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Réquiem para a Universidade da Costa do marfim

Professor N´GUESSAN Yao Thomas Ministro do Ensino Superior Governo Aké M´GBO

Yao Thomas Ministro do Ensino Superior Governo Aké M´GBO Os dirigentes de alguns países ocidentais, sobretudo

Os dirigentes de alguns países ocidentais, sobretudo os das antigas potências colonizadoras acham que os Africanos não dispõem do seu livre arbítrio e ainda não maduros o suficiente para refletirem por si próprio: portanto, os Africanos não têm direito à autodeterminação à qual todo povo tem direito conforme a declaração universal dos direitos dos povos. Por este fato, cabe aos dirigentes destes países refletirem no lugar dos Africanos, e perpetuar assim a colonização. Nesta perspectiva, eles proíbem aos países africanos qualquer sistema de formação de alto nível.

Se ontem esta política era feita às escondidas, hoje, os antigos colonizadores resolveram abrir o jogo e praticá-la oficialmente. Melhor, eles a aplicam com a cumplicidade ativa daquilo que chamam a comunidade internacional.

O que acontece na Costa do Marfim, embora inédito, se tornou um exemplo flagrante. A Omerta imposta às mídias pelas potências ocidentais, a obrigação feita a essas mídias em divulgar idéias partidárias, impede aos povos, inclusive os intelectuais, que estejam objetivamente informados. Senão, como compreender que se destrua uma universidade e que ela esteja ocupada por homens armados sem ninguém reagir, nem mesmo os universitários desses países ditos civilizados? Como se pode de maneira impune, desprezar as imunidades universitárias reconhecidas a qualquer universidade e sem as quais não é possível administrar um conhecimento de maneira eficaz, sem ninguém reagir, nem mesmo os universitários ocidentais que tem contribuído para a formação de vários universitários africanos? Estar informado, permanecendo na verdade não é também um direito humanitário? Também não seria a expressão da liberdade?

Um célebre autor dizia: “A liberdade não é nem uma invenção jurídica nem uma jóia filosófica propriedade de civilizações mais dignas do que outras pois só elas saberiam produzi-la e preservá-la. Ela resulta de uma relação objetiva entre o indivíduo e o espaço que ele ocupa, entre o consumidor e os recursos de que ele dispõe”.

Sob o pretexto da resolução de um contencioso eleitoral, uma tempestade apocalíptica, vinda da França, atingiu a Costa do Marfim, nosso país, um país soberano da África, devastando como Atila, tudo na sua frente. Levando as nossas universidades e campi. O resultado é assustador.

A Universidade de Cocody/Abidjan, a primeira das universidades marfinenses, já não existe

mais.

A Universidade de Abobo-Adjamé, a terceira maior universidade marfinense, também sumiu do

mapa.

A Universidade de Bouaké, a segunda universidade marfinense, apenas essa, talvez por ter sido

transferida para Abidjan e reorganizada em três sítios, foi em parte poupada. A não ser que a sua salvação tenha a ver com sua denominação Bouaké (cidade ocupada desde 2002 pela rebelião).

Todos os campi foram destruídos. Noventa e por cento (90%) do nosso patrimônio universitário

e cultural acabaram de desaparecer num silêncio de mortos e com certeza por muito tempo.

Assim morre uma das jóias do Ensino Superior na África ao sul do Saara, um orgulho não só para nós Marfinenses, mas também para os Africanos.

Esta destruição sistemática e orientada do patrimônio universitário da Costa do Marfim não é

acidental: era preciso evitar qualquer reduto de contestação futura, eliminando a elite intelectual

do país.

Tudo isso com a cumplicidade do mundo inteiro e das Organizações Humanitárias geralmente tão rápidas em demonizar o Laurent Gbagbo sem mesmo ter um mínimo de provas.

“O silêncio e a inércia é a maior arma de destruição em massa[1]

Destruir a Universidade é destruir o cérebro do país, a sua autonomia e a sua soberania.

“A universidade é uma instituição que reúne a produção (pesquisa), a conservação (publicações e bibliotecas) e a transmissão (Estudos superiores), em diferentes áreas de conhecimento. Por isso, ela é diferente de escolas e escolas de secundárias, que se concentram apenas na transmissão de uma área bem definida do conhecimento”.

Essa é a definição que nós traz a Enciclopédia Wikipédia.

É preciso entender a Universidade no caso como o Ensino Superior, desconsiderando a divisão artificial, Universidade/Escolas técnicas, tipicamente francesa.

Uma universidade é antes de tudo a Produção, isto é a Pesquisa que leva a Publicações científicas. Sem a produção, a universidade apenas é uma casca vazia.

A Pesquisa científica significa em primeiro lugar o conjunto das ações empreendidas com vista

a produzir e desenvolver os conhecimentos científicos. Esse termo abrange todas as disciplinas,

da Filosofia à Matemática, passando pelas Ciências Sociais, as Ciências Médicas, etc. Um

Professor universitário é antes de tudo um pesquisador.

O manual de Frascati[2], para satisfazer necessidades estatísticas, define vários tipos de

pesquisa:

A pesquisa fundamental, empreendida principalmente (mas nem sempre exclusiva) com vista a produzir novos conhecimentos, independentemente das perspectivas de aplicação.

A pesquisa aplicada, que é orientada para uma meta ou objetivo específico

As atividades de desenvolvimento (as vezes confundidas com a pesquisa tecnológica), que consistem na aplicação desses conhecimentos para a fabricação de novos materiais, produtos ou dispositivos.

Todas essas pesquisas se praticam diariamente em todas as universidades do planeta, sendo apenas artificial a divisão acima mencionada.

Depois da produção, vem a Conservação. É a memória científica do país. É aí que estão conservados não só, as descobertas científicas, as teses e obras do país, mas também, na medida do possível, os do mundo inteiro. É a referência indicada para todas as questões científicas, tecnológicas, econômicas, sociológicas e outras. Esta palavra abrange todas as disciplinas conhecidas ou não que o país se deve de encarar. Esta característica faz da universidade uma referência nacional em todas as áreas da atividade humana do país, e, sobretudo aquela ligada ao Desenvolvimento econômico. A Universidade é um conservatório.

O terceiro aspecto diz respeito à Transmissão do saber. O desenvolvimento econômico de um país se baseia essencialmente no nível de formação da sua população em geral e de seus quadros em particular. A qualidade da formação é supostamente baseada no respeito de dois principais critérios, não sendo necessário inspecionar, nem notar os Professores Universitários. Além de formar todos aqueles que o país precisa, ela se deve de preencher também a sua função de reprodução, isto é, garantir a substituição dos seus professores. Portanto, é preciso desenvolver programas de doutorados, investindo bastante com recursos necessários. A melhor das reformas está condenada ao fracasso caso houver escassez de recursos financeiros e materiais, e também quando a liberdade é confiscada.

Se for preciso formar alguns quadros fora do país para servir de auto-avaliação para o próprio sistema, não é desejável que isso se generalize e que envolva a maioria. Além de não ter a certeza de que eles sejam melhores do que aqueles que permaneceram no país, há também o fato de se dar livre curso à fuga de cérebros, verdadeira escravidão dos tempos modernos. Nenhum país desenvolvido correria o risco de depender de outro país para a formação de seus técnicos, engenheiros e quadros.

Para os pesquisadores, há universidades mais conceituadas do que outras. Para entender melhor

o funcionamento das universidades, convém referir-se ao método de classificação.

Entre todos os rankings das universidades, para evidenciar as melhores, a referência mundial é

o da Universidade Jiao Tong de XANGAI (China). Todas as Universidades do mundo inteiro, e

particularmente as ocidentais, aguardam cada ano como um Nobel, esta lista com preocupação e

ansiedade. Ela se fundamenta nos critérios abaixo que acabaram impostos a todos. Percebemos que todos os critérios se baseiam quase exclusivamente na Pesquisa. A reputação de uma universidade é baseada na Pesquisa, e a qualidade do ensino é apenas conseqüência do desempenho da Pesquisa.

Critérios

Indicadores

Ponderação

Qualidade

Número de Prémio Nobel e de Medalhas Fields entre os ex- alunos

10%

do Ensino[3]

 

Número de Prémio Nobel e de Medalhas Fields entre pesquisadores

20%

Qualidade

Número de pesquisadores mais citados nas suas disciplinas

20%

da Instituição

 

Artigos publicados em Nature e Science entre 2000 e 2004

20%

Publicações[4]

Artigos indexados em Science Citation Index, e Arts & Humanities Citation Index

20%

Tamanho

da

Desempenho acadêmico com relação ao tamanho da instituição

10%

Instituição

Esta lista classifica as 500 maiores instituições de Ensino Superior e contem muitas informações; ela rejeita também muitas idéias recebidas.

Ranking

Instituição

País

Mundial

1

Harvard University

1 Harvard University

2

Stanford University

2 Stanford University

3

Massachusetts Institute of Technology (MIT)

3 Massachusetts Institute of Technology (MIT)

4

University of California, Berkeley

4 University of California, Berkeley

5

University of Cambridge

5 University of Cambridge

6

California Institute of Technology

6 California Institute of Technology

7

Princeton University

7 Princeton University

8

Columbia University

8 Columbia University

9

University of Chicago

9 University of Chicago

10

University of Oxford

10 University of Oxford

11

Yale University

11 Yale University

12

University of California, Los Angeles

12 University of California, Los Angeles

13

Cornell University

13 Cornell University

14

University of Pennsylvania

14 University of Pennsylvania

15

University of California, San Diego

15 University of California, San Diego

Como esperado, as universidades americanas ocupam os primeiros lugares, com a Harvard, seguida por Stanford e de MIT. Nas quinta e décima posições, temos respectivamente as Universidades Britânicas Cambridge e Oxford.

Outras universidades no mundo ficam no Ranking mundial da seguinte maneira:

40 Université de Paris Sud-Orsay (Paris 11) (a Pimeira Francesa)

41 Pierre et Marie Curie (Paris 6)

42

The Hebrew University of Jerusalem (Israel)

69

Ecole Normale Supérieure (Paris)

201

300 University of Captown (África do Sul)

201

300 Xangai Jiao Tong University (China)

301

400 Ecole Polytechnique (França)

401

500 Cairo University (Egito)

401

500 Ecole Norm. Sup. Lyon (França)

401

500 Ecole Nat. Sup. Mines Paris (França)

201 300 significa que todas as universidades que se encontram entre 200 e 300 são classificadas ex aequo e listadas por ordem alfabética.

A Universidade de Capetown (201 300) honra a África; é a Primeira Africana, seguida pela Universidade do Cairo (401 500). A África do Sul chega a colocar 3 ou 4 universidades no Ranking das 500 maiores universidades. Porém nessa área os rivais da África do Sul não se encontram no continente africano.

Esse Ranking, não faz talvez a unanimidade, mas das mais variadas classificações que existem, essa é a mais popular. Os que a negam, são às vezes mal colocados, ou brilham pela sua ausência.

Evidentemente, as nossas universidades não aparecem na lista, nem as outras universidades ao sul do Saara, exceto as universidades sul-africanas.

Outro organismo classificou as Universidades Africanas, mas com o único critério, a acessibilidade ao seu site web e o acesso a internet, visando mais a Instituição do que os Homens. Infelizmente, as nossas universidades não aparecem no ranking das 100 maiores, ao contrário de nossos vizinhos do Gana, Senegal ou ainda o Burkina Faso. Se tivesse levado em conta a produção como na lista de Xangai, a nossa posição, com certeza teria sido melhor, conforme as nossas performances no CAMES. Mas isso é também um sinal para sairmos do egocentrismo, buscando corrigir as nossas fraquezas, já que os pesquisadores estão cientes disso. Os fracassos dão mais informações do que os sucessos. Porém, é bom saber que desde o início dos anos 80, a pesquisa parou de receber financiamentos, assim como a formação para o Doutorado.

Apesar de tudo isso, nossa Universidade, pela qualidade do seu corpo docente excepcional, tem conseguido fazer desta Instituição uma jóia que nos deixa orgulhosos assim como toda a África Ocidental.

Foi esta jóia que o exército francês de Nicolas Sarkozy destruiu sem piedade, tirando no ato a vida de centenas de estudantes e jovens cujo único crime era o amor a pátria, e simpatia para com o Presidente Laurent Gbagbo: um verdadeiro crime contra a humanidade.

Lembra-se desses milhares de jovens, esperanças de suas famílias, hoje sacrificados no Altar do Saber devido à destruição da universidade? Lembra-se desses pais que passaram por tantas privações para conseguir levar os seus filhos até a universidade?

É o lugar para questionar as motivações das organizações humanitárias e dos direitos humanos

atordoados num mutismo cúmplice.

Há inúmeras maneiras de reagir. Se calar é uma delas[5].

Em Abobo-Adjamé e em Cocody, os homens de Alassane Ouattara tomaram o lugar das bombas assassinas de Sarkozy para saquear sistematicamente, a administração, os laboratórios e escritórios dos docentes. Tudo foi levado: o ar condicionado, produtos químicos, computadores, e até material científico, sem deixar de mencionar livros e telefones.

Podemos reconstruir paredes, mas como reconstituir horas de trabalhos científicos gravados em discos? Como reconstituir a escolaridade, verdadeira memória viva da Instituição. Horas de cálculos perdidas para sempre. Estudantes e docentes desnorteados que viram desaparecer nas chamas anos de esforços, trabalho árduo, reflexões e descobertas. Tiraram fios elétricos do Prédio de Pesquisa (Universidade de Cocody), cujos os quatro níveis receberam ataques de uma rara violência. Todos os refrigeradores e freezers destinados a conservarem os produtos químicos foram levados com os seus respectivos conteúdos. Derrubaram os tetos. Qual era o objetivo? Não respeitar o patrimônio científico de um país, é não respeitar esse país. Na cidade universitária de Port-Bouet, os tetos dos prédios foram destruídos e levados, porque e para que?

Trata-se de uma destruição sistemática da nossa Universidade, de uma destruição consciente e deliberadamente meditada, planejada com o intuito de destruir a elite intelectual do país e submeter aqueles dessa elite que irão sobreviver.

Pode-se submeter o corpo pela tortura, mas o pensamento sempre lhe escapará. É o que distingue o homem do animal.

“Aqueles que vivem, vivem de uma idéia; os outros: são os mortos[6]

“A soberania não deveria ser construída no medo. A soberania baseada em canhões não consegue se manter. Tal soberania, ou ditadura, pode apenas ser um expediente provisório em tempos de turbulência[7]

A juventude não se deixará sufocar. Se tentarmos fazer isso, se permanecermos nos velhos

hábitos, nas velhas idéias, nas velhas casas, os jovens irão explodir todo o sistema, conforme uma lei biológica; imagine a planta que cresce numa casa abandonada. Cercada pelas paredes,

ela tenta escapar, ela parece condenada à sufocação. Volte anos depois, perceberá que ela acabou explodindo a pedra dura, porque a matéria viva sempre leva a melhor sobre a matéria

morta[8].

Falando de Sarkozy, o francês Emmanuel Todd escreve: “É a negatividade que seduziu [os franceses]. Respeito para com os fortes, desprezo para com os fracos, amor pelo dinheiro, desejo de desigualdade, necessidade de agressão, designação de bodes expiatórios nos subúrbios, nos países muçulmanos ou na África Negra, a tentação narcisista, encenação pública da vida afetiva

e sexualmente implícita: todos esses abusos influem em toda a sociedade francesa; eles não

representam a totalidade da vida social, mas o seu lado escuro. Eles apresentam o seu estado de crise e de ansiedade. [ ][9]

Não ousaríamos escrever tais palavras, por não conhecer o Sarkozy tão bem como o Todd!

Devemos nos armar de coragem, de paciência e de inteligência, para sem ódio, reconstruir aquilo que os marfinenses levaram mais de 50 anos para construir. E para que aqueles que não têm recursos suficientes para custear os estudos dos filhos no exterior, possam levá-los a adquirir conhecimentos que os tirem da escuridão da ignorância. Coragem!

Não existe felicidade sem liberdade, nem liberdade sem coragem[10].

É

o momento que escolhem as autoridades para lançarem as provas do Baccalauréat, ignorando

o

fato de ele ser o Primeiro exame do Ensino Superior. Lembrando que teremos na frente duas

gerações de estudantes; os do ano passado que não entraram ainda na universidade. Embora os estudantes das escolas técnicas tenham cursado as suas disciplinas de maneira caótica, o que faremos dos outros?

Além disso, comenta-se que o CAMES estaria trabalhando para manter o concurso para Professor Titular em Abidjan, enquanto a Universidade está em ruína e o seu Presidente, também Presidente do Concurso para Professor Titular da Área de Ciências Econômicas, se encontra preso. Qual é esse regime, em que se coloca na cadeia um dos maiores economistas africanos, sob pretextos fúteis, em vez de usá-lo para reerguer um país doente, que está precisando.

[1] Afrorama Communication Over blog.com/archive 13/09/2011

[2] Frascati Manual OCDE 2002

[3] Seria justo falar em nível científico dos alunos formados com relação à pesquisa

[4] O valor das revistas é capital para a divulgação dos resultados da pesquisa. Nature (GB) e Science (USA) são as duas revistas mais famosas no mundo científico.

[5] PONTALIS, Jean-Bertrand. Traversée des ombres. Ed. Gallimard, 2003 p. 146

[6] MICHELET, Jules. Histoire de la Révolution française. Ed. Chamerot, 1850, t. 5, livro IX, Cap. V p. 94

Versão original: « Ceux qui vivent, vivent d´une idée ; les autres, ce sont les morts ».

[7] ATATURK, Mustafa Kemal. Islam et Laicité. Discours prononcé en 1930. Naissance de la Turquie moderne. Bernard Lewis, Ed. Fayard, 1988 p. 210

Versão originale: « La souveraineté ne devrait pas être batie sur la peur. La souveraineté qui repose sur les canons ne peut se maintenir. Une telle souveraineté, ou dictature, ne peut être qu´un expédient provisoire á une époque de boulversement ».

[8] SAUVY, Alfred. La montée des jeunes. Paris : Ed. Calmann-Lévy, 1959 p. 250 251

Versão original : « La jeunesse ne se laissera pas étouffer. Si nous essayons de le faire, si nous restions dans nos vieilles méthodes, dans nos vieilles idées, nos vieilles maisons, les jeunes

feraients éclater tout le système, selon une loi biologique ; [

] ».

[9] TODD, Emmanuel. Après la démocratie. Ed. Gallimard, 2008 p. 16

[10] Harangue de Périclés prononcée à Athénes en l´honneur des défenseurs de la patrie morts pendant la guerre du Péloponnèse (-445).

Artigo traduzido por Badou Koffi "Olhares Pretos"