MORTALIDADE DE JOVENS POR HIV/AIDS EM SÃO CARLOS, SP

THAÍS JULIANA MEDEIROS1 e ANA PAULA SERRATA MALFITANO2

Resumo: A temática da epidemia da AIDS, sua prevenção e controle estão em pauta desde a década de 1980, engendrando esforços públicos para o seu enfrentamento. Nesse sentido, várias ações foram realizadas, são elas: a distribuição universal e gratuita da terapia anti-retroviral na rede pública de serviços de saúde, a geração de uma rede de serviços para diagnóstico do HIV/AIDS e a intensificação das estratégias de adesão à prevenção e tratamento da doença. Assim, como um dos resultados de tais investimentos, reconhece-se uma desaceleração dos óbitos por AIDS nos últimos anos no país, o que aponta para a necessidade de aproximação e melhor compreensão de tal fenômeno. Devido à carência de estudos epidemiológicos acerca de dados referentes à mortalidade juvenil em cidades de pequeno e médio portes, juntamente com o fato de que o município de São Carlos, SP recebeu o prêmio de cidade com menor Índice de Vulnerabilidade Juvenil do país, escolheu-se tal local para se realizar esta pesquisa. Objetivo: Conhecer a evolução temporal da mortalidade por AIDS, nos últimos dez anos, entre os jovens de 15 a 29 anos residentes em São Carlos, SP. Métodos: Fez-se um levantamento das causas de mortes registradas nas declarações de óbito, no período de 2000 a 2010. Para qualificação e cruzamento dos dados brutos, realizou-se uma entrevista com a coordenadora do Programa Municipal de DST/AIDS. Resultados: Constatou-se que dos 619 jovens que morreram no município, por causas externas e internas, aproximadamente 8, 5 % morreram em decorrência da AIDS, sendo que entre 2000 e 2010, representou 20% da mortalidade por causas internas. A maioria das mortes foi composta por indivíduos do sexo masculino (55%), brancos (55%) e solteiros (53%). Nos últimos cinco anos também observou-se a mortalidade de 20 jovens por HIV/AIDS, o que representou um decréscimo de 41% no número de óbitos em relação ao quinquênio anterior. Discussão: Não se pode fazer uma análise efetiva acerca da mortalidade por HIV/AIDS entre os jovens devido à carência de informação no preenchimento dos dados referentes à morte, às causas e às características dos sujeitos. Conclui-se, portanto, que ainda é necessário um aprimoramento dos instrumentos disponíveis de informação, para que se possa efetivamente avaliar os efeitos dos programas de prevenção e controle, com vistas a planejar ações contextualizadas institucional e socialmente no local que, por sua vez, produzirá efeitos na mortalidade de AIDS no país. Palavras-chave: Adolescência, AIDS, epidemiologia, mortalidade.

1

Cientista Social formada pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e Psicóloga pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Terapia Ocupacional da UFSCar. Apoio CAPES. Endereço Eletrônico: thaisjuliana@yahoo.com.br 2 Professora Adjunta do Departamento de Terapia Ocupacional e do Programa de Pós-Graduação em Terapia Ocupacional da UFSCar. Endereço Eletrônico: anamalfitano@ufscar.br

INTRODUÇÃO Em 1981. maior inserção em grupos empobrecidos. Nesse sentido. atualmente há mais casos da doença entre os homens. Cruz. 2000). a única faixa etária em que as mulheres são maioria no número de casos de AIDS é dos 13 aos 19 anos. bem como a prevenção das doenças oportunistas entre aqueles que já possuem AIDS (Reis. desde a prescrição do coquetel. sendo que quanto menor a escolaridade. 2011). especialmente entre os homens (Reis. pois os países dessa região. diminuição do aparecimento de doenças oportunistas e queda das internações hospitalares (Reis. Santos. 2007). o Brasil. 2004). a AIDS. Até o ano de 2005. foi identificada a síndrome da imunodeficiência adquirida. a terapia anti-retroviral começou a ser indicada para tratamento da AIDS. Santos.12%. Szwarcwald. Com isso. Cruz. Santos. Na África Subsaariana tem-se o quadro mais alarmante. Contudo. reduzindo a mortalidade por essa causa. segundo o Ministério da Saúde (Brasil. Brito. sendo 2. enfrentam dificuldades em obter terapia antiretroviral de alta potência (HAART). Santos. A partir de 1996. do mesmo modo que em outros países. porém a diferença em relação às mulheres vem decaindo ao longo dos últimos anos. Santos e Cruz.1 milhões de pessoas morreram em decorrência da AIDS. Cruz. 2007). logo. . calcula-se que 3. Castilho. Além disso. Por conseguinte. Cruz. mais recentemente.6 milhões de adultos e 570 mil abaixo dos 15 anos de idade (UNAIDS. entre os jovens de 17 a 20 anos a prevalência do HIV passou de 0. Há mais de quinze anos o quadro da epidemia da AIDS demonstra que ela tem avançando por municípios de médio e pequeno porte (interiorização). com baixa escolaridade e menor qualificação profissional (pauperização) e. culturais e socioculturais. A epidemia da infecção pelo vírus da imunodeficiência adquirida (HIV) tornou-se um significante problema de saúde pública. geográficos. pode-se não só aumentar a sobrevida do indivíduo. 2007).09 % para 0. o aumento do número de casos entre as mulheres (feminização) (Grangeiro. predominando em relações heterossexuais (heterossexualização). devido aos entraves econômicos. apresentou um arrefecimento significativo no número de óbitos pelo vírus. 2007). Escuder. 2010. Castilho. 2007). tendo sido a quarta causa de morte no país (Reis. a desaceleração dos óbitos por AIDS nos últimos anos evidencia a necessidade de realizar novos estudos e compreender melhor esse fenômeno (Reis. Com sua distribuição na rede pública de serviços de saúde.

para análise. 2011. que caracteriza as doenças pelo vírus HIV e 4) das 52 mortes por AIDS de 2000-2010. porém. s/p). Para realização desta etapa.9. presente na Vigilância Epidemiológica de São Carlos. “em relação aos jovens. Entretanto. foram consideradas as informações pertencentes ao agrupamento B20-24 do CID-10.maior o percentual de infectados pelo vírus da AIDS. juntamente com o fato de que o município de São Carlos. de 2000 a 2005. mas as doenças oportunistas (R09. o presente estudo pretende analisar temporalmente a mortalidade de jovens por AIDS em São Carlos-SP. 2) dos dados sobre causas internas foram considerados somente vítimas com idade entre 15 e 29 anos de idade.9). embora eles tenham elevado conhecimento sobre a prevenção da AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis. De tal modo. A09.8. Após o recebimento das autorizações. oito delas.2.9. R68. há tendência de crescimento do HIV” (Brasil. não tiveram como causa básica a AIDS. 15 % do total. os dados apontam que. a partir do Sistema de Informações em Saúde (CIS). . Justifica-se a importância da discussão devido à carência de estudos epidemiológicos acerca de dados referentes à mortalidade juvenil em cidades de pequeno e médio portes. considerando então somente dados de morte de causas internas. foi feita a solicitação formal de autorização aos órgãos competentes para acesso às informações sobre a mortalidade de jovens. A41. devido à precariedade e limitação dos dados encontrados em meio físico. SP recebeu o prêmio de cidade com menor Índice de Vulnerabilidade Juvenil do país (Brasil. foi realizada uma segunda coleta para confirmação das informações obtidas anteriormente. Dúvidas a respeito do preenchimento das declarações de óbito foram esclarecidas por meio da pessoa responsável pelo setor. METODOLOGIA Foi realizada uma coleta dos dados dos últimos dez anos (2000 a 2010) acerca dos óbitos entre os jovens. C53. 2010). conforme estabelece a Política Nacional de Juventude. J18. 3) a partir dos dados de jovens vítimas de causas internas. A partir disso. foram utilizados alguns critérios de inclusão e exclusão dos dados: 1) foram excluídos óbitos por causa de morte externa. D89. da região central do Estado de São Paulo. que estavam em meio físico. Neste contexto. município de porte médio. coletaram-se os dados presentes nas declarações de óbito. estes dados foram considerados. As informações dos cinco anos seguintes foram obtidas em meio digital.9.

sendo 53 por AIDS (20%). os óbitos por AIDS representaram 8%.Mortalidade de jovens por AIDS em relação às outras causas internas de 2000 a 2010 No gráfico 2 apresentam-se os dados relativos à mortalidade de jovens nos últimos dez anos a partir da variável sexo: 7 6 5 4 3 2 1 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 F eminino 2006 2007 2008 2009 2010 Mas c ulino em branc o Gráfico 2. RESULTADOS Na análise de 2000-2010 da mortalidade de jovens por causas internas. Comparando com a totalidade das mortes.Mortalidade de jovens por AIDS segundo o sexo de 2000 a 2010 . incluindo as causas externas dos últimos dez anos. realizou-se uma entrevista com a coordenadora do Programa Municipal de DST/AIDS. Mortes AIDS 20% Outras mortes por causas internas 80% Gráfico 1. foram encontradas 259 mortes.Para qualificação e cruzamento dos dados brutos.

No gráfico 3 demonstram-se os dados sobre a mortalidade de jovens nos últimos dez anos a partir da variável raça: 7 6 5 4 3 2 1 0 2000 2001 2002 2003 branc o 2004 pardo 2005 preto 2006 2007 2008 2009 2010 em branc o Gráfico 3. morrem mais jovens brancos (55%) seguidos de pretos (19%) e pardos (2%). Dados em branco sobre raça totalizaram 25%. ao longo dos dez anos. de 2008 a 2010 prevaleceram os óbitos de mulheres.O panorama de feminização da epidemia confirma-se pelo Gráfico 2. No gráfico 4 apresenta-se a mortalidade de jovens de 2000 a 2010 a partir do estado civil: .Mortalidade de jovens por AIDS segundo raça de 2000 a 2010 Nota-se que. ao longo dos 10 anos. dificultando as análises desse quesito. Nele se pode constatar que. apesar de ter havido um predomínio da mortalidade de jovens do sexo masculino no ano de 2007. a maioria das mortes correspondeu ao sexo masculino (55%). Porém.

Porém. No gráfico 5 consta a mortalidade de jovens de 2000 a 2010 de acordo com a escolaridade: 12 10 8 6 4 2 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 em branco 2007 2008 ignorado 2009 2010 de 4 a 7 anos de 8 a 11 anos Gráfico 5. uma vez mais. dificulta a análise. predomina entre os solteiros (53%) a mortalidade em decorrência da AIDS.Mortalidade de jovens segundo a escolaridade de 2000 a 2010 .8 7 6 5 4 3 2 1 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 s olteiro 2006 2007 2008 2009 2010 c as ado em branc o Gráfico 4. de modo geral.Mortalidade de jovens segundo estado civil de 2000 a 2010 Observa-se que. o elevado número de campos em branco (32%).

2 casos de dona de casa. No gráfico 6 apresentam-se os dados relativos à ocupação dos jovens que morreram por AIDS: Dados incluídos 25% Dados em branco 75% Gráfico 6 – Mortalidade de jovens por AIDS segundo a ocupação Concluí-se que. vigilante. No gráfico 7 apresenta-se as faixas etárias que mais obtiveram casos de óbitos por AIDS: . já que os campos em branco e ignorado juntos somaram 91%. serviços gerais. Os 25% de dados preenchidos referemse às profissões de pedreiro. a ausência de dados inviabiliza qualquer análise sobre a ocupação dos óbitos de jovens por AIDS. estudante e operador de câmaras frias.Não é possível fazer uma análise precisa sobre o grau de escolaridade dos jovens que morreram em decorrência da AIDS. do mesmo modo que no gráfico 5.

No gráfico 8 tem-se a mortalidade de jovens por AIDS ao longos dos últimos dez anos: 14 12 10 8 6 4 2 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 Gráfico 8.9 8 7 6 5 4 3 2 1 0 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 de 15 a 19 anos de 20 a 24 anos de 25 a 29 anos Gráfico 7. seguida dos 20 a 24 anos (26%) e 15 a 19 (2 %).Mortalidade de jovens por AIDS de 2000-2010 .Mortalidade de jovens por AIDS segundo faixas etárias de 2000 a 2010 Observa-se que a prevalência de óbitos está na faixa dos 25 a 29 anos (72%).

porém com altos e baixos durante esse período. devido à subnotificação. já que a consideração apenas dos dados sobre estado civil são insuficientes não só pelo elevado número de campos em branco (32%). no entanto. mas também por ser um campo que não esclarece acerca da orientação sexual do sujeito. o que inviabilizam análises mais concretas acerca da epidemia. podendo facilitar subnotificações. 2001). não se pode confirmar se está havendo. Concluindo. com 91% e 75%. Além disso. não se pode afirmar estar ocorrendo. Nesta pesquisa. com 12. 2001). para que se possa conhecer. com 7. verificou-se que 15% da mortalidade de jovens de 2000 a 2010 constavam como tendo causa básica as doenças oportunistas que acometem a pessoa portadora do HIV. Valente. faz-se imprescindível o aperfeiçoamento dos instrumentos disponíveis de informação. Valente. verdadeiramente. No ano de 2008 foi o segundo maior pico no número de mortes. apesar da maioria dos óbitos de 2000 a 2010 serem pertencentes aos homens. às causas e às características dos sujeitos. o sub-registro de casos de AIDS é um problema já conhecido do sistema de vigilância epidemiológica. o quadro da epidemia na sociedade brasileira. Assim. um fenômeno de pauperização da epidemia no município de São Carlos. ainda menor que 2000. a demora nas notificações e no processamento das informações. no momento de preenchimento de informações sobre o óbito. Porém. tal qual o panorama nacional. os campos de escolaridade e ocupação estiveram em branco. uma vez que não apontam como causa da morte a AIDS. Portanto. DISCUSSÃO Segundo Lemes e Valente (2001).Nota-se que o número de óbitos decorrentes da AIDS diminuiu entre 2000-2010. para que se possa analisar os efeitos dos programas . é de extrema relevância que esse dado seja corretamente preenchido. Sendo assim. O predomínio da ocorrência de óbitos entre mulheres nos últimos três anos aponta para uma feminização da epidemia. os dados registrados sobre a doença normalmente não demonstram o número verdadeiro de casos existentes (Lemes. Entretanto. não é possível se fazer uma análise efetiva acerca da mortalidade por HIV/AIDS entre os jovens devido à carência de informação no preenchimento dos dados referentes à morte. Um dos elementos que aponta para as falhas existentes no sistema de vigilância epidemiológica é o fato de que os óbitos por AIDS não são registrados como sendo casos da doença (Lemes. em relação à heterossexualização. respectivamente.

3. Magnitude e tendência da epidemia da AIDS em municípios brasileiros de 2002-2006. R. Disponível em: <http://portal. Saúde Pública.gov. . E.C. VALENTE.br>. de. 430-441. n. A declaração de óbito como indicador de sub-registro de casos de AIDS. com vistas a planejar ações contextualizadas institucional e socialmente no local que. Ministério da Justiça. Geneva: Unaids. 2007.. v. v. Acesso em: 28 abril 2010. Report on the Global HIV/AIDS Epidemics.. 2000. V. Epidemiol. SANTOS.M. UNAIDS. Rev. Revista da Sociedade Brasileira de Medicina Tropical. 153-154. CASTILHO. faz-se relevante aos profissionais que intervêm no âmbito da assistência às pessoas portadoras do vírus HIV. em diferentes setores.16. 3. com vistas a aproximar-se de sua vivência e seu impacto.L. REFERÊNCIAS BRITO. GRANGEIRO. BRASIL. produzirá efeitos na mortalidade de AIDS no país.L. Saúde Pública. Serv. n.M.de prevenção e controle.M. n.A. M. 2001. K. SZWARCWALD. intervenção e contribuição no âmbito das políticas sociais. Ministério da Saúde. Porém. p. ESCUDER.mj. p. n.aids. C.34. Aids no Brasil. Dessa maneira. Disponível em: <http:www. v. p. 2010. Segurança Pública.. Brasília.207-217.3. o conhecimento acerca de tais dados e da realidade da expressão dos fenômenos sociais em torno da epidemia.M. que se trata de quadro que requer investigação. 617-626. pode-se afirmar. Saúde. J. pela representatividade numérica encontrada entre as mortes.. M.gov. CASTILHO. buscando caminhos de prevenção. E. entre eles o terapeuta ocupacional. por sua vez. A.A..2. A. 2004. REIS. BRASIL. CRUZ. A mortalidade por AIDS no Brasil: um estudo exploratório de sua evolução temporal. por se caracterizar como uma causa relevante entre as mortes de jovens na sociedade brasileira. LEMOS. A.G. v 44. 17. Acesso em: 15 de agosto de 2011. Cad. E.br>. AIDS e infecção pelo HIV no Brasil: uma epidemia multifacetada. p.

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