A lição da borboleta

Certa vez li no Jornal de Opinião uma pequena fábula que reproduzo aqui, com algumas adaptações. “Andando por um jardim, um homem percebeu um casulo que se contorcia, preso a um galho de árvore. Aproximou-se. Por uma pequena abertura viu a borboleta que tentava romper aquela casca e libertar-se. O homem sentou-se e ficou observando aquele silencioso drama da natureza desenrolando-se sob seus olhos. O tempo passava. A borboleta lutava, lutava e nada. A abertura era muito estreita, o casulo era resistente e ela, apesar do esforço, não conseguia sair. Então, a borboleta parou de lutar. Aparentemente tinham-se esgotado suas forças. O homem então chegou bem perto do casulo, tocou-o com a ponta do dedo e, imediatamente, a borboleta voltou a se contorcer. Longos minutos de mais esforço e luta e, nada. A borboleta mais uma vez se cansou e ficou imóvel. Parecia ter chegado ao seu limite. O homem então decidiu intervir e ajudar. Com uma pequena tesoura, cuidadosamente foi cortando a parede do casulo até que a borboleta se viu livre. Ele sorriu, satisfeito e ficou esperando que ela, finalmente, voasse. Mas algo estranho ocorreu. O corpo da borboleta estava ainda pequenino e frágil. Suas asas, amassadas, não conseguiam estenderse e permaneciam murchas e atrofiadas. Ela mal conseguia se arrastar pelo chão. Aquela borboleta nunca seria capaz de voar... O homem então se deu conta de que, na sua vontade de ajudar, ele, na verdade, havia condenado a borboleta. Ele não sabia que o esforço para romper o casulo era a forma que a natureza tinha inventado para fortalecer o corpo da borboleta, desenvolver suas asas e fazê-la voar. Algumas vezes, o esforço, a luta é justamente o que nos fortalece e prepara para os desafios da vida. Gostei da fábula na primeira leitura, mas aquela borboleta acabou virando um ‘grilo’... Li, reli e fiquei pensando, buscando nas raízes da vida um olhar mais profundo, que me ajudasse a ir além do próprio texto, descobrir o que ele queria me revelar no mistério que se esconde por trás das palavras.

possamos crescer. rezei a Deus e. com Ele. onde estava.. A vida é uma grande aventura e. o mais profundo e verdadeiro costuma ser tímido. na construção cotidiana da criação e de nós mesmos. no gosto pela leitura que me abriu portas para tantos mundos. na consciência para assumir cada passo. repito a pergunta.. como se fossemos um brinquedo. onde Ele entra em nossa história. a impotência. nem sempre significam um amor menor. dilacerado pela dor clamando em desespero: “Meu Deus. Acredito na liberdade. surpreendentemente. vem à tela da memória.. em especial. Para chegar até lá. caro(a) leitor(a) mas na minha vida. aprender.. fui penetrando no terreno do mistério. Não acredito num deus que fica testando a nossa paciência. E o que primeiro surgiu foi o mistério que mais me questiona: o aparente silêncio de Deus diante de tantas dores. na cruz... como toda aventura... através do sofrimento. Amo meus filhos e já fui obrigado a vê-los sofrer podendo fazer pouco ou quase nada. Às vezes apenas velar em silêncio. Há... um deus cheio de manias e caprichos que planeja pequenas e grandes tragédias cotidianas para que. na liberdade da vida que me ensinou a rimar amor e dor. escarros e agressões. (e até na vida de uma borboleta. nos filhos que fizeram nascer em mim um pai. Pertence ao terreno do mistério onde a palavra chave é gratuidade. Ao contrário. onde Deus entra nessa História? Qual o sentido. num tempo em que ser moleque e brincar na rua era o que havia de mais saudável e natural. Mas se é assim. Abandonado por quase todos.. torturado. em 1987. na infância sadia e gostosa. imutável. das decepções.. moleque de rua. tem o lado da descoberta. Quanta dor silenciosa e anônima carrega um coração de pai. discreto... Ele tem entrado sempre e de muitas formas. Ele morreu naquela cruz.Não acredito em destino como algo pronto. Entre tantas lembranças. da surpresa. E o Pai. Vi Jesus.. silencioso.. tenho aprendido muito sobre limites. de mãe.. . na vida humana. porque me abandonaste?” E nenhum anjo veio com uma espada de fogo para afastar os carrascos e libertá-lo daquele sofrimento atroz. da oração? De que adianta rezar se Deus não interfere? As respostas que eu buscava não estavam em minha mente. na minha história.. O maior amor. miséria e sofrimento espalhados pelo cotidiano da Humanidade. entre febres e medos. respeita. Como pai.. dos limites.? Eu sou pai. mas no meu coração. na paixão adolescente que tornou-se amor maduro.. Entendi que o silêncio. Não sei sobre você. uma. entre zombarias. Muitos anos atrás. por exemplo. ridicularizado. Mas se é assim. das dificuldades. Na Escola. meu Deus. Na família onde fui criado.) uma liberdade misteriosa que Deus. do prazer e o lado do risco. em noites de sono agitado. dos fracassos.

. Até um pacotinho de doces que não vou poder comer. de verdade. Pe. que ousou romper as duríssimas paredes do casulo da vida. experimentando e entendendo o que é.. mas que transbordam de olhares. vida. a solidão. Livre.. é o mesmo que celebra comigo Penitência. ouvido por mim. vida breve. sabendo que. por muitas mãos.. explodir. transmitindo força. 72 horas sem saber se era dia ou noite. A flor. Tudo já está dado desde aquela cruz que tornou-se memória viva na Eucaristia. sorriem e seguem a vida. que até hoje não sei (mas desconfio) quem pagou. 16 dias de hospital.. . Nelson aparece. Voando feito borboleta. Como cantou o poeta Cazuza: “Vida louca. uma vida inteira pela frente convivendo com o medo de que esta bomba relógio que trago em meu peito. Onde Deus entra. na UTI. infarto agudo. quero que você me leve. o santinho. a oração. Cada precioso dia onde me percebo mais atento. onde descobri com alegria que algumas pessoas tem “imunidades parlamentares”' e podem entrar a qualquer hora. Como valem os gestos e acontecimentos que não anotamos em agendas.. mas está comigo na travessia..Eu tinha trinta e três anos.. Deus tem estado presente em cada dia que tenho vivido desde então.. Lá mesmo. nem sempre leve e solta. com as palavras nem sempre ditas. Como amigos ou amantes que se tocam. A conta do hospital.. toques sutis.. O carinho da enfermeira com quem brinco. Unção e Eucaristia. a qualquer momento. possa. mexendo nos fios e acionando o alarme. Mas a doçura fica e inunda tudo o que sou. Seis meses sem trabalhar... naquilo que vale a pena. O companheiro de trabalho que me aperta a mão e sorri. O gesto intempestivo de um irmão que chegou de viagem e invadiu a UTI porque precisava me ver. O médico que enxuga o suor do meu rosto. no silêncio. Presença sacramental. na penumbra do sono químico dos remédios. Apenas divido meu coração com Deus. Entre esses.. se olham. As visitas rápidas. nunca estiveram tão unidos.? Hoje eu sei.? Para mim. Com Ele.. Não rezo mais pedindo nada. Um anjo não teria segurado a minha mão. Ela vem correndo. por Ele e nele. na inesgotável linguagem sacramental da amizade. Ele tem estado presente de muitas formas. mais ligado naquilo que realmente conta.. meus irmãos médicos e os amigos padres.” Levar pra onde. Penso que Jesus foi sábio ao entregar o sacerdócio a homens comuns.. mas logo descobre a minha malandragem e sorri. Para a casa do meu Pai. olhares e gestos. Dormi em minha cama e acordei numa UTI. se não posso te levar.. Diagnóstico sussurrado entre os médicos. como já disse. A vida segue seu curso. Deus é a presença amorosa que não me livra dos problemas e dificuldades.

com/2011_03_01_archive.Eduardo Machado 06/03/2000 http://eduardomachadobh.blogspot.html .

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