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Capítulo 95 do Shobogenzo, Hachi-Dainingaku

As Oito Verdades de um Grande Ser Humano

Hachi significa “oito”. Dainin significa “um grande ser humano”, isto é, um Buda. E kaku,
pronunciado aqui como gaku, significa “uma reflexão ou verdade intuída”. O Buda Gautama
pregou as oito verdades de um grande ser humano logo antes de morrer, e elas estão registradas
no Yuikyo-gyo (O Sutra dos Ensinamentos Transmitidos como Herança); foram seus últimos
ensinamentos. Mestre Dogen pregou este capítulo quando sentiu que sua morte estava próxima, e
em seu caso também foi seu último ensinamento. Este capítulo é portanto o último na edição de 95
capítulos do Shobogenzo.
[introdução de Gudo Wafu Nishijima e Chodo Cross, tradutores para o inglês do Shobogenzo)

Budas são grandes seres humanos. O Dharma que grandes seres humanos
manifestam é portanto chamado de “as oito verdades de um grande ser humano”.
Realizar este Dharma é a causa do nirvana.

Foi o último ensinamento de nosso Mestre Original, o Buda Shakyamuni, na noite


em que entrou no nirvana1.

1) Pouco desejar (jap. Shoyoku, sansc. Alpecchuh)

Disse o Buda, “Vocês monges devem saber que as pessoas de desejos


abundantes buscam abundantemente ganhos, e porisso seu sofrimento é também
abundante. Pessoas de pouco desejo, estando livres desse buscar e livres do
desejo, estão livres dessa aflição. Vocês devem praticar e aprender o pouco
desejar apenas por si mesmo. Mais ainda, pouco desejo pode dar origem a todas
as virtudes: pessoas de pouco desejo nunca bajulam nem se curvam a fim de
seduzir as mentes dos outros. Além disso não são arrastadas pelos órgãos dos
sentidos. Aqueles que praticam o pouco desejar têm a mente equilibrada; estão
livres de preocupações e medos; quando entram em contato com as coisas têm
largueza; e estão constantemente livres da insatisfação. Aqueles que têm pouco
desejo têm justamente o nirvana. Isto se chama de “pouco desejo”.

2) Conhecer a satisfação (jap. Chisoku, sansc. Samtustah)

Disse o Buda, “ Se vocês monges desejarem se libertar de todos os tipos de


sofrimento, deverão refletir sobre o conhecimento da satisfação. A prática de
conhecer a satisfação é a verdadeira moradia da abundância, da alegria e da paz.
Pessoas que conhecem a satisfação, mesmo quando deitadas no chão, ainda
assim estão confortáveis e cheias de alegria. Aqueles que não conhecem a
satisfação, mesmo que vivam em um palácio celestial, não se sentem bem
atendidos. Aqueles que não conhecem a satisfação, mesmo se ricos, são pobres.
Pessoas que conhecem a satisfação, mesmo se pobres, são ricas. Aqueles que
não conhecem a satisfação são constantemente arrastados pelos cinco desejos;
têm pena deles aqueles que conhecem a satisfação. Isto se chama “conhecer a
satisfação”.
1
Nirvana aqui significa pari-nirvana, isto é, completa extinção, morte.
3) Desfrutar a tranquilidade (jap. Jakujo, sansc. Shanta)

Disse o Buda, “ Se vocês monges quiserem preservar a paz e a alegria tranqüilas


e sem intenções, vocês devem se separar dos ruídos e viver sozinhos em
isolamento. Pessoas de lugares serenos são reverenciadas pelo deus Chakra e
todos os deuses. Por esta razão vocês devem abandonar seus próprios grupos e
outros grupos, viver sozinhos em um espaço vazio, e manter a concentração na
dissolução da raiz do sofrimento. Aqueles que têm muito prazer em grupos sofrem
muitos problemas – como um bando de aves que se reúne em uma grande árvore
e depois se preocupa se a árvore vai cair ou secar. Aqueles agrilhoados pelo
mundo e a ele apegados estão imersos em muitos tipos de sofrimentos – como
um elefante velho que se afoga na lama, incapaz de sair sozinho. Isto se chama
“tomar distância”.

4) Praticar o esforço correto (jap. Gon-shojin, sansc. virya2)

Disse o Buda, “ Se vocês monges praticarem o esforço correto, nada será difícil.
Por esta razão vocês devem praticar o esforço correto – como um fiapo de água
que continuamente flui é capaz de perfurar a rocha. Se a mente de um praticante
frequentemente se cansa e larga a prática, isso é como uma pessoa que esfrega
gravetos para produzir fogo e pára antes deles esquentarem: mesmo que essa
pessoa deseje obter fogo, o fogo assim não é passível de ser obtido. Isto se
chama “esforço correto”.

5) Não perder a atenção plena (jap. Fumonen, sansc. Smrti)

Disse o Buda, “ Para vocês monges que buscam bons conselheiros e buscam
seus bons auspícios, não há nada como não perder a atenção plena. Se pessoas
possuem a capacidade de não perder a atenção plena, os bandidos da aflição são
incapazes de invadi-la. Por esta razão, vocês devem continuamente regular os
pensamentos e mantê-los em seu devido lugar na mente. Aqueles que perdem a
atenção plena perdem todas as virtudes. Se seu poder de atenção plena for sólido
e forte, mesmo se você caminhar entre os bandidos dos cinco desejos você não
será ferido por eles – é como entrar em um campo de batalha vestido com sua
armadura e não tendo nada a temer. Isto se chama “não perder a atenção plena”.

6) Praticar o estado equilibrado de dhyâna (jap. Shu-zenjo, sansc. Dhyâna3)

Disse o Buda, “ Se vocês monges regularem a mente, ela então existirá no estado
de equilíbrio. Porque a mente existirá em estado de equilíbrio vocês serão
capazes de conhecer a forma-Dharma do aparecimento e desaparecimento do
mundo. Por esta razão vocês devem continuamente fazer o esforço correto ao
praticar todas as formas de equilíbrio. Quando uma pessoa alcança o estado de
equilíbrio a mente não se dissipa. É como uma residência que valoriza a água
2
Também é a quarta paramita.
3
É a quinta paramita.
consertando com atenção um dique. Os praticantes também são assim. Tendo em
vista a água da sabedoria, atenciosamente praticamos o estado equilibrado de
dhyâna e prevenimos o escoamento da água da sabedoria. Isto se chama de
“estado de equilíbrio”.

7) Praticar a sabedoria (jap. Shu-chie, sansc. Prajña4)

Disse o Buda, “ Se vocês monges tiverem sabedoria, então estarão sem cobiça
nem apego. Através de contínua reflexão e observação sobre si mesmos, evitarão
que a sabedoria se perca. Isto é somente ser capaz, dentro do meu Dharma, de
atingir a libertação. Se vocês não forem assim, já serão diferentes das pessoas da
verdade5 e também diferentes daqueles vestidos de branco6; não haverá nome
para vocês. Verdadeiramente a sabedoria é um barco resistente com o qual cruzar
o oceano do envelhecimento, da doença e da morte. É como uma grande e
brilhante tocha para iluminar a escuridão da ignorância; é um bom remédio para
todos os doentes; e é um afiado machado para decepar as árvores da angústia.
Por esta razão, vocês devem ouvir, refletir e praticar a sabedoria, dessa forma
desenvolvendo a si mesmos. Se um ser humano possui a luz da sabedoria, ele ou
ela é – apesar de terem olhos de carne – um ser humano de clara visão. Isto se
chama “sabedoria”.

8) Não entrar em discussões fúteis (jap. Keron, sansc. Prapañca)

Disse o Buda, “ Se vocês monges entrarem em qualquer tipo de discussão fútil,


suas mentes se perturbarão. Apesar de terem deixado a vida em família, ainda
assim serão incapazes de se libertarem. Por esta razão, monges, vocês devem
imediatamente jogar fora qualquer discussão fútil. Se vocês quiserem obter a
alegria da serenidade, vocês devem apenas impedir a ocorrência das discussões
fúteis. Isto se chama “não entrar em discussões fúteis”.

Estas são as oito verdades de um grande ser humano. Cada uma está
equiparada às demais, podendo assim existir sessenta e quatro. Quando as
estendemos, podem ser incontáveis. Se as resumirmos, serão sessenta e quatro.
São a última pregação do grande Mestre Shakyamuni, são a instrução do Grande
Veículo; e são o supremo canto do cisne do Buda, no meio da noite do décimo
quinto dia do segundo mês. Depois disso, ele não mais prega o Dharma, e
finalmente adentra o pari-nirvana.

Disse o Buda, “Vocês monges devem se esforçar continuamente, com mente


não dividida, para perseguir a verdade da libertação. Todos os dharmas do
mundo, móveis e imóveis, são sem exceção formas instáveis e perecíveis.
Deixem-se parar por um momento e não falem mais. O tempo precisa passar, e
eu vou morrer. Esta é minha última instrução.”

4
A sexta paramita, a sabedoria trascendental, não-dualista, não-discriminativa.
5
Donin, monges e monjas.
6
Byaku-e, leigos e leigas.
Desde então os discípulos do Tathâgata infalivelmente aprendem esta instrução.
Aqueles que não a praticam nem aprendem, e que não a conhecem, não são os
discípulos do Buda. Ela é o tesouro do olho do verdadeiro Dharma do Tathâgata e
a mente excelente do nirvana. Mesmo assim, muitos não a conhecem hoje em dia
e poucos a escutaram ou viram; é devido aos truques dos demônios que eles não
a conhecem. Também aqueles que tenham falta de boas raízes acumuladas de
longa data nem vêem nem escutam esta instrução. Durante os dias passados do
verdadeiro Dharma e do Dharma imitativo todos os discípulos do Buda a
conheciam. Eles a praticavam e conheciam-na por experiência própria. Hoje não
há nem um nem dois entre mil monges que conheça as oito verdades de um
grande ser humano. É lamentável, Não há nada que se compare à degeneração
destes tempos decadentes. Devemos aprendê-la sem demora, enquanto o
verdadeiro Dharma do Tathâgata ainda está permeando o mundo que se desdobra
em mil mundos, enquanto o Dharma imaculado ainda não desapareceu. Não
sejam relaxados nem preguiçosos. Encontrar o Dharma de Buda, mesmo em eras
incontáveis, é raro. Receber um corpo humano também é raro. Mesmo recebendo
um corpo humano, corpos humanos nos três continentes são melhores. Corpos
humanos no continente do sul são os melhores – porque encontram o Buda,
escutam o Dharma, deixam a vida em família e alcançam a verdade. Pessoas que
morreram antes do pari-nirvana do Tathâgata nem escutaram nem aprenderam
estas oito verdades de um grande ser humano. Que agora possamos estar vendo-
as e ouvindo-as, e aprendendo-as, se deve a raízes boas longamente
acumuladas. Aprendendo-as agora, desenvolvendo-as vida após vida e
alcançando sem falha a suprema verdade de bodhi, e pregando-as para todos os
seres sencientes, possamos nos tornar o mesmo que o Buda Shakyamuni;
possam não haver diferenças.

Shobogenzo Hachi-dainingaku

Escrito no Templo de Eihei-ji, no sexto dia do primeiro mês lunar no 5º ano da era de
Kencho7

7
1253, ano da morte de Mestre Dogen.