Outras inquisições

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JORGE LUIS BORGES

Este livro: Outras inquisições, é parte integrante da coleção:

JORGE LUIS BORGES–OBRAS COMPLETAS VOLUME II
1952-1972 Título do original em espanhol: Jorge Luis Borges - Obras Completas Copyright © 1998 by Maria Kodama Copyright © 1999 das traduções by Editora Globo S.A. 1ª Reimpressão-9/99 2ª Reimpressão-12/OO Edição baseada em Jorge Luis Borges - Obras Completas, publicada por Emecé Editores S.A., 1989, Barcelona - Espanha. Coordenação editorial: Carlos V. Frias Capa: Joseph Ubach / Emecé Editores Ilustração: Alberto Ciupiak Coordenação editorial da edição brasileira: Eliana Sá Assessoria editorial: Jorge Schwartz Revisão das traduções: Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araujo Preparação de originais: Maria Carolina de Araujo Revisão de textos: Márcia Menin Projeto gráfico: Alves e Miranda Editorial Ltda. Fotolitos: AM Produções Gráficas Ltda. Agradecimentos a Adria Frizzi, Ana Giménez, Christopher E Laferl, Edgardo Krebs, Élida Lois, Eliot Weinberger, Enrique Fierro, Francisco Achcar, Haroldo de Campos, Ida Vitale, José Antônio Arantes e Maite Celada Direitos mundiais em língua portuguesa, para o Brasil, cedidos à EDITORA GLOBO S.A. Avenida Jaguaré, 1485 CEP O5346-9O2 - Tel.: 3767-7OOO, São Paulo, SP

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OUTRAS INQUISIÇÕES Otras Inquisiciones Tradução de Sérgio Molina

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whose long wall the wand’ ring .OUTRAS INQUISIÇÕES – 1952 A Margot Guerrero A MURALHA E OS LIVROS He.

erigiu a muralha. Cercar uma horta ou um jardim é comum. queimou os livros. 76. o Imperador Amarelo. Che Huang-ti. e Confúcio. Che Huang-ti condenara a mãe ao desterro por libertinagem. proibiu qualquer menção à morte.. a única singularidade de Che Huang-ti foi a escala em que ele atuou. Che Huang-ti. escreveu Baruch Spinoza.) Essa conjetura é aceitável. Todas as coisas querem persistir em seu ser. e Lao-tsé). segundo os historiadores. e Huang-ti para de certo modo ser Huang-ti. da segunda face do mito. o legendário imperador que . Che Huang-ti talvez quisesse suprimir os livros canônicos porque estes o acusavam. inquietou-me. dias atrás. Tampouco é rotineiro pretender que a mais tradicional das raças renuncie à memória de seu passado. a rigorosa abolição da história. rei de Tsin. Li. esses dados sugerem que a muralha no espaço e o incêndio no tempo foram barreiras mágicas destinadas a deter a morte. quando Che Huang-ti ordenou que a história começasse com ele. porque a oposição os invocava para louvar os antigos imperadores. Três mil anos de cronologia tinham os chineses (e. pode ser que o imperador e seus magos acreditassem que a imortalidade é intrínseca e que a corrupção não pode entrar em um orbe fechado. nesses anos. O fato de as duas vastas operações – as quinhentas a seiscentas léguas de pedra opostas aos bárbaros. e Chuang Tzu. Pode ser que o Imperador tenha tentado recriar o princípio do tempo. não há mistério nas duas medidas. porque as muralhas eram defesas. em sua dura justiça. Che Huang-ti talvez quisesse abolir todo o passado para abolir uma única lembrança: a infâmia de sua mãe. Contemporâneo das guerras de Aníbal. mas eu sinto que os fatos referidos são algo mais que um exagero ou uma hipérbole de disposições triviais. que o homem que ordenou a edificação da quase infinita muralha chinesa foi aquele primeiro Imperador. (Não de outra sorte um rei. do passado – procederem da mesma pessoa e serem de certo modo seus atributos inexplicavelmente agradou-me e. Dunciad. Indagar as razões dessa emoção é o fito desta nota. que também mandou queimar todos os livros anteriores a ele. e procurou o elixir da imortalidade. mas nada nos diz da muralha. II. tenha-se chamado Primeiro para ser realmente o primeiro. ao mesmo tempo. É o que dão a entender alguns sinólogos. mandou matar todas as crianças para matar uma. Historicamente. cercar um império. Queimar livros e erigir fortificações é tarefa comum dos príncipes. que constava de tantos aposentos como dias tem o ano. não.. e recluiu-se em um palácio figurativo. na Judéia. isto é. mítico ou verdadeiro. reduziu os Seis Reinos a seu poder e aboliu o sistema feudal. os ortodoxos não viram senão impiedade. Che Huang-ti.Tartar bounds.

essa iminência de uma revelação. certos crepúsculos e certos lugares querem dizer algo. em inscrições que perduram. 1950. carecem de base histórica. poderíamos inferir que todas as formas têm sua virtude em si mesmas e não em um "conteúdo" conjeturai. e em todos. Falei de um propósito mágico. até o dia de sua morte. A muralha tenaz que neste momento. ou seja. Buenos Aires. e não o saberá". e assem até o infinito. para além das conjeturas que permite. Ambas as conjeturas são dramáticas. de que. os estados de felicidade. sob seu império. ordenou que seus herdeiros se chamassem Segundo Imperador. é verossímil que a idéia nos toque por si mesma. Isso coincidiria com a tese de Benedetto Croce.. é talvez o fato estético.) Generalizando o caso anterior. afirmou que todas as artes aspiram à condição da música. e ele destruirá minha muralha. Talvez o incêndio das bibliotecas e a edificação da muralha sejam operações que de modo secreto se anulam.inventou a escrita e a bússola. projeta seu sistema de sombras sobre terras que não verei é a sombra de um César que ordenou que a mais reverente das nações queimasse seu passado. . em enorme escala. como eu destruí os livros. semelhantemente. Isso (segundo a ordem que escolhêssemos) dar-nos-ia a imagem de um rei que começou por destruir e mais tarde resignou-se a conservar. Essa notícia favorece ou tolera outra interpretação. em 1877. ou algo disseram que não deveríamos ter perdido. Quarto Imperador. livros que ensinam o que ensina o universo inteiro ou a consciência de cada homem. ou estão prestes a dizer algo. e contra esse amor nada posso nem podem meus carrascos. que eu saiba. a mitologia. talvez Che Huang-ti tenha condenado aqueles que adoravam o passado a uma obra tão vasta quanto o passado. Herbert Allen Giles conta que aqueles que ocultaram livros foram marcados a ferro candente e condenados a construir. Talvez a muralha fosse um desafio e Che Huang-ti tenha pensado: "Os homens amam o passado. Terceiro Imperador. mas. Sonhou em fundar uma dinastia imortal. segundo o Livro dos Ritos. os rostos trabalhados pelo tempo. também poderíamos supor que erigir a muralha e queimar os livros não foram atos simultâneos. A música. tão néscia e tão inútil.. Talvez Che Huang-ti tenha amuralhado o império porque sabia que este era precário e destruído os livros por entender que eram livros sagrados. Che Huang-ti jactou-se. todas as coisas receberam o nome que lhes convém. deu às coisas seu nome verdadeiro. já Pater. Este. que não se produz. ou a de um rei desiludido que destruiu o que antes defendia. a desmedida muralha. (Sua virtude pode estar na oposição entre construir e destruir. Talvez a muralha fosse uma metáfora. mas um dia há de viver um homem que sinta como eu. e ele apagará minha memória e será minha sombra e meu espelho. que é apenas forma.

A ESFERA DE PASCAL .

Parmênides lecionou na Itália. o céu dos céus. o rapsodo Xenófanes de Colofônio. há uma etapa em que as partículas da terra.000. formam aquilo que recebe o nome de Corpus Hermeticum. e na enciclopédia Speculum Triplex. segundo os sacerdotes de Thot. que as idades vindouras não esqueceriam: "Deus é uma esfera inteligível. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma. 36. em cujas páginas estavam escritas todas as coisas. o último capítulo do último livro de Pantagruel referiu-se a "essa esfera intelectual. No Timeu. condenou os poetas que atribuíram traços antropomórficos aos deuses e propôs aos gregos um único Deus. para representar a divindade. compilados ou forjados desde o século I1. o Deus era esferoidal por ser essa forma a melhor. o sentido era claro: Deus está em cada uma de suas criaturas. Parmênides. a imagem reapareceu no simbólico Roman de la Rose. No século XIII. 148). . também atribuído a Trismegisto. Aristóteles) pensa que falar assim é cometer uma contradictio in adjecto. os deuses demasiado humanos que Xenófanes atacara foram rebaixados a ficções poéticas ou a demônios. segundo Jâmblico. de Platão. o teólogo francês Alain de Lille – Alanus de Insulis – descobriu em fins do século XII a seguinte fórmula. "O céu. repetiu a imagem ("o Ser é semelhante à massa de uma esfera bem arredondada. 20. do ar e do fogo integram uma esfera sem fim. Hermes Trismegisto. A história universal seguiu seu curso. Seis séculos antes da era cristã. farto dos versos homéricos que recitava de cidade em cidade. antes. porque todos os pontos da superfície eqüidistam do centro. ou menos má. que também era Hermes). quarenta anos depois. mas afirmou-se que um deles. Albertelli (como. que exulta em sua solidão circular". pois sujeito e predicado se anulam. isso bem pode ser verdade. da água. em um desses fragmentos. ou no Asclépio. Calogero e Mondolfo entendem que ele intuiu uma esfera infinita. poucos anos antes de sua morte.Talvez a história universal seja a história de algumas metáforas.525. o siciliano Empédocles de Agrigento urdiu uma laboriosa cosmogonia. lê-se que a esfera é a figura mais perfeita e mais uniforme. e que as palavras transcritas acima têm um sentido dinâmico (Albertelli: Gli Eleati. mas nenhuma O limita. intuir essa esfera. mas a fórmula dos livros herméticos deixa-nos. ditara um número variável de livros (42. cuja força é constante do centro em qualquer direção"). Olof Gigon (Ursprang der Griechischen Philosophie. que a apresenta como sendo de Platão. Para a mente medieval. "o Sphairos redondo. Esboçar um capítulo dessa história é o fito desta nota. quase. Os pré-socráticos falaram de uma esfera sem fim. que chamamos Deus". ou infinitamente crescente. no XVI. que era uma esfera eterna. 183) entende que Xenófanes falou analogicamente. segundo Clemente de Alexandria. Fragmentos dessa biblioteca ilusória. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma".

ninguém sabe o tamanho de seu rosto. do Sol. no sexto. No século XVII acovardou-a uma sensação de velhice. tampouco haverá um onde. de Mercúrio.não te contém". de Saturno). a oitava. porque. de Carnpanella e de Bacon. para Giordano Bruno. É uma esfera imóvel. setenta anos depois. A terra ocupa o centro do universo. disse Salomão (I Reis 8. 27). transparentes e giratórias (um dos sistemas requeria cinqüenta e cinco) chegara a ser uma necessidade mental. "pois está dentro de nós mais ainda que nós mesmos estamos dentro de nós". lamentou a vida brevíssima e a estatura mínima dos homens contemporâneos. Este proclamou. os rudimentos do Paraíso". a metáfora geométrica da esfera deve ter parecido uma glosa dessas palavras. (No quinto capítulo do Gênesis consta que "todos os dias de Matusalém foram novecentos e setenta e nove anos". negador de Aristóteles. Milton. Glanvill entendeu que Adão. Procurou palavras para explicar o espaço copernicano aos homens e em uma página famosa estampou: "Podemos afirmar com certeza que o universo é todo centro. o céu cristalino. a humanidade acreditou que chegara à idade viril. de Marte. para se justificar. Isso foi escrito com exultação em 1584. não restava nem um reflexo desse fervor. o espaço absoluto que inspirou os . não haverá realmente um quando. deu ao manuscrito que transformou nossa visão do cosmos. segundo a biografia de Johnson. ainda à luz do Renascimento. e assim o declarou pela boca de Bruno. na Ceia das Cinzas. em algum lugar. a nona. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. Este é rodeado pelo Empíreo. No tempo. de John Donne. desfrutou de uma visão telescópica e microscópica. As sete primeiras são os céus planetários (céus da Lua. "medalha de Deus". o céu das estrelas fixas. porque. O poema de Dante preservou a astronomia ptolomaica. temeu que o gênero épico já fosse impossível na terra. De Hipothesibus Motuum Coelestium Commentariolus é o tímido titulo que Copérnico. a ruptura das abóbadas estelares foi uma libertação. que o mundo é o efeito infinito de uma causa infinita e que a divindade está próxima. exumou a crença em uma lenta e fatal degeneração de todas as criaturas. ou que o centro do universo está em toda a parte e a circunferência em nenhuma" (Da Causa. V). que é feito de luz. em torno dela giram nove esferas concêntricas. que "havia gigantes sobre a terra naqueles dias". do Princípio e da Unidade. Robert South famosamente escreveu: "Um Aristóteles não foi mais que escombros de Adão. no espaço. Toda essa laboriosa máquina de esferas ocas. Ninguém está em algum dia. Para um homem. também chamado Primeiro Móvel. se o futuro e o passado são infinitos.) O primeiro aniversário da elegia Anatomy of the World. e Atenas. que são como as fadas e os pigmeus. e os homens sentiram-se perdidos no tempo e no espaço. por obra do pecado de Adão. de Júpiter. de Vênus. Naquele século desanimado. No Renascimento. que durante mil e quatrocentos anos regeu a imaginação dos homens.

Este abominava o universo e desejaria adorar a Deus.hexâmetros de Lucrécio. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". 1941). medo e solidão. revela que Pascal começou a escrever effroyable: "Uma esfera terrível. 1951. mas Deus. sentiu vertigem. O texto é assim publicado por Brunschvicg. cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". Talvez a história universal seja a história da vária entonação de algumas metáforas. foi um labirinto e um abismo para Pascal. Buenos Aires. o espaço absoluto que para Bruno fora uma libertação. A FLOR DE COLERIDGE . comparou nossa vida à de náufragos em uma ilha deserta. Sentiu o peso incessante do mundo físico. era menos real que o abominado universo. para ele. mas a edição crítica de Tourneur (Paris. Deplorou que o firmamento não falasse. que reproduz as rasuras e vacilações do manuscrito. e expressou-os em outras palavras: "A natureza é uma esfera infinita.

O segundo texto que alegarei é um romance que Wells esboçou em 1887 e reescreveu sete anos mais tarde. O protagonista de Wells. A primeira versão intitulava-se The Chronic Argonauts (neste titulo descartado. chronic tem o valor etimológico de "temporal"). viaja fisicamente ao futuro. invoco-as para executar um modesto propósito: a história da evolução de uma idéia. agora.. literalmente: "Se um homem atravessasse o Paraíso em um sonho e lhe dessem uma flor como prova de que estivera ali. e ao despertar encontrasse essa flor em sua mão. 1821). construído por todos os poetas do orbe (A Defence of Poetry. Essas considerações (implícitas. do presente e do porvir são episódios ou fragmentos de um único poema infinito. Volta exausto. 2. como em outras. sem dúvida. a profetisa de Edda Saemundi. e sim a história do Espírito como produtor ou consumidor de literatura. ignoro se escrita em fins do século XV11I ou princípios do XIX. há neles tal unidade central que é inegável serem obra de um único cavalheiro onisciente" (Emerson: Essays. eu a considero perfeita. o destino militar de sua posteridade. Por trás da invenção de Coleridge está a geral e antiga invenção das gerações de amantes que pediram uma flor como prova. Diz. Não era a primeira vez que o Espírito formulava essa observação. os romanos. as peças de xadrez com que antes jogaram. no panteísmo) permitiriam um infindável debate. Claro que o é. Shelley sentenciou que todos os poemas do passado. outro de seus amanuenses anotara: "Dir-se-ia que uma única pessoa redigiu quantos livros há no mundo. espalhadas entre as ervas de uma nova pradaria. descobrirão. Isaías vê a desolação de Babilônia e a restauração de Israel.Por volta de 1938. Essa história poderia ser levada a termo sem mencionar um único escritor". o retorno dos deuses que. a definitiva. continua e reforma uma antiqüíssima tradição literária: a previsão de fatos futuros. O primeiro texto é uma nota de Coleridge.. The Time Machine. Usá-la como base de outras invenções felizes parece previamente impossível. tem a integridade e a unidade de um terminus ad quem. nesse romance. depois da cíclica batalha em que nossa terra há de perecer. não há ato que não seja coroação de uma infinita série de causas e manancial de uma infinita série de efeitos. que habitam em palácios . Paul Valéry escreveu: "A história da literatura não deveria ser a história dos autores e dos acidentes de sua carreira ou da carreira de suas obras. Vinte anos antes. empoeirado e muito abatido. Enéias. na ordem da literatura. por meio dos textos heterogêneos de três autores. no povoado de Concord. O que pensar?" Não sei qual será a opinião de meu leitor acerca dessa imaginação. de uma meta. ao contrário desses espectadores proféticos.. VIII). em 1844.. no verão de 1894. volta de uma remota humanidade que se bifurcou em espécies que se odeiam (os ociosos eloi. Wells. eu.

fascinado por essa tela. o epigramatista do panteísmo Angelus Silesius disse que todos os bemaventurados são um (Cherubinischer Wandersmann. Refiro-me ao autor de A Humilhação dos Northmore. como nas ficções anteriores. A rigor. A terceira versão que comentarei. este o pinta com temor e aversão. que é uma variante ou elaboração de The Time Machine. traslada-se ao século XVIII. Claro que. Este. embora menos dotado dessas agradáveis virtudes que se costuma chamar de clássicas. o triste e labiríntico Henry James. mas o de James é menos arbitrário. Oscar Wilde costumava dar seus argumentos de presente para que outros os executassem. deste último. V. 2 Em meados do século XVII. já que seu herói.dilapidados e ruinosos jardins. The Sense of the Past. à força de compenetrar-se dessa época. em sua obra The Destructive Element (p. 1 Não li The Sense of Past. é um retrato que data do século XVIII e que misteriosamente representa o protagonista. o nexo entre o real e o imaginário (entre atualidade e passado) não é uma flor. um incomparável regressos in infinitum. o panteísta que declara que a pluralidade dos autores é ilusória encontra inesperado apoio no classicista.) Em The Sense of the Past. James foi amigo de Wells. o pintor.2 tais fatos são irrelevantes. sobre a relação deles pode-se consultar o vasto Experiment in Autobiography. que avança ou recua no tempo como os outros veículos no espaço. em suas obras. desconhecia o texto de Coleridge. a literatura é o essencial. Mais inacreditável que uma flor celestial ou que a flor de um sonho é a flor futura. é invenção de um escritor muito mais complexo que Wells. Ralph Pendrel. Entre as pessoas que encontra. Wells. não é indispensável ir tão longe. Henry James conhecia e admirava o texto de Wells. cit. ao século XVIII. consegue trasladar-se à data em que foi executada. James cria. assim. figura. o de James volta ao passado. deixou inacabado um romance de caráter fantástico. V.. a mais trabalhada. se for válida a doutrina de que todos os autores são um autor. que se alimentam dos primeiros). A causa é posterior ao efeito. 1O5-1O). segundo o qual essa pluralidade importa muito pouco. pois intui algo de incomum e anômalo nessas feições futuras. os subterrâneos e nictalopes morlocks. Este. 7) e que todo cristão deve ser Cristo (op. verossimilmente. Para as mentes clássicas. ao morrer. páginas e sentenças alheias. ambas as condutas. volta com as têmporas encanecidas e traz do porvir uma flor murcha. o motivo da viagem é uma das conseqüências da viagem. não os indivíduos. 9). mas conheço a suficiente análise de Stephen Spender.1 O protagonista de Wells viaja ao futuro em um inconcebível veículo. .. George Moore e James Joyce incorporaram. Essa é a segunda versão da imagem de Coleridge.. (Os dois procedimentos são impossíveis. necessariamente. a contraditória flor cujos átomos agora ocupam outros lugares e ainda não se combinaram.

foi De Quincey. Outra testemunha da unidade profunda do Verbo. de Bacon e dos dois Escalígeros. de Erasmo. fazem-no por supor que se afastar dele em um ponto é afastarse da razão e da ortodoxia. Durante muitos anos. fazem-no por confundir esse escritor com a literatura. de Justo Lipsio. Um sentido ecumênico.. de Vives.embora superficialmente opostas.. foi o insigne Ben Johnson. eu acreditei que a quase infinita literatura estava em um homem. de Maquiavel. impessoal. outro pegador dos limites do sujeito. foi Rafael Caninos-Asséns. podem evidenciar um mesmo sentido da arte. de Quintiliano. empenhado na tarefa de formular seu testamento literário e os ditames favoráveis ou adversos que dele mereciam seus contemporâneos. Uma última observação. limitou-se a combinar fragmentos de Sêneca. foi Whitman. Esse homem foi Carlyle. Aqueles que copiam minuciosamente um escritor fazem-no de modo impessoal. O SONHO DE COLERIDGE . que. foi Johannes Becher.

Caedmon era um rústico pastor e já não era jovem. Uma visita inesperada interrompeu-o e foi-lhe impossível. isto é. tinha desaparecido como as imagens na superfície de um rio onde se atira uma pedra. a quem um sonho (segundo ele mesmo contou em seu Chapter on Dreams) deu o argumento de Olalla e outro. mais afim com a inspiração verbal de Coleridge é a que Beda. "Descobri. em um dos dias do verão de 1797. embora extraordinário. o homem que dormia intuiu uma série de imagens visuais e. com a certeza de ter composto. que sonhara que o Diabo (seu escravo) executava no violino uma prodigiosa sonata. de refinada prosódia) foi sonhado pelo poeta inglês Samuel Taylor Coleridge. basta-nos reter. sem a ulterior restauração delas. depois. o de Jekyll & Hide. Coleridge escreve que se retirara para uma chácara nos confins de Exmoor. acordou. atribui a Caedmon (Historia Ecclesiastica Gentis Anglocum. Outro exemplo clássico de cerebração inconsciente é o de Robert Louis Stevenson. O caso ocorreu em fins do século VII. simplesmente. o sonhador. 24). que. . No sonho de Coleridge. Tartini quis imitar na vigília a música de um sonho." Swinburne sentiu que os versos resgatados eram o mais alto exemplo da música do inglês e que o homem capaz de analisá-los poderia (a metáfora é de John Keats) destecer um arco-íris. Recordava-os com singular clareza e conseguiu transcrever o fragmento que perdura em suas obras. ai de mim. tudo o mais. ou recebido. Havelock Ellis equiparou-o com o do violinista e compositor Giuseppe Tartini. um poema de cerca de trezentos versos. com não pequena surpresa e mortificação – conta Coleridge –. mas o outro disse: "Canta o princípio das coisas criadas". foi vencido pelo sono momentos depois de ler uma passagem de Purchas que descreve a edificação de um palácio por Kubilai Khan. embora retivesse de modo vago a forma geral da visão. deduziu de sua imperfeita lembrança o Trillo del Diavolo. de palavras que as manifestavam. IV. recordar o restante. o imperador cuja fama ocidental foi obra de Marco Polo. não é único. e ele sabia-se incapaz de cantar. e no sonho alguém o chamou pelo nome e lhe ordenou que cantasse. na Inglaterra missionária e guerreira dos reinos saxões. que a Coleridge foi dada em um sonho uma página de não discutido esplendor. uma noite. uma indisposição obrigou-o a tomar um hipnótico. Stevenson recebeu do sonho argumentos. Caedmon respondeu que não sabia. No estudo psicológico The World of Dreams. formas gerais. ao despertar. Recolheu-se ao estábulo. o texto lido por acaso principiou a germinar e a se multiplicar.O fragmento lírico Kubla Khan (cinqüenta e tantos versos rimados e irregulares. esgueirou-se de uma festa por prever que lhe passariam a harpa. em 1884. mas. salvo umas oito ou dez linhas soltas. passadas algumas horas. O caso. o Venerável. para dormir entre os cavalos. As traduções ou resumos de poemas cuja virtude fundamental é a música são vãos e por vezes prejudiciais. por ora.

sonha um palácio e o edifica conforme a visão. Confrontadas com essa simetria. Esperemos que tenha reencontrado seu anjo. À primeira vista. de Rachid ed-Din. mas os monges explicavam-lhe passagens da história sagrada e ele "as ruminava como um puro animal e as transformava em dulcíssimos versos. porque não aprendeu dos homens. recitou versos que jamais ouvira. enquanto a Caedmon foi revelada uma vocação. no século XIII. e a encarnação. sempre. Outros argüirão que o poeta soube de algum modo que o imperador sonhara o . Um imperador mongol. que magnífica até o insondável a maravilha do sonho em que Kubla Khan foi gerado. e a vinda do Espírito Santo e o ensinamento dos apóstolos. o sonho de Coleridge corre o risco de parecer menos assombroso que o de seu precursor. incluir-me nesse grupo) julgarão que a história dos dois sonhos é uma coincidência. sonha um poema sobre o palácio. entretanto. um desenho traçado pelo acaso. ressurreições e aparições dos livros piedosos. Anos mais tarde. apareceu em Paris. Que explicação preferiremos? Aqueles que de antemão rejeitam o sobrenatural (eu procuro. previu a hora em que morreria e aguardou-a dormindo. O poeta sonhou em 1797 (outros entendem que em 1798) e publicou seu relato do sonho em 1816. as doçuras do céu e as mercês e os juízos de Deus". que não tinha como saber que essa construção se derivara de um sonho. a história do sonho de Coleridge antecede Coleridge em muitos séculos e ainda não chegou a seu fim. e muitas outras coisas da Escritura. a meu ver. Em uma página. Não aprendeu a ler. mas Coleridge já era um poeta.Caedmon. ressurreição e ascensão do Senhor. como as formas de leões ou de cavalos que as nuvens por vezes configuram. ao despertar. Kubla Khan é uma composição admirável e as nove linhas do hino sonhado por Caedmon quase não apresentam outra virtude exceto sua origem onírica. que trabalha com almas de homens que dormem e abarca continentes e séculos. Há. paixão. um fato ulterior. no século XVIII. Vinte anos depois. lê-se: "A leste de Chan-tong. o horror dos castigos infernais. "ninguém igualou-se a ele – diz Beda –. Quem escreveu isso era vizir de Ghazan Mahmud. Foi o primeiro poeta sacro da nação inglesa. um poeta inglês. e também o terror do Juízo Final. sob a forma de glosa ou justificativa do poema inacabado. nada ou muito pouco são. o Compêndio de Histórias. a primeira versão ocidental de uma dessas histórias universais em que a literatura persa é tão rica. as levitações. e pôde repeti-los diante dos monges do vizinho mosteiro de Hild. então. Não os esqueceu. fragmentariamente. Se esse fato for verdadeiro. de acordo com uma planta que vira em sonho e que guardava na memória". e sim de Deus". que descendia de Kubla. que data do século XIV. Kubla Khan erigiu um palácio. e assim cantou a criação do mundo e do homem e toda a história do Gênesis e do êxodo dos filhos de Israel e sua entrada na terra prometida.

um poema (ou princípio de poema) sugerido pelo palácio. ainda pôde escrever: "O extravagante poema onírico Kubla Khan é pouco mais que uma curiosidade psicológica".1 Essa conjetura é verossímil. Ao primeiro sonhador foi oferecida. destruído o palácio. O TEMPO E J. do poema consta-nos que foram resgatados não mais que cinqüenta versos. esteja ingressando paulatinamente no mundo. e ele o construiu.2 Mais encantadoras são as hipóteses que transcendem o racional. julgado por leitores de gosto clássico. arbitrariamente. 1927. mas obriga-nos a postular. sonhará o mesmo sonho sem suspeitar que outros o sonharam e lhe dará a forma de um mármore ou de uma música. o sonho de Kubla. o padre Gerbillon. o período enorme revela um executor sobre-humano. 358. Talvez a série de sonhos não tenha fim. Já escrita a explicação acima. da Companhia de Jesus. a segunda. Em 1884. é cabível supor que. p. a visão do palácio. mais duradouras que mármores e metais. Quem sabe um arquétipo ainda não revelado aos homens. Por exemplo. DUNNE 1 No início do século XIX ou final do XVIII. Em 1691. sua primeira manifestação foi o palácio. Quem os comparasse teria visto que eram essencialmente iguais. na noite. um texto não identificado pelos sinólogos em que Coleridge pudesse ter lido. talvez a chave esteja no último. a alma do imperador tenha penetrado na alma de Coleridge para que este o reconstruísse em palavras. Traill. 585. a semelhança dos sonhos deixa entrever um plano. alguém. antes de 1816. ao segundo. o primeiro biógrafo de Coleridge. . Tais fatos permitem conjeturar que a série de sonhos e de trabalhos não chegou ao fim. Kubla Khan era muito mais ousado que hoje. mas é lícito suspeitar que ele não teve êxito. o poema sobre o palácio. Se o esquema não falhar. talvez. o poema. Indagar o propósito desse imortal ou desse longevo seria. que se deu cinco séculos mais tarde. um objeto eterno (para usar a nomenclatura de Whitehead). também. não menos atrevido que inútil. entrevejo ou creio entrever outra. O primeiro sonho acrescentou um palácio à realidade. 2 Ver John Livingston Lowes: The Road to Xanadu. em uma noite a séculos de nós. W. capaz. de paliar ou justificar o que nele há de truncado e rapsódico. constatou que do palácio de Kubilai Khan só restavam ruínas. o segundo. que não soube do sonho do anterior.palácio e disse ter sonhado o poema para criar uma esplêndida ficção.

. já deduzira que o eu é inevitavelmente infinito. capítulo XXII) raciocina que um sujeito consciente não só é consciente daquilo que observa. para ser mais exato. Nem todas as omissões desse esboço eram involuntárias: excluí deliberadamente a menção a J. "não é conhecido como tal. acrescenta que esses inumeráveis sujeitos íntimos não cabem nas três dimensões do espaço. p. publiquei uma préhistória. "O sujeito conhecedor". que repete ou resume os argumentos dos três anteriores. p. Huxley. A discussão (a mera exposição) de sua tese teria excedido os limites dessa nota. de parábolas. portanto. de boas ironias e de diagramas. 318. Este (An Experiment with Time. sustenta que há apenas uma diferença verbal entre o fato de perceber uma dor e o de saber que a percebemos e zomba dos metafísicos puros. são as inferências do autor. . um objeto sensígeno e esse personagem imperioso: o Eu" 1 Nachvedische Philosophie der Inder. Alenta-me a escrevê-lo o exame do último livro de Dunne – Nothing Dies (1940. anoto alguns prévios avatares das premissas. Os hindus não têm sentido histórico (isto é: perversamente. repete ele. Sua complexidade requeria um artigo independente: este que agora ensaiarei. que em toda sensação distinguem "um sujeito sensível. O sétimo dos muitos sistemas filosóficos da índia que registra Paul Deussen1 nega que o eu possa ser objeto imediato do conhecimento. Antes de comentá-las. de outro sujeito B que é consciente de A e. Schopenhauer a redescobre. mas consta-nos que essa negação radical da introspecção tem cerca de oito séculos. 367). Por volta de 1843. e sim nas não menos inumeráveis dimensões do tempo. W. O argumento único. "pois. Seu mecanismo nada tem de novo. insólito. esse é o argumento em que os tratados de Dunne se baseiam. de outro sujeito C consciente de B. da regressão infinita. portanto. 1920. Antes de esclarecer esse esclarecimento.. Exornado de histórias. que extraiu do interminável regressus uma doutrina bastante assombrosa do sujeito e do tempo. e esse eu postula por sua vez outro eu (Deussen: Die Neuere Philosophie. pois seria objeto de conhecimento de outro sujeito conhecedor" (Welt als Wille und Vorstellung. o que é quase escandaloso. tomo 2. seria necessária uma segunda alma para conhecer a primeira e uma terceira para conhecer a segunda".No número 63 da revista Sur (dezembro de 1939). Herbart também jogou com essa multiplicação ontológica. capítulo 19). convido meu leitor para repensarmos o que diz este parágrafo. como bom herdeiro dos nominalistas britânicos. se nossa alma fosse conhecível. preferem o exame das idéias ao dos nomes e datas dos filósofos). uma primeira história rudimentar. Antes dos vinte anos. Faber & Faber) –. Dunne. pois o fato de conhecer-se a si mesmo postula outro eu que também se conhece a si mesmo. mas de um sujeito A que observa e. Não sem mistério.

. prefiro supor que se trata de estados sucessivos (ou imaginários) do sujeito inicial. mas intuo que o curso do tempo e o tempo são um único mistério. sob a forma de linha ou de rio) e depois um terceiro e um milionésimo. 87).. ‘Não sei qual será a opinião de meu leitor. a segunda. ligeiramente mascarado. mas considera-os tão compreensíveis quanto a simultânea percepção de uma voz e de um rosto. um terceiro para o traslado do segundo. Postula que o futuro já existe e que devemos trasladar-nos a ele. no qual flui. "Se o espírito – disse Leibniz – tivesse de repensar o pensado. p. capítulo 1). substituindo assim uma indivisa imagem visual por um sujeito. Nenhum dos quatro livros de 2 Neste poema do século XV há uma visão de "três mui grandes rodas": a primeira.. 3 Meio século antes de ser proposta por Dunne. o presente. o futuro. um verbo e um complemento. imóvel. como prefere Bradley) flui o rio absoluto do tempo cósmico. 1902) admite que a consciência da dor e a dor são dois fatos distintos. um tempo segundo para o traslado do primeiro. tomo 6.2 como Uspenski no Tertium Organum. O procedimento criado por Dunne para a obtenção imediata de um número infinito de tempos é menos convincente e mais engenhoso. Essa translação. comete um erro semelhante ao dos distraídos poetas que falam (digamos) da lua que mostra seu rubro disco. Quanto à consciência da consciência. fora descoberta e recusada por Schopenhauer. é o passado. livro 2. e assim até o infinito. e não dois.. em uma nota manuscrita anexa a seu Welt als Wille und Vorstellung. portanto. Gustav Spiller (The Mind of Man. Dunne é uma vítima ilustre desse mau hábito intelectual denunciado por Bergson: conceber o tempo como uma quarta dimensão do espaço. com suas vicissitudes e pormenores. exige.(Essays. Consta na página 829 do segundo volume da edição históricocrítica de Otto Weiss. Sua opinião parece-me válida. imóvel. esse fluir. invocada por Dunne para instalar em cada indivíduo uma vertiginosa e nebulosa hierarquia de sujeitos. suspeito. ou os rios mortais de nossas vidas. ele postula que o futuro já existe. Nesses tempos hipotéticos ou ilusórios têm interminável morada os sujeitos imperceptíveis que o outro regressus multiplica. a terceira. e assim até o infinito" (Nouveaux Essais sor l’Entendement Humain. Dunne. rápida ou lentamente.3 Assim é a máquina proposta por Dunne. Assim como Juan de Mena em seu Labyrintho. que não é outro senão o próprio sujeito. como todos os movimentos. Para o futuro preexistente (ou do futuro preexistente. "a absurda conjetura de um segundo tempo. giratória. um tempo determinado. Não pretendo saber que coisa é o tempo (nem mesmo se é uma "coisa"). o primeiro". mas esse postulado basta para transformá-lo em espaço e para requerer um tempo segundo (que também é concebido sob forma espacial. . teremos. bastaria perceber um sentimento para pensar nele e para depois pensar no pensamento e depois no pensamento do pensamento.

a relativa simplicidade que essa hipótese outorga aos inextricáveis diagramas típicos de seu estilo. O tempo verdadeiro. os sonhos premonitórios. para Dunne.. . Dunne.. No capítulo XXI do livro An Experiment with Time. supõe que a eternidade já nos pertence e que isso é corroborado pelos sonhos de cada noite. outra.. GOSSE 4 A frase é reveladora. segundo ele. o autor fala de um tempo que é perpendicular a outro. Nestes. e Shakespeare colaborarão conosco. no sonho abarcamos uma área que pode ser vastíssima. qualquer falácia cometida pelo autor resulta insignificante. folheá-las. (Schopenhauer escreveu que a vida e os sonhos são folhas de um mesmo livro e que lê-las em ordem é viver. Recuperaremos todos os instantes de nossa vida e os combinaremos como bem entendermos. A CRIAÇÃO E P H. confluem o passado imediato e o imediato porvir.Dunne deixa de propor infinitas dimensões do tempo. Sonhar é coordenar os vislumbres dessa contemplação e com eles urdir uma história. surpreendentemente. é o inatingível último termo de uma série infinita. sonhar. ou uma série de histórias.. Vemos a imagem de uma esfinge e a de uma botica e inventamos que uma botica se transforma em esfinge. Os teólogos definem a eternidade como a simultânea e lúcida posse de todos os instantes do tempo e declaram-na um dos atributos divinos. Que razões haveria para postular que o futuro já existe? Dunne fornece duas: uma. Na vigília percorremos o tempo sucessivo a uma velocidade uniforme.4 mas essas dimensões são espaciais. Diante de uma tese tão esplêndida. No homem que amanhã conheceremos colocamos a boca de um rosto que nos olhou ontem à noite. e nossos amigos.) Dunne garante que na morte aprenderemos o feliz manejo da eternidade. Deus. Ele também quer evitar os problemas de uma criação contínua.

cujo subtítulo é Tentativa de Desatar o Nó Geológico. traduzida em mitos e em simetria. da qual Alguém poderia deduzir todo o porvir e todo o passado –. . G."The man without a Navel yet lives in me" (o homem sem Umbigo perdura em mim). 1642). Duas passagens da Escritura (Romanos 5. para denotar que foi concebido em pecado. March 23. No capítulo de sua Lógica que trata da lei da causalidade. Introduzo exemplos ilustrativos que não constam nessas breves páginas. and Adam’s tree. pressupõe certa enigmática paridade. As the first Adam’s sweat surrounds. Em vão vasculhei as bibliotecas em busca desse livro. composto por John Donne: We think that Paradise and Calvary. Essa vinculação é de 1857. curiosamente. 1857). Este a divulgou no livro Omphalos (Londres. 1940). Wells (All Aboard for Ararat. naked Eve. passada e vindoura. John Stuart Mill sustenta que o estado do universo em qualquer instante é conseqüência de seu estado no instante precedente e que a uma inteligência infinita bastaria o conhecimento perfeito de um único instante para saber a história do universo. Sir Thomas Browne (Religio Medici. mas o zoólogo Philip Henry Gosse vinculou-o ao problema central da metafísica: o problema do tempo. aquele em que morrem todos os homens. O tema (sei bem) corre o risco de parecer grotesco e banal. (Também deduz – oh. Nietzsche! oh. redutível a uma fórmula. 1907) e de H. ao derradeiro Adão. my face. 1 Coríntios 15) contrapõem o primeiro homem. No primeiro capítulo do Ulisses. que é Jesus. Pitágoras! – que a repetição de qualquer estado comportaria a repetição de todos os outros e faria da história universal uma série cíclica. Talvez o exemplo mais intenso esteja na penúltima estrofe de "Hymn to God. Christ’s Cross. 1 Na poesia devota.1 Essa contraposição. my God. Adão. essa conjunção é comum. para ser mais que uma simples blasfêmia. A Lenda Áurea diz que o lenho da Cruz provém daquela Árvore proibida que está no Paraíso. em teoria. May the last Adam’s blood my soul embrace. Mill não descarta a possibilidade de uma futura intervenção externa capaz de interromper a série. para redigir esta nota. stood in one place.) Nessa moderada versão de certa fantasia de Laplace – a de que o estado presente do universo é. escreve.163O. oitenta anos de esquecimento talvez equivalham à novidade. Look Lord. Essa insensata precisão certamente influenciou a cosmogonia de Gosse. recorrerei aos resumos de Edmund Gosse (Father and Son. por descender de Adão. Louis Auguste Blanqui! oh. and find both Adams met in me. mas que julgo compatíveis com o pensamento de Gosse. que Adão foi criado pelo Pai e pelo Filho com a idade exata que o Filho teria ao morrer: trinta e três anos. os teólogos. She had no navel". Joyce também evoca o ventre imaculado e liso da mulher sem mãe: "Heva. in my sickness".

os paleontólogos impiedosamente exigiam enormes acumulações de tempo. antes de t. surge Adão (escreve Edmund Gosse) e ele ostenta um umbigo. mas só as posteriores à Criação existiram realmente. já que as ciências constituem um vasto mecanismo para desenvolver e exercitar o intelecto humano. o s. O primeiro instante do tempo coincide com o instante da Criação. claro. Essa é a tese engenhosa (e. Surge Adão. mas minucioso e fatal. 1902. Mill imagina um tempo causal. Charles Kingsley desmentiu que o Senhor tivesse gravado nas rochas "uma supérflua e vasta mentira". Em 1857. O estado n fatalmente produzirá o estado v. e assim até o infinito. A segunda: sua involuntária 2 Cf. mas pode não ocorrer. já interrompido por um ato pretérito: a Criação. uma catástrofe divina – a consummatio mundi.Afirma que o estado q fatalmente produzirá o estado r. o estado n pressupõe o estado c. mas jamais houve gliptodontes.. mas esse primeiro instante comporta não só um infinito porvir. Em vão repetia De Quincey que a Escritura tem a obrigação de não instruir os homens em ciência alguma. o estado r. uma discrepância preocupava os homens. O princípio da razão exige que nenhum efeito careça de causa. um tempo rigorosamente causal. infinito. e seus dentes e seu esqueleto contam trinta e três anos. propôs uma solução assombrosa. Gosse. como dita Santo Agostinho. que pode ser interrompido por um ato futuro de Deus. As duas a rejeitaram. mas admite que. o estado s. preciso. p. fortalecido pela prece. mas também um infinito passado. mas uma série de séculos já a precedera". O Gênesis atribuía seis dias – seis dias hebreus inequívocos. Os jornalistas reduziram-na à doutrina de que Deus teria escondido fósseis sob a terra para pôr à prova a fé dos geólogos. Não sei se ele conheceu a antiga sentença que consta das páginas iniciais da antologia talmúdica de Rafael Caninos-Asséns: "Não era senão a primeira noite. digamos – pode aniquilar o planeta. O futuro é inevitável. Sir Charles Lyell com Moisés? Gosse. Um passado hipotético. inacreditável) que Philip Henry Gosse propôs à religião e à ciência. Duas virtudes quero reivindicar para a esquecida tese de Gosse.. mas c não ocorreu. . mas antes de v pode ocorrer o Juízo Universal. infinito. 148-51. A primeira: sua elegância um tanto monstruosa. que regressivamente se multiplicam. Spencer: Facts and Comments. acima de tudo. No vale de Luján perduram esqueletos de gliptodonte. Como conciliar Deus com os fósseis. essas causas requerem outras causas.2 todas deixam vestígios concretos. porque o mundo foi criado em f ou em h. embora nenhum cordão umbilical o ligue a uma mãe. De nada adiantou Gosse expor a base metafísica da tese: quão inconcebível é um instante de tempo sem outro instante precedente e outro ulterior. Deus espreita nos intervalos. de ocaso a ocaso – à criação divina do mundo. o t.

como pensaram o Vedanta e Heráclito. uma tese idêntica à de Gosse. partindo de razões estéticas. 1941). la nature dans son innocence eût été moins belle qu’elle ne 1"est aujourd’hui dans sa corruption". supõe que o planeta foi criado há poucos minutos. crias e sementes. Buenos Aires. Revelou quão insípido. sua demonstração indireta de que o universo é eterno. 5) formulou. teria sido um primeiro dia da Criação povoado de filhotes. 1941. Bertrand Russell atualizou-a. provido de uma humanidade que "recorda" um passado ilusório. e irrisório. . OS ALARMES DO DOUTOR AMÉRICO CASTRO1 1 La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico (Losada.redução ao absurdo de uma creatio ex Nihilo. Escreveu: "Sans une vieillesse originaire. Spinoza e os atomistas.. I. 4. 1921). Post-Scriptum. Chateaubriand (Génie du Christianisme. larvas.. Buenos Aires. Em 1802. No capítulo nove do livro The Analysis of Mind (Londres.

de Palermo. los tenela muy juncales.. transcreve-os com infantil gravidade e depois os exibe urbi et orbi como exemplos de nossa degenerada linguagem. inversão proposital das sílabas): "Com um pingado / e um pão doce / você vem para a cidade / bancando o grã-fino". declara-os "sintomas de grave alteração".. de cândido. de Enrique González Tuñón. a expoliação. Para demonstrar a primeira tese – a corrupção do idioma espanhol no Prata –. que. da T. ao contrário. a degola. Não suspeita que tais exercícios ("Con un feca con chele / y una ensaimada / vos te venís pal Centro / de grau bacán”)2 são caricaturais. Outro demérito dos falsos problemas é o de promoverem soluções também falsas. de Contursi. de Llanderas e de Malfatti. etc. para não pôr em dúvida sua inteligência. o estupro e a leitura da prosa do doutor Rosenberg. los he dicaito yo.A palavra problema pode ser uma insidiosa petição de princípio. de Vacarezza. para não duvidar de sua probidade. El chibel barba del breje menjindé a los burós: apincharé ararajay y menda la pirabó. Plínio (História Natural.3 2 2 Tradução literal dos versos. como o demonstram as coplas transcritas por Rafael Salillas (El Delincuente Español: Su Lenguaje.) não se contenta em observar uma "confusão lingüística em Buenos Aires": arrisca a hipótese do "lunfardismo" e da "mística gauchofilia". é vaticinar (e recomendar) as perseguições. o fuzilamento.) . cuja causa remota são "as conhecidas circunstâncias que fizeram dos países platinos zonas aonde a pulsação do império hispânico chegava já sem brio". como ninguém ignora. O doutor Castro (La Peculiaridad Lingüística. de Last Reason. sendo o primeiro em vesre (de al revés. livro oitavo) não se contenta em observar que os dragões atacam os elefantes durante o verão: arrisca a hipótese de que o fazem para beber todo seu sangue. (N. Com idêntica eficácia caberia argumentar que em Madri já não restam vestígios do espanhol. 1896): El minche de esa rumi dicen no tenela bales. Acumula retalhos de Pacheco. Falar em problema judeu é postular que os judeus são um problema. o doutor apela a um procedimento que devemos qualificar de sofístico. é muito frio. de Lima.

Improvisaram o gauchesco. Essas corporações vivem de reprovar os sucessivos jargões que inventam. Viajei pela Catalunha. jacta-se de ter decifrado um diálogo campestre de Lynch "em que os personagens usam os meios mais bárbaros de expressão. que só podem ser inteiramente compreendidos por quem está familiarizado com as gírias rio-platenses". (N. sim. Castro ignora esse léxico. Em tais detritos se apóiam. em Orense. da T. É fato que o idioma espanhol padece 3 Tradução literal dos versos em caló (linguagem dos ciganos na Espanha): "O sexo dessa mulher / dizem que não tem pêlos. después espirajushió por temor a la canushia. por Castela.. morei alguns anos em Valldemosa e um em Madri. o doutor Castro anuncia-nos outro livro sobre o problema da língua em Buenos Aires. em voz mais alta. 1915). / ela os tem muito vistosos. tais riquezas lhes devemos e deveremos. o vesre. Com exceção do lunfardo (modesto esboço carcerário que ninguém sequer sonha em comparar ao exuberante caló dos espanhóis). canushia [polícia].. As gírias: ce pluriel est bien singulier. na 87.) O doutor Castro imputa-nos arcaísmo. (Falam. / eu mesmo os vi. baseados nos alunos da terceira série. Não padecemos de dialetos.)] . com o aprumo de quem ignora a dúvida. [Tradução literal dos versos em lunfardo: "O grã-fino retalhou / a cara da mulher / e depois fugiu / por medo da polícia".4 Na página 139. esqueceram esta ou aquela acepção desta ou daquela palavra. espirajushiar [fugir]. jamais observei que os espanhóis falassem melhor que nós.Diante de sua poderosa treva. / / No melhor dia do ano / peguei o touro à unha: / conheci uma freira / e me deitei com ela". Seu método é curioso: descobre que as pessoas mais cultas de San Mamed de Puga. não há gírias neste país. da T. o cocoliche. é quase límpida esta pobre copla em lunfardo: El bacán le acanaló el escracho a la minushia. Não menos falsos são "os graves problemas que a fala representa em Buenos Aires".. (N. baseados em Hernández. de institutos dialetológicos.. guardo gratíssimas lembranças desses lugares.) 4 Consta do vocabulário giriesco de Luis Villamayor: El Lenguaje del Bajo Fondo (Buenos Aires. por Alicante. talvez por ter sido citado por Arturo Costa Álvarez em um livro essencial: El Castellano en la Argentina (La Plata. embora padeçamos. imediatamente resolve que os argentinos também devem esquecê-la. baseados em um palhaço que trabalhou com os Podestá. sim. 1928). pela Andaluzia. Desnecessário advertir que ninguém diz minushia [mulher].

. um homem ao estilo de Ramírez ou Artigas. costumam ser incapazes de pronunciar Atlántico ou Madrid. se o destino não torcer o rumo dos sinais propícios. 9). por preferir os idiotismos espanhóis. é pródigo em superstições convencionais. mais versátil no erro. que ele não canaliza porque não é guia. Esse examinador do "fato lingüístico buenairense" registra seriamente que os portenhos chamam o gafanhoto de acrídio. a contínua trivialidade do pensamento não exclui o pitoresco dislate: "Surge então a única coisa possível. Por vezes. 49). do galego.. Alonso e P. esse inexplicável leitor de Carlos de la Púa e de Yacaré revela-nos que taita significa "pai" no linguajar suburbano. do maiorquino. conjuga a radiotelefonia com o football: "O pensamento e a arte rio-platense são valiosas antenas para tudo aquilo que no mundo significa valor e esforço. mas não da imperfeição que seus desastrados vindicadores lhe assacam: a dificuldade.. mas aceita a tomadura de pelo. Às vezes o pesquisador de Vacarezza tenta o mot juste: "Pelos mesmos motivos alegados para torpedear a maravilhosa gramática de A. por zombaria. quer que digamos de gorra. dizem le mató em vez de lo mató. Os compadritos de Last Reason emitem metáforas hípicas. "A alfândega seca. acham que um livro pode suportar este cacofônico título: La Peculiaridad Lingüística Rioplatense y Su Sentido Histórico).de várias imperfeições (monótono predomínio das vogais. e ridiculamente chamao "centauro máximo". Só os espanhóis julgam-no árduo: talvez porque os perturbem as atrações do catalão. e sim corpulência esmagadora.o doutor Castro. do bable. Às vezes o estilo é comercial: "As bibliotecas do México possuíam livros de alta qualidade" (p.. talvez por certa rudeza verbal (confundem acusativo com dativo. visivelmente. Nesse livro. talvez por um erro da vaidade. A poesia. nega os tangos e refere-se às xácaras com respeito. inépcia para formar palavras compostas). que. a forma não contradiz o conteúdo. bestialmente.. pensa que Rosas foi um caudilho de guerrilhas. não é mais lógica nem mais encantadora. encurrala o rebanho disperso" (p. 52). O espanhol é facílimo. (Com melhor estilo e juízo mais lúcido. Henríquez Ureña" (p. O doutor Castro. 31). ingente aparelho ortopédico que mecanicamente. 72). do basco e do valenciano. o romance e o ensaio conseguiram muito mais que um goal perfeito. Condena os idiotismos americanos.) Proscreve – entendo que com toda a razão – a palavra cachada. o tirano. atitude intensamente receptiva que não demorará a converter-se em força criadora. Groussac preferiu a definição: "miliciano de retaguarda". excessivo relevo das palavras. condensação da energia sem rumo da massa. impunha preços fabulosos" (p. A ciência e o pensamento filosófico têm nomes de extrema distinção entre seus cultivadores" (p. Despreza López e venera Ricardo Rojas. 71. Não quer que digamos de arriba. em cada página desse livro.

Eu não sei se. Saber deles algo certo. Del Campo ou Hernández. À frente os bichos tocaram Como crioulos bem curtidos E logo. E pelo rosto do amigo Duas lágrimas rolaram. Eu me despeço e já vou Que aqui cantei a meu modo. algum dia. Adentraram no deserto. Por ser verdade contei Todas as desgraças ditas: É um tear de desditas Todo gaúcho de lei.S. E seguindo o fiel do rumo. Transcrevo aqui as últimas estrofes do Martín Fierro: Cruz e Fierro numa estância Uma tropilha apanharam. – Leio na página 136: "Tentar escrever como Ascasubi. Mas ponha sua esperança No Deus que tudo assinou. Tombaram nas correrias Mas espero. da prosa rimada e do terrorismo. Males que conhecem todos Mas qu’inda ninguém contou. P. a sério. sem ironia. E já com estas notícias Minha canção terminei. em campo aberto.À errônea e mínima erudição o doutor Castro acrescenta o incansável exercício da adulação. A fronteira atravessaram. Disse Cruz ao camarada Que olhasse pros casarios. . E depois de ter passado Numa madrugada clara. sem serem ouvidos. é algo que dá o que pensar".

NOSSO POBRE INDIVIDUALISMO . dos gêneros literários que jogam football e das gramáticas torpedeadas? Na página 122. não me julgo totalmente incapacitado para falar de estilística."A sério. sem ironia". o doutor Castro enumerou alguns escritores cujo estilo considera correto. apesar da inclusão de meu nome nesse catálogo. eu pergunto: Quem é mais dialetal? O cantor das límpidas estrofes que repeti acima ou o incoerente redator dos aparelhos ortopédicos que encurralam rebanhos.

As ilusões do patriotismo não têm fim. No primeiro século de nossa era, Plutarco zombou daqueles que declaram ser a lua de Atenas melhor que a lua de Corinto; Milton, no XVII, reparou que Deus tinha por hábito revelar-se primeiro a Seus ingleses; Fichte, no início do XIX, declarou que ter caráter e ser alemão são, evidentemente, a mesma coisa. Aqui os nacionalistas pululam; o que os move, segundo eles, é o compreensível ou inocente propósito de fomentar os melhores traços argentinos. Ignoram, porém, os argentinos; na polêmica, preferem defini-los em função de algum fato exterior; dos conquistadores espanhóis (digamos), ou de uma imaginária tradição católica, ou do "imperialismo saxão". O argentino, ao contrário dos americanos do Norte e de quase todos os europeus, não se identifica com o Estado. Isso pode ser atribuído à circunstância de que, neste país, os governos costumam ser péssimos ou ao fato geral de que o Estado é uma inconcebível abstração,1 a verdade é que o argentino é um indivíduo, não um cidadão. Aforismos como o de Hegel "O Estado é a realidade da idéia moral" parecem-lhe piadas sinistras. Os filmes elaborados em Hollywood costumam oferecer à admiração o caso de um homem (geralmente um jornalista) que busca a amizade de um criminoso para depois entregá-lo à polícia; o argentino, para quem a amizade é uma paixão e a polícia uma maffia, sente que esse "herói" é um incompreensível canalha. Sente, como Dom Quixote, que "cada qual que se avenha com seu pecado" e que "não é certo o homem honrado ser algoz de outros homens, sem que nada lhe vá nisso" (Quixote, l, XXII). Mais de uma vez, em face das vãs simetrias do estilo espanhol, suspeitei que diferimos irremediavelmente da Espanha; essas duas linhas do Quixote bastaram para convencer-me de meu erro; são como o símbolo tranqüilo e secreto de nossa afinidade. Algo que é profundamente confirmado por uma noite da literatura argentina: essa desesperada noite em que um sargento da polícia rural gritou que não ia consentir o delito de matarem um valente e pôs-se a lutar contra seus próprios soldados, ao lado do desertor Martín Fierro. O mundo, para o europeu, é um cosmos em que cada um corresponde intimamente à função que exerce; para o argentino, é um caos. O europeu e o americano do Norte entendem que há de ser bom um livro que mereceu um prêmio qualquer; o argentino admite a possibilidade de não ser ruim, apesar do prêmio. Em geral, o argentino descrê das circunstâncias. Pode ignorar a fábula de que a humanidade sempre inclui trinta e seis homens justos – os Lamed Wufniks – que não se conhecem entre si, mas que secretamente sustentam o
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O Estado é impessoal: o argentino só concebe relações pessoais. Por isso, para ele, roubar dinheiro público não é crime. Apenas constato um fato; não o justifico nem desculpo.

universo; quando a ouvir, não estranhará que esses beneméritos sejam obscuros e anônimos... Seu herói popular é o homem só que luta contra a partida, seja em ato (Fierro, Moreira, Hormiga Negra), seja em potência ou no passado (Segundo Sombra). Outras literaturas não registram fatos análogos. Tomemos, por exemplo, dois grandes escritores europeus: Kipling e Franz Kafka. A primeira vista, nada há em comum entre os dois, mas o tema do primeiro é a vindicação da ordem, de uma ordem (a estrada em Kim, a ponte em The Bridge-Builders, a muralha romana em Puck of Pook’s Hill); o do segundo, a insuportável e trágica solidão de quem carece de um lugar, por humilíssimo que seja, na ordem do universo. Dirão que os traços que assinalei são meramente negativos ou anárquicos; acrescentarão que não comportam explicação política. Ouso sugerir o contrário. O mais urgente dos problemas de nossa época (já denunciado com profética lucidez pelo quase esquecido Spencer) é a gradual intromissão do Estado nos atos do indivíduo; na luta contra esse mal, cujos nomes são comunismo e nazismo, o individualismo argentino, talvez inútil ou prejudicial até agora, há de encontrar justificativa e deveres. Sem esperança e com nostalgia, penso na abstrata possibilidade de um partido que tivesse alguma afinidade com os argentinos; um partido que nos prometesse (digamos) um severo mínimo de governo. O nacionalismo pretende embair-nos com a visão de um Estado infinitamente incômodo; essa utopia, uma vez alcançada na terra, teria a providencial virtude de fazer com que todos almejassem, e por fim construíssem, sua antítese. Buenos Aires, 1946.

QUEVEDO

Assim como a outra, a história da literatura é pródiga em enigmas. Nenhum deles inquietou-me, nem me inquieta, tanto quanto a estranha glória parcial que coube por sorte a Quevedo. Nos censos de nomes universais, o dele não consta. Muito tentei inquirir as razões dessa extravagante omissão; certa vez, em uma conferência esquecida, julguei encontrá-las no fato de suas duras páginas não fomentarem, nem sequer tolerarem, o menor desabafo sentimental. ("Abusar do sentimentalismo é ter êxito", observou George Moore.) Para alcançar a glória, eu dizia, não é indispensável que um escritor se mostre sentimental, mas é indispensável que sua obra ou alguma circunstância biográfica estimulem o patetismo. Nem a vida nem a arte de Quevedo, ponderei, prestam-se a essas ternas hipérboles cuja repetição faz a glória... Ignoro se essa explicação é correta; hoje eu a complementaria com esta: virtualmente, Quevedo não é inferior a ninguém, mas não encontrou um símbolo que se apoderasse da imaginação das pessoas. Homero tem Príamo, que beija as homicidas mãos de Aquiles; Sófocles tem um rei que decifra enigmas e que os oráculos levam a decifrar o horror de seu próprio destino; Lucrécio tem o infinito abismo estelar e a discórdia dos átomos; Dante, os nove círculos infernais e a Rosa paradisíaca; Shakespeare, seus mundos de violência e de música; Cervantes, o venturoso vaivém de Sancho e Quixote; Swift, sua república de cavalos virtuosos e de Yahoos bestiais; Melville, a abominação e o amor da Baleia Branca; Franz Kafka, seus crescentes e sórdidos labirintos. Não há escritor de fama universal que não tenha cunhado um símbolo; este, convém lembrar, nem sempre é objetivo e externo. Góngora ou Mallarmé, Verbi gratia, perduram como tipos do escritor que laboriosamente elabora uma obra secreta; Whitman, como protagonista semidivino de Leaves of Grass. De Quevedo, ao contrário, perdura apenas uma imagem caricatural. "O mais nobre estilista espanhol transformou-se em um protótipo de trocista", observa Leopoldo Lugones (El Imperio jesuítico, 1904, p. 59). Lamb disse que Edmund Spencer era the poets’ poet, o poeta dos poetas. De Quevedo, teria de resignar-se a dizer que é o literato dos literatos. Para gostar de Quevedo é preciso ser (em ato ou em potência) um homem de letras; inversamente, ninguém que tenha vocação literária pode não gostar de Quevedo. A grandeza de Quevedo é verbal. Julgá-lo um filósofo, um teólogo ou (como pretende Aureliano Fernández Guerra) um homem de Estado é um erro que podem permitir os títulos de suas obras, não o conteúdo. Seu tratado Providencia de Dios, Padecida de los que la Niegan y Gozada de los que la Confiesan: Doctrina Estudiada en los Gusanos y Persecuciones de Job prefere a intimidação ao argumento. Como Cícero (De Natura Deorum, II, 40-44), prova uma ordem divina mediante a ordem observada nos astros, "ingente

exporei à vergonha os que pouca tiveram. Escreve que a transmigração das almas é uma "bestial bobagem" e uma "loucura bruta". segundo Aureliano Fernández Guerra. discípulo do imundo e desatinado Teodoro". Na história da filosofia há doutrinas. O assombro vacila entre a arbitrariedade do método e a trivialidade das conclusões. . não passa de um arrazoado contra os maus ministros. moça. malditos. do qual fora povo. Quevedo depreende. de Tácito e de Lucano.. homem tão insensato que. Fiel a esse cabalístico pressuposto. Nesse tratado. O espanhol.1 O leitor distraído pode julgar-se edificado por essa obra. Análoga discrepância percebe-se no Marco Bruto. Quevedo. nobre e conveniente". Quevedo tudo salva. 1939. e são: Diágoras de Mileto. Rex Judaeorum) são símbolos secretos a cuja luz o político deve resolver seus problemas. em suas páginas lapidares. o mais atinado.133): "As obras políticas de Quevedo não propõem uma nova interpretação dos valores políticos nem têm. ao 1 Reyes certeiramente observa (Capítulos de Literatura Española. Protágoras de Abdera. in fine).república de luzes". pássaro e mudo peixe que surge do mar". Os gnósticos. ou são obras de declamação acadêmica. provavelmente falsas. Para estimar o valor dessa sentença. expedida essa variante estelar do argumento cosmológico. agora. Empédocles de Agrigento afirmou: "Já fui criança. Mas entre essas páginas podem encontrar-se alguns dos traços mais característicos de Quevedo". o que não passa de terrorismo. apesar de sua ambiciosa aparência. que exercem obscuro encanto sobre a imaginação dos homens: a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. e não os ministros o rei". ou quase. é invulnerável a esse encanto. como se sabe.. o mais imponente dentre os estilos exercidos por Quevedo atinge a perfeição. parece regressar ao árduo latim de Sêneca. e à vista do mar. Quevedo moteja de infames. Ou são panfletos circunstanciais. que "o rei deve conduzir os ministros. onde o pensamento não é memorável. nenhum valor além do retórico. que os reis devem remediar as necessidades. e Bião de Boristenas. do episódio da samaritana. "um completo sistema de governo. embora as cláusulas o sejam. precipitou-se no fogo". mudou-se em tão contrária e oposta natureza que morreu borboleta do Etna. A Política de Dios. Quevedo anota (Providencia de Dios): "Revelou-se juiz e legislador deste enredo Empédocles.. p. Entretanto. loucos e inventores de disparates (Zahurdas de Plutón. touceira. que os tributos exigidos pelos reis devem ser leves. Sua Política de Dios y Gobierno de Cristo Nuestro Señor deve ser considerada. a doutrina gnóstica de que o mundo é obra de um deus hostil ou rudimentar. discípulos de Demócrito e Teodoro (vulgarmente chamado Ateu). acrescenta: "Poucos foram os que absolutamente negaram haver Deus. apenas estudioso da verdade. e. basta-nos lembrar que os quarenta e sete capítulos desse livro ignoram todo e qualquer fundamento que não seja a curiosa hipótese de que os atos e palavras de Cristo (que foi. com a dignidade da linguagem. da repetição da fórmula sequebantur. afirmando ter sido peixe.. do episódio dos pães e dos peixes.

. Há uma diferença fundamental: Luciano. o estilo desmesurado e orgiástico (mas não ilógico) de La Hora de Todos. o mármore e as vozes. pessoa precipitada. quítame allá esas pajas e a trochi-moche. Verbi gratia. da T. deliberados exercícios de petrarquismo. ou exigem. a oposição de termos. canalha. e sim ao mérito". urdiu com eles a rapsódia intitulada Cuento de Cuentos. abarrisco. Watts." Quevedo nunca a entendeu assim. p. 1904. ao censurá-las. essencialmente. o hipérbato. nunca deixou de aspirar ao ascetismo estóico. os poemas eróticos de Quevedo são insatisfatórios. 2. "A linguagem – observou Chesterton (G. Quevedo. passo a discutir sua poesia. ou a barrisco: conjuntamente e sem distinção. ainda que brevemente. ser julgados de perfeitos. ao repetir esse ataque no século XVI de nossa era.. limita-se a observar uma tradição literária. a aridez. Cochite y hervite: 1. as ervas. combatendo as divindades olímpicas no século II.2 Quevedo foi equiparado. (N. também deve ter achado insensato depender de mulheres ("bem-avisado aquele que usa de suas carícias e nestas não se fia"). olhos que brilham como estrelas e estrelas que fitam como olhos – incomodavam-no por serem fáceis. fascinadas. a repetição de palavras dão a esse texto uma precisão ilusória. Também execrou os idiotismos. feito rápida e atabalhoadamente. para ele a linguagem foi. um instrumento lógico.) . não as permitiram à pretensão.atormentado e duro latim da idade de prata. costumam ser admiráveis. O ostentoso laconismo. pagaram grandes e soberanas vitórias com as aclamações de um triunfo. Muitos períodos merecem. Examinada. 2. divinamente destinado a salvar do esquecimento as locuções zurriburi. mãos equiparadas a neve. sua prosa. de que a metáfora é o contato momentâneo de duas imagens. o quase algébrico rigor. F. esses motivos bastam para explicar o 2 Zurriburi: 1. Trochi-moche(a). não menos múltipla. 91) – não é um fato cientifico. em mais de uma ocasião. Com o propósito de "expô-los à vergonha". e sim artístico. não a metódica assimilação de duas coisas. homem de apetites veementes. Quítame allá esas pajas (en un): num átimo. considerados jogos de hipérboles. Quevedo. recompensaram vidas quase divinas com estátuas. faz uma obra de polêmica religiosa. confusão. para que não descaíssem de prerrogativas de tesouro os ramos. Considerados documentos de uma paixão. e. foi inventada por guerreiros e caçadores e é muito anterior à ciência. este que transcrevo: "Honraram com folhas de louro uma linhagem. cochite hervite. mas muito mais por serem falsas. preferiram ver nessa redução ao absurdo um museu de primores. ou a troche y moche: às tontas. Esqueceu-se. Abarrisco. muitas gerações. sujeito desprezível. As trivialidades ou eternidades da poesia – águas equiparadas a cristais. sem eira nem beira. a Luciano de Samósata. Outros estilos freqüentou Quevedo com não menos felicidade: o estilo aparentemente oral do Buscón.

E aquela o melhor cálculo assenta. Em fuga irrevogável corre a hora. Digo o mesmo da seguinte expressão: o pranto militar. Se nem sempre entendidos. naqueles que lhe permitem publicar sua melancolia. neste soneto que ele enviou. porque a realidade não é verbal. Em músicos. de sua Torre de Juan Abad. sempre abertos.artificialismo voluntário daquela Musa IV de seu Parnaso. duque de Osuna. Que na lição e estudo nos melhora. sua coragem ou seu desengano. que "canta façanhas de amor e formosura". As grandes almas que a morte ausenta. Emendam e secundam meus assuntos. mas o soneto é eficaz a despeito deles. vingadora. Com poucos. bom dom Joseph. cujo sentido não é enigmático. a douta Imprensa. e sim corriqueiro. H. muerto en la prisión" –. Não direi que se trata de uma transcrição da realidade. porém doutos. Por exemplo. Das injúrias dos anos. a Dom José de Salas (Musa. orar despertos ao sonho da vida). no mais ilustre soneto desse volume – "Memoria inmortal de don Pedro Girón. livros juntos. a esplêndida eficácia do dístico Sua Tumba são de Flandres as Campanhas e seu Epitáfio a sangrenta Lua é anterior a toda interpretação e não depende dela. mas sim que suas palavras importam menos que a cena que evocam ou que o acento viril que parece animá-las. Não faltam traços cultistas ao poema anterior (ouvir com os olhos. Livra. O acento pessoal de Quevedo está em outros poemas. calados contrapontos Ao sonho desta vida oram despertos. Nem sempre ocorre o mesmo. 109): Recolhido na paz destes desertos. o . não por causa deles. Eu vivo dialogando co’os defuntos E os mortos com os olhos ouço ao perto.

a memorável linha (Musa. Não poucas vezes. ou exaltação.5 urbanidades e doçuras da Itália ("humilde solidão verde e sonora"). porém pó apaixonado é uma recriação. da T. IX) 5 À dura lide um animal nascido E símbolo zeloso dos mortais. de uma de Propércio. de Joachim de 3 4 "Que a minha cinza fique livre de um amor que me esqueceu. Desertos montes como cãs cendrados. gongorismos intercalados.) Tremeram fundamente umbrais e portas Ali onde a majestade negra e obscura As frias dessangradas sombras mortas Oprime em lei desesperada e dura. Quanto à sangrenta Lua. De Jove foi disfarce. Confundindo lamentos e latidos. e foi vestido. Assim. Compreende pensativos sonetos. Co"as três gargantas ao latido prontas. 19): Ut meus oblito pulvis amore vacet. E em nossa palidez cegam os prados. opacas e rangentes severidades. eclipsado por não sei que piratarias de Dom Pedro Téllez Girón. de Juvenal. é melhor ignorar que se trata do símbolo dos turcos. das Escrituras. (Elegias. Que um tempo empederniu as mãos reais. O Cérbero calou-se. para provar que ele também era capaz de jogar esse jogo. 1. E luz rumina em campos celestiais. IV." (N. Ao ver a nova luz divina e pura. que em reinos vãos e baldos Perturbam o silêncio e os ouvidos. E por trás dele os cônsules gemeram. variantes de Pérsio. e de repente. (Musa. II) . Acrescentavam desconsolo e medo Os roucos cães. Fundos suspiros deu a negra gente. O solo sob os pés gemeu inteiro. de Sêneca. 31): Serão pó.3 Grande é o âmbito da obra poética de Quevedo. Que não merecem ver do céu luzeiros.pranto dos militares.4 bruscas magias de teólogo ("Com os doze ceei: eu fui a ceia"). (Musa. o ponto de partida de Quevedo é um texto clássico. que de algum modo prefiguram Wordsworth.

teu martírio. és podre E pura vilania. Cobre-te em tesouros d’Oriente. áspide em lírio. Pois a seu modo Estrelas mente o ouro. (Musa. o nojo. Não são obscuros. brevidades latinas. oh Liças!. Ou todo em ouro rígido e palente. VI) . Ali onde vives. Para quem sabe examinar-te. Crês que em Palácio a Jove porfiar podes. puros e independentes como uma espada ou um anel de prata. que de esquecê-lo Disseram que não se lembra. ou distrair.Bellay. Víbora em rosicler. E tu. com enigmas. sem saber que morres. Quando a felicidade delinqüente O horror obscuro em esplendor te mente. de Yeats e de George. troças. Farta já a Toga do veneno tírio.6 escárnios de curioso artifício. Mas não descansa. senhor de tudo e tantos louros. Padeces um magnífico delírio. 6 A Méndez chegou berrando De azeites bem suarenta. por exemplo: "Farta já a Toga do veneno tírio". ao contrário de outros de Mallarmé. Os melhores poemas de Quevedo existem para além da moção que os gerou e das comuns idéias que os animam. Derramando pelos ombros O balanço de suas lêndeas. V) 7 Este Dom Fábio cantava Para gradis e sacadas De Aminta. (Musa.7 lúgubres pompas da aniquilação e do caos. o lodo. Este. evitam o erro de perturbar. São (para dizê-lo de algum modo) objetos verbais.

Como Joyce. como Goethe. como nenhum outro escritor. como Shakespeare.Trezentos anos completou a morte corporal de Quevedo. mas ele continua sendo o primeiro artífice das letras hispânicas. . Francisco de Quevedo é menos um homem que uma vasta e complexa literatura. como Dante.

Conrad e Henry James romancearam a realidade por julgála poética. homens como Unamuno. esse realismo. Nos capítulos em que se discute se a bacia do barbeiro é um elmo e a albarda um jaez. a colheita literária de Cervantes provinha sobretudo dos romances pastoris e de cavalaria. mas nem aquele século nem aquela Espanha eram para ele poéticos. embaladoras fábulas do cativeiro". como já anotei. em outras passagens. imaginemos um romancista de nosso tempo que. é apenas insinuado. Cervantes amava o sobrenatural. ao menos de maneira indireta. Cervantes criou para nós a poesia da Espanha do século XVII. . o barbeiro é amigo do autor e não o admira muito. Cervantes não podia recorrer a talismãs nem a sortilégios. No sexto capítulo da primeira parte. mais eficaz. para Cervantes o real e o poético são antinomias. destacasse os postos de gasolina. entretanto. O plano de sua obra vedava o maravilhoso. dizendo que este é mais versado em desgraças que em versos e que o livro tem algo de boa invenção. por isso mesmo. um dos livros examinados é a Galatéia. mas sei que a forma do Quixote levou-o a contrapor um mundo real e prosaico a um mundo imaginário. difere essencialmente daquele que foi exercido no século XIX. porque admiti-lo parecia negar que o cotidiano fosse maravilhoso: ignoro se Miguel de Cervantes compartilhou dessa intuição. O Quixote é menos um antídoto dessas ficções que uma secreta despedida nostálgica. Cervantes compraz-se em confundir o objetivo e o subjetivo. mas insinuou o sobrenatural de modo sutil e. ou Antonio Machado. Joseph Conrad pôde escrever que excluía de sua obra o sobrenatural. Intimamente. o Quixote é realista. porém. o mundo do leitor e o mundo do livro. devia nela figurar. em 1942. Paul Groussac. este. como os crimes e o mistério em uma paródia de romance policial. a Comédia dantesca. cada romance é um plano ideal. a Eneida.MAGIAS PARCIAIS DO QUIXOTE É verossímil que estas observações tenham sido enunciadas alguma vez. de Cervantes. e eis que. Cotejado com outros livros clássicos (a Ilíada. Na realidade. e quem sabe muitas vezes. a discussão de sua novidade interessa-me menos que a de sua possível verdade. enternecidos pela evocação de La Mancha. ou Azorín. as tragédias e comédias de Shakespeare). seriam para ele incompreensíveis. As vastas e vagas geografias do Amadís ele opõe os poeirentos caminhos e as sórdidas estalagens de Castela. observou: "Com certa tintura mal fixada de latim e italiano. com seu senso paródico. a Farsália. por coincidência. o padre e o barbeiro revistam a biblioteca de Dom Quixote. o problema é tratado de modo explícito. assombrosamente.

e ainda mais assombroso. O barbeiro.propõe algo. estranhamente. Aqui é inevitável lembrar o caso de Shakespeare. Rama ouve sua própria história. os filhos de Rama. Um artifício análogo ao de Cervantes. mas não procura graduar suas realidades. As invenções da filosofia não são menos fantásticas que as da arte: Josiah Royce. Valmiki. pensamos no rabino castelhano Moisés de León. A necessidade de completar mil e uma seções obrigou os copistas da obra a todo tipo de interpolações.. que viveu mais de um mês e meio em sua casa. também. julga Cervantes. onde se representa uma tragédia que é mais ou menos a de Hamlet. Rama ordena um sacrifício de cavalos. reconhece seus filhos e em seguida recompensa o poeta. como um tapete persa. Nessa noite.. e a resolução de Scherazade. os protagonistas do Quixote são. Ouve o início da história. procuram abrigo em uma selva. no primeiro volume da obra The World and the Individual (1899). mas não conclui nada. que abrange todas as outras e também – de monstruoso modo – a si mesma. que escreveu o Zohar ou Libro del Esplendor e o publicou como obra de um rabino palestino do século III.. Nenhuma tão perturbadora quanto a da noite DCII. onde um asceta os ensina a ler. Essa compilação de histórias fantásticas duplica e reduplica até a vertigem a ramificação de um conto central em contos adventícios. a essa festa comparece Valmiki com seus alunos. o Ramayana. mágica entre as noites. formulou a seguinte: "Imaginemos que .. ou forma de um sonho de Cervantes. Estes. tendo encomendado a tradução a um mourisco. Também surpreende saber. o rei ouve a própria história da boca da rainha. Pensamos em Carlyle. e o efeito (que devia ser profundo) é superficial. que fingiu que o Sartor Resartus era a versão parcial de uma obra publicada na Alemanha pelo doutor Diógenes Teufelsdroeckh. Algo semelhante operou o acaso nas Mil e Uma Noites. cantam o Ramayana. acompanhados pelo alaúde. a correspondência imperfeita entre a obra principal e a secundária diminui a eficácia dessa inclusão. que inclui no cenário de Hamlet outro cenário. que o romance inteiro foi traduzido do árabe e que Cervantes adquiriu o manuscrito em um mercado de Toledo. sonho de Cervantes. Esse jogo de estranhas ambigüidades culmina na segunda parte: os protagonistas leram a primeira. o livro em que eles estudam. poema de Valmiki que narra as proezas de Rama e sua guerra contra os demônios. que o entretém com fábulas. enquanto concluía a tarefa. que não sabem quem é seu pai.. até que sobre os dois giraram Mil e Uma Noites e ela lhe mostra seu filho. Intui o leitor claramente a vasta possibilidade dessa interpolação? Seu curioso perigo? O fato de a rainha persistir e o imóvel rei escutar para sempre a truncada história das Mil e Uma Noites. figura no Ramayana. que a cada noite desposa uma virgem que manda decapitar ao alvorecer. E bem conhecida a história liminar da série: o desolado juramento do rei. Esse mestre é.. No último livro. no início do nono capítulo. leitores do Quixote. agora infinita e circular.

Em 1833. Desta sorte. por menor que seja. tal mapa deve conter um mapa do mapa. Por que nos inquieta que o mapa esteja incluído no mapa e as Mil e Uma Noites no livro das Mil e Uma Noites? Por que nos inquieta que Dom Quixote seja leitor do Quixote. e Hamlet. e lêem. se os personagens de uma ficção podem ser leitores ou espectadores. e procuram entender. nós. que deve conter um mapa do mapa do mapa.uma porção do solo da Inglaterra foi perfeitamente nivelada e que nela um cartógrafo traça um mapa da Inglaterra. podemos ser fictícios. . seus leitores ou espectadores. e assim até o infinito". e no qual também são escritos. A obra é perfeita. espectador de Hamlet? Creio ter encontrado a causa: tais inversões sugerem que. tudo aí tem seu correspondente. não há detalhe do solo da Inglaterra. que não esteja registrado no mapa. Carlyle observou que a história universal é um infinito livro sagrado que todos os homens escrevem.

uma espécie de Eduardo Gutiérrez infinitamente inferior a Eduardo Gutiérrez. o persa Omar Khayyam escrevera que a história do mundo é uma representação que Deus. a fim de distrair sua eternidade. em Londres ou em Roma. muito depois. autor de representações. não é falso dizer que nunca se afastou dela. amou-a com o triste amor que inspiram. as que formulam íntimas conexões entre duas imagens. sombras usa vestir de vulto belo. a literatura aos sonhos. um sonho dirigido e deliberado. atores e público. com alguns exemplos dessa metáfora." Muito antes. Esta a que me refiro é a que liga os sonhos a uma apresentação teatral. Se a literatura é um sonho. os fracassos. de dois traços anômalos na América: era uma cidade. em essência. urdidor de agradáveis espanholadas –. Quevedo formulou-a no início do Sueño de la Muerte. o numeroso Deus dos panteístas. Cinqüenta anos depois. as doenças. quando sonha – escreve Addison –. sempre existiram. já então. Addison a enunciará com mais precisão. planeja. as que ainda podemos inventar são as falsas. onde lemos: O sonho. é bom que esta nossa história das letras americanas tenha os versos de Góngora por epígrafe e seja inaugurada com a análise de Hawthorne. em seu teatro sobre o vento armado. mas fundamentalmente um sonho. No século XVIII. Salem padecia. exatos volumes. era uma cidade em decadência. nas pessoas que não nos amam. equipara as invenções literárias às invenções oníricas. "A alma. muito velha. As verdadeiras. o suíço Jung. representa e contempla. há outros escritores americanos – Fenimore Cooper. no soneto "Varia imaginación". No século XVII. Não sei quem a inventou. sem dúvida. talvez seja um erro supor que as metáforas possam ser inventadas. . é teatro. ou melhor. apesar de pobre. em encantadores e. Hawthorne nasceu em 1804. continuava em sua aldeia puritana de 1 Texto de uma conferência proferida no Colegio Libre de Estudios Superiores em março de 1949. Luis de Góngora.NATHANIEL HAWTHORNE1 Começarei a história das letras americanas com a história de uma metáfora. o sonhador. Hawthorne viveu até 1836. as que não vale a pena inventar. as manias. Pouco anteriores no tempo. Nessa velha e decadente cidade de honesto nome bíblico. mas podemos ignorá-los sem risco algum. no porto de Salem. Washington Irving.

Converti-me em prisioneiro. Tituba. Naquele tempo não existia (para felicidade das crianças. Duas tarefas nos deparam: a primeira. em 1630. quase teria medo de sair". o de Nathaniel. bonito. foram condenadas à forca. Que eu saiba. Essas pessoas não comiam juntas e quase não se falavam. Croce acusa a alegoria de ser um enfadonho pleonasmo. tranquei-me em um calabouço. a melhor vindicação. Seu pai. Louisa e Elizabeth. o capitão Nathaniel Hawthorne. a refeição de cada um era deixada em uma bandeja. Hawthorne leu aos seis anos o Pilgrim’s Progress. sem a menor suspeita de que isso me ocorreria. sem dúvida. ilícito. nas Índias Orientais. sua viúva. sem o menor propósito de fazê-lo. Esse furtivo regime de vida durou doze anos. de fato. no corredor. o primeiro livro que ele comprou com o próprio dinheiro foi The Faerie Queen: duas alegorias. a de Chesterton. William Hawthorne de Wilton. no Suriname. e. morreu em 1808. se ainda não forem pó. sem dúvida) literatura infantil. na hora do crepúsculo vespertino. o nosso Nathaniel – no martírio das bruxas que é lícito pensar que o sangue dessas desventuradas tenha deixado nele uma mancha. indagar se Nathaniel Hawthorne incorreu nesse gênero. de febre amarela. no segundo andar da casa. mesmo que a porta estivesse aberta. em que dezenove mulheres. saía para caminhar. foi juiz nos processos de feitiçaria de 1692. recluiu-se em seu quarto. Nesses curiosos processos (agora o fanatismo assume outras formas). talvez imprudente ou indiscreta. perdoada". que primeiro nos mostra (digamos) Dante guiado por Virgílio e Beatriz para depois . desde o dia de hoje. Em 1837. a mãe de Nathaniel. escreveu a Longfellow: "Vivi recluído. No mesmo andar estavam os quartos das irmãs. Também. com sinceridade.. Justice Hawthorne procedeu com severidade e. a melhor refutação das alegorias é a de Croce. Uma mancha tão profunda que deve perdurar em seus velhos ossos. "Tão conspícuo foi – escreveu Nathaniel. Tinha o andar balançado dos homens do mar. e agora já não encontro a chave. no último. Nathaniel passava os dias escrevendo contos fantásticos. em se tratando da obra de Hawthorne. em pleno século XIX. magro. entre elas uma escrava. eu o faço em nome deles e peço que qualquer maldição que se tenha abatido sobre minha raça seja-nos.Salem. talvez a mesma que o primeiro Hawthorne. um jogo de vãs repetições. agora. moreno. Hawthorne acrescenta: "Não sei se meus maiores se arrependeram e suplicaram a misericórdia divina. embora seus biógrafos não o digam. esculpissem estátuas nuas. no cemitério de Charter Street. Acabei de pronunciar a palavra alegorias. Quando o capitão Hawthorne morreu. Sabese que Edgar Allan Poe acusou Hawthorne de alegorizar e que aquele opinava serem tal atividade e gênero indefensáveis. quando desaprovou que os escultores. a segunda. um de seus antepassados." Depois desse arroubo pictórico. John Hawthorne. a Bíblia. essa palavra é importante e. por exemplo. Hawthorne era alto. trouxera da Inglaterra junto com uma espada.. indagar se o gênero alegórico é.

ou Donne. No mais. sei que. que esses matizes. o som "fé". Crê. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. ocorre o denunciado por Croce. Percebemos que um processo lógico foi enfeitado ou disfarçado pelo autor. Segundo Croce. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. o caso de José Ortega y Gasset. um raciocinador. melhor ela será.. quer ser também imaginativo. Não sei se a tese de Chesterton é válida. quanto menos uma alegoria for redutível a um esquema. ou a luz natural. que Dante é a alma. Dito de outro modo: Beatriz não é um emblema da fé. ou fazer-se passar por tal. Croce formulou essa refutação em 1907. Virgílio a filosofia.. uns valem tanto quanto outros. pôs Beatriz. de alegorismo. Escreve: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. outro. Dante primeiro teria pensado: "A razão e a fé operam a salvação das almas" ou "A filosofia e a teologia nos conduzem ao céu" e depois. A alegoria. assaz pobre. Beatriz. como disse Wordsworth. Chesterton já a refutara sem que aquele o soubesse. a priori. Seria um gênero bárbaro ou infantil.explicar. a das alegorias e das fábulas. ou a razão. ou dar a entender. em todas as suas fusões e conversões. a verdade é que no mundo há uma coisa – um sentimento peculiar.de uma interminável riqueza e que a linguagem dos homens não esgota esse vertiginoso caudal. cujo bom pensamento é obstruído por laboriosas e adventícias metáforas. no entanto. para citar um exemplo notório desse mal. muitas vezes. mais extensa. a gloriosa Beatriz que desceu do céu e deixou suas pegadas no Inferno para salvar Dante. mais lenta e muito mais incômoda que as outras. onde pensou razão ou filosofia. ilustre na Inglaterra em fins do século XIX e acusado. uma distração da estética. Argumenta que a realidade é. os dois escritores são antagônicos. onde pensou teologia ou fé. o de Hawthorne. é. o que seria uma espécie de mascarada. e Beatriz a teologia ou a graça.. viria a ser uma adivinhação. mas nega que esse gênero seja condenável. digamos) e o escritor que pensa por meio de abstrações (Benda ou Bertrand Russell). Tão incomunicada e tão vasta é a literatura! A página pertinente de Chesterton aparece em uma monografia sobre o pintor Watts. uma série de estados análogos – que é possível indicar por meio de dois símbolos: um. "para desonra do entendimento do leitor". entre muitas outras. mas quando um abstrato. um trabalhoso e arbitrário sinônimo da palavra fé. um processo íntimo. a um frio jogo de abstrações. Ortega pode . segundo essa interpretação desdenhosa. em 1904. ou Victor Hugo. Chesterton admite que Watts produziu alegorias.".. segundo o argumento de Croce (o exemplo não é dele). É. Há o escritor que pensa por meio de imagens (Shakespeare. pôs Virglio e. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. Daí infere Chesterton a possibilidade de haver diversas linguagens que de algum modo correspondam à inapreensível realidade. como Hawthorne.

não por meio de mecanismo dialético. às vezes. bem ou mal. este de 1838: "Que ocorram fatos estranhos. bastante curiosos. que o caráter sonhado era o verdadeiro. Os herdeiros mudam-se para aí. a falseá-las e a deformá-las. digamos assim. descobre-se. Hawthorne era homem de contínua e curiosa imaginação. dos quinze aos trinta e cinco anos. que execute uma ação. O acontecimento já está ocorrendo. Foi prejudicado por um erro estético: o desejo puritano de fazer de cada imaginação uma fábula levava Hawthorne a acrescentar-lhes moralidades e. Revela-se. que é uma variante da anterior e que Hawthorne anotou cinco anos depois: "Um homem de forte vontade ordena a outro. O que ordena morre. Em um deles. durante a vigília.) Ou este. cujo tema (não ignorado por Pirandello nem por André Gide) é a coincidência ou a confusão do plano estético e do plano comum. cujo tema também é a escravidão. de 1838: "Imaginar no meio da multidão um homem cujo destino e cuja vida estão sob o poder de outro. Citarei mais dois esboços. que ocorram fatos não . Conservaram-se os cadernos onde ele concisamente tomava nota de seus argumentos. como se os dois estivessem em um deserto". do mesmo ano: "Um homem. Mais um. ou fantástico. ou levemente horrível. São melhores aquelas fantasias puras que não procuram justificativa nem moralidade e que parecem não ter outro fundo além de um obscuro terror. Não digo que ele fosse pouco inteligente. A explicação seria a percepção instintiva da verdade". ou talvez humilhante. (Não sei de que maneira Hawthorne teria desenvolvido esse argumento. descubra que ela é a única culpada e a causa. de intuições. mas Hawthorne se vê na obrigação de completar: "Poderia ser um emblema da inveja ou de outra paixão maligna". digo que pensava por meio de imagens. por fim. Esta. atormentando-o terrivelmente". pensa bem de outro e confia nele plenamente. mas refratário. Que essa pessoa os impute a inimigos secretos e que. encontram um criado sombrio que o testamento proíbe demitir. e são elas mesmas os atores". de 1836. Isso já basta. à espera de um acontecimento e da aparição dos principais atores.raciocinar. a sujeição ao outro: "Um homem rico deixa em testamento sua mansão a um casal pobre. Esta. não sei se ele teria decidido que o ato executado fosse trivial. Outro exemplo. como costumam pensar as mulheres. está escrito: "Uma serpente é admitida no estômago de um homem e alimentada por ele. por fim. por fim. da realidade e da arte. Este os atormenta. Eis aqui o primeiro: "Duas pessoas encontram-se na rua. O outro é mais complexo: "Que um homem escreva um conto e constate que este se desenrola contra suas intenções. e o outro continua executando aquela ação até o fim de seus dias". Moral: a felicidade está em nós mesmos". que se trata do homem que legou a casa". ao pensamento. moralmente submisso a ele. mas inquietam-no sonhos em que esse amigo age como inimigo mortal. que os personagens não se comportem como ele queria. Os sonhos tinham razão. mas não imaginar. misteriosos e atrozes que destruam a felicidade de uma pessoa.

evitar. sua antiga origem. situações. onde a forma geral (quando existe) só é visível ao final e onde um único personagem mal inventado pode contaminar de irrealidade aqueles que o acompanham. de que um homem é todos os homens. Os vinte e quatro capítulos que compõem A Letra Escarlate contêm muitas passagens . Percebe-se que o estímulo de Hawthorne. Sua origem. a trama é mais visível que os atores. de antemão. mas suspeito que nenhum romancista procede dessa forma: "Creio que Schomberg é real". tais momentâneas confluências do mundo imaginário e do mundo real – do mundo que no decorrer da leitura fingimos ser real – são. em geral. entre tantas imagens de guerreiros. Pouco importam fatos inacreditáveis ou grosseiros se nos consta que o autor os idealizou. e um dos personagens ser ele mesmo". primeiro concebia uma situação. ao contrário. quem sabe involuntariamente. Percebe-se nos esboços algo mais grave que as duplicações e o panteísmo. também sua própria imagem. modernos. Nossa crença na crença do romancista salva todas as negligências e falhas. Situações. Pouco importam os pueris escândalos e os confusos crimes da suposta Corte da Dinamarca se acreditamos no príncipe Hamlet. Das razões acima poder-se-ia deduzir. Esse método pode produzir. Hawthorne. Tais jogos. mais grave vindo de um homem que aspira a ser romancista. e o mesmo poderia honestamente afirmar qualquer romancista sobre qualquer personagem. quero dizer. acho que o autor os chama assim – pecam por inverossímeis. não para surpreender nossa boa-fé. os lentos e antitéticos diálogos – "arrazoados". pois na Eneida consta que Enéias. Eu entendo que é assim. também se nota. que o ponto de partida de Hawthorne eram. ou uma série de situações. e sim para definir seus personagens. dada sua brevidade. que os contos de Hawthorne valem mais que os romances de Hawthorne. As aventuras do Quixote não estão muito bem idealizadas. Hawthorne primeiro imaginava. contos admiráveis. Esse conto poderia prefigurar seu próprio destino. que ele propendia à noção panteísta de que um homem é os outros. ou permitir. uma situação para só depois procurar personagens que a encarnassem. como reflexos e duplicações da arte. Não sou romancista. Hawthorne gostava desses contatos entre o imaginário e o real. em vão. mas nunca romances admiráveis. mas não resta dúvida de que Cervantes conhecia bem Dom Quixote e podia acreditar nele. talvez esteja naquela passagem da Ilíada em que Helena de Tróia tece seu tapete. Esse aspecto deve ter impressionado Virgílio. escreveu Joseph Conrad sobre um dos personagens mais memoráveis de seu romance Victory. não personagens. e depois elaborava as pessoas que seu plano requeria. chegou ao porto de Cartago e viu cenas dessa guerra esculpidas no mármore de um templo e. porque neles. ou parecem-nos.previstos por ele e que se aproxime uma catástrofe que ele tentará. guerreiro da guerra de Tróia. nos esboços que citei. e o que ela tece são batalhas e desventuras da própria guerra de Tróia.

) Hawthorne leu com inquietude o curioso caso e procurou entendê-lo. pergunta-se o que fazer. por fim. egoísta. vejamos a de Hawthorne. Murmura: "Espiarei minha casa a distância". propenso a mistérios pueris. Anos mais tarde. despede-se da mulher. incluída nos Twíce-Told Tales. defendido pela preguiça. de grande proeza imaginativa e mental. fecha a porta da rua. passou todos os dias diante de sua casa ou olhou-a da esquina. distrai-se. até o dia de sua morte. Caminha. a guardar segredos insignificantes.memoráveis. ou então no paraíso. deita-se. A curiosidade o impele para a rua. o caso de um senhor inglês que abandonou a mulher sem motivo algum. imaginá-lo. mas nenhum deles comoveume tanto quanto a singular história de Wakefield. chega ao esconderijo que tinha preparado. depois de dar algumas voltas. na grande cama vazia. o homem. Este imagina Wakefield como um homem pacato. No dia seguinte. ociosas. Quase arrependido. na glória. um dia. no entardecer de um dia de outubro. como se tivesse se ausentado por algumas horas. e muitas vezes avistou sua mulher. Wakefield está de botas. mas capaz de longas. Descobre. sem ninguém suspeitar. por um instante. instalou-se a um passo de sua casa e aí. congratula-se. Simplesmente. Acomoda-se junto à lareira e sorri. mas custa-lhe defini-lo. com a resolução mais ou menos firme de inquietar ou assombrar a mulher. que seu propósito é investigar a impressão que uma semana de viuvez causará à exemplar senhora Wakefield. sorri. Quando já o davam por morto. um marido constante. dentro de alguns dias. Hawthorne lera no jornal. acorda mais cedo que de costume e. quando fazia muito tempo que sua mulher se resignara a ser viúva. Sabe que tem um propósito. ausentando-se de casa por toda uma semana. de . que o sabe aficionado a inofensivos mistérios. Sai. não lhe pergunta as razões da viagem. passou vinte anos escondido. custa a acreditar que já está aí. um marido exemplar. de sobretudo. Wakefield – acho isto admirável – ainda não sabe o que lhe acontecerá fatalmente. um homem acanhado. Wakefield. Todos acreditarão que está morto. Refletiu sobre o tema. redigidas em boa e sensível prosa. As interpretações do enigma podem ser infinitas. Sai. com fins literários. a mulher recordará esse sorriso último. teme que o tenham observado e que o denunciem. Imaginará o marido no caixão com o sorriso gelado no rosto. Diz a ela – não podemos esquecer que estamos no início do século XIX – que vai tomar a diligência e que voltará. de cartola. timidamente vaidoso. incompletas e vagas meditações. Duvida. ter lido no jornal. A mulher. sorrindo com astúcia e serenidade. Durante esse longo período. no mais tardar. estende os braços e repete em voz alta: "Não dormirei sozinho outra noite". e ela recordará esse sorriso e pensará que talvez não seja viúva. leva guarda-chuva e malas. está a um passo de sua casa e tinha chegado ao fim da viagem. Wakefield. em seguida a entreabre e. perplexo. abriu a porta de casa e entrou. o conto "Wakefield" é a história conjetura) desse desterrado. (Foi. ou fingiu.

Começa a chover. outro dia. Muda seus hábitos. Acostumou-se à tristeza. agora. Sem ter morrido. mas deixa adivinhar que ele já estava. Em sua alma operou-se a mudança moral que o condenará a vinte anos de exílio. porque. os vinte anos de solidão parecem-lhe um interlúdio. Em seu rosto brinca. Não sabe. "dentro de tantas semanas". seu rosto. morto. Com todo o morno afeto de que seu coração é capaz. mas teme que sua brusca reaparição possa agravar o mal. diz a si mesmo. Repete "logo voltarei". enfim. No centro de Londres. Wakefield emagreceu. os dois se cruzam na rua. esta parece-lhe diferente. de certo modo. embora não o saiba. a longa aventura. Wakefield foge para seu esconderijo. a milhares de tardes anteriores. o médico. uma única noite causou nele uma transformação. Nesse ponto começa. Pela janela vê que no primeiro andar a lareira está acesa. como que fugindo. Cara a cara. contra o adornado forro. volta-se para olhar sua casa.repente percebe que o hábito. como que se ocultando. Já há muito deixou de saber que sua conduta é estranha. Decide não voltar antes de pregar-lhe um bom susto. já estabelecera uma nova rotina. de fato. uma tarde igual a outras tardes. os dois olham-se nos olhos. em meio à multidão de Londres. antes pensava: "Voltarei dentro de tantos dias". caminha obliquamente. Um dia o boticário entra na casa. ele continua vivendo ao lado da mulher em seu lar. desligou-se do mundo. que é outro. "Wakefield! Wakefield! Você está louco!". deixa o tempo correr. Hawthorne não nos conta seu destino ulterior. espectral. antes comum. Wakefield compra uma peruca ruiva. um mero parêntese. Na memória. Parece-lhe ridículo molhar-se quando sua casa. tranca a porta com duas voltas de chave e joga-se na cama. seu lar. passado algum tempo. renunciou a seu lugar e a seus privilégios entre os homens vivos. Numa manhã de domingo. Wakefield fita a própria casa. Transcrevo as palavras finais: "Na desordem . sua fronte baixa parece sulcada de rugas. agora é extraordinário. Aflige-o a suspeita de que sua ausência não causara suficiente comoção à senhora Wakefield. porque ele já é outro. leva na mão um missal e ela inteira parece um emblema de plácida e resignada viuvez. e ela o vai esquecendo. Será que alguém o viu? Será que alguém o persegue? Chegando à esquina. Mentalmente. Por um instante. A multidão os separa e os perde. Sobe pesadamente a escada e abre a porta. sem se dar conta de que há vinte anos vem repetindo a mesma coisa. Wakefield voltou. enxerga a miserável singularidade de sua vida. levou-o à própria porta e que está a ponto de entrar. Então recua. graças ao extraordinário intento que executou. está bem ali. Wakefield continua amando sua mulher. ou quase nunca sabe. Talvez esteja. traiçoeiro. Wakefield sente uma rajada de frio. A mulher engordou. aterrorizado. Seus olhos miúdos espreitam ou se perdem. E assim passam-se dez anos. Possuído. Wakefield preocupa-se. e talvez não a trocasse pela felicidade. as chamas lançam grotescamente a sombra da senhora Wakefield. onde um soluço o estremece. Uma tarde. o matreiro sorriso que conhecemos.

congregam-se ao entardecer em um dos vastos territórios do oeste da América. não deve fazer-nos esquecer que o sabor de Kafka foi criado. eu gostaria de intercalar uma observação. A observação é justa. mas sua volta não é menos lamentável nem menos atroz que sua longa ausência. um grande escritor cria seus precursores. prejudicada que foi pela preocupação com a ética. Corre o risco de ser. de sentir em um conto de Hawthorne. se há verdade nessa opinião.aparente de nosso misterioso mundo. Cria-os e de certo modo os justifica. seria possível conjeturar que Nathaniel Hawthorne retirou-se por muitos anos da sociedade dos homens para que não faltasse ao universo. a profunda trivialidade do protagonista. e afina. com todas as . Wakefield jamais conseguiria voltar para casa. No centro acendem uma altíssima fogueira que alimentam com todas as genealogias. nem pensamento. que trabalhou no início do século XX. redigido no início do século XIX. no mundo de Kafka. para ocultar o herói. cada homem vive ajustado a um sistema com tão refinado rigor – e os sistemas entre si. fartos de acumulações inúteis. A essa planície ocidental chegam homens de todos os confins do mundo. Uma parábola de Hawthorne que esteve a ponto de ser magistral mas não é. Hawthorne permite-lhe voltar. Schopenhauer escreveu. com todos os diplomas. A dívida é mútua. "Wakefield" prefigura Franz Kafka. Para tanto. corre o terrível risco de perder seu lugar para sempre. Hawthorne invoca um passado romântico. a singular história de Wakefield. Assim. e entre a horrenda história de Wakefield e muitas histórias de Kafka não há apenas uma ética comum. às Fúrias. nesta limita-se a uma Londres burguesa. as iras e os castigos do Velho Testamento. Se Kafka tivesse escrito essa história. resolvem destruir o passado. o que seria de Marlowe sem Shakespeare? O tradutor e crítico Malcom Cowley vê em "Wakefield" uma alegoria da curiosa reclusão de Nathaniel Hawthorne. Aqui. cujo fim é talvez a variedade. Nessa ficção alegórica. famosamente. Em outras narrações. a estranha circunstância. foi determinado por Kafka. cujas multidões lhe servem. mas uma retórica. pois o orbe de Kafka é o judaísmo. a leitura de "Wakefield". é a que se intitula Earth’s Holocaust: o Holocausto da Terra. Há o fundo nebuloso. Dirão que isso nada tem de singular. Um mundo de castigos enigmáticos e de culpas indecifráveis. aliás. e todos a tudo – que o indivíduo que se desvia. Hawthorne prevê um momento em que os homens. nem doença que não sejam voluntários. e o de Hawthorne. A circunstância. o sabor mesmo dos contos de Kafka. ainda mais desvalido. como Wakefield. que contrasta com a magnitude de sua perdição e que o entrega. contra o qual se perfila o pesadelo. o Pária do Universo". Nessa breve e ominosa parábola – que data de 1835 – já estamos no mundo de Herman Melville. por um momento que seja. que não há ato. Há. por exemplo. mas este modifica. mas seu alcance não excede a ética. sem nenhum demérito de Hawthorne.

e especificamente calvinista. deixou-se levar pela doutrina cristã. nada se terá perdido. pois. se não sobrepujarmos a inteligência e não tentarmos. com toda a artilharia. com todos os tambores marciais. com todas as púrpuras. mas não os atores. se há Alguém que agora está sonhando-nos e que sonha a história do universo. fez com que Schopenhauer. o coração. o coração humano. com todas as dalmáticas. com todos os brasões. aqui tão fielmente descrita. A mente que uma vez os sonhou voltará a sonhá-los. no qual se encontra a raiz de todo pecado. toda nossa obra será um sonho. no qual as figuras mudam. Hawthorne. com todos os instrumentos de tortura. em seu livro Parerga und Paralipomena. com todas as constituições e códigos. comparasse a história a um caleidoscópio. Outro espectador – o demônio – observa que os empresários do holocausto se esqueceram de atirar o essencial. e que somente destruíram algumas formas. com todas as bandeiras. com todos os tronos. com todos os dosséis. aqui. que parece fantástica. a uma eterna e confusa tragicomédia em que mudam os papéis e as máscaras. com todos os títulos de nobreza. a aniquilação das religiões e das artes. enquanto a mente continuar sonhando. com todas as ordens. um homem com ar pensativo diz-lhe que ele não deve alegrar-se nem se entristecer. com todas as cartas de amor. Purifiquemos essa esfera interior. com todas as sagradas escrituras que povoam e fadigam a Terra. com todas as forcas. seja o que chamamos fato real e um fogo que chamusca as mãos em vez de um fogo imaginado e uma parábola". com todas as caixas de chá. e as muitas formas do mal que entenebrecem este mundo visível fugirão como fantasmas.medalhas. da depravação ingênita dos homens e não parece ter percebido que sua parábola de uma ilusória destruição de todas as coisas encerra um sentido filosófico e não apenas moral. com todo o dinheiro. com todos os livros. . se o mundo é o sonho de Alguém. Hawthorne conclui assim: "O coração. com todas as guilhotinas. com todos os charutos. discernir e corrigir o que nos aflige. com todas as coroas. essa é a breve esfera ilimitada onde radica a culpa daquilo que o crime e a miséria do mundo são apenas símbolo. com esse instrumento imperfeito. como é doutrina da escola idealista. com todas as espadas. pois a vasta pirâmide de fogo não consumiu senão aquilo que nas coisas é consumível. Um sonho tão insubstancial que pouco importará que a fogueira. Hawthorne assiste com assombro e certo escândalo à combustão. com todos os álcoois. De fato. com todos os títulos de propriedade. A convicção dessa verdade. com todas as tiaras. com todos os cetros. com todas as sacas de café. com todas as mitras. mas não os fragmentos de vidro. o incêndio geral das bibliotecas não é muito mais importante que a destruição dos móveis de um sonho. com todos os metais preciosos. Essa mesma intuição de que o universo é uma projeção de nossa alma e de que a história universal está em cada homem fez Emerson escrever o poema intitulado "History".

"O que ele estará fazendo? – pergunta um antigo espectro aos outros. O passado é indestrutível." A passagem é curiosa. ao antigo pleito entre a ética e a estética ou. um simulacro".Quanto à fantasia de abolir o passado.. todas as coisas voltam. este fracassará e será atirado no Inferno. Tantos literatos. que no décimo livro da República raciocina deste modo: "Deus cria o Arquétipo (a idéia original) da mesa. e uma das coisas que voltam é o projeto de abolir o passado. Na Inglaterra. muito seriamente. entre a teologia e a estética. cedo ou tarde. conta-se. "Em um dos parlamentos populares convocados por Cromwell – conta Samuel Johnson – apresentou-se. que modo de glorificar a Deus ou de ser útil aos homens. conta-se que quase sentia vergonha de habitar um . que se apagasse toda a memória das coisas pretéritas e que todo o regime da vida recomeçasse. Hawthorne nunca deixou de sentir que a tarefa do escritor era frívola ou. três séculos antes de Jesus Cristo. Os anjos ordenarão ao artífice que a anime. no dia do Juízo Final.. também filho de puritanos. a proposta de que se queimassem os arquivos da Torre de Londres. por certo tempo. Como Stevenson. é à abnegação e coragem de obscuros e anônimos homens de letras que a posteridade deve a conservação do cânone de Confúcio. Aqueles que ocultaram seus livros foram marcados a ferro candente e obrigados a trabalhar na construção da Grande Muralha. se se preferir. medicina ou astrologia. A passagem é curiosa. imagina os espectros de seus antepassados observando-o enquanto escreve o romance. também. Muitas obras valiosas pereceram. Alguns doutores muçulmanos postulam que a proscrição vale apenas para as imagens capazes de projetar sombra (as esculturas). salvo os que ensinassem agricultura. esse mesmo propósito ressurgiu entre os puritanos. que declarou que toda representação de uma coisa viva comparecerá perante o Senhor. o marceneiro. foram executados por desacatar as ordens imperiais que no inverno cresceram melões no lugar onde haviam sido enterrados". Outro é o de Platão. o propósito de abolir o passado já ocorreu no passado e – paradoxalmente – é uma das provas de que o passado não pode ser abolido." Ou seja. Para extirpar as vãs pretensões da antigüidade. De Plotino. No prefácio de A Letra Escarlate. Corresponde. ordenou-se que todos os livros fossem confiscados e queimados. culpada. que tomou para si o título de Primeiro Imperador. com adversa fortuna. o que é pior. Escreve Herbert Allen Giles: "O ministro Li Su propôs que a história começasse com o novo monarca. não sei se cabe lembrar que ela foi ensaiada na China. Um de seus primeiros testemunhos consta da Sagrada Escritura e proíbe aos homens adorar ídolos. Outro é o de Maomé. entre os antepassados de Hawthorne. em seu devido tempo e geração? O mesmo valeria a esse desnaturado ser violinista. em meados do século XVII. porque encerra uma espécie de confidência e corresponde a escrúpulos íntimos. – Está escrevendo um livro de histórias! Que oficio será esse.

ou tolerar. essa relativa e parcial objetividade. Plotino disse: "já muito me pesa ter de arrastar este simulacro em que a natureza me encarcerou. compôs moralidades e fábulas. Nathaniel Hawthorne desatou essa dificuldade (que não é ilusória) do modo que sabemos. Um autor pode padecer de preconceitos absurdos. Quem desejar objetividade. não uma espontânea e viva atividade da imaginação. por mais fútil ou errôneo que seja. sua obra. Assim. que a procure em Joseph Conrad ou em Tolstói. pude muitas vezes verificar que os propósitos e teorias literárias não passam de estímulos e que a obra final costuma ignorá-los e até contradizê-los. são as moralidades que ele acrescentava no último parágrafo ou os personagens que idealizava. ou com a teoria dos romances de Émile Zola. propósitos de índole moral não invalida. Essa objetividade. o falso. é talvez a razão que levou dois escritores tão agudos (e tão díspares) como Henry James e Ludwig Lewisohn a considerar A Letra Escarlate a obra-prima de Hawthorne. que armava. os romancistas da Inglaterra e da França acreditavam (ou acreditavam acreditar) que todos os alemães eram demônios. o eventualmente falso. não pode invalidar. para representá-las. para nos limitarmos a um único exemplo. fez e procurou fazer da arte uma função da consciência. não sei que utilidade pode resultar da aproximação desses nomes heterogêneos. Os personagens de A Letra Escarlate – sobretudo Hester Prynne. quem tiver fome e sede de objetividade.corpo e que não permitiu aos escultores a perpetuação de seus traços. No decorrer de uma vida consagrada menos a viver que a ler. como uma espécie de castigo herdado. porém. em seus romances. Não sei muito bem como justificar minha discrepância. mais autônomos. que seja perpetuada a imagem desta imagem?". não poderá ser absurda. a heroína – são mais independentes. costumavam apresentá-los como seres humanos. que os de outras ficções de Hawthorne. sempre a visão germinal era verdadeira. Ouso discordar dessas autoridades. Em Hawthorne. Hei de tolerar. nenhum propósito. Se há algo no autor. se for genuína. Esta (repito) construiu o argumento . quem quiser o peculiar sabor de Nathaniel Hawthorne o encontrará menos em seus laboriosos romances que em alguma página secundária ou nos leves e patéticos contos. Por volta de 1916. salvo um momentâneo assombro. mas sua obra. assemelham-se mais aos habitantes da maioria dos romances e não são meras projeções do autor ligeiramente disfarçadas. Andrew Lang comparou esse romance com os de Émile Zola. seu testemunho imprescindível. um amigo suplicou-lhe que se deixasse retratar. ainda. o romance The House of the Seven Gables (A casa dos sete telhados) pretende mostrar que o mal cometido por uma geração perdura e se prolonga nas subseqüentes. poderá afetar de modo irreparável sua obra. nos três romances americanos e no Fauno de Mármore vejo apenas uma série de situações urdidas com destreza profissional para comover o leitor. Certa vez. se responder a uma visão genuína. O fato de Hawthorne perseguir.

ditame que parece basear-se em uma equânime ignorância de ambos os autores. segundo seus biógrafos. Foi um tolo alarde de heroísmo o de Cúrcio. Todos os exércitos e os triunfos caíram. Hawthorne. não o entrelaçamento dos episódios nem a psicologia – de algum modo temos de chamá-la – dos atores.geral e as digressões. segundo os historiadores latinos.. no final afundamos. Groussac não suportava a possibilidade de um americano ser original. Li vários fragmentos do diário que Hawthorne escreveu para distrair sua longa solidão. de intuição. não leu Victor Hugo – que tampouco leram uns aos outros. e soava a música marcial enquanto se precipitavam. A imaginação de Hawthorne é romântica. caiu aí. seu estilo. ou seja. ainda que brevemente. corresponde ao século XVIII. para aplacar os deuses. estava cheio de visões proféticas (cominações de todos os infortúnios de Roma). A substância mais firme da felicidade dos homens é uma lâmina interposta entre esse abismo e nós e que sustenta nosso mundo ilusório. de sombras de gauleses. de vândalos e dos soldados francos. O Palácio dos Césares caiu. "Essa fenda – disse seu amigo – era apenas uma boca do abismo de escuridão que está abaixo de nós. com vagos monstros e rostos atrozes olhando cá para cima e enchendo de horror os cidadãos que em sua borda se debruçavam. em toda a parte. "Penso – disse Miriam – que não há pessoa que não lance um olhar nessa fenda. quando tomou a dianteira e se atirou nas profundezas. referi. marchando." . Inevitavelmente. não leu De Quincey. pois Roma inteira. basta apoiar o pé. Reza o texto de Hawthorne: "Admitamos – disse Kenyon – que este seja o lugar exato onde se abriu a caverna. Talvez tenha feito bem. armado e a cavalo. em Hawthorne denunciou "a notável influência de Hoffmann". abriu-se no centro do Fórum e em cujas cegas profundezas atirou-se um romano. aquela em que o herói se atirou com seu bom cavalo. e depois atiraram milhares de estátuas. apesar de alguns excessos. e quem esteja em busca de novidades as encontrará com mais facilidade nos antigos. Sem dúvida. como vemos agora. não leu Keats. Todos os templos caíram. Johnson observa que nenhum escritor gosta de dever algo a seus contemporâneos. dois contos. impenetravelmente fundo. Pena ter sido tapado tão depressa! Eu daria qualquer coisa por uma olhada.. ao pálido fim do admirável século XVIII. Hawthorne ignorou-os até onde lhe foi possível. com um estrondo de pedras desabando. Devemos pisar com muito cuidado. Não é necessário um terremoto para rompê-la. nessa caverna. talvez nossos contemporâneos se pareçam – sempre – demais a nós mesmos. agora lerei uma página do Marble Faun para que vocês ouçam Hawthorne. O tema é aquele poço ou abismo que. Imaginemos o enorme e escuro buraco. em momentos de sombra e abatimento.

Até aqui, Hawthorne. Do ponto de vista da razão (da mera razão que não deve intrometer-se nas artes), a fervorosa passagem que acabo de traduzir é indefensável. A fenda aberta no meio do fórum é demasiadas coisas. Ao longo de um único parágrafo é a fenda de que falam os historiadores latinos e também a boca do Inferno "com vagos monstros e rostos atrozes", e também é o horror essencial da vida humana, e também o Tempo, que devora estátuas e exércitos, e também a Eternidade, que encerra os tempos. É um símbolo múltiplo, um símbolo capaz de muitos valores, talvez incompatíveis. Para a razão, para o entendimento lógico, tal variedade de valores pode constituir um escândalo, mas não para os sonhos, que têm sua álgebra singular e secreta, e em cujo ambíguo território uma coisa pode ser muitas. Esse mundo de sonhos é o de Hawthorne. Uma vez, ele propôs-se escrever um sonho, "que fosse como um sonho verdadeiro e que tivesse a incoerência, as estranhezas e a falta de propósito dos sonhos", e maravilhou-se de que ninguém, até então, tivesse executado algo semelhante. No mesmo diário em que registrou esse estranho projeto – que toda a nossa literatura "moderna" tenta em vão executar e que talvez só Lewis Carroll tenha realizado –, Hawthorne anotou milhares de impressões banais de pequenos aspectos concretos (o movimento de uma galinha, a sombra de um galho na parede) que ocupam seis volumes, cuja inexplicável abundância faz a consternação de todos os biógrafos. "Parecem cartas gratas e inúteis – escreve com perplexidade Henry James – dirigidas a si mesmo por um homem temeroso de que fossem abertas no correio e que por isso tivesse resolvido não dizer nada de comprometedor." Tenho para mim que Nathaniel Hawthorne registrou essas banalidades por anos a fio para provar a si mesmo que ele era real, para de algum modo livrar-se da impressão de irrealidade, de fantasmidade, que tanto o freqüentava. Em um dos dias de 1840 escreveu: "Aqui estou em meu quarto habitual, onde me parece sempre estar. Aqui terminei muitos contos, muitos que depois queimei, muitos que, sem dúvida, mereciam esse ardente destino. Este é um aposento assombrado, porque milhares e milhares de visões povoaram seu âmbito, e algumas agora são visíveis ao mundo. Por momentos, eu acreditava estar na sepultura, gelado, imóvel e intumescido; por momentos, acreditava ser feliz... Agora começo a entender por que permaneci preso durante tantos anos neste quarto solitário e por que não podia romper suas grades invisíveis. Se tivesse escapado antes, agora seria duro e áspero e teria o coração coberto do pó terrenal... Na verdade, não passamos de sombras...". Nas linhas que acabo de transcrever, Hawthorne menciona "milhares e milhares de visões". A cifra talvez não seja uma hipérbole; os doze volumes das obras completas de Hawthorne incluem cento e tantos contos, e estes são apenas uma pequena parte dos muitíssimos que ele esboçou em seu diário. (Entre os completos há um – "Mr. Higginbotham’s catastrophe" [A morte repetida] – que prefigura o

gênero policial que Poe inventaria.) Miss Margaret Fuller, que conviveu com ele na comunidade utópica de Brook Farm, escreveu depois: "Daquele oceano recebemos somente algumas gotas", e Emerson, também amigo dele, acreditava que Hawthorne nunca mostrara todo seu valor. Hawthorne casou-se em 1842, ou seja, aos trinta e oito anos; sua vida, até essa data, foi quase puramente imaginativa, mental. Trabalhou na alfândega de Boston, foi cônsul dos Estados Unidos em Liverpool, viveu em Florença, em Roma e em Londres, mas sua realidade foi, sempre, o tênue mundo crepuscular, ou lunar, das imaginações fantásticas. No início desta aula mencionei a doutrina do psicólogo Jung que equipara as invenções literárias às invenções oníricas, a literatura aos sonhos. Essa doutrina não parece aplicável às literaturas que utilizam a língua espanhola, clientes do dicionário e da retórica, não da fantasia. Em contrapartida, é adequada às letras da América do Norte. Estas (com as da Inglaterra ou da Alemanha) são mais capazes de inventar que de transcrever, de criar que de observar. Desse traço procede a curiosa veneração que os norte-americanos tributam às obras realistas e que os leva a postular, por exemplo, que Maupassant é mais importante que Hugo. A razão disso é que para um escritor norte-americano é possível ser Hugo, mas não, sem violência, ser Maupassant. Comparada à dos Estados Unidos, que já deu vários homens de gênio e que influiu na da Inglaterra e na da França, nossa literatura argentina corre o risco de parecer um tanto provinciana; entretanto, no século XIX, ela produziu algumas páginas de realismo – algumas admiráveis crueldades de Echeverría, de Ascasubi, de Hernández, do ignorado Eduardo Gutiérrez – que, até agora, os norte-americanos não superaram (talvez nem tenham igualado). Faulkner, alegarão, não é menos brutal que nossos gauchescos. Sei bem que ele o é, mas de um modo alucinatório. De um modo infernal, não terrestre. Do modo dos sonhos, do modo inaugurado por Hawthorne. Este morreu em dezoito de maio de 1864, nas montanhas de New Hampshire. Sua morte foi tranqüila e foi misteriosa, pois aconteceu durante o sono. Nada nos impede de imaginar que ele morreu sonhando, e até podemos inventar a história que ele sonhava – a última de uma série infinita – e de que maneira foi coroada ou apagada pela morte. Quem sabe, um dia, eu ainda a escreva e tente resgatar, com um conto aceitável, esta deficiente e por demais digressiva lição. Van Wyck Brooks, em The Flowering of New England, D. H. Lawrence, em Studies in Classic American Literature, e Ludwig Lewisohn, em The Story of American Literature, analisam e julgam a obra de Hawthorne. Existem muitas biografias. Eu trabalhei com a que Henry James escreveu em 1879 para a série English Men of Letters, de Morley.

Morto Hawthorne, os demais escritores herdaram sua tarefa de sonhar. Na próxima aula estudaremos, se a indulgência de vocês tolerar, a glória e os tormentos de Poe, em quem o sonho exaltou-se em pesadelo.

o poeta inglês Lascelles Abercrombie pôde exaltar Whitman por ter criado. intimamente. esse personagem seria um dos mitos de nosso século se todos. Rilke e Eliot escreveram versos mais memoráveis que os de Valéry. não o julgássemos um mero Doppelgänger de Valéry. as capacidades humanas da filantropia. de uma quase incoerente mas titânica vocação para a felicidade. mas também de infinitos escrúpulos. não menos hiperbólico. Valéry é símbolo da Europa e de seu delicado crepúsculo. Este não magnifica. à primeira vista. A circunstância de que essa personalidade seja. em outra (também na realidade). verossimilmente. Para nós. homem de letras e devoto de Tennyson. Daí as discrepâncias que têm exasperado a crítica. mas tem a singular virtude de não identificar Whitman. Assim. as interjeições do corpo. Whitman. feito em parte dele mesmo. A distinção é válida. entretanto. O orbe inteiro da literatura parece não admitir duas aplicações mais antagônicas da palavra poeta. de . Um fato. Yeats. em parte de cada um de seus leitores. mas por trás da obra desses eminentes artífices não há uma personalidade comparável à de Valéry. em tal página de sua obra.VALÉRY COMO SÍMBOLO Aproximar o nome de Whitman ao de Paul Valéry é. como aquele. Whitman. une-os: a obra dos dois é menos preciosa como poesia que como signo de um poeta exemplar. em Long Island. criado por essa obra. Valéry é Edmond Teste. "da riqueza de sua nobre experiência. Valéry personifica ilustremente os labirintos do espírito. A sentença é vaga e superlativa. herói semidivino de Leaves of Grass. ele tenha nascido nos estados do Sul e. não menos ilusório. daí que. O que. essa figura vívida e pessoal que é uma das poucas coisas realmente grandes da poesia de nosso tempo: a figura dele mesmo". uma operação arbitrária e (o que é pior) inepta. Valéry é símbolo de infinitas destrezas. Ou seja. do fervor e da ventura. magnifica as virtudes mentais. Valéry é uma derivação do Chevalier Dupin de Edgar Allan Poe e do inconcebível Deus dos teólogos. Valéry criou Edmond Teste. da manhã na América. Whitman redigiu suas rapsódias em função de um eu imaginário. Whitman. Um dos propósitos das composições de Whitman é definir um homem possível – Walt Whitman – de ilimitada e negligente felicidade. daí seu costume de datar os poemas em territórios que ele nunca conheceu. não é verdade. com Whitman. é o homem definido pelas composições de Valéry. Joyce e Stefan George efetuaram modificações mais profundas em seu instrumento (talvez o francês seja menos modificável que o inglês e o alemão).

dos áugures da seita de Freud e dos comerciantes do surréalisme. em um século que adora os caóticos ídolos do sangue. 1945. De um homem cujos admiráveis textos não esgotam. Paul Valéry deixa-nos. Buenos Aires. ao morrer. é a benemérita missão que desempenhou (que continua desempenhando) Valéry.certo modo. uma projeção da obra não minimiza o fato. suas omnímodas possibilidades. . De um homem que. o símbolo de um homem infinitamente sensível a todo fato e para quem todo fato é um estímulo capaz de suscitar uma infinita série de pensamentos. como William Hazlitt. da terra e da paixão. De um homem que transcende os traços diferenciais do eu e de quem podemos dizer. preferiu sempre os lúcidos prazeres do pensamento e as secretas aventuras da ordem. de Shakespeare: "He is nothing in himself". na melancólica era do nazismo e do materialismo dialético. nem sequer definem. Propor lucidez à humanidade em uma era baixamente romântica.

nasce na Pérsia. o agraciado não se esquecerá dos outros dois. que entendeu que as formas universais não existem fora das coisas. que no vocabulário do Islã é o Platão Egípcio ou o Mestre Grego.O ENIGMA DE EDWARD FITZGERALD Um homem. número exíguo que será desfavorável a sua glória. lê. assinala a página que seus olhos não voltarão a ver e reconcilia-se com Deus. futuro fundador da seita dos Hashishin. mas cultiva a astronomia. manda apunhalar o vizir. Nos intervalos da astronomia.) Umar recebe do tesouro de Nishapur uma pensão anual de dez mil dinares e pode consagrar-se ao estudo. na qual se argumenta que o universo é uma emanação da Unidade. Umar Ibn Ibrahim al-Khayyami lavra composições de quatro versos. É ateu. nas transmigrações da alma de corpo humano a corpo bestial e que uma vez falou com um asno como Pitágoras falara com um cão. o conquistador do Cáucaso. dos quais o primeiro. mediante a intersecção de cônicas. juram que. para rezar pela prosperidade do amigo e meditar nas matemáticas.. na solidão de sua biblioteca. Umar está lendo um tratado cujo título é O Uno e os Múltiplos. e retornará à Unidade. Nizam chega à dignidade de vizir: Umar pede-lhe apenas um recanto à sombra de sua ventura. Dizem-no prosélito de Alfarabi. e as cinqüenta e tantas epístolas da herética e mística Enciclopédia dos Irmãos da Pureza. Levanta-se. se um dia a fortuna houver por bem favorecer um deles. Descrê da astrologia judiciária. e aprende o Alcorão e as tradições com Hassan Ibn al-Sabbah. Os arcanos do número e dos astros não esgotam sua atenção. Certa crônica diz que ele acredita. por fim. e para sê-lo não é indispensável ter fé. os textos de Plotino. Anos mais tarde. no século XI da era cristã (esse século foi para ele o quinto da Hégira). pois na Pérsia (como na Espanha de Lope e de Calderón) o poeta deve ser fecundo.. Umar Ibn Ibrahim. da álgebra e da apologética. que ensinou que o mundo é eterno. Morre nesse mesmo . No ano 517 da Hégira. Os três amigos. e com Nizam al-Mulk. meio a sério. para as de terceiro. o segundo e o último rimam entre si. porque todo homem culto é um teólogo. ou Assassinos. que oferece soluções numéricas para as equações de primeiro e segundo graus e geométricas. ou faz de conta que acredita. colabora na reforma do calendário promovida pelo sultão e compõe um famoso tratado de álgebra. (Hassan pede e obtém um cargo elevado e. meio brincando. que será vizir de Alp Arslan. um mal-estar ou uma premonição o interrompe. mas sabe interpretar de modo ortodoxo as mais difíceis passagens do Alcorão. e de Avicena. com aquele Deus que talvez exista e cujo favor ele implorou nas árduas páginas de sua álgebra. o manuscrito mais copioso atribui-lhe quinhentas dessas quadras.

Swinburne escreve que FitzGerald "deu a Omar Khayyam um lugar perpétuo entre os maiores poetas da Inglaterra". Sete séculos se passam. Lê e relê o Quixote. talvez sem entendê-los por completo. passados os séculos. e descobrem que eles são o Simurg e que o Simurg é todos e cada um deles. FitzGerald sabe que seu verdadeiro destino é a literatura e a ensaia com indolência e tenacidade. afinou e inventou. Alguns críticos entendem que o Omar de FitzGerald é. no fim. e seu amor estende-se ao dicionário em que procura as palavras.dia. em uma ilha ocidental e boreal que os cartógrafos do Islã desconhecem. feita sem outra lei afora a ordem alfabética das rimas. A esse propósito improvável e até inverossímil FitzGerald consagra sua vida de homem indolente. Do estudo do espanhol passou ao estudo do persa e começou uma tradução de Mantiq al-Tayr. Acontece um milagre: da fortuita conjunção de um astrônomo persa que condescendeu à poesia e de um inglês excêntrico que percorre. O caso convida a conjeturas de índole metafísica. e medíocres versões de Calderón e dos grandes trágicos gregos. FitzGerald interpolou. menos intelectual que Umar. Umar professou (sabemos) a doutrina platônica e pitagórica do trânsito da alma por muitos corpos. surge um extraordinário poeta. mas seus Rubaiyat parecem exigir que os leiamos como persas e antigos. Euphranor. a epopéia mística dos pássaros que procuram seu rei. e Chesterton. FitzGerald verte uma para o latim e entrevê a possibilidade de tecer com elas um livro contínuo e orgânico em cujo princípio estejam as imagens da manhã. Carlyle. ricas em variações e escrúpulos. agonias e mutações. mas resolve não abusar desse módico privilégio. que fica além dos sete mares. Publicou um diálogo decorosamente escrito. as da noite e da sepultura. É amigo de pessoas ilustres (Tennyson. alguém lhe empresta uma coleção manuscrita das composições de Umar. que não se parece com nenhum dos dois. solitário e maníaco. livros orientais e hispânicos. e na Inglaterra nasce um homem. às quais não se sente inferior. Dickens. Por esses anos. seguida de outras. a despeito de sua modéstia e cortesia. um rei saxão que derrotou um rei da Noruega é derrotado por um duque normando. à hora do pôr-do-sol. Em 1859 publica a primeira versão do Rubaiyat. Por volta de 1854. Thackeray). Entende que. a dele talvez tenha reencarnado na Inglaterra para . o Simurg. da rosa e do rouxinol e. e finalmente arribam a seu palácio. se os astros forem propícios. com suas luzes. FitzGerald. todo homem cuja alma encerre um mínimo de música pode versificar dez ou doze vezes no curso natural de sua vida. que quase lhe parece o melhor de todos os livros (mas não quer ser injusto com Shakespeare e com seu dear old Virgil). porém talvez mais sensível e mais triste. um poema inglês com referências persas. observa que ao mesmo tempo há nele "uma melodia que escapa e uma inscrição que dura". de fato. sensível ao que há de romântico e de clássico nesse livro sem par.

entre o inglês e o persa. As nuvens por momentos configuram formas de montanhas ou leões. por volta de 1857. No Rubaiyat lê-se que a história universal é um espetáculo que Deus concebe. essa especulação (cujo nome técnico é panteísmo) permitiria pensar que o inglês pôde recriar o persa porque ambos eram. em um longínquo idioma germânico entremeado de latim. representa e contempla. a tristeza de Edward FitzGerald e um manuscrito de letras purpúreas sobre papel amarelo. Isaac Luria.cumprir. para nossa felicidade. analogamente. porque os dois eram muito diferentes e é provável que em vida não tivessem entabulado amizade. Mais verossímil e não menos maravilhosa que tais conjeturas de índole sobrenatural é a suposição do acaso benéfico. as vicissitudes e o tempo fizeram com que um soubesse do outro e fossem um único poeta. ensinou que a alma de um morto pode entrar em uma alma desventurada para apoiá-la ou instruí-la. esquecido em uma estante da Bodeliana de Oxford. Deus ou faces momentâneas de Deus. configuraram. essencialmente. talvez a alma de Umar tenha-se hospedado. na de FitzGerald. o Leão. Toda colaboração é misteriosa. o destino literário que em Nishapur as matemáticas reprimiram. o poema. . mais do que nenhuma. Esta. e a morte.

As notas miscelâneas que ele prodigalizou . é evocar a imagem de um cavalheiro dedicado ao pobre propósito de causar assombro com gravatas e metáforas. quase sempre. mas todas correspondem. mas que já aparece no exórdio da Epístola aos Pisões. 2). os decadentes. E evocar o exangue crepúsculo do século XIX e essa opressiva pompa de hibernáculo ou de baile de máscaras. ou descuidam deles. A insignificância técnica de Wilde pode ser um argumento em prol de sua grandeza intrínseca. sua obra não encerra um único verso experimental. Ela se apóia em um cúmulo de circunstâncias: em torno de 1881. ou The Harlot’s House. The Soul of Man under Socialism não é apenas eloqüente. desolate else. o vocabulário do poema "The sphinx" é estudiosamente magnífico. ou tenta parecer espontânea. por exemplo. Também é evocar a noção da arte como um jogo seleto ou secreto – à maneira da tapeçaria de Hugh Vereker e de Stefan George – e do poeta como laborioso monstrorum artifex (Plínio. a noção de que Wilde foi uma espécie de simbolista. Wilde pode prescindir desses purple patches (retalhos de púrpura). mas sua índole adjetiva é notória. Se a obra de Wilde correspondesse à natureza de sua fama. é também justo. XXVIII. Rebeca West perfidamente o acusa (Henry James. a verdades parciais e contradizem fatos notórios. Leitores incapazes de decifrar um parágrafo de Kipling ou uma estrofe de William Morris lêem Lady Windermere’s Fan em uma mesma tarde. dez anos mais tarde. a sintaxe de Wilde é sempre simplíssima. Nenhuma dessas evocações é falsa. tem razão. conteria meros artifícios como os de Les Palais Nomades ou Los Crepúsculos del Jardín. Consideremos. left by mankind". Lendo e relendo Wilde ao longo dos anos.SOBRE OSCAR WILDE Mencionar o nome de Oscar Wilde é mencionar um dandy que também foi poeta. percebo algo que seus panegiristas parecem não ter sequer suspeitado: o fato constatável e elementar de que Wilde. Wilde foi amigo de Schwob e de Mallarmé. ou Symphony in Yellow –. Essa atribuição confirma o hábito de vincular ao nome de Wilde a noção de passagens decorativas. III) de impor "o selo da classe média" à última dessas seitas. nenhum é tão acessível aos estrangeiros. afirmo. expressão a ele atribuída por Ricketts e Hesketh Pearson. A métrica de Wilde é espontânea. É refutada por um fato capital: em verso ou em prosa. como este duro e sábio alexandrino de Lionel Johnson: "Alone with Christ. A obra de Wilde é povoada desses artifícios – basta lembrar o décimo primeiro capítulo de Dorian Gray. Wilde dirigiu os estetas e. Dentre os muitos escritores britânicos.

foi um homem do século XVIII. "em suma. Wilde foi acusado de exercer uma sorte de arte combinatória. pois o prazer que seu trato nos proporciona é irresistível e constante. que chegou a condescender com os jogos do simbolismo. de que não há homem que não seja. na página mais inócua. Wilde é daqueles afortunados que podem prescindir da aprovação da crítica e até. tinha razão. se não me engano. o sabor fundamental de sua obra é a felicidade. tido como modelo de saúde física e moral. Segundo esse fatalismo dialético. isso talvez seja aplicável a alguma de suas boutades ("um desses rostos britânicos que. aquilo que foi e que será (ibidem). sempre se esquecem"). Foi. foi muito mais que um Moréas irlandês. mas cuja valorosa obra sempre está a ponto de se converter em pesadelo. Como Gibbon. como Voltaire. como Johnson. Contudo (Hesketh Pearson sentiu-o muito bem). o fato de Alexandre. foi um homem engenhoso que. sua glória. Chesterton é um homem que quer recuperar a infância. ou aquela. ao julgamento e à prisão. p. em geral. como a soberba. Wilde. sua obra é tão harmoniosa que pode parecer inevitável e até banal. ao estilo de Ramón Llull. pode. Uma observação à margem. O nome de Oscar Wilde é associado às cidades da planície. morrer na Babilônia é uma qualidade desse rei. mas não a sentenças como a de que a música nos revela um passado desconhecido e talvez real (The Critic as Artist). às vezes. ou aquela de que todos os homens matam aquilo que amam (The Ballad of Reading Gaol). da aprovação do leitor. essa dificuldade não os faz menos plausíveis. se atribui a Wilde. como Boswell. uma invulnerável inocência. que tanto escandalizou Arnauld: "A noção de cada indivíduo encerra a priori todos os fatos que a este hão de ocorrer". um clássico". Ao contrário de Chesterton. ou aquela outra de que se arrepender de um ato é alterar o passado (De Profundis). Não transcrevo essas linhas para a veneração do leitor. um homem que conserva. para dizer de uma vez as palavras fatais. Como Chesterton.na Pall Mall Gazette e no Speaker são fartas de perspícuas observações que excedem as melhores possibilidades de Leslie Stephen ou Saintsbury. Nela espreitam o diabólico e o horror. a cada instante. alego-as como indício de uma mentalidade muito diversa daquela que. vistos uma vez. assumir as formas do espanto. que a aplica ao homem mexicano (Reloj de Sol. 158). como Lang. ainda por cima. Este. em que pese aos hábitos do mal e ao infortúnio. . a curiosa tese de Leibniz. o Grande.2 Deu ao século o que o século exigia – comédies larmoyantes para muitos e arabescos verbais para poucos – e executou coisas tão díspares com uma sorte de negligente felicidade. Foi prejudicado pela perfeição. 1 Cf.1 não indigna de Léon Bloy ou de Swedenborg. Custa-nos imaginar o universo sem os epigramas de Wilde. 2 A sentença é de Reyes.

os católicos exaltam Chesterton. prodigalizou com paixão e felicidade esses tours de force. and clean”). Pond) parece confirmar que se trata de uma forma essencial. Tais crenças podem ser justas. propõe explicações de tipo demoníaco ou mágico para. Edgar Allan Poe escreveu contos de puro horror fantástico ou de pura bizarrerie. Chesterton.. CHESTERTON: A Second Childhood. mas o interesse que despertam é limitado. Chesterton acreditou na Idade Média dos prérafaelistas ("Of London. The Paradoxes of Mr. no fim. Chesterton pensou.SOBRE CHESTERTON Because He does not take away The terror from the tree. supor que elas esgotam Chesterton é esquecer que um credo é o último termo de uma série de processos mentais e emocionais e que o homem é toda a série.. um símbolo ou espelho de Chesterton. substituí-las por outras que são deste mundo. Chesterton foi católico. ao contrário. Não impôs ao cavalheiro Augusto Dupin a tarefa de precisar o antigo crime do Homem das Multidões ou de explicar a aparição que fulminou o mascarado príncipe Próspero na câmara negra e escarlate. Como todo escritor . Isso não é menos certo que o fato de ele não ter combinado os dois gêneros. The Poet and the Lunatics. Antes. não de artifício retórico. Estes apontamentos são uma tentativa de interpretar essa forma. small and white. que o mero fato de ser é tão prodigioso que nenhuma desventura deve eximir-nos de uma espécie de cômica gratidão. nelas creio notar uma cifra da história de Chesterton. os livre-pensadores o negam. A repetição de seu esquema ao longo dos anos e dos livros (The Man Who Knew Too Much. como Whitman. A mestria não esgota a virtude dessas breves ficções. Cada um dos textos da Saga do padre Brown apresenta um mistério. Neste país. convém reconsiderar alguns fatos de excessiva notoriedade. Edgar Allan Poe foi o inventor do conto policial.

"the stuff his dreams were made of". que as pessoas sempre julgam em função do Império Britânico. "um terrível cristal". provam que Chesterton se defendeu de ser Edgar Allan Poe ou Franz Kafka. 222). Creio que Chesterton não teria tolerado a imputação de ser um urdidor de pesadelos. é natural que sua obra seja fértil em formas do terror. propuseram-se criar um mundo de espanto. Tais exemplos. Não por acaso ele dedicou suas primeiras obras à defesa de dois grandes artífices góticos: Browning e Dickens. Visto de nosso plano inferior. XXVIII. Define o próximo pelo distante. nomeia-os com palavras de Ezequiel (1.. fala. a estrutura é muito outra"). Morre vítima de uma corrente de ar. no mar e nos sonhos há Um Só e em que se louva esse único por ter reduzido à unidade os quatro briosos animais que puxam a carruagem dos mundos: a terra. e alguns homens retiram um ataúde que não tem forma humana. se fala dos próprios olhos. 22). o fogo. e menos.1 fala de uma prisão de espelhos. que uma árvore.. IV. em vez de folhas. claro que. Chesterton relata essa fantasia teratológica em tom de zombaria. VI) que nos confins orientais do mundo talvez exista uma árvore que já é mais. perguntados sobre a beleza do filho. que não sai de um quarto escuro. fala de um homem devorado por autômatos de metal. que seria fácil multiplicar. mas que algo no barro de seu eu propendia ao pesadelo. Denegriu Ibsen e defendeu (talvez indefensavelmente) Rostand. Pergunta se porventura um homem tem três olhos. Esse 1 Amplificando um pensamento de Attar ("Em toda a parte só vemos Teu rosto"). um monstrorum artifex (Plínio. ele é mais belo que Apolo. cuja arquitetura. Chesterton fala com os pais do Super-Homem. algo. Chesterton é julgado por causa disso. estes lembram-lhe que o Super-Homem cria seu próprio cânone e por ele deve ser medido ("Nesse plano. fala de uma árvore que devora os pássaros e que. ou um pássaro três asas. em que se diz que nos céus. Seu caso é semelhante ao de Kipling. uma torre. depois traduzidos por Rückert (Werke. aperfeiçoa um antigo horror (Apocalipse 4. e. assim como o Urizen atormentado de Blake. e até pelo atroz."). não por acaso repetiu que o melhor livro saído da Alemanha era o dos contos de Grimm. contra os panteístas. é reprovado ou aclamado por isso. o ar e a água. Não menos ilustrativa é a narração How I Found the Superman. cego e central. se da noite. nos ocidentais. por si só. Poe e Baudelaire. algo secreto. imagina (The Man Who Was Thursday. depois são incapazes de precisar se ele tem cabelo ou penas. 6) para chamá-la "um monstro feito de olhos".que professa um credo. mas ele indefectivelmente incorre em freqüentes imagens atrozes. é malvada. . de um morto que descobre no Paraíso que os espíritos dos coros angelicais têm sempre seu próprio rosto. 2). Djalal al-Din Rumi compôs alguns versos. fala de um labirinto sem centro. dá penas. depois admitem que não é nada fácil estreitar sua mão ("O senhor sabe. mas os Trolls e o Fundidor de Peer Gynt eram da mesma matéria de seus sonhos.

símbolos e espelhos de Chesterton. mas algo nele sempre tendeu a escrever a primeira. cada qual mais forte que o anterior. as aventuras do padre Brown. até que ele morre. senhor". O guardião da primeira porta responde que dentro há muitas outras3 e que não há sala que não esteja custodiada por um guardião.2 Por isso afirmei. Recordo duas parábolas opostas. Depois tira sua espada e arremete contra os guerreiros e recebe e devolve feridas sangrentas. junto à porta há um guardião com um livro para registrar o nome de quem for digno de entrar. 3O. Agora vou fechála". Emblemas dessa guerra são. ou seja. Chesterton dedicou a vida a escrever a segunda parábola. 2 Não a explicação do inexplicável. essa precária sujeição de uma vontade demoníaca definem a natureza de Chesterton. aparece no Zohar. pergunta: "Será possível que nos anos desta minha espera ninguém além de mim tenha querido entrar?". no parágrafo inicial desta nota. também Martin Buber: Tales of the Hasidim. 92. que as ficções de Chesterton eram cifras de sua história.) A outra parábola consta no Pilgrim’s Progress. O guardião responde: "Ninguém quis entrar porque só a ti se destinava esta porta. Isso é tudo. Passam-se os dias e os anos. . Um homem intrépido achega-se ao guardião e diz: "Anote meu nome. até abrir passagem em meio ao fragor e entrar no castelo. Ver Glatzer: In Time and Eternity. 3 A noção de portas atrás de portas. e sim do confuso é a tarefa que. um conjunto de imaginações hebréias subordinadas a Platão e a Aristóteles. Em sua agonia. os autores de romances policiais se impõem. As pessoas olham com cobiça um castelo defendido por muitos guerreiros. complicando-a ainda mais. no nono capítulo de O Processo. de Bunyan. que se interpõem entre o pecador e a glória. O homem senta-se para esperar. (Kafka comenta essa parábola. A primeira consta no primeiro volume das obras de Kafka. um fato inexplicável. cada uma das quais pretende explicar. para mim. mas a fé católica. mediante a pura razão.desacordo. em geral. E a história do homem que pede para ter acesso à lei. com a ressalva de que a "razão" à qual Chesterton subordinou suas imaginações não era exatamente a razão.

. em meras possibilidades (um homem invisível. mas o exame das intrincadas razões nas quais nosso sentimento se baseia pode não ser inútil. escandalizado com as licenças que The First Men in the Moon se permite. a Lytton. quando não em coisas impossíveis: um homem que volta do porvir com uma flor futura. a travessia da África em balão. que em mudar de assunto.1 A maior felicidade de seus argumentos não basta para elucidar a 1 Wells. G. as de Wells. perguntado acerca de Wells. exalta a obra de outros dois precursores: Francis Bacon e Luciano de Samósata. disse com indignação: "Il invente!". a Cyrano ou a qualquer outro precursor de seus métodos. agora. Todos o sentimos assim. a fotografia falante. respondeu: – E um Júlio Verne científico. as crateras de um vulcão extinto que levam ao centro da terra). A mais notória dessas razões é de ordem técnica.O PRIMEIRO WELLS Harris conta que Oscar Wilde. Wells (antes de resignar-se a especulador sociológico) foi um admirável narrador. percebe-se que Wilde pensou menos em definir Wells. um navio mais extenso que os de 1872. Há outra diferença. como em um espelho. ou em aniquilá-lo. As razões que acabo de citar parecem-me válidas. um herdeiro das brevidades de Swift e de Edgar Allan Poe. Verne. já apontada em algum momento pelo próprio Wells: as ficções de Verne transitam em coisas prováveis (um navio submarino. uma flor que devora um homem. porque foi inteiramente invertido. Em algum lugar li que Verne. mas não explicam por que Wells é infinitamente superior ao autor de Héctor Servadac. para todas as idades do homem. Wells. O parecer é de 1899. assim como a Rosney. em The Outline of History (1931). um ovo de cristal que reflete os acontecimentos de Marte). a Robert Paltock. um trabalhador esforçado e risonho. Wells e Júlio Verne são. nomes incompatíveis. a descoberta do Pólo Sul. um homem que volta de outra vida com o coração à direita. H. Verne escreveu para adolescentes.

ou The Invisible Man – deve-se a uma razão mais profunda. não odeia ninguém nem ama ninguém. parece confessar que este não é inevitável para ele. sabemos que é falível. porque suas pálpebras não vedam a luz. podemos considerá-lo onisciente. não de arrazoados. mas não a circunstância de inseri-los no relato do sonho do senhor Parham. tudo deve ocorrer de modo evanescente e modesto. Enquanto um autor se limita a narrar acontecimentos ou a traçar os tênues desvios de uma consciência. ou um ponto de partida. não para o prazer da leitura.questão. como Hegel ou Anselmo. como duvidaríamos da inteligência de um Deus que mantivesse céus e infernos. A obra que perdura é sempre capaz de uma infinita e plástica ambigüidade. toleramos que Deus afirme (Êxodo 3. mas não que declare e analise. este deve parecer ignorante de todo simbolismo.) Em minha opinião. esse não é o meu caso. O acossado homem invisível que é obrigado a dormir como se estivesse de olhos abertos. podemos confundi-lo com o universo ou com Deus. . o conciliábulo de monstros sentados que em sua noite fanhoseiam um credo servil é o Vaticano e é Lhassa. não existiria o Quixote e Shaw valeria menos que O ´Neill. Bom herdeiro dos nominalistas britânicos. Isso pode ser observado em todos os gêneros. Evidentemente. é um espelho que delata os traços do leitor e é também um mapa do mundo. O que eles narram não é apenas engenhoso. Duvidamos de sua inteligência. Em livros não muito breves. Deus não deve teologizar. quase a despeito do autor. é tudo para todos. Há outro motivo: o autor que mostra aversão por um personagem parece não entendê-lo por completo. é também simbólico de processos que de algum modo são inerentes a todos os destinos humanos. a precedência dos primeiros romances de Wells – The Island of Dr. que são. Com essa lúcida inocência Wells procedeu em seus primeiros exercícios fantásticos. Moreau. como o Apóstolo. 5. espelha nossa solidão e nosso terror. o argumento não pode ser mais que um pretexto. os melhores romances policiais não são os de melhor argumento. escreveu Spinoza (Ética. (Se os argumentos fossem tudo. 14) "Eu Sou Aquele que Sou". o escritor não deve invalidar com razões humanas a momentânea fé que a arte exige de nós. Aqueles que dizem que a arte não deve propagar doutrinas costumam referir-se às doutrinas contrárias às suas. agradeço e professo quase todas as doutrinas de Wells. o argumentum ontologicum. mas deploro que ele as tenha intercalado em suas narrações. os argumentos contra essa mitologia prejudicial parecem-me incontestáveis. A realidade atua por meio de fatos. Deus. É importante para a execução da obra. o mais admirável de sua obra admirável. assim que ele se rebaixa a arrazoar. por exemplo. Wells reprova nosso costume de falar da tenacidade da "Inglaterra" ou das maquinações da "Prússia". Além do mais. 17). em meu entender.

reescreveu para nosso tempo o Livro de Jó. para além dos limites da glória de quem os escreveu. .. historiou o futuro. como a fórmula de Teseu ou a de Ahasverus. The Island of Dr. redigiu sem soberba nem humildade uma autobiografia gratíssima. Moreau. prodigou parábolas sociológicas. ampliou as possibilidades do romance. talvez sejam os últimos.. São os primeiros livros que eu li. Penso que haverão de incorporar-se. construiu enciclopédias. para além da morte do idioma em que foram escritos. The Plattner Story. polemizou (cortês e mortalmente) com Belloc. Da vasta e diversa biblioteca que ele nos deixou. registrou vidas reais e imaginárias. à memória geral da espécie e que em seu seio se multiplicarão. Escreveu livros loquazes nos quais de certo modo ressurge a gigantesca felicidade de Charles Dickens. The First Men in the Moon.Como Quevedo. combateu o comunismo. Wells é menos um literato que uma literatura. como Voltaire. como mais algum outro. historiou o passado. nada me agrada mais que seu relato de alguns milagres atrozes: The Time Machine. "essa grande imitação hebréia do diálogo platônico". como Goethe. o nazismo e o cristianismo.

em 1644. até o pelicano. nem todo suicida é culpado de pecado mortal. o filho primogênito do poeta deu o velho manuscrito à estampa. a omissão de outros de 1 De que ele realmente foi um grande poeta são prova estes versos: Licence my roving hands and let them go Before. O my America! my new-found-land. O Biathanatos tem por volta de duzentas páginas. segundo consta no Hexameron de Ambrósio. De fato. below. símbolo do amor paternal. essa é a tese aparente do Biathanatos. e nelas pude notar esta vaidade: a inclusão de exemplos obscuros ("Festo. "para defendê-lo do fogo". above. Três páginas ocupa o catálogo.. (Elegies. e as abelhas.O BIATHANATOS Devo a De Quincey (com quem minha dívida é tão vasta que especificar uma parte parece negar ou calar as outras) minha primeira informação sobre o Biathanatos. XIX) 2 Cf. sem nenhuma proibição exceto a de dá-lo "à estampa ou ao fogo". Donne morreu em 1631. por um douto catálogo de exemplos fabulosos ou autênticos. que De Quincey (Writings. em 1642 eclodiu a guerra civil. "matam-se quando infringem as leis de seu rei". Esse tratado foi composto no início do século XVII pelo grande poeta John Donne. VIII. o epigrama sepulcral de Alceu de Messena (Antologia Grega. que se matou para ocultar os estragos de uma doença de pele"). behind. ou sobrecarregada. Assim como nem todo homicida é um assassino. .1 que deixou o manuscrito a Sir Robert Carr. favorito de Domiciano. VII. between.2 "que mil coisas escreveu que ninguém além dele entendeu e de quem dizem que se enforcou por não ter entendido a adivinha dos pescadores". que é declarada no subtítulo (The Self-homicide is not so naturally Sin that it may never be otherwise) e ilustrada. de Homero. que.. 1). 336) resume assim: o suicídio é uma das formas do homicídio. os canonistas distinguem o homicídio voluntário do homicídio justificável. essa distinção também deveria ser aplicável ao suicídio. segundo a boa lógica.

20). Donne. Donne. 1. Temístocles. Abel representa a morte do Salvador. ao derrubar os pilares do templo. que diz que Sansão. a ressurreição. para Santo Agostinho. os quietistas acreditaram que Sansão. à maneira de um criptograma. Hugh Fausset sugeriu que Donne pensava coroar sua vindicação do suicídio com o próprio suicídio. Não há no Antigo Testamento herói que não tenha sido alçado a essa dignidade. como "emblema de Cristo". 30). e seu irmão Seth. a nenhuma dedica tantas páginas como à de Sansão. para São Paulo. depois de provar que essa conjetura é gratuita. para refutá-los. I. mesmo que momentânea ou crepuscular. um argumento implícito ou esotérico sob o argumento notório. ridículo. Começa por estabelecer que esse "homem exemplar" é emblema de Cristo e que parece ter servido aos gregos como arquétipo de Hércules. "prodigioso esboço foi Jó de Cristo". in fine) defendeu-o da acusação de suicídio. Donne. chamou-o à tarefa. "como a espada que dirige seus gumes pela disposição de quem a empunha" (A Cidade de Deus. na terceira parte do Biathanatos. naturalmente. Donne. e sim que obedeceu a uma inspiração do Espírito Santo. para Quevedo. Não lhe interessava o caso de Sansão – e por que haveria de interessar-lhe? – ou só lhe interessava. Invertendo a tese agostiniana. transcreve as últimas palavras que ele teria dito antes de cumprir sua vingança: "Morra eu com os filisteus" (Juízes 16. "por violência do demônio. digamos. que afirma que Sansão. a hipótese de um livro que para dizer A diz B. V. suspeito. Também recusa a conjetura de Santo Agostinho. que ela seja suficiente para explicar o Biathanatos é. a prévia certeza de que esses defensores têm razão faz com que os leiamos com negligência. mas não a de um trabalho animado por uma intuição imperfeita. Milton (Samson Agonistes. foi símbolo de Cristo. é artificial. encerra o capítulo com uma sentença de Benito Pereiro. viu nesse problema casuístico apenas uma sorte de metáfora ou simulacro. não foi culpado pelas mortes alheias nem pela própria. Donne . Catão –. 8). Adão é imagem daquele que viria.virtude persuasiva – Sêneca. examina as mortes voluntárias relatadas nas Escrituras. Francisco de Vitoria e o jesuíta Gregorio de Valencia negaram-se a incluí-lo entre os suicidas. Epicteto ("Lembra-te do essencial: a porta está aberta") e Schopenhauer ("Seria o monólogo de Hamlet a reflexão de um criminoso?") vindicaram o suicídio em abundantes páginas. Nunca saberemos se Donne escreveu o Biathanatos com o deliberado fim de insinuar esse oculto argumento ou se uma antevisão desse argumento. que Donne tenha aventado essa idéia é possível ou provável. não menos em sua morte que em outros atos. Isto me parece mais verossímil. ou julguei perceber. que poderiam parecer fáceis demais. Foi o que me aconteceu com o Biathanatos até que percebi. matou-se juntamente com os filisteus" (Heterodoxos Españoles.

e o sangue e a água. Limita-se a evocar duas passagens da Escritura: a frase "dou minha vida pelas ovelhas" (João 10. Dessas passagens. em 1876. destruiu a si mesmo. Sou eu mesmo que a dou" (João 10. Para o cristão. os séculos anteriores o prepararam. sugere Donne. não o é. dito de Sansão. preferiu não insistir sobre um tema blasfemo. na verdade.3 O fato de Donne. Kant: Religion innerhalb der Grenzen der Vernunft. o Pai já sabia que o Filho haveria de morrer na cruz e. infere que o suplício da cruz não matou Jesus Cristo e que. que os quatro evangelistas utilizam para dizer "morreu". para a coroa do escárnio. e os espinhos. II. que na história da filosofia é chamado Philipp Mainländer. Antes de Adão ser moldado do pó da terra. O declarado fim do Biathanatos é atenuar o suicídio. Cristo morreu de morte voluntária. A história universal é a obscura agonia desses fragmentos. a vida e a morte de Cristo são o acontecimento central da história do mundo. e Roma. A de um deus que constrói o universo para construir seu patíbulo. 3 Cf. e Egito. e isso quer dizer que os elementos. leitor apaixonado de Schopenhauer. e o orbe. Mainländer nasceu em 1841. dito de Cristo". publicou seu livro. Filosofia da Redenção. na capela do palácio de Whitehall. 2. confirmadas pelo versículo "Ninguém tira a vida de mim. o fundamental.incorreu nessa analogia trivial para que seu leitor entendesse: "O anterior. quase agonizante. Sob sua influência (e talvez sob a dos gnósticos) imaginou que somos fragmentos de um Deus que. VIII. para a ferida. terse limitado a um versículo de São João e à repetição do verbo "expirar" é algo inverossímil e até inacreditável. ele se matou. este se matou com uma prodigiosa e voluntária emissão de sua alma. . como eu. no princípio dos tempos. Donne escreveu essa conjetura em 1608. em 1631 incluiu-a em um sermão que proferiu. e as gerações de homens. Nesse mesmo ano. Talvez o ferro tenha sido criado para os cravos. sem dúvida. penso naquele trágico Philipp Batz. Ao reler esta nota. De Quincey: Writings. bem pode ser falso. Essa idéia barroca insinua-se por trás do Biathanatos. O capítulo que fala diretamente de Cristo não é efusivo. os seguintes o refletem. criou a terra e os céus. ávido de não ser. 398. 18). 15) e a curiosa locução "entregou o espírito". e Judá foram tirados do nada para destruí-lo. antes de o firmamento separar as águas das águas. para teatro dessa morte futura. indicar que Cristo se suicidou. para explicitar essa tese. Ele foi. e Babilônia.

cheguei a pensar que essa exclamação fosse de origem bíblica. mas apenas um homem. nunca vi nesses memoráveis fragmentos uma contribuição para os problemas. desterrado do orbe do Almagesto e extraviado no universo copernicano de Kepler e de Bruno. ilusórios ou verdadeiros. como traços ou epítetos de Pascal. No primeiro. que abordam. quanto a mim. ele foi incomparável. e sim o príncipe Hamlet. E bem verdade que este busca Deus e aquele propõe-se libertar-nos do temor aos deuses. Certamente. no espaço. Diz o Apóstolo (I Coríntios 13. o fato é que seu livro não projeta a imagem de uma doutrina ou de um procedimento dialético. No tempo. porque.PASCAL Meus amigos dizem que os pensamentos de Pascal os fazem pensar. a vasta palavra "royaumes" e o desdenhoso verbo final impressionam fisicamente. se futuro e passado são infinitos. para nós. as Escrituras. como predicados do sujeito Pascal. Nesta. Pascal menciona com desdém "a opinião de Copérnico". Assim como a definição quintessence of dust não nos ajuda a entender os homens. sua obra reflete a vertigem de um teólogo. e sim de um poeta perdido no tempo e no espaço. antes. Pascal. e que talvez não exista. Pascal. se todo ser eqüidista do infinito e do infinitesimal. 12): "No presente vemos por espelho e . não haverá realmente um quando. Vi-os. encontrou Deus. Percorri. lembro-me. mas sua expressão dessa graça é menos eloqüente que sua expressão da solidão. a definição roseau pensant não nos ajuda a entender os homens. acusa Pascal de uma dramatização voluntária. tampouco haverá um onde. basta lembrar o famoso fragmento 207 da edição de Brunschvicg ("Combien de royaumes nous ignorem!") e aquele outro. não encontrei a passagem que procurava. porque. não há nada no universo que não sirva de estímulo ao pensamento. as palavras trêmulas de um homem que se sabe nu até as entranhas sob a vigilância de Deus. dizem. mas sim seu exato reverso. subseqüente. O mundo de Pascal é o de Lucrécio (e também o de Spencer). mas. creio. Valéry. que fala da "infinita imensidão de espaços que ignoro e que me ignoram". mas a infinidade que embriagou o romano intimida o francês.

1942).11. 13).1 Não a grandeza do Criador. que a atribui a Hermes Trismegisto. o aspecto "inacabado. Esférico foi Deus para Xenófanes e para o poeta Parmênides. o insigne panteísta Giordano Bruno (Da Causa. aos anjos. Não menos exemplar é o caso do fragmento 72. Para Swedenborg. Para ilustração do Pari.2 Importa-se menos com Deus que com a refutação daqueles que o negam. No segundo parágrafo. é um dos homens mais patéticos da história da Europa. Não é um místico. o significativo é que a metáfora que Pascal usa para definir o espaço foi empregada por seus predecessores (e por Sir Thomas Browne em Religio Medici) para definir a divindade. Este. cúbicos ou piramidais. não sabem falar com os anjos. Isso pouco importa. Por exemplo. o céu e o inferno são estados que o homem busca com liberdade. 17). As notas. e sim a grandeza da Criação perturba Pascal. Fechner (Vergleichende Anatomie der Engel) atribuiu essa forma. o editor cita passagens congêneres de Montaigne ou da Sagrada Escritura. Ao pé de alguns textos. esse trabalho poderia ser ampliado. embora registre ídolos. não um estabelecimento penal e um estabelecimento piedoso. mediante um complexo sistema de sinais tipográficos. . que supõem que o céu é um prêmio e o h-demo um castigo e que. de Sirmond e de Algazel indicados por Asín Palacios (Huellas del Islam. é perfeita e convém à divindade (Cícero: De Natura Deorum. então conhecerei como agora sou conhecido". ao contrário. Pascal afirma que a natureza (o espaço) é "uma esfera infinita cujo centro está em toda a parte e a circunferência em nenhuma". Madri.obscuramente. Antes de Pascal. como para Boehme (Sex Puncta Theosophica. 535. Essa edição3 propõe-se reproduzir. A forma da esfera. é evidente que tal fim foi alcançado. também Bernard Shaw: Man and Superman. III. 9. na página 71 do primeiro volume. Pascal pode ter encontrado essa esfera em Rabelais (111. caberia citar os textos de Arnobio. para ilustração do fragmento 1 Que eu me lembre. híspido e confuso" do manuscrito. a história não registra deuses cônicos. um dos mais vãos e frívolos. o editor não a reconhece e observa: "Aqui Pascal talvez tenha emprestado voz a um incrédulo". 34). inclui-se entre os cristãos denunciados por Swedenborg. ou no simbólico Roman de Ia Rose. que é a do órgão visual. No presente conheço só em parte. 2 De Coelo et Inferno. são pobres. aplicando o cálculo de probabilidades às artes apologéticas. publica-se um fragmento que desenvolve em sete linhas a conhecida prova cosmológica de Santo Tomás e de Leibniz. V) aplicou a sentença de Trismegisto ao universo material. habituados à meditação melancólica. em compensação. que a dá como de Platão. Na opinião de alguns historiadores. declarando em palavras incorruptíveis a desordem e a miséria (on mourra seul). Orígenes entendeu que os mortos ressuscitarão em forma de esfera. 1941). Empédocles (fragmento 28) e Melisso conceberam-no como esfera infinita. então veremos face a face. 3 A de Zacharie Tourneur (Paris. Cf.

onde homens iguais cumprem.. Pascal (que também pode ter sido influenciado pelas antigas palavras de Anaxágoras de que tudo está em cada coisa) pôs esses mundos idênticos um dentro do outro. sua reaparição em Leibniz (Monadologia. É lógico pensar (embora ele não o tenha dito) que nesses mundos Pascal se viu multiplicado sem fim.”).. um simulacro do arquétipo.. para ilustração do fragmento 72 (" Je lui veux peindre l´immensité. o simulacro de um simulacro. onde se diz que Deus cria o arquétipo da mesa. sua prefiguração no conceito de microcosmo. .contra a pintura. de tal sorte que não há átomo no espaço que não encerre universo nem universo que não seja também um átomo. dans 1´enceinte de ce raccourci d´atome. sem nenhuma variação. o marceneiro.. 67) e em Hugo (La Chauve-Souris): Le moindre grain de sable est un globe qui roule Traînant comme la terre une lugubre foule Qui s´abhorre et s´acharne. aquela passagem do décimo livro de A República. e o pintor.. destinos iguais. Demócrito pensou que no infinito há mundos iguais..

Este foi fecundo em felizes curiosidades: interessou-se pela teologia. felizes e expressivos da riquíssima língua espanhola". Delphos (1935) de E. 1668). esbanjando interjeições e anacolutos. mas condenável. Wilkins morreu em 1672. jura que a palavra "lua" é mais (ou menos) expressiva que a palavra "moon”.. nada se pode acrescentar a tais debates. Sylvia Pankhurst. de Lancelot Hogben. essa mesma Real Academia elabora. o Wörterbuch der Philosophie (1924). príncipe palatino. pela possibilidade de uma viagem à lua. já padecemos um desses debates inapeláveis em que uma dama. Dangerous Thoughts (1939). Wilkins foi o primeiro secretário da Real Sociedade de Londres. Não há exemplares desse livro em nossa Biblioteca Nacional. se pensarmos na trivialidade do verbete (vinte linhas de meras circunstâncias biográficas: Wilkins nasceu em 1614. pela possibilidade e pelos princípios de uma linguagem mundial. de Fritz Mauthner. Essa omissão é justa. se considerarmos a obra especulativa de Wilkins. sem nenhuma corroboração. mas trata-se de pura vanglória. Todos nós. Wilkins foi nomeado reitor de um dos colégios de Oxford. todos os idiomas do mundo (sem excluir o volapük de Johann Martin Schleyer e a romântica interlingua de Peano) são igualmente inexpressivos.). A este último problema dedicou o livro An Essay Towards a Real Character and a Philosophical Language (600 páginas in-quarto. The Life and Times of John Wilkins (1910). excetuando as palavras compostas e as derivações. pela confecção de colméias transparentes. pela criptografia. para redigir esta nota. etc. em algum momento. de P A. a cada . Wright Henderson.O IDIOMA ANALÍTICO DE JOHN WILKINS Acabo de verificar que na décima quarta edição da Encyclopaedia Britannica foi suprimido o verbete sobre John Wilkins. Não há edição da Gramática de Ia Real Academia de la Lengua Española que não pondere "o invejável tesouro de vocábulos pitorescos. Wilkins foi capelão de Carlos Luís. Afora a evidente observação de que o monossílabo "moon" talvez seja mais apto para representar um objeto muito simples que a palavra dissílaba "lua". pela trajetória de um planeta invisível. pela música. Por outro lado. consultei.

etc. imafe. a cada diferença. recrementícios (limalhas. imaca. encadernar. uma consoante. o número de sistemas numéricos é ilimitado. greda e arsênico). cada uma das letras que as integram é significativa.tantos anos. depois. birer. refere-se a um peixe vivíparo. safira) e insolúveis (hulha. deb. uma porção do elemento fogo. seis 110. Esta revela-nos que os metais podem ser imperfeitos (cinabre. ab. Definido o procedimento de Wilkins. Wilkins divide-as em comuns (pederneira. que é o dos algarismos. Descartes. lazareto. uma chama. ferrugem) e naturais (ouro. o fogo. poste. carnívoro. acometeu o intento. coral). cinco 101. Atribuiu a cada gênero um monossílabo de duas letras. Quase tão alarmante quanto a oitava é a nona categoria. Consideremos a oitava categoria. abiv. deba. imede. pilar. sete 111. janela. Zero escreve-se 0.1 ele também propôs a formação de um idioma análogo. aboj. serralho. imaru. Por exemplo: de. no colégio. a cada espécie. uma vogal. No de Bonifacio Sotos Ochando (1845). oblongo. A beleza figura na décima sexta categoria. que organizasse e abrangesse todos os pensamentos humanos. bire. O mais complexo (para uso das divindades e dos anjos) registraria um número infinito de símbolos. latão). transparentes (ametista. hospital. teto. mediante o sistema decimal de numeração. Dividiu o universo em quarenta categorias ou gêneros. No idioma universal idealizado por Wilkins em meados do século XVII. Mauthner observa que as crianças poderiam aprender esse idioma sem saber que é artificioso. aboje. um para cada número inteiro. três 11. imafo. piso.. módicas (mármore. por sua vez subdivisíveis em espécies. oito 1000. cobre). em uma epístola com data de novembro de 1629. herbívoro. No idioma análogo de Letellier (1850). preciosas (pérola. gato. imarri. do doutor Pedro Mata. o mais simples requer apenas dois. mamífero. que se inspirou (parece) nos enigmáticos hexagramas do I Ching. imedo. felino. piçarra). geral. azougue) artificiais (bronze.. John Wilkins. imela. . casa. um 1. quer dizer elemento. Essas ambigüidades. por volta de 1664. elas descobririam que é também uma chave universal e uma enciclopédia secreta. imego. imogo.. a quer dizer animal. um dicionário que define os vocábulos do espanhol. eqüino.. âmbar. como o foram as da Sagrada Escritura para os cabalistas. estanho. imaba quer dizer edifício. chácara.) As palavras do idioma analítico de John Wilkins não são toscos símbolos arbitrários. subdivisíveis em diferenças. cada palavra define-se a si mesma. já anotara que. quatro 100. cascalho. opala). abi. encadernador. falta examinar um problema de impossível ou difícil protelação: o valor da tabela quadragesimal que é a base do idioma. (Devo este último censo a um livro impresso em Buenos Aires em 1886: o Curso de Lengua Universal. a das pedras. o primeiro dos elementos. é possível aprender em um único dia a nomear todas as quantidades até o infinito e a escrevê-las em um idioma novo. abo. É invenção de Leibniz. dois 10. redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada 1 Teoricamente.

falta conjeturar seu propósito. de carne avermelhada. O Instituto Bibliográfico de Bruxelas também exerce o caos: parcelou o universo em 1. a 298 ao mormonismo. sem dúvida. a 179: "Crueldade com os animais. contudo. zana. (m) que acabam de quebrar o vaso. A palavra salmão não nos diz nada. que já morreu" (Dialogues Concerning Natural Religion. (i) que se agitam como loucos. Registrei as arbitrariedades do desconhecido (ou apócrifo) enciclopedista chinês e do Instituto Bibliográfico de Bruxelas. (h) incluídos nesta classificação. (l) etcétera. Verbi gratia. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. mesmo sabendo que eles são provisórios. e a 294 ao bramanismo. Pode-se ir além. as sinonímias do secreto dicionário de Deus.000 subdivisões. notoriamente. não é inconcebível um idioma em que o nome de cada ser indicasse os pormenores de seu destino. xintoísmo e taoísmo. as definições.. (n) que de longe parecem moscas. no entanto. a 263 ao Dia do Senhor.. (e) sereias. A razão é muito simples: não sabemos o que é o universo. "O mundo – escreve David Hume – talvez seja o rudimentar esboço de algum deus infantil que o abandonou pela metade. Vícios e defeitos vários. Crê que mesmo de dentro . O duelo e o suicídio do ponto de vista da moral. O idioma analítico de Wilkins não é o menos admirável desses esquemas. ou a confusa produção de uma divindade decrépita e aposentada. budismo. que esses matizes. (f) fabulosos. alvo de zombaria dos deuses superiores. Não recusa as subdivisões heterogêneas. (j) inumeráveis (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo. A impossibilidade de penetrar o esquema divino do universo não pode. Virtudes e qualidades idades várias”. a 282 à Igreja Católica Romana. pode-se suspeitar que não há universo no sentido orgânico. (b) embalsamados. as etimologias. que tenha essa ambiciosa palavra. V. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados. o artifício de as letras das palavras indicarem subdivisões e divisões é. falta conjeturar as palavras. define (para o homem versado nas quarenta categorias e nos gêneros dessas categorias) um peixe escamoso. Proteção dos animais. em todas as suas fusões e conversões. fluvial. dissuadir-nos de planejar esquemas humanos. unificador. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador. Os gêneros e espécies que o compõem são contraditórios e imprecisos. passado e vindouro. ou a obra de um deus subalterno. envergonhado de sua execução deficiente. (c) amestrados.Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. 1779). talvez o que de mais lúcido se escreveu sobre a linguagem sejam estas palavras de Chesterton: "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. Crê. Se houver. (Teoricamente. correspondendo a 262 ao Papa. (g) cães soltos. (d) leitões. não há classificação do universo que não seja arbitrária e conjetural.) Esperanças e utopias à parte. o vocábulo correspondente. a 268 às escolas dominicais. engenhoso.

a afinidade não está na forma. Trata-se de um apólogo de Han Yu. exatamente. Watts. pensei reconhecer sua voz. prosador do século IX. não se presta a uma classificação. depois de algum convívio. o lobo ou o cervo. e antes. nem sempre é fácil encontrá-lo. e antes. nos textos de diversas literaturas e de diversas épocas. assim o declaram as odes. Um móvel que se encontra no ponto A (declara Aristóteles) não poderá chegar ao B. em ordem cronológica. 1904). a de O Castelo. ou seus hábitos. De início. a metade da metade. e assim até o infinito. a metade da metade da metade. poderíamos estar diante do unicórnio e não saberíamos com . e sim no tom. eu o julgara tão singular como a fênix das loas retóricas. KAFKA E SEUS PRECURSORES Certa vez premeditei um exame dos precursores de Kafka. Registrarei aqui alguns deles. os anais. Este é o parágrafo que assinalei.de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo" (G. No segundo texto que o acaso dos livros me deparou. Mas esse animal não figura entre os animais domésticos. e a flecha. Até os párvulos e as mulheres do povo sabem que o unicórnio constitui um presságio favorável. p. F. e o móvel. Não é como o cavalo ou o touro. 88. misterioso e tranqüilo: "Universalmente admite-se que o unicórnio é um ser sobrenatural e de bom agouro. Em tais condições. porque antes deverá percorrer a metade do percurso entre os dois. O primeiro é o paradoxo de Zenão contra o movimento. e consta na admirável Anthologie Raisonée de la Littérature Chinoise (1948) de Margouliè. a forma desse ilustre problema é. as biografias de varões ilustres e outros textos de indiscutível autoridade. e Aquiles são os primeiros personagens kafkianos da literatura.

digamos. justamente por sabê-lo afeito ao mal. no primeiro. em maior ou menor grau. Este último fato é o mais significativo. Em cada um desses textos. Teriam admitido. Um deles pertence às Histoires Désobligeantes. Lowrie.) Se não me engano. Quanto à quarta prefiguração. nunca se sai de uma cidade. Um homem tem. não se chega. Sabemos que tal animal com crina é cavalo e que tal animal com chifres é touro. O sujeito da outra são as expedições ao Pólo Norte. guias ferroviários e baús e que morrem sem nunca ter conseguido sair de seu povoado natal. se ele não tivesse escrito. embora por vezes a divisem. o que não se destacou ainda. vê monstros e fadiga os desertos e as montanhas. olhando-se bem. não a 1 O desconhecimento do animal sagrado e sua morte oprobriosa ou casual nas mãos do vulgo são temas tradicionais da literatura chinesa. no último verso. Ver o último capítulo de Psychologie und Alchemie (Zurique. Não sabemos como é o unicórnio". vigiado incessantemente. que chegar ao Pólo era difícil. pergunta: "E se esse amigo for Deus?". do mesmo modo. um amigo famoso. os heterogêneos textos que enumerei parecem-se a Kafka. Deus. assim como Kafka. encontrei-a no poema "Fears and scruples". Os párocos dinamarqueses teriam declarado de seus púlpitos que participar de tais expedições convinha à saúde eterna da alma. qualquer viagem – da Dinamarca a Londres. que traz duas curiosas ilustrações. Por fim. Uma é a história de um falsificador que examina. O homem. mas eles nunca chegam a Carcassonne. publicado em 1876. ter sido pródigo em parábolas religiosas de tema contemporâneo e burguês. ou acredita ter. o reverso exato do anterior. teriam anunciado que. nem todos se parecem entre si. encontra-se a idiossincrasia de Kafka. também. Ele nunca o viu. talvez impossível. Um invencível exército de guerreiros parte de um castelo infinito. dois contos. se não me engano. entretanto. (Este conto é. no último. de Jung. de Léon Bloy. Minhas notas registram. 1938). A afinidade mental de ambos os escritores é coisa por ninguém ignorada. atlas. mas. de Browning. no vapor de carreira – ou um passeio dominical em carro de praça são verdadeiras expedições ao Pólo Norte. . desconfiaria de Kierkegaard e lhe teria encomendado uma missão. Há quem ponha em dúvida os gestos. é o fato de Kierkegaard. e os grafólogos afirmam a apocrifia das cartas. mas dele contam-se gestos muito nobres e circulam cartas autênticas. transcreve duas. até o momento. 1944). o tal amigo não pôde ajudá-lo.segurança que se trata dele.1 O terceiro texto procede de uma fonte mais previsível: os escritos de Kierkegaard. e o fato é que. subjuga reinos. e que nem todos poderiam empreender a aventura. em seu Kierkegaard (Oxford University Press. que eu saiba. e relata o caso de algumas pessoas que juntam globos terrestres. O outro intitula-se "Carcassonne" e é obra de Lord Dunsany. como se percebe facilmente. as cédulas do Banco da Inglaterra.

Buenos Aires. No vocabulário crítico. . Browning não o lia como agora nós o lemos. mas se deveria tentar purificá-la de toda conotação de polêmica ou de rivalidade.2 Nessa correlação. O fato é que cada escritor cria seus precursores. O primeiro Kafka de Betrachtung é menos precursor do Kafka dos mitos sombrios e das instituições atrozes que Browning ou Lord Dunsany. a palavra precursor é indispensável. mas nossa leitura de Kafka afina e desvia sensivelmente nossa leitura do poema. 2 Ver T S. vale dizer. de Robert Browning. não existiria. Seu trabalho modifica nossa concepção do passado.perceberíamos. O poema "Fears and scruples". como há de modificar o futuro. profetiza a obra de Kafka. p. não importa a identidade ou a pluralidade dos homens. 1951. 25_26. Eliot: Points of View (1941).

e. a do grego corresponde à época da palavra oral. aprovaria ou condenaria o ditame que o autor lhe atribui. As duas teleologias. uma vez descoberto. que podem ser malvados ou néscios. É voz corrente que Pitágoras não escreveu. é para nós um objeto sagrado: já Cervantes.DO CULTO AOS LIVROS No oitavo livro da Odisséia lê-se que os deuses tecem infortúnios para que às futuras gerações não falte o que cantar. homem de cultura pagã: "O mais prudente é não . que talvez não escutasse tudo o que as pessoas diziam. mas não o julgaria. ameaça a biblioteca de Alexandria. Um livro. contudo. 1. A razão é clara: para os antigos. uns trinta séculos mais tarde. alguém exclama que aí arderá a memória da humanidade. É uma memória de infâmias". qualquer livro. esse receio platônico perdura nas palavras de Clemente de Alexandria. O mestre escolhe o discípulo. mas o livro não escolhe seus leitores. e César lhe diz: "Deixa que arda. não são inteiramente coincidentes. a declaração de Mallarmé: "O mundo existe para chegar a um livro" parece repetir. Gomperz (Griechische Denker. Este. O fogo. como nós. lia até "os papéis rasgados das ruas". a palavra escrita não passava de um sucedâneo da palavra oral. e. Mais força que a mera abstenção de Pitágoras tem o testemunho inequívoco de Platão. a outra em livros. narrou uma fábula egípcia contra a escrita (cujo hábito faz as pessoas descuidarem do exercício da memória e dependerem de símbolos) e disse que os livros são como as figuras pintadas. 3) defende que ele assim procedeu por ter mais fé na virtude da instrução falada. é impossível divulgá-lo a todos os homens". Para atenuar ou eliminar esse inconveniente. no Fedro. o mesmo conceito de uma justificativa estética para os males. "que parecem vivas. Uma fala em cantar. em minha opinião. e a do francês. a uma época da palavra escrita. O César histórico. no Timeu. mas não respondem uma palavra às perguntas que lhes são feitas". ele imaginou o diálogo filosófico. em uma das comédias de Bernard Shaw. afirmou: "É árdua tarefa descobrir o fazedor e pai deste universo. uma piada sacrílega.

1 Aquele homem passava diretamente do signo escrito à intuição. que sumia com facilidade. pudemos vê-lo ler caladamente e nunca de outro modo. conjeturando que naquele breve intervalo que lhe era concedido para restaurar o espírito. Santo Agostinho foi discípulo de Santo Ambrósio. talvez receoso de que um ouvinte. Contra um Ignorante Comprador de Livros. lendo sem articular as palavras. por volta do ano 384. Essa sentença é de Jesus. pois não havia sinais de pontuação nem sequer divisão de palavras. atento às dificuldades do texto. que derivam também das evangélicas: "Não deis o santo aos cães nem jogueis vossas pérolas aos porcos. a arte de ler em voz baixa. para penetrar melhor o sentido. e nestas outras. com um livro. no conceito do livro como fim. 6). em fins do século IV iniciou-se o processo mental que. . e sim aprender e ensinar de viva voz. Clemente de Alexandria escreveu seu receio pela escrita em fins do século II. treze anos mais tarde. O diálogo de Luciano de Samósata. Muitas vezes – posto que ninguém era proibido de entrar. redundaria nos singulares destinos de Flaubert e de Mallarmé. ele redigiria suas Confissões e ainda o inquietaria aquele singular espetáculo: um homem em um aposento. que uma única vez escreveu palavras na terra e nenhum homem as leu (João 8. omitindo o signo sonoro. do mesmo tratado: "Escrever todas as coisas em um livro é deixar uma espada nas mãos de uma criança". Um admirável acaso quis que um escritor registrasse o instante (pouco exagero ao chamá-lo instante) em que teve início o vasto processo. certamente era bom". Resultaria. culminaria no predomínio da palavra escrita sobre a falada. passados muitos anos. encerra um testemunho desse costume no século II. corria os olhos pelas páginas penetrando sua alma no sentido. nem vigia o costume de anunciar-lhe quem se achegava –. livre do tumulto das questões alheias. na Numídia. de Henry James e de James Joyce. pois o escrito fica" (Stromateis). não queria que o ocupassem com outra coisa. com a passagem de muitas gerações. bispo de Milão. não como instrumento de um fim. Para os 1 Os comentadores advertem que. resultaria em conseqüências maravilhosas. e depois de algum tempo retirávamo-nos. a de uma Escritura Sagrada. da pena sobre a voz. no livro seis das Confissões: "Quando Ambrósio lia. a fim de superar ou paliar os inconvenientes da escassez de códices. e ler em grupo.escrever. sem proferir uma palavra nem mover a língua. com o que não poderia ler tantos volumes como desejava. para que não as pisoteiem e depois se voltem para vos destroçar".) À noção de um Deus que fala com os homens para lhes ordenar ou proibir algo superpõe-se a do Livro Absoluto. Conta Santo Agostinho. Eu entendo que ele lia desse modo para preservar a voz. a estranha arte que ele iniciava. Em todo o caso que fosse o propósito de tal homem. o maior dos mestres orais. era costume ler em voz alta. pedisse explicação de uma passagem obscura ou quisesse com ele discuti-la. transposto à literatura profana. naquele tempo. (Esse conceito místico.

George Sale observa que esse incriado Alcorão não é outra coisa senão sua idéia ou arquétipo platônico. opinava que o mundo era redutível a formas essenciais (temperaturas. e a luz foi". que Deus nos oferecia dois livros para que não incorrêssemos no erro: o primeiro. e qual a água. Ainda mais extravagantes que os muçulmanos foram os judeus. A idéia de que a divindade escrevera um livro levou-os a imaginar que escrevera dois e que o outro era o universo. Muhammad al-Gazali. lemos que o texto original. que revela Sua vontade. Motti e Sentenze. A Mãe do Livro. e qual sobre a sabedoria. que conformavam. No primeiro capítulo de sua Bíblia encontra-se a famosa sentença: "E Deus disse: seja a luz. e qual sobre a paz. criou o universo mediante os números cardinais de um a dez e as vinte e duas letras do alfabeto.muçulmanos. o "Alcorão" (também chamado O Livro. No início do século XVII. no entanto. pronunciado com a língua. o volume das criaturas. e qual sobre a graça. cores). O segundo parágrafo do segundo capítulo reza: "Vinte e duas letras fundamentais: Deus desenhou-as. serviu parra formar o sol no mundo. revela-se qual letra tem poder sobre o ar. Francis Bacon declarou. Al Kitab) não é mera obra de Deus. um abeceddarium naturae ou série de letras com que se escreve o texto universal. A segunda seção da antologia de Favaro (Galileo Galilei: Pensieri. densidades. que tem poder sobre a vida. gravou-as. Florença. revela que Jeová dos Exércitos. pesou-as. . e qual sobre a cólera. 1949) intitula-se I1 Libro delia Natura. o volume das Escrituras. guardado no coração e. o Algazel dos escolásticos. pesos. como a alma dos homens ou o universo. em número limitado. é verossímil que Algazel tenha recorrido aos arquétipos. que revela Seu poderio. é um dos atributos de Deus. e qual sobre o fogo. No capítulo XIII. o segundo. que as letras o sejam é claro indício do novo culto à escrita. permutou-as e com elas produziu tudo o que é e tudo o que será". declarou: "O Alcorão é copiado em um livro. Mais longe foram os cristãos. em seu Advancement of Learning. a quarta-feira no ano e a orelha esquerda no corpo. os cabalistas depreenderam que a virtude dessa ordem do Senhor adveio das letras das palavras. Bacon propunha-se muito mais que construir uma metáfora. por 2 Nas obras de Galileu é freqüente o conceito do universo como livro.2 Sir Thomas Browne. continua perdurando no centro de Deus e não o altera sua passagem pelas folhas escritas e pelos entendimentos humanos". e qual sobre o sonho. como Sua eternidade ou Sua ira. Que os números sejam instrumentos ou elementos da Criação é dogma de Pitágoras e de Jâmblico. escrito na Síria ou na Palestina por volta do século VI. transmitidos ao Islã pela Enciclopédia dos Irmãos da Pureza e por Avicena. e como (por exemplo) a letra kaf. O tratado Sefer Yetsirah (Livro da Formação). sendo este a chave daquele. está depositado no Céu. Em seguida. Deus de Israel e Deus Todo-Poderoso. para justificar a noção da Mãe do Livro. combinou-as.

O mundo. é o mundo. e os caracteres são triângulos. em diversos pontos de sua obra e particularmente no ensaio sobre Cagliostro.volta de 1642. estampou que a história universal é uma Escritura Sagrada que deciframos e escrevemos incertamente e na qual também somos escritos. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. nem qual é seu nome verdadeiro. somos versículos. o universo). Buenos Aires. confirmou: "Dois são os livros em que costumo aprender teologia: a Sagrada Escritura e aquele universal e público manuscrito que é patente a todos os olhos. superou a conjetura de Bacon. segundo Mallarmé. No mesmo parágrafo. 1951.. existe para um livro. A língua desse livro é matemática. ou palavras. Léon Bloy escreveu: "Não há na terra um ser humano capaz de declarar quem é. Quem nunca O viu no primeiro. e esse livro incessante é a única coisa que há no mundo: melhor dizendo. seus sentimentos. 1912). Transcrevo o seguinte parágrafo: "A filosofia está escrita naquele enormíssimo livro continuamente aberto diante de nossos olhos (quero dizer. seu imorredouro Nome no registro da Luz. . 16). a que correspondem seus atos. ou letras de um livro mágico. círculos e outras figuras geométricas". I. lê-se: "Todas as coisas são artificiais. segundo Bloy. porque a Natureza é a Arte de Deus". Duzentos anos se passaram e o escocês Carlyle. Depois. suas idéias. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta" (L´Âme de Napoléon.. descobriu-O no segundo" (religio Medici. mas ininteligível se antes não estudarmos a língua nem conhecermos os caracteres em que está escrito.

Garrod. ouviu o eterno rouxinol de Ovídio e de Shakespeare. alegou esse epíteto para sentenciar que.R. não foi discutida por ninguém. Em 1895. uma divindade dos bosques. na primeira estrofe de seu poema. tísico. e sim à espécie”. publicada em 1887.O ROUXINOL DE KEATS Aqueles que freqüentaram a poesia lírica da Inglaterra não esquecerão a “Ode a um rouxinol”. Keats. a meu ver. O nó do problema está na penúltima estrofe. duas ou três horas bastaram-lhe para compor essas páginas de inesgotável e insaciável beleza. que. Amy Lowell escreveu com mais acerto: “O leitor que tenha uma centelha de sentido imaginativo ou poético logo intuirá que Keats não se refere ao rouxinol que cantava nesse momento. que eu saiba. Keats. em que entende a vida do indivíduo. a ave é imortal porque é uma dríade. que John Keats. à idade de vinte e três anos. ouviu Rute. Keats escrevera que o poeta deve dar poesias naturalmente. sua virtude. compôs em um jardim em Hampstead. Em sua monografia sobre Keats. e sentiu sua própria mortalidade. no jardim suburbano. é também uma falha poética. é aquela que. agora. em campos de Israel. F. em que entende a vida da espécie”. “que não abatem as famintas gerações” e cuja voz. chamou o rouxinol de dríade. que ele poliria muito pouco. em uma antiga tarde. outro crítico. a moabita. Keats opõe-se à fugacidade da vida humana. a permanência da vida do pássaro. na sétima. Sidney Colvin (correspondente e amigo de Stevenson) percebeu ou inventou uma dificuldade na estrofe em questão. leavis aprovou-a em 1936 e acrescentou o escólio: “Naturalmente. como a árvore dá folhas. pobre e talvez desafortunado no amor. em uma das noites do mês de abril de 1819. e contrastou-a com a tênue voz imorredoura do invisível pássaro. Bridges repetiu a denúncia. Transcrevo sua curiosa declaração: “Com um erro de lógica. a falácia incluída nesse conceito prova a intensidade do sentimento que a acolheu…”. com toda a seriedade. O homem circunstancial e mortal dirige-se ao pássaro. mas sim sua interpretação. .

lê-se o seguinte: “Perguntemo-nos com sinceridade se a andorinha deste verão é outra que não a do primeiro e se realmente o milagre de tirar algo do nada ocorreu milhões de vezes entre as duas para ser fraudado outras tantas pela aniquilação absoluta. para aqueles. Se não me engano. o menos vão é o da norte-americana Amy Lowell. que. uma ordem. a exata chave da estrofe. Bridges escreveu um poema platônico intitulado “The fourth dimension”.Cinco pareceres de cinco críticos atuais e passados recolhi. suspeito. está. na primeira estrofe de “Sailing to Byzantium”. sutilíssima prova dessa adivinhação ou recriação é ele ter intuído no obscuro rouxinol de uma noite o rouxinol platônico. essa ordem. Leavis e os outros1 não tenham chegado a essa interpretação evidente? Leavis é professor de um dos colégios de Cambridge — a cidade que. Esclarecida assim a primeira dificuldade. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. Através das latitudes e das épocas. . de todos. Ou seja. de índole muito diversa. talvez incapaz de definir a palavra arquétipo. nada li”. Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. sua razão deriva de algo essencial na mente britânica. os primeiros. Henn: The Lonely Tower. o aristotélico. no século XVII. Quem me ouvir assegurar que este gato aqui brincando é o mesmo que saltitava e traquinava neste lugar há trezentos anos pensará de mim o que quiser. mas nego a oposição que nele se postula entre o efêmero rouxinol dessa noite e o rouxinol genérico. sem exagerada injustiça. Keats. A “Ode a um rouxinol” data de 1819. mas loucura mais estranha é imaginar que é fundamentalmente outro”. R. No capítulo 41. que são generalizações. para estes. pôde escrever: “Nada sei. em um parágrafo metafísico de Schopenhauer. os dois antagonistas imortais trocam de dialeto e de nome: um é Parmênides. adivinhou o espírito grego nas páginas de algum dicionário escolar. 1 A essa lista dever-se-ia acrescentar o genial poeta William Butler Yeats. p. para. Os últimos sentem que as classes. falta esclarecer uma segunda. 1950. antecipou-se em um quarto de século a uma tese de Schopenhauer. que nunca a leu. a mera enumeração desses fatos parece agravar o enigma. fala em “morrentes gerações” de pássaros. as ordens e os gêneros são realidades. entendo que. em 1844 apareceu o segundo volume de O Mundo como Vontade e Representação. que. Como é possível que Garrod. congregou e deu nome aos Cambridge Platonists —. é o mapa do universo. a linguagem não passa de um aproximativo jogo de símbolos. Keats. o indivíduo é de certo modo a espécie. A chave. 211. Ver T. Platão. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. em unia alusão deliberada ou involuntária à “Ode”. e o rouxinol de Keats é também o rouxinol de Rute.

Nas árduas escolas da Idade Média. da T. Hume. nascem aristotélicos ou platônicos. Kant. foi celebrado por Chaucer e Shakespeare. e sim os indivíduos. desfruta de nomes melodiosos (nightingale. da T. O nominalismo inglês do século XIV ressurge no escrupuloso idealismo inglês do século XVIII. é talvez inevitável. “entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem”2 permite ou prefigura o não menos taxativo “esse est percipi”3 Os homens. ser Berkeley e ser Hume. antigo cantor da tarde.” (N. ele agora é um tanto irreal. inassimilável e ímpar.” (N. não são os conceitos abstratos. essa valiosa incompreensão permite-lhe ser Locke. E natural. todos invocam Aristóteles. por Milton e Matthew Arnold. não o rouxinol genérico. nachtigall. como os alemães. para essa mente. a economia da fórmula de Occam. O rouxinol. em todas as línguas do orbe. mas é a John Keats que fatalmente ligamos sua imagem como a Blake a do tigre. disse Coleridge. O inglês recusa o genérico porque sente que o individual é irredutível. as não escutadas e proféticas advertências do Indivíduo contra o Estado. Não entende a “Ode a um rouxinol”. William James. Locke. não uma incapacidade especulativa. De tão exaltado pelos poetas. o outro.) . O real. Que ninguém leia reprovação ou desdém nas palavras acima. trago aos nobres alegria nas vilas”) à trágica Atalanta. que na Inglaterra a “Ode a um rouxinol” não seja bem compreendida. e escrever. há cerca de setenta anos. de Swinburne. o infinito rouxinol tem cantado na literatura britânica. menos afim com a calhandra que com o anjo. mestre da humana razão (Dante. os realistas. 2 3 “Os entes não devem ser multiplicados além do necessário. e sim os rouxinóis concretos. Aristóteles. Convivio. usignolo). Francis Bradley. Platão. como se os homens instintivamente tivessem querido que esses não desmerecessem o canto que os maravilhou. Dos enigmas saxões do Livro de Exeter (“eu. 2). Um escrúpulo ético. impede-o de transitar por abstrações.) “Ser é ser percebido. IV. da mente inglesa cabe afirmar que nasceu aristotélica. Heráclito.Spinoza. mas os nominalistas são Aristóteles.

Também De Quincey1 a declara: "Até os sons irracionais do globo devem ser outras tantas álgebras e linguagens que de algum modo têm suas chaves correspondentes.O ESPELHO DOS ENIGMAS A idéia de que a Sagrada Escritura tem (além de seu valor literal) um valor simbólico não é irracional e é antiga: está em Filão de Alexandria. 1896. p. Cipriano de Valera é mais fiel: "Agora vemos por espelho. simbólico. determinado e premeditado por Deus. Torres Amat miseravelmente traduz: "No presente não vemos Deus senão como em um espelho e sob imagens obscuras: mas então o veremos face a face. impossível ser mais palavroso e mais frouxo. – e nela nossas vidas e o mais tênue detalhe de nossas vidas – tem valor inconjeturável. mas então veremos face a face. mas então conhecerei como sou 1 Writings. nos cabalistas. ninguém tão assombrosamente como Léon Bloy. Nunc cognosco ex parte: tunc autem cognoscam sicut et cognitus sum".) Um versículo de São Paulo (I Coríntios 13. não vai uma distância infinita. volume 1. Muitos devem tê-la percorrido. da maneira que eu sou conhecido". 12) inspirou Léon Bloy: "Videmus nunc per speculum in aenigmate: tunc autem facie ad facie. devemos admitir que os homens. Agora conheço em parte. a Verdade não pode mentir. ou que mal soletramos. etcétera). (Nos fragmentos psicológicos de Novalis e naquele volume da autobiografia de Machen intitulado The London Adventure há uma hipótese afim: a de que o mundo externo – as formas. em Swedenborg. sua severa gramática e sua sintaxe. Quarenta e duas palavras fazendo o trabalho de vinte e duas. 129 . ao executá-los. a lua – é uma linguagem que esquecemos. as temperaturas.. representaram cegamente um drama secreto.. Daí a pensar que a história do universo. na escuridão. Agora eu não o conheço senão imperfeitamente: mas então o conhecerei com uma visão clara. e assim as mínimas coisas do universo podem ser espelhos secretos das maiores". Como os fatos referidos pela Escritura são verdadeiros (Deus é a Verdade.

de lamentos e afrontas) há versões ou facetas diversas. Vemos agora. percebidos ‘em um espelho’. a nossa visão geral. de Le Vieux de la Montagne e de L ´Invendable. quem pode vangloriar-se de ser um simples criado?" A terceira é de uma carta escrita em dezembro.. Vemos todas as coisas ao contrário. Se os pobres de seu império vivem oprimidos sob seu reinado. A segunda é de novembro do mesmo ano. perante Deus. afirma São Paulo. O Czar é o chefe e pai espiritual de cento e cinqüenta milhões de homens. Bloy não imprimiu a sua conjetura uma forma definitiva. Talvez ele apenas seja responsável. Os prazeres deste mundo seriam os tormentos do inferno. recebemos. que resgatei das páginas clamorosas de Le Mendiant Ingrat. "Recordo uma de minhas idéias mais antigas. por uns poucos seres humanos. Atroz responsabilidade que não passa de aparência. etc. Devemos inverter nossos olhos e exercer uma astronomia sublime no infinito de nossos corações. Não sabemos se tal coisa que nos aflige não é o secreto princípio de nossa alegria ulterior. Ao longo de sua obra fragmentária (povoada. Quando pensamos dar. Se vemos a Via Láctea. que é a alma do homem. Basta-me citar . e não veremos de outro modo até o advento d´Aquele que está todo em chamas e que deve ensinar-nos todas as coisas. vistos ao contrário. Traduzo-a assim: "A sentença de São Paulo: Videmus nuns per speculum in aenigmate seria uma clarabóia para mergulhar no Abismo verdadeiro." A quinta é de maio de 1908. pelo qual Deus quis morrer.conhecido". livro cujo propósito é decifrar o símbolo Napoleão. Não penso tê-las esgotado: espero que algum especialista em Léon Bloy (eu não sou) venha a completá-las e retificá-las. Que eu saiba. diz São Paulo. em um espelho. se desse reinado resultam imensas catástrofes. Torres Amat entende que o versículo se refere a nossa visão da divindade. quem é verdadeiramente Czar.. "Aterrorizante idéia de Joana acerca do texto Per speculum. Cipriano de Valera (e Léon Bloy). "Per speculum in aenigmate. Em cada uma das páginas de L´Ame de Napoléon. considerado precursor de outro herói – também ele homem e símbolo – oculto no futuro. um reflexo exterior de nossos abismos. como todos sabem. A primeira é de junho de 1894. A aterrorizante imensidão dos abismos do firmamento é uma ilusão. é porque ela verdadeiramente existe em nossa alma"." A sexta é de 1912. quem pode garantir que não é o criado encarregado de lustrar-lhe as botas o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade. Somos dormentes que gritam durante o sono. " A quarta é de maio de 1904. "Tudo é símbolo. quem é rei. Então (ouço de uma querida alma angustiada) nós estamos no céu e Deus sofre na terra. até a dor mais lancinante. Eis aqui algumas. literalmente: ‘em enigma por um espelho’. per speculum in aenigmate.

Ouso julgá-los verossímeis. a procurar acrósticos e anagramas e a outros rigores exegéticos dos quais não é difícil zombar. irmão secreto de Swedenborg e de Blake: heresiarcas. mais improvável. Que eu saiba. .duas passagens. A história é um imenso texto litúrgico no qual os iotas e os pontos não valem menos que os versículos ou capítulos inteiros. levou-os a permurtar as palavras escriturais. de criptografia dos anjos – em todos os instantes e em todos os seres do mundo. Os passos dados por um homem. Essa premissa portentosa de um livro impenetrável à contingência. uma opala amarela. Ninguém como ele para ilustrar essa ignorância íntima.. nem qual é seu nome verdadeiro. O supersticioso crê penetrar essa escrita orgânica: treze comensais articulam o símbolo da morte. Outra: "Não há na terra ser humano capaz de declarar com certeza quem ele é.. 2 O que é uma inteligência infinita?. afirmou Léon Bloy. a somar o valor numérico das letras. a fazer conta de sua forma. Estes pensaram que uma obra ditada pelo Espírito Santo era um texto absoluto: vale dizer. poderá indagar o leitor. Bloy (repito) só fez aplicar a toda a Criação o método que os cabalistas judeus tinham aplicado à Escritura.. seu imorredouro Nome no registro da Luz. mas entendo que o mundo hieroglífico postulado por Bloy é o mais conveniente à Dignidade do Deus intelectual dos teólogos. desenham no tempo uma inconcebível figura. Uma: "Cada homem está na terra para simbolizar algo que ignora e para realizar uma partícula. desde o dia de seu nascimento até o de sua morte. a observar as minúsculas e maiúsculas. "Nenhum homem sabe quem é". eu prefiro um exemplo. o da desgraça. mas a importância de uns e de outros é indeterminável e está profundamente oculta". ninguém tratou de examiná-los. observará o incrédulo. Sua apologia é que nada pode ser contingente na obra de uma inteligência infinita. seus sentimentos. ou uma montanha. Ninguém sabe o que veio fazer neste mundo. que tenha duplo ou triplo sentido.2 Léon Bloy postula esse caráter hieroglífico – esse caráter de escrita divina. dos materiais invisíveis que servirão para edificar A Cidade de Deus". Essa figura (talvez) tem uma função determinada na economia do universo. um texto em que a colaboração do acaso é calculável em zero. Parece improvável que o mundo tenha sentido. e talvez inevitáveis. Os parágrafos acima talvez pareçam ao leitor meras gratuidades de Bloy. Eu entendo que é assim. suas idéias. Julgava-se um católico rigoroso e foi um continuador dos cabalistas. dentro da doutrina cristã. Não há teólogo que não a defina.. como a dos homens um triângulo. ainda. A Inteligência Divina intui essa figura imediatamente. a que correspondem seus atos. de uni livro que é um mecanismo de propósitos infinitos.

nas horas centrais da batalha. os que opinam que esta guerra "é uma guerra de ideologias" e não uma fórmula criminosa "da desordem presente". "derrotados pela consciência da inépcia. Goering. "embora ninguém saiba o que é o proletariado nem como e onde ele dita". a "evidente vontade de derrota" (will for defeat) da aristocracia britânica. "que chia como um coelho esganado". os norte-americanos e ingleses "que traíram a causa liberal na Espanha". o "absurdo Ironside". Suas bem legíveis páginas denunciam o Führer. Mais importante que esses resmungos epigramáticos (dos quais apenas citei alguns poucos e que seria facílimo triplicar ou quadruplicar) é a doutrina desse manual . Também demonstram a liberdade de que os escritores desfrutam na Inglaterra. "mental e moralmente néscio". o "rancoroso cortiço" Irlanda do Sul. no dia seguinte. "que parece não poupar o menor esforço para que a Alemanha ganhe uma guerra que já perdeu". algumas parecem-me injustas. Reuni algumas invectivas de Wells: não são literariamente memoráveis. Josef Stálin. Eden. uma simples enciclopédia de injúrias. à primeira vista. que em um dialeto irreal continua vindicando a ditadura do proletariado. por vozes e rumores radiofônicos e por alguns mensageiros de bicicleta". varrem os estilhaços de vidro e retomam as tarefas da véspera". "aniquilados de cidades que.DOIS LIVROS O último livro de Wells – Guide to the New World. A Handbook of Constructive World Revolution – corre o risco de parecer. o Ministério das Relações Exteriores inglês. os ingênuos que supõem que basta exorcizar ou destruir os demônios Goering e Hitler para que o mundo seja paradisíaco. Sir Samuel Hoare. por tanques fabricados na Tchecoslováquia. os generais do exército francês. "o inconsolável viúvo quintessencial da Liga das Nações". mas demonstram a imparcialidade de seus ódios e de sua indignação.

48-54) fixa os fundamentos do mundo novo. todos. por mais patéticos ou pitorescos que sejam. por mais que o neguem ou o ignorem. falavam em Raça e Povo. "Ninguém em seu perfeito juízo – declara Wells – pensa que os homens da Grã-Bretanha são um povo eleito. nacionalistas. em geral. 1940 –. o que uma cortesia elementar exige dos indivíduos. a frente de batalha da humanidade. Wells. todos juraram que um judeu-alemão difere enormemente de um alemão. outros.. quis compartilhar minha opinião. Uns declaravam-se republicanos. Tal doutrina é resumível nesta disjuntiva precisa: ou a Inglaterra identifica sua causa com a de uma revolução geral (com a de um mundo federado). Vindicadores da democracia. no mesmo dialeto do inimigo. porque quase todos os meus contemporâneos o são. ilusória ou imperceptível. disputando a hegemonia do mundo com os alemães. Em vão lembrei-lhes que não outra coisa diz Adolf Hitler. naquele dia. Esse dever é um privilégio. não há publicista que não opine que o fato inevitável e trivial de ter nascido em um determinado país e de pertencer a tal raça (ou a tal boa mescla de raças) não seja um privilégio singular e um talismã suficiente. ninguém pode ser nada pior" (The Man that Corrupted Hadleyburg. Ninguém. Os três capítulos finais discutem alguns problemas menores. Wells exorta-nos a recordar nossa humanidade essencial e a refrear nossos miseráveis traços diferenciais. No terceiro artigo – "Free . às vezes. Na verdade. Até os homens da foice e do martelo revelavam-se racistas. como em outros – The Fate of Homo Sapiens.. Se não forem essa frente. marxistas. não é nazista. Há várias razões para que eu não seja um anti-semita. na obra cujo comentário esbocei. Russell também emite conselhos de universalidade. insta-nos a repensar a história do mundo sem preferências de caráter geográfico. sim. durante a Guerra Civil Espanhola. econômico ou étnico. 1939. não são nada. The Common Sense of War and Peace. em vão citei a sábia declaração de Mark Twain: "Eu não pergunto de que raça é um homem. tal repressão não é descabida: limita-se a exigir dos Estados. São. Desde 1925." Let the People Think é o título de uma seleção de ensaios de Bertrand Russell. basta que seja um ser humano. Inacreditavelmente. instam seus leitores. para sua melhor convivência. Também recordo com certo estupor uma assembléia convocada em repúdio ao anti-semitismo. 204). Wells.revolucionário. uma mais nobre espécie de nazistas. em vão insinuei que uma assembléia contra o racismo não deveria tolerar a doutrina de uma Raça Eleita. p. a principal é esta: a diferença entre judeus e nãojudeus parece-me. com um léxico de Gauleiter. insignificante. outros. inacreditavelmente. que se julgam muito diferentes de Goebbels. O capítulo XII (p. Nesse livro. ou a vitória é inacessível e inútil. Lembro-me de certas discussões indecifráveis. a escutar o palpitar de um coração que recolhe os íntimos mandados do sangue e da terra.

de Knox. Daí o verdadeiro intelectual fugir dos debates contemporâneos: a realidade é sempre anacrônica. Hitler. podemos lembrar que o alemão é menos "puro" que o basco ou que o hotentote. Russell propõe que o Estado tente imunizar os homens contra essas superstições e esses sofismas. O autor começa observando que os fatos políticos provêm de especulações muito anteriores e que em geral medeia muito tempo entre a divulgação de uma doutrina e sua aplicação. G.. Fichte (1762-1814). p. negam-se a entender que a afirmação: "Todas as tentativas do agressor para avançar além de B fracassaram de maneira sangrenta" é mero eufemismo para admitir a perda de B. profunda. Dos outros artigos. Das pessoas que conheço. baseia a superioridade dos alemães na ininterrupta posse de um idioma puro. horrendo em públicos exércitos e em secretos espiões. pouquíssimas sequer a soletram. nobre. sólida e piedosa Alemanha" sobre a "fanfarrona. não passa de uma reverberação imperfeita de velhas discussões. na quarta e na quinta de suas famosas Reden an die Deutsche Nation. sugere que os alunos estudem as últimas derrotas de Napoleão nos boletins do Moniteur. não o são as representações. tomo VII. Deixam-se lograr por artifícios tipográficos ou sintáticos.. do taciturno doutor Francia e . pensam "sport"). confundem a verdade com o corpo doze. condenou as rajadas de vento parlamentar. Essa razão é quase inesgotavelmente falaz.thought and official propaganda”. Pior ainda: exercem uma sorte de magia. Russell imputa a teoria do fascismo a Fichte e a Carlyle. vindicou a memória do deus Thor. podemos indagar por que é preferível um idioma sem mistura. Louvou a Idade Média. escreveu que a democracia é o desespero de não encontrar heróis que nos dirijam. ostensivamente triunfais. uma transcrição de Karl Marx. pensam que formular um temor é colaborar com o inimigo. gesticulante. Por exemplo. Lênin. É assim: a "atualidade candente". reescrever essa história do ponto de vista francês. em 1843. de Cromwell.. Nossos "nacionalistas" já exercem esse método paradoxal: ensinam a história argentina de um ponto de vista espanhol. quando não quíchua ou querandí.. que nos exaspera ou exalta e que com certa freqüência nos aniquila. Este. Entendo que essa disciplina socrática não seria inútil. ele propõe que a escola primária ensine a arte de ler com incredulidade os jornais. hipersensível França" (Miscellanies. não é menos certeiro o que se intitula "Genealogia do fascismo". podemos conjeturar que não há no mundo um idioma puro (mesmo que as palavras o sejam. o Bastardo. O primeiro. de Frederico II. intranqüila. de Guilherme. por mais que os puristas digam "esporte". Planeja tarefas como esta: depois de estudar a história da guerra com a França em textos ingleses. é um pleonasmo de Carlyle (17951881) e até de J. Mais complexa e eloqüente é a contribuição de Carlyle. pugnaz. Em 1870 aclamou a vitória da "paciente. pensam que um fato aconteceu só porque está impresso em grandes letras pretas. vangloriosa. 251).

. Quem quiser mais imprecações ou apoteoses pode consultar Past and Present (1843) e os Latterday Pamphlets. alegrou-se por haver um quartel em cada povoado. de 1850. propôs a transformação das estátuas – "horrendos solecismos de bronze" – em úteis banheiras de bronze. é lícito afirmar que o ambiente do início do século XVIII era racional e o de nosso tempo. a Raça Teutônica. preconizou a pena de morte. Eu suprimiria o tímido advérbio que encabeça a frase.de Napoleão. incensou. Bertrand Russell conclui: "De certo modo. anti-racional". e inventou. condenou a abolição da escravatura. almejou um mundo que não fosse "o caos provido de umas eleitorais".

a passagem a que me refiro é aquela do sonho metafísico de John Tanner. optei por supor que certo espírito noveleiro. mas abominam a América "saxã". mas aplaudiram os prodígios do Blitzkrieg. denunciam o imperialismo. Freud não concluiu e Walt Whitman não pressentiu que os homens dispõem de pouca informação acerca dos móveis profundos de sua conduta? Quem sabe. mas aos da Alemanha o de Zaratustra. pensei comigo. são anti-semitas. o enigmático e notório entusiasmo de muitos partidários de Hitler. à força de exercer a incoerência. de Shaw. mas vindicam e promulgam a tese do espaço vital. condenam os artigos de Versailles. mas reprovam com vigor as piratarias britânicas. Cansado. Mas ele ocorreu. para os quais a infinita repetição da interessante fórmula "sou argentino exime da honra e da piedade. que qualquer incerteza seria preferível a um diálogo com esses consangüíneos do caos. O livro foi Man and Superman. aplicam aos atos da Inglaterra o cânone de Jesus. a magia dos símbolos Paris e libertação seja tão poderosa que os partidários de Hitler se esqueceram de que significa uma derrota de suas armas. Ponderei.ANOTAÇÃO AO 23 DE AGOSTO DE 1944 Essa jornada populosa deparou-me três heterogêneos assombros: o grau físico de minha felicidade quando soube da libertação de Paris. muitos me acusarão de pesquisar um fato quimérico. Sei que investigar esse entusiasmo é correr o risco de parecer-me aos vãos hidrógrafos que indagavam por que basta um único rubi para deter o curso de um rio. mas opinam que a independência da América foi um erro. Logo de início entendi que seria inútil interrogar os protagonistas. e milhares de pessoas em Buenos Aires podem testemunhá-lo. um livro e uma lembrança me iluminaram. Esses versáteis. idolatram San Martín. Noites mais tarde. e a simples adesão à realidade eram explicações verossímeis do problema. De mais a mais. perderam por completo a noção de que ela deve ter alguma justificativa: veneram a raça germânica. a descoberta de que uma emoção coletiva pode não ser indigna. mas professam uma religião de origem hebréia. também. onde se afirma que o horror do Inferno é sua . abençoam a guerra submarina. e o temor.

Ignoro se os fatos que relatei pedem elucidação. que negou a existência substantiva do pecado e do mal e declarou que todas as criaturas. a que outrora teve o nome de Roma e que agora e a cultura do Ocidente. com Hércules. Creio poder interpretálos assim: para europeus e americanos. A lembrança foi daquele dia que é o perfeito e detestado reverso do 23 de agosto: o 14 de junho de 1940. Nesse dia. postado à porta.irrealidade. retornariam a Deus. no limite. como os infernos de Erígena. assim como os abutres de metal e o dragão (que não deviam ignorar sua condição de monstros) colaboraram. cujo nome não quero lembrar. João Escoto Erígena. Então compreendi que ele também estava apavorado. um pele-vermelha) é. Acrescentou que muito em breve esses exércitos entrariam em Londres. entrou em minha casa. essa doutrina pode comparar-se à de outro irlandês. brincar de ser um viking. colabora com os inevitáveis exércitos que o aniquilarão. Hitler. Algo que não entendi me conteve: a insolência do júbilo não explicava nem a estentorosa voz nem a brusca proclamação. um germanófilo. inclusive o Diabo. um tártaro. . uma impossibilidade mental e moral. O nazismo padece de irrealidade. os homens só podem morrer por ele. há uma ordem – uma única ordem – possível. Arrisco a seguinte conjetura: Hitler quer ser derrotado. anunciou a grande notícia: os exércitos nazistas tinham ocupado Paris. de mal-estar. nada poderia deter sua vitória. Toda oposição era inútil. de modo cego. um gaúcho. Senti um misto de tristeza. É inabitável. pode desejar que ele triunfe. mentir por ele. Ser nazista (brincar de barbárie enérgica. Ninguém. matar e ensangüentar por ele. na solidão central do próprio eu. um conquistador do século XVI. misteriosamente. de nojo.

a série 3. Confrontei várias críticas a Vathek. a série 9. todos preferem a biografia genealógica. outra. a biografia psiquiátrica. e quase infinito.. esta curiosa revelação feita no prefácio a uma biografia de Bolívar: "Neste livro fala-se tão escassamente de batalhas quanto no que o mesmo autor escreveu sobre Napoleão". a biografia cirúrgica. de seu comércio com a noite e com as auroras. 12. Ninguém se resigna a escrever a biografia literária de um escritor. não é. Não é inconcebível uma história dos sonhos de um homem. fascinado por suas mudanças de domicílio.. a biografia tipográfica. viajante. a biografia econômica.. dos órgãos de seu corpo. construtor de palácios e libertino. 21. 39. 33. outra. Simplifiquemos desmesuradamente uma vida: imaginemos que treze mil fatos a integram. O gracejo de Carlyle predizia nossa literatura contemporânea: agora. Tudo isso pode parecer uma completa quimera.. Chapman. 17. 13. Outro exemplo. mas prescinde de uma análise de Vathek.SOBRE O VATHEK DE WILLIAM BECKFORD Wilde atribui o seguinte gracejo a Carlyle: uma biografia de Michelangelo que omitisse toda menção às obras de Michelangelo. 22. outra. William Beckford. o paradoxo seria uma biografia de Michelangelo permitir alguma menção às obras de Michelangelo. Uma das hipotéticas biografias registraria a série 11. das falácias por ele perpetradas. grande senhor.. outra. 30. e só depois de ler muitas delas perceberíamos que seu protagonista é o mesmo. Tão complexa é a realidade. de biografias de um homem destacando fatos independentes. 21. infelizmente. O prefácio que Mallarmé escreveu para sua reimpressão de 1876 é pródigo em observações felizes (por exemplo: . a biografia militar de um soldado. destrincha (ou tenta destrinchar) sua vida labiríntica. de Fonthill. o autor... outra. seu biógrafo. Setecentas páginas in-oitavo compreende certa vida de Poe. mal consegue reservar um parêntese para o Maelström e para a cosmogonia de Eureka. bibliófilo. de todos os momentos em que ele imaginou as pirâmides. tão fragmentária e tão simplificada a história que um observador onisciente poderia escrever um número indefinido.. romance a cujas dez últimas páginas William Beckford deve sua glória. encarnou um tipo bastante comum de milionário. em 1943. outra. O exame de uma recente biografia de William Beckford (1760-1844) obriga-me a tais observações.

equipara sua prosa à de Voltaire e julga-o um dos homens mais vis de sua época. o Inferno é o castigo do pecador que pactua com os deuses do Mal. a ele será franqueado o Alcáçar do Fogo Subterrâneo. logo desaparece. os diademas dos sultões préadamitas e de Solimão Bendaud. que virá de uma terra desconhecida. O califa entrega-se às artes mágicas. Seguem-se muitos anos sangrentos.1 Arrisco o seguinte paradoxo: o mais ilustre dos avernos literários. os talismãs que subjugam o mundo. nono califa abássida) ergue uma torre babilônica para decifrar os planetas. Não mentiu o mercador: o Alcáçar do Fogo Subterrâneo é rico em esplendores e em talismãs. Um mercador chega à capital do império: seu rosto é tão terrível que os guardas que o conduzem à presença do califa avançam de olhos fechados. negra de abominações sua alma. 1 Da literatura. chega a uma montanha deserta. mas está escrito em um dialeto etimológico do francês. Gravados na folha há misteriosos caracteres cambiantes que burlam a curiosidade de Vathek. propõe-lhe abjurar a fé muçulmana e adorar os poderes das trevas. cujo instrumento será um homem sem par. nesta é o castigo e a tentação. 1928) tece opiniões sobre Beckford sem condescender a argumentos.) Saintsbury e Andrew Lang declaram ou sugerem que a invenção do Alcáçar do Fogo Subterrâneo é a maior glória de Beckford. Vathek desce às profundezas do mundo. o mercador exige quarenta sacrifícios humanos. o dolente regno da Comédia. Essencialmente. a voz do mercador. Sob suas abóbadas poderá contemplar os tesouros que os astros lhe prometeram. na escuridão. Vathek. Belloc (A Conversation with an Angel. 545. Uma silenciosa e pálida multidão de pessoas que não se olham erra pelas soberbas galerias de um palácio infinito. Estes auguram-lhe uma sucessão de prodígios. a fábula de Vathek não é complexa. para concluir em um subterrâneo encantado). de ingrata ou impossível leitura.faz notar que o romance se inicia no terraço de uma torre de onde se lê o firmamento. no décimo primeiro volume da Cambridge History of English Literature. "one of the vilest men of his time". O mercador vende uma cimitarra ao califa. mas também é o Inferno. e nas muitas lendas medievais que a prefiguraram. 554 – é de data anterior. O ávido califa cede. um dia significam: "Sou a menor maravilha de uma região onde tudo é maravilhoso e digno do maior príncipe da terra". . com terror e esperança. eu disse. (Na congênere história do doutor Fausto. não da mística: o eletivo Inferno de Swedenborg – De Coelo et Inferno. Talvez o julgamento mais lúcido seja o de Saintsbury. Se o fizer. Um homem (que logo desaparece também) consegue decifra-los. A terra se abre. Vathek (Harum Benalmotasim Vatiq Bilah. Eu afirmo que se trata do primeiro Inferno realmente atroz da literatura. outro: "Ai de quem temerariamente aspira a saber o que deveria ignorar".

por si só.. e que. é malvada. A versão inglesa de Henley consta do volume 856 da Everyman´s Library. Excedi-me em alguns exemplos. de Charles Baudelaire e de Huysmans. enumera cinco palácios dedicados aos cinco sentidos. em Adone. O original é infiel à tradução. Saintsbury observa que o francês do século XVIII é menos apto que o inglês para transmitir os "indefinidos horrores" (a expressão é de Beckford) da singularíssima história. A distinção é válida. e menos. águas-fortes elogiadas por Beckford. uma torre. que representam poderosos palácios que são também labirintos inextrincáveis. a nenhum livro anterior. a editora Perrin. de Paris. já descrevera cinco jardins análogos. revisado e prefaciado por Mallarmé. de Piranesi.não é um lugar atroz. Causa estranheza que a esmerada bibliografia de Chapman ignore essa revisão e esse prefácio. Chapman cita algumas obras que influenciaram Beckford: a Bibliothèque Orientale. Escreveu-a no idioma francês. La Princesse de Babylone. Eu complementaria essa lista com as Carceri d ´Invenzione. publicou o texto original. Buenos Aires. A Divina Comédia é o livro mais justificável e mais firme de todas as literaturas: Vathek é uma mera curiosidade. no Manuscrito Encontrado em uma Garrafa. the perfume and suppliance of a minute. os satânicos esplendores de Thomas de Quincey e de Poe. é um lugar onde ocorrem fatos atrozes. . os túneis de um pesadelo. para denotar o horror sobrenatural. de Voltaire. Stevenson (A Chapter on Dreams) conta que em seus sonhos infantis era perseguido por um matiz abominável da cor parda. que Vathek antecipa. esse epíteto (unheimlich. 1943. as sempre menosprezadas e admiráveis Mille et Une Nuits. no primeiro capítulo de Vathek. Henley traduziu-a para o inglês em 1785. Poe. algo. talvez tivesse bastado observar que o Inferno dantesco magnifica a idéia de uma prisão. o de Backford. Marino. cuja arquitetura. Beckford. Melville dedica muitas páginas de Moby Dick a elucidar o horror da brancura insuportável da baleia. de Barthélemy d´Herbelot. os Quatre Facardins.. de Galland. creio. mesmo que de modo rudimentar. o epíteto uncanny. Há um intraduzível epíteto inglês. IV) imagina que nos confins ocidentais do mundo existe talvez uma árvore que já é mais. Chesterton (The Man Who Was Thursday. nos confins orientais. Só de três dias e duas noites do inverno de 1782 precisou William Beckford para redigir a trágica história de seu califa. de Hamilton. que eu me lembre. fala de um mar austral onde o volume do navio cresce como o corpo vivo do marinheiro. contudo. em alemão) é aplicável a certas páginas de Vathek. que uma árvore.

reduzindo-os a figuras de circo. o . mas é indispensável uma ordem secreta que as governe e que se descubra gradualmente. louco e altissonante. Lembrei alguns exemplos famosos. e vêm a seu encontro as aventuras.) Kipling inventa um Amiguinho do Mundo Inteiro. ascético. um vilão carnudo. o gênero é complexo. Além disso. Do gênero de romances que aqui considero.) Aponto essas falhas sem animadversão. em segundo. nosso Lugones já insinuou essa recriminação. século XVII). (No sétimo capítulo de E1 Payador. dar-lhe o horrível ofício de espião. faço-o para julgar The Purple Land com igual sinceridade. o libérrimo Kim. escrita cerca de trinta e cinco anos mais tarde. urgido por não sei que patriótica perversão. baixo. Cervantes mobiliza dois tipos: um fidalgo "seco de carnes". (Em sua autobiografia literária. as sete viagens de Simbad. para. os mais rudimentares buscam a mera sucessão de aventuras. Kipling mostra-se impenitente e até inconsciente. alguns capítulos adiante. a incoerência e a variedade não são impraticáveis. tão elementar que o nome de fórmula sutilmente a difama e desvirtua. essa disparidade tão simétrica e persistente acaba por subtrair-lhes realidade. sensato e espirituoso. pela conotação mesquinha da palavra. a mera variedade. em primeiro lugar. comilão. Chamar essas ficções de romances picarescos parece-me injustificado.SOBRE THE PURPLE LAND Esse romance primigênio de Hudson é redutível a uma fórmula tão antiga que quase pode compreender a Odisséia. alto. por suas limitações locais e temporais (século XVI espanhol. A esse gênero nômade e venturoso pertencem O Asno de Ouro e os fragmentos do Satiricon. Pickwick e o Dom Quixote. o Kim de Lahore e o Segundo Sombra de Areco. A desordem. talvez nenhum esteja isento de defeitos evidentes. O herói põe-se a caminhar.

talvez forneçam o exemplo mais puro. Isso não quer dizer que The Purple Land seja inatacável. Em outros (que correspondem a uma etapa ulterior). descreveu e comentou. falseada por bravatas e . Padece de um erro evidente. é o caso da primeira parte do Dom Quixote. tem dois argumentos. só por meio dos sedentários volumes da Histoire Générale des Voyages e das epopéias homéricas. pastoril.. acostumado a essas coisas. Penso nas do final: são bastante complicadas para cansar a atenção. pintor nem intérprete semelhante a Hudson. Nesses enfadonhos capítulos. em todos os seus romances. Hernández é uma parcela desse cosmorama da vida argentina que Hudson cantou. No número 31 da revista Sur. As páginas finais de The Purple Land.. Aria por Arias. Suas Wanderjahre são também Lehrjahre. de Mark Twain.. Talvez nenhuma obra da literatura gauchesca supere The Purple Land.. que é lógico imputar às contingências da improvisação: a vã e cansativa complexidade de certas aventuras. sua gradual conversão a uma moralidade bravia que lembra um pouco Rousseau e prevê um pouco Nietzsche. invisível: o venturoso acrioulamento de Lamb.Marujo. mas não para despertá-la. Hudson parece não entender que o livro é sucessivo (quase tão puramente sucessivo quanto o Satiricon ou El Buscón) e o entorpece com artifícios inúteis. visível: as aventuras do rapaz inglês Richard Lamb na Banda Oriental do Uruguai. Ezequiel Martínez Estrada afirma: "Nossas coisas nunca tiveram poeta. A circunstância de o narrador ser um inglês justifica certos esclarecimentos e certas ênfases necessárias para seu leitor e que seriam anômalas em um gaúcho. Essa ficção. o movimento é duplo. Gumesinda por Gumersinda) nos escamoteassem essa verdade. Hudson sentiu na própria carne os rigores de uma vida semibárbara. O primeiro. do Huckleberry Finn. Nelas o herói é um mero sujeito. The Purple Land é fundamentalmente crioula. na realidade. nem nunca o terão. O segundo. recíproco: o herói modifica as circunstâncias. de The Purple Land. incorre em prolixidades análogas. os fatos cumprem a função de mostrar o caráter do herói. O Martín Fierro (em que pese ao projeto de canonização de Lugones) é menos a epopéia de nossas origens – em 1872! – que a autobiografia de um faquista. íntimo. tão impessoal e passivo quanto o leitor. É o caso da segunda parte do Quixote. Rousseau e Nietzsche. quando não suas absurdidades e manias. Sem dúvida. Em outros (pouco mais complexos). encerram a máxima filosofia e a suprema justificação da América perante a civilização ocidental e os valores da cultura acadêmica". Seria deplorável que alguma distração topográfica e três ou quatro erros ou erratas (Camelones por Canelones. o âmbito que The Purple Land abrange é incomparavelmente maior. Trata-se de um erro assaz difundido: Dickens. por exemplo. as circunstâncias modificam o caráter do herói. Como se vê. Martinez Estrada não hesitou em preferir a obra total de Hudson ao mais insigne dos livros canônicos de nossa literatura gauchesca.

antes da batalha. Güiraldes emposta a voz para narrar os trabalhos cotidianos do campo. a paradoxal razão dessa primazia é a existência de uma grande cidade. no artigo sobre Bunyan. Essa escolha propícia permite-lhe enriquecer o destino de Richard Lamb com o acaso e a variedade da guerra – acaso que favorece as circunstâncias do amor errante. a montonera. como Eduardo Gutiérrez) narra com a maior naturalidade fatos talvez atrozes. Embora nascido na província de Buenos Aires. Martín Fierro nas letras – consegue certa notoriedade policial com uma rebelião matreira. a despeito da veracidade dos diálogos. A frase (uma das mais memoráveis que o trato das letras me deparou) é típica do homem e do livro. escolhe para as andanças de seu herói as coxilhas da outra banda do rio. O gaúcho é homem taciturno. de quatrocentas páginas cada um. na secreta margem de um rio. caberia replicar. mas tudo isso aparece fragmentário e secreto em três volumes incidentais. Quando muito. Hudson. Buenos Aires. mãe de insignes literatos "gauchescos". Hudson conta que iniciou muitas vezes o estudo da metafísica. Hudson (como Ascasubi. o que toma duplamente injustificável esse gigantismo teatral que eleva um arreio de novilhos a um episódio de guerra. Manda a cidade. Outro acerto de Hudson é o geográfico. o gaúcho ensimesmado pitando com fruição o tabaco negro. maravilhase de que. o gaúcho desconhece. é estragado pelo afã de magnificar as tarefas mais inocentes. comprovaremos que essa glorificada gaucharia pouca influência exerceu nos destinos de sua província. só aparece em Buenos Aires de modo esporádico. Melhor para a veracidade do retrato. O organismo típico da guerra gaúcha. mostrá-lo autobiográfico e efusivo já é deformá-lo. ou despreza. as imaginações de um homem tornem-se lembranças pessoais de muitos outros. nenhuma nos do país. como Hernández. em vez de interrogar a literatura. Ninguém ignora que seu narrador é um gaúcho. mais coragem. a moça que se entrega a um forasteiro. Na literatura argentina. Macaulay. com o tempo. mandam os caudilhos da cidade. secundário. as complexas delícias da memória e da introspecção. como já disse. mais felicidade. Apesar do brusco sangue . ele escolhe a terra cárdea onde a montonera fatigou suas primeiras e últimas lanças: o Estado Oriental do Uruguai. Se. os gaúchos são exclusivos da província de Buenos Aires. Melhorando até a perfeição uma frase divulgada por Boswell. mas sempre foi interrompido pela felicidade. Em Ascasubi há traços mais vívidos.lamentações que quase profetizam o tango. Don Segundo Sombra. nos ativermos à história. Alguém há de observar que em The Purple Land o gaúcho não aparece senão de modo lateral. As de Hudson perduram na memória: os tiros britânicos retumbando na noite de Paysandú. no círculo mágico dos pampas. algum indivíduo – Hormiga Negra nos documentos judiciais.

1941. . claro. Miller. Cunningham. Hudson. Buenos Aires. também de sabor quase paradisíaco. em sua hospitalidade para receber todas as vicissitudes do ser. amigas ou aziagas. penso na têmpera venturosa de Richard Lamb. Graham. os espanhóis). de Mark Twain. Uma observação última. Burton. Perceber ou não os matizes crioulos pode parecer trivial. também americano. o patético Whitman impôs a si mesmo.) Não penso no debate caótico entre pessimistas e otimistas. é o Huckleberry Finn. dentre todos os estrangeiros (sem excluir. mas o fato é que. (Outro. inexoravelmente. The Purple Land é dos pouquíssimos livros felizes que há na terra. o inglês é o único a percebê-los. não penso na felicidade doutrinária que. Robertson.derramado e das separações.

DE ALGUÉM A NINGUÉM No princípio. homem entre os homens. no texto original é um superlativo de rei: "Propriedade é da língua hebréia – diz Frei Luis de León – dobrar assim iguais palavras. o incógnito autor do Corpus Dionysiacum declara que a Deus não convém nenhum predicado afirmativo. propagam-se as palavras onipotente. ou Scotus. onipresente. plural que alguns chamam de majestade e outros de plenitude e que muitos crêem ser um eco de anteriores politeísmos ou uma premonição da doutrina. um Alguém corporal que os séculos irão agigantando e esbatendo. O sujeito de tais locuções é indiscutivelmente Alguém. Sou Aquele que Sou. tudo se pode negar. onisciente. Dizer então Cântico dos cânticos é o mesmo que em vernáculo dizer Cântico entre os cânticos. Deus dos Exércitos. Schopenhauer anota secamente: "Essa teologia é a única verdadeira. declarada em Nicéia. antes reservado aos adjetivos da natureza ou de Júpiter. Apesar da imprecisão que o plural sugere. Escritos em grego. o Irlandês. em um lugar da Escritura. como dizem as versões inglesas. o Servo dos Servos de Deus. É definido por traços humanos. como as outras. Essa nomenclatura. por oposição. Nada se deve afirmar d´Ele. seja para bem ou para mal. de que Deus é Uno e Triplo. isto é. Este último. Pedra de Israel. que fazem de Deus um respeitável caos de superlativos inimagináveis. que sem dúvida inspirou. isto é. "Porque eu Jeová teu Deus sou um Deus ciumento" e em outro. cujo nome na história ficou Escoto . Seus títulos variam: Fortaleza de Jacó. in the cool of the day. Deus é os Deuses (Elohim). "Falei no calor de minha ira". Rei dos Reis. os tratados e as cartas que formam o Corpus Dionysiacum encontram no século IX um leitor que os verte ao latim: Johannes Eríugena. Nos primeiros séculos de nossa era. João. o primeiro versículo da Lei diz literalmente: "No princípio fez os Deuses o céu e a terra". de Gregório Magno. chama-se Jeová Deus e lemos que passeava pelo jardim na brisa do dia ou. quando se quer encarecer alguma coisa. Elohim é concreto. parece limitar a divindade: em fins do século V. lê-se "Arrependeu-se Jeová de ter feito homem na terra e isto pesoulhe no coração" e em outro. Elohim rege os verbos no singular. assinalado e eminente entre todos e mais excelente que outros muitos". mas não tem conteúdo". os teólogos habilitam o prefixo omni-.

João. Dryden declara-o o Homero dos poetas dramáticos da Inglaterra. Hugo. mas como a substância capaz de infinitas modificações. os últimos. e que se houvesse tantos Ganges como grãos de areia há no Ganges. que é a única realidade. no início do século XIX. afirma que o rei Lear e Falstaff nada mais são que modificações da mente de seu inventor. . o abismo em que foram gerados os arquétipos e depois os seres concretos. que abdica do poder e sai pedindo esmola pelas ruas: "Doravante não tenho reino ou meu reino é ilimitado.1 Ser uma coisa é inexoravelmente não ser todas as outras. mas admite que muitas vezes é insípido e empolado. são o universo. esse ditame é recriado por Coleridge. O processo que acabo de ilustrar está longe de ser aleatório. Este formula uma doutrina de índole panteísta: as coisas particulares são teofanias (revelações ou aparições do divino) e por trás de tudo está Deus. mas era tudo o que são os demais. exceto em sua semelhança com todos os homens. é mais que sapiente. que é uma sementeira de formas possíveis. Deus é o nada primordial da creatio ex Nihilo. é ser tudo. ou o que podem ser". "mas que não sabe o que é.Erígena. Para defini-1o." Hazlitt corrobora ou confirma: "Shakespeare era em tudo semelhante a todos os homens. e sim uma variante literária do infinito Deus de Spinoza. E Nada e Nada. no sono profundo. para quem Shakespeare já não é um homem. e mais uma vez tantos Ganges como grãos de areia nos novos Ganges. Intimamente não era nada. equipara-o ao oceano. intui a infinita concatenação de todos os efeitos e causas do universo. podemos observá-la inequivocamente no caso de Shakespeare. o número de grãos de areia seria menor que o número de coisas que Buda ignora. Analogamente. a figura se repete. Os primeiros textos narram que Buda. recorre à palavra Nihilum. Essa falácia está nas palavras daquele rei legendário do Industão. em 1774. é mais que bom. "A pessoa Shakespeare – escreve – foi uma natura naturata. foi a ele revelado não como abstraído da observação de uma pluralidade de casos. Irlandês Irlandês. são Deus. A magnificação até o nada ocorre ou tende a ocorrer em todos os cultos. aqueles que o conceberam assim procederam com o sentimento de que isso é mais do que ser um Quem ou um Quê. Seu contemporâneo Ben Jonson ama-o sem chegar à idolatria. de certo modo. Não é sapiente. porque não é um quê. e é incompreensível a si mesmo e a toda inteligência". on this side Idolatry. que é o nada. as passadas e futuras encarnações de cada ser. um efeito. não é bom. das quais sua existência pessoal era apenas uma. ao pé da figueira. a confusa intuição dessa verdade induziu os homens a imaginar que não ser é mais que ser algo e que. o discursivo século XVIII procura engrandecer suas virtudes e censurar suas falhas: Maurice Morgan. ou seja. mas o universal. depois. Samkara ensina que os homens. o Irlandês. afirmam que nada é real e que todo conhecimento é fictício. escritos séculos mais tarde. que se encontra potencialmente no particular. doravante meu 1 No budismo. inescrutavelmente excede e recusa todos os atributos.

uma delas é o processo que esta página denuncia. Schopenhauer escreveu que a história é um infindável e perplexo sonho das gerações humanas. no sonho há formas que se repetem. . 1950.corpo não me pertence ou pertence-me a terra inteira". Buenos Aires. talvez não haja nada além de formas.

compõe figuras de múltiplos braços e rostos. a mãe de Siddhartha sonha que em seu lado direito entra um elefante. Buda declarou que essa reflexão o induziu a abandonar sua própria casa e seus pais e a vestir a roupa amarela dos ascetas. o elefante. são eles: uma criança. O Juiz das Sombras (nas mitologias do Industão. Não o é para os hindus. rodas ou cilindros que giram em torno de um eixo. 130) e que provavelmente nunca a vinculou a sua própria vida. há um homem velho. embora estejam sujeitas à morte. o pré-Buda. um aleijado. outro registra a parábola dos cinco mensageiros secretos enviados pelos deuses. o Bodhisattva. o número seis é habitual (seis vias de transmigração. é filho de um grande rei. um criminoso sob suplicio e um morto. da cor da neve e com seis presas. para sugerir que Deus é o todo. 2 Essa metáfora pode ter sugerido aos tibetanos a invenção das máquinas de rezar. pura fealdade. A realidade pode ser complexa demais para a transmissão oral. a multiplicação das presas não pode incomodar os espectadores de uma arte que. seis pontos cardeais. forjou outra história. Na noite de sua concepção. um doente ou um morto. um homem doente e um homem morto. animal doméstico.1 Os adivinhos interpretam que seu filho reinará sobre o mundo ou fará girar a roda da doutrina2 e ensinará aos homens como livrar-se da vida e da 1 Esse sonho é. por ser o primeiro homem a morrer) pergunta ao pecador se não viu os mensageiros. Suddhodana. contando o zênite e o nadir.FORMAS DE UMA LENDA Às pessoas repugna ver um velho. às doenças e à velhice. um velho encurvado. é símbolo de mansidão. Yama cumpre essa função. a lenda a recria de uma maneira que só acidentalmente é falsa e que lhe permite correr o mundo de boca em boca. caducar. confundindo-os. sofrer justo castigo e morrer. e avisam que nosso destino é nascer. este admite que sim. basta-nos saber que ele a transmitiu (Majjhima Nikaya. adoecer. para nós. Tanto na parábola como na declaração. . cheias de tiras de papel enroladas nas quais se repetem palavras mágicas. seis Budas anteriores a Buda. Pode ser que essa ameaçadora parábola não seja invenção de Buda. seis divindades que o Yajurveda chama "as seis portas de Brama"). O testemunho consta de um dos livros do cânone. Siddhartha. mas não decifrou seu aviso. o tempo fez dos dois textos um só e. os esbirros trancam-no em uma casa cheia de fogo. da estirpe do sol.

ao sul. um indólogo contemporâneo. em meados do século XIII. inclusive o holandês e o latim. No início do século VII. e morrer é a lei de todo aquele que nasce. a pedido do Haakon Haakonarson. mas Siddhartha. Quatro saídas de Siddhartha e quatro figuras didáticas não condizem com os hábitos do acaso. os astrólogos predizem que ele reinará sobre um reino maior. Pergunta que homem é esse. o cocheiro explica que é um velho e que todos os homens da terra serão como ele. Siddhartha. em terras ocidentais. A paz está em seu rosto. Josafá (Josafat Bodhisattva) é filho de um rei da índia. para comemorar esses encontros. por fim. Essa versão cristã da lenda foi traduzida para muitos idiomas. de Menéndez y Pelayo. foi composta na Islândia. Foucher. "cujos cabelos não são como os dos outros. de um leproso e de um moribundo e. outras são como grandes moinhos movidos pela água ou pelo vento. mas em outra saída vê um homem sendo devorado pela febre. explicam-lhe. dedicados ao deleite dos sentidos. porém. que é o da Glória. coberto de lepra e de chagas. sai em sua carruagem e vê com estupor um homem encurvado. A. O rei prefere que Siddhartha conquiste a grandeza temporal e não a eterna. vê um monge das ordens mendicantes que não deseja nem morrer nem viver. cujo corpo não é como o dos outros". uma manhã.morte. em sua continuação das Décadas. a leste e a oeste das muralhas. as analogias da falsa fábula indiana com a verdadeira e piedosa história de São Josafá. Hardy (Der Buddhismus nach älteren Pali-Werken) elogiou o colorido dessa lenda. Assim transcorrem vinte e nove anos de ilusória felicidade. Tudo isso e muito mais o leitor poderá encontrar no primeiro volume de Orígenes de la Novela. inquieto. o cocheiro explica que é um doente e que ninguém está livre desse perigo. Em outra saída. No início do século V de nossa era. admitida a ignorância prévia do Bodhisattva. . ordena voltar imediatamente. um monge cristão escreveu o romance intitulado Barlaão e Josafá. cujo tom sarcástico nem sempre é inteligente ou urbano. de onde é retirado tudo o que pode revelar que ele é corruptível. é convertido à fé pelo ermitão Barlaão. Siddhartha acaba de encontrar o caminho. Em outra saída vê um homem sendo conduzido em um féretro. que caminha apoiado em uma bengala e cuja carne treme. o homem imóvel é um morto. escreve que. O cardeal César Barônio incluiu Josafá em sua revisão (1585-1590) do Martirológio Romano. o monge Fa-Hsien peregrinou aos reinos do Industão em busca de livros sagrados e viu as ruínas da cidade de Kapilavastu e quatro imagens que Açoka erigiu. ao norte. a história não carece de gradação dramática nem de valor filosófico. e trata de recluí-lo em um palácio. Diogo do Couto denunciou. o rei confina-o em um palácio. a última. uma Barlaams Saga. determinou que Buda fosse canonizado por Roma tinha. mas Josafá descobre o infortúnio da condição humana na figura de um cego. A lenda que. em 1615. um defeito: os encontros que ela postula são eficazes mas inverossímeis. Menos atentos ao estético que à conversa Algumas são manuais.

Buda. diz-se que os deuses criaram um morto e que nenhum homem o viu enquanto o levavam. que é outro sonha. ele fixou o período. já sabe quem são e o que representam. dirige cada etapa de seu destino. com outra mitologia ou vocabulário.) A humanidade do Filho. Assim. o da terra as padece ou executa. Lalitavistara. um jogo ou um sonho é para o Mahayana. Siddhartha escolhe sua nação e seus pais. quando interroga o cocheiro. o enigma merece em meu entender. no estranho poema. Siddhartha ordena que outra forma declare o sentido das primeiras. por que me abandonaste?". 1. no terceiro livro da epopéia sânscrita Buddhacarita. ensinam que o mundo é ilusório. oitenta mil tambores acompanham as palavras de seu discurso e o corpo de sua mãe tem a força de dez mil elefantes.. Foucher vê nisso um mero servilismo dos autores. que ensina que o Buda temporal é emanação ou reflexo de um Buda eterno. tais sutilezas dogmáticas. porém. revela o texto da obra aos deuses.3 o mundo.. . o do céu ordena as coisas. Para desatar o problema não são indispensáveis. a de Buda. que não podem tolerar que Buda não saiba o que sabe um criado. a história do Redentor é inflada até a opressão e até a vertigem. as quatro aparições são quatro metamorfoses de um deus (Wieger: Vies Chinoises du Bouddha. o continente. e a roda das 3 Rhys Davids suprime essa locução introduzida por Burnouf. tudo isso é razoável se o entendermos como um sonho de Siddhartha. instalado no quarto céu. para Koeppen (Die Religion des Buddha. aos olhos do budismo do Norte. 82). Dessa compilação em verso e prosa. Buda cria as imagens e em seguida indaga a um terceiro o sentido que encerram. fala em inconsciente. o reino e a casta em que renasceria para morrer pela última vez. em suas páginas. O Buda. Em uma biografia lendária do século XVI. na última forma da lenda. analogamente. escrita em sânscrito impuro. o leproso. e os prosélitos. (Nosso século. e em particular o budismo. pois. costuma-se falar com certa ironia. exceto o cocheiro e o príncipe. basta lembrar que todas as religiões do Industão. faz as divindades projetarem as quatro figuras simbólicas e. meu Deus. segunda pessoa de Deus pôde gritar da cruz: "Meu Deus. rodeado por doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas. os doutores quiseram justificar essa anomalia. Teologicamente.das pessoas. que teriam feito o leitor se deter. Mais longe foi o Lalitavistara. 37-41). talvez coubesse responder: o livro é da escola do Mahayana. mas seu emprego nessa frase é menos incômodo que o de grande Travessia ou Grande Veículo. Melhor ainda se o entendermos como um sonho em que aparece Siddhartha (assim como aparecem o leproso e o monge) e que não é sonhado por ninguém. e o Nirvana. o morto e o monge são simulacros produzidos pelas divindades para instruir Siddhartha. Siddhartha produz quatro formas que o encherão de estupor. ode espantarse com formas criadas por sua própria divindade. outra solução. "Minuciosa relação do jogo" (de um Buda) é o que quer dizer. a vida de Buda sobre a terra. segundo Winternitz.

feita de verdade substancial e de erros fortuitos. todas as gerações e o universo. Paradoxalmente. As vastas formas e os vastos algarismos (o capítulo X11 inclui uma série de vinte e três palavras que indicam a unidade seguida de um número crescente de zeros. e Buda são igualmente irreais. . não me surpreenderia que minha história da lenda fosse legendária. O irreal. A cronologia do Industão é incerta. lemos em um famoso tratado. ênfases do Nada. incluído o livro que o declara e o homem que o lê. foi erodindo a história. e em outro lugar está escrito que tudo é mera vacuidade. de 9 a 49. Oscar Wilde propôs uma variante. primeiro tornou fantásticas as figuras. muito mais. depois o príncipe e. minha erudição. Koeppen e Hermann Beckh talvez sejam tão falíveis quanto o compilador que arrisca esta nota. Em fins do século XIX. o príncipe feliz morre na reclusão do palácio. sem ter descoberto a dor. não acrescentam realidade.transmigrações. os excessos numéricos do poema subtraem. mero nome. mas sua efígie póstuma a divisa do alto do pedestal. doze mil monges e trinta e dois mil Bodhisattvas são menos concretos que um monge e que um Bodhisattva. Ninguém se extingue no Nirvana. assim. 51 e 53) são imensas e monstruosas bolhas. com o príncipe. porque a extinção de inumeráveis seres no Nirvana é como a desaparição de uma fantasmagoria que um feiticeiro cria em uma encruzilhada por meio de artes mágicas.

39) e por Chesterton (G. à estátua. a alegoria é um erro estético. por Francesco De Sanctis (Storia della Letteratura Italiana. guiado por Virgílio. do Adone. Na página 222 do livro La Poesia (Bári. À Jerusalém adiciona-se uma página em prosa que expressa outro pensamento do poeta. 198). de Marino. As palavras de Croce são cristalinas. (Meu primeiro propósito foi escrever "não é outra coisa senão um erro da estética".) Que eu saiba. ao Adone. Watts. o suposto símbolo é a exposição de um conceito abstrato. Se o símbolo for concebido como separável. que sempre tem caráter ideal. acrescentadas a uma obra concluída. opino que aquele está com a razão. 83). ou arte arremedando a ciência. 1946). é uma alegoria. o poeta da lascívia. mas gostaria de saber como uma forma que nos parece injustificável pôde desfrutar de tantos favores. por De Quincey (Writings. chega . será sinônimo da intuição mesma. Mas também devemos ser justos com o alegórico e advertir que em alguns casos é inócuo. São expressões que extrinsecamente se adicionam a outras expressões. diante de uma estátua. mas logo me dei conta de que minha sentença comportava uma alegoria. recair-se-á em um erro intelectualista.DAS ALEGORIAS AOS ROMANCES Para todos nós. por Croce (Estetica. é ciência. Chesterton a vindica. e sim uma sorte de escrita ou de criptografia". I. Croce não admite diferença entre conteúdo e forma. limitar-me-ei aos dois últimos. Esta é aquele e aquele é esta. o escultor pode pôr um cartaz dizendo que se trata da Clemência ou da Bondade. um verso ou uma estrofe que expressa o que o poeta quer dar a entender. XI. neste ensaio. VII). basta-me repeti-las em vernáculo: "Se o símbolo for concebido como inseparável da intuição artística. Croce nega a arte alegórica. a reflexão de que o prazer desmedido leva à dor. Da Jerusalém Libertada pode-se extrair qualquer moralidade. A alegoria parece-lhe monstruosa porque aspira a cifrar em uma forma dois conteúdos: o imediato ou literal (Dante. a palavra clemência ou a palavra bondade". podendo-se por um lado expressar o símbolo e por outro a coisa simbolizada. F. não a prejudicam. o gênero alegórico foi analisado por Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung. 50). Tais alegorias. o tom é mais hostil: "A alegoria não é um modo direto de manifestação espiritual.

que figurou a história de sua paixão em Vita Nuova. começa por negar que a linguagem esgote a expressão da realidade. é o mapa do universo. um signo de outros signos da virtude valorosa e das iluminações secretas que essa palavra indica. Como explicar essa discórdia sem recorrer a uma petição de princípio sobre a volubilidade dos gostos? Coleridge observa que todos os homens nascem aristotélicos ou platônicos. vertida e comentada por Boécio. Aristóteles. há lugar para outras. Sentimos que. todos invocam Aristóteles. que Anselmo e Roscelino mantiveram em fins do século XI e que William de Occam reanimou no século XIV. é tola e frívola.. Julga que essa maneira de escrever comporta laboriosos enigmas. Segundo a opinião de George Henry Lewes. Convívio. a alegoria pode ser uma delas. Um signo mais preciso que o monossílabo. Kant. consta de vinte e quatro mil versos) e agora é intolerável. . Os últimos intuem que as idéias são realidades.a Beatriz) e o figurado (o homem enfim alcança a fé. além de intolerável. 2). teriam entendido esse sentimento. para aqueles. William James. os realistas são Platão. Nem Dante. no entanto. que esses matizes. mas destaca a importância dessa controvérsia tenaz que uma sentença de Porfírio. para estes. pode ser um erro ou uma ficção de nosso conhecimento parcial. para vindicar o alegórico. mas não é uma linguagem da linguagem. Crê. mais inumeráveis e mais anônimos que as cores de um bosque outonal. para o aristotélico. se os nominalistas são Aristóteles. mais rico e mais feliz. os primeiros. sei que a arte alegórica pareceu em algum momento encantadora (o labiríntico Roman de la Rose. O platônico sabe que o universo é de certo modo um cosmos. provocou nos inícios do século IX. Spinoza. essa ordem. o De Consolatione. a linguagem não passa de um sistema de símbolos arbitrários. Hume. que são generalizações. Nas árduas escolas da Idade Média. os dois antagonistas imortais mudam de dialeto e de nome: um é Parmênides." Declarada a insuficiência da linguagem. como a arquitetura ou a música. em todas as suas fusões e conversões. o juízo é temerário. Chesterton. IV. guiado pela razão). Locke. Não sei muito bem qual dos eminentes contraditores tem razão. Através das latitudes e das épocas. Heráclito. Platão. que perdura em duzentos manuscritos. nem o romano Boécio. o outro. Crê que mesmo de dentro de um corretor da Bolsa realmente saem ruídos que significam todos os mistérios da memória e todas as agonias do desejo. uma ordem. podem ser representados com precisão por meio de um mecanismo arbitrário de grunhidos e chiados.. mestre da humana razão (Dante. à sombra da espada de seu carrasco. mas. "O homem sabe que há na alma matizes mais desconcertantes. Francis Bradley. escrevendo na torre de Pavia. o único debate medieval com algum valor filosófico é o que confrontou nominalismo e realismo. É feita de palavras.

não os gêneros. Maurice de Wulf escreve: "O ultra-realismo recolheu as primeiras adesões. sua vitória é tão vasta e fundamental que seu nome é inútil. Mas procuremos entender que. A passagem da alegoria ao romance. entretanto. A história da filosofia não é um vão museu de distrações e jogos verbais. os indivíduos. . De tais conceitos (cuja manifestação mais clara talvez seja o quádruplo sistema de Erígena) adveio. é possível afirmar que para o realismo o primordial eram os universais (Platão diria as idéias. e sim Deus. demandou alguns séculos. mas ouso apontar uma data ideal. não as espécies. em toda alegoria há algo de romanesco. O cronista Heriman (século XI) denomina antiqui doctores aqueles que ensinam a dialética in re. Buenos Aires. o substantivo não eram os homens. e até o fim do século XII seus adversários são chamados pelo nome de moderni". a literatura alegórica. outrora novidade de uns poucos. tantos anos multiplicaram até o infinito as posições intermediárias e as distinções. assim como o romance o é de indivíduos. as duas teses correspondem a duas maneiras de intuir a realidade. por isso. com o punhal sob a capa"). e para o nominalismo. de espécies a indivíduos. nós. 1949. hoje abarca todas as pessoas. em Knightes Tale. e sim a espécie. os romances contêm um elemento alegórico. que talvez não se julgasse nominalista. e sim o gênero. O original está no sétimo livro da Teseida. Uma tese agora inconcebível pareceu evidente no século IX e de certo modo perdurou até o século XIV O nominalismo. Os indivíduos que os romancistas propõem aspiram a ser genéricos (Dupin é a razão. verossimilmente. e sim a humanidade. As abstrações são personificadas. tentou traduzir para o inglês o verso de Boccaccio "E con gli occulti ferri i Tradimenti" ("E com ferros ocultos as Traições") e o reproduziu deste modo: "The smyler with the knyf under the cloke" ("Aquele que sorri. Aquele dia de 1382 em que Geoffrey Chaucer. a versão. as formas. em meu entender. para os homens da Idade Média. Dom Segundo Sombra é o Gaúcho). os conceitos abstratos). Ninguém se declara nominalista porque não há quem seja outra coisa. Abelardo refere-se a ela como uma "antiga doutrina". Esta é fábula de abstrações.Como era de esperar. do realismo ao nominalismo. não os indivíduos.

temos: "d´ogni luce muto" e "dove il sol tace" para significar lugares escuros. aventou a perturbadora fantasia de uma biblioteca universal.1 A literatura não é esgotável. When she deserts the night Hid in her vacant interlunar cave. que registrasse todas as variações dos vinte e tantos símbolos ortográficos. subdivididos em setores com palavras latinas. Na Comédia (Inferno. . a julgar por certas passagens que parecem imitativas. mas exageram uma propensão que é comum: fazer da metafísica. Kurd Lasswitz. ou seja. Raimundo Lúlio (Ramón Llull) prontificou-se a elucidar todos os arcanos mediante um mecanismo de discos concêntricos. I. em todas as línguas. uma sorte de jogo combinatório. no início do século XIX. a escuridão que permitiu aos gregos entrar na cidadela de Tróia. ou que uma série de estruturas verbais. enquanto na Eneida significaram o interlúnio. e a entonação que impõe a sua voz.. e as mutáveis e duradouras imagens que ele deixa na memória. Cf.. e das artes. desiguais e giratórios. John Stuart Mill. no Samson Agonistes (86-89): The Sun to me is dark And silent as the Moon. Tillyard: The Miltonic Setting. E. o temor de Mill e a caótica biblioteca de Lasswitz podem ser objeto de escárnio. M. Aqueles que praticam esse jogo esquecem que um livro é mais que uma estrutura verbal. silenciosa e resplandecente. 28). Esse diálogo é infinito. 60.NOTA SOBRE (PARA) BERNARD SHAW Em fins do século XIII. V. temeu que um dia se esgotasse o número de combinações musicais e que no futuro não houvesse lugar para indefinidos Webers e Mozarts. 101. é o diálogo que trava com seu leitor. em fins do XIX. A máquina de Lúlio. pela 1 Assim foi interpretada por Milton e Dante. as palavras amica silentia lunae significam agora a lua íntima. tudo que é possível exprimir.

mas sentese mais o valor de Dom Quixote. por obra do metódico acaso. . Com a literatura ocorre o mesmo. Isso nos leva a um problema estético até hoje não formulado: pode um autor criar personagens superiores a ele? Eu responderia que não. em função de uma experiência de Heráclito. sobretudo. Blanco Posnet. apresenta a mesma doutrina. deveríamos concebê-la em função de Heráclito. Herrera y Reissig). pode emitir observações inteligentes e transparecer estupidez. uma forma de relação.2 mas Lavínia. a fonte de suas eloqüentes tiradas e das idéias expostas em seus prefácios pode ser encontrada em Schopenhauer e em Samuel Butler. Se a literatura não fosse mais que uma álgebra verbal. para que tivesse alguma virtude. é um eixo de inumeráveis relações. Renan. Richard Dudgeon e. basta experimentar os verbos intransitivos para descobrir a segunda e. Shotover. Penso que de nós não saem criaturas mais lúcidas nem mais nobres que nossos melhores momentos. dada a primeira. Flaubert) e. além de muitíssimas outras. os gracejos dos Pleasant Plays correm o risco de um dia tornarem-se não menos incômodos que os de Shakespeare (o humorismo é. As questões sindicais e municipais de suas primeiras obras perderão o interesse. de Swedenborg. no pior. e sim um estado que os pecadores mortos escolhem por motivos de íntima afinidade. mesmo que "Heráclito" fosse apenas o presumível sujeito dessa experiência. A concepção da literatura como jogo formal leva. qualquer um poderia produzir qualquer livro. obter essa filosofia. um gênero oral. Em Man and Superman lê-se que o Inferno não é um estabelecimento penal. Afirmei que um livro é um diálogo. não uma coisa escrita). ulterior ou anterior. à força de provar variantes. como os bemaventurados o Céu. se é que já não o perderam. no diálogo. um súbito favor da conversa. O livro não é um ente incomunicado: é uma relação. Uma literatura difere da outra.suficiente e simples razão de que um único livro não o é. D´Artagnan executa inúmeras façanhas enquanto Dom Quixote é surrado e escarnecido. por exemplo – como será lida no ano 2000. publicado em 1758. menos pelo texto que pelo modo que é lida: se me fosse dado ler qualquer página atual – esta. um interlocutor não é a soma ou a média daquilo que diz: pode não falar e transparecer que é inteligente. eu saberia como será a literatura do ano 2000. Caberia responder que a fórmula obtida por eliminação careceria de valor e até de sentido. às incomodidades de uma obra feita de surpresas ditadas pela vaidade e pelo acaso (Gracián. ao bom trabalho do período e da estrofe. o tratado De Coelo et Inferno. A lapidar fórmula "Tudo flui" resume em duas palavras a filosofia de Heráclito: Raimundo Lúlio diria que. Júlio César superam qualquer personagem imaginado pela arte de nosso tempo. Nesse parecer fundamento minha convicção sobre a preeminência de Shaw. no melhor dos casos. Pensar em Monsieur Teste ao 2 Também em Swedenborg. e minha negativa incluiria tanto o plano intelectual como o moral. suspeito. a um decoro artesão (Johnson. Kreegan.

aquele G. o social reduz-se a um conflito de indivíduos. Os temas fundamentais de Shaw são a filosofia e a ética: é natural e inevitável que ele não seja valorizado neste país. a lírica é a complacente magnificação de venturas ou desventuras amorosas.lado deles ou no histriônico Zaratustra de Nietzsche é intuir com assombro e até com escândalo a primazia de Shaw. 1951. ou de classes. Costumam afetar desespero e angústia. O argentino sente que o universo não passa de uma manifestação do acaso. não em Sérgio Saranoff. do fortuito concurso dos átomos de Demócrito. A ética também não: para ele. fomentam essa ilusão do eu que o Vedanta reprova como erro capital. S. tais disciplinas. A biografia de Bernard Shaw escrita por Frank Harris contém uma admirável carta daquele.. ou dramatis personae: o mais efêmero será. Desse nada (tão comparável ao de Deus antes de criar o mundo. Em 1911. A obra de Shaw. . João Escoto Erígena. 214). salvo ser escarnecido ou vencido. ou de nações. são. tão comparável à divindade primordial que outro irlandês. suspeito. repetindo um lugar-comum da época: "Bernard Shaw é um aniquilados do conceito heróico. O caráter do homem e suas variações são o tema essencial do romance de nosso tempo. que o representou perante os outros e que derramou tantas agudezas fáceis nas colunas dos jornais. não concebia que o heróico pudesse prescindir do romântico e encarnar no capitão Bluntschli de Arms and the Man. Buenos Aires. um matador de heróis" (Dichtung und Dichter der Zeit. B.. deixa um sabor de libertação. a filosofia não lhe interessa. O sabor das doutrinas do Pórtico e o sabor das sagas. Albert Soergel pôde escrever. mas no fundo contentam a vaidade. imorais. ao contrário. as filosofias de Heidegger e Jaspers fazem de cada um de nós o interessante interlocutor de um diálogo secreto e contínuo com o nada ou com a divindade. em que tudo é lícito. ou que o seja unicamente em função de alguns epigramas. Bernard Shaw eduziu quase inumeráveis personagens. nesse sentido. chamou Nihil). que formalmente podem ser admiráveis. da qual transcrevo estas palavras: "Eu compreendo tudo e todos e sou nada e sou ninguém".

. autor e protagonista do livro.2 Jacques Vandier escreve: "Basta saber o nome de uma divindade ou de uma criatura divinizada para tê-la em seu poder" (La Religion Égyptienne. De Quincey. Formou-se assim um vasto vocabulário de nomes próprios. 1 Um dos diálogos platônicos. ou primitivo. A lição original é famosa. e o nome verdadeiro. e seus dois ecos. Lemos aí que o pastor de ovelhas. por seu lado. Moisés. é a finalidade destas páginas.1949). nos últimos dias da República. narrar e pesar essas palavras. que era por todos conhecido. 2 Os gnósticos herdaram ou redescobriram essa singular opinião. Entre os antigos egípcios prevaleceu um costume análogo. um deus.HISTÓRIA DOS ECOS DE UM NOME Isolados no tempo e no espaço. que era mantido oculto. Consta no terceiro capítulo do segundo livro de Moisés. ou grande nome. que Basilides (segundo Ireneu) reduziu à cacofônica ou cíclica palavra Kaulakau. e sim parte vital daquilo que definem. o Crátilo. chamado Êxodo. perguntou a Deus Seu Nome e Ele respondeu: "Eu Sou Aquele que Sou". Antes de examinar essas misteriosas palavras. Segundo a literatura funerária. talvez não seja ocioso lembrar que para o pensamento mágico. espécie de chave universal de todos os céus. repetem uma obscura declaração.1 Assim. e foi executado. e que não o ignora. cada pessoa recebia dois nomes: um nome pequeno.. Também importa conhecer os verdadeiros nomes dos deuses. . esquecer o nome (perder a identidade pessoal) é talvez o maior. lembra-nos que era secreto o verdadeiro nome de Roma. são muitos os perigos que corre a alma depois da morte do corpo. os nomes não são símbolos arbitrários. um sonho e um homem que está louco. Quinto Valério Sorano cometeu o sacrilégio de revelá-lo. dos demônios e das portas do outro mundo. discute e parece negar um vínculo necessário entre as palavras e as coisas. os aborígines da Austrália recebem nomes secretos que jamais devem ser ouvidos pelos indivíduos da tribo vizinha.

de fato. analogamente. 1938) escreve que viver é penetrar em um estranho aposento do espírito. mais precisamente. aquelas outras que a divindade pronunciou na montanha: "Não serei mais capitão. Nos conceitos de calúnia e injúria perdura essa superstição. o homem é degradado publicamente. mas hei de comer. sim. bem pode ser uma magnificação desta idéia: "Deus existe. Erígena escreveria que Deus não sabe quem é nem o que é. a despeito de constar de muitas palavras. e sim de indagar quem era Deus. de uma curiosidade de ordem filológica. não toleramos que certas palavras sejam vinculadas ao som de nosso nome. Lemos isso no Gog und Magog. da injustiça e da adversidade". "Eu Sou Aquele que Sou" é uma afirmação ontológica.) Que interpretações suscitou a tremenda resposta que Moisés escutou? Segundo a teologia cristã. 3 Buber (Was ist der Mensch?. é mais impenetrável e mais firme que os que constam de uma única. muito lateralmente. Outros entenderam que a resposta elude a pergunta. Deus teria respondido: "Hoje converso contigo. o sentencioso nome de Deus. como em um espelho caído. um soldado fanfarrão e covarde. e beber. porque isso excederia a compreensão de seu interlocutor humano. até que em 1602 William Shakespeare escreveu uma comédia. ou sua sombra. A doutrina de Spinoza. um miles gloriosos. porque não é um quê nem um quem. que. Segundo essa primeira interpretação. "Eu Sou Aquele que Sou" declara que só Deus existe realmente ou. . que faz da extensão e do pensamento meros atributos de uma substância eterna. Moisés. ou. e também as formas da opressão. Mauthner já analisou e condenou esse hábito mental. cujo chão é o tabuleiro onde jogamos um jogo inevitável e desconhecido contra um adversário cambiante e por vezes pavoroso. cresceu e reverberou pelos séculos. teria perguntado a Deus como Ele se chamava a fim de tê-lo em seu poder. Nessa comédia entrevemos. o que Ele era.3 Multiplicado pelas línguas humanas – Ich bin der ich bin. por meio de um estratagema. nós é que não existimos". Ego sum qui sum. I am that I am –. e então Shakespeare intervém e põe em sua boca palavras que refletem. Moisés perguntou ao Senhor qual era Seu nome: não se tratava. à maneira dos feiticeiros egípcios. e dormir como um capitão. que a palavra eu só pode ser pronunciada por Deus. Deus não diz quem é. mas amanhã posso revestir qualquer forma. que é Deus. Martin Buber indica que "Ehych asher ehych" também pode ser traduzido por "Eu sou aquele que serei" ou por "Eu estarei onde estarei".O selvagem oculta seu nome para que este não seja submetido a operações mágicas. isto que sou me fará viver". escreveu um mexicano. enlouquecer ou escravizar seu possuidor. o nome que. como vimos. O ardil é descoberto. como ensinou o Maggid de Mesritch. que poderiam matar. (No século IX. consegue ser promovido a capitão.

tão inevitável e necessária quanto as outras". e também "Sou o que Deus quer que eu seja. ou por outras pessoas que padecem de análogas misérias. A surdez. Não fui essas pessoas. talvez por saber que a loucura o esperava nos confins. já perto de morrer. Esse caráter sentencioso e sombrio às vezes estende-se ao que se diz sobre ele. que para ele talvez tenham sido um único instante insuportável. Verbi gratia. a idiotia agravaramse e foram aprofundando a melancolia de Swift. as palavras que. ouviram-no repetir. "Pensar nele é como pensar na ruína de um grande império". e quem sabe "Ser é ser tudo". incapazes de conversar com seus semelhantes. ou quem sabe para esconjurá-lo magicamente. isso deve-se a uma confusão. escreveu Thackeray. A última versão veio à luz em mil setecentos e quarenta e tantos. a vertigem. entregues a débeis apetites que não podem satisfazer. sou aquele que deu uma resposta ao enigma do Ser. não podia ler e era incapaz de escrever. Aqui termina a história da sentença. com desespero. terá sentido Swift. o tecido das roupas que vesti e descartei. quero apenas acrescentar. que ocupará os pensadores dos . uma forma da eternidade do inferno. e também "Sou uma parte do universo. Negava-se a usar óculos. a um erro. De inteligência glacial e de ódio glacial vivera Swift. "Serei uma desventura. sou o que de mim fizeram as leis universais". Mas nada é tão patético quanto sua aplicação das misteriosas palavras de Deus. Schopenhauer disse a Eduard Grisebach: "Se por vezes julguei-me infeliz. ou pelo apaixonado que essa jovem desdenha. Swift perdura para nós em algumas poucas frases terríveis. por fim. velho. ou pelo doente que não pode sair de casa. ele imaginou com minucioso desprezo uma estirpe de homens decrépitos e imortais. louco e já moribundo. não sabemos se com resignação. o medo da loucura e. Na terceira parte de Gulliver. como se aqueles que o julgam não quisessem ficar para trás. elas foram. o dos Night Thoughts: "Sou como esta árvore. por um suplente que não consegue chegar a titular. ou como quem se afirma e se ancora em sua íntima essência invulnerável: "Sou aquilo que sou. porque sua memória é insuficiente para passar de uma linha a outra. Até que uma tarde. e de ler. em um dos anos que durou a longa agonia de Swift. Mais que na seqüência de seus dias. Quem sou realmente? Sou o autor de O Mundo como Vontade e Representação. Em 1717 dissera a Young. ou pelo acusado em um processo de difamação. Começou a perder a memória. Tomei-me por outro. mas sempre fascinado pela idiotia (assim como ocorreria com Flaubert). sou aquilo que sou". Pode-se suspeitar que Swift imaginou esse horror porque o temia. porque o decorrer do tempo modificou a linguagem. se tanto.Assim fala Parolles e bruscamente deixa de ser um personagem convencional da farsa cômica para ser um homem e todos os homens. Todos os dias implorava a Deus que lhe enviasse a morte. começarei a morrer pela copa". mas sou". a modo de epílogo.

originalmente. na Alemanha e na Rússia) foi forjá-las ou simulá-las. profundamente. Outra coisa: a vontade. e uma das tarefas dos governos (especialmente na Itália. houve muitíssimas jornadas históricas. com profusão de prévia propaganda e persistente publicidade. constatei que o sujeito dessa misteriosa ação era Esquilo e que este. é mais pudorosa e que suas datas essenciais podem ser. Sabe-se que o drama nasceu da religião de Dionísio. Eis aqui a frase: "He brought in a second actor" (ele trouxe um segundo ator). e podemos dizer que assistimos a sua origem". o hipócrita. passaria inadvertido.séculos vindouros. alçado pelos coturnos. trajando preto ou púrpura e com o rosto aumentado por . embora seu livro a registre. segundo o que se lê no quarto capítulo da Poética de Aristóteles. inaugura-se uma época na história do mundo. secretas. Os olhos vêem o que estão habituados a ver. Detive-me. Depois desse dia. um único ator. a coisa que era Swift. Esse sou eu. durante muito tempo. Um prosador chinês observou que o unicórnio. "elevou de um a dois o número de atores". Tácito não reparou na Crucificação. em razão mesmo de sua anomalia. O PUDOR DA HISTÓRIA No dia 20 de setembro de 1792. Johann Wolfgang von Goethe (que acompanhara o duque de Weimar em um passeio militar a Paris) viu o primeiro exército da Europa ser inexplicavelmente repelido em Valmy por algumas milícias francesas e disse a seus desconcertados amigos: "Neste lugar e no dia de hoje. Tais jornadas. a obscura raiz de Parolles. a verdadeira história. Justamente por ter escrito O Mundo como Vontade e Representação. e quem poderia discuti-lo nos anos de vida que ainda me restam?". têm menos relação com a história que com o jornalismo: eu tenho suspeitado que a história. de Mille. Schopenhauer sabia muito bem que ser um pensador é tão ilusório quanto ser um doente ou um desdenhado e que ele era outra coisa. nas quais se percebe a influência de Cecil B. por ser ligeiramente enigmática. até. Cheguei a essa reflexão graças a uma frase casual que entrevi ao folhear uma história da literatura grega e que despertou meu interesse.

digamos. o que sentiram exatamente? Talvez nem estupor nem escândalo. em sua chácara de Borgarfjord. e assim até o infinito. o historiador e polígrafo Snorri Sturluson. desembarcaram na costa oriental e tomaram o castelo de Jorvik (York). Ao sul de Jorvik. os homens. e também os cavalos. da unidade à pluralidade. "– Se verdadeiramente és Tostig – disse o cavaleiro –. que dará ele ao rei Harald Sigurdarson? "– Ele não foi esquecido – respondeu o cavaleiro. Harald Sigurdarson perguntou. mais um. mas um dia. O drama era uma das cerimônias do culto e. já que é tão alto. "– Então – disse Tostig – dize a teu rei que lutaremos até a morte. o que eles terão pensado. fez-lhes frente o exército saxão. talvez apenas um princípio de assombro. irmão do rei saxão da Inglaterra. os atenienses viram com maravilha e talvez com escândalo (Victor Hugo levantou a segunda hipótese) a não anunciada aparição de um segundo ator. estavam revestidos de ferro. quinhentos anos antes da era cristã. e Sigismundo. Outra jornada histórica descobri em minhas leituras. Com um exército norueguês. chamado o Implacável (Hardrada). Naquele dia de uma primavera remota. Aconteceu na Islândia. prossegue o texto de Snorri: "Vinte cavaleiros achegaram-se às fileiras do invasor. em 1225. que antes militara em Bizâncio. naquele teatro da cor do mel. Um espectador profético teria visto que ele vinha acompanhado por multidões de aparências futuras: Hamlet. e outros que nossos olhos ainda não podem discernir. dividia a cena com os doze indivíduos do coro. correu em algum momento o risco de tornar-se invariável. e Macbeth. Isso poderia ter acontecido. pensativo: "– Quem era esse cavaleiro que tão bem falou? "– Harold Filho de Godwin". Tostig. venho dizer-te que teu irmão oferece a ti seu perdão e um terço do reino. Nas Tusculanas consta que Esquilo ingressou na ordem pitagórica. e Peer Gynt. como todo ritual. sequer de modo imperfeito.uma máscara. no século XIII de nossa era. na Itália e na África. cobiçava o poder e contava com o apoio de Harald Sigurdarson. Um dos cavaleiros gritou: "– Está aqui o conde Tostig? "– Não nego estar aqui – disse o conde. "– Se eu aceitar – disse Tostig –. "Os cavaleiros se retiraram. Harold Filho de Godwin. Expostos os fatos anteriores. Para a instrução das futuras gerações. . escrevia a última empreitada do famoso rei Harald Sigurdarson. quão significativa era essa passagem do um ao dois. e Fausto. mas nunca saberemos se pressentiu. Com o segundo ator entraram em cena o diálogo e as indefinidas possibilidades da reação de uns personagens sobre outros. – Receberá sete palmos de terra inglesa e.

Outros capítulos relatam que, antes de declinar o sol desse dia, o exército norueguês foi derrotado. Harald Sigurdarson pereceu na batalha, e também o conde (Heimskringla, X, 92). Há um sabor que nosso tempo (talvez farto das toscas imitações perpetradas pelos profissionais do patriotismo) não costuma perceber sem certo receio: o elementar sabor do heróico. Asseguram-me que o Poema del Cid encerra esse sabor; eu o senti, inconfundível, em versos da Eneida ("Filho, aprende de mim valor e verdadeira firmeza; de outros, o êxito"), na balada anglo-saxã de Maldon ("Meu povo pagará o tributo com lanças e velhas espadas"), na Canção de Rolando, em Victor Hugo, em Whitman e em Faulkner ("a alfazema, mais forte que o cheiro dos cavalos e da coragem"), no Epitáfio para um Exército de Mercenários, de Housman, e nos "sete palmos de terra inglesa" da Heimskringla. Por trás da aparente simplicidade do historiador há um delicado jogo psicológico. Harold finge não reconhecer o irmão, para que este, por sua vez, perceba que não deve reconhecê-lo; Tostig não o trai, mas tampouco trairá seu aliado; Harold, disposto a perdoar o irmão, mas não a tolerar a intromissão do rei da Noruega, procede de modo muito compreensível. Nada direi sobre a destreza verbal de sua resposta: dar um terço do reino, dar sete palmos de terra.1 Há somente uma coisa mais admirável que a admirável resposta do rei saxão: a circunstância de que seja um irlandês, um homem do sangue dos vencidos, quem a tenha perpetuado. É como se um cartaginês tivesse legado a memória da façanha de Régulo. Com razão escreveu Saxo Grammaticus em sua Gesta Danorum: "Os homens de Tule (Islândia) deleitam-se em aprender e registrar a história de todos os povos e não consideram menos glorioso publicar as excelências alheias que as próprias". Não o dia em que o saxão proferiu suas palavras, mas aquele em que um inimigo as perpetuou marca uma data histórica. Uma data profética de algo que ainda está no futuro: o olvido de sangues e nações, a solidariedade do gênero humano. A oferta deve sua virtude ao conceito de pátria; Snorri, ao relatá-la, supera e transcende tal conceito. Outro tributo a um inimigo lembro nos últimos capítulos de Seven Pillars of Wisdom, de Lawrence; este exalta a coragem de um destacamento alemão e escreve as seguintes palavras: "Então, pela primeira vez nesta campanha, senti orgulho dos homens que mataram meus irmãos". Para em seguida acrescentar: "They were glorious".

Carlyle (Early Kings of Norway, XI) desbarata, com uma infeliz adição, essa economia. Aos sete palmos de terra acrescenta for a grave ("para sepultura").
1

Buenos Aires, 1952.

NOVA REFUTAÇÃO DO TEMPO
Vor mir war keine Zeit, nach mir wird keine seyn. Mit mir gebiert sie sich, mit mir geht sie auch ein.1 DANIEL VON CZEPKO: Sexcenta Monodisticha Sapientum, III, 1655.

NOTA PRELIMINAR Se publicada em meados do século XVIII, esta refutação (ou seu nome) perduraria nas bibliografias de Hume e talvez tivesse merecido uma linha de Huxley ou de Kemp Smith. Publicada em 1947 – depois de Bergson –, é a anacrônica reductio ad absurdum de um sistema pretérito ou, o que é pior, o precário artifício de um argentino extraviado na metafísica. Ambas as conjeturas são verossímeis e talvez verdadeiras; para corrigi-las, não posso prometer, em troca de minha dialética rudimentar, uma conclusão inaudita. A tese que propalarei é tão antiga quanto a flecha de Zenão ou a carruagem do rei grego, no Milinda Pañha;2 a novidade, se é que há alguma, consiste em
1

"Antes de mim não existia o tempo, depois de mim não existirá. / Comigo ele veio ao mundo, também comigo perecerá." (N. da T.)
2

Não há exposição do budismo que deixe de mencionar o Milinda Pañha, obra apologética do século II, que relata um debate cujos interlocutores são o rei da Bactriana, Menandro, e o monge Nagasena. Este

aplicar a esse fim o clássico instrumento de Berkeley. Este e seu continuador, David Hume, são pródigos em parágrafos que contradizem ou excluem minha tese; creio ter deduzido, não obstante, a conseqüência inevitável de sua doutrina. O primeiro artigo ("A") é de 1944 e apareceu no número 115 da revista Sur; o segundo, de 1946, é uma revisão do primeiro. Deliberadamente, não fundi os dois em um só, por entender que a leitura de dois textos análogos pode facilitar a compreensão de uma matéria indócil. Uma palavra sobre o título. Não me escapa que este é um exemplo do monstro que os lógicos denominaram contradictio in adjecto, pois dizer que é nova (ou antiga) uma refutação do tempo é atribuir-lhe um predicado de índole temporal, que instaura a noção que o sujeito pretende destruir. Ainda assim, prefiro mantê-lo, para que seu ligeiríssimo escárnio prove que não exagero a importância desses jogos verbais. De mais a mais, tão saturada e animada de tempo está nossa linguagem que é bem provável que não haja nestas páginas uma sentença que de certo modo não o exija ou invoque. Dedico estes exercícios a meu antepassado Juan Crisóstomo Lafinur (1797-1824), que legou às letras argentinas algum decassílabo memorável e que tentou reformar o ensino da filosofia, purificando-o de sombras teológicas e expondo na cátedra os princípios de Locke e de Condillac. Morreu no desterro; couberam-lhe, como a todos os homens, maus tempos para viver. J. L. B. Buenos Aires, 23 de dezembro de 1946.

argumenta que, assim como a carruagem do rei não é as rodas, nem a caixa, nem o eixo, nem a lança, nem o jugo, tampouco o homem é a matéria, a forma, as impressões, as idéias, os instintos ou a consciência. Não é a combinação dessas partes nem existe fora delas... Ao término de uma controvérsia de muitos dias, Menandro (Milinda) converte-se à fé de Buda. O Milinda Pañha foi vertido para o inglês por Rhys Davids (Oxford, 1890-1894).

de Leibniz. nem nossas paixões.. qualquer que seja o objeto que elas formem). só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. Berkeley (Principies of Human Knowledge. de certo modo. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos. é declarada em certa página de Evaristo Carriego (1930) e no conto "Sentir-se em morte". eu a vejo e a toco. Nenhum dos textos que enumerei me satisfaz. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. Se. menos demonstrativo e racional que divinatório e patético..A I No decorrer de uma vida consagrada às letras e (vez por outra) à perplexidade metafísica. Essa refutação está. 3) observou: "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. Afirmo que esta mesa existe. estando fora de meu escritório. eu fizer a mesma afirmação. mas que costuma visitar-me à noite e no exausto crepúsculo. Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. que transcrevo mais adiante. pude divisar ou pressentir uma refutação do tempo.. ou que algum outro espírito a percebe. nem sequer o penúltimo da série. da qual eu mesmo descreio. de qualquer modo que se combinem (isto é. em todos os meus livros: prefigura-se nos poemas "Inscrição em qualquer sepulcro" e "O truco".. ou seja. Dois argumentos me encaminharam a esta refutação: o idealismo de Berkeley e o princípio dos indiscerníveis. de meu Fervor de Buenos Aires (1923). Tentarei fundamentar todos eles com este escrito. só podem existir em uma mente que as perceba. . com ilusória força de axioma.

Em 1844. Nas primeiras linhas do primeiro livro de seu Welt als Wille und Vorstellung – ano de 1819 – formula a seguinte declaração. Logo no primeiro capítulo redescobre ou agrava o antigo erro: define o universo como um fenômeno cerebral e distingue "o mundo na cabeça" do "mundo fora da cabeça". 1902) argúi que a retina e a superfície cutânea invocadas para explicar o visual e o tátil são. nada mais fácil. Se responderes que sim. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". Berkeley já fizera Philonous dizer: "O cérebro de que falas. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". difícil é pensar dentro de seus limites. só pode existir na mente. comete negligências reprováveis. a doutrina idealista. Seu esse est percipi. ao expôla. Uma delas é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a poderosa fábrica do universo – não existem fora de uma mente. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". 10 e 116) também negou as qualidades primárias – a solidez e a extensão das coisas – e o espaço absoluto. nas palavras de seu inventor. os olhos e as mãos do homem são menos ilusórios ou aparenciais que a terra e o sol. não existem quando não os pensamos.sem relação com o fato de serem ou não percebidas. em 1713. dois sistemas táteis e visuais e que o recinto que enxergamos (o "objetivo") não é maior que o imaginado (o "cerebral") e não o contém. No parágrafo 23 acrescentou. Entendê-la é fácil. capítulo VIII. Berkeley (Principies of Human Knowledge. Essa é. Este (The Mind of Man. que o faz merecedor da perene perplexidade de todos os homens: "O mundo é minha representação. nada mais fácil que imaginar árvores em um prado ou livros em uma biblioteca. não têm outro ser salvo serem percebidos. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vê-las basta-nos abrir os olhos. ao mesmo tempo. nego que os objetos possam existir fora da mente". direis. é para mim insensato. o sexto. para o idealista Schopenhauer. Ao dualismo ou cerebrismo de Schopenhauer também é justo contrapor o monismo de Spiller. prevenindo objeções: "Mas. Mas. por se tratar de dois sistemas visuais independentes. De fato. sendo uma coisa sensível. por sua vez. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazêlo. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. . mas tão-somente uns olhos que vêem um sol e umas mãos que sentem o contato de uma terra". Em outro parágrafo. O homem que confessa esta verdade sabe claramente que não conhece um sol nem uma terra. O próprio Schopenhauer. sem ninguém por perto para percebê-los. Ou seja. ele publica um volume complementar. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras.

3). já que a mente não passa de uma série de percepções. vê um vago número de estrelas. prodigalizei suas passagens canônicas. abre os olhos com negligência. de sua própria vida. Lichtenberg. e sim outra coisa: um princípio ativo e pensante" (Dialogues. um instante literário. eles são percebidos por Deus. Acumulei acima citações dos apologistas do idealismo. Hume. um mundo feito de tempo. quando nenhum indivíduo os percebe. Repito: não há por trás dos rostos um eu secreto.1 A metafísica idealista declara que acrescentar a essas percepções uma substância material (o objeto) e uma substância espiritual (o sujeito) é temerário e inútil. um sonho. logo existo" cartesiano fica invalidado. um mundo sem a arquitetura ideal do espaço. faz. como quem diz "troveja" ou "relampeja". não é lícito falar da forma da lua ou de sua cor. mergulha no sono imemorial como em uma água escura. em seguida. do absoluto tempo uniforme dos Principia. que são continuidades. pois. somos apenas a série desses atos imaginários e dessas impressões errantes. 2. . propôs que em lugar de "penso" disséssemos impessoalmente "pensa". poderá intercalar outro exemplo. escolhi um instante entre dois sonhos. dizer "penso" é postular o eu. para que meu leitor fosse penetrando nesse instável mundo mental. não sei que direito nós temos a essa continuidade que é o tempo. 2). um labirinto incansável. A essa quase perfeita desagregação chegou David Hume. para Hume. A série? Negados o espírito e a matéria. Berkeley afirmou a identidade pessoal. vê uma linha indistinta que são as árvores. Se alguém suspeitar de uma falácia. eu afirmo que não menos ilógico é pensar que são termos de uma série cujo princípio é 1 Para facilidade do leitor.Berkeley afirmou a existência contínua dos objetos. Huckleberry Finn acorda. perdida na escuridão parcial. 1. o cético. se quiser. tampouco se pode falar das percepções da mente. 4. Huckleberry Finn reconhece o manso rumor incansável da água. censurei Schopenhauer (não sem ingratidão). um caos. um mundo sem matéria nem espírito. negado também o espaço. um pouco de frio. 4. no século XVIII. Uma vez aceito o argumento idealista. com mais lógica. é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. Em uma das noites do Mississipi. Ambos afirmam o tempo: para Berkeley. 2). 98). "uma sucessão de momentos indivisíveis" (obra citada. nega tal existência (Treatise of Human Nature. 6). segue rio abaixo. talvez. que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez" (obra citada. também a refuta e faz de cada homem "uma coleção ou feixe de percepções. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. I. não histórico. Hume. nem objetivo nem subjetivo. a jangada. a forma e a cor são a lua. I. "porque eu não sou meramente minhas idéias. Imaginemos um presente qualquer. é uma petição de princípio. Um mundo de impressões evanescentes. Para Hume. a governar os atos e a captar as impressões. fui iterativo e explícito. O "penso.

Não passo diante de La Recoleta sem lembrar que aí estão sepultados meu pai. ela me enganava": se cada estado que vivemos é absoluto. A desventura de hoje não é mais real que a ventura pretérita. Em outras palavras: nego. Hume negou a existência de um espaço absoluto. essa felicidade não foi contemporânea dessa traição. Não menos vãos parecem-me a esperança e o medo. como podem compartilhá-lo milhares de homens. existe cada momento que vivemos. em seguida. a de um único tempo. entre quatro e dez e quatro e onze. aquele na cidade de Montevidéu. pode parecer intrincado. muitos. pensando na fidelidade de meu amor. a sucessividade. Verbi gratia. nem as prisões. o capitão Isidoro Suárez. Tomemos uma vida ao longo da qual amiúdam as repetições: a minha. Dizem-me que o presente. No início de agosto de 1824. a soma de todos os fatos. tais fatos não foram contemporâneos (agora o são). à frente de um esquadrão de hussardos do Peru. isso dura a história do universo. nem sequer uma de suas noites. meus avós e bisavós.tão inconcebível quanto seu fim. Nego. ou seja. Tentarei um método mais direto. em um elevado número de casos. interrompido e como que entorpecido de exemplos. embora não sua lembrança. O universo. assim como eu estarei. Acrescentar ao rio e à margem percebidos por Huck a noção de outro rio substantivo de outra margem. ou mesmo dois homens distintos? O argumento dos parágrafos acima. também a simultaneidade. de o evento ter ocorrido na noite de 7 de junho de 1849. não posso caminhar pelos subúrbios na . a descoberta da traição é mais um estado. que somos o minucioso presente.. porque os dois homens morreram. no início de agosto de 1824.. incapaz de modificar os "anteriores". acrescentar outra percepção a essa rede imediata de percepções é. Acrescento: se o tempo é um processo mental. injustificável. Negar a coexistência não é menos árduo que negar a sucessão. De Quincey publicou uma diatribe contra Wilhelm Meisters Lehrjahre. eu. lembro já ter lembrado o mesmo. o specious present dos psicólogos. inúmeras vezes. nem sequer o esquecimento podem modificar o invulnerável passado. decidiu a vitória de Junín. não seu imaginário conjunto. nego. este em Edimburgo. Cada instante é autônomo. Nem a vingança. em que cada coisa tem seu lugar. Engana-se o amante que pensa "enquanto eu estava feliz da vida. Busco um exemplo mais concreto. como não existe a vida de um homem. por exemplo. nenhum? – entre 1592 e 1594. não é menos injustificável acrescentar uma precisão cronológica: o fato. Ou melhor. dura entre alguns segundos e uma ínfima fração de segundo. para mim. que sempre se referem a fatos futuros. com argumentos do idealismo. nem o perdão. a fatos que não ocorrerão conosco. em um elevado número de casos. em que todos os fatos se encadeiam. a vasta série temporal que o idealismo admite. sem nada saber um do outro. para o idealismo. não existe tal história. é uma coleção não menos ideal que a de todos os cavalos sonhada por Shakespeare – um.

epidemias – são uma só dor. II. Naturalmente. admiro sua destreza dialética. Se dez mil pessoas morrerem com você. (Cf. Lewis. de estado fisiológico geral. de fagulhas. dois momentos iguais. sofrerá toda a inanição havida e por haver. na mente de um indivíduo (ou de dois indivíduos que se ignoram. porém. cabe perguntar: esses idênticos momentos não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a série do tempo? Os fervorosos que se entregam a uma linha de Shakespeare não são. um dialeto alemão. literalmente. se não há pluralidade. de C. "Nunca entrarás duas vezes no mesmo rio". o osso. As ruidosas catástrofes gerais – incêndios. a ética do sistema que acabo de esboçar. penso que o Yiddish é. pois a facilidade com que aceitamos o primeiro sentido ("O rio é outro") impõe-nos clandestinamente o outro ("Eu sou outro"). S. mas nos quais se dá o mesmo processo). em minha infância. aquele que mata um único homem destrói o mundo. tal soma não existe. não posso lamentar a perda de um amor ou de uma amizade sem meditar que só se perde aquilo que não se teve realmente. pouco maculado pelo idioma do Espírito Santo. Suspeito. nem mais universal na destruição. Josiah Royce. elas se repetem sem precisão. Nem a pobreza nem a dor são acumuláveis". antes de mais nada. Eu entendo que é assim. Não sei se existe. Assim o entende Bernard Shaw (Guide to Socialism. ainda. . penso em Adrogué. Tal proposição é compatível com a deste trabalho. quem aniquilasse todos os homens não seria mais culpado que o primitivo e solitário Caim. como a lembrança. cada vez que recordo o fragmento 91 de Heráclito. 830) atribui a Anaxágoras a doutrina de que o ouro consta de partículas de ouro. 86): "O que você pode padecer é o máximo que se pode padecer na terra. cada vez que ouço um germanófilo vituperar o Yiddish. Shakespeare? Ignoro. Essas tautologias (e outras que calo) são minha vida inteira. ilusoriamente multiplicada em muitos espelhos. de luz. de temperatura. para a justiça de Deus. a participação delas em sua sorte não o fará ter dez mil vezes mais fome nem multiplicará por dez mil o tempo de sua agonia. que o número de variações circunstanciais não é infinito: podemos postular. Se você morrer de inanição. o que pode ser mágico. Postulada essa igualdade. cada vez que a brisa traz um cheiro de eucaliptos. penso em você. talvez influenciado por Santo Agostinho. 139). também The Problem of Pain. VII. o que é ortodoxo. Não se deixe angustiar pela horrenda soma de padecimentos humanos. cada vez que atravesso uma das esquinas do sul da cidade. I. Helena. há diferenças de ênfase. guerras. concedendo-nos a ilusão de tê-lo inventado. O quinto parágrafo do quarto capítulo do tratado Sanhedrin da Mishnah declara que.solidão da noite sem pensar que esta nos agrada porque suprime os detalhes ociosos.) Lucrécio (De Rerum Natura. o fogo. entende que o tempo é feito de tempo e que "todo presente em que algo ocorre é também uma sucessão" (The World and the Individual. de ossinhos imperceptíveis.

Era do mais pobre e do mais bonito que pode haver. O reverso do conhecido. na escassa medida do possível. mas suas ainda misteriosas imediações: confins que possuí inteiro em palavras e pouco em realidade. Passo a historiá-la. Sua noite não tinha destino algum. o preciso âmbito da infância. como era serena. dispus-me à máxima latitude de probabilidades para não cansar a expectativa com a obrigatória antevisão de uma só delas. Aqueles que tenham acompanhado com desagrado a argumentação anterior talvez prefiram esta página de 1928. Nenhuma casa se aventurava à rua. quase tão efetivamente ignoradas como o soterrado alicerce de nossa casa ou nosso invisível esqueleto. Realizei. Trata-se de uma cena e de sua palavra: palavra já antedita por mim. e. nada complicada em si. uma sorte de gravitação familiar empurrou-me a outros bairros. parecia simplificada por meu cansaço. A marcha levou-me a uma esquina. barro da América ainda não conquistado. A rua era de casas baixas. o intemporal. Tomava-a irreal sua própria tipicidade. aceitei os mais obscuros convites do acaso. Já a mencionei antes. Não quis impor um rumo a essa caminhada. estive em Barracas: localidade não visitada por meu hábito e cuja distância das que depois percorri já deu um sabor estranho a esse dia. os portõezinhos – mais altos que as alongadas linhas das paredes – pareciam trabalhados com a mesma substância infinita da noite. saí para caminhar e recordar. mas não vivida com inteira dedicação até esse momento. A visão. por demais irracionável e sentimental para pensamento. o segundo certamente era de felicidade. são para mim essas ruas penúltimas. isso que chamam caminhar a esmo. sem outra consciente predeterminação senão evitar as avenidas ou ruas largas. não é apta para pensar o eterno. Ao fundo. já pampiano. cujo nome quero sempre lembrar e que ditam reverência a meu peito. Contudo. em sereníssima folga de pensar. Aspirei noite. o beco. trata-se do relato intitulado "Sentir-se em morte": "Quero registrar aqui uma experiência que tive algumas noites atrás: futilidade por demais evanescente e extática para ser chamada de aventura. Sobre a terra turva e . Não quero com isso significar o bairro meu. depois do jantar. com os acidentes de tempo e de lugar que a revelaram. "Assim a rememoro. embora seu primeiro significado fosse de pobreza.II Toda linguagem é de índole sucessiva. Na tarde que precedeu essa noite. a rua era de barro elementar. vizinhos e mitológicos a um só tempo. a figueira escurecia a esquina. A calçada era uma escarpa sobre a rua. desbarrancava-se em direção ao Maldonado. suas costas.

não. mas já remota neste mutável lugar do mundo. posto que o tempo. então. se podemos intuir essa identidade. e senti por ele um carinho pequeno. para quem a única coisa real são os protótipos (Norris. murinho límpido. mas o mais certo é que nesse já vertiginoso silêncio não tenha havido outro ruído senão o também intemporal dos grilos. mas efundir luz íntima. "É evidente que o número de tais momentos humanos não é infinito. Johannes . os platônicos. A observação é de Carlyle (Novalis.. facilmente refutável no plano sensitivo. no episódio emocional a vislumbrada idéia. Os elementares – os de sofrimento físico e prazer físico. "Fiquei olhando essa simplicidade. para quem tudo que não seja a divindade é contingente (Malebranche. os da audição de uma mesma música. Pensei. certamente em voz alta: isto aqui é o mesmo de trinta anos atrás. sem esperança de integrar o infinito censo. a mesma.caótica. Imaginei a data: época recente em outros países. B Das muitas doutrinas que a história da filosofia registra. é. Abravanel. Difícil encontrar melhor maneira de nomear a ternura que esse rosado. "É assim que a escrevo. senti-me um percebedor abstrato do mundo. Talvez cantasse um pássaro. do tamanho de um pássaro. antes. Plotino).. O tempo. agora: essa pura representação de fatos homogêneos – noite em serenidade. Senti-me morto. Mas nem nossa pobreza é certa. Não acreditei. sem semelhanças nem repetições. cheiro provinciano de madressilva. os de aproximação do sono. os de muita intensidade ou muito desalento – são mais impessoais ainda. de cuja essência o conceito de sucessão parece inseparável. aos filósofos por ele mencionados caberia acrescentar. uma taipa rosada parecia não albergar luz de lua. barro fundamental – não é apenas idêntica à que existiu nessa esquina faz tantos anos. talvez a mais antiga e difundida seja o idealismo. que é a melhor claridade da metafísica. 1829). e na confessa irresolução desta página o momento verdadeiro de êxtase e a possível insinuação de eternidade de que essa noite não me foi avara". Fique. Arrisco esta conclusão: a vida é pobre demais para não ser também imortal. Gemisto. Judas. os teólogos. não o é no intelectual. Só depois consegui definir essa imaginação. indefinido temor imbuído de ciência. O fácil pensamento Estou em mil oitocentos e tantos deixou de ser algumas poucas aproximativas palavras para entranhar-se em realidade. ter remontado às presumíveis águas do Tempo. é uma delusão: a indiferença ou inseparabilidade de um momento de seu aparente ontem e outro de seu aparente hoje basta para desintegrá-lo. suspeitei-me possuidor do sentido reticente ou ausente da inconcebível palavra eternidade.

nem nossas paixões. O idealismo é tão antigo quanto a inquietude metafísica: seu apologista mais agudo. Antes recapitularei brevemente as diversas etapas dessa dialética. formas que ninguém toca. os sons e os contatos. ou só existem na mente de um Espírito Eterno". Isso não significa. Julgou que acrescentar uma matéria às percepções é acrescentar ao mundo um inconcebível mundo supérfluo. só podem existir em uma mente que as perceba. II. direis. os cheiros. além dessas percepções. De fato. é impossível elas existirem fora das mentes que as percebem". estando fora de meu escritório. No parágrafo 6.. contrariamente ao que Schopenhauer declara (Welt als Wille und horstellung. nem as idéias formadas por nossa imaginação existem sem a mente. Seu esse est percipi. Esta é a importante verdade: Todo o coro do céu e os aditamentos da terra – todos os corpos que compõem a enorme fábrica do universo – não existem fora de uma mente. que tenha negado as cores. sem ninguém por perto para percebê-los. é para mim insensato. Hume aplicou-os à consciência. Não menos claro é para mim que as diversas sensações ou idéias impressas nos sentidos... Falar da existência absoluta de coisas inanimadas. Observou (Principles of Human Knowledge. que compõem o mundo externo. Berkeley usou-os contra a noção de matéria. Berkeley negou a matéria. floresceu no século XVIII. No parágrafo 23 acrescentou. mas entendeu que o mundo material (o de Toland. não existem quando não os pensamos. nada mais fácil. nada mais fácil que imaginar árvores em um parque ou livros em uma biblioteca.. por acaso não pensáveis essas coisas? Não nego que a mente seja capaz de imaginar idéias. (O deus de Berkeley é um ubíquo espectador cujo fim é dar coerência ao mundo. ou que algum outro espírito a percebe. os sabores. Parmênides). qualquer que seja o objeto que elas formem).. eu fizer a mesma afirmação. nego que os objetos possam existir fora da mente". Hegel. de qualquer modo que se combinem (isto é. digamos) é uma duplicação ilusória. 3): "Todos hão de admitir que nem nossos pensamentos. os monistas. meu propósito é aplicá-los ao tempo. sem relação com o fato de serem ou não percebidas. George Berkeley. Afirmo que esta mesa existe. ao mesmo tempo. Se. não têm outro ser salvo serem percebidos. ele já declarara: "Há verdades tão claras que para vêlas basta-nos abrir os olhos. entenda-se bem. que fazem do universo um ocioso adjetivo do Absoluto (Bradley. só quererei dizer que a perceberia se aqui estivesse. ou seja.) . cores que ninguém vê. e sim nos argumentos que idealizou para justificá-la. omitir a idéia de alguém que as percebe? Ao fazê-lo. houvesse dores que ninguém sente. Mas eu pergunto: que fizestes senão formar na mente algumas idéias a que chamais livros ou árvores e. o que ele negou foi que. eu a vejo e a toco. 1). seu mérito não consistiu na intuição dessa doutrina.Eckhart). Acreditou no mundo de aparências que os sentidos urdem.. prevenindo objeções: "Mas.

Aquele negara a matéria. Tão lógica é essa ampliação dos argumentos de Berkeley que este já previra. II. negado também o espaço. 226) negou o espaço absoluto. para Hume. já que. se não há nada fora da consciência. não sei com que direito podemos reter essa continuidade que é o tempo. que houvesse um sujeito por trás da percepção das mudanças. negados a matéria e o espírito. raciocina Hylas. e não podemos vislumbrar em que lugar ocorrem as cenas nem de que materiais é feito o teatro". quando Berkeley já escrevera (Dialogues Between Hylas and Philonus. efetivamente. I. argumentando que. I. tu mesmo não serás mais que um sistema de idéias flutuantes. este negou o espírito. Fora de cada percepção (atual . 2. não sustentadas por nenhuma substância. Uma vez aceito o argumento idealista. que são continuidades. antecipando-se a David Hume. "uma sucessão de momentos indivisíveis" (Treatise of Human Nature. não é menos parte do mundo externo que a constelação de Centauro. repetidas vezes. VIII. ao ensinar que para os idealistas o mundo é um fenômeno cerebral. 4. só pode existir na mente. aquele não quisera que acrescentássemos a noção metafísica de matéria à sucessão de impressões.. Gostaria de saber se julgas razoável a conjetura de que uma idéia ou coisa na mente ocasione todas as outras. errôneo se inferirmos que esse tempo deve. e até procurou negála mediante o ergo sum cartesiano: "Se teus princípios forem válidos. onde as percepções aparecem ou desaparecem. II): "O cérebro.. Entretanto. pois é tão absurdo falar em substância espiritual como em substância material". Siris. Se responderes que sim. 98). A mente é uma espécie de teatro. como ressalta Alexander Campbell Fraser. 6). 116. necessariamente. 3). Mais indecifrável ainda é o erro em que incorre Schopenhauer (Welt als Wille und Vorstellung.A doutrina que acabo de expor foi perversamente interpretada. esta deve ser infinita no tempo e no espaço. como explicarias a origem dessa idéia primária chamada cérebro?". 6): "Somos uma coleção ou um conjunto de percepções que se sucedem umas às outras com inconcebível rapidez. este não quis que acrescentássemos a noção metafísica de um eu à sucessão de estados mentais. Corrobora Hume (Treatise of Human Nature. As percepções constituem a mente. no terceiro e último dos Dialogues. 1). David Hume. O primeiro é verdade se entendermos que todo tempo é tempo percebido por alguém. abarcar um número infinito de séculos. Para Berkeley. entendo que é possível – talvez inevitável – ir além. Berkeley negou que houvesse um objeto por trás das impressões dos sentidos. Berkeley (Principles of Human Knowledge. como coisa sensível. Herbert Spencer acredita refutá-la (Principles of Psychology. A metáfora não deve enganar-nos. o tempo é "a sucessão de idéias que flui uniformemente e da qual todos os seres participam" (Principies of Human Knowledge. o segundo é ilícito. voltam e se combinam de infinitas maneiras. O cérebro.

não existe a matéria. naquele momento o espírito de Chuang Tzu não existia. diz o antigo texto. Este. se cada estado psíquico é suficiente. ou um de seus momentos. cabe perguntar: esses instantes coincidentes não são o mesmo? Não basta um único termo repetido para desbaratar e confundir a história do mundo. nem o negro quarto em que ele sonhava. entende que falar de objetos e de sujeitos é incorrer em uma impura mitologia. ainda que fornecida pela memória. Na China. se vinculá-lo a uma circunstância ou a um eu é uma ilícita e ociosa adição. Não consideremos o despertar. acrescentar à borboleta que se percebe uma borboleta objetiva parece-lhe uma vã duplicação. mas não um sonhador.ou conjeturai). Nunca saberemos se Chuang Tzu viu um jardim sobre o qual ele parecia voar ou um móvel triângulo amarelo. quer dizer que a fixação cronológica de um evento. ao menos de modo aproximado. é alheia a este. o do sonho de Chuang Tzu (Herbert Allen Giles: Chuang Tzu. acrescentar um eu aos processos parece-lhe não menos exorbitante. a mente de Chuang Tzu. com que direito depois haveremos de impor-lhe um lugar no tempo? Chuang Tzu sonhou que era uma borboleta e durante esse sonho ele não era Chuang Tzu. imaginemos que. segundo Berkeley. "Sonhei que era uma borboleta que andava pelo ar e que nada sabia de Chuang Tzu". que sem dúvida era ele. por um acaso não impossível. não há outra realidade afora a dos processos mentais. Segundo ele. para denunciar que tal história não existe? . abolidos o espaço e o eu. Como. naquele momento não existia o corpo de Chuang Tzu. era uma borboleta. a não ser como percepção na mente divina. não existe o espírito. esse sonho repete pontualmente aquele que o mestre sonhou. 1889). A doutrina do paralelismo psicofísico julgará que essa imagem deve corresponder a alguma alteração no sistema nervoso do sonhador. mas consta-nos que a imagem foi subjetiva. uns quatro séculos antes de Cristo. e exterior.I e n + I. de qual quer evento do orbe. um deles sonha que é uma borboleta e depois que é Chuang Tzu. vincularemos esses instantes com os do despertar e com o período feudal da história chinesa? Isso não quer dizer que nunca saberemos. Para o idealismo. dentre seus quase infinitos leitores. a data daquele sonho. Entende que houve um sonhar. não sabia se era um homem que sonhara ser uma borboleta ou uma borboleta que agora sonhava ser um homem. Postulada essa igualdade. Pois bem. nem sequer um sonho. sonhou que era uma borboleta e. consideremos o momento do sonho. há cerca de vinte e quatro séculos. um perceber. entre n . Tomemos um momento de máxima simplicidade: Verbi gratia. fora de cada estado mental. Imaginemos que. Existia como termo momentâneo da "coleção ou conjunto de percepções" que foi. o sonho de Chuang Tzu é proverbial. só existiam as cores do sonho e a certeza de ser uma borboleta. ao acordar. Hume simplifica mais ainda o ocorrido. tampouco o tempo há de existir fora de cada instante presente. existiam como termo n de uma infinita série temporal.

um estado de G será contemporâneo a um estado de H quando souber de sua contemporaneidade. pois não há meio naquilo que carece de princípio e de fim. nossas vidas. o tempo não existe. como tampouco existem o passado e o porvir. Este (Adversus Mathematicos. Contrariamente ao declarado por Schopenhauer2 em sua tabela de verdades fundamentais (Welt als Wille und Vorstellung. e. esse inextenso ponto marca o contato do objeto. O tempo é como um círculo a girar indefinidamente: o arco que desce é o passado. Bradley redescobre e melhora essa perplexidade. suas relações se reduzem à consciência de que as relações existem. em sua teoria da apreensão. Tais raciocínios.. mas. a história universal. cada fração de tempo não preenche simultaneamente o espaço inteiro. II. e contesta que o presente seja divisível ou indivisível. Imóvel como a tangente. não será menos complicado que o tempo. se o agora for divisível em outros agoras. Pela dialética de Berkeley e de Hume. cada indivisível momento de duração está em toda a parte" (Principia. o eu. De fato. ou a raiz quadrada de -I.) Meinong. a este orbe nebuloso também pertencerão a matéria. o espaço já não existe. no topo. cheguei à sentença de Schopenhauer: "A forma da aparição da vontade é só o presente. o que sobe é o porvir. XI. IV) que. se for indivisível. por Newton. Não é indivisível. estes existem apenas para o conceito e pelo encadeamento da consciência. negam as partes para depois negar o todo. Se as razões que apontei forem válidas. eu rejeito o todo para exaltar cada uma das partes. F. que afirmou: "Cada partícula de espaço é eterna. há um ponto indivisível que toca a tangente e é o agora. que ainda não é. 197) nega o passado. digamos. . cuja forma é o tempo. e o futuro. submetida ao princípio da razão. se cada termo é absoluto. Um estado precede o outro quando se sabe anterior. 4). o tempo será mera relação entre coisas intemporais. 42). que já foi.Negar o tempo é duas negações: negar a sucessão dos termos de uma série. o tempo não é ubíquo. Observa (Appearance and Reality. não o passado nem o porvir. admite a dos objetos imaginários: a quarta dimensão. Pode significar a eternidade de Platão ou de Boécio e também os dilemas de Sexto Empírico. como se vê. porque nesse caso constaria de uma parte que foi e de outra que não é. ou a estátua sensível de Condillac. não existe. I. nem sequer meio. negar o sincronismo dos termos de duas séries. a frase negação do tempo é ambígua. o mundo externo. que carece de forma. De resto. ou o animal hipotético de Lotze. Um tratado budista do 2 Antes. porque não pertence ao conhecível e é prévia condição do conhecimento" (Welt als Wille und Vorstellung. Ninguém viveu no passado. 54). III. Ergo. a esta altura da argumentação. é uma possessão que nenhum mal pode arrebatar. porque nesse caso ele não teria princípio que o vinculasse ao passado nem fim que o vinculasse ao futuro. ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida. tampouco é divisível. com o sujeito. H. (Claro que..

3 (Angelus Silesius: Cherubinischer Wandersmann. Como uma roda de carruagem. Nosso destino (ao contrário do inferno de Swedenborg e do inferno da mitologia tibetana) não é terrível por ser irreal. o homem de um momento futuro viverá. eu. mas não viveu nem viverá" (obra citada. O mundo." (N. 1675) 3 "Basta. ilustra a mesma doutrina com a mesma figura: "A rigor. Se queres ler mais. mas eu sou o fogo. mas eu sou o rio. a vida de um ser dura o que dura uma idéia. infelizmente.século V. "O homem de um momento pretérito – adverte-nos o Caminho da Pureza – viveu. vertiginosamente construída por uma série de homens momentâneos e solitários. mas não vive nem viverá. o de hoje morre no de amanhã". 18): "O homem de ontem morreu no de hoje. negar o eu. é um fogo que me consome. é um tigre que me despedaça. 373). negar o universo astronômico são desesperos aparentes e consolos secretos. dura a vida o que dura uma única idéia" (Radhakrishman: Indian Philosophy. o homem do momento presente vive. da T. and yet. mas não viveu nem vive. es ist auch genug. I. O tempo é a substância de que sou feito. toca a terra em um único ponto. infelizmente. And yet... sou Borges. VI. 407). Negar a sucessão temporal. 263. vai e faze de ti mesmo a escrita e de ti mesmo o ser.) . ao rodar. I. Outros textos budistas dizem que o mundo se aniquila e ressurge seis bilhões e quinhentos milhões de vezes por dia e que todo homem é uma ilusão. So geh und werde selbst die Schrift und selbst das Wesen. sentença que podemos comparar com esta de Plutarco (De E apud Delphos. Im Fall du mehr willst lesen. O tempo é um rio que me arrebata. amigo. é terrível porque é irreversível e férreo. o Visuddhimagga (Caminho da Pureza). mas eu sou o tigre. é real. Freund.

mas não os consultarei. de Herbert Allen Giles. de Arnold e de Sainte-Beuve.SOBRE OS CLÁSSICOS Escassas disciplinas devem ter mais interesse que a etimologia. frota. que podem beirar o paradoxal. ao longo do tempo. de nada ou de muito pouco serve a origem das palavras para a elucidação de um conceito. e persona. Um dos esquemas. as coincidências ou novidades importam menos que aquilo que julgamos verdadeiro. por exemplo. De modo semelhante. sem dúvida razoáveis e luminosas. (Lembremos. Saber que. um livro clássico? Tenho ao alcance da mão as definições de Eliot. Em seu segundo capítulo. e muito me agradaria concordar com esses ilustres autores. máscara.) O que é. cálculo significa pedrinha e que os pitagóricos usavam dessas pedrinhas antes da invenção dos números não nos permite dominar os arcanos da álgebra. uma truncada e três inteiras. em latim. então. em minha idade. dispostas verticalmente. saber que hipócrita era ator. de passagem. isto se deve às imprevisíveis transformações do sentido primitivo das palavras. Meu primeiro estímulo foi uma História da Literatura Chinesa (1901). ou I Ching. a formação análoga de ship-shape. não é um instrumento válido para o estudo da ética. Dadas tais transformações. agora. Acabo de completar sessenta e tantos anos. consta de duas linhas inteiras. feito de 64 hexagramas que esgotam as possíveis combinações de seis linhas truncadas ou inteiras. li que um dos cinco textos canônicos editados por Confúcio é o Livro das Mutações. a expor o que pensei sobre esse ponto. que depois tomaria o sentido de ordem. para fixar o que hoje entendemos por clássico. é inútil saber que esse adjetivo advém do latim classis. Limitar-me-ei. Um imperador pré-histórico os .

ou asas. uma filosofia enigmática. interessa menos que Dunbar ou que Stevenson. Gastam-se à medida que o leitor os reconhece. mas os meios devem variar constantemente. mas nada sabemos do futuro. já que as 64 figuras correspondem às 64 fases de qualquer empreendimento ou processo. Chego. para não perder sua virtude. Eu. na solidão de suas bibliotecas. Confúcio declarou a seus discípulos que. eu acreditava que a beleza era privilégio de uns poucos autores. a minha tese. Além das barreiras lingüísticas. A Divina Comédia. um instrumento para a adivinhação do futuro. Burns é um clássico na Escócia. fatal. essas decisões variam. da excitação ou da apatia das gerações de homens anônimos que a põem à prova. ele consagraria a metade ao estudo do livro e seus comentários. que me resignei a pôr em dúvida a indefinida perduração de Voltaire ou de Shakespeare. Por volta de 1930. uma leitura que demanda um ato de fé. Não tenho vocação de iconoclasta. o Livro das Mutações corre o risco de parecer uma simples chinoiserie. A glória de um poeta depende. interferem as políticas ou geográficas. agora sei que é comum e que está a nossa espreita nas casuais páginas do medíocre ou em uri diálogo de rua. Leibniz acreditou ver nos hexagramas um sistema binário de numeração. em suma. outros. para mim. o Fausto é uma obra genial. algumas das sagas do Norte) prometem uma longa imortalidade. uma das mais famosas formas do tédio. profundo como o cosmos e passível de interpretações sem fim. Lembro-me de que Xul Solar costumava reconstruir esse texto com palitos ou fósforos. mesmo que de modo levíssimo. Daí o perigo de afirmar que existem obras clássicas. acredito . Para os estrangeiros. mas ele foi devotamente lido e relido por gerações milenares de homens cultíssimos. ou um grupo de nações. se o tempo me propiciasse a ocasião de seu estudo. Deliberadamente escolhi um exemplo extremo. que continuarão a lê-lo. sob a influência de Macedonio Fernández. Clássico é aquele livro que uma nação. salvo que diferirá do presente. ao sul do Tweed. Livros como o de Jó. Uma preferência pode muito bem ser uma superstição. As emoções que a literatura suscita são.descobriu na carapaça de uma das tartarugas sagradas. talvez. um vocabulário de certa tribo. outros. eternas. ou o longo tempo decidiram ler como se em suas páginas tudo fosse deliberado. para outros. Assim. outros. outros. e que para sempre o serão. se o destino lhe concedesse mais cem anos de vida. como o segundo Paraíso de Milton ou a obra de Rabelais. um calendário. tenho certeza de que. Previsivelmente. Cada qual descrê de sua arte e de seus artifícios. como Wilhelm. encontraria nelas todos os alimentos que o espírito requer. agora. Macbeth (e. embora meu desconhecimento das letras malaias ou húngaras seja completo. Para alemães e austríacos.

Quero também aproveitar esta página para retificar um erro.(nesta tarde de um dos últimos dias de 1965)1 na de Schopenhauer e na de Berkeley. 1 Esta versão do ensaio foi publicada na revista Sur. de janeiro-abril de 1966. lêem com prévio fervor e com uma misteriosa lealdade. Uma. ao revisar as provas.) 1 "O mundo criado é como um livro em que se lê a Trindade. (N. mas que essas contadas invenções podem ser tudo para todos. Isso talvez seja indício de um ceticismo essencial. Em um ensaio. Bacon limitou-se a repetir um lugar-comum escolástico. como o Apóstolo. EPÍLOGO Duas tendências descobri. é um livro que as gerações de homens." (N. e incorporada às Obras Completas de 1974. Outra. atribuí a Bacon a idéia de que Deus compôs dois livros: o mundo e a Sagrada Escritura.1 Ver Étienne Gilson: La Philosophie au Moyen Âge. Clássico não é um livro (repito) que necessariamente possui estes ou aqueles méritos. p. 464.) . da T. nos miscelâneos trabalhos deste volume. 442. do Coord. urgidas por razões diversas. para pressupor (e verificar) que o número de fábulas ou metáforas de que é capaz a imaginação dos homens é limitado. para avaliar as idéias religiosas ou filosóficas por seu valor estético e até pelo que encerram de singular e de maravilhoso. no Breviloquium de São Boaventura – obra do século XIII – lê-se: "Creatura mundi est quasi quidam líber in quo legitur Trintas".

25 de junho de 1952. W. L. Dunne A Criação e P H. OUTRAS INQUISIÇÕES (1952) A muralha e os livros A esfera de Pascal A flor de Coleridge O sonho de Coleridge O tempo e J. B. Buenos Aires. Gosse Os alarmes do doutor Américo Castro Nosso pobre individualismo Quevedo Magias parciais do Quixote Nathaniel Hawthorne Valéry como símbolo O enigma de Edward FitzGerald Sobre Oscar Wilde Sobre Chesterton O primeiro Wells O Biathanatos Pascal O idioma analítico de John Wilkins Kafka e seus precursores .J.

Do culto aos livros O rouxinol de Keats O espelho dos enigmas Dois livros Anotação ao 23 de agosto de 1944 Sobre o Vathek de William Beckford Sobre The Purple Land De alguém a ninguém Formas de uma lenda Das alegorias aos romances Nota sobre (para) Bernard Shaw História dos ecos de um nome O pudor da história Nova refutação do tempo Sobre os clássicos Epílogo .

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