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HARVEY, David.

Condição pós – moderna : uma pesquisa sobre as origens da


mudança cultural. São Paulo : Edicões Loyola, 1992.

Em uma parte de seu livro destinada apenas a sua tese , Harvey explica qual o seu
objetivo em discutir o tema: Condição Pós – Moderna. Ele coloca que vem ocorrendo “desde
mais ou menos de 1972” uma mudança nas estruturas políticas - econômicas e nas práticas
culturais, estas mudanças se dão pelas “novas maneiras dominantes pelas quais
experimentarmos o tempo e o espaço”. E assim, para abordar toda essa questão, faz um
levantamento de um conjunto de idéias da pós – modernidade.
Ele organiza o seu livro desta forma, discorrendo sobre como se deu a transição da
modernidade à pós – modernidade, estabelecendo a importância da relação entre os dois
movimentos e destacando as características de um e de outro. Como Harvey mesmo coloca,
para entendermos a nova maneira de experimentarmos o tempo e o espaço é necessário
compreendermos estes dentro da organização do capitalismo. O autor levanta uma hipótese de
transição que ocorreu a partir do final século XX, chegando no colapso em 1973, quando se
“iniciou um período de rápida mudança, de fluidez e de incerteza”.
Sobre experimentar o tempo e o espaço, David Harvey, estipula “vínculos materiais entre os
processos políticos - econômicos e os processos culturais” , isto é, entre o pós – modernismo e
a hipótese de transição do capitalismo que ele descreve. Assim chega a conclusão que “o pós
– modernismo pode ser considerado uma condição histórica – geográfica esta que se dá pela
renovação do materialismo histórico e do projeto iluminista.
Retomando a idéia de que para tratar do pós – modernismo, tem-se que remeter ao
modernismo, trago a discussão do autor sobre a modernidade, onde, voltando-se para
Baudelaire em um artigo publicado 1863 “The painter of modern life” que descreveu a
modernidade enquanto “ é o transitório, o fugidio, o contingente; é uma metade da arte, sendo
a outra o eterno e o imutável” , faz um debate de como em meio a um modelo histórico com
rupturas e transformações podemos descobrir elementos eternos e imutáveis. Para isso
remete-se ao projeto iluminista (Habermas) que foi um movimento secular e racional de
libertação do homem. Segundo o autor eles dão uma resposta filosófica a mudança do tempo e
do espaço no modernismo. O conceito de “destruição criativa” também cabe aqui para discutir
o eterno e o efêmero, pois essa é a condição essencial da modernidade. O efêmero seguido
das bases materiais, que remetiam a mudança e a fragmentação, e o eterno seguido de um
congelamento do tempo. “O recurso às técnicas da montagem/Colagem fornecia um meio de
tratar desse problema, visto que diferentes, efeitos extraídos de diferentes tempos ( velhos
jornais) e espaços ( o uso de objetos comuns) podiam ser superpostos para criar um efeito
simultâneo “ .
A modernização também deve, segundo Harvey, ser estudada para analisar a pós –
modernidade. Ele refere-se a Marx como uns dos grandes escritores modernistas e de
pensamento iluminista. Traz de Marx o conceito de “fetichismo da mercadoria” remetendo, para
o funcionamento do capitalismo, toda uma obrigação de “esforços para criar novas
necessidades nos outros, enfatizando o cultivo de apetites imaginários e o papel de fantasia, do
capricho e do impulso”. Toda essa analise da modernidade e do modernismo cabe, segundo
ele, para mostrar que o pós – modernismo é mais uma continuidade do que a diferença,
“parece-me mais sensível ver este último como um tipo particular de crise do primeiro, uma
crise que é o lado fragmentário, efêmero e caótico da formulação de Baudelaire”.
Tratando ainda do capitalismo, ele trabalha com a hipótese de transição de um “regime de
acumulação e de um modo de regulamentação social e política a ele associado” . Cita uma
escola de pensamento chamada de “Escola da regulamentação” e é a partir desta que segue
discorrendo sobre o sistema de acumulação e as suas transformações.
Tomando o “Fordismo” como modelo para o capitalismo moderno, especialmente após a
Segunda Guerra Mundial, caracterizado pelo “capital fixo na produção em massa, mercados
estáveis, padronizados e homogêneos, uma configuração fixa de influencia e poder político-
econômicos, uma autoridade e metateorias facilmente identificáveis, um sólido alicerce na
materialidade e na racionalidade técnico-científico e outras coisas dessa espécie” , analisa
como se deu toda a transição para um sistema de “acumulação flexível”, esta que se dá pelo
confronto direto com a rigidez do outro sistema. “Ela se apoia na flexibilidade dos processos de
trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e padrões de consumo. Caracteriza-se pelo
surgimento de setores de produção inteiramente novos, novas maneiras de fornecimento de
serviços financeiros, novos mercados e, sobretudo, taxas altamente intensificadas de inovação
comercial, tecnológica e organizacional .”
Harvey, como já foi colocado, trabalha com a hipótese de transição, trazendo todas as
dificuldades que permeiam esta questão. Seria, a acumulação flexível, uma continuidade do
capitalismo ou uma oposição? Dando preferencia ao autor Swyngedouw pois “fornece muito
mais detalhes sobre transformações no campo da tecnologia e do processo de trabalho, ao
mesmo tempo que avalia como o regime e suas modalidades de regulamentação se
transformaram” , estabelece continuidades na transição, principalmente em três características
essenciais do capitalismo: o crescimento econômico, a exploração do trabalho e a dinâmica
tecnológica e organizacional. A superacumulação, que Marx argumentava que nunca podia ser
eliminada do capitalismo, fez com que três características, que são um número limitado de
soluções possíveis, pudessem produzir um crescimento equilibrado sem problemas seguido
pelas decisões da burguesia: a desvalorização de mercadorias, o controle macroeconômico e a
absorção da superacumulação.
E é nesse meio que a acumulação flexível se mostra como uma nova configuração, segundo o
autor não como Piore e Sabel, ou Pollert e Gordon descrevem: como uma possibilidade de uma
reconstituição das relações de trabalho e dos sistemas de produção e uma legitimação de
práticas políticas, respectivamente. Para ele (em suas conclusões provisórias) “devemos
concentrar o nosso olhar nos aspectos financeiros da organização capitalista, no papel do
crédito, (...) na estabilidade de médio prazo no atual regime de acumulação e nos domínios das
novas rodadas e formas de reparo temporal e espacial , pois é nesse novo regime que vão
ocorrer a reviravolta nas práticas sociais e dos valores individuais. Valores que principalmente
estão ligados ao tempo e ao espaço dentro da sociedade capitalista que se faz presente, pois
“onde quer que vá o capitalismo, seu aparato ilusório, seus fetichismos e o seu sistema de
espelhos não demoram a acompanha-lo.”
O autor faz referencia a Berman, destacando que ele equipara a modernidade de uma nova
maneira de experimentar o espaço e o tempo. David Harvey também faz isso com a pós –
modernidade, falando do espaço e do tempo na vida social. Pois para ele o tempo e o espaço
“são categorias básicas da existência humana” , mas não atribui a eles um sentido único e
objetivo para explicar as percepções humanas, mais sim busca na história o conceito de
tempo-espaço em determinados épocas. No capitalismo por exemplo, “as práticas e os
processos materiais de reprodução social se encontram em permanente mudança, segue-se
que tanto as qualidades objetivas como os significados do tempo e do espaço também se
modificam.” É baseado nesse pressuposto que ele parte para a analise das experiências
individuais e coletivas em relação ao tempo e ao espaço pois não há uma linguagem
independente para eles, sem investigar e compreender a ação social, especificamente na pós –
modernidade: o poder social, isto é, o uso do dinheiro interligado a esse poder. A acumulação
pelo lucro, a intensificação do trabalho e do tempo de produção pelo tempo de circulação de
troca , e de giro capital, uma modificação radical da maneira como o valor é representado como
moeda, tudo isso traz uma nova bagagem de valores individuais e sociais que trazem grandes
mudanças “nos sistemas de representação, nas formas culturais e no sentimento filosófico”
Toda essa aceleração da troca acelera também o consumo. As “informações, associadas com
racionalizações nas técnicas de distribuição” , possibilitam uma circulação maior de
mercadorias, para os mercados de massa, para o consumo de serviços. A primeira
conseqüência de toda essa nova concepção de tempo e espaço, é a efemeridade dos
produtos, da moda, das idéias, das ideologias... A imagem também tornou-se mercadoria,
surgiu um mercado da construções das imagens e da aquisição de imagens (roupas de grife,
carro da moda) que passa ser um aspecto vital da concorrência e de estabelecimento de
identidades (símbolos de riqueza, de posição, de fama e de poder). Neste meio surgi também a
“necessidade de descobrir ou produzir algum tipo de verdade eterna” , busca de raízes
históricas, valores, uma idéia de estar acima da sociedade consumista. Essa breve descrição
de como o autor estrutura a sociedade , é para mostrar como o ele faz dela um meio para
levar-nos a compreender uma linguagem de imagens que é capaz de espelhar toda a trama
que cerca a pós – modernidade.
Por fim, na última parte de seu livro Harvey faz uma conclusão de todo o seu trabalho
passando pelos temas já tratados nos outros capítulos, deixando fluir suas conclusões mais
resumidas em relação a pós – modernidade. Isso torna o livro bem organizado, uma vez que o
fechamento retoma as questões principais em relação as transformações da aparência
superficial do capitalismo e das novas formas culturais a ele ligado.

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moderna/pagina1.html

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