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Arqueologia, história e sócio-economia da restinga da Lagoa Dos Patos.

Uma contribuição para o conhecimento e manejo da reserva da biosfera
1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. Introdução Arqueologia e história pré-colonial Tradição Umbu E Vieira Tradição Tupiguarani Arqueologia e história Comparações e conclusões Bibliografia Geopolítica da ocupação O processo de povoamento Emancipação administrativa e defesa do império Bibliografia O município de São José do Norte à época da República Velha: fundamentos político-administrativos, sócio-econômicos e urbanísticos

INTRODUÇAO
A busca da construção de um novo paradigma civilizatório, diante de uma sociedade mundializada, certamente será apontada pelos historiadores do futuro como uma das características mais marcantes do último período deste final de século e milênio. A sustentabilidade consolida-se como um dos mais importantes conceitos desenvolvidos pela humanidade neste período. Entretanto, nem a sua lógica simples e irrefutável nem a enorme popularização deste conceito a partir da Conferência Mundial das Nações Unidas no Rio de Janeiro – ECO 92, têm sido suficientes para engendrar as mudanças necessárias em direção a sociedades sustentáveis. Diante do impasse atual, torna-se necessário a busca de alternativas capazes de atenuar os problemas crônicos vivenciados pelo mundo nesse final de século. É necessário atribuir prioridade à sociedade, ao seu funcionamento, às suas contradições e sua diversidade, assim como ao entendimento integrado e sistêmico de suas relações com a natureza, como assinala RATTNER (1993)[1]. Entretanto, os desafios são enormes e o abismo entre as nações ricas e pobres, que se aprofunda com o crescimento do PIB mundial, constitui o principal obstáculo a ser superado. Ainda de acordo com esse autor, este abismo é fomentado pelo padrão insustentável de consumo dos países industrializados, pelo uso eticamente discutível da tecnologia, que tende a perpetuar o subdesenvolvimento, o desemprego e a concentração da renda mundial, a erosão da base dos recursos naturais; a descapitalização e a imobilidade dos governos terceiro-mundistas, que se vêem forçados a adotar, em nome da modernidade, modelos de desenvolvimento socialmente injustos e cujos efeitos perversos se fazem sentir em nível mundial sobre o meio ambiente e sobre as sociedades. Dentro dessa ótica, a sustentabilidade embute um forte componente econômico, mas não pode evidentemente ser reduzida a esta única dimensão. Para que ocorram mudanças, os

conceitos vigentes que servem a uma minoria planetária devem ser revistos, (como educação, ciência, meio ambiente, tecnologia), em função da promoção da igualdade na distribuição dos custos e dos benefícios do desenvolvimento, melhor qualidade do meio ambiente e o respeito à diversidade de culturas (MADUREIRA, 1997)[2]. Nesse sentido, e embora seja amplamente reconhecido que a sustentabilidade vai além da concepção econômica e ecológica do termo, pouca ênfase tem sido dada na dimensão cultural deste conceito. A sustentabilidade cultural, traduz-se, na concepção de SACHS (1993)[3], na busca das raízes endógenas dos modelos de modernização e dos sistemas rurais integrados de produção, privilegiando processos de mudança no seio da continuidade cultural e traduzindo o conceito normativo de ecodesenvolvimento em uma pluralidade de soluções particulares, que respeitem as especificidades de cada cultura local. A perda da diversidade cultural tem sido reportada por sociólogos e antropólogos como uma das consequências da globalização. No Brasil a tendência de homogeneização cultural é mais sentida no litoral, principalmente nas áreas mais privilegiadas para a indústria do turismo, particularmente no nordeste, que vem experimentando um acelerado processo de "Cancoonização". As comunidades rurais em toda a América Latina estão experimentando um processo de mudanças acentuadas em suas economias, com o turismo e atividades relacionadas substituindo geralmente a pesca e a agricultura (LEMAY, 1997)[4]. Essas mudanças são acompanhadas por profundas transformações sociais com reflexos no papel da família, na estrutura das comunidades e na cultura. O processo de modernização endógena, deve ser capaz de encontrar um caminho entre o "paroquialismo local primitivo" de RATTNER (1998)[5], e a acumulação selvagem, individualista e competitiva dos países industrializados, privilegiando a formação de cidadãos responsáveis, solidários, participativos e conscientes de sua identidade histórica e cultural. Conhecer o passado e a cultura de um povo é valorizá-lo, e constitui o primeiro passo nessa busca. Pequenas ações locais talvez sejam embriões capazes de promover mudanças. Nesse sentido esta obra pretende aportar uma singela contribuição na construção do desenvolvimento sustentável na região da restinga da Lagoa dos Patos.

Arqueologia, história e sócio-economia da restinga da Lagoa Dos Patos. Uma contribuição para o conhe (página 2)
Integrando a Rede de Reservas da Biosfera da UNESCO, esta região apresenta um mosaico ambiental complexo, diversificado e frágil, como as restingas de modo geral (TAGLIANI, 1995)[6]. Abriga o Parque Nacional da Lagoa do Peixe, uma das áreas mais importantes da América do Sul para proteção de aves marinhas costeiras. Constitui entretanto, o maior vazio demográfico do estado do Rio Grande do Sul. Com uma economia frágil e desorganizada, fundamentada no setor primário e secundário, a sociedade local padece de enormes carências sociais, materializadas em deficiências no saneamento básico, na assistência àsaúde, na educação e lazer, na telefonia, no suprimento de energia elétrica, na falta de perspectivas econômicas e de emprego, nos altos índice de envelhecimento da população e taxas de migração, entre outros. Em conseqüência, seus municípios apresentam alguns dos mais baixos Índices de Condições de Vida do estado. Como será visto, a importância histórica desta região na consolidação das fronteiras nacionais e construção do estado do Rio Grande do Sul tem enorme significado. O conjunto de sua arquitetura urbana e rural retratam este passado e constitui um acervo de

inestimável valor. Lamentavelmente este patrimônio vem sendo destruído pela ação do tempo, e pela insensibilidade humana e, a menos que haja uma política efetiva para sua recuperação e conservação, a sua singularidade cultural estará irremediavelmente comprometida. A necessidade de pensar o desenvolvimento desta região é uma tarefa necessária e inadiável, uma vez que adventos iminentes como o projeto Paranapanema de exploração de minérios pesados, a pavimentação da estrada BR 101 neste segmento, e uma futura expansão do porto de Rio Grande para São José do Norte, poderão causar profundas transformações em uma região economicamente deprimida e de notável valor paisagístico e cultural. A região corresponde ao segmento mediano da planície costeira do Rio Grande do Sul, entre as coordenadas de 30o 20"e 32o 10"de Latitude Sul e 53o 53"e 53o 05"de Longitude Oeste, incluída nas micro–regiões homogêneas 027 (Osório) e 035 (Litoral Lagunar), compreendendo os municípios de São José do Norte, Tavares e Mostardas, na costa ocidental da Lagoa dos Patos (Figura 1), com uma superfície de aproximadamente 3.700km2, constituindo-se portanto em uma das maiores restingas do país. O município de Mostardas, ao norte, dista 203 Km da capital do estado. Ao sul, já na margem ocidental do estuário que liga a Lagoa dos Patos ao oceano, encontra-se no município de Rio Grande, importante pólo pesqueiro e industrial do estado.

Figura 1. Localização da Restinga da Lagoa dos Patos .

ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA PRÉ-COLONIAL
Pedro Augusto Mentz Ribeiro[7]Flávio Ricci Calippo[8] 1. INTRODUÇAO Os estudos arqueológicos nesta região iniciaram em abril de 1994, encerrando-se em janeiro de 1998. Tratando-se, de região inédita, as atividades de campo resumiram-se em coletas superficiais sistemáticas e cortes experimentais. Estes foram praticados,

apenas as cotas mais elevadas (Laguna-Barreira III) permaneceram acima dos níveis d"água. 1986). Isto é facilmente explicado: a maior proximidade com a água. de idade holocênica. devido a sua total submersão durante o máximo transgressivo.. no seu limite oeste. a ordem basear-se-á nos cortes estratigráficos e comparativamente a outras regiões do estado do Rio Grande do Sul. Enquanto na Laguna-Barreira IV a vegetação dominante é a rasteira ou gramíneas. Em virtude da não obtenção de datações absolutas. A altitude dos sítios localizados na Laguna-Barreira IV oscila entre 1 e 10m. Um aterro. variaram condicionados à existência de estratificação ou de área suficiente para a sua realização. 11 sambaquis sendo 8 lacustres e 3 marinhos e. Os sítios localizados na Barreira IV não poderão apresentar idades superiores a 5100 anos A. porém. isto porque muitos dos sambaquis ou cerritos apresentavam sintomas de parcial ou total destruição. na III é a arbustiva.000m. em número de quatro. ainda. entre a III e o Oceano (Figura 2c). está na Barreira III. Nos sítios erodidos sobre dunas (Figura 2a) foram encontrados os únicos sítios históricos. junto a Laguna-Barreira IV. entre a Laguna-Barreira III. e a Laguna dos Patos (Figura 2b).parcialmente. Foram localizados e estudados 64 (sessenta e quatro) sítios assim distribuídos: 07 aterros. Dois sambaquis marinhos foram localizados na Laguna-Barreira IV. bem como suas dimensões. Os sítios erodidos sobre dunas estão situados na Barreira III. A apresentação das características de cada tradição cultural que ocupou a região será a partir da mais antiga à mais recente. predominando em torno dos 2 e 3m acima do nível da Laguna dos Patos ou do mar. Registra-se. um está fixado no limite leste da Barreira III. A distância entre estes sítios e o mar varia entre 600 a mais ou menos 4. quase todos no limite oriental ou ocidental. Neste período. A distância que os separam da Laguna varia entre 100 a mais ou menos 9. nos sambaquis marinhos e lacustres e nos aterros ou cerritos.000m. a maioria girando ao redor dos 10m. Os cortes. P. 1972). conseqüência da decomposição da vegetação arbustiva ou "matas de dunas litoranias" (HUECK. A altitude em relação ao nível do mar varia entre 2 e 25m. . nesta faixa limítrofe entre os sistemas deposicionais Laguna-Barreiras. 46 erodidos sobre dunas (Figura 1). de idade pleistocênica. isto é. uma camada húmica.. Os aterros e os sambaquis lacustres encontram-se no sistema deposicional Laguna-Barreira IV (VILLWOCK et al.

subtradição Guarani.Mapa da porção central da planície costeira do Rio Grande do Sul com os sítios arqueológicos estudados. .Figura 1 . Figura 2a .Sítio erodido sobre dunas da Tradição Tupiguarani.

e pedras (seixos. nos sítios erodidos sobre dunas e nos níveis inferiores dos aterros e provavelmente dos sambaquis. placas). letra "b"). conseqüente à Umbu ou a ambas (Figura 4b) . talvez em torno dos 10000 ou 11000 anos A. infelizmente erodidos e com escasso material. pedunculadas. Isto significa pequenas populações. P.Figura 2b .pingente piriforme e cilíndrico com a parte mais estreita alongada. do Oceano Atlântico.100 anos. lascas preparadas. ou seja. 2. isto é. polir. microlascas.não sabemos. lâminas de machado com entalhe(s) lateral(is) . Na localidade do Rincão de Cristóvão Pereira. letra "c"). encontrado na região (Fig. preferentemente. em rocha desconhecida. particularmente as pontas-de-projétil (pontas-de-flecha) triangulares. coletor e pescador. facas. "d"). Figura 2c . os raspadores. Tavares. anterior a 5. ainda. ainda. pesos de rede (Figura 3d. Seus assentamentos encontram-se. Ignoravam a confecção de objetos cerâmicos. registramos um fragmento de zoólito. próximo às lagoas ou banhados. como batedor e moedor (Figura 3d. isto é. que foram utilizadas para bater. triturar. letra "b". ou cobertos pelas águas da Lagoa dos Patos ou. 3c) . Os locais das suas antigas moradias estão em áreas de relativamente pequenas dimensões. TRADIÇAO UMBU E VIEIRA A tradição Umbu é caracterizada por instrumentos e restos de alimentação que identificam seus portadores como um grupo caçador. Mostardas. entre 10m de diâmetro e 40 x 70m.Sambaqui do Capão da Marca. pedras com depressão semiesférica polida ("quebra coco") (Figura 3b). na coleção Colares.Sambaqui da Casca. Sua chegada na região pode ter ocorrido antes do "Ótimo Climático". Estas habitações são identificadas por instrumentos de pedra lascada. grupos em torno de 20 a 30 indivíduos. pedra polida: bolas de boleadeira (Figura 3d). Estes sítios arqueológicos estariam entre aqueles que se encontram na Laguna-Barreira III. idem servindo. e com aletas (Figura 3a). se pertencem somente à Tradição Vieira. ainda. sem preparo algum de lascamento ou polimento. Mostardas. em calcedônia esbranquiçada (Figura 4c. quebrar.

Mostardas.Pedras com depressão semiesférica polida ("quebra-coco") da Tradição Umbu. pesos de rede (b. Rincão.Material das tradições Umbu ou Vieira: bola de boleadeira (a). . Tradição ignorada.Figura 3a .Fragmento de zoólito da coleção Colares. Figura 3c . Figura 3d .d) e batedor com depressão semi-esférica polida (c). Figura 3b .Pontas-de-projétil da Tradição Umbu.

Em material ósseo são registradas pontas em meia-cana com uma (Figura 4a.e Megalobulimus sp. "g". mas são uma amostra representativa dos seus hábitos alimentares. encontramos: a) pingente em basalto cinza. Figura 4d. letra "f"). letra ("c") e uma em dente de tubarão (Figura 4d. encontradas no litoral norte do estado. b) uma peça de uso desconhecido. "e". serviriam para abrir conchas (Fig. vértebras e opérculos de peixes. (corvinas) e Pogonias sp. aves e peixes.Material da Tradição Vieira: contas-de-colar em concha (a. escamas. pontas de osso (d – g). letra "f" e Figura 4d. O mesmo se verifica com relação aos vestígios fitofaunísticos. quelas de crustáceos e sementes. Ocorreu. letra "i"). b) em osso (c). Estes vestígios não refletem a totalidade dos alimentos consumidos pelas populações pré-coloniais. é basicamente constituído por vestígios alimentares. Mesodesma mactroides .intensivas nos sambaquis . Estes últimos. são caracterizados pelos ossos e fragmentos de ossos de mamíferos. Registramos duas peças de uso desconhecido (Figura 4d. fragmentos de cerâmica (h . com material de sítios nos arredores da cidade de Mostardas. letra "j") e de corpo vazado ou oco (Figura 4d. com a extremidade pontiaguda. formada por 4 faces polidas – peças semelhantes. letra "e"). letra "g" e Figura 4d.A coleção Vera Braga. raios e espinhos de nadadeiras. confeccionadas com a extremidade de univalve e alisadas (Figura 4 . na restinga da Laguna dos Patos.. letra "a"). letras "d". "h") ou dupla ponta (Figura 4a. uma conta-de-colar em osso (Figura 4a. dentes de roedores. Lutra longicaldis (lontra). ovóide com gargalo numa extremidade. estes indícios podem ser utilizados como indicadores das antigas condições ambientais e da relação entre os diferentes grupos e o seu meio. carapaças e valvas de moluscos. tatus. peixes Netuma sp. (bagres). . 4c. a primeira provavelmente um fragmento de ponta. Em concha são encontradas contas de colar circulares. mamíferos Myocastor coypus (ratão-do-banhado). "b") ou as próprias (pequenas) conchas. letra "c"). polido. Além disso. letras "c" e "k"). placas de carapaça de tatu. perfil transversal plano-convexo (Fig. Micropogonias sp. em basalto cinza. Figura 4a . 4c. Hydrochaeris hydrochaeris (capivara). "b". fragmentada numa extremidade e a outra levemente convexa. (miragaias). se cultural e ambientalmente contextualizados. O material conchífero e ósseo é encontrado basicamente nos aterros e nos sambaquis. chifres e dentes de cervídeos. letras "a". aves e sementes de Arecastrum romanzoffianum (coquinho). otólitos. "d". ainda. A forte erosão eólica e outras intempéries não permitem sua conservação nos sítios erodidos sobre dunas. O substrato que compõe a maioria dos sítios arqueológicos do tipo aterro e sambaqui. cervídeos.j) e afiador-em-canaleta (k). felinos de pequeno porte. Destacamos as conchas Erodona mactroides. letras "a". corpo cheio (Figura 4a. vértebras. prováveis restos de sua alimentação.

Figura 4d . k) e conta-de-colar em dente de tubarão (e).Material ósseo e dente das Tradições Umbu ou Vieira: pontas (a. f . b.Lâminas de machado das tradições Umbu ou Vieira (Coleção Colares.Material lítico das Tradições Umbu ou Vieira: pingentes (a. Figura 4c . .j). Rincão. Mostardas). d. b) e uso desconhecido (c).Figura 4b . uso desconhecido (c.

1982. pelas tradições em estudo. seguidas das semielipsóides e cilíndricas. Inicialmente sem decoração ou simples. Neste caso. ao alcançarem a região sul da Laguna dos Patos. ao sul e oeste. qualquer tipo de afloramento rochoso. de passar de uma condição de nomadismo a uma relativo sedentarismo. A cerâmica da Tradição Vieira apresenta mudanças ao longo do tempo. é possível atribuí-la a movimentos sazonais com permanência mais prolongada. 3. Provavelmente as vasilhas teriam servido para cozer alimentos oriundos da caça. No início da era cristã. divisão do Planalto Meridional. digitungulada. pela quantidade de vestígios de pescado. a forma desse contato conquista. as distâncias a serem percorridas seriam bem maiores. na região de Rio Grande. digitada. Isto coincide com a proximidade das fontes de matéria-prima: ao norte. de sítios no ambiente marinho-lagunar e de área alagadiça e. retornariam às partes mais elevadas (Laguna-Barreira III). Pelo até aqui exposto. os granitos. a Serra Geral. ungulada. Entretanto. Ao norte da área pesquisada. 142). adotam a cerâmica para confeccionar vasilhas. conclui-se que o uso de embarcações era uma prática. Em alguns locais. seguiu pelo litoral atingindo o Ribeira do Iguape no sudeste do estado de São Paulo. Se a locomoção fosse por terra. semiesféricas. na região norte da planície central costeira. raspada. entraram em contato com os responsáveis pelos vestígios da Vieira. duas ondas migratórias se deslocaram: uma desceu o primeiro rio até sua foz. mais ao sul da área enfocada. portanto. lado ocidental e meridional da Laguna dos Patos. TRADIÇAO TUPIGUARANI Os responsáveis pela cultura material identificada como Tradição Tupiguarani. algumas apresentando furos de suspensão ou perfurações circulares próximas a boca. a outra subiu o Madeira-Guaporé. da possibilidade do grupo produzir alimento (horticultor) e não somente buscá-lo na natureza e. identificada como Tupiguarani. a partir da confluência dos rios Amazonas e Madeira. P. Como ela está associada a uma certa fixação ao local. Quando fragmentos deste tipo de instrumentos ocorrem.Ao redor de 2. poderia ser encontrado. a matériaprima predominante são os basaltos e. Os banhados ou áreas alagadiças (Lagunar IV) seriam habitados no verão e. têm sua origem na denominada Tradição Polícroma Amazônica. meia calota.é ainda ignorada. as bordas são diretas ou levemente inflectidas. principalmente na parte mais meridional da área pesquisada. a quantidade e tipologia dos alimentos não se modificam quando do surgimento da cerâmica.. também instrumentos em rochas eruptivas. como formas predominantes. Esta modificação prende-se ao fato do grupo dominar uma nova tecnologia (ceramistas). no período pré-colonial. no inverno. composta de rochas efusivas e. ainda. Um problema interessante concerne às fontes de matéria-prima para seus instrumentos de pedra. importante na história da humanidade. ao noroeste. constatamos um processo aculturativo: decoração e formas da Tradição Tupiguarani e antiplástico da Vieira. A porção central da planície costeira é um depósito sedimentar inexistindo. pesca e coleta. O antiplástico[9]é formado por areia grossa e média. casamentos exogâmicos . letras "h" ."k"). os dados etno-históricos que nos dizem que os charrúa utilizavam "canoas grandes e numerosas" (LOPES DE SOUZA in BASILE BECKER. Na estratigrafia dos sítios. Isto significa que os portadores da cultura material. A técnica de confecção é o modelado e o acordelado. a Serra do Mar com suas rochas eruptivas.000 anos A. A coloração predominante da cerâmica é escura. ainda. transportar e ferver água. Entretanto ainda pairam dúvidas quanto à essas duas últimas características desse grupo. em virtude das exigências técnicas para a sua confecção (confecção da vasilha e lenta secagem). passa-se a denominar a tradição de Vieira. p. rapto de mulheres. alcançando as nascentes . As formas das vasilhas são esféricas. crescem de popularidade os decorados com impressão de cestaria. nesta ordem de freqüência (Figura 4 a.

os tembetás[10]Em outras regiões era utilizada. paralelas inclinadas. Por esta razão. não foi possível até o momento. Aparentemente eram consumidos os mesmos animais. desde a Amazônia.200 D. curvilíneas onduladas paralelas. então. os mesmos moluscos e sementes ou. num segundo plano as pintadas. O tamanho varia de 8 a 10cm até 50 a 60cm de abertura e altura. os que vieram para o sul e. dificulta a verificação dos percentuais ou variações na dieta entre os grupos e na própria subtradição. divisando. semiesféricas. Subtradição Guarani. O Rio Grande do Sul foi ocupado por volta do século V da nossa era. A característica marcante da cultura material da Tradição Tupiguarani. C. conseqüentemente. ou seja. portanto. Também são registrados na superfície de quatro (50%) sambaquis lacustres. É a técnica conhecida como coivara. nos três marinhos e em apenas um dos sete aterros ou cerritos. os afiadores-em-canaleta. Para plantar. entre as com decoração destacam-se as corrugadas-unguladas (Figura 5a) e as corrugadas. mesmo sabendo que a Guarani foi a última a invadir a área no período précolonial. feijão. em outras palavras. daqueles das tradições Umbu e Vieira. Aquelas que apresentam pintura podem ser na face externa. os mesmos peixes. Os migrantes pelo litoral brasileiro deram origem à Subtradição Tupinambá. mandioca de uma variedade doce (aipim) e uma amarga com a qual faziam farinha. tabaco. São populares as vasilhas não decoradas (simples) e. Continuaram explorando o meio ambiente como vinham fazendo há milênios. etc. caçando. sobre fragmentos das primeiras. os locais preferidos foram os limites da Barreira III onde havia maior umidade. colonizaram nosso Estado. espiraladas. especialmente a cerâmica. No litoral centro entretanto. São fragmentos ou peças inteiras de vasilhas. derivaram a Subtradição Guarani (BROCHADO. bases arredondadas ou levemente cônicas. Seus vestígios mais antigos são encontrados no alto rio Uruguai e no médio Jacuí. elipsóides horizontais. movimentos migratórios ocupando as demais regiões com matas e cursos d"água ou lagoas.da bacia do Prata. diferenciar o produto que eles obtinham. na interna ou em ambas. etc. Nos sambaquis e aterros. sendo utilizada a areia fina e média como antiplástico. inicialmente. carenadas.100 e 1. ainda. batata doce. a Subtradição Guarani utilizou os recursos da região. ovóides. matas e. O motivo principal é a não ocorrência de traços culturais diagnósticos. As precárias condições de conservação dos vestígios fitofaunísticos em sítios erodidos sobre dunas. a pintura vermelha sobre branco e totalmente vermelha são as mais freqüentes. nos vários níveis. Eram mal cozidas porque as fogueiras eram a céu aberto. . unguladas e escovadas.Paraguai e Uruguai. pescando e mantendo suas roças de milho. solos mais propícios à horticultura. No que se refere à busca de alimentos na natureza. a cerâmica substituiu o arenito. Permaneceram nestas duas regiões por mais ou menos 700 anos iniciando. As formas são esféricas. em torno de 1. cachimbos e. As vasilhas foram confeccionadas pela técnica do acordelado. algodão. a rocha arenítica como matéria-prima destes instrumentos. Também ocorrem tipos mistos: corrugada-ungulada ou corrugada na face externa e pintada de vermelho na interna. Como já mencionado. a maioria dos vestígios da Subtradição Guarani redundaram nos sítios erodidos sobre dunas (Figura 2a). isto é. a primeira na face externa (Figura 5b e 7c) e a segunda na interna. onde superficialmente haviam sinais de ocupação da Guarani e da Vieira não é possível distinguir seus limites estratigraficamente. Os motivos das pinturas são geométricos: "gregas". retiravam o possível e depois ateavam fogo. deixavam-na secar. Estes instrumentos eram utilizados para alisar as pontas de flecha de osso ou madeira ou. derrubavam uma área de mata. quase que exclusivamente. é a cerâmica. 1984). abóboras. Foi neste momento que o litoral centro do estado foi alcançado. paralelas entrecruzando-se. amendoim. coletando. o alto rio Paraná . meia calota.

Mostardas.Lâminas de machado da Tradição Tupiguarani.Figura 5a – Vasilha Tupiguarani: serviu como tampa de urna funerária com crânio. Figura 5c . . Figura 5b . dentes e ossos infantis. Tavares.Vasilha Tupiguarani: continha crânio humano no seu interior.

raízes. tendo outra emborcada sobre a anterior funcionando esta como tampa. etc. a primeira fragmentada e faltando partes da borda e. letras "a". particularmente o crânio. direta. quando de sua confecção. Um terceiro local. "c") e pedras com depressão semiesférica polida ("quebra-coco"). letras "b". com a argila ainda úmida. Em três locais foram encontrados somente o crânio (Figuras 6a e 6b) e. As peças mais comuns são os polidores e afiadores-em-canaleta de arenito (Figura 5d. . levemente introvertida. O material lítico é escasso. vasilhas. Também foram encontrados no local indícios de fogueiras e alguns ossos de animais e conchas. pintada de vermelho sobre branco na face externa. lascas de quartzo e de calcedônia. eram retirados alguns ossos.Figura 5d . a tampa. com igual decoração. todos do tipo secundário. d). A utilização das lâminas de machado. c) e afiadores-em-canaleta (b. em outro. O primeiro local correspondia a um sítio habitação com relativa quantidade de fragmentos de cerâmica. é em meia-calota. quartzo ou calcedônia. enterrado definitivamente.. as lascas para cortar raspar. os demais ossos. alguns longos. os batedores para quebrar e esmagar sementes. Foi encontrada a urna e sua tampa (Figura 5a). esporádicos registros de pesos de rede. ossos. Foram identificados quatro locais com sepultamentos. No segundo local não foi encontrado outros vestígios. em geral sobre seixos de basalto. onde permanecia um certo tempo e. O indivíduo era enterrado diretamente no solo. lascas. Em dois locais tratava-se de uma vasilha relativamente pequena. a segunda.Material da Tradição Tupiguarani: alisadores (a. carenada (Figura 5b).Vista lateral do crânio encontrado no interior de vasilha Tupiguarani semelhante ao da Figura 5b. A urna é cônica. Os polidores seriam utilizados para confeccionar os instrumentos polidos. Figura 6a . alisadores (Figura 5d. os alisadores para alisar a superfície das vasilhas de cerâmica. inteira. tecidos. estes eram colocados numa vasilha. "d"). inflectida e corrugada-ungulada. perfurar. pesos de rede e "quebra-cocos" é óbvia. contas-decolar. sendo. Sobre material ósseo são registradas raras pontas ou agulhas e. em conchífero. etc. fragmentos de matéria corante composta de hematita e limonita (algumas com superfícies alisadas ou côncavas e estrias de alisamento ou raspagem). no interior da vasilha ou urna. lâminas de machado polidas petalóides em basalto ou gnaisse fragmentadas ou inteiras (Figura 5c). a hematita fornece a cor vermelha e a limonita a amarela para as pinturas corporais. após. fogueiras. era um sítio habitação onde foi realizado pelo menos um sepultamento de criança. então. batedores.

originalmente. estendido. O crânio havia sido retirado e (Figura 7b). Há uma distância de 1. diretamente no solo. Figura 7a . confeccionado de conchas com contas alongadas apresentando quatro faces planas e uma perfuração na extremidade. Este conjunto foi depositado um pouco a frente e em posição mais elevada.Vista frontal do crânio da figura 6a. . Conclui-se tratar-se de um enterramento secundário apenas do crânio.Sepultamento Tupiguarani direto no solo. apenas o crânio sofreu enterramento secundário. de onde deveria estar. O quarto e último local é apenas um sítio cemitério.Detalhe da figura 7a. o crânio. Neste último local foi depositado um fragmento de vasilha pintada de vermelho sobre branco externamente (Figura 7c). colocado em uma pequena vasilha também com outra emborcada como tampa. com vasilhas emborcadas onde deveria estar o crânio (Figura 7a). O primeiro era o "clássico" com alguns ossos no interior de uma pequena vasilha tendo outra emborcada servindo como tampa.5m deste ponto foi encontrado um enterramento estendido. Figura 7b .Figura 6b . Ao redor do pescoço havia um colar (Figura 7b). onde foram encontrados dois sepultamentos secundários.

onde o componente humano era de índios guarani ou tape. trazida em embarcações.Figura 7c . deslocando-se. Em outras áreas pesquisadas no Rio Grande do Sul. Surgem os caminhos do litoral e da serra por onde os tropeiros vinham em busca deste gado. Jacuí. como por exemplo no vale dos rios Pardo. embora a forma deste contato não é presentemente conhecida. de um grupo conquistador. Antes disso. invadem a região do vale dos rios Taquari e Pardo. Taquari e Caí. para o sul. a fonte de matéria-prima lítica foi obtida na margem oposta da Laguna dos Patos. 4. Entre 1626 e 1634. comercializar com os arachã e os tape. algumas incursões pelo litoral sul-rio-grandense tinham a finalidade de apresar índios. O mesmo deve ter ocorrido na planície costeira central com a chegada da Guarani: os portadores da cultura material. os bandeirantes paulistas. buscaram os basaltos da Serra Geral por terra. pintada de vermelho sobre branco. até o centro do Rio Grande do Sul. A razão é que a Etnohistória nos apresenta o grupo Guarani como excelente canoeiro. que cobria o local onde deveria estar o crânio (Figura 7a). a planície costeira central era ocupada por grupos lingüísticos Tupi-guarani. abandonariam a região. a Guarani sobrepõe-se. na margem esquerda do rio Uruguai. a região é praticamente abandonada pelos indígenas. na margem direita do rio da Prata. A discussão apresentada. Estas missões estendiam-se desde o extremo oeste. A partir deste momento é estabelecido o trânsito entre ambas localidades. No setor norte da área pesquisada. em 1686 surge Laguna. comandados por Antônio Rapôso Tavares. É o início das disputas pelas terras do sul: em 1680 os portugueses fundam a Colônia do Santíssimo Sacramento. região da Lagoa Mirim. ainda no século XVI. Enfim. estratigraficamente. Acreditamos que a partir das primeiras expedições. acreditamos no total afastamento das culturas que anteriormente habitavam a área.Fragmento de vasilha. denominado de chimarrão. disperso pelos campos. a Taquara ou Vieira ou Umbu. em Santa Catarina. Muitos foram levados como escravos para São Paulo e estados mais ao norte. Lembramos que a área próxima à Laguna dos Patos era ocupada também pela Guarani. Quando dos primeiros contatos com o europeu. entre Rio Grande e Santa Vitória do Palmar. Logo após. os arachã ou pato. No início do século XVII vinham expedições de São Paulo explorar a Laguna dos Patos e os rios Guaíba e Jacuí. ARQUEOLOGIA E HISTÓRIA Os fragmentos de vasilhas com decoração e forma da Tupiguarani e antiplástico das Tradições Vieira aportam indícios de contato entre as duas culturas. os jesuítas espanhóis fundam 18 reduções. não será necessária para a Tupiguarani. utilizaram os mesmos critérios das tradições que a antecederam. em frente a Buenos Aires e. identificada como Vieira. em 1636. Destroem as reduções . isto é. em busca de indígenas para a escravidão. Tratando-se o Guarani. então. A valorização do gado bovino e eqüino trazem igual conseqüência para os campos do sul na segunda metade do século XVII. na parte meridional. com relação ao alcance das fontes de matéria-prima líticas das Tradições Umbu e Vieira. sendo o caminho do litoral o mais importante.

corrugada. os jesuítas retornam para o oeste-noroeste do Rio Grande do Sul e fundam. A partir de 1682. tais como pratos. levaria à afirmação que índios minuano fizeram parte da população da aldeia do Estreito. simples. Isto comprovado. também. dispostas ao redor de uma "praça" com aproximadamente 50m de largura e 100m de comprimento. Em 1763. José da Silva Paes o primeiro núcleo militar. Os indígenas e os padres se rebelaram. procedentes da Estância Real do Bojuru. daquela data em diante. resolveu o governo português reuni-los do outro lado do canal. até 1707. A partir deste momento. passou-se a verificar um processo de miscigenação registrado nos casamentos e batismos da aldeia. O General Gomes Freire de Andrade. o registro de batismos de índios minuanos. Rio Grande e. nestas duas fases. localizadas na margem direita do último rio. Conforme tradição popular. como já mencionado. Portugal e Espanha fizeram um acordo contrariando o uti possidetis: o primeiro ficaria com a região das missões e o segundo com a Colônia do Sacramento. idem interna. idem externa. qual seja. Parte está coberto de gramíneas o que dificulta a visão total do sítio. Dez anos após.mais avançadas ao leste. alças. de mais ou menos 5m de diâmetro. Os levantamentos arqueológicos realizados no local. a Estância Real do Bojuru. Existe. Talvez. com o Tratado de Madrid. que a aldeia paulatinamente continuou recebendo. Iberoindígena (indígena aculturada com português. distante 500m ao sudoeste da atual. pintada de vermelho interna. Dois ou três fragmentos da cerâmica indígena ou característica do período précolonial. comandante das tropas portuguesas. Além de um maior contigente luso-brasileiro. fugindo da invasão e conquista espanhola de Rio Grande e São José do Norte. a igreja seria num local que coincide com a . A História nos informa que estes índios foram deslocados. Em 1750. espanhol ou negro): simples. São Nicolau da Cachoeira ou do Butucaraí e São Nicolau do Rio Pardo. Foram encontrados fragmentos de cerâmica Tupiguarani (Figura 8. daí. de tratar bem o índio e. corrugada-ungulada. letras "a". índios tape (guarani) estavam acampados nos arredores da vila do Rio Grande. Estes foram aldeados em dois locais. 35km ao norte: surgia a aldeia de Nossa Senhora da Conceição do Estreito. em 1757. vermelho sobre branco externa. as aldeias dos padres espanhóis contassem com índios provenientes do litoral centro. pelo governo. poderiam pertencer à Tradição Vieira. mais tarde. Serviam como marcos de conquista e de elo de ligação entre Laguna e a Colônia do Sacramento. encontraram a antiga ocupação. bordas com aplique externo digitado. distante uns 40km ao norte do Estreito. Sebastião José de Carvalho e Mello. Mas quais são estes vestígios? Foram encontradas no terreno oito manchas de terra escura. parte da população destes povoados se estabelece na aldeia do Estreito. índios das missões vieram a ter no Rio Grande do Sul lusitano. Algumas formas (vasilhas e pratos) e fragmentos pintados com vermelho lembram a cerâmica missioneira (fase Missões). atraí-los ao espaço português. abandonar não somente a região. desta forma. parte da população de origem luso-brasileira de Rio Grande e São José do Norte fixa-se na aldeia do Estreito. com ele vieram mais ou menos 3000 índios. o êxodo para a área de ocupação portuguesa se intensifica. seguiu a política do Primeiro Ministro Português. pintada de vermelha interna e vermelha em ambas as faces e outros aspectos. Mais tarde é transferido o local da aldeia para onde se encontra em nossos dias. para a Estância Real do Bojuru. bases planas. na aldeia do Estreito. resultado da invasão espanhola àquelas povoações. Receosos de algum ataque por parte destes. Em 1753. Quando abandonou os Sete Povos das Missões. Esta passa a ser. Vestígios materiais desta ocupação são bem mais abundantes. Marquês do Pombal. Antes deste fato e durante a "Guerra Guaranítica". Os padres resolvem. sete reduções. reflexo da alteração cultural que se verifica. houve a chamada "Guerra Guaranítica" e esta cláusula do Tratado foi anulada. mas todo o estado. não mais uma localidade indígena mas portuguesa ou luso-brasileira. "b"): simples. Em fevereiro de 1737.

onde se encontram estas evidências. laranja-avermelhada e marrom (Figura 8. seixo. placa. coloração verde-amarelada. "m"). coletado em cada concentração separadamente. particularmente jesuíticas espanholas: a igreja no centro de uma lateral da praça e as casas distribuídas nas outras três laterais.metal: pequeno crucifixo (latão ?) (Figura 8.louça do tipo faiança portuguesa e faiança fina inglesa colorida ("blue" e "green edged". peixes. O material. ambas de 20 réis (Figura 8.lítico: pedra de pederneira ou de chispa. e . coloração amareloesverdeada e outras cores de bem menor freqüência. uma do Império e outra de 182?.cerâmica colonial com as mesmas características da vidrada exceto o engôbe (vidrado). fragmentos de univalves e bivalves marinhos. descrito linhas atrás. letras "p". remédios e/ou perfumes verdes. chumbo. letra "n"). k . transparentes e translúcidos. peso de rede fragmentado em arenito.louça "salt-glazed" ou grês de botijas cilíndricas.ossos e dentes: bovinos. tampa circular com perfuração circular central (latão ?). polidores de arenito.semente: Arecastrum romanzoffianum.concha: univalve marinho. tinteiros ou vidros de tinta (Figura 8. b . "dipped mochaware") (Figura 8.0m acima do nível do terreno próximo. letras "l". está 2. garrafas quadrangulares. h . A área. folhas de cobre. cravos. não apresenta variação digna de nota de uma para a outra. placas. Exceto o material indígena e aculturado (Iberoindígena). "transfer printed". afiador-em-canaleta em arenito. letras "c" – "j") e branca ("cream ware" e "pearl ware"). globulares. em calcedônia (utilizadas nas armas de fogo). letra "k").cerâmica vidrada interna e. j . um fragmento de cachimbo. letra "o"). d . f . chaves.fragmentos de telhas e tijolos. . lasca.vidro: fragmentos de garrafas cilíndricas verde-escuras com fundo convexo e reforço externo na boca (Figura 8.distribuição encontrada e de acordo com as plantas de missões religiosas. fragmentos de ponteiras (grafite) e de lousa (ardósia ?). c . com alças. "q"). em ambas as faces. peças de uso desconhecido e duas moedas. g . Indicam sítios habitação ou residências. mais raramente. i . bases levemente côncavas. bases planas ou em pedestal e alças. "peasant style". foi registrado: a . pregos.

Apresentaram uma preferência pelos ambientes úmidos e aquáticos do Lagunar IV. Corrientes e Entre Rios. Sua área de dispersão é bem mais modesta do que a antecessora: 1. O pouco existente permite concluir tratar-se da mesma tradição encontrada do sudeste do estado de São Paulo. Torotama e Vieira em virtude do baixíssimo percentual decorativo. vidro (p. alto rio Jaguarão e Negro (norte) e afluentes da margem esquerda do rio Uruguai (norte). até o Paraguai e provincias argentinas de Misiones. 5. sendo os responsáveis pelas pontas-de-projétil de pedra lascada. Estas observações encaixam-se perfeitamente também aos sucessores da Umbu. faiança fina inglesa (c . q) e metal [(crucifixo (n) e moeda (o)]. Sua cerâmica apresenta semelhanças com a registrada nas outras áreas. Uruguai . até a Patagônia argentino-chilena. Também ocuparam as terras mais altas e secas da Laguna-Barreira III. entre outros materiais. ao norte.áreas alagadiças (sudeste). louça "salt-glazed" (k). microlascas. COMPARAÇÕES E CONCLUSÕES As comparações com a Tradição Umbu são prejudicadas pela ausência ou raridade do material lítico. m). Quanto ao antiplástico ocorrem aspectos dos períodos antigos (areia . margem ocidental da Laguna dos Patos (leste).Figura 8 . nascentes do rio Negro (sul). ao sul e. especialmente as fases mais antigas da região de Rio Grande. cerâmica colonial vidrada (l.Material da aldeia do Estreito: cerâmica Tupiguarani (a. justamente o que a caracteriza. Os aterros e alguns sambaquis tiveram sua origem nestes caçadores-coletores-pescadores. vale dos rios Santa Maria (oeste) e do rio Pardo (centro). bolas de boleadeira. Rio Grande do Sul . para o oeste. b).j). Foram os primeiros ocupantes da região. 2.região da Lagoa Mirim (nordeste). os ceramistas da Tradição Vieira. pontas de osso. "quebra-cocos".

Ed. 1982. subtradição Guarani. BROCHADO. Globo. é aquela que os europeus vão denominar de minuano. encontrados nos limites da barreira III. através da miscigenação com o próprio europeu ou com o negro. na primavera e verão. finalmente. El indio y la colonización.C. com o meio ambiente de terras baixas. ainda. Inicialmente mantiveram algum tipo de contato. acabando por conquistá-los. mesmo internamente na área pesquisada. José Joaquim Justiniano Proenza. História Geral do Rio Grande do Sul. Com a chegada do europeu. outra atividade com maior ênfase. As diferenças são quanto aos percentuais de tipos decorativos. deve ter sido o sazonal. sem contar. United States of America. BIBLIOGRAFIA BASILE BECKER. justamente onde se localizam as formações fechadas com solos mais propícios à horticultura. As diferenças quanto aos vestígios fitofaunísticos. a pobreza do material lítico e. explorando-a na primavera e verão. Nos aterros ocupam os níveis superiores. Ítala Irene. isto é. depois. Porto Alegre. dois e até três pares de entalhes laterais para preensão é desconhecido em outras áreas. 1958. Seus instrumentos e cerâmica não divergem dos encontrados em outras áreas. Cadernos de Arqueologia. Igor. lacustres e de áreas alagadiças. inicialmente por meio da escravidão. aos vestígios fitofaunísticos ou a obtenção dos recursos marinhos. Arthur. Já o produto da caça e da pesca são muito semelhantes nos diferentes locais.fina) e recentes (areião). no sudeste de São Paulo. acabam paulatinamente desaparecendo. 6. Urbana. responsável pela cultura material denominada de Tradição Vieira. A razão é porque a grande maioria dos seus sítios são os erodidos sobre dunas. após nas disputas do território entre Portugal e Espanha e. 2ª edição. Ao redor de 1. surgem na planície costeira central os horticultores da Tradição ceramista Tupiguarani. Na região de Rio Grande são mais pescadores ao passo que em Santa Vitória do Palmar é a caça a atividade dominante. mostra a utilização dos recursos locais. sem se afastar totalmente dos locais mais elevados onde manteriam suas roças. obrigando-os a abandonar a região. CHMYZ. com os antigos moradores. do rio Ribeira do Iguape. Porto Alegre. Paranaguá. o grupo poderia explorar o ambiente alagadiço. FERREIRA FILHO. como os seus antecessores a praticaram. As lâminas de machado com um. o qual se desconhece. Terminologia arqueológica brasileira para a cerâmica. 1976. que num mesmo local pratiquem num momento uma e. Heinrich. BUNSE. Mercado Aberto. Na região pesquisada isto não é observado: num local são basicamente pescadores. São Leopoldo. particularmente. Instituto Anchietano de Pesquisas. charrua e guenoa. A região pesquisada e a de Rio Grande parece apontar para os minuano. Universidade Federal do Paraná. Um modelo ecológico da difusão da cerâmica e da agricultura no leste da América do Sul. Charrúas y minuanes.100 D. Museu de Arqueologia e Artes Populares. 1981. à margem esquerda do Rio da Prata e do Atlântico ao vale dos rios Paraná-Paraguai-Uruguai. 1984. em outro caçadores e em outro coletores. University of Illinois. Esta última forma de relação. O elemento humano. São José do Norte: aspectos linguísticos e etnográficos do antigo município. . Em virtude que ambas as faixas do sistema deposicional Laguna-Barreira IV apresentam distâncias relativamente curtas (10km ou menos) e da posição dos sítios Guarani. Ed.

Da colônia ao império: um panorama histórico da região Luiz Henrique Torres[11] 1. p. RS.. Ed. Luiz Henrique. LA SALVIA. NAUE. Em janeiro de 1680. Sítios arqueológicos no município de Rio Grande. São Paulo. Luiz José. Universidade de São Paulo. Os aterros dos campos do sul: a tradição Vieira. SCHMITZ. Instituto de Pré-História. Novas perspectivas sobre a arqueologia de Rio Grande. O Homem Antigo na América. 1974. Ítala Irene. Anais do Museu de Antropologia. Belo Horizonte. Universidade do Rio Grande. no lado esquerdo do rio da Prata. Guilherme. 1968. Secretaria da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul. Vander. Guilherme. Porto Alegre. In. Auguste. Pedro Ignácio & BASILE BECKER. Mercado Aberto. Dados sobre o estudo de cerritos da área meridional da lagoa dos Patos. Pesquisas. SCHMITZ. Geologia Costeira do Rio Grande do Sul.91-122. na atual República Oriental do Uruguai. SCHMITZ. que se consolidou no século XVII como barreira de contenção à expansão portuguesa. Alves. Ítala Irene. BASILE BECKER. Arqueologia Pré-Histórica do Rio Grande do Sul. Carta da vegetação da América do Sul. José Alberto. O controle da navegação pelo rio da Prata foi essencial para as atividades comerciais e o escoamento da produção do ouro e prata da região mineradora da América espanhola. TORRES. 1973. Aterros em áreas alagadiças do sudeste do Rio Grande do Sul e nordeste do Uruguai. teve início a construção da Colônia do Sacramento. SAINT-HILAIRE. Ensaios de História do Rio Grande do Sul. Clima do Rio Grande do Sul.0729. Rio Grande. GEOPOLÍTICA DA OCUPAÇAO A assinatura do Tratado de Tordesilhas em 1494 não evitou as disputas entre Espanha e Portugal pelas terras que foram descobertas na América do Sul. Porto Alegre. Pedro Ignácio. 18: 141152. O estuário platino foi um dos pontos privilegiados do enfrentamento entre as duas nações ibéricas. Ítala Irene. Rio Grande. 1971. Antropologia. NAUE. Fernando & SCHORR. Notas Técnicas. Sítios de pesca lacustre em Rio Grande. Viagem ao Rio Grande do Sul (1820-1821). Da Universidade de São Paulo e Itatiaia Ed. n. SCHMITZ. Instituto Anchietano de Pesquisas. Ítala Irene. RS. VALENTE. Francisco das Neves & Torres. Pedro Ignácio. Pontifícia Universidade Católica do RGS. Em 1534 foi fundada Buenos Aires. NAUE. 1991. VILLWOCK. Veritas. 71/73: 01-24. distante 48 quilômetros de Buenos . in Kern & outros. RS. Ed. 1976.221-250. Porto Alegre. Luiz Henrique. Guilherme & BASILE BECKER.HUECK. Maria Helena Abraão. Guilherme. São Paulo. 8: 1-45. São Leopoldo. p. Instituto de Geografia. Instituto Anchietano de Pesquisas. São Leopoldo. Um Capítulo da História Colonial do Rio Grande do Sul: Nossa Senhora da Conceição do Estreito. p. Anais do II Simpósio de Arqueologia da Área do Prata. Universidade Federal de Santa Catarina. NAUE. Pedro Ignácio & BASILE BECKER. Kurt. Pedro Ignácio. CEGO/IG/Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Brasil. 1961. (3): 1970. SCHMITZ. 1996. Porto Alegre. Universidade Federal de São Paulo. MORENO. Jorge Alberto & TOMAZELLI. 1995.

Era composta de 31 integrantes que se dispersaram por volta de 1733. A Colônia. Manoel Rodrigues Monteiro foi um dos primeiros proprietários de sesmaria. em especial. As estâncias reais foram estabelecidas na parte norte do canal. Pedro de Cevallos na segunda metade do século XVIII. Mostardas. no início do século XVIII. O objetivo da frota de João de Magalhães. o lado norte foi temporária e parcialmente ocupado por uma expedição oriunda de Laguna em Santa Catarina. o brigadeiro José da Silva Paes iniciou a organização de Estâncias Reais de criação. Ainda em 1737. quando inicia a distribuição de sesmarias em Viamão e Tramandaí. 1941:43). uma possessão portuguesa. com os cavalares. A valorização econômica do espaço com o apresamento do gado pelos tropeiros e a distribuição de sesmarias são elementos que tornaram o quadro da fundação mais complexo. Frente ao contexto da Colônia de Sacramento. várias ruas e quartel. mas uma referência inicial de um processo de ocupação e povoamento nos quadros do contexto platino. buscando a integração econômica motivadora de uma ocupação definitiva. conforme um requerimento de 1738. Porém. Anterior ao povoamento do sul do canal por Silva Paes.000.Aires. que ocupou a margem sul em 1736. rumo ao Norte. Tavares. contíguos pela parte de leste com o Padre José dos Reis e pela do oeste com Sebastião de Brito e Manoel de Ávila Reis"(FORTES. com a missão de garantir os preparativos para receber a expedição de Silva Paes. Estas estâncias foram uma iniciativa estatal voltada ao abastecimento alimentar. o ano da fundação estava inserido na terceira campanha militar contra Sacramento. casas de pedra. tornando-se. reunindo em 1738 mais de 8. até 1963. numa sólida fortaleza que abrigava igreja. Ao canal retornou uma ocupação assistemática até a chegada de Cristóvão Pereira de Abreu. ele surgiu como "o primeiro povoador dos campos que correm da barranca do Rio Grande. surgiu com poucos ranchos construídos com capim e barro. a partir de 1734 os campos situados entre a barra do Rio Grande e o rio Tramandaí apresentaram mais de duas dezenas de fazendas que começaram a ser povoadas por tropeiros oriundos em grande parte. Além das lutas na Colônia do Sacramento e da presença dos povoados missioneiros de bandeira espanhola no Rio Grande do Sul. o qual. autorizando o abate indiscriminado do rebanho. sendo parte de um projeto geopolítico mais amplo que teve desdobramentos em atividades bélicas e diplomáticas nas décadas seguintes. com o gado. a fundação do Presídio e Povoação do Rio Grande de São Pedro não foi um fato isolado e de restrito cunho militar. em 1725. com a política de distribuição de sesmarias. a ocupação do canal configurou uma base de apoio para conter uma possível expansão espanhola para Santa Catarina e São Paulo. especialmente se relacionado com o contexto europeu e platino. São Simão e outras localidades. Bojuru. hospital. As autoridades portuguesas e o Conselho Ultramarino projetavam a fortificação portuguesa nas margens do canal do Rio Grande no início da década de 1730. Porém. Administrações desastrosas e a iniciativa de Gomes Freire de Andrade em aumentar o comércio do couro com a Metrópole. É numa conjuntura de guerra no Prata que foram realizados os primeiros movimentos dos luso-brasileiros no sentido da ocupação de um espaço que hoje constitui o Rio Grande do Sul e. O povoamento oficial foi feito em 19 de fevereiro de 1737 com o desembarque do Brigadeiro José da Silva Paes na margem sul do canal. acarretaram na . era constituído pela cidade de São José do Norte (sede). era o de reconhecimento da região e auxílio na travessia da barra para os tropeiros que transportam o gado. que encontraram no Tratado de Paris (1737) a assinatura de um armistício que persistiu até as ações de D. o antigo município de São José do Norte. no Bojuru e no Capão Comprido. Estreito. com um sítio de dois anos infligido pelos espanhóis. de Laguna e São Paulo.000 cabeças e com previsão de chegar a 45. e a criação de montarias para as tropas.

nos anos que seguiram a sua criação. 1984:65-6). não apenas o destino dos mais de 30 mil índios missioneiros. Gravura 1 . surgiram postos de vigilância para a segurança do litoral nas guardas do Norte. do Estreito. a criação desse aldeamento representou.decadência das estâncias (SANTOS. fundada em 1753 e localizada a 35 km ao norte da sede do atual município (RIBEIRO. Planta de Antonio Córdova (1780) 2. do Capão do Meio e de Mostardas.O Continente do Rio Grande. as estâncias estavam despreparadas para absorver um esforço de guerra. uma experiência nessa modalidade de política indigenista. Dentro de princípios da política pombalina de atração e incorporação das populações indígenas que se apresentavam como um obstáculo à expansão colonial lusitana. . Fortificações foram edificadas para o sul enquanto que no norte da barra. A vida na Vila do Rio Grande de São Pedro na década de 1750 estava ligada às redefinições das fronteiras platinas com a assinatura do Tratado de Madri e aos novos acordos entre Portugal e Espanha. 1999: 119-129). Afligia as autoridades portuguesas. O PROCESSO DE POVOAMENTO A primeira experiência urbana em São José do Norte ocorreu na Aldeia do Estreito. mas também os movimentos dos índios minuanos que percorriam as paisagens do pampa que se estendia até o Rio da Prata. Movimentação militar é o que não faltou nas décadas de 1760-70. Quando da invasão espanhola em 1763.

a freguesia de Mostardas. A invasão espanhola da Vila do Rio Grande em 1763. frente à persistência da ocupação surge a freguesia do Estreito que demarcava a fronteira norte portuguesa e.000 homens. O ataque naval que garantiu aos portugueses a reconquista da Vila do Rio Grande ocorreu em abril de 1776[12] . O convívio desta população com minuanos que estavam na Fazenda Real do Bojuru e com os "tapes" é obscuro. No século XIX. invadiu a região ao norte da barra do Rio Grande. como depreende-se da distribuição de terras aos assentados irregularmente. surge a Aldeia que foi administrada e mantida pela erário régio português. a região entrou numa dinâmica de esquecimento perante as autoridades e às frentes de colonização. presença que causava apreensão aos moradores. ocorrendo um incremento populacional e econômico que a estratégia dos conflitos no Prata pode explicar.Freguesia do Estreito. em 1773. confirmou a insegurança na ocupação do Governo do Rio Grande de São Pedro e assinalou o fim do aldeamento nas fontes documentais. fortificando-se na atual cidade de São José do Norte e empurrando os luso-brasileiros desta posição. A criação do aldeamento motivou-se na necessidade em disciplinar a presença de indígenas nas proximidades da Vila do Rio Grande de São Pedro. O objetivo lusitano era de promover a rápida colonização desta região para impedir as pretensões espanholas em expandir-se até estas terras. Novos atores foram incorporados à formação social. A península é de suma importância no quadro geopolítico. neste contexto platino de disputas. ligado à assinatura do Tratado de Madri.Gravura 2 . a reação armada de índios missioneiros e a insegurança frente às fronteiras com a Espanha.365 sediados em São José do Norte. Nesta Guerra de Restauração. retirantes da Colônia do Sacramento e escravos negros. A população da Vila. Aquarela de Jean Debret (1820). permitindo o controle português de uma das margens do canal. comandado por Francisco Pinto Bandeira. os espanhóis foram expulsos da posição da Barranca do Norte. Em 1765. redefinindo caoticamente. Dentro de um período de grande tensão. Esta retomada foi fundamental para os movimentos militares de reconquista da Vila do Rio Grande. o comandante Tenente– General Henrique Bohn. Os espanhóis atravessaram o canal e fixaram-se na barranca do norte. Em junho de 1767. comandou o exército do sul que atingiu um efetivo de 4. sendo 3. Os portugueses construíram o forte de São Caetano da Barranca do Estreito (agosto de 1764). a espacialidade da Aldeia. com a perda de importância estratégica. com a presença de açorianos.

A perda de importância política e econômica acentuou-se após o período bélico de disputa com os castelhanos e que estendeu-se até o Tratado de Santo Ildefonso (1777) e seus desdobramentos. Umas poucas árvores e uma escassa vegetação ao redor. enquanto a Vila do Rio Grande tinha 2. 1981:180). pareciam erguer-se d"água. Apesar de não trazer dados precisos.390 do Rio Grande. a população esteve praticamente estagnada. a que um sol esplêndido comunicava uma alvura deslumbrante". contribuíram para acentuar a aparência inóspita do deserto circundante" (LUCCOCK. Viamão e Porto Alegre. É capaz para produzir em muita abundância todas as sementeiras de grão e muito particularmente para a cultura do linho. sendo ampliada a ocupação para o Vale do Taquari. culminando no ano de 1787 com a maior produção deste cultivo no então Governo do Rio Grande de São Pedro. Pelo registro deixado por John Luccock.421 habitantes. se conhecem todas as frutas da Europa. indicam a plantação de legumes com ótimos resultados. os centros de povoamento foram expandidos e consolidados. Ali. como atestam as fontes historiográficas. A população no Estreito em 1780 era de 1. para mais bem dizer.Confronto militar luso-espanhol quando da retomada do Rio Grande em 1776. tornou-se um referencial de que a barra do Rio Grande estava próxima e os cuidados para a navegação deveriam ser redobrados. Com a expulsão dos espanhóis da Vila do Rio Grande. sem a mais leve vegetação. Pelotas.713 habitantes. com mais abundância e mais bem sazonadas" (BARRETO In SANTOS. mais que em outra alguma parte. 1975: 114).[13] Desenvolve-se também as atividades ligadas a pecuária e dados dispersos. Está toda povoada de estâncias de gado. a população começou lentamente a redefinir o povoamento ao sul da Barra do Rio Grande. "Pelo que pertence às terras situadas na parte do norte. visíveis agora. deixou o registro de uma região propícia à atividade agrícola.254 habitantes.Gravura 3 . frente a 8. Segundo Luccock (1809) ao aproximar-se da costa do Rio Grande do Sul "pequenos cômoros redondos de areia. pequenino edifício no mesmo estilo que os demais das aldeias do Brasil. O processo de expansão populacional alcançou seu pico nos anos que seguiram a desocupação do Rio Grande. através de ações militares e sacrifícios por parte daqueles que ocupavam o território. avistada pelos navegantes que passavam pela costa atlântica em direção ao porto do Rio Grande. são as mais férteis daquele Continente. existem dados sobre a produção de trigo na freguesia do Estreito e em Mostardas. a Freguesia do Estreito estava em decadência entre 1809 e 1825. Luccock faz clara referência a Igreja do Estreito. Santa Maria. em 1803 o Estreito tem 1. a vista . ali chamadas do estreito de São José do Norte. A partir de 1780. enquanto no final do século XVIII e primeira metade do século XIX. Portanto. A Freguesia assistiu a passagem de um importante capítulo da história do Rio Grande do Sul que foi a definição das fronteiras luso-brasileiras. Após a derrota espanhola. Dentro em pouco o comerciante verificou que não passavam de irregularidades de uma praia de areia "em cujo meio elevava-se a igreja do Estreito. Rio Pardo. Auguste Saint-Hilaire e Nicolau Dreys. A experiência do povoamento durante a permanência dos espanhóis no Rio Grande. ou. A observação de uma Igreja entre cômoros de areia.

pelo peixe que poderia ser pescado na Lagoa dos Patos ou no Oceano. em cuja extremidade está a igreja. Um relato mais detalhado foi feito onze anos após a passagem de John Luccock. e que o trabalho constante do vento. o naturalista Auguste Saint-Hilaire. 1987: 54). situada a igual distância das duas filas de casas. de quando em quando. percorreu uma estrada entre São Simão e a aldeia do Norte. muito curta. quando nos aproximamos. brócolis e até couveflor que produzem bem na região. com muitas espinhas. acham-se enfileiradas em torno de uma larga praia revestida de grama. geralmente. levou-nos a passear no jardim. observando o isolamento da região: "não deparamos com um só viajante. mostarda. são desprezados pelos habitantes da região. cujos rebanhos espalhavam-se pela região. cebola. Saint-Hilaire indicou que as primeiras casas ficavam a beira da estrada que ligava a Vila do Norte à Mostardas. Observador atento. Havia cerca de quarenta casas "afastadas umas das outras. O jantar foi excelente e compunha-se de carnes. terá em breve a mesma sorte". um sangradouro que comunica com o oceano. tem pouca profundidade suas águas salobras. acostumados a comer carne" (SAINT-HILAIRE. onde havia um belíssimo parreiral e diferentes espécies de legumes. . alternativa facilitada pela pequena distância entre ambos. bastante altas.500 habitantes. mas na maioria não passam de choupanas pobres". o que não deve causar admiração. demonstrando a viabilidade do plantio que vai da couve-flor aos pessegueiros. 1987: 54). sem dúvida. "era outrora mais para leste" mas como as habitações foram soterradas pelos "turbilhões de areia que o vento atira sem cessar das margens do mar" as casas foram transferidas "para o lugar onde se encontram atualmente e onde. frutas e flores existentes no jardim da casa do padre no Estreito. Os narcisos. mas como aí só vivem peixes de água doce. desta vez por um francês. chicória.da Igreja demonstrava ruptura com o litoral retilíneo e monótono que se estendia desde Torres e do Rio Tramandaí. Em sua passagem. os moradores da região habituaram-se a abrir. o naturalista descreve a sua passagem pela Freguesia do Estreito. Há entre estas algumas cobertas de telhas. nabos. "A aldeia está edificada no meio de areias e se compõe de cerca de quarenta casas que formam uma larga rua. deslocando a areia sobre as habitações. Saint-Hilaire observou que próximo à Mostardas existia um lago do mesmo nome o qual "é muito piscoso. soltaram foguetes. Em sua viagem até Rio Grande. aipo. Seguindo sua viagem em direção ao Rio Grande. a lagoa enche-se de peixes que se apanham sem dificuldade" (SAINT-HILAIRE. Faz uma referência à Aldeia de Mostardas. era o maior problema dos moradores. surpreendeu ao botânico. 1987: 56). Ao deixar Mostardas. Saint-Hilaire observou que "dois terços da população compõe-se de escravos. Como fica muito próxima do mar. As primeiras casas que vimos acham-se situadas à beira da estrada e quase enterradas na areia". tal como a traíra. sede da paróquia que apresentava uma extensão de 25 léguas e uma população de aproximadamente 1. Foram recebidos pelo padre que os conduziu à igreja que era uma construção inacabada. peixes e legumes. Saint-Hilaire também relatou que a aldeia do Estreito. couve. estas casas são cobertas de palha. A noite houve fogos de artifício" (SAINT-HILAIRE. o naturalista considerou excelente o jantar pela presença de carne bovina. o que faz com que este caminho seja pouco freqüentado". e pela variedade de legumes. "O cura veio ao encontro do general e. "Em seguida fomos a sua casa e. pequenas e. A variedade de legumes. no dia 5 de agosto de 1820. as violetas e os pessegueiros florescem agora. pois o Norte. enquanto esperávamos o jantar. em mau estado. o naturalista deparou-se com "um lago chamado Lagoa do Peixe" a qual "se estende por detrás da casa em que nos hospedamos. Quase todas apenas são habitadas aos domingos e dias festivos". aqueles que viajam de Porto Alegre a Rio Grande preferem ir pela lagoa.

apresentando uma população de 2000 almas. segundo o naturalista. que possui cento e vinte e sete casas" (SAINT-HILAIRE. afirmou o francês "que esta cidade fosse em breve abandonada. sendo "três as ruas principais e muito largas. As casas são contíguas. todas as mercadorias que chegam à aldeia do Norte. Na passagem por São José do Norte. . apenas ancoram iates. 1987: 67). permanece dependente da Freguesia do Estreito[14]"Fui hoje passear na aldeia Norte. negros e mulatos. deixando apenas um canal estreito e intrincado com água escassamente suficiente para um brique bem carregado" (LUCCOCK. 67). Como o centro do comércio do sul da Capitania "se acha. Saint-Hilaire considerou que esta aldeia. mesmo aquelas destinadas ao comércio dessa aldeia. era no porto do norte que os navios atracavam." Para Saint-Hilaire. chamadas catraias. enquanto Rio Grande "situada em terreno estéril. São José do Norte". além do térreo e indicam bom nível de vida. devido ao calado. A metade da população está dispersa nos campos. a aldeia do Norte foi extremamente pouco favorecida pelo governo. do mar. no meio de pântanos e areias. Da entrada do rio até o ancoradouro. livres ou escravos. pois os negociantes mais ricos da região "tem aí suas residências e seus armazéns" não era conveniente privar Rio Grande "dos privilégios usufruídos" com a localização da alfândega embora esta localização fosse contrária "a ordem natural das coisas" (SAINT-HILAIRE." No Rio Grande. 1975. é o porto do Rio Grande do Sul". mas é em São Pedro que está a alfândega e. Este porto do Norte. servem para o transporte de pessoas entre o Rio Grande e o norte. Embarcações. é a dificuldade de acesso para desembarque no porto devido aos bancos de areia e a comprovação da indispensável atuação dos práticos. se faz necessário conduzir para lá. e um terço de brancos. prossegue Luccock. por meio de sinais apropriados". ficava "rente à aldeia de São Pedro do Norte" e a três milhas da "cidade principal. As embarcações aportavam em São José do Norte e as mercadorias eram transportadas para a alfândega de São Pedro. pertencia ao Estreito "e sua igreja não é mais do que uma dependência da paróquia da sede" (SAINTHILAIRE. Um lugar comum nas descrições dos viajantes estrangeiros. se não tivessem colocado a alfândega e não fossem obrigados a transportar para aí todas as mercadorias que chegam ao Norte". porém "todas as embarcações que passam a barra podem aportar na aldeia do Norte. bem. na extremidade da península que separa a Lagoa dos Patos. em geral. por conseguinte. movidas tanto a remo como a vela. indicou a rota que a embarcação devia seguir. 115). pelas dificuldades de calado. "surgiu um bote que veio ao nosso encontro. ameaçada constantemente de ser aterrada pelas areias". de há muito. mas a aldeia do Norte se chama. Seria provável. sob todos os pontos de vista. localizado em São Pedro". "das quais dois terços são homens de cor. após muita ansiedade dos tripulantes e passageiros do navio em que estava. em iates. abrange uma extensão em torno de dezoito léguas. Portanto. já que os bancos de areia não permitiram uma maior proximidade". por uma extensão de nove milhas "predominam as mesmas obstruções. Em relação ao porto. A paróquia. 1987. pois em frente ao ancoradouro principal "não há profundidade bastante para outras embarcações além de pequenos iates". com um piloto a bordo que. O ancoradouro do navio. caiadas e. a aldeia era muito baixa e arenosa e até nas ruas se observavam pequenos montes de areia. como em nossas cidades. Os habitantes da região distinguem esses dois lugares simplesmente pelo nomes de Sul e Norte. Nada mais é do que uma sucursal da aldeia do Estreito. Saint-Hilaire foi pessimista. Os navios maiores ancoravam diante da "Aldeia do Norte que pode ser considerada como porto de São Pedro". o resto habita a aldeia do Norte. Conforme Luccock. conservadas. propriamente. situada. A igreja é muito pequena e nada apresenta de notável.pertencente à paróquia. Assim como no Rio Grande. muitas têm um andar. 1987: 68).

sem prejuízos. caso se estabeleça um posto alfandegário no Norte. segundo ele. afirmando que se via "por todos os lados areia. tem-se visto as embarcações.. embora tenha considerado que tanto esta. na primeira referência que fez à cidade do Rio Grande. 1983. pois o mar. "ser de outra maneira" visto que ambas estavam "no meio de dunas e o menor pampero (levantava) avalanches de areia que (enchiam) as ruas e (enterravam). irem se encostar na praia. mas o espetáculo da aridez é ainda mais completo da parte do Norte. pelo menos em parte. mas incapaz de opor uma resistência vitoriosa aos furacões que às vezes se declaram no inverno. bem que furioso. visto que a barra recusa ordinariamente a passagem a todas as que demandam mais de 14 palmos (3. ali costumam largar o ferro as embarcações de lote maior. a Vila do Norte é constituída de "quatro ruas principais. exceto nas circunstâncias incalculáveis em que as altas marés de sizígios acham-se combinadas com ventos favoráveis". O comerciante francês Nicolau Dreys faz referência à Vila de S. algumas vezes. que pouco podem exceder de duzentas toneladas.[16] Dreys afirma que a cidade de S. sendo demasiadamente aberto aos ventos "impetuosos dessas paragens."[15] A comparação entre a cidade do norte e a do sul foi constante nos viajantes do século passado.08m) de água. e sendo o fundo de areia lodosa suficiente na verdade para agüentar o ferro nos tempos tempestuosos que não passam de certo grau. as casas baixas" (ISABELLE. mas como a maior parte dos negociantes ricos da região fixavam residência e armazéns "não seria conveniente privá-la repentinamente dos privilégios usufruídos. que fica em frente à vila de S. atualmente. "que no país chamam. afirmando que havia "duas cidades reunidas com esse nome" .a localização da alfândega em Rio Grande facilitava o contrabando e majorava os custos. mas ainda insuportável de todas as maneiras" e que somente "o atrativo do ganho. por contração: o norte. José. não deixa de ter sua . Mas. nem para a vida dos homens. o que não impede que do território desta vila saiam aquelas formosíssimas melancias. embarcações. José do Norte. considerando a situação de ambas não só como "mortalmente triste. todavia. etc. o problema das areias que assolavam as duas cidades. possuindo calçadas na direção norte-sul. o Norte entraria de novo. sem se suprimir o do Sul. não tem senão uma força relativa à massa posta em movimento". correrem risco maior nem para o carregamento. Dreys relata que no início do século XIX na freguesia do Estreito. levando a da margem esquerda "o nome de São José ou simplesmente do Norte" e a da margem direita. todavia. arrastando as âncoras. terminando de um lado do rio e do outro em montículos de areia. contudo. que já se mencionou. ou do Sul". O naturalista destacou como principal argumento para a triste situação. o nome "São Pedro. em 1834.Rio Grande -. não podendo. Arsène Isabelle. quanto São José do Norte tivessem a mesma denominação. "aparece no meio das areias. sua população e seu comércio aumentarão pouco a pouco. que são o sul e o sudoeste. sem. areia. Porém. o porto do norte é descrito como pouco seguro. Segundo Isabelle.. 1983: 79). embora sejam estes contrários à ordem natural das coisas. na posse dos direitos que sua posição parece lhe assegurar. no meio da qual se encontram fontes de água límpida e potável" (ISABELLE. a vila apresenta o inconveniente tão notado no litoral do Brasil de não ter cais nem lugares suficientes para o desembarque. nas circunstâncias dessas "grandes desordens atmosféricas. e só areia". melões. Suas primeiras apreciações sobre as duas localidades não foram nada lisonjeiras. 77). e nenhum interesse será sensivelmente lesado. nabos. os inconvenientes atuais cessarão. destacou-a como a "principal porta da Província". a Vila do norte é o primeiro porto e principal fundeador do Rio Grande. uma atividade portuária ou algum interesse muito grande" serviriam como razões para "induzi-las a viver". Pedro. felizmente com muito raridade".

autônoma do Rio de Janeiro e com jurisdição sobre o Governo de Santa Catarina (de 19 Distrito do Município do Rio Grande (criado em 1809).340 kg)" (DREYS. lagunense. Capitania Geral de São Pedro. reitera que a região era reconhecida e famosa "pela produção dos melões e das melancias. do governo brasileiro. etc. de militares de várias regiões do Brasil. Governo de Santa Catarina e subordinado a Capitania do Desenvolvem-se atividades ligadas a Estância Real e ao Rio de Janeiro (de 11 de agosto de 1738 a agosto de 1760). tais como as cebolas.extensão. e das raízes comestíveis. garantiria a posse frente ao litígio com os espanhóis. de remanescentes indígenas etc. O comerciante. aldeamento do Estreito. bastantemente cômodas para que o Imperador D.515 kg e o outro 11. na sua excursão ao Rio Grande. freguesias. Pedro I. pudesse morar numa delas com decência" (DREYS. Idem ao Rio Grande do Sul. A organização administrativa buscava planificar estas presenças humanas instituindo status para os locais de maior desenvolvimento. Comandância do Presídio do Rio Grande integrado ao Ligado a Comandância do Presídio do Rio Grande. de setembro de 1807 a 25 de março de 1824). Capitania de São Paulo (1572 a 11 de agosto de 1738). através de atividades econômicas. que são certamente as melhores do Brasil. 1991. 3. EMANCIPAÇAO ADMINISTRATIVA E DEFESA DO IMPÉRIO A evolução administrativa de São José do Norte ao longo dos séculos XVIII e XIX estava inserida dentro das determinações da legislação portuguesa e posteriormente. 52). deveria ser inserida nos princípios da civilização católica e portuguesa. Chegando ali uma grande personagem em 1820. Conceição do Estreito (1765) e São Luiz de Mostardas (1773) tornam-se freguesias as quais são anexadas desde 1803 à Vila do Rio Grande. apresentaram-lhe. A presença lusa. e amostras da fertilidade da terra.Evolução administrativa[17]do Rio Grande do Sul[18]e de São José do Norte SITUAÇAO ADMINISTRATIVA RIO GRANDE DO SUL Capitania de Martin Afonso de Souza e Capitania de Santana (1535-1561). de escravos negros. Governo do Rio Grande de São Pedro. que percorreu a região na segunda metade da década de 1820. A criação de vilas. distritos e municípios respondia a lógicas civis e eclesiásticas no sentido da otimização do crescimento populacional e ocupação de um território que somente a fixação humana. açoriana. dois nabos que pesavam um 32 e o outro 25 libras (14. os nabos. como objeto de curiosidade. seu comércio e suas casas nobres. SAO JOSÉ DO NORTE Mesma situação administrativa válida para o Rio Grande do Sul. Idem ao Rio Grande do Sul. independente de Santa Catarina mas subordinado ao do Rio de Janeiro (de agosto de 1760 a 19 de setembro de 1807). . 1991: 83-84). Na tabela a seguir está expresso o percurso administrativo de São José do Norte: Tabela 1 . Capitania São Vicente (1561-1572).

Em 22 de abril de 1836. com exceção das cercanias da atual sede do município. Afinal. E novamente manterá um alinhamento com a monarquia e o Império quando da Revolução Farroupilha (1835-45).A Vila de São José do Norte torna-se sede de município Província do Rio Grande do Sul (de 25 de março de 1824 a em 15 de agosto de 1832. ocorre a emancipação municipal de Mostardas. que atravessava um tumultuado período regencial. São José do Norte apresentou um importante papel na garantia de um Rio Grande do Sul português quando da retomada da Vila do Rio Grande em 1776. buscando o acesso ao porto do Rio Grande. O resultado foi desastroso para os farroupilhas que tiveram 181 mortos e mais de trezentas baixas. durante o movimento farroupilha. desfecharam um ataque para o controle do canal do norte. num combate que durou nove horas. A posição de São José do Norte. as esperanças de Bento Gonçalves da Silva e dos republicanos em controlarem a navegação no canal do Rio Grande estavam definitivamente afastadas e a República do Piratini sofria um golpe crucial. A 16 de julho de 1840. enquanto os legalistas contabilizaram 72 mortos e mais de duzentas baixas. Em 1963. São José do Norte. mas a forma monárquica e o centralismo persistiram sustentados na defesa dos laços com a civilização européia enquanto referencial civilizatório. Bojuru e Mostardas. travou-se o Combate de Mostardas. Com uma nova derrota farroupilha em Mostardas[20]a 9 de janeiro de 1841. ocorreu o Combate de São José do Norte. e a Marcílio Dias. foi de grande importância para o Império brasileiro. pelo decreto nº 91 de 25 de outubro de 1841. o Marques de Tamandaré. ambos naturais de São José do Norte e difundidos exemplos patrióticos da luta contra o inimigo externo (os caudilhos platinos) e de manutenção das fronteiras no século XIX. Foram 1200 farroupilhas contra 600 legalistas sob o comando do coronel Antônio Soares de Paiva. quando forças farroupilhas comandadas por Bento Gonçalves da Silva e com a participação de José Garibaldi. tendo como distritos o Estreito. As forças farroupilhas passaram a controlar a região. pela resistência e lealdade ao Império. o imperial marinheiro. desmembrando-se do Rio 15 de novembro de 1889). Esta marca de luta pelos valores da luso-brasilidade enquanto síntese de defesa da nacionalidade está expressa no culto oficial a Joaquim Marques Lisboa. Grande. quando 350 farroupilhas liderados por Onofre Pires da Silveira Canto derrotaram 400 legalistas aprisionando o comandante Francisco Pinto Bandeira. recebeu o título de Mui Heróica Vila. . Passa a cidade em 31 de março de 1938. o controle do porto de Rio Grande era pretensão dos chefes farroupilhas desde o início do movimento de sedição.[19] Estado do Rio Grande do Sul (a partir de 1889) A independência do Brasil em 1822 consistiu no rompimento político-administrativo com Portugal.

444 365. A alfândega criada em 1834. não significou apoio volumoso em termos de recursos financeiros ao longo do Segundo Império (1840-1889).População do Rio Grande do Sul[21]e de São José do Norte CENSOS POPULAÇAO DO RIO GRANDE DO SUL POPULAÇAO DE SAO JOSÉ PERCENTUAL SOBRE A DO NORTE POPULAÇAO DO RS 1780 17. A capela da Freguesia do Estreito foi a matriz até 1812. que é o convívio com a lagoa e o oceano como formas de sobrevivência e como projeção dos limites e possibilidades.Mapa de Nicolau Dreys e a guerra na Província (1839). Grande parte do material veio de Portugal.) foi por isto mudada a Matriz para o norte (atual cidade) por Provisão do Exm.. pode ser observada nos dados da tabela a seguir.95% em relação ao total do Rio Grande do Sul. A procissão dos navegantes em São José do Norte.846 285. faltando força política para obtenção de maiores recursos ou políticas de incentivo à agricultura ou de manufaturas. é a mais antiga do Rio Grande do Sul. 3.9% 2. constituindo uma tradição que remonta às primeiras décadas do século passado e que pode ser documentada nos jornais do Rio Grande na década de 1850. A redução no contingente populacional em relação a população riograndense.520 897. capelão-mor Caetano de Souza Coutinho. nesta redução de 10.455 2900 3598 5369 5817 8528 7.95% A queda livre na população é constatada. O desenvolvimento econômico foi lento e a dispersão populacional foi crescente.29% Partes: 1. que apresenta a população do Rio Grande do Sul e a população distribuída do Norte até Mostardas: Tabela 2 . Sr.29% para 0. 1959: 265). com escala no Rio de Janeiro. A devoção à Nossa Senhora dos Navegantes é atestada desde as primeiras décadas do século XIX. os projetos colonizatórios ligados à imigração européia. com inauguração em 1855. Esta dedicação à manutenção da ordem monárquica. A perda do papel militar e de fronteira. a diversificação das .4% 1. 2.923 1845 10.6% 0.8% 1. ficando rebaixada em capela filial curada a dita Igreja do Estreito" (IBGE.721 147. O culto à Nossa Senhora dos Navegantes está ligado a uma das principais expressões do cotidiano da população. Bispo Diocesano.. Com grandes sacrifícios foi construída a Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Navegantes em 1850. A falta de estrutura urbana e o deslocamento das dunas é um imaginário que persiste ao longo do Império. após esta data a população começou a acorrer ao "Porto do Norte onde se havia edificado a Capela de Nossa Senhora dos Navegantes (. 4 1803 1846 1858 1872 1890 36. foi extinta em 1852. sendo substituída pela Mesa de Rendas. no período de 1780 a 1890.Gravura 4 .

Eudoro. De Província de São Pedro a Estado do Rio Grande do Sul. 4. a quota que a Câmara dos Deputados Provinciais. BENTO. Observações relativas à agricultura. FORTES. já observado pelos viajantes estrangeiros. São José do Norte: aspectos linguístico-etnográficos do antigo município. Porto Alegre: EDIPUCRS. que de posse do novo ao Exmo. João Borges. Porto Alegre: Fundação de Economia e Estatística. 1941. Sr. FORTES. São Paulo: EDUSP. Rio de Janeiro: IBGE.atividades agrícolas. Corcino M. atenuada pela implantação de uma linha telegráfica em 1881. Notas sobre o Rio de Janeiro e partes meridionais do Brasil. João Santiago. 1983. Porto Alegre: Mercado Aberto. 1981. 34. Heinrich. o imaginário ligado a ocupação luso-açoriana e escravista. 1991. Porto Alegre: Tipografia do Deustsche Zeitung. LUCCOCK. BIBLIOGRAFIA ARAÚJO E SILVA.[22] O isolamento geográfico desta península situada entre o oceano e a Lagoa dos Patos. Rio de Janeiro: Biblioteca Militar. judiciária e eclesiástica do Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro: Eduardo & Henrique Laemmert. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Editora. Presidente que haja por bem mandar entregar a esta Câmara. o processo de industrialização que se desencadeou na década de 1870. são variáveis que podem explicar esta evasão populacional. John. Viagem ao Rio Grande do Sul. Um dos principais problemas. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros. Domingos Alves Muniz. Rio Grande do Sul – conquista e povoamento. pode ser comprovado neste documento da Câmara Municipal da Vila de São José do Norte. 1986. Notícia descritiva da Província do Rio Grande de São Pedro. vol. BUNSE. 1863. cultural e geográfico. Porto Alegre: Globo. A "mui heróica Vila" assistiu ao esfacelamento da ordem monárquicaescravista e à imposição do regime republicano com expectativas vagas de dias melhores. BERLINK. Nicolau. 1959. Belo Horizonte: Itatiaia. Porto Alegre: Martins Livreiro. DREYS. 1865. destacado pelos geógrafos Eudoro Berlink[23]e Domingos Araújo eSilva[24]prolongou-se na segunda metade do século passado. datado de 1849: "Indicação. comércio e navegação do Rio Grande de São Pedro no Brasil (1778) In: SANTOS. Amyr Borges & WAGNER. Domingos. Economia e Sociedade do Rio Grande do Sul – século XVIII. BARRETO. IBGE. História administrativa. mas não superada pelo isolamento político e pelos caminhos civilizatórios tomando outras direções. 1981. votarão para a remoção das areais visto que por se não tirar as areias. 1963. Arsène. a formação de um mercado regional e nacional. Cláudio Moreira. Compêndio de Geografia da Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. ISABELE. 1975. São Paulo: Companhia Editora Nacional. o isolamento político. A Guerra da Restauração. 1986. a Vila se torna intransitável". Dicionário histórico e geográfico da Província de São Pedro. .

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