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COERÊNCIA E COESÃO TEXTUAL

Socorro Cláudia Tavares de Sousa Profa. Adjunta da Unilab

SOBRE A NOÇÃO DE TEXTO
A noção de texto abrange tanto realizações orais quanto escritas. Para a construção de um texto é necessária a junção de vários fatores que dizem respeito tanto aos aspectos formais como as relações sintático-semânticas, quanto às relações entre o texto e os elementos que o circundam: falante, ouvinte, situação (pragmática). Um texto bem construído e, naturalmente, bem interpretado, vai apresentar aquilo que Beaugrande e Dressler chamam de textualidade, conjunto de características que fazem, de um texto um texto, e não uma sequência de frases.

mas uma unidade lingüística com propriedades estruturais específicas. Texto: unidade básica de manifestação da linguagem. .SOBRE A NOÇÃO DE TEXTO Texto: não é uma simples sequência de frases isoladas.

Coerência. Aceitabilidade. Intertextualidade FATORES EXTRALINGÜÍSTICOS: Intencionalidade. Informatividade.ELEMENTOS RESPONSÁVEIS PELA TEXTUALIDADE (BEUAGRANDE E DRESSLER) FATORES LINGÜÍSTICOS : Coesão. Situacionalidade .

mas sim constrói-se na relação emissor-receptor-mundo. . Um texto é coerente quando compatível com o conhecimento de mundo do receptor. porque permite perceber que um texto não existe em si mesmo. já que a interpretabilidade do texto depende do conhecimento partilhado entre os interlocutores. envolvendo fatores lógico-semânticos e cognitivos. Observar a coerência é interessante.COERÊNCIA A coerência é responsável pelo sentido do texto.

então. com amigos." (elipse) . Assim. – Sozinha? – Não. As aves aguardaram o momento de se lançarem sobre os animais mortos. Provém da forma como as relações lógicosemânticas do texto são expressas na superfície textual." (hiperônimo ) "Gosto muito de doce.COESÃO É a manifestação lingüística da coerência. Cocada. eu adoro. a coesão de um texto é verificada mediante a análise de seus mecanismos lexicais e gramaticais de construção." (hipônimo) "–Aonde você foi ontem? – À casa de Paulo. Ex: "Os corvos ficaram à espreita.

não isoladamente. Cada texto constrói-se. do qual abstrai alguns aspectos para dar-lhes outra feição. .INTERTEXTUALIDADE Concerne aos fatores que tornam a interpretação de um texto dependente da interpretação de outros. mas em relação a outro já dito. O contexto de um texto também pode ser outros textos com os quais se relaciona.

o lobo. E como o outro dissesse que então nem estava vivo. ao perceber que aquele pretexto tinha falhado. no ano passado. tu insultaste meu pai”. .O LOBO E O CORDEIRO (ESOPO) Um lobo. estando embaixo. eu não deixarei de comer-te”. o lobo disse: “Qualquer que seja a defesa que apresentes. começou a acusá-lo de sujar a água e impedi-lo de beber. ao ver um cordeiro bebendo de um rio. Como o cordeiro dissesse que bebia com as pontas dos beiços e não podia. resolveu utilizar-se de um pretexto para devorá-lo. disse: “Mas. tendo-se colocado na parte de cima do rio. Por isso. sujar a água que vinha de cima.

pois como rezam os livros de lobologia. “Ein moment! Ein moment!” – gritou o cordeirinho traçando lá o seu alemão kantiano. “Por mais limpo que esteja um cordeiro é sempre sujo para um lobo” – retrucou dialeticamente o lobo.” “Que crime?” – perguntou o cordeirinho tentando ganhar tempo.” “Mas como posso sujar a água que bebes se sou lavado diariamente pelas máquinas automáticas da fazenda?” – indagou o cordeirinho. mas disse apenas: “Como posso eu sujar a sua água se estou abaixo da corrente?” “Pois se não foi você foi seu pai. eu só me alimento de carne de cordeiro” – finalizou o lobo preparando-se para devorar o cordeirinho.O LOBO E O CORDEIRO (MILLÔR FERNANDES) Estava o cordeirinho bebendo água. ao mesmo tempo que ouvia a voz cavernosa: “Vais pagar com a vida o teu miserável crime. quando viu refletida no rio a sombra do lobo. pois já sabia que com o lobo não adiantava argumentar. Estremeceu. foi sua mãe ou qualquer outro ancestral e vou comê-lo de qualquer maneira. . “E viceversa” – pensou o cordeirinho. “O crime de sujar a água que eu bebo.

muito certo. logo refreando. MORAL: QUANDO O LOBO TEM FOME NAO DEVE SE METER EM FILOSOFIAS. o súbito entusiasmo.O LOBO E O CORDEIRO (MILLÔR FERNANDES) “Dou-lhe toda razão. pelo menos.” “Vai haver eleição em 66” – respondeu logo o cordeirinho mal podendo conter o riso. E já se ia preparando para devorar o cordeiro quando apareceu o caçador e o esquartejou. “Perfeito!” – disse o lobo engolindo em seco.” “Está bem” – cedeu o lobo irritado com a lembrança do código milenar de jungle. “Outra: a zebra é um animal branco de listras pretas ou um animal preto de listras brancas?” “Um animal sem cor pintado de preto e branco para não passar por burro” – respondeu o cordeirinho.” “Chega de conversa” – disse o lobo – “Vou comê-lo logo.” “Espera aí” – falou firme o cordeiro – “Isso não e ético. mas faço-lhe uma proposta: se me deixar livre atrairei pra cá todo o rebanho. você escapou!” – deu-se o lobo por vencido. “Muito bem.” Agora. por último. e está acabado. direito a três perguntas. muito bem!” – disse o lobo. Eu tenho. “Muito bem. diga-me uma frase de Bernard Shaw. . – “Qual e o animal mais estúpido do mundo?” “O homem casado” – respondeu prontamente o cordeiro. envergonhado.

C.119 – 120) . e. (ESOPO. E o cordeiro disse. pois nos fazem uma guerra sem quartel sem nada terem sofrido de nossa parte”. 2006. muitas vezes. a verdade tem seus efeitos até sobre os inimigos. devolvendo-lhe a liberdade. por fim. em terceiro lugar. aproximou-se para tranquilizá-lo. que gostaria de não tê-lo encontrado. E o lobo teve de reconhecer a verdade do que ele dissera. “que possam todos os abomináveis lobos morrer da pior morte.) Um lobo. porque era cego. que esperava que o lobo não fizesse nada contra ele. segundo. em primeiro lugar. p. Moral: A fábula mostra que. Compreendeu que ele caíra de medo. que já havia comido à saciedade. e disse que apenas deveria lhe apresentar três proposições verdadeiras para ir embora são e salvo. viu um cordeiro caído no chão.O LOBO E O CORDEIRO (SÉCULO VII A.

Quer dizer. o texto produzido deverá ser compatível com as intenções comunicativas de quem o produz. .INTENCIONALIDADE Refere-se ao esforço do produtor do texto em construir uma comunicação eficiente capaz de satisfazer os objetivos de ambos os interlocutores.

sem que haja vazios comunicativos.ACEITABILIDADE O texto produzido também deverá ser compatível com a expectativa do receptor em colocar-se diante de um texto coerente. O contrato de cooperação estabelecido pelo produtor e pelo receptor permite que a comunicação apresente falhas de quantidade e de qualidade. . Isso se dá porque o receptor esforça-se em compreender os textos produzidos. coeso. útil e relevante.

Sua recepção é mais trabalhosa.INFORMATIVIDADE É a medida na qual as ocorrências de um texto são esperadas ou não. O excesso de informatividade pode ser rejeitado pelo receptor. que fale de informações que tragam novidades. que não poderá processá-lo. pelo receptor. . porém mais interessante. envolvente. conhecidas ou não. mas que venham ligadas a dados conhecidos. Um discurso menos previsível tem mais informatividade. O ideal é que o texto se mantenha num nível mediano de informatividade.

Na verdade. de uma solução de gases e sais. O oceano não é água. Mas ele se compõe. na verdade. ele e constituído de gases e sais. O oceano é água.INFORMATIVIDADE 1. 2. O oceano é água. 3. .

. Note-se que a situação orienta o sentido do discurso. ao contexto. É importante notar que a situação comunicativa interfere na produção do texto. assim como este tem reflexos sobre toda a situação.SITUACIONALIDADE É a adequação do texto a uma situação comunicativa. já que o texto não é um simples reflexo do mundo real. tanto na sua produção como na sua interpretação.

torna o texto mal-formado. Os processos coesivos de continuidade só se podem dar com elementos expressos na superfície textual. um elemento coesivo sem referente expresso. sinônimos. Repetição: Diz respeito à necessária retomada de elementos no decorrer do discurso. hipônimos. ideias. Um texto coerente tem unidade. Isto fica evidente na utilização de recursos linguísticos específicos como pronomes. ou com mais de um referente possível. Um texto que trate a cada passo de assuntos diferentes sem um explícito ponto comum não tem continuidade. Um texto coerente apresenta continuidade semântica na retomada de conceitos. já que nele há a permanência de elementos constantes no seu desenvolvimento.COERÊNCIA TEXTUAL (CHAROLLES) 1. hiperônimos etc. repetição de palavras. .

COERÊNCIA TEXTUAL (CHAROLLES) 2. mas não deve limitar-se a isso. No plano da coerência. Deve. . apresentar novas informações a propósito dos elementos mencionados. percebe-se a progressão pela soma das idéias novas às que são já tratadas. Progressão: O texto deve retomar seus elementos conceituais e formais. sim. Os acréscimos semânticos fazem o sentido do texto progredir.

no uso do vocabulário. Em redações escolares. costuma-se encontrar significantes que não condizem com os significados pretendidos. devem ser compatíveis entre si e com o mundo a que se referem. Suas ocorrências não podem se contradizer. Esta não-contradição expressa-se nos elementos linguísticos. . Isso resulta do desconhecimento. por exemplo. do vocabulário a que recorreu. por parte do emissor. Não-contradição: um texto precisa respeitar princípios lógicos elementares. Não pode afirmar A e o contrário de A . já que o mundo textual tem que ser compatível com o mundo que representa.COERÊNCIA TEXTUAL (CHAROLLES) 3.

como se organizam. Relação: um texto articulado coerentemente possui relações estabelecidas. As relações entre os fatos têm que estar presentes e ser pertinentes. que papéis exercem uns em relação aos outros. entre suas informações. .COERÊNCIA TEXTUAL (CHAROLLES) 4. e essas têm a ver umas com as outras. A relação em um texto refere-se à forma como seus conceitos se encadeiam. firmemente.

Eles se formaram na PUC.COESÃO SEGUNDO HALIDAY E HASAN 1) Referência: elementos referenciais são os que não podem ser interpretados por si próprios. – exofórica Paulo e José são advogados. mas têm que ser relacionados a outros elementos no discurso para serem compreendidos. – endofórica . Há dois tipos de referência: a situacional (exofórica ) feita a algum elemento da situação e a textual (endofórica) Ex: Você não se arrependerá de ler este anúncio.

COESÃO SEGUNDO HALIDAY E HASAN 2) Substituição: colocação de um item no lugar de outro no texto. O professor acha que os alunos estão preparados. . seja este outro uma palavra. seja uma oração inteira. mas eu não penso assim. Ex: Pedro comprou um carro e José também.

um sintagma. Realiza-se através de conectores como e. ou uma frase: – Você vai à Faculdade hoje? – Não. ou atitude tomada ou considerada pelo falante). de uma palavra. mas. um novo ponto de argumentação.COESÃO SEGUNDO HALIDAY E HASAN 3) Elipse: substituição por vazio: omissão de um item. depois etc. 4) Conjunção: este tipo de coesão permite estabelecer relações significativas entre elementos e palavras do texto. Há elementos meramente continuativos: agora (abre um novo estágio na comunicação. bem (significa "eu sei de que trata a questão e vou dar uma resposta ") .

Assisti ontem a um documentário sobre papagaios mergulhadores. ou heterônimos. Ele levou a esposa. . ou sinônimos. Vi ontem um menino de rua correndo pelo asfalto. Esses pássaros podem nadar a razoáveis profundidades. pronomes.COESÃO SEGUNDO HALIDAY E HASAN 5) Coesão lexical: obtida através de dois mecanismos: repetição de um mesmo item lexical. O moleque parecia assustado. hipônimos. Ex: O Presidente foi ao cinema ver Tropa de elite.

. Ex: Houve um grande acidente na estrada. Dezenas de ambulâncias transportaram os feridos para o hospital mais próximo.COESÃO SEGUNDO HALIDAY E HASAN 6) Colocação: Uso de termos pertencentes a um mesmo campo semântico.

A RELAÇÃO ENTRE COESÃO E COERÊNCIA O SHOW O show O cartaz O desejo O pai O dinheiro O ingresso O dia A preparação A ida O estádio A multidão A expectativa A música A vibração A participação O fim A volta O vazio .

A padaria é feita de tijolos. A geometria Rimaniana da conta desse fenômeno. Segundo a teoria da Relatividade o espaço é curvo. Os mísseis são lançados no espaço.A RELAÇÃO ENTRE COESÃO E COERÊNCIA João vai à padaria. Também os mísseis são caríssimos. . Os tijolos são caríssimos.