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Esta história incompleta, refere-se a um período da vida portuguesa que

convêm não esquecer e acima de tudo carece de ser relatada por todos os
que ouviram falar dela ou a viveram.

Este texto é um desafio a escritores de todas as idades e carece de ser


testemunhado por todas as vivências. Desafiamos daqui todos aqueles que
tivessem ouvido ou vivido factos semelhantes a dar o seu testemunho e
completarem livremente a história.

Atreve-te a ser escritor!!!!!!

A Marta tinha sido introduzida nas artes do sexo mal tinha feito doze anitos por
vizinhos e amigos da família mal os seios tinham começado a espertar e as ancas
a arredondar-se. Este era o costume de Zanganura sobretudo no campo e em
especial na altura das colheitas quando os braços eram poucos e os mais laços
adormeciam cansados sobre os molhos da forragem.

Fazia-se contrafeita quando abria as pernas aos parceiros porque a primeira vez
tinha sido ferina. A partir daí, nunca mais tinha falado com o Sr. Américo, o dono
da mercearia e autor da proeza que com falas mansas a atraíra para dentro do
balcão e sem um carinho a tinha desmoçado como se dizia na terra, ali mesmo no
chão entre o balcão e as pipas de vinho. O certo é que o merceeiro olhava a
rapariga com receios de denúncias e nunca mais lhe tinha negado fiados ou
pedido favores. É que a violação se corresse de boca em boca, poderia chegar aos
ouvidos do padre e ser objecto de homília em domingos sem mais assuntos.

Certo também é que apesar das dores que tinha sofrido, a miúda afeiçoara-se
aquelas praxes e começara a devotar-se ao sabor daqueles costumes.

O Senhor Américo começara a temê-la. Despejar os tomates, sem amor nem


carícia para dentro da Marta tornara-se costume na terra, e o merceeiro começava
a temer que ela lhe começasse a desviar a clientela para a taberna do Senhor
Clementino que em boa verdade poucos stocks tinha, para alem dumas caras de
bacalhau a que toda a gente gabava o sabor, mas que tinha a vantagem de ficar à

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saída da aldeia e servia sobretudo para satisfazer as compras esquecidas na loja
do Senhor Américo:

- Aquela rapariga anda muito chegada ao Ti Américo! Disse ele uma vez à
professora que tinha ido à sua loja comprar sabão azul…
- Pois anda! Era bom arranjar-lhe emprego na cidade!
- Pois era… Aliviava os pais e sempre aliviava falatórios… Dê uma palavrinha ao
homem das finanças que trabalha na capital…
- Pois boa-tarde Sr. Américo… Vou pensar nisso… Palavra de professora!

Alguém que tivesse entrado naquela espelunca e tivesse ouvido aquela


conversação de certeza que teria pensado que a professora e o taberneiro teriam
negócios que iam muito mais para alem da compra do sabão, do arroz ou do
açúcar amarelo.

Quando ela saiu, o merceeiro enquanto passava um pano sebento pelo balcão,
remoía remorsos… Aquela tarde entre as pipas e o balcão não lhe saía da cabeça
e temia que falatórios lhe arruinassem o negócio:

-Se ao menos a levassem daqui!!! Coisas de homem são o que é!!! Pensava para
consigo. Quem vai lucrando é o Clementino! E se calhar também se põe na
cabra.

De facto, a Marta, que morava bem para lá da aldeia, de vez em quando parava à
conversa com o outro merceeiro, mas ele por falta de posses pouca frente podia
fazer ao Sr. Américo, que ainda por cima era Presidente da Junta e Regedor da
Freguesia, a quem mesmo os mais abastados deviam favores. Alem das caras de
bacalhau e uns comes mal amanhados que a mulher fazia, o negócio do Sr.
Clementino ia subsistindo a vender pregos, tijolos e cimento em quantidades que
não iam alem da construção dum galinheiro ou pocilga nas traseiras de qualquer
quintal.

A ida da Marta para a capital foi discutida a fundo entre o Secretário de Finanças
da capital e a Professora. Discutiu-se tudo: O salário inicial que não poderia
ultrapassar os cem em escudos mensais, cama mesa e roupa lavada e o
tratamento: Seria uma segunda filha e tratada igualmente como o Idálio que
frequentava com excelentes notas o sétimo ano do liceu. No ano seguinte se tudo
corresse bem iria para a Universidade:
- O pior são as sortes! Vai fazer dezoito anos e vai ter que se apresentar à vida
militar…
- Pois é! Dizia a professora… Mas até para ele é bom… Em vez de andar aí com
galdérias pode ser que se afeiçoe a Marta… E dentro de casa sempre sabemos o
que se passa… Agora aos dezoito anos e na rua nunca se sabe o que se agarra.

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- É capaz de ter razão… Dizia o Secretário de Finanças…
- E Depois é um favor que faz aos pais dela que é gente respeitadora…
- Vamos pensar… Vamos pensar… Depois falamos…Encontramo-nos depois de
almoço no café.

A professora deitou-lhe um ar matreiro e separaram-se com um tenro aperto de


mão. Porem antes de partir ela ainda lhe disse:

- Olhe que ela faz problemas de cabeça com três operações… E História?
Conhece os reis todos e até os cognomes… Se a ajudar ela terá futuro…

- Então adeus! Disseram os dois ao mesmo tempo.

Corria um vento tépido e toda a aldeia parecia cheirar a uvas já apanhadas, que os
tractores ruidosos transportavam para os lagares.

Como de costume o Secretário de Finanças depois de almoço e antes da sesta


frequentava o único café da terra onde se albergava a horas certas a fina-flor da
terra. Invariavelmente o empregado solícito, servia-lhes sempre sem que ninguém
o pedisse um bagaço caseiro, especial para gentes importantes.

Alourada à força de água oxigenada a professora quarentona, rechonchuda,


sentou-se na mesa o funcionário público logo a seguir ao almoço e depois do chá
de cidreira perguntou:

- Conhece a Marta? A dos Albergarias… Se me saísse o totobola era a primeira


pessoa que ajudava aqui na terra… É bonita e precisava de ser acudida…
Habituada a obedecer dava uma óptima criada de servir…

O Secretário de Finanças agitou o cálice de aguardente e não disse nada. Olhou


com desejo o alourado da professora. Casado por questões de classe com uma
natural de lavrador abastado, sentia necessidades de amor que não fossem só
cumprir rituais de homem bem casado:

- Talvez me faça falta lá em casa que é grande e só com uma criada as coisas não
entram na ordem… Na minha posição preciso de ordem e a Maria que já lá serve
há vinte anos é mais da casa do que dos afazeres que a casa precisa… Vou pensar
nisso professora…

A falar assim deitava olhos ao seu decote descaído e imaginava-lhe os seios por
baixo da blusa tímida.

- E olhe que é gente de religião…

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- Pois é! E ela tem ar limpinho! Ainda bem que me fala dela…Estava a precisar!
A minha mulher vai ficar contente. Se quiser ir até lá a casa, podemos passar por
perto do rio e termos conversa mais demorada sobre o assunto.

Ao dizer isto, não esperou resposta. Chamou o empregado e pagou a conta.


Deixaram o café e o Secretário de Finanças abriu caminho e apontando-lhe o
carro: um velho Dodge.

- Vamos até minha casa, para falar com a minha mulher mas primeiro vamos
passar pelo rio para nos desabafarmos deste calor. Dentro do carro não disseram
palavra. Pararam junto à ponte à entrada dum carreiro que os levava à beira rio. O
Secretário de Finanças deu-lhe a mão para a ajudar a descer o carreiro um pouco
íngreme, mas quando chegaram à margem continuaram de mão dada a olhar as
águas que sem pressas desciam para a foz e sentaram-se dum atrás dum arbusto
pujante à borda de água. Separaram as mãos e como se estivesse alheado deixou
a dele a afagar-lhe a coxa:

- Claro que sendo recomendada por si, tem outro valor…

Os seus dedos trocavam agora conivências com os joelhos da professora


semiabertos e enchido de coragem pela tolerância fê-los passearem-se por entre
as coxas apertadas. Incomodava-o a cinta para dar mais liberdade para os seus
gestos. Ela recostou-se com a cabeça encostada à mão e de cotovelo dobrado
abriu ligeiramente as pernas como a facilitar-lhe a tarefa da busca e atenuar o
estorvo que a cinta causava às suas investidas.

- Você é atrevido…

Os seus dedos continuaram a bulir para vencerem a hostilidade da cinta e das


cuecas até atingirem as apartes mais húmidas agitando os dedos com brandura:

- Aqui não, que passa gente!

Olharam os dois à volta em busca de local mais íntimo, e levantaram-se mão na


mão até uma pequena clareira de chão fofo feito de ervas do mato amarelecidas
pela força do estio.

Corria uma brisa quente de fim de Outono e as agulhas dos pinheiros iam
tomando a cor acastanhada denunciando um Inverno por perto.

Quando chegaram de novo junto ao carro, o negócio estava fechado. A Marta iria
com ele para a Capital. Agora só faltava comunicar a ela, aos pais e já agora à sua
mulher e filho.

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Já dentro do carro continuaram a conversa:

- Faz-lhe falta. A casa é grande e a sua criada já está a ficar velha e você precisa
da casa em ordem…
- A Marta é limpinha e conhecemos bem a família dela… é gente de religião.
- Mas não lhe pague mais do que cento e vinte escudos por mês… É que elas
habituam-se e depois não fazem nada… e com cama, mesa e roupa lavada já é
bem bom…ainda pode ajudara família que bem precisa.
- Olhe que a responsabilidade também é grande! Leva-la daqui assim… E se ela
engravida?
- Não pense nisso agora!

Fez-se um longo silêncio entre os dois. E o Senhor Esteves Pereira, o Secretário


de Finanças, foi levar a professora a casa onde se despediram com um breve
aperto de mão.

- Logo vou a casa dela que é mesmo aqui ao lado e depois passamos por sua casa
para discutirmos os detalhes com os pais dela.

- Então até logo, disse o Sr. Esteves.


- Até logo.

Finalmente o Secretário de Finanças respirou fundo do esforço feito e dirigiu-se


também ele para sua casa. Passou pela eira onde o sogro, bonacheirão olha as
espigas de milho recém colhidas.

- Apanharam a chuva no dia certo… Olhe como os grãos estão grossos…


- Estive agora a falar com a professora sobre a Marta. A Família precisa de ajuda
e eu estava capaz de a levar a servir lá em casa.
- O pior é o Idalito, disse o velho com ternura.
- Não tema por aí! O pior é os amigos…anda metido com uma cambada que eu
não entendo!
- É continuava prudentemente o velho! O pior é os amigos! Mas ele está
espigadote…
- É que falam duns tipos que eu não conheço! Falam dum tal Torga, dum Marx e
dum Namora…
- É… Essa do Tal Namora é que é esquisito mas se eu fosse o meu genro tentava
saber quem é essa malta! Não vá que sejam más companhias… E com a Marta lá
em casa pode ser um sarilho…

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- Não é nada que não tenha pensado! Pois vou falar com a Senhora sua filha e ver
o que ela pensa! Da casa sabe ela!
- Vá! Vá! Mas cuidado com o Idalito… O Rapaz está espigadote.

DE COMO MARTA FOI CONTRATA COMO CRIADA DE SERVIR

No dia seguinte, domingo à tardinha, o fim-de-semana terminava com a partida


dos quatro para a capital.

No banco de trás do velho Doddge repimpavam-se os treze anitos da rapariga em


trajes adomingados e os olhos sequiosos de Idálio que insistiam em não saír de
cima dos seios de Marta. À frente como mandava o protocolo seguiam o Sr. E a
Sra. Esteves.

Quando chegaram a casa o Idalito correu a enfiar-se no quarto e sem descanso


desfolhava e redesfolhava os eus livros que eram os brinquedos mais prezados
que lhe podiam ofertar. Aos dezanove anos tinha já uma biblioteca considerável
por onde pululavam os tais Torgas, Namorados e uma ou outra coisa de Marx ou
Lenine que algum amigo lhe tinha trazido do estrangeiro. Mas estes eram
normalmente em Francês ou Inglês que para bem dizer ele mal entendia. Se não
lhe ofereciam matéria para o entendimento das coisas, serviam-lhe pelo menos
para aprofundar o entendimento das línguas.

As suas leituras eram um tanto ou quanto desordenadas e por falta de método


tanto lhe serviam para lhe amontoar na cabeça uma série de conceitos
incompletos ou lhe aguçava o entendimento forçando-o a ler tudo, desde que
soubesse que era reprimido. Um livro para a sua geração era forçosamente bom
se soubesse que o Estado de Zanganura proibia a sua divulgação. Com este
critério tanto lhe fazia ler Marx, Lenine como Nitch ou Sartre. No entanto à mesa
do café, soltava algumas frases decoradas o que lhe dava uma áurea junto dos
seus companheiros de jovem culto e lido. Era no entanto incapaz de abordar um
tema com princípio meio e fim e as suas prelecções eram quase ipsis verbis do
que tinha lido na véspera, tornando-se assim com um tipo chato para alguns dos
convivas.

No entanto os mais velhos admiravam-no:

- Na faculdade faz-se gente, diziam entre eles.

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- IDÁLIO!!! Chamou a mãe! Não sei por que lê tanto… No meu tempo li a
Bíblia e Camões (1) e chegou-me perfeitamente…

(1) In “Tempo de Resistência” de Varela Gomes, Ler,Editora.


Quando chegou à sala onde estavam o pai, a mãe, a Marta e a velha criada
acomodou-se numa poltrona que estava ao canto da sala preparado para ouvir
uma qualquer prelecção sobre o seu vício de ler.

- Tanto lês, que treslês… (Disse-lhe a mãe). Mas não é por isso que te
chamamos… Como deves ter percebido a Marta vem para cá como novo criada
para ajudar a D. Maria! Não quero faltas de respeito!

Disse isto num tom breve e conciso. O Idálio limitou-se a encolher os ombros.
Passou o resto da conversa a mirar e a remirar a Marta, que lhe retribuía os
olhares com gestos de cumplicidade traduzidos num torcer e retorcer o avental e
no ruborescer as faces. Os dois estavam entendidos. Vinha-lhes à cabeça o
restolhar dos fenos lá na aldeia em fins de colheita ou quando o sol mais
abrasador os obrigava à busca de sombras. Para alem disso ficava ainda a
recordação de carícias já trocadas e a adivinhação de futuros prazeres.

- Quanto ao respeito isso é conversa para homens e o Idálio já é um homenzinho.


Olhou a Sra. Esteves com um ar decidido, e voltando-se para o Idálio ordenou-
lhe… Vamos tomar um café enquanto elas preparam o jantar…Mas entretanto vai
mostrar-lhe a casa.

Com um golpe de olhos o Idálio convidou a Marta a segui-lo. Ela levantou-se,


pediu desculpa por abandonar a sala mas era notória sua alegria por abandonar
aquela assembleia.

- O menino vai-me ajudar, não vai? Perguntou ao Idálio.

Ele não respondeu. Já no corredor pouso-lhe a mão à volta da cintura e


respondeu-lhe afirmativamente:

- Aqui é a cozinha, e mesmo ao lado o teu quarto. Já estiveste na sala de jantar,


vamos subir para os quartos. Aqui tens o quarto da Velha Maria, ali o dos meus
pais e agora vamos subir ao piso de cima: Aqui é o meu quarto… Sentou-a na
cama:

- É um desastre… Porque é que temos de ter criadas?

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- Deixe estar menino… Eu também queria saír da aldeia.

Sentaram-se os dois na borda da cama.

- Sabe menino eu também não quero ficar aqui… Logo que possa quero partir
para a cidade! Mas por favor não diga nada aos paizinhos…
O Idálio acariciou-a e ela refastelou-se mais na cama…

- Procuro outras coisas… Quero emigrar…

Trocaram confidências como quem troca carícias e os dois, sentados na cama


olhavam para o futuro:

- Eu também não fico!

- Idálio! Gritou o pai.

- Já desço!

Ficou preso aos olhos de Marta. Lembrou-se das aventuras por entre os fenos e
não resistiu a um beijo na Marta aceite pelos seus lábios grossos.

- É uma violência (pensou)! Só me aceita por ser filho do patrão!

Mas o beijo soube-lhe a pouco. Durante os primeiros dez, doze anos da vida de
Marta a religião ocupou-lhe uma grande parte do tempo. Serviu-lhe sobretudo
para chegar a casa mais tarde depois das aulas com o argumento de ir assistir a
catequese.

- São as horas da minha filha aprender a temer a deus! (Diziam os pais).

Para a Marta era sobretudo o tempo de esperar pelo entardecer, pelo chegar das
sombras para às escondidas conhecer melhor os rapazes da sua idade em
brincadeiras mais íntimas.

Já depois de terminar a escola com distinção e começar a trabalhar no campo, a


religião tinha uma função similar: Esperar o desfecho do sol que anunciava o fim
do dia de trabalho, correr para a igreja onde se dedicava à limpeza e decoração e
ouvir as falas do padre ou na sua ausência as inclinações do sacristão. À saída
destas beatíficas tarefas, já a noite tinha escondido o dia, ela bendizia a liberdade
que este escuro lhe dava de mão beijada. As tarefas da igreja forneciam-lhe a
desculpa exacta para chegar tarde a casa, escusando-se com o cansaço para se
dispensar das tarefas da confecção da ceia.

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Já há noite, embrulhada em trapos, criava os seus próprios deuses e adormecia
temente aos céus a pensar nas carícias a que as suas maminhas bem tesas se
tinham subjugado e assim adormecia como uma virgem carente de futuro ou de
ternura.

Saíram os dois para terem uma conversa de homem para homem. A pensar assim
o Esteves sentiu-se verdadeiramente pai e foi neste estilo que continuou a
conversa:

- Se bem entendeste a Marta vem trabalhar cá para casa. Já a mãe, lá na aldeia


serviu o teu avô e há quem pense que ela lhe deita parecenças… Mas isso ainda
não tens necessidade de aprender. Sobretudo quero que a respeites e bem vi os
olhos com que a miravas quer no carro quer na sala lá em casa… Era o que me
faltava ver o meu filho metido com a criada…

- Eu? Perguntou o Idálio a lembrar-se das colheitas e do quente dos fenos…


- Sim tu! Já tive a tua idade e sei como as coisas são…

Esta conversa decorria à medida que o dia desaparecia e os dois se


encaminhavam para o café mais próximo.

- Sabes que mais? Perguntava o Senhor Esteves. Dedica-te aos estudos e já tens
bem que fazer… Mas não vás ao quarto dela nem a deixes entrar no teu logo de
manhã… Olha que isto é conselhos de pai… Batia-lhe com as mãos nas costas:
- Quero ter em ti não um filho mas um amigalhaço! É verdade quem é esse tal de
Torga?
- Não o conheço meu pai…. Mas dizem que é um médico dos olhos…
- Ainda bem! Não te metas é com essa gente da política!

Quando chegaram ao café sentaram-se frente a frente e o pai pediu o café e o


bagaço do costume.

- Bebe tu também… Já tens idade para teres vícios… Mas não te quero ver nas
putas… Sobretudo não dês esse desgosto ao teu pai.

Esta conversa enjoava o Idálio mas fazia-o pensar na Marta. O bagaço fazia-o
ouvir o restolhar do milho, o correr vagaroso e intimo do riacho que atravessava a
terra como se tivesse vergonha de ser ribeiro. Naquela altura as filhas dos
camponeses que viviam da jorna tinham uma carreira bem determinada:
Passavam de criadas ou amantes dos patrões, a mulheres-a-dias e de mulheres-a-
dias a putas. A progressão era simples: As criadas que já tinham conquistado pelo
nojo da humilhação ou pelo simples prazer do corpo o jus a saírem da casa

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protectora e a terem quarto em pensão rosqueira amancebava-se com o chulo e
passava a ter direito a usar rendas e vestes coloridas. É certo que por vezes as
caras apareciam manchadas por mais murro ou menos murro que o chuleco lhes
infligia ou por falta de propina ou porque durante a noite os gestos do amor lhe
tinham sabido a coisa fornecida por carícias fingidas ou então por ciúmes
inventados que lhes atiravam os prazeres do corpo para as violências. Macho é
assim: precisa de forjar a sua inutilidade ou então recita a murro cânticos
heróicos de amolgaduras de infância que lhe sofria na mente e que a alma não
tinha ainda tido tempo para esquecer.

Havia naquele tempo em Zanganura duas classes baixas de mando e peso: As


criadas para todo o serviço e as putas.

Graças a Deus e ao sistema instituído tinha-se criado uma outra figura com poder
importante: O Afilhado. Era ele que intercedia junto do pai, em favor da mãe
quando as coisas estavam mais negras ou vinha de famílias filharadas que como
eira e beira só tinham os braços, ou nasciam em casas abastadas com a
cumplicidade das criadas. Na primeira hipótese serviam de marçanos na capital.
Neste caso tinham direito a estudos e carinhos, já que o patrão temia que se
descobrisse o imbróglio e a religião o atirasse para os pântanos da imoralidade.
Eram os mais felizes: O abastardamento não só minguava as necessidades de
mão-de-obra barata, como também era garante de fidelidade aos bons princípios e
ordem nas casas da cidade. Não compete aqui explicar a que regras esta ordem
obedecia.

Acontece que a história da marta não era simples.

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