Capa MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Pergaminho Badana da capa Mitch Albom é jornalista e comentador

desportivo. É também autor de vários livros, de entre os quais se destaca As Terças com Morrie, um best-seller internacional com mais de cinco milhões e meio de exemplares vendidos que ocupou os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times durante quatro anos seguidos. As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é o seu primeiro romance. Desde a sua primeira edição, em Setembro de 2003, que tem ocupado os primeiros lugares da lista de best-sellers do New York Times. O sucesso que tem tido junto do público tem-se reflectido na crítica: "Esta é a fábula que lemos de uma assentada quando nos apaixonamos. É o conto que temos sempre à mão quando nos sentimos perdidos. É a história que queremos escutar vezes sem conta, pois tem aquela capacidade rara e mágica de nos dar a ver a nós próprios e ao mundo sob uma nova perspectiva. Este livro é um presente para a alma." Amy Tan Badana da contracapa "O leitor encontrará aqui ecos dos grandes clássicos - como a Odisseia - e isso faz com que esta obra de Mitch Albom esteja em muito boa companhia." Frank McCourt "Uma história cheia de sabedoria acerca do valor da vida humana." Los Angeles Times "As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu é um livro poderoso." Time Magazine "Um livro doce e animador, sem vestígios de sentimentalismo." Booklist "Uma obra sincera que tem o poder de comover e reconfortar os leitores." The New York Times Contracapa Eddie é um veterano da Segunda Guerra Mundial que sente que a sua vida não tem qualquer sentido ou importância. Aos 83 anos, trabalha ainda como responsável de manutenção num parque de diversões. Passa os dias a fazer trabalhos rotineiros e não consegue afastar a sensação profunda

de solidão e de arrependimento por não ter vivido mais intensamente. Mas é precisamente no dia do seu 83.° aniversário que Eddie morre num acidente trágico, ao salvar a vida a uma criança. A última coisa que sente são duas mãozinhas a segurar as suas - e depois um imenso silêncio. É então que tudo começa. Eddie desperta no Céu. À sua espera estão cinco pessoas - umas são perfeitos desconhecidos, outras são-lhe muito próximas – que, de uma forma ou de outra, determinaram o percurso da sua vida. Cada uma destas pessoas fez parte da vida de Eddie por uma razão especial, embora ele não compreendesse na altura. O Céu é o lugar para onde vem para o compreender. Através destas cinco pessoas, Eddie vai descobrir as ligações invisíveis que constituíram o padrão da sua vida. Será que passou 83 anos insignificantes na Terra? Ou que passou teria a sua vida tido, afinal, algum sentido? Página de rosto MITCH ALBOM As Cinco Pessoas Que Encontramos no Céu Tradução de Tânia Ganho Pergaminho Ficha Técnica As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu Mitch Albom Tradução de: The Five People You Meet in Heaven Hyperion, 2003 copyright © 2003, by Mitch Albom Todos os direitos reservados. Este livro não pode ser reproduzido, no todo ou em parte, por qualquer processo mecânico, fotográfico, electrónico, ou por meio de gravação, nem ser introduzido numa base de dados, difundido ou de qualquer forma copiado para uso público ou privado — além do uso legal como breve citação em artigos e críticas — sem prévia autorização do editor. copyright © 2004, da tradução e editoração portuguesas by Editora Pergaminho, Lda. Direitos reservados para a língua portuguesa (Portugal) à Editora Pergaminho, Lda. Cascais, Portugal l.a edição, 2004 l.a reimpressão, 2004 ISBN 972-711-587-X Este livro é dedicado a Edward Beitchman, o meu querido tio, que me deu o meu primeiro conceito de Céu. Todos os anos, à volta da mesa festiva do Dia de Acção de Graças, ele contava a história de uma noite que passou no hospital, em que acordou e viu as almas dos seus entes queridos, que já haviam falecido, sentados à beira da cama, à sua espera. Lembrar-me-ei sempre dessa história.

Lembrar-me-ei sempre dele. Toda a gente tem uma ideia do Céu, como a tem a maioria das religiões, e todas devem ser respeitadas. A versão que aqui apresento é apenas um palpite, um desejo, de certo modo, de que o meu tio e outras pessoas como ele — pessoas que se sentiram pouco importantes aqui na Terra — percebam, finalmente, o quão importantes e amadas foram. Fim Esta é a história de um homem chamado Eddie e começa pelo fim, com Eddie a morrer sob o Sol. Pode parecer estranho começar uma história pelo final. Mas todos os finais são também começos. Só não o sabemos no momento... A última hora de vida de Eddie foi passada, como quase todas as outras, em Ruby Pier*, um parque de diversões à beira de um vasto oceano cinzento. O parque tinha as habituais atracções, uma ampla marginal para as pessoas passearem, uma roda gigante, montanhas-russas, carrinhos de choque, uma banca de doces e uma galeria de máquinas de jogo, onde se podiam disparar jactos de água para a boca de um palhaço. Tinha também uma atracção nova, chamada Queda Livre, e seria aqui que Eddie acabaria por morrer, num acidente a que os jornais de uma ponta à outra do estado dariam destaque. Aquando da sua morte, Eddie era um homem de idade, baixo e de cabelos brancos, sem pescoço, com o peito em forma de barril, braços fortes e uma tatuagem descorada do exército no ombro direito. As pernas eram magras e cheias de varizes, e o seu joelho esquerdo, * À letra, o Cais da Ruby. (N. da T.) ferido na guerra, sofria de artrite. Eddie apoiava-se numa bengala para andar. O seu rosto era largo e enrugado pelo sol, com um bigode desleixado e o maxilar inferior ligeiramente protuberante, que lhe dava um ar mais orgulhoso do que ele realmente era. Tinha sempre um cigarro preso na orelha esquerda e um chaveiro pendurado no cinto. Calçava sapatos com sola de borracha. Usava um velho boné de linho. O seu uniforme castanho claro lembrava o de um operário e Eddie era precisamente isso, um operário. O trabalho de Eddie era «assegurar» as atracções, o que significava que estava encarregado de zelar pela segurança. Todas as tardes, percorria o parque, examinando cada máquina, desde o Corropio à Montanha-Russa Oleoduto. Verificava se havia tábuas partidas, parafusos soltos, aço gasto. Por vezes ficava parado, de olhos fixos e turvos, e as pessoas que passavam por ele pensavam que estava a sentir-se mal. Mas estava simplesmente à escuta, nada mais. Depois de tantos anos, Eddie conseguia ouvir os problemas, dizia ele, no ranger, percutir e gaguejar do equipamento. Restando-lhe apenas cinquenta minutos de vida na Terra, Eddie fez a sua última ronda por Ruby Pier. Passou por um casal de velhinhos. — Boa tarde — murmurou ele, levando a mão ao boné. Eles acenaram com a cabeça educadamente. Os clientes conheciam Eddie. Pelo menos, os clientes habituais. Viam-no Verão após Verão, uma daquelas caras que se associam a determinado lugar. A sua camisa de trabalho tinha uma etiqueta no peito com o seu nome, Eddie, por cima da palavra Manutenção, e por vezes diziam-lhe: «Olá, Eddie Manutenção», embora ele não visse onde estava a graça. Hoje, curiosamente, Eddie fazia oitenta e três anos. Na semana passada, um médico dissera-lhe que

ele tinha zona. Zona? Eddie não conhecia a doença. Antigamente, tinha força para levantar um cavalo de carrossel em cada braço. Mas isso fora há muito tempo... 10 — Eddie!... Leva-me, Eddie!... Leva-me! Quarenta minutos até à sua morte. Eddie dirigiu-se para a frente da fila da montanha-russa. Costumava dar uma voltinha em cada atracção, pelo menos uma vez por semana, para ter a certeza de que os travões e engrenagens eram seguros. Hoje era o dia da montanha-russa — a MontanhaRussa Fantasma, chamavam-lhe — e os miúdos que conheciam Eddie chamavam-no para ele os levar. As crianças gostavam de Eddie. Não os adolescentes. Os adolescentes davam-lhe dores de cabeça. Depois de tantos anos, Eddie achava que já tinha visto todo o tipo de adolescente mandrião e maleducado. Mas as crianças eram diferentes. As crianças olhavam para Eddie — que, com o seu maxilar inferior protuberante parecia estar sempre a sorrir, como um golfinho — e confiavam nele. Aproximavam-se de Eddie como umas mãos frias se aproximam de uma lareira acolhedora. Agarravam-se às pernas dele. Brincavam com o seu chaveiro. Eddie pouco falava, dizia qualquer coisa entre dentes. Estava convencido de que gostavam dele precisamente por isso, por falar pouco. Eddie deu uma palmadinha nos dois miúdos de bonés de basebol virados ao contrário. Eles correram para a cabina e instalaram-se no banco. Eddie entregou a bengala ao funcionário da montanha-russa e, lentamente, sentou-se entre os miúdos. — Aqui vamos nós... Aqui vamos nós!... — guinchou um deles, enquanto o outro agarrava no braço de Eddie e o punha por cima dos seus ombros. Eddie baixou a barra sobre o colo e claqueclaque-claque, lá foram eles. Corria a história sobre Eddie. Quando era miúdo, criado ali mesmo, naquele cais, meteu-se numa briga de rua. Cinco rapazes de Pitkin Avenue tinham encurralado o irmão dele, Joe, e estavam a preparar-se para lhe dar uma sova. Eddie encontrava-se a um quarteirão de distância, num banco, a comer uma sanduíche. Ouviu o irmão gritar. Correu para o beco, pegou na tampa de um latão do lixo e deu tanta pancada nos rapazes, que eles foram parar ao hospital. Depois disso, Joe não falou com ele durante dois meses. Tinha vergonha. Joe era o mais velho, o primogénito, mas fora Eddie quem lutara. 11 — Podemos dar mais uma volta, Eddie? Por favor? Trinta e quatro minutos de vida. Eddie levantou a barra de protecção, deu um chupa-chupa a cada um dos miúdos, pegou na sua bengala e coxeou, até à oficina da manutenção, para se refrescar um pouco do calor de Verão. Se soubesse que a sua morte estava iminente, talvez tivesse ido para outro lugar. Em vez disso, fez o que todos fazemos. Prosseguiu com a sua rotina entediante, como se tivesse todo o tempo do mundo pela frente. Um dos empregados da oficina, um rapaz esgalgado de cara chupada, chamado Dominguez, encontrava-se junto do lavatório dos solventes, a limpar o óleo de uma roda. — Olá, Eddie — cumprimentou ele. — Olá, Dom — respondeu Eddie. A oficina cheirava a serradura. Era escura e apertada, com o tecto baixo e paredes forradas de pegas para pendurar brocas, serras e martelos. Por toda a parte, viam-se peças do esqueleto das máquinas do parque: compressores, motores, correias, lâmpadas, o cimo da cabeça de um pirata. Empilhadas contra uma parede estavam latas de café com pregos e parafusos, e contra outra, um sem-fim de tubos de óleo. Olear um trilho, dizia Eddie, não exigia mais esforço intelectual do que lavar um prato; a única diferença era que a pessoa ficava mais suja quando o fazia, e não mais limpa. E era esse o tipo de

arranjar outro trabalho. a usar calças largueironas e a mergulhar num estado de resignação cansada. Ainda tinha um pedaço de isco agarrado. tirou um maço de notas do bolso e escolheu as de vinte. voltou para a zona do armazém. construir uma vida diferente. Eddie acenou com a cabeça e Dominguez fez uns passinhos de dança. Tens a certeza? Eddie enfiou o dinheiro na mão de Dominguez. sabendo que nunca um peixe tão grande passaria por um buraco tão pequeno. Mas veio a guerra. — O Eddie. Os seus planos nunca se concretizaram. — Ei. — Compra uma coisa bonita para a tua mulher — disse Eddie. num mundo de riso mecânico e salsichas no churrasco. ou como os miúdos por vezes lhe chamavam: «o homem das voltinhas de Ruby Pier». não te esqueças de que para a semana não estou cá. Mas as pessoas já não procuravam os cais à beira-mar. deu por si a ficar grisalho. Eddie atravessou para o extremo sul da marginal. — Eu e a Theresa. também Eddie fazia parte da manutenção — o chefe da manutenção —. O negócio andava fraco. vamos apanhar um mero! — Pois — murmurou Eddie. Estendeu-as. — Onde? — Ao México? Eddie soltou o ar pelo nariz. nunca fui a lado nenhum para onde não me mandassem de espingarda atrás. Dominguez olhou para o dinheiro. inspeccionar painéis eléctricos. Muitas vezes desejara abandonar aquele emprego. Eddie resmungou qualquer coisa entre dentes. Antigamente. tal como a etiqueta na sua camisa. Aquela linha de pesca nunca tinha nada. — Apanhámos alguma coisa? — gritou Dominguez. Eddie. Observou Dominguez. ele era assim e assim seria sempre. 12 Trinta minutos de vida. sorriu de orelha a orelha e disse: — Eh. Depois. A rapariga da banca de doces estava apoiada nos cotovelos. Grande festança. apertar porcas. ouvi dizer que fazes anos — disse Dominguez. miúdo. Tinha elefantes e fogo-deartifício e maratonas de dança. um homem com areia nos sapatos. Parou de dançar quando reparou no olhar de Eddie. que descia até o mar. duas delas. Depois. Vinte e seis minutos de vida. Pensou por instantes. Com o tempo. onde pagavam setenta e cinco dólares para entrar e ficavam com uma fotografia . Tal como o seu pai antes dele. — Diz-me que apanhámos um peixe! Eddie perguntou-se como é que o rapaz conseguia ser tão optimista. Vamos ver a família toda. — Não há festarola? Eddie fitou-o como se o rapaz tivesse enlouquecido. a partir de segunda-feira.trabalho que Eddie fazia: pôr óleo. pensou o quão estranho era envelhecer num lugar que cheirava a algodão doce. ajustar travões. Vou para o México. — Já alguma vez lá foste? — perguntou Dominguez. Ruby Pier era o lugar para onde toda a gente ia no Verão. que voltou para o lavatório. a fazer balões com a pastilha elástica. pá. preferiam os parques temáticos. 13 — Um dia — gritou Dominguez —. — Olha. Deu um puxão no fio de nylon de vinte e cinco metros. Por instantes. Um pequeno «buraco de pesca» fora aberto há anos nas tábuas do passeio da marginal e Eddie levantou a tampa de plástico.

Eddie — resmungou o irmão.. como as barbatanas de uma foca. Eddie passou a coxear pelos carrinhos de choque e fixou os olhos num grupo de adolescentes pendurados na barreira de protecção. Ninguém perguntou. Estava tão nervoso. envolveu-se numa escaramuça com um dos seus próprios homens. Ela envergava um vestido amarelo de algodão. . Eddie pouco falou. grande parte do corpo de Eddie sugeria que ele era um sobrevivente. zzzap zzzap. Mas. Para o resto da sua vida. Dançaram ao som da grande banda. sobre o peito. — Não é seguro — repetiu Eddie. que quase a partiu ao meio. Todas as vidas contêm uma imagem fotográfica de verdadeiro amor. Eddie abanou a barreira com tanta força. como o de um pugilista antes de ter levado demasiados socos. — Atropelem-m. — Vamos. Agora. que tinha uma madeixa cor de laranja no cabelo. acenando para os jovens condutores. Um miúdo. que nos anos setenta fora a Enguia de Aço. com uma boina cor-de-rosa nos cabelos. que nos anos oitenta fora o Trovão. ela a acenar-lhe por cima do ombro. Para Eddie. Os postes dos carrinhos zumbiam de electricidade. — Saiam daí — ordenou Eddie.. Foi assim que Eddie ficou ferido. — FORA DAQUI! Os adolescentes fugiram a correr. quando se afastou. que antes disso fora a Concha da Banda do Estrelato. Lindo. depois de uma trovoada. Disse-lhe que tinha conhecido a rapariga com quem ia casar. 14 Com dezanove minutos de vida na Terra. Demonstrara coragem. Eddie voltou para casa e acordou o irmão mais velho. Que foi onde Eddie conheceu Marguerite. Os seus dedos formavam estranhos ângulos. mais para o fim do seu tempo de serviço. numa velha cadeira de praia de alumínio. que nos anos sessenta foram os Baloiços Chupa-Chupa. Os seus braços curtos e musculosos dobraram-se. Os adolescentes lançaram-lhe um olhar de desafio. Só me faltava isto. Na verdade. estivera na frente de combate. O nariz fora partido várias vezes naquilo a que ele chamava «brigas de saloon». pensou ele para os seus botões. batendo na barreira com a bengala. que nos anos cinquenta fora o Ri no Escuro. atrás da atracção do Coelho Saltador. os seus cabelos negros caindo sobre um dos olhos. As suas pernas estavam vermelhas do sol e o joelho esquerdo ainda tinha cicatrizes. Ninguém sabia o que acontecera ao outro tipo. Mas. Nessa noite. foi numa noite quente de Setembro. sempre que pensava em Marguerite. Ele comprou-lhe uma limonada. Era essa a imagem. Quando era soldado. 15 — Vê mas é se dormes. Ela disse que tinha de ir embora. atropelem-me! — gritou. em que a marginal estava ensopada de água. até recebera uma medalha. O seu rosto largo de maxilares bem marcados podia ter sido atraente. Eddie sentou-se pela última vez.tirada ao lado de uma personagem peluda em tamanho gigante. devido às muitas fracturas provocadas pelo manuseamento de máquinas. — Vá. virou-se para trás e disse-lhe adeus. que parecia que tinha a língua colada aos dentes. e sentia a mesma explosão arterial de amor. Corria outra história sobre Eddie. Eddie revia esse instante. que isso não é seguro. Com a bengala. Os adolescentes entreolharam-se. malta. por causa dos pais. um dia. Aquele era o seu lugar habitual na marginal de Ruby Pier. Eddie tinha um ar simplesmente cansado. Long Legs Delaney e a sua Everglades Orchestra. fitou Eddie com um sorriso escarninho e passou para a barreira do meio.

Rebentou uma onda na praia. embora Eddie nunca tivesse visto nem mãe.. «Fizeste-me amar-te. Costumava pensar muito em Marguerite.. Nicky levou a mão ao bolso do casaco. Dezasseis minutos de vida... Perdera a chave. Por vezes. de aproximadamente oito anos. Misturava-se agora na sua cabeça com a cacofonia das ondas e das crianças aos gritos. Uuussshhh. Era como uma ferida por baixo de uma velha ligadura.. pensou ele que se chamava. sempre o soubeste e sempre. Eddie tossiu uma coisa que não quis ver. aquela que a Judy Garland cantava no filme... diamantes de sol dançavam nas águas e Eddie observou o seu movimento delicado. ele e os amigos andaram em todas as diversões velozes: o Falcão Voador. O fim da história de Eddie foi tocado por outra história aparentemente inocente. meses antes — numa noite enevoada. Desde a guerra que não sentia firmeza nas pernas. «. estava diante dele. Doze minutos de vida. a Queda de Água. a tapar-lhe o sol. aí. que se chamava Nicky.. O jovem. e ele habituara-se à ligadura. bebendo cerveja dentro de sacos de papel pardo. no oceano. voltaram para o parque de estacionamento. as histórias encontram-se ao virar da esquina e por vezes encobrem-se umas às outras completamente. Uma menina.. Portanto. Fechou os olhos com força.. Eddie ainda era gracioso. nem pai. Praguejou. — Faz favor. «. Catorze minutos até à sua morte.» liiiiiiiii! «. Passara muitas tardes ali. como as pedras no fundo de um rio. Amy. a Queda Livre.. Procurou. em que um jovem chegou a Ruby Pier com três amigos.. — Mãos ao alto! — gritou um deles. amar-te. soube. acabara de aprender a conduzir e ainda não se sentia confortável a andar de chaveiro na mão. depois atou o casaco à cintura. Tinha caracóis louros e usava sandálias e calções de ganga e uma T-shirt verde-lima com um desenho animado estampado na frente... com Marguerite. Nenhuma história vem só. «.. Uuussshhh. Ao largo. .» liiisssshhhh.» Uuussshhh.... Fechou os olhos e permitiu-se recordar a canção que os aproximara. a Montanha-Russa Fantasma. Mais tarde. exaustos e a rir. 16 Mas na Concha da Banda do Estrelato.Uuussshhh. para tornar a recordação mais vívida. Eddie limpou a testa com um lenço. fizeste-me amar-te e eu não queria fazê-lo.» Eddie sentiu as mãos de Marguerite nos seus ombros. quando já era noite. Amy ou Annie..» Splaaassshhh. O que seria a tal doença chamada zona? Uuussshhh.. Nas horas que se seguiram. Cuspiu-a para longe. nesse Verão. tirou a chave do carro e pô-la dentro do bolso do casaco. E esticaram as mãos para o alto. Agora já não tanto.

— Fazzzz favor — repetiu ela. — Eddie Man’tenção? Eddie suspirou. — Eddie só — disse ele. — Eddie? — Sim? — Podes fazer-me... Ela uniu as mãos, como que numa prece. — Vamos, menina, despacha-te, que eu não tenho o dia todo. — Podes fazer-me um animal? Podes? 17 Eddie olhou para cima, como se tivesse de pensar no assunto. Depois, levou a mão ao bolso da camisa e tirou três limpadores de cachimbo amarelos, com que andava sempre para essas ocasiões. — Siiim! — exclamou a menina, batendo as palmas. Eddie começou a retorcer os arames. — Onde estão os teus pais? — A andar nas diversões. — Sem ti? A garota encolheu os ombros. — A minha mãe está com o namorado. Eddie levantou os olhos. Ah... Dobrou os arames em várias argolas pequeninas, depois torceu as argolas umas nas outras. As mãos tremiam-lhe agora, por isso demorava mais tempo do que era hábito, mas daí a pouco os limpadores de cachimbo pareciam uma cabeça, orelhas, corpo e cauda. — Um coelho? — perguntou a menina. Eddie piscou o olho. — Obrigaaaada! Ela deu meia-volta, perdida naquele mundo de distracção onde as crianças nem sequer sabem para que lado vão os seus pés. Eddie tornou a limpar a testa e depois fechou os olhos, afundado na cadeira de praia, e tentou retomar a velha canção na sua cabeça. Uma gaivota guinchou ao voar por cima dele. Como é que as pessoas escolhem as suas derradeiras palavras? Terão noção do seu peso? Estarão destinadas a ser sábias? Pelo seu 83° aniversário, já Eddie perdera praticamente todas as pessoas de quem gostava. Algumas tinham morrido jovens e outras haviam tido a oportunidade de envelhecer, antes de uma doença ou um acidente as levar. Nos seus funerais, Eddie ouvia as pessoas de luto recordarem as suas últimas conversas. «Era como se ele soubesse que ia morrer...», diziam algumas. Eddie nunca acreditara nisso. Na sua opinião, quando chegava a hora, chegava e ponto final. Tanto se podia dizer uma coisa muito inteligente antes de partir, como uma coisa estúpida. 18 Para que fique registado, as derradeiras palavras de Eddie foram: «Afastem-se!» Aqui ficam os sons dos últimos minutos de vida de Eddie. Ondas a rebentar na areia. A batida distante de música rock. O ronronar de um pequeno bimotor, arrastando um cartaz pendurado na cauda. E isto. — OH, MEU DEUS! OLHEM! Eddie sentiu os olhos moverem-se rapidamente por baixo das pálpebras. Ao longo dos anos, aprendera a reconhecer todos os sons de Ruby Pier e conseguia dormir embalado por eles. — OH, MEU DEUS! OLHEM!

Eddie endireitou-se muito depressa. Uma mulher de braços gordos às covinhas, com um saco das compras na mão, apontava e gritava. A sua volta, juntara-se uma pequena multidão, de olhos postos nos céus. Eddie viu-o de imediato. No cimo da Queda Livre, a nova torre-atracção, um dos carrinhos estava todo inclinado, como que prestes a despejar a sua carga. Quatro passageiros, dois homens e duas mulheres, presos apenas pela barra de protecção, tentavam agarrar-se freneticamente a qualquer coisa. — OH, MEU DEUS! — gritava a mulher gorda. — COITADAS DAS PESSOAS! VÃO CAIR! Uma voz berrou roucamente no rádio preso ao cinto de Eddie. «Eddie! Eddie!» Eddie premiu o botão. — Estou a ver! Chamem a segurança! Vieram pessoas a correr da praia, apontando como se tivessem ensaiado para aquele momento. Olhem! Lá em cima, no céu! Uma diversão que vai acabar em tragédia! Eddie pegou na bengala e caminhou o mais depressa que pôde para a vedação protectora, na base da plataforma, o seu molho de chaves a tilintar contra a anca. O coração parecia querer saltar-lhe do peito. A Queda Livre devia deixar cair dois carrinhos de cada vez, numa descida de dar a volta ao estômago, e só se detinha no último instante, 19 com um jacto de ar hidráulico. Como é que um carrinho se soltara daquela maneira? Estava inclinado a uns metros de distância da plataforma superior, como se tivesse começado a descer e, de repente, tivesse mudado de ideias. Eddie chegou à cancela e teve de parar para recuperar o fôlego. Dominguez apareceu a correr e quase esbarrou nele. — Ouve! — disse Eddie, agarrando Dominguez pelos ombros. Apertou-o com tanta força, que Dominguez fez um esgar de dor. — Ouve! Quem é que está lá em cima? — O Willie. — Está bem. Ele deve ter activado a paragem de emergência. E por isso que o carrinho está pendurado. Sobe a escada e diz ao Willie para soltar manualmente a barra de segurança, para que aquelas pessoas possam sair dali. Percebeste? Como fica na parte de trás do carrinho, vais ter de segurá-lo enquanto ele se debruça para o fazer. Percebeste? Depois... depois, vocês os dois... vocês os dois, percebeste?... vocês os dois tiram as pessoas de lá! Um segura-se ao outro! Percebeste?... Percebeste? Dominguez apressou-se a fazer que sim com a cabeça. — Depois, manda o raio do carrinho para baixo, para ver se descobrimos o que aconteceu! A cabeça de Eddie latejava de dor. Embora o seu parque nunca tivesse sido palco de grandes acidentes, conhecia as histórias de horror da sua profissão. Uma vez, em Brighton, uma porca soltara-se numa gôndola e duas pessoas caíram para a morte. Outra vez, no Wonderland Park, um homem tentara atravessar a pé o trilho de uma montanha-russa; caiu e ficou preso pelas axilas. Ficou entalado, aos gritos, e os carrinhos a virem acelerados na direcção dele... bom, é escusado contar o resto. Eddie afastou esse episódio da mente. Havia muita gente à sua volta, agora, com as mãos a taparem as bocas, a verem Dominguez trepar a escada. Eddie tentou lembrar-se das entranhas da Queda Livre. Motor. Cilindros. Hidráulica. Selos. Tampões. Cabos. Como é que um carrinho se soltara? Seguiu o trajecto visualmente, das quatro pessoas assustadas no cimo da torre, passando pela conduta, até à base. Motor. Cilindros. Hidráulica. Tampões. Cabos... 20 Dominguez chegou à plataforma superior. Fez o que Eddie mandou, segurando Willie, enquanto

Willie se debruçava na direcção da traseira do carrinho, para libertar a barra de segurança. Uma das mulheres lançou-se para Willie, quase o derrubando da plataforma. A multidão susteve a respiração. — Espera... — disse Eddie para si mesmo. Willie tentou de novo. Desta vez, conseguiu libertar o mecanismo de segurança. — Cabo... — murmurou Eddie. A barra levantou e a multidão fez «Ahhhhh». Os passageiros foram rapidamente puxador para a plataforma. — O cabo está a desenrolar-se... E Eddie tinha razão. No interior da base da Queda Livre, escondido da vista, o cabo que puxava o carrinho n.° 2 tinha, nos últimos meses, estado a roçar contra uma roldana presa. Como estava bloqueada, a roldana começara gradualmente a raspar os fios de aço do cabo — era como tirar os fios a uma espiga de milho —, até que vários ficaram à beira de partir. Ninguém reparou. Como poderiam tê-lo feito? Só uma pessoa que tivesse rastejado para dentro do mecanismo teria visto a causa improvável do problema. A roldana estava presa por um pequeno objecto entalado, que devia ter caído pela abertura exactamente no momento certo. A chave de um carro. — Não soltes o CARRINHO! — gritou Eddie, a esbracejar. — EI! EEIII! É O CABO! NÃO SOLTES O CARRINHO! O CABO VAI PARTIR! A multidão afogava os seus gritos, a aclamar desenfreadamente Willie e Dominguez, enquanto eles recolhiam o último passageiro. Os quatro estavam sãos e salvos. Abraçaram-se no cimo da plataforma. — DOM! WILLIE! — gritou Eddie. Alguém embateu contra a sua cintura, fazendo cair o seu walkie-talkie. Eddie baixou-se para o apanhar. Willie dirigiu-se para a cabina de controlo. Levou o dedo ao botão verde. Eddie olhou para cima. — NÃO, NÃO, NÃO, NÃO FAÇAS ISSO! Eddie virou-se para a multidão. 21 — AFASTEM-SE! Algo na voz de Eddie deve ter chamado a atenção das pessoas; pararam de aclamar e começaram a afastar-se. Abriu-se uma clareira na base da Queda Livre. E Eddie viu o último rosto da sua vida. Ela estava estendida na base de metal da diversão, como se alguém a tivesse derrubado, com o nariz sujo, os olhos cheios de lágrimas, a menina com o animal feito de arames para limpar cachimbos. Amy? Annie? — Ma... Mamã... Mamã... — soluçava ela, quase ritmicamente, o seu corpo prisioneiro daquela paralisia típica das crianças quando choram. — Ma... Mamã... Ma... Mamã... Os olhos de Eddie saltaram dela para os carrinhos. Ainda iria a tempo? Ela e os carrinhos... Vuuum. Demasiado tarde. Os carrinhos estavam a cair — Meu Deus, eh soltou o freio! — e, para Eddie, tudo se dissolveu em movimento subaquático. Largou a bengala e puxou pela sua perna doente, sentindo uma descarga de dor que quase o deitou ao chão. Um passo grande. Mais um passo. Dentro da conduta da Queda Livre, o último fio de aço partiu-se e roçou contra o cabo hidráulico. O carrinho n.° 2 estava agora em queda livre, sem nada para o deter, um pedregulho a cair de um penhasco. Nesses derradeiros instantes, Eddie pareceu escutar o mundo inteiro: gritos distantes, ondas, música, uma lufada de vento, um som grave, forte e desagradável que ele percebeu ser a sua própria

voz a explodir do seu peito. A menina levantou os braços. Eddie precipitou-se para ela. A sua perna doente cedeu. Ele quase voou, quase tropeçou em direcção a ela, aterrando na plataforma de metal, que rasgou a sua camisa e lhe fez um corte na pele, mesmo abaixo da etiqueta que dizia Eddie e Manutenção. Sentiu duas mãos nas suas, duas mãos pequeninas. Um impacte atordoante. Um clarão cego de luz. E depois, nada. 22 Hoje é o aniversário de Eddie Estamos nos anos vinte, num hospital cheio de gente, num dos sectores mais pobres da cidade. O pai de Eddie fuma na sala de espera, onde fumam também os outros pais. A enfermeira entra com uma tabela na mão. Chama o nome dele. Pronuncia-o mal. Os outros homens expelem o fumo dos cigarros. Então? Ele levanta o braço. — Parabéns — diz a enfermeira. Ele segue-a corredor abaixo, até à ala dos recém-nascidos. Os sapatos dele fazem barulho ao bater no chão. — Espere aqui — diz ela. Pelo vidro, ele vê-a consultar os números nos berços de madeira. Passa por um, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele, outro, não é o dele. Ela pára. Ali. Por baixo da manta. Uma cabecinha coberta por um barrete azul. Ela volta a consultar a tabela, depois aponta. O pai tem a respiração pesada, acena com a cabeça. Por um instante, o seu rosto parece desmoronar, como uma ponte a ruir sobre um rio. Depois, som. É o dele. 23 A viagem Eddie não viu absolutamente nada no seu derradeiro momento na Terra. Não viu o cais, nem a multidão, nem o carrinho estilhaçado de fibra de vidro. Frequentemente, nas histórias sobre a vida depois da morte, a alma sai do corpo no instante da despedida e paira sobre os veículos da polícia, no caso de um acidente na auto-estrada, ou agarra-se como uma aranha ao tecto de um quarto de hospital. Estas são histórias de pessoas a quem é dada uma segunda oportunidade — de algum modo, por algum motivo — de retomarem o seu lugar no mundo. Eddie, aparentemente, não ia ter essa segunda oportunidade. Onde...? Onde...? Onde...? O Céu era de um tom enevoado de abóbora, depois turquesa, depois um lima garrido. Eddie flutuava e os seus braços ainda estavam esticados. Onde...? O carrinho estava a cair do cimo da torre. Disso ele lembrava-se. A menina — Amy? Annie? — chorava. Disso ele lembrava-se. Lembrava-se de se precipitar para a frente. Lembrava-se de cair

Há um bolo de baunilha com velas de cera azul. depois viram-no de cabeça para baixo. Mais estranho ainda era o facto de não sentir qualquer emoção associada a essa lembrança. como se tivesse acontecido há muitos anos.. Toda a mágoa que ele sofrera na vida. Não se sentia em agonia. como uma criança aninhada nos braços da mãe. . as mãos enormes de Mickey enfiam-se por baixo dos braços de Eddie e levantam-no do chão. A sua consciência parecia esfumada. rapaz — chama Mickey Shea. Os funcionários do cais passam atarefados. Mesas de piquenique alinham-se ao longo do passeio da marginal. É uma tarde de domingo. . Não se sentia triste. Eddie enverga a sua prenda de anos. não sentia sequer uma brisa no rosto. Há um jarro de sumo de laranja. bang — grita Eddie. Por baixo dele. Mickey Shea trabalha com o pai de Eddie.sobre a plataforma. nem medo. de amarelo-toranja para um verde-floresta. zelando pelos equipamentos do parque.. em Ruby Pier. toda a dor que suportara haviam desaparecido como um último fôlego. está a minha preocupação? Onde está a minha dor? Era isso que faltava.. faz flexões à frente de um grupo de senhoras de idade.. Eddie acha que ele tem um cheiro esquisito. está embrenhado num jogo de cartas. os artistas de rua. os pregoeiros. Viu a areia de uma costa dourada. debruçadas sobre a extensa praia branca. Onde. O chapéu de Eddie cai. E depois? 24 Salvei-a? Eddie só conseguia recordá-lo à distância. usa suspensórios e está sempre a cantar canções irlandesas. um chapéu vermelho de cowboy e um coldre. Sentia as mãozinhas dela nas suas. no entanto. Apercebeu-se de um movimento de torvelinho. alguns homens das pescas. Começou a cair. precipitando-se em direcção à sua superfície. Joe. De repente. como habitualmente. Onde está a minha preocupação? Onde está a minha dor? 25 Hoje é o aniversário de Eddie Tem cinco anos. estava debaixo de água. bang!» — Vem cá. O pai de Eddie. etérea. Deixa-me dar-te as pancadinhas dos aniversariantes — anuncia ele. pendurado pelos pés. A seguir. Depois safira. Sentia apenas uma calma profunda. Flutuava por cima de um vasto mar amarelo. — Bang. É gordo. Salvei-a? Ela sobreviveu? Onde. sentado num banco. — Vem cá. Um oceano. as cores voltaram a alterar-se. Eddie brinca aos seus pés. A uma velocidade inimaginável e. Depois.. — Como fazemos na Irlanda.? O céu à sua volta mudou novamente. sacando da arma de brincar e fazendo: «Bang. Levanta-se e corre de um grupo para outro. O seu irmão mais velho. os domadores de animais. incapaz de sentir outra coisa que não a calma. tudo ficou imerso em silêncio. a xarope para a tosse. que se fingem divertidas e aplaudem educadamente. depois um rosa que Eddie associou de repente a — imagine-se — algodão doce.. Que se tornou cor de melão. Agua.

— gritam. avança tropegamente para Mickey Shea e dá-lhe um murro no braço. talvez o leve a dar uma volta no elefante. estava sozinho. os peixes pulando como reluzentes moedas molhadas. Isto deixava Eddie embaraçado. onde foi assaltado por três rápidos pensamentos. aterrando desengonçadamente no chão. as suas faces cheias e macias. uma pancadinha de aniversário por cada ano de vida. ao fundo.. as ondas do seu cabelo acobreado. portanto suspirou e tentou levantar-se. sentia-se óptimo.— Cuidado. Mas agora não encontrava a bengala. até a cabeça do menino roçar no chão. Nos últimos anos. 27 A chegada Eddie acordou dentro de uma chávena de chá. rindo em coro. Mas era um Ruby Pier diferente. guardava-a sempre junto da cama. porque havia manhãs em que já não tinha forças para se levantar sem o apoio dela. — Estás bem. Eddie não sabe ao certo quem é quem. Eddie dá meia volta e foge a correr. Surpreendentemente. As cores das diversões eram vermelhos ardentes e brancos cremosos — nada de azuis-esverdeados nem 28 . Os braços e pernas de Eddie pendiam dos bordos da chávena. Ela põe-lhe o chapéu na cabeça. com um banco almofadado e uma porta com dobradiças de aço. — Quatro!. desequilibra-se e cai.. meu querido aniversariante? — Ela está a uns meros centímetros do rosto dele. Em segundo. Três! De pernas para o ar. Mais tarde. A perna não latejava. Eddie pega no chapéu. A sua cabeça está a ficar pesada. Ela dar-lhe-á a mão e dir-lhe-á que Deus está orgulhoso dele. Toda a gente bate as palmas. sorri e retoma o seu jogo de cartas. — Ele virou-me de cabeça para baixo — diz ele. só tem tempo de dar três passos antes de a mãe o apanhar e abraçar. de cabedal de sapatos castanho a um escarlate profundo. — Eu vi — responde a mãe. não lhe doíam as costas. O seu instinto inicial foi pegar na bengala.. por se ter portado tão bem no dia do seu aniversário. conseguia ver o paredão lodoso. O pai de Eddie levanta os olhos. ainda se encontrava em Ruby Pier. — Agora. — Ho-ho! Para que foi isso. pois era o tipo de homem que costumava cumprimentar os outros com uma palmada nos ombros. Os outros juntam-se a ele. Gritam: — Duas!. — Ho. feita de madeira escura e polida. ela há-de passear com ele ao longo do cais. Em terceiro. ou a ver os pescadores recolherem as redes ao cair da noite. rapaz? — pergunta Mickey. O céu continuava a mudar de cor. Fez força e saltou facilmente da beira da chávena. Em primeiro lugar. Levanta-se. Todos se riem.. Era uma antiga máquina do parque de diversões: uma enorme chávena de chá. Havia tendas de lona e áreas relvadas vazias e tão poucas obstruções que. Mickey baixa Eddie suavemente. Mickey! — grita a mãe de Eddie. no mar. apanhei-te!— diz Mickey. — Uma! 26 Mickey torna a puxar Eddie para cima. — Cinco! Eddie é virado de cabeça para cima e colocado no chão. ho. e ele sentirá que o mundo está novamente de cabeça para cima. Ele vê o seu batom vermelho-escuro.

Uma voz metálica. tudo novinho e reluzente. Caminhou. estava igual ao Eddie que se levantara nessa manhã: um homem velho. com cordas de secar roupa penduradas nas janelas. A chávena em que acordara fazia parte de uma diversão muito antiga. Mas qualquer homem tem um menino que corre dentro de si. a seguir acelerando a trote. o parque de há setenta e cinco anos. acabado de lavar. 10 cêntimos! Dê uma volta no Chicote — A sensação do ano! Eddie pestanejou com força. as ruas do seu antigo bairro e os telhados dos edifícios de tijolos. Explorou o seu corpo como uma criança.castanhos-avermelhados — e cada atracção tinha a sua própria bilheteira de madeira. Correu ao longo da marginal de Ruby Pier. desde a guerra. Quis dizer "Ei!". de boné. chamada Chávena Voadora. erguendo-se para o céu. um homem de borracha a esticar-se de uma ponta à outra. Mas era ágil. ficava a roda-gigante original — com a sua tinta branca imaculada — e. correu. como as crianças fazem. as cartomantes e as bailarinas ciganas trabalhavam outrora. Passou pelo Carrossel Parisiense. andara a tirar ferrugem das peças armazenadas na sua oficina. Nenhuma dor. a fingir que era um avião. mas agora estava a correr. de cabelos brancos. Ali. Ha-ha! Correr! Eddie não corria. O cartaz era feito de contraplacado. Eddie tentou gritar. à sombra de edifícios magníficos de estilo mourisco. por mais velho que seja. os balneários e as piscinas de água salgada. Tão ágil. Tocou nos braços e nas pernas. «Então e esta criatura. Depois. aquele empregado da manutenção. começando com uns quantos passos ousados. no verdadeiro sentido da palavra. completamente sozinho. apinhados de gente. como o miúdo que corria nos seus tempos de juventude. pensou ele. poderia achá-lo ridículo. que conseguia tocar nos tornozelos e levantar a perna à altura da barriga. Saltou.. espelhos e um órgão Wurlitzer. na esperança de que a corrida se transforme em voo. Nos últimos dez anos. Ali ao fundo. Correu ao longo da marginal. Correu pelo centro da antiga rua principal. calções e casaco castanho da manutenção. Há apenas uma hora. esquecera o que era andar sem sentir uma pontada ou sentar-se sem precisar de arranjar uma posição confortável para as costas. cada vez mais depressa. descrevendo um círculo. com espirais e minaretes e cúpulas em forma de cebola.» . só que novinho em folha. ficava o Loop-a-Loop — que fora desmantelado há décadas — e acolá. tal como todos os outros letreiros baixos. sentia-se incrivelmente bem. passou por uma banca de venda de anzóis e iscos para os pescadores (cinco cêntimos) e uma banca de aluguer de fatos-de-banho para nadadores (três cêntimos). Se alguém estivesse a ver. com os seus cavalos de madeira esculpida. mas a sua voz não passava de ar áspero. saltava. Encostou o queixo ao peito e esticou os braços como um planador e. Aquele era o Ruby Pier da sua infância. Passou por uma diversão chamada Ziguezague. minhas senhoras e meus senhores? Já alguma vez viram um ser tão horrendo?. E. Por fora. como se proviesse de um megafone. que foram encerradas nos anos cinquenta.. de tantos em tantos passos. 29 há mais de sessenta anos. pendurados nas fachadas das lojas que se alinhavam ao longo da marginal: Charutos El Tiempo! Isto é que são charutos! Guisado. mas nada lhe saiu da boca. fascinado com aquela engrenagem nova. À parte a sua falta de voz. por detrás dela. onde os adivinhos do peso. baixo e entroncado como um barril. Ouviu qualquer coisa. depressa. de repente. Eddie parou de correr.

enquanto as pessoas passavam por eles. 30 «Olhem bem para este selvagem. na época em que a televisão se popularizou e as pessoas deixaram de precisar de espectáculos de feira para espicaçar a sua imaginação.. Há muito que Eddie o teria esquecido. «Só um terrível azar do destino poderia ter deixado um homem neste estado lamentável! Dos recantos mais longínquos do mundo.» A voz do pregoeiro desapareceu. cuja pele parecia borracha de tanto ter sido esticada e untada com óleos.. podem ver tão de perto esta. A barriga transbordava-lhe do cinto.. E Eddie deu um passo atrás. Ali. Havia duas gémeas siamesas. — disse o Homem Azul. rindo e apontando. Tinha o cabelo cortado muito curto. — Estava à tua espera. 31 Os lábios eram finos e o rosto comprido e chupado. O cartaz pendurado no topo dizia: Os cidadãos mais estranhos do mundo. Havia homens que engoliam espadas. O teatro sensacionalista.. por vezes atrás de barras. «Somente aqui. trouxemos esta criatura para as senhoras e os senhores puderem examinar.. de tal modo que pendia aos bocados dos seus membros. sozinho no palco. Edward — disse o homem. A sua pele era azul. sentado numa cadeira. à frente de um grande teatro.» Eddie espreitou para a entrada.. Quando era miúdo.Eddie encontrava-se junto de uma bilheteira vazia. incrédulo. Eddie lembrava-se de que o tinham encerrado há pelo menos cinquenta anos.» Eddie afastou a cortina. erguendo-se lentamente da sua cadeira.» Eddie entrou na penumbra da sala. A feira das aberrações. Já ali vira gente muito estranha. Eddie tinha pena dos figurantes da feira.. «Regozijem-se com a criatura mais invul. Uma era a Jane Gira. Um pregoeiro zombava da aberração e foi a voz de um pregoeiro que Eddie ouviu agora. que pesava para cima de duzentos e cinquenta quilos e precisava que dois homens a empurrassem para conseguir subir as escadas. 32 A primeira pessoa que Eddie encontra no Céu — Não tenhas medo. A atracção de Ruby Pier! Meu Deus! São gordos! São magricelas! Veja o Homem Selvagem! A atracção do parque. presas pela coluna dorsal e que tocavam instrumentos musicais. mulheres de barba e um par de irmãos indianos.» Vinha do outro lado de um palco... «Esta trágica alma foi alvo de uma perversão da natureza. A voz tornou-se mais forte. — Olá. nu da cintura para cima. nascido com um defeito ultrapeculiar.. Eram obrigados a sentar-se em cabinas ou em estrados. estava um homem de meia-idade com os ombros estreitos e curvados. — Não .. nos Cidadãos Mais Estranhos do Mundo.. não fosse por uma característica peculiar.

dizemos: «Nem imaginam com quem eu sonhei esta noite!» — O teu corpo parece o de uma criança. — Onde estás? — Virou-se e levantou os braços. E lamento. o primeiro. — Ah. Os seus pensamentos jorraram numa catadupa de frases. que se encontrava ao fundo. Os seus dedos eram engelhados. Aqui?. A sua pele era de um grotesco tom de amora acinzentada. pensou Eddie. a montanha-russa subiu estrepitosamente e os cavalinhos do Carrossel Parisiense cavalgaram nos seus postes metálicos. NÃO! O Homem Azul parecia divertido. Mas o Céu encontra-se nos lugares mais inesperados. ainda é «a montanha-russa mais rápida à face da terra»? 33 Eddie olhou para a velha máquina ruidosa. — Porquê? Porque foi aqui que tu cresceste? Eddie mexeu a boca como quem diz Sim. Ele levantou-se e saiu da sala. Seria possível estar a vê-lo agora? Era uma daquelas caras que nos aparece em sonhos e. Fora construída nos anos vinte. — No Céu. Começamos o quê?.. Começamos pelos sentimentos que tínhamos em crianças. passando pelas lojas de charutos e bancas de salsichas e bares de apostas. Abanou a cabeça em sinal de negação. antes de existirem rodas de subfricção. é o segundo. em seguida. ao som da música animada do órgão Wurlitzer. Um milhar de anos. O Homem Azul sorriu. onde os tolos perdiam todos os seus tostões. Mal conhecera aquele homem. — Foi o que eu pensei. o que significava que os carrinhos não podiam virar muito depressa — a menos que a ideia fosse vê-los sair disparados dos trilhos. E 34 o próprio Céu tem muitos degraus. O céu estava cor de limão. Não! Eddie sacudiu a cabeça violentamente.. — O Homem Azul fez um sinal de assentimento. não parece? Eddie assentiu com a cabeça. Eddie seguiu-o. O mar estendia-se diante deles. A praia estava vazia. A sua voz era tranquilizadora. — Ah — fez o Homem Azul. em tom pensativo. Aqui.. pensou Eddie. O Homem Azul levantou o queixo. — Bom. Apontou para uma montanha-russa com duas lombas.. na manhã seguinte. Como é que eu morri? — Num acidente — disse o Homem Azul. mas também não podemos espreitar por entre as nuvens e ver o que se passa lá em baixo. E para ti. para mim.tenhas medo. — O Chicote. os carrinhos de choque embateram uns nos outros. Há quanto tempo estou morto? — Há um minuto. mas Eddie estava estupefacto a olhar para ele. Tocou no ombro de Eddie e este sentiu uma onda de calor. as pessoas têm a mania de depreciar a terra onde nasceram. Estaria o planeta inteiro vazio? — Diz-me uma coisa — pediu o Homem Azul. como nunca sentira na vida. Este. repetiu a pergunta. como se tivesse ouvido a pergunta. nada muda. que fora demolida há anos. — É porque eras miúdo quando me conheceste. De repente. . feita de madeira. Onde estou? O Homem Azul franziu os lábios e. Uma hora. — Onde é que haverias de estar? — perguntou o Homem Azul. — Não? Não pode ser o Céu? — disse ele. O Homem Azul conduziu Eddie pelo meio do parque. muitas vezes. O cais estava vazio. O Chicote. todas as atracções do velho parque de Ruby Pier ganharam vida: a roda-gigante girou.

a minha vida foi iluminada por outras cinco pessoas e. Na altura. Sorriu. — Eu sou a tua primeira pessoa. Explicar-nos a nossa existência.O Céu?. 36 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem sete anos e a sua prenda é uma bola nova de basebol. Ninguém consegue falar assim que aqui chega. que se tornará 35 parte da tua. Joe. sentindo uma onda de poder subir-lhe pelos braços.. Algumas já conhecidas. consegues ouvir. Joe! . — Qual foi. Mas todas elas se cruzaram contigo antes de morrerem. — Partilha a tua prenda comigo. — Foste tu — disse ele. Lança a bola. — Mas. — A bola é minha! — grita Eddie. — resmungou finalmente. Sorriu para Eddie. depois. Terás outras pessoas à tua espera. — Esta é a maior bênção que Deus nos pode oferecer: dar-nos a compreender o que aconteceu na nossa vida. — As pessoas imaginam o Céu como um jardim do paraíso. nada mais. — Cada uma delas fez parte da tua vida.. É a paz de espírito que todos desejamos. O Homem Azul virou-se. ouviu um pequeno grunhido sair-lhe do peito. — Qual foi. tentando recuperar a voz. por um motivo específico. O Homem Azul esperou pacientemente. — Há cinco pessoas que vais conhecer no Céu — disse subitamente o Homem Azul. — Vai-te lixar. com todas as suas forças. talvez o grande jogador Walter Johnson. — A tua voz há-de voltar. se molhavam e trocavam dólares por bonecos. Quando morri. Eddie arrancou um som do peito. O irmão encolhe os cotovelos e baixa-se. E alteraram a tua vida para sempre.. pensou Eddie. — Atira-a — diz o seu irmão. Todos passamos pelo mesmo. A sua voz pareceu quebrar uma casca. passam pela cabina de jogos. — Qual foi. Eddie pára e imagina-se num estádio.. Mas uma paisagem magnífica sem conforto espiritual não tem sentido. podes não ter percebido qual era esse motivo e é para isso que serve o Céu. Aperta-a com cada uma das mãos. um lugar onde as pessoas gritavam. da tua morte? O Homem Azul pareceu ligeiramente surpreendido. Que ridículo. desta vez. Imagina que é um dos seus heróis da colecção de cromos dos amendoins Crackerjack. para te contar a minha história.. Tentou novamente falar e. outras talvez não... a causa. vim para aqui esperar por ti. como um pintainho acabado de nascer. A ideia de aquele ser um local de descanso abençoado estava para lá da sua imaginação. Edward. Para compreendermos a nossa vida na Terra. um lugar onde podem flutuar nas nuvens e espreguiçar-se nas montanhas e rios. Era um parque de diversões. Eddie tossiu. Eddie — diz Joe. pelo menos. Passara a maior parte da sua vida adulta a tentar afastar-se de Ruby Pier.. onde quem derrubar mais de três garrafas verdes ganha um coco com uma palhinha. — Anda. Estava farto de não conseguir falar. Correm pela alameda principal da feira. — Atiraste com demasiada força! — grita Joe.. Eddie fez um ar perplexo. a causa..

os seus lábios finos. levava os lençóis à socapa para a pia e lavava-os. A porta de lona de uma tenda abre-se. »Eu era uma criança nervosa. 37 — Ouça lá — disse Eddie. um dia. como se fosse um anfitrião a tentar pôr um hóspede à vontade. Eddie permaneceu de pé. Ainda hoje me lembro desse instante. Mas os pais podem dar cabo dos filhos e. »À semelhança da maior parte dos imigrantes. Depois. estamos entendidos? Nem sequer o conheço! O Homem Azul sentou-se num banco. Aberrações da feira de aberrações. na cozinha do meu tio. Dormíamos num colchão. São interrompidos por um barulho de pano a rasgar. Eddie também se levanta. também nós não tínhamos dinheiro. a coser botões em casacos. senti uma coisa molhada na perna. Joe segue-o. ó espertinhos? — pergunta o homem peludo. e suponho que o fiz. como se quisesse quebrar os laços de vida que nos ligavam. Eddie e Joe levantam os olhos. A minha mãe debruçou-me sobre o varão do navio e essa tornou-se a minha recordação mais antiga de infância: a minha mãe a balouçar-me ao sabor da brisa de um novo mundo. o peito caído. levantei os olhos e deparei com o meu pai. de certa maneira. o meu pai a implorar-lhe como se fosse um mendigo de rua. o meu pai dizia: «Baixa os olhos. e o barulho da fábrica piorou o meu estado. O capataz gritou que eu não servia para nada. mas depois vê a bola junto de um cavalo de pau. não dês nas vistas para ele não reparar em ti». . Mas. Eu era muito pequeno. filho de um alfaiate. — O que é que vocês estão afazer aqui. Sorriu.Eddie vê a bola tocar nas tábuas do chão e ir bater num poste. e os outros empregados desataram a rir também. Era uma criança nervosa e transformeime num jovem ainda mais nervoso. O meu pai foi obrigado a arranjar emprego numa fábrica de roupa. ainda fazia chichi na cama. Ele viu os lençóis sujos e fitou-me de uma maneira que nunca hei-de esquecer. — Vou começar pelo meu nome verdadeiro — anunciou o Homem Azul. Fita o homem sem camisa e aproxima-se lentamente da bola. Eu era demasiado novo para estar ali. »Depois disso. Porque é que ele me está a contar isto?. Corre atrás dela. ele tirou-me da escola e eu fui trabalhar com ele. numa voz rouca —. o meu pai recusou-se a falar comigo. — Isto é meu — murmura. que se esparramaram no chão. numa postura defensiva. — Vês onde ela está? — pergunta Eddie. de acordo com os parâmetros do mundo dele. Quando fiz dez anos. eu não tive nada a ver com a sua morte. criado numa pequena aldeia polaca. Caem ambos ao chão. De manhã. por natureza. fiquei de rastos a seguir a isso. As crianças ficam petrificadas. entre aqueles homens todos. Viemos para a América em 1894. Senti o estômago contorcer-se de dor. limpando o nariz às costas da mão. com um sorriso divertido. a abanar os braços. »Sempre que o capataz se aproximava de mim. Um dia. a praguejarem e a queixarem-se. à noite. Vêem uma mulher gordíssima e um homem sem camisa com o corpo completamente coberto de pêlos ruivos. pensou Eddie. — Andam à procura de sarilhos? O lábio inferior de Joe começa a tremer e ele desata a chorar. caindo depois numa pequena clareira por detrás das barraquinhas. O capataz apontou para as minhas calças sujas e riu-se. 38 o capataz a insultá-lo. era uma criança inútil e tinha de me ir embora. eu tropecei e deixei cair um saco de botões. Eddie observou o rosto encovado do Homem Azul. Levanta-se de um pulo e foge a correr. — Fui baptizado com o nome Joseph Corvelzchik. Sentia que eu o tinha envergonhado. Agarra na bola e corre atrás do irmão. — Não. O pior de tudo é que.

assim. Uma noite. »Daí a pouco tempo. A sua pele. O Homem Azul deteve-se. em vez de andar a saltitar de terra em terra. com os latoeiros. o gerente chamou-me «a melhor aberração» do seu estábulo e. Gostei da ideia de permanecer num lugar. Edward. mas era agradável ser considerado exótico. Às vezes. Portanto. a medicina ainda era muito primitiva. Peguemos numa manhã chuvosa de domingo. Muitas vezes se interrogara qual seria a origem dos figurantes do espectáculo de feira. por triste que pareça. — Naqueles tempos. E assim começou a minha vida de objecto. Quando se é marginalizado pela sociedade. — Despediram-me da fábrica. fazia pregas em pequenas camadas de gordura à volta da cintura. ou o Homem Azul da Nova Zelândia. A sua voz esmoreceu. Bebi ainda mais nitrato de prata. um grupo de artistas de feira sentou-se nos fundos do bar. »Depois de falar com ele. se vestisse uma camisa de manga comprida e pusesse uma toalha na cabeça. eu fiquei muito orgulhoso. Mas era tudo o que eu tinha e. De manhã bem cedo. Ele deu-me um frasco de nitrato de prata e mandou-me misturá-lo com água e tomá-lo todas as noites. Pode não parecer grande coisa mas. até que a minha pele passou de cinzento a azul. Uma vez. em desconfortáveis carroças de circo. procurar qualquer coisa para os nervos. em Julho. um efeito secundário do veneno. O Homem Azul interrompeu-se e fitou Eddie. Deduziu que devia haver uma triste história por detrás de cada um deles. para mim. »Fiquei envergonhado e ansioso. enquanto as pessoas passavam por mim e o pregoeiro lhes dizia que eu era uma lástima. Sem trabalho. como é que eu ia arranjar dinheiro para comer? Onde é que eu ia viver? 39 «Encontrei um bar. por vezes três. — Não nasci assim. O «espectáculo» era simples. depreendi que era por não estar a tomar o suficiente. podia passear pela praia sem assustar as pessoas. um lugar escuro onde podia esconder-me atrás de um sobretudo e de um chapéu. O capataz disse que eu metia medo aos outros operários. »Esta tornou-se a minha casa. uma aberração — explicou ele. Eddie não conseguia tirar os olhos daquele corpo. vista de duas perspectivas diferentes. É o meu. quando deixou de resultar. nem que fosse num mero cartaz pintado à mão. Um deles. jogava às cartas com os outros empregados do espectáculo. em que Eddie e os seus amigos estavam a fazer passes de basebol com a bola que Eddie recebera no seu aniversário. a fumar charutos e a rir. no final dos anos vinte. Eu sentava-me no palco. — Estás a compreender porque é que estamos aqui? Este não é o teu paraíso. aceitei juntar-me ao seu grupo de feira. Tomava dois goles. A noite. comecei a tomar doses maiores. Claro que eu nunca tinha visitado aqueles lugares. . não parava de olhar para mim. sem água. Por fim. essa liberdade era um luxo. até uma pedrada pode ser bem-vinda. Consegui. um tipo pequeno com uma perna de pau. A minha pele estava a ficar cor de cinza. acabou por vir ter comigo. Eddie reparou no olhar resignado do Homem Azul. Edward. ou o Homem Azul da Argélia. as pessoas começaram a olhar para mim de uma maneira estranha. Vivia num quarto por cima da loja de salsichas. — Os artistas de feira deram-me os meus vários nomes. O parque de diversões ia abrir uma feira chamada «Os Cidadão? Peculiares». Ruby Pier. semidespido. às vezes até com o teu pai. arrecadar umas moedinhas. Fui a um farmacêutico. vim para este cais. »Num Inverno. Nitrato de prata! Mais tarde foi considerado tóxico. eu era o Homem Azul do Pólo Norte.O Homem Azul fez uma pausa. 40 Peguemos numa história. que parecia ter sido ensopada em líquido azul.

— murmurou.há quase um ano. Ouvese o som discreto de um pequeno embate. respira fundo. encolhido junto do carro. até que choca contra a traseira de um camião estacionado. mas o corpo do homem continua afectado. O sangue das suas artérias coronárias deixa de afluir ao coração. Um polícia encontra-o. Ele ali fica. temos de fazer coisas menos agradáveis quando acontecem situações tristes. de calças castanhas e um barrete de lã. Eddie olha com tristeza para o jogo colocado a um canto da sala. — Menino? Eddie sentiu um arrepio. na morgue da cidade. O carro patina. tendo terminado a história. com um mecanismo tipo garra. corre atrás dela e atravessa-se à frente de um automóvel. O automóvel quase colide com outro. narrada do seu ponto de vista. os pneus chiam. Eddie. uma pilha de barras de metal e . O impacte faz com que o homem seja atirado contra o volante. Eddie treme. Peguemos no momento em que a bola voa por cima da cabeça de Eddie e vai parar à rua. na galeria de jogos. vista de duas perspectivas diferentes. Ele sai do modelo A. O jogo termina daí a pouco e os miúdos vão para a galeria de jogos brincar na máquina t que. e a outra termina mal. com o menino de calças castanhas a enfiar moedinhas na máquina de brinquedos.. A estrada está molhada da chuva matinal. O condutor trava a fundo e dá uma guinada no volante. um Ford modelo A. mas uma perspectiva termina bem. O segundo condutor apita. vira para um beco. a apertar-lhe os sapatos. Está um homem ao volante de um Ford modelo A. O homem consegue controlar o carro e o modelo A prossegue caminho. O homem não tinha familiares. Agora. Sente-se tonto e a cabeça cai-lhe por um instante. — Oh não. — Mas é o meu ANIVERSÁRIO. É uma manhã de domingo. de braços cruzados num gesto de raiva. onde um funcionário chama outro funcionário para contemplar a pele azul do cadáver recém-chegado. como esse coração não é forte. O médico-legista declara-o morto. Desliza ao longo de uma avenida e. Os faróis estilhaçam-se. mas temos de ir. — Estás a ver? — sussurrou o Homem Azul. a apertar a gravata. apanha a bola e volta a correr para junto dos amigos. o homem ficou esgotado. O carro trava a fundo. Peguemos numa história. depois. uma bola de basebol pula a meio da estrada e aparece um miúdo a correr atrás dela. virando o volante e pondo o pé a fundo no travão. Tem o braço a latejar. A injecção de adrenalina deixou-lhe o coração aos pulos e. a pensar que foi por um triz que evitou uma tragédia.. — Eu sei — responde a mãe. De repente. o homem volta a guinar. As vezes. vê os estragos. que pediu emprestado a um amigo para treinar a condução. Dói-lhe o peito. É o mesmo dia. sem 41 ninguém o ver. depois desmaia no pavimento molhado. A sua testa está a sangrar. A mãe está agachada aos seus pés. Passa uma hora. peguemos nessa mesma história vista de outra perspectiva. A causa da morte é «ataque cardíaco». 42 Hoje é o aniversário de Eddie Ele tem oito anos. O beco está vazio. o mesmo instante. O pai observa-se ao espelho. guina para o lado e consegue evitar o atropelamento. — Eu NÃO quero ir — diz Eddie. sem olhar para cima —. A criança desapareceu do espelho retrovisor. apanha pequenos brinquedos de dentro de uma grande caixa de vidro. O veículo continua a andar. Está sentado na beira de um sofá axadrezado.

O Homem Azul fez um sinal de assentimento com a cabeça. Em vez disso. como se a preparar-se para uma luta. O irmão. — Pára de te mexer — diz a mãe.. — Não. — Eu não sabia. O homem diz qualquer coisa sobre cinzas. — Estávamos a brincar à bola.. Faz uma careta a Eddie. de repente.. — Que nada é aleatório. pensa. que normalmente usam lamé dourado e turbantes vermelhos. Eddie estava a construir um camião. Joe. como o seu pai. — Pagar? — Sim. Todas as pessoas que encontras aqui têm algo para te ensinar. algumas cobrem a cara com um véu. mas está secretamente a contar a partir de 1. Não é justo. estavam ambos num cemitério. — O quê? — perguntou. na festa de aniversário.. Acredite em mim. Que estamos todos ligados uns aos outros.três pequenas rodas de borracha. Eddie segura na mão da mãe e semicerra os olhos por causa do sol. atrás de um pequeno grupo de enlutados. 45 — A justiça — disse ele — não comanda a vida e a morte. — Esses sapatos eram meus e estão velhos — diz Joe. Tem jeito para montar coisas. Dá-lhe uma pancada com força. não é? Para que seja feita justiça? O Homem Azul sorriu. Os homens. Porque é que você teve de morrer por minha causa? Não é justo. 44 A primeira lição — Por favor. quando chegar a mil. pelo meu pecado. Eddie cala-se. Juro por Deus que não sabia. 43 Eddie observa um homem a deitar pazadas de terra numa cova. — suplicou Eddie. Eddie deu um passo atrás e retesou o corpo. sabe disso. vestido de calças de lã e laço ao pescoço. É por isso que aqui estou. Se o fizesse. — Os meus sapatos novos são bem melhores. da mesma maneira que não se pode separar a brisa do vento.. O Homem Azul estendeu a mão. Eras tão pequeno. Foi estupidez minha desatar a correr pelo meio da estrada daquela maneira. — Não podias ter adivinhado. estão agora de fato preto. tem de ir nem sabe onde.. Eddie estremece. Devia estar triste. lançando um olhar furioso a Eddie. Estás aqui para eu te poder ensinar uma coisa. nenhuma pessoa boa morreria jovem. Eddie não conseguia . todo aperaltado. Estava com esperanças de o mostrar aos amigos. entra em casa com uma luva de basebol na mão esquerda. Detesta andar com as coisas velhas de Joe. — Mas agora tenho de pagar — disse. — Já chega! — grita o pai. possa ter o seu aniversário de volta. junto de uma sepultura. Eddie abanou a cabeça. Um padre lia passagens da Bíblia. — Mas MAGOAM-ME! — queixa-se Eddie. Virou a palma da mão para cima e. No cemitério. Que não se pode separar uma vida de outra. Edward. na esperança de que. Eddie mostrou-se céptico e manteve os punhos cerrados. As mulheres parecem envergar todas o mesmo vestido preto. Eddie mal reconhece as pessoas do cais.

Perguntou-se se alguém teria comparecido. como se fosse derreter. também houve pessoas que morreram em vez de mim. a minha morte foi um desperdício. — E os funerais. Era... depois. um menino pequeno. que todas as vidas se intersectam. as bandeiras a adejar ao vento. Lá em baixo. tal como a minha vida. há vidas que se alteram. Este sentiu aquela sensação de calor. outra qualquer escapa e. »Dizes que devias ter morrido em vez de mim. Uma pessoa definha. — Virou-se para as pessoas enlutadas. o Homem Azul puxou Eddie para si. — Espera — disse Eddie. mas vieram. a vergonha. a atravessar o seu corpo — a solidão. Quando a morte leva uma pessoa. Mas tu ainda vais encontrar outras pessoas. os nervos. vestidos e casacos. na pequena distância que existe entre partir e escapar. pensou Eddie. — Que bem adveio da tua morte? — Tu continuaste vivo — respondeu o Homem Azul. O nascimento e a morte fazem parte de um todo. — Continuo sem compreender — sussurrou Eddie. E dito isto. — Os desconhecidos — disse o Homem Azul — são familiares que ainda não conheces.. ou quando se despenha um avião em que poderias ter viajado. Mas. Perguntou-se se teria tido um funeral. Porquê? Já alguma vez te perguntaste isto? Porque é que as pessoas se reúnem quando morre alguém? Porque é que as pessoas se sentem na obrigação de o fazer? »É porque o espírito humano sabe. — Então.. salvei-a? O Homem Azul não respondeu. puxando-o. — O meu funeral — disse o Homem Azul. bem lá no fundo. Foi naquele dia que o Homem Azul fora sepultado. Quando o teu colega adoece e tu não. Eddie deixou cair os ombros. Eu salvei a menina? No cais. pairando por cima de um vasto oceano cinzento. Mas existe um equilíbrio em todas elas. irrequieto durante a cerimónia toda. — Este patamar do Céu já terminou para mim. 46 — Mas mal nos conhecíamos. durante a minha estadia na terra. Quando um relâmpago cai num lugar de onde acabaste de sair.. »É por isso que os bebés nos cativam. a sua pele transformou-se num magnífico tom de caramelo — macia e imaculada. Pensamos que essas coisas acontecem ao acaso. há tantos anos. 47 DOMINGO. as espirais e torreões. O Homem Azul pousou os braços nos ombros de Eddie. Eddie sentiu imediatamente tudo o que o Homem Azul sentira na sua vida a invadi-lo. ao fazê-lo. — Olha para os enlutados. O Homem Azul recuou na direcção da sepultura e sorriu. — Diz-me só uma coisa. Viu o padre a ler a Bíblia e as pessoas de cabeça baixa. E. Eddie voltou a olhar para o grupo reunido ao redor da sepultura.ver caras. E. tudo isso deslizou para dentro de Eddie. apenas as costas de chapéus. viu os telhados do velho Ruby Pier. tudo desapareceu. — Espera! — gritou Eddie. Alguns nem sequer me conheciam bem. outra cresce. como uma gaveta a ser fechadas» — Vou-me embora — sussurrou o Homem Azul ao seu ouvido. 3 HORAS DA TARDE . Acontece todos os dias. a pele mais perfeita que já vira em toda a sua vida. sem fazer a menor ideia do papel que desempenhara naquela situação.. mas foi subitamente levantado do chão por um torvelinho e levado para longe do cemitério. mas que hás-de conhecer um dia. Eu bem podia ter sido um perfeito desconhecido. Eddie estivera lá. — Os únicos momentos que desperdiçamos são aqueles que gastamos a pensar que estamos sozinhos. o ataque cardíaco. — Nenhuma vida é um desperdício — disse o Homem Azul.

Chegaram os funcionários da segurança. faz dezassete anos. à espera das ambulâncias. conheci a rapariga com quem vou casar!» Eddie começa a ferver de irritação. mesmo com a porta fechada. o Eddie conheceu uma rapariga. — Onde estás? Já chegaram todos! Ele rola para fora da cama e amima o livro de banda desenhada. É muito grave? Soaram as sirenes. Vários homens corpulentos de camisola de alças abriram caminho até à frente. Joe. mas gostam de banda desenhada. quer saber a última? — grita Joe. Puseram faixas amarelas a delimitar o perímetro do acidente. — Oh. É recebido com um coro de saudações e copos de cerveja no ar pelas visitas. familiares. afogueado. Mães puxavam as crianças para longe. impotentes. Eddie consegue sentir o cheiro dos bifes que a mãe está a grelhar com pimentos verdes e cebolinhas. ele entrou no quarto com uns olhinhos apaixonados e disse: Joe. assim que ele entra na sala. as crianças com os seus copos gigantescos de refrigerante — estivessem demasiado atordoados para olhar e demasiado atordoados para ir embora. como uma canção de carnaval tocada pelos altifalantes do parque. Seja como for. Senhoras de idade levavam a mão ao pescoço. sussurravam as pessoas. adelgaçando as sombras. Ofereceu a sua colecção aos primos pequenos da Roménia. também eles se limitaram a observar. O pai de Eddie está a jogar cartas a um canto. — Aqui vem o aniversariante — cantarola a mãe. dessa maneira Eddie tem uma desculpa para não se desfazer dos livros. Joe ignora-o. Eddie! — gemeu. amigos e trabalhadores do parque de diversões. Vindo de trás. — Cala-me essa matraca — diz Eddie a Joe. a lutarem contra os maus para salvarem o mundo. que vieram para a América há uns meses. Era como se todos eles — as mães. um cheiro intenso e silvestre que ele adora. A galeria de jogos fechou os portões. A morte encontrava-se aos seus pés. A família de Eddie foi buscá-los ao porto e eles mudaram-se para o quarto que Eddie partilhava com o irmão. não. — A sério. Mãe. está demasiado velho para esse tipo de coisas. como o Fantasma. 49 . Diz que vai casar com ela. Mas também eles baixaram os braços impotentes. Empurraram as pessoas para trás. Ruby Pier estava vazio. com a camisa da manutenção encharcada em suor. Dominguez irrompeu por entre a multidão. mas ainda gosta daqueles heróis coloridos. A notícia de que acontecera uma tragédia espalhou-se pela praia e. que lhe aperta o pescoço musculoso. — Ohhh não. Hoje. a sério? Eddie sente-se corar até à raiz dos cabelos. numa pequena nuvem defumo de charuto. a multidão amontoava-se em silêncio à volta dos destroços da torre. Os primos não sabem falar inglês. O Sol queimava. As atracções do parque foram encerradas por tempo indeterminado. agarrando a cabeça com as duas mãos. É muito grave?. Viu a carnificina. obrigando as pessoas a porem as mãos em forma de pala sobre os olhos. como se estivessem a fazer continência. — Ontem à noite.No cais. ao pôr do Sol. assim que lá chegaram. Eddie traz uma camisa branca de botões nos colarinhos e uma gravata azul. mas. de mãos na cintura. 48 Hoje é o aniversário de Eddie Dentro do quarto. — Eddd-diii! — grita ela da cozinha. — Aaah. como se pudessem resolver o problema. Chegaram os homens de farda. os pais. — É.

. — Não faz mal — diz ela..! Murro. Dançam à volta da mesa. continua a cantarolar e a dar um passinho de dança. até que Eddie se desmancha e ri.. — Não é assunto para um aniversário. ofegantes e carracundos. 50 — Oh.. — Ela costuma ir a igreja? Eddie dirige-se ao irmão e dá-lhe um murro no braço. lala. até que o pai de Eddie pousa o charuto e berra: — Parem já com isso. que está esparramado na cadeira. la. Eddie? — pergunta alguém. quando os dois irmãos se agarram um ao outro ao murro e ao pontapé. — Mostra-me como dançaste com a tua nova amiga — diz ela... dobra-o numa cadeira e. para deleite da mãe.. a acompanhar a melodia — . O irmão sorri. Rodopiam até à mesa e a mãe de Eddie pega em Joe e põe-no de pé. uma orquestra a tocar uma melodia swing. com o seu bonito rosto redondo. trocista. as estrelas e a lua. e ela sorri e cantarola baixinho. girando em círculos exagerados. aproxima-se de Eddie. — Então — sussurra ela —... se a situação piorar.— Já te mandei calar! — Como é que ela se chama. — Que notícia horrível — diz a mãe de Eddie. Será quase impossível fazer a manutenção do parque nessas circunstâncias. Ela despe o avental. Roda o botão do rádio até encontrar música. Eddie fica especado como um prisioneiro a caminho da sua morte. — Aaau! — Eddie! — Eu mandei-te calar! Joe anuncia: — E ele dançou com ela na. daí a nada. mas ela fá-lo rodopiar com toda a facilidade. — Aaau! — CALA-TE! — Eddie.. Alguns dos parentes mais velhos sorriem. Mais tarde. pára com isso! Agora. Dançam pela sala de estar. Há notícias sobre a guerra na Europa e o pai de Eddie faz um comentário sobre a dificuldade que vai ser arranjar madeira e fio de cobre. — Fico feliz por ti. quando estás comigo.. deixando o sofá livre. ou levam os dois um par de estalos! Os irmãos separam-se. fá-lo levantar-se. Dão as mãos e dançam.. em Junho. Mas a mãe. até os primos da Roménia levantam os olhos — de lutas eles entendem —.. Depois. — Com ele? — Mãe! Mas ela insiste e eles cedem e.. . depois de comidos os bifes especiais e apagadas as velas e de a maior parte das visitas ter ido embora.. Joe e Eddie estão a rir e a tropeçar um no outro.. gostas dessa tal moça? Eddie falha o passo.. la. até que Eddie a acompanha. a debicar os últimos bocadinhos de bolo. — Agora dancem vocês os dois — diz ela. a mãe de Eddie liga o rádio. pegando nas mãos de Eddie. mãe! — Anda lá. Já é uns bons quinze centímetros mais alto do que a mãe. Uma das tias sussurra: — Ele deve gostar mesmo da tal moça. — Laaa laa liii — canta ela.. la.

Pestanejando por entre a chuva. já não conseguia. Encolheu-se. Eddie acordou bem cedo. Numa colina ali perto. depois da Depressão. que pendiam de uma 52 árvore colossal. quando foi informado da notícia. Pagava-se uma moeda de cinco cêntimos e a máquina zumbia e a pessoa premia o gatilho e disparava balas de metal contra imagens de animais selvagens. aterrou sobre o estômago e rastejou pelo solo. uma vez mais. Escondeu-se na sua escuridão. Eddie sentiu um vento quente fustigarlhe o rosto. Antes de se alistar. ainda que pequenas. Tocou nos braços. apalpou as chapas. outras vezes como voluntários. Era esse o seu objectivo: queria construir coisas. penteou o cabelo para trás e alistou-se. numa manhã chuvosa. Como nunca disparara uma arma a sério. e Eddie estava agora rodeado de árvores tombadas e destroços enegrecidos. Quando o seu país entrou na guerra. agora. porque. Tentou recobrar o fôlego. — Quando? — foi só o que ele perguntou. na esperança de tirar um curso de Engenharia. Olhou em volta para o terreno sem vida. Umas vezes. com umas carruagens pela altura da coxa de um homem adulto. levando os joelhos ao peito. Eddie ia lá todas as tardes. Joe. O medo encontrara-o. O caminho-de-ferro Liliputiano era precisamente o que o nome indicava. Ruby Pier acrescentara umas atracções novas. O céu abriu-se e caiu um aguaceiro. quando tentou tocar nos pés. A mãe não quis que ele fosse. os primos romenos batem as palmas e os últimos resquícios de bife grelhado se evaporam no ambiente festivo. por causa das tristes histórias multifacetadas da vida. acendeu um cigarro e exalou o fumo lentamente. 51 A segunda pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie sentiu os pés tocarem no chão. à força. ao parque. E. A sua corrida era diferente. insistisse em dizer: «Deixa-te disso. até mesmo no céu. A elasticidade desaparecera. Os jovens vão para a guerra. de azul-cobalto a cinza-carvão. depois rastejou apressadamente para uma parede porosa de vinhas fibrosas.» . O pai. O céu tornou a mudar. Por fim. nos ombros. Eddie. mas. Eddie começou a treinar na galeria de tiro de Ruby Pier. fez a barba. Também ele lutaria. com os passos rígidos e ritmados de um soldado.enquanto os clarinetes conduzem a melodia da rádio. Eddie andara a trabalhar para poupar dinheiro. um leão ou uma girafa. nas coxas e canelas. com um capacete em cima e uma série de chapas penduradas no punho. O nome inscrito nas chapas era o seu. Os seus músculos estavam tesos como os arames de um piano. as montanhas-russas se tinham tornado demasiado dispendiosas. Levantou os olhos e viu uma espingarda enterrada no chão. Já havia quem estivesse a lutar. Sentia-se mais forte do que antes. Eddie baixou a cabeça e rastejou pela lama. não tens miolos para tanto. Mas sentem sempre que o devem fazer. que ao longo dos séculos confundiram a coragem com o pegar em armas. cuspindo a água suja à volta dos lábios. sentiu a cabeça roçar numa coisa sólida. uma chuva espessa e acastanhada. Ouviu trovejar — ou um som parecido com o de um trovão. mesmo que o seu irmão. Eddie desatou a correr. encontrava-se uma carroça desconjuntada e os ossos em decomposição de um animal. explosões ou bombas — e atirou-se instintivamente para o chão. e a cobardia com o depor das armas. O céu explodiu num amarelo flamejante. depois do seu turno de manutenção no caminho-de-ferro Liliputiano. Já não tinha aquela sensação infantil de ser feito de borracha.

Pang! Pang! Tentou imaginar-se a alvejar o inimigo. quando Eddie lhes fazia a vontade. como um homem que acabava de receber más notícias. Por vezes. Ao longe. Em breve. sentiu um aperto no peito. Aquele lugar. Pang! Outro tiro certeiro. e o seu rosto corado da bebida. a tremer e todo molhado debaixo da árvore colossal. cujos pais tinham partido para a frente. Vinha de cima. como o pneu de uma bicicleta a ser enchido com a ajuda de uma bomba. disparas.Mas assim que começou a guerra. pensava Eddie. . Assombrara-o em sonhos. agora. Eddie pegou numa mochila e deixou o cais para trás. Talvez alguém também sentisse a sua falta. rapaz? Mickey Shea estava parado atrás de Eddie. A guerra era o seu ritual de passagem para a idade adulta. sentiu um apertão doloroso no ombro. o negócio do parque decaiu. Mas Mickey arrotou e cambaleou para trás. mas o par de braços errados. O seu cabelo era da cor dos gelados de baunilha franceses. A chuva parou. o assobio nasal a cada inspiração e expiração. A maior parte dos clientes de Eddie eram. Tétano. Uns dias depois. — A guerra não é uma brincadeira. olhou para 54 Eddie como se fosse chorar. Se tiveres de disparar. Eddie. — A voz de Mickey era um rosnar grave. devastada pelas bombas e reduzida a pouco mais do que cinzas. Os jovens vão para a guerra. A arma mecânica parou de zumbir. e. Numa dessas últimas noites. Depois. Eddie desejava que Mickey se fosse embora e o deixasse treinar a pontaria. — É o pensar que mata. Apertou o ombro de Eddie com mais força ainda. Ele conhecia-o. Eddie virou-se e cravou os olhos em Mickey. Disparas e disparas sem pensar em quem estás a alvejar ou a matar ou porquê. por baixo de um pequeno cume. Lembrava-se da razão por que os soldados faziam aquilo: para assinalar as sepulturas dos mortos. mulheres sozinhas com crianças. Febre tifóide. — Pfff — grunhiu Mickey. Por instantes. as crianças pediam a Eddie para as levantar bem alto. encontravam-se os restos de uma aldeia. Pang! Mais um. Sentia o velho bêbado atrás de si. rapaz. Pang! Fariam barulho quando ele os atingisse — pang! — ou tombariam simplesmente. estás a ouvir? Se queres voltar para casa. Eddie juntar-se-ia àqueles homens distantes. Ouvia a sua respiração trabalhosa. instintivamente. Eddie estava debruçado sobre a pequena arma da banca de tiro. Mickey deu-lhe um estalo na cara e. algures na árvore. soltou uma longa e profunda expiração. Afastou as vinhas e viu a espingarda e o capacete ainda espetados na terra. — Varíola — disse uma voz. mais alto do que 53 a cabeça dele. disparas e não pensas. Febre amarela. Eddie levantou o punho para retaliar. profundamente concentrado a disparar. Depois. De repente. de boca entreaberta. os olhos a tentarem focar o cenário. via os sorrisos tristes das mães: era o gesto certo. Eddie continuou a disparar. molhado de suor. — Ouve uma coisa. às vezes como voluntários. pondo fim à sua vida de olear trilhos e testar alavancas de travões. — Varíola. estás a ouvir? Sem culpa. subitamente. Eddie encolheu os ombros e voltou a disparar. Sem hesitação. Eddie deu meia volta. A moeda de Eddie já não dava para mais disparos. como os leões e as girafas? Pang! Pang! — Estás a treinar-te para matar. Eddie ficou especado a olhar. Rastejou de joelhos para fora do seu refúgio.

Eddie engoliu em seco. mas sabia que não podia cair. a queda pareceu-lhe grande. Que raio. Aprendeu a ter cuidado quando disparava de dentro de uma cova. — Nisso acertaste. uma carabina. Os seus olhos reluziam como pequeninas gambiarras vermelhas. não fosse acertar numa árvore e ferir-se com o ricochete. Aprendeu a atravessar uma ponte de corda enquanto carregava. saudável como um touro. Sorriu. — Também acertaste. Aprendeu a fumar. como se o homem tivesse estado a gritar durante horas. quase até ao cimo. Por entre 55 os ramos mais pequenos e as grossas folhas de figueira. que outras se seguirão depois dessa. tudo de uma vez.. — E o senhor também está morto. Prendeu as pernas num ramo grosso e. um sobretudo. O seu rosto estava coberto por uma substância negra como carvão. em que os homens batem nas costas uns dos outros e sorriem como se tivesse acabado — Já podemos voltar para casa. mais tarde. morri aqui. que fora morto em combate. Ouvira dizer. E Eddie subiu à árvore. Viu a terra lá ao fundo. Eddie conseguiu distinguir a figura sombria de um homem de camuflado. — Capitão? — sussurrou. Aprendeu a marchar.— Nunca descobri o que é a febre amarela. A voz era forte. soldado? Eddie olhou para baixo. com um ligeiro sotaque sulista e um toque de rouquidão. . que ficava tão alto como um edifício de vários andares. uma mochila e várias bandoleiras ao ombro. — Sobe — respondeu a voz. em que ele percebe que a luta não acaba depois de uma batalha. A árvore abanou. e Eddie nunca mais o vira. hã? Eddie aprendeu muitas coisas durante a guerra. também nunca conheci quem a tivesse tido. 56 Aprendeu umas quantas palavras numas quantas línguas estrangeiras. — Fui vacinado contra todas essas doenças e. Eddie levantou-se e pigarreou. Caíram uns pequenos frutos aos pés de Eddie. Aprendeu a cuspir a uma grande distância. — É o senhor.. Uma nuvem de fumo pairou no ar. Aprendeu a beber o pior café do mundo. um rádio. um tripé para a metralhadora. como quem diz: «Já alguma vez tinhas imaginado que se podia fumar aqui em cima?» Depois. a minha segunda pessoa? O Capitão levantou a mão que segurava o cigarro. mesmo assim. sentado contra o tronco da árvore. olhando para baixo. Aprendeu a aclamação nervosa do primeiro combate sobrevivido por um soldado. O Capitão era o comandante de Eddie. — Estou morto — disse. capitão? Estiveram juntos no exército. — Desce — disse ele. Lutaram nas Filipinas e despediram-se nas Filipinas. Aprendeu a barbearse com água fria dentro do capacete. puxou uma longa fumaça e expirou uma pequena nuvem branca. agora! — e aprendeu a depressão profunda do segundo combate de um soldado. — Aposto que não estavas à espera que fosse eu. — E o senhor é. Aprendeu a andar num tanque. — Explicaram-te as regras. uma máscara de gás. — Gostas de maçãs? — perguntou a voz.

Aprendeu que. na véspera do combate. às vezes. uma noite. daqueles navios estúpidos em forma de foguetão.. da roda-gigante. — Ouça. — Que faço eu aqui? O Capitão olhou para ele com aqueles olhos vermelhos cintilantes e Eddie resistiu a fazer a outra pergunta que agora o atormentava. — Capitão. E também não vomitamos. De repente. acontecesse o que acontecesse. que o tornava parecido com um actor de cinema da época. eles mantiveram-se em contacto? O Willingham? O Morton? O Smitty? Voltaste a vêlos? 58 . — Sir. a chorar como uma criança e gritou-lhe: «Cala-te!» e percebeu que o homem estava a chorar. — Passou tanto tempo. Ocupava-me das máquinas.. Aprendeu a rezar muito depressa. se está sentado ao lado de um colega numa trincheira. Era mais velho do que os homens do pelotão de Eddie. Apesar disso. da montanha-russa. de maneira que se lhe via os dentes todos. cuspiu por cima do ramo da árvore. Eddie engoliu em seco. O senhor está. quando rompem a pele. um militar de carreira com um andar presunçoso e 57 um queixo proeminente. numa ilha das Filipinas. A maior parte dos soldados gostava bastante dele. — Com o mesmo aspecto com que me viste pela última vez? — Sorriu e. o que reconfortava os homens. e que até os oficiais falam durante o sono. o seu grupo foi apanhado sob fogo pesado e dispersou em busca de abrigo. coçando o queixo. A comida? Eddie não estava a perceber nada. especialmente depois de usar as mesmas roupas imundas durante uma semana... Vivi no mesmo apartamento durante anos.. Capitão. reparou na expressão perplexa de Eddie. quando o avião de transporte está prestes a largá-los. caso fosse encontrado morto pelos seus companheiros de luta. mas muito obrigado. — Isso é escusado. do fundo de uma trincheira. a segredar que se está cheio de fome. embora nunca tivesse aprendido a tornar-se um. porque havia um soldado inimigo de pé junto dele com uma espingarda apontada à cabeça. Limitei-me a ir andando. à medida que um ano se transformou em dois e dois anos em três. os céus iluminaram-se e Eddie ouviu um dos seus amigos. ainda estupefacto. Aprendeu a dormir em terreno rochoso. Aprendeu a capturar um prisioneiro.. — Tens razão.. também. depois de ter estado com o Homem Azul: também teria matado o Capitão? — Tenho andado a pensar numa coisa — disse o Capitão. Tive uma vida de nada.Aprendeu a assobiar por entre os dentes. O que estou a querer dizer é que. sabe? Trabalhei na manutenção de um parque de diversões. Nada de que me orgulhasse. Aprendeu. e no instante seguinte ouve-se um uuusssh e o colega cai para o lado e a fome deixa de ser importante. Deve haver um engano. — Os homens do teu pelotão. Eu continuo sem saber por que estou aqui. Aprendeu que os ossos de um homem são realmente brancos. e Eddie sentiu uma coisa fria no pescoço e havia um atrás de si. — voltou Eddie a dizer. que até os homens fortes e musculosos vomitam nos sapatos. a seguir. o Capitão prometia sempre que nunca «deixaria ninguém para trás». O hálito é sempre o mesmo.. — Afirmativo. Aprendeu que a sarna são pequeninos bichos que fazem comichão e que se enterram na pele. amarelados do tabaco. Depois... Aprendeu em que bolso guardar as cartas para a sua família e para Marguerite. apesar de perder facilmente a cabeça e ter a mania de gritar na cara de uma pessoa. E a comida incrível. O Capitão apagou o cigarro. É escusado cuspir aqui em cima.

Se Eddie pudesse saltar e agarrar-se à asa do avião. Uma noite. — E? — E. tudo o que conseguisse orientar —. — Encolheu os ombros. sabendo que essa informação seria preciosa em caso de fuga.. Ao fim do dia. meses. A noite. Fora isso que ele dissera. enchendo Eddie com uma súbita onda de náusea e desespero. É a tortura interna de todo o soldado capturado. Viam-se-lhes as costelas — até as de Rabozzo. Ao longe.. A verdade é que não tinham mantido o contacto. — Vais!. um caldo acastanhado com ervas a flutuar. Morton. iam improvisando de dia para dia. à espera de respostas. acabámos por nos afastar uns dos outros. Eddie viu um vulto correr por entre as árvores. Eddie tirou uma vespa morta de dentro da taça. mas. Eddie encolheu os ombros. .° 4. ninguém apareceu. com as mãos na cabeça.. A sua alimentação consistia de bolas de arroz cheias de sal e. — E não queremos que eles saibam os nossos.° 2. as coisas que fizeram. Os seus captores não pareciam saber ao certo o que fazer com eles.. — Não queremos saber os nomes deles — disse ele. quando a guerra acabou. entravam na cabana com as baionetas e abanavam as lâminas diante do nariz dos americanos. explodiam morteiros. semanas. que era um rapaz robusto quando se alistara. Rabozzo e o Capitão foram conduzidos em rebanho e obrigados a descer uma colina íngreme. falavam cada vez menos.° 3 e Louco n. estradas. depois cair sob uma saraivada de balas. poderia voar para longe daquele erro. — Sim. Faltavam-lhe as asas. — Ainda fazes malabarismo? — perguntou. TU VAIS! Os soldados inimigos gritaram e espicaçaram-nos com as baionetas.Eddie lembrava-se dos nomes. — Lamento muito. Os seus rostos eram encovados e ossudos. com cabelos pretos retintos.. Outro tinha os dentes mais tortos que Eddie já vira na vida. voltei — disse Eddie. a curta distância entre a liberdade e o cativeiro. tal como um íman. como se já estivesse à espera daquela resposta.. se sobrevivêssemos? Bilhetes à borla para todos os soldados? Duas raparigas por soldado no Túnel do Amor? Não foi isso que tu disseste? Eddie esboçou um sorriso. A medida que o tempo ia passando. Tentei.° 1. Uma jarra de barro servia de retrete. Fiz planos. como tantas vezes acontece numa guerra a sério.. À sua volta. Smitty.. Nunca obtinham resultados. Louco n. uma vez por dia. Um parecia demasiado novo para ser soldado. obrigados a dormir em sacos de serapilheira cheios de palha. O Capitão acenou com a cabeça. Louco n. Eddie. rugia um avião. — Sinceramente. Ficaram magros e fracos. 59 Em vez disso. O Capitão perscrutou o seu rosto. Tentou fixar imagens mentalmente. A guerra unia os homens como um íman. por vezes. também podia afastá-los. enquanto marchavam na escuridão — cabanas. Nada resultou. — E tu? Voltaste para o parque de diversões onde todos nós prometemos ir. Tanto quanto Eddie sabia. eram apenas quatro e o Capitão achava que também eles se tinham afastado de um pelotão maior e que. e ali permaneceram durante dias. O que todos disseram. Tu vais!. Mas. os guardas inimigos rastejavam por baixo das barracas e escutavam as suas conversas. Semicerrou os olhos e baixou a voz.. gritando numa língua estrangeira. Os outros pararam de comer. só queriam esquecê-las. As barracas erguiam-se sobre estacas.. Não sei. nunca de lá saí. ele e os outros soldados foram amarrados pelos pulsos e tornozelos e atirados para dentro de barracas de bambu. O Capitão chamava-lhes Louco n. Mas esta maldita perna. As coisas que viram. acima do solo lamacento.

ai porra. enxadas e baldes de metal. o dia em que mandara dois miúdos para o hospital com a tampa de um caixote do lixo. que o seu pai falasse consigo — haviam treinado Eddie na arte da paciência.» até os outros o mandarem calar. Mas. se me deres seis dias com ela. Depois. um rapaz magricela e falador de Chicago. Rabozzo mal se aguentava de pé. Havia outros prisioneiros. estava calado a maior parte do tempo. Imaginava o que faria àqueles guardas. durante o quarto mês. mantinha uma cara impassível durante as horas de vigília. O Louco n. . À noite. para ajudar nos esforços de guerra do inimigo. se eles não tivessem armas. que as ondas recuassem. dou-te estes seis dias. Morton... inventando as palavras e contando cada noite. Rabozzo apanhou uma alergia cutânea grave e uma terrível diarreia. o sonho mudava e nos outros cavalos estavam os quatro Loucos a espicaçá-lo. os nós dos dedos contra a pele. 61 Durante os primeiros meses de cativeiro.. Não conseguia comer. Não havia luz.. ou com Marguerite. se me deres dezasseis dias com ela. outros carregavam pedaços de lousa e construíam triângulos para suportar o tecto. estremecia sempre que ouvia barulho lá fora. Mas ele queria ir embora e queria vingança. outros raspavam. Dou-te estes dezasseis dias. como o jogador de basebol ansioso que fora na sua juventude. Alguns usavam as pás. amarraram-nos e conduziram-nos para dentro de uma conduta. — É uma mina de carvão — disse Morton.. mas muitas vezes parecia estar a engolir qualquer coisa. se me deres nove dias com ela. Os anos e anos de espera no cais — que uma corrida acabasse. sonhava que estava de regresso ao parque de diversões.° 2. uns melhor do que os outros. o mais cruel dos captores.».. O chão estava frio. A noite. e o Capitão tapou-o com o seu saco. Davam-lhes um copo de água de umas quantas em quantas horas. Cerrava um punho e batia na palma da mão durante horas a fio. filho de um bombeiro de Brooklyn. a sua maçã de Adão mexia para cima e para baixo. à laia de cobertor. Dou-te estes nove dias. estavam desesperadamente pretos e os seus pescoços e ombros latejavam de tanto estarem dobrados. Oregon. Os quatro Loucos não mostraram qualquer indício de compaixão.. No dia seguinte. na mina. o jovem ruivo de Portland. aconteceu uma coisa. ao fim do dia. estrangeiros que não sabiam inglês e que olhavam para Eddie com olhos vazios. colocada à sua frente. depois. A partir desse dia. Eddie descobriu mais 60 tarde que estava a morder a língua. Não era muito dado a rezas. que elas ficarem completamente encharcadas. transpirou tanto dentro das suas roupas imundas. Havia pás.Os homens adaptam-se ao cativeiro. portanto ele dormiu nu sobre a serapilheira. batia na palma da mão e pensava em todas as brigas em que se envolvera no seu antigo bairro. os prisioneiros acordaram ao som de gritos e baionetas ameaçadoras. Rabozzo. Depois. atingiu Eddie com o punho da baioneta. Smitty. Quando ele abrandou o ritmo. Não havia roupa limpa para lhe dar. Era proibido falar. dizendo: «Senhor. Os rostos dos prisioneiros. Eddie adormecia com a fotografia de Marguerite dentro do capacete. no carrossel dos Cavalos de Corrida. Sujou as calças. mas à noite acordava frequentemente aos gritos: «Eu não! Eu não!» Eddie fervilhava. Eddie caiu. — Deixem-no em paz — grunhiu Eddie. onde cinco clientes voavam em círculos até a campainha tocar. ou com o irmão. Ele fazia uma corrida com os amigos. a fazer troça. Eddie e os outros soldados foram obrigados a arrancar carvão das paredes. ai porra. e os quatro Loucos mandaram-nos levantar. coçava o queixo e murmurava: «Ai porra. picaram-no com paus para continuar a raspar as paredes. uma manhã. mas ainda assim rezava. Cerrava os maxilares..

Depois disso. Ninguém se mexeu. O Louco n. pondo-se de pé a custo.° 3 abanou a cabeça e murmurou entre dentes. mas finalmente decidiu levantar-se devagar. a seguir. na escuridão. — Capitão — sussurrou. Gritou qualquer coisa para o Louco n. — O que é que estás a pensar fazer? 63 — As pedras — disse Eddie. O eco do tiro perdurou na mina. Deixaram-no cair junto de uma parede. 62 O Louco n. Morton levou as mãos à boca. À noite. depois fixou Eddie e cuspiu-lhe para os pés. O Louco n. enquanto o rosto de Rabozzo mergulhava numa poça de sangue. antes que tivessem todos o mesmo destino. Eddie parou de rezar. — Estão a cavar as nossas sepulturas.° 2 atirou terra preta para cima do corpo. O Capitão achava que os esforços de guerra do inimigo eram desesperados. Parou de contar os dias.° 3 e o Louco n. Todos os dias. O Louco n. irritado com o barulho das pedras a bater no chão. Focou os olhos.° 4 levantaram lentamente o corpo de Rabozzo. Eddie. que. quase do tamanho de tijolos. para ter a certeza de que o estavam a ver. pegou na pistola. o Capitão calculava que os seus captores fugiriam. apanhava-as. Ele e o Capitão falavam em fugir. atirava-as bem alto e deixava-as cair novamente. Eddie sentiu o seu corpo rasgar-se em dois. como se estivesse a rezar. deixando ura trilho de sangue fresco. e o Louco n. O Louco n. havia menos corpos.° 3 e o Louco n. por isso necessitavam de todos os prisioneiros. — Ele está doente! — gritou Eddie. pelos pés. Levantou-lhe as pálpebras.° 2 fez um sorriso exagerado e pôs-se a fazer barulhinhos reconfortantes como se faz com os bebés. levantou os olhos. Rabozzo raspou mais uns pedaços de carvão e. destruindo tudo. que pareciam tão atordoados como os prisioneiros. com as quais. Fez «Ahh» e riu-se. Eddie — sussurrou Morton. — Eu sei fazer malabarismo — segredou Eddie. na mina. Depois. — O quê? Mas já Eddie gritava ao guarda: — Ei! Tu aí! Estás a fazer tudo errado! . desmaiou. ao lado de uma picareta. enfiou-a no ouvido de Rabozzo e deu-lhe um tiro na cabeça.° 2 debruçou-se sobre Rabozzo. Rabozzo gemeu. fitando cada um nos olhos. Riu-se a olhar para todos eles.sentindo uma pontada de dor espalhar-se entre as omoplatas. Três semanas depois.° 3 estava dentro da barraca.° 2 gritou para ele se levantar. — Está pronto para a acção? O Capitão levantou a cabeça. sob um céu de Lua fosca. coberto de cinza preta. Por instantes. — Que têm as pedras? — perguntou o Capitão. Estava a tentar dormir. o Louco n. de vigia. pareciam cada vez mais próximas. Os seus olhos turvaram-se e o cérebro entorpeceu. Mas o Louco n. — Para teu próprio bem. para raspar carvão. Vira covas abertas por detrás das barracas dos prisioneiros e grandes barris de óleo colocados no cimo da íngreme encosta. e arrastaram-no ao longo do chão da mina. tentava fazer malabarismo.° 2 abanou a arma e voltou a gritar. até dos moribundos. apontando com a cabeça para o guarda. — Cala-te. Deixava-as cair. entediado. de pálpebras fechadas e os lábios a moverem-se furiosamente. parecia óleo derramado.° 2 voltou a bater-lhe. Sentiu os nervos encherem-se de vida. Eddie ouvia bombas a deflagrar.° 4. — O óleo é para queimar as provas — sussurrou o Capitão. O Capitão baixou os olhos. Tinha duas grandes pedras. O Capitão semicerrou os olhos. o Louco n. Se a situação piorasse drasticamente.

. Não era nada de especial. com um italiano da feira que fazia malabarismo com seis pratos de uma vez. fingindo-se interessados no malabarismo. — Três. para impressionar o guarda.. olhem! — cantarolou Eddie. A seguir.° 1.» O Louco n. ele atirava as pedras ao ar. Ocasionalmente.». vês? — Eddie esticou três dedos. — Qual é a ideia? — murmurou Smitty. O Capitão aproximou-se. agarrou numa pedra e.. Eddie passara horas a fio a treinar no parque de diversões — com seixos. mas Eddie sorriu como os malabaristas de Ruby Pier costumavam sorrir. A meio de um passe de malabarismo. Eddie achava que. Os Loucos observaram-na a subir. enquanto eles seguiam a pedra.» Os guardas riram-se. deteve-se. — Assim — disse Eddie e começou a fazer malabarismo sem qualquer dificuldade. já Morton e Smitty estavam sentados.. «La.° 3 entregava. como quem diz «Têm de ver isto». Eddie tentou controlar a respiração. Atirava uma pedra bem alto e observava os olhos dos seus captores. — Aproxiiimem-se — cantarolou Eddie. Eddie voltou a fazer o movimento circular e sorriu.. este era o que lhe daria mais hipóteses. Eddie riu-se. desconfiado. que caiu para 65 . desconfiado. A sua postura descontraiu-se. — Assim! Tens de fazer assim! Dá cá as pedras! Esticou as mãos. alerta. olhem.. o tipo da esqueeeerda. bolas de borracha.° 3. cada vez mais depressa.Fez um movimento circular com as palmas. para empatar. meus caros! Eddie acelerou os gestos.° 3 abriu a porta de bambu e fez o que Eddie esperava que ele fizesse: chamou os outros guardas. depois contou: — Um. — O maior espectáculo do mundo. O Capitão riu-se. enquanto lançava as outras duas.° 3 grunhiu. depois entregou as duas pedras a Eddie.° 3 aproximou-se. Dá-me as pedras. O Louco n.. em cheio contra o queixo do Louco n. Morton e Smitty aproximaram-se discretamente. O Louco n.. — Ahhh — fez o Louco n. Depois parou.. Eddie apanhou a segunda pedra e atirou-a.° 2. A maior parte dos miúdos do cais sabia fazer malabarismo. agora.° 3 fitou-o. — Se ele me der mais uma pedra. como o bom jogador de basebol que sempre fora. pedaços de pão aos prisioneiros. de todos os guardas. quando o interesse do público começava a esmorecer. — e atirou uma pedra muito mais alto do que antes. com a mão esquerda. depois apanhou a terceira e repetiu o gesto.° 2 seguiu-o. lala-la laaaa. Aprendera-o quando tinha sete anos. Eddie atirou as pedras num movimento rítmico. Mas. O Louco n. Riso forçado.° 3 atirou a pedra a Eddie e gritou qualquer coisa. deu um passo atrás. Cada uma era do tamanho da palma da sua mão.° 1 apareceu com uma pedra grande e o Louco n. la-la-la laaaaa. — Três pedras. furiosamente. depois. O seu malabarismo era cada vez mais rápido. Cantou uma musiquinha de feira. o Louco n. tudo o que encontrasse. 64 O Louco n. O Louco n. atirando-os pelo pequeno buraco da cabana que servia de janela.° 2 franziu o sobrolho. — Gostas? — perguntou Eddie. — Olhem. — Eu sei fazer malabarismo. Os guardas estavam a gostar do entretenimento. — Agora! — gritou Eddie. fingindo que as palavras faziam parte da melodia. «Capitão.. Cantou: «La. Atirou uma pedra bem alto. O Louco n. — sussurrou Eddie entre dentes. sem querer. Por essa altura. à socapa. partindo-lhe o nariz. Só mais um pouco. voltou atrás para ir buscar a sua baioneta. mostrou as pedras e disse: — Dá-me mais uma... dois. sorriu para os outros e fez-lhes sinal para se sentarem. arremessou-a com força contra a cara do Louco n.

Os barris de óleo estavam empoleirados no primeiro degrau da colina. Traz uma pequena caixa nas mãos. O corpo do Louco n. todos misturados — depois. até olhar para as suas mãos e ver um repugnante muco arroxeado. ou seja. — Trouxe-te uma coisa. que ambos caíram pela porta fora. ouviu um tiro e levou as mãos à cabeça. na maçaneta do guarda-fatos do seu quarto. espetou a baioneta nas costelas do Louco n. A porta da rua abre-se e Eddie ouve uma voz que faz. de lado. — Pelo Rabozzo — murmurou Smitty. enquanto eles tentam dar-lhe murros no estômago. e por baixo. Pendurou-as num cabide. Para o teu aniversário e. Pergunta-se se essa não será uma fraqueza que não deveria levar para a guerra. Estava a sangrar do peito. cheio de adrenalina. Eddie — diz Marguerite. levou a mão à pistola e disparou-a ao acaso. mas nada aconteceu. em Pitkin Avenue. quando ouviram as bombas — sussurrou o Capitão. Havia uma cabana de abastecimentos ali perto e Morton certificou-se de que estava vazia. descalços e cobertos de sangue. Aliás. a brincar com os seus primitos romenos. mais guardas para enfrentar. com a pistola do inimigo na mão.trás quando o Capitão lhe saltou em cima. Um aponta pela janela para o Carrossel Parisience.. com as mãos atrás das costas. correram para a encosta íngreme. o Capitão. — Somos o único grupo que sobrou. O Louco n. para a tua partida. o acampamento inteiro estava vazio. que percebeu ser sangue e pele e cinzas de carvão. Eddie perguntou-se há quanto tempo estariam ali sozinhos com os quatro Loucos. . que está iluminado para receber os clientes da noite. Levantou os olhos e viu Smitty de pé junto dele. Em poucos minutos. Eddie estava a contar com mais tiros. quando ele se baixou. e Eddie sente as habituais cócegas no peito. antes de lá entrar a correr. Eddie.. A menos de cem metros. As outras cabanas estavam vazias. bom.° 4 com tanta força. ao longo da cobertura de baunilha. que se encontrava à espera junto da parede.° 4 entrou a correr e Eddie atirou a última pedra contra a cabeça dele e falhou por centímetros. A mãe de Eddie já limpou e passou as roupas a ferro. — Cavalos! — exclama a criança. saiu com os braços cheios de granadas.. colocou o seu único par de sapatos bom. na entrada da cozinha. sujando as têmporas com o muco viscoso. — Os outros devem ter fugido. repetidas vezes. maravilhosa.° 2 e esmurrou a cara dele com muito mais força do que alguma vez batera em alguém. A porta abriu-se de rompante e o Louco n.° 3. saltou sobre o Louco n.° 2 tornou-se mole. o seu coração dar um pulo. apoderando-se da sua baioneta. ficava a entrada da mina de carvão. Os prisioneiros. Ela sacode a chuva dos cabelos e sorri. Eddie está na cozinha. mas. momentaneamente petrificado. magros. 66 Hoje é o aniversário de Eddie O bolo diz «Boa sorte! Luta muito!» e. E ali está ela. «Regressa depressa filho». enquanto Morton e Smitty se lançavam contra as suas pernas. — Olá. os quatro guardas estavam mortos. mas os Os de «soon» («depressa») estão colados e mais parecem a palavra «son» («filho»). espingardas e dois lança-chamas com ar primitivo. — Vamos queimar tudo — disse. alguém acrescentou as palavras «Regressa depressa a casa» em letras azuis floreadas.. Pegou numa pedra solta e esmagou-a contra o crânio do louco. que ele vestirá no dia seguinte. até hoje.

— Ainda nem sequer a abriste. como se fosse lógico. de repente. do que algum dia julgou ser possível amar alguém. Só se quer recordar dela. que pensa que vai explodir.Volta a sorrir. Algumas das senhoras mais velhas ficam com os olhos rasos de lágrimas e Eddie deduz que também elas têm filhos. — Não te deixes matar. Eddie sente um desejo tão forte de a abraçar. — És mesmo forte — comenta Marguerite. — Vem apagar as velas. arrumadores e vendedores de comida. No final da noite. quando Morton. de mãos dadas. Salvo da pergunta que teve presa na garganta a noite toda. que estamos cheios de fome! — Ai. Os dias e noites que perdeu. Marguerite e Eddie compram guloseimas. Eddie passeia com Marguerite ao longo da marginal. diz aos outros «Vamos queimar tudo». Joe. mas depois deixa cair o sorriso e pestaneja para a chuva não lhe entrar nos olhos. embora Eddie não saiba ao certo se são gotas de chuva ou lágrimas. Ela ri-se. os homens dispersaram com o armamento do inimigo. 67 — Ouve. — Não? Ela abana a cabeça. Na galeria de jogos. um velho trapeiro construiu uma pequena fogueira com gravetos e toalhas rasgadas e está agachado junto dela. — Quente — diz Eddie. fortalhaço! — diz Marguerite. Não se importa com o que está dentro da caixa. Eddie puxa um manipulo enforma de mão de gesso e a seta passa por «gelado». aproximando-a de si. Conhece os nomes de todos os porteiros. Ama-a mais. Imbuídos de uma nova sensação de controlo. está bem? — diz ela. numa pose saída dos filmes. Sal. — Vem. Eddie engole em seco. Smitty para a entrada da conduta . tornando-a sua. que já partiram para a guerra. encostados à balaustrada.. a tortura e a humilhação que sofreu — tudo clama por uma vingança feroz. — Que bom — diz ele. detêm-se na marginal.. — Não é preciso pedires-me para esperar — diz Marguerite. «morno» e sobe até «quente». — Ele aproxima-se. Sorri. Eddie gostaria de poder parar o tempo. nesse instante. Depois outra. — Queres. cala-te! — Mas é verdade! Há bolo e cerveja e leite e charutos e um brinde ao êxito de Eddie. os seus dedos atropelam-se. Por isso. um ajuste de contas. sente como se um fio se tivesse soltado do seu coração e embrulhado em volta dos ombros dela. — Eddie! — grita alguém da sala. e há um momento em que a mãe dele começa a chorar e abraça o outro filho. Eddie sorri. Tiram os doces do saquinho branco. 68 — Ei. melaço e refrigerantes de fruta. a oferecer-lhe aquela prenda. Ele levanta os olhos para o amontoado de nuvens. «frio». Uma gota de chuva cai na testa de Eddie. que ficou na reserva por ter pés chatos. Na praia. a acomodar-se para passar a noite. todos lhe desejam boa sorte. mostrando os bícepes. 69 Um soldado que acaba de ser libertado sente-se frequentemente furioso. Como acontece sempre que vê Marguerite. nessa noite. Mais tarde. com os braços cheios de armas roubadas. todos concordaram de imediato.

Morton deu um pontapé no barril. os primeiros sons de bombardeamento. Talvez voltassem para casa! Virou-se para o celeiro a arder e. O tiro saiu veloz. Da entrada. Há mais de dois anos que Eddie só via homens adultos e aquela forma na 71 sombra fê-lo subitamente lembrar-se dos seus primos. um a um. Não tinha a certeza. as paredes do celeiro derreteram em chamas laranja e amarelas. — Ei! — gritou Eddie. — EI! — O telhado do celeiro começou a ruir. Ao longe. Os seus olhos começaram a lacrimejar. — O quê? — Está. Não conseguia ouvir. ali. O Capitão foi procurar um veículo de transporte. Eddie virou-se e teve quase a certeza absoluta de que voltara a ver. Eddie observou. despejando faúlhas e chamas. deixando cair o lança-chamas para se aproximar mais. O que era aquilo? Pestanejou. alguém! Morton abanou a cabeça. mas parecia-lhe ter visto um vulto a correr no meio do fogo. correu para o ponto de encontro. — Ardam! — gritou Morton. Acabou. Apontou e gritou: — Acho que está ali alguém. Talvez fosse uma sombra. aqueles guardas sub-humanos de dentes estragados e caras ossudas e vespas mortas na sopa. para dentro de uma das cabanas. agora. depois. de repente. Acabou. — EDDIE! VAMOS EMBORA! Morton estava ao cimo do carreiro.da mina. Smitty largou as granadas na conduta da mina e fugiu a correr. Vuuum.. Era maior. Perceberam? Cinco minutos! Que foi o tempo necessário para destruírem aquela que fora a sua casa durante quase meio ano. Estava ainda mais perto. dentro de cinco minutos! — rugiu. — Ardam! — gritou Eddie. — Encontramo-nos aqui. A conduta da mina explodiu desde lá de baixo.. das montanhas-russas. Os olhos de Eddie ardiam. Empunhou a arma. veria as chamas. dando um passo em frente. Talvez fossem resgatados. disse ele para com os seus botões. mas não podia ser pior do que aquilo por que já tinham passado. vindos do céu. e desecandeou uma explosão de chamas em série. zombou. depois desceu o carreiro até à última cabana. — EI! MOSTRA-TE! — gritou. baixando a arma. Não sabia o que lhes ia acontecer a seguir. um vulto do tamanho de uma criança. — Os bombardeamentos vão recomeçar daqui a nada e temos de ir embora antes disso. dos miúdos na praia. ali... Smitty. uma espécie de celeiro. quem quer que fosse. atearam os seus recémadquiridos lança-chamas e viram as cabanas pegar fogo. num minuto. o ruído que tinham ouvido todas as noites. de Marguerite e da fotografia dela e de tudo o que bloqueara na sua mente durante tantos meses. O bambu estava seco e. O calor era intenso e tapou os olhos com a mão livre. saiu uma nuvem de fumo preto. O que era aquilo? Viu uma coisa passar veloz pela porta. Eddie premiu o gatilho. Morton levou a mão à orelha. do cais e do caminho-de-ferro Liliputiano que costumava vigiar. cumprida a sua missão. a rastejar dentro do celeiro em chamas.. abriam-nos e. Eddie deu um salto para trás. Eddie e Morton empurraram dois barris para o complexo das barracas. Morton e Eddie para os barris de óleo. Todas essas semanas e 70 meses nas mãos daqueles sacanas. a acenar para que Eddie fosse ter com ele. e Eddie apercebeu-se de que. A sua respiração era ofegante.. Eddie tentou focar a visão. — EU . Eddie ouviu o retumbar de um motor — o Capitão encontrara um veículo de fuga — e.

Perdeste muito sangue.. tão cansado. Na verdade.. — Nem por isso — disse Eddie. espera. espera. o joelho perdera a sensibilidade e Eddie estava cada vez mais tonto e cansado. As suas costas estavam queimadas. a bala nunca fora completamente retirada. Eddie deu meia volta e. Acabaram-se os bailes. Virou-se de novo para as chamas. Eddie deu meia volta. Eddie tinha a cabeça a latejar.. de olhos fechados para se proteger do calor insuportável e. lançando uma chuva de faúlhas como poeira eléctrica sobre a sua cabeça. rebolando-o na terra para apagar as chamas. atrás de uma parede? Ali? Deu um passo em frente.. de olhos semicerrados. O céu iluminou-se de clarões azulados. O Capitão fez um lento aceno de cabeça. O sangue espirrava abaixo do joelho. puxando-o com força para trás. Morton tornou a agarrá-lo. e ele sentiu-se demasiado atordoado e fraco para resistir. Nesse instante. de punho cerrado. um pedaço de Rabozzo.. Os aviões rugiam lá em cima e os tiros das suas armas soavam como tambores. sentiu-se pronto para morrer. Virou-se novamente para o celeiro. Os motores dos aviões rugiam. depois. espera. O médico disse que ele ficaria a coxear. O seu rosto contorcido de raiva.NÃO TE FAÇO. se aguentar. em seguida. puxou o braço atrás e acertou-lhe no peito. Estiveste metade do tempo inconsciente. pela primeira vez na sua vida. Naquele instante. Sentiu repulsa pelo cativeiro e pelos assassínios. Eddie só sabia que acordara numa unidade médica e que a sua vida nunca mais voltara a ser a mesma. alguém o puxou para trás. furioso. . Acabaram-se as correrias.. Eddie moveu-se como se estivesse em transe. informaram-no. Cortara vários nervos e tendões e estilhaçara-se contra o osso. acho que está alguém ali dentro. Morton caiu de joelhos. — O Capitão pontuou as palavras com um suspiro. Uma chama 72 amarela subiu-lhe pela canela e. Era Morton. convencido de que algum inocente estava a morrer carbonizado diante dos seus próprios olhos. Uma mão agarrou-lhe no ombro.. um pedaço de si. qualquer coisa. — Pois foi. De repente. à medida que os ossos se fossem deteriorando. o resto do telhado ruiu com um estrondo. Seria verdade? Quem sabe. Eddie foi submetido a duas operações. uma situação que acabaria por se agravar com a idade. Ali? Será aquilo? Ali. Gritou uma longa praga saída do fundo das suas entranhas e.. estava dentro de um veículo de transporte e os outros encontravam-se à sua volta. — Não. Desta vez. loucamente convencido de que havia uma alma dentro de cada sombra negra. a totalidade da guerra invadiu-o como bílis. «Fizemos o melhor que pudemos». não. — Aquela bala atingiu-te em cheio. — Demorámos dois dias. aos berros: — EDDIE! Temos de ir embora JÁ! Eddie abanou a cabeça.. e cambaleou para os destroços em chamas. repulsa pelo sangue e pelo muco a secar nas suas têmporas. Nenhuma delas resolveu o problema. Levantou os braços e gritou: — EU AJUDO-TE! MOSTRA-TE! NÃO TE FAÇO MAL! Uma dor lancinante perpassou a perna de Eddie.. ao relembrar esses últimos instantes. repulsa pelos bombardeamentos e pelo fogo e pela futilidade daquilo tudo. caiu no chão. — Não está ninguém lá dentro! Vamos embora JA! Eddie estava desesperado... a dizer-lhe para se aguentar. Passou por uma poça de óleo ardente e as suas roupas pegaram fogo por trás. De repente. Ficou ali deitado. Pior ainda.. pela coxa. a sangrar e a arder. fracturando-o verticalmente. só queria salvar alguma coisa.. — Lembras-te de como saíste de lá? — perguntou ele. Daí a nada. — Mas safámo-nos — disse Eddie. rolou como um saco de feijões.

comecei eu a dá-las. Todas as manhãs. Assim que a encontram.73 por algum motivo. O Capitão fitou-o. — É verdade. na verdade. O Capitão não sangrou. E a dor também. Também eu me limitava a receber ordens. Também pensaste o mesmo. Levou a mão ao bolso do peito do casaco. Deixou o cigarro cair dos dedos. as pessoas procuram uma pequena coisa em que acreditar. Eddie gritou e precipitou-se com toda a força. assoladora. — Mas é claro que eu não podia. Aprendeu muitas coisas enquanto soldado. Durante os tempos de paz era uma coisa. Apanhava muitos recrutas armados em chicos-espertos. O Capitão soltou uma baforada. começou a guerra e apareceram novos homens. — Por que é que diz isso? — perguntou Eddie. Eddie abanou-o pelos colarinhos e bateu com o crânio dele contra a lama. rezando numa trincheira. Ninguém fica para trás. deixando Eddie descarregar a sua raiva. a lutar o caminho todo até lá baixo. O Capitão levou a mão ao pescoço e esfregou-o. No meio de uma grande guerra. agarram-se a ela como um soldado se agarra ao crucifixo. sentando-se em cima do peito dele. pendurada no ramo da árvore. fazendo com que os dois homens caíssem da árvore por entre ramos e vinhas. depois. e agrediu-o repetidamente com murros no rosto. e todos me faziam a continência. podia pelo menos manter-vos unidos. O Capitão nem pestanejou. Eddie olhou para a sua perna. Tudo lhe parecia disparatado ou inútil. Apercebia-me do medo nos olhos deles. não pensaste? Eddie teve de admitir que sim. que não sentia há muitos anos: uma onda feroz. que o olhou com uma expressão vazia. depois apontou com a ponta do cigarro para a perna de Eddie. — Para mim — prosseguiu o Capitão —. passei a vida a receber ordens. acabara-se também a maneira como ele costumava sentir-se em relação às coisas. jovens como tu. As cicatrizes da operação estavam novamente presentes. a cada soco. chegava ao ponto de atirar uma moeda para cima dos lençóis e ver se ela saltava. que não sentia desde antes de morrer. na sua perna e na sua alma. — Porquê? Seu sacana! Porquê? PORQUÊ? Lutaram no solo lamacento. essa pequena coisa era aquela que eu vos dizia todos os dias. Sentiu um turbilhão de emoções dentro de si. Retraíu-se. Por fim. de raiva e um desejo de bater em alguma coisa. »Até entrar para a tropa. Mas. Eddie acenou com a cabeça. o meu pai inspeccionava a minha cama. Aprendi a disparar uma arma aos seis anos. Eddie imobilizou o Capitão. Regressou a casa um homem diferente. Mas. tirou outro cigarro e acendeu-o. — Isso era muito importante para nós — disse. A guerra alojou-se dentro de Eddie. 74 — Espero que sim — retorquiu. como se soubesse o que ia acontecer a seguir. A mesa do jantar era sempre «sir» para cá e «sir» para lá. — Sabias — disse o Capitão — que descendo de três gerações de militares? Eddie encolheu os ombros. Limitou-se a rebolar de um lado para o outro. se não podia garantir a vossa sobrevivência. — Porque fui eu — disse ele — que te dei um tiro na perna. Achavam que eu podia garantir-lhes a vida. só . Semicerrou os olhos e fitou o Capitão. — Força — sussurrou o Capitão. Agiam como se eu estivesse na posse de informações sigilosas sobre a guerra. à espera que eu lhes dissesse o que fazer. De repente.

que o Capitão não sobrevivera. querias entrar no celeiro desse por onde desse. como se vivesse ali mesmo. os aviões a aproximarem-se. Tínhamos um minuto para sair dali e. Tirámos-te de lá e os outros levaram-te para um posto médico. com o cotovelo a prender o peito de Eddie — te teríamos perdido naquele incêndio. esqueceu-se dos pormenores. baixinho — para te salvar a vida. E não era chegada a tua hora.. — Foi como te disse — continuou o Capitão. E. — A sua voz esmoreceu e tornou-se um sussurro. agitado. ninguém conseguiria lutar contigo.. — Porque — disse ele calmamente. Está farto. Aproximou-o de si. Eddie estava estendido no banco de trás. como se fosse para casa. — Como. por fim. — A minha. Achei que um ferimento na perna acabaria por sarar. mas Eddie pô-la de parte. Os bombardeamentos . Um homem sai da tenda e começa a andar. — Às vezes é a meio de um combate. hora? O Capitão prosseguiu. — O que te aconteceu a ti. Eddie sentiu uma última onda de raiva e agarrou no Capitão pelos colarinhos. O que viu. Terias morrido. seminu. — Porque é que eu não morri? — Ninguém podia ficar para trás. Eddie estava ofegante. não tinha o mínimo interesse em relembrá-los. — No teu caso. chegou uma carta com uma medalha lá dentro. Às vezes. ferido. aquele erro. quando ele tentou impedir-te de lá entrar. Um dia. Não. — Os outros? — repetiu Eddie. Morton e Eddie. 75 — Estavas obcecado. que mudara toda a sua vida. descalço. enquanto Morton atava um torniquete acima do seu joelho. Tinha a cabeça suja de lama e folhas. Ouvira dizer. Um homem larga a arma e fica com um olhar vazio. lembras-te? — perguntou o Capitão. mudou de endereço. pegou em Eddie e deitou-o por terra. Os meses depois da guerra foram negros e depressivos. O Capitão conduzia o veículo que transportava Smitty... fora desmobilizado e enviado para casa. Doíam-lhe os braços. à conta da tua força. — Não havia ninguém dentro da cabana. Precisou de um minuto para compreender o que o Capitão acabara de dizer. Um soldado chega a um determinado ponto em que não consegue continuar.. — A minha vida! — Eu dei-te cabo da perna — explicou o Capitão. peeeerna! — gritou Eddie.. 76 — Voltaste a ver-me? — perguntou. com uma lua fosca no céu. Eddie largou-o e caiu para trás. do tabaco. já vi acontecer a tantos outros. um minuto antes de sairmos daquele lugar. mas sempre pensara que morrera num qualquer combate posterior. Tinha a cabeça a andar à roda. Apontou numa direcção por cima do ombro de Eddie e Eddie virou-se para olhar. — A minha. semiconsciente. fora assombrado por aquele instante. Eddie nunca mais o vira. Fora transportado de helicóptero para o hospital militar e. — Tétano? Febre amarela? Aquelas vacinas todas? Não passaram de um enorme desperdício do meu tempo.com um braço. Não consegue lutar mais. por causa do seu ferimento. meses depois. «os outros»? O Capitão levantou-se e sacudiu um graveto que estava preso à sua perna. com outro pelotão. geralmente. Viu os dentes manchados de amarelo. as cabanas a arder. não foram as colinas áridas. acaba por levar um tiro. exausto. Quase deixaste o Morton sem sentidos. mas a noite da sua fuga. Durante tantos anos. passaste-te à frente de um incêndio.. ao virar da esquina. Com o tempo. Que raio de ideia me passou pela cabeça? Se eu não tivesse entrado lá. é a meio da noite. queimado.. Eu não podia deixar-te morrer carbonizado. de repente. sem a abrir sequer. A respiração de Eddie esmurrava-lhe o peito como um martelo.

estavam cada vez mais perto. Um avião aproximou-se no céu e ele levantou os olhos para ver se era do inimigo.. Sem funeral. alguns dos quais voaram por cima da terra enlameada e foram aterrar nas árvores. 77 A mina terrestre explodiu imediatamente. fechando os olhos e deixando cair a cabeça para trás. — Estás a perceber? Nunca tive muito jeito para ensinar. — O tempo — respondeu o Capitão — não é o que tu pensas. — disse o Capitão. Eddie ficou com um ar perplexo. mas. O Capitão pegou numa espingarda e saltou do carro. É isso o Céu. — Acorda na manhã seguinte e tem todo um mundo novo à espera dele. Sempre o imaginara tão mais velho. Eddie reparou nas poucas rugas do seu rosto e na melena de cabelo escuro. As colinas haviam regressado ao seu estado de aridez. — Ai. Correu o melhor que pôde. Tem o dia de ontem. Achamos que é. 78 A segunda lição — Ai. não é? Não sabe o que é o sono. Mas agora. — Estava à tua espera. 79 O Capitão sorri. meu Deus! Ai. Fez sinal aos soldados. Havia um portão. num sussurro. com os braços. Sem caixão. Atirou o Capitão a seis metros no ar e desfê-lo em pedaços. Eddie baixou os olhos. O caminho estava livre. Devia ter apenas trinta e poucos anos. Que horror! Que tragédia! O Capitão acenou com a cabeça e desviou o olhar. — Tem estado este tempo todo aqui. O céu negro iluminava-se de uns tantos em tantos segundos. Apenas o seu esqueleto destroçado e a terra lamacenta. não podiam contorná-lo. . a história de Adão e Eva. descalço. com os ossos de animais. — Acho que é como diz a Bíblia. soldado. — Morrer? Não é o fim de tudo. à espera? — perguntou Eddie. que serpenteava por entre o arvoredo. — Sentou-se ao lado de Eddie. que se ouviu um pequeno clique por baixo do seu pé direito. mas isso corresponde ao dobro do seu tempo de vida. Disparou contra o trinco e abriu o portão. como se o sol estivesse a acender e a apagar. Fez sinal a Morton para se pôr ao volante. mas tem também outra coisa. cinquenta metros para lá da curva do carreiro. como o solo caía a pique de ambos os lados. O lugar onde fazemos com que o nosso ontem tenha sentido. como uma chama arrotada pelo centro da terra. certo? — Mas não está — prossegue o Capitão. indicando que ia inspeccionar o caminho. meu Deus! Eu não fazia ideia. — A meu ver. — A primeira noite de Adão na Terra? Quando ele se deita para dormir? Ele julga que acabou tudo.. Mas o que acontece na Terra é apenas o começo. é isso mesmo que se passa aqui. meu Deus — disse Eddie. sem as cinzas de carvão a mancharem-lhe o rosto. — Está aqui desde que morreu — disse Eddie —. depois detevese. O Capitão fez um sinal de assentimento. enquanto estava a olhar para o céu. uma coisa improvisada de madeira e arame. Capitão. um amontoado ardente de ossos. Foi nesse instante. Puxou da cigarreira de plástico e bateu nela com o dedo. Eddie percebeu que aquele era o local onde o Capitão fora enterrado. depois apontou para os olhos. O veículo guinou ao chegar ao cimo da colina. cartilagem e centenas de bocados de pele carbonizada. Eddie observou o Capitão atentamente. a carroça desconjuntada e os restos queimados da aldeia. Sente os olhos a fechar-se e pensa que está a deixar o mundo.

mas ele contou-te e agora está longe daqui e. também eu estarei longe daqui. As vezes. Não paravas de pensar no que tinhas perdido. porquê este lugar? . Deteve-se por um instante e olhou para o distante e enevoado céu cinzento.. Portanto. Ele sacrificou-se pelo seu país e a sua família percebeu isso. Naquela noite. Estendeu a mão. — Rabozzo não morreu em vão. Não chegou a aterrar. com um assobio. dentro de poucos instantes. Grandes sacrifícios. Mas tu estavas irritado com o teu. não a perdemos realmente. O Capitão olhou de relance para cima. mas também ganhaste algo em troca. ele também estava à tua espera. todos nós podíamos ter pisado aquela mina terrestre. — É verdade que te alvejei — disse ele — e que perdeste qualquer coisa. E assim que as coisas são. — Mas o Capitão. ainda espetados no chão. ouve-me com atenção. Depois. — O quê? — Cumpri a minha promessa. De repente. — Baixou a voz. cobertos de folhas macias e verdejantes e bolsas de figos. porque se sentiu inspirado pelo exemplo de Rabozzo. — Mas é isso mesmo que importa. Voou pelos céus e desapareceu. Eddie sentiu as suas costas endireitarem-se.. Estamos apenas a passá-la a outra pessoa. Em seguida.. »Um homem vai para a guerra. Eis o que tens de saber de mim. O Capitão virou-se. — Tu fizeste um sacrifício. em seguida arrancou a espingarda da lama e arremessou-a como uma lança. »Eu também não morri em vão. Não te deves arrepender deles. Colocou o capacete e as chapas debaixo de um braço.— Foi o que disse o Homem Azul. Nesse caso. Eu fiz outro. 81 — Sim? — Porquê aqui? Podia ter escolhido qualquer lugar para esperar por mim. — Bom. — Era disto que eu estava à espera. O Capitão estalou a língua contra os dentes. É algo a que as pessoas devem aspirar. Ramos novos e viçosos despontaram como bocejos. teríamos morrido os quatro. — Sacrifícios — disse o Capitão. limpou os restos de cinza do rosto. »Não percebeste que os sacrifícios fazem parte da vida. — Capitão? — disse Eddie. Todos nós os fazemos. Eu também ganhei uma coisa. e o irmão mais novo tornou-se um bom 80 soldado e um grande homem. pensou no que o Capitão perdera e teve vergonha. Pequenos sacrifícios. a espingarda e as chapas.. a sepultura simbólica. na raiva por tudo o que tinha perdido. Então. Estendeu a mão. Uma filha regressa a casa para tomar conta do pai doente. Eddie abanou a cabeça. como se já estivesse à espera que aquilo acontecesse. Não te deixei ficar para trás. as vinhas grossas caíram dos ramos da árvore e derreteram-se no solo. não podia? Foi o que disse o Homem Azul. Pensou na amargura que sentira na sequência do seu ferimento. Uma mãe trabalha para que o seu filho possa ir para a escola. com as palmas das mãos abertas. parte do motivo por que viveste e como viveste. Fez parte da tua vida. O Capitão dirigiu-se para o capacete. Só ainda não te apercebeste disso. parte da história que precisavas de saber. — Perdoas-me pelo tiro na perna? Eddie pensou por um instante. — Perdeu a vida. quando sacrificamos uma coisa preciosa. O Capitão apertou-a com firmeza.

— Já agora. Salvei a menina? Senti as mãos dela. No cais. — O que tu vês não é igual ao que eu vejo. é só isso — murmurou entre dentes. Uma ténue névoa branca desceu sobre as copas das árvores e um sol cor de pêssego empoleirou-se. planos militares. Eddie olhou para baixo. já o Capitão tinha desaparecido. — Deu uma gargalhada. intocada. as árvores cresceram e propagaram-se. Atirou-lhe o capacete e as chapas. soldado. mas ele foi trabalhar à mesma e ligou a água da pia. dada a maneira terrível como o Capitão morrera. por cima do horizonte. 82 O Capitão virou-se e Eddie engoliu as suas palavras. — Porque morri num campo de batalha. cujo rosto estava limpo e a farda subitamente passada a ferro. Antes de começarmos a matar-nos uns aos outros. agora. revelando um céu azul safira. As nuvens turvas afastaram-se como cortinas. brilhante. que novamente lhe trouxe dor ao coração. a absorver o cenário. — Só queria saber. Eddie olhou à sua volta. A minha morte. uma família militar. rodeavam a ilha. »O meu desejo — explicou o Capitão — era ver como era o mundo sem guerra. — Preciso de saber uma coisa. deixei de fumar. — Isto — disse o Capitão. desligou a torneira e pôs a ideia de lado. — Mas há alguém que pode. Vestia uma camisola verde e calças de ganga largueironas. pensando que ia limpar algumas peças das máquinas. — Espere — gritou Eddie..O Capitão sorriu. 7 HORAS E 30 MINUTOS DA MANHA Na manhã após o acidente. Trazia um jornal na mão. luxuriante. Passou as mãos pelo jorro. Ficou parado durante uns instantes. — Não te posso responder. Era uma beleza imaculada. Fitou Eddie com olhos de compaixão. Eddie deixou cair a cabeça. . — Que se passa? Willie encontrava-se à porta da oficina. Deixei este mundo sem conhecer muito mais do que a guerra: linguagem militar. — Para ti. Os destroços derreteram.. Mas os nossos olhos são diferentes — disse o Capitão. Ergueu uma mão e a paisagem chamuscante transformou-se. — Não consegui dormir — disse Dominguez. — Porque é que eu haveria de fumar no paraíso? Começou a afastar-se. Fui morto nestas colinas. reflectido em oceanos cintilantes que. o solo passou de lama a relva verde. Também isso foi visto só pelos teus olhos. Dominguez entrou bem cedo na oficina. Eddie levantou os olhos para o seu antigo comandante. — São teus. O Capitão coçou a pele atrás da orelha. pura. envergonhado por estar a fazer aquela pergunta. — Mas isto é a guerra. O parque estava fechado. 83 SEGUNDA-FEIRA. Parecia tudo ainda mais silencioso do que há um minuto. levantando os braços — é o que eu vejo. A seguir. Dentro da aba do capacete estava a fotografia amarrotada de uma mulher. tendo abdicado do seu ritual de ir buscar um pãozinho e uma bebida para o pequeno-almoço. O título dizia: «Tragédia no parque de diversões». Quando voltou a levantar os olhos. mas não me consigo lembrar.

depois deu um beliscão no joelho esquerdo. Foi envolto por uma explosão de fumo. O letreiro no topo piscava a palavra: «RESTAURANTE». mas eram as montanhas mais espantosas que já tinha visto. Estava nas montanhas. pensou Eddie. Eddie sentiu uma pontada lancinante e contorceu-se de dor. A Lua reflectia-se reluzente nas suas águas. à barriga. com cicatrizes. Os flocos soltaram-se. Tornou a pestanejar. Uma vez mais. Mas. estava um edifício em forma de vagão com uma fachada de aço inoxidável e um telhado vermelho como um barril. ao peito. — Pergunta à polícia. uma imagem mais semelhante à que ele fazia do paraíso. Eddie passara muitas horas em lugares como aquele. Eddie reparou numa luz colorida e trémula que mudava ritmicamente de tantos em tantos segundos. Levantou o pé e sacudiu-o com vigor. Espreitou lá . e uma fileira de janelas com pequenos painéis em toda a fachada. — Quando é que achas que voltam a abrir o parque? Dominguez encolheu os braços. pessoas a falar e a gesticular.— Eu sei. desta vez. interminável. levou as mãos aos ombros. Deu meia volta no banco. milhões de estrelas. Num planalto. com cumes cobertos de neve. como que por turnos. — Eu também não consegui. Apareceram estrelas. A paisagem austera e silenciosa era de cortar a respiração. entre duas cristas. mais flácido. De repente. — Willie deixou-se cair num banco de metal. encontrava-se um vasto lago negro. Onde estou eu agora?. em silêncio. parecia que se estava a tornar no homem que fora na Terra. mas o seu ventre estava mais mole. até chegar a uma extensa clareira de onde partiam as luzes. Deu um passo nessa direcção — e percebeu que tinha neve pelos tornozelos. a mudarem de posição um de cada vez. Quando lhes tocou. Subiu os degraus cobertos de neve que conduziam à porta de painel duplo. Era segunda-feira. depois da sua conversa com o Capitão. se teria terminado. Atravessou a neve e contornou uma rocha enorme. como um cobertor reconfortante. nem molhados. Os músculos dos seus braços continuavam fortes. Um típico restaurante americano. Eddie pestanejou. que. uma cordilheira sem fim. não estavam nem frios. se não havia mais ninguém à sua espera. Eram todos iguais: mesas com tampos brilhantes e bancos de correr de costas altas. Estava 85 convencido de que. Dominguez suspirou. Eddie conseguiu distinguir várias pessoas através das janelas. por instantes. agora. afastou-se a alta velocidade e explodiu em tons de jade. Willie levou a mão ao bolso da camisola. em vez disso. à procura de uma pastilha elástica. no campo coberto de neve. Ao fundo. 84 A terceira pessoa que Eddie encontra no Céu Um vento súbito levantou Eddie do chão e ele rodopiou como um relógio de bolso na ponta de uma corrente.. gordura e tudo o mais. fitando o jornal com um olhar vago. Hesitou. se o Capitão estava errado. Estavam à espera que o velhote aparecesse e desse início ao dia de trabalho. Ali. completamente isolado. como sal espargido sobre o firmamento esverdeado. tocou no seu corpo. faziam com que os clientes parecessem viajantes numa carruagem de comboio. rochas agrestes e encostas absolutamente roxas. . reluzindo com um brilho dourado. do lado de fora. durante algum tempo. Porque é que o Céu nos faria reviver a nossa própria decadência? Seguiu as luzes trémulas ao longo do estreito. de incredulidade. O céu parecia puxá-lo e ele sentiu-o tocar-lhe na pele. Ficaram sentados. Perguntou-se. que engoliu o seu corpo numa torrente de cores. o ferimento desapareceria. Era de manhã.

Estacou. — Alguém tem um fósforo? Palpam os bolsos. sentada à mesa. partiria o vidro. Mas a figura dentro da cabina. Mickey Shea — estão de pé à volta dela. parece demasiado pesada para voltar a erguer-se no ar e só a voz de Eddie. — Não! — gritou Eddie. Pareciam pertencer a décadas diferentes: Eddie viu uma mulher com um vestido de colarinho alto. Deu meia volta e tornou a olhar. a mãe de Eddie abre a caixa branca da pastelaria e reordena as velas no bolo.. Virou as costas para a porta.. A sua direita. — Não! Não! — Bateu até ter a certeza de que. Sentia o coração aos pulos no peito. O grupo entra no quarto de Eddie. encostado a uma almofada. — Não! — Continuou a gritar até a palavra que queria. O soldado na cama ao lado acorda aos gritos: — QUE RAIO? — Percebe onde está e deixa-se cair na cama. dos anos sessenta. e um rapaz de cabelos compridos com o sinal da paz. As portas abrem-se e sai uma maca. por mais vezes que Eddie a gritasse. aproximando-se umas das outras. uma e outra e outra vez: — Pai! Pai! Pai! 87 Hoje é o aniversário de Eddie No átrio sombrio e estéril do hospital militar. doze do outro. depois bateu desvairado nos painéis da janela. Joe. — depois. se continuasse. não poderia ter visto. — Está pronto. Os outros — o pai de Eddie. envergonhado. com uma mão pousada em cima do tampo. A mãe de Eddie acende as velas. continuou debruçada. não lhe ligaram. com os casacos pendurados em cabides. deixando cairão chão dois cigarros soltos. a palavra que não pronunciava há décadas. cremes de manteiga amarela. . Marguerite. Mickey retira uma carteira de fósforos de dentro do bolso do casaco. à espera de serem servidos — comida das cores mais suculentas: molhos de um tom vermelho intenso. O que viu. vamos — diz ela. Os seus olhos deslizaram até à última mesa. a observar... Um elevador pára ao fundo do átrio. Havia outros clientes sentados em bancos giratórios junto ao balcão de mármore ou dentro das cabinas das mesas. a comer uma tarte. gritou-a tão alto. sem se aperceber da presença de Eddie. a tremer na sua solidão. doze de um lado. Muitos dos clientes pareciam ter sido feridos. Eddie senta-se. parabéns a. muito depressa — muitosanosdevida. dos anos trinta. Olha para aqueles rostos e sente-se consumido por um desejo tremendo de fugir. Nenhum deles olhou. tatuado no braço. consegue continuar. interrompida. colocando-as em números pares. quando Eddie bateu na janela. Uma rapariga adolescente exibia um corte profundo de um lado ao outro do rosto..para dentro. a cantar baixinho. — Para o menino Ed-die. Um homem negro de camisa de operário não tinha um braço. As suas queimaduras estão enfaixadas. a outra a segurar um charuto. As pequenas chamas serpenteiam.. finalmente se formar na sua garganta. Inspirou fundo várias vezes. Tem um par de muletas junto da cama. A perna dentro do gesso. A canção. — Não — ouviu-se a si mesmo sussurrar. Viu cozinheiros com chapéus brancos de papel 86 e pratos de comida fumegante em cima do balcão. no canto direito. então. sem nunca levantar os olhos. estava sentado um casal de idade. que a sua cabeça começou a latejar. — Parabéns a você. Gritou essa palavra.

Muitas vezes. o pai de Eddie levava-o ao cais. costumava ser agarrado pelo braço mais com irritação do que com amor. Ela olha em volta. É inevitável. Eddie ficava à guarda de um acrobata ou de um domador de animais. o pai jogava às cartas. na cama. como se fosse a sua vez. o pai avisava-a para «não se meter». os estragos da negligência. geralmente ao fim da tarde. A mãe de Eddie dá um passo em frente. Pelo menos quatro noites por semana. Eddie nunca mais se aproximou. Eddie raramente ia para o colo do pai e. mas. disse. outros provocam brechas. 88 Mostra-lhe a caixa de cartão. para apanhar as moedas que tinham caído dos bolsos dos clientes na noite anterior. As mãos que tocavam o vidro da infância de Eddie eram. Alguns pais deixam manchas. o pai encarregava-se da disciplina. Eddie saía de casa com visões de carrosséis e pedaços de algodão doce. enfiada em gesso da coxa até ao tornozelo. mas o velho pousou o charuto e rebentou como um trovão. então. Eddie costumava rezar para que a mãe acordasse. duras. Eddie esperava pela atenção do pai. eu posso ajudar!». antes de o parque abrir. cigarros e regras. absorve as impressões de quem a manuseia.Joe pigarreia. Aos sábados. Mãe. O pai baixa os olhos e passa a mão pelo parapeito da janela. frequentemente embriagado. 89 Todos os pais prejudicam os filhos. A juventude. alguns estilhaçam por completo a infância em ínfimos cacos. Eddie repara no olhar dele. A mesa tinha dinheiro. Apenas o pai não se mexe por mexer. Os estragos causados pelo pai de Eddie foram. o pai levava os seus trovões para o quarto de Eddie e Joe. a todo o custo. dando um estalo na cara de Eddie com as costas da mão. Uma vez. lançando um olhar fulminante ao marido. aos gritos de que andavam a esbanjar o seu dinheiro em porcarias. garrafas. no início. A regra de Eddie era simples: não incomodes. Quando era bebé. na oficina. calejadas e vermelhas de . piorava ainda mais a situação. com o casaco no braço. obrigava os filhos a deitarem-se de barriga para baixo. A mãe de Eddie dava-lhe carinho. passada uma hora. mas. Eddie murmura: — Obrigado. a olhar para a perna de Eddie. Óptimo aspecto. de manhã. o pai encontrava uma cara conhecida e dizia: «Olhas-me pelo miúdo?» Até o pai voltar. estás com boa cara — diz ele. agarrada ao roupão e tão indefesa como ele. Sim. Fica parado contra a parede do fundo. que as lágrimas regressem às bolsas lacrimais. Vê-la no corredor. tentou pôr-se ao lado do pai e olhar para as cartas. sentado nas balaustradas ou empoleirado. — A tua mãe trouxe-te um bolo — sussurra Marguerite. — Onde é que havemos depor isto? Mickey pega numa cadeira. em que o jogo de cartas corria mal e as garrafas estavam vazias e a mãe já dormia. Depois. Ainda assim. Noutras noites. Os outros apressam-se a concordar. em cima de caixas de ferramentas. durante horas incontáveis da sua juventude na marginal. 90 «Pára de respirar por cima do meu ombro!». Marguerite afasta as muletas de Eddie. Joe arranja espaço em cima de uma pequena mesa. Muito boa cara. como um vidro cristalino. em criança. Eddie retesa todos os músculos do corpo e tenta. dizia «Eu posso ajudar. — Et. mesmo quando ela o fazia. atirando-os contra a parede. Eddie desfez-se em lágrimas e a mãe puxou-o para si. enquanto ele tirava o cinto e lhes batia. mas a única tarefa que lhe confiavam era rastejar para debaixo da roda-gigante. sem reparação possível. Vasculhava os poucos brinquedos.

como que para alimentar as brasas mais fracas de uma fogueira. tarde. foi trabalhar para a oficina. Ao longo desse tempo todo. e ele passou os seus anos mais tenros a levar murros. iniciara um ritual de sinalização com o pai. como as do seu pai. mesmo que não haja explicação para tal. Entregava-lhe um pára-choques enferrujado e um pedaço de lixa e dizia: «Conserta». Eddie ouviu-o falar com a mãe acerca de Joe. Eddie corria de base em base. Atingiu proporções tais que Eddie conseguia adivinhar. quando Eddie teve alta do hospital e tirou o gesso da perna e voltou para o apartamento da família. No início. e mostrou as suas próprias unhas sujas. reuniam-se à volta da mesa do jantar. de vez em quando. a cozinhar ao fogão. Eddie tinha inveja da maneira como o irmão aparecia ao jantar. estavam manchadas de gordura e. O pai tinha estado a beber no pub do bairro e. Uma vez. «só tem resistência para a água. o seu dinheiro. disse ele. Apontava para uma corrente enredada e dizia: «Conserta-a». — Mostra que tiveste um dia de trabalho duro — disse ele. Perguntava «Em que estado ficou o outro tipo?» e Eddie dizia que o tinha amassado bem. Recusa de afecto. o irmão. o pai de Eddie deixava uma ruga de orgulho estalar o verniz do seu desinteresse. Os estragos estavam feitos. manobrando as alavancas dos travões. quando Eddie voltava para casa depois de uma briga de beco. abdicando de palavras ou 92 de afecto físico. a força com que ia ser espancado. deparou com Eddie a dormir no .» Ainda assim. deixaram de falar. Joe tornara-se um bom nadador e o seu emprego de Verão era trabalhar na piscina de Ruby Pier. O pai de Eddie não ficava impressionado. quando ele o fazia. estalos e chicotadas. o pai reparava nos punhos arranhados ou no lábio cortado. fazendo os carrinhos parar suavemente. Sem tomar consciência disso. Antes de poder dedicar-se a Deus ou a uma mulher. mas o pai de Eddie disse: «Não lhe ligues. pelo soar dos passos no corredor. Também 91 isto recebia a aprovação do pai. Tu é que és forte. à mesa do jantar. porque os filhos adoram os pais mesmo quando eles se portam da pior maneira possível. o pai postava-se atrás da vedação a ver Eddie jogar. levantando-se antes de raiar o Sol e trabalhando no parque até ao cair da noite. limitava-se a ocupar-se das diversões mais simples. quando voltou para casa. Joe ficou envergonhado e escondeu-se no quarto. uma vez. apesar de tudo. depois da negligência. imitava o horário de Verão do pai. E. Tudo devia ser feito internamente. Nessa altura — já um adolescente bem constituído — Eddie limitava-se a fazer que sim com a cabeça. Se Eddie lançava a bola para a parte mais distante do campo. As unhas de Eddie. Quando Eddie atacou os miúdos que estavam a chagar o irmão — os «rufias». antes de enrolar os dedos à volta de um copo de cerveja. No campo de basebol. Anos depois. com os cabelos e a pele a cheirarem a água do mar. Eddie limpava-as com a unha do polegar. O pai de Eddie testava-o com problemas de manutenção. Outras vezes. na Avenida Beachwood. tentando retirar a sujidade. a falar pelos cotovelos. um rapaz dedica-se ao pai. E de todas as vezes. Não deixes que ninguém lhe toque». o pai fazia um sinal de assentimento com a cabeça e. e o velho sorriu. Tens de tomar conta do teu irmão. mesmo que não faça sentido. Foi depois da guerra. tão bronzeado e limpo. Apanhou o pai a observá-lo. uma noite. como lhes chamava a mãe —. junto do pátio da escola da Avenida 14. Eddie adorava secretamente o pai. Esse foi o segundo estrago. «Aquele». Davalhe um volante estragado e dizia: «Conserta-o». Sabiam o que sentiam e ponto final. Joe. então. Eddie levava o objecto ao pai e dizia: «Está consertado». A noite. Joe falava sobre todas as pessoas que por lá via.raiva. a mãe rechonchuda e transpirada. Quando Eddie começou o liceu. E. os seus fatos-de-banho. depois de terminada a sua tarefa. O estrago da violência.

mas o pai de Eddie limitava-se a dizer. — Ele não te consegue ouvir. Nao compreendia o conceito de depressão. era sinal de fraqueza. Os estragos estavam feitos.. Sentiu o hálito a álcool e cigarros. o pai estava cada vez mais agitado. cosido com missangas brancas e encimado por um laço de veludo mesmo abaixo do pescoço.. chorava e suplicava para que o marido mudasse de ideias. os 93 dentes rangeram e ele recuou. com um corpete tipo bibe. . azuis. na neve. suspenso no ar. a face flácida. O pai baixou os olhos para o seu próprio punho cerrado... Lançou um olhar fulminante ao pai. quase inexplicavelmente. cambaleante. silêncio quando Eddie vinha visitar a mãe. até no Céu. Eddie mexeu-se ligeiramente.. a primeira vez que fazia qualquer coisa para impedir uma sova. Baixou a voz e grunhiu: — Vês? Não. O seu pai. mas aproximou-se de Eddie e deu-lhe um empurrão. Silêncio. Negligência. Eddie deixou-se cair contra uma parede de aço inoxidável e afundou-se num banco de neve. agora. A mãe sussurrava que «ele precisa de tempo para recuperar» mas.. silêncio no casamento de Eddie.. o seu rosto a escassos centímetros do dele. Ela implorava. a ver o carrossel. Eddie não se lembrava dela. tão ferido. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e. — Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te e arranja um emprego! Levanta-te. remeteu-se ao silêncio quando Eddie arranjou emprego como motorista de táxi. tão ralos em alguns pontos que se via o crânio rosado por baixo. novamente ferido pela recusa de um homem cujo amor. Era a primeira vez que Eddie se defendia. — Levanta-te.. a cada dia que passava. estava uma velhinha. Esta foi a sua vida juntos. em vez de aguentá-la como se a merecesse. um homem que o ignorava. pondo-se de pé e ignorando a explosão de dor no joelho. e. mesmo com Marguerite. com molas e ganchos de cada lado. E assunto encerrado. um vestido de seda e chiffon.. O silêncio. segurando uma sombrinha com ambas as mãos. ele ainda desejava. O pai voltou a gritar. e soltou o braço das garras de Eddie. estás. batom cor-de-rosa e os cabelos brancos puxados para trás. Esta foi a marca final no vidro de Eddie. — CHEGA! — gritou Eddie. Recuou um passo e fez menção de lhe dar um murro. mas Eddie moveu-se instintivamente e agarrou o braço do pai em pleno ar. Raramente falava. as suas narinas adejaram. ARRANJA UM EMPREGO! Eddie apoiou-se nos cotovelos.sofá. Todos os pais prejudicam os filhos. proferindo as palavras com dificuldade — e arranja um emprego.. — Levanta-te — gritou. Nunca mais voltou a falar com o filho. Violência. Passava horas a olhar pela janela da cozinha. O seu rosto era encovado. a esfregar o joelho ferido. e arranja um emprego! O velho estava trôpego. As trevas do combate tinham mudado Eddie. Fitou Eddie com os olhos de um homem que vê um comboio a afastar-se. A sua postura era elegante. Assombrou os seus restantes anos de vida. Para ele. Diante dele. Não saía de casa. Usava uns óculos de aros metálicos sobre uns olhos pequenos. O seu pai remeteu-se ao silêncio quando Eddie saiu de casa e foi morar para o seu próprio apartamento. As suas roupas pertenciam a uma época anterior à dele. O velho olhou para a perna de Eddie. — Não fiques irritado — disse uma voz feminina... Eddie levantou a cabeça num gesto brusco.. por entre os maxilares cerrados. E. o mesmo que dizia a todas as outras pessoas que lhe faziam o mesmo pedido: «O rapaz levantou-me a mão». A saia tinha uma fivela a imitar um brilhante. O velho arregalou os olhos. algures para lá da morte. assim.. para que deixasse o rancor para trás.

Porque não sinto que tenha percebido tudo. sim — respondeu ela. com a mão nua que não sentia a humidade. — É lindo. nos confins de uma cidade. Tias e tios. Àquele último dia. Porquê um desconhecido? Porquê agora? Eddie desejara. Porque não me sinto um anjo. Quem era aquela mulher? Pelo menos. — Posso falar com Deus? — Podes sempre falar com Deus. Ela sorriu. voltar — insistiu Eddie. Há alguma coisa que eu possa fazer? Posso prometer ser boa pessoa? Posso prometer ir à missa todos os dias? Qualquer coisa? — Porquê? — Ela parecia divertida. 95 — Posso ver a Terra? — sussurrou. Sentiu-se mais só do que nunca. como se já a tivesse visto numa fotografia. sorrindo como se o tivesse ouvido. . Eddie interrompeu-a. no caso do Homem Azul e no caso do Capitão. a minha terceira pessoa? — Sou. O irmão. se aquilo era o Céu? Eddie examinou a estranha mulher. outrora.. Eddie seguiu o olhar dela.. — Porque é que o meu pai tem de estar a salvo para si? Ela hesitou. Nem sequer me lembro da minha própria morte.. — Porquê? — repetiu Eddie. — Porque é que o meu pai não me consegue ouvir? — perguntou. Todos os tostões que ganhávamos iam para a família. aquela menina que eu estava a tentar salvar. Não. então. Não me lembro do acidente. — Porquê? Porque este lugar não faz sentido para mim. Mas ele não está aqui.. são e salvo. Fui uma rapariga trabalhadora. polira os seus sapatos pretos de cerimónia. antes de fazer a pergunta seguinte. «Um dia». não é? — comentou a velhinha. dizia o padre. Só me lembro daquelas mãozinhas. Não queria ouvir mais uma história. — Vem — disse ela. Havia qualquer coisa na velha senhora que o intrigava.. obrigada a abandonar a escola aos catorze anos.. — A senhora é.» Onde estavam eles. estavam no sopé da montanha. que a morte significasse o reencontro com aqueles que haviam partido antes dele. Já fora a tantos funerais. Marguerite. se é assim que me devia sentir. «todos nos reencontraremos no Reino do Céu. sabe? Queria desviá-la do caminho e devo ter pegado nas mãozinhas dela e foi então que eu.Eddie calculou que devia ter sido rica. — Posso voltar? Ela semicerrou os olhos. De repente. — Voltar? — Sim. Tocou na neve que não era fria. Eddie coçou a cabeça. faz parte da minha eternidade. — Fui criada como tu. Ela abanou a cabeça. algures. — À minha vida. tinha uma lembrança do lugar que eles ocuparam na sua vida. A luz do restaurante não passava agora de um mero pontinho. pegara no seu chapéu e postara-se num cemitério com a mesma pergunta exasperante: Porque é que eles partiram e eu continuo aqui? A mãe. — Porque o espírito dele.. 94 — Nem sempre fui rica — disse ela. num tom peremptório. Ele hesitou. como uma estrela que caíra numa ravina. Tu é que estás. O seu amigo Noel.. E as minhas irmãs também.

depois da guerra. envergonhado por se identificar com aquelas criaturas indefesas a contorcerem-se na teia. Talvez te lembres? Ela apontou para o restaurante e. — Mas eu conheço-te — anunciou ela. — E não me lembro de mais nada. Eddie lembrou-se. então. »Devo acrescentar que. — A senhora? — disse Eddie. Apanhei-o duas vezes a olhar para mim. numa pose de senhora elegante. — Faleceste? Passaste para o outro lado? Foste ao encontre do teu Criador? — Morri — disse ele. que as minhas irmãs nunca mais teriam de me aborrecer para eu tomar uma decisão. se tiveres um instante. eu era uma moça jeitosa. num restaurante chamado Seahorse Grille. comprava-me roupas lindas. os outros. na minha vida pobre e limitada. embora não houvesse um lugar onde o fazer. eu conto-te. As pessoas não deviam ter paz de espírito. »O nosso namoro foi maravilhoso. Tinham-no deitado abaixo há anos. — Não. basta procurá-la dentro de nós. naquele preciso 97 instante. orgulhosa. Emile fizera fortuna rapidamente. Claro.Encolheu os ombros. sim? De onde? — Bom — disse ela —. E eu soube. A saia comprida formava pregas ordeiras à sua volta. disse que se chamava Emile e perguntou se me podia visitar. — Morreste? — disse a velhinha. Aquele lugar. Deve ter sido isso que o atraiu para uma rapariga pobre como eu. Sentou-se no ar e cruzou as pernas. isto. apanhadas e sem fuga possível. antes que seja demasiado tarde. naquela época — prosseguiu a velhinha —. Depois apareceu a senhora. «Pára de ser tão selectiva e arranja um homem. Ficava perto da costa onde cresceste. as vezes que fora passear sozinho para as docas e vira os peixes a serem puxados em redes de malha larga. — Como já disse. como costumavam dizer. Encher-se de gordura. mas eu nem sequer a conheço. Usava um fato às risquinhas e um chapéu de feltro. Ela sentou-se. investindo em madeira e aço. Eddie suspirou. Fez-me sinal para eu o servir e eu tentei não ficar embasbacada a olhar para ele. Tinha os cabelos pretos muito bem cortados e o bigode escondia um sorriso constante. «Quem é que tu julgas que és?». porque Emile era um homem de posses. Soprava uma brisa e Eddie sentiu um ligeiro perfume. não é verdade. Recusei muitos pedidos de casamento. fui uma rapariga trabalhadora. contendo o riso. um aventureiro. os pesadelos. oferecia-me refeições que eu nunca provara. Era um gastador. Detestava as pessoas que já nasciam ricas e adorava fazer coisas que «uma pessoa sofisticada» jamais faria. com as costas muito direitas. abanando a cabeça. — Não — teimou Eddie. . de repente. quando morrem? — Todos temos paz de espírito — disse a velhinha —. o cavalheiro mais bem-parecido de sempre entrou pela porta do restaurante. soltando o ar. um dia de manhã. diziam elas. Levava-me a lugares onde eu nunca tinha estado. a incapacidade de sentir entusiasmo fosse pelo que fosse. — A senhora era empregada do Seahorse? — É verdade — respondeu ela. era capaz de tudo quando metia uma ideia na cabeça. com um sorriso.» »Então. ouvi o seu riso forte e confiante. Mas quando falou com o colega. Quando pagou a conta. Ele costumava ir lá tomar o pequeno-almoço. — Ah. 96 Mas calou-se e disse: — Não me leve a mal. Pensou em contar-lhe o tumulto que sentia todos os dias. — Servia café aos trabalhadores das docas e peixe frito e bacon aos marinheiros. O meu emprego era servir às mesas. As minhas irmãs ralhavam comigo.

Na verdade. tentando desesperadamente focar o braço. É sempre o mesmo . que andava à procura de uma maneira de aumentar o número de passageiros no fim-desemana. eu pude ver com os meus próprios olhos o que ele fizera. Sabem onde trabalho?. Pestaneja com força na escuridão. fez um acordo com uma empresa de caminhosde-ferro. Havia torres e espirais e milhares de luzes incandescentes. — Emile cumpriu a sua promessa. para ser eternamente jovem. — Eu — disse ela — sou a Ruby. examina os seus olhos raiados de sangue e lava a cara. Depois. Quando ficou pronta. Adorava os parques de diversões. por hábito. Sabia. Fitou-o com uma expressão estranha. Foi assim que nasceu a maior parte dos parques de diversões. Na casa de banho. — A entrada? — disse ela. E adorávamos ambos o mar. depois sai lentamente da cama. Quando retirou a venda. Pensavam que os parques de diversões eram construídos por duendes com varas de doces. e não na guerra. afastando-se de Eddie.»Uma dessas coisas era visitar as estâncias de veraneio. Importou um carrossel de França e uma roda-gigante de uma das feiras internacionais da Alemanha. com falta de ar. as cartomantes. No fim da linha. no incêndio. Acorda bruscamente. com o mar a roçar os nossos pés. Aquele pesadelo. tão intensas que. »Emile contratou centenas de trabalhadores.. 98 — Emile — continuou a velhinha — construiu um lugar maravilhoso. sabias? Eddie acenou com a cabeça. para que os trabalhadores tivessem um motivo para andar de comboio ao fim-desemana. — Não te lembras? Nunca pensaste no nome do parque? Onde trabalhavas? Onde o teu pai trabalhava? Ela tocou ao de leve no peito. levou-me lá. ele pediu-me em casamento. ergueu as diversões mágicas: as corridas e montanhasrussas. no apartamento por cima da padaria. Toda a gente o dizia. embora a maior parte das pessoas não o soubessem. operários municipais e artistas de feira e estrangeiros. Pousa primeiro a perna direita. como se estivesse a apresentar-se formalmente. os adivinhadores do peso e as raparigas do mundo do espectáculo. como se estivesse desapontada.. quando estávamos sentados na areia. que os erguiam no final das suas rotas. à noite. Depois. Uns anos depois. Um passo e uma hesitação trôpega. A velhinha sorriu. A velhinha deu um passo atrás. em breve. A entrada foi a última coisa a ser feita e era verdadeiramente grandiosa. Emile meteu uma nova ideia na cabeça e jurou que. a comida salgada. Um dia. para evitar a inevitável rigidez da perna esquerda. «Fiquei delirante de alegria. tentando não acordar a mulher. Espera que a sua respiração acalme. acrobatas e palhaços. fez uma pequena vénia. Acabará um dia? São quase quatro da manhã. É aí que eu trabalho. 99 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e três anos. os nós dos dedos. eram meras oportunidades de negócio para as empresas de caminhos-de-ferro. as viagens em barcos a fingir e os caminhos-de-ferro em miniatura. Eddie começa todas as manhãs da mesma maneira. com a sua mão coberta por uma fina luva branca. qualquer coisa que lhe indique que ele está ali. se via o parque do convés de um navio no mar alto. Disse-lhe que sim e ouvimos o riso das crianças a brincar à beira-mar. Não vale a pena voltar a adormecer. um cais enorme feito com a madeira e o aço das suas empresas. costumava perguntar Eddie. ia construir um parque de diversões só para mim. com uma venda a tapar-me os olhos. para captar a felicidade daquele instante. na aldeia. Mandou vir animais. os ciganos. O seu cabelo negro e espesso está acamado de suor.

na sua última noite na guerra. a cantarolar na sua doce voz meiga. Acomodou-se à sua vida. O pior é a escuridão total em que o sonho o deixa. — Eddie — diz ele. — Eddie! Estás em casa? Eddie? O Sr. — Marguerite aparece.. Como é que ele lhe pode explicar tanta tristeza. entre os antigos manuais e a papelada do primeiro proprietário do parque. Do cais. — Querido? — grita Marguerite do quarto. a barrar-lhe a passagem. Ofegante. estou só cansado» e deixa o assunto ficar por aí. quando abre a boca. Ela acenou com a cabeça. — Desce. De sua casa. estaciona o táxi à esquina.. e Eddie limpa a humidade do pára--brisas. Batem à porta. mas não acerta. Doces. — Parabéns a você. O pior não é a insónia. rugem como um motor. Sempre o mesmo. — És tu? Ele levanta o saco branco. E a seguir. As cabanas da aldeia estão imersas em fogo e ouve-se um constante ruído. da garganta sai-lhe um guincho muito agudo.. Eddie percebeu porque é que a senhora lhe parecia conhecida. Depois. chega-lhe uma música. — A velha entrada. Algo invisível atinge a perna de Eddie e ele bate-lhe. ele acabou por desistir de tudo. De repente.pesadelo: Eddie a vaguear por entre as chamas das Filipinas. Veste-se sem fazer barulho e desce as escadas. a gritar por Eddie. Vira uma fotografia dela. Quando Eddie abre a porta. Nunca fala com Marguerite sobre a escuridão. quando Eddie regressa do trabalho. agudo como um guincho. Tens um telefonema. Sobe as escadas lentamente.. O táxi está parado à esquina. satisfeita. puxando-o para baixo do chão lamacento. até que. Parece preocupado. — Queres lutar comigo pelos doces? — sussurra ela. como se não fosse digno daquele momento. ele está parado à entrada. Nessa noite. atado com uma fita. Está linda. nos fundos da loja. com o tempo. desistiu de estudar engenharia e desistiu da ideia de viajar. A suar. Ela acaricia-lhe 100 os cabelos e pergunta «Que se passa?» e ele responde «Nada. Eddie tem necessidade de inspirar fundo. Ele aproxima-se para voltar a beijá-la. «Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo.. o padeiro. Tem um telefone. quando ela supostamente o faz feliz? A verdade é que nem a si próprio ele é capaz de o explicar. acorda. As chamas tornam-se mais intensas. um véu cinzento que lhe turva o dia. mas. de roupão. volta a bater e volta a não acertar.» Marguerite acaba de cantar e dá-lhe um beijo na boca. Debate-se com a escuridão dentro de si: «Deixa-me em paz». A entrada primitiva de Ruby Pier fora uma espécie de marco . algures nos fundos da oficina da manutenção. de cabelo arranjado e lábios pintados.. E ali permaneceu. Acho que aconteceu alguma coisa ao teu pai. 101 — Sou a Ruby. «Deixa-me sentir isto como devo. ele sente-se oprimido. a gritar: «Vamos! Vamos!» Eddie tenta falar. diz ele à escuridão. Só sabe que houve alguma coisa que se interpôs no seu caminho. uma canção conhecida. com o vestido estampado de que Eddie gosta. sente uma coisa agarrar-lhe nas pernas. no seu lugar habitual. — disse Eddie. vive no apartamento do rés-do-chão. Nathanson. Até nos seus momentos felizes. e depois aparece Smitty.» Abre a porta e vê um bolo em cima da mesa e um pequeno saco branco. Eu não queria fazê-lo.

Contratou uma banda. às bancas de comida e às jaulas dos animais. . como se estivesse a ler algo que se encontrasse no seu colo. A velhinha sorriu. Acenderam uma fogueira num barril de metal. por muito menos do que valia. vimos aquelas terríveis chamas cor de laranja. o Quatro de Julho. O Emile adorava feriados. Os estivadores fugiram. Contratou inclusivamente mais operários.. Só passados três anos é que conseguiu andar pelo seu próprio pé. — Foi no Dia da Independência. Mudámo-nos para uma terra longe da cidade.. Se o Dia da Independência corresse bem. era tudo feito de alcatrão e madeira. Por baixo dessa cúpula. — Que desejo? — perguntou Eddie. quando uma coluna caiu sobre ele. Emile fizera um seguro básico para o parque. dizia ele. Ouvimos os cascos dos cavalos e os motores dos carros dos bombeiros. Um incêndio terrível. uma gigantesca estrutura em forma de arco. para um pequeno apartamento. já Ruby Pier estava a arder. Portanto. Perdeu a sua fortuna. em silêncio. na véspera. Pegaram nuns foguetes do fogo-de-artifício e rebentaram-nos. as faúlas espalharam--se pelo parque.. — Incêndio — disse a velhinha. «São óptimos para o negócio». as nossas vidas mudaram para sempre. Acabou por perder a cabeça. — O resto aconteceu muito depressa. A magnífica prenda que me oferecera fora consumida pelas chamas. 103 A velha senhora ficou sentada. Soprava um vento forte. Eddie perscrutou o vasto céu cor de jade. O fogo propagou-se à avenida central. e quando a entrada pegou fogo. baseada num templo francês. Estava a atirar baldes de água para a entrada. — Que Emile nunca tivesse construído aquele parque. e alguns dos estivadores decidiram dormir ao relento. 102 »À medida que a noite foi avançando. — Mas isso foi destruído há tanto tempo — disse Eddie. Ruby. »O espírito de Emile ficou destroçado como o seu corpo. aconteceu uma coisa. Ela abanou a cabeça. onde vivemos uma vida modesta. talvez o Verão inteiro fosse bom. — Pois foi. um feriado. para aquecer comida. e tempos depois reabriu o parque. Esse empresário manteve o nome. ele perdeu a noção de onde se encontrava. eu a tratar do meu marido ferido e a alimentar silenciosamente um só desejo. encontrava-se o rosto pintado de uma bela mulher. — Numa só noite. Aventureiro como era. — Ela deixou cair o queixo e os seus olhos espreitaram pelos óculos. com colunas estriadas e uma cúpula no cimo. Deteve-se. Quando alguém foi a nossa casa avisar-nos. que quem quer que tivesse construído Ruby Pier pudesse ter feito outra coisa qualquer com o seu dinheiro. — Lamento pelo seu marido — disse Eddie. As pessoas saíram à rua. à noite. Ruby Pier. Mas já não era nosso. «Desesperado. Naquele tempo. a maior parte estivadores. a entrada com o meu nome e o meu retrato. sob a qual passavam todos os clientes do parque.. Estava muito calor. »Mas. Desta mulher. Emile mandou lançar fogo-de-artifício. Ruby juntou os dedos e levou-os à boca. — Houve um grande. de raiva e medo. mas foi em vão. É claro que ele tinha de ir. só para esse fim-de-semana. atrás das barracas dos operários.histórico. começaram a beber e a fazer uma grande pândega. acima de tudo por não saber o que mais dizer. Pensou na quantidade de vezes que desejara a mesma coisa. Tinha de ir para o meio daquele incêndio horrível tentar salvar os seus anos de trabalho. «Implorei para que Emile não fosse até lá. Deteve-se. mesmo depois de o Sol se pôr. Da nossa janela. vendeu o terreno carbonizado a um empresário da Pensilvânia.

passava a vida a entrar e a sair do hospital. nessa tarde. — E as pessoas que nascem antes da nossa época também nos afectam. nos confins de uma cama de hospital. Agora. Bateu com as pontas dos dedos umas nas outras. — Estou com medo. — Vim dizer-te porque é que o teu pai morreu. o incêndio. que respirava água salgada. que nunca teriam existido. muitas vezes pensamos que eles começaram a existir assim que nós lá pusemos o pé. — Não compreendo. Não é verdade. — Se não fosse por Emile. onde passamos tantas horas. porque é que eu aqui estou? — perguntou ele. E agora. não haveria um parque de diversões. A minha ideia de paraíso ficava o mais longe possível do mar. Deixou-me viúva aos cinquenta e poucos anos. Tinha as roupas cheias de areia. veio falar-me sobre o meu emprego? — Não. Eddie franziu a testa. tu não terias acabado por ir trabalhar para lá. na cama. longe daquele oceano. naquele restaurante buliçoso em que a minha vida era simples.. Faltava-lhe um sapato. Mas vivemos muitos anos depois daquele incêndio. se não fosse pelas pessoas que viveram antes de nós. Os amigos insistiam em dizer: «Amanhã ele . Eddie esfregou as têmporas. Eddie — disse a mãe. Eddie era capaz de apostar que cheirava a álcool. o seu pai regressara a casa de madrugada. O dia seguinte foi pior ainda. Emile andava mal. também. formou-se uma bruma de condensação. na ponte leste da marginal. meu querido. não parou de tossir e suar dentro do pijama. todos os dias.. Os nossos locais de trabalho. — Conquistei cada uma delas. ouviu-a a chorar.. com o cinto de ferramentas e o martelo. — Portanto. Pelo telefone. — O que é que podia ter feito? — perguntou Eddie. Devíamos ter chamado imediatamente um médico… — A sua voz esmoreceu. Estava furioso por ela querer assumir a responsabilidade. — Passamos por lugares. mas à noite recusou-se a comer e. Surgiram complicações. no início dessa semana. que não passava de um bêbado. Se não fosse pelo nosso casamento.. Ele fora trabalhar nesse dia. meu querido — respondeu Ruby. O telefonema era da mãe de Eddie. — A sua história. Nós alguma vez.. Ai. — Nunca mais quis ver aquele parque. — E a tosse piorou. — Então. encharcado até aos ossos. — Vinha a tossir muito — explicou a mãe. doente como estava. estas rugas? — Ela levantou o rosto. O pai tivera um colapso nessa tarde. Está a ver esta cara. tivera um colapso. nos conhecemos? Alguma vez foi ao parque de diversões? — Não — disse ela.. Mas eu não. e os netos. Se não houvesse o parque. Disse que ele cheirava a mar. O pai de Eddie costumava dizer que passara tantos anos à beira-mar. — O médico disse que é pneumonia. Quando expirou.— Obrigada. A culpa era do pai. com a voz a tremer. tudo isso acontece» antes de eu nascer. quando Emile andava a fazer-me a corte. num tom de voz mais suave. — Até as coisas que acontecem antes de nós nascermos nos afectam — explicou ela. eu não teria sido casada. O seu estado passou de estável a grave. como sempre. Contou-lhe que uma noite. eu devia ter feito alguma coisa. Os meus filhos iam lá e os filhos deles também... Devia ter feito alguma coisa. perto do Foguetão Júnior. explicou ela. Criámos três filhos. 104 Eddie coçou a cabeça. O seu peito encheu-se de expectoração. o seu corpo começou a definhar como um peixe que deu à costa. Estava com uma febre altíssima.

as suas histórias e todos os seus feitos e conquistas assentam sobre as histórias dos seus pais. O funeral foi modesto e breve. Eddie visitou o pai no hospital. nem sequer tinha forças para tentar. a fazer o trabalho do pai. Eddie pousou a mão no ombro dela. o pai irritava-se: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E. Ajeitava as almofadas de ambos os lados da cama. Eddie quase desatara a rir e o pai tornara a dizer: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E antes de Eddie ir para a guerra. uma pequena garrafa de conhaque de maçã. quando sugerira que Eddie arranjasse emprego no parque. Agora. foi a casa dos pais. elásticos. apesar de tudo. Eddie deu uma ajuda na oficina do parque. Eddie viu-a a empilhar pratos em cima da banca. É o sacana mais duro que já vimos. No dia seguinte. encontrou um baralho de cartas. Não havia nada de heróico numa bebedeira na praia. não — respondeu a mãe —. Gritava para ele baixar o volume do rádio. Meteu-o no bolso. ele volta para casa». Mudam de casa. Nas semanas que se seguiram. Na ausência do pai. Eddie. . rapaz — disseram os outros empregados da manutenção. Os proprietários do parque reconheceram o seu esforço e pagaram-lhe metade do salário do pai. é que os filhos compreendem. o pai. Falava com o marido como se ele ainda estivesse presente. disse-lhe uma enfermeira. Como a maior parte dos filhos de operários. no cais. depois de se esforçar em vão por dizer uma só frase que fosse. que ia para o hospital todos os dias e dormia lá a maior parte das noites. Mudam. Eddie e Marguerite limpavam-lhe a casa e faziam-lhe as compras de mercearia. a mãe de Eddie viveu num estado de atordoamento. depois de terminar o liceu. a olear os trilhos.já estará em casa» ou «Daqui a uma semana. a testar as alavancas. trabalhava ao serão. Os pais raramente se libertam dos filhos. depois 105 de largar o táxi. fez a única coisa que lhe passou pela cabeça: levantou as mãos e mostrou ao pai as suas unhas manchadas de óleo. mais tarde. Só muito mais tarde. o teu pai depois arruma-os. — Não. Cozinhava para duas pessoas. ali estava ele. a pedido da mãe. aquele tipo de raiva que anda em círculos dentro da sua jaula. Eddie imaginara para o seu pai uma morte heróica. Eddie sentiu a raiva mais vazia do mundo. — Eu ajudo-a — disse ele. Ele entregou o dinheiro à mãe. pedra sobre pedra. Por fim. uma noite. Por fim. o que estava a fazer era a assegurar o emprego do pai. Quando Eddie era adolescente. quando falara em casar com Marguerite e estudar Engenharia. Uma noite. contas de electricidade. canetas e um isqueiro com uma sereia de lado. apesar de apenas um dos lados estar ocupado. Vasculhou por entre moedas. portanto os filhos libertam-se deles. a verificar as pastilhas dos travões. No fundo. como se pudesse encontrar um pedaço do pai dentro de uma delas. Observou o filho por detrás de umas pálpebras pesadas. Os momentos que costumavam defini-los — a aprovação de uma mãe. que durante anos se recusara a falar com Eddie. como se ele tivesse partido numa curta viagem —. entrou no quarto deles e abriu todas as gavetas. sob as águas das suas vidas. para contrabalançar a vulgaridade da sua vida. inclusivamente a reparar as peças avariadas. o assentimento de um pai — são substituídos por momentos marcados pelos seus próprios feitos e conquistas. Entrou devagarinho no quarto. — Não te preocupes. um alfinete de gravata. — O teu velho vai resistir. quando a pele começa a 106 ficar flácida e o coração se suaviza. sempre que se queixava ou parecia farto do cais. Quando chegou a notícia de que o seu pai morrera — «partira». o seu pai retorquira: «O que foi? Isto não é suficientemente bom para ti?» E agora.

— Que me dizes deste tipo todo bem-parecido? — diz Noel. pelos vistos. uma vida que — e Eddie conseguia ouvir o pai rir-se na sepultura —. — Será assim tão difícil manter os saleiros cheios? — Que bicho te mordeu? Estás armado em gerente do restaurante ou quê? — pergunta Noel. — A sério? — diz Noel. Não há dia que passe sem que ele tenha medo que o mesmo aconteça ali. onde os corredores eram estreitos e a janela da cozinha tinha vista para o carrossel. nem a ninguém —. A manhã já está quente e pegajosa de humidade. que lhes provocou a morte. com a boca cheia de salsichas. baixinho. Ouviu a notícia. nem à mãe. De vez em quando. ouviste o que aconteceu em Brighton? Eddie faz um sinal de assentimento com a cabeça. — Como é que um tipo destes se pode candidatar a presidente? É um puto! Eddie encolhe os ombros. e estremece. — Pensei que uma pessoa tinha de ser mais velha para se candidatar a presidente. Aquela é a rotina de ambos: pequeno-almoço uma vez por semana. Noel fecha a revista. onde Eddie aceitara um emprego que lhe permitiria 107 zelar pela mãe. Eddie dirigiu-se à central e pediu a demissão. em Ruby Pier. 109 — Conheces alguém que trabalhe lá? — pergunta Noel. apartamento 6B —. no seu turno. Eddie encolhe os ombros. 108 Hoje é o aniversário de Eddie Faz trinta e sete anos. . Noel trabalha no ramo das lavandarias. ouve histórias daquelas. levanta-se da mesa. mas amaldiçoava o pai por ter morrido e por o ter aprisionado na mesmíssima vida da qual tanto tentara fugir. agora era suficientemente boa para ele. Baixa o tom de voz. Duas semanas depois. Tem um exemplar da Life aberto na fotografia de um jovem candidato político. Eddie abana o saleiro com força.— Mãe — disse ele. — E verdade. — O pai já cá não está. antes de o parque se encher de clientes. Eddie ajudou-o a arranjar o contrato de limpeza das fardas da manutenção de Ruby Pier. — Feliz aniversário. ele e Marguerite mudaram-se para o edifício onde Eddie crescera — Avenida Beachwood. — Onde é que ele foi? No dia seguinte. debruça-se sobre outra mesa e pega no saleiro. como se uma vespa tivesse passado a zumbir junto da sua orelha. O pequeno-almoço está a arrefecer. — É mais ou menos da nossa idade. Eddie põe a língua entre os dentes. levantando uma sobrancelha. Um parque de diversões. um acidente num parque qualquer. Beberica o café. — Tens aí o sal? — pergunta Eddie a Noel. Noel. um posto para o qual ele se preparara Verão após Verão: empregado de manutenção de Ruby Pier. Houve qualquer coisa que se partiu. Uma gôndola. Mãe e filho sofreram uma queda de vinte metros. ao sábado de manhã. — Toma — murmura ele. — Mas nós somos mais velhos — murmura Eddie. Eddie nunca o disse — nem à mulher.

hoje — diz Noel. demasiado frio. cestos de verga com sanduíches embrulhadas em papel. Um espelho partido na Casa do Riso. tem de encomendar mais cola. — E daí? — Se cair por entre as brechas. Verão. Eddie solta o ar. Sente-se logo o cheiro. dandolhe espaço como quem cede o lugar a um passageiro num autocarro à cunha. — Está bem — cede. chapéus de sol. Costumas estar sempre assim tão animado quando fazes anos? Eddie não responde. que não devia ter mais do que quatro anos. As pessoas deviam ter mais cuidado. agora. Nunca ganhei dinheiro a sério. para o interessar. Passa um velhote de panamá. — Podíamos ir às corridas. — Vai ser um dia cheio. e daí? . com um suspiro. A velha escuridão instalou-se dentro dele. Eddie pensa em Marguerite.. 110 — A que horas sais hoje? — pergunta Noel. Eu acabei por nunca sair de lá. — Ah. Noel enfia uma garfada de salsichas na boca. as pessoas dependem de nós. Sabe como é: habituamo-nos a uma coisa. Alguns trazem inclusivamente a última novidade: cadeiras de armar. São os produtos químicos que põem na madeira. prestes apor uma beata de charuto na boca. Agora. um dia acordamos e não conseguimos dizer que dia da semana é. Ontem. — A minha mãe precisava de apoio. — Não foi uma escolha minha — disse Eddie. Pensa na carga de trabalho que tem hoje. — Anda lá. fazes anos. — És uma anedota. Noel faz uma careta. sim? — diz Noel. Pergunta-se quem será o encarregado da manutenção do parque de Brighton. Fazemos o mesmo trabalho entediante dia após dia. — Olha para aquele tipo — diz Eddie. recorda a si mesmo.. Fixa o olhar para lá da janela. Noel levanta uma sobrancelha. Os anos foram passando. 111 A terceira lição — O parque era assim tão mau? — perguntou Ruby.— Não — responde. já se habituou a ela. Pensa sempre em Marguerite. Eddie baixou os olhos. — Aposto em como vai deitar o charuto para o chão. Começa logo a arder. vai pegar fogo. apanhei um puto. num grupo de veraneantes à saída da estação de comboios. Transportam toalhas. Eu era um homem da manutenção. Uma coisa levou a outra. exactamente como. Eddie espeta o garfo no ovo. — Ele era muito duro contigo — disse a velhinha.. — Como o teu pai? Eddie não respondeu. Pensa naquelas pobres pessoas de Brighton. Sabes como é. feitas de alumínio leve. quando Noel fala das corridas de cavalos. Sábado. Cola. — Sim. — E daí. Novos pára-choques para os carrinhos. a fumar um charuto. — E daí? Eddie vira-se para o lado.. nada. é só isso. — Não conheço ninguém em Brighton. às seis. Nunca vivi noutro lugar.

na antiga casa. Depois. A mãe de Eddie começou a chorar.» Belo pai. sentado à frente dela. Eddie viu a mãe. e não parava de esfregar as mãos na testa e ao longo da cana do nariz. — Que raio foi isto? — gritou Eddie. 112 — Ouça — disse ele. Viu Mickey Shea. Arranjaste um rumo. Sabe quando foi a última vez que ele falou comigo? — Aquela vez em que tentou bater-te. O roupão caiu. — A senhora não o conhecia. o seu peito ofegante. De repente. sempre agarrada ao roupão. Depois. levantou-se e cambaleou até ao quarto. de frente e de trás. sentada à mesa da cozinha. Correu para o quarto e viu Mickey a agarrar a sua mulher. desfazendo um candeeiro com o martelo. com ar preocupado. o seu rosto coberto de lágrimas. sentiu que os seus olhos lhe caíam das órbitas e viajavam sozinhos. a ignorar o copo de água. Encharcado até aos ossos. chamavamlhe —. para o afastar. As imagens tornaram-se definidas. — É verdade. debruçando-se sobre ela. Era há muitos anos. Eddie tentou não olhar para baixo. Mickey aproximou-se. até outro momento no tempo. um molhe estreito que se estendia pelo mar adentro. semivestida. Eis o que viu: Viu a mãe. Começou a soluçar. Fez-lhe sinal para esperar e foi até ao quarto e fechou a porta. Estava novamente a cair. Mickey detevese. mas não conseguia ouvir o que eles os dois estavam a dizer. por um instante apenas. Voou escada abaixo e correu para a noite chuvosa. até ao fundo de um buraco. Estavam ambos aos gritos. A mãe de Eddie trouxe-lhe um copo de água. Ele era maior e mais forte. segurando-a pela cintura. — Que raio foi ISTO? A velhinha manteve-se calada. O céu era preto azulado. agarrou na mãe de Eddie e encostou-a à parede. a caminho da rua. molhado da chuva. Eddie lançou-lhe um olhar irritado. Eddie podia ver todos os quartos. Viu Mickey na cozinha. — Mas sei uma coisa que tu não sabes. depois pegou na mão dela. o pai de Eddie saiu do apartamento. mas não conseguiu conter-se. — Começaste a trabalhar depois disso. O pai de 113 Eddie gritou. Tirou os sapatos e o vestido de andar por casa. Empunhou o martelo. não passava de um ruído indistinto. A chuva caía . a porta da rua abriu-se e o pai de Eddie parou na ombreira. lentamente. irritado. derrubando o pai de Eddie. e enterrou o rosto por barbear abaixo da face dela. Ela contorceu-se. — Duvido. O marido agarrou-a pelos ombros. Deu um passo para o lado do círculo na neve e desenhou outro. — E sabe qual foi a última coisa que ele me disse? «Arranja um emprego. tornando-se testemunha de uma cena. Ela tapou-se com um roupão. Eddie sentiu um estremecimento de raiva. Eis o que viu: Viu uma tempestade no extremo mais longínquo de Ruby Pier — «o extremo norte». hã? A velhinha cerrou os lábios. Quando Eddie olhou para o círculo. Mickey estava trôpego. Mickey levou as mãos à cabeça e precipitou-se para a porta. surpreendida. Abriu a porta. Ruby apontou com a ponta da sombrinha e desenhou um círculo na neve. Mickey estava com um aspecto terrível. Ela estendeu instintivamente a mão. com um martelo pendurado no cinto.— Talvez também tu fosses muito duro com ele. Conseguia ver de cima e de baixo. Abanou-a violentamente. incrédulo. — Ela pôs-se de pé. a seguir gritou e empurrou o peito de Mickey. cobrindo-lhe o pescoço de lágrimas. Pegou numa blusa e numa saia. virar-se. E está na hora de ta mostrar. a tirar um frasco de dentro do casaco e a beber um gole.

Apanharam a crista de uma onda e fizeram um súbito avanço na direcção da costa. — Alto aí. na areia molhada. O pai de Eddie foi ao fundo. e a seguir caiu na praia. com as suas últimas forças puxou Mickey para a frente. com a chuva a cair. na rebentação violenta. Mickey Shea apareceu. a esbracejarem. Mickey gemeu e tentou sorver golfadas de ar. Mickey deu-lhe um soco. para que a rebentação não o arrastasse para o mar. — Fora atrás de Mickey para o magoar. — Viu o que aquele pulha fez à minha mãe? — Vi — disse a senhora. a cambalear na direcção da beira do molhe. e o pai de Eddie soltou-se de Mickey e conseguiu enfiar os braços por baixo dos de Mickey e segurá-lo. agachou-se por baixo da balaustrada e saltou. mas o pai de Eddie continuava entalado debaixo do braço de Mickey. gritando contra o vento. rumando para a costa. com um líquido amarelo esponjoso a sair-lhe da boca. Viu movimento nas ondas.. O pai de Eddie deu-lhe outro. Por fim. veio novamente à tona e contrapôs o seu peso ao do corpo de Mickey. quando o pai de Eddie lhe pegou no braço e o prendeu sobre o seu ombro. furioso. tinha deixado o coiro dele afogar-se naquelas águas. O mar retumbava e explodia. não foi capaz. talvez até para o matar. Os céus estalavam de trovões. Mickey balouçava no ondular agitado das águas. Parecia uma eternidade. — O teu pai também teve vontade de o fazer — disse a velhinha. bebera tanto na véspera. como se ele próprio tivesse mergulhado naquele mar. Pegaram-se e esbracejaram. »Mas. que não . para ajudar a alimentar mais uma boca. Quando as ondas recuaram. por baixo da balaustrada de madeira. foi Mickey quem emprestou aos teus pais o pouco 115 dinheiro que tinha. Se eu soubesse o que ele tinha feito. a correr de um lado para o outro. Agarrou-se ao corrimão. depois rodou o corpo. mergulhando desajeitadamente no mar revolto. a vasculhar as águas. O vento soprava a chuva de lado. com o peito a arfar. Uma onda atirou-os para trás. em tom de tristeza. quando o teu pai andava à procura de trabalho. minha senhora — interrompeu Eddie. os dois homens a grunhirem. De repente. Depois para a frente. Bateu os pés. com o rosto virado para o céu escuro. — Salvar um amigo — disse Ruby. Mas as coisas nem sempre são o que parecem. O pai de Eddie nadou para ele. a espuma branca a fustigar-lhes a cara. muitos anos antes disso. O pai de Eddie surgiu instantes depois. Sabia que o seu juízo falhara naquele dia. a pestanejar violentamente para conseguir ver. de boca aberta. A visão de Eddie regressou ao seu corpo. a dar às pernas. derreado. Ficou estendido durante um instante. Conhecia os seus defeitos. E quando tu nasceste. e deixou-se cair ao mar. ainda de martelo em punho. — Foi errado. Mas. O pai de Eddie cuspiu água salgada. 114 Mickey tossiu com força. Para o teu pai. arrancou um sapato. uma velha amizade era uma coisa muito séria. semi-inconsciente. Caiu ao chão. no fim. enquanto a chuva os massacrava. Faltara ao seu turno. todas as certezas que sempre tivera sobre o seu pai deixaram de existir.. — Belo amigo. As suas roupas estavam encharcadas e o cinto de cabedal estava preto. Eddie fitou-a. uma grande onda ergueu-os e atirou-os para a areia. Sentia a cabeça pesada. desistiu. Sabia quem Mickey era. Agarrou Mickey. — O que é que lhe passou pela cabeça? — sussurrou Eddie. carrancudo. foi Mickey quem se dirigiu ao proprietário do parque e deu a sua palavra de honra sobre a integridade do teu pai. Sabia que ele bebia. de tão ensopado. tentou desatar o outro. »Mickey tinha sido despedido nessa tarde. Estava exausto.em lençóis de água. tirou o cinturão. Deteve-se. Avançaram.

Gemia baixinho. Mais um telefonema para casa do Sr. »Mickey era grosseiro. A implorar ajuda. »Uma noite. encharcado e exausto. — Por uma questão de lealdade — contrapôs ela. No hospital. nem com a tua mãe. ele morreu. e pelo do teu irmão. — disse Eddie. — Que aconteceu ao Mickey Shea? — perguntou Eddie. à beira da cama dele. o mar deixou-o vulnerável. — Mais vale — disse ela — sermos leais uns aos outros. como se estivesse a rezar: «Eu devia ter feito alguma coisa. — Mas o meu pai. Queria recuperar o emprego. A tua mãe ia levar Mickey até ele. uma enfermeira encontrou o teu pai caído no parapeito da janela. Talvez soubesse apenas que 117 . Parece que nesse instante. deixou de falar por completo. Já não sabia calcular a duração fosse do que fosse. E chamou Mickey.conseguira levantar-se de manhã. — Depois disso. O silêncio foi o seu escape.» »Por fim. até ter forças para se arrastar para casa. morreu completamente só — respondeu a velhinha. Bem cedo. por ele próprio. O teu pai estava a fazer serão. embora a sua reacção inicial tenha sido matá-lo. mas não era má pessoa. — Ele nunca disse nada. esfregando a testa. Ficou ali deitado na praia durante horas. Talvez tenha sentido a luz da morte a aproximar-se. Chamou pelo nome da tua mãe num fio de voz e chamou pelo teu. Agiu por impulso. Pelo menos. O teu pai já não era um jovem. com o tempo. Os médicos disseram que tinha entrado em coma. por vezes até à morte? Eddie encolheu os ombros. Sentia-se envergonhado por ela. o teu pai acordou. — Cinquenta e seis — disse Eddie inexpressivamente. — Ele nunca mais voltou a falar sobre aquela noite. O teu pai também agiu por impulso e. também. semicerrando os olhos. 116 Depois disso. — Durante a noite. estava perdido. quando chegou a casa da tua mãe. uma noite. Eddie lembrava-se dessa noite. — Foi assim que ele adoeceu. — Bebeu até morrer de cirrose. Nunca conseguiu perdoar-se a si próprio pelo que aconteceu.. Nathanson.. e os patrões mandaram-no embora. ficaram os dois durante muito tempo no vale da montanha nevada. Dias e noites. Ela cruzou as mãos sobre a ponta da sombrinha. Já ia nos cinquenta e muitos. a pneumonia atacou-o e. — O quê? — disse Eddie. — E a religião? O estado? Não somos leais a essas coisas.. Naquele momento. mas raramente o silêncio serve de refúgio. nem com ninguém. a pedido dos médicos. na manhã seguinte. os olhos fecharam-se e as enfermeiras não conseguiram despertá-lo. a Eddie assim pareceu. ela foi dormir a casa. Ele lidou com o problema da mesma maneira que lidava com todos os problemas: bebeu ainda mais e. — Ai não? — Ela sorriu. à deriva. atravessou o quarto e arranjou forças para levantar a janela. e o que fez foi um acto de solidão e desespero. — Ninguém morre por lealdade. — O corpo estava fraco. — Passados uns anos. Um mau impulso. eu devia ter feito alguma coisa. a tua mãe passou o tempo todo no hospital. Joe. Os pensamentos continuavam a atormentá-lo. claro. — Por causa do Mickey? — disse Eddie. a sua reacção final foi salvar a vida de um homem. Mais uma pancada na porta a horas tardias.. — Cinquenta e seis — repetiu a velhinha. por Mickey. estava a cair de bêbado. a respiração dele tornou-se lenta. — No parapeito da janela? Ruby fez que sim com a cabeça. Levantou-se da cama. o seu coração estava a transbordar de culpa e remorsos.

— Eu odiava-o — murmurou ele. E o mesmo se passou com o homem que estava do outro lado da cortina. E ficou ainda pior quando cresci. nas ruas por baixo daquela janela. quando eu era miúdo. »As enfermeiras que o encontraram arrastaram-no de volta para a cama. porque eu queria regressar aos meus anos de juventude. Eddie deixou-se cair para trás. em cada briga. — O teu pai não tinha dinheiro para pagar um quarto particular no hospital. lá fora. — Aprende uma coisa comigo. porque ninguém nasce com raiva. ou uma morte? — Como é que sabe tudo isso? — perguntou Eddie a Ruby. em cada escorregadela. Tiveram medo de perder o emprego. bem alimentado. portanto nunca contaram o que se passou. Quando soube onde o teu pai trabalhara. Ela suspirou. 118 — O restaurante? — disse ela. mesmo enquanto esperava por ti. rijo com um velho cavalo de guerra. Ela tocou-lhe na mão. a alma liberta-se dela. O vento e a humidade foram demasiado agressivos para o estado em que ele se encontrava. Edward. Mas o ódio é uma lâmina curva. A sua cabeça pendeu para trás. Queria-os a todos como queria o meu Emile. Não conseguia parar de pensar na morte do seu pai. — Vi. como se ele tivesse acabado de resolver um mistério. a tentar rastejar para fora de uma janela. Pensou naquela derradeira imagem. Debruçou-se sobre o parapeito. O meu marido. quente. perguntei pela tua família. como se tivesse perdido eu própria um ente querido. Perdoa. — Então. Apontou para o pontinho de luz nas montanhas. Aonde iria? O que é que teria pensado? O que seria pior deixar sem explicação: uma vida. Pensamos que o ódio é uma arma que ataca a pessoa que nos fez mal. à minha vida simples mas segura. Onde está a minha dor? — Sentiste-te assim. senti uma pontada de dor. E quando morremos. Ruby deu um passo para ele. em cada incêndio. em cada acidente. »Perdoa. A raiva é um veneno. — Edward — disse ela. Eddie pareceu confuso. atordoado. ficassem sãos e salvos. infligimolo a nós próprios. para poderes avançar. Estava uma noite fria. e porque é que não tens necessidade de continuar a senti-lo. viu o meu pai. E queria que todos aqueles que sofreram em Ruby Pier. Ela fez uma pausa. — Ouvi-a gemer naquelas noites solitárias. baixinho. Nunca falámos. Era a primeira vez que o tratava pelo nome. O parque tinha o meu nome. — E a minha mãe. aqui. Morreu antes de amanhecer. A versão do hospital foi que ele morreu enquanto dormia. »Esse desejo seguiu-me até ao céu. Mas agora. quando chegaste ao céu? Eddie lembrava-se. em cada queda. Ruby levantou-se e Eddie imitou-a. A velhinha acenou com a cabeça. — Está ali. — Era um inferno para mim. Devora-te por dentro. O seu pai. . — Tens de perdoar o teu pai. no refúgio de um lugar acolhedor. Lembras-te da leveza que sentiste. Senti a sua sombra amaldiçoada e voltei a desejar que nunca tivesse sido construído. Eddie levantou os olhos. E o mal que infligimos. longe do mar. — Emile. Mas depois da morte do teu pai. tens de compreender por que motivo sentiste o que sentiste.vocês estavam todos algures.

Vou libertar-me da raiva. Endireitou os óculos. Fiquei encurralado depois disso. Eddie avançou. Sentiu um estremecimento no peito. Virou-se para a direita. a beber e a falar. a perda de esperança. O pai estava tão perto. a comer. Porque é que o fez? Porquê? — Inspirou fundo. sabendo o que tinha de fazer. — Pai. à porta do restaurante. Começou a afastar-se. Ruby abanou a cabeça. E. Sentiu um aperto no peito. Mantinha-me à distância. está bem? Está bem? Podemos esquecer o que se passou? A sua voz tremeu até se tornar aguda e implorante. Sentiu um arrepio. Não o conhecia a si. Eddie tentou dizer «Espere». Já sei o que aconteceu. Sobrevivera-lhe em todos os sentidos. Nunca se elevara acima do trabalho sujo e cansativo que o seu pai deixara para trás.Eddie pensou nos anos que se seguiram ao funeral do pai. Em seguida. até perceber que a velhinha não ia voltar. — Pai? — sussurrou Eddie. parado na neve. Ao longo dos anos. Eddie sentiu as lágrimas virem-lhe aos olhos. carne e molhos. a morrer sozinho a meio da noite. tudo ficou negro. pai. — Quando ele morreu — disse Eddie —. o nariz adunco. que Eddie conseguia ver os pêlos do seu rosto e a ponta queimada do charuto. levou consigo uma parte de mim. os nós dos dedos ossudos e os ombros largos 120 de um operário. Durante todo esse tempo. a perda de uma carreira. Pensou que não conquistara nada. O pai não conseguia ouvi-lo. sozinho no silêncio. Odiava-o. Ouviu o tilintar de talheres e o empilhar de pratos. Viu os papos por baixo dos seus olhos cansados. Ruby desapareceu. Ficou ali postado durante muito tempo. depois. Sentiu o cheiro a comida quente — pão. para a mesa do canto. Eu não compreendia. — Ainda tens de falar com mais duas pessoas — disse ela. ele 119 glorificara essa vida imaginária e responsabilizara o pai por todas as suas perdas: a perda de liberdade. — O teu pai não foi a razão pela qual nunca deixaste o parque. Eddie imaginara uma determinada vida — uma vida que «podia ter sido» —. não sabia o que tinha acontecido. para o fantasma do seu pai. que era agora mais velho do que o seu pai. Eddie aproximou-se. — Eu estava irritado consigo. que teria existido se não fosse pela morte do pai e pela subsequente depressão da mãe. mas um vento frio quase lhe arrancou a voz da garganta. a conversar uns com os outros. Pensou no velhote pendurado na janela do hospital. — Eu não sabia. qual foi? Ela ajeitou a saia. — Então. a fumar um charuto. penosamente. Continuo sem compreender. virou-se para a porta e abriu-a lentamente. que já não controlava. Uma torrente a querer sair de dentro de si. Eddie levantou os olhos. Mas é o meu pai. Ele estava novamente no cimo da montanha. . hesitante. Olhou para os seus próprios braços e percebeu no seu corpo terreno. percebe? Não conhecia a sua vida. uma voz que já não era a sua. Os espíritos daqueles que haviam morrido no parque encontravam-se à sua volta. Caiu de joelhos ao lado da mesa. nunca fora a parte alguma. — O pai batia-me.

No fim. como se estivesse a reflectir. viu Ruby parada à sua frente. que aconteceria? Tinha uma dor nas costas. Soltou os dedos e acrescentou rapidamente: — Claro está que eu nunca cheguei a conhecê-la. E depois. O seu corpo não apareceu reflectido. estava agora mole. A sua barriga. por fim — amava profundamente a mulher. mais baixo: — Está a ouvir-me. Depois. pai? Debruçou-se para ele. de casaco azul-escuro e o seu melhor par de calças de ganga preta. Entrelaçou os dedos uns nos outros. bem como o céu cor de jade. O quarto era castanho — tão singelo como papel pardo — e estava vazio. o proprietário do parque. tossiu. ansioso. O seu corpo ficou na morgue municipal. — Pode dizer-me algumas das qualidades do falecido? — perguntou o pastor. Ela baixou a cabeça. abriu a porta e levantou voo em direcção ao céu cor de jade. juntamente com as suas roupas e objectos pessoais. Dominguez engoliu em seco. O ataúde era uma simples caixa de madeira. usando para isso o dinheiro que poupara por não ter de pagar o salário de Eddie no fim do mês. o pastor pediu a Dominguez. uma vez que a maior parte dos convidados tinha de voltar para o trabalho. Ainda tens de falar com mais duas pessoas. O som apanhou-o de surpresa. Por pouco. Depois. com a flacidez da velhice. como achava que se devia falar numa situação como aquela. Quando voltou a levantar os olhos. — Está consertado. que de repente se alargou e passou a incluir uma fileira de portas. o Sr. à excepção de um banco de madeira e um espelho oval pendurado na parede. Bullock. — Eddie — disse ele. Tocou na pele. Percebeu o que . Eddie deu um murro na mesa. Uns minutos antes do serviço religioso. dissera Ruby. 122 A quarta pessoa que Eddie encontra no Céu Eddie pestanejou e deu por si num pequeno quarto redondo. pensou Eddie. a sua camisa da manutenção. a aliança. para entrar no seu gabinete. agora. que envelhecera desde o seu encontro com Ruby. como se o seu peito estivesse cheio de coisas que precisassem de assentar. uma tosse profunda e cavernosa. A sua perna estava cada vez mais hirta. Proferiu as derradeiras palavras num sussurro. jovem e bela. 121 QUINTA-FEIRA. e mais seca. — Sei que o senhor trabalhava com ele. Não deixara instruções. A igreja foi escolhida em termos de localização — era a mais próxima do parque —. pagou a conta. os cigarros e arames para limpar cachimbos. As montanhas haviam desaparecido. Tornou a tossir. e falou baixinho. Eddie girou sobre os calcanhares. Não se sentia à vontade na presença de clérigos. Eddie não bateu com a cabeça no tecto baixo de gesso.— ESTÁ BEM? ESTÁ A OUVIR-ME? — gritou. Viu apenas o lado oposto do quarto. uma moinha incómoda. o boné de linho. Eddie postou-se à frente do espelho. como se tivesse saído de outra pessoa qualquer. todos à espera que alguém os reivindicasse. 11 HORAS DA MANHA Quem pagaria o funeral de Eddie? Ele não tinha família. Viu as mãos sujas do pai. De onde é que saiu isto?. as meias e sapatos. depois caiu para o chão. que durante a conversa com o Capitão parecera dura como borracha retesada. Estava mais fina.

Eddie tossiu novamente — não conseguia evitar — e. onde o casal bebia em simultâneo de uma chávena com duas asas. parecia africano. A sua perna ferida parecia atearse. pensou Eddie. como os bailes ou o acender de velas. Sempre achara que os casamentos eram todos iguais.estava a acontecer. enquanto ela retirava o anel. outro bolo e outro tipo de música. Os convidados conversavam uns com os outros e Eddie foi absorvido como sendo um deles. desta vez. 123 Dirigiu-se para uma das portas e abriu-a. pensando que assim voltaria ao quarto redondo. sem família. não havia vestígios de como é que as pessoas lá tinham chegado. Estava a apodrecer. não houve casamentos. A noiva. Preferia que assim fosse. estava ao ar livre. dentro de paredes. sempre que o fotógrafo vinha à mesa. nas suas roupas da manutenção. Eddie ouvia as vozes deles. passou de casamento em casamento. de cerimónia em cerimónia. nem carros. Por causa disso. nem cavalos. saltava por cima de uma vassoura. por conseguinte. a meio do que parecia ser uma cerimónia de casamento. Muitos dos homens tinham cabelos pretos e . porque acontecia a cada nova fase no Céu. nesses instantes. numa terra que não reconhecia. Usava uma casaca preta e empunhava uma espada e. ficava a porta que ele acabara de transpor. durante um longo período. A partida não parecia ser relevante. encontrava-se no centro do grupo. mas a língua era-lhe estranha. a retirar um alfinete dos seus cabelos cor de manteiga. um bolo e um tipo de música para outra língua. Era considerado um «velho». Recuou rapidamente para a porta por onde entrara. é que ele tivera de retirar o fato puído do armário e vestir a camisa de colarinho engomado que lhe apertava o pescoço grosso. O relvado estava cheio de convidados. os ossos fracturados da sua perna já estavam deformados. Foi dançando com cada um dos convidados e todos lhe entregaram um pequeno saco com moedas. Quanto tempo mais é que isto vai durar?. Eddie evitava a maior parte das cerimónias e. como quando os casais tinham de dançar ou ajudar a erguer a noiva numa cadeira. A uniformidade não surpreendeu Eddie. Por essa altura. e ninguém esperava que ele fizesse muito mais além de sorrir. De repente. ficava muitas vezes no parque de estacionamento. Todos pareceram sorrir e os sorrisos assustaram Eddie. num grande salão. quando algum dos seus colegas adolescentes crescera e resolvera casar. deu por si a meio de outro casamento. O noivo era esguio. Só nos últimos anos da sua vida. Aqui. jovem e bonita. a fumar um cigarro. no quintal de uma casa que nunca tinha visto. calculou Eddie. As encostas estavam cobertas de vinhas e quintas de travertino. alguém a quem todos sorriam mas com quem nunca falavam. sozinho. em que as famílias despejavam vinho no chão e o casal. junto de Eddie. Outra passagem pela porta levou-o a um casamento chinês. à espera que o tempo passasse. Os casamentos. Em vez disso. Em cada cerimónia. onde as pessoas pareciam espanholas e a noiva usava flores cor de laranja nos cabelos. de mãos dadas. nem autocarros. estavam demasiado recheados de momentos constrangedores. Fosse como fosse. Ele baixou-o na direcção da noiva e os convidados aclamaram-na. como acontecera 124 em tantos casamentos a que ele assistira na Terra. com pratos nas mãos. Coxeava muito e era. havia um arco coberto de flores vermelhas e ramos de vidoeiro e. dispensado de todos os momentos participativos. na outra. onde se acenderam foguetes perante os convidados a aplaudir. depois outra porta para outra cena qualquer — talvez francesa? —. O que não percebia era o que tinha ele a ver com aquilo. nem carroças. tornou a recuar pela porta e a entrar noutra cena de casamento. O grupo levantou os olhos. Numa ponta. quando vários convidados levantaram os olhos. na opinião de Eddie. A artrite atacara-lhe o joelho. agora. na extremidade da espada estava um anel. e ele sentia que as pessoas conseguiam aperceber-se disso do outro extremo da sala. se por acaso ia. Transpôs a porta uma vez mais e deparou com uma aldeia que lhe pareceu italiana. de uma língua. Alemão? Sueco? Tornou a tossir.

Joe dissera a Eddie que recebera um aumento. num ritmo louco e rodopiante.. parecia ter vinte e poucos anos. Ao vê-la assim vestida. Eddie acha que o irmão está demasiado bem vestido — e bem vestido é sinónimo de fajuto —.. o antigo posto do seu pai. na sua pele de azeitona. Eddie prime o gatilho e ouve-se uma explosão de barulho. com um maço de bilhetes cor-de-laranja na mão. mas houve qualquer coisa que o impediu de arrancar os pés do chão. um colete encarnado. hã? — grita Joe. Nessa manhã. orgulhoso. — Per l'amaro e il dolce?'. e vê só. uma pequena coisa chamada cádmio de níquel. mas juntaram esforços para proferir a primeira letra do único nome que alguma vez o fizera sentir-se assim. Joe veste um casaco de xadrez e sapatos pretos e brancos de cunha. — Per l'amaro e il dolce? — dizia ela. um boné vermelho e uma etiqueta com o nome presa com um alfinete abaixo do pescoço. — Ó da casa! Está aí alguém? Marguerite aparece à porta. encontraram-no. — Per l'amaro e il dolce? — disse ela. Os olhos dela escondidos pela aba do chapéu. envergando um longo vestido cor de alfazema e um chapéu de palha debruado. Havia música — flautas. Algo dentro de si lhe disse para fugir. Ao ouvir a sua voz. calças pretas de montar. oferecendo os doces. com uma serra de dois punhos.. como sempre.. . violinos e guitarras — e os convidados começaram a dançar a tarantela. o que é que ele entende do assunto? — Sim. — Para os momentos amargos e doces? Os seus cabelos negros caíram-lhe sobre um dos olhos e o coração de Eddie quase explodiu. Joe dera os parabéns a Eddie pela sua promoção: chefe da manutenção de Ruby Pier. pegando na broca — é o modelo mais recente. Eddie caiu de joelhos. que era encimado por um bouquet de flores de papel. mas. Os olhos de Eddie pousam. 126 Hoje é o aniversário de Eddie Eddie e o irmão estão sentados na oficina da manutenção. e enverga a farda oficial de Ruby Pier: uma camisa branca. Trabalha a bateria. o corpo de Eddie estremeceu da cabeça aos pés. Arranjou emprego nas bilheteiras. Eddie recuou uns passos. Per l'amaro e il dolce?. portanto. — Liga-a — diz Joe. Eddie encontrou um lugar encostado a uma parede e observou os noivos a cortarem um tronco em dois. no rosto dela. — Este — diz Joe. e as mulheres. — Marguerite. nos seus olhos cor de café escuro. olhos escuros e feições marcadas. com um cesto de amêndoas doces. senhor — diz Joe —. 125 Uma dama de honor. passara entre os convidados. penteados para trás com brilhantina. Depois. Eddie nunca dissera nada que sentisse com tanta convicção.grossos. agora. — sussurrou. O seu salário era três vezes maior do que o de Eddie. sorrindo. porque é que não ficas tu com este emprego e eu com o teu?» Mas não o fez. — Trabalha bem. Eddie tivera vontade de responder: «Se é assim tão bom. Eddie fica irritado. Eddie segura na bateria entre os dedos.. passando-lhe a broca. Os seus olhos desviaram-se para os confins da multidão. nesse Verão. Ela aproximou-se dele. oferecendo-lhe as amêndoas. — Para os momentos amargos e doces — disse ela.. Ao longe. Joe é vendedor de uma empresa de ferramentas e Eddie usa o mesmo fato há anos. Os lábios dele demoraram a abrir-se e o som precisou de uns instantes para lhe sair da garganta... Custava a acreditar. Começou a suar.

— Não podes ser mesmo tu — repetiu Eddie. pousado em cima de uma mesinha de armar. Marguerite debruça-se para Eddie e segreda: — Prometi-lhes que apagavas as trinta e oito velas de uma vez. — Ha-ha! Com esta é que ela te arrumou! Eddie baixa os olhos. A volta deles. Marguerite faz o enquadramento da foto. — PARABÉNS. — Faz mais barulho do que tu a ressonares — diz ela. Ela baixou o cesto com as amêndoas. — Está bem — diz Eddie. Eddie solta o ar. SR. meninos. a rir. depois vê a mulher a sorrir. EDDIE! — grita um grupo de crianças em uníssono. Marguerite grita: — Vá. É uma Polaroid. mas está a olhar para a mulher. — Ha-ha! — grita Joe. espera. — Quem diria? — diz Eddie. Eddie disse que ia pensar no assunto. junto do bolo. Ela respondia: — Uma criança não sabe o que é ser velho. Ela estendeu-lhe a mão. — Podes vir ali fora. dançava-se a tarantela e o Sol esmorecia por detrás de uma faixa de nuvens brancas. Eddie! Apague lá as velas. ficaram sem dinheiro para ir ao médico. Trazia jornais para casa. Eddie junto do bolo. Um médico disse que era demasiado nervosa. como se apanhasse um . Eddie dizia que eram demasiado velhos. Eddie prime o botão. Os bailarinos gritaram: «Olééé!» Tocavam tamborins. As coisas eram como eram. Eddie levanta-se devagar. 129 Eddie olhou fixamente para a jovem Marguerite. anda lá. sente-se comovido pela relação fácil que ela tem com os miúdos e entristecido pela incapacidade de ela os ter. cheia de inúmeras marcas de dedinhos. as crianças amontoadas à volta dele. Marguerite tapa os ouvidos. 127 — Mostra-lhe a broca — diz Joe. — Enfia a mão dentro de um saco e tira uma máquina fotográfica. Eddie agarrou-a rapidamente. Com o passar do tempo. Outro. que o devia ter feito antes dos vinte e cinco anos. — Estou a trabalhar. Fazia agora quase um ano que ela falava em adopção. Eddie acena com a broca. instintivamente. A cobertura do bolo está uma lástima. a admirar as trinta e oito pequeninas chamas.. Sorriu. — Despache-se. Uma criança espeta o dedo em Eddie e diz: — Apaga as velas todas. O Sol incide-lhe no rosto. envergonhado. depois segue-a porta fora. rezingão. Ia à biblioteca. um instantinho? — pergunta ela. Ai. que esperara demasiado tempo para engravidar. Como acontece sempre que está na companhia de Marguerite e de crianças. entristecida. 128 — Está bem — grita ela. Observa a mulher a organizar o grupo. Sr. está bem? Eddie baixa os olhos. — É rápido. espera. — Não podes ser mesmo tu — disse ele.especialmente à frente do seu irmão armado em importante. um aparelho complicado com manípulos e botões e uma lâmpada redonda de flash. — A Charlene emprestou-me. Vira-se para Marguerite: — Trabalha a bateria. ponham as velas no bolo! As crianças correm para o bolo de baunilha às camadas..

Eddieie tentou levantar-se. um amor que ele sabia. O homem do acordeão sentou-se num banco. até que ela semicerrou os seus olhos escuros e entreabriu os lábios com uma expressão maliciosa. pensando que teria poucos clientes se não o fizesse. os empregados pediram aos convidados para se levantarem e. Os seus dedos encontraram-se e ele nunca sentira uma sensação como aquela. sorrindo. O seu próprio casamento realizou-se na véspera de Natal. mas os noivos foram a pé para casa. juntos. O que as pessoas encontram é uma certa forma de amor. Passaram entre as poças de luz dos candeeiros de rua. um amor profundo mas discreto. especado a olhar. ali estava ela novamente. que a única coisa que faltara no seu casamento «foram os cartões do bingo». Ficou junto de Marguerite. Caminharam de mãos dadas. Quando ela morrera. — Não és mesmo tu — disse ele. — Eddie — disse ela. — A tua perna — disse ela. pela primeira desde a sua morte. Ela ajoelhou-se junto dele. Eddie levava o seu casaco branco. Agora. — Está branco — disse ela. olhando para a cicatriz quase invisível com uma familiaridade afectuosa. chamado Sammy Hong’s. um amor grato. transportaram 130 as cadeiras para o andar de baixo. Olééé! — Não és mesmo tu. alugou-lhes o seu estabelecimento por uma noite. Depois. portanto. a brincar. ele deixara que os seus dias se tornassem vazios. ser insubstituível. não és tu — murmurou Eddie. — Vem comigo — disse ela. E Eddie encontrou uma certa forma de amor com Marguerite. Terminada a refeição e entregues algumas prendas. uma chuva fria. O proprietário. Marguerite envergava o vestido de noiva por baixo de uma grossa camisola cor-de-rosa. O seu coração tornou-se dormente. jovem como no dia do seu casamento. como se se estivesse a formar uma pele por cima da sua própria pele. não és tu. Sammy. levantou os olhos e tocou nos tufos de cabelo por cima das orelhas dele. — Sou eu — sussurrou ela. fizeram um brinde final e o homem do acordeão arrumou o instrumento. quente e macia. Ela ergueu-o sem esforço. Tudo à sua volta parecia estar no seu devido lugar. Anos mais tarde. 131 em silêncio. Ela estava exactamente como ele a recordava — ainda mais bonita. deixando cair a cabeça no ombro dela e. feitos os votos. uma vez que ficava a apenas uns quarteirões de distância. Só conseguia ficar parado. mas o seu joelho ferido cedeu. pois as suas últimas recordações dela eram as de uma mulher mais velha. começou a chorar. . As cadeiras usadas na cerimónia foram necessárias para o jantar. em seguida. — Já te tinhas esquecido da minha cara? Eddie engoliu em seco. onde ficavam as mesas. Mas o amor assume muitas formas e nunca é igual para todos os homens e mulheres. acima de tudo. no segundo andar de um restaurante chinês de luzes suaves. vinho do Porto e um homem com um acordeão. Eddie e Marguerite saíram pela porta da rua. a camisa a apertar-lhe o pescoço. Eddie pegou no parco dinheiro que lhe sobrara do exército e gastou-o no copo-d'água: frango assado com legumes chineses. Eddie não conseguia mexer a língua.objecto em queda. Estava a chover ao de leve. como se este fosse um objecto escondido atrás de uma rocha. As pessoas dizem que «descobriram» o amor. que quase lhe fazia cócegas. quase a rir. em sofrimento. Marguerite costumava dizer.

Tentei salvá-la. por detrás de todas as portas.. — Foi essa a minha escolha. na mão dele. — E também sei. — E explicaram-te tudo? E mudou alguma coisa? Ela sorriu. é tudo muito rápido. eu é que lhe disse e depois tentei avisá-lo. — Mudou tudo. Apertou os lábios. que fazia os carrinhos parar lentamente.. Parecia tão jovem. — E agora sei porque é que aconteceu.. — Desde que morreste.. porque eu lhes disse para o soltarem. O sorriso dela. — Casamentos — disse ela. havia uma atracção que deixava cair uns carrinhos do cimo de uma torre e tinha um sistema hidráulico de travagem. que me amaste muito. Sorriu. mas o cabo partiu-se. Não sabia por onde começar.. Afastaram-se do copo-d'água e subiram um carreiro de cascalho. Pegou. Ela tirou o chapéu de palha e afastou os caracóis grossos da sua testa jovem. Queria perguntar-lhe tudo e mais alguma coisa.. então. Ela voltou a acenar. sei tudo o que aconteceu enquanto estivemos juntos. 132 — O que é que tu sabes. tudo o que acontecera.. disse ao Dominguez. — Também encontraste cinco pessoas? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. — Eu também não sei ao certo — respondeu. — Também passaste por isto? — disse ele. isto é. — Cinco pessoas diferentes — disse ele. depois. — Havia uma menina. Acreditam verdadeiramente no amor e que o seu casamento vai quebrar todos os recordes. — Tivemos um acordeonista — disse ele. sempre que o noivo levanta o véu e a noiva aceita a aliança. Um mundo de casamentos. muito veloz. uma menina pequena.... sobre mim? O que é que sabes desde que. as expectativas que vemos reflectidas nos olhos de ambos são iguais em qualquer parte do mundo.. que correu para uma das atracções do parque e corria perigo. Sentia uma agitação dentro de si.. Ele perscrutou os olhos dela. Seja como for. um miúdo que trabalha comigo agora. Senti as mãozinhas . mas ele não me conseguia ouvir e a tal menina estava sentada ali e eu tentei agarrá-la. Ela tocou ao de leve no rosto dele e o calor espalhou-se pelo corpo de Eddie. não foi culpa dele. — Não sei como é que tu morreste — disse ela. Perguntou-se se a espera de Marguerite teria sido parecida com a sua.. A música fundiu-se no ruído de fundo. Eddie sentiu o calor derretê-lo. Eddie pensou por instantes. — Achas que tivemos isso? Eddie não soube o que responder. Ai. esperei por ti. nada muda. — Bom. feliz. e caiu. Agora. Era mais difícil do que ele pensava contar à sua mulher como é que morrera. Ele ainda tinha dificuldade em dizê-lo. Eddie queria dizer-lhe tudo o que vira.. Eddie. por fim. — Tocou-lhe no queixo. não tem nada a ver com o parque de antigamente.— Nunca esqueci a tua cara. — O parque tem atracções novas. Levou as mãos ao peito. — E. um dos carrinhos soltou-se.. Marguerite apontou para a aldeia e para os convidados a dançar. uma ansiedade aos solavancos. Marguerite arregalou os olhos. ainda não percebi como..

dela. — Ai. meu Deus. Eddie tem quase oitocentos dólares. o seu pêlo colorido a esbater-se a cada movimento ondulante. Ela inclinou a cabeça para o lado. Eddie e Noel saem mais cedo do trabalho. — Vais estragar tudo — diz Noel. Eddie ganhou a primeira corrida do dia. Ele soltou o ar. Há pouco. um cavalo chamado Jersey Finch. e não queria olhar mais. que mal tinha voltar para casa da mesma maneira? — Pensa só que. era a primeira vez que isso lhe acontecia. com o assento de baixar. Eddie apostou no n. um sorriso meigo.) 135 Jersey Finch! Agora. Marguerite — sussurrou. A sua pele arrepia-se. por entre uma carpete de bilhetes usados. se ele chegara praticamente de bolsos vazios. de repente. vais ter dinheiro para o miúdo. Os cavalos são largados. Eddie aperta o bilhete entre os dedos. — Lamento muito. a sua mulher morta. Nem consigo dizer. a sua mulher perdida. o 39. a sua única mulher. nem a multidão à qual ele tinha gritado «Afastem-se». Estava a olhar para a sua mulher. 134 Hoje é o aniversário de Eddie As corridas estão à cunha com os clientes de Verão. pôs o dinheiro todo num cavalo a ganhar na sexta.. Apostou metade dos lucros na segunda corrida e voltou a ganhar. a sua alma caíra na armadilha das velhas emoções. e ao vê-lo os olhos dele encheram-se de lágrimas e sentiu-se invadido por 133 uma onda de tristeza e. Ela fez que sim com a cabeça e sorriu. no Daily Double*. Deteve-se.da T. . Não consigo. A campainha toca.. estão copos de papel de cerveja. Os cavalos entram no troço final. porque. Jersey Finch afasta-se para o lado de fora e alonga a sua passada. sendo as probabilidades de quatro para um. Está mais nervoso do que gostaria de estar. se ganhares — diz Noel —. nem a sua morte. os seus lábios começaram a tremer e Eddie foi arrastado pela corrente de tudo o que perdera.° 8. Aquele dinheiro vinha a calhar. — Tenho de ir para casa — diz ele. que não é uma má aposta. pedindo-lhe para continuar. Amontoam-se na recta distante. a sua jovem mulher. mas o que Noel acabou de dizer sobre «o miúdo» —— a criança que Eddie e Marguerite tencionam adoptar — enche-o de culpa. como ele e Noel concordaram. Porque é que ele fazia coisas daquelas? A multidão levanta-se. Deram-lhe duzentos e nove dólares. Porque é que estava a falar sobre aquilo? O que é que estava a fazer? Estaria realmente com ela? Como uma mágoa escondida que se ergue e lhe agarra o coração. lamento tanto. desde que aqui cheguei — explicou. As mulheres usam chapéus de palha e os homens fumam charuto. para irem jogar no número do aniversário de Eddie. nada lhe pareceu importante. Sentam-se em cadeiras de ripas. Depois de perder duas vezes em apostas mais pequenas. Um cavalo destaca-se na dianteira do grupo. disse o que roda a gente diz. nem o parque. Aos seus pés. mas depois eu. As aclamações fundem-se com os cascos retumbantes. Amparou a cabeça com as mãos e disse-o de qualquer maneira. — Tive tantas saudades tuas. Noel grita. — Praticamente ainda não tinha falado. Não consigo exprimi-lo. * Sistema em que se aposta no cavalo vencedor em duas corridas consecutivas (N. numa lógica exuberante.

— Estou — diz o outro. ainda por cima no dia do aniversário dele. estica o braço que segura na garrafa e escolhe a faixa da direita. — Uaaaau! — grita o segundo. O primeiro deixa cair a garrafa e escondem-se por trás da chapa metálica. O Sol já se pôs e o céu está em transição. como não lhe podia ligar. ao longo de Ocean 136 Parkway. a única coisa que a preocupa é tirar Eddie da pista de corridas. Ela vai ficar contente. Levanta as sobrancelhas. Diz-lhe para voltar para casa. estão a morrer de tédio e balouçam as garrafas vazias por cima do corrimão enferrujado.— Que raio de conversa é essa? — Vais contar a alguém e vais estragar a tua maré de sorte. para que ele possa atirá-lo para cima da cama quando chegar a casa e dizer à mulher: «Toma. — Deixa-me adivinhar — diz Noel. Uma parte dele já não o quer fazer. está bem?» Noel observa-o a empurrar as notas pela abertura da janela. Mas. — Eu sei. horas antes. Eddie tira o dinheiro do bolso. a maior parte das vezes. Esboça um sorriso. enquanto ainda tem algum dinheiro no bolso. até que os proprietários da pista pagaram para que a câmara municipal instalasse uns semáforos. Vira à direita em Lester Street. eu sei — diz Eddie. Volta para junto de Noel. Ela aproxima-se do viaduto de Lester Street. Eddie conta-lhe a novidade. tendo terminado o álcool e fumado muitos dos cigarros. depois de terem roubado cinco maços de cigarros e três garrafas de whiskey Old Harper. O que ele não sabe é que Marguerite. a observar. Quinze metros abaixo deles. — Não o faças. — Não podes continuar a comportar-te dessa maneira. não vai. Albergava dois adolescentes que não queriam ser encontrados. porque Noel é assim e não há nada a fazer. A maior parte do trânsito flui na direcção contrária. O segundo põe-se de pé. nessa noite. não estava deserto. Agora. — Estás a desafiar-me? — pergunta um deles. Está a . jamais lhe ocorre que possa estar a acontecer alguma coisa no viaduto por cima de si. Eddie desliga o telefone com um calor atrás das orelhas. ó cobardolas. — Não. decidiu meter-se no carro e ir procurá-lo às corridas. dois rapazes de dezassete anos que. — Estamos à espera de um bebé — repreende ela. a outra parte quer a dobrar. Ela não fica contente. Marguerite pensa em tudo menos em olhar para cima. Ele diz —le ara ela parar de lhe dar ordens. Sabe. passavam por cima da estrada e voltavam a descer as escadas. quer também que ele pare de fazer apostas. — Viste aquilo? — Atira a tua agora. que costumava ser a via de acesso à pista: os clientes subiam as escadas. em segunda mão. e quer pedir-lhe desculpa. Abana a garrafa para trás e para a frente. Marguerite atende o telefone. ela pega na carteira e conduz o Nash Rambler. Solta os dedos. com base em serões anteriores. o que fazia com que o viaduto estivesse. — Vou telefonar-lhe. Ela está arrependida de lhe ter gritado. tentando que ela caia no intervalo entre dois veículos. — É louco. Noel tinha razão. que Noel vai insistir para ficarem até ao fim. como se aquilo fosse uma espécie de arte e ele uma espécie de artista. A garrafa passa de raspão por um automóvel e estilhaça-se na estrada. compra o que quiseres. com menos trânsito. Eddie coxeia para a cabina telefónica e deixa cair uma moeda. deserto. E como a pista de corridas fica apenas a dez minutos de distância. Dirigem-se para a janela da bilheteira e escolhem outro cavalo. tinham saído fugidos de uma loja. que está a comer amendoins junto da balaustrada.

o amor seca à superfície e alimenta-nos por baixo. O carro guina para a divisória de betão. Marguerite esfregou a testa e disse: — Agora. mantendo-se a si mesmo vivo. que perde a noção dos ruídos nocturnos que a rodeiam. Não confiava em nada que fosse tão veloz. Ficou confinada a uma cama durante quase seis meses. numa grande piscina. O mesmo aconteceu à atracção chamada Isqueiro. estamos demasiado velhos. Não ouve o som de retirada dos ténis de sola de borracha a correrem pelo viaduto de Lester Street e a fugirem pela noite dentro. Eddie retorquiu: — Uma criança não sabe o que é ser velho. numa explosão de vidros partidos. Mas. ambos incapazes de conversar ao pequeno-almoço. Eddie até mencionou o tema da adopção. Berrava com os trabalhadores. porque tudo lhes pesava. as montanhas-russas. e. a sua ferida sarou lentamente e o seu companheirismo preencheu o espaço que estavam a guardar um para o outro. que agora os miúdos consideravam piroso. por vezes. Eddie afundou-se em trabalho. A sombra ocupava o seu lugar à mesa e comia na presença deles. O corpo dela é atirado como se fosse o de uma 137 boneca. uma noite. Quando falavam. As suas visitas à pista com Noel acabaram gradualmente. Eddie não percebia porque é que as pessoas gostavam tanto de se molhar.pensar em que parte das bancadas o há-de procurar. de repente. no fim. embora nunca tivessem chegado a receber uma criança em sua casa. Fosse como fosse. Com o passar do tempo. andava entretido. mas os custos e a demora impediram-nos de avançar com o processo de adopção. Bullock. 139 O palco da orquestra foi deitado abaixo. Eddie nunca mais voltou a apostar nas corridas de cavalos. Uns anos depois. construíram uma atracção nova. pode alimentar-nos vindo do céu. à semelhança da chuva. apesar disso. por entre o solitário tilintar de garfos e pratos. perfura o fígado. A água do seu amor estava escondida por baixo das raízes. A subsequente culpa implícita nunca encontrou refúgio — moviase simplesmente como uma sombra entre marido e mulher. O Sr. impossíveis de conseguir em madeira — e. ensopando os casais com a sua alegria molhada. parte um braço e bate com a cabeça com tanta força. no instante em que a garrafa de whiskey Old Harper se estilhaça contra o seu pára-brisas. Mas. que praticamente haviam caído no esquecimento. inspeccionando o mais pequeno gesto que eles faziam. O seu fígado lesado acabou por recuperar. Não ouve a chiadeira de pneus dos outros automóveis. De manhã. zelou pela sua manutenção. o proprietário do parque. marido e mulher recomeçaram a falar e. encomendara um modelo de aço para Ruby Pier e Eddie supervisionou a sua construção. voltaram a estar na moda. uns barcos feitos de troncos. Um parque de diversões da Califórnia apresentou os primeiros trilhos tubulares feitos de aço — contorcidos em ângulos profundos. através das raízes. E ao Túnel do Amor. ela é arremessada contra a porta. Marguerite remeteu-se ao silêncio durante muito tempo. tornou-se extremamente popular. quando o mar ficava a apenas trezentos metros dali. Passaram-se anos. O acidente em Lester Street fez com que Marguerite fosse parar ao hospital. Os clientes flutuavam ao longo de canais de água e despenhavam-se. sob o calor enraivecido da vida. trabalhando descalço na água. para espanto de Eddie. Ângulos de sessenta graus? De certeza que alguém ia acabar por se magoar. A criança que esperavam foi entregue à guarda de outro casal. 138 O amor. ela fazia-lhe café e torradas e ele deixava-a na casa onde ela fazia . falavam de coisas triviais. Não ouve as buzinadelas frenéticas. E. para se certificar de que os barcos nunca se soltavam dos trilhos. contra o tabliê e o volante.

e regressava ao parque. Esticaram-se para trás. pela marginal. Queria cozinhar. acompanhando-o nas suas rondas. qual dos médicos estaria de serviço. disseram os médicos. Três anos depois. porque. Ele levou-a para o hospital.» Quando ela fazia perguntas. Dois dias depois. Ela tinha o braço a latejar. embora naquela época Marguerite já andasse na casa dos quarenta e tivesse as coxas mais grossas e uma teia de pequenas rugas à volta dos olhos. Por vezes. nessa noite. à tarde. Ela percebeu que era o protocolo. ela saía mais cedo e fazia o caminho a pé com ele. A sua respiração acelerou. quando Marguerite terminou um segundo copo de vinho. por um instante. nenhum homem olharia para qualquer outra mulher. quando ele chegou a casa. ela estava a passar filetes de frango por pão ralado e ovo. E. O pedaço de frango escorregou-lhe da mão e caiu para a pia. mas. E . sem qualquer aviso. Subitamente. Comeram puré de batata pré-preparado e bolachas de manteiga e caramelo e. Não fechavam. eles acenavam com a cabeça. Nos derradeiros dias. A seguir. Marguerite fez um comentário sobre os biquinis que as raparigas usavam agora e como nunca teria coragem de vestir uma coisa daquelas. Ficou parada. quando o cancro foi anunciado vencedor. — Eddie? — chamou. ela pediu para lhe darem alta do hospital. enquanto Eddie lhe explicava tudo sobre rotores e cabos e ouvia o zumbido dos motores. mas ele obrigou-a a sentar-se e ferveu água para preparar um 141 chá. no silêncio da madrugada. os dedos da sua mão direita abriram-se incontrolavelmente. quando um deles sugeriu «pôr as suas coisas em ordem». alguém a segurar num grande frasco invisível. Numa noite de Julho. leve a sua vida com calma. Falaram em frases curtas. deram por si a passear à beira-mar. andou atarefado como uma abelha a gerir um jantar para vários amigos e colegas convidados. como se os seus acenos fossem medicamentos ministrados em gotas. Era. Olharam em volta e perceberam que eram as pessoas mais velhas da praia. já ela estava desmaiada no chão. na cozinha de sua casa. agradeceu a Eddie do fundo do coração e observou o seu nariz adunco 140 e os maxilares largos. um tumor cerebral e o declínio de Marguerite seria como o de tantas outras pessoas. a quem deveria Eddie telefonar. Comprara costeletas de borrego na véspera e. os pés descalços a afundarem-se na areia. a maior parte dos quais cumprimentou a pálida Marguerite com frases do género: «Vejam só quem cá está!». Fez mais afirmações do que perguntas. se ela o fizesse. muito tempo depois da morte da mãe de Eddie. Eddie pegou na garrafa e serviu-lhe uma terceira dose. com tratamentos mais dolorosos que a doença. Eddie ajudou-a a subir as escadas e pendurou o casaco dela no cabide. começou a ver tudo a andar à roda. porque Marguerite dizia que lhe lembrava o tempo em que eram miúdos e gostava de ver o velho carrossel pela janela. a olhar para aquela mão de dedos presos que parecia pertencer a outra pessoa qualquer. manhãs ligada a máquinas ruidosas de radiações e tardes passadas a vomitar numa casa de banho de hospital. os médicos disseram apenas: «Descanse. cheios de compaixão.limpezas. a mesma casa onde moravam há tantos anos. a verificar os cavalos do carrossel e as conchas pintadas de amarelo. como se aquele jantar fosse uma festa para celebrar um regresso a casa e não uma despedida. a maneira de eles serem simpáticos enquanto impotentes e. Eddie disse que as raparigas tinham sorte. ela acordou aos gritos. As águas do seu amor tornaram a chover do céu e encharcaram-nos com a mesma certeza com que o mar lhes lambia os pés. o cabelo a cair às mãos-cheias. a comer chupa-chupas de uvas. enquanto Marguerite dava uma volta pela casa.

no pestanejar dos seus olhos. as corridas «no escuro».. Eddie sentia-a em tudo. a velha melodia suave da galeria de jogos fora substituída por um ruidoso rock’n’roll. Eddie falou sobre as mudanças que haviam ocorrido em Ruby Pier — as antigas atracções tinham sido desmanteladas. ela perguntou-lhe se ele tinha mantido a antiga casa e ele disse que sim. e ela disse que isso a deixava contente. com carrinhos vermelhos pendurados como decorações de uma árvore de Natal. Marguerite lembrou as muitas noites que ele passara furioso com o pai. estupefacto com o seu silêncio. o clanque da maçaneta da porta. ele falou sobre o que lhe acontecera ali no Céu e ela pareceu ouvir e. porque é que algumas pessoas morrem e outras vivem. Numa cerimónia ao ar livre numa aldeia libanesa. 142 — Vê-se daqui — disse ela. Eddie disse-lhe que tinha feito as pazes com o pai e ela arqueou as sobrancelhas e abriu a boca num sorriso. era como ver . sim — apressou-se ele a responder. numa voz rouca.. noites e dias e mais noites. Ouvia todos os sons. Ele contou a história do Homem Azul. como é que ele havia de saber ao certo? Em relação a Marguerite. estava tudo demasiado sossegado e silencioso. de um ataque cardíaco. ao mesmo tempo. sem pôr do Sol nem marés vivas. Transpuseram as portas dos vários casamentos e falaram de tudo o que desejavam falar. — repetiu ele. Quando mencionou o pai. sem dormir nem acordar. inexpressivo. Todos os gestos que ele fazia eram uma maneira de se agarrar a ela. Fez sinal a Eddie e apontou para o cimo distante de uma atracção do parque de diversões. as montanhas-russas tinham agora voltas em parafuso e carrinhos que ficavam pendurados de cabeça para baixo nos trilhos. Subitamente. estavam agora cheias de ecrãs de vídeo. Como ainda não dormira no Céu. Marguerite tinha quarenta e sete anos. — Do seguro — disse ela. o tilintar das chaves. Os cabelos voavam-lhe para o rosto. o simples acto de fazer a sua mulher feliz. no volante. a sua voz parecia ainda mais ténue quando voltou a falar.embora ela estivesse sentada ao lado dele. Ela desviou os olhos. como se aquela inspiração lhe tivesse sido penosa. que antigamente tinham recortes de 143 cowboys pintados com tinta reluzente. Mas. e Eddie sentiu aquela antiga sensação de calor que lhe faltara durante tantos anos. Ela inspirou fundo e fechou os olhos. como uma criança enregelada. Eddie tinha a sensação de que não passara mais do que um punhado de horas com qualquer uma das pessoas que encontrara. e falou sobre o Capitão e a sua história de sacrifício. — Eu tenho o cartão. Uma noite. pensando melhor. sem refeições nem horários. Numa cerimónia russa. Pararam no parque de estacionamento e Eddie desligou o motor. a corrente de ar lá fora. — A roda-gigante? — perguntou ele. Abriu a porta dela e ajudou-a a sair do automóvel. já saber. no pedal do acelerador. — O cartão. — A nossa casa. Numa cerimónia sueca. Ela tinha os ombros puxados para o queixo. — Ah. Ela fungou e levantou os olhos para o horizonte. os seus pés no chão. Eddie contou-lhe que o seu irmão Joe morrera há dez anos. — Tens o cartão? — perguntou ela. tudo o que Eddie queria era tempo — mais e mais tempo — e foi-lho concedido. o ranger do seu corpo no banco de cabedal. no seu pigarrear. apenas um mês depois de ter comprado um novo apartamento na Florida.

melancólica — a descrição do Verão de outra pessoa qualquer. — Não. às vezes sonhavam com o Céu e esses sonhos ajudavam a formálo. — Durante a guerra. — É estranho. Ele viu uma expressão de tristeza passar pelo rosto dela. perguntou-lhe se Deus sabia que ele ali estava. Eddie percebeu que era precisamente isso que sentia há anos. Ela sorriu e disse: — Claro que sabe — mesmo quando Eddie admitiu que passara uma parte da sua vida a esconderse de Deus e o resto do tempo convencido de que Lhe passava despercebido. Já não havia as montanhas-russas Ursa Maior ou as Tartarugas. — Como é que pode ter havido uma razão? Morreste. não tiveste? Eddie ficou calado. Por vezes. — Não — retorquiu a sua mulher. Senti-me sempre um inútil. mas não o seu. fiquei. os dois deitavam-se juntos. mas dando a sensação de se afastar. Ele nunca lhe contara. — Houve uma razão — disse ela. — Está bem. Lembrou-se do sangue nas suas mãos. Na Terra. Ele agachou-se lentamente. Se estiver certo. — Eu devia ter ido trabalhar para outro lugar — confessou ele. Virou-se para o espelho e Eddie reparou no reflexo. — Sim — sussurrou ele e ela não acrescentou mais nada. Voltaram ao pequeno quarto redondo. A dada altura. Ficara sempre implícito. no tempo de Eddie. quando regressavam a casa. — Tu partiste demasiado cedo — disse ele. — Perdi-me — disse ele. passando os dedos pelos cabelos. — Ficaste zangado comigo. disse Marguerite. — Parece — respondeu ela. ali no Céu. Mas não dormiam. — É aqui que a noiva espera — disse ela. Tinhas quarenta e sete anos. Quem amará. — Tiveste de viver sem amor durante muitos anos. Marguerite conduziu Eddie por outra porta. que eu te abandonei demasiado cedo. Ela lançou-lhe um olhar repreensivo. 144 A quarta lição Por fim. faziam o que tinham a fazer e não falavam no assunto. O vestido cor de alfazema de Marguerite estava estendido diante dele. A minha perna. — É este o momento em que pensa no que está a fazer. — O que é que aconteceu? — perguntou ela. Eddie abraçava-a e cheirava os cabelos dela e inspirava fundo com a cabeça enterrada no pescoço de Marguerite. Top Gun e Vórtice.televisão o tempo todo. absorvendo a sua imagem. Dela. Em vez de dormir. Lembrou-se dos guardas. este pode ser um momento maravilhoso. depois de longas conversas. Eddie. quando as pessoas adormeciam. agora. — Desculpa-me por nunca termos saído daqui. não é? — perguntou Eddie. Eras a melhor 145 . Quem escolhe. Os soldados. depois da guerra. Mas. — Que razão? — replicou ele. — Sentiste que te foi roubado. O meu pai. Explicou-lhe os nomes novos. não havia razão para esses sonhos. Ela virou-se para ele. Agora chamavam-se todas Tempestade. Contorcionista. Lembrou-se dos homens que matara. Perguntou-se se algum dia seria perdoado. Ela sentou-se num banco e uniu as mãos.

Ela baixou os braços. — Posso perguntar-te uma coisa? — perguntou.. ignorando a perna. — Eu sei. Tratava-se de um quarto imerso na penumbra. A vida tem um fim — rematou Marguerite. E. pela primeira vez no Céu. que até aqui o sentimos. não passavam de expressões da solidão. Ele reflectiu por uns instantes. — Importas-te? Ela deteve-se um instante. eu não estava lá muito bonita. não perdeste. baixinho. — Só faltam — sussurrou Marguerite. Apenas assume uma forma diferente. Eu estava aqui. — Podes. pousando a mão no ombro dele — os cartões do bingo. Estendeu os braços. — Estava a guardar este para último lugar — disse ela. Fizeste-me amar-te E sempre soubeste . — Mas o amor não. Alimenta-nos. à música e aos casamentos. no fundo. Eddie. 146 — Como é que estás com a mesma aparência do dia em que casei contigo? — Achei que ias gostar. Dançamos com ela. Eddie abanou a cabeça. num ritmo recordado que um marido partilha somente com a sua mulher. Estava ciente de outro tipo de vida lá fora. — Podes alterá-la? — Alterá-la? — Ela pareceu divertida. ou levar-lhe comida. depois voltou para os braços dele. Mas quando esses sentidos enfraquecem. Era como espreitar por cima de uma cerca. aproximou-se dela. Fizeste-me amar-te Eu não queria fazê-lo Eu não queria fazê-lo. A memória. com cadeiras de armar e um acordeonista sentado a um canto. — Eu nunca quis outra pessoa — disse ele. O amor perdido não deixa de ser amor. ele deu o primeiro passo.. como que a dizer que não era verdade. — E queres que a transforme em quê? — No aspecto que tinhas no fim. E continuaste a amar-me. ignorando todas as coisas terríveis que associava à dança. Eu perdi tudo. Eddie lembrou-se dos anos depois de ter enterrado a sua mulher. sorrindo. — Eu sei — disse ela. — Sentia-o. Ele sorriu e enlaçou-a pela cintura. Não conseguimos ver o sorriso da pessoa amada. — Um amor perdido pode ter tanta força. Ela pegou nas mãos dele. Ela levantou-se e abriu uma porta. ou rodopiar com ela numa pista de dança. O homem do acordeão tocou as notas conhecidas. Perdi a única mulher que amei na vida. A memória torna-se nossa companheira.pessoa que qualquer um de nós conhecia e morreste e perdeste tudo. há outro que se sublima. apesar de saber que nunca faria parte dele. — Inclusivamente aqui — respondeu ela. — No fim. — Não. — Ela fez um sinal de assentimento. lentamente. — Aqui? — perguntou ele. — Continuava apaixonado por ti. ou mexer-lhe nos cabelos. apercebendo-se agora de que. e Eddie pestanejou ao transpô-la atrás dela. Ela entoou a melodia ao ouvido de Eddie e começaram a mover-se juntos. Agarramo-nos a ela.

. um velho baralho de cartas. assim que abriu a porta e entrou na cozinha. uma dentro da outra. Quando ele afastou a cabeça. Quero ficar aqui. o quê?. Pode ver naquela coisa do quarto? — Na cómoda? — Sim. O advogado abriu a gaveta de cima da cómoda. Via-se o antigo carrossel. Nada de extractos bancários. 147 SEXTA-FEIRA. O átrio ainda tinha os antigos mosaicos em xadrez preto e branco dos anos sessenta e cheirava a comida — alho e batatas fritas. — Deve ser. Nada de importante. — Não sei. Nada de apólices de seguros. ela estava mais bonita do que nunca. Só conhecia o Eddie do trabalho. Uma portinhola interior alinhada com uma portinhola exterior. Ela sorriu e ele sorriu e. o cabelo mais fino. não deve demorar muito. — Uau! — exclamou Dominguez. Franziu a testa. — Está muito arrumado. Apercebeu-se das saudades que tinha do velhote. Ainda nem sequer tinham esvaziado o seu 148 cacifo. É que eu próprio só cá vim uma vez. assentiu discretamente com a cabeça. viu o átrio desaparecer. limpando a testa com um lenço. e eles viraram-se para o apartamento 6B. As bancas limpas. para um velhote. 3 HORAS E QUINZE MINUTOS DA TARDE Dominguez carregou no botão do elevador e a porta fechou-se com estrondo. Meu Deus. Quando abriu os olhos. como se ele voltasse no dia seguinte. Empurrou os pares de meias para o lado. Até à próxima quarta-feira. A cabina subiu e.E sempre soubeste. — Nem acredito que este elevador ainda funciona — comentou Dominguez. Por falar em trabalho. Apenas um laço preto. a observar tudo e todos como uma mãe-galinha. uma coisa com ar sério. do século passado. a sua casa nunca estava assim tão arrumada. — Hum — fez o homem. Mais um e podia ir para casa jantar. O elevador parou com um salto e a porta abriu-se. aos olhos dele. Era o seu terceiro compromisso do dia. Ninguém tivera coragem. Consultou o relógio. a pele mais flácida por baixo do queixo. todas cuidadosamente dobradas.. fingindo-se interessado. O homem ao seu lado. mas ela desaparecera. — Papelada financeira? — pediu o homem. os seus braços ainda estavam moldados ao corpo dela. Dominguez debruçou-se sobre a mesa e espreitou pela janela da cozinha. na esperança de encontrar logo a papelada. o quão estranho era não o ter no parque. e Eddie fechou os olhos e disse pela primeira vez o que sentia desde que voltara a vê-la: — Não quero avançar. Enfiado debaixo delas estava uma velha caixa de cabedal. O zelador do prédio dera-lhes a chave e um prazo. Tirou o chapéu — estava abafado e ele suava — e observou os números que se iluminavam no painel de latão. . um advogado do ramo imobiliário. pensou para consigo. — Nesse caso. novamente com estrondo. através do vidro martelado. — O Eddie tinha poucas coisas — disse Dominguez. ela tinha novamente quarenta e sete anos. com a teia de finas rugas aos cantos dos olhos.... a gritar ordens. onde estavam. uma ementa de um restaurante chinês. Queria a casa vazia para um novo inquilino. — O lava-louças estava lavado. — Extractos bancários? Jóias? Dominguez imaginou Eddie a usar jóias e quase desatou a rir. Abriu-a. empilhadas pelos elásticos. juntamente com tudo o resto. Deixaram os pertences dele na oficina.

Inspirou fundo e ouviu uma inspiração ainda mais forte. Tudo o que ouvia era a sua própria respiração ofegante. só havia branco. 149 A quinta pessoa que Eddie encontra no Céu Branco. Podia ter sido um século. melhor do que acabar como aquele pobre coitado. tão silencioso como um forte nevão ao raiar do dia mais sereno do mundo. Ouviu novamente o som. Cerrou os maxilares. Podia ali ter ficado um dia ou um mês. já encontrara quatro pessoas e. Agora. de lhe acenar ou sequer de contemplar o seu retrato. até que Eddie gritou para a brancura asfixiante: — O que foi? O que é que queres? Assim que proferiu estas palavras. títulos e plano-poupança reforma. embora cada uma tivesse sido intrigante no início. com o instinto de defesa de uma vida inteira. um ondular estridente de guinchos e quietude irregulares. levantou pesadamente as pálpebras. como se suspenso num cabide. Aos pés de Eddie. rodeado de crianças. como se assim pudesse acabar com o barulho. A sua mulher fora-se embora. no final. juntou-se uma segunda camada de barulho. sem levantar os olhos. Os seus braços encontravam-se salpicados de manchas de velhice. mais cinco segundos. Apenas um branco imaculado e silencioso. alguns de um banco da zona. Eddie ouvira esse som nos seus pesadelos e estremeceu ao evocar a recordação: a aldeia. de a chamar. sem dúvida. saíra da sua própria garganta quando tentara falar. nem céu. e Eddie. Só à chegada de um pequeno mas insistente ruído é que ele se mexeu. só mais um minuto. mas não havia maneira de a alcançar. O advogado folheou-os e. e Eddie sabia. Era. é disto que precisa? Apareceu com um maço de envelopes tirados de uma gaveta da cozinha. nem horizonte entre os dois. o incêndio. As suas pernas nuas mostravam os sinais vermelhos da zona que o atacara nas suas derradeiras semanas na Terra. — Retirou um extracto bancário e tomou mentalmente nota do saldo. como tantas vezes acontecia nesse tipo de visitas. 150 O ruído voltou a fazer-se ouvir. — Ei — chamou Dominguez. meio minuto. disse: — Isto chega. Nem terra. inerte e sem vida. a ele. Eddie fechou os olhos com força. o seu corpo estava próximo do fim. pressentiu que agora se tratava de algo completamente diferente.um envelope com uma medalha do exército e uma Polaroid esbatida de um homem junto de um bolo de aniversário. como um alarme imparável. ao fundo. Ele queria-a desesperadamente. da cozinha —. Expirou e ouviu outra expiração. mas descobriu que a sua mão direita estava a segurar numa bengala. Depois. com pouco mais para apresentar além de uma cozinha arrumada. mas continuou. Branco era tudo o que Eddie via. outros da Administração de Veteranos. congratulou-se silenciosamente pela sua própria carteira de acções. aquela cacofonia chiante que. . no vazio. Quando vivo. como se todos os fluidos tivessem sido arrancados de dentro de si. o som estridente deslocou-se para o fundo e. A sua alma estava vazia. As unhas eram pequenas e amareladas. Não tinha impulsos. Em termos terrenos. seguida pelo eco dessa mesma respiração. Sentiu-se como se tivesse caído por umas escadas abaixo e estivesse amachucado. um troar livre e incessante — o som de um rio a correr — e a brancura reduziu-se a um ponto de luz. Ficou pendurado. Desviou o olhar da sua decadência crescente. cerrou os punhos. mais alto agora. que reflectia as ondas cintilantes. Já estivera em quatro recantos do Céu. Smitty e aquele barulho. O silêncio é pior quando sabemos que não vai ser quebrado.

ao fundo da colina. Coloca os óculos e examina os relatórios da manutenção. Comprava sempre um saquinho de doces e atava-o com uma fita. aquele assobiar. Nos anos que se seguiram ao acidente da mulher. Ele hesitou. «Não podes abdicar do teu dia de anos». Era com isto que eu sonhava?. em cima da rocha. Vai para a cama cedo. O som. vê televisão em casa. e ali estava ele. Prende-o a um anzol e deita a linha pelo buraco de pesca. Agora que ela partiu. a mergulhar no rio e a gritar de riso inocente. 151 Não havia adultos. Nada de convidados. agarrado ao taco de basebol. No emprego. Espalha os comprimidos em cima da banca. A sua bengala tocou em qualquer coisa sólida.apareceu o solo. e a palidez da rendição torna-se a cor dos dias de Eddie. alguns a saltar. milhares de crianças a brincar. outros a nadar. dizendo: «Por que é que me têm de lembrar esse dia?» Era Marguerite quem insistia. Suspira e retira um placard da . Joe fala sobre o neto. crianças pequenas. como quem diz: Sim. Reparou também noutra coisa. a ligar da Florida. o irmão. 152 Hoje é o aniversário de Eddie Faz cinquenta e um anos. Mas. é uma quarta-feira. Nada de bolo. Estava no cimo de uma das margens. Olhou para baixo e viu. Faz sessenta e oito anos. A noite. Reparou que havia uma certa tranquilidade naquela cena. que não há nenhum intruso dentro de casa. a fonte daqueles gritos assombradores e foi inundado pelo alívio de um homem que descobre. Um sábado. era apenas a cacofonia de vozes infantis. O telefone toca. no rio. Nunca é difícil agir como uma pessoa vulgar. com a pele da cor de madeira escura. destituída das brigas habituais entre crianças. Ela voltou a acenar e fez que sim com a cabeça. desaparece. antes de tocar o solo. tu. o seu joelho ferido a ceder sob o seu peso. parado diante da menina como se ali tivesse estado o tempo todo. as pernas a fraquejarem. aparentemente a supervisionarem-se umas às outras. Convidava amigos. um sábado. Faz sessenta anos. muito direitinho. É Joe. enquanto descia a encosta. Ela sorriu. Vê-o flutuar. Eddie tenta esquecer a data. Abre o saco de papel pardo que contém o almoço e arranca um pedaço de salsicha de uma sanduíche. prende-se com uma corda a uma curva da montanha-russa. Prepara um café instantâneo num copo de papel e come dois pedaços de tosta com margarina. todas elas. a acenar-lhe. quando nos sentimos uma pessoa vulgar. como um alpinista. virada para ele. uma segunda-feira. Repara que alguém falhou um turno na noite anterior e que os travões da Aventura da Minhoca Contorcionista não foram testados. sozinho lá no alto. Por fim. alguns com baldes nas mãos. Eddie baixou a bengala para se apoiar. outros a rebolarem na erva alta. Eddie diz «ah sim?» pelo menos cinquenta vezes. Fez-lhe sinal com as duas mãozinhas. Joe deseja-lhe feliz aniversário. retorquia ela. onde soprava uma brisa no seu rosto e uma neblina humedeceu a sua pele. Escorregou. Chega bem cedo à oficina. É o seu primeiro aniversário sem Marguerite. Uma menina esguia estava em pé. Estas eram. pensou. Fazia um bolo. aquele rangido tamborilante. destacada das outras crianças. aquela gritaria. Nem sequer adolescentes. Joe fala sobre o condomínio de apartamentos. Durante todo aquele tempo? Porquê? Observou aqueles seres pequeninos. Eddie rejeitava toda e qualquer festa de aniversário. sentiu um súbito sopro de vento nas costas e foi empurrado para a frente e colocado de pé. Faz setenta e cinco anos. E foi então que os olhos de Eddie pousaram num rochedo branco. engolido pelo mar.

puxando a bengala para dentro do automóvel. — Não. mas. os seus sapatos tipo socas — "bakya" —. — Baro — disse ela. dos braços. Ela sorriu como se tivesse começado um jogo. uma terça-feira. Apontou para a sua blusa bordada. até Eddie dar mais um passo em frente. talvez com uns cinco ou seis anos. — Mães — respondeu ela. ao longo das costas. na voz desta. Ela sorriu e bateu as palmas. lábios carnudos que se abriam alegremente sobre os seus dentes afastados e uns olhos extraordinariamente cativantes. Eddie observou um miúdo a esfregar uma pedra no corpo de outro. — Tala — repetiu Eddie. O motorista encolhe os ombros. Fez sinal a Eddie para ele se sentar no tapete e ela fez o mesmo. não detectava a hesitação habitual em relação aos adultos. — Saya. Apoia-se na bengala e olha para a pedra tumular e pensa em tantas coisas. depois um tapete de bambu entrelaçado — "banig" — que se encontrava diante dela. — Inas? — repetiu Eddie. cabelos da cor de uma ameixa escura. Continuaram a mergulhar. assim. — A maior parte das pessoas prefere ir no banco de trás — diz o motorista. excitada. Perguntou-se se ela e os outros miúdos teriam escolhido aquele Céu ribeirinho. pretos como a pele de uma foca. Eddie olha em frente. folgada nos ombros e molhada com a água do rio. se isso significasse comê-los na companhia dela. uma bonita tez de canela. 154 A última lição A menina parecia asiática. — Saya. Um táxi pára à entrada do parque de diversões. depois leva-o para a entrada da Minhoca. — Importa-se? — pergunta Eddie. — Tala — disse ela. há dois anos. com as pernas cruzadas por baixo das nádegas. um narizito chato.153 parede — ATRACÇÃO TEMPORARIAMENTE ENCERRADA PARA MANUTENÇÃO —. Caramelos. Senta-se no banco da frente. Visita a sepultura da mãe e a sepultura do irmão e detém-se junto da sepultura do pai durante uns instantes apenas. Ela tocou no tecido encarnado que lhe envolvia o tronco e as pernas. — Baro. Eddie ouvira muitas crianças na sua vida. O táxi leva-o ao cemitério. Faz oitenta e dois anos. não me importo. Pensa em caramelos. com um pontinho branco a servir de pupila. guarda a da mulher para último lugar. é como se fosse ele a conduzir e não conduz desde que lhe retiraram a carta de condução. Depois. onde verifica ele próprio os painéis dos travões. a nadar e a apanhar seixos do leito do rio. — Como as nossas inas costumavam fazer. mas podia comê-los na mesma. Não explica que. a seguir as conchas do mar iridiscentes aos seus pés — "capiz" —. Como habitualmente. altura que aproveitou para se apresentar. 155 Nenhuma das outras crianças pareceu reparar nele. Pensa que lhe arrancariam os dentes. agora. anunciando o seu nome. — Estão a lavar-se — disse a menina. . com as mãos sobre o peito.

era real. mas isso fez com que ele se fosse abaixo. esta criança. frenética. Ela retribuiu o sorriso. Explosões. de facto. um uivo saído das suas entranhas.. As suas mãos tremiam-lhe. — Soldado. cão. Os seus ombros e pulmões cederam. Passaram-lhe imagens pela cabeça. — Não é seguro. queimara-a até à morte. um grande barulho. — Porque é que estás aqui no Céu? Ela baixou o cão de borracha. A seguir. Morton... — Tala — disse ela. Arames para limpar cachimbos. — sussurrou ele. — A minha ina diz para esperar dentro da nipa. as palavras expelidas numa maré ofegante de confissões: 157 . A voz dela era inexpressiva. Ela pegou no cão e sorriu — um sorriso que Eddie vira milhares de vezes. a sombra. depois mergulhou-o na água. Grande incêndio. Depois. Ela pôs-se de joelhos para observar o procedimento. de carne e osso. A ina disse que lá era seguro.. O seu corpo entrou em convulsões e a sua cabeça abanou. Esperar por ela. a esconder-te. Fazes-me fogo. um uivo ergueu-se dentro dele numa voz que nunca ouvira antes. como se fosse um medicamento de que a criança necessitasse. — A nipa. — Estás a ver? É um. dadas as suas memórias tão curtas.. — Isto? — perguntou ele. como a de uma criança a recitar uma lição de cor.. — Eddie terminou a última volta. Soldados. — Queimas-me — respondeu ela. merecia cada um deles. até o uivo ceder lugar a uma espécie de oração.. pronunciando as palavras lentamente. chorou e gemeu. A menina apontou para o bolso da camisa de Eddie. aquela paisagem serena fora escolhida para elas. como costumava fazer nos seus tempos... Ele baixou os olhos. Eddie sentiu o maxilar contrair-se. — De que estavas. no parque. O Capitão. Eddie sentiu um martelo a bater-lhe por detrás dos olhos. Os lança-chamas. qualquer coisa! A sombra nas chamas! Matara-a com as suas próprias mãos! Com as suas mãos incendiárias! Uma torrente de lágrimas escorreu-lhe por entre os dedos e a sua alma entrou em queda livre. Vira. Tirou-os do bolso e retorceu-os um no outro. Eddie engoliu em seco. Eddie sentiu a palavra como uma faca na boca. os pesadelos que sofrera. Olhou para os olhos negros e profundos dela e tentou sorrir. um uivo que revolveu a água do rio e abalou o ar enevoado do Céu. Seguro. A minha ina diz para esconder. sorrindo perante o seu próprio nome.. Tala? Ela palpou o cão de borracha. Queimas-me. — Tala.. Fazes-me fogo. Eddie baixou a voz.. esta linda criança. de um lado para o outro. Smitty. — Queimas-me. — O que é que disseste? — Queimas-me. — Ela encolheu os ombros estreitos. — . — Estavas nas Filipinas. As mãos dele tremiam. A escuridão que o assombrara durante aqueles anos todos estava finalmente a revelar-se.. A sua respiração acelerou.ou se. A sua cabeça começou a latejar. naquela cabana. — Gostas? — perguntou ele. ele matara-a. O seu rosto desfigurou-se e ele enterrou-o nas mãos. 156 — Sundalong? Ela levantou os olhos.. — Sundalong — disse ela.

o seu rosto belíssimo e inocente estava coberto de cicatrizes grotescas. A pele dela estava horrivelmente queimada. balouçou o corpo silenciosamente para trás e para a frente. Eddie sentiu baterem-lhe ao de leve no ombro. Não fui nada. retirou o baro bordado pela cabeça. Eddie soluçou. OH. Disse o que sempre dissera a Marguerite. A tua quinta pessoa. — murmurou num fiozinho de voz.. Depois. elas soltaram-se da pele. Chorou e chorou. — Estava triste. ah sim?. entre as crostas manchadas.. — Aqui? Ela apontou para baixo. — Sou cinco — segredou ela.. Tala observou-a da mesma maneira que uma criança observa um insecto na relva. de olhos fechados como se estivesse a dormir uma sesta. Baixara todas as suas defesas. Entrou na água e virou as costas para Eddie. — Lava-me — disse ela. como que a explicar os teus cinco. Perdi-me. — Não sei como. quando a sua angústia abrandou. já não havia lugar para uma conversa adulto-criança. empurrou-os contra o peito de Eddie. porque não aproveitei a minha vida.. Redobrou os seus esforços até a pele carbonizada cair e ver-se a pele saudável. Ele retraiu-se. Pegou na pedra. — Cinco. virou a pedra ao contrário e esfregou as costas ossudas. apoiando a cabeça no peito dele. O seu torso e os ombros estreitos estavam pretos. diante da menina de cabelos escuros.. — Devias estar vivo. carbonizados. com bolhas. Quando ela se voltou. de braço estendido e um seixo na mão. os pequeninos ombros.. A dada altura. Tala tirou o cão feito de arames de dentro da água. Ele passou o seixo com cuidado à volta das pálpebras. Fez o mesmo com os lábios 158 descaídos e com as crostas da cabeça. ao Homem Azul e. Apenas um olho aberto. que brincava com o seu animal feito de arames na margem de um rio. Uma lágrima rolou pela face de Eddie. acima de tudo. a testa e a pele por trás das orelhas.. Depois. lá — disse ela. passou o seixo pelo braço dela. — Nunca tive filhos. Sentia que não devia estar vivo. os pontinhos brancos cintilaram como faróis. um último soluço vago.. Depois. até as cicatrizes começarem a desfazer-se. Tens cinco anos?. por fim: — O que foi que eu fiz. O QUE FOI QUE EU FIZ?. até os cabelos cor de ameixa despontarem das raízes e o rosto que ele vira inicialmente voltar a aparecer. Quando ela reabriu os olhos. Ela levantou a mão queimada. como se o seu peito estivesse vazio. a nuca e finalmente as faces.. Os seus dedos tremiam. Ela abanou a cabeça a dizer que não. falou por entre a distância que existia entre eles. Esticou cinco dedos. Depois. nos pontos onde o crânio não ficara queimado. num murmúrio: — Perdoa-me — e a seguir: — PERDOAME. Não conquistei nada. Ela encostou-se a ele. . a si próprio. O cabelo aos tufos. Os lábios caídos. — Porque é que estou triste? — sussurrou ele. Eddie baixou o braço e estremeceu em curtas inspirações ofegantes. Eddie arrastou-se para o rio. — e... Depois. até o choro perder força e se reduzir a um estremecimento. a Ruby. MEU DEUS.. Eddie pegou nela com ternura e. ao Capitão. Levantou os olhos e deparou-se com Tala. — Porquê triste? — perguntou ela. — Lá. Soprava uma brisa quente... estendendo-lhe o seixo. — Lava-me — disse ela novamente..— Matei-te. EU MATEI-TE — depois.. Esfregou com mais força. lentamente. Estava ajoelhado num tapete.

— Onde? Em Ruby Pier? Ela fez um sinal de assentimento com a cabeça. Eu trazer-te para o Céu. Deixou cair a cabeça. Agora não era nada. Não podia tê-la empurrado. a seguir. E dito isto. enchendo a marginal e as atracções do parque e as . todas as cicatrizes. — Crianças — disse ela. e com o corpo desapareceram toda a dor e cansaço que ele acumulara dentro de si. acima de uma cena quase inimaginável: Havia um parque cheio de milhares de pessoas. todas as feridas. durante aquele tempo todo. Eddie estremeceu. — Salvei-a? Consegui puxá-la? Tala abanou a cabeça. As suas mãos ainda estavam entrelaçadas nas de Tala. — Tala? — sussurrou. representavam as emoções da sua vida. Antes que ele pudesse voltar a inspirar. Puxar não. Empurrar. a carne arrancada dos ossos. crianças que ainda não tinham nascido. crianças do passado e do presente. — Empurrar? — Empurrar as pernas. — A reparar máquinas? Era essa a minha vida? — Ele respirou longamente. em negação. — As minhas mãos. e pressentiu que não lhe restava muito tempo. com a mão em forma de concha. dissolver-se. Ali estava o final da sua história. que o quer que surgisse depois das cinco pessoas que encontramos no Céu estava prestes a suceder. como se a resposta fosse óbvia. Fez que sim com a cabeça. por baixo da superfície. — As mãos dela não — disse Tala. de mãos dadas. — Mas eu senti as mãos dela — disse ele. Ele soube de imediato que já ali estivera antes. homens e mulheres. Eddie fechou os olhos. depois pousou os dedinhos molhados nas mãos adultas de Eddie. Ela conduziu-o por entre as ondas de um vasto mar cinzento e ele emergiu. As pedras da sua vida estavam agora todas à sua volta. uma folha na água. tirou água do rio. Pronto. — É a única coisa de que me lembro. pais. Eddie deixou-se cair na corrente de água. de calções. O carrinho caiu. e ela puxou-o suavemente por entre sombras e luzes. Eddie levantou os olhos. — Salvas as crianças. Senti as mãos dela. Tu salvas a menina. Ela levantou os olhos. lado a lado. todas as más recordações. — Empurrar — disse Tala. por entre tons de azul e marfim e limão e preto. — A menina do parque? Sabes o que lhe aconteceu? Tala olhou para as pontas dos dedos. Eu salvo-te. o peito e os ombros. Sentiu a sua forma derreter. Fazes-me bem. o barulho 160 das crianças desapareceu e ele foi submerso por uma forte mas silenciosa corrente. — Puxar não. o rio subiu rapidamente. mas sentiu o seu corpo ser levado da sua alma. engolindo a cintura de Eddie. Tala sorriu e. de barrete. 159 Ela sacudiu o cão contra a camisa dele. encostadas umas às outras. tocou na etiqueta da camisa dele com uma gargalhada e acrescentou duas palavras: — Eddie Ma-nu-ten-ção. — Devias estar vivo lá — repetiu ela e. e Eddie percebeu que todas aquelas cores. rodeado de luz brilhante. — Porquê? Ela inclinou a cabeça para o lado. mães e crianças — tantas crianças —.

161 Epílogo O parque de diversões de Ruby Pier reabriu três dias depois do acidente. à espera de braços abertos. mais vozes do que jamais imaginara. Marguerite. As estações sucederam-se. A atracção chamada Queda Livre foi encerrada durante o resto da temporada. incluindo fotografias da antiga entrada original. onde se vangloriava perante os amigos de que a sua bisavó era a mulher que dera o nome ao parque de diversões. mas suficientemente grande. que colocou vidro fosco na janela da cozinha. guardou os poucos pertences de Eddie numa arca na oficina. juntamente com recordações de Ruby Pier. flutuava acima da areia. em cinco recordações escolhidas. sentadas nos ombros umas das outras. e que o mundo está cheio de histórias. as voltas discretas que efectuara todos os dias. as máquinas que reparara. depois outras histórias sobre outras mortes ocuparam o seu lugar. ou viriam a estar ali. Já não segurava na mão de Tala. estava uma mulher de vestido amarelo — a sua mulher. Eddie ouvia as suas vozes. no colo umas das outras. em direcção ao pico da grande roda-gigante. A história da morte de Eddie saiu nos jornais durante uma semana. Os adolescentes viam-na como um símbolo de coragem e eram muitos os clientes que a procuravam. Estavam ali. Ele aproximou-se dela e viu-a sorrir e as vozes fundiram-se numa só palavra de Deus: Lar. e Dana Wyatt. as multidões voltaram ao parque de diversões à beira do vasto oceano cinzento — um número de pessoas não 163 tão grande como nos parques temáticos. Nicky. a casa onde crescera. E nessa fila encontra-se agora um velhote de bigodes. directora . foi alugada a um novo inquilino. Dominguez. tapando a vista do velho carrossel. E quando acabaram as aulas e os dias se tornaram mais longos. o jovem cuja chave cortara o cabo. E embora os seus lábios não se mexessem. 164 Agradecimentos O autor gostaria de agradecer a Vinnie Curci. Formavam-se filas em Ruby Pier — tal como se formava uma fila noutro lugar: cinco pessoas à espera. graças às pequenas coisas mundanas que Eddie fizera na sua vida. fez uma nova chave quando chegou a casa e vendeu o carro quatro meses depois. mas as histórias são todas uma só. à espera num lugar chamado a Concha da Banda do Estrelato.plataformas de madeira. que uma menina chamada Amy ou Annie crescesse e amasse e envelhecesse e morresse. com um barrete de linho e um nariz adunco. acima da marginal. A casa de Eddie. que aceitara ficar com o cargo de Eddie. mas no ano seguinte reabriu com um novo nome: o Precipício do Desafio. o espírito alegra-se e a costa cativa com a sua cantilena de ondas e as pessoas reúnem-se à volta dos carrosséis e das rodas-gigantes e das bebidas geladas e do algodão-doce. Voltou muitas vezes a Ruby Pier. para partilhar a sua parte do segredo do Céu: que cada pessoa afecta outra e essa outra afecta outra ainda. Os proprietários ficaram satisfeitos. das Diversões da América. onde num carrinho. Com a chegada do Verão. a balouçar suavemente. acima das tendas e das espirais da rua principal. os acidentes que evitara. e sentiu-se inundado por uma paz que nunca antes sentira. e finalmente obtivesse respostas para as suas perguntas: porque é que viveu e qual o objectivo da sua vida.

E a Kerri Alexander. que ouviu pacientemente e muitas vezes a leitura em voz alta deste livro. a Janine. Jane Comins. que sabe lidar. Ira. que simboliza o ideal da relação agente-autor. que me contou as suas histórias muito antes de eu contar a minha. Will Schwalbe. a Rhoda. Katie Long.de operações do Pacific Park. Um especial agradecimento também ao Dr. Os meus mais sinceros agradecimentos a Bob Miller. com quem partilhei a minha primeira roda-gigante. e ao meu tio. Cara e Peter. David Collon. no Cais de Santa Monica. pela informação sobre feridas de guerra. FIM . A sua ajuda na fase de pesquisa deste livro foi preciosa e o seu orgulho em proteger os clientes dos parques de diversões é digno de elogio. Ellen Archer. a David Black. e bem. Leslie Wells. do Henry Ford Hospital. por acreditarem em mim. com tudo. o verdadeiro Eddie. Michael Burkin e Phil Rose.

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