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Alencar: Vida, Obra e Milagre

"Quando te tornarei a ver, sertão da minha terra, que atravessei há muitos anos na aurora serena e feliz de minha infância? Quando tornarei a respirar tuas auras impregnadas de perfumes agrestes, nas quais o homem comunga a seiva dessa natureza possante?" Com esse apelo nostálgico, Alencar começa um dos seus romances mais populares: O Sertanejo. E em nota, no fim da obra, elucida: "Refere-se à viagem que fez o autor do Ceará à Bahia, por terra, nos anos de 1838 a 1839". Tendo nascido a 1? de maio de 1829, em Mecejana (Ceará), o escritor era, portanto, menino, na época em que realizou tão longa jornada através do sertão. Já possuía algumas letras, recebidas na escola primária, e se habituara a respirar no ambiente austero de um lar bem brasileiro, sob o olhar vigilante do pai, o Senador José Martiniano de Alencar, e os cuidados da mãe. Assim ia crescendo, no quadro estreito do burgo natal, quando, à semelhança de um daqueles heróis das histórias que lhe contavam, começou a viver essa aventura feérica. É fácil imaginar o que seria tão longa caminhada pelo sertão nordestino, na primeira metade do Século 19. Dias de fadiga no lombo de um animal viajeiro por estradas que não passariam, muitas vezes, de estreitas veredas em matagais cerrados; ora sob um sol de fogo - o sol do Nordeste - a crestar o verde dos campos; ora ao luar, para aproveitar-se o frescor da noite, num cenário de lenda, entre sombras misteriosas e cintilações de prata. Depois, a parada nos ranchos, os bivaques improvisados, as fogueiras acesas para espantar os animais ferozes, o descante melancólico dos comboieiros, os trenos da viola, e o menino a adormecer ante o fulgor das labaredas, como sob o efeito de um encantamento. Quantos imprevistos e encontros inesperados, quantas descobertas no mundo estranho do sertão! Imensidade que só pode comparar-se à do mar, cheia como este de perigos e incertezas! Findo o repouso, a jornada recomeça, e para um menino de dez anos vivo e imaginoso, as impressões nunca se

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repetem, os dias nunca são iguais nessa interminável caminhada. Bosques, rios atravessados a vau, árvores gigantescas, colinas, planícies, desfiladeiros; animais a correr, afugentados pela caravana; uma cobra morta a cacetada com grande alvoroço; pássaros desconhecidos a cortar o silêncio com grifes estridentes; e, no meio de tudo, perdido, surgindo como por encanto, o homem, à porta de uma choupana - o homem pequenino, enfezado - no qual a fantasia do pequeno, exaltada pelas visões do sertão, descobre um herói semelhante aos Cavaleiros da Távola Redonda e dos Doze Pares de França. 1839 - grande data do Romantismo brasileiro! Alencar confessa que de tão longa viagem, ante "as mais vigorosas impressões da natureza americana", lhe veio a inspiração dO Guarani, de Iracema e dO Sertanejo. Essa natureza, vista pelo prisma feérico dos olhos deslumbrados de um menino de dez anos, ficará sendo para sempre a "natureza" do romancista, a única que ele pode sentir. Mais tarde, evocar o sertão será para ele retomar ao maravilhoso da infância. De onde o idealismo iluminado da maioria dos seus romances indianistas e campesinos, verdadeiras pastorais, em que há muito de conto de fada. O Estudante Arredio No velho casarão da Corte, onde vai residir com a família, o menino se entretém à noite, findas as tarefas escolares, com leituras de novelas folhetinescas, ouvidas atentamente pelos mais velhos. Quadro patriarcal o desse pequeno grupo em torno de um lampião a acompanhar as aventuras e as peripécias do Saint-Clair das Ilhas. Em dado momento, numa passagem mais triste, uma lágrima brota dos olhos de um dos presentes. E a visita que chega inesperadamente estranha aquele ambiente de emoção. Há gente chorando na sala. Que teria acontecido? A voz comovida do garoto diz tudo: o herói acabava de passar por um transe pungente. Estávamos nos meados do Século 19, em pleno Romantismo. Mas a cena comporta uma perfeita transposição para os nossos dias. A novela melodramática ainda continua a arrancar lágrimas de leitores de romances e de ouvintes de rádio. Na Corte, José de Alencar freqüenta o Colégio de Instrução Elementar, do Professor Januârio Mateus Ferreira, velho educador, que lhe deixará as melhores recordações. Muito criança ainda, vai para São Paulo continuar os estudos, levando na bagagem um bom cabedal de novelas. São Paulo era naquele tempo uma cidade de província tristonha e brumosa, cuja vida urbana se fazia toda ela em função da

Academia de Direito. E quem ia da Corte, onde havia mais sol e mais largueza, estranhava aquela atmosfera melancólica e cinzenta, propícia ao movimento romântico que ali floresceu. Os estudantes imprimiam um caráter típico à cidade, promovendo reuniões, tertúlias, serenatas e imitando Byron, em noitadas satanistas que apavoravam os burgueses. Quando Alencar para ali se transferiu, o Byronismo estava em pleno apogeu; era moda andarem os estudantes de capa e cabeleiras, blasfemando contra a vida e o amor, numa atitude mais ou menos semelhante à dos existencialistas de Saint-Germain-des-Prés, em nossos dias. Seria uma espécie de Existencialismo daquela época. Falava-se dos desvarios de Bernardo Guimarães, das bebedeiras de Maneco de Azevedo, e devia prevalecer em tudo isso muito de fantasia e de lenda. Os· byronianos certamente posavam, como posam hoje os freqüentadores do Café de Flore. De Alencar sabe-se que a princípio, ainda adolescente, mantevese distanciado do "bulício acadêmico", desse "viver original", inteiramente desconhecido para quem nunca fora "pensionista de colégio" e nem havia, até então, deixado o "regaço da família". Mais tarde, parece que se aproximou algum tanto do ambiente, sem chegar a identificar-se plenamente com ele. Numa imagem romântica, bem a seu gosto, o escritor procura explicar a maneira por que reagia ante o meio. "As palestras à mesa do chá; as noites de cinismo conversadas até o romper d'alva entre a fumaça dos cigarros; as anedotas e aventuras da vida acadêmica, sempre repetidas; as poesias clássicas da literatura paulistana e as cantigas tradicionais do povo estudante; tudo isso - diz ele - sugava o meu espírito adolescente, como a tenra planta que - absorve a linfa, para mais tarde desabrochar a talvez pálida florinha." Mas a imagem é meio imprecisa; não se compreende bem até onde Alencar participa do espetáculo, até onde nele figurava apenas como espectador. Logo adiante, considera ele a "página acadêmica", "riquíssima de reminiscências", abrangendo-lhe a melhor "monção da existência". Será, no entanto, o caso de perguntarmos: romancista que se tornou mais tarde, por que não aproveitou essa página riquíssima num romance? É que ele preferia imaginar, idealizar a realidade a reproduzi-Ia. E a vida acadêmica como outros assuntos "reais" não lhe seduziria muito o espírito criador inclinado a trabalhar no imaginário. Ferreira de Resende, contemporâneo de Alencar na Academia, descreve-o como um estudante arredio, pouco amigo das tertúlias e sem grandes intimidades entre os colegas.

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Passou pelos bancos acadêmicos quase obscuro - informa-nos Araripe Júnior. Assim ter-se-ia dado tanto nos quatro anos que estudou em São Paulo como no terceiro que fez em Olinda. Formado em Direito em 1851, foi para a Corte trabalhar no escritório de advocacia do Dr. Caetano Alberto.

o Guarani

e o Retorno à Infância

Tive um professor no curso secundário muito dado às letras afeição na qual não era plenamente correspondido - que costumava dizer-nos haver feito sua iniciação na atividade literária pela charada. Sempre me pareceu original e estranho isso. Como poderia a charada constituir ponto de partida de um escritor? Só muitos anos depois vim a compreender tudo. O meu professor procurava, certamente, imitar o romancista do Guarani, por quem nutria a maior admiração. "O dom de produzir - declarou Alencar -, a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episódio psicológico, se não fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas excursões fora do assunto que me propus." Pois nada mais lamentável do que esse receio. Seria interessantissimo ver Alencar explicar-nos o mecanismo psicológico que o levou da decifração de charadas à criação de personagens poéticas, como a maior parte dos seus heróis. A crítica perdeu com isso um precioso subsídio. Quando surgiu o escritor em José de Alencar? Diz ele ter sido num "timido ensaio de romance histórico", ainda na infância, extraviando-se o rascunho com os folguedos da época que o viram nascer. Em São Paulo fez ainda outra tentativa de romance, sem conseqüência. O que particularmente pareceu atraí-lo nos tempos de estudante foi a crítica. Escreveu vários artigos na revista Ensaios Litterarios, da qual não encontramos um só número na Biblioteca Nacional. Artur Mota fala num estudo subre A Pátria de Camarão e outro sobre Questões de Estilo. Foi na crítica ainda que se iniciou no Jornalismo, quando se transferiu para o Rio, escrevendo no Correio Mercantil do seu colega e amigo dos bancos acadêmicos Francisco Octaviano. Em setembro de 1854, passa a substituir Francisco Octaviano, no folhetim hebdomadário do referido jornal. Sabe-se o que se chamava um folhetim naquele tempo. Era um gênero de comentário lítero-jornalístico, indo da política nacional e internacional "à apreciação de um fait-divers, dos últimos acontecimentos sociais mundanos e teatrais ou do romance acabado de aparecer nas montras das livrarias. Alencar revelou-se um folhetinista ágil, lúcido e elegante para o tempo e algumas de suas

páginas, como a referente ao famoso sermão de Monte-Alverne, ficaram mesmo célebres. Em 1856, Gonçalves de Magalhães regressa da Europa com o poema A Confederação dos Tamoios, editado a expensas do Imperador. Alencar, já agora, escrevendo no Diario do Rio, inicia a crítica sistemática da obra, analisando-a peça por peça, mostrando-lhe as frouxidões, as imperfeições métricas, a incapacidade do autor para dominar poeticamente o tema e realizar uma epopéia, como havia sonhado. A questão do Indianismo preocupava-o muito no caso. Gonçalves de Magalhães não se desfizera da maneira de ver e sentir do homem civilizado para identificar-se com os selvagens, cujas reações procura exprimir em verso. Alencar denunciava, com muita razão, o caráter facticio do poema, a ausência de uma verdadeira inspiração. Sentir-se-ia ele roubado num assunto que, desde muito tempo, o viria trabalhando: o de uma epopéia indianista? .Ou fora a idéia de Magalhães, mal realizada, que lhe trouxera a consciência de estar particularmente qualificado para levar avante, com êxito, essa empresa? Sabe-se do empenho com que Dom Pedro 11procurou defender o seu protegido, arregimentando intelectuais para responder às críticas de José de Alencar, chegando ele próprio, o Imperador, sob o pseudônimo "Outro amigo do poeta", a escrever um dos artigos de revide, no Jórnal do Commercio. Infelizmente, de Portugal, Alexandre Herculano, a quem o monarca também apelara, enviava-lhe, confidencialmente, uma carta bem desanimadora, considerando o poema de Magalhães uma obra fracassada. Foi esse, embora de maneira indireta, o primeiro choque de Alencar com Dom Pedro 11.Nunca haveriam de entender-se. Em dada altura de sua crítica a Magalhães, Alencar escrevia que se pretendesse compor um poema daquele gênero, pediria a Deus que lhe fizesse esquecer suas idéias de homem civilizado. "Filho da natureza, embrenhar-me-ia por essas matas seculares; contemplaria as maravilhas de Deus; veria o sol erguer-se no seu mar de ouro, a lua deslizar-se no azul do céu." Para conseguir isso, bastava retornar à infância, reviver aquela viagem maravilhosa através do sertão. Sugestões de leitura de Chateaubriand, Fenimore Cooper e Walter Scott fariam o resto. Num artigo incluído no volume IV dos Estudos, Tristão de Athayde vai de encontro à versão de um Alencar instintivo, em que o romancista surgisse por uma necessidade natural do temperamento. Personalidade multiforme, Alencar teria sido romancista, como logrou ser tudo aquilo que quis - conclui Tristão. Não concordando intei-

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ramente com esse ponto de vista, reconhecemos, pelo menos, que o autor de Iracema não foi tão instintivo, como muita gente imagina. O espírito crítico nele despertou cedo, correndo parelha com o romancista e, nunca, durante toda a carreira literária, o escritor deixará de críticar e justificar os próprios romances, em prefácios e notas em apêndices. No ano seguinte ao do requisitório contra a Confederação dos Tamoios inicia-se, no Diario do Rio, a publicação dO Guarani, Se não se pode negar a essa criação romanesca o caráter de necessidade, tão intimamente está ela ligada ao passado e ao temperamento de Alencar, será lícito assinalar também o que nela prevalece de demonstração. O autor procurou mostrar como se devia fazer em romance a epopéia indianista do Brasil. O êxito prodigioso da obra diz da maneira feliz pela qual foi alcançado o objetivo. Todo o Brasil, de norte a sul, leu O Guarani, publicado em volume no mesmo ano. As figuras de Ceci e Peri popularizaram-se e o autor, que se escondera sob o anonimato, tornou-se famoso de um momento para outro. Era, talvez, o primeiro grande êxito literário no Brasil, numa época em que o comércio editorial ainda não dispunha de aparelhamento de publicidade. Consagrado romancista, Alencar, a exemplo de quase todos os escritores brasileiros no século passado, volta-se para o teatro. A 5 de setembro do mesmo ano de 1857, em que aparecia O Guarani, faz ele representar no Teatro Ginásio a comédia em quatro atos O Demônio Familiar, pondo em cena um dos tipos curiosos da nossa sociedade escravocrata: o do moleque matreiro que, se tornando mensageiro dos recados de amor das sinhás, ata e desata. intrigas sentimentais. Ainda em 1857, no mesmo teatro, apresenta ao público uma nova comédia, Verso e Reverso. Era a nomeada do teatrólogo que também se consolidava. No ano seguinte, porém, tem ele o dissabor de ver a sua peças As Asas de um Anjo, com o competente visto da censura do Conservatório Dramático, ser proibida pela Polícia, após três dias de representações. O motivo alegado era a imoralidade. Abordando um tema semelhante ao de Dumas Filho, "o da reabilitação pelo amor da mulher culpada", o escritor escandalizava o público e as autoridades policiais, que não hesitavam ante a violência de revogar uma decisão do Conservatório. Alencar protestou com energia em artigos no Diario do Rio e o caso suscitou discussões, repercutindo não só na Corte, como até em São Paulo, onde vários órgãos acadêmicos manifestaram solidariedade ao teatrólogo. Um dos pontos em que Alencar insistia, ao defender-se, era o ambiente de tolerância que se fazia geralmente em torno das escabrosidades das peças estrangeiras, enquanto em peças de

costumes nacionais e de autor brasileiro não se suportava a revelação de certas chagas sociais. Com seu caráter sobranceiro e altivo, o escritor teria sido rudemente ferido por essa arbitrariedade. Talo primeiro golpe a sofrer ele na vida literária. Não tardaria a ser atingido por muitos outros, sabendo sempre aparâ-los e revidâ-Ios sem tibieza. Mas nesta altura já se encontra em vias de penetrar num terreno perigoso, pelo qual enveredará heroicamente, sem que toda a bravura o impeça de retornar mutilado. Em 1861 Alencar começa a viver o seu drama político. A A ventura Política Mais do que por tradição de família, por um desdobramento natural da atividade intelectual, o autor dAs Minas de Prata enveredou pela Política. Não experimentaram essa sedução quase todos os escritores brasileiros no século passado, sobretudo durante a Monarquia? A elite intelectual sentia-se no dever de concorrer para a boa marcha dos negócios públicos no país em formação. Filiado ao Partido Conservador, Alencar parte em 1860 para o Ceará a fim de fazer a propaganda de sua candidatura a deputadogeral. De há muito que o romancista não visitava a Província natal, cujas imagens conservava somente através das lembranças de infância. Retomando o contacto com aquela natureza bárbara, reacenderá as lembranças, colhendo inspiração para o seu segundo romance indianista: Iracema. Com o apoio dos chefes conservadores, regressa do Ceará deputado. Numa página célebre, o Visconde de Taunay relembra a estréia parlamentar do autor dO Tronco do Ipê, Estréias como essa eram grandes espetáculos sociais e públicos naquela época. A Câmara estava repleta no dia 23 de maio de 1861, quando José de Alencar, pela primeira vez, subiu à tribuna. E o 'próprio Taunay conta-nos o' que foi a decepção do auditório - decepção confirmada por Francisco Octaviano, amigo íntimo de Alencar - ante a voz baixa e pausada, a gesticulação quase nula do orador. "Nem de longe lembra o pai" - teria dito Teófilo Ottoni. Mas o fato é que o romancista, mesmo sem adquirir as qualidades de orador que a época exigia, conseguiu, logo depois, o domínio da tribuna, fazendo-se ouvir em meio do silêncio e do respeito gerais, enfrentando os adversários mais calcinados na estratégia parlamentar, como Zacarias e Cotegipe. Em novembro de 1865, Alencar inicia a publicação de uma série de epístolas políticas dirigi das ao Imperador, sob o título de Cartas de

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Erasmo, a que se seguiu, dois anos depois, outra série. Nelas o autor
pintava a triste situação do Brasil, para concluir que, nessa completa derrocada, só havia uma esperança: o Imperador. Afirmando sua condição de amigo sincero, declarava ele: "Monarca, eu vos amo e respeito. Sois nestes tempos calamitosos de indiferentismo e descrença um entusiasmo e uma fé para o povo". Sempre no mesmo tom, invocava a ação do Imperador, chegando a considerá-Io um desses apóstolos escolhidos por Deus "para salvar, no meio da geral dissolução, a dignidade da razão humana". "O povo inerte, os partidos extintos, o Parlamento decaído" - clamava Alencar. Que devia pois fazer o monarca? Impor a sua autoridade, valendo-se dos direitos que lhe dava o Poder Moderador, a fim de atalhar os males por meio de uma intervenção enérgica e radical. Como vêem, Alencar desejava, mais ou menos, o que nos acostumamos a chamar hoje de governo forte. Opondo-se aos que acusavam Dom Pedro 11de exorbitar a autoridade, reclamava ele deste último ainda mais autoridade, vendo no pleno exercício do Poder Moderador o único remédio para tão calamitoso estado de coisas. Através desse apelo, as Cartas iam criticando os atos dos Gabinetes que se sucediam, abordando problemas de suma importância, como do cativeiro, no qual, embora propondo soluções humanas, Alencar se opunha à abolição completa e imediata, ponto de vista que sustentaria mais tarde frente a Rio-Branco. As cartas eram lidas, comentadas, discutidas, mostrando, sob o aspecto sisudo de homem interessado na vida do País, de conhecedor dos problemas da nacionalidade, o artista, o novelista romântico, o escritor, enfim, que não podia ser visto com muita seriedade pelos dirigentes do Império, numa época em que a Literatura não tinha grande cotação entre nós.

o Escritor-Ministro
Em julho de 1868, em plena Guerra do Paraguai, com a crise política determinada pela queda dos liberais, o monarca chama os Conservadores ao poder, encarregando o Visconde de Itaboraí de organizar o novo ministério. Há uma versão muito vulgarizada, segundo a qual Dom Pedro 11, pela influência das Cartas de Erasmo, teria sugerido a Itaboraí a inclusão de Alencar no Gabinete. Num fragmento de diário íntimo, comunicado pela família do romancista a Osvaldo Orico e reproduzido na Vida de José de Alencar deste escritor, não figura nenhuma referência à propalada indicação feita pelo Imperador. Alencar remem ora apenas que, se encontrando a IS de julho de 1868 no seu

escritório de advocacia da Rua do Carmo, viu entrar o Dr. Silva Meneses, dizendo-lhe que Muritiba e Paulino de Sousa contavam com ele, Alencar, para o novo Ministério. O romancista observa nessa página de caráter confidencial: "O cargo de Miriistro já não tinha estímulos para mim, depois de o haverem ocupado homens sem títulos; ao invés de honra, tornara esse posto elevado suplício. A glória que pode resultar do cargo não compensa, na minha opinião, o sacrifício de exercê-lo". Mas confessava o seu receio de não poder esquivar-se ao reclamo. Se em lugar de declinar de uma honra recusava-se a um sacrifício, não praticaria um ato de desinteresse e sim de fraqueza e covardia. Logo depois, chegou Paulino de Sousa, contando que Itaboraí, encarregado de formar o Ministério, dirigira-se a São Cristóvão, à casa de Paranhos, e, de volta, mandara chamar a ele, Paulino, declarando não compor o Gabinete se Alencar não aceitasse a pasta do Império. O romancista insiste na recusa, embora Paulino afirme que ela irá influenciar nocivamente o espírito de Itaboraí. Pensa em escrever uma carta a este último e a retirar-se para Botafogo. Mas hesita, anotando no diário: "Não, eu não podia deixar correr à revelia a causa do Brasil, próxima a ser julgada". Resolve então ir à casa de Paranhos, onde se achavam reunidos Cotegipe, Lima e Silva, Cândido Borges, à espera de Itaboraí, "que não tarda a chegar, sucumbido ... " A página interrompese nesse ponto, truncando-se assim um documento essencial para a biografia do escritor no que concerne à sua ação política. Como quer que seja, o Gabinete ficou constituído no dia seguinte, 16 de julho de 1868, com Itaboraí na presidência e José de Alencar na pasta da Justiça. Nesse posto manteve-se ele até 9 de janeiro de 1870, quando se demitiu. Não se pode negar a atividade do escritor no Governo, as diversas medidas que tomou, entre as quais deverá destacar-se a proibição da venda de escravos, debaixo de pregão e exposição pública, no Valongo, triste espetáculo que aumentava o caráter já de si tão degradante do cativeiro. . Mas uma vez no poder, esse homem que tanto reclamava a autoridade do Imperador, tornou-se também autoritário, o que não poderia deixar de provocar alguns atritos não só entre ambos, como entre o Ministro e os companheiros de Gabinete. Pela sua envergadura intelectual, Alencar estava indiscutivelmente acima dos colegas, os quais, por sua vez, julgando-se superiores a ele, por possuírem maior tirocínio político, viam-lhe sob um aspecto de arrogância insuportável certas atitudes. Tal, por exemplo, a inovação pleiteada pelo escritor de, segundo a usança do Parlamentarismo inglês, o Ministério debater primeiro as questões na intimidade, sem a presença do monarca, para só

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depois lhas submeter à apreciação. Era o romancista a vir ensinar praxes e técnicas politicas àquela gente tão carregada de títulos e presumida experiência. Alencar ocupava o lugar de ministro, quando, em 1869, resolveu candidatar-se a senador pelo Ceará. Comunicando a decisão ao monarca, teria travado com este o diálogo famoso que um jornalista reportou ao Visconde de Taunay e não vamos repetir aqui por já se achar muito divulgado, além de que não se pode garantir-lhe a autenticidade. O Imperador desaprovar-lhe-ia a idéia, dizendo-lhe: - No seu caso eu não me apresentaria; o senhor é ainda muito moço. Esse gesto tem sido julgado um tanto apaixonadamente, vendo-se nele o desejo deliberado do monarca de obstar os passos do politico avesso ao aulicismo, do escritor vitorioso a quem invejava. Na verdade, como observa Heitor Lyra (Hist6ria de Dom Pedro ll), o Imperador não queria que ministros de Estado se candidatassem à senatoria, por motivos fáceis de compreender: era disputar uma eleição no poder. Se muitos casos desses houve é que o monarca se via obrigado a concordar para atender a conveniências politicas inelutáveis; isto é, aos próprios interesses do Gabinete ao qual preferia sustentar. Não seria o caso de José de Alencar, que além de tudo, como Ministro da Justiça, iria ele mesmo presidir a eleição. Embora ciente das disposições de Dom Pedro 11, o escritor disputou a senatoria, sendo eleito em primeiro lugar na lista sêxtupla, com 1185 votos. A 9 de janeiro de 1870, Alencar demite-se, declarando ao Imperador assim proceder "para deixar-lhe mais liberdade na questão do Ceará, em que era parte". Na realidade, o escritor já estava incompatibilizado com os colegas de Ministério, sobretudo com o terrível Cotegipe. A 27 de.abril do mesmo ano, o monarca, usando das atribuições do Poder Moderador, escolhe na lista sêxtupla Jaguaribe e Figueira de Melo. Era um golpe brutal na carreira politica do romancista.
Sem Pasta e Sem Senatoria

A decisão imperial - como observa Taunay nas Reminiscências causou realmente espanto e lástima. Os escolhidos, Jaguaribe e Figueira de Melo, não podiam comparar-se nem de longe com Alencar. E se este tinha agido de maneira precipitada e sem habilidade politica o certo é que Dom Pedro 11 fora de um rigor um tanto estreito no seu ponto de vista. Não se encontrou, aliás, para o gesto outra explicação

senão o de uma vingança pessoal, tanto mais que a escolha costumava consultar quase sempre os interesses partidários e o romancista era mais prestigiado por seus pares do .que os preferidos, embora todos pertencessem ao bloco conservador. Muritiba dirá, mais tarde, haver empregado todos os esforços junto ao monarca, vendo-se, no entanto, obrigado a respeitar as decisões do Poder Moderador. Quanto à demissão do romancista, concedida, enfim, em janeiro de 1870, não teria ela sido pedida a fim de dar ampla liberdade de escolha ao Imperador, mas imposta pelas divergências que de há muito se vinham agravando entre Cotegipe e Alencar. Um dos dois deveria ser sacrificado, e como Itaboraí declarara a impossibilidade do ministério ficar sem Cotegipe, Alencar é quem tinha de afastar-se. Perde ele assim, de uma só vez, o cargo de ministro e a senatoria almejada. Duro golpe para sensibilidade tão delicada como a do autor dO Guarani, Mas não se abate ele por isso a princípio. Fora derrotado numa batalha decisiva, quando já havia conquistado os melhores redutos. Que importa? Continuaria a luta e ainda havia de dar muito trabalho aos adversários. Retomando à Câmara dos Deputados em 1870, rompe com os correligionários do Partido Conservador, então no poder, para assumir uma atitude de aguerrida oposição. O orador, que não era nele bem dotado, vai apurar-se nessa refrega. Movido pela necessidade da luta, num esforço de vontade prodigioso, acabará por ombrear-se com os maiores tribunos parlamentares da época. Teve dias de verdadeiras glórias oratórias - dirá Araripe Júnior. Ao mesmo tempo, volta à atividade jornalistica nO 16 de Julho, órgão que fundara para rebater os ataques do Diario do Rio - onde já havia trabalhado, agora sob a inspiração de Cotegipe, enquanto Paranhos e Paulino de Sousa movem outros jornais contra o ministro demissionário. Na Câmara, Alencar defende seus atos no Gabinete, justifica, entre outros, os motivos que o levaram a candidatar-se a senador, alegando já ter havido muitos precedentes de candidatos ministros. Cotegipe, um dos principais alvos dessas tiradas, perde, por vezes, o ar irônico de velha raposa, ante as enérgicas arremetidas do orador. E ergue-se para charnâ-Io de teimoso e dizer que a incompatibilidade entre ambos provinha do fato de Alencar insistir sempre em fazer prevalecer a própria opinião. São grandes dias no Parlamento esses em que o romancistadeputado, "o Fanadinho", como lhe apelidara um adversário, enfrenta Cotegipe, ergue uma "armadura rija" contra os petardos de Za-

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carias, revida as invectivas de Silveira Martins - o "Sansão dos Pampas", homem que na tribuna devia ser um mestre em dós de peito - e coloca-se à altura da eloqüência elegante e ponderada do Visconde do Rio Branco. Sua mágoa ia, porém, mais diretamente contra o monarca. Reconhecia que já nada lhe era dado esperar daquele que detinha nas mãos o Poder Moderador - esse Poder para o qual tanto apelara nas Cartas de Erasmo, como o único instrumento capaz de salvar o Brasil. Não havia pois outro meio senão colocar-se em posição contraditória à que assumira anteriormente, e atacar o autoritarismo do Imperador - as excessivas prerrogativas de que este se valia no governo para impor os próprios caprichos -, vendo, afinal, no Poder Moderador já não mais a esperança de salvação do país e sim a perspectiva de todas as calamidades. Em tudo Alencar encontrava um pretexto para atingir o monarca. Denunciou até o protocolo imperial, como antiquado e ridículo, achando que se as pompas, em cortes como a da Inglaterra, justificavam-se pelas tradições, no Brasil, país visceralmente democrata e jovem, destoavam de maneira grotesca. E em 1871, quando Dom Pedro II pede licença à Câmara para realizar sua primeira viagem à Europa, a voz de José de Alencar é uma das que se fazem ouvir com maior vigor contra a idéia. Correu, então, em folheto incorporado hoje à obra do escritor, o famoso discurso que pronunciou. Depois de mostrar toda a inoportunidade da viagem - combatida, aliás, pelos próprios Conservadores que se achavam no poder - acaba por considerá-Ia uma aprendizagem útil ao Imperador, "desde que ela lhe oferecia ocasião de ver os homens e as coisas não somente de alto a baixo, mas também horizontalmente". O Conde Ludolf, Ministro da Áustria no Rio, em carta para o seu governo, citada por Heitor Lyra, na História de Dom Pedro Il, acusa Alencar de ostentar o seu despeito - "por não ter sido nomeado senador" - nesse discurso que lhe parece altamente inconveniente.

Alencar e o Imperador
A questão da animosidade entre Dom Pedro II e José de Alencar é um capítulo comum de nossa história política e literária, e como os que têm trazido contribuições para esclarecê-lo se mostram, freqüentemente, apaixonados, não se pode ainda dizer a última palavra sobre ele. Fala-se em ciúme da glória literária do escritor. A expressão será, talvez, exagerada. Realmente, o monarca gostava de adotar os talentos que porventura surgissem no Brasil e fazer depender da proteção im-

perial o êxito dos mesmos, excedendo-se, às vezes, um pouco nessa tutela. Em 1883, na publicação semanal Lucros e Perdas, Sílvio Romero, com aquela sua linguagem destabocada, increpava o Imperador de intervir em todas as iniciativas literárias, como se quisesse dizer: "Ou aceitam o meu conselho ou suas pretensões se dissolvem em fumo". Ora, José de Alencar era dos que não aceitavam conselhos nem orientações vindos do alto. Mas a ponta de despeito que podia provocar no espírito do monarca uma glória feita à revelia do seu beneplácito, não seria possivelmente suficiente para indispô-lo contra o escritor se este não aliasse a independência à altivez. O Imperador suportava, por vezes, certas impertinências dos seus ministros, nem sempre subservientes, como se imagina, e chegara a chamar para o poder políticos que lhe haviam dirigido os mais pesados ataques na imprensa e no Parlamento. Alencar agira, porém, sem tato político, ferira naturalmente aquela corda do amor-próprio que fizera o Imperador insistir na perseguição de López e na condenação de Dom Vital. Não se diga que a animosidade do soberano contra o escritor se tivesse originado nos ataques de Alencar à Confederação dos Tamoios. Depois, vieram as Cartas de Erasmo, e se Dom Pedro não indicou Alencar para o Gabinete Itaboraí, também não se opôs à inclusão do escritor. Mas, na Pasta da Justiça, Alencar, como já observamos, mostrou-se muito autoritário, assumindo atitudes que não podiam deixar de ferir a suscetibilidade do monarca. Basta um exemplo: Nabuco de Araújo, no Gabinete da Conciliação, estabelecera a praxe .do Ministério da Justiça enviar ao Imperador os recortes dos jornais da província em que se tratasse de assuntos políticos e administrativos, a fim de que o mesmo, orientado sobre o que passava nos recantos distantes do país pudesse melhor fiscalizar os atos dos ministros. Alencar rompeu com essa praxe, justificando-se numa carta, em termos um tanto bruscos, em que, depois de alegar outras razões, dizia: "Essa inspecção minuciosa que V. M. I. deseja exercer sobre o País, na melhor das intenções e com o pensamento de bem usar de sua alta e benéfica atribuição moderadora, toma aos olhos da Nação um aspecto que não se coaduna nem com o espírito constitucional do Soberano, nem com a dignidade do seu Ministro da Justiça". Por aí se pode avaliar o tom de semelhante carta, que muito devia irritar Dom Pedro, fato que nos leva, junto a outros, a desculpar a sua frase tão mesquinha por ocasião da morte do escritor: "Era um homenzinho muito malcriado" .

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o Escritor

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Que o fracasso, abatendo profundamente o ânimo do romancista, teve sensível repercussão na sua carreira literária, é indiscutível. Alencar teria perdido muito do entusiasmo, do élan espiritual, mergulhara na neurastenia, tornara-se um ressentido, fatores todos esses que haviam de refletir-se na atividade criadora do escritor. Araripe Júnior alude ao pessimismo que daí em diante passou a ensombrar-lhe alguns romances, como O Gaúcho e Til. O certo é que o acabrunhamento moral minou-lhe o organismo já pouco resistente, abrindo caminho para a doença que devia arrebatá-lo em plena maturidade. De 1870 em diante, aliás, Alencar começa a sofrer várias agressões, cujos efeitos não seriam desprezíveis numa sensibilidade delicada como a sua; isso embora ele sempre se defendesse com energia e bravura. Já na Câmara dos Deputados a sua condição de romancista, em lugar de elevâ-Io aos olhos dos confrades, oferecia motivo para a chacota dos adversários. Em certa altura de um debate, Teófilo Ottoni mandava-o volver aos seus romancetes e Zacarias tinha a pretensão de corrigir-lhe a pronúncia da palavra inglesa pall-mall, impertinência na qual levou a pior, pois, no dia seguinte, Alencar, com o dicionário em punho, veio provar-lhe que estava com a razão. O Visconde de Taunay, nas suas Mem6rias, alude a um deputado do Rio Grande do Norte, "um desfrutável Raposo", que fazia alarde de nunca haver lido romances. "Decerto, Sr. Presidente - dizia ele em dada ocasião nunca saíram da minha imaginação tipos como os que engendrou o Sr. José de Alencar, nenhum guarani, à guisa do célebre ... " E interrompeu neste ponto, não atinando com o nome. "Como é que se chama o tal índio?" - perguntou a dois colegas ao lado, e como estes respondessem, um após o outro, Peri, continuou muito alto: "Como o célebre Peri- Peri... ", o que provocou enorme gargalhada no recinto. Também naquela casa, - acrescenta Taunay - entre mais de cem representantes da mentalidade brasileira apenas uns cinco ou seis teriam lido O Guarani. Os poetas e romancistas eram encarados pelos políticos, na época, como espíritos sonhadores, alheios à vida prática, sem a seriedade suficiente para enfrentar os problemas de interesse nacional, E não é de admirar que assim fosse, quando, em nossos dias, Afrânio Peixoto, pelo fato de escrever romances, foi alvo na Câmara dos Deputados,

onde tinha assento como representante da Bahia, de chacotas semelhantes às que feriram Alencar. Acusa-se Dom Pedro II de haver empreitado o jornalista português José Feliciano de Castilho pará realizar uma campanha de demolição contra José de Alencar. Não se verificou, até hoje, até on~e isso pode ser exato. Tudo nos leva a crer, no entanto, que a campanha movida por Castilho teve um propósito sensacionalista: o de visar o escritor aclamado por todo o Brasil, o homem do dia, cuja consagração era unanimemente reconhecida. Araripe Júnior fala num revide do jornalista português, que se intrometendo no Parlamento, a .f~~~ntar intrigas que irritaram Alencar, foi por este fui minado com a mjuna de "gralha imunda". . José Feliciano de Castilho voltou-se, então, contra o romancista, numa série de panfletos em forma de cartas sob a assinatura de Cincinato e publicadas nas Questões do Dia. Era uma análise minuciosa da obra de Alencar, com o propósito malévolo de catar impropriedades, vícios de linguagem, erros de gramática, deslizes, lapsos, pequenesas. A essa tarefa veio associar-se um escritor brasileiro, Franklin Távora, com o pseudônimo de Semprônio, e ambos se empenharam no esforço renitente de desmontar a reputação literária do romancista. Esmiuçavam-lhe os pontos fracos e sobre estes faziam carga impiedosamente. Quem ler hoje as cartas de Cincinato e Semprônio verificará que em muitos pontos os dois agressores de Alencar tinham razão. Mas submetido a idêntico processo de análise muito romancista poderá ter sua glória abalada. O que Castilho e Távora não reconheciam era o valor poéti. co da prosa de Alencar, e na ignorância deste seria possível reduzir a um amontoado de peças defeituosas todo o arcabouço mágico. Antônio Henriques Leal, Tobias Barreto e Sílvio Romero também assestaram suas baterias contra o autor dAs Minas de Prata, logo após a campanha de Cincinato e Semprônio. Mas foram ataques isolados, sem o espírito metódico e pertinaz de demolição. Esse espírito iria revelar-se, de novo, em 1873, na série de rodapés em que Joaquim Nabuco, nO Globo, se ergueria para realizar aquilo que ele dizia não ter .sido feito até então: a crítica da obra de Alencar. Dessa vez o ataque VInha de um homem inteligente e o romancista o reconhecia, certamente, pois não hesitava em revidar a agressão. O caso teve origem no fracasso de bilheteria da peça de José de Alencar, O Jesuíta, representada pela primeira vez, em setembro de 1873. A anistia dos Bispos Dom Vital e Dom Antônio de Macedo Costa era recente e a questão estava, por assim dizer, ainda a sangrar. A peça de Alencar exaltava o Clero sob o ponto de vista patriótico, fazendo de um jesuíta um precursor da nossa

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independência. Era atingir de maneira indireta, mas nem por isso menos sensível, o debate político-religioso criado pela Questão dos Bispos. A peça foi representada para salas quase completamente vazias. A 26 de setembro, em longo artigo nO Globo, Alencar vem clamar contra a indiferença do público, em termos amargos e severos. "Uma obra escrita por um brasileiro que não é maçom nem carola - considera ele -, um drama cujo pensamento foi a glorificação da inteligência e a encarnação das primeiras aspirações da independência desta pátria repudiada; semelhante produção era, em verdade, um escárnio, atirado à face da platéia fluminense. Ela não podia proceder com maior sobranceria. Não se dignou nem mesmo a dar à peça as honras de comparecer em sua augusta presença para ser pateada; voltou-lhe as costas com frio desdém. Se se tratasse de um assunto estrangeiro, como a 'restauração portuguesa' - continuava o romancista -, decerto o público se interessaria, porque nunca nos interessamos pelo que é nacional." E nesse tom descamba a queixar-se dos compatriotas, declarando não ter jeito "para agradar os outros e assim não saber conquistar elementos de propaganda em torno do seu nome"; mostrase ressentido, principalmente, com o público fluminense, reconhecendo ser mais apreciado na Província do que na Capital. No dia 3 de outubro, em rodapé no mesmo jornal, Joaquim Nabuco, então elemento brilhante da nova geração, oferece réplica ao escritor consagrado, anunciando uma série de estudos em que promete examinar, imparcialmente, a obra de Alencar, sem respeitar a "convenção literária que o protege". O romancista treplica em novo folhetim e a polêmica prossegue em vários rodapés até 14 de novembro. Nabuco, no começo de sua carreira literária, já se mostra um escritor elegante, ático e incisivo nesse debate, e se a sua crítica denuncia, em certos pontos, muita acuidade, é inegável que Alencar soube defenderse com extraordinária bravura, e será difícil dizer-se quem levou a melhor na contenda. Se os antagonistas descambaram, por vezes, para o terreno dos remoques pessoais - Alencar atribuindo a N abuco um "beâtico sonambulismo", a imaginar-se "um Apolo ainda mesmo de gesso" - a polêmica não deixa de ter por isso o mais alto interesse literário. No último rodapé, Nabuco dizia que entre o romancista e o seu "obscuro crítico" o futuro decidiria. Mais tarde; porém, numa página da Minha Formação, reconsiderou o ataque a Alencar, penitenciando-se de haver sido injusto para com o autor dO Sertanejo. Quem ler, porém, os rodapés dO Globo hoje, verá que o futuro não tinha que decidir, pois bem diversos seriam os lugares reservados a esses dois espíritos na Literatura Brasileira.

Tédio e Indiferença Desiludido, doente, Alencar encerra-se no seu retiro da Tijuca. De agora em diante, passará a assinar os livros com o pseudônimo de Sênio, Sente-se agora precocemente envelhecido. À paisagem do bairro florestal que tanto ama dedica um romance; Sonhos d'Ouro, Dali escreve a famosa carta a Machado de Assis, apresentando-lhe Castro Alves. E dali sai um dia, em 1876, para uma viagem à Europa. As únicas informações que possuímos dessa excursão de Alencar, através do Velho Mundo, é Araripe Júnior quem no-Ias fornece, no excelente livro que escreveu sobre o romancista. Seria de grande interesse, por exemplo, ler as cartas que Alencar teria naturalmente dirigido a parentes, nas quais transmitiria decerto impressões dos países que visitava. Araripe Júnior pinta-nos o escritor a percorrer a Europa num estado de verdadeira hipocondria, sem a curiosidade sôfrega e inteligente que um espírito como o seu deveria forçosamente experimentar ante o espetáculo das velhas civilizações. Onde teria colhido o crítico as informações que nos transmite? Nada nos diz ele a respeito, no livro em questão, mas é provável tenha sido pelas cartas do escritor, talvez até hoje em poder da família e ignoradas pelos biógrafos. Em Portugal, o romancista não se sentiu bem, evitando o contato com os elementos que ali o haviam atacado. Em Paris ficou, a princípio, excelentemente impressionado com a delicadeza e a educação do povo. Mas logo, ao visitar os bairros populares, como Bellevue, horrorizou-se com a rudeza dos operários, e da multidão promíscua, na qual julgou distinguir os apaches de Eugêne Sue e Ponson du Terrail. Não se sabe que tivesse procurado contacto com qualquer escritor francês, nem mesmo com Octave Feuillet, de quem sofrera a influência nos romances urbanos como A Pata da Gazela e Senhora. Em Londres entonteceu-o o movimento da cidade, a expressão de poderio técnico que ela lhe revelou. Julgou tudo aquilo obra de forças malignas e viajando, certa vez, num metropolitano, sentiu-se tomado de verdadeira angústia. Araripe Júnior atribui a Alencar uma sensibilidade muito delicada para poder suportar os aspectos ciclópicos das grandes cidades européias, na época. A Europa, em lugar de deslumbrar, teria perturbado a mente sonhadora do escritor, habituado a ver o mundo através de um prisma róseo. As civilizações do Velho Mundo, onde irrompia a industrialização, afetando os usos e os costumes, traduziriam para ele uma realidade demasiado brutal. No entanto, parece-nos que se Alencar tivesse realizado essa viagem nos anos 60 ou 65, quando se encon-

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trava num estado moral e físico bem diverso, em plena ascensão na Literatura e na Política, suas reações seriam inteiramente opostas. A doença e a desilusão fizeram-no decerto perder o interesse por tudo. E fora um neurastênico, indiferente às surpresas do mundo, que passeara o seu tédio mórbido pela Europa. A 12 de dezembro de 1877, pouco depois de regressar ao Brasil, o escritor veio a falecer. Morria de uma tuberculose pulmonar. Era. a Política que o matava - poderíamos também dizer. "Você Acha que Chegarei à Posteridade?" "Você acha que chegarei à posteridade?" - perguntara Alencar, certa vez, a Alfredo de Taunay, numa dúvida angustiosa. Já então se encontrava ele no período de descrença e acabrunhamento que lhe antecedera a morte. Desesperava-o, evidentemente, a idéia de que sua obra pudesse ficar esquecida e essa reputação, que tanto se esforçara por construir, se apagasse bem depressa, sem deixar vestígios sensíveis. Vaidade, ambição, orgulho ... Tais as acusações que têm sido articuladas freqüentemente contra Alencar. Atribui-se à sua vaidade um caráter excepcional, quase monstruoso, como se sentimento idêntico não encontrássemos em quase todos os escritores. As queixas, os melindres e mesmo as cóleras do romancista seriam, em grande parte, conseqüência da luta que ele tratava com um meio onde a Literatura ainda não encontrava o devido lugar. Que sua ambição era grande, não resta a menor dúvida. Jornalista, romancista, poeta, jurista, professor, político, é difícil encontrar outro brasileiro na época que abarcasse tão largo campo de atividade e revelasse tantas e tão diferentes aptidões no século passado. Mas, se tinha a fibra de lutador, não possuía, certamente, a capacidade de resistir a um fracasso. E toda a tragédia dessa existência parece vir do obstáculo irremovível que deitou por terra o homem em triunfante e vertiginosa carreira. Trotski refere-se nas suas Memórias à tranqüilidade e à fortaleza de ânimo com que, logo depois de apeado do poder, voltou aos trabalhos intelectuais. E aos amigos que procuravam ampará-lo, inquietos por saberem como poderia ele, dali em diante, suportar o ostracismo político, respondia: "Mas vocês ignoram que sou um escritor, que encontro entre os livros o meu clima próprio, e semelhante transição nada representa para mim?" (cito de memória). Intelectual cem por cento muito mais do que Trotski, o romancista de Iracema não possuía, entretanto, um temperamento capaz de resistir ao golpe, sem fraquejar. Voltou para a mesa de trabalho, sim, mas voltou definitivamente combalido! Já agora, a dúvida

cruel assalta-o em todo sentido. O homem derrotado na Política receia ínmbém a derrota na Literatura. "Você acha que chegarei à posteridade?" As gerações de hoje responderão pela palavra sutil de Augusto Mcyer: "Por que motivo, pois, não poderá ser o nosso mundo interior lima espécie de Mil e Uma Noites, um romance de todos os romances? Il por que razão não podemos considerar o romancista a principal p .rsonagem da sua obra? Assim debatia comigo ao reler o impetuoso Alencar, Ou melhor, ao ver: a sua obra entra pelos olhos como um filme, ela é, sobretudo, sugestão visual, sucessão de quadros vivos e ousados, com vigorosa concentração de luz sobre os episódios principais e, de vez em quando, o emprego do estratagema oportuno. Que soberano desprezo da verossimilhança! Que insolência admirável no S iu vá como for, em que o poder de inventiva leva tudo de arrasto e a p esia tudo encobre!" I Eis o segredo da durabilidade dessa obra. Alencar deu-nos um p uco daquilo que poderíamos chamar "as mil e uma noites" brasileiras. Das histórias maravilhosas da infância, passamos, na adoles.ência e na juventude, para os seus romances; e depois, retornar a eles, sempre ir em busca das ilusões perdidas, num doce movimento de recuperação sentimental. Os estrangeiros nunca poderão julgá-Io nem senti-lo da mesma forma, porque lhes falta a aderência lírica, mercê da qual o romancista nos acompanha pela existência afora, como um velho companheiro de colégio. De Dickens já se disse que não criou seres humanos, criou uma mitologia. Coisa semelhante poderíamos dizer do autor dO Sertanejo, nós que o sentimos de forma muito particular. Peri, Ceci, Arnaldo, Dona Flor, Alina, Estácio, Cristóvão, Inezita ... que galeria infindável de seres mitológicos, em quem acreditamos, a quem amamos e com quem já trocamos confidências algum dia! Podem ser inverossímeis e absurdos. Pouco importa. Como se explica a linguagem civilizada de Peri para com Ceci? De que maneira Arnaldo consegue viver sozinho pelos campos, dormindo nos galhos de árvores e adorando Dona Flor tal um herói de romance de Cavalaria? E esses sentimentos de nobreza e altaneria que o escritor empresta aos índios? Não cogitemos disso. Ler Alencar é para nós um estado de alma: a costureirinha tem O Guarani na sua bolsa; o ginasiano devora As Minas de Prata nos intervalos do estudo; aos quarenta anos, calei-

(1) "De um Leitor de Romances - Alencar", no número da Revista do Brasil dedicado ao romance brasileiro, maio de 1941.

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nados de experiência, acompanhamos ainda com interesse as proezas mirabolantes de Arnaldo; e num velho lar brasileiro é sempre fácil encontrar, num fundo de gaveta, alguma brochura amarelada e já treslida do romancista ... Rio, fevereiro de 1951.

Coelho Netto, Romancista

CIP-Brasil

B881e

Broca, Brito, 1904-1961. Ensaios da mão canhestra : Cervantes, Goethe, Dostoievski, Alencar, Coelho Netto, Pompéia / Brito Broca ; prefácio de Antonio Candido ; [coordenação de Alexandre Eulalio]. - São Paulo : Polis; Brasllia : INL,1981. (Coleção estética: Série obras reunidas de Brito Broca; v.lt) 1. Ensaios brasileiros 2. Literatura brasileira - Hist6ria e crítica 3. Literatura - Hist6ria e crítica I. Cândido, Antônio, 1918- 11. Eulâlio, Alexandre, 1932- m. Instituto Nacional do Livro. IV. Título. CDD:869.945 :809 :869.909 CDU:869:<X81)-4

Ensaios da Mão Canhestra

CCF/CBLlSP-81-lt35

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Indices para catálogo sistemático (CDD): Ensaios: Século 20: Literatura brasileira 869.945 Literatura: Hist6ria e crítica 809 Literatura brasileira: Hist6ria e critica 869.909 Século 20: Ensaios: Literatura brasileira 869.945

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