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Ser Discreto
Universidade Federal da Paraíba Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes
GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções

Ser Discreto
Um Estudo do Brasil Urbano Atual sob a Ótica do Luto
Mauro Guilherme Pinheiro Koury Relatório Final da Pesquisa "Luto e Sociedade", integrante do GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções, apresentado ao Departamento de Ciências Sociais da UFPB.

João Pessoa, 2001
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Mauro Guilherme Pinheiro Koury

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Índice
INTRODUÇÃO .................................................................................................................3 A CONSTITUIÇÃO DE UMA NOVA SENSIBILIDADE ............................................. 25 A MORTE E O MORRER.............................................................................................. 66 A PERDA E O SOFRIMENTO..................................................................................... 105 VIVER O LUTO............................................................................................................ 138 TEMPOS DO LUTO ..................................................................................................... 186 CONCLUSÃO ............................................................................................................... 237 BIBLIOGRAFIA ........................................................................................................... 254 ANEXOS........................................................................................................................ 267 ANEXO 1 - QUADROS ................................................................................................. 268 ANEXO 2 - ENTREVISTAS UTILIZADAS POR CAPÍTULO................................... 300

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Introdução
"Por favor, basta. Nunca falei tanto da dor, da perda, da morte do meu amado. Desculpe... e obrigado por ter me escutado. Nunca pensei que pusesse falar do 1 que falei, mas agora acabou...". (Entrevista 12) .

Este livro tem por objetivo compreender as atitudes em relação ao fenômeno do luto no Brasil. O ritual da dor em torno do sofrimento provocado por uma perda é o ponto crucial de reflexão. Busca entender o significado social do luto e o processo de individuação de quem o sofre. Philippe Ariès (1967, 1972, 1974), Louis-Vincent Thomas (1983), Edgar Morin (1977), entre outros autores, em seus estudos, procuraram perceber as mudanças nos costumes e atitudes perante a morte e o morrer ocorridas no mundo ocidental pós-guerra. Embora constatassem a sobrevivência, mesmo que em declínio, de antigas práticas, nos meios populares e de classes médias, relataram o progressivo enfraquecimento da sensibilidade em relação aos mortos e às formas de comportamento aos que sofreram perdas recentes. Enfatizaram, sobretudo, a ambivalência das atitudes entre os indivíduos, e afirmaram esta ambivalência indicando, por exemplo, que uma mesma pessoa que terá vergonha de falar da morte ou de um morto recente comprará, sem complexos, um jazigo para si ou irá por flores no túmulo de um parente querido.

Entrevista realizada com uma mulher natural e residente na cidade de Belém, Pará, de 45 anos, viúva, com dois filhos, economista, e empresária, pertencente a classe média alta da cidade.
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A crescente individuação da sociedade moderna ao situar sentimentos à margem das relações sociais, catalogando-os como subjetividade, tem modificado uma série de rotinas tradicionais de comportamento, colocando sob suspeita um conjunto de padrões ritualísticos (ELIAS, 1990, 1993, 1989; BENJAMIN, 1985; GEERTZ, 1978;

DUVINGNAUD, 1973; WEBER, 1974, entre outros). A descrença em fórmulas rituais de sujeição social da dor pessoal de quem sofre uma perda e da integração do morto às malhas sociais através de uma série de ritos de passagem (ELIAS, 1989; ARIÈS, 1972, 1974; MORIN, 1977; BENETICT, 1972; BERGER, 1995; GINSBURG, 1989; HERTZ, 1960 e 1970, DANFORTH & TSIARAS, 1982; VOLVELLE, 1974, entre outros), além do impedimento tácito a expressões intensas de sentimento (WAUGH, 1961; ELIAS, 1989; ARIÈS, 1972 e 1974; MAUSS, 1980), mesmo quando existam, e do modo higiênico no trato do morto (ARIÈS, 1989, 1990), podem ser indicados como exemplos de mudança nas antigas práticas e relações sociais em torno da morte e do luto nas sociedades de tradição ocidental. No caso brasileiro, a morte e os modos de enfrentá-la tem sido estudada por vários autores (DaMATTA, 1987; MARTINS, 1983; CARNEIRO DA CUNHA, 1978; RODRIGUES, 1983; POMPA, PESSOA, & POLIELLO, 1987; AZEVEDO, 1987; GAUDÊNCIO, 1986, entre outros). Estes estudos estão mais preocupados na descrição e nas permanências dos costumes e atitudes em relação à morte e aos mortos, que nos processos de mudança de valores e mentalidades. A questão do luto enquanto expressão social dos sentimentos, vem sendo tratada por Koury (1993, 1996, 1996a, 1998, 1999a 2000 e 2001) e Santos (2000), mas, ainda existem poucos estudos a

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respeito nas Ciências Sociais
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do Brasil. Na maior parte dos estudos

brasileiros que lidam com a morte e o morrer, quando muito é apenas referenciada. Para este estudo, os códigos do luto e da morte buscam ser apreendidos no seu processo de mudança. Parte-se da hipótese de que a morte e sua relação com o mundo dos vivos no Brasil parece ter sido capturada por códigos outros que não os de uma sociedade relacional, estudada por Roberto DaMatta (1987) no início dos anos oitenta. O distanciamento em relação ao morto e aos que o perdem parece ser a característica principal da nova sensibilidade que começa a se formar, tornando-se uma tendência cada vez mais nítida, na sociedade brasileira urbana dos últimos dez anos, isto é, entre os anos de 1991 a 2000. A manifestação pública da dor individual torna-se mais e mais estranha ao cotidiano do homem comum, embora conviva ainda com a indignação por esse estranhamento. A exposição pública do sofrimento se vê mesclada por uma condenação velada da dor em público. A ambivalência parece predominar. No conjunto das relações sociais a tendência parece ser a de uma reprovação ao luto público, como se a dor pessoal de uma perda contaminasse (ELIAS, 1989) os outros com a presença da morte. Quem sofre uma perda parece vivenciar uma situação de ao mesmo tempo que se indigna por não obter a solidariedade esperada, por se encontrar só em seu sofrimento, se impor a si mesmo uma censura, recolhendo a sua dor, internalizando o seu sofrimento, tendo vergonha do seu estado (PINCUS, 1989). O trabalho de luto, como é chamado pela
É importante percorrer os trabalhos de Beauvoir (1982, 1984 e 1987), Kubler-Ross (1969 e 1974) Pincus (1989), Elias (1989), Paz (1984), entre tantos outros, para uma visão do
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literatura médica e psicanalítica (FREUD, 1992; KLEIN, 1940; ABRAHAM, 1970; THOMAS, 1987; GIRON, 1983; LAGACHE, 1938; RUBINSTEIN,

1995, KALDESTAD & DANBOLT, 1991, SOURSIS, 1994, LEEP, 1968, entre outros), passa a ser muito mais lento, possibilitando o surgimento da anomia (DUVIGNAUD, 1973) e da condenação pessoal. A idéia de fracasso e de desilusão com o mundo e com os outros parece sobressair com mais nitidez (JANKÉLEVITCH, 1974). Outra hipótese que percorre as inquietações da pesquisa interroga se o luto, enquanto expressão social e enquanto resultado desse processo ambivalente de atitudes que acompanha as mudanças de valores, não amplia as bases da solidão individual, sendo encoberto por uma espessa malha que delimita os contornos e o expulsa para dentro da pessoa. A solidão (KLEIN, 1991), o isolamento, parecem ministrar o compasso dessa sinfonia. O sofrimento, o processo de internalização do morto em si que compõe o trabalho do luto, nostalgicamente parece processar este ritual interior. Império da memória, dos espaços de singularização e

uniformização, dos tempos cíclico e linear, que em ondas decodificam o natural dos códigos socialmente impostos, pondo em evidência as normas e as leis morais como uma espécie de negócio de morte (CANETTI & ADORNO, 1988; KOURY, 1993; MATOS, 1987, entre outros). A idéia do fracasso, da desilusão do sujeito no ritual introspectivo de sua dor, parece impor códigos de naturalização e anonimato à morte e ao processo social do sofrimento, evidenciando uma fragmentação de sentimentos coletivos que se expressam numa espécie de receio social de contaminação (ELIAS, 1989) e na vergonha de sentir-se enlutado. Parece condenar o trabalho de luto a realizar-se como unicamente desilusão do
tratamento do luto e do morrer no ocidente.
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Um estado de sofrimento moral parece ser criado. 1968. que trata da construção dos códigos intrínsecos do segredo (SIMMEL. em seu sofrimento. POLLAK. da pessoa singular e da interação social. foi realizado um levantamento crítico de uma bibliografia referente à Sociologia. da morte como universo do silêncio. como forma de perceber o processo de elaboração e formação do Eu. à Filosofia e à Psicanálise. 1976. O estudo do fenômeno do luto.foxitsoftware. 111). em um primeiro momento. em desagregação. os estreitos e difíceis caminhos que entrecruzam a Psicanálise e as Ciências Sociais. como resultado das inibições impostas ou acarretadas como precaução ou como resultante de um empobrecimento de energia do ego (FREUD. à Antropologia. 1988 e 1998). para a sua realização. faz parte assim de uma Sociologia da Emoção (SARTRE. KOURY. O interesse deste trabalho. Ser Discreto mundo. 1998a e SCHEFF. é o de compreender como habitantes de centros urbanos no Brasil expressam o sentimento de luto e identificam mudanças e permanências nos costumes e rituais da morte e do morrer. 1986) que fundamentam as bases da experiência da pessoa e da sociedade.com For evaluation only. perdido na memória individual (HALBWACHS. enquanto compreensão do sofrimento causado por uma perda como instância individual e social. assim. priorizando na leitura o processo de formação da pessoa enquanto ser individual e social. p. fundamento da sociedade. do social.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 1972. como expressão solitária de um sujeito em descompasso. Percorreu-se. a dor do luto constrangida e envergonhada no interior do sujeito parece revelar-se como nostalgia do ausente configurado em um tempo e em um espaço singular e solidário. e dos processos de 7 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Efeito de decepção e engodo. Para a sua realização. que paralisa toda a iniciativa de decisão e ação do sujeito em um processo de ideação pessimista. 1985) do enlutado.

dos anos de 1991 a 2000. Desfile.foxitsoftware. para entendê-lo. Deu-se ênfase na revisão bibliográfica à questão dos sentimentos enquanto expressão social. . e por uma série de entrevistas abertas sobre a morte e o luto com pessoas de classe média nas diversas capitais de estados do Brasil.buscando rastear as possíveis respostas apontadas pelos colunistas referentes às atitudes contemporâneas em relação ao luto e à morte no Brasil.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e com a literatura das Ciências Sociais e Psicanálise em revisão. 8 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Embora. entre outros. Em um segundo momento. a pesquisa comportamental e a revisão da literatura foram cruzadas com a análise extraída dos dados fornecidos por um questionário distribuído via correios. isto é. baseadas em respostas a leitores.como Cláudia. bem como a reportagens especiais em relação ao tema saídas na imprensa em geral. Ser Discreto individuação e da formação de imaginários e segredos que fundamentam e enraízam atitudes. através das colunas de regras de etiquetas existentes em magazines dirigidos a um publico feminino. que sofreram o processo de perda nos últimos dez anos. Em um terceiro momento. Elle. além dos manuais de etiqueta produzidos a nível nacional e internacional. Esse material foi cruzado. seja necessário realizar incursões históricas sobre o processo de mudanças de atitudes e mentalidades em relação à morte e ao luto no país. este trabalho debruçou-se em uma pesquisa comportamental. e a literatura sobre representação social da morte e do sofrimento causado por uma perda. com a literatura ficcional brasileira que abordasse direta ou indiretamente o tema em questão. valores e comportamentos. e no mundo ocidental do qual faz parte. . em alguns casos. Não é demais afirmar que o universo desta pesquisa é o Brasil urbano atual.com For evaluation only.

procurou-se. e b) por quais mudanças tem passado o fenômeno do sofrimento causado pelo luto até os dias atuais.foxitsoftware. Ser Discreto A pesquisa Durante os anos de 1997 a 1999 foram realizadas em todas as capitais de estados brasileiros3. O objetivo central foi a busca de compreensão das atitudes recentes em relação ao fenômeno do luto no Brasil. necessários para o alcance do objetivo central. O entendimento desse ritual solitário do sofrimento e do ritual social da despedida se entrecruzando em gestos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Interessa a este livro verificar o lado público do sofrimento de quem fica no momento seguinte imediato à constatação da morte. comem e conversam o morto. aplicações de questionários com 1304 informantes. atentar para: a) o entendimento de como foi internalizado enquanto processo simbólico o significado social do sofrimento no imaginário brasileiro. Como objetivos específicos. ao lado da reunião social onde parentes e amigos presentes bebem. de desespero.com For evaluation only. expressões e atitudes. em constantes movimentos de mudança e permanência é a base de inquietação deste trabalho. com o sentido de aprofundar as reflexões iniciadas nos questionários. ver Quadro n. e que reações tem enfrentado junto aos homens comuns das camadas médias urbanas. Compreender as expressões de dor. e 259 entrevistas abertas com uma segunda amostra a partir dos 1304 respondentes. A hipótese de trabalho inicial foi construída a partir de um dado comum nas pesquisas em Ciências Sociais de que quanto menor o centro urbano mais tradicional seriam os costumes e as expressões de sentimento 3 Vinte e sete cidades ao todo. entre outros. 01 9 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . de desamparo.

Natal. 2.442 habitantes. Rio Grande do Norte.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Fortaleza. habitantes. Recife. contra 75. Teresina. 2. 662. São Paulo. Neste modelo.932 habitantes. Rondônia. Ceará.544 habitantes.422 habitantes.229. Paraíba. habitantes. 867.947 habitantes. Paraná. divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE. As cidades pesquisadas.318 habitantes. Acre. 1.foxitsoftware.861 habitantes. religiosas ou de cunho moral.586.406.6% no início da década. Maceió. Os dados preliminares divulgados pelo IBGE apontam ainda que no final dos anos da década de 1990 houve um aumento significativo da população brasileira que vive nos perímetros urbanos. Curitiba. isto é. Minas Gerais. Rio Grande do Sul. mostram para a década de 1990.234 habitantes.898 habitantes e Palmas. ligados ao trabalho de luto e as representações sobre a morte e o morrer4. Bahia. os seguintes números de habitantes por capital de estado nacional: Rio Branco. 714. Boa Vista. Rio de Janeiro. Alagoas. Pernambuco. as relações individualistas seriam ressaltadas pela população e mais dinâmicas seriam as mudanças nos hábitos locais das comunidades e indivíduos estudados.534 habitantes. Belo Horizonte. Salvador. 1. Ser Discreto local. Brasília.359.2%.800 habitantes.886 habitantes. 594. 460. capitais de estados do Brasil. Quanto maior o centro urbano.498 habitantes. 10. são profundamente desiguais enquanto dado populacional. Mato Grosso. Pará.421.842 habitantes.796 habitantes. Maranhão.745 habitantes. Santa Catarina. Aracaju.922 habitantes. 334. 796. Roraima. 282.585 habitantes. Piauí. Campo Grande.898 habitantes. 10 Mauro Guilherme Pinheiro Koury 4 .850.690 habitantes. João Pessoa. 1. Goiás. Os resultados preliminares do censo 2000. Amazonas. o espetáculo do anonimato pelo e através do grande conglomerado populacional quebrava barreiras da tradição pela destruição de práticas rituais comunitárias. Distrito Federal.383 habitantes. Tocantins.403. Florianópolis.166 habitantes. São Luís.954. 1. Porto Alegre.440.com For evaluation only.554 habitantes. Macapá. 136. Belém.581 habitantes. 1. ao contrário. 81. São Paulo. 482. Esta hipótese inicial foi sendo modificada no decorrer da análise. 1. Goiânia. Porto Velho.138. libertando os indivíduos das amarras sociais e os fazendo encarar ou enfrentar a sociedade como um desafio a ser vencido por e através de suas próprias forças e representações. Rio de Janeiro. 1.090. 200. Vitória. por exemplo. Espírito Santo. O dinamismo das relações sociais associadas aos grandes núcleos urbanos tem por trás um modelo de cidade erguido nos finais do século XIX e que consolidou-se durante todo o século XX. Mato Grosso do Sul. Amapá. Sergipe. por seus membros se encontrarem envolvidos em relações comunitárias intensas e presos ainda a fortes tradições familiares. 252. 5. Manaus. Cuiabá. 2.697 habitantes. em 1991. 709.279.

ao passo que os grandes grupos societários. a comunidade. e onde existia uma tendência a uma presentificação das relações sociais que. nos escritos de Benjamin e Adorno. Marx e a Escola de Frankfurt. neste trabalho. se encontravam sujeitas a uma lógica de mercado e de individualidade extremadas permeou a representação das cidades modernas em muitos autores que buscaram estudar e compreender a modernidade. A polaridade entre idéia de comunidade e de sociedade ficaria assim como um pano de fundo comum à idéia de que pequenos grupos societários. mas de observá-las em relação. seriam um locus de tradição. como dois pólos antagônicos. foram aferidas nuanças sobre este modelo de cidade onde a dissolvência do homem público cedia lugar cada vez mais a um indivíduo interiorizado e preso a um espaço privado de si mesmo. por sua vez. seriam o local ideal para o desenvolvimento do individualismo e do indivíduo interiorizado e privado. como frutos desiguais de processos de modernização por que passou e vem passando a sociedade brasileira a partir dos anos de 1970 aos dias atuais. de não considerar as referências maior e menor presentes na hipótese inicial. encarnada aqui através da forma de metrópole. passando por Durkheim. O conjunto de respostas enviadas pelas diversos centros urbanos brasileiros. ou vice versa.foxitsoftware.com For evaluation only. De Simmel e Tönnies a Weber. a sociedade. Teve-se o cuidado. Qual foi a surpresa ao verificar através dos dados levantados que não existe um processo de equivalência entre maior centro urbano e menor número de respostas favoráveis a práticas ritualísticas ligadas ao luto e aos processos da morte e do morrer ou presas a tradição. Ser Discreto A idéia de metrópole como um espaço onde as tradições seriam constantemente desfeitas e remontadas em novidades crescentes. porém. 11 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. se respondem aos mesmos estímulos e freqüentam o mesmo imaginário. 12 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . são muito próximos nas suas indagações. para as cores e padrões específicos locais. refere-se cada vez mais a práticas específicas locais para pensar o nacional e o mundo. por outro lado. e as adequações locais e regionais experimentadas e assumidas por cada capital em função de sua formação específica enquanto cidade e enquanto origem. o remetem. se de um lado enfraquece as bases da tradição enquanto elemento sentimental de resguardar práticas específicas locais. Ser Discreto capitais dos vinte e sete estados que compõem a nação. A posição frente a vida e os hábitos e costumes da população permitem pensar em um padrão nacional. Após os anos de 1970 e principalmente após os anos oitenta o Brasil passa por uma série de transformações estruturais a nível da cultura que torna as expectativas e o conjunto de experiências reais e imaginárias sobre regras de comportamento e ação comuns a todo o complexo urbano da nação. por sua vez. assim. Local e nacional deste modo vivem uma constante inter-relação e um estado de reformulação contínua que.com For evaluation only. inquietações ou indignações a respeito dos costume e hábitos ligados à pratica do luto e da morte no Brasil. As conformações urbanas. embora com coloridos e especificidades comuns a cada região e a cada cidade específica. Esse novo conjunto de indagações deixou de lado as relações entre os conceitos de tradicional e moderno e buscou ressaltar as conformações e os modos de vida nacional enquanto expectativas de uma população urbana sujeita aos mesmos estímulos e práticas de ação. O que encaminhou o trabalho para o abandono da hipótese inicial e para um novo tipo de indagação sobre o processo em que se debate a população urbana brasileira em seu conjunto em relação ao uso de hábitos e costumes e suas representações ligadas ao ritual da dor e da morte.foxitsoftware.

Anota-se aqui mais as semelhanças das inquietações que norteiam o desvendar do homem urbano nas cidades brasileiras de hoje. contudo. . Não se deterá no colorido local de cada cidade.com For evaluation only. O campo de análise investigado estará delimitado assim às estruturas comuns informadas pelas respostas dos entrevistados às questões formuladas. tomado como um todo. do que as formas de apreensão deste sentimento comum e as adaptações possíveis por cada região. O conjunto dos dados oferecidos à análise por um tipo de instrumento. sem contato pessoal do entrevistador com o entrevistado. Seja como choque ou conflito inevitável com o costume e a moral sedimentados.e a sua forma de aplicação. nas próprias expectativas e experiências reais e imaginárias do homem urbano brasileiro contemporâneo. Ser Discreto A modernidade deste modo parece configurar práticas e pensamentos cada vez mais intricados. seja ainda como conformação de novos hábitos e práticas impessoais da sociabilidade. possibilitou também um conjunto de indagações que podem ampliar o leque compreensivo do alcance desse tipo de busca. por via indireta. porém pensados e agendados a partir de cada tecido organizacional local. Um e outro servindo como contraponto as formas de compreensão possíveis das configurações atuais do homem urbano brasileiro.foxitsoftware. Este trabalho. a não ser quando necessário exemplificar alguma atitude ou reação particular e específica.o questionário.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em uma rede nacional de referência comum. através de um serviço de mala direta. emergente nos últimos trinta anos no país. estado ou cidade específica. Não é o objetivo deste trabalho deter-se em uma análise minuciosa dos limites e das oportunidades analíticas oferecidas por esta técnica de pesquisa e sua 13 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . prender-se-á mais do que nas possibilidades de adaptação dos sentimentos e indagações comuns a cada local. .

. 14 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ou a ausência deste. os conceitos. enquanto formas simbólicas sociais que estão além da experiência particular e privada de alguém. se movimentam e se relacionam os entrevistados. ampliou o leque de informações não só para a experiência pessoal do sofrimento. Os impasses. mas que preenchem todo um momento ritual de significância pessoal e grupal.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto forma de utilização.objeto principal da pesquisa para o qual o questionário foi aplicado. de Neuman (1994). a ambivalência ou o conteúdo de verdades e normas de ação comportamental com que se representam. de Frankfort-Nachmias & Nachimias (1992).com For evaluation only. entre outros. movidos por um conjunto de regras e etiquetas de ação sobre o comportar-se no momento de luto ou em relação a uma pessoa enlutada. O que conformou as bases analíticas para o pesquisador. Revelaram atitudes. Ë necessário contudo deter-se na particularidade da amostra conseguida através do envio espontâneo de respostas por uma população cujo controle escapava das mãos do pesquisador. mas para a experiência imaginária da dor proporcionada pelo luto e pelo morrer. representações e formas imaginárias que possibilitaram um adentrar-se nas conformações estruturais que norteiam o comportamento do homem urbano no Brasil de hoje. A apreensão dos significados apresentados pelo conjunto das respostas atravessaram inquietações que estão além do ato individual em si. Os 1304 questionários válidos retratam uma população urbana de uma faixa etária de 15 a mais de 60 anos que teve uma experiência direta ou não com o trabalho de luto. os preconceitos. As respostas sobre os significados intrínsecos ao processo do luto vivido ou imaginado desta forma. o qual pode ser encontrado em vários estudos específicos como os de Nogueira (1972).foxitsoftware.

Trabalhou-se. assim. foram configurados códigos facilitadores para a análise a partir das respostas emitidas para cada questão. se por um lado permite a elaboração de um inventário de possíveis ações e reações em relação a hábitos e costumes. Em muitos casos. o problema do uso de questionário como instrumento de pesquisa e análise é o seu caráter eminentemente fechado de respostas o que.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. outros indivíduos que não haviam respondido o questionário mais que foram indicados pelos informantes entrevistados 15 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . assim. Foram realizadas 259 entrevistas abertas com indivíduos dos vinte e sete centros urbanos pesquisados. por outro lado. Como se sabe. Ser Discreto O elenco de possibilidades demonstradas pelas respostas permitiu. Selecionados a partir dos questionários respondidos. e realizados os trabalhos de tabulação dos 1304 questionários.foxitsoftware. Para um melhor uso das questões presentes. serviram em um segundo momento para a construção de um roteiro aberto de entrevistas com uma parte selecionada dos informantes que se permitiram responder ao questionário. com um conjunto questões organizado em torno de um núcleo comum: as representações sobre o luto e sobre a morte e o morrer.com For evaluation only. não aprofunda verticalmente as questões emitidas. transformadas em códigos analíticos. foram posteriormente contatados pelo pesquisador através de carta postal ou telefone e agendadas entrevistas a serem realizadas em datas posteriores previamente marcadas. Para cada cidade o pesquisador passou três a cinco dias envolvido com o elenco de entrevistados que se dispuseram a falar de sua experiência de sofrimento pela vivência de um luto de um ente querido. Os dados às questões emitidas pelo questionário. por sua vez. traçar um perfil do comportamento urbano brasileiro. nos limites objetivos de um questionário padrão.

que aparece. o morrer e o luto. mesmo que se trate de uma vivência pessoal. Apesar de situar o sofrimento como elemento norteador do roteiro. Nos questionários buscou-se. ou como o sofrimento experimentado por um outro abstrato. o questionário esteve mais preocupado em delimitar as fronteiras do imaginário sobre os significados simbólicos e ritualísticos desse sofrimento. por sua vez. tornando possível falar sobre ele sem necessidade de uma verticalização na vivência própria desse processo do informante. Convém salientar a dificuldade de um trabalho desse tipo por envolver questões delicadas naqueles que se permitiram dispor como informantes à pesquisa. Tanto assim que as entrevistas. Uma viagem discursiva de difícil realização por tocar em sentimentos.foxitsoftware. muitas dificuldades foram encontradas pela nebulosidade das fronteiras entre o falar hipotético sobre a morte. aplicadas sobre uma amostragem dos questionários. e dos rituais e cerimonias que os envolvem. foram realizadas apenas pelo pesquisador principal. buscaram aprofundar o sentido expresso no sofrimento pessoal de quem viveu um processo de perda. como aquele enquadrado em respostas mais conceituais sobre a realidade do luto e da morte.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. As entrevistas. colocados sob o signo de esquecimento ou sob a forma de silêncio do 16 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e o falar da vivência desses significados a cada informante.com For evaluation only. A diferença dos questionários respondidos diretamente pelos informantes. Um diário de campo foi elaborado constando da experiência do pesquisador em cada entrevista e em cada cidade pesquisada. em muitos casos. Ser Discreto foram contatados ou procuraram o pesquisador para relatarem o seu processo de luto. principalmente. um discurso mais abrangente do informante a respeito do processo de morte e do morrer e dos processos de luto. aqui. Mesmo assim. Por discurso mais abrangente se está entendendo.

embora compreendendo a situação. seja através da teatralização de seu discurso. Ofereceram-se ao entrevistador com uma confiabilidade conflitante. Mauro. neste encontro. o pesquisador é informado da morte da mãe de sua colega. independentemente da forma. Os papeis de pesquisador e de amigo ao serem confundidos. pela morte de sua genitora. colocando o entrevistador em cheque durante todo o processo de entrevista.com For evaluation only. Uma amiga pessoal do pesquisador. pôs em cheque a si mesmo. seja através da minimização de sua experiência.foxitsoftware. para demonstrar a dificuldade do lidar com o processo de sofrimento na realização de um trabalho de luto. acontece um encontro com o seu marido em um dos congressos nacionais das Ciências Sociais e. Um exemplo anedótico é dado aqui.. e um hiato de incomunicabilidade parece ter sido criado. as entrevistas não poderiam ser realizadas por outro membro da equipe que o pesquisador principal. vê a amiga. na medida em que o sofrimento do outro o invadiu como silêncios que entravam em conflito com os processos pessoais de sua sensibilidade ao ato geral da dor e à reflexão específica do sofrimento de um outro presente que se dispôs como informante. De difícil realização5. Passado algum tempo. Se dispor a falar com um desconhecido sobre uma vivência significativa de dor causada pelo sofrimento pessoal de perdas de entes queridos. foi repetido os votos de afeto e do respeito pela sua dor. você já está querendo fazer uma entrevista sobre o meu luto? . não foi um processo de fácil realização para os informantes. e da significância de sua narrativa. antropóloga. O entrevistador mesmo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e tocar em assuntos esquecidos ou silenciados. logo no início desta pesquisa predispôs-se a responder algumas questões sobre um processo de luto por ela vivido pela morte do seu irmão durante a ditadura militar. no mesmo congresso. ". levou a uma espécie de mal 17 Mauro Guilherme Pinheiro Koury 5 . e do seu abatimento e sofrimento pessoal. se direciona para ela e dá as condolências de cortesia. A cumplicidade distanciada e conquistada a cada entrevista requereu do entrevistador um adestramento temático e uma postura confessional que permitisse ao informante sentir-se confiante sobre o que falava. do modo. da intencionalidade e da tensionalidade discursiva expressa. A situação é de um enorme constrangimento. e rispidamente diz: "Qual é.. Ela o olha. a cada momento. Ser Discreto informante para si próprio. como objeto de pesquisa. Neste mesmo dia.

Muitas com difícil começo. os limites de cada narrativa sendo ultrapassados pela disponibilização de um ouvir atento do outro (o entrevistador). 18 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . bem como possibilitaram a elaboração de um roteiro compreensivo para uma análise sobre a relação luto e sociedade no Brasil contemporâneo. algumas durando quase oito horas sem intervalo. da morte e do morrer aqui trabalhados. a construção de um mapa do sentimento brasileiro sobre o luto e o morrer. idade. foi necessário a realização de um levantamento dos dados que permitissem uma caracterização social e econômica do universo da pesquisa. Questionário e entrevistas permitiram assim. até para os próprios informantes. escolaridade.com For evaluation only. renda e religião presentes na amostra pesquisada. em muitos casos se pronunciavam pela primeira vez. de condolência pública pelo luto de alguém amigo.foxitsoftware. Caracterização dos entrevistados Para uma melhor compreensão sobre a questão do luto. estado civil. e pelo esforço de se adentrar nesse mundo fragmentado de silêncios e esquecimentos que. quase formal. Os questionários recebidos e considerados válidos obtiveram uma equivalência relativa ao número total de questionários enviados para cada estar momentâneo da relação. Em momentos específicos a intimidade formada e estabelecida criava armadilhas ou ardis. com uma dificuldade imensa de se estabelecer as bases de confiabilidade necessária para o início do depoimento.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Os dados de caracterização trabalhados foram os referentes ao sexo. profissão. outras de quase impossível finalização. Ser Discreto As entrevistas realizadas tiveram uma duração média de quatro horas e meia.

O que pode ser visto no Quadro N. Espírita.73% e de 60 anos e mais. Umbanda e Candomblé. 3.37%.com For evaluation only. 1. Ser Discreto cidade. com 18. anexo.foxitsoftware. 31. 8. O universo pesquisado também se caracterizou por um percentual de 50% de indivíduos casados. 11 Conforme pode ser verificado no Quadro N. contudo.03% do sexo masculino7. contra 29. 8 Como se pode verificar em uma rápida olhada no Quadro N. pode-se afirmar que houve uma concentração acentuada de respostas oriundas de indivíduos situados nas faixas etárias de 26 a 59 anos.35% de viúvos. Assembléia de Deus. contra 14. Igreja Universal do Reino de Deus. O que proporcionou. 4. 14. 10 Conforme pode ser visto no Quadro N.06% de solteiros9.10 Aos que responderam possuir algum tipo de religiosidade. anexo. 35. anexo. A amostra indicou um percentual de respostas de 60. 92.50%. Este conjunto distribuiu-se em quatro faixas etárias: de 15 a 25 anos. 2. 68. onde se encontra retratado o total de respostas de cada cidade e o percentual da amostra em relação ao número total de questionários válidos.44% de outras religiões (Budista.10% dos entrevistados. Ao se unir as duas faixas etárias intermediárias8. 19 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . No que diz respeito a religião. 6 7 Conforme pode ser visto no Quadro N. Renascer.42% de religiões protestantes e evangélicas (Batista. deste modo. de 26 a 39 anos. de 40 a 59 anos. o que satisfez um total de 67. 6. e 9.59% de divorciados ou desquitados e 12. contra apenas 7. anexo. contra 39. entre outras)11. entre outras).51% que afirmaram não ter qualquer tipo de religião. 5. de acordo com o número de habitantes.49% dos entrevistados responderam freqüentar alguma Igreja.63%.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. anexo. um equilíbrio na análise das relações entre as cidades pesquisadas6.97% de indivíduos do sexo feminino. a grande concentração de respostas recaiu sobre o freqüentar a religião católica. 9 Conforme pode ser visto no Quadro N.40% do total dos entrevistados.

mas também por se configurar em um tipo de religião que. a partir da metade da década de 1990. Classe Média Uma população com renda entre 06 até 20 salários mínimos.com For evaluation only. Apesar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. figurou como a religião obrigatória no país e ainda detém vínculos quase oficiais e em muitos casos exclusivos com o Estado nacional. que primam por um rigoroso controle na vida dos seus fiéis. de a mesma ter sofrido modificações de suas atitudes. Interessante não apenas pelo fato de ser tradicionalmente a mais significativa em termos de adeptos na história do Brasil. Ser Discreto Embora esperado. como o conjunto aqui denominado de religiões evangélicas. 20 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Diferente de outras religiões. e com uma educação formal situada entre o segundo grau completo e superior. como foi o caso da recente obrigatoriedade do ensino católico nas escolas públicas brasileiras decretada. e uma grande dissociação entre práticas religiosas e práticas cotidianas da vida comum. é claro. por muito tempo. Outro elemento que ampliou o interesse do pesquisador para o fato mencionado foi o fato de o catolicismo ser a Igreja que detém os laços mais frouxos em relação aos fiéis e aos costumes e rituais ligados ao exercício social cotidiano. com a emergência e prática do segmento carismático no seu interior. não deixa de ser interessante o fato do maior número de respostas do universo pesquisado recair entre os que freqüentam a Igreja Católica. pelo atual governo de Fernando Henrique Cardoso. Parecendo impor a estas últimas uma submissão as primeiras. no ano 2000.foxitsoftware. como uma tendência que busca recuperar os fiéis através de um retorno ao sagrado e pelo fanatismo religioso associado a um processo de mercantilização midiático. consideradas como principais e como norteadoras moral dos seus fiéis.

uma grande participação de aposentados. pp. 86 e 89) trabalhando com segmentos de classe média da cidade do Rio de Janeiro revelou os desencontros dos indivíduos que a informam diante do domínio público e uma tendência à centralização em torno de um conjunto de valores em que a sociabilidade de caráter mais intimista é o valor chave de compreensão. Gilberto Velho (1986. contudo. donas de casa e estudantes.foxitsoftware. 7. 21 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . revelou-se para este trabalho em um elemento importante de análise. contudo. bem como da amostra posterior para o aprofundamento em entrevistas abertas. comerciantes. A configuração de um problema sobre a não similitude da distribuição dos entrevistados segundo as faixas de renda e a escolaridade a partir dos padrões existentes na sociedade brasileira. 12 Conforme pode ser verificado através dos Quadros N.87% dos indivíduos que responderam e devolveram os questionários considerados válidos para a pesquisa. com um total de 62. ser entre esse segmento que se configuram uma maior sensibilidade ao novo e a uma ambigüidade em relação aos padrões de tradição a que potencialmente estão inseridos enquanto habitantes de cidades específicas. Ser Discreto apresentou-se ao trabalho. A tensão entre os espaços público e privado parecem nortear assim a avaliação do ser sujeito no mundo. de escolaridade e o perfil das profissões dos informantes. assim.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. A motivação da classe média em responder a esse tipo de questionário tornou-se um dado interessante por. 8 e N. aparentemente. O número maior de respostas. 9. anexos. Em sua maior parte constituída por profissionais liberais. empresários e militares.com For evaluation only. N. que retratam o nível de renda. vieram de entrevistados situados no que se convencionou aqui chamar de classe média urbana12. sem esquecer. através de uma fragmentação acelerada das esferas de vida social e cultural em que estão inseridos.

como os que se configuram com os rituais da morte e do morrer e os rituais do sofrimento. principalmente. individualmente. O que pode significar um tipo de necessidade de exposição das trajetórias pessoais e dos desencontros sociais em um assunto considerado tabu. parecem ter gerado na classe média. de algum modo. parecem manifestar a sua inquietação com os processos por que passa a sociedade nacional nestes últimos trinta anos. mas que ainda se encontram consolidadas no imaginário social e na expectativa de cada um. contra atitudes mais comunitárias e tradicionais.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Em especial àqueles ligados aos ritos de passagem traumática. um desconforto processual e uma ambivalência de sentimentos e significados relacionados com as formas de viver em sociedade. o que o indivíduo pode ou deve fazer a cada momento ou em cada relação dada. Processos que a atinge. por meio do aprendizado sobre como comportar-se e sobre qual o verdadeiro lugar de cada pessoa no intercurso social diário. ao se colocar prontamente para as respostas solicitadas em um questionário sobre a relação luto e sociedade. Se entende aqui por etiquetas. ao inserir novos elementos que provocam a emergência de atitudes mais individualizantes nas relações sociais.foxitsoftware. enquanto conjunto padrão de atitudes morais.com For evaluation only. Este conjunto de regras culturais define em última instância as necessidades sociais aceitas e as inaceitáveis e. mais do que as outras de status social mais baixo e mais alto. Ser Discreto A classe média desta forma. um conjunto de regras repassadas a um indivíduo ou grupos de indivíduos. 1986a). Pode ter o significado também da angústia de não ter respostas 22 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . mais do que nos demais segmentos sócio econômicos. a tenciona e a coloca em choque com as regras de etiqueta que parecem não mais satisfazer as práticas cotidianas. A diferenciação das esferas da vida social cotidiana (SIMMEL.

Ser Discreto adequadas sociais à questões que são tratadas freqüentemente como individuais e subjetivas. possui o título de A Morte e o Morrer. Tendo por base analítica o ritual do sofrimento de um indivíduo que sofreu a perda de um ente querido. prioritariamente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ainda. urbano. através da compreensão de um conjunto complexo de práticas. e portando como não fazendo parte do dia a dia dos sujeitos em relação na sociedade mais ampla. Discute as noções de morte e do morrer e as modificações por que vem passando a sociedade brasileira nos últimos trinta anos finais do século XX. na sua busca de compreensão dos processos e mudanças comportamentais por que passou e continua a passar a sociedade brasileira. O primeiro. entre outros. O segundo capítulo. que este livro irá se debruçar. no Brasil. ou as representações sociais sobre os significados do processo de luto. Este livro é composto por cinco capítulos. assim. É sobre estas camadas médias urbanas. e de como a sociedade cria e estabelece os processos integrativos necessários à sobrevivência do social a partir dos indivíduos. Qualquer dos caminhos sugeridos é possível de configurar como um indicador. usos e costumes sociais que intermediam e orientam o agir individual de quem sofre uma perda. neste início de século. Para tal. dos impasses porque vem passando a sociedade brasileira urbana nos últimos trinta anos. Entende a construção social do sofrimento através da teia de ilusões e expectativas que conformam o sujeito individual e social. faz uma remontagem histórica sobre as atitudes perante a morte e o morrer na 23 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . de classe média. da solidão que parece mascarar o cotidiano de quem sofreu a experiência do processo doloroso da perda de entes queridos. indaga a conformação atual do homem comum.foxitsoftware.com For evaluation only. como o título já indica. Pode ter o sentido. intitulado A Constituição de uma Nova Sensibilidade.

imaginárias e relacionais sobre a perda. reais. compreende como os informantes entendem o processo de luto. Como encaram o sentimento de luto. de classe média. O quarto capítulo chama-se Viver o Luto. o processo de ação social e a construção de significados e tentativas de nomeação. por sua vez. estão vendo as mudanças e inquietações na vivência de uma pessoa que sofreu uma perda. Discuti-se. no Brasil urbano do anos de 1970. do passado recente e do presente brasileiro. sentem e exprimem a vivência do luto. vividos ou por eles imaginados. a partir dos depoimentos de informantes. no decorrer do capítulo. por fim. através de uma comparação com os aspectos sociais e pessoais.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. intitulado de Tempos do Luto.foxitsoftware. e as dificuldades e facilidades das relações sociais advindas da experiência deste processo. discute A Perda e O Sofrimento enquanto categorias analíticas expressas pelos informantes. até a entrada do século XXI. O quinto capítulo. Nele. 24 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e que modificações eles apontam para a história recente dos costumes funerários na cultura brasileira. para compreender como os indivíduos entrevistados se colocam em relação aos dois processos no Brasil atual. ou dos outros relacionais. principalmente. Ser Discreto Europa e no Brasil. o luto e o sofrimento. se compreende como os informantes vêem. Nele se procura entender como os brasileiros urbanos. O terceiro capítulo.

pelo emaranhado de ilusões e expectativas formadoras do sujeito. A construção social da dor e do sofrimento passa. deste modo. Faz um contraponto entre o imaginário do homem comum e as mudanças sociais ocorridas em relação ao trato da morte e o sofrimento por uma perda no Brasil.. não digam que a vida continua.com For evaluation only. que o tempo ajuda. é a definição aqui utilizada para o termo ritual do sofrimento. e pelo como a sociedade cria e 25 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto Capítulo 1 A Constituição de uma Nova Sensibilidade "Não digam que isso passa. usos e costumes sociais que intermediam e orientam o agir individual de quem sofre uma perda.foxitsoftware.) Da minha vida sei eu".) Não digam nada (. que afinal tenho filhos e amigos e um trabalho a fazer. Busca compreender as relações entre luto e sociedade... (. O ritual do sofrimento é o ponto central da reflexão. O conjunto complexo de práticas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.. Lya Luft (1991) Este capítulo procura responder a questão de como é sentido o luto na sociedade brasileira urbana atual.

foxitsoftware. como os indivíduos interagem no social. uma leitora descreve sua mágoa com a escassez de atos de solidariedade recebidos. 26 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . através da criação de interseções entre o imaginário individual e social. “De uma amiga ouvi.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. (1997). Para tal. neste trabalho. p. seja como pessoas singulares ou como grupos. Koury. Por ser. Na coluna “Modos e Maneiras” de um magazine feminino (Claudia. espantada. e as mudanças sociais e comportamentais vivenciadas no trato da morte e do morrer no Brasil. se valerá da análise de expressões emitidas por regras de etiquetas desenvolvidas por colunistas sociais em revistas nacionais dirigidas para um público com perfil de classe média urbana. Ser Discreto estabelece os processos integrativos necessários à sobrevivência do social a partir dos indivíduos13. por estar. e como exercitam no cotidiano a tensão entre o ser e estar socialmente definidos. (1999). e inquieta indaga: “O que se deve fazer quando uma pessoa próxima de um amigo falece?” A redatora da seção busca explicar a falta de solidariedade pela sobrecarga de atividades e correria da vida atual. Mauss. que ‘luto não se usa mais’. Este capítulo. entre outros. bem como das narrativas de informantes entrevistados e dados do questionário padrão. discutirá a questão de como é visto e sentido o fenômeno do luto.com For evaluation only. Interessa compreender. enfim. embora indique como 13 Ver. (1994). o conjunto de regras e valores integrativos definidores da posição do indivíduo na sociedade e da margem de suas expectativas no social. Maio 1994. Será verdade?”. Além de passar em revista conceitos psicanalíticos aqui tratados e comentados à luz das Ciências Sociais. (1974 e 1980) e Ricoeur. aqui. 10). se entende. o conjunto de representações afirmativas do eu enquanto pessoa única e ao mesmo tempo integrante de um conjunto moral e. para uma discussão metodológica sobre a dor e o sofrimento social: Burkitt.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Processo onde se mesclam a perda de sentido do mundo e o sentimento de exclusão social. assim. através do refreamento das ações de partilha do sofrimento alheio e o mascaramento do morrer em quem fica.com For evaluation only. embora este conviva ainda com a indignação por esse estranhamento. ou com a presença no enterro ou na missa de sétimo dia. A recusa ou a expressão discreta de condolências a quem sofre uma perda e o ritual solitário da dor causada pelo sofrimento em quem vivência um processo de luto. um cartão. O isolamento do sofrimento individual tende a se fazer. e a resposta da redação. Ser Discreto correto uma manifestação discreta quando um amigo perde um ente querido. A manifestação pública do sofrimento individual tende a tornar-se mais e mais estranha ao cotidiano do homem comum. O estranhamento da demonstração da dor e do sofrimento em público parece vir se consolidando como tendência de universalização de uma nova 14 Que responde por mais de 80% da população brasileira. O que pode ser na forma de uma rápida visita. A morte e sua relação com o mundo dos vivos parece ter sido capturada por códigos outros que não os de uma sociedade relacional estudada por Roberto DaMatta (1987) no início dos anos oitenta. 27 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . principalmente de classe média. mostram uma das possíveis formas atuais da vivência do luto no Brasil. segundo dados do IBGE (2000). na sociedade brasileira urbana14 dos últimos trinta anos. cada vez mais nítida.foxitsoftware. em um movimento solitário e nostálgico de individuação. A mágoa e a inquietação expressa pela leitora quanto a falta de solidariedade ao sofrimento de quem sofre uma perda. O distanciamento em relação ao morto e aos que o perdem parece ser a característica principal da nova sensibilidade que começa a tomar forma.

que parece revelar a expressão de emoções através do luto como uma espécie de vergonha. no Brasil atual. Pessoa e Pompa (1987). 10. Para estes. a coletânea organizada por Martins (1983). A expressão do sofrimento parece anunciar ou denunciar a idéia de fracasso e de medo de ser visto pelos outros através desta idéia. em público. aqui. permeia a totalidade do social. particularmente do luto. temor e ambivalência no comportamento brasileiro médio.foxitsoftware. os estudos de Poliello. Os segmentos médios mais intelectualizados parecem ser os que mais vivenciam tal tendência que. Rodrigues (1983) e Carneiro da Cunha (1978). indicam este sentimento de distanciamento público de expressões de emoções. o comportamento do enlutado deve ser o de encontrar apoio na tradição que trata da questão do luto nos diversos grupamentos e instituições sociais do que fazem parte. Ser Discreto sensibilidade no trato das emoções.60% dos informantes. causando indignação. porém. no lidar com o seu sofrimento. solicitada no questionário aos informantes.34% dos informantes. de certa forma. como o comportamento ideal de um sujeito enlutado16. 28 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a tradição parece assegurar uma forma de assentamento social que assevera o apoio a um sujeito especifico em uma crise vivida.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. é a tônica dominante de um discurso expresso pelos informantes. O ser discreto no trato de sua dor. anexo.com For evaluation only. A discrição foi indicada por 77. Para 15. experimentado pela sociedade brasileira urbana atual. 16 De acordo com o Quadro N. As respostas a pergunta sobre qual deve ser o comportamento de uma pessoa em trabalho de luto. além do trabalho já citado de DaMatta. especificamente. O que permite 15 Sobre usos e costumes no trato da morte no Brasil ver. em relação ao sofrimento vivido durante o processo de luto. Embora práticas relacionais desindividualizantes continuem a existir e sejam fortes ainda em diversos segmentos e instituições sociais brasileiras15. entre outros.

O sofrimento não interessando a ninguém mais do que a este alguém personalizado que a vivencia. A ambivalência predomina. por 7. como se a dor causada pelo sofrimento pessoal de uma perda contaminasse os outros com a presença da morte17. mas que este sofrimento é pessoal. deste modo. não significa que o indivíduo não esteja envolvido em seu sofrimento. O comportamento do enlutado. e diz respeito apenas àquele que o sofre. é informada. Ser discreto. por uma condenação velada do sofrer em público. como uma forma de se salvaguardar socialmente e livrar-se de afirmações sociais que parecem ter o poder de possibilitar denegrir sua imagem pública. nesses momentos.06% dos informantes. porém. agir como catarse da desilusão social e com o socialmente vivido enquanto regras e ações públicas. A exposição pública do sofrimento se vê mesclada. depende do caso. o luto social por figuras públicas no Brasil. assim. por exemplo. Depende da proximidade da pessoa com o ente querido morto. Ser Discreto o desenvolvimento de mecanismos de legitimação e sustentação do indivíduo em compasso de sofrimento na sociedade. que não viva a dor da perda do ente querido. assim.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. No conjunto das relações pessoais a tendência é de uma reprovação tácita ao luto expresso publicamente. como artistas. entre outros possíveis entornos que permeiam o sentimento e a forma de expressão de um sujeito em uma experiência de luto. 29 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . merecendo estudo mais demorado. A não existência de um comportamento ideal para uma pessoa que esteja vivendo uma situação de luto. políticos de expressão. das relações afetivas.foxitsoftware.com For evaluation only. A distância entre o sofrimento pessoal e o comportamento deste ser em dor no espaço público é ressaltada na informação dos quase oitenta por cento dos informantes sobre o comportamento discreto do enlutado. parece ser diferente. A dor pública parece. por sua vez. morais e ideológicas para com ele. 17 Embora não seja objeto de análise neste ensaio. ídolos esportivos. Depende.

O sofrimento. o processo de introjeção do morto em si.com For evaluation only. ao mesmo tempo. busca e sente falta da expressão social da solidariedade. o luto público recente por figuras como Tancredo Neves. Ayrton Senna. e de impor a si mesmo uma censura. e a partir do século XIX. não nomeada. ao mesmo tempo que obscurece pelo estranhamento do outro e de si próprio. possibilita delimitar os contornos de sua atuação como subjetividade e o expulsa para dentro da pessoa. Tom Jobim e Mário Covas. O luto como expressão social é encoberto por uma espessa malha que. Ulisses Guimarães. a sobressair com mais nitidez. nostalgicamente processa este ritual de interiorização. tendo vergonha do seu estado. desta forma. Situado como subjetividade. 30 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . recolhendo a sua dor para dentro de si e internalizando o seu sofrimento. muito mais lento. Como intimidade que. por exemplo. principalmente. o sentimento da perda vem sendo encoberto socialmente pela vergonha da exposição pública. podendo levar à anomia e à condenação pessoal. ao mesmo tempo que recusa. o isolamento ministram o compasso dessa interiorização. em seu estudo sobre O Processo Civilizador (1990 e 1993) discute o papel da emoção vergonha na conformação da sociabilidade moderna e contemporânea européia. se indignar por não ter a solidariedade esperada e por se encontrar só em seu sofrimento. A idéia de fracasso e de desilusão com o mundo e com os outros tende. Norbert Elias. O trabalho de luto passa a ser. Desde o final do século XVIII. Elis Regina. A solidão. Afirma que a repressão à emoção foi um elemento chave na constituição da civilização moderna.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Quem sofre uma perda parece vivenciar uma situação ambivalente de. a base social do decoro e da decência começou a ficar indizível. como império da memória pessoal do enlutado. tornando-se Lembrar. que compõe o trabalho de luto.foxitsoftware. assim.

.com For evaluation only. Para ele. deste modo. como a da vergonha e do asco. Para Elias (1990. isto é. Este processo de confinamento é realizado através da imposição no indivíduo. p. são ao mesmo tempo produtos de processos sociais e históricos. através de uma exigência particularmente rigorosa de auto controle. 200) "é altamente característico do homem civilizado que seja proibido por auto controle 31 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . 1990. onde a emotividade mais forte do comportamento era até certo ponto socialmente necessária. 162).Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e reproduzem-se como formas de auto controle. repugnância. nojo – como os únicos sentimentos aceitáveis em sociedade" (Elias. banindo-as do social "para o reino do segredo" (p. reprimindo-a no indivíduo). a modernidade confina na pessoa suas emoções. na modernidade. socialmente gerados. enquanto fomenta emoções negativamente carregadas – desagrado. 185). por exemplo. de vergonha e repugnância. Fala. "Estas formas de emoção são manifestações da natureza humana em condições sociais específicas e reagem. de uma definição da pessoa através da exigência de um caráter discreto e do auto controle. p. 'privada' e 'secreta' (isto é. 185) que circunscreve as expressões intensas de sentimento no interior da pessoa. Embora não siga em linha reta e recheada de ambigüidades. 151). do aumento de uma postura reservada perante as emoções. 189). por sua vez. as bases da sociabilidade da civilização moderna avançou através de "uma conspiração do silêncio" (p. desde a mais tenra idade. a economia emocional se faz através da exclusão. Com isso ele quer afirmar que as bases da formação de emoções. 147). sobre o processo sócio-histórico como um dos seus elementos" (p. Ser Discreto ".. Sentimentos mistos.foxitsoftware. de uma "economia emocional" (p. entram em luta no interior dos indivíduos através de proibições apoiadas em sanções sociais (p. Diferente da idade média. e constituía-se como parte integral da vida social.

com For evaluation only. estes se tornam ocultos de todos os demais. e é sentida. e passam a lutar com os desejos ocultos da e na pessoa. tocar naquilo que deseja. Deste modo. funcionando em parte automaticamente nos indivíduos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Daí a dificuldade da compreensão do sentimento vergonha. realizados ou não. Para Helen Lynd (1961) uma distinção entre culpabilidade e vergonha tem que ser realizada. 201). usualmente. Toda modelação dos seus gestos – pouco importando como o padrão possa diferir entre as nações ocidentais no tocante a detalhes – é decisivamente influenciada por essa necessidade". Nota que a culpabilidade envolve atos específicos. espontaneamente. "são experimentados na autopercepção individual como uma parede. o núcleo da individualidade" (p. como específica e se encontra perto da superfície. considerados "anormais" (p. O que quer dizer que manifestações socialmente indesejáveis passam a ser "ameaçadas e punidas com medidas que geram e reforçam desagrado e ansiedade".foxitsoftware. (visto) como o verdadeiro ser. quer entre o 'sujeito' e o 'objeto'. É uma emoção individualista. todos os que saírem dos limites do padrão social são. por sua vez. ama ou odeia. Encapsulado os impulsos emocionais. A vergonha. muitas vezes confundido com o de culpabilidade. possivelmente. os "auto controles civilizadores". reafirmando a pessoa como núcleo independente. Para ele. sendo uma emoção social que reafirma a interdependência emocional das pessoas. Portanto. 32 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . 246). se interpõe sobre o que a pessoa é. reafirmada na e. permanece próxima ao que uma pessoa fez. "e. Ser Discreto socialmente inculcado de. nas análises recentes do processo civilizatório das nações ocidentais. quer entre o seu próprio 'eu' e as demais pessoas (sociedade)" (p. através do processo de socialização. isto é. isolada em sua centralidade. ao mesmo tempo. 247) na modernidade. não raro.

e assumido como culpa. a ingerência deste outro por conta da possibilidade de uma circunstância específica que está ou que se considera sujeito ou que vivencia. o valor pessoal do sujeito envergonhado. portanto. interdita a não ser como medida reparatória de um mal estar permanentemente renovado em sua relação com os outros e consigo mesmo. 26 e 27). que o sentimento de vergonha se estabelece em um indivíduo social específico. muitas vezes. Esta segunda. Neste intercruzar-se. o sujeito vive uma crise fiduciária que pode ter como conseqüência o desmoronamento de todo um universo de crenças pessoais: (já que o sujeito) é.com For evaluation only. assim. Com a desintegração de sua imagem virtual. aumentando a sua dificuldade de expressão. 29). O que parece só fazer aumentar o sentimento de vergonha e inadequação muda. O universo simbólico em que (o sujeito envergonhado) se reconhece enquanto sujeito pode ruir" (HARKOT-DE-LA-TAILLE. É neste intercruzamento passional de inferioridade e exposição. no interior da pessoa.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. deste modo. em sua tese de doutorado que trata do tema da vergonha. Para Harkot-de-la-Taille (1999. De tornar-se vulnerável. "antes relacionado com sua imagem virtual e sua imagem projetada. p. confundem-se. anônimo e indizível.foxitsoftware. O que provoca um maior isolamento da pessoa em seu íntimo. porque não compreendido. 33 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e como uma disposição de espírito. o que sua imagem projetada o faz parecer. p. na esfera pública. o auto controle é visto. é sentida como um receio de exposição e de ser objeto de juízo de um outro. Ser Discreto Na confusão do sentimento de vergonha. A verbalização de sentimentos se torna. o sujeito envergonhado vive duas formas diferentes e simultâneas do sentimento de vergonha: como sentimento penoso de desonra e de inferioridade frente a um outro ou a própria consciência. 1999.

porém. é a de discrição. A atitude esperada. ou outra situação específica e especial qualquer. também. seja do grau de proximidade com o enlutado ou com o ente morto. de trabalho ou outro com uma pessoa em processo de luto. foi a preferência de 9.71%. que mantenha vínculos de amizade. Ser Discreto A emoção do enlutado. contra 18. Uma outra questão presente no questionário inquiria a opinião dos informantes sobre qual deve ser o comportamento de um indivíduo social qualquer.28%. seja do estado emocional em que se encontrasse a pessoa. 34 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. A intermediação. enterro. O agir discreto dos mais íntimos à perda daquele que sofreu o luto. porém.com For evaluation only. quase mercantil.). missa de sétimo dia. 18 Segundo o Quadro N. Deve ser discreto. etc. onde a pessoa se move em planos desconexos que impossibilitam a manifestação social dos sentimentos e desencadeiam o medo social da contaminação.foxitsoftware. o sofrimento resultante do trabalho de luto. que responderam que as atitudes devem ser de dar apoio. Dependeria. respondendo que a atitude para com uma pessoa enlutada dependeria de cada caso. a atitude de discrição enquanto comportamento público deve ser buscado.01% dos informantes18. a atitude dos outros em relação a uma pessoa em trabalho de luto deve ser a de não importunar. A emoção é. parece estabelecer-se para o indivíduo que a experiencia como um sentimento envergonhado e. anexo. 11. mascarada publicamente em indiferença e parece dar lugar a uma reciprocidade fragmentada. o comportamento do enlutado nos diversos trâmites socialmente valorizados de despacho do corpo e da expressão de sofrimento público no processo de despedida (velório. como tal. deste modo. Para 72. assim. assim.

Em todo caso. familiares. que relata sua experiência de luto vivida pela perda do marido. amigos e agentes institucionais. e como essa postura era entendida pelos outros. Relato que vagueia entre o sofrer incomensurável pela morte do ente amado e a expressão social por ela imaginada frente a sua postura em relação aos trâmites processuais do despacho do morto. do qual o velório fazia parte. Minha casa. "Briguei com a metade da família que queria o velório num desses cantos destinados a isso. seja pela indiferença ao que se esperava socialmente como expressão de sentimento. a casa dele. Esta ambivalência de valores e atitudes parecem ser indicados nos depoimentos que se passa agora a relatar. Ser Discreto O período de nojo. dos filhos nossos. como são chamados os primeiros sete dias após a morte do ente querido.com For evaluation only. recolhidos pelo autor de indivíduos que vivenciaram processos de luto. Embora.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Falaram do 35 Mauro Guilherme Pinheiro Koury aparente indiferença ou a falta do resguardo ainda . ainda é socialmente tolerado. seja pelo fingimento do não sofrer para poder sobreviver ao controle afetivo dos outros: familiares. Narrativas diferentes que retratam o sentimento de opressão vividos na expressão de seu sofrimento. desde que o corpo deixou o hospital. "Não me aproximei do caixão desde então. Não. Narra a entrevistada que. cada vez menos. deva ser de completo recolhimento público. para o velório. morto em um desastre automobilístico. amigos e próximos presentes. era lá que deveria ser. A primeira narrativa é de uma senhora de classe média alta de Belém do Pará. O trecho apresentado retrata a narração do momento do velório e o sentimento da entrevistada.foxitsoftware. ou as expectativas perante o enlutado são ambíguas: uma atitude de costumem chocar. desde o momento que liberou o corpo para o público. o comportamento social.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. com o dia a dia.. de alguns parentes. ela achou importante. No umbral da porta de onde podia olhar aquele corpo querido. "é assim mesmo".. sei lá. chegava outro. A sensação era que era de domínio dos outros. Na sala que ele ficava comigo. "O velório foi simples. a conversa à toa para passar o tempo. eu estava insensível. Que sofrimento poderia ser maior do que aquele rasgão.. Acho que foi o terçinho de sua primeira comunhão. que estava passando na minha vida. fodam-se todos. as velas enjoavam. eu esboçava um sorriso e não dizia nada. Os choros circunstanciais da mãe dele.. E assim foi.. eu só olhava. Mulher insensível. com os amigos que recebíamos.. diziam: "a vida continua". Lá de casa sairia.. acho que pensaram. cheio de flores que enjoavam. Lá era meu. os olhares curiosos de muitos.. As flores enjoavam. Fiquei parada a alguns metros do caixão. não pensava. deixei. "Com um terço na mão. o corpo do meu amado secando. do que aquele caminhão que passava.. Muita gente. pensei..foxitsoftware. murchando. .a vida continuava e eu vendo que eu também continuava e não acreditava. com os filhos quando pequenos. e me voltava para frente e via o caixão e o meu amado que não era mais nada que não aquele pedaço de carne sem vida.com For evaluation only. Imagine. Eu não acreditava apesar de não desgrudar da porta do meu quarto onde me voltava e via a cama. fodam-se. Ser Discreto sofrimento que seria depois. Um terço na mão que a mãe dele fez questão de por.. 36 Mauro Guilherme Pinheiro Koury ... Mas. porém. o riso de alguns em ritmo de festa que um velório parece que é. Ele que nem mais sabia o que era isso... arroxeando. Deixou de ser meu. Na porta do meu quarto. o corpo depois de liberado por mim não era mais meu. chegava um. de alguns amigos. é que a vida continuava com o meu amado morto na sala.o que acontecia. . . me abraçavam. Foi importante para ela. com os filhos quando grandes. do que aquele rombo. Mas eu era naquele momento.

A sua condição social de recém viúva e o comportamento esperado nesta situação pela sociedade. amigos. através da negação pela desclassificação do comportamento dos outros.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como o terço colocado entre as mãos do seu amado pela mãe dele. O segundo depoimento narra um processo de luto vivido por um rapaz de vinte e seis anos. Veio a saber da morte dos seus entes queridos depois de sua recuperação. brigava com uma grande parte dos familiares para manter o velório em casa. a mãe e a namorada em um acidente de carro em que ele estava no volante. estudante de medicina. parece indicar a importância do público. a procurada demonstração de indiferença para com o significado que os outros pudessem atribuir ao comportamento "insensível" que ela parecia atribuir a si mesma no seu depoimento. por ele considerado exagerados. Retrata os cuidados. As demais expressões tornavam-se para ela como se fossem de alguma coisa que não tinha significado. de classe média abastada. e não no conforto de uma central de velórios. A intensidade do sofrimento parece a fazer sentir o morto querido como somente seu. para com ele. 12). Ele mesmo ficando vários meses hospitalizado. ou das condolências e sentimentos expressos dos e pelos outros presentes ao velório. embora muda. como queriam os demais parentes.foxitsoftware. dos seus avós. apenas a olhar agarrada. a partir de uma análise realizada do que os outros possivelmente pensaram e acharam de sua atitude no velório. meses 37 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . residente em São Paulo capital. Ao mesmo tempo que fincava o pé. Por outro lado. encostada. amparada pelo umbral onde me alojei" (Entrevista n. isto é. Manifestações desclassificadas por ela como expressões sem sentido para o morto. Este entrevistado perdeu o pai.com For evaluation only. à expressão social de seu sofrimento. empregados da casa e enfermeiros. dos demais presentes. Ser Discreto não aceitava.

Fiquei prisioneiro e os odiei por isso.foxitsoftware. como se eles não estivessem na minha cabeça. Até isso eles tiraram de mim. eles não tinham idéia que eles. ou achassem que eu podia ver. Estava cheio. 2). tudo era e significava um não eu. Não me deixavam sequer pensar. Fazer crer que é. recheavam todo o meu mundo. Já lembrava pequenas bobagens com os amigos. Fazia o jogo bem feito. que eu deveria ter feito: morrer. Queria ver algumas fotografias dos meus pais. nem nos meus mortos eu falava. Fingia rir das brincadeiras. de meus avós. O termo fingir indica aqui o ato de aparentar e dissimular. tudo era eles.com For evaluation only. Destino uma bosta (desculpe). não tinha acesso a nada que eles não quisessem. O depoimento do entrevistado fala de fingimento. em tudo.. Não tinha acesso. porque diziam que eu estava "desesperado".. os meus queridos. Ser Discreto depois. E fingi aceitar. não me deixavam em paz. mas fazer o que.. "Aí então funcionavam as lembranças. para amargar a minha solidão abafada por tanta proteção e amizade. Meus amigos tentavam conversar bobagens. Se até no banheiro eu não podia ir sozinho. Meus avós esconderam todas. então era jogar o jogo. fingir a aceitação das regras impostas. Fingia para poder escapar do cerco.estava cercado de pagens: enfermeiras. Morrer!. " . da minha namorada. Mas eu fingia. no meu corpo. Os filhos da puta impediam a coisa única que eu podia fazer. Embora.. de alguns dos meus amigos de infância.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. simular ser. querer 38 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . "O que eu podia fazer era entrar no jogo. mesmo com todos no meu cerco. nas poucas tentativas de solidão. mexeram no meu armário. a não ser fingir?" (Entrevista n. Segundo o entrevistado. Viver prá que? Minha avó falou do destino. e após a revelação os cuidados para com ele foram intensificados para poupa-lo de culpa e impedi-lo de algum gesto contra a sua própria vida.

segundo ele. como fotografias e objetos específicos que o fizessem recordar.com For evaluation only. Muito mais do que isso. o efeito do seu fingir tinha como objetivo "escapar ao cerco" de proteção e cuidados em que se viu envolvido desde o acidente automobilístico que matou seus pais e namorada e que também quase o matou. Fingir para fugir ao cerco de proteção que procurava o afastar das lembranças dos "meus queridos". pois. de ter causado a morte dos entes a ele caros. dos impedimentos de acesso a lembranças objetivas. de criar espaço para si próprio articular a sua dor. o fingimento. mas e principalmente. tudo era eles. naquele momento singular. mas fazer o que. segundo ele. o levaram a uma impossibilidade de compartilhamento de sua dor. assim. de ser o único a estar vivo. De ter acesso a solidão necessária. As tentativas dos avós e de amizades para evitar a dor do neto e do amigo levaram. Estava cheio. O levaram ao fingimento. para o rememorar. Ser Discreto passar-se por. segundo o Dicionário da Língua Portuguesa de Aurélio Buarque de Holanda. talvez. tinha a conotação não apenas de poupar os que com ele se preocupavam do seu sofrimento. Diz respeito para a ação de fingir e seu efeito. de diferentes contextos. da invasão de sua privacidade. as narrativas buscam situar a solidão dos sofrimentos vividos à insensibilidade aos olhos 39 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a sua culpa de se encontrar à frente do volante. a uma exacerbação do seu sofrimento. de sua angústia com os que lhes eram caros. Como se isso fosse possível de evitar o seu sofrimento. Escapar ao cerco pelo ato de fingir.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.foxitsoftware. os mortos "recheavam todo o meu mundo. tudo era e significava um não eu". para amargar a minha solidão abafada por tanta proteção e amizade. segundo o entrevistado. a não ser fingir?" Nos dois depoimentos acima. Na narrativa do entrevistado. Ou nas suas palavras: "Fingia para poder escapar do cerco. para ele.

afirmando o individual como instância totalizante e inatingível. e a pergunta que dirige a si mesmo. mas pela insensatez". e a solidão necessária para o apreender nos significados intrínsecos da experiência que passavam. a de não ser compreendido no seu sofrimento. em uma atitude que reforça o distanciamento entre o indivíduo em compasso de dor da sociedade. 71): "pode-se reconstruir uma vida estilhaçada?". Da outra solidão. como uma espécie de rogo por trás em busca de ser 40 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e a sua falta. Nos dois casos tem-se em comum o incomensurável e o inominável da dor causada pelo sofrimento de uma perda. o sofrimento vivido sendo visto como totalizante e absolutamente único. também. aninhado em uma ação de ouvir que não vem. buscando calado ou na simulação. Nas duas narrativas se tem também em comum. e ao fingimento.foxitsoftware. de cada depoente.com For evaluation only. é esboçada nas duas narrativas a necessidade de ter alguém para compartilhar. p. a falta de compartilhamento objetiva. ampliando ainda mais o fechamento pela extensão do fingir ou pelo ato impulsivo do distanciamento de seu sofrimento dos demais. acarinhado. Ser Discreto dos outros. e da necessidade de fingir aos outros e fugir ao cerco ou ao sem sentido de suas ações. "sobrevivo para que a fonte das memórias o mantenha aqui. e. porém.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em seu O Lado Fatal (1991a. e as possíveis respostas encontradas a questão dita de forma quase gritada: "sobrevivo. ou. ser encontrado. mas. ou que não acham. Ao mesmo tempo que impõe os termos de seu sofrimento para os outros. Bem como ao rememorar. como o fez Lya Luft em um dos poemas de luto. comigo". Ao mesmo tempo. O que estabelece e aprofunda a ação solitária do ser em sofrimento. sentido como uma espécie de instrumental necessário para a introjeção dos seus mortos.

Foi analisado o trabalho de luto entre excluídos sociais que viviam de mendicância. Em um trabalho anterior (KOURY. Quanto menos lembrar publicamente que alguém faleceu e deixou sofrimento e saudades em outro alguém. agindo por ou através de simulação. O processo de luto foi visto. também. que se vê jogado para a intimidade do sujeito. parece ser melhor ao social.foxitsoftware. parecem jogar com os mesmos elementos. compreendido em seu sofrimento e em sua solidão: ". A classe média intelectualizada. parece viver com mais intensidade esse dilema. abruptamente. A indiferença e o fingimento espantam socialmente o sofrer.. então. e busca poupar ou desclassificar os demais como impotentes de entender o sofrimento porque passam. ou acreditar nos fingimentos e insensibilidades aparentes. sei eu" (p. À perplexidade diante da morte. A cumplicidade pela indiferença aparente se torna assim uma espécie de pacto onde o indivíduo fica restrito a si mesmo.com For evaluation only.. associou-se o anonimato e a banalidade no trato público da morte. Este caminho apontado de individualização. mesclado pela tensão resultante da perda de referenciais simbólicos relacionais que construíram o indivíduo ao longo de sua vida. no trânsito entre o campo e a cidade. parece ser a tônica moderna do processo de luto no Brasil urbano. o luto no social. se buscou compreender as estreitas relações entre ausência de cidadania e luto. principalmente. do âmago de um ser individual e não existissem socialmente. Os outros. 41). Ser Discreto nominável.não me consolem: da minha dor.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O que contrastava com 41 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que passa a vivenciá-los na solidão. 1993) à diferença deste ensaio. no caso tratado. como se a morte e a dor do sofrimento fossem algo doentio.

Ainda que cause esfacelamento da pessoa como no caso limite citado. Embora não seja objeto específico de análise deste trabalho. enfatizava ainda mais a falta de lugar no social. Ser Discreto a dor ocasionada pelo sofrimento do enlutado. pobre. 4). mostra o processo de exclusão da pobreza dos processos sociais da cidadania.foxitsoftware. produto do crescente individualismo que parece organizar a sociedade brasileira urbana desde os anos setenta e oitenta do século passado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. da violência e da prepotência institucional no trato dos homens comuns. A narrativa de uma entrevistada (Entrevista n. O caso limite analisado buscava compreender o trabalho de luto entre excluídos sociais através do choque entre os referenciais relacionais fincados no cotidiano fazer-se da pessoa e o anonimato urbano de higienização. ou que ainda surpreenda e indigne o indivíduo médio urbano no Brasil de hoje. aumentando o sentimento individual de exclusão social. por outro lado. residente em Cuiabá. faxineira. molda os parâmetros da sensibilidade nova que se amolda aos padrões atuais de dessacralização dos costumes sociais tradicionais. com renda até três salários mínimos. Processo mesclado não apenas de ambivalência entre costumes tradicionais 42 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Mato Grosso. Procurou-se demonstrar o esfacelamento da pessoa e as dificuldades daí resultantes a sua reintegração individual e social. a não cidadania e a solidão do homem comum. 30 anos. a partir de uma vivência no urbano. Essa descaracterização. principalmente. o depoimento é aqui utilizado como forma de entendimento da complexidade da situação do processo de individualização no Brasil atual. que parecia desmoronar como pessoa.com For evaluation only. no seu lado mais cruel. O choque entre uma tradição relacional que formou o enlutado com uma profunda descaracterização dos costumes e processo integrativos do urbano moderno.

era parecido". "quatro meses depois eu vim a saber o que tinha acontecido. ". ninguém viu. mas também. Saber que está morto não basta. "uma viúva de marido que sumiu. por delegacias.. deixe de atanazar.. Alguém preto. só a revolta aumenta. A dor não alivia. segundo suas palavras. de um faz tudo".com For evaluation only. deixando um rastro de tragédia e desilusão naqueles porventura afetados. foi preso. Até que . Vá embora e esqueça. Um cara que estava preso na mesma delegacia com ele. por hospitais. e que vários dias se passaram e a procura começou por casa de parentes. A entrevistada é. Depois descobriram que não era ele. Alguém viu ele e ele foi preso.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. é melhor' ". Depois descobriram que não foi ele.foxitsoftware. torturado até morrer. foi alguém parecido. sem encontrar qualquer pista. 'mulher. Como disseram prá mim uns homens da polícia. Que tinha saído para o trabalho e não voltou. pelos locais onde ele costumava fazer bicos. assim. tudo que é preto é igual. quando ele foi preso. É uma coisa de doido. Apanhou prá confessar que tinha roubado . 43 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto e novas sensibilidades emergentes. Conta a história do desespero ao saber que o marido morreu. descobriu onde eu morava e falou prá mim que ele apanhou até não resistir e morrer. A peregrinação em busca do corpo do marido torna-se para a entrevistada. Eu vim a saber que ele tinha morrido. e sobretudo. fundamento para a possibilidade de realização do luto. A narrativa da impossibilidade do luto pela entrevistada conta a história de um biscateiro. a gente não tem culpa. ninguém sabe.. então eu não tenho direito a viuvez. Mas o que fazer? Sou pobre. por uma prática autoritária e de exclusão que retira qualquer exercício de vivência do luto. que "ganhava a vida em biscates de pedreiro. Morreu no pau prá dizer o que ele não fez.. que "foi confundido com um ladrão.

. todo dia aparece vários sem documentos. mas isso não resolve. e que depois o cara ladrão tinha sido pego e confessou. Tive atrás das pessoas que disseram que era ele e elas me confessaram que tinham confundido. disse a meus filhos. que amplia a dor permanente da morte.. me rasga por dentro". mas eu sei que também sentem a ausência do corpo do pai". tudo ladrão. Ser Discreto "Por enquanto eu enterrei ele dentro de mim". O corpo dele me dará 44 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . nem atestado de óbito eu tive direito. "todo dia. mas eu não tenho ele morto... e continua: mesmo tendo a certeza de que ele está morto. "O senhor não imagina o que é ter um morto que está vivo".foxitsoftware. dizem". Que a polícia agiu rápido porque o homem da casa roubada era um figurão e precisavam agir. mas por dentro eu espero ele voltar. A impossibilidade do luto pela ausência do corpo associa-se a impossibilidade de um outro luto de ordem moral.. Dói. dizem também que ele pode ter sido jogado em algum local. O corpo dele. que ele deve ter largado de uma mulher chata como eu. "Como dizer para os meus filhos que o pai morreu numa delegacia como ladrão? . Ele é vivo porque é apenas sumido. exclama.com For evaluation only. . porque eu não vi. moço. Já rodei tudo: disseram primeiro que não sabiam de nada.. na impotência de provar a honestidade do seu marido. Meus filhos não falam.. Sua ausência me persegue. dizem também que este caso nunca existiu. Eu sei. Dói porque eu sei que ele está morto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. informa. Sei que ele foi honesto. Mas eu sinto falta do corpo dele. O corpo.. O corpo dele sumiu. "Dói.. "Hoje eu entrei para o Evangelho e isso tem me dado um certo alívio. depois ameaçaram e que era melhor eu esquecer esse caso... toda hora eu penso que ele vem. tem me ajudado. depois disseram que ele foi enterrado como indigente numa cova comum. Não existe registro sequer da prisão dele. em algum mato.. não sei dele.

e eu me sinto que não existo também. É difícil. Eu preciso do corpo dele morto. parece repô-la em um lugar de expressão. por extensão. e que ela afirma com a frase. além do que com o corpo nas minhas mãos eu posso voltar a ter a esperança de dar a meus filhos de volta o homem honrado que foi seu pai. de ação social. um lugar por onde a entrevistada recupera a dignidade e busca refazer a do marido e recompor a esfera familiar. Ao mesmo tempo. de um lugar onde a possibilidade de falar. A impossibilidade do luto na narrativa acima. mas que eu sei onde está. As instâncias institucionais parecem oferecer. de fala. O que faz de sua ação um comportamento ambíguo. quase.. de devolver aos filhos a honestidade do pai retirada pela sua prisão e morte e pela impossibilidade do momento de reconstituição da trajetória que ocasionou a morte do seu marido.com For evaluation only. ao procurar conforto em instâncias desindividualizantes. Embora se sinta. Por outro lado.". surpreende e revolta a entrevistada. e na missão.foxitsoftware. de sentir-se um não social e ao mesmo tempo.. Mas é difícil. Mas como fazê-lo. por um lado. como seu pai. institucionais. 45 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . de lutar pelo reconhecimento social de sua posição de viúva sem corpo que comprove a morte do companheiro. neste caso. parece acomodá-la em uma espécie de não lugar social. "eu me sinto que não existo também" na ausência do corpo do seu marido. sobre ser pobre porém honestos. que eu enterrei. como a religião nova que a acatou. embora me esforce para ir dando uma educação para os meus filhos sobre o trabalho digno.. às vezes. impotente e sem fala frente as demais instituições que enquadraram o seu marido e. pela ausência do corpo e pela exclusão social da pobreza. de exprimir sua revolta não existe. Ser Discreto certeza. pela pobreza e pelo estigma de perigosos. Eu sou pobre e preta..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a ela. entende? Eu preciso do corpo dele que se foi.

A falta de cidadania. a nudez absoluta de um não lugar social trazida e escancarada pela morte por espancamento. principalmente pela periculosidade e desonestidade no social de que foi vitimado o seu marido. para acomodar-se. mas agora. pela ausência do corpo e pela discriminação moral para a sua família. com receios profundos pelos seus filhos. é de impossível realização. até. no caso tratado. Esta ambigüidade. não a retira de sua solidão social da pobreza e de sua luta para realização do trabalho pessoal e familiar do luto pelo seu ente querido morto. Ser Discreto Ambigüidade que parece ampliar-se e estender-se no medo das conseqüências de seus filhos não poderem organizar o luto por seu pai. e busca se amparar na nova religião e na força do restauro da dignidade do marido pela procura de recuperação de seu corpo. principalmente. Mesmo o certo alívio oferecido pela nova religião. não apenas tocada pela pobreza e pela cor. de recomposição da dignidade e honestidade do companheiro. também. parecem mandar fazê-la calar. a não ser pela desonra pessoal de ter tido um pai morto em uma delegacia por roubo. sem culpa. parece fazer a entrevistada percorrer os caminhos da fala. para uma possível realização do trabalho do luto. Parecem. em luta política. E se sente só. para que talvez seja possível realizar o próprio luto. de recuperação do corpo.foxitsoftware. uma forma de lavar a honra do pai e pessoal através de atitudes que reforçam a sua condição de excluídos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. fazê-la tentar recuperar o corpo. ou pela vingança. ao mesmo tempo. O luto para ela. e que ameaça os seus filhos e a ela própria. e nele a dignidade. Através de vias que modifiquem o luto pessoal pela ausência e perda do marido. neste momento. desistir. 46 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a falta de respeito. acomodar-se.com For evaluation only. porém. de seu marido.

através de uma ênfase na morte como código norteador e ameaçador atrás das regras sociais. como indizível. parece passar pelo eclipse do sofrer. íntimo e não social. como desilusão e como código básico de conduta. vem sendo feita. Enfatiza as relações mercantis do individualismo. Socialmente.com For evaluation only. Configura-se no adotar o ponto de vista da resignação social como constructo possível do ser moral na modernidade.foxitsoftware. no 47 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O que parece enfatizar a morte. Ser Discreto A economia moral do sofrimento pela perda na sociedade brasileira de hoje. 131). evidenciando uma fragmentação de sentimentos coletivos que se expressam numa espécie de receio social de contaminação (ELIAS. Resignação do eu constrangido na intimidade. como forma de deter os efeitos da individuação de quem sofre a privação e dos perigos que tal processo representa para o social. p. A idéia do fracasso. através do individualismo que nega a individuação como processo interativo da pessoa na sociedade. parece que. como afirmou Elias Canetti em sua conversa com Adorno (1988. Afigura-se. para dar lugar ao indivíduo indiferente e fragmentado no social. 1989) e na vergonha de sentir-se enlutado. quanto mais a subjetividade for tratada como problema pessoal. As regras sociais parecem passar a viger apenas no sentido mercantil.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. enfim. da desilusão do sujeito no ritual introspectivo do sofrer. Quanto mais abafada e constrangida se encontre a pessoa. a tendência da nova sensibilidade emergente no Brasil de negar a morte e o sofrimento pela morte na esfera social. Parece caminhar tendencialmente no sentido de retirar o sofrimento do social para o íntimo. impõe códigos de naturalização e anonimato à morte e ao processo social do sofrimento. mais o individualismo parece comandar os destinos individuais. movimentadas pela idéia do ser discreto enquanto conduta do comportamento civilizado.

Efeito de decepção e engodo. enquanto tendência. do social.foxitsoftware. Ausência configurada em um tempo e em um espaço singular e solidário. como expressão solitária de um sujeito em descompasso. a dor causada pelo sofrimento no processo de luto. simbolizado em uma morte ao mesmo tempo desejada e temida. enfim. em um delírio de expectativa. revela-se como nostalgia do ausente. como conseqüência de sua subjetivação e falta de expressão no social. Ser Discreto condenar o trabalho de luto a realizar-se como unicamente desilusão do mundo. reproduz-se como ausência de projeto. Como resultado. então. da não esperança e do sentimento de que algo eminente estivesse prestes a desabar sobre si. e pela ambivalência resultante na vergonha como individuação e a reprovação e o estranhamento público. Um estado de sofrimento moral é criado. Um hiato entre o tempo vivido e a viver é então construído como luto retrospectivo. da morte como universo do silêncio. constrangida e envergonhada no interior do sujeito. Os sentimentos para com o social e para consigo mesmo tendem a declinar como se nada valesse a pena ser feito. O luto pessoal do sujeito que sofre uma perda. Intercessão entre o desespero e o tédio. 111). a dor da perda subjetivada e sem expressão no social. de sua constituição como pessoa. em um movimento de ideação pessimista. 1976. Processo que assemelha-se a uma espécie de paralisação de toda a iniciativa de decisão e ação do sujeito. 48 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . perdidos na memória individual do enlutado. constitui-se. p. em seu sofrimento. e como luto do que se tem a viver. podendo caracterizar um estado de depressão em sua forma mais grave: a melancolia.com For evaluation only. em desagregação.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como resultado das inibições impostas ou acarretadas como precaução ou como resultante de um empobrecimento de energia ao ego (FREUD.

e por extensão. socialmente banal. 100). parece indicar o caminho através do qual vai se consolidando a nova sensibilidade social. e a sua inexpressividade para o social.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O sujeito emergente desse processo parece ser um indivíduo de atitudes ambivalentes. no social. na melancolia. A interiorização do sofrimento e de todo o plexo de sentimentos. através do mascaramento da dor do sofrimento e da morte. não social por definição). para o privado espaço em seu interior. Ser Discreto O processo de luto tende. assim. da consciência pública. Como ensina Freud (1992). nesse caso. embora o luto e a melancolia apresentem os mesmos processos dolorosos. voltando a si próprio a hostilidade e a amorosidade que originalmente sentia em relação ao seu objeto. dos quais só se pode fugir. parece tender a refrear o processo de individuação do sujeito que sofre a perda.com For evaluation only. exposto a crises constantes de superestimação ou subestimação de sua pessoa (socialmente aceita). Este movimento estabelece um grave conflito de sentimentos ambivalentes. 49 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como informa Abraham (1976. O investimento do ego se orienta à repressão através da compulsão à repetição19. 19 Compulsão que em circunstâncias normais só é eliminada pela função livremente móvel do ego (FREUD. enquanto subjetividade ou espaço da intimidade ou do privado (e. Essa tendência social de escamoteamento da expressão pública dos sentimentos (MAUSS. traído ou abandonado pelo objeto amado. a perda é retirada da consciência. A individualização crescente das relações sociais no Brasil atual. Exposto a se sentir facilmente decepcionado. 177). p. 1976. através do mascaramento. a tornar-se melancolia. cria uma pré disposição permanente no indivíduo à desconfiança no outro. diferentemente do luto. p.foxitsoftware. 1980) e a valorização da interiorização. no Brasil de hoje. perdido e retirado. ou social.

Afasta.foxitsoftware. embora traga consigo um imenso desprazer (ABRAHAM. A vergonha da demonstração pública do sofrimento ou da expressão de solidariedade. via desempenho. normalmente tratados como pertencentes à esfera do privado. o seu sofrimento do social. p. tende a transvestir-se naquela cuja face representa a individualização do agir. 1968). Ser Discreto construída em um movimento permanente de fragmentação das relações sociais e pessoais.com For evaluation only. ao mesmo tempo. Processo onde a persona em jogo no exercício social. reencontrar o ente querido e a solidariedade à sua dor. 50 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O mascaramento da dor individual no social parece tender a ser administrado pela sociedade através do princípio do desempenho (MARCUSE. então. O sujeito que sofre a perda. através da mercantilização das relações. tende a relacionar com a perda o seu sentimento de inferioridade (p. que esse mundo perceba as suas emoções e dele reclame significados. através deste artifício. Anseia silenciosamente. cada vez mais. 114). movido pelo grau de afastamento ou abandono do sujeito de sua perda. O agir individual no espaço público. Fecha-se. 1976. intensificando ainda mais a sua desilusão com o mundo social. A necessidade do bom desempenho deve suplantar as questões dos sentimentos. porém. segundo esse princípio.110). do outro. ou o não saber o que fazer com a dor da perda alheia. intensificando a sua desilusão com o mundo e consigo mesmo. deve ser desprovido de qualquer elemento que venha perturbar o bom funcionamento dos papéis em representação pelos sujeitos em relação. em sua privacidade. resulta em um automatismo de relações.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em detrimento das práticas relacionais que até então pareciam informar o comportamento social médio do brasileiro. assim. ou para a esfera do espaço íntimo. Receia.

e de vergonha do incômodo que o sofrimento por que passava pudesse estar causando aos outros.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Em uma entrevista à revista Desfile (1992). parece se instaurar. Relata desde as pseudo-alucinações comuns ao início do processo de introjeção no trabalho de luto. uma personalidade do meio artístico analisa o processo de luto por ela vivido.foxitsoftware. então. a chamava de volta ocasionando um movimento duplo nela de perplexidade pela indiferença social a sua perda. enquanto espaço privado. Estes afetos opostos.. até o aprofundamento do processo de desilusão com o mundo e com tudo o que acreditava. no início ficava inventando histórias incríveis de que ele poderia voltar”. e com o mundo exterior que parecia incomodado e fingia indiferença a sua privação. pela falta de vontade. chegando a duvidar se conseguiria continuar vivendo sem a presença do objeto amado. De outro lado.. O mundo exterior. como “. lutava pela manutenção do sofrimento. pela descrença pessoal provocada pelo luto em relação 51 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Sentimentos ambivalentes. pela solidão em que se encontrava em seu sofrimento. levado ao extremo. assim. amigos ou público em geral. para um retorno à indiferença do social com o seu sofrimento. tendia para uma espécie de negação da dor do sofrer. De um lado. aumentava o seu receio “de entrar em colapso”. e um rompimento com o social. Fechada em seu sofrer lutava pelo isolamento que permitia reviver continuamente a sua perda. sejam estes colegas de profissão. de não saber “até onde iria agüentar”. O que significava um mergulho completo em si mesma. foram intensamente vividos. como uma forma de reter por mais tempo o objeto amado em si. a “realidade” segundo ela.com For evaluation only. A dicotomia entre os espaços público e privado é por ela. Um estado de anomia movido pelo desamparo.

e era isso que lhe exigia o social. construir uma narrativa de sua trajetória de luto enquanto solidão que. a seguir. Hoje. fazendo-o passar de atitudes dóceis a agressivas em uma mesma ação. e que “hoje.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Restava a arte. o entrevistado (Entrevista n. se aprofundava a cada momento no seu interior. 52 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como a igreja e a família. olhando para trás. como também servia como desilusão pessoal da própria ação como intérprete. A técnica.com For evaluation only. ela afirma que foi “muito rígida consigo mesma”. a disciplina forçava-a a participar da realidade. Ser Discreto a qualquer instituição desinvidualizadora. classe média abastada. a dor cortante. que carrega uma marca ”. de 49 anos.foxitsoftware. embora para si não apenas servia de máscara à sua perda em público. se não aliviava o seu. apenas a disciplina. o sofrimento solitário que se agudizava. Descreve o processo de morte de sua mulher.. Uma visão semelhante pode-se ter no depoimento de um entrevistado que narra o processo de luto passado por perda de sua esposa. Primeiro. Para. com residência em Porto Alegre. Rio Grande do Sul. pelo menos o fazia sentir-se vivo. vítima de câncer. analisando o seu processo de luto. Foi possível através do seu exercício o profissional mascarar o seu sofrimento em público pela técnica. Discorre sobre o pânico da descoberta mesclado com "um encontrar forças não sei onde" para dar esperança e conforto ao ser amado doente e agonizante. e através dela foi possível mediatizar e elaborar o seu trabalho de luto. engenheiro civil. embora em alguns aspectos compartilhada pelos familiares da esposa. relata o pouco tempo entre a descoberta do tumor no cérebro de sua esposa e a morte desta.. posso dizer que sou uma pessoa . 42). e o sentimento compartilhado com os pais e irmãos da esposa que. No compromisso técnico não havia a arte. sem filhos.

A saudade. Alguns estão magoados até hoje..com For evaluation only.. só que sem a marca dela. o carinho. senão tudo desmorona sem nunca mais conseguir juntar os pedaços. relaxantes. também. e por aí vai. Quando olho em volta. havia um. "foram dois meses de loucura interior. 53 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Todos insuficientes. ponto da intransigência que revelava a dor a mim. fadados ao insucesso.. refiz a decoração da casa. (pausa) .as marcas objetivas das coisas acho podem ser refeitas. A tranqüilidade começa a retornar. Todos comparativos e. outras iguais. Ser Discreto Segundo ele. a falta. É porque tu guardas alguma lucidez tirada de onde não imaginas.. Eu passava da doçura ao mais arisco dos seres. senão tu entras em outra estratosfera. como que. em mim. os mesmos livros. como tal.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. sempre. Mas será isso possível? Será que eu não estarei fadado eternamente a procurar repor a ausência dela em mim. mas é mais amena. desde a morte de minha mulher. outros voltaram. ao tempo em que ela estava viva. Fiz uma limpeza nos armários. "Estou procurando me desfazer das marcas externas. tê-la de volta. Mas sempre profissional. até demais: aí. . me desfaço das coisas nossas. quando não queria largar tudo. "Passaram-se já dez meses. embora compre.foxitsoftware. romper com tudo. Remodelei também o local onde trabalhávamos.. não sei se tu me entendes. Só o trabalho me permitia esquecer.. vendi ou dei todos os livros e discos que considerávamos nossos. comigo. Estou comprando de novo. Rompi com meus melhores amigos e amigas. Já bastam as marcas dela que estão em mim. mesmo com tudo novo e aparentemente desigual ao que era nosso. Os mesmos CDs. A saudade continua. embora a nível de corpo. dei ou rasguei algumas de suas roupas. O cotidiano voltou. do quarto. embora seja o meu normal. desaparecer. me sinto perseguindo refazer o que não é mais possível ser refeito. mas não são como antes. "Tive casos passageiros.

aparece e apresenta-se como que pontuando a existência fixa em uma dor causada pelo incomensurável sofrer por uma perda deslocada da consciência. melancólico. Na desilusão do mundo pela fragmentação do eu perdido na própria perda. sem razão outra que o próprio sofrer... como um silêncio. O continuar a viver torna-se uma espécie de renúncia ao próprio eu encoberto pela névoa espessa da introjeção do outro... agora. amado. acho. estão vinculados à idéia dolorosa de um sofrimento. perseguindo.. que escapa à consciência como uma perda desconhecida.com For evaluation only. sem objeto." A irreversibilidade da perda parece ter o poder de transformar o sujeito em um ser nostálgico. O outro perdido. que tendencialmente parece estar em formação no Brasil de hoje. A marca que forçosamente carrega no seu desenvolvimento. uma ilusão sem compartilhamento.. Ser Discreto Perseguindo o passado. busca des-elaborar o constructo da dor por uma perda específica para remontar-se como apenas perda. não sei!. sem sentido. confundido com o eu no processo de internalização do trabalho de luto. mas. Que procura evocar sem. perseguindo a solidão e o não retorno. como configura a suposição da narrativa acima. porém. desconhecida.. deter-se no próprio objeto da perda. que apenas esbarra na incomensurável perda. Marca que parece ter sido forjada no prosseguir de um processo de redução ao nada. perdido. no sofrimento em que esta elaboração se desenvolve.. 54 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e os códigos de enunciação dessa sensibilidade que parece caminhar para o domínio ou universalização dos novos valores e costumes em constituição. O homem individualizado.foxitsoftware. Como uma marca que compulsivamente parece levar para o retorno benvindo. para o re-constructo do eu. Para refazer-se como renúncia permanente de projeto pelo apego a um sentimento de privação fragmentado que a nostalgia procura rememorar continuamente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

ao estado se não de morte. alegórico. 236). contaminando o futuro como um espaço vazio. da introjeção um ato sempre e repetidamente infiel: a perda transformando-se em fim. de um retorno ao ente querido irremediavelmente perdido.com For evaluation only. como informa Binswanger (1960). 1969. se torne em determinação. no transformar em vazio todo o processo de vida. deste modo. Nesse sentido. empurrando-o para uma solidão cada vez maior. mesmo que seja o próprio eu do sujeito.foxitsoftware. proporcionada pela destituição do objeto perdido em uma perda sem objeto. O mundo interno do sujeito configura-se em se transformar em uma série interminável de catástrofes. não passa de um estado compulsivo. p. que anseia a ilusão da própria perda. de encontrar-se continuamente morrendo (MONEY-KIRLE. para de certa forma melhor poder aniquilá-la. através da compulsão à repetição.como suas relações com o mundo exterior ainda não findaram apesar de insistentemente o imenso vazio imposto pela perda em si o impelir para tal -. A melancolia não permite reconhecimento de outro eu autônomo. tendencialmente. O que torna o sujeito em um compulsivo perseguidor dessa ilusão.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Pela infidelidade constante da perda em e para si. A experiência da perda assemelha-se. 55 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a saudade de um mundo compartilhado. a fim de transformá-la em sua própria. como privação em si mesma. Vazio estereotipado. que parece consumir o indivíduo melancólico em uma eterna nostalgia de um mundo compartilhado. age como um ser em processo de morte a cada momento e . e adquirindo uma vivência independente no processo de destruição do sujeito para si pela absorção repetida da perda. Perdido na própria perda o objeto faz com que a privação. Saudade de uma ilusão. O que faz. ao social. em agressão ao mundo exterior. Ser Discreto ao vazio.

pela negação das práticas relacionais de que fala DaMatta (1987). desloca o mesmo ator do social através da dicotomização entre o público e o privado. e a indiferença ao outro como a si próprio em processo civilizatório. reafirma o outro em si como uma perda que já não reconhece do que se privou. o espaço de solidão pela instrumentalização das ações que mobilizam as relações mercantis através da concorrência. desta maneira. Afigura-se no deixar também mais claro a emergência desse indivíduo melancólico cujos projetos.foxitsoftware. A emergência do indivíduo no Brasil de hoje parece se dar. A infidelidade ganha assim importância como regra de conduta. se perderam em um círculo vicioso e nostálgico de um retorno infinito à ilusão de algo remoto. parece deixar mais clara. A nostalgia que parece impulsionar o eterno retorno à perda sem objeto. ao mesmo tempo que nega. na dolorosa execução do seu trabalho interior nos indivíduos. Como que negando o outro como solidariedade. envoltos no anonimato urbano e em relações mercantis. e pela afirmação crescente do que Simmel (1967) chama de personalidade blasé. Ser Discreto Através do princípio de desempenho nega a si próprio e aos outros em relação. 56 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Amplia. e do qual a memória retém como privação irremediável. e agem como que deslocados do público espaço da existência societária.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Indivíduos que assumem ares de indiferença e enfado às relações sociais do cotidiano. essa existência blasé da personalidade contemporânea e urbana de que fala Simmel.com For evaluation only. mais evidenciada. assim. Caracterizada pela pulverização dos papéis e laços sociais desempenhados pelos sujeitos sociais. O processo de luto. aparentemente. mergulhando na solidão de uma subjetividade nostálgica e contraditória: que. ao mesmo tempo que aprofunda-se na subjetividade.

163 a 168.foxitsoftware. coluna "Eu Leitora") de uma professora curitibana.com For evaluation only. o mundo. indicativos da ruptura das práticas relacionais na sociedade brasileira urbana de hoje.durante momentos seguidos após o acidente. Mas no final estava sempre só comigo mesma. as pessoas felizes. Momentos em que o desespero me fez confundir as coisas. Ser Discreto A descrença em fórmulas rituais integrativas do morto e do enlutado às malhas sociais fornece. o desconforto público de ter o sofrimento pessoal exposto a outros ou no presenciar as emoções alheias. O não saber agir quando o luto ou o processo do morrer atinge alguém. . como ênfase. na esperança de recuperá-los. de ter de volta tudo o que tive. que morava com o marido carioca e o filho pequeno em Florianópolis.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. principalmente entre classe média intelectualizada mas. de junho de 1997. nesse processo de dessacralização dos processos integrativos da pessoa na sociedade. deste modo. 75. A ambivalência das atitudes individuais perante o morrer e a dor quase física da privação configura-se. as crianças. os matando. pp. assim. tende a orientar o agir de toda a sociedade. e que os perdeu em um acidente em um parque florestal: um eucalipto apodrecido caiu em cima do marido e do filho desta senhora. Não encontrei conforto algum em nenhuma religião. de uma certa maneira. na prática estou completamente só". com exceção momentânea na religião espírita e sua teoria da reencarnação. Momentos em que blasfemei a vida. Santa Catarina. tão grande era ela. como um ser que sofre a perda ou como o outro que a assiste. "não tive nem sequer a idéia da minha própria dor. Quanto me custou aceitar que nunca mais os teria e nem a felicidade e o amor. Por mais que algumas teorias confortem. Segundo o depoimento a Revista Marie Claire (n. a impotência para atos de solidariedade ou 57 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .

com For evaluation only. como um espaço de intimidade onde a nostalgia do perdido se estabelece. 8). A individuação a que alguém se vê sujeito pela privação parece ser transformada enquanto tendência. Afigura-se. A individuação tende a se processar. O caso da “Mineira Ansiosa”. Onde o movimento de individuação é constrangido para o interior do sujeito que passa a relacionar-se e a agir publicamente através da negação da expressão de sentimentos para si e para com os outros. comuns aos processos de mudança de costumes e tradições. afirma a consultora da seção “Modos e Maneiras” da Revista Claudia (julho de1994. no ser vivida intensamente como subjetividade. parece deixar transparecer importantes indícios 58 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . 1974 e DURKHEIM. ao lado da indignação e da ambivalência do agir.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como se identifica a leitora. reintegrando-o à sociedade (MAUSS. “Nos tempos modernos não há mais protocolo rigoroso para a espera”. para oficializar a união. ou como um outro sem identidade e sem retorno. isto é. 1996). um processo em que a individuação como momento privado é excluída do social. na sociedade brasileira atual parece se instaurar. Enquanto nas sociedades relacionais o processo de individuação é identificado e sujeito através de regras e ritos sociais. deste modo.foxitsoftware. em resposta a inquietação de uma leitora sobre a conduta do seu companheiro de muitos anos que quer esperar um ano de luto pela ex-esposa. onde fórmulas rituais explícitas retomam e remontam o ator à sua performance social. p. através da indiferença. Ser Discreto para a procura de conforto social. na sua expressão pública. também. parecem evidenciar o processo de individualização acelerada do brasileiro médio atual. negando a si mesma pela afirmação da individualização. em vergonha.

se aparece. ao distanciar o sentimento agora tratado como regra de etiqueta. ameaça. se existe ou não. como regras de etiqueta. exclui qualquer emoção. nesse caso. como um fato social.com For evaluation only. Pergunta a leitora: “pelas regras de etiqueta. é expor publicamente a chaga privada do casal que já vivia uma 59 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . remorsos ou dor existente. de querer aguardar um ano da morte da ex-esposa para poder oficializar um casamento que já existe na prática.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Irracionalidade a que o outro se deve opor. como uma questão subjetiva do sujeito em relação. se armazenada no íntimo. quanto tempo deve esperar um viúvo para se casar novamente? O mesmo vale para homens que já estavam separados da mulher?”. que necessita ser indiferenciada como etiqueta para não ameaçar a relação atual de anos por culpas. Guardar luto.foxitsoftware. para a leitora que indaga. do indivíduo que sofreu a perda (seu companheiro). que pode ser visto como um claro princípio de desempenho. a questão dos sentimentos é tratada com uma linguagem que denota indiferença. e sobre a qual. porém. De um lado. De outro lado. público . parece ser indiferente se privada. O que significa impor uma aura de irracionalidade ao sentimento do sujeito. se não houver quebra de nenhuma etiqueta ou regra de comportamento socialmente esperado. deve também seguir o companheiro. Marca que. Ser Discreto sobre a conduta ambivalente em que se acha exposto o brasileiro médio à demonstração pública de seus sentimentos. Se ela se torna pública. como prova de que a marca deixada pela ex-esposa foi totalmente superada. A individuação do sujeito no trabalho de luto por sua ex-mulher parece ter trazido à tona a marca da antiga relação. mesmo em forma de culpa. do processo racional de interação social.a morte da ex-mulher do seu companheiro -.

1974). do noir de suas emoções. como uma angústia. como marcas.foxitsoftware. como algo “sempre ainda por vir. Assemelha-se.. Através da psicologização dos sentimentos se domestica o processo de individuação. a própria ação social. Ser Discreto relação anterior à morte da ex-esposa. que tendencialmente vem tomando conta do 20 Parodiando. e de sua própria insegurança enquanto companheira. A individualização obtida pela indiferenciação. aqui. ou.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. torna-se uma eterna busca do tempo perdido20.. sempre já perdido . que condicionam o agir individual. 1989 e FREUD.com For evaluation only.. 1968. 155). da indiferença. com o título do célebre romance de Proust. de modo ambivalente. p. impossibilidade de realizar a ânsia por um fim”. (lugar da ) . Como personagens blazés que fazem. já não assenta suas bases em objetos ou noções de tempo. enfim. como marcas pulverizadas de uma ilusão que teima em repetir-se continuamente. do seu íntimo. repõe ao sujeito como psicologia a individuação enquanto processo privado. como disse Olgária Matos (1987. agora encarado com mal civilizatório (MARCUSE. como um desejo indiferenciado. que. mas apenas e cada vez mais se torna desilusão. A crescente descrença nos rituais sociais de integração do sujeito em processo de individuação. a um remontar-se. Como biografia. pela negação da individuação enquanto processo social. através do princípio de desempenho e da domesticação da individuação. quase doenças pessoais. A intimidade enclausurada no privado torna-se memória. através de uma espécie aparente de destinação última. CARUSO. 60 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . da individualização dos sujeitos que se protegem publicamente como negação de si mesmos.. de sua subjetividade. Do vazio. vista como o processar angustiante das privações de um sujeito que sente falta de algo que não sabe o que é. Como um mal.

ao mesmo tempo que se sente inseguro e incapacitado para tomar posições no interior de regras higiênicas e aos moldes do mercado. um aumento do seu sofrimento através de um progressivo descrédito individual. que informaram o rompimento para com a religião. ficou um enorme sentimento de vazio. e a individualização emergente. Confirmaram. É o que se configura nas afirmações contidas nas respostas à pergunta do questionário sobre como o sujeito que vivenciou uma experiência de luto se definiria depois da perda. que responderam que depois da perda houve uma quebra nas relações familiares. também. 12. Indivíduo que parece recusar as regras relacionais tradicionais. Toda uma carga simbólica parece recair sobre o sujeito que se move de modo contraditório entre os sentimentos de indignação e indiferença. nunca vivenciado anteriormente. Esta questão foi respondida por 1209 informantes. Houve.62% dos informantes que responderam ao questionário. Regras que o inviabilizam em função de um individualismo pulverizador da pessoa no social. É interessante verificar que. .06%. . Ser Discreto modo de ser brasileiro. seguido por 25. a afirmação de mudança nas condições de vida após a perda.tendo como referência neste trabalho o processo de luto. afirmaram uma tendência a um aumento da solidão pessoal em seu trabalho de luto. 84. emitida por 8. e uma melhor compreensão da vida foi enfatizada por 6. 61 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .60% dos informantes. 7. com respeito a instâncias institucionais desindividualizadoras. também.78%. hoje. e. Para 51. anexo.78% deles21.coloca em evidência para análise a questão da fragmentação da pessoa enquanto indivíduo em sociedade.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. após a perda.78% dos respondentes. sobretudo entre a classe média.foxitsoftware.com For evaluation only. 21 Conforme pode-se acompanhar no Quadro N.

esta. Ampliando e aprofundando a não sociabilidade da dor interna causada pelo sofrimento. através de instituições religiosas. estabelece parâmetros para a consolidação de novos códigos de individualidade. como um ato inominável que percorre e corrói os sujeitos que a vivenciaram e as suas relações institucionais e societárias. pelo rompimento das relações sociais na família ou nos códigos em que se assentavam os padrões de amizade. entre outros. Ou impulsionada.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a comunidade e grupos.foxitsoftware. que parece vir forjando a emergência desse novo ser brasileiro. continuem a existir e ainda exerçam forte ação em grandes segmentos da sociedade brasileira. A nova sensibilidade emergente e em vias de consolidação. entendida. Embora. enquanto intimidade. Processos perigosos por excelência para o social. a tendência à dessacralização e à individualização. pela desilusão com o trabalho ou com a arte desenvolvida. Ocasionada. Sem negar a forte influência dessas instâncias desindividualizadoras. também. motivada por vários fatores. a Igreja. como intimidade. contudo. O que configura o vazio proporcionado pela perda. como um espaço de intimidade. A domesticação do espaço privado. os partidos. como a família. cresce e parece construir códigos universalizantes que contaminam todas as esferas simbólicas da sociedade. O individualismo vem se constituindo através do controle social dos processos de individuação. cada vez mais. as instâncias desindividualizadoras. Movida. ainda. deste modo. como um espaço sentido como não social. pelo quebra da confiança nas mensagens emitidas em termos de dogmas de fé. pela revolução que parecem 62 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Espaço privado. Ser Discreto Falta de crédito. diferenciado do público e social.com For evaluation only. tem suas fronteiras delimitadas pela domesticação do espaço privado.

assim. e os impasses nas pessoas que o vivenciam domesticado. que passam a ver o mundo a partir dos próprios sentimentos. quer sejam de perda. tende a tornar-se o lugar da desilusão.foxitsoftware. o mundo exterior. são apropriadas pelo social como expressões do desejo pessoal e.com For evaluation only. as ânsias e os desejos mais íntimos de reencontro do outro e de si mesmo. Os indivíduos expostos a si mesmos parecem tender a fechar-se em sua solidão. inclusive. ou outros mais. nelas exacerbados. enquanto espaço social por excelência para o individualismo. As emoções. Ser Discreto provocar nas pessoas. As emoções tidas como fundamento do indivíduo enquanto instância privada. quer sejam de júbilo. onde as fantasias do sujeito. são domesticadas. do privado. desvinculando a sua subjetividade. pensar-se as emoções como um dos pontos de sustentação da nova sensibilidade em conformação. através da fragmentação de papéis. ou tentando desesperadamente desvinculá-la das interações sociais. da “realidade”. quer enquanto questões específicas do individual. como tal. parece conduzir para uma radicalização do individualismo nas relações sociais. Através do controle é possível. pela centralização do individualismo. Embora a trajetória do sujeito. através de uma nova roupagem de sentido econômico. do eu. sua biografia. seja produto do intercurso entre os dois mundos. O mundo interior e o mundo exterior parecem tornar-se absurdamente antagônicos. convenientemente tratadas. tanto quanto de sentido psicológico ou psicanalítico.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Apropriadas e tratadas. são desfeitos ou remetidos 63 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Por essas roupagens a individuação enquanto processo é recuperada pelo social. pela negação da subjetividade enquanto esfera própria do social. do seu ser em público. quer como relações mercantis próprias ao consumo. A pulverização da pessoa.

no interior de uma análise antropológica. A pessoa. e da indiferença dela resultante. Nesse trabalho se discute mais profundamente as noções de mundo interior e mundo exterior. contraditoriamente.foxitsoftware. o processo de indiferença para si e para os outros. O processo de escolha que parece recair radicalmente sobre os indivíduos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Confuso e confundido. aprofunda o distanciamento entre o privado e o público. e se torna portador de afetos de indignação e temor. arma como cenário o desempenho. por outro lado. enquanto instâncias do eu. onde se procurou trabalhar metodologicamente um caso de luto individual. Esta repetição. consequentemente. encarado como produto da desilusão sempre renovada do possível encontro dos dois mundos. ao mesmo tempo. Mesclado pela ambivalência. Ampliar a desilusão pessoal e. Repete. o sujeito em ação configura-se na tendência de olhar com um relativo desprezo a tradição e os velhos costumes e rituais de integração do indivíduo à sociedade. pelo 22 Ver um trabalho anterior do autor. numa espécie de repetição compulsiva22. uma certa saudade indefinida. então. O que parece fazer aumentar a distância do eu nos processos interativos e como conseqüência aumentar sua solidão. pelo social. no hoje. por um lado. porém. Ser Discreto de volta ao próprio eu. sem mais tempo nem espaço identificáveis. o privado e o público. parece encontrar-se mais exposta em sua solidão e em sua luta contra o social e. se. 64 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Koury (1999a). Este.com For evaluation only. inaugura os novos parâmetros em que se move e se consolida a sensibilidade individualista emergente.

foxitsoftware. 65 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .com For evaluation only. Ser Discreto processo de higienização dos valores. das regras e das normas de conduta e comportamento social a que se vê sujeito e ator.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. prá passar a dor dela prá mim. quando a tomaram para o hospital e para a morte". A narrativa contém um elemento comum a muitos processos do lidar com a morte no Brasil urbano do final do século XX. Ser Discreto Capítulo 2 A Morte e o Morrer "A morte chegou lenta na nossa vida.00. 249). Meu corpo colava no dela para dar calor. a Morte Interdita24. com uma renda mensal de aproximadamente R$ 1.500. prá aliviar ela. na época da entrevista. mais alento amoroso eu tinha. segundo as categorias elaboradas pelo historiador Philippe Ariès (1983) no seu estudo sobre a morte e o morrer no ocidente. Eu e ela nunca fomos tão um só. Até o fim. Por incrível que pareça. e residente na cidade de Belo Horizonte.foxitsoftware. apesar do aparente apelo sentimental nele incluso e o alto tom de angustia compartilhada a cada novo estágio da doença. O depoimento acima de um entrevistado23. todo o processo significou mais no nosso amor. sobre o acompanhamento do cotidiano morrer de sua esposa. . Este elemento comum referenciado é a morte higiênica ou.. capital do estado de Minas Gerais. 66 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . viúvo há quase três anos. nós tínhamos. realizada em outubro de 1999. vítima de câncer. de classe média. e isso me aliviava. me aliviava e era um ato de amor. (Entrevista N. Por morte interdita Ariès entende o processo através do qual se institui no social contemporâneo a cultura mortuária vista através e sob o 23 Vendedor propagandista de 38 anos de idade. Cada passo da doença eu me agarrava mais a ela. . abre este capítulo como uma espécie de epígrafe.

Espoliação aqui tem o sentido de desvio do direito daquele que está a morrer. Ver o interessante trabalho de Mitford. Para ele. após o Segunda Guerra Mundial. A luta contra a morte se passa cada vez mais no interior dos hospitais. reino de um saber técnico e instrumental. e como um fracasso tecnológico e humano momentâneo. a nova sensibilidade que vem se esboçando a partir dos anos cincoenta do século XX nas sociedades industrializadas. e o terceiro a recusa do luto. (1963). Ariès (1967). A morte passa a ser interdita.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. p. 174). pode ser analisada em torno de três temas. Tem como objeto de análise as mudanças ocorridas nas culturas funerárias dos Estados Unidos25 e de países como a Inglaterra e a Holanda. Ser Discreto controle do saber médico. o segundo a simplificação do ritual funerário. para onde são levados os pacientes. encarada como vergonha ou como fracasso pessoal ou institucional. mas sua atenção se encontra voltada para o movimento que parece desenvolver-se com intensidade nas sociedades industriais. Em um artigo intitulado "La Mort Inversée". Holanda e Estados Unidos. nem do caráter de solenidade pública que caracteriza o momento 25 24 Quarta categoria analítica elaborada por ele em seu estudo. O primeiro está associado a espoliação do moribundo. discute as mudanças nas atitudes perante a morte nas sociedades ocidentais. sobre o processo de morte nos Estados Unidos. Segundo as palavras de Ariès (1967. e que parece ter-se aprofundado mais em países como a Inglaterra. 67 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . principalmente a França e a Espanha contemporânea. "Hoje em dia já não resta nada nem da noção que cada um tem ou deve ter de que o fim se aproxima.foxitsoftware.com For evaluation only. Nesse processo a morte é vista no embate com a possibilidade de cura.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O doente nunca deve saber (salvo em casos excepcionais) que o seu fim se aproxima. Deixou-se progressivamente de velar o corpo na casa onde viveu o morto. Os rituais religiosos de corpo presente. em muitos casos. O novo costume exige que se morra na plena ignorância da sua morte. segundo a análise feita por Ariès no seu artigo sobre a inversão da morte aqui utilizado. a partir de então. bem como os cultos e missas de sétimo. e o cemitério tende a deixar de ser um local da morte para vender a idéia de um lugar para o bem-estar dos vivos. Em muitos casos foram suprimidos os cultos de corpo presente. Já não é apenas um hábito introduzido ingenuamente nos costumes. É evidente que o primeiro dever das família e do médico é dissimular a um doente condenado a gravidade do seu estado. Ser Discreto da morte. A tradição ainda mantém. Deixou-se também de praticar o longo cortejo fúnebre. quando presente. hoje. O que devia ser conhecido é. bem como o de trigésimo dia da morte. No processo contemporâneo de interdição da morte. se situa no próprio cemitério onde se irá enterrar o corpo morto. trigésimo dia e um ano da morte do ente querido também parecem ter-se deixado abrandar. Como regra tem se tornado a abreviação e a impessoalidade dos ritos funerários. e as novas convenções configuram-se no exigir que "se oculte o que outrora era necessário expor ou mesmo simular: o desgosto" (p. ou próxima ao cemitério. se não no próprio cemitério.com For evaluation only. também as expressões públicas de sofrimento. O que devia ser solene é escamoteado. se não no próprio hospital. 68 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . escondido. 186). do hospital se vai para uma casa de velórios próxima ao hospital.foxitsoftware. Tornou-se uma regra moral". Abandona-se. a missa de sétimo dia e a de um ano de morte.

'senão na privacidade. uma coisa inominável. da visão da morte como tabu. os que o choram devem ocultar o seu desgosto. . Se o indivíduo agonizante deve vencer sua perturbação e entregar-se atenciosamente a equipe médica... publicado em 1995 na revista Encounter. e que modificações eles apontam.com For evaluation only. poderia ser excluídos. diz Gorer26. 'Não se chora'. 188). Este capítulo pretende discutir as modificações por que vem passando a sociedade brasileira nos últimos trinta anos finais do século XX. se direcionam ou sentem falta na história recente dos costumes funerários na cultura brasileira? Estas são algumas das questões que aqui se pretende analisar. "A sociedade inteira comporta-se como uma unidade hospitalar. e republicado como apêndice em Gorer (1963). Até que ponto as atitudes perante a morte e morrer no Brasil contemporâneo se enquadra nas análises feitas por Ariès para a sociedade européia e norte americana? Como os indivíduos entrevistados por esta pesquisa se colocam em relação a morte e o morrer no Brasil atual.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Gorer teve o mérito de ter sido o primeiro a formular a regra moral da interdição da morte. tal como nos despimos ou repousamos privadamente" (p. presente na civilização industrial. Passando em Revista as demais Categorias Analíticas de Ariès 26 Ariès cita o já clássico artigo de Geoffrey Gorer sobre os costumes mortuários contemporâneos na Grã Bretanha. Segundo Ariès (1974). renunciar a uma solidão que os trairia e continuar a sua vida de trabalho e lazer sem qualquer interrupção.foxitsoftware. intitulado "The Pornography of Death". A morte parece ter-se tornado o principal interdito do século XX. Ser Discreto a morte parece ter-se tornado um tabu. na qual não se deve falar em público nem tampouco obrigar aos outros a fazê-lo. De outro modo. 69 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como eles encaram o sentimento de luto.

e implicava uma certa concepção coletiva do destino de todos e de cada um. parece percorrer o ocidente até o século XII. Ser Discreto A categoria de morte interdita para Ariès (1983) compreende as modificações por que vem passando três a sociedade analíticas ocidental ajudam na a contemporaneidade. como uma separação dos justos e dos condenados. a partir dos séculos XI e XII. mas no próprio quarto do moribundo. Ela começa a aflorar na sociedade ocidental durante a segunda Idade Média. Nesta categoria está presente a idéia e o sentido do Juízo Final.foxitsoftware. próxima e indiferente. dos séculos XV e XVI. denominada de Morte Domesticada. Por isso os rigores dos cultos funerários. chamada de artes moriendi.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. embora a vizinhança com os mortos fosse temida. Idéia. 70 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . A segunda categoria é denominada por Ariès como Morte de Si Próprio. Os mundos dos vivos e dos mortos configuram-se no comungar uma certa familiaridade e coexistência. e a idéia da ressurreição dos mortos. A construção desta idéia orientou as novas características de se pensar o indivíduo na sociedade terrena e celestial e houve uma inclinação para situar o Juízo Final não no final dos tempos. no final do século XIII. conferir um sentido dramático e pessoal à familiaridade tradicional do homem e da morte. São modificações sutis que vão. pouco a pouco. a morte tendeu a ser simultaneamente familiar. ligada a idéia de uma biografia individual. Nesta categoria. como uma forma de impedir que os mortos retornassem para perturbar o mundo dos vivos. A primeira. São desta época os livros de etiqueta sobre a maneira de morrer bem. Outras categorias compreender a sociedade ocidental em sua história das modificações na sensibilidade sobre a morte.com For evaluation only.

de Ariès. Ser Discreto Estes tratados. Neste período também acentua-se uma espécie de horror da morte e da decomposição do cadáver. sentido específico do macabro. intitula-se a Morte do Outro. deste modo. comum a todos. e que vai determinar a sua sorte na eternidade. e à noção de fracasso. que antes não possuía. Ainda essencialmente parte de uma ação cósmica. Esta atitude tende a persistir até o século XIX. A decomposição e assemelhada à ruína do homem. Fracasso entendido enquanto certeza da morte e da fragilidade da vida. começam a indicar a presença de Deus e sua corte no quarto do agonizante. Neste. cada vez mais. uma estreita relação entre a morte e a biografia de cada vida singular. A morte sempre presente no interior de si mesmo dava ao homem do final da Idade Média uma paixão pelo viver e um apego apaixonado às coisas e aos seres possuídos durante a vida.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O processo de morrer foi configurado e converteu-se. A iconografia das artes moriendi. Ao mesmo tempo que reforçou o papel do moribundo nas cerimônias de sua própria morte. A terceira categoria analítica para demonstração das atitudes do homem ocidental perante a morte e o morrer na história. para este homem.foxitsoftware. Presença que tinha o sentido de verificar como este indivíduo iria se comportar no decorrer da prova que lhe é proposta antes do seu último suspiro. A partir do final do século XVIII o homem ocidental parece já se preocupar menos com a sua própria morte. então. elaborados em interfaces de gravuras e legendas. representam um movimento de passagem entre um rito coletivo e uma inquietação pessoal. no lugar por excelência onde poderia possuir uma melhor consciência de si mesmo. A morte romântica aparece 71 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a solenidade ritual da morte no leito tomou um caráter crescentemente dramático e emocional. estabelece.com For evaluation only.

gesticulações parecem ser inspiradas por uma dor causada por um sofrimento único. se a morte no leito rodeado de parentes. no decorrer do século XIX e no século XX. na descoberta da morte do outro aprofunda-se na mentalidade do homem comum a complacência com a idéia da morte. A simples idéia de morte é comovente. Esse sentimento de ruptura. que ele chamou de descristianização. Como um movimento e um momento inusitado que arranca o homem de sua vida cotidiana para o submeter e o lançar a um mundo irracional. de transgressão. Este outro que. Por um sentimento espontâneo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. tende a encarar a morte como uma espécie de transgressão. Mudanças caracterizadas por um menor investimento na economia moral da salvação.com For evaluation only. 72 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . apaixonado. e em uma ampliação do sentimento individual em relação ao morto e à morte. ganhava no decorrer do século XIX um novo formato: a emoção que toma conta da platéia que vela o moribundo. A atitude desta nova fase fundamenta-se com a ênfase nas palavras e nos gestos do moribundo e no papel dos assistentes da agonia deste. violento e cruel. Diferente dos sentimentos do morrer dos períodos anteriores. Para Michel Volvelle (1973) o período chamado por Ariès de descoberta do outro se fez através da ampliação do processo de laicização e revelou a emergência de uma nova atitude perante a morte e o morrer.foxitsoftware. encara a idéia de morte como um momento de beleza admirável. Por outro lado. gritos. a separação daqueles que se foram se afigura como intolerável. amigos e anônimos. Ser Discreto mais como a morte do outro. o luto parecia obrigar a família a manifestar um sofrimento pela morte do ente querido durante um certo período de tempo. Bem como a relação do moribundo com a sua família. Choro. ainda continuava como nos antigos. Se partir do final do século XVIII.

tem-se como que um exagero do luto. Inaugura-se uma nova época do silêncio em relação à própria morte e ocorre uma maior proliferação de representações sobre a morte alheia. que se expressam desde a presença de novas formas de sensibilidade. em sua dimensão literária. Pela redefinição. enfim. teme-se a morte do outro. recôndita. A morte alheia é exaltada. mais do que a própria morte. na expressão do excelente livro de Mary Douglas (1976). pela redefinição das noções de poluição ritual. Atitude aprovada e recomendada pelos médicos ao alegarem motivos de saúde pública. No final do século XVIII ocorreram mudanças significativas em relação às atitudes diante da morte e dos mortos. como até então vinham sendo demarcadas. aparentemente. vista como impressionante e arrebatadora.foxitsoftware. dos códigos de pureza e perigo. É a fase da morte romântica. também. Reforçada. A proximidade dos moribundo e dos mortos passa a ser considerada perniciosa. dramatizada. até as práticas e hábitos de poluição e limpeza.com For evaluation only. Estas mudanças apontavam para uma conduta hostil em relação à proximidade do moribundo e do morto. período que corresponde a intervenção da prática médica nas questões referentes à cultura mortuária. no século XIX. O que reforça um conjunto de mudanças no imaginário e na mentalidade sociais.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. orientadas mais por critérios médicos e não religiosos. Os enlutados parecem aceitar a morte do ente querido mais dificilmente que em outros tempos. presentes nos costumes e práticas do homem comum contemporâneo a este processo. na esfera do cotidiano. Ser Discreto ao mesmo tempo que a defendia contra os excessos de sua própria dor. e da morte privada. 73 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .

com For evaluation only. do mundo ocidental moderno e contemporâneo. Ser Discreto As linhas de ruptura que parecem conter toda a periodização realizada por Ariès em suas categorias analíticas das atitudes do morrer e da morte no ocidente. se desenvolvido lentamente durante toda a Idade Média até o final do século XIX. Movimento de constituição que caminhará até a manifestação de uma linha de ruptura que se aprofundará durante o século XX. no processo formativo da nação brasileira. porém. Em todas elas. certos traços e conformações do passado que emolduram as relações travadas internamente desde a sua gestação permanecem. afiguraram-se por ter. 74 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Neste caso. A morte considerada vergonhosa e objeto de um interdito. a cada momento e movimento societal. parece se fortalecer o processo de formação do indivíduo moderno. porém. marcando sua singularidade enquanto cultura e organização social. sendo parte integrante. pode-se argumentar que o Brasil é fruto de um processo colonizador e produto da própria maturação e caminhar da Europa Ocidental deste o século XVI.foxitsoftware. Período que contém as três categorias analíticas agora em revista. A Morte e o Morrer no Brasil Será que as categorias analíticas de Ariès construídas para o estudo da sociedade ocidental industrializada acima passadas em revista. De outro lado. e se caracterizará pela grande recusa da morte na contemporaneidade. portanto. Linhas de ruptura que foram se configurando de forma tão lenta a ponto de passarem quase imperceptíveis para os contemporâneos de cada uma delas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. A Morte Interdita. tendencialmente. o Brasil faz parte do espólio e do legado europeu. ajudam a compreender o caso brasileiro? De um lado.

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Rupturas e continuidades configuram as possibilidades históricas de conformação da sociedade brasileira. Para os estudiosos, assim, é buscando os vínculos passados ainda existentes no presente, e perguntando o porque ainda de sua existência, real, imaginária, ou redefinida, que se possibilita a compreensão e o detectar não apenas da história social desta formação social, mas também o jogo cultural, político e econômico das forças sociais em movimento internamente e suas relações internacionais. Forças internas que remetem, refletem e reconstroem continuamente a singularidade e a especificidade de sua experiência cultural, ao mesmo tempo que fundam e são fundadas por relações internacionais presentes desde seu processo gestativo e formativo. Nada mais nada menos, que frutos de legados, trocas e embates estabelecidos com culturas e organizações societárias fundamentais a sua construção enquanto povo e nação. Bem como os projetos, desejos, sonhos e lutas que orientam rupturas e conformações novas sobre o já anteriormente instituído. Neste sentido, as categorias de Ariès construídas para entender as atitudes perante a morte e o morrer na Europa e nos Estados Unidos, ou nos países industrializados do ocidente, servem também para informar sobre a cultura funerária no Brasil. Pelo legado europeu e de seu embate com outras culturas presentes, como a africana e a indígena, que influenciou a formação do país desde a colônia, e as relações estabelecidas internacionalmente após sua independência. Bem como à instituições internacionais, como as Igrejas, principalmente a católica, presentes na conformação do pensamento ocidental no seu veio judaico cristão, e as idéias e ideais culturais, estéticos, acadêmicos, científicos e tecnológicos do ocidente, que influenciaram os embates presentes na configuração e consolidação de um pensamento nacional.
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É impossível, assim, buscar uma compreensão de um pensamento brasileiro e das atitudes de sua população, sem situar a história de sua singular formação social a nível internacional, especificamente, ligado à cultura européia. Para situar as atitudes em relação à morte no Brasil, se passará aqui, em revista, alguns trabalhos de historiadores que se debruçaram principalmente no século XIX de nossa história. Século entendido como fundamental para compreensão dos rumos traçados para os processos no desenvolvimento e consolidação do indivíduo e da sociedade

contemporânea ocidental e, aqui, especificamente, brasileira. Os autores que ajudarão a elaborar uma breve síntese do século XIX brasileiro sob a perspectiva comportamental em relação a morte e aos mortos neste capítulo são, entre outros, Gilberto Freyre (1961 e 1977), Frédéric Mauro (1980), João José dos Reis (1991 e 1997), Claudia Rodrigues (1995), Sandra P.L. Camargo Guedes (1986), Ariosvaldo da Silva Diniz (2001) e Lenilde Duarte de Sá (1999). Autores que, ou trataram diretamente da questão das atitudes perante a morte e o morrer no Brasil ou, ao retratarem o cotidiano do século XIX, tocam e apontam movimentos para mudança nos costumes e representações no interior da cultura mortuária no país. Para a maioria dos autores aqui trabalhados, a morte até meados do século XIX no Brasil era vista como uma espécie de rito de passagem entre a vida física e a vida atemporal após a morte. Comandados pelos rituais e crenças religiosos, o sentimento e o agir em relação a morte e o morrer eram orientados no sentido de uma busca de garantia de um bom lugar na vida eterna, e neste sentido, para uma preocupação com a preparação individual para se morrer bem.
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A noção de boa morte presente sobretudo no imaginário cristão católico desde a idade média européia, está baseada em uma estrutura imaginária de troca. Estrutura imaginária esta, onde os valores simbólicos afiguram-se como sendo inseparáveis dos resultados materiais e sociais que a permeiam e os fins que persegue. É formada por uma rede de relações complexas entre o moribundo, os que o sobrevivem, sobretudo os parentes e amigos próximos, entidades como a Igreja, intermediária fundamental entre os vivos, os mortos e a eternidade, e o sobrenatural, com toda a sua rica hierarquia e estratificação. Além dos pobres, considerados "substitutos terrestres dos mortos, pois as esmolas que lhes são dadas fazem parte dos 'sufrágios' que ajudam na salvação dos defuntos. Alimentar materialmente os pobres equivale a 'alimentar' simbolicamente, com preces, a alma penada do doador que está morto" (SCHMITT, 1999, p. 50). A busca de morrer bem está associada assim as estratégias lançadas por alguém em vida, - ou mesmo depois de morto, através de aparições, por exemplo, - para livrar-se da morte eterna. A morte eterna é uma noção extrema, na complexa simbologia cristã. Segunda esta, no Juízo Final, os mortos ressuscitarão após um julgamento divino particular de cada pecador. Aqueles condenados ao inferno não ressuscitarão, condenados que estão ao fogo eterno. A idéia de morte após a morte está ligada assim a idéia de inferno. Na geografia celeste (REIS, 1997, p. 97), os puros de espírito ganharão a vida eterna e o reino dos céus. Os sem possibilidade de salvação, a morte eterna, simbolizada pelo inferno. Esta dicotomia é quebrada, a partir do século XII, por uma instância intermediária chamada por Jacques Le Goff (1981, p. 386) de "Inferno Temporário", que dá forma a idéia de purgatório.
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A idéia de purgatório, ou seja, a idéia de uma instância intermediária entre o céu e o inferno, entre os bons e os irrecuperáveis surge em um momento onde o imaginário sobre os mortos deixa de lado um espaço onde se pensa a coletividade, como o exército de mortos, por exemplo, para concentrar-se cada vez mais no morto particularizado, individualizado. Um lugar fixo para as almas penadas, - que necessitam, entre outras coisas, de preces, velas, presença na memória e nos sacrifícios dos vivos, alcançarem a vida eterna, id est, a salvação. Essa concepção de um lugar intermediário como um lugar de almas em processo de purificação, através da noção de purgatório, permite não apenas situar o morto como um ser individualizado, mas também possibilita uma certa tranqüilidade aos vivos. As almas penadas não saem mais em exércitos a vagar pelo mundo horrorizando os vivos, eternamente, sem ter um lugar para ficar, um "domicílio fixo" (SCHMITT, 1999, p. 146). Não que elas deixem de fazer aparições a indivíduos ou grupos de indivíduos específicos, a procura de rezas, e de se fazerem lembrar aos que ficaram, mas agora, elas tem um local de moradia, para onde vão e voltam. Quem sabe, também, a partir das orações, missas, penitências, e cumprimentos dos vivos das promessas e dívidas do morto, bem como de esmolas ofertadas aos pobres da região, não cumpram sua parte da dívida, e consigam a vida eterna através da purificação dos seus pecados. A criação imaginária do purgatório, assim, possibilitou, de um lado, a emergência da alma individualizada que pode ser purificada dos seus pecados. O que significou uma chance para a salvação de muitos vivos quando no chegar de sua hora. De outro lado, permitiu também um maior para

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intercâmbio e solidariedade entre os vivos e os mortos . Através de orações e ações penitenciais dos vivos poderia ser conseguido a salvação dos mortos, presos nesta região de passagem, chamada de purgatório. Bem como, as almas no purgatório também poderiam aparecer aos vivos para avisá-los e, quem sabe, salvá-los, de algo que no futuro imediato poderia acontecer-lhes, ou de suas mortes, para que pudessem ir se preparando, enquanto ainda estavam com vida e saúde. Este contato entre vivos e mortos se amplia na Europa entre os anos 1000 a 1300, segundo Le Goff (1981) e Schmitt (1999), e é bastante comum no Brasil do final do século XVIII e boa parte do século XIX, segundo Reis (1991), Rodrigues (1995), Guedes (1986), indo, se acompanharmos a análise de Roberto DaMatta (1987), até meados da década de sessenta do século XX e, quiçá, até os dias de hoje, em algumas comunidades espalhadas pelo solo brasileiro. A preparação da e para a morte era sentida como uma espécie de normalidade cotidiana, bem como os estreitos vínculos entre os vivos e os mortos, e a ingerência dos vivos na salvação e purificação das almas do purgatório. A vida e a morte, embora entendidas como dois mundos, faziam parte de um mesmo imaginário social, e nele e sobre ele mantinham um intercâmbio e uma busca simultânea para ajudas e satisfações pessoais, quer dos vivos, quer dos mortos.
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A proximidade entre vivos e mortos no Brasil de oitocentos é analisado por Bastide (1971), não apenas com base na prática católica, religião dominante e oficial do país de então. Mas também, e principalmente, por uma comparação entre as concepções católicas e a cosmogonia e concepções sobre o outro mundo trazidas pelos africanos no exílio brasileiro como escravos. Demonstra que, apesar da força da Igreja Católica, muito dos rituais e concepções sobre a morte e os mortos do catolicismo foram impregnadas no Brasil pelas noções trazidas pelos africanos no país. Bem como, rituais africanos foram transvestidos e incorporaram práticas e valores do catolicismo vigente. Apesar de frisar que, sem qualquer dúvida, as regras católicas predominassem no lado público, especialmente, dos funerais. Ver, também, Santos (1986) e Reis (1991).
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Com a idéia de uma salvação personalizada, a cada alma individual, o julgamento final era pensado e realizado pela presença do reino celestial junto ao leito de cada moribundo. Estágio analítico correspondente à categoria de morte domesticada de Ariès (1983). No Brasil, este processo invade o século XIX. Com a proximidade da morte sentida por um indivíduo qualquer, este reunia os familiares, parentes, amigos, conhecidos e desconhecidos, além de pobres e mendigos, em seu quarto, onde passava em revista a sua vida. O quarto do moribundo era o lugar por excelência onde se realizava o julgamento celestial de suas culpas e acertos. A preparação para a morte, assim, no caso brasileiro, era vista como fundamental para se conseguir a salvação ou a vida eterna. No século XIX, a morte boa era a morte avisada. A doença não era considerada um mal pessoal, mas um aviso celeste para o indivíduo preparar-se para morrer. Fatídica e temerosa era a morte súbita. Aquela que retirava de entre os vivos um ser, repentinamente. Segundo Reis (1997), este tipo de morte era temida pela população brasileira nos oitocentos, por vir sem a possibilidade de acompanhamento de uma preparação pessoal e dos rituais exigidos e necessários na cultura fúnebre da época. Este tipo de morte parecia querer atestar a necessidade de ampliação dos esforços dos vivos para a salvação daquela alma que se foi sem o tempo de preparação. Era tida como mal presságio pela sociedade do século XIX. A sociedade brasileira dos oitocentos olhava de viés os familiares de um morto súbito, e os levavam a uma prática penitente muito mais aguda para salvar não só a alma do que se foi, mas o mal familiar exposto, e que colocava em perigo toda a comunidade, pela situação de risco anunciada pela morte repentina do parente morto.
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como ator principal. instituições familiares e religiosas e o mundo do além. para uma análise comparativa sobre esta questão. p. como além. bens e afetos conquistados no decorrer de seu percurso como homem. O cenário por onde se movimentava a morte representava. Construção cênica que trazia e punha em ação. significava também para o moribundo. mas requer o pensamento em uma forma de solidariedade movida a tensões e disciplina dos corpos e das mentes à uma política e à uma cultura fincadas no equilíbrio de espaços temporais. a realização de um inventário de seus esteios. um saldar as dívidas e os compromissos no social . A ele secundando padres. O preparar-se para a morte era assim. no seu leito de morte. O momento de passar em revista as ações e as omissões junto ao reino celeste. entre o Brasil dos séculos XVIII e XIX e Portugal da Idade Média. p. deste modo.com For evaluation only. sobretudo. o moribundo no seu julgamento pela corte celestial. Entrosamento este que não quer dizer harmonia. deste modo. 1997.foxitsoftware. A 28 28 Ver.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Sociedade. 103 e 104) e de reparar moralmente pessoas ou instituições por ele difamadas. rodeado de próximos e desconhecidos. amigos e conhecidos e o público em geral. neste período. assim. 1983. uma manifestação social (ARIÈS. um reparar ações e omissões realizadas ao longo de uma vida. preparando-se para a sua morte em breve. familiares próximos e distantes. Sociedade dos vivos e dos mortos eram. um tempo de fazer justiça (REIS. sobretudo. 81 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . também. 110). negadas ou negligenciadas em sua vida cotidiana. existentes na tênue demarcação entre o tempo dos vivos e dos mortos. Era. intricadas. o texto de Marques (1974). Era o cenário da Morte Domesticada. na preparação de um ser para a morte e na idéia de salvação nelas incorporadas. estavam em perfeito estado de entrosamento.

Este aspecto de acontecimento social era importante para o trespasse do morto. Sá (1999).com For evaluation only. A sociabilização dos processos do morrer. durante a segunda metade do século XIX. locus por excelência da morte privada. a sensibilidade do homem do final dos oitocentos parece mudar para uma nova forma menos apegada aos domínios do sagrado e mais ligada as coisas profanas. uma morte repentina. assim. solitária. o ajudavam com suas preces e penitências "ao pé do morto"29. É interessante notar que o 'antigamente' levantado pelo entrevistado não se refere ao século XIX.foxitsoftware. pode ser pensado como fruto de uma sociedade relacional e pouco individualista. Diniz (2001). na cultura funerária da época.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O processo de privatização da morte e do morrer foi se instalando paulatinamente no Brasil do século XIX. através de uma separação da idéia do destino do cadáver e do destino da alma. e não deveria ser. sociedade e poder local na cidade da Parahyba do Norte. por exemplo. nos dizeres de Roberto DaMatta (1983). fala de uma linguagem híbrida do sagrado e do profano que marca as entrelinhas do discurso que sugere a necessidade do processo de 29 Expressão utilizada por um entrevistado ao falar da diferença do ritual da morte entre o 'antigamente' e o 'hoje'. Sociabilidade esta ainda não reduzida ao núcleo da família nuclear. p. no estado da Paraíba. hoje João Pessoa. Sá (1999. privada. no Brasil oitocentista. Ser Discreto morte era vista e sentida como um acontecimento social. de Pernambuco e da Paraíba. mas e sobretudo. ao retratar as discussões entre higienistas. que trabalharam a relação saúde e sociedade no Brasil com enfoque na epidemia do cólera no século XIX nos estados da Bahia. pois o público em volta do moribundo não apenas testemunhava a sua boa morte. Segundo autores como David (1995). 47). idealmente. mas ao final dos anos quarenta e o correr dos cincoenta do 82 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .

Linguagem híbrida que paulatinamente começa a tornar-se. a partir da segunda metade do século XIX. (Entrevista N. técnica e racional. cada vez mais. Como o fizeram no final do século XVIII os protagonistas do discurso higienista na Europa. Ser Discreto urbanização da cidade em sua relação com uma atitude enérgica de desenvolvimento de práticas sanitárias de caráter público. sobretudo. deixando de lado as recorrências à 'castigos dos céus' e outras referências ligadas ao sagrado. começou a vir a ser revelada. estado do Espírito Santo. descobriam os espaços e lugares onde residiam ou se entulhavam corpos capazes de provocar doenças em outros corpos. 1986). em discurso oficial do poder.com For evaluation only. parece que os limites de tolerância do olfato se tornaram mais rebuscados. assim. quando o discurso médico vai se tornando. ligada. 83 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . também. hospitais. 200). a sofrer modificações na prática cotidiana dos homens brasileiros dos oitocentos. por ele vivido como adolescente na cidade de Vitória. bem como bairros periféricos onde se aglomeravam a pobreza urbana no Brasil. vivos ou mortos. 30 Ver a excelente discussão sobre a construção social dos sentidos em Ackerman (1992). com o avanço da epidemia. de onde se originaram e foram influenciados os discursos e práticas higienistas brasileiros. ruas. segundo os autores citados.foxitsoftware. A morte e o morrer passam. Esta relação. higienistas e homens do poder. contudo. Cemitérios. ao aumento do contigente século XX. passavam a ser objeto de inquietações e buscas de ordenamento (KOURY. com mais ênfase.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Esse aumento de sensibilidade30 era verificado principalmente com relação aos locais onde se percebiam aglomerados humanos. portos e prisões. Médicos. deste modo. No final do Império no Brasil e no raiar da República.

mesmo que ainda cheios de ambivalência e certa relutância no deixar de lado as velhas práticas e hábitos comportamentais. quando começa a se consolidar enquanto atitude. cortejo fúnebre e sepultamento. Os odores que dele emanam. A doença deixa de ser vista como um aviso de bom presságio de uma boa morte e de um aceite no reino celeste. compromete o prosseguir das velhas práticas e as mudanças para novas formas de sensibilidade começam a se impor. O corpo morto também deixa de ser objeto de veneração e de atitudes rituais demoradas e próximas dos entes queridos. configuração urbana Talvez motivados pelas epidemias e mortes acentuadas. gradualmente. vizinhos. porém. O medo da morte.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. do seu velório. e do discurso do poder que o incorpora. e passa a ser prognosticado como corpo contaminado e que contamina a quem dele tiver contato. o processo da morte passa também por uma reconfiguração e um distanciamento das práticas e costumes comuns até então de agravando os problemas da sua incipiente acompanhamento público do moribundo até a sua morte. Ser Discreto populacional no país. Uma maior brevidade entre o morrer e o sepultamento é verificado nos novos costumes que passam a viger. a fazer parte do imaginário e da mentalidade do homem comum brasileiro do final dos oitocentos até próximo aos anos cincoenta e sessenta do século XX. 84 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .com For evaluation only. deslocando-se do discurso médico e higienista. e passando.foxitsoftware. amigos e público em geral. tornando cada vez mais técnico e racional o trato e o lidar com a morte e o morrer. Torna-se uma ameaça a ser combatida com vigor. e começa a ser encarada como ameaça de morte de um outro para outros.

Deixa de ser social. como um objeto não solucionado pela tecnologia médica do momento. Inicia-se. deste modo. KOURY. onde as cidades começaram a adensar-se em termos populacionais. A morte vira um questão sanitária. e começa a ser considerada como algo anormal. no sentido complexo da subjetividade dos sujeitos nela envolvidos.o moribundo.foxitsoftware. Deixa de ser um elemento natural de um ciclo de vida. toda a sociedade. estendida aos pobres e aos locais de pobreza. saneamento. enquanto rede de relações simbólicas e afetivas. Um período intenso de mudanças se configurou na década de vinte. com políticas urbanas de embelezamento.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. os familiares. as instituições. Um segundo ciclo de mudanças aconteceu a partir dos anos cincoenta. concomitantemente. . social e econômico. 1986. e passa a ser uma questão técnica de controle higiênico para a vida. enfim. com a política desenvolvimentista do Governo Kubtscheck e a 31 Essa relação é. A Morte e o Morrer no Brasil Contemporâneo A sociedade brasileira no século XX passou por profundas modificações no seu perfil populacional. 85 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e adequação dos veios de circulação de produtos mercantis e humanos. Ser Discreto como corpo morto. o longo processo em que a morte começa a ser negada e vista como um constrangimento social pelo homem urbano no Brasil. que passam a ser vistos como locais contaminados e perigosos que precisam ser higienizados (ver. o público em geral. passam a ser evitados como possíveis de contaminação31. ou mesmo como corpo doente. que melhor se adequassem as exigências do capitalismo internacional no momento. e um surto de modernização teve início. moribundo. entre outros).

principalmente nos grandes centros urbanos e nas capitais dos estados. também. 75. na década de setenta. e principalmente.67 %. na década de noventa. A mudança rápida de uma tradição rural para uma urbanidade desordenada e intensa. pela concentração dos serviços 86 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto política de industrialização e modernização da economia brasileira a ela conseqüente. bem como em uma agricultura e pecuária cada vez mais intensiva e mecanizada. sobretudo. mas também. e passou cada vez mais a concentrar-se nas cidades. Processo que se consolidou e se expandiu a partir do golpe militar de 1964.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 81.IBGE.60 % (IBGE. dilacerando práticas relacionais comunitárias e provocando sentimentos díspares e ambivalentes quanto ao papel a desempenhar em situações concretas do dia a dia da existência societária. que passam a concentrar nos esforços industriais e de serviços os aspectos do seu desenvolvimento. 1996 e 1997) e no ano 2000. passando na década de sessenta a representar 44. Neste momento.16 % da população brasileira. na década de oitenta. 55. a população urbana da década de cincoenta correspondia a 36. Esta mudança acelerada nos padrões estatísticos do país modificou não apenas os padrões econômicos. É importante assinalar. 2000). a população brasileira começou a deixar de ser predominantemente rural. e principalmente dos anos setenta. veio acompanhada também por uma centralização provocada.23 % do total da população (IBGE. que esta passagem brusca de um estatuto rural populacional para uma urbanidade em processo rápido e acelerado de concentração. para os objetivos deste trabalho. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística . 67.foxitsoftware. parece atingir em cheio hábitos comportamentais. 1987).92 %. os padrões sociais e culturais existentes.60 % (IBGE.com For evaluation only.

tendo como parâmetro a sociedade americana. a partir da década de cincoenta e principalmente. principalmente com a expansão da televisão em rede nacional no país a partir da década de setenta. As cidades se expandem. Expulsos do campo vão para as cidades em busca de empregos e sobrevivência. ao mesmo tempo que se amplia uma classe média sequiosa de novidades e buscando se desprender de padrões culturais e hábitos comportamentais considerados pela mídia como não atinentes aos padrões civilizados de uma urbanidade ocidental. O chegar à cidade vem acompanhado também por um processo de exclusão econômica para uma grande parte da população em processo contínuo migratório. e aumentando a ambigüidade do homem comum 87 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . centrados no eixo Rio de Janeiro e São Paulo.com For evaluation only. principalmente. A necessidade de incorporar-se a padrões culturais e comportamentais globais de desempenho e competitividade. Nos anos noventa. Padrões de comportamento e atitudes locais passam a ser abandonados ou modificados segundo regras ditadas pela concentração excessiva de informações. atraídos. esta tentativa de inclusão.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. parece ter tomado conta de grande parcela da classe média nacional. a miséria da maioria da população aumenta. do sentimento de fazer parte de uma modernidade ocidental. ampliando as margens de desclassificação de hábitos considerados não condizentes a padrões civilizatórios e urbanos da modernidade mundial. da década de setenta e oitenta pela ilusão de empregos industriais e pela expansão da construção civil em processo acelerado no país. Ser Discreto informacionais e de mídia em pólos específicos.foxitsoftware. é acentuada. ou melhor. principalmente para os grandes centros urbanos.

Modificações que começam a tomar forma deste o século XIV na Europa e que. embora ainda possam estar ancorados em tais hábitos tendem a expressar um certo desprezo por eles. vem se configurando através de uma tendência a uma incorporação das matizes de modernidade do nas situações de fronteira comportamento ocidental contemporâneo. analisa o processo civilizador europeu. desta mudança nos costumes. O grande problema. Os estratos médios desta sociedade.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Elias (1990 e 1993). no caso brasileiro. fruto de pequenos grupos de elite político e 88 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . até os anos sessenta.foxitsoftware. com ansiedade e com uma pressa incomensuráveis32. parece ser o da rapidez com que vem se dando tal processo. Parece que o embaraço de ser confundido comportando práticas comportamentais ou costumes considerados tradicionais ou interioranos tomou conta de uma parcela crescente da classe média que. O que vem ampliando a ambigüidade de suas ações. bem como. através do conceito de vergonha ou embaraço. e a caminhada do ocidente para a modernidade do que viria a ser o capitalismo atual. a partir dos anos setenta do século XX. a partir do 32 Se si toma que a inclusão ao moderno se amplia à camadas mais extensas da população brasileira. Diferente do que anteriormente se dava. sobretudo. onde e porque comportar-se enfrentadas no cotidiano da vida social.com For evaluation only. este movimento de sentidos se faz a partir de uma mudança lenta na "maneira como o indivíduo comporta-se e sente" (1990. Para ele. de uma tradição rural para uma tradição de urbanidade importada das práticas vividas pelos países ocidentais. acentuando um certo sentido de não pertença que os tornam cada vez mais solitários e com dificuldades de expressão de emoções pessoais ou frente a outros. principalmente. 14). considerados de primeiro mundo. Ser Discreto sobre o como. p.

1967 e 1972). na sua forma de uma necessidade de um exercício de um “controle dos sentimentos individuais pela razão” (ELIAS. 89 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . tanto entre a classe média burguesa quanto entre os cortesãos. em marca característica do mundo ocidental. de forma abrupta e vertiginosa (ELIAS. coloca os anos cincoenta do século XX como um momento de exacerbação da vergonha no público. associado a uma atitude de ambivalência pessoal em querer buscar o outro e se sentir tolhido socialmente por uma demonstração de necessidade de carinho ou de expressão de solidariedade. pelo homem comum.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O que tornaria a noção de vergonha em um conceito chave para a análise dos costumes e práticas da civilização ocidental. ampliar o grau de isolamento do sujeito em si mesmo. a partir dos anos cincoenta do século XX. O que parece. Ariès (1966. 1990. cada vez com mais força. tomou uma forma de estranhamento e solidão do indivíduo comum e do outro. Ser Discreto século XVIII. também. culturalmente sempre buscando se aproximar dos ideais culturais de um padrão de comportamento europeu. e de um sentimento de embaraço em não saber como expressar-se em determinadas situações. Este mesmo argumento ele vai tomar um pouco depois. 1989). 34). na sua análise sobre o papel da velhice e do envelhecimento na sociedade moderna. tornam-se. tornando qualquer expressão de emoção em uma atitude embaraçosa em uma relação social qualquer. e nas expressões de sentimentos públicos seja quanto a formas de exposição do sofrimento pessoal ou de demonstrações de afeto e solidariedade.foxitsoftware. em seus estudos sobre o comportamento do europeu contemporâneo em relação a morte e ao morrer.com For evaluation only. e de uma econômica. embora a tendência a um controle de sentimentos fosse vindo sendo construída lentamente na sociedade ocidental. Nesta análise ele afirma que. p.

tornandoas não sociais em si. havendo um progressivo rompimento com as práticas relacionais em que foi criada e consideradas. Ser Discreto falência da sociedade atual na administração ritual das emoções. partem da constatação e da construção histórica da mudança dos costumes nesta sociedade. essa mudança atingiu principalmente uma pequena parcela da população que vivia nas cidades. Os dois autores. enquanto expressão ou afirmação dos sentimentos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Individualidade esta 90 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como foi visto acima. Esta aproximação se fez a partir de um negar crescente dos costumes a que estava habituada até então. como vindo se fazendo dos finais da idade média em diante. fica pela rapidez com que evoluiu o embaraçar-se do homem comum no publico.foxitsoftware. aproximando-se com relativa rapidez. A surpresa dos dois autores ao analisarem a contemporaneidade ocidental. No Brasil. O que ocasionou um paulatino desbravamento de caminhos para buscas de individualidades dos sujeitos. com a ampliação de uma classe média que buscava ajustar-se a um novo patamar de realidade. como interioranas. agora. Formas de individualidade que começaram a impor-se como padrão comportamental.com For evaluation only. É a partir dos anos setenta do século XX. nos últimos cincoenta anos do século XX. contudo. embora tomem a segunda metade do século XX como o momento de verticalização da tendência atual da atitude de solidão e estranhamento do homem comum na sociedade ocidental. das experiências civilizatórias européia e americana. embora se possa verificar nos anos finais do século XIX uma mudança nos padrões de comportamento e do sentimento em relação à morte e ao morrer. que a população urbana no Brasil ultrapassa a rural. porém. com o abrandamento dos rituais de despacho do corpo e da importância da tecnologia médica em crescendo sob suas vidas.

de liberdade do indivíduo frente a sociabilidades em que estava emerso.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. de espaços de integração. Estas experiências são vivenciadas. com a falência da campanha de eleições diretas e a possibilidade de participação social nas grandes esferas da política nacional. após a derrocada do movimento de resistência a ditadura militar implantada em 1964. 91 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . tem reflexo. e de outro lado. simultâneos. desemprego. com a implantação em larga escala da pós graduação e formação de pesquisadores no exterior. faz com que tenha inicio uma diáspora nacional. pela constituição de uma mentalidade tecnocrata-empresarial de carreiras executivas. Esta década afoga. também. Estes dois momentos. com grau superior. na classe média urbana. principalmente. dos Estados Unidos. as esperanças de uma ampliação da sociedade em bases democráticas.com For evaluation only. penetrando no século XXI33. 33 Os anos oitenta são considerados pelos economistas como a década perdida no Brasil. entre a classe média urbana. identificam as mudanças nos campos comportamental e cultural e as formas em que se deu e se dirigiu a expansão da classe média urbana brasileira nos últimos trinta anos. como forma de resistência nova ao regime autoritário em vigor. Por outro lado.foxitsoftware. Baixos salários. a crise econômica que avança no Brasil da década de oitenta e se prolonga por toda a década de noventa. com um aumento significativo de indivíduos oriundos da classe média. Os anos setenta e meados dos anos oitenta são prenhes de experiências de padrões individualísticos de comportamento no Brasil. e o aparecimento. pelo crescimento de mercados. de movimentos de contra cultura. principalmente. e através da consolidação e da reforma do ensino superior nas universidades públicas no país. falta de perspectiva para realização de projetos sociais. de um lado. de identidade e busca de adesão a um padrão globalizado ocidental. que vai tentar ganhar a vida como clandestino em países desenvolvidos da Europa e. principalmente. Ser Discreto considerada como padrão de civilidade. bem como permite compreender a crise por que passa esta mesma classe média do final dos anos oitenta e no decorrer de toda a década de noventa.

também. O que parece criar uma ambivalência de sentimentos muito grande entre esta parcela de habitantes. e principalmente. "aos ciclos e graus de sentimento que acompanham as 92 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . principalmente. são instituídos com a finalidade de superação de momentos de crise vividas individual e socialmente em uma forma de sociabilidade dada. acelerando-se nas décadas seguintes. de não saber como agir em determinadas situações concretas. no abrandamento. pelo rompimento agressivo com que foi realizado. no Brasil o processo de individualização e perda de referenciais e valores culturais comunitários vividos pela classe média urbana é recente e vertical. Muitas vezes ficando em um meio termo. Os rituais. quanto comparado ao mesmo homem europeu. tanto na defesa de uma atitude radical individualista. Se na Europa. p.com For evaluation only. em suas palavras. no Brasil. quando os rituais instituídos em uma sociedade dada já não mais correspondem aos valores socialmente expressos pelos habitantes ou. de classe média. de uma passagem brusca de uma solidariedade rural para uma solidariedade urbana em moldes competitivos a partir dos anos setenta. segundo Hughes (1980. o caminho por que se processou o rompimento de valores culturais entre a classe média. o grau de ambivalência e embaraço do homem comum de classe média urbano. ainda mais. as formas de comportamento e mudanças no costume funerários chocou Ariès como especialista no assunto. Ser Discreto Diferente das análises realizadas para a Europa por Elias e Ariès. com o ritmo acelerado que tomou a partir dos anos cincoenta do século XX.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ou mesmo na exclusão de padrões ritualísticos em momentos de crise vividos pelo homem comum brasileiro. urbano. 68). parece ter ampliado. Para ele. quanto na defesa de padrões de um passado recente perdido. A quebra de valores integrativos refletiu e configurou-se. perigoso.foxitsoftware.

Esta possibilidades variavam desde a afirmação de uma negativa aos padrões por eles considerados tradicionais. como se pode observar no Quadro N. dir-se-ia que algo está desorganizado". seja como um outro da relação.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. anexo. nesta terceira alternativa. O morrer visto como "algo que não deveria acontecer". A pesquisa perguntou aos entrevistados a sua noção sobre os conceitos de morte e de morrer. Sobre a conceituação do que é morrer. como se. pudesse ocasionar. dos 1304 informantes que responderam ao questionário. de modo ambivalente. urbano. não apenas o sofrimento e o posterior afastamento definitivo dos entes queridos mortos. não mais ser possível voltar. passando pela expressão de um sentimento de perda de um passado que. contra 47. neste início do século XXI.com For evaluation only. foi respondido por 11. Ser Discreto crises que se pretende que eles façam superar. parece. O 93 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que causaria profundas mudanças no cotidiano da vida de cada respondente. de classe média. as narrativas dos entrevistados e dos respondentes dos questionários vagavam entre possibilidades as mais diversas. acontecendo. em muitos casos. bem como as atitudes que deveriam ser tomadas por aqueles que viveram ou conviveram com esta situação limite. através da caracterização do morrer como "uma passagem". e indo até a uma afirmação situada entre as duas primeiras categorias. 13. 40.55% que responderam com uma possibilidade de alternativa para uma outra vida.96% dos informantes. Seja como parente próximo ou distante. É o que parece corresponder ao sentimento do homem comum brasileiro.foxitsoftware.49% expressaram a noção através de um lacônico e definitivo "findar". É interessante observar que. O que afigurava. uma sensação de maior embaraço pessoal e um sentimento de isolamento na expressão de suas emoções. mas e principalmente.

o morto junto com o lado público do acompanhamento do trespasse. por outro lado. "a morte não deveria acontecer". informando não um conceito sobre a idéia de morte. seja pela proximidade dos entes queridos. e posteriormente.26%. mas um temor sobre sua possível ameaça. Para estes últimos. de um estágio preparatório para a nova vida que se iniciaria com a morte. 14. Interessante notar que uma parcela de aproximadamente seis por cento dos informantes situam-se entre a informação da morte e do morrer como uma "transição" ou "passagem" e a de que o morrer e a morte são situações de ruptura que não deveriam ocorrer. Aparentemente semelhante. como forma de garantir um local adequado no além.com For evaluation only. O mesmo acontecendo com as respostas à noção de morte. onde a noção do morrer era tida como um estágio necessário ao homem. para passar em revista a sua própria vida.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. também anexo. O morrer tendo um significado. porém. 17. Ser Discreto que dificultaria sua integração com a vida social e com o próprio sentido de viver.56%. seja dos amigos e 94 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Como se pode ver no Quadro N. Através dos códigos de "passagem" ou "transição". se colocam estupefatos com a possibilidade da morte e do vazio por ela causado ou que poderia provocar. por vir despida hoje de grande parte dos rituais que envolviam o moribundo. Que envolviam também. a morte é considerada como o "fim da existência" por 41. assim.18% dos informantes. os informantes afiguram querer expressar a idéia da possibilidade de uma outra vida após a morte. por 41. conforme pode ser verificado em uma análise comparativa entre os Quadros 13 e 14. e como "transição" para uma outra vida.foxitsoftware. Idéia aparentemente semelhante a existente no Brasil do final do século XIX .

até perguntou sobre os meus sentimentos e eu tentei explicar para ele que eram profundos. brasileira. 46) Essa visão sobre o morrer e a morte. senti saudades. essa vida que vivemos é apenas um estágio para uma vida superior.a ela inerente. da cidade de Goiânia. eu teria me desesperado com a impossibilidade do nada que a morte física pode encerrar. de 35 anos. ocorrido há alguns anos atrás. e de conforto ritual de uma parcela dos 34 Na narração de sua postura em relação ao sofrimento pela perda de um irmão em um acidente de transito. Não é que eu seja de ferro ou movida por determinações acima da minha pessoa. e da noção de que a vida não se acaba com a morte. eterno. católica. Eu acredito que a morte seja um momento de transmutação para algo maior. era real! Mas também que eu nunca achei que o meu irmão tinha acabado com a sua morte. Eu acredito em outra vida. mais bonita e perfeita do que essa.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e principalmente da Igreja.foxitsoftware. vem impregnada ainda de um sentido desindividualizante. que parece estar presente em parte da população urbana.. chorei. O ser humano não pode acabar assim. sobre a diferenciação entre as noções de sofrimento e desespero34: "Quando meu irmão morreu. mas nunca me desesperei. reforça laços e atitudes relacionais.. . Goiás. Meu marido. de classe média. mas pelo contrário renasce e se transforma em imortalidade. A semelhança fica por conta da idéia religiosa. onde um pressuposto de aceitação de um dogma de fé ultrapassa o sofrimento individual dos sujeitos. O apoio na crença de uma outra vida. Como informa o relato abaixo. Ser Discreto vizinhos e de um público em geral. no ano de 1995.com For evaluation only. precisamente. 95 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . " (Entrevista n. . mas também do espiritismo e de várias vertentes de religiões afro-brasileira.principalmente do catolicismo. do sentimento de imortalidade. namorado na época. que a dor da separação era física. de uma entrevistada. sofri muito. assim. Não! Se eu assim achasse.

mas já não é a mesma coisa! . deixei de freqüentar a Igreja. se existe Deus. os 96 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .com For evaluation only. pareciam estar indo de água a baixo.. mesmo depois que minha filha morreu. Ser Discreto informantes. sobre a validade ou viabilidade deste dogma de fé religioso. tendo encontrar um significado para o seu sofrimento e morte. imortal. e não. Ficava pensando no porque minha filha estava sendo vitimada em tão tenra idade. em outra forma de vida mais intensa.. além de ter que me fazer de mais forte para ela. e eu lutava comigo mesma para não desabar. questões sólidas em mim. da cidade de São Paulo. "Com o prolongar da doença e a impossibilidade de cura. mesmo nesta esfera parece já haver uma espécie de desilusão de mundo. capital. católica. porque. tive também que fazer um esforço imenso para não esmorecer perante mim mesma. agora. ele estava vingando-se de mim através da minha filha. Sou de uma solidão só! Não sei como estou falando isso para o senhor. E me fechava mais e mais na minha luta para dar conforto a minha filha e para me manter em pé. A existência de Deus e a sua bondade. em mim própria. É o que parece representar esta narrativa de uma mãe. que perdeu uma filha de quinze anos vítima de câncer: "Quando minha filha contraiu esta doença horrível tive que tirar forças de não sei onde para tentar ajudá-la. se eu tivesse feito algo. pela forma rápida com que se alastrou o câncer no seu corpinho. Ainda bem que sou católica. e isso me ajudou muito na minha luta pela minha filha. de 48 anos. Tento acreditar que ela está melhor. e uma insegurança começa a ter início entre os mesmos informantes. "Me tornei árida e arisca. para lutar pelo retorno da saúde dela. de formação sólida. que eu a encontrarei assim que desencarnar.. Por outro lado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.foxitsoftware. pois desde que ela se foi não consigo conversar muito sobre os meus sentimentos.. e não consigo encontrar nenhum.

sobre a própria religião que ainda professo e me agarro. sobre o porquê da vida e da morte. O fracasso da fé em si parece incomodar.. A fé começa a configurar-se como algo que se quer acreditar e não tem certeza. na instância da morte como uma outra e nova vida. assim. mas também pela dificuldade de expressão deste sentimento até para si próprio.foxitsoftware.. Ser Discreto meus receios. mas que preenche de incerteza e sofrimento a quem possivelmente partirá e. sobre a outra vida após a morte. que expressa este valor. já não credibiliza a existência de uma outra vida como fé.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Insegurança que provoca um aumento da dor física e moral do sofrer. mas que já não encontra satisfação na resposta buscada através dos dogmas e expressões ritualísticas possíveis. já não completa toda a esfera de dúvidas pessoais de quem fica. como algo que não mais provoca o sentimento de jubilo pela certeza do ente querido ou de sigo próprio em outra vida. mas que já não me acalma e nem me dá a segurança que tinha antes. a quem fica. Que não conforta. agora. prioritariamente." (Entrevista n. A instância desindividualizante do acreditar-se na morte e no morrer como passagem para uma outra vida. ao questionar o conteúdo do 97 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que busca resgatar. O que só faz aumentar a solidão do homem comum de classe média. Os indivíduos parecem assim ser tomados de insegurança e a almejar que o morrer e a morte fossem situação que jamais deveriam existir. Já não minora completamente a dor ocasionada pelo sofrimento e pela experiência da perda através da sua ritualística pela fé pessoal de cada um. sobretudo. e essa incerteza enorme que me consome. 131). aqui. imortal. O espaço desindividualizante. não apenas pela crença relativa.com For evaluation only. pela desilusão que parece provocar no sujeito e na sua idéia de mundo e de participação em uma comunidade de valores. a ela inerentes.

se encontram ao nível de uma resposta abstrata à questão da morte e do morrer.49% e 41. 98 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . parece que a noção da morte e do morrer tem um significado claro de um ciclo de vida que termina. por uma tendência a fragmentação e a começar a ruir. Que uma visão naturalista e racional sobre o sentido da vida e da morte faz parte do seu universo compreensivo sobre o lugar do homem na natureza como uma espécie a mais entre tantas outras. 40. assim. ao mesmo tempo que uma espécie de pudor de expressar esta incerteza. a respeito da noção do morrer e da morte. Estes significados aparentes. porém. Com um distanciamento enorme na definição e relatos entre uma morte próxima e a morte em geral. tendencialmente. Esta incerteza. em um espaço integrativo que permitia e aprofundava um sentimento de pertença. Ser Discreto valor do dogma em si e não ter certeza de sua eficácia simbólica.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O mundo construído em que se situava. A incerteza é um dos elementos novos que parece fazer parte da escala de valor das novas redes de relações em que se encontra inserido. parece não fazer parte dos significados atribuídos a outra parcela. do que quando definida a partir de uma perda de um ente querido específico. provocando um aumento do sofrimento e da insegurança em uma parcela dos informantes. agora. porém. O que vem provocando um relativo sentimento de abandono e solidão. aumentando mais o isolamento social.com For evaluation only. Como se viu nos Quadros 13 e 14. Para estes.foxitsoftware. que vem. ao mesmo tempo que quer e precisa desta certeza. Que a morte é o findar natural de uma existência.18% dos informantes afirmaram que o morrer e a morte tinham o significado processual de "findar" e do "fim da existência". O fim da existência e o findar como definição de morte e de morrer no abstrato ganha uma conotação mais biológica sempre. configura-se.

a não ser nas vezes em que viajou de férias para o interior.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Minha avó tinha 84 anos e sempre foi uma mulher forte. acho. quase nunca adoecia. parece revelar-se em nuances diferenciadas.foxitsoftware. como as narrativas da perda de um ente próximo. Não sei bem. nas festas e nos nossos aniversários. mas eu não senti nada pela sua morte. Isto é.. encontrou-a morta. como um avô ou uma avó. 99 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Morreu dormindo. uma irmã. "Pode parecer estranho. com quem teve pouco contato. natural e residente na cidade de João Pessoa. e que foram se escasseando a partir da adolescência. e sempre mandava presentes para mim e meus irmãos. ". em uma cidade do interior do estado da Paraíba. Parece que foi uma parada cardíaca. não senti nada em termos. embora vivesse de cara fechada. estudante universitário.com For evaluation only. a notícia da morte de minha avó chegou de repente lá em casa. Ser Discreto Mesmo nos casos onde a compreensão de um final de ciclo de vida aparece com mais vigor.. . Segundo o seu relato. O primeiro relato narra a experiência de um entrevistado com a morte de sua avó ocorrido em 1998. capital do estado.. ela era doce. da minha mãe ligou para dizer que vovó não tinha despertado e quando ela foi verificar. segundo minha mãe. 35 Um rapaz de 23 anos de idade. a diferenciação entre morte biológica e o conceito de morte socialmente expressa a partir de uma relação de proximidade. pois fiquei triste com a tristeza de minha mãe. ou quando a sua avó os visitava em João Pessoa. ambos construídos a partir de um mesmo objeto de perda: os avós. É o caso dos relatos abaixo. por exemplo. Eu tive muito pouco contato com ela. O entrevistado35 descreve sua reação e o sentimento perante a morte de sua avó materna. De manhã cedinho.. sei que minha mãe disse para nós que ela tinha tido uma morte suave e não sentiu nada.

. cresci com a minha avó sempre perto de mim. acho que a morte é como um fim de uma vida. não fiquei mais triste nem mais alegre pela morte dela.. pois teria de acontecer mais dia ou menos dia por causa da sua idade. 58) O segundo depoimento. passou os últimos 100 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Minha mãe e meu pai e minha irmã mais velha foram. me pareceu conformada. desde a morte do seu avô. ela mesma. ".. Ser Discreto Mas. namorei. ao dia a dia normal. compreendia todos os meus problemas e me servia de amparo nas horas muito tristes ou muito felizes! Era uma mulher e tanto.. vi televisão. A entrevistada relata que. (Entrevista n. igual.. para mim. apesar de quase não mais se locomover por causa da osteoporose. A casa da gente continuou barulhenta como antes. voltou ao trabalho. natural e moradora da cidade de Curitiba. Ela era minha confidente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. "Nunca falei com minha mãe. no dia seguinte ao enterro. neste existe uma relação de proximidade acentuada entre a neta e a avó que se foi. muito religiosa. que ficou muito triste. "Não fui para o interior para o seu enterro. bióloga.com For evaluation only. que perdeu também a sua avó materna no ano de 1999.foxitsoftware. 27 anos. saí. é de uma jovem. nem lá em casa sobre eu não sentir nada. perto mesmo. eu e os outros dois irmãos ficamos. nada mudou. tudo pareceu. estado do Paraná. minha mãe. pois inclusive dividíamos o mesmo quarto. mesmo. mas conformada. mas também muito aberta. Nada mudou na minha rotina: fui para a faculdade.. Se fiquei um pouco chateado foi por causa da minha mãe. Quando meus pais voltaram do interior. ainda era lúcida. "Já estava com quase noventa anos. quando ela ainda era pequenina... sua avó veio morar com seus pais. Diferente do primeiro depoimento. Esperado! Foi assim que eu senti com a morte de minha avó". era uma pessoa carinhosa.

"Eu não a vi morrer.. etc.. os dias continuaram iguais. minha mãe até falou que agora. estávamos em casa e fomos chamados para o hospital. queria acreditar que a morte não acaba com a vida. perdi uma confidente.. minha mãe e meu pai. e essas coisas do cotidiano. E isso me deixa mais triste. (Entrevista n. e ainda me sinto. mas a vida ganha outros significados.. Chegamos. Ia e voltava do hospital.. Nos dois depoimentos acima. que isso ocorreu e foi melhor para ela pois aliviou o seu sofrer físico.. Eu me senti menor. Teve uma pneumonia e nunca mais se recuperou direito. Sei que morrer é findar.. de um ciclo biológico.com For evaluation only. que faz parte da lei da natureza... 209). Parecia que minha avó nunca tivesse existido... Era de madrugada. o grau de proximidade dos entrevistados parece atestar os significados de seu sofrimento pela perda de 36 Centro de Terapia Intensiva. até por dever de ofício.Não fizemos o luto. Tudo continuou como sempre! . que a vida era assim mesmo. me sinto sem referência. racionalmente. com a morte da minha avó. da funerária. que a morte é o fim de um ciclo. eu.". foi rezada uma missa de sétimo dia e pronto!.foxitsoftware.. mas sei que não é verdade. estudo. enfim. quase todos. foi um velório e um enterro rápido com alguns vizinhos e amigos presentes.... Claro que sei que minha avó teria que morrer um dia. trabalho.. "Eu mesmo sei. mais isolada. Mas não é assim que eu me senti. 101 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e ela já se encontrava no necrotério do hospital.... até que os últimos seis dias de vida passou todos no CTI36. eu teria um quarto só para mim. "Não chegamos a mudar a nossa rotina da casa. Ser Discreto meses de vida.. que já era muito velha.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. no hospital.. Meu pai cuidou do translado do corpo. que a minha avó já tinha cumprido a sua missão no mundo e tinha terminado a sua parte.

parece vir acompanhada de um aumento da ambigüidade de sentimentos e um mal estar e sentimento de inadequação dos indivíduos em relação a um sentido de vida. que os ampara sob a forma de uma força maior. e especificamente. a perda da avó significou uma ruptura no cotidiano da neta.foxitsoftware. O que afigurou-se como causando uma insatisfação e um mal estar pela perda deste ente querido. é que a transição sobre a experiência brasileira urbana nos últimos anos do século XX. e maior isolamento e tristeza: ela queria acreditar na continuidade da vida depois da morte. como um final de existência de uma vida inteiramente vivida. Mas a racionalidade parece trazer-lhe insatisfação. Ser Discreto suas avós. racionalmente. O não acreditar. entender a morte. pela perda da confidente e amiga. e a morte de sua avó. da vida social. ao contrário. se não fisicamente. Apesar de informar que após o breve velório e enterro a vida na sua casa continuou normal. pelo menos no envio de lembranças para os netos. embora a avó estivesse sempre presente nos momentos de festas e aniversários. pela perda sofrida pela mãe. e até por dever de ofício como ela disse. a avó sempre foi uma relação distante de sua vida diária. como um fim de um ciclo.com For evaluation only. O que se quer expressar aqui. ou dos momentos de visita da avó a sua família. Sua morte foi atestada pelo neto com uma certa tristeza.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Seja naqueles que ainda acreditam em uma instância desindividualizante. em João Pessoa. que a avó parecia representar em sua vida. um sofrimento na neta. No segundo caso. e a lembrança do neto dos dias em que passou no interior com os avós. parece levarlhe a uma solidão e a um questionamento do significado da vida. mesmo que. em si. mas entendida como natural. de um dogma de fé na continuidade da vida após a 102 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . No primeiro caso. a perda da avó parece ter provocado um sentimento profundo. como uma forma de entender o sentido da morte de um ente querido tão caro. no geral.

inteiramente. As crenças compartilhadas já não parecem satisfazer inteiramente os indivíduos. e os ritos sociais que as comportam se configuram como não mais possuindo o efeito confirmador das regras no evitar as dificuldades e os riscos ocasionados pelo processo do morrer e da morte em quem fica. As etiquetas costumeiras. 103 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . mesmo que professem alguns a esperança em uma outra vida. parece haver uma quebra no imaginário social que produzia certezas e completudes aceitas pelos indivíduos na sociedade brasileira de algumas décadas atrás. vem significar o ritmo da postura individual dos sujeitos em sofrimento pela perda. Esta quebra vem se configurando como trazendo. como instâncias integradoras. como conseqüência imediata. as regras e normas que norteiam a ação social de cada sujeito vem se afigurando como não mais servindo. O sentimento de solidão. de inadequação. Nos dois casos. no interior dos sujeitos individuais que por ela transitam. O sofrimento causado pela perda parece que se constrange assim. Em ambos. A não ser quando se considera a morte e o morrer em abstrato e distanciado de si próprio enquanto referência de perda. cada vez mais.com For evaluation only. seja nos que encontram no ciclo biológico uma explicação racional para a morte como um fim da existência. no interior da sociabilidade no Brasil urbano de classe média. ou os de uma dada religião.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. o sentido de finalidade e de certeza parecem comportar uma carga grande de incompletude e solidão. traduzindo-se em uma incapacidade de manifestação de opinião e modos de pensar sobre o sentimento e o sentido do morrer e da morte. Ser Discreto morte.foxitsoftware. um enfraquecimento dos laços que unem os membros sociais de uma família.

104 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . parece estarem borradas. ao silenciar as suas angústias e guardá-las no interior do seu eu. e em uma extensão da solidão individual daqueles tocados pela experiência da perda. Ao mesmo tempo que as afasta como vergonha de ser pego em fraqueza ou provincianismo. entram em conflito com os novos valores trazidos pela ampliação da individualidade e do individualismo entre os setores. principalmente. nos últimos trinta ou quarenta anos. sentimentos e atitudes perante a realidade do sofrimento e da perda. que fundamentam o ciclo de uma vida no interior de um tempo e de um espaço social (VAN GENNEP. isto é. As marcações da vida. embora ansiando demonstrações de afeto e compreensão. no que diz respeito a morte e ao morrer no Brasil urbano do início do século XXI.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. presentes em todas as formas de sociabilidade humana.foxitsoftware. de classe média no Brasil. as crenças. O que vem traduzindo-se em um aumento de ambigüidade na ação pessoal e grupal dos sujeitos. da morte e do morrer na contemporaneidade. os valores. grupal e coletiva no Brasil. Os papéis e as categorias sociais.com For evaluation only. 1978). Ser Discreto O que tende a provocar uma incapacidade de comunicar as suas emoções. as regras e toda uma ritualística que como uma rede transpassava todas as esferas do social e reforçavam a solidariedade familiar.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e uma interrogação permanente sobre o significado desta mudança e se ela está se desenvolvendo para uma situação melhor. Já não se aceita mais as antigas regras relacionais da cultura brasileira vividos até meados da década de sessenta do século XX. que vem causando ansiedade e insegurança nas relações sociais e individuais. Elas vem se tornando incomodas. (Marquez. um sentimento de desorganização e um aumento da tensão. olhadas até com desprezo e um 37 "A dor aparece assim como um ponto possível de convergência em uma cadeia de significantes do corpo real. 1994. de classe média urbana. O sentimento afigura-se em ser de desconforto e inquietação sobre as conseqüências pessoais e grupais de tal caminho. (Tradução livre). e para muitos. este.38) Encontra-se em pleno desenvolvimento no Brasil dos últimos trinta ou quarenta anos um processo de individualização das relações sociais e nas formas de agir e pensar individuais. pessoal e grupal. imaginário e relacional". principalmente.com For evaluation only. Processo de comportamento emergente. Viver esta experiência parece estar provocando nos homens comuns. p. 37 imaginaire et relationnel".foxitsoftware. 105 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto Capítulo 3 A Perda e o Sofrimento "La douleur apparaît ainsi comme um point de convergence possible où elle peut prendre place dans un réseau de signifiants du corps réel.

de classe média. ou em relação a outras que o experienciaram. se procurará identificar como os brasileiros urbanos. o luto e o sofrimento. reais. Nele se discutirá o processo de ação social e a construção de significados e tentativas de nomeação. nunca é igual para todos os seus membros. Esta consciência analítica afigura-se como fundamental para que se possa compreender a experiência de ambivalência individual e grupal de uma sociedade em processo acelerado de mudança. não há um sentimento de adequação aos rumos individualistas que tendencialmente vem tomando conta das relações sociais e individuais na sociedade contemporânea. O que faz aumentar e ampliar a insegurança e a falta de sentido pessoal. assim. e os rumos desta mudança é sempre assimétrica e desigual. a partir dos depoimentos de informantes. Uma certa apreensão não de todo consciente com a incerteza do mundo atual. como entrevistados ou que se dignaram a responder o questionário padrão desta pesquisa. Ser Discreto certo menosprezo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em outros tantos. mas.foxitsoftware. A ambigüidade nas relações e nos sentimentos expressos parece ser. A experiência vivida como um conjunto societário. imaginárias e relacionais sobre a perda. Ou o seu contrário. o eixo central por onde deve ser pensada as relações de sociabilidade no Brasil do século XXI. 106 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . uma tentativa de segurar as relações tradicionais as quais estavam acostumados a viver. como a brasileira.com For evaluation only. mas também. ao mesmo tempo. esta tentativa vem acompanhada de um sentimento de que as regras passadas já não mais se adequam às questões do presente. estão vendo estas mudanças e inquietações sobre o prisma do comportamento de uma pessoa que sofreu uma perda. como incultas ou incivilizadas. parece provocar. Neste capítulo. porém.

foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. as respostas dos 1304 indivíduos à questão puderam ser divididas em três categorias analíticas. assim. assim.34%. parece movimentar a ação imaginária dos informantes. sobre o papel comportamental de um sujeito que sofreu uma perda. o poder médico. 7. A primeira. junto à ações de políticas públicas sanitárias e higiênicas para as cidades. Como já se vem analisando ao longo deste trabalho. por fim. e também pela emergência da insalubridade. 15. ou do sofrimento causado nos entes queridos que ficam. através do medo causado pelas inúmeras epidemias que tomaram de assaltos as cidades brasileiras nas últimas décadas do dezenove. desde o final do século XIX vem ocorrendo uma diminuição da demonstração ativa de sentimentos no momento do trespasse do morto. ainda por metade do século XX. e pelo discurso de autoridades sanitárias de controle à saúde pública e pessoal. a segunda. principalmente. no imaginário popular. Os enterros. As representações sociais sobre a morte e o morrer parecem ter tido sua mudança acionada. "Não Existe Comportamento Ideal". pior.com For evaluation only. A discrição. "Seguir a Tradição". 15. "Ser Discreto". Ser Discreto Um dos pontos de partida será o de analisar como pensam os informantes que responderam ao questionário padrão desta pesquisa sobre o comportamento de uma pessoa que sofreu uma perda. O morrer e a morte vem sendo retirados progressivamente do ritual público que os circundava. embora.60% das respostas.06%. expressões de dor e demonstrações objetivas de luto fizessem parte do 107 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e a terceira. movido em parte pela emergência de um novo discurso de poder. Como se pode verificar no Quadro N. causada pelas doenças e pela morte. obteve 77. com o morto e a morte identificados como poluidores e. os cortejos e os velórios tornaram-se progressivamente mais rápidos. transmissores de doenças.

a abstinência de alguns alimentos e de uma vida social ativa. até aproximadamente o decorrer dos anos de 1960. bem como. nos primeiros meses após o trespasse. embora em declínio e menos acentuadas do que no final do século XIX. tipo a Maçonaria. ainda eram esperados dos familiares do morto. com o esvaziamento progressivo do campo no Brasil. esperado. .foxitsoftware. até a dialogar com eles. tais como a Igreja. velar e sofrer pelos seus mortos sob uma regência pública. tem início a uma transformação mais intensa no comportamento e hábitos da população brasileira. Assim como. o acompanhamento mais de perto de parentes e amigos. As demonstrações públicas do sofrimento. que funcionavam como instâncias desindividualizadoras. Ser Discreto cotidiano da população brasileira. como lembra Roberto DaMatta (1987) em seu artigo Os Mortos e a Morte no Brasil. por exemplo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O vestir preto. especificamente de classe média urbana. o resguardo dos enlutados. que amparavam as viúvas e filhas solteiras e menores. desta maneira. mecanismos de reintegração ao trabalho e a vida social ativa eram estimulados de forma pública a quem perdesse alguém caro a nível de proximidade e afeto. . também. Antigos hábitos são 108 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . entre os habitantes urbanos brasileiros. Eram esperados. Largas parcelas da população pareciam ainda se guiar na tradição de guardar. permaneceram por várias décadas do século XX.ou sociedades secretas. ou se solidarizavam com seus membros masculinos pela perda de um ente querido.com For evaluation only. e de outras instituições sociais. principalmente. os apoiando em seu sofrimento. também. Com a modernização brasileira dos anos setenta e.através de um discurso sobre a outra vida e conforto aos que ficam. O apoio da sociedade para a superação do sofrimento e reintegração social era.

Em todos os casos. é o desenvolvimento da psicanálise no Brasil. que a casa dos pais possibilita. para uma vida mais independente da casa paterna. mas em um aumento do individualismo enquanto espaço de consumo e lazer. A auto-análise e o divã do psicanalista progressivamente atrai a atenção dos membros urbanos de classe média. da mãe e dos filhos. parece ter acontecido entre os jovens de classe média no Brasil.foxitsoftware. também ocorrida nos anos setenta. porém. pelo contrário. também. que uma tendência a permanência maior dos filhos. Este fato. A família extensa tendeu progressivamente a diminuir de tamanho e a ser considerada apenas como e através do núcleo familiar básico. talvez. por outro lado. numa faixa que vai dos 18 aos 35 anos. 109 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O ritmo de vida. porém. chegando às vezes até os trinta anos de idade. e que parece prosseguir. afastando os indivíduos uns dos outros e os tornando mais reservados perante as próprias emoções e incomodados com a expressão pública de sentimentos de outros. enfim. na residência dos país. econômicas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e enquanto espaço de competitividade no ambiente societário formal das relações. Talvez pelo aumento do tempo de especialização e formação profissional. pelo conforto e descompromisso de afazeres domésticos do cotidiano. na primeira década do século XXI. não parece refletir em uma volta ou em um maior apego a tradições culturais perdidas. não parece ter vindo acompanhado de uma restauração de um hábito do passado. composto do pai. política. da saída mais cedo dos filhos e filhas adultos jovens de casa. principalmente adultos jovens. contudo. Nos anos setenta. rompido pelos jovens dos anos setenta. Um outro fator bastante interessante. principalmente no que diz respeito as relações familiares. que já vinha ocorrendo na Europa e nos Estados Unidos. talvez pelo apelo aos prazeres da vida e a formação de uma poupança pessoal. agora. esta nova forma de organização familiar parece ganhar espaço entre os jovens como uma forma de ampliação do espaço de individualidade e segurança para o enfrentar o mundo. nos anos noventa do século XX. principalmente entre os de classe média38. Esta tendência associa-se ao desapego aos valores tradicionais de comportamento vividos e 38 É importante salientar. se tornou gradativamente mais acelerado. ou ligadas as esferas da hierarquização e status sociais. Ser Discreto rapidamente deixados para trás por não serem considerados urbanos.com For evaluation only. junto à classe média urbana intelectualizada. teve início o processo.

é verdade. mais rico ou mais 110 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Uma estratificação no interior desta centralização se faz visível. de acordo com a inserção do cidadão em um núcleo urbano mais perto ou mais longe. ou de instâncias desindividualizadoras. principalmente. Os hábitos comportamentais. a Religião. como a própria família tradicional. estabelecem os grandes marcos da transformação por que passaram e ainda passam os habitantes urbanos no Brasil. Ser Discreto questionados por esses jovens. de paradigmas norteadores de uma esperança em um mundo melhor futuro. Os estados brasileiros. e principalmente setenta do novecentos.foxitsoftware. o Partido Político e outras mais. aqui se tratando especificamente das capitais de estados brasileiros. ampliou-se a margem de concentração político. viveram uma exposição maior desta concentração. Não se pode esquecer também a importância crescente de uma competitividade no mercado de trabalho. a partir dos anos sessenta. O que aumentou assim uma aparentemente única performance comportamental entre os indivíduos de classe média. Independentemente do tamanho populacional das cidades. o Rio-São Paulo. as cidades e. estes marcos servem como norteadores da identificação e modificação ocorrida no comportamento do brasileiro urbano de classe média. através de seus habitantes de classe média. especificamente. Isto porque. deste modo. Segmentada internamente. em todo o Brasil. também. os desejos e buscas de realização ficaram cada vez mais concentrados em um único eixo. econômica e comunicacional do país. as capitais de estado.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. nos anos oitenta. com fortes componentes de uma ampliação do preconceito sobre estratos. progressivamente. Os anos setenta e oitenta do século XX. e a falência progressiva. que amplia a margem da disputa e dispersão de uma parcela jovem da população urbana recente brasileira.

da expressão mudança facial39. aqui. 111 Mauro Guilherme Pinheiro Koury 39 . parecem viver no Brasil urbano. do decoro corporal externo. uma transformação intensa. a forma que vem assumindo a "economia de afetos" (Elias. Seja pela repressão das atitudes espontâneas de sentimento e pela internalização na pessoa da subjetividade.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. no sentido de uma maior economia dos gestos. nas formas do olhar das pessoas. no tratamento da questão da cultura funerária. como uma ação não social40.foxitsoftware. da postura. Assim como. onde aborda a questão da avaliação e do auto respeito sociais através de atos verbais e não verbais socialmente expressos. do Brasil. 49) da cultura urbana brasileira dos últimos trinta anos. descaracterizando-a assim da objetividade social das ações. Essa caminha aceleradamente composição de um estilo de vida e de uma forma de expressão da auto imagem individual através de uma ação de auto distanciamento. O que parece fazer aumentar ainda mais o sentimento de solidão do homem urbano de classe média brasileira. principalmente. Sobre a questão da expressão facial ver o trabalho clássico de Goffman (1980). 1990. na primeira parte do seu livro Economia e Sociedade faz uma esforço para caracterizar. no processo de racionalização social vivido pela sociedade européia no momento de consolidação do capitalismo. Ser Discreto pobre. de acordo com as formas de vida que levem os grupos e segmentos diferenciados de sua população. 40 Weber (1944). seja pela auto disciplina. esta última conduzida especificamente por construções subjetivas no interior de sujeitos individuais específicos. internamente a cada capital. principalmente junto a classe média. O ser discreto parece representar. as formas de intercâmbio social e o controle social das emoções. p. As convenções de estilo. a diferenciação estabelecida entre ação social e ação não social. A Elaboração da Face.com For evaluation only. assim. onde a vergonha e o sentir-se embaraçado constituem-se em uma viga mestra para um maior controle emocional. entre outras atitudes para a comportamentais.

hoje. deveria ser a de "Não Importunar"." uma esfera de pudor de chegar-se ao outro.71% das respostas. "Depende do Caso". como se uma expressão de solidariedade ou apoio pudesse ser compreendida pelo indivíduo objeto da ação como uma espécie de invasão de privacidade. O medo do envolvimento emocional através da demonstração de atitudes de solidariedade e apoio ao outro configura o ator 41 As respostas a esta questão pode ser verificada no Quadro N. por dois motivos principais. O comportamento pessoal de discrição perante as expressões das próprias emoções. segundo esta categoria. com 9. A primeira categoria afirma que o comportamento deveria ser o de "Dar Apoio". isto é. 112 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . com 18. perguntou-se qual deveria ser o comportamento dos outros. O Quadro N. O primeiro. anexo. Em uma outra questão levantada no questionário. Constrangido em sua dor e em seu sofrimento pessoal pela perda recente. com 72. O segundo motivo diz respeito a idéia de contaminação social pelo sofrimento do outro. por estabelecer com o "Não Importunar. A segunda categoria alega que a atitude das pessoas em relação a uma outra que sofre uma perda. retirando-o e comprometendo o seu espaço individual no social. 16. na relação deste sujeito individual com os outros.com For evaluation only. deste modo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.28% das respostas. caracteriza o modus operanti por onde se pode compreender a construção social do indivíduo urbano brasileiro de classe média. Três categorias foram elaboradas a partir das respostas obtidas pelos 1304 informantes. o indivíduo poderia. Ser Discreto O Ser Discreto.01% do total. a terceira categoria. diz que a forma de comportar-se em uma situação como esta. é sentido também. da sociedade. em relação às pessoas que sofreram uma perda41. através das informações contidas no questionário aqui analisado. 16 é interessante para a análise aqui realizada. sentir-se ofendido pela tentativa de aproximação de um outro. por sua vez.foxitsoftware.

cristalizada na categoria analítica de "Não Importunar" àqueles em sofrimento. Ser Discreto em personagem tímido e. ou por em risco o seu desempenho social. Economia de gestos que possa garantir aos sujeitos a "capacidade de suprimir e ocultar qualquer tendência a ficar envergonhado durante os 113 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . 80). fica evidente o medo de não saber com enfrentar a situação. como um dever ser moral para todos aqueles atingidos por uma perda. e a culpa por ele provocada. Seja através do agir com discrição. ou de poder vir a ser avaliado com um desempenho fraco. analisando as expressões faciais. mesmo. seja pela busca de não intromissão. trabalhado por Goffman. descreve a expressão "perder a face" como o receio de não saber como se referir ou representar em uma situação determinada. Fala do medo do indivíduo de poder possibilitar uma impressão errada nos outros. como se elas pudessem comprometê-lo. Nas duas formas do como se comportar frente à perda. pessoal ou de outros. na demonstração de sua incredulidade ou de sua capacidade de suportar a realidade que se apresenta. parece agir nos indivíduos em relação através de uma economia gestual das emoções. p. Este receio de perder a face.com For evaluation only. retraído nas suas demonstrações de afeto. de sentir-se envergonhado e indisposto na situação vivida em um momento relacional específico.foxitsoftware. O que parece aumentar o sentimento de isolamento e desamparo vivido pelo homem urbano de classe média brasileiro na contemporaneidade. parece por-se em evidência uma tendência ao sentimento de envergonhar-se frente às dificuldades de chegar ao outro. presente na categoria do "Ser Discreto". ou péssimo. Nestes dois motivos expressos. consequentemente. Ou. assim.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Goffman (1980.

onde a exigência de um auto controle. privadamente. Através deles deve expressar condolência ou solidariedade ao outro. ou algo semelhante. pela discrição. 80). desta forma. cumprimentar. na fila de condolência. mas que também não quer invadir a privacidade de quem a experiencia. assim. Manter a dignidade e o controle de sua emoções.foxitsoftware. é a certeza de não apresentar-se constrangido por constranger o próximo. fazer-se presente. e o processo de 114 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . seja. ou flores. parece se satisfazer através de uma postura de distanciamento ou de afastamento da situação experienciada na relação com o outro. E. quando o indivíduo for ou aparecer como o sujeito da ação. o outro. impossibilitar qualquer forma de avaliação. por exemplo. a não ser a que objetivamente quer expressar. Ambos parecem refletir a atitude blazé diagnosticada por Simmel (1967). também. seja quando o indivíduo sentir-se evocado como objeto da ação. na qual um indivíduo não pode ausentar-se de todo. passado alguns dias do fato ocorrido. deixando ao outro a possibilidade de introjeção de sua dor. e mesmo assim. Reza as regras de etiqueta no Brasil urbano contemporâneo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Atitude de leve indiferença aos outros sociais.com For evaluation only. Ser Discreto encontros com os outros" (p. ou. que em uma situação de sofrimento. O mesmo se referindo para quem sofre a perda. se próximo. para expressar a leve indiferença no olhar e no gestual do homem citadino na metrópole contemporânea. onde o não incomodar alivia a dificuldade de expressão de sentimentos. quando houver uma cerimônia. que deve enviar um cartão. Esta economia de expressões de afetos. aceitando as condolências com um ar contido. no início do século. e com uma ligeira indiferença no olhar. como a missa de sétimo dia. em uma expressão contida. e ir embora.

distanciar-se. pelo excesso emocional presente. 39). ou. Movimentos narrativos estranhos que parecem incomodar ao homem moderno brasileiro. (1985). Junqueira.foxitsoftware. A narrativa de expressões comportamentais outrora presenciadas pelos próprios sujeitos. Ser Discreto multidão e anonimato em que parece emergir a afirmação da individualidade no momento de consolidação do capitalismo. como parte de uma estrutura de um passado que se quer esquecer. ou da leve indiferença presente na atitude blazé.com For evaluation only. ou melhor. os ritos são essenciais ao movimento cotidiano de toda sociedade. como resquícios incômodos de um 115 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Que nenhuma forma de sociabilidade flui sem qualquer tipo de passagem. Com um receio também que a sua presença contamine. cada vez mais. p. buscaram em seus trabalhos demonstrar que as marcações. uma imagem avaliativa que comprometa pessoal ou em grupo sua performance e seu estatuto de urbano. Esta busca de ocultamento da face. Se. através da imprensa ou por próprio testemunho. Quando a mudança é acelerada porém. os ritmos. por um lado. como arcaísmos de uma estrutura mental e emocional diferente. entre outros. como afirma DaMatta (1983. expressões em uso no cotidiano comportamental do homem brasileiro urbano. paralisando o presente da modernidade vivida pela vergonha de validar no outro. ou relatadas por parentes ou visualizadas através de experiências presentes ainda no hoje. Autores como Van Gennep (1978). tornam-se aparentemente estranhas ao cotidiano do sujeito. são vistos através de atitudes de estranhamento.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. qualquer. os ritmos que regulam a passagem parecem tornar-se embaralhados. a si mesmo e as relações sociais de onde emergiram. tornam-se. por incivilizado ou não moderno. "é a própria passagem que constitui o pólo talvez mais básico da própria idéia de mudança".

. o sofrimento.com For evaluation only. para uma quase ausência de gestos e emoções. querer-se encontrado por um outro. serão objetivamente analisados e avaliados pelos demais presentes. deste modo. por exemplo. por parte de quem sofre uma perda. o morrer. por exemplo.como a morte.foxitsoftware. por não saber-se comportar. e de gestos. O que ocasiona um mal estar crescente em quem se vê obrigado. por medo de perder a face. por outro lado. O medo de não saber expressar-se e comportar-se em uma situação específica. funcionam como uma regra de convivência que sobrepõe sobre a mesma ação elementos de uma estudada indiferença facial frente aos elementos da relação e a uma busca interna de saber-se. Ser Discreto passado presente. configura-se como uma espécie de escudo protetor de ambos os lados de um processo interativo. faz com que aja um retraimento nas formas de etiqueta. associada a uma espécie de desprezo do passado e de ser associado a ele. O receio de contaminação. o lidar com as novas formas emergentes não parece ser ainda de fácil manipulação.se configuram. Ambigüidade presente em sensações aparentemente contraditórias. a participar de uma cena onde elementos de passagem. como a morte e o luto. aqui trabalhados. nos dizeres de Goffman. as emoções e as validações da face. ou. o luto. ou por parte de quem acompanha um processo de luto. Um ocultar a face. por estar envolvido em uma situação específica. Por onde. O que ocasiona dificuldades e incômodos de lado a lado das relações. ou melhor. de um lado. .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Revela-se. O passado visto pejorativamente como 116 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . acima citado. Indiferença e procura mesclam-se em uma atitude que parece incomodar e isolar ainda mais os indivíduos envolvidos em uma relação. possivelmente. ou não se encontrar preparado para o exercício de um dado e específico papel. por ter acontecido consigo.

o retorno para casa. Me fiz uma máscara dura. o próprio velório. delicadamente.. mas por fora me esforçava para não demonstrar o que se passava dentro de mim. "Chorava e gritava por dentro. que se controlassem . confesso que. sofre idealmente de uma forma de saudade do passado. Não entendia onde pude achar tanta força para fazer tudo e não desmoronar. ou do Brasil de antigamente. até a missa de sétimo dia. professora universitária e natural da cidade de Salvador. tive que intervir. 117 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. o enterro. para que eles não nos matasse de vergonha. de 50 anos. que perdeu a mãe. para acompanhar todos os preparativos para as exéquias. para que nada faltasse a minha mãe na hora de sua despedida. até a alguns parentes que não eram meus muito chegados que apareceram com aquelas costumeiras e horríveis cenas de choro em excesso.com For evaluation only. por outro lado.. Comandei toda a situação. atendi a todos com atenção.. tranqüila e ativa.. em forma glamourosa. Como pode ser visto no depoimento de uma informante42. é até natural nas circunstâncias que vivi naquele momento.. eu parecia não ser eu mesma.. constrangendo a todos os 42 Do sexo feminino.. pareciam vindo sei lá de onde. mas parecia calma.foxitsoftware. uma fortaleza... segura. em alguns momentos. Claro que devia estar com a cara arrasada. estado da Bahia.. Ao mesmo tempo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Desde a liberação do corpo até a marcação do lugar do velório. a compra de um lugar no cemitério. a missa de corpo presente.. como algo que se perdeu e que trazia mais solidariedade e conforto. com quem tinha afinidade. e que a considerava como sua única confidente e amiga: "Eu fiquei sem saber o que fazer com o choque enorme que senti quando minha mãe morreu. Ser Discreto costumes de uma época caipira ou de tradição rural. agora visto. .

não que não estivessem presentes em algum momento da despedida de minha mãe. cada um que viva a sua dor. antigamente não devia ser assim. inclusive. eu estava tão forte que até ela se intimidou. que o confortavam e o amparavam.. compreender ninguém. "Eu. causar vergonha e. e ainda sinto. contidas.. O excesso parece incomodar.foi assim que ela definiu o meu sentimento. eu até. consolada. ela me pareceu assombrada com a minha 'cobrança'.. falso.. . Neste depoimento se tem. como que querendo aparentar uma emoção que não estavam a sentir.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. uma das coisas que fiquei magoada. ". como se quisessem se ver livres daquele espetáculo. na verdade ausentes em quem pranteia e se expõe em demasia. estava controlada. . que perdi minha única amiga e confidente... parecia existir uma atenção especial que envolvia as pessoas e as tornava mais solidárias uma com as outras. quase repugnância a gestos demasiados por parte de presentes.. distantes. foi a falta de atenção de algumas pessoas que eu considerava. que me vissem como eu era. sozinho. também denota um fingimento de sentimentos.. passado algum tempo. eram condolências frias. Agora é só solidão de todos os lados.. 118 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. de um lado. ou quer. que sou eu.. por não se achar tão forte como eu e me constranger com a sua pieguice. mas por não verem o meu sofrimento intenso. mas não. parecia falso. por que eles não deveriam também de estar. queria ser buscada..com For evaluation only. O entendimento do que passava no ser de alguém era como que sintonizado por todos os presentes. segundo ela. Ser Discreto presentes com aquele excesso.. em um processo de despedida de alguém morto.. porém. conforme minha mãe falava e os da época dela falavam. 27). a minha mãe. a dor que espedaçava o meu íntimo. ninguém parece. conversando com uma amiga a respeito dessa solidão grande que eu senti.. e pronto!" (Entrevista n.pois. uma espécie de asco..

119 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . entre o que sofreu a perda e os outros. e um evitar aparente de sentimentos no lidar com o fato. expressando-se no interior de uma solidariedade formal e constrangida de ambos os lados da relação. também. em que reprime os seus sentimentos. Ser Discreto O excesso de emoção em público parece vir à tona. O ritual vem sendo suprimido ou abreviado de tal forma que apenas deixa aparente. negar que existiu. como expressões não sociais. ao transportá-los para o íntimo dos sujeitos. o seu contrário: a solidão dos indivíduos prisioneiros do pudor. a não ser pela falta de educação inerente a tal gestuário. A objetividade das relações amplia a necessidade de auto controle e a separação radical entre indivíduo e sociedade. e que se quer esquecer e.com For evaluation only. a não ser pela falta de decoro e de pudor nele expresso no hoje. O passado então é relembrado como um tempo de solidariedade e compreensão das emoções. este depoimento revela. no caso das cerimônias fúnebres. o essencial higiênico da configuração da morte e do despacho do corpo. como falsidade. De outro lado. também. e ser entendido pelos parceiros da relação. Fazem parte de atitudes de possíveis relações sociais de um passado sequer lembrado.foxitsoftware. desse momento de transição vivida pelo povo brasileiro nestes últimos trinta ou quarenta anos. Quando muito. Ambigüidade que parece ser comum a maioria dos indivíduos de classe média entrevistados nesta pesquisa. tornando difusas as fronteiras que delimitam a marcação e os ritmos sociais de cada passagem. ou mesmo necessidade. e a vontade. de alguém que os veja além da máscara de contenção.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. É rememorado em uma visão nostálgica de algo que se perdeu irremediavelmente e que condena ao isolamento cada sujeito. se possível. Que parece fazer parte. em seu sofrimento. dos demais.

As relações sociais parecem assim tornar-se em relações de constrangimento e pudor. tornando-o retraído e inseguro até do seu próprio papel no mundo. a falta de amarras.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. A ruptura com o passado e o viver o futuro como uma presentificação alucinada. entre perda e luto. 17. e que aumenta a solidão e o constrangimento pessoal de todos. e que também revele.82% das respostas43. e apoiado e tomado como se realmente é. inclusive. uma ansiedade de ser olhado mais a fundo. no interior de sua face. para que esta não apresente outra coisa além de uma indiferença presente. Para os 1304 informantes. como foi definida a noção de perda para os informantes do questionário padrão? Uma questão sobre o significado do termo perda foi elaborada entre as várias outras constantes. e até o menosprezo expresso pela reminiscência de formas culturais consideradas arcaicas e não 43 Conforme pode ser visualizado no Quadro N. em um conjunto de 21.foxitsoftware. construída para a ocasião.com For evaluation only. O sentido de "Perda de Si". anexo. a perda poderia ser definida em quatro categorias analíticas: como "Ausência". parece possuir o significado amplo de perda de referenciais que permitiam ao sujeito se locar em uma situação social determinada. Configuram-se em um elaborar constante da face. O que será perda. para 32.42% das respostas à questão. ou melhor. como "Perda de Si". no seu desenvolvimento. como "Dano". 120 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e ser encontrado.42% e. O que não acontece. para alguns poucos.75%.01% das respostas. para 7. elaborado por um conjunto de 38. como "Desaparecimento". para 38. Ser Discreto O que parece aumentar o sentimento de culpa e o desconforto de não saber como situar-se e apresentar-se em cada situação específica. e entre perda e morte. uma separação entre perda e sofrimento. pedindo.

por seu turno. Por ela é possível considerar o alto grau de ruptura vivido pela classe média urbana brasileira nesta entrada do século XXI com as construções categoriais de uma tradição cultural que parece não mais satisfaze-los. Era algo que eu já sentia e não sabia bem o que era. e a sociedade.. vivo por viver. não se tem idéia de uma nova forma de apropriação social de si mesmos em que pudessem contar em momentos de crise ou perigo. fora e em conflito permanente com o social. cada vez mais com nitidez e desprezo as pessoas e a sociedade. Quando vi o corpo de meu pai no centro de um velório com um bando de pessoas que nem ao menos falavam com ele quando vivo. entendida como um conjunto de regras que busca constrange-los a uma situação passiva e alheia de sentimentos. já se passaram três anos.. Na minha frente. e eu vejo. O risco ocasionado por este processo de perda é a perda de si mesmo. é bom frisar. . não ter a consciência da banalidade e falsidade das relações.. Minha vontade era de sair. por ser considerado velho e doente. Como os vividos por uma passagem brusca ocasionada por um processo de perda qualquer.. aquelas pessoas me deram bem a dimensão da farsa humana a que sou obrigado a viver e testemunhar. O indivíduo. Não tenho mais crédito em nada. ao mesmo tempo. Ser Discreto condizentes com um padrão – indefinido.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. senti a hipocrisia toda do mundo.de urbanidade. idéias e volições de cada sujeito individual.foxitsoftware. perder-me até de mim. Uma definição dramática que isola o indivíduo da sociedade. Hoje. desaparecer.com For evaluation only. . 121 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . aparecem nesta categoria de apreensão da noção de perda. Como parecem ser os casos dos segmentos de narrativas abaixo: ". visto como um ser completo e indivisível. e que.

para mim mesma. solteiro. Mas finjo bem. os 32.. chorar. Mas a minha vontade era de gritar. cada vez mais. Os indivíduos estando.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. sem filhos. vendedor autônomo. e ao mesmo tempo um despreparo absoluto de o fazê-lo. trancada. de 65 anos. de não ter com quem desabafar! . Ser Discreto indiferente. A noção de perda através da expressão ausência parece estar ligado ao processo referencial onde se estabelece o sentido da memória. Busco fugir de mim. agora. vítima de uma longa doença degenerativa. mas me refugio cada vez mais nesta casca oca que me restou e que tento esconder e negar para todos e até. enlouquecida de solidão.. p. 45 Mulher de 52 anos. Sei parecer falsa como todos esses que circulam ao meu redor! Quando vêem me visitar eu pareço a pessoa mais leve e feliz do mundo. natural e residente na cidade de São Paulo. e às vezes. não sou de demonstrar meus sentimentos. parecem ter presente na sua constituição. não ouso falar. viúva recente. aposentada.. a idéia de uma distância temporal e espacial de algo ou alguém que funcionasse como o ponto modal de uma rede de significados necessários ao processo integrativo do sujeito consigo mesmo e com os outros.. ameaçados de privação de uma faculdade que parecia segura e inerente a si mesmos. na sua ausência. É a minha forma de dizer o meu desprezo. eu me sinto louca." (Entrevista n. 122 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . nunca fui e. 37)45. há se eu pudesse. Na definição de perda como "Ausência"." (Entrevista n. 44 Rapaz de 29 anos. estado do Rio. mas os pensamentos povoam como nada a minha cabeça.198) chamará de "a faculdade de intercambiar experiências" . que Benjamin (1985. que perdeu o pai. passar na cara de todos a minha solidão e a brutalidade do mundo que parece a todos constranger e que todos parecem negar. e se pudesse.com For evaluation only..foxitsoftware.. natural e residente na cidade do Rio de Janeiro.75% que assim a apreenderam. capital. nem ousava pensar. 44)44 "Eu vivo sozinha.

de como ela era bonita e independente. agora atemporal. Tudo começou quando eu perdi a minha filha mais velha. que a perda provoca. não ousa declarar. como construção... A possibilidade do inominável. de como é impossível a vida sem ela.Tenho dentro de mim uma espécie de nó. onde. mas eles entenderam como se 123 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . foi a lona. Penso no tempo em que minha filha ficava perto de mim.... ficava o dia todo sozinha com os meus pensamentos. só restam. como diz meu filho.. consequentemente ter de ver o seu valor decaindo até o seu desaparecimento total. É o que parece revelar os fragmentos de narrativa. abaixo: ". algo me agarra por dentro e me deixa sem palavras e gestos. Tento disfarçar. tento falar e não posso.. Para alguma coisa cada vez mais difícil de expressão. aparentemente. abafado que. de um sentimento de vazio ocasionado por uma relação para a qual o sujeito não se encontra preparado. Esta. aqui. tentei falar. aliena ainda mais a experiência como troca e solidariedade. às vezes até sinto falta de ar. por receio de não ser entendido. deste modo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a experiência. ressoa como uma ameaça eloqüente. A ausência do ponto modal. simultaneamente. parece caminhar para uma dissolução e. e de que sente falta. se chega a ser ouvido por outros.. Parece que o meu mundo caiu. a não ser o de um grito mudo. mas não consigo. que me dói. de como conversávamos. O que parece ameaçar os indivíduos da impossibilidade de comunicação. Por mim.. Mas que. é escutado como e através de fragmentos incompreensíveis que ampliam a solidão e ameaçam os indivíduos de destruição e isolamento. o sentido. mas acho que não consigo.foxitsoftware.. o anseio nostálgico de um retorno a algo que se perdeu. Ser Discreto A ausência tendo. pelo contrário.com For evaluation only. Queria dizer isso para os meus. apenas..

e choro. ninguém parece se importar comigo.". casada. Esta categoria é informada por 21.. Vivo das recordações do tempo em que era feliz.. segundo ela: "era tudo para mim. quem quiser que venha me procurar.. através da idéia de "Desaparecimento". interior de Pernambuco. só as lembranças me botam em pé. . três filhos.. mas ninguém nota ou quer notar o meu sofrimento.. 47 Senhora de 48 anos. acho. então desisti! Fico só com a minha filha e o meu sofrimento. a minha vida. mas cumpridora das minhas obrigações.. Aprendi a ser hipócrita..01% do total de respostas." (Entrevista n... me basta. parece alcançar o significado de uma construção melancólica sobre o processo de perda. me ponho formal. os sentimentos para com o social e para consigo mesmo aparentam tender para um tipo de diluição de sentidos. uma mulher e dois homens. mais do que a idéia de "Ausência". 102)46 ". trancada. natural de Macapá. A idéia de "Desaparecimento". 70)47 A terceira categoria que expressa a visão dos informantes sobre a noção de perda é construída. e levo a vida como posso. doméstica." (Entrevista n. nas suas palavras. e desde os vinte anos moradora da cidade do Recife.. Fico em casa. é só a ausência dele em mim. Nesta construção. Perdeu a filha única vítima de um enfarte "fulminante". mas é só dor.. Perdeu o marido que.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.. Recebo bem. o que só aumenta ainda mais o meu sofrimento e a minha solidão. por sua vez. aposentada... Todos pensam que virei uma bruxa. pois a dor é a minha sina. um filho. se eu estou aparentando firmeza. viúva. choro... só sofrimento o que me move.foxitsoftware. o meu sonho. fingida. O mundo já não me importa. Só vivo das lembranças dele.com For evaluation only.. mas indiferente.. A perda pessoal do sujeito é visualizada através de um processo 46 Senhora de 63 anos.... natural da cidade de Limoeiro.. Amapá. distante. 124 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . aqui. Ser Discreto eu estivesse doente e queriam me levar a força a um médico. mas estou solitária e frágil.

ganhar coragem e ir a sua procura. Para ele: ". Engenheiro aposentado. O depoimento de um homem48. me culpo o tempo todo. Resultado da falta de esperança e do sentimento de que algo esteja prestes a acontecer e eminente a desabar sobre si.. não posso afirmar e tenho quase certeza de que na morte se encerra tudo. nem ninguém... e da reprovação ou estranhamento público.. me culpo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.foxitsoftware. e quatro netos. então me tranco. enfim. quem sabe. enquanto perda. de não a ter visto na hora de sua morte.... Como uma conseqüência. mas sou um covarde e não consigo findar minha vida. pai de dois filhos homens que administram suas propriedades.. sobre o sentimento de desilusão provocado pela morte de sua esposa exemplifica bem esta idéia de desaparecimento. 125 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . mas não. assim.. poderia.. O seu desaparecimento provocou em mim um vendaval de questionamentos que não sei responder a não ser me culpando. meus filhos chegam e eu vou para o meu quarto. estado de Alagoas. Se eu tivesse a certeza de que iria me encontrar com ela. p. só se pode fugir. por não ter morrido com ela. ficar ao seu lado. de sua subjetivação e falta de expressão no social. de não ter ficado o tempo todo com ela quando de sua doença. Ser Discreto de ambivalência resultante da vergonha como individuação.. de 70 anos. não quero que ninguém 48 Natural e residente na cidade de Maceió. de não ter dado a atenção merecida quando de sua presença. em uma crença ilusória de expectativas e no estabelecimento de um grave conflito de sentimentos ambivalentes.... não quero nada. 100).com For evaluation only.. enquanto tendência.. voltando a si próprio a hostilidade e a amorosidade que originalmente sentia em relação ao seu objeto.. O que parece constituir-se. me culpo a todo o momento porque ela e não eu que se foi. na urgência do hospital. Que no dizer de Abraham (1976.. me fecho. O mundo deixou de existir quando ela morreu.

a valorização da interiorização enquanto subjetividade ou espaço da intimidade. ou está virtualmente próximo de ser dele retirado. assim.. através da ocultação da face e da busca de demonstração de leve indiferença às formas culturais de representação do sofrimento e da morte tradicionalmente usadas revela.82% dos informantes. uma tendência social no Brasil atual de escamoteamento da expressão pública dos sentimentos (Mauss. no sentido de um prejuízo moral. no social (Koury.. também. deste modo. Além de criar. O termo dano é empregado. é sentida como uma ofensa moral e um sentimento de inutilidade ou deterioração real ou virtual. 53) Intercessão entre o desespero e o tédio. Ser Discreto me veja. desta maneira.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. parece reproduzir-se. seja ele individual ou coletivo. tende a tornar-se melancolia. por definição. Denota. É entendido também como um mal ou ofensa pessoal causado a alguém através da deterioração. e por extensão. tenho receio de ser objeto de estranheza e de falsos interesses sobre mim. recheado de receios e medos de que algo ou alguém lhe foi tomado. 1980). O processo de individuação do sujeito que sofre a perda. id est." (Entrevista n. ou do privado. A quarta categoria construída para caracterizar o significado de perda entre 7. O processo de perda. como se o indivíduo que revelasse tal conceito visse ou vivesse cada dia o seu presente como incerteza. A perda como "Dano". uma disposição prévia e permanente no indivíduo à desconfiança no outro. e. é sentido pelo sujeito como não social. por outro lado. 126 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . é a de "Dano". segundo o Dicionário Aurélio. eventual ou iminente de algo pertencente a este sujeito.com For evaluation only. como ausência de projeto. 1999). da danificação ou da inutilização efetiva. a dor da perda subjetivada e sem expressão no social. na narrativa acima.foxitsoftware. enquanto desaparecimento. de um lado.

. só não morro pelos filhos.. a uma espécie de desequilíbrio das relações entre o indivíduo e a sociedade.. estado de Pernambuco... me deixando louca. mãe de dois filhos menores. tendo que fazer de tudo para suportar a humilhação de me apresentar sem ele.. quando o que queria é ficar na minha. Me sinto roubada da minha vida. Ele não poderia ter feito isso comigo: ir embora assim. Se eu pudesse advinhar não teria aceito dar a minha vida assim não. mas estou como morta por dentro. enquanto definição de perda parece provocar. em minha vontade de dizer a ele que ele acabou com a minha vida quando ele se foi. 127 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . E continua: ".Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. sem a figura forte e de apoio que era ele para mim. Sentese logrado. que conformam um ser moral.." Informa uma entrevistada49. assim. E aqui estou eu... tendo que me virar.. trancada nos meus pensamentos. residente na cidade de Recife. sem ter uma profissão definida e só ter vivido a vida como só a dele importasse. diz respeito. funcionária pública. é uma 49 42 anos.. Ser Discreto sem ter claro o que ou quem foi retirado. inseguro dos seus gestos. Dói moço. mas agora é tarde. com filhos para criar. Os ritos de passagem. O sentimento de logro moral que o dano.foxitsoftware. ou o que ou quem o retirou. ". me sinto constrangida de enfrentar o mundo pelos meus filhos. deixam de ser sentidos como efetivos e o questionamento sobre eles cria um hiato entre as marcações das seqüências cerimoniais que assinalam os movimentos de um estado socialmente expresso a outro.. e pronto!. passados quase sete anos. Marido morrer vítima de distúrbios cardíacos.com For evaluation only. mas se foi.... ou que atitude tomar a respeito das performances possíveis dos outros. e só me resta ter que agüentar o desprezo do mundo e o meu desprezo por ele também. aparentemente. de não saber como se comportar ou o que esperar da avaliação dos outros em relação a sua atitude. sem mais nem menos.

como foi visto até agora. porém. também. Cada uma delas. Ser Discreto dificuldade todo dia que amanhece e eu ter que enfrentar tudo outra vez. desta forma. Por deixar o outro desamparado. é o despreparo para o mundo que parece ocasionar a revolta pela perda do ente querido. mas ao mesmo tempo sofrendo pela perda do valor social de cada passagem. Descrentes do papel das marcações. formam um conjunto compreensivo de categorias através das quais pode-se inferir o sentimento do brasileiro urbano de classe média. parecem sentir-se como logrados. e com o próprio ser que se foi. Gradações entre os graus 128 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . expressam uma tônica diferencial que analiticamente torna possível sua diferenciação. "Perda de si" ou "Dano". 109) Pelo trecho da narração transcrito acima.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Como vítimas de um estorvo moral acontecido ou prestes a acontecer.. considerada como "Ausência".foxitsoftware.com For evaluation only. uma influenciando e sendo influenciada pelas demais. que os deixam em estado de latência. atual. "Desaparecimento". paralisados e sem ação sobre que conduta tomar a cada movimento cotidiano que lhes impõe participação. tendo que sobreviver em um mundo que não se considera adaptado e que sente como cruel. por fazerem parte de um mesmo universo societário e relacional. e mesmo em um movimento de rejeição por as sentirem como inadequadas. A perda. por não saber como comportar-se frente a cada movimento de uma marcação social. O que parece causar um mal estar crescente. os indivíduos que afirmaram a perda como "Dano".. Vista enquanto passagem relacional de tempos e espaços regulados e reguladores das transmutações de uma sociabilidade determinada. " (Entrevista n. É claro que estas quatro categorias para serem melhor analisadas tem de serem vistas como interrelacionadas.

Isto é. Cada segredo ou complexo de segredos comportando a nuance de uma individualidade. para proteção pessoal em uma situação de risco na vivência compulsória de um social que não satisfaz. Abrem espaços para verificação de como o conjunto de regras e etiquetas. ou melhor. Os sentimentos introjetados para dentro de si. e os vazios dos espaços de relações sociais a que se submetem e se conflituam os segredos. ou como um ocultamento da face. Ser Discreto de receios e de significados morais na vivência da cidade parecem ser os elementos tônicos que uma busca compreensiva tem que se apoiar para verificação e alcance de sua simbologia. enfim. através de uma atitude blazé simmeliana. como manutenção. no interior de cada gesto e representação. A individualidade assim se põe contrária ao social e. isto é. e como a habilidade social e a perceptividade são sentidas como expressão de diferenças de formas de transmissão e avaliações do outro e de si mesmo. Fechando-as.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ou melhor ainda. os indivíduos. ao mesmo tempo. Parece criar um vazio entre segredos a serem ao mesmo tempo negados. Impõem-se.com For evaluation only. na vivência de um sentimento de perda. de indiferença social. Possibilitam. também. e ansiados de serem descobertos e conquistados. os portadores de segredos. configuram-se como uma expressão subjetiva e não social. criando um campo de vulnerabilidade entre as partes em interação. prevenção ou neutralização de inconsistências do jogo relacional.foxitsoftware. ao mesmo tempo. no dizer de Goffman. nele busca situar-se como indiferença para melhor poder usufruir das 129 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . dentro de cada sujeito. o entendimento sobre as formas pelas quais se estabelece entre o indivíduo e o outro elementos de insegurança e descrédito pessoal e societário. os complexos de segredos. como uma máscara para o outro.

as quatro categorias em que os informantes pensam a noção de perda. sem um conhecimento claro sobre o porque. É nesta ambigüidade que parece constituírem-se. como informa Simmel (1950. inibe e o isola. novo e ainda inseguro nos seus passos. O perigo de não ser entendido constrange. 321). em algum lugar do passado cuja memória se nega a enquadrar. Mesmo que isso possa provocar uma reação em cadeia. ou poderá se dispor.foxitsoftware.com For evaluation only. este movimento que se gesta parece não habitar no respeito ao outro e seu segredo. as relações sociais para os sujeitos em relação. Estabelece-se. ao mesmo tempo que preservado. vislumbrada. Ser Discreto relações de opacidade em que se transformaram. onde seria possível estabelecer um encontro sem correr o risco da perda de si mesmo. então. a um retorno mágico a um tempo e a um espaço perdido. p. E neste movimento ambivalente parece haver uma espécie de anseio. como uma espécie. e principalmente. ou parecem ter-se transformado. Marcado pela discrição de gestos e economia de afetos. São todas regidas por graus de receio e medo de exposição e do seu contrário. descoberta. anseia ser tocada. algo. um sujeito em relação. A individualidade. porém. mas. de não serem descobertos. nessa ambigüidade insatisfeita do medo de contaminação. como tal. Tempo e espaço estes. encantada e. Embora ansiado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em nuanças. experienciada. pelo menos em aparência. ao mesmo tempo. ao mesmo tempo que o conjunto de mal entendidos a que se expõe. a "tudo o que o outro não nos revela em expressão (e que deve) ser mantido a todo custo à distância do conhecimento (de cada indivíduo em relação)". ou do desaparecimento do outro 130 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . se põe a espera. e o próprio segredo contido em um ser venha a correr o risco de não ser jamais revelado. de um movimento ritual.

seja lá que origem tenha um ou outro. e de preenchimento pelo outro e resguardo de si. pelo seu lado mágico e distante. é impossível pensar uma relação.com For evaluation only. como eles compuseram a relação entre estes dois termos? É possível uma comparação entre eles. A relação entre perda. por diagnosticada como agente de poluição e causadora de sofrimentos. Pensar a perda remete sempre ao sofrer e pensar o sofrimento implica um referimento à perda. evitada. não uma e outra. Para os informantes. mas a mesma face.70% afirmaram não haver relação porque não existe diferença entre os dois termos. 77. 18. a perda e o sofrimento são a única face de uma moeda. e sofrimento parece ser evidente entre os 1304 informantes do questionário geral desta pesquisa. estabeleceram três níveis diferentes para expressarem esta relação. Como se pode observar51. anexo.70%50.30% que responderam haver uma relação entre sofrimento e perda. Mas. enquanto sentimento moral.53% dos informantes informaram esta relação através de uma Diferença de 50 51 Conforme pode ser observado no Quadro N. 21. ou apenas o sofrimento engloba o sentimento de perda como uma espécie de inevitabilidade irremediável? Perguntados da existência de uma relação entre perda e sofrimento.30% responderam positivamente a relação. porém. O que poderia até causar danos morais pela ausência sentida. que implica para em seus cálculos em uma forma de interação entre dois. 131 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Umbilical processo que parece remeter inevitavelmente para a mesma sensação de impotência. No Quadro n. por seu turno. contra 22. O interessante a observar é que estes 22. mas ao mesmo tempo. 19.foxitsoftware. A perda é sofrimento e o sofrimento é inevitavelmente produto de uma perda. assim. Para eles.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Os 77. Ser Discreto da relação. ansiada. Pois uma é a outra e vice versa. anexo.

de algo ou alguém significativo. A segunda relação estabelecida entre sofrimento e perda é expressa por 47. entre proximidade e apropriação. e a conscientização desta perda em si. do objeto ou da pessoa amada. definitivo ou parcial. Este sofrimento é uma espécie de conseqüência graduada e motivada pelo sentimento de posse. Parece estar mas próxima.82% dos informantes através da afirmativa: A Perda Provoca o Sofrimento. O sofrimento podendo ser medido e quantificado. se encontra em relação ao conteúdo de posse ou de aproximação entre o sujeito que a perdeu e o objeto ou pessoa perdida. Para estes informantes. o sofrimento é uma conseqüência da perda. um tipo de dor moral e física. e diferenciado em intensidade nas gradações entre pessoas e objetos. um sentimento de impotência ante o objeto ou pessoa perdidos. 132 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . A gradação na intensidade de sentimentos envolvidos em uma perda específica. porém concreto. assim. momentânea ou definitiva.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. das relações de mercado. De não mais possuir os elementos objetais perdidos pelo desaparecimento ou pela desapropriação. O sofrimento seria. pela somatização de uma perda objetiva no indivíduo. Reflete o estado de fragilidade que a pessoa que sofreu uma perda se encontra no momento de tomada de consciência do que perdeu. ao mesmo tempo. segundo estes. deste modo. Reflete. Um movimento que parece ser provocado pela ruptura ocasionada pela ausência ou desaparecimento. É uma relação objetiva ocasionada pela ausência e pela impossibilidade. onde o valor objetal é medido através da intensidade de ansiedade gerada no sujeito que a detém ou que a perdeu.com For evaluation only. Ser Discreto Intensidade entre Pessoas e Objetos. A perda objetivada de objetos ou pessoas provoca. sofrimento em um indivíduo.foxitsoftware. assim.

Ser Discreto A terceira alternativa para a relação entre sofrimento e perda é expressa por 30. Mas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como uma espécie de condenação ou desilusão de mundo a que um sujeito está destinado a percorrer. Parece referir-se a algo ou alguém não de todo objetivado. Por não mais sequer situar o objeto perdido. ao contrário. o paraíso ou a inocência. Este modo de referenciar a relação entre sofrimento e perda. em um lugar mítico ou real do passado.65% dos informantes. Parece. por não ter mais lugar onde originar a perda e o sofrimento dela conseqüente. a relação com um sentimento estilhaçado. irremediavelmente enraizada no interior dos sujeitos. de um lado. parece realizar-se muito mais pela desilusão do mundo. que parece ultrapassá-los pela plenitude e eternidade de sua constância.foxitsoftware.com For evaluation only. E o sofrimento é a forma de expressão deste sentimento disperso que agride e que acompanha os indivíduos em sua jornada. porém. 133 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . disperso no interior do sujeito. A perda passa a ser alguma coisa presente. fazer parte de uma tradição judaico-cristã52 situada na perda da inocência e do paraíso. como uma sina da qual não se tem forma de escapar. por outro lado. Esta terceira relação. plenamente completa na pós vida após a morte. através da afirmação de que esta É um Sentimento de Perda Eterna. Expressa. é estabelecida de um modo mais difuso. pulverizado. cuja recuperação se realiza através da abdicação de uma vida terrena em prol de uma vida espiritual. 52 Ver sobre a tradição judaico-cristã os importantes capítulos contidos nos livros de Kristeva (1988) e Carse (1987). como parece expressar a primeira e a segunda forma de relações propostas pelos informantes. não parece circunscrever a relação a uma perda definida e objetiva.

Ser Discreto Destinado a vagar como um ser sofredor de uma perda acontecida em algum momento ou em algum lugar indefinido. No terceiro degrau. o sofrimento aparece para o indivíduo que o sofre como uma espécie de predestinação. O segundo degrau. assim. quase natural.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. mais pulverizado ficam os sentimentos. O primeiro. estabelece diferentes degraus da manifestação de uma crise de separação. cujo sofrimento é incomunicável e inapreensível pelos outros. que parece gerar uma espécie de nostalgia de algo ou alguém de alguma forma extraviado de sua presença e cuja sensação é de um aniquilamento e irremediável condenação a um sofrimento a ela inerente. e onde. No quarto e último degrau. p. onde o sofrimento aparece como uma conseqüência. situam esta relação entre um produto de uma perda objetivada.foxitsoftware. da tomada de consciência de um ator de algo ou alguém que se foi. mas que cada tentativa parece colocar o sujeito para mais distante. é visto como se o sofredor fosse único e insubstituível. ou parece apresentar-se como o inimigo do indivíduo que sofre. Paul Ricoeur (1994. 60 e 61).com For evaluation only. como de ter sido escolhido para sofrer. e um produto de uma perda difusa. ou de quem ficou privado. enfim. As três possibilidades de interpretação da existência de uma relação entre sofrimento e perda transmitidas pelos informantes. Inatingível em sua origem. aponta para o sofredor como um solitário. 134 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . concreta. como condicionado e condicionante dos demais. ao qual se quer lembrar. se quer reapropriar. o outro apresenta-se. assim. Estes degraus ricoeurianos parecem assentar-se bem nas expressões utilizadas pelos informantes nesta pesquisa. os quais não podem compreender ou ajudar. tornando-se mais intenso o seu sofrer. em seu estudo sobre o sofrimento.

A perda é sentida. Prendendo-se em uma atemporalidade sem passado e sem futuro. assim. formada pela presentificação contínua e repetitiva do não olvidar mas. exteriorizando-se em eternidade. porém. enquanto sofrimento reparador de culpa. não saber ao certo o que e o como esqueceu.com For evaluation only. como algo a ser reparado pelo ator. E como tal. desta forma. também. cria uma escala de gradações por onde possa expiar a sua dor. de um lado. sem confiabilidade. O por quê eu? Pergunta e inferno do suportar a dor (Ricoeur. O que individualiza o sujeito e o constrange. 1994. nesta relação entre a perda. vistas com uma espécie de desdém e descrédito. De outro lado. a não ser a da confiança em não ter confiança legítima nas instituições e coisas públicas da ordem social. 61). como um ser que sofre e predestinado ao sofrimento. e cujo enfrentamento é o de retomá-la como espaço de criação de uma temporalidade artificial que permita o sujeito remeter-se a um cotidiano contínuo e repetitivo de mesmidade. parece tomar conta do sujeito que. O conformismo fantasmático quanto o ceticismo parecem assim serem as formas de enfrentar o mundo. parece cair ou em uma forma de conformismo fantasmático ao sofrimento a ele destinado.foxitsoftware. a dor é sempre pessoal. ou a um ceticismo nas formas de olhar os outros sociais em relação. que se culpabiliza pela sua efetivação e. É sentida enquanto uma espécie de condenação impossível de ser reparada.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 135 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . o sentimento difuso de perda e o sofrimento a ela inerente. a perda é vista pelo seu lado atemporal. p. Ser Discreto O sofrimento que informam parece ultrapassar a própria vida do sujeito. ou parece o assim fazer. ante o mundo e os outros sociais. Regras e etiquetas de uma sociabilidade são. O mundo apresenta-se. sem resposta. ao mesmo tempo.

e não à existência de outra coisa a não ser a si mesmo. um lançar-se a um novo modelo cujos hábitos. de um lado. apresentam-se como constrangimento pessoal. como o fez Lynd (1961). Embora. a necessidade do conforto e do repouso. ânsie na intimidade do seu segredo.o segundo como um sentimento mais individualista. não de todo claros e não de todo incorporados. para a existência de uma finalidade. Os sentimentos de vergonha e culpa ao serem tomados como dois sentimentos diferenciais. O que parece provocar um sentimento de vergonha de si mesmo e dos outros em relação. para uma possibilidade de salvação. o indivíduo parece recriar-se em cada momento de seu sofrimento. ou tem por seu núcleo ou centralidade. e o primeiro como que ainda encoberto por uma malha por onde se espelha a tecedura de uma coletividade. um desapego crescente ao passado e nas suas tradições. onde os elementos de ruptura 136 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . principalmente entre a classe média. Sentimento de culpa e de vergonha parecem satisfazer assim os parâmetros por onde se possa compreender a relação por eles estabelecida entre sofrimento e perda. Apresentam-se como uma espécie de não saber agir. ou de não ver como situar-se em situações de passagens. Nesta eterna repetição. enquanto reparação. Ser Discreto Não. E. cada vez mais. e ao mesmo tempo. escondido a sete chaves.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only.foxitsoftware. também.podem ser usados para pensar a sociabilidade urbana brasileira. como vivendo uma transformação na esfera do comportamento e da mentalidade dos seus atores. não. de outro. . deste modo. como um ser sempre já perdido e impossível de realizar a ânsia por um fim. . A principal característica desta mudança comportamental reside em. Aprisionando o indivíduo envergonhado na busca de um auto controle que evite do olhar a instabilidade e a tensão.

ao mesmo tempo. ou em um tudo qualquer que vira piada na mesa de um bar. deste modo. 137 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .com For evaluation only. Ser Discreto ou de transição ficam mais acentuados. a que ou a quem se possa amparar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O conformismo fantasmático. e com ela ausentar-se ou negar o enfrentamento direto com as situações de risco que o cotidiano lhe impõe. eternos seres a procura de algo ou de alguém. mesmo que transfigurado em uma alegria carnavalesca. Movimento de um processo ambíguo. ampliarem-se. que provoca mais pessimismo. incerteza. e uma dose maior de disfarce e máscara.foxitsoftware. mesmo sob a capa céptica com que aparecem vestidos. De indiferença para melhor esconder a face. provocando mal estar. o ceticismo social das coisas públicas e a descrença pessoal das instituições asseguradoras da cultura e do social enquanto tradição parecem. O que faz os indivíduos tornarem-se.

au double sens du mot. no duplo sentido da palavra. ". por que toda a vida é um luto. parece tornar-se mais e mais difícil de realização como luto. desde que toda a vida é dor. 138 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . parece possuir um sentido mais integrativo. puisque toute vie est douleur. parece informar. 15)53 O luto. e indagação do resto. o sofrimento imediato em um indivíduo.. c'est souffrance. comme douleur et comme attente: le deuil est une souffrance qui attend sa conclusion. A perda. p. A sensação de sofrimento objetificada pela perda.. conforme analisado no capítulo anterior. diferente da noção de perda expressa pelos informantes. et c'est pourquoi toute vie est deuil. sentimentalmente. e também é.. especificamente a urbana. ligado ao processo de reintegração do indivíduo à sociedade. como dor e como espera: o luto é um sofrimento que espera a sua conclusão.foxitsoftware. Sentido este. nos últimos trinta ou quarenta anos. et quête du repos. e sua recusa de aceitar o fim. através de uma introjeção da perda.. ..com For evaluation only.. Ser Discreto Capítulo 4 Viver o Luto "Être en deuil.. dentro de si. seja pela rápida transição dos costumes tradicionais vividos na sociedade brasileira. Motivada." (Tradução livre). seja pelo processo de individualização e individualismo que acomete o cidadão 53 "Estar em luto. ou do ente querido morto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. provocado pela ausência ou desaparecimento de um objeto ou pessoa queridos.. sempre.André Comte-Sponville (1995. toujours. por sua vez. é estar em sofrimento.

residentes nas cidades. os de classe média. do outro lado. as capitais de estado. através do processo de questionamento às instituições e instâncias de desindividualização vivido por estes indivíduos. Ser Discreto comum. e mais precisamente. Este capítulo tentará compreender como os informantes do questionário padrão e os entrevistados diretos vêem. os que vivem um processo de perda e os em sua volta. especificamente. O que parece afetar. Desconforto e Ambivalência Em uma conversa informal. sentem e exprimem a vivência do luto. este descreve o sentimento de desconforto a que foi submetido quando da execução dos rituais funerários de sua mãe. e que serviu de mote para se adentrar na narrativa de sofrimento do entrevistado. O que vem provocando um estilo de vida mais retraído pela vergonha silenciada de não saber como comportar-se em situações específicas.foxitsoftware. igualmente. principalmente. aqui. Estes motivos são o resultado. Desconforto oriundo das 139 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . pelo conseqüente descrédito nos ritos e fórmulas rituais de um passado recente. de um lado. no Brasil urbano do anos de 1970. até hoje. sem uma substituição adequada. e do aumento de um sentimento de culpa pela dificuldade de ação e mesmo pela não ação ou por um agir inadequado.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Seja. também. do processo de individualismo recente que acomete as relações sociais urbanas no Brasil e. no processo inicial de adequação de linguagem e sedução antes do início de uma entrevista. e as dificuldades e facilidades das relações sociais advindas da experiência deste processo.

a falta de compreensão das diversas formas de interpretação das atitudes das pessoas envolvidas em um processo de perda no momento do despacho do corpo provocaram mágoas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto diferenças interpretativas dele e de alguns membros da família envolvidos com o episódio. provocaram além da quebra de relações. Este problema levantado pela conversa informal anterior ao processo de entrevista. sobre os significados de luto e a narração da vivência deste processo pelo informante. passados já quase dois anos do evento. 140). dentista. Criou o clima propício entre entrevistado e entrevistador para o começo de uma conversa de mais de três horas. 140 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . um filho. sentimentos de culpa e dificuldades posteriores de relacionamento entre os familiares. sentimentos diversos de rejeição. com uma certa distância e com um misto de problematização e humor. Inclusive. porque o entrevistado elaborava este relato. na conversa inicial. tocou em um problema comum a quase todos os demais entrevistados nesta pesquisa. natural de uma cidade do interior do Ceará. mas que vive desde a sua adolescência na cidade de Fortaleza.com For evaluation only. 59 anos. desatenção e ira. casado. (Entrevista n.foxitsoftware. forneceu a chave de entrada para o universo narrativo procurado pelo entrevistador para o início do trabalho. Para o informante. O indivíduo entrevistado54 ao conversar as mágoas envolvidas pela dificuldade de entendimento de atitudes pessoais na família em um momento agudo de sofrimento e de passagem pela perda de um ente querido. O que facilitava o ritual de 54 Sexo masculino. formando o que Turner (1975) chama de drama social. que é o de não saber lidar com a ambivalência e com as diversas formas de vivência ritual na sociedade brasileira urbana atual. As atitudes assumidas em um momento de dor intensa.

mais afetivo do que econômico. tanto a do lado de seus país como a do lado do marido. aqui. Os que não podiam vir mandavam telegramas ou telefonavam. para comemorar. Conta o entrevistado que. para que os três filhos pudessem estudar o segundo grau e logo após a universidade. pelo menos nos contatos básicos do cotidiano de comemorações e perdas. tem o significado preciso de um episódio acontecido e narrado com um certo distanciamento e humor. mantinha unida a família. de mais de setenta anos. que celebram as passagens individuais e coletivas dos membros desta instância desindividualizadora familiar. "Não tinha aniversário de minha mãe que a minha casa não virasse um tumulto. Este ponto de ligação. em Fortaleza. Desses três filhos. o segundo mora fora do estado.foxitsoftware. mas 55 Anedota. Veio do interior para a capital anos após o seu casamento. 141 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . perda e luto. era apenas esposa e mãe. desde que o marido faleceu. Nunca trabalhou fora. um faleceu em um acidente de carro quando tinha vinte e poucos anos. Ao pedir para contar com mais detalhes a anedota55 comentada pelo entrevistado. quando começou a viver com ele.com For evaluation only. há quase oito anos contados até o momento de sua morte em 1998.. Mas não deixavam de lembrar. sendo uma referência de ligação entre membros dispersos da grande família.. Apesar de "nunca ter trabalhado fora ou estudado além do primeiro grau"56. não denotando uma depreciação mas antes uma espécie de orgulho da qualidade de articulação de sua mãe. a sua mãe residia na sua casa. Ser Discreto encantamento necessário para iniciar e prosseguir a difícil tarefa de entrevistar os temas de sofrimento. Era uma senhora idosa.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. deu-se início a entrevista. cheio de parentes que eu até não tinha intimidade. a mãe do entrevistado figurava como uma espécie de matriarca da família. Minha mulher no início não gostava. 56 Aspecto salientado com bastante vigor pelo entrevistado.

servia de conselheira. entre outras atividades da cultura fúnebre. que assim que sua mãe morreu tratou de avisar ao irmão e a todos os parentes do episódio..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Quando a mãe do entrevistado morreu. Só que dentro da família.". Servia como ponto de encontro da família. tem a atenção que deveriam ter. foi sempre assim" (Entrevista n. Ser Discreto com o tempo.. Me sinto às vezes culpado. . 140). a família extensa deixou de ser a mesma.. de morte natural. e parece que todos se voltaram para a sua própria família nuclear e a "tocar a sua vidinha sem se importar mais" com o todo. missa de corpo presente. flores.com For evaluation only. enterro.. Segundo ele. a não ser em crises familiares onde ela me é passada na cara. mulher e filho. mortes. Pelo menos até a próxima invasão.. casamentos. já que ele mesmo se expressa como "alguém que não tem tempo para nada. Os fatos descritos com um certo humor sobre o processo ritual por ele vivido na morte de sua mãe. mas o trabalho me envolve bastante e a culpa eu vou deixando de lado. Os contatos ficaram mais esparsos. Este fato.(riso) era uma política nata. . parece não incomodar tanto o entrevistado. translado do corpo do hospital para um salão de velório... Isso desde o tempo de meu pai. em cada festa comemorativa do ano. Acho mesmo que nem a minha família.como a compra de caixão. Conta ele. as notícias dos nascimentos. . parecem ter ocorrido em uma dessas crises "passada na cara". ela parecia acomodar-se. em cada natal e véspera de ano novo."chatas e 142 Mauro Guilherme Pinheiro Koury ...foxitsoftware... celebrava as festas e vitórias. ajeitar o túmulo da família onde já se encontrava o corpo do pai.. minha mãe era a primeira a ser acionada. separações. enfim. segundo o entrevistado. e com o jeitinho de minha mãe. ela sabia de tudo e juntava as partes em discórdia. antes mesmo de resolver as questões pendentes com o mercado e o ritual da morte. comunicava a todos.

foxitsoftware. Como desinteresse e desclassificação do seu irmão para com a sua mãe.com For evaluation only.". Disse que eu depois enviasse a conta que ele dividia comigo as despesas. monetária. . como uma espécie de perturbação dessa união.. Mas parece que o tempo só faz piorar as coisas. mas me sinto incomodado.. sem ninguém para me ajudar.. A morte da mãe. mas é uma relação formal. "Liguei primeiro para o meu irmão. eu mesmo acho que é e rio disso. Ser Discreto massacrantes.. e hoje. o safado. o que eu vou dizer a ele. sei que pode parecer besteira... aí eu fiquei mais brabo ainda. de uma mãe que unia a família inteira. o que fazer. perdeu aquela coisa que parecia nos unir como irmãos. como uma questão econômica. pareceu não ligar! Disse que estava muito ocupado. separado. mas o comportamento muda. sem tempo. foi sentido pelo entrevistado. tratei de comunicar a todos o acontecimento".. mas na hora. confesso. passados já dois anos. não tem como retornar. tinha uma reunião importante que envolvia o futuro dos seus negócios.. Nunca pensei que pudesse reagir assim. e depois para a parentela. às vezes. e o que era junto parece ficar numa barreira ou num valo enorme.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. arrefece a dor. o que ele vai pensar.e que fiz sozinho. desculpe o palavrão! Mas foi como eu me senti. eu tive uma discussão séria com ele. na recusa da vinda do seu irmão para o enterro... A gente se fala por telefone... mas essa é a vida. O meu irmão.ele pensou que a minha chateação era devido as despesas com o enterro de minha mãe.. penso em ligar para ele e conversar.. e não de algo 143 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. "Confesso que fiquei puto. a vida que a gente leva. nossa relação nunca mais foi a mesma.. mas. aí vou deixando de lado e esperando que o tempo solucione.. e para com o entrevistado. de acordo com a ótica do informante. o momento da morte. para quem já está dominado pela dor. visto que ele pensou o seu sentimento. e não podia vir para o enterro. e mais separado..

Nas palavras do informante. Para o entrevistado. que cobre a anedota que possibilitou o início e o entabulamento da entrevista. e telefonaram para falar do constrangimento que sentiram ao não serem informados do episódio e demonstrar a mágoa que sentiam por terem sido deixados de lado. este afastamento teve a ver com este episódio.foxitsoftware. o que eu dizia 144 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . sou pobre sim. mas também tenho sentimentos e gostava muito de sua mãe'. de serem avisados da morte de minha mãe." Segundo ele. por terem sido lembrados. O segundo episódio desta mesma narrativa. O entrevistado narra o fato de ter recebido dias após o sepultamento e da missa de sétimo dia da mãe. e pelos outros membros da família. o fato repercute nele ainda pelo afastamento ocasionado. no período em que foi se realizando o trabalho de luto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Estes parentes referiram ao possível esquecimento de um telefonema do entrevistado como "um descaso". sentidos com ele por não tê-los comunicado da morte de sua prima. e com as dificuldades de conversar a respeito. e de ver o episódio como uma espécie de mal entendido de ambas as partes. o que vem aumentando a cada dia a frieza nas relações entre os irmãos. um telefonema de parentes distantes. refere-se a uma questão também de comunicação. esses parentes "telefonaram para mim para se queixarem pelo fato de terem sido esquecidos por mim. "não adiantou minhas explicações. dele e do irmão. com um certo tom de ironia na voz.com For evaluation only. Uma deles chegou a dizer explicitamente que 'era porque eu era pobre que você e ou outros acharam de não ligar prá mim. primos de sua mãe. como o sofrimento causado pela mãe e a necessidade de estarem mais unidos. Ser Discreto mais importante. Apesar de esta mágoa arrefecer no seu interior com o tempo. com a barreira então formada.

. de um lado. a presença de cada um no ato da morte e as representações dos mesmos pelo aspecto ritual em que ela se encontra envolvida e de onde a presença de cada um é sentida. De outro lado. e as mágoas dela provenientes. eu ando entabulando um pouco os meus pensamentos sobre o episódio e. a atitude própria e dos outros. porém. Do acontecimento (diz... mostra. também. "Eu. a partir de uma ótica da dor pessoal pelo sofrimento causado pela perda. A pessoa e o outro da relação são colocados em cheque pela morte de um terceiro comum a ambos. Tentei explicar mas. em um momento de intenso sofrimento.foxitsoftware. como os casos de perda por morte parecem revelar. ou tentei esquecer. Deixam evidentes. para os envolvidos. tentou deixar unida. seja pelo olhar pessoal de cada indivíduo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. parece. apesar de achar ridículo. durante toda a sua vida. de um tempo para cá. ou demonstrações de carinho e afeto para com o morto ou para os sobreviventes. ou quase.. e esqueci. e com a sua morte esfacelou. O sentimento deles não era apenas por não terem sido comunicados. vejo hoje que as reclamações tinham o sentido da família. como foi pior. se sentirem excluídos do enterro de mamãe. pela não informação. Mas. da grande família que minha mãe. Configura. mas porque. O que ocasiona a procura de aproximações e aconchegos. na época não liguei muito. Este segundo episódio de dificuldades de comunicação e o desconforto gerado. a fragilidade individual perante uma situação de crise. mostra também a ambivalência dos tempos e dos espaços em que a leitura da morte e feita pelos indivíduos envolvidos.com For evaluation only. Esta segunda face revela o lado mais social da relação. ouvi e desliguei o telefone.. seja pelo olhar do outro em relação a sua atitude perante a morte. As atitudes de cada um e as leituras que 145 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto parecia virar em um novo e mais demorado novelo de queixas e expressões de mágoas..".. rindo)!.

Ser Discreto fazem. conforto e demonstrações de carinho e afeto. e o esconder a face. Os códigos de proximidade que uniam e garantiam um certo sentimento de família parecem ruir pelas barreiras que vão sendo impostas pelos silêncios das mágoas e do desconforto. O mundo cotidiano volta a girar agora esfacelado.foxitsoftware. embora o desconforto permaneça. são postas à tona como possíveis detonadoras de conflitos. ou coloca o outro da relação. ou que são lidas como realizadas. o tempo embora amenize. A quebra dos códigos de um ritual de coletividade que permeava a família enquanto instância de união e corporeidade sui 146 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como vítima ou algoz. das comunicações intra e interfamiliar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. quando. tendo o corpo morto como o referente principal. O evitar. pela quebra dos laços. internos às pessoas e entre elas. ou mais fragilizado.com For evaluation only. parece vir acompanhado de um crescimento de mágoas que. do que dizer ao outro e de como o outro vai entender esse chamado. passam a afigurarem-se como atitudes que os enlutados passam a se haver no período do pós luto. A culpa e o medo de ser ofendido vão ampliando as margens do silêncio e a frieza das relações. O desconforto passa a ser agora a humilhação de ter de chamar o outro para conversar. Um aumento da distância entre as pessoas envolvidas parece ocorrer. o que se queria mesmo era aconchego. A dificuldade de comunicação pela ambivalência das leituras de cada um das margens de exclusão em que se coloca. E da culpa de não realizar esse gesto de aproximação. Com o tempo às magoas e os desentendimentos vão sendo acalmados. E só mais afastamento. também provoca afastamento. usando o termo de Goffman (1980). e do evitar encontros ou situações que possam constranger a si próprio e aos outros.

e de facilitadora de trocas de informações entre eles. migram da afetividade e reciprocidade. A família ao deixar de ser o eixo norteador dos quadros e enquadramentos afetivos.com For evaluation only. enquanto reprodutora de relações emocionais garantidoras de laços de convivência e confiança mútua entre pessoas. respeito e amparo aos familiares. mas expresso sentimentalmente. por exemplo. com o prosseguir do tempo. A passagem representada pela morte. nos últimos trinta anos. aqui considerado. Este elemento é importante porque retrata a questão de quão tênue parece ter se tornado as relações de instâncias fundamentais na vida brasileira. onde a rede familiar funcionava como agregadora e acompanhava a formação e amparava os seus membros nas horas de precisão e crise.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. passa a ser encarada como depositária de mágoas e desafetos. Este papel de agregação e de uma política afetiva de intermediação.foxitsoftware. Emoções sentidas entre indivíduos ou grupos de indivíduos no interior de um mesmo laço familiar. quebrado com a sua morte. provoca uma crise nos sujeitos 147 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . para o silêncio e o distanciamento culpado. aqui tratada. como uma realidade distante onde existia algo não definido plenamente pelos sujeitos envolvidos. esta idealização é feita a partir da representação do papel da mãe do entrevistado. Ser Discreto generis. e que os formavam e os informavam como pessoas de uma rede familiar de afeto. No caso. e o desconforto gerado pelo esfacelamento dos laços. Começam a ser visualizadas. como a familiar. como um elemento idealizado de positividade. além dos desgostos pessoais provocados pela ruptura. tornam-se conformidades onde cada um procura ajustar-se na sobrevivência cotidiana das relações consigo mesmo e com os demais. que parecia atuar acima dos indivíduos.

Sempre intensos. Ao tomar os dois episódios de um mesmo ato. aqui. uma exacerbação da individualidade nos atores em sofrimento. com atitudes que ferem esta tendência.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. nos momentos mais agudos da dor da perda. este caminhar para uma forma mais individualizada de ação que parece ir assumindo as relações sociais no Brasil urbano. que implica tempos e espaços amplos para serem administrados. até meados da década de sessenta. por ele narrado e aqui reproduzido. seja pela facilidade de dissolução de casamentos e de remontagem de casais por novas uniões. seja pela dificuldade cotidiana de manutenção de laços de continuidade. mostra bem as contradições por que passa a cultura mortuária no Brasil. Mais uma vez. O que obstaculariza as tentativas de acordo. funcionava como uma rede de amparo para momentos de crise. Por outro lado. é significativo desta relação de ambivalência. pela individuação a que cada um se encontra exposto e se joga para o outro como tábua de salvação ou repúdio. O que até pouco tempo atrás.foxitsoftware. neste rito de passagem chamado morte. se choca. a família no final do século XX e início do século XXI no Brasil aparece nas entrevistas como quebradiça ou em processos de redefinição. As relações são dificultadas pela dificuldade de se fazer entender. onde apenas o núcleo familiar básico funciona. A ambivalência das atitudes presentes nas relações entre os indivíduos envolvidos.com For evaluation only. o da reação do entrevistado em relação a atitude do seu irmão. Ser Discreto envolvidos neste rito acentuando. o exemplo de luto aqui retratado através da narrativa deste entrevistado sobre as relações familiares quando e a partir da morte de sua mãe. E mesmo assim fragilmente. e cada vez menores nas formas assumidas pela sociabilidade contemporânea no Brasil urbano. e a reação de familiares 148 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a cada momento.

O forçar do entrevistado para que o irmão vivesse uma situação que ele não via como necessária. a morte. mas sem o rigor ritual necessário para sua compreensão e integração. assim.foxitsoftware. e 149 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e que não via também essa falta de necessidade como uma indiferença e uma falta de sentimento pela perda da sua mãe. O choque do entrevistado pelo aparente descaso do irmão com a morte da mãe. ele pode guardar e viver com ela no seu interior. O sofrimento é do sujeito e sua a sua interioridade e vivência. pode-se melhor entender este comportamento ambíguo e as dificuldades a ele inerentes no atual momento vivido pela cultura mortuária no Brasil. Não tinha. por que parar os seus negócios e os compromissos do cotidiano por uma situação que não se pode mais voltar atrás. seus negócios: manter em funcionamento as condições garantidoras de sua vida momentânea e futura. profissionais. Ser Discreto sobre o comportamento do entrevistado. A dor subjetiva é assim encarada com objetividade.com For evaluation only. mas o mais importante. o objetivo imediato é tocar sua vida. A sua dor é dele. mostra uma realidade de atuação de um sujeito no interior de uma sociabilidade onde a perda da mãe é encarada como uma dor subjetiva e privada. As relações sociais. a impossibilidade de deixar os negócios para acompanhar os funerais da mãe. Onde o sujeito estiver e o que ele estiver fazendo não o poupam de sofrimento pessoal. mas não o impede de tocar o cotidiano profissional por causa do luto ou da morte de um ente querido. e o tratar sua indignação como uma questão financeira. a morte apenas aparece como um elemento perturbador. Nesta relação.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. criou um hiato no entendimento do sujeito que se viu forçado. Para o irmão do entrevistado. precisam ser mantidas. causaria prejuízos a sua vida futura.

no retorno de seu sentimento de culpa. passa pelo tempo de onde a estrutura familiar era mantida. mas. Como retornar a este passado desejado? O que dizer. a proposição feriu os seus sentimentos pela frieza do irmão para com a importância da perda. Ao relativizar a atitude do irmão. dois modos de vivência da mesma realidade. criou também um fosso para este último. de sua mágoa de não ter sido procurado e do pedido de desculpa que não houve e não haverá. Para o informante. de cada lado? 150 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . assim. por se destinarem a destinatários com vivências temporal e espacial diversas.com For evaluation only. Tem-se. dois discursos mudos e impossíveis de troca. vendo à luz do tempo. A proposição do irmão de dividir as despesas funerárias. o que dizer. Ser Discreto uma busca de sair dele através de uma proposição de um negócio: dividir as despesas funerárias. de culpa. O que silenciou ambos em acúmulos de mágoas e. da cultura mortuária no mesmo Brasil.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. sentimentalmente. e que só existe enquanto idealização no sujeito que a rememora. cada vez mais. a transformando em um mero cálculo financeiro. Passado o período da dor maior. como uma forma de fugir a um forçar agressivo do entrevistado. também. a dificuldade de retomar uma relação quebrada. e o reforço pessoal dos seus membros eram refeitos a cada momento de uma celebração ou crise na ação familiar. o sofrimento amainado pela interioridade da perda no processo lento do trabalho de luto.foxitsoftware. Esta sentimentalidade. fica contudo a ruptura. ao mesmo tempo. pelo estrago da relação entre irmãos. na narrativa do entrevistado. mesmo que agora. na compreensão da atitude do irmão. como uma instância coletiva organizadora do individual. ficou o silêncio e a culpa como uma espécie de marca. onde a morte da mãe é relembrada e idealizada.

e aumenta o retraimento social dos sujeitos. provocando ânsias de retorno.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. simultaneamente. O segundo episódio.com For evaluation only. culpas envolvidos. também. hiatos são criados e interpretações de cada lado são realizadas sobre o comportamento de ambas as partes. as interpretações foram originadas pelos tempos e espaços específicos na cultura mortuária em que se situaram o entrevistado e os parentes sentidos. A leitura de segregação elaborada pelos parentes tocou em um ponto principal para eles. humilhações. a falta de importância deles na rede familiar pela sua 151 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Uma vez mais. não apenas momentâneo. Mas. É o entrevistado agora que é questionado em sua atitude por familiares que se acharam segregados por não terem sido comunicados da morte da mãe do informante. não sabendo. por sua vez. Ser Discreto Questões que emergem e situam o indivíduo solitário no seu rememorar. a idealização de um passado. também.foxitsoftware. pelos sentimentos de mágoas. onde a mãe atuava como congregadora e potencializadora da rede familiar. O que paralisa as ações e as fazem reconstruírem-se pela e através da solidão e do isolamento dos sujeitos nelas envoltos. Neste episódio. principalmente em se tratando da morte da considerada matriarca da família. O não serem convidados significou uma exclusão da rede familiar. de modo sentimental. De novo. continuam e se reforçam a cada novo dia. Mais uma vez. e diminui a eficácia da família em reintegrá-los e incorporá-los como ação solidária. inverte a relação. estas interpretações se cristalizam nos sujeitos em sofrimento pela perda e se transformam em dificuldades de relacionamento. vem a tona. desgostos. como fazer para retornar a uma posição quebrada no passado. também. mas que se refazem.

Significou a quebra das relações sociais e de cordialidade em que se baseavam as 152 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a missão de sétimo dia. através da presença de todos. quando o falecimento era o de um ente amado. a tarefa de avisar a toda a parentela. A falta de comunicação. e os fizeram olhar para si mesmos como desclassificados. mas. talvez até sentido anteriormente. ou sentirem-se. ou o de ter transferido a outros. só reforçava mais o sentimento de frustação e rancor por parte dos esquecidos. Um sentimento vivido. vivido em exaustão emocional. representou a ausência deles em um momento significativo para esta vida familiar. que também não o fizeram. e sobretudo. Porque a questão envolta era a da instância ritual que representava a comunicação do falecimento. aumentou o sentimento de frustação pessoal dos que assim se sentiram. na relação social no interior da rede familiar em que se encontravam inseridos. as explicações do momento tumultuado em que vivia e o de não ter lembrado. considerado como matriarca para a família. a ida ao velório. ao enterro. que impossibilitou o comparecimento desses parentes ao ritual de despedida. até pela não comunicação de um falecimento qualquer. foi lida através de um sentimento de exclusão social ou de discriminação. Era a presença física no momento da despedida de um ente amado. A segmentação feita pela luz da polaridade riqueza e pobreza. quem sabe. O que provocou ou aumentou o rancor. principalmente. Do lado do entrevistado. Ser Discreto condição de serem.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. os mais pobres. reduzido à condição de pobreza pelos que a sentiram. Para a cartase necessária. A sensação de exclusão da rede familiar. mas amainado na convivência socializadora e organizadora da estrutura de família em que se encontravam imersos. no momento do trespasse da pessoa mais significativa e garantidora das relações familiares daquela família.com For evaluation only.

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trocas no seu interior, e de onde os conflitos que emergiam eram solucionados ou reduzidos por uma força superior organizativa: a família extensa como coletividade e sociabilidade, de onde cada um enxergava a si próprio e os demais membros da família e a partir daí os outros, isto é, a sociedade. A ausência no ritual motivado pela assim sentida desconsideração do entrevistado para com estes familiares, ao não os comunicar a morte de sua mãe, e a importância do ritual para eles enquanto presença familiar, enquanto forma de sentirem-se família ou pertencentes a uma família, provocou sentimentos de desgosto, de mágoas, de verificação de sua desimportância para a rede familiar como um todo. Pelo lado do entrevistado, porém, a mágoa e as queixas vindas posteriormente por telefone, não foram entendidas pelo aspecto da importância do ritual para estes membros esquecidos e desgostosos. Ficou para ele presente a mágoa de representação do ser pobre na família, dita em tom enfurecido pelos familiares esquecidos. Ficou a representação de uma importância maior desses parentes para um ato falho seu, sem outra significação, a não ser a de um ser em sofrimento vitimado em cobranças de posições que ele nunca tinha pensado. Ou, se tinha pensado, nunca tinha expresso, nem os diferenciado conscientemente enquanto relação. Ficou o tom de cobrança, o de cobrarem dele mais do que ele próprio poderia dar. A cultura mortuária onde estavam envolvidas as partes, deste modo, não era a mesma para cada um deles. Pelo exercício do estigma, os considerados como desprezados, colocaram na mesa uma relação mais efetiva com o ritual de passagem e toda a sua dinâmica para a prática familiar. Era importante para a reconfiguração e a reorganização da família
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enquanto núcleo pulsante de uma sociabilidade de referência para a totalidade dos seus membros. O ritual da morte e a presença de todos os envolvidos na rede familiar que sofreu a perda era necessário, na visão destes, para a sua reprodução enquanto estrutura, e enquanto instância desindividualizadora. A exclusão era a ausência de comunicado, sentida como

desconsideração. Era o sentimento de serem considerados como não membros, ou membros menores e insignificantes, da família, e por isso renegados na hora do exercício do ritual de passagem vivenciado na morte e no processo de despacho do corpo da matriarca da família. O triângulo em que foi posto o entrevistado no processo de luto de sua mãe, se indignando com a atitude do irmão e sendo objeto de indignação por parte dos parentes não avisados desta morte, retrata bem o momento de transição por que passa a cultura mortuária no Brasil urbano. Momentos diferentes de individualidade são verificados e se expõem de forma ambivalente para os sujeitos que os vivenciaram em relação. Um estranhamento e um distanciamento afiguram-se, assim, como a forma encontrada para verificação de cada outro da relação, os condenando, e ao mesmo tempo condenando cada qual, à solidão e à idealização de uma rede de relações, agora rompida e difícil de recomposição. Estranhamento e Distanciamento

A ambivalência de gestos, de procuras e de interpretações analisadas acima, faz com que a análise se debruce, neste momento, sobre uma questão de definição do que é luto para os informantes. Esta pergunta foi
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colocada no questionário enviado pelo correio como uma questão aberta, para ser respondida por todos os informantes, independente ou não da experiência pessoal com o luto. A totalidade dos informantes respondeu a questão, situando a noção de luto em três categorias analíticas57. A primeira, Simbologia, retrata o luto no interior de uma tradição cultural, onde os rituais fúnebres que o envolve e as formas de comportamento assumidos pelas personagens envolvidas ganham peso e delimitam o espaço do luto. Para os informantes desta primeira categoria, o luto aparece em sua face cultural mais visível. É a ela, isto é, é no respeito a toda uma simbologia ritual que fundamenta uma cultura mortuária, que uma pessoa vive o luto por um ente querido. A quebra desta tradição podendo causar danos sérios a psicologia do envolvido e a sua reinserção no social. Esta primeira categoria analítica foi enfatizada por 46,09% dos que responderam o questionário aberto. A segunda categoria expressa pelos informantes foi a que considerava o luto como um sentimento. Definida por 45,86% dos respondentes, a categoria sentimento, ao contrário da primeira, vê o luto em seu aspecto mais introspectivo. É a subjetividade do sentimento que melhor define para eles o estado do luto. O indivíduo em dor, causada pelo sofrimento de uma perda de alguém querido, é o ponto modal da definição do luto. As relações com o social são, ou aparecem como secundárias, por serem vistas como públicas e fora do sujeito. É enfatizado, desta forma, os aspectos do recolhimento, da potência da dor individual de cada um, da capacidade de sofrimento envolto, da

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Como pode ser visto no Quadro N. 20, anexo.
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introspectividade da vivência, do conflito entre indivíduo e sociedade, estando o indivíduo em sua subjetividade fora, em sua dor, do social. Para 8,05% dos informantes, porém, a noção de luto aparece como uma Adaptação a um processo brusco de ruptura vivido por uma pessoa na perda de um ente amado. Uma etapa necessária para que os processos de reintegração da pessoa a ela mesma, e dela com o social, sejam realizados. Completem-se pela introjeção do ente amado, perdido para a morte, superando ou amenizando o estágio de sofrimento intenso provocado pela perda. As duas primeiras categorias que expressam posições polares sobre o conceito de luto aparecem também, dividindo a totalidade dos respondentes58. A polarização no Brasil urbano sobre as duas noções de luto é interessante de ser percebida, pois ela demonstra a ambigüidade e a dificuldade da vivência do trabalho de luto na sociedade brasileira atual59. O estranhamento e o distanciamento parecem fazer parte assim da experiência atual do luto no país. O que parece vir acompanhado por um sentimento de solidão pessoal e pela dificuldade de saber como agir em determinada situação frente à presença do luto. O esconder a face goffmaniano parece ser a tendência atual da nova sensibilidade em processo de consolidação no Brasil urbano, junto com o aumento do autocontrole e o sentimento de solidão enfatizados pelos
58 59

Como pode se ver no Quadro N. 20. Mais uma vez é necessário enfatizar que, quando se afirma sociedade brasileira urbana atual, nesta pesquisa, se está tomando os dados sobre o conjunto das capitais brasileiras. Estes dados distribuídos por cada capital, porém, independentemente do tamanho ou desenvolvimento urbano, em termos de equipamentos e oportunidades culturais, políticas, sociais ou econômicas, locais, aparecem do mesmo modo como duais e quase polares, nas definições dos respondentes. O que demonstra uma tendência comum a uma forma de sociabilidade nova no urbano brasileiro, que vem sendo assumida desde as últimas três décadas.
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informantes. É o que pode ser visualizado no Quadro n. 21, em anexo. Nele, a solidão aparece como uma categoria expressa por 45,55% dos que responderam ao questionário, contrastando com a quase polaridade de opiniões na definição do luto no Quadro 20, discutido acima. As outras duas categorias expressas no Quadro 21 para explicar a vivência com o luto pelos entrevistados, de Tradição e de Introspecção, aparecem também aqui polarizadas, mas caem para 26,61% e 27,84% das respostas. O que parece denotar a margem de insegurança pessoal na vivência do luto, neste período de transição das formas culturais e sociais, neste processo formador de uma nova sensibilidade, experimentado pela população brasileira urbana. A experiência crescente com a individualidade nos moldes

individualistas no Brasil dos últimos trinta anos, se amplia, de um lado, a margem de negação da tradição mais relacional (DaMATTA, 1987) onde se encontravam envoltas as formas de vivência do luto na sociabilidade do passado recente nacional urbano, por outro lado, torna o luto em uma experiência cada vez mais subjetiva e vivida em solidão pelo sujeito em sofrimento. O mesmo parecendo acontecer com os que tem a tradição ou a cultura simbólica do luto como referência. A perda progressiva de força da simbologia e da tradição das instâncias desindividualizadoras no Brasil, desde os anos de 1970, principalmente, parece ter provocado também seqüelas naqueles que ainda hoje a advogam. A experiência tradicional do luto não parece estar permitindo uma vivência mais em coletividade do processo de enlutamento, ou esta coletividade não tem mais o vigor de aquietar as tensões e conflitos resultantes da experiência da perda de um ente querido nos indivíduos nele envolvidos. O que aumenta a insegurança pessoal na expressão dos
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sentimentos na coletividade e, também, aumenta o desconforto de não se ter mais a certeza de que estas instâncias assegurem o conforto necessário ao enlutado. Associado, ainda, à necessidade de abafar as expressões ritualísticas com o luto no social, com receio de ser mal interpretado, ou de ser discriminado no social por receio, deste último, de contaminação (ELIAS, 1989). A solidão parece ser, assim, também, uma experiência marcante em uma parcela significativa daqueles que admitem ainda o luto como uma expressão da cultura mortuária e sua ritualística organizacional social. O desconforto parece assim ser a tendência geral assumida na experiência recente brasileira, no urbano, sobre o luto enquanto expressão e vivência. Desconforto que leva a um aumento significativo da solidão do sujeito em sofrimento, e a ver a sociedade e as suas formas de sociabilidade com um certo estranhamento. Como se as regras sociais em vez de acalmar e organizar o sujeito em dor, tencionasse mais, ferisse mais estas pessoas, as forçando para uma experiência emocional solitária e sem outras expressões que não o fingimento e o distanciamento social. As relações sociais do luto passam assim a ser mantidas com a máxima discrição possível. As formas higiênicas sobre a vivência do sofrimento pela perda passam a ser referenciadas, não apenas por aceitabilidade das regras individualistas em que parecem acentar-se as formas breves de convívio social em situação de morte mas, e principalmente, pela ausência de regras. O não saber comportar-se em uma situação limite, como a do sofrimento causado pela morte de um ente caro, aumenta a insegurança no social de quem vivencia o enlutamento. Seja por não saber como agir como enlutado, seja por não saber como agir quando precisa conviver com o luto de outros próximos.
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porque as instâncias de apoio coletivas. Seja na brevidade das visitas e formas de demonstração de solidariedade. quase enojamento. mas. Ser Discreto Um e outro aspecto acima tratado faz crescer o desconforto dos indivíduos na cena social do luto. que se vê exposto nas relações sociais aqueles que vivenciam a experiência do luto e buscam expressá-la além dos limites breves sociais ou dos encontros íntimos. e principalmente. os fazendo estranhar esta situação e os forçando a adequarem-se à distância nos relacionamentos obrigatórios da vida cotidiana. por as formas desindividualizantes na sociedade brasileira não mais corresponderem plenamente as novas exigências. e outras. como um processo solitário. E.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. como a família. inquietações e angústias dos seus membros. Seja. ainda. não mais comportarem em si a legitimidade de assegurar o conforto ao sofrimento. a igreja. Apoio e Afeto 159 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. na sociabilidade urbana brasileira. por ausência de regras. Na solidão dos sujeitos que o experienciam. necessário para a introjeção do corpo morto e para a saída do luto. Discrição realizada. não por regras claras do comportamento perante o ato e a cena de luto. Encarado de forma introspectiva ou na forma de uma tradição cultural e social. O que parece indicar uma tendência maior para o constrangimento público da demonstração de sofrimento. seja no distanciamento tácito. de não saber comportar-se perante esta situação. o luto parece ser vivido na atualidade das relações sociais.

ser consideradas de modo absoluto. por seu turno. é bom frisar. no lidar com o luto e seus processos. Vistos como costumes e maneiras de ser de uma cultura não totalmente urbanizada.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. que não se tem mais possibilidade de ser retomado em sua plenitude.com For evaluation only.foxitsoftware. não podem. é o que afigura-se. São olhados mesmo. até. Passado. como que. carinho e demonstrações de afeto quando precisaram. se não de todo esquecido. não apresentam-se com o mesmo peso cultural de um tempo atrás. O questionário trás uma questão referente a se o informante. perdido em algum lugar e. recebeu apoio de algo ou de alguém específico. Os indivíduos que experienciam o trabalho de luto também afirmam que receberam apoio. as regras e as normas sociais a que se estava acostumado em um Brasil de passado ainda recente. aqui investigada. A solidão dos sujeitos em uma sociabilidade cada vez mais hostil. no seu processo de luto. Os códigos de referência. assim. contudo. Uma pergunta. e que recorreram ou foram auxiliados por instâncias desindividualizantes no momento maior de crise pessoal ocasionada pelo sofrimento da perda. os valores. de possibilidade de respostas múltiplas. O que se quer demonstrar. 160 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . se ainda continuam a viger. Ser Discreto Estas relações de distanciamento e estranhamento que levam a solidão do sujeito que vive o processo de luto pessoal. com um relativo desprezo. De maneira alguma. é a tendência atual para um desconforto geral sobre o como comportar-se neste momento de transição por que passa a sociedade brasileira. principalmente a urbana. os hábitos comportamentais. restar. Um mesmo informante poderia indicar uma ou mais possibilidades de apoio recebidas durante o trabalho de luto. ou que com ele se relaciona. ou como uma idealização de um passado.

até retomar de novo. porém.78%. até as Lembranças. A dor parecia anestesiada em mim.86%.18% e a Religião.45% das respostas. tem-se desde um enfático Ninguém. representando elementos de vivência do luto de uma forma mais introspectiva e ou solitária. mostram ainda a importância das instâncias desindividualizantes no serviço de apoio ao brasileiro urbano do final do século XX no trabalho de luto..78% das respostas. Como disse um entrevistado: ". A referência ao Trabalho. a loucura. de acabar com tudo me tomava conta. como um zumbi. enquanto fazia isso. conforme pode ser visto.73% da amostra para uma experiência mais subjetiva do processo de luto. encontra anestesiamento à sua dor. Quando ela morreu. por seu turno. 25.. parecia que não tinha tempo para pensar no sofrimento por que passava. no dia seguinte..foxitsoftware. o desejo de morrer. representando 4. servindo como uma espécie de aparato público onde. um indivíduo em situação de luto. depois do sepultamento. Trabalhei como um louco. com 15. um morto vivo sem saber o que ou como reagir àquela dor tão grande. uma espécie de categoria intermediária entre os dois blocos acima tratados. levantei de uma noite insone. no Quadro n. contudo. Quando saía do trabalho e ficava só. com 21. passei o primeiro dia de sua morte. no dia seguinte 161 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . queria também morrer com ela. representa. mas não é que.. os Amigos. tem-se uma representação de 26. foi o trabalho que me livrou da obsessão quase alucinada da dor da perda da minha amada.. A Família. como uma possibilidade de apoio aos enlutados.. Ser Discreto Nas respostas a esta pergunta.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.. anexo. 8.. parecia não poder resistir ao tamanho da dor.95%. Se si somar as duas. 23.com For evaluation only. tomei banho e saí de casa e me meti no escritório. 22.. De um lado. pode ser visto como uma espécie de fuga dos problemas relacionados ao sofrimento que o agente em luto vivenciou.

contraditoriamente. quase completamente. Ser Discreto o trabalho. Esta fuga à dor parece ajudar a superar. como pode ser visto anexo. a crise do luto no momento mais agudo do sofrimento. nível superior. menos que amparo. uma válvula de escape. tem uma firma de contabilidade. dois filhos em idade adulta e já casados. Como pode ser visto na entrevista acima. No Quadro n..foxitsoftware. conscientemente ou não. O trabalho representando uma barreira imposta por ele. as respostas à pergunta sobre o sentimento do informante em relação ao trabalho. com 82.82% do total dos respondentes. parece ser também a opinião da maior parte dos informantes que responderam ao questionário enviado pelo correio. por outro lado. na categoria "Ajudou a Superar a Crise". contudo. por assim dizer. 60 O entrevistado é do sexo masculino.. me aferrando mais no trabalho. por aliená-lo. 38)60. O trabalho funcionando como uma espécie de esquecimento de si mesmo. E foi assim: trabalhando como um enlouquecido. da perda de que foi vítima.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. proteção e auxílio através de regras de conduta e ritualísticas da condução do ser em sofrimento para uma reintegração consigo mesmo e com a sociedade. pouco importa. a solidão na vivência do luto. o informante encontrava uma espécie de fuga no trabalho. no momento de vivência do luto. 23. que consegui resistir ao tempo mais nebuloso da dor do luto. viúvo... Revela a falta de uma instância que sirva de amparo." (Entrevista n. 162 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Por manter o sujeito alheio ao seu sofrimento. mas. concentraram-se. e isolava os outros de sua dor.com For evaluation only. Demonstra também. e ao mesmo tempo não vendo futuro no que estava fazendo e querendo jogar tudo fora. por manter o indivíduo ocupado. aqui. Isolava-se de sua dor. Como o entrevistado acima. . com idade de 63 anos. para o seu acomodar-se ao sofrimento. profissional liberal.

O que. embora você deva se concentrar mais.. O local de trabalho. 163 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . capital do Acre. assim..foxitsoftware.99% das respostas. como um elemento apaziguador. ou não serve. ou o trabalho. isto é. O que parece sintetizar esta categoria de "Normal". O sentimento expresso de Normal. O sofrimento do luto. o fazendo perder o sentido do mundo. em sua volta a viverem situações de desconforto e constrangimento. parece implicar em uma afirmação de distanciamento e autocontrole do sujeito em luto com relação ao trabalho. Diz uma entrevistada que.. Ele disse mais ou menos assim: 'não é o errado que você está fazendo. não é sentido. possivelmente. para os outros. representa um acontecimento que tumultuou a vida do sujeito.com For evaluation only. na dificuldade do informante de diferenciar sua dor pessoal da sua vida pública. sair desse estado que você se encontra. .. com 3. e "Pouca Concentração".. "Não conseguia atinar no que estava fazendo. isso eu até compreendo.19%. da dor individual.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. no questionário.. levou os informantes que assim se sentiram e. Você está Perdeu a esposa. tinha que repetir a mesma coisa várias vezes. encontram-se as categorias "Normal". mas é principalmente a situação do resto do pessoal: todo mundo não sabe mais o que fazer. pela perda sofrida. um informante da cidade do Rio Branco. chegou até mim e disse que eu estava perturbando todo o ambiente a minha volta. A "Pouca Concentração". mesmo se si a configure como uma espécie de fuga. sem acertar.fiquei tão desconcentrada e alheia ao que se passava em minha volta que o meu chefe. Ser Discreto Ao se dividir os 17. configura-se no agir no sentido inverso da categoria "Normal". "por pouco não perdi o emprego. um bom sujeito. "Vida pessoal e trabalho não se misturam" colocou de lado. por seu turno.18% restantes. com um total de 13.

se eu não pudesse melhorar de atitude. era melhor tomar uma licença. n. nas palavras de uma entrevistada. Residente na cidade de Rio Branco. isto é. 38. "o jogar para o alto tudo. a não ser. pode-se notar que. sofrida pela perda. fugir." (Entrevista.. a sociedade. Mas. a expressão de revolta contra a sociedade e contra si mesmo.com For evaluation only. 33 anos. 24)61 . Ela afirma que o exercício profissional 61 Sexo feminino.. por seu turno. começando qualquer coisa. capital do Acre. A categoria "Ajudou a Superar a Crise"..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Bem como. ao acompanhar o compasso ministrado pela narrativa da Entrevista n. com os seus 82. Sua entrevista refere-se a morte do seu pai. Ela também coloca o trabalho como a forma de esquecer dela própria e de situar-se perante os outros. Desfile (março de 1992). Configurando-se em um sentimento de não querer recorrer a ninguém ou a nada. falando do luto por ela vivenciado63. morrer ou. O momento do trabalho. 164 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . A vontade de recorrer a alguém e o não ter a quem recorrer. 62 Entrevista n. parece servir como um apaziguador momentâneo da dor. Ser Discreto perturbando o ambiente'. solteira. médica. e a obsessão com que o sujeito em sofrimento se apega ao trabalho.. indica a importância do trabalho para o lento processo de luto na sociabilidade brasileira atual.foxitsoftware. também. acima... bancária. sem sentido. nível superior. aumentando a sua solidão.82% das respostas."62 outro que não o de reproduzir a própria fuga do sofrimento a que o indivíduo se encontra acometido. A dor da perda retorna em sua intensidade ensandecida. 45 anos. solteira. Perdeu o noivo em um acidente de trânsito. recomeçar em um lugar qualquer. durante a fase mais pesada deste processo. ao sair do trabalho o vazio é recomposto. e pediu para que. parece ser o sentimento presente no depoimento de uma profissional do meio artístico nacional a uma revista de costumes destinada ao público feminino. 248: Sexo Feminino. exaspera-se no interior da pessoa enlutada. Este.

Diferente das instâncias desindividualizadoras. e era isso que lhe exigia o social. ou da família. onde a passagem do luto deixa cicatrizes. ou através da.foxitsoftware. pelo trabalho. nesse exercício. não havia a arte mas. a disciplina. O que configura o 63 Tratado mais profundamente no primeiro capítulo deste trabalho. No compromisso técnico a que ela diz ter-se agarrado. O que aumenta o hiato que separa o indivíduo dos outros sociais. O misto de disciplina social. entre o eu e os outros. O trabalho agindo como um tipo de funcionalidade e de ligação entre o indivíduo e a sociedade. quase obsessivo. onde a rede de afetos e de reprodutibilidade e permanência parecem ser os fatores de reintegração e apoio do indivíduo no ritual de passagem experienciado na. à diferença da religião. mostra bem este elemento na sociabilidade brasileira dos últimos anos. Embora. onde a crença em uma simbologia e em uma cosmologia específica. o fazendo perder a ilusão de significados e sentidos presentes no trabalho e na sociedade para a sua vida. o trabalho funciona como esquecimento de si próprio e de mascaramento da face para os outros. morte de um dos seus membros. e de desilusão do próprio trabalho enquanto complemento pessoal. É uma instância de recorrência de cunho mais individualista. como a religião ou a família. Funciona como uma espécie de desencontro. pela disciplina imposta. em uma relação de crise vivida por um sujeito qualquer.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. e apenas. 165 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto ajudou-a mascarar a sua dor em público e também a força-la a sair de si mesmo e participar da realidade. na vivência do sofrimento onde a categoria Trabalho é apontada como instância de apoio ao luto pessoal de alguém. o trabalho também funcionou como desilusão pessoal da própria ação como intérprete.

na sociabilidade urbana brasileira. determinados socialmente. Ser que. parece. de chegada. na ação mais mascarada. sobre o assunto. que permite aos sujeitos envolvidos. para o indivíduo em sofrimento. de partilha. assim. Mapa por onde os laços afetivos são renováveis a cada ritual de passagem. A primeira parece possuir uma tendência mais individualizante das relações sociais. de interação. onde o indivíduo como pessoa social acima da sociedade pode escolher os que com ele melhor se afinam e o compreendem. uma presença muito forte do outro no processo de reintegração do sujeito em um momento de crise. em algo instrumental. O que faz o indivíduo isolar-se em si mesmo. O retraimento da pessoa do social.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto viver. oferecendo a este último apenas a "técnica". pela experiência mais ou menos comum. o interessante coletânea de artigos de Gilberto Velho (1987). a funcionalidade mecânica de sua presença nos atos e locais onde ela é requerida. disciplinada. Cabe 64 Embora tendo-se em vista que a relação de amizade é diferente da relação familiar. retrai-se até de si mesmo. onde os laços de parentesco são determinantes e.96% das respostas64. Parecem funcionar como um anteparo ao sofrimento. 65 Ver. ainda. como que. de avanço ou de despedida de um dos seus membros. A rede de afetos e sociabilidade. A estrutura familiar e a tecedura de amizade demonstram. Diferente as segunda. ainda é um elemento marcante entre os entrevistados que disseram que sentiram-se apoiado pela família ou pelos amigos: perfazem juntos um total de 31. e esconde a sua face em máscaras que o isolam do social. ao mesmo tempo. bem como nas alegrias e tristezas compartilhadas65. vendo a si mesmo e sentindo-se enquanto ser subjetivo e inalcansável. ao mesmo tempo que anseia ser tocado e descoberto. situarem-se em um mapa. isto é.foxitsoftware. "apenas técnica". principalmente os capítulos 8 e 10 intitulados: "Visão de mundo e estilo de vida em camadas 166 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . por outro lado.com For evaluation only. aumentar. comum.

revela-se uma atitude dos informantes para com os laços familiares de indiferença ou de constrangimento pela ação ritual de expressão de sentimentos. O Quadro n.14% e. As amizades. 24.foxitsoftware.41% das respostas. O primeiro sub bloco remete para as categorias de "Não Se Preocupou" e da "Cobrança de Sentimentos". retrata também um constrangimento. contudo. Ser Discreto diferenciar. por sua vez. mostra como os informantes do questionário revelaram o sentimento em relação a família e familiares no momento do luto.15% das respostas dadas à questão. Nele. Este bloco de categorias perfaz um total de 25. embora revele. a "Poucos Parentes Apareceram". às instâncias desindividualizadoras. diferente da família e. Nele. caros. a "Cobrança de Sentimentos". três delas revelam um pouco de mágoa ou de indiferença com relação a família. dois sub blocos de situações e expressões de sentimento. Como pode ser visto.60%. também. onde a força ritual da coletividade é bem mais evidenciada e importante. parece ser recomposta através de subordinação dos laços de amizade à rede familiar. por ele estudado. com 5. O segundo sub bloco. a "Não Se Preocupou".com For evaluation only. como laço afetivo. por seu turno. ou à grupos mais homogêneos. está médias urbanas: Algumas questões sobre o estudo de família" e "Cotidiano e política num prédio de conjugados". com 4. das sete categorias com que os respondentes fizeram expressar o seu sentimento nesta relação. anexo. comuns no Brasil de até poucas décadas atrás. mas em forma de um desgosto diferente. A estrutura por onde se desenvolve as relações de compadrio. como já afirmou Marcel Mauss (1980). internamente. das relações de compadrio. Um número percentual que não deixa de ser importante e não pode ser desconsiderado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 167 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . possuem uma característica mais individualista. a rede de amizade da rede familiar. São elas. com 15.

03%. A rede de afetos. As quatro categorias deste segundo bloco. com 18. contudo. cada vez 168 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . de apoio. O segundo bloco.85% do total de respostas à questão.05% do conjunto das respostas.foxitsoftware. este segundo revela a importância das relações familiares presente na atualidade da cultura mortuária do Brasil urbano. com 8. Duas situações. que demonstram a ambigüidade da experiência brasileira das últimas décadas do século XX. neste último existe um ressentimento da indiferença familiar para consigo. onde se está contra ou indiferente aos apelos familiares. Sua nova reconfiguração prende-se. com 8. perfazem 74. Reunidas. os que a ele sobrevivem. da presença e participação ativa na preparação e continuidade dos rituais que cercam o morto e. "Apoio Nos Rituais". por outro lado. Ser Discreto subentendido a expressão. Como diferença do primeiro sub bloco. em todo caso.com For evaluation only. por parte dos informantes. principalmente. no trato com as emoções. da vontade de ajudar. porém. representa quatro das sete categorias indicadas pelos informantes como sentimentos em relação à família. Diferente do primeiro bloco de categorias. "Afeto". da ausência ou descaso dos familiares para com o seu luto.95%.82% e. configura-se. são: "Apoiado". com 39. e para o seu morto. com um destaque tão grande pelos informantes. ainda é uma realidade sentida pelos informantes e expressa de uma forma expressiva. parece caracterizar a família como uma importante instância de reestruturação dos seus membros no Brasil urbano atual. Esta família. em não se referir mais apenas a tecedura extensa familiar vivida no Brasil até o final da década de sessenta. A significância da rede afetiva e de solidariedade na estrutura familiar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. "Vontade De Ajudar".

assim. de um lado. secundariamente. isto é. como se viu na entrevista que abre este capítulo. deixa de ser prioritariamente extensiva. MERRICK et al. o apoio afetivo familiar é apontado como uma das fontes principais de apoio e solidariedade nos momentos de crise individuais. em muitos casos. PASTORE & WILKENING. 1975 e CASTRO et al. a chamada família nuclear. que analisam a modernização e a tendência a fragmentação da família brasileira urbana desde a década de setenta do século XX. no afeto e no apoio sentimental e de tarefas complementares entre seus membros. aqui. A rede familiar brasileira.. de mãe e filhos. para se tornar uma instância menor cuja densidade parece residir. e irmãos dos pais. se afigura enquanto conformação tensa na contemporaneidade das capitais de estado aqui estudados. 1977). principalmente. ao núcleo básico de formação.. ou. Embora seja interessante constatar que. IUTAKA et al.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. hoje. Chamada. quando muito. lado a lado. entre outros estudos.. Ser Discreto mais. DURHAM. também. 1977. Enreda-se por mecanismos diversos que englobam. a família moderna nas amplas camadas de classe média no Brasil urbano. mesmo fragmentada e em reconfiguração sempre tensa. isto é. composta pelos pais e filhos66. irmãos dos pais. e o aumento do divórcio nos anos de 1980 em diante. 1971.foxitsoftware. parece indicar uma mudança no seu perfil. englobando uma gama enorme de parentes em uma teia de significados densos e de nomeação67 dos seus membros. Esta família nuclear. Teia que envolve os elementos nucleares de sua organização. A separação de casais. 1973. ou pai e filhos. e uma rede difusa de tios. e que parece caminhar à procura de autonomia e busca de 66 Chegando.com For evaluation only. Organiza-se. às vezes. em uma teia mais e mais fragmentada. composta por avós. é considerada problemática e conflitual na classe média urbana brasileira nos dias de hoje. de estrutura familiar básica ou nuclear. . ou partes deles. assim. e uma tendência à recriação de laços de ajuda no cotidiano doméstico entre a família mais ampla. pela fragmentação que desde o final dos anos de 1970 parece acometê-la. (Ver. até aos avós paternos e maternos. uma grande fragmentação organizativa. GANS. sobretudo.composta de pai. 169 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . mãe e filhos.

cada vez mais frágil através das fragmentações a que parece estar exposto o núcleo familiar básico. na atualidade. Um relacionamento conflitual. reproduz-se na classe média urbana brasileira do início do século XXI. nos momentos de crise e sofrimento. Lima & Medeiros (1990). intenso e ansiado como manutenção do cotidiano. até o apoio solidário em situações de crises68. seja necessário ressaltar a fragilidade atual desta rede afetiva. Esta rede familiar. entre outros. na sociabilidade da classe média urbana atual no Brasil. Política e Econômica. como uma estruturação tencionada entre dois pólos. uma rede de trocas que envolve uma parcela significativa de demais parentes. Ser Discreto formas de interdependência individualizada entre os seus membros. Embora. que é a família. possibilitar também rupturas e incompreensões. tem sido estudados por. principalmente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Cultural. revela uma fragmentação e individualização crescente. Salem (1980).com For evaluation only. pelo não esforço. na teia de afetos e solidariedade a que é capaz de afirmar-se. Velho (1987). Bruschini (1990). e o segundo. 170 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . mas. Bott (1976). Por outro lado. de classe média. E. na ajuda no orçamento doméstico. aqui. quanto na troca de favores cotidianos. e os tempos e os espaços vividos por cada membro da família. O primeiro polo. remonta todo um esquema de busca de apoio logístico no interior da rede de parentes próximos. Scocuglia (2000). As diversas interpretações e entendimentos possíveis. ou impossibilidade momentânea de se escutar o outro através do seu lugar de 67 68 Social. assim. parecem. tanto em termos afetivos. para recriar-se neste caminho e esforço de individualidade das relações. Estes aspectos de uma rede tencionada na configuração moderna da família brasileira urbana. que vão desde o ajudar a cuidar dos filhos menores. Remontagem. porém. principalmente avós e tios próximos.foxitsoftware. ao mesmo tempo.

No cruzamento69 entre a religião freqüentada e o tipo de apoio recebido. isto é. Os 25. que parecem se fazer no cotidiano familiar da família de classe média urbana no Brasil. Resposta dada através de um lacônico "Não". se constata que. Como se viu no tom de irônico lamento. a religião promoveu em suas vidas uma "Mudança de Visão de Mundo". 171 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .86% das indicações múltiplas à pergunta sobre quem ou o que apoiou o informante no seu processo de luto. como pode ser visto no Quadro n. do entrevistado que abriu este capítulo. entre uma forma mais individualizada de ação dos indivíduos de uma família e as trocas de favores e rede de afetos renováveis e reestruturados em novas formas.81% dos informantes.46% restantes informaram que a religião não os auxiliou de forma alguma.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a religião apareceu com 25. se de um lado. é conflitual e tenso. Ser Discreto fala. A Religião A religião representa também uma instância de apoio a vivência do luto entre os entrevistados.com For evaluation only. 63.foxitsoftware. 1304. Perguntado de que forma a religião auxiliou o informante no trabalho de luto. A afetividade sendo construída sobre tensão permanente e em pequenas rupturas de laços que indicam o caminhar mais individualista por que se adentra o país. a maioria dos 69 O percentual é tirado. A ambigüidade de situações. ao passo que para 10. anexo. O que implica que mais de setenta por cento dos respondentes do questionário padrão indicou a religião como uma das instâncias de apoio pessoal. Como pode ser visto no Quadro 22. aqui.73% respondeu através do "Conforto Espiritual". a partir do total dos informantes. 25. porém.

a sua presença religiosa se faz apenas através do batistério e da afirmação oficial de uma religião considerada também oficial e de nomeação no Brasil. Os demais 7. em busca de apoio e conforto. A maioria das respostas.com For evaluation only. para a flexibilidade dos que professam a fé católica em relação à própria religião. é nela também. Alguns chegando a alegar terem tido uma mudança de visão do mundo. por outro lado.09% dos católicos. para a afirmação da maioria católica no país. no 172 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .58% do total de respostas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.95% dos informantes.foxitsoftware. contra. 4. contudo indicam a recorrência na hora de crise à Igreja. também informaram não possuir qualquer religião. 10. 0. que se concentra um número significativo de indivíduos que responderam que a religião não ofereceu qualquer tipo de apoio para os seus males. sem sombra de dúvida.51% que responderam não ter recebido apoio religioso.06% dos evangélicos e a totalidade dos espíritas e de participantes de outras religiões. durante o trabalho de luto: 17. indicam também. Estes dados remetem. ou não terem recebido. Esta flexibilidade entendida aqui como um afrouxamento da crença e do apoio da Igreja em momentos de crise e de sofrimento. Embora se digam católicos. como o apoio principal recebido no momento do luto: 50. ainda hoje. conforme pode ser visto na tabela 25. contudo.27%.54% dos católicos. Quase vinte por cento dos católicos afirmaram não terem encontrado. porém. entre os habitantes urbanos de classe média. 68. Já a "Mudança de Visão de Mundo" foi a resposta da maioria dos informantes evangélicos ao apoio recebido. O "Conforto Espiritual". ou não terem ido procurar o apoio da Igreja na hora do sofrimento vivido pela perda de um ente amado. Ser Discreto respondentes conclama a religião católica como sua. foi respondido por uma parcela considerável dos informantes.

Luto e Cotidiano A religião católica. a religião da maioria dos brasileiros. através de uma mescla de situações. o conforto espiritual parece ser mencionado. através da mensagem religiosa. no momento da crise do luto. entre os evangélicos. como o budismo e formas esotéricas de encontro com o divino. O apaziguamento da dor do luto sendo redimida e o sujeito reintegrado através da mensagem de mudança.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. por muito tempo representada e sentida como a religião oficial do Brasil. Afigurado. não tem conseguido manter os 173 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que reúne em um mesmo percurso uma crença holista. entre os espíritas e ou que se situaram em uma gama de outras religiões. e ainda. principalmente entre a classe média urbana. Já. presentes nas respostas dos informantes. de integração dos seres e da existência de mundos diversos. foi enfatizado o conforto espiritual. No caso dos espíritas e de outras religiões. Ser Discreto confronto entre a perda pessoal e a descoberta espiritual. através da religião. no enfrentar a religião como sinônimo de um novo encontro perante a vida.com For evaluation only. Entre os evangélicos parece haver uma concentração maior do dogma da fé. O encontro com a fé. principalmente. como uma espécie de renascimento. a grande maioria respondeu sobre a mudança em sua vidas.foxitsoftware. De outra parte. e uma crença no indivíduo como o sujeito de integração com o todo. parecendo representar o aspecto principal de conforto e mudança de atitude perante a morte do outro próximo. A Igreja configura-se por funcionar como uma espécie de coletividade densa onde os seus fiéis se adequam e renascem para uma espécie de novo mundo.

as culpas. Muitos só recorrendo à Igreja. Ser Discreto seus fiéis no interior de uma prática mais efetiva e próxima da vivência do dogma da fé.com For evaluation only. as buscas de uma individualidade e de uma individuação perante o familiar. a partir dos anos noventa do século XX. são elementos recorrentes. o sentimento de imposição de certo tipo de demonstração de sentimentos. Ou a ela sequer mais recorrendo. ou por não encontrarem na prática religiosa que professam. estes. por não acreditarem. bem como os diversos conflitos no interior da própria Igreja Católica entre práticas mais modernizantes. pelos informantes. parecem ter criado um certo tipo de afrouxamento de laços entre a hierarquia católica e os quadros leigos. os elementos que permitam o apoio necessário para o enfrentamento no cotidiano da dor sofrida pela perda de um ente amado. Apesar de o questionário mostrar que uma rede de apoio familiar é tida como referencial para momentos de crise. Este hiato parece criar uma certa de atmosfera mais introspectiva à vivência da dor do sujeito. quando estas informações são verticalizadas em entrevistas abertas. ter tentado voltar-se para o seu lado mais carismático e disputar o mercado de fiéis com outras Igrejas. As falas em diversos tempos entre membros de uma 174 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ou aos seus preceitos. por um lado. elas demonstram o quão tênue esta rede funciona. contudo. Apesar de. Este parece ser também o caso da estrutura familiar. principalmente as evangélicas e as de origem africana. encaram a pertença ao catolicismo como um tipo de status mais do que como um estilo de vida ou prática de fé. populares e ortodoxas. desde o período colonial. parece que.foxitsoftware. As acusações mútuas. em grande número. renova pelo batismo oficial o número de fiéis. pela busca de conforto espiritual. A mistura entre as esferas da religião e do poder no Brasil.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Abrandamento que se. as atitudes mais exclusivistas.

de uma tendência maior à privatização da vida familiar. As marcas. que se esconde. a chave para a compreensão da ambigüidade que afigura caracterizar o processo de transição por que está passando a classe média urbana brasileira. parecem refletir esta tendência. Este conjunto tenso e conflitual parece fazer parte. em máscaras sociais de ocultamento da face. o sentimento de ser outra pessoa depois de uma experiência traumática como a perda de um ente querido. do quem sou eu. que passam a ser uma vistas como uma espécie de canal de desvio deste mesmo dia a dia que se quer evitar.com For evaluation only. para uma espécie de autocontrole na demonstração dos afetos e desejos pessoais. em sua forma nuclear. Ambos aumentando as dificuldades de locomoção mais afetiva no público. para uma espécie de desencanto com o mundo ao seu redor. enquanto sofrimento. cada vez mais. aqui. vem adicionar a dificuldade atual de compreensão entre as partes em litígio afetivo. as mágoas. solidão e insegurança no trato dos processos e ritos de passagem mais agudos de sua existência pessoal no social. e o de chegarem a um lugar comum.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. A passagem de uma lógica relacional para uma lógica mais individualista. por uma frieza nas relações com o cotidiano e por um encapsulamento do EU. Ser Discreto mesma rede familiar. Seja através da relação com o trabalho ou com a profissão. hoje. 175 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que passam a ser sentidas como mais técnicas e distantes do cotidiano do entrevistado. Vem se configurando em uma tendência de levar. A idéia de privacidade parece fornecer. Transição que reflete no imaginário do homem comum como sofrimento. seja através das relações mais pessoais e afetivas. acima de tudo. configura ser o caminho seguido por esta transição de mentalidades e códigos de ação. e para uma vida mais severamente vigiada e de contenção de gestos e atitudes. Indicam.foxitsoftware. ou. ao mesmo tempo.

ao mesmo tempo. também. 176 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Foi perguntado sobre se o trabalho de luto experimentado pelos informantes havia modificado. que houve modificações. e na ânsia. 54. ao mesmo tempo que cresce e se expande torna-se. como instância quase psicológica e espaço de subjetividade.75% das respostas afirmaram que sim. amplia as margens de ambivalência de sua ação social. 26. Ser Discreto Esconde o indivíduo e. O EU é transformado em espaço íntimo (SENNETT.69% afirmaram terem realizado a "Busca de uma Nova Vida" e. de exclusão da subjetividade do espaço social e público onde se desenrolam as ações repetitivas do cotidiano do sujeito. um elemento de exclusão social. de alguma maneira.com For evaluation only. O que parece estabelecer e ampliar um conflito e uma tensão permanente entre o indivíduo social. e a sociedade. como espaço público de formas instrumentais de ação e de constrangimento. o cotidiano de cada um deles. simultânea. 1998) de onde o sujeito vê o mundo e de onde o mundo jamais pode se aproximar completamente de sua beleza. e na beleza escondida que sente possuir. bem como ao aumento crescente do sentimento de depressão e insatisfação consigo próprio. Destes. 79. de ser descoberto na sua interioridade. parecem estar associadas a este processo ambíguo de autopoliciamento e de vontade de exposição. É o que parece demonstrar o Quadro n. anexo. As queixas crescentes relativas ao estresse da vida cotidiana na vida das capitais dos estados. De uma vida pública para uma vida privada onde o espaço íntimo.06% indicaram a "Introspecção" como modificação sofrida após o luto. 25.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Este passa por um esforço de distanciamento nas relações com os outros e por não demonstrar emoção. Esta privacidade amplia a margem da intimidade como um elemento de caracterização do homem contemporâneo do Brasil urbano.

06% dos informantes que a indicaram na resposta a questão formulada no questionário. Esta segunda categoria reflete o fechamento para o mundo por que passou os 54. ou de mudarem de cidade. aqui. esta parece indicar uma guinada. Estes vários aspectos vão desde a necessidade de procurar emprego. assim. está associada a vários aspectos de procura dos informantes. por piora das condições econômicas. em termos emocionais. bairro. na trajetória dos indivíduos que a afirmaram. Diferente da primeira categoria. ou em espaços místicos de grupos esotéricos e de cultuação do EU. O que demonstra. Uma gama de tendências são. de uma maior liberdade após o falecimento do outro. ou ambiente familiar. ou por terem de ir morar com parentes ou terem sido encaminhados para cuidados institucionais. de uma forma ou de outra. tipo asilos e orfanatos. Falam. O que os levou para um tipo de opção guiada pela 177 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . "Introspecção". também. como a chave do desvendamento do mundo. até o de encontro com um(a) novo(a) companheiro(a) ou um novo amor.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only.foxitsoftware. ou de terem descoberto a tranqüilidade e do sentimento de bem estar na descoberta de novas formas espirituais no interior das religiões tradicionais. Este arcar com a própria vida não sendo necessariamente quantificado e polarizado. em positivo e negativo. Ser Discreto A categoria "Busca de uma Nova Vida". a procura de alocação de si mesmo dentro das margens da transformação que a perda do ente amado possibilitou à sua vida cotidiana. pela dispersão numérica e pouca representatividade de suas diversas formas de apresentação. Os fazendo caminhar para formas de vida diferenciadas da até então vividas e tendo que arcar com o rumo de suas próprias vidas pela ruptura social e subjetiva que a perda os fez passar. expressas nesta categoria. mas visto como um todo diferencial da segunda categoria.

178 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . aparece sobretudo como um processo de individualização em que a bibliografia de uma pessoa é destacada de sua família e lugar de origem" ou "negar ou escapar de um projeto (que não era seu)." (p.com For evaluation only. O primeiro grupo de respostas trabalhado. Afirmativas realizadas através da ótica do lugar da modificação por eles sofrida. se encontra ligado a categoria de mudar. provocado pela ruptura brusca causada pelo falecimento do ente amado... como o nome já indica. pode ajudar a melhor compreender a diferenciação das duas categorias analíticas afirmadas pelos informantes. utilizadas por Velho (1987. Aspecto existente mesmo entre aqueles que viram nas formas religiosas e esotéricas as manifestação de um encontro novo em suas buscas. 108) para discutir os campos de possibilidades onde a ação individual é disposta no social e enfrentada cotidianamente pelos indivíduos em suas instâncias projetivas opcionais. na vida cotidiana de cada um deles...Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. proposta por Velho. Para ele. das categorias de mudar ou permanecer. em que o lúdico seja acentuado...foxitsoftware. Como indica Velho.. afigurou-se ou vem configurando70 Grifos no original. a "Busca de uma Nova Vida". aqui. p. O uso. e de uma vida mais regrada e auto policiada na relação com os outros. "mudar . esta mudança traz um aspecto laicizante de enfrentamento do mundo. e na procura de criar laços . 108)70. O enfrentamento com o mundo. Ser Discreto interiorização de seus sentimentos. refletem bem as instâncias em que situam-se as diversas significações trazidas à tona pelos informantes para expressarem o sentido de "Busca de uma Nova Vida" por eles indicados como a modificação principal de suas vidas no decorrer e no após o luto vivido. no e após o processo de luto.. Estas duas margens ambíguas da categoria mudar. embora de uma forma não necessariamente igual.

a de "Introspecção".foxitsoftware. a travarem uma batalha entre as relações sociais que são obrigados a executarem. A leitura que se faz aqui. assim. também. ou da leitura realizada pelos indivíduos das modificações havidas. aqui não importa. como o que. Para ele. ao mesmo tempo. consciente ou inconsciente. parece indicar a noção de permanecer usada por Velho. O desejo de manutenção dos antigos laços e as formas de alterações por que estes laços passaram. à religião católica" (p. muitas vezes. ou na valoração do si pela redescoberta da subjetividade esotérica para o entendimento ou representação de novas formas de sociabilidade e encontros com o outro. ".com For evaluation only.. e os significados das lembranças a que se remeteram em introspecção. Ser Discreto se como uma admoestação ou exortação do sujeito em luto. Passam. Indicam. embora procurem em ansiedade restaurá-las.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O que ocasiona um sentimento de rejeição. indicam na categoria permanecer a relutância dos entrevistados de assumirem integralmente uma forma nova de vida. 108)71. 179 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . os projetos de permanecer aparecem fortemente associados a um conjunto de símbolos ligado à família e. após o luto experimentado. e das 71 Grifos no original. A segunda categoria expressa pelos informantes. contudo. dos dados da pesquisa ora trabalhada. os colocam vulneráveis à uma relação mais aberta com os outros sociais. a dificuldade encontrada de restaurar a antiga vida anterior à ruptura causada pela morte de alguém a ele próximo. O que o faz encarar o mundo como uma trajetória nova a ser seguida e buscada fora de si.. do mundo e uma caminhada no sentido da introspecção. e das quais perderam a ilusão.

na busca da restauração do permanecer ilusório anterior à morte do ente amado. expostas nos Quadros de n. porém. de Velho (1987) demonstram mais a ambigüidade dos sentimentos e a ambivalência das ações dos indivíduos do que categorias excludentes uma à outra ou coerentes em si. mostram bem as dificuldades do homem de classe média no defrontar-se com uma 180 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Passam também por um sentimento de inadequação maior às regras de uma convivência aberta que advogam. este sentimento de fragmentação dos rituais de alocação das necessidades trazidas pelo luto na sociabilidade contemporânea do homem comum. querido. O mundo novo e o mundo antigo. Refletem. consequentemente. brasileiro.com For evaluation only. Ser Discreto quais observam o mundo sob a ótica da marca deixada pelo corpo morto. As respostas a duas perguntas. que se foi. anexos. de classe média urbana. sobre qual deve ser o comportamento de uma pessoa e o comportamento dos outros em relação a ela no trabalho de luto. deste modo. 27 e 28. do grau de introspecção deste mesmo sujeito. passam assim a possuírem um significado cotidiano de sofrimento acumulado. Comportamento de Si e dos Outros no Trabalho de Luto É importante frisar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.foxitsoftware. aqui. neste processo de transição experimentada pela sociedade no Brasil dos últimos trinta anos. e as margens de insatisfação com o cotidiano social das relações e. restaurados sentimentalmente nas lembranças. que as categorias expressas pelos entrevistados e as categorias utilizadas. O que ampliam as margens do sofrimento.

As categorias apontadas 181 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. no Brasil de hoje.60% e. 77. 27.06% do conjunto das respostas. permite que os sujeitos apresentem idealmente ou na vida prática versões e possibilidades de manipulações das diversas situações em que se encontram envolvidos. as respostas sobre como uma pessoa em luto deveria comportar-se dividem-se em três categorias: a primeira. Nestas novas configurações. "Não Importunar". "Dar Apoio". "Não Importunar". Os Quadros n. tem 18. As duas reforçam a interpretação do drama social nas expectações dos sujeitos envolvidos diretamente ou indiretamente nos processos de enlutamento. Ambas revelam os traços de procura de autocontrole das emoções e expressões de sentimento no comportamento referencial de quem sofre uma perda ou de quem acompanha esta perda.01%. contem 77. o processo de luto. Ser Discreto situação de passagem como a morte.com For evaluation only. 28. a segunda. possui 15.71% das respostas. também três categorias foram indicadas pelos informantes.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a terceira. possui 72. No Quadro n. aqui.28% do total. e o luto por ela provocado. As expectativas dos indivíduos na configuração de um cenário social de drama. a segunda. segundo Turner (1975). "Seguir a Tradição". no caso. "Depende do Caso". 72.01% e a terceira. "Ser Discreto". "Não Existe Comportamento Ideal".60% delas. No quadro n.34% e. Este apontar ou remanejar permite a um analista identificar os limites e a abrangência por onde se situa o comportamento individual no interior de uma sociabilidade ou de um cultura qualquer. 27 e 28 revelam um número muito grande de respostas concentradas nas categorias de "Ser Discreto". 9. 7. A primeira. apontam direções ou remanejam emblemas e símbolos culturais em um panorama de transição experimentado em um momento específico.

o enlutado e o outro. indicam para uma tendência no sentido de um valor mais intimista e privado da vivência no luto no Brasil urbano. tanto no "Ser Discreto" como no "Não Importunar". isto é.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como uma espécie de ocultamento da face de que fala Goffman (1980). O que possibilita. encontram-se presente os sentidos da privacidade atual das relações sociais estabelecidas no processo de luto. seja nas atitudes esperadas dos outros frente a este enlutamento.com For evaluation only. no aumento da solidão dos sujeitos em relação. A higienização do processo de dor. mas e principalmente. não tem nada a ver com eles e é da intimidade do sujeito que a sofre. De ambas as partes existe um constrangimento de expressão de sentimentos além do socialmente necessário para cada situação em que se encontram os indivíduos. Ser Discreto acima. assim. se estipulam possibilidades ambíguas de enfrentamento de situações onde as bases de atuação ainda parecem não se encontrarem seguras e de onde os sujeitos referem-se uns aos outros como indivíduos isolados na privacidade de suas vidas e como indivíduos em busca de expressão de sentimentos ou de sentimentos aflorados a serem identificados pelo outro.foxitsoftware. aparentemente. Seja no comportamento desejado para o enlutado. coloca o sofrimento para o interior do sujeito que a vivencia. Solidão ampliada pela ambigüidade das ações de cada 182 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O drama social turneriano deste modo. e leva os outros a não chegarem muito próximo do sofrimento alheio. para não serem entendidos como intrometidos em uma relação que. por um receio não apenas de não se contaminarem. de um lado. concentra-se neste cenário de máscaras com que se passa o processo social de sofrimento no luto. Dos dois lados da relação. Em uma ou na outra esfera. mas guardados a uma distância crescente.

também. por serem vistas como públicas e fora do sujeito. Também. indicando dificuldades de compreensão de atitudes de cada um neste processo lido ou narrado. Tentou. os indivíduos de classe média vêem. no isolamento de cada parte desta mesma relação. Além do distanciamento causado pela individualidade crescente desta afirmação do privado. sentem e exprimem a vivência do luto.foxitsoftware. pelo crescimento das possibilidades de verificação de sua exclusão em uma questão considerada. no Brasil urbano dos anos de 1970 para cá. um melhor entendimento da ambigüidade e das dificuldades a ela inerentes. e o aspecto de recolhimento e da capacidade de sofrimento envolto 183 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . no atual momento. enfim. e as dificuldades e facilidades das relações sociais advindas desta experiência. As relações com o social apareceram como secundárias. e de outro lado. O indivíduo em dor.com For evaluation only. Conclusão Este capítulo buscou compreender como. em uma perspectiva individualista e de estranhamento do outro. como o ponto modal da definição do luto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. vivido pela cultura mortuária no Brasil. Procurou demostrar. principalmente. cada vez mais. foi de onde partiu este processo analítico compreensivo. Ser Discreto um nela envolvido. de intimidade e da subjetividade do sujeito que a sofre. a ambivalência dos tempos e dos espaços em que as leituras e as narrativas do sofrimento são elaboradas pelos indivíduos em troca. que parece estar sendo construída como formação contemporânea das relações entre indivíduos na sociedade brasileira urbana.

cada vez mais. ou sentindo-se em sua subjetividade. parece ter aumentado a insegurança no social dos sujeitos que a vivenciam. parece ter provocado também seqüelas naqueles que ainda hoje a advogam. Ser Discreto na introspectividade da vivência foi enfatizado. ampliou a margem de negação da tradição mais relacional das formas de vivência do luto.foxitsoftware. Uma das hipóteses trabalhadas neste capítulo foi a de que a experiência crescente com a individualidade nos moldes individualistas no Brasil dos últimos trinta ou quase quarenta anos se. O que vem a configurarse. demonstrando o conflito entre o indivíduo e a sociedade na sociabilidade urbana brasileira atual. subjetiva e vivida em solidão pelo sujeito em sofrimento. ou esta coletividade não tem mais o vigor de aquietar as tensões e conflitos resultantes da experiência da perda de um ente querido nos indivíduos nele envolvidos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. cada vez maior. O que faz crescer o estranhamento e os força os indivíduos a adequarem-se à distância. assim. A experiência tradicional do luto não parece estar permitindo uma vivência mais em coletividade do processo de enlutamento. por outro lado. fora do social. Encarado de forma introspectiva. tornou o enlutamento em uma experiência. ou visto como uma forma de tradição sociocultural. nos relacionamentos obrigatórios da vida cotidiana. O não saber comportar-se em uma situação limite como a do sofrimento causado pela morte. O indivíduo se encontrando. de um lado.com For evaluation only. no aumento do desconforto dos indivíduos na trama e no drama social do luto. As relações sociais do luto passaram assim a serem mantidas com a máxima discrição possível. A perda progressiva de força da simbologia e da tradição das instâncias desindividualizadoras no Brasil. o luto afigura-se em ser vivido na atualidade das 184 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .

além da tendência a um valor mais intimista e privado da vivência no luto no Brasil urbano. aqui. 185 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . também. Indicam. sobretudo.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. no cotidiano. Embora os dados indiquem que a rede afetiva e de solidariedade que caracterizam a família e a religião.com For evaluation only. Através da ambivalência entre uma forma mais individualizada e uma rede de afetos renováveis e reestruturados em novas formas. como um processo solitário. encontrarem-se associadas a este processo ambíguo. E que parece estar sendo elaborada como tendência de afirmação da sociabilidade brasileira urbana atual. o processo de distanciamento causado pela individualidade crescente desta afirmação do privado. Individualidade que vem se dando e consolidando dentro de uma perspectiva individualista e de estranhamento do outro. parecem. este funcionamento se faz através da ambigüidade. Afiguram-se no enfatizar mais agudo da ambivalência das ações dos indivíduos e da fragmentação dos rituais. ainda funcione como uma importante instância de reestruturação dos seus membros na atualidade. As queixas crescentes relativas ao estresse da vida cotidiana e ao aumento das formas de depressão e insatisfação pessoal. vividas e experimentadas de forma conflitual e tensa. Ser Discreto relações sociais na sociabilidade urbana brasileira.

Ser Discreto Capítulo 5 Tempos do Luto "O pranto invadia a casa e derramava-se pela rua. 60 a 64) abre o capítulo intitulado "Os Rituais da Morte". Procura-se. Os hábitos narrados ou construídos imaginariamente do passado recente da sociabilidade brasileira. no seu livro sobre o ciclo da vida.Hermilo Borba Filho. Thales de Azevedo (1987. para toda a 186 . como entendem o processo de luto através de uma comparação com os aspectos sociais e pessoais do passado recente e do presente. através do trabalho do luto. dão o sentido deste capítulo. entender um pouco mais o ritmo das tensões e como estas são vividas pelos sujeitos neste processo de passagem que se refere à morte de um ente querido e às formas de introjeção deste nos que ficam.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. p. é. No capítulo anterior buscou-se compreender como os indivíduos apreendem e vivenciam o processo de luto na atualidade brasileira. enquanto o relógio batia seis horas e eu me preparava para a guarda do corpo" . afirmando que "A morte. Enfatiza as narrativas e as respostas que tencionam a relação antigo e atual. de um ponto de vista dos entrevistados e dos informantes do questionário padrão. nele. comparados com as expectações das atitudes contemporâneas na experiência do luto. e as construções possíveis originárias desta relação para o significado do luto na vivência pessoal do entrevistado enquanto esfera comportamental. última baliza do ciclo da Mauro Guilherme Pinheiro Koury vida. 76). pp.foxitsoftware. (1967. Neste capítulo tenta-se retratar. encerrando a existência.

Aspectos comunitários ressaltados como existentes na vida brasileira de até os anos sessenta do século XX. a partir de então. a partir dos anos de 1970 em diante. do morrer e do luto no Brasil urbano. A seguir.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. e por uma gama de outros autores dentro de uma perspectiva psicanalista. 1996. Buscaram mostrar as variedades das formas e a simbologia envolvidas neste ritual de passagem. do morrer e do luto no Brasil a partir de uma visão de comunidade. e com a preocupação com a reintegração destes sujeitos individuados pelo sofrimento. Levine (1983). ao social. 60). Lins (1995) e Santos (2000) entre outros. em uma determinada forma de sociabilidade. e as possíveis mudanças. entre outros autores. Koury (1993. Rodrigues & Silva (1981). 63). é retratada por autores como DaMatta (1987).foxitsoftware. Martins (1983). 1976a. 1998 e 1999a. fazendo uma ligeira observação ao rigor como era tratado antigamente e como hoje é olhado com um certo distanciamento pelo homem urbano contemporâneo. sobre as diferenças rituais que cercam a morte no mundo social. como uma instância sociocultural de controle dos enlutados. Rodrigues (1983). e com resquícios cada vez menores no urbano. também trataram em suas obras de retratar o caráter ritualístico da morte. assinalada pelos mais dramáticos ritos" (p. 61) que é a morte. Passa a tratar do caso brasileiro e a contar as transformações rituais sofridas no decorrer da história funerária do país deste "verdadeiro rito de passagem" (p. Disserta. 2001). 1985 e 1993). Ser Discreto humanidade. A relação da morte. Poliello. como um processo "praticamente abolido no Brasil" (p. 1996a. Câmara Cascudo (1976. ocorridas no decorrer do tempo. ou da 187 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . dentro de uma perspectiva das Ciências Sociais. comenta o luto. Souto Maior (1974). a partir dos anos setenta do século XX. Souto Maior & Valente (1988). Pessoa e Pompa (1987). Galeno (1969).

da psicologia. 73 Um dos primeiros grupos de pesquisa com trabalhos voltados para a Sociologia da Emoção e que enforca de uma maneira mais sistemática o luto enquanto categoria de análise social é o GREM – Grupo de Estudo e Pesquisa em Sociologia da Emoção. com caracterísitcas individualistas. Ser Discreto psiquiatria e da psicologia social e comportamental . contudo. dentro de uma abordagem da sociologia da emoção ou da psicologia.foxitsoftware. preocupam-se com o entendimento do fenômeno do luto no processo de individualidade. No caso do presente estudo. como um processo único e específico mas. isto é. 74 Como é o caso dos trabalhos desenvolvidos. não interessa aqui listá-los por não constituírem um interesse direto no veio analítico da pesquisa.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ambos os esforços. de cunho analítico compreensivo ou de busca de intervenção. assim. apareceram apenas recentemente no cenário das pesquisas e temáticas pesquisadas. este procura compreender esta relação no momento de transição social por que passa o Brasil contemporâneo. por exemplo. Os trabalhos sobre o processo de luto dentro de uma perspectiva das Ciências Sociais no Brasil contemporâneo. e como uma conseqüência desta relação. contudo. da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP. 188 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . é compreendido e compartilhado por toda uma coletividade espacial e temporalmente delimitada. do Programa de Pós Graduação de Sociologia da Universidade Federal da Paraíba. que vem se processando de maneira intensiva no Brasil destes últimos trinta 72 72 Existe uma variedade enorme de trabalhos de tendência psicológica no Brasil. que se preocupa com o estudo sobre a sintomatologia do luto ou com a busca de estabelecer caminhos de intervenção e assistência psicológica nos processos de enlutamento74. o luto procura ser entendido dentro da relação estabelecida entre o indivíduo e a sociedade. coordenado pelo autor deste trabalho. no âmbito do LELU – Laboratório de Estudos e Intervenções sobre o Luto. ao mesmo tempo.com For evaluation only. e ainda são poucos os estudos no seu interior73. Nas Ciências Sociais. Difere. Faz parte da experiência individual dos sujeitos sociais.

para simbolizar o luto masculino. era possível encontrar um tipo de luto industrializado. há uns trinta e tantos anos atrás. eu era já um cara de vinte e poucos anos e já era casado até. eu mesmo coloquei um fumo75.. você não sabe a importância que era esse estado de resguardo para sair da letargia e do fim 75 O fumo é uma faixa de tecido preto que se coloca em torno do braço. Ser Discreto anos. Diferenças entre o luto de hoje e de outrora ".foxitsoftware. feito de malha de nylon e na forma de um bracelete para se por nas mangas de camisas masculinas. sobretudo o urbano. 189 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Era uma espécie de resguardo onde a evocação do morto era permanente.Eu lembro. Embora seja uma faixa de pano preto.. o enterro e todo o aparato do luto que pairou na minha família. a não ser para fins estritamente necessários. ou em raras famílias que ainda insistem em seguir a tradição. quando eu perdi a minha avó.com For evaluation only. o evento que foi o velório. lembrávamos de cenas e de situações. durante uma semana não se ligou o rádio e a televisão e se evitou sair na rua. este capítulo procura delimitar como o homem contemporâneo no Brasil urbano e morador das capitais de estado. até os anos sessenta nos armarinhos. através de uma comparação com o passado recente vivido ou imaginado. contemporâneo. mas o importante é que éramos todos juntos. muito usado no Brasil até meados da década de sessenta. Através do uso de entrevistas e questionário. e possa ser usado de qualquer tecido. Bem como das conseqüências deste processo para a formação do brasileiro. em Bragança Paulista. na lapela do paletó ou preso junto ao bolso da camisa... chorávamos juntos. Minha mãe vestiu preto. Este é o objetivo deste capítulo.. Hoje em desuso nas cidades.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. compreende o luto no presente. lojas de pequeno comércio de miudezas. ríamos até de alguns episódios. todos juntos conversávamos sobre minha avó. é encontrado esporadicamente em famílias do interior brasileiro..

Coloca o resguardo familiar proporcionado pelo estado de luto. e que punham em evidência a avó na trama de situações que marcaram um sujeito particular ou a família como um todo de forma positiva. como uma das formas de se purgar o sofrimento e ao mesmo tempo de introjeção sentimental do morto em cada um dos membros enlutados.com For evaluation only. do uso do fumo nos homens. " (Entrevista n. através do vestir o preto das mulheres.. aspectos ligados ao lado mais social do enlutamento e a sua importância para o trabalho pessoal de luto de cada membro da família e da família como um todo. seja pelo relembrar e evocar a memória do morto em situações individuais ou coletivas. os amigos e vizinhos mais chegados também . percebe-se um certo ar de saudade dos tempos de outrora vividos pelo narrador durante o processo de luto acometido a ele e familiares. Relembra também a importância do estado de luto como uma espécie de demonstração social. Seja pelo chorar em comum a morte da pessoa amada. principalmente....foxitsoftware.. se sentia o aconchego naquela hora difícil de dor. na narrativa do informante. Pela entrevista acima. Ser Discreto do mundo que a morte de uma pessoa querida e importante para nós nos jogava.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Este clima nostálgico enfatiza.. do evitar barulho ou sons que demonstrassem alegria 190 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. Cenas selecionadas ao acaso das conversas que o resguardo permitia. pela morte de sua avó materna. Os parentes mais distantes compareciam a certas horas para nos dar conforto e saber se precisávamos de algo. 134)76. ou nos momentos de tristeza ou percalços individual ou familiar.

remete também para a esfera social do luto. da diminuição das saídas para fora de casa. Em um caso e no outro. viúvo. O "aconchego naquela hora de dor" de que fala o entrevistado. Parecia haver uma integração maior da família consigo própria e com a sociedade em geral e vice versa. era uma etapa necessária para a reintegração dos membros à sociedade e a eles mesmos. o morto era reverenciado. ajudando a saída do luto. demonstrando não apenas o pudor familiar no momento de aflição vivida pela morte do ente amado. 66 anos. Tinha perdido a esposa a aproximadamente um ano. amigos e vizinhos para àqueles enlutados e em temporário exílio do social mais amplo. e uma possibilidade ampliada de introjeção do morto pelos familiares.foxitsoftware.com For evaluation only. capital. proporcionado pelo termo resguardo. o respeito social pela família enlutada. na consideração de familiares distantes. morador da cidade de São Paulo. 76 O entrevistado é do sexo masculino. para os que experienciavam tal estado ou que com ele teriam de conviver. advogado. Etapa formada por rituais claros do que fazer ou não fazer. Bem como. e principalmente. mas também. Ser Discreto excessiva ou ligação com o mundo de fora. como uma forma de diferenciação social da família enlutada para a sociedade no entorno. O processo de luto no Brasil de ontem. a contar da data da 191 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Diferenciação proporcionada pelo estado de luto a que todos da família estavam acometidos. As instâncias individual e societária eram veladas através da consideração da família para com ele e para com o social em torno. Relembra sentimentalmente e realça os aspectos positivos do processo de luto no Brasil de outrora e de que ele já não parece encontrar mais no momento do presente. para o entrevistado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e do social para com o morto e para com a família enlutada.

deprimido. Ser Discreto Ao narrar o luto por ele vivido recentemente na morte de sua esposa.a vida continua. Revela que. Televisão nas alturas. se sentiu ". solitário. encher. "Não é que eles não sofreram.. acompanharam as exéquias da mãe. como se nada tivesse acontecido. reverenciar o que. 'cada um na sua'. Me sentia como a estourar. encher e não tem por onde escapar o ar. acuado o tempo todo.. 192 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. fechado. estou dizendo que o isolamento que um ser já se coloca movido pela perda de alguém. a não ser pelo rompimento da mesma. é ampliado até a estratosfera agora. o que de fato faltou foi o respeito para com o morto.. depois cada um foi para a sua casa e pronto . festa. como uma bexiga da qual só se faz soprar. parece ser a ordem.. mas ao mesmo tempo sentia uma falta enorme de com quem compartilhar o meu sofrimento. muito ligeiro. na morte de sua mulher. agora. mas tudo muito rápido. tudo continuava a ser como era. o informante deixa bem claro as diferenças estabelecidas. o ontem. Os meus filhos choraram. Parecia. mas. e o presente. o que eu vendo para trás. foi uma parada para meditar no que aconteceu. não é isso não. como dizem hoje. Uma contradição até natural de quem se encontra vitimado por um raio fulminante que é a morte..com For evaluation only. mas depois todos voltaram a normalidade. escola. . "Queria o tempo todo ficar só.. eu acho. que um trator tinha passado por cima de mim tamanha e absurda era a dor a que o sofrimento pela perda de minha esposa continha. e todo entrevista.foxitsoftware.. foi as regras que se perderam de como curtir esse momento dilacerante na vida de um homem. por ele. trabalho.. e ainda vez ou outra ocorre. Ninguém tem mais tempo para ninguém.. "Os parentes e amigos apareceram no momento da morte e do enterro. entre o passado recente brasileiro.. nem estou me queixando. o hoje.

ainda.com For evaluation only. Nesta ação de comparar dois momentos. ou se alguém está em dor. em suas palavras: Morto e enterrado o Capitão.. ou de procurar especialistas para "ajudar nesse purgar". nada de chorar sobre o irremediável. se encontram sem alternativas outras do que voltar-se para si mesmo. o processo de luto do passado e faz uma comparação. parar para acompanhar os últimos dias. o que a seu ver só faz aumentar. Ser Discreto mundo foge da dor de alguém. no campo das coisas passadas e sem jeito. p.. Realça." (1967. em certo momento faz o personagem principal. Evidencia. 134). como se quem morreu não mais importasse publicamente. Acabado o processo de morte e findo o enterro. é recomendado procurar um especialista para ajudar nesse purgar. 77)... "A solidão do hoje faz com que o luto seja feito através dela. os que vivem uma experiência de enlutamento. de cultivo da dor. O entrevistado evoca no hoje. 193 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . pela solidão. vivido na primeira pessoa. a diluição das regras ritualísticas e comportamentais sociais onde os enlutados e àqueles direta ou indiretamente relacionados no processo podiam espelhar-se. 77 Hermilo Borba Filho no segundo volume do romance Um Cavalheiro da Segunda Decadência. ajudando no processo de introjeção do morto e na reinserção no social. diferente de antigamente" (Entrevista n. dispus-me também a enterrá-lo em minha lembrança. o que dificulta o trabalho de luto. do qual se fala ao mesmo tempo com crença e descrença.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a não mais sofrer. sendo evitado o falar do ente morto ou da dor de cada um em relação à perda77. Ou. de maceração. Em uma alternativa ou em outra destaca a falta de tempo no cotidiano para lidar com o sofrimento.. Ele passava a ser uma coisa abstrata como Deus. o personagem volta para a sua vida cotidiana disposto a esquecer o seu morto. o desrespeito ao morto pela urgência do presente que todos parecem estar envoltos. o enterro e realizar a última despedida do seu pai. com dificuldade. através do seu luto recente. traça um perfil do estado de luto atual como um ato de solidão onde. ou como doença a ser tratada.. também.

urbano.com For evaluation only. psicanalistas. v. sobre o que fazer para amenizar o sofrimento de quem perde alguém. sobre o cotidiano do tratamento de enlutados e doentes terminais nas clínicas. "Eclipse da dor" (Veja. tenta-se popularizar os trabalhos de especialistas. 1 de dezembro de 1999). ser realizado. 27 a 29. a serem tratados. ou de quem sabe que vai morrer. A informante é uma senhora de 68 anos. 194 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . de matérias relativas a como administrar o trabalho de luto e as questões da morte e do morrer entre as crianças. cada qual guardando para si a sua própria experiência pessoal e social de troca com o ser que se foi. sobretudo. hospitais ou centros de pesquisa e diagnóstico. de junho de 1996) e "Sereno Suspiro" (Jornal da Unicamp. Bem como. psiquiatras. porém. 23 de agosto de 1998). XI. entre outros. ou a serem ensinadas a como com eles lidar. 94. 6 de outubro de 1999). ou da ruptura desta troca pela ausência provocada pela perda.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Este último faz um pequeno balanço do o Primeiro Seminário de Reflexões sobre a Vida e a Morte. Nestas matérias. "Em nome da cura" (Veja. n. pp. enfermeiros. revela outros significados. 10 de agosto de 1994). psicólogos. e passou a ser considerado como um processo de intimidade e de saúde mental dos sujeitos. que relata 78 Em várias revistas e jornais brasileiros vem aparecendo uma série de reportagens recentes sobre a necessidade de oferecer apoio especializado para as famílias ou às pessoas enlutadas. novembro de 1999). O luto. "O duro exercício do adeus" (Veja. educadores. religiosos. pela psiquiatria ou pela psicologia. "Morte também é assunto de criança" (Nova Escola.foxitsoftware. que parecem ir de encontro com o depoimento do entrevistado acima. A narrativa de uma entrevistada sobre o luto no ontem e no hoje no Brasil urbano. e realizado por profissionais da saúde que lidam com pacientes terminais e com o luto. segundo o entrevistado. entre outros. Ser Discreto Um pacto do silêncio parece. escolas. Ver. natural e moradora na cidade de Vitória. no Espírito Santo. nos casos mais agudos pela psicanálise. O luto deixou de ser social e socialmente satisfeito. "Encarar perda da morte evita problemas" (Correio da Paraíba. a morte e o morrer viram uma espécie de problemática e uma instância de patologia. ao ser visualizado pela individualização do processo de sofrimento vivido na subjetividade do sujeito que sofre a perda. acontecido em 16 de setembro de 1999 na Unicamp. bem como para alertar para a enfermidade causada pela dificuldade de realização do trabalho de luto na contemporaneidade do homem brasileiro. Isola os sujeitos em sofrimento. nas escolas e centros especializados78.

mas minha vida..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www... E isso foi uma loucura para a sociedade local. virou um inferno de perseguição. "Passei um tempo de roupas mais sóbrias. e logo depois de um mês retirei esse tom escuro e passei a usar a minha roupa normal. Ser Discreto um processo vivido de luto há mais ou menos trinta anos atrás. com todos aqueles aparatos artificiais que revelam para o outro que você está sofrendo. uma mulher da rua qualquer.. a batalha da vida...com For evaluation only.foxitsoftware.. não de preto mas de tons mais fechados. não.. como eu recusei.. mas a morte de E.. beirando aos trinta anos. que você está de luto. trabalhava. De acordo com o seu relato. "Até meu chefe. .. um homem a quem eu considerava sério. enquanto fiquei naquele trabalho. não poupei os meus filhos de se divertirem e nem deixei de trabalhar ou sair com minhas colegas de trabalho e amigas. que passaram a me evitar e me olhar no canto do olho como se eu fosse uma doidivana. me trouxe muito mais problemas para a vida prática do que alguém poderia imaginar. como se eu fosse uma disponível por não ter mais marido e não me colocar de quarentena. veio dar em cima de mim. não. como sempre fazia.. pela morte do seu marido. "o meu marido morreu de um terrível e fulminante infarto aos quarenta e cinco anos de idade. e tentei enfrentar com o máximo de forças que eu dispunha.. e me deixou com dois filhos entrando na adolescência. Eu era uma mulher jovem. depois do expediente ou em um ou outro dia especial. veio com discurso moral para cima de mim e só não me demitiu porque uma colega intercedeu... depois da desgraça que acometeu minha família com a morte do meu esposo.. . muito mais pelo preconceito que uma mulher sozinha enfrenta nesta sociedade aqui de Vitória daqueles tempos. 195 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . era independente.

foxitsoftware.. Para ela.. quanto na época da morte do meu marido. O sofrimento de cada um tornou-se. A vivência do luto virou assim uma guerra pessoal contra a sociedade. O luto social. . na intimidade eram uns sacanas.. ou a um comportamento esperado socialmente de alguém que experiencia um estado de luto. para ela... a experiência do luto na sociedade brasileira de hoje é realizado de uma forma mais individualizada. assim. 205)..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. em busca de uma individualidade de expressão dos sentimentos e de uma procura de restaurar o respeito de si pelo social e por ela mesma. conseqüência do primeiro. Enumera situações por ela experimentadas de sufocação moral por não seguir as práticas e atitudes comuns a uma pessoa em luto na sociedade de sua época. ou através da tentativa de enquadramento de sua pessoa." (Entrevista n. Pontua. sem cobranças sobre como cada um vivência o processo. 196 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ou se você sofre ou não sofre a morte de alguém. Essa falsidade que carrega essas coisas da sociedade.Acho que hoje as pessoas tem mais liberdade de expressão. assim. por resistir a um enquadramento social. homens e mulheres. com a forma com que você vive o seu sofrimento. Diferente do primeiro entrevistado. motivada pelo sufocar moral.. ninguém tem nada a ver com a sua vida. Ser Discreto ". revelou-se como uma condenação pessoal. conheci várias pessoas...com For evaluation only. eu acho uma tolice. na realidade. esta senhora enfatiza em seu depoimento o constrangimento da pessoa que vive uma situação de luto pela sociedade em seu entorno. que viviam de fingimento mas que era só e apenas fingir. O luto você carrega na alma. cenários de buscas de enquadramento de sua pessoa em categorias sociais desclassificatórias. a sociedade ainda constrange mais não constrange tanto.. também.

com 19. O luto hoje. para ela. uma experiência que interessa apenas as pessoas envolvidas diretamente. privada. vista através de uma batalha para a conquista da individualidade. indica. e a uma pessoa singular. que. como uma experiência mais salutar do que o luto de ontem. Esta ausência de diferença diagnosticada por um volume considerável de entrevistados. e o sentimento da perda torna-se mais evidenciado em seu aspecto modal como um sentimento subjetivo ao sujeito que o experimenta. quase vinte por cento das respostas. revela-se. Conforme pode ser visualizado no Quadro N. deixadas de lado pela quantificação.com For evaluation only. na sociedade brasileira.25% dos entrevistados. na vivência do luto no Brasil de antigamente e o "Hoje É Individual". 29.02%. a forma como o vivencia ou o expressa é cada vez mais individualizado. aqui no Brasil".73%. Ser Discreto para ela. porém. Analisado questionário por questionário atinou-se para esta informação a partir de algumas anotações pessoais de entrevistados. para a entrevistada. foi uma das anotações encontradas ao lado da 197 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . desafoga a pessoa do social e a faz aflorar para a vida. quando recuperadas puderam trazer uma luz para as esferas do que cada um quis afirmar como não existindo diferenças entre o luto de ontem e de hoje vividos no Brasil urbano. "A sociedade sempre foi hipócrita e sempre desconsiderou as pessoas.foxitsoftware. O luto ao tornar-se uma experiência intima. a polaridade entre um "Maior Controle Social". a não ser quando lido nas suas entrelinhas. é pontuada por um "Não Existe Diferença" na experiência do luto ontem e hoje. uma polifonia de experiências que um questionário padrão não consegue exprimir.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Esta comparação foi solicitada também aos indivíduos que responderam ao questionário aberto. Como ela experimenta o sofrimento. 43. 37.

Rondônia. permitem ampliar as categorias compreensivas a que estão dispostos na tabulação necessária dos dados. Ceará. lidos com sensibilidade. Advogam que o luto. Ser Discreto resposta de um informante de Porto Velho. em todas as instâncias e em qualquer tempo e lugar é vivido solitariamente e isoladamente pelos indivíduos que o experimentam. O luto foi e é solidão. um a um. indica que "o luto é uma experiência de desamparo individual. Um terceiro apontamento encontrado em um questionário de Fortaleza. deste modo.com For evaluation only. se de um lado mostram a limitação de um instrumento meramente quantitativo no tratamento analítico de um questionário tipo padrão. verificar um pouco mais atentamente o que os informantes quiseram dizer com tal afirmativa. A sociedade só faz ampliar ou diminuir a margem desse desamparo. sempre. com roupa preta ou de vermelho sangue". lida em um questionário de Florianópolis. assim. como uma narração.foxitsoftware. por outro lado. independentemente de um grau maior de liberdade social de expressões de sentimento ou de uma 198 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Estes apontamentos. Santa Catarina. mesmo que haja um coletivo forte". e não há amparo ou regras sociais que o façam diferente. O luto é uma ampliação desta solidão. mas o sofrimento é sempre vivido na solidão do eu. e faz eco e contraponto com outro achado em um questionário do Rio de Janeiro: "a solidão é calada e de dentro do sujeito que possui. é possível. Outra anotação existente foi a de "Onde existe dor e sofrimento é no indivíduo. Apontam. e sempre foi assim.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Na leitura da categoria "Não Existe Diferença" entre o luto de hoje e o de antigamente. Solidão!". seja hoje ou antigamente. o questionário como uma expressão também individualizada dos informantes. como este usado como uma das técnicas de aproximação da realidade estudada. demonstram que. para a individualidade e a subjetividade como instrumento de vivência do luto.

individuado ou em individuação. parecem apontar para uma outra faceta da relação entre o indivíduo e a sociedade. é verdade. Para eles. acuado pelo sofrimento. afetando os diversos níveis do dizer. e na da solidão do indivíduo no social. individual e coletivo ao mesmo tempo. Pela forma como enfrenta a si mesmo e se sente acuado. Ser Discreto presença mais forte do social no controle do luto de seus membros.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. na alucinatória perspectiva que se abre em seu interior pelas brechas do 199 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . o recolhimento que o faça compreender e narrar o impossível de narração. pela perda de alguém amado. O luto. Pela forma que espera deste mesmo mundo em conflito. do fazer e do estimar-se como um agente moral. De uma forma ou de outra.com For evaluation only. Esta outra face se encontra na ênfase dada a hipocrisia do social. bem como na fórmula de que o enlutamento é uma expressão de um ser social. 62 e 63) fala o sofrimento como implicando em uma diminuição da suportabilidade de um sujeito em dor. mas tensão e conflito sempre. é um ser em processo de confronto com o outro. A solidão ampliada revela um indivíduo acima da sociedade. o entendimento. a busca de proteção. como um animal. porém.foxitsoftware. o luto é uma experiência individual vivida dentro de um sujeito na sociedade. pp. Paul Ricoeur (1994. e a presença do sofrimento enquanto solidão e desamparo de um ser. na sua incapacidade de narrar o inenarrável da dor vivida através do sofrimento provocado pela perda. indicam uma tensão entre o indivíduo e a sociedade. Este ser solitário. sem poder expressar sua dor a não ser pela ausência do mundo ou resistência aberta ao mundo ao seu redor. Confronto ambíguo. para outros destes apontamentos à margem do questionário.

neste perder-se e sem poder interrogar esta ausência pela morte. dos momentos mais difíceis onde o ser amado que se foi ainda é nada mais do que uma presença perdida e.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. usando aqui a expressão dos diálogos de Canetti e Adorno (1988). com 43. 29. desapego dos outros e marginalização. Este processo parece ser o que aponta a categoria "Não Existe Diferença". Solidão que parece exasperar o sujeito tocado pela perda. como uma ameaça de morte.73% das respostas dada a questão. como resistência e busca de compreensão do por quê eu. pois "Hoje É Individual". pelo "Maior Controle Social". movido pela absurda e sufocante ausência e pela sensação de estar entre vazios. e ser melhor no presente. que o coloca em tensão com o social como força potencial e como abandono. vista através dos apontamentos à margem do questionário. Ser Discreto sofrimento e que o impõe como figura principal. As duas outras categorias presentes no Quadro N. a expressão de uma visão dos informantes no questionário. e se transforma em dó de si mesmo.com For evaluation only. O social e suas regras aparecendo. Anulação das fronteiras como conflito do eu com os outros e. também. única e estupefata de um ato. tornada absoluta. e o conflito em que se situa neste tênue limiar. por seu turno. indicam. É interessante notar o expressivo número de informantes 200 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. ou de uma condenação. É uma espécie de "enraizar-se na ausência de lugar". com 37. que descreve o estranhamento e a necessidade de a ele agarrar-se. para o sujeito em dor. Esta afirmação da solidão indicando a tensão entre o indivíduo e a sociedade. mas antes uma afirmação da solidão do sujeito tocado pela perda nos momentos mais agudos do trabalho de luto. proposto por Simone Weil em seu "La pesanteur et la grâce" (1993).02%. Não é um desdém. de o luto ser melhor antigamente.

Um pouco mais de quarenta por cento dos informantes indicaram este aspecto como sendo o que melhor delimitaria a diferença entre o ontem e o hoje. despontavam como o ponto modal de uma experiência mais coletiva da sociabilidade brasileira de antanho. uma presença não de todo uniforme entre os respondentes. aparecem nas margens dos questionários como. As regras claras que pareciam definir a ritualística em que se encontravam envolvidos todos àqueles ligados a um processo de luto. Indica o menor poder de ação individual frente as normas sociais e sua ritualística. todos nós nos sentíamos mais protegidos e podíamos realizar melhor o luto do nosso morto querido". de uma rede coletiva que vem se fragmentando com a modernidade do Brasil urbano atual. como parece ser o caso deste apontamento encontrado em um questionário de Salvador. seja os outros relacionais. seja os diretamente no estado de luto. 201 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Bahia: "o respeito aos mortos e aos que o perderam era mais intenso. no sentido de um maior controle social.com For evaluation only.foxitsoftware. nas atitudes comportamentais que lidavam com o luto na sociedade brasileira de um passado recente. enfatizar a obrigação pública da expressão de sentimentos de que fala Marcel Mauss (1980) e as formas comportamentais de contenção gestual e de vestimenta e da presença clara de sinais exteriores demonstrativos do estado em que um indivíduo enlutado se encontrava e do outro que com ele se relacionava.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. também. Estas diferenças indicadas como principais entre as características do luto ontem. É esta força da coletividade sobre a ação individual em um processo de enlutamento que chama a atenção a categoria de "Maior Controle Social". Procura. também. Ser Discreto que afirmaram a diferença. Alguns apontam estas características dentro de um imaginário recheado de sentimentalismo.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. para uma atitude mais individualizada da vivência da perda que satisfaz ao trabalho de luto. também. Amazonas.com For evaluation only. A individualidade. A intimidade. no Brasil urbano. de onde o luto aparece como um espaço de delimitação da relação entre indivíduo e sociedade. para um outro tempo de fragmentação e diluição dos laços coletivos. informa uma anotação ao lado da resposta de um informante de Manaus. 202 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . A categoria "Hoje É Individual" enfatiza esta mudança. Os dois contrários. neste conjunto de respostas. é a raiz de onde pontifica o entendimento da nova característica pressentida pelos informantes na sociabilidade brasileira urbana atual.foxitsoftware. nem que fosse uma saidinha de nada. colocando o controle social como um aspecto negativo na vida do sujeito enlutado. por sua vez. dando margem à emergência do indivíduo e do individual na vivência e expressão dos sentimentos. ninguém podia 'cuspir fora do prato'. O despontar do indivíduo enquanto ser subjetivo.. indicam para o aspecto contrário. que era logo tachado disso e daquilo outro. ". não havia espaço para o indivíduo respirar. oposto ao público é à ênfase da formulação. por sua vez. O mesmo acontece. Ser Discreto Outros. privado. "Antigamente a coisa do luto era mais controlado pela sociedade. no Brasil de um pouco mais de trinta anos atrás.. informavam a presença maior da sociedade no controle pessoal dos enlutados. configurando a modernidade brasileira urbana atual. Prognostica a passagem de um tempo onde as regras sociais eram mais claras e o controle sobre os seus usos e costumes respeitados. com os que indicam a mudança dos hábitos no processo de enlutamento do presente.

os que revelam o espaço de liberdade dos indivíduos neste percurso de individualidade. mas para a religião e. ainda. mas não sabem como sair desta.". Como uma tendência à diluição dos laços associativos. Mas. não apenas ligados ao parentesco.foxitsoftware. também. Há. ninguém para dar apoio. Como parece ser o caso do depoimento à margem do questionário. quanto para os que vivem no convívio imediato. Todos sofrem. às formas societárias em geral. Há os que acham o processo de individualização como uma ameaça permanente à segurança dos indivíduos tocados pelo luto.. ninguém para desabafar. de um informante de Porto Alegre. porém.. Não. há. porque os outros querem. É só a gente e mais nada. "o individualismo presente nas manifestações de pesar da sociedade brasileira de agora faz com que as pessoas não mais se encontrem e se distanciem umas das outras. Como é o caso do apontamento de um informante do questionário do Rio Branco. Acre: "Hoje a gente vive uma situação estranha de ter muitas pessoas em volta e não ter ninguém. Agora cada um segue o seu próprio curso e vive e 203 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Não tem mais aquilo de ficar fazendo isso ou deixando de fazer. e aí aumenta a distância. tanto para os que passam pela experiência. "Acho que não tem nada melhor do que a liberdade que nós temos hoje de viver como cada um quer a vida de cada um. Ser Discreto Esta modernidade da individualidade do sujeito frente ao social não é.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. o que apenas diagnosticam o aumento do sofrimento pessoal pelo processo de individualização em curso na sociedade brasileira atual. dando um conteúdo moral dramático de perda de sentido e continuidade da vida em sociedade. o desestímulo com a vida e a evitação um do outro". As coisas ligadas à morte e ao luto são objetos de nojo e incomodo. Rio Grande do Sul. sentida como apenas um aspecto positivo ou negativo da vivência do luto.com For evaluation only.

O apontar o passado como mais coletivo. hoje. de qualquer época da vida social brasileira. neste trabalho. de uma situação coletiva para uma outra onde a performance do indivíduo é enfatizada em seu aspecto de intimidade e espaço privado.com For evaluation only. De uma forma mais dramática afigura. também. Ambos os caminhos são possíveis. em um tempo qualquer do experimentar o sofrimento pelos sujeitos nele envolvidos. se estes traços caminham para um maior crescimento pessoal. Ser Discreto cresce da melhor forma de cada um".foxitsoftware. parece ser o caso. também. das respostas dadas para a categoria "Maior Controle Social" no antigamente do brasileiro urbano. Esta atemporalidade retém os traços principais de análise do sujeito que sofre. conseqüências da experiência pessoal de cada um no luto vivido neste sem tempo. e são. e também aqui. ou para uma maior solidão individual do sujeito da perda em seu trabalho de luto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. na sua forma individualista. e a tensão conflitual estabelecida por este sofrer entre ele e a sociedade em sua volta. Não parece importar para ele. que toma o imaginário em que se encontra mergulhado o comportamento individualizado. ser o caso da categoria "Não Existe Diferença". traz um diagnostico do presente como mais diluído socialmente e mais pulverizado em ações privadas dispersas pelos sujeitos que a experienciam. Independente da qualidade de melhor ou pior apontada pelos informantes. e o amplifica para uma atemporalidade. Ou melhor. afirma um mineiro de Belo Horizonte às margens do seu questionário. Sexo e Expressão do Luto 204 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Bem como. a categoria "Hoje É Individual" levanta a questão da transformação dos hábitos e suas formas de significação rituais no comportamento do brasileiro urbano contemporâneo.

Este contraponto pode ser enriquecido pela possibilidade das mulheres. assumindo uma vida pública. 47.32%. 44. Nele. como memória individual e rememoração. pelos homens e pelas mulheres. 30. através da subjetividade e da experiência interior do sujeito. como processo de subjetivação.foxitsoftware. O interessante.habituadas a uma vida voltada de costas para a rua. configurações ligadas a padrões de subjetividade que não afetassem a vida pública dos sujeitos envolvidos. 30 cruza as categorias ligadas ao sexo com as das expressões do luto. Ser Discreto Quais seriam as significações atribuídas. Esta relação estabelecida coloca os homens em uma situação de procura de manutenção dos laços tradicionais de uma sociabilidade do luto. e à tradição. por estas se encontrarem apenas a pouco tempo. e "Sentimento". esperado uma reação mais presa ao passado e à tradição por parte das mulheres. responderam o luto através das expressões ligadas ao simbólico. . neste Quadro N. talvez. sobretudo nestes últimos trinta e poucos anos. contudo. que responderam ao questionário padrão.com For evaluation only. O Quadro N. enquanto para as mulheres. contra 39.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.63%.53% dos homens. e um percentual de um pouco mais de oito pontos percentuais para a categoria "Período de Adaptação". e a uma personalidade social formada de forma mais intensa para predicados ligados ao exercício da sensibilidade e para a arte da intuição. 205 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ao contrário do possivelmente esperado acima. é verificar que 28. à experiência do luto? Seria. parece que este espaço ritual pode ser preenchido ou vivenciado sobre outras formas. e para os homens.65% das mulheres. que exprimiram o luto como sentimento. às formas rituais. se verifica a existência de uma quase equivalência no percentual de respostas para as categorias de "Simbologia".

como um ato novo sobre o que se foi. como a escola. de uma certa maneira. nas atitudes e 206 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . aqui. entre outras mais. é retratada no anedotário do cotidiano. A figura do masculino no Ocidente. Como aquele que organiza as emoções domésticas. em momentos específicos e raros. frutos e produtos deste passado recente do Brasil. enquanto expressão de intimidade. e de positivação de gestos e atitudes concatenados com o circuito público da rua e da relação de mercado nela estabelecida. e também. O que os constrange de dar visualidade a manifestações internas de sentimento. como provedor e intermediário do público. na troca com o outro. a política. bem mais ao contato permanente com a morte. a religião. Os homens. mesmo vivendo intensamente nestes últimos trinta e pouco anos uma transição significativa nas formas comportamentais. Ser Discreto estarem mais atentas ao compasso da espera e da repetição cotidiana dos circuitos internos da família e dos laços sociais aí estabelecidos.com For evaluation only. que mesmo na intimidade do lar se comporta como o provedor. acostumados à lógica da racionalidade do espaço público. a não ser em situações de absoluta intimidade. por seu turno. tem sua personalidade formada para uma lógica de negação do sentimento. fechada. O que as coloca. com a categoria simbólica de vida. e a vivência delimitada do espaço privado. bem como na literatura. e sobretudo. vê-se que as respostas se adequam ao perfil de personalidade em que foram criados os homens e mulheres brasileiros contemporâneos. Este espaço novo assumido pelo ato que foi. E mesmo assim. a economia. especificamente. como o que organiza as diretrizes da vida em família e faz sua intermediação com as demais instituições intervenientes. enquanto categoria simbólica ligada ao processo repetitivo de cada ato. como é o caso da relação familiar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e no Brasil. ensimesmada. Ao partir deste ângulo. Isto quer dizer que.foxitsoftware. como uma figura carismática.

mas de toda a sociedade ocidental. e tenciona com os antigos hábitos. na contemporaneidade da vida ocidental dos últimos cincoenta anos. parecem 207 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Este sendo um aspecto dramático. que é a de não suportar a perda do ente querido morto. o sexo masculino parece perder muito de sua capacidade de apreensão dos conteúdos novos resignificados no momento da perda. Os indivíduos do sexo masculino. Neste momento. o presente e o futuro de suas experiências. a tradição e as formas simbólicas a ela associadas. Buscam agarrar-se a uma rede de serviços institucionais que lhes garantam a logicidade de seus gestos e ações em momentos de rupturas provocados pela perda e vividos durante o estado de luto. principalmente os mais idosos. O novo aparece como ambíguo. ainda titubeiam nas fundações que deram origem e formação social e individual a seus corpos e experiências. na mentalidade e formas de expressão. como expressão do luto. Ser Discreto gestos. como forma de sobrevivência. onde melhor possam assentar-se e rever a si próprios e os outros. que aponta para esta tendência apenas recentemente. pela maioria dos homens. nos projetos e anseios.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ao desarmar-se o circuito mercantil e racional a que se situa como um ser público. Daí a necessidade da garantia institucional de outras instâncias. os homens e mulheres que vivem a experiência urbana atual no Brasil. Situam-se em patamares ambivalentes e deles medem o passado. ampliando os conflitos e buscas de reconfigurações. estes indivíduos estão estabelecendo as pontes com o passado que os formou.com For evaluation only. Esta tendência já era apontada no início dos anos cincoenta para a Inglaterra por Gorer (1963). não apenas no Brasil.foxitsoftware. ao indicar.

avança na descaracterização das anteriores e na pulverização e descrença nas instituições desindividualizadoras que mantinham um certo padrão de uniformidade das relações e dos rituais. Mais voltadas para a relação do sentimento.com For evaluation only. após a lei do divórcio nos anos oitenta do século passado. Em todo caso. para o caso da França. principalmente a companheira ou esposa79. que os fazem falecer. 208 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . embora indique uma dificuldade masculina de maior dificuldade de elaboração do luto do que o feminino. entre outros. O luto de ambos tornam-se dificultados pelas novas formas de relacionamento social emergidas no Brasil recentemente. que sem regras ainda palpáveis. o sexo feminino parece situar melhor a dor da perda nos mecanismos da rememoração dos laços e da memória afetiva do morto com relação à família e para a sociedade. A entrada das mulheres na vida pública brasileira dos últimos trinta anos. recompondo a expressão da importância e permanência do valor da instituição familiar. em casos de processos de ruptura. Ser Discreto situar-se em um comportamento ensimesmado durante a perda. logo a seguir. o anonimato das pessoas e as 79 Ver Pincus. acentuado pela quebra das relações societárias mais desindividualizadoras.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. as novas formas por que passaram a instituição familiar. que parecem suportar a perda de uma forma mais adequada e elaborar melhor o luto. 1967. o crescimento da concorrência e da eficácia social entre os indivíduos. a morte de um ente amado. para o caso da Inglaterra e Ariès. ambos se situam entre fronteiras. enquanto categoria das formas de sociabilidade do sensível e do pressentimento. 1989. Diferente da maioria das mulheres. como a morte. esta diferenciação entre os comportamentos feminino e masculino frente à morte de um ente amado.

deste modo. Esta marca parece revelar nas narrativas uma espécie de ensinamento provocado por este período duro na vida das pessoas. pôde-se perceber a ênfase dos entrevistados.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. entre as duzentas entrevistas. As marcas da instabilidade e do não saber situar-se perante as novas regras do jogo social. ou de depoimentos extraídos de revistas. O que dificulta a elaboração do luto e em muitos casos. 80 Uma pesquisa coordenada pela psicóloga Valéria Tinoco do LELU/PUC-SP teve alguns dos seus dados publicados na revista Veja. Ser Discreto resignificações das trocas afetivas nas grandes cidades. e a importância atribuída à marca deixada pelo sofrimento do luto. de 6 de outubro de 1999. Em todo caso. e a marca tem a ver com este aprendizado. uma espécie de expiação pessoal. por algo que não sabe bem explicar o por quê. deixa a marca da ferida não de todo expiada mesmo após a elaboração do luto.foxitsoftware.com For evaluation only. parecem ampliar a insegurança do agir. por ela realizadas. provoca a morte do sujeito que sofre a perda80. quando a pessoa já consegue ver com mais distância o processo pelo qual passou quando da morte do ser querido. O que os torna ambivalentes e sujeitos a uma maior dificuldade no processo de elaboração do luto. entre vários outros aspectos. colocam o brasileiro médio no interior de um imaginário tenso entre processos de um passado recente e novas formas de adequação ainda em formação. e o sentimento de culpa 20% do conjunto das entrevistas 209 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . diretamente para esta pesquisa. Esta pesquisa revelou que as reações de inconformismo em relação à perda de parentes mortos. o sofrimento tende a tornar-se. Durante todo o percurso deste livro. em uma matéria intitulada "O duro exercício do adeus". atingiu um conjunto de 41%. o sentimento de culpa do não saber comportar-se perante a ruptura que rasga a sua vida e o inconformismo pela situação experimentada. Ao colocar sobre si mesmo a carga maior da culpa.

porém. de um lado. Uma espécie de entrega pessoal à dor. o que permite um distanciamento do sofrimento e uma retomada da vida. e suas instituições. Uma culpa cada vez maior pelo fato da não explicação para si. e a falta de explicações no social. para um certo conformismo do ser perante o acontecimento que o acometeu. Amplia a margem de ambigüidade nas 210 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . se revolte com o mundo pessoal e social. ou pelo desencanto do mundo. e suas instituições. Outro lado. encontra-se em um segundo tipo de ensinamento da dor provocada pelo sofrimento no luto. Esta também é a teoria do luto em Freud (1992).Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e se volte para dentro de si como sujeito culpado. que faz o indivíduo ao acomodar-se permitir-se refazer os passos dolorosos da introjeção do morto em si. o indizível da dor pessoal. Este outro ensinamento se faz pelo inconformismo assumido pela perda. Processo elaborado através de uma recomposição do eu pela sentimentalidade e pela dissecação do outro querido que se foi. Ser Discreto Paul Ricoeur (1994) também pergunta sobre o que o sofrimento ensina e responde. pelo sofrimento a que se viu exposto na morte da pessoa amada.foxitsoftware. a incomunicabilidade a que um indivíduo se vê sujeito pelo sofrimento. provocada pela ruptura abrupta ocasionada pela morte do outro amado. vendo o mundo através de sua culpa. faz com que ao tomar para si o sofrimento como expiação de algo de que se diz vítima. Como um aparato de proteção ou como uma espécie de máscara sob a qual enfrenta a sociedade. apropriando-se destas partes dissecadas e reconstituindo-o no seu interior como um objeto amado em si.com For evaluation only. O mundo ao redor. enquanto indivíduo. pela subjetivação de sua pessoa como o referente principal de si mesmo. Ocasionando um certo afastamento do social. passam a se configurar através de uma visão instrumental e técnica. A impossibilidade do diálogo.

. ao mesmo tempo. Só o sofrimento e a solidão é que de fato marcam a vida de uma pessoa.. porque estava em meu nome. a família dele proibiu a minha entrada. " (Entrevista n. não compareci ao enterro.. é sempre renovado nas marcas e nos desprezos que os outros revelam a dor da gente.. às vezes me situo no tempo e já fazem mais de três anos da morte do meu companheiro... dependendo das circunstâncias. estado do Maranhão. na mesma angústia a que fui jogado quando ele veio a falecer. Não sei. Você me pergunta sobre o tempo do luto? Podia dizer o formal. vítima da AIDS.. mas isso não é a verdade. Só não perdi o apartamento... 15)81... Tempo ideal do luto desconfiado.. um ser incompreendido. muito sofrimento. na mesma solidão. um ano.. . e que anseia. e uma fotos da gente em Paris.com For evaluation only..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. "Eu sou um homem marcado pela morte. É difícil superar a morte de alguém de quem se foi muito íntimo e de quem se amava além das medidas.. o luto é eterno. na minha casa. dura para sempre... 81 Sexo masculino. e isso é muita dor.. .foxitsoftware. natural e morador da cidade de São Luís. é aí que a gente vê que tudo é ilusão. um pouco mais ou um pouco menos. Ser Discreto relações que estabelece com o social. 211 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Nem ao velório pude ir. Empresário da noite. me tomaram até os objetos dele. também por proibição dos parentes. compreensão. se eu vejo pelo que venho vivendo.. 43 anos. quando depois da morte dele me vi banido de até expressar este sentimento. O resto levaram. mesmo. perdeu o companheiro com quem já vivia a quase seis anos. e me revejo na mesma dor. destruíram tudo. tornando-se para si. principalmente....

que se choca com a dura realidade da perda e a exclusão social a que se diz vitimado. . marcada pelo sofrimento. quase um sonho. porque não sabe bem aonde foi. Vem como um elemento de retórica. .com For evaluation only. O choque entre as duas formas de medir o tempo. mas que não se tem como o reencontrar.foxitsoftware. A expectativa de um luto em circunstâncias normais.margeado pela rememoração deste ser que se foi e a medição de sua importância para o sujeito e dele para o todo social com quem se relaciona. a que o entrevistado se viu exposto após a perda do ente amado. Mescla-se. que é desejado. onde o apoio e a solidariedade e compreensão pelo sofrimento de alguém vitimado pela perda. à culpa a vitimidade com que encarou. para o entrevistado. - 212 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . acompanhar as despedidas no trajeto e durante o enterro. Ser Discreto O depoimento acima denota uma polaridade entre um tempo formal e uma outra temporalidade. a marginalização a que foi jogado pelos familiares do morto.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. também. O luto. invadiram o seu lar. como foi. se realiza através da exclusão. pelo acontecido a si mesmo e pela forma com que o social o retira das formalizações fúnebres: a recusa de o deixar ver o corpo.parece entrever uma memória de um processo de ajustamento coletivo que se perdeu em algum lugar do passado. . porque foi e o que de fato se perdeu. entremeia as relações esperadas de uma introjeção da perda em um indivíduo em condições consideradas ideais pelo narrador e as condições objetivas dadas pelo enfrentamento do sofrimento pela morte do outro. no trabalho de luto. e vem encarando o seu processo de perda: de novo. Nela se mescla a culpa pelo acontecido ao outro que se foi.objeto de quase veneração da intimidade na modernidade brasileira urbana. velar o seu morto. também. que se apropriaram do corpo amado e.

com For evaluation only.. parece ter enfatizado a anormalidade com que ele próprio via a sua condição pessoal de homossexual. e ser jogado fora do processo de sua morte e à constatação de que "só o sofrimento e a solidão é que de fato marcam a vida de uma pessoa. que o faz perceber e encarar o processo de luto como uma ampliação de sua morte social.". A marginalização. considerando o entrevistado na sua ambivalência de assumir-se como outra sexualidade e admitir-se. a exclusão provocada na ruptura ocasionada pela morte do ente amado. No caso do entrevistado agora analisado. Como ser "banido de até expressar (o) sentimento" de dor e da falta do amigo. Este caso poderia servir aqui como um parâmetro para se aplicar mecanicamente a noção de estigma de Goffman (1988).Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a condição homossexual parece se apresentar para ele como uma espécie de estado marginal frente a sociedade. parece que é este sentimento de exclusão. Mesmo sendo um homem que assumiu uma sexualidade diferente da comum e considerada normal pelo social em torno. e de casamento com um outro do mesmo sexo. agora ausente. onde tudo parecia lembrar o que se foi. construídos durante o período que viveram juntos. Daí a vitimidade com que se coloca frente a recusa dos outros de partilhar o corpo do amado. ao mesmo tempo estigmatizado e portador de uma espécie de anormalidade social.. visto sob uma ótica de vitimidade. 213 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e da passividade com que se colocou frente a objeção e diante da invasão de sua privacidade e bens comuns. os familiares do morto. pelos outros da relação. retirando os pertences e destruindo as lembranças construídas a dois. Ser Discreto profanaram o reduto de sua memória.foxitsoftware. e sob o qual enfrenta as relações societárias no dia a dia de sua existência pública.

Porém. quanto nos sujeitos no entorno. metodologicamente. ampliando eternamente a dor causada pelo sofrimento que o marcou. retraindo os indivíduos da relação e os fazendo de vítima ou algozes.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como vergonha. como a morte ou o enlutamento provocado pela perda. é possível pensar o seu uso. quando um indivíduo aparece acima da sociedade e das suas regras e normas. portador de sofrimento a ser vivido na clandestinidade. como uma conseqüência da modernidade ocidental e na forma em que vem se desenvolvendo a individualização dos sujeitos sociais. tanto no sujeito que o vivencia. a partir de sua condição de identidade deteriorada. a subjetivação dos sentimentos e a eternização do sofrimento. da sua solidão e desconforto social. através desta exposição ameaça o outro social.com For evaluation only. como se vem tentando no decorrer de todo este livro. segundo a perspectiva do olhar de cada 214 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. se em vez de usar de forma apenas instrumental o conceito de estigma e entender. quando do processo de individuação a que um indivíduo qualquer se vê exposto e. Daí encontrar as explicações. As paredes sociais se tornam mais rígidas à objetivação dos sujeitos relacionais no seu interior. dá-se movimento ao conceito pela tensão e conflito por ele provocado. Ser Discreto O que o faria marginal aos olhos dos outros e de si mesmo. e por onde. experiências específicas de trocas sociais onde o estigma. é possível compreender esta mesma noção dentro de um veio explicativo mais dinâmico. em um momento específico da vida social. A tensionalidade e o conflito inerentes a um processo de individuação provoca. culpa e preconceito vem à tona. e portanto. via individualismo. Se a noção de estigma puder ser compreendida à luz do conceito de individuação.

cada vez maior. pela intolerância. e os outros referentes como monstros. acompanhando o processo societário ocidental de que se diz herdeiro e portador do seu legado histórico formativo.57% dos entrevistados indicaram o hum ano como o tempo ideal para saída do luto. pelo medo. pelo discurso emudecido. esse ritual de passagem provocado pela morte de outrem. por assim dizer. A solidão. como argumento da intimidade e da espetacularização do individual é um caminho por onde parece prosseguir. parece vir sendo afirmada como uma espécie de prognóstico desta individualidade solitária que parece tomar conta. por onde. anexo. Por uma espécie de tensa conformidade (SCHEFF.com For evaluation only. Que passam a referir-se pelo espaço de privacidade e intimidade conquistado. ou vem perdendo as suas características de instâncias norteadoras de uma coletividade. pela busca imóvel. quando os laços desindividualizadores perdem. e passam a ser desacreditadas ou a irem perdendo a credibilidade nos movimentos cotidianos dos homens comuns de uma dada sociabilidade. dos últimos trinta e poucos anos. a passos largos. uns e outros mediam as relações públicas e procuram novos pares. ou se processar neste sentido entre os brasileiros. e de onde enxergam os demais. se verifica que 64. No Quadro 31. assim. a nova forma de mentalidade por onde se movem as camadas médias urbanas no Brasil. a tendência a encarar o enlutamento. Retraimento.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ou pelo anseio. Colocando cada indivíduo como um ser em sofrimento. solitário e ansioso. para o afrouxamento necessário dos laços de sofrimento que marcaram o 215 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware. como uma questão pessoal. ou como uma marca eterna. Na questão colocada no questionário padrão sobre a existência de um tempo ideal para a entrada e saída do luto. 1988). Pelo menos. Ser Discreto narrativa. pela culpa.

É o que a psicanálise. nos países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento. que possibilita ao enlutado a elaboração de novos projetos e aventuras sociais. no tratamento especializado. vem tomando o lugar de outras instâncias agora não mais tão acreditadas.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. principalmente. O luto. como a pobreza. o sofrimento provocado pela exclusão social.com For evaluation only. Quando. Na sociedade contemporânea. 1992) de introjeção da perda em si. como a religião e a família. Ser Discreto trabalho de um enlutado sobre a memória daquele que se foi. ou quando permanece em depressão e recusa o mundo ao redor. é necessário uma intervenção especializada sobre o sofrimento desse sujeito. e pela individualização crescente das relações afetivas e da mercantilização e instrumentalização dos laços sociais da vida pública.foxitsoftware. que se havia impedido pela insuportabilidade da dor a que se viu sujeito no início do processo. também. No discurso da saúde mental. e que passaram ou passam por redefinições na sua estrutura e formas de funcionamento. remodelandoo e adaptando-o à vida que continua. porém. Tempo. o indivíduo parece se fechar e não consegue sair do estado de prostração a que se encontra submetido desde a perda do ente amado. O que faz com que a depressão seja apontada como a 216 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a psiquiatria e a psicologia também advogam para o que consideram um trabalho e um processo de luto não patológico. mais de 400 milhões de indivíduos dentro de um mapa da população mundial. como forma de reintegrá-lo à vida social e. e na brasileira dos últimos trinta e pouco anos. após o período considerado normal (FREUD. que o impede de retornar ao cotidiano da convivência prática. ocidental. atinge hoje. a ele mesmo. Tempo que permite a introjeção deste ser no íntimo do ser em sofrimento. se faz sobre uma espécie de anomalia da vida ordinária do sujeito em crise.

.. não preta.... Eu e minhas irmãs. e também vestiu sempre calça preta e no máximo uma camisa branca com o fumo no braço. 1999) . a vestimenta do luto já era diferente. minhas irmãs também o fizeram. E com isso. só quando completou hum ano é que saiu do luto fechado e pôs uma roupa mais clara. durante quase seis meses. a garotada é que já não liga muito para isso. "Quando ela morreu. pus uma roupa.. ou vai ver que não dão bola mesmo. como eu ia dizendo. a maior parte dos informantes aponta. era pequeno. Para este discurso. a gente se sentia mais confortável. e só depois de mais de um ano é que pude vestir vermelho. é coisa de gente velha. Ser Discreto doença do século XXI. É uma forma de respeito. Já se podia vestir qualquer cor.foxitsoftware. da roupa preta que vesti. mas... e a dor ia passando devagarinho. mesmo assim. entre as camadas médias urbanas no Brasil. mas vermelho nunca mais usou. "Quando meu pai morreu. até o ano de 2020. mesmo que de forma tensional. Mas. e quando se via. independentemente do nível de industrialização e desenvolvimento de cada país (BRUNDTLAND. para o imaginário coletivo que ainda parece predominar. é uma forma de respeito ao morto. depois passando para o branco e preto.. o meu irmão. em contato com nossos mortos.. Ao situar o tempo ideal do luto em um ano. nos meses imediatamente após a sua morte. a depressão terá pulado para o segundo lugar do ranking de doenças acometidas na população mundial.com For evaluation only. assim. acho até que sofrem mais. a gente já estava vivendo a nossa 217 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. como se fosse hoje.. mas azul escuro. eu era adolescente e lembro. se as projeções estiverem corretas. de luto fechado. e uma forma de mostrar esse respeito para os que também conheciam e respeitavam a pessoa morta. no período maior do luto. Minha mãe.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.. em contato com a gente mesmo e com os demais. há uns oito anos atrás.

.. e todos morando na capital. já estavam todos rindo... Mas o senhor não sabe. eu e minhas irmãs é que insistimos e pagamos a missa. o tempo da morte de sua mãe. o tempo todo. filho dela. coitada. Dona de casa." (Entrevista n. as cores da vestimenta simbolizavam o experimento público da dor. tinha uma viagem marcada e foi. Porto Alegre. pobre da minha irmã! Vai que eles é que estão certos e eu fora da onda.. Ser Discreto vida e os mortos dentro da gente.. imagine..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. já adulta e casada.. no interior. católica. de purgar o sofrimento causado por sua morte e introjetá-lo amorosamente no seu interior. aí o luto nem existe. 43)82.. 65 anos. Casada. como uma atitude de reverencia e respeito ao 82 Sexo feminino. Para cada relatou um tipo de trabalho de luto experimentado e traçou relações com o tempo de cada um..... parecia que a mãe e a esposa não tinha morrido. o rapaz. mas natural de Alegrete.. Não queriam nem celebrar a missa de sétimo dia. como se diz agora (riso). e. a filha. A narrativa acima. é uma coisa terrível. 218 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . os filhos. namorando. . indo para as festas.. como uma forma de melhor viver o próprio morto em si. fala de três tempos e três processos de luto por que passou a entrevistada: o tempo da morte do seu pai.com For evaluation only.foxitsoftware.. as luzes da casa todas acessas. mãe de três filhos. ou assim parece. o tempo presente.. Rio Grande do Sul. mas não mais como dor.. Em cada tempo narrado. o marido nem deixou de trabalhar no outro dia.. e a mentalidade de cada tempo de enlutamento. De noite. quando ainda era uma adolescente. depois do enterro. .. o marido dela não deixaram a gente acompanhar mais de perto o corpo e preparar o seu despacho. "Minha irmã mais velha morreu faz pouco tempo. nunca trabalhou. todos casados. significado através da morte de sua irmã mais velha. não compareceu na missa. indo pra a faculdade. mas como acompanhamento e sentimento. moradora de Porto Alegre.

ao mesmo tempo que a permite se integrar. conforme. a sociedade em torno e a cada sujeito enlutado a si mesmo. revela a sua ausência na família de sua irmã. passa para um azul escuro e encorpado. O sentir-se "fora da onda" parece fazê-la olhar a si e aos outros através de uma tendência a estratificação de seus relacionais. que fez a entrevistada parar assustada e perguntar se era ela ou se eram os filhos e marido de sua irmã que estavam certos. O que a faz pensar sobre suas próprias atitudes e a dos demais de forma estereotipada. todos os risos. segundo Goffman (1988. de um lado. Se não o preto. da expressão pública do recolhimento familiar indicativo do respeito ao morto. a sociedade e a família enlutada. a missa de sétimo dia tendo que ser realizada após muita insistência das irmãs da morta. e faça com que cada enlutado entre no clima propício à reflexão que a morte recomenda. mudam a cada luto: do uso do preto no luto fechado do pai. colocar-se de fora da mudança do mundo. As cores. mas algo de um tom que demonstre um recolhimento e um estado de sofrimento pela perda de alguém querido aos demais. "o grau de visibilidade e imposição de seus estigmas". a este mesmo mundo social. p. chocada. 15. Como o entrevistado n. A sua segurança na construção pública do luto.. Ser Discreto que se foi. um transtorno e tanto. Nem uma demonstração pública de dor.. 117). sem uma pausa para uma reflexão. todas as vontades sendo satisfeitas.com For evaluation only. porém.. porém.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. como uma pessoa antiquada. o filho nem compareceu à cerimônia. tornando um embate difícil de compreensão. Todas as cores. O terceiro luto. como se diz agora". através do 219 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O estigma a faz. enfim.foxitsoftware. também sentiu-se estigmatizada e marginalizada: "fora da onda. foi posta à prova. O que complica a análise ao se pensar que esta provável forma estratificada de olhar o mundo a separa.

o respeito e o sofrimento em relação a eles. por medir interiormente este conjunto de sentimentos e formas comportamentais recentes através de sua própria experiência. Por exemplo. os costumes da modernidade. e como tal. quando comparada com a reflexão sobre o comportamento dos outros. cria para si uma nova segmentação do social. e nesse esforço repensa a sua pessoa e os outros da relação. Por outro lado. falando sobre as expressões públicas do luto através de vestimentas sóbrias e uma certa discrição individual no agir público. também funciona como uma espécie de algoz. e comparando sua geração com a mais recente. Algoz.. qualificando os demais. e neste jogo procura refazer sua vida.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ou vai ver que não dão bola mesmo. sente-se deslocada desta modernidade. pelo 220 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. de "fora da onda"... afirma que "a garotada é que já não liga muito para isso. A reflexão sobre o seu comportamento perante o luto e as formas de sua expressão.foxitsoftware. como condenação de si mesma. ou melhor. a leva a tender a compreender o estigma que assume. Neste momento. Ser Discreto enquadramento de sua pessoa no conceito de antiquado. Coloca-se ao mesmo tempo acima e abaixo do social. por ela própria traduzido..". por um outro olhar estigmatizado de "gente velha". por se colocar marginalizada das novas formas com que para ela parece se configurar as emoções e o comportamento pessoal e social perante os mortos. é coisa de gente velha. Vítima. acho até que sofrem mais. e nela busca enquadrar-se e tentar estabelecer contatos com um real imaginário por onde toca o seu cotidiano. busca estabelecer as bases de compreensão para o comportamento dos demais. onde ao mesmo tempo que é vítima.com For evaluation only. E nesse jogo entre o seu ser pessoal e os outros ao redor. ao mesmo tempo que a condena. segue um processo de segmentação contínua do social e de si mesma. a partir de sua degradação.

conforme cada novo olhar. as pressões sociais iam de encontro à sua liberdade pessoal..com For evaluation only. essas coisas todas que a morte de alguém que a gente depende não apenas afetivamente mas financeiramente causa bagunça. faz parte da vida cotidiana dos sujeitos sociais individuais na modernidade. com que ela não concordava. 35)...claro que senti muito. e como este inconstante pode resultar de mudanças em cada esfera ou no jogo entre elas". minha vida ficou abalada. pela degradação e frieza de suas atitudes e ações com que encaram a morte e os mortos. chorei. Uma terceira entrevista será aqui colocada como uma forma de um outro contraponto às duas visões anteriormente trabalhadas. Todo o mundo sente os modos nos quais estas duas esferas trocam de forma e que os seus limites. Para Cottle.. (1977. "Meu pai morreu fazem uns quase três anos. Ser Discreto deslocamento a que se diz vítima. falando da relação entre o individual e o social. e ainda 221 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . do privado e do público na contemporaneidade. Os limites e fronteiras estabelecidas em cada um sobre o como cada esfera pode afetar a si mesmo e os outros. "cada um de nós sente a esfera interna privada de realidade humana e o que a influencia. enfim. e dos outros. Mas não é disso que quero falar agora. . não! Quero falar do constrangimento que passei. não são distinguíveis. este jogar contínuo com esferas comportamentais de si próprios. Em suas palavras. tive que me adaptar as novas condições de vida da minha casa: antes só estudava e tive que trabalhar também para equilibrar as finanças que ficaram um pouco abaladas lá em casa. provocando mudanças para fora ou para dentro. e a esfera exterior e o que parece afetá-la .foxitsoftware. e dos demais da relação.. Para ela. Este novo depoimento fala do constrangimento pessoal do entrevistado para assumir formas de expressão pública do luto. são distinguíveis e ao mesmo tempo se misturam. p. às vezes..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

Ser Discreto me jogam..foxitsoftware. . foi um drama familiar! Nem te conto. que mal acaba de falecer e eu já dou um desgosto desse. meus dois irmãos mais velhos. e que ele não ia deixar eu ir embora assim. ..com For evaluation only.. "Minha mãe agarrou-se comigo. ... pela imagem dele. sem dar tempo para sequer meu pai esquentar a cova.. "Minha mãe. que eu era uma vagabunda e tal.pela vergonha que estou causando pelas minhas atitudes inconseqüentes.. ficam a me destratar. aqui em casa.. veio com discurso moral.. como se o tempo não fosse o tempo de cada um.. mas da família toda. eu peguei minhas coisas e me mudei para a cada desse meu namorado. expondo a minha família. disse ele. dois dias depois. que eu que me exploda. me chamou disso e daquilo. mas fiquei sendo uma espécie de membro má da família. eu estava namorando com um cara quando o meu pai morreu.. que eu não respeito o luto dos outros.. que se eu pelo menos tivesse dado um tempo da morte do pai para fazer as minhas loucuras. logo depois da morte de meu pai bem mais do que agora. disse que eu não tinha sentimentos.. aí. Não por minha causa.. quando do falecimento do velho... a querer que eu expresse uma forma de pensamento que não sinto.. o meu irmão mais velho me chamou de tudo um pouco. e por aí vai. que eu seja o que não sou... A gente já estava querendo ficar junto e coisa e tal. puxou minha bolsa..... mas por causa da imagem do meu pai... como se existisse um tempo para cada coisa. de vez ou outra na cara. sobre o que me taxam de indiferença e falta de afeto e respeito pelo meu pai.. parece.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e homens. e por aí foi. Olhe.. ficam a me recriminar. ou melhor.. .o meu 222 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. a barra estava pesada lá em casa. que se meu pai fosse vivo eu não faria uma coisa dessas. ia embora na hora que a família toda estava sofrendo e precisavam todos estar unidos.

nem sim nem não. mas mesmo assim sou a ovelha negra.. pago os meus estudos e tudo o que é meu. 220)83. A morte do pai foi um elemento de ruptura significativa no seio da família 83 Sexo feminino... mais amenas. e me expresso conforme eu quero e entendo. A busca de liberdade de ações e pensamento faz a entrevistada inquirir sua família e a ação familiar da família sobre ela como uma espécie de opressão familiar para a sua livre iniciativa.. " (Entrevista n. e olhe. "Morei uns seis meses com esse cara. Ser Discreto outro irmão quis dar uma surra no meu namorado. mas depois penso que estou entregando os pontos e fico na minha. qualquer coisinha sou a insensível. Estudante universitária e vendedora de uma boutique em um shopping local.. tenho saudade de meu pai. por a entrevistada não corresponder às exigências familiares sobre um padrão moral e de expressão de sentimentos em relação ao pai falecido. ela às vezes se pergunta se é mesmo tudo aquilo que ela acha que os outros familiares pensam sobre ela. no interior da família... cada um é diferente. este depoimento revela um sentimento de exclusão e marginalização social. Vive a angústia causada pela tensão entre corresponder a um padrão familiar esperado ou corresponder a sua própria forma de expressão.. e (chorando) isso me dói muito.. as coisas aqui em casa eram diferentes. depois enchi. Por outro lado. quando ele era vivo.. mas lá e cá pegam no meu pé. 27 anos. foi um drama e coisa e tal. com mais compreensão. mas fui assim mesmo. me aceitaram em casa de volta.. ninguém disse nada.. pois ninguém pode querer que todo mundo pense como todo mundo. fui embora. solteira.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e tudo o mais. que deixo mais da metade do meu salário em casa... a que não se pode contar. natural e residente em Florianópolis.. Diferente dos dois anteriores.. 223 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .. muito mesmo. às vezes eu penso que sou má e insensível como me acusam.com For evaluation only.foxitsoftware... estado de Santa Catarina.

Amplia o seu olhar sobre o preconceito familiar a que se diz vítima. que é o de ser atribuída de falta de sentimentos. e em sua solidariedade possível para com a família. através da falta de compreensão de seus sentimentos. de insensível. reforça a marca da ruptura causada pela morte do pai na sua vida. Ser Discreto nuclear e em suas relações com o mundo. e seu recolhimento para dentro de si mesma. pago os meus estudos e tudo o que é meu. Através dessa trama refaz a trajetória e vê os outros pelo preconceito que ela acha que têm. consequentemente. sentir-se como tal. por não ser entendida em seus sentimentos e formas de expressão pessoal.. 224 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . às vezes com um misto de insegurança em pensar-se talvez ser o que os outros membros da família pensam que ela é. do outro lado. pelos familiares e. que a fazem sentir-se como "a ovelha negra" da família. A relação estabelecida com o núcleo familiar torna-se ambíguo: de um lado. a expressão econômica da solidariedade. às vezes com benevolência. Para a entrevistada.. ". e o seu olhar sobre si mesma. O jogo difícil e tenso estabelecido entre ela e seus familiares mais próximos. que a faz sentir-se como excluída ou marginalizada do núcleo familiar. apesar de afirmar que deixa " mais da metade do meu salário em casa. principalmente sobre o baque econômico que parece ter ocorrido em seu interior.foxitsoftware.com For evaluation only. mas mesmo assim sou a ovelha negra.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. a expressão psicológica da solidariedade da família para com ela. às vezes. Sem esquecer um terceiro lado. "deixo mais da metade do meu salário em casa". com suas mágoas. e de quererem podar a sua vida e a sua liberdade. esta ruptura ocasionou também o afloramento de um sentimento de rejeição familiar a ela. Através do olhar o preconceito dos outros mede a extensão dos sentimentos deles e. o seu. os olhando desse modo.

ao afirmar a necessidade de preservar a "imagem do meu pai. que se eu pelo menos tivesse dado um tempo da morte do pai para fazer as minhas loucuras. é que para ela é superficial e tosca. e da família. da entrevistada. e. mais subjetivo e íntimo. mais profundo. existindo na intimidade de cada um. Nele.". faz uma comparação entre os tempos da casa e dela. não pode ser expressa através de um tempo e de uma forma de agir delimitados pelo preconceito social. O tempo da casa é um tempo de preconceito.foxitsoftware. um tempo onde. da entrevistada. ao afirmar o desgosto e a vergonha por ela causados a toda a família.. Ser Discreto Ao referir-se ao conflito que travou logo após a morte do pai. e por conseguinte. social. Os tempos dela. e por aí vai.. por sair de casa para ir morar com o namorado. mesmo sem dizer em palavras dá a entender a medição que busca estabelecer. Movida pelo o que os outros vão pensar e não pelo que realmente sentem.com For evaluation only. "que eu não respeito o luto dos outros. também. pelas suas "atitudes inconseqüentes". O tempo pessoal. por outro lado. o que parece provocar 225 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . aos de fora da casa. Ela constata isso. se um não faz o que os demais pensam ser certo estão condenados. por exemplo. ou. Ela. e não a um real sentimento pelo pai que se foi. individual. "sem dar tempo para sequer meu pai esquentar a cova". se colidem nas formas de entendimento e expressão do luto de cada parte. segundo os seus familiares. também. quando decidiu ir morar com o namorado. querendo privála da liberdade e enquadrá-la como uma figura má e sem sentimentos. segundo seus irmãos.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. averigua isso no afirmar a atitude leviana. que mal acaba de falecer". a dor real. ainda. Surge com um sentido mais individual. Não! A forma como a família encara o seu comportamento. Ela assegura isso. aparece com um outro significado. Um tempo referido e que tem por referência aos demais.

também. Ser Discreto mágoa no discurso da entrevistada pela maldade ou inconseqüência que a família quer a ela imputar. ou na expressão da entrevistada ". mas depois penso que estou entregando os pontos e fico na minha.. como se o tempo não fosse o tempo de cada um". Embora a falta de compreensão a incomode. visto sob um prisma de disputa de espaços.foxitsoftware. "como se".". após a morte do pai da entrevistada. tenso e conflitual. a dificuldade de saber como agir perante o social. Quer pela não aceitação das regras do jogo social para cada situação específica. ou de outras possibilidades possíveis de verificação da ação social. e sinta falta do tempo em que o pai era vivo. quer. ela afirma. O mundo privado e o mundo social. ainda. por ver o mundo em transformação degenerando as gerações e as tornando mais insensíveis e presas ao imediato. A mistura dos dois universos torna-se. 226 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . quer pelo paulatino desmonte e descrédito atual das antigas formas. ao se chocarem permanentemente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. os outros ao seu redor. pela saída de casa logo após a morte do seu pai. pelo sentimento de discriminação sobre a condição ou escolha pessoal de cada sujeito.com For evaluation only. cada vez mais. ao mesmo tempo. Quer. verificando o outro da relação e a si mesmo como parte de uma estratégia de condenação a que todos estão sujeitos e submetidos. Nos três depoimentos referenciados. e de onde cada batalha é sentida como um elemento de liberdade e individualidade perdida. "existisse um tempo para cada coisa. faz com que a ambivalência tome conta do comportamento pessoal de cada um. e de forma intensiva.. e existiam mais harmonia e compreensão familiar nas formas de expressão de cada um. que se sente estigmatizada e que estigmatiza. parece ter criado momentos de redefinição na sua pessoa.

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O que pode ser tomado. deixam de se apresentar como uma unidade por onde se pode pensar o social. ao que parece. assim. ou o modo certo de agir. construídas a partir de um imaginário criado em um 227 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O tempo ideal do luto fica. e de sua negação simultânea. aqui. Os Sentidos do Luto Os entrevistados e os que responderam ao questionário padrão foram confrontados. O eu configura-se como um espetáculo do sofrimento. a vergonha e a culpa pessoal no enfrentamento do outro ou de determinadas situações no social. ou se o lugar que hoje ocupa continua sendo o certo. Com o rompimento das regras e formas rituais. e a falta de compreensão dos entrevistados. Este conjunto de valores passa a ser visto e sentido através da ótica pessoal e da vivência íntima e da curva de vida de cada um. a desconfiança. sobre os sentidos que atribuíam ou que achavam compor o processo de luto no Brasil de ontem e de hoje. enquanto uma busca exacerbada de autodefinição e liberdade de ação imediata.com For evaluation only. como uma tendência das camadas médias urbanas no Brasil de hoje.foxitsoftware. mais uma vez. O que só faz ampliar a solidão. Embora cada um desses indivíduos tenha dúvida do seu lugar. o mascaramento das emoções. Ser Discreto O que parece aumentar a solidão. O que aprofunda o campo de disputa entre as partes. Do indivíduo sobre a sociedade. ao sabor da disputa e da visão desta disputa no olhar e na experiência de cada um. e o individualismo nas formas de agir. o medo do outro. Suas respostas e narrativas. bem como as mágoas. o receio.

Todos eles fazendo parte da mesma ação comunicativa. Deste modo. Ser Discreto contexto cultural e social específico e ao mesmo tempo de muitas vozes. sinais e movimentos corporais. deste modo.foxitsoftware. uma pessoa pode pensar as emoções de uma maneira própria. completamente pessoal.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. as experiências e os sentimentos sociais. e essa maneira única ter sido construída socialmente e possuir um significado somente no contexto social específico que foi produzida e que foi por ela experimentado. É a rede. de um complexo de gestos. 1997. juntamente com as relações. Burkitt (1997. p. é a interligação entre as diversas interfaces de um mesmo ato. Processos compostos. através do 228 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . que constrói uma experiência emocional (Burkitt. É na relação com os outros que os informantes constróem as suas narrativas. mas de contextos sociais que são. simultaneamente. eles próprios. se pode perceber. 44) afirma que o conflito emocional não nasce de estados interiores de ambivalência. para o autor. acrescenta que as relações entre as pessoas e os sentimentos a elas associados são partes dos processos de interação. Ao se considerar as diversas definições apresentadas pelos informantes que responderam ao questionário padrão sobre os sentidos e significados do luto do passado e de agora. no interior de um processo cultural e social mais vasto. O que demonstra a curva de vida de cada informante particular e os impasses e conquistas vivido e sentido como seu. mesmo com o tom de uma interpretação. p.com For evaluation only. 45). mostram a ambivalência e a polaridade com que conseguem pensar os sentidos e significados das expressões do luto. no ontem e no agora da sociedade brasileira. Citando Elias (1990). ambivalentes ou preenchidos com conflito.

foxitsoftware.96% do total dos informantes que conduziram a resposta ao passado. A segunda categoria. A primeira. afirma que outrora os "Sentimentos Comunitários" eram mais fortes. e. na ritualização da vida comunitária e no comportamento mais regrado das pessoas envolvidas. bem como valores e aspirações sociais são evocados para falar de um tempo e de um lugar.13% relacionaram o sentido atual do luto contraposto com as expressões do passado.32%. com mais respeito ao morto e pelo sofrimento social expresso no e pelo luto. então. presentes e aceitos. fala da existência de uma maior "Integração". Três categorias expressam a opinião destes 81. Hábitos e costumes. na narrativa e respostas dos informantes. Falam. "Sentimentos Comunitários" e "Integração". que 81. quando percebem o trabalho de luto como melhor compreendido e ajustado a padrões ritualísticos de instâncias desindividualizadoras. Estas categorias são as seguintes: "Respeito Pelo Morto E Pelo Luto". mais integrados. perdido ou a esvanecer-se no Brasil atual. a terceira. pela maioria da população brasileira. Para estes. por fim. de acordo com a credibilidade das instâncias desindividualizadoras que pareciam gerir a vida de seus habitantes. levam a uma espécie de idealização do passado brasileiro como mais coeso. com 13. Lugar onde. 229 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . deste modo. com um percentual de 13. Ser Discreto Quadro n. 32. com 47. As afirmações de sentidos presentes nas três alternativas postas pelos informantes para expressão do sentimento do luto. informa que no passado recente brasileiro havia mais "Respeito Pelo Morto E Pelo Luto". de sentimentos comunitários.13%. a visão do passado traz uma certa nostalgia do olhar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only.85% das respostas. para entender como no presente sentiam o sentimento do luto no Brasil.

e a do Luto Como Um Inflamar. por toda a comunidade de onde o morto fazia parte. as narrativas expostas no seu artigo se encontravam distribuídas por vários modos de vivência do enlutamento. pelo menos no imaginário destes 81.foxitsoftware.com For evaluation only. também. Onde o sofrimento causado pela morte do ente querido parecia ser regrado pela sociedade e experimentado. em seu artigo "Emmène-Moi au Cimetière84".13%. As três categorias. 230 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Expressam um estado de espírito idealizado onde o luto era vivido. Yhuel (1995. Para ela. a do Luto Como Uma Pele. a do Luto Ritualizado. através de uma presença forte do social e dos significados morais atribuídos ao rigor e ao respeito aos ritos de passagem que faziam parte dos processos da morte e do luto na sociedade brasileira de ontem. de distintas categorias e vivências sociais. divide os depoimentos em tipos categoriais de luto experimentado por cada depoente.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto existiam um sentimento e um sentido moral mais forte do que os indivíduos que os faziam ajustar-se aos ritmos da cultura e da organização social local. os sentimentos comunitários e o espírito de integração. 76 a 93). falam de maior respeito ao morto e à morte. que reúne um conjunto de depoimentos sobre trabalhos de luto desenvolvidos por diferentes pessoas de origem francesa. 84 Tradução: Leve-me ao Cemitério. Para cada um desses modos ela propôs uma categoria. em diferentes níveis. a do Luto Recusado. e dividiu os trabalhos de luto apresentados em cinco categorias: a do Luto Impossível. Descrevem. pp. 1996) vivida socialmente. assim. Os ritos de passagem canalizavam o processo individual de cada um para uma espécie de cartase (DURKHEIM.

ou em uma recusa 231 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . uma forma de nova consciência adquirida pela morte do ente amado.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. que parece fazer parte da maior parte das camadas médias na França. referem-se. através de um estranhamento para com o social. O que possibilita à família. expõe um trabalho de luto dentro dos padrões e rigores de uma sociabilidade regrada por hábitos. Movimento de estranhar que implica. As outras quatro categorias de luto apontados no trabalho de Yhuel. à experiência individualizada da perda. por seu turno. a do Luto Ritualizado. em um maior distanciamento do indivíduo que sofreu a perda do social. As expressões do luto de alguém. um revigoramento de sua própria participação social e uma reintegração ao cotidiano mais fácil.foxitsoftware. O que aumenta consideravelmente o sofrimento pessoal e a solidão de cada um.13% dos entrevistados. Ser Discreto A segunda categoria. ou como um inflamar. que viam o processo de luto no passado recente brasileiro como mais integrativo e com valores morais e comunitários mais densos. que vive o ritual intensamente. sempre. e ajudam uns aos outros na dor da perda. Estas quatro categorias falam da impossibilidade e da recusa de vivência do luto. pela cooperação e participação de toda uma comunidade no seu processo de luto. Todas vistas a partir de uma dificuldade de compartilhamento do sofrimento com um outro social ou com uma instância ou instituição desindividualizadora. costumes e valores coletivizados. ou de uma família são experimentadas por toda uma comunidade. Todas vividas na interioridade do sujeito que as experienciam e todas conclamadas como uma marca de eternidade que tocou e transformou a vida pessoal de cada um daqueles indivíduos em dor. ou aos entes que ficam. ou do luto impregnado nas entranhas do ser em sofrimento. Este tipo de vivência do luto parece ser o mesmo idealizado pelos 81.

o fazendo parte integrante do processo societário mais geral. parece refletir o refreamento pessoal. na qual passam a agir e remontar o seu sofrimento a partir de um sofrimento social mais amplo. através da interiorização do sofrimento. nas relações societárias do luto. No árduo processar-se.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. fazem contraste agudo com a forma do luto ritualizado em extinção. Ou. Ser Discreto deste mesmo social.foxitsoftware. Este individualismo nas formas de individuação experimentadas pelos indivíduos nos processos de luto. O último compondo-se. O que parece dificultar o trabalho individual de luto. que leva o indivíduo para um despertar de uma nova consciência. como um outro distante e estranho. Ao idealizarem. de instâncias comunitárias na regência do processo integrativo da pessoa. ainda. que discrimina e isola ou que provoca vergonha e ressentimento nos enlutados. cria marcas individuais em cada indivíduo que vive um trabalho de luto. O social aparece. e no administrar o sofrimento pessoal do enlutado. sobre o processo de luto. e revela formas de ação a partir da própria experiência individual enquanto sujeito em dor. prioritariamente. a pulverização de laços sociais e a vergonha de enfrentamento público. no Brasil de hoje. Afigura 232 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . parecem coincidir com o processo de idealização de um passado recente imaginado pelas camadas médias urbanas no Brasil. estão ponto em contraste o isolamento vivido ou que verificam em crescimento acelerado nas relações societárias sobre o processo de luto no país. Estas categorias apontadas por Yhuel. O destaque dado ao passado por estes 81.13% dos informantes.com For evaluation only. As quatro primeiras categorias de Yhuel exprimem um processo de isolamento do sofrimento de cada um como uma dor internalizada e não societária por excelência. deste modo. assim.

Aparece como uma instância de negação da expressão individual e. encobertos por uma aparência moral contida nas regras de etiqueta rígidas das formas sociais de luto vivenciadas pelo brasileiro de classe média de antigamente. O indivíduo colocado em conflito. a sociedade e os outros da relação como depositários e introdutores de uma igualidade que "barra o caminho da auto realização ou do avanço da personalidade individual . também. As duas categorias com que expressam a positividade do luto no presente brasileiro. Diferente dos demais 18. de inibição e refreamento das condutas a etiquetas que falsificam o sentimento em prol de uma admoestação ou censura comportamental. com 9.. normatizar e domesticar as ações individuais do luto no imaginário destes informantes parece agir como uma instância de constrangimento ao crescimento da individualidade. ao regrar.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. difere positivamente.51% das respostas. O trabalho de luto hoje. assim. por 233 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ao mesmo tempo que uma idealização de um tempo onde a integração era possível e desejada. para eles.com For evaluation only. e com uma maior intensidade de sentimentos.87% dos informantes. O passado. diferente e único frente ao social parece ser a idéia em que se assenta o imaginário destes informantes. o processo de luto hoje em dia. enquanto tal. para estes informantes.foxitsoftware. parece ser vivido com mais liberdade. Vêem.36% e "Existe Maior Liberdade". a incapacidade de uma reintegração ao social. nas relações societárias do Brasil urbano. das expressões das emoções e da liberdade de ação dos indivíduos. são as de: "Existe Mais Sentimentos". Para estes. após a vivência do luto. com 9. que no passado recente brasileiro. A primeira categoria refere-se aos sentimentos expressos no passado como falsos. tencionado.. Ser Discreto demonstrar. das relações do passado. (já a sociedade.

e carentes de compreensão. deste modo. parecem perder o sentido. sentem falta de uma audiência em que possam expressar as suas emoções. que passam a comunicar-se com os outros através de um distanciamento social.foxitsoftware. é) composta de uma massa inerte de pessoas obscuras e indistinguíveis que ameaçam empurrar a todos para um mesmo nível inferior" (Elias. no padrão social atual informado por estes 18. ao deixarem de ser comunicáveis.87% dos entrevistados. O que amplia o sofrimento individual. Do mesmo modo que almejam e celebram a liberdade pessoal e da expressão e maior intensidade de sentimentos.com For evaluation only. vêem a si próprios como determinação da própria vida e dos próprios atos e. no conflito estabelecido com o social. no aprofundar as marcas pessoais de cada um. contraditório e simultaneamente. amplo. como seres introspectivos e solitários. Ser Discreto sua vez. parecem cair na expressão individualista da ação social. Conclusão 234 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . perdem o poder de comunicabilidade e. Afigura-se. onde apenas o valor mercantil da troca tem sentido. cada vez mais. Ao mesmo tempo que. 75). desta forma. e de que cada um pode e deve viver as suas emoções como bem desejar. deste modo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ao enfatizarem a não importância do outro para expressão dos sentimentos. intensos. a solidão e as dificuldades de ação dos indivíduos no cotidiano. p. Os sentimentos e afetos. 1994. é sentido como expressão das dificuldades de comunicação com o outro. e com uma ansiedade de descoberta ou de serem descobertos. O refreamento dos afetos no público.

Buscou enfatizar. para os quais o luto hoje. na experiência atual. foram apontadas a individualidade e a subjetividade como fundamentos de liberdade e expressão pessoal na vivência do luto. contrapostas com a presença mais forte da sociedade no controle do luto de seus membros.com For evaluation only. Que sente o indivíduo individuado ou em processo de individuação no trabalho de luto. vistos por uma parcela dos informantes.foxitsoftware. Discutiu o luto como demonstração social. Estes. ou seja. Esta última foi enfatizada. os aspectos ligados ao lado mais social e a importância deste para o trabalho pessoal de luto de cada indivíduo social. tem-se revelado como uma experiência mais salutar do que a do passado recente. como o despontar do indivíduo enquanto ser subjetivo. E o lado sentimental. nas respostas dos informantes. Ser Discreto O presente capítulo procurou compreender a relação social do luto no momento de transição social por que passa o Brasil contemporâneo. A solidão é sentida pelos entrevistados a partir de uma postura de olhar que entende o indivíduo acima da sociedade. sobre as regras sociais. a expressão de outra parcela de informantes. na sociedade brasileira. enfatizam a individualização do processo de dor na subjetividade do sujeito que a sofre. em uma comparação com o presente. Discutiu. Esta modernidade da individualidade do sujeito frente ao social afigura-se por situar melhor a dor da perda nos mecanismos da 235 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . também. privado. ou no sofrimento por ele causado. e oposto ao público. através das narrativas dos informantes. e como uma forma de diferenciação social da família para com a sociedade como um todo. através da visão sobre uma possível hipocrisia das relações sociais e da solidão do indivíduo no social. Neste caso. e os realces dos aspectos positivos do processo de luto no Brasil de outrora.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

com For evaluation only. ao que parece. O constrangimento pessoal para assumir formas de expressão pública do luto. ou onde perdeu-se. O que vem se configurando em um movimento que só faz aumentar as dificuldades encontradas de exposição do sofrimento. e da visão desta disputa. Ao mesmo tempo que parece enfatizar as marcas da instabilidade e do não saber situar-se perante as novas regras do jogo social. e da memória afetiva do morto com relação à família e à sociedade. desta maneira. associado da culpa. parecem provocar uma ruptura e ao mesmo tempo a emergência do indivíduo sobre a sociedade. Ser Discreto rememoração dos laços com o falecido ou por ele facilitados. no decorrer deste capítulo. deste ou por este desconhecimento.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. que não se sabe bem o que. as relações estabelecidas com o núcleo familiar. ou da solidariedade nas relações sociais do luto. O processo do luto ficando assim. recompondo. no olhar e na experiência de cada indivíduo. Um distanciamento da pessoa no social e.foxitsoftware. o de não saber agir e o constrangimento e a vergonha. e a falta de compreensão dos sentimentos. ao relacionarem o sentido atual do luto contraposto com as expressões do passado. bem como. ao sabor da disputa. a expressão da importância e da permanência do valor da instituição familiar. e o sentimento de culpa do não saber como comportar-se perante a ruptura que irrompe com o sofrimento e com o inconformismo pela situação experimentada. 236 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a ansiedade de ser encontrado e satisfeito por alguém ou alguma coisa idealmente perdida em algum lugar do passado. ao mesmo tempo. O que amplia as margens de insegurança do agir. parecem ser as conseqüências mais visíveis. apresentadas pelos informantes.

E esta divisão é aceita como tão natural.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. pp. 188).foxitsoftware. como uma demonstração social. torna-se um hábito tão compulsivo. O impedimento tácito à expressões intensas de sentimento. Ser Discreto Conclusão "Com o avanço da civilização a vida dos seres humanos fica cada vez mais dividida entre uma esfera íntima e uma pública. no comportamento e nas atitudes das camadas médias urbanas que vivem nas capitais dos estados brasileiros. 440). O processo de luto foi compreendido como uma relação social. entre comportamento secreto e público. Este livro buscou compreender as atitudes em relação ao fenômeno do luto no Brasil. como exemplos de mudança nas antigas práticas e relações sociais em torno da morte e do luto nas sociedades de tradição 237 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . e da integração do morto às malhas do social. foi o seu principal objeto de análise. "O que está na origem do luto é a impressão de enfraquecimento que sente o grupo quando perde um dos seus membros" Èmile Durkheim (1996. A descrença nas fórmulas rituais de sujeição social da dor pessoal de quem sofre uma perda. foram tomados aqui. O significado social do luto e o processo de individuação de quem o sofre. através de uma série de ritos de passagem. que mal é percebida pela consciência" Norbert Elias (1990. e como uma forma de diferenciação social do indivíduo em sofrimento para a sociedade como um todo. O ritual do sofrimento provocado por uma perda foi o ponto de partida e de término desta reflexão.com For evaluation only. pp. e o modo higiênico no trato do morto.

O sentimento de fracasso e a expectativa de desilusão dos indivíduos no ritual introspectivo do sofrimento. nostalgicamente. como uma relação individual e. na subjetividade dos sujeitos que a vivenciaram. Neste livro. vem impondo códigos de naturalização e de anonimato à morte. constrangido e envergonhado no interior do sujeito.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Efeitos de decepção e engodo. O que evidencia uma fragmentação dos sentimentos coletivos. os códigos do luto e da morte foram apreendidos no seu processo de mudança. 238 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Parece estabelecer-se como um universo do silêncio e solidão. não social. o sofrimento do luto. perdido na memória individual do enlutado. que compõem o trabalho do luto. afigura-se por revelar-se como nostalgia do ausente. como se o sofrimento pessoal de uma perda poluísse o social e contaminasse os demais com a presença da morte e do sofrimento alheio. Universo configurado em um tempo e em um espaço singular e solidário. apenas. Ser Discreto ocidental. deste modo. vem configurando-se. Partiu-se da hipótese de que a morte e sua relação com o mundo dos vivos no Brasil atual parece ter sido capturada por códigos mais individualistas e não mais através de expressões de uma sociabilidade relacional. em um caminhar para uma vivência unicamente privada. ou para um realizar-se. No conjunto das relações sociais da atualidade brasileira. Este livro buscou analisar as relações sociais brasileiras através deste legado.foxitsoftware. a tendência parece ser a de uma reprovação ao luto público.com For evaluation only. O sofrimento causado pela perda e o processo de internalização do morto em um indivíduo. e se expressam pelo receio social de contaminação e através da vergonha de sentir-se enlutado. Para uma realização.

finalmente. O estudo do fenômeno do luto. também. Interessou a este livro verificar o lado público do sofrimento de quem fica. tendo por referência as camadas médias urbanas que vivem nas capitais dos estados. O entendimento desse ritual solitário do sofrimento. e busca fundamentar as bases da experiência e da troca da pessoa na sociedade. Como objetivos específicos. Embora. indagar sobre as reações a vivência do luto. o significado social da dor no imaginário brasileiro. tentouse compreender por quais mudanças tem passado o fenômeno da dor do luto até os dias atuais no Brasil. realizar uma incursão histórica sobre o processo de mudanças de atitudes e de mentalidades em relação à morte e ao luto no país.foxitsoftware. assim. na literatura sobre as representações sociais da morte e do sofrimento causado pela dor da perda. enquanto processo simbólico. na revisão bibliográfica. E. procurou-se.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O objetivo central deste trabalho foi a compreensão das atitudes recentes em relação ao fenômeno do luto no Brasil. atentar. Este livro enfatizou. fundamentos da sociedade. primeiramente. faz parte assim de uma Sociologia da Emoção. entre outros. bem como as formas por onde se dão os processos de elaboração e formação da pessoa singular e da interação social. que tem sido enfrentadas pelos homens comuns. e no mundo ocidental do qual faz parte. a questão dos sentimentos enquanto expressão social. e social da despedida. Mergulhou. no momento seguinte imediato à constatação da morte. foi preciso. foi realizado 239 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto Para compreensão deste fenômeno.com For evaluation only. enquanto compreensão da dor da perda e do sofrimento. Em segundo lugar. procurou-se percorrer os caminhos que entrecruzam a Psicanálise e as Ciências Sociais. para melhor compreender as questões que nortearam a pesquisa. para o entendimento de como foi internalizado. como instâncias simultaneamente individual e social.

ou o seu contrário. através do emaranhado de ilusões e expectativas formadoras do sujeito. 240 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . pelo como a sociedade cria e estabelece os processos integrativos necessários à sobrevivência do social a partir dos indivíduos. também. O que encaminhou o trabalho para o abandono da hipótese inicial e para um novo tipo de indagação sobre o processo em que se debate a população urbana brasileira em relação ao uso de hábitos e costumes e suas representações ligadas ao ritual da dor e da morte.com For evaluation only. O conjunto de respostas enviadas pelas diversos centros urbanos brasileiros que compõem o universo desta pesquisa. e possibilitaram a realização de um mapeamento do sentimento brasileiro sobre o luto e o morrer. inquietações ou indignações a respeito dos costume e hábitos ligados à pratica do luto e da morte no país.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. ou presas à tradição. e capitais dos vinte e sete estados da nação. E.foxitsoftware. A apreensão dos significados apresentados pelo conjunto das respostas indicaram inquietações muito além das expressões de um ato individual em si. bem como a elaboração de um roteiro compreensivo para a análise da relação entre o luto e a sociedade no Brasil contemporâneo. Uma primeira surpresa na análise dos dados levantados foi a verificação de que não existe um processo de equivalência entre um maior centro urbano e um menor número de respostas favoráveis a práticas ritualísticas ligadas ao luto e aos processos da morte e do morrer. Ser Discreto através do entrecruzamento de gestos. deste modo. A construção social da dor e do sofrimento passou a ser entendida. em constante movimento de mudança e permanência. de expressões e de atitudes. são muito próximos nas suas indagações.

A exposição pública do sofrimento vem se realiza. a recusa ou a expressão discreta de condolências. do outro. configuraram-se na realização de um movimento nostálgico de individuação. A mágoa e a inquietação quanto a falta de solidariedade ao sofrimento de quem sofre uma perda. São encobertos socialmente pela vergonha da exposição pública. particularmente do luto. no Brasil atual. Movimento onde se misturam. como se a dor causada pelo sofrimento pessoal de uma perda contaminasse os outros com a presença da morte. O sofrimento e o processo de introjeção do morto em si. cada vez mais.foxitsoftware. No conjunto das relações pessoais a tendência atual é a de uma reprovação tácita ao luto expresso publicamente. tecida por uma condenação velada do sofrer em público. que compõem o trabalho de luto. O estranhamento da demonstração da dor e do sofrimento em público. de um lado. como subjetividade. Ser Discreto Foi necessário se debruçar na análise de expressões emitidas por regras de etiquetas. parece vir se consolidando como tendência de universalização de uma nova sensibilidade no trato das emoções. assim como das narrativas dos informantes. através da criação de interseções entre o imaginário individual e social.com For evaluation only. situam-se. o sentimento difuso de exclusão social. desta maneira. assim.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. no Brasil atual. para compreender a visão e o sentimento do fenômeno do luto. e das mudanças sociais e comportamentais experimentadas no trato da morte e do morrer no Brasil urbano. a perda de sentido do mundo e. e como uma espécie de império da memória pessoal do enlutado. e o ritual solitário do sofrimento no processo do luto. 241 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . O que parece ampliar o refreamento das ações de partilha e o mascaramento do sofrimento em quem fica.

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como uma forma de intimidade, ou como uma expressão íntima e privada, que, ao mesmo tempo que recusa o outro, busca e sente falta da expressão social da solidariedade. O papel da emoção vergonha na conformação da sociabilidade moderna e contemporânea no Brasil, aparece e se constitui, deste modo, recheado de ambigüidades. Parece emanar através do confinamento das emoções na pessoa, banindo os afetos do social para o âmbito do segredo. Constitui-se, assim, através da imposição no indivíduo de uma postura reservada perante as emoções, e da exigência de um caráter desconfiado e mantido sob auto controle. Na confusão das formas de expressão contemporânea deste sentimento de vergonha no Brasil, o auto controle é visto, muitas vezes, e assumido, como culpa pessoal dos indivíduos em sofrimento. É esperado, assim, dos sujeitos tocados pelo luto, uma forma de agir discreta. Discrição, dos mais íntimos, à perda dos que sofreram um luto. Discreto, também, deve ser, o comportamento do enlutado nos diversos trâmites socialmente valorizados de despacho do corpo e da expressão de sofrimento público no processo de despedida (velório, enterro, missa de sétimo dia, etc.). Este caminho apontado de individualização, parece ser a tônica moderna do processo de luto no Brasil urbano. A indiferença e o fingimento, associado ao anonimato e à banalidade no trato público da morte, fazem parte da experiência contemporânea do luto no social. Processo de sofrimento e de interiorização da perda que se vê jogado para a intimidade do sujeito, que passa a vivenciá-los na solidão, aumentando o sentimento individual de exclusão social.

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O choque entre uma tradição relacional de um passado recente e de uma profunda descaracterização dos costumes e processos integrativos do urbano moderno parecem, assim, dar mais ênfase à falta de lugar no social, à não cidadania e à solidão do homem comum de classe média brasileiro. A economia moral do sofrimento pela perda, na sociedade brasileira de hoje, configura-se na passagem pelo eclipse do sofrer. Retira a emoção do social para o íntimo, como uma forma de deter os efeitos da individuação de quem sofre a privação e dos perigos que tal processo representa para o social. Enfatiza, deste modo, pela as relações do ser mercantis do individualismo, conduta do

movimentadas

idéia

discreto

enquanto

comportamento civilizado. As regras sociais parecem, desta maneira, passar a viger apenas no sentido mercantil, através do individualismo que nega a individuação como processo interativo da pessoa na sociedade. A tendência da nova sensibilidade emergente no Brasil, como vem sendo construída socialmente, se forma através da resignação ao social, como o constructo possível do ser moral na modernidade. A idéia do fracasso e da desilusão do sujeito no ritual introspectivo do sofrimento, impõem códigos de naturalização e de anonimato à morte e ao processo social da dor. O que parece evidenciar uma fragmentação dos sentimentos coletivos e uma expressão de um vago receio e vergonha de sentir-se enlutado ou solidário. Afigura-se, deste modo, no condenar o trabalho de luto a realizar-se como unicamente desilusão do mundo, ou como uma conotação solitária de um sujeito em descompasso, em seu sofrimento, do social. Efeito de decepção e engodo, o luto pessoal do sujeito que sofre uma perda, como conseqüência de sua subjetivação e falta de expressão no
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social, e pela ambivalência resultante na vergonha como individuação e a reprovação e o estranhamento público, parece vir sendo constituído, enquanto tendência, em um delírio de expectativa. Intercessão entre o desespero e o tédio, a dor da perda subjetivada e sem expressão no social, reproduz-se como ausência de projeto. A individualização crescente das relações sociais no Brasil atual, vem afigurando-se na tendência de um refreamento do processo de individuação do sujeito que sofre a perda, através do mascaramento da dor do sofrimento e da morte. Essa tendência social de escamoteamento da expressão pública dos sentimentos e a valorização da interiorização, enquanto espaço da intimidade, do privado, ou da subjetividade, cria uma pré disposição permanente no indivíduo à desconfiança no outro, e por extensão, no social. Parece tender a ser administrado socialmente através do princípio do desempenho. Como informou Marcuse (1968), em seu estudo sobre a formação do indivíduo na sociedade industrial, a necessidade do bom desempenho deve suplantar as questões dos sentimentos, tratados na e pela lógica mercantil como pertencentes à esfera do privado, ao espaço da intimidade. A vergonha da demonstração pública do sofrimento ou da

solidariedade, ou o não saber o que fazer com relação aos afetos alheios, parecem vir se constituindo em uma espécie de automatismo das relações societárias, e pelo afastamento ou abandono do sujeito de sua perda. A experiência da perda afigura-se, deste modo, no constante transformar em vazio todo o processo de vida e criação. Através do princípio de desempenho amplia-se e estende-se a tendência de uma negação de si próprio e dos outros em relação. Amplia-se, assim, o espaço da solidão, pela instrumentalização das ações que
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mobilizam as relações mercantis, através da concorrência. A nostalgia, ao mesmo tempo que aprofunda-se na subjetividade, desloca o mesmo ator do social, através da dicotomização entre o público e o privado. A emergência do indivíduo no Brasil de hoje parece vir se fazendo pela negação das práticas relacionais, e pela emergência do individualismo. A ambivalência das atitudes individuais perante o morrer e a dor quase física da privação parece, deste modo, ser enfatizada, nesse processo de dessacralização dos processos integrativos da pessoa na sociedade. Constrangida ao interior do sujeito, este passa a relacionar-se e movimentarse publicamente através da indiferença. O processo de distanciamento do sentimento exclui qualquer emoção. Mesmo a emoção advinda em forma de culpa, no indivíduo que sofreu a perda, no processo racional de interação social. A individualização obtida pela indiferenciação, deste modo, e pela negação da individuação enquanto processo social, repõe o sujeito em si, no social, como psicologia, e o processo de individuação é sentido, a partir de então, enquanto processo privado. A crescente descrença nos rituais sociais de integração do sujeito em processo de individuação, que parece tomar conta do modo de ser brasileiro, hoje, e a individualização emergente, coloca em discussão a questão da fragmentação da pessoa enquanto indivíduo em sociedade. O indivíduo, assim, parece recusar as regras relacionais tradicionais, simultaneamente ao fortalecimento de um sentimento de insegurança e de incapacidade de tomar posições, no interior de regras higiênicas aos moldes do mercado. O individualismo no Brasil, desta maneira, parece que vem se constituindo através do controle social dos processos de individuação. As emoções tidas como fundamento do indivíduo enquanto instância privada,
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são apropriadas socialmente como expressões do desejo e tratadas como relações mercantis próprias ao consumo, ou como questões específicas do individual85. A pulverização da pessoa vem se fazendo através da fragmentação de papéis sociais e da tendência para uma radicalização do individualismo nas relações sociais. O processo de escolha recai, cada vez mais, radicalmente, sobre os indivíduos. O desempenho, por sua vez, parece ser visto como um produto da desilusão sempre renovada do encontro entre dois mundos, o privado e o público, e da indiferença dele resultante. Ariès entende por morte interdita o processo através do qual se institui no social contemporâneo a cultura mortuária na sociabilidade contemporânea. A espoliação do moribundo, a simplificação do ritual funerário, e a recusa do luto faz parte desta instituição. No processo contemporâneo de interdição, a morte parece ter-se tornado um tabu, que não se deve falar em público nem tampouco obrigar aos outros a fazê-lo. O processo de privatização da morte e do morrer foi se instalando paulatinamente no Brasil do século XIX, através de uma separação da idéia do destino do cadáver e do destino da alma. A sensibilidade do homem do final dos oitocentos parece ter mudado para uma

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Muitos entrevistados falam do medo de morrer sem ter um lugar para ser enterrado. Os mais velhos demonstram esta preocupação com o desejo de adquirir um terreno em um cemitério, para construir um mausoléu para si e para sua família. Estas questões também foram mencionadas pelos entrevistados no estudo de Ferreira (1995), sobre os processos de memória e de identidade social na velhice. É interessante perceber, também, a propaganda que vem se estabelecendo no Brasil contemporâneo sobre o lugar para a última morada. Muitos cemitérios tem aparecido recentemente, em muitas capitais brasileiras, e o apelo da propaganda para um lugar saudável, limpo e bonito para o estabelecimento da última morada é enfatizada em comerciais televisivos, ou em propaganda impressa, mostrando o conforto para os que lá são enterrados e um ambiente de paz e lazer para os que ficam.
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nova forma menos apegada aos domínios do sagrado e mais ligada às coisas profanas. A instância desindividualizante do acreditar-se na morte e no morrer como passagem para uma outra vida, já não credibiliza a existência de uma outra vida como fé. Já não minora completamente a dor ocasionada pelo sofrimento e pela experiência da perda, através da sua ritualística, através da fé pessoal de cada um. A ambigüidade nas relações e nos sentimentos expressos afigura-se em ser, assim, o eixo central por onde deve ser pensada as relações de sociabilidade no Brasil do século XXI. A discrição parece movimentar a ação imaginária dos informantes, sobre o papel comportamental de um indivíduo em sofrimento. No final do século XIX , o morrer e a morte foram retiradas progressivamente do ritual público que as circundava. Este afastamento foi movido, em parte, pelo medo causado pelas epidemias que tomaram de assaltos as cidades brasileiras nas últimas décadas do dezenove, e pelo discurso das autoridades sanitárias de controle à saúde pública e pessoal. A tradição de guardar, velar e sofrer pelos seus mortos sob uma regência pública, bem como, o de dialogar com eles, ou mesmo, o esperar e receber o apoio da sociedade para a superação do sofrimento e para a completa reintegração no social dos enlutados, embora em declínio e menos acentuada do que no final do século XIX, permaneceu por várias décadas do século XX, até aproximadamente o decorrer dos anos de 1960, entre os habitantes urbanos brasileiros. As convenções de estilo, as formas de intercâmbio social, e um maior controle social das emoções, expressos em um controle dos gestos, da postura, do decoro corporal externo, do olhar, da expressão facial, entre outras atitudes comportamentais, representam, contudo, a emergência de
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Constrangido em seu sofrimento pessoal pela perda recente. enfim. O análise do ser discreto em formação no Brasil. assim. também. em espelhar um tipo de comportamento pessoal desconfiado e. pela busca da não intromissão na privacidade do outro. hoje. enquanto comportamento pessoal frente as expressões das emoções. Parecem refletir uma atitude blazé. Este caminho vem se dando através do agir com discrição e como uma espécie de dever ser moral para todos aqueles atingidos por uma perda.foxitsoftware. os indivíduos parecem sentirem-se incomodados pelas tentativas de aproximação de um outro. ou pela vergonha de não saber como demonstrar as condolências a alguém vitimado pela dor. e da reprovação social ou do estranhamento público. através de um processo de ambivalência das atitudes pessoais. desvendando-o e comprometendo o seu espaço individual no social. Ser Discreto uma nova economia de afetos. e composto por uma leve indiferença no olhar e no gestual. apresenta-se como a espinha dorsal por onde se pode compreender a construção social do indivíduo urbano brasileiro de classe média. de sua 248 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ansioso. Configura-se. resultante da vergonha pela individuação a que um indivíduo se vê exposto. na cultura urbana brasileira dos últimos trinta anos. deste modo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. do homem citadino na metrópole contemporânea. A perda pessoal do sujeito é sentida. deste modo. Seja pela repressão das atitudes espontâneas de sentimento. e pelo anonimato em que parece satisfazer-se a afirmação da individualidade no momento de consolidação do capitalismo. analisada por Simmel (1967) no início do século XX. ou seja pela auto disciplina. Atitude vista como uma forma de comportamento pessoal distante. Como uma conseqüência.com For evaluation only. Ambos os processos afiguram-se. ao mesmo tempo.

objetivada em objetos ou pessoas. também. O sofrimento. provoca o sofrimento em um indivíduo. parece revelar uma tendência social no Brasil atual de escamoteamento da expressão pública dos sentimentos. Emergiu. e através da somatização de uma perda 249 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . como parte da afirmação de que a perda. deste modo. Compreende. a valorização da interiorização dos afetos enquanto subjetividade. parece reproduzir-se como ausência de projeto no indivíduo em sofrimento. também. Resultado da falta de esperança e do sentimento de que algo esteja prestes a acontecer e eminente a desabar sobre si.foxitsoftware. Ser Discreto subjetivação e falta de expressão no social. se encontra em relação ao conteúdo de posse ou de aproximação entre o sujeito que a perdeu e o objeto ou pessoa perdida. A relação entre a perda. A gradação na intensidade de sentimentos envolvidos em uma perda específica. Intercessão entre o desespero e o tédio. enquanto sentimento moral. O processo de individuação do sujeito que sofre a perda.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. e o sofrimento parece ter-se evidenciado entre os informantes. assim. e por extensão. e tende a tornar-se melancolia. a dor da perda subjetivada e sem expressão no social. através da busca de demonstração de uma indiferença para com as formas culturais de representação da dor e da morte tradicionalmente usadas. o espelhar o estado de fragilidade que a pessoa que sofreu uma perda se encontra no momento de tomada de consciência do que perdeu. neste caso. Afigurou-se. assim. nesta pesquisa. no social. pela visão do sofrimento como uma conseqüência da perda. Além de criar uma disposição prévia e permanente nos indivíduos à desconfiança no outro. se realizaria como uma espécie de dor moral e física.com For evaluation only.

de algo perdido. As relações com o social aparecem como secundárias. eterno.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. que tende a ultrapassá-los pela plenitude e eternidade de sua constância.foxitsoftware. não saber ao certo o que e o como esqueceu. também. É a subjetividade do sentimento que melhor define para os informantes o estado do luto. pelo estabelecimento de uma espécie de sentimento contínuo. um modo mais difuso de expressão. a não ser a da confiança em não ter confiança legítima nas instituições e coisas públicas da ordem social. por serem vistas como públicas e fora do sujeito. O mundo sem confiabilidade. irremediavelmente enraizada no interior dos sujeitos. como um sentimento de impotência ante o objeto ou pessoa perdidos. reforçando. Ser Discreto objetiva no indivíduo. sobre as noções de luto demonstra a ambigüidade e a dificuldade da vivência do trabalho de luto na sociedade brasileira atual. e pela presentificação contínua e repetitiva do não olvidar mas. A polarização do Brasil urbano. o sentimento difuso de perda e o sofrimento a ela inerente. A sua realização configura-se através da desilusão do mundo. O sofrimento que informa ameaça. O conformismo fantasmático e o ceticismo parecem assim serem as formas de enfrentar o mundo. é o ponto central da definição do luto. exteriorizando-se em uma atemporalidade sem passado e sem futuro. 250 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . ainda. pulverizado e disperso no interior do sujeito. O indivíduo em sofrimento por uma perda de alguém querido. Este modo de referenciar a relação entre sofrimento e perda. nesta relação entre a perda. Ao mesmo tempo. entre os informantes.com For evaluation only. e a conscientização desta perda em si. parece expressar esta relação com a de um sentimento estilhaçado. ultrapassar a própria vida do sujeito. A perda passa a ser alguma coisa presente. assim. assim. A relação entre sofrimento e perda configurou-se.

bem como o aumento crescente do sentimento de depressão e insatisfação consigo próprio. nas relações sociais. desde os anos de 1970. Ou mesmo.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. De uma vida pública para uma vida privada onde o espaço íntimo. um elemento de exclusão social. As queixas crescentes relativas ao estresse da vida cotidiana na vida das capitais dos estados.com For evaluation only. Tanto na brevidade das visitas e nas formas de demonstração de solidariedade. ou na forma de tradição cultural e social. hoje. permitir uma vivência em coletividade do processo de enlutamento. parecem estar associadas a este processo ambíguo de autopoliciamento e de vontade de exposição. ou esta coletividade não tem mais o vigor de aquietar as tensões e conflitos resultantes da experiência da perda de um ente querido nos indivíduos nele envolvidos. como um processo solitário. ao mesmo tempo que cresce e se expande torna-se. Ser Discreto De um lado.foxitsoftware. Uma forma de exclusão da subjetividade do espaço social e público 251 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . o luto parece ser vivido na atualidade das relações sociais da sociabilidade urbana brasileira. Na solidão dos sujeitos que o experienciam. Encarado em sua forma introspectiva. quanto no distanciamento tático. A experiência tradicional do luto não parece. De outro lado. a perda progressiva da força da simbologia e da tradição das instâncias desindividualizadoras no Brasil. As relações sociais do luto passam assim a serem mantidas com a máxima discrição possível. também. o estranhamento e o distanciamento parecem fazer parte da experiência do luto nacional. parece ter provocado também seqüelas naqueles que ainda hoje a advogam. porque as instituições coletivas de apoio não mais possuem a legitimidade de assegurar o conforto necessário para a introjeção do corpo morto e para a saída do luto.

parece ter aumentado a insegurança no social dos sujeitos que a vivenciaram. 252 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . Ser Discreto onde se desenrolam as ações repetitivas que elaboram o cotidiano de um sujeito. parecem provocar uma ruptura no sujeito que sofre e. O que afigura-se. no prolongamento da sensação de desconforto dos indivíduos na trama e no drama social do luto O que faz crescer o estranhamento. como a do sofrimento causado pela morte. Ao mesmo tempo que afigura-se no enfatizar as marcas da instabilidade e do não saber situar-se perante as novas regras do jogo social. O que amplia a insegurança do agir. ao mesmo tempo. a emergência do indivíduo sobre a sociedade. ao relacionaram o sentido atual do luto contraposto com as expressões do passado e do futuro do presente.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. O não saber comportar-se em uma situação limite. ao sabor olhar e da experiência de cada um.foxitsoftware. o sentimento de culpa do não saber comportar-se perante a ruptura que irrompe com o sofrimento e o inconformismo pela situação experimentada. O que parece aumentar as dificuldades encontradas de exposição do sofrimento ou da expressão de solidariedade nas relações sociais do luto. Esta modernidade da individualidade do sujeito frente ao social parece situar melhor a dor da perda nos mecanismos da rememoração dos laços e da memória afetiva do morto com relação à família e à sociedade. As relações sociais do luto passaram assim a ser mantidas com a máxima discrição possível. assim. O processo do luto fica assim. ao que parece. forçando os indivíduos a adequarem-se à distância nos relacionamentos obrigatórios da vida cotidiana. recompondo a expressão da importância e da permanência do valor da instituição familiar. O constrangimento pessoal para assumir formas de expressão pública do luto e a falta de compreensão dos sentimentos.

parece. causado pela individualidade crescente e pela afirmação do privado. a ansiedade de ser encontrado e satisfeito por alguém ou alguma coisa idealmente perdida em algum lugar do passado. ao mesmo tempo. 253 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . a sensação estranha de não saber agir nesta situação específica.foxitsoftware. Este processo de distanciamento e de estranhamento do outro.com For evaluation only. e o constrangimento e a vergonha deste desconhecimento.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. parece ser a tendência por onde vem se construindo e se constituindo a sociabilidade brasileira urbana atual. Ser Discreto Bem como. ser provocado. em uma perspectiva individualista. assim. Um distanciamento da pessoa no social e.

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Tradução: Rituais funerários, luto e saúde mental.
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"Emmène-Moi au Cimetière". Penguin Books. (1944). 23 de agosto de 1998). Max. WEBER. n.foxitsoftware. 4 vols. pp. 76-93. 266 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . maio de 1994 e julho de 1994. pp. Max. Paris. 1 de dezembro de 1999). MAGAZINS E REVISTAS Claudia. Desfile. Buenos Aires. Deuils. Lisboa. Middlesex. Paídos. "Em nome da cura" (Veja. XI. "Morte também é assunto de criança" (Nova Escola. Sobre a Teoria das Ciências Sociais. Evelyn. YHUEL. "O duro exercício do adeus" (Veja. (1974). 75. junho de 1997. Vivre. Ser Discreto WAUGH. março de 1992. 27 a 29. In.com For evaluation only. C'est Perdre. WEIL. v. Paris. Isabelle. n. The Loved One. "Encarar perda da morte evita problemas" (Correio da Paraíba. novembro de 1999). La Pesanteur et la Grâce. Simone (1993). Éditions Autrement. 6 de outubro de 1999). (1961). Marie Claire. 1995..Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Presença. "Eclipse da dor" (Veja. Pocket. 94. Economia y Sociedad . de junho de 1996) "Sereno Suspiro" (Jornal da Unicamp. WEBER. 10 de agosto de 1994).

com For evaluation only. Ser Discreto Anexos 267 Mauro Guilherme Pinheiro Koury .foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

22 13.29 3.86 3.foxitsoftware.99 2. Estado e Região Cidade Onde Mora Belém Boa Vista Macapá Manaus Porto Velho Rio Branco Aracaju Fortaleza João Pessoa Maceió Natal Recife Salvador São Luís Teresina Brasília Campo Grande Cuiabá Goiânia Palmas Belo Horizonte Rio de Janeiro São Paulo Vitória Curitiba Florianópolis Porto Alegre Estado N 48 30 29 39 28 29 203 48 68 50 44 48 69 69 48 49 493 51 29 29 39 29 177 69 70 81 39 259 51 50 71 172 1304 Total % 3.21 2. Ser Discreto Anexo 1 .68 5.22 2.22 3. 1 – Número de Entrevistados por Cidade.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.22 2.68 2.38 3.29 5.20 100% Pará Roraima Amapá Amazonas Rondônia Acre Norte Sergipe Ceará Paraíba Alagoas Rio Grande do Norte Pernambuco Bahia Maranhão Piauí Nordeste Distrito Federal Mato Grosso do Sul Mato Grosso Goiás Tocantins Centro Oeste Minas Gerais Rio de Janeiro São Paulo Espírito Santo Sudeste Paraná Santa Catarina Rio Grande do Sul Sul BRASIL Mauro Guilherme Pinheiro Koury 268 .68 3.com For evaluation only.45 13.15 2.91 2.Quadros Quadro N.82 3.91 3.76 37.99 19.30 2.37 6.22 2.99 2.56 3.22 15.56 5.29 5.68 5.84 3.84 5.

03 60.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Masculino 2.97 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 269 . Feminino Total N 509 795 1304 % 39.foxitsoftware. Ser Discreto Quadro N. 02 – Sexo dos Informantes Sexo 1.com For evaluation only.

Ser Discreto Quadro N. + de 59 anos Total N 189 409 466 240 1304 % 14.37 35.50 31. 15 a 25 anos 2.73 18.com For evaluation only.foxitsoftware. 26 a 39 anos 3. 40 a 59 anos 4.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.40 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 270 . 03 – Idade dos Informantes Idade 1.

Ser Discreto Quadro N.com For evaluation only. Viúvo 4.35 8.59 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 271 .foxitsoftware.00 12.06 50.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Solteiro 2. 04 – Estado Civil dos Informantes Estado Civil 1. Divorciado Total N 379 652 161 112 1304 % 29. Casado 3.

Ser Discreto Quadro N. 05 – Freqüenta Religião Freqüenta religião? 1.Não Total N 1206 98 1304 % 92.48 7.Sim 2.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.foxitsoftware.52 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 272 .com For evaluation only.

Evangélicas 3.81 5.13 15.Católica 2.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.Espirita Outras Total N 894 187 58 67 1206 % 74.50 4.56 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 273 . 06 – Tipos de Religião dos Informantes Religião 1. Ser Discreto Quadro N.foxitsoftware.

foxitsoftware.com For evaluation only. 07 – Renda Familiar dos Informantes Renda Familiar 1.46 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 274 . 6 a 10 salários 3. + de 21 salários X Y Total N 237 543 382 135 1 6 1304 % 18.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 1 a 5 salários 2. Ser Discreto Quadro N.35 0.30 10.17 41. 11 a 20 salários 4.08 0.64 29.

Ser Discreto Quadro N. 08 – Escolaridade dos Informantes Escolaridade 1.98 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 275 .com For evaluation only.foxitsoftware.86 30.16 48.Superior Total N 289 611 404 1304 % 22. 2º Grau 3 .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. 1º Grau 2.

Ser Discreto Quadro N. Profissional Liberal e Militar 4.66 16.57 2. Estudante 9. Não Trabalha Total N 218 126 220 102 84 113 85 146 177 27 06 1304 % 16. Empresário/Comerciante 3. 09 – Profissão dos Informantes Profissão Atual 1.46 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 276 .87 7.44 8.52 11.82 6.67 6. Professor 5. Dona de casa 10.20 13. Trabalhadores de Nível Médio 7. Aposentado e Pensionista 2.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.com For evaluation only. Desempregado 11.72 9.foxitsoftware.07 0. Funcionário Público 6. Trabalhador Manual 8.

34 7.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Quadro N.foxitsoftware. Ser discreto 2. Comportamento no Luto O Comportamento no Luto 1. 10.60 15. Seguir a tradição 3.com For evaluation only.06 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 277 .Não existe comportamento ideal Total N 1012 200 92 1304 % 77.

foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.28 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 278 .01 9. Dar apoio 2. Ser Discreto Quadro 11 – Comportamento dos Outros no Luto O Comportamento dos Outros 1.Depende do caso Total N 244 939 121 1304 % 18.com For evaluation only.71 72.Não importunar 3.

Mudança nas condições de vida 5. Rompeu com a religião 4. Melhor compreensão da vida Total N 626 303 94 104 82 1209 % 51.78 25.78 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 279 .Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.06 7.com For evaluation only.foxitsoftware. Ser Discreto Quadro n. 12 – Definição de Si Após a Experiência da Perda O enlutado após a perda 1. Sentimento de Vazio 2.60 6.Quebra de relações familiares 3.78 8.

foxitsoftware. 13 – Conceituação de Morrer O que é morrer? 1.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.96 47. Algo que não deveria acontecer 4.55 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 280 . Uma passagem Total N 528 156 620 1304 % 40. Ser Discreto Quadro n.com For evaluation only. Findar 3.49 11.

Fim da existência 2. Ser Discreto Quadro n.foxitsoftware.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Transição 3. 14 – Conceituação de Morte O que é morte? 1.56 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 281 . A morte não deveria acontecer Total N 537 538 229 1304 % 41.18 41.26 17.

foxitsoftware.com For evaluation only.Não existe comportamento ideal Total N 1012 200 92 1304 % 77.06 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 282 . 15 – Comportamento de uma Pessoa que Sofreu uma Perda Comportamento pessoal 1. Ser discreto 2.60 15. Seguir a tradição 3.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Quadro N.34 7.

com For evaluation only. Ser Discreto Quadro N.Não importunar 3. 16 – Comportamento dos Outros a Pessoas que Sofreram uma Perda Comportamento dos outros 1.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Dar apoio 2.Depende do caso Total N 244 939 121 1304 % 18.28 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 283 .01 9.foxitsoftware.71 72.

Ausência 2Desaparecimento 3.Significados sobre a Noção de Perda O que é Perda? 1. Dano Total N 427 274 501 102 1304 % 32.01 38.75 21.com For evaluation only.82 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 284 .foxitsoftware. 17 . Perda de si 4.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.42 7. Ser Discreto Quadro N.

70 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 285 .Não Total N 1008 296 1304 % 77. 18 – Existe uma Relação entre Perda e Sofrimento? Perda e Sofrimento 1.foxitsoftware. Ser Discreto Quadro N.30 22.Sim 2.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

Diferença de Intensidade entre Pessoas e Objetos Total N 482 309 217 1008 % 47. Ser Discreto Quadro N.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.sim 1.com For evaluation only.82 30. É um Sentimento de Perda Eterna 3.foxitsoftware. A Perda provoca o Sofrimento 2.53 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 286 .65 21. 19 – Relação entre Perda e Sofrimento Relação entre perda e sofrimento .

Adaptação Total N 601 598 105 1304 % 46. 20 – Noções sobre Luto O que é luto 1.foxitsoftware.05 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 287 .Sentimento 3.Simbologia 2.09 45.com For evaluation only.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Quadro N.86 8.

61 27. Introspecção 3. Solidão Total N 347 363 594 1304 % 26. Ser Discreto Quadro N.foxitsoftware. 21 – Viver o Processo de Luto O processo de luto 1.84 45.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Tradição 2.com For evaluation only.55 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 288 .

Ser Discreto Quadro N.Apoio no Trabalho de Luto Apoio no Luto 1.78 8.Amigos 3.Ninguém Total * Respostas Múltiplas N 925 318 601 1006 854 186 3890 % 23.78 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 289 .86 21.Família 2.Trabalho 4.Religião 5. 22* .com For evaluation only.foxitsoftware.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.45 25.Lembranças 6.18 15.95 4.

foxitsoftware. Ajudou a superar a crise 3. Pouca concentração Total N 52 1080 172 1304 % 3. Normal 2.19 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 290 .82 13.99 82.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Quadro N.com For evaluation only. 23 – Sentimento em Relação ao Trabalho Trabalho 1.

82 8. Ser Discreto Quadro N.14 15. Não se preocupou 4. Cobrança de sentimentos Total N 247 509 73 115 105 54 201 1304 % 18. Apoio nos rituais 5. Apoiado 2.95 39. Vontade de ajudar 6.com For evaluation only.foxitsoftware.Poucos parentes apareceram 7.41 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 291 .05 4. Afeto 3.03 5. 24 – Sentimento em Relação à Família Família 1.60 8.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

Espírita 5.45 5.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Católica 3.54 10.73 Mudança de Visão de Mundo N % 7 134 141 0.13 63.06 4.13 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 292 .foxitsoftware.27 10.81 Total N 98 894 187 58 67 1304 % 7.46 N 653 53 58 67 831 % 50.09 4. Não 2.com For evaluation only.58 14.51 17.45 5. Evangélicas 4.95 25. Ser Discreto Quadro N.Formas de Apoio na Religião Formas de apoio Religião 1.33 4. 25 .51 68. Outras Total N 98 234 332 Não Conforto Espiritual % 7.

Busca de uma nova vida Total N 264 705 335 1304 % 20. Não 2.25 54. 26 – Luto e Cotidiano O luto modificou o cotidiano 1.foxitsoftware.com For evaluation only. Introspecção 3.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.69 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 293 . Ser Discreto Quadro N.06 25.

60 15.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.Não existe comportamento ideal Total N 1012 200 92 1304 % 77.06 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 294 .34 7. Ser Discreto Quadro N. Ser discreto 2.foxitsoftware. 27 – Comportamento de uma Pessoa em Trabalho de Luto Comportamento de uma pessoa em luto 1.com For evaluation only. Seguir a tradição 3.

Comportamento dos Outros às Pessoas em Processo de Luto Comportamento dos outros 1. Dar apoio 2.foxitsoftware.com For evaluation only. 28 . Ser Discreto Quadro N.Depende do caso Total 244 939 121 1304 18.Não importunar 3.71 72.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.01 9.28 100% N % Mauro Guilherme Pinheiro Koury 295 .

02 37. Maior controle social 3.25 43. Ser Discreto Quadro N. Não existe diferença 2.foxitsoftware.com For evaluation only. 29 – Diferença Entre o Luto Hoje e Antigamente O luto hoje e antigamente 1. Hoje é individual Total N 251 561 492 1304 % 19.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.73 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 296 .

foxitsoftware.83 39.com For evaluation only. Sentimento 3. Simbologia 2.32 8. 30 – Relação entre Sexo e Expressão do Luto Sexo Expressões do luto 1. Ser Discreto Quadro N.22 621 578 105 795 60.10 517 39.65 29 2.03 Feminino N % N Total % 47. Período de adaptação Total Masculino N 372 61 76 509 % 28.53 4.67 5.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.05 249 19.63 44.97 1304 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 297 .

Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. nunca se esquece 3.É eterno.80 64.foxitsoftware.57 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 298 . Ser Discreto Quadro N.com For evaluation only.63 16.Um ano Total N 243 219 842 1304 % 18. 31 – Tempo Ideal para o Fim do Luto Tempo ideal para o fim do luto 1.É uma questão pessoal 2.

Ontem e Hoje Sentidos do luto 1.87 100% Mauro Guilherme Pinheiro Koury 299 .96 81.32 13.36 9. 32 – Sentidos do Luto. Sentimentos comunitários 3. Existe maior liberdade Hoje Total N 624 252 182 1058 122 124 246 1304 % 47. Integração Ontem 1.foxitsoftware.com For evaluation only.51 18. Ser Discreto Quadro N.13 9. Respeito pelo morto e pelo luto 2.85 19. Existe mais sentimentos 2.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www.

dois H e uma M. 38 anos. perdeu a avó materna. considerado desaparecido. 42 anos.Estado Rápida Descrição CAPÍTULO 1 Belém . 300 4 42 249 46 131 200 58 209 27 44 37 102 Mauro Guilherme Pinheiro Koury . esposa morta de câncer.SP Sexo Masculino. vitimado por longa doença degenerativa. Marido morto em desastre automobilístico São Paulo . esposa morta de câncer.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Ser Discreto Anexo 2 Entrevistas Utilizadas por Capítulo No. 63 anos. perdeu o pai.com For evaluation only. estudante universitário.Pará Sexo Feminino. CAPÍTULO 2 Belo Horizonte – MG Sexo Masculino. São Paulo – São Paulo Sexo Feminino. 50 anos. Recife – PE Sexo Feminino. Porto Alegre . de Janeiro aposentada. três filhos. São Paulo – São Paulo Sexo Masculino. perdeu a mãe. professora universitária. estudante universitário (medicina). solteira. Aposentada. viúva. marido morto pela polícia. Bióloga. Faxineira. Cuiabá . Goiânia – GO Sexo Feminino. 27 anos. 30 anos.MT Sexo Feminino. 23 anos. 49 anos. Curitiba – PR Sexo Feminino. Entrevista 12 138 Cidade . a mãe e a namorada em um acidente de carro. 58 anos. 35 anos. Vendedor autônomo Rio de Janeiro – Rio Sexo Feminino.RS Sexo Masculino. CAPÍTULO 3 Salvador – Ba Sexo Feminino. 48 anos. Perdeu uma filha de quarenta anos. Perdeu a avó materna. Vitória – ES Sexo Masculino. acidente automobilístico. sem filhos. vítima de enfarto. 38 anos. perda irmão. perda de filha de 15 anos. 26 anos. perdeu o pai de 65 anos. 29 anos. câncer. viúvo. João Pessoa – PB Sexo Masculino.foxitsoftware.

Rio Branco .PE Sexo Feminino. Rio de Janeiro . viúva. um filho. estudante universitária. bancária. viúvo. contador. São Luis . 43 anos.ES Sexo Feminino. dois filhos adultos. Morte do pai. perdeu a esposa.SC Sexo Feminino.MA Sexo Masculino.RJ Sexo masculino. vítima da AIDS. mora desde a adolescência na cidade de Fortaleza. Florianópolis . 63 anos. hum filho. 33 anos. Porto Alegre . Ser Discreto 70 109 Macapá – AP 53 140 38 24 248 134 205 15 43 220 Sexo Feminino. Maceió . profissional liberal. solteira. Empresário da noite.AC Sexo Feminino. casado. pai de dois filhos homens que administram suas propriedades.SP Sexo Masculino. médica. 59 anos. Solteira. 68 anos. três filhos casados.MG Sexo Feminino. advogado. perdeu o companheiro. Natural do interior do Ceará. Mauro Guilherme Pinheiro Koury 301 . engenheiro aposentado. casada.foxitsoftware. 45 anos. 68 anos. 42 anos. CAPÍTULO 5 São Paulo . com quem morava há mais ou menos 6 anos. Perdeu o noivo em acidente. 65 anos. viúva há trinta anos.com For evaluation only. Recife . 27 anos. trabalha como vendedora de boutique em shopping.Generated by Foxit PDF Creator © Foxit Software http://www. Belo Horizonte . funcionária pública. e quatro netos. Vitória . CAPÍTULO 4 Fortaleza . dentista.CE Sexo masculino.Alagoas Sexo masculino.RS Sexo Feminino. tinha perdido a esposa havia um ano da data da entrevista. viúvo. dois filhos menores. aposentada. 48 anos. dona de casa. 66 anos. solteira. dona de casa. Marido morreu vítima de problemas cardíacos.

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