Os acontecimentos desta história são verdadeiros e ocorreram nas fronteiras da Argentina, Paraguai e Brasil no ano de 1750″ é a frase que

abre A Missão. E é num tom realista que o filme aborda um fato relacionado com nossa história. O pano de fundo aqui é a colonização da América do Sul pelos espanhóis e portugueses no século 18, mostrando as missões jesuítas da Igreja Católica ocorridas nesse período. Temos um pedaço da nossa história retratada. E muito bem retratada. Numa das cenas iniciais, vemos um grupo de índios jogando num rio um corpo de um padre amarrado numa cruz. Isso já simboliza o tema principal: A civilização dos índios da América do Sul através do cristianismo. Se por um lado, isso foi um meio de um grupo (os missionários jesuítas da Igreja Católica, especificamente falando) tentar defender esse povo da colonização, por outro pode se julgar o mal que isso poderia ter sido na cultura dos índios, que praticamente foram obrigados a abandonar seus ritos e tradições em troca de uma “civilidade”, que era o que o cristianismo significava na época. Civilidade esta, que era imposta pelos colonizadores tanto espanhóis como portugueses, justamente quem devastava as terras indígenas e escravizavam os índios. A Missão relata através da história da Missão de São Carlos comandada pelo Padre Gabriel (Jeremy Irons) todos os meandros da colonização desenfreada da América do Sul. Podemos ver no filme a discriminação que os índios sofriam dos colonizadores que os tratavam como meros “animais selvagens”; a escravidão que foi imposta a uma enorme quantidade deles; a luta pelo controle de terras indígenas colonizadas; a Igreja que praticamente os abandonou quando viu que estava perdendo o controle (leia-se poder) na região, e simplesmente deixou acontecer os massacres; e, claro, os jesuítas que acabaram se voltando contra os colonizadores e contra a própria Igreja, na busca pela proteção dos índios e de suas terras. Depois dessa cena com o padre sendo jogado no rio, somos apresentados ao personagem de Jeremy Irons, padre Gabriel. Um missionário jesuíta que vai tentar um contato com uma tribo de índios guaranis. Começamos vendo a dificuldade que ele tem para chegar ao local onde está a tribo, quando tem que atravessar um rio, escalar uma cachoeira e depois adentrar a floresta. E é quando Gabriel encontra os índios que temos uma cena onde já se destaca um dos elementos chaves do filme: A Música. Tendo a dificuldade de comunicação com eles, pela falta de conhecimento de seu dialeto, Gabriel apela para uma flauta. Ele toca uma música que desperta a curiosidade dos índios, que mesmo após a ira de um deles (um índio mais velho da tribo quebra a tal flauta) acabam por aceitar a presença dele. O problema de comunicação que poderia haver, não existe mais; e esse é o primeiro elo que se forma entre o padre e os índios. A importância que a trilha sonora tem nessa cena é a mesma que tem no filme como um todo. Sendo de assinatura do mestre Ennio Morricone, temos nessa pequena cena como essa trilha é importante para se contar essa história, ou melhor, para se fortalecer as estruturas dessa história. O Padre usa a música para se mostrar aos índios como um “igual” e assim eles passam a confiar em alguém de fora por causa dessa música. E em outras cenas, o inverso é feito. Gabriel muitas vezes para tentar mostrar ao “povo civilizado” (tanto os colonizadores, como o representante da Igreja) que os índios não são “animais” como eram taxados, ele novamente usa a música. Numa dessas cenas, ele coloca em frente de uma platéia um pequeno índio cantando, e logo se vê como algumas pessoas ficam maravilhadas ao ouvir um índio cantando de tal forma. São cenas como essa que o filme mostra a música como sendo uma linguagem universal que ultrapassa barreiras culturais, de linguagens, de idiomas e dialetos. A trilha sonora é um dos alicerces d’A Missão. Outro alicerce é o personagem Capitão Rodrigo Mendonza, perfeitamente interpretado pelo ator Robert DeNiro. Já com um rol de personagens marcantes, tanto antes desse filme como depois dele, De Niro tem mais um personagem forte em mãos que, como de costume, ele realiza muito bem. No início, Rodrigo é um mercenário, um mercador de índios. Ele os captura na floresta e os vende como escravos para colonizadores. Aqui o vimos como um homem que faz seu trabalho com muita frieza, sem demonstrar muita emoção. Ele simplesmente cumpre a função, sem se preocupar com as conseqüências ou com a uma suposta moralidade no que faz, mas que, ao mesmo tempo, se mostra muito apegado a sua família, no caso, sua mulher Carlotta (Cherie Lungh – a única personagem feminina com

Assim o massacre dos índios começa. Esse peso representando o peso do passado. como tratar os jesuítas sendo os heróis – não vemos ninguém ruim no lado deles – e os colonizadores sendo os vilões – não vimos ninguém bom no lado deles. mesmo com reprovação por parte dos outros Padres jesuítas que o acompanham. o massacre que ocorreu com eles. mas para se colocar assim. temos um belo diálogo entre Rodrigo e Gabriel. com rio. tentando acabar com as missões Jesuítas. A situação dele começa a se desenvolver quando sua mulher assume que se apaixonou pelo seu irmão. o que se segue no filme é a disputa que tomou conta da região. sempre condenou no passado. Rodrigo não busca vingança ou algo que o valha. acontece a conclusão do seu martírio quando ele se depara com os índios. coisa que a colonização desenfreada que ocorria por aqui não poderia permitir. por outro lado. Daí surge uma quebra entre os jesuítas. As cenas de batalha ilustram bem a covardia em que ocorriam nesses confrontos. pelo amor que sente do irmão. aquele homem que se mostrava frio – pelo menos perante os índios que capturava – aqui mostra sua humanidade. Ele o convence a ir para a Missão de São Carlos ajudar os índios. ele leva consigo um peso amarrado ao corpo. e com a música de Ennio ao fundo. essa batalha não é tão violenta. Ou seja. Não consegue viver com a dor. principalmente. Com a condução correta do diretor Roland Joffé e a interpretação de De Niro tudo fica num patamar bem superior. Ele simplesmente tenta a todo custo não se deixar cair qualquer sentimento negativo. principalmente. e não soa como “novela mexicana”. O personagem mostra certa dualidade. Mas como o foco seria a situação dos índios. que é ótima e com uma bela conclusão. ele continua a carregar o tal peso. não os confronta. A Missão se posiciona como um “filme denúncia”. Após a morte do irmão. Afinal. Rodrigo quer deixar de ser padre para poder enfrentar a luta armada junto com os índios. Uma autoridade da Igreja que vem incumbido de dar uma solução para o conflito. Só que se por um lado a situação dos índios era o foco. através de um representante vindo da Europa. mas ao mesmo tempo vê que devido aos vários interesses em jogo não conseguiria evitar o conflito. assumindo certas posições extremas. Antes das cenas de batalhas. mas acaba tendo um duelo de vida e morte. e fazer algo por alguém. mas ainda sim se mostra bem cruel. Tanto que a primeira e a última imagem do filme é justamente o olhar de reprovação desse personagem para com a história. O jeito que Rodrigo chora e ri ao mesmo tempo quando se livra do peso pelas mãos dos índios é comovente. crianças e idosos da tribo. Temos então a cena da redenção dele. o que resulta na morte de Felipe.fala do filme) e seu irmão mais novo Felipe (Aidan Quinn). Rodrigo e todos os outros jesuítas formam com os homens da aldeia um exercito para tentar enfrentar os soldados colonizadores. Tudo ali está sendo visto com um olhar bem específico de alguém que participou de tudo e que reprova tudo que aconteceu ali. e com ele se tornando um dos padres jesuítas da Missão de São Carlos. teve aqui uma engenhosa manobra narrativa. Um deles (interpretado pelo ator Liam Neeson – aqui no início de sua carreira) até tenta o livrar desse peso. também é poupada. as armas de fogo. Depois dessa redenção de Rodrigo. o filme optou por não se por com um olhar isento. que não tomou uma decisão feliz ao “lavar as mãos” em relação ao conflito. Mesmo com toda dificuldade de chegar à tribo. E ao chegar ao topo da cachoeira. enquanto os soldados colonizadores tinham toda uma estrutura e. quando vemos que tudo é contado por um dos personagens. Ele vê a importância das Missões para o povo indígena. E até a Igreja Católica. da culpa que ele carrega pela vida que levava e também pela morte do irmão. mas Rodrigo se nega a deixá-lo para trás. as missões davam voz e terra aos índios. Comparado com filmes atuais. e Gabriel se recusa a entrar em guerra ou dar permissão para que Rodrigo faça isso. Colonizadores portugueses e espanhóis. em que ele. Isso tudo está bem trabalhado na trama. Rodrigo. Vemos juntos os desempenhos de Robert DeNiro com a trilha de Morricone. cachoeira e uma floresta densa pelo caminho. tenta ir embora. A Igreja Católica comparece no meio dessa disputa. principalmente para aquele povo. os mesmos . e acaba por “lavar as mãos”. Rodrigo passa a se martirizar. e aí que o Padre Gabriel o encontra novamente. já que enquanto Gabriel vai simplesmente realizar mais uma missa tendo como platéia mulheres. Os índios contando com poucos recursos. Rodrigo. Para chegar à tribo de guaranis. E mesmo depois de ver a mulher e seu irmão juntos na cama. forma o melhor momento do filme.

O diretor Rolland Joffé resolveu não usar atores profissionais para interpretá-los. se tem a impressão que os índios são “parte do cenário”. – como. Tem uma tentativa com um pequeno índio que segue o Robert De Niro. Para finalizar: O filme. direção de arte caprichada. Como era o realismo que ele buscava. na época de lançamento chamou atenção. Embora como “cinema” cometa deslizes. já citado. com uma trilha de Ennio Morricone no fundo e interpretação de Robert De Niro. Se toda aula de história fosse assim. Isso acabou se voltando a favor do filme. já que como disse. Talvez pelo fato do diretor Rolland Joffé não ter feito nada relevante depois dele. mas precisamos prestar atenção em A Missão. trilha sonora inesquecível. então aqui foi usado uma tribo de verdade – os Waunana. é pouco lembrado. Belas imagens. No geral. evasão escolar seria algo que não existiria mais. mas pouco se consegue nesse sentido. ganhando até a Palma de Ouro de Cannes. do sudoeste da Colômbia – para interpretarem os índios guaranis. principalmente nós. e sim essa disputa que acontecia em nome deles e das suas terras. uma boa narrativa. e um outro que comanda a tribo. o foco era a situação dos índios e situação deles era essa na época: Eles não tinham importância. . ótimas interpretações. já que conta uma história envolvendo a colonização do nosso continente. Assim não temos um personagem dentre eles que chame maior atenção.índios não demonstraram muita empatia na tela. Atualmente. não olhar para essa história com um olhar mais isento – mas como “aula de história”. cumpre muito bem a função.

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