A lição da borboleta

Certa vez li no Jornal de Opinião uma pequena fábula que reproduzo aqui, com algumas adaptações. “Andando por um jardim, um homem percebeu um casulo que se contorcia, preso a um galho de árvore. Aproximou-se. Por uma pequena abertura viu a borboleta que tentava romper aquela casca e libertar-se. O homem sentou-se e ficou observando aquele silencioso drama da natureza desenrolando-se sob seus olhos. O tempo passava. A borboleta lutava, lutava e nada. A abertura era muito estreita, o casulo era resistente e ela, apesar do esforço, não conseguia sair. Então, a borboleta parou de lutar. Aparentemente tinham-se esgotado suas forças. O homem então chegou bem perto do casulo, tocou-o com a ponta do dedo e, imediatamente, a borboleta voltou a se contorcer. Longos minutos de mais esforço e luta e, nada. A borboleta mais uma vez se cansou e ficou imóvel. Parecia ter chegado ao seu limite. O homem então decidiu intervir e ajudar. Com uma pequena tesoura, cuidadosamente foi cortando a parede do casulo até que a borboleta se viu livre. Ele sorriu, satisfeito e ficou esperando que ela, finalmente, voasse. Mas algo estranho ocorreu. O corpo da borboleta estava ainda pequenino e frágil. Suas asas, amassadas, não conseguiam estenderse e permaneciam murchas e atrofiadas. Ela mal conseguia se arrastar pelo chão. Aquela borboleta nunca seria capaz de voar... O homem então se deu conta de que, na sua vontade de ajudar, ele, na verdade, havia condenado a borboleta. Ele não sabia que o esforço para romper o casulo era a forma que a natureza tinha inventado para fortalecer o corpo da borboleta, desenvolver suas asas e fazê-la voar. Algumas vezes, o esforço, a luta é justamente o que nos fortalece e prepara para os desafios da vida. Gostei da fábula na primeira leitura, mas aquela borboleta acabou virando um ‘grilo’... Li, reli e fiquei pensando, buscando nas raízes da vida um olhar mais profundo, que me ajudasse a ir além do próprio texto, descobrir o que ele queria me revelar no mistério que se esconde por trás das palavras.

. Mas se é assim. em 1987. Pertence ao terreno do mistério onde a palavra chave é gratuidade. como toda aventura. Ao contrário. do prazer e o lado do risco. da surpresa. Há. das dificuldades. porque me abandonaste?” E nenhum anjo veio com uma espada de fogo para afastar os carrascos e libertá-lo daquele sofrimento atroz. rezei a Deus e.. por exemplo. tenho aprendido muito sobre limites.) uma liberdade misteriosa que Deus. dilacerado pela dor clamando em desespero: “Meu Deus. Abandonado por quase todos.. onde Ele entra em nossa história. em especial. onde Deus entra nessa História? Qual o sentido. O maior amor. através do sofrimento... discreto. Vi Jesus. silencioso. na paixão adolescente que tornou-se amor maduro. dos fracassos. Ele tem entrado sempre e de muitas formas. vem à tela da memória. Mas se é assim... na construção cotidiana da criação e de nós mesmos. possamos crescer. uma. nos filhos que fizeram nascer em mim um pai. Amo meus filhos e já fui obrigado a vê-los sofrer podendo fazer pouco ou quase nada.. imutável. entre zombarias. moleque de rua. Na Escola. miséria e sofrimento espalhados pelo cotidiano da Humanidade.. . a impotência. Entre tantas lembranças. na vida humana. Na família onde fui criado. na liberdade da vida que me ensinou a rimar amor e dor.. com Ele. Acredito na liberdade. na infância sadia e gostosa. E o que primeiro surgiu foi o mistério que mais me questiona: o aparente silêncio de Deus diante de tantas dores. o mais profundo e verdadeiro costuma ser tímido. na consciência para assumir cada passo. Para chegar até lá... torturado. Ele morreu naquela cruz.. das decepções. (e até na vida de uma borboleta. E o Pai. aprender. no gosto pela leitura que me abriu portas para tantos mundos.. ridicularizado. Não acredito num deus que fica testando a nossa paciência.. de mãe. um deus cheio de manias e caprichos que planeja pequenas e grandes tragédias cotidianas para que. escarros e agressões.. em noites de sono agitado. surpreendentemente. onde estava. repito a pergunta.. nem sempre significam um amor menor. Entendi que o silêncio..? Eu sou pai. Muitos anos atrás. na minha história. fui penetrando no terreno do mistério. A vida é uma grande aventura e. meu Deus.Não acredito em destino como algo pronto. mas no meu coração. Quanta dor silenciosa e anônima carrega um coração de pai. Às vezes apenas velar em silêncio. entre febres e medos. tem o lado da descoberta. na cruz. respeita.. caro(a) leitor(a) mas na minha vida. como se fossemos um brinquedo. Não sei sobre você. num tempo em que ser moleque e brincar na rua era o que havia de mais saudável e natural. dos limites.. da oração? De que adianta rezar se Deus não interfere? As respostas que eu buscava não estavam em minha mente. Como pai.

16 dias de hospital.. As visitas rápidas.. a oração. a qualquer momento. transmitindo força.Eu tinha trinta e três anos.. se não posso te levar. onde descobri com alegria que algumas pessoas tem “imunidades parlamentares”' e podem entrar a qualquer hora. vida breve. sorriem e seguem a vida. A vida segue seu curso. . Voando feito borboleta. A flor. A conta do hospital. a solidão. Para a casa do meu Pai. Não rezo mais pedindo nada. ouvido por mim. mais ligado naquilo que realmente conta. na penumbra do sono químico dos remédios. Penso que Jesus foi sábio ao entregar o sacerdócio a homens comuns. no silêncio. Deus é a presença amorosa que não me livra dos problemas e dificuldades. por Ele e nele. Lá mesmo. uma vida inteira pela frente convivendo com o medo de que esta bomba relógio que trago em meu peito. como já disse.” Levar pra onde. infarto agudo. Como amigos ou amantes que se tocam.. se olham. mas está comigo na travessia... 72 horas sem saber se era dia ou noite. mexendo nos fios e acionando o alarme. toques sutis. nunca estiveram tão unidos. por muitas mãos. que até hoje não sei (mas desconfio) quem pagou. Presença sacramental.. O carinho da enfermeira com quem brinco.. possa. de verdade. Apenas divido meu coração com Deus. Livre. com as palavras nem sempre ditas. Pe. Unção e Eucaristia... Entre esses.. experimentando e entendendo o que é. Diagnóstico sussurrado entre os médicos.. quero que você me leve. olhares e gestos. o santinho.. vida. Seis meses sem trabalhar. O companheiro de trabalho que me aperta a mão e sorri. Dormi em minha cama e acordei numa UTI. Cada precioso dia onde me percebo mais atento. O gesto intempestivo de um irmão que chegou de viagem e invadiu a UTI porque precisava me ver. Como valem os gestos e acontecimentos que não anotamos em agendas. Tudo já está dado desde aquela cruz que tornou-se memória viva na Eucaristia.. Ela vem correndo. mas logo descobre a minha malandragem e sorri. que ousou romper as duríssimas paredes do casulo da vida. naquilo que vale a pena.. meus irmãos médicos e os amigos padres. na inesgotável linguagem sacramental da amizade. nem sempre leve e solta. Até um pacotinho de doces que não vou poder comer. Com Ele. Um anjo não teria segurado a minha mão.? Para mim. Ele tem estado presente de muitas formas.? Hoje eu sei. O médico que enxuga o suor do meu rosto. na UTI. Onde Deus entra. é o mesmo que celebra comigo Penitência. mas que transbordam de olhares. sabendo que. Nelson aparece.. Mas a doçura fica e inunda tudo o que sou.. explodir.. Deus tem estado presente em cada dia que tenho vivido desde então. Como cantou o poeta Cazuza: “Vida louca.

blogspot.html .Eduardo Machado 06/03/2000 http://eduardomachadobh.com/2011_03_01_archive.

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