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A ARTE DE RESISTIR ÀS PALAVRAS1

Entrevista com Pierre Bourdieu

P - O discurso burguês sobre a cultura tende a apresentar o interesse


por ela como uma coisa desinteressada. Você, ao contrário, mostra que este
interesse, ou mesmo este aparente desinteresse, proporciona lucros.

- Paradoxalmente, os intelectuais têm interesse no economicismo que ao


reduzir todos os fenômenos sociais, e particularmente os fenômenos de troca, à
sua dimensão econômica, os deixa fora da jogada. É por isso que é preciso
lembrar a existência de um capital cultural e que este capital proporciona lucros
diretos, primeiramente no mercado escolar, é claro, mas também em outros
lugares, e também lucros de distinção estranhamente esquecidos pelos
economistas marginalistas − que automaticamente resultam de sua raridade, isto
é, do fato de que ele é distribuído desigualmente.

P - As práticas culturais sempre são, portanto, estratégias de dis-


tanciamento do que é "comum" e "fácil", são aquilo que você chama de
"estratégias de distinção".

- Elas podem ser distintivas, distintas, mesmo quando não procuram sê-Ia. A
definição dominante da "distinção" chama de "distintas" as condutas que se
distinguem do comum, do vulgar, sem intenção de distinção. Nestas questões, as
estratégias mais "lucrativas" são as que não são vividas como estratégias. São as
que consistem em gostar ou mesmo em "descobrir" a cada instante, como se por
acaso, o que deve ser gostado. O lucro da distinção é o lucro que proporciona a
diferença, o distanciamento, que separa do comum. E este lucro direto é acrescido
por um lucro suplementar, ao mesmo tempo subjetivo e objetivo, o lucro do
desinteresse: o lucro que se tem ao se ver − e ao ser visto − como quem, não está
buscando o lucro, como quem é totalmente desinteressado.

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Entrevista a Didier Eribon a respeito de "La distinction", Libération, 3 e 4, novembro de 1979.

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P - Se toda prática cultural é uma colocação à distância (você inclusive
diz que o distanciamento brechtiano é uma colocação à distância do povo), a
idéia de uma arte para todos, do acesso de todos à arte, não tem sentido.
Seria preciso denunciar esta ilusão de um "comunismo cultural".
- Eu mesmo já participei da ilusão do “comunismo cultural" (ou lingüístico). Os
intelectuais espontaneamente pensam a relação com a obra de arte como uma
espécie de participação mística em um bem comum, sem raridade. Todo o meu
livro lembra que o acesso à obra de arte requer instrumentos que não são
distribuídos universalmente. E, conseqüentemente, os detentores destes
instrumentos asseguram para si mesmos os lucros da distinção, lucros tanto
maiores quanto mais raros forem estes instrumentos (como os que são
necessários para se apropriar de obras de vanguarda).

P - Se todas as práticas culturais, se todos os gostos classificam num


lugar determinado do espaço social, deve-se admitir então que a contra-
cultura é, como as outras, uma atividade que distingue?
- Seria preciso chegar a um acordo sobre o que se chama de contracultura.
Coisa que é, por definição, difícil ou impossível. Há várias contraculturas: é tudo
aquilo que está à margem, fora do establishment, exterior à cultura difícil. Num
primeiro momento, vemos que esta contracultura é definida negativamente, a partir
daquilo contra o que ela se define. Penso por exemplo no culto que se faz a tudo
aquilo que está fora da cultura "legítima", como as histórias em quadrinhos. Mas
não é só isto: não se sai da cultura fazendo-se a economia de uma análise da
cultura e dos interesses culturais. Por exemplo, seria fácil mostrar que o discurso
ecológico, estilo trailer, passeio de bicicleta, passeio pelo mato, teatro de pés-no-
chão, etc., está cheio de alusões depreciativas e distintivas em relação ao
"trabalho-casa-TV-cama", as "férias da moda" da "classe média comum". É preciso
colocar aspas em todas estas palavras. É muito importante não para marcar um
cauteloso afastamento em relação ao jornalismo oficial, mas para mostrar a
distância entre a linguagem de análise e a linguagem comum, onde todas as
palavras são instrumentos de luta, armas e objetos de disputas nas lutas de
distinção.

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P - As marginalidades, os movimentos de contestação, não
perturbariam, então, os valores estabelecidos?
- É claro, mas eu sempre começo pegando as coisas pelo outro lado e
lembrando que estas pessoas que se querem nas margens, fora do espaço social,
estão situadas no mundo social, como todo mundo. Chamo este tipo de sonho de
vôo social e creio que isso exprime muito bem sua posição de desajuste no mundo
social: a posição que caracteriza os "novos autodidatas", aqueles que
freqüentaram o sistema escolar até uma idade suficiente para adquirir uma
"relação cultivada" com a cultura, mas sem obter títulos escolares ou sem obter
todos os títulos escolares que sua posição social de origem lhes prometia.
Dito isto, todos os movimentos de contestação da ordem simbólica são
importantes, pois questionam o que parece evidente, inquestionável, indiscutível.
Subvertem as evidências. Foi o caso de Maio de 68. É o caso do movimento
feminista que não se elimina pelo fato de se dizer que é coisa de "burguesas". Se
estas formas de contestação freqüentemente incomodam os movimentos políticos
ou sindicais, talvez seja porque vão contra as disposições profundas e os
interesses específicos dos homens de aparelho. Mas é, sobretudo, porque,
sabendo por experiência que a politização, a mobilização política das classes
dominadas deve ser conquistada, quase sempre, contra o doméstico, o privado, o
psicológico, etc., eles têm dificuldades em compreender as estratégias que visam
a politizar o doméstico, o consumo, o trabalho da mulher, etc. Mas isto exigiria
uma análise muito longa... Em todo caso, ao deixar fora da reflexão política
domínios inteiros da prática social, a arte, a vida doméstica, etc., etc., nos
expomos a formidáveis reaparecimentos do que foi reprimido.

P - Mas então, o que poderia ser uma verdadeira contracultura?


- Não sei se poderia responder a esta pergunta. O que tenho certeza é que
a posse das armas necessárias para se defender contra a dominação cultural,
contra a dominação exercida pela cultura e em seu nome, deveria fazer parte da
cultura. Seria uma cultura capaz de se distanciar da cultura, de analisá-la e não de
invertê-Ia, ou, mais exatamente, de impor-lhe uma forma invertida. É neste sentido
que meu livro é um livro de cultura e de contracultura. De um modo mais geral,
acho que uma verdadeira contracultura deveria oferecer armas contra as formas
suaves da dominação, contra as formas avançadas de mobilização, contra a vio-

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lência suave dos novos ideólogos profissionais que freqüentemente se apóiam
numa espécie de racionalização semi-científica da ideologia dominante, contra os
usos políticos da ciência, da autoridade da ciência, ciência física ou ciência
econômica, sem falar da biologia ou da sócio-biologia dos racismos avançados,
isto é, altamente eufemizados. Em suma, trata-se de assegurar a disseminação
das armas de defesa contra a dominação simbólica. Seria necessário, também,
dentro da lógica do que acabo de dizer, deixar fazer parte da cultura
necessariamente política muitas coisas que a definição atual tanto da cultura
quanto da cultura política exclui... Não perco a esperança de que, um dia, algum
grupo possa assumir este trabalho de reconstrução.

P - Não se deveria acentuar o fato de que você principalmente não


deseja criar uma espécie de "culpabilidade", de "consciência culpada", entre
os intelectuais?
- Pessoalmente, tenho horror a todos os que pretendem criar "culpabilidade"
ou "consciência culpada". Acho que já se brincou muito, e em particular com os
intelectuais, com o jogo sacerdotal da culpa. Ainda mais porque é muito fácil se
livrar desta culpa por um ato de contrição ou uma confissão pública. Quero apenas
contribuir para produzir instrumentos de análise que não isentem os intelectuais:
acho que a sociologia dos intelectuais é uma pré-condição de qualquer ciência do
mundo social, que é feita necessariamente por intelectuais. Se os intelectuais
submetessem sua própria prática intelectual e seus produtos, e não o seu "ser
burguês", à uma crítica sociológica, estariam melhor armados para resistir às
estratégias de culpabilização que todos os aparelhos exercem contra eles e que
visam lhes impedir de fazer aquilo que eles enquanto intelectuais poderiam fazer
por e principalmente contra estes aparelhos.

P - Mas você não teme que suas análises (por exemplo, sobre o lugar
dos valores da virilidade no estilo de vida da classe operária) venham a
reforçar o obreirismo?

- Você sabe; quando eu escrevo, temo muitas coisas, isto é, muitas más
leituras. O que explica a complexidade de algumas de minhas frases, coisa de que
me criticam freqüentemente. Tento desencorajar previamente as más leituras que
muitas vezes eu posso prever. Mas as observações que coloco entre parênteses,

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um adjetivo, aspas, etc., só sensibilizam aqueles que deles não necessitam. E
numa análise complexa, cada um retém a parte que o atrapalha menos.
Dito isto, creio que é importante descrever os valores da virilidade na classe
operária, pois é um fato social como qualquer outro, embora freqüentemente mal
compreendido pelos intelectuais. Entre outras razões, porque estes valores que
estão inscritos no corpo, isto é, no inconsciente, permitem compreender muitas
condutas da classe operária e de alguns de seus porta-vozes. Evidentemente não
apresento o estilo de vida da classe operária e seu sistema de valores como um
modelo, um ideal. Tento explicar a importância dada aos valores da virilidade, à
força física, notando, por exemplo, que se trata de um fato que se refere a pessoas
que praticamente só contam com a sua força de trabalho e, eventualmente com a
força de combate. Tento mostrar em que medida a relação com o corpo
característica da classe operária está na origem de todo um conjunto de atitudes,
condutas, valores, e que esta relação permite compreender a maneira de falar, de
rir, assim como a maneira de comer ou de andar. Eu digo que a idéia de virilidade
é um dos últimos refúgios da identidade das classes dominadas. Tento, aliás, mos-
trar os efeitos políticos, entre outros, que pode ter a nova moral terapêutica
incessantemente divulgada nas campanhas publicitárias pelos jornalistas de
revistas femininas, psicanalistas de pobre, conselheiros conjugais, etc., etc.... Isto
não quer dizer que eu exalte os valores da virilidade ou suas utilizações, quer se
trate da exaltação do machão, predisposto aos serviços militares (o lado Gabin-
Bigeard que inspira aos intelectuais um horror fascinado) ou do uso obreirista do
estilo bom menino de linguagem franca e simples que permite economizar a
análise, ou pior, silenciar a análise.

P - Você diz que as classes dominadas têm apenas um papel passivo nas
estratégias de distinção, que elas não passam de um "contra-ponto".
Portanto para você não existe "cultura popular".

- A questão não é saber se para mim existe ou não "cultura popular". A


questão é saber se existe, na realidade, alguma coisa parecida a isto que as
pessoas chamam de "cultura popular". E a esta questão eu respondo não. Mas
seria preciso uma análise muito longa para sair de todo o emaranhado que envolve
esta noção perigosa. Prefiro parar por aqui. O que eu poderia dizer em algumas
frases, como aliás tudo o que disse até agora, poderia ser mal compreendido. E

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depois, eu gostaria, gostaria muito mais, é claro, que lessem o meu livro...

P - Mas você mostra bem a união que existe, na classe operária, entre a
relação com a cultura e a consciência política.

- Penso que o trabalho de politização é freqüentemente acompanhado de um


esforço de aquisição cultural, vivida muitas vezes como uma espécie de
reabilitação, de restauração da dignidade pessoal. Isto pode ser visto muito bem
nas memórias dos militantes operários da escola antiga. Esta empresa liberadora
tem − me parece − efeitos alienantes, na medida em que a reconquista de uma
espécie de dignidade cultural vai de par com um reconhecimento da cultura em
nome da qual se exercem numerosos efeitos de dominação. Não penso apenas na
importância dos títulos escolares nos aparelhos; penso em algumas formas de
reconhecimento incondicional, porque inconsciente, da cultura legítima e daqueles
que a detêm. E nem estou seguro de que algumas formas de obreirismo agressivo
não se originem de um reconhecimento envergonhado da cultura ou simplesmente
de uma vergonha cultural não dominada, não analisada.

P - Mas será que as mudanças na relação com o sistema escolar como


você descreve em seu livro, não são de uma natureza tal que possam
transformar não apenas as relações com a cultura, mas também as relações
com a política?
- Eu acho, e no meu livro mostro de forma mais precisa, que estas
transformações, e em particular os efeitos da inflação e da desvalorização dos
títulos escolares, estão entre os mais importantes fatores de mudança,
particularmente no domínio da política. Penso especialmente em todas as
disposições anti-hierárquicas ou mesmo anti-institucionais cujas manifestações
ultrapassaram o sistema de ensino e cujos portadores exemplares são os
operários especializados com diplomas ou as novas camadas de empregados,
espécies de operários especializados da burocracia. Penso que sob as oposições
aparentes, PC/esquerdistas, ou CGT/CFDT2, e mais ainda talvez sob os conflitos
entre as tendências que atualmente dividem todas as organizações,
reencontraremos os efeitos de relações diferentes com o sistema escolar que

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N. T. - CFDT: Confédération Française Démocratique du Travail
CGT: Confédération Générale du Travail.

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freqüentemente são retraduzidos sob a forma de conflitos de gerações. Mas para
tornar estas instituições mais precisas, seria necessário fazer análises empíricas
que nem sempre são possíveis.

P - Como é possível se constituir uma oposição à imposição dos valores


dominantes?
- Com o risco de surpreendê-Io, eu responderei citando Francis Ponge: "É
então que ensinar a arte de resistir às palavras se torna útil, a arte de só dizer o
que se quer dizer. Ensinar a cada um a arte de fundar sua própria retórica é uma
obra de saúde pública”. Resistir às palavras, só dizer o que se quer dizer: falar ao
invés de ser falado pelas palavras emprestadas, carregadas de sentido social
(como por exemplo quando se fala de um "encontro de cúpula" entre dois líderes
sindicais ou quando Libération3 fala de "nossos" navios ao se referir ao Normandie
e ao France) ou faladas por porta-vozes que são, por sua vez falados. Resistir às
palavras neutralizadas, banalizadas, eufemizadas, em suma, a tudo aquilo que faz
a chatice pomposa da nova retórica dos Enarcas4, mas também às palavras
aplainadas, limadas, até ao silêncio, das moções, resoluções, plataformas ou
programas. Toda linguagem que é o produto do compromisso com as censuras,
internas e externas, exerce um efeito de imposição, imposição do impensado que
desestimula o pensamento.
Freqüentemente nós nos servimos do álibi do realismo ou da preocupação
demagógica de ser "compreendido pelas massas" para substituir a análise pelo
slogan. Acho que sempre acabamos pagando por todas as simplificações, todos os
simplismos, ou fazendo com que sejam pagos pelos outros.

P - Os intelectuais têm então um papel a desempenhar?

- É claro que sim. Porque a ausência de teoria, de análise teórica da realidade,


que a linguagem do aparelho encobre, engendra monstros. O slogan e o anátema
conduzem a todas as formas de terrorismo. Eu não sou o bastante ingênuo para
pensar que a existência de uma análise rigorosa e complexa da realidade social
seja suficiente para evitar todas as formas de desvio terrorista ou totalitário. Mas
estou certo de que a falta de uma tal análise deixa o campo livre para isto. É por

3
N. T. - Libération: jornal humorístico de esquerda.
4
N. T. – Enarcas: os que se formaram na Escola Nacional d e Administração (ENA).

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isso que, contra o anticientificismo que está em moda e que delicia os novos ideólo-
gos, eu defendo a ciência e mesmo a teoria quando ela consegue uma melhor
compreensão do mundo social. Não se trata de escolher entre o obscurantismo e o
cientificismo. "Entre dois males, dizia Karl Kraus, eu me recuso a escolher o
menor".
Perceber que a ciência se tornou um instrumento de legitimação do poder,
que os novos dirigentes governam em nome da aparência de ciência econômico-
política que se adquire nos cursos de ciências políticas e nas Business-schools,
não deve conduzir a um anticientificismo romântico e regressivo, que sempre
coexiste, na ideologia dominante, com o culto aberto à ciência. Trata-se antes de
produzir as condições de um novo espírito científico e político, liberador porque
liberado das censuras.

P - Mas não há o risco de se recriar, assim, uma barreira de linguagem?

- Meu objetivo é contribuir para impedir que se diga não importa o que sobre o
mundo social. Schoenberg disse uma vez que ele compunha para que as pessoas
não pudessem mais escrever música. Eu escrevo para que as pessoas, e
principalmente os que têm a palavra, os comunicadores de massa, não possam
mais produzir, em relação ao mundo social, um barulho que tenha a aparência de
música.
Quanto a dar a cada um os meios de fundar sua própria retórica, como diz
Francis Ponge, de ser seu próprio e verdadeiro porta-voz, de falar ao invés de ser
falado, esta deveria ser a ambição de todos os comunicadores de massa que
seriam, sem dúvida, algo inteiramente diferente daquilo que são, se tivessem o
projeto de trabalhar para seu próprio desaparecimento. Podemos até sonhar, ao
menos uma vez...

Extraído de: BOURDIEU, Pierre. 1983. Questões de sociologia. Rio de Janeiro:


Marco Zero. p. 9-15.