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A FORÇA AÉREA BRASILEIRA NO CONGO

Introdução

Quase todas as potências européias possuíam colônias


ultramares, na primeira metade do século XX. O que as
diferenciava era a forma com que essas colônias eram tratadas
pelos colonizadores. O modo com que um pequeno estado europeu
como a Bélgica, criado apenas em 1830, sem tradição naval,
adquiriu a bacia do Rio Congo, é uma das peculiaridades da história
moderna, assim como a maneira que perdeu sua única colônia é
também notável em muitos aspectos.

A influência da colonização belga, na formação cultural e


política dos congoleses e de seus líderes políticos, o nacionalismo,
a independência e o caos social gerado pela saída da administração
belga, fizeram com que fosse necessária uma intervenção da
ONU, em 1960, na qual a Força Aérea Brasileira participou
intensamente das operações.

O trabalho, apresenta inicialmente um resumo histórico


sobre a colonização belga no Congo, sua influência na formação
cultural e política dos congoleses, os líderes políticos e o
nacionalismo, a independência e o caos social gerado pela saída da
administração belga. Em seguida é relatada a intervenção da ONU,
e finalmente a participação da Força Aérea Brasileira nas
operações.

A História do Congo Belga

A Colonização

A história desta colônia belga, começa em 1870, quando


grande parte da África, ainda não estava ocupada pelos europeus,
ou melhor, eles estavam começando uma corrida política, de modo
a lotear aquele continente. Numa tentativa de legalizar e
formalizar esta corrida, Bismarck organizou uma conferência em
Berlim (1884), a fim de tentar organizar administrativamente a
partilha das bacias dos rios Niger e Congo, ao mesmo tempo que
os portugueses declaravam que a foz do Rio Congo era uma área

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para comércio de escravos. A Association Internationale du Congo
(AIC), fundada e financiada pelo Rei Leopoldo II da Bélgica,
defendia o fim desse comércio escravo. Numa tentativa conjunta
de manter a França longe da bacia do Rio Congo, ingleses e
alemães permitiram que a AIC se instalasse como um estado
independente, tornando aquela área o Congo Free State, com
Leopoldo II como monarca.

A população belga não apoiava esses planos nem estava


inclinada a contribuir financeiramente para essa aventura
colonialista, bem como não desejava ver seus filhos trabalhando
no meio da selva. A solução foi aceitar voluntários e aventureiros
de toda a Europa, além de tornar aquela área um porto livre.

Mesmo assim, o número de civis que se candidataram à


aventura foi muito pequeno, fazendo com que a Bélgica tivesse que
recorrer a militares para poder organizar e dirigir aquela área. O
envolvimento desses militares com as companhias locais e os civis
foi de tal modo intenso e único nas colônias africanas, só tendo se
encerrado quando do fim do colonialismo. Empresas logo
começaram a descobrir e extrair recursos minerais da rica
província de Katanga, trazendo grande riqueza para o país, mas ao
mesmo tempo aumentando a influência na administração local.

A escassez de população branca levou à adoção de uma


outra política una na história das colônias européias. Militares
belgas, que receberam ordens de conquistar a bacia do Rio Congo,
tiveram que utilizar nativos como soldados e para tal, esses foram
treinados e armados nos padrões do Exército Belga.

Em 1914, a Force Publique, como era denominado o


exército local, mas que na realidade era muito mais uma polícia,
possuía efetivos maiores do que toda a tropa alemã na África ou
mesmo do que as tropas da Union of South Africa. Essa Force
Publique entretanto, era inclinada a deserções e motins, visto que
cada oficial tinha sob seu comando mais de 100 soldados, número
esse muito maior do que as unidades, por exemplo, do British
Army da época.

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A 2ª Guerra Mundial

A 2ª Guerra Mundial trouxe um substancial aumento de


produção das minas da província de Katanga, bem como de
atividade econômica em geral, uma vez que o Congo tinha que
suprir os aliados com materiais que eram impossíveis de serem
obtidos do Sudeste Asiático ocupado pelos japoneses. As bombas
atômicas de Hiroshima e Nagasaki foram feitas com urânio do
Congo. A nova situação internacional de pós-guerra deixou os
belgas atordoados. O Congo era um país de grande extensão
territorial, situado estrategicamente no centro da África,
fazendo fronteiras com nove outros países e muito rico em
minerais estratégicos e por isso passou a interessar às grandes
potências.

A atitude belga ao longo desses anos tinha sido


totalmente paternalista. Embora a integração local fosse alta,
todas as decisões importantes eram tomadas em Bruxelas. A
fraqueza desse sistema se mostrou evidente quando de um grande
distúrbio popular acontecido em Leopoldville no dia 4 de janeiro
de 1959. Era um domingo, e o Governador-Geral recomendou o
emprego da força em última estância. A aprovação final da
utilização de força militar teria que ser dada por um ministro de
Bruxelas, mas esse encontrava-se fora da cidade, sem telefone
para contato. Assim, 24 horas foram perdidas aguardando-se a
permissão final. Era o início do fim da colônia belga.

O Sistema educacional

O sistema educacional existente no Congo Belga também


era único entre as colônias européias na África. Cerca de 78% das
crianças estavam na escola de 1º grau, em comparação com os 34%
das demais colônias. Mas tudo ficava nesse nível, ou seja, o
atendimento a nível de 2º grau era muito baixo, e em 1959, apenas
136 adolescentes estavam aptos a ingressarem em uma das duas
universidades do país. Até 1958, os nativos estavam proibidos de
estudar Direito, pois isso poderia levá-los a tornarem-se políticos
no futuro.

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O Serviço Público estava organizado nos moldes e padrões
belgas, e isso significava que nenhum congolês conseguia subir na
carreira, pois as exigências eram muitas. Em 1959, cerca de 10
000 belgas estavam nos últimos quatro níveis da carreira pública
enquanto que existiam 11 000 congoleses nos primeiros quatro
níveis. Na Saúde, embora o Congo Belga possuísse a melhor infra-
estrutura africana, tinha-se 900 acadêmicos e 1 900 técnicos
belgas contra 5 500 congoleses auxiliares. Os locais só eram
maioria nos trabalhos braçais.

Esse era o estado do Congo às vésperas de sua


independência, onde todos os postos chaves eram ocupados por
belgas. Diferentemente das outras colônias, onde a retirada dos
europeus tornou o serviço público mais burocratizado, menos
efetivo e mais corrupto, no Congo, após a saídas dos europeus, a
administração pública simplesmente deixaria de existir.

O Congo tornar-se-ia um Estado antes de ser uma nação.


Possuía uma população de 14 milhões de habitantes, que
pertenciam a mais de 200 tribos diferentes; não possuía unidade
nem ntegração nacional e com a futura retirada das autoridades
coloniais belgas, as forças desagregadoras do tribalismo e das
rivalidades políticas iriam aflorar.

Os Anseios de Independência

O Nacionalismo

Um movimento nacionalista congolês nunca emergiu antes


da independência, principalmente porque não existiu modernização
no Congo. As raízes tribais eram muito fortes, principalmente nos
líderes políticos, mas os exemplos viam de fora do país. Em agosto
de 1958, De Gaulle anunciava em Brazzaville uma opção para as
colônias francesas: ou tornavam-se totalmente independentes ou
fariam parte de uma denominada Comunidade Francesa; Gana e
Sudão, duas colônias britânicas, tornaram-se independentes
naquele ano e a Feira Mundial em Bruxelas, fez com que os
congoleses tivessem a chance de se encontrar com
representantes de todo o mundo.

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A fala de De Gaulle fez com que, dois dias depois, líderes
locais solicitassem autonomia da província, um governo próprio e
independente, baseado em um documento de Van Bilsen
(Governador-Geral) que previa um planejamento de 30 anos. O
governo belga se recusou a negociar qualquer acordo baseado
neste documento, causando uma enorme frustração e perda de
confiança entre os moderados políticos congoleses. Além disso,
proibiu que Joseph Kasavubu, um dos líderes desse pedido e
futuro primeiro Presidente, viajasse para o Congresso Pan-
Africano que se realizaria em Acra (Gana). Mais uma vez, a
administração colonial belga, começava a mostrar sua fraqueza,
desta vez diante de problemas sociais e políticos.

O Congresso Pan-Africano

Realizado no mês de dezembro de 1958, em Acra, no qual


Patrice Lumumba, um ex-funcionário dos Correios e líder político
do Congo, viajou no lugar de Kasavubu, o congresso foi patrocinado
por Nkruma, pai da independência de Gana, e procurou mostrar
aos participantes uma nova visão do descolonialismo. Retornando
ao Congo, Lumumba começou a montar o Mouvement National de
Congolaise, numa tentativa de criar um partido político nacional
que agregasse as diversas tribos congolesas.

O Governador-Geral, Van Bilsen, foi muito criticado por


seu ambicioso plano de 30 anos, e uma nova proposta foi feita
após distúrbios que duraram nove dias. Reformas começaram, mas
nada mudava substancialmente no Congo. No início de 1960, mais
uma vez, os partidos políticos pediram a independência do Congo
Belga, sugerindo a data para o verão de 1961. Patrice Lumumba,
queria que a independência só fosse concretizada em junho de
1962, dando um tempo para poder organizar a transição política e
administrativa. Uma reunião foi marcada para Bruxelas, e para
surpresa geral, os belgas contrapropuseram que a independência
fosse antecipada para o dia 30 de junho de 1960.

A saída dos belgas, de forma tão abrupta, fora causada


por problemas internos. Eles nunca tiveram muito entusiasmo pelo
colonialismo. O governo belga, suportado por conservadores e

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liberais, sofria uma enorme oposição dos socialistas, que eram
totalmente contra qualquer forma de colonialismo, e tentariam
utilizar o Congo Belga, como uma arma para vencer as eleições - e
venceriam facilmente.

Exemplos traumáticos, como os acontecidos com a vizinha


e forte França na Argélia em 1954, deixavam os pequenos belgas
muito preocupados. Não possuíam tropas suficientes na colônia -
apenas dois batalhões de pára-quedistas - e a constituição só
permitia que voluntários fossem enviados para a colônia. Uma
campanha popular, cujo lema era, Nenhum soldado para o Congo,
suportada pelos sindicatos e pela oposição, crescia
assustadoramente, deixando o governo sem saída, se não abrir
mão da colônia.

Patrice Lumumba e a Independência

Em 1957, Patrice Lumumba, líder congelês já havia dito


que: "Quando tivermos suficientes doutores, engenheiros,
técnicos, geólogos, administradores e magistrados, aí sim,
poderemos pedir nossa independência". Mas os políticos
congoleses, se esqueceram dessas palavras, e não observaram que
apenas eles eram educados o suficiente para que uma completa
independência fosse obtida. Não havia classe média no Congo. Os
belgas não prepararam os congoleses da forma como os britânicos
fizeram com suas colônias, instalando inicialmente um governo
local, nem permitiram o aprendizado político na colônia, um grande
erro, que viria ser fatal, quando a independência se fez realidade.

Assim, o Congo independente, seria um gigante com pés de


louça. Esse novo Estado poderia ter suplantado os problemas, se
os belgas tivessem permanecido ajudando na administração local.
Em maio de 1960, foram realizadas as primeiras eleições no
Congo, mas os Belgas queriam que Lumumba ficasse fora do poder.
Entretanto ele foi o vencedor, e os belgas mais uma vez,
acusando-o de radical e de comunista, tentaram anular as eleições.
Após semanas de discussão, Patrice Lumumba foi declarado
vencedor e teria até o dia 21 de junho que formar seu governo. Os
belgas impuseram uma constituição, com duas casas legislativas,

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um Primeiro-Ministro, um Presidente e um complicado sistema de
equilíbrio entre os poderes. Era uma constituição apropriada para
um Estado ocidental, mas totalmente inadequada para um país
africano.

Desse modo, os preparativos para o 1º de julho


continuaram, e o Congo tornou-se oficialmente independente. Os
problemas já começaram a surgir, quando naquela manhã, Lumumba
ao discursar perante o Rei Bauduin, citou as atrocidades e os
erros cometidos pelos belgas durante seu colonialismo, causando
enormes embaraços protocolares.

No dia 2 de julho, desordens tribais acontecem na


província de Asai e em Leopoldville. No dia 5, soldados da Force
Publique se amotinam em Thysville e em Leopoldville, porque nada
havia mudado no exército, os oficiais belgas continuavam no
comando, e como os congoleses não tinham escolaridade suficiente
não podiam ser promovidos. No dia 9 de julho, o Presidente
Kasavubu e o Primeiro-Ministro Lumumba promovem a General o
suboficial Victor Lundala e o nomeia Comandante do Exército
Congolês.

Para os belgas o lema parecia ser: Antes da Independência


= Depois da Independência, mas o pânico causado pelas desordens
aumentou, e milhares de belgas deixaram o país, tornando a
administração central insustentável. A separação da província de
Katanga, declarada independente por Moise Tschombé no dia 11 de
junho, adicionou considerável confusão ao já existente caos, que
viria mais tarde ocasionar a intervenção das Nações Unidas. A
província, embora só possuísse 10% da população do país, fornecia
50% da renda do Congo, proveniente da exploração das riquezas
minerais.

Em duas semanas de vida independente, a estrutura


administrativa do Congo simplesmente acabara, deixando o país
sem autoridade, que seria mais uma vez suprida por intervenção
estrangeira.

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A Crise

A Intervenção da ONU

A 11 de julho de 1960, os dirigentes congoleses Joseph


Kasavubu e Patrice Lumumba solicitam ajuda militar das Nações
Unidas, para restabelecer a disciplina no Exército Congolês. No
dia seguinte, uma nova solicitação é enviada, e desta vez o
argumento é de que precisavam de assistência militar para se opor
à agressão belga e ao apoio que esta dava a separação da província
de Katanga.

No dia 14 de julho, o Conselho de Segurança da ONU


atende aos apelos congoleses e resolve enviar uma Força de Paz
para restabelecer a ordem no país e ao mesmo tempo solicitava à
Bélgica que retirasse suas tropas do território do Congo. Em
menos de 48 horas, começam a chegar ao Congo tropas das Forças
das Nações Unidas procedentes de mais de 30 países, assim como
peritos civis das Nações Unidas, com missão de ajudar no
funcionamento dos serviços públicos.

Em 22 de julho, uma segunda resolução do Conselho de


Segurança insistia para que a Bélgica retirasse rapidamente suas
tropas bem como era feito um apelo a todos os países para que
não tomassem nenhuma ação que pudesse impedir a restauração
da ordem ou que comprometesse a integridade territorial e a
independência política da então República do Congo. No dia 25 de
julho, as tropas belgas retiram-se de todo o território, à exceção
de Katanga.

No dia 9 de agosto, mais uma vez o Conselho de Segurança


aprova Resolução em que era pedida a retirada imediata das
tropas belgas da Província de Katanga e ao mesmo tempo autoriza
a entrada das tropas da ONU naquela província. A Resolução diz
ainda que a atuação das tropas da ONU não seria em benefício de
nenhum partido político, nem influenciaria a solução de qualquer
conflito interno inter-étnico.

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Com essas três Resoluções, a ONU desencadeou uma
enorme e complexa Operação de Paz, que duraria quatro anos.
Essa Força de Paz era baseada em seis princípios, a saber:

1º - A Força de Paz deveria ficar sob comando exclusivo


do Secretário-Geral das Nações Unidas, o qual só teria que
prestar contas ao Conselho de Segurança da ONU;

2º - As Nações Unidas não interfeririam nos assuntos


internos da República do Congo, nem tomariam partido nas suas
lutas políticas;

3º - A Força das Nações Unidas tinha que ter liberdade de


movimento em todo território da República do Congo, dentro dos
limites de sua ação pacificadora;

4º - As tropas das Nações Unidas só fariam uso da força


em defesa própria e não tomariam a iniciativa do uso da força;

5º - A composição da Força das Nações Unidas seria


decidida pelo Secretário-Geral e nessa composição não entrariam
forças dos membros permanentes do Conselho de Segurança
(Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra, França e China);

6º - As unidades da Força das Nações Unidas só


receberiam ordens do Comando das Nações Unidas e não dos seus
Governos nacionais.

Desde a independência, o Primeiro-Ministro Patrice


Lumumba, apoiado pela União Soviética, só fez criar dificuldades
para a atuação das forças da ONU. Procurava jogar as tropas da
ONU contra as de Tshombé, incentivava a invasão da Província de
Katanga para combater as tropas belgas que lá ainda
permaneciam, entre outras coisas.

Em setembro de 1960, o Presidente Kasavubu, demite o


Primeiro-Ministro Lumumba, por esse estar levando o Congo a uma
guerra civil. Lumumba responde, "demitindo" o Presidente,
alegando que ele não tinha suporte legal para tal ação. Era o início
de mais um ato do drama congolês ao mesmo tempo que o poder de

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Lumumba começava a declinar. Durante meses, as duas facções
ficaram disputando o poder central, cada uma com apoio
internacional distinto.

Naquela época, existiam no Congo três organizações


militares antagônicas: o Exército Congolês com 25 000 homens,
que instigados por Lumumba, desenvolveram grande animosidade
contra as Forças da ONU; os belgas com um efetivo de 10 000
soldados e as forças multinacionais da ONU, com um efetivo de 16
000 homens.

No dia 12 de setembro, o Chefe do Estado-Maior do


Exército Congolês, Coronel Mobutu, prendeu o Primeiro-Ministro
Lumumba e dois dias depois fechou o Parlamento, estabelecendo
um regime de força, assessorado por estudantes universitários. A
ONU continuou a só reconhecer a legitimidade do Presidente
Kasavubu. Em Assembléia Geral Extraordinária, o Primeiro
Ministro soviético Khrushchev atacou violentamente o Secretário-
Geral da ONU, propondo sua substituição por uma triunvirato
composto de dois representantes das superpotências e um
terceiro representante dos países do terceiro mundo. A proposta
foi derrotada em plenário, e a delegação congolesa enviada pelo
Presidente Kasavubu, tomou assento na Assembléia-Geral da
ONU, representando a República do Congo.

Em novembro, Lumumba consegue fugir da prisão, mas é


capturado dias depois, sendo levado para Leopoldville. Em
protesto pela nova prisão de Lumumba, a República Árabe Unida, a
Iugoslávia, a Indonésia, o Marrocos, Mali e a Guiné resolvem
retirar os seus contingentes da Força de Paz.

Em janeiro de 1961, Patrice Lumumba é morto, quando de


uma tentativa de fuga. Um mês depois, o Conselho de Segurança
da ONU autoriza o emprego da força para impedir a guerra civil
no Congo. A Força das Nações Unidas toma o controle do
território entre Kabalo e Albertville, onde entra em conflito com
forças separatistas dirigidas por mercenários estrangeiros. No
dia 17 de setembro daquele mesmo ano, o Secretário-Geral das

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Nações Unidas, Dag Hammarskjold, morre num desastre aéreo,
quando se dirigia a Ndola para um encontro com Moise Tschombé.

Inicialmente encarregada de assegurar a retirada das


forças belgas do Congo, a ONUC (Operação das Nações Unidas no
Congo), transforma-se em força de manutenção da integridade
territorial e da independência política do país, evitando a guerra
civil e verificando a retirada das forças militares e paramilitares
estrangeiras, assim como dos mercenários.

Terminada em junho de 1964, esta operação - uma das


mais importantes da história das Nações Unidas - lançou um vasto
programa de assistência técnica a longo prazo, no qual
participaram, entre 1963 e 1964, cerca de dois mil especialistas
internacionais.

A Participação da Força Aérea Brasileira

Quando da Resolução S/4 387 do dia 14 de julho de 1960,


a ONU encaminhou ao Brasil, um pedido urgente de cooperação,
através do Ministério da Relações Exteriores. Esse pedido chegou
ao Ministério da Aeronáutica no dia 20 de julho, e no dia seguinte,
pela portaria nº 516, eram designados para servirem na Força de
Emergência das Nações Unidas no Congo dez oficiais-aviadores.

A ONU, ao pedir com urgência os pilotos brasileiros, não


informou qual tipo de aeronave que seria utilizado nas missões,
mas deduziu-se que seriam missões de transporte aéreo, e por
isso foram selecionados oficiais que tinham experiência nas linhas
do CAN - Correio Aéreo Nacional, pois provavelmente os vôos no
Congo seriam realizados sob vastas regiões desprovidas de
auxílios à navegação, em clima equatorial e utilizando campos de
pouso pouco equipados.

Os militares selecionados tiveram apenas cinco dias para


se prepararem, pois a 26 de julho estavam embarcando para a
missão. Chegaram a Leopoldville no dia 28 de julho e no dia
seguinte já começavam a voar.

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A ONU operava inicialmente no Congo, quatro esquadrões:
o 1º Esquadrão com 20 aeronaves Douglas C-47; o 2º Esquadrão
com 6 aeronaves Fairchild C-119; o 3º Esquadrão com aeronaves
De Havilland Beavers e Otters e o 4º Esquadrão com helicópteros
H-19 e H-13. Todas as aeronaves à serviço da ONU, eram pintadas
totalmente de branco e tinham na fuselagem e nas asas, em letras
azuis a palavra ONU, de modo a facilitar a sua identificação.

Os pilotos brasileiros foram alocados no 1º Esquadrão,


sediado no Aeroporto de Ndolo, em Leopoldville, e o oficial mais
graduado, Maj Av Berenguer Cesar, assumiu o comando do
Esquadrão. Em março de 1961, quando da unificação do 1º
Esquadrão com o 2º Esquadrão, o comando passou para um
Tenente-Coronel indiano. Serviam no 1º Esquadrão, além de
brasileiros, indianos, etíopes, argentinos, noruegueses, iugoslavos
e gregos.

As missões efetuadas pelos C-47 no Congo, eram


basicamente:

- transporte de tropas da ONU;

- transporte de material logístico, em apoio das unidades


militares da ONU;

- evacuação da população branca;

- transporte de mantimentos para os refugiados;

- missões de reconhecimento aéreo e de lançamento de


folhetins (eventuais).

Logo se fez necessário a organização de um programa de


instrução, de modo a adestrar como co-pilotos os oficiais
estrangeiros bem como três oficiais brasileiros, além de
desenvolver a capacidade de todos os pilotos de se comunicarem
em inglês com as torres de controle dos aeroportos, bem como
com o pessoal da ONU lá existente ou com elementos da população
local. Além do inglês se fez necessário desenvolver rudimentos de
francês, visto o Congo, ter sido colonizado pelos belgas.

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As tripulações eram completadas por mecânicos e
radiotelegrafistas, normalmente iugoslavos e suecos, e aí mais
uma vez a comunicação era problemática. Esse problema perdurou
até setembro, quando chegaram os primeiros sargentos mecânicos
brasileiros, mas só foi totalmente sanado em janeiro de 1961,
quando chegaram os radiotelegrafistas. A partir desta data, foi
possível constituir tripulações compostas somente de brasileiros,
fato esse que aumentava sobremaneira a eficiência das missões. A
integração dos militares brasileiros com os argentinos foi intensa,
sendo que por muitas vezes, sargentos brasileiros completaram as
tripulações portenhas.

As primeiras missões foram de muito risco, visto a total


ausência de um sistema terrestre de comunicações bem como
inexistência de informações meteorológicas. Os aviões partiam
para as missões, e o comando do esquadrão ficava sem
informações sobre o desenrolar da mesma, além das tripulações
quase não poderem se comunicar com os elementos de controle de
vôo em terra.

A falta de meios de transporte nos aeroportos e nas


cidades dificultava os deslocamentos em terra das tripulações, as
acomodações para pernoite eram muito rudimentares, mas
paulatinamente essas deficiências foram sendo sanadas pela ONU.

A segurança em terra era, nesta fase inicial, muito


precária e o antagonismo da população e das tropas congolesas
para com o pessoal da ONU resultou em muitas agressões,
algumas delas bem sérias, como a acontecida com membros da
tripulação de um avião canadense C-119, que foram brutalmente
agredidos no aeroporto de Leopoldville por soldados congoleses,
que os confundiu com pára-quedistas belgas.

O 1º Contingente

Como já dito, o primeiro contigente de militares da Força


Aérea Brasileira, era composto de dez oficiais-aviadores, e foram
enviados para o Congo em julho de 1960. Mais tarde, mais um
oficial-aviador e dez sargentos mecânicos (outubro de 1960), três

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oficiais-especialistas (dezembro de 1960) e seis sargentos
radiotelegrafistas (janeiro de 1961), foram enviados.

Ficaram no Congo, em média, de dez a doze meses, e a


grande maioria retornou ao Brasil em agosto de 1961, após as
primeiras hostilidades entre as tropas rebeldes de Katanga e as
Forças da ONU.

As missões das tripulações brasileiras não se restringiram


a vôos locais. Em fevereiro de 1961, duas delas foram mandadas à
Itália para transladarem em vôo, dois C-47 lá adquiridos pela
ONU.

Em março de 1961, uma aeronave C-47 com tripulação


brasileira, foi atingida em vôo por uma rajada de metralhadora
disparada por tropas congolesas, quando realizava missão de
reconhecimento, na tentativa de localizar um helicóptero H-13 da
ONU, com tripulação sueca, que estava desaparecido na região de
Boma, cidade situada às margens do Rio Congo. O helicóptero foi
localizado, o C-47 sofreu pequenos danos, não houve vítimas e
posteriormente o H-13 foi liberado.

Em abril de 1961, os C-47 realizaram uma ponte aérea


entre a cidade de Elisabethville (localizada na Província de
Katanga) e cidades da Rodésia, transportando mantimentos para
as tropas da ONU, visto que os comerciantes locais, em sua
maioria belga, se recusavam a vender mantimentos para eles.

O 2º Contingente

O segundo contingente da FAB, era composto de 11


oficiais-aviadores, de dois oficiais-especialistas e de 19
suboficiais e sargentos-mecânicos. Permaneceram seis meses no
Congo, entre julho de 1961 e janeiro de 1962 e durante esse
período apareceu no cenário a aviação de Katanga, atacando os
aviões e as tropas da ONU.

Fato relevante deste 2º contingente, foi o incidente onde


ficou ferido o Tenente Aviador Temporal, quando uma aeronave
Fouga-Magister de Katanga, atacou o aeroporto de Elisabethville,

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e o Tenente Temporal, na tentativa de salvar seu C-47, foi
também atacado com bombas e tiros de metralhadora, sendo
ligeiramente atingido por estilhaços em um dos braços.

A ONU, tendo em vista não possuir aeronaves de combate,


e estar sofrendo ataques por parte de Katanga, providencia um
reforço de cinco F-86 da Etiópia, cinco Saab da Suécia e cinco
bombardeiros Camberra da Índia. Em novembro, acontece um fato
revoltante, que foi o massacre de duas tripulações italianas (11
militares), na cidade da Kindu.

Entre os dias 5 e 18 de dezembro, recomeçam as


hostilidades entre as tropas de Katanga e as Forças da ONU.
Tudo se inicia com o bombardeio do aeroporto de Elisabethville
por aviões de Katanga e prossegue com combates generalizados
por vários pontos da cidade. A ONU reage e lança 6 000 homens
na luta, expulsando os rebeldes de Elisabethville, bem como
criando um perímetro defensivo em torno da cidade e do
aeroporto.

O 3º Contingente

O terceiro contingente era composto de 15 oficiais e de


34 suboficiais e sargentos. Passaram em média oito meses no
Congo, de janeiro de 1962 a setembro daquele ano. O Tenente-
Coronel-Aviador Francisco Bachá, oficial mais graduado do grupo,
foi o segundo brasileiro a assumir o comando do esquadrão de C-
47. Além de comandante do esquadrão, ele acumulava a Chefia de
Operações da Base Aérea de N´Dijili, principal Base Aérea da
ONU no Congo.

Neste período registra-se a visita do Mal. Eduardo Gomes,


ex-ministro da Aeronáutica. Também esteve no Congo, como
enviado da OACI (Organização de Aviação Civil Internacional) a
fim de coordenar operações e trabalhos de tráfego aéreo, o Brig
Ar (R) Hélio Costa, funcionário daquela organização.

Além das missões locais, as tripulações brasileiras voaram


para Addis-Abeba, capital da Etiópia, para buscar turbinas para

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os aviões de caça, bem como para Dar-es-Salam, na Tanzânia,
transportando tropas indianas.

Em dezembro de 1962, um C-47 da ONU, com tropas


suecas, foi abatido na Província de Katanga, por armas antiaéreas.

O 4º Contingente

A partir de dezembro de 1962, começou a seguir para o


Congo, o 4º contingente da FAB, num total de 27 oficiais e 42
suboficiais, sargentos e cabos. O embarque foi dividido, alguns de
seus integrantes só embarcaram no segundo semestre de 1963 e
os últimos componentes só regressaram ao Brasil no primeiro
trimestre de 1964. Nesse 4º contingente, além de pilotos de C-
47, a FAB enviou também pilotos de helicópteros.

Foi um período de muitas hostilidades, pois as tropas de


Katanga, totalmente sem comando, começaram a atirar
indiscriminadamente contra as Forças da ONU. Em dezembro de
1962, a ONU desencadeou a Operação Grandslan, na qual as
tropas rebeldes foram totalmente derrotadas e a Província de
Katanga cessou sua tentativa de se tornar independente. A Força
Aérea de Katanga foi destruída no solo, entre os dias 28 de
dezembro de 1962 e 4 de janeiro de 1963, quando aeronaves da
ONU atacaram sua parte principal em Kolwezi, ao sul da província.

Mesmo com a derrota das tropas de Katanga, o caos era


geral, com inúmeros atentados contra a população branca. Em
fevereiro de 1963, o novo Secretário-Geral da ONU, U Thant,
declarava que não era aconselhado a retirada das tropas, antes de
pelo menos um ano, pois temia o ressurgimento do movimento de
independência na Província de Katanga.

A situação econômica do país era desesperadora, não havia


investimentos econômicos, a inflação era alta, o desemprego era
total, a corrupção e a má administração criavam condições muito
favoráveis a implantação de um regime comunista.

Após a derrota das tropas de Katanga, o principal papel


das Forças da ONU era o de cooperar com o Exército Congolês na

16
manutenção da ordem. Até a saída total da Força de Paz, três
revoluções de caráter comunista aconteceram, tendo o exército
local sufocado-as sem necessidade de ajuda das Forças da ONU.
Foi durante esse período que o quarto contingente da FAB operou
no Congo.

Os elementos brancos e os missionários religiosos eram as


pessoas mais visadas pelos atentados comunistas, sendo que na
cidade de Kongolo, em Katanga, 22 missionários foram
brutalmente assassinados. Numa dessas operações da salvamento,
militares brasileiros, executaram a que seria a operação mais
heróica de toda a atuação da Força Aérea Brasileira no Congo.

A evacuação dos religiosos em perigo, era feita por


helicópteros da ONU. Voando em esquadrilhas de quatro ou cinco,
dois deles desciam para resgatar os religiosos, enquanto que os
demais permaneciam no ar, dando apoio de fogo e voando em
círculos em torno do local, de modo a manter afastados os nativos
congoleses enfurecidos.

Numa dessas operações, dois helicópteros pilotados por


aviadores brasileiros, juntamente com outros, estavam resgatando
um grupo de religiosos. Dois deles pousam para recolher os
reféns, enquanto que os mecânicos com metralhadoras em punho,
tentam manter afastados os nativos. Religiosos recolhidos, vôo
alçado, mas um dos aparelhos com tripulação brasileira apresenta
problemas e é obrigado a pousar em uma colina vizinha. Os nativos
congoleses se dirigem ameaçadoramente para o local. Dois
helicópteros da esquadrilha descem ao lado do que estava em
pane, sendo que um deles é o da outra equipagem brasileira, e
durante 15 minutos tentam inutilmente localizar e sanar a pane.
Quando os nativos se aproximam das aeronaves, os reféns e a
tripulação em pane são passados para os outros dois helicópteros,
escapando de uma morte quase certa. O helicóptero em pane é
totalmente destruído e queimado pelos congoleses. Esse ato de
bravura fez com que o Presidente dos Estados Unidos da América,
escrevesse uma carta ao Secretário-Geral da ONU parabenizando
os militares envolvidos no episódio.

17
Conclusões

A Força Aérea Brasileira enviou, entre 1960 e 1964, para


o Congo, um contingente de 69 oficiais e 110 suboficiais,
sargentos e cabos. Seus elementos se destacaram pela alta
capacidade profissional na operação e manutenção das aeronaves
C-47. Realizaram milhares de horas de vôo, em condições difíceis
e sem nenhum acidente. As missões de transporte eram cercadas
de riscos e em alguns casos eram verdadeiras missões de guerra.
Os militares brasileiros demonstraram bravura, audácia e espírito
de sacrifício. Foi mais uma página de sua história, digna de
tradições e que concorreu para elevar seu conceito internacional.

Alguns aspectos interesantes podem ser assinalados desta


experiência:

1. Uma vez mais a iniciativa pioneira das missões do


Correio Aéreo Nacional monstraram-se úteis para que os pilotos
pudessem voar com relativa segurança e em ambiente hostil.

2. A experiência de auto-suficiência das equipes de apoio


(mecânicos de vôo e radio-telegrafistas) sanando dificuldades
mecânicas e operacionais nas mais diferentes condições
operacionais, geográficas, climáticas e políticas.

3. O entedimento de operações integradas com povos de


outras origens em missões comuns avultando-se com os problemas
de idiomas, culturas e nível operacional.

4. O exercício, por parte de oficiais brasileiros, do


comando de tropas de diferentes nações.

5. O trabalho exercido por alguns oficiais brasileiros


destacados no QG da ONU, com experiências de planejamento de
operações aéreas conjuntas.

6. A familiarização, em algumas localidades, com


equipamentos de navegação e aproximação por instrumentos (VOR
e ILS) ainda não existentes no Brasil. à época.

18
Anexo I - ONUC - Operação da Nações Unidas no Congo: Dados
Gerais

Local: República do Congo (atual Zaire)

Quartel-General: Leopoldville (atual Kinshasa)

Duração: Julho de 1960 à Junho de 1964

Pessoal Envolvido: 19 828 militares (Argentina, Áustria, Brasil,


Burma - atual Myanmar, Canada, Ceilão - atual Sri Lanka,
Dinamarca, Etiópia, Gana, Guiné, Índia, Indonésia, Irã, Irlanda,
Itália, Libéria, Malásia, Federação de Mali - atual Mali e Senegal ,
Marrocos, Holanda, Nigéria, Noruega, Paquistão, Filipinas, Serra
Leoa, Sudão, Suécia, Tunísia, República Árabe Unida - atual Egito
e Síria e a antiga Iugoslávia)

Baixas: 250 (245 militares e 5 civis)

Custo: US$ 400,13 milhões

19
Anexo II - Mapa de Situação

20
Anexo III - Operações de Paz

Operação de Paz, é a prevenção, a contenção, a moderação


e o término de hostilidades entre Estados ou no interior de
Estados, pela intervenção pacífica de terceiros, organizada e
dirigida internacionalmente, com o emprego de forças
multinacionais de soldados, policiais e civis, para restaurar e
manter a paz.

Uma Operação de Paz é uma atividade em que as partes


envolvidas no conflito, os responsáveis pelos aspectos políticos e
os responsáveis pela execução da operação no campo dependem
uns dos outros tanto para o estabelecimento, quanto para o
eventual êxito da operação. Ela não pode representar, portanto,
ameaça para as partes no conflito, nem ser percebida como tal,
tem que ser executada com rigorosa imparcialidade, sem o que
seus participantes seriam vistos como partes no conflito e não
mais como terceiros capazes de contribuir para seu
equacionamento, e por tudo isso, existe a restrição ao uso da
força.

As Operações de Paz podem servir para diluir tensões na


medida em que propiciem saídas aceitáveis para situações
embaraçosas, ou uma boa desculpa para o que, na sua falta,
poderia ser uma volta atrás na situação. Servem também para
estabilizar situações ao contribuir para a redução no nível geral
de ansiedade, a preservação ou o esvaziamento de incidentes. Têm
sido assim empregadas em atividades tão diversas como a
observação de cessar-fogo, de retiradas de tropas ou da redução
negociada de armamentos, e até mesmo na supervisão de eleições.

A imparcialidade, essencial em uma Operação de Paz, faz


com que a assunção de funções de manutenção da lei e da ordem,
em um conflito de natureza interna, somente seja compatível com
a própria operação de paz, quando se dê em nome de um governo,
ou em apoio a um conjunto de arranjos constitucionais,
amplamente aceitos como legítimos na jurisdição em questão.

21
Para que sejam eficazes, as Operações de Paz, precisam
ser estabelecidas em um amplo marco internacional, apoiar-se em
mecanismos claros e aceitos para a cessão de pessoal, contar com
o consentimento expresso do Estado ou Estados anfitriões, lograr
assegurar efetiva cooperação política das partes no conflito, ter
uma presença militar ou quase militar internacional, com objetivo
claro de prevenir ou conter a violência, pelo uso limitado da força
na tentativa de criar condições e ambientes mais favoráveis para
a solução pacífica do conflito e das diferenças a ele associadas.

Tem-se, portanto que as Operações de Paz são


simplesmente uma técnica ou um instrumento de administração
por terceiros de conflitos entre Estados ou no território de um
determinado Estado, por meio da intervenção internacional não-
violenta, voluntária, organizada e preferivelmente de caráter
multinacional, pautada pela imparcialidade, consentida pelo Estado
ou Estados anfitriões, e desejada e apoiada pelas partes em
conflito.

22
Anexo IV - Por que participar de uma Força de Paz ?

Conjuga-se o verbo participar por muitas razões e em


circunstâncias das mais variadas. A participação é, por definição,
voluntária e decidida a partir da percepção do interesse nacional.
Pode-se afirmar, porém, que para alguns países e em determinados
momentos, essa participação, assume caráter quase mandatório.
Vejamos alguns exemplos:

- a Noruega:

A participação norueguesa quase que constante em


Operações de Paz, é assentada em algumas poucas considerações.
Como uma potência menor, interessa-lhe a preservação de
princípios de conduta como a não aceitação da conquista
territorial pela força e o primado do direto sobre o poder das
armas. Preocupa-lhe, igualmente, que os conflitos possam vir e
refletir-se sobre o espaço que ocupa e o meio em que se insere.

A sua participação nas Operações de Paz, ensejaria em


certas circunstâncias, a possibilidade de testar aspectos
operacionais de sua doutrina de defesa, rendendo-lhe um valioso
dividendo, pois uma força de paz opera em um ambiente que, de
vários ângulos, é mais realista e complexo do que aquele que se
pode simular durante um treinamento. A força tem de lidar com
desafios diferentes daqueles que se apresentam normalmente às
unidades militares, no seu país de origem, no tempo de paz. A
liderança é testada de forma mais direta do que é possível fazer
em um exercício em tempo de paz. A participação nas operações
de paz não inclúi todas as aptidões requeridas para o
estabelecimento de uma defesa nacional, mas acrescenta-lhe um
valioso complemento.

- o Canadá:

Outro país com larga participação nas operações de paz,


desde a época da Liga das Nações, que tem entre seus objetivos
de sua política de defesa nacional, o desempenho em operações de
paz. O Canadá encontro nas Nações Unidas um lugar para tirar

23
máximo proveito das oportunidades para o realce de seu interesse
e status, exercendo influência sobre os aliados maiores e vizinhos
poderosos e para ajudar a manter a paz. As Forças Armadas
Canadenses dariam substância aos objetivos diplomáticos fora da
América do Norte.

- o Quênia:

Países como o Quênia vêem na participação em operações


de paz, uma oportunidade de formar e capacitar seus
contingentes. Como o custo médio de suas tropas é inferior ao
valor do reembolso pelas Nações Unidas, eles asseguram
treinamento e formação de tropas a custo zero.

- o Uruguai:

Para os militares a participação em operações de paz é


oportunidade única de manterem um nível de recursos e de
exercitarem atividades, que não teriam outra alternativa para
fazer. Para os políticos, é a reafirmação de uma saída profissional
para a crise de identidade que as forças armadas daquele país
conheceram com o final do regime de exceção e a
redemocratização uruguaia. Considerando as dimensões do
Uruguai, de sua população e de suas forças armadas, a
participação de efetivos militares uruguaios no Camboja e em
Moçambique, na ordem de 1 770 homens, pode ser considerada
uma das mais expressivas. No Uruguai não há conscrição.

- a Argentina:

A experiência argentina não seria muito diferente da


uruguaia. Estima-se que pelo menos um quarto dos oficiais
argentinos, terão em breve, servido em operações de paz das
Nações Unidas. A Argentina busca possíveis efeitos
multiplicadores sobre sua interação com o sistema internacional.

- o Paquistão e a Índia:

Além de antigos inimigos políticos, são concorrentes na


participação nas operações de paz das Nações Unidas. Só perdem

24
para a França, em número de homens enviados para essas
atividades.

- Países do Leste Europeu:

A Polônia, a República Tcheca, a Eslováquia e a Ucrânia,


têm aumentado, de forma acentuada sua participação em forças
de paz. Aqui, se assomará por certo, a preocupação em ocupar e
dar uma vocação às respectivas forças armadas, na difícil
transição e no lento redirecionamento dos chamados dividendos
da paz.

A própria Rússia, tenta aproveitar seu material bélico


excedente, e em muitos casos superados, juntamente com a
restruturação do exército vermelho, que prevê uma especialização
de numerosos contingentes como efetivos de operações de paz.

- a França e o Reino Unido:

Potências militares e econômicas de peso específico


declinante, França e Reino Unido têm se mostrado dispostas a
explorar ao máximo as possibilidades de utilização das operações
das Nações Unidas. Têm estado com freqüência entre os
principais promotores do "peace-enforcement" e pretendido, por
vezes, que as operações de paz, possa constituir um verdadeiro
sistema de segurança coletiva internacional.

O interesse manifesto desses antigos poderes coloniais


em reafirmarem suas áreas de influência na África leva-os,
crescentemente, à defesa do estabelecimento de novas operações
naquele continente, seja para permitir a retirada de forças de
mobilização rápida que despacharam em intervenção bilateral,
seja para tentar conter, com a presença das Nações Unidas, a
deterioração de uma situação que conte com seu patrocínio ou
simpatia.

- o Japão e a Alemanha:

Mais que quaisquer outros, o Japão e a Alemanha estarão,


por outro lado, às voltas com a questão da participação quase

25
compulsória nas operações de paz das Nações Unidas. Quanto
menor é a disposição dos Estados Unidos, França e Reino Unido
em expor seus efetivos nacionais a riscos, maior será também sua
pressão para que os vestibular para vagas permanentes no
Conselho de Segurança exija mais do que responsabilidade e
confiabilidade políticas e solvência financeira.

- os Estados Unidos:

Sem dúvida, porém, a questão fundamental para a evolução


das operações de paz das Nações Unidas será a posição que os
Estados Unidos venha a definir em relação a elas, e as condições
em que se disponha a conjugar o verbo participar. As ações
americanas se pautaram nos seguintes princípios: a) Dever
estratégico de cooperar; b) Imperativo da legitimidade política; c)
Injunção da partilha das obrigações; d) Necessidades de
mudanças baseadas em princípios e e) Equidade e justiça, apanágio
das democracias ocidentais.

Para os americanos, as Nações Unidas teriam de superar a


improvisação como prática dominante na execução das operações
de paz e os Estados membros fazerem da participação e do apoio
às operações internacionais de manutenção da paz parte de suas
políticas nacionais e externas de segurança. As tropas americanas,
para participarem de operação de paz necessitam, de mandatos
bem definidos, limites no tempo, repartição de custeio,
especificação das circunstâncias em que os efetivos dos Estados
Unidos poderão estar vinculados a outro comando além
naturalmente do apoio político e da contribuição positiva à
segurança nacional americana, como pré-requisitos para qualquer
envolvimento.

- o Brasil:

O "participamos" brasileiro, por sua vez, data de muito, e


nos últimos anos, tem adquirido, pela diversificação,
característica de peculiar interesse, não se limitando aos
componentes militares. Tivemos 24 observadores eleitorais no
Camboja, e sua rica experiência nacional e a exposição

26
internacional poderão qualificar o Brasil como um centro de
treinamento para pessoal dos componentes eleitorais das
operações das Nações Unidas. Um também expressivo número de
monitores policiais tem sido utilizado pelas operações da Nações
Unidas.

O Brasil participou ainda entre 1933 e 1934, da


administração da disputa entre Colômbia e Peru, da região de
Letícia (época da Liga das Nações); do Comitê Especial das Nações
Unidas para os Balcãs, do Grupo de Observação das Nações
Unidas na Índia e do Paquistão, da Força de Segurança das
Nações Unidas na Nova Guiné Ocidental / Nova Irian, da Primeira
Força de Emergência das Nações Unidas, da Força de Paz das
Nações Unidas em Chipre, da Primeira e da Segunda Missão de
Verificação das Nações Unidas em Angola, Grupo de Observação
das Nações Unidas na América Central, da Operação das Nações
Unidas em Moçambique, da Missão de Observação em Uganda e
Ruanda, da Missão de Observação das Nações Unidas na Libéria,
da Missão de Observação das Nações Unidas em El Salvador, além
da Operação das Nações Unidas no Congo (ONUC), objeto do
presente trabalho.

Tem havido portanto, manifestação reiterada de interesse


da Organização das Nações Unidas em um aumento da presença do
Brasil nas forças de paz e missões de observações. A experiência
e o peso específicos do país, no universo da ONU, qualificam-no
sobejamente. Caberia, sim, investigar se convém atender aos
convites recebidos e trabalhar, em favor do aumento quantitativo
e qualitativo do nível de participação do Brasil.

27
Anexo V -Fotografias

Foto - 01
Apresentação do III Contingente ao
Chefe do E. M. Aer., Brigadeiro Armando Araribóia.

28
Foto - 02
Entrada do Esquadrão de C-47 da ONU.
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

Foto - 03
Prédio do Esquadrão de C-47 da ONU
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli.

29
Foto - 04
Aeronaves de Ligação e Observação da ONU.
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

Foto - 05
Hangar dos Esquadrões da ONU
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

30
Foto - 06
Sala de Breefing do Esquadrão de C-47 da ONU.
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

Foto - 07
O III Contingente da FAB. Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

31
Foto - 08
Cerimônia de Embarque dos corpos dos militares italianos
massacrados em Kindu. Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

Foto - 09
Tropa Congolesa de "Para-Comandos"
no dia da Cerimônia de Embarque dos
italianos massacrados em Kindu.
Foi uma tropa dessa que os matou.
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

32
Foto - 10
Cap Av Murillo Santos (meu pai), na Sala de Operações
do Esquadrão de C-47 da ONU.
Leopoldville - Aeroporto de N´djilli

Foto - 11
Militares brasileiros no aeroporto
de Albertville.

33
Foto - 12
Cap Av Murillo Santos (meu pai) e Ten Flynn da Irlanda
no Aeroporto de Albertville.

Foto - 13
Prédio principal do Aeroporto de Albertville.

Foto - 14
Aeronave C-47 da ONU sendo abastecida
no Aeroporto de Elizabethville.

34
Foto - 15
Cap Av Murillo Santos (meu pai) e tropas nigerianas
em Lullnabourg.

Foto - 16
C-47 em Goma.

Foto - 17
Aeronave C-47 do Esquadrão da
ONU no Aeroporto de Goma.

35
Foto - 18
Militares brasileiros e nativos
em Paulis, durante viagem de inspeção.

Foto - 19
Vista aérea de Leopoldville, capital do Congo.

36
Foto - 20
Ten Cel Av Francisco Bachá, comandante do
III Contingente da FAB e o Cap Av Murillo Santos (meu pai).

Foto - 21
Insígnia dos Elementos
da ONUC

37
Foto - 22
Miniatura da condecoração recebida pelos militares da FAB
que participaram da ONUC
"IN THE SERVICE OF PEACE"

38
Bibliografia

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independence? zurück zum Hausarbeitenarchiv , 1997

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39
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