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Aspectos sobre Situação Financeira versus


Situação Econômica

Tivemos um primeiro contato com os grupos de contas no Balanço Patrimonial. Não


abordamos, propositalmente, o Patrimônio Líquido, pois agora o analisaremos mais
profundamente.

4.1 SITUAÇÃO FINANCEIRA

Observamos, até o momento, que o Balanço Patrimonial evidencia a situação


patrimonial (Bens, Direitos e Obrigações) da empresa. Poderíamos, ainda, numa abordagem
mais específica, atribuir ao Balanço Patrimonial a função (entre outras) de indicador da
Situação Financeira da Entidade, ou seja, a capacidade de pagamento da empresa.
A simples comparação entre o Ativo Circulante e o Passivo Circulante propicia ao
usuário do Balanço Patrimonial uma visão panorâmica da Situação Financeira da empresa a
curto prazo (para o exercício social seguinte ao encerramento do Balanço).
O Ativo Circulante é constituído de dinheiro (Disponível), de quase dinheiro
(Duplicatas a Receber) e de futuro dinheiro (Estoque).
Na verdade, os recursos financeiros (dinheiro) utilizados para fazer frente às dívidas
da empresa (Passivo Circulante) são retirados do Ativo Circulante. Dessa forma,
normalmente, se o Ativo Circulante for menor1 que o Passivo Circulante, a empresa comercial
ou industrial terá dificuldade em solver seus compromissos; portanto, sua Situação Financeira
não é boa.
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Da relação do Ativo Circulante com o Passivo Circulante obteremos o índice de Liquidez Corrente (potencial
de pagamente a curto prazo da empresa).
(AC) Ativo Circulante=Liquidez Corrente (geralmente, ideal é(PC) Passivo Circulanteque seja > 1, isto é, AC >
PC).
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A Situação Financeira poderá, também, ser objeto de análise para situações a Longo
Prazo. Nesse caso, incluiríamos ao Circulante, na comparação, o Realizável e o Exigível a
Longo Prazo (Ativo Circulante + Realizável a Longo Prazo : Passivo Circulante + Exigível a
Longo Prazo). Outras variáveis, enfim, seriam consideradas para uma análise da Situação
Financeira da empresa.

4.2 SITUAÇÃO ECONÔMICA

Por outro lado, podemos também identificar, pelo Balanço Patrimonial, a situação
econômica da empresa.
Uma forma de avaliar a situação econômica é observar o Patrimônio Líquido da
empresa e sua variação. Evidentemente, o crescimento real do Patrimônio Líquido vem
fortalecer sua situação econômica.
O fortalecimento do Capital Próprio (PL) em relação ao Capital de Terceiros propicia
à empresa uma posição mais sólida, não se tornando vulnerável a qualquer revés que possa
ocorrer no dia-a-dia.
A principal fonte de fortalecimento do Patrimônio Líquido é o "bom lucro". Assim, a
constante obtenção de resultado positivo (lucro) vem contribuir para uma situação econômica
mais sólida.
O oposto também é uma realidade, isto é, o prejuízo (resultado negativo) vem
enfraquecer a situação econômica da empresa.
Como já tivemos oportunidade de observar, todo lucro obtido pela empresa
pertence a seus proprietários. Por isso, o lucro não distribuído aos donos do Capital é
contabilizado no Patrimônio Líquido como Lucros Acumulados (Lucro Retido).
A parcela do lucro não distribuída aos proprietários (mas retida na empresa) é que, na
verdade, fortalece a situação econômica. Repare que essa parcela se incorpora ao Capital
Próprio que numa situação de continuidade pertence à empresa, uma vez que os proprietários
não poderão exigir (não exigível) o reembolso desses recursos. Assim, a empresa utiliza esses
recursos como se fossem dela, até a mesma entrar em dissolução (descontinuidade).
O Patrimônio Líquido poderá ser acrescido, também, com novos aumentos de
capital: os proprietários fazem novos investimentos, normalmente, com o objetivo de
expandir a empresa. Todavia, há ocasiões em que a situação econômica (e mesmo a situação
financeira) é tão precária que os proprietários da empresa contribuem com um aumento de
capital (reforço) para tentar equilibrar essa situação. Note que estes aumentos não serão
contínuos, pois a situação seria desestimulante para os proprietários
Não há dúvida de que o bom e constante lucro, desde que uma boa parcela seja retida
(não distribuída integralmente aos proprietários) - Lucros Acumulados -, será o fator de
equilíbrio e fortalecimento da situação econômica da empresa (e, por conseqüência, da
situação financeira).
Ressaltemos, entretanto, que, se o Patrimônio Líquido (Capital Próprio) apresenta
crescimento durante vários períodos, em proporção menor que o Capital de Terceiros, a
situação econômica da empresa tente a enfraquecer.
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PAUSA PARA REFLEXÃO


Grandes empresas faliram na década de 90:
Empresa
Matarazzo O grupo, que já fora o maior do país, entrou
em concordata em 1983. Mas só ruiu em
1992
Mappin, Mesbla, Lojas Brasileiras, Casas Em 1999, uma série de redes de varejo
Centro desaparece devido à má gestão, à
concorrência e à obsolescência do modelo
Encol A maior construtora do país quebrou em
1997 e deixou 42.000 clientes lesados

Essas empresas tiveram prejuízos elevados. Poderíamos pensar que os sucessivos


prejuízos enfraqueceram economicamente essas empresas e assim, não resistindo, houve a
falência?

4.3 APURAÇÃO DO RESULTADO (LUCRO OU PREJUÍZO)

A cada exercício social ou período contábil (que será de no máximo 12 meses) a


empresa apurará o resultado de suas operações. Todavia, é recomendável que a empresa apure
o sucesso (lucro) ou insucesso (prejuízo) em períodos mais curtos: mensais, trimestrais,
quadrimestrais etc.
O resultado pode ser positivo – Lucro (superávit), – ou negativo – Prejuízo (déficit).
O resultado é a diferença entre as Receitas (Vendas) e as Despesas.

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{
Lucro se: Receitas > Despesas

Receitas (-) Despesas = Resultado

Prejuízo se: Receitas < Despesas

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4.3.1 Regime Econômico e Regime Financeiro

A Contabilidade utiliza dois regimes diferentes para apurar resultados.

Fluxo Financeiro

O resultado de uma empresa pode ser visto por dois ângulos diferentes: econômico e
financeiro.
Admita que em determinado mês entraram no caixa da empresa $ 100.000 como
Receita (Vendas) Recebida. Nesse mês, a empresa pagou despesa com salários e outras
despesas no total de $ 80.000.
Neste exemplo, o resultado financeiro (100.000 - 80.000) é de 20.000. Em outras
palavras, houve uma sobra financeira no caixa; há dinheiro real à disposição da empresa no
valor de $ 20.000.
Esse resultado pode ser obtido na Demonstração do Fluxo de Caixa, assim
evidenciado:

Demonstração do Fluxo de Caixa – Mês "X"


Receita Recebida no mês "X" $ 100.000
(-) Despesas Pagas no mês "X" ($ 80.000)
Lucro Financeiro Operacional (Acréscimo no Caixa) $ 20.000

Fluxo Econômico (ou contábil)

Por outro lado, a empresa pode ter receita (vendas) que ainda não recebeu ou
despesas que ainda não foram pagas. São itens que não afetam imediatamente o caixa, daí
apurar-se resultado econômico (ou contábil).
Essa empresa, por exemplo, presta serviços de transportes e seus caminhões estão
avaliados em $ 1.200.000. Sendo que em média eles trabalham quatro anos, ou seja, 48 meses
de vida útil, e são tratados como sucata após esses anos.
Assim, a empresa deveria considerar o consumo (pelo uso) dos caminhões como
despesa, ainda que não houvesse saída do caixa. Essa despesa é chamada de depreciação.

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Deve ser considerada já que o bem está perdendo, pelo uso, seu potencial de trazer benefícios
no futuro.
Dessa forma, o ideal seria considerar uma despesa mensal de depreciação de $
25.000 ($ 1.200.000 : 48 meses) pelo uso dos caminhões, embora, nesse momento, não tenha
havido saída de dinheiro do caixa. Se, em vez de comprar o bem (ativo), a empresa tivesse
alugado, um valor semelhante a esse de depreciação poderia estar saindo de seu caixa.
Ainda nesse mesmo exemplo, vamos considerar as receitas e despesas a vista,
adicionando a depreciação:
Demonstração do Resultado do Exercício Mês "X"
Receita $ 100.000
(-) Despesas de Salários e outras ($ 80.000)
(-) Despesas de Depreciação ($ 25.000)
Prejuízo ($ 5.000)

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Análise dos Resultados

A pergunta é se o resultado financeiro (lucro de $ 20.000) é o correto ou o resultado


econômico (prejuízo de $ 5.000). Haveria motivo para comemoração (Lucro Financeiro) ou
para lamentação (olhando para o prejuízo econômico)?
Admitindo que essa empresa pretenda continuar por muito tempo no mercado, há
necessidade de gerar caixa para repor o bem (veículo) que gera ganho para a empresa.
Partindo da estimativa de que o desgaste do bem é de $ 25.000 por mês, é de esperar que o
caixa tenha que gerar, no mínimo esse valor para a futura reposição, caso contrário a empresa
estaria definhando a cada mês.
Se o caixa gerou $ 20.000 em dinheiro, pressupomos que esse montante não seria
suficiente para manter a empresa num mesmo potencial de gerar recursos de um mês atrás.
Apesar de aparentemente existir sobra de dinheiro no caixa (lado financeiro), a
empresa não seria capaz de repor seu potencial, seus bens, para não perder sua capacidade
inicial de geração de recursos (lado econômico). Assim, de fato, ela teve prejuízo.
Dessa forma, podemos dizer que despesa pelo regime financeiro é identificada pelo
desembolso, pelo pagamento, enquanto, pelo regime econômico, despesa é todo o sacrifício
incorrido para obter vendas. Esse sacrifício pode representar saídas de dinheiro no ato, no
futuro ou, em caso extremo, nunca haverá desembolso.
Por outro lado, a receita (vendas) pelo sistema financeiro só é considerada quando
efetivamente entrar no caixa. Já pelo regime econômico, toda receita gerada (ganho) no
período já é considerada mesmo que ainda não tenha sido recebida. Assim, as vendas a prazo
são consideradas pelo regime econômico e não pelo regime financeiro.

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4.3.2 Regime Econômico é Melhor

Se uma empresa que trabalha pelo regime financeiro (caixa), no início de dezembro,
a um mês para apurar lucro ou prejuízo, descobrisse que o lucro acumulado nos 11 meses
estivesse muito alto e não quisesse que esse resultado fosse majorado, poderia adiar o
recebimento de seus clientes para o início do ano seguinte e então antecipar os pagamentos
das despesas não liquidadas, que venceriam em janeiro.
O que queremos dizer é que, pelo regime de caixa ou financeiro, há possibilidade de
mudar o resultado. Considerando ainda o exemplo anterior, da depreciação que não foi
considerada no regime financeiro (por não representar saída de caixa), podemos dizer que o
regime financeiro é imperfeito. Daí, daqui para a frente, neste capítulo, trataremos apenas do
regime econômico, conhecido como regime de competência. No Capítulo 5 voltaremos a
tratar esse assunto.

Fluxo econômico e financeiro na ECBC

Quando tratamos a DRE de Fluxo Econômico, estamos considerando a visão da


estrutura conceitual básica da Contabilidade (aprovada pela IPECAFI, CVM e Ibracon), que
diz:
"Informação de natureza econômica deve ser sempre entendida dentro da
visão que a Contabilidade tem do que seja econômico e não, necessariamente, 83 84
do tratamento que a Economia daria ao mesmo fenômeno; em largos traços, podemos
afirmar que os fluxos de receitas e despesas (demonstração de resultado, por
exemplo), bem como o capital e o patrimônio, em geral, são dimensões econômicas
da Contabilidade, ao passo que os fluxos de caixa, de capital de giro, por exemplo,
caracterizam a dimensão financeira. Não estamos, portanto, utilizando, neste
trabalho, o termo financeiro no sentido de avaliado em moeda, como a própria Lei
das Sociedades por Ações e a tradição anglo-americana consagram" (grifos nossos).
Se considerarmos o rigor da Teoria da Contabilidade, o Lucro Econômico tem um
sentido diferente do descrito, sendo consideradas as valorizações de ativo (como ganho de
manutenção de estoque) e a realização desses ativos (ou os benefícios futuros).
Todavia, do ponto de vista prático, sem considerar o rigor científico, trataremos o
resultado de Fluxo de Caixa como financeiro e o lucro ou prejuízo da Demonstração do
Resultado do Exercício como econômico.
Esses fluxos (econômico e/ou financeiro) serão tratados nos Capítulos 5, 6, 8 e 18
deste livro.

PAUSA PARA REFLEXÃO


Em reportagem de Laszló Varga no jornal Folha de S. Paulo ("Lucro da Vasp cai,
mas a companhia é a única a fechar 2001 no azul", 12-4-2002), há considerações de que o
lucro econômico foi maior que o financeiro:
"A Vasp foi a única grande companhia aérea brasileira a fechar as contas no
azul em 2001, conforme mostram os dados do balanço da empresa a 9 que a Folha
teve acesso. No ano passado, a companhia obteve um lucro de R$ 36,69 milhões. O

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número surpreende, pois companhias do setor amargaram duras perdas no período. A


Varig, por exemplo, teve um prejuízo de R$ 480 milhões.
A Vasp escapou do vermelho, mas ainda assim registrou uma retração de
68% sobre o lucro de R$ 114,44 milhões contabilizado no ano anterior. Além disso, a
Folha apurou que a companhia usou de artifícios contábeis para garantir o
desempenho incomum no setor.
Seus contadores incluíram US$ 10 milhões (equivalentes a cerca de R$ 23
milhões) nos ativos da empresa, referentes à venda de 50,03% das ações do Lloyd
Aéreo Boliviano. O negócio foi concretizado no dia 8 de novembro de 2001, mas a
Vasp ainda não recebeu o dinheiro.
Segundo um analista do setor de aviação, a inclusão no balanço da Vasp. de
ativos como os créditos de US$ 10 milhões a receber pelas ações do Lloyd Aéreo
Boliviano é permitida pela legislação. Sem esse artifício, no entanto, o lucro da
companhia brasileira cairia para cerca de R$ 12 milhões".
O fato de a Vasp não ter recebido em seu caixa as ações do Lloyd Aéreo Boliviano
faz com que o lucro econômico (que considera a Receita não recebida) seja maior que o lucro
financeiro (só considera como lucro quando da entrada do dinheiro no caixa)?
Informação de natureza econômica, segundo a Estrutura Conceitual Básica da
Contabilidade, deve ser sempre entendida dentro da visão que a Contabilidade tem do que seja
econômico e não, necessariamente, do tratamento que a Economia daria ao mesmo fenômeno;
em largos traços, como já vimos, podemos afirmar que os fluxos de receitas e despesas
(demonstração de resultado, por exemplo), bem como o capital e o patrimônio, em geral, são
dimensões econômicas da 84 85 Contabilidade, ao passo que os fluxos de caixa, de capital de
giro, por exemplo, caracterizam a dimensão financeira. Não estamos, portanto, utilizando,
neste livro, o termo financeiro no sentido de avaliado em moeda, como a própria Lei das
Sociedades por Ações e a tradição anglo-americana consagram.
A Receita corresponde, em geral, a vendas de mercadorias ou prestações de serviços.
Ela aparece (é refletida) no Balanço por entrada de dinheiro no Caixa (Receita a Vista) ou
entrada em forma de Direitos a Receber (Receita a Prazo) – Duplicatas a Receber.
A Receita sempre aumenta o Ativo, embora nem todo aumento de Ativo signifique
Receita (Empréstimos Bancários, Financiamentos etc. aumentam o Caixa-Ativo da empresa e
não são Receitas).
Todas as vezes que entra dinheiro no Caixa por meio de Receita a vista, recebimentos
etc, denominamos essa entrada de Encaixe. Nesse caso, seria receita pelo regime financeiro.
A Despesa é todo o sacrifício2 da empresa para obter Receita. Ela é refletida, no
Balanço, por uma redução do Caixa (quando é pago no ato – a vista) ou um aumento de uma
dívida – Passivo (quando a despesa é contraída no presente para ser paga no futuro – a prazo).
A despesa pode, ainda, originar-se de outras reduções de Ativo (além do caixa), como é o caso
de desgastes de máquinas e outros.
Todo o dinheiro que sai do Caixa pelo pagamento de uma Despesa, ou por outra
aplicação qualquer, denomina-se Desembolso ou Desencaixe. Nesse caso seria considerado
pelo Regime Financeiro.

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É todo o consumo de bens ou serviços para a obtenção de Receita.
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No final do Exercício Social a Contabilidade confronta Receita x Despesa para


apurar o resultado do período (lucro ou prejuízo). O Resultado econômico acresce (no caso de
lucro) ou reduz (no caso de prejuízo) o Patrimônio Líquido.

4.4 RESULTADO E REFLEXO NO BALANÇO PATRIMONIAL

Embora o resultado seja apurado à parte (separadamente) do Balanço Patrimonial,


toda a operação com Receita e Despesa é refletida no Balanço, aumentando ou diminuindo
Ativo, Passivo e Patrimônio Líquido.
Vamos admitir que a Empresa Pureza e Beleza Ltda., após constituição com um
capital de $ 200 mil (origem) aplicado 50% em Caixa e o restante em Imobilizado (visando à
manutenção da atividade econômica), efetua seu primeiro serviço (Receita), a prazo, por $ 20
mil, e paga sua primeira despesa: $ 10 mil de salários.

BALANÇO PATRIMONIAL
(Antes da primeira Receita)
Pureza e Beleza Ltda. Em $ mil

ATIVO PASSIVO E PL

Circulante Patrimônio Líquido


Caixa 100 Capital 200
Permanente
Imobilizado 100

Total 200 Total 200

85 86

Após a Receita a prazo de $ 20 mil apura-se o Resultado, à parte do Balanço


Patrimonial.

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Observe que houve um acréscimo no Ativo de $ 20 mil em conseqüência da Receita


prazo que gerou Duplicatas a Receber. Por outro lado, houve uma redução, também no Ativo,
de $ 10 mil em conseqüência da Despesa a vista que reduziu o Caixa.

BALANÇO PATRIMONIAL
Pureza e Beleza Ltda.
CONFORME A LEI DAS S.A.
Em $ mil
em duas colunas

ATIVO PASSIVO e PL

Circulante Ex. Ant. Ex. Atual Patr. Líq. Ex. Ant. Ex. Atual
Caixa 100 90 Capital 200 200
Dupl. a Receber - 20
Lucros
Total do Circulante 100 110 Acumulado - 10
s

Permanente
Imobilizado 100 100

Total 200 210 Total 200 210


Todavia, se não fizéssemos a apuração do Resultado à parte, o Balanço Patrimonial
seria o mesmo. Senão, vejamos:
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BALANÇO PATRIMONIAL
Pureza e Beleza Ltda. Em $ mil

ATIVO PASSIVO e PL
Circulante Patrimônio Líquido
Caixa 90 Capital 200
Dupl. Receber 20 Lucros ...(?)
110
Permanente
Imobilizado 100
Total 210 Total 210

O Ativo que, em nosso exemplo, sofreu os reflexos imediatos de Receita e Despesa


apresenta um total de $ 210 mil. Como o Ativo será sempre igual ao Passivo + PL (equação
contábil), pela regra da Origem e Aplicação (a empresa só pode aplicar aquilo que tem
origem), detectamos que estão faltando $ 10 mil no Patrimônio Líquido para se atingir o total
de $ 210 mil. Portanto, os $ 10 mil significam, exatamente, o lucro apurado separadamente.
Um dos objetivos de apurar o resultado em um relatório separado – Demonstração de
Resultado do Exercício – é apresentar um resumo ordenado de toda Receita e Despesa
propiciando uma apreciação mais objetiva das contas de resultados (Receita e Despesa) e
facilitando, assim, a tomada de decisão.
Portanto, seria possível, embora não eficiente, apurar o acréscimo ou decréscimo do
Patrimônio Líquido no Balanço Patrimonial, pela diferença dos totais, como no exemplo
apresentado.
Observe que, mesmo se a Receita fosse a vista e a Despesa a prazo, em nada seria
diferente o resultado.

BALANÇO PATRIMONIAL
Pureza e Beleza Ltda. Em $ mil

ATIVO PASSIVO e PL
Circulante Circulante
Caixa 120 Salários a Pagar 10
(Mais Receita a vista)* (Despesa a prazo)

Permanente Patrimônio Líquido


Imobilizado 100 Capital 200
Lucro (a diferença) ? ...
Total 220 220
* $ 100.000 inicial + $ 20.000 de receita a vista.
Na verdade, não são só Receita e Despesa que contribuem para a formação de
resultado de determinado período. Outros fatores podem contribuir para aumento ou
diminuição do resultado:

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A. Perda

É gasto involuntário que não visa à obtenção de Receita. Ex.: desfalque no caixa,
inundações, greves, incêndio etc.
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Na prática é bastante difícil prever uma perda (por ser anormal).


Geralmente, a perda reduz o Ativo (conseqüentemente, o Patrimônio Líquido).
Observe que nem sempre a perda representa saída de caixa.

B. Ganho

Da mesma forma que a perda, ganho é bastante aleatório. É um lucro que independe
da atividade operacional da empresa. Ex.: ganhos com seguros recebidos venda de um
imobilizado por valor acima de seu custo etc.
O Ganho aumenta o Ativo (conseqüentemente, o Patrimônio Líquido).
Tanto a perda quanto o ganho refletem no Patrimônio Líquido, diminuindo ou
aumentando o Lucro num sentido econômico, lucro esse apurado na Demonstração do
Resultado do Exercício (DRE), a ser estudada no Capítulo 6.

Informações Complementares
Gasto (ou Dispêndio)
É todo sacrifício para aquisição de um bem ou serviço com pagamento no ato
(desembolso) ou no futuro (cria uma dívida). Assim, a empresa tem gasto na compra de um
Imobilizado, na compra de Matéria-prima, na produção etc. Num primeiro estágio, todo
sacrifício para a aquisição de bem ou serviço é um gasto (é um conceito consideravelmente
amplo). Portanto, no momento em que a empresa assume a propriedade de um bem ou um
serviço defrontamos com um gasto.
Na verdade, mais cedo ou mais tarde, o gasto será um desembolso. Todavia, nem
todo desembolso é gasto. Por exemplo, o pagamento de empréstimo bancário é um
desembolso, mas não é um gasto.

Custo
Quando a Matéria-prima é adquirida, denominamos esse primeiro estágio de Gasto;
em seguida ela foi estocada no Ativo (ativada); no instante em que a Matéria-prima entra em
produção (produção em andamento), associando-se a outros gastos de fabricação,
reconhecemos (a matéria-prima + outros gastos) como Custo.
Portanto, todos os gastos no processo de industrialização, que contribuem com a
transformação da Matéria-prima (fabricação), entendemos como Custo: Mão-de-obra, Energia
Elétrica, Desgaste das Máquinas utilizadas para a produção, Embalagem etc.

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 11


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Portanto, numa indústria, identificamos como Custo todo o gasto de dentro da


fábrica, seja ele matéria-prima, mão-de-obra, desgaste de máquina (depreciação)... aluguel da
fábrica, imposto predial da fábrica, pintura da fábrica etc.
Despesas
Para melhorar a eficiência na análise da DRE, é costume separar em sua estrutura
custos e despesas.
Outros gastos que não contribuem ou não se identificam com a transformação da
matéria-prima, ou não são realizados dentro da fábrica, mas que não deixam de ser um
sacrifício financeiro para obter Receita, são as Despesas: comissão de vendedores, juros,
aluguel do escritório, honorários administrativos etc. Portanto, os gastos identificáveis ao
processo de produção são custos, enquanto identificáveis à administração, os financeiros e os
relativos às vendas, são despesas.
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Custo no momento da venda


Numa empresa industrial, ao emprego da matéria-prima, da mão-de-obra e de outros
gastos para transformá-la em produtos (gastos na fábrica) denominamos, no momento da
venda do produto transformado, de Custos dos Produtos Vendidos (CPV).
Numa empresa comercial, no momento da revenda da mercadoria adquirida para esse
fim, denominamos o preço pago pela Mercadoria de Custo das Mercadorias Vendidas – CMV
– (nesse caso não há custo de transformação, pois o comércio é mero intermediário entre a
indústria e o consumidor).

ILUSTRAÇÃO

O Objetivo da Contabilidade é prover dados para orientar os usuários na tomada de


decisão.
Nas empresas, três ângulos são fundamentais para a tomada de decisão. Chamamos
de tripé decisorial:

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 12


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1º Pé: Situação Financeira – O ideal seria, para o comércio e a indústria, que AC >
PC, ou seja, os valores a receber fossem maiores que os valores a pagar.
2º Pé: Endividamento – Um equilíbrio entre Capital de Terceiros (Passivo Exigível) e
Capital Próprio (Patrimônio Líquido) normalmente é recomendável. Boa parte
da dívida de Longo Prazo também é interessante.
3º Pé: Situação Econômica – Na apuração de resultado espera se um bom lucro.
89 90

Se a parte retida (não distribuída) aumentar o Patrimônio Líquido numa proporção


igual ou superior ao crescimento de dívidas (capital de terceiros), teremos uma situação
favorável.

RESUMO

Uma das fontes principais de recursos da empresa é o Lucro do exercício que, sem
dúvida, fortalece a situação econômico-financeira da empresa desde que a maior parte fique
retida na empresa e que Capitais de Terceiros não sejam incrementados, constantemente, em
uma proporção maior que o Lucro retido.
O Resultado (Lucro/Prejuízo) é apurado à parte do Balanço Patrimonial, mas
incorporado ao Patrimônio Líquido. Embora possamos apurá-lo no próprio Balanço, não é
viável.
Não só a Receita e a Despesa são determinantes do Resultado, mas fatos como
Perdas e Ganhos (considerados extraordinários, anormais) contribuem para a formação do
Resultado.

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 13


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O Resultado é apurado subtraindo-se de Receita + Ganho os seguintes itens: Custos,


Despesas e Perdas.
Todos os sacrifícios, para aquisições (a vista ou a prazo), são os gastos ou dispêndios
que poderão ser Ativo, Custos (se utilizados no processo produtivo, no caso dl Indústria;
mercadorias revendidas, no caso de comércio; ou utilização de MI.10 de obra e material, no
caso de prestação de serviços) e Despesas (no consumo da bens e serviços no esforço de
produzir Receita).

EXERCÍCIO RESOLVIDO
A Empresa Vale da Ilusão Ltda. inicia sua atividade em 2-1-X4. De início,
observamos um Capital de $ 40.000, sendo aplicado em Instalações do Prédio ($ 20.000),
em Móveis em Geral ($ 10.000) e, na conta Caixa, o restante.
90 91

No mês de janeiro de 19X4, a Empresa Vale da Ilusão obteve $ 30.000 de Receita,


a vista, por serviços prestados a seus clientes.
As despesas do mês, totalmente pagas, foram: Aluguel: $ 10.000; Honorários
Administrativos: $ 4.000.
Na prestação de serviços (custos) participaram diretamente 10 moças, que foram
remuneradas à base de $ 10.000 (total).
Vamos calcular o Resultado econômico (Lucro ou Prejuízo) da Empresa Vale da
Ilusão e, em seguida, vamos apresentar o Balanço Patrimonial.

Solução do Exercício
Para obter a Receita de $ 30.000 a empresa incorreu em Custos e Despesas. Custos
são representados pelo emprego da mão-de-obra diretamente no serviço prestado. Despesas
são representadas por sacrifícios para obter Receita, independentemente desta.

Dessa forma, podemos apurar o Resultado do mês de janeiro/X4:

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 14


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DEMONSTRAÇÃO DO RESULTADO DO EXERCÍCIO


Empresa Vale da Ilusão – Janeiro de 19X4
Receita 30.000
( - ) Custo do Serviço Prestado (CSP) (10.000)
( - ) Despesas (14.000)
Lucro do Período 6.000

Vamos agora analisar a influência dessas operações no Balanço Patrimonial. É fácil


detectar que a conta basicamente afetada é o Caixa, uma vez que entrou Receita a vista
(encaixe) e saiu dinheiro para remuneração das funcionárias e das despesas (desembolso):

Neste caso, por se tratar de Receita e Despesa a vista, o resultado econômico e


financeiro serão iguais.
91 92

AVALIAÇÃO DO APROVEITAMENTO
a) Estes testes deverão ser respondidos em cinco minutos – 30 segundos para cada
um.
b) Não responda se tiver dúvidas.
c) Se você acertar menos que 70% (sete questões), não passe para a etapa seguinte:
leia novamente o capítulo.
d) As respostas encontram-se no final do livro.

1. Identifica-se Situação Financeira com:


( ) a) Liquidez.
( ) b) Lucro.
CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 15
ENSINO FOCADO NO USUÁRIO
CONTABILIDADE EMPRESARIAL
JOSÉ CARLOS MARION

( ) c) Receita.
( ) d) Duplicatas a Receber.
2. Identifica-se Situação Econômica com:
( ) a) Liquidez.
( ) b) Lucro.
( ) c) Receita.
( ) d) Duplicatas a Receber.
3. Acréscimo no Patrimônio Líquido em proporção superior ao Capital de Terceiros
fortalecerá de imediato:
( ) a) Situação Mercadológica.
( ) b) Situação Real.
( ) c) Situação Financeira.
( ) d) Situação Econômica.
4. Superávit é:
( ) a) Receita < Despesa.
( ) b) Receita > Despesa.
( ) c) Receita = Despesas.
( ) d) Receita < Despesa.
5. Salários da Diretoria são:
( ) a) Despesa.
( ) b) Gasto.
( ) c) Dispêndio.
( ) d) Custo.
6. Desembolso é igual a:
( ) a) Encaixe.
( ) b) Desencaixe.
( ) c) Reembolso.
( ) d) O não-embolso.
7. A característica de Perda ou Ganho é:
( ) a) Fato previsto.
( ) b) Fato orçado. 92 93
( ) c) Fato normal.
( ) d) Fato anormal.
8. O CPV é o Custo do Produto Vendido para:
( ) a) Indústria.
( ) b) Comércio.
( ) c) Prestação de Serviço.
( ) d) Empresa Bancária.
9. Ativo pode ser entendido como:
( ) a) Patrimônio Líquido.
( ) b) Origens.
( ) c) As aplicações que geram receitas para a empresa.
( ) d) As aplicações que rendem juros, Correção Monetária etc.
10. Indique a alternativa que evidencia apenas Despesa:
( ) a) Salários, Matéria-prima, Estoque, Material Secundário...
( ) b) Juros, Mão-de-obra, Duplicatas a Receber, Máquinas...
( ) c) Encargos Sociais, Embalagem, Imposto de Renda, desfalque no Caixa...

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 16


ENSINO FOCADO NO USUÁRIO
CONTABILIDADE EMPRESARIAL
JOSÉ CARLOS MARION

( ) d) Comissão de Vendedores, Propaganda, Aluguel de Escritório, Imposto


Predial de Escritório. 3

3
Respostas: 1. a 2. b 3. d 4. b 5. a 6. b 7. d 8. a 9. b 10. c

CAPÍTULO 4 – ASPECTOS SOBRE SITUAÇÃO FINANCEIRA VERSUS SITUAÇÃO ECONÔMICA 17


ENSINO FOCADO NO USUÁRIO