Valéry é símbolo de infinitas destrezas. esse personagem seria um dos mitos de nosso século se todos. Rilke e Eliot escreveram versos mais memoráveis que os de Valéry. O que. homem de letras e devoto de Tennyson. A circunstância de que essa personalidade seja. Yeats. do fervor e da ventura. Whitman. mas por trás da obra desses eminentes artífices não há uma personalidade comparável à de Valéry. O orbe inteiro da literatura parece não admitir duas aplicações mais antagônicas da palavra poeta. Valéry é uma derivação do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebível Deus dos teólogos. intimamente. Valéry é símbolo da Europa e de seu delicado crepúsculo. "da riqueza de sua nobre experiência. não o julgássemos um mero Doppelgänger de Valéry. feito em parte dele mesmo. mas também de infinitos escrúpulos. como aquele.

da terra e da paixão. uma projeção da obra não minimiza o fato. preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem. como William Hazlitt. . de Shakespeare: "He is nothing in himself". o símbolo de um homem infinitamente sensível a todo fato e para quem todo fato é um estímulo capaz de suscitar uma infinita série de pensamentos. na melancólica era do nazismo e do materialismo dialético. suas omnímodas possibilidades. Paul Valéry deixa-nos. ao morrer.certo modo. Buenos Aires. Propor lucidez à humanidade em uma era baixamente romântica. nem sequer definem. 1945. em um século que adora os caóticos ídolos do sangue. dos áugures da seita de Freud e dos comerciantes do surréalisme. é a benemérita missão que desempenhou (que continua desempenhando) Valéry. De um homem cujos admiráveis textos não esgotam. De um homem que transcende os traços diferenciais do eu e de quem podemos dizer. De um homem que.

Descrê da astrologia judiciária. É ateu. e para sê-lo não é indispensável ter fé. com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas árduas páginas de sua álgebra. Os três amigos. ou faz de conta que acredita. e de Avicena. Nizam chega à dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto à sombra de sua ventura. e aprende o Alcorão e as tradições com Hassan Ibn al-Sabbah. que no vocabulário do Islã é o Platão Egípcio ou o Mestre Grego. no século XI da era cristã (esse século foi para ele o quinto da Hégira). futuro fundador da seita dos Hashishin. colabora na reforma do calendário promovida pelo sultão e compõe um famoso tratado de álgebra. que entendeu que as formas universais não existem fora das coisas. se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles. por fim. assinala a página que seus olhos não voltarão a ver e reconcilia-se com Deus. nasce na Pérsia. dos quais o primeiro.O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD Um homem. meio a sério. Os arcanos do número e dos astros não esgotam sua atenção.. Morre nesse mesmo . um mal-estar ou uma premonição o interrompe. e as cinqüenta e tantas epístolas da herética e mística Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. na solidão de sua biblioteca. o segundo e o último rimam entre si. (Hassan pede e obtém um cargo elevado e. para as de terceiro. o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras.. meio brincando. Umar está lendo um tratado cujo título é O Uno e os Múltiplos. manda apunhalar o vizir. que oferece soluções numéricas para as equações de primeiro e segundo graus e geométricas. nas transmigrações da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitágoras falara com um cão. mediante a intersecção de cônicas. e com Nizam al-Mulk. juram que. lê. para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemáticas. que ensinou que o mundo é eterno. pois na Pérsia (como na Espanha de Lope e de Calderón) o poeta deve ser fecundo. ou Assassinos. Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composições de quatro versos. Dizem-no prosélito de Alfarabi. o agraciado não se esquecerá dos outros dois. mas cultiva a astronomia. mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difíceis passagens do Alcorão. da álgebra e da apologética. No ano 517 da Hégira. na qual se argumenta que o universo é uma emanação da Unidade. Levanta-se. os textos de Plotino. Certa crônica diz que ele acredita. que será vizir de Alp Arslan. o conquistador do Cáucaso. número exíguo que será desfavorável a sua glória. porque todo homem culto é um teólogo.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma pensão anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. e retornará à Unidade. Umar Ibn Ibrahim. Anos mais tarde. Nos intervalos da astronomia.

em uma ilha ocidental e boreal que os cartógrafos do Islã desconhecem. Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perpétuo entre os maiores poetas da Inglaterra". FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino é a literatura e a ensaia com indolência e tenacidade. Umar professou (sabemos) a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. e medíocres versões de Calderón e dos grandes trágicos gregos. que não se parece com nenhum dos dois. menos intelectual que Umar. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e começou uma tradução de Mantiq al-Tayr. Dickens. ricas em variações e escrúpulos. com suas luzes. se os astros forem propícios. É amigo de pessoas ilustres (Tennyson. um rei saxão que derrotou um rei da Noruega é derrotado por um duque normando. da rosa e do rouxinol e. solitário e maníaco. mas resolve não abusar desse módico privilégio. livros orientais e hispânicos. observa que ao mesmo tempo há nele "uma melodia que escapa e uma inscrição que dura". e Chesterton. O caso convida a conjeturas de índole metafísica. Euphranor. e na Inglaterra nasce um homem. feita sem outra lei afora a ordem alfabética das rimas. Alguns críticos entendem que o Omar de FitzGerald é. no fim. agonias e mutações. e descobrem que eles são o Simurg e que o Simurg é todos e cada um deles. o Simurg. mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos. um poema inglês com referências persas. a despeito de sua modéstia e cortesia. Entende que. afinou e inventou. a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para .dia. de fato. as da noite e da sepultura. às quais não se sente inferior. e seu amor estende-se ao dicionário em que procura as palavras. Thackeray). à hora do pôr-do-sol. alguém lhe empresta uma coleção manuscrita das composições de Umar. FitzGerald. FitzGerald verte uma para o latim e entrevê a possibilidade de tecer com elas um livro contínuo e orgânico em cujo princípio estejam as imagens da manhã. Em 1859 publica a primeira versão do Rubaiyat. Por esses anos. a epopéia mística dos pássaros que procuram seu rei. surge um extraordinário poeta. Carlyle. talvez sem entendê-los por completo. seguida de outras. que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas não quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil). e finalmente arribam a seu palácio. Lê e relê o Quixote. A esse propósito improvável e até inverossímil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente. que fica além dos sete mares. passados os séculos. FitzGerald interpolou. todo homem cuja alma encerre um mínimo de música pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida. Acontece um milagre: da fortuita conjunção de um astrônomo persa que condescendeu à poesia e de um inglês excêntrico que percorre. Sete séculos se passam. Publicou um diálogo decorosamente escrito. sensível ao que há de romântico e de clássico nesse livro sem par. porém talvez mais sensível e mais triste. Por volta de 1854.

Mais verossímil e não menos maravilhosa que tais conjeturas de índole sobrenatural é a suposição do acaso benéfico. talvez a alma de Umar tenha-se hospedado. a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpúreas sobre papel amarelo. as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um único poeta. essencialmente. o Leão. . Toda colaboração é misteriosa. No Rubaiyat lê-se que a história universal é um espetáculo que Deus concebe. Esta. e a morte. analogamente. Isaac Luria. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou leões. o destino literário que em Nishapur as matemáticas reprimiram. mais do que nenhuma. na de FitzGerald. entre o inglês e o persa.cumprir. para nossa felicidade. por volta de 1857. em um longínquo idioma germânico entremeado de latim. representa e contempla. o poema. esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford. ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoiá-la ou instruí-la. Deus ou faces momentâneas de Deus. essa especulação (cujo nome técnico é panteísmo) permitiria pensar que o inglês pôde recriar o persa porque ambos eram. porque os dois eram muito diferentes e é provável que em vida não tivessem entabulado amizade. configuraram.

ou descuidam deles. ou tenta parecer espontânea. tem razão. left by mankind". mas que já aparece no exórdio da Epístola aos Pisões. a verdades parciais e contradizem fatos notórios. é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de causar assombro com gravatas e metáforas. a noção de que Wilde foi uma espécie de simbolista. como este duro e sábio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ. Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos. Consideremos. a sintaxe de Wilde é sempre simplíssima. E evocar o exangue crepúsculo do século XIX e essa opressiva pompa de hibernáculo ou de baile de máscaras. XXVIII. ou Symphony in Yellow –. percebo algo que seus panegiristas parecem não ter sequer suspeitado: o fato constatável e elementar de que Wilde. Também é evocar a noção da arte como um jogo seleto ou secreto – à maneira da tapeçaria de Hugh Vereker e de Stefan George – e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plínio. conteria meros artifícios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepúsculos del Jardín. quase sempre. Se a obra de Wilde correspondesse à natureza de sua fama. Ela se apóia em um cúmulo de circunstâncias: em torno de 1881. Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James. os decadentes. ou The Harlot’s House. afirmo. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de púrpura). sua obra não encerra um único verso experimental. As notas miscelâneas que ele prodigalizou . Essa atribuição confirma o hábito de vincular ao nome de Wilde a noção de passagens decorativas. expressão a ele atribuída por Ricketts e Hesketh Pearson. desolate else. mas sua índole adjetiva é notória. Nenhuma dessas evocações é falsa. A insignificância técnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrínseca. dez anos mais tarde. o vocabulário do poema "The sphinx" é estudiosamente magnífico. III) de impor "o selo da classe média" à última dessas seitas. Wilde dirigiu os estetas e. A obra de Wilde é povoada desses artifícios – basta lembrar o décimo primeiro capítulo de Dorian Gray. Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarmé. 2). é também justo. A métrica de Wilde é espontânea. por exemplo. mas todas correspondem. Leitores incapazes de decifrar um parágrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lêem Lady Windermere’s Fan em uma mesma tarde.SOBRE OSCAR WILDE Mencionar o nome de Oscar Wilde é mencionar um dandy que também foi poeta. Dentre os muitos escritores britânicos. É refutada por um fato capital: em verso ou em prosa. The Soul of Man under Socialism não é apenas eloqüente. nenhum é tão acessível aos estrangeiros.

a curiosa tese de Leibniz. um homem que conserva.2 Deu ao século o que o século exigia – comédies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos – e executou coisas tão díspares com uma sorte de negligente felicidade. Este. essa dificuldade não os faz menos plausíveis. Como Gibbon. sua glória. ao julgamento e à prisão. Como Chesterton. mas não a sentenças como a de que a música nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist). sua obra é tão harmoniosa que pode parecer inevitável e até banal. O nome de Oscar Wilde é associado às cidades da planície. foi um homem do século XVIII. de que não há homem que não seja. ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol). que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol. se atribui a Wilde. se não me engano. em que pese aos hábitos do mal e ao infortúnio. ainda por cima. Wilde é daqueles afortunados que podem prescindir da aprovação da crítica e até. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde. às vezes. p. o fato de Alexandre. Nela espreitam o diabólico e o horror. assumir as formas do espanto. uma invulnerável inocência. tinha razão. morrer na Babilônia é uma qualidade desse rei. como Johnson. 158). Não transcrevo essas linhas para a veneração do leitor. Uma observação à margem. 2 A sentença é de Reyes. aquilo que foi e que será (ibidem). a cada instante. Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem). ou aquela outra de que se arrepender de um ato é alterar o passado (De Profundis). Chesterton é um homem que quer recuperar a infância. um clássico". ou aquela. foi um homem engenhoso que. como Boswell. pode. como a soberba. para dizer de uma vez as palavras fatais. como Lang. que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. 1 Cf.na Pall Mall Gazette e no Speaker são fartas de perspícuas observações que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury.1 não indigna de Léon Bloy ou de Swedenborg. Foi prejudicado pela perfeição. como Voltaire. vistos uma vez. mas cuja valorosa obra sempre está a ponto de se converter em pesadelo. ao estilo de Ramón Llull. na página mais inócua. que tanto escandalizou Arnauld: "A noção de cada indivíduo encerra a priori todos os fatos que a este hão de ocorrer". tido como modelo de saúde física e moral. Segundo esse fatalismo dialético. Foi. Wilde. o Grande. Ao contrário de Chesterton. "em suma. o sabor fundamental de sua obra é a felicidade. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatória. foi muito mais que um Moréas irlandês. da aprovação do leitor. alego-as como indício de uma mentalidade muito diversa daquela que. . pois o prazer que seu trato nos proporciona é irresistível e constante. sempre se esquecem"). em geral. isso talvez seja aplicável a alguma de suas boutades ("um desses rostos britânicos que.

Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. and clean”). como Whitman. prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. CHESTERTON: A Second Childhood. mas o interesse que despertam é limitado. os livre-pensadores o negam. Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie. os católicos exaltam Chesterton. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much. ao contrário. substituí-las por outras que são deste mundo. propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para. Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial. small and white.. Chesterton pensou. não de artifício retórico. Chesterton. Antes. Chesterton foi católico. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma. Tais crenças podem ser justas. no fim. convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão.. Como todo escritor . Neste país. um símbolo ou espelho de Chesterton. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério. The Poet and the Lunatics. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções. The Paradoxes of Mr. nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton.SOBRE CHESTERTON Because He does not take away The terror from the tree. supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série. Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate. Chesterton acreditou na Idade Média dos prérafaelistas ("Of London. Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial.

Visto de nosso plano inferior. depois traduzidos por Rückert (Werke. "the stuff his dreams were made of". Pergunta se porventura um homem tem três olhos. cuja arquitetura. aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4. 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos". claro que. Chesterton fala com os pais do Super-Homem. provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka. se fala dos próprios olhos. 22). algo. depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. fala de uma árvore que devora os pássaros e que. Poe e Baudelaire. nomeia-os com palavras de Ezequiel (1. Chesterton é julgado por causa disso. mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo. o ar e a água. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais. e. ele é mais belo que Apolo. por si só. que seria fácil multiplicar. que uma árvore. em vez de folhas. e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. dá penas. Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos. Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. imagina (The Man Who Was Thursday. não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm. Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos. Seu caso é semelhante ao de Kipling. de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto. e até pelo atroz. Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens.. algo secreto. Morre vítima de uma corrente de ar. é malvada. mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos. depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe. fala. que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico. a estrutura é muito outra"). é natural que sua obra seja fértil em formas do terror. fala de um labirinto sem centro. em que se diz que nos céus. assim como o Urizen atormentado de Blake. uma torre. propuseram-se criar um mundo de espanto. . perguntados sobre a beleza do filho. "um terrível cristal". contra os panteístas. um monstrorum artifex (Plínio. se da noite. que não sai de um quarto escuro. estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano. fala de um homem devorado por autômatos de metal. ou um pássaro três asas. Define o próximo pelo distante. é reprovado ou aclamado por isso. Tais exemplos. 222). 2).. IV. XXVIII. Esse 1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto").1 fala de uma prisão de espelhos. e menos. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand. cego e central. no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra. mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes. nos ocidentais.").que professa um credo. o fogo.

com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão. 2 Não a explicação do inexplicável. complicando-a ainda mais. cada qual mais forte que o anterior. O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. Emblemas dessa guerra são. 3O. senhor". e sim do confuso é a tarefa que. pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?".desacordo. 3 A noção de portas atrás de portas. Ver Glatzer: In Time and Eternity. as aventuras do padre Brown. um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles. Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome. Agora vou fechála". cada uma das quais pretende explicar. O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras3 e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião. símbolos e espelhos de Chesterton. também Martin Buber: Tales of the Hasidim. Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola. O homem senta-se para esperar. no parágrafo inicial desta nota. 92. até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress. (Kafka comenta essa parábola. Recordo duas parábolas opostas. de Bunyan. que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história.2 Por isso afirmei. até que ele morre. junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. os autores de romances policiais se impõem. aparece no Zohar. Passam-se os dias e os anos. mediante a pura razão. As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. Em sua agonia. Isso é tudo. ou seja. mas a fé católica. um fato inexplicável. no nono capítulo de O Processo. Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas. essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira. em geral. . para mim. que se interpõem entre o pecador e a glória.

que em mudar de assunto. a travessia da África em balão. porque foi inteiramente invertido. Em algum lugar li que Verne. assim como a Rosney. já apontada em algum momento pelo próprio Wells: as ficções de Verne transitam em coisas prováveis (um navio submarino. quando não em coisas impossíveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura. As razões que acabo de citar parecem-me válidas. Wells. como em um espelho. para todas as idades do homem. a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. uma flor que devora um homem. um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe. Verne escreveu para adolescentes. mas o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se baseia pode não ser inútil. a Lytton. H. Há outra diferença. A mais notória dessas razões é de ordem técnica. Wells (antes de resignar-se a especulador sociológico) foi um admirável narrador. respondeu: – E um Júlio Verne científico. a descoberta do Pólo Sul. . perguntado acerca de Wells. um homem que volta de outra vida com o coração à direita. Verne. as de Wells. nomes incompatíveis. ou em aniquilá-lo. O parecer é de 1899. G. um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte). em meras possibilidades (um homem invisível. as crateras de um vulcão extinto que levam ao centro da terra). Wells e Júlio Verne são. exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e Luciano de Samósata. agora.O PRIMEIRO WELLS Harris conta que Oscar Wilde. disse com indignação: "Il invente!". a Robert Paltock. Todos o sentimos assim. em The Outline of History (1931). escandalizado com as licenças que The First Men in the Moon se permite. percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells. um navio mais extenso que os de 1872. um trabalhador esforçado e risonho.1 A maior felicidade de seus argumentos não basta para elucidar a 1 Wells. mas não explicam por que Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac. a fotografia falante.

não odeia ninguém nem ama ninguém. os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestáveis. O acossado homem invisível que é obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos. mas não que declare e analise. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambigüidade. Isso pode ser observado em todos os gêneros. Evidentemente. agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells. a precedência dos primeiros romances de Wells – The Island of Dr. parece confessar que este não é inevitável para ele. este deve parecer ignorante de todo simbolismo. O que eles narram não é apenas engenhoso. o argumentum ontologicum. como o Apóstolo. como Hegel ou Anselmo. é um espelho que delata os traços do leitor e é também um mapa do mundo. toleramos que Deus afirme (Êxodo 3. não de arrazoados. não existiria o Quixote e Shaw valeria menos que O ´Neill. podemos confundi-lo com o universo ou com Deus. ou The Invisible Man – deve-se a uma razão mais profunda. Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se às doutrinas contrárias às suas. Deus. 14) "Eu Sou Aquele que Sou". Moreau.questão. o mais admirável de sua obra admirável. em meu entender. Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinações da "Prússia". Bom herdeiro dos nominalistas britânicos. Deus não deve teologizar. A realidade atua por meio de fatos. Com essa lúcida inocência Wells procedeu em seus primeiros exercícios fantásticos. É importante para a execução da obra. Além do mais. 5. 17). quase a despeito do autor. esse não é o meu caso. escreveu Spinoza (Ética. assim que ele se rebaixa a arrazoar. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não entendê-lo por completo. tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto. o conciliábulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil é o Vaticano e é Lhassa. Duvidamos de sua inteligência. sabemos que é falível. não para o prazer da leitura. como duvidaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. ou um ponto de partida. podemos considerá-lo onisciente. Em livros não muito breves. por exemplo. que são. os melhores romances policiais não são os de melhor argumento. . mas não a circunstância de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. porque suas pálpebras não vedam a luz. é tudo para todos. o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que a arte exige de nós. (Se os argumentos fossem tudo. espelha nossa solidão e nosso terror. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência. mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narrações. é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. o argumento não pode ser mais que um pretexto.) Em minha opinião.

prodigou parábolas sociológicas. ampliou as possibilidades do romance. Penso que haverão de incorporar-se. registrou vidas reais e imaginárias. historiou o futuro. para além dos limites da glória de quem os escreveu.. polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc. para além da morte do idioma em que foram escritos. como mais algum outro. São os primeiros livros que eu li. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou.Como Quevedo. "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico". talvez sejam os últimos. The Island of Dr. o nazismo e o cristianismo.. nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine. como Voltaire. combateu o comunismo. como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus. . à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão. historiou o passado. Moreau. Wells é menos um literato que uma literatura. reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó. The Plattner Story. construiu enciclopédias. The First Men in the Moon. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens. redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima. como Goethe.

símbolo do amor paternal. que se matou para ocultar os estragos de uma doença de pele").2 "que mil coisas escreveu que ninguém além dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por não ter entendido a adivinha dos pescadores". e nelas pude notar esta vaidade: a inclusão de exemplos obscuros ("Festo. O Biathanatos tem por volta de duzentas páginas. em 1644. "matam-se quando infringem as leis de seu rei". VIII. por um douto catálogo de exemplos fabulosos ou autênticos. Donne morreu em 1631. behind.1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr. 336) resume assim: o suicídio é uma das formas do homicídio. sem nenhuma proibição exceto a de dá-lo "à estampa ou ao fogo". o filho primogênito do poeta deu o velho manuscrito à estampa. . favorito de Domiciano. essa distinção também deveria ser aplicável ao suicídio. VII. below. que é declarada no subtítulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada. XIX) 2 Cf.O BIATHANATOS Devo a De Quincey (com quem minha dívida é tão vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informação sobre o Biathanatos. que. between. 1). Assim como nem todo homicida é um assassino. "para defendê-lo do fogo". segundo a boa lógica. que De Quincey (Writings. above. ou sobrecarregada.. de Homero. Esse tratado foi composto no início do século XVII pelo grande poeta John Donne. até o pelicano.. (Elegies. os canonistas distinguem o homicídio voluntário do homicídio justificável. De fato. Três páginas ocupa o catálogo. e as abelhas. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega. O my America! my new-found-land. a omissão de outros de 1 De que ele realmente foi um grande poeta são prova estes versos: Licence my roving hands and let them go Before. nem todo suicida é culpado de pecado mortal. essa é a tese aparente do Biathanatos. segundo consta no Hexameron de Ambrósio. em 1642 eclodiu a guerra civil.

20). Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicação do suicídio com o próprio suicídio. que poderiam parecer fáceis demais. 1. Donne. a hipótese de um livro que para dizer A diz B. ou julguei perceber. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos até que percebi. a nenhuma dedica tantas páginas como à de Sansão. 8). ao derrubar os pilares do templo. Donne. naturalmente. a ressurreição. Catão –. I. Milton (Samson Agonistes. 30). e seu irmão Seth. Temístocles. transcreve as últimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingança: "Morra eu com os filisteus" (Juízes 16. a prévia certeza de que esses defensores têm razão faz com que os leiamos com negligência. Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta está aberta") e Schopenhauer ("Seria o monólogo de Hamlet a reflexão de um criminoso?") vindicaram o suicídio em abundantes páginas. um argumento implícito ou esotérico sob o argumento notório. Donne. "prodigioso esboço foi Jó de Cristo". foi símbolo de Cristo. que afirma que Sansão. Adão é imagem daquele que viria. in fine) defendeu-o da acusação de suicídio. mesmo que momentânea ou crepuscular. que Donne tenha aventado essa idéia é possível ou provável. Donne. e sim que obedeceu a uma inspiração do Espírito Santo. para São Paulo. para Santo Agostinho. que diz que Sansão. Começa por estabelecer que esse "homem exemplar" é emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arquétipo de Hércules. examina as mortes voluntárias relatadas nas Escrituras. Donne . como "emblema de Cristo". Invertendo a tese agostiniana. Isto me parece mais verossímil. ridículo. para refutá-los.virtude persuasiva – Sêneca. Não lhe interessava o caso de Sansão – e por que haveria de interessar-lhe? – ou só lhe interessava. não menos em sua morte que em outros atos. os quietistas acreditaram que Sansão. não foi culpado pelas mortes alheias nem pela própria. digamos. chamou-o à tarefa. Também recusa a conjetura de Santo Agostinho. mas não a de um trabalho animado por uma intuição imperfeita. Abel representa a morte do Salvador. na terceira parte do Biathanatos. que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos é. depois de provar que essa conjetura é gratuita. V. matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Españoles. Não há no Antigo Testamento herói que não tenha sido alçado a essa dignidade. Francisco de Vitoria e o jesuíta Gregorio de Valencia negaram-se a incluí-lo entre os suicidas. é artificial. "como a espada que dirige seus gumes pela disposição de quem a empunha" (A Cidade de Deus. à maneira de um criptograma. para Quevedo. viu nesse problema casuístico apenas uma sorte de metáfora ou simulacro. Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma antevisão desse argumento. "por violência do demônio. encerra o capítulo com uma sentença de Benito Pereiro. suspeito.

os séculos anteriores o prepararam. Antes de Adão ser moldado do pó da terra. e Babilônia. VIII.incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior. e Judá foram tirados do nada para destruí-lo. para a ferida. terse limitado a um versículo de São João e à repetição do verbo "expirar" é algo inverossímil e até inacreditável. quase agonizante. sugere Donne. infere que o suplício da cruz não matou Jesus Cristo e que. penso naquele trágico Philipp Batz.3 O fato de Donne. bem pode ser falso. Dessas passagens. publicou seu livro. Mainländer nasceu em 1841. os seguintes o refletem. antes de o firmamento separar as águas das águas. sem dúvida. O declarado fim do Biathanatos é atenuar o suicídio. Cristo morreu de morte voluntária. e o orbe. preferiu não insistir sobre um tema blasfemo. em 1631 incluiu-a em um sermão que proferiu. a vida e a morte de Cristo são o acontecimento central da história do mundo. 18). Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (João 10. o fundamental. De Quincey: Writings. leitor apaixonado de Schopenhauer. não o é. criou a terra e os céus. e Roma. este se matou com uma prodigiosa e voluntária emissão de sua alma. indicar que Cristo se suicidou. ele se matou. O capítulo que fala diretamente de Cristo não é efusivo. Essa idéia barroca insinua-se por trás do Biathanatos. Sob sua influência (e talvez sob a dos gnósticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que. Sou eu mesmo que a dou" (João 10. o Pai já sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e. Nesse mesmo ano. destruiu a si mesmo. Ao reler esta nota. e o sangue e a água. Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft. na capela do palácio de Whitehall. para explicitar essa tese. Filosofia da Redenção. que os quatro evangelistas utilizam para dizer "morreu". A de um deus que constrói o universo para construir seu patíbulo. II. e isso quer dizer que os elementos. e as gerações de homens. em 1876. 398. e Egito. Donne escreveu essa conjetura em 1608. Para o cristão. que na história da filosofia é chamado Philipp Mainländer. dito de Cristo". 3 Cf. e os espinhos. dito de Sansão. . 2. confirmadas pelo versículo "Ninguém tira a vida de mim. para a coroa do escárnio. como eu. 15) e a curiosa locução "entregou o espírito". A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos. ávido de não ser. Ele foi. para teatro dessa morte futura. no princípio dos tempos. na verdade.

o fato é que seu livro não projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialético. Pascal. creio. Pascal. E bem verdade que este busca Deus e aquele propõe-se libertar-nos do temor aos deuses. que fala da "infinita imensidão de espaços que ignoro e que me ignoram". acusa Pascal de uma dramatização voluntária. 12): "No presente vemos por espelho e . Percorri. O mundo de Pascal é o de Lucrécio (e também o de Spencer). Pascal menciona com desdém "a opinião de Copérnico". e sim de um poeta perdido no tempo e no espaço. mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francês. sua obra reflete a vertigem de um teólogo. como predicados do sujeito Pascal. a definição roseau pensant não nos ajuda a entender os homens. mas. mas apenas um homem. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. as palavras trêmulas de um homem que se sabe nu até as entranhas sob a vigilância de Deus. Nesta. porque. não haverá realmente um quando. que abordam.PASCAL Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. subseqüente. quanto a mim. as Escrituras. Certamente. desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. não encontrei a passagem que procurava. encontrou Deus. tampouco haverá um onde. como traços ou epítetos de Pascal. cheguei a pensar que essa exclamação fosse de origem bíblica. No primeiro. ele foi incomparável. a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente. e sim o príncipe Hamlet. para nós. No tempo. nunca vi nesses memoráveis fragmentos uma contribuição para os problemas. Assim como a definição quintessence of dust não nos ajuda a entender os homens. mas sua expressão dessa graça é menos eloqüente que sua expressão da solidão. e que talvez não exista. se futuro e passado são infinitos. ilusórios ou verdadeiros. Diz o Apóstolo (I Coríntios 13. basta lembrar o famoso fragmento 207 da edição de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro. lembro-me. antes. mas sim seu exato reverso. Vi-os. não há nada no universo que não sirva de estímulo ao pensamento. porque. Valéry. dizem. no espaço.

Essa edição3 propõe-se reproduzir. são pobres. que a dá como de Platão. embora registre ídolos. No presente conheço só em parte. aos anjos. Cf. As notas. Na opinião de alguns historiadores. é evidente que tal fim foi alcançado. A forma da esfera. inclui-se entre os cristãos denunciados por Swedenborg. na página 71 do primeiro volume. o aspecto "inacabado. Pascal afirma que a natureza (o espaço) é "uma esfera infinita cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".obscuramente. V) aplicou a sentença de Trismegisto ao universo material. ao contrário. Este. também Bernard Shaw: Man and Superman. para ilustração do fragmento 1 Que eu me lembre. não sabem falar com os anjos. Para Swedenborg. Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma. 9. aplicando o cálculo de probabilidades às artes apologéticas.2 Importa-se menos com Deus que com a refutação daqueles que o negam. híspido e confuso" do manuscrito. um dos mais vãos e frívolos. 1942). 34). é perfeita e convém à divindade (Cícero: De Natura Deorum. 13). o editor não a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrédulo".1 Não a grandeza do Criador. como para Boehme (Sex Puncta Theosophica. Empédocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita. é um dos homens mais patéticos da história da Europa. 3 A de Zacharie Tourneur (Paris. então veremos face a face. No segundo parágrafo. III. Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111. o insigne panteísta Giordano Bruno (Da Causa. 535. Por exemplo. 1941). em compensação. então conhecerei como agora sou conhecido". e sim a grandeza da Criação perturba Pascal. Isso pouco importa. que supõem que o céu é um prêmio e o h-demo um castigo e que. que a atribui a Hermes Trismegisto. ou no simbólico Roman de Ia Rose. Não menos exemplar é o caso do fragmento 72. esse trabalho poderia ser ampliado. caberia citar os textos de Arnobio. que é a do órgão visual.11. cúbicos ou piramidais. o significativo é que a metáfora que Pascal usa para definir o espaço foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade. . Ao pé de alguns textos. Madri. de Sirmond e de Algazel indicados por Asín Palacios (Huellas del Islam. 2 De Coelo et Inferno. Para ilustração do Pari. declarando em palavras incorruptíveis a desordem e a miséria (on mourra seul). Orígenes entendeu que os mortos ressuscitarão em forma de esfera. não um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. a história não registra deuses cônicos. Não é um místico. Antes de Pascal. Esférico foi Deus para Xenófanes e para o poeta Parmênides. 17). mediante um complexo sistema de sinais tipográficos. o céu e o inferno são estados que o homem busca com liberdade. o editor cita passagens congêneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura. publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmológica de Santo Tomás e de Leibniz. habituados à meditação melancólica.

Demócrito pensou que no infinito há mundos iguais. o simulacro de um simulacro.. 67) e em Hugo (La Chauve-Souris): Le moindre grain de sable est un globe qui roule Traînant comme la terre une lugubre foule Qui s´abhorre et s´acharne. sua prefiguração no conceito de microcosmo. para ilustração do fragmento 72 (" Je lui veux peindre l´immensité. o marceneiro.. e o pintor.contra a pintura... . sem nenhuma variação. onde se diz que Deus cria o arquétipo da mesa. Pascal (que também pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxágoras de que tudo está em cada coisa) pôs esses mundos idênticos um dentro do outro.. aquela passagem do décimo livro de A República. dans 1´enceinte de ce raccourci d´atome. É lógico pensar (embora ele não o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim. sua reaparição em Leibniz (Monadologia. um simulacro do arquétipo.”). onde homens iguais cumprem. de tal sorte que não há átomo no espaço que não encerre universo nem universo que não seja também um átomo. destinos iguais..

Por outro lado. Não há edição da Gramática de Ia Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos. Essa omissão é justa. pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. consultei. Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres. pela possibilidade de uma viagem à lua. para redigir esta nota. de Lancelot Hogben. mas condenável. etc. Sylvia Pankhurst. em algum momento. Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia. o Wörterbuch der Philosophie (1924). Todos nós. excetuando as palavras compostas e as derivações. Delphos (1935) de E. já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama. pela música. sem nenhuma corroboração. se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola". Wilkins morreu em 1672. A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 páginas in-quarto. se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614.). mas trata-se de pura vanglória. a cada . Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua". pela criptografia. esbanjando interjeições e anacolutos. 1668). todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos.O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. príncipe palatino.. de Fritz Mauthner. The Life and Times of John Wilkins (1910). Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford. essa mesma Real Academia elabora. pela confecção de colméias transparentes. nada se pode acrescentar a tais debates. pela trajetória de um planeta invisível. Wilkins foi capelão de Carlos Luís. de P A. Dangerous Thoughts (1939). Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional. jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon”. Wright Henderson.

oito 1000. birer. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos. imaru. recrementícios (limalhas. a cada diferença. imaba quer dizer edifício. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845). carnívoro. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras. A beleza figura na décima sexta categoria. latão). piçarra). chácara. o número de sistemas numéricos é ilimitado. abo. uma consoante. uma chama. acometeu o intento. preciosas (pérola. um 1. John Wilkins. por volta de 1664. uma vogal. depois.. refere-se a um peixe vivíparo. lazareto. eqüino. âmbar. imafe. imarri. deba. estanho. um para cada número inteiro. subdivisíveis em diferenças. sete 111. Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. o primeiro dos elementos. ferrugem) e naturais (ouro. elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta. Definido o procedimento de Wilkins. cascalho. módicas (mármore. Essas ambigüidades. que é o dos algarismos.. pilar. imede.) As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários.1 ele também propôs a formação de um idioma análogo. deb. azougue) artificiais (bronze. seis 110. três 11. encadernar. no colégio. transparentes (ametista. Descartes. é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo. já anotara que. a quer dizer animal. que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. mamífero. herbívoro. piso. No idioma análogo de Letellier (1850). gato. teto. opala). Zero escreve-se 0. que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching. o fogo. geral. por sua vez subdivisíveis em espécies. É invenção de Leibniz. imela. etc. do doutor Pedro Mata. imego. imedo. hospital. serralho. coral). mediante o sistema decimal de numeração. Wilkins divide-as em comuns (pederneira. encadernador. cobre). Consideremos a oitava categoria. imafo. quatro 100. um dicionário que define os vocábulos do espanhol. uma porção do elemento fogo. felino. oblongo. greda e arsênico). dois 10. No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII. aboj. cada palavra define-se a si mesma. bire. aboje. a cada espécie. a das pedras. casa. safira) e insolúveis (hulha. Por exemplo: de. Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre. poste. imogo. cada uma das letras que as integram é significativa. imaca. quer dizer elemento. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal.tantos anos. falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. abiv. cinco 101. janela. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso. o mais simples requer apenas dois. em uma epístola com data de novembro de 1629. como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 1 Teoricamente. . abi.. ab..

(m) que acabam de quebrar o vaso. as etimologias. correspondendo a 262 ao Papa. alvo de zombaria dos deuses superiores. fluvial. 1779). (f) fabulosos. notoriamente. em todas as suas fusões e conversões. ou a obra de um deus subalterno. (h) incluídos nesta classificação. o vocábulo correspondente. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. Pode-se ir além. (i) que se agitam como loucos. e a 294 ao bramanismo. sem dúvida. "O mundo – escreve David Hume – talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade. a 298 ao mormonismo. que tenha essa ambiciosa palavra. (e) sereias. a 282 à Igreja Católica Romana. as sinonímias do secreto dicionário de Deus. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados.Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas.) Esperanças e utopias à parte. ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. a 263 ao Dia do Senhor. de carne avermelhada. no entanto. zana.. define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso. que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion. Virtudes e qualidades idades várias”.000 subdivisões. (g) cães soltos. Proteção dos animais. Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas. (b) embalsamados. (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo. (Teoricamente. A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode. unificador. passado e vindouro. Verbi gratia. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1. xintoísmo e taoísmo. Crê que mesmo de dentro . falta conjeturar seu propósito. a 268 às escolas dominicais. envergonhado de sua execução deficiente. o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é. contudo. Crê. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos. falta conjeturar as palavras. não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino. (d) leitões. talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. Se houver. dissuadir-nos de planejar esquemas humanos. mesmo sabendo que eles são provisórios. budismo. A palavra salmão não nos diz nada. V. as definições. Vícios e defeitos vários. engenhoso.. O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico. (l) etcétera. a 179: "Crueldade com os animais. (c) amestrados. Não recusa as subdivisões heterogêneas. que esses matizes. não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural. (n) que de longe parecem moscas.

Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. pensei reconhecer sua voz. a metade da metade. a metade da metade da metade. nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. porque antes deverá percorrer a metade do percurso entre os dois. exatamente. a de O Castelo. a afinidade não está na forma. Registrarei aqui alguns deles. De início. KAFKA E SEUS PRECURSORES Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. e sim no tom. assim o declaram as odes. Até os párvulos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. e o móvel. as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade.de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. Watts. Trata-se de um apólogo de Han Yu. 88. Não é como o cavalo ou o touro. e antes. p. poderíamos estar diante do unicórnio e não saberíamos com . e assim até o infinito. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou. F. ou seus hábitos. O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento. o lobo ou o cervo. eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas. prosador do século IX. misterioso e tranqüilo: "Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro. nem sempre é fácil encontrá-lo. Este é o parágrafo que assinalei. em ordem cronológica. e consta na admirável Anthologie Raisonée de la Littérature Chinoise (1948) de Margouliè. não se presta a uma classificação. Em tais condições. os anais. e a flecha. e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura. a forma desse ilustre problema é. Um móvel que se encontra no ponto A (declara Aristóteles) não poderá chegar ao B. depois de algum convívio. 1904). e antes.

(Este conto é. que eu saiba. Os párocos dinamarqueses teriam declarado de seus púlpitos que participar de tais expedições convinha à saúde eterna da alma. se não me engano. de Léon Bloy. e os grafólogos afirmam a apocrifia das cartas. de Jung. Quanto à quarta prefiguração. justamente por sabê-lo afeito ao mal. os heterogêneos textos que enumerei parecem-se a Kafka. mas. o reverso exato do anterior. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro. transcreve duas. desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma missão. dois contos. Em cada um desses textos. encontra-se a idiossincrasia de Kafka. atlas. não a 1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mãos do vulgo são temas tradicionais da literatura chinesa.1 O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. O sujeito da outra são as expedições ao Pólo Norte. subjuga reinos. no primeiro.segurança que se trata dele. e o fato é que. vigiado incessantemente. Um homem tem. olhando-se bem. é o fato de Kierkegaard. 1938). as cédulas do Banco da Inglaterra. em maior ou menor grau. pergunta: "E se esse amigo for Deus?". e que nem todos poderiam empreender a aventura. Ele nunca o viu. vê monstros e fadiga os desertos e as montanhas. digamos. do mesmo modo. até o momento. Por fim. assim como Kafka. como se percebe facilmente. mas eles nunca chegam a Carcassonne.) Se não me engano. se ele não tivesse escrito. entretanto. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito. no vapor de carreira – ou um passeio dominical em carro de praça são verdadeiras expedições ao Pólo Norte. no último verso. Teriam admitido. guias ferroviários e baús e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. no último. Minhas notas registram. que traz duas curiosas ilustrações. Este último fato é o mais significativo. Um deles pertence às Histoires Désobligeantes. A afinidade mental de ambos os escritores é coisa por ninguém ignorada. Há quem ponha em dúvida os gestos. encontrei-a no poema "Fears and scruples". e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres. em seu Kierkegaard (Oxford University Press. Uma é a história de um falsificador que examina. O outro intitula-se "Carcassonne" e é obra de Lord Dunsany. Ver o último capítulo de Psychologie und Alchemie (Zurique. qualquer viagem – da Dinamarca a Londres. também. 1944). ter sido pródigo em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. não se chega. Não sabemos como é o unicórnio". mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autênticas. Lowrie. que chegar ao Pólo era difícil. publicado em 1876. Deus. . o tal amigo não pôde ajudá-lo. de Browning. o que não se destacou ainda. embora por vezes a divisem. O homem. um amigo famoso. teriam anunciado que. nunca se sai de uma cidade. nem todos se parecem entre si. talvez impossível. ou acredita ter.

Eliot: Points of View (1941). O poema "Fears and scruples". mas se deveria tentar purificá-la de toda conotação de polêmica ou de rivalidade.perceberíamos. O fato é que cada escritor cria seus precursores. não existiria. 25_26.2 Nessa correlação. O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes que Browning ou Lord Dunsany. como há de modificar o futuro. vale dizer. de Robert Browning. profetiza a obra de Kafka. . a palavra precursor é indispensável. 1951. No vocabulário crítico. mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. p. Browning não o lia como agora nós o lemos. não importa a identidade ou a pluralidade dos homens. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado. Buenos Aires. 2 Ver T S.

não são inteiramente coincidentes. qualquer livro. e. afirmou: "É árdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo. e a do francês. e César lhe diz: "Deixa que arda. esse receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria. a declaração de Mallarmé: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir. mas o livro não escolhe seus leitores. Para atenuar ou eliminar esse inconveniente. uma piada sacrílega. homem de cultura pagã: "O mais prudente é não . O César histórico. a do grego corresponde à época da palavra oral. é para nós um objeto sagrado: já Cervantes. Um livro. mas não o julgaria. Este. É voz corrente que Pitágoras não escreveu. Gomperz (Griechische Denker. narrou uma fábula egípcia contra a escrita (cujo hábito faz as pessoas descuidarem do exercício da memória e dependerem de símbolos) e disse que os livros são como as figuras pintadas. como nós. uma vez descoberto. lia até "os papéis rasgados das ruas". "que parecem vivas. aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui. 1. no Timeu. que podem ser malvados ou néscios. em uma das comédias de Bernard Shaw. Uma fala em cantar. que talvez não escutasse tudo o que as pessoas diziam. em minha opinião. é impossível divulgá-lo a todos os homens". ele imaginou o diálogo filosófico. ameaça a biblioteca de Alexandria. O mestre escolhe o discípulo. a uma época da palavra escrita. o mesmo conceito de uma justificativa estética para os males. Mais força que a mera abstenção de Pitágoras tem o testemunho inequívoco de Platão. É uma memória de infâmias". no Fedro. a palavra escrita não passava de um sucedâneo da palavra oral. alguém exclama que aí arderá a memória da humanidade. A razão é clara: para os antigos. 3) defende que ele assim procedeu por ter mais fé na virtude da instrução falada.DO CULTO AOS LIVROS No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que cantar. mas não respondem uma palavra às perguntas que lhes são feitas". a outra em livros. O fogo. uns trinta séculos mais tarde. As duas teleologias. e. contudo.

encerra um testemunho desse costume no século II. pedisse explicação de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la. lendo sem articular as palavras. para penetrar melhor o sentido. pois o escrito fica" (Stromateis). que sumia com facilidade. Para os 1 Os comentadores advertem que. da pena sobre a voz. com a passagem de muitas gerações. treze anos mais tarde. nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava –. no livro seis das Confissões: "Quando Ambrósio lia. atento às dificuldades do texto. com o que não poderia ler tantos volumes como desejava. conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o espírito. por volta do ano 384. e sim aprender e ensinar de viva voz. pudemos vê-lo ler caladamente e nunca de outro modo. que uma única vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (João 8. não queria que o ocupassem com outra coisa. a de uma Escritura Sagrada. certamente era bom". culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada. e nestas outras. omitindo o signo sonoro. Conta Santo Agostinho. a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de códices. Um admirável acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao chamá-lo instante) em que teve início o vasto processo. livre do tumulto das questões alheias. e ler em grupo.escrever. para que não as pisoteiem e depois se voltem para vos destroçar". . Santo Agostinho foi discípulo de Santo Ambrósio. a estranha arte que ele iniciava. de Henry James e de James Joyce. Resultaria. o maior dos mestres orais. que derivam também das evangélicas: "Não deis o santo aos cães nem jogueis vossas pérolas aos porcos. e depois de algum tempo retirávamo-nos. O diálogo de Luciano de Samósata. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz. redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé. na Numídia. era costume ler em voz alta. não como instrumento de um fim. talvez receoso de que um ouvinte. corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido. sem proferir uma palavra nem mover a língua. (Esse conceito místico. Muitas vezes – posto que ninguém era proibido de entrar. ele redigiria suas Confissões e ainda o inquietaria aquele singular espetáculo: um homem em um aposento. em fins do século IV iniciou-se o processo mental que. com um livro.1 Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição. naquele tempo. transposto à literatura profana. resultaria em conseqüências maravilhosas. passados muitos anos. Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do século II. do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada nas mãos de uma criança". Em todo o caso que fosse o propósito de tal homem. Essa sentença é de Jesus. 6). no conceito do livro como fim. Contra um Ignorante Comprador de Livros. bispo de Milão.) À noção de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpõe-se a do Livro Absoluto. a arte de ler em voz baixa. pois não havia sinais de pontuação nem sequer divisão de palavras.

Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso. No início do século XVII. em seu Advancement of Learning. criou o universo mediante os números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto. revela que Jeová dos Exércitos. George Sale observa que esse incriado Alcorão não é outra coisa senão sua idéia ou arquétipo platônico. Que os números sejam instrumentos ou elementos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico. e qual sobre a cólera.muçulmanos. Mais longe foram os cristãos. Motti e Sentenze. cores). o Algazel dos escolásticos. está depositado no Céu. o segundo. e qual sobre o fogo. lemos que o texto original. A segunda seção da antologia de Favaro (Galileo Galilei: Pensieri.2 Sir Thomas Browne. como a alma dos homens ou o universo. que revela Sua vontade. que revela Seu poderio. o volume das Escrituras. Florença. o volume das criaturas. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação). transmitidos ao Islã pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena. No primeiro capítulo de sua Bíblia encontra-se a famosa sentença: "E Deus disse: seja a luz. Muhammad al-Gazali. que as letras o sejam é claro indício do novo culto à escrita. pronunciado com a língua. como Sua eternidade ou Sua ira. e qual sobre o sonho. e qual sobre a sabedoria. opinava que o mundo era redutível a formas essenciais (temperaturas. a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo. densidades. por 2 Nas obras de Galileu é freqüente o conceito do universo como livro. escrito na Síria ou na Palestina por volta do século VI. é um dos atributos de Deus. que conformavam. guardado no coração e. Bacon propunha-se muito mais que construir uma metáfora. e qual sobre a graça. é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos. Al Kitab) não é mera obra de Deus. combinou-as. serviu parra formar o sol no mundo. pesou-as. No capítulo XIII. revela-se qual letra tem poder sobre o ar. um abeceddarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. pesos. e a luz foi". os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. no entanto. A Mãe do Livro. que tem poder sobre a vida. . e qual sobre a paz. O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as. Em seguida. continua perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos". sendo este a chave daquele. o "Alcorão" (também chamado O Livro. e qual a água. 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. A idéia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. e como (por exemplo) a letra kaf. declarou: "O Alcorão é copiado em um livro. para justificar a noção da Mãe do Livro. que Deus nos oferecia dois livros para que não incorrêssemos no erro: o primeiro. gravou-as. Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. Francis Bacon declarou. permutou-as e com elas produziu tudo o que é e tudo o que será". em número limitado.

1951. O mundo. suas idéias. círculos e outras figuras geométricas". segundo Bloy. em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. o universo). lê-se: "Todas as coisas são artificiais. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. somos versículos. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta" (L´Âme de Napoléon. descobriu-O no segundo" (religio Medici. Léon Bloy escreveu: "Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. seus sentimentos.. I. mas ininteligível se antes não estudarmos a língua nem conhecermos os caracteres em que está escrito. 1912). e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo. ou letras de um livro mágico. confirmou: "Dois são os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e público manuscrito que é patente a todos os olhos. Depois. seu imorredouro Nome no registro da Luz. Quem nunca O viu no primeiro. Buenos Aires. A língua desse livro é matemática. superou a conjetura de Bacon. estampou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual também somos escritos. 16).volta de 1642. e os caracteres são triângulos. . nem qual é seu nome verdadeiro. Duzentos anos se passaram e o escocês Carlyle. a que correspondem seus atos.. é o mundo. porque a Natureza é a Arte de Deus". ou palavras. No mesmo parágrafo. Transcrevo o seguinte parágrafo: "A filosofia está escrita naquele enormíssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer. segundo Mallarmé. existe para um livro.

outro crítico. que John Keats. na primeira estrofe de seu poema. Amy Lowell escreveu com mais acerto: “O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou poético logo intuirá que Keats não se refere ao rouxinol que cantava nesse momento. chamou o rouxinol de dríade. que ele poliria muito pouco. na sétima. Em sua monografia sobre Keats. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente. à idade de vinte e três anos. Keats. e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. tísico. Transcrevo sua curiosa declaração: “Com um erro de lógica. é também uma falha poética. e sim à espécie”. Garrod. uma divindade dos bosques. a falácia incluída nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu…”. F. a meu ver. . sua virtude. em uma antiga tarde. agora. em campos de Israel. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o escólio: “Naturalmente. “que não abatem as famintas gerações” e cuja voz. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro. que eu saiba. ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare. que. em que entende a vida da espécie”. pobre e talvez desafortunado no amor. a ave é imortal porque é uma dríade. mas sim sua interpretação.R. duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza. em que entende a vida do indivíduo. no jardim suburbano. O nó do problema está na penúltima estrofe. publicada em 1887. a moabita. alegou esse epíteto para sentenciar que. a permanência da vida do pássaro. é aquela que. como a árvore dá folhas. compôs em um jardim em Hampstead. Bridges repetiu a denúncia. não foi discutida por ninguém. e sentiu sua própria mortalidade. Keats. ouviu Rute. com toda a seriedade. em uma das noites do mês de abril de 1819.O ROUXINOL DE KEATS Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a “Ode a um rouxinol”. Keats opõe-se à fugacidade da vida humana. Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questão. Em 1895.

A “Ode a um rouxinol” data de 1819. para. entendo que. para estes. sem exagerada injustiça. Esclarecida assim a primeira dificuldade. Keats. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute. fala em “morrentes gerações” de pássaros. 1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats. R. mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro”. Bridges escreveu um poema platônico intitulado “The fourth dimension”. Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. que. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. congregou e deu nome aos Cambridge Platonists —. Platão. é o mapa do universo. Através das latitudes e das épocas. adivinhou o espírito grego nas páginas de algum dicionário escolar. o menos vão é o da norte-americana Amy Lowell. lê-se o seguinte: “Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. a mera enumeração desses fatos parece agravar o enigma. A chave. essa ordem. Ver T. para aqueles. as ordens e os gêneros são realidades. de índole muito diversa.Cinco pareceres de cinco críticos atuais e passados recolhi. talvez incapaz de definir a palavra arquétipo. na primeira estrofe de “Sailing to Byzantium”. Se não me engano. p. nada li”. . 211. suspeito. está. de todos. que são generalizações. em unia alusão deliberada ou involuntária à “Ode”. Os últimos sentem que as classes. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser. o aristotélico. os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides. Ou seja. sutilíssima prova dessa adivinhação ou recriação é ele ter intuído no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platônico. Como é possível que Garrod. o indivíduo é de certo modo a espécie. No capítulo 41. que. a exata chave da estrofe. Leavis e os outros1 não tenham chegado a essa interpretação evidente? Leavis é professor de um dos colégios de Cambridge — a cidade que. Henn: The Lonely Tower. Keats. sua razão deriva de algo essencial na mente britânica. uma ordem. 1950. em um parágrafo metafísico de Schopenhauer. no século XVII. pôde escrever: “Nada sei. falta esclarecer uma segunda. os primeiros. que nunca a leu. mas nego a oposição que nele se postula entre o efêmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genérico. a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos. antecipou-se em um quarto de século a uma tese de Schopenhauer.

Francis Bradley. inassimilável e ímpar. mestre da humana razão (Dante. por Milton e Matthew Arnold. essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke.) “Ser é ser percebido. há cerca de setenta anos. a economia da fórmula de Occam. Um escrúpulo ético. menos afim com a calhandra que com o anjo. 2 3 “Os entes não devem ser multiplicados além do necessário. os realistas. nascem aristotélicos ou platônicos. como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. não são os conceitos abstratos. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII. mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre. o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica. como os alemães. Não entende a “Ode a um rouxinol”. E natural. não o rouxinol genérico. IV. as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado. De tão exaltado pelos poetas.) . foi celebrado por Chaucer e Shakespeare. mas os nominalistas são Aristóteles. Aristóteles. antigo cantor da tarde. Heráclito. e sim os rouxinóis concretos.Spinoza. impede-o de transitar por abstrações. Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. William James. não uma incapacidade especulativa. Convivio. Kant. Hume. Locke.” (N.” (N. O real. trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta. Platão. da T. ser Berkeley e ser Hume. 2). é talvez inevitável. em todas as línguas do orbe. disse Coleridge. nachtigall. “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”2 permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”3 Os homens. que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida. ele agora é um tanto irreal. desfruta de nomes melodiosos (nightingale. Nas árduas escolas da Idade Média. para essa mente. usignolo). O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível. da T. e escrever. O rouxinol. e sim os indivíduos. todos invocam Aristóteles. de Swinburne. o outro. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu.

Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente não vemos Deus senão como em um espelho e sob imagens obscuras: mas então o veremos face a face. nos cabalistas. determinado e premeditado por Deus.) Um versículo de São Paulo (I Coríntios 13. não vai uma distância infinita.O ESPELHO DOS ENIGMAS A idéia de que a Sagrada Escritura tem (além de seu valor literal) um valor simbólico não é irracional e é antiga: está em Filão de Alexandria. Também De Quincey1 a declara: "Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo têm suas chaves correspondentes. mas então conhecerei como sou 1 Writings. (Nos fragmentos psicológicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure há uma hipótese afim: a de que o mundo externo – as formas. 12) inspirou Léon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. sua severa gramática e sua sintaxe. em Swedenborg. ninguém tão assombrosamente como Léon Bloy. a lua – é uma linguagem que esquecemos. Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas. a Verdade não pode mentir.. na escuridão. da maneira que eu sou conhecido". volume 1. ou que mal soletramos. as temperaturas. Muitos devem tê-la percorrido. Cipriano de Valera é mais fiel: "Agora vemos por espelho. 1896. Agora conheço em parte. simbólico. mas então veremos face a face. etcétera).. impossível ser mais palavroso e mais frouxo. Daí a pensar que a história do universo. representaram cegamente um drama secreto. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum". p. Agora eu não o conheço senão imperfeitamente: mas então o conhecerei com uma visão clara. 129 . – e nela nossas vidas e o mais tênue detalhe de nossas vidas – tem valor inconjeturável. ao executá-los. e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores". Como os fatos referidos pela Escritura são verdadeiros (Deus é a Verdade. devemos admitir que os homens.

a nossa visão geral. A segunda é de novembro do mesmo ano. O Czar é o chefe e pai espiritual de cento e cinqüenta milhões de homens. Eis aqui algumas. livro cujo propósito é decifrar o símbolo Napoleão. Em cada uma das páginas de L´Ame de Napoléon. um reflexo exterior de nossos abismos. perante Deus. Não penso tê-las esgotado: espero que algum especialista em Léon Bloy (eu não sou) venha a completá-las e retificá-las. Vemos agora. que resgatei das páginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat. Se os pobres de seu império vivem oprimidos sob seu reinado. recebemos. quem pode garantir que não é o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade. como todos sabem. A primeira é de junho de 1894. Vemos todas as coisas ao contrário.conhecido". Ao longo de sua obra fragmentária (povoada. quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?" A terceira é de uma carta escrita em dezembro. Cipriano de Valera (e Léon Bloy)." A sexta é de 1912. considerado precursor de outro herói – também ele homem e símbolo – oculto no futuro. até a dor mais lancinante." A quinta é de maio de 1908. vistos ao contrário. etc. Que eu saiba. Torres Amat entende que o versículo se refere a nossa visão da divindade. diz São Paulo. "Aterrorizante idéia de Joana acerca do texto Per speculum. afirma São Paulo. Basta-me citar . que é a alma do homem. Somos dormentes que gritam durante o sono. se desse reinado resultam imensas catástrofes. de Le Vieux de la Montagne e de L ´Invendable. é porque ela verdadeiramente existe em nossa alma". Se vemos a Via Láctea. A aterrorizante imensidão dos abismos do firmamento é uma ilusão. "Tudo é símbolo.. de lamentos e afrontas) há versões ou facetas diversas. literalmente: ‘em enigma por um espelho’. percebidos ‘em um espelho’. " A quarta é de maio de 1904. quem é verdadeiramente Czar. Não sabemos se tal coisa que nos aflige não é o secreto princípio de nossa alegria ulterior. Talvez ele apenas seja responsável. em um espelho. Então (ouço de uma querida alma angustiada) nós estamos no céu e Deus sofre na terra.. "Recordo uma de minhas idéias mais antigas. Traduzo-a assim: "A sentença de São Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabóia para mergulhar no Abismo verdadeiro. "Per speculum in aenigmate. Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno. Quando pensamos dar. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos corações. pelo qual Deus quis morrer. Atroz responsabilidade que não passa de aparência. e não veremos de outro modo até o advento d´Aquele que está todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas. por uns poucos seres humanos. per speculum in aenigmate. quem é rei. Bloy não imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva.

Que eu saiba. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. a somar o valor numérico das letras.duas passagens. Essa premissa portentosa de um livro impenetrável à contingência. que tenha duplo ou triplo sentido. Julgava-se um católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas. desde o dia de seu nascimento até o de sua morte. e talvez inevitáveis. eu prefiro um exemplo. o da desgraça. de uni livro que é um mecanismo de propósitos infinitos. Os passos dados por um homem. mas entendo que o mundo hieroglífico postulado por Bloy é o mais conveniente à Dignidade do Deus intelectual dos teólogos. suas idéias. mais improvável. Outra: "Não há na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele é.. como a dos homens um triângulo. dos materiais invisíveis que servirão para edificar A Cidade de Deus". Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. irmão secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas. a procurar acrósticos e anagramas e a outros rigores exegéticos dos quais não é difícil zombar. a fazer conta de sua forma. ou uma montanha. observará o incrédulo.. Não há teólogo que não a defina. Bloy (repito) só fez aplicar a toda a Criação o método que os cabalistas judeus tinham aplicado à Escritura. Eu entendo que é assim. 2 O que é uma inteligência infinita?. Estes pensaram que uma obra ditada pelo Espírito Santo era um texto absoluto: vale dizer. de criptografia dos anjos – em todos os instantes e em todos os seres do mundo. Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo. um texto em que a colaboração do acaso é calculável em zero. Sua apologia é que nada pode ser contingente na obra de uma inteligência infinita.2 Léon Bloy postula esse caráter hieroglífico – esse caráter de escrita divina. nem qual é seu nome verdadeiro. desenham no tempo uma inconcebível figura. ninguém tratou de examiná-los. ainda. . seus sentimentos. "Nenhum homem sabe quem é". O supersticioso crê penetrar essa escrita orgânica: treze comensais articulam o símbolo da morte. seu imorredouro Nome no registro da Luz. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta". a observar as minúsculas e maiúsculas. poderá indagar o leitor. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente. Os parágrafos acima talvez pareçam ao leitor meras gratuidades de Bloy. Uma: "Cada homem está na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partícula. Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima.. afirmou Léon Bloy. levou-os a permurtar as palavras escriturais. Parece improvável que o mundo tenha sentido. a que correspondem seus atos. Ouso julgá-los verossímeis. dentro da doutrina cristã. uma opala amarela..

Josef Stálin. A Handbook of Constructive World Revolution – corre o risco de parecer. Também demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra. Mais importante que esses resmungos epigramáticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria facílimo triplicar ou quadruplicar) é a doutrina desse manual . os ingênuos que supõem que basta exorcizar ou destruir os demônios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisíaco. no dia seguinte. Reuni algumas invectivas de Wells: não são literariamente memoráveis. Suas bem legíveis páginas denunciam o Führer. Sir Samuel Hoare. a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britânica. por vozes e rumores radiofônicos e por alguns mensageiros de bicicleta". "que parece não poupar o menor esforço para que a Alemanha ganhe uma guerra que já perdeu". nas horas centrais da batalha. por tanques fabricados na Tchecoslováquia. algumas parecem-me injustas. os que opinam que esta guerra "é uma guerra de ideologias" e não uma fórmula criminosa "da desordem presente". os norte-americanos e ingleses "que traíram a causa liberal na Espanha". "mental e moralmente néscio". uma simples enciclopédia de injúrias. "o inconsolável viúvo quintessencial da Liga das Nações". "que chia como um coelho esganado". Goering. varrem os estilhaços de vidro e retomam as tarefas da véspera". à primeira vista. os generais do exército francês. Eden. mas demonstram a imparcialidade de seus ódios e de sua indignação. "aniquilados de cidades que. o Ministério das Relações Exteriores inglês. o "rancoroso cortiço" Irlanda do Sul. "embora ninguém saiba o que é o proletariado nem como e onde ele dita". "derrotados pela consciência da inépcia. o "absurdo Ironside". que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado.DOIS LIVROS O último livro de Wells – Guide to the New World.

Wells. porque quase todos os meus contemporâneos o são. São. todos. Tal doutrina é resumível nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revolução geral (com a de um mundo federado). que se julgam muito diferentes de Goebbels. com um léxico de Gauleiter. Os três capítulos finais discutem alguns problemas menores. nacionalistas. todos juraram que um judeu-alemão difere enormemente de um alemão. Ninguém. a principal é esta: a diferença entre judeus e nãojudeus parece-me. Nesse livro. a frente de batalha da humanidade. Vindicadores da democracia.revolucionário. Uns declaravam-se republicanos. não é nazista. ilusória ou imperceptível. Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis traços diferenciais. econômico ou étnico. não são nada.. no mesmo dialeto do inimigo. insignificante. Até os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas. Desde 1925. ou a vitória é inacessível e inútil. Há várias razões para que eu não seja um anti-semita. uma mais nobre espécie de nazistas. por mais que o neguem ou o ignorem. 48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. Também recordo com certo estupor uma assembléia convocada em repúdio ao anti-semitismo. Em vão lembrei-lhes que não outra coisa diz Adolf Hitler. Se não forem essa frente." Let the People Think é o título de uma seleção de ensaios de Bertrand Russell. p. quis compartilhar minha opinião. O capítulo XII (p. Wells. outros. às vezes. como em outros – The Fate of Homo Sapiens. em vão insinuei que uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita. Inacreditavelmente. outros. a escutar o palpitar de um coração que recolhe os íntimos mandados do sangue e da terra. em geral. insta-nos a repensar a história do mundo sem preferências de caráter geográfico. durante a Guerra Civil Espanhola. 204). marxistas. No terceiro artigo – "Free . Russell também emite conselhos de universalidade. Na verdade. "Ninguém em seu perfeito juízo – declara Wells – pensa que os homens da Grã-Bretanha são um povo eleito. The Common Sense of War and Peace. disputando a hegemonia do mundo com os alemães. basta que seja um ser humano. não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido em um determinado país e de pertencer a tal raça (ou a tal boa mescla de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. instam seus leitores. sim. inacreditavelmente. Esse dever é um privilégio. tal repressão não é descabida: limita-se a exigir dos Estados. por mais patéticos ou pitorescos que sejam. 1939. para sua melhor convivência. na obra cujo comentário esbocei. Lembro-me de certas discussões indecifráveis. 1940 –. naquele dia.. o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos. ninguém pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg. em vão citei a sábia declaração de Mark Twain: "Eu não pergunto de que raça é um homem. falavam em Raça e Povo.

Mais complexa e eloqüente é a contribuição de Carlyle. podemos conjeturar que não há no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam. O primeiro. Louvou a Idade Média. escreveu que a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam.. em 1843. Pior ainda: exercem uma sorte de magia. sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos. horrendo em públicos exércitos e em secretos espiões. não passa de uma reverberação imperfeita de velhas discussões. Daí o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporâneos: a realidade é sempre anacrônica. condenou as rajadas de vento parlamentar. não é menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". de Knox. Lênin. baseia a superioridade dos alemães na ininterrupta posse de um idioma puro. nobre. Das pessoas que conheço. podemos lembrar que o alemão é menos "puro" que o basco ou que o hotentote. uma transcrição de Karl Marx. de Cromwell. que nos exaspera ou exalta e que com certa freqüência nos aniquila. 251). pensam "sport").. pouquíssimas sequer a soletram. O autor começa observando que os fatos políticos provêm de especulações muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgação de uma doutrina e sua aplicação. Essa razão é quase inesgotavelmente falaz.thought and official propaganda”. Este. confundem a verdade com o corpo doze. profunda. do taciturno doutor Francia e . Hitler. Fichte (1762-1814). Em 1870 aclamou a vitória da "paciente.. de Frederico II.. Por exemplo. Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle. É assim: a "atualidade candente". por mais que os puristas digam "esporte". Russell propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses. é um pleonasmo de Carlyle (17951881) e até de J. Nossos "nacionalistas" já exercem esse método paradoxal: ensinam a história argentina de um ponto de vista espanhol. vangloriosa. pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas. não o são as representações. Dos outros artigos. quando não quíchua ou querandí. na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation. tomo VII. o Bastardo. vindicou a memória do deus Thor. gesticulante. podemos indagar por que é preferível um idioma sem mistura. de Guilherme. pugnaz. p. ele propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. intranqüila. hipersensível França" (Miscellanies. negam-se a entender que a afirmação: "Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta" é mero eufemismo para admitir a perda de B. reescrever essa história do ponto de vista francês. pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo. G. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. sólida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona. ostensivamente triunfais.

Bertrand Russell conclui: "De certo modo. preconizou a pena de morte. é lícito afirmar que o ambiente do início do século XVIII era racional e o de nosso tempo. almejou um mundo que não fosse "o caos provido de umas eleitorais". alegrou-se por haver um quartel em cada povoado. propôs a transformação das estátuas – "horrendos solecismos de bronze" – em úteis banheiras de bronze. a Raça Teutônica. de 1850. e inventou. incensou. condenou a abolição da escravatura. . Quem quiser mais imprecações ou apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets. anti-racional". Eu suprimiria o tímido advérbio que encabeça a frase.de Napoleão.

mas aplaudiram os prodígios do Blitzkrieg. um livro e uma lembrança me iluminaram. à força de exercer a incoerência. de Shaw. mas reprovam com vigor as piratarias britânicas. que qualquer incerteza seria preferível a um diálogo com esses consangüíneos do caos. Esses versáteis. De mais a mais. a magia dos símbolos Paris e libertação seja tão poderosa que os partidários de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. a descoberta de que uma emoção coletiva pode não ser indigna. onde se afirma que o horror do Inferno é sua . mas opinam que a independência da América foi um erro. e a simples adesão à realidade eram explicações verossímeis do problema. mas abominam a América "saxã". são anti-semitas. o enigmático e notório entusiasmo de muitos partidários de Hitler.ANOTAÇÃO AO 23 DE AGOSTO DE 1944 Essa jornada populosa deparou-me três heterogêneos assombros: o grau físico de minha felicidade quando soube da libertação de Paris. Sei que investigar esse entusiasmo é correr o risco de parecer-me aos vãos hidrógrafos que indagavam por que basta um único rubi para deter o curso de um rio. Mas ele ocorreu. Cansado. Freud não concluiu e Walt Whitman não pressentiu que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta? Quem sabe. Noites mais tarde. mas professam uma religião de origem hebréia. e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunhá-lo. optei por supor que certo espírito noveleiro. abençoam a guerra submarina. idolatram San Martín. para os quais a infinita repetição da interessante fórmula "sou argentino exime da honra e da piedade. também. O livro foi Man and Superman. pensei comigo. Ponderei. muitos me acusarão de pesquisar um fato quimérico. perderam por completo a noção de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raça germânica. aplicam aos atos da Inglaterra o cânone de Jesus. denunciam o imperialismo. condenam os artigos de Versailles. mas aos da Alemanha o de Zaratustra. mas vindicam e promulgam a tese do espaço vital. Logo de início entendi que seria inútil interrogar os protagonistas. e o temor. a passagem a que me refiro é aquela do sonho metafísico de John Tanner.

inclusive o Diabo. os homens só podem morrer por ele. Hitler. anunciou a grande notícia: os exércitos nazistas tinham ocupado Paris. um tártaro. Creio poder interpretálos assim: para europeus e americanos. É inabitável. pode desejar que ele triunfe. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. . de mal-estar. na solidão central do próprio eu. uma impossibilidade mental e moral. um conquistador do século XVI. Ninguém. A lembrança foi daquele dia que é o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. que negou a existência substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas.irrealidade. essa doutrina pode comparar-se à de outro irlandês. Então compreendi que ele também estava apavorado. Algo que não entendi me conteve: a insolência do júbilo não explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamação. a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. colabora com os inevitáveis exércitos que o aniquilarão. no limite. Nesse dia. entrou em minha casa. Acrescentou que muito em breve esses exércitos entrariam em Londres. assim como os abutres de metal e o dragão (que não deviam ignorar sua condição de monstros) colaboraram. retornariam a Deus. de modo cego. um pele-vermelha) é. mentir por ele. Ser nazista (brincar de barbárie enérgica. João Escoto Erígena. postado à porta. O nazismo padece de irrealidade. Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidação. Toda oposição era inútil. matar e ensangüentar por ele. um germanófilo. há uma ordem – uma única ordem – possível. cujo nome não quero lembrar. como os infernos de Erígena. com Hércules. Senti um misto de tristeza. misteriosamente. um gaúcho. brincar de ser um viking. de nojo. nada poderia deter sua vitória.

romance a cujas dez últimas páginas William Beckford deve sua glória. destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labiríntica. o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma menção às obras de Michelangelo. Tão complexa é a realidade. William Beckford. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. fascinado por suas mudanças de domicílio. de seu comércio com a noite e com as auroras. mal consegue reservar um parêntese para o Maelström e para a cosmogonia de Eureka. Ninguém se resigna a escrever a biografia literária de um escritor. Não é inconcebível uma história dos sonhos de um homem. O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observações. de Fonthill. Chapman. de todos os momentos em que ele imaginou as pirâmides. outra. a série 3. de biografias de um homem destacando fatos independentes. a série 9. em 1943.SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda menção às obras de Michelangelo. 13. Setecentas páginas in-oitavo compreende certa vida de Poe. a biografia militar de um soldado. a biografia econômica. grande senhor. a biografia tipográfica. 39. Outro exemplo. esta curiosa revelação feita no prefácio a uma biografia de Bolívar: "Neste livro fala-se tão escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleão".. outra.. a biografia cirúrgica. 21.. 30. 17. 22. das falácias por ele perpetradas.. outra. outra. dos órgãos de seu corpo. o autor. outra. O prefácio que Mallarmé escreveu para sua reimpressão de 1876 é pródigo em observações felizes (por exemplo: . mas prescinde de uma análise de Vathek. tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido. encarnou um tipo bastante comum de milionário. O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contemporânea: agora. outra. 12.. não é. 21. Uma das hipotéticas biografias registraria a série 11. e quase infinito. infelizmente. Tudo isso pode parecer uma completa quimera. seu biógrafo.. a biografia psiquiátrica. viajante. 33. bibliófilo.. Confrontei várias críticas a Vathek. e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo. construtor de palácios e libertino. todos preferem a biografia genealógica..

que virá de uma terra desconhecida. Vathek. Belloc (A Conversation with an Angel. Um homem (que logo desaparece também) consegue decifra-los. nono califa abássida) ergue uma torre babilônica para decifrar os planetas. os diademas dos sultões préadamitas e de Solimão Bendaud. Um mercador chega à capital do império: seu rosto é tão terrível que os guardas que o conduzem à presença do califa avançam de olhos fechados. O mercador vende uma cimitarra ao califa. outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar". cujo instrumento será um homem sem par. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah. (Na congênere história do doutor Fausto. o mercador exige quarenta sacrifícios humanos. de ingrata ou impossível leitura. Não mentiu o mercador: o Alcáçar do Fogo Subterrâneo é rico em esplendores e em talismãs. para concluir em um subterrâneo encantado). negra de abominações sua alma. no décimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature. o Inferno é o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal. logo desaparece. "one of the vilest men of his time". eu disse. Uma silenciosa e pálida multidão de pessoas que não se olham erra pelas soberbas galerias de um palácio infinito. o dolente regno da Comédia. equipara sua prosa à de Voltaire e julga-o um dos homens mais vis de sua época.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literários. a fábula de Vathek não é complexa. com terror e esperança. propõe-lhe abjurar a fé muçulmana e adorar os poderes das trevas. Se o fizer. a ele será franqueado o Alcáçar do Fogo Subterrâneo. Essencialmente. Gravados na folha há misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek. O ávido califa cede. um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma região onde tudo é maravilhoso e digno do maior príncipe da terra". chega a uma montanha deserta. A terra se abre. Vathek desce às profundezas do mundo. 545. não da mística: o eletivo Inferno de Swedenborg – De Coelo et Inferno. O califa entrega-se às artes mágicas. nesta é o castigo e a tentação. 1928) tece opiniões sobre Beckford sem condescender a argumentos. Talvez o julgamento mais lúcido seja o de Saintsbury. mas também é o Inferno. na escuridão. 1 Da literatura. Estes auguram-lhe uma sucessão de prodígios.) Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a invenção do Alcáçar do Fogo Subterrâneo é a maior glória de Beckford. 554 – é de data anterior. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura. e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram. a voz do mercador. Sob suas abóbadas poderá contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram. .faz notar que o romance se inicia no terraço de uma torre de onde se lê o firmamento. Seguem-se muitos anos sangrentos. mas está escrito em um dialeto etimológico do francês. os talismãs que subjugam o mundo.

esse epíteto (unheimlich. algo. de Paris. e menos. IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez uma árvore que já é mais. Buenos Aires. A distinção é válida. águas-fortes elogiadas por Beckford. de Hamilton. as sempre menosprezadas e admiráveis Mille et Une Nuits. o de Backford. O original é infiel à tradução. no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa.. Escreveu-a no idioma francês. revisado e prefaciado por Mallarmé. os satânicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe. publicou o texto original. é um lugar onde ocorrem fatos atrozes. Henley traduziu-a para o inglês em 1785. o epíteto uncanny. Poe. de Barthélemy d´Herbelot. por si só. uma torre. e que. Chesterton (The Man Who Was Thursday. Marino. de Piranesi. Eu complementaria essa lista com as Carceri d ´Invenzione. a nenhum livro anterior. Saintsbury observa que o francês do século XVIII é menos apto que o inglês para transmitir os "indefinidos horrores" (a expressão é de Beckford) da singularíssima história. Há um intraduzível epíteto inglês. para denotar o horror sobrenatural. Beckford. de Charles Baudelaire e de Huysmans. A Divina Comédia é o livro mais justificável e mais firme de todas as literaturas: Vathek é uma mera curiosidade. que eu me lembre. mesmo que de modo rudimentar. La Princesse de Babylone. de Galland. que Vathek antecipa. que uma árvore. the perfume and suppliance of a minute. fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro. talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idéia de uma prisão. Excedi-me em alguns exemplos.. Só de três dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trágica história de seu califa. . A versão inglesa de Henley consta do volume 856 da Everyman´s Library. enumera cinco palácios dedicados aos cinco sentidos. Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominável da cor parda. Melville dedica muitas páginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportável da baleia. os Quatre Facardins. de Voltaire. já descrevera cinco jardins análogos. a editora Perrin. em alemão) é aplicável a certas páginas de Vathek. nos confins orientais. Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothèque Orientale. 1943. contudo. que representam poderosos palácios que são também labirintos inextrincáveis.não é um lugar atroz. creio. é malvada. os túneis de um pesadelo. no primeiro capítulo de Vathek. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa revisão e esse prefácio. em Adone. cuja arquitetura.

alguns capítulos adiante.) Aponto essas falhas sem animadversão. em primeiro lugar. Do gênero de romances que aqui considero. A esse gênero nômade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon. ascético. alto. dar-lhe o horrível ofício de espião. as sete viagens de Simbad. o gênero é complexo. pela conotação mesquinha da palavra. Pickwick e o Dom Quixote. faço-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade. A desordem. a mera variedade. por suas limitações locais e temporais (século XVI espanhol. (No sétimo capítulo de E1 Payador. Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes". louco e altissonante. urgido por não sei que patriótica perversão. em segundo. para. comilão. Além disso.SOBRE THE PURPLE LAND Esse romance primigênio de Hudson é redutível a uma fórmula tão antiga que quase pode compreender a Odisséia. essa disparidade tão simétrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade. sensato e espirituoso.) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro. um vilão carnudo. nosso Lugones já insinuou essa recriminação. O herói põe-se a caminhar. mas é indispensável uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. baixo. o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. (Em sua autobiografia literária. Lembrei alguns exemplos famosos. o . os mais rudimentares buscam a mera sucessão de aventuras. Kipling mostra-se impenitente e até inconsciente. reduzindo-os a figuras de circo. tão elementar que o nome de fórmula sutilmente a difama e desvirtua. a incoerência e a variedade não são impraticáveis. talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes. escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde. o libérrimo Kim. Chamar essas ficções de romances picarescos parece-me injustificado. e vêm a seu encontro as aventuras. século XVII).

Penso nas do final: são bastante complicadas para cansar a atenção. encerram a máxima filosofia e a suprema justificação da América perante a civilização ocidental e os valores da cultura acadêmica". Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior).Marujo. Sem dúvida. Seria deplorável que alguma distração topográfica e três ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones. O Martín Fierro (em que pese ao projeto de canonização de Lugones) é menos a epopéia de nossas origens – em 1872! – que a autobiografia de um faquista. invisível: o venturoso acrioulamento de Lamb.. Em outros (pouco mais complexos). Suas Wanderjahre são também Lehrjahre. incorre em prolixidades análogas.. mas não para despertá-la. pastoril. do Huckleberry Finn. No número 31 da revista Sur. O primeiro. em todos os seus romances. falseada por bravatas e . A circunstância de o narrador ser um inglês justifica certos esclarecimentos e certas ênfases necessárias para seu leitor e que seriam anômalas em um gaúcho. o movimento é duplo. Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land. Hernández é uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou. Aria por Arias. tem dois argumentos. Nelas o herói é um mero sujeito. na realidade. de The Purple Land. recíproco: o herói modifica as circunstâncias. Hudson sentiu na própria carne os rigores de uma vida semibárbara. íntimo. acostumado a essas coisas. o âmbito que The Purple Land abrange é incomparavelmente maior. As páginas finais de The Purple Land. Nesses enfadonhos capítulos. que é lógico imputar às contingências da improvisação: a vã e cansativa complexidade de certas aventuras. por exemplo. visível: as aventuras do rapaz inglês Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. pintor nem intérprete semelhante a Hudson. quando não suas absurdidades e manias. as circunstâncias modificam o caráter do herói. Essa ficção. Padece de um erro evidente. Ezequiel Martínez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta. Hudson parece não entender que o livro é sucessivo (quase tão puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscón) e o entorpece com artifícios inúteis. The Purple Land é fundamentalmente crioula. é o caso da primeira parte do Dom Quixote. O segundo. descreveu e comentou. os fatos cumprem a função de mostrar o caráter do herói. Martinez Estrada não hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros canônicos de nossa literatura gauchesca.. Isso não quer dizer que The Purple Land seja inatacável. Como se vê. talvez forneçam o exemplo mais puro. de Mark Twain. sua gradual conversão a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prevê um pouco Nietzsche. Rousseau e Nietzsche. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens. nem nunca o terão. É o caso da segunda parte do Quixote. Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade. tão impessoal e passivo quanto o leitor.. só por meio dos sedentários volumes da Histoire Générale des Voyages e das epopéias homéricas.

o gaúcho ensimesmado pitando com fruição o tabaco negro. é estragado pelo afã de magnificar as tarefas mais inocentes. mais felicidade. mãe de insignes literatos "gauchescos". no artigo sobre Bunyan. em vez de interrogar a literatura. Melhorando até a perfeição uma frase divulgada por Boswell. Hudson. caberia replicar. as imaginações de um homem tornem-se lembranças pessoais de muitos outros. secundário. antes da batalha. Hudson (como Ascasubi. Na literatura argentina. ele escolhe a terra cárdea onde a montonera fatigou suas primeiras e últimas lanças: o Estado Oriental do Uruguai. Alguém há de observar que em The Purple Land o gaúcho não aparece senão de modo lateral. as complexas delícias da memória e da introspecção. o que toma duplamente injustificável esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episódio de guerra. Essa escolha propícia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra – acaso que favorece as circunstâncias do amor errante. Se. Outro acerto de Hudson é o geográfico. mandam os caudilhos da cidade. Macaulay. ou despreza. A frase (uma das mais memoráveis que o trato das letras me deparou) é típica do homem e do livro. com o tempo. a moça que se entrega a um forasteiro.lamentações que quase profetizam o tango. Quando muito. os gaúchos são exclusivos da província de Buenos Aires. Buenos Aires. Ninguém ignora que seu narrador é um gaúcho. no círculo mágico dos pampas. como Eduardo Gutiérrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes. só aparece em Buenos Aires de modo esporádico. Apesar do brusco sangue . Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafísica. a montonera. Melhor para a veracidade do retrato. como já disse. nos ativermos à história. Embora nascido na província de Buenos Aires. As de Hudson perduram na memória: os tiros britânicos retumbando na noite de Paysandú. de quatrocentas páginas cada um. a despeito da veracidade dos diálogos. na secreta margem de um rio. escolhe para as andanças de seu herói as coxilhas da outra banda do rio. a paradoxal razão dessa primazia é a existência de uma grande cidade. Em Ascasubi há traços mais vívidos. mas sempre foi interrompido pela felicidade. mas tudo isso aparece fragmentário e secreto em três volumes incidentais. comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influência exerceu nos destinos de sua província. algum indivíduo – Hormiga Negra nos documentos judiciais. Don Segundo Sombra. Manda a cidade. como Hernández. mostrá-lo autobiográfico e efusivo já é deformá-lo. mais coragem. maravilhase de que. Güiraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo. nenhuma nos do país. Martín Fierro nas letras – consegue certa notoriedade policial com uma rebelião matreira. O organismo típico da guerra gaúcha. O gaúcho é homem taciturno. o gaúcho desconhece.

também americano. o patético Whitman impôs a si mesmo. os espanhóis). (Outro. Uma observação última. penso na têmpera venturosa de Richard Lamb. Perceber ou não os matizes crioulos pode parecer trivial. mas o fato é que. Miller. é o Huckleberry Finn.) Não penso no debate caótico entre pessimistas e otimistas. The Purple Land é dos pouquíssimos livros felizes que há na terra. Graham. 1941. .derramado e das separações. dentre todos os estrangeiros (sem excluir. em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser. Hudson. inexoravelmente. Cunningham. amigas ou aziagas. não penso na felicidade doutrinária que. também de sabor quase paradisíaco. o inglês é o único a percebê-los. claro. Robertson. Buenos Aires. Burton. de Mark Twain.

que sem dúvida inspirou. o incógnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus não convém nenhum predicado afirmativo. homem entre os homens. chama-se Jeová Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou. Essa nomenclatura. É definido por traços humanos. assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". mas não tem conteúdo". no texto original é um superlativo de rei: "Propriedade é da língua hebréia – diz Frei Luis de León – dobrar assim iguais palavras. em um lugar da Escritura. Nos primeiros séculos de nossa era.DE ALGUÉM A NINGUÉM No princípio. Deus dos Exércitos. ou Scotus. O sujeito de tais locuções é indiscutivelmente Alguém. Dizer então Cântico dos cânticos é o mesmo que em vernáculo dizer Cântico entre os cânticos. Elohim rege os verbos no singular. isto é. lê-se "Arrependeu-se Jeová de ter feito homem na terra e isto pesoulhe no coração" e em outro. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia é a única verdadeira. o primeiro versículo da Lei diz literalmente: "No princípio fez os Deuses o céu e a terra". Nada se deve afirmar d´Ele. por oposição. "Porque eu Jeová teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro. Deus é os Deuses (Elohim). de que Deus é Uno e Triplo. João. um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e esbatendo. Rei dos Reis. Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó. onipresente. parece limitar a divindade: em fins do século V. os teólogos habilitam o prefixo omni-. Sou Aquele que Sou. os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no século IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Eríugena. o Irlandês. como as outras. de Gregório Magno. quando se quer encarecer alguma coisa. Escritos em grego. "Falei no calor de minha ira". Apesar da imprecisão que o plural sugere. antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Júpiter. plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crêem ser um eco de anteriores politeísmos ou uma premonição da doutrina. cujo nome na história ficou Escoto . como dizem as versões inglesas. que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis. o Servo dos Servos de Deus. seja para bem ou para mal. declarada em Nicéia. in the cool of the day. tudo se pode negar. Pedra de Israel. propagam-se as palavras onipotente. onisciente. Elohim é concreto. Este último. isto é.

Essa falácia está nas palavras daquele rei legendário do Industão. ao pé da figueira. é mais que sapiente. Para defini-1o." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens. João. afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais são que modificações da mente de seu inventor. de certo modo. o abismo em que foram gerados os arquétipos e depois os seres concretos. ou seja. o número de grãos de areia seria menor que o número de coisas que Buda ignora. depois. O processo que acabo de ilustrar está longe de ser aleatório. esse ditame é recriado por Coleridge. Não é sapiente. e mais uma vez tantos Ganges como grãos de areia nos novos Ganges. no início do século XIX. "mas que não sabe o que é. é mais que bom.Erígena. não é bom. das quais sua existência pessoal era apenas uma. equipara-o ao oceano. Hugo. que é o nada. que se encontra potencialmente no particular. e sim uma variante literária do infinito Deus de Spinoza. o discursivo século XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan. ou o que podem ser". que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante não tenho reino ou meu reino é ilimitado. é ser tudo. que é a única realidade. os últimos. Deus é o nada primordial da creatio ex Nihilo. Intimamente não era nada. para quem Shakespeare já não é um homem. mas como a substância capaz de infinitas modificações. Este formula uma doutrina de índole panteísta: as coisas particulares são teofanias (revelações ou aparições do divino) e por trás de tudo está Deus. porque não é um quê. podemos observá-la inequivocamente no caso de Shakespeare. . um efeito. o Irlandês. Analogamente. são o universo. on this side Idolatry. e é incompreensível a si mesmo e a toda inteligência". a confusa intuição dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais que ser algo e que. Seu contemporâneo Ben Jonson ama-o sem chegar à idolatria. intui a infinita concatenação de todos os efeitos e causas do universo.1 Ser uma coisa é inexoravelmente não ser todas as outras. doravante meu 1 No budismo. são Deus. exceto em sua semelhança com todos os homens. afirmam que nada é real e que todo conhecimento é fictício. Irlandês Irlandês. Dryden declara-o o Homero dos poetas dramáticos da Inglaterra. Samkara ensina que os homens. A magnificação até o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos. E Nada e Nada. Os primeiros textos narram que Buda. foi a ele revelado não como abstraído da observação de uma pluralidade de casos. no sono profundo. escritos séculos mais tarde. aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso é mais do que ser um Quem ou um Quê. mas admite que muitas vezes é insípido e empolado. as passadas e futuras encarnações de cada ser. a figura se repete. em 1774. mas era tudo o que são os demais. que é uma sementeira de formas possíveis. e que se houvesse tantos Ganges como grãos de areia há no Ganges. "A pessoa Shakespeare – escreve – foi uma natura naturata. recorre à palavra Nihilum. mas o universal. inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos.

corpo não me pertence ou pertence-me a terra inteira". Buenos Aires. talvez não haja nada além de formas. no sonho há formas que se repetem. . 1950. uma delas é o processo que esta página denuncia. Schopenhauer escreveu que a história é um infindável e perplexo sonho das gerações humanas.

o Bodhisattva. mas não decifrou seu aviso. caducar. são eles: uma criança. Pode ser que essa ameaçadora parábola não seja invenção de Buda. cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. o número seis é habitual (seis vias de transmigração. A realidade pode ser complexa demais para a transmissão oral. um homem doente e um homem morto. rodas ou cilindros que giram em torno de um eixo. para sugerir que Deus é o todo.FORMAS DE UMA LENDA Às pessoas repugna ver um velho. da estirpe do sol. Yama cumpre essa função. Tanto na parábola como na declaração. forjou outra história. O testemunho consta de um dos livros do cânone. os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. este admite que sim. um velho encurvado. a multiplicação das presas não pode incomodar os espectadores de uma arte que. é símbolo de mansidão. a mãe de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante. para nós. e avisam que nosso destino é nascer. animal doméstico. . um criminoso sob suplicio e um morto. Buda declarou que essa reflexão o induziu a abandonar sua própria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. embora estejam sujeitas à morte. um doente ou um morto. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industão. confundindo-os. às doenças e à velhice. basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya. o tempo fez dos dois textos um só e. o elefante. compõe figuras de múltiplos braços e rostos. contando o zênite e o nadir. há um homem velho. adoecer. a lenda a recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. 2 Essa metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar. seis pontos cardeais. Siddhartha. é filho de um grande rei. o pré-Buda. outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses. seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama"). da cor da neve e com seis presas.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrar-se da vida e da 1 Esse sonho é. pura fealdade. Na noite de sua concepção. sofrer justo castigo e morrer. Não o é para os hindus. por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros. um aleijado. Suddhodana. 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua própria vida. seis Budas anteriores a Buda.

Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusória felicidade. em meados do século XIII. escreve que. Diogo do Couto denunciou. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e não a eterna. uma Barlaams Saga. o rei confina-o em um palácio. é convertido à fé pelo ermitão Barlaão. "cujos cabelos não são como os dos outros. . um indólogo contemporâneo. e trata de recluí-lo em um palácio. mas em outra saída vê um homem sendo devorado pela febre. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas. de um leproso e de um moribundo e.morte. admitida a ignorância prévia do Bodhisattva. em 1615. que é o da Glória. coberto de lepra e de chagas. de Menéndez y Pelayo. ordena voltar imediatamente. Foucher. inclusive o holandês e o latim. ao norte. a pedido do Haakon Haakonarson. inquieto. de onde é retirado tudo o que pode revelar que ele é corruptível. Quatro saídas de Siddhartha e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do acaso. porém. determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha. o cocheiro explica que é um velho e que todos os homens da terra serão como ele. as analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafá. Em outra saída vê um homem sendo conduzido em um féretro. sai em sua carruagem e vê com estupor um homem encurvado. os astrólogos predizem que ele reinará sobre um reino maior. cujo tom sarcástico nem sempre é inteligente ou urbano. A paz está em seu rosto. A lenda que. Siddhartha acaba de encontrar o caminho. para comemorar esses encontros. Siddhartha. o cocheiro explica que é um doente e que ninguém está livre desse perigo. a leste e a oeste das muralhas. mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um cego. um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e Josafá. foi composta na Islândia. dedicados ao deleite dos sentidos. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de Orígenes de la Novela. uma manhã. explicam-lhe. em sua continuação das Décadas. outras são como grandes moinhos movidos pela água ou pelo vento. Menos atentos ao estético que à conversa Algumas são manuais. Pergunta que homem é esse. a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. por fim. A. o homem imóvel é um morto. ao sul. No início do século V de nossa era. em terras ocidentais. mas Siddhartha. Josafá (Josafat Bodhisattva) é filho de um rei da índia. No início do século VII. a última. cujo corpo não é como o dos outros". Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda. Em outra saída. e morrer é a lei de todo aquele que nasce. O cardeal César Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano. o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industão em busca de livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Açoka erigiu. que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. um defeito: os encontros que ela postula são eficazes mas inverossímeis. vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem viver.

e o Nirvana. com outra mitologia ou vocabulário.3 o mundo. Buda. outra solução. que teriam feito o leitor se deter. instalado no quarto céu. Teologicamente. 82). Siddhartha escolhe sua nação e seus pais. que não podem tolerar que Buda não saiba o que sabe um criado. pois. costuma-se falar com certa ironia. Siddhartha produz quatro formas que o encherão de estupor. Foucher vê nisso um mero servilismo dos autores. Lalitavistara. por que me abandonaste?". Em uma biografia lendária do século XVI. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que não é sonhado por ninguém. porém. quando interroga o cocheiro. diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam. tudo isso é razoável se o entendermos como um sonho de Siddhartha. Dessa compilação em verso e prosa. tais sutilezas dogmáticas. (Nosso século. as quatro aparições são quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha. talvez coubesse responder: o livro é da escola do Mahayana. Assim. Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. na última forma da lenda. "Minuciosa relação do jogo" (de um Buda) é o que quer dizer. o continente.das pessoas. Mais longe foi o Lalitavistara. ensinam que o mundo é ilusório. para Koeppen (Die Religion des Buddha. exceto o cocheiro e o príncipe. . o do céu ordena as coisas. no estranho poema.) A humanidade do Filho. oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua mãe tem a força de dez mil elefantes.. o da terra as padece ou executa.. a história do Redentor é inflada até a opressão e até a vertigem. analogamente. meu Deus. a de Buda. a vida de Buda sobre a terra. rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas. que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno. O Buda. e em particular o budismo. 1. já sabe quem são e o que representam. segunda pessoa de Deus pôde gritar da cruz: "Meu Deus. e os prosélitos. Para desatar o problema não são indispensáveis. escrita em sânscrito impuro. ele fixou o período. faz as divindades projetarem as quatro figuras simbólicas e. em suas páginas. no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita. Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras. ode espantarse com formas criadas por sua própria divindade. e a roda das 3 Rhys Davids suprime essa locução introduzida por Burnouf. o morto e o monge são simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. 37-41). mas seu emprego nessa frase é menos incômodo que o de grande Travessia ou Grande Veículo. dirige cada etapa de seu destino. fala em inconsciente. o leproso. o enigma merece em meu entender. basta lembrar que todas as religiões do Industão. revela o texto da obra aos deuses. segundo Winternitz. um jogo ou um sonho é para o Mahayana. os doutores quiseram justificar essa anomalia. aos olhos do budismo do Norte. o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez. que é outro sonha.

todas as gerações e o universo. doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. minha erudição. mero nome. sem ter descoberto a dor. mas sua efígie póstuma a divisa do alto do pedestal. e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade. 51 e 53) são imensas e monstruosas bolhas. A cronologia do Industão é incerta. os excessos numéricos do poema subtraem. porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mágicas. O irreal. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo X11 inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros. Paradoxalmente. o príncipe feliz morre na reclusão do palácio. de 9 a 49. e Buda são igualmente irreais. Em fins do século XIX. lemos em um famoso tratado. . primeiro tornou fantásticas as figuras. feita de verdade substancial e de erros fortuitos. muito mais. incluído o livro que o declara e o homem que o lê. Ninguém se extingue no Nirvana. depois o príncipe e. foi erodindo a história. não me surpreenderia que minha história da lenda fosse legendária.transmigrações. ênfases do Nada. com o príncipe. Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota. Oscar Wilde propôs uma variante. não acrescentam realidade. assim.

Croce não admite diferença entre conteúdo e forma. Da Jerusalém Libertada pode-se extrair qualquer moralidade. um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender. VII). As palavras de Croce são cristalinas. basta-me repeti-las em vernáculo: "Se o símbolo for concebido como inseparável da intuição artística. Watts. limitar-me-ei aos dois últimos. por De Quincey (Writings. o poeta da lascívia. A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante. a reflexão de que o prazer desmedido leva à dor. 198). por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana. Esta é aquele e aquele é esta. podendo-se por um lado expressar o símbolo e por outro a coisa simbolizada. À Jerusalém adiciona-se uma página em prosa que expressa outro pensamento do poeta. neste ensaio. F. recair-se-á em um erro intelectualista. diante de uma estátua.) Que eu saiba. São expressões que extrinsecamente se adicionam a outras expressões. mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificável pôde desfrutar de tantos favores. a palavra clemência ou a palavra bondade". 39) e por Chesterton (G. o tom é mais hostil: "A alegoria não é um modo direto de manifestação espiritual. Mas também devemos ser justos com o alegórico e advertir que em alguns casos é inócuo. não a prejudicam. o escultor pode pôr um cartaz dizendo que se trata da Clemência ou da Bondade. Tais alegorias. 83). será sinônimo da intuição mesma. à estátua. Na página 222 do livro La Poesia (Bári. é uma alegoria. é ciência.DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES Para todos nós. ao Adone. de Marino. o gênero alegórico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. e sim uma sorte de escrita ou de criptografia". que sempre tem caráter ideal. acrescentadas a uma obra concluída. opino que aquele está com a razão. o suposto símbolo é a exposição de um conceito abstrato. chega . I. Croce nega a arte alegórica. por Croce (Estetica. Se o símbolo for concebido como separável. a alegoria é um erro estético. mas logo me dei conta de que minha sentença comportava uma alegoria. (Meu primeiro propósito foi escrever "não é outra coisa senão um erro da estética". Chesterton a vindica. XI. guiado por Virgílio. 1946). do Adone. ou arte arremedando a ciência. 50).

o único debate medieval com algum valor filosófico é o que confrontou nominalismo e realismo. mas destaca a importância dessa controvérsia tenaz que uma sentença de Porfírio. para vindicar o alegórico.a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcança a fé. começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade. se os nominalistas são Aristóteles. todos invocam Aristóteles. Como explicar essa discórdia sem recorrer a uma petição de princípio sobre a volubilidade dos gostos? Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. no entanto. um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminações secretas que essa palavra indica. o outro. é tola e frívola. além de intolerável. Não sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razão. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. provocou nos inícios do século IX. Chesterton. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. IV. guiado pela razão). a linguagem não passa de um sistema de símbolos arbitrários. Platão. para aqueles. Hume. Através das latitudes e das épocas. em todas as suas fusões e conversões. Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas." Declarada a insuficiência da linguagem. Kant. mas não é uma linguagem da linguagem. para o aristotélico. William James. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. Convívio. Segundo a opinião de George Henry Lewes. que são generalizações.. o juízo é temerário. mas. Nas árduas escolas da Idade Média. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. os primeiros. como a arquitetura ou a música. essa ordem. É feita de palavras. Crê. os realistas são Platão. Aristóteles. 2). Spinoza. à sombra da espada de seu carrasco. consta de vinte e quatro mil versos) e agora é intolerável. que esses matizes. . teriam entendido esse sentimento. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. mais rico e mais feliz. "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. para estes. o De Consolatione. sei que a arte alegórica pareceu em algum momento encantadora (o labiríntico Roman de la Rose. a alegoria pode ser uma delas. Um signo mais preciso que o monossílabo. mestre da humana razão (Dante. que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do século XI e que William de Occam reanimou no século XIV. Locke. uma ordem. os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um é Parmênides. nem o romano Boécio. Francis Bradley. Sentimos que. Nem Dante. vertida e comentada por Boécio. é o mapa do universo. há lugar para outras. Os últimos intuem que as idéias são realidades. Heráclito.. escrevendo na torre de Pavia. que perdura em duzentos manuscritos. que figurou a história de sua paixão em Vita Nuova.

entretanto. em meu entender. Maurice de Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adesões. nós. hoje abarca todas as pessoas. Buenos Aires. é possível afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Platão diria as idéias. Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer. O cronista Heriman (século XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialética in re. em Knightes Tale. e sim a humanidade. assim como o romance o é de indivíduos. não os indivíduos. Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina". verossimilmente. do realismo ao nominalismo. Uma tese agora inconcebível pareceu evidente no século IX e de certo modo perdurou até o século XIV O nominalismo. tentou traduzir para o inglês o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traições") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri. outrora novidade de uns poucos. por isso. Ninguém se declara nominalista porque não há quem seja outra coisa. sua vitória é tão vasta e fundamental que seu nome é inútil. O original está no sétimo livro da Teseida.Como era de esperar. demandou alguns séculos. 1949. e sim Deus. e até o fim do século XII seus adversários são chamados pelo nome de moderni". Esta é fábula de abstrações. A passagem da alegoria ao romance. com o punhal sob a capa"). a versão. Mas procuremos entender que. as formas. os indivíduos. Os indivíduos que os romancistas propõem aspiram a ser genéricos (Dupin é a razão. que talvez não se julgasse nominalista. . e sim o gênero. tantos anos multiplicaram até o infinito as posições intermediárias e as distinções. Dom Segundo Sombra é o Gaúcho). De tais conceitos (cuja manifestação mais clara talvez seja o quádruplo sistema de Erígena) adveio. para os homens da Idade Média. as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. e sim a espécie. As abstrações são personificadas. não as espécies. os romances contêm um elemento alegórico. A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais. em toda alegoria há algo de romanesco. a literatura alegórica. mas ouso apontar uma data ideal. os conceitos abstratos). não os gêneros. de espécies a indivíduos. o substantivo não eram os homens. e para o nominalismo.

Raimundo Lúlio (Ramón Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concêntricos. que registrasse todas as variações dos vinte e tantos símbolos ortográficos. V. no Samson Agonistes (86-89): The Sun to me is dark And silent as the Moon. uma sorte de jogo combinatório. John Stuart Mill.1 A literatura não é esgotável. e as mutáveis e duradouras imagens que ele deixa na memória. Tillyard: The Miltonic Setting.. e das artes. 101. em todas as línguas. E. e a entonação que impõe a sua voz. a julgar por certas passagens que parecem imitativas. o temor de Mill e a caótica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escárnio. a escuridão que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tróia. Na Comédia (Inferno. A máquina de Lúlio. 28). em fins do XIX. Esse diálogo é infinito. M. tudo que é possível exprimir. as palavras amica silentia lunae significam agora a lua íntima. desiguais e giratórios. pela 1 Assim foi interpretada por Milton e Dante. temeu que um dia se esgotasse o número de combinações musicais e que no futuro não houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts. ou que uma série de estruturas verbais. no início do século XIX. Cf. I. When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave. ou seja. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro é mais que uma estrutura verbal. aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal. 60. Kurd Lasswitz. . silenciosa e resplandecente. temos: "d´ogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros.. subdivididos em setores com palavras latinas.NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW Em fins do século XIII. é o diálogo que trava com seu leitor. mas exageram uma propensão que é comum: fazer da metafísica. enquanto na Eneida significaram o interlúnio.

Kreegan. dada a primeira. A concepção da literatura como jogo formal leva. D´Artagnan executa inúmeras façanhas enquanto Dom Quixote é surrado e escarnecido. às incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracián. uma forma de relação. menos pelo texto que pelo modo que é lida: se me fosse dado ler qualquer página atual – esta. e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. Uma literatura difere da outra. a fonte de suas eloqüentes tiradas e das idéias expostas em seus prefácios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler. eu saberia como será a literatura do ano 2000. apresenta a mesma doutrina. suspeito. à força de provar variantes. um interlocutor não é a soma ou a média daquilo que diz: pode não falar e transparecer que é inteligente. . deveríamos concebê-la em função de Heráclito. Richard Dudgeon e. Com a literatura ocorre o mesmo. Pensar em Monsieur Teste ao 2 Também em Swedenborg. além de muitíssimas outras. o tratado De Coelo et Inferno. Júlio César superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. por exemplo – como será lida no ano 2000. mesmo que "Heráclito" fosse apenas o presumível sujeito dessa experiência. não uma coisa escrita). no diálogo. qualquer um poderia produzir qualquer livro. publicado em 1758. ulterior ou anterior. os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se não menos incômodos que os de Shakespeare (o humorismo é. no melhor dos casos. Blanco Posnet. sobretudo. Flaubert) e.2 mas Lavínia. e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de íntima afinidade. um súbito favor da conversa. As questões sindicais e municipais de suas primeiras obras perderão o interesse. obter essa filosofia. Penso que de nós não saem criaturas mais lúcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. Afirmei que um livro é um diálogo. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação. Se a literatura não fosse mais que uma álgebra verbal. é um eixo de inumeráveis relações. Isso nos leva a um problema estético até hoje não formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que não. de Swedenborg. Shotover. Renan. Herrera y Reissig). pode emitir observações inteligentes e transparecer estupidez. a um decoro artesão (Johnson. um gênero oral. Nesse parecer fundamento minha convicção sobre a preeminência de Shaw. em função de uma experiência de Heráclito. como os bemaventurados o Céu.suficiente e simples razão de que um único livro não o é. Em Man and Superman lê-se que o Inferno não é um estabelecimento penal. se é que já não o perderam. A lapidar fórmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Heráclito: Raimundo Lúlio diria que. Caberia responder que a fórmula obtida por eliminação careceria de valor e até de sentido. no pior. ao bom trabalho do período e da estrofe. mas sentese mais o valor de Dom Quixote. para que tivesse alguma virtude. por obra do metódico acaso. basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e.

do fortuito concurso dos átomos de Demócrito.. Albert Soergel pôde escrever. em que tudo é lícito. ou dramatis personae: o mais efêmero será. A obra de Shaw. suspeito. um matador de heróis" (Dichtung und Dichter der Zeit.lado deles ou no histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e até com escândalo a primazia de Shaw. ou de nações. são. nesse sentido. Buenos Aires. ao contrário. 214). imorais. tão comparável à divindade primordial que outro irlandês. não concebia que o heróico pudesse prescindir do romântico e encarnar no capitão Bluntschli de Arms and the Man. não em Sérgio Saranoff. repetindo um lugar-comum da época: "Bernard Shaw é um aniquilados do conceito heróico. as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de nós o interessante interlocutor de um diálogo secreto e contínuo com o nada ou com a divindade. O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas. chamou Nihil). João Escoto Erígena. aquele G. salvo ser escarnecido ou vencido. Em 1911. fomentam essa ilusão do eu que o Vedanta reprova como erro capital. Costumam afetar desespero e angústia. . O argentino sente que o universo não passa de uma manifestação do acaso. Bernard Shaw eduziu quase inumeráveis personagens. O caráter do homem e suas variações são o tema essencial do romance de nosso tempo. S. que formalmente podem ser admiráveis. a filosofia não lhe interessa. ou que o seja unicamente em função de alguns epigramas. tais disciplinas. deixa um sabor de libertação. que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fáceis nas colunas dos jornais. Os temas fundamentais de Shaw são a filosofia e a ética: é natural e inevitável que ele não seja valorizado neste país. ou de classes. Desse nada (tão comparável ao de Deus antes de criar o mundo. 1951. A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contém uma admirável carta daquele. da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ninguém". o social reduz-se a um conflito de indivíduos.. a lírica é a complacente magnificação de venturas ou desventuras amorosas. A ética também não: para ele. B. mas no fundo contentam a vaidade.

perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". narrar e pesar essas palavras. os nomes não são símbolos arbitrários. chamado Êxodo. um deus. que Basilides (segundo Ireneu) reduziu à cacofônica ou cíclica palavra Kaulakau. 2 Os gnósticos herdaram ou redescobriram essa singular opinião. e o nome verdadeiro. é a finalidade destas páginas. esquecer o nome (perder a identidade pessoal) é talvez o maior. ou primitivo. que era mantido oculto. Consta no terceiro capítulo do segundo livro de Moisés. lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma. e seus dois ecos.1 Assim. Lemos aí que o pastor de ovelhas. dos demônios e das portas do outro mundo. os aborígines da Austrália recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivíduos da tribo vizinha. e que não o ignora. por seu lado. talvez não seja ocioso lembrar que para o pensamento mágico. Quinto Valério Sorano cometeu o sacrilégio de revelá-lo. .1949).HISTÓRIA DOS ECOS DE UM NOME Isolados no tempo e no espaço. e sim parte vital daquilo que definem. Segundo a literatura funerária.2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para tê-la em seu poder" (La Religion Égyptienne. Formou-se assim um vasto vocabulário de nomes próprios. o Crátilo. são muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo. que era por todos conhecido. ou grande nome. Antes de examinar essas misteriosas palavras. De Quincey.. Entre os antigos egípcios prevaleceu um costume análogo. cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno. e foi executado. Moisés. repetem uma obscura declaração. espécie de chave universal de todos os céus. autor e protagonista do livro. Também importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses. 1 Um dos diálogos platônicos. discute e parece negar um vínculo necessário entre as palavras e as coisas. A lição original é famosa. nos últimos dias da República.. um sonho e um homem que está louco.

mas hei de comer. é mais impenetrável e mais firme que os que constam de uma única. Mauthner já analisou e condenou esse hábito mental. porque não é um quê nem um quem. e também as formas da opressão. Nessa comédia entrevemos. mais precisamente. (No século IX. enlouquecer ou escravizar seu possuidor. que faz da extensão e do pensamento meros atributos de uma substância eterna. Nos conceitos de calúnia e injúria perdura essa superstição. um soldado fanfarrão e covarde. nós é que não existimos". por meio de um estratagema. um miles gloriosos. que a palavra eu só pode ser pronunciada por Deus. bem pode ser uma magnificação desta idéia: "Deus existe. o nome que. "Eu Sou Aquele que Sou" declara que só Deus existe realmente ou. analogamente.O selvagem oculta seu nome para que este não seja submetido a operações mágicas. que poderiam matar. a despeito de constar de muitas palavras. Ego sum qui sum. Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é. sim. como vimos. cresceu e reverberou pelos séculos. . ou sua sombra. A doutrina de Spinoza. muito lateralmente. que. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" também pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei". de uma curiosidade de ordem filológica. Deus não diz quem é. como ensinou o Maggid de Mesritch. até que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comédia. como em um espelho caído. Moisés. de fato. porque isso excederia a compreensão de seu interlocutor humano. o que Ele era. e beber.3 Multiplicado pelas línguas humanas – Ich bin der ich bin. 3 Buber (Was ist der Mensch?. escreveu um mexicano. Segundo essa primeira interpretação. cujo chão é o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e por vezes pavoroso. e sim de indagar quem era Deus. consegue ser promovido a capitão. mas amanhã posso revestir qualquer forma. e dormir como um capitão. O ardil é descoberto. à maneira dos feiticeiros egípcios. ou. "Eu Sou Aquele que Sou" é uma afirmação ontológica. aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "Não serei mais capitão. e então Shakespeare intervém e põe em sua boca palavras que refletem. Deus teria respondido: "Hoje converso contigo. o homem é degradado publicamente. da injustiça e da adversidade". isto que sou me fará viver". 1938) escreve que viver é penetrar em um estranho aposento do espírito.) Que interpretações suscitou a tremenda resposta que Moisés escutou? Segundo a teologia cristã. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. I am that I am –. o sentencioso nome de Deus. teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de tê-lo em seu poder. que é Deus. não toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. Lemos isso no Gog und Magog. Moisés perguntou ao Senhor qual era Seu nome: não se tratava.

Mais que na seqüência de seus dias. isso deve-se a uma confusão. porque o decorrer do tempo modificou a linguagem. em um dos anos que durou a longa agonia de Swift. ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha. sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser. mas sou". A surdez. sou o que de mim fizeram as leis universais". entregues a débeis apetites que não podem satisfazer. ou por outras pessoas que padecem de análogas misérias. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. Esse caráter sentencioso e sombrio às vezes estende-se ao que se diz sobre ele. a vertigem. que ocupará os pensadores dos . velho. tão inevitável e necessária quanto as outras". as palavras que. Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representação. não podia ler e era incapaz de escrever. ele imaginou com minucioso desprezo uma estirpe de homens decrépitos e imortais. Em 1717 dissera a Young. por um suplente que não consegue chegar a titular. Não fui essas pessoas. talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. Até que uma tarde. Verbi gratia. começarei a morrer pela copa". por fim. com desespero. ou pelo acusado em um processo de difamação. escreveu Thackeray. incapazes de conversar com seus semelhantes. e também "Sou o que Deus quer que eu seja. louco e já moribundo. elas foram. a um erro. mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert). Começou a perder a memória. ou quem sabe para esconjurá-lo magicamente. Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia. terá sentido Swift. se tanto. De inteligência glacial e de ódio glacial vivera Swift. o dos Night Thoughts: "Sou como esta árvore. Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz. e também "Sou uma parte do universo. já perto de morrer. Mas nada é tão patético quanto sua aplicação das misteriosas palavras de Deus. Tomei-me por outro. uma forma da eternidade do inferno. o medo da loucura e. "Serei uma desventura. Na terceira parte de Gulliver. "Pensar nele é como pensar na ruína de um grande império". e de ler. e quem sabe "Ser é ser tudo". A última versão veio à luz em mil setecentos e quarenta e tantos. Negava-se a usar óculos. ou como quem se afirma e se ancora em sua íntima essência invulnerável: "Sou aquilo que sou.Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cômica para ser um homem e todos os homens. a idiotia agravaramse e foram aprofundando a melancolia de Swift. o tecido das roupas que vesti e descartei. quero apenas acrescentar. que para ele talvez tenham sido um único instante insuportável. Swift perdura para nós em algumas poucas frases terríveis. ouviram-no repetir. a modo de epílogo. Aqui termina a história da sentença. não sabemos se com resignação. porque sua memória é insuficiente para passar de uma linha a outra. ou pelo doente que não pode sair de casa. sou aquilo que sou". como se aqueles que o julgam não quisessem ficar para trás.

até. trajando preto ou púrpura e com o rosto aumentado por . Detive-me. houve muitíssimas jornadas históricas. a obscura raiz de Parolles. Depois desse dia. secretas. Outra coisa: a vontade. constatei que o sujeito dessa misteriosa ação era Esquilo e que este. em razão mesmo de sua anomalia. com profusão de prévia propaganda e persistente publicidade. a verdadeira história. nas quais se percebe a influência de Cecil B. de Mille. Um prosador chinês observou que o unicórnio.séculos vindouros. Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador é tão ilusório quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa. a coisa que era Swift. Tais jornadas. originalmente. durante muito tempo. Tácito não reparou na Crucificação. é mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser. Cheguei a essa reflexão graças a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega e que despertou meu interesse. Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representação. Esse sou eu. inaugura-se uma época na história do mundo. segundo o que se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles. e podemos dizer que assistimos a sua origem". um único ator. embora seu livro a registre. profundamente. passaria inadvertido. alçado pelos coturnos. Os olhos vêem o que estão habituados a ver. Sabe-se que o drama nasceu da religião de Dionísio. e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". na Alemanha e na Rússia) foi forjá-las ou simulá-las. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exército da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milícias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje. o hipócrita. e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itália. O PUDOR DA HISTÓRIA No dia 20 de setembro de 1792. têm menos relação com a história que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a história. "elevou de um a dois o número de atores". por ser ligeiramente enigmática.

em sua chácara de Borgarfjord.uma máscara. os homens. e outros que nossos olhos ainda não podem discernir. o historiador e polígrafo Snorri Sturluson. mas nunca saberemos se pressentiu. Com um exército norueguês. Um espectador profético teria visto que ele vinha acompanhado por multidões de aparências futuras: Hamlet. no século XIII de nossa era. em 1225. O drama era uma das cerimônias do culto e. desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). naquele teatro da cor do mel. e assim até o infinito. Com o segundo ator entraram em cena o diálogo e as indefinidas possibilidades da reação de uns personagens sobre outros. chamado o Implacável (Hardrada). pensativo: "– Quem era esse cavaleiro que tão bem falou? "– Harold Filho de Godwin". e Macbeth. Ao sul de Jorvik. já que é tão alto. "– Então – disse Tostig – dize a teu rei que lutaremos até a morte. escrevia a última empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson. mas um dia. "Os cavaleiros se retiraram. . que antes militara em Bizâncio. "– Se eu aceitar – disse Tostig –. quão significativa era essa passagem do um ao dois. Nas Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagórica. o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escândalo. irmão do rei saxão da Inglaterra. Harald Sigurdarson perguntou. o que eles terão pensado. talvez apenas um princípio de assombro. fez-lhes frente o exército saxão. estavam revestidos de ferro. na Itália e na África. Para a instrução das futuras gerações. venho dizer-te que teu irmão oferece a ti seu perdão e um terço do reino. cobiçava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. – Receberá sete palmos de terra inglesa e. mais um. Tostig. Expostos os fatos anteriores. que dará ele ao rei Harald Sigurdarson? "– Ele não foi esquecido – respondeu o cavaleiro. Outra jornada histórica descobri em minhas leituras. Aconteceu na Islândia. quinhentos anos antes da era cristã. "– Se verdadeiramente és Tostig – disse o cavaleiro –. da unidade à pluralidade. e Sigismundo. os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Victor Hugo levantou a segunda hipótese) a não anunciada aparição de um segundo ator. e também os cavalos. Harold Filho de Godwin. Naquele dia de uma primavera remota. como todo ritual. Um dos cavaleiros gritou: "– Está aqui o conde Tostig? "– Não nego estar aqui – disse o conde. digamos. dividia a cena com os doze indivíduos do coro. e Peer Gynt. Isso poderia ter acontecido. prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se às fileiras do invasor. sequer de modo imperfeito. e Fausto. correu em algum momento o risco de tornar-se invariável.

Outros capítulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exército norueguês foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e também o conde (Heimskringla, X, 92). Há um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitações perpetradas pelos profissionais do patriotismo) não costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do heróico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundível, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o êxito"), na balada anglo-saxã de Maldon ("Meu povo pagará o tributo com lanças e velhas espadas"), na Canção de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitáfio para um Exército de Mercenários, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trás da aparente simplicidade do historiador há um delicado jogo psicológico. Harold finge não reconhecer o irmão, para que este, por sua vez, perceba que não deve reconhecê-lo; Tostig não o trai, mas tampouco trairá seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmão, mas não a tolerar a intromissão do rei da Noruega, procede de modo muito compreensível. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um terço do reino, dar sete palmos de terra.1 Há somente uma coisa mais admirável que a admirável resposta do rei saxão: a circunstância de que seja um irlandês, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. É como se um cartaginês tivesse legado a memória da façanha de Régulo. Com razão escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islândia) deleitam-se em aprender e registrar a história de todos os povos e não consideram menos glorioso publicar as excelências alheias que as próprias". Não o dia em que o saxão proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histórica. Uma data profética de algo que ainda está no futuro: o olvido de sangues e nações, a solidariedade do gênero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de pátria; Snorri, ao relatá-la, supera e transcende tal conceito. Outro tributo a um inimigo lembro nos últimos capítulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemão e escreve as seguintes palavras: "Então, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmãos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adição, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").
1

Buenos Aires, 1952.

NOVA REFUTAÇÃO DO TEMPO
Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1 DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

NOTA PRELIMINAR Se publicada em meados do século XVIII, esta refutação (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 – depois de Bergson –, é a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o precário artifício de um argentino extraviado na metafísica. Ambas as conjeturas são verossímeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, não posso prometer, em troca de minha dialética rudimentar, uma conclusão inaudita. A tese que propalarei é tão antiga quanto a flecha de Zenão ou a carruagem do rei grego, no Milinda Pañha;2 a novidade, se é que há alguma, consiste em
1

"Antes de mim não existia o tempo, depois de mim não existirá. / Comigo ele veio ao mundo, também comigo perecerá." (N. da T.)
2

Não há exposição do budismo que deixe de mencionar o Milinda Pañha, obra apologética do século II, que relata um debate cujos interlocutores são o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este

aplicar a esse fim o clássico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, são pródigos em parágrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, não obstante, a conseqüência inevitável de sua doutrina. O primeiro artigo ("A") é de 1944 e apareceu no número 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, é uma revisão do primeiro. Deliberadamente, não fundi os dois em um só, por entender que a leitura de dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil. Uma palavra sobre o título. Não me escapa que este é um exemplo do monstro que os lógicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que é nova (ou antiga) uma refutação do tempo é atribuir-lhe um predicado de índole temporal, que instaura a noção que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mantê-lo, para que seu ligeiríssimo escárnio prove que não exagero a importância desses jogos verbais. De mais a mais, tão saturada e animada de tempo está nossa linguagem que é bem provável que não haja nestas páginas uma sentença que de certo modo não o exija ou invoque. Dedico estes exercícios a meu antepassado Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), que legou às letras argentinas algum decassílabo memorável e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teológicas e expondo na cátedra os princípios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver. J. L. B. Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

argumenta que, assim como a carruagem do rei não é as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lança, nem o jugo, tampouco o homem é a matéria, a forma, as impressões, as idéias, os instintos ou a consciência. Não é a combinação dessas partes nem existe fora delas... Ao término de uma controvérsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se à fé de Buda. O Milinda Pañha foi vertido para o inglês por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

ou seja. de certo modo. de Leibniz. com ilusória força de axioma. nem sequer o penúltimo da série. mas que costuma visitar-me à noite e no exausto crepúsculo. nem nossas paixões... Berkeley (Principies of Human Knowledge. de qualquer modo que se combinem (isto é. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz. estando fora de meu escritório. Afirmo que esta mesa existe. 3) observou: "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. pude divisar ou pressentir uma refutação do tempo. ou que algum outro espírito a percebe.. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse.. Dois argumentos me encaminharam a esta refutação: o idealismo de Berkeley e o princípio dos indiscerníveis. que transcrevo mais adiante. eu a vejo e a toco. é declarada em certa página de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte". da qual eu mesmo descreio. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. Se. eu fizer a mesma afirmação. . menos demonstrativo e racional que divinatório e patético. Essa refutação está.A I No decorrer de uma vida consagrada às letras e (vez por outra) à perplexidade metafísica. de meu Fervor de Buenos Aires (1923). em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrição em qualquer sepulcro" e "O truco". qualquer que seja o objeto que elas formem). só podem existir em uma mente que as perceba. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. Tentarei fundamentar todos eles com este escrito. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos.

como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". por sua vez. Em 1844. Mas. capítulo VIII. nas palavras de seu inventor. nada mais fácil. . O homem que confessa esta verdade sabe claramente que não conhece um sol nem uma terra. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazêlo. Em outro parágrafo. 10 e 116) também negou as qualidades primárias – a solidez e a extensão das coisas – e o espaço absoluto. direis. ele publica um volume complementar. Seu esse est percipi. que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo é minha representação. por se tratar de dois sistemas visuais independentes. não existem quando não os pensamos. em 1713. para o idealista Schopenhauer. ao mesmo tempo. só pode existir na mente. Ou seja. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung – ano de 1819 – formula a seguinte declaração. não têm outro ser salvo serem percebidos. prevenindo objeções: "Mas. nego que os objetos possam existir fora da mente". dois sistemas táteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") não é maior que o imaginado (o "cerebral") e não o contém. Uma delas é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a poderosa fábrica do universo – não existem fora de uma mente. difícil é pensar dentro de seus limites. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. é para mim insensato. nada mais fácil que imaginar árvores em um prado ou livros em uma biblioteca. mas tão-somente uns olhos que vêem um sol e umas mãos que sentem o contato de uma terra". ao expôla. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer também é justo contrapor o monismo de Spiller. a doutrina idealista. o sexto. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". Logo no primeiro capítulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenômeno cerebral e distingue "o mundo na cabeça" do "mundo fora da cabeça". Entendê-la é fácil. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. sendo uma coisa sensível. 1902) argúi que a retina e a superfície cutânea invocadas para explicar o visual e o tátil são. sem ninguém por perto para percebê-los. Berkeley já fizera Philonous dizer: "O cérebro de que falas. De fato. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vê-las basta-nos abrir os olhos. Se responderes que sim. Essa é. os olhos e as mãos do homem são menos ilusórios ou aparenciais que a terra e o sol. comete negligências reprováveis. No parágrafo 23 acrescentou. Este (The Mind of Man.sem relação com o fato de serem ou não percebidas. O próprio Schopenhauer. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". Berkeley (Principies of Human Knowledge.

para Hume. I.1 A metafísica idealista declara que acrescentar a essas percepções uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) é temerário e inútil. A essa quase perfeita desagregação chegou David Hume. pois. Huckleberry Finn acorda. um caos. 1. escolhi um instante entre dois sonhos. com mais lógica. um sonho. para que meu leitor fosse penetrando nesse instável mundo mental. Hume. O "penso. 3). em seguida. vê uma linha indistinta que são as árvores. negado também o espaço. 4. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (obra citada. e sim outra coisa: um princípio ativo e pensante" (Dialogues. dizer "penso" é postular o eu. Repito: não há por trás dos rostos um eu secreto. "porque eu não sou meramente minhas idéias. 2. mergulha no sono imemorial como em uma água escura. nega tal existência (Treatise of Human Nature. 98). um labirinto incansável. Um mundo de impressões evanescentes. fui iterativo e explícito. somos apenas a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes. um pouco de frio. é uma petição de princípio. um mundo sem a arquitetura ideal do espaço. Em uma das noites do Mississipi. censurei Schopenhauer (não sem ingratidão). nem objetivo nem subjetivo. a forma e a cor são a lua. Imaginemos um presente qualquer. Para Hume. logo existo" cartesiano fica invalidado. . Acumulei acima citações dos apologistas do idealismo. propôs que em lugar de "penso" disséssemos impessoalmente "pensa". a jangada. eles são percebidos por Deus. eu afirmo que não menos ilógico é pensar que são termos de uma série cujo princípio é 1 Para facilidade do leitor. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansável da água. a governar os atos e a captar as impressões. é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. que são continuidades. I. um mundo sem matéria nem espírito. 6).Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. também a refuta e faz de cada homem "uma coleção ou feixe de percepções. no século XVIII. o cético. um mundo feito de tempo. Ambos afirmam o tempo: para Berkeley. já que a mente não passa de uma série de percepções. como quem diz "troveja" ou "relampeja". vê um vago número de estrelas. segue rio abaixo. Berkeley afirmou a identidade pessoal. A série? Negados o espírito e a matéria. um instante literário. não é lícito falar da forma da lua ou de sua cor. não histórico. poderá intercalar outro exemplo. faz. que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez" (obra citada. abre os olhos com negligência. 2). tampouco se pode falar das percepções da mente. 2). Hume. talvez. Lichtenberg. Uma vez aceito o argumento idealista. 4. quando nenhum indivíduo os percebe. prodigalizei suas passagens canônicas. Se alguém suspeitar de uma falácia. de sua própria vida. se quiser. não sei que direito nós temos a essa continuidade que é o tempo. perdida na escuridão parcial. do absoluto tempo uniforme dos Principia.

Em outras palavras: nego. De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre. isso dura a história do universo. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo. aquele na cidade de Montevidéu. pensando na fidelidade de meu amor. de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849. Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida. nem o perdão. ela me enganava": se cada estado que vivemos é absoluto. Dizem-me que o presente. Tentarei um método mais direto. o capitão Isidoro Suárez. a fatos que não ocorrerão conosco. não posso caminhar pelos subúrbios na . injustificável. Tomemos uma vida ao longo da qual amiúdam as repetições: a minha. meus avós e bisavós. como não existe a vida de um homem. ou seja. em que todos os fatos se encadeiam. Acrescentar ao rio e à margem percebidos por Huck a noção de outro rio substantivo de outra margem.. pode parecer intrincado. no início de agosto de 1824.. como podem compartilhá-lo milhares de homens. essa felicidade não foi contemporânea dessa traição. embora não sua lembrança. a sucessividade. nem sequer uma de suas noites. porque os dois homens morreram.tão inconcebível quanto seu fim. é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare – um. Nego. para o idealismo. nego. Nem a vingança. lembro já ter lembrado o mesmo. Cada instante é autônomo. a descoberta da traição é mais um estado. acrescentar outra percepção a essa rede imediata de percepções é. para mim. nenhum? – entre 1592 e 1594. a soma de todos os fatos. Busco um exemplo mais concreto. não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato. a de um único tempo. nem as prisões. incapaz de modificar os "anteriores". sem nada saber um do outro. com argumentos do idealismo. decidiu a vitória de Junín. Hume negou a existência de um espaço absoluto. também a simultaneidade. à frente de um esquadrão de hussardos do Peru. dura entre alguns segundos e uma ínfima fração de segundo. interrompido e como que entorpecido de exemplos. por exemplo. entre quatro e dez e quatro e onze. este em Edimburgo. tais fatos não foram contemporâneos (agora o são). Não passo diante de La Recoleta sem lembrar que aí estão sepultados meu pai. que sempre se referem a fatos futuros. existe cada momento que vivemos. inúmeras vezes. Acrescento: se o tempo é um processo mental. o specious present dos psicólogos. em um elevado número de casos. No início de agosto de 1824. em seguida. em um elevado número de casos. A desventura de hoje não é mais real que a ventura pretérita. não existe tal história. que somos o minucioso presente. Ou melhor. muitos. assim como eu estarei. em que cada coisa tem seu lugar. ou mesmo dois homens distintos? O argumento dos parágrafos acima. nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. a vasta série temporal que o idealismo admite. eu. não seu imaginário conjunto. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão. O universo. Verbi gratia.

Nem a pobreza nem a dor são acumuláveis". quem aniquilasse todos os homens não seria mais culpado que o primitivo e solitário Caim. . admiro sua destreza dialética. de fagulhas. que o número de variações circunstanciais não é infinito: podemos postular. na mente de um indivíduo (ou de dois indivíduos que se ignoram. entende que o tempo é feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre é também uma sucessão" (The World and the Individual. penso em Adrogué. de temperatura. O quinto parágrafo do quarto capítulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que.) Lucrécio (De Rerum Natura. se não há pluralidade. tal soma não existe. cabe perguntar: esses idênticos momentos não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a série do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare não são. guerras. o que é ortodoxo. talvez influenciado por Santo Agostinho. epidemias – são uma só dor. o osso. também The Problem of Pain. Josiah Royce. Shakespeare? Ignoro. concedendo-nos a ilusão de tê-lo inventado. pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio é outro") impõe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"). Se dez mil pessoas morrerem com você. para a justiça de Deus. o que pode ser mágico. 86): "O que você pode padecer é o máximo que se pode padecer na terra. a ética do sistema que acabo de esboçar. um dialeto alemão. a participação delas em sua sorte não o fará ter dez mil vezes mais fome nem multiplicará por dez mil o tempo de sua agonia. ainda. sofrerá toda a inanição havida e por haver. Helena. o fogo. de ossinhos imperceptíveis. cada vez que ouço um germanófilo vituperar o Yiddish. 830) atribui a Anaxágoras a doutrina de que o ouro consta de partículas de ouro. cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade. ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. I. elas se repetem sem precisão. Tal proposição é compatível com a deste trabalho. mas nos quais se dá o mesmo processo). cada vez que recordo o fragmento 91 de Heráclito. em minha infância. penso que o Yiddish é. "Nunca entrarás duas vezes no mesmo rio". nem mais universal na destruição. aquele que mata um único homem destrói o mundo. dois momentos iguais. Se você morrer de inanição. Postulada essa igualdade. 139). de estado fisiológico geral. há diferenças de ênfase.solidão da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos. porém. S. Essas tautologias (e outras que calo) são minha vida inteira. como a lembrança. pouco maculado pelo idioma do Espírito Santo. II. penso em você. Suspeito. antes de mais nada. não posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que só se perde aquilo que não se teve realmente. literalmente. VII. de C. Não sei se existe. cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios. Não se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos. Lewis. de luz. Naturalmente. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism. (Cf. Eu entendo que é assim.

A visão. desbarrancava-se em direção ao Maldonado. A rua era de casas baixas. na escassa medida do possível. mas não vivida com inteira dedicação até esse momento. quase tão efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisível esqueleto. e. isso que chamam caminhar a esmo. uma sorte de gravitação familiar empurrou-me a outros bairros. trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte": "Quero registrar aqui uma experiência que tive algumas noites atrás: futilidade por demais evanescente e extática para ser chamada de aventura. suas costas. sem outra consciente predeterminação senão evitar as avenidas ou ruas largas. "Assim a rememoro. o preciso âmbito da infância. por demais irracionável e sentimental para pensamento. A calçada era uma escarpa sobre a rua. estive em Barracas: localidade não visitada por meu hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um sabor estranho a esse dia. não é apta para pensar o eterno. Ao fundo. O reverso do conhecido. a figueira escurecia a esquina. o segundo certamente era de felicidade. Realizei. Tomava-a irreal sua própria tipicidade. como era serena. o beco. A marcha levou-me a uma esquina. vizinhos e mitológicos a um só tempo. Não quero com isso significar o bairro meu. embora seu primeiro significado fosse de pobreza. Já a mencionei antes. cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverência a meu peito. o intemporal. Nenhuma casa se aventurava à rua. Passo a historiá-la. Sobre a terra turva e . a rua era de barro elementar. aceitei os mais obscuros convites do acaso. em sereníssima folga de pensar. Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra já antedita por mim. barro da América ainda não conquistado. depois do jantar. com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram. Sua noite não tinha destino algum. mas suas ainda misteriosas imediações: confins que possuí inteiro em palavras e pouco em realidade. são para mim essas ruas penúltimas. os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. dispus-me à máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma só delas. saí para caminhar e recordar. Na tarde que precedeu essa noite. parecia simplificada por meu cansaço. Contudo. Não quis impor um rumo a essa caminhada. Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentação anterior talvez prefiram esta página de 1928. já pampiano. Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. nada complicada em si. Aspirei noite.II Toda linguagem é de índole sucessiva.

. do tamanho de um pássaro. Os elementares – os de sofrimento físico e prazer físico. então. Gemisto. não. e senti por ele um carinho pequeno. antes. e na confessa irresolução desta página o momento verdadeiro de êxtase e a possível insinuação de eternidade de que essa noite não me foi avara". Difícil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado. certamente em voz alta: isto aqui é o mesmo de trinta anos atrás. talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. para quem a única coisa real são os protótipos (Norris. uma taipa rosada parecia não albergar luz de lua. os de aproximação do sono. facilmente refutável no plano sensitivo. indefinido temor imbuído de ciência. aos filósofos por ele mencionados caberia acrescentar. os teólogos. Só depois consegui definir essa imaginação. de cuja essência o conceito de sucessão parece inseparável. Talvez cantasse um pássaro. agora: essa pura representação de fatos homogêneos – noite em serenidade. sem semelhanças nem repetições. Mas nem nossa pobreza é certa. Johannes . os da audição de uma mesma música. Pensei. suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade. murinho límpido. mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não tenha havido outro ruído senão o também intemporal dos grilos. barro fundamental – não é apenas idêntica à que existiu nessa esquina faz tantos anos. Senti-me morto. é uma delusão: a indiferença ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo. Abravanel. B Das muitas doutrinas que a história da filosofia registra. mas efundir luz íntima. mas já remota neste mutável lugar do mundo. 1829).. sem esperança de integrar o infinito censo. "É evidente que o número de tais momentos humanos não é infinito. Fique. Arrisco esta conclusão: a vida é pobre demais para não ser também imortal. "É assim que a escrevo. não o é no intelectual. Não acreditei. para quem tudo que não seja a divindade é contingente (Malebranche. senti-me um percebedor abstrato do mundo. os de muita intensidade ou muito desalento – são mais impessoais ainda. Judas. a mesma. no episódio emocional a vislumbrada idéia. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. A observação é de Carlyle (Novalis. "Fiquei olhando essa simplicidade. Imaginei a data: época recente em outros países. O tempo. Plotino). que é a melhor claridade da metafísica. os platônicos. se podemos intuir essa identidade. cheiro provinciano de madressilva.caótica. ter remontado às presumíveis águas do Tempo. posto que o tempo. é.

sem ninguém por perto para percebê-los. No parágrafo 23 acrescentou. os monistas. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". Berkeley negou a matéria. George Berkeley.. ou que algum outro espírito a percebe. direis. eu fizer a mesma afirmação.. II. No parágrafo 6.. formas que ninguém toca. os sabores. estando fora de meu escritório. O idealismo é tão antigo quanto a inquietude metafísica: seu apologista mais agudo. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung. Julgou que acrescentar uma matéria às percepções é acrescentar ao mundo um inconcebível mundo supérfluo.) . Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vêlas basta-nos abrir os olhos. e sim nos argumentos que idealizou para justificá-la.. entenda-se bem. Hume aplicou-os à consciência. floresceu no século XVIII. Berkeley usou-os contra a noção de matéria. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. digamos) é uma duplicação ilusória. eu a vejo e a toco. Hegel. houvesse dores que ninguém sente. ao mesmo tempo. meu propósito é aplicá-los ao tempo. além dessas percepções. Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialética. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. Isso não significa. nada mais fácil. mas entendeu que o mundo material (o de Toland. Seu esse est percipi. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. os cheiros. De fato. 3): "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. nem nossas paixões.Eckhart). seu mérito não consistiu na intuição dessa doutrina. de qualquer modo que se combinem (isto é. não existem quando não os pensamos. 1)... que tenha negado as cores. Se. só podem existir em uma mente que as perceba. Acreditou no mundo de aparências que os sentidos urdem. cores que ninguém vê. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. não têm outro ser salvo serem percebidos. Observou (Principles of Human Knowledge. os sons e os contatos. nego que os objetos possam existir fora da mente". (O deus de Berkeley é um ubíquo espectador cujo fim é dar coerência ao mundo. nada mais fácil que imaginar árvores em um parque ou livros em uma biblioteca. é para mim insensato. ou seja. que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley. Afirmo que esta mesa existe. sem relação com o fato de serem ou não percebidas. prevenindo objeções: "Mas. que compõem o mundo externo. qualquer que seja o objeto que elas formem). o que ele negou foi que. Parmênides). é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazê-lo. Esta é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a enorme fábrica do universo – não existem fora de uma mente.

o segundo é ilícito. voltam e se combinam de infinitas maneiras. ao ensinar que para os idealistas o mundo é um fenômeno cerebral. tu mesmo não serás mais que um sistema de idéias flutuantes. Fora de cada percepção (atual . Entretanto. não sei com que direito podemos reter essa continuidade que é o tempo. Herbert Spencer acredita refutá-la (Principles of Psychology. II): "O cérebro.A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. I. 98). abarcar um número infinito de séculos. 2. Siris. necessariamente. Corrobora Hume (Treatise of Human Nature. já que. 116. negados a matéria e o espírito. Uma vez aceito o argumento idealista. 6): "Somos uma coleção ou um conjunto de percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez. e até procurou negála mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princípios forem válidos. no terceiro e último dos Dialogues. antecipando-se a David Hume. não é menos parte do mundo externo que a constelação de Centauro.. A metáfora não deve enganar-nos. Aquele negara a matéria. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. este negou o espírito. este não quis que acrescentássemos a noção metafísica de um eu à sucessão de estados mentais. e não podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais é feito o teatro". "uma sucessão de momentos indivisíveis" (Treatise of Human Nature. 4. que houvesse um sujeito por trás da percepção das mudanças. VIII. 1). 6). só pode existir na mente. efetivamente. pois é tão absurdo falar em substância espiritual como em substância material". Berkeley (Principles of Human Knowledge. O cérebro. Berkeley negou que houvesse um objeto por trás das impressões dos sentidos. aquele não quisera que acrescentássemos a noção metafísica de matéria à sucessão de impressões. errôneo se inferirmos que esse tempo deve. que são continuidades. Para Berkeley. para Hume. raciocina Hylas. como ressalta Alexander Campbell Fraser. II. O primeiro é verdade se entendermos que todo tempo é tempo percebido por alguém. As percepções constituem a mente. o tempo é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. esta deve ser infinita no tempo e no espaço. onde as percepções aparecem ou desaparecem. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". 3). não sustentadas por nenhuma substância. Tão lógica é essa ampliação dos argumentos de Berkeley que este já previra. Se responderes que sim. repetidas vezes. David Hume. como coisa sensível. A mente é uma espécie de teatro.. Mais indecifrável ainda é o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. negado também o espaço. quando Berkeley já escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus. 226) negou o espaço absoluto. se não há nada fora da consciência. I. argumentando que.

um perceber. mas consta-nos que a imagem foi subjetiva. Pois bem. ou um de seus momentos. diz o antigo texto. entende que falar de objetos e de sujeitos é incorrer em uma impura mitologia. Tomemos um momento de máxima simplicidade: Verbi gratia. a não ser como percepção na mente divina. naquele momento não existia o corpo de Chuang Tzu. não existe o espírito. que sem dúvida era ele. de qual quer evento do orbe. a data daquele sonho. Na China. há cerca de vinte e quatro séculos.I e n + I. Este. por um acaso não impossível. cabe perguntar: esses instantes coincidentes não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a história do mundo. Existia como termo momentâneo da "coleção ou conjunto de percepções" que foi. Não consideremos o despertar. entre n . só existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. vincularemos esses instantes com os do despertar e com o período feudal da história chinesa? Isso não quer dizer que nunca saberemos. o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu. Segundo ele. Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um móvel triângulo amarelo. tampouco o tempo há de existir fora de cada instante presente. quer dizer que a fixação cronológica de um evento. A doutrina do paralelismo psicofísico julgará que essa imagem deve corresponder a alguma alteração no sistema nervoso do sonhador. ainda que fornecida pela memória. esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. não há outra realidade afora a dos processos mentais. é alheia a este. o sonho de Chuang Tzu é proverbial. Imaginemos que. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. não existe a matéria. se vinculá-lo a uma circunstância ou a um eu é uma ilícita e ociosa adição. para denunciar que tal história não existe? . ao menos de modo aproximado. e exterior. existiam como termo n de uma infinita série temporal. 1889). fora de cada estado mental. era uma borboleta. consideremos o momento do sonho. a mente de Chuang Tzu.ou conjeturai). acrescentar um eu aos processos parece-lhe não menos exorbitante. segundo Berkeley. Postulada essa igualdade. uns quatro séculos antes de Cristo. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu". ao acordar. se cada estado psíquico é suficiente. sonhou que era uma borboleta e. um deles sonha que é uma borboleta e depois que é Chuang Tzu. com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele não era Chuang Tzu. dentre seus quase infinitos leitores. imaginemos que. Entende que houve um sonhar. Como. Para o idealismo. abolidos o espaço e o eu. não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. naquele momento o espírito de Chuang Tzu não existia. nem sequer um sonho. mas não um sonhador. acrescentar à borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma vã duplicação. nem o negro quarto em que ele sonhava.

I. e contesta que o presente seja divisível ou indivisível. pois não há meio naquilo que carece de princípio e de fim. III. a frase negação do tempo é ambígua. um estado de G será contemporâneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. negam as partes para depois negar o todo. cuja forma é o tempo. se cada termo é absoluto. 42). que afirmou: "Cada partícula de espaço é eterna. cada indivisível momento de duração está em toda a parte" (Principia. estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da consciência. é uma possessão que nenhum mal pode arrebatar. não existe.. o tempo não é ubíquo. se for indivisível. 4). o eu. se o agora for divisível em outros agoras. F. XI. Tais raciocínios. como tampouco existem o passado e o porvir. Imóvel como a tangente. e o futuro. não será menos complicado que o tempo. Observa (Appearance and Reality. submetida ao princípio da razão. que já foi. Um tratado budista do 2 Antes. como se vê. II. em sua teoria da apreensão. que ainda não é. tampouco é divisível. a história universal. . o espaço já não existe. Ergo.) Meinong. IV) que.Negar o tempo é duas negações: negar a sucessão dos termos de uma série. que carece de forma. Pela dialética de Berkeley e de Hume. ou a estátua sensível de Condillac. ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida. o tempo será mera relação entre coisas intemporais. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade. ou o animal hipotético de Lotze. porque não pertence ao conhecível e é prévia condição do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung. O tempo é como um círculo a girar indefinidamente: o arco que desce é o passado. o que sobe é o porvir. mas.. Se as razões que apontei forem válidas. Ninguém viveu no passado. Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung. e. admite a dos objetos imaginários: a quarta dimensão. De resto. (Claro que. suas relações se reduzem à consciência de que as relações existem. Não é indivisível. esse inextenso ponto marca o contato do objeto. não o passado nem o porvir. De fato. digamos. a este orbe nebuloso também pertencerão a matéria. o tempo não existe. Este (Adversus Mathematicos. há um ponto indivisível que toca a tangente e é o agora. ou a raiz quadrada de -I. a esta altura da argumentação. nossas vidas. nem sequer meio. com o sujeito. cheguei à sentença de Schopenhauer: "A forma da aparição da vontade é só o presente. 54). negar o sincronismo dos termos de duas séries. H. Um estado precede o outro quando se sabe anterior. porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. o mundo externo. cada fração de tempo não preenche simultaneamente o espaço inteiro. 197) nega o passado. Pode significar a eternidade de Platão ou de Boécio e também os dilemas de Sexto Empírico. porque nesse caso ele não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro. no topo. por Newton.

263. Se queres ler mais.século V. toca a terra em um único ponto. infelizmente. and yet." (N. da T. ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor. eu. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal. O tempo é a substância de que sou feito.) . 373). O mundo. Im Fall du mehr willst lesen. O tempo é um rio que me arrebata. mas eu sou o tigre. infelizmente. "O homem de um momento pretérito – adverte-nos o Caminho da Pureza – viveu. o Visuddhimagga (Caminho da Pureza). 1675) 3 "Basta. negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. mas eu sou o rio. negar o eu. Negar a sucessão temporal.. 407). And yet. o de hoje morre no de amanhã". ao rodar. é um fogo que me consome. Freund. é terrível porque é irreversível e férreo. So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen. dura a vida o que dura uma única idéia" (Radhakrishman: Indian Philosophy. a vida de um ser dura o que dura uma idéia. amigo. mas não vive nem viverá. o homem de um momento futuro viverá. mas não viveu nem viverá" (obra citada. o homem do momento presente vive. 18): "O homem de ontem morreu no de hoje. I. mas eu sou o fogo. é um tigre que me despedaça. vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser. é real. es ist auch genug..3 (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann. sou Borges. I. mas não viveu nem vive. Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhões e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão. sentença que podemos comparar com esta de Plutarco (De E apud Delphos. Como uma roda de carruagem. vertiginosamente construída por uma série de homens momentâneos e solitários. VI.

De modo semelhante. Meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901). isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras. não é um instrumento válido para o estudo da ética. mas não os consultarei. de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidação de um conceito. dispostas verticalmente. um livro clássico? Tenho ao alcance da mão as definições de Eliot. por exemplo. uma truncada e três inteiras. Em seu segundo capítulo. (Lembremos. cálculo significa pedrinha e que os pitagóricos usavam dessas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra. é inútil saber que esse adjetivo advém do latim classis.SOBRE OS CLÁSSICOS Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia. e persona. máscara. sem dúvida razoáveis e luminosas. que depois tomaria o sentido de ordem. e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores. ao longo do tempo. as coincidências ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. ou I Ching. em latim. consta de duas linhas inteiras. a formação análoga de ship-shape. então. Dadas tais transformações. Saber que. Um imperador pré-histórico os . em minha idade. a expor o que pensei sobre esse ponto. para fixar o que hoje entendemos por clássico. que podem beirar o paradoxal. li que um dos cinco textos canônicos editados por Confúcio é o Livro das Mutações. Limitar-me-ei. saber que hipócrita era ator. agora. Um dos esquemas.) O que é. Acabo de completar sessenta e tantos anos. de passagem. frota. de Arnold e de Sainte-Beuve. feito de 64 hexagramas que esgotam as possíveis combinações de seis linhas truncadas ou inteiras. de Herbert Allen Giles.

para outros.descobriu na carapaça de uma das tartarugas sagradas. que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração de Voltaire ou de Shakespeare. na solidão de suas bibliotecas. um calendário. Para os estrangeiros. mas nada sabemos do futuro. se o tempo me propiciasse a ocasião de seu estudo. a minha tese. em suma. ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado. ao sul do Tweed. profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim. outros. salvo que diferirá do presente. Deliberadamente escolhi um exemplo extremo. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. uma leitura que demanda um ato de fé. ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentários. interferem as políticas ou geográficas. ou um grupo de nações. A Divina Comédia. mesmo que de modo levíssimo. agora. interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. uma das mais famosas formas do tédio. e que para sempre o serão. uma filosofia enigmática. Uma preferência pode muito bem ser uma superstição. mas os meios devem variar constantemente. tenho certeza de que. Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas. sob a influência de Macedonio Fernández. para não perder sua virtude. talvez. Não tenho vocação de iconoclasta. outros. Gastam-se à medida que o leitor os reconhece. um instrumento para a adivinhação do futuro. eternas. o Fausto é uma obra genial. acredito . como Wilhelm. um vocabulário de certa tribo. A glória de um poeta depende. Chego. Assim. eu acreditava que a beleza era privilégio de uns poucos autores. outros. Macbeth (e. mas ele foi devotamente lido e relido por gerações milenares de homens cultíssimos. outros. encontraria nelas todos os alimentos que o espírito requer. Clássico é aquele livro que uma nação. se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida. Previsivelmente. Por volta de 1930. Confúcio declarou a seus discípulos que. algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade. agora sei que é comum e que está a nossa espreita nas casuais páginas do medíocre ou em uri diálogo de rua. Além das barreiras lingüísticas. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração. da excitação ou da apatia das gerações de homens anônimos que a põem à prova. Burns é um clássico na Escócia. Para alemães e austríacos. que continuarão a lê-lo. Cada qual descrê de sua arte e de seus artifícios. As emoções que a literatura suscita são. para mim. Eu. fatal. já que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo. como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. Livros como o de Jó. o Livro das Mutações corre o risco de parecer uma simples chinoiserie. embora meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras seja completo. ou asas. essas decisões variam.

Quero também aproveitar esta página para retificar um erro. do Coord. mas que essas contadas invenções podem ser tudo para todos. ao revisar as provas. Outra.(nesta tarde de um dos últimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley. para pressupor (e verificar) que o número de fábulas ou metáforas de que é capaz a imaginação dos homens é limitado. lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. Uma. (N. como o Apóstolo. Em um ensaio.1 Ver Étienne Gilson: La Philosophie au Moyen Âge. urgidas por razões diversas." (N. atribuí a Bacon a idéia de que Deus compôs dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura. p. 1 Esta versão do ensaio foi publicada na revista Sur. 442. e incorporada às Obras Completas de 1974. no Breviloquium de São Boaventura – obra do século XIII – lê-se: "Creatura mundi est quasi quidam líber in quo legitur Trintas". EPÍLOGO Duas tendências descobri.) 1 "O mundo criado é como um livro em que se lê a Trindade. é um livro que as gerações de homens. Isso talvez seja indício de um ceticismo essencial. da T. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolástico.) . nos miscelâneos trabalhos deste volume. Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos. para avaliar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor estético e até pelo que encerram de singular e de maravilhoso. de janeiro-abril de 1966. 464.

J. Buenos Aires. Dunne A Criação e P H. W. OUTRAS INQUISIÇÕES (1952) A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J. Gosse Os alarmes do doutor Américo Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valéry como símbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analítico de John Wilkins Kafka e seus precursores . L. B. 25 de junho de 1952.

Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotação ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De alguém a ninguém Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw História dos ecos de um nome O pudor da história Nova refutação do tempo Sobre os clássicos Epílogo .

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