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GESTÃO NA EDUCAÇÃO: DA “POLÍTICA” DE ARISTÓTELES À EDUCAÇÃO CORPORATIVA

Robinson Tenório – UFBA robinson tenorio@uol.com.br hristianne Pamplona Gentil Perez – UFBA rhisgentil@terra.com.br

Resumo: Este ensaio visa uma maior compreensão dos processos de mudanças de concepções ocorridas na Educação, desde os primeiros estudiosos do assunto, até a criação do termo Educação Corporativa pelas empresas. A pesquisa realizada perpassa por diferentes concepções da educação ao longo dos séculos até chegar à Educação Corporativa contemporânea. Apresenta-se, ao final do artigo, a necessidade de mudanças nas políticas, nos objetivos e nos valores dos Programas de Educação Corporativa para que a evolução dos valores citados desde a Política de Aristóteles até a Educação Corporativa contemporânea possa efetivamente ser concretizada. Palavras chave: história da educação; educação na administração; educação corporativa.

INTRODUÇÃO

O assunto Educação Corporativa, desde o final da década de 90 tornou-se alvo de

interesse de grandes corporações. À medida que os estudos sobre educação corporativa e

desenvolvimento de pessoas, vêm sendo ampliados, novas discussões surgem sobre o assunto.

Resultados alcançados, avaliações de programas, princípios que norteiam as Universidades

Corporativas têm sido discutidos, tanto entre os profissionais das áreas de gestão de pessoas

quanto também na área acadêmica, porém, segundo Éboli (2004), uma das maiores

referências nacionais no assunto, é necessário “avançar na conceituação do tema Educação

Corporativa, e isso só acontecerá se houver um esforço da academia em se aproximar mais da

realidade empresarial.” (Eboli 2004, p 251) e sugere ainda que todo o cidadão, que se

preocupa com os rumos da nossa sociedade, deve refletir sobre a verdadeira rota da Educação

Corporativa no Brasil. Na verdade, a autora parece fazer um convite aos acadêmicos para que

estes se aproximem do mundo empresarial e contribuam com seus conhecimentos para a o

futuro da Educação Corporativa no Brasil.

A proposta do estudo em questão é fazer o sentido contrário no tempo, retornar ao

passado para entender, a partir de alguns elementos, a História da Educação e a Educação na

História da Administração para compreender os motivos que contribuem para que haja esta

distância entre Acadêmicos e Profissionais da Educação Corporativa e assim poder oferecer

aos leitores uma caricaturização da situação atual da Educação promovida pelas empresas aos

seus empregados. Acredita-se que desta maneira, qualquer proposta para o futuro da Educação Corporativa será fornecida a partir de bases conceituais muito mais sólidas.

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO

A História da Educação pode ser interpretada, segundo Monteiro (2006) como um

“processo de lento reconhecimento do educando como ser humano de pleno direito”. Platão, Coménio, Rousseau e Paulo Freire serão citados a seguir para permitir ao leitor um breve

entendimento sobre as mudanças nas concepções da educação ao longo dos séculos. Para Aristóteles a educação, citada em A Política reflete, o caráter primordialmente político: “Ninguém duvidará de que o legislador deve prestar atenção, acima de tudo, à

educação da juventude, ou de que a negligência da educação é prejudicial aos Estados. O

cidadão deve ser moldado segundo a forma de governo sob o qual vive

pressupor que qualquer cidadão pertence a si próprio, porque todos pertencem ao Estado,

cada um deles é parte do Estado e o cuidado com cada parte é inseparável do cuidado com o

todo.Neste aspecto, os Lacedemônios devem ser elogiados tarefa do Estado ”.

A educação na qual Aristóteles toma como referência positiva é a educação da Cidade-

Estado de Esparta, considerada conservadora, reacionária e totalitária. Segundo Monteiro (2006), ao nascer, todas as crianças eram apresentadas a uma Comissão de Anciãos que decidiam se esta deveria ou não conservar a vida. Se robusta e perfeita seria mantida com a família até idade de sete anos, quando então o Estado se apropriava dela e lhe garantia a verdadeira educação, até os vinte anos, sob a autoridade de um magistrado responsável por uma educação física, moral e cívica. Uma educação austera, dura, que tinha como objetivo o ensino da obediência às leis e o servir à Pátria. Se não fosse robusta, perfeita e saudável a criança não tinha direito à vida. Platão, considerado como o primeiro a conceber um sistema completo de educação obrigatória, na maior parte de seus diálogos aborda a educação sob o ângulo metodológico. Porém, inspirado em Esparta, ao publicar a República, apresenta pela primeira vez o ideal da “política da educação” e aplica-a posteriormente (hipoteticamente) em As Leis: “a magistratura mais importante é mesmo a do ministro da educação”. Em suas obras, Platão apresenta a Cidade ideal formada por três classes sociais: 1) os escravos, 2) artesãos, comerciantes e trabalhadores, 3) guardiões (auxiliares, guerreiros, chefes, filósofos). Apesar, porém, de Platão ser considerado como o primeiro autor de uma filosofia da educação e de ter

fazem da educação uma

Nem podemos

porque

forte influência, inclusive sobre o pensamento pedagógico dos tempos modernos, no âmago de sua filosofia, a educação, assim como em Aristóteles, encontra-se num plano subsidiário de seu pensamento político. A educação elementar, segundo Platão, era exclusividade apenas

para a elite dos guardiões da Cidade ideal e o direito à educação superior, ainda mais restrito, era permitido só para os melhores guardiões considerados guardiões superiores que, ao tornarem-se homens por excelência, estariam mais próximos da Divindade e poderiam então passar o resto de suas vidas ao estudo da filosofia e ditando regras à Cidade. Coménio, o precursor do direito universal a uma nova educação, segundo Monteiro (2006), é considerado como o representante da História da Educação no século XVII. Entre 1627 e 1632 escreveu Didactica Magna – universales omnes omnia docenti artificium exhibens (Didactica Magna – Tratado da arte universal de ensinar tudo a todos), na qual tinha

descobrir o método segundo o qual os professores ensinem menos e os

estudantes aprendam mais; nas escolas haja menos barulho, menos enfado, menos trabalho

inútil e , ao contrário haja mais recolhimento, mas atractivo e mais sólido progresso

Coménio, e conforme citado por Monteiro (2006) “as sementes do saber, da moralidade e da

religião têm de ser cultivadas através da educação

os ricos, sem sabedoria, senão porcos engordados com farelos ? que são os pobres, sem compreensão das coisas, senão burros condenados a transportar a carga ? Um homem formoso, privado de cultura, que é senão um papagaio de plumagem brilhante ?” Rousseau é considerado o precursor maior do “direito do homem” à educação, sob o ângulo da sua legitimidade. Lê-se no Émile de Rousseau toda uma abordagem ético-jurídico- política da educação como poder de configuração do homem pelos homens, onde se encontram já os elementos do direito à educação: “A educação dos seres humanos que são seres sociais, deve ter em vista o que há de melhor tanto para eles quanto para os outros”. Na segunda metade do século XIX, inspirado no Émile de Rousseau nasce o Movimento da Escola Nova (MEN), a onda mais poderosa contra a muralha do direito de educação, na família e na escola (Monteiro 2006). O MEN opunha-se à escola tradicional da época, reagia contra os métodos que atribuíam ao mestre o papel essencial na instrução e na educação e centrava sua obra educativa na criança: na sua atividade própria, nas necessidades de sua idade, nos seus gostos ou interesses pessoais. A ideologia pregada pela Educação Nova foi consagrada e universalizada juridicamente pelo “direito à educação”. Em 1948, a Declaração Universal dos Direitos do Homem foi proclamada pela Assembléia Geral das Nações Unidas, em Paris. Em 1960, a Conferência Geral da UNESCO, inclui o artigo 26 da Declaração em seu tratado de “Convenção sobre a luta contra a discriminação no domínio do

educação é necessária a todos: que são

por objetivo “

” Para

a

ensino”. Este, continua a ser o principal instrumento jurídico internacional, específico sobre o direito à educação.

Artigo 26:

1) Toda pessoa tem direito à educação

desenvolvimento da personalidade humana e o reforço dos direitos dos homem e das liberdades fundamentais e deve favorecer a compreensão, a tolerância e a amizade entre

como o desenvolvimento das Nações Unidas para

A educação deve visar o pleno

2)

todas as nações e todos os grupos

a manutenção da paz. 3) Os pais têm, como propriedade, o direito de escolher o gênero de educação a dar aos filhos

bem

Paulo Freire, o maior pedagogo e mais influente pensador e lutador pelo direito à educação na segunda metade do século XX aborda a educação como um processo sócio- político-economico-global fundado em valores sociais cujas análises críticas da realidade embasam as finalidades sociopolíticas. “A educação para ser válida, precisa considerar a vocação ontológica do homem, vocação de ser sujeito e as condições em que vive: neste exato lugar, neste momento, neste determinado contexto”. (Freire 1980 em Wickert 2006). Entre as teorias da aprendizagem, Freire é um dos representantes da Teoria

Sóciocrítica, na qual o sujeito deve ser capaz de se situar competente e consciente diante de pontos de vista e conflitos da sociedade e aplicar seus conhecimentos para participar de sua

evolução

O

conhecimento deve constituir-se numa ferramenta essencial para intervir no

mundo.

Em 1990, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) da ONU cita a educação como uma das dimensões mais essenciais para o crescimento econômico: uma das noções mais próximas do vínculo entre educação e futuro é “desenvolvimento com oportunidade”. (PNUD 1990/2004). No relatório da UNESCO, apresentado por Delours(1997) a proposta para a educação do século XXI é fundamentada em quatro pilares (saber aprender, saber ser, saber conviver e saber fazer). Para Libâneo (1983 citado Wickert 2006), a educação é um processo de desenvolvimento da personalidade, envolvendo a formação de qualidades humanas – físicas, morais, intelectuais, estéticas – tendo em vista a orientação da atividade humana na sua relação com o meio social, num determinado contexto de relações sociais ( Libâneo,1983 in Silva, 1984). Segundo Morin (2000, Wickert 2006), a Educação deve pensar a pluralidade e a transdisciplinaridade, incorporando ao conhecimento científico as questões básicas do relacionamento consigo mesmo, com os outros e com seu meio ambiente, de forma a recuperar o sentido do global e do planetário.

A Educação, para Wickert (2006), é um fenômeno social que contribui para o desenvolvimento econômico, científico, cultural e político de uma sociedade. Segundo esta autora, cada grupo social concebe, organiza e operacionaliza seu sistema educativo a partir da visão que tem do ser humano e do mundo, em função de referenciais individuais e coletivos que vigoram naquele tempo e naquele espaço específico. Portanto há uma correlação profunda entre as concepções que as pessoas têm de si e do universo, a forma como educam seus descendentes e o tipo de sociedade que constroem. Os desafios atuais da educação, segundo filósofos, educadores e pensadores, preocupados com os rumos da educação no século XXI, estão em conciliar o desenvolvimento integral do ser humano e sua autonomia pessoal às competências exigidas pelos avanços científicos e tecnológicos. “Educação, em grande parte, hoje e principalmente no futuro, precisa cultivar a qualidade formal e política da população, para que ela, sabendo pensar,

mantenha o mercado como meio e estabeleça a cidadania coletiva como fim

A habilidade

crítica e criativa de conhecimento aparece como instrumentação essencial para as transformações da sociedade e da economia (Santos 1995, Demo 2000, Demo 2005), à medida que permeia nossas vidas por completo, desde o mundo do trabalho, até nossa subjetividade. Ao analisar as mais recentes concepções de educação, pode-se concluir que é um processo, que envolve o desenvolvimento da personalidade e das relações sociais e a depender da forma como as pessoas são educadas e da visão que os responsáveis pelos sistemas educativos atribuem ao ser humano, a educação pode contribuir para desenvolvimento econômico, científico, cultural e político de uma sociedade.

HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO NA ADMINISTRAÇÃO

Apesar do que o senso comum pode sugerir, de que a Educação na Administração iniciou-se durante a Revolução Industrial ou mesmo como reflexo da Segunda Guerra Mundial, Motta (2001) apresenta informações surpreendentes sobre o assunto. Por volta de 1755, Morelly, em Código na Natureza, propõe a idéia do trabalho de acordo com a habilidade do trabalhador e cita a necessidade de formação e treinamento. Já Robert Owen (1771-1857), um alto executivo de uma empresa têxtil na Escócia, acreditava que o caráter do homem era pré-fabricado em grande medida pelos seus predecessores, porém a natureza humana poderia ser treinada e dirigida. Além de introduzir o treinamento de operários, o executivo Owen reduziu a jornada de trabalho de quatorze para onze horas e meia, substituiu

os castigos por notificações e advertências, aboliu o trabalho de menores de dez anos e instalou uma escola. Segundo Motta (2001) Fayol, Gulick, Urwick, Gantt e Gilbreth e em especial Taylor são considerados os fundadores da Escola Clássica. Em 1903 e 1911 respectivamente, o americano Taylor publica os livros: Administração de Oficinas e Princípios da Administração Científica. Preocupado com a racionalização dos sistemas de trabalho, Frederick Taylor desenvolve a idéia do “homem de primeira classe” e este passa a ser o objeto de estudos sobre as variáveis de tempo e movimento das pesquisas de Taylor. Para garantir que os padrões fossem atingidos, Taylor sugere a seleção, o treinamento e o controle dos trabalhadores. Ainda focado no aumento da produtividade, sugere que se pague mais a quem produzir mais. Em 1916, o francês Henri Fayol, engenheiro e administrador, publica o livro intitulado Administração Geral e Industrial no qual, além de complementar o trabalho desenvolvido por Taylor, classifica as funções do administrador em: planejar, organizar, coordenar, comandar e controlar. Taylor e Fayol influenciam até os dias atuais a administração das organizações do mundo todo. Os princípios de unidade de comando, de divisão do trabalho, especialização e amplitude de controle de Fayol, estão relacionados às formas estruturais dominantes em nossa sociedade. A “Taylorização” das relações de produção caracteriza todo um período da industrialização mundial. No Brasil, Taylor e Fayol inspiraram a primeira fase da produção cultural brasileira (nas décadas de 50 e 60) no campo da educação pública e de empresas. As produções culturais da administração da educação no Brasil também receberam influências de Fayol.

Em 1927, a partir das pesquisas de George Elton Mayo, um psicólogo industrial, na fábrica de Hawthorne (EUA), uma nova corrente administrativa foi criada, a denominada Escola das Relações Humanas, na qual a atenção estava voltada para questões relacionadas mais ao campo psicossocial do que apenas na formalidade do controle administrativo da produtividade. A corrente das Relações Humanas influenciou na década de 60 o campo da administração da educação no Brasil. Durante a segunda guerra mundial surgem os termos, produtividade e qualidade e junto a eles novas demandas industriais: aumento do tempo de produção (24 horas/dia), aumento da produção de material bélico (por exemplo: transformar tampinhas de garrafa de Coca Cola em estojo de bala). Isto tudo, promoveu grande diversificação na produção. Passou a ser necessário um maior cuidado com a logística, com a manutenção dos equipamentos e

com o controle da qualidade e segurança (produziam granadas). Treinar era necessário para garantir a produtividade e a própria sobrevivência. Demming, na década de 70, promove uma transição da era do “controle” da qualidade para a “filosofia” da qualidade total. Ele acreditava que todas as pessoas da organização deveriam estar comprometidas com o controle da qualidade (Motta, 2001) e propôs um ciclo que deveria ser obedecido por todos, visando que cada pessoa realizasse seu trabalho com qualidade. O ciclo é o “Plan, Do, Sttudy,Act”. Juntamente a isto, sugeriu 14 pontos , que se obedecidos, segundo Demming, garantiriam a qualidade total da organização (entre os 14

pontos, o de número seis era: instituir o treinamento no trabalho). A partir de então, todas as organizações que almejassem atingir a Qualidade Total necessitariam seguir os 14 pontos. Promover treinamentos no trabalho passou a ser um dos objetivos das organizações. Wood Jr (em Motta 2001), afirma que os 14 pontos de Demming constituíram o “evangelho” da qualidade, por abordar questões essenciais da administração, tais como, liderança, treinamento, eliminação de barreiras e melhoria constante do sistema. Observando a afirmação de Wood Jr, com foco no assunto História da Educação na Administração, percebe-se o quanto a educação de trabalhadores foi fundamental para a implantação e o gerenciamento da qualidade total nas organizações a partir da década de 70. No final do século XX, segundo Ianni, “o mundo se dá conta de que a história não se resume no fluxo das continuidades, seqüências e recorrências, mas que envolve também

está em curso um intenso processo de globalização das

tensões, rupturas e terremotos

coisas, gentes e idéias”. A Globalização promove grandes mudanças na esfera do trabalho. Mudanças tanto nas técnicas e nas formas de organização dos processos produtivos como também nas condições jurídicas, políticas e sociais de produção. No final da década de 90, o termo Universidade Corporativa chega ao Brasil.

EDUCAÇÃO CORPORATIVA

A adoção do conceito de Universidade Corporativa no Brasil iniciou na década de 90 a partir da tese de doutorado de Marisa Éboli na USP (Éboli ,2004) e na primeira década do século XXI passou a ser também chamada de Educação Corporativa . De acordo com Tobin (1998) e Eboli (2004), as razões que levam uma empresa a criar uma UC são diversas, entre elas: 1) líderes empresariais acreditam que conhecimentos, habilidades e competências formam a base da vantagem competitiva de seus negócios.

O objetivo principal de uma UC é desenvolver e instalar as competências empresariais e humanas consideradas críticas para a viabilização das estratégias de negócios (Éboli, 2004). Meister (citado por Éboli 1999) ao ser questionada em entrevista sobre o âmbito de atuação da Universidade Corporativa afirma que muitas empresas começaram focalizando

apenas programas de desenvolvimento de lideranças

criar uma Universidade Corporativa voltada apenas aos gerentes e depois com o tempo,

sugere que “pode-se começar por

e

ampliá-la para toda a organização”. Segundo Meister (1999) é necessário a compreensão de sete conceitos para que seja implantado a (cultura da) Universidade Corporativa nas organizações:

Tabela 1. Adapatado de Meister (1999) e Éboli (2004)

Objetivo

Desenvolver competências críticas do negócio, ao invés de apenas habilidades individuais

 

Privilegiar

o

aprendizado

organizacional,

Foco do Aprendizado

fortalecendo

a

cultura

corporativa

e

o

conhecimento

coletivo

e

não

apenas

o

conhecimento individual

 

Escopo

Concentra-se nas necessidades do negócio e não nas necessidades individuais

Ênfase dos Programas

Conceber e desenhar ações a partir das estratégias de negócios

Públicos Alvos

Adotar o conceito de educação inclusiva desenvolvendo competências críticas nos públicos internos e externos (empregados, familiares, clientes, distribuidores, parceiros comerciais e comunidade)

Local

Se possível um projeto virtual, não necessariamente um local físico

Resultado

Aumentar a competitividade empresarial e não apenas as habilidades individuais

Fonte: Adaptado de Meister (1999) e Éboli (2004).

EDUCAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DE PESSOAS NAS ORGANIZAÇÕES

Sob a ótica da Psicologia Organizacional, os estudiosos mais recentes de Treinamento, Desenvolvimento e Educação podem ser divididos em três grupos: 1) os que estudam conceitos, processos, estratégias e práticas 2) os que estudam avaliação de necessidades e delineamento de soluções e 3) aqueles que buscam criar medidas e avaliar sistemas. Entre os diversos e atuais assuntos estudados sobre Educação e Desenvolvimento de Pessoas nas Organizações, despertou a atenção dos autores deste texto as discussões recentes sobre a abrangência dos termos Educação e Desenvolvimento de Pessoa. As diferenças conceituais parecem claras: Educação, refere-se a todos os processos pelos quais as pessoas adquirem compreensão do mundo, bem como a capacidade para lidar com seus problemas (Pontual 1978;Bastos,1991; Abbad e Vargas 2006) e esta relacionada à aprendizagem necessária para que o indivíduo possa assumir um trabalho diferente, num futuro próximo (Nadler, 1984).O Desenvolvimento está voltado para o crescimento individual, sem necessariamente ter relação com um trabalho específico, conforme afirma Nadler (1984) e completa Catanante (2001) em Gestão do Ser Integral, o desenvolvimento integral envolve o social, emocional, espiritual e racional. Com relação à abrangência de cada assunto (Educação e Desenvolvimento), Sallorenzo (2000, Vargas & Abbad 2006) considera que Desenvolvimento engloba Educação Já Zerbini e Carvalho (2003, Vargas & Abbad 2006) sugerem que a Educação envolva em seus conceitos o desenvolvimento. Mais do que identificar se a Educação promovida pelas empresas engloba Desenvolvimento de Pessoas, ou se esta Educação está inserida no processo de Desenvolvimento de Pessoas e baseados na definição de Sobrinho (2003), no qual diferenças “em geral” podem ser observadas por duas óticas distintas: uma mecanicista e outra holística, Perez e Tenório 2007 propõem que a Educação Corporativa seja identificada a partir de um o paradigma Mecanicista e o Desenvolvimento de Pessoas, um paradigma holístico.

Tabela 2 Diferenciação entre Educação Corporativa e Desenvolvimento de Pessoas

Educação Corporativa

Desenvolvimento de Pessoas

Paradigma Mecanicista

Paradigma Holístico

Analisa partes isoladas

Analisa as partes e o global

Explicação

Questionamentos

Define

Produz sentido

Hierarquiza

Constrói a identidade

Fonte: Perez e Tenório, 2007

Os autores observam que a Educação (promovida pelas empresas), compreendida sob uma ótica mecanicista é caracterizada por seu paradigma analítico e determinista do pensamento formal, lógico, racionalizante. Já, o Desenvolvimento de Pessoas, compreendido à luz de um paradigma holístico, caracteriza-se pela sua maior preocupação entre as partes e o global que com parcelas isoladas em golpes de análise, mais com questionamentos e a produção de sentidos que com a explicação e a definição acabada, mais com a construção de identidade que com a seleção e a hierarquização, mais com a produção da qualidade em termos amplos, que com a acumulação progressiva de resultados.

CONSIDERAÇÔES FINAIS

Após conhecimentos sobre a história da educação a partir da abordagem jurídica de Monteiro (2006), que explicita as diferenças paradigmáticas entre o “direito de educação” e o “direito à educação”; após a compreensão do papel da educação, reduzida ao “treinamento” em toda a história da administração e após a compreensão dos objetivos, conceitos e razões que levam uma empresa a se preocupar com a implantação de uma Universidade Corporativa, parece óbvio a afirmação de Demo(2004):

Educação tem muito a ver com futuro, porque em parte o futuro depende da educação É muito interessante que o mercado valorize a educação mas esta educação tem como parâmetro a competitividade e a produtividade e não a cidadania. Ocorre que mercado é apenas meio, enquanto educação é meio e fim

Mais que fazer apenas uma análise crítica da Educação Corporativa no Brasil, a intenção dos autores deste ensaio foi apresentar condições para que os Programas de Educação, promovidos pelas empresas, possam ir além do que vem sendo realizado, possam contribuir verdadeiramente para o desenvolvimento do país, não apenas nas questões

relacionadas ao crescimento econômico, mas principalmente no quesito “desenvolvimento integral das pessoas”, que assim como define Catanante (2001), significa desenvolver os capacidades sociais, emocionais, espirituais e racionais. Conforme palavras de Bresser-Pereira (1995), apesar de o Estado possuir um sistema de poder centralizado e estruturado, a Sociedade Civil, representada principalmente pelas empresas, possui um sistema que, apesar de difuso, é mais real. Em nosso contexto, se a Educação Corporativa já é uma realidade, que comprovadamente torna as empresas mais competitivas, porque não torná-la, além de

estratégia empresarial também oportunidade educacional real. Como a proposta de Coménio para as escolas do século XVIII, que as empresas tenham mais recolhimento, mais atractivo e mais sólido progresso (para todos). Ou como a sugestão de Rousseau na qual “A educação

deve ter em vista o que há de melhor tanto para eles quanto para os

outros”. Ou mesmo seguir o artigo 26 da Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948 na qual dita que a educação deve visar o pleno desenvolvimento da personalidade humana e o reforço dos direitos do homem e das liberdades fundamentais e favoreça a compreensão, a tolerância e a amizade entre todos os grupos. A empresa deve sim promover o conhecimento, não apenas o conhecimento das competências críticas necessárias para a sua sobrevivência e perpetuação dos negócios, mas um conhecimento que, assim como pregou

Paulo Freire, na segunda metade da década do século passado, “constitua-se numa ferramenta essencial para que cada ser humano possa intervir no mundo” (além dos muros das fábricas A Educação Corporativa deve ser vista, assim como cita Libâneo (1983), como um processo de desenvolvimento da personalidade, que envolva a formação de qualidades humanas - físicas, morais, intelectuais e estéticas. Para que efetivamente as empresas façam juz às características que uma boa parcela da sociedade contemporânea já define como a Sociedade Pós Moderna é necessário que os objetivos, as políticas e valores dos Programas de Educação Corporativa, sejam revistos. É necessário mudar, em primeiro lugar a visão do ser humano e do mundo. Afinal, a concepção, organização e operacionalização de um sistema educativo dependem disto para ser efetivamente concebido. Há uma correlação profunda entre as concepções que as pessoas têm de si e do universo, a forma como educam seus descendentes e o tipo de sociedade que constroem, segundo Wickert (2006). A questão é refletir sobre qual a sociedade que querem construir a partir dos programas de Educação Corporativa? Se for a sociedade do conhecimento, não é possível que os programas iniciem apenas com os gerentes e depois, com

dos seres humanos

o tempo, sejam ampliados para toda a organização. A sociedade do conhecimento não pode

esperar por isto

e desenhar ações, relacionadas tanto às necessidades dos indivíduos quanto também às

estratégias dos negócios. É necessário sim desenvolver competências críticas do negócio e a cultura corporativa mas não esquecer de que os indivíduos são únicos na essência, que têm personalidades, pensamentos, desejos, sonhos, qualidades, limitações que os diferem uns dos outros e que portanto precisam ser respeitados por isto. Educar para o negócio, não pode significar abandonar a oportunidade de desenvolver-se em sua plenitude como ser único e integral. Ou

É necessário começar conhecendo o ser humano, para então poder conceber

então, estaria a Educação Corporativa, ressuscitando a ideologia Aristotélica da educação, na

qual:

(

negligência da educação é prejudicial aos Estados. O cidadão deve ser moldado segundo a

a

o legislador deve prestar atenção, acima de tudo, à educação da juventude (

)

)

forma de governo sob o qual vive (

pertence a si próprio, porque todos pertencem ao Estado ( )

)

Nem podemos pressupor que qualquer cidadão

Citando, Machado (1993),

Mais do que preocupações técnicas, com quaisquer medidas associadas ao homem, de suas capacidades, de seu desempenho, é preciso situar o homem como medida de todas as ações, de todas as metas, de todos os projetos, nele e através dele consubstamciam-se e expressam-se todas as grandezas, todos os valores.

Como cidadãos e profissionais da área acadêmica e empresarial que se preocupam verdadeiramente com os rumos da nossa sociedade, os autores deste ensaio consideram que as linhas acima sirvam como sugestões para a rota da Educação Corporativa no Brasil e concordando com Monteiro (2006, p.183) “ Há muita história ainda para fazer, até que a educação deixe de ser um direito sobre o homem e se torne verdadeiramente um direito do homem ”

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