Você está na página 1de 12

A VELHA PORCA

Marcelo Batista e Miho Washington

Ela era velha. E porca. A higiene definitivamente não era uma de suas
maiores virtudes, se é que tinha alguma. Seu quarto era sua fortaleza e alter
ego. Tão escuro quanto ela própria, mal projetado, ocupado por móveis de gosto
no mínimo duvidoso. Ali a velha porca passava a maior parte de seu dia, de seus
dias.

O intervalo entre arrumações era variável, mas nunca inferior a uma


semana e nunca feita por ela própria. Não via necessidade. Afinal, pensava, no
instante seguinte ao término de uma limpeza tudo já não estaria sendo
desarrumado e sujo novamente? Então se for pra limpar que seja algo realmente
contundente, digno de uma limpeza! Ainda que este pensamento tenha lá seu
resquício de racionalidade não era condizente de maneira alguma com o que
podemos entender como comportamento socialmente aceitável. Sim, pois ela era
porca, sozinha, velha, mas tinha vida social. Resumia-se à visita semanal da
sobrinha adotiva.

Miho se fazia presente para tentar lembrar à velha que ela ainda estava
viva, com características e necessidades humanas. Bem, na verdade era mesmo
basicamente pra dar uma bruta faxina, pois se isto não acontecesse a situação
daquele apartamento facilmente poderia migrar de caótica para catastrófica. Na
semana passada Miho tirou de baixo do sofá várias formigas, muitas, muitas
delas. Estavam se banqueteando com a coxa de frango enrolada no pano de
cozinha que dava ali o ar pútrido de sua graça já há alguns dias. O mau cheiro
era insuportável. A velha muitas vezes pensava serem detritos seus os tabletes
de naftalina perfumada que sua sobrinha caridosamente deixava nos pontos mais
estratégicos, em locais de passagem de ar e distantes dos chutes da anciã.
Talvez por isto mesmo Miho soubesse que na semana seguinte os encontraria
intactos, imóveis, perfeitamente inalterados.

Nenhum doutor das ciências humanas poderia sequer deliberar sobre o


que se passava na mente daquela senhora estranha, estática ao pé da cama
cujas pantufas repousavam debaixo do colchão de maior biodiversidade e
densidade demográfica que se tem notícia.
As horas transitavam de um lado a outro diante de seus olhos cansados.
Se indo ou vindo não faria para ela a menor diferença. Não se lembrava mais de
sua própria idade, nem contava de forma alguma o tempo que lhe restava.
Poucas coisas realmente lhe importavam: Os frascos de soníferos e
antidepressivos, aquele aparelho estereofônico jurássico que chamava
carinhosamente de “minha caixa de abelhas”, o vinil que continha o dueto
gravado ao vivo nos anos de chumbo por Cauby Peixoto e Ângela Maria. Aliás, se
toda regra tem sua exceção entendo então porque a capa do bolachão é o único
objeto pelo qual ela zelava. Tudo bem, Miho também já recolheu esta capa em
locais inimagináveis, mas mesmo assim não se manteve legível e quadrada por
mais de trinta anos? Então era objeto de zelo da velha, só podia ser.

A última coisa que alguém poderia esperar de uma pessoa assim, tão
deslocada no tempo e no espaço, é que fosse sistemática e previsível. E era.
Como era robotizada! Seus dias em pouco diferiam, mês após mês, ano após
ano. Não havia calendário em lugar algum, relógio só o da torre, visível apenas
pelo basculante do banheiro. A pontualidade de suas ações repetitivas era um
espanto. Todos os dias ao cair da escuridão a velha, já com o único par de
pantufas que possuía, hidrofóbico, preparava o café para se deitar. Será que ela
não sabe que cafeína prejudica o sono? Mas o que eram alguns miligramas de
cafeína perto de uma dose máscula de sonífero que ela conseguia sem receita
médica e sem dinheiro do sempre tão cuidadoso porteiro?

Na xícara de estimação repousava o resto do café extra-açucarado. No seu


criado-mudo de madeira já não havia local onde a impressão digital da xícara já
não tivesse sido carimbada, redonda, inclusive sobre algumas das muitas
correspondências recebidas e não lidas. Sim, pois além de Miho e do porteiro, as
operadoras de cartão de crédito e panfletos de marketing também nunca se
esqueciam dela.

Religiosamente neste momento do dia tomava seus comprimidos, acendia


seu cigarro, entreabria a janela, colocava seu bolachão para tocar e se deitava
com a cabeça de lado sobre o travesseiro marcado pelas brasas de cigarros
esquecidos. Os mesmos pensamentos lhe vinham sempre à mente, e ela sentia
que, com o passar dos anos, o tempo entre a ingestão do medicamento e seu
desmaio ia se dilatando. Agora padecia por horas a fio até que a total confusão e
perda de senso se transformassem em um estado de repouso que lembrava
vagamente o sono. Agitado, mas ainda assim sono.
Nestas horas é que a velha porca vivia. Pelo menos era nisso que
acreditava. O ópio travestido de medicamento lhe trazia a falsa e extasiante
sensação de ausência total de culpa. Via seus monstros todos atordoados,
fragilizados. Em momentos assim ela não tinha parentes, passado, presente ou
futuro, contas a pagar, portas a trancar, nada, nada. Olhava sempre em torno de
seu próprio quarto, seu universo decadente e em expansão. Os vestidos de chita
no guarda-roupa de pinho sem portas já não lhe contavam nenhuma novidade,
mesmo sendo quase tão antigos quanto ela própria. Definitivamente já não eram
os mesmos parceiros de conversa de tempos distantes.

Enquanto sua mente lhe permitia, arrastava-se pelo quarto a cada trinta
minutos para retornar a agulha da vitrola, agulha esta casada com aquele risco
enorme no meio da última faixa. Ela nem possui mais a curiosidade de saber
como termina aquele dueto na composição de Ary Barroso e muito menos vira o
LP. Afinal, se sua vida não tinha Lado A, por que haveria de tê-la a bolacha? Se o
sol a desperta esbofeteando-lhe a face todos os dias do inverno da mesma
forma, por que ela se atreveria a modificar a ordem do universo e ouvir outras
canções? Se até a lua tinha seu lado negro, não o teria também sua relação com
a vitrola? Razões que sua psicodélica razão nem desconfia. Fato é que o risco da
última faixa é a trilha sonora de sua entrada triunfal ao mundo dos loucos, e,
horas depois, da entrada vitoriosa do sol pela fresta da janela. Todos os dias
entre onze horas e meio dia este evento ocorria. Era impossível preservar o
desejável estupor com esta luz nos olhos. De pé, pantufas nos pés, pés no
abismo. E tinha início nova etapa da mesma espera dolorosa. A espera da hora
de novamente encarar seus medicamentos manipulados, seu cigarro, seu
travesseiro...

O mesmo café da noite anterior que propositadamente sobrou na xícara


costumava ser sua primeira ingestão do dia. Às vezes algum fragmento sólido lhe
descia pela garganta. Não interessava o que fosse desde que não a
surpreendesse guerreando contra suas amídalas ou fosse inerte ao seu suco
gástrico. Nunca era.

Ela odiava o alvorecer, que em seu mundo se dava ao meio dia, pois era
quando estaria mais frontalmente exposta ao mais próximo daquilo que se tem
por realidade.

Evitava olhar para o baú de couro de vaca no canto daquele cômodo, onde
repousavam incólumes dezenas de livros, quase todos nunca lidos. Restos de um
passado que nunca vivera realmente. Era como a lápide de uma jovem morta há
anos, antes mesmo de ela própria nascer. Como seria esta jovem hoje? Aí está o
pensamento mais proibido de todos. Ela sequer cogitava pensar em pensar em
algo parecido. Por isto nunca mais se abaixara diante dos livros, nem mesmo
para pegar a bituca de cigarro que no baú caíra certa vez afrontando a ditadura
do branco-e-preto daquilo que um dia foi uma vaca malhada. Miho certamente se
encarregaria. E se encarregou mesmo, até com certa satisfação, pois a vaca
malhada agora é chique que nem ela: Tem tatuagem e é tricolor.

Nutria pela tia um grande afeto, já que Miho era a única pessoa viva com
quem a velha porca mantinha diálogo de mais de cinco minutos (se é que um
monólogo intercalado por vários “hum-hum” espaçados pode ser classificado
como diálogo!). Mas mesmo assim Miho sabia que a velha precisava ouvir sua
voz, sentir seu abraço, ser admoestada, ser tratada como criança às vezes. Bem
pode ser que estas ações a conservassem em formol, quase viva, ainda neste
século. Caso contrário sabe-se lá o que poderia ser da vida (?) da velha.

Naquelas dantescas TPMs Miho jurava a si mesma que daria um sumiço na


megera. Sua consciência, ao percebê-la sutilmente maquinando contra o ente,
lhe apunhalava a têmpora. De leve, mas a espetava. Certamente pessoa tão
pacífica jamais atentaria contra a tia. Suas ações de madre Tereza eram seu álibi
preventivo e testemunha. Mas ficar horas num local que mais lembrava a
trincheira vietcongue em filme parcial de guerra era o suficiente para que ela se
permitisse viagens aos porões da mente, em regiões invadidas pelos instintos
neadertais. Haja sentimento pacifista! Mas até que Miho se divertia com esses
delírios controlados e já ensaiava coloca-los num papel pra ver como fica. Com
ou sem seus devaneios o final da tarde lhe enchia o coração quando retornava ao
seu próprio lar deixando para trás uma sobrevida e uma esperança de que
alguém do outro lado da avenida lhe quer muito bem e que se lembra dela,
maldita velha porca. Pelo menos semanalmente e seja como for. Fora o benefício
secundário de, se faltar papo com as amigas na night, Miho poderia desfilar suas
lamentações e intenções desumanas. Sempre dá ibope. Ainda mais se o álcool já
estiver com uma das mãos nas rédeas do comportamento e senso do ridículo.
Daí ela tergiversaria filosoficamente acerca da velhice, da solidão, da transição,
da solidariedade, da esperança. Nada que uma boa, fútil e improdutiva fofoca de
banheiro não dissipe instantaneamente, para alívio imediato da nação de amigas.
Ah, meio dia. Horário maldito. Como naquele filme americano onde tudo
se repete todos os dias, os mesmos medos, as mesmas cores, os mesmos riscos,
perdas, dores, roupas, músicas, caras e bundas. E essa bendita morte que não
chega, e essa televisão cheia de fantasmas e essa geladeira com a vedação
danificada. E esse... ah, não! De novo esse assobio que acha que escuta! O
palavrão sempre era incontido. Sabe que não há mais ninguém em casa além
dela e sabe que essa música que acha que ouve é assobiada apenas pela sua
mente doentia e cansada. Quem, além dela conhecia a música que lhe marcou
tão amargamente a vida? Desde 1964 ela ouve em assobio a mesma música que
assassinou a jovem que hoje vive apenas no baú dos livros. Maldito o dia em que
ela se apaixonara.

O presidente Jango rumava para o Uruguai sem passagem de volta no dia


em que ela passava com o pesado ferro a brasa o vestido amarelo que usaria
logo mais na festa de quinze anos de uma conhecida, alheia ao mundo,
pensando unicamente em encontrar-se com um alguém em especial.

No casarão da grande festa a super taça de itu contendo o ponche com


cubinhos de maçã era o carro alegórico de maior destaque naquela avenida cheia
de figurantes. Foi dali detrás, entre o ponche e a bandeja de capetinhas que ela
enfim localizara Vanderval com o olhar, pra ela sempre Vandinho. Sim, ela seria
de Vandinho e nada a impediria. Num tempo em que o amor livre era celebrado e
“livre” era só mais uma palavra sem sentido, ela se guardava para uma
minuciosamente planejada loucura de amor e sexo com ele. E seria hoje no
jardim, que é pra impressionar as amigas e de quebra alimentar a tara. E depois
se casariam. Faltava passar a Vanderval a sua parte do script.

Eles se namoricavam, é verdade, mas uma relação definitiva era algo que
Vanderval jamais especulou para si. Claro que gostava dela! À sua maneira.
Adorava seus seios, suas coxas, sua cintura deformada pela cinta modeladora,
sua boca deliciosa, seus longos cabelos e suas unhas vermelhas que pareciam
ávidas por carne fresca. Se cheirasse melhor poderia até ser a mulher de sua
vida, mas ninguém é perfeito. Ele pensava com taquicardia nas anáguas
sobrepostas que estaria manuseando naquela mesma noite. Já ela se sentia a
mais preparada e amada das moças, uma vez que lera todos os romances de
sabonete e, portanto, possuía vasta experiência em relacionamentos afetivos,
adorando atender esporadicamente como consultora sentimental das amigas.
Tão experiente que não se esquecera do laxante no dia anterior “que é para
murchar a barriga”.

“Hoje serei dele, hoje serei dele”, jurava repetidamente a si mesma em


silêncio. Em ação no local e momento combinados, Vandinho segurava-lhe as
anáguas num canto do jardim, jurando serem três. Hoje vai! Hoje vai!

Não foi.

Vanderval num inesperado grito de “me espera” a deixou entranha e


subitamente ali, sozinha, semi nua. Decerto fora certificar-se de que ninguém os
espionava, cria ela. Como um fogo de tora grande, ela custara a acender, mas
custara também a esfriar-se. Vários minutos se passaram até que sua respiração
voltasse ao normal e suas pernas estivessem como seu pai mais gostava, juntas.
Muitos minutos mais foram necessários até que ela cresse que fora abandonada,
descartada. Sumiu o desgraçado do Vandinho. Como rejeitar minha entrega? Por
acaso ele não teria visto a calçola nova que comprei exclusivamente pro grande
dia? Não fui boa e quente o suficiente para ele?

A mente mergulha num poço de piche como pedra de pontas, sem a


menor pretensão de retornar à superfície.

Pronto! Estava dado o tiro de partida de uma corrida que jamais teria fim.
Justo ela que nunca foi uma pessoa que podia ser rotulada de mentalmente
sadia, agora com o grande trauma da rejeição para administrar. A idade não
favorece. Contar com o apoio dos pais nem pensar. Amigas? Que amigas? Essas
só servem para os momentos alegres de deboche de outrem. Para as frustrações
nunca serviam.

O despreparo não podia ser maior. Nem o impacto. Uma tsunami de


emoções destrutivas abalara suas convicções, seu orgulho, vaidade, confiança,
amor próprio, esperança, feminilidade, temperança, lógica e razão.
Definitivamente não estava preparada para enfrentar qualquer conflito de
qualquer natureza, quanto mais um desta magnitude.

A jovem sensual de odor estranho se transformara então na velha porca.


Mas não tão subitamente. Um intrincado processo fora desencadeado a partir
dali.

Agora, após tantos anos, a sexagenária rumina o passado e regurgita no


presente. Fita o olhar nos cantos de sua morada, como quem procura algo que
lhe chamasse a atenção e que a tirasse de dentro de si mesma. Não pode se dar
aos tranqüilizantes e soníferos agora, a esta hora do dia. Tem que preservá-los
para a nobre função da noite. Então deve sobreviver apenas com o auxílio
luxuoso de seus parceiros um tanto quanto démodés: as revistas de sacanagem
barata, um livrinho kama-sutra ilustrado à mão adquirido por oito e noventa na
banca da esquina, suas lingeries da revista Hermes, seus vidros de alfazema
vazios, alguns vinis de Wando, Benito di Paula e sui generis, um livreto de
simpatias que nunca deram certo e as rasuradas palavras cruzadas. Nas paredes
podem ser ainda encontrados pôsteres de Orlando Silva, Nélson Gonçalves e uma
santa ceia desbotada e com moldura suspeita. No corredor, a caminho do
banheiro, na parede esquerda um dia reinara vossa majestade Roberto Carlos e
seu inconfundível medalhão. Hoje, no alto relevo da cola real estão anotados em
tinta de esferográfica azul restos de uma antiga lista de compras. Cortinas
baratas de estampa floral são responsáveis por todas as cores vivas do ambiente
juntamente com as flores de plástico na garrafa pet. “É de ‘práchico’ mas é
minha”, exclamava a velha diante das ameaças de Miho de desaparecer com essa
“aberração da decoração de interiores”. Acredita em tudo o que ouve sobre
política nos jornais globais e desacredita na sobrinha que jura um dia mandar
aparar o mato que domina a jardineira da janela e enviar para o Ibama o bicho
esquisito que vive lá.

O pote de rapé pela metade é inútil para fazer viver seu vizinho santo
Antônio, tão empoeirado quanto detonado por marcas de objetos pontiagudos,
ambos esquecidos em cima do guarda roupa. O boneco tinha mais cicatrizes que
Silvester Stalone em seus rambos e rockys e estava mais pra voodoo que pra
santo.

Recentemente passou a usar pomada Minâncora após os muito raros


banhos, mas algo a dizia que deveria depilar as axilas ou mudar de produto, não
estava sendo uma combinação perfeita, convenhamos. Optou pelo óbvio:
Abandonar a idéia de desodorizar e deixar que a natureza siga seu rumo.

Miho lhe aplicava creme enxaguante nos cabelos e deixava a


recomendação de um bom banho para um bom enxágüe. Boa estratégia, mas de
pouca valia. Nunca deu certo. A velha, sem banho, esquecia o creme nos
cabelos, o que lhes conferia excelentes propriedades de atração e retenção de
partículas dos reinos mineral e animal, além de seborréia.

Além dela própria, apenas as pantufas conheciam suas feridas no


calcanhar, tão bem escondidas da sobrinha. Sabe-se lá o que Miho faria se
soubesse? Era capaz de até tentar uma esfoliação, ou cremes, sei lá. Melhor
deixar como está.

Há alguns anos a tia era comumente vista usando uma trança embutida
que, com relativo sucesso, domava fios rebeldes. Mas como tudo evolui, ela
descobriu que um simples lenço resolve o problema. Até o pano de cozinha já
demonstrara desta forma mais uma das mil e uma utilidades que o sábio oráculo
chamado TV já dizia. Para ela, o fácil é o certo.

Vanderval é um mito, uma lenda, um delírio. A velha às vezes se esforçava


para crer nisto, mas a fotografia debaixo do colchão, ao lado de uma edição
setentista do Pasquim que alguém esquecera, era a evidência objetiva que não.
Não era mito. O maldito habitava mesmo nas suas memórias dilacerantes, vivo
como árvores milenares que só crescem e nunca morrem. Tudo são obstáculos
que parecem existir com a única finalidade de deixar mais distante o momento
do Valium manipulado e do pseudo sono. Mas ela esperava, não com paciência,
mas com o sentimento de derrota por saber que nada faz rodarem mais rápido
os ponteiros do relógio da torre.

A caixa de antidepressivos estava com suas últimas unidades. Onde


mesmo enfiara aquela caixa nova? Existe uma caixa nova? Hoje tem Domingo
Legal?

Que aceitar o destino que nada! Queria mesmo é que o Vanderval


aparecesse um dia. Pelo menos para dizer que havia sido seqüestrado, ou preso,
quem dera morto. Se ele pelo menos tivesse por ela um décimo do cuidado que
lhe reservara o tão sempre amável porteiro, “seu” Almeida...

***

Naquela noite longínqua de 1964 Vanderval a si mesmo impunha que faria


amor. E que seria a primeira de uma série interminável de vezes. Era jovem,
viril, saudável, o que poderia dar errado? Sua pequena o amava e estava ali, no
canto do jardim da casa, deitada com as belas anáguas agora não mais cobertas,
mas cobrindo o lindo vestido amarelo. A delicada e nova calçola à mostra, as
eróticas unhas vermelhas se firmando em suas costas. Era tudo perfeito. Ou
quase tudo.

Vanderval não funcionou.

Ao debruçar-se sobre ela e sentir seu odor que não era de todo terrível,
mas certamente contrastava com o que seus outros sentidos captavam, ele
titubeou. Não entendia porque simplesmente não conseguia a ereção, mas via
sua tão aguardada chance escoar pelos seus braços. Ele próprio na “hora do
parabéns”, quando todos estavam com a atenção sendo direcionada a um único
tema, sorrateiramente batizara o ponche com vodka para deixar sua
companheira mais receptiva. Todos os demais efeitos desta travessura seriam
colaterais e, portanto, desprezíveis. Tinha até uma prévia do relato que faria no
outro dia aos seus amigos, claro, com os devidos acréscimos que é para manter
a fama. Mas seu corpo resolvera dissociar-se de sua mente desejosa e deixá-lo
na mão. Ou pior: resolvera dar ouvidos à sua insegurança e falta de confiança.

Não. Isso pode acontecer com qualquer um, menos com Vanderval, ainda
mais na sua primeira vez. Ele já espalhara por todo o bairro que era homem
sexualmente ativo e de larga experiência, mas o fato era de que não conseguia
dar vida ao personagem que tanto alimentara nos sonhos e devaneios. Vanderval
era macho, muito macho, batia nos irmãos menores e pichava as viaturas da
polícia. Espiava donzelas nuas por todas as frestas quanto possíveis e carregava
objetos tão pesados que lembrava as proezas hercúleas. Pelo menos na sua
própria imaginação. Como um varão desses poderia sucumbir diante de uma tão
frágil criatura? Ainda mais adornada por frufrus amarelos e rendinhas?

Saindo dali, seu subconsciente, antevendo a crise de sua prima


consciência, tratou logo de arranjar uma rota de fuga - o cheiro. Era isso! O
cheiro dela era tão terrível que desestimulou seu lado animal. Claro, a culpa é
dela e muito dela. Maldita vaca, imunda. Aliás, maldita porca. Isso! Porca! Porca,
porca, porca! Gritava dentro de sua cabeça uma voz cheia de razão, autoritária,
um legítimo advogado de acusação.

Na manhã seguinte as portas negras das enormes viaturas da polícia


cederam lugar e vez ao muro claro e bem acabado da residência de seu novo
desafeto: “SUA PORCA IMUNDA” eram os dizeres, pichados em letras gigantes,
que estupraram e esfolaram a alma daquela que um dia seria a velha mais louca
e porca que se teve notícia.

Ela leu. Chorou. Surtou. Enfim, cedeu às acusações de Vandinho e, no


tribunal de sua psique, admitiu-se culpada diante de seus atrozes acusadores
imaginários. Não servia mesmo para ser mulher de ninguém. Com tanta garota
bonita e limpa, porque um homem em sua sã consciência se entregaria às
paixões e amores de uma porca imunda cheirando a chorume?
Enquanto Vanderval tentava viver uma vida quase comum, exceto pela
ausência de mulheres, amores e paixões, a velha porca por sua vez nunca teve
juventude nem uma fase adulta normal – pulara de seus dezesseis anos para os
atuais sessenta e um. Assim mesmo, abruptamente, com ou sem processo de
muda. No meio do caminho Cauby e Ângela foram suas únicas companhias na
cama e testemunhas das manias que iam surgindo e se somando, cumulativas.

O outrora belo jovem que um dia teve seu nome sussurrado ao ouvido
agora era mais conhecido na cidade como “seu” Almeida, o porteiro bonachão,
gente boa, solícito a ajudar a todos, em especial à senhora do 202. Um denso,
largo e escuro bloqueio psicológico de sua ex a impedira de ver naquele senhor
inofensivo o mesmo jovem que amara décadas atrás e que lhe dilacerara a vil
existência. Melhor assim, para ambos. Para ela, contribuía para a preservação
daquilo que ainda a identificaria como ser humano . E para ele, pois poderia
planejar e levar a cabo suas sádicas lucubrações de vingança e transferência de
culpa, incólume, bem ao lado de sua vítima.

Quando viu que não foi e nem seria reconhecido pela “vaca maldita”
esteve muito próximo de seu primeiro orgasmo real.

Hoje levemente obeso, com um sotaque baiano inventado nada


convincente e uma calvície que era limítrofe ao boné de propaganda política que
sempre ostentava, Vanderval Lopes de Almeida Neto era o mantenedor da velha
porca. Como a bruxa da história infantil que alimenta as crianças a fim de comê-
las vivas, Vanderval era seu grande mantenedor. Era ele quem levava as compras
escada acima, fazia o serviço de banco, executava pequenos reparos e servia de
verdadeiro faz-tudo. Tudo para ser visto como homem de confiança, acima de
qualquer suspeita. Minava da senhora qualquer chance de reação, quando, no
momento em que a via mais lúcida passava de largo assobiando a mesma
música que embalou o sonho a dois que nutriam quando jovens e que a
bandinha tocava naquele fatídico momento no jardim. Quase todos os dias o
fazia. Sabia onde podia se posicionar para não ser visto, mas muito bem ouvido.

Ah! Como era boa a sensação de ver aquela mulher que lhe roubara a
virilidade irrompendo um cômodo após outro, julgando ser mentira o assobio que
verdadeiramente ouvia! Valia todo o sacrifício.

Dentre suas muitas benfeitorias à velha estava a principal: Fornecer os


antidepressivos e soníferos. A ela pouco importava de onde ele tirava as drogas,
desde que não lhe faltasse. Era tudo o que ele queria para ir minando aos poucos
a já débil saúde física e mental de sua presa.

No começo eram medicamentos reais, manipulados para outros pacientes,


devidamente roubados de uma farmácia onde fora vigia por alguns anos e que
mantinha cópia de todas as chaves. Mas com o tempo Vanderval colocava, na
cozinha de seu barraco, com toda a paciência, todo tipo de aberração nas
cartelas e potes. Doses infinitesimais de estricnina, chumbinho, soda cáustica, e
toda forma de deturpação já foram experimentadas. Mas o gran finale ainda
estaria por vir.

A velha já procurava a caixa de remédios que sabia estar no fim, quando


deparou-se com “seu” Almeida à porta, como sempre fazia, portando um frasco
de sonífero novinho em folha, daqueles bem grandes, sei lá, duzentas, trezentas
drágeas. É um anjo esse homem, cria a carcaça debilitada que se arrastava com
a dificuldade imposta pela hérnia de disco. Com a informação de que se tratava
de um medicamento muito mais fraco que o convencional, Vanderval sugeriu que
ela fizesse o uso de várias unidades para que obtivesse o mesmo efeito. Assim
ela fez e realmente o medicamento não era aquele convencional. Era a versão
mais poderosa já produzida, indicada apenas aos pacientes de quadro
sintomático mais agudo, exatamente como descrito no rótulo. O corpo frágil da
velha não resistiu, como era de se esperar. E esperar é exatamente o que fez
“seu” Almeida. Esperou pacientemente até que a mulher se deitasse na cama e
parasse de respirar.

O mesmo excitante calafrio lhe percorrera a espinha, exatamente como no


dia em que teve a certeza de não ser reconhecido.

Os dias se passaram e “seu” Almeida recebera até abraços de consolo pela


perda daquela que seria sua única amiga, mais que os reservados à própria
sobrinha da falecida.

Trabalho bem feito, acima de qualquer suspeita, Vanderval pede conta


quatro meses após o ocorrido. Já não tinha mais nada a fazer ali naquele prédio
velho e mal cheiroso. Continuaria velho, é verdade, “mas bem menos mal
cheiroso com certeza”, ria-se sozinho de sua negra tirada de humor.

Pela Rua dos Andradas subia agora um senhor calvo, de boné e calça de
tergal, com os olhos opacificados pelo tempo, mas ainda cheios de sagacidade.
Levava consigo seu acerto trabalhista em um envelope pardo A4. Subira por ali
inúmeras vezes. Neste percurso já sentira frio, calor, dor, desesperança, fome,
ódio, rancor e o peso de uma existência vazia. Mas desta vez o sol lhe brilhava
no rosto de uma maneira diferente, bem diferente.

Ao assobiar a mesma música rua acima, agora o astro rei lhe parecia
muito mais resplandecente, mais claro, mais vivo, mais leve. Sentia-se jovem de
novo.

Este é meu primeiro conto. Não foi submetido ainda a revisão ortográfica e
gramatical.

Seus comentários, críticas e sugestões serão bem vindos, respondidos e


certamente nos acrescentarão.

Favor remetê-los a:

mlbatista@hotmail.com

Grato,

Marcelo Batista

Grata,

Miho Washington