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nota

este livro foi scaneado por ricardo mauricio beskow e fernando de paula
zamboni e corrigido por fernando de paula zamboni; para uso exclusivo
de deficientes visuais, de acordo com as leis de direitos autorais.
para este fim se utilisou de um sintetizador de voz. portanto
o livro pode conter erros de diagramação e outros.
maio de 2002.
fim da nota

lauro trevisÃn
sÓ o amor É infinito

editora e distribuidora da mente


santa maria - rs - brasil
capa: sérgio miguel e juan t. amoretti
direitos reservados: pode transcréver textos avulsos, desde que cite a obra e o autor.
lançamento em setembro de 1988

pedidos: editora e distribuidora da mente


rua tuiuti, 1677 - caixa postal: 955 97015-663 - santa maria - rs - brasil
fone: (055) 221.6020 - fax: (055) 221.7184
sÓ o amor
É infinito
lauro trevisan é famoso no brasil e exterior, por suas jornadas sobre
o poder da mente, tendo escrito 30
livros até 1994, além de livretos, mensagens, poesias, e uma série de fitascassete e de vídeo.
além de conferencista e orador
empolgante, que arrasta multidões,
é sucesso também na literatura, desses fenõmenos que acontecem de
raro em raro. só o seu livro “o poder
infinito da sua mente” já atingiu a
venda de oitocentos mil exemplares
e foi traduzido para várias línguas.
escreveu, ainda, livros infantis, de
humorismo e de poesias. e, agora,
penetra, com força incrível e capacidade criadora que nada deixa a
desejar aos grandes ficcionistas, pelos domínios do romance.
o autor é jornalista, pós-graduado em filosofia, com cursos de psicologia, parapsicologia, teologia,
psicotrônica, bioenergética, análise transacional, administração
de empresas
e muitos outros.
conseguiu alcançar uma profunda compreensão das forças interiores e da fé, pois é sacerdote da
igreja católica apostólica romana.
veja o que ele escreveu a resy peito deste romance:
“estou lançando mais um livro,
pela editora da mente. trata-se de
um gênero literário pelo qual ainda
não havia incursionado: o romance.
coloquei todo o engenho e arte para dar ao público uma obra que
arraste o leitor, jogando-o no mundo
maravilhoso dos sentimentos, das
emoções, das situações dramáticas,
das conturbações da vida, dos grandes feitos, do amor e da violência,
da justiça e da injustiça...
uma história semeada de poesia, de ternura e de bondade; momentos em que a vida dá um toque
de felicidade e de elevação; situações em que o diálogo sobre os diversos aspectos da vida trazem
mensagens que penetram na alma.
pode ser que este livro seja motivo de contradições para algumas
pessoas, mas não para você, que tem
uma elevada compreensão da vida
humana e dos seus grandiosos mistérios.
todas as pessoas que leram a
história ficaram emocionadas e gostaram demais.
você verá como a grandeza do
coração consegue transformar as desgraças e maldades em impulsos para belas realizações.
há pessoas, como você e como um dos personagens do romance, que conseguem recolher as pedras
jogadas no caminho e com elas
construir um mundo bonito.
muitas vezes, a gente se perde
pelos labirintos da educação, da religião, dos hábitos e costumes, e esquece que só o amor é
infinito.
sim, aí está o título do livro: “só
o amor é infinito”.
este livro precisa ser lido com espírito superior, liberto de preconceitos, lembrando intimamente
que tudo passa neste mundo: “só o amor
é infinito.”
(trecho de um depoimento do
autor, publicado na revista nacional)

capÍtulo 1
eram seis horas da tarde. segunda-feira. o telefone tocou.
• boa-tarde! quem é que está falando? - perguntei.
• você não me conhece. mas, eu conheço você. apenas estou ligando para informá-lo de que
lhe mandei um pacote, com algo muito especial.
• mas, quem é...
desligou. era uma voz feminina.
coloquei o fone no gancho e olhei pela janela do quinto piso
do palácio da mente. o por-do-sol estava lindo e poético. um
anjo invisível, artista do céu, pincelara de laranja, lilás e ouro o horizonte.
o sino da catedral tocou as ave-marias e eu senti uma imensa
paz de espírito.
respirei e expirei três vezes, mentalizando saúde, paz,
amor, deus.
era a chave que me abria as portas do infinito.
dezoito horas, para mim, sempre significou o momento
cósmico do dia, o instante misterioso e fascinante em que é descida
a ponte levadiça que liga o lado de fora com o lado de dentro, o
interior
com o exterior, o alto com o baixo, o de lá com o de cá.
senti-me, de repente, numa estrela distante, toda feita de
encantamento, suavidade e poesia.
e orei por todas as pessoas que vivem no meu planeta.
no dia seguinte, à mesma hora, o telefone tilintou novamente.
era aquela voz feminina:
• você já sabe quem está falando.
• não, ainda não sei - respondi. - gostaria de ter o prazer de saber o seu nome.
• você vai saber. mas, somente depois de receber o pacote que lhe enviei.
• pelo menos, me diga: qual é o mistério contido nesse pacote?
• você é muito curioso - brincou ela.
• diante do suspense que você está colocando, quem não seria curioso?
• tudo tem a sua hora - sentenciou a voz, e desligou.
nunca me tinha acontecido uma coisa dessas. estava realmente
intrigado: quem seria essa mulher? qual seria o conteúdo do
pacote?
comuniquei-me, pelo telefone interno, com a maria odete
e com o mazoni, do depósito da editora, e ninguém sabia de pacote
nenhum.
o sino da catedral badalou o ângelus e eu entrei pela ponte
levadiça que me foi estendida. neste momento, vi o meu coração
abrir-se e abrigar, como num palácio de luz, milhares e milhares de
pessoas, que entraram em sintonia de prece e de meditação comigo.
mais uma vez acreditei que o reino dos céus está em mim.
ao retornar às atividades, voltei à correção das provas de
um novo livro, esquecendo completamente o episódio do pacote.
não sei se no outro dia a mulher ligou, porque às dezoito
horas eu estava no parque oásis, situado a dez quilômetros de
santa maria.
confesso que são tantos os telefonemas e cartas que recebo
que não dei maior importância a esse caso. talvez fosse até uma
brincadeira. sim, porque neste mundo tem gente para tudo.
na quinta-feira, às dezoito horas, estava escrevendo um artigo
sobre um fenômeno parapsicológico, acontecido num lugarejo
do interior.
chamaram-me para atender urgente uma pessoa que estaria
com o espírito do noivo, que tinha morrido dias atrás, por causa da
ingestão exagerada de melancia, segundo comentários daquela gente.
que eu saiba, melancia só pode matar se cair de muito alto na
cabeça de alguém. mas, esse não era o caso.
perguntei aos homens que vieram buscar-me se não se tratava
de uma jovem. era isso.
• o espírito do namorado incorpora nela e ela fala com a voz do rapaz.
• esta é uma interpretação do fenômeno, mas não é a única, e não é a minha - respondi-lhes.
eles me olhavam aflitos e espantados.
• sim - disse-lhes - trata-se de uma jovem sensitiva, em estado de desequilíbrio emôcional,
que, ao entrar em transe, provoca o fenômeno. nada tem a ver com a religião e sim com a
parapsicologia - concluí.
eles acreditaram, desacreditando.
fizeram-me lembrar aquela piada castelhana: “yo no creo
en las brujas, pero que las hay, las hay”. quer dizer: “eu não acredito
em bruxas, mas que existem, existem”.
tomei o carro e fui ver a jovem. era tarde da noite.
tivemos que deixar o veículo na estrada e seguir a pé pelo
campo, até chegar numa casa pobre, de gente humilde. muitas pessoas
na casa.
expliquei à jovem que se tratava de um fenômeno comum e
e que nunca mais iria repetir-se. foi o que aconteceu.
nem bem terminara de atender a este caso, avisaram-me
que, numa casa a cerca de quinhentos metros, o fenômeno, a que
eles chamavam de incorporação, estava acontecendo com um rapás.
fomos até lá.
era uma noite muito escura e, de vez em quando, os sapatos
atolavam em banhados.
o homem que ia na frente carregava um lampião velho, que pouco iluminava.
o rapaz estava deitado.
foi trazido à sala e eu pude ver um moço, sensitivo, no
último
grau da depressão. não me admirava, agora, que tivesse tentado
suicídio diversas vezes.
conversei com ele, dei-lhe ânimo, libertei-o do mal e fomos
embora.
dias depois, informei-me a respeito da jovem. nunca mais
acontecera o fenômeno, mas a família havia-se mudado para outro
lugar.
há pessoas que pensam que o fenômeno se deve ao lugar e,
por isso, vão embora.
o telefone tocou.
lembrei-me da mulher misteriosa.
era ela.
• a, boa-tarde!
• já estava-me esperando?
• não, mas sabia que era você, a dama das dezoito horas.
• você não está dando importância ao que lhe digo, más eu tenho certeza de que vai gostar
demais.
• como pode ter certeza?
• porque conheço seus livros e sua filosofia de vida. acredito, até, que é a única pessoa que
pode dar o valor que merece o
pacote que lhe enviei.
• por certo, não se trata de mais um pacote do governo brinquei.
• você é muito brincalhão!
• claro, a vida é uma festa!
ela riu.
• mas, voltando ao assunto - tornou a voz, do outro lado
• eu penso que vai dar ao pacote o destino que realmente ele merece. amanhã vou telefonar-lhe
novamente. se ainda não recebeu o pacote, explicar-lhe-ei do que se trata.
• está bem!
nem mesmo no dia seguinte o pacote apareceu.
fiquei pensando que poderia estar com o endereço errado.
À tarde, completei a revisão das provas do novo livro e dediquei-me
a escrever os artigos que são publicados semanalmente
em alguns jornais do país.
quando o sino da catedral tocou as ave-marias, olhei instintivamente para o telefone.
hoje, por certo - pensei - vai terminar a novela da dama
do pacote.
o telefone tocou.
solicitavam-me uma palestra sobre a violência urbana. era
a repercussão de um trabalho, que publicara, chamando a atenção
para esta verdadeira guerra deflagrada pelos delinqüentes contra a
população desarmada. e apontava algumas soluções.
novamente o telefone tocou.
agora sim era a dama do pacote.
• boa-tarde - disse ela, com voz descontraída e alegre.
• boa-tarde! É uma alegria sentir que você está bem-disposta e cheia de energia.
• É que estava lendo o seu livro “o poder infinito da sua mente”. É muito bom. levanta o
astral e dá uma força na gente. estou gostando.
• obrigado - falei - você é muito gentil.
• e o pacote? - perguntou ela.
• nada.
• ainda não chegou?
• não.
• pois, então, vou explicar-lhe do que se trata. meu marido e eu resolvemos construir uma casa
num terreno que havíamos adquirido há muito tempo, e estava tomado de capoeira, restos de
construção, lixo, de tal sorte que contratamos os serviços de uma retroescavadeira para
limpar tudo e preparar a área. fiquei encarregada de acompanhar o serviço. a máquina
desbastou o capoeiral e passou a fixar as garras naquele monte de restos de tijolos, telhas
apodrecidas, caliça, imundície de todo tipo. derrepente, a pá da retro afundou num vazio, a
ponto de espantar o operador. puxou a pá para um lado e para outro, e o buraco foi-se
ampliando. o homen parou a máquina e eu fui verificar de perto. parecia uma casa soterrada.
viam-se paredes encardidas, móveis deteriorados, assoalho apodrecido, portas em
decomposição. era tudo muito estranho.
liberei a retroescavadeira e resolvi entrar sozinha no meio
daqueles escombros. agarrei-me nuns restos de parede e saltei
sobre
o piso, carcomido pelo tempo. tive a impressão de estar numa
varanda antiga.
havia sinais de móveis apodrecidos. numa face da parede,
ainda estava um crucificado de bronze. encontrei, também, uma
estátua de santa terezinha. andei alguns passos e vi uma porta
com a fechadura totalmente enferrujada. forcei com o pé e a porta
desmontou-se aos pedaços. entrei numa espécie de biblioteca, porque havia armários em ruínas,
com livros e papéis embolorados e
catcomidos pelas traças. das cadeiras, só restavam pedaços de madeira.
mais para o lado desta sala, havia outra repartição que, pelos
restos de móveis, dava a entender que fora um quarto de dormir.
do colchão, apenas sobraram as molas enferrujadas. remexi alguns
escombros e encontrei o criado-mudo, de madeira de lei, bem
conservado. abri a gaveta e achei um calhamaço de folhas datilografadas
em bom estado, porque, além de tudo, estavam fechadas,
dentro de uma pasta de couro. comecei a ler e me interessei demais
pelo assunto da história. confesso-lhe que não saí de lá antes de ler
o livro todo.
imagine você, eu sentada no criado-mudo de uma casa soterrada,
e lendo aqueles papiros surrados pelo tempo.
pensei que alguém podia se interessar pela história e me
lembrei de você.
como se lembrou de mim, se não me conhece?
• conheço-o pelos escritos e tive uma intuição. logo que chegar o pacote, leia a história e
depois me dê sua opinião. eu achei a narrativa muito linda e emocionante. chorei bastante.
acredito que você também gostará.
alguém bateu à porta e entrou com um pacote para mim.
• alô - interrompi-a - espere um momentinho, que estou recebendo, neste instante, um pacote.
pode ser o tão falado.
rasguei a embalagem e realmente aí estava a pasta de couro
com um denso volume de folhas datilografadas em seu interior. na
primeira folha havia apenas esta frase:
“só o amor é infinito”
• sim - tornei a falar ao telefone - é o pacute que você mandou.
• pois bem - concluiu a dama das dezoito horas - está 11
# cumprida a minha missão.
• espere aí um pouquinho - gritei apressado.
• ligarei outro dia. adeus.
e desligou.
eu já não resistia de tanta curiosidade.
abri a pasta de couro a fim de ler pelo menos o início
da história.
não parei mais.
quando terminei a última linha, meu rosto não continha
a emoção, os olhos estavam cansados, o relógio da parede batia vinte
e uma horas e eu acabava de realizar uma longa e fascinante viagen
no tempo.
esfreguei os olhos, espreguicei-me na cadeira, relaxei o
corpo
e pensei que a história poderia ser publicada.
verdadeira? imaginária?
se pudesse ver os escombros da casa - pensei - seria
pelomenos mais um argumento de comprovação.
o telefone tocou.
atendi.
• boa-noite! - disse a famosa dama do pacote.
• você, de novo?! - exclamei.
• eu sabia que você ia começar a ler o livro e não pararia mais. apenas dei tempo para
concluir a leitura.
• muito bonita a história. realmente emocionante e cheia de belas passagens.
• vai publicar?
• antes eu queria ver as ruínas dessa casa, de onde você diz que recolheu o livro.
• não se preocupe. se você publicar a história, um dia lhe mandarei todo o material que recolhi
no meio daquelas ruínas.
• está bem. um abraço a você e os meus votos de que un dia possa conhecê-la pessoalmente.
• quando sair a primeira edição. um abraço também a você. felicidades e sucesso.
desligou.
no dia seguinte, chamei a maria odete e o emídio e determinei
o encaminhamento da publicação.
hoje a coloco nas suas mãos.
será que você vai gostar também?
capÍtulo 2
domingo. oito horas da noite. uma noite fria de outono.
as ruas da pequena cidade de alvores estavam em burburinho. o povo se dirigia para a igreja matriz
onde o novo pároco
iria
apresentar-se à comunidade.
há quatro meses a igreja permanecia fechada, desde o falecimento do padre charles henkin. depois
de muitos apelos ao bispo, finalmente alvores recebia seu novo pároco,
um mocetão másculo, simpático e inteligente, recém-formado pelo instituto
teológico de rosandur.
a igreja estava cheia. de fiéis e de curiosos.
após as primeiras preces da missa, o novo pároco ouviu a
carta do apóstolo paulo aos coríntios, leu o evangelho em voz
alta,
fez o sinal da cruz e apresentou-se à comunidade:
“a paz esteja com vocês. fui chamado para conviver com
vocês e aqui estou. meu nome é maurício dollá. É muito possível
que estejam esperando um sacerdote santo, perfeito, dado a
elevados gestos de heroísmo. eu sou apenas um homem de deus, que
aqui chego com a honesta e sincera disposição de ajudar a todos e
a
cada um em tudo o que puder.”
um pequeno ruído no fundo da igreja fez com que o padre
suspendesse por frações de segundos suas palavras.
era uma jovem elegante, loira, cabelos caindo pelos ombros como uma suave cascata de mel. de
fisionomia abatida, veio
seguindo pelo corredor central, pouco se importando com os olhares curiosos que a miravam como
se fosse um animal raro. sentouse no primeiro banco. só então as atenções
gerais se voltaram novamente para o pregador:
“não serei tão presunçoso a ponto de dizer que não tenho
falhas. quem não as tem?há, no entanto, muita gente que não admite o mínimo erro num ministro
de deus. e há gente mais rigorista ainda, que passa o dia tentando
caçar defeitos para ter a
honra
de contar a todo mundo que o padre não é lá essas coisas... suponho que não seja justo e nem
cristão pensar e agir assim. sempre é
bom relembrar que o sacerdócio é divino, mas o sacerdote é humano. nem anjo, nem ser
sobrenatural. homem. conhecem a história
do apóstolo pedro? negou o mestre três vezes e nem por ïsso jesus
deixou de fazer dele a pedra principal da igreja. estejam
certos, porém, de que buscarei, de todo coração, servir, ajudar, amar, estar
junto, nas horas de alegria e nas horas de tristeza. onde houver
uma alma angustiada, onde houver um coração sofrido, onde houver alguém necessitando de apoio,
aí procurarei estar eu. as
portas
de minha casa estarão sempre abertas, em qualquer hora do dia e
da noite, para receber os gritos de socorro de quem quer que
seja.”
a jovem do primeiro banco estava pendente dos lábios do
pregador. logo que fixou os olhos naquele rapagão vigoroso,
bronzeado, de cabelos negros e olhar suave, que aí estava a
quatro
metros de distância, todo vestido de branco, sentiu um golpe
interior que não sabia explicar. uma espécie de fascínio todo especial.
as palavras, tão diferentes das que costumava proferir o falecido
padre charles, iam penetrando, uma a uma, no fundo do seu coração. com aquele vozeirão fanhoso
e cheio de sotaque, ao padre
charles agradava sobremaneira investir contra os maus hábitos e
pecados do povo de alvores. já o padre recém-vindo, que aí estava
pela primeira vez diante dela, nada mais fazia do que reconhecer
suas limitações e oferecer sua dedicação para ajudar aos que a ele
quisessem recorrer.
pôs-se, então, a recordar os tristes acontecimentos daquele
dia. seu noivo corrégio, filho do doutor onofre Álbarus, mais
uma vez dera o maior vexame, despedaçando as últimas resistências
de sua alma. e ela se perguntava pela milésima vez porque ainda
não rompera definitivamente com ele. mau-caráter, dado à bebida
e aos tóxicos, corrégio era um rapaz insuportável. naquela tarde
de domingo - a jovem lembrava agora pedaço por pedaço - ele
fora vê-la completamente bêbado. claro, tinha que se recusar a recebê-lo. os pais, no entanto,
reprovaram ferozmente sua atitude e
quiseram forçá-la a abrir as portas para o moço, afinal corrégio era
filho de uma das mais tradicionais e ricas famílias de alvores.
ferida em sua dignidade, ela resistia em recebê-lo, e o rapaz
xingava,
esbravejava, engrolando as palavras. por fim, não conseguindo
conter o assédio da família, foi à sala,com extremo desgosto. parecia sentir, ainda agora, o fogo
provocado no rosto pelo bofetão
que
ele lhe dera. era mais um capítulo doloroso de seu desventurado
noivado. instintivamente,colocou as mãos no rosto, como se o noivo estivesse aí na igreja para
bater-lhe novamente. até este
momento, não sabia como tinha conseguido agüentar tanto. ou melhor,
sabia sim, mas estava acima de suas forças livrar-se da opressão
de
seus pais e do pai dele. principalmente este, tudo fazia para
que
saísse o casamento. o filho criava-lhe tantos problemas e vexames
que o casamento era visto como uma forma de livrar-se da responsabilidade sobre ele.
e silvana - assim se chamava a jovem do primeiro banco
• reviveu na mente mais uma vez o drama daquela tarde. jogando a porta na cara do rapaz, fugiu
para o quarto e lá ficou trancada até as oito horas da noite, num choro desesperado. nem mesmo
quando os pais quiseram obrigá-la a ir à missa, dera sinal de vida.
nas horas mais terríveis de sua confusão mental, pensava até em
acabar com essa vida desgraçada. quando, porém, a casa ficou vazia e o silêncio se fez completo,
ela voltou a si e, por fim,
resolveu
refrescar a cabeça na friagem da noite. e foi à igreja.
agora ela lembrava como entrou no templo, feito uma autômata, seguindo pelo corredor central,
alheia a tudo e a todos.
e
estava satisfeita por ter vindo. ali, diante dela, a poucos
passos,
um personagem estranho, envolvente, conseguia atrair sua atenção
e sensibilizar seu íntimo, tão machucado pelas agruras da vida.
“e como um bom e leal amigo - continuava o pregador estarei no meio de vocês onde houver
alegria, onde houver festa,
bem como nas horas em que a dor e a desgraça baterem à porta de
cada um. eu quero caminhar junto. eu quero partilhar. eu quero
dar-me a todos, com minhas qualidades e defeitos, com minha boa
vontade e com minhas fraquezas. espero que me aceitem. amém.”
. .
após a missa, o padre maurício dollá acomodou-se tranqüilamente na escrivaninha de sua sala e
passou a ler o jornal,
com
uma xícara de chá do lado. estava satisfeito. acreditava que seu
primeiro contato com o povo fora positivo. embora soubesse que o
velho padre charles não fosse dado a palavras carinhosas e a
gestos
humanos, porque, para ele, isto significava fraqueza de caráter,
maurício não esperava que sua forma simples de ser e de falar pudesse provocar desagrados no
povo. enfim, cada um, cada um dizia para
si, enquanto sorvia um gole
de chá - e a última coisa
que eu faria neste mundo seria pôr os pés num pedestal.
alguém bateu à porta.
era a jovem do primeiro banco.
• boa-noite.
• boa-noite.
maurício ficou surpreso, mas não o demonstrou.
baixando um pouco a cabeça, ela mostrava-se nervosa e tímida.
e as palavras saíram um tanto trêmulas de sua boca, bem
delineada pelo batom:
• padre, eu vim aqui porque suas palavras, na missa, me impressionaram. o senhor disse coisas
que nenhum padre disse na igreja até hoje. eu... desculpe... estou um pouco nervosa... maurício
percebeu que ela tinha problema. o tom de voz, a palïdez do rosto, a traíam.
• tenha a bondade, senhorita, passe aqui. vamos conversar calmamente. gostaria até que me desse
sua opinião sobre o que
falei na igreja. sabe, eu sou novo aqui nesta terra.
a jovem sentou-se diante da escrivaninha.
• não aprecia um chazinho? está gostoso.
• obrigada.
depois de um breve silêncio, ela falou:
• desculpe se o estou perturbando. É que o senhor disse que suas portas estavam sempre abertas.
abertas dia e noite. para receber, quer dizer, para ouvir as pessoas com problemas... com
angústias...
• É isto mesmo - encorajou-a ele.
silvana olhou para a poltrona revestida de fazenda escocesa
e deixou cair seu pesadelo:
• eu tenho um problema...
calou-se envergonhada. o rubor subiu às faces.
• conte comigo, minha filha. vamos conversar de amigo para amigo. ouvirei com a maior atenção
e respeito. eu vejo uma grande tristeza em seus olhos. noto que chorou muito. não é verdade?
maurício fez a interrogação quase num sussurro, para inspirar confiança.
• É, padre. eu estou caminhando para a desgraça e não há forma de evitá-la. isto me desespera.
após uma pequena pausa, perguntou, sem levantar os
olhos:
• o senhor acha que a gente deve casar com um moço que não gosta e que não presta, só porque é
muito rico e de família tradicional?
• continue, por favor.
• É o meu caso, padre maurino.
• maurício. maurício dollá. mas, isso não tem importância. prossiga, por favor.
• eu ouvi mal na igreja. desculpe.
• não, nada de se desculpar, minha filha - sorriu afavelmente o padre.
• pois, a minha história é muito longa. acho que o senhor vai se chatear.
• absolutamente, fique tranqüila.
• sabe, eu sinto que o mais importante, no casamento, é o amor, é encontrar um jovem com quem
a gente se entenda, com quem a gente sinta a emoção de estar junto. meu sonho é casar com
alguém que me respeite, que reparta comigo a liberdade e o amor. eu queria tanto estar ao lado
de um noivo que tivesse coração, que fosse terno, que se sensibilizasse, por exemplo, diante de
uma noite de luar... enfim, não sei explicar... por favor, não se ria de mim. estou confusa.
nunca iria rir-me de algo tão humano e tão lindo, como
isso que você está falando - animou-a maurício, afastando o jornal
mais para o lado.
• mas, meus pais acham que eu estou fora da realidade.
eles dizem que o mais importante é a segurança econômica, o dinheiro,o bem-estar, a posição
social. que o resto é bobagem.
• eles são eles, você é você. nada impede que procure alguém que sinta e viva os mesmos
sentimentos que você, não acha?
• mas, tudo é diferente, padre maurício.
e a jovem, agora mais desinibida, contou-lhe toda sua triste
história, a longa história de um noivado sem amor e sem esperança.
• e o que menos importa nisso tudo, padre, sou eu. ninguém pensa em mim. o que vale é unir as
duas famílias, satisfazer
as ambições dos outros. o senhor já imaginou o que é ter que viver
o resto da vida com um cafajeste, viciado, mau-caráter?
• compreendo.
• será que compensa? será que eu tenho obrigação de ceder, de ir para o sacrifício como uma
ovelha, para que se tente
regenerar, às minhas custas, um toxicômano e para que minha família
esteja unida ás riquezas de outra família? a vida é uma só, padre. e
curta. o que é que eu faço? diga-me, pelo amor de deus.
as palavras da jovem soavam carregadas de angústia.
• e por que você não toma a decisão que lhe parece mais adequada?
• se fosse assim tão simples... para mim não existe outro
caminho. não há escolha. sei que deverei dar adeus às minhas ilusões. mesmo que quisesse, não
teria forças para superar a agressão
e a pressão que seriam exercidas contra mim. afinal, eu não sou de
ferro...
maurício conversou longamente com silvana. aos poucos,
foi fazendo com que ela emergisse do abismo e sentisse que tinha
forças para vencer seu próprio derrotismo. fez-lhe ver que a vida
pertence a cada um e a deus, e todos têm o direito de buscar a
própria realização e ser feliz.
• minha filha - concluiu, por fim, maurício, com toda a convicção - você pode e deve sair deste
túnel escuro. você mesma tem dentro de si forças para enfrentar todos os obstáculos à sua
felicidade. acredite. você não é a primeira e nem será a última a ter que lutar contra a
correnteza. reúna todas as suas forças e jogue-se na água. com fé. com coragem. com grandeza
de alma. com a convicção de estar salvando sua vida.
silvana permaneceu em silêncio por alguns momentos.
• padre, eu saio daqui renascida. palavra de honra. um vulcão de decisões já está fervendo dentro
de mim. nem imaginava que existisse tanta força no meu interior. parece milagre. reze por mim.
hoje mesmo vou romper o noivado e libertar-me deste pesadelo...
• não preferiria pensar um pouco mais?
• pensar eu já havia pensado há muito tempo. o que me faltava eram forças para tomar uma
decisão.
• que deus a ilumine - sorriu maurício, pondo a mão no ombro dela, para dar-lhe mais força e
segurança. - eu rezarei por você.
..
na casa de silvana, seus pais andré e margarida conversavam com corrégio.
havia prenúncios de tempestade.
silvana abriu a porta, deu boa-noite e foi para o quarto.
• silvana, venha cá! - chamou asperamente seu andré, com aquela sua voz viscosa e grossa.
a jovem tornou à sala:
• nem precisava me chamar. eu viria para a sala, mas não
para fazer aquilo que vocês estão pensando - disse a moça, sentando-se numa poltrona.
• o quê?! - exclamou, entre estupefato e surpreso, seu andré.
• É isto aí que ouviram. eu quero aproveitar o momento em que estão os três reunidos para dizer
ao corrégio que, a partir de agora, está terminado nosso noivado.
• nunca! - explodiu o pai.
• você está doida! - exclamou dona margarida, franzindo a testa já enrugada pela idade.
• não seja besta! - xingou corrégio, não levando a sério as palavras da noiva.
• de nada valerá qualquer oposição. estou decidida e não voltarei atrás. sou maior de idade,
responsável por mim, e vou cuidar da minha vida.
silvana falava firme como uma rocha, coisa que jamais
imaginara poder fazer.
• nós somos noivos e vamos casar - determinou corrégio, certo de que suas palavras eram uma
ordem que seria
cumprida
de qualquer maneira.
• corrégio - estourou a jovem, levantando com firmeza o dedo indicador - não pense que estou
brincando. até agora eu fui um joguete de você e de meus pais. graças a deus, consegui
acordar em tempo. daqui para frente eu mesma vou cuidar da minha vida. tome a aliança, que para
mim não tem mais sentido.
incontinenti, alcançou a aliança ao corrégio, que se recusou a recebê-la. silvana, então, atirou-a
sobre o casaco do moço,
que permaneceu, por instantes, imóvel e de boca escancarada.
• mas, o que é isso, querida! você nunca foi assim! - exclamou ele, como que sacudido por um
ciclone. - você não pode
fazer isso comigo. está certo que eu tenho muitos defeitos, mas
eu
amo você. meu pai já está aprontando a nossa casa, com todo o luxo e conforto. tudo vai ser
maravilhoso. você está dando uma de
idiota, menina!
• já falei - retrucou a jovem, completamente impassível.
• não pode ser - insistiu o rapaz. - quem é que andou pondo minhoca na sua cabeça? diga-me
quem foi o desgraçado, que eu mato esse animal. silvana ficou calada.
• olhe, minha filha - recomeçou seu andré - você não sabe o que está fazendo. lembre-se que não
é fácil encontrar um marido com...
seu andré titubeou. por fim, concluiu, bastante envergonhado:
• com... tanto prestígio e dinheiro, digamos assim.
• ora, papai - revidou a jovem - amor não se compra e nem se vende. amor é ou não é. de mais a
mais, eu sei muito bem quem é o corrégio, e dê graças a deus que consegui parar em tempo.
corrégio estava nervoso e descontrolado:
• dona margarida, me traga um uísque. para aturar tamanha burrice, só mesmo com a cabeça
cheia de fogo. não é possível! esta
história não está bem contada...
• minha filha - tornou, gravemente, seu andré - alguém mandou você tomar esta decisão?
a moça nada respondeu.
• eu não entendo mais nada - continuou o pai. - perder um casamento destes é a coisa mais
incrível que eu já vi na minha vida.
e seu andré reconstruía mentalmente os longos anos de vida dura e cheia de privações que passara
para sustentar a família.
somente agora, depois de muito sacrificio, conseguira uma casa
com certo conforto. era bem verdade que silvana também possuía
um carro, com o qual ia diariamente à faculdade de filosofia. mas
isto, ela mesma conseguira a duras penas, com muita economia,
lecionando em qualquer lugar que fosse possível.
quando dona margarida voltou com o uísque, encontrou a
sala em silêncio.
corrégio não se conteve. em dois goles sôfregos e esganados, enxugou o copo que lhe fora servido.
dona margarida, então,
depositou o litro sobre a mesinha, ao alcance do rapaz.
olhe, cabeçuda - voltou a insistir o moço - você não
tem capacidade e nem autoridade para decidir sobre sua vida.
seus
pais já resolveram que vamos casar e é isso que vai acontecer,
quer
queira, quer não.
tomou o litro de uísque e encheu novamente o copo. sem
gelo.
• se você está pensando que eu sou palhaço, está muito
enganada e vai se arrepender demais. você quer dar uma de valente, mas não passa de uma imbecil,
uma cavalgadura, entendeu?
e, alterado pela bebida, acrescentou com extrema agitação:
• depois de tanto tempo de namoro e de noivado, você vai casar comigo na marra, entendeu, sua
filha da...? dona margarida levou um susto.
• não diga isso, que me ofende, corrégio - recriminou timidamente a mãe.
desculpe - engrolou o moço - é que essa coisa me deixa maluco. ela pensa que vai escapar assim no
mais. mas, não vai,
não.
• com licença - pediu silvana, levantando-se. - o que tinha a dizer, já disse. não há porque
continuar a conversa. boanoite! e, antes que alguém tentasse contê-la, tratou de sair às pressas
da sala.
o sangue e o álcool subiram violentamente à cabeça do rapaz que, num ímpeto, jogou o copo de
uísque na jovem. mas, silvana não estava mais lá e o copo foi espatifar-se
na parede.
acometido de furor, corrégio levantou-se e correu porta
afora, rosnando, xingando e ameaçando.
. .
no seu quarto, vestida com uma lingerie azul, silvana estirara-se na cama, tentando pôr ordem em
seus pensamentos.
a transparência suave de sua veste traçava, sob a luz fraca
da lâmpada de cabeceira, os contornos do corpo, bonito e bem
delineado. por instantes, mirou-se com olhares de sensualidade, como
a elogiar-se intimamente.
mas, a pressão dos últimos acontecimentos voltou a conturbar a sua mente. a calma aparente
desapareceu, dando lugar a um
turbilhão de imagens incontroláveis. uma névoa de amargura começou a toldar seu coração e ela
sentia-se assim como um aeroporto fechado devido ao denso nevoeiro.
quase sem dar-se conta, levantou-se e foi à janela. devia
ser tarde, porque sentiu em si aquele friozinho refrescante das
madrugadas, que a reconfortou. a noite estava salpicada de
estrelas.
lá, mais para o sul, a lua, como um viandante solitário e lânguido,
vagueava por entre as nuvens, borrifando de luar as árvores, as
flores, os telhados, as paredes, a rua.
e o rosto de silvana também foi beijado e acariciado pelo
luar.
envolvida por uma ternura que nunca havia experimentado, seu pensamento transformou-se num
andarilho solto e liberto,
assim como a lua lá em cima.
ah, como é linda a vida contemplada com os olhos da liberdade
e da paz - pensou ela. e seu coração estremeceu de repente: a imagem do padre maurício surgira à
sua mente como por encanto. que estaria fazendo ele agora?
claro, dormindo o sono da
paz, depois de cumprido o seu primeiro dia de alvores.
• que padre!
e a jovem lembrava o fascínio que ele exercera sobre ela
desde o primeiro momento em que o vira na igreja. depois, a
longa
conversa, o conforto moral, o extraordinário espírito humano e
compreensivo. aqueles olhos calmos e profundos, como um oceano cheio de mistérios... aquele
corpo forte e másculo...
na sua imaginação, silvana sentia-se abrasada, incandescente.
era como se estivesse vivendo um pôr-de-sol colorido e cálido dentro do seu coração.
ah, como era bom falar com o padre maurício, embeber-se
de seu olhar, sentir o abrir e fechar de seus lábios trazendo
lindas
palavras, como se fosse o abrir e fechar de uma flor vermelha,
transcendendo perfume! ah, como era bom... como era bom... como
era bom...
um galho seco de árvore caiu de repente, diante de sua janela, quebrando o silêncio da noite. a
jovem sentiu um choque e
voltou a si bruscamente. quase envergonhada de seus pensamentos, recolheu sua imaginação,
fechou a janela e atirou-se na cama.
era uma hora da madrugada.
só deus sabe quanto tempo levou para adormecer.
a algumas quadras, lá no alto da colina que marca o centro
de alvores, alguém ainda permanecia em vigília. o padre dollá.
recostado na cabeceira da cama, seus pensamentos reviviam todos
os acontecimentos do dia, do seu primeiro dia dessa cidade que
ainda lhe era totalmente desconhecida. e procurava desvendar os
mistérios desse povo. por mais que se embrenhasse numa análise de
sua nova paróquia, sua imaginação sempre voltava àquela jovem
que vira no primeiro banco da igreja e que depois fora à sua sala
contar a história do desventurado noivado. passando a mão pela
densa cabeleira, se perguntava como era possível que ainda
existissem casos como esse. jogar pela janela todos os sonhos e ilusões
de
uma jovem na flor da idade em troca de interesses, nos quais, na
verdade, não encontrava valor nenhum. “ou eu estou num outro
planeta - dizia de si para si - ou o mundo está virado ao
avesso.” e o vulto loiro e bonito da jovem assomava, como por um
passe de mágica, e se aproximava de sua cama. talvez, no fundo,
sentisse vontade que fosse realidade. ele vira nela um coração maravilhoso. a tristeza daquele
semblante aveludado e fresco
machucara-o muito, muito mesmo.
• queira deus - sussurrou ele, estendendo-se na cama e
puxando as cobertas até o pescoço - que ela tenha forças para enfrentar a sua timidez e o medo dos
outros e consiga decidir com
convicção e fé seus próprios caminhos. senhor, dá uma mãozinha
firme para esta jovem!
..
na manhã seguinte, já muito cedo, seu andré e dona margarida estavam sentados na cozinha, em
confabulações. o assunto
não podia ser outro.
sabe, mulher - comentou ele, assoprando o café que
estava fumegante - é preciso fazer alguma coisa. que é que vai dizer o doutor onofre quando souber
de tudo o que aconteceu ontem?
dona margarida limpou o rosto com o avental.
• olha, andré, a silvana nunca teve boca para nada...
• daí que eu acho que tudo não passa de um capricho dela, fácil de resolver. a mulher franziu os
sobrolhos.
• para mim é o contrário. se ela agüentou durante tanto tempo e de repente teve a coragem de
dizer basta, é porque tomou uma decisão de ferro, que ninguém vai dobrar.
• ah, ninguém vai dobrar! - repetiu, incrédulo, seu andré. - jogo minha cabeça que hoje vai ser
tudo diferente. ontem
ela estava com a cabeça quente, você sabe o que aconteceu.
três batidas na porta.
dona margarida tirou o avental e foi atender.
era o doutor onofre Álbarus. sua voz soou rude e cavernosa. bom-dia, dona margarida.
• bom-dia, doutor onofre. entre, tenha a bondade.
e, sem mais delongas, dona margarida perguntou:
• o corrégio lhe falou sobre o que aconteceu ontem?
• falou - respondeu o doutor, entrando. - e é por isso mesmo que eu vim aqui a esta hora.
• pois, olha, chegou em bom momento. ainda agora eu estava conversando com o andré sobre o
assunto, na cozinha. passe, por favor.
o médico foi conduzido até a cozinha. enquanto seu andré alcançou uma cadeira, dona margarida
tratou de preparar-lhe
um cafezinho.
• eu simplesmente não acredito - começou o doutor.
• nem nós. mas, aconteceu - confirmou seu andré.
• eu quero falar com a menina. compreendo a sua irritação, mas deve haver algum mal-entendido.
garanto que não é bem
assim... - ponderou o doutor onofre, servindo-se do cafezinho.
• eu não garanto mais nada... - ajuntou dona margarida.
e foi chamar silvana.
• puxa, que pessimismo, dona margarida! - exclamou o médico, enquanto a mulher deixava a
cozinha.
depois de um pequeno silêncio, apenas entrecortado pelas
baforadas do cigarro do velho andré, o doutor onofre voltou a falar:
• eu não vejo nenhum problema maior. claro, meu filho pintou o quadro com as cores mais negras
possíveis, mas acontece
que o coração sempre dá uma dimensão maior a tudo. veja o senhor, seu andré, ela não vai querer
perder esta oportunidade de
fazer um casamento de alta sociedade, como se diz. o senhor sabe,
as
mulheres são muito vaidosas por natureza e fazem de tudo para sobrepujar as demais. eu as
conheço bem. além disso, nós todos,
que estamos interessados nessa união, formamos uma prensa a que
ninguém pode resistir sob pena de ficar totalmente esmagado.
seu andré encarquilhou a testa. dona margarida voltou à
cozinha.
• eu sei o que é a vida - continuou o doutor. - a juventude pensa que a vida é feita de sonhos
floridos, na base de um
amor e uma cabana e pronto. pura ilusão... pura ilusão... olhem
agora aí para a rua: que é que vêem? as pessoas andando feito loucas em busca de dinheiro.
trabalham, dão duro noite e dia, passam
noites sem dormir porque se venceu a promissória ou a duplicata e
não sabem de onde vão tirar o dinheiro... e, depois, eu sou médico, tenho um hospital, e sei do
drama por que passam tantas famílias para pagarem operação, hospital,
remédios... essa é a realidade
da vida, seu andré e dona margarida. essa é que é a vida que silvana não conhece...
• eu conheço bem mais do que o senhor imagina - emendou silvana, entrando na cozinha.
• ah, você estava aí - exclamou afoito o doutor.
bom-dia, silvana. até foi bom você ter ouvido, assim não preciso
repetir especialmente para você.
o doutor onofre derramou um leve sorriso pelos lábios. a
jovem permaneceu séria.
• você deve estar surpresa por eu ter vindo a estas horas
da manhã - começou o médico, tirando os óculos e fazendo-os girar como uma hélice. - É que meu
filho me contou tudo que aconteceu ontem.
• É isso aí - confirmou a jovem.
• eu tenho certeza de que agora você está pensando um pouco diferente. afinal, o travesseiro
sempre foi bom conselheiro,
e não acredito, aliás ninguém acredita, que você possa continuar levando a sério aquela decisão. já
falei para o corrégio ser mais
atencioso com você e beber menos...
• isso o senhor já falou uma centena de vezes e não é desta
vez que vai dar resultado - cortou a jovem, com um pouco de impaciência, já prevendo que a
conversa seria longa e enfarada.
• você está nervosa, minha filha - observou o médico.
• eu não estou nervosa. apenas quero que me deixe em paz. eu quero começar a viver.
• viver! palavra cheia de ilusões! - advertiu o doutor,
baixando e levantando a cabeça pausadamente. - viver! a juventude pensa que viver é cheirar as
flores, correr pelos campos,
escalar morros de blusa aberta ao peito, sem compromissos, sem responsabilidades, sem pensar no
amanhã. a juventude sonha com
um amor romântico e poético que se consuma na entrega dos corpos à luz flácida do luar... mas
quem é que vai pagar as roupas que
vestem... a casa onde moram, a luz, a água, a comida, o pão, os
remédios, enfim aquele cortejo sem fim de gastos e mais gastos? veja, silvana, apenas quero ajudar
você a pensar. o corrégio pode
lhe dar alguns aborrecimentos, mas, em compensação, você viverá
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em bela casa, com posição social, terá tudo o que quiser, enfim você poderá usufruir da vidá com
tudo aquilo que as jovens de sua
idade ambicionam.
silvana queria deixar o médico falar à vontade. mas, de súbito, decidiu-se de forma diferente. e
resolveu acabar com o
assunto:
• doutor onofre, fico-lhe muito agradecida pelo interesse
por minha felicidade. a vida traça caminhos que nem sempre agradam a todos. mas, a minha vida é
minha e eu é que vou escolher o
meu caminho. espero que o senhor, o corrégio, meu pai, minha
mãe, respeitem a minha liberdade e os meus anseios.
e, olhando para o relógio:
• bem, desculpe, devo andar, está quase na hora da aula.
até logo.
e sem esperar resposta, silvana saiu da cozinha às pressas,
tomou os livros e desandou porta afora.
• bom, nada mais tenho a fazer aqui - resmungou o doutor, levantando-se.
• sinto muito - desculpou-se dona margarida.
o doutor onofre Álbarus recolocou os óculos, pôs instintivamente as mãos nos bolsos, tirou-as,
dando mostra de nervosismo
e, despedindo-se, rompeu rispidamente:
esta menina não está pensando sozinha. eu hei de descobrir o desgraçado. aí, sim, ajustaremos as
contas. até amanhã.
silvana dirigia-se a toda pressa para a faculdade quando,
de repente, mudou de idéia e tomou outro rumo. minutos depois,
apertava a campainha da casa do padre dollá e esfregava as mãos
nervosamente.
• oh, silvana, bom-dia! entre.
• padre maurício, a barra está pesada. ontem à noite terminei com o noivado, devolvi a aliança ao
corrégio, mas estou
sofrendo uma pressão terrível... dá vontade de desaparecer da face
da terra.
• você está muito nervosa.
maurício pensou um pouco.
veio de carro?
• sim.
• quem sabe, então, a gente daria uma saída por aí. um solzinho gostoso e um contato com a
natureza poderiam ajudar a refrescar a cabeça, não acha? ou você tem aula agora? a jovem
sorriu graciosamente.
• aceito sua sugestão.
enquanto o carro saía da cidade e tomava o rumo da serra,
de onde se descortinavam os mais belos panoramas da região, silvana ia contando a maurício tudo
que lhe acontecera nesses dois
dias.
depois de ouvir muito atentamente o relato da jovem, ele
exclamou vivamente impressionado:
estou realmente admirado da sua determinação. confesso que você me deixou surpreso. depois de
tanto tempo presa a
uma situação que detestava, mas de que não conseguia se livrar,
onde é que você arranjou tanta força para este passo inabalável? eu
sei que todos temos um potencial de poder interior capaz de
transportar até montanhas, como disse o mestre, mas conseguir acionar
esses poderes não é tão fácil assim. concorda?
concordo.
• então, posso saber onde foi que conseguiu tanta força?
• pode.
onde?
no senhor.
maurício olhou para ela e sorriu benévolo.
• bondade sua, silvana. eu apenas ajudei você a enxergar a situação e a ver o caminho a seguir. as
forças saíram de dentro de
você. há muita gente que sabe o caminho que deve tomar e, no entanto, não encontra coragem
suficiente para enveredar por ele.
• assim como eu - interveio ela. - meu namoro com
corrégio sempre foi tumultuado. eu sonhava com um amor profundo, que se fundisse e iluminasse,
que perfumasse uma caminhada a dois e que semeasse sonhos de desejos
na saudade das ausências. mas, corrégio cada dia me decepcionava mais. duro, insensível,
fanfarrão, parecia um troglodita comigo. muitas vezes
entrava
em minha casa bêbado. bêbado, padre, o senhor pode imaginar o
que é isso? se fosse uma ou outra vez, claro, a gente poderia
compreender e aceitar. mas, ultimamente, era quase uma constante.
todas as vezes que eu tentava desfazer o namoro, recebia uma
carga maciça por parte de meus pais e da família dele. fui
contemporizando; não tinha coragem de assumir uma decisão que iria contra
tudo e contra todos. o noivado foi resultado de uma manobra. veja o senhor: numa noite de natal,
nossa casa estava muito
enfeitada
e preparada para uma festa como nunca tinha acontecido. eu havia
viajado e fizera de tudo para chegar em casa para a missa da
meianoite. fiquei deslumbrada diante de tudo o que via.
• É natal, minha filha. e todo natal sempre traz boas surpresas - disse minha mãe.
após a missa do galo, foi juntando gente lá em casa. o
doutor onofre parecia o dono da festa. corrégio estava ao meu lado. de repente, o doutor onofre
tomou a palavra e falou mais ou
menos assim: “meus amigos, esta é uma noite muito importante.
não só por ser natal. É que eu, bem como o seu andré e dona
margarida, temos o imenso prazer de anunciar oficialmente o
noivado de nossos filhos corrégio e silvana. que deus os abençoe e
sejam muito felizes.” imagine o senhor como fiquei eu no meio
dos
brindes, das palmas e da festa que se estabeleceu. o senhor acha
que eu teria coragem de levantar e dizer: não, não é verdade, isto
tudo é uma palhaçada?!
• pobre silvana! - exclamou ele, com muita pena.
• o senhor nem supõe o que é ter que ficar durante horas a fio ao lado de uma pessoa que a gente
não ama. não tem graça, não há assunto, tudo é chatice.
• e o rapaz não percebia que você não gostava dele?
• percebia. mas, ele gostava de mim. por outro lado, era
uma questão de glória para ele casar comigo. não sei porquê... vivia correndo atrás das meninas o
dia todo aí pela cidade... por
que
não me deixava em paz? o senhor pode ter a certeza de que ele não
vai se dar por vencido. não sei o que pretenderá fazer, mas ele é
pior do que carne de cobra...
o carro fazia uma longa curva em torno de um cerro. em
cada dobra do morro, novas e surpreendentes paisagens se ofereciam aos olhos dos dois. lá
embaixo, um imenso lago de águas calmas, abrigando grandes bandos brancos
de garças nas ramagens
que sobressaíam da água. perto da estrada, uma verdejante colina,
toda ensolarada.
• olha lá, silvana, que lugar poético! aquela colina verdejante... que coisa linda!
• o senhor não conhecia? quem sabe, a gente dá uma chegadinha até lá? está disposto?
• como não? sabe, eu sempre fui ardoroso escalador de montanhas. eu gosto de montanhas, de
rios, de lagos, da natureza, enfim. eu gosto de esporte; até quero ver se consigo praticar
semanalmente algum esporte aqui na cidade.
• vai ser um escândalo - brincou ela.
enquanto se dirigiam para a colina, dollá tecia elogios à
prática esportiva, afirmando que o esporte alegra o espírito,
deixa o
corpo bem-disposto e descarrega os nervos.
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• até mesmo esta linda paisagem alivia as tensões nervosas. a calidez do sol, o verde desta grama,
a serenidade
daquele lago lá embaixo, a alegria esvoaçante dos pássaros, a grandiosidade
incomensurável dessas montanhas aí diante de nós, tudo enleva e
emociona, tudo faz a gente abrir a alma e sentir-se dentro de um
mundo maravilhoso. e fraterno. bem diferente da poluição da cidade, que nos sufoca, que nos
oprime e que nos aperta a cabeça.
sentados no alto da colina, os dois contemplavam agora,
em silêncio, a paisagem ensolarada. lá embaixo, à esquerda, um
camponês conduzindo suas vacas para a pastagem. na pequena enseada do lago, um velho e um
menino entrando numa canoa e saindo a remar animadamente. o silêncio era
apenas entrecortado, vez
por outra, pelo trinar de algum pássaro mais afoito e por algum
carro que subia ou descia a serra.
• que lugar calmo este! - falou maurício, com os olhos a dominarem toda a extensão do lago.
• realmente. apenas os carros perturbam de vez em quando a paz deste recanto. olhe, lá vem
vindo um carro a toda. que
sujeito maluco... estas curvas são um perigo... olhe lá, padre
maurício, olhe lá como vem vindo aquele carro... uma loucura...
os dois olharam perplexos para a estrada. o motorista parecia desmiolado. de súbito, silvana
arregalou os olhos e deu uma
forte palmada na perna de maurício, como querendo acordá-lo de
seu silêncio, e exclamou:
• É o corrégio!
em poucos instantes o rapaz desapareceu na curva do diabo, passando como um bólido sobre o
viaduto.
• agora o senhor já tem uma pequena imagem do rapaz.
maurício ainda estava abismado.
• descer a serra nessa doideira, só mesmo um suicida ou um assassino - murmurou ele como se
estivesse falando sozinho.
• ou um biruta, padre.
• bem, quem sabe a gente retornaria agora? - sugeriu delicadamente maurício. - creio que deu
para você acalmar-se bastante e até mesmo enxergar a vida com outros
olhos. que me diz?
• ah, eu não gostaria de sair nunca daqui... eu adoro ouvir o senhor... nem sabe quanto bem me
fazem suas palavras...
posso lhe dizer uma coisa?
• pode.
• o senhor tem um coração maravilhoso!
• peço a deus que assim seja. mas, sempre que precisar de mim, às ordens. afinal, eu acredito no
significado de uma frase que li há muito tempo: a maior felicidade é fazer os outros felizes.
enquanto se dirigiam para o carro, corrégio entrava que nem louco no hospital santo onofre, à
procura do pai. o doutor onofre estava na sala de operações.
• eu quero falar com meu pai - disse, com impaciência, para a enfermeira, tentando entrar na sala
de operações.
• não pode entrar. o doutor onofre está operando e o caso é muito grave. aguarde um pouco aí na
sala do lado.
• você não manda nada aqui. eu quero falar agora, entendeu, agora mesmo com meu pai. diga
para ele. vá lá, minhoca
branca, ligeiro.
o doutor onofre veio até a porta. como o filho falasse em
altos brados, conduziu-o à salinha do lado.
corrégio estava furibundo:
• agora descobri tudo. eu sabia que tinha minhoca no meio de tudo isso!
a porta se abriu e a enfermeira avisou:
• doutor onofre, a pressão da paciente está baixando demais. seria bom o senhor voltar à cirurgia
e tomar algumas providências.
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• quem sabe o que seria bom sou eu, entendeu? - respondeu-lhe, com rispidez, o doutor.
o rapaz tornou a falar desabridamente:
• sabe onde é que eu vi a silvana ainda agora?
• onde?
• la na colina da serra. imagine, a essas horas...
a porta entreabriu-se novamente e a enfermeira, muito sem
jeito, informou:
• doutor onofre, a pressão está a zero. acho que a paciente não vai resistir.
o médico irritou-se:
• você não tem nada que achar. o médico sou eu. que espere. todos têm hora para morrer.
corrégio não se continha:
• mas, o pior não é isso. a menina estava com o padre dollá. os dois juntinhos. esse sujeito vai me
pagar. eu mato ele. cafajeste. ordinário.
• acalme-se, meu filho. deixe para mim, que vou botá-lo fora desta cidade numa semana.
• de que jeito?
• eu sei como. na quinta-feira vai haver uma reunião do conselho da igreja. foi convocada pelo
próprio padre. ele mesmo cavou a sua sepultura. eu vou instruir, instigar, e até mesmo forçar os
conselheiros para que despeçam o padre e requeiram outro pároco ao bispo.
e, levantando-se, concluiu:
• agora vá, corrégio, e comece a trabalhar neste plano. É o mais simples. e o mais eficiente.
o doutor onofre dirigiu-se apressado para a sala de cirurgia.
• como está a paciente? - indagou, preocupado, ao aproximar-se da mesa.
• estava, doutor. morreu.
o médico ficou bastante perturbado intimamente. nada
mais podia fazer. antes que a consciência o fustigasse, voltou as
costas e tratou de sair, enquanto dizia para a
enfermeira-auxiliar:
• avise ao marido e aos filhos que a mulher infelizmente não resistiu à operação.
a enfermeira respondeu-lhe, com mal disfarçada ironia:
• seria bom que o senhor mesmo avisasse; o senhor pode explicar melhor.
o doutor onofre voltou-se irritadíssimo:
• está demitida. passe no departamento de pessoal e acerte as contas.
lá fora, o marido e quatro filhos aguardavam, com a
maior ansiedade, o resultado da operação. a paciente era mãe de
oito filhos, formando os três últimos uma escadinha de três anos,
dois anos e o caçulinha com seis meses.
diante da infausta notícia, o desespero foi geral.
• mãezinha! mãezinha! - gritavam os menores, enquanto que o pai batia os punhos contra a
parede, totalmente
desnorteado.
mas, o cirurgião não podia dar-se ao luxo de fixar este quadro de tristeza e de luto. saiu do hospital
na maior pressa,
com o
intuito evidente de dar início à sua campanha de intrigas junto
aos
conselheiros da igreja. era preciso envenenar-lhes a mente para
que
transformassem o novo pároco numa persona non grata em alvores. visitou giron vidal. diante da
hesitação de giron, lembroulhe muito discretamente:
• não esqueça que o senhor tem duas promissórias minhas já vencidas há algum tempo.
mais tarde, se encontraria com aidor serpe e, se fosse
necessário, lhe lembraria o negócio sujo feito com a viúva aurélia
lorps, em que se apropriara indevidamente do terreno onde construíra o edifício santa inocência.
edifício santa inocência, ironia
de nome.
na casa paroquial, o padre dollá perguntava à cozinheira,
dona ermelinda, sobre o velho josias, que ainda não aparecera.
está no cantinho dele, meio amolado - respondeu ela.
• cantinho?! onde é que ele mora?
• mora lá no depósito de coisas velhas, atrás da igreja.
maurício rumou para lá. fez a volta pelos fundos da nave
central e adentrou por um porão escuro e sombrio.
• seu josias! - gritou.
• estou aqui, padre maurício. siga pelo galinheiro, dobre à esquerda, por trás do depósito de
móveis velhos.
era a voz bastante encatarrada de josias, que, lá do fundo,
ensinava o caminho do seu cubículo. o padre dollá quase não acreditava. como era possível jogar
alguém naquela espécie de masmorra? ! finalmente encontrou o sacristão,
estendido na cama. com
aquela barba comprida e mal aparada, parecia um antropóide.
• É aqui que você mora? ! - perguntou o padre, sem acreditar no que via.
• mas, não está ruim, padre. o senhor sabe, eu já sou um traste quase imprestável...
• quem é que meteu você aqui?
• foi o presidente financeiro do conselho paroquial. ele disse que, pelo que eu fazia, a igreja,
quando muito, podia dar este cantinho e a comida. eu acho que não presto para nada mesmo,
padre maurício, e não quero ser um peso para a igreja.
• e a roupa?
• a roupa eu mesmo lavo. a gente tem que se virar, não é mesmo, padre?
pelo amor de deus, seu josias, vou tirar você daqui agora mesmo.
josias relutou:
não faça isso, padre dollá. a igreja não pode gastar comigo. eu estou bem aqui.
• isto é desumano. a igreja está com dinheiro aplicado na poupança.
e exclamou, sacudindo a cabeça:
• dinheiro na poupança para deus e um homem vivendo como rato nos porões de depósito desta
mesma igreja. a uma ordem do padre dollá, dona ermelinda limpou, varreu e lavou um antigo
quarto de hóspedes que existia à esquerda da cozinha. arrumou a cama e avisou o padre
maurício:
• está tudo pronto.
os dois se dirigiram para o embolorado quartinho em que
se encontrava josias. agarraram o velho e o conduziram para o
novo quarto, limpo, arejado, decente, agradável.
voltando-se para ermelinda, mandou que recolhesse todos
os pertences do sacristão e os trouxesse para o quarto.
• daqui para frente - concluiu o padre - quero que as roupas de josias sejam lavadas e passadas a
ferro como as minhas. ah, antes que me esqueça, chame o médico.
• deve ser gripe e fraqueza, padre maurício - ponderou a cozinheira. .
• não importa. vejamos o que o médico dirá. enquanto isso, prepare-ihe um chá bem saudável e
gostoso.
maurício aproveitou o resto da manhã para fazer uma verificação geral em todas as dependências da
igreja e da casa paroquial. examinou os livros, procurando inteirar-se
do movimento
religioso e da situação administrativa. de resto, na reunião que
marcou para quinta-feira com o conselho paroquial, pretendia ser
informado com mais detalhes de todos os programas comunitários
que estavam sendo realizados sob a direção e orientação da paróquia. ainda não conhecia, a não ser
através de breves contatos, os
membros do conselho escolhido ao tempo de seu antecessor. mesmo que não fosse imediatamente,
achava que deveria ser eleito novo conselho, onde evitaria que alguém
pretendesse fazer parte do
mesmo apenas para prestígio, sem dar a devida contribuição que o
cargo demanda. com aquele espírito aberto e liberto, imaginava
que a felicidade da vida estava no prazer de servir e de viver,
sem
preconceitos e sem intenções escusas.
maurício, sentado num bloco de cimento, começou a pensar em si. e sentiu que tanto lhe dava
alegria o diálogo com o
cristo
na liturgia da missa, como a prática descontraída e gratificante
de
um futebol, de uma escalada de montanha ou de uma tarde de natação no lago. extremamente
jovem de espírito, sua alma e seu corpo sabiam vibrar com acontecimentos
simples. de coração sensível,
tinha o dom de compreender as situações mais diversas da vida humana. para um químico, uma
lágrima poderia significar a composição de água e sal; para o médico,
um sintoma de dor; para um machão, seria fraqueza; mas, para ele, a lágrima assumia uma
dimensão
profunda, trazendo para o mundo exterior, mesmo que de forma
discreta, a emoção do que se passa no recesso íntimo e misterioso
do coração. por isso, ele costumava, com toda a delicadeza, seguir
o caminho das lágrimas para atingir a ferida interior e, então,
tentar curá-la ou aliviá-la. isto, porém, que ele sempre considerou
seu
ponto forte, muita gente poderia apontar como seu ponto fraco.
mas, teriam importância para ele as opiniões dos outros? havia
aprendido, no curso de psicologia e na escola da vida, bem como
nas páginas do evangelho, que o importante era sentir-se bem consigo mesmo. toda pessoa que se
sente bem consigo mesma, vive feliz, ainda que as tempestades de fora
busquem destruir seu mundo
42
interior, florido e belo. por outro lado, ele sabia que se
render a
uma estrutura exterior, que nada lhe significava intimamente,
seria
entregar-se ao inimigo, frustrar-se e deixar-se afundar na
estagnação interior. alvores se apresentaria rrruito em breve como incomum campo de batalha. e o
desafio haveria de exigir-lhe uma resposta clara e decidida. com
todas as conseqüências. os prenúncios
estavam aí.
. .
vinte horas. presságios de chuva. temperatura pesada. tão
pesada como o ambiente na casa de antônio augusto faller. depois dos incontrolados gestos de dor e
de sofrimento provocados
pela informação da morte da sua esposa, lá, diante da sala de
cirurgia, antônio augusto teve que conter a crueza da desgraça a fim de
encaminhar tudo para que sua companheira tivesse um sepultamento decente e digno. já, à noite, ao
lado do caixão, seus olhos
pareciam ressequidos. recebia as condolências com um muito obrigado
que mal-e-mal aflorava aos seus lábios arroxeados. cerca de dez
pessoas estavam em torno do caixão, silenciosas, sabe deus
pensando no quê. talvez rezando.
fora, alguns homens conversavam à boca pequena debaixo
de um velho cinamomo.
de repente, todos silenciaram. era o doutor onofre que vinha chegando. a surpresa foi geral. nunca
foi visto em velório
algum, principalmente de família de poucos recursos.
aproximou-se de antônio e deu-lhe os pêsames.
• sinto muito. infelizmente a doença estava adiantada demais e não foi possível salvá-la. fizemos
de tudo.
o médico falava alto o suficiente para ser ouvido pelos presentes.
• e como eu sabia quanta falta ela faria nesta casa! lutei desesperadamente contra a morte. fui
vencido. que deus a tenha no céu e lhe dê muita coragem, antônio!
passando o braço nos ombros do infeliz viúvo, saiu com ele
para uma salinha anexa.
• fique aqui um pouco. isto faz bem ao senhor. ajuda a
descontrair a tensão. trouxe-lhe comprimidos para acalmá-lo nesses momentos em que precisa ser
forte, principalmente por causa
dos filhos.
muito agradecido, doutor.
e, quanto ao hospital e à operação, não vou cobrar-lhe
nada.
antônio augusto ficou surpreso. o doutor onofre tinha
fama de unha-de-fome, na cidade.
• É que a gente deve solidarizar-se nessas horas.
depois de uma pausa premeditada:
• o padre dollá já esteve aqui?
• não, ele virá amanhã para a encomendação e o enterro.
• bem diferente do falecido padre charles... - sacou o doutor, procurando servir-se do momento
para entrar no assunto que lhe interessava realmente. - o padre charles era piedoso e sempre
atento em distribuir os sacramentos onde lhe fosse possível.
este novato nem sequer veio até aqui. É por isso que existe um movimento generalizado na cidade
para mandá-lo embora. há muita
queixa...
• mas, faz tão pouco que chegou, talvez ainda não tenha organizado seu trabalho... - ponderou
antônio augusto, com voz quase sumida.
• como o senhor sabe, na próxima quinta-feira haverá reunião do conselho paroquial, do qual o
senhor faz parte.
precisamos da sua colaboração...
44
e o doutor onofre procurou alinhar todos os argumentos
que lhe vinham à mente para conseguir o apoio de antônio augusto. este, a custo podia prestar
atenção ao que o médico lhe dizia,
em momento tão inoportuno, quando a esposa estava sendo velada na outra sala e sua imagem não
lhe saía da mente.
proveniente de um quarto, os dois ouviam o choro dos filhos, chamando desconsolada e inutilmente
pela mãe.
quando o médico despediu-se, antônio augusto dirigiu-se
ao quarto das crianças e procurou ficar alguns momentos com elas,
tentando acalmar-lhes a crueldade da dor.
ao retornar para a sala do velório, encontrou marisete, a
jovem enfermeira que fora despedida pelo doutor onofre.
• meus pêsames, seu antônio augusto - disse ela baixinho. - foi lamentável o que aconteceu. eu
não sei como pode haver tanta irresponsabilidade e frieza numa pessoa
assim...
antônio augusto olhou para ela perplexo, sem entender
coisa alguma.
a jovem puxou-o discretamente para um ponto solitário da
sala e confidenciou-lhe, com amargura:
• eu estava lá na sala de cirurgia. sua esposa poderia salvar-se muito bem, a não ser que surgisse
algum imprevisto mais
grave. aconteceu que o doutor onofre deixou a cirurgia para
atender o filho que, em altos brados, pedia para falar com ele.
durante
a conversa com o filho, foi avisado por duas ou três vezes de
que a
senhora estava piorando e a pressão ia baixando a zero. quando
voltou à operação, a coitada estava morta...
antônio augusto desandou num choro convulso. voltou e
beijou a face pálida e inerte de sua esposa.
• desculpe, seu antônio augusto. este não era o momento de contar isso. enfim, acho que todos
temos a hora certa para
morrer. deus há de olhar pelo senhor e pelos seus filhos, esteja
certo...
marisete não sabia como fazer e nem o que dizer para aliviar o ferimento profundo que provocou
no coração do viúvo. rezou um pouco em silêncio e retirou-se discretamente.
na manhã seguinte, uma pequena multidão de pessoas assistia às orações do padre dollá. não se
ouvia o ruído nem de uma
mosca. não só pela emotividade do momento, como também porque era a primeira vez que muitas
pessoas viam aquele padre de
tez
bronzeada e fisionomia simpática. depois de rezar preces de fé na
felicidade da outra vida e no amor do pai celestial para com a
alma
que a ele se apresentava, aspergiu água benta e falou:
“meus amigos, a hora é de dor e de sofrimento, reconheço.
mas, bem-aventurados aqueles que choram, porque serão consolados, - disse o mestre. na verdade,
a morte é um mistério e uma
escuridão, não para quem parte, mas apenas para os que ficam, ainda mais quando são atingidos, de
forma quase insuportável, um
marido na plenitude de seus dias e oito filhos recém-despertando
para a vida. eu sinto muito e meu coração parece sufocar-se, digo
a
verdade. mas, a consolação está em termos certeza de que este ser
querido, que partiu, foi chamado por deus para a felicidade de
uma nova vida sem dor, sem lágrimas e sem sacrifícios.
choremos, então, por nós - como disse jesus às mulheres
de jerusalém. quanto à que partiu, afirmou o cristo: “bem-aventurados os mortos que morrem no
senhor, porque possuirão a vida
eterna”. É a morte, pois, que traz a vida. felizmente, não se
trata
de um desaparecimento para sempre, mas de uma passagem para
uma vida feliz, preparada por deus para todos os seus amigos;
por
isso, logo mais, o seu antônio augusto e todos os filhos estarão
reunidos novamente com a elisângela no reino do paraíso. a ausência é breve, e isto conforta e
reanima. e o fato de saber que
ela
está ausente, mas viva e muito bem, olhando lá de cima para os
seus, há de restabelecer a alegria a esta família e há de ajudá-la a
prosseguir nesta caminhada com mais força e com mais entusiasmo.
rezemos para que assim entendamos o mistério da morte e para que assim seja.”
..
À noite, maurício estava lendo em seu gabinete de trabalho,
quando soou a campainha.
era silvana:
boa-noite.
• boa-noite. entre. como é que foi de faculdade?
• bastante bem. tivemos aula de psicologia e gostei muito. só que eu devo confessar que, de vez
em quando, meu pensamento subia a serra e ia parar no alto de uma
colina...
maurício sorriu complacente. depois, fez de conta que estava brabo:
olhe, ponha ordem nessa cabecinha senão eu é que vou
levar as culpas no fim do ano...
• não se assuste - retrucou ela, rindo-se. - o senhor vai ver que no fim do ano já estarei com o anel
de doutora no dedo.
mas, que às vezes ficava vagueando com a mente lá pela serra, isto
é verdade. aquele lago calmo e imenso... as garças... os pescadores... o camponês... ainda me
lembro de tudo... e me lembro de
modo todo especial de alguém que estava ao meu lado. sabe que
sonhei esta noite com o senhor? foi um sonho que me deixou assustada. acordei em sobressalto.
meu coração parecia que ia saltar
para fora. sinceramente, só consegui dormir com a luz acesa.
• puxa vida, que será?! - exclamou, curioso, maurício.
• arre, eu sou uma boba, nem devia ter tocado neste assunto! bem, agora que comecei, vou contar.
eram altas horas da
47
noite e o senhor foi chamado para atender um doente. teve que
andar bastante, passou pela cidade, atravessou um bairro e seguiu
pelo campo, foi longe, sozinho, no meio da escuridão. na volta, foi
assaltado por um bando de bandidos que o deixaram estendido no
chão. saí correndo para socorrê-lo, e quando fui erguê-lo, me acordei... bah, nem quero me
lembrar... coisa horrível... tome cuidado, padre maurício... deus o livre
de uma coisa dessas...
• se acontecer, você vai me socorrer, não foi isso que
aconteceu no sonho? então, creio que estarei em boas mãos brincou ele. e acrescentou: - mas, não
vai me dizer que tirou curso de oniromancia.
• bem, padre, já vou andando; ainda tenho que preparar um exame para amanhã. a jovem
levantou-se.
• então, você veio aqui só para me assustar? - brincou ele.
silvana apertou-lhe a mão, dizendo, com muito sentimento:
• É que não desejo que isto aconteça, padre maurício.
nunca. eu gosto muito do senhor. gosto mesmo.
num ímpeto incontido, colocou as duas mãos no rosto de
maurício e beijou-o.
• calma, silvana! - exclamou, sem jeito, o padre, desvencilhando-se instintivamente da jovem.
• boa-noite - disse ela, saindo, quase a correr, porta afora.
maurício sentiu, por instantes, toda a sensualidade daquele
corpo enlaçado no seu. era uma carne quente, que o queimava. o
coração entrou em ritmo descompassado. que era aquilo?! passou
a mão no rosto como querendo apagar a maciez daquele beijo, mas
ele continuava penetrando sua pele.
• meu deus! - sussurrou ele, passando o lenço na testa
48
úmida e ardente. quando a inquietude atingiu o paroxismo total,
saiu, torturado pela angústia, à procura de refúgio na igreja.
uma pequena lamparina iluminava fugazmente um grande
cristo pregado na cruz.
ajoelhou-se. ergueu os olhos súplices para o cristo e desabafou:
“senhor, que é que eu faço? ajuda-me a entender o que tu
queres de mim, porque eu não consigo sequer alinhar os pensamentos. sinto um fogo abrasar-me
todo... e tu aí a dizer-me: não pode! não pode! tu queres que eu fuja
do amor como duma serpente
venenosa. então, por que foi que puseste amor dentro do meu coração? não, não fui eu quem o
pediu, tem paciência. aconteceu. e
agora? se tu sabias que eu não podia amar, não deverias ter criado
o amor em mim. e nem a capacidade de amar. olha, senhor, tu
ateaste fogo no meu coração e agora queres que eu o apague de
qualquer maneira? tu queres que eu faça de conta que não existe
aquilo que tu fizeste existir em mim? oh, meu deus, por que
terei
que sufocar o amor que tu puseste em mim? tu o acendeste para
quê? por quê? só para me incendiar? não, não acredito que seja
para te deliciares com meu sofrimento. tu não és sádico!
ah, senhor eu preciso de forças para resistir!
mas, resistir a quê? ao amor? então, é o amor coisa má?
não foste tu que criaste o amor? senhor, estou estraçalhado...
deixaste meu coração num vulcão de desejos... não, já não sei
mais se foste tu ou o quê... mas, te peço encarecidamente: dá-me
paz. eu quero paz. eu preciso de paz, antes que arrebente...
sim,
meu deus, eu sei que tu amaste. amaste muito. mostra-me, então,
como é que se faz. eu sei que o amor é essencial a qualquer
criatura, sob pena de secar, mirrar, endurecer, transformar-se em
pedra.
mas, amar como? e o que fazer do amor que entra sem ser chamado e toma conta de todo o ser?
estou na escuta, senhor. espero a tua resposta. por
favor.”
maurício aquietou-se. descansou a mente. aos poucos foi-se acalmando o incêndio interior.
era paz ou era trégua?
antes de ir para o quarto, foi visitar o velho josias, que ficou tão surpreso quanto satisfeito. com
muito esforço conseguiu
conter a emoção que este gesto tão amável lhe provocou. o padre
maurício percebeu que, por baixo daquela pele encarquilhada e endurecida pelo tempo e pelas
agruras da vida, existia um coração
muito sensível. sentou-se na borda da cama e passou a conversar
longamente com josias. a solidão daquele homem talvez fosse irmã gêmea da sua própria solidão.
dollá já não estava mais agitado. aquele desabafo diante
do cristo, tão impetuoso e avassalador como se tivesse rompido a
barragem de uma represa e a avalanche se lançasse em fúria incontrolável pelo rombo provocado,
fizera com que as águas voltassem
ao nível de equilíbrio.
agora seu coração parecia um lago sereno, plácido, envolvido por uma suavidade inusitada.
a conversa com josias lhe fazia imenso bem. aí estava
um homem contando, de maneira simples e conformada, a história
triste de um amor que nunca conseguiu tomar para si, sofrendo
durante muito tempo a trituração diária de seu próprio coração.
• não sei se essa solidão e esse martírio que a vida impôs ao meu coração não me deixaram
rabugento e duro. É o que me dá medo. porque eu sei que a frustração sempre deixa marcas
cruéis na gente. eu peço a deus diariamente para que ele crie em mim o milagre das flores e dos
pássaros... vou lhe contar um segredo,
padre maurício. talvez seja uma bobagem, mas para mim teve um valor e um resultado
maravilhoso. se não fora isso, é certo que a
minha conversa com o senhor seria bem diferente, tão azeda quanto tomate podre. aprendi a fazer
um exercício. este exercício 0
pratico ainda hoje. se eu sou alguma coisa de útil e agradável,
devo,
sem dúvida, a este exercício, que hoje, digo a verdade, faço com
prazer. por sorte, comecei a praticá-lo ainda durante as crises
que
ameaçavam secar o meu coração. em resumo, o exercício é este:
contemplar, todos os dias, durante os momentos que me são possíveis, as flores que encontro;
sentir-lhes a beleza, a candura e
o perfume. contemplo também os pássaros e procuro trazer para dentro
de mim a alegria dos gorjeios, a leveza de seus vôos, a
felicidade de
descerem à terra e subirem ao azul do céu. À noite, passei a sentir
as estrelas e deixar-me ser afagado pelo luar. olhe, padre
dollá, foi
o melhor meio que encontrei para achar gosto na vida e cultivar
a
sensibilidade e a bondade dentro de mim. hoje eu estou velho,
mas
meu coração é cheio de sangue, de carne e de seiva, não sei se o senhor me entende...
• entendi tudo, meu bom amigo. e aprendi muito, na hora em que eu muito precisava - acentuou o
padre, como que extraindo as palavras de um mundo distante e misterioso.
depois de ficar algum tempo em silêncio, maurício indagou:
• o médico ainda não esteve aqui?
• não, senhor.
• não esteve? ! - tornou maurício, desconsolado, sem pretender nova resposta. - e a dona
ermelinda serviu-o bem?
• não se preocupe, padre dollá. eu já estou bem. dona ermelinda foi muito atenciosa comigo. de
fato, já me restabeleci. amanhã posso reiniciar os trabalhos.
• se lhe for possível, peço a gentileza de preparar a sala para a reunião que se realizará com o
conselho paroquial. e se não for pedir demais para sua saúde, gostaria muito que participasse.
afinal, como velho sacristão, e como homem de boa capacidade de
ponderação, sua presença será útil nesta primeira reunião. por certo, você poderá esclarecer muita
coisa sobre a administração anterior. É que eu ainda não estou
por dentro da vida religiosa e
social
da nossa igreja.
• pode deixar, que farei tudo isso.
maurício deu boa-noite e dirigiu-se para o quarto. abriu a
janela e deixou que o céu estrelado penetrasse no aposento.
..
quando silvana chegou em casa, dona margarida a esperava na varanda.
• silvana, o corrégio esteve aqui. queria falar com você.
a jovem encolheu os ombros:
• ele já desapareceu da minha vida. espero que saia do meu caminho.
• por falar em caminho - aproveitou propositalmente a mãe - ele viu você lá na colina da serra
junto com o padre novo.
• e daí? - perguntou a moça, sem dar importância à revelação.
• e daí que ele estava furioso. disse que foi o padre que estragou o noivado. estava uma fera.
• eu não tenho nada que dar satisfação para ele. eu sou livre, sei o que faço e não será esse mau-
caráter que vai querer ensinar-me o que devo ou não devo fazer.
dona margarida passou as mãos pelos cabelos da filha e falou visivelmente apreensiva:
• mas, minha filha, você sabe o que está fazendo? seu pai também irritou-se muito quando o
corrégio lhe contou o que viu.
• mamãe - desabafou a jovem, com evidentes sinais de
desagrado e aflição - será que eu não sou capaz de cuidar da minha vida? eu tenho a cabeça no
lugar e sei responder pelo que
faço.
graças a deus, a fase de obscurecimento mental já passou. a senhora e o papai, ao invés de me
forçarem a fazer aquilo que querem, seria mais justo e mais humano
se me ajudassem a ser aquilo
que eu quero. afinal, é preciso dar-se conta de que cada um tem
um caminho a seguir. pelo amor de deus, respeitem o meu caminho.
dona margarida ficou em silêncio. na verdade, não sabia o
que responder. silvana tomou um copo de leite e retirou-se para
o
quarto.
a noite estava linda. lá fora os grilos cantavam ao luar.
mais ao longe, o coral das rãs cortava o silêncio majestoso da
natureza. silvana abriu a janela e correu as cortinas. apagou a luz
do
quarto para sentir-se totalmente envolvida pelos mistérios da
noite.
porque imaginava que os mistérios da noite seriam parecidos com
os mistérios do seu coração. deixou que a brisa vinda do arvoredo
brincasse no seu rosto e nos seios quase nus. queria mesmo que o
suave vento da noite chegasse até o seu coração para refrescá-lo um
pouco. mas, já não estava excitada. o vulcão que explodira em seu
coração e se derramara com impetuosidade inaudita por todo o
corpo já estava mais abrandado. ainda não entendia de onde partira aquela força avassaladora e
irresistível que a lançara no rosto
de
maurício. mas, não se arrependera. e ela recordava aquela célebre
frase de pascal: o coração tem razões que a própria razão desconhece. a verdade nua e crua era que
sentia uma imensa ternura
por
ele e isso poderia ser impossível, inadmissível e o que mais se
quisesse dizer, mas era verdadeiro. na sua confusão interior, silvana
não
conseguia imaginar o que se passara no coração do sacerdote. e se
ele tivesse odiado aquele encontro e nunca mais a quisesse ver?
e se
ele não entendesse a profundidade espontânea e incontrolável de
seu gesto e a tomasse como uma histérica de quem deveria fugir? e
se tivesse sentido nojo e repugnância como se fosse uma atitude
insensata?! não podia ser... ele era sensível e humano o suficiente
para entender e respeitar seu gesto... pelo amor de deus, eu não fiz
por mal - sussurrou ela de si para si. mas, ninguém ouviu a sua
explicação. apenas a lua pareceu entender o seu brado, surgindo
por entre as nuvens para envolvê-la no beijo branco do luar. surpreendida por aquele quadro de
beleza que despontara no céu, silvana ficou a contemplar embevecida
a caminhada nostálgica da
lua, na suave solidão do firmamento.
será que minha vida há de ser uma caminhada solitária pelo
mundo? - perguntava-se. e respondia para si mesma: se é para
ser, que seja. mas, há de ser como a lua, cheia de luz, cheia de
poesia, esparzindo raios de amor, assim como a lua está fazendo lá em
cima com as estrelas.
lembrou-se, então, de maurício. ah, aquele corpo robusto
e sadio! aquele rosto quente e cheio de vida... aquele delírio
inimaginável que arrepiara todo o seu corpo, num segundo... mas, tudo fora tão fugaz... tudo lhe
parecia tão inatingível...
fechou a janela. era preciso tentar fazer as pazes com o sono. porque amanhã seria outro dia.
..
na quinta-feira, às vinte horas, já estavam na sala os cinco
conselheiros e o sacristão. o doutor onofre era o mais empertigado. cochichava baixinho, ora para
um, ora para outro.
o velho josias tentava apurar os ouvidos, mas nada conseguia apanhar.
quando o padre dollá chegou, deu um alegre boa-noite e
convidou todos a sentarem. ele sentou-se na ponta da mesa. a seguir,
colocaram-se aidor serpe, pierre malreaux, o doutor onofre
Álbarus, antônio augusto faller e giron vidal.
o padre maurício tomou a palavra:
• meus amigos, como se trata de um primeiro contato
com o conselho da igreja, faço questão que o seu josias também esteja conosco, pois ele pode
esclarecer alguma coisa, já que há
muitos anos é sacristão e acompanha de perto a vida religiosa de
nossa
comunidade. seu josias, tenha a bondade, sente-se aqui à minha
esquerda.
enquanto o velho josias dos santos sentava-se, o doutor
onofre fez um gesto de total desagrado.
• bem - começou o padre dollá - devo dizer-lhes que é
um imenso prazer poder tê-los comigo nesta noite. alguns eu já conheço. mas, peço a gentileza de
cada um se apresentar, assim eu
guardarei com mais segurança os nomes aqui na cabeça e no coração, porque as pessoas que eu
mais prezo e em quem mais confio
são, sem dúvida, os conselheiros. contem com minha total amizade. juntos caminharemos, juntos
nos alegraremos, juntos
vibraremos, juntos colheremos os resultados
de tudo que for feito nesta
comunidade. os senhores se considerem meus amigos... e meus irmãos. aliás, eu sempre me
encantei com uma frase do livro dos
provérbios, que diz assim: “há amigos que são mais queridos que
um irmão.” (18-24) então, comecemos pelo senhor. chama-se...
• chamo-me aidor serpe. sou comerciante, tenho armazém na rua martim cândido, 156, a duas
quadras aqui da igreja.
depois da apresentação de cada um, o padre maurício passou a explanar os assuntos:
• os senhores fazem parte do conselho criado durante a gestão do padre charles. segundo os
estatutos, deveria haver nova escolha do conselho dentro de um mês. mas, eu não vejo porque
se deva fazer isto, uma vez que agora é que vamos começar a trabalhar juntos. eu faço questão
de que os conselheiros sejam o meu braço direito e estejam sempre dispostos a carregar o piano,
como se diz. na verdade, é por isso e para isso que os membros do conselho são sempre
selecionados a dedo. tenho certeza de que nos
daremos muito bem. vamos trabalhar em harmonia e com muita alegria, cada um relevando as
falhas dos outros, porque os
defeitos de
cada um pertencem ao seu mundo íntimo e a prestação de contas é
feita a deus. assim, começaremos por liquidar pela raiz qualquer
espécie de discórdia, de fofoca e desentendimento, não acham?
bem, eu já estou falando demais. quero que todos falem francamente, sinceramente, porque assim a
gente se entende melhor.
houve silêncio na sala. o pároco sentiu que, por trás deste
silêncio, alguma coisa não andava bem. chegou até a repensar rapidamente suas últimas palavras a
ver se não dissera algo que
pudesse
gerar mal-entendido.
• então - cortou o silêncio o doutor onofre, agitando-se, nervoso, na cadeira - eu, como
presidente do conselho, por certo devo ser o primeiro a falar. o senhor disse para a gente ser
bem franco; é o que vou ser quando começo dizendo que, infelizmente,
o senhor não está sendo bem aceito aqui em alvores. há um movimento na cidade que visa mandá-
lo embora. desculpe a dureza da
minha fala, nesta hora, mas a franqueza exige que a gente se
ponha
dentro da realidade. nós tentamos desfazer os boatos desabonadores, mas tudo foi em vão; eles
foram longe demais. É que o
falecido
padre charles era muito rigoroso em matéria de moral, e o povo,
talvez por isso, está julgando o senhor com extrema severidade
sobre seus envolvimentos por aí. já que se trata do bem da igreja,
acreditamos que o senhor não se oporá em deixar alvores o mais
breve possível e nós, de nossa parte, faremos empenho para que o
bispo nos mande de imediato outro pároco.
um silêncio pesado caiu sobre a sala.
• eu concordo com o doutor onofre - disse, rouquenho e inquieto, pierre malreaux.
antônio augusto agitou-se na cadeira e falou, com certa timidez:
• bem, eu acho tudo isso muito prematuro e até mesmo desumano. esse negócio de diz-que-diz-
que, se é que realmente
existe, não deveria ser levado em conta por gente de maior formação, como nós. se o padre dollá
devesse preocupar-se com tudo que
se pode dizer dele, acabaria preferindo ficar trancado em quatro
paredes para evitar falatórios e, assim mesmo, falariam mais
ainda,
achando que ele teria tomado esta atitude porque devia estar
acontecendo alguma coisa de grave na sua vida. eu não concordo, portanto, com a opinião do nosso
presidente.
• se me permite - interrompeu bruscamente o médico, temendo que antônio augusto pusesse por
terra seus planos - eu acho que o senhor estava por demais envolvido com a doença e
com a morte de sua esposa, por isso não está muito a par dos acontecimentos. aliás, fez bem em
dedicar seu tempo à esposa. eu mesmo, e o senhor deve lembrar muito
bem, fiz questão de não lhe cobrar nada de hospital e tudo o mais. mas - continuou o doutor,
com ferina insinuação - sempre que a doença pode voltar a bater à
porta da família...
antônio augusto não conseguia segurar-se:
• mas, a justiça, o dever e o amor devem ser uma exigência cristã para todos e não só para o
padre maurício. por exemplo
• e aqui antônio augusto retribuiu a linguagem ferina do outro
• um doente na mesa de operação não pode ser abandonado por causa de negócios e assuntos
particulares... o doutor onofre mordeu os lábios, com raiva.
• de minha parte - tomou a palavra o comerciante giron vidal - estou pelo que disse nosso
presidente, que, afinal, é uma pessoa de destaque e de responsabilidade.
o padre maurício deixava correr livre a conversa, pois eralhe muito interessante conhecer
profundamente a cada um dos que
ali estavam. percebera as intenções do médico e queria ver até aonde a situação iria chegar.
serpe entrou na conversa, mexendo-se e remexendo-se como quem estava totalmente inseguro do
que iria dizer:
• eu soube que nosso padre gosta de esporte, gosta de meninas, anda passeando de carro por aí,
bem acompanhado e coisa e
tal. ora, isso vai estourar, como uma bomba, em nossa cidade.
• já estourou - aparteou o doutor onofre.
• creio que para evitar escândalo - prosseguiu aidor serpe - o padre deveria pedir demissão e ir
para outro lugar mais
liberal...
o silêncio caiu novamente na sala. duas moscas sobrevoavam a mesa de modo irritante. notava-se
que os
demais conselheiros não se sentiam com coragem para falar.
então, o velho josias
pediu licença:
• eu tenho um modesto depoimento a dar. como sabem, o presidente do conselho financeiro
me dera um pequeno quarto nos porões da igreja para morar. meu trabalho seria pela comida.
nunca me queixei. mas, fiquei impressionado com a bondade do padre maurício: me retirou
de lá, me deu quarto na casa paroquial e tomou todos os cuidados durante a doença que me
acometeu ainda nesta semana.
• não vejo razão para falar isto - interveio o doutor pois, ao invés de ser elogio, na verdade
depõe contra o pároco:
primeiro, porque você estava bem remunerado pelo que fazia e, segundo, porque o dinheiro da
igreja é para ser empregado no apostolado...
seu doutor, o senhor é livre para pensar como quiser,
não vamos brigar por isso - frisou josias, reavendo a palavra mas eu quero dizer que o padre dollá é
maravilhoso, tem um belo
coração. os senhores não conhecem nem migalhas do seu mundo
interior. esse negócio de querer julgar já no primeiro encontro,
imaginem só, baseando-se em suposições e conversas de comadres
• desculpem o termo, é que eu também quero ser franco - eu acho que, além de ser injusto e
anticristão, é ridículo. afinal, isso aqui é um conselho a serviço da religião de jesus cristo e foi o
próprio cristo quem disse: “não julgueis e não sereis julgados. com a mesma medida com que
medirdes, assim sereis medidos.” além disso, estou perplexo com o que vejo aqui: esses
mesmos homens, que deveriam ser os primeiros a solidarizar-se com o sacerdote
recém-vindo, se atiram sobre ele com a indisfarçável intenção de expulsá-lo da cidade! isso não se
faz nem para cachorro! falhas,
fraquezas, tudo faz parte da bagagem de cada um de nós, filhos de
adão e eva. meus amigos, o padre maurício tem inteligência e formação suficientes para saber o que
faz, não queiramos ser mais realistas do que o rei. eu gostaria
de perguntar, por fim, com que
autoridade alguém se acha com o direito de investir contra ele. em
nome do quê?
ninguém ousou dizer nada.
agora o silêncio tinha o gume de um punhal.
o padre maurício puxou para diante de si os livros da paróquia e falou com absoluta serenidade:
• os senhores mesmos perceberam que o assunto morreu
por si. mesmo que tudo fosse verdade, nós pertencemos a uma religião que, acima de tudo, é amor.
e o amor procura unir, ao invés
de dispersar; o amor procura compreender, ao invés de condenar; o
amor procura esquecer o mal, ao invés de proclamá-lo aos quatro
cantos; o amor procura ser fiel, ao invés de trair; o amor
procura
aproximar, ao invés de afastar; o amor procura a justiça, ao invés
da falsidade; o amor procura a paz, ao invés de insuflar; o amor,
enfim, procura semear alegria e bem-querença e não a tristeza e o
ódio. sejamos os últimos a julgar e os primeiros a perdoar. ou melhor, segundo a grande sabedoria
do mestre, nunca julguemos ninguém, porque não existe no mundo
alguém tão onisciente a ponto
de saber o que se passa no interior de cada um. eu venho trazer
e
pregar a libertação interior, a grandeza de coração, a paz de espírito e a felicidade de seguir o
melhor caminho, caminho este que
seja,
ainda aqui na terra, um pedaço do paraíso. e é por esse caminho
que nós vamos seguir, mesmo que tropecemos nas pedras e nos arranhemos nos embrulhos da vida.
uma coisa é certa, meus amigos, quem for inocente que atire a primeira pedra. era o que nos
ensinava o mestre. não nos detenhamos a amaldiçoar a sombra, mas sigamos
alegres e confiantes
pelos caminhos da luz. o que importa, pois, é a disponibilidade
permanente de fazer o bem; o que importa é a boa vontade; o que
importa, acima de tudo, é a disposição interior com que fazemos as
coisas e não o tamanho dessas realizações. antes de sermos cristãos, sejamos humanos. sim, muito
humanos. como cristo foi humano e sensível a ponto de amar a pecadora
madalena, o pecador
zaqueu, o bom ladrão, e dizer: “publicanos e meretrizes entrarão
no reino de deus antes que vós.” (mt 21, 31).
todos estavam de olhos baixos. o padre maurício concluiu:
• creio que podemos deixar os assuntos administrativos
para a próxima reunião. nessa ocasião vamos repartir as atribuições sociais, religiosas, litúrgicas e
financeiras, pois eu conto
com a
prestimosa colaboração dos senhores. mais do que com a colaboração, eu conto com a amizade de
cada um. e não se preocupem com
os que quiserem me chamar de pecador. pior seria se eu fosse
perfeito: poderia contrair a mania de não entender e nem tolerar a
fraqueza. muito obrigado pela presença. boa-noite. que a bênção de
deus acompanhe os senhores.
todos se levantaram. não com os ânimos carregados como
quando chegaram. parecia incrível, mas alguns se sentiam mais leves, até mesmo mais contentes
interiormente. haviam descoberto
que servir a religião não é andar com um azorrague nas mãos para
punir os pecadores, mas ter o espírito aberto e alegre para
semear o
amor, a paz e a bondade.
nem todos, porém, saíram com essas intenções.
capÍtulo 3
na residência do doutor onofre Álbarus o clima era irrespirável. em cada canto brotavam faíscas de
ódio e de vingança. o médico atravessava noites de insônia, enquanto
seu filho corrégio
largava-se em noitadas de bebedeiras.
os encontros se davam apenas na hora das refeições e aí
eram discutidos à exaustão os resultados negativos da reunião do
conselho paroquial.
• esses ratos medrosos - berrava corrégio, erguendo os braços, com os punhos fechados.
• mas, não é preciso desesperar-se, meu filho. com calma, nós chegaremos lá. a vida me ensinou
que devagar se vai ao longe...
• sim, devagar se vai ao longe - observou o rapaz - mas depressa se vai mais longe ainda. agora
eu é que vou resolver esta situação a meu modo. vou mostrar com quantos paus se faz uma
canoa.
• veja bem o que vai fazer e como vai fazer - ponderou o médico. - olhe que nós temos uma
posição a zelar. tudo pode ser feito, mas com inteligência. nesta selva moderna vence quem
pode mais. deixe para mim.
era uma hora da tarde. o doutor onofre foi tentar uma
breve sesta e corrégio saiu para a rua.
silvana, nessa mesma hora, seguia para a faculdade. enquanto dirigia o carro na monotonia das ruas
quase desertas,
pensava em maurício. sentia uma imensa vontade de encontrar-se novamente com ele. pediria
desculpas e abriria seu coração. afinal,
ele tinha que compreender as incoerências de um coração jovem.
há momentos em que o coração salta, como o cervo das montanhas, e a gente tem que correr atrás
dele para segurá-lo. isso é,
até,
bonito; não há mal nenhum - pensava ela. sim, é preciso ver a vida com olhos simples, alegres,
espontâneos, amorosos... mas, onde
é que anda o meu pensamento, santo deus! - exclamou ela, tendo
a impressão de que acordava de um longo devaneio. - e se eu escrevesse uma carta para ele? talvez
seja bem mais fácil dizer
tudo
que estou pensando e sentindo. sim, uma carta seria melhor. de
início, ele poderia ficar chocado, mas, depois, quem sabe,
pensando
com mais calma, encontraria alguma boa palavra para mim... e,
agora, vou lá ou escrevo?
quando silvana se deu conta, já estava estacionando o carro defronte à faculdade. tomou os livros e
mergulhou no mundo
inesgotável da ciência.
À noite, o padre maurício entretinha-se em conversa com
dona ermelinda e o velho josias. depois de brincar, dizendo que
ainda ia casar josias com dona ermelinda, foi saindo para o seu
gabinete com o sacristão a fim de trocarem idéias sobre a reunião do
conselho.
• É incrível - refletia dollá - como o nosso cristianismo é ainda truculento. do tempo em que se
ficava três horas rezando dentro da igreja e se saía a formar rodinhas e falar mal de todo mundo.
no fim das contas, somos nós, os cristãos, que criamos a imagem de que a religião seria como
um bando de bruxas caçando e excomungando hereges e pecadores. aliás, nem o cristo escapou
disso e acabou sendo crucificado como herege, revoltoso e infiel.
ocorre que já se passaram quase dois mil anos, cheios de lições e
de
ensinamentos, e está na hora de se aprender alguma coisa.
• infelizmente - raciocinou josias, coçando a barba - o
coração humano é muito mais complicado do que pode medir nossa vã filosofia, isto para falar ao
estilo de antigamente.
• embora vivamos uma época de adiantados meios de comunicação - voltou a comentar maurício
- dificilmente as pessoas conseguem apreender a verdade redonda, completa.
cada um
se baseia na visão de seu ângulo, verdadeiro como parte, mas incompleto no todo.
depois de um longo diálogo aberto e franco, ambos se retiraram para seus aposentos.
onze horas da noite.
debaixo da porta do quarto de maurício havia uma carta.
em sua casa, o doutor onofre estava muito nervoso. a cama parecia queimar-lhe o corpo. virava-se e
revirava-se em vão.
não adiantava fechar os olhos. a imagem daquele homem moribundo perfurava-lhe as vistas. de
dentro do peito subia uma ânsia
amarga e nojenta e ele se sentia como judas iscariotes fugindo
em
desespero pelas ruas de si mesmo. sua vontade férrea se diluíra,
sua
superioridade social se esboroara... e ele se contorcia como um
verme em cima das brasas.
ao toque da campainha, dona ermelinda levantou-se estremunhada de sono e foi atender.
• por favor, eu queria que o padre fosse à minha casa, porque meu pai está passando muito mal.
era um rapaz de barbas negras e limpas. trajava blusão de
lã. lá fora fazia um frio cortante.
• não dá para esperar até amanhã de manhã? - perguntou a porteira, preocupada com o sacrifício
que teria que fazer o
jpadre maurício.
• o doutor onofre Álbarus disse que ele não resiste até o amanhecer e insistiu para que
chamássemos o padre ainda nesta noite.
em poucos instantes, maurício desceu com a maleta que
sempre usava para o atendimento religioso de casos graves.
vestiu a
japona que sua mãe lhe dera no último aniversário e afundou na escuridão.
uma hora da madrugada.
o rapaz o conduziu até o bairro santa terezinha.
era uma casa humilde. a família estava reunida em torno
do agonizante. via-se que, do ponto de vista da medicina, nada
mais havia a fazer.
o padre maurício entrou silenciosamente, abriu a pasta e tirou o ritual, o vaso do óleo dos enfermos
e a água benta. proferiu
pausadamente as preces da unção dos enfermos, enquanto ungia a
testa, a mão esquerda, a mão direita, o pé esquerdo e o pé direito,
! pedindo a deus saúde para o corpo e perdão para a alma. depois,
tomou o crucificado na mão e aproximou-o dos lábios do moribundo. este, num gesto quase
imperceptível, beijou o peito do
cristo.
era o sinal sensível do arrependimento. para dollá, aquele gesto
significava a redenção de sua alma. para os outros, poderia ser
apenas um beijo ritualístico, mas, para o sacerdote, esse beijo
realizava
o milagre de apagar todos os pecados e maldades cometidos ao
longo da existência; em outras palavras, significava a reconciliação
amorosa com deus. era o passaporte para o céu. segundo a
certeza
do padre maurício, o moribundo acabava de vestir o traje de gala
para o encontro com o criador, se ocorresse o desenlace.
o rapaz quis acompanhar o padre, no retorno para casa,
mas este poupou-lhe o sacrificio:
• não, muito obrigado. fique aqui e acompanhe os últimos momentos de seu pai. É o melhor que
pode fazer. eu sei o caminho da volta.
dando uma bênção geral a todos os que estavam no quarto,
desejou boas melhoras, confortou a família e se retirou.
o frio da noite açoitava seu rosto. apesar da japona, sentia
um aperto gelado na espinha. apressou o passo para aquecer o
corpo. levantou a gola da japona até o queixo e lembrou-se de sua
mãe e das palavras que ela proferira quando contou-lhe que
desejava ser padre: “meu filho, você pode ser o que quiser, desde que
seja feliz.” e ele se considerava feliz. há poucos instantes, o
sacrifício da caminhada, do frio e do sono interrompido, fora, em
muito,
suplantado pela imensa alegria interior que sentiu por ter
levado
paz de espírito a um moribundo e conforto a uma família aflita. ao
sair, o reconhecimento dos familiares... tudo isso
sensibilizara seu
coração.
envolto em seus pensamentos, percorria ele uma das ruas
mais escuras do bairro santa terezinha quando, subitamente, percebeu
algumas sombras se aproximarem em disparada, como se
fossem vampiros da noite.
• É ele!
foi o único grito que explodiu na noite, com a fulminância
de um raio.
antes que pudesse dar-se conta do que ocorria, um bando
de célerados jogou-se furiosamente sobre ele, como lobos vorazes,
desencadeando uma tempestade de murros, bofetões, pauladas e
facadas. maurício não teve tempo para nada. foi agarrado, lanhado,
rasgado, cortado de cima a baixo, arrebentado a porretaços, e
atirado como morto na sarjeta.
com o mesmo mistério com que apareceu, o grupo sumiu
na escuridão.
um veio de sangue foi se formando por entre as pedras da
rua.
silvana foi despertada por um movimento estranho e confuso em sua casa.
vozes à surdina.
passos apressados para cá e para lá.
esfregou os olhos.
a luz da varanda traçava uma risca de fogo embaixo da
porta. levantou-se. havia medo em seus passos. colou o ouvido na
porta, na tentativa de ouvir o que se falava. entre outras
vozes, sobressaía o tom cavernoso do doutor onofre. que pretenderia ele
àquela hora da madrugada?
“deve estar morto...”
as vozes seguiam embaralhadas e indistintas:
“... atentado... padre maurício...”
silvana desesperava-se. a conversa chegava ao quarto de
forma confusa e entrecortada. teve vontade de abrir a porta.
mas,
conteve-se. podia ser pior. neste jogo de xadrez de sons,
conseguiu
perceber que houve um atentado contra o padre maurício. mas,
onde? pelo amor de deus, onde? seus lábios tremiam. era impossível sair em socorro sem saber para
onde.
o doutor onofre continuava com sua voz fanhosa e ininteligível. para sorte da jovem, a dona
margarida perguntou nitidamente:
• mas, onde é que foi isso?
a resposta veio imediata:
• ouvi falar que foi na rua santa efigênia, esquina com presidente lincoln. lá no bairro santa
terezinha. silvana não esperou mais nada. vestiu-se às pressas, tomou a chave do carro e saltou
a janela.
com o pé enterrado no acelerador, percorreu as ruas da cidade em frenética disparada.
as ruas, a estas horas da madrugada, estavam desertas. fez
a volta na praça da matriz rangendo as rodas, entrou pela
travessa
brasil na contramão e tomou a avenida europa. em poucos instantes
chegou no bairro santa terezinha. a rua santa efigênia
estava totalmente às escuras, mas, já a uma distância de cem metros,
os holofotes do carro se projetaram sobre um homem estendido na
sarjeta.
era ele.
saltou do carro e gritou horrorizada:
• padre maurício!
ajoelhou-se nas pedras sujas e encostou a mão no coração
dele. ainda pulsava. só então percebeu que não teria forças para
colocá-lo no carro.
• meu deus, ajudai-me!
reuniu todas as suas forças e conseguiu aproximá-lo da
porta direita. abriu-a, inclinou totalmente o banco para trás e
suspirou quase desanimada. maurício gemia, num fio de voz.
• coragem, padre maurício! - sussurrou ela, chorando.
o sangue e os ferimentos formavam uma horrenda crosta
no rosto dele. a roupa, rasgada em vários lugares, estava
ensopada
de sangue. uma cena trágica e dolorosa.
por fim, silvana deu-se a um esforço sobre-humano e conseguiu estendê-lo no banco.
69
sem perda de tempo, abalou-se em alta velocidade para o
hospital. um atendimento imediato talvez pudesse salvá-lo.
ao chegar ao hospital santo onofre, correu para a portaria
e pediu uma maca para transportar a vítima. o porteiro veio até o
carro e, vendo que se tratava do padre maurício dollá, disse que
não podia recebê-lo.
• como?! - exclamou, perplexa, silvana, não acreditando no que estava ouvindo.
• É isso aí. estou proibido de receber o padre. ordem da direção. não há vaga no hospital.
silvana se deu conta de toda a trama. diabolicamente bem
feita.
mas, ele está morrendo! - implorou, com lágrimas nos
olhos.
• não posso. você sabe, se eu o receber, perco o emprego.
além disso - completou ele, olhando a vítima - creio que nada
mais pode ser feito...
a jovem estava a ponto de desesperar-se. não era possível
ver seu amigo, seu querido amigo, morrer, e morrer em seu carro
sem nada poder fazer. seria a suprema tragédia de sua vida.
que fazer?
gritar para a cidade toda, diante de tamanha desumanidade?!
um lampejo quase milagroso em sua mente deu-lhe uma
idéia. entrou no carro e dirigiu-se para a casa de marisete, uma
enfermeira especializada, sua amiga. seria o último recurso para
salvar a vida daquele homem.
depois da terceira batida forte na porta, marisete abriu
cautelosamente a janela.
• silvana?! que você quer a estas horas?!
a voz de marisete traduzia espanto e estranheza.
• abra, pelo amor de deus, marisete! assaltaram o padre maurício no bairro santa terezinha e eu o
recolhi nas últimas. está aqui no carro. por tudo que há de mais sagrado no mundo, vamos
tentar salvá-lo.
• mas, por que não o levou para o hospital? ! - perguntou a enfermeira, sem entender a situação.
• o hospital não o quis receber. depois lhe conto. por favor, me ajude, vamos tentar fazer alguma
coisa.
ao ver o estado deplorável da vítima, marisete exclamou:
• que horror!
tomaram maurício com o maior cuidado e, num esforço
muito grande, o conduziram para dentro da casa. marisete estendeu um lençol sobre a mesa da
varanda e aí depositaram o padre
dollá, ainda sem sentidos.
puseram água a aquecer e recolheram todo o algodão, gaze, mercúrio, água oxigenada e tudo o
mais que havia na casa.
silvana pôs-se a cortar a roupa de maurício, com muita delicadeza, não só por causa das partes
coladas no corpo, como também para evitar que se abrissem outras veias.
marisete começou a
limpar cuidadosamente o rosto retalhado e cheio de edemas. ela
tinha prática e realizava seu trabalho com segurança. silvana se empenhava ao máximo em ser-lhe
útil. Às vezes desandava numa crise
de choro. mas, recuperava a calma e passava a mão suavemente pelo rosto dele, proferindo palavras
de conforto e encorajamento.
aos poucos, ele foi voltando a si. abriu os olhos e fechouos, contraindo-se de dor.
marisete sentiu a reação dele e murmurou satisfeita:
• ele vai se salvar. está reagindo.
silvana respondeu com uma pequena torrente de lágrimas a
cair-ihe pelo rosto.
com uma toalha molhada em água morna, o trabalho se
tornou mais eficiente e mais suave. À medida que as manchas de
sangue coagulado eram retiradas, podia-se avaliar melhor a
gravi dade dos ferimentos.
• você disse que o hospital não quis recebê-lo? - perguntou a enfermeira.
• pois é, o plantão disse que estava proibido de receber o padre e, se o recebesse, seria despedido.
• banditismo! - xingou, baixinho, marisete.
• só quero ver o que vai acontecer com você quando o doutor onofre souber que atendeu o
padre...
• eu não trabalho mais no hospital. fui despedida.
marisete fechou o rosto com dureza. silvana voltou-se surpresa:
• não diga?! mas, o que houve?!
• o doutor deixou uma paciente no meio da cirurgia para ir conversar com o filho dele e, quando
voltou, a paciente havia morrido. como eu lhe fiz uma observação qualquer, me despediu na
mesma hora. É um mau-caráter.
• como o filho dele!
maurício já estava consciente e suportava dores agudas.
dava a impressão de estar todo estraçalhado.
• coragem! - murmurou-lhe, ao ouvido, silvana. - tudo vai dar certo.
• onde é que estou? - perguntou, com voz sumida.
silvana aprestou-se a responder:
• na casa de uma enfermeira. fique tranqüilo. o hospital não quis recebê-lo, mas, com a ajuda de
deus, o senhor ficará completamente bom.
• tenha um pouquinho de paciência - falou, com bondade, marisete. - nós precisamos limpar
todos os ferimentos; isto é
importante.
• obrigado! - murmurou ele.
o sangue estancara. havia, no entanto, muitos hematomas
profundos, que deixavam grandes manchas arroxeadas na pele. o
rosto estava duramente castigado. no olho esquerdo havia uma inchação escura. o peito apresentava
diversos cortes profundos e
muitas machucaduras mais ou menos sérias. as coxas, as pernas e
as costas, com dolorosas arranhaduras.
• tudo está em saber se aconteceu algo de grave por dentro - cochichou, à meia voz, a enfermeira.
• saber como? !
silvana pensava nas portas barradas do hospital.
• deixe para mim. graças a deus, esses anos de experiência no hospital e no atendimento aqui em
casa me trouxeram muitos conhecimentos. se houver algum osso fraturado
ou fora do lugar, eu sei quem poderá resolver o problema.
e, olhando para o trabalho feito, decidiu:
• agora, silvana, vamos colocar o padre de costas. assim, devagarinho. com jeito. pronto.
enquanto o corpo girava, maurício sentia como se um
montão de pedras estivessem se desconjuntando dentro dele. gemeu sufocadamente.
o trabalho recomeçou. difícil. doloroso. vagaroso.
o relógio da varanda deu quatro horas quando, finalmente,
deixaram maurício em paz.
• agora - observou marisete - vamos deitá-lo na minha cama. dar-lhe-ei calmantes para
adormecer. de manhã cedo irei até a farmácia comprar mais algodão, gaze e outros remédios.
• você é maravilhosa - disse-lhe silvana, comovida.
• É questão de humanidade, silvana. afinal, somos cristãos. além disso, trata-se de um padre, isto
é, de uma pessoa que
tem uma presença muito importante na comunidade. de mais a
mais - e a enfermeira sorriu com ternura - trata-se de uma
pessoa muito cara a você.
silvana permaneceu um pouco pensativa. e desabafou:
• É... acho que sou a culpada disso tudo...
com muita calma e cautela, carregaram maurício até a cama de marisete que, por fim, exclamou:
• graças a deus, tudo bem. ele deve ter sentido bastante dor, mas agora poderá dormir.
dito isto, foi até a cozinha buscar um copo de água. silvana ficou guardando a cabeceira da cama.
• padre - falou a enfermeira com o copo de água e dois comprimidos na mão - por favor, tome
esses comprimidos. maurício abriu os olhos. conseguiu engolir os calmantes.
• agora durma. o pior já passou. nós cuidaremos do senhor.
e a enfermeira sorriu para ele:
• pode ver que não existe só gente ruim neste mundo...
maurício buscou retribuir o sorriso. seu rosto parecia calmo, mas percebia-se que sofria muito.
• muito obrigado... por tudo... - sussurrou, com voz débil.
• estamos felizes por poder ajudá-lo. agora não fale mais. trate de dormir.
marisete saiu para a cozinha. silvana inclinou-se até a testa
de maurício e deu-lhe um beijo. sem querer, deixou caírem duas lágrimas no rosto dele. havia muita
bondade no olhar.
ao chegar na cozinha, marisete passou a descrever-lhe o estado geral do paciente.
• se não fosse você socorrê-lo em tempo, não sei, não.
talvez tivesse morrido como um cão, na rua...
a enfermeira sentou-se ao lado do fogão. cruzou as pernas,
procurando uma posição cômoda. era moça feita. cerca de
vinte e dois anos de idade. de rosto bem torneado, cabelos negros,
olhos azuis, tez bronzeada. busto firme. notava-se que ela
gostava
de si mesma. e isso a tornava agradável, porque o bom humor e a
bondade fluíam ao natural de dentro dela. ofereceu uma cadeira
para silvana.
ao sentar-se, só então silvana percebeu que estava com a
roupa toda ensangüentada:
• bah! veja o meu estado. vou ter que lavar este vestido agora mesmo.
• então, vista o meu chambre. está no roupeiro.
silvana trocou a roupa e dirigiu-se ao tanque, situado ao lado esquerdo da porta da cozinha.
marisete olhava para a jovem, tentando imaginar o que poderia existir dentro
daquele coração. perguntou com suavidade na
voz:
• você gosta dele?
• muito!
• sabe, eu gostaria que você me contasse alguma coisa sobre ele. eu sou católica, vou à igreja
quase todos os domingos,
mas
nem todos os padres conseguem dizer alguma coisa para mim. eu
me sinto bem com aqueles que trazem mensagens mais otimistas,
mais humanas, que tocam o coração.
• você quer se referir às mensagens que animam, que valorizam o ser humano, que incentivam,
que elevam, enfim que fazem
a gente amar a vida e amar a deus?
• sim, porque eu busco a igreja para receber forças espirituais, para levantar o espírito, para
encher de luz os cantos do
coração que estejam na sombra do desânimo e da depressão. se recebo
uma bateria de ameaças sobre o inferno, sobre os males do mundo,
sobre os erros e fraquezas da humanidade, ao invés de levantar o
meu astral, me comprime, me angustia, me desanima.
• concordo com você. ao invés de se pregar contra o mal, dever-se-ia pregar o bem.
• É verdade. de tanto falarem sobre o mal, carrega-se a impressão de que o mundo é mau, de que
a humanidade é má, de que o mal é mais forte do que o bem, o que é um equívoco inadmissível.
• É mesmo - consentiu silvana - e aí fica-se a vida inteira lutando contra moinhos de vento. eu
acredito é no bem e não
no mal. para mim o mundo é mundo de deus, a humanidade é humanidade de deus, pois foi ele que
os criou. o mal não é nada mais
do que a sombra, ou seja, a ausência da luz. basta iluminar e a
sombra desaparecerá.
• quem nos vê nesse papo pode até pensar que somos doutoras da igreja - brincou marisete.
• mas, um pouquinho de razão nós temos, não é verdade?
a gente passa a semana na luta, atendendo a mil coisas,
carregando
a mente com problemas e preocupações e pensa ir à igreja no domingo para recarregar as baterias,
refrescar a mente e o coração,
receber forças e energias superiores, para enfim, restabelecer a
fé na
vida e encher de sol o coração.
• voltando ao assunto, na noite em que o padre maurício tomou posse, eu estava de plantão no
hospital. como é ele?
• ele é extraordinário. queria que você tivesse ouvido as palavras que proferiu na noite em que se
apresentou ao povo. não apareceu como um profeta tempestuoso e rígido, a descarregar
raios e anátemas, mas como um amigo disposto a ajudar, um amigo honesto e sincero, cheio de boa
vontade, reconhecendo, no
entanto, suas limitações e fraquezas. disse que as portas do seu coração
e
da sua casa estariam sempre abertas para os que sofrem, para os
angustiados, para os abatidos e desanimados. disse que queria
caminhar junto de cada um... assim ele foi falando...
• gostei. palavra, que gostei. a simplicidade, a bondade e a boa vontade aproximam mais do que a
autoridade e o pedestal, como se diz. eu aprecio realmente um padre de espírito aberto e
arejado, que entende que a verdade pode ser muito mais ampla que a visão que ele mesmo tem.
descendo a voz para um tom confidencial:
• silvana, acho que em breve vou pedir um conselho a este padre. se eu conseguir coragem, claro.
• pode ir, mari, ele é muito bom. ele compreende as situações...
• mas... é que o meu caso não é nada cristão... você nem imagina, silvana... eu estou num beco
sem saída... É que... É que...
a enfermeira estava encabulada e as palavras não saíam, ou
melhor, ela titubeava se devia ou não contar. mas, o segredo lhe
pesava demais e acabou desabafando:
• É que... já estaria na hora da menstruação e... nada.
deus me livre... eu não posso, não quero, não aceito, de forma alguma. sou solteira. não tenho
sequer condições... mas, pelo amor
de deus, nem falemos nisso, credo!
• uma coisa posso lhe dizer, mari. se você for pedir uma palavra para ele, não se arrependerá.
silvana pendurou a roupa atrás do fogão a fim de secar
mais depressa. lavou as mãos na pia e disse:
• marisete, você deve estar cansada. pode ir deitar-se, que eu cuido do padre maurício.
• bem, eu vou dar uma descansadinha. daqui a uma hora, me acorde. claro, se ocorrer algum
problema, me chame a qualquer momento. ambas se dirigiram, na ponta dos pés, até o quarto
em que estava maurício. ele dormia. marisete retirou-se, então, para o outro quarto e deitou-se.
silvana permaneceu de vigília.
encostou-se à
parede e ficou a contemplar aquele corpo todo machucado. seus
pensamentos voaram, num relance, até a esquina da rua santa efigênia e ela viu novamente os
holofotes do seu carro iluminarem um
corpo jogado na sarjeta como se fosse um criminoso abatido na
calada da noite. recordou a corrida desesperada contra a morte
rumo
ao hospital e, depois, à casa de marisete... que anjo bom lhe
teria
soprado este nome precisamente no momento em que sua mente se
encontrava confusa e atordoada?
maurício mexeu-se na cama. abriu os olhos devagarinho.
os lábios se moveram para dizer alguma coisa. silvana se aproximou.
• obri...ga...do... pela... car...ta...
a jovem ficou comovida. num gesto meigo e feliz, pôs o
indicador na boca, fazendo sinal de silêncio:
• pss! nada de falar! - sussurrou afetuosamente.
maurício sorriu levemente e fechou os olhos, tentando conciliar o sono.
..
Às sete horas da manhã, marisete foi acordada. tudo andava bem com maurício.
prepararam o café e o tomaram. após, enquanto marisete
saía para a farmácia, silvana encarregou-se de levar o desjejum ao
doente.
eram nove horas quando maurício abriu os olhos.
• bom-dia - disse-lhe a jovem. - vou buscar o café.
a muito custo, maurício sentou-se na cama, apoiado por
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quatro travesseiros. parecia moído até os ossos.
silvana sentou-se na beira da cama e pôs-se a servi-lo:
• prefere mais café ou mais leite?
• metade - murmurou ele, com um suspiro de dor.
maurício ingeria os alimentos muito vagarosamente e com
grande esforço.
silvana baixou os olhos e pediu perdão:
• sinto muito o que aconteceu. eu... eu sou a culpada de tudo... desculpe.
maurício ergueu os olhos, com muita pena, e falou, num
fiapo de voz, que se perdia no fundo da garganta:
• não pense nisso... nada tenho a... perdoar... e sim... a agradecer... se não fosse você... teria
morrido... na rua...
abandonado...
as lágrimas rolaram dos olhos de silvana.
maurício se comoveu:
• não chore... você é maravilhosa...
marisete chegou com volumoso pacote nos braços. depositou-o sobre a mesa e perguntou:
como é que vai o nosso doente?
• acho que está se recuperando muito bem - respondeu silvana, recolhendo a bandeja do desjejum
que maurício acabara de tomar e se dirigiu à cozinha.
• isto é ótimo - considerou marisete, acompanhando silvana. - precisamos ver se nada de grave
está ocorrendo por dentro. devemos ficar alerta quanto a isso. acompanhar
os sintomas
que porventura surgirem, como febre, vômitos e outros sinais.
silvana permaneceu pensativa e preocupada.
• que é que houve? - indagou a enfermeira.
• mari, e agora o que é que vamos fazer? afinal, ele está em sua casa... devemos avisar na casa
paroquial ou não?
• bem, quanto a ficar aqui, não tem problema. agora, quanto a avisar ou não... não sei... que é que
você acha? silvana ficou a pensar. buscava analisar a situação. por fim, expôs:
• olhe, é certo que os promotores do atentado não vão fazer alarde do desaparecimento da vítima.
tudo aconteceu em alta
madrugada e eles entendem que ninguém foi testemunha do fato. o
doutor onofre e seu filho, que, sem dúvida, foram os mandantes
do crime, por certo deixarão que os acontecimentos venham à
tona... ainda mais que eles alimentam a certeza de que o padre
morreu... bem, na casa paroquial vão dar falta do padre e aí é
claro
que alertarão a cidade. por outro lado, quando souberem do acontecido, quererão levar o padre a
fim de que lhe seja administrado
um tratamento mais especializado e, então, ocorrerá o pior: todo o
povo saberá do atentado e ninguém segurará os comentários... até
mesmo a imprensa tratará de explorar o assunto...
ambas ficaram em silêncio. silvana foi até a janela, abriu
as cortinas e quedou-se a contemplar o jardim banhado de sol.
uma rosa vermelha pendia sem vida de um ramo e a jovem sentiu
um arrepio, como se a flor fenecida significasse um mau
presságio... não, ele não irá morrer, pensou ela.
marisete tomou a palavra:
• e se perguntássemos a ele?
foram até o quarto.
• bom-dia - saudou-o a enfermeira. - espero que esteja
se recuperando bem. gostaríamos de saber se devemos avisar na casa paroquial. fale baixinho, com
calma, sem esforço.
ele ficou calado por instantes. remexeu-se com muito cuidado, suspirou profundamente e falou:
• eles sabem que eu saí... para atender um doente... se não forem avisados... alarmarão a cidade...
seria bom trazer aqui o... josias... então, a gente conversa. as duas se retiraram.
• mari - observou silvana - se eu for, poderei despertar suspeitas, uma vez que lá em casa já se
deram conta de que eu desapareci. quanto a você, poucos a conhecem...
• deixe que eu vou, sim.
• tome um táxi, mari. eu pago.
a enfermeira saiu e silvana aproveitou para tirar seu carro
da rua e conduziu-o para os fundos da casa, estacionando debaixo
de duas laranjeiras.
na casa paroquial, o velho josias recebeu a informação e se
dispôs a acompanhar imediatamente a enfermeira. antes, porém,
pediu para dona ermelinda não dizer nada a ninguém, a não ser
que o padre saiu para serviço pastoral.
enquanto o táxi percorria as ruas, marisete contou-lhe, por
• alto, o que tinha acontecido. josias lembrou-se, então, das duas pessoas estranhas que tinham
ido até a casa paroquial perguntar pelo vigário.
meia quadra antes de sua casa, marisete mandou parar o
táxi e ambos desceram.
josias caminhava muito preocupado. no fundo, tinha um
terrível pressentimento de que iria encontrar seu amigo morto.
ao ver o padre maurício naquele estado lastimável, não
conseguiu dominar seu espanto:
• padre maurício! mas, que barbarismo! não é possível!
maurício fitou-o com bondade. espraiou um leve sorriso,
como a dizer que o pior já passara, e contou, com um fio de voz:
• até nem sei... como é que estou vivo... se não fossem elas...
• soube, por esta jovem, que o hospital não quis recebêlo. um crime pior do que o outro...
• existe de tudo neste mundo, josias... mas, também, existe gente boa e generosa... - ajuntou,
voltando o olhar para as duas moças.
• sei que o senhor está bem atendido aqui, mas, se quiser ir para a casa paroquial... ou se quiser
que traga um médico de outra cidade...
josias não queria desgostar as duas jovens, por isso falava
com tato, apalpando os termos.
marisete interveio:
• creio que, de momento, não há necessidade de maior
preocupação. estamos de sobreaviso sobre possíveis problemas internos de gravidade.
silvana olhava em silêncio para maurício. e pensava nas
palavras do velho. então, argumentou:
• aqueles que pretendiam matar o padre, por certo estarão de olho na casa paroquial. morto ou
vivo, pensarão eles, deverá ele ser conduzido para lá. e, possivelmente,
estão preparando
uma onda de boatos a fim de conseguir, pela maledicência,
aquilo
que não conseguiram pela força. acho bom deixarmos o padre
maurício aqui enquanto houver ferimentos que exijam cuidados especiais. depois, a gente veria o
que fazer.
os olhos de josias luziram. era a vigorosa inteligência do
velho que se dava conta de toda a trama de que fora vítima seu
amigo. e, uma idéia iluminou-lhe a mente:
• neste caso, podemos confundir os assassinos e deixá-los de faro perdido.
todos os olhos se fixaram naquele barbudo que falava como um estranho personagem do velho
testamento:
• se o padre maurício estiver de acordo, ficará aqui até o restabelecimento total. enquanto isso,
para os que quiserem saber do padre, eu direi que viajou para um curso especial e voltará dentro
de alguns dias. será o mesmo que por água fria na fervura. É certo que deixaremos impunes os
bandidos, mas quer-me parecer
que denunciar à polícia só conturbaria a situação, uma vez que levantaria uma onda de boatos na
cidade e poderia oferecer chances
aos inimigos de armarem mais alguma complicação. para mim,
desculpem o juízo temerário, é gente importante que está metida
nisso...
josias silenciou. passou a mão na barba e ficou pensativo.
e triste. seus olhos pareciam vagar por algum mundo distante.
depois, sentou-se na cama e perguntou baixinho:
• o senhor está de acordo?
maurício abriu os lábios devagarinho e deixou escapar um
sorriso condescendente. seus olhos fitavam com admiração aquele
velho que até pouco tempo estava apodrecendo nos porões da igreja.
..
na residência de onofre albarus havia reunião permanente. corrégio jurava que o padre estava
morto. nenhuma notícia,
no entanto, corria pela cidade. silêncio total. insuportável. como
por encanto, o padre desaparecera. teria sido enterrado às
escondidas? ou fora levado para sua terra natal a fim de ser dado à
sepultura condignamente? quem sabe, teria sido recolhido e salvo por
alguém? era possível até que estivesse na casa paroquial. por que
não? recolhido a um quarto, estaria convalescendo sem que ninguém tomasse conhecimento do que
havia acontecido. mas, por
que motivo não teriam comunicado à polícia?
o doutor onofre se defrontava com um intrincado enigma.
apesar das inúmeras explicações do filho, não podia confiar nele.
talvez, até estivesse bêbado naquela noite.
• pela milésima vez, corrégio, como é que você fez?
o rapaz encheu de novo o copo de uísque e voltou a contar
o que acontecera. sua voz já estava bastante engrolada e as palavras saíam aos solavancos, com
certa dificuldade.
o pai se irritou:
• e quando é que você vai parar de beber? está na hora de criar juízo, ouviu? eu estou cansado de
passar vexame por sua
causa. veja quantos aborrecimentos este maldito vício está me trazendo. pare de beber e fale como
gente!
o rapaz segurou o copo na mão e arrancou um sorriso idiota e irônico ao mesmo tempo:
• eu bebo com a minha boca, entendeu? agora, só porque o caso ficou misterioso, eu é que tenho
que agüentar o seu
nervosismo?
aproximou-se do pai, ergueu o copo e resmungou:
• calma, velho, tome um pouco pra passar essa agonia...
o pai alçou-se num acesso de fúria, arrancou o copo da
mão do rapaz e jogou-o com raiva no chão, esparramando cacos de
vidro e bebida por toda a sala. incontinenti, saiu lívido de
raiva pela porta dos fundos.
...
na casa de silvana, a apreensão tomou conta do casal desde a manhã do dia do atentado, quando a
moça não foi encontrada
em casa. depois de muitas ponderações, andré e margarida chegaram à conclusão de que o
desaparecimento da filha poderia ter algo
a ver com o atentado. afinal, ela desapareceu naquela mesma
noite
e não voltara. já estavam cansados de informar o doutor onofre de
que ela ainda não tinha aparecido. que explicação poderiam dar?
eles sabiam tanto quanto o médico: a moça sumira e não voltara.
era tudo. teria ela ouvido a conversa daquela madrugada e
fora socorrer o amigo? nesta hipótese, deveria saber se ele
estava
morto ou vivo. ela teria a chave do mistério.
naquela manhã, como faziam costumeiramente, andré e
margarida conversavam na cozinha. o assunto, há dias, era o
mesmo.
• eu acho que essa história não vai acabar bem - disse o velho andré, recostando-se na cadeira
preguiçosa.
• em todo caso, nós não temos nada a ver com isso. o problema é do médico e do filho dele -
comentou margarida, olhando para fora da janela.
dos fundos da casa, descortinava-se um amplo vale, onde
agricultores mantinham plantações de trigo e imensos pomares de
pêssegos, laranjas e peras. na depressão mais abrupta do terreno,
uma sanga formava uma pequena lagoa, cercada de juncos e densa
grama. o sol iluminava fartamente o vale todo. margarida percorria a paisagem com os olhos
embevecidos. e a nostalgia do seu
coração se projetava sobre aquele panorama bucólico. quando uma
garça levantou vôo do lado esquerdo da lagoa e subiu o vale, como
um ponto branco a perfurar o azul do céu, ela sentiu como se o
seu
coração estivesse sendo carregado pelas asas daquele pássaro. a lagoa estava calma. apenas, numa
pequena enseada, as águas, de vez
em quando, formavam ondas concêntricas. foi, então, que ela viu
dois jovens sentados entre os juncos, na beira da água. viu
quando
eles se beijaram longamente e se deitaram sobre a espessa
grama. o
rapaz foi subindo suavemente para cima da jovem, deleitando-se
num protundo beijo que fundia, à distância, os dois rostos num só
rosto. depois, ele desceu a beijar repetidamente o pescoço e o
pequeno vale formado pelos seios. abriu a blusa da jovem, sacou o
sutiã e desencadeou uma torrente de beijos nos seios. a moça se
retorcia como uma cobra e passava as mãos pelos ombros, pelos cabelos
e pelos quadris do rapaz. quando ele abriu a saia dela,
dona
margarida fechou a janela, toda envergonhada, e foi preparar o
café.
bateram à porta.
• velha, estão batendo - avisou seu andré, sem nenhuma
vontade de atender.
a esposa foi ver.
era onofre Álbarus.
• entre, doutor, a casa é sua. vamos até a cozinha tomar um cafezinho.
• muito obrigado - respondeu polidamente o médico. e o seu andré? como é que vai com a
diabetes?
• ora, ele é meio relaxado no regime, o senhor sabe. mas, vai indo...
na cozinha, o médico encontrou-se com o casal. era o que
queria. depois de rodear a conversa, perguntou, com fingida
indiferença:
• e a silvana?
• não apareceu - resmungou seu andré. - e nem posso imaginar o que está se passando com ela...
• seu andré - começou o doutor, meneando a cabeça
com acenos de preocupação - acho que o senhor devia tomar alguma providência. afinal, ela é sua
filha. boa coisa não deverá estar fazendo.
• e o que é que o senhor acha que eu devo fazer?
• por exemplo, informar a polícia.
• não vejo razão para tanto - redargüiu o velho. - pelo menos por enquanto, pois ela é maior de
idade e, às vezes, sai para cursos intensivos, essas coisas da faculdade, o senhor sabe como é...
o doutor Álbarus não gostou da resposta. sem muita paciência
entrou de rijo:
e, se ela está envolvida no atentado do padre? note o senhor que ela desapareceu precisamente
naquela noite...
• a gente não pode saber, não é mesmo, doutor onofre?
diante das investidas do médico, instintivamente o velho
andré ficou na defensiva. mas, onofre insistiu com veemência:
• É possível que a gente esteja aqui num quebra-cabeça e a sua filha tramando ao avesso por aí,
às escondidas. o caso é grave e o senhor não pode ficar de braços cruzados.
• olhe, doutor, eu já sou velho e doente. silvana tem idade, tem estudo, sabe o que faz e...
• não sabe coisa nenhuma - cortou, com voz ferina e cavernosa, o médico. - se soubesse, não
estaria envolvida com este
padre; se soubesse, não teria rompido estupidamente o noivado
com meu filho. e tem mais: sinto muito, mas sou obrigado a
dizerlhe que, se o senhor e a dona margarida não tomarem providências
urgentes, poderá surgir uma onda na cidade de que a moça fugiu
com o padre...
onofre voltou-se para os dois com os olhos faiscando diabolicamente.
• fique calmo, doutor - reagiu, muito assustado, seu andré - nós vamos tomar providências.
• É isso mesmo - complementou, também assustada, dona margarida. - a gente vai sair atrás da
silvana. fique
descansado, doutor.
• está bem, vou aguardar, com impaciência, os acontecimentos.
levantou-se e foi saindo. já na porta, virou-se para dona
margarida, que o acompanhou, e disse incisivo:
assim que tiverem qualquer notícia, me avisem. até logo.
• fique tranqüilo, doutor. faremos isso.
mas, ele nem ouviu a resposta. já estava na rua.
ao cair da tarde, na hora em que os sinos tocavam a avemaria, silvana abriu a porta da frente e
entrou em casa. dona
margarida, que estava cerzindo na cozinha, ficou tão surpresa que
nem
sabia o que dizer.
• boa-noite, mamãe. tudo bem?
dona margarida deixou cair no chão a roupa que estava no
colo e falou, bastante atrapalhada:
• minha filha? !
a moça deu um beijo na face da mãe e observou:
• ué?! por que tanto susto? imaginava que eu não voltaria mais para casa? não é a primeira vez
que eu viajo, a senhora
sabe.
• mas, filha, não fica bem desaparecer por alguns dias sem avisar. nós estávamos muito
preocupados com você.
• preocupados comigo?! puxa vida, mamãe! com toda a educação que recebi, com todos os
estudos de colégio e faculdade que tenho, com tudo que li e ouvi até hoje, com a inteligência, a
força e a vontade que deus me deu, será que ainda assim não seria capaz de guiar os meus
passos?
ah, silvana, você fala tão complicado que me deixa confusa! eu sei que muita moça saiu por aí e
acabou voltando para
casa com mil arrependimentos e se escabelando de raiva.
• É a vida, mamãe. cada um tem a vida que constrói para si. se um animal é criado em liberdade
total e deixado pelos pais ao sabor da própria sorte para que faça a sua vida por conta e risco,
será que nós, com inteligência e tudo, precisamos ficar dependendo dos pais até o fim da vida?
está na hora de pensar diferente, mamãe.
• filha, não fale difícil. você sabe que eu não tenho estudo.
• desculpe, mamãe. É que eu penso muito sobre isso.
• mas, antes você não pensava assim - insistiu a mãe.
• de fato, mamãe. eu nem sei como é que vivia de olhos fechados para a realidade. acho até que
estava dentro de um funil. graças a deus, tudo mudou.
para melhor ou para pior? - tornou dona margarida.
• que pergunta, mamãe...
houve silêncio entre as duas. silvana pôs manteiga numa
fatia de pão e saiu para o quarto. tomou a mala debaixo do armário e começou a colocar algumas
roupas.
dona margarida entrou no quarto.
ué?! você vai viajar de novo? - perguntou, muito intrigada.
• vou, mamãe. ficarei fora alguns dias.
neste momento chegou seu andré com um pacote de verduras nas mãos. ao ver aberta a porta do
quarto da filha, entrou.
não se conteve:
• mas, filha, fugindo de casa com esta idade?!
silvana parou um instante seu trabalho e respondeu, com
calma:
• boa-tarde, papai, antes de tudo. eu não fugi de ninguém. com tudo que aprendi de vocês, e na
escola, creio que deveriam até exigir que eu saiba me conduzir, por
conta e
responsabilidade, na vida, não é verdade? É o que estou fazendo.
• e a história do padre maurício? - inquiriu ele, sem rodeios e com voz dura na garganta.
• a história do padre maurício deve ser perguntada a ele. eu conheço a minha história - retrucou a
jovem, tentando frear a irritação.
• onde é que está o padre? - tornou a calcar o pai.
• pergunte na casa paroquial, ora.
• não enrole a conversa, filha. sei que você é estudada, mas eu não sou nenhum idiota. você
desapareceu de casa na noite em que houve o atentado contra o padre.
• eu venho chegando agora. gostaria que me contassem o que é que aconteceu. por certo, o
senhor é que deve estar com as novidades...
o velho andré estava com a figura carrancuda do doutor
onofre na cabeça e isso o deixava nervoso e exasperado. foi até a
janela, pigarreou e cuspiu para fora. olhou a paisagem, sem
interesse, e voltou a martelar:
• o doutor onofre acha que você sabe algo sobre o desaparecimento do padre. ele está nos
pressionando para que façamos
você contar tudo o que sabe.
• papai, o senhor não percebe que o seu onofre e o filho dele se meteram na nossa vida de
família? o senhor não vê que eles
vêm aqui e fazem e acontecem em cima da nossa dignidade? o senhor não percebe isso?
de repente, seu andré pareceu sentir-se nu diante de sua filha. aquelas verdades despiram sua
autoridade e ele viu que sua
estatura diminuiu até chegar às dimensões de um verme. os vermes
começaram a roer-lhe o peito e o sangue subiu-lhe à cabeça. entendeu que precisava reagir a fim de
não se apequenar diante da
filha e
da mulher. como havia aprendido desde pequeno, a irritação e a
voz áspera seriam a melhor forma de recompor sua autoridade:
• fique sabendo que o doutor onofre é um homem de
bem e de prestígio social. e fique sabendo também que você não está agindo corretamente. trate de
mudar de vida, porque eu não vou
permitir que o meu nome seja emporcalhado depois de velho, entendeu?
seu andré saiu do quarto aos trancos e barrancos e dirigiu-se
sà janela da cozinha para tentar conter o acesso de tosse. dona
margarida seguiu os seus passos e preparou-lhe uma xícara de café
com leite.
silvana tomou a mala, enfiou-a no bagageiro do carro e
partiu.
capÍtulo 4
maurício, graças ao seu físico robusto e sadio, reagia de maneira surpreendente. apenas alguns
ferimentos mais profundos
exigiam cuidados especiais. marisete desvelava-se em atenções para
evitar que irrompesse alguma infecção ou gangrena, o que seria trágico. silvana ajudava como
podia.
naquela noite, depois de darem a janta ao enfermo, voltaram para a cozinha, pois havia assuntos a
serem acertados.
marisete sentou-se à beira do fogão, cruzou as pernas, tomou um cigarro
e
pôs-se a discorrer:
• sabe, silvana, vou confessar-lhe uma coisa: eu me sinto compensada pelos sacrifícios. esta
convivência que tivemos os três, como foi saudável para mim! você nem imagina. a vida
solitária numa casa tem os lados bons, mas tem os aspectos negativos. eu tenho a nítida
impressão de que agora eu me sinto mais gente, mais humana, mais sensível, compreende. não
sei como explicar...
• eu compreendo...
• mas, falemos de outro assunto - recompôs-se a enfermeira, cuja timidez não lhe permitia abrir o
coração naquela hora.
• o padre maurício já está convalescendo. o estado dele é ótimo, pode acreditar. a cicatrização dos
cortes vai acontecer gradativamente. com um pouco de cuidado, ele já poderá dar alguns
passos.
depois de uma breve pausa, continuou:
• pois, eu pensei o seguinte: amanhã você já pode viajar com ele para a minha casa de praia.
conforme lhe disse, lá você
encontrará a casa totalmente mobiliada e equipada. o lugar é bastante ermo, de modo que ninguém
irá perturbá-los. leve todo o material que preparei na maleta e aplique
as compressas, a gaze, o
metiolate, o mercurio cromo, os antissépticos, assim como eu fazia
aqui. coloquei também comprimidos para acalmar a dor e tranqüilizantes para o sono.
use-os somente se for necessário.
sorveu a fumaça do cigarro com vigor e deu-se ao prazer de
ir expelindo bem devagarinho. parecia estar pensando em alguma
coisa secreta. inclinou a cadeira para trás e acrescentou:
• eu gostaria de acompanhá-los, mas, como fui despedida do hospital, preciso refazer minha vida.
já arranjei tudo. abrirei aqui uma farmácia com ambulatório. com os conhecimentos que tive na
faculdade e a boa experiência no ramo, acredito que terei sucesso. será uma nova opção para o
povo, o que é ótimo.
e com um largo sorriso, completou:
• felicidades, silvana.
a jovem acadêmica ficou comovida. num ímpeto, aproximou-se da enfermeira e beijou-lhe a face.
as lágrimas, que caíram
do seu rosto, penetraram no rosto de marisete, como se fosse o
carimbo do afeto e do reconhecimento.
voltaram para junto do padre dollá. marisete puxou a carteira e ofereceu um cigarro:
• fume, para provar que já pode viajar.
dollá sorriu e agradeceu.
• já combinamos tudo - disse silvana, sentando-se na cama. - esta madrugada vou levá-lo até uma
casa de veraneio que a
marisete tem na praia do pontal. assim, não haverá o risco de ser
descoberto o seu paradeiro. o senhor precisa recuperar-se em
paz.
• e os estudos? - perguntou maurício.
• não se preocupe. já acertei tudo. de mais a mais ajuntou ela - o senhor vale mais do que três
quilos de ciência.
maurício recostou-se na cama e acrescentou em cima da
brincadeira da jovem:
• É como diziam os sábios latinos: primum vívere, deinde filosofare.
• agora encardiu tudo! - exclamou, rindo-se, a enfermeira. - não dá para traduzir este inglês?
maurício desandou numa risada solta:
• não é inglês, marisete. É latim.
e explicou:
• significa, traduzindo literalmente, o seguinte: primeiro viver, depois filosofar.
Às quatro horas da madrugada, maurício foi acomodado,
com muitas precauções, no banco da frente, totalmente reclinado.
três cobertores e quatro travesseiros permitiam que ele se
estendesse de maneira mais ou menos confortável.
• pronto - disse marisete, inclinando-se sobre a janelinha do veículo. - está cumprida a minha
missão. boa viagem.
e brincou:
espero que me tenha assegurado o céu pelo trabalho que
fiz...
dollá sorriu. depois, realmente emocionado, disse:
• marisete, pelo que você fez, merece, sem dúvida, o céu.
eu nunca poderei agradecer-lhe o suficiente. que deus conserve
você com esse coração bondoso. fique feliz, porque você tem um
tesouro dentro de si: você é humana. queira deus que nunca perca
a ternura que mora em você. nem mesmo diante dos maiores infortúnios. seja feliz, marisete. muito
obrigado.
as lágrimas corriam das faces da enfermeira. era a primeira vez que alguém lhe falava assim. como
num filme de dois segundos, ela reviveu a história do seu último
baile e o problema que
carregava dentro de si...
afastou-se do carro e deu boa viagem, mais uma vez.
• obrigado - respondeu maurício.
• obrigada - gritou silvana, já com o carro em andamento.
..
era ao amanhecer quando silvana e dollá chegaram à
praia do pontal. a casa situava-se sobre uma pequena colina
verdejante. uma casa de alvenaria, com cozinha, dois quartos,
salinha e
banheiro. os móveis estavam todos nos devidos lugares, porém
bastante úmidos e embaciados. a primeira coisa que a jovem tratou
de fazer foi limpar o quarto e preparar a cama para que o
enfermo
pudesse descansar confortavelmente depois da viagem estafante.
em seguida, deu-se ao mister de limpar todas as demais dependências. ligou a geladeira e pôs água
no fogão para preparar um café
especial.
deu uma olhada no quarto e viu que maurício dormia. enquanto a água esquentava, saiu para fora.
em torno da casa, um
amplo pátio gramado. nos fundos, alguns eucaliptos e pinheiros
formavam divisa com o terreno vizinho. rente às árvores, a garagem de madeira. abriu-a e colocou
o carro. À esquerda da porta
dos fundos, o tanque de lavar roupas. conforme marisete lhe
explicara, foi até o canto direito do muro da frente e ligou
registro da água.
lá embaixo, o mar. a praia estava deserta. as casas circunvizinhas, fechadas.
um vento bastante frio açoitava a colina.
mais para a direita, lá ao longe, podia notar elevados contrafortes de rochas, dando a impressão de
um castelo medieval. no
alto, um farol com o pisca-pisca ligado.
com o coração refrescado pela beleza e pela poesia da paisagem, silvana voltou para a cozinha. a
água estava quente. antes
de preparar o café, espiou para o quarto. maurício abriu os olhos.
• bom-dia - cumprimentou-o em tom de brincadeira. se vossa excelência reverendíssima me
permitir, servir-lhe-ei um
café a la vaticano.
o padre riu-se muito.
• bom-dia! espero não dar muito trabalho para a excelentíssima doutora filósofa,
digníssima diretora desta casa de
saúde. quanto ao café, se não lhe ficar demasiado incômodo, sentir-me-ei sobremodo honrado em
ser servido por vossa excelência.
ambos riram-se a valer. era um bom começo.
quando silvana voltou com o café, acompanhado de bolachas, mel e algumas fatias de mortadela,
maurício sentou-se na
cama, com evidentes sinais de cansaço. ao tentar acomodar o travesseiro nas costas, espremeu o
rosto de dor.
• será que tem alguma costela quebrada? - perguntou a jovem, muito preocupada.
• acho que não. depois de uma tempestade de cacetadas, não é de um dia para outro que as coisas
vão para os devidos lugares...
enquanto maurício servia-se, ela passou a descrever-lhe o
panorama que se descortinava desde a casa: as residências abandonadas, o mar e a praia lá
embaixo, as rochas, o farol...
• vou tratar de melhorar logo, porque o lugar é irresistível para umas caminhadas - frisou ele,
bem-disposto, lembrando-se das grandes escaladas de montanhas que fizera em sua vida.
terminada a pequena refeição matinal, silvana observou-lhe:
• agora o senhor deve dormir até o meio-dia. está muito cansado.
eram nove horas. a jovem tomou um livro, abriu a cadeira
preguiçosa, passou um pano para tirar o bolor provocado pela umidade e estirou-se a iim de
aproveitar o tempo na leitura. não
tardou muito, porém, e pegou no sono. duas horas depois, o formigamento, que lhe tomava as duas
pernas, fê-la acordar-se. olhou o
relógio. onze horas. levantou-se, num salto, e foi até o quarto.
ao
tropeçar numa cadeira, que estava fora do lugar, maurício acordou.
desculpe - disse ela. - ainda não conheço bem a geografia deste quarto. mas, queria avisar-lhe que
vou dar um pulo
até o supermercado para comprar alimentos e produtos de cozinha.
chavearei a porta. aproveite para puxar mais um soninho.
À medida que percorria as prateleiras do supermercado,
silvana selecionava tudo que achava necessário para as refeições.
já em casa, empenhou-se na operação-almoço, lamentando
muito seus fracos conhecimentos de culinária. andava para cá e para lá, do fogão à mesa, da mesa à
pia e novamente ao fogão, como
um general no comando da batalha. mas, somente a uma da tarde
conseguiu levar a refeição ao doente.
• só peço a deus - falou ela, fingindo seriedade - que
esta comida não alcance os objetivos que os malfeitores não conseguiram. aconselho-o a rezar
bastante antes de pôr os alimentos na
boca.
• não tem perigo - redargüiu ele. - diz a alta medicina mundial que bicho ruim não morre...
silvana almoçou junto, ao pé da cama. seus olhos transbordavam de contentamento.
meus parabéns - felicitou-a ele, descansando o garfo
no prato vazio.
• meus parabéns lhe dou eu - retrucou a jovem - por ter conseguido comer este almoço. os dois
riram.
recolhendo a bandeja, ela sugeriu:
• acho que poderíamos fazer assim: o senhor descansa até às quatro da tarde. depois faremos os
curativos. eu estarei aí fora apanhando um pouco de sol. se precisar de algo, por favor me
chame.
• está bem. obrigado.
silvana ajudou-o a deitar-se. seu rosto, quase colado no
rosto dele, sentiu o calor de sua respiração. acomodou-o nas cobertas, apanhou a bandeja e
desabalou para a cozinha.
depois de lavar a louça, deitou-se ao sol. estava muito cansada. antes que o sono a prostrasse,
deixou-se envolver pela
recordação dos últimos acontecimentos. jamais poderia imaginar que
um dia estivesse numa casa de praia, longe do mundo, cuidando da
saúde de alguém que a empolgava pela cultura, personalidade, beleza e bondade. como são os
caminhos da vida - pensava ela.
o sono foi descendo suavemente, transportando-a para um
outro paraíso, num outro mundo inimaginável.
Às quinze e trinta, silvana já estava diante do fogão, esquentando a água. dispôs uma mesinha ao
lado da cama de maurício e sobre ela alinhou todo o material necessário
para os curativos.
marisete não esquecera nada.
maurício a observava em silêncio.
silvana arredou os cobertores e os lençóis, com cuidado.
ajudou-o a tirar delicadamente o casaco do pijama e passou aos
curativos.
se doer, por favor me avise - suplicou ela - porque eu
não tenho prática.
• não tenha medo - tranqüilizou-a ele. - você é uma ótima enfermeira.
ela procurava agir com o máximo de cuidado e leveza. cada gemido parecia uma faca a cravar-se
dentro dela mesma. conduzida pela força e pela sabedoria misteriosa
do coração, conseguia
realizar um trabalho que nunca imaginara saísse tão bem. apenas
titubeou diante do corte profundo que ainda estava aberto na
direção do coração. ficou lívida. sem querer, sua imaginação exacerbou o perigo. sentiu assim como
se tivesse que atravessar um
profundo abismo sobre uma perigosa pinguela.
• coragem! - sussurrou maurício, percebendo a hesitação da moça.
pedindo a deus para que tudo saísse bem, ela empregou-se
no curativo daquele ferimento com redobrada atenção e delicadeza.
foi bem. sentiu um grande alívio, que foi se transformando numa
alegria indizível. parecia que tinha alcançado um milagre. o rosto
transfigurou-se e, como que puxada por uma mão invisível, inclinou-se e beijou as bordas daquele
ferimento. sentiu um rubor
subir
pelas faces e por isso não olhou para ele. não quis olhar. teve
medo. vergonha. prosseguiu, então, com muita calma no trabalho,
pondo o máximo de habilidade nas mãos.
nas extremidades do corpo, os ferimentos não ofereciam
maiores cuidados. apenas uma inchadura no joelho esquerdo era o
que havia de mais grave e doloroso. foi percorrendo, um por um,
os cortes das pernas, dos pés, das costas. quando terminou, ele
estava cansado e dolorido. mas, silvana sentiu-se realizada. seu
trabalho surgia diante de seus olhos como algo maravilhosamente
bem-feito. apesar da sua inexperiência.
• agora é bom que o senhor descanse. deve estar exausto.
vou apagar a luz e deixá-lo em paz. bom descanso!
• obrigado. você fez um belíssimo trabalho. parabéns.
silvana sorriu contente e retirou-se.
lá fora, o sol declinava no horizonte sobre o rochedo do
farol. dentro em pouco, o farol iria cortar pela metade aquela
imensa bola alaranjada. embaixo, as ondas do mar, no seu fluxo e
refluxo constante, espreguiçavam-se sobre a areia e voltavam a
recolher-se sobre si mesmas. era uma paisagem realmente linda. no
cipreste da frente da casa, os pardais cantavam com alegria e
disposição.
a calma dominava o ambiente. e a paz do crepúsculo desceu sobre silvana. no meio da paz, porém,
uma certa ansiedade
mordia o seu coração. sem querer, seus olhos se fixaram num ponto qualquer e sua mente começou
a entrar numa nebulosa, assim
como um avião que procura sair das nuvens para encontrar o azul
límpido e sereno do céu. e o céu agora estava cheio de sol e de nuvens brancas. sentia-se radiante,
tomada de uma felicidade que
transcendia o seu corpo e parecia iluminar totalmente o seu
mundo.
concentrada na profundeza dos seus devaneios, abençoava a vida,
lembrando uma frase de leort tolstoi: “a vida é deus e amar a vida é amar a deus” .
deixou-se ficar por mais alguns momentos e voltou para
dentro. estava na hora de pensar na ceia daquela noite.
. .
felizmente, o tornozelo do pé esquerdo desinchou e os demais ferimentos cicatrizavam a olhos
vistos. o rosto de maurício
voltara ao seu aspecto sereno e jovial. o corte, situado nas
fronteiras do coração, fechara-se e exigia apenas cuidados superficiais.
ele
convalescia bem. após cinco dias, já levantava e exercitava os
primeiros passos em torno da casa.
naquela quinta-feira, jantaram na cozinha.
a noite bordara-se de estrelas. a lua perambulava, como
peregrina do céu, salpicando pó de luar sobre as colinas, as ramagens, as areias e estendendo um
brilhante tapete de prata sobre
o
azul-escuro do mar. era uma noite tépida, bastante rara naquela
época do ano. do outro lado da janela, os grilos enchiam de cricris o silêncio da noite. mais ao
longe, as rãs, acomodadas na
mornidão das águas estagnadas, davam-se a longos diálogos monótonos.
após a ceia, dollá foi para o quarto, enquanto a jovem tratou de lavar a louça, guardando tudo nos
devidos lugares. colocou
a chaleira no fogão para esquentar a água. preparou chá com torradas e levou para o doente.
maurício ainda não estava dormindo.
recostou-se na cabeceira da cama. silvana ajeitou-lhe o
travesseiro
nas costas.
• o senhor está melhorando rapidamente - disse ela, sentada na cama a segurar-lhe a bandeja. seus
olhos buscavam os
olhos azuis dele.
• graças a deus - concordou ele. - assim você tem menos incômodos comigo.
não é incômodo nenhum - retrucou ela, com viva satisfação na voz.
• você é admirável - sussurrou ele, mexendo o açúcar
que depositara no chá. - deixar tudo, faculdade, vida social, família, tudo, para vir aqui neste fim de
mundo cuidar de um
doente,
só é possível numa pessoa desprendida e cheia de sentimento cristão...
nem uma coisa, nem outra - corrigiu ela. - não ponha
santidade, nem heroísmo e nem abnegação no que eu faço.
• então, que motivo lhe dá tanta força? - perguntou ele, cheio de curiosidade.
• faço pelo prazer de fazer. só isso.
maurício ficou em silêncio.
quando voltou à realidade, tomou um pedaço de pão torrado, molhou-o no chá e ingeriu-o. ao
erguer a xícara, segurou-a no
ar e confidenciou:
imagino o que se passa no seu interior.
fez uma pausa e acrescentou:
• a vida é uma festa.
• sim - disse ela - a vida, para mim, é uma linda festa, cheia de bandeirinhas, luzes e chafarizes
no meu coração. maurício sorveu o líquido verde-claro vagarosamente e descansou a taça na
bandeja. serviu-se novamente de torradas.
• porque o meu coração está cheio de amor - completou silvana.
olhou para ele e arriscou:
posso fazer-lhe uma pergunta?
• pode. quantas quiser.
depois de um breve silêncio, a jovem corou e perguntou
muito desajeitadamente:
• o senhor me... ama... quero dizer... gosta de mim?
maurício fechou os olhos, reclinou-se mais para trás e ficou
concentrado durante alguns segundos. segundos que, para ela, pareciam uma eternidade. ela, então,
arrependeu-se de ter feito a
pergunta. mas, agora era tarde. só restava ouvir a sentença.
• silvana - começou ele, pondo muita bondade e muita paz na voz - você sabe, eu sou padre...
mas, eu não estou fazendo a pergunta para o padre cortou ela, com vivacidade.
pois bem, então façamos a distinção: como padre, estou
acima de todos os amores e, ao mesmo tempo, no meio de todos os
amores, para elevá-los até deus, que é a fonte suprema e inesgotável do amor. eu me sinto feliz
como padre. sinto enorme alegria
em poder dar uma dimensão divina à caminhada tantas vezes atribulada dos homens. isso torna a
gente feliz. isso dá sentido à minha vida...
• e como homem? - atalhou ela, ansiosamente.
• bem, o homem que existe em mim é o homem que existe em todas as pessoas...
• o senhor acha que o amor humano é ruim?
• longe disso. o amor foi a coisa mais grandiosa que deus criou. porque é preciso dar-se conta de
que foi deus quem
criou o amor humano, carnal, o amor que avassala o coração e penetra todos os poros da carne. se
deus não o tivesse criado, esse
amor não existiria. e, se deus criou, é porque é bom. embora não
seja o único e nem o mais importante. o grande erro de todos os
séculos foi interpretar essa prazerosa interação íntima de dois seres
como algo de reprovável ou de dimensão irracional. imagine você a
sublimidade desse momento em que uma sinfonia divina explode
nos mais excitantes acordes... imagine você a bondade e a sabedoria divina ao distribuir às criaturas
humanas esse dom
inexplicável
que fazen que duas pessoas, num instante de milagre, se
tornem
um só coração, uma só carne, um só sentimento, uma só chama,
que se perde nos domínios de um paraíso indizível.
mas, nem todos pensam assim - comentou a jovem.
• muita coisa passará debaixo da ponte antes que a humanidade acerte seus verdadeiros
caminhos. por que existem desvios
sexuais, estupros, crimes de amor? fala-se que a liberalização da
mulher trará como conseqüência a desagregação do casamento.
não poderia ocorrer precisamente o contrário?
• não entendi.
• o casamento assenta sobre areia quando as pessoas casam levadas apenas pela ansiedade de se
desvendarem intimamente
uma à outra. passados os primeiros tempos de efervescência interior, terminada a aventura
fascinante da descoberta sexual do
outro, os dois se verão a braços com uma vida plana, rotineira, que
não estava em seus sonhos doirados. pois bem, a liberalização fará
com que as pessoas casem quando se sentirem maduras, emocionalmente sólidas, desejosas de um
lar estável, calmo, onde serão dadas
primazias a outros valores mais ponderáveis e menos tempestuosos.
maurício remexeu-se na cama, dando mostras de cansaço.
respirou fundo, como a reunir mais um pouco de alento e continuou:
bem, este assunto é vasto demais. poucas palavras só
podem torná-lo controvertido e explosivo. talvez você tenha ficado
mais confusa. mas, numa outra oportunidade conversaremos mais
amplamente sobre este tema, ou melhor, discutiremos, porque você
é universitária e, sem dúvida, terá a sua opinião a respeito.
maurício envolveu-se nas cobertas. a noite ia alta.
• só que o senhor não respondeu à minha pergunta... murmurou ela, tomando a bandeja para levá-
la à cozinha.
apagou a luz e saiu.
silvana demorou-se mais do que de costume na cozinha.
não conseguia lavar as xícaras, os pires, as colherinhas. sua
imaginação fugia continuamente, procurando repensar as palavras de
maurício. quando voltou para o quarto, ele dormia a sono solto. a
longa conversa o cansara realmente. despiu a blusa e a saia e
vestiu
a lingerie cor-de-rosa. deitou-se cuidadosamente, para não fazer
ruído e puxou as cobertas até o pescoço. não sabia se dormia ou se
repensava a conversa com maurício. fora um assunto muito interessante. agora veio-lhe à mente a
pergunta que fizera a ele e se
sentiu uma idiota.
coisa de adolescente isso de perguntar se ama ou se gosta
• recriminava-se ela. mas, na verdade, fora graças à indagação infantil que nascera aquele assunto
tão bonito.
ah, também, - resmungou silenciosamente para dentro de
si - ninguém vai querer que eu seja perfeita, certinha, sem emoções, que nem uma tábua! a vida tem
que ser levada na simplicidade, sem complicações. que mal tem
em fazer uma pergunta de adolescente? sim, mas eu sou uma universitária... está bem, mas o
amor é uma criança...
agora os pensamentos se tornavam confusos, sinal de que
o cérebro estava pedindo descanso. adormeceu.
pela manhã, muito cedo, silvana levantou-se e foi para o
banheiro. entregou-se a um banho reparador. a água morna começou a refazer as energias.
enquanto se enxugava, teve vontade de cantar. sentia uma
espécie de euforia e encheu a cabeça de pensamentos positivos.
estava ótima. demorou-se bastante em secar os cabelos e
depois dedicou mais cinco minutos ao penteado. enrolou-se na
toaiha e foi ao roupeiro escolher um vestido simples e elegante,
aquele
azul com raias brancas, que lhe caía bem no corpo.
quando abriu a porta da cozinha para respirar o ar fresco
da manhã, olhou o relógio. seis horas. muito cedo. chaveou a porta e saiu para um passeio até a
praia.
um clarão vermelho-azulado para o lado do ocidente
anunciava o nascimento do sol. as plantas estavam úmidas de orvalho. as pequenas flores amarelas,
que proliferavam junto à grama, guardavam carinhosamente gotículas
de água. era como se elas
chorassem de emoção e de prazer ao receberem as primeiras luzes
doiradas do alvorecer. de pés descalços, caminhou e correu pelas
areias da praia. a brisa refrescante do amanhecer fazia-lhe bem
à
mente e alegrava seus pensamentos.
pôs os pés na água do mar. quase estremeceu de frio. continuou a caminhar pela praia.
o sol agora bateu em cheio no seu rosto e a calidez matinal
deu-lhe novo ânimo. abriu os braços para abraçar todo o sol que
pudesse e respirou fundo por diversas vezes. quase sem dar-se
conta, começou a falar, com os olhos radiantes de luz:
• sol querido, bom-dia! vem aos meus braços... vem ao meu coração e ilumina-o. tu és meu
amigo, tu me trazes alegria, paz e amor. por isso, eu abro o meu coração para que tu entres.
vem. inunda minha alma. fica comigo. põe em mim este teu brilho de felicidade. eu quero ser
feliz. eu quero amar. eu quero paz. vem, sol, me acompanha. dá-me alegria. alegria. muita
alegria.
acaricia o meu rosto. sem medo. beija o meu corpo. sem medo.
vem, sol querido, eu te amo!
havia um rebrilho na areia. as águas tornaram-se mais claras.
silvana tomou o caminho da casa. estava na hora de preparar o café.
maurício estava acordado e meditava.
um dia - refletia ele - quando o mundo acabar, desaparecerão as religiões, os credos, os dogmas, os
hábitos e costumes,
as
nacionalidades, tudo. apenas subsistirá o amor. porque só o amor
é infinito.
• bom-dia. está na hora do café - exclamou alegremente silvana, aparecendo na porta, com a
bandeja na mão.
• bom-dia - respondeu maurício. - pelo jeito, hoje você levantou com toda a corda.
• pois, já fui à praia, passeei, curti o sol, e estou cheia de energias.
• muito bem. acho que eu também posso caminhar hoje até o mar. o tempo está bom - observou,
acomodando a faca e a xícara na bandeja.
quando os dois saíram em direção à praia, ela perguntou timidamente.
• quer apoiar-se em mim?
• obrigado. vou testar minha capacidade física.
• mas, não pode facilitar.
• felizmente, já me sinto restabelecido, exceto, é claro, aqueles hematomas mais profundos, que
ainda inspiram um certo cuidado. no mais, é questão de tempo. como diz o ditado, devagar se
vai ao longe... e vou lhe dizer uma coisa, silvana: ainda nesta semana chegarei até o farol.
duvida?
• sei que é forte. mas, vale também para o senhor aquele ditado bíblico que diz que o mundo não
foi feito num dia...
• pois, para provar-lhe meus conhecimentos de latim, posso acrescentar este: “natura non facit
saltus.” não arregale os
olhos. vou traduzir para você: a natureza não faz saltos; quer
isso
dizer que tudo cresce, se desenvolve e se refaz gradativamente,
ao
natural, sem saltos. É o caso dos meus ferimentos.
mas, ninguém está querendo que seus ferimentos cresçam e se desenvolvam...
• oh, você está espirituosa! sabe, quando eu estudava no
seminário, gostava muito do mar. saía a nadar ao largo, enfrentando as ondas como se fossem um
exército a ser dominado.
• eu adoro o mar... - exclamou, a meia voz, a jovem.
• gosta de nadar?
• não é isso. eu adoro o mar porque ele enche meu coração de poesia. eu sinto o encantamento do
pôr-do-sol relletido nas
águas azuladas... sabe, eu me emociono ao ver a lua banhar-se nas
águas à noite... o sol da manhã inundando de luz e de calor as
águas e as areias... ah, a grandeza e o fascínio do mar!
silvana falava com exaltação, desinibida, como se estivesse sozinha.
ao chegarem em casa, perto do meio-dia, uma grande surpresa os aguardava: diante da porta,
conversando animadamente,
estavam, na espera, marisete e josias.
• oh, que surpresa! - gritou maurício, levantando as mãos em sinal de alegria. quis apressar o
passo, mas tropeçou. por sorte, silvana chegou a tempo de o segurar.
• calma, padre maurício - sorriu o velho josias.
a alegria foi total. trouxeram as cadeiras para o pátio ensolarado e, enquanto os três conversavam
animadamente, silvana
foi preparar o almoço.
• eu vou ajudar você - dispôs-se marisete.
• não, marisete, fique à vontade. você está cansada. deixe o almoço por minha conta.
marisete, porém, já estava na cozinha.
• posso imaginar que você já está saturada de panelas argumentou sorridente a amiga, tomando as
batatas para descascar.
lá fora, maurício e josias teciam considerações, ora sobre a
convalescença, ora sobre a situação existente em alvores.
• o corrégio, filho do doutor onofre - comentou josias
• esteve por três ou quatro vezes lá na casa paroquial, querendo arrancar, de qualquer maneira, até
mesmo com ameaças, notícias sobre o seu paradeiro. afirmava, todo rompante, principalmente
quando estava bêbado, que eu devia saber onde o senhor se encontrava.
• e você?
• eu simplesmente dizia-lhe que o senhor tinha ido viajar e que o resto não era da conta dele. não
acha? ora, onde é que se viu! como se o senhor precisasse dar satisfação a ele de tudo o que faz.
pipocas! o sujeito chegou ao ponto de dizer que me arrancava a barba a unha se não dissesse
onde o senhor estava. nem dei bola. É um fedelho metido a besta...
• ele não tem idéia do que aconteceu comigo após o atentado?
• creio que chegaram à conclusão, ele e o pai, de que o senhor está vivo e que agora deveria estar
em algum lugar sob os
cuidados de silvana.
• por que silvana?
• porque é claro que sabem que ela desapareceu de casa.
• de fato. e se o porteiro do hospital contou o acontecido naquela noite, as conjecturas poderiam
realmente caminhar para estas suposições.
• se não for indelicada a pergunta, o que é que pretenderia fazer depois de restabelecido?
• você sabe, josias, que eu sou um moço decidido e procuro me colocar acima das maldades e das
provocações. sempre
busquei cultivar um espírito desportivo, entende. para cada elemento ruim que deparo no caminho,
encontro cem bons e, por isso, seria incoerência, e até covardia,
se a força da maldade
pesasse
mais na minha balança.
• então, o senhor voltará para alvores - concluiu o velho, satisfeito, muito satisfeito.
• sim, voltarei. pretendo fazer muita coisa por aquele povo.
a conversa foi interrompida por silvana, que anunciou:
• o almoço está na mesa.
a refeição transcorreu dentro de um ambiente alegre e cordial. marisete e josias contaram que
retornariam no dia seguinte,
muito cedo.
após o almoço, maurício foi sestear. estava cansado da caminhada que fizera pela manhã. os outros
três estenderam esteiras
no gramado e ficaram apanhando sol. marisete deu os parabéns à
silvana pela espetacular recuperação do seu paciente. e contou sobre o andamento da instalação do
seu ambulatório e da sua nova
farmácia.
a conversa foi longa e agradável.
eram dezesseis horas quando apareceu maurício. silvana
ajeitou-lhe um cobertor e travesseiro e ele recostou-se junto
do grupo.
foi servido o chá.
À noite, após a janta, marisete procurou maurício e disselhe:
• gostaria de falar um pouco, a sós, com o senhor, se não estiver muito cansado.
esteja à vontade - respondeu-lhe, sentando-se na cama, com dois travesseiros acomodados nas
costas.
a enfermeira sentou na borda da cama.
• sabe, padre maurício, eu gostei muito do senhor, por isso resolvi expor-lhe o meu problema. o
senhor é uma personalidade aberta e isso me inspira confiança.
maurício olhou-a com bondade, encorajando-a a se abrir.
• eu, como é que vou começar, eu tive há alguns dias um
encontro com um rapaz. sentimo-nos atraídos um pelo outro e fizemos amor. agora, a menstruação
já devia ter vindo e não veio. o
senhor me entende? isso é o fim!
• por quê? quem sabe, vocês pudessem casar e ser felizes.
veja, nada há de tão trágico.
• padre, para que enfeitar a conversa? para ser mais precisa, já conversei com o rapaz, mas ele
não quer nada com nada. ele
amou naquela hora, sem compromissos de vida. se eu for falar de
novo, ele vai dizer que o problema é meu, que ainda não está a fim
de casar, que já está numa outra jogada e outras coisas assim. além
disso, nem sei onde é que ele mora e nem me interessa saber.
afinal, eu sou maior de idade, sabia o que estava fazendo. cabeme resolver a minha situação.
infelizmente, nesses casos, quem
leva
a pior é a mulher. mas, é preciso aprender a ser gente, enfrentar
as
situações e ir em frente...
• quem leva a pior ou a melhor?
• a melhor?! - exclamou ela, sem entender.
• sim, porque um filho é sempre um mundo de amor e de alegrias. mas, o que é que você pensa
fazer?
• no caso que esteja grávida, eu não posso ter filho agora,
não tenho condições, não quero. já falei com um médico de pomelândia e na quinta-feira da semana
que vem, às sete horas da manhã, deverei me submeter a uma intervenção
especial, lá mesmo no
consultório dele, à rua ludwig von beethoven, 123. ele me tranqüilizou dizendo que não há nenhum
perigo, porque o caso é simples demais. além disso, afirrnou que
tem experiência de muitos
anos...
• mas, ao médico não é permitido fazer isso...
• bem, o problema do médico é do médico. eu é que não vou julgá-lo e nem dizer-lhe o que é
que deve ou não deve fazer. só ouvi falarem que ele faz este tipo de trabalho por uma
frustração, uma espécie de recalque. É que nunca conseguiu ter filhos. talvez sinta alguma
compensação doentia, sei lá...
• e você?
• eu lhe pergunto: quando é gerada a criatura humana?
no instante em que se unem o espermatozóide e o óvulo? depois de
um dia? dez dias? trinta dias? se o senhor não tem certeza, não
afirme nada...
• você já pensou o quanto lhe seria agradecida essa criaturinha se você a fizesse viver? você seria
feliz e ela seria feliz. a maternidade é um milagre que escapa ao poder humano. quem pode
condenar um ser inocente que se forma no seio materno? ninguém.
talvez você tenha medo de que seja obstáculo para um futuro casamento. a sociedade mudará de
opinião. se tem tanta gente que
adora cachorros e gatos e pássaros e papagaios e os cria em
casa, é
fácil compreender que uma criaturinha humana que pensa, que sorri, que chora, que fala, que
brinca, traz muito mais alegria e
felicidade!
• mas, padre, quem é que disse que eu estou grávida? eu não sei e nem quero saber. o que eu
quero é livrar-me deste pesadelo. as palavras são muito lindas para os outros... mas para quem
toca...
• e o que é que você quer de mim?
marisete ficou um instante cabisbaixa. respirou fundo e falou:
• eu... tenho medo de morrer. já ouvi falar de hemorragias... infecções... coisas assim. eu tenho
medo. muito medo. eu
não quero morrer.
• e você acha que eu evitaria uma tragédia?
• eu não tenho pai, nem mãe.
a jovem estava com lágrimas nos olhos.
• o senhor me inspira confiança e coragem - continuou ela.
havia um tom de súplica em sua voz:
• pelo amor de deus, não me deixe sozinha. peço-lhe essa caridade. por tudo o que lhe fiz.
maurício ficou triste. sentia tanta pena da jovem e uma
vontade imensa de estar a seu lado, dando-lhe força. mas, e a
igreja?
• marisete - murmurou ele, muito pesaroso e contrariado
• você sabe o que a igreja pensa disso... e eu sou sacerdote...
• não quero saber a opinião da igreja e nem estou falando com o sacerdote - cortou ela, pondo
toda a força do desespero na voz. - eu procuro um amigo, me entenda! - exclamou, em prantos.
maurício permaneceu em silêncio.
de repente, sem esperar pela resposta, a jovem saiu do
quarto, ferida em seus brios. sentiu vergonha de ter suplicado e
chorado. foi para o banheiro.
Às cinco horas da manhã, josias e marisete entraram no
quarto de maurício para as despedidas.
• seja muito feliz, marisete. vou rezar por você! - disse dollá, apertando com suavidade a mão
direita da jovem.
• o senhor acha que rezar vai resolver o meu caso? - perguntou ela, com profunda amargura nos
olhos.
josias se despediu, desejando rápidas melhoras ao amigo.
quando o carro desapareceu na curva, o silêncio voltou a
reinar naquele recanto da praia do pontal.
...
no domingo de manhã, silvana levou maurício à missa, de
carro. era um dia ensolarado. durante a liturgia, ele sentiu seu
pensamento voltar a alvores. viu-se diante do altar, a igreja
toda
iluminada, ele se apresentando ao povo pela primeira vez. uma
jovem no primeiro banco. loira. insistente. triste.
• vamos, padre maurício, a missa terminou.
era silvana que o puxava pela manga do casaco, despertando-o da sua profunda abstração.
depois de um breve colóquio com o cristo, o jovem sacerdote retirou-se da igreja.
• que você acha de irmos hoje à tarde até as rochas do farol? - perguntou maurício, durante o
retorno.
• se o senhor se sentir com coragem, seria ótimo
• respondeu ela.
• pois bem, vou dar uma descansadinha agora até a hora do almoço e depois sairemos.
silvana procurou retardar ao máximo a hora do almoço a
fim de dar tempo para que ele descansasse bastante.
passava de uma hora da tarde quando almoçaram. o sol
penetrava em profusão pela janela da cozinha. a temperatura estava amena. talvez uns vinte graus.
quando iniciaram a caminhada, silvana colheu uma flor de
margarida e disse, muito disposta:
• agora vamos fazer o jogo do bem-me-quer e mal-mequer.
e começou a desfolhar, uma a uma, as pétalas brancas da
flor, dizendo, alternadamente, bem-me-quer, mal-me-quer, bemme-quer, mal-me-quer...
quando chegou perto das últimas pétalas, exclamou:
• e agora? falta bem pouquinho...
• bem, agora - sugeriu ele, sorridente - agora jogue fora a flor e pergunte-se a si mesma.
• está bem, vou me perguntar: silvana, será que o maurício gosta de você? olha, o maurício é um
cara muito legal, ele gosta de todo mundo e, como silvana faz parte
do mundo, é certo que
ele gosta de silvana. se ele ama silvana? bem, aí a coisa
complica,
porque ele se esforça para mostrar só uma face, a face do padre. É
que ele, do alto de sua teologia, nunca quis se aventurar a
descer a
considerações simples, essas que crescem a poucos centímetros do
chão, assim como a flor da margarida. a margarida é uma flor que
dá a vinte centímetros da terra, mas até hoje nenhum teólogo conseguiu fazer uma flor igual... o
maurício ainda não aprendeu que o
verdadeiro padre é aquele que sofre, sente, vive, queima, sobe,
cai,
levanta, tropeça, porque este é capaz de compreender, de dar uma
palavra que alcance as feridas do coração... o maurício, na sua luta ferrenha contra os exércitos de
dom quixote, prefere acabar
endurecendo-se, insensibilizando-se, pregando-se numa estátua de
cem metros de altura para ser glorificado pelos seus. o maurício
não quer ser homem, ele quer ser deus. e desse deus eu tenho medo...
a jovem calou-se. e se deu conta de que a conversa fora
longe demais. por que entrar de novo por esses caminhos? - perguntou-se intimamente. - até parece
uma obsessão - foi a resposta que encontrou para si mesma.
maurício, calmamente, começou a falar:
• mas, se a silvana prosseguir em seu raciocínio, deverá dizer que não foi só a teologia e nem só a
igreja quem colocou maurício num pedestal, se é que isso pode ter acontecido. foi o
povo também. foi a multiplicação das silvanas, dos joãos, dos pedros... foi a rudeza e a intolerância
deles, que jamais admitiram
que o padre pudesse descer de seu pedestal... e o policiamento
implacável em cima de suas atitudes talvez o tenham acuado para
dentro da sacristia. se houve a desumanização do padre, de quem é a
culpa?
• da margarida - respondeu ela, dando uma gargalhada.
• essa flor danada só veio criar caso. vamos bater nela?
• não - respondeu maurício, descontraindo-se - numa flor não se bate nem com uma mulher.
eram três horas da tarde quando chegaram no alto do farol. desceram até a beirada do precipício
formado pelas rochas. lá
embaixo, as ondas azuladas açoitavam com veemência os rochedos,
fazendo saltar para o ar um chuvisco de escumas.
era lindo o panorama. o gramado exuberante estendia-se
até a dobra da rocha. o sol da meia-tarde iluminava e aquecia a
paisagem, pondo paz e felicidade no coração dos dois. algumas
gaivotas iam e vinham sobre as ondas, dando um toque de encantamento e emotividade ao cenário.
valera a pena o percurso de cerca
de três quilômetros, por entre dunas, cerrados e mangues.
os dois caminharam em silêncio ao longo da borda do precipício, sentindo as emoções da aventura.
• que lindo! - exclamou maurício, sentindo o frescor do vento revolver a camisa azul-marinho
aberta ao peito.
• nunca vi uma coisa igual! - explodiu, entusiasmada, a jovem.
sentaram-se a alguns metros das rochas e do farol. o gramado era suave como um tapete. maurício
permaneceu alguns minutos sentado, deleitando-se com a eloqüente
visão que se
descortinava daquela altura. depois, estirou-se na grama, num gesto de
quem se espreguiça e busca um estado de relax.
silvana permaneceu sentada. continuava embevecida diante de tanta poesia. o ambiente era todo
feito de um silêncio
majestoso. apenas lá embaixo o mar fluía e refluía contra as rochas, numa batalha ruidosa que
duraria até o fim dos tempos.
• que bom estarmos aqui - falou maurício, abrindo os braços sobre a grama.
esta frase lembrou-lhe um trecho do evangelho que narra o
acontecimento da transfiguração de jesus, diante de pedro, tiago e
joão, ocorrida exatamente no alto de um monte, talvez tão lindo
como esse... pedro, enlouquecido pela ventura, exclamou: que
bom estarmos aqui. façamos três tendas para morarmos neste lugar...
quando maurício abriu os olhos, não viu mais silvana. ergueu-se um pouco. lá estava ela, numa
encosta escarpada, tentando apanhar alguma coisa.
muito feliz, veio correndo, com algo na mão.
• um presentinho.
era uma linda flor amarelinha, de perfume delicado e, ao
mesmo tempo, agreste. maurício contemplou, por algum tempo, a
florzinha e depois colocou-a no bolsinho da camisa.
• muito obrigado - murmurou ele, feliz e emocionado.
• que deus faça você sempre assim, como é.
• qualquer pessoa faria isso... - observou a jovem, recostando-se ao lado dele e beijando-lhe a
mão direita.
• qualquer pessoa não - contestou maurício. - há muita gente que não enxerga nem sequer um
edifício de vinte andares.
a agitação, o recrudescimento da luta pela subsistência e a extremada valorização dos bens
econômicos, fazem com que uma imensa multidão se atropele, se escorrace
e se embruteça cada vez
mais.
quase ninguém mais encontra tempo para si, para as belezas da vida, para a contemplação de uma
flor... a dureza do asfalto e do
cimento matam a sensibilidade e transformam o homem em pedra.
e, passando a mão sobre os cabelos dela, acrescentou com
ternura:
• deus queira que esta criaturinha aqui sempre se sensibilize aos encantos de uma flor!
silvana sentiu, como num passe de mágica, uma doce emoção dentro de si.
seguiu por essa réstea de sol e penetrou nas profundezas
iluminadas do seu coração. não sabia explicar nem para si o que estava curtindo. era como uma
imensa felicidade radiante; era, assim, como se uma fada juntasse as
emoções do amor, da alegria, da
felicidade, do prazer, da exaltação interior numa única fusão e explodisse tudo dentro do seu
coração.
o reino dos céus deve ser isso dentro de mim - pensou ela.
e deu-se conta, talvez pela primeira vez, que o amor é um
estado de ser; transcende o corpc e surge como essência do ser
humano. com relações sexuais ou sem relações sexuais, este estado de
alma é o próprio paraíso, a extrema felicidade de viver, o autobastar-se, a plenitude infinita
incandescendo o
finito...
• você está em êxtase! - impressionou-se maurício.
a jovem voltou a si. na verdade, não estivera fora de si.
pelo contrário, fora o momento em que estivera mais dentro de si,
em contato com a luz, com o sol deslumbrante.
• sinto-me mais feliz do que nunca. até parece que o meu corpo está em estado de luz.
as estrelas já brilhavam no céu quando maurício e silvana
chegaram em casa. o vento mudara e o frio cortante os fazia
tiritar.
era uma das mudanças bruscas de temperatura, tão comuns nessa
estação do ano.
silvana preparou o banho quente para mauricio e foi pôr a
chaleira no fogo. haviam combinado tomar café nesta noite.
após o banho, maurício sentiu-se reconfortado. o calor
voltara a aquecer-ihe o corpo.
silvana já o esperava para os curativos. eram apenas quatro, todos eles de menor importância.
lá fora, o frio esfuziava gelado.
enquanto ele descansava, após os curativos, silvana foi ao
banho. a água quente deu-lhe enorme prazer e demorou-se bastante debaixo do chuveiro. aos
poucos, o frio que comprimia seus ossos,
como uma prensa de ferro, foi cedendo e o calor a excitou.
sorria e solvejava, enquanto a espuma do sabonete se desfazia ao
contato com a água cálida.
enxugou-se, agasalhou-se bem e foi preparar o café. devia
ser um café reforçado. afinal, haviam caminhado bastante e o frio
era intenso.
• puxa vida, que frio bárbaro! - exclamou silvana, levando café, pão, bolachas, mel, salame,
queijo e manteiga, numa
bandeja, para o quarto de maurício.
• eu poderia ter ido à cozinha - disse ele, ao ver a jovem entrar com toda aquela bateria.
• nada disso. o frio está terrível. o senhor poderia transformar-se no mais novo picolé da praia do
pontal. vamos tomar
aqui o café. certo?
• para mim, a idéia não é má - sorriu ele, fazendo uma alegre careta. café.
• nem para mim - ajuntou ela.
a bandeja foi colocada sobre a cama, entre os dois.
• cansou muito, hoje? - perguntou ela, servindo-lhe o
• bastante.
• chega de açúcar?
• está bom. agora pode deixar, que eu mesmo me sirvo de pão com manteiga. silvana, então,
tratou de servir-se também.
• se parar o vento, pode dar geada - comentou ela.
• eis o mais novo barômetro do pontal.
o senhor não entende de vento?
• claro, existem três espécies de ventos: vento em popa, vento-virado e vento a favor.
• e vento norte, não existe? - tornou ela, rindo-se.
• há três espécies de vento norte: mormaço, preguiça e mau humor.
já que o senhor está inspirado, me diga algumas espécies de
vento sul.
• pois... há também três espécies de vento sul: frio, resfriado e gripe.
• agora só queria saber se homem que fala do vento é ventoinha ou ventureiro.
• puxa, que menina sabida! você é um monumento filosófico!
os dois riram bastante. a conversa decorreu alegre e descontraída, durante o café.
terminada a refeição, silvana levou a bandeja para a cozinha e voltou a fim de reforçar as cobertas
da cama dele. tomou o
cobertor que estava em sua cama e o estendeu sobre maurício.
• e você? - perguntou ele, preocupado.
• tem mais aí no roupeiro.
apagou a luz do quarto e foi lavar a louça. a casa estava
totalmente fechada, mas o vento assobiava pelas frestas das
janelas. ela estava muito feliz. seus pensamentos perambulavam pelas
bordas das rochas... sentia uma onda de emoção positiva que ia e
vinha, dentro de si, como as ondas do mar. recordou os instantes
maravilhosos que viveu na colina verde do farol.
feita a limpeza na cozinha, o melhor programa era deitar.
o frio estava de triturar os ossos.
entrou no quarto. vestiu o chambre de lã e desprendeu os
cabelos, que lhe caíram soltos pelos ombros. foi até o guarda-roupa buscar um cobertor. não havia
nenhum.
e agora? - pensou ela.
sentou-se na cama. não se animou a deitar: um lençol e
uma colcha de chenil de nada adiantariam contra o frio que a
esmagava.
criou coragem e acordou maurício:
• não tem mais cobertor no roupeiro. por favor, eu estou morrendo de frio.
• e, então, quer que lhe dê a unção dos enfermos?
• não, quero parte nesses cobertores.
tomou o seu travesseiro e deitou do lado dele, refugiando-se debaixo das cobertas.
a filosofia não ensina a solucionar os problemas decorrentes de massas geladas que se deslocam no
ar, chamadas, pela
plebe ignara, de frio? - perguntou ele, com um sorriso nos
lábios.
• claro. foi a filosofia socialista que me ensinou que o que é seu é meu também, por isso cá estou
eu participando de suas cobertas. e a teologia... o que é que diz?
• a teologia condena a aproximação da mulher.
• condena, mas gosta. aliás, nem poderia condenar. o homem não nasceu da mulher? e o
nascimento não é fruto do amor? e o amor não foi criado por deus?
ela se divertia com a ambigüidade das colocações.
• e o que é o amor? - indagou ele, sem dar-se por vencido.
a jovem ficou por instantes em silêncio. de súbito, um sorriso brejeiro brincou en seus lábios.
aproximou-se dele e disse:
• por palavras não sei explicar, mas vou dar-lhe um exemplo.
jamais alguém ficou sabendo que tipo de exemplo aconteceu nessa noite fria da praia do pontal.
..
de manhã cedo, quando maurício acordou, silvana já tinha levantado e fazia ginástica diante da
janela.
• bom-dia - disse ela, bem animada e alegre.
• bom-dia - respondeu ele, com certa tensão na voz e no rosto
• parece que você não está bem - murmurou ela, apreensiva.
• gostaria que voltássemos para alvores, após o café.
• É essa a sua vontade?
• É.
silvana quedou-se pensativa.
• está bem - disse, por fim, com voz fraca e trêmula.
foi, então, para a cozinha. pôs a chaleira no fogão.
aproveitou o tempo do banho dele para arrumar as malas e deixar a casa
em ordem.
quando ele saiu do banho, estava mais disposto e disse:
• pode tomar seu banho tranqüilamente, que eu mesmo vou preparar o café.
• obrigada.
ela não controlava a perplexidade. entrou no banheiro, ansiosa por ficar sozinha.
a água quente do chuveiro começou a reanimá-la lentamente. enquanto passava o sabonete pelo
corpo, buscou pôr ordem em seus pensamentos. e se fixou na repentina
decisão de maurício. claro, um dia teriam que retornar, e esse dia estava
próximo,
mas por que teria que ser assim? lembrou-se de tudo que acontecera à noite. era uma recordação
agradável e excitante.
À medida que a água lhe esfriava a cabeça, foi se dando
conta de uma coisa: maurício deve ter-se sentido derrotado pelo
corpo. por certo, ele entendeu que perdera uma batalha e não queria perder a guerra. mas, que
batalha? ! que guerra? !
antes que a frustração e a melancolia se abatessem sobre
seu ânimo novamente, silvana ligou, com raiva, a água fria e, quase batendo os queixos, terminou
de enxaguar-se.
capÍtulo 5
caía a tarde. alvores já se recolhia para dentro de suas casas. maurício atravessou calmamente a
praça. as folhas secas do
outono moviam-se à sua passagem. o céu acinzentado prenunciava
chuva. entrou na igreja pela porta da frente. caminhou vagarosamente através do corredor central,
envolvido pela penumbra do
templo. lá no fundo, a luzinha escarlate dava um toque de mistério
ao ambiente. o grande cristo de madeira, ao lado do altar,
parecia
estar sendo afagado e aquecido pela névoa avermelhada.
apenas o ruído seco de seus passos ecoava pela nave. ultrapassou os degraus da mesa da comunhão
e parou, por instantes,
diante do altar. atravessou a sacristia e saiu para o pátio
interno existente entre a igreja e a casa paroquial. percorreu a
galeria exterior e abriu a porta do seu gabinete de trabalho. a sala estava
à
meia-luz. correu as cortinas e ficou a olhar vagamente para a
rua.
acendeu a luz. sobre a escrivaninha havia uma carta, com
as armas do bispado de rosandur. tomou-a, sem pressa, e abriu-a.
o vigário-geral, monsenhor teófilo santoro, o convocava, em nome de dom filpo verenski, para uma
audiência, no dia 12 de junho, às 10 horas, quando seriam tratados
assuntos pertinentes à
sua
pessoa. “pertinentes...” deu uma risadinha amarela. agora não
lhe restava dúvida de que, durante a sua ausência, a trama campeara livre e estendera seus
tentáculos para mais longe.
voltou à janela e se quedou longo tempo abismado em seus
próprios pensamentos.
tornou a atravessar a galeria e foi cumprimentar dona ermelinda. quanta festa! josias, que
trabalhava na despensa,
fazendo limpeza geral, ao ouvir a voz do padre maurício, saiu às
pressas
para dar-lhe as boas-vindas.
• graças a deus que está bem! - exclamou ele, todo sorrisos.
• e vamos recomeçar o trabalho com ânimo renovado.
• isto mesmo. há muito que fazer. ontem estive visitando as famílias da margem esquerda do
lago.
• muito bem! - elogiou-o maurício. - precisamos ir ao encontro dessa gente humilde. também eles
são filhos de deus e merecem nosso apoio e nossa palavra.
• ah, antes que me esqueça, veio uma carta para o senhor.
está sobre a escrivaninha. tenho maus pressentimentos...
• jáali.
maurício ficou em silêncio. o velho não quis perguntar nada; afinal, se ele quisesse dizer alguma
coisa do conteúdo,
falaria.
mas, o silêncio confirmou-lhe de que boa coisa não havia dentro
daquele envelope com as armas do bispado de rosandur.
À noite, dollá pensou em deitar cedo. passou os olhos pelas páginas dos jornais, folheou a revista
teológica, que acabara
de
chegar, e demorou-se um pouco na leitura de um boletim da conferência nacional dos bispos.
tilintou a campainha.
era silvana.
• boa-noite - saudou ela.
• boa-noite, silvana.
• e os curativos? não sou mais ninguém?
• olhe, silvana, já tomei muito do seu tempo. você fez demais. talvez, até, se tenha prejudicado
em alguma disciplina
escolar por minha causa. agora, a dona ermelinda vai-se encarregar
dos curativos. eu nem sei como agradecer a sua bondade. mas,
sente-se, por favor.
• não tem nada que agradecer, padre maurício. eu faço tudo para... pagar os meus pecados - sorriu
ela, sem jeito. -
mas,
mudando de assunto, meus pais me disseram que o doutor onofre
lhes contou que o bispo vai mandar chamá-lo.
• eu sei - confirmou ele, sem dar maior importância ao assunto.
• o senhor sabe?
• recebi carta do bispado.
• e aí? - indagou, ansiosamente, a jovem.
• É isto aí. veremos o que eles querem...
• ai, meu deus! - exclamou ela. - que não seja nada contra o senhor!
• calma, silvana. para que se afogar em copo d’água? toda a maldade que vem de fora só atinge a
quem abre o coração para
recebê-la. eu prefiro abrir o meu coração para a paz, para a bondade, para a alegria, para o amor,
para as flores, para as
belezas da
vida. pode alguém roubar-me o brilho das estrelas e a poesia das
noites de luar? não, silvana, não carregue, por favor, a maldade
dos outros dentro de você, porque, então sim, você ficará perturbada e a vida se tornará um inferno.
• É... o senhor fala bonito...
• acredite em mim, silvana.
• eu soube, lá em casa, que o doutor esteve falando pessoalmente com o bispo. boa coisa não
pode ter dito. aquele homem é uma cascavel.
• É simplesmente um pobre infeliz que está lutando contra si mesmo - corrigiu maurício.
• bem, o senhor deve estar muito cansado. até amanhã.
ao chegar à porta, fez de conta que se lembrou de algo:
• ah, aqui tem uma coisa para o senhor!
pôs um papel cor-de-rosa nas mãos de maurício e desapareceu na escuridão da noite.
era am bilhetinho escrito à mão:
“pensei muito no senhor. estou com medo de que venha a
sofrer por minha causa. perdoe-me por tudo. adeus. silvana”.
. .
marisete olhou pela décima vez o relógio, com extremo nervosismo. estava sozinha na sala de
espera. as paredes pintadas
de
cinza-escuro pareciam cair sobre ela. um conjunto de móveis trançados de palha era tudo o que
havia ali.
a jovem não conseguia ficar dois minutos sentada. de
vez em quando alguns gemidos agudos atravessavam a porta do
consultório e perfuravam seus ouvidos, deixando-a trêmula e apavorada. sentia-se como uma
condenada. o coração ofegante e as
pupilas dilatadas deixavam nela a marca do terror. cada grito
lancinante que vinha lá de dentro dava-lhe a impressão de que estavam
matando alguém.
• ai, meu deus! - exclamava à meia voz. - por que é
que o padre maurício não veio? será que faz parte dos ensinamentos de jesus abandonar as pessoas
nas horas em que elas mais necessitam? o que faço é certo? É errado?
não estou pedindo o julgamento de ninguém: estou pedindo socorro. não pedi que ele assumisse o
meu ato; só queria que me ajudasse, me fizesse companhia... coração
de pedra... padre insensível... em nome de quê e
de quem?... de uma tese teológica?... de um preconceito?...
os gritos continuavam a atravessar a sala e ela se encolhia
de pavor. tinha vontade de fugir. quase sem se dar conta, sentouse numa cadeira e seus lábios
pálidos começaram a suplicar a misericórdia e a proteção de deus...
de repente, a porta de entrada se abriu.
era maurício que chegava.
• ah, que bom! que bom! - exclamou ela, atirando-se nos braços dele. - que bom!... que bom!...
as lágrimas rolavam abundantes das faces da jovem.
• você pensou ben, marisete? - perguntou ele, preocupado.
• por favor, padre maurício, não me torture.
o médico abriu a porta:
• pode passar.
a jovem tomou maurício pela mão e entrou por um corredor escuro.
• por aqui - assinalou secamente o doutor, passando à frente dos dois e dirigindo-se para uma sala
à esquerda do corredor.
no centro da sala, uma mesa de exames coberta com roupa
branca. ao lado, um armário de metal, já enferrujado nas regiões
descascadas, mostrava, através de suas portas abertas, uma gama
variada de instrumentos cirúrgicos. a parede antigamente era amarela. À direita de um velho
roupeiro, bastante carcomido pelo
tempo, havia um pequeno banheiro para o qual marisete foi conduzida
pela enfermeira, a fim de despir-se da cintura para baixo.
o médico pôs-se a preparar os instrumentos. permanecia de
costas. melhor, pois maurício não estava a fim de conversar.
marisete foi deitada de costas, devendo permanecer em posição incômoda, uma vez que as
extremidades ficavam caídas na
ponta da mesa. ela tremia de pavor. e agarrava-se fortemente nas
mãos de maurício.
• não tenha medo. relaxe - disse o médico, com voz gutural e encatarrada.
médico?... maurício não acreditava que aquele homem era
médico. não usava luvas e parecia displicente na esterilização dos
instrumentos. ficou sabendo, depois, que se passava por médico,
mas não era. a clínica era clandestina.
o homem colocou uma bacia embaixo, no chão, e sentouse como se fosse lavar os pés da moça. ia
começar a operação.
• o senhor não vai anestesiá-la? - perguntou maurício, preocupado.
• eu sei o que faço, seu moço - respondeu ele, mal-humorado. e acrescentou: - você é que devia
saber o que fazia...
maurício teve vontade de largar um soco no velho.
depois de aplicar uma pomada anestésica, ele atarrachou
um aparelho e começou o trabalho em silêncio, de cara fechada.
marisete de vez em quando contorcia-se.
de repente, ela sentiu um violento pique na altura do útero,
deu um grito de dor e desmaiou. uma torrente de sangue desandou
sobre a bacia.
o homem ficou com a frente do avental totalmente respingada de vermelho. agora sim parecia um
açougueiro. e maurício
teve vontade de dizer-lhe isso.
ao ver o estado da moça, o homem levantou-se e saiu da
sala. a enfermeira e maurício puseram-se a abanar marisete, que
estava ainda desfalecida. quando ela voltou a si, ele reiniciou
o trabalho.
a paciente gemia. e se agarrava em maurício como se fosse
morrer.
• ajude-me, pelo amor de deus, que vou morrer! - exclamou ela, em desespero, a certa altura.
mas o operador prosseguia, implacável e frio.
maurício tentava dar coragem à jovem.
ela suspirou fundo. seus lábios moviam-se suavemente. ela
rezava. sabe deus com quanto fervor.
• coragem, marisete - murmurou ele - já vai terminar.
• ai! - urrou ela, de repente. - doutor, pelo amor de deus não rasgue o meu útero. pare com isso,
que eu não agüento mais. pare... pare... pare...
maurício sentiu que o pulso começou a sumir e tornou a
abanar a jovem.
o operador continuava impassível. quando ela voltou a si
novamente, estava pálida e sem forças.
• não se assuste. tudo vai indo bem - resmungou o homem, com sua voz de taquara rachada.
o sangue escorria às soltas. maurício teve medo que a hemorragia não pudesse ser estancada, como
acontecia em muitos casos, levando a pessoa à morte. e começou a
assustar-se realmente:
• doutor, o senhor tem certeza de que vai tudo bem mesmo?
• ei, menino - rosnou ele - até você está com medo? dê coragem a ela... e fique quieto.
maurício agradeceu intimamente a deus por ter vindo. sua
presença nesta hora representava uma obra de caridade. e imaginava o desespero de marisete se
estivesse agora sozinha, em perigo
de
vida, longe de sua cidade. se o que ela estava fazendo era
errado,
agora não vinha ao caso. era problema dela e somente a ela
caberia
prestar contas a deus e dar as suas razões. não lhe cabia
julgá-la. o que ele estava fazendo? o ato humano e cristão de assisti-la e de
inspirar-lhe confiança em deus diante de seus sofrimentos e do
eventual perigo de morte. lembrou aquele velho axioma teológico
que se deve odiar o pecado, mas amar o pecador.
minutos depois, o médico colocou um chumaço de algodão
e disse que estava tudo pronto.
a enfermeira ajudou marisete a sentar-se e, depois, a vestir-se.
• agora fique sentada aqui até que se sinta com coragem e com forças para ir embora - disse ela, e
retirou-se para ver como estava a outra paciente, que ainda gemia na sala do lado. marisete
estava fraca, tonta, o mundo girando ao seu redor. maurício ficou de pé, junto dela, com as
mãos pousadas delicadamente sobre seus ombros.finalmente, depois de meia hora de descanso,
ela quis ir embora. o homem nem se dera o trabalho de tirar a bacia da sala e ela olhava com
horror para aquela sangueira toda.
a enfermeira os conduziu até outro compartimento, próximo da saída, e disse:
• podem ficar à vontade. quando acharem que dá para ir embora é só sair por esta porta. se
precisarem de mim, por favor me chamem. retirou-se.
quando marisete sentiu-se reanimada, perguntou:
• como é que o senhor veio?
• a silvana me trouxe de carro, mas não sabe qual a razão da minha vinda até esta cidade. disse-
lhe que tinha um assunto importante a resolver e que me apanhasse diante da estação rodoviária
por volta das nove horas. mas, se você achar melhor, voltaremos de ônibus.
• não, silvana é uma boa amiga. quando senti que o senhor não viria, lembrei-me que devia ter
pedido a ajuda dela. É
uma moça estudada e esclarecida... quanto falta para as nove horas?
• vinte minutos.
• então podemos ir. já está tudo pago.
• apóie-se em mim - sugeriu ele. - você está muito fraca.
em poucos minutos, o táxi deixou-os diante da rodoviária.
• não sei como agradecer-lhe. o senhor é maravilhoso.
sensível. amigo. que deus o conserve sempre assim.
• fiz o que devia, como gente, como amigo, como cristão.
de resto, nunca esquecerei o que você fez por mim... creio que
devo a minha vida a você...
• eu também... - suspirou ela.
silvana já estava lá e ficou surpresa ao ver marisete com
maurício.
• o que é que houve?! você está tão pálida... - admirouse silvana, quando a amiga entrou no carro.
assim que o veículo arrancou na direção de alvores, a enfermeira começou a contar-lhe, com muito
esforço na voz:
• você se lembra quando eu lhe falei do que acontecera durante um encontro que eu tive com um
rapaz... durante algum tempo houve silêncio dentro do carro.
. .
a reunião do bispado de rosandur estava marcada para as
nove horas da manhã. faltavam ceis minutos quando o padre
maurício tocou a campainha do palácio episcopal e foi seguindo
por um corredor decorado no estilo barroco.
atravessou uma ampla varanda.
• pode descer esta escada, que já o estão esperando na sala de reuniões, ali embaixo - disse a
recepcionista que, pelo
porte,
devia ser uma freira, muito embora trajasse como leiga.
uma escada bastante escura, forrada de tapete bordô, o
conduziu diretamente a um salão de estilo medieval. a primeira
impressão de maurício foi a de que transformaram um porão antigo,
feito de paredes rústicas e janelas ovaladas, em sala de conferências.
por trás das janelas, podiam-se ver trepadeiras, cáctus e folhagens, que tornavam o recinto
obscurecido, como se fosse um
antro de conjurações. mas, era local silencioso e calmo. no fundo da
parede, um grande crucificado, em madeira de cedro. o piso
estava
forrado com tapete de veludo da mesma cor da escada.
o bispo e o conselho episcopal já estavam a postos em
torno de uma longa mesa oval, situada no centro da sala. tanto
os
rostos como o ambiente pareciam sérios e circunspectos.
quando maurício se aproximou, apontaram-lhe uma cadeira e, de imediato, o senhor bispo fez o
sinal da cruz em voz
alta, no
que foi acompanhado por todos. mauricio sentia-se como um peixe
fora d’agua e sua mente não conseguia concentrar-se na invocação
do espírito santo, feita pelo vigário-geral, monsenhor teófilo
santoro, cinqüenta e cinco anos de idade, cabelos brancos de
tanto
ambicionar o báculo episcopal, segundo se comentava, à boca pequena, nos meios clericais.
maurício levou quase um susto, quando o ruído abafado
das cadeiras o trouxe à realidade.
dom filpo, bispo de rosandur, de sessenta e três anos de
idade, rosto decaído pelo tempo e corpo flácido pelo diabetes que
o
torturava há mais de vinte anos, tomou a palavra, no centro da
mesa, e falou, com voz serena, mas cansada:
• convocamos esta reunião, com a presença de nosso irmão maurício, animados pelo zeloso
intuito de resguardá-lo das insídias do demônio e de proteger o bom nome
da santa igreja. que
as bênçãos de deus nos acompanhem e o divino espírito santo nos
ilumine.
• amém! - responderam todos, em coro.
• passo, então, a palavra ao vigário-geral, monsenhor teófilo.
o vigário-geral mexeu-se na cadeira, colocou os óculos,
puxou uma folha de papel para junto de si, e começou:
• “reverendíssimo padre maurício dollá. sua excelência reverendíssima o senhor bispo diocesano
e seu insigne conselho
presbiteral, tomados de profunda amargura e compaixão, sentemse no indeclinável e sacrossanto
dever de se dirigir a vossa
reverendíssima no sentido de apontar-lhe o melhor caminho para a sua
salvação e para a defesa do rebanho de cristo. as medidas que este
conselho torriou, é escusado dizer, visam unicamente o seu bem,
porquanto estamos todos nós empenhados em livrá-lo das penas do
inferno e dar-lhe oportunidade de, longe dos tentáculos do mundo,
poder, pela oração e pela penitência, retornar ao seio imaculado do
senhor. por um dever de justiça, cumpre-nos apontar-lhe as razões
das medidas que serão tomadas em seu benefício:
1) ao tomar posse da igreja de alvores fez sermão incondizente com sua dignidade. 2) desfez o
noivado de dois jovens em
vias de casamento, mudando, com intenções escusas, a idéia da jovem. 3) dissolveu e ridicularizou
seu próprio conselho paroquial,
que tentava abrir-lhe os olhos sobre a má imagem que sua presença
provocava junto ao povo da cidade. 4) e, por último, teria
desaparecido da cidade com uma jovem, deixando o rebanho, que lhe fora
confiado, à mercê da própria sorte.
desta forma, ficou determinado que vossa reverendíssima
deverá retirar-se de alvores com a máxima brevidade e partir para
o pequeno povoado de espigão do inferno, onde, convivendo com
a pobreza, a miséria, a solidão e a ignorância, possa reaver sua
alma para deus.
com as bênçãos do senhor,
dom filpo verenski, bispo de rosandur e seu conselho
episcopal.”
maurício, de início, ficou branco, como se estivesse no último grau de leucemia.
aos poucos, porém, à medida que a leitura ia se desenrolando com aquela voz monótona e fanhosa
do vigário-geral, foi
cobrando ânimo e sua mente começou a trabalhar em sua própria
defesa. lembrou-se de sua fama como inteligência brilhante nos
tempos de seminário e tratou de alinhar suas considerações. afinal,
respeito não era sinônimo de subserviência, pensou ele, e, embora
ainda um tanto perturbado, aproveitou o momento em que o senhor bispo perguntou se tinha algo a
dizer, para dirigir-se aos
presentes:
• em primeiro lugar, elogio o espírito de justiça e de amor para comigo, bem como o
incontestável interesse pelo meu bem e pela minha salvação eterna.
o vigário-geral percebeu os ressaibos de ironia que azedavam as palavras de maurício e engoliu em
seco.
• apenas - continuou maurício - gostaria de lembrar que a justiça mais elementar determina que,
antes de ser dado o veredito, sejam ouvidas as partes interessadas e envolvidas. eu não fui
ouvido. e poderia simplesmente citar-lhes o velho axioma latino, aprendido nos bancos do
seminário: quid gratis datur, gratis negatur. o que se afirma gratuitamente, gratuitamente pode
ser negado, para os que já esqueceram o latim. mas, apenas para
raciocinarmos, suponhamos que eu tenha incorrido nos deslizes mencionados. não seria de se supor
que a santa mãe igreja e seus
ministros
agissem com amor e compreensão, procurando ajudar, apoiar, dar
tanto maior amparo quanto maiores forem os problemas? como
agiu a mãe de santo agostinho? não ficou rezando e esperando,
com paciência e extremo amor, durante dezoito anos? ou alguma
biografia narra que ela o expulsou de casa, já aos primeiros desmandos do filho? e o pai do filho
pródigo, cuja história é tão maravilhosamente contada por jesus,
jogou o filho porta afora e
nunca mais o quis ver, ou foi tudo diferente? e, agora, aqui, o
que fez
a nossa santa mãe igreja? enxotou seu filho, assumindo os
interesses dos agressores e acusadores.
• com licença - interveio o vigário-geral - nós tomamos posição tendo em vista que o senhor fez...
• e quem disse que eu fiz? - cortou, com veemência, maurício. - creio que já é tempo de
começarmos a praticar, em casa, pelo menos a justiça, se não temos forças suficientes para
praticarmos o amor e a tolerância.
• mas, o nosso julgamento - observou, com calma e firmeza, o cônego valfredo sprintz, de setenta
e dois anos de idade,
tirando o cachimbo da boca - se baseou em fatos concretos, já do
domínio público.
• julgamento?! - revidou maurício, com ânimo. - se me permite, citarei aqui de cor e salteado as
palavras textuais de jesus cristo, segundo o depoimento histórico do evangelista mateus,
capítulo sete, versículos de um a quatro: “não julgueis e não sereis julgados. pois, como
julgardes, assim sereis julgados; e com a
medida com que medirdes medir-vos-ão a vós. por que vês um argueiro no olho do teu irmão, ao
passo que não enxergas a trave de teu
próprio olho? ou, como dizes a teu irmão: deixa-me tirar-te do
olho o argueiro - quando tens uma trave em teu próprio?”
• meus parabéns por sua aguda memória e conhecimento bíblico - acentuou, com velada malícia,
o vigário-geral - mas o senhor há de convir que a nossa missão é seguir as normas da igreja...
• as normas da igreja, posso admitir que estejam seguindo, mas não as normas e ensinamentos de
jesus cristo.
• por quê? - perguntou, curioso, o cônego giusepe saleroni, que estava sentado à direita do
vigário-geral.
• porque - respondeu maurício - porque jesus cristo, ao que me consta, agiu e ensinou bem
diferente do que os senhores estão fazendo. jesus cristo não condenou a adúltera e os senhores
estão condenando; jesus atraiu carinhosamente para si a pecadora madalena e os senhores estão
me enxotando para os cafundós do inferno; jesus cristo não julgou o ladrão que estava sendo
crucificado a seu lado, na cruz, e lhe ofereceu o paraíso em troca de um
simples gesto de bondade, e os senhores me julgaram arbitrariamente e me condenaram às traças;
jesus cristo...
• sim, mas escute um pouquinho - interrompeu-o o vigário-geral, com visíveis sinais de
inquietação - não se trata aqui
de um cristão qualquer. o senhor é um ministro de deus, foi colocado como luz para o povo e, por
isso, o seu caso é muito mais sério, pois poderá pôr a perder o
rebanho de cristo...
• muito bem - tornou o padre dollá - e são pedro não foi nomeado por cristo seu sucessor e
primeiro papa? não seria, então, sobre ele que cairiam os olhares dos demais apóstolos e dos
cristãos de todas as gerações? e, no entanto, na hora em que devia testemunhar o cristo, negou-o
covardemente por várias vezes.
cristo o condenou? não o condenou e nem o destituiu. e judas iscariotes não era um apóstolo? não
cometeu a barbaridade de trair o
mestre pelo preço idiota de trinta moedas? e jesus o condenou e o
expulsou da igreja? pelo contrário, teve palavras de carinho,
tentando tocar-lhe o coração, na hora em que era traído por um beijo.
pelo que vejo, essa igreja, que os senhores, tão ciosamente,
procuram defender e resguardar, não é a mesma igreja que foi fundada
por jesus. ou eu não entendo mais nada.
houve um silêncio pesado na sala.
maurício dobrou com calma a folha de papel que estava
diante dele - todos os participantes da reunião tinham uma folha
de papel diante de si - e pôde ver, incrustada na madeira da
mesa,
a imagem medieval de um crucificado. só agora percebeu que cada
lugar tinha um crucificado embutido na mesa. esta visão
inesperada o surpreendeu. olhou para o cristo e ficou sem saber se o
mestre aprovara ou desaprovara suas palavras.
• o senhor está nervoso e isso é compreensível.
era o vigário-geral que retomava a palavra, dando um tom
de benevolência à voz.
quem, no entanto, estava nervoso era o próprio vigário geral, que continuou incisivo:
• mas, nós precisamos pôr um ponto final nesta discussão.
o senhor quer-nos passar por ridículos, mas não esteja certo de
que
o conseguirá. em nome do senhor bispo e em nome do conselho
presbiteral, eu lhe pergunto: o senhor vai negar-se a ir para
onde
foi transferido?
• não.
• ainda bem - descansou o vigário-geral, enxugando a testa com o lenço.
• com uma condição - observou maurício.
• diga - adiantou-se o cônego sprintz, largando uma gostosa baforada de cachimbo pelos ares.
• com a condição de que cada um dos senhores que se considerar inocente assine embaixo do
documento.
• isto é ridículo! - explodiu o vigário-geral.
• pois é - sorriu maurício - pimenta nos olhos dos outros é colírio.
• É um desrespeito à autoridade! - irritou-se monsenhor libério magnus. era a primeira vez que
falava e explodira como uma bomba-relógio.
• lembre-se que a autoridade é a voz de deus. ou não aprendeu isso no seminário? - acentuou o
cônego giusepe salerom.
• voz de deus?! - maurício franziu os sobrolhos, com pena. - antes que a autoridade entenda que
está falando pela voz de deus deve se inquietar muito. muito mesmo. eu nunca acreditei que,
pelo simples fato de alguém ser autoridade, deus faça a
besteira de encampar todas as afirmações e assinar embaixo. precisamente por ser autoridade é que
ela deve se perguntar mil vezes se
esta é
a vontade de deus. É muito fácil largar a responsabilidade em cima
do pai eterno. deus tem costa larga, mas exige um mínimo de bom
senso da parte de seus ministros. e é bom a gente se indagar
friamente se, por trás do escudo de deus, não se ocultam motivos de
ressentimento, de inveja, de frustração, de sadismo, de ambições,
de vingança... imaginem os senhores quantos milagres por dia deus
teria que fazer se quisesse tornar suas as afirmações e determinações das autoridades.
o senhor bispo, que permanecera calado e atento durante
todo o tempo, levantou, com bondade, a mão direita, como a pedir
paz, e falou com afabilidade:
• dileto filho, nós o amamos e o respeitamos muito. nunca nos animou pisar sobre sua dignidade.
mas, entenda que o senhor é engrenagem de uma
grande estrutura, que é a igreja. se essa
engrenagem se romper, somos obrigados, inclusive por questão de
sobrevivência, de trocá-la por outra, mesmo com todo o carinho
que devotamos a essa engrenagem estragada...
o bispo calou-se.
maurício sentiu um fogo irresistível dentro de si e não se
conteve:
• com todo o respeito, excelência, se comparamos a igreja com uma máquina, poderemos ser
triturados pela máquina. para
mim, igreja é vida, igreja é gente, igreja é contingência, igreja é
caminho. não me refiro à igreja como termo abstrato, significando o
depósito da fé, mas essa massa humana caminhando, tropeçando,
caindo, se erguendo, se ajudando e seguindo sempre o cajado do
cristo que aponta o destino eterno da felicidade. fico-lhe muito
grato, no entanto, por ter-me chamado de filho dileto. chamandome de filho, colocou-se como pai.
pois, o que faria um pai,
nesta
situação? pai, assim entendo eu, é quem busca dar abrigo ao filho e
protegê-lo até onde seja possível. ou estou errado? eu acredito que
todo padre que erra, sabe que erra e sofre por isso. não creio
mesmo que seja necessário apontar-lhe o dedo em riste. ninguém tem
certeza de que desta água não beberá amanhã. mas, o que muitas
vezes acontece é que existe uma matilha de lobos vorazes à procura
de qualquer deslize para deleitar-se no prazer de devorar as
vítimas.
e, então, pode acontecer o que aconteceu aqui: quem tem certeza
da veracidade das acusações que me imputam? quero que me entendam: não estou dizendo que
existe nos senhores má vontade, ou
maldade. neste caso, também eu estaria julgando indevidamente.
penso, no entanto, que poderia haver mais bondade, compreensão,
tolerância, perdão, diálogo, espírito de justiça e, principalmente,
amor. sim, amor, por que não? o amor - disse o mestre - perdoa todos os pecados. acredito, até, que
existam todas essas
qualidades em cada um, mas cometeram o grande erro de ouvir só um sino e por aí tomar a decisão.
acontece que diante dos senhores está
um filho, um irmão cheio de boa vontade, inspirado pelos mesmos
ideais. alguém veio como pai, como irmão, como amigo, perguntar-me alguma coisa? e, se alguma
pessoa mal-intencionada inventou tudo isso de que me acusam?
o bispo baixou os olhos. era um bom homem e devia estar
refletindo profundamente em tudo o que ouvira.
o cônego sprintz continuava a lançar nuvens de fumaça
em direção ao teto.
havia mal-estar entre os presentes. alguns se olhavam,
dando a entender que a reunião deveria ser encerrada.
o vigário-geral sentiu a sua falha e isso o martirizava. na
verdade, em toda a sua vida, e nas dezenas de casos semelhantes,
jamais a situação descambara para um impasse de tal porte. na
maioria absoluta, os padres recebiam a transferência como condenados e saíam a cumprir as
determinações, com medo de que qualquer palavra pudesse significar revolta
contra a autoridade e
isso
decretasse o ostracismo total e a condenação eterna.
depois de alguns momentos de angústia generalizada, maurício tomou novamente a palavra:
• mas, eu partirei para o espigão do inferno.
o monsenhor teófilo santoro, vigário-geral, esqueceu-se
de conter a tempo um sorriso vitorioso, que foi alojar-se no
canto
direito da boca, deformando-a por instantes.
o padre maurício levantou-se rápido, para alívio geral,
cumprimentou a assembléia com uma breve inclinação na cabeça e
retirou-se.
Às dezoito horas, maurício estava em alvores. atravessou
novamente a praça fronteira à matriz, agora totalmente suja de folhas amarelentas e secas, e entrou
na igreja. apenas duas
lâmpadas
e a lamparina ao lado do altar-mor estavam acesas. ele
apreciava a
penumbra da igreja, porque lhe enchia a alma de paz e
predispunha
seu espírito para a prece. mas, não estava com vontade de rezar.
estava, isto sim, com vontade de xingar nosso senhor. bem que
tudo poderia ser diferente se, acima de tudo, vigorasse no
mundo a
lei do amor. mas, não. primeiro, deveria vir a disciplina,
depois a
rigidez de conduta, depois a perfeição, depois o espírito de oração,
depois o espírito de imolação e, depois, se sobrasse espaço e tempo,
viria o amor. ao olhar, porém, para o enorme cristo crucificado,
percebeu que ele nada tinha a vér com a forma pela qual alguns
dos
seus ministros se conduziam. seus braços abertos ainda insistiam
com veemência que tudo o que ele queria era amor, somente amor,
acima de tudo amor. sim, porque só o amor é infinito.
transpôs a sacristia e seguiu para o seu gabinete.
josias o cumprimentou e avisou-o de que a silvana estivera
à sua procura e passaria mais tarde. maurício estava tão amargurado, que abençoou este recado.
subiu ao quarto e, displicentemente, foi recolhendo seus
pertences mais indispensáveis e os colocou na mala.
quando o velho sacristão o informou de que a jovem estava
à sua espera, maurício avisou que não jantaria em casa e se dirigiu
para o gabinete.
antes de mais nada, silvana percebeu a tristeza que envolvia o semblante dele.
• mas, o que houve? ! - exclamou perplexa e penalizada.
• tudo bem, silvana.
depois de um instante de hesitação:
• você tem algum compromisso esta noite?
• não.
• gostaria de sair um pouco com você. talvez poderíamos dar um passeio de barco no lago.
preciso sair, desapertar-me, senão eu rebento...
• vamos - disse ela, levantando-se pressurosa.
a acadêmica o conduziu até o pequeno ancoradouro do lago, onde, normalmente, havia dezenas de
barcos encostados.
dollá desamarrou a corda que prendia o gaivota, um barco
bastante amplo, enxuto, com três remos no seu interior.
o lago estava calmo. no céu, a lua brincava de noiva com
sua imensa veste branca, que descia até a superfície das águas. as
estrelas luziam no alto e os seus piscares se refletiam sobre o
lago,
como se debaixo das águas estivessem realizando uma imensa procissão
de velas acesas.
era uma noite suave e nostálgica. enquanto o barco deslizava, quase sem fazer ruído, os chorões
ficavam lá na beirada, debruçados, com suas largas cabeleiras soltas,
dando a impressão de
profetas da noite a chorar sobre o muro cristalino do lago.
• o senhor está triste... - sussurrou a jovem.
• já está passando! - respondeu maurício, remando devagarinho, como se não quisesse perturbar a
paz do lago.
silvana olhou para o rosto dele e viu que estava molhado de
lágrimas.
• eu estou do seu lado - disse ela suavemente, tirandolhe o remo das mãos.
; maurício tentava evitar as lágrimas.
• imagino o quanto estará sofrendo! - exclamou ela, tentando enxugar-lhe o rosto.
ela estava ansiosa por perguntar-lhe o que acontecera, mas
sentiu que era mais delicado não colocar o bisturi numa ferida
que
ainda sangrava muito.
depois de algum silêncio, maurício desabafou:
• você nem imagina o quanto vale a gente ter um ombro para se apoiar na hora em que a casa cai.
silvana estava tão perto dele, mas, ao mesmo tempo, sentia
que estavam separados por um abismo do tamanho dos mistérios
que fervilhavam na alma dele. que poderia fazer senão dar-lhe
apoio, muito apoio, neste momento?
aos poucos, o sufocamento e a angústia terrível, que o
prensavam como uma barra de ferro, foram cedendo suas amarras
e ele passou a sentir-se aliviado. era como se um vendaval
tivesse
penetrado dentro dele, revirado tudo ao avesso, derrubado,
estraçalhado, retorcido e afogado numa avalanche avassaladora. mas, o
vendaval estava passando, as águas baixavam, e, agora, ele já
podia
ver algumas estrelas no céu de sua vida.
• silvana - falou, por fim, maurício, colocando a mão direita da jovem entre as suas mãos - muito
obrigado pela sua companhia. se não fosse uma comparação inadmissível, eu estava
me vendo como o mestre na noite do jardim das oliveiras, abandonado pelos discípulos, ao sabor
dos seus próprios sofrimentos.
quando a gente ouve e sente o coração das pessoas, talvez se tenha
que dizer com jesus que “pecadores e meretrizes entrarão no reino
de deus antes que vós”.
silvana se esforçava pra entender o que ele dizia, mas não
conseguia ligar coisa com coisa. tinha, porém, a impressão de sentir-se
como pára-raios dele e isso a tornava ainda mais
solidária e acolhedora.
• você tem qualidades admiráveis - reconheceu maurício. - só existe um mundo bom dentro de si,
por isso você violentará os céus e alcançará a tenda do pai, digam
os outros o que disserem.
• não sei se mereço esses elogios, porque você é uma pessoa
com quem todos se sentem bem. você é alegre, inteligente, simpático, agradável, bondoso, coração
nobre, irradiante de luz. sim, maurício, qualquer pessoa faria por
você o que estou fazendo. onde
quer que você vá, sempre estará cercado de pessoas que lhe querem
muito, porque sua aura é atraente, é toda feita de luz radiante.
maurício sentiu-se confortado pelas palavras da jovem. e
disse:
• peço a deus que assim seja. mas, você pode ter a certeza de que longe é um lugar que não
existe. onde quer que eu esteja, rezarei muito por você.
• puxa, até parece que você vai embora daqui... não desejo que você vá embora. nunca.
havia um tom de medo e de súplica nas suas palavras.
maurício fícou silencioso, contemplando a noite enluarada
e a calma campestre do lago mergulhado na escuridão da noite.
o barco estava parado.
a poesia e o encantamento da paisagem trouxeram uma
profunda emoção de paz nos dois.
seus olhos estavam cheios de céu, de estrelas, de luar, de lago, e ambos abençoaram a vida,
dizendo-se em silêncio que o amor
e a solidariedade sempre realizam o milagre de perfumar e
florir até
mesmo caminhos pedrentos e espinhosos.
com certeza, neste instante, se imaginaram habitando uma
daquelas estrelas que brilhavam no céu, onde só existia luz e
felicidade.
permaneceram longo tempo no convés do barco e maurício
acreditou mais uma vez que, para cada lágrima de sofrimento, sempre há uma lágrima de
felicidade.
..
sábado, à tardinha, silvana procurou maurício. ouvira
seus pais falarem em novo pároco para alvores. a conversa partira
do doutor onofre.
somente agora ela começava a entender o significado das
palavras de maurício, quando estavam no barco, e a causa dos seus
sentimentos misteriosos.
enquanto aguardava na portaria, uma frase percutia como
martélo em sua mente: “longe é um lugar que não existe. onde
quer que eu esteja, rezarei muito por você”.
a porta abriu-se.
• ah, seu josias, boa-tarde! o padre maurício? ouvi comentários de que seria substituído e teria
que ir embora. claro
que
são boatos, seu josias, mas...
• não são boatos, silvana - disse, com tristeza, o velho.
• o padre maurício não está mais em alvores. foi embora para muito longe...
• ah, não! - exclamou a jovem, atônita e pálida.
depois, tentando segurar as lágrimas, tornou a perguntar:
• para onde?
• foi transferido.
• sim, mas para onde? - insistiu ela, angustiada e nervosa.
• lamento muito, silvana, mas eu tive que prometer por deus nosso senhor que nada diria a
ninguém.
• nem a mim?
• nem a você. sinto muito. muito mesmo.
josias era sincero em suas palavras e silvana respeitou o seu
silêncio, mesmo porque seria inútil insistir.
ficaram calados por algum tempo. havia muita tristeza no
semblante de ambos. parecia que tudo não passara de um breve sonho, agora desfeito
repentinamente como uma bolha de sabão, sem
deixar vestígios.
quando a jovem dispôs-se a sair, o velho meteu a mão no
bolso do casaco e tirou um envelope:
• ele deixou isto para você.
• muito obrigada, seu josias. até amanhã.
silvana tomou o envelope e deixou a casa paroquial. caminhou lentamente, desanimada, em direção
à praça. as folhas secas,
amontoadas ao longo dos passeios, e o céu cinzento, carregavam
ainda mais a sua tristeza.
sentou-se num banco. a praça estava deserta e úmida.
abriu o envelope. dentro estava a florzinha amarela que
ela havia apanhado nas rochas da praia do pontal. somente a
flor.
apenas a flor. mas, bastava. estava dito tudo.
fechou os olhos e ficou pensando, sonhando, devaneando.
somente quando os sinos badalaram as ave-marias é que a
jovem voltou a si e saiu andando pesadamente. ao chegar em casa,
trancou-se no quarto. odiaria qualquer espécie de conversa. tudo
nela eram reminiscências de um passado tão perto, mas que lhe parecia tão distante. nada conseguia
aliviar o tremendo vazio que
se formara no seu interior.
atirou-se na cama e lá ficou a contemplar a florzinha amarela, com os olhos marejados de lágrimas.
no dia seguinte, o povo encheu novamente a igreja para receber o novo pároco. o segundo depois
da morte do padre charles.
era o monsenhor herculano máximo, de sessenta e cinco anos de
idade. rígido, austero, de pouca conversa. como o exigia a situação.
silvana cometeu a ingenuidade de perguntar ao monsenhor
pelo paradeiro do padre maurício e foi enxotada com um xingão
seco e ferino, que lhe ficou ardendo na alma como bofetada.
À noite, após a missa do novo pároco, corrégio voltou a
procurar silvana, como se agora o caminho estivesse finalmente
aberto para uma reconciliação. por mais que a mãe batesse à porta
de seu quarto, ela não saiu.
• mas, ela será minha! - resmungou o rapaz e foi embora.
capÍtulo 6
depois de três dias de viagem exaustiva e monótona nos velhos trens que demandavam à fronteira,
finalmente o padre maurício chegou ao pequeno povoado de espigão
do inferno.
empoeirado até os miolos, com a barba por fazer, rosto
caído de cansaço, ele parecia um raro exemplar da fauna humana.
estava todo doído das longas horas de sacolejamento dos vagões.
gente pobre e mal-encarada entrava e saía do trem, como
se a chegada do comboio fosse uma festa naquele lugar.
alguns casebres alinhavam-se ao longo da estação. lá no
alto, a cerca de um quilômetro para cima de uma encosta árida e
cheia de erosões, podia ver a torre gosmenta e envelhecida da
igrejinha.
• só pode ser lá - pensou ele.
não viu nenhum carro. apenas uma carroça puxada por
dois cavalos, que logo se encheu de gente e partiu, levantando
grossa coluna de poeira.
maurício tentou fazer uma idéia da região. era tudo seco,
envelhecido, estranho. teve a impressão de ter descido de um
disco
voador num mundo sombrio e inóspito. as sombras pardas do entardecer abalaram ainda mais o seu
ânimo. teve vontade de chorar.
e de esperar aí, sentado nos bancos imundos da estação, o próximo
trem e retornar para a sua terra natal.
subitamente, porém, sacudiu o torpor, agarrou com raiva a
mala, colocou-a nas costas e pôs-se a subir a encosta íngreme e
pedrenta.
no bar da esquina, alguns homens barbudos e rotos ficaram na porta a observar, com curiosidade,
aquele estranho, que
vestia diferente e que andava diferente.
teve que descansar várias vezes. a subida era difícil devido
ao pedregulho solto na terra esbrugada.
no alto do espigão, só a velha igrejinha e, ao lado, a casa
do padre, encardida, vetusta, as paredes quase totalmente
descascadas. apenas uma árvore, caindo de podre, à esquerda da casa. a
desolação da natureza era total e deprimente. lá embaixo, no entanto, do outro lado do morro, um
imenso lago, comprimido pelas
rochas abruptas, mudava um pouco a agressividade da paisagem.
na enseada, muitos barcos, alguns miseráveis, outros mais bem
equipados e até mesmo com velas enfunadas. ao longo da enseada,
estendendo-se para o norte, enfileiravam-se os casebres dos
pescadores.
espigão do inferno vivia dos minguados recursos da pesca.
a terra, madrasta e seca, nada produzia, a não ser algumas
ervas ralas, mais para a banda direita do lago, onde uma dezena
de
cabras tentavam defender a vida.
maurício bateu à porta da casa do padre.
uma senhora idosa veio atender.
• boa-tarde. sou o novo padre destinado a esta paróquia.
• ah, sim - respondeu a senhora - um momento que vou avisar o padre keningan.
instantes depois, voltou a senhora, abriu bem a porta e pediu para maurício entrar.
era realmente uma casa muito pobre. móveis carcomidos
pelo tempo e pelo calor.
atravessou um pequeno corredor escuro, em que o assoalho rangia soturnamente, e foi conduzido
ao quarto do padre keningan.
ele estava deitado. velho, doente, magro, cabelos brancos
em desalinho, com dois sulcos largos na testa. a barba estaria
por
fazer há duas semanas. seus olhos, no entanto, luziam com energia. recostou-se na cabeceira da
cama, que rangeu como madeira
velha, e olhou, com surpresa, para o recém-vindo:
• você?! - exclamou, com voz rouca e acabada.
• boa-tarde, padre konrad keningan. vim aqui ajudá-lo.
keningan continuou a fitá-lo com uma expressão quase de
pavor. maurício ficou intrigado:
• por que é que o senhor ficou admirado?
• você?! - tornou ele, com espanto. - você, um moço forte e cheio de vida, foi mandado para este
fim de mundo miserável? !
• mas, o senhor merece um ajudante - tornou maurício, com bondade - afinal, já trabalhou tanto e
não podia ficar aqui abandonado. fique certo de que seremos bons amigos.
• ah, meu filho, agora é tarde. já estou acabado. não sirvo nem para companheiro. sou nervoso,
rabugento... e o que é
pior: essas pedras de espigão do inferno já endureceram o meu coração. quer saber de uma coisa?
eu já não presto mais para nada.
naquele quarto malcheiroso, o padre keningan dava a impressão de um traste apodrecido. o colchão
de palha de milho chegava até a levantar pó, quando ele se mexia
bastante. À direita da
cama, uma velha cômoda com quatro gavetas caindo aos pedaços.
do lado esquerdo, um velho criado-mudo, com alguns vidros de remédio e um copo, não muito
limpo. o breviário, a bíblia e o terço
estavam empilhados atrás dos remédios. acima da cama, a parede
descascada, com um crucificado preso num prego retorcido para
cima. o roupeiro, semi-aberto, tinha duas velhas batinas, algumas
roupas remendadas e um par de botinas grosseiras.
maurício percebeu que muita coisa devia ser feita de imediato. não era possível deixar um ser
humano nesta petição de miséria, ainda mais tratando-se de um irmão
de religião.
• É... você deve estar-se perguntando como é que eu vim acabar os dias por aqui, neste inferno
tórrido e agreste...
• o senhor é um herói - acentuou maurício, impressionado com o que via.
• um condenado, meu caro - explodiu keningan. - um
condenado. por causa do meu temperamento rígido e perfeccionista, o bispo perdeu a paciência e
me mandou comer o pó que o diabo amassou aqui neste deserto de fogo...
e quer que eu lhe diga
mais? - prosseguiu o velho, com voz arfante e pesada. - tenho
certeza de que não foi a piedade do bispo que lhe mandou para
cá...
depois de segundos de silêncio, ele puxou a respiração do
fundo dos pulmões e bradou exaltado:
• você também é um condenado!
o velho caiu pesadamente sobre si e começou a arfar, sufocando-se. maurício o socorreu com
presteza, tomando-o pelas costas e erguendo-o um pouco a fim de aliviar
a respiração. keningan
estava pálido como uma vela. o rosto salpicado de gotículas de
suor.
quando maurício quis estendê-lo novamente na cama, ele
resmungou, com aspereza:
• deixe que eu deito sozinho. não sou inválido. você ainda vai me ver atravessar o lago tiruê a
nado...
fechou os olhos e permaneceu imóvel, como se estivesse
dormindo.
maurício retirou-se do quarto. a mulher estava na cozinha
e ele começou a colher dados:
• você é empregada da casa paroquial?
• não, senhor.
• ele não tem empregada?
• não, senhor.
• então, que é que você faz aqui?
• eu faço o que posso, senhor padre. aqui não pára empregada nenhuma. o padre é muito nervoso.
ele quer tudo do jeito
dele. além disso, o pior é que ele tem uma doença ruim e ninguém
está a fim de..: o senhor sabe, não-é?
• sim, sim - respondeu dollá, com vontade de dizer que não sabia coisa nenhuma.
• eu, o senhor sabe, não-é, tenho família e não posso ficar aqui todo o tempo... mas, a gente vem
aqui sempre que dá no jeito, pra não deixar esse pobre homem aí jogado às traças, como
cachorro empestado...
• e o médico?
• olha, seu padre, ele passa por aqui a cada dois ou três meses mais ou menos, não-é... bem, como
já está escurecendo, se o senhor me permite, não-é, vou tomando o rumo da minha casa. meu
marido deve estar voltando da pesca e ainda não preparei a janta. mas, se o senhor precisar de
mim, não-é, mande-me chamar. eu moro na terceira casa de quem desce para o lago, assim
pendendo para a direita, não-é. eu sou a dona racinda.
a mulher já estava na porta, quando deu uma rápida parada, voltou-se, e falou:
• ah, já ia me esquecendo: em cima do fogão está a janta!
sobre um velho fogão à lenha havia uma panela e uma chaleira encardida. À esquerda do fogão,
uma mesa surrada e duas
cadeiras de palha. mais adiante, um armário antigo, fechado com
tramela de madeira. na parede, acima da mesa, am quadro encascurrado da Última ceia.
levantou a tampa da panela. um pouco de arroz e três batatas-doce requentando era o que havia.
ativou o fogo. levou,
então, as batatas e o arroz para keningan e disse:
• enquanto o senhor come, vou preparar um chazinho.
com licença.
sem se perturbar com a expressão azeda e reprovatória do
doente, voltou para a cozinha. fez uma espécie de reconhecimento
da situação. a pobreza era total. um pouquinho de açúcar, de sal,
de arroz, um pão bastante envelhecido, banha, salame, uma latinha
de café e um pequeno pacote de chá. nada mais encontrou. no
meio disso tudo, os talheres amontoados.
durante o chá, keningan traçou as primeiras determinações
para o novo ajudante:
• amanhã o senhor poderá visitar a capela de são paulo, na costa oeste do lago. daí, basta seguir
dois quilômetros por água e chegará até o pequeno povoado de navegantes. faz muitos meses
que essa pobre gente não recebe a visita do padre. também, de que
jeito? - xingou ele com raiva. - virado num saco podre aqui, como é que eu poderia ir ver aquela
gente?
• padre keningan - ponderou calmamente maurício - o primeiro cristão que deve ser atendido... é
o senhor.
• eu sou padre e sei me entender com deus nosso senhor.
vá ver aqueles miseráveis, que nascem, se ajuntam e morrem no pecado!
maurício procurou acalmá-lo:
• claro, padre keningan, toda essa gente será atendida.
mas, como cristão e como irmão seu, antes de tudo preciso dar-lhe
um modo de vida mais humano e mais digno.
154
• o quê?! - vociferou ele, ofegante. - você, um padre jovem, sadio, inteligente, ficar aqui
cuidando de um pobre velho imprestável?! isso não! seria abominável desperdício de forças e
de tempo.
as últimas palavras mal-e-mal saíram da garganta, pois o
velho sentiu faltar-lhe o ar e começou a agitar-se desesperadamente
na cama. maurício acudiu-o novamente, abanando o rosto com um
pedaço de revista que encontrou sobre a cômoda. quando o doente
recuperou o fôlego, deixou-se cair exausto na cama e fechou os
olhos.
o calor atravessou a noite. apenas pela madrugada refrescou um pouco.
não afeito a temperaturas tão elevadas, maurício levantou
cedo, preparou o café para o doente e desceu até a enseada do lago
a fim de falar com racinda sobre a possibilidade de conseguir
uma
jovem para trabalhar na casa paroquial e dar assistência ao padre
keningan.
racinda o acompanhou pelas casas. ninguém se dispunha a
ir morar lá em cima. a situação do padre keningan era por demais
conhecida. maurício não desanimou. era indispensável arranjar alguém para que a vida do enfermo
se tornasse mais humana. finalmente, depois de percorrer quase todos
os casebres, conseguiu a
jovem eliane somat, de dezoito anos, que concordou e teve o
consentimento dos pais, com a condição de retornar, à tardinha, para casa. já era muita coisa.
quando o padre keningan viu a moça e o padre maurício
de calças arregaçadas, metidos numa limpeza geral, teve novo acesso de irritação e quis saber com
que dinheiro o povo iria pagar a
empregada.
• isso deixe para mim - respondeu amavelmente maurício.
À tarde, vieram mais duas senhoras, vizinhas da eliane, para ajudar na limpeza. depois de sacar
carradas de lixo, teias
de aranha e pó, puseram-se a lavar todas as dependências da casa. maurício provava a capacidade
de seus músculos puxando a água do poço.
o quarto do padre keningan foi limpado de canto a canto.
as gavetas da cômoda repregadas e as roupas, já emboloradas no
roupeiro, foram retiradas, escovadas e colocadas ao sol.
era quase ao fim da tarde quando conseguiram terminar a
limpeza. as roupas sujas e encardidas ficaram para ser lavadas
no
dia seguinte.
agora sim dava gosto penetrar no quarto do doente. a cozinha também ficou mais decente. o quarto
de maurício tornou-se
habitável. não tinha mais aquele cheiro agudo e azedo de bolor.
aos poucos, maurício foi ensinando a eliane a cuidar melhor do doente; mandou trocar as roupas de
cama pelo menos de
três em três dias, e até deu-lhe as dicas para alguns pratos
diferentes
de comida. ao fim de alguns dias, até keningan achou que assim
estava bem melhor.
no domingo, quando o sininho da igreja bateu para a missa, às nove horas, não havia mais de dez
pessoas nos bancos, a
maioria gente idosa, de lenço na cabeça.
ao aproximar-se do altar, maurício sentiu um profundo
abatimento. então, viera enterrar sua vida nesses cafundós do inferno para atender uma dúzia de
velhas decrépitas?!
um nó esquisito apertou-lhe a garganta e, somente com
muito esforço, conseguiu conscientizar-se do valor de cada
criatura
humana diante de deus. mas, naquela tarde, desceu até a estação de
trem e entrou no bar da esquina. estava regurgitante de
pescadores
e sentiu que a sua igreja teria que se transferir para esse bar
no próximo domingo. eles eram pescadores de peixes e ele teria que ser
pescador de almas, como seu antecessor, o apóstolo pedro. e, como todo bom pescador, sabia que
seria inútil lançar as redes em
águas que não têm peixe. os peixes estavam aí e não lá em cima.
a curiosidade em torno do novo padre era muito grande e
não foi dificil fazer amizade com aquela gente. passou a tarde
ouvindo histórias de pescadores e de enchentes terríveis.
ao chegar em casa, eliane já estava com o café preparado.
• o padre keningan já tomou café? - perguntou maurício.
• sim.
• como passou ele o dia?
• mais ou menos. começou a sentir fortes dores na região do peito. fiz-lhe um chá e parece que
ajudou um pouco.
• muito bem, eliane - elogiou-a ele. - você é esperta e inteligente.
• mas, acho que não vou ter paciência para agüentar o padre keningan. o senhor sabe - disse ela,
com certo ressentimento
• nem em toda a minha vida não ouvi de meus pais as xingações que ele me deu num dia apenas.
• ele é doente, eliane, precisa compreender isso. leve na esportiva. tente achar graça de tudo e
você vai ver que ele não é tão nervoso assim.
• vou tentar, padre maurício.
enquanto ele tomava café, ela ficou mais para trás a fitá-lo
com admiração.
• que moço simpático! - pensava com seus botões.
• que é que você está pensando? - perguntou maurício,
vendo que a jovem permanecia mergulhada em longo silêncio. alguma coisa não está bem?
• estava simplesmente contemplando o senhor... - disse ela, bastante encabulada. - não sei como é
que teve coragem de vir parar aqui nesta solidão.
não há solidão, eliane. o padre keningan existe. você existe. há tanta gente esparramada por aí.
todos são filhos de deus e
merecem a presença de um sacerdote.
• mas, eu acho que o senhor não foi feito para isso aqui...
maurício continuou a tomar seu café em silêncio.
• já está escurecendo - disse ela. - vou para casa. até amanhã.
• até amanhã, eliane. e muito obrigado por hoje.
eliane desceu a encosta rumo à sua casa, pensando em
maurício. a emoção que sentiu ao vê-lo pela primeira vez ainda sacudia seu coração. em vão
tentava imaginar por que motivo ele viera parar em espigão do inferno.
claro, podia ser por dever sacerdotal, uma vez que o velho vigário se encontrava enfermo, mas
alguma coisa lhe dizia que poderia existir outra causa. quem sabe,
um desengano na vida... por que não? afinal, quantas histórias ela
tinha ouvido de gente que se decepcionava da vida e se enfiava
no
isolamento de algum fim de mundo...
maurício continuava a tomar calmamente seu café. sua
preocupação agora era conseguir dinheiro para dar melhores condições de sobrevivência ao padre
keningan, pagar a empregada, adquirir alimentos e certos produtos
indispensáveis para a casa.
até
agora, o padre keningan vivia de pequenas esmolas e doações. já
fazia bastante tempo que não se levantava para distribuir os
sacramentos e rezar missa dominical na igreja. a não ser algumas pessoas mais chegadas, o povo já
pouco se lembrava dele.
viver de batizados, casamentos, missas, enterros? - perguntava-se maurício. - além de o povo estar
praticamente desprovido de recursos, poderia dar a impressão de
que viera apenas
para
arrancar dinheiro daquela gente.
na manhã seguinte, manteve uma longa conversa com a
eliane, enquanto ela esquentava a água e preparava o café.
• eliane, pelo jeito o povo daqui vive apenas da pesca...
• É. a terra não dá nada. só para o lado da barra do rio tiruê é que as terras são um pouco
melhores.
ele recostou a cadeira contra a parede e tornou a indagar:
• e o que é que fazem com o peixe?
muito peixe é vendido seco, em postas. o seu jerusa, lá do
bar, tem sempre caixas de gelo onde ele põe o peixe que compra e
manda de trem para outras localidades. mas, os negócios são pequenos. o senhor vê, todo mundo
vive na pobreza.
• e escola?
• tinha uma lá embaixo, perto da estação, mas está fechada. falta professora.
• e você gostaria de ser professora?
• de que jeito? não tenho dinheiro para estudar.
• isto se resolve. o importante é ter vontade.
depois de um breve silêncio, maurício teve uma idéia:
• e se eu quisesse ser pescador também, você acha que alguém me emprestaria um barco e me
ensinaria o ofício?
• vou falar com o meu pai. ele é pescador há mais de quarenta anos. conhece o lago e o rio tiruê
como a palma das mãos.
• estou com fome - gritou o padre keningan, lá do seu quarto.
eliane tratou de preparar às pressas, com certo nervosismo,
o café para o doente. maurício a observava. era uma jovem de tez
queimada, rosto bem configurado, os cabelos bastante descuidados, a roupa muito simples, mas
limpa.
após o café, maurício desceu até o lago. foi apreciar os
pescadores que ainda se encontravam na margem preparando ou
consertando suas redes e espinhéis.
com o andar dos dias, passou a pescar com o velho jonatam,
pai da eliane. jonatam já beirava os sessenta anos. sua
barba
espessa estava salpicada de branco. os cabelos sim, totalmente
encanecidos. mas, era um homem bem-disposto. todas as manhãs tomava seu barco e saía ao largo
em busca de pescados. nunca voltara sem nada.
em conversas que se prolongavam muitas vezes até tarde da
noite, maurício já estudava com os pescadores a possibilidade de
estabelecerem uma espécie de cooperativa de peixes a fim de aproveitar melhor o pescado e vendê-
lo com mais lucro. fez algumas
viagens de trem com o intuito de conhecer as cidades vizinhas
que
tivessem possibilidade de consumir o produto. o sistema de
acondicionamento do peixe foi melhorado e ampliado.
o pequeno mundo de espigão do inferno ganhava nova vida.
...
a notícia correu por toda parte. neste domingo haveria um
acontecimento inusitado. o novo padre, que poucos conheciam,
iria rezar missa no bar do seu jerusa. para aquela gente, era a
coisa
mais incrível do mundo misturar jesus cristo com cachaça e rapadura. além disso, de vez em
quando saía cada briga naquele inferninho, de mandar gente para o cemitério.
Às dez horas daquele domingo, o padre maurício colocou
uma mesa no meio do bar e pediu para encostarem as demais junto
às paredes do salão. ele era o primeiro padre que pisava naquele
boteco e todo o povo estava surpreso e curioso.
a maior parte dos presentes eram homens de idade e rapazes. poucas mulheres, duas ou três moças,
entre elas a eliane.
todos olhavam o padre vestir os paramentos na frente deles
e achavam tudo muito esquisito. depois que acenderam uma vela,
maurício levantou o braço, pedindo silêncio. alguns ainda bebiam
e conversavam junto ao balcão.
vamos botar a tramela na língua, gente, porque o padre
vai começar os acontecimentos!
era o jerusa, que batia com um copo no balcão e chamava
a atenção dos presentes.
• meus amigos - começou o padre maurício, com um
sorriso afável nos lábios - vocês devem estar estranhando tudo isso. a igreja está lá em cima e eu
venho rezar com vocês aqui dentro
de um bar. É que nosso grande mestre jesus cristo, no tempo em
que peregrinava pela terra pregando sua mensagem, sempre ia aonde havia gente. eu sei que o povo
gosta de estar aqui, nos
domingos, por isso jesus está aqui, com vocês, neste domingo. e o
mestre
está realmente satisfeito. ele vai passar uns momentos com vocês,
vai sentir os sofrimentos e os probíemas de cada um, vai ouvir as
queixas e as dificuldades, e vai, podem crer, trazer paz e
alegria a
cada um de vocês. este bar está se tornando, nesta hora, a casa de
deus. e será abençoado, como todos vocês serão abençoados. sabem, o cristo tinha uma simpatia
muito especial pelos
pescadores.
seus melhores amigos eram pescadores do lago de genezaré. certa
vez, eles passaram a noite inteira lançando as redes e nada
apanharam. de manhã, quando encostavam os barcos, muito desanimados, jesus apareceu junto
deles e pediu para que lançassem as redes novamente. eles sabiam que de
nada adiantaria, pois os
esforços da noite foram infrutíferos. mas, em nome do mestre, levados
pela amizade que os unia ao mestre, resolveram atender seu pedido. e o incrível aconteceu: fizeram
a maior pescaria de todos os
tempos. encheram os barcos a ponto de estarem para afundar, como contam os evangelhos.
vocês são pescadores e filhos de pescadores: nem imaginam, então, a alegria de jesus em poder
passar estes momentos na
convivência agradável de vocês. que grande amigo e protetor vocês
têm! um amigo vivo, tão vivo como eu, como vocês. ele quer conversar com cada um; ele quer,
acima de tudo, ajudar vocês. vamos,
pois, conversar com o mestre agora, através desta santa missa.
certo?
maurício rezou uma missa muito simples, buscando a participação de todos. tornou o momento
muito íntimo e cheio de emoções.
e o povo ficou contente.
terminada a cerimônia, passou a trocar idéias sobre a melhor forma de comercializar o peixe. afinal,
era disso que
viviam e
seria de extrema importância tratarem de vender mais e melhor,
para melhorarem o nível de vida, que andava baixo naquelas regiões.
pela tardinha, o padre keningan chamou maurício.
estava nervoso e agitado:
• padre, o que é que o senhor fez, esta manhã? É verdade que rezou missa lá naquele inferninho
imundo? eu nunca pus os pés naquele lugar fétido, que explora os pobres coitados na base da
cachaça e da briga! aquilo é um antro de perdição, meu padre. o senhor cometeu uma injúria
grave contra a pureza e a divindade de nosso amado senhor jesus cristo, misturando-o com
cachaceiros,
beberrões, blasfemadores e gente do mais baixo calão... É uma vergonha! uma desmoralização!
o padre keningan tremia e o suor descia pelas faces cadavéricas. era só continuar mais um pouco e
teria um ataque.
maurício gostaria de lembrar ao zeloso velhinho que jesus
cristo esteve com pescadores, adúlteros e gente de baixo calão.
desceu até eles para buscá-los, como o fez com a ovelha tresmalhada, deixando as noventa e nove,
que já estavam bem protegidas no
aprisco. gostaria ainda de dizer que lá embaixo colocou o cristo
no
meio dos homens, ao passo que aqui na igreja colocaria o
cristo no meio de paredes vazias.
a eliane entrou com um chá bem quentinho e saboroso.
maurício foi à janela. ficou a contemplar a velha
igrejinhaencardida e solitária. e imaginou que o mundo e a igreja de keningan haviam parado no
tempo e no espaço.
não quis permanecer por mais tempo no quarto, para não
irritar o velhinho. quase sem fazer ruído, saiu.
alguns minutos depois, a jovem seguiu os passos dele.
• sinto muito o que o padre keningan disse para o senhor...
• ele é doente - ponderou maurício.
• pode acreditar, o povo está contente com o senhor.
ela falava com suavidade, embora seu rosto denotasse uma
palidez febril. quando se voltou para ela, maurício notou que ela
não estava bem.
• você está doente? - perguntou preocupado.
• um pouquinho de dor de cabeça. não é nada. se o senhor me permite, volto para casa e esteja
certo de que amanhã
estarei bem.
maurício passou a mão com bondade nos cabelos dela e
disse:
• vai, filha, vai descansar. se amanhã persistir o mal-estar, mande-me chamar.
• até amanhã, padre maurício.
ele caminhou para os fundos da igreja e quedou-se a contemplar a jovem que descia a encosta árida
e poeirenta. permaneceu por longo tempo embebendo-se da suavidade
do pôr-do-sol. o
calor era intenso. há dois meses que ele estava aí e ainda não
havia
chovido uma vez sequer.
voltou para dentro de casa, deu uma olhada no doente, que
estava dormindo, e saiu a andar solitário em direção à pequena estação
de trem. seus passos eram vagarosos, pouco lhe importando se
chegaria lá embaixo ou não. o que ele queria era ficar a sós
consigo
mesmo. a aridez e a falta de vida naquele lugarejo, de vez em
quando o sufocavam e ele buscava o refúgio de sua própria convivência interior, enchendo seu
mundo íntimo de pensamentos alegres, otimistas e saudáveis. era um exercício
que sempre dava
resultado, e ele persistia fazendo-o, pois não queria que a solidão o
transformasse num homem neurótico e revoltado. o exemplo vivo
e duro do padre keningan estava aí diante de seus olhos, e não
gostaria que a vida o fizesse um segundo keningan. claro, sua mente
era bem mais esclarecida e seu mundo mais amplo do que o mundo
já esclerosado do padre keningan.
agora ele se colocava que o grande drama de qualquer pessoa seria parar no tempo e no espaço,
conflitando-se com um mundo em rápidas transformações. havia algo,
no entanto, que o intrigava: por que encontrou tanta dificuldade em conseguir uma pessoa para
cuidar do padre keningan? afinal, ele dera a sua vida
pelo
bem deste povo e o ajudou a caminhar para o além, com fé e coragem. É certo que sempre existem,
numa comunidade, pessoas caridosas, capazes de doar-se em benefício
dos necessitados. mas, o
padre keningan não tinha ninguém. a não ser aquela senhora, a
dona racinda, que dedicava algumas horas ao padre, para que não
morresse abandonado como um cão raivoso. que haveria de oculto
e misterioso nesta cortina de silêncio e isolamento?
. .
quatro meses se passaram. eliane, a jovem cheia de vida e de
beleza já não era mais a mesma. cansava-se facilmente e sentia, ao
fim do dia, um esgotamento a ponto de perder as forças cada vez
que tinha de subir e descer o morro. emagrecera muito e seu
rosto
lívido demonstrava que algo de sério estava se passando com ela.
maurício percebeu a evolução cruel de seu estado de saúde e estava
muito preocupado. chás e remédios estavam sendo tentados, mas
os resultados eram mínimos. pensou, então, em levá-la até a cidade
vizinha para uma consulta médica. felizmente, chegou o doutor
que, a cada dois ou três meses, percorria aquela região e, após
examinar keningan, foi ver a eliane. maurício contou-lhe tudo sobre a
evolução do mal. o médico examinou, tornou a examinar, e ficou
por instantes parado, tentando encontrar uma solução para o enigma. foi para a janela e ficou a
apreciar, absorto em suas
elocubrações, a calma crepuscular do lago.
a casa do velho jonatam era bem limpa. poucas peças, o
suficiente para o casal, a filha eliane e o rapaz de vinte anos
de idade.
o quarto da jovem era bem cuidado. algumas caixas forradas de pano xadrezado serviam para
guardar pertences. na parede
de madeira, um quadro da virgem maria com o menino jesus no
colo e um crucifixo bonito que ganhara de presente do padre maurício.
• e, então, doutor? - perguntou o padre maurício, aproximando-se do médico, junto à janela.
• consegui diagnosticar alguns problemas internos.
• e o que é que a gente deve fazer? - indagou, ansiosa, dona lírides, mãe da menina.
o doutor abriu a maleta mais uma vez e tirou alguns remédios. em seguida, escreveu uma receita,
complementando o tratamento.
• ela deve tomar estes remédios conforme a indicação na receita. veja, os primeiros aqui da lista
já os deixo para vocês. os outros devem ser adquiridos na cidade de bom vizinho. ela deve
permanecer em repouso até passar a febre.
• o que é que ela tem, doutor? - perguntou jonatam.
• o diagnóstico aponta algumas infecções agudas de origem desconhecida. vamos ver se este
tratamento consegue debelar
o mal.
maurício ficou com a lista dos remédios que deviam ser
comprados em bom vizinho e saiu com o doutor.
pelo caminho, o médico explicou que se tratava de um mal
desconhecido. e podia afirmar que a situação era realmente grave.
tão grave que não havia esperanças de recuperação.
maurício assustou-se. passou nervosamente as mãos pelos
cabelos e sugeriu:
• mas, ela é tão jovem...
• meu amigo - disse-lhe o médico - o senhor é relativamente novo nesta região. eu visito este
lugar há mais de dez anos.
a cada dois ou três meses passo por aqui. só desta vez é que demorei
mais de quatro meses, porque estive doente. posso
garantir-lhe
que existe um mistério... não sei se devo contar-lhe ou não.
• pode falar - animou-o maurício, com voz firme.
• já que o senhor quer, vou falar. mas, não me faça culpado pelas noites de insônia e de medo que
o atormentarão.
• fale!
maurício não estava interessado em medir as conseqüências
da revelação do médico. o fantasma da doença da jovem já o atormentava demais e ele tudo faria
para que ela se restabelecesse,
afinal fora a única pessoa que se dispusera a ajudá-lo nos cuidados
ao
padre keningan. ele aprendera a querer bem à jovem e tudo faria
para que ela voltasse à plenitude de seu vigor e de sua beleza.
o doutor milano ficou um momento indeciso. embora denotasse idade além dos cinqüenta anos,
estava bem conservado. parou numa das curvas fortes da subida do espigão
e, olhando para o
lago, falou calmamente:
166
• que paisagem linda, padre! cada vez que eu venho aqui não me canso de apreciar a poesia e a
paz que este lago me infunde.
• doutor, eu quero saber sobre a doença - atalhou maurício, lutando com todas as suas forças
para ser calmo e polido.
• pois bem, meu caro padre, tenho percebido que as poucas pessoas que viveram na casa
paroquial, lá em cima, foram acometidas de um mal cujas causas até hoje não
consegui apurar. o senhor sabe que, em medicina, o que importa é atacar as causas. nesta situação,
procurei aliviar as conseqüências. mas, infelizmente...
o médico calou-se.
• mas o quê? - inquiriu nervosamente maurício, pegando, com força, no casaco do doutor milano.
• todas... morreram.
• não! - urrou maurício, voltando-se que nem doido para a borda do barranco.
o médico não disse nada. a tarimba profissional ensinou-o
a esperar que o primeiro impacto de qualquer notícia trágica
subisse
e descesse a níveis normais, antes de proferir a segunda
palavra. as
grandes emoções sobem e descem, explodem e acalmam, como as
avalanches das grandes enchentes, se bem que as avalanches do
espírito são mais vertiginosas.
naquele mesmo instante, maurício viu-se enterrando a pobre eliane e voltando para casa com o
decreto de sua própria
morte
assinado. sentiu ganas de gritar e gritar até soltar o nó que o
sufocava.
mas, as águas da avalanche desceram como subiram e ele
foi emergindo para o mundo interior, que lhe dava as forças com
as
quais sempre contava para as horas difíceis.
• onde o senhor acha que se situa o mistério: na doença do padre keningan ou na velha casa?
• está lá, onde eu não sei.
• e, agora, o que é que eu faço?
• espero encontrá-lo vivo na minha próxima visita - respondeu milano, fazendo humor negro.
..
• eu sou a ressurreição e a vida. aquele que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. e todo
aquele que vive e crê em mim não morrerá para sempre.
depois de benzer o féretro e traçar um lento e triste sinal da
cruz, o padre maurício acrescentou:
• a sua alma e a de todos os fiéis defuntos, pela bondade de deus, sejam felizes para sempre na
outra dimensão. amém.
fechou o livro, já molhado de lágrimas. olhou com profunda amargura o caixão que era baixado à
sepultura, no pequeno
e pobre cemitério de espigão do inferno. tomou o lenço e enxugou
as lágrimas. um nó doloroso apertava sua garganta, mas recolheu
as últimas reservas de coragem e falou ao povo:
• esta surpresa que a vida me reservou aqui neste longínquo lugarejo é dolorosa demais para
mim. vim aqui na esperança
de semear a vida... e acabei semeando a morte. aqui está uma jovem, na flor da idade, rica de bons
sentimentos e de caráter...
aqui
está o que restou de uma jovem que quis dar um pouco de si para
alívio e conforto de um pobre sacerdote doente, acabado e
solitário
numa velha casa... aqui está uma menina, cheia de ilusões pela vida, uma menina cujo destino
incompreensível eu mesmo acabei traçando, para minha própria
dor...
eliane, me perdôe. eu sei que você me perdoará, porque eu conheço a grandeza do seu coração.
mas, nesta triste hora, eu suplico a você: diga a seus pais que
também me perdoem e entendam que nós dois só queriamos fazer a caridade de ajudar um doente a
enfrentar, como gente, seus últimos
dias...
as lágrimas caíam abundantes do rosto de maurício. jonatam e lírides também soluçavam
convulsivamente. o rapaz, no entanto, permanecia de rosto duro e raivoso.
maurício continuou:
• pois, eu ihes asseguro que os caminhos de deus são muitas vezes inexplicáveis, mas são sempre
bons, e é absolutamente
certo que esta jovem foi habitar a morada de deus, que é a morada do
amor total e da felicidade. agora ela já não sofre mais. as nossas
lágrimas, então, revertem para nós mesmos, que perdemos a convivência de uma criatura cuja
presença agradável e bonita dava mais
poesia e amor a esta região tão seca e tão árida. tenhamos, porém,
a convicção e a fé prófunda de que um dia nos reuniremos a ela e a
todos os nossos entes queridos que já se foram e, então, formaremos uma grande família feliz.
eliane, nos espere, e olhe por nós
todos lá de cima. amém.
maurício fez o sinal da cruz.
as últimas pazadas de terra caíram sobre a cova onde fora
depositado o caixão. e uma procissão triste e desolada começou a
buscar o caminho de suas casas silenciosamente.
quando maurício deu por si, estava sozinho diante da sepultura rasa, com a terra revolvida, como se
a jovem lutasse
para
sair daquela escuridão estranha em que a meteram.
caminhando pesadamente pelo corredor pedrento do cemitério, situado à direita da igreja, na
encosta, ele estava
abatido e
frustrado. a morte aparecia diante de seus pensamentos como uma
inconseqüência da vida, ou melhor, como um equívoco fatal na
construção do homem. assim como quando falha uma peça a máquina pára, assim ter-se-ia dado na
fabricação do homem, máquina
delicada, imprevisível, insubstituível. mas, as palavras do
mestre:
“quem crer em mim, ainda que esteja morto, viverá”, vieram à
mente para confortá-lo. realmente - pensava agora ele - tem que
haver algo de melhor no além-morte. seria uma injustiça gritante
fazer com que uma jovem, cheia de sonhos e de vida, acabasse
sendo roída pelos vermes só porque resolveu fazer uma obra de caridade... e eu - gritou ele para
dentro de si - que faço aqui neste
inferno se não acredito na outra vida?!
maurício agora nem sabia para onde andava. seus sapatos
arrastavam-se no pedregulho, sem rumo. o calor era sufocante.
com o casaco jogado sobre os ombros, abriu a camisa e deixou que
uma miséria de vento refrescasse seu peito sofrido. as palavras
do
médico - duras e terríveis como uma sentença de morte - ecoavam agora em seus ouvidos.
não - reagiu interiormente, expulsando os pensamentos
negros - eu sou vida, eu sou luz, e a vida supera a morte, como
a
luz espanta as trevas.
agora maurício lembrava o mestre, que afirmara: “vim
para que tenhais vida; e vida eterna”.
sim - ponderou ele - a vida continua. aqui e lá em cima.
levantou a cabeça, ensolarou os caminhos e seguiu em frente.
parou um pouco para arrancar um raciocínio que emergia
lá do fundo da mente: penso, logo existo, como dizia o filósofo
descartes. pois bem, existo, logo penso. e se penso, exerço o meu
poder criador, porque sou o que penso. aqui está a solução: criar
pensamentos de vida, de alento, de alegria, de força interior,
de coragem, de ânimo. sim, vou agora mesmo encher de sol o meu coração. vamos, maurício, força,
alegria, olhe para frente, veja esta
estrada bonita e grandiosa que você vai percorrer. nada de parar à
beira do caminho. se você colocar sol na sua mente, sua vida
estará
cheia de sol.
de repente, um grito penetrante e agudo chegou até ele:
• maurício!
voltou-se rapidamente e olhou na direção da estrada da estação.
não podia acreditar. não, aquilo tinha que ser uma alucinação provocada pela morte da eliane.
alongou os olhos, forçando as pálpebras.
• maurício!
agora sim não havia dúvida.
era ela. era silvana que vinha subindo a encosta, com um
saco de couro às costas.
ao ver maurício descer a largos passos em sua direção, ela
largou a mala no chão e saiu correndo ao seu encontro, caindo,
tropeçando, mas irradiando uma incontida emoção.
• silvana! - exclamou ele, perplexo.
• maurício! - explodiu ela, abraçando-o com alegria.
depois de momentos, ambos voltaram a olhar-se de frente,
apenas as mãos unidas. havia muita felicidade no olhar deles.
• silvana! como veio parar aqui?!
• longe é um lugar que não existe - sentenciou a moça.
• mas, fim de mundo é um lugar que existe - brincou ele.
• passei muito tempo, como detetive, tentando descobrir o seu paradeiro. seu josias e a dona
ermelinda não quiseram dizer.
o novo pároco irritou-se quando lhe perguntei. então, imaginei
que a ordem devia ter partido do bispado de rosandur e procurei
fazer amizade com um padre que mora lá. certa noite, o convidei
para um jantar. depois de uns bons vinhos, ele me contou. e
estou
aqui. pelo amor de deus, isso é um fim de mundo...
• você acha que eles iriam me mandar para o paraíso?
• que lugar, puxa vida!
• e você ainda não viu nada - sorriu ele.
• maurício, você está com a fisionomia abatida. percebi desde o instante em que o vi. posso saber
o que se passa? É por minha causa?
• agora passa a ser também por sua causa...
pairava um mistério na voz dele.
• pode falar - disse a jovem, com ansiedade e medo.
maurício contou-lhe a história do padre keningan, a morte
da eliane e as revelações do doutor milano.
• então, você está correndo o risco de ser a próxima vítima... - exclamou ela, com viva
preocupação.
• É. e você não pode ficar aqui.
• mas, eu quero ficar.
• É loucura, silvana. você é jovem, cheia de vida, nada encontrará neste inferno a não ser miséria,
calor, solidão e... maurício calou-se.
• e a morte... - concluiu ela. - não importa. se uma jovem como a eliane pôde ter a coragem de
dar a vida, por que não
eu?
• É terrível demais este fardo para você!
• e você não me ajuda a carregá-lo?
os dois seguiram para a casa paroquial. silvana estava decidida. fizera os maiores sacrifícios para
chegar até este lugarejo
perdido no mundo, e nada haveria de abater-lhe o animo.
quando entrou na casa paroquial, teve um susto. parecialhe estar entrando numa casa assombrada.
silvana foi conduzida ao padre keningan:
• esta é a moça que vai cuidar do senhor no lugar da eliane. chama-se silvana.
o padre keningan olhou-a de cara amarradá e sobrolhos
franzidos.
• tudo farei para que o senhor tenha muito conforto e
melhore rapidamente - disse ela, com um sorriso franco nos lábios, tentando conquistar a simpatia
do velho sacerdote.
• espero que não seja preguiçosa como a outra, que há dias não aparece - xingou keningan. - olhe
só o jeito que me deixou...
• padre keningan - observou polidamente maurício - a eliane não era preguiçosa. ela adoeceu e...
morreu.
as últimas palavras maurício as proferiu com a voz embargada pela emoção. por um triz que não
explodiu numa torrente de
lágrimas.
keningan recebeu a notícia como uma bomba e ficou de
olhos arregalados. uma prensa invisível tolheu a sua respiração e
ele agitou-se desesperado pela falta de ar. maurício e silvana
ergueram-no um pouco e abanaram o rosto até que a respiração voltasse
ao natural.
o velho esborrachou-se na cama, o rosto lívido, a testa com
grossas bagas de suor.
• desculpe! - foi só o que conseguiu engrolar.
eram dezenove horas e silvana ainda não tinha tomado banho. colocou seus pertences num pequeno
quarto improvisado, ao
lado da cozinha, e foi para o banheiro.
maurício a esperou na cozinha. colocou a chaleira no fogão e sentou-se numa velha cadeira de
palha, inclinando-a contra
a
parede. sua mente estava congestionada de imagens e os últimos
acontecimentos se entrecruzavam com violência, deixando-o sob
forte tensão emocional. revivia as cenas tristes e cruéis da
morte da
eliane, o último adeus dela para ele, um adeus comovido que ela
quis representá-lo através de um beijo na sua face direita. ah,
que
beijo misterioso, formado por uma amálgama indizível de amor, de
dor e de despedida... ah, aquele beijo ainda o consumia, tomando
as formas mais extravagantes. ele tinha a certeza de que aquele
beijo ardente de febre significavam o adeus a um ente querido.
lembrou-se, então, do que fizera diante daquela surpresa inesquecível:
inclinara-se sobre ela, as lágrimas jorrando
incontrolavelmente de seus olhos, e a beijara na face febril, murmurando: “nos
veremos lá no céu...”
• você está chorando - disse silvana, entrando na cozinha.
como que acordando de um sonho distante, ele comentou,
com melancolia:
• eu estava me lembrando dela.
• ela devia ser muito querida!
• era um anjo. não podia ter morrido. minha teologia não consegue explicar esta tragédia...
• e a fé não explica?
• somente a fé, silvana. e a minha fé está na crença de que a morte, na verdade, não existe. a vida
é espírito e o espírito
não morre. portanto, a pessoa, continuando viva, passa desta dimensão para uma outra melhor, a
que eu dou o nome de paraíso.
viver realmente é estar lá. a eliane, tão meiga, tão bonita, tão
prestativa, tão agradável, reforçou a minha certeza de que lá é muito melhor do que aqui. mas, em
qualquer circunstância - completou ele - importa levantar sempre
a cabeça e ver as coisas boas
que
continuam acontecendo.
• que coisas boas?
• você, por exemplo. e tantas maravilhas deste lindo mundo de deus.
• eu?! - exclamou ela, sem entender o que ele queria dizer.
• sim, você. você sabia que este lugar era um inferno e quis vir; você sabia que a viagem era
longa e penosa e resolveu enfrentá-la; você ficou sabendo que correrá o risco de ser
sepultada ao lado da eliane e não se assustou; você ficou sabendo que cuidar do padre
keningan era um tremendo desafio à paciência e aceitou o desafio; você sabe que este lugar é
um inferno, capaz de torrar a seiva exuberante da juventude e, mesmo assim, quer ficar. dê o
nome que quiser dar a isto, eu nunca deixarei de chamar de grandeza de alma.
• o amor é a força mais poderosa do mundo! - exclamou a jovem, com exaltação.
• na verdade - filosofou ele - o amor foi a força todopoderosa que criou o universo e o faz
girar para o leste eterno.
• e é o amor que constrói o mundo de cada um.
maurício levantou-se e foi à janela. a noite estava bordada
de estrelas. o luar derramava uma neblina prateada sobre a
encosta, pondo respingos de luz no pedregulho saliente do morro.
• estou com fome - vociferou o padre keningan.
felizmente, silvana já tinha tudo pronto. tomou a bandeja
e dirigiu-se de imediato ao quarto do doente.
• desculpe, padre keningan - disse ela, depositando a bandeja sobre a cama. - hoje foi um dia
cheio de acontecimentos; além disso, é o meu primeiro dia...
ele não disse nada. parecia amuado. silvana ajudou-o a tomar o café e pôde perceber que sua saúde
estava muito ruim. À primeira vista, até, achou grave demais o
estado dele. alimentava-se
com muito esforço, os olhos cadavericamente encovados, os ossos
das costelas saltando para fora.
quando voltou para a cozinha, alertou maurício para a
gravidade da doença de keningan.
• É, o velho leão está se entregando...
silvana lembrou-se de uma coisa:
• você não tinha dito a ele nada sobre a doença e a morte da eliane?
• quis poupá-lo desta dor. não me contive, porém, quando ele insultou a coitadinha, justamente
poucas horas depois do
sepultamento... achei que era preciso mostrar-lhe que o mundo é
bem mais amplo do que as dimensões do seu leito. não sei se fiz
mal...
depois de permanecerem silenciosos por alguns minutos,
silvana perguntou:
• e amanhã?
• bem, amanhã eu pretendo ir pescar com o velho jonatan, pai da eliane, afim de confortá-lo um
pouco ou, pelo menos, fazer-lhe companhia.
• e eu tratarei de atender o padre keningan. há muita coisa por fazer...
..
o dia estava límpido e agradável. a muito custo, maurício
convenceu jonatam a sair para o lago e, então, toda a família veio
junto a fim de tentar esquecer um pouco o golpe terrível que a
morte da jovem provocara em cada um deles.
e, agora, o barco singrava lépido e tranqüilo pelas águas
mansas do lago. as velas enfunadas davam maior desenvoltura à
embarcação.
• para onde vamos? - perguntou jonatam júnior, o rapaz que ainda olhava com raiva para o padre
maurício, como se ele
fosse o culpado pela morte de sua adorada irmã.
• para qualquer lugar - respondeu o pai, encolhendo os ombros. - eu não tenho vontade para nada.
• bem posso imaginar o quanto o senhor está sofrendo.
tudo foi tão de repente... sabe, às vezes eu pergunto a deus: por
que fizeste isso? puxa vida, com tanta gente ruim atrapalhando
este
mundo, por que vieste buscar um ente tão querido, tão bom, que
estava realizando uma obra de amor e de caridade precisamente
para um de teus ministros... se gostavas tanto da eliane, bem que
podias ter olhado também para seus pais...
• e o que mais nos aborrece, padre maurício - atalhou, com desânimo, o velho jonatam - é que
deus não dá resposta nenhuma.
• talvez nós possamos dizer que a resposta de deus é diferente da nossa. É como se diz por aí que
deus escreve direito por
linhas tortas.
• eu não entendo, padre maurício - tomou a palavra a senhora lírides - por que deus quis tirar de
nós essa filha tão querida... tão querida... tão querida...
ela não conseguiu continuar. desandou num choro convulso.
houve silêncio dentro do barco.
• eu não acuso a deus - rompeu o rapaz com cenho franzido de indignação - eu acuso o padre
maurício. porque, não venha com conversa besta, o senhor sabia que as pessoas que
trabalharam na velha casa paroquial para o padre keningan, durante a
doença dele, todas elas morreram. o senhor sabia que a minha mana estaria condenada à morte e,
mesmo assim, a levou para
aquela
casa assombrada. o senhor é um assassino!
o rapaz tremia, com ganas de pegar o padre e jogá-lo dentro d’água.
• meu filho, não fale assim - repreendeu-o a mãe, enxugando as lágrimas com a gola do
vestido.
maurício interferiu:
• eu respeito os sentimentos do jonatam júnior. palavra, que respeito muito. a revolta que vai
dentro dele é uma expressão forte e viva do imenso amor que ele tinha pela eliane. e isso só
pode ser realmente elogiável. o que eu vou lhe dizer, júnior, você pode acreditar ou não, mas é a
pura verdade: eu tomei conhecimento das mortes que aconteceram misteriosamente, só agora
através do doutor milano. ao perguntar-lhe se o caso da eliane era grave, ele abanou a cabeça e
me contou o que acontecera com as pessoas que foram trabalhar lá em cima, desde a doença do
padre keningan. eu jamais esconderia um fato tão grave como esse para quem quer que se
determinasse a servir ao enfermo. veja, lá em cima já está uma jovem cuidando do doente, mas,
antes de tudo, eu a alertei sobre o fenômeno. aimal, eu creio que a vida é o dom mais precioso
que cada um tem.
• e como é que vai o padre keningan? - perguntou o velho jonatam, querendo mudar de assunto.
• está bastante mal.
• ah, aquele padre veio enterrar-se aqui nesta miséria!
coitado! ele sabia que nada ou pouca coisa podia esperar desta
região sem futuro e, no entanto, permaneceu firme, durante muitos
anos, semeando fé e religião por todos os cantos. olhe, eu tenho
pena do padre keningan e seria uma calamidade deixar aquele pobre homem sozinho e abandonado
naquela casa... foi por isto que
consenti que minha filha fosse dar-lhe um pouco de assistência...
enfim, ele nos casou, ele batizou a eliane e o jonatam.
maurício ponderou:
• É que, por instinto, nós temos a tendência de olhar a vida com olhos terrenos. mas, se a
olhássemos sob o prisma da fé,
ficaríamos bastante resignados, porque agora é certo que a eliane
está vivendo a plenitude da felicidade. ela está habitando a
morada
de deus, junto com os avós que já se foram, junto com os parentes
e amigos, e um dia estará com todos nós, não é verdade?
• o senhor é um mentiroso - estourou o rapaz, virando o rosto para a popa do barco.
mauricio olhou para ele e ficou com pena:
• jonatam, como você, eu também estou muito doído, muito machucado por dentro. eu sofri a
morte de sua irmã como se fosse minha própria irmã. eu sinto muito, jonatam... muito mesmo...
..
domingo à tarde. maurício contemplou fascinado o imenso
espelho das águas e convidou silvana para um passeio de barco a
fim de conhecer as belezas do lago tiruê.
o calor ainda era forte.
desceram o espigão, até a enseada. o barco do velho jonatam estava atrácado.
maurício já tinha prática no manejo do barco: içou as velas
e deixou que o vento os levasse. as águas estavam plácidas e
transparentes. o vermelho-alaranjado do pôr-do-sol refletia-se na
superfície líquida, pondo tons doirados nas águas.
o barco deslizava sem direção e sem rumo.
• este lago faz-me lembrar o lago de alvores. a diferença está nestas margens crestadas e áridas -
disse silvana, alongando as vistas para todos os lados. além da extensão, é claro.
• É, o lago de alvores tem mais vida, mais verdor.
• É mais poesia - completou ela.
• aí é que eu não concordo. a poesia só existe a partir de dentro para fora. não é o lago que é
poético; a gente é que coloca poesia no lago...
• vejo que a sua filosofia está bem adiantada. existencialismo. tudo no mundo existe a partir das
pessoas. são as pessoas
que põem vida nas coisas. está certo. as pedras, os lagos, as
estrelas, o sol, a lua, não podem dizer que existem e nem podem reconhecer-se no mundo: nós é
que os descobrimos para a vida, porque
existimos...
• mas, não esqueça que a poesia, antes de existir na mente, brota do coração. só um coração cheio
de amor sente poesia e
enlevo em qualquer coisa...
• realmente - anuiu silvana - para quem não ama, o mundo é um deserto sem vida e sem sentido.
• por isso que se diz que amar é viver.
• maurício - perguntou a jovem, curiosamente - você ama?
• demais - respondeu ele. - amo a vida, amo este lago, amo as estrelas, amo o sol, amo as
criaturas, amo as flores, amo os habitantes desta terra, amo keningan, amo você, amo...
• finalmente - interrompeu-o ela. - ao menos em último lugar você me ama. isso me deixa
satisfeita, mesmo que seja a
última da lista...
• não, silvana - corrigiu ele - eu não pus ordem na enumeração. o amor não se processa por
hierarquias. o amor é uno, total, pleno, indivisível, universal.
• não entendi.
• por exemplo, amando você eu amo as estrelas; amando as estrelas, eu amo você; amando você e
as estrelas, eu amo a deus...
• que raciocínio lindo!
a jovem estava realmente empolgada.
lá longe, na última dobra do lago, o sol afundou-se, doirando totalmente as águas e pondo um toque
de encantamento na
natureza.
depois de silenciarem por momentos, ele voltou seu pensamento para alvores:
• e alvores, como é que vai?
• já lhe contei tudo. dos meus pais, do seu josias, da dona ermelinda, do pároco, do médico, do
corrégio, da marisete...
que mais?
• e o corrégio, perdeu aquela obsessão maligna?
• eu tenho pena dele e do pai. estão deixando a vida escapar por entre os dedos. você nem
imagina como o rancor massacra
o interior de uma pessoa.
• o ódio destrói todas as belezas da vida e coloca aridez e pedras no caminho...
• isso eu aprendi com você. obrigado, mestre.
ele sorriu. e acrescentou:
• quando se descobre todo o sofrimento que existe no rancor, amar se torna tão simples como
respirar. silvana concordou com a cabeça.
• e os seus pais? - tornou maurício. - são ótimas pessoas, sabe?
• mas, se deixam levar...
• como você - observou ele.
• no começo. agora não. criei personalidade.
• pois, eles não tiveram as condições que se ofereceram a você.
no céu começaram a brilhar timidamente as primeiras estrelas. o calor, porém, era ainda forte e
agressivo.
• eu gostaria de tomar um banho - disse ela, olhando para a maciez cálida da água.
• não é por falta de água - brincou ele.
sem dizer palavra, a jovem despiu a blusa alaranjada e as
calças de brim. dobrou-as com cuidado e colocou sobre o banco.
descalçou os chinelos e jogou-se na água, pois já estava de maiô.
• espero que não seja necessário socorrê-la...
• vai ter que vir mesmo - gritou ela, fazendo de conta que se afogava.
maurício passou a mão na água e viu que estava muito
convidativa.
• está legal. venha! - falou ela, nadando com alegria para cá e para lá, em torno do barco.
em rápidos movimentos ele tirou a camisa, os sapatos, as
meias e as calças. já estava de calção, que o tinha colocado por
precaução, para caso de emergência.
seu corpo vigoroso e bronzeado balançou-se por instantes
na proa do barco, diante da contemplação extasiada de silvana e,
em seguida, mergulhou com classe.
• está realmente gostoso - observou ele, voltando à tona.
silvana aproximou-se de traição e empurrou-o para baixo
da água. quando ele tornou à superfície, os dois riram-se a valer.
• não vou fazer o mesmo com você para que não morra
afogada. mas, tem um detalhe: este terá que ser o banho mais rápido do mundo, pois está
anoitecendo e o padre keningan não pode
ser descurado.
• É verdade - concordou ela, subindo de imediato no barco.
maurício fez o mesmo. a água escorria-lhe pelo corpo. puseram-se, então, a fazer ginástica para
enxugar mais depressa.
atracaram o barco na enseada e saíram a correr com grande disposição morro acima, fazendo uma
aposta para ver quem
chegaria antes. não houve vencido nem vencedor: chegaram juntos, quase botando os pulmões para
fora.
enquanto maurício foi para o chuveiro, silvana empregouse com entusiasmo na preparação do
jantar. já tinha deixado tudo
a meio caminho e, em poucos minutos, o padre keningan servia-se
da refeição.
depois, maurício foi conversar com o doente e ela foi para
o banho.
• como é que está, padre keningan?
• nada bem. já estou achando que não vou mais levantar daqui.
• vai sim, sem dúvida - animou-o maurício.
• bem que gostaria - resmungou ele. - eu não me conformo em ficar aqui chocando, quando teria
tanta coisa a fazer
por
essa gente... eu me sinto dentro de uma jaula...
• o senhor já fez muito - consolou-o maurício.
• faz quinze anos que estou metido nesta esquina do mundo - começou a contar o velho pároco. -
quando cheguei, havia
apenas uma capela velha, que mais parecia um pardieiro, lá embaixo, perto da estação. com enorme
esforço, consegui construir esta
igreja e esta casa aqui. procurei fazer de tudo por esta gente.
keningan parou ofegante.
• o povo lhe quer muito bem.
• É... o povo. sim, o povo...
calou-se. maurício notou que era para recolher um pouco
da força felina do leão. ele continuou:
• sim, o povo... me quer bem... mas nunca recebi a visita lá de cima.
maurício entendeu o que ele queria dizer e ficou calado.
• desde que me jogaram para cá, por causa de um insucesso financeiro na administração da
paróquia de santa apolônia, em
rosandur, nunca mais fui lembrado pelos que vivem na civilização...
• mas, eu fui enviado para ajudá-lo, padre keningan.
o doente resmungou, incrédulo.
quando terminou de jantar, maurício levou a bandeja para
a cozinha. silvana chegou daí a instantes, ainda ajeitando os
cabelos.
• agora chegou a nossa vez de jantar - disse ele.
• padre nasceu para fazer penitência - retrucou ela, de brincadeira.
• mas, não agora - rebateu ele.
durante o jantar, maurício voltou ao assunto que lhe martelava a cabeça:
• silvana, você pensou bem no risco que está correndo?
• pensei.
• por favor, lembre-se da eliane. você tem toda uma vida pela frente. gostaria que raciocinasse de
cabeça fria, porque o perigo de contaminação aqui é muito sério...
• e você? - perguntou ela, devolvendo-lhe o problema.
• eu fui enviado.
• mas, poderia recusar-se a obedecer.
• poderia.
• então, se você acha que não se deve arriscar a vida, aconselho-o a sair deste lugar amaldiçoado
e...
• não é amaldiçoado - cortou ele, com vigor. - não existe lugar amaldiçoado. o que existe é um
fenômeno natural que está desafiando a nossa capacidade, nada mais. descoberta a causa, tudo
será muito simples de solucionar. um ovo de colombo...
• se você for para outro lugar não menos necessitado de assistência espiritual, estará cumprindo
sua missão e, ao mesmo tempo, evitando danos à sua saúde. porque você, como teólogo de
fama internacional - ela sorriu maliciosamente - há de concordar que não é lícito arriscar a vida,
que é um dom de deus, e a ele cabe impor os limites que achar necessários. falei?
• eu aceitei o desafio. pelo menos enquanto o padre keningan, coitado, estiver vivo, ficarei com
ele. seria desumano
abandoná-lo à morte, como um bicho-do-mato.
• pois, eu ficarei também. ele precisa de mim.
• e se você morrer, de quem é a culpa?
• estarei junto com a eliane, esperando você.
houve alguns minutos de silêncio. ouvia-se apenas o roçar
dos talheres.
• pois bem, silvana, admiro sua coragem... e, ao mesmo tempo, tenho medo. eu também tenho
medo...
• silvana, amanhã farei uma viagem pelo lago até a desembocadura do rio tiruê a
fim de visitar algumas pequenas comunidades. ficarei fora alguns dias. você tem coragem
de ficar
sozinha cuidando do padre keningan?
• vá tranqüilo.
• se acontecer algo de muito grave, peça para algum pescador, que tenha barco a motor, para ir
buscar-me.
uma estranha sombra acinzentada começou a descer lentamente sobre a jovem.
capÍtulo 7
maurício retornou cansado, mas satisfeito, de sua longa
viagem pelos pequenos povoados e vivendas ribeirinhas do tiruê.
sentiu de perto a alegria e a simplicidade daquela gente pobre
e humilde. mas, voltou para casa com uma grande preocupação: segundo o depoimento dos velhos
moradores da região, as fortes e constantes chuvas que estavam caindo
nas cabeceiras do rio tiruê traziam um prognóstico muito assustador. havia previsão de enchente.
algumas famílias já se haviam mudado para lugares mais altos a
fim de não serem colhidas de improviso. o rio subira um metro e
meio. mas, o lago se conservava bastante calmo. parecia alheio
aos
acontecimentos que se sucediam no seu velho afluente.
em espigão do inferno a temperatura tórrida amainou um
pouco. À noite, o calor declinou significativamente e algumas nuvens mais afoitas transitavam pelo
céu, como se fossem patrulha
avançada de uma grande força invasora.
a mudança de tempo deixou o padre keningam mais nervoso e agitado.
• alguma novidade? - perguntou maurício, depositando a malinha de viagem em cima da mesa da
cozinha.
• a primeira novidade dá para notar, não é mesmo?
maurício deu uma risada e acenou positivamente para ela.
durante a ausência dele, silvana dera-se ao trabalho de fazer uma
remexida total na casa. procurou consertar os móveis velhos, reajustou algumas cadeiras, arejou o
ambiente e redistribuiu o
mobiliário. a casa mudou de aspecto.
• vejo que você não aprendeu apenas filosofia na vida...
• aprendi também a remendar a pele de uma pessoa disse ela, lembrando-se da praia do pontal.
ambos riram.
• quer saber de uma coisa? - ela falava com alegria. - É só conseguir um dinheirinho e ainda vou
pintar esta casa. maurício pegou a vassoura pelo cabo, como se fosse um violino, e começou a
cantar:
• parabéns a você... nesta idéia querida... muitas...
• quero água - berrou keningan, lá do seu quarto.
silvana apressou-se a levar-lhe um copo de água. ao retornar, maurício perguntou-lhe:
• como está ele?
• está se atrasando bastante.
vou vê-lo.
maurício e keningan trocaram algumas palavras. o velho
pároco denotava fraqueza acentuada. mas, procurava conservar a
majestade do leão enjaulado. quis saber pormenorizadamente tudo
sobre a viagem de maurício. e fazia seus apartes, acrescentando
conselhos e diretivas, talvez para sentir-se ainda pároco de
espigão
do inferno. maurício o compreendia. e procurava valorizar os sentimentos dele.
À noite, depois que o doente jantou, maurício e silvana
sentaram-se à cozinha para jantar e conversar. era uma forma de
fazer passar o tempo e esquecer a solidão daquelas paragens.
sabe quem é que me procurou? - perguntou, de repente,
a moça.
• o quê? alguém procurou você? quem poderia ser...
por mais que maurício desse tratos à bola, nenhum nome
lhe ocorreu.
• jonatam júnior.
• ele?!
• sim, chegou desajeitadamente, encostou-se na parede da casa, aí fora, e me perguntou se eu
sabia que as pessoas que atenderam o padre keningan tinham morrido de doença misteriosa. eu
lhe disse que já sabia, que você tinha me alertado.
• já sei...
• ele ficou quieto, me olhando com perplexidade. notei
que ficou realmente assombrado. no dia seguinte, apareceu de novo e encostou-se na parede...
puxou uma conversa qualquer, perguntou se eu sabia pescar, coisas assim...
sabe de uma coisa?
ele
acabou me ajudando a fazer essa arrumação toda aqui na casa.
maurício se confirmou mais uma vez de que todas as pessoas são bem melhores do que o
demonstram.
..
alta madrugada. a noite estava feia. os relâmpagos faiscavam no céu e os trovões ribombavam para
o lado das nascentes do
rio tiruê. chovia torrencialmente em espigão do inferno.
maurício acordou-se em sobressaltos. ouvira fortes pancadas, mas não tinha certeza se era sonho ou
realidade. novas
batidas
na porta. levantou-se às pressas e foi ver o que havia.
alguns vultos envoltos em longas capas pretas aproximaram-se: padre maurício, a enchente está
grossa e estão pedindo
socorro lá para as bandas do povoado de tiruê. fala-se em famílias
ilhadas.
• ninguém foi socorrer aquela gente?
• aqui no espigão ninguém está a fim de enfrentar o temporal e a enchente.
maurício agasalhou-se bem e desceu com os homens para a
enseada do lago. um grupo de pescadores o esperava. ele estava
decidido a ir em socorro das vítimas.
• há notícia de pessoas em perigo? - perguntou maurício ao grupo.
• sabe-se que pelo menos uma família está sobre as águas, numa árvore, esperando socorro -
respondeu um pescador.
• quem vai comigo? - indagou maurício, olhando para o grupo.
ninguém se mexeu. havia medo em todos os semblantes.
talvez estivessem pensando, antes de tudo, em suas próprias famílias...
• pois, eu irei de qualquer maneira!
sem dizer mais nada, retornou à casa paroquial. ninguém
podia imaginar o que pretendia ele.
quase uma hora depois, surgiu maurício no meio da escuridão. os relâmpagos mostravam outra
pessoa a seu lado.
quando se aproximou do grupo, todos viram, com assombro, que era acompanhado por uma jovem.
sim, apenas uma jovem, quando seriam necessários braços fortes, ríjos
e afeitos às asperezas do lago e do rio.
• o senhor vai mesmo? ! - perguntou o velho jonatam, coçando a barba com apreensão.
• vou. há gente precisando de ajuda.
• mas, o senhor vai naufragar. o tempo está horrível tentou dissuadi-lo o seu jerusa, do bar.
• qual é o melhor barco disponível? - perguntou maurício, sem perder tempo.
• esse aí. já está pronto. o tanque de combustível está cheio, o motor está bom. É o único que
pode tentar enfrentar a fúria das águas. era o barco do velho jonatam. o karina.
quando silvana seguiu maurício e pôs os pés no barco, jonatam júnior, que não desprendia os olhos
da moça, gritou espantado:
silvana, não vá! você vai morrer afogada! não vá! não
vá!
• calma, jonatam! - gritou ela, com nervosismo na voz.
• devo acompanhar o padre maurício. precisamos salvar uma família...
• É impossível, silvana - suplicou o jovem, aproximando-se do barco. - você vai morrer... É
loucura... o padre vai matar você... como fez com a eliane...
o rapaz estava transtornado.
o pai agarrou-o pelos ombros e tentou acalmá-lo:
• calma, meu filho! É uma obra de caridade que ela vai fazer. lembre-se que aquela família
poderia ser a nossa.
• tchau, jonatam - gritou ela.
o barco afastou-se, enquanto o grupo, escondido sob as
longas capas negras, totalmente ensopadas de água, abanava melancolicamente para os dois.
• você quer desistir? - perguntou agora maurício. - ainda há tempo.
• não - respondeu ela.
• então, seja o que deus quiser - bradou ele, pondo muita coragem na voz.
em largas passadas o barco afundou na escuridão. as
águas estavam levemente agitadas. amarrado no mastro principal,
o lampião era como uma estrela solitária na imensidão escura.
maurício traçou uma diagonal imaginária e alinhou o barco
na direção da desembocadura do tiruê. tinha cerca de nove quilômetros pela frente, até chegar ao
delta do rio.
depois de navegar durante meia hora, as ondas começaram
a agigantar-se diante do barco, jogando-o violentamente para
cima
e para baixo. maurício agarrava-se vigorosamente ao leme, buscando manter o barco de proa contra
as vagas. silvana servia-se de
uma lata de querosene para jogar fora a água que se acumulava no
piso do barco. os relâmpagos riscavam o negror da noite, mostrando, aos olhos aflitos de ambos,
uma montanha líquida de cor azulviolácea.
• falta muito para chegarmos? - perguntou, assustada, a jovem.
• para chegarmos aonde? no povoado de tiruê ou na eternidade? - retrucou ele, sem saber se
falava sério ou se brincava.
• eu estou com medo - murmurou ela.
• e quem é que não teria medo no meio deste vulcão de água?
lá longe, na enseada do lago, o grupo encapuzado ainda
se quedava estático, com o olhar fixo numa minúscula luzinha alaranjada que subia, descia,
desaparecia e tornava a aparecer como
um milagre de ressurreição. poucos acreditavam que o barco retornaria.
quando, porém, a luz sumiu e não tornou a brilhar, todos
fizeram o sinal da cruz e voltaram para suas casas.
ao chegar em casa, o velho jonatam entregou a capa, totalmente encharcada, para a esposa e disse
com tristeza na voz:
• amanhã vou precisar do terno preto.
• para quê? - perguntou, curiosa, dona lírides.
• vamos ter velório. um grande homem. ninguém de nós teve coragem de se meter nesse inferno
de tempestade e ele foi.
sem
muita prática.
sozinho?! - tornou dona lírides, apavorada.
• ele e uma jovem. imagine você: uma moça para ajudálo.
próximo à desembocadora do rio tiruê as águas agitavamse com extrema ferocidade. enormes
vagalhões avançavam rugindo
e jogando o barco para cima e para baixo como uma casca de noz.
maurício e silvana agora enfrentavam a luta mais terrível de toda
a
viagem.
ai, meu deus, socorrei-nos! - implorava, aterrorizada,
a moça.
• silvana - gritou ele - pegue aquela corda ali - amarre-se no mastro principal, senão você vai ser
jogada para fora...
rápido, pelo amor de deus!
como é que eu faço? - chorou ela, caindo cada vez que
tentava se aproximar do mastro.
• força! agarre-se com raiva e enrole a corda. isso... assim mesmo... bravo! agora tente dar dois
nós.
as ondas estavam furiosas. silvana afrouxou um pouco os
laços da corda a fim de abaixar-se para deitar fora a água que já
se
acumulava perigosamente no fundo do barco.
de repente, um vagalhão adernou a lancha e por milagre
não a virou.
os dois rezavam baixinho, com a voz apertada pela angústia.
a muito custo ele conseguiu repôr o barco em posição de
combate.
• ai - gritou ela, horrorizada, arregalando os olhos olhe aí um monstro que vem contra nós!
maurício voltou os olhos como um gavião e percebeu que
se tratava de um enorme tronco de árvore.
vamos desviar, senão estamos perdidos. pegue o remo
e faça qualquer coisa - rugiu ele como um leão. não havia tempo
para assustar-se. tudo dependia de força, coragem e rapidez. e de
sorte. de muita sorte.
como um louco, acelerou ao máximo o motor e guinou o
barco para a esquerda, confiando desesperadamente que não surgisse um vagalhão neste preciso
instante. o barco inclinou-se,
rangeu a ponto de arrebentar, correu alguns metros na crista de uma
onda escumejante e depois, obedecendo a uma brusca manobra de
maurício, tornou a endireitar a proa na direção de uma gigantesca
coluna de água que se avolumava sempre mais diante de seus olhos
arregalados.
mas, o tronco desapareceu atrás do barco.
• senhor! - gritou, transido de pavor e quase sem forças.
• tu que acalmaste a tempestade do lago de genezaré, tem piedade de nós... acorda enquanto é
tempo e salva-nos!
o seu brado foi sufocado pelo rugir das ondas.
• não tenho mais forças - gritou a jovem, caindo junto ao mastro.
• coragem, silvana! já estamos quase fora da rebentação.
agüente mais um pouquinho.
mas, ela já estava desmaiada.
maurício tratou de superar-se. sozinho, no comando do
barco, pôs-se a lutar como um bravo contra todas as forças do inferno.
para sua felicidade, dentro de instantes o barco ultrapassava as últimas barreiras da tempestade e
deslizava por uma baía de
águas mansas, à esquerda das correntes furiosas do rio. diminuiu a
marcha do motor e foi acudir silvana, que ainda jazia desmaiada.
desamarrou-a e a estendeu na parte mais elevada da popa. molhou
levemente a testa da jovem.
a pouco e pouco ela foi voltando a si. ao ver maurício à
sua frente, sorriu.
• tive um pesadelo - murmurou. - sonhei que tínhamos naufragado e que nós dois lutávamos
desesperadamente no
fundo das águas. eram águas escuras e sufocantes como tinta preta
de sapatos...
• o que importa é que estamos salvos - disse ele, com satisfação.
silvana reanimou-se rapidamente.
somente então, quando tudo silenciava ao redor, puderam
ouvir um grito lancinante.
maurício chamou com toda a força.
ouviram mais uma vez um grito fraco e distante.
sem perda de tempo, alinharam o barco na direção da voz.
apesar do lusco-fusco do amanhecer, tiveram a impressão de divisar um vulto lá adiante.
era a cumeeira de uma casa e alguns galhos de árvore.
maurício acelerou o motor.
ao se aproximarem, puderam ver uma mulher encarapitada
na forquilha da árvore.
havia ansiedade na respiração de silvana. agora ela achava
que valera a pena todo o sacrifício. graças a deus, podiam salvar
alguém.
encostaram o barco jünto ao tronco e socorreram a mulher. só então se deram conta de que ela
segurava contra o peito
uma criança.
silvana tomou nos braços a criança e maurício ajudou a
mulher a descer até o barco. teve que segurá-la nos ombros e baixála com todo o cuidado, porque
ela estava sem forças. estendeu a
sua capa sobre a popa e debruçou sobre ela a mulher. silvana
tirou
as roupas molhadas da criança, envolveu-a num casaco de lã e a recostou ao lado da mãe, que
permanecia de olhos fechados, a respiração difícil e ofegante.
a margem distava cerca de meio quilômetro e maurício resolveu atracar a embarcação a fim de
acender um fogo, fazer café,
secar as roupas e dar o atendimento urgente que o caso requeria.
o dia amanhecia. a chuva parara.
escalaram uma pequena encosta rochosa, onde as pedras
pareciam mais secas. a mulher e a criança foram deitadas sobre as
capas de silvana e maurício. aos poucos o fogo começou a aquecer
o ambiente. depois de alimentada, a criança reanimou-se, o que
não aconteceu com a mãe, que estava em extremo estado de prostração.
maurício olhou para o barco e viu, ainda preso no mastro,
o lampião, herói da noite, que se mantinha aceso e vigilante.
felizmente o sol apareceu e os ventos amainaram. a região
estava transformada num mar de água. não se via uma casa na redondeza.
a criança começou a reagir ao calor. a mulher, porém,
continuava tremendo, febricitante e pálida.
• acho bom partirmos logo para espigão a fim de darmos toda a assistência a esta mulher. ela não
está nada bem. o karina percorreu alguns quilômetros de margem para ver se havia alguém
necessitado de socorro.
o rio estava alto, mas as águas acalmaram a fúria desatinada da noite.
apenas o encontro das águas correntosas do rio com as ondas do lago trouxeram algumas
dificuldades ao barco. maurício teve que dirigir com o máximo cuidado para
não ser devorado pelas
águas, precisamente agora que retornavam sãos e salvos. alguns
pedaços de madeira, barrotes de casas, galhos, criavam constante
perigo, obrigando-o a usar toda a perícia.
a mulher agora gemia baixinho. o rosto livido e desfigurado era a própria imagem viva da dor. de
vez em quando olhava
com carinho para o filho e depois tornava a cair numa modorra
total.
silvana se dedicava aos cuidados da mulher e do pequeno.
a certa altura, a mulher abriu os olhos e sorriu, com um
sorriso de profundo agradecimento, embora seus olhos demonstrassem imensa tristeza.
• muito obrigada...
• graças a deus, também seu filho se salvou - disse-lhe silvana, buscando reanimá-la.
• sim... meu filho... - sussurrou ela, sem forças. - será
o único sobrevivente da família... meu marido e os outros dois filhos morreram afogados, quando a
canoa virou... o rio estava
violento... ele quis levar os dois para a margem e depois voltaria
para
buscar-nos...
ela calou-se um pouco. suspirou fundo, e disse com os
olhos rasos de lágrimas:
• eu... eu vi a canoa virar... eu os vi morrerem afogados... meu deus!
caiu para trás, fulminada pela dor da recordação.
• coragem! eles estão no céu - consolou-a maurício. afinal, um dia todos teremos que morrer...
eles apenas a
precederam e ficarão esperando pela senhora...
• por pouco tempo... - disse melancolicamente ela.
• a senhora viverá muito tempo, tenha coragem. seu filho precisará do seu apoio, de seu carinho.
não desanime, por favor. deus é grande...
maurício derramava palavras de ânimo, com pena, com
bondade, com carinho.
silvana passava as mãos pelos cabelos da mulher. o pequeno dormia.
eram já quinze horas. o sol iluminava o lago, dando brilho
à cor barrenta das águas.
graças a deus, a enseada do espigão do inferno não estava longe.
de repente, a mulher sofreu um estremecimento e sua respiração foi sumindo lentamente:
• eu vou morrer... só lhes peço um favor, pelo amor de
deus. tomem o pequeno e criem-no como filho... ele não está batizado... deus lhes pague...
a voz foi se apagando, como a chama de uma vela. e os
dois, mal-e-mal a ouviram repetir, num fio de voz:
• como um filho... como... um... filho...
• eu sou sacerdote - disse-lhe maurício. - quero que deus a acompanhe nessa viagem para junto
de seu marido, de seus filhos...e de deus.
tirou um pequeno crucifixo do pescoço e deu-o para ela
beijar, o que fez com extrema piedade.
• eu te perdôo todos os teus pecados, em nome do pai e do filho e do espírito santo. amém.
enquanto maurício traçava o sinal da cruz sobre o corpo, a
pobre mulher exalava o último suspiro, voltando o rosto ternamente para o filhinho.
maurício e silvana se comoveram até às lágrimas.
• por quê?! por quê?! - se perguntava, chorando, a jovem. bem-aventurados os mortos que
morrem no senhor murmurou maurício. - agora, o que importa é que salvamos
uma
criança. e uma criança é o tesouro mais precioso do mundo...
tomou o pequeno no colo e ficou a olhá-lo com carinho.
de repente, assustou-se. o mesmo susto que a jovem tivera momentos antes. o susto de assumir a
responsabilidade sobre aquela
criança.
não disseram nada, mas seus pensamentos giravam em torno de uma idéia fixa: que
diriam os outros ao verem uma criança na
vida deles?
maurício olhava o rostinho do pequeno, mas seus olhos denotavam preocupação.
quando a criança sorriu, abrindo as bochechas como se
fosse um botão de rosas, ele não agüentou e sorriu também de felicidade.
alcançou-o para silvana.
a moça também sorria.
..
no domingo, após a missa, o nenê foi batizado. os padrinhos foram o velho jonatam e sua esposa. o
nome maurissí era
uma mescla de maurício com silvana.
o batizado foi assistido por centenas de pessoas, que vieram cumprimentar os heróis daquela noite.
o feito ficou por muito tempo na boca do povo.
mas, a vida continuou no seu ritmo normal. silvana dedicava seu tempo entre o padre keningan e a
criança. maurício empregava o melhor de suas forças a serviço do
povo, procurando não só
levar a mensagem do cristo à população como também melhorar o
nível de vida daquela gente. a cooperativa de peixes já era uma
realidade.
aos poucos, ele aprendeu a compreender e a amar aquele lugar ardente e madrasto.
maurissí crescia mimoso e sadio, oferecendo momentos de
alegria e felicidade aos seus pais adotivos.
tudo andava muito bem. até mesmo o padre keningan estava um pouco mais animado.
certo domingo, no entanto, quando maurício e silvana retornavam, com o pequeno, da casa de
jonatam, onde foram tomar
o chá da tarde, perceberam extremo nervosismo no padre keningan. ele se agitava no leito, falava
sozinho, xingava, dizia
coisas.
• o que houve? - perguntou maurício ao doente.
• o que houve? - estourou ele. - o que houve? acabou a farsa. foi tirada a máscara. quer saber?
você foi enxotado para cá a fim de se redimir de seus pecados. e o que é que fez? trouxe a
mulher.
• calma, padre keningan, vamos devagar. o senhor está mal-informado. o que acon...
• chega de conversa. não admito que aqui nesta paróquia, em que procurei durante anos formar o
povo dentro da honradez e da decência, venha o senhor, um ministro
de deus, um homem que devia dar o exemplo, gerar escândalo dentro da minha casa. mande
embora essa mulher. mande embora. mande embora.
keningan urrava. o rosto estava lívido e o suor descia
abundante pelas faces.
• padre keningan, esteja certo de que essa intriga só pode
ter partido de uma pessoa mal-intencionada. o senhor é um homem maduro e esclarecido; acredito,
pois, que procurará cientificar-se melhor das acusações. veja, o
senhor mesmo sentiu na carne
o quanto dói uma injustiça.
keningan mantinha-se carrancudo. e insistiu com dureza:
• por que motivo, então, o senhor trouxe essa moça de fora? não tem gente aqui em espigão do
inferno que possa me atender? não tem? não tem?
a pergunta era provocante.
• para lhe ser sincero, só consegui a eliane e, por causa da morte dela, ninguém mais quer morar
nesta casa... graças a deus que aqui está a silvana para dar-lhe toda a atenção que sua idade e
saúde merecem. e silvana sabe que está correndo risco de vida...
• e essa criança... não tem nada a ver com vocês? - perguntou ele, com mordacidade.
• já lhe contei toda a história, padre keningan. quer que a repita?
maurício já estava para perder a paciência. respirou fundo
várias vezes a fim de controlar-se.
• padre keningan, fique tranqüilo. não há...
• não ficarei tranqüilo enquanto não mandar essa mulher embora.
• mas, ela precisa cuidar do senhor.
• eu não preciso de ninguém. estou bem. eu sei me cuidar sozinho. mande embora antes que eu
faça um escândalo neste povoado... silvana ouvia tudo na outra sala e chorava silenciosamente.
maurissí dormia no quarto.
keningan estava ofegante. falara com agressividade, despertando nele o velho leão que jazia
adormecido. agora, sentia-se
sufocado, sem respiração. maurício ergueu-o um pouco e o abanou
com força até que recobrasse o fôlego.
quando saiu do quarto, encontrou a moça deitada na cama,
em prantos.
um silêncio pesado caiu entre os dois. na verdade, ele não
sabia o que dizer-lhe. bem podia imaginar o golpe lancinante que
atravessara o coração dela, porque o seu próprio coração também
estava sangrando. no primeiro instante, parecia derrotado.
• silvana! - sussurrou suavemente, passando as mãos pelos cabelos dela.
ela estava deitada de bruços, com o rosto enterrado no travesseiro. não se voltou.
eu sinto muito... muito mesmo. mas, não pensemos
mais em coisas ruins. você sabe, depois da tempestade sempre vem
a bonança. tenha coragem. aconteça o que acontecer, ninguém
poderá roubar ou destruir aquilo que você tem dentro de si. não fique assim. relaxe. você é o que
pensa que é. e sei que dentro de
você só existe bondade, alegria, tolerância e felicidade. levante a
cabeça!
maurício tomou a jovem nos braços e a fez voltar-se para
ele. havia uma imensa mágoa nos olhos úmidos dela.
• não se torture, silvana. não ponha pensamentos negros dentro da alma, porque, então, sua vida
será um túnel escuro e sem saída. pelo contrário, ponha luz, sinta-se feliz por ter enfrentado a
morte aqui dentro desta casa. sinta-se a heroína daquela noite
tempestuosa, cuja coragem esteve acima da coragem de todo este povoado. você ajudou a salvar
uma vida... você não é um ser desprezível. você é maravilhosa. você
é uma criatura admirável. só eu sei
quanto valor você tem. por que se perturbar diante da hipocrisia
e
da maldade?!
• ah, maurício! você sabe como procuro fazer o bem. eu
não estava cuidando, com todo o carinho, do padre keningan? então, por que ele me condena e me
enxota?! ah, maurício, eu não
entendo a sua igreja...
• todos podem errar, silvana. todos erram. você tem os seus erros, eles têm os erros deles. não é,
porém, porque existem os erros que a verdade e o bem deixarão de existir.
• mas, eu nunca tentei destruir ninguém!
• silvana, vamos deixar os outros com seus próprios pesadelos. por que trazer o drama interior
deles para dentro de nós?
a
verdade é que a vida cicatriza os males e, das lágrimas, faz
brotar nova vida, cheia de sol, de alegria, de felicidade... para
isso, no entanto, é preciso dar um salto no escuro... e acreditar... com
força...
mesmo contra tudo e contra todos...
• está bem, eu vou-me embora. e o maurissí?
• o maurissí está na idade em que precisa, acima de tudo, de uma mãe.
• boa-noite, maurício - disse ela secamente. - amanhã tomarei o trem... para nunca mais...
maurício ergueu-se desconsolado. ficou olhando por momentos aquela pobre criatura, tão
machucada por dentro, e saiu
devagarinho, sem dizer palavra.
ao ver-se sozinha no quarto, silvana desandou em pranto
copioso, como se as torrentes da alma se despencassem de
repente.
afundou mais uma vez o rosto no travesseiro para que ninguém
fosse testemunha do seu sofrimento.
no outro quarto, maurício não conseguia conciliar o sono.
embora os olhos estivessem secos, por dentro havia um vendaval
tentando derrubar todos os seus pensamentos de calma, de
esperança e de fé... buscava agarrar-se em qualquer fiapo de luz... mas a
escuridão e a amargura desciam implacavelmente, apertando-o numa prensa sufocante. então, veio-
lhe à mente a imagem do lampião
no mastro do barco, derramando um pouco de claridade no meio
do temporal... tinha que haver um lampião na sua alma...
o pequeno maurissí dormia, alheio ao furacão que se abatia sobre seus novos pais...
..
maurício olhou para o relógio. quatro horas da manhã. ele
sabia que às oito horas partiria o trem. levantou-se e, pé ante pé,
foi ao quarto de silvana. não podia aceitar que a jovem partisse
carregando um grande desgosto na alma. claro, sabia que os
sentimentos dela estavam ontem fora de controle e queria que essa
despedida não levasse a marca da frustração e do desengano.
silvana - cochichou ao ouvido da jovem.
ela voltou o rosto para ele. não estava dormindo. talvez
nem dormira a noite toda.
maurício sentou-se ao seu lado. suas mãos, leves como plumas, afagavam os cabelos dela. a jovem
ficou impassível por instantes e, depois, atirou-se impetuosamente
sobre ele, desatando
uma torrente de lágrimas. este gesto cortou o coração de maurício,
que procurou acalmá-la, passando a mão no rosto dela. aos poucos, o granito que se formara no
coração da moça foi-se desfazendo, como a neve se desfaz sob o calor
do sol.
os dois se entenderam nesta linguagem silenciosa e sentiram
que a vida ainda era bela, apesar de tudo.
• silvana, o reino dos céus está dentro de você e não aqui neste lugar. você parte, mas viaja
sempre dentro do seu planeta interior, que é o seu paraíso. por isso, longe é um lugar que não
existe, lembra-se?
• vou lembrar-me disso.
• eu rezarei por você.
• obrigada.
• cuide bem do nosso...
filho... não tenha vergonha de chamá-lo de filho, maurício. foi deus que o colocou nos nossos
braços e não é pecado nenhum... parece que você ainda carrega o trauma
da inquisição medieval na cabeça.
súbito, o trem apitou lá embaixo, na estação. o apito da
locomotiva soou como uma facada. dentro de uma hora o trem
partiria.
silvana saltou da cama e foi aprontando tudo com a máxima rapidez. em poucos minutos, ela descia
a ladeira com a criança
no colo, enquanto maurício carregava a mala.
• vai dar tempo - disse ele, procurando conter a pressa.
• adeus, espigão do inferno! - exclamou ela, volvendo os olhos para todos os lados.
• por certo, não será para sempre. um dia maurissí virá contemplar a região que o viu nascer e o
barco que o tirou da morte.
o barco que lhe deu novos pais - murmurou ela, acariciando o rostinho do pequeno.
o trem apitou pela segunda vez. dentro de minutos, partiria.
maurício pensou que era melhor assim, porque nada mais
duro do que a angústia de uma despedida prolongada.
chegaram. sem perda de tempo silvana entrou no trem e se
acomodou.
soou o terceiro apito. longo. lancinante. e o trem se pôs
em marcha.
para maurício, que se plantara na pequena plataforma a
acenar com a mão, aquela parecia uma marcha fúnebre.
quando o comboio desapareceu na curva, os braços caíram
pesadamente e ele se surpreendeu com o rosto banhado em lágrimas.
a estação estava deserta. a passos lentos, foi saindo para a rua.
deu uma chegadinha no bar do seu jerusa.
• oh, padre maurício, como vai o senhor? - perguntou o vendeiro, com um largo sorriso nos
lábios. bem, obrigado. e o senhor?
• tudo bem, graças a deus. ainda não tive oportunidade de cumprimentá-lo pela façanha que fez
no outro dia, enfrentando a enchente para socorrer uma família. posso dizer-lhe com
sinceridade: o senhor é muito benquisto aqui. nós precisávamos mesmo de um padre como o
senhor, assim, amigo, popular, humano, simples. muito bem.
• puxa vida, seu jerusa, o senhor me deixa encabulado sorriu maurício, sem muita vontade.
• mas, mudando de assunto, ontem o senhor teve visita de fora, não é?
• ontem?
• sim, um rapaz bem-vestido, bem-falante, que disse que era seu velho amigo e queria fazer-lhe
uma visitinha.
perguntou-me
onde ficava a casa paroquial.
• sim...
• era um moço de cabelos pretos penteados para trás, bigodes grandes, isso aí.
maurício teve absoluta certeza de que era o corrégio. estava tudo explicado. ainda bem que viajara
de retorno no trem da
tarde, senão iria encontrar-se com silvana. se é que viera de
trem.
• mas, o senhor não quer tomar alguma coisa?
• hoje não, seu jerusa - respondeu ele, procurando sair o mais depressa possível a fim de ficar a
sós com seus pensamentos.
pôs-se a subir o espigão, a passos lentos, cabeça baixa, meditando sobre os acontecimentos que, da
noite para o dia,
mudaram
toda a situação. e esse lugar nunca lhe parecera tão longínquo como agora.
seu pensamento, então, correu atrás de um trem que cortava coxilhas e várzeas, alongando-se, como
minhoca, na direção do
sul. pobre silvana! - pensava ele. - por que há homens tão desumanos e duros em seus
julgamentos?! em nome de que lei e de que
filosofia o padre keningan poderia encontrar paz de espírito
depois
de pôr a correr, daquela forma, uma criatura de deus, não mais pecadora que a madalena, que a
adúltera, que a mulher do poço de
jacó, que o ladrão pregado na cruz ao lado do mestre... será que a
igreja de cristo é uma sociedade de homens perfeitos? se fosse
uma sociedade de homens perfeitos, quem poderia, de sã consciência, ter lugar nessa sociedade?
o bispo de rosandur? o vigário geral? o padre keningan? mas, julgar sumariamente e condenar é
sinal de perfeição? e a suprema perfeição não estaria no mandamento do perdão? então, por que é
que tudo teria que acontecer
como aconteceu?!
e maurício caminhava, parava, seguia, tropeçava. pensando. pensando. pensando.
ao chegar em casa, keningan se agitava nervoso. estava
com fome. maurício foi à cozinha preparar-lhe um café reforçado.
• a mulher já se foi? - perguntou o doente, com olhar
superior, sentindo-se como um herói defensor da pureza dos costumes do povo e da santa mãe
igreja.
• já.
• ainda bem.
• só que agora terei mais dificuldade de atender o povo e cuidar do senhor ao mesmo tempo.
• não precisa se preocupar comigo. eu sei cuidar de mim.
pode dedicar-se inteiramente ao povo. espero que agora - e ele
deu uma entonação muito dura à palavra agora - tenha mais tempo para o povo...
keningan não se entregava. seu espírito forte e duro sobrepunha-se até mesmo à crescente
debilidade do corpo.
maurício tentou conseguir uma empregada. ninguém quis
assumir o risco, uma vez que a morte da eliane correu de boca em
boca. falava-se em assombração. maldição. tanta coisa.
maurício, então, desdobrava-se. mas, a sua preocupação
constante era o doente, que agora decaía a olhos vistos.
certo dia, maurício o encontrou caído, os olhos encovados, a respiração arquejante, o aspecto
cadavérico.
no dia seguinte, quando foi levar-lhe a sopa, os olhos do
enfermo faiscavam:
• padre maurício, o senhor não está atendendo o povo como devia. hoje de manhã esteve aqui
uma senhora dizendo que o
filho está às portas da morte e o senhor ainda não foi ver a
criança.
ela nem sequer está batizada.
• mas, eu não sabia - ponderou maurício.
• então - vociferou keningan, com voz sinuosa e encatarrada - o que é que está fazendo aqui?
o velho parou, exausto. arrancou todo o resto de fôlego
que possuía e continuou, com o rosto afogueado:
• o senhor acha que o povo vem aqui em procissão à sua procura?
keningan proferiu com tanta explosão essas palavras que
caiu sem forças, para trás, dando com a cabeça no respaldar da cama. maurício o agarrou com
presteza, mas ele dava urros de dor.
um galo avermelhado formou-se na nuca.
maurício tratou de pôr em prática todos os seus conhecimentos para aliviar a dor. keningan, porém,
estava fora de si e
bradou:
• deixe-me em paz e vá batizar a criança, antes que ela morra!
estava sem forças. fechou os olhos e não se mexeu mais.
maurício não sabia o que fazer. era preciso ficar e era preciso ir.
tomou a maleta e se dirigiu, a toda pressa, até o bar do jerusa, onde conseguiu um cavalo. devia agir
com a maior presteza,
não só porque a criança passava mal, mas, principalmente, porque
a situação do padre keningan lhe parecia muito grave.
felizmente, a criança havia se recuperado bastante e foi com
muita alegria que a família assistiu ao batizado, esperando, com
muita fé, que essa bênção a ajudasse a restabelecer-se completamente.
agora ele só se preocupava em chegar à casa o mais rápido
possível.
era por volta das dezoito horas quando devolveu o cavalo e
pôs-se a subir a encosta escarpada. entrou correndo em casa,
colocou a maleta sobre a mesa e foi ver o doente.
de olhos esbugalhados, imóvel, keningan parecia uma estátua.
maurício tomou o pulso e auscultou o coração, com terrível
pressentimento.
tarde demais.
keningan estava morto. o corpo ainda quente.
desesperado, o jovem sacerdote dava murros na parede.
por que não chegara minutos antes?
as sombras da noite penetravam pela janela e ele se sentiu
aí como um derrotado.
lembrou-se de dar-lhe a absolvição sob condição e correu
para a igreja a fim de dar o toque de finados.
o som lento, pesado e lamentoso do sino chamou a atenção
dos moradores, que foram saindo de suas casas a perguntar-se
quem é que tinha morrido.
devagarinho, uma procissão de gente foi subindo o espigão.
o passamento já era esperado, mas, mesmo assim, o impacto da morte de keningan sàcudiu os
sentimentos daquela boa
gente.
foram tomadas todas as providências. o velho jonatam foi
buscar o caixão, enquanto maurício, sozinho, lavou e vestiu o morto, pondo-lhe os paramentos
brancos da missa.
Às nove horas da noite houve missa de corpo presente na
igreja e, depois, o velório se prolongou durante toda a noite.
de hora em hora, o sino dobrava a finados.
a notícia se espalhou célere e no dia seguinte uma multidão
veio acompanhar o velho pároco à sua última morada, atrás da
igrej a.
maurício estava triste. muito triste. não conservava mágoa
nenhuma em seu coração. apenas desejava ardentemente que deus
tivesse keningan no reino dos céus, pelo qual lutara tanto.
Às quatro horas da tarde era rezada missa de despedida naquela mesma igrejinha que durante anos
ouvira a voz profética e
dura de um homem que se demolia na ânsia de
aperfeiçoar os caminhos do povo de deus.
aquelas mãos inertes, aqueles olhos fechados, aquele coração estancado, aquele cérebro esvaziado,
era o que restava de um
homem rigoroso e perfeccionista. um homem sem medo. mas,
quem poderia jurar que não se tomara de pânico ao pisar o limiar
da eternidade? eternidade, o grande enigma de deus. qual seria o
tamanho exato da justiça do criador?
nos seus pensamentos, maurício teve pena do velho keningan. e pediu ao pai por ele. enfim, esse
homem fora um herói nessa terra desgraçada e madrasta. quem poderia
negar que a dureza e
a agressividade da vida não tenham sido as culpadas pelo
enrijecimento das fibras e da sensibilidade daquele homem? sem dúvida,
deus lhe terá dito: vem cá, meu velho resmungão, entra aqui de
uma vez no reino da paz e da felicidade!
keningan foi enterrado numa sepultura pobre, de pedras
brutas, construída às pressas atrás da velha igreja que ele
construíra.
quando o silêncio da noite caiu sobre o espigão do inferno, o povo já tinha ido embora e maurício
caminhava solitário para cá e para lá, ao redor da igrejinha. o
lago, lá embaixo, estava
calmo. a estaçãozinha de trem, do outro lado, estava vazia. apenas
alguns grupos de pessoas, que vieram prestar a última homenagem
ao falecido, percorriam a rua empoeirada.
maurício pensava agora em colocar toda a sua juventude a
serviço daquela gente. sentia que era preciso descer até o povo,

que o povo se esquecera de subir até deus. começaria, antes de tudo, por incutir uma nova imagem
de deus. aquele povo sofrido e
castigado precisava conhecer um deus bom, amigo, acessível, compassivo, com rosto feito de
sorrisos e de lágrimas, enfim um pai
de
olhos amorosos e gestos de perdão. na sua meditação, ele entendia
que a imagem de um deus implacável e justiceiro acabaria criando
angústia diante das fraquezas de cada um e poderia gerar o
afastamento do homem no intuito de evitar um confronto com a justiça
divina.
a noite descera e ele entrou em casa. a solidão e o vazio
moravam em cada peça. apesar de sua formação superior, ele sentiu-se comprimido por dentro. uma
espécie de tristeza gelada, que
o apertava.
demorou-se um pouco no quarto de keningan: a cama desarrumada, os lençóis caindo para o lado,
os remédios sobre o criado-mudo, o rosário amontoado no chão. ajuntou
o rosário e colocou-o sobre a cômoda. recolheu os lençóis e as fronhas para queimar tudo. foi então
que viu um pedaço de papel no meio da roupa
de cama. tomou-o na mão. era um bilhete escrito em letras horríveis pelo padre keningan:
“padre maurício, estou morrendo. tenho medo.
sinto-me pequeno diante de deus.
perdão por tudo, não guarde mágoa contra mim, por favor.
reze por mim. adeus.”
...
a casa paroquial agora começou a tornar-se ponto de reuniões e encontros. grupos se reuniam com
freqüência, estudava-se
religião, debatia-se a melhor forma de acelerar o progresso de
espigão do inferno. de vez em quando eram promovidas peixadas festivas.
tudo parecia andar bem.
até o dia em que maurício recebeu uma correspondência
com o brasão da diocese de rosandur.
• finalmente levantarão meu exílio - pensou ele, acreditando que o azar não poderia ser tanto
durante tanto tempo.
É de se supor - dizia para si mesmo - que também lá para
as bandas da civilização as pessoas mudem um pouco. garanto que
foram suspensas as penas do inferno.
maurício riu-se da expressão e pôs-se a rasgar a sobrecarta.
estava disposto a esquecer tudo. enfim - resmungava ele de bom
humor - todos têm o sacrossanto direito de errar na vida.
desdobrou a folha de papel e leu:
“revmo. padre.
laudetur jesus cristus.
profundamente consternados com o passamento de nosso
dileto irmão konrado keningan, unimos nossas preces às preces do
povo de espigão do inferno, a quem sua revma. dedicou a vida
apostólica durante tantos anos.
mas, entristeceu-nos sumamente, no entanto, tomarmos
conhecimento de que v. revma. deixou aquele idoso sacerdote,
gravemente enfermo, abandonado à própria sorte, a ponto de vir a
falecer sem a sua assistência. seria justo e humano pensar que v.
revma. desse amparo e acolhimento cristão ao seu irmão, principalmente nas horas angustiantes e
decisivas que antecedem o
desenlace. e o que fez v. revma.? saiu de casa, só retornando quando
nosso querido irmão jazia morto sobre o leito.
padre maurício, que deus tenha pena de sua alma desfigurada e endurecida.
seu comportamento desumano mereceu nossa reprovação
total. diante deste doloroso fato, agravado pela reincidência em
fatos anteriormente condenados, sentimo-nos no indeclinável dever de
transferi-lo com toda a urgência para a cidadezinha de montes
brancos, no sul do país. rogamos ao senhor onipotente e misericordioso para que faça com que v.
revma., isolado no retiro gélido e branco daquelas regiões nevadas,
possa reencontrar-se
consigo
mesmo, com sua consciência e com deus.
esperamos que sua despedida de espigão do inferno não
seja tão solitária e fria quanto a morte de nosso amado irmão keningan.
seu em cristo, monsenhor teófilo santoro, vigário-geral.
maurício dobrou a carta vagarosamente, aturdido pela
inesperada surpresa.
até quando, senhor?! - foi só o que conseguiu dizer. estava desconsolado.
• afinal, meu deus - desabafou ele, entrando na igreja
• eu não sou um pedaço de pau, não sou um animal, não sou um verme para ser pisoteado a cada
instante... eu sou gente. eu sou um ser humano, tão sensível como eles lá. tão pecador quanto
eles lá. tão cheio de boa vontade quanto eles lá... por que esta carga para cima de mim? tudo
tem limites, meu deus.
mauricio calou-se. e o eco das suas últimas palavras o assustou.
o sangue começou a descer do rosto e, a pouco e pouco, a
tempestade foi amainando no seu interior.
seus olhos giraram pela igreja e acabaram se fixando num
grande crucificado.
teve a nítida impressão de que o rosto de jesus foi ganhando vida e os lábios se moveram para
dizer-lhe:
• calma, meu amigo. se eu não tivesse sofrido, não teria ressuscitado. para cada lágrima de
sofrimento você tem reservadas cem lágrimas de alegria.
por que se preocupa com os acertos e desacertos dos outros? cada um tem o seu próprio tamanho
interior.
se você julga e amaldiçoa sem mais nem menos, não está
incorrendo no mesmo erro que está condenando?
calma! ponha sol no seu coração. lembre-se que o paraíso
é um estado mental.
• está bem, mestre, mas seria muito melhor, se todos se dedicassem a agir conforme os teus
ensinamentos, quero dizer, com justiça, com tolerância, com lucidez, com amor.
• mas, é preciso reconhecer que o estágio mental dos seres humanos varia muito de um para
outro. a luz está aí para todos, mas a receptividade dessa luz depende da abertura de cada um.
foi por isso que meu pai resolveu preservar a felicidade e o amor, colocando-os dentro de cada
um, a salvo das tropelias e equívocos vindos de fora. saiba, no entanto, que eu gosto muito de
você. irei junto com você.
maurício quedou-se estático. arregalou os olhos. aproximou-se bem do crucificado. lá estava ele
inerte, como sempre.
fora verdade ou fora alucinação?
de qualquer forma, o milagre acontecera: estava calmo,
cheio de paz, iluminado interiormente. estava bem.
saiu para fora da igreja e pôs-se a contemplar o pôr-do-sol
lá para as bandas do lago. atrás de si, encostado na parede da
igreja, estava o túmulo do padre keningan.
• meu caro keningan - disse ele - tu sabes que não foi assim. faze qualquer coisa por mim... vai,
amigo, olha para mim lá de cima.
. .
naquele domingo a missa foi rezada no bar do seu jerusa.
as dependências do estabelecimento estavam superlotadas e o povo
se derramava pela rua e pelo lado de fora das janelas.
À hora do sermão, maurício fez o sinal da cruz e falou:
“meus queridos amigos e amigas. este é um momento muito importante na minha vida. e muito
emotivo. quero recordar,
sensibilizado, três pessoas falecidas aqui: a jovem eliane, que
perdeu a vida na quadra mais linda e florida, em cumprimento de uma
obra de generosidade pessoal; a mãe do pequeno maurissí, que passou a noite tempestuosa
heroicamente, dando a vida para que seu
filhinho vivesse; e o padre keningan, que permaneceu durante
tantos anos nesta região inóspita e dificil, ele que poderia ter
optado
por outro modo de vida mais condizente com sua cultura.
meus amigos, como é bom a gente lembrar o bem que os
outros fazem! isto nos anima e nos impulsiona para frente e para o
alto.
alguns poderiam perguntar por que é que hoje eu preferi
rezar esta missa aqui no bar. porque foi aqui que começamos a nos
encontrar com deus, desde a missa daquele distante domingo, e
porque é bom que seja aqui a última missa que rezarei em espigão
do inferno.
hoje estou me despedindo de vocês. sinto muito. muito
mesmo. recebi determinação superior e deverei partir amanhã.
estejam certos de que guardarei esta terra e cada um de seus
habitantes em meu coração. aqui aprendi muita coisa importante para minha vida. peço que me
desculpem por todo o bem que deveria ter
feito e não o fiz. enfim, todos somos humanos. o ideal está sempre
um pouco adiante de onde estamos, não é verdade? mas, o que vale
é o amor e a boa vontade que tenho por vocês. que deus abençoe a
todos e a cada um de vocês. amém”.
o padre maurício traçou mais uma vez o sinal da cruz e
prosseguiu a missa, recitando o “creio em deus pai, todo-poderoso” .
enquanto o povo acompanhava a oração, ele notou que os
rostos estavam sombrios de tristeza. esforçou-se muito para
conter
as lágrimas, que tentavam aflorar na ponta dos olhos.
depois da cerimônia, ningüem o deixava em paz. todos
queriam saber como era possível que isso acontecesse, logo
agora...
e ele se esforçava intimamente para dar uma resposta que não
ferisse a sensibilidade daquela boa gente.
recebeu convites para o almoço e para a janta. havia tanta
gente que queria dar-lhe demonstrações de carinho.
ao meio-dia, almoçou com a família de jonatam.
À noite, recusou qualquer convite, pois desejou ardentemente estar só e percorrer os lugares mais
emotivos para o seu
coração.
passou algum tempo no espigão a contemplar o vasto panorama, iluminado vagamente pelo luar; lá
embaixo, o lago sereno,
tingido de azul-marinho; do outro lado as luzes da estação, do
bar,
das casas alinhadas à margem da rua. lembrou o dia em que chegou, só e desconhecido; lembrou o
dia em que chegou silvana,
exausta e empoeirada; olhou para a casa paroquial e reviveu
todos
os acontecimentos.
caminhou até o túmulo do padre keningan e ficou com
pena de ver aquele homem jogado aí dentro da terra...
foi até o cemitério e parou, por momentos, diante da sepultura da eliane. chorou. seguiu mais para
baixo e foi rever a
cova
rasa em que depositaram a mãe do maurissí...
desceu lentamente a encosta, a caminho do lago tiruê. tomou o barco menor do velho jonatam e
saiu remando com suavidade para não despertar aquele mundo liquido de
seus sonhos misteriosos...
a noite estava linda. muito linda.
uma profunda emoção o envolveu e ele sentiu-se assim como alice no país das maravilhas.
mergulhado em tantas reminiscências, nem ele soube quanto tempo ficou a navegar sem rumo.
ao atracar o barco, ouviu passos.
• a estas horas?! - pensou.
era jonatam júnior.
• você por aqui?! - exclamou, surpreso, maurício.
• sei que o senhor veio se despedir do lago - disse o rapaz.
maurício se admirou do tom da voz do moço. nunca conseguira desfazer a profunda mágoa que a
morte da eliane provocara no jovem. na sua formação rude, ele descarregava
toda a sua revolta contra maurício.
• padre maurício - começou o rapaz, dando a entender que queria confessar algo muito
importante - eu vim me despedir do senhor... e pedir desculpas... por tudo... havia lágrimas no
rosto do rapaz.
ambos ficaram abraçados por momentos, misturando as
lágrimas e conciliando os sentimentos.
era uma hora da madrugada.
Às sete horas da manhã, o café já estava pronto, na cozinha
da casa paroquial, preparado pela dona lírides.
maurício acabava de recolher seus pertences.
tomou café, juntamente com toda a família do velho jonatam, que o acompanhou até a estação.
o trem já havia apitado duas vezes quando lá chegaram.
o movimento era intenso. muitas pessoas estavam na gare
para despedir-se. e no interior da estação uma verdadeira multidão
de gente se acotovelava, querendo aproximar-se de maurício, para
levar-lhe o último adeus.
o jovem sacerdote ficou surpreso. nunca lhe passara pela
cabeça que alguém fosse à estação, pois já se havia despedido publicamente durante a missa.
o seu jerusa estava afobado. rompia a barreira humana,
pedindo passagem, ansioso por chegar até maurício. portava algo
na mão.
• padre maurício, chegou esta correspondência para o senhor.
ele reconheceu a letra. guardou a carta no bolso e continuou desejando toda felicidade às pessoas
que vinham dar-lhe o último abraço.
terceiro apito. maurício entrou rápido no trem.
quando o comboio começou a sacolejar, abanou para todos, no adeus, quem sabe, para nunca
mais...
permaneceu ainda por longo tempo submerso num mundo
vago e nostálgico. depois, pôs a mão no bolso e tirou a carta:
“alvores, 18 de dezembro
maurício
desejo, de coração, que esta carta encontre você muito feliz
e cheio de saúde. lembro, com muito carinho, todos os momentos
que passamos juntos, conversando, trabalhando, meditando,
brincando, passeando, curtindo as boas coisas da vida.
quando cheguei em alvores com o maurissinho, as más
línguas se encarregaram de espalhar maledicências, mas eu já me
sinto num outro plano e nem esquentei a cabeça. cada pessoa tem
o seu próprio tamanho interior e algumas são tão pequenas, que vivem no submundo da calúnia e
do ódio. um dia, no entanto, também essas criaturas hão de mergulhar
na luz e aí verão as maravilhas que existem na alma de todo ser humano.
puxa vida, isso nem parece carta. tem mais o feitio de uma
tese filosófica, não acha?
apenas falei isso para dizer-lhe que sigo, aqui em alvores,
a minha vida com muita alegria, de cabeça erguida, ocupando meus
espaços dentro da comunidade. eu sou feliz, porque cultivo a
felicidade dentro de mim.
quero dizer-lhe que jamais esquecerei tudo o que aprendi
de você. acredito que o momento mais lindo da minha vida foi
quando o conheci. você ampliou ao infinito a grandeza do meu
mundo. hoje sou outra pessoa, graças aos seus ensinamentos, à sua
paciência, à sua tolerância, à suá bondade e ao seu espírito aberto e
liberto. até mesmo nos momentos em que a felicidade fazia explodirem em mim as emoções
sensuais, você sabia ser uma presença
iluminada, sem traumas e sem recalques.
como eu admiro você!
além de tudo, você é um mestre. um mestre até mesmo estranho no mundo de hoje, porque sempre
procura ver e mostrar o
lado bom e positivo de tudo.
sabe, maurício, eu vivo em dois mundos: um é esse mundo
de todas as pessoas, esse de casa, do trabalho; o outro é bem
diferente: é um mundo em que me transporto com facilidade, quando
tudo está quieto, sem ninguém por perto. É um mundo cheio das
mais belas flores coloridas, um mundo de muito amor e
felicidade.
É lindo, fascinante. um mundo de sonho e de verdade. e este mundo foi criado por você.
não quero, com isso, dizer que estou apaixonada. não é isso. quero dizer que quando a gente
encontra um tesouro, deve
usufruí-lo. você é um tesouro muito raro.
qualquer pessoa sentirá a sua atração benfazeja, porque
nada atrai mais do que o amor. e você é amor. por isso, você vê
com naturalidade quando essa energia superior encandece outras
energias, também grandes na sua própria dimensão, e imanentes da
energia infinita. parece que estou falando difícil, mas sei que
você
me entende.
o mundo, os gestos, a vida, os atos humanos são lindos para quem tem a alma iluminada. onde há
luz, tudo é luz.
mas, chega de filosofar. o maurissinho está muito querido.
É um tesouro que eu cuido com todo amor.
estou dando a ele aquela educação positiva que você mesmo daria. mas, não esqueça que você
prometeu ser pai adotivo dele. nada de ficar com vergonha. pelo contrário,
o mundo todo devia felicitar você por tamanha bondade e desprendimento. lembre
que longe é um lugar que não existe. mentalize e ore por nós.
devo confessar-lhe que, quando cheguei, meus pais queriam enxotar-me de casa, dizendo que eu era
a vergonha deles...
santa ignorância! mas, em tudo sempre existe o lado bom, pois foi
aí que resolvi ter a minha casa própria, onde vivo como quero e não
atrapalho ninguém. ela é o meu paraíso. aqui, seguidamente recebo a visita da marisete. por sinal,
ela queria tanto ficar com
o maurissinho. talvez fosse um pouco de remorso pela lembrança do passado, sei lá...
e você, como é que vai? cuide-se bem. reze sempre a deus
para conservá-lo com saúde...
e o padre keningan, como está? foi uma pena eu não poder continuar cuidando dele. puxa vida, ele
não podia ter feito
aquilo comigo. bom, mas já passou... desejo que se recupere
totalmente.
bem, acho que a carta está longa demais.
receba o meu abraço carinhoso. você é um amor. claro,
com letras maiúsculas.
silvana.”
maurício fechou a carta e ficou rememorando as palavras.
uma névoa indefinível de paz descia sobre seu coração. e ele começou a sentir a vida numa
amplidão infinitamente maior do que as
dimensões de seu pequeno mundo. e se perguntava: teria silvana
acrescentado algo mais à sua vida, aos seus sentimentos, ao seu
espírito de tolerância e de compreensão? teria ampliado sua visão do
mundo e dos mistérios insondáveis dos corações? teria acrescentado alguns pontos à sua própria
medida de felicidade e de amor?
o trem continuava sua marcha monótona e sonolenta,
alheio às pessoas que conduzia e às árvores e animais que animavam a paisagem ao longo do
caminho de ferro...
capÍtulo 8
quando maurício chegou em montes brancos, parecia-lhe
ter penetrado a solidão do limbo.
era o dia vinte e quatro de dezembro, véspera de natal. fazia mais de dois anos que a pequena
comunidade pedia um sacerdote. para o povo, este era o melhor presente
de natal dos últimos
anos.
o frio estava terrível. três graus abaixo de zero. a neve caía
gélida e esfiapada, formando flocos sobre os telhados, as árvores,
os muros. as ruas estavam cobertas por um longo e espesso lençol
branco.
maurício, ao contemplar a paisagem de montes brancos,
na véspera do natal, lembrou-se dos presépios cobertos de algodão
que se faziam nos tempos longínquos da sua infância.
montes brancos parecia uma cidadezinha perdida no cosmo. as poucas pessoas que saíam à rua
estavam agasalhadas com
felpudos abrigos de lã.
a notícia da chegada do padre correu alviçareira. barcos
percorriam as regiões ribeirinhas do lago niraka avisando o povo.
trenós subiam e desciam montanhas de neve levando a boa nova
por toda parte: naquela noite haveria missa do galo.
223
os sinos bimbalharam alegremente desde as dezoito horas,
a intervalos de hora em hora.
maurício foi conduzido à casa do diácono vânio iris, onde
se hospedaria até ser-lhe entregue uma residência especial.
a neve continuava caindo. era uma raridade naquela época
do ano. os mais velhos recordavam que pouquíssimas vezes ocorrera esse fenômeno no natal.
as casas de madeira, com as cumeeiras em ponta, ofereciam uma cena poética de rara beleza.
o abatimento inicial que a natureza fria provocara em
maurício, agora já se desfazia diante da aproximação da festa do
nascimento de jesus. e a felicidade irradiada nos olhos daquela
gente simples e boa animava seu espírito.
À meia-noite, a igreja estava repleta de gente encapotada
até a ponta do nariz. maurício sempre sentira uma profunda emoção na missa do galo. mas, dessa
vez, parecia que estava num outro
mundo, diferente e fantástico.
após a missa, foi convidado para tomar chocolate quente
com tortas típicas da região. as famílias, reunidas na casa do
diácono, estavam muito curiosas para saber um pouco de sua história e
achavam inacreditável que existisse um lugar tão quente como espigão do inferno. por seu lado,
maurício aprendeu muito sobre nevadas, refúgios e salvamentos.
depois de alguns dias, recebeu uma casa para morar, por
conta da comunidade de montes brancos. aconchegante, feita de
madeira de cipreste, a casa ficava a dezenas de metros da
igreja. na
frente, dois ciprestes e algumas folhagens castigadas pelas
nevadas
extemporâneas; ao fundo, um pequeno bosque de árvores nativas.
era uma residência muito agradável.
inicialmente maurício procurou conhecer os costumes daquela gente.
224
quando o tempo melhorou e a temperatura subiu, fez uma
viagem com o vânio através dos lagos formados pelo degelo e visitou todas as populações
ribeirinhas.
em janeiro, fevereiro e março, meses quentes, em que a neve se abriga apenas nos cumes das
montanhas e em alguns bolsões
mais raros, ele percorreu as encostas e as pequenas povoações
isoladas nos vales.
sem dúvida, era uma vida dificil e sacrificada. mas, ele era
forte e enfrentava a dureza com espírito alegre. aprendera a
estar
sempre de bom humor e radiante; este estado mental positivo tornava agradável o seu viver. a
imponência das montanhas e a grandeza dos cenários extasiavam sua alma,
tornando seu exílio uma
aventura fascinante.
..
• padre maurício, tem visita na sua casa.
era a dona madalena, a vizinha, que o avisava da janela da
casa. maurício vinha chegando de uma viagem realizada no refúgio
norte do cerro cajado, onde fora ver um doente.
dona madalena abrira a casa para a visita.
• quem poderia ser? - pensava ele, apressando o passo.
• oh, silvana! que surpresa inacreditável! não é possível!
os dois se abraçaram comovidos.
• veja o maurissí, como já está grande! - disse ela, com imenso contentamento.
• mas, como é que pode?! - exclamava ele, quase não acreditando no que via.
• sabe, a última carta que eu lhe escrevi com o endereço
de espigão do inferno veio de volta com uma anotação que você tinha sido transferido. procurei,
então, aquele meu amigo lá da cúria
e ele me contou que você fora designado para este lugar... mas,
santo deus, isto aqui é um outro planeta! puxa vida, o que é que
houve desta vez?
• fui acusado de negligência pela morte de keningan...
• oh, o padre keningan morreu? !
• É...
• bem, eu notava que ele estava decaindo muito.
maurício contou-lhe o que acontecera.
• que injustiça! - clamou a jovem.
• e você? - perguntou ele, tratando de mudar de assunto.
• eu passei bocados difíceis quando cheguei em alvores, com a criança. você sabe, alvores é uma
cidade pequena e as más línguas se encarregam de espalhar boatos e mexericos... fiquei
desolada, com tanta maldade. depois, pensei: o problema é de quem fala mal e não meu. não
devo entrar em sintonia com a maldade.
procurei colocar a cabeça no lugar. lembrei-me de seus ensinamentos e disse para mim mesma: a
vida é minha, eu é que devo saber de
mim. não posso deixar que algo de fora perturbe o meu interior.
se
o meu coração estiver cheio de sol e de flores, ninguém poderá destruí-los, a não ser que eu mesma
queira ou permita. então, resisti.
esqueci. procurei engajar-me na vida de todos os dias. a
marisete
e seu josias sempre foram meus grandes amigos e minha força.
• e por que veio parar neste mundo gelado?
a moça sorriu:
• o mundo não é gelado. É sempre um paraíso.
agora foi ele quem sorriu.
e brincou:
• você sabe por que este lugar é muito frio?
• não!
• porque este lugar foi descoberto há milhões de anos e nunca mais o cobriram.
silvana achou graça da piada. e acrescentou:
• pensei que você fosse dizer que aqui é tão frio que as galinhas, ao invés de botar ovos, botam
sorvetes e picolés.
• sabe o que é que estou pensando? - disse ele, entusiasmado.
• colocar uma fábrica de picolés?
• não, agora estou falando sério. montes brancos tem uma escola fechada por falta de professor
e...
• e você acha que eu devo abrir a escola.
• que tal?
• concordo.
está feita a mais recente contratação de montes brancos
• tornou a brincar maurício. - agora vamos comemorar, com antecedência, a inalguração da
escola.
ele foi para a cozinha e preparou chocolate quente. a mesa
estava farta.
maurissí estava com fome e adorou o chocolate.
.. .
quando maurissí completou quinze anos, era um jovem
forte, alegre e de boa educação. muito inteligente e vivaz, dava
trabalho à professora, que outra não era senão sua mãe.
a adolescência, que muitas vezes decorre tumultuada na vida dos jovens, para maurissí transcorria
normal e tranqüila. já ía
muito longe o dia em que ele dera um grande susto à silvana:
• mamãe, todas as crianças têm pai? onde é que está o meu pai?
silvana mudou de cor. teve vontade de dizer que o pai tinha morrido e pronto. notou, porém, que
maurissí já estava em
condições de entender a sua verdadeira história.
maurissinho, você tem uma história muito linda. parece
uma história de fadas. É... porque você não nasceu; você foi trazido por deus... numa noite terrível
de enchente e de tempestade...
• o quê?! - cortou o garoto. - eu não nasci?
• espere aí um pouquinho... eu fiz apenas uma imagem.
claro que você nasceu... mas, a sua história começou com um milagre de deus... uma coisa tão
maravilhosa que eu nem sei como
começar... chego a ficar emocionada...
e, realmente, silvana estava emocionada.
• uma noite o padre maurício foi acordado a altas horas
da madrugada. alguns homens o avisaram de que havia uma grande enchente no rio tiruê. o rio tiruê
desembocava num grande lago. perto do lago ficava o povoado de
espigão do inferno, um lugar muito quente e muito pobre. pois, os homens foram acordar o
padre maurício e disseram que havia uma família em perigo, isolada pelas águas da enchente. o
padre maurício queria ir salvar as
vítimas, mas ninguém quis ir junto. o tempo estava horrível e todos
tinham medo de que o barco naufragasse. eu me decidi a acompanhar o padre maurício. naquele
tempo eu estava lá em espigão do
inferno, cuidando de um padre muito velho e muito doente. então,
saímos de barco. os relâmpagos riscavam o céu. era uma noite
horrível. as ondas jogavam o barco para cima e para baixo, como
uma casca de noz... foi terrível, meu filho. não naufragamos por
milagre de deus.
• conta, mãe.
• graças a deus, conseguimos atravessar o lago e, lá longe, muito longe, ouvimos pedidos de
socorro...
• tinha gente morrendo?
• tinha gente em perigo. seguimos na direção dos gritos e encontramos, num galho de árvore,
uma mãe com uma criança no colo. embaixo, as águas da enchente subindo, subindo...
• ela tinha uma criança?
• ela passou a noite inteira debaixo do temporal, segurando a criança, que era seu filho. nós
salvamos os dois. mas, a mãe
estava muito fraca e morreu dentro do nosso barco.
• coitadinha!
• e, antes de morrer, ela disse: “eu vou morrer. peço-lhes, pelo amor de deus, que tomem o
pequeno e criem-no... como um
filho.” veja, maurissinho, que coisa linda: aquela mãe morreu para salvar o filhinho.
• pobre daquela mãezinha! - exclamou maurissí, com
muita pena. - mas, também, quanto ela não sofreu naquela árvore para segurar o filhinho, não é
mesmo, mamãe?
• É... e quanto não terá rezado para que deus salvasse pelo menos o filho...
• e o pai?
• o pai morreu afogado, coitadinho!
• mãe, eu queria ver aquela criança. onde é que ela está?
a senhora deixou lá naquele lugar?
silvana estava comovida.
• não, eu nunca abandonei aquela criança. também o padre maurício fez tudo que pôde por aquele
pequenino ser que deus
pôs em nossos braços.
• então, onde é que ela está?
• aquela criança é você, querido! - disse silvana, abraçando o garoto, com lágrimas nos olhos.
maurissí desvencilhou-se bruscamente dos braços de silvana e saiu correndo para fora de casa.
tinha nove anos de idade.
silvana ficou estática, vendo ruir, num instante, todo o seu
esforço...
ele não entendera. e, agora, por certo, a rejeitaria por não ser a
verdadeira mãe...
• ah, meu deus! - chorou ela, sozinha. - depois de tudo que fiz por ele, será que vai me detestar?
À noite, quando ela se deu conta, o garoto já estava na cama.
como sempre fazia, foi até ele para cobri-lo bem e dar-lhe
um beijo de boa-noite. ainda estava triste e abalada.
inclinou-se para dar-lhe o beijo e, então, o garoto a agarrou
com as duas mãos pelo pescoço e disse:
• desculpe, mamãe... sabe, eu fui falar com o papai do céu lá na igreja e xinguei ele porque
deixou meu pai e minha mãe morrerem. ah, eu xinguei ele, mamãe! aí, sabe o que o papai do
céu me disse? disse assim: olha, meu filho, papai do céu gostava tanto de você que não lhe deu
só um pai e uma mãe. deu-lhe dois pais e duas mães, e tão maravilhosos que você se queixa de
boboca.
você não é um infeliz. você é um menino muito importante pro papai do céu. por isso é que teve
dois papais e duas mamães... e por
isso é que foi salvo assim, por milagre... fique contente... e
saiba
que quem salvou você foi também o papai do céu e a mamãe do
céu. viu como você é querido? viu? e aí o papai do céu me disse:
vá lá e peça desculpa para a sua mãe. então, eu esperei que a senhora viesse aqui.
silvana chorava e ria ao mesmo tempo. o garoto se levantou e beijou, com todo o carinho, as faces
afogueadas da mãe.
nesta hora, ela sentia-se compensada por todos os sacrificios que
passara neste mundo.
o tempo foi passando e maurissí já estava com quinze
anos. era um rapazote sadio e feliz. geralmente o primeiro na
escola e muito destacado nos esportes.
mas, naquele outono, tudo começou a mudar. passou a ficar nervoso e solitário. parecia torturado
por alguma coisa
secreta.
a angústia se projetava em suas atitudes.
silvana conversou com maurício a respeito. este já havia
percebido e observava atentamente o jovem a fim de detectar a
causa da mudança. na verdade, ele sabia que a adolescência era uma
idade instável, em que todo jovem procura firmar-se, usando até,
muitas vezes, formas desconcertantes. mas, não era menos verdade
que ele e silvana usaram os melhores métodos de abertura e
sinceridade para com o rapaz, de maneira a não perturbar seu desenvolvimento equilibrado. agora,
no entanto, algo de anormal estaria
ocorrendo.
um dia, aconteceu o pior: maurissí desapareceu de casa.
apenas deixou um bilhete, em cima da cama, com estes dizeres:
“vou fazer uma viagem muito importante para mim. não se preocupem. já sou gente. voltarei.
maurissí.”
silvana ficou desesperada e queria sair à procura do rapaz.
maurício deixou a cabeça esfriar e ponderou:
• olhe, silvana, se ele fez isso é porque realmente se trata de algo muito importante para a vida
dele. pode ser que seja importante por causa da idade e das suas angústias existenciais. creio
que o melhor caminho é deixar que ele tente resolver seus problemas. nós demos uma
educação adequada, suave, inteligente, firme e bondosa. ele não iria agir sem uma razão muito
forte.
• que razão? ! diga-me: que razão? !
ela estava debulhada em prantos.
• não é possível, maurício! e se ele nunca mais voltar?! e se morrer atirado por aí?! ah, não, por
que é que ele foi fazer isso conosco?! você acha que a gente merecia um tratamento desses?!
• eu acredito nele. ele tem inteligência, força de vontade, discetenimento, e saberá resolver as
situações que surgirem. talvez, até, esta seja uma aventura em que queira se provar que é
homem. tudo pode passar pela cabeça de um adolescente. silvana passava os dias muito aflita.
um peso a aniquilava diariamente e ela até perdera a vontade de viver. seus olhos sempre se
alongavam em direção à estrada e à estaçãozinha de trem. maurício ficou preocupado com ela e
procurou instirar-lhe fé e confiança:
• silvana, não se aflija. nós demos amor e uma boa educação ao maurissí. ora, uma árvore boa
não pode produzir frutos
maus. amor produz amor. você plantou amor no coração do pequeno, portanto não vai colher ódios
e nem desprezo. confie nele.
embora, para você, que é muito madura e esclarecida, a atitude
dele
pareça injustificada, para ele, de acordo com o alcance de sua
mente em maturação, pode significar um ato correto, necessário, bom e
importante.
• sim, maurício, mas nada justifica.
• claro, para você, para nós. para ele, no entanto, pode existir algo na cabeça que torne
justificável e bom o que fez.
• o quê? me diga: o quê?
• esperemos. com fé, com mentalizações de amor e compreensão. eu não me preocupo, porque
sei que toda árvore boa
produz frutos bons, como ensinou o mestre.
• estou preocupada e com medo.
• são pensamentos negativos, que só fazem mal a ele e a você. você sabe que nós somos um no
universo, portanto, todo seu pensamento sobre ele, ou dirigido a ele, estará atuando na sua
mente. medos e preocupações agem prejudicialmente. preces de amor e proteção divina agem
beneficamente. mentalizações de carinho, de bondade, de confiança e de retorno atuarão nessa
direção na mente do rapaz. pense que ele precisa da sua força, do seu apoio, da sua
ajuda e invoque o pai celestial para que o conduza pela mão, ilumine os passos dele e o traga de
volta são e salvo. e muito
feliz e
amoroso. e assim será.
silvana ficou em silêncio para analisar os ensinamentos de maurício.
e começou a colocá-los em prática de imediato, pois o seu
rosto adquiriu uma luz estranhamente bela, seus olhos subiram ao
alto e, com certeza, ela falava ao filho palavras de amor e de
proteção.
a partir de então, silvana sentiu-se liberta, confiante, alegre e positiva.
. .
as primeiras nevadas do inverno já começavam a cair e,
dentro de alguns dias, as estradas estariam praticamente
interrompidas.
certa noite, bateram à porta com força. silvana acordou
sobressaltada. seu instinto agitou-se e alguma coisa lhe dizia
que se
tratava de maurissí. enquanto vestia o chambre, um terrível medo
de que algo de grave teria acontecido com o rapaz punha-lhe um
tremor incontrolável nas pernas. saiu às pressas e abriu a porta.
dois homens traziam um fardo às costas. antes que eles falassem, silvana reconheceu o filho e
atirou-se desesperada
sobre o
rapaz:
• meu filho! meu filho! não me digam que está morto, pelo amor de deus! maurissí estava
gelado.
• ele está sem sentidos, mas está vivo - disse um deles, tentando acalmar silvana.
maurício já vinha chegando quando levaram o rapaz para
junto da lareira e atiçaram as chamas.
silvana trocou-lhe as roupas molhadas pela neve e enrolouo em grossos cobertores.
• nós o encontramos a dois quilômetros daqui, na estrada de nevadas. já estava sem sentidos.
• ah, meu deus, nem sei como agradecer-lhes. os senhores salvaram meu filho. deus há de
recompensá-los. muito obrigada.
silvana chorava.
maurício também estava profundamente comovido. a idéia
de que maurissí poderia ter sido encontrado morto, enregelado, o
apavorava.
• meus amigos, os senhores praticaram uma maravilhosa obra de amor cristão. salvaram a vida de
maurissí. salvaram uma vida... somente deus poderá pagar-lhes devidamente...
• que é isso, padre maurício! fizemos o que devíamos fazer. qualquer pessoa aqui em montes
brancos faria o mesmo. a
dureza da vida nos ensinou a sermos solidários uns com os outros.
quem falava isso era o mais velho dos dois, um homem
barbudo, já de meia idade.
• muito obrigado, mais uma vez - agradeceu silvana, feliz da vida.
• professora silvana, nada tem a agradecer. pela senhora nós faríamos qualquer sacrificio. sabe,
eu tenho dois filhos na escola com a senhora. os laíres, se lembra?
era o outro que falava, esfregando as mãos no fogo da lareira.
silvana foi preparar chocolate quente.
• bem, missão cumprida - disse o barbudo, fazendo menção de se retirar.
• fiquem aqui mais um pouco. nós vamos preparar-lhes uma janta bem quente - pediu maurício.
• oh, muito obrigado, padre maurício! É que lá em casa já estão nos esperando preocupados. boa-
noite!
silvana tornou a eles e lhes agradeceu mais uma vez:
• boa-noite para os senhores e deus lhes pague!
• boa-noite, vão com deus - disse maurício.
o rapaz, aos poucos, voltava a si. abriu os olhos, tentando
localizar-se. quando viu silvana e maurício ao seu lado, sorriu, e
este sorriso encheu de sol o coração da mãe. este sorriso
significava
tudo que ela queria do rapaz.
maurício também estava radiante.
o calor do fogo e os cobertores reanimaram maurissí.
• oh, valentão - brincou maurício, sacudindo os cobertores - pelo jeito, a neve não estava muito
gostosa, não é mesmo?
aquela preocupação inicial que sombrava o rosto do jovem, denotando grande receio de ser
recebido com repreensões, se
desfizera diante da atitude amorosa e cordial de silvana e
maurício.
• você se salvou por um milagre - disse-lhe silvana, beijando-o no rosto ainda gelado.
• pela segunda vez - sussurrou ele, misteriosamente. agora tenho certeza de que foi pela segunda
vez...
• por quê? - perguntou ela, sem entender.
• não me perguntaram por que eu fiz esta viagem e aonde eu fui. conheço vocês e sei que
levariam bastante tempo para me perguntar. por delicadeza. mas, eu conto. É que eu estava tão
aflito, que precisava fazer esta viagem. não quis dizer o motivo porque vocês não mereciam
este sofrimento.
calou-se um pouco para respirar e continuou:
• mas, agora eu vou confessar tudo, tudo mesmo. estou tão feliz... tão feliz...
• se você está feliz, mais ainda nós - ajuntou maurício, passando as mãos nos cabelos do rapaz.
• pois... me assaltou uma dúvida terrível sobre a história que contaram dos meus pais e da minha
vida... seria verdade? não seria? eu não conseguia dormir sossegado, não conseguia estudar,
não conseguia mesmo ver vocês com aquele amor da infância. pensei... pensei... e resolvi viajar até
espigão do inferno... para
conferir. perdão... peço que me perdoem... como fui insensato e malvado para com vocês...
• você chegou até espigão do inferno? - perguntou, assombrada, silvana.
• cheguei, contei a história para o velhinho da venda, um tal de jerusa, e ele ficou tão contente
que me abraçou com lágrimas
nos olhos. levou-me para a casa dos meus padrinhos, o senhor jonatam e a dona lírides. foi como se
chegasse um rei. quanta
festa!
quanta alegria, meu deus!
agora era maurissí que não continha as lágrimas.
• o velho jonatam ainda está vivo? - indagou silvana.
• mal-e-mal pode caminhar.
• e o jonatam júnior? - perguntou maurício.
• mandou-lhe um grande abraço e outro para a mamãe.
já casou.
• que bom! - exclamou ela.
• eles não se cansavam de perguntar por vocês. contaram-me toda a história daquela noite de
temporal.
maurissí olhou com entusiasmo para os dois e exclamou:
• vocês são extraordinários, heim?! lá em espigão a história de vocês corre como uma lenda...
• acho que apenas cumprimos um dever de humanidade e
solidariedade - comentou maurício. - assim como aqueles homens fizeram com você esta noite...
• viu como deus paga as boas ações?! - observou silvana, passando a mão no rosto de maurissí.
enquanto ela caminhava da lareira para o fogão, maurício
se entretinha com o rapaz:
• então, o seu jonatam e a dona lírides vão bem?
• mais ou menos. ele passa mais deitado do que de pé.
mas, está lúcido e teve forças para me mostrar o karina, aquele
barco que você usou naquela noite da enchente. o barco está velho,
encostado, mais guardado por reliquia do que por serventia.
• e como foi que você se perdeu na neve? - quis saber silvana.
• eu vinha vindo de ônibus. a estrada começou a ficar ruim por causa da neve. a certa altura, o
ônibus não pôde mais prosseguir e disse que ia voltar para nevada. algumas pessoas que
moravam por perto desceram e saíram a pé. disseram-me que montes brancos ficava perto;
então, eu também resolvi chegar até aqui a pé. os demais passageiros voltaram com o ônibus.
quando a
noite desceu, a neve começou a cair novamente. eu andava com toda a pressa para chegar o mais
cedo possível, mas fui perdendo as
forças... fui perdendo as forças... até que... não sei mais nada. e
aqui estou.
silvana trouxe chocolate quente, torradas, queijo, manteiga
e salame.
• mas, eu tenho uma notícia para vocês - disse o jovem, com certo ar de mistério.
• notícia boa ou ruim? - perguntou silvana, preocupada.
• depende de vocês. para mim é boa.
maurício estava muito curioso:
• vamos, qual é a notícia?
• eu pensei em ser padre.
os dois ficaram perplexos.
maurissí fechou os olhos para não ver a reação de ambos.
na verdade, havia nos três um misto de felicidade e, ao mesmo
tempo, de melancolia. a melancolia da separação.
• você disse que pensou - observou maurício. - pensou bem, mesmo?
• pensei... mas, eu não vou ser como você, uma ovelhinha que vai para onde for enxotada, sem
dizer más nem més...
• desaforo! - xingou, com brandura, silvana.
• eu acho que dedicar a vida em beneficio das pessoas deve ser uma coisa linda e agradável e
nada tem a ver com esse negócio de ir para espigão do inferno, montes
brancos e aonde o diabo
perdeu as botas...
maurício deu uma risada de complacência.
• eu quero trabalhar onde posso realizar-me. onde gosto.
• e você não viria atender o povo de montes brancos? perguntou silvana.
• não. nunca.
houve silêncio na sala, apenas quebrado pelo crepitar da lenha no fogo. maurício percebeu que
estava na hora de encerrar essa conversa, afinal muita água ainda teria
que passar por baixo
da
ponte, como diz o provérbio.
• bem - concluiu ele - está na hora do errante das neves
ir para a cama, porque ainda está geladinho. amanhã conversaremos muito. o mundo não foi feito
num só dia, não é mesmo?
..
quando o inverno terminou, a neve começou a deslizar para os lagos e as estradas se tornaram
muito perigosas. mas os
veículos já começavam a trafegar de nevadas para montes brancos e outras regiões que ficaram
isoladas durante o inverno.
certo dia, um grave acidente ocorreu na estrada próxima de
montes brancos. o padre maurício foi chamado com urgência,
porque o motorista do automóvel acidentado gritou pelo seu nome.
o automóvel estava prensado na dianteira de um caminhão.
quando maurício chegou, havia um grupo de pessoas ouvindo o motorista do caminhão, que se
agitava muito nervoso, dando
mil explicações:
• esse cara estava doido... ou bêbado... imaginem que ele fechou essa curva pela esquerda, em
alta velocidade. não é possível... não é possível...
e o motorista barbudo continuava exclamando:
• este sujeito é um louco. eu não tenho culpa... para mim, ele estava bêbado...
maurício viu o automóvel totalmente destroçado. o caminhão tinha o pára-choque afundado contra
o motor. apenas algumas escoriações no corpo do motorista.
estirado na estrada, lavado em sangue, desfigurado, morto, o motorista do automóvel.
maurício debruçou-se às pressas sobre ele para dar-lhe o
perdão dos pecados e viu, estarrecido, que era o corrégio. o corrégio!
o motorista do caminhão aproximou-se e disse:
• quando eu fui socorrê-lo ele só disse uma coisa que eu entendi: maurício, mais ou menos isso...
maurício viu que nada tinha a fazer. mandou avisar a polícia de montes brancos e nevadas para que
o corpo do inditoso
fosse
transladado de avião para alvores.
ao saber do acidente, silvana rezou por aquele pobre infeliz, que passara a vida lutando contra
moinhos de vento.
..
o bilhete deixou silvana em desespero total. pálida, abatida, não podia aceitar tamanha desgraça:
• não é possível! não é possível! meu deus! - exclamava ela, numa incontrolável tensão nervosa.
fez um chá, para acalmar-se. nada, porém, conseguia pôr
ordem na barafunda que se instalou em sua mente. tudo podia
acontecer no mundo, menos isso - pensava ela. e bradava, entre
lágrimas:
• por quê?! por quê, senhor?!
ela olhava para o recado deixado sobre a mesa. ali estava o
papel com letras que iam assumíndo formas gigantescas,
agressivas,
hediondas:
“o padre maurício está preso. foi considerado mandante
do assassinato de corrégio. mas, acalme-se, está sendo providenciada sua defesa.”
mais uma trama. ela já imaginava de quem teria partido.
conhecedora da aldeia e seus caboclos, supunha que o doutor onofre teria acusado maurício de ter
provocado o acidente que culminara com a morte do filho. desta forma,
além de causar impacto
favorável ao filho, em alvores, estaria conseguindo seu objetivo
de
eliminar com seu maior inimigo.
silvana viajou de imediato para nevadas, onde se encontrava detido maurício. queria ser forte para
dar-lhe coragem, mas,
ao
entrar na prisão, atirou-se nos braços dele e chorou longamente.
o guarda, que estava junto às grades, deu alguns passos para trás para não ver mais nada.
• não se perturbe - disse, por fim, maurício. - tudo vai
dar certo. não há absurdo maior do que este. a verdade será restabelecida, disto eu tenho certeza.
• mas, é um vexame... você na cadeia... é uma loucura...
• tudo pode acontecer neste mundo - murmurou ele. mas, não é por isso que eu vou ser pior. estou
com a consciência
tranqüila. sou inocente e a verdade prevalecerá.
ai, meu deus!
• calma, silvana. É questão de horas. ou de dias.
• mas, você nem foi julgado nem nada, como é que o puseram na cadeia? !
• bem, isso deixemos para depois... quando os acontecimentos vierem à luz.
em alvores, o fato estourou como uma bomba. o doutor
onofre fez questão de divulgar por todos os meios possíveis a prisão de maurício. corrégio surgiu
como a vítima inocente de um
atentado inominável.
josias ouviu as notícias e não se conformou. foi até a farmácia da marisete. ambos acharam que se
tratava de uma trama
repelente.
• isso é uma estupidez - irritou-se a enfermeira.
• É inaceitável. totalmente inaceitável. que homenzinho terrível, puxa vida!
• esse homem tem um cachorro louco e uma cascavel dentro do coração. mas, nós temos que
fazer alguma coisa, não acha,
seu josias?
• sem dúvida.
• pensei em falar com o doutor geraldo scott, que é um grande advogado e nosso amigo. sei que
ele costuma cobrar caro por seus serviços, mas eu me acertarei com ele.
...
depois de uma ampla conversa com maurício, geraldo
scott foi para o hotel nevadas a fim de alinhar os fatos e
estabelecer sua estratégia de ação. o caminho mais curto seria encontrar o
motorista do caminhão que colidiu com o carro de corrégio.
scott percorreu todas as oficinas mecânicas de nevadas.
nada. ocorreu-lhe, então, chamar pelo rádio.
no dia seguinte apresentou-se no hotel nevadas um senhor
barbudo, rosto vermelho, dizendo-se o motorista do caminhão.
• eu detesto esse negócio de advogados e testemunhação, porque só serve para amarrar a gente e
complicar a vida. mas, quando li no jornal a versão que deram ao caso, fiquei fulo de raiva. por
isso, quando ouvi a chamada pelo rádio, por sinal vinha vindo de caminhão para nevadas, achei
que era meu dever ajudar a esclarecer o fato e libertar o padre inocente. puxa, o padre não
tinha nada com o acidente. eu até nem o conheço. isso que espalharam é uma imbecilidade do
tamanho do mundo.
o doutor scott encontrou a maior dificuldade para que o
caso fosse julgado o mais breve possível. havia, no entender
dele,
alguma coisa de anormal que estava emperrando o processo.
por fim, maurício foi julgado e libertado.
scott voltou para alvores decidido a dar uma lição ao acusador. processou-o. e conseguiu arrastá-lo
às barras do tribunal.
diante das provas e do resultado do julgamenta de nevadas, pouca resistência puderam oferecer o
bando de advogados
contratados por onofre.
e, finalmente, a justiça o pegou pelo pescoço, lançando-o
na prisão. a notícia foi divulgada em manchetes, restabelecendo a
verdade em torno do bom nome de maurício e pondo às claras a
verdadeira face do já encanecido médico de alvores.
quando marisete foi ao escritório do doutor scott para
acertar as contas, este a fez sentar-se e, muito sorridente,
disse-lhe:
• sabe, gostei de defender a causa do padre maurício. que homem extraordinário! até nem sei
como é que um homem desses pode ficar enterrado naquele fim de mundo.
• pois, o exílio dele começou no dia em que o doutor onofre e seu filho resolveram persegui-lo
implacavelmente. a
história é
muito longa, doutor geraldo.
• eu soube muita coisa e por isso resolvi fazer justiça.
• mas, doutor geraldo, eu queria acertar as contas. o padre maurício é meu grande amigo, fez
muito por mim, e agora eu
quero retribuir um pouco, pagando todos os seus gastos. quanto é,
doutor?
• já está tudo pago.
• não pode! o padre maurício já lhe pagou?! mas, eu lhe disse que era eu quem ia pagar?!
• não, marisete, o padre maurício não pagou. e nem você vai pagar. esqueça a conta.
• o que?! - exclamou ela, entre perplexa e emocionada
• o senhor não vai cobrar nada?!
• não.
quando marisete molhou as faces dele com as lágrimas que
lhe corriam pelo rosto, ele também não resistiu.
capÍtulo 9
o inverno começou rigoroso. as famílias trataram de fazer
as suas provisões a fim de enfrentar um longo período de isolamento.
silvana continuava lecionando apenas para um pequeno
grupo de crianças e jovens do povoado, uma vez que a neve barrava todos os caminhos. nos dias
em que o tempo se apresentava
mais violento e tempestuoso, as aulas eram suspensas.
maurissí já se ordenara sacerdote em rosandur e viera rezar uma missa especial em montes brancos.
o padre maurício concelebrou e silvana leu a epístola. a
igreja estava repleta. o povo aplaudiu de pé quando o jovem
sacerdote se dirigiu ao altar, e considerou o fato como um acontecimento daquela comunidade. na
hora do ofertório, muita gente se
encaminhou até o altar para levar seu presentinho ao neo-sacerdote. quando silvana se levantou
para levar-lhe, também ela, um
presentinho, ele arregalou os olhos, muito surpreso. não resistiu à
curiosidade e abriu o embrulho muito bem decorado em papel-fantasia. ao ver uma miniatura do
barco karina, aquele mesmo barco
que lhe restituíra a vida por milagre e lhe dera novos pais, ele
não
conteve as lágrimas e abraçou comovido sua mãe, beijando-a na
testa. em seguida, abraçou o padre maurício, que também estava
vivamente emocionado.
À hora da palavra de deus, quem falou foi maurício. recordou a história de uma mãe protegendo
uma criança nos galhos
de uma árvore enquanto uma chuva torrencial desabava do céu e as
águas subiam assustadoramente... depois, recordou a história de
um rapazinho recolhido e salvo por gente deste povoado, num segundo milagre de deus.
e acrescentou:
“bem-aventurados aqueles que têm coração sensível às belezas visíveis e invisíveis da vida, porque
estes encontram
felicidade
no sacerdócio. meu querido maurissí, peço a deus que você seja
sempre simples e bondoso, de alma aberta às boas coisas da vida.
você deve ter aprendido na universidade que é bom ser importante, mas saiba que é muito mais
importante ser bom. porque a bondade cativa, a bondade ilumina a mente,
a bondade atrai amor, a
bondade aproxima as pessoas, a bondade, enfim, é o caminho mais
curto para chegar ao interior das pessoas. eu poderia dizer
que, se
a bondade não é sinônimo de amor, é, na verdade, a base e o sustentáculo do amor. antes de pensar
em ser santo, pense em ser
bom, apenas bom. porque há muitos que procuram a santidade
passando por cima dos fundamentos humanos e se esquecem de
que deus se mostra, antes de tudo, na face de cada criatura. a
melhor oração a deus é o amor pelo outro. o caminho mais curto para chegar a deus é pelo coração
do outro. como poderá alguém dizer que ama a deus se não ama seu
irmão, que é imagem de deus?
querido maurissí, antes de tudo seja bom e tudo o mais lhe será
dado por acréscimo.”
e o padre maurício continuou a falar, com emoção, sobre a
vida daquele jovem e sobre o que ele significou em sua vida e
na vida de silvana.
maurissí ouvia tudo comovido. seu coração estava profundamente tocado. sentia, a cada palavra do
padre maurício, como a
vida era maravilhosa, como o mundo era bom, como as pessoas
eram boas, como ele era tão feliz, tão feliz! e, do fundo do coração, agradeceu a deus por tudo.
outra missa muito comovente foi realizada por maurissí em
espigão do inferno. infelizmente, o velho jonatam tinha morrido,
mas dona lírides e jonatam júnior o acompanharam até o altar.
maurício e silvana também acompanharam maurissí naquela ocasião. foi um lindo dia de festa e de
reencontros.
como última lembrança de espigão, maurício quis passear
pelo lago com silvana e maurissí, numa viva evocação daquela tarde em que o novo sacerdote havia
nascido para eles.
no dia seguinte, maurissí rezou uma missa especial em memória de sua mãe, de seu pai e de seus
manos falecidos por ocasião
da enchente.
fez uma visita à sepultura de sua mãe e plantou uma roseira.
ao voltarem para montes brancos, maurissí passou mais
uns dias com seus pais adotivos.
o assunto preferido dos dois sacerdotes era a pastoral.
quando maurissí disse para maurício que se sentia impelido para os grandes centros, onde pudesse
pôr em prática seus modernos conhecimentos de pastoral, maurício
lembrou-lhe:
• meu caro, não deixe que a fumaça da fama lhe suba pela
cabeça. escolha o lugar que quiser, mas nunca esqueça que as pessoas que vivem em lugares pobres
e distantes têm o mesmo valor
que as pessoas que habitam os sofisticados aglomerados urbanos.
cristo amou a todos indistintamente, não sei se você me entende.
• entendo - respondeu maurissí - mas, o senhor entenderá também que eu sou jovem e tenho
imensas energias para
empregar
num vasto campo de ação.
• que deus o acompanhe...
maurissí partiu.
..
três batidas fortes na porta.
maurício foi atender.
• padre maurício, desculpe incomodá-lo, mas eu queria ver se o senhor pode ir até a encosta do
cerro pináculo para batizar minha filhinha que está passando mal.
maurício olhou para fora. dia cinzento e gelado. a neve se
acumulava ao longo da rua e se debruçava sobre os telhados das
casas.
as montanhas, mais ao longe, estavam totalmente cobertas
de neve.
• sim, eu vou.
ele sabia que nesta resposta estava um gesto de heroísmo.
o tempo estava realmente péssimo.
o pai e o filho esperaram na sala e maurício foi buscar a
maleta.
• vai sair? - perguntou silvana.
• sim, vou batizar uma criança muito doente, na encosta do cerro pináculo.
ela ficou pensativa. depois, ergueu-se e disse resoluta:
• eu vou com você.
• de maneira nenhuma - exclamou maurício. - É uma viagem muito perigosa e dificil. o dia está
pesado e o tempo vai nevar.
• por isso mesmo, eu vou com você.
• com esse frio terrível? !
• por favor, maurício. eu sei que a subida do cerro pináculo é muito dificil. você poderá precisar
de alguém. eu quero estar
do seu lado.
• não se preocupe.
• não adianta, maurício, eu não ficaria em paz aqui.
os quatro se encaminharam para o trapiche do lago niraka. o frio estava cortante.
• vocês vão na frente e nós iremos atrás com o albatroz
• disse maurício para os dois.
• isso mesmo - disse o mais velho. - atracaremos na pedra do corvo, o senhor conhece?
• conheço - respondeu maurício.
maurício e silvana entraram no albatroz.
• este barco fez-me lembrar de um outro - comentou ela.
• eu tive o mesmo pensamento.
maurício deu partida no barco.
depois de alguns minutos de silêncio, ela murmurou:
• estou com pressentimento.
• fique tranqüila. eu já conheço estas regiões.
o lago estava calmo e, sem dificuldade, chegaram à pedra
do corvo.
daí para diante, a escalada seria a pé.
o pai e o filho mais velho puseram-se a subir em frente, em
direção do primeiro refúgio daquela face da montanha.
alguns pontos da montanha já apresentavam terra nua, o
que indicava o início do degelo.
pequenos rios correntosos desciam vigorosos, chocando-se,
escumejantes, contra as pedras. algumas folhagens, mais ousadas,
brotavam cá e lá.
era o início da primavera.
não fora o mau tempo daquela semana e a escalada seria
bem mais fácil e tranqüila. era preciso, no entanto, muito cuidado
e atenção para não se despencar.
quando chegaram ao refúgio, silvana dava mostras de
muito cansaço. afinal, já estava com um bocado de anos pelas costas.
a criança estava mal. reunidos na calidez daquela casa,
que servia também de abrigo para os escaladores de inverno, maurício fez o batizado na presença
de toda a família.
o nome da criança? bem, silvana não conseguiu dissuadir
os pais quanto ao nome que quiseram dar à mimosinha.
• a senhora tem um nome muito lindo - disse a mãe para silvana - e eu e meu marido queremos,
acima de tudo, que o seu sacrifício, de ter vindo, seja comemorado na nossa filha. ela se
chamará silvana.
silvana, no fundo, estava muito feliz. este pequeno gesto
de bondade a comoveu. e chorou. maurício se admirou do estado
de espírito de silvana: por que estaria se emocionando de forma
tão
inusitada?
Às duas horas da tarde, os dois se despediram da família e
puseram-se a caminho. a descida, se tudo corresse bem, levaria
cerca de duas horas. ou até menos.
o tempo continuava carrancudo.
quando pararam à beira do borbulhante regato, silvana
aproximou-se de maurício, olhou-o radiante de felicidade e exclamou:
• como a vida é linda!
prosseguiram a caminhada. ela estava extenuada, mas procurava não o demonstrar.
desceram uma baixada, subiram pela encosta, dobraram à
direita e escalaram um pequeno pico, muito irregular, com neve
enganchada por entre as pedras.
a neve que se derretia formava uma massa deslizante assaz
perigosa.
de repente, silvana resbalou e deu um grito de horror.
maurício voltou-se para segurá-la, mas era tarde. ela rolara por
entre as pedras esbrugadas e molhadas, indo estatelar-se lá
embaixo, a
cerca de vinte metros. ele desceu desesperadamente o declive
abrupto, pouco se importando com o perigo.
• silvana! silvana!
seu grito se perdia nas rochas.
em poucos instantes, estava junto dela. o sangue rolava
por entre a neve, formando a imagem de um coração. maurício
agarrou-a pelas costas. ela sangrava muito. havia um profundo
corte na testa.
com imenso esforço abriu lentamente os olhos e disse, num
fio de voz:
• adeus... lá em cima... nos encontraremos...
com a alma estraçalhada, maurício traçou sobre ela o sinal
da cruz, dizendo:
• silvana, eu te perdôo todos os teus pecados, em nome do pai e do filho e do espírito santo. vai
com deus!
tirou o crucifixo do peito e deu-lho para beijar. ela beijou
com amor, abriu os olhos mais uma vez e morreu com um leve sorriso espraiado nos lábios.
maurício ajoelhou-se em prantos e beijou-lhe a testa ensangüentada.
sentiu, então, uma montanha de dor amassar-lhe o peito e
gritou, em desespero, com os braços para os céus...
somente o eco respondeu o seu grito. e o silêncio pesado
das montanhas caiu sobre ele.
deixou-se quedar ali, como uma estátua de dor. mil pensamentos negros passaram por sua mente. as
lágrimas rolavam, o
coração estava em pedaços e sua voz continuava a gritar:
• não... não... não... por quê, senhor?!
por fim, quando seu espírito aquietou-se e a tempestade
interior amainou um pouco, fez o sinal da cruz, tomou silvana nos
braços e desceu, chorando, a encosta em direção ao barco.
parecia um profeta carregando a ovelha do sacrifício às
costas.
depositou-a carinhosamente no albatroz, beijou-lhe ainda
uma vez a face e lançou o barco a uma velocidade nunca atingida
até então.
anoitecia quando o albatroz atracou no trapiche de montes brancos.
com silvana nos braços, ele começou a subir na direção do
povoado.
de fisionomia transtornada, os cabelos caídos para a frente, ele andava como um condenado, quase
caindo ao peso de tanto
sofrimento.
o povo, à medida que foi percebendo a tragédia, começou
a sair de suas casas e a acompanhar em silêncio, como se fosse um
funeral.
a boa vizinha madalena recebeu o corpo de silvana num
pranto convulsivo. ela mesma quis encarregar-se do corpo da
inditosa e fez de tudo para deixá-la linda no caixão trazido da casa
funerária do povoado.
maurício foi à igreja desabafar-se com o cristo. era muita
dor para ele agüentar sozinho.
durante toda a noite a igreja permaneceu aberta para o velório e as famílias iam e vinham,
depositando flores e preces para
aquela que fora a grande amiga e benfeitora de montes brancos.
pela manhã, um grupo de alunos de silvana, com seus uniformes brancos, acercaram-se do caixão,
com lágrimas nos olhos.
cena tocante. era a triste despedida, para nunca mais.
durante a missa de corpo presente, o povo continuava a
desfilar diante do féretro, os lábios mexendo-se numa prece
ininteligível.
enquanto a cerimônia do adeus se realizava na igreja, um
grupo de homens cavava uma sepultura no alto daquele mesmo pico que tirara a vida de silvana.
uma grande cruz de ferro já
estava
plantada.
maurissí ainda não chegara. era uma hora da tarde e o enterro já se dirigia para o trapiche. alguns
barcos alinhavam-se
atrás
do albatroz. maurício quis que ela fosse enterrada naquele mesmo
pico da montanha em que perdera a vida, ela que sempre amara as
montanhas e a natureza.
e maurissí?
maurício já perdia as esperanças de que ele viesse e chegasse
a tempo.
colocado o corpo no albatroz, maurício já acionava o motor, quando viu surgir, lá no alto, um
mocetão robusto, trajando
terno escuro.
maurissí.
o jovem sacerdote desceu correndo e se atirou nos braços
de maurício. ficaram longo tempo abraçados, as lágrimas rolando
pelas faces.
agora, o barco já deslizava suavemente, puxando um longo
cortejo.
maurissí, depois de permanecer algum tempo em oração
diante de sua mãe, abriu o caixão e demorou-se a contemplá-la, em
lágrimas. ele parecia conversar silenciosamente com a mãe.
maurício fingia ocupar-se com o timão do albatroz para
não rebentar de dor diante daquela cena.
vez por outra, maurissí passava a mão carinhosamente
pelo rosto de silvana. ela ainda conservava um leve resquício de
seu
último sorriso.
Às vezes, ele mesmo se surpreendia murmurando:
• mamãe... mamãe... como pôde acontecer...
chegados à pedra do corvo, a procissão começou a escalada. o dia estava ensolarado, exatamente ao
contrário do que acontecera no dia anterior.
lá de cima, o grupo, que preparara o local da sepultura, pôde vislumbrar a longa fila que vinha se
aproximando, como se
fosse
uma imensa cobra coleando pela encosta.
uma vez lá em cima, maurício abriu o ataúde para que
maurissí desse sua última bênção. ele se aproximou, abençoou, e se
inclinou para beijar pela derradeira vez o rosto de quem tanto o
amara na terra...
• adeus, mamãe... olhe por mim lá do céu...
o pranto não lhe permitiu dizer mais nada.
maurício rezou as preces, agradecendo ao pai por recebê-la
na sua casa divina, e pediu para fecharem o caixão.
então, falou:
“pouco tenho a dizer nesta hora. que deus págue a todos
os que a acompanharam até esta última morada, no silêncio lindo
dessas montanhas. muito obrigado aos amigos que se dispuseram
espontaneamente, num gesto tão carinhoso, a vir preparar a sepultura. esta cruz de ferro aqui ficará
sempre de braços abertos para
proteger os viandantes destas paragens.
e a você, silvana, o adeus dos seus alunos e do povo. o
adeus de seu filho maurissí. o meu adeus. até o céu. amém.”
era indescritível a emoção desta cena de despedida.
o corpo de silvana foi baixado à rústica sepultura.
antes que o povo começasse a descer, george grégori, pai
da criança batizada no dia anterior, pediu um instante de atenção:
• ontem o padre maurício e a professora silvana vieram até minha casa para batizar minha
filhinha, que estava muito mal.
hoje, graças a deus, ela está melhor. até parece que este sacrifício
produziu um milagre. mas, por gratidão e respeito à senhora silvana, minha filha foi batizada com o
nome dela. agora, eu peço a
todos que, sempre que olharem para este pico, chamem-no de pico de
silvana.
o povo acenou afirmativamente com a cabeça.
maurício e maurissí foram os últimos a deixarem o pico de
silvana. mil recordações afluíam à mente de ambos. ali ficava enterrada, em definitivo, uma longa
história de emoções, de amor e
de generosidade.
desceram, por fim, à pedra do corvo e tomaram o albatroz.
• e agora, sem mamãe, o senhor pretende ficar em montes brancos? - perguntou maurissí, depois
de um longo silêncio.
• você não quer assumir o lugar dela aqui?
• não, senhor. É muita solidão.
• mas, é uma linda solidão branca, que brinca na alma de toda essa gente.
• desculpe, mas não quero ficar.
capÍtulo 10
os anos se passaram e maurício se afeiçoara demais àquela
gente. nas longas noites de inverno, ele escrevia mensagens,
livros,
artigos.
uma editora de nevadas levara os originais de dois livros
para publicá-los.
de vez em quando, recebia a visita de maurissí, que se punha a ler e a apreciar os originais, fazendo
suas observações.
passavam, não raro, longas horas discutindo aspectos e perfis
psicológicos da vida moderna.
no verão, maurício escalava freqüentemente o pico de silvana, levando sementes e mudas de
plantas típicas da região. em
torno da grande cruz de ferro, uma bela e florida vegetação já se
esparramava pela encosta abrupta.
seus melhores momentos de meditação aconteciam lá no silêncio majestoso da montanha.
a cada aniversário da morte, subia até o pico e celebrava
missa. depois ia visitar a pequena silvana, filha do casal
grégori.
era uma vida calma e feliz.
até um dia. um trágico dia.
pelas ruas de montes brancos as pessoas corriam gritando.
e a dramática notícia entrou como um raio por dentro de todas as
casas: uma avalancha de neve se despencara do cerro caravela e
soterrara algumas famílias.
maurício chefiou a equipe de salvamento.
andaram duas horas de barco pelo lago das gaivotas e tomaram o rumo do cerro caravela.
embaixo, no vale, moravam as famílias vitimadas. ele as tinha visitado no último verão.
quando chegaram, dezenas de pessoas já estavam trabalhando para desobstruir a montanha de neve
que se abatera sobre
as casas.
algumas vítimas haviam sido retiradas com vida.
mas, a operação-salvamento era perigosa. grossas camadas
de gelo continuavam a cair de tempos em tempos.
maurício e alguns companheiros decidiram-se a enfrentar o
ponto mais dificil. por diversas vezes correram o risco de
serem soterrados pela avalancha, que continuava a desandar de cima. mas,
tinham a impressão de que estavam muito próximos da cumeeira de
uma casa e era possível encontrar pessoas com vida.
quando a situação se tornou insustentável, os homens desistiram. esperariam até que acalmasse a
fúria das avalanches.
maurício, no entanto, prosseguiu, com coragem, o trabalho. sua
intuição lhe dizia que logo mais poderia salvar algumas pessoas.
• parar? - pensava ele - e se algumas pessoas perderem a vida, precisamente porque eu parei?
apesar das observações dos mais experientes, ele era todo
bravura.
algumas pessoas o olhavam com admiração. e foi, então,
que um deles gritou apavorado:
• saia, padre maurício! a avalancha!
tarde demais. ele tinha sido tragado.
de olhos esbugalhados, o grupo viu maurício desaparecer
tragicamente debaixo de uma montanha de pedra e de gelo.
• o fim de um homem de coragem - pensaram alguns.
• atenção - berrou, com voz dura e incisiva, um velho barbudo, de rosto curtido pelas intempéries
- quem tem coragem no peito, que me siga! ao trabalho. custe o que custar. vamos salvar o
padre, nem que tenhamos que ficar aí, com ele.
• vamos! - gritaram todos, como se tivessem ficado hipnotizados pelas palavras veementes do
líder.
era um grito de guerra e eles se atiraram ao trabalho com
fúria e determinação. um deles, sempre o mais cansado, ficava de
sentinela a fim de alertar toda a vez que alguma camada de gelo
mais perigosa se despencasse na direção dos escavadores.
o trabalho se prolongou até o anoitecer, quando, exaustos,
não tinham mais forças para nada.
um mensageiro fora enviado a montes brancos a fim de
avisar a população do acidente com o padre maurício.
no mesmo dia, os noticiários de todo o país divulgavam a
tragédia.
maurissí, que se encontrava na capital, dando um curso de
psicologia conjugal, suspendeu tudo e tomou o primeiro avião que
decolava para nevadas.
em alvores, marisete e seu esposo ouviram a notícia e voaram imediatamente para o sul.
a noite no vale do cerro caravela estava terrivelmente fria.
o vento, cortante como lâmina de aço, fustigava os rostos abatidos. todos se aqueciam ao redor do
fogo, onde uma ovelha estava
sendo assada.
enquanto jantavam, os olhos se fixavam na montanha de
neve. não havia mais condições de trabalho.
mas, o barbudo levantou-se decidido e, com os olhos chamejantes
de força, bradou:
• quem tiver coragem de dormir enquanto um amigo jaz no meio da neve, que fique aí. esta é
uma ordem só para os bravos:
ao trabalho.
ninguém ficou.
diversos lampiões iluminavam vagamente o ponto de escavação e o grupo retomou o trabalho com
ferocidade inaudita. era
preciso mexer-se sempre mais e mais, para não enregelar.
mas, o trabalho estava produzindo resultados e, ao amanhecer, esperavam encontrar maurício a
cada momento. os que estavam esgotados e tiritantes de frio recolhiam
as últimas forças,
na
expectativa de encontrar o corpo da vítima.
intimamente, com o passar das horas, alguns pensavam em
desistir, já que ninguém mais acreditava que maurício pudesse ser
encontrado com vida.
o sol começava a bater nas encostas do cerro caravela,
quando o barbudo gritou como um boi morrendo no matadouro:
• está aqui!
e o eco repetiu seu grito pelas canhadas brancas.
todos pararam seus instrumentos e se aproximaram, com
respeito, enquanto o barbudo agarrava o corpo inânime de maurício nos braços e descia até a
fogueira, que agora queimava os últimos gravetos.
• pobre homem! - exclamou o barbudo, meneando a cabeça.
fez-se silêncio de morte.
mas, o barbudo refez-se e tornou a dar ordens:
• acho importante não perdermos tempo. o padre maurício deve ser levado em seguida para
montes brancos.
todos concordaram.
• eu, porém, ficarei aqui com um grupo para terminarmos de encontrar as famílias vitimadas pela
avalancha. talvez, pela tarde, estejamos em montes brancos para o enterro.
..
em montes brancos, uma verdadeira multidão aguardava a
chegada do corpo do padre maurício.
quando o albatroz atracou no trapiche do lago niraka, o
povo desceu até lá e pôs-se a acompanhar o cortejo.
maurício foi velado na igreja.
perto do meio-dia, chegaram, quase ao mesmo tempo,
maurissí, marisete e o marido. o velho josias, já alquebrado pela
idade, mandou uma pequena flor, através da enfermeira, para ser
colocada no peito do seu inesquecível amigo.
de nevadas, veio uma caravana de turistas e curiosos para
assistir os funerais e saber como aconteceu a tragédia.
depois da missa, às três da tarde, oficiada por maurissí,
uma imensa multidão acompanhou o féretro até o albatroz.
uma nuvem de tristeza pairava em todos os semblantes.
maurissí sabia que ele queria ser enterrado no pico de silvana, e a procissão de barcos, capitaneados
pelo albatroz, seguiu
para
a pedra do corvo.
lá em cima, ao lado da cruz de ferro, uma menina de nome
silvana, aguardava o corpo, com lágrimas nos olhos. e se prometia
intimamente fazer do pico de silvana um lindo jardim florido,
onde
viria muitas vezes passear, estudar, rezar, meditar.
maurissí, marisete e o esposo contemplavam, abatidos, o
corpo sem vida de maurício, no caixão aberto dentro do barco. parecia um sonho e eles não
queriam acreditar.
maurissí chorava em silêncio.
o sol brilhava no cerro pináculo e sua luz se derramava sobre
o pico de silvana.
uma grande massa humana subiu a encosta íngreme e se esparramou em torno do pico, dando a
visão de uma cena do antigo
testamento.
aberto pela última vez o caixão, o padre maurissí rezou os
salmos da igreja, concluindo: “obrigado, senhor, porque o recebeste na tua morada celestial,
inundando-o de luz e de
felicidade,
para sempre.”
o povo, de chapéu na mão, respondeu, contrito:
• amém.
maurissí fez o sinal da cruz, passou o lenço nos olhos, suspirou fundo e falou com a voz embargada
pela emoção:
“meus amigos e amigos do padre maurício. aqui se fecham as páginas de uma das mais belas
histórias destas paragens.
não vou contar a vida deste homem, que me adotou como filho,
depois de me salvar numa enchente tenebrosa... não, não vou contar a emocionante história de
amor, que termina aqui aos pés desta
cruz... não vou dizer que, se sou alguma coisa na vida, devo-o ao
carinho e ao espírito humano e generoso destas duas criaturas que
descansarão para sempre aqui, talvez em eternos colóquios de paz e
de bondade. não tenho forças para dizer quem ele foi... só sei dizer que ele foi um homem que
muito amou... muito sofreu... e
muito fez pelos outros. um homem que conseguiu transformar as
pedras do seu caminho em construções benéficas, alegres e abençoadas. um homem que soube ser
feliz em qualquer lugar.
incompreendido?... sim.
desconhecido?... sim.
mas, somente por aqueles que não sabem enxergar os valores que residem no coração das pessoas.
aqui está um grande homem.
eu o amei muito... muito.”
as lágrimas rolaram de seu rosto como uma torrente, obscurecendo sua visão. depois de instantes de
emoção silenciosa,
prosseguiu:
“e, agora, acredito que ele morreu como sempre quis se
portar: como um herói. de coração aberto, de alma simples como
uma flor, de espírito generoso e sem preconceitos.
aqui repousará, no convívio da natureza que ele sempre
amou.
padre maurício, agora quero dizer-te uma coisa...”
novamente as lágrimas interromperam suas palavras. e,
num esforço ingente, concluiu:
“sim, eu quero agora dar-te a resposta que sempre quiseste
ouvir: eu fico em montes brancos. no teu lugar. amém.”
a multidão não resistiu às lágrimas.
o ataúde estava sendo fechado, quando um grito angustiado ecoou no meio da multidão.
por favor, não fechem. não fechem. eu quero ver. eu quero ver.
alguém tentava abrir caminho desesperadamente.
era o jonatam júnior. ao saber da morte, abalara-se que
nem doido, lá de espigão do inferno, para ver seu amigo pela última vez.
estancou abruptamente diante do caixão, ficou paralizado
de emoção e, depois, atirou-se sobre o corpo de mauricio, chorando como criança...
..
as primeiras sombras do anoitecer desciam sobre o cerro
pináculo, quando os barcos começaram a sair da pedra do corvo,
tomando o rumo de montes brancos.
maurissí ainda se deixava permanecer, solitário como uma estátua
de tristeza, diante da cruz de ferro, cuja sombra atravessava
as duas
sepulturas, como se o próprio cristo traçasse sobre elas o sinal da
cruz.
desceu o íngreme caminho da encosta, sentindo-se pesado
como as montanhas que o cercavam. apenas o ruído cavo das suas
botas misturava-se com os ruídos interiores da sua alma sofrída.
e, quando o último fiapo de sol brilhou na sua face, ele
percebeu que essa luz misteriosa penetrou até o fundo do coração,
iluminando-o. descobriu, então, que no seu coração moravam ainda, muito vivos e muito amorosos,
silvana, sua mãe, e maurício,
seu pai. e sentiu, como um milagre, que a vida era linda...
mais linda do que antes... porque eles, os três, agora caminhariam
intimamente juntos, semeando amor, bondade, paz e felicidáde, pelos caminhos do mundo...
***fim***

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