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Mundo de Gelo em Chamas


Everton

Autor:
CLARK DARLTON

Tradução:
RICHARD PAUL NETO
Os saltadores não conhecem piedade: condenaram um mundo
inteiro à morte.
Conflitos na Terra, invasões vindas do cosmos, batalhas espaciais,
lutas travadas em planetas distantes, tudo isso a Terceira Potência —
criada por Perry Rhodan e ajudada pela antiqüíssima técnica arcônida
— conseguiu enfrentar galhardamente em sua curta existência.
Mas os saltadores — uma raça de descendentes dos arcônidas que
há oito milênios detém o monopólio comercial na Galáxia, porque
reprime implacavelmente qualquer concorrência que se esboce —
representam uma ameaça muito séria.
Perry Rhodan tinha feito tudo que estava ao seu alcance para
impedir que os saltadores transformassem a Terra numa colônia. Seus
cruzadores espaciais realizaram ataques simulados contra a frota
reunida dos saltadores, enquanto ele mesmo saiu na Stardust-III em
busca do planeta do Imortal, onde espera encontrar uma nova arma que
possa ser empregada na luta contra os saltadores.
Já teve que recorrer a essa nova arma, e mais uma vez terá que
recorrer a ela, pois Etztak faz do planeta Homem de Neve um Mundo de
Gelo em Chamas.

= = = = = = = Personagens Principais: = = = = = = =

Perry Rhodan — Soberano da Terceira Potência e comandante da Stardust-III.

Reginald Bell — Amigo íntimo e representante de Perry Rhodan.

Julian Tifflor, Humpry Hifield, Klaus Eberhardt, Mildred Orson, Felicitas


Kergonen e RB-013 — Náufragos do mundo de gelo.

Topthor — Que já vê na Terra uma colônia dos saltadores.

Etztak — Patriarca e chefe guerreiro do clã de Orlgans.

Orlgans — Que encontra seu túmulo no mundo que ele mesmo condenou à morte.

Gucky — O executor de uma sentença.


1

Embora aquela criatura se parecesse com um homem, não nasceu na Terra. Mais do
que isso, nunca havia visto a mesma e nem sabia exatamente em que lugar descrevia sua
órbita em torno do seu pequeno sol.
Sua pátria era o espaço, seu lar a gigantesca nave que, com seus setecentos metros de
comprimento, era a mais fortemente armada dentre as de seu clã. Era velho, muito velho.
A enorme juba de cabelos cor de gelo emoldurava um rosto moreno, no qual se via um par
de olhos duros e implacáveis, que já havia visto milhares de sóis. Os lábios estreitados
davam mostras de um caráter acostumado a mandar, e que não admitia o diálogo.
Etztak, o patriarca do clã, estava prestes a incorporar mais um sistema solar ao
grande império mercantil dos saltadores.
Aquela raça era chamada de saltadores porque, tendo o Universo por lar, saltava de
um sistema solar para outro, a fim de consolidar e ampliar seu monopólio comercial. Eram
descendentes dos arcônidas, uma raça humanóide que já erigira um enorme império, e
vivia na ilusão de que ainda hoje dominava o mesmo. Há muito os saltadores haviam
conseguido a independência, e não davam a menor satisfação aos arcônidas. Negociavam e
lucravam e, quando isso se tornasse necessário, também lutavam.
Era o que estava acontecendo naquele momento.
Etztak estreitou os lábios ainda mais ao ver na tela o rosto de seu companheiro de clã,
Orlgans, que se encontrava a poucos minutos-luz na sua nave Orla XI.
— O que houve? Mais um ataque desses malditos terranos?
Orlgans era parecido com Etztak. Apenas, seus cabelos não eram cor de gelo; eram
mais escuros, de cor marrom ou de um ruivo sujo, conforme a incidência da luz. Foi quem
primeiro tentou incorporar a Terra ao império colonial dos saltadores.
— Outro ataque? — soou a voz furiosa vinda do alto-falante. — Não sei se é outro
ataque ou se ainda é o mesmo. De qualquer maneira, não houve uma pausa maior. Não
compreendo. Por que será que esses terranos não sabem agir com coerência? Atacam,
disparam alguns tiros e batem em retirada antes que se consiga destruí-los.
— Acha que isso é uma incoerência? — berrou Etztak com uma sonora gargalhada.
— Para mim isso é uma ação inteligente e cautelosa. Sabem perfeitamente que somos
superiores a eles.
— Talvez — obtemperou Orlgans com um rosto zangado. — Talvez não.
— No momento está havendo uma pausa. Temos um número suficiente de naves para
destruir as duas unidades dos terranos, desde que planejemos nossa ação. Eles apenas
querem deter-nos, ou distrair-nos de alguma coisa.
— De quê?
— Se eu soubesse me sentiria mais à vontade — respondeu Etztak, contrariado.
— Por que defendem um sistema solar que, segundo todos sabem, é desabitado e fica
a trezentos e vinte anos-luz de sua pátria? Devem ter algum motivo para isso. Esse Rhodan
nunca faz nada sem ter um motivo.
Orlgans não respondeu logo. Lançou um olhar pensativo para o gigantesco sol
alaranjado, que flutuava no espaço, bem ao longe. Um acompanhante azul gravitava em
torno dele. Quatro planetas descreviam órbitas excêntricas em torno dos dois sóis.
O sistema do sol geminado de Beta-Albíreo, situado a 320 anos-luz da Terra, não
tinha a menor importância nem oferecia qualquer interesse, a não ser...
— Você se esquece de que ele tem um motivo — disse Orlgans depois de algum
tempo. — No segundo planeta do sistema estão alguns humanos que sabem muito mais do
que confessaram. Rhodan quer impedir que eles caiam nas nossas mãos.
— Se é assim, por que não os mata?
— Talvez... — Orlgans achou que a suposição era tão fantástica que nem se atrevia a
enunciá-la.
— Talvez o quê? — insistiu o patriarca.
— Talvez sejam amigos que ele não quer matar.
Mais uma vez Etztak soltou uma estrondosa gargalhada.
— Amigos! Quem se preocuparia com uma coisa dessas, quando algo muito mais
importante está em jogo? Se ele os matasse, teria certeza de que não revelariam seus
segredos.
Orlgans não respondeu. Já tivera suas experiências com seres humanos, e sabia que
muitas vezes estes encaram as coisas de forma muito diversa que os implacáveis
saltadores.
Etztak lançou um ligeiro olhar para as telas de observação. Verificou que sua frota
circulava em torno do segundo planeta de Beta-Albíreo, mantendo uma impecável
formação de combate. Uma ruga vertical surgiu em sua testa. Refletiu, e o resultado de
suas reflexões não parecia deprimi-lo demais.
— Só há cinco terranos naquele mundo de gelo, três homens e duas moças. Pelo que
constatamos, trazem um robô com eles. Trata-se de um robô arcônida de combate. Não
compreendo por que todas as tentativas de destruir esses cinco humanos falharam.
— Porque ainda tínhamos uma esperança de capturá-los vivos. Sabem coisas que
poderão ser muito úteis para nós. Só por isso.
Orlgans sacudiu a cabeça.
— Você sabe tão bem quanto eu que não adiantaria nada matar esses terranos,
especialmente o tal do Tifflor. É bem possível que este até conheça a posição do planeta da
vida eterna, sobre o qual falam as lendas...
— Não estou interessado em lendas, apenas em fatos — interrompeu o patriarca.
— O planeta da vida eterna não passa duma lenda. Se existisse, nós já o teríamos
encontrado. Mas por outro lado gostaria de saber por que Rhodan ainda não encontrou
nenhuma possibilidade de salvar as cinco pessoas que se encontram no mundo de gelo.
Orlgans também estreitou os olhos. Uma expressão estranha surgiu em seu rosto.
Parecia um cachorro que encontra uma pista farejada há bastante tempo.
— Talvez Rhodan queira distrair nossa atenção dele mesmo. Por que suas naves só
nos atacam de vez em quando, e nunca se envolvem numa luta decente? Por que apareceu
o tal do Tifflor, que parece saber tanto e na verdade não sabe nada? Por que somos
obrigados a concentrar todos os recursos na tarefa de capturar Tifflor e seu grupo? É bem
possível que tudo isso não passe dum truque infame desse terrano chamado Rhodan.
Etztak ouvira-o em silêncio. A ruga de sua testa aprofundou-se. Um brilho pensativo
surgiu em seus olhos implacáveis. Acenou lentamente com a cabeça e ergueu as duas
mãos, o que representava um sinal de concordância.
— Talvez suas suposições sejam corretas. Mas se é que Rhodan quer nos deter e
distrair, por que está interessado nisso? Qual é a finalidade que tem em vista?
Orlgans não soube responder.
— Não sei. Acho que devemos fazer mais uma tentativa decisiva de capturar ou
matar os cinco terranos que se encontram no mundo de gelo. Quer que incumba algumas
naves dessa tarefa?
— Três naves serão suficientes — disse Etztak. — Faça com que a superfície do
mundo de gelo se transforme num inferno de fogo. Se os terranos não forem queimados,
deverão morrer nas rochas derretidas.
— Não seria melhor capturá-los vivos?
— Talvez não — disse o patriarca. — O que importa é provarmos a Rhodan...
Não pôde completar a frase, pois o alarma encheu a nave.
As duas unidades de Rhodan voltaram a atacar.

***

O major Nyssen, comandante do cruzador pesado Solar System, mantinha constato


radiofônico permanente com o capitão MacClears, comandante da nave-gêmea Terra.
Os dois veículos espaciais esféricos tinham duzentos metros de diâmetro e estavam
equipados com as armas mais avançadas da técnica arcônida. Gigantescos reatores criavam
campos energéticos protetores, que não podiam ser rompidos nem mesmo pelos raios
disparados pelas naves dos saltadores.
— Vamos lançar mais um ataque, MacClears — gritou Nyssen para seu colega. —
Se Rhodan não aparecer logo, acabarei enlouquecendo. Um dia aqueles sujeitos acabarão
nos pegando. E nem me atrevo a conjeturar sobre quanto tempo Tiff ainda agüentará viver
no mundo de gelo.
— Não gostaria de estar no seu lugar — confessou o capitão.
— Eu cuidarei do pepino-gigante do patriarca Etztak. O senhor atacará a nave que
está logo ao lado. E não se esqueça: disparamos uma salva e damos o fora. Não devem ter
tempo de nos eliminar com uma descarga concentrada de seus radiadores, e muito menos
devem ter oportunidade de demonstrar um interesse excessivo por Tiff.
— Entendido — respondeu MacClears com um sorriso. — Faremos isso mesmo.
Os dois cruzadores aceleraram, saíram da sombra projetada pelo planeta e poucos
segundos depois viram-se diante das naves dos saltadores, pegadas de surpresa. Uma salva
dos mortais radiadores de energia bateu contra o campo energético do inimigo, sendo
desviada sem produzir qualquer dano. De qualquer maneira o súbito ataque preencheu a
finalidade de retardar mais uma vez a execução dos planos dos saltadores. E Rhodan
ganhou mais um pouco de tempo, embora não o soubesse.
Naquele instante Rhodan se encontrava a mais de 1.750 anos-luz, e dispunha-se a
iniciar a transição.
Com a mesma rapidez com que se lançaram ao ataque, os cruzadores pesados Terra e
Solar System bateram em retirada. Em hipótese alguma podia-se arriscar as duas naves,
pois no momento eram a única coisa que a Terra poderia opor aos agressores vindos das
profundezas do Universo. Era bem verdade que a Terra se encontrava a uma distância de
320 anos-luz, mas isso não representava nada, já que distâncias bem maiores que esta
podiam ser vencidas numa questão de segundos através do processo da transição.
Naquele momento o planeta Terra estava prestes a alcançar a unificação geral. A
formação dum governo mundial seria uma questão de dias. O coronel Freyt, representante
da Terceira Potência, faria tudo para quanto antes transformar em realidade o governo
mundial.
O surgimento dos mercadores galácticos, também chamados de saltadores, não podia
ser comparado com as invasões antes ocorridas. Fora possível repelir os Deformadores
Individuais, porque a Terra lhes era superior no terreno da tecnologia. E os tópsidas, seres
em forma de lagarto que surgiram no sistema de Vega, também não representaram um
perigo muito grande.
Mas com os saltadores as coisas eram diferentes.
Aquela raça poderosa, que por uma circunstância trágica teve sua atenção despertada
para a Terra com seu poderio crescente, era superior em todos os sentidos. Era
estreitamente aparentada com os antigos senhores do Universo, os arcônidas. Tinham suas
armas e conheciam seus métodos — e suas fraquezas.
Viam na Terra, e especialmente em Rhodan, um perigo para seu monopólio
comercial. Teriam que forçá-lo a submeter-se à sua vontade, ou destruí-lo.
Mas isso não parecia ser muito fácil.
Defrontavam-se com um inimigo praticamente igual em forças.

***

Uma coisa que nem os terranos nem o clã dos saltadores chefiado por Etztak sabiam
era que o conflito contava com mais um participante. Alertado pelos sucessivos abalos
provocados pelas transições, Topthor resolvera intervir.
Topthor, que também era um saltador, pertencia ao chamado clã dos superpesados.
Em tempos remotos seus antepassados viveram num planeta de gravitação muito intensa.
No curso dos milênios esses descendentes dos arcônidas perderam a figura humanóide,
pois cresceram em largura e diminuíram em altura. Atualmente os superpesados não
mediam mais de 160 centímetros, e sua largura era a mesma. Pesavam mais de quinhentos
quilos.
Topthor dispunha de oito naves, que circulavam em torno do sistema solar, além da
órbita de Plutão. Com outro grupo de oito naves seguira Rhodan quando este se dirigia ao
planeta da vida eterna. Quando Rhodan regressou de sua visita ao mundo artificial e
invisível, Topthor lançou-se ao ataque contra ele, mas foi surpreendido por uma nova arma
e teve destruídas cinco de suas naves. Topthor fugiu em pânico mas, antes de mergulhar
numa transição cega, teve tempo de enviar uma mensagem pelo rádio ao seu companheiro
de raça. Rhodan não pôde impedir que isso acontecesse, embora conhecesse o teor da
mensagem dirigida a Etztak.
A 1.500 anos-luz do sistema de Beta-Albíreo, as três naves de Topthor emergiram do
hiperespaço. Levaram horas para calcular a posição e determinar as coordenadas do
próximo salto.
O dirigente do clã dos superpesados, chamado Topthor, pretendia voltar ao sistema
no qual a Terra gravitava em torno de seu sol como terceiro planeta. Ainda dispunha dum
total de onze naves. Com elas poderia destruir a Terra, se assim o desejasse.
Mas com isso destruiria uma colônia bastante rendosa. E Topthor era antes de tudo
um negociante, muito embora seu clã cuidasse mais da proteção de comboios que do
comércio. Os outros mercadores recorriam à sua frota de guerra quando as coisas
esquentavam em algum lugar — e pagavam pelo auxílio.
Mas agora surgira a oportunidade de fundar sua própria colônia. Além disso, Rhodan
lhe devia cinco naves.
Por isso Topthor ordenou o salto de volta para o sistema solar.
Além de serem muito reduzidas as forças da Terceira Potência, naquele momento a
Terra estava praticamente indefesa.

***

A cada 123 anos havia no segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo uma era
glacial, que durava perto de oitenta anos. Esse fato era devido à órbita excêntrica, que por
sua vez tinha sua origem nos dois sóis. O astro central, um gigante alaranjado, ficava a um
bilhão de quilômetros do segundo planeta, enquanto o sol azul distava mais trezentos
milhões de quilômetros. Na posição em que se encontravam, a luz e o calor fornecido
pelos mesmos eram tão reduzidos que no mundo de gelo — era este o nome dado ao
segundo planeta — reinava um crepúsculo constante, e a temperatura média era de cento e
dez graus centígrados abaixo de zero.
O inferno de gelo era um inferno, mas um inferno muito frio.
Apesar disso nele viviam seres humanos. Ao fugirem dos saltadores, realizaram um
pouso de emergência nesse mundo e tiveram sua nave destroçada. Dali em diante estavam
condenados a esperar, inativos, naquele mundo morto e desolado. Mas sabiam que Rhodan
não os havia esquecido, e que um dia viria buscá-los.
Julian Tifflor, chefe do grupo de náufragos, tinha vinte e um anos e era considerado o
melhor matemático da Academia Espacial, da qual saíra com distinção depois de seis
semestres de treinamento hipnótico. Dali em diante passou a servir na frota espacial da
Terceira Potência. Desta vez a missão lhe fora confiada pessoalmente por Rhodan. Ele
mesmo não sabia muito bem qual seria a finalidade da missão.
O segundo membro do grupo que se encontrava no mundo de gelo era Humpry
Hifield. Tinha vinte anos e cabelos cor de palha cortados à escovinha. Considerava-se uma
beleza irresistível. Por isso não compreendia como Tiff lhe arrebatara Mildred Orson, uma
moça de dezenove anos. Vivia atormentado pelo receio de não ser notado e, apesar de sua
superioridade física, os complexos de inferioridade martirizavam-no constantemente. Era
este, somente este o motivo da inimizade secreta que nutria para com Tiff.
O cadete Klaus Eberhardt era o terceiro participante da expedição, que esperava
naquele mundo desolado que o salvassem. Tinha cabelo castanho-escuro e era meio baixo
e gordo. Sempre precisava de muito tempo para resolver qualquer problema. As reações
rápidas não constituíam seu forte.
Mildred Orson, bacterióloga cósmica, tinha razão de sobra para orgulhar-se de seu
cabelo negro, seus olhos escuros e seu rosto fino e estreito. Ainda não conseguira decidir-
se por nenhum de seus fãs, Tiff e Hump, mas tudo indicava que a situação estava
mudando. Dera a entender a Hump que preferia Tiff.
Ainda havia Felicitas Kergonen, uma botânica galáctica de cabelos louros e figura
delicada. Dedicava um amor secreto ao grosseiro Humpry que, segundo tudo indicava,
nem desconfiava dessa inclinação. Felic já completara dezoito anos, sendo o membro mais
jovem da expedição frustrada.
Com exceção de Gucky.
Gucky, é bom que se ressalte, não era um ser humano, e ninguém sabia sua idade. O
rato-castor de um metro de comprimento vinha dum planeta distante, onde soubera
introduzir-se sorrateiramente na nave de Rhodan. Dali em diante nunca mais saíra de junto
dele, a não ser que alguma missão importante o obrigasse a tanto. A figura de Gucky
lembrava a dum camundongo grandemente ampliado com a cauda achatada dum castor. O
que chamava mais a atenção era o solitário dente-roedor, que aparecia principalmente
quando Gucky sorria.
No momento não havia nenhum motivo para isso.
Gucky distinguia-se principalmente por suas capacidades quase inacreditáveis, que
dele faziam o mais espantoso dos paradotados. O rato-castor, tão engraçado e
aparentemente tão inofensivo, era um excelente telepata, e por isso mesmo estava em
condições de aprender com a maior rapidez as línguas usuais. Além disso, dominava a
teleportação, ou seja, podia transportar-se em qualquer tempo para o lugar que desejasse.
Finalmente Gucky era um telecineta. A força de seu espírito permitia-lhe mover objetos,
inclusive seres humanos, sem tocá-los.
Essas faculdades só se revelaram integralmente no curso dos últimos meses, pois no
início de sua amizade com Rhodan, e especialmente com Bell, só conhecia a telecinésia.
Mas o contacto permanente com os membros do exército de mutantes permitira a Gucky o
aperfeiçoamento de suas qualidades. Tinha certeza de que no curso do tempo ainda
descobriria outras faculdades, que por enquanto jaziam adormecidas.
O estranho ser peludo era dotado duma espantosa capacidade de adaptação. Quase
não se importava com o frio intenso do planeta morto. Podia manter-se fora do alojamento,
mesmo sem traje espacial, respirando o ar gélido. Naquele mundo gelado só havia um ser
que neste ponto podia ser comparado a ele.
Mas pode um robô ser considerado um ser?
RB-013 tinha 2,30 metros de altura e era dotado de duas enormes pernas e quatro
braços, sendo que o par de braços inferiores era formado por radiadores energéticos
completos. Pertencia ao equipamento permanente dos destróieres de três homens. Só ele
conseguira salvar os náufragos depois do pouso de emergência realizado naquele planeta.
Só com seu auxílio puderam derreter a rocha, formando uma caverna habitável na
superfície gelada do planeta. RB-013 não sabia apenas lutar; também era um trabalhador
competente e incansável.
Depois que Bell, numa aventura arriscada, colocara Gucky no mundo de gelo para
ajudar Tiff e os membros de seu grupo, a situação tornou-se menos penosa para os
membros do grupo, muito embora os ataques constantes dos saltadores desgastassem seus
nervos. De qualquer maneira dispunham de equipamentos e provisões de mantimentos que
lhes permitiriam agüentar por algum tempo.
Sentado sobre uma caixa, num dos cantos do recinto, Gucky deixou que a bondosa
Felicitas Kergonen lhe acariciasse a barriga.
— Você é um anjo — chiou com a voz incrivelmente aguda. — Tenho inveja do
homem que for seu marido.
— Tomara que ele também se contente com uma simples carícia na barriga —
observou Humpry Hifield em tom sarcástico.
— Seu invejoso! — obtemperou Klaus Eberhardt, que reagira com uma rapidez
extraordinária. — Se fosse uma moça, eu também não...
— Acontece que não é! — objetou Humpry. Em sua voz não havia nenhum calor,
embora o ar na caverna fosse bastante morno.
O robô construíra uma pequena comporta de ar, o que lhes permitia abrir ao menos o
capacete quando se encontravam no interior da caverna.
— Será que vocês não sabem calar a boca? — interveio Tiff. — Devíamos
preocupar-nos com coisas mais importantes que essas discussões fúteis e intermináveis. Se
os saltadores conseguirem localizar o robô, eles nos mandarão uma carga de gás. Já
removeram a capa de gelo de metade da superfície do planeta, e podemos dar-nos por
satisfeitos porque ainda não morremos afogados.
— Felizmente a caverna fica em cima dum morro. Ou será que não fica? —
perguntou Humpry em tom atrevido.
— Se bombardearem o morro com os canhões de bordo, o que acontecerá, Hump?
Hump não respondeu. Gucky gemeu:
— Ainda bem que sou o único telepata por aqui.
Tiff lançou-lhe um ligeiro olhar e não se interessou mais por Hump. Estava
começando a ficar enjoado de tudo aquilo, e falaria sem rebuços a Rhodan, se...
Sim, se...
De repente Gucky levantou-se. O pêlo da nuca arrepiou-se. Afastou lentamente a
mão de Felicitas e inclinou a cabeça, como se escutasse atentamente. Tiff notou. Fitou o
rato-castor. Depois de algum tempo não agüentou mais.
— Houve alguma coisa, Gucky?
— Acho que sim, Tiff. Voltam a atacar.
Desta vez são três naves. E estão indo tão devagar que até chego a desconfiar.
— Você consegue vê-las?
Há tempo o tratamento formal “o senhor” fora deixado de lado.
— Um instante — disse Gucky, e desapareceu.
As pessoas que se encontravam na caverna olharam-se espantadas. Mais uma vez o
rato-castor se teleportara para o exterior, a fim de sondar o terreno.
Klaus Eberhardt estava abrindo a boca para dizer alguma coisa, quando Gucky voltou
a materializar-se no interior da caverna.
Seu pêlo marrom estava coberto de neve.
— Temos que dar o fora! — chiou com a voz nervosa. — Dentro de um minuto esta
montanha será transformada num inferno.
Os saltadores me viram. Consegui destruir uma de suas naves.
— Destruiu uma nave? — disse Hump com a voz ofegante.
— Deixemos isto para mais tarde — respondeu Gucky. — Ainda bem que aproveitei
o tempo em que estive lá fora para procurar outro esconderijo. Eu os levarei para lá.
Imediatamente. Fechem os olhos, se quiserem — e os capacetes. A caverna para a qual
vamos ainda não tem comporta.
— Uma comporta? — disse Tiff espantado. No mesmo instante desapareceu sem
deixar vestígio. As duas moças seguiram-no dali a um segundo. Depois foi a vez de
Eberhardt e Hump. Finalmente foi transportado o robô e as caixas de equipamentos.
Até parecia obra de feitiçaria.
A atuação de Gucky era estranha e incompreensível como a dum fantasma. Mal
surgia do nada e pegava uma peça de equipamento, desaparecia juntamente com a
bagagem. O fenômeno repetia-se com tamanha rapidez que causava pavor até mesmo a
alguém que conhecesse as faculdades do rato-castor. Nenhum teleportador trabalhava com
tamanha rapidez; para Gucky isso não passava de brincadeira...
As pessoas atingidas pelo fenômeno nem percebiam a viagem. Conservavam a forma
natural do corpo, mas o transporte era tão rápido que os órgãos dos sentidos não tinham
tempo de captar qualquer impressão, por mais fugaz que fosse.
Enquanto ainda exalava o ar, Tiff viu-se num recinto escuro como breu. Apressou-se
em fechar o capacete, pois fazia um frio terrível.
Virou-se e percebeu uma débil luminosidade, vinda de longe. Devia ser a entrada da
caverna. Não saberia dizer a que distância ficava de seu esconderijo anterior, pois a
distância percorrida por teleportação não se revela na duração do percurso.
Numa questão de segundos os companheiros foram surgindo na escuridão. Ele o
sentiu mais do que o via. Mas quando RB-013 acendeu a lanterna constatou que todos se
encontravam ali.
Apenas Gucky estava ausente.
O fato não deixou Tiff muito preocupado.
— Provavelmente quer ver o que está acontecendo com nosso antigo esconderijo —
conjeturou. — É uma pena que tenhamos de construir outra comporta. Aliás, aqui não
existe gelo, apenas a rocha nua. Acredito que desta vez Gucky nos levou ao equador, onde
ainda existem trechos sem neve e gelo. Tenho a impressão de que não faz muito frio.
— Sim — disse Hump em tom sarcástico. — Em vez dum frio de cento e dez graus
devemos ter apenas noventa graus.
A voz fria e metálica do robô interveio na conversa.
— Temos exatamente quarenta e sete graus centígrados abaixo de zero. Se eu ligar o
aquecedor, poderemos dispensar a comporta. Basta fecharmos a entrada com as caixas de
equipamentos.
Tiff fez que sim.
— É uma boa sugestão. Vamos ao trabalho.
— E Gucky? — perguntou Klaus Eberhardt.
Hump lançou-lhe um olhar presunçoso.
— Seu idiota! Desde quando Gucky pode ser detido por um montão de caixas?
Eberhardt esteve prestes a responder, mas não teve tempo. De um instante para outro
Gucky estava de volta.
— Nem queiram saber! — exclamou, e sua voz fina tremia de excitação. — Nunca
me esquecerei do espetáculo que acabo de contemplar. Derreteram nossa montanha de
gelo. Consegui destruir uma das naves atacantes. Teleportei para dentro da sala do
comandante e quase arranco a barba ruiva do comandante. O sujeito levou um susto tão
grande que perdeu o controle e bateu com toda força na primeira montanha de gelo.
Metade da nave desapareceu no interior da mesma. Não acredito que alguém tenha
escapado com vida, pois a duas naves que restaram esforçaram-se para volatilizar o colega.
Não sei se sua tática não admite sobreviventes. De qualquer maneira consegui abandonar a
nave no último instante e cuidar da segurança de vocês. Voltei imediatamente. As duas
naves preparavam-se para transformar nossa caverna de gelo num mar de chamas.
Teríamos morrido queimados ou afogados; nem tenham a menor dúvida. Consegui destruir
mais um dos saltadores. Teleportei para o arsenal de armas nucleares e fiz detonar uma
bomba atômica. Infelizmente não consegui salvar nossa nave auxiliar.
— Quer dizer que apenas uma das naves conseguiu escapar? — indagou Tiff, que já
não parecia tão abatido. — Gucky, não sei o que seria de nós se não tivéssemos uma
pessoa como você.
— Queira fazer o favor de não me ofender — disse Gucky em tom sério, mas exibiu
seu dente roedor, o que provava que suas intenções não eram tão sérias assim. — Não
costumo chamar vocês de rato.
Tiff sorriu.
— Afinal, onde estamos?
— Uns quinhentos quilômetros ao sul do nosso esconderijo anterior. Este mundo de
gelo tem aproximadamente o mesmo tamanho da Terra, mas sua gravitação é mais
reduzida. Dali se conclui que a densidade do planeta é menor. Estamos numa caverna de
rocha natural, nas proximidades do equador. Dificilmente os saltadores nos encontrarão
aqui; afinal, duzentos metros de rocha não são nenhuma bagatela.
— Você usa cada expressão! — queixou-se Hump. — Logo se vê que Bell lhe deu
aulas de lingüística.
— Não fale mal de Bell — disse Gucky em defesa do amigo. — As expressões que
ele usa são mais bonitas que as suas.
— Quer dizer que estamos embaixo do solo? — perguntou Tiff.
Gucky sacudiu a cabeça de rato.
— Não é bem isso. Estamos no interior duma montanha. Mas estamos cercados de
rocha maciça; não há gelo. Vamos instalar-nos confortavelmente, e seria ridículo se não
agüentássemos por aqui até que Rhodan venha buscar-nos. Se ele vier buscar-nos, você
terá cumprido sua finalidade.
De repente Tiff despertou.
— Minha finalidade? Que finalidade é esta?
Gucky sorriu. Seu dente roedor parecia projetar um reflexo desavergonhado sobre
Tiff.
— O cilindro implantado em você tem um alcance de dois anos-luz. Quer dizer que
nossos telepatas saberão a qualquer momento onde procurá-lo. Acontece que os saltadores
acreditam que você conhece uma porção de segredos, motivo por que deixaram distrair-se,
não se interessando por Rhodan. Este foi ao planeta da vida eterna e trouxe uma nova
arma, pois já não tinha condições de enfrentar os saltadores. Quando voltar, terá a nova
arma. Não é uma explicação bem plausível?
— Sem dúvida — confessou Tiff. Seu rosto não parecia muito inteligente. — Quer
dizer que todo este tempo apenas servi de isca para os saltadores?
Gucky continuava a sorrir.
— Não se preocupe. A mesma coisa aconteceu comigo e com os outros. —
Subitamente tornou-se sério. — O importante é que Rhodan consiga a nova arma, pois sem
ela a Terra estaria perdida.
— Acontece que ainda não a conseguiu! — objetou Hump.
— É verdade — respondeu Gucky. — O que afirmei foi que ele estará com ela
quando aparecer aqui para libertar-nos. Até lá devemos ter paciência. De resto, espero que
aqui terei maior facilidade em entrar em contacto com os sonolentos. Nas proximidades do
equador sua capacidade de concentração deve ser maior.
— Os sonolentos? — perguntou uma das moças, que até então não participara do
debate.
— Isso mesmo, Milly. É o nome que dei aos habitantes deste planeta. Ainda não
vimos nenhum deles, mas consegui captar seus pensamentos. São pensamentos confusos,
mas muito inteligentes. Moram sob a superfície, embaixo do gelo, e pelo que soube
costumam vir para cima no verão extremamente curto, quando o gelo derrete. Isso só
deverá acontecer daqui a alguns decênios.
Tiff sacudiu a cabeça.
— Nunca seria capaz de acreditar que num mundo como este pode existir vida.
— Ainda não sabemos se é uma vida no sentido que nós atribuímos ao termo — disse
Gucky, desapontando o entusiasmo.
— É possível que dentro em breve consigamos saber. Procurarei estabelecer contacto
com eles. Mas antes de mais nada vamos construir uma muralha contra o frio. Usaremos
nossas mãos, pois o exercício nos fará muito bem.
— Depois disso — disse Tiff — quero dar um passeio na superfície.
— Também irei — observou Mildred apressadamente.
— Eu também — cochichou Felicitas.
Gucky não se dispôs a acompanhá-los.
— Poderão ir assim que tivermos terminado nosso serviço. Nosso robô produzirá
calor suficiente para tornar a vida agradável. Lá fora basta ligar o aquecedor do traje
espacial para a metade de sua potência. O capacete espacial não é indispensável. Vamos ao
trabalho!
Bem por dentro, Tiff não estava muito admirado pelo fato de que o rato-castor tirava
quase toda a responsabilidade de cima dos seus ombros. Por mais estranhável que isso
pudesse parecer, na verdade não havia motivo para isso. Gucky era o ser parapsicológico
mais capaz de todo o exército de mutantes. Era um dos membros mais importantes do
grupo de combate que no momento estava engajado na defesa da Terra. Na verdade,
Gucky não era um ser humano; mas os membros da frota espacial já haviam compreendido
que o julgamento de qualquer ser não deve depender de seu aspecto exterior.
Ao olhar para Tiff, Gucky manteve a cabeça ligeiramente inclinada.
— Que problema difícil, não é? — disse com um sorriso insolente. — Não se
preocupe sem necessidade. Apenas quero ajudar antes que você perca a coragem. Toda a
responsabilidade pesa sobre você, que é o chefe do grupo. Vim apenas para apoiá-los. Se
vez por outra fico distribuindo as tarefas, isso acontece apenas porque o tédio não deve
nascer entre nós. Na situação em que nos encontramos, não há nada que possa ser tão
perigoso como pensar demais.
— Está bem — disse Tiff com um sorriso de gratidão. — Estamos entendidos.
Carregaram as caixas em direção à saída e, mais ou menos na metade do caminho,
fizeram uma parede com as mesmas. Deixaram livre uma pequena passagem, fechada com
um cobertor. Assim o frio não penetraria tão depressa.
Satisfeito, Gucky esfregou as patas.
— Podem dar seu passeio. Hump cuidará da comida. Eberhardt lhe dará uma mão,
sua estatura prova que cozinha muito bem. Quanto a mim...
— Deixe de fazer alusões à minha figura — queixou-se o cadete. — Afinal, não
tenho culpa de não ser muito magro.
— Seu bajulador — berrou Hump, soltando uma estrondosa gargalhada. — Não é de
admirar que engorda a cada dia que passa. Vive devorando rações duplas. Ainda bem que
temos comida que chega...
— ...quanto a mim, farei um reconhecimento no fundo da caverna — disse Gucky,
sem deixar que o desviassem. — Talvez descubra algo de interessante.
Naquele instante nem desconfiava de que sua suposição seria plenamente confirmada
pelos fatos.
2

Etztak esbravejou de raiva quando o comandante, ao regressar, o informou de que


duas das três naves que participaram da missão não regressaram. Uma caíra em virtude
dum erro de navegação e tivera que ser destruída para não propiciar informações ao
inimigo. A outra explodira no ar sem motivo aparente.
— E o pessoal de Rhodan? — perguntou o patriarca assim que se acalmou o
suficiente para recuperar a fala. — Conseguiram agarrá-los?
— Não sei — respondeu o comandante da nave que regressara. — Bombardeamos
uma área extensa do setor em que devem encontrar-se. É claro que não pudemos constatar
o resultado. Mas vi alguma coisa.
— Alguma coisa? — indagou Etztak sem compreender nada. — Fale logo, homem!
— Não foi um terrano, mas uma criatura pequena, que deve ter a metade do nosso
tamanho. Talvez diria que é um jovem terrano, mas não posso imaginar que realmente seja
assim.
— Nem eu — disse Etztak em tom sarcástico. Ainda guardava viva a lembrançade
Gucky. — Afinal, o que foi?
Não obteve resposta.
O intercomunicador começou a zumbir.
Com um gesto impaciente despediu o comandante mal sucedido e ligou a chave. O
rosto barbudo dum telegrafista surgiu na tela.
— Uma hipermensagem, senhor. — Etztak percebeu imediatamente que o
telegrafista estava tão perplexo que mal conseguia falar. — É de Topthor.
Etztak não acreditava no que acabara de ouvir.
— De quem?
— De Topthor, senhor.
Etztak reclinou-se na poltrona.
— Do chefe dos superpesados! O que significa isso? Não pedi aos superpesados que
se intrometessem nisto. Não preciso de proteção.
— Acho que não se trata disso — arriscou-se a dizer o telegrafista. — Ao menos não
diretamente.
— O que quer dizer com isso? Que tal se lesse a mensagem para mim? Talvez com
isso verei mais claro.
O telegrafista acenou com a cabeça, olhou para uma folha e leu:

Para Etztak, patriarca do clã de Etztak. Perry Rhodan, o


terrano, conseguiu uma nova arma. Com ela conseguiu destruir cinco
das minhas naves. Não existe a menor possibilidade de defesa. Etztak,
eu o previno. Recorra ao nosso auxílio. Rhodan o atacará e destruirá.
Só com um golpe de surpresa conseguiremos destruí-lo.
Oportunamente anunciarei minha nova posição e aguardo sua oferta.
Topthor, clã dos superpesados.

Etztak confirmou com um gesto da cabeça e mandou que lhe trouxessem a


mensagem. Interrompeu o contacto. Sem a menor demora, deu alarma geral. No momento
o segundo planeta com o grupo de Rhodan perdera todo interesse. Antes de mais nada
convinha preparar-se para o ataque de Rhodan, que estava eminente.
Ao menos Etztak procurou convencer-se disso. No seu íntimo começou a despontar a
idéia de que cometera um erro. Deixara que desviassem sua atenção do que realmente
importava. Acreditava que o tal do Tifflor fosse a figura principal. No entanto, o mesmo
não passava dum ator secundário, cuja missão consistia apenas em desviar sua atenção de
Rhodan, do planeta da vida eterna e da nova arma.
E o inimigo conseguira realizar seu intento.
— Orlgans! — berrou para dentro do microfone, quando os rostos indagadores dos
membros do clã surgiram na tela. — Rhodan conseguiu a nova arma. Recebi aviso de
Topthor...
— Do chefe dos superpesados? — interrompeu Orlgans.
— Quem poderia ser? — esbravejou Etztak. — Também anda por aqui, embora não
tenhamos solicitado seu auxílio. Pois bem, ele me preveniu. Rhodan pretende atacar-nos.
Não sei que arma é esta, mas tenho certeza de que conseguiremos defender-nos contra a
mesma. Orlgans, você pegará uma das naves e deflagrará uma fogueira atômica no
segundo planeta.
— Uma fogueira atômica? — disse Orlgans, erguendo as sobrancelhas. — Quer
transformar o planeta num sol? Você sabe que nossas leis proíbem a destruição de
qualquer mundo habitável sem que haja motivo muito poderoso.
— Acha que não temos motivo para isso? Quero vingar-me de Rhodan, e
principalmente dos prisioneiros fugidos.
— Será que isso é um motivo suficiente? — perguntou Orlgans.
— Para mim é — berrou o patriarca. — Quero que nunca mais sinta vontade de se
intrometer nos meus negócios — esqueceu-se de que era exatamente o contrário. Afinal,
ele, Etztak, se intrometia nos negócios da Terra. Rhodan se encontrava numa posição
defensiva. — Para isso preciso destruir seu grupo e o mundo em que se fixaram.
— Quer dizer que devemos desencadear a fogueira atômica, a fogueira atômica
inextinguível?
— Isso mesmo. Quero que o segundo planeta seja transformado num sol.
Orlgans confirmou com um aceno de cabeça e sua imagem desapareceu da tela. Era
evidente que não concordava com a ordem que o patriarca acabava de lhe dar. Mas não
tinha outra alternativa senão obedecer. Ordenou ao comandante de outra nave que lhe
prestasse auxílio e, se necessário, lhe fornecesse cobertura total. Depois destacou-se da
formação de naves e iniciou os demorados preparativos necessários à realização do plano
diabólico.
Enquanto isso Etztak conferenciou com os outros mercadores, para descobrir a
melhor maneira de enfrentar Rhodan. Não era fácil, pois ninguém conhecia o
funcionamento da nova arma. As indicações lacônicas de Topthor não permitiam que se
formasse uma idéia a este respeito.
Mas Topthor havia prometido que daria sinal de vida. Ninguém sabia quando isso
aconteceria.
— Ficaremos bem próximos uns dos outros — ordenou Etztak. — Assim que
Rhodan aparecer, concentraremos nosso fogo energético sobre ele. Nem mesmo o campo
protetor da Stardust-III agüentará uma carga destas. Não deixem que os dois cruzadores
distraiam sua atenção.
De certa forma o patriarca estava com a razão. No entanto, não sabia que os dois
cruzadores poderiam perfeitamente lançar ataques mais fortes, destruindo uma ou outra
das naves dos saltadores. Se até então se tinham limitado a ataques simulados, assim
procediam exclusivamente em virtude das ordens de Rhodan.
Em vez de deixar os saltadores prevenidos por meio dum combate normal, Rhodan
pretendia desferir tamanho golpe contra eles que nunca mais pensariam em voltar. Só
assim poderia restabelecer a calma.
Só por isso precisara de algum tempo para ir buscar a nova arma no Peregrino, o
estranho planeta artificial que existia numa dimensão diferente e fora criado por um ser
que representava a espiritualização de toda uma raça tornada imortal. Era o planeta situado
nos confins da eternidade, segundo a expressão de Rhodan — que provavelmente acertara
em cheio.
Etztak não sabia nada a respeito desse planeta, cuja existência era revelada na
Galáxia através duma série de lendas bastante vagas. Ninguém sabia se existia, nem onde.
Mas Rhodan o conhecia. Através da ducha celular, ele e Bell conseguiram deter o processo
natural do envelhecimento. A cada sessenta e dois anos o tratamento tinha que ser
repetido.
Finalmente aquele ser estranho, o imortal, deu a Rhodan a arma que este desejava
para defender-se dos ataques desfechados pelos saltadores.
Etztak apenas começou a ter uma vaga idéia de tudo isso, e um sentimento de
insegurança foi tomando conta dele. Teria subestimado o inimigo? Mas Rhodan era apenas
um terrano, membro duma raça que, segundo os padrões galácticos, devia ser considerada
subdesenvolvida. Só há um decênio aquela raça descobrira a navegação espacial. E foi
exclusivamente o auxílio dos arcônidas naufragados na Lua que lhes permitiu um grande
salto para a frente. Poderia este salto substituir uma evolução natural, processada no curso
de vários milênios?
Etztak teve suas dúvidas, mas o sentimento de insegurança continuou a atormentá-lo.

***

A nave Stardust-III, que era o gigantesco veículo espacial de Perry Rhodan, concluiu
a transição e materializou no espaço normal. Dera um salto de mais de 1.750 anos-luz.
Rhodan notou que as dores da rematerialização diminuíam e a consciência retornou.
Perto dele Reginald Bell soltava gemidos comoventes; até parecia que estava sofrendo
uma operação de apendicite sem anestesia. Bell gemia todas as vezes que se realizava uma
transição; já se habituara a isso. Não era de admirar que Rhodan não se comovesse.
E os cálculos? Teriam sido corretos?
Rhodan levantou-se e olhou para a tela. Viu uma profusão de estrelas, que logo lhe
revelou que já não se encontravam nas proximidades do planeta Peregrino. Mas a olho nu
não se podia saber se a Stardust-III chegara ao ponto pretendido. Enquanto permaneceram
no planeta Peregrino, este também percorreu uma distância que não lhes era conhecida.
— Chegamos? — perguntou Bell. Tentou um sorriso, mas a tentativa fracassou.
— Que coisa esquisita! Há um instante ainda nos encontrávamos no mundo do
imortal, e agora...
— Ali adiante está o sol gêmeo de Beta-Albíreo — interrompeu Rhodan. — A
distância é de duas horas-luz aproximadamente. Etztak já deve ter registrado nossa
presença e tomado suas providências. Não devemos esquecer-nos de que foi prevenido. É
bem verdade que deve quebrar a cabeça em vão para descobrir que arma nova é esta.
— Ficará admirado — disse Bell. — Um transmissor fictício capaz de teleportar
qualquer porção de matéria a qualquer distância. Podemos a qualquer momento
contrabandear bombas atômicas para o interior de suas naves, sem que eles possam fazer
nada para impedi-lo.
— Não se esqueça de que seu potencial de fogo, concentrado simultaneamente sobre
nossa nave, romperia os campos energéticos. Quer dizer que não estão totalmente
indefesos. O que importa é que sejamos mais rápidos que eles.
— Mesmo que o tal do superpesado — se não me engano o nome é Topthor — os
tenha prevenido, não temos nada a temer — profetizou Bell. Para seu espanto, viu que de
um instante para outro Rhodan parecia muito pensativo. A menção dos superpesados
parecia ter ligado um contacto em seu interior. — O que houve com você?
— Topthor! — disse Rhodan. — Não é que quase me esqueço dele?
— E daí? — disse Bell, sacudindo a cabeça. — Não o compreendo. Destruímos cinco
das suas naves; logo, não temos mais nada a recear da parte dele. Só lhe restam três.
— É justamente isso — disse Rhodan.
Em sua testa surgiram rugas profundas. — Não se esqueça do desenrolar dos
acontecimentos. Ele deve ter-nos seguido para o planeta da vida eterna. Para fazê-lo, deve
ter saltado do mesmo lugar que nós. Acontece que não viemos do sistema de Beta-
Albíreo, mas da Terra. Dali se conclui que conhece a posição de nosso planeta. Estou
disposto a fazer qualquer aposta de que voltou para lá. Se tiver a idéia de vingar - se...
Pense um pouco! De que recursos dispõe a Terra para defender-se contra três couraçados?
Bell parou de sorrir.
— É possível que você tenha uma tendência de assustar gente que não desconfia de
nada. Mas talvez esteja com a razão. O que vamos fazer?
Rhodan fitou a tela. Defrontava-se com uma decisão difícil. Lá adiante Tiff
aguardava a hora de ser libertado. Não tinha a menor dúvida de que o segundo planeta fora
transformado num inferno. Gucky não conseguiria deter os saltadores para sempre. E os
dois cruzadores pesados comandados pelo major Nyssen não poderiam prosseguir
indefinidamente nos ataques simulados. Etztak não demoraria em descobrir o logro em que
estava caindo. Se resolvesse realizar sua ameaça, Tifflor e seus amigos estariam perdidos.
De outro lado, porém, Topthor poderia atacar a Terra com as três naves gigantescas
de que dispunha.
Rhodan preferiu não enviar uma mensagem radiofônica para prevenir o coronel
Freyt. Não queria trair sua posição. Tinha certeza de que os saltadores estariam em
condições de interceptar a mensagem.
A hesitação de Rhodan durou apenas um instante. Decidiu fazer duas coisas ao
mesmo tempo.
Ligou o intercomunicador.
— Atenção, todos os tripulantes! Posto de combate, atenção! Realizaremos mais um
salto. Distância de duas horas-luz. Depois da rematerialização os transmissores fictícios de
matéria deverão estar prontos para entrar em funcionamento. Preparem duas bombas de
fusão. Exatamente vinte segundos depois será realizado o salto em direção à Terra.
Aguardem novas instruções. É só. Obrigado. Bell gemeu.
— Vamos pular de novo? Será que nem temos tempo para descansar?
— Não temos tempo para descansar.
— Atenção, o salto será realizado em um minuto.
O cérebro eletrônico de navegação processou as informações e efetuou a regulagem
automática da intensidade do suprimento de energia.
— Faltam trinta segundos — disse a voz metálica do robô.
Rhodan manteve-se rígido na sua poltrona. A mão direita segurava fortemente a
chave que o mantinha em contacto com o posto de combate. Ao lado dele ficava o botão
que acionava o transmissor fictício. Assim que a Stardust-III materializasse, ela se
transformaria num monstro mortífero.
***

Etztak teve bastante inteligência para não deixar que o novo ataque dos cruzadores
Terra e Solar System o distraísse. Uma única de suas naves foi encarregada de responder
ao fogo. E os cruzadores bateram em retirada, conforme se esperava.
Não, desta vez Etztak não seria tolo para deixar que desviassem sua atenção. Estava
prevenido, à espera de Rhodan.
Os rastreadores estruturais de sua gigantesca nave, de mais de setecentos metros de
comprimento, trabalhavam a toda potência. E descobriram alguma coisa.
A uma distância inferior a duas horas-luz houve uma transição. Uma nave devia ter
voltado do hiperespaço, pois o abalo fora negativo. Os cérebros positrônicos entraram em
funcionamento, e dali a poucos segundos Etztak tinha o resultado diante de si.
A uma distância de exatamente 118,38 minutos-luz uma nave que acabara de
percorrer 1.749,89 anos-luz acabara de retornar ao espaço normal e se materializara.
Só poderia ser Rhodan!
Mais uma vez o alarma estridente encheu as naves. Todos os canhões de radiações
estavam prontos para disparar. Os campos protetores foram ativados. Etztak mandou que
as naves se agrupassem de tal maneira que um inimigo que surgisse de repente poderia ser
alvejado de todos os lados.
Logo os rastreadores estruturais registraram outro abalo da estrutura espacial, desta
vez positivo...
...no mesmo instante Rhodan encontrava-se em meio ao grupo.
A massa da gigantesca esfera de oitocentos metros de diâmetro era maior que a de
toda a frota de Etztak reunida. O tamanho assustador paralisou os saltadores por alguns
segundos preciosos, que nunca mais conseguiriam recuperar.
Uma das naves dos saltadores explodiu antes que houvesse tempo de disparar um
tiro. Explodiu sem qualquer causa aparente, bem diante dos olhos arregalados de Etztak,
deixando para trás apenas uma nuvem de pó radioativo que se espalhou para todos os
quadrantes. Ninguém poderia imaginar que o transmissor fictício havia transportado uma
bomba atômica de tamanho médio para o arsenal da nave, fazendo-se explodir ali mesmo.
Etztak abriu fogo. Todas as peças expeliram raios energéticos que se concentraram
sobre o envoltório protetor da Stardust-III. Mas os raios foram desviados sem produzir
dano. Os geradores da nave arcônida produziam energia suficiente para compensar o
impacto.
Exatamente quinze segundos depois explodiu a segunda nave de Etztak.
Quase cinco segundos se passaram antes que Etztak, ofuscado, pudesse abrir os
olhos, apenas para ver a Stardust-III desaparecer. Antes que pudesse recuperar-se da
terrível decepção, os dois cruzadores voltaram ao ataque. Quando viu que Rhodan estava
entrando em ação, o major Nyssen agiu instintivamente. Sabia que a nova arma fora
encontrada e pensou que aquilo já fosse o início do ataque geral.
A Solar System precipitou-se sobre uma das naves da frota dos mercadores que se
encontrava um tanto afastada das demais. Era dum tipo menor. Nyssen sabia que continha
principalmente compartimentos de carga, sendo bastante reduzido seu armamento. Por isso
mesmo os campos energéticos eram menos potentes. O fogo concentrado do cruzador
rompeu o envoltório protetor e abriu um rombo a bombordo do cargueiro.
Nyssen não teve tempo para completar a destruição. A Stardust-III desapareceu com
a mesma rapidez com que havia aparecido. Não houve nenhuma mensagem, nenhum
aviso, nada. A imensa nave surgiu que nem um fantasma, e que nem um fantasma voltou a
mergulhar no Universo.
Nyssen ordenou a retirada.
Deixou para trás um Etztak confuso, que no momento se sentia bastante
desorientado.
Em menos de vinte segundos perdera três naves.

***

Sentado em sua poltrona superdimensionada, Topthor parecia uma gigantesca posta


de carne. As constelações de estrelas cristalizavam-se, vindas do nada, e transformaram-se
num quadro com que já estava familiarizado.
O salto fora bem sucedido.
Diante das três naves de Topthor apresentava-se o sistema solar, cujo terceiro planeta
lhe causava tamanhas preocupações.
Ligou uma chave e estabeleceu contato com as outras naves.
— Grogham, entre em contacto com nossa frota. As oito naves de guerra devem estar
do lado oposto do sol. Encontramo-nos a dez horas-luz daqui, sobre uma reta que liga o sol
e o planeta exterior. Dentro de duas horas pretendo realizar uma conferência audiovisual.
— Cuidarei disso — prometeu Grogham, vice-comandante da frota de proteção de
combate. Também era um dos chamados superpesados: pesava mais de quinhentos quilos.
— Daqui a duas horas. Vamos destruir o terceiro planeta, Topthor?
— Se não quiserem aceitar nossa oferta, esses terranos malucos vão pagar por isso.
Rhodan está ocupado com Etztak. Quer dizer que temos tempo.
Topthor estava muito enganado, mas não desconfiava de nada. No momento em que
estava dizendo essas palavras, três naves de Etztak estavam sendo destruídas. E antes de
terminar a Stardust-III voltou a penetrar na quinta dimensão, para efetuar o grande salto
em direção à Terra.
Rhodan teve a precaução de se materializar a vinte horas-luz do sol. Sem realizar
outra transição, penetrou em nosso sistema à velocidade da luz. Dessa forma o risco de ser
localizado era bem menor.
Chegou à Terra sem que sua presença fosse notada e pousou em Terrânia, capital da
Terceira Potência. O coronel Freyt ficou muito surpreso em rever o chefe tão cedo.
Reprimiu uma observação sarcástica pelo fato de Rhodan não lhe ter enviado qualquer
aviso pelo rádio, pois viu que Perry estava com muita pressa. Bell permaneceu a bordo da
Stardust-III, e esta se manteve preparada para decolar a qualquer instante. Só Rhodan
tomou um carro e dirigiu-se apressadamente à sede do comando situada sob a abóbada
energética, a fim de desencadear o alarma na Terra. Algumas mensagens breves dirigidas
aos respectivos governos foram suficientes para provocar uma ação comum.
A Terra estava preparada.
E esperava...

***

— Seria um absurdo — concluiu Topthor, olhando os comandantes das dez outras


naves, como que à espera de aplausos — se atacássemos a Terra sem aviso e a
destruíssemos. De que nos serve um planeta destruído, se o mesmo é habitado por uma
raça da qual tanto temos a esperar? — os dez rostos barbudos que se viam na tela
inclinaram-se em sinal de concordância. — Será mais razoável negociarmos com eles.
Rhodan está no sistema situado a trezentos e vinte anos-luz daqui, onde procura dar cabo
de Etztak. Até é possível que com a nova arma ele o consiga. Para nós isso não
representaria qualquer prejuízo, mesmo que fosse eliminado um clã que constitui uma
fonte de lucros para nós. Se nesse meio tempo conseguirmos firmar pé na Terra, teremos
possibilidade de fundar uma colônia bastante rendosa dos saltadores.
— E Rhodan? — perguntou alguém.
— Rhodan? — um sorriso largo cobriu o rosto barbudo de Topthor. — Rhodan ficará
admirado quando, depois de ter saído vitorioso na batalha contra Etztak, regressar para cá
e constatar que seu planeta mudou de dono.
Grogham pigarreou.
— Receio que o senhor esteja subestimando os terranos — objetou.
Topthor olhou-o em cheio e parou de sorrir.
— Então sua opinião é essa? Afinal, temos onze naves construídas especialmente
para combater. O que tem Rhodan para contrapor a isto?
— Tem a nova arma.
Topthor parecia não sentir-se muito feliz com a lembrança da destruição fulminante
de cinco das suas naves.
— Se surgir qualquer dificuldade, poderemos entrar em contacto com nossa base —
ponderou. — De qualquer maneira procurarei conquistar a Terra. Vamos aproximar-nos do
planeta até uma distância de dez minutos-luz e procuraremos estabelecer contacto pelo
rádio. Veremos como reage o pessoal de Rhodan. Tenho certeza de que não têm nada com
que possam defender-se contra nós.
Desta vez não obteve qualquer resposta.
A frota composta de onze naves fortemente armadas, nenhuma das quais com menos
de trezentos metros de comprimento, tomou o rumo do sol e dele se aproximou à
velocidade da luz. Depois de ultrapassada a órbita de Plutão, Topthor reduziu a velocidade
e foi-se aproximando sorrateiramente da Terra.
Mas a cautela revelou-se inútil. Os satélites-espiões já o haviam detectado e
prevenido Rhodan. Depois de tomar as providências indispensáveis, este voltou à Stardust-
III e logo se dirigiu à sala de comando, onde Bell se mantinha à espera.
— Então? — perguntou Bell. — Como estão as coisas?
— Dei as instruções necessárias ao coronel Freyt. Ele nos transmitirá eventuais
mensagens dos superpesados. E eu responderei em seu nome. Não devem desconfiar de
que já os esperamos aqui mesmo.
Duas horas depois a luz de controle acendeu-se. O serviço de rádio da Terceira
Potência era muito eficiente. Topthor acabara de estabelecer contacto com a Terra, mas
não sabia com quem estava falando.
Rhodan tomou a liberdade de atribuir-se um pseudônimo.
Com dois movimentos de chave estabeleceu contacto direto. Era um contacto
audiovisual, mas isso não fazia mal. Rhodan conhecia Topthor, mas este nunca havia visto
Rhodan.
A figura maciça do gigante causava uma impressão profunda, mas não poderia
assustar Rhodan. Conhecia a raça, inclusive suas fraquezas.
— Aqui fala a Terra — disse em tom indiferente. — O senhor chamou?
Topthor demonstrou surpresa pelo fato de não se mostrarem surpresos com sua
mensagem.
— Queremos entrar em negociações com os terranos — disse em puro intercosmo,
com um ligeiro sotaque. — O clã poderoso dos surperpesados quer fazer algumas
propostas aos terranos.
— Pode falar.
— Com quem estou falando? — perguntou Topthor, fitando o rosto de Rhodan.
Este enfrentou o olhar sem pestanejar.
— Sou o coronel Freyt, representante de Perry Rhodan no governo da Terceira
Potência.
— O que vem a ser a Terceira Potência?
— É a potência que representa a Terra.
— Por que não posso falar com Rhodan?
“Que raposa esperta”, pensou Rhodan, enquanto Bell, que se encontrou fora do
alcance da câmara de TV, esboçava um sorriso de deboche. “Quer saber se desconfiamos
de alguma coisa.”
— No momento não tenho meio de entrar em contacto com ele — disse Rhodan. —
O que deseja?
— Sabem quem eu sou?
— Pelo que vejo, é um monstro — respondeu Rhodan.
— Sou Topthor, o mais velho do clã.
— Será que também é o mais inteligente?
Por um instante Topthor parecia confuso diante de tão estranha pergunta, mas logo se
mostrou furioso. Afinal, os comandantes das outras naves assistiam ao diálogo em que
estava sendo ridicularizado.
— Fazemos comércio com todos os mundos habitados da Galáxia. Acredito que os
senhores tenham algo a oferecer-nos. Vamos pousar. Informe sua posição.
— Não posso autorizar o pouso sem que Rhodan o permita. Prefiro que o senhor me
forneça sua posição.
— Forneça as coordenadas do pouso, senão pousaremos em qualquer lugar.
— Devo interpretar isso como uma ameaça? Não nos subestime.
Topthor soltou uma estrondosa gargalhada e passou a mão pela barba.
— Subestimá-los? Se conseguimos enfrentar Rhodan, seu planeta não representará
qualquer problema para nós.
— Ah — disse Rhodan. — Então enfrentou Rhodan?
— Isso mesmo. Infelizmente escapou. Vai fornecer as coordenadas de pouso ou não
vai?
Rhodan lançou um olhar rápido para Bell. Este entregou-lhe um bilhete. Rhodan
segurou-o de tal forma que Topthor podia vê-lo e leu em voz alta.
— Órbita de Marte — direção Terra. Velocidade: 7.653,3km/seg. Rumo MX-T4 —
Rhodan levantou os olhos. — Daqui a dez minutos poderemos ter um encontro pessoal,
Topthor, se é isso que deseja.
— O que é isso? O que quer dizer precisamente?
— Os dados que acabo de fornecer correspondem à sua posição atual, à sua
velocidade e direção de deslocamento. Não pense que só Rhodan tem condições de
destruí-lo. E não pense que ignoramos o que aconteceu no planeta da vida eterna.
Finalmente, não pense que só possuímos uma única nave da classe da Stardust-III.
Foi um blefe, mas este não deixou de produzir o efeito desejado.
Topthor estremeceu instintivamente.
— Refere-se à esfera gigante? — mas logo sorriu. — Terranos, vocês não me
afugentarão. Só Rhodan esteve no planeta da vida eterna, e só ele foi buscar a nova arma.
Os senhores só possuem armas convencionais, e estas não representam qualquer
problema para nós.
— Muito bem. Vamos fazer a experiência. Mais uma vez recomendo-lhes que nos
deixem em paz e não pretendam impor-nos seu comércio, que nos transformaria numa
colônia dos saltadores. Compreendeu?
— Pousaremos dentro de uma hora — respondeu Topthor e interrompeu o contacto.
Rhodan fitou a tela vazia e depois olhou para Bell.
— E agora? Não querem saber de conversa. Sentem-se seguros enquanto a Stardust-
III com a nova arma se encontra longe. A constatação de que existem várias naves desse
tamanho representa um choque para eles. O sobrevivente revelará o fato aos membros de
seu clã, e a Terra se transformará num dos pontos mais temíveis do Universo. Infelizmente
deve ser assim mesmo, para que possamos atingir nosso objetivo.
Deu algumas instruções ao coronel Freyt. Depois ligou o intercomunicador da
Stardust-III.
— Atenção! Decolaremos dentro de um minuto. Não se esqueçam das medidas de
segurança, pois a nave será acelerada fortemente ainda dentro da atmosfera. Atenção,
faltam cinqüenta segundos. Não realizaremos nenhuma transição. A ação terá início
exatamente dentro de dez minutos. Atenção, faltam quarenta segundos para a decolagem.
Bell colocou o cinto largo em torno do ventre avantajado. Seus olhos brilhavam de
animação.
— Talvez você esteja com a razão — disse, vencendo seus escrúpulos morais. —
Devemos dar mais uma lição aos superpesados, se a primeira não foi suficiente.
— Depois disso iremos o mais rápido possível ao mundo de gelo. Ando muito
preocupado com Tiff e seus amigos.
— E eu me preocupo com Gucky — confessou Bell, acompanhando o movimento
dos ponteiros dos instrumentos. — Faltam dez segundos.
3

Quando Tiff saiu da caverna e teve diante de si a paisagem do planeta, não pôde
vencer a surpresa. Só nos cumes das montanhas próximas havia neve, e ainda mais à
direita, nas encostas que não eram atingidas pelo sol. De resto o solo negro estava livre de
neve. Na maior parte era formado de rocha nua, mas vez por outra Tiff tinha a impressão
de que essa rocha tinha algo de familiar.
Mildred Orson sacudiu a cabeça com tamanha força que os longos cabelos pretos
esvoaçavam. Fazia um frio terrível, mas por alguns minutos suportava-se o mesmo. Além
disso, parecia que o impacto direto do sol e a proteção da rocha tornavam o ar menos
gélido.
— Não parece tão mau assim — disse em tom alegre, embora por dentro não se
sentisse nem um pouco alegre. — Não seria de estranhar se aqui existisse vida.
— Por enquanto só estamos interessados em nossa própria vida — respondeu Tiff
com um sorriso. Sabia que Mildred sentia certa inclinação por ele, tendo vencido todas as
incertezas. Por Hump parecia sentir apenas compaixão. Isso fez com que Felicitas
respirasse aliviada, pois até então seu amor por Hump parecia não ter a menor esperança.
O único que parecia não perceber nada desse jogo complicado era Eberhardt. Entendia-se
perfeitamente com todos e ficava satisfeito, desde que o deixassem em paz.
— Tiff, você acredita que Rhodan chegará em tempo para libertar-nos? — perguntou
Felicitas um pouco amedrontada. O medo fazia parte de sua natureza. — Por que os
mercadores ainda não nos atacaram?
— Por enquanto têm problemas que chega — conjeturou Tiff. — Gucky já lhes deu
muito trabalho.
— Que seria de nós se não tivéssemos Gucky?
Tiff riu.
— Ora, Felicitas, até parece que você está apaixonada por Gucky.
— De certa forma todos nós estamos, não é verdade, Milly?
A moça acenou com a cabeça de cabelos negros e fechou o capacete do leve traje
espacial. Ao mesmo tempo ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo.
— Estou sentindo frio. — disse. — Não se agüenta isto por muito tempo sem o traje
protetor. Morreríamos de frio.
— É um mundo hostil — observou Felic, apontando para o vale onde havia algumas
manchas de neve. — E seria hostil mesmo que não tivéssemos que temer um ataque dos
saltadores.
— Com qualquer mundo pode-se fazer alguma coisa — objetou Tiff sem tirar os
olhos do céu. — Até mesmo com este. Pensem na lua, senhoritas. Lá nem sequer existe ar.
— Acontece que não fica tão longe da Terra — disse Molly, ressaltando um ponto
muito importante. — Isso parece ser um fator decisivo.
Tiff não respondeu. Por um instante teve a impressão de ter visto um ligeiro
relampejo no verde-azulado do céu, mas logo concluiu que devia ter-se enganado. Dirigiu-
se a Milly e colocou o braço em torno de seus ombros.
— A distância só tem um significado simbólico; não produz qualquer efeito prático.
No mundo podemos sentir-nos mais solitários que aqui, a trezentos e vinte anos-luz da
Terra.
— Vamos até o riacho? — sugeriu Milly.
— Parece fazer uma eternidade que não vejo um riacho.
Caminharam lentamente sobre a rocha escura, que formava um contraste acentuado
com os restos de neve. No ribeirão havia blocos de gelo, mas o chão parecia irradiar tanto
calor que a corrente de água não se congelou totalmente. As ondas brincavam alegremente.
Há pouco ainda eram gelo, e logo voltariam a sê-lo.
Felic abaixou-se; em sua voz soou o espanto.
— Vejam só! Existe vida neste mundo de gelo. Plantas de verdade.
— São apenas algas — disse Milly com um certo desprezo, mas a botânica logo
objetou.
— As algas também são plantas, Milly. Constituem o estágio inicial da vida. A partir
deles tudo se forma, desde que disponham de tempo.
De repente Gucky surgiu em meio ao grupo, vindo do nada. Transferira-se para lá por
meio da teleportação. Provavelmente tivera muita preguiça para percorrer todo o trecho em
suas perninhas curtas.
— As algas tiveram tempo de sobra — disse num tom estranho. — Deram origem a
outras formas de vida, e de vida inteligente.
Vamos voltar à caverna, que eu lhes mostrarei.
— Vida inteligente? — disse Tiff, esticando as palavras. — Será que você localizou
os chamados sonâmbulos?
— Vocês ficarão admirados — disse Gucky animadamente. — São criaturas
formidáveis — e além de tudo são telepatas. Quase diria que são hipno-telepatas, pois seus
pensamentos transmitem-se por força dum comando irresistível àquele a que se dirigirem.
— O que significa isso? — indagou Tiff e sentiu que seus cabelos se arrepiavam.
Teve a mesma sensação que costumava apossar-se dele nos tempos em que o avô lhe
contava, nas horas de crepúsculo, as conhecidas histórias de fantasmas. — São hipno-
telepatas?
— Enquanto pensam, podem influenciar o espírito de outros seres. Mas não se
preocupe, Tiff; são inofensivos. Têm medo dos saltadores.
— E eles sabem alguma coisa a respeito dos saltadores? — disse Tiff num espanto
sempre crescente. — Como chegaram a tomar conhecimento da existência deles?
— Os sonolentos dispõem dum estranho poder de adivinhação. Captaram
pensamentos de ódio vindos do espaço. Só podem ser os pensamentos dos saltadores.
Nossa presença não os incomoda, pois sabem que não pretendemos fazer-lhes nenhum
mal. Mas têm medo dos saltadores, e não confiam em suas intenções. Vocês se admirarão
— repetiu Gucky. — Mas vamos à caverna. Ou será que vocês têm tanta preguiça como
eu?
Resmungando, Tiff pôs-se em movimento. Milly e Felic seguiram-no. Esta última
lançou mais um olhar para as algas que cresciam na margem do riacho e resolveu que mais
tarde voltaria a visitar o estranho planeta.
Gucky desapareceu. Esperou-os no interior da caverna, onde reinava um calor
agradável — e um cheiro também agradável de comida preparada.
Hump levantou os olhos quando o grupo entrou.
— Está na hora. A comida está pronta.
Excepcionalmente Eberhardt conseguiu fazer alguma coisa de útil. Desembrulhou os
alimentos concentrados.
— Se não fosse eu, o molho teria queimado — disse Eberhardt, defendendo-se da
acusação de Hump. — Esse sujeito não sabe fazer outra coisa senão falar, e o que fala são
apenas mentiras.
Gucky farejou o ar e soltou um gemido de gozo.
— Sugiro que comamos logo. Os sonolentos não vão fugir. Por enquanto não.
— Poderão fugir mais tarde? — perguntou Tiff, que não soube dominar a
curiosidade.
Gucky fez que sim.
— Mais tarde, na primavera. Daqui a cinqüenta anos aproximadamente.
Tiff lançou um olhar demorado para o rato-castor. Seu rosto matreiro não permitia
qualquer conclusão sobre se estava brincando ou não.
RB-013 mantinha-se imóvel num canto, irradiando um calor agradável. A lâmpada
alimentada pela energia inesgotável do reator arcônida espalhava sua luz. Se não fosse o
robô, a vida seria menos agradável.
Sentaram sobre as caixas emborcadas e comeram. Os mestres-cucas, Hump e
Eberhardt, receberam os elogios merecidos e logo discutiram a respeito de a quem cabia o
maior mérito.
Foi nesse momento que Felic arriscou o primeiro ataque de frente.
— Hump, você cozinhou uma sopa gostosíssima — disse, lançando-lhe um olhar de
admiração. — Eu não saberia fazê-la tão gostosa.
Hump sempre era acessível a um elogio. Enrijeceu o corpo e lançou um olhar de
advertência para Eberhardt. Com um aceno de cabeça, prometeu:
— Quando eu for casado, minha mulher não precisa cozinhar.
Tiff fez uma careta.
— Você cozinhará no lugar dela? — perguntou.
— Claro que sim!
— Ah, é? E sua mulher sairá para trabalhar?
Por pouco Hump não engasga.
— Por quê?
Tiff sorriu.
— Homem, você nem desconfia dos problemas que uma dona-de-casa tem que
enfrentar. Pergunte a Milly. Quando for casada, não terá outra coisa a fazer senão
cozinhar. Não mandarei na cozinha, mas em compensação vou ganhar dinheiro.
O rosto de Hump foi tão estúpido que Gucky soltou uma gargalhada tão aguda que
até fez tremer a lâmpada do robô. Ninguém deu atenção à reação emotiva da máquina
eletrônica, pois todos concentravam suas atenções em Hump.
O cadete da frota espacial empalideceu, mas depois seu rosto se tornou vermelho
como um tomate. Passou os olhos de um companheiro para outro, mas só se defrontou com
expressões de expectativa; todos demonstravam um vivo interesse no desenrolar dos
acontecimentos.
Finalmente seus olhos pousaram em Milly.
— É verdade, Milly? Você quer casar com ele?
A moça confirmou com um aceno de cabeça. Uma mecha de cabelo negro caiu em
sua testa.
— Você não sabia?
Hump engoliu em seco.
— Como poderia saber?
Milly exibiu um sorriso ingênuo.
— Mesmo que amasse você, não tiraria o preferido de outra moça. Ainda mais
quando sei que essa moça gosta de você de todo coração, mas você é tão estúpido que não
percebe nada.
O rosto de Hump tornou-se talvez ainda mais estúpido. Tiff teve de esforçar-se para
reprimir o riso. Felic parecia confusa. Seu rosto alternava entre o vermelho e o pálido. A
colher que segurava na mão tremia fortemente. Eberhardt era o único que não parecia
interessado no que se passava em torno dele. Continuava a devorar tranqüilamente a sopa e
vez por outra soltava um gemido satisfeito, o que fez com que o rato-castor lhe tocasse o
pé às escondidas, para lembrar-lhe as boas maneiras à mesa.
— Há uma moça que me ama? — gaguejou Hump depois de algum tempo,
totalmente confuso.
— Isso mesmo. É uma coisa que você não pode compreender, não é? — disse Milly
em tom provocador. — Asseguro-lhe que essa moça não sou eu.
O olhar de Hump caiu sobre Felic, que parecia muito confusa e não contara com esse
auxílio. Abaixou a cabeça quando Hump a olhou.
— É verdade, Felic? — cochichou Hump.
Felic confirmou com um aceno de cabeça.
Foi quando a paciência de Gucky estourou.
— Os humanos são criaturas estranhas! Será que vocês têm de escolher justamente a
hora do almoço para tratar de assuntos de família? Até parece que não temos outros
problemas.
Tiff apontou para a panela colocada sobre a caixa emborcada que servia de mesa.
— Para quanta coisa não pode servir uma boa sopa — disse, lançando um olhar de
gratidão para Milly. — Se você não tivesse dado uma dica tão clara, Hump nunca teria
descoberto. Compreende com muita dificuldade. E Felic é muito tímida. Pelo menos este
problema está resolvido. Será que temos uma sobremesa?
Eberhardt desertou do cochilo costumeiro.
— Sobremesa? — resmungou. — Será que vocês têm de empanturrar-se toda vida?
Tiff levantou-se.
— Foi apenas uma pergunta singela. O que vamos fazer agora, Gucky?
O rato-castor, que já se acostumara ao alimento dos humanos, embora preferisse uma
cenoura, mostrou o dente roedor e passou as patas pela barba. Só faltava ronronar.
— Depois da refeição um passeio faz milagres — disse. — Quem ficará por aqui?
Ninguém se dispôs a ficar. Gucky sorriu.
— Muito bem; vamos todos. Aconselho que usem botas de borracha e roupa velha.
O caminho é muito difícil e úmido. Voltaremos sujos que nem uns porcos.
Eberhardt franziu a testa.
— Eu devia lavar a louça... — principiou.
— Pelo que vejo, você quer escapar às canseiras da marcha — disse Gucky com uma
expressão de recriminação. — Pois bem, sempre tem que haver alguém que leva a vida
melhor que os outros. De acordo, Eberhardt.
Tiff olhou em torno para descobrir a roupa que devia vestir, mas Gucky segurou seu
braço. Não compreendeu logo o que estava acontecendo, mas subitamente viu-se
transportado a mais de cem metros em direção ao fundo da caverna. Poucos segundos
depois surgiram Hump e as moças. Preferiu aguardar as explicações de Gucky.
O rato-castor apontou com um gesto triunfante em direção à fraca luminosidade, de
onde vinha o ruído inconfundível da água. Um prato de lata tilintava.
— Afinal, alguém tem que deixar as coisas em ordem — disse. — Vocês acham que
eu teria que lavar a louça mais uma vez? Não se preocupem, o caminho não é difícil. Tiff,
você trouxe a lanterna?
— É claro, seu espertalhão. Nunca ando sem ela.
— Muito bem. Daqui em diante podemos andar. Não é longe. A passagem não ficará
mais estreita. Os sonolentos usam-na durante a primavera, quando vão à superfície.
— Eles podem ir à superfície? — perguntou Milly, arregalando os olhos. — Afinal, o
que são?
— Felic terá um interesse todo especial por eles — prognosticou Gucky sem mostrar-
se disposto a fazer outras revelações.
Milly sacudiu a cabeça.
— Felic é uma botânica, Gucky. Reconheço que é uma ciência estreitamente ligada à
zoologia, mas...
— Vocês ficarão admirados — disse Gucky e saiu balançando o corpo. A cauda larga
desempenhava as funções dum leme, ajudando-o a andar ereto como um homem. Ajudava-
o a manter o equilíbrio e servia-lhe de apoio toda vez que parava. — Cuidado para não
bater com a cabeça. A passagem é boa para andar, mas de vez em quando há uma rocha
saliente. Os sonolentos não são maiores que eu.
— Por que você os chama de sonolentos? — perguntou Tiff. — Ao menos isso você
pode contar.
— Poderia — disse Gucky com um sorriso matreiro. — É que eles dormem, mas ao
mesmo tempo não dormem. O corpo dorme, mas o espírito continua acordado. Será que
vocês ainda não sentem nada?
— Você acha que sabemos ler pensamentos? — perguntou Milly.
— Os sonolentos também sabem comunicar-se com seres que não sejam telepatas.
Sua característica especial consiste justamente nisso. Avisem-me imediatamente quando
sentirem alguma coisa estranha, alguma coisa... bem, alguma coisa diferente.
Felicitas parou.
— Estou com medo — disse.
Gucky Virou-se como se alguém tivesse mordido sua cauda.
— Está com medo, Felic? Você o sente claramente?
A moça parecia indecisa.
— Como posso sentir claramente o medo? Estou com medo, mais nada.
Hump pigarreou e segurou sua mão.
— Não tenha medo, meu bem. Estou ao seu lado.
Felicitas exibiu um sorriso corajoso. Tiff sorriu. Lançou um olhar significativo para
Milly.
— Como esse monstro do Hump sabe ser gentil quando ama uma moça que combina
com ele. Até já começo a sentir mais simpatia por você, Hump.
Hump resmungou alguma coisa que ninguém entendeu e dirigiu-se a Gucky:
— Então, onde é que estão dormindo suas lindas criaturas do gelo?
Gucky continuou na caminhada.
— Ainda veremos se são lindas. Afinal, nem todos têm o mesmo gosto — lançando
um olhar de esguelha para Felicitas, acrescentou: — Ainda bem!

***

A frota dos superpesados aproximava-se da lua terrena.


Um tanto preocupado em virtude da palestra que mantivera com o homem que,
segundo sua opinião, era o representante de Rhodan, Topthor instruiu seus comandantes a
não tirarem os olhos dos instrumentos de localização. Manteve contacto ininterrupto com
Grogham.
— Será que levaram a advertência a sério, Topthor? E se forem realmente fortes
como afirmam? Se de fato houver outras naves além da de Rhodan, equipadas com o
mesmo armamento? Não é impossível que nos tenhamos enganado...
— Tolice! — interrompeu-o Topthor. — Em hipótese alguma podemos admitir que
alguém nos desafie. Onde chegaríamos se permitíssemos uma coisa dessas? Outros
saberão e poderão ter alguma idéia estúpida, como por exemplo, aumentar seus direitos de
exportação ou negociar por conta própria. Perderíamos nosso monopólio. Se não
conseguirmos impor-nos, os mercadores estarão fritos — e nós com eles. Se não houver
mais vôos em comboio para transportar mercadorias preciosas, não teremos mais nada a
proteger.
Grogham não tirava os olhos da tela do rastreador.
— É claro que você tem razão, Topthor.
Acontece que isso não me deixa muito à vontade. Não me esqueci da rapidez com
que Rhodan destruiu cinco das nossas naves.
Topthor não respondeu. As palavras que Grogham acabara de pronunciar chamaram-
lhe à lembrança a primeira derrota sofrida em sua longa vida. Ainda não conseguira
explicar como Rhodan conseguira destruir cinco de suas naves de guerra antes que
começasse a batalha propriamente dita. Rhodan devia possuir uma arma que ninguém
imaginava como seria. Atravessava os campos energéticos e desencadeava uma explosão
fulminante no interior do objeto alvejado.
O grito de Grogham arrancou-o das reflexões.
— Ali, os terranos! A esfera-gigante dos arcônidas. Esses traidores aliaram-se aos
terranos.
A Stardust-III aproximava-se a uma velocidade tresloucada e circulou a uma
distância segura em torno da frota de Topthor. Por enquanto nada indicava que o ataque
estivesse iminente.
Topthor lançou um olhar para os instrumentos.
— Mantenha o rumo inalterado, Grogham. Pousaremos no ponto prefixado. Não
atacaremos. Vamos esperar que abram fogo.
Estava lembrado de que Rhodan não destruíra suas naves antes que estas o
atacassem. Talvez o comandante desse veículo esférico tivesse as mesmas idéias.
Não poderia adivinhar que o comandante ainda se chamava Rhodan. E também não
podia imaginar que este interpretava o próprio vôo em direção à Terra como uma agressão,
e isso com o consentimento expresso do imortal, que lhe entregara o transmissor fictício.
A lua passou ao lado da nave. O globo verde-azulado da Terra aumentava
rapidamente, pois Topthor ainda não mandara iniciar a manobra de desaceleração. As onze
naves aproximavam-se implacavelmente do planeta que os mercadores galácticos
pretendiam incorporar ao seu império colonial. Topthor não se sentiu muito surpreso
quando uma voz potente superou todos os transmissores de bordo. Era a voz fria e dura
que já conhecia. O sujeito aparentemente tão inflexível não podia ser outro senão o tal do
Freyt.
— Topthor, eu o preveni. Afaste-se da Terra. Estamos dispostos a estabelecer
relações comerciais de igual para igual com os mercadores galácticos, mas não
concordamos em submeter-nos às condições ditadas por vocês.
— Quando tivermos chegado à Terra, negociaremos — respondeu Topthor, que não
se sentia muito à vontade. — Nossas armas não falarão, a não ser que vocês nos obriguem
a agir de outra forma.
— Ninguém mata as galinhas cujos ovos quer colher, Topthor. O ato de vocês só é
pacífico na aparência. Previno-o pela segunda vez. Você dispõe de trinta segundos.
Topthor fitou a Terra, que continuava a aumentar. Já distinguia os continentes e via
as grandes cidades, as vias de comunicação que emitiam um brilho branquicento, o cintilar
das vias férreas, as extensas áreas cultivadas. Lá embaixo havia uma civilização,
negociava-se e ganhava-se dinheiro.
Entesou-se.
— Por que não concordam em negociar na Terra?
— Temos motivos para isso, especialmente motivos de ordem tática. Além disso, há
uma questão de princípio — é claro que Rhodan não poderia revelar que havia muitos
outros motivos pelos quais em nenhuma circunstância se poderia permitir que os saltadores
pousassem na Terra. O planeta ainda não alcançara a unificação oficial e ainda não possuía
uma frota espacial que lhes permitisse rechaçar eventuais ataques desfechados pelas
civilizações galácticas. Por enquanto o poder da Terra repousava no blefe. A Stardust-III
era o único couraçado de verdade de que Rhodan podia dispor. — Previno-o pela última
vez, Topthor, volte antes que seja tarde. Só faltam cinco segundos.
Tophtor deixou que também esses preciosos segundos se passassem em vão.
Duro e rijo contemplava a tela frontal, que revelava tudo que podia ter algum
interesse para ele: a Terra, a gigantesca nave esférica e os dez cruzadores. Pela primeira
vez na vida Topthor sentia-se inseguro. As dúvidas atormentavam-no: seu procedimento
era acertado, ou estaria cometendo um erro?
Mas Rhodan não permitiu que a incerteza durasse muito.
De repente Topthor viu que duas de suas naves entraram em incandescência e caíram
aos pedaços. As peças derretidas, atraídas pela gravitação terrestre, que já se tornara mais
intensa, foram caindo em direção ao planeta.
Em menos de dez segundos Topthor perdera duas naves, sem que o veículo esférico
tivesse esboçado o menor movimento de ataque. Mas aquilo só podia ser obra da
gigantesca nave.
O rosto de Rhodan voltou a surgir na tela.
— Então, Topthor, você ainda quer pousar na Terra, ou mudou de intenção? Eu lhe
dou uma última chance.
Acontece que Topthor não quis a última chance. Continuava a acreditar na sua
superioridade. Até então suas naves não haviam disparado um único tiro. Nem se dignou
de olhar para Rhodan e não teve tempo de ficar especulando sobre como aquele terrano,
que acreditava ser Freyt, conseguia interferir em sua rede de televisão. Sem preocupar-se
com a possibilidade de que suas ordens pudessem ser ouvidas pelos terranos, berrou:
— Grogham, vamos ao ataque! As naves atacarão simultaneamente. Disparem os
torpedos e os raios energéticos. Lancem mão de todos os recursos disponíveis.
Voltou a olhar a tela e viu o rosto do terrano, que assumiu uma expressão de dureza.
— Topthor, foi você que quis assim — disse Rhodan, e em sua voz havia um som
metálico. — Pouparei você e Grogham, não por compaixão ou condescendência, mas
apenas para que sobre alguém do clã dos superpesados. Quero que os outros saltadores
saibam o que lhes acontecerá se vierem à Terra com a intenção de conquistá-la. A Terra é
mais poderosa que todas as civilizações guerreiras da Via Láctea, Topthor. E há mais um
recado que você poderá transmitir à sua raça. Estamos dispostos a viver em paz com todo
mundo, mas qualquer um que nos ataque será destruído sem contemplação. O império dos
arcônidas continua a existir, e com ele prevalecem as leis que visam à paz.
Topthor estreitou os olhos e esperou que Grogham transmitisse e executasse a ordem
que acabara de dar. Mas antes que isso acontecesse perdeu mais duas naves, que sem
qualquer causa aparente se dissolveram nos seus componentes atômicos.
O superpesado lançou mão das sete naves que lhe restavam, tentando surpreender o
inimigo com um desesperado ataque. Mas os torpedos explodiram antes que atingissem o
campo energético do veículo esférico, e os raios energéticos concentrados foram desviados
pelo envoltório protetor da Stardust-III.
Subitamente Topthor ficou com apenas cinco naves.
Seu raciocínio não quis admitir a realidade. Não era possível que alguém conseguisse
romper os campos energéticos sem mais esta nem aquela. Esses terranos deviam dispor
dum recurso que lhes permitia transformar o inimigo de um estado em outro, convertendo
a matéria em energia pura. Mas como poderia ser feita uma coisa dessas sem que os
campos energéticos fossem tocados?
Topthor não descobriu a resposta, mas a essa hora só lhe restavam três naves.
Com isso o instinto de autoconservação venceu a ambição.
— Grogham, vamos embora! Transição de emergência. O ponto de encontro é
Etztak.
Bateu furiosamente na chave que o afastaria da zona de perigo.
Grogham seguiu-o, mas a outra nave dos superpesados não conseguiu escapar à
destruição. Volatilizou-se bem acima da atmosfera terrestre.
Nunca Perry desferira um golpe tão duro e implacável.
Mas teve que fazê-lo, para que a humanidade continuasse a existir.
E a humanidade havia de continuar...
4

Orlgans descobrira os terranos e fora o primeiro a estabelecer contacto com eles, mas
submeteu-se à vontade e às ordens do patriarca de seu clã, Etztak, que assumira
pessoalmente o comando supremo. Os saltadores não eram uma raça combativa. Em linhas
muito gerais, pareciam apenas uma raça mercantilista que sabia impor-se. Quando
houvesse necessidade de lutar, chamava-se o clã dos superpesados para prestar auxílio,
pagava-se, a quantia combinada, e ficava-se livre deles. Mas desta vez o caso era diferente.
No planeta Terra havia uma civilização até então totalmente desconhecida, que num
salto enorme avançara até o estágio da Astronáutica e contava com o apoio dos arcônidas.
Era um mundo a ser explorado.
Se outros clãs viessem a saber disso, perderiam um monopólio garantido. Por isso
Etztak decidira enfrentar sozinho a luta contra o planeta Terra e Perry Rhodan. A luta
parecia mais difícil do que era de supor. Além disso, os superpesados apareceram em cena,
mas Etztak não tinha certeza se conheciam a posição da Terra. Talvez estivessem blefando.
Bem, Topthor prometera dar sinal de vida.
Orlgans estava pensando nisso, enquanto descrevia círculos cada vez mais estreitos
em torno do mundo de gelo. Vez por outra mandava disparar salvas de seus canhões de
radiações contra as montanhas de gelo e a rocha nua, embora soubesse que isso não
adiantaria nada. O motivo de tal procedimento era puramente psicológico.
Orlgans recuou diante da idéia de destruir esse planeta habitável por meio duma
deflagração atômica irreversível. Uma medida dessa ordem só era permitida quando a
segurança própria dependia dela. E o caso não era este. Dominado de raiva, Etztak
pretendia destruir um mundo apenas para vingar-se de cinco terranos que haviam feito
pouco dele.
Orlgans não precisaria fazer muita coisa. Bastaria pousar em qualquer ponto do
planeta condenado à morte e colocar a bomba. Um mecanismo a faria detonar dentro de
determinado tempo. Depois da detonação a bomba desencadearia uma reação em cadeia,
que prosseguiria até que a última partícula de matéria tivesse sido consumida. A reação em
cadeia era lenta. Vários dias se passariam até que todo o planeta estivesse transformado
num sol. Mas, uma vez iniciado, não havia como reverter o processo.
Nada poderia salvar o segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo.
Mas Orlgans ainda hesitava.
Se o Tribunal Supremo dos mercadores galácticos pedisse contas do procedimento de
Etztak, ele, Orlgans, ficaria sujeito ao mesmo castigo. Tinha a obrigação de recusar-se a
cumprir a ordem absurda, que destruiria um mundo capaz de evoluir. Mas o que
aconteceria, perguntou Orlgans de si para si, se realmente se recusasse? Não atrairia sobre
si a cólera do patriarca? E este não lhe causaria uma série de dificuldades?
Orlgans respirava pesadamente, enquanto fitava o deserto de gelo que deslizava
embaixo dele. O que havia para destruir lá embaixo? Neve e gelo. Haveria alguma vida?
Só a dos cinco terranos. E daí?
Deu de ombros e pôs a mão nos controles.
Uma curva fechada levou a nave ao pólo norte, onde pousou suavemente na neve
profunda. Mas a neve não cedeu. Endurecera de tão congelada que estava.
Orlgans ligou o intercomunicador. Esperou até que o imediato da Orla XI
respondesse ao chamado e disse:
— Compareça à minha presença. Temos uma missão a cumprir.
Nem desconfiava de que já iniciara o cumprimento da tarefa, pois um dos tiros
energéticos disparados a esmo contra a superfície gelada já desencadeara a catástrofe.

***

O cadete Klaus Eberhardt acabara de guardar as panelas e os pratos lavados e


divertia-se, formulando perguntas inteiramente ociosas ao RB-013. Estava
confortavelmente deitado sobre uma coberta, aos pés do robô, regalando-se nos raios de
calor expelidos pelo mesmo.
— Está com frio, Moisés? — indagou.
Por algum motivo desconhecido, os cinco terranos haviam dado este nome ao robô.
— Afinal, você não tem ninguém que o aqueça.
— A pergunta teria muita lógica se eu fosse um ser orgânico — respondeu RB-013,
ou seja, Moisés. — Mas, como não sou, a pergunta não tem nenhuma lógica.
— Só perguntei por perguntar — desculpou-se Eberhardt. — O tempo custa tanto a
passar quando os outros não estão por aqui. Quase se chega a sentir medo.
— Isso não tem nenhuma lógica — repreendeu-o Moisés com a voz um tanto
enferrujada. — Se os outros estivessem por perto, o perigo não seria menor.
Eberhardt suspirou.
— Rapaz, será que você não é capaz de se esquecer por um instante de que é um
robô? Não tem nenhum sentimento? Conhece apenas a lógica?
— Você me chamou de rapaz, criatura esquecida. Sou RB-013, construído em
Terrânia, e pertenço à série...
— Já sei — gemeu Eberhardt, arrependido de se ter envolvido numa discussão com
aquele sujeito, que tinha uma resposta para tudo. — Isso só escorregou dos meus lábios.
Desculpe.
Subitamente ouviu um uivo, um forte apito, e uma vaga de calor quase insuportável
envolveu-o. As cobertas penduradas entre as caixas foram arrancadas e atiradas contra a
parede de rocha. Mas embora as cobertas tivessem sido afastadas, não surgiu mais luz no
lugar que correspondia à saída para a superfície. E o frio polar não invadiu a caverna. Pelo
contrário: a temperatura subiu.
Moisés desligou automaticamente o aquecimento e providenciou a refrigeração.
Perplexo, Eberhardt continuava deitado sobre o cobertor. Levantou-se devagar.
— O que foi isso? O que aconteceu?
Ouviu-se um forte clique no interior do robô. Era sinal de que estava consultando seu
cérebro positrônico. Depois respondeu:
— A entrada foi fechada por meio de raios térmicos. Existem dois fatos que levam a
esta conclusão: o aumento de temperatura e a ausência da luz do dia. Como terceiro fator
podemos citar a falta da correnteza de ar frio. Meu termômetro indica uma temperatura de
vinte e um graus centígrados positivos. É ao menos uma temperatura extraordinária, desde
que minha conclusão seja correta.
— Estamos trancados? — Eberhardt empalideceu e levantou-se. — Por causa de
raios térmicos? Foram os saltadores?
— Provavelmente. Quem poderia ter sido? Os raios energéticos disparados por eles
derreteram a rocha e a entrada da caverna foi fechada quando a massa derretida voltou a
endurecer. Suponho que se trate dum simples acaso.
— Isso não deixa de ser um consolo — cochichou Eberhardt, que subitamente teve a
impressão de que o ar estava muito viciado. — Qual é a grossura da parede?
— Poderemos verificar isso quando Gucky voltar.
Só agora lembrou-se dos colegas e das moças.
— Santo Deus, e os outros? Onde estarão? Tomara que não lhes tenha acontecido
nada.
— Eles correm menos perigo que eu — tranqüilizou-o Moisés. — Esperemos
calmamente até que voltem. Aqui estamos em segurança. Ao menos posso economizar
energia, pois o calor que temos aqui é suficiente.
— E o ar? Como é que vamos respirar quando o suprimento de oxigênio estiver
esgotado? Afinal, a entrada está fechada.
Moisés levantou um dos quatro braços e apontou na direção em que Gucky havia
desaparecido com seus amigos.
— Daí vem um fluxo constante de oxigênio. Nem há necessidade de ligar meu
dispositivo de renovação de ar.
Eberhardt fitou o corredor escuro.
— Ar puro dali? Como será possível?
Pela primeira vez o robô ficou devendo a resposta.
— Não sei — confessou. — Não disponho de qualquer indicação que me permita
formular uma explicação do fenômeno.
Eberhardt caiu sobre o cobertor. Parecia ter-se esquecido de que se transformara num
prisioneiro da caverna.
— Graças a Deus! — gemeu satisfeito. — Finalmente!

***

Tiff parou e respirou profundamente algumas vezes.


— Tenho a impressão de que ficou mais quente. E estou admirado de que aqui no
fundo da caverna o ar seja tão puro. Há uma explicação para isso?
O rato-castor sacudiu a cabeça.
— Em hipótese alguma eu me privarei do prazer da surpresa — disse em tom
enfático. — É claro que existe uma explicação, mas quero que vocês mesmos a descubram.
Não tenham pressa. Não estão sentindo nada?
Felicitas apontou para a escuridão que se apresentava diante deles.
— Para onde você nos leva, Gucky? Ainda falta muito? Estou com medo de verdade.
— Sim, você está com medo — confirmou Gucky. Parecia satisfeito. — Era o que eu
esperava. Você é a pessoa mais sensível que temos por aqui, e por isso é o melhor objeto
de experiência de que dispomos.
Subitamente uma ruga vertical surgiu na testa de Tiff.
— Ouça, Gucky. Reconheço que você tem alguns dons admiráveis, mas sempre se
corre o risco de exagerar as coisas. Você faz alusões misteriosas e nem pensa em fornecer
explicações. Tenho certeza de que você sabe perfeitamente o que está acontecendo neste
mundo. Por que não diz logo o que significa tudo isso?
Gucky riu satisfeito. As palavras de Tiff não pareciam impressioná-lo nem um pouco.
— O problema é que você não quer que eu me divirta. Se eu lhe garanto que não há o
menor perigo, isso não basta? O fato de que Felic sente medo apenas confirma minha
teoria. Daqui a pouco todos vocês sentirão o mesmo medo. Digo isto para que estejam
prevenidos. São os pensamentos dos sonolentos, que serão captados por seus cérebros
como se estes fossem uma antena. O que vocês sentirão são o medo de outrem. Não o
medo de vocês.
Tiff prestou muita atenção ao que estava dizendo. A ruga da testa desapareceu.
— Afinal, você já renunciou a parte da surpresa — constatou. — Que tal se logo nos
contasse o resto?
O dente roedor de Gucky avançou por cima do lábio.
— Em hipótese alguma! — disse energicamente. — Prefiro teleportar-me de volta
para a caverna e ajudar Eberhardt a lavar a louça.
Milly assustou-se.
— Não faça isso, querido Gucky. Você não pode nos deixar sós. Hoje de noite
cocarei seu pêlo durante uma hora, se você quiser.
Gucky sorriu.
— Aceito a proposta — disse com um gesto de condescendência. — Vamos adiante.
Não deve faltar muito.
Tiff sacudiu a cabeça.
— Pensava que você soubesse onde é.
— É claro que sei. Acontece que não percorri todo o caminho a pé. Apenas fiz alguns
ensaios. Por isso não sei qual é a distância. Mas se não estou enganado, depois da primeira
curva deveremos enxergar a luz.
Tiff parou. Hump, que não enxergava muita coisa sob a luz da única lanterna acesa e
estava entretido com os próprios pensamentos, esbarrou nele. Ambos esbravejaram. Mas
Tiff logo recuperou o controle.
— Luz? — perguntou.
Gucky fez um gesto impaciente com a cabeça. Parecia lamentar-se.
— Isso mesmo, luz. Acabei contando mais uma coisa. Daqui em diante ficarei com a
boca fechada.
Caminhou para a frente, sem preocupar-se em saber se os outros o seguiam. O que
poderiam fazer senão isso? Hump resmungou alguma coisa que soava como “falta de
educação”. Ao que tudo indicava, estava aludindo às maneiras de Gucky. No íntimo Tiff
deu-lhe razão, mas não disse nada. Também as duas moças seguiram-no em silêncio.
A curva anunciada chegou. O corredor alargou-se. Bem adiante brilhava uma luz.
— É mesmo! — disse Milly e estremeceu. — Uma luz. Gucky, como é que pode
haver luz por aqui, bem embaixo da montanha? Será uma luz artificial?
— Não sei — respondeu o rato-castor, que à luz da lâmpada tinha alguma coisa dum
rato Jerry bastante ampliado. Ao que parecia, excepcionalmente estava dizendo a verdade.
Não fizeram outras perguntas. Seguiram Gucky, que caminhava mais depressa.
O corredor tornou-se mais largo e mais alto. Tiff calculou que haviam percorrido ao
menos um quilômetro. Como o chão em que pisavam sempre se apresentara em declive
suave, deviam encontrar-se cerca de cinqüenta metros abaixo da superfície. Não havia
dúvida de que a profundidade devia ser maior, se o corredor levava para o interior da
montanha.
A luz tornou-se mais forte.
Gucky deu mais um passo e entrou num recinto amplo. Num gesto dramático
levantou os braços e fez um gesto abrangedor. Nesse instante parecia um Napoleão em
edição de bolso. Se a situação fosse outra, Tiff não teria deixado de formular uma
observação nesse sentido; mas ficou calado.
O quadro que se apresentava diante dele roubou-lhe a fala.
Os outros também ficaram parados e, boquiabertos, admiravam o que estavam vendo.
Acreditaram que estivessem sonhando, mas as ondas de pânico que passaram por eles
faziam com que o sonho fosse muito realista.
Encontravam-se num pavilhão que media algumas centenas de metros de diâmetro.
Bem no centro luzia o espelho dum pequeno lago, em cujo centro brotava um repuxo. Não
era muito alto, mas o esguicho fino foi pulverizado de tal forma que uma neblina quase
imperceptível descia em todos os cantos. As paredes rochosas eram bastante irregulares e
não davam mostras de terem sido trabalhadas. Certamente os nichos foram obra da
natureza, da mesma forma que o poço e o repuxo.
E a luz!
As quatro pessoas do grupo ficaram paradas, olhando para cima, onde um sol
brilhava no centro do teto. Era redondo, mas seu formato não era tão uniforme que
lembrasse um sol de verdade. Antes parecia um gigantesco diamante que irradiasse uma
incandescência vinda de seu interior, fornecendo luz e calor.
Só agora Tiff sentiu a tepidez do ar. Não era um calor excessivo ou desconfortável,
mas a temperatura ficava em torno de zero graus, o que naquela região representava uma
marca bastante elevada.
— Como é que esta luz pode chegar até aqui? — perguntou Tiff.
— Deixemos a luz de lado. Ainda teremos tempo para tratar disso. Não percebeu
mais nada, Tiff?
Felicitas não se interessou muito pelo fenômeno daquela luz estranha, para o qual não
encontrou qualquer explicação. Dedicou sua atenção aos nichos de pedra — e soltou um
grito. Não foi um grito de susto ou de pavor, mas apenas de surpresa.
Os outros esqueceram-se por um momento do sol de pedra e seguiram na direção
apontada por seu braço estendido. Apoiado sobre a cauda, Gucky cruzou as patas
dianteiras e sorriu.
— Flores! — gaguejou Felicitas e deu um ou dois passos em direção ao nicho, que
ficava a menos de vinte metros. — Flores de verdade, e bem embaixo da superfície.
Era isso mesmo. Tiff não pôde negar que a jovem botânica dissera a verdade. Nos
nichos cresciam plantas em formato de tulipas, numa profusão conhecida apenas nas
florestas tropicais. Estavam tão amontoadas que não haveria mais lugar para uma única
que fosse. Exalavam um cheiro forte, que enchia todo o recinto. Tiff admirou-se
ligeiramente de não ter notado o cheiro antes.
— Venham! — convidou Gucky. — Dêem uma boa olhada no jardim botânico. Vale
a pena.
Insatisfeito como sempre, Hump resmungou:
— Pensei que tivéssemos vindo para fazer uma visita às inteligências semi-
adormecidas, e acabamos parando num jardim de tulipas.
— As flores que crescem neste mundo de gelo só por si representam um milagre —
obtemperou Tiff. — Por que não vamos contemplar o milagre? Felic deve ter um interesse
todo especial pelo mesmo.
Parecia que Gucky nunca queria parar com seus sorrisos.
Tiff seguiu Felicitas, que fora ao nicho mais próximo e se inclinava para olhar as
tulipas mais de perto. Os outros também não tiveram coisa melhor a fazer senão dedicar
uma atenção toda especial às plantas.
Realmente lembravam tulipas, mas tulipas grandemente ampliadas, que teriam
causado orgulho a qualquer floricultor terreno. Os longos talos sustentavam enormes
coroas, que se mantinham fechadas. O formato típico das tulipas era inconfundível. O
vermelho e o alaranjado dominavam o quadro, mas também havia flores azuis, amarelas e
roxas.
Na parte de baixo as raízes mergulhavam na terra fofa. Realmente, havia porções de
terra fofa. Até parecia que um jardineiro cuidadoso preparara a terra especialmente para
servir àquelas plantas.
Felicitas voltou a endireitar o corpo.
— São flores; talvez se trate duma variedade de tulipas. Como vieram parar aqui?
Alguém deve tê-las plantado.
— Talvez tenha sido um dos sonolentos — conjeturou Tiff em tom inseguro.
— Foi o que pensei no início, Tiff. Pensei que os sonolentos apreciassem as flores.
Mas de certa forma eu me enganei. Dê uma boa olhada nas flores, Felic. Não está notando
nada?
A botânica voltou a inclinar-se e submeteu as flores a um exame mais detido. Não
teve necessidade de esforçar-se muito, pois as flores tinham quase um metro de altura.
Estreitou os olhos quando viu uma fenda fina, mas bem fechada, que circundava a corola.
Cada pétala da flor tinha uma fenda desse tipo.
— Talvez sejam plantas carnívoras — conjeturou, mas pelo tom de sua voz percebia-
se que não estava muito convencida do acerto da suposição. — O fato é que dispõem de
aberturas que podem ser fechadas à vontade.
De repente Gucky soltou uma gargalhada chiante e começou a dançar sobre suas
pernas curtas. Emitiu sons estridentes, que por certo se destinavam a revelar sua alegria.
— Adivinhou! — exclamou depois de algum tempo, enquanto Tiff e Hump se
fitavam numa estranha harmonia. Naquele momento deviam ter a mesma idéia. Ao que
tudo indicava, acreditavam que o rato-castor tivesse perdido o juízo.
Mas logo descobririam que não era nada disso.
Quando Gucky conseguiu acalmar-se, disse:
— É verdade: podem abrir e fechar as fendas à vontade. Mas estas não são órgãos de
nutrição. Prestem atenção para ver o que vai acontecer. Depois vocês saberão.
Colocou-se ao lado de Felicitas e tocou uma das plantas com a pata de veludo. Ficou
acariciando as pétalas vermelhas com a suavidade de quem está lidando com um ser
amado.
E o milagre aconteceu.
A tulipa abriu as fendas estreitas.
Os quatro humanos, estupefatos, depararam-se com um verdadeiro olho que os fitava
curiosamente.
— Permitem que lhes apresente os sonolentos? — disse Gucky com uma mesura
impecável.

***

Orlgans contemplou o oficial, quando este, auxiliado por alguns homens, colocou a
bomba no gelo. Os radiadores térmicos abriram um buraco profundo até que, ultrapassada
a camada de neve, encontraram o gelo firme. O buraco encheu-se de água, mas isso não
prejudicaria a execução do plano. A água é uma matéria estável, tal qual o gelo ou a neve.
Finalmente Raganzt inclinou-se sobre a bomba e pôs a funcionar o mecanismo de
relógio. Após isso, o instrumento mortal da destruição absoluta foi colocado no buraco por
meio duma corda.
Orlgans continuava calado. Transmitira a ordem irresponsável, mas não fez a menor
tentativa de impedir sua realização. Ainda não era tarde para isso. Só dali a trinta minutos
seria desencadeada a reação em cadeia. Se isso acontecesse no espaço cósmico, ela logo se
extinguiria, pois a matéria ali existente é tão tênue que não permite o desenvolvimento do
processo.
Orlgans nem estava pensando nisso. Desejava sair quanto antes desse planeta, que
logo se transformaria num inferno — num inferno criado por suas mãos.
Acompanhado de Raganzt e dos outros homens do grupo, voltou à nave. Uma vez na
sala de comando, entrou em contacto radiofônico com Etztak e anunciou o cumprimento
da ordem.
O patriarca parecia satisfeito, mas não conseguiu ocultar o nervosismo.
— Volte imediatamente. Acabamos de receber uma mensagem de Topthor. Realizou
um salto de emergência para fugir da Terra. Sua frota de guerra foi destruída, com exceção
de duas naves. Recusa-se a prestar-nos auxílio e decidiu voltar à sua base.
Orlgans venceu o primeiro susto.
— Ele se recusa? — cochichou espantado. — Um superpesado recusa-se a lutar em
troca de dinheiro? Uma coisa terrível deve ter acontecido.
— Possuía dezesseis naves, e agora só possui duas. E lutou contra um único terrano.
— Foi Rhodan!
— Isso mesmo, lutou contra Rhodan.
Receio que o mesmo ainda nos dê trabalho por aqui. Talvez seria preferível se
batêssemos em retirada.
— Sem destruí-lo? — disse Orlgans, admirado pela súbita mudança que se
processara no espírito do patriarca. — Isso seria uma derrota.
— Poderíamos voltar mais tarde. Afinal, os terranos são uma raça tão
subdesenvolvida que não poderão enfrentar os saltadores por muito tempo. Sua aparente
superioridade provém exclusivamente do fato de que alguns arcônidas lhes dão auxílio.
Mas não se trata apenas disso. Esse Rhodan conhece a posição do planeta da vida eterna, e
faço questão que ele me revele a mesma.
— Será que fará isso? — disse Orlgans, manifestando uma dúvida até certo ponto
justificada.
— Terá que fazê-lo... um dia! — afirmou Etztak, seguro de si. — Voltarei com uma
frota enorme e...
O rosto desapareceu da tela. O contacto sonoro foi mantido. Orlgans ouviu gritos de
pavor, seguidos de vozes de comando. Finalmente, depois de alguns minutos de incerteza,
o rosto de Etztak voltou a surgir. Nos olhos do velho patriarca brilhava a insegurança e o
medo, mas também uma decisão implacável.
— Apresse-se, Orlgans! Decole imediatamente, mas tenha cuidado quando chegar
aqui. Os dois cruzadores terranos voltaram a atacar, mas desta vez o ataque é sério e
mortal. Dispõem de armas espantosas.
Defendemo-nos contra eles, mas ao que tudo indica receberam outras instruções.
Não se deixam pôr em fuga.
— Quem sabe se não conseguimos surpreendê-los se viermos de outra direção? —
sugeriu Orlgans, mas logo se arrependeu do que acabara de dizer. Como tivera a idéia de
atacar sozinho dois cruzadores que toda a frota de Etztak não conseguira vencer?
— Tente — confirmou o velho e de permeio deu outras ordens. — Mas se for
atacado, retire-se.
Mais uma vez o patriarca confirmou com um movimento de cabeça. Após isso, a tela
escureceu.
Orlgans aguardou por alguns segundos. Depois disso suas mãos hábeis passaram
pelas chaves e botões dos controles automáticos. Um zumbido soou no interior da nave.
Por um instante, Orlgans perguntou de si para si onde ficara a nave que devia acompanhá-
lo na missão, mas a idéia de que alguém teria que controlar o espaço aéreo logo o
tranqüilizou. Mas era de estranhar que não conseguia estabelecer contacto.
A Orla XI decolou.
Lá embaixo, em meio ao gelo eterno, ficou um buraco negro e quadrado, que
abrigava a morte de todo esse mundo. Orlgans estremeceu à simples idéia do que
aconteceria ali dentro de pouco tempo. Uma explosão atômica normal liberaria um calor
tamanho que a neve e o gelo seriam derretidos num raio amplo. Mas o fenômeno não se
restringiria à explosão. De início ocorreria a transformação dos elementos mais leves, cuja
estrutura atômica se desagregaria, convertendo-se em energia. Depois seria a vez dos
elementos pesados, e o processo prosseguiria até que o próprio núcleo do planeta se
transformasse num inferno em chamas. O sistema de Beta-Albíreo teria mais um sol.
Apesar das ordens de Etztak, Orlgans tinha motivo para recorrer mais uma vez à sua
tática de retardamento. Não se sentia muito atraído pela perspectiva de engalfinhar-se
numa luta contra os dois cruzadores, e ficaria satisfeito se as naves terrenas se retirassem
antes que atingisse o setor em que se encontrava seu grupo.
Mas de repente, enquanto deslizava calmamente sobre a superfície branca sem pensar
em ganhar altitude, uma coisa muito estranha aconteceu a menos de cem quilômetros do
lugar em que fora colocada a bomba mortífera.
Raganzt saíra da sala de comando para fiscalizar os preparativos a serem tomados nos
postos de combate. De repente Orlgans sentiu que não estava só. Tinha a impressão de que
alguém se encontrava atrás dele, olhando seus dedos.
Virou-se repentinamente — e deparou-se com o ser mais estranho em que jamais
havia posto os olhos.
Devia ter cerca de um metro de altura e tinha o formato dum rato grandemente
ampliado. Apoiava-se sobre a cauda larga e contemplava-o com uma expressão suave nos
olhos.
Era Gucky!
Evidentemente Orlgans não sabia quem era Gucky ou o que sabia fazer. Para ele o
estranho intruso era apenas um animal, mas não sabia se o animal era agressivo ou
inofensivo.
Por um instante Orlgans pensou que se tratasse dum habitante desse mundo inóspito,
que conseguira penetrar na nave enquanto a mesma estava pousada na zona polar. Mas só
acreditou nisso até que Gucky fizesse sua auto-apresentação.
E a apresentação foi feita no mais genuíno intercosmo.
— Então um assassino é assim — disse Gucky.
Orlgans tornou-se um pouco mais pálido quando o animal lhe dirigiu a palavra. O
que acabara de dizer não era tão importante, mas o fato de que falava representava uma
terrível realidade. Por um instante Orlgans se esqueceu de que havia muitas raças
inteligentes no Universo, muitas das quais não têm aspecto humano.
— Quem é você? — perguntou, sem conseguir recuperar-se do espanto e do susto.
Esqueceu-se por completo da pistola de radiação que trazia no cinto.
— Meus amigos costumam chamar-me de Gucky, e um dos meus amigos é Perry
Rhodan. Está curioso para saber como consegui entrar na nave? É simples: sou um
teleportador. Sim, e também sou um telepata; espero que isto o tranqüilize. Ah, o fato o
deixa intranqüilo? Não há nada que eu possa fazer.
— O que deseja? — gemeu Orlgans.
— Você ainda se atreve a perguntar, assassino?
— Por que vive me chamando de assassino?
— Porque você quer destruir um mundo no qual existe vida, e vida inteligente,
Orlgans. Você será punido por isso.
— Quem deu a ordem foi Etztak. É ele que terá de dar contas ao Tribunal Supremo,
não eu...
— Não acreditamos muito nos tribunais dos saltadores — chiou Gucky. — O castigo
será aplicado por nós.
Orlgans voltou a tornar-se mais pálido. A mão direita executou um movimento
rápido em direção ao cinto, mas a pistola foi mais rápida. Saiu do coldre por si mesma e
subiu em direção ao teto, onde parou como se alguém a segurasse.
— Esqueci de mencionar uma coisa — desculpou-se Gucky em tom zombeteiro. —
Também sou um telecineta. Como já disse, vim para julgá-lo.
— Exijo um julgamento regular — berrou Orlgans na esperança de que alguém o
ouvisse. — Ninguém pode ser castigado sem que haja uma sentença.
— Uma sentença? — respondeu o rato-castor. — A sentença já foi proferida. Por ela
você é condenado à morte.
— À morte? — O saltador recuou instintivamente. — Quem se arroga o direito de
condenar-me à morte?
— Quem foi condenado não foi apenas você, mas toda a tripulação desta nave —
explicou Gucky. — Você quer saber quem o condenou à morte? Muito bem, eu lhe direi.
Foram aqueles que você condenou à morte. E todo um mundo foi condenado à morte por
você.
— Todo um mundo? — disse Orlgans num espanto genuíno. — Este planeta está
coberto de neve e gelo. Ninguém pode viver nele.
— Você está enganado! — subitamente a voz de Gucky tornou-se aguda e estridente.
Os pêlos da nuca eriçaram-se. — Neste mundo vivem os sonolentos, uma raça muito
inteligente em comparação com seus companheiros de espécie de outros mundos. Sabem
que no pólo foi colocada uma bomba que pode explodir a qualquer instante. E sabem que a
mesma provocará uma reação de cadeia que não poderá ser detida. E sabem mais do que
isso, Orlgans: sabem que terão de morrer, porque seu mundo deixará de existir. E eles me
incumbiram de punir o assassino.
Orlgans ouvira-o num espanto crescente. Vez por outra lançava um olhar sobre a
pistola inatingível, que continuava pendurada sob o teto. Então havia vida nesse mundo?
Não contara com essa possibilidade.
Será que isso o liberava da culpa?
Gucky sacudiu a cabeça.
— Não, de forma alguma, Orlgans. A sentença dos sonolentos está conforme o
direito.
O comandante dos saltadores olhou para a tela.
— Estamos pousando. O que aconteceu? Por que estamos pousando?
— Assumi o controle da nave — esclareceu Gucky. — Conforme se constata, a
mesma pousará a menos de trezentos quilômetros do pólo. A bomba explodirá dentro de
três minutos. No momento não lhes fará nada. Dentro de três minutos terão que abandonar
a nave. Não terão tempo de emitir um pedido de socorro dirigido a Etztak. É que
exatamente daqui a três minutos a nave irá pelos ares. Entendido, Orlgans?
Orlgans havia entendido, embora não compreendesse por que sua nave teria que ir
pelos ares. Mas afinal já vira alguns exemplos.
A nave pousou suavemente.
— Vamos transmitir as instruções necessárias aos tripulantes — recomendou Gucky.
— Não têm tempo sequer para levar mantimentos. Mas isso não faz mal. Vocês terão que
passar fome até que sejam atingidos pela deflagração atômica.
Orlgans tremia que nem uma vara verde.
— Isso é uma crueldade! Vocês não nos podem expor a um destino desses. Por que
não nos matam de uma vez?
— Farei com que vocês tenham algumas pistolas — afirmou Gucky sem a menor
contemplação. — Quem quiser poderá fazer uso delas. Não impedirei ninguém de fazê-lo.
Quanto a mais, nada posso fazer por vocês. Uma raça moribunda manifestou seu último
desejo. Eu apenas o cumpro.
Cerca de noventa segundos depois, Gucky viu do cume duma montanha como os
saltadores evacuavam a nave. Alguns faziam-nos devagar e a contragosto. O prazo que
lhes fora fixado não lhes dava possibilidade de levar mantimentos ou qualquer
equipamento. Raganzt foi à sala de comando e procurou entrar em contacto com Etztak,
mas teve que constatar que os aparelhos de rádio estavam sem energia. Gucky não se
esquecera de nenhum detalhe.
E a nave entrou em incandescência. A mesma começou na popa e propagou-se
rapidamente. Os instrumentos atingidos em primeiro lugar explodiram. Quando o círculo
de fogo atingiu o arsenal, uma explosão final rasgou a nave.
Alguns dos saltadores, que não se haviam afastado o bastante, foram soterrados pelos
destroços. Os outros corriam o que davam as pernas. E Gucky constatou bastante
contrariado que se dirigiam para o sul, afastando-se do pólo.
Teriam que correr bastante se quisessem escapar à deflagração atômica, que naquele
instante se iniciava no pólo norte.
5

— Os sonolentos são flores?


Tiff proferiu estas palavras em tom incrédulo, olhando para Felic, como se esta
pudesse dar resposta à sua pergunta. Gucky encarregou-se disso.
— Já conversei com eles, Tiff, e acho que sei quase tudo a seu respeito. No verão
vivem na superfície, no inverno voltam para cá. O poço fornece-lhes água e do solo
extraem o alimento. Lá em cima brilha o sol eterno. Eles mesmos não sabem dizer como
foi parar lá. Mas sabem que existem outras cavernas onde brilham sóis semelhantes a este.
Dizem que foram criados pelos deuses. Talvez tenham sido seus antepassados,
tecnologicamente mais avançados que eles, mas que acabaram desaparecendo.
— Como fazem para ir até lá em cima no verão? — indagou Hump. Em sua voz
havia uma ligeira ironia. — Será que vão caminhando pela caverna?
Gucky continuou sério.
— Isso mesmo, caminham. Têm pezinhos delicados, que também desempenham as
funções de raízes. Podem mergulhar esses pés no solo a fim de absorver água e alimentos.
No verão levam vida nômade; andam de um lugar para outro. E o verão também é o tempo
da fecundação. Os sonolentos são polissexuados. Cinco indivíduos de sua raça formam um
casal. Vocês devem ter notado que as flores têm cinco cores principais.
Tiff inclinou-se para a frente. Seu rosto estava transformado num ponto de
interrogação.
— Como é que você conversa com eles? São telepatas?
— Isso mesmo. São telepatas de elevada potência. Captam as emissões mentais a
grande distância e são capazes de receber as que vêm das profundezas do espaço. É esta
sua única distração durante os anos de sonolência.
— Que idade atingem?
— Chegam aos duzentos anos, pela contagem terrena. Quer dizer que seu tempo de
vida abrange um verão e um inverno — Gucky inclinou a cabeça e parecia escutar alguma
coisa. Seu dente roedor desapareceu e tudo indicava que não tinha a menor vontade de
reaparecer.
Aproximou-se da tulipa vermelha, que estava com os cinco olhos arregalados,
fitando-o. Havia uma estranha semelhança entre os olhos da tulipa e os de Gucky. Tinham
em comum não apenas a cor castanha, mas também a expressão de bondade e lealdade.
Gucky permaneceu na mesma posição por cerca de três minutos. Depois levantou a
cabeça.
— Se vocês se esforçarem, compreenderão seus pensamentos. Infelizmente terei que
deixá-los sós por cinco minutos. Uma coisa horrível acaba de acontecer. Os saltadores
desencadearam um incêndio atômico neste planeta. É um incêndio que ninguém poderá
apagar. Colocaram uma bomba que explodirá dentro de cinco minutos. Não poderei
removê-la, já que o processo que se desenvolve no interior da bomba já foi iniciado. É
tarde. Este mundo está perdido. A única coisa que posso fazer é vingá-lo.
Subitamente os quatro humanos viram-se a sós com os sonolentos. Gucky
desaparecera sem despedir-se, a fim de executar a sentença de morte proferida pelas
tulipas.
Tiff procurou dar um tom de realidade à situação fantasmagórica. A planta
continuava a olhá-lo fixamente, e subitamente sentiu que falava a ele. Parecia alguma coisa
que tateava em seu cérebro, que procurava tocar levemente em sua consciência.
“Vocês não são maus”, disse o sonolento, ou seria a sonolenta? — em silêncio. “E
vocês não sabiam que este mundo é habitado. Seus inimigos querem destruí-los, mas
destroem nosso mundo. São maus e perversos.”
— Serão castigados por isso — murmurou Tiff, embora soubesse que suas palavras
representavam um consolo muito débil.
Viu que Hump e as duas moças se mantinham imóveis, escutando. Também deviam
ter compreendido a voz silenciosa.
— Sim, eles vão morrer. Mas nossa raça morrerá com eles. Ninguém pode extinguir
o incêndio atômico que acaba de ser ateado ao nosso planeta. A história dos sonolentos,
que é o nome que vocês nos dão, está chegando ao fim.
— Se tivéssemos uma nave que nos salvasse, poderíamos levá-los. Ao menos
poderíamos levar alguns de vocês, para evitar a extinção da raça — disse Tiff, e no mesmo
instante deu-se conta de que não só estes seres estranhos estavam perdidos. Se Rhodan não
acorresse em seu auxílio, ele e seus companheiros também estariam liquidados. — Acho
que ainda não devemos renunciar a todas as esperanças.
— Tiff — interrompeu-o Felicitas, que compreendera tudo. — De qualquer maneira
devíamos tentar salvar alguns dos sonolentos. Se Rhodan chegar em tempo, poderemos
evitar o extermínio da raça. Posteriormente encontraremos um mundo desabitado em que
poderá começar de novo.
Tiff confirmou com um aceno de cabeça e inclinou-se para o sonolento que estava
acordado.
— Compreendeu o que ela acaba de dizer? Faremos o possível para conservar sua
raça. Mas será uma decisão muito difícil para vocês. Talvez poderemos levar alguns, mas
não podemos levar todos. Quem fará a escolha?
A onda de pânico tornou-se mais intensa, mas foi superada pelos pensamentos da
tulipa vermelha.
“Todos nós temos apego à vida, mas a conservação da raça é mais importante que a
existência do indivíduo. Escolherei dez casais, isto é, cinqüenta exemplares jovens e
saudáveis de nossa raça. Estes irão com vocês.”
— Irão? — indagou Tiff em tom de dúvida.
“Conforme leio nos seus pensamentos, vocês têm caixas. Uma dessas caixas será
suficiente para abrigar os exemplares escolhidos. E não são muito pesados. Seu
amiguinho Gucky não terá a menor dificuldade em transportá-los pela maneira estranha
que lhe é peculiar. Mais tarde, dentro de vários milênios, os terranos terão um aliado que
lhes será eternamente grato: nossos descendentes.”
— Vamos esperar a volta de Gucky — sugeriu Tiff. — Até lá queremos aprender
tudo que devemos saber a respeito de vocês. Vocês inspiram gás carbônico?
“E expiramos oxigênio” confirmou a tulipa vermelha. “Mas só quando brilha o sol,
ou quando, durante o inverno, somos acalentados por nosso sol artificial.”
— Vocês são aparentados com as plantas do planeta Terra — disse Tiff e viu que
Felicitas ia de um nicho a outro, e vez por outra arrancava cuidadosamente uma das
tulipas.
As flores tinham raízes muito longas, que eram enroladas assim que perdiam o
contacto com o solo.
— Assim ocupam menos lugar — disse o indivíduo que até então lhes falara em
silêncio. — Agüentam muitos dias sem água e alimento. Se não forem expostas a
condições extremamente adversas, não morrerão.
— Se nós formos salvos, elas também o serão — prometeu Tiff.
Nesse meio tempo Felicitas conseguira arrancar as cinqüenta plantas e reuni-las num
feixe. Na maior parte das vezes os olhos permaneciam fechados, mas os quatro seres
humanos sentiram a intensificação das idéias de pânico. Estas passavam sobre eles como
as ondas dum oceano, crescendo e diminuindo a intervalos regulares. Era o canto fúnebre
desolado duma raça condenada à extinção.
Subitamente Gucky estava novamente entre eles sem que se fizesse anunciar. Em
seus olhos castanhos, geralmente tão bondosos, brilhava alguma coisa que Tiff nunca vira
neles. Era o ódio.
— Os assassinos deste mundo morrerão com ele — disse sua voz aguda. — Destruí
sua nave e eles não têm a menor possibilidade de sair deste planeta. Pelo que li nos
pensamentos do tal do Orlgans, Etztak anda tão ocupado que não terá tempo de preocupar-
se com eles. Além disso, o patriarca não sabe o que aconteceu. Acredita que Orlgans está
regressando de sua missão infame. O assassino morrerá juntamente com suas vítimas.
— E nós? — perguntou Tiff. — Não morreremos com eles?
Gucky não deu atenção às suas palavras. Prosseguiu:
— Aconteceu mais uma coisa. Uma das naves dos saltadores, provavelmente a de
Orlgans, atingiu a entrada da caverna com um disparo de canhão de radiações. A rocha
derreteu-se. Estamos fechados. Para mim isso não representa qualquer obstáculo, pois
posso transportar-me por meio da teleportação. Mas será difícil levar vocês através da
grossa parede de rocha que nos separa do exterior.
Tiff empalideceu.
— Estamos fechados? — soltou um gemido desesperado. — Era só o que faltava. O
que será de nós?
Felicitas aproximou-se. Carregava nos braços o último feixe de tulipas. Ouvira as
palavras que Gucky acabara de pronunciar.
— Estamos fechados? Neste caso os sonolentos estão perdidos, inclusive os que
pretendíamos salvar.
— Ainda podemos contar com Moisés, que é nosso robô — disse Hump sem
demonstrar muita esperança. — Talvez possa ajudar-nos.
— Sem dúvida — confirmou Gucky. — Dispomos de pelo menos dois dias até que o
incêndio atômico atinja a zona equatorial.
A energia de Moisés será suficiente para abrir a parede de rocha. Teremos que contar
com uma intensa geração de calor, mas a caverna é bastante profunda. Quanto a Moisés,
este saberá cuidar de si.
— Quando conseguirmos chegar lá fora, só faltará Rhodan para completar nossa
felicidade — observou Milly com a voz tímida.
— Se soubesse como está nossa situação não perderia um segundo; viria
imediatamente em nosso auxílio.
— No momento Rhodan tem outras preocupações — disse Tiff, mas o tom de sua
voz não era muito convincente. — Tenho certeza de que se lembrará de nós, quando tiver
tempo.
— Ele tem tempo — disse Gucky, encerrando o tema. — Não acredito que ele nos
deixe na mão.
Felicitas lembrou-se da tarefa que tinha de cumprir.
— Gucky, será que você pode trazer uma caixa alongada na qual possamos guardar
os sonolentos? Prometemos...
— Já sei — interrompeu Gucky. — Um instante.
Mais uma vez deixou-os sós.
***

Orlgans sabia que ele e seus homens estariam perdidos se não recebessem socorro.
Uma luz ofuscante que brilhava ao norte anunciara-lhe o início da desastrosa reação
em cadeia. Numa fuga precipitada correra para o sul em companhia de alguns dos seus
homens, assim que a nave explodiu. Empreendendo uma verdadeira marcha forçada,
percorreram quase quarenta quilômetros no primeiro dia, atravessando o deserto de gelo e
deixando para trás o furioso incêndio atômico que os ameaçava, e que já dava sinal de si
através de alguns rios, que corriam para o sul apesar do tremendo frio. Ficara mais quente,
conforme Orlgans pôde constatar em seu instrumento de pulso, muito embora a
temperatura ainda fosse de cinqüenta graus centígrados abaixo de zero. Os rios voltaram a
congelar, mas as massas de água aquecida corriam por cima deles, apenas para congelar
também.
As barreiras de gelo dificultavam a marcha.
Quando os dois sóis desceram abaixo do horizonte, a noite desceu sobre o planeta.
Mas a temperatura, em vez de diminuir, aumentou. Os rios não congelavam mais;
corriam furiosamente para o sul. Enchiam os vales largos e pouco profundos com as
massas de água borbulhantes e fumegantes, que vez ou outra penetrava nas cavernas,
sufocando todas as formas de vida subterrânea.
Ao raiar do dia, uma terrível luz vermelha brilhava ao norte, bem acima do horizonte.
A temperatura subira a zero graus, e a neve derretia em todos os lugares. Os rios subiam.
Orlgans e seus homens esforçaram-se para ganhar altura. Depois duma marcha longa
e penosa chegaram a um platô, coberto apenas por uma fina camada de gelo. De todos os
lados desciam as encostas íngremes, um fato que garantia a drenagem do platô. Ao menos
não morreriam afogados.
Será que isso era uma vantagem?
Orlgans parou e olhou para o norte, onde a luminosidade se tornara mais intensa. O
céu parecia arder. Colunas gigantescas de chamas turbilhonantes deslocavam-se que nem
um furacão no sentido da rotação do planeta. O novo oceano bramia em torno do platô. Os
saltadores perceberam que a elevação em que se encontravam não passava duma ilha
cercada pelo grande oceano. A retirada lhes havia sido cortada. Estavam
irremediavelmente perdidos.
Raganzt estreitou os olhos e virou o rosto para o norte.
— Estamos perdidos — disse, esforçando-se para dar um tom firme à voz. —
Estamos numa armadilha. Se aqui houvesse árvores, poderíamos construir uma jangada.
A correnteza do mar nos levaria para o sul.
— Morreremos queimados — confirmou Orlgans com a voz trêmula. — Este planeta
morrerá uma morte terrível.
— E nós morreremos com ele — constatou Raganzt. — Isso se Etztak não aparecer
em tempo para salvar-nos. Afinal, já estamos atrasados um dia. Bem que poderia imaginar
que houve algum imprevisto.
— Ele sabe que o planeta está em chamas. Talvez pense que já estamos perdidos.
Veja, Raganzt, o incêndio atômico. Avança mais depressa do que qualquer pessoa poderia
correr. E a temperatura continua a subir. Por enquanto a refrigeração de nossos trajes
espaciais ainda nos oferece alguma proteção. Mas daqui a pouco eles não servirão para
mais nada.
O mar que se agitava em torno das costas rochosas começava a fumegar cada vez
mais. Em alguns lugares já chegava a borbulhar. Os dois sóis já haviam desaparecido atrás
das nuvens cada vez mais densas, que num gesto de misericórdia ocultava das estrelas o
rosto do planeta que se debatia nos estertores da morte.
O chão começou a esquentar. Não se podia ficar mais de trinta segundos no mesmo
lugar. O resto do gelo já havia derretido.
A cortina de fogo, vinda do norte, precipitava-se em direção ao lugar em que se
encontravam. A reação em cadeia não atingira somente a terra e a água, mas também se
desenvolvia na atmosfera. O ar ardia. Transformava-se em energia.
O mundo submergiu.
Quando o inferno em fúria chegou às montanhas e a onda de calor que precedia a
catástrofe passou sobre o platô, não encontrou mais nenhuma forma de vida.
Orlgans e seus cúmplices haviam morrido da mesma morte que destinaram aos
outros.

***

Etztak teve de esforçar-se bastante para conservar a calma.


Os ataques-relâmpago dos dois cruzadores terranos, que eram esferas de duzentos
metros de diâmetro, exigiam toda sua atenção. Orlgans ainda não regressara, e o
comandante da nave que o acompanhara não sabia dar qualquer informação. O contacto
pelo rádio foi interrompido de uma hora para outra, mas isso não significava
necessariamente que havia algo de anormal. Até mesmo a tecnologia mais avançada não
está livre de falhas. De resto, Etztak não teve tempo de refletir a ausência de Orlgans. De
qualquer maneira, suas ordens foram cumpridas. O segundo planeta começava a arder. A
fogueira atômica, iniciada no pólo norte, espalhava-se de maneira uniforme em direção ao
sul.
Rhodan devia saber que ninguém se intromete nos negócios dos mercadores
galácticos sem receber o castigo merecido.
Etztak já havia perdido duas de suas naves não adaptadas a uma batalha aberta,
quando recebeu uma mensagem de Topthor, o superpesado. Era uma mensagem lacônica:

Para Etztak, patriarca do clã. Oferta recebida e recusada. Não


estou disposto a entrar em ação. Rhodan é muito forte. Aconselho a
retirada.
Topthor Clã dos superpesados.

Furioso, Etztak contemplou o radio-grama, expedido num sistema estelar situado a


mais de 15.000 anos-luz. Então Topthor resolvera colocar-se em segurança juntamente
com os restos miseráveis de sua frota. Ninguém poderia levar a mal essa atitude. Mas
Etztak sentiu-se decepcionado.
Enquanto refletia, dando-se conta de como estava só de uma hora para outra, sentiu
uma correnteza de ar na sala de comando.
Era estranho, pois todas as portas estavam fechadas e não havia ninguém além dele
na extensa sala.
Ao menos um segundo atrás ainda não havia.
Horrorizado, Etztak fitou o fantasma escuro que materializou do nada e, exibindo um
amplo sorriso, fez uma mesura. Usava uniforme, mas não envergava traje espacial. Uma
cabeleira negra encarapinhava-se na cabeça parda; embaixo dos olhos bem abertos via-se
um nariz achatado. Entre os lábios brilhavam duas fileiras de dentes alvos. As mãos
escuras do fantasma seguravam um papel, que contrastava estranhamente com o vulto
escuro.
— Não se assuste, Etztak — disse o fantasma em intercosmo. — Sou Ras Tshubai e
pertenço ao exército de mutantes de Perry Rhodan. Meu comandante mandou que viesse
até aqui para entregar-lhe um ultimato. Aliás, sou um teleportador, e por isso não tive a
menor dificuldade em penetrar em sua nave.
Naturalmente Etztak já ouvira falar em seres inteligentes que possuíam o dom da
teleportação. As experiências até então feitas com os terrenos indicavam que essa raça
conseguira desenvolver faculdades extraordinárias. Aos poucos venceu o espanto.
— Foi Rhodan que o mandou? — perguntou para certificar-se. Seus instrumentos
ainda não haviam registrado qualquer abalo. Pelo que sabia, Rhodan não podia encontrar-
se nas proximidades. — Por que não vem pessoalmente?
— Seria melhor para o senhor que não viesse — disse o robusto negro e estendeu-lhe
a folha de papel. — Leia. Depois conversaremos.
Etztak segurou o papel. À primeira vista percebeu que estava escrito em intercosmo.
Não era de admirar que os terranos, até então uma raça desconhecida, dominassem essa
língua, pois os arcônidas lhes vinham ensinando.
Sem dar atenção a Ras Tshubai, pôs-se a ler:

Para Etztak, patriarca de seu clã de saltadores. Destruí a frota


de guerra dos superpesados. Apenas poupei Topthor e Grogham, a
fim de que possam retornar para junto de seu clã e prevenir o
mesmo de que nunca mais deve aproximar-se da Terra, a não ser
para fins de negociação. E dou uma última chance ao senhor,
Etztak. Desde que se retire dentro de dez horas, nada lhe
acontecerá. Daqui a dez horas irei ao sistema de Beta-Albíreo para
retirar meus homens que se encontram no segundo planeta. Se ainda
o encontrar por lá, eu o destruirei. Não se atreva a lançar novos
ataques contra o segundo planeta. Meus cruzadores receberam
instruções para impedi-lo. O senhor dispõe de dez horas. Aproveite-
as. Quando avistar minha nave, será tarde.
Perry Rhodan Terra.

Etztak leu o ultimato duas vezes e num movimento vagaroso colocou o papel sobre a
mesa. Sentou. Por um instante parecia ter esquecido a presença do terrano negro.
Será que Rhodan ainda não sabia que um incêndio atômico havia sido deflagrado no
segundo planeta? Não seria onisciente, como tudo parecia indicar?
Ras Tshubai pigarreou.
— Meu comandante gostaria de receber uma resposta. Tenho instruções para
estabelecer o contacto assim que regressar ao cruzador.
Etztak estreitou os olhos.
— Quero falar pessoalmente com Rhodan — disse.
— Por quê? Não há nada para negociar.
— Talvez haja. Tenho que transmitir-lhe uma informação muito importante.
— Pode dar a informação a mim. É a mesma coisa. Daqui a cinco minutos estarei
falando com Rhodan.
— Prefiro contar-lhe pessoalmente.
O negro deu de ombros.
— Posso transmitir o recado, mas não tenho muita esperança de que atenda. Se me
permite que lhe dê um conselho estritamente pessoal, Etztak, faça o que Rhodan pede. Não
há outra saída para o senhor.
Etztak não respondeu. Fitou o rosto de Ras, mas não conseguiu ler no mesmo.
Subitamente o negro dissolveu-se no ar, e desapareceu.
Etztak não perdeu tempo. Ligou a chave que estabelecia contacto com suas naves.
Quando os comandantes surgiram nas telas, olhando-o com uma expressão de curiosidade
no rosto, disse no dialeto do clã:
— Os terranos nos enviaram um ultimato. Eles nos dão dez horas para dar o fora
daqui. Gostaria de saber a opinião de vocês.
Logo teve de constatar que não havia nem um pouco de união entre os membros do
clã. A maioria achou conveniente ignorar o ultimato e atacar a própria Terra, mas havia
alguns mais cautelosos. Estes recomendaram voltar imediatamente à base do clã e preparar
uma guerra em regra.
Etztak ouviu pacientemente as opiniões dos comandantes, conforme era costume.
Cada um podia formular sugestões, mas a decisão final cabia ao patriarca.
E não gostou de ouvir as ponderações dos elementos cautelosos.
— Se cumprirmos hoje as exigências dos terranos — disse quando notou que não
haveria outras propostas — estaremos reconhecendo nossa derrota. Nós, os mercadores da
Galáxia, capitularíamos diante de seres que só há um decênio descobriram os segredos da
navegação espacial. Nós a conhecemos há oito mil anos, sem contar o tempo em que
nossos antepassados arcônidas a praticavam. Seria como se um homem velho e
experimentado cedesse aos conselhos duma criança. Nem que tivesse que morrer, nunca
faria uma coisa dessas. Todo o meu ser revolta-se diante da perspectiva. Afinal, quem é
este Rhodan, que nos apresenta um ultimato? Apenas um favorito de alguns arcônidas
decadentes, que se apaixonaram por ele e por seu mundo.
— Rhodan conhece a posição do planeta da vida eterna — disse um dos
comandantes. — Todos os povos da Galáxia procuram esse planeta há milênios, e foi
Rhodan que o encontrou.
— Teve sorte, mas a sorte nunca dura para sempre — respondeu Etztak, furioso.
— Vamos capitular só porque um terrano teve sorte?
— Não — disse o comandante que acabara de falar. — Não é por isso. É porque,
segundo dizem, no planeta da vida eterna existem segredos que transformam aquele que os
descobre no dono de todas as galáxias. É possível que Rhodan tenha descoberto esses
segredos.
Zangado, Etztak acenou com a cabeça.
— É possível! Se for assim, está na hora de tirarmos os segredos desse terrano.
Qualquer ser que conheça os segredos do planeta da vida eterna e não é um saltador
representa um perigo para a Galáxia — depois dessa constatação um tanto subjetiva,
Etztak disse em tom desajeitado: — Previno todos os elementos excessivamente cautelosos
para que não tomem uma decisão apressada. Sou a favor da resistência e da luta. Mas
cederei ao desejo da maioria. Qual é a decisão?
A decisão foi quase unânime.
Etztak e seu clã lutariam, se necessário até a última nave.
— Alguém deve prevenir a Galáxia — sugeriu alguém. — Se Rhodan realmente
conseguisse destruir todas as nossas naves...
— Topthor já fugiu e tomará todas as providências que se fazem necessárias. Não se
preocupe, Heratz. Mesmo que morramos todos, a Galáxia está prevenida. Seremos
vingados.
Nas telas notava-se um silêncio total, até que um dos saltadores disse em tom
ligeiramente irônico:
— Nem por isso voltaremos a viver.
Etztak não respondeu. Desligou o rádio e, estreitando os olhos, contemplou o mundo
condenado à morte.

***

O cruzador pesado Solar System separou-se da nave Terra e reduziu a velocidade.


Ras Tshubai entregara a mensagem destinada a Etztak e informou Rhodan. A mensagem
de rádio foi curta e objetiva.
O motivo pelo qual o major Nyssen reduziu a velocidade e se aproximava
cautelosamente do segundo planeta era mais que evidente. Uma modificação estarrecedora
estava ocorrendo na superfície do mesmo.
De início o pólo começou a arder. O major Nyssen pensou que se tratasse duma
explosão atômica ultrapotente, destinada talvez a derreter a crosta de gelo. Não desconfiara
logo. Mas quando o fogo se espalhou, avançando lenta, mas inexoravelmente em direção
ao sul, começou a desconfiar.
Uma idéia terrível surgiu em sua mente.
Enquanto Ras levou a mensagem à sala de rádio, Nyssen informou MacClears,
comandante da Terra, sobre a ação que iria empreender, instruindo-o para que não
esmorecesse nos ataques contra os saltadores.
— Voltarei o mais rápido possível, mas é de vital importância verificarmos o que
está acontecendo no mundo de gelo. Não devemos esquecer que um grupo de nossa gente
se encontra lá.
À medida que a Solar System se aproximava do planeta, a suspeita de Nyssen
transformou-se em certeza. Até parecia que um incêndio atômico estava consumindo o
mundo de neve.
E esse incêndio não poderia ter sido provocado por uma causa natural. Se realmente
fosse um incêndio atômico, este só poderia ter sido ateado pelos saltadores.
Pelo simples fato de não conseguirem agarrar um grupo de cinco pessoas
pertencentes à equipe de Rhodan destruíam um mundo inteiro.
Sentiu-se dominado pela cólera. Se Etztak estivesse diante dele, não teria escrúpulos
em estrangulá-lo com as próprias mãos.
Mas logo se lembrou de Tiff e das moças.
Circulou duas vezes em torno do mundo de gelo, sem descobrir o menor vestígio do
grupo perdido. Não era de admirar, pois não dispunha de tempo para realizar uma busca
sistemática. E foi por isso que não descobriu Orlgans e sua tripulação.
De qualquer maneira adquiriu a certeza de que o segundo planeta do sol geminado de
Beta-Albíreo estava a ponto de transformar-se no terceiro sol do sistema. Se não
acontecesse logo alguma coisa, Tiff, Hump, Eberhardt, as duas moças e Gucky estariam
irremediavelmente perdidos.
O que poderia fazer? Os elementos extraviados não respondiam às mensagens
expedidas pelo rádio. Talvez nem devessem responder. Nyssen não estava muito bem
informado sobre as intenções que animaram Rhodan ao enviar Tiff numa missão secreta
dirigida contra os saltadores.
De forma que só lhe restava uma possibilidade; e o major Nyssen logo a reconheceu.
Deixou para trás as fúrias do inferno atômico e penetrou no espaço. A cerca de uma
hora-luz de Beta-Albíreo II, estabeleceu contacto audiovisual com Rhodan.

***
Bell saiu do camarote com o rosto sonolento e lançou um olhar desconfiado para
Rhodan, que se encontrava na sala de comando da Stardust-III.
— Será que você podia fazer a gentileza de dizer como faz para ficar sem dormir? Se
me deixassem em paz, só acordaria daqui a dois meses.
— É que na velhice sentimos as conseqüências dos pecados da juventude — disse
Rhodan com um sorriso condescendente.
Bell olhou-o com a expressão de quem está prestes a sofrer um ataque.
— Não venha me dizer que com meus trinta e sete anos sou um velho.
Rhodan continuava a sorrir.
— Em termos relativos você envelheceu alguns anos, meu caro. Mas quanto aos
pecados da sua juventude, nunca se pode dizer se você não os repetirá na velhice.
Basta lembrar uma certa Rallas...
— Pare! — berrou Bell apavorado, sem conseguir impedir que seus cabelos se
arrepiassem de pavor. Bell tinha cabelos ruivos cortados à escovinha. Às vezes sua cabeça
parecia uma escova de fios de arame. Especialmente quando ficava furioso. E também
quando lhe lembravam coisas que preferia esquecer. E não havia nada que gostasse tanto
de esquecer como a tal da Rallas.
— O que houve? — indagou Rhodan em tom compreensivo. — Afinal, foi uma bela
mulher, não foi?
Bell não quis saber de nada. Era claro que o fenômeno espiritual que o imortal
introduzira em seu camarote fora belo. Mas fora uma simples piada. O imortal gostava de
fazer piadas desse tipo quando alguém o visitava nos confins da eternidade. E toda a
tripulação divertira-se a valer. Bell preferia não pensar nisso.
— Não há nada mais importante? — resmungou contrariado. — E por uma coisa
dessas você mandou me acordar?
O rosto de Rhodan assumiu uma expressão séria.
— Não foi só por isso — confessou. — Tive mais alguns motivos. Acabo de enviar
um ultimato a Etztak por intermédio de Ras Tshubai. O prazo termina daqui a dez horas. É
claro que agora mesmo poderia executar o salto em direção a Beta-Albíreo, mas prefiro dar
tempo aos saltadores, para que reflitam bem sobre o que irão fazer.
Neste meio tempo não haverá novos ataques ao mundo de gelo, motivo por que Tiff
não correrá o menor perigo. Podemos voltar à Terra, onde temos alguns assuntos a tratar.
— Dentro de dez horas? — disse Bell em tom de dúvida. — É um prazo muito curto.
— Acontece que preciso dar algumas instruções ao coronel Freyt. Não sabemos
quando voltaremos de Albíreo.
Bell continuava a mostrar-se cético.
— Só assim Crest e Thora voltarão a encher nossos ouvidos com suas lamentações e
pedidos de levá-los para Árcon. Não sei, não...
Rhodan não teve tempo de pronunciar-se sobre esse assunto melindroso, pois uma
luz vermelha de advertência acendeu-se. A sala de telegrafia desejava entrar em contacto
com o comandante.
Rhodan estabeleceu o contacto.
— O que houve?
— Estamos em contacto com o cruzador Solar System. Um chamado de emergência.
Rhodan lançou um olhar rápido para Bell.
— Contacto! — ordenou.
— Trata-se dum contacto audiovisual por hiperondas — explicou o telegrafista de
plantão. Poucos segundos depois a tela de Rhodan iluminou-se. O rosto preocupado do
major Nyssen surgiu na mesma. Rhodan cumprimentou-o com um aceno de cabeça.
— O senhor me chama por hiperondas, o que só é permitido em casos de extrema
urgência. Está sendo atacado pelos saltadores?
— Estes continuam a manter-se na defensiva — respondeu Nyssen, sacudindo a
cabeça. — O motivo de meu chamado é outro. Tiff e os membros de seu grupo se
encontram numa situação de grave perigo. Os saltadores desencadearam um incêndio
atômico no segundo planeta.
— Uma reação em cadeia? — certificou-se Rhodan em tom assustado. O cabelo de
Bell reiniciou o jogo cruel, transformando-se na conhecida escova. — Quer dizer que os
saltadores não tiveram escrúpulos em destruir um mundo?
— Não existe a menor dúvida. Convenci-me pessoalmente da terrível realidade. O
incêndio teve início no pólo norte e aproxima-se do equador com uma velocidade
inacreditável.
— Pelas últimas notícias que recebemos, Tiff encontra-se na zona equatorial —
murmurou Rhodan em tom preocupado.
— Apesar das pesquisas que realizei não consegui descobri-lo. Até parece que sumiu
da face da terra. Mas isso não lhe adiantaria nada. O planeta está totalmente perdido. As
massas de gelo já derreteram.
Os rios caudalosos unem-se para formar mares, que nas zonas temperadas já entraram
em ebulição.
— Dei um ultimato a Etztak — principiou Rhodan, mas Nyssen interrompeu-o
abruptamente.
— Daqui a dez horas o incêndio já terá ultrapassado a zona equatorial. O senhor não
pode esperar tanto tempo, a não ser que queira expor Tiff e seu grupo a um destino
horrível. Gostaria de salvá-lo, mas os saltadores se mantêm alertas. Atacaram-me com sete
naves enquanto efetuei meu vôo de reconhecimento.
Rhodan fez um sinal a Bell, que se esforçava em vão para formular uma sugestão.
— Com isto meu ultimato dirigido a Etztak perdeu a validade. De resto, tudo indica
que não tem a indicação de levá-lo a sério. Se não fosse assim, não o teria atacado. Pois
bem, ele terá uma idéia do que acontece a quem ataca nossa Terra. Major Nyssen, procure
descobrir algum sinal de vida de Tiff. Dentro de dez minutos chegarei aí na Stardust-III. E
quando isso acontecer, ai dos saltadores.
A tela apagou-se e o rosto aliviado de Nyssen desapareceu.
— Isso é...! — disse Bell. Não conseguiu dizer mais nada.
— Sim, isso é um ato diabólico e irresponsável. O planeta de gelo é habitado. Nas
cavernas tépidas vivem os sonolentos. Não sei quem são, mas segundo as informações de
Tiff possuem um certo grau de inteligência e bondade. De qualquer maneira são uma raça
pacífica, que não faz mal a ninguém. E essa raça antiga está condenada a desaparecer, só
porque um velho não quis admitir que sofreu uma derrota. Ele vai pagar por isso.
Antes que Bell tivesse tempo de responder, Rhodan instruiu o cérebro positrônico a
calcular as coordenadas do salto. A distância era de cerca de 320 anos-luz, e por isso não
representava nenhum problema. O importante era que os cálculos fossem absolutamente
exatos, pois após a rematerialização não se poderia perder um minuto sequer para calcular
a posição.
Dali a cinco minutos o cérebro expeliu a folha metálica com a resposta. Rhodan
pegou-a e a introduziu no robô de navegação, que dali em diante assumiu o comando da
gigantesca nave.
Rhodan esperou até que a voz metálica da máquina começasse a falar:
— Conservamos o rumo. Velocidade constante. Salto será executado exatamente
dentro de três minutos. Coordenadas conhecidas. Contagem regressiva será iniciada a
sessenta segundos antes de zero.
Bell gemeu.
— Só por isso sou acordado. Bem que poderia dormir durante o salto.
Os traços de Rhodan descontraíram-se um pouco. As rugas profundas desapareceram,
e os olhos emitiram um brilho irônico.
— Acho que isso não adiantaria muito, meu velho. O salto propriamente dito só dura
alguns segundos.
— Na minha idade — respondeu Bell, lançando um olhar sugestivo para o amigo,
que contava mais dois anos que ele — qualquer segundo de sono é uma preciosidade —
atirou-se na poltrona do co-piloto e fitou o relógio de segundos. — Prefiro nem falar na
sua idade.
Naquele instante a voz metálica do robô iniciou a contagem.
— Sessenta segundos... cinqüenta e nove segundos... cinqüenta e...

***

Moisés levou quase cinco minutos para anunciar sua decisão ao grupo que se
mantinha numa ansiosa expectativa. Foi o tempo que o cérebro positrônico gastou para
pesar todas as alternativas e descobrir o melhor resultado que as circunstâncias permitiam.
— Gucky constatou que um incêndio atômico vindo do norte aproxima-se do
equador. A temperatura externa já subiu acima de zero. O gelo está derretendo ao norte, e
as águas avançam para o sul. Só o fato de que a entrada da caverna foi fechada pelo
bombardeio de radiações salvou-nos da morte por afogamento. Só nos resta uma saída:
para cima.
Tiff e seus companheiros lançaram um olhar para a maciça camada de pedra.
— Acima de nós existem pelo menos trinta metros de rocha natural, Moisés — disse
em tom desesperançado.
— Em compensação provavelmente não existe água — respondeu o robô. — Temos
que tentar. Retirem-se para a entrada da caverna, onde a mesma é mais elevada. Se houver
uma penetração de água, fechem os capacetes dos trajes espaciais. Nesse caso terão de
mergulhar.
— Mergulhar por um poço cheio de água... e subindo trinta metros?
— Se necessário, sim. Não nos resta outra alternativa. Não podemos pedir socorro,
pois a rocha representa uma barreira.
Se não nos salvarmos sozinhos, estaremos perdidos. Embora seja apenas um robô,
não tenho a menor vontade de enferrujar na água.
Gucky lançou um olhar para a caixa em que estavam guardados os sonolentos.
— A água não lhes causará maior mal. Além disso, a caixa pode ser hermeticamente
fechada. Mas com o tempo isso não seria bom para eles.
— Vamos começar — sugeriu Moisés. — Não temos muito tempo. Quando a rocha
se tornar incandescente, será tarde.
Tiff fez um sinal ao robô.
— Está bem. Iremos até a entrada antiga. E tome cuidado para não se queimar.
— Não se preocupe. Meus aparelhos de refrigeração agüentam muita coisa.
Afastaram-se de Moisés, que logo deu início ao trabalho. Os dois radiadores
energéticos penetravam na rocha maciça, que, depois de derretida, caía em pesados pingos.
A maior parte Volatilizou-se. Os gases, mais pesados que o ar, corriam preguiçosamente
na direção da grande caverna. Para os sonolentos que se mantinham na expectativa, seriam
os prenúncios da morte que se aproximava.
Tiff parou diante da parede derretida da antiga entrada. Hump, que se mantinha num
estranho silêncio, encostou-se a uma rocha saliente. Eberhardt sentou na caixa com as
tulipas. As duas moças olhavam-se apavoradas, Nos seus olhos lia-se o medo de morrer.
Só Gucky mantinha-se tranqüilo. Fez um sinal tranqüilizador para Tiff e disse:
— Verificarei como estão as coisas lá fora. Se soubesse onde estão os cruzadores
poderia arriscar um salto até lá. Mas saltar no escuro seria uma temeridade. É possível que
um dos telepatas capte meu chamado.
Logo estarei de volta — prometeu, e desapareceu.
Os que ficaram para trás olharam-se sem dizer uma palavra. Será que Gucky
conseguiria entrar em contacto com os cruzadores?
O tempo passava devagar. Os gases da rocha volatilizada e o calor chegavam até ali.
Quando Tiff pôs a mão na rocha da parede externa, ele a retirou com um grito de espanto.
Estava morna.
Gucky demorou dez minutos. Subitamente reapareceu no meio deles. O pêlo estava
liso e molhado. Soltou um apito agudo, que exprimia o maior grau de contrariedade. Seu
rosto parecia feito só de recriminação. Fumegava no verdadeiro sentido da palavra.
— O que houve, Gucky? — perguntaram Tiff e Milly, falando ao mesmo tempo.
Gucky lançou-lhes um olhar de censura.
— Nem me perguntem, amigos. Talvez a resposta venha a ser uma decepção amarga
para vocês. Mas não posso deixá-los na incerteza. Sabem onde estamos? Não, não sabem;
afinal, não podem adivinhar.
Pois eu lhes direi: estamos no fundo dum mar.
— Hein? — perguntou Eberhardt, e por pouco não escorrega da caixa em que estava
sentado. — Onde estamos mesmo?
— É o que lhes digo — confirmou Gucky. — Eu mesmo não acreditaria, se não
tivesse estado lá fora. Quando me materializei, vi que estava embaixo da água. Ainda bem
que acabara de inspirar. Fiquei tão assustado que preferi não arriscar outro salto; poderia
ter caído algumas dezenas de metros, o que não seria nada agradável. Subi simplesmente à
tona. Temos um mar em cima de nós. A profundidade é de uns trinta ou quarenta metros.
Do morro em que nos encontramos só se vê a ponta.
— Nesse caso a água penetrará na caverna assim que Moisés romper a superfície —
constatou Hump. — Tem que suspender imediatamente as perfurações.
— Será que você ficou louco? — perguntou Tiff. — Quer morrer sufocado aqui
dentro?
— Morrer queimado! — retificou Gucky, muito sério. — Não nos resta outra
alternativa senão subir pela água. Aliás, a temperatura da água é bastante agradável.
Calculo que dentro de dez horas estará fervendo.
Por alguns instantes um silêncio de pavor tomou conta do grupo. Finalmente Tiff
disse:
— Pedirei a Moisés que se apresse. Fiquem aqui mesmo.
Fechou o capacete do traje espacial e ligou o aparelho de suprimento de oxigênio.
Caminhando a passos firmes, dirigiu-se ao lugar em que Moisés havia desaparecido na
rocha. O material liquefeito continuava a pingar. Não se via mais nada de Moisés. Tiff
esforçou-se para estabelecer contacto com Moisés através do transmissor de capacete.
— Alô, Moisés. Onde é que você está?
— Exatamente dezoito metros e trinta centímetros acima do solo da caverna — veio
prontamente a resposta. — Dentro de uma hora o serviço estará concluído.
— Gucky esteve lá fora — prosseguiu Tiff. — O morro já está coberto pela água.
— Tínhamos que contar com isso.
— E a água já começa a esquentar, Moisés.
Houve um instante de silêncio. Finalmente Moisés disse:
— Trabalharei mais depressa. Conseguiremos.
Tiff voltou para junto dos amigos. Os rostos que encontrou não eram alegres nem
confiantes.
— Falta uma hora — informou Tiff, depois de abrir o capacete. — Assim que a água
penetrar aqui, saberemos que chegou a hora.
Gucky enfiou-se no traje espacial.
— Não estou com vontade de toma banho — disse. — Mesmo que seja um banho
quente.
O primeiro minuto de espera parecia uma eternidade.
E a hora tem sessenta minutos...
6

O patriarca atacou.
Acreditava que nas próximas horas não precisaria contar com a presença de Rhodan,
e assim quis livrar-se ao menos dos dois cruzadores. Recorreu a toda a frota do clã para
destruir as duas naves de Rhodan.
O major Nyssen adivinhou a finalidade dupla do patriarca. Etztak pretendia livrar-se
dos dois inimigos antes que tivesse início a luta final com Rhodan, e também quis impedir
que alguém fosse procurar o grupo perdido no mundo de gelo.
— Capitão MacClears — disse Nyssen, depois de entrar em contacto com o cruzador
Terra. — Procure desviar a atenção dos saltadores, para impedir que eles me sigam. Tenho
que tentar localizar Tiff.
— Confie em mim — respondeu MacClears e lançou um olhar preocupado para a
outra tela. Viu que as naves dos saltadores entravam em forma para lançar-se ao ataque.
Desta vez a coisa parecia séria. — Saberei defender-me. Quando deverá chegar Rhodan?
— Pode aparecer a qualquer momento. Se não tiver possibilidade de entrar em
contacto, queira informá-lo sobre o lugar em que me encontro. Entendido?
— Entendido. — respondeu MacClears e cumprimentou Nyssen com um sorriso
forçado. — Mostraremos uma coisa a essa gente.
Nyssen retribuiu o sorriso. MacClears viu que a Solar System acelerou fortemente e
se precipitou sobre o mundo em chamas, mergulhando na camada de nuvens que parecia
um mar agitado.
No mesmo instante os primeiros torpedos atômicos detonaram no campo energético
da Terra. O ataque concentrado dos saltadores começara.
No mesmo instante o cruzador pesado transformou-se na perfeita máquina que devia
ser segundo seus construtores. Salvas de raios mortíferos saíram do corpo enorme da nave
e rompiam os campos energéticos não muito fortes do inimigo, sempre que eram atingidos
por cinco raios ao mesmo tempo. Seguiram-se os feixes de raios energéticos que,
devidamente concentrados, produziam o mesmo efeito.
Apesar dos êxitos isolados, a superioridade dos saltadores era muito grande.
Desviavam-se habilmente dos ataques da Terra e procuraram entrar numa posição de tiro
favorável. MacClears percebeu que era sua intenção cercá-lo, para destruir o cruzador com
um golpe energético simultâneo desfechado por vinte naves, o que seria perfeitamente
possível.
Foi nesse instante que um abalo tremendo da estrutura espaço-temporal fez reagir os
rastreadores estruturais. Num ponto bem próximo uma nave devia ter saído do hiperespaço
e retornado ao espaço normal.
O amigo e o inimigo viram-na ao mesmo tempo.
Vinda das profundezas do espaço, a esfera reluzente aproximou-se vertiginosamente,
anunciando a desgraça.
Rhodan surgira no campo de batalha, a fim de mudar a sorte das armas a seu favor.
Por alguns segundos preciosos, Etztak ficou tão surpreso que MacClears conseguiu,
numa manobra fulminante, destruir duas de suas naves, que aguardavam ordens. Mas os
saltadores logo bateram numa retirada precipitada, para erigir nova frente defensiva a
alguma distância. Ao que tudo indicava estavam decididos a enfrentar a Stardust-III.
Rhodan não teve pressa. A vida de seus homens era mais importante que os
saltadores. Entrou em contacto com a Terra.
— Onde está o major Nyssen? — foi a primeira pergunta que formulou.
— Tenta salvar Tiff — explicou MacClears. — Ainda não conseguimos encontrar
qualquer vestígio dele.
— Será que o senhor pode impedir Etztak de seguir-me, capitão?
— Tentarei. O que pretende fazer?
— Procurar Tiff. Marshall está a bordo da Solar System?
— Sim senhor. E mais alguns mutantes.
— Estou interessado apenas nos telepatas. Deveriam ter condições de entrar em
contacto com Gucky.
— Está bem, chefe. Manterei Etztak ocupado. Quando voltará?
— Assim que tiver encontrado Tiff — disse Rhodan e interrompeu o contacto.
Acelerando ao máximo, precipitou-se em direção à superfície borbulhante do planeta
de gelo, que estava prestes a transformar-se num mundo de fogo.

***

Quando RB-013 saiu da galeria vertical, foi seguido por um filete de água morna.
Tiff espantou-se com isso.
— O que é isso, Moisés? Por que está entrando tão pouca água?
— Apenas soltei um pouco a rocha que está na superfície, para que a torrente da água
não me atirasse para baixo. Gucky tem que fazer o resto. Por enquanto estamos seguros
neste lugar, que é o ponto mais elevado da caverna. Teremos que esperar até que a água
encha toda a caverna. Não sei quanto tempo demorará.
— É verdade. Nunca conseguiríamos vencer a correnteza — reconheceu Tiff. —
Acontece que muitas horas poderão passar antes que as galerias e cavernas subterrâneas
estejam cheias.
— Não; o senhor está subestimando a força da água. Penetrará com tamanha força
que a galeria aumentará a cada segundo que passa. Quando a água chegar aqui, seu
diâmetro será de vários metros.
Eberhardt lançou um olhar desolado para o robô.
— E você, Moisés? Sabe nadar?
— Nado melhor que vocês — asseverou Moisés. — Meus jatos desenvolvem uma
força de empuxo de...
— Nesse caso será bom que você fique atrás de nós, senão o caldo esquentará demais
— decidiu Tiff. — Então, Gucky? O que nos diz?
O rato-castor fez uma careta, que parecia dizer “sempre eu”. Mas finalmente acenou
com a cabeça, sentou numa das caixas vazias e concentrou-se. Os poderosos fluxos
espirituais emitidos por sua mente subiram pela galeria, encontraram a resistência
representada pela última pedra, e agarraram-na.
Não foi fácil vencer a pressão da água e levantar a cobertura derretida nas bordas,
que media alguns metros quadrados e tinha uma grossura de cinqüenta centímetros.
Mas o êxito logo se fez sentir.
Com um rugido ensurdecedor o oceano penetrou no vazio subterrâneo. As águas
penetraram na galeria. Por um instante foram represadas numa das extremidades, mas logo
correram para a parte inferior da caverna.
Dentro de poucos minutos atingiriam os sonolentos.
Eberhardt, que estava sentado na caixa que continha os cinqüenta exemplares de
tulipas destinados à sobrevivência, levantou-se subitamente. Nos seus olhos brilhava o
medo e o pavor. Suas mãos começaram a tremer.
— Meu Deus! — balbuciou. — Meu Deus, que coisa horrível!
Seu corpo contorceu-se e teria caído se Hump, que estava a seu lado, não o tivesse
segurado.
No mesmo instante as moças sentiram-se dominadas por uma onda de pânico,
emitida pelos sonolentos moribundos. As idéias que brotaram na mente da raça condenada
à morte penetraram nos cérebros dos homens, enchendo-os de pavor e tristeza. Hump e
Tiff eram os únicos que pareciam imunizados contra isso. E Gucky.
— Quem me dera que pudesse proteger seus cérebros — lamentou-se o rato-castor.
— Infelizmente não posso. Não se livrarão do pânico enquanto os sonolentos não
estiverem mortos. Sua morte será nossa única salvação.
— Será que você não pode dar outro tipo de ajuda? — fungou Tiff, que segurava
Milly nos braços, tentando acalmá-la. — Que tal a telecinésia?
— E a água? — lembrou Gucky, mas logo se levantou de um salto. — Vou tentar.
Mas temos que esperar um pouco. Por quanto tempo os sonolentos agüentam
embaixo da água? Se soubesse...
Desapareceu diante dos olhos de Tiff, para voltar dentro de dez segundos. Seu traje
espacial estava molhado.
— A água já chega à metade da altura da caverna. O sol artificial apagou-se. Não
demorará muito e a vida dessa raça estranha se extinguirá. Esperem mais um instante. Vou
ver como estão as coisas lá fora.
Fechou o capacete e desmaterializou-se.
Desta vez levou quase três minutos para voltar. Estava radiante.
— Estamos salvos, amigos, desde que consigamos chegar à superfície. O major
Nyssen está nas proximidades. Consegui entrar em contacto com John Marshall, o telepata.
Encontra-se a bordo da Solar System. Também ouve seu emissor celular, Tiff.
De repente.
— Por que só agora?
Gucky sacudiu os ombros peludos.
— Não faço a menor idéia. Provavelmente até aqui foi superado pelos impulsos
mentais provocados pelo medo da raça moribunda. A esta hora a raça está praticamente
morta, e seu transmissor se tornou mais forte. É a única explicação que me ocorre.
— Vou perguntar a Rhodan que transmissor é este — murmurou Tiff, pensativo. —
De qualquer maneira, ele nos salvou a vida.
— Ainda não — chiou Gucky, olhando para o alto. O ruído da água diminuíra. O
nível da mesma subia a olhos vistos e estava atingindo a entrada fechada. Eberhardt e as
moças ficaram mais tranqüilas.
— O cume do morro ainda está fora da água — prosseguiu Gucky. — Temos de
chegar lá. A galeria tem trinta metros e acima dela há pouco menos de dez metros de água.
O cume fica a duzentos metros.
Tiff colocou o capacete e fez sinal aos outros.
— Está na hora, amigos Teremos que nadar.
— Levarei as moças para cima — disse Gucky. — Depois darei uma mão a
Eberhardt. Tiff e Hump, vocês terão que dar um jeito sozinhos. Assim que tiver terminado
com os outros, poderei cuidar de vocês. E você, Moisés?
— Muito obrigado pelo interesse — respondeu o robô. — Detesto a água, mas não
preciso de auxílio. Quando chegarmos à ilha, eu os enxugarei.
Gucky contorceu a boca e viu que a água atingiu seus pés e logo chegou aos joelhos.
Fechou o capacete e ligou o rádio. Os outros seguiram seu exemplo. Tiff pegou a caixa
com os cinqüenta sonolentos.
A água subia cada vez mais depressa. Gucky foi o primeiro que desapareceu sob a
superfície ligeiramente ondulada. Os outros seguiram-no. Sentiram-se como
mergulhadores que tivessem penetrado numa caverna do fundo do mar, e não sabiam se
voltariam a ver a luz do dia.
A água chegou ao teto de pedra, e o silêncio se fez em torno deles.
— Está na hora — repetiu Tiff. Fez alguns movimentos natatórios lentos e flutuou
em direção à galeria, onde a água parada não oferecia a menor resistência. — Irei na
frente.
— Quando estiver em cima, dê um sinal — pediu Gucky. — Seguirei com Milly.
Hump, fique logo atrás de Tiff.
Dali em diante Tiff estava praticamente só.
Chegou à galeria e olhou para cima. Teve a impressão de que ao longe brilhava uma
luz. Devia ser o céu, do qual estava separado por quarenta metros de água. Segurou
firmemente a caixa, que praticamente não pesava nada. Tinha que apressar-se, pois do
contrário os últimos exemplares duma raça estranha e maravilhosa morreriam afogados.
Empurrou-se com o pé e subiu. Admirou-se de que era tão fácil. Usou a mão
esquerda para evitar que esbarrasse em alguma rocha saliente. Moisés tinha razão: a
galeria tinha cinco metros de diâmetro.
A luz acima dele tornou-se mais forte. Subitamente viu-se no fundo dum imenso
oceano. Ao redor dele só havia água. E abaixo dele abria-se o buraco ameaçador da
caverna, do qual Hump estava emergindo naquele instante.
— Gucky, a galeria está desimpedida — anunciou Tiff. — Pode vir quando quiser.
— Procurem atingir a ilha — respondeu Gucky.
Tiff subiu à tona e por pouco não perde a caixa, que subitamente recuperou o peso.
Ao lado dele surgiu a cabeça de Hump.
— Bem que você poderia dar uma mão — sugeriu Tiff. — Vamos levantar a caixa
um pouco, para que a água possa escorrer.
Senão morrerão afogadas.
Hump fez uma careta, mas não esperou que o amigo repetisse o pedido. Nadando
lado a lado, dirigiram-se à costa rochosa da ilha não muito distante.
— E olhe que nunca gostei de flores — disse, amargurado.
Tiff não respondeu. Tentou em vão descobrir no céu qualquer sinal de que estavam
sendo esperados. Mas não viu o menor indício da presença da Solar System. Por que a
nave não vinha agora, que mais precisavam de auxílio? Não demoraria muito para que a
última ilha das proximidades fosse coberta pelo oceano, que subia constantemente.
Só agora Tiff percebeu que a água esquentara bastante. Pelos seus cálculos a
temperatura era de pelo menos trinta graus. Tomara que não fizesse mal aos sonolentos.
Todavia, com o auxílio de Hump conseguiu manter acima da água a caixa que continha os
remanescentes duma raça em extinção.
Seus pés tocaram o chão. Mais alguns passos, e estaria em terra firme. Milly e
Felicitas já os esperavam. Gucky trabalhara depressa. Voltara para buscar Eberhardt.
Dali a cinco minutos encontravam-se no ponto mais elevado da pequena ilha,
olhando em direção à galeria subterrânea. Esperavam Moisés.
A chegada do robô foi anunciada por um monte de águas espumejantes, produzida
por seus propulsores. O monstro metálico atravessou as ondas tal qual um submarino e
aterrizou sem problemas na ilha.
Todos haviam aberto os capacetes e inspiravam o ar tépido e abafado do planeta
moribundo. Moisés espalhava um calor insuportável. Hump resmungou:
— Será que você não pode ligar a refrigeração? Já chega de calor.
— Sinto muito. Tenho pavor da água. Se não começar logo a enxugar-me, terei
manchas de ferrugem.
— De qualquer maneira você será reformado, desde que nos encontrem em tempo —
disse Tiff em tom preocupado, olhando incessantemente para o céu cinzento, onde as
nuvens turbilhonantes impediam a visão. — Gostaria de saber onde se meteu o Nyssen. —
Dirigiu-se a Gucky: — O que está dizendo Marshall?
— Não tenho contacto com ele — lamentou-se o rato-castor. — Avisará Rhodan.
— Rhodan — disse Milly em voz baixa e só com grande esforço conseguiu segurar-
se em Tiff. — É o único que poderá salvar-nos. Se não chegar em tempo...
Contemplaram silenciosamente a água que subia ininterruptamente — e a parede
vermelha que começou a brilhar no horizonte.

***

Depois de poucos segundos, Rhodan descobriu a Solar System. Mandou que


Marshall viesse imediatamente a bordo da Stardust-III num dos pequenos caças espaciais.
E ordenou ao major Nyssen que voltasse imediatamente ao espaço, para ajudar McClears
nas lutas destinadas a desviar a atenção dos saltadores. Não deviam perturbar a operação
de salvamento.
Poucos minutos depois, Marshall encontrava-se diante de Rhodan.
— No momento não estou em contacto com Gucky e Tiff, mas sei onde os mesmos
podem ser encontrados. Estão numa caverna no fundo do oceano, mas Gucky diz que pode
salvá-los, levando-os a uma ilha.
— Vamos logo. Não temos tempo a perder. Sabe onde fica a ilha?
— Mais ou menos. Com esta neblina a orientação não é fácil.
— Tente localizar o transmissor de Tiff assim que conseguir captá-lo. E preste
atenção às mensagens telepáticas de Gucky. Bell, coloque a Stardust-III no rumo certo.
Um segundo pode ser decisivo.
Para Rhodan não havia naquele instante nenhum saltador e nenhum patriarca
agressivo. Só conhecia um problema: a salvação do grupo que por ele se metera num
inferno.
A pouca altura a imensa nave passava acima das ondas do mar fumegante, que mais
ao norte já fervia, atirando nuvens imensas para o céu. Vez por outra surgia uma ilha
rochosa, mas em nenhuma delas encontrou qualquer sinal de vida.
Subitamente Marshall soltou um grito.
— Consegui, os dois. Gucky e Tiff. Estão bem perto, e já se encontram na ilha.
Mantenha o mesmo rumo. Deve ser a próxima ilha.
Rhodan olhou para a tela. Não viu muita coisa, pois a neblina tornava-se cada vez
mais densa. Mas acabou reconhecendo um ponto negro em meio à movimentação da água
e das nuvens.
Era a ilha. Nela surgiram sete pontos móveis: cinco seres humanos, Gucky e o robô.
Acontece que a ilha era tão pequena que a Stardust-III não poderia pousar na mesma.
— Pergunte a Gucky se pode trazer todos até aqui — disse Rhodan e fez a Stardust-
III descer, até que a mesma se manteve imóvel pouco acima da ilha. Naquele instante uma
luz vermelha iluminou-se. Era o sinal vindo da sala de telegrafia.
Rhodan moveu a chave.
— O que houve?
— Um chamado de emergência do major Nyssen. Etztak conseguiu separar-se dos
cruzadores e está lançando toda sua frota num ataque contra o planeta de gelo.
Nyssen diz que tentará atacá-lo pelas costas.
Rhodan confirmou com uma expressão zangada.
— Muito bem. Diga a Nyssen que não desista. Vamos pegar Etztak dos dois lados. E
diga-lhe ainda que deste momento em diante não teremos a menor contemplação.
Entendido?
— Entendido.
A luz vermelha apagou-se. Bell estreitou os lábios.
— Quer dizer que será uma luta de vida e morte? — perguntou.
Rhodan confirmou com um aceno de cabeça.
— Não temos outra alternativa. Marshall, avise Gucky de que vamos mandar um
destróier. A esta hora não posso abrir as escotilhas da Stardust-III, pois com isso não teria
condições de combater. Tiff tentará escapar num destróier. Se necessário o robô terá que
ser deixado para trás.
— Os destróieres leves são pequenos.
Mal podem abrigar três pessoas — interveio Bell.
— Pois excepcionalmente a cabine deverá ter lugar para cinco pessoas e o rato-
castor, a não ser que Gucky prefira teleportar-se para a Stardust-III.
— Ele não fará nada disso — disse Bell, defendendo o amigo. — Ficará com Tiff.
Rhodan chamou o setor de armamentos.
— Atenção, preparem ambos os transmissores fictícios. Não, desta vez não se trata
de bombas atômicas, mas dum destróier de três pessoas.
Seguiu-se um silêncio de perplexidade. Logo surgiu a pergunta:
— Um destróier?
— Correto. Faça a teleportação dum pequeno destróier para a ilha que se encontra
embaixo de nós. Rápido. Aqui estão os dados...
Rhodan esperou até que subitamente viu na ilha o formato esbelto de torpedo dum
destróier que surgiu do nada. Logo a Stardust-III subiu, a fim de enfrentar a frota dos
saltadores, que se precipitava dos céus.

***

Com a pose dum general vitorioso, Gucky apontou a área livre da pequena ilha.
— Abracadabra, caramba, será que vai demorar?
— Será que desta vez você enlouqueceu de verdade? — indagou Hump em tom
preocupado.
— Que nada! Marshall diz que Rhodan nos mandará um destróier. A remessa será
feita por teleportação. Deve ser alguma novidade que trouxe do planeta da vida eterna.
Não pode cuidar de nós, já que os saltadores estão atacando.
— Um destróier? — murmurou Tiff em tom pensativo, lançando um olhar rápido
para o robô. — Será muito apertado.
Por alguns segundos a Stardust-III surgiu acima deles, em meio às nuvens. Logo o
destróier materializou-se no lugar exato apontado por Gucky.
Tiff pegou a caixa, segurou Milly com a mão livre e correu em direção à nave
salvadora. Só agora deu-se conta de que a rocha em que seus pés pisavam estava morna. A
salvação estava chegando no último instante.
Antes que chegassem à nave, um feixe energético alaranjado desceu das nuvens e
abriu um funil borbulhante a alguma distância.
— Atenção! — gritou Gucky. — Vou saltar para abrir a comporta. Continuem a
correr. Depois eu os apanharei.
No mesmo instante a escotilha abriu-se. Gucky não perdeu tempo. O segundo raio
energético expelido pela nave dos saltadores já chegou mais perto. Mas no mesmo instante
surgiu o vulto da Solar System e abriu fogo maciço contra o inimigo.
De um instante para outro Tiff viu-se transportado para a pequena cabine de comando
do destróier. Colocou a caixa com os sonolentos embaixo duma mesa e precipitou-se para
o painel.
Milly surgiu logo depois, seguida por Felicitas. Os propulsores começaram a vibrar.
Também Hump e Eberhardt apareceram, seguidos poucos segundos depois por
Gucky. A cabine era tão apertada que as moças tiveram que sentar no colo de Hump e
Eberhardt, fato que deixou este último um tanto embaraçado.
— Vamos decolar! — chiou Gucky, procurando acomodar-se num armário embutido.
— Está em cima da hora. O mar começa a ferver, e a rocha está quente que nem ferro em
brasa. Daqui em diante a coisa será muito rápida.
Enquanto Tiff acelerava ao máximo, conduzindo o destróier para o céu opaco,
lembrou-se de Moisés.
— Hihi — riu Gucky no armário embutido. — Você está enganado. Acha que seria
capaz de deixar na mão a criatura que salvou nossa vida? Está na sala de máquinas.
Tive que tirar algumas caixas de ferramentas. Afinal, a rapidez não é bruxaria para
quem tem o dom da teleportação.
Tiff sorriu aliviado.
— Teria pena do rapaz; até chego a gostar dele.
Correram velozmente pelo espaço, passando pelas naves dos saltadores que
detonavam e desviando-se dos feixes energéticos que se estendiam furiosamente em sua
direção. O planeta de gelo mergulhou no espaço. Já não era um planeta de gelo, mas um
sol em formação. Só o pólo sul continuava branco, mas as águas dos mares recém-
formados já se precipitavam sobre as superfícies geladas.
O segundo planeta do sistema de Beta-Albíreo estava morrendo. As massas de
nuvens turbilhonantes pareciam os últimos estertores dum gigante moribundo.

***

Encontravam-se diante de Rhodan, ouvindo ansiosamente o seu relato. Só as


autoridades mais graduadas da administração de Terrânia e os oficiais que dirigiam a frota
espacial encontravam-se presentes.
Além de Tiff, Hump, Eberhardt, Milly e Felicitas.
E, naturalmente, Gucky.
A conferência estava sendo realizada no jardim da cobertura do edifício da
administração central. Acima deles estendia-se o céu azul e límpido da Terra, que não era
turvado por qualquer nuvem. Os últimos raios do sol no ocaso atravessavam o vidro do
jardim de inverno e brincavam nos pêlos reluzentes de Gucky. O rato-castor estava ao lado
de Bell que, mergulhado em pensamento, lhe acariciava o pêlo.
Milly e Felicitas não pareciam ter tempo para esse tipo de atividade. As moças
preocupavam-se exclusivamente com Tiff e Hump. Só Eberhardt continuava fiel à sua
qualidade de ermitão.
— ...de forma que não tivemos outra alternativa — dizia Rhodan naquele instante. —
A frota dos saltadores lançou mão de todos os recursos para atacar-nos e destruir-nos.
Etztak não pôde defender-se contra nosso transmissor fictício. Perdeu uma nave após a
outra, até que reuniu as duas naves que lhe restavam e, tomado de pânico, passou à fuga.
Pelo que indicam nossos instrumentos, realizou um salto de mais de doze mil anos-luz.
Deixei que se fosse, pois quero que espalhe a notícia de que a Terra é um terreno muito
quente para todos aqueles que se metem a conquistadores.
Um murmúrio passou pelos presentes. Rhodan sorriu para apagar a impressão de
crueldade deixada pelas palavras que acabara de proferir.
— Se devemos ser gratos a alguém pela vitória sobre uma raça fortemente armada e
de inteligência muito evoluída, este alguém é o cadete Julian Tifflor e seus amigos. Sua
atuação corajosa fez com que os saltadores se enganassem sobre nossas reais intenções.
Ainda quero mencionar nosso amiguinho Gucky, graças ao qual a missão teve um
desfecho feliz. A todos manifesto minha gratidão e a do planeta Terra.
Algumas perguntas foram formuladas, e Rhodan deu as informações solicitadas.
Bell puxou Gucky para o lado. Os dois amigos, tão desiguais, estavam junto à parede
de vidro, mas não deram atenção ao panorama maravilhoso que se abria diante deles.
Terrânia, a metrópole mais moderna do mundo e a capital da Terceira Potência, não
representava nenhuma novidade para eles.
A novidade eram os canteiros de flores, arrumados em torno da varanda envidraçada.
Neles cresciam gigantescas tulipas de cinco cores diferentes, estendendo as coroas bem
formadas em direção ao sol terreno. Mantinham os olhos em formato de amêndoa bem
abertos, como se fizessem questão de conhecer todos os detalhes de seu novo mundo. Um
aroma suave subiu dos canteiros, misturando-se ao ar que os homens respiravam.
— Quer dizer que estes são os sonolentos — cochichou Bell e acariciou uma das
flores. Era vermelha. Em cada um dos canteiros havia tulipas de cinco cores diferentes. —
São os últimos exemplares de sua raça. Faço votos de que se sintam bem por aqui.
— Sentem-se muito felizes por terem escapado a uma morte horrível — disse Gucky,
colocando o dente roedor para a frente a fim de esboçar um sorriso satisfeito.
— Elas se reproduzirão para conservar a espécie. É bem verdade que demorará
cinqüenta anos até que as primeiras mudas se tenham formado. Elas não têm pressa.
— Meio século? — gemeu Bell e passou a mão cuidadosamente sobre a cabeleira
curta e ruiva. — Meio século para produzir uma muda? Minha tia Amália com sua
plantação de cactos não iria gostar disso.
— Acontece que a tia Amália não tem tanto tempo quanto os sonolentos... e nós.
— Afinal, quantos anos você vai fazer, Gucky? Você nunca contou a ninguém.
O dente do rato-castor emitiu um brilho avermelhado sob o sol em ocaso.
— Quantos anos vou fazer? Você quer saber quando vou morrer? — Num gesto de
lástima sacudiu os ombros, o que lhe dava um aspecto quase humano. — Bem, isso é
bastante incerto. Na verdade, só há um meio de determinar exatamente o meu tempo de
vida.
— É mesmo? — Bell inclinou-se para seu gracioso amigo. — Que meio é este?
— Você terá que aguardar minha morte — disse Gucky e teleportou-se para o lado
oposto da varanda.
A mão de Bell acertou apenas o ar.

***
**
*
O mundo de gelo, onde Julian Tifflor e seus companheiros
conseguiram, através de sucessivos golpes de habilidade, escapar
aos comandos de saltadores enviados em sua perseguição, deixou
de existir, apenas porque um dos patriarcas dos saltadores,
dominado pela cólera, deu ordem de destruí-lo.
Mas essa ordem, concebida como uma sentença de morte que
deveria atingir Julian Tifflor e seus companheiros, foi dada num
momento em que Perry Rhodan já estava em condições de salvar
do incêndio atômico não apenas os membros de seu grupo, mas
também alguns dos estranhos habitantes do mundo de gelo, os
sonolentos...
Qual será a próxima ação que os saltadores empreenderão
contra a Terra? Quais são seus planos?
Levtan, o Traidor, que conhece os planos dos saltadores,
entra em contacto com Perry Rhodan...
Levtan, O Traidor, é este o título do próximo volume da série.

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