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Esboços do Passado

por Virginia Woolf

(trechos que me movem)

“ (...)começo: a primeira recordação.

É de flores vermelhas e roxas num fundo perto – o vestido de minha mãe; ela estava sentada num trem ou
num ônibus, e eu estava no seu colo. Eu via, portanto, as flores do vestido que ela estava usando bem de perto; e
ainda vejo o roxo, o vermelho e o azul, creio, contra o fundo preto; acho que eram anêmonas. (...)

Se a vida possui uma base na qual se apóia, se é uma vasilha que se enche, se enche e se enche – então
minha vasilha sem dúvida alguma está apoiada sobre esta recordação. A de estar deitada, semi-acordada, semi-
adormecida, na cama do nosso quarto em St. Ives. A de ouvir as ondas quebrando, uma duas, uma duas, e lançando
um borrifo de água na praia; e quebrando, uma, duas, uma, duas, por trás de uma persiana amarela. A de ouvir a
persiana arrastar pelo chão a bolinha de seu cordão quando o vento a puxava para fora. A de estar deitada ouvindo
a pancada da água na areia e vendo a luz, e de sentir: parece impossível eu estar aqui; de sentir o êxtase mais puro
que posso imaginar.
Eu poderia passar horas tentando escrever isso da maneira que deveria ser escrito, para transmitir o
sentimento que mesmo neste exato momento é muito forte dentro de mim. Mas eu não conseguiria (a não ser que
tivesse uma sorte fantástica); ouso dizer que só conseguiria ter essa sorte se tivesse começado descrevendo a
própria Virginia. (...)

(...) a impressão das ondas e da bolinha da persiana; a sensação, como descrevo para mim mesma às vezes, de
estar deitada numa videira e olhar através de um filme amarelo semi-transparente (...).

A mudança de quarto foi uma grande mudança. E houve a longa de trem; e a agitação. Lembro-me da
escuridão; das luzes; do rebuliço de subir para ir para a cama. (...)
Minha mãe às vezes saía na sacada, vestida com um roupão branco. Flores de maracujá cresciam sobre a
parede; eram grandes flores cintilantes com linhas roxas, e grandes botões verdes, parte cheios, parte vazios.
Se eu fosse pintora, pintaria essas primeiras impressões com amarelo-claro, prateado e verde. A persiana
era amarelo-clara; o mar era verde. E as flores de maracujá, prateadas. Eu pintaria um quadro esférico; semi-
transparente. Pintaria um quadro de pétalas encurvadas; de conchas; de coisas semitransparentes; pintaria formas
curvas, através das quais a luz pudesse ser vista, mas sem dar um contorno claro. Tudo seria grande e indistinto; e
o que fosse visto seria ao mesmo tempo ouvido; sons acompanhariam uma pétala ou folha – sons indistinguíveis de
imagens. Som e imagem parecem formar partes iguais dessas primeiras impressões. Quando penso em mim
deitada na cama de manhã cedo, também ouço os grasnidos das gralhas, precipitando-se de uma grande altura. O
som parece ressoar num ar elástico e viscoso; que resiste a ele; que o impede de ser distinto. O tipo de ar que
pairava sobre Talland House parecia deter o som, fazê-lo afundar devagar, como se estivesse preso num véu azul
viscoso. As gralhas grasnando são parte das ondas quebrando na praia – uma, duas, uma, duas – e do ruído da água
recuando e avolumando-se novamente, e eu estou lá, deitada, semi-adormecida, semi-acordada, imersa num
êxtase que não consigo descrever.
A recordação seguinte – todas essas recordações de sons e cores pairam juntas em St. Ives – é muito mais
forte; foi algo bastante sensual. Tempos depois. Ainda me sensibiliza; como se tudo estivesse maduro; zumbindo;
ensolarado; com muitos cheiros ao mesmo tempo; e tudo formando um todo que agora me faz parar – como parei
então, descendo para a praia; parei no alto para olhar os jardins embaixo. Ficavam abaixo do nível da estrada. As
maçãs ficavam na altura da minha cabeça. Dos jardins vinha um zumbido de abelhas; as maçãs eram vermelhas e
douradas; havia também flores cor-de-rosa; e folhas cinzentas e prateadas. O zumbido, o murmúrio, o cheiro, tudo
parecia comprimir-se voluptuosamente contra alguma membrana; não para arrebentá-la; mas para nos envolver
num enlevo tão grande que parei; procurei sentir o cheiro do ar; olhei. Mais uma vez, porém, não posso descrever
esse enlevo. Foi mais um enlevo do que um êxtase.
A força desses quadros – mas a imagem então estava sempre tão misturada com o som que quadro não é a
palavra certa –, de qualquer forma, a força dessas impressões me faz mais uma vez divagar. Esses momentos – no
quarto; na estrada para a praia – ainda conseguem ser mais reais do que o momento presente. Acabo de verificar
isso. (...)

Às vezes consigo voltar a St. Ives de maneira mais completa do que estou conseguindo esta manhã.
Consigo alcançar um estado em que pareço estra vendo as coisas acontecerem como se estivesse lá. Isto é, creio,
minha memória trazendo de volta o que eu tinha esquecido, e parece que tudo acontece por conta própria, embora
seja eu quem está realmente fazendo tudo acontecer. Em certos estados de espírito favoráveis, as
lembranças – aquilo que esquecemos – vem à tona. (...)

Mas a peculiaridade dessas duas fortes recordações é que todas as duas foram muito simples. Quase
não penso em mim mesma, penso apenas na sensação. Sou apenas o recipiente da sensação
de êxtase, da sensação de deleite. Talvez isso seja característico de todas as recordações de
infância, talvez explique a intensidade delas. (...)

Havia um pequeno espelho no vestíbulo de Talland House. Lembro que ele tinha uma prateleira com uma
escova sobre ela. Ficando na ponta dos pés, eu conseguia ver meu rosto no espelho. Quando eu tinha seis ou,
talvez, sete anos, adquiri o hábito de olhar meu rosto no espelho. Mas só o fazia quando tinha certeza de que não
havia ninguém por perto. Tinha vergonha. Um forte sentimento de culpa parecia estar naturalmente ligado a isso.
Mas por quê? Uma razão óbvia me ocorre – Vanessa e eu éramos duas molecas; jogávamos críquete, subíamos em
pedras, trepávamos em árvores, éramos conhecidas por não ligarmos para roupas e coisas desse gênero. Talvez,
então, ter sido apanhada olhando o próprio rosto no espelho fosse como ir contra o nosso rótulo de molecas. (...).
De qualquer forma, a vergonha de olhar no espelho durou toda a minha vida, por muito tempo depois de a fase
moleca ter passado. Não consigo passar pó no rosto em público. Tudo o que diz respeito a roupa – estar vestida de
modo apropriado, entrar numa sala com um vestido novo – ainda me assusta; pelo menos faz com que eu me sinta
acanhada, constrangida, pouco à vontade. (...)
E, no entanto, a feminilidade era algo muito forte em nossa família. Éramos conhecidas por nossa beleza –
a beleza de minha mãe e a beleza de Stella deram-me muito cedo orgulho e prazer. O que, então, me causava esse
sentimento de vergonha, senão o fato de eu ter herdado um instinto oposto? (...)
... isso me leva a pensar que meu amor natural pela beleza foi reprimido por algum medo ancestral.
Entretanto, isso não me impediu de ter êxtases e entusiasmos espontâneos e intensos, sem qualquer vergonha e
nem o menor sentimento de culpa, desde que não tivessem relação com o meu próprio corpo. Detecto,
assim, um outro elemento na vergonha que eu sentia ao ser apanhada me olhando no espelho do vestíbulo. Eu
devia ter vergonha ou medo do meu próprio corpo. (...)
Isso parece revelar que um sentimento em relação a certas partes do corpo – que elas não devem ser
tocadas; que é errado deixar que elas sejam tocadas – deve ser instintivo. Prova que Virginia Stephen não

nasceu em 25 de janeiro de 1882, mas há muitos milhares de anos; e teve, desde o


começo, de enfrentar instintos adquiridos por milhares de ancestrais no passado.
(...)

Quando criança, então, assim como hoje, meus dias continham uma grande proporção desse algodão cru,
dessa não-existência. Uma semana após a outra passava (...) e nada produzia uma impressão mais forte em mim.
E então, sem nenhuma razão aparente, houve de repente um choque violento, algo aconteceu com tanta violência
que nunca mais pude esquecê-lo. Vou enumerar alguns exemplos.
O primeiro: eu estava lutando com Thoby na grama. Estávamos esmurrando um ao outro. No momento
exato em que ergui minha mão para socá-lo, pensei: por que machucar outra pessoa? Deixei minha mão cair no
mesmo instante, e fiquei parada, e deixei que ele batesse em mim. Lembro-me da sensação. Foi um sentimento de
tristeza desesperançada. Era como se eu me tivesse dado conta de algo terrível; e de minha própria impotência.
Escapuli, sentindo-me horrivelmente deprimida.
O segundo: foi também no jardim em St. Ives. Eu estava olhando o canteiro de flores junto à porta da
frente; “Isso é o todo”, eu disse. Estava olhando uma planta com uma grande folhagem; e de repente ficou claro
que a própria flor era uma parte da terra; que um anel envolvia aquilo que era a flor; e essa era a verdadeira
flor; parte terra, parte flor. Foi um pensamento que guardei comigo, julgando provável que ele me fosse
muito útil mais tarde.
O terceiro: foi também em St. Ives. Algumas pessoas de sobrenome Valpy tinham passado uns tempos em
St. Ives e tinham ido embora. Estávamos esperando o jantar ser servido uma noite, quando, não sei como, ouvi meu
pai ou minha mãe dizer que o Sr. Valpy tinha se matado. Só me lembro de que depois eu me vi no jardim à noite,
andando no caminho junto à macieira. Pareceu-me que a macieira tinha relação com o horror do suicídio do Sr.
Valpy. Não consegui passar por ela. Fiquei parada olhando as pregas verde-acinzentadas da casca da árvore
– era uma noite enluarada –, num transe de horror. Eu tinha a impressão de estar sendo arrastada para
baixo, sem salvação, para algum abismo de desespero absoluto do qual não podia escapar.
Meu corpo parecia paralisado. (...)

Só sei que muitos desses momentos incomuns traziam consigo um horror singular e
um colapso físico; pareciam dominantes; e eu passiva. (...)

E assim, chego à conclusão de que o que faz de mim uma escritora é a capacidade de receber choques.
(...)

O que restou, então, de interessante? Mais uma vez, os momentos de existência. Há dois que nunca
esqueço. Houve o momento da poça de água suja no caminho; quando, sem nenhuma razão, tudo de repente se
tornou irreal para mim; fiquei paralisada; não conseguia saltar a poça; tentei segurar alguma coisa... o mundo todo
tornou-se irreal.
Outro momento foi quando um menino idiota pulou de repente na minha frente, com as mãos esticadas,
miando, os olhos estreitados, com óculos de aro vermelho; e, sem dizer uma palavra, horrorizada, despejei nas
mãos dele um saco de caramelos. Mas isso não foi tudo, pois naquela noite, durante o banho, o horror mudo se
apossou de mim. Mais uma vez senti aquela tristeza desesperançada, aquele colapso que já descrevi, como se eu
ficasse passiva sob uma paulada; exposta a toda uma avalanche de significados que se acumulara e despencara
sobre mim, desprotegida, sem nada para apará-la, de modo que fiquei encolhida no meu canto da banheira, imóvel.
E não conseguia explicar aquilo; não disse nada, nem para Nessa, que se esfregava com a esponja na outra
extremidade. (...)

Muitas cores fortes; muitos sons distintos; alguns seres humanos, caricaturas; comicidade; alguns
momentos de existência violentos, sempre abrangendo uma parte da cena que interrompiam: e todos eles
circundados por um grande espaço – essa é uma descrição visual, incompleta, da infância. É assim que a concebo; e
que vejo a mim mesma quando criança, vagando, naquele espaço de tempo que durou de 1882 a 1895. Eu poderia
compará-lo a um grande corredor, com janelas deixando entrar luzes estranhas, e murmúrios e intervalos de
silêncio profundo. Mas nesse quadro também deve ser introduzida, de alguma maneira, uma idéia de movimento e
mudança. Nada ficava estável por muito tempo. Deve-se imaginar tudo aproximando-se e em seguida
desaparecendo, aumentando e diminuindo de tamanho, passando em diferentes velocidades pela criaturinha; deve-
se pensar no que a fazia avançar, a criaturinha levada pelo crescimento de suas pernas e de seus braços, levada
sem poder detê-lo nem mudá-lo, levada como uma planta é levada a sair da terra, a subir até que os ramos
cresçam e os botões inchem. Isso é indescritível, torna todas as imagens estáticas demais, pois mal se diz isso foi
assim, e tudo já passou, mudou. Como deve ser enorme a força da vida que transforma um bebê, que consegue
distinguir apenas uma grande mancha de azul e roxo num fundo preto, na criança que treze anos mais tarde
consegue sentir o que eu senti no dia 5 de maio de 1895 – há quase exatamente 44 anos –, quando minha mãe
morreu. (...)

Até eu chegar à casa dos quarenta – posso precisar a época pois foi quando escrevi To the lighthouse (...) -
a presença de minha mãe me obcecou. Eu ouvia a sua voz, via-a, imaginava o que faria ou diria (...). ela era uma
dessas presenças invisíveis que desempenham um papel muito importante na vida de qualquer pessoa. (...)

... a influência de minha mãe. É perfeitamente verdade que, embora tivesse morrido quando eu tinha 13
anos, ela me obcecou até os meus 44 anos. Então, um dia, dando uma volta pela Tavistock Square, concebi, como
às vezes concebo a história de meus livros, To the lighthouse; numa rapidez enorme e aparentemente involuntária.
Uma coisa irrompia noutra. As nuvens de fumaça que se desprendem de um cachimbo ilustram bem o amontoado
de idéias que saíam de minha mente tão depressa que, sem sentir, comecei a falar sozinha enquanto caminhava. O
que impelia as nuvens de fumaça? Por quê? Não tenho a menor idéia. Mas escrevi o livro com muita rapidez; e
quando ele ficou pronto, perdi a obsessão por minha mãe. Não ouço mais a sua voz; não a vejo.
Creio que fiz por mim mesma o que os psicanalistas fazem por seus pacientes. Pus para fora alguma
emoção muito antiga e muito profunda. (...)

Sem dúvida alguma, ela estava lá, no centro daquele grande espaço de catedral que
era a infância; ela estava lá desde o começo. Minha primeira recordação é do colo dela; vem-me à
lembrança o arranhar de algumas pérolas em seu vestido, quando eu encostava o rosto contra ele. Vejo-a em
seguida com seu penhoar branco na sacada; e a flor de maracujá com a estrela roxa nas pétalas. Sua voz ainda
surge fraca em meu ouvido – decidida, rápida; e, principalmente, a maneira como a sua risada terminava – três has
decrescentes... “Ha, ha, ha...” Às vezes eu mesma termino a risada assim. Vejo também suas mãos, iguais às de
Adrian, com as pontas dos dedos quadradas, bem características, cada dedo com um estreitamento central, e a
unha se alargando para fora. (...) Também ouço o tinido de suas pulseiras de prata enroscada, (...) enquanto ela se
movimentava pela casa; principalmente quando subia, à noite, ao nosso quarto para ver se estávamos dormindo,
segurando uma vela sombreada; essa é uma recordação bem clara, pois, como todas as crianças, às vezes eu
ficava acordada, desejando ardentemente que ela viesse. Então ela me dizia para pensar em todas as coisas boas
que eu podia imaginar. Arco-íris, sinos... mas, além desses pequenos detalhes isolados, como foi que percebi pela
primeira vez o que estava sempre presente – sia beleza extraordinária? Talvez nunca me tenha dado conta; acho
que eu considerava sua beleza uma qualidade natural que uma mãe – ela parecia típica, universal e no entanto
nossa, em especial – tinha, por ser nossa mãe. Era parte de seu ofício. Acho que eu não separava o seu
rosto do ser em geral; ou do corpo todo. (...)

... E, naturalmente, ela era uma figura central. Creio que a palavra “central” é a que melhor define a
sensação que eu tinha de viver, de forma tão completa, na sua atmosfera, que nunca ninguém se afastava o
bastante dela para vê-la como uma pessoa. (...) Ela estava em toda parte; Talland House era impregnada dela;
Hyde Park Gate era impregnada dela. (...)

... vejo-a à cabeceira da mesa sob a gravura de Beatriz, pintada de azul, dada de presente a ela por uma
antiga governanta; ouço brincadeiras; risos; o vozerio; provocam-me; digo uma coisa engraçada; ela ri; fico
satisfeita; enrubesço violentamente; ela observa (...). Vejo-a indo até a cidade com sua cesta; (...) vejo-a tricotando
no degrau da entrada enquanto jogamos críquete; vejo-a estendendo os braços para a Sra. Williams, quando os
oficiais de justiça se apossaram da casa desta e o Capitão ficou na janela berrando e atirando jarros, vasilhas e
urinóis na calçada; (...) vejo-a escrevendo, sentada à sua mesa em Londres, os castiçais de prata, a cadeira alta
esculpida, com braços, e assento cor-de-rosa; e o tinteiro de bronze triangular; espero, agoniada, espreitando por
trás da persiana, que ela apareça na rua; quando ela demora a voltar, as luzes ficam acesas e eu fico pensando que
ela foi atropelada. (...) E há minha última imagem dela; ela estava morrendo; fui beijá-la e, quando eu estava
saindo do quarto na ponta dos pés, ela disse: “Comporte-se direito, minha cabrinha.”... Que confusão de coisas me
vem à lembrança, a respeito de minha mãe, se deixo minha mente vagar; mas todas são dela acompanhada;
cercada; dela generalizada; dispersa, onipresente, dela como criadora daquele mundo repleto de gente, feliz, que
girava com muita alegria no centro da minha infância. (...)
... e ela era, o centro; o centro era ela mesma. Isso ficou provado no dia 5 de maio de 1895. pois, depois
desse dia, não restou mais nada. Eu me debrucei para fora da janela do nosso quarto na manhã em que ela morreu.
Creio que eram aproximadamente seis horas. Vi o Dr. Seton ir embora pela rua, com a cabeça baixa e as mãos
cruzadas nas costas. Vi os pombos planando e pousando. Tive uma sensação de calma, de tristeza e de fim. Era
uma linda manhã azul de primavera, muito quieta. Volta-me a sensação de que tudo tinha chegado ao fim. (...)
George nos levou para o quarto. Creio que havia velas acesas; e creio que o sol entrava pela janela. De
qualquer forma, lembro-me do longo espelho; com as gavetas em cada lado; e o lavatório; e a enorme cama na qual
minha mãe jazia. Lembro-me claramente de que, ao ser conduzida à cabeceira da cama, notei que uma das Bás
estava soluçando; veio-me um desejo de rir, e eu disse a mim mesma, como já fiz em muitos momentos de crise
desde então: “Não estou sentindo nada”. Inclinei-me e beijei o rosto de minha mãe. Ainda estava morno. Ela tinha
morrido apenas um instante antes. Subimos então para o nosso quarto de brincar. (...)
Quando a beijei, foi como beijar ferro frio. Sempre que toco em ferro frio, lembro-me da sensação – a
sensação do rosto de minha mãe, frio como ferro, granulado. (...)

... e talvez tenha adquirido então aquela tendência que era muito acentuada – uma atitude de devoção,
quase canina na sua adoração comovente, pela mãe; aquele afeto passivo e sofrido; e também aquela dependência
completa, cega.
As duas eram lua e sol uma para a outra; minha mãe, segura e precisa; Stella, o satélite, o espelho. Minha
mãe era severa com ela. (...)Stella era tratada com rispidez; tanto assim que, antes do casamento dos dois, meu pai
arriscou um protesto. Ela respondeu que talvez fosse verdade; mas que ela era dura com Stella, porque achava que
Stella era “parte de mim mesma”. Imagino-a uma criança pálida e quieta; sensível; reservada; submissa; adorando

a mãe, pensando apenas em ajudá-la; sem qualquer ambição e nem personalidade própria. ”