Você está na página 1de 93
(Ttraduzido por Kitty Vilarino)

(Ttraduzido por Kitty Vilarino)

Mil Anos de Trevas

O Fim se aproxima.

A Cidade de Otosan Uchi jaz sob uma eterna sombra. O Lorde Sombrio, Fu Leng, declarou- se a si mesmo o imortal Imperador de Rokugan, e o Escorpião, Kachiko, reina a seu lado. Os outros Trovões estão mortos ou escondidos. Ikoma Ujiaki comanda as Legiões Imperiais sob as ordens do Senhor das Trevas. Todos devem ser fiéis a ele, ou serão destruídos.

Não há esperanças.

Jigoku venceu.

Mil anos de trevas começaram

O Trovão Quebrado

Rich Wulf

“O Dia do Trovão mudaria o mundo como o conhecemos, revelando o nascimento de um novo e magnífico Rokugan.”

- Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1128 segundo o Calendário dos Isawa, sexto ano do glorioso reinado de Hantei XXXIX

O Palácio estremeceu com o ruído do trovão. Os olhos de Doji Hoturi entrecerraram-se, enquanto observava por uma ameia. Lá fora, mal podia-se avistar o campo de batalha, por causa da fumaça. Um raio golpeou o solo, sob as ordens de um shugenja invisível. Podia-se sentir o cheiro dos mortos-vivos. Os estandartes dos Clãs tremulavam sobre o caos. A maioria deles estava rota, queimada e suja.

- É apenas uma batalha. – disse o estranho – Você já viu isso antes.

- Não assim. – disse Hoturi – Viemos para salvar o Império de Jigoku, mas este já está aqui. Que vitória poderemos obter, de tantas perdas?

- Você ficaria surpreso em saber o quanto ainda temos a perder. – respondeu o estranho – Ainda há esperança.

- A que preço? – indagou Hoturi – Somos samurais planejando matar o Imperador. Se vencermos a batalha, a que propósito serviremos?

O estranho deu de ombros.

- Se eu lhe desse as respostas, você não aprenderia nada.

Hoturi riu.

-

Pense nisso. – continuou o estranho – Tenho de ir encontrar os outros.

E

o Ronin Embuçado deu um passo para trás, para as sombras, deixando Hoturi

sozinho. A Garça continuou a observar o campo de batalha por um longo tempo.

Hida Yakamo ficou agitado ao vê-la – a garota que lhe decepara a mão.

- Fortunas! – praguejou o Caranguejo, fitando Toturi – Não me diga que ela é um de

nós?

Toturi assentiu levemente.

- Há algum problema quanto a isso? – perguntou, atravessando o Caranguejo com um olhar gelado.

Yakamo negou com a cabeça.

- Conheço meu dever.

Toturi concordou.

- Se falharmos por culpa dela, – sussurrou Yakamo – eu a matarei.

Toturi assentiu novamente.

- E quando isso tudo acabar, quero ter uma pequena conversa com quem quer que tenha escolhido os Sete Trovões. – acrescentou o Caranguejo.

- Você desafiaria as forças do próprio destino? – a voz etérea de Togashi Yokuni soou

momentos antes que o Grande Dragão penetrasse na sala às escuras – Precisaria de muita coragem, creio.

- Estamos prontos? – perguntou Yakamo, incomodado – Vamos acabar logo com isto!

Toturi fitou o Caranguejo.

- Porque tanta impaciência?

- Estamos prestes a enfrentar um deus. – respondeu Yakamo – Venceremos ou morreremos. Os Caranguejos esperam por isso há séculos. Estou farto de esperar.

- Começaremos, – disse Yokuni – quando a Fênix chegar.

As portas às suas costas escancararam-se.

Tsukune suplicara a Togashi Yokuni que não forçasse Tadaka a entrar no combate, mas teria sido o mesmo que suplicar a uma montanha. A decisão não cabia a Yokuni:

Tadaka não deixaria que o afastassem de seu posto. Melhor morrer em pé, cumprindo seu destino, do que morrer prostrado em uma tenda. Afinal, Tsukune e Osugi voltaram-se para partir. Osugi olhou para trás, endereçando-lhe um sorriso confortador. Tadaka ter-lhe-ia devolvido o sorriso, mas ataduras cobriam seu rosto arruinado. Tsukune não se voltou para fitá-lo. Tadaka jamais soubera realmente quais eram seus sentimentos. Era horrível morrer com remorsos, mas não merecia menos. Sua busca pelos Pergaminhos Negros destruíra seu Clã.

O Mestre da Terra ergueu o olhar justamente quando as portas da Sala do Trono se

abriram.

Yokuni murmurou algo, enquanto se preparavam para entrar na Sala do Trono. Otaku Kamoko não o ouviu; seus pensamentos estavam na batalha. A samurai-ko Unicórnio tinha a espada preparada, tomando-a numa e outra mão. Lamentava apenas que o demônio fosse muito covarde para encontra-los lá fora, onde poderia enfrenta-lo montada no dorso de seu nobre Hachiman. Kamoko riu ante a idéia, precipitando-se ansiosamente para a Sala do Trono.

A Donzela Guerreira deteve-se, com os olhos arregalados de surpresa. Dois enormes

Dragões enredavam-se num combate mortal. Um instante antes, um deles fôra Togashi Yokuni; o outro, o Imperador. Ver a ambos os Kami em sua forma verdadeira encheu o coração da Donzela Guerreira de medo, pela primeira vez em sua vida.

Com um grande golpe, o corpo serpentino de Yokuni caiu sob as garras de seu irmão. Fu Leng arrojou a criatura derrotada ao chão; e o Dragão desapareceu, sendo substituído pelo corpo de Togashi Yokuni. Também reapareceu o Imperador, sentando-se em seu trono quebrado, sorrindo vitoriosamente.

Kamoko deteve-se, com a espada preparada. Por um instante, teve a sensação de que algo ia mal, como se um ritmo constante houvesse falhado um movimento. Ignorando essa sensação, levantou a katana e atacou.

Mirumoto Hitomi ajoelhou-se ao lado do corpo de Togashi. Seu coração ainda batia. Mal percebeu como Kamoko estatelava-se contra a parede, posta fora de combate por um único golpe do Imperador. Yakamo e Tadaka atacaram depois; ela ignorou o combate. Sua mão direita – a Mão de Obsidiana – movia-se por vontade própria, com seus dedos arranhando o peito do Kami caído. A Mão parecia ansiosa por provar seu sangue, atravessar a carne e arrancar o coração. Era difícil resistir àquele desejo. O elmo do Campeão do Dragão fôra retirado. Seu rosto estava tranqüilo.

- Faça! – sussurrou Yokuni – Cumpra seu destino. Complete o Enigma.

Hitomi deteve-se, com os dedos ainda sobre o coração de Togashi. Sua mente, normalmente clara e resoluta, estava repleta de dúvidas. Poderia matar seu próprio daymio? Por quê não? Esta criatura trouxera tanta dor à sua vida. Mandara seu irmão para a morte, apenas para que seu precioso Dia do Trovão acontecesse, tal como planejara. Hitomi relanceou um olhar para o combate. Hida Yakamo devolveu-lhe o olhar com seus olhos negros, de javali. Não valia a vida de Satsu.

- Meu Senhor, – disse Hitomi, inclinando-se para sussurrar ao ouvido de Togashi Yokuni – não haverá mais Enigmas. Viva, e aceite seu fracasso.

E naquele momento, Hitomi viu o que jamais vira nos olhos de Yokuni. Surpresa. Com

uma satisfação suprema, voltou-se e abandonou a Sala do Trono.

- Hitomi! – gritou Toturi, desesperado, enquanto o Dragão retirava-se – Onde você

vai?

- Eu avisei! – bradou Hida Yakamo, lutando contra grandes grilhões de sombras, que o prendiam por ordem de Fu Leng – Eu disse que não confiasse nela!

No chão, junto de Yakamo, o corpo de Isawa Tadaka jazia, fumegante. Fu Leng voltara a magia purificadora do Mestre da Terra contra seu próprio corpo Maculado.

O Imperador soltou uma gargalhada.

- Talvez vocês cheguem a inveja-la, Trovões. Talvez ela seja a única a sobreviver a este dia.

Toturi voltou-se, sacando sua espada.

- Você não é o Imperador! – gritou Doji Hoturi, desafiador.

- E você não é um deus. – respondeu o Imperador. - Enfrente-me e morra!

- Ele tem razão. – disse solenemente o Ronin Mascarado – Você não pode vencer. Hitomi tomou sua decisão. O Reino das Trevas começa aqui.

- NÃO! – gritou Doji Hoturi.

O Leão caído encontrou o olhar de seu amigo, e assentiu. Juntos, atacaram. A lâmina

de Toturi decepou limpamente o pescoço do Imperador, a espada de Hoturi atravessou-lhe o coração.

O Imperador nem pestanejou. Sua cabeça não caiu, apenas flutuou sobre o pescoço. A

sala encheu-se com suas gargalhadas quando enterrou o punho no peito de Hoturi, arrancando-lhe o coração. Com um tabefe, arrancou a katana de Toturi de suas mãos.

- Trovões! – bradou Toturi, recuando.

Junto de Toturi, o destroçado Mestre da Terra pôs-se em pé. Yakamo colocou-se também a seu lado, com grilhões partidos pendendo-lhe dos pulsos e tornozelos.

- Bem, general, - perguntou Yakamo – o que fazemos agora?

- Vocês dois, fogem. – replicou Tadaka – Eu, morro.

? – foi tudo o que Toturi pôde dizer antes que o Mestre da

Terra começasse seu feitiço. Uma brilhante explosão de energia varreu a Sala do Trono com fogo.

- Tadaka

o que você vai

- Estamos perdidos! – murmurou Toturi, recuando para a porta.

- Ainda não, general. – respondeu Yakamo. Tomando o Leão Negro nos ombros, voltou-se e fugiu.

As garras do Imperador apertaram a garganta de Bayushi Kachiko. Um sorriso selvagem estampava-se no rosto de Fu Leng. Na outra mão, segurava o Décimo Segundo Pergaminho Negro, arrancado do peito de Togashi, ainda firmemente selado. Os ferimentos que lhe tinham causado Hoturi e Toturi estavam transbordantes de energia negra. Como Yokuni pudera ter esperanças de que lutassem contra isto?

- Sempre foi uma armadilha. – disse ele, olhando para o pergaminho, com uma

olhar para Kachiko – Seu plano

fracassou. Shinsei escolheu mal os seus Trovões.

expressão divertida – Surpreendente

– desviou o

Kachiko silenciava.

- Calada, uma vez na vida? – zombou Fu Leng – Togashi está morto. Logo, seu

Império estará morto. Você perdeu. Este não é o momento em que você tenta se insinuar nas

boas graças do vencedor, como sempre?

- Você venceu mesmo? – disse ela, com voz rouca, encarando-o.

Fu Leng franziu o senho.

- Ainda resta alguma dúvida?

- Então, mate-me. – ela cuspiu-lhe na cara – Prefiro morrer a ver um Império

governado por você. Você pode destruir Rokugan, Fu Leng, mas só um verdadeiro Imperador poderia governa-lo!

Fu Leng suspirou e afrouxou a tenaz. Kachiko caiu no chão.

- Lamentável. – disse ele, guardando o Pergaminho Negro no obi – Sempre uma

manipuladora, mesmo diante da morte iminente. O que você espera conseguir? Você sabe? Ou simplesmente espera pelo melhor?

Kachiko não disse nada, simplesmente continuou a fitar os olhos do Deus Negro.

- Pois está muito bem. – disse ele, rindo – Se você só quer sobreviver, isso lhe darei. Sou, afinal, um deus benevolente. Não é? – seu sorriso a assustava mais que suas palavras – Você me servirá como já fez antes – como Imperatriz e esposa. Governarei Rokugan como Imperador. A meu lado, você será testemunha de mil anos de trevas. – ajoelhou-se e aproximou-se dela, seu hálito frio sobre suas faces – Você sempre se lembrará que o Império

que eu governar será feito por seu pedido, e quando pôde deter-me

Com um safanão, atirou-a longe, deixando-a sozinha na Sala do Trono, com os corpos dos Trovões mortos. Os dedos de Kachiko procuraram sua garganta dolorida. As lágrimas tombavam por suas faces. Salvara o Império da destruição total, mas este não seria um destino muito pior, o governo do Deus das Trevas?

fracassou.

Não Há Esperança

Rich Wulf

“Diz-se que até mesmo os Dragões Elementais temiam o poder de nosso poderoso Imperador. Em vez de defender-se de sua ira, fecharam os Céus Divinos, dando as costas àqueles que deveriam proteger.”

- Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1129 pelo Calendário dos Isawa, sétimo ano do glorioso reinado de Hantei XXXIX

Através de uma abertura no céu, os Dragões Elementais contemplavam a terra que tinham abaixo de si.

Eles não estavam contentes.

- Não há mais esperança. – disse Terra.

- Jigoku venceu. – disse Fogo, franzindo o cenho raivosamente, soltando vapor através de suas poderosas mandíbulas.

- Isso não está nada bem, irmã. – disse Trovão, tristemente – Não deveria ser assim.

- Muitas coisas não deveriam ser assim, - respondeu Terra, com a grande cabeça pousada sobre um monte de pedras – mas são. Rokugan está perdida.

- Irmãos, irmãs, não nos precipitemos em nossas conclusões. – disse Ar, fazendo

deslizar entre os dos demais o seu corpo sinuoso – Consultemos Void, que esteve

observando muito Rokugan durante o último ano.

O Dragão do Void voltou-se de onde estivera olhando através da brecha no céu. Os outros não se haviam dado conta de sua presença, tão fantasmagórico se tornara seu corpo. Não era nenhum segredo que Void estava unido aos humanos, muito mais do que os outros, e sofrera consideravelmente. A seu lado estava sentado Jade, a pequena criatura que ainda não era completamente um Dragão. Void inclinou a cabeça em saudação a seus irmãos e começou seu relatório.

- Faz um ano desde que os Trovões caíram. – disse Void.

- O Senhor Sombrio, Fu Leng, declarou-se Imperador de Rokugan. A traidora Kachiko governa a seu lado.

- Imperador?! – exclamou Fogo – Sandices! A destruição do Império é o único desejo de Fu Leng.

- Já não é mais. – disse Void – Ele experimentou o poder de um Imperador, e percebeu

que gosta disso. Ordenou que todos os que serviam Hantei agora o sirvam, ou serão destruídos. Os Leões foram os primeiros. Com os Sete Trovões derrotados, Fu Leng saiu da Cidade Proibida e deu aos exércitos uma única oportunidade de jurar fidelidade. Ikoma Tsanuri, que antes comandava os que serviam Hantei, não quis inclinar-se diante da coisa

horrorosa que saíra do Palácio. Ikoma Ujiaki não tinha tais escrúpulos; assassinou Tsanuri e jurou fidelidade a Fu Leng, que lhe ordenou que atacasse os exércitos dos Trovões.

- Decerto nem todos os nobres Leões seguem ao Lorde Sombrio. – observou Terra, mas sua voz continha pouca esperança.

- Não, todos não, – disse o Void – mas alguns o fazem. Suficientes. A Horda de Fu Leng ergueu-se sob o comando de Ujiaki. E o Dia do Trovão tornou-se um dia de carnificina. Ikoma Ujiaki tornou-se o Rikugunshokan das Legiões de Jigoku.

Void deteve-se durante um longo instante, deixando que os outros absorvessem as terríveis notícias.

- As Garças foram os próximos. – prosseguiu – Os estragos da Guerra dos Clãs haviam

diminuído muito seus exércitos, mas os filhos de Doji não queriam render-se. Um semana depois do Dia do Trovão, a Legião de Jigoku chegou a Shinden Asahina. O novo Campeão Obsidiana de Fu Leng estava ao lado de Ujiaki – Doji Hoturi. Não envergava armadura, exibindo orgulhosamente a ferida que Fu Leng abrira em seu peito. Kuwanan, Senhor da Garça, adiantou-se a cavalo para desafiar o que certamente era outro impostor, ostentando o nome de seu irmão. Hoturi Sem Coração volveu cavalgando uma hora depois, com a cabeça de Kuwanan empalada em seu yari. Em menos de uma hora, Shinden Asahina ardia. Nesse dia, os samurais do Clã da Garça pereceram.

- Não sobrou nenhum? – indagou Ar, incrédulo.

- Um

– disse o Void – Restou apenas uma Garça

Os Dragões inclinaram as cabeças, em silêncio. Se uma lágrima caiu dos olhos de Jade, ninguém notou.

- A Fênix foi o seguinte. – prosseguiu Void – As Legiões derrubaram os exércitos dos

Shiba como fardos de feno, mas enquanto eles sacrificavam suas vidas, o Grande Mestre reuniu quantos shugenja pôde e organizou uma fuga maciça para o norte. O Grande Mestre foi desafiado por Isawa Tsuke, o decaído Mestre do Fogo, morto no Dia do Trovão, mas revivido pela terrível magia negra do Imperador. Ao lado de Tsuke estavam Kuni Yori, Yogo Junzo, Kitsu Okura e o misterioso Daigotsu. Naka Kuro não poderia enfrentar o novo Conselho Sombrio de Fu Leng. Sua alma foi arrancada do corpo e encarcerada num fragmento de obsidiana por Kuni Yori, com uma perversão das técnicas que os Kuni usavam para aprisionar os espíritos dos Oni. Os Fênix que se curvaram ao Conselho Sombrio foram poupados. Aqueles que não o fizeram – a maior parte – foram destruídos.

- E o que aconteceu ao Clã do Dragão? – disse Fogo, bruscamente – Você não falou

dele.

- A sua história é ainda mais estranha. – disse Void – Desde que Hitomi retornou para

sua gente, a Montanha de Togashi está envolta em sombras e silêncio. Aqueles que ousam procurar Hitomi não voltam. Os Dragões são agora fantasmas. Nem os Oni ousam ir até lá.

- E o que aconteceu aos outros? – indagou Ar.

- Os Escorpiões, Caranguejos, Naga, o Exército de Toturi e os Unicórnios reuniram-se

nas Planícies do Trovão. – disse Void, voltando a olhar através da brecha no céu – Toturi e Hida Yakamo os comandavam. Todos vocês sabem o que veio a seguir. Os Escolhidos de Fu Leng.

- Os Ashura! – gemeu a voz do Dragão Celestial, e sete pares de olhos voltaram-se

para cima, para fitar o enorme olho da criatura que sustentava os céus. O olho, antes dourado, era agora castanho escuro, rajado de veias prateadas.

- Sim. – disse Void – A mais terrível criação do Imperador. Como dedos da Morte,

samurais fantasmagóricos flutuam no ar, como se a terra lhes repelisse o toque. Onde os detinham, esses samurais desfaziam-se em pó, e suas asas, semelhantes às das moscas,

levavam o símbolo da morte, tão afiadas como uma espada Kaiu. Suas flechas trazem a praga e a destruição. Agasha Tamori e Iuchi Karasu uniram seus poderes para destruir o mais poderoso dos ashura, mas foram por sua vez destruídos quando o ímpio poder da criatura explodiu. Toturi sabia que desta vez não haveria escapatória.

E então, foi quando

Void ficou em silêncio, não querendo mais contar a história.

- Então, foi quando seu Oráculo interferiu. – disse Terra, com um tom acusador em sua voz profunda e baixa.

- Sim. – admitiu Void – Isawa Kaede resgatou os heróis que restavam.

- Então Rokugan está agora tão corrompida quanto as Terras Sombrias? – perguntou

Terra.

- Não. – respondeu Void – Fu Leng prefere seus súditos incorruptos, para que possam

sentir o horror de seu reinado. A Mácula é agora um presente, que concede a seu bel prazer.

- Alguém escapou de seu domínio? – perguntou Ar.

- Três cidades Naga ainda permanecem de pé, e as Ilhas da Seda e das Especiarias

mantém uma espécie de paz. – disse Void – Fu Leng só possui um punhado de navios, nenhum dos quais está preparado para atacar as Ilhas. É lá que os heróis se reúnem. Hida Yakamo, Togashi Mitsu, Yoritomo, Horiuchi Shoan, até mesmo Toturi. Infelizmente, as Ilhas não estavam preparadas para acolher a tantos. Eles dependem de suas incursões de guerrilha e de pirataria para obter os suprimentos de que necessitam.

- Um fim amargo para um samurai. – disse Fogo.

- Isso não é o fim. – sussurrou Void, mesmo que não parecesse acreditar em suas próprias palavras.

- Você sempre foi um sonhador. – disse Fogo, com uma careta – Não me admira que seu Oráculo desequilibrasse os elementos, ao agir diretamente.

- IDIOTA! – rugiu subitamente o Dragão Celestial, agitando os céus – Já não importa!

Já não existe equilíbrio! Mil anos de trevas consumirão Rokugan! Devemos fechar os

portões do Céu e dar as costas aos mortais!

- Quer que os abandonemos?! – exclamou Void.

- Não temos escolha. – disse Trovão – Não podemos arriscar que Fu Leng conquiste também os Céus.

Void deixou pender a cabeça, e seus olhos semelhantes a estrelas brilhavam.

- Não posso abandonar Kaede. Irei para o Reino dos Mortais e ficarei com ela.

- Você está muito fraco, Void. – disse Trovão – Fique aqui e deixe que eu a proteja. Deixe que Isawa Kaede seja o Oráculo do Trovão.

- Você estará sozinho, Trovão. – observou gravemente Terra – Não poderemos ajuda- lo, uma vez que os Céus se fechem.

- Não precisarei de ajuda. – afirmou Trovão, ousadamente – Quando vocês voltarem, encontrar-me-ão esperando-os, ou encontrar-me-ão morto.

- Que assim seja. – disse o Dragão Celestial – Quando nossa irmã Água retornar,

Trovão partirá e a abertura se fechará. Os Céus Divinos estarão fechados para Rokugan durante mil anos.

O grande olho do Dragão Celestial cerrou-se. A discussão terminara. Os Dragões Elementais foram-se, cada qual para um lado, voltando às suas respectivas e enigmáticas vidas.

- Onde foi Água? – perguntou curiosamente o pequeno Jade, mirando fixamente os olhos do Void.

- Devolver o que havíamos tomado. – sussurrou Void.

- A gueixa? – indagou Jade.

Void assentiu.

- Agora, ela já não pertence a este lugar.

- Isso é triste. – disse Jade – Trovão profetizou que seu filhinho seria o maior herói do Império.

- Não se desespere tanto, Jade, - disse Void, olhando para Rokugan pela última vez – pois creio que o Império precisa, agora mais do que nunca, de heróis.

O Último Oráculo

Shawn Carman

Logo tornou-se evidente que nem mesmo os mais poderosos Oráculos da Luz poderiam resistir às Legiões Imperiais. Esses blasfemos adoradores dos Dragões Elementais logo confrontariam a ira do Senhor das Trevas!

- Miya Sotoshi, Arauto Imperial, 1131 segundo o Calendário dos Isawa, nono ano do Glorioso Reinado de Hantei XXXIX

O céu agora era escuro. Mesmo durante o dia, a fumaça de dez mil incêndios ao longo da face do Império quase obscurecia a luz do dia. Isawa Kaede não podia recordar a última vez que realmente sentira o calor de Lady Amaterasu. Viajara muito até as terras da família Moshi, em busca de qualquer iluminação que pudessem oferecer-lhe. Talvez, com os conhecimentos da Senhora do Sol, Kaede conseguisse entrar em contato com o Dragão do qual compartilhava a alma. Não sentia a presença do Dragão do Void há muito tempo e receava que algo verdadeiramente horrível tivesse acontecido.

O horror que encontrara mas terras do Clã da Centopéia era algo que permanecia com ela até agora. Com tanto horror e morte pelo mundo, Kaede admirava-se amiúde que ainda não se tivesse habituado àquilo. Chorara sobre o corpo despedaçado e carbonizado de cada criança que encontrara, e lamentara a perda de todos os que haviam sido destruídos pelo domínio de Fu Leng. Contudo, talvez fosse melhor assim. Se alguma vez perdesse tanto sua humanidade, a ponto da matança sem sentido deixar de afeta-la, talvez fosse o momento de abandonar o mundo mortal.

O mundo mortal. Mortal era a palavra adequada, pois não havia mais ninguém inconsciente da própria mortalidade naqueles tempos sombrios. Criaturas sinistras, inumanas, percorriam os caminhos do Império, escravizando ou destruindo os que se lhes opunham. Alguém só poderia ter esperanças de sobreviver condescendendo com o tirânico domínio do despótico Fu Leng. E mesmo assim, a sobrevivência consistia em oferecer a própria vida como escravo a serviço do Imperador corrompido, tentando desesperadamente não atrair a atenção das bestas assassinas que o serviam.

Isawa Kaede deteve seus pensamentos e observou os arredores. Já não estava nas vastas e ardentes planícies do norte do Império, mas nos picos enegrecidos das Montanhas do Crepúsculo. Tais transições eram normais para ela. A essência do Dragão do Void, que a impregnava, ocasionalmente transportava-a a outros lugares sem aviso. Era um dos preços a pagar por ser um Oráculo. Mas Kaede não sentia a presença do Dragão do Void há tanto tempo, que se surpreendeu com a mudança repentina.

Observando os picos à sua volta, Kaede reconheceu rapidamente o lugar onde se encontrava. Esta parte das Montanhas do Crepúsculo em particular, fôra uma vez o lar do

pobre e condenado Clã do Javali. Mais importante, o último vestígio da existência do Clã, uma torre de pedra antiga, era o lar de um dos seus, Hiruma Osuno, Oráculo da Terra.

Com uma ansiedade muito humana, Kaede moveu-se através do Void, viajando no mesmo instante à Torre das Trepadeiras que seu irmão chamava de casa. Sua ansiedade acabou no mesmo instante em que avistou o que a esperava. A orgulhosa torre era uma ruína decadente, desmoronada em montes de pedra e vigas desconjuntadas. Lutando contra o desespero, ela expandiu seus sentidos para tentar captar algum sinal de vida. Suspirou aliviada. Ali havia algo; era fraco. Ainda vivia alguém entre as ruínas.

Kaede correu colina acima, até a base da torre derribada, procurando algum movimento ou sinal de vida entre os escombros. À sua direita, ouviu um pequeno ruído entre as pedras. Começou a mover-se naquela direção, mas foi forçada a deter-se quando um gigantesco monstro saiu das ruínas.

A criatura tinha pelo menos quinze pés de altura, talvez mais. Sua pele estava coberta de rijas escamas verdes e supurantes chagas vermelhas. Dentes emormes brilhavam em suas mandíbulas e seu abdômen estava coberto de tentáculos. Por sua aparência, poderia ter destruído a torre, mas devido ao seu tamanho, o monstro provavelmente ficara preso nos escombros, quando esta desmoronara. Gemia excitado, e tentou apanhar Kaede com uma garra gigantesca. Aproximando-se, ela pôde sentir outra emoção, há muito tempo ausente de seu espírito.

Raiva.

Com os dentes apertados, Kaede adiantou-se e fez um curto e rápido movimento com a mão. Um profundo ferimento abriu-se no corpo da criatura e sua carapaça dura partiu-se tão facilmente quanto água. De seu corpo escorreu um fluido azul. A besta monstruosa tremeu de surpresa e agonia, aturdida pelo choque do golpe. Kaede não parou, alcançando e destroçando a essência da criatura mais e mais, fazendo-a em pedaços. Enquanto a destroçava, pedaços de carne e ossos eram transformados em nada pelo poder do Void. Em instantes, reduzira o monstro a uma lembrança. Era como se jamais tivesse existido.

- Kaede

– chamou-a uma débil voz entre os escombros.

Ela foi correndo até a fonte da voz. Ali, estendido entre os restos despedaçados da torre estava a forma quebrada e agonizante de sua contraparte, o Oráculo da Terra. Um olhar a seu corpo alquebrado revelou-lhe que estava morrendo. Nem mesmo um Oráculo poderia sobreviver aos ferimentos que ele sofrera.

- Não tente falar. – sussurrou ela. Ocorreu-lhe que jamais se encontrara realmente com aquele homem, mas sentira instantaneamente uma afinidade implícita para com ele.

– ciciou ele – Resta pouco tempo. Quando o monstro chegou,

tentei invocar o poder do Dragão da Terra, e falhei. – tossiu violentamente; era óbvio que

tinha hemorragias internas – Você

- Você precisa saber

você também notou?

- Sim. – admitiu ela – Agora, os Dragões afastaram-se.

- Não, não se afastaram. – corrigiu-a ele, debilmente. – Abandonaram-nos, Kaede. O

Reino Mortal está perdido, e os Céus fecharam suas portas para evitar o mesmo destino. – A mão que lhe restava aferrou-se à de Kaede – Pode sentir isso? – sussurrou – Pode sentir como se foram?

Ela apenas assentiu e uma única lágrima desceu por sua face.

- Estamos perdidos.

- Não. –disse ele novamente, com uma surpreendente energia. Seus olhos brilhavam

com uma repentina fúria – Os elementos nos abandonaram, mas ainda há uma chance.

Enquanto a humanidade existir, há uma chance de vitória. Você deve ser essa oportunidade, Kaede.

- Não compreendo. – protestou ela.

- Ainda resta um Dragão. – disse ele – O Dragão do Trovão. O Dragão da coragem, o

protetor dos heróis. Enquanto permanecer conosco, teremos uma oportunidade. Mas não pode agir sozinho contra Fu Leng. Deve ter um agente. Deve ter um Oráculo. – o Oráculo moribundo deixou-se cair contra as pedras, com suas forças esvaindo-se rapidamente – Eu esperava poder ajuda-la, mas é muito tarde para isso. Resta apenas você, Kaede. Você é o Oráculo do Trovão. – sussurrou.

O Oráculo da Terra não disse mais nada. Kaede levou vários instantes para perceber que Hiruma Osuno estava morto.

Então, Kaede chorou, acariciando as faces do morto. A idéia de que seu corpo estava morto não lhe importou naquele momento, porque sua carne era pura e imaculada. Tocar outro ser humano parecia bastante inconseqüente quando a ameaça de ser despedaçado por um Oni era uma ameaça quotidiana.

Uma sensação de frio varou o corpo de Kaede, tão súbita e duramente que lhe tirou o fôlego. Sentiu como o Void se afastava dela, tão rapidamente quanto o vento mudava de uma direção para outra. Pela primeira vez em décadas, não conseguia sentir o Void. Em um instante, era novamente humana, despojada de sua magia mais poderosa. Sentiu-se tão indefesa quanto um recém-nascido.

Antes mesmo que pudesse reagir diante de sua súbita perda, uma nova sensação surgiu em seu interior, um fogo incipiente dentro de sua alma, que lhe outorgava uma sensação de segurança que jamais conhecera. De repente, ficou consciente de milhares de humanos, por toda Rokugan, cada qual lutando contra as forças de Fu Leng à sua maneira, da melhor forma que podiam. Cada um trazia dentro de si o gérmen de uma chama que poderia ter saído de uma fornalha escancarada. E alguns já possuíam esta chama.

Uma voz soou por sua mente e sua alma, despertando os ecos mais profundos em seu

ser.

- Mesmo na mais escura tempestade, o Trovão ilumina o caminho. Estou com você,

Isawa Kaede. – disse o Dragão do Trovão – Agora e para sempre. Você sabe o que fazer.

Kaede soube. Era a Guardiã dos Heróis, a protetora da última oportunidade da humanidade. Era quem devia velar através destes tempos sombrios, até que as forças da escuridão fossem expulsas e os inimigos da luz da humanidade voltassem a seu devido lugar. Devia aconselhar os heróis que restavam, e assegurar-se de que a luz da humanidade não se extinguiria para sempre.

E já sabia por onde começar.

No segundo Dia do Trovão, o Império Esmeralda de Rokugan caíra sob o poder negro de Fu Leng. Os maiores heróis da terra reuniram suas forças para exterminar o Imperador Sombrio. Fracassaram. Rindo, o Deus Obscuro invocara os demônios conhecidos como Ashura dos fossos mais profundos de Jigoku. Caíram sobre as forças de Rokugan como flagelos, destruindo tudo quanto tocavam.

Kaede soubera, quando se adiantara para salvar aos heróis de Rokugan, que desafiara as leis que governavam os Oráculos da Luz. Normalmente, um ato assim teria tido conseqüências terríveis, mas com o Império já consumido pelo caos, nutrira a esperança de

que fizesse pouca diferença. Agora, encontrando-se com o líder daqueles heróis de há três anos atrás, soube que tomara a decisão acertada.

Akodo Toturi mudara muito pouco, mas as rugas em seu rosto pareciam mais profundas, e a expressão de seus olhos revelava uma fadiga que ninguém poderia suportar. As chamas de sua alma ardiam com tamanha intensidade, que parecia um milagre que a carne pudesse conte-las.

- Fico feliz ao vê-la novamente, Kaede-san. – disse Toturi com um débil sorriso nos lábios – Pensei que estivesse perdida para nós.

- Eu estava perdida, - replicou ela – mas não no sentido a que você se refere. E agora, tenho um novo propósito. Você era a chave da minha busca.

Toturi meneou a cabeça. Seus olhos pareciam aço.

- Não é o momento para enigmas, Kaede. Você está aqui para ajudar-nos, ou não?

- Vim ajudar, Toturi. Mas novamente, não da maneira que você imagina. Você passou

anos comandando seu exército através das montanhas da fronteira ocidental de Rokugan, tomando suprimentos onde podia, e atacando os inimigos que estavam próximos. É uma vida

miserável, indigna de um homem como você.

- Não tenho nada! – ciciou Toturi – Se atacarmos com o que temos, a única coisa que

conseguirei é uma derrota e a morte violenta para meus homens. Acabaríamos servindo a Fu

Leng, como abominações mortas-vivas como Hoturi e Kamoko, ou escravos como Kachiko. Um destino assim não é melhor que a rendição, e a rendição é inaceitável.

- Eu lhe trouxe tudo quanto você precisa para lutar. – disse Kaede.

Toturi franziu o senho.

- Armas?

Kaede sorriu.

- De certo modo, sim. – fez um gesto em direção à entrada da velha e esfarrapada tenda

de Toturi. O pano foi afastado para o lado como que empurrada por um vento forte, e dois

vultos entraram.

O primeiro era de longe o maior. Tão largo como dois homens e um só punho brilhando com a luminosidade do jade sobrenatural, o poderoso guerreiro levava um tetsubo tão alto quanto um homem. O segundo era pequeno e delgado. Sua armadura, outrora azul, estava enegrecida pelo desgaste e graxa. Seu rosto estava coberto por um mempo de ferro.

- Toturi! – exclamou o primeiro homem – Ainda vivo, eh?

lentamente por suas feições marcadas – Pensei que estivesse morto, meu amigo!

sorriso

Hida

Yakamo!

Toturi

levantou-se

de seu

-

assento.

Um

estendeu-se

-

Bah! – bradou Yakamo – Você não acredita realmente que Fu Leng possa deter-me,

não é?

-

E você, - Toturi voltou-se para o segundo homem – parece-me familiar

-

Estou muito mudado, suponho

-

Daidoji Uji! – exclamou Toturi – eu pensava que não restavam mais Garças.

-

Você tem razão. – sussurrou Uji – Meu Clã está morto. Só estou vivo para matar Doji

Hoturi.

- Não posso acreditar! – disse Toturi, caindo novamente em seu assento – Eu pensava que estavam todos mortos!

- Ainda há muitas chamas ardendo através de Rokugan. – respondeu Kaede – Devemos

reunir estas chamas, se pretendemos sobreviver a esse inferno. A Garça e a Fênix estão liquidados, os Caranguejos, quase. Os Naga estão sendo exterminados. Os Dragões foram-

se. Os Unicórnios e os Escorpiões escondem-se e os Leões servem encantados a Fu Leng.

Fez-se silêncio na tenda por um instante. Então, Yakamo soltou uma risada.

- O desafio me agrada! – exclamou – Quando começamos?

O Último Ensinamento

Seth Mason

“ No ano de 1133, nosso sábio Imperador finalmente acabou com a luta demente do perigoso profeta conhecido como o Ronin Embuçado. Tendo falhado em seu intento de assassinar nosso glorioso Senhor com seu bando de traidores, o descendente de Shinsei vagou sem rumo pela terra, semeando os brotos do descontentamento e da blasfêmia. Em sua infalível visão, o Imperial Hantei encarregou seu Conselho Elemental da tarefa de acabar com a possível ameaça representada pelo último descendente de Shinsei ”

- Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1133 pelo Calendário dos Isawa, Undécimo ano do Glorioso Reinado de Hantei XXXIX

- Você foi condenado à morte, traidor, pela vontade suprema do Imortal Imperador Hantei. – o semblante de morto-vivo do Mestre Sombrio da Terra converteu-se em um sorriso enquanto lia os papéis que segurava. Kuni Yori prosseguiu, enquanto o homem delgado mantinha-se numa posição defensiva diante dele e dos outros quatro Mestres:

- Se você se submeter aos desejos de nosso Senhor e Amo, livrar-se-á de uma morte

dolorosa e da destruição às mãos do Conselho Sombrio. – Yori bocejou, entediado, coçando

as escrófulas que cobriam seu rosto com uma mas mãos.

Junto de Yori, Kitsu Okura semicerrou seus claros olhos dourados numa expressão predatória, dirigindo-se ao Ronin Embuçado:

- Espero que você se submeta livremente. - disse o Mestre da Água, com voz neutra,

apertando seu bastão gasto e maltratado. Os sininhos engastados na ponta repicaram, baixo.

Atrás deles, os cabelos alvos do Mestre mais jovem agitavam-se à brisa da manhã. Daigotsu observava, impassível por trás de sua máscara branca. A seu lado, o cadáver mumificado que era Yogo Junzo fitava Shinsei com as órbitas vazias.

Shinsei deixou que seu olhar vagasse em torno, antes de responder. Os Mestres haviam-no interceptado à saída de uma floresta nas terras dos Akodo, onde encontrara um lenhador chamado Honzo. O Ronin passara algum tempo conversando animadamente com o estranho, quando então os Mestres apareceram. O lenhador, aterrorizado, escondera-se atrás de Shinsei. O Ronin Embuçado voltara-se para sorrir calorosamente para o homem.

- Lamento não ter mais tempo para falar com você, Honzo-san. – disse, com uma tristeza genuína na voz.

Honzo pudera apenas assentir tolamente, olhando alternadamente do ronin para os Mestres Negros.

- Vamos morrer, Mestre? – sussurrou.

Shinsei sorriu.

- Sim, Honzo. Acho que sim. – disse animadamente, buscando sob a sua capa. Sacou

sua flauta shakuhachi e girou-a com uma mão. Enquanto o bastão começava a girar, o corvo de Shinsei alçou vôo com um grasnido irritado, e desapareceu na floresta. – Todos

uns antes, outros depois. – o Ronin Embuçado atirou Honzo para um lado, enquanto os Mestre olhavam seu bastão, com cautela.

- O que é isso? – ciciou Okura, pondo seu cajado rapidamente em posição de combate – Para onde foi o outro homem?

morremos

- Daigotsu, Junzo, – disse Kuni Yori – encontrem o aprendiz deste mendigo. O precioso Caminho de Shinsei morre aqui.

Os dois Mestres desapareceram silenciosamente.

- Isto? – disse Shinsei com voz curiosa enquanto avançava contra os homens que

restavam – Isto é um bastão, estimado Mestre. – com movimentos tão rápidos que nem mesmo os sentidos sobrenaturais de Okura podiam acompanhar, o monge pôs-se ao seu

alcance e desarmou o Mestre da Água, quebrando sua mandíbula com dois movimentos precisos. A flauta cantava uma canção alegre enquanto cortava o ar.

- Homenzinho vil! – uivou Yori, convocando uma nuvem de espíritos Maculados com

um gesto – Pensa que pode lutar contra o Conselho?! – os pés do shugenja Maculado flutuavam um pouco acima do chão enquanto a terra refluía e enegrecia por sua influência. O solo começou a despedaçar-se e mover-se como uma peça de porcelana ao quebrar.

Shinsei soltou uma exclamação ao voltar seu bastão giratório para proteger-se dos fragmentos, e ainda que poucos superassem sua defesa, feriram-lhe um braço e uma perna. O ataque terminou rapidamente, enquanto Yori voava em sua direção e o Ronin Embuçado detinha seu bastão o suficiente para golpear o solo sob seus pés.

- A Terra o repele, Mestre. – murmurou.

Um pedaço de rocha alçou-se do solo, golpeando Yori no ar. Okura recuperou-se e soltou um berro inumano, através da mandíbula destroçada. O Mestre Negro da Água ergueu-se sobre Shinsei, golpeando-o firmemente no peito, com um ombro. Os dois homens caíram. Shinsei sentiu como a terra sob ele fundia-se lentamente em um lodo espesso sob as ordens do Mestre da Água, prendendo-o. O Mestre da Água sorriu triunfantemente, colocando a mandíbula no lugar, com a mão.

Yori observava ansiosamente o borbulhante fosso de lama.

- Morto? – indagou o Mestre Sombrio da Terra.

A expressão no rosto de Okura era de profunda decepção enquanto o outro Mestre aproximava-se dele.

começou o Mestre da Água, mas interrompeu-se em seco quando chegou a seus ouvidos o ruído inconfundível de uma árvore quebrando-se pelo tronco. Yori e Okura olharam para os limites da floresta a apenas alguns metros, e foram surpreendidos por uma árvore enorme que caía sobre eles. Ambos tentaram esquivar-se, mas perceberam que seus pés estavam de algum modo firmemente presos no barro, que se expandira para prende-los.

Nenhum dos Mestres teve tempo de defender-se antes que a árvore os atingisse, enterrando-os na mesma armadilha em que haviam apanhado Shinsei. O Ronin Embuçado alçou-se sobre a recém-formada ponte e contemplou a cena com uma expressão divertida no rosto.

-

Para começar, que Fu Leng tenha uma vez caído nas maquinações deste homem é

- Agradeço seu sacrifício, irmã árvore. – sussurrou com um sorriso.

- Você não é tão estúpido quanto parece, pequeno Mestre. – disse uma voz muito

agradável da escuridão da floresta. Shinsei não precisava voltar-se para saber quem o saudava. A forma de Daigotsu parecia confundir-se com as sombras que o rodeavam, até surgir como uma figura sólida, em pé, com as mãos às costas – Contudo, deve saber que esta luta não acabará bem para você. – acrescentou o Mestre Negro do Void.

- Lutarei, Filho de Hantei. – disse Shinsei, voltando-se para encarar Daigotsu. – Como um pai que combate o filho sem preocupar-se com o preço, não é? – o esbelto jovem levantou uma sobrancelha para o Mestre, interrogativamente.

A resposta de Daigotsu não veio.

- Não perca tempo, Daigotsu! – gritou outra voz acima deles, e ambos os homens

ergueram o olhar para ver o Mestre Negro do Ar surgir no céu. Raios negros de eletricidade dançaram junto às mãos retorcidas e purulentas de Yogo Junzo, lançando-se contra o Ronin

Embuçado, com a velocidade e a precisão de um falcão mergulhando.

O solo estalou em fumaça negra e escombros, onde Shinsei estivera há apenas um momento. O monge mal tivera tempo de evitar a explosão de poder antinatural que brotara do Mestre Negro do Ar. Aterrisou suavemente e lançou seu bastão para encontrar Junzo em pleno ar. O Mestre grunhiu quando a arma golpeou sua garganta descoberta. O pequeno monge afastou-se rapidamente as garras de Junzo.

A dor subiu pelo braço esquerdo de Shinsei, que de repente sentiu o sangue jorrar entre

seus dedos. O monge olhou ao longe e viu Daigotsu, ainda fora de seu alcance, entoando em

voz baixa e fazendo movimentos com seu punhal de obsidiana. Outro rápido golpe do Mestre Negro do Void deixou um rastro de sangue cortando o ar atrás da arma, e Shinsei cambaleou enquanto outro ferimento cruzava seu peito.

Junzo caiu sobre o monge, com um rugido sepulcral de sua garganta destroçada. Da boca de Junzo, saiu uma nuvem de fumaça verde escura, onde antes estivera sua mandíbula. Daigotsu fez retroceder seu punhal para apunhalar novamente o ar, e Shinsei agarrou rapidamente o braço do Mestre Negro do Ar, lançando o shugenja morto-vivo para a frente. Um jorro de pó verde encheu o ar diante de Daigotsu e o Mestre Sombrio do Void lançou uma exclamação de surpresa ao ver como seu ataque era usado contra seu colega. Daigotsu deixou cair o punhal, alarmado, afastando-se do sangue venenoso de Junzo.

Shinsei afastou para o lado o leve corpo de Yogo Junzo, e atirou seu bastão ao Mestre Negro do Void. Distraído pelo sangue ácido de Junzo, o extremo do bastão atingiu a máscara de Daigotsu. A porcelana partiu-se e caiu do rosto do Mestre do Void.

Daigotsu gritou de frustração, levando a mão ao rosto ferido.

- Você vai sofrer, monge! – gritou o Mestre Sombrio do Void, arrancando os cacos de

porcelana de seu rosto e os atirando-os em direção de Shinsei. Os pequenos fragmentos cruzaram a distância entre os dois homens com uma velocidade sobrenatural, explodindo em uma radiação escura quanto atingiram o Ronin Embuçado.

O sorriso não abandonou Shinsei enquanto caía. O monge girou sua mão esquerda de

uma forma peculiar, e Daigotsu sentiu dor em seus braços. O Mestre Negro do Void baixou os olhos por um momento, para ver o bastão de Shinsei movendo-se como se tivesse vida própria. O bo golpeou rapidamente os membros de Daigotsu e colocou-se entre suas pernas, desequilibrando-o. O Mestre soltou um grito de surpresa e caiu, batendo a cabeça no chão.

Shinsei mal teve tempo de apreciar sua vitória quando seu mundo explodiu em chamas. O Ronin Embuçado foi atirado longe pelo impacto, aterrisando longe das bordas da floresta. Moveu-se rapidamente, desviando-se de outra bola de fogo vinda do céu. Enquanto voltava a pôr-se de pé, olhou para cima e avistou a figura do mais temido Mestre Sombrio de Fu Leng.

Isawa Tsuke suspirou desdenhosamente, enquanto flutuava para mais perto. Seu corpo parecia um cadáver devorado pelas chamas, com a carne esturricada contra os ossos e coberto de cicatrizes. Um halo de fogo verde rodeava-o. Juntou ambas as mãos em chamas, casualmente, e lançou-as contra o Ronin Embuçado. Os raios de fogo tinham uma velocidade sobrenatural, e o pequeno monge foi obrigado a saltar e correr para longe, para permanecer vivo. O Mestre Sombrio manteve a distância, flutuando no ar suficientemente perto para prosseguir com seu ataque, e bastante longe para escapar aos truques do monge. Justo quando este ia saltar novamente, a terra sob seus pés transformou-se em barro espesso. Sobre seu ombro, Shinsei avistou Kitsu Okura em pé, criando lentamente sua magia.

Uma das labaredas de Tsuke atingiu Shinsei no meio do peito, lançando-o para trás. Shinsei contorceu-se no ar, procurando flexionar o corpo para cair em segurança, mas então percebeu que não caía absolutamente. O poder de Yogo Junzo mantinha-o flutuando em meio a uma coluna de ventos redemoinhantes. O ataque terminou tão rapidamente quanto se iniciara, e o Ronin Embuçado caiu no chão sob ele.

O impacto tirou todo o ar dos pulmões de Shinsei, mas este negou-se a desistir. O

homenzinho rodou para um lado e esticou as pernas, apenas para sentir que algo brotava do solo a seu lado, prendendo seus braços e torso. Da terra saíam raízes enegrecidas, que

atavam o monge ao solo, indefeso diante do Conselho Sombrio de Fu Leng.

Os cinco shugenjas corruptos avançaram para o Ronin Embuçado. Este ergueu o olhar, desafiante. Daigotsu foi até seu inimigo e desembainhou novamente seu punhal de obsidiana. Avançou sem medo para apoiar um dos joelhos ao lado do homem legendário que ele e os outros Mestres haviam finalmente derrotado.

- Você achou que poderia desafiar a vontade do Senhor das Trevas, homenzinho? O

poder do Imperador? – sussurrou, pressionando a ponta da arma contra o pescoço de Shinsei.

– Certamente, não iria conseguir derrotar-nos, apesar de suas impressionantes habilidades. Diga-me, monge. Diga-me porque você ainda me olha como se tivesse vencido, e eu o ouvirei. Os outros não farão uma oferta assim.

Shinsei fitou diretamente os olhos de Daigotsu e depois aos quatro homens atrás dele, à distância suficiente para que não ouvissem suas palavras.

- Não preciso derrotar o Conselho, Filho de Hantei. Você fará isso por mim. – disse. O

monge sorriu calorosamente, e com um movimento rápido, rompeu facilmente as raízes que

lhe prendiam as mãos, aproximando-se do ouvido do Mestre do Void.

O Ronin Embuçado sussurrou rapidamente ao ouvido surpreendido do jovem Mestre e

tomou as mãos de Daigotsu entre as suas. Com um último esforço, Shinsei cravou o punhal

no próprio peito e caiu para trás, afastando-se do Mestre Sombrio do Void.

Tsuke e Okura aproximaram-se rapidamente da cena, temendo que o monge ainda tentasse resistir. Daigotsu encarou-os, com a mão direita ainda empunhando o punhal firmemente cravado no peito de Shinsei.

- Para trás! – bradou-lhes, e os outros Mestres detiveram-se.

- Traga o cadáver. – disse Yori firmemente, enquanto o corpo agonizante de Shinsei

tremia com espasmos de dor – Creio que podemos criar algo descendente de Shinsei.

- Não. – replicou Daigotsu, retirando a arma do peito de sua vítima com um pequeno

jorro de sangue. O Mestre do Void deixou que seu olhar pousasse sobre Yori por mais tempo que nos demais – Que o devorem os animais. Que bandos de ronins encontrem seu cadáver. Que Toturi saiba que Shinsei foi assassinado e que ninguém possa colocar isto em dúvida.

interessante com o último

Cada um dos outros Mestres parecia querer protestar, mas o Mestre Sombrio do Void encarou a cada um deles, com uma intensidade que só haviam visto em uma outra criatura – o Imperador.

- Agora, - prosseguiu Daigotsu – voltemos a Otosan Uchi e levemos a notícia de nossa

vitória ao Trono Imperial. – sem mais preâmbulos, a forma de Daigotsu pareceu fundir-se no ar.

Os Mestres remanescentes fitaram o lugar onde o jovem estivera, com uma clara expressão de desconfiança e ódio nos rostos.

- E o aprendiz do monge? – perguntou Okura – O que desapareceu?

- Fique aqui e procure-o, se quiser. – resmungou Tsuke – Eu volto a Otosan Uchi. – O Mestre do Fogo desapareceu com um estalo de chamas. Yori e Junzo também sumiram. Kitsu Okura lançou um último olhar à clareira, deu de ombros e partiu.

O magro Honzo tirou timidamente a cabeça de uma pilha de mato, com o olhar de uma ovelha que acabava de ver passar cinco lobos. Ao ver o corpo do pequeno Mestre estirado no chão, correu até ele e caiu de joelhos, soluçando ruidosamente.

-

Hon

Honzo

por favor

Estou

estou tentando dormir

– uma débil voz saía do

corpo.

 

O

jovem lenhador quase caiu de costas diante do som da voz do Mestre.

- Shinsei! – gritou ele – Você está vivo!

O magro monge sorriu debilmente e ergueu o olhar para seu último discípulo.

o Ciclo Kármico terminou para mim. Acabou-se a Era de

Shinsei. – tossiu fracamente, com o sangue manchando seus lábios.

- Mas, o que faremos nós, Mestre? – perguntou freneticamente Honzo – Quem nos guiará? Quem nos mostrará o Caminho?

- Estou morrendo, Honzo

- Não é óbvio? – sorriu o Ronin Embuçado – Você.

- Eu nunca poderia fazer isso

Sou

apenas um homem

nada especial

– sua voz

extinguia-se enquanto Shinsei sustentava o olhar do camponês com o seu.

- É por isso

- Nem sei por onde começar, Mestre. – disse Honzo debilmente.

O pequeno Monge sorriu.

que precisa ser você

– disse Shinsei.

-

Com um

único passo, Honzo. – disse.

E

não falou mais.

Honzo enterrou o pequeno monge e abriu seu caminho através da floresta. Mal percebeu quando um corvo veio pousar em seu ombro.

Um Último Desejo

Shawn Carman

Inimigos do Imperador, saibam que poderão permanecer escondidos! Ninguém pode desafiar o poder do Senhor Sombrio! Gozem, que sua morte está próxima! - Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1136 pelo calendário dos Isawa, décimo quarto ano do glorioso reinado de Hantei XXXIX

- Já estamos chegando, garota. – sussurrou Shiba Tsukune – Agüente um pouco mais. – a magra samurai-ko inclinou-se para a frente, para acariciar o pescoço do cavalo e reconfortá-lo. – Não falta muito e logo você poderá descansar. Nós duas poderemos descansar.

Não era comum que um Fênix demonstrasse tanto carinho com seu cavalo, refletiu Tsukune, acariciando o pescoço do velho animal. Este comportamento era mais apropriado para uma Donzela Guerreira Unicórnio que para uma Fênix cavalgando uma cansada e velha égua. A alma de um Shiba deveria concentrar-se em coisas mais espirituais. É claro, um Shiba vivo era coisa pouco comum. Tsukune não via outro membro de sua família há quase seis anos. Receava que não sobrasse ninguém mais.

Talvez se preocupasse tanto com o cavalo porque sentia que era seu único amigo.

O cavalo tornou a tropeçar, no terreno acidentado. As belas terras que Tsukune conhecera quando era menina não existiam mais. Desde que Isawa Tsuke pusera-se a serviço do Imperador Sombrio Fu Leng e com a criação do Conselho Sombrio, as terras dos Fênix haviam-se convertido em taperas. Os Mestres Sombrios destruíram basicamente cada aldeia, povoado, cidade e palácio, em cada uma das províncias dos Fênix, deixando vivos apenas um punhado de lavradores e de samurais alquebrados para servi-los. Uma vez completada a conquista, construíram cinco torres sobre as ruínas de Kyuden Isawa. Seus corruptos servidores elementais reviravam o Império em busca dos Fênix sobreviventes. A mensagem era clara: somente os membros do Conselho Sombrio poderiam intitular-se mestres da magia no Império de Fu Leng.

Tsukune sobrevivera a vários ataques do Conselho Negro. No último, deixara que pensassem que estava morta, deixando sua armadura carbonizada em um corpo desconhecido, nas ruínas de uma estalagem, em algum canto das terras das Garças. Isso acontecera há mais de um ano, e em todo este tempo, não voltara a ser atacada.

Há anos Tsukune não escutava os sussurros da Alma de Shiba. Sua última ordem fôra para esconder Ofushikai, a Espada Ancestral dos Fênix. A espada estava agora enterrada numa caverna na costa. Se precisasse da espada, poderia invoca-la em um instante à sua mão. Enquanto isso, ela e a espada estariam mais seguras separadas. Desde que deixara a espada para trás, não tivera mais problemas com o Conselho Sombrio. Ou acreditavam que estava morta, ou haviam decidido que não era uma ameaça, não sendo portanto, digna de sua atenção.

Ela preferia pensar que se tratava da primeira opção, mas intuía que se tratava segunda.

Quando o Império caíra diante de Fu Leng, ela jurara lutar até o dia de sua morte. De algum modo, com os anos, o juramento transformara-se em uma decisão de não sucumbir ante as forças do Imperador. E agora, até isso se fora. Durante anos, perambulara exausta, sem rumo nem causa, sem forças para prosseguir com a luta. Vagueara de um lugar para outro durante um tempo que lhe parecia eterno, sem outra noção que o instinto básico de manter-se viva.

De forma casual, encontrara uma razão para prosseguir. Há seis meses, descobrira um esconderijo de pergaminhos nas ruínas de um templo próximo a Shiro Shiba. Um deles falava de um antigo artefato que os Shiba deviam proteger nos primeiros dias do Império. Ficara escondido durante séculos, devido ao fato de seu poder ser muito grande para ser controlado por qualquer mortal. Era a última criação de Isawa, o fundador da poderosa família de shugenjas. Era conhecido como O Último Desejo de Isawa. Todos os que pretenderam dominar seu poder viram-se consumidos por seus próprios desejos, e destruídos.

Para sua vergonha, a primeira reação de Tsukune foi de temor. Ainda que pudesse encontrar e brandir o Desejo, não saberia o que fazer com ele. Duvidava que qualquer artefato criado por um homem pudesse verdadeiramente opor-se ao poder de um deus; contudo, o próprio Shiba não dobrara o joelho diante de Isawa?

E, mesmo que pudesse dominar o Desejo, não tinha idéia de como usá-lo sabiamente.

Tsukune nascera uma guerreira, e jamais duvidara disso. Não era suficientemente sábia para

tomar uma decisão assim. Isawa Tadaka teria compreendido seus mistérios arcanos, mas estava morto. A cada dia, sua alma definhava pela dor de sua ausência. Talvez, um dia, pudesse voltar a vê-lo.

Houve outra sacudidela doentia, quando a égua de Tsukune voltou a tropeçar. Tentou acariciar seu pescoço, mas subitamente viu-se caindo para diante, quando o animal tombou debaixo dela. Seu treinamento assumiu o controle, e caiu girando, o que fez com que a queda não a afetasse muito. Seu ombro bateu em uma pedra saliente enquanto rolava pelo solo pedregoso, e fê-la gemer de dor.

Tsukune pôs-se dolorosamente em pé, gemendo ao menor movimento de seu ombro. Um olhar para sua montaria a fez ver que sua ferida sangrava copiosamente. Os olhos da égua ficaram brancos de exaustão. Não havia nada que pudesse fazer. Tsukune ajoelhou-se e acariciou a cabeça do animal enquanto sua respiração cessava. Um casco golpeou levemente as pedras e a égua respirou pela última vez. Uma lágrima correu pela face de Tsukune. Era estranho que sentisse tanta tristeza por um animal. Tsukune pensava que a morte havia deixado de afeta-la, mas esta égua fôra uma companheira constante e leal durante muitos e longos meses. O pensamento de perder mais um amigo enchia o coração de Tsukune de pesar.

- Você foi a última. – sussurrou – Não perderei ninguém mais, não importa o o quanto custe. – contemplou a montanha que se erguia à distância. Seu destino estava próximo.

montanha

determinadamente, com a boca apertada numa linha delgada.

A entrada da câmara estava onde o pergaminho indicara que deveria estar, mas o

acesso desmoronara há muito tempo, deixando um monte de escombros igual ao resto da encosta da montanha, a não ser que se soubesse onde procurar. Tsukune levou vários dias para abrir uma passagem grande o suficiente para penetrar nas cavernas, lá dentro. O trabalho deixava-a exausta, e não trouxera provisões suficientes para todo aquele tempo. Somente pensar no que a esperava dava-lhe forças para prosseguir.

Apanhando

suas

coisas,

Tsukune

começou

a

caminhar

para

a

Era o entardecer do terceiro dia, quando os escombros foram afastados da entrada o bastante para que Tsukune pudesse entrar rastejando. Levando o pergaminho que a trouxera até lá em uma mão, e uma caixinha na outra, penetrou no túnel.

A escuridão era completa. Por um instante, Tsukune receou não poder fazer nada.

Depois de vir de tão longe, o mero pensamento de que teria de revistar o campo em busca de uma tocha a exasperava. Mas depois de alguns instantes, passou a enxergar a silhueta das

coisas que tinha a seu redor. Não eram seus olhos ajustando-se à escuridão, mas uma claridade à distância. Seu coração saltou de esperança quando se deu conta de que chegara ao fim de sua busca.

Saindo rastejando do túnel para uma câmara maior, Tsukune tropeçou e quase caiu, nos corpos, mortos há muito tempo, de vários guardas Shiba. Por seu aspecto, eles haviam provocado o desabamento que ocultara esta câmara. Morreram ao cumprir seu último dever, como samurais honrados. Tsukune sussurrou uma breve oração aos ancestrais dos samurais e seguiu seu caminho. Não podia fazer mais nada por eles.

Foi andando cautelosamente pelos longos corredores, seguindo a luz que irradiava por todo o lugar. Depois de todo este tempo, tendo vindo de tão longe, estava estranhamente amedrontada do que encontraria. A possibilidade de êxito era intoxicante, mas o horror do fracasso era tal, que titubeou, insegura quanto a prosseguir ou deter-se. Apertou fortemente a caixinha em sua mão e encontrou forças para continuar.

A câmara no final do corredor era menor do que imaginara. Era quase esférica e

parecia demasiado lisa, demasiado perfeita. O centro do aposento era dominado por um estranho pilar que lhe recordava vagamente um altar. E ali, sobre o pilar, um brilhante globo girava lentamente. Dentro de sua luminescência, Tsukune podia distinguir uma espécie de imagem ou esboço. Ao observar mais de perto, pôde ver que o globo não descansava sobre o pilar, mas flutuava alguns centímetros sobre ele.

O Último Desejo de Isawa. O artefato mais poderoso jamais criado por mãos humanas. Havia sido construído por Isawa, durante os primeiros dias do Império, com a ajuda de poderosos shugenjas como Isawa Akiko, Asako Sagoten e Isawa Yogo. Depois da morte de Isawa no primeiro Dia do Trovão, jamais fôra concluído. Ao invés de tentar dominar um poder que não logravam compreender, os Fênix encerraram o artefato sob o cuidado dos Shiba, a única família que poderia resistir ao canto de sereia de seu poder.

- Quem é você? – a voz chegou à sua mente, – O que aconteceu com os outros? –

soava estranhamente infantil, quase inocente. Não havia acusação em seu tom, apenas

curiosidade e uma profunda, profunda e dolorosa solidão.

sou Shiba Tsukune, a última dos Shiba. – respondeu, sem saber o que diria até

que as palavras saíssem de sua boca.

- A última dos Shiba? Aonde foram os Shiba? Eu os amava. Eram bons e gentis. – a voz era pesarosa; era verdadeiramente perturbador.

- Acho que eu sou a última. Fazem muitos anos desde que encontrei outro samurai Fênix não-corrompido.

- Sou

- E os Isawa? – perguntou a voz, desesperada – E a família de meu pai?

- Agora são governados por um mau homem chamado Tsuke. – disse Tsukune.

- Então, nunca serei acabado. – havia um pesar no tom do artefato que fez doer o

coração de Tsukune. Ela também conhecia essa dor – Ficarei para sempre incompleto.

Ela assentiu em silêncio.

- Eu também. – disse, num murmúrio – Perdi uma parte de mim mesma, e sinto-me vazia sem ela.

- Como foi isso? Eu achava que os humanos nasciam completos.

Apesar de tudo, Tsukune sorriu.

- A verdade é que estamos completos. Ou pelo menos pensamos que estamos, até que encontramos algo que não sabíamos que nos faltava. Isso aconteceu comigo.

- Parece interessante. – disse a voz – O que você encontrou?

Tsukune abriu a caixa e deixou cair uma pequena pedra preciosa em sua mão. Era cor de laranja pálido, com veios roxos. Outrora, essa poderia ser a mesma cor de seus quimonos. Era a única coisa bonita que ainda possuía.

- Encontrei alguém a quem amava mais que à vida. Deu-me isto para recordar o que compartilhamos. Mas ele morreu, e eu me vejo cada dia mais perdida sem ele.

- Lamento, Tsukune. – disse o Desejo – Sei como se sente. Posso vê-lo em sua memória. Lembra-me o meu pai.

- Não conheço os limites de seu poder, mas venho pedir-lhe que mo devolva. – Tsukune não viu razão para evitar o pedido.

- Você quer que eu ache Tadaka? Quer que eu o ressuscite?

- Você pode fazer?

Houve outro momento de silêncio.

- Sempre senti os outros Reinos. Já penetrei neles algumas vezes, mas nunca trouxe nada de volta. Pode ser interessante tentar.

- Por favor. – suspirou Tsukune – Eu lhe imploro.

- Farei. – disse a voz confiantemente. Logo, depois de um instante: - Acho que

precisarei de algo para colocar sua alma, caso a encontre. Talvez um destes corpos no

corredor

- Não! – gritou Tsukune – Use o meu corpo se é isso que precisa, mas não ponha sua alma em algo morto!

- Só estava brincando. – disse o Desejo, com uma risadinha travessa – Creio que tenho uma idéia. Toque-me Shiba Tsukune. Preciso da sua ajuda.

Tsukune esticou o braço e apertou os dedos contra a superfície do Desejo. Estava quente, como algo vivo. O Último Desejo ergueu-se lentamente no ar, girando até a palma da sua mão. Começou a brilhar muito, enchendo o aposento com uma luz ofuscante. Pareceu crescer, mas Tsukune não pôde continuar olhando diretamente. Finalmente, teve que desviar o olhar, já que brilhava cada vez mais. Olhando para o outro lado, ouviu um ruído, depois um eco débil, como se escutasse o mar, a uma grande distância.

Subitamente, o aposento ficou silencioso. Tsukune percebeu que estivera contendo a respiração. Não sentia o calor do Desejo em sua mão. Percebeu, em algum lugar da câmara o soar de uma profunda e pesada respiração. Temerosamente, levantou sua mão para olhar. Um homem alto, com um amplo jingasa de palha estava em pé no aposento, fitando suas mãos com espanto. Uma bandana de pano rodeava seu pescoço, revelando um rosto atrativo que ela conhecia muito bem.

- Tadaka! – suspirou ela – Você voltou!

A figura levantou o olhar, sorrindo para Tsukune. Seus olhos eram branco puro e brilhavam com energia.

A brilhante figura olhou-a interrogativamente.

- Tsukune? – disse o Desejo, através dos lábios de Tadaka – É o correto

certa?

sou a pessoa

- O que você fez? – perguntou Tsukune, caindo de joelhos diante da aparição.

- Não pude trazer Tadaka de volta. – disse o Desejo – Mas encontrei seu espírito. Ele está sempre perto de você, Tsukune, protegendo-a. Tadaka agora é parte de mim.

- Sua voz parece diferente. – disse Tsukune – Você fala como Tadaka.

O Desejo assentiu.

- Tadaka completou-me. Somente ele poderia fazer isso; mesmo morto, sua sabedoria é

tão grande como a do primeiro Trovão dos Fênix, meu pai, meu criador. Antes fui o Último Desejo de Isawa, o desejo que os mortais e os kami pudessem entender-se melhor entre si.

Agora, somos o Último Desejo de Tadaka, um desejo de que a sombra de Fu Leng seja banida para sempre deste mundo.

A expressão de Tsukune fez-se triste.

- Então, você planeja lutar contra o Imperador?

- Não imediatamente. – disse o Desejo – Recordamos muito claramente a morte de

Tadaka. Teremos muito cuidado antes de desafiar Fu Leng. Pode passar-se muito tempo

Tsukune concordou, aliviada.

Os olhos do Desejo fizeram-se vazios por um momento.

- Tadaka disse que quer agradecer a você por nunca ter perdido a esperança, Tsukune. diz que lamenta nunca ter encontrado durante a vida as palavras para dizer-lhe o que

Diz

sentia. Ele a ama com todo o seu ser, Tsukune. Não é bonito? – o Desejo sorriu inocente e amavelmente.

Lágrimas de alegria tombavam pelas faces de Tsukune.

- Obrigada. – murmurou.

- Obrigado a você. – disse o Desejo – Não estaríamos completos sem você.

- O que você fará agora?

- Queremos conhecer o que teremos de fazer para consertar o Império. – disse o Desejo, estendendo uma mão – Vai nos ajudar, Tsukune?

Tsukune assentiu silenciosamente e tomou a mão do Último Desejo na sua. Se o Desejo levava ou não a alma de Isawa Tadaka, ainda precisaria descobrir. Por ora, era o mais parecido que poderia ter.

A Promessa

Rich Wulf

Neste ano, assegurou-se para sempre o reinado do Imperador. Que o Império de regozije! - Miya Satoshi, Arauto Imperial, ano 1135 pelo Calendário dos Isawa, Décimo Terceiro ano do Glorioso Reinado de Hnatei XXXIX.

Muitos anos antes do Dia do

- A escolha foi feita, Aramoro. – disse Bayushi Shoju, fitando sem emoção seu meio- irmão ajoelhado à sua frente. – Na Primavera, Shosuro Kachiko e eu nos casaremos.

- Parabéns. – ciciou o ninja através dos dentes apertados, mantendo o olhar fixo nos pés de seu irmão.

- Sei o que você sente em relação a ela, Aramoro. – disse Shoju, com a voz ecoando através da amedrontadora máscara de ferro.

Aramoro ergueu o olhar para o irmão.

- Quer saber se ainda a amo?

Shoju assentiu.

- Sim. – disse o ninja baixando novamente a cabeça – Mas minha lealdade é para com os Escorpiões. Se você teme que eu o traia, mate-me agora e viva com isto.

Shoju deu de ombros. Avançou e colocou uma mão no ombro de Aramoro, fazendo com que o jovem se retraísse.

- Eu o conheço, Aramoro, e você me conhece. Letal você pode ser, mas nunca desleal.

Aramoro fitou o irmão.

- O que você quer de mim?

- Eu amo Shosuro Kachiko, – disse Shoju – mas não confio nela. Você é o Mestre das

Sombras, Aramoro. Você nunca falhou para com nosso Clã. Sei que você é o único homem no Império que poderia protegê-la verdadeiramente.

Aramoro ficou calado durante algum tempo, somente encarando o irmão. Ao contrário de Aramoro, que herdara as belas feições típicas da linhagem dos Bayushi, Shoju nascera desfigurado. Mantinha o rosto sempre oculto; Aramoro era um dos poucos homens vivos que conhecia a face do Senhor dos Escorpiões. Shoju era um líder talentoso, mas conhecia seus limites. Agora, seus olhos brilhavam de medo e incerteza, medo de que sua amada pudesse traí-lo, por causa de sua deformidade.

- Não quero ficar próximo dela. – respondeu Aramoro, por fim. – Não quero ser tentado.

- Eu não lhe confiaria uma tarefa se achasse que você não seria suficientemente forte

para executa-la. – disse Shoju. – Não posso reinar sobre os Escorpiões se estiver distraído por meu coração. Peço-lhe pela última vez, Aramoro. Irá proteger Kachiko?

Aramoro curvou a cabeça mais uma vez.

- Sim, meu irmão. – respondeu, com voz firme – Protegê-la-ei com minha espada, minha honra e minha vida. Sempre.

- Obrigado, Aramoro. – disse o irmão, e, pela primeira vez em todos os anos que haviam convivido, havia verdadeira ternura fraternal na voz de Shoju.

Hoje…

Só um tolo desafiaria o horror do Palácio de Fu Leng. Só um louco tentaria espreitar a própria sala do trono. Só um homem que não desse o mínimo valor à própria vida ousaria espionar o mostruoso Imperador.

Enquanto Bayushi Aramoro espremia-se na passagem secreta e observava a reunião do Imperador com sua Corte, tentava não pensar muito. Concentrava-se somente em manter-se imóvel e quieto. Por sete anos, esgueirara-se pelas sombras do Palácio Imperial, observando silenciosamente o Imperador louco distrair sua Corte com aqueles bastante insanos ou desesperados para opor-lhe resistência.

O Imperador fungou desdenhosamente ao largar a garganta de um shugenja do Clã do

Leão. O homem caiu aos pés do trono. Os guardas que se postavam no salão ocultavam seu

medo e choque; quem sobrevivera tanto tempo sabia que não deveria atrair a atenção do Imperador quando se encontrava neste estado.

– grunhiu o homem caído, erguendo o olhar para Fu Leng. O

Eu não pretendia

ofende-lo!

- Vocês falharam! – gritou o Imperador, chutando o peito do homem. Um ruído estranho soou e o homem gemeu. O Imperador recuou em direção ao Trono Esmeralda e sentou-se. Filamentos escuros espalharam-se através da pedra, onde seus dedos a tocavam. O irmão de Aramoro, Shoju, havia provocado a rachadura, anos atrás; tinha sido o primeiro a prever a sombra que se estenderia através do Império. Tolos como Toturi haviam assassinado Shoju por sua presciência, chamando-o de traidor e condenando Rokugan com sua ignorância.

sangue fluía do corte em seus lábios. – Nós

- Meu Imperador

tentaremos novamente

Ao lado do Imperador, a Imperatriz Kachiko sentava-se quieta e serena, ignorando estudadamente a carnificina. O Imperador fitou-a, com um brilho ensandecido no olhar.

Aramoro sacou a ninja-to de seu saya em uma fração de segundo, como já fizera uma centena de vezes, desde o Dia do Trovão. Se o Imperador resolvesse matar Kachiko, havia pouca coisa que ele pudesse fazer. Não importava. Promessa era promessa.

- Você desaprova a maneira de tratar meu visitante, minha querida? – indagou o Imperador, em voz melíflua. O tom fez com que Aramoro rangesse os dentes.

- O Imperador nunca comete injustiças. – disse Kachiko. – Se o homem não merece punição pela mensagem que trouxe, merece-a por algum outro crime.

O Imperador sorriu, deliberadamente.

- É assim, então? – replicou – Talvez você esteja certa. Neste caso, talvez haja pecados

ainda maiores, aos quais se deva atentar. Não se pode permitir que a injustiça prevaleça. –

acenou com uma mão em direção do Kitsu caído. O homem explodiu instantaneamente em chamas negras. Debateu-se por algum tempo, antes de imobilizar-se.

Kachiko contemplou o corpo em chamas e estremeceu. Aramoro sabia que o gesto era falso; depois de todos os horrores que ela testemunhara na sala do trono do Imperador, um a mais dificilmente poderia afeta-la. Ainda assim, sabia que, se não reagisse, o Imperador poderia causar ainda mais dor. O ninja embainhou silenciosamente a espada e concordou silenciosamente.

As portas do salão escancararam-se, fazendo com que o Imperador as observasse curiosamente. A pálida forma de Hoturi Sem Coração, o Campeão Obsidiana, estava parada no limiar. Suas belas feições torceram-se em um sorriso cruel ao ver o cadáver no chão.

- Saudações, Senhor das Trevas. – disse ele, curvando-se. – Devo providenciar para que o visitante seja removido?

- Ainda não. - disse o Imperador. Agitou a mão novamente e o cadáver elevou-se no ar,

como se erguido por mãos invisíveis. Então, chocou-se contra a parede, desabando em uma pilha de ossos e pedaços de armadura. – Isso combina com o ambiente, acho.

- Claro. – respondeu Hoturi. – O Conselho Negro aguarda vossa atenção.

- Mande-os entrar. – replicou o Imperador.

O Campeão Obsidiana voltou-se e deixou o salão novamente, dirigindo um último

sorriso à Imperatriz. Kachiko amara Hoturi outrora, antes que Fu Leng o assassinasse e transformasse em uma abominação morta-viva. Sua ligação secreta havia levado ao nascimento de um filho, que Shoju reconhecera como sendo seu. A raiva pelo que a Garça fizera a seu irmão fazia com que Aramoro odiasse Hoturi; e esse sentimento exacerbava-se pelo ciúme do amor que Kachiko lhe dedicara, e pela dor nos olhos dela a cada vez que era obrigada a contemplar o que o Imperador fizera dele.

O Campeão Obsidiana retornou, afastando-se para o lado para que o Conselho

Elemental pudesse entrar. Os Mestres postaram-se diante do Trono, lado a lado. Três deles vestiam trajes de shugenjas O quarto trazia apenas uma tanga e um círculo metálico à volta de seu crânio carbonizado; a nuvem de chamas que cercava constantemente seu corpo não permitia nada além disso.

- Saudações, Mestres. – disse o Imperador com um toque amargo na voz.

- Bom dia, Filho do Céu. – disse Yogo Junzo. Sua voz cavernosa saía

fantasmagoricamente de sua cabeça seca e descarnada. Dentre todos os Mestres, Aramoro desprezava Junzo mais que os outros. Uma vez, ele fôra um Escorpião, mas traíra sua fé e abrira o Primeiro Pergaminho Negro. Se não fosse pela arrogância de Junzo, Fu Leng nunca teria se levantado novamente.

- Isso é um bom dia? – fungou o Imperador, enquanto voltava seu olhar aterrorizante para o Mestre da Água. – Seus homens falharam em encontrar o acampamento de Hida O’Uchi, Okura-san.

Kitsu Okura lançou um olhar nervoso ao corpo despedaçado e abriu a boca para falar, mas as palavras não saíram. O Mestre da Água estava obviamente aterrorizado.

- A cria do Caranguejo é tão astuta quanto seu pai. – observou Kuni Yori, sorrindo

obsequiosamente, enquanto tentava justificar seu desnorteado confrade. – Enviarei um dos Escolhidos para cuidar dela, de uma vez por todas.

- Envie três. – ordenou o Imperador, esfregando o queixo com uma das mãos.

- Três ashura? – exclamou Yori, com os olhos cintilando diante da idéia – Excelente! Isso será um exemplo para os outros, certamente.

- Basta. – disse o Imperador, impaciente. – Por que os quatro estão aqui? Alguma

novidade, suponho. Esta parece ser a única razão para a reunião da tarde de ontem.

- Vossa Majestade é soberanamente perspicaz, como sempre. – disse Isawa Tsuke, -

Infelizmente, trazemos más notícias

vossos bichinhos de estimação. – o Mestre do Fogo gesticulou em direção aos guardas, mas

seus olhos apontavam para Kachiko.

uma informação muito delicada. Deveríeis dispensar

- Ousa referir-se assim à Imperatriz? – disse Kachiko, com voz distante.

- Deixe-nos, mulher. – rosnou o Imperador, sem olhar para ela.

Os olhos de Kachiko dilataram-se, mas ela não disse mais nada. Levantou-se e deixou

a sala.

Aramoro deixou escapar um breve suspiro. O Império pensava que Kachiko era uma traidora, a vil concubina de Fu Leng. Aramoro sabia a verdade; ela não era tratada como uma igual aqui, mas como uma prisioneira. Se não fosse por sua presença, por sua recusa em ceder completamente aos caprichos do deus maligno, Fu Leng poderia ter abandonado a pretensão de governar Rokugan e simplesmente exterminado toda a vida do Império. Se ela demonstrasse demasiada força, Fu Leng poderia frustrar-se e mata-la. Se demonstrasse

fraqueza, ele poderia desinteressar-se do desafio de conquista-la. Era um passeio pelo fio de uma lâmina. A maioria dos samurais não teria agüentado viver sete anos ao lado de um deus ensandecido, sobrevivendo a seus instintos assassinos. Kachiko era mais forte do que parecia. Era a maior heroína que ele conhecera. Aramoro agradecia com todo o seu coração

o fato de estar próximo dela. Voltou-se para a passagem secreta, para segui-la e guarda-la

enquanto voltava a seus aposentos, mas algo fê-lo deter-se. Retornou e permaneceu oculto atrás da parede, ouvindo o que os Mestres teriam a dizer.

- Agora. – disse o Imperador, cruzando os braços diante do peito, inclinando-se para a frente no trono e fitando os Mestres com expectativa.

- Descobrimos algumas coisas perturbadores, Majestade. – disse Junzo, inclinando

obedientemente a cabeça descarnada. – O que temos a dizer pode perturbar-vos, a princípio,

mas asseguro-vos que o problema não é tão grave quanto

- Bah! Vá direto ao assunto, Escorpião. – interrompeu Kuni Yori – Estais morrendo, Senhor das Trevas.

O Imperador riu.

- Eu sou imortal. – replicoou ele. – Enquanto o Décimo-Segundo Pergaminho permanecer selado, serei imortal.

- Vosso espírito é imortal, na verdade, - ripostou Yori – mas seu invólucro não é. Conte-lhe, Okura.

O perturbado Leão ergueu os olhos e concordou nervosamente, com o queixo trêmulo.

- Suspeitei disso pela primeira vez no último Inverno, quando fui chamado para

renovar as barreiras que protegiam vossos aposentos. Notei que parecíeis mais maduro, mais velho que no Dia do Trovão. Comuniquei-me com os espíritos de Jigoku e eles confirmaram meus temores. Estais envelhecendo, mais vagarosamente que o normal, é verdade, mas estais definitivamente envelhecendo. Visto que vossa essência não habita inteiramente a forma de Hantei, permaneceis imortal. Contudo, vosso corpo continuará a envelhecer, como sempre. No devido tempo, ele morrerá.

- Inaceitável. – disse o Imperador. – Certamente poderemos prevenir que algo assim ocorra. Eu sou um deus!

- É aí que está o problema. – observou Junzo. – Vossa presença neste Reino está

inextricavelmente ligada ao sangue de Hantei, o irmão que vos traiu, negando-vos vosso lugar de direito nos Céus e em Rokugan. É vosso poder divino que mantém vosso corpo como aquilo que ele deve ser – um verdadeiro Hantei. É a razão pela qual os ferimentos que os Trovões infligiram-vos no último Dia do Trovão curaram-se eventualmente, deixando-vos novamente em perfeita forma.

- Porém, - juntou Yori, - isso significa somente que vosso corpo é indestrutível. Apenas

a idade pode derrotar-vos.

- Mais isso ainda não é tudo. – disse Okura. – Acreditamos que vosso espírito poderia permanecer no Reino dos Mortais, mesmo sem um corpo.

- Então eu poderia viver como em espírito incorpóreo? – indagou o Imperador, enquanto seus olhos tornavam-se vermelhos. Suas mãos agarraram-se firmemente aos braços de seu Trono Esmeralda. Ondas de escuridão absoluta pulsavam através de todo o antigo trono. – Viver como um indigno kansen?

- Sempre poderíeis abrir o Décimo-Segundo Pergaminho e penetrar inteiramente neste mundo. – propôs Junzo.

- E tornar-me mortal? – zombou o Imperador. – Acho que não. Ainda preferiria ser um fantasma imortal.

- Há uma outra possibilidade, Majestade. – observou Tsuke. – Quando vosso corpo morrer, poderíeis encontrar outro Hantei e possuí-lo.

- Idiota! – rugiu o Imperador. – Os Otomo e Seppun estão todos mortos.

- O traidor Daigotsu carrega o sangue dos Hantei. – lembrou Okura.

- E o que aconteceria quando ele fosse possuído? – perguntou o Imperador.

- Seu espírito seria expulso e consumido, como o espírito do corpo que ocupais agora foi aniquilado. – explicou Tsuke.

- Perfeito! – exclamou o Imperador. – Vão e encontrem Daigotsu.

- Ele é poderoso, Senhor das Trevas. – disse Yori. – E se não conseguirmos captura-lo

vivo?

- Então, matem-no. – disse o Imperador, indiferente. - Não faz mal. Creio que tenho

outro plano. – o Imperador ergueu-se de seu trono. – O Conselho Negro está dispensado.

Quando o Imperador atravessou ao salões e aposentos do Palácio Imperial, Aramoro

seguiu-o. Ocultar-se aos olhos e ouvidos de um deus desafiava suas habilidades de ninja, mas Aramoro ignorou deliberadamente o medo. Uma negra suspeita nascera-lhe no coração;

e queria saber o que o Imperador estava tramando.

O Senhor das Trevas afastou o painel da parede a seu lado com um olhar em torno e penetrou nas catacumbas sob o palácio. Mesmo antes do Dia do Trovão, os túneis tinham a reputação de ser habitados por espíritos malignos. Rumores diziam que eram assombrados por fantasmas de imperadores mortos, por sombrias criaturas que uma vez haviam servido a Iuchiban, por espíritos de gaijin assassinados longe de sua pátria, por outras coisas que

simplesmente não tinham nome. A última vez que Aramoro entrara lá havia sido durante o Golpe, no dia em que seu irmão morrera. Penetrou novamente agora, sem hesitação. Por mais mal-assombradas que fossem as catacumbas, não poderiam ser mais horríveis que o homem que ele estava seguindo.

Fu Leng desceu por escadas em espiral, movendo-se desenvoltamente na escuridão cerrada. Aramoro segurava um pequeno nemuranai na mão, a figura de um escorpião preparando-se para picar. Mesmo com sua ajuda, ele dificilmente conseguia enxergar o lugar onde colocava os pés sem tropeçar. Aramoro sabia que era uma tremenda imprudência seguir Fu Leng tão longe, mas seus instintos gritavam-lhe para continuar.

O sombrio Imperador parou diante de uma porta colossal, aberta. Estendeu seu braço

através da abertura e sorriu. Línguas de fogo cercaram sua mão, como espíritos raivosos, consumindo sua carne em um instante. Uma vez transposta de volta a abertura, músculos e pele restauraram-se novamente. Com um sorriso satisfeito, o Imperador cruzou a entrada. Os espíritos de fogo despiram de carne o esqueleto do Imperador. Um momento depois, sua carne regenerou-se novamente. Até o quimono estava perfeito.

Aramoro postou-se diante do limiar da entrada. Duvidava que pudesse sobreviver à passagem, como o Imperador fizera. No aposento além dela, podia avistar a figura do Imperador. Estava parado diante do que parecia ser um grande bloco de carne suspenso do teto por finas correntes. O estômago de Aramoro contraiu-se ao perceber que se tratava do corpo de um homem com os membros decepados. E ficou ainda mais aterrorizado quando o homem ergueu a cabeça, os longos cabelos cobrindo-lhe o rosto.

- Olá, irmão. – disse Fu Leng, calçando uma luva enquanto passeava pelo aposento.

O corpo desmembrado não era outro senão Togashi, o divino fundador do Clã do

Dragão. O sangue de Aramoro gelou. Que espécie de monstro faria aquilo com o próprio

irmão?

- Konichiwa. – disse Togashi, com esforço. – Pensei que havia esquecido de mim.

- Eu jamais poderia esquece-lo, Togashi. – disse Fu Leng, erguendo o queixo do homem com uma mão.

- Ora, Fu Leng, - disse Togashi. – você parece mais velho! – os olhos do Dragão brilharam em momentâneo triunfo.

- Você sabia! – berrou Fu Leng, largando brutalmente o queixo de Togashi. – Você

sabia que meu corpo não viveria para sempre! Isso era parte de seu plano infernal! Seus

Trovões estão mortos! Seu Império caiu! E você ainda acha que pode vencer?! – Fu Leng sacudiu o irmão, fazendo com que as correntes penetrassem em sua carne.

- Você é um tolo, irmãozinho. – disse Togashi, com um sorriso doloroso. – Por mais que trame, planeje e tente, seu maior inimigo é você mesmo.

- Você pensa que sabe tudo. – disse Fu Leng, largando o irmão com um safanão. –

Você está errado. Haverá um Hantei para carregar meu espírito, mesmo se eu tiver de criar um. – virou as costas para Togashi – O sangue dos Hantei flui em minhas veias. Só preciso de um herdeiro. – Fu Leng sorriu – O Escorpião parece ser ainda fértil. Ela servirá.

- Você não pode fazer isso. – disse Togashi, com voz fraca.

- Não posso? – indagou Fu Leng com voz zombeteira. – Você diz que eu sou o único

que posso derrotar-me, ainda que tenha sido seu próprio Trovão dos Dragões quem frustrou seus planos.

Togashi calou-se. Seu olhar passou além de Fu Leng, através das trevas da entrada, fixando-se diretamente em Aramoro. Silenciosamente, seis palavras ecoaram através da mente do ninja.

Você sabe o que deve fazer.

- Ouvi dizer que as Montanhas dos Dragões são consumidas pela Escuridão. – falou Fu Leng – O que acha disso?

Aramoro não chegou a ouvir a resposta do Dragão. Já havia ido.

Aramoro ajoelhou-se e curvou-se tanto quanto era possível, com a cabeça baixa e a testa pressionada contra o chão de granito, suplicante. Esperou silenciosa, pacientemente. Os olhos fantasmagóricos de Yogo Junzo fixaram-no, cheios de satisfação.

- Onde ele esteve durante todos estes anos? – perguntou Junzo com sua voz cavernosa.

- Diz ele que esteve escondido nos subúrbios. – replicou a voz untuosa de Shosuro

Sugita, o conselheiro sicofanta do Mestre Negro – É sabido que estes lugares abrigam bolsões de resistência. Se não fosse por nossas lucrativas relações com os mercadores estrangeiros, Ujiaki teria devastado os subúrbios há muito tempo.

- O Leão ainda pode ter a chance de fazer isso, se os arrabaldes abrigam vermes

perigosos como este aqui. – disse Junzo. – Aramoro foi o assassino mais letal do Clã do

Escorpião, em seu tempo. Claro, agora ele já não é nada. Escória patética.

Aramoro calou-se, controlando a raiva, mantendo os olhos sempre fixos no chão.

- Ninja. – continuou Junzo com voz desdenhosa – São como besouros, sempre

escondendo-se da luz. Pergunto-me quantos mais de vocês nós encontraríamos, se

revirássemos as pedras do Império.

- Ele diz que deseja servir-nos. – disse Sugita – Rendeu-se voluntariamente. Aramoro era um assassino de grande reputação antes do Dia do Trovão. Talvez tenha alguma utilidade.

– disse Junzo, observando o ninja. – Sua lealdade é questionável. Onde

você estava quando seu irmão Shoju morreu, Aramoro?

- Protegendo sua esposa, conforme ele me ordenara, Junzo-sama. – respondeu Aramoro.

- E onde estava no Dia do Trovão, quando sua Senhora foi capturada pelo Senhor das Trevas?

- Não sei

Aramoro fez uma careta por trás da máscara.

- Estava liderando os exércitos do Escorpião na batalha, conforme as ordens de Kachiko. – respondeu.

- Muito conveniente. – observou Junzo – Cada vez que seu senhor esteve em perigo, você parecia estar, oportunamente, em outro lugar.

- Não menos que você, Junzo. – disse Aramoro, erguendo o olhar para o shugenja –

Você também não estava lá quando Shoju morreu. Estava em Shiro Yogo, longe da batalha, por ordem dele.

- Mas eu o vinguei! – disse Junzo ferozmente – Puni aqueles que o derrotaram. A força

que Shoju queria aprisionar consumiu-os a todos. Agora eles sabem o quão errados estavam!

- Você está enganado, Junzo. – disse Aramoro – Toturi ainda está vivo. Aceite-me como seu servo e vou encontra-lo para você.

- Por que eu faria isso? – perguntou Junzo – Você simplesmente falharia ao Senhor das Trevas, como falhou para com todos os seus outros mestres.

- Então conhecerei as vantagens de ter um mestre imortal, que não pode ser derrotado

pelos meus erros. Dê-me o poder da Mácula, Junzo-sama. - implorou Aramoro – Protegerei o Imperador, como protegia Shoju. Espreitarei das sombras, enquanto você o protege com

sua magia. Juntos, ninguém poderá vencer-nos. – Aramoro esperava que aquele apelo desesperado ao ego de Junzo funcionasse; quando vivo, o shugenja fôra insuperavelmente vaidoso.

Junzo ficou silencioso. Seus dedos esqueléticos coçaram pensativamente o queixo.

- Muito bem. – disse ele, após longos momentos. – Você nos servirá, Bayushi

Aramoro. – colocou a mão direita sobre a face de Aramoro. Um frêmito percorreu o corpo

do ninja.

Aramoro abriu os olhos.

- Isso é tudo?

- Está feito. – disse Junzo – Vá agora, ninja. Convocá-lo-ei em breve.

Aramoro concordou. Aliviado, deixou rapidamente a torre do Mestre Negro. Enquanto percorria as ruas de Otosan Uchi, sentiu um novo poder percorrer-lhe os membros. Sua pele comichava terrivelmente; esfrega-la parecia apenas piorar a sensação. Andou pelas ruas escuras durante vinte minutos antes de perceber que não tinha consigo seu nemuranai; seus olhos enxergavam perfeitamente através das trevas. Parando nos jardins do Palácio Imperial, procurou pela entrada da passagem secreta que levava diretamente aos aposentos de Kachiko. Um murmúrio escapou dos lábios do ninja; precisava concentrar-se. Estava demorando demais. Impacientemente, correu diretamente em direção à torre que levava aos quartos ocupados por Kachiko. Surpreso, deteve-se e olhou em volta. Estava pendurado perfeitamente ao lado da torre, justamente ao lado da janela de Kachiko.

Aramoro contemplou sua mão direita. Garras de aço brotavam de seus dedos. Num impulso, Aramoro golpeou. As garras projetaram-se de seus dedos, enterrando-se na pedra como shurikens.

- Então este é o poder da Mácula. – sussurrou ele, enquanto saltava janela adentro.

Kachiko estava sentada diante de uma mesinha próxima da cama, lendo um pequeno

livro. Sua máscara desaparecera, e seu corpo estava envolto somente em um quimono fino.

O coração de Aramoro disparou ao fitá-la. Seu perfume intoxicava-o. Seria lavanda ou

canela? Ele avançou em direção a ela, ajoelhando-se à sua frente e curvando a cabeça.

- Minha Senhora. – disse.

Kachiko olhou para ele, surpresa.

- Aramoro? – disse, com alívio. Olhou para a passagem secreta – Eu não o vi entrar.

Aramoro encarou-a.

- Fortunas! – exclamou ela – O que aconteceu com você?

E ele explicou-lhe seu plano.

Algum tempo depois

Ele estava parado havia horas ao lado da parede, observando os aposentos de Kachiko. Mesmo quando a neve começou a cair, Aramoro continuou imóvel. Uma densa camada de pó branco cobria agora seus ombros e suas costas. A neve não derretia ao tocar sua pele escurecida. Sua respiração não provocava vapor no ar frio. Se alguém olhasse para o jardim agora, não poderia ver senão uma leve ondulação nas sombras noturnas.

Bayushi Aramoro mudara muito nos últimos nove meses. Não poderia velar por Kachiko por muito tempo mais. A Mácula oprimia-o e tornara-se mais forte nos últimos meses. Logo ele não conseguiria mais controlar-se. Tornar-se-ia um servo de Fu Leng, um perigo. Depois desta noite, pretendia desaparecer nas montanhas do Norte e nunca mais voltar. Lá seguramente haveria lugar para uma aberração como ele.

Kitsu Okura andava de um lado para o outro diante do quarto de dormir da Imperatriz, parando somente ao avistar a criada de Kachiko.

- É o filho de um deus que você está tocando, não a cria de um pescador! – rugiu Okura – Cuidado!

Aquilo continuou por sete horas. Aramoro não olhou novamente. Finalmente, a criada apareceu e o grito de um recém-nascido soou nos aposentos. A criada ergueu a criança, orgulhosamente.

- Uma menina! – disse.

- Dê-ma. – disse Okura, tomando o bebê das mãos da velha.

Aramoro prestou atenção. Tudo o que queria fazer era pular a janela e enfiar as garras através do peito do Mestre da Água.

- Esta criança carrega a herança de seu pai de mais de uma maneira. – sussurrou Okura para Kachiko – Se ela não estiver maculada, você terá muito a explicar.

- Use sua magia e verifique. – sorriu Kachiko, sem demonstrar medo algum.

Okura concordou e e olhou para a criança, murmurando uma invocação aos kansen. Uma radiância azul-escura rodeou o bebê o Okura assentiu, satisfeito. Devolveu a pequena à criada.

- O Senhor das Trevas virá vê-la em breve. – disse a Kachiko. Então voltou-se e saiu.

A criada devolveu a criança a Kachiko, que a tomou gentilmente nos braços.

- Como vai chamá-la? – perguntou a criada.

- Estou certa de que o Imperador escolherá um nome para ela, - disse Kachiko – mas, para mim, sempre será Yakusoku.

Yakusoku.

Promessa.

Um leve sorriso cruzou a face de Kachiko, um sorriso refletido nas feições outrora tão belas de Aramoro.

E então, ele se foi.

O Menor de Dois Males

Shawn Carman

Todos se inclinarão e prestarão tributo ao Imperador Fu Leng! Somente por sua vontade o Império floresce! - Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1139 pelo Calendário dos Isawa, Décimo Sétimo ano do glorioso reinado de Hantei XXXIX

Kyobei era um homem humilde, que nunca esperara nada da vida. Menino, sonhara em converter-se de alguma forma em samurai, talvez um poderoso Hida. Enquanto crescia, suas prioridades mudaram. Começou a desejar casar-se com uma boa mulher, criar filhos fortes e aumentar a pequena fazenda que herdaria de seu pai. Era um sonho bom e saudável, e que estava facilmente a seu alcance.

Então, veio o Dia do Trovão, e tudo mudou.

Há onze anos, quando Kyobei contava apenas dezessete, todo o Império submergira na escuridão. Até os elementos pareciam revoltar-se com o reinado do novo Imperador. O céu era escuro, mesmo ao meio-dia. Os invernos eram mais rigorosos e as ocasionais tormentas e terremotos de que se lembrava de sua juventude, haviam-se multiplicado por dez, tanto em freqüência como em intensidade. Os servos do novo Imperador eram igualmente terríveis. Os coletores de impostos costumavam vir acompanhados de bestas assustadoras, que, se fossem provocadas, mesmo por pouco, lançar-se-iam sobre o povoado, destruindo tudo à sua passagem. Se os aldeões lhes resistiam, as Legiões Obsidiana reagiam violentamente, impedindo que se fizesse mal às mascotes do Imperador.

Considerando tudo, Kyobei diria que a vida era pouco compensadora. Não havia lugar onde pudesse esconder-se, onde a influência do Imperador não se fizesse sentir. Ouvira rumores que existiam terras para além dos mares, às quais a corrupção de Fu Leng não se estendera, mas estas terras eram tão distantes que poderiam ser os próprios Céus Divinos, já que Kyobei tinha as mesmas chances de atingir a ambos.

De algum modo, sobrevivera. Não apenas sobrevivera, mas também convertera-se no líder de um pequeno bando de sobreviventes que se escondiam nas montanhas. O caráter calmo e pensativo de Kyobei faziam dele um líder natural. Era ele que tratava com os raros representantes do Imperador que chegavam ao povoado distante.

Como aquele com quem falava agora mesmo.

- E seus impostos? – indagou o Magistrado Obsidiana. A julgar por sua aparência, teria

sido, outrora, uma Garça. Seus cabelos ainda conservavam mechas brancas; seus olhos eram azuis e frios. Sua katana estava metida em seu obi, da maneira tradicional dos duelistas, ainda que restassem poucos praticantes dessa forma de combate honrado. Kyobei inclinou-se profundamente, apertando a testa contra o chão.

- Sim, grande senhor! – gritou, no que esperava que fosse o tom servil apropriado – A

temporada foi difícil, mas conseguimos reunir os impostos do Imperador! Conseguimos até recolher um pouco mais de arroz para demonstrar a devoção que sentimos por nosso Senhor

e Mestre! Será um Inverno difícil e muitos passarão fome, mas este é um pequeno preço para nos assegurarmos de que ele conhece a lealdade da Aldeia das Três Pedras!

O coletor de impostos bufou.

- Você acredita que o Imperador se importa se estão passando fome? Ele pega o que

quer e vocês agradecerão sua misericórdia. – deu um forte empurrão no ombro de Kyobei. Ainda que não fosse um golpe arrasador, Kyobei lançou-se ao chão, gemendo e gritando

ante o coletor. Uma adequada demonstração de dor sempre agradava aos Magistrados Obsidiana.

- Patético! – exclamou a Garça corrompida, visivelmente enojada. Gesticulou a dois

dos samurais mortos-vivos que o acompanhavam, mandando-os recolher os impostos do povoado. Então, uma expressão concentrada cruzou o rosto do magistrado, como se se

lembrasse de algo. Kyobei gemeu quando o coletor voltou-se com uma expressão aborrecida.

- Preste atenção, escória. – resmungou o samurai corrompido – Ouvi informações

sobre arrozais escondidos nas colinas. O ashura que foi enviado para investigar não voltou. Se há algo nas colinas, especialmente algo capaz de destruir a um dos escolhidos do

Imperador, seria bom dizer. Tenho alguns amigos com bastante talento para extrair informações, ainda que seja assustador presenciar

Kyobei parecia ao mesmo tempo apavorado e confuso.

- Não entendo, senhor! Campos escondidos? Quer dizer, cobertos por alguma coisa? Temos muito pouco pano! Nunca desafiaríamos o Imperador! O que é um “ashora”?

A expressão de nojo do coletor voltou, desta vez ainda mais forte. Esbofeteou Kyobei

na cara, tirando-lhe sangue do nariz e atirando-o ao chão.

- Você é mais do que inútil! – berrou – Não vale a pena gastar o tempo que levaríamos

para destruir toda esta aldeia! – e, saltando para o lombo de seu onikage, o coletor afastou-se

a galope, seguido por seus auxiliares e a carroça que levava os impostos.

Kyobei esperou até que o grupo desaparecesse detrás das colinas distantes antes de erguer-se rapidamente. Limpou despreocupadamente o sangue do nariz e sorriu sombriamente, pelo êxito da farsa. As criaturas enviadas por Fu Leng eram totalmente incapazes de reconhecer que um camponês poderia engana-los. Era uma tática perigosa, mas que podia ser muito bem sucedida.

- Muito bem, Kyobei da Aldeia das Três Pedras! – disse inesperadamente uma suave

voz feminina – Poucos possuem a força de vontade necessária para resistir aos temidos

agentes de Fu Leng.

O camponês girou, procurando em torno de si a origem da voz. Não havia nada a ver,

em nenhuma direção. Sua mão foi ao punhal escondido atrás da túnica. Se fôra descoberto, devia ganhar para a aldeia tanto tempo quanto pudesse.

- Quem está falando? – bradou Kyobei – Mostre-se!

- É de fato inacreditável. – voltou a dizer a voz. Ali, no meio do campo, estava parada

uma encantadora mulher com quimonos alaranjados. Um momento antes, nada houvera. No seguinte, ela estava ali, de pé. Um menino pequeno, estranhamente sério, estava a seu lado, com os olhos escuros fixos em Kyobei.

- Quem é você? – gaguejou Kyobei.

- Sou o Oráculo do Trovão, a Guardiã dos Heróis, – respondeu a mulher – e vim por você, Kyobei da Aldeia das Três Pedras.

- Toturi? – indagou Kyobei, enquanto caminhava para lá e para cá, em sua pequena cabana de um único aposento – O Leão Negro? Ainda luta contra o Imperador? Eu achava que havia morrido há muito tempo! – Kyobei estava excitado como uma criança que acabasse de saber que, apesar de tudo, haveria um festival pela manhã.

Isawa Kaede ofereceu-lhe um sorriso cúmplice.

- Muitos acham que Toturi está morto. É a vontade do Imperador manter sua existência

em segredo daqueles que lutam contra seu governo. Pode inspirar outros à rebelião. – ela lançou-lhe um olhar penetrante – Outros como você.

- Não sou um herói, Kaede-sama. – disse Kyobei, amargamente.

- Você lidera esta gente. – observou ela, apontando para a aldeia. O menino continuava a olha-lo em silêncio.

- Alguém tem que liderar. – disse Kyobei, dando de ombros.

- E você assumiu esta responsabilidade. – disse ela, firmemente – A maioria não o

faria. Foi a sua alma que me atraiu para cá. O fogo da coragem humana não pode ser facilmente esmagado pela força, mas pode ser lentamente extinto pela opressão. Os poucos cujo espírito ainda arde brilhantemente, como o seu, são a única esperança da humanidade contra o Imperador Sombrio.

- Por favor, Kaede-sama, – disse Kyobei – o que você quer de mim? Não sou um herói.

- Nem todos os heróis lutam com uma espada. – disse ela.

- O que ele está escondendo, mamãe? – perguntou o garotinho que estava junto a

Kaede. Era a primeira vez que falava desde que ela aparecera, há várias horas. Sua voz e seu

olhar eram tremendamente intensos para um menino de três anos. Seus cabelos eram de um branco brilhante, com mechas negras nas têmporas.

- Quietinho, Ichiro-kun. – repreendeu-o Kaede – Kyobei nos dirá tudo o que precisamos saber.

O camponês levantou-se e cruzou o aposento, arrumando sem pressa suas ferramentas

de cultivo.

- Mesmo que nossos campos pareçam bastante doentes, a verdade é que são muito

produtivos. As sobras adicionais que entreguei hoje ao coletor de impostos foram escondidas

na aldeia, como várias outras. Não será um inverno difícil para nós. Muito pelo contrário.

Kaede franziu o senho.

- É muito impressionante. – disse ela, cautelosamente.

- Nem sempre foi assim. – prosseguiu Kyobei – Depois que o Imperador Sombrio

subiu ao trono, estivemos à beira da inanição durante muito tempo. Muitos morreram, incluindo minha mulher e meu filho pequeno – deteve-se durante um momento, lutando contra a recordação. – Há alguns anos, chegou um homem, dizendo que podia ajudar-nos, e ao mesmo tempo, nos permitiria ajudar na luta contra Fu Leng. Aceitei de bom grado, e não

me arrependo da decisão, ainda que receie que ele não tenha como objetivo principal proteger a aldeia.

- Do que está falando? – perguntou Kaede – Quem é esse homem?

- Talvez fosse melhor que eu respondesse sua pergunta, Kaede-sama. – disse uma nova

voz, da porta da choupana – Aliás, gostaria de aproveitar essa oportunidade para apresentar- me.

Kaede voltou-se para fitar o recém-chegado, um homem alto e esbelto, vestido com longas túnicas negras. Uma máscara de porcelana, com símbolos pintados em púrpura, cobria-lhe o rosto. Seus longos cabelos, brancos como os de Ichiro, caíam livremente por seus ombros, e seus dedos entrelaçavam-se num gesto contemplativo. Kaede levantou-se imediatamente, fazendo um gesto em direção de seu filho. Ichiro foi imediatamente envolvido por um reluzente escudo de ar. O garoto aceitou o fato tranqüilamente.

- Daigotsu! – ciciou Kaede – O Mestre Sombrio do Void.

- Outrora, talvez.– respondeu calmamente Daigotsu – Abandonei o falso título, como abandonei o falso pai que antes servia.

- Não acredito! – disse Kaede, invocando seu imenso poder para destruir a abominação que tinha diante de si – Posso sentir a Mácula em você!

- Lamento. – respondeu Daigotsu, girando nos calcanhares e voltando-se para a porta –

Eu não sabia que a campanha de seu amante contra Fu Leng era tão bem sucedida que você

pudesse permitir-se o luxo de desprezar aqueles que desejassem aliar-se a vocês. Claramente, eu estava mal informado.

- Pare, Daigotsu! – exclamou ela.

- Você não pode ferir-me, Oráculo. – disse ele, sobre o ombro – Um Oráculo da Luz só

pode usar seus poderes para a defesa, e eu não lhe fiz nenhum mal. Sorte minha, já que você

parece cega ao fato de que, sem mim, os ashura do Imperador teriam arrasado a aldeia.

Aquelas coisas nojentas não morrem facilmente

Ante estas palavras, Kaede titubeou. Dúvidas e suspeitas lutavam em seu olhar. O poder do Dragão do Trovão era grande, mas não lhe dava acesso às mentes dos outros, como antes podia graças ao Dragão do Void. Só podia enxergar a coragem para lutar contra o mal, e por muito que lhe custasse admitir, via uma grande coragem em Daigotsu.

asseguro-lhe.

- Vou-me ou fico? – perguntou Daigotsu – A escolha é sua, Kaede-chan.

- Chega! – disse ela finalmente, baixando a mão e deixando que a energia reunida se

dissipasse – Ouvirei o que você tem a dizer. Mas não faça nada estúpido ou descobrirá que,

mesmo no Império de Fu Leng, ainda se deve temer os Oráculos.

- É claro. – respondeu ele, inclinando-se levemente e voltando a fitá-la – Ainda que

minhas intenções fossem hostis, dou-lhe minha palavra de que nunca a atacaria diante de seu filho. – apontou para Ichiro – Nenhuma criança jamais deveria ver sua mãe morrer.

- Fale rápido, Daigotsu; minha paciência não é infinita. – disse Kaede.

Daigotsu assentiu.

- Serei breve. – atravessou o aposento e sentou-se diante da pequena mesa no centro da choupana – Fu Leng traiu-me e vai pagar por isso. É tudo.

Kaede sacudiu a cabeça.

- Isso soa simples demais.

O homem alto deu de ombros.

- O ódio não é complicado. Fu Leng e seus lacaios do Conselho Sombrio acreditavam

que os Bloodspeakers estavam contra eles. Pensavam que espiões Bloodspeakers estavam entrando no Palácio. Então, exterminaram todo o culto.

- E por que lhe importam os Bloodspeakers? – perguntou Kaede.

- Porque minha amante, Shahai, era uma deles. – disse Daigotsu, encarando-a – Ela era

todo o meu mundo, e agora já não existe. Diga-me, Oráculo, o que você faria se o Senhor das Trevas lhe tirasse Toturi?

Kaede não disse nada.

- É isso. – concluiu Daigotsu – Agora você já sabe porque luto. Não me importa essa

gente. Não me importa Toturi. Não me importo com você. Só quero fazer sofrer o Senhor das Trevas.

- Sozinho? – perguntou Kaede – É difícil, mesmo para alguém como você.

- Tenho aliados. – respondeu Daigotsu – Reconstruí os Bloodspeakers. Há muitos que

têm talento para o maho, mas aversão ao governo vigente. Meu poder é grande; posso dar a outros o poder da Mácula sem a autorização de Fu Leng. E com aliados como Kyobei, –

apontou o camponês – estamos reunindo recursos que precisamos para montar uma ofensiva. Infelizmente, não temos tropas para nos tornarmos uma ameaça séria – fitou Kaede – Se acreditarmos nos rumores, Toturi possui tropas mais que suficientes, mas não tem conselheiros. Isso é correto?

Kaede sustentou o olhar de Daigotsu por um longo instante. Pareceram horas. A idéia de aliar-se com o Mestre Sombrio e seus Bloodspeakers era tão bizarra que Kaede mal podia concebê-la. Mas permitir-lhes-ia ter uma chance muito maior de atingir seus objetivos. Afinal, ela sentou-se diante da mesa.

- Talvez possamos chegar a um acordo. – disse.

O Buscador da Morte

Shawn Carman

Louvemos ao glorioso Imperador Hantei XXXIX no décimo terceiro ano de seu magnânimo reinado! Todos os que ousarem levantar-se contra ele conhecerão o verdadeiro significado do sofrimento!

- Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1136 pelo Calendário dos Isawa, décimo quarto ano do Glorioso Reinado de Hantei XXXIX

Outrora,sentir o aço frio deslizar para dentro da carne de seus inimigos reconfortara-o. Era o cumprimento de seu dever, a culminação da honrada vida que levara: a morte a serviço de seu Senhor. Outrora, a espada provara do sangue das Garças, dos Unicórnios, até dos robustos Caranguejos, para a glória do Imperador.

Agora, camponeses e crianças eram seus inimigos. Não sentia satisfação com suas mortes. Não havia honra em seus atos. Servir a seu Senhor não trazia honra. A verdade é que podia admitir francamente que seu Senhor não possuía honra, e nem se preocupava com a honra.

Matsu Masutaro servia ao Imperador Hantei, o Trigésimo Nono de sua dinastia; era o vassalo mortal do sombrio Deus Fu Leng. Quando começara a servir o Imperador, este era um dever honroso para com um homem mortal. Com o tempo, a possessão de Hantei tornara-se pública e Masutaro dera-se conta da enormidade do juramento que prestara. O chamado Dia do Trovão trouxera-lhe uma crise de fé: seria ainda válido o juramento de Masutaro ao Imperador, ainda que traísse o Império? Masutaro não tinha certeza. Feito em pedaços, considerara o seppuku para evitar a possibilidade de desonra.

Quando Ikoma Ujiaki matara a traidora Tsanuri, jurando eterna lealdade ao Imperador, Masutaro vislumbrara o verdadeiro caminho. Ujiaki sempre fôra um homem honrado e Masutaro já o seguira em numerosas e incertas batalhas, saindo sempre vitoriosos. Estava claro que tal homem não poderia errar. Em sua paixão pelo dever, Masutaro renovara seu juramento de eterna e inquebrantável lealdade ao Imperador.

Passaram-se oito anos.

Dois anos antes, Masutaro voltara a encontrar-se com Ujiaki pela primeira vez desde o Dia do Trovão. O homem que conhecera como um justo e honrado samurai, mal podiaser reconhecido. Não envelhecera. Seus olhos agora cintilavam com um poder ímpio. A aura de perversidade que irradiava de sua pessoa revelava uma pessoa má, não um homem honrado.

Masutaro soubera então, que cometera um terrível erro. Melhor seria ter morrido honradamente junto de Ikoma Tsanuri, do que servir a um Senhor tão repugnante. Mas jurara faze-lo, e não podia quebrar o juramento, já que, se o fizesse, se transformaria em uma criatura tão vil e miserável quanto aquela que servia, quanto as que lutavam a seu lado.

Como se um sinal tivesse sido disparado, houve um rebuliço à esquerda de Mosutaro. Olhou para aquele lado e fez uma careta. Os goblins que estavam a seu lado na primeira linha, eram criaturinhas desprezíveis, pouco mais que instinto e vulgaridade feitos em criaturas. Aparentemente, uma das patéticas criaturas aacertara a outra com sua lança, matando-a instantaneamente. E, como se isso já não fosse o suficiente, havia meia dúzia de criaturas afanosamente apunhalando com suas lanças o seu irmão morto e gritando divertida e loucamente.

Masutaro resmungou, enojado das miseráveis bestas. Uma delas voltou-se para mira- lo. Destemidamente, aproximou-se e golpeou com sua lança, como se pretendesse atacar Masutaro. Um único e fluido movimento da katana do samurai acabou com qualquer idéia de ataque que a criaturinha pudesse ter, ao mandar sua cabeça rolando através do campo enegrecido.

- Você! – a ordem gritada ressoou pela primeira linha. Masutaro pretendeu não tê-la

escutado, limpando casualmente o sangue de sua espada, com um bem treinado movimento de pulso e voltando a embainha-la no saya. Voltou-se para olhar de frente e esperou. Logo, um cheiro asqueroso encheu o ar. Para que Masutaro pudesse senti-lo entre a horrível carnificina que os rodeava, o fedor deveria ser considerável. Um onikage - corcéis mortos- vivos dos escolhidos de Fu Leng - galopou para diante dele. O asqueroso e pútrido Moto que montava o corcel encarou Masutaro com seu único olho cheio de pus.

- Sem lutas nas fileiras! Manter posição!

Masutaro não disse nada. Dois anos antes, tomara os tradicionais votos dos Leões para tornar-se um Buscador da Morte, jurando purgar a desonra que trouxera a seus ancestrais, com sua falsa lealdade ao Imperador corrompido. Ao tornar-se um Buscador da Morte, haviam-no colocado entre as primeiras fileiras da Legião Obsidiana, as forças de elite de Fu Leng. A Legião, ainda que possuísse os melhores guerreiros dos exércitos imperiais, amiúde usava tropas de choque substituíveis, como os detestáveis goblins. Eram bestas ridículas e inúteis, que habitualmente matavam-se mais entre si do que ao inimigo. Que algum deles sobrevivesse era um milagre, ou quiçá uma maldição.

Infelizmente, o contrário acontecia com Masutaro. Não importava quão grande fosse o perigo, ou esmagador o número de inimigos, de algum modo ele sempre sobrevivia até que a Legião chegasse e dizimasse os oponentes. A morte que procurava sempre lhe era negada.

era intolerável. Apesar de sua obstinação em resistir

Dois anos como Buscador da Morte

ao canto de sereia da Mácula, Masutaro indagava-se se as raias negras que cruzavam seu corpo por todos os lados permitiam-lhe, de alguma forma, sobreviver, quando só desejava morrer. Mas o Leão perdido teve pouco tempo para especulações vãs, já que nesse momento soou a ordem de ataque. Instintivamente, Masutaro correu para a frente, adiantando-se rapidamente aos pusilânimes goblins que corriam junto dele. Todas as dúvidas e considerações desapareceram. Uma espessa névoa avermelhada desceu sobre sua visão e um terrível grito de guerra, que em parte era um grito por socorro, saiu de sua garganta enquanto descia em direção ao vale.

- Ryosei, – disse cuidadosamente Yoshun – creio que você deveria reconsiderar seriamente o que vamos fazer.

A jovem shugenja apertou as mandíbulas e encarou fixamente o velho monge.

- Não farei tal coisa.

Yoshun sacudiu a cabeça.

- Eu a avisei de que isto aconteceria. O Imperador não tolerará sua desobediência. Devíamos ter fugido quando Yoritomo sugeriu.

- Não posso abandonar a floresta. – respondeu ela, secamente. – E não a cortarei para

proporcionar madeira para as Legiões Obsidiana. Se Ujiaki pretende assustar-me para que capitule, encontrará o Clã da Raposa pronto para combater.

- Você não percebe que é isso mesmo o que ele quer? – perguntou Yoshun,

visivelmente irritado. – Eles não precisam da madeira. Só a pedem porque sabem que estes bosques são sagrados. É um Deus maligno, Ryosei, e você o aborreceu.

- A Raposa não fugirá.

O monge baixou a cabeça, derrotado.

- Então você é louca, Ryosei. – apontou para os campos que rodeavam Kyuden Kitsune

– Levarei todos os que queiram seguir-me e partirei para as Ilhas dos Mantis. O convite de Yoritomo foi mais que generoso e servirei com gosto às ordens dele, antes de morrer em

batalha contra um inimigo invencível.

Ryosei olhou para ele, com expressão surpreendida.

- Você nos abandonaria? Abandonaria a mim? Agora, neste momento?

- Eu jurei protegê-la, Ryosei, mas não posso protege-la de si mesma. Não abandonarei

àqueles que sabem que é uma causa perdida. Lamento, pequena raposa prateada, mas não

morrerei aqui com você, sem outra razão que o seu estúpido orgulho.

Ryosei fez uma careta de desprezo.

- Os espíritos da floresta

- Já fugiram há muito para o seu próprio Reino. – interrompeu-a Yoshun. – Viram o

destino que os esperava. Quando foi a última vez que você viu uma kitsune em Kitsune

Mori?

As mandíbulas de Ryosei cerraram-se furiosamente. Tentou encontrar palavras para expressar seu ultraje.

- Nunca pensei que chegaria o dia em que você me trairia.

A tristeza encheu o olhar do monge.

- E eu, nunca pensei que chegaria o dia em que você condenaria inocentes à morte devido à sua arrogância.

Uma mescla de dor e fúria lutava no rosto de Ryosei. Abriu a boca para responder, com um malicioso insulto formando-se em seus lábios, mas não teve a oportunidade de pronunciá-lo. Um grito distante rompeu o silêncio tenso que se fizera entre ambos, acabando instantaneamente com a discussão. Sem uma palavra, saíram correndo da sala e atravessaram os largos portões que levavam ao pátio de Kyuden Kitsune. Fumaça obscurecia o horizonte. Um punhado de camponeses corriam tão rápido quanto podiam da borda da floresta, atravessando o prado que rodeava o castelo.

Logo atrás dos camponeses, surgiu a vanguarda da Legião Obsidiana, atacando com velocidade sobrenatural, como uma onda venenosa desabando, e corrompendo uma praia imaculada. Flechas voavam da floresta, atrás dos samurais atacantes, atingindo os camponeses antes que atingissem a relativa segurança do castelo.

- Pelas Fortunas! – arquejou Ryosei, incrédula – Como chegaram tão rápido?

- A morte sempre chega antes do que se espera. – resmungou um aflito Yoshun.

Com sua ânsia inumana de sangue ao menos parcialmente saciada, Masutaro conseguira recuperar um pouco de controle. Como sempre, lembrar-se das atrocidades que cometera enquanto estava preso nas garras de sua rubra fúria de batalha, angustiava seu espírito e roubava-lhe o desejo de derramar mais sangue ainda. Desta vez, a batalha era algo mais que uma simples escaramuça. O Imperador ordenara o extermínio do Clã da Raposa, e Masutaro devia obedecer.

Os confinas das terras do Clã da Raposa não continham mais que fazendas de camponeses e um ocasinal posto avançado de samurais. Já haviam sido molestados antes e perceberam que a Legião se aproximava. Uma vez o pânico inicial superado, sempre opunham resistência. Masutaro nunca deixava de admirar a força dos camponeses de Rokugan. Os homens enfrentavam as nocivas hordas da Legião Obsidiana com pouco mais que um simples chuço, para ganhar tempo suficiente para que suas mulheres e crianças escapassem. Era uma tática que poucas vezes dava certo, mas os homens lutavam com cada grama da coragem e do espírito que outrora Masutaro respeitara em seus companheiros Leões. Masutaro considerava uma honra enfrentar gente tão valente numa batalha; só gostaria que as circunstâncias fossem mais honradas.

Os camponeses haviam caído, como sempre. Agora, a Legião Obsidiana enfrentava o

verdadeiro poder do Clã da Raposa. Masutaro cruzou a colina ao lado dos outros poucos Buscadores da Morte de sua Legião. Diante deles, Kyuden Kitsune os esperava. Podia perceber a conhecida sensação que arrepiava sua nuca, o arrepio que significava que alguém estava invocando magia. Os lendários shugenjas do Clã da Raposa estavam invocando seus espíritos para repelir o ataque das Legiões. Uma muralha de trepadeiras irrompeu do solo, elevando-se para conter os legionários.

Antes, esta sensação trazia a Masutaro a esperança de que sua busca seria finalmente completada, que o poder das Raposas finalmente o mataria. Agora, sabia que não. De algum lugar detrás dele, tentáculos de asquerosa magia negra fluíam dos Enfermos, os maho-tsukai que serviam à Legião Obsidiana. Mas não eram muito eficientes, e ainda que grande parte da terrível magia destroçasse a muralha dos Kitsune, alguns Buscadores da Morte e goblins também foram apanhados pelos tentáculos.

Masutaro, é claro, evitou este destino.

O guerreiro Leão avançou correndo, desejando enfrentar seus inimigos. Os que

estavam a seu lado caíram sobre a vanguarda das Raposas como lobos sobre uma posta de carne fresca, destroçando-a com um entusiasmo tão terrível que poderia gelar até a alma mais forte. Masutaro golpeou um ashigaru, decepando-lhe a cabeça com um único golpe. Não devia ter mais de quatorze anos, pensou em algum recôndito de sua alma, onde ainda era humano. Seguiu em frente, rompendo as fileiras, abrindo passagem até a retaguarda das forças da Raposa, golpeando sem piedade tudo o que se movia.

Em algum momento, um Masutaro coberto de sangue viu-se encarando, em meio às últimas fileiras, com os que pareciam ser os líderes do exércitos, uma shugenja de cabelos avermelhados e um gordo monge. A shugenja, que obviamente era Ryosei, daymio da Raposa, avistou-o e começou a reunir energia para um feitiço. Masutaro atacou, mas o monge interpôs-se entre ambos, agilmente, e inutilizou-lhe o braço que sustinha a espada com um hábil golpe em seu ombro. Aos gritos, o braço esquerdo de Masutaro agarrou rapidamente o monge pelo pescoço. Antes que o monge pudesse libertar-se, Masutaro atirou- se para a frente, golpeando com seu elmo o rosto do homem. O ruído que chegou a seus ouvidos assegurou-lhe de que qualquer ameaça que o velho pudesse representar acabara-se.

O monge amoleceu, pendendo de seu braço. Com um olhar perdido, caiu no chão e não se levantou.

Masutaro ordenou a seu braço que tinha a espada que ignorasse a dor, e ergueu sua katana. Foi dando arrancadas até a shugenja, tentando libertar-se do monge morto. A shugenja concluiu seu encantamento e um inferno ardente surgiu de seus dedos para envolver Masutaro. A dor era insuportável, mas ele podia sentir suas raias enegrecidas correndo por sua carne, bebendo a energia e dissipando a força do feitiço.

O Buscador da Morte surgiu da gigantesca parede de chamas, com a carne queimada e latejando do calor. Com um único golpe de duas mãos, enterrou a espada no peito da mulher.

– murmurou a donzela da Raposa, caindo de joelhos – Por que você fez

isso?

- – gemeu Masutaro, olhando fixamente para ela – Tudo o que quero é

morrer.

que você encontre o que busca, cão Leão. – Ryosei fez uma careta de

desprezo e cuspiu sangue à face do Leão. Seus olhos se cerraram. Seu corpo delgado deslizou da espada e caiu sobre o do monge.

Matsu Masutaro fechou os olhos, tentando afastar-se dos gritos dos moribundos e das gargalhadas agudas dos monstros que lutavam junto dele.

- Por quê

Não sei

?

- Então espero

À Plena Vista

Seth Mason

“ O estúpido Togashi tentou ameaçar o ilustríssimo Imperador com o poder de seus próprios Pergaminhos Sombrios, para que os fracos Trovões pudessem vencer um inimigo indefeso. Mesmo que esse dia tivesse sido planejado pelo Dragão, a infinita sabedoria do Imperador Hantei fez com que a armadilha de Togashi nunca mais voltasse a ameaça-lo. O Senhor de Rokugan ordenou que o Duodécimo Pergaminho Sombrio fosse oculto no ano 1137. Qualquer um que tentasse abrir o selo do maldito artefato encontrar-se-ia à mercê de toda a ira o Lorde Sombrio ”

- Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1137 pelo Calendário dos Isawa, o décimo quinto ano do Glorioso Reinado de Hantei XXXIX

- E então, você tem certeza? – disse um homem. Os dois samurais estavam agachados

nas sombras. Estavam seguindo a três bushi da Lebre há mais de dois dias, não dando a suas

presas nenhum sinal de sua existência. Um leve grunhido de assentimento saiu da garganta do segundo samurai, e dos dois observaram as Lebres por mais alguns instantes.

- Devem saber algo, Yokuan-san. Estas terras estão enfeitiçadas. Nem mesmo os

Usagi se atreveriam a viajar á noite pelas terras dos Yogo sem uma boa razão.

- E se não tiverem uma “boa razão”, primo? – indagou o primeiro. Não havia sarcasmo em seu tom, apenas apreensão.

- Neste caso, estamos todos perdidos. Nada mudou.

O líder do pequeno grupo deteve-se e ergueu uma mão aberta, fazendo um sinal para que seus seguidores parassem. Usagi Masashi deixou que sua mão baixasse da posição de ordem, para descansar confortavelmente ao redor da empunhadura da espada que trazia atada às costas. Uma geração antes, Kennô, a espada Ancestral do Clã da Lebre teria descansado no saya que agora usava. A espada perdera-se no Dia do Trovão, junto a seu possuidor, Usagi Ozaki. No mesmo dia, seu tio e todo o seu Clã haviam desaparecido.

Atrás de Masashi, Usagi Gohiro assentiu quase imperceptivelmente.

- Também ouvi, meu Senhor. – sussurrou alto o suficiente apenas para que o ouvisse o

daymio “de fato” da Lebre. Com hábeis movimentos, as três Lebres tomaram posição para efetuar uma emboscada. Quando tudo estava preparado, Gohiro rapidamente pôs uma flecha no arco e disparou cegamente para o bosque, na direção do ruído.

Exatamente como os samurais esperavam, seu inimigo tentou rapidamente detê-los

nas árvores. As Lebres estavam preparadas

ou pelo menos assim pensavam. Duas figuras

vestidas de negro dos pés à cabeça, caíram como que do céu, movendo-se com incrível velocidade.

- Ninjas! – gritou Masashi.

O primeiro dos dois golpeou o jovem Muso com a mão espalmada. Masashi apanhou

sua espada e forçou o outro ninja a recuar. Gohiro deixou cair seu arco e evitou agilmente os ataques do primeiro ninja, no estilo rápido e acrobático da Lebre.

Exatamente quando Masashi acreditava estar a ponto de desarmar seu oponente, o homem esquivou-se e saltou para a frente, com uma fina adaga na mão. Masashi não conseguiu recuperar seu equilíbrio a tempo. Com surpreendente clareza, percebeu que sua viagem pelas terras enfeitiçadas do Clã do Escorpião acabaria ali.

Exceto pelo fato de que não acabou.

O ninja deteve a lâmina exatamente quando esta pousou na face do daymio da Lebre e

gritou:

- Lebres! Deixem cair suas armas ou seu Senhor morrerá aqui e agora! – o ninja não chegou a afastar os olhos negros de Masashi.

Gohiro recuou diante de seu atacante, encarando os dois ninjas. Ergueu as mãos, rendendo-se. A única Lebre que ainda queria lutar era o jovem Mori, que levantou-se com dificuldade e apontou seu arco ao captor de Masashi.

- Solte

solte sua arma, ninja. – disse Muso, tão firmemente quanto pôde.

- Não creio, pequena Lebre. - respondeu o ninja, pressionando um pouco o punhal

contra a pele de Masashi para reforçar suas palavras – Se alguém aqui vai desarmar-se, serão

vocês. Não estavam preparados para uma emboscada e foram derrotados. – a voz profunda do ninja não era ameaçadora, apenas constatava um fato.

- O quê? – disse uma voz calma, vinda das árvores – Arqueiros, apontar para o homem que tem nosso daymio. À minha ordem, abrir fogo.

- Mas

eram apenas cinco

– sussurrou o ninja.

- Ninja idiota. – disse Masashi – Sempre se esquecem que as Lebres mais espertas escondem-se na grama alta.

O ninja apertou os olhos e adiantou-se para colocar-se entre a voz e Masashi.

- Lebre, você arriscaria a vida de seu próprio Senhor? – desafiou a sombria figura.

- Preferiria mata-lo a deixar que você o fizesse. – respondeu a voz – Contarei até três.

Um

O ninja fitou Masashi, suspirou e afastou-se rapidamente do cativo.

- Agora você. – disse o arqueiro ao outro ninja – Afaste-se.

O outro homem assentiu e juntou-se ao primeiro. Gohiro, Mori e Masashi apontaram

seus arcos para os dois ninjas. Um único arqueiro saiu das árvores, sorrindo largamente.

- Obrigado, Tomo. – disse Masashi.

- Um único arqueiro. – resmungou um dos ninjas – Devíamos saber.

- Quem são vocês e porque nos atacaram? – perguntou Masashi.

- Sabem quem eu sou. – disse o primeiro ninja, retirando a máscara para revelar os

belos e delicados traços de um nobre do Clã do Escorpião. Atrás dele, seu companheiro também retirou a máscara.

Masashi franziu o senho.

- Tomaru. – disse.

- O cão que queimou Shiro Usagi! – rugiu Gohiro, desembainhando a espada e avançando.

- Pára, Gohiro. – disse Masashi, levantando uma mão. – Tomaru é agora nosso amigo.

- Um amigo?! – exclamou Gohiro – Como pode dizer isso, meu Senhor?

- Porque ele não é um cadáver ambulante. – disse Masashi – Os velhos ressentimentos devem ser enterrados.

- Palavras sábias, Lebre. – disse Tomaru.

- Ele nos atacou! – argumentou Gohiro.

- Mas não matou Muso quando teve a chance de faze-lo. – disse Tomo – Creio que queriam interrogar-nos.

O ninja assentiu levemente.

- Isto é verdade. – disse Tomaru – Pensávamos que tinham uma informação.

- Sobre o Duodécimo Pergaminho Negro? – indagou Masashi.

Tomaru assentiu.

- Sabemos que está em algum lugar destas terras. Temos um mapa, mas está incompleto.

- Talvez pudéssemos compartilhar a informação, Escorpião. – disse Masashi.

- Eu preferiria que simplesmente nos dessem a informação. Os Escorpiões trabalham

mais eficientemente sozinhos

e franzindo o senho – Mas acho que talvez possamos aceitar seus termos, dadas as circunstâncias.

– respondeu Tomaru, observando a ponta da flecha de Tomo

Masashi sorriu.

- Creio que você ficará impressionado ao ver quão rápido uma Lebre pode mover-se, em caso de necessidade.

- Yogo Shiro. – disse Tomaru em voz baixa, apontando para o castelo em ruínas que

tinham diante de si – Ainda acho engraçado que o Imperador escondesse aqui, dentre todos

os lugares, o Pergaminho Negro.

- Você me surpreende, Tomaru. – respondeu Masashi, aproximando-se do ninja por

trás, para observar de cima da árvore tombada que o grupo usava como esconderijo – Sem dúvida, foram os Escorpiões que ensinaram a todo o Império a importância de esconder algo à vista de todos.

Atrás de ambos, Bayushi Yokuan riu, divertido. O jovem ninja ficava cada vez mais

impressionado com o daymio da Lebre, para grande aborrecimento de seu companheiro. Mas

o riso de Yokuan parou rapidamente quando avistaram uma tênue luminosidade. O ninja

voltou-se para deparar-se com a face fantasmagórica do que só podia ser uma espécie de

espírito.

– gemeu o espectro, com a máscara feita em pedaços balançando

sobre sua boca enquanto falava. Trajava uma armadura negra e escarlate, manchada de sangue e muco.

- esconda-se

Muso gritou, verdadeiramente aterrorizado.

Masashi e Tomaru voltaram-se rapidamente, ambos desembainhando suas armas ao ouvir o grito. Os dois homens viram a figura fosforecente pôr a mão – e logo atravessar – o torso de Bayushi Yokuan, num gesto familiar. O jovem ninja tinha o olhar perdido, enquanto Muso continuava gritando sem parar. O instinto de Tomaru assumiu o controle quando a razão o abandonou. O Escorpião jogou-se sobre seu companheiro, atirando-o ao chão.

Masashi dirigiu sua espada para o fantasma, fitando-o apreensivamente. Era óbvio que o espírito era um Escorpião, possivelmente assombrando as ruínas de seu antigo lar. Masashi deixou que seu olhar se dirigisse rapidamente aos dois Escorpiões. O corpo de Yokuan estava rígido e retorcido. Seus olhos estavam brancos. Onde uma mecha de cabelo do jovem escapara-se de sua máscara, via-se que estava completamente branco.

- Morto

Muso continuava gritando.

- Silêncio, Muso! – disse calmamente Masashi – Você vai acabar despertando os

– sussurrou Tomaru.

mortos.

Muso parou de gritar.

contemplando

contritamente o jovem morto.

- Fortunas! – praguejou Tomaru, tropeçando enquanto recuava devido ao rosto impressionante do espírito que o fitava.

Gohiro e Tomo saíram dentre os arbustos, apontando os arcos para o espírito. Masashi fez com que seu tenente se detivesse, com um olhar de advertência, voltando a olhar para o fantasma.

- Esconder

escondido

encontrar

continuou

fantasma,

o

- Eu conheço este espírito – disse Tomaru, ajoelhando-se na terra – É meu ancestral

O espírito fitava, sem compreender, seu parente vivo, e depois os samurais da Lebre

que o rodeavam.

- Encontrar

doze

- Doze! – exclamou Masashi, gritando com Tomaru – Maldito Tomaru, levante-se! Ele sabe do Pergaminho! Está tentando deter-nos!

- Ele é um guardião, Masashi-san. É Bayushi Baku, o protetor da espada. – explicou Tomaru – Não nos fará mal.

- Yokuan não concordaria com você, Tomaru-san. – disse Usagi Gohiro, em voz baixa, sem tirar os olhos do fantasma.

- Todo poder tem seu preço. – murmurou Tomaru, mantendo a cabeça baixa diante de

seu venerado ancestral – Bayushi Baku-sama! – disse o ninja em voz alta, fazendo com que o fantasma se voltasse para prestar-lhe atenção – Gerações de sabedoria você carrega no coração. Certamente sabe de nossa busca.

tristeza

parecesse jamais abandonar seu rosto.

de uma poderosa

Os

olhos

do

fantasma

semicerraram-se

desconfiadamente,

ainda

que

a

o Imperador. – Baku

deteve-se, encarando cada ser vivo que tinha á sua volta, para depois voltar a fitar seu

descendente – Todos vocês

- Então, quem, honorável espírito? Quem obterá sucesso onde nós fracassarmos? – indagou o Escorpião.

o Pergaminho

- Sim

garoto

você procura

morrerão

para derrotar

deve escolher. – respondeu Baku, com a malícia apenas mal disfarçada no

rosto. O ar em volta de sua mão tremeu e escureceu-se com sombras que se juntavam vindas do nada. Em segundos, um pergaminho de oração feito de osso e de um negro e fino material

estava em sua mão. Com a outra mão, Baku apontou os samurais da Lebre que o rodeavam. – Escolha! – repetiu, trespassando Tomaru com um dardejar de seu olhar brilhante.

- Você

- Masashi – disse Tomaru, sem hesitação – Você deve pegar o Pergaminho.

O daymio da Lebre assentiu lentamente e embainhou sua espada.

- Meu Senhor! – disse Gohiro, adiantando-se e deixando cair o arco – Não! Você não

deve tocar o Escorpião, o fantasma ou esse Pergaminho blasfemo. Não posso permiti-lo.

Bayushi Baku contemplou a cena com um sorriso fino que se podia ver sob sua máscara rasgada.

- Usagi Gohiro perguntou.

- Hai, espírito! – disse a Lebre, dando um passo para a frente, desafiante – Levarei

qualquer carga para derrubar o Deus Sombrio do trono dos Hantei, mas desvie suas farpas do

Senhor da Lebre!

seu. Leve-o,

como Togashi o levou! – com esta última palavra, o Pergaminho saiu voando da mão de Baku com uma incrível velocidade, e enterrou-se no peito de Usagi Gohiro. O samurai da Lebre vacilou, agarrando o Pergaminho e caiu de costas.

o Imperador? –

você levará

esta carga? Vai usá-la

para destruir

- Então

– ciciou Baku, com a alegria brilhando em seu olhar – É

- Gohiro, não! – gritou Muso, desembainhando a espada e atacando o espírito.

A espada de Muso passou sem fazer qualquer mal através da armadura do fantasma.

Baku agarrou Muso pelo pescoço e ergueu-o no ar. O jovem samurai gemeu enquanto sua pele começava a engelhar-se e virar pó devido ao toque do espírito. Baku pôs-se a gemer, com um lúgubre triunfo.

- Este espírito está louco! – gritou Tomaru sobre o interminável lamento. – A magia de Fu Leng sobre este lugar destruiu sua mente!

- Obrigado, Tomaru-san. Sua intuição sobre o assunto é espetacular. – reclamou Masashi, tentando pensar numa escapatória.

- Tenho o Pergaminho Negro! – gritou Tomo, arrancando o pergaminho do peito de

Gohiro.

Baku voltou-se e atacou Tomo com um longo chuço. A Lebre esquivou-se para um

lado.

- Você está acabado, espírito! – disse Tomo, rindo – Seu Senhor já está derrotado!

Usagi Tomo rompeu os lacres do Décimo Segundo Pergaminho Negro.

- O quê? – disse Tomo, baixando o olhar. – Não aconteceu nada!

Um raio de cor negra pura desceu do céu, incinerando Usagi Tomo onde estava.

- É uma armadilha! – gritou Tomaru – Este não é o verdadeiro Per

O sorriso de Baku aumentou. Arrojou para um lado o cadáver engelhado de Usagi Muso e tornou a olhar para Masashi e Tomaru.

- E agora

- Agora corremos! – exclamou Masashi para o Escorpião. Este concordou.

?

– murmurou Tomaru.

Os dois homens correram para a floresta, tão rápido quanto podiam. Detiveram-se abruptamente quando Baku surgiu diante deles, com os braços abertos. Sua gargalhada enlouquecida ressoou através da floresta.

- Direção errada. – disse Masashi, girando e correndo em outra direção.

- Isto não adianta nada! – gritou Tomaru enquanto fugiam – É meu ancestral. Vai

encontrar-nos para onde quer que corramos, como um rio sempre encontra o mar! Estamos

mortos!

- Talvez não. – disse Masashi, pensando por um momento. Deteve-se, fazendo um

sinal para que o Escorpião fizesse o mesmo. – Tomaru, tenho um plano. – disse a Lebre, arquejando.

- É? – perguntou Tomaru – E qual é?

Masashi olhou por onde tinham vindo, para ver se havia algum sinal do espírito, desembainhando a espada. – Lembra-se do que eu disse antes? – perguntou – Sobre velhos ressentimentos que devem ser esquecidos?

Tomaru assentiu.

- Pois dadas as circunstâncias, reconsiderei. – disse a Lebre. Com um hábil golpe, cortou os tendões das pernas do Escorpião e saiu correndo.

- Masashi! – gritou Tomaru, de dor e raiva, enquanto caía no chão, impotente.

- Boa sorte com seu ancestral! – gritou-lhe Masashi, desaparecendo na floresta.

Quando Bayushi Baku flutuou sobre ele, Tomaru começou a gritar mais alto.

E Usagi Masashi correu mais rápido.

A Última Batalha de Toku

Shawn Carman

Não há lugar a que não chegue o governo do Magnífico Imperador. As profundezas do bosque Naga, as cidades ocultas do mar, os campos dos bárbaros nas montanhas do Norte todos estão abençoados pelo misericordioso governo de Fu Leng. - Miya Satoshi, Arauto Imperial, 1139 pelo Calendário dos Isawa, Décimo Sétimo ano do glorioso reinado de Hantei XXXIX

Pensando bem, parar naquela floresta não fôra uma boa idéia. Toku estivera explorando a parte setentrional das terras dos Caranguejos durante duas semanas, procurando por qualquer sinal de resistência ao governo do Imperador Sombrio. Era um trabalho perigoso, já que as antigas províncias dos Caranguejos estavam apenas atrás de Otosan Uchi em matéria de controle por parte de Fu Leng. Depois que Yori e Amoro atacaram a Muralha, o restante dos Caranguejos não tardara muito em sucumbir. A pequena resistência que muitos opuseram contra a Mácula no dia do Trovão, caíra rapidamente, uma vez que Fu Leng subiu ao trono.

Toku desejara desesperadamente que a missão da qual Toturi o encarregara desfizesse todos os temores sobre o monopólio do Lorde Oni sobre a gente dessas terras. Mas não. Descobrira que muitos senhores dos Caranguejos haviam desafiado o Senhor das Trevas. Aqueles que não foram suficientemente sábios para seguir Hida Yakamo e esconder-se, foram devorados pelo Maw, que reinava com domínio absoluto em Kyuden Hida, o castelo que uma vez teve o próprio crânio do demônio às suas portas. Agora, os esqueletos de Hida Kisada, Hiruma Yoshi, Kuni Utagu e Kaiu Utsu pendiam ali.

Abatido, mas não desalentado, Toku prosseguiu em sua missão, rumando para o norte. Ia circundar Shinomen Mori e investigar rumores de que as forças de Fu Leng estavam construindo fortalezas nas ruínas das cidades Naga, seguindo depois para o norte, nas terras dos Unicórnios, para entregar mensagens a antigos aliados de Toturi lá. Também Kaede pedira-lhe para encontrar certo samurai em particular, e convida-lo a unir-se ao exército de Toturi. Não era uma missão charmosa, e nem prestigiosa. Nem mesmo era uma missão particularmente importante. Mas alguém tinha de fazer, e Toturi confiava em Toku para completá-la. Ela jurara não falhar, fossem quais fossem as circunstâncias.

No princípio de sua missão, Toku resolvera cavalgar à noite e dormir durante o dia. Não levou muito tempo para perceber que era uma péssima idéia. Durante o dia, conseguia passar facilmente por um ronin errante ou um camponês sem rumo. Mas à noite, era imediatamente tomado como suspeito por todos com quem cruzava, e havia na noite coisas muito mais preparadas para uma luta e velozes do que ele. Por isso, passara a viajar durante o dia. Houvera encontros perigosos, mas na maior parte do tempo, Toku fôra capaz de convencer seus inimigos de que era um vagabundo inofensivo. Algumas vezes fôra reconhecido e obrigado a fugir, sempre plenamente convencido de que sua montaria não conseguiria deixar para trás seu inimigo. Uma vez, matara uma espécie de besta meio-ogre

que rugiu em uma língua que mal pôde compreender. E ficara dolorido demais para poder mover-se durante dois dias.

Tinha de agradecer à sua montaria por sua sobrevivência. Não era tão rápida quanto seu velho cavalo, o corcel Otaku que morrera no Dia do Trovão, mas parecia ter a faculdade de farejar o perigo. Toku encontrara-o à beira de um campo de batalha, onde algum ronin morrera lutando contra quatro ogres e matando-os a todos. O nome gravado na espada do homem era “Sanzo”. Toku dera ao desconhecido um funeral adequado, e partira cavalgando seu cavalo.

Era a primeira hora da tarde quando Toku penetrou em Shinomen. Não vira nenhuma besta das Terras Sombrias, mesmo que seu instinto o fizesse afastar-se do bosque onde a fauna começava a calar-se. Passou o dia andando pelos limites, procurando achar algum indício de atividade. Mais uma vez, para sua consternação, não encontrou nada. Não que quisesse enfrentar um Oni ou os legionários obsidiana, claro. Queria apenas completar sua missão. Levar de volta a informação de que não encontrara nada não lhe parecia uma boa forma de completá-la.

Ainda que pudesse alcançar as terras dos Unicórnios à meia-noite, Toku preferiu descansar depois da ceia. Não estava cansado, mas preocupava-se de que sua égua Musha pudesse mostrar sinal de fadiga. No grande esquema das coisas, a égua não era importante para sua missão, mas servira lealmente a Toku. Se pudesse evitar, não a machucaria.

Toku não ouviu os bandidos aproximarem-se. Depois de apenas alguns anos vivendo nas Ilhas dos Luuva-a-Deus, parecia que seus instintos de caçador haviam diminuído consideravelmente. Num momento, Toku estava sentado junto à sua pequena fogueira, esquentando um pedaço de peixe seco para diminuir seu sabor rançoso; no seguinte, foi surpreendido pelas costas e saiu rolando através do acampamento, em luta contra um assaltante desconhecido. Seu primeiro pensamento foi que, se fosse uma das criaturas de Fu Leng, o mais certo é que morreria. Imediatamente depois deste pensamento, decidiu que qualquer coisa que fedesse tanto a saquê, sujeira e suor deveria ser humana. Os Magistrados Obsidiana, apesar de todas os seus defeitos, eram vaidosos de sua aparência pessoal.

Toku segurou seu inimigo, tentando fazer com que nenhum golpe proveniente de qualquer arma penetrasse em suas defesas. Sem sua própria arma, resolveu usar a cabeça, como lhe ensinaram os marinheiros dos Mantis. Três fortes golpes com a testa e seu oponente caiu molemente.

Levantando-se, Toku deu-se conta de que não tinha nenhuma chance, já que eles o excediam em número. Havia talvez meia dúzia de homens armados rodeando o perímetro de seu acampamento. Vestiam armaduras mal emparelhadas e brandiam armas improvisadas e de baixa qualidade. Um deles era um Nezumi.

- Ora, – disse, amavelmente, – receio não ter peixe suficiente para todos. Não creio que estejam interessados em alguns bolos de arroz?

Um dos bandidos adiantou-se confiante. Os olhos de Toku arregalaram-se surpreendidos, e, apesar de tudo, um sorriso surgiu em seus lábios. De modo algum podia considerar-se homem alto, mas até ele erguia-se meia cabeça acima deste “bandido”, que certamente não tinha mais que doze anos.

- Eu sou Vento Cortante, Mestre Espadachim da Floresta de Shinomen! – proclamou o

garoto em voz alta, erguendo sua katana. Toku percebeu que vários bandidos pareciam irritados. – Exijo sua rendição, ou você será morto em nome dos Assassinos da Floresta!

Toku não pôde resistir. Depois de tantos anos de medo e opressão, esta era um trégua bem-vinda. Soltou uma gargalhada.

- Vento Cortante? – perguntou – Você mesmo se deu este apelido?

- O quê?! – exclamou o “bandido”, com o rosto fazendo-se vermelho beterraba.

Vários bandidos riram, mas era claro que o menino não estava achando graça. Avançou um passo, segurando a espada com força.

- Repita isso – disse, com a voz repentinamente mais profunda e intensa – e não viverá para ouvir as risadas!

O sorriso de Toku desapareceu. A ameaça do garoto parecia muito real, mas foi outra coisa que o deteve, algo nos olhos do pequeno. Algo familiar.

Perdoe-me, Vento Cortante-san. – disse com uma respeitosa inclinação de

cabeça – Pelo riso, é claro.

- Estou

Vento Cortante assumiu uma expressão satisfeita e voltou-se para os outros bandidos.

- Viram só? – disse – Eu sabia!

- Pense o que quiser, pequeno. – resmungou um dos bandidos – Você terá de demonstrar seu “grande destino” em outra hora. – dirigiu-se a Toku – Você não é uma das bestas do Imperador, então não temos razão para mata-lo. Não faça nada estúpido e viverá.

Toku assentiu. Sabia como eram estes homens. Não o matariam se não lhes resistisse. O mais certo era que tentassem incorporar às suas fileiras qualquer ronin que encontrassem, aumentando as possibilidades de sobrevivência do grupo. Era essencial para que sua prosperidade continuasse, e agora mais do que nunca. Mantê-lo-iam com eles durante vários dias, permitindo-lhe observar como agiam. E depois, dar-lhe-iam uma oportunidade de demonstrar sua lealdade. Se conseguisse, transformar-se-ia em um dos membros do bando. Se não conseguisse, matá-lo-iam. Nenhum dos dois era um destino aceitável. Mas isso não importava, pois quando chegasse o momento do teste, já teria partido há muito tempo.

Os bandidos fizeram-no recolher suas coisas e guarda-las nos alforjes de Musha. Tomaram suas armas, permitindo-lhe conservar suas outras posses. Os bandidos eram intrinsecamente práticos, descobrira há muito tempo, e não carregariam nada se houvesse outro que as levasse. Mas tinha de admitir que esses pareciam mais bem organizados que outros. O mais interessante, é claro, era o garoto. Havia nele algo inexplicavelmente familiar. Durante a caminhada pela floresta até o esconderijo dos bandidos, Toku perguntou a um dos outros salteadores acerca do menino.

- Bah! – fez o bandido – É apenas um órfão que nosso líder recolheu. Se quer saber,

deveríamos ter nos livrado dele há muito tempo. É um incômodo. Tem-se em alta conta. – depois de pensar um pouco, acrescentou: - Mas devo admitir que tem um verdadeiro talento com a espada. Acho que é por isso que o alimentamos.

Toku passou o resto da tarde e da noite em silêncio, tentando não chamar atenção. Os Assassinos da Floresta pareciam dispostos a deixa-lo observar em silêncio, talvez tomando o silêncio por medo, talvez por respeito. Na verdade, só pensava no garoto que se fazia chamar Vento Cortante. Acreditava saber algo sobre sua origem. Se fosse verdade, então ele era o samurai que Kaede lhe mandara encontrar. Seria uma coincidência incrível ter topado com ele, mas isso era algo que se deveria esperar, tratando-se de Oráculos. Uma vez, teria dito que se tratava de sorte, mas Toku não acreditava mais que hoje em dia houvesse outra sorte senão a má-sorte.

Mais tarde, nessa mesma noite, Toku encontrou Vento Cortante junto à fogueira, limpando suas armas.

- Sua técnica é impressionante. – disse ao garoto, sentando-se do outro lado do fogo. – Recorda-me outro estilo de luta que vi uma vez, mas não lembro onde.

- É meu próprio estilo. – respondeu o garoto – Desenvolvi-o sozinho. Surgiu naturalmente, mas é todo meu.

Toku franziu o senho e coçou o queixo.

- Um dos outros disse-me que você era órfão.

Vento Cortante deteve-se e encarou Toku fixamente, com o mesmo olhar frio de antes.

- Minha mãe morreu. Meu pai também, suponho. O que isso lhe importa?

O ronin deu de ombros.

- Só estava curioso. – disse – Eu também sou órfão. – olhou para o fogo. – Meus pais

durante uma fome, há muitos anos. – quase dissera ao menino que seus

pais haviam sido mortos por bandidos, mas isso não seria nada prudente.

morreram em uma

O garoto voltou às suas espadas, continuando a poli-las.

- Minha mãe era uma gueixa. – disse, dali a algum tempo. – Sei que meu pai era um samurai.

- Meus pais eram camponeses. – disse Toku, sorrindo.

- Apesar disso, você carrega uma katana. – disse o garoto, sério – Como isso é possível?

- Apenas aconteceu. – disse Toku – A princípio parecia uma boa idéia. Encontrei-me

muito envolvido na Guerra dos Clãs para abandonar a espada. Talvez eu não seja um