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Ambiente & Sociedade – Vol. VII nº. 2 jul./dez.

2004

Desenvolvimento sustentável – de um projeto. Este não pode se limitar


desafio do século XXI unicamente aos aspectos sociais e sua base
José Eli da Veiga econômica, ignorando as relações
Rio de Janeiro, Garamond, 2005, 200p. complexas entre o porvir das sociedades
humanas e a evolução da biosfera ; na
realidade, estamos na presença de uma
IGNACY SACHS * co-evolução entre dois sistemas que se
regem por escalas de tempo e escalas
Na segunda metade do espaciais distintas. A sustentabilidade no
século passado, impulsionado pelos tempo das civilizações humanas vai
processos de descolonização e de depender da sua capacidade de se
emancipação do Terceiro Mundo e pela submeter aos preceitos de prudência
emergência do sistema das Nações ecológica e de fazer um bom uso da
Unidas, o desenvolvimento, um avatar do natureza. É por isso que falamos em
progresso iluminista, firmou-se como uma desenvolvimento sustentável. A rigor, a
das idées-force das ciências sociais, adjetivação deveria ser desdobrada em
configurando uma problemática ampla de socialmente includente, ambientalmente
caráter pluri e transdisciplinar, atravessada sustentável e economicamente sustentado
por polêmicas vivas de caráter ideológico no tempo.
e teórico. Tudo indica que a idéia do
Idéia, visão, conceito, desenvolvimento não perderá a sua
utopia ? Não creio que devamos nos centralidade nas ciências sociais do século
envolver neste debate semântico. O que que se inicia. Mais do que nunca
importa é deixar bem claro que o precisamos enfrentar as abismais
desenvolvimento não se confunde com desigualdades sociais entre nações e
crescimento econômico, que constitui dentro das nações e fazê-lo de maneira a
apenas a sua condição necessária porém não comprometer o futuro da humanidade
não suficiente. Como bem disse Celso por mudanças climáticas irreversíveis e
Furtado num dos seus derradeiros deletérias.
pronunciamentos, « só haverá verdadeiro No entanto, a problemática
desenvolvimento, que não se deve confundir do desenvolvimento passou de moda e o
com crescimento econômico, no mais das seu status acadêmico é cada vez mais
vezes resultado de mera modernização das marginal. As razões são múltiplas.
elites – ali onde existir um projeto social A teologia do mercado, que
subjacente » . faz hoje a cabeça de muitos economistas,
Por isso, em última instância, torna redundante o conceito de
o desenvolvimento depende da cultura, desenvolvimento.
na medida em que ele implica a invenção Por sua vez, os adeptos da
ecologia profunda teimam em considerar
o crescimento econômico como um mal
absoluto, quaisquer que sejam as suas
* Professor Emérito da EHESS - Paris e criador do
CRDC (Centro de Pesquisas sobre o Brasil
modalidades e os usos sociais do seu
Contemporâneo). produto.

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RESENHA/BOOK REVIEW

Por fim existem os desencan- conceito que J. K. Galbraith considera com


tados do desenvolvimento, que apontam razãao como totalmente inócuo e por isso
o fracasso bastante geral das políticas que tão difundido. 1 Em paralelo, devemos
se reclamavam do desenvolvimentismo superar as barreiras que hoje separam as
para justificar o abandono puro e simples diferentes disciplinas do saber, caminhando
do conceito do desenvolvimento, visto por para a eco-socio-economia proposta por
alguns como uma mera armadilha William Kapp.
ideológica inventada por políticos do Mas estes já são temas para
primeiro mundo para perpetuar seu um novo livro, que os leitores deste têm o
domínio sobre os países periféricos. direito de esperar de José Eli da Veiga.
Este fracasso é indiscutível,
porém como avaliá-lo sem lançar mão do
conceito normativo de desenvolvimento
ou, ainda melhor, sem recorrer ao par
desenvolvimento/mau-desenvolvimento que
configura um contínuo de situações
possíveis? Sobretudo, como definir
políticas de saída do mau-desenvolvimento
reinante na ausência de um projeto de
desenvolvimento visionário e exequível?
Convém apreciar o livro de
José Eli da Veiga neste contexto difícil e
confuso. Em quatro capítulos densos e
eruditos, fruto de leituras bem escolhidas
e de reflexão original, o autor discute os
conceitos de desenvolvimento e de
sustentabilidade e as diferentes maneiras
de sua mensuração. Conclui, como era
de se esperar, pela defesa do conceito de
desenvolvimento sustentável como utopia
para o século XXI, postulando a
necessidade de buscar um novo paradigma
científico, capaz de se substituir ao
industrialismo.
Concordo com o autor de que
necessitamos de novos paradigmas, já que
estamos sentados sobre as ruínas do
socialismo real, do Consenso de
Washington, do crescimento econômico
socialmente perverso por se alimentar de
desigualdades crescentes, da social- 1. J. K. GALBRAITH, Les mensonges de l’économie.
Vérités pour notre temps, Grasset, Paris, 2004.
democracia, que foi longe demais na (título em inglês, The Economics of Innocent
aceitação da economia de mercado, um Fraud, Houghton Mittlin Company, New York, 2004)

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